CÉUS DE CHUMBO

Loja de Penhores Knickerbocker, rua 118 Leste, Harlem espanhol

Quinta-Feira, 4 de Novembro

O

s espelhos são portadores de más notícias, pensou Abraham Setrakian, parado debaixo da arandela fluorescente esverdeada, enquanto olhava para o espelho do banheiro. Um velho olhando para um vidro ainda mais velho. As bordas do espelho estavam escurecidas com a idade, a decomposição indo sorrateiramente para mais perto do centro. Para o reflexo dele. Para ele. “Você vai morrer em breve.” O espelho de prata lhe mostrava isso. Muitas vezes ele estivera próximo da morte, ou pior, mas aquilo era diferente. Na sua imagem, Setrakian via essa inevitabilidade. E, ainda assim, de certa forma, encontrava conforto na verdade dos velhos espelhos. Honestos e puros. Aquele era uma peça magnífica, da virada do século, bastante pesado, pendurado por um arame trançado na antiga parede de azulejos e inclinado para baixo. Nas paredes, pousados no chão ou encostados nas estantes, havia cerca de oitenta espelhos de prata, espalhados por toda a residência. Setrakian os colecionava compulsivamente. Assim como as pessoas que já cruzaram um deserto sabem o valor da água, ele também achava impossível desdenhar a aquisição de um espelho de prata, especialmente um espelho pequeno e portátil.
A QUEDA

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Decaindo até o ponto em que ele não sabia mais se sobreviveria ao trauma corporal de uma transformação em vampiro. sua imagem é refletida como a de cada humano. mas pouco capazes de fazer outras coisas mais com alguma destreza. amarelados como marfim. moldadas por pura força de vontade para se adaptarem e segurar o cabo daquela espada-bengala de prata. Tal como o espelho da história da Branca de Neve. Mas no espelho de prata. porém. produzidos em massa. Toque-toque-toque. os vampiros certamente têm reflexo. Nem todas as vítimas sobreviviam. O reconhecimento de que seu corpo era apenas isso: um corpo. com o polegar do tempo estampado firmemente em sua face. mas que não o destruíra. Nos espelhos modernos. diante da grossa pia de porcelana e do balcão onde ficavam seus pós e pomadas. Ele ouvia a morte chamando. Setrakian confiava na mais antiga característica desses objetos. Olhava e estudava o espelho. Seu coração. luz solar que o enfraquecera e marcara. Envelhecera uns vinte anos da noite para o dia. O Mestre era mais forte até mesmo do que Setrakian se recordava ou presumia. como se fosse um alerta. A batalha com o Mestre o deixara muito enfraquecido.Além disso. Seu rosto: as linhas profundas pareciam uma impressão digital. Era preciso rever as próprias teorias diante da sobrevivência do Mestre exposto à luz solar direta. Envelhecido e enfraquecendo. um espelho de prata não consegue mentir. Setrakian olhou para as mãos retorcidas. Ali ele se confrontava com sua força decadente. os bálsamos para a artrite. Ouvia a bengala. Alguma propriedade física da prata produz uma interferência visual na imagem dessas atrocidades carregadas de vírus. Os raios ultravioleta que esmagavam o vírus deve12 guillermo del toro / chuck hogan . seus reflexos ficam distorcidos. E assim Setrakian olhava para seu rosto no espelho. o unguento aquecido para aliviar a dor das juntas nodosas. O rubor da pele desaparecera. Contrariando o mito popular. Seus olhos pareciam pequenos e secos. e o cabelo se assentava sobre o crânio como uma fina relva prateada remexida por uma recente tempestade.

Os batimentos ondulavam.. aumentando o fluxo e o suprimento de oxigênio. em vez de salvá-lo naquele momento crítico. Setrakian previra aquilo já nos primeiros noticiários. Setrakian conhecia aquele ruído muito bem: era o prelúdio do oblívio. contudo. no fim das contas. pescou uma pílula branca na caixa. Teve imediatamente uma sensação doce. querendo correr e correr. Com um dedo endurecido. Já fazia algumas semanas desde que o 777 pousara no aeroporto JFK. O que é a vida. Ali estava ele agora. Se tivesse conseguido. Feito uma criança impaciente dentro dele.. a pílula de nitroglicerina lhe devolveu a confiança. Se Eph houvesse deixado que ele morresse. ao relaxar os vasos que carregavam sangue para o seu coração. desmoronando por dentro. irregulares. Sua Manhattan adotada o chamava. De ação rápida. Todos aqueles pensamentos sobre o que poderia ter acontecido.riam ter penetrado no Mestre com a força de dez mil espadas de prata. Um tablete sublingual que ele colocou debaixo da língua seca. fazendo com que se dilatassem. Dando arrancos.. se ainda houvesse alguma funcionando. Seu coração disparou novamente só de pensar nas oportunidades perdidas. A nitroglicerina evitava a angina. para que dissolvesse. Um zumbido surdo soava acima das batidas de seu coração. aquelas recriminações e lamentações – tudo não passava de um desperdício da atividade cerebral. Algumas semanas desde a chegada do Mestre e o início da epidemia. Imaginar o que poderia ter acontecido era tudo que lhe restava no momento. de alguma forma. Toque-toque-toque. Tinha A QUEDA 13 . de formigamento. dinamitar o prédio ao saber que o Mestre estava lá dentro.. senão uma série de pequenas vitórias e fracassos maiores? Mas o que mais se podia fazer? Desistir? Setrakian nunca desistia. Depois acordaria numa sala de emergência. Em poucos minutos o murmúrio em seu coração cessaria. a terrível criatura aguentara o impacto e fugira. Se ele ao menos tivesse feito isso em vez daquilo.

Brasília. em Tel Aviv. Depois de um dia de incubação. No Aeroporto Internacional de Narita.. ficando inerte na pista de taxiagem perto do portão. Apenas poucos minutos após a aterrissagem segura. No International Ben Gurion. Sofia.tanta certeza quanto uma pessoa que intui a morte de um ente querido quando o telefone toca em horário fora do normal. não foram enviados alertas para que se revistassem os compartimentos de carga nem para destruir completamente o avião. onde comandos antiterroristas haviam invadido a aeronave escurecida na pista. exceto quatro “sobreviventes”. Setrakian não podia deixar de suspeitar que aquelas aterrissagens eram mais uma distração tática do 14 guillermo del toro / chuck hogan . mas o resto do mundo resistia à terrível verdade. Estocolmo. mas sim negociar o controle humano do planeta em troca da eternidade. encontrando todos os passageiros e a tripulação mortos. Esses sobreviventes não estavam nada bem. A notícia do avião morto se apoderara da cidade. Pequim. no entanto. Em Madri. sendo os sintomas de sua doença só aumentados pela presença do Mestre. Agentes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças entraram no avião com trajes de isolamento. com desinformação e incredulidade na ordem do dia. em Tóquio. ele cruzara o oceano graças à riqueza e influência de Eldritch Palmer: um homem moribundo que decidira não morrer. todo às escuras. estacionado na pista de taxiagem. famoso por sua segurança. em Londres. o vírus fora ativado nos passageiros mortos. Desde então. outro avião se apagara totalmente depois de pousar no Aeroporto Internacional de Heathrow. Reykjavik. Escondido no caixão dentro do compartimento de carga do avião. Moscou. que se levantaram das mesas do necrotério e saíram espalhando a praga vampiresca pelas ruas da cidade. E. Varsóvia. encontrando todos os cento e vinte e seis passageiros mortos ou desmaiados. o avião apagara completamente. Nova Déli. No Aeroporto de Orly. Oslo. Certos territórios mais militantes e paranoicos agiram certo e puseram seus aeroportos em quarentena imediatamente. um jato da Air France também chegara apagado. E assim a coisa continuou. Jacarta. Contudo. Tudo estava acontecendo depressa demais. Auckland. isolando os jatos apagados com força militar.. A extensão total da praga era conhecida por Setrakian. No Franz Joseph Strauss. em Munique.

O noticiário relatava “distúrbios” em grandes áreas da cidade. Os saques e atos de vandalismo corriam soltos em plena luz do dia.que uma tentativa de propagar a infecção. o velho no fim da vida sentia pena do garoto. atacavam ao anoitecer. mas ninguém chamava a atenção para o fato de que à noite a atividade aumentava. E. e às quais recorria frequentemente. Aprendendo a se adaptar. As lembranças do rosto dela haviam sido expulsas da sua mente pelas poucas fotografias que ele possuía. A polícia e os bombeiros levavam cada vez mais tempo para reagir. A essa altura. Setrakian lamentava a ausência da esposa. Pensou no jovem Zachary Goodweather. mais uma vez desejando vislumbrar o homem mais jovem dentro de si. a distribuição atrasava. os strigoi originais – a primeira geração de vampiros. Setrakian entrou no seu quarto e andou em direção a uma cadeira. mas já no final da infância. a sobreviver e a prosperar. onze anos de idade. esperando que a desorientação passasse. e as incidências da ação de grupos paramilitares e de incêndios criminosos cresciam. embora. espreitado por uma coisa morta-viva que ocupava o corpo de sua mãe. e isso era parcialmente verdade.. restasse muito pouco desse precioso tempo. as vítimas do avião da Regis Air. morta havia muito tempo. de alguma forma. Sentou-se com uma das mãos cobrindo o rosto. Saqueadores agiam à solta. Conforme as faltas ao trabalho aumentavam. Talvez até mesmo o garoto. Miriam. Estavam ficando mais acostumados com o meio ambiente e seus novos corpos. que o envolviam agora. a mão de obra disponível diminuía: os apagões elétricos e as quedas de força ficavam sem manutenção.. Incêndios se multiplicavam. Arrancado do estado de graça. Setrakian olhou para seu próprio rosto. e seus Entes Queridos – haviam começado a segunda onda de maturação. na verdade. a infraestrutura já começava a desmoronar.. ali no quarto de hóspedes no fim do corredor. Devido a esses problemas por todo o país.. Grandes tragédias provocam sensações de isolamento. Apenas o tempo diria se ele tinha razão. Com as linhas de suprimento de alimentos interrompidas. com o efeito de congelar a imagem da mulher no A QUEDA 15 .

Os saqueadores estavam levando não somente mercadorias e bens. Kelly.tempo. nem a recessão econômica. encadernação original. que viajou com elas por toda a Europa. sem jamais. traduzidas pelo falecido rabino Avigdor Levy. O comerciante foi 16 guillermo del toro / chuck hogan . Pousou a mão sobre um catálogo na mesa de cabeceira. tudo sem resposta. Como peças de dominó alinhadas. estava relacionado um antigo volume: Occido Lumen (1667) – Uma narrativa completa da primeira aparição dos Strigoi e a plena refutação de todos os argumentos produzidos contra a sua existência. O livro era baseado numa coleção de antigas tábuas de argila da Mesopotâmia. carros. nós caímos. Lá fora ouviu outro acidente de carro. Ali. Setrakian pegou o catálogo do leilão e procurou uma página determinada. capturar a essência do ser. Setrakian pensou na ex-esposa de Ephraim. Tiros a distância. às vezes era uma luta lembrar-se disso. as tábuas foram vendidas a um rico comerciante de seda. Nada daquilo era coincidência: nem a recente ocultação. Vira a beleza e vira o mal. sem qualquer ilustração ao lado. Cortejara uma mulher bonita e casara com ela. O leilão seria realizado dentro de poucos dias. Não adquiriam posses. Ele compreendia a dor do homem. Os berros que cortavam a noite eram os últimos gritos de humanidade. Compreendia a dor desse mundo. Pode ser examinado com visita marcada. Agora estava presenciando o fim. Coleção particular. E para vencê-los. verdadeiramente. e sobrevivera a tudo. alarmes tocando insistentemente. Preço estimado $15-$25 M Aquele livro – não um fac-símile ou uma fotografia – era crucial para a compreensão do inimigo. nem o conflito no exterior. mas também almas. Ele era um homem de sorte. que encontrara uma vez na vida e mais uma vez na morte. inicialmente descobertas em jarros dentro de uma caverna nas montanhas Zagros em 1508. prédios. Testemunhara o melhor e o pior do século anterior. Não era uma coincidência. Miriam fora o amor de sua vida. manuscrito com ilustrações. possuíam tudo. Um catálogo da Sotheby´s. os strigoi. Escritos na língua sumeriana e extremamente frágeis.

vendeu tudo por intermédio de sua filha Katherine para o culto rabino Avigdor Levy. Durante décadas o rabino foi decifrando meticulosamente as tábuas. uma parteira que era a feiticeira e confidente de Montespan. Agora ele estava em Nova York. bem como de toda a biblioteca de textos e artefatos religiosos que o judeu mantinha. mas o livro nunca foi exibido. como parte de um leilão em Marselha. entretanto. livros e incríveis e raros objetos de arte. oferecido como presente ao rei Luís XIV. o rei ordenou a imediata prisão do velho rabino e a destruição das tábuas. sobreviveram em poder de dois necromantes. O palácio neogótico e todo seu conteúdo foram vendidos para um comerciante de armas a fim de saldar uma dívida. O livro veio de novo à tona brevemente em 1823. Dee foi consultor da rainha Elizabeth I. As tábuas. morador do antigo gueto de Metz. As tábuas foram pulverizadas. ou talvez por má-fé. na França.encontrado estrangulado em Florença. quando. aparecendo na posse do notório réprobo e acadêmico londrino William Beckford. Nos anos subsequentes. sob o título de Casus Lumen. conservou as tábuas como um artefato mágico até 1608. Em 1911 foi listado erroneamente. orquestrou em 1671 a recuperação do manuscrito. madame de Montespan. e o manucristo ficou jogado num cofre junto com muitos tesouros proibidos. Estava relacionado como parte da biblioteca em Fonthill Abbey. o palácio extravagante onde Beckford acumulava artefatos. incapaz de decifrar o que estava gravado ali. Por fim o judeu apresentou suas descobertas sob a forma de um manuscrito. em Lorraine. e seus armazéns incendiados. pois decorreriam três séculos antes que outros pudessem finalmente decifrar artefatos semelhantes. o famoso John Dee e um acólito mais obscuro conhecido historicamente como John Silence. o manuscrito foi dado pela maioria das pessoas como destruído. e. que permaneceu nas mãos de La Voisin. A QUEDA 17 . forçado pela pobreza. e o livro permaneceu desaparecido por quase um século. e o leilão foi sumariamente cancelado depois que uma misteriosa revolta explodiu na cidade. Secretamente. Ao receber o texto. utilizando suas incríveis habilidades. até seu exílio causado pela histeria em torno do Affaire des Poisons. amante do rei e uma ávida admiradora do oculto.

mas estava. era um bom caso de insônia que ele vinha escondendo dos pais havia algum tempo. O garoto.. ficava mais forte. iniciada há muito tempo. Quando seu deu conta disso. já estivesse perdida. pôs-se de pé e saiu da cadeira. deveria estar dormindo naquele momento. Contava a história de um adolescen18 guillermo del toro Z / chuck hogan . O garoto de onze anos já tinha bastante dificuldade para conciliar o sono em noites normais. Eles não estavam sozinhos. Zack-Insone! O primeiro super-herói que ele criara. Uma história em quadrinhos de oito páginas. era que a batalha. Deveria haver outro meio. Toque-toque-toque. Que tudo aquilo representasse o fim do jogo. colorida. em volta dele. Zack fora proibido de usar o computador do pai. que o rei da humanidade já estivesse em xeque-mate. Não era a pílula. na realidade. Na realidade. partindo na direção do quarto de Zack. Com grande esforço. Tinha o computador de seu pai sobre o colo.. ack Goodweather estava sentado de pernas cruzadas num canto do terraço da loja de penhores. Baixo. ilustrada. Aquele era o único lugar de todo o prédio onde ele podia ficar conectado à internet. O maior medo de Setrakian. que ele não ousava compartilhar com ninguém mais. variando entre uma e duas barras. A mãe estava vindo atrás de seu filho. Mas o zumbido persistia. A pílula nunca tivera aquele efeito sobre ele. fazendo com que qualquer busca na internet andasse a passos lentíssimos.Mas quinze milhões? Vinte e cinco milhões? Impossível de se conseguir. O sinal sem fio era fraco. Setrakian fechou os olhos tentando abafar um zumbido nos ouvidos. O zumbido estava por toda parte. Setrakian enrijeceu o corpo. legendada e desenhada por Zachary Goodweather. em absoluto. invadindo a rede desprotegida de um vizinho em algum lugar naquele quarteirão. pensou Setrakian. ainda que teimosamente fazendo seus últimos movimentos sobre o tabuleiro do mundo.

Então eles já o haviam excluído do site do governo. realmente trancadas. Eles esperavam que Zack ficasse ali quietinho. uma gaiola que o senhor Setrakian dissera ter sobrado da década de 1970. derrotando terroristas e poluidores. ao ver como o velho administrava a loja de penhores no primeiro andar). mas os rostos eram bastante bons. A cidade precisava de um Zack-Insone já. O sono era luxo. fora usado para estocagem pelo senhor Setrakian (ou professor Setrakian – Zack ainda não tinha certeza sobre isso. sem o tipo de trancas falsificadas que podem ser abertas com um clipe de metal e uma caneta esferográfica (Zack já tentara isso). como o velho quarto de cedro na casa dos avós: um lugar que ninguém mais abria. Seu pai e Vasiliy Fet haviam instalado barras de ferro na parede em torno da janela. Zack deveria estar metido num saco de dormir de penas de ganso num quarto no terceiro andar. Ele procurou a página profissional do pai no site dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças. em vez de botões. não por fora. O aposento cheirava a mofo. Mas a porta do quarto não tinha fechadura. onde ficavam expostas as mercadorias. Havia pilhas e pilhas de livros. um guarda-roupa com trajes velhos e algumas arcas trancadas. Se todos houvessem visto o que ele vira. O exterminador Vasiliy – ou V. jogando A lenda de Zelda. mas por dentro. O aparelho tinha grandes chaves e mostradores na frente. Ele nunca conseguira desenhar bem as dobras da capa do herói. Zack sabia que eles não estavam tentando trancá-lo ali dentro. As barras foram soldadas ao caixilho da janela. e tudo fora trazido do primeiro andar. Um luxo que ninguém poderia gozar. Estavam tentando trancar sua mãe do lado de fora.te que patrulhava as ruas de Nova York à noite. E poluidores terroristas. Tentativas com “dr. se todos soubessem o que ele sabia. mas tudo que encontrou foi a mensagem “Page Not Found”. muitos espelhos antigos. a não ser as crianças para bisbilhotar. Ephraim Goodweather” mostravam que ele era um desacreditado funcionário do CCD que fabricara um vídeo A QUEDA 19 . estranhamente angulado. como ele mandara Zack chamá-lo – ligara um velho jogo Nintendo alimentado a cartucho em um televisor Sanyo penhorado ali. O pequeno quarto. e também a musculatura.

Agora precisava lidar com a terrível verdade sobre sua mãe.. quando. a arrogância autossuficiente de todos aqueles comentaristas anônimos na rede. Zack sentiu um nó na garganta. mas a desonestidade daquela matéria era especialmente desagradável para ele. Que eles acordassem um dia e percebessem o erro que haviam cometido. Tudo aquilo deixara Zack nauseado nos últimos dias. mas mesmo assim nada mudaria. Zack não podia lidar com as coisas que andavam dizendo sobre seu pai. que sequestrara”. O texto dizia que Eph baixara o vídeo. fazendo tudo voltar ao normal. mas na realidade fora Zack que baixara o vídeo para o pai. vídeo esse que ele não queria que o filho visse. supostamente para mostrar um humano-convertido-em-vampiro sendo destruído.falso. Assim. até a última palavra.. com cerca de cinco anos. Tudo errado. A mesma matéria dizia que tanto a ex-esposa de Goodweather quanto o namorado dela atualmente estavam desaparecidos e presumivelmente mortos. Ou tal como a época em que desejou que seus pais se apaixonassem novamente. 20 guillermo del toro / chuck hogan . envolvido numa batalha litigiosa pela guarda do filho. a banalidade do veneno lançado naqueles blogs e fóruns se desviava completamente da verdade. dizia também que “atualmente se acreditava que Eph estava foragido com o garoto.. Queria que algo fantástico acontecesse. o principal desejo de Zack era de que tudo aquilo passasse. por interesses próprios. Diziam ali que Eph distribuíra o vídeo pela internet numa tentativa de explorar a histeria causada pelo eclipse. não se importavam? Talvez estivessem tentando explorar o problema dos pais dele com interesses próprios? E os comentários? Eram ainda piores. Que “interesses” teria seu pai além de tentar salvar vidas? Um site de notícias descrevia Goodweather como “um alcoólatra confesso.. Obviamente a última parte era besteira. Tal como na infância. depois rezara com toda a força para que a peça se restaurasse antes que os pais descobrissem. Será que eles realmente não sabiam a verdade? Ou. a reputação de seu pai seria restaurada e a voz dele ouvida. quebrara um espelho e só o cobrira com um lençol. Como se pode lamentar a morte de alguém que na verdade não se foi? Como temer alguém cujo desejo por você é eterno? Se o mundo conhecesse a verdade tal como Zack a conhecia. Sua mãe e sua vida nunca mais seriam iguais.

Para olhar nos olhos dela. na altura do cotovelo. Numa busca rápida. sozinho. contudo ele ansiava pela vinda dela. Tudo vai ficar bem. agachada. aparentemente uma coleira de cachorro. Ele olhou para a parte oeste da cidade. descobriu a pasta que continha o arquivo do vídeo que fora proibido de ver. quase brilhava. Desejava que ela lhe explicasse aquilo. Apenas uns poucos aviões. Um grito em algum lugar no fundo da noite o trouxe de volta ao presente. Zack confundiu a expressão daqueles olhos com tristeza e dor. Os olhos da criatura presa no telheiro eram grandes e reluzentes. Uma coisa inclinada para a frente. com algo semelhante a um fino peixe prateado se retorcendo lá dentro. Um rosnado gutural e um sibilo no fundo da garganta. prendia a criatura pelo pescoço. Abriu o arquivo e ouviu a voz do pai.. A imagem deu um salto quando aqueA QUEDA 21 . Uma noite sem estrelas. Zack ainda supunha que havia um final feliz à espera. tlec-chup. percebendo que ele também operava a câmera. Ouvir a voz dela. que o pai pedira emprestado. Talvez até mesmo para fazer sua mãe voltar ao que era antes. Era difícil enxergar o que estava sendo filmado: algo no escuro dentro de um telheiro. Era a sua câmera. e Zack viu a boca aberta da criatura. tlec-chup. Uma boca que se abria mais do que devia. e três pregos de prata. tlec-chup. Esperando por todos eles. Sentiu as lágrimas aflorando.. Levantou o olhar. como sempre fazia com toda coisa perturbadora.Agora ele nutria a esperança secreta de que seu pai pudesse fazer algo incrível. O tinido rastejante de uma corrente. Era pálida: de tão sem cor. A câmera deu um close. A despeito de tudo. a resolução da imagem melhorou. disparados por trás da câmera (talvez pelo pai?) atingiram a criatura do telheiro como balas finas. e voltou ao computador. Queria tanto ver sua mãe de novo. e dessa vez não lutou para estancálas. Estava em cima do terraço. vendo chamas e uma coluna de fumaça negra. O pensamento o aterrorizava. acorrentando-a ao chão de terra ali atrás. Depois ouviu-se um estranho bombeamento. A princípio. Uma coleira. Ouvira caças a jato zunindo no ar à tarde. Zack esfregou o rosto na manga da camisa.

reto e pesado. Uma garota adolescente. Parada no terraço em frente. Ele não sabia. mas tinha um tom que não parecia qualquer coisa que Zack já ouvira sair da boca do bondoso velho penhorista. da rua. provavelmente cursando o ensino médio. baixando o olhar por sobre a mureta do terraço para a rua 118. Um salto impossível. do outro lado de um terreno baldio na esquina da entrada da loja. sem oscilar. fazendo retinir os portões de segurança. Gritavam: – Abram! Zack recuou e virou-se para a porta do terraço. A brisa levantava sua camisola comprida. De qualquer forma. – Precisamos ter piedade.le ser soltou um rosnado surdo. Bem na borda. Zack ficou olhando. Ele fechou o laptop e se levantou. – Basta – disse no vídeo uma voz que pertencia ao sr. acompanhados lentamente por um 4x4. Ele levantou uma espada de prata. * * * 22 guillermo del toro / chuck hogan . Ela olhou de volta para ele. E acenou para a garota. imaginando que seria melhor que estivesse de volta a seu quarto caso alguém fosse verificar. Portavam armas de fogo e batiam em cada porta. entoando algumas palavras em uma língua estrangeira que parecia antiga. Vozes fizeram Zack desviar a atenção do vídeo. Pousada na borda. como que invocando um poder ou lançando uma maldição. Setrakian. Vinham lá de baixo. e a criatura no telheiro soltou um uivo quando a arma foi brandida com grande força. perfeitamente equilibrada.. Ela estava de pé na mureta do terraço. Depois o velho apareceu na tela. mas não movia seu cabelo. como que querendo tentar o salto.. levantou a mão. Então ele a viu. amarfanhando-a em torno dos joelhos. Cinco homens subiam o quarteirão a pé em direção à loja. bem em frente à loja. Os homens a pé se aproximaram do prédio. Mas suspeitava. feito um animal doente consumido pela dor. comprida e brilhante sob o luar. O veículo parou antes do cruzamento. Querendo e sabendo que fracassaria. Não tinha certeza.

destrancou a porta da frente. – Estamos indo de porta em porta. devem fazer isso agora – disse um deles.dra.. – Está – respondeu Nora. – Vamos! – chamou o motorista do 4x4. O que significava o Harlem. – Está tudo bem aí dentro. A senhora não vai querer permanecer aqui completamente sozinha. madame. – Vocês parecem policiais – disse Vasiliy. aparecendo atrás dela. Os homens avaliaram aquele grandalhão. – Se estão pensando em sair da cidade. o funcionário do Departamento de Controle de Pragas da cidade de Nova York. A QUEDA A 23 . – Que tipo de problema vocês estão encontrando? – Tentamos conter esses loucos que estão provocando distúrbios na cidade. tudo está bem. – As pontes estão entupidas. procurando um distintivo ou qualquer tipo de insígnia. Aproveitando uma situação ruim e piorando a coisa. – Mas achamos que o pior está indo para o centro da cidade desta direção. Dois deles usavam lenços que cobriam a parte inferior dos rostos. Cinco homens em uniforme de combate. – Ela não está sozinha – disse Vasiliy Fet. Agitadores e oportunistas. evitando o assunto. – Você é o penhorista? – Meu pai é – disse Vasiliy. – E vocês. e os túneis engarrafados. madame? – perguntou um deles. limpando os quarteirões. – Enquanto essa grade aguentar. – Vou pensar nisso – disse Vasiliy. quem são? – Cidadãos preocupados. apontando para a rua 117. sem ver nenhum. Nora Martinez. o motor estava ligado. O lugar vai virar uma merda. – Vocês deviam pensar em vir nos ajudar aqui fora. Fazer alguma coisa para melhorar a situação – disse outro.. Um distúrbio ali adiante – disse outro. com coletes à prova de balas e armas olharam para ela por entre a grade de segurança. anteriormente integrante do quadro de funcionários dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

ajudara a convencer Eph de que eles se defrontavam com uma crise epidemiológica que não poderia ser explicada por meios médicos e científicos normais. – Foi bom você ficar fora das vistas deles – disse Nora a Eph. Setrakian. – Já foram embora – disse ela. – Por que eles não tinham distintivos? – Provavelmente foram beber depois do serviço – disse Vasily – e decidiram não deixar a cidade degringolar desse jeito. e a 24 guillermo del toro / chuck hogan . Mentalidade de gangue de rua. – Como você sabe? – perguntou Nora. junto com o desaparecimento do caixote semelhante a um caixão durante a ocultação solar. Depois trancou a porta. recuando para a penumbra. – Só que eles estão carregando chumbo. eles não têm nada o que fazer além de baixar o cacete por aí. Eph assentiu. que estivera observando tudo ali ao lado. E não estão muito errados. A descoberta de que os corpos não estavam se decompondo naturalmente. – Pensando bem. quando deveriam estar brandindo prata – disse Nora. pegando a mão de Eph. Com as esposas de malas feitas para Jersey. Nora observou os homens partirem. Ephraim Goodweather. Os canas acham que mandam na cidade. – Foi tentando alertar as pessoas que eu me tornei um foragido. A relutante percepção abrira sua mente para as revelações do penhorista. – Eu queria ter podido avisar a eles. Eph e Nora haviam sido os primeiros a subir no avião apagado depois que a equipe da SWAT descobrira os passageiros aparentemente mortos. – Policiais – disse Vasiliy. para começar – disse Eph. com certo desprezo. e vão lutar por ela. apareceu e disse: – Idiotas. É a praia deles.– Boa sorte – disse um dos homens. – Vocês vão precisar dela. observando-os dobrar a esquina. a cabeça deles não é muito diferente da nossa no momento – disse Eph. – Sempre dá para perceber.

– Hum. porta do quarto de Zack se abriu de repente. A voz de Setrakian soou na escada espiralada no fundo da loja. A QUEDA A 25 . levantando-se. – Não deve ter me visto no chão. Nora entrou correndo por atrás dele e parou quando viu Zack. O pai entrou de roldão. e ele se virou. – Setrakian acabou de procurar você aqui. Andou pelo quarto. levara-o a romper com o CCD. talvez. Eph apertou a mão de Nora. – É. – O que é? – perguntou Zack. – Vasiliy? Ephraim! Nora! – Estamos aqui embaixo.horrenda verdade por trás da praga.. pai – disse Zack. o vírus vampiresco que se deslocava insidiosamente pela cidade e penetrava nos bairros. E bem armados. verificando a janela gradeada. pronto para lutar. Seu desespero em alertar o mundo sobre a verdadeira natureza da doença. – Eph lançou um olhar mais demorado para Zack.. Zack notou que o pai mantinha uma das mãos atrás das costas. – Zack esfregou o olho de propósito. sentando no saco de dormir. que tentara silenciá-lo com uma estrepitosa acusação de assassinato. – Tudo certo com o cano? – Pronto para partir. nós acabamos de nos livrar deles. movimentando-se de modo que ele não visse o que havia ali. – Alguém está se aproximando – disse ele. – Não estou me referindo a alguém humano – disse Setrakian. Ela não queria deixá-lo partir. Não parecia acreditar no filho. Desde então ele estava foragido. – E não consigo encontrar o jovem Zack. mas claramente tinha algo mais premente no pensamento do que apanhar o garoto mentindo. professor – replicou Nora. – Não. Eph olhou para Vasiliy. Eram vigilantes. Eph deu uma olhadela em volta do quarto. – Caramba.

O pai balançou a cabeça de maneira tranquilizadora. mas ao invés disso parecia enevoado e indistinto no vidro. Depois ela ficara muito tensa e preocupada durante toda a ausência deles. Seu corpo estava desconjuntado e distorcido. e fechou a porta. Era uma distorção. Algo sobre um “mestre”. pensando em todos os mistérios à sua volta. e sim um desabafo. o vestido de professora fora rasgado num dos ombros. observou um borrão num dos poucos espelhos pendurados na parede. O cabelo caía. Algo na sua janela. tudo mudara. com vermes sanguíneos serpenteando debaixo das maçãs do rosto e na testa. depois. ele nunca mais queria ver o pai daquele jeito outra vez. Você espera aqui. Zack ficou imaginando: aquilo seria a tal coisa tlec-chup ou uma espada de prata? – Fique aqui – disse Nora. De alguma maneira. mas o sorriso chegou rápido demais – era apenas um sorriso. arregalados e ardentes. sem alegria nos olhos. mas aquilo nem fora realmente uma briga. está bem? Eu volto. E o senhor Setrakian voltara doente. Zack virou-se. bem devagar a princípio e. expondo a carne manchada de terra. Ele ouvira a mãe mencionar o nome de Nora uma vez em uma briga com o pai. O pai de Zack parecia tão acabrunhado. Ele saiu. mas não suficientes. 26 guillermo del toro / chuck hogan . de uma vez. E já vira o pai beijar Nora uma vez. Algo sobre a luz do sol não conseguir “destruí-lo”. seus olhos eram vermelhos. sem nenhuma alegria. Depois. Zack até entreouvira partes de conversas. o velho se agarrara ao exterior do prédio. bisbilhotando. Quando os três voltaram. virando de modo a fazer a coisa atrás das costas continuar escondida. Zack ficou imaginando o que eles estavam procurando. Os músculos do pescoço estavam inchados e deformados. imediatamente antes de partir com o senhor Setrakian e Vasiliy. Parado ali sozinho no quarto de hóspedes. parecida com uma vibração visual: algo que deveria estar bem focado. pois eles já haviam se separado. – Só estamos dando uma olhada. Algo sobre “o fim do mundo”. já fino e pálido.

com pontos pretos no centro. O ferrão quebrou o vidro da janela com um estalo e um tinido para depois destender-se. olhando aturdido para Kelly. Como Zack sabia que aconteceria. O menino ficou vidrado nos olhos daquele ser. incapazes de inspirar qualquer quantidade de ar. Eph entrou correndo no quarto. penetrando pelo buraco perfurado. tentando desesperadamente cobrir a distância que restava entre seu ferrão e a carne do garoto. escancarando-se. O ferrão começou a amolecer. Depois leu a expressão no rosto dela.Mamãe. estilhaçando o restante do vidro. ele deu um passo na direção da mãe. com os pulmões asmáticos trancados. como dissera o pai? Ou viva? Já se fora para sempre? Ou estava ali. no quarto com ele? Ainda era dele? Ou já de alguém mais? Ela enfiou a cabeça por entre as barras de ferro. zunindo no ar. com os olhos reluzentes pousados sobre a garganta de Zack. Precisava de poucos centímetros mais para alcançar a garganta de Zack e resgatar seu Ente Querido para o Mestre. terminando numa ponta que revoluteava a poucos centímetros do pescoço de Zack. Com um casual meneio de cabeça. ferindo a carne e quebrando o osso. A mandíbula se abriu de novo. e encontrou Zack parado ali. A vampira espremia a cabeça entre as barras de A QUEDA 27 . um pouco acima do pomo de adão. bem ali. Ela viera. Kelly Goodweather recolheu-o rapidamente para dentro da boca. Num instante sua mandíbula se abriu. e foi se enfiando pelo buraco. que subitamente passou de dor a algo tão sombrio que só poderia ser descrito como demoníaco. como uma cobra abrindo caminho na toca de um coelho. Tinha um metro e oitenta centímetros de comprimento. Zack permaneceu exatamente onde estava. Na extremidade da extensão carnuda. Instintivamente. O garoto ficou paralisado. Depois lançou a cabeça sobre a janela. Ela notara as barras. Ela estava morta. tremia uma estranha ponta com dois esporões. exatamente como no vídeo. Ele procurou. com um ferrão se projetando das profundezas embaixo da língua. por qualquer semelhança com sua mãe. Eram vermelhos. vertiginosamente.

Eph olhou em torno desesperadamente. puxou uma espada de prata detrás das costas. O garoto estava trancado por dentro. Nora colocou a lanterna dentro da gaiola. para impedir Kelly de retornar. com os pulmões abertos pelo aerossol e a palidez imediatamente reduzida. com a mão estendida. Comprimiu o dispositivo nas mãos de Zack. Eph correu na direção do filho. e o garoto arriou. Apontou a espada para ela e avançou correndo em direção à janela. Zack tinha o olhar embaçado. tal como faria com um animal selvagem que tentasse entrar na sua casa à procura de alimento. aquele ser humano deturpado. – Mamãe! – gemeu ele. Sentiu nojo ao ver Kelly Goodweather. segurando. a luz capaz de matar o vírus. A princípio Eph pensou que aquilo era desespero. mas depois percebeu que era algo mais. e fugiu velozmente pela lateral da parede externa do prédio.ferro. fora do alcance da espada de Eph. acendendo uma lanterna Luma com uma forte luz ultravioleta. As vias respiratórias se expandiram como um balão. Zack arquejou. e acabou encontrando o inalador de Zack em cima da velha televisão. Eph descansou a espada e consolou o filho. Incapaz de respirar. as mãos na garganta e o peito arfante. aquela mãe-monstro. Eph também se adiantou na direção de Kelly e seu ferrão tenebroso. apoiada entre duas barras cruzadas. porém. e gritou: – NÃO! Nora irrompeu no quarto atrás de Eph. Kelly se afastou da grade da janela. de modo que a luz mortífera enchesse o espaço da janela estilhaçada. Reanimado. Com um último e dolorosamente esfaimado olhar para o filho. enfraquecido. Um ataque de pânico. estava prestes a atacar. guiou-o para a boca dele e apertou o botão. * * * 28 guillermo del toro / chuck hogan . Zack empurrou o pai para longe e correu na direção da janela vazia. – FORA! PARA TRÁS! – berrou Eph para Kelly. Os olhos da vampira eram de uma fúria animalesca. Eph pulou na frente do filho. mas avançou.

e mesclar genes comuns na criação de um novo e único ser. subindo pela parede de tijolos do prédio. A força da carência do filho pela mãe redobrava sua incondicional carência vampiresca por ele. Seu próprio sangue. Uma substância inerte invade uma célula viável. produzindo centenas de milhões de cópias idênticas. e não alimento. Em vez disso.K elly recuou. mas violenta e destrutiva. de juntar semente e ovo. E ela queria aquela parte. Kelly vira uma parte sua incompleta. Uma ânsia por sangue e pelo seu tipo de sangue. trata-se de uma deturpação do processo reprodutivo. ela vira um pedaço seu que teimosamente permanecia humano. mas carência vampiresca. transforma-se no seu oposto. enquanto a reprodução vampiresca opera no sentido contrário. É uma deturpação e uma perversão. indiferente à cidade conflituosa ao seu redor. uma eterna parte de seu ser. só que ainda vermelho-humano. revertendo para a descendência sanguínea. Em vez de compartilhar o amor. A QUEDA 29 . Um vírus só sabe uma coisa: precisa infectar. a terna proximidade do Ente Querido. Só queria saber de sua sede. O ímã positivo. Queria aquela parte alucinadamente. Não é compartilhada ou criativa. Aquilo não era amor humano. Ela precisava de Zack. Algo que biologicamente ainda era seu. É estupro biológico e usurpação. seu amor. afastada à força. Era esse o frenesi que a impelia. A reprodução humana se espalha para fora. Ainda transportando oxigênio. criando e crescendo. O ímã negativo é a infecção. enquanto ela achatava o corpo contra o prédio como uma aranha. As garras em seus dedos médios ajudavam a subida. A criatura-Kelly parou na mureta do terraço. Enquanto ele permanecesse inacabado. nem a morte. impelida pela fúria contra o intruso. Anseio vampiresco. que na realidade não é o ódio. habitando as células vivas e convertendo-as para seus próprios fins. ela permaneceria incompleta. o amor. e não branco-vampiro. Ela sentia. Não era seu filho. O farol psíquico que era a tristeza humana dele. O que Kelly vira ao pousar os olhos em Zachary Goodweather de novo não fora um garoto. com a intensidade de uma mãe que sonha com um filho em dificuldades chamando seu nome.

A espada de prata queimava na noite de seus olhos.. Vinha diretamente do Mestre e era transmitida através de Kelly para a mente do antigo vingador. incapaz de ouvir a exultação tranquilizadora do Mestre. ainda que bem coordenada. Abraham. como Kelly a compreendia. em um humano envelhecido. Na escuridão. Aquilo vinha do Mestre. O velho caçador Setrakian apareceu com uma espada de prata. Pretendia imprensá-la entre a mureta do terraço e a noite. de comunicação animal. A psique da colmeia. Mas não a de Kelly. o sangue se move vagarosamente. na aceleração do coração dele. Ele parecia pequeno. quando ouviu. 30 guillermo del toro / chuck hogan . Alguma forma primitiva. Não faça isso. um indício de fraqueza aparecendo nos olhos. Jamais ouvira. A borboleta com uma caveira desenhada nas costas aladas olha para uma crisálida peluda com absoluto desprezo. sentindo o impulso iminente do ferrão ativado. tropeçando em intelectos mesquinhos. Abraham. A vampira Kelly aproveitou o momento: o queixo caiu e a boca se abriu desmesuradamente. com a mortífera lâmina de prata reluzindo. Mas Setrakian sim. um modelo ultrapassado. O vingador parou. A voz tinha uma entonação feminina. Eu vivo nela também. Pequenos e deformados: criaturas agarradas à existência..Já começara a procurar outro meio de penetrar naquela caixa de tijolos. mas não pela grande voz dele. Um estágio anterior da evolução. Eu vivo nela.. um par de sapatos velhos esmagando o cascalho. ela o distinguiu bem. Enquanto o velho humano avançava na direção de Kelly. Ela não tinha escolha. avançando. embora agora todos os humanos parecessem pequenos para ela. Alguma coisa nela sempre voltava a Ele. por trás do caixilho da porta. A assinatura de calor dele era estreita e débil. uma reação surgiu. Ela viu isso na assinatura de calor dele.. Mas o caçador levantou a espada e avançou para Kelly com um grito.

– Vá embora! – gritou Zack. parado. – Carinha. mas Eph não queria saber disso. Ficou chorando no ombro dela. os cinco policiais de folga a pé. ela olhou para o velho e sua assinatura de calor decrescente. Nem câmeras portáteis. – Vamos – disse Eph. virando para baixo e fugindo precipitadamente pela parede do prédio. porque realmente tentara. com a voz ainda áspera de tão engasgada. ou acalmar os dois.. Nada de relatórios descrevendo a ação. tentando acalmar o filho. – Parceiro – disse Eph. Sinto muito. – Não para mim! – Você viu como ela está. puxando-o pelo braço. Ele foi até Zack.Kelly se virou e correu pela mureta. Do terreno baldio lá embaixo. a substituta feminina mais próxima. A QUEDA 31 . – Eu preciso – disse Eph. – Você não precisa matar a mamãe! – disse Zack.. Ei! – Você tentou matar a mamãe! Eph não sabia o que dizer. Z. – Ela. – Eu preciso. mantendo-o longe da luz ultravioleta incandescente da lâmpada presa à janela. ph foi até Zack. Nora olhou para Eph com uma expressão de consolo nos olhos. observando-a fugir. Vasiliy estava na porta atrás dele. tentando um novo contato físico. Não portavam emblemas. Mas o garoto se afastou e se aproximou de Nora. e o sargento no seu carro particular. – Você viu aquela coisa. Ela não é mais sua mãe. – Eph não queria falar sobre o ferrão. Nada de inquéritos. E O esquadrão da noite Subiram a rua em direção ao parque Marcus Garvey. ela já está morta. Z. saindo apressado do quarto. nem murais comunitários ou Corregedoria.

– Que porra é essa de pedradas agora? Eles varreram os telhados com os olhos. – Ali dentro! Eles correram para a porta e entraram rapidamente. acertando quatro balaços e derrubando o alvo. – Caia fora daqui. “Demência relecionada a uma praga. – Lá! Um enorme pedaço de pedra decorativa. era como os federais haviam denominado aquilo. O policial recuou. que diabo! Um deles estava segurando o braço. O policial não precisou esperar pelas regras de engajamento ou força justificável. Avançou contra o desordeiro. atingindo-lhes a canela. Ali. Era um cara negro com quatro bons balaços no peito. uma adolescente com uma camisola comprida estava parada no meio do corredor. – Peguei um! O cara negro se sentou. bem através da manga. cheio de gás. “Mania transmissível”. – Ei. Outro projétil caiu aos pés deles.Tratava-se de usar a força. Um corte profundo. 32 guillermo del toro / chuck hogan . O primeiro homem a entrar subiu correndo a escada até o segundo andar.” O que havia acontecido com os antigos “bandidos”? Esse termo saíra de moda? O governo estava falando em chamar a Polícia Militar estadual? A Guarda Nacional? O Exército? Pelo menos deem uma primeira chance a nós – a polícia da cidade. Alguém se movimentava ali em cima. agarrando-o e fazendo algo com seu pescoço. ainda conseguindo disparar mais um tiro antes que o sujeito se lançasse sobre ele. A pedra se espatifou no meio-fio.. Gritou para o sujeito parar e depois abriu fogo.. O policial sorriu e gritou para a vão da escada. meu bem! – gritou o homem. fazendo com que se dispersassem. passando por ela rispidamente e indo na direção do segundo lance de escadas. uma flor-de-lis. Para acertar as coisas. veio na direção de suas cabeças.

A imagem popular dos vampiros bebendo sangue do pescoço não era incorreta. batendo com força no chão. Então cravou as unhas no rosto e no pescoço do homem. Uma unha comprida seemelhante a uma garra cortou-lhe o pescoço e girou seu corpo. Largado pela sombra imponente. jogando-a para trás. pulsando enquanto drenava o sangue do primeiro policial. Já a jugular carregava sangue impuro e picante. Depois bateu a porta com força para que pudesse se alimentar profundamente. Atirou na garota. sem interrupções. para ver de onde os dois haviam caído. com o fuzil comprimido entre o corpo dos dois. Ela pulou sobre ele. Os dois caíram juntos. uma mão o agarrou por trás. A pressão e a oxigenação eram perfeitas. e o sabor mais encorpado. ele ainda olhou para cima. Antes de disparar. mordendo-o no pescoço ou coisa assim. mais precisamente sobre a artéria femural. Depois viu o cara atrás dela. Kelly Goodweather. mas os vampiros poderosos preferiam a artéria femural da perna direita. o corpo do homem caiu inerte e nu perto de outras quatro vítimas aos pés de Sardu. Um segundo policial virou-se e viu o suspeito em cima do primeiro. o ligeiro hálito de seu último suspiro escapando da boca. o ferrão saindo da boca. O Mestre – Parte I Os membros do homem se retorceram pela última vez.O policial girou. foi puxando o policial com uma das mãos para o apartamento mais próximo. o ato de se alimentar há muito tempo deixara de ser emocionante para A QUEDA 33 . Não obstante. enfurecida pela fome e pela carência de sangue na ânsia de pegar o filho. sentindo o corrimão sob seu quadril. Todas exibiam a mesma marca forte do ferrão na carne macia do interior da coxa. e avistou a adolescente de camisola. quase rude. jogando-o de costas no chão. Um terceiro policial desceu a escada e viu a garota. Quando já partia ao encalço do outro monstro. o tremor da morte assinalando o final do repasto para o Mestre.

Seu verdadeiro ser. No final. centenas de metros abaixo do solo. Emitia seu murmúrio: um pulsar. num antro de concreto dentro de um ossário semiabandonado. O Murmúrio deveria ser usado com cautela. e a delicada sinfonia de arquejos. Muitas vezes o velho vampiro se alimentava sem sequer encarar a vítima. porém. gritos e exalações do rebanho ainda despertavam seu interesse. embora a adrenalina causada pelo medo na presa sempre acrescentasse uma excitação exótica ao gosto metálico do sangue. um ribombar surdo psicossedativo vindo de dentro. Sua câmara ficava no centro de um labirinto de currais curvos e túneis de serviço debaixo de um matadouro de gado. mas sofrera uma limpeza completa antes que o Mestre fixasse residência ali. O vergão latejante em suas costas começara a sarar quase que imediatamente. uma chicotada mental. desfigurando seu corpo como uma afronta. en masse. convocava sua voz primeva – a voz original –. o meninocaçador cujo corpo ele habitava. Mas agora. Jamais temera sofrer danos permanentes por causa do ferimento. Elas o protegiam. paralisando as presas próximas pelo maior tempo tempo possível. As vozes. sua posição. Lá no fundo. pois expunha a verdadeira voz do Mestre. Podia fazer isso ali. inclusive a de Sardu. seus pensamentos diante dos Antigos. Durante séculos a dor humana permaneceu fresca e até mesmo revigorante: suas várias manifestações divertiam o Mestre. O Mestre usara O Murmúrio dentro do 777 ao chegar. O lugar já servira para coletar sangue e resíduos. mas o vergão se transformaria numa cicatriz.o Mestre. e agora emitia novamente aquele som pulsado para conseguir silêncio absoluto e poder pensar com tranquilidade. o Mestre procurava silêncio absoluto. e agora parecia muito mais uma capela industrial. camuflavam sua presença. a fim de que ele pudesse se alimentar em paz. principalmente ao se alimentar dessa maneira. descartando todos os outros hóspedes dentro de seu corpo e sua vontade. a voz de seu verdadeiro ser. pois nada temia. 34 guillermo del toro / chuck hogan . E era algo perigoso. Aquele velho idiota e os humanos a seu lado ainda lamentariam ter cruzado o caminho do Mestre. pois essas vozes serviam como disfarces. Demandava algum tempo e esforço para aquietar todas as vozes residentes e redescobrir a própria.

pousando cuidadosamente a mão em cima do coração. ele se achava bem à frente. mas apesar disso ele permanecia inteiramente sob o controle do Mestre. o que era uma sensação nova e energizante. Bolivar.. No solo. Naquele jogo. Nunca imaginara que poderia voltar àquele lugar. Agora. o coro de vozes recomeçou. Desta vez o Mestre se deliciou. e chegara até mesmo a reunir uns poucos servos que poderiam realizar tarefas diurnas. levantou o corpo do homem. O fenômeno definira a delicada e sagrada geometria necessária. estava provando ser bastante habilidoso na propagação da sede.Um levíssimo eco de raiva. de indignação profunda. e cobiçosamente extinguiu o ritmo que havia ali. e assim essa nova reação foi recebida com júbilo. Indignação não era um sentimento que ele experimentasse com frequência. saboreando aquela sobremesa picante. a Terra se incendiaria. A QUEDA 35 . Na sua mente. dentro de muito pouco tempo. que ainda tinha um pouco de dor e medo no olhar – ali estava uma guloseima imprevista. Revigorado e encantado.. A Ocultação marcara o momento para o plano ser posto em prática. o enérgico lugar-tenente de suas hostes. Depois de tudo que testemunhara e encontrara anteriormente. Marco Zero A plataforma estava vazia quando Eph pulou para os trilhos. Um riso silencioso crepitou através de seu corpo ferido. Examinou o homem a seus pés. trepidou por suas muitas vozes e sua vontade única. um dos petiscos gemeu. A arrogância de Palmer crescia a cada avanço tático. Sob o teto abobadado do Ossário. inesperadamente agarrando-se à vida. entrando atrás de Vasiliy no túnel do metrô que corria ao longo do canteiro de obras do projeto Marco Zero. e todas as diversas peças comportavamse como esperado. O Mestre se sentia afrontado. não poderia imaginar uma força grande o bastante para compeli-lo a retornar ao labirinto subterrâneo que era o ninho do Mestre. o Mestre olhou para a presa.

era que a prata lhes metia medo. Passou pela mangueira de esgotamento abandonada pelos operários. Eph caminhou por sobre as pedras negras ao longo dos mesmos trilhos inutilizados de antes. As balas de chumbo enfureciam as criaturas. como lâmpadas ultravioleta. Vasiliy levava sua barra de aço reforçado. Vasiliy continuava levando sua barra contra ratos. espadas de prata e uma pistola de pregos carregada com projéteis de prata pura. Vasiliy chegara aos vampiros em seu trabalho de funcionário municipal. queria saber o que os andava afugentando do subsolo. a menos que você lhe cortasse a cabeça na altura do pescoço.Mas há calos que se formam até mesmo num único dia. Os ratos não haviam voltado. Como exterminador de ratos. mas os pregos de prata feriam-nas em nível genético. as saraivadas de chumbo também não matavam. embora ambos soubessem que não havia mais ratos por ali. que também haviam desaparecido. mas. Já encontrara uns poucos vampiros nas suas 36 guillermo del toro / chuck hogan . Vasiliy também gostava da pistola de pregos. Como de costume. Balas de chumbo abriam buracos nos vampiros. mas quando o sistema nervoso já desapareceu. Nenhum dos dois tipos era realmente uma arma portátil. inseridos pela culatra como um pente de balas de fuzil UZI. tal como em humanos. ao menos para Eph. funcionava com o cartucho de fixação a pólvora de uma carabina. Uma carabina de caça tinha o poder de deter um vampiro. que pertencia ao arsenal de antigas e modernas curiosidades do velho. Bem como a luz ultravioleta na frequência pura de onda curta. Já sua pistola. A despeito das armas mais adequadas e de maior impacto que ele e Eph carregavam. Uísque ajudava muito. Era carregada com cinquenta pregos de prata por vez. a dor física não é mais problema e os projéteis revestidos de cobre reduziam-se a instrumentos rombudos. Já as elétricas careciam de impacto e trajetória. matava os vírus. Quase tão importante. Pistolas pneumáticas de ar comprimido exigiam tubagem e água. Os vampiros haviam infestado o domínio subterrâneo dos ratos. introduzida no corpo sob a forma de pregos sem cabeça de cinco centímetros. Já a prata. O uísque ajudara. A prata e a luz solar eram o equivalente vampiresco da barra para exterminar ratos.

Fora ele o primeiro a conduzir Eph e Setrakian para aquele lugar ali embaixo. enquanto uivava para o sol numa atitude de desafio. Há coisas que ele não está contando para nós. Chegar tão perto. – Fisicamente. Tenho certeza disso. e minha mãe não era. Mas tem mais. Zack precisa de tempo. só para ver o Mestre resistir e sobreviver ao seu melhor ataque. eu vivia confuso nessa idade..aventuras subterrâneas. O exterminador mastigava um charuto Toro apagado que costumava levar na boca. – Isso. O cheiro de carvão de vampiros queimados. esquadrinhando o túnel com a lanterna. – Estou preocupado com o velho. – Ele está confuso. claro. tentando alcançar Vasiliy. – Você está bem? – perguntou. – Eu também gosto dele. depois de tantos anos caçando essas coisas. agradecido pelo esforço que Vasiliy fazia. – Não podia estar melhor. – Estou ótimo – disse Eph. sim. à procura do ninho do Mestre. A QUEDA 37 . – Ele achou que a luz do sol mataria o Mestre. ou ainda não contou. você sabe. – O fracasso. – Eu sei. e sua dedicação como exterminador de pragas e experiência nos subterrâneos da cidade calhavam perfeitamente com a caça aos vampiros. mas gosto do seu filho. Eph pisava com cuidado sobre as pedras soltas. e o permanente odor de amônia dos excrementos das criaturas. – O esforço foi muito para ele. Mas não é só. com a carne branca feito lírio cozinhando em plena luz do dia. – Ele é um bom garoto. Eph se lembrou do vampiro-rei lançando a capa para trás num gesto de triunfo. Eph assentiu.. Eu não gosto de crianças em geral. Cara. e tempo é justamente uma das muitas coisas que eu não posso dar a ele nesse momento. Eph viu que ficava para trás e apertou o passo. O fedor de matança permanecia enclausurado no ambiente subterrâneo. e depois desaparecendo sobre a mureta do terraço.

. almoço e jantar.. um animal ferido não é mais perigoso? – Os animais.. É a economia do sangue. Isso significava que nenhum vampiro voltara ali recentemente. – Ninguém terá.... Para ele. – Eph conseguira dar um golpe. Talvez. Com a prata. Mas esse monstro? Ele vive na dor e no medo. por meio de sua telepatia. por sorte. – Tenho pensado muito nisso. – Para aniquilar todos nós. Se ele não tiver. E você. somos café da manhã. – Ele precisa manter um equilíbrio. – Pelo menos algum dano o sol realmente causou. Eu só espero que o velho tenha as respostas. – A menos que haja algum outro destino nos aguardando. Eph ficou impressionado com o raciocínio de Vasiliy. como as pessoas. Se transformar quase todas as pessoas em vampiros. Quem sabe quanto tempo aquele monstro seria capaz de aguentar a exposição.. Vasiliy e Setrakian. Estavam esmaecendo. Ele quer aniquilar toda a humanidade? Quero dizer. As manchas já não tinham as cores vívidas de que Eph se recordava. nós somos seu alimento. Chegaram à suja interseção do túnel. você o cortou. que a subsequente exposição ao sol fundira instantaneamente numa cicatriz negra. – Se ele pode ser ferido. certo? – Mas. fazendo os raios ultravioleta ressaltarem as manchas irregulares dos dejetos dos vampiros: a matéria biológica de urina e fezes ficava fluorescente sob a baixa frequência da luz. não é? Se converter pessoas demais em vampiros. não há mais ovos.Vasiliy mastigou seu charuto. Com todas as galinhas mortas. imagino que pode ser destruído. Eph levantou a lanterna Luma. esgota o suprimento de comida inteiro. são motivados pela dor e pelo medo. Não precisa de mais motivação. empilhados como um antigo monumento fune38 guillermo del toro / chuck hogan . que era a lógica de um exterminador. nas costas do Mestre.. Vasiliy usou a barra de aço para revolver um monte de telefones celulares descartados. vai criar uma demanda grande demais por alimento humano. tenham sido avisados pelas centenas de companheiros mortos pelas mãos de Eph.

Terrores comuns a todas as tribos e terras. seu Ente Querido. existia e era conhecida. Agora estava alucinadamente dedicada à missão de converter também em vampiro seu sangue. e se todas essas coisas não forem meras superstições? E se estiverem diretamente relacionadas? Não medos distintos. e sempre o tememos. Aquela praga demoníaca afetara Eph num nível pessoal. em todos os povos e todas as culturas. mas também distraído. mas. sua orientação como epidemiologista. Que essa ameaça.. e cuja doença possui os corpos humanos. recuando para as sombras. profundamente enraizados em todos os seres humanos. que dirá teorizar sobre a grande escala das coisas. – Você está dizendo que o que ele quis dizer é que talvez sempre tenhamos sabido disso? – Sim. – É essa a palavra. Mas. e se na realidade tiverem raízes no nosso passado? Em outras palavras.. e ele estava achando difícil dirigir a atenção para qualquer outra coisa. guerra. que nunca desapareceu. Uma melancólica ode à futilidade humana: era como se os vampiros houvessem sugado a vida das pessoas. ligados por nosso subconsciente.. O fato virou folclore.. deixando apenas aquelas geringonças. nas entranhas da cidade sitiada. Sua ex-esposa fora levada e transformada em vampiro. esse clã de vampiros que vivem de sangue humano. Depois disse calmamente: – Andei pensando numa coisa que o velho disse quando falou sobre mitos em culturas e épocas diferentes. e se não forem mitos comuns? E sim verdades comuns? Eph teve dificuldade para raciocinar teoricamente ali. doenças. embora isso fosse. pragas. – Arquétipos. Eph assentiu. Vasiliy podia se afastar e apreciar o panorama em geral.. interessado. Sua opinião era a seguinte.. Mas quando eles se esconderam ou seja lá o que for. quando algo tão insidioso entra na nossa vida pessoal. Mas esse veio subterrâneo de medo corre tão fundo em nós. mas que revelam medos humanos básicos e semelhantes. Símbolos universais.rário. todos os pensamentos superiores saem pela janela. A QUEDA 39 . a verdade virou mito. mas estava em situação oposta à do exterminador. o filho deles. de fato. cobiça.

Era como chamar uma revolução de protesto isolado. mas também notoriamente doente. Vasiliy preparou a pistola de pregos e Eph ergueu a espada. Obviamente. que não era apenas idoso. se não podiam destruir o Mestre naquele momento. Na extremidade mais distante da câmara baixa estava o amontoado de terra e dejetos. Particularmente. dobrando a cada noite que passava. virara para Palmer algo como um fetiche. era como agitar os punhos contra a própria morte. com certeza poderiam destruir Palmer. estilhaçando o coração do garoto. o homem que eles haviam identificado como cúmplice do Mestre na conspiração. aquele caixote caprichosamente entalhado que atravessara o Atlântico dentro 40 guillermo del toro / chuck hogan . como um veículo antigo que exigisse manutenção vinte e quatro horas por dia apenas para se manter funcionando. dava a seu tormento uma direção e um propósito. eles deviam estar mais bem informados. mas o noticiário insistia em reduzir aqueles ataques a meros “distúrbios”. o lugar que procuravam. o colaborador e facilitador humano do Mestre. Mas. um homem que tinha interesse em enganar o povo americano e o mundo em geral – estava influenciando a mídia e controlando o Centro de Controle de Doenças. por ter transformado Kelly ou por contradizer tudo que ele acreditava sobre ciência e medicina. Por quanto tempo ele poderia continuar assim? A fúria de Eph contra o Mestre. como o médico em Eph imaginava. mas alguém – e só podia ser Palmer.Eph percebeu que estava cada vez mais obcecado por Eldritch Palmer. com o vírus propagando-se exponencialmente. Eph já decidira que. Os ataques haviam aumentado. Apenas o Grupo Stoneheart poderia financiar e pôr em execução uma campanha tão maciça de desinformação pública sobre a ocultação. Eles alcançaram a câmara comprida. Era o altar sujo sobre o qual viera o caixão. A vida. Melhor do que isso. o chefe do Grupo Stoneheart e um dos três homens mais ricos do mundo. mas Palmer se mantinha vivo graças à sua vasta fortuna e a seus recursos ilimitados. condenar Palmer. Antes de passarem pelo canto. Qualquer outro homem já teria falecido dez anos antes. Aquele velho destruíra a vida do filho de Eph. era justificada mas impotente. legitimava seu desejo por uma vingança pessoal.

.. afastando-se para ter uma visão geral. cobria a extensão de pedra. Eph notou que a grande maioria das figuras era de variações de um mesmo desenho de seis pontas. ali um desenho parecido com uma ameba. Desaparecera de novo.do frio compartimento de carga do voo 753 da Regis Air. uma garra. Os desenhos tinham cheiro de tinta fresca.. – Uma lua crescente. Eph adiantou-se para examinar um hieróglifo no centro de uma das mais intricadas estrelas. Eph estava muito decepcionado. duas formas idênticas estavam escondidas nos vetores do traçado. Então ele iluminou toda a parede com a lanterna normal. trazendo o Mestre enterrado na argila fria e macia. Aqui havia algo com aparência de estrela. – Mostrando o caminho. – Isso é novidade – disse Vasiliy. Um espraiado redemoinho de cores na base da parede lateral podia ser visto sob o facho da lanterna-bastão de Vasiliy. indo do rudimentar ao abstrato. – Ele voltou aqui – disse Vasiliy. Ansiava por destruir o pesado caixote. Parecia ser um gancho. Para fazê-lo perceber que eles não haviam desistido. olhando ao redor. dispostos de modo aleatório. Invisíveis a olho nu. como acontecera no hangar cercado de seguranças do aeroporto LaGuardia. alguma coisa – voltara para recuperar a peça antes que Eph e Vasiliy pudessem destruir o lugar de descanso do Mestre. Um mural de loucos desenhos grafitados. – Podem estar migrando – disse Vasiliy. O caixão desaparecera. A QUEDA 41 . – Olhe para isso. cobrindo a pedra de alto a baixo. Alguém – ou. – Aqui – disse Vasiliy. e que nunca recuariam. Ele correu a luz negra pelo desenho complexo. indicando um jato recente de urina de vampiro. mais provavelmente. O topo achatado do altar de terra ainda trazia a marca da madeira. e perturbando de certo modo o hábitat do monstro. ou. Mais de perto. assim dirigindo sua ira para alguma forma física de destruição. E uma seta apontava para os túneis que se estendiam adiante. e depois a motivos simplesmente intrigantes. A grafitagem se estendia pela larga parede como se a coisa tivesse se replicado..

Eph assentiu e acompanhou o olhar de Vasiliy. – Papo de andarilhos. que examinou o aparelho. tentando imaginar o porquê daquilo. e depois fez um vídeo de todo o grafite maníaco. – O que significam? – Não conheço a linguagem. água por dentro? – Hidrocefalia. Ele atirou o celular para Vasiliy.. Está doente com. Veja se algum desses telefones ainda tem um pouco de bateria. stava claro quando eles saíram do túnel. – Meu pai costumava me falar dessas marcas – disse Vasiliy. – Ele olhou em torno. Eph vasculhou o topo da pilha. Um que tenha câmera. da época em que ele chegou ao país pela primeira vez.. vi sinais assim em armazéns.. onde você poderia se alimentar. porões. Parecia assombrado pela visão do interior daquele lugar sinistro. – Mas parecem estar apontando para aquele caminho. – Isso é mau agouro. experimentando os aparelhos e descartando os apagados. Desenhos a giz indicavam casas amistosas ou inamistosas. conseguir uma cama ou até mesmo avisar a outros sobre um proprietário hostil. Como isso pode ser um gato? Olhe só. túneis. Estavam com as roupas de trabalho sujas pelos túneis debaixo do Marco Zero. obcecado pela natureza daquela invasão e intrigado com seu significado. depois da guerra. 42 guillermo del toro E / chuck hogan . – Nunca entendi a porra desse gato.. Ao longo dos anos. A cabeça é grande demais. você quer dizer? – disse Eph. A direção indicada era o sudeste. Um Nokia cor-de-rosa com um enfeite de Hello Kitty fosforescente reviveu em sua mão. Eph carregava a espada e outros equipamentos numa bolsa esportiva de beisebol pendurada no ombro. Eu detesto a porra desse gato. Porra de gato. Fotografou a figura da lua crescente iluminada pela luz azulada. Vasiliy arrancou o enfeite do gato e jogou-o fora. Vasiliy levava suas armas em uma pequena caixa com rodinhas que ele usava para transportar seus instrumentos e venenos exterminadores.

mas sem empregados. Alguns usavam máscaras faciais. – Medimos nossas vidas em dias e anos. com as calçadas quase vazias. A caixa registradora também já estava limpa. Qualquer coisa consumível. e elas descobrirem que nada pode ser recarregado. mas apenas um ou outro táxi atravessava as ruas transversais. – Espere até os telefones e computadores se apagarem. – Se eles já estão aqui há séculos. ou sem eletricidade. Só tem o céu para se preocupar. Passaram por um mercado iluminado. na sua opinião? – perguntou Eph. que não viria. Aí então que a gritaria vai começar. Eph ouvia buzinas de automóveis nas avenidas principais. – Ele estava esperando por isso. agindo de acordo com a desinformação acerca do tal “vírus” misterioso. – Por que agora. – Que maluquice – murmurou Eph. mas sem transeuntes para atravessar. as pessoas levavam o que sobrara de frutas estragadas nas bancadas da frente ou mercadorias enlatadas das prateleiras já quase vazias. Manhattan sem pedestres não era Manhattan. quando o sinal ficou vermelho. implorando uma resposta. outros protegiam o nariz e a boca com lenços de pescoço. A fumaça negra estava se tornando uma característica permanente no céu da cidade. – Pelo menos algumas pessoas ainda têm energia – disse Vasiliy. porque hábitos antigos custam a desaparecer. Lá dentro. o que provocou isso? – A noção de tempo dele não é igual à nossa – disse Vasiliy. por um calendário. A QUEDA 43 .Wall Street estava estranhamente silenciosa. Por força de hábito. Mas dinheiro não chegava a ter o valor que a água e a comida teriam em breve. Ouvia-se o lamento de sirenes distantes. de repente. – O eclipse – disse Eph. como também a seção de alimentos congelados. com pouco mais que um aceno de cabeça. Os símbolos dos sinais de trânsito continuavam mudando da mão vermelha para a figura branca andando. ambos fizeram uma pausa no meio-fio seguinte. A maior parte das lojas estava fechada – saqueadas e vazias. O refrigerador de bebidas já fora saqueado. Os poucos pedestres ainda vistos passavam por eles apressadamente. com motoristas curvados sobre os volantes e passageiros ansiosos sentados nos bancos traseiros. Ele é uma criatura da noite.

literalmente. Acho que tenho dois motivos. seguindo instruções precisas. O blog de Vasiliy Fet Alô. Não conseguia imaginar perda de tempo maior. A verdade sobre o que está acontecendo.. Enquanto eles se afastavam.. Quando passaram por uma delegacia.. Quem sou eu? Sou um exterminador por ofício.. Quer dizer. esperando receber orientações quanto ao que fazer. mundo. Colocar minhas ideias nessa tela de computador. observando Eph. e preciso tentar descobrir quem sou agora. se você mora em uma das cinco partes de Nova York. Propagar a verdade. “É só paranoia minha”. avista um rato na sua banheira e chama o serviço de controle de pragas. quem liga para o que você tem a dizer? Portanto. o policial deu um telefonema. Porque o que vivenciei nos últimos dias me transformou. mas não com rapidez ou displicência suficientes. – Eph olhou para o outro lado. e todo mundo ainda estava observando. 44 guillermo del toro / chuck hogan .– Talvez represente algo – disse Vasiliy. um policial do Departamento de Trânsito deu uma espiada neles. – Merda. O segundo motivo? Simples. para serem vistas e talvez dar algum sentido a tudo que está acontecendo. pensou Eph. seu rosto aparecia muito na televisão. alô. Um é registrar meus pensamentos. realmente não sei o que é isso. Mas preciso fazer isso. – Talvez tenha algum significado para ele. Eu achava que nada era mais inútil do que escrever um blog. Virando a esquina. o policial virou de costas. Mesmo com a desintegração das forças policiais. Portanto. Ou o que sobrou dele.

Caso você ainda não tenha percebido. Industries. o melhor meio de eliminar uma infestação é remover a fonte de alimento. uma antiga locadora de carros blindados.É isso aí. Uma nova infestação está se espalhando por toda a cidade. entende? Município de Fairfield. O único problema é: qual é a fonte de alimento dessa nova estirpe? Isso mesmo. No seu sótão. e pelo mundo. R. A metade onde ficavam os escritórios fora transformada num pequeno centro cirúrgico particular. E agora vou fechar com chave de ouro. Mas isso não acontece mais. Connecticut O prédio baixo era um dos dez no final de uma estrada em mau estado. Uma nova estirpe de intrusos. O acesso se dava por meio de cartão-senha em um portão eletrônico. Essas criaturas estão fazendo ninho no seu porão. nós estamos na maior merda. Uma praga sobre a raça humana. um conjunto de escritórios que já andava em dificuldades até antes da recessão. Consequentemente. Quando se trata de ratos. L. permanecia rodeada por um alambrado resistente com quatro metros de altura. Antes você conseguia deixar para mim o serviço sujo. A metade onde ficava a garagem abrigava o Jaguar cor creme do médico e uma frota de veículos pretos adequados à caravana de um magnata. Você e eu. De enxotar as pestes. A QUEDA 45 . De erradicar as pragas. camundongos ou baratas. Nas suas paredes. Muito bem. Ainda mantinha o símbolo de seu inquilino anterior. servindo a apenas um paciente. Eu sou o cara que aparece duas semanas depois. Somos nós.

marrom-róseo. Foi isso que o cirurgião lhe disse. Eles não o punham mais em sedação muito profunda. inclusive as de metabolismo. e o interior era uma cesta endurecida de órgãos em falência. menos de catorze horas depois de ser colhido. Permanecia ligado a máquinas. o enfermeiro de Palmer. Ele voltava a si lentamente. Fitzwilliam. sempre vigilante à maneira da maioria dos ex-fuzileiros navais. isso era muito arriscado. O fígado. 46 guillermo del toro / chuck hogan . ambicioso e. acordando com o costumeiro desconforto pós-operatório. O cirurgião entrou. mas o seu corpo não aguenta mais nenhum alotransplante de tecido ou de órgãos. A incisão recém-suturada apenas reabrira a cicatriz de um transplante anterior. E. produção de hormônio e desintoxicação. na opinião de Palmer. Por fora o peito de Palmer expunha uma massa encaroçada de cicatrizes desfigurantes. – Lamento. calçando um novo par de luvas. seu sétimo fígado. mas com firmeza. ainda com a máscara. Era um médico exigente.Eldritch Palmer estava deitado na sala de recuperação. mesmo pelos padrões da maior parte dos cirurgiões. quanto menos anestesia fosse usada mais rapidamente ele se recuperava. sendo o maior órgão interno e também a maior glândula isolada do corpo humano. Chegamos ao fim. Um órgão sadio e jovem. além de guarda-costas e companheiro constante. O doador fora um refugiado salvadorenho adolescente. armazenagem de glicogênio. Naquela idade avançada. fazendo pela enésima vez essa viagem escura de retorno à consciência. Atualmente não existe expediente médico capaz de compensar sua ausência no corpo. Passavam por seu corpo tal como filtros de papel passam por cafeteiras. drogas e alcoolismo. conferindo a eficiência do seu novo fígado. síntese do plasma. com formato mais ou menos triangular. Trazido fresco do avião a jato. o que fora uma grande infelicidade para o relutante doador salvadorenho. tem muitas funções vitais. Afastou o lençol. semelhante a uma bola de futebol americano em tamanho. incrivelmente rico. testado para ver se estava livre de doenças. estava parado no canto. segundo as contas do próprio Palmer. Sua equipe cirúrgica conhecia bem a adequada mistura de sedativos e anestesia. aquele alotransplante era.

Eu compreendo. possuía uma rara vontade de viver: um instinto de sobrevivência feroz e antinatural. sugiro que o senhor esqueça esta cirurgia completamente. que o médico jamais encontrara em ninguém. e tudo estava arranjado. coisa que por sua vez facilitava sua redenção iminente. e nesse aspecto ele não diferia muito do Mestre. Avaliou esse acontecimento nos únicos termos que compreendia: O que aquilo significava para ele? Simplesmente o cronograma fora acelerado. que era a corporificação de uma colmeia de almas de mortos-vivos. e por isso libero o senhor de qualquer compromisso.Palmer sorriu. doutor. Seu corpo era uma colmeia de órgãos de outras pessoas. Setrakian. E incendiar aquele prédio não causaria qualquer investigação em meio a tantos distúrbios sociais. Tudo isso o médico engoliu com um sorriso educado. O olhar do cirurgião permaneceu indeciso. nunca conheceria a derrota. Palmer descansou os olhos. A derrota realmente tinha gosto amargo? Ou era mais semelhante a cinzas na língua? Palmer nunca conhecera a derrota. O pagamento que o senhor receberá por este procedimento será o último. O cirurgião ficou aliviado e agradecido. Estaria ele finalmente sucumbindo a seu destino final? Pouco importava. – A voz de Palmer ainda estava rascante devido ao tubo respiratório. nunca mais. Depois retirou-se sob o olhar frio de Fitzwilliam. deixando sua mente voltar para a exposição solar do Mestre. – Obrigado. um homem que esteve doente por quase toda a vida. Sua aposentadoria já vinha sendo planejada havia algum tempo. perpetrada por aquele velho idiota. Eldritch Palmer. E quantos podem dizer isso? A QUEDA 47 . Setrakian. Sei que o senhor teme que a Sociedade Americana de Medicina descubra nossas técnicas para colher órgãos. Só esperava que os voos para Honduras ainda estivessem funcionando. – Na verdade. Não vou precisar mais de intervenções médicas. Era uma bênção ficar livre de todos os compromissos numa época tão tumultuada quanto aquela. Finalmente seu dia estava quase chegando.

Seus pensamentos voltaram-se para a Fundação Palmer. fosse devido a um desafortunado defeito nas lentes de um lote de óculos de segurança feitos para crianças.Como uma pedra no meio de um rio com corredeiras. E Palmer estava realmente falando sério. A futilidade dos humanos.. ratos. observando Eph e Vasiliy como que aguardando para ver o que fariam. evidentemente em estado de pânico e caos. Sua presença era indicativa. de fato. Entre os super-ricos realmente esperava-se que cada um dos mais abastados fundasse uma instituição de caridade com seu próprio nome. garantia a sua fundação. mas a pista se extinguira num terreno baldio em Taipei.. os roedores corriam de porta em porta e ao longo da sarjeta ensolarada. quando na realidade o rio estava. conforme previsto. – Olhe lá para cima – disse Vasiliy. Essa. por sua vez. lá estava Setrakian. não é? Mas tudo termina de forma tão previsível. como um barômetro. expul48 guillermo del toro / chuck hogan . usara seus amplos recursos para transportar e cuidar de dois ônibus cheios de crianças atingidas pela recente ocultação do sol. da infestação vampiresca que se espalhava no subsolo. Rua Pearl Ao atravessarem a rua. Elas haviam ficado cegas repentinamente durante aquele raro evento celestial. passando a toda a velocidade em torno dele. Os óculos com defeito haviam sido rastreados até uma fábrica na China. Não se mediriam despesas para a reabilitação e a reeducação daquelas pobres almas. Vasiliy. Olhavam para baixo. O Mestre exigira isso. A vida começa tão promissora. Deslocados. Tinha a crença orgulhosa e tola de que estava perturbando a corrente. Eph sentiu que estavam sendo seguidos. fosse por terem olhado para o sol eclipsado sem proteção óptica adequada. tinha a atenção voltada para os ratos. O que Eph pensara ser pombos pousados nos beirais eram. a sua única fundação filantrópica.

– Só pode haver um ninho aqui perto – disse Vasiliy. repelia outras formas de vida. quê? Vasiliy levantou-se e foi até o balcão. Vasiliy pousara o equipamento e puxara uma cadeira. Canecas de cerveja parcialmente consumidas estavam largadas nas mesas. vendo que o toalete masculino tinha grandes e antigos vasos que terminavam numa vala no chão. e Eph sentiu uma sede repentina no fundo da garganta. – Última chamada – disse Vasiliy. como era previsível. Eles passaram por um bar. O lugar só servia cerveja. com prateleiras de grandes canecas de vidro embaixo. nem misturadores de coquetel ou baldes de gelo. que era o que Eph queria. mas as mais novas jorravam facilmente. ou então sua presença ostensivamente maléfica. fora de maneira abrupta e súbita. igualmente deserta e ainda mais escura. tanto clara quanto escura. Eph encheu duas canecas de cerveja escura. Apenas uma marca de cerveja própria. vendo que estava destrancada. arrastando as botas pela serragem no chão. Alguma vibração animal que os strigoi emitiam. – Um brinde a. – Parece que o pessoal se mandou daqui apressadamente. Voltou para o salão.. Não havia bebidas destiladas. – Última chamada por toda a cidade. Nada de destilados. pegando uma das canecas. Era um bar antigo. apenas torneiras de chope.sando os ratos de seus ninhos. estabelecido há mais de cento e cinquenta anos – a mais antiga cervejaria ainda em funcionamento em Nova York. e também os achou vazios. Então Eph se enfiou atrás do balcão. descansando as pernas. Eph conferiu os banheiros. mas não havia fregueses nem barman. Eph bebeu metade da cerveja. As antigas torneiras só faziam parte da decoração.. e umas poucas cadeiras ainda exibiam casacos pendurados. Foram até a parte de trás do bar. Voltou e testou a porta. Quando a festa terminara ali. – A quem mata sugadores de sangue. A única coisa que perturbava o silêncio era a tagarelice baixa do noticiário num televisor preso num canto alto. A QUEDA 49 . limpando a espuma do grosso lábio superior. conforme se gabava o letreiro –.

– Do terraço? Meu Deus. – Acho que você tem razão. imóveis. A Bolsa de Nova York caía violentamente devido a temores de consumidores. enquanto as cotações de mercado desabavam. Quer que eu vá chamar? – Não. enchendo-a de cerveja apressadamente. a legenda abaixo da cena dizia: os distúrbios em bronxville continuam. Eph perguntou: – Como está o Zack? – Melhor. ligou para Setrakian. a ameaça de uma epidemia ainda maior do que a da gripe suína e uma onda de desaparecimentos entre os próprios corretores. Havia overbooking em viagens aéreas e ferroviárias. É melhor falar com ele pessoalmente quando voltar. – O troço sumiu. Vasiliy estendeu a mão para mudar de canal. – Eph ficou enjoado. com as pessoas fugindo da ilha diante dos boatos de uma quarentena.Uma voz na televisão chamou a atenção deles. desses antigos. Os aeroportos e as estações de trem eram cenários de puro caos. Agarrou uma caneca limpa. usando pacientemente o dial rotativo. Um repórter em transmissão ao vivo numa cidade pequena perto de Bronxville. Eph ouviu um helicóptero acima deles. como Eldritch Palmer. Antes que ela pudesse falar. atrás do balcão. Com fumaça escurecendo o céu ao fundo. – Onde ele está agora? – Lá em cima. No canal NY1 o foco das notícias era o tráfego. Corretores apareciam sentados. Vocês destruíram o caixão? – Não – disse Eph. que foram para a parte da frente do salão. mostrando cada saída de Manhattan congestionada. – Sumiu? – perguntou ela. Uma aeronave assim era provavelmente o único meio de entrar e sair de Manhattan no momento. Foi escorraçada do terraço por Setrakian. terra de um dos quatro sobreviventes do voo 753. Eph encontrou um telefone com fio. Conseguiu um ruído de discar precário e. – Ela não voltou mais? – Não. 50 guillermo del toro / chuck hogan . Caso você tivesse seu próprio heliporto. O telefone tocou e Nora atendeu. Ele ficou muito perturbado durante algum tempo.

Na verdade. – Ele afastou o telefone um momento para beber mais cerveja. Alguma coisa que não fosse uma caneca de vidro. e isso significa que o Mestre sabe.. a fim de quebrar a monotonia da A QUEDA 51 . – Mas vou lhe dizer uma coisa. por favor. Ele desligou e vasculhou debaixo do balcão. alguém está grafitando as paredes? Eph apalpou o celular no bolso. O sol já não parece amedrontar muito os vampiros. forrado de couro. Silenciosa. e. mas isso não vai demorar. E. mas havia uns desenhos misteriosos na parede dos túneis. ao espanar a poeira da tampa de metal. A cidade está sinistra. – O Vasiliy está procurando um carro maior. Não havia poeira na bebida. perto da estação Ferry Loop. assegurando-se de que o aparelho cor-de-rosa ainda estava ali.. – Porque ela sabe onde nós estamos agora? – Porque ela sabe. feitos com tinta em aerossol. Encontrou um frasco antigo. tentando afastar sua dor de cabeça. – O Setrakian acabou de dizer isso. Hoje. ficando mais espertos. descobriu atrás uma garrafa de conhaque de boa qualidade. É como se eles estivessem ficando mais audaciosos.. – Eles estão aprendendo. – A coisa acalmou um pouco agora ao alvorecer. – Não por aqui – disse Nora. Por causa da Kelly.– Aparentemente o Mestre não está muito ferido. – Esse é o nosso plano... – É exatamente isso que está acontecendo – disse Eph. – Ele não mencionou que estava num bar. – Está bem. – Como assim. Precisamos nos mandar daqui. – Onde vocês estão agora? – No centro financeiro. Estava procurando um recipiente que contivesse mais cerveja. pois era disso que ele precisava para descer de novo ao subsolo. Eph apertou a mão sobre os olhos fechados. não sei o que é aquilo. voltem para cá em um pedaço humano. provavelmente era guardada ali para um rápido gole do barman. é esquisito. Nem com os movimentos realmente comprometidos.. Vamos arranjar isso e voltar logo. – Só. – Eu gravei um vídeo.

Tudo isso está sendo feito a meu pedido. examinando os terraços do outro lado da rua antes de se afastar das janelas da frente. com o paletó desabotoado. – Talvez você compreenda o que está acontecendo. Ephraim. – Ephraim – disse Barnes. Ninguém quer machucar você. Talvez nem mesmo você saiba. Talvez você seja parte do esquema. diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças. – Nós precisamos que você venha conosco – disse Barnes. – Talvez só você pense assim. não tenha dúvida disso. – Meu Deus! – disse Eph. não sei. mas sim um terno marfim sobre branco. – Eu preciso de você. indo atrás dele. Eph podia ver a área da rua imediatamente atrás dele. – Olhe aqui – disse Eph. O velho médico interiorano não estava usando seu uniforme de almirante – os Centros haviam nascido no âmbito da Marinha Norte-Americana –. – Eles têm ordens de ficarem bem afastados. Insisti que precisava de alguns minutos sozinho com você. Sei disso agora. arrumando o paletó. Saiu rapidamente de trás do balcão. mas logo estarão aqui. Eph virou as costas e rumou para o balcão. quando ouviu uma batida na porta. talvez não. examinando novamente a rua. Eph lavou o frasco e estava enchendo-o cuidadosamente sobre uma pia pequena. pelo menos no momento. Eph agarrou-o pela lapela e puxou-o para dentro rapidamente. – Como conseguiram trazer você aqui tão depressa? – Era uma questão prioritária que eu falasse com você. trancando a porta de novo.cerveja. Ele parecia ter deixado apressadamente um café da manhã tardio. Destrancou e abriu a porta. mas há al52 guillermo del toro / chuck hogan . olhando pela janela e vendo o dr. Ephraim. – Onde estão os outros? O diretor Barnes se libertou de Eph. Passou cautelosamente por Vasiliy e foi em direção à porta. procurando a bolsa de armas até se lembrar que os vampiros não batem antes de entrar. chegando ao balcão e se virando. e aparentemente Barnes estava sozinho. – Você – disse ele. Everett Barnes.

. Everett? Apenas ao seu governo? O diretor Barnes fez uma careta. E até criminoso. – Não de outro mundo. Eu recomendo a cerveja escura.guém por trás disso. os seus conhecimentos especializados. Isso não diz respeito a mim. alguém muito poderoso e. – Eph tampou o frasco de conhaque. Nós pusemos o local em quarentena. – Como? A QUEDA 53 . – Em quarentena? – perguntou Vasiliy. ainda de olho em Vasiliy. Voltou a atenção de novo para Eph e o frasco. – É por isso que eu preciso que você volte. – Você tinha razão sobre Bronxville. Você já não está mais servindo ao público.. – Estou ansioso para ouvir você. sendo divulgadas sob os auspícios do CCD. ou seria melhor dizer essas mentiras deslavadas. Preciso da sua experiência como testemunha ocular. Deste mundo mesmo. que o deixava nervoso.. Everett. eu sei que você vem passando por um período difícil. isso certamente resultará na minha morte ou incapacitação. se eu for a algum lugar com você agora. – O que acontece comigo realmente não interessa. Estou aqui na sua frente como um homem que admite seu erro. – Você devia estar bebendo agora? – Agora mais do que nunca – disse Eph. Ephraim. Ou pior. se quiser. desconfiado ao ver o enorme exterminador de macacão sujo. Agora eu sei que nós estamos sob o poder de algo inteiramente devastador e de outro mundo. – Olhe aqui. – Sirva-se. – Necessariamente a ambos. – Isso é fraco – disse Eph. – É tarde demais! Será que nem isso você vê? Barnes recuou um pouco. Vasiliy surgiu atrás de Barnes e perguntou: – Quanto tempo até eles chegarem aqui? – Não muito tempo – disse Barnes. de modo que não adiantará fazer qualquer apelo ao meu ego. Ephraim. – Inepto. Seja lá o que você tenha para dizer. O que eu estou preocupado é com essas meias-verdades..

de olho na rua. – Destruir os. agarrando Barnes pelo ombro e levando-o até uma mesa nos fundos. Você quer ajudar. – Então me fale.. Vasiliy passou por ele. Essa é a etapa número um. – Lá vêm eles – disse Vasiliy. isso significa mortandade em massa. fechando as duas extremidades da rua.. – Eles não querem que você me leve lá para prestar ajuda. – Comece destruindo os cadáveres. e não à ameaça propriamente dita. Eph deu uma risada amarga. Diga o que eu preciso fazer. Pense nas imagens. Eph se aventurou perto o bastante para ver as vans se aproximando. e sim. Nada de conselhos médicos. – E quem é esse com você agora? Eu esperava ver você com a doutora Martinez.. Eu sou médico.. Everett. Vasiliy voltou para a frente do bar. Depois expandir a operação para o sul. Alguma coisa no modo como Barnes falou o nome de Nora soou estranho para Eph.. Vasiliy voltou rapidamente das janelas da frente. indo até a bolsa de armas e puxando uma espada de prata. dentro da cidade propriamente dita. É exatamente disso que eu estou falando. Fazendo o pessoal se sentir seguro com cercas? Com um símbolo? Eles vão despedaçar essas cercas. assim como você. – Então nada mais que você faça tem importância.. A única forma de curar essas criaturas é libertá-las. O que você precisa.. Mas agora estamos num mundo novo.. – Você está falando de assassinato em massa. – Isto é o meu bisturi agora. e prosseguir pelo Brooklyn e o Bronx. – Uma cerca de arame? Meu Deus. onde o fez 54 guillermo del toro / chuck hogan . Everett.. Conte a eles a verdade. junto com as pessoas que eu conheço – continuou Eph. Mas ele não conseguiu insistir no assunto. Você precisa mandar uma equipe militar varrer aquele lugar e eliminar cada um dos mortos-vivos.– Uma cerca de arame. Querem que você me leve lá para me neutralizar. realmente ajudar? Então vá à tevê e conte isso a eles. – Pense na realidade. Barnes olhou para Vasiliy na frente do salão.. Vocês estão reagindo à percepção que o público tem do vírus. você sabe que não posso fazer isso.

O cheiro revelava tudo o que eles precisavam saber. Ali perto. Eu posso proteger vocês. pendia uma pequena adaga de prata. Aproximando-se. que depois se virou para Eph. Eph olhou em torno da velha cervejaria. disse: – Eles irão atrás de vocês. deixando o alçapão aberto. descendo na frente. espalhou a serragem que cobria um anel. Aos dois. uma alça incrustada no gasto soalho de madeira. Garfield. – Por favor – disse Barnes. Havia retratos de Lincoln. pendentes das paredes e entupindo as prateleiras atrás do balcão. entre curiosidades como um mosquete.sentar num canto. ligando a lanterna Luma antes de começar a descer. – Ouça aqui. Amônia. McKinley e um busto de JFK – todos os presidentes assassinados. Com o pé. – Everett – disse Eph. vou deixar tudo perfeitamente claro agora. de modo que cale a boca. Eu peço demissão. Eph pendurou a bolsa de beisebol no ombro e levou a caixa de Vasiliy até lá. Ao lado havia um aviso: nós já estávamos aqui antes de você nascer. Oficialmente você acabou de se tornar nosso refém. procurando uma resposta nos quadros e nas recordações de um século e meio. A QUEDA 55 . ainda na cadeira do canto. penetrante e recente. – Eu imploro a vocês. eu não recomendaria isso – disse Vasiliy. uma caneca de creme de barbear e obituários emoldurados. – A julgar pelo cheiro. – Deixe aberta – murmurou Eph. Vasiliy obedeceu. Vasiliy ajudou-o a levantar o alçapão. – Caso tenha ficado pendente alguma ambiguidade. – Se ele estiver tão comprometido quanto eu acho que está. já correu para a porta. Eph correu para trás do balcão. Eph seguiu Vasiliy até embaixo. – E agora? Como vamos manter esses caras lá fora? A luz ultravioleta não funciona com o FBI. com a etérea luz azul-violeta da lanterna iluminando a área de suprimentos sob o bar. O diretor Barnes. Vasiliy estendeu a mão para fechar o alçapão acima deles. porra – disse Vasiliy.

e depois atacou suas 56 guillermo del toro / chuck hogan . tal como a garganta era para as presas humanas. Em seguida vinha uma porta de madeira com uma velha maçaneta oval. Uma quantidade significativa de perda de sangue branco atinge o mesmo objetivo. porque é nessa manobra que um deles se sacrificará a fim de que os outros possam atacar você. jamais para de se mover até que o último monstro seja destruído. podendo chegar a quase dois metros. – Para vermes – disse. Eph cruzou o chão de pedra. Eram velhos barriletes e barris. usando a luz ultravioleta como uma tocha para repelir a fera. Depois entregou uns elásticos a Eph. lançando estiletes de prata nos rostos dos monstros para cegá-los ou desorientá-los. isolando-a e encurralando-a contra uma parede. Você nunca lhes dá tempo de se agruparem e se anteciparem. Eph destruiu os dois primeiros da maneira que provara ser mais eficiente. Se cortar a coluna vertebral. Você não hesita. pois os vermes capilares escapam vivos do corpo procurando novos corpos humanos para invadir. Eph aprendera essa lição.O teto era baixo e os detritos de muitas décadas estreitavam o caminho. você destrói o corpo e o ser que reside ali. embora o derramamento de sangue seja muito mais perigoso. Era por isso que Vasiliy gostava de prender elásticos nos pulsos. Vasiliy assentiu e Eph abriu-a com um empurrão. A luz ultravioleta queima o DNA dos monstros como se fosse uma chama. umas poucas cadeiras quebradas. abrindo uma porta lateral que levava a um local quente para guardar gelo que estava vazio. Vasiliy ajustou elásticos grossos em torno dos tornozelos e dos punhos do casaco: era um truque aprendido a duras penas na época em que ele distribuía iscas em apartamentos infestados de baratas. você nunca. fechando o zíper do casaco. Você não pensa. pilhas de engradados de copos vazios e uma velha lava-louças industrial. O pescoço era o ponto vulnerável deles. Enfrentando ferrões que podem alcançar mais de um metro e meio. A poeira do chão na frente da porta agitou-se em forma de leque. e depois chegando com a espada para o coup de grâce. Vasiliy usou a pistola de pregos. Armas feitas de prata produzem sérios ferimentos nos vampiros e causam neles o equivalente à dor sentida por humanos. e com a extraordinária visão noturna que eles têm.

pronto para atacar. – Espere – disse Vasiliy. agachado debaixo de prateleiras quebradas. enquanto se apressavam a passar para a sala seguinte.gargantas distendidas. enquanto outros encontraram seu destino debaixo do solado duro das botas de Vasiliy. talvez três. As marcas A QUEDA V 57 . fazendo a criatura recuar com o feixe de luz UV. enquanto Eph se aproximava para dar cabo dele. haviam fugido pela porta seguinte assim que viram a luz azul-violeta se aproximar. o exterminador agia de maneira metódica. Ouviram muitos passos e vozes no bar lá em cima. com a lanterna na mão. num estado deplorável. Um deles atacou Eph pelo lado. – E agora? – Aqueles outros fugiram. – Deixe alguns para os cupinchas do Barnes do FBI. acompanhando a trilha de urina seca e fosforescente sob a lanterna Luma. Enquanto Eph resfolegava. ligados por velhos túneis cavados a mão. antes de continuar com a carnificina. – Tomara que você tenha razão – disse ele. ainda com a lanterna dirigida para os vampiros. Já estava aprendendo a ignorar sua tendência de médico para a misericórdia. Um grupo pequeno continuava ali. asiliy seguiu na frente pelo subsolo. Vermes libertados saíram se contorcendo pelo chão molhado. Dois mais. com os olhos arregalados e famintos. que depois de pisotear alguns jogou-os dentro de um pequeno frasco na sua caixa. Eph matou alguns deles com a luz ultravioleta. Vasiliy veio para o lado de Eph. Eph olhou para a porta seguinte. concentrado e sem angústia. ainda usando o avental do barman. Eph recuou. Eph golpeou-o com as costas da mão. Vendo que era boa a ideia de Vasiliy. Eph avançou para os vampiros. – Para o velho – disse ele. Existe uma saída. mas Vasiliy segurou-o pelo braço. O vampiro ficou rangendo os dentes num canto. As salas deram lugar a uma série de porões.

58 guillermo del toro / chuck hogan . – Eu gosto disso – disse ele. Seu prédio era um antigo antro de contrabandistas. Pensilvânia Augustin.. sem uma nesga de luz.. – A moradia de Bolivar – disse Eph. A luz UV torna isso fácil. aquedutos e antigos canos de serviços públicos. entre dois pontos quaisquer da cidade. bairro a bairro. – Isto aqui vai dar em alguma coisa – disse ele. lembrando-se do roqueiro que fora um dos sobreviventes do voo 753. Esta é uma cidade que simplesmente vive se reconstruindo sobre si mesma.de amônia se abriam em muitas direções diferentes.. Um negrume tão palpável que parecia tinta. com um porão secreto para estocar gim que se ligava aos túneis do metrô embaixo dele. – Como você sabe para onde está indo? Vasiliy apontou para outro sinal dos andarilhos rabiscado na pedra. Mas aposto que a estação Ferry Loop não está a mais de um quarteirão ou dois de distância. Você nunca ouviu falar da Malha Volstead? – Volstead? Como a Lei Volstead? A Lei Seca? – Restaurantes. De pé. provavelmente feito com as unhas endurecidas como garras de uma das criaturas. – Mas como eles conhecem esses percursos? – Eles têm estado ocupados. Nazareth. – É tudo que sei ao certo. Combine os velhos porões e casas ali embaixo com os túneis. bares. dobrando numa interseção. Explorando e se alimentando. Augustin Elizalde se levantou. há quem diga que a gente pode se movimentar de quarteirão a quarteirão. – É como caçar ratos seguindo seus rastros. num caos de absoluta escuridão. casas de tolerância tiveram que abrir seus porões. batendo com a bota para soltar a sujeira.. Vasiliy selecionou uma. ir para o subsolo. Eph olhou para trás quando passaram por um túnel lateral. somente pelo subsolo.

como um prisioneiro num sótão? Talvez a frialdade que ele sentia e a dureza do chão debaixo de seus pés fossem apenas truques cerebrais compensatórios. Estendeu as mãos para o alto e pulou. e seu antigo eu enclausurado na escuridão da mente. Olhando para ele com a fome sorridente de um monstro recentemente transformado. tentando estabelecer sua existência por meio de movimentos e impressões sensoriais. A voz de sua mãe o chamava como num sonho. Aquilo era a morte? Nenhum lugar poderia ser mais escuro. Ou talvez houvesse sido transformado. Sua palmas continuavam feridas onde haviam sido cortadas pela lasca de vidro que ele brandira para assassinar. porra. e percebeu que haviam desaparecido as algemas que usou ao fugir da custódia da polícia. Gus se virou. sentada no fundo do closet do quarto. debaixo de uma grande pilha de roupas. De novo. mas não conseguiu sentir o teto.. seu irmão-transformado-em-vampiro. Ele lembrou-se da mãe quando a deixara. tateando ao longo de uma superfície lisa e sutilmente curvada. Vampiros. Ele estava no subsolo. e firmou os pés abrindo mais as pernas. Só podia ser. Estavam. dissera o velho. Enterrado vivo. Tinha cheiro de chão. Ele estava morto. Será que agora ele era um vampiro? Tinha o corpo possuído. Eles também haviam se revelado vampiros. – Mama? A voz ricocheteou fazendo um eco surpreendente. Augustin. Parou para apalpar os pulsos. tentando adivinhar de onde vinha a voz. Ficou tonto devido à ausência de um ponto focal.. Mas nada mudava. Ele estava emparedado para sempre dentro da própria cabeça. Piscou os olhos para ter certeza de que estavam abertos. Aqueles caçadores. Foi até uma parede de pedra. aquelas cuja corrente os caçadores de vampiros haviam cortado. Uma leve brisa agitava-lhe a camisa. Nada lhe restava a fazer além de seguir aquele som. De terra. Gus agachou-se um pouco. para destruir. não.Como se fosse o espaço sem estrelas. aparecendo naquela rua em Morningside Heights e combatendo os outros A QUEDA 59 .

que qualquer fonte de luz causaria uma reação.. A princípio ele não percebeu. Ele apalpou o lado oposto. Mas os caçadores estavam bem equipados: tinham armas e coordenação. como se fosse o último suspiro da Mãe Natureza. A parede terminava num ângulo agudo. Mas as pupilas de Gus estavam tão dilatadas pela escuridão. A última coisa que Gus recordava era o momento em que fora jogado por eles na traseira do 4x4. As luzes foram ficando mais fortes. quando fazia parte da equipe de manutenção. tal como faziam os lutadores de artes marciais mistas que ele via na internet. com uma brecha no meio. A única coisa que se destacava era um par de orifícios escuros simétricos.. e Gus foi atrás. E conseguiu. Era a solução desinfetante que precisava usar na prisão. como os que ele enfrentara e destruíra. e encontrou a mesma coisa: terminava num ângulo. bem afastadas uma da outra. Tentou localizar de onde vinha. à sua esquerda. havia luz entrando no recinto. Não era forte o suficiente para irritar suas narinas. Havia ali um leve odor que de certa forma lhe era familiar. perto das paredes mais distantes.vampiros. diluindo a espessa escuridão. mas quase negros. mas depois percebeu que. embora tão gradualmente que era quase imperceptível. sim. sua retina tão exposta. estavam se acendendo gradualmente. como dois lados numa guerra de gangues. 60 guillermo del toro / chuck hogan . Duas lâmpadas trípodes. O novo eco de seus passos indicava que aquele lugar era mais largo e com o teto mais alto do que o restante. Não eram buracos negros. esperando estar caminhando na direção certa. imóveis e lisos que foram captados pelos olhos de Gus como parte das paredes de pedra. A lentidão com que a iluminação avançava e a incerteza geral da situação eram aterrorizantes. Exatamente como um portal. O ser estava bem em frente a ele. Mas. Gus enrijeceu os braços. a cerca de quatro metros de distância. Então algo começou a acontecer. Gus achou que sua mente estava lhe pregando peças. passou por seu rosto. Não eram apenas aqueles agressivos robôs sedentos de sangue. mas a cabeça e os membros eram tão pálidos. Gus avançou. Dirigiam carros. por que ele? Outro sopro de vento.

sentiu. para manter a atitude de membro da gangue. – Não com a porra desse chalupa aqui. para quem os tribunais não eram um local estranho. que traía seu medo. Olhavam para ele com uma extraordinária falta de emoção. Nem encaravam Gus. já levantando os punhos fechados à altura do rosto. Era o que fazia quando se sentia desprezado. Era um pouco menor do que o primeiro. puto? O ser irradiava tal silêncio e imobilidade que Gus poderia muito bem estar diante de uma estátua vestida. – E aí. Gus distinguiu o contorno de um roupão no corpo do ser. aos poucos. O ser era alto.. sentiu como se estivesse sendo trazido à presença de três juízes alienígenas dentro de uma câmara de pedra. Seremos breves. Gus não se moveu. quando sentia que estava sendo tratado não como um ser humano. confundindo-se com a escuridão como se fosse uma cavidade dentro de outra. Algo que não era um movimento atraiu sua atenção para a direita. um obstáculo jogado no caminho de alguém. o que tu tá esperando? Gosta de brincar com a comida antes de engolir? – disse ele para aqueles olhos sem expressão. Eram olhos tão indiferentes quanto pedras vermelhas. – Tu acha que vai comer um mexicano hoje à noite? É melhor repensar isso. E depois Gus viu.O mais profundo dos vermelhos. Olhos encharcados de sangue que já haviam visto tudo. mas como uma inconveniência. como se fizesse parte da parede de pedra. um terceiro à esquerda. Estava começando a enlouquecer. mas sua reação foi continuar falando. A QUEDA 61 . Gus. ou melhor.. pedaço de merda morto-vivo. Vermelho-sangue. Gus chamava de “responder à altura”. não piscavam. Mas sua imobilidade lembrava a morte. Os juízes com quem ele se defrontara chamavam isso de “desrespeito”. Então Gus percebeu algo: ouviu. sem a cartilagem das orelhas. se estivesse sendo avaliado por Gus corretamente. e com olhos de formato diferente. mas também sem expressão. O crânio era despido de pelos e totalmente liso. uma vibração como um zumbido. – O que é isso? – disse ele com uma voz um pouco engraçada. Que tal tu vir engasgar comigo. único. Se aqueles orifícios eram olhos. e ele viu que ali havia outro ser de pé.

As mãos de Gus voaram até suas têmporas. Não até os ouvidos; de certa forma, aquela voz estava dentro de sua cabeça. Vinha da mesma parte do cérebro onde seu próprio monólogo interior se originava, como se uma estação de rádio pirata houvesse começado a transmitir na frequência dele. Você é Augustin Elizalde. Ele agarrou a cabeça, mas a voz estava bem lá dentro. Não podia ser desligada. – Sou, eu sei quem eu sou, porra. Quem são vocês, porra? O que são vocês, porra? E como conseguiram penetrar na minha... Você não está aqui como suprimento alimentar. Nós temos bastante gado à mão para o inverno. Gado? – Ah, vocês querem dizer gente? – Gus ouvira gritos ocasionais, vozes angustiadas ecoando pelas cavernas, mas imaginara que aquilo não passava de sonho. Gado criado solto vem preenchendo as nossas necessidades há milhares de anos. Animais estúpidos fornecem alimentação farta. De vez em quando, um deles mostra engenhosidade inusitada. Gus mal acompanhou o que era dito, querendo que as criaturas fossem direto ao assunto. – Então... vocês estão dizendo que não vão tentar me transformar em um... de vocês? Nossa linhagem é pura e privilegiada. Entrar para a nossa estirpe é uma dádiva. Inteiramente única e muito, muito cara. Aquilo não fazia o menor sentido para Gus. – Se não vão beber o meu sangue, então que diabo vocês querem? Nós temos uma proposta. – Uma proposta? – Gus socou o lado da cabeça como se fosse um equipamento defeituoso. – Acho que vou escutar, porra... a menos que eu tenha alguma escolha. Precisamos de um servo diurno. Um caçador. Somos uma raça de seres noturnos, vocês são diurnos. – Diurnos? Seu ritmo endógeno circadiano corresponde diretamente ao ciclo luzescuridão do que vocês chamam um dia de vinte e quatro horas. A cronobio62
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logia inata de sua raça está aclimatada ao horário celestial deste planeta, ao inverso da nossa. Você é uma criatura do sol. – Sou o quê, porra? Precisamos de alguém que possa se movimentar livremente durante o período de luz solar. Alguém que possa suportar a exposição ao sol, e na realidade use o poder da luz, bem como quaisquer outras armas a seu dispor, para massacrar os impuros. – Massacrar os impuros? Vocês são vampiros, certo? Estão dizendo que querem que eu mate a sua própria espécie? Não a nossa espécie. Essa linhagem impura está se espalhando promiscuamente através da sua gente... é um flagelo. Está fora de controle. – O que vocês esperavam? Nós não participamos disso. Diante de você estão seres de grande honra e discrição. Esse contágio representa a violação de uma trégua, de um equilíbrio que durou séculos. É uma afronta direta. Gus recuou alguns centímetros. Na verdade, achava que estava começando a compreender tudo agora. – Alguém está tentando tomar o pedaço de vocês. Não nos reproduzimos da maneira aleatória e caótica da sua espécie. Nossa reprodução é um processo de cuidadosa consideração. – São comedores exigentes. Nós comemos o que queremos. Alimento é alimento. A ser descartado quando estamos saciados. Uma risada surgiu dentro do peito de Gus, que quase engasgou. Eles estavam falando de pessoas como se três custassem um dólar no mercado da esquina. Você acha isso engraçado? – Não. O oposto. É por isso que estou rindo. Quando consome uma maçã, você joga fora o núcleo? Ou conserva as sementes para plantar mais árvores? – Acho que jogo fora. E um recipiente plástico? Depois de esvaziar o conteúdo? – Tá legal, já saquei. Vocês bebem seus litros de sangue e depois jogam fora a garrafa humana. Mas quero saber o seguinte... por que eu?
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Porque você parece capaz. – Por que vocês acham isso? Para começar, sua ficha policial. Você chamou nossa atenção quando foi preso por assassinato em Manhattan. O gordo nu fazendo aquela zorra na Times Square. O cara tinha atacado uma família ali, e na ocasião Gus estava disposto a dizer: “Na minha cidade não, tarado.” Agora, é claro, ele preferia não ter se intrometido, como o restante das pessoas. Depois você escapou da polícia, matando mais impuros durante o processo. Gus cerrou as sobrancelhas. – Aquele “impuro” era meu chapa. Como vocês sabem tudo isso, morando nesse buraco de merda aqui? Fique certo de que estamos conectados com o mundo humano nos seus níveis mais elevados. Para manter o equilíbrio, porém, não podemos nos arriscar a ser expostos, e é precisamente isso que essa linhagem impura ameaça fazer agora. É aí que você entra. – Uma guerra de gangues. Disso eu entendo. Mas vocês deixaram de fora uma coisa superimportante, porra. Como... por que, porra, eu ajudaria vocês? Três razões. – Estou contando. É melhor que sejam boas. A primeira é que você sai desta sala vivo. – Aceito essa. A segunda é que seu sucesso nessa empreitada o tornará mais rico do que você jamais imaginaria possível. – Hum. Não sei. Posso contar bastante. A terceira... está bem atrás de você. Gus se virou. Primeiro ele viu um caçador, um dos vampiros valentões que o tiraram da rua. A cabeça dele estava metida dentro de um capuz negro, onde brilhavam os olhos vermelhos. Junto a ele estava uma vampira com aquela expressão de fome distante já familiar para Gus. Era baixa e atarracada, com cabelo preto amarfanhado, um vestido caseiro rasgado, e a parte da frente da garganta intumescida pelo ferrão vampiresco ali dentro.
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Era como se a mãe houvesse sido sequestrada. mas que devia parecer bacana para caralho na época. Ele estava nauseado com aquela situação. Não podemos mantê-la nesta câmara durante muito tempo. mas. sua expressão não se alterava. Desde os onze anos de idade. ele nada fizera além de envergonhá-la. Soluços secos subiram pela garganta de Gus como arrotos de tristeza. e sabia disso. horrorizado com tudo. Gus podia ver a pulsação na garganta dela. Ele se virou. Embora ela escutasse. Cortar o pescoço de Crispin com aquela lasca de vidro quebrado fora a eficiência em ação: terapia familiar e descarte de lixo. Feita refém pela tal linhagem “impura” de vampiros da qual eles falavam. E agora. Os olhos de Gus encheram-se de lágrimas de ódio. manifestada em raiva. Terríveis em sua imobilidade. Mas livrar sua madre da maldição seria um ato de amor. Matar seu irmão. vendo-os melhor agora. Dentro dela reside a vontade de nosso inimigo. Crispin.. Crispin era um viciado. mas ali ele estava impotente. ela estava ali diante dele: um animal. A vampira era a mãe dele. Gus se virou de frente para os outros. Ela sente você. A mãe de Gus foi retirada da câmara. e até mesmo mais fracassado do que Gus. um monstro morto-vivo. A tristeza doía nele. e que desde a infância sempre impressionara Gusto. Ele vê por meio dela.. tudo numa coisa só. A terceira é que você poderá libertá-la. Seus olhos estavam vendados com um pedaço de pano preto. Gus olhou de volta para os três. mas o caçador continuou ali. a ânsia daquele ferrão. A QUEDA 65 . Aquela fúria ameaçava irromper em seu âmago. Mas seus olhos devem permanecer vendados. Ouve por meio dela. fora fácil por causa da animosidade de longa data entre os dois. – Mama – disse ele. Eles nunca se mexiam.Na base da gola em V de seu vestido havia um crucifixo preto e vermelho altamente estilizado: era uma tatuagem que ela dizia estar arrependida de ter mandado fazer na juventude. A raiva que ele acumulara durante décadas se evaporara com cada corte. pouco importando o que ela dissesse.

soberanos e marcos alemães. único em muitos aspectos. Invisíveis e desconhecidos. A trilha brilhante dos dejetos dos strigoi ficava mais escassa ali. moedas bizantinas. Seus lábios contraíram-se num sorriso raivoso.. se você souber quando e onde olhar. Vasiliy conduziu-os para um túnel que ligava o subsolo do bar à abandonada estação South Ferry. Vasiliy olhou em torno.. eficiente e leal. Nas paredes escorregadias corria água. A sua única obrigação é guardar segredo. os Antigos conservavam espirais de prata da Mesopotâmia. sentindo a atração da mãe lá atrás. Ali o clima do subsolo era mais úmido. Sabia que o percurso por baixo da 66 guillermo del toro / chuck hogan .. o sistema Independente e o sistema Brooklyn-Manhattan têm dezenas de estações fantasmas que não constam mais dos mapas. Ele é o nosso melhor caçador. O dinheiro nada significava para eles. Precisava de matadores. O sistema Intermunicipal de Trânsito. Manter nossa existência em sigilo é fundamental. intrigado. Qualquer coisa. vocês querem que eu traga para vocês. – Então. pois acumulamos vastas fortunas de tesouro humano ao longo dos tempos. embora possam ser avistadas pelas janelas dos vagões do metrô nas atuais linhas em serviço.Nós lhe forneceremos tudo de que você necessitar para cumprir essa tarefa. E sabia exatamente aonde ir em seguida. com uma umidade que vinha da terra. é isso? Quinlan lhe fornecerá qualquer coisa de que precisar. Em seus cofres. Deixamos a seu critério recrutar outros caçadores. Aqueles que recebiam o dom da eternidade haviam pagado fortunas durante séculos. Ele precisava de mão de obra. tais como você. Dinheiro não será problema. mas matadores habilidosos. Uma saída para a ira: talvez fosse exatamente daquilo que ele precisasse.. Estação South Ferry Enganando-se apenas numa curva. Conchas para trocar com os nativos. Gus se empertigou.

Depois de um momento.. na direção do Brooklyn. e que a estação South Ferry fora inaugurada para os usuários em 1905.. – Não estamos aqui para expulsar ninguém. fazendo uma avaliação imediata quanto à veracidade do que eles diziam. Era ali que todos acabavam encontrando seu destino: o subsolo da cidade. sete dias por A QUEDA 67 . – Vocês são do Intermunicipal de Trânsito? Eph sentiu o cheiro do homem antes de vê-lo. SF. desdentado. perto de um incongruente aviso moderno. os habitantes do abismo urbano. casacos e calças. Vocês são lá de cima? – Certo – disse Eph. O túnel debaixo do rio. algumas outras figuras espectrais surgiram. assumindo o comando. Eph entrou num pequeno recesso de manutenção.. os desgraçados. fora aberto três anos depois.. os destituídos. A figura emergiu de uma alcova próxima entupida de colchões rasgados e sujos. – Como estão as coisas lá? Eu sou um dos últimos que sobraram aqui. – Não – disse Vasiliy. Da escuridão saiu uma voz crepitante. era um espantalho em forma de homem. os “janelas quebradas” da era do prefeito Giuliani.Broadway era parte do primeiro projeto municipal do metrô. Eram as “Pessoas Toupeiras”. onde permaneciam aquecidos vinte e quatro horas por dia. O homem olhou para os dois de alto a baixo. NENHUM TREM PARA AQUI NESTA ESTAÇÃO . vestido com várias camadas de camisas. ainda estava lá. esquadrinhando o recinto com a lanterna Luma. como se alguém ainda fosse se enganar. O mosaico de azulejos originais com as iniciais da estação. – Últimos? – disse Eph. notando pela primeira vez o contorno desmantelado de uns poucos barracos de papelão. bem no alto da parede. – Meu nome é Cray-Z. os decaídos. O odor de seu corpo fora pacientemente destilado e envelhecido por todas aquelas peças.

até mais. Vasiliy sentiu uma pontada. Vasiliy se lembrou de algo que lera na National Geographic. ou alguma coisa parecida. que um dia desapareceu. ou que talvez tivesse visto uma noite no History Channel: a história de um grupo de colonizadores na era pré-Estados-Unidos. alguns casacos. Alegava poder ir a qualquer 68 guillermo del toro / chuck hogan . cara. Na realidade ele era um fanático meio delirante. com três pontos de exclamação para dar mais ênfase.semana. para favorecer seu único olho bom. bem alto na parede. Quase toda a colônia desapareceu. Longe das estações mais movimentadas. uma pessoa podia ficar acampada num daqueles lugares por seis meses corridos. e as letras CRO entalhadas na casca de uma árvore próxima. deus está te vigiando. talvez em Roanoke. assim como os ratos. – Você carrega um daqueles cartazes. mantendo uma distância educada do fedorento Cray-Z. orgulhoso do seu status de celebridade. era um marginal entre outros marginais. Ali embaixo. – Estranho. até mesmo no inverno mais rigoroso. além de dois entalhes enigmáticos: a palavra croatan escrita num poste no forte. Com sorte e experiência. sabendo que aqueles artigos representavam a soma total dos pertences mundanos daqueles que haviam partido recentemente. lá em cima – disse Eph. deus está te vigiando!!! em brilhantes letras vermelhas. O outro estava coberto de cataratas granuladas. talvez até há mais tempo. Cerca de cem pessoas haviam desaparecido. sapatos enlameados. Coisa de assombração. As pessoas sumiram. deixando seus maiores bens para trás. Depois apontou para a superfície. Já vi você por aí. Vivia no subsolo há tanto tempo quanto os outros. – Isso mesmo. Vasiliy olhou de novo para as letras SF do mosaico de azulejos. – Eu conheço você. Cray-Z deu um sorriso quase completamente desdentado e foi buscar o cartaz escrito a mão. Ele fez um gesto na direção de pilhas de porcarias: sacos de dormir rasgados. É. quer dizer. alguns residiam ali por anos sem jamais ver uma equipe de manutenção. Cray-Z deu um sorriso vazio. Cray-Z olhou para Eph com a cabeça inclinada. cara. deixando para trás todos os seus pertences e nenhum motivo para essa súbita e misteriosa partida.

A luz foi ficando mais forte conforme o trem se aproximava. com um arrepio correndo pela espinha. Mergulhou numa espécie de cabana de lona e paletes. A água caía na lona de Cray-Z e escorria para uma garrafa de Gatorade que aguardava. – Elas seguiram pelo túnel? Cray-Z deu uma risada. Na curva onde os encanamentos mergulham sob o braço leste do rio. mas aparentemente não conseguia urinar sem molhar as pontas dos sapatos. Ali embaixo. onde antigos fios esgarçados se esgueiravam para dentro do teto. entregando a fotografia em tamanho natural para Eph. para a ilha Governor. seu cabeça de merda. ligados a alguma fonte de energia escondida na rede elétrica da grande cidade. – Bem aqui – disse ele. – Essa linha ainda está ativa? – O trem 5 ainda dá a volta no anel interno – disse Vasiliy. apontando para os trilhos. – Pegaram quem? – indagou Eph. abaixando o prefeito Koch.. Ed Koch. Cray-Z cuspiu nos trilhos. Começara a garoar ligeiramente dentro do túnel. – Foi aqui que elas todas se foram.lugar da cidade sem subir à superfície. em Red Hook. Não só pelo túnel. O prefeito Koch tremia debaixo da mão de Eph. Avançou ao longo dos trilhos. aquele sorriso “Como Estou Indo?” – Tome aqui – disse ele. – O cara conhece os trens. – Segure isso. – Quem? As pessoas? – perguntou Eph. Depois ele os levou ao túnel mais distante. – Quem. – Não.. clareando a velha estação e fazendo com que voltasse brevemente à vida. acenando para que Eph e Vasiliy o seguissem. com os encanamentos do teto molhando o chão. Cray-Z emergiu da cabana com um antigo recorte promocional da época em que o prefeito da cidade de Nova York. e depois chegam à parte continental do Brooklyn. quem pegou as pessoas? Nesse exato momento um sinal de tráfego acendeu ali perto. A QUEDA 69 . Eph saltou para trás. exibia sua marca registrada. Foi lá que eles pegaram as pessoas.

O trem passou junto deles com um barulho ensurdecedor.. não é? Vocês. Vasiliy e Eph viram algo na traseira externa do último vagão. – Viram isso? – exultou Cray-Z. Não conseguem cruzar água corrente. caras. – Exatamente. – Os túneis. bem aqui? – Vasiliy abriu os braços. Eram gente do mundo superior só passando por ali. Sob a tremulante luz do trem que passava.. sem piscar – disse Cray-Z.. certo? Só se forem ajudados – disse ele. Aqui e ali ia um solitário em pé segurando nas alças. bem ali. Ele cobriu o olho cego e deu aquele sorriso quase completamente desdentado. – Ali. – Viram todos eles? O Outro Povo. Enquanto o trem terminava de percorrer o anel e mergulhava na escuridão. Eles são os anjos negros do fim dos tempos. Isso.. a luz deixava o túnel como se fosse água sumindo por um ralo. antes de parar e olhar de volta para Eph. Cray-Z começou a voltar rapidamente para sua cabana. 70 guillermo del toro / chuck hogan . – Acabamos de descobrir uma gigantesca brecha aberta no sistema. Um amontoado de vultos ou corpos de pessoas achatados contra a superfície externa do trem. abarcando a área ao seu redor. Eph já estava bem a seu lado. Vasiliy deu uns passos pesados na direção do trem que se afastava. acabaram de decidir por mim. Essa é a enrascada em que o progresso nos meteu. Eph livrou o braço do aperto de Cray-Z. – Alguém tem que fazer alguma coisa. Nada impede que façam isso. com talvez uma ou duas pessoas visíveis através das janelas. Como a gente chama. Agarrarão todos nós se deixarmos. – Mas debaixo d’água. Os vagões estavam quase vazios. Grudados ali como rêmoras cavalgando um tubarão de aço. afastando-se alguns passos dele e do prefeito Koch. É o progresso.– Olhem bem agora. É assim que eles se movimentam.. quando você descobre que pode fazer uma merda porque ninguém fez uma regra específica contra aquilo? – Uma brecha na regra – disse Eph. Cray-Z agarrou o antebraço de Eph conforme a extremidade final do trem se aproximava.. fazendo a curva um pouco mais rapidamente do que de costume.

Lucia. cerca de sessenta crianças agitadas com idade entre sete e doze anos. incluíam aquela excursão guiada. Lucia. tornava a viagem divertida para os passageiros. ou descrevia coisas interessantes que podia ver pela janela. “Toque-toque!” Quem é? “Disfarce. “sem percepção luminosa”. O motorista era a única pessoa com visão a bordo do veículo. ou então inventava detalhes para tornar interessante o prosaico. ou seja. Ou ele narrava a viagem. todas acidentalmente cegadas pela recente ocultação lunar. isto é. mas o motorista mantinha as crianças entretidas com charadas e brincadeiras. e não se importava de bancar o palhaço. Elas haviam sido selecionadas a partir dos relatórios de prontos-socorros por toda a região.” Disfarce quem? A QUEDA 71 . embora ainda guardassem certa percepção residual da luz. Haviam sofrido danos visuais pouco tempo antes. As bolsas de estudo. e abrir seus corações para os desafios à frente. uma imersão em técnicas de adaptação para quem ficara cego recentemente. Os acompanhantes. Sabia que o segredo para destravar o potencial daquelas crianças traumatizadas. As crianças aos seus cuidados eram todas clinicamente SPL. tinham uma acuidade visual central de 20/200 ou menos. era alimentar sua imaginação. também eram legalmente cegos. envolvendo-as e engajando-as. devido aos engarramentos nos arredores da Grande Nova York. o que significava que eram totalmente cegas. com destino a uma elegante academia no norte do estado de Nova York. O tráfego estava lento em muitos pontos. Era empregado da instituição havia muito tempo. com suas histórias sentimentais e um catálogo inteiro de piadas simplórias. O motorista. e para muitas aquela era a primeira viagem sem a presença dos pais. em Nova Jersey. todas oferecidas e fornecidas pela Fundação Palmer. nove jovens adultos diplomados na St.O ônibus No início da tarde o ônibus de luxo partira da Casa para Cegos St.

toda vez que o veículo parava. uma professoraassistente de vinte e quatro anos chamada Joni. alguma coisa estranha. Algumas crianças menores. – Não sei. de repente. embora os acompanhantes ainda estivessem supervisionando as idas ao banheiro. De volta à estrada. O motorista desapareceu. considerando a situação. vendo que anoitecia lá fora. Ao mesmo tempo.“Essas piadas de disfarce estão me matando. – O que é? – perguntou a acompanhante-chefe... o percurso de três horas durou o dobro. O ônibus foi seguindo mais rápido no trecho do estado de Nova York. sem ter aprendido ainda a “registrar” as refeições para consumi-las com facilidade. depois passaram alguns audiolivros nas telas de vídeo no teto. 72 guillermo del toro / chuck hogan . O ônibus encostou e parou. cochilavam de vez em quando. e todo mundo ficou bem. com os relógios biológicos desorientados pela cegueira. que pareciam encontrar conforto nas lisas cadeiras giratórias e nos canudos de bebidas de tamanho exagerado. O motorista ficou afastado do grupo. diferentemente da maioria das crianças cegas que já nasciam deficientes. Os acompanhantes fizeram as crianças cantarem em rodízio. só que o brinquedo oferecido como brinde era um cartão holográfico. o McDonald´s tinha um significado visual para aquelas. Cerca de dez minutos mais tarde. que ocupava o assento mais à frente do ônibus. mãos se levantavam pedindo ajuda para ir ao banheiro. A solicitação que Joni fez para que ele esperasse foi ignorada. Os acompanhantes perceberam a mudança na qualidade da luz filtrada pelas janelas do ônibus. mas as crianças foram por fim ajudadas a voltar para seus assentos. até que. Volto em seguida. o bastante para que os bichos de pelúcia e os copos de bebida caíssem no chão. vendo os jovens encontrarem as batatas fritas com mãos hesitantes. sentiram o veículo frear. Fiquem sentados. mas os acompanhantes estavam ocupados demais para se preocuparem. o motorista retornou e deu a partida ao ônibus sem uma palavra.” A parada no McDonald´s correu bem.

Em meio à escuridão. Disse a si mesma que o ônibus ainda se movia de maneira adequada. enquanto o ônibus seguia aos trancos e barrancos. até que o veículo parou abruptamente. Elas suportaram aquelas sacudidas por um minuto inteiro. e que ninguém viria recebê-los. Uma viagem longa. Joni agarrou o encosto do assento. Algum tempo depois. já deviam estar perto de seu destino àquela hora. acordando todo mundo. Ele foi embora sem uma palavra. mas decidiu que não podia deixar os outros perceberem sua preocupação. como ela esperava. chacoalhando as chaves levemente enquanto se distanciava. com todo mundo se segurando: as bebidas foram derramando nos colos das crianças. As brincadeiras do motorista cessaram. seriam recebidos pelo pessoal de lá a qualquer momento. agora com um final incerto.O ônibus seguiu em silêncio a partir dali. Se eles houvessem de fato chegado à academia. O programa de áudio foi interrompido. Joni mandou os acompanhantes aguardarem. Então virou para os jovens passageiros a seu cuidado. Entretanto. Ela foi ficando assustada. cada vez mais parecia que não era isso que aconteceria. chamou: – Olá? Nada ouviu além dos estalidos do motor do ônibus que esfriava e o agitar das asas de um pássaro. eles estavam viajando a uma velocidade apropriada e. com um sibilo pneumático. o veículo entrou numa estrada de terra. O motorista desligou o motor e todos ouviram a porta abrir. Joni convocou uma reunião dos acompanhantes na frente do veículo. enveredou por um terreno ainda mais acidentado. levantou e foi tateando até a porta aberta. numa voz irritantemente paciente. Entre sussurros frenéticos. Sentia a exaustão e a ansiedade deles. – Fora de área – explicava o celular de Joni. sentada bem ali atrás na primeira fileira. Em seguida. de qualquer forma. Algumas das crianças no fundo estavam chorando. O problema do motorista silencioso do ônibus poderia ser esclarecido na ocasião apropriada. ninguém sabia o que fazer. e na realidade ele se recusou a responder às perguntas feitas por Joni. A QUEDA 73 .

ou fazer todo mundo sair e nos mobilizarmos para conseguir ajuda. – Olá! Há alguém aí? – Isso é tão errado – disse Joni. nós temos duas escolhas. Um. – O quê? Mecânico? – Talvez. Joni nada ouvia. Aquilo provocou algo em Joni. parte do fim de semana? Alguém murmurou em concordância. Depois gritou para o motorista ou qualquer um que pudesse estar ao alcance de sua voz. Ninguém queria ficar ali. Eles já estavam no ônibus havia tempo demais.Um dos acompanhantes apalpou o grande painel de instrumentos do veículo à procura do rádio do motorista. Como acompanhante-chefe. – É um terreno com relva – relatou ele para os outros. – Vocês estão ouvindo isso? Todos ficaram quietos. 74 guillermo del toro / chuck hogan . – Eu simplesmente não consigo entender. Parece mais. – Ótimo – disse ela. ela se sentia tão desamparada quanto as crianças pequenas a seu cuidado.. – Sim – disse outro. sem conseguir localizar o aparelho. Mas observou que o assento de plástico acolchoado do motorista ainda estava inusitadamente quente. Fechar a porta e permanecer aqui impotentes. – Sabe. Outro acompanhante. um jovem petulante de dezenove anos chamado Joel.. finalmente desdobrou uma bengala e desceu os degraus do ônibus até pisar no solo. escutando. Olhem. falando mais alto que ela. além do pio de uma coruja a distância. tá legal.. – Se for um teste. quase um mantra de aula de ioga. – O que é? – Não sei. uma dessas sílabas sagradas? Joni escutou mais um pouco. – E se isso for uma espécie de teste? – arriscou Joel. – Não ouço nada.. Sabe. – Espere – disse Joel... mas. Não sei. um zumbido. vamos tirar dez.

de algo mais fedorento. A presença do ruído parecia acalmar o grupo.. O terreno era agreste.. mas a maioria discordou. Logo depois ouviram o som de animais ao longe. Haviam encontrado o interior da ala de porcos de um matadouro.. e o ruído dos porcos ficou mais alto. Sua fonte dava um destino a todos. esquadrinhando com as bengalas a superfície do campo. Uma fazenda? Talvez aquele zumbido fosse de um grande gerador? Algum tipo de máquina de moer ração funcionando à noite? Eles apressaram o passo até que chegaram a um obstáculo: uma cerca baixa de madeira. embora ninguém pudesse chamar o local por esse nome. A relva se transformou em terra sob os sapatos. Localizaram uma e o grupo foi conduzido para lá. mas em grande parte livre de rochedos e outros obstáculos traiçoeiros. A trilha levava direto a uma grande porta aberta. entrando pela passagem. o zumbido se tornara uma voz. Algumas das crianças reagiam claramente ao “zumbido”. e foram conduzindo o grupo em colunas cerradas por onde elas podiam andar. As crianças se sentiam impelidas a sair das fileiras. mais próximo. Três acompanhantes abriam caminho. Alguém calculou que fossem jumentos. mas sem obter resposta. Estavam numa espécie de trilha larga. aparentemente reagindo a alguma coisa familiar na voz. Para alguns. Dois ou três líderes se dividiram para a esquerda e para a direita. Estavam dentro de uma ampla sala de onde partiam diversos ruídos.Eles fizeram as crianças desembarcarem por fileira de bancos. Os animais davam marradas nos cercados apertados e raspavam os cascos no soalho coberto de palha. Joni apalpou os chiqueiros dispostos de cada lado do grupo. sobrepondo-se uns aos outros numa polifonia. e os acompanhantes foram levando as crianças em colunas cerradas. mas também. e eles entraram chamando. e os acompanhantes tinham que ficar reunindo-as de A QUEDA 75 . procurando uma abertura. O barulho parecia ser de porcos. cada uma com a mão pousada no ombro da outra. até que chegaram a um prédio. Algo como uma sepultura.. Os porcos reagiram à presença deles com guinchos de curiosidade que amedrontaram as crianças. tentando replicar o barulho para as demais. O cheiro era de excremento animal.

76 guillermo del toro / chuck hogan .novo. Seguiram o chamado da voz. era uma sensação das mais estranhas. Sentiram seu calor e sua imensidão. saudando-a como num sonho. ainda com a esperança de que o motorista sentimental do ônibus responderia. Eles começaram a fazer uma nova contagem das cabeças para se certificarem de que todas ainda estavam ali. que reconheceu ser a sua própria. como um eclipse. Joni finalmente ouviu a voz. enchendo suas cabeças e não permitindo nenhum desvio de atenção. algumas pela força. descendo uma rampa larga até uma área com o odor de sepultura ainda mais forte. Enquanto participava da contagem. sufocando seu mais forte sentido remanescente – a audição – e deixando todos num estado de animação quase suspensa. Uma sombra. Nenhum deles ouviu o suave serpejar da pele queimada do Mestre quando ele se movimentou. – Você pode nos ajudar? Um ser os esperava. O zumbido cresceu. – Olá? – exclamou Joni com voz trêmula. pois a voz parecia se originar dentro de sua própria cabeça.