Você está na página 1de 13
Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

Camp e cultura homossexual masculina: (des)encontros 1

Luiz Francisco Buarque de Lacerda Júnior 2 Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE

Resumo

Apesar da origem comum, o camp e a cultura homossexual masculina não tiveram uma relação isenta de desencontros. Neste artigo, pretendemos traçar a trajetória do camp a partir de quatro momentos: suas origens; sua popularização fora do gueto homossexual; sua crise a partir dos movimentos ativistas homossexuais; e sua retomada como estratégia de luta política pelo movimento queer. Sublinharemos, no caminho, as flutuações de sua relação com a cultura homossexual masculina.

Palavras-chave

Camp, cultura homossexual, gênero, queer

Definições

O camp foi pela primeira vez abordado como objeto de interesse acadêmico no

artigo de 1964 “Notes on camp”, onde Susan Sontag afirma que “apesar dos

homossexuais serem sua vanguarda, o Camp é muito mais que uma sensibilidade

homossexual. (

Assim, imagina-se que se os homossexuais não tivessem mais ou

menos inventado o Camp, alguém mais o faria.” (SONTAG, 1999, p. 64, tradução

nossa). Este trecho, criticado, revisto e retomado por inúmeras pesquisas subsequentes,

resume o principal foco de disputa que se formou em torno do conceito: sua relação

com a cultura homossexual masculina. Adicionalmente, o próprio conceito de camp foi

inúmeras vezes alvo de controvérsias, e por isso, para apresentarmos a sua trajetória,

introduziremos uma definição que se propõe geral, abarcando os mais diferentes

aspectos atrelados a ele, em um momento ou outro de seu trajeto. Podemos, assim,

considerar que o camp possui três grandes áreas de atuação: como uma sensibilidade,

como um comportamento e como um estilo de produção artística e cultural.

No primeiro caso – como uma sensibilidade ou forma de leitura do mundo,

especialmente de fenômenos culturais – o camp caracteriza-se sobretudo pelo desprezo

)

1 Trabalho apresentado no GP Comunicação e Culturas Urbanas, XI Encontro dos Grupos de Pesquisa em Comunicação, evento componente do XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2 Doutorando em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco; especialista em Estudos Cinematográficos pela Universidade Católica de Pernambuco. E-mail: luiz.francisco.lacerda@gmail.com.

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

por instâncias oficiais de legitimação do gosto na arte e na cultura, optando por uma

acolhida a características geralmente rejeitadas por aquelas, como o exagero, o artifício,

o excesso, o puramente forma e nenhum conteúdo. Esta postura de consumo estético é

também marcada por uma negação da seriedade com a qual estão investidas as instâncias oficiais e da forma com que elas se debruçam sobre os fenômenos culturais. Ao invés disto, buscam emular seu ar elitista e aristocrático com humor e ironia, sem com isso rebaixar seus objetos de afeição. Pelo contrário, o camp nutre grande simpatia pela posição marginal deles em relação ao gosto oficial e à alta cultura. Neste sentido, o kitsch – conjunto de bens culturais com ares de alta cultura, mas produzidos para consumo rápido e raso das classes médias (GREENBERG, 1986) – é um dos alvos principais da simpatia do camp, com a consciência de sua posição marginal em relação

ao bom gosto. Em segundo lugar, o camp descreve um certo tipo de comportamento – conjunto de gestos, posturas, expressões, gírias, tons de fala – baseado em atributos como teatralidade, drama, frivolidade, humor afiado e efeminação. O comportamento camp, que pode ser resumido pela gíria brasileira “dar pinta”, tem como uma de suas grandes

expressões os shows de travestismo e drag, mas aparece também na vivência cotidiana, especialmente entre os homossexuais masculinos. Por fim, o camp pode também ser um estilo de produção cultural ou artística. Diferentemente da sensibilidade camp, que se apresenta como uma relação entre sujeito

e objeto – ou seja, o camp não está no objeto, mas na postura que o sujeito emprega em

sua recepção – a produção consiste na inclusão consciente de características ligadas à sensibilidade e ao comportamento camp em produtos culturais e artísticos. Neste sentido, a produção camp só passa a existir com mais força a partir da popularização do conceito, a partir dos anos 1960. No restante do artigo, mapearemos as práticas, discursos e abordagens teóricas em torno camp, ao longo de sua história, analisando as diferentes relações travadas entre ele e a cultura homossexual masculina a partir de quatro momentos: suas origens; sua popularização fora do gueto homossexual; sua crise a partir dos movimentos ativistas homossexuais; e sua retomada como estratégia política pela teoria e movimentos queer.

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

Origens

O surgimento do camp está intimamente ligado à emergência de uma cultura

homossexual masculina moderna. Durante toda a Idade Média, a representação social da homossexualidade no mundo ocidental ficou restrita à sodomia, classificação da Igreja

Católica Romana que incluía, entre outras práticas pecaminosas, o sexo anal entre homens. Enquanto ato pecaminoso, qualquer indivíduo estava sujeito a cometê-la, bastando que descuidasse de sua vida moral e deixasse cair-se em tentação (TREVISAN, 2000).

É somente com a reforma protestante e revoluções burguesas que emerge, no

século XVI, a noção de identidade essencialista, onde cada indivíduo é entendido como possuidor de uma essência interior própria – singular e permanente – que se apresenta ao mundo através de seu comportamento e ações. A partir daí, podemos encontrar

relatos que sublinham a relação entre certo tipo de perfil ou comportamento – geralmente afeminado e frívolo – e uma tendência à prática da sodomia, que começam a trabalhar a noção de uma identidade sodomita, ligada a uma essência interior permanentemente degenerada, em oposição à prática sodomita de antes, temporária, sujeita às tentações e expurgação via confissão (KING, 1994).

O surgimento das grandes cidades, consequência das revoluções industriais,

permite o florescimento de uma cultura homossexual masculina, o que vem a reforçar ainda mais a noção de uma identidade homossexual. É o que podemos perceber através do surgimento das molly houses, bordéis masculinos da Londres do século XVIII 3 , dedicados não somente ao sexo entre homens, mas a socialização destes. O relato de Robert Holloway, no livro “The Phoenix of Sodom”, de 1813, identifica um conjunto de comportamentos, gestual, expressões e gírias próprios aos mollies – frequentadores das molly houses – expressão de uma cultura compartilhada entre eles:

Os mollies têm em tão pouca conta as práticas Masculinas, que preferem divertir-se imitando as frivolidades próprias do sexo Feminino, danando-se a falar, andar, fazer reverências, chorar, xingar & imitar todas as formas de

Parece-me que grande parte destes répteis assume nomes

falsos, pouco apropriados a seus afazeres na vida comum: por exemplo Kitty Cambric é um vendedor de carvão; Miss Selina, escriturário numa delegacia de polícia; Leonora Olhos Negros, um baterista; Bela Harriet, um açougueiro; Lady Godina, um garçom; a Duquesa de Gloucester, um serviçal; a Duquesa de Devonshire, um ferreiro; e Miss Doces Lábios, um vendedor de doces (KING, 1994, l. 990-998, tradução nossa).

Efeminação (

)

3 Também presentes em outras metrópoles da época, sob outras denominações.

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

O século XIX termina por cristalizar esta cultura e identidade a partir de dois eventos: por um lado o grande número de pesquisas científicas que, na esteira do positivismo, tentam provar as causas biológicas ou psicológicas do comportamento sodomita – que receberá então rótulos como uranismo, inversão e, finalmente, homossexualismo – e terminam por consolidar a noção do homossexual como uma “espécie” à parte. Por outro lado, a célebre condenação à prisão do escritor Oscar Wilde em 1895, em razão de seu relacionamento com Lord Alfred Douglas, consolidando a ligação entre a prática homossexual e um comportamento afetado, frívolo, sarcástico e ambíguo – adotado por Wilde em sua vida e obra. Assim, o comportamento e a sensibilidade camp nascem atados à cultura e identidade homossexuais masculinas, e ficarão ligados a elas durante todo o século XX, no imaginário dos homossexuais e da própria sociedade, como podemos perceber através dos sissies, um dos únicos padrões de representação dos homossexuais masculinos pelo cinema americano industrial até os anos 1950. Os sissies era homens afeminados, afetados, frívolos, ligados a atividades específicas como decorador, cabeleireiro, coreógrafo, e no mais das vezes, motivo de chacota e alívio cômico para os heróis da trama (RUSSO, 1987, p. 4-59). É na busca por entender a relação entre o camp e o homossexual masculino que irão centrar-se os artigos “It’s being so camp as keeps us going” e “Camp and the Gay Sensibility”, de Richard Dyer e Jack Babuscio, respectivamente. Este último resume a questão notando a divisão que se criou na sociedade a partir da emergência do indivíduo homossexual, associado a atributos como anormal, doente, imoral, em oposição ao indivíduo heterossexual, normal, natural, saudável. Assim, “a partir desse processo de polarização, os membros de cada um dos grupos desenvolveram diferentes conjuntos de conceitos sobre o mundo e práticas para lidar com ele. Para os gays, um destes conjuntos é o camp” (BABUSCIO, 2004). A partir desta noção, tanto Babuscio quanto Dyer procuram explicar as características do comportamento e da sensibilidade camp a partir da vivência homossexual em uma sociedade hostil. O comportamento teatral, por exemplo, é visto como fruto da aguçada consciência que o grupo tem do tanto de artificial que existe nos papéis sociais – em especial nos papéis de gênero – devido a sua não conformidade aos perfis exigidos pela sociedade:

Pagar de hétero é um fenômeno geralmente definido pela metáfora do teatro, ou seja, representar um papel, fingir ser algo que não se é; ou

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

camuflar nossa homossexualidade, omitindo fatos sobre nós que possam

levar outros a uma correta conclusão sobre nossa orientação sexual. (

prática (que pode ser ocasional, contínua, no passado ou no presente) força o

indivíduo a estar sempre alerta aos padrões de gosto, comportamento, fala etc. que são geralmente associados aos papéis masculino e feminino definidos pela sociedade. (BABUSCIO, 2004, p. 125, tradução nossa)

) Esta

O próprio desprezo pelas instâncias oficiais de legitimação de gosto é visto como um desprezo pelas instâncias legitimadoras em geral, que negam sistematicamente a legítima expressão de suas práticas e afetos. Logo, temos a simpatia pelo exagerado, artificial, excessivo, falho em suas pretensões, ou seja, por toda arte e cultura que é relegada à margem do bom gosto oficial. O humor, a ironia e a negação da seriedade é visto por ambos como uma forma de lidar com as dificuldades impostas por sua posição marginal na sociedade, como explicita o próprio título do artigo de Dyer, “É sendo camp que conseguimos seguir adiante” (tradução nossa), que ainda reafirma a importância desta prática ressaltando que “dar uma boa pinta em grupo nos proporciona um imenso sentido de identificação e pertencimento, pois foi durante muito tempo o único estilo, linguagem e cultura distinta e inequivocamente gay” (DYER, 2002, p. 110, tradução nossa). Percebemos, assim, a íntima ligação entre o camp e a cultura homossexual masculina, tanto durante sua emergência quanto ao longo de todo o século XX, mas que não foi isenta de crises e desencontros, como veremos.

Popularização

A partir da década de 1960, já podemos perceber a popularização do camp para além dos limites do gueto homossexual. Em 1954, o conceito é citado nominalmente no romance "The World in the Evening", de Christopher Isherwood. No início dos 1960s, Andy Warhol, através da pop art, começa a levar ícones da cultura de massa – produtos industrializados e celebridades – para museus e galerias, templos da alta cultura. Em 1964 temos o artigo de Sontag que evidencia a sensibilidade camp, deixando à sombra o comportamento camp e aspectos mais associados à cultura homossexual. Consolidando o quadro, em 1966 estreia o seriado de televisão Batman, citando o camp em seus releases e entrevistas de divulgação como grande influência do programa, o que pode ser percebido através das cores saturadas e artificiais, grafismos à Litchtenstein, personagens com auto-consciência irônica, efeitos especiais assumidamente mal feitos etc. (TORRES, 1999).

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

Deste ponto em diante, o camp passa a figurar permanentemente na prateleira de estilos utilizados pelos produtos da indústria cultural, com exemplos de uso em todas as décadas seguintes, no mais das vezes dissociado de suas origens e de aspectos ligados à cultura homossexual, que obviamente apresentariam riscos face à busca por audiência 4 . Alguns casos, ainda assim, apostaram na provocação, como glam rock da década de 1970, que tomou emprestado do camp não só o artifício e exagero de suas plumas e brilho, mas toda a ambiguidade sexual e de gênero, exercitada por nomes como David Bowie, Iggy Pop, Elton John, Lou Reed, Queen, T-Rex, New York Dolls e, no Brasil, Dzi Croquettes e Ney Matogrosso. Face à cooptação e higienização do conceito por parte da indústria, que sistematicamente apagou dele quaisquer traços transgressores, alguns pesquisadores propuseram uma separação conceitual radical entre o camp e sua versão mais diluída. Moe Meyer, por exemplo, propõe a diferença entre o Camp de inicial maiúscula, o original, político e transgressor, e o camp, minúsculo, diluído, cooptado (2004). Já Margaret Thompson Drewal separa-os entre camp e camp trace (resíduo camp) (1994). Porém, longe de representar um bloqueio à capacidade política do conceito, sua popularização deu também origem a um grande número de obras que potencializaram seus aspectos transgressores. É o caso do cinema underground americano, que, através de nomes como Kenneth Anger (“Scorpio Rising”), Jack Smith (“Flaming Creatures”), Paul Morrissey (“Flesh”, “Trash”, “Women in Revolt”), John Waters (“Pink Flamingos”, “Female Trouble”) e o próprio Andy Warhol (“Blow Job”, “My Hustler”), além Rainer Werner Fassbinder (“As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, “Querelle”), na Alemanha, levou a filmes das décadas de 1960 e 1970 não somente a artificialidade, a teatralidade e o exagero plástico da sensibilidade camp, mas questões relativas à própria vivência e imaginário homossexuais, até então interditados nas telas dos cinemas (BENSHOFF & GRIFFING, 2006, p. 119-124). Apesar do potencial que mostrou nas mãos destes e de outros artistas, a própria cultura homossexual vai estranhar-se com os discursos e práticas camp, a partir da emergência dos movimentos ativistas homossexuais.

4 Alguns outros exemplos são: os desvios mirabolantes e conscientes da trama de novelas como “Dinasty” (FINCH, 1999); o absurdo plástico e a paródia de gênero em filmes como “Barbarella”, “The Rocky Horror Picture Show”, “Flash Gordon” e “Duna”; a masculinidade espalhafatosa do hard rock da década de 1980, com Twisted Sisters, Kiss, Job Bon Jovi, Guns ‘n’ Roses; o exagero e a consciência de teatro e artifício de divas pop como Madonna, Björk e Lady Gaga.

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

Crise

O movimento ativista lésbico e gay tem seu mito fundador no dia 27 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, em Nova York. Já havia décadas que bares e casas noturnas dedicados à socialização de homossexuais existiam em grandes metrópoles, mas ainda assim, estes locais nunca estiveram livres do assédio de autoridades e forças policiais, que ocasionalmente praticavam batidas, extorquindo ou levando presos seus frequentadores, geralmente por suposto atentado à moral e aos costumes. Neste dia, os frequentadores do Stonewall Inn decidiram não aceitar a batida padrão, e partiram para o enfrentamento dos policiais ante as primeiras prisões, encurralando-os dentro do bar com palavras de ordem. Somente após algumas horas e mais reforços, os manifestantes foram contidos e presos, mas a partir daí, e em todo o fim de semana subsequente, protestos foram organizados nas ruas no entorno do bar exigindo a libertação dos presos. Nas semanas e meses seguintes, relatos do acontecido ecoaram por várias cidades dos EUA e até fora dele, dando o pontapé inicial em inúmeros grupos ativistas homossexuais, nos moldes dos movimentos sociais alternativos de contracultura surgidos na mesma época (JAGOSE, 1996, p. 30-31). A nova postura de enfrentamento das instâncias e discursos opressores posiciona-se como oposta às práticas cotidianas do camp, que apesar de terem tornado, ao longo do século XX, mais leve a vivência homossexual em uma sociedade francamente hostil, não propunham-se a mudanças no estado geral das coisas e, por isso, são vistas pelos ativistas como conformistas. O próprio Richard Dyer sublinha algumas consequências negativas que o comportamento camp poderia trazer:

A diversão, o sarcasmo, tem seus inconvenientes também. Tende a levar a

uma falta de seriedade perante qualquer coisa, tudo tem que ser lido via

ironia, virar piada. O camp considera CHE (Campaingn for Homossexual

Equality) enfadonho demais, GLF (Gay Liberation Front) político demais,

Mas as

todas as atividades dos movimentos ativistas pouco divertidas. (

organizações tem um papel sério a cumprir. (

ironia pode ter um efeito corrosivo sobre nós. Podemos continuar zombando

de nós mesmos até acreditamos que somos meio patéticos mesmo, realmente

inferiores (DYER, 1999, p. 111, tradução nossa).

Da mesma forma, a auto-

)

)

Os próprios estereótipos e clichês utilizados pela grande mídia – imprensa, cinema, televisão – na representação dos homossexuais eram calcados em atributos como afetação, efeminação, frivolidade, característicos do camp. Estes procedimentos foram também alvo de críticas por parte dos movimentos, na busca por uma diversidade de representações que retratasse com mais fidelidade as vivências homossexuais e,

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

assim, servisse de modelo às lésbicas e gays que não encontravam papéis nos quais se espelhar. Novamente, Dyer comenta os problemas não só dos estereótipos, mas do fato do camp ter sido, por muito tempo, a única face visível da homossexualidade masculina:

A união que conseguimos através do camp é maravilhosa, mas é fato que nem todos os gays identificam-se com o camp. Um bando de bichas dando pinta juntas pode ser uma coisa muito excludente para alguém que não se vê como “bicha” ou se sente desconfortável em dar pinta (DYER, 1999, p. 111, tradução nossa).

Adicionalmente, a efeminação característica do camp abria caminho para a leitura, por parte dos ativistas, de uma conformidade aos papéis de gênero impostos pela sociedade dominante, ou seja, de que, para exercerem seu desejo por homens, certos gays sentiam-se obrigados a adequar-se ao papel feminino (JAGOSE, 1996). Assim, as práticas cotidianas do camp passaram a ser tratadas por parte da cultura homossexual mais politizada como comportamento conformista das old queens (bichas velhas), em oposição a um novo comportamento de orgulho, imposição e enfrentamento da opressão. Em fins dos anos 1970, o movimento ativista, até então de natureza liberacionista – caracterizado pela luta revolucionária por uma sociedade onde a vivência da sexualidade e do gênero fosse livre de regras, rótulos e imposições – toma um desvio em direção a posições mais pragmáticas e passa a organizar-se a partir do modelo assimilacionista dos movimentos étnicos e de minorias. Não mais lutando por uma nova sociedade, agrupam-se em torno de duas identidades – lésbica e gay – para as quais reivindicam legitimidade e igualdade de direitos, buscando sua integração ao sistema (JAGOSE, 1996, p. 58-71). Com esta mudança de rumo, as identidades passam por um sutil processo de higienização, afastando-se de suas expressões mais radicais e de difícil assimilação pela sociedade burguesa e promovendo, assim, um padrão de lésbicas e gays brancos, de classe média, monogâmicos, não promíscuos e sem “desvios” de gênero, empurrando novamente o camp para as margens da cultura homossexual 5 . Proliferou, assim, nos anos 1980, a postura de lésbicas femininas e gays masculinos, estes últimos levando adiante a cultura macho da década de 1970, à época

5 Vale ressaltar que esta não foi a primeira vez que o camp causou constrangimento à cultura homossexual. Durante a década de 1950, auge do movimento homófilo – organizações privadas que promoviam encontros entre homossexuais, nos moldes dos grupos de auto-ajuda, para que eles pudessem discutir suas vivências 5 – os grupos já estimulavam seus membros a um comportamento discreto, de forma a mesclarem-se sem sobressaltos à sociedade, ou seja, passarem despercebidos (JAGOSE, 1996, p. 22-29). Logo, eram reprovadas posturas como a masculinização feminina, efeminação masculina, travestismo e transexualidade – expressões camp por excelência (TYLER, 1999).

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

mais relacionada à exploração sensual de estereótipos do que a uma estratégia de assimilação. Ironicamente, a noção de teatralidade e artificialidade implícita na adoção de certos papéis de gênero e sexuais, exemplificados pelos signos utilizados pelos gays em sua performance de masculinidade – bigodes, barbas, músculos, acessórios, poses e atitudes clichês – remetem diretamente ao camp.

Retomada

A política assimilacionista, além de criticada por ativistas que viam nas

identidades excludentes uma repetição dos procedimentos da heteronormatividade dominante, sofreu um revés com a epidemia de AIDS, que trouxe consigo uma forte onda de homofobia. A associação inicial da doença aos gays tornou-se um entrave para a sua integração à sociedade, e muitos grupos assimilacionistas foram desfeitos, dando lugar às novas abordagens de organizações como “ACT UP” e “Queer Nation”, nos EUA (MEYER, 2004). Estes grupos focavam não mais em identidades sexuais –

problemáticas ao tentar unir sob um mesmo rótulo subjetividades e comportamentos tão díspares – mas em práticas sexuais, e sua atuação foi imprescindível na reivindicação de políticas sérias de combate à AIDS.

O novo movimento, com fortes influências de correntes identitárias pós-

estruturalistas, reunia-se sob o rótulo queer, termo antigo que, ainda no século XIX, era utilizado pejorativamente para nomear homossexuais e que pode ser traduzido, com alguma perda, como “esquisito”. Em seu novo uso, representava não uma nova identidade sexual, mas a não conformação às identidades e binarismos culturalmente impostos através de rótulos como homossexual, heterossexual, sbica, gay, bi, trans: ser queer é estar livre dos limites impostos por estas identidades (JAGOSE, 1996, p. 72-

100).

Já na virada da década de 1980 para 1990, o movimento ganharia o reforço do arcabouço teórico queer, que ajudava a pensar gênero e sexualidade fora deste modelo identitário burguês. Judith Butler, na obra seminal da teoria queer – "Gender Trouble" (1989) – debruça-se sobre a construção dos gêneros masculino e feminino nos indivíduos, atacando da ideia de um encadeamento natural entre o sexo biológico e o gênero (e todos os signos culturalmente atribuídos a ele). Defende, ao contrário, a ideia de uma construção performativa do gênero, amalgamado a partir de atos de repetição do ideal cultural do “masculino” e do “feminino”, regulados por instâncias formadoras da

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

sociedade – pais, professores, amigos – que impõem regras e limites e aplicam medidas corretivas em caso de desvios. Na base da pesquisa de Butler está a observação de desvios e transgressões de gênero, em especial travestismo e drag, dos quais ela ressalta não a conformidade a modelos impostos de gênero (como na crítica do movimento liberacionista), mas que:

Imitando um gênero, a performance drag implicitamente revela a estrutura

A noção de paródia de gênero defendida

aqui não assume que há um original o qual as paródias imitam. A paródia, na

verdade, é da própria noção de que existe um original (BUTLER, 1990, l. 2327, tradução nossa).

imitativa do próprio gênero (

)

Desvelando a construção cultural e o caráter performativo do gênero, a teoria queer expõe também a construção das categorias de orientação sexual:

É surpreendente que, das várias dimensões sobre as quais a atividade sexual de uma pessoa pode diferenciar-se da de outra (dimensões que incluem preferências por certos atos, certas zonas e sensações, certos tipos físicos, certa frequência, certos investimentos simbólicos, certas relações de idade ou poder, certo número de participantes etc. etc. etc.), precisamente uma, o gênero do objeto de desejo, tenha emergido na virada do século, e tenha se mantido como dimensão de classificação da atividade sexual, a partir da categoria de ‘orientação sexual’ (SEDGEWYCK, 1990, p. 8, tradução nossa).

Assim, a teoria queer, além de reforçar a crítica do movimento queer aos modelos identitários culturalmente impostos, salientou o caráter transgressor do camp, em especial de seu tratamento teatral dos papéis gênero. Aos grupos ativistas queer, que já se utilizavam do deboche camp como estratégia de luta, juntou-se um grande número de artistas, que aderiram às expressões mais radicais do estilo, com vistas a uma arte eminentemente política. É o caso do conjunto coeso de filmes de diretores como Derek Jarman (“Edward II”), Gregg Araki (“The Living End”), Gus Van Sant (“Mala Noche”, “Garotos de Programa”), Todd Haynes (“Poison”), Tom Kalin (“Swoon”), entre outros, lançados no início dos anos 1990 e agrupados sob o rótulo de “New Queer Cinema” 6 (RICH, 2004). Além da adesão à atributos mais conhecidos do camp, os filmes compartilham de um mesmo procedimento de mistura de elementos incongruentes:

Na maioria destes filmes há um jogo com fronteiras formais – o cruzamento de estilos e gêneros. O New Queer Cinema utiliza-se simultaneamente de minimalismo e excesso, apropriação e pastiche, a mistura de estilos

6 O rótulo faz referência a um “Old Queer Cinema”, que é exatamente o já citado cinema underground americano dos anos 1960 e 1970. Pode-se até afirmar que a obra de Pedro Almodóvar da década de 1980 – um prenúncio do resgate da transgressão camp – serve de ponte entre os dois períodos.

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

hollywoodianos e avant-garde, e até a mescla de ficção e documentário (BENSHOFF & GRIFFIN, 2004, p. 11).

Sobre a incongruência no camp, Babuscio afirma:

Ironia é a matéria prima do camp, fazendo referência a quaisquer contrastes incongruentes entre coisas ou indivíduos e seu contexto. A incongruência

mais comum é a do masculino/feminino (

entre] novo/velho, sagrado/profano, alta/baixa cultura. Na base desta atração pelo incongruente está a ideia da homossexualidade como desvio moral.

[mas também percebemos

)

Dois homens ou duas mulheres apaixonados são geralmente vistos pela sociedade como incongruentes (BABUSCIO, 2004, p. 122).

Desta forma, movimentos como o New Queer Cinema impulsionaram uma abordagem mais política e transgressora do camp 7 – calcado agora em conceitos e discursos queer – recriando e renovando sua relação com a cultura homossexual.

Considerações finais

Apesar da origem comum, a cultura homossexual masculina e o camp não tiveram uma relação isenta de desencontros. Num primeiro momento, o camp torna-se a única face visível da cultura homossexual, sendo logo cooptado pelo capitalismo, tanto através dos estereótipos do homossexual masculino utilizados pela grande mídia, quanto pelo uso de uma estética camp – calcada na artificialidade, teatralidade, humor e exagero – em produtos culturais, tendo com consequência o apagamento de seu caráter mais transgressor. Ao mesmo tempo, uma cultura independente faz, durante as décadas de 1960 e 1970, o caminho contrário, ressaltando as potencialidades políticas e transgressoras do estilo. Com a emergência dos movimentos ativistas homossexuais, o camp é rechaçado como comportamento conformista e, em seguida, sua relação com desvios de gênero causa constrangimento ao movimento assimilacionista, calcado em identidades sexuais positivas, de fácil consumo. O movimento queer, apontando mudanças ao ativismo em vista da epidemia de AIDS e de conceitos pós-estruturalistas, termina por dar origem à teoria queer e resgatar a veia mais radical do camp, que passa novamente a figurar no centro da vanguarda artística e a se relacionar de forma mais digna – mas ainda satírica – com a cultura homossexual.

7 Que chegou a atingir o mainstream conseguindo manter, em maior ou menor escala, sua ligação com a cultura homossexual, através de filmes como “O Casamento de Muriel”, de P. J. Hogan, “Priscilla, a Rainha do Deserto”, de Stephan Elliot, “Moulin Rouge!”, de Baz Luhrmann e “Longe do Paraíso”, de Todd Haynes, entre outros.

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

Assim, contrariamente à afirmação de Sontag que ao “enfatizar estilo em

detrimento do conteúdo (

despolitizada – ou, ao menos, apolítica” (SONTAG, 1999, p. 54, tradução nossa) a trajetória do camp nos mostra seu grande potencial político e transgressor, que pode, porém, ser suavizado ou até apagado pela força de cooptação do capitalismo. E indo novamente de encontro à opinião de que “o Camp é muito mais que uma sensibilidade homossexual” (SONTAG, 1999, p. 64, tradução nossa), a sua forte relação com a cultura homossexual masculina mantém-se inclusive em seus momentos de estranhamento, quando a vontade desta de afastar-se dos desvios de gênero leva a uma reafirmação da consciência de teatralidade dos papéis sociais, ou seja, camp! No lugar de tentar negar a clara relação umbilical entre o camp e a cultura homossexual masculina, acreditamos ser mais correto negar a exclusividade homossexual na participação dos discursos e práticas camp, sublinhando, ainda assim, que ao participar destes se estará invariavelmente imergindo naquela.

a sensibilidade Camp é obviamente desengajada,

)

Referências bibliográficas

BABUSCIO, Jack. camp and the Gay Sensibility. In: Queer Cinema – The Film Reader. Editado por BENSHOFF, Harry; GRIFFIN, Sean. Nova York: Routledge, 2004.

BENSHOFF, Harry; GRIFFIN, Sean. General Introduction. In: Queer Cinema – The Film Reader. Editado por BENSHOFF, Harry; GRIFFIN, Sean. Nova York: Routledge, 2004.

BENSHOFF, Harry; GRIFFIN, Sean. Queer Images - A History of Gay and Lesbian Film in America. Maryland: Rowman & Littlefield Publishers, Inc., 2006.

BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity, Ed. Kindle. New York: Routledge, 1990.

DREWAL, Thompson Margaret. The Camp Trace in Corporate America. In: The Politics and Poetics of Camp. Editado por MEYER, Moe. Nova York: Routledge, 1994.

DYER, Richard. It’s being camp as keeps us going. In: Camp: Queer Aesthetics and the

Performing Subject. Editado por CLETO, Fabio. Ann Arbor: University of Michigan Press,

1999.

FINCH, Mark. Sex and Address in Dinasty. In: Camp: Queer Aesthetics and the Performing Subject. Editado por CLETO, Fabio. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1999.

GREENBERG, Clement. Avant Garde and Kitsch. In: Collected Essays and Criticism, vol. 1. Editado por O'BRIAN, John. Chicago: University of Chicago Press, 1986.

JAGOSE, Annamarie. Queer Theory. New York: New York University Press, 1996.

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação ) XXX IV

Intercom) – )Sociedade)Brasileira)de)Estudos)Interdisciplinares)da)Comunicação )

XXX

IV )Congresso)Brasileiro)de)Ciências)da)Comunicação) – ) Recife ,) PE ) – ) 2 )a) 6 )de)setembr o)de)20 11 )

KING, Thomas A. Performing “Akimbo”. In: The Politics and Poetics of camp, ed. Kindle. Editado por MEYER, Moe. Nova York: Routledge, 1994.

MEYER, Moe. Reclaiming the Discourse of Camp. In: Queer Cinema – The Film Reader. Editado por BENSHOFF, Harry; GRIFFIN, Sean. Nova York: Routledge, 2004.

RICH, B. Ruby. The New Queer Cinema. In: Queer Cinema – The Film Reader. Editado por BENSHOFF, Harry; GRIFFIN, Sean. Nova York: Routledge, 2004

RUSSO, Vito. The Celluloid Closet: Homossexuality in the Movies. Revised ed. New York:

Harper & Row, Publishers, Inc., 1987.

SEDGEWYCK, Eve Kosofsky. Epistemology of the Closet. Berkeley: University of California Press, 1990.

SONTAG, Susan. Notes on ‘Camp’. In: Camp: Queer Aesthetics and the Performing Subject. Editado por CLETO, Fabio. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1999.

TORRES, Sasha. The Caped Crusader of Camp: Pop, Camp, and the Batman Television Series. In: Camp: Queer Aesthetics and the Performing Subject. Editado por CLETO, Fabio. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1999.

TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso - a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. São Paulo: Record, 2000

TYLER, Carole-Anne. Boys Will Be Girls: Drag and Transvestic Fetishism. In: Camp: Queer Aesthetics and the Performing Subject. Editado por CLETO, Fabio. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1999.