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SAMIZDAT

http://samizdat.oficinaeditora.com

32
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fevereiro 2012 ano V ficina
fevereiro
2012
ano V
ficina
32 fevereiro 2012 ano V ficina Horacio Quiroga latino-americano O mestre contista
32 fevereiro 2012 ano V ficina Horacio Quiroga latino-americano O mestre contista
Horacio Quiroga latino-americano O mestre contista

Horacio Quiroga

Horacio Quiroga latino-americano O mestre contista
Horacio Quiroga latino-americano O mestre contista
Horacio Quiroga latino-americano O mestre contista

latino-americano

O mestre contista

32 fevereiro 2012 ano V ficina Horacio Quiroga latino-americano O mestre contista
Participe da Revista SAMIZDAT 33 A Revista SAMIZDAT conta com a sua participação para manter
Participe da Revista SAMIZDAT 33
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Participe da Revista SAMIZDAT

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A Revista SAMIZDAT conta com a sua

participação para manter o alto padrão das publicações.

Aceitamos e estimulamos a participação de autores estreantes, pois o nosso objetivo é apresentar a maior diversidade possível de autores, gêneros e textos.

Instruções para envio de obras

1 - Cada escritor poderá inscrever, nos

respectivos campos, somente 1 (um) tex- to literário para publicação, de qualquer

gênero - conto, crônica, poesia, microconto

- ou um (1) texto teórico, como artigo de

teoria literária, resenha de livros, ou entre- vista, além de traduções de textos literários em domínio público, sob licença Creative Commons ou com a expressa autorização do autor. A temática é livre.

O autor também deve enviar uma breve

biografia na primeira página do arquivo.

2 - O limite máximo para cada texto

literário é de mil (1000) palavras, ou 4 páginas em A4, fonte Times ou Arial 12, espaçamento 1,5. O envio dos textos não implica na aceitação automática, a seleção dependerá da quantidade de textos envia- dos, da qualidade literária e da disponibi- lidade de espaço na revista. A revisão dos textos é de responsabilidade de seus auto- res. O texto não precisa ser inédito.

3 - Os textos devem ser enviados até o

dia 30 de abril de 2012 através do nosso

gerenciador de submissões (link abaixo) em um arquivo anexo, em formato .DOC, .DOCX ou .TXT.

Por favor, aguarde o período de um mês após receber a resposta antes de enviar um outro texto.

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Não aceitamos mais textos enviados por e-mail.

4 - Os textos selecionados serão publica-

dos na edição 33 da Revista SAMIZDAT na segunda quinzena de maio de 2012, no site

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ou poderão aparecer no site, caso a edi- ção em .PDF já esteja fechada.

5 - Os textos serão publicados sob li-

cença Creative Commons Atribuição-Uso

Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas e o autor não será remunerado.

O envio de textos implica na aceitação por

parte do autor destes termos.

6 - Os organizadores da SAMIZDAT se

reservam o direito de não publicar a revis-

ta, caso o número de submissões não seja

o suficiente para o fechamento da edição.

7 - O não cumprimento dos itens acima

poderá implicar na desqualificação da obra enviada.

Contamos com a sua participação!

Atenciosamente,

Henry Alfred Bugalho

Editor

4 anos de SAMIZDAT Há projetos que concebemos, que não temos ideia aonde irão. perda
4 anos de SAMIZDAT
Há projetos que concebemos, que não
temos ideia aonde irão.
perda do nosso antigo domínio na internet,
muitos dos nossos antigos leitores também
sumiram.
Quantos romances, contos e outras obras
não guardamos inacabadas, certos que um
dia recuperaremos aquele ímpeto inicial
e
as concluiremos? E quantas não são as
ideias brilhantes que, assim que fazemos
o
primeiro esforço para realizá-las, logo
percebemos que será um empreendimento
estéril?
Já não vejo mais a possibilidade de uma
publicação mensal e, hoje, em retrospecto,
penso que foi uma loucura tentarmos tal
proeza com a estrutura totalmente descen-
trada de então, pois cada um atuava como
bem entendia e a comunicação era bastan-
te confusa.
Quatro anos atrás, eu e um pequeno
grupo de escritores, reunidos numa oficina
literária virtual, pensamos que talvez fosse
interessante publicar os nossos textos numa
revista. Batizamos este projeto de Revista
SAMIZDAT, uma homenagem às publi-
cações clandestinas na Rússia stalinista,
repressiva e censora.
Aprendemos com nossos erros e tam-
bém com nossos acertos. Em seu quarto
aniversário e 32º fascículo, a SAMIZDAT
retorna mais madura e mais profissional.
Não tínhamos clareza de como tudo
funcionaria, de quem faria o quê, nem se
teríamos leitores. Não sabíamos se daria
certo ou não, nem aonde iríamos com isto.
Mas funcionou.
Ainda somos um grupo de escritores
lutando por um lugar ao sol, muitos de
nós ainda publicando independentemente e
correndo às margens deste brutal mercado
que nos exclui e nos ignora, pois assim são
as regras deste jogo.
Criamos nas sombras, na esperança que
o fogo destes talentos possa brilhar e ilu-
minar os nossos caminhos.
Desde então, muito mudou. Alguns des-
tes autores se foram, inclusive nem escre-
vem mais. Depois de um hiato de mais de
um ano nas publicações, inclusive com a
Ação e esperança, estes são os
combustíveis que movem a SAMIZDAT.
Henry Alfred Bugalho
http://www.flickr.com/photos/advaits/2589618179/

SAMIZDAT 32

fevereiro de 2012

Edição, Capa e Diagramação:

Henry Alfred Bugalho

Autores Alessa Bertazzo Anna Apolinário Cinthia Kriemler Daniel Moreira Douglas Batalha Edelson Nagues Edweine Loureiro Elias Antunes Fernanda Cristina de Paula Henry Alfred Bugalho João Paulo Hergesel Joaquim Bispo José Guilherme Vereza Juliano Ramos de Oliveira Leandro Luiz Luiza Oliveira Marcelo Soriano Mariana Valle Otávio Martins Rafael Zen Roberto Klotz Sara Meynard Silvana Michele Ramos Sonia Regina Rocha Rodrigues Tatiana Alves Thiago Jefferson dos Santos Galdino Valmir Luis Saldanha Volmar Camargo Junior Zulmar Lopes

Textos de:

Horacio Quiroga

Foto da capa:

http://www.flickr.com/photos/

biggreymare/5513025399/

http://samizdat.oficinaeditora.

com

Editorial

Acredito que esta edição será um divisor de águas para a SAMIZDAT. Desde o princípio, contamos principalmente com as contribuições de autores fixos e de um ou outro colaborador externo para a criação da revista. No entanto, pela primei- ra vez, recebemos um número gigantesco de submissões de colaboradores espontâneos, com obras de grande qualidade. Então, percebi que um dos meus maiores medos havia se realizado: a SAMIZDAT, que em sua criação pretendia contornar o injusto processo de exclusão do mercado lite- rário, enfim se tornava ela mesma excludente. São tantos os talentos, tantas as obras criativas, e o espaço é tão pequeno, que se torna impossível publicá-las todas. Rejeitar um autor em início de carreira não é uma tarefa fácil, eu lhes asseguro. Pois este é o momento em que o es- critor se encontra mais fragilizado, precisando de um estí- mulo, daquela palavra de incentivo que o empurrará para a frente. Por outro lado, a recusa também é um aprendizado e, para muitos, deveria ser uma motivação de outra natureza:

“hoje foi um ‘não’, mas amanhã será um ‘sim’”. Afinal, é esta expectativa do sim, da aceitação dos leitores, dos editores, dos críticos, da imprensa, dos outros autores, que nos move, que nos instiga a prosseguirmos na atividade literária. Escrevemos para nós mesmos, inevitavelmente, mas nossas obras pertencem também aos outros. Um ‘não’ hoje, mas amanhã um ‘sim’, meus amigos, e isto vale para todos nós.

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons.

Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com- mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112).

As ideias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista.

Sumário

Sumário Por quE SamIzdat? 8   Henry Alfred Bugalho rEComENdaÇÃo dE LEItura Em Nome do Filho
Sumário Por quE SamIzdat? 8   Henry Alfred Bugalho rEComENdaÇÃo dE LEItura Em Nome do Filho
Sumário Por quE SamIzdat? 8   Henry Alfred Bugalho rEComENdaÇÃo dE LEItura Em Nome do Filho

Por quE SamIzdat?

8

 

Henry Alfred Bugalho

rEComENdaÇÃo dE LEItura Em Nome do Filho

10

 

Edelson Nagues

Humor

 

Breve dissertação sobre o Palavrão

14

 

Joaquim Bispo

CoNtoS

 

o

moedor de Café

16

Henry Alfred Bugalho

Criança Prodígio

20

 

Thiago Jefferson dos Santos Galdino

Filho da Pátria Sem mãe

21

 

Marcelo Soriano

Vez em quando

22

 

Cinthia Kriemler

relicário

25

 

Tatiana Alves

a

deusa da chuva

27

José Guilherme Vereza

o

Catavento maluco

29

Otávio Martins

depuração

31

 

Silvana Michele Ramos

adivinho, detetive ou fofoqueiro

32

 

Roberto Klotz

avessa (o)

35

Sara Meynard

Coletivo   37   Edweine Loureiro Purgatório   38   Zulmar Lopes doa-se um
Coletivo   37   Edweine Loureiro Purgatório   38   Zulmar Lopes doa-se um
Coletivo   37   Edweine Loureiro Purgatório   38   Zulmar Lopes doa-se um

Coletivo

 

37

 

Edweine Loureiro

Purgatório

 

38

 

Zulmar Lopes

doa-se um helicóptero. tratar aqui.

40

 

Leandro Luiz

rugas do tempo

 

41

 

Juliano Ramos de Oliveira

minha vida, meu pesadelo

42

 

Sonia Regina Rocha Rodrigues

marta e o gosto do tempo

44

 

Fernanda Cristina de Paula

traduÇÃo

 

a

Galinha degolada

46

 

Horacio Quiroga

decálogo do perfeito contista

51

Horacio Quiroga

tEorIa LItErÁrIa

o que ninguém lhe dirá numa oficina literária -

parte 1 (a Criação)

54

 

Henry Alfred Bugalho

Castillo e modern: dois poetas argentinos

58

 

Elias Antunes

o

Grande Sertão de riobaldo

60

Alessa Bertazzo

CrÔNICa

Europa descarrilada

62

 

João Paulo Hergesel

PoESIa

 

a

fila

64

Volmar Camargo Junior

#18

66

Rafael Zen

rito

67

Anna Apolinário

olhos de distância

68

Daniel Moreira

Sagrado

70

Luiza Oliveira

Senilidade

71

Valmir Luis Saldanha

Nº 1

72

Douglas Batalha

missão

73

Mariana Valle

Senilidade 71 Valmir Luis Saldanha Nº 1 72 Douglas Batalha missão 73 Mariana Valle 7
Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
Inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
se converte em uma ditadu-
ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O
grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir ou
ignorar tudo aquilo que não
pertença a seu projeto, ou
que esteja contra seus prin-
cípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiam,
fazer parte da máquina
administrativa - que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo -, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
idéias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprimir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi de-
signado "samizdat", que nada
mais significa em russo do
que "autopublicado", em opo-
sição às publicações oficiais
do regime soviético.
A
União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.
logo

E por que Samizdat?

A indústria cultural - e o

mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, base- ado no que se julga não ter valor mercadológico. Inex- plicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maio- res do que o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime exclu- dente, torna-se a via para produtores culturais atingi- rem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos - como TV,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro

lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A

repercussão do que escreve (quando há) surge em ques- tão de minutos.

A serem obrigados a

burlar a indústria cultural,

os autores conquistaram algo

que jamais conseguiriam de

outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam

o prazer de ouvir o respal-

do de leitores sinceros, que

não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição

que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profis- sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

http://samizdat.oficinaeditora.com

poemas, resenhas literárias e muito mais. http://samizdat.oficinaeditora.com http://samizdat.oficinaeditora.com 99

http://samizdat.oficinaeditora.com

99

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recomendação de Leitura

E m Nom E do FILHo Edelson Nagues
E m Nom
E do
FILHo
Edelson Nagues

“nossa culpa”. Essa constatação nos intimida, nos estremece. Se somos seres incompletos por natureza, em constante e interminável formação, como poderemos formar outros seres?

E quando o nascimento de um filho, o primogênito, revela uma criança estranha, diferente, “anormal”?! (“Um filho é a ideia de um filho; uma mulher é uma ideia de uma mulher. Às vezes as coisas coincidem com as ideias que fazemos delas; às vezes não.” – idem, p. 14 – atualizamos pela nova ortografia.)

Aos 28 anos, projeto de escritor (“pen- so que sou escritor, mas ainda não escrevi nada”), desempregado, sustentado pela espo-

(Resenha do livro O filho eterno – TE- ZZA, Cristovão. Rio de Janeiro: Record,

2007.)

O nascimento de um filho, principalmen- te o primogênito, é sempre um momento

de muita emoção. Para os pais, avós, tios,

primos

coletiva” (obra citada, 7ª edição, p. 25). É

um importante marco na vida do casal. E à alegria desse acontecimento mescla-se um receio, um certo temor, ainda que não assu- mido, dissimulado. É que, de um momento para o outro, nos encontramos frente ao de- safio de sermos responsáveis pela formação de um ser humano posto neste mundo por

“o nascimento é uma felicidade

sa, a sua ideia de filho não coincidiu com a realidade do filho que lhe veio. E para quem

já via o nascimento como “uma brutalida-

de natural, a expulsão obscena da criança,

o desmantelamento físico da mãe até o

último limite da resistência” (p. 24), esse

desencontro da ideia com a coisa real, na madrugada do dia 3 de novembro de 1980, tornou-se uma verdadeira

tragédia. E com um nome – ou, melhor, um estigma humilhante: “mongolismo”.

Em tempos politicamen- te corretos, mongolismo transmutou-se em “Sín- drome de Down”. Quem

a descreveu pela primeira

vez foi o médico inglês John Langdon Haydon Down (1828-1896), que lhe emprestou o nome. Ele des- tacou a semelhança facial dos portadores da síndro- me com os mongóis, os naturais da Mongólia, na Ásia. Daí serem chamados de “mongoloides”. Resulta da trissomia do cromos- somo 21, ou seja, em vez de dois cromossomos 21, algumas crianças

nascem com três, e apresentam determi- nadas características físicas: língua muito grande, pescoço largo e achatado, baixa estatura, olhos pequenos e amendoados. Sofrem ainda de variados níveis de autismo

e limitado desenvolvimento mental. “Para

eles, o tempo não existe. A fala será, para sempre, um balbuciar de palavras avulsas,

sentenças curtas truncadas [

no andar será sempre incerto, e lento; se os pais se distraem, eles engordarão como tonéis, debaixo de uma fome não censurada pela sensação de saciedade, que neurolo-

gicamente demora a chegar. [

à distância – o mundo é exasperadamente curto; só existe o que está ao alcance da mão. São caturros [sic] e teimosos – e con- trolam com dificuldade os impulsos, que se repetem, circulares” (p. 34).

Foi com uma dessas crianças que o pobre escritor se defrontou, na inalienável condi-

ção de pai. Um filho que seria uma criança por toda a vida. “Uma criança eterna.” E como consolo ao desespero que se aba- teu sobre ele (“um sentimento de abismo”), agarrou-se à comprovação científica de que “as crianças com Síndrome de Down mor- rem cedo”. Cruel? Certamente. Mas, sobre- tudo, humano, demasiado humano – como diria Nietzsche, um dos

seus filósofos favoritos.

Se o relato de um pai que renega o próprio filho por si só já é chocante, mais estarrecedor se torna quando sabemos que não se trata de ficção. Assim, o “filho eterno” tem um nome real, de registro: Felipe. E um nome não menos real tem o pai: Cristovão; e ambos ostentam o mesmo sobrenome: Tezza.

Cristovão Tezza, hoje escritor consagrado, tido como um dos melhores de sua geração no Brasil, revela, quase três décadas

de sua geração no Brasil, revela, quase três décadas depois, que é pai de um jovem

depois, que é pai de um jovem portador de Síndro- me de Down. Em um relato corajoso, sem subterfúgios nem autocomiseração (“a pie- dade, o alimento da pieguice, que é a forma grudenta, caramelizada, da mentira” – p. 152), disseca e, ao mesmo tempo, traz à luz seus mais ocultos sentimentos, desnudando publicamente sua relação com o filho espe- cial. Um acerto de contas consigo mesmo e, de certa forma, com a literatura, em que pessoas portadoras dessa síndrome parece não terem espaço.

E não apenas na literatura: “O cinema,

em seus 80 anos, [

cena. Nem vai colocá-los. [

goloides na história, relato nenhum – são seres ausentes” (p. 36). Mas principalmente

na arte da escrita: “Em todo o Ulisses, James Joyce não fez Leopoldo Bloom esbarrar em nenhuma criança Down, ao longo daquelas 24 horas absolutas. Thomas Mann os ignora

rotundamente. [

Leia os diálogos de Platão,

as narrativas medievais, Dom Quixote,

].

O equilíbrio

]

jamais os colocou em

]

Não há mon-

]

Não veem

]

avance para a Comédia humana de Balzac, chegue a Dostoiévski, nem este comenta, sempre atendo aos humilhados e ofendidos; os mongoloides não existem” (p. 36).

Cabe então a esse escritor, a quem foi propiciado o convívio com um desses seres diferenciados, preencher tal lacuna. E ele o faz com sentimento, com entrega, com dor mesmo, sem jamais perder o domínio técni- co da narrativa (pois se trata de um profes- sor universitário, um doutor em literatura “apaixonado pela técnica”).

Não há pieguice nem ressentimentos. Há revolta, sim, presente na crueza com que se refere ao seu primogênito: “criança horrí- vel”, “pequeno leproso”, “pequeno monstro”, “filho lesado”, “filho pela metade”, “um não- filho”, entre outras expressões igualmente reprováveis, considerando-se a sua condição de pai. E essa exposição de repulsa paterna provoca o leitor, tenta chocá-lo de forma proposital, para que este – assim como o escritor se permitiu – seja confrontado com sua hipocrisia, esse câncer social, que faz com que reprovemos nos outros tais atitu- des enquanto adotamos inconscientemente postura semelhante (como os pais que, há pouco tempo, em um shopping em São Pau- lo, impediram que uma criança com Sín- drome de Down continuasse brincando na piscina de bolinhas de uma brinquedoteca, pois estaria incomodando seus filhos “sãos”).

E a revolta do escritor vai, aos poucos, cedendo lugar à aceitação, deixando fluir o amor oculto nas camadas da vergonha im- posta pelo “teatro do verniz civilizador”. “O pai ainda não sabe, mas começa a ter uma

EdELSoN NaGuES

ideia de filho, a desenhar-lhe uma hipótese” (p. 68), “o que ele quer é que aquela criança trissômica conquiste o papel de filho” (p. 95), como observa o narrador (o romance é escrito em falsa terceira pessoa – pois, de fato, o é em primeira –, com flashbacks que vão compondo o tempo e o espaço em que os fatos ocorrem).

Assim, depois de perambular com o filho, na companhia da então esposa (a quem dedica o livro), por consultórios dos mais variados especialistas, com resultados pouco animadores, aprende finalmente a aceitar e conviver com as limitações desse ser espe-

cial. Descobre, por exemplo, que “o mundo dos afetos é o talento dessa criança” (e uma das características mais marcantes de todas as pessoas portadoras de tal síndrome), e aprende que “a afetividade é um modo de compreensão”. Um outro talento de Felipe,

a pintura (ainda que de forma rústica, tendo

em vista sua dificuldade para assimilar téc- nicas minimamente complexas), é percebido

e incentivado com envolvimento, para não dizer paixão.

E uma outra paixão – esta também da maioria dos brasileiros, como se sabe –, o futebol, acaba por unir pai e filho em uma relação que sempre souberam ser eterna. Ainda que apresente aspectos fugazes, o ato de assistirem juntos, devidamente unifor- mizados, a um jogo do time favorito – no estádio ou na frente da televisão, com a im- prescindível pipoca – revela que a história de ambos não teve um fim, mas está sendo escrita no eterno retorno do dia a dia. As- sim como a história de todos nós, aliás.

(nome literário de Edelson Rodrigues Nascimento) é natural de Rondonópolis/MT e radicado em Brasília/DF. Poeta, escritor, revisor de textos e servidor público. Estudou Direito e Filosofia, com pós-graduação em Língua Portuguesa. Tem vários trabalhos premiados e/ou selecionados para coletâneas de concursos nacionais, destacando-se:

XXXIII Concurso “Fellipe d’Oliveira” (Santa Maria/RS), XXI Concurso Nacional de Con- tos “José Cândido de Carvalho” (Campos dos Goytacazes/RJ), IV Concurso Nacional de Contos do SESC-Amazonas (Manaus/AM), Concurso Novo Milênio de Literatura (Vila Velha/ES), VI Desafio dos Escritores (Brasília/DF), XL Concurso Literário “Escriba” (Pi- racicaba/SP) e Concurso Nacional de Contos de Porto Seguro/BA, entre outros. É au- tor dos livros “Demasiado humano” (contos) e “Águas de clausura” (poemas), a serem publicados brevemente.

http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

ficina www.oficinaeditora.com

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Humor Joaquim Bispo Breve dissertação sobre o Palavrão Caros circunjacentes: A minha preleção de hoje
Humor
Joaquim Bispo
Breve dissertação
sobre o Palavrão
Caros circunjacentes:
A
minha preleção de hoje versa o pa-
lavrão, em todas as suas aceções, o qual,
segundo o dicionário Houaiss, pode ser
considerado em três aspectos semânticos.
O
mais popular, imediato e dissemi-
nado é o turpilóquio. Nesta forma torpe,
geralmente, explode boca fora, espontâ-
neo e veemente, quando se é vilipendia-
do de maneira inopinada ou prepotente
nas interações sociais. Sobrevém, amiúde,
nas acrimónias do trânsito citadino, onde
a peleja pelo espaço essencial do asfal-
to, faz colidir os interesses particulares.
Então, nos píncaros da exaltação, aquilo
que primeiro acode aos lábios, sem se
subordinar a uma triagem nas circunvo-
luções da racionalidade, são considera-
ções sobre as caraterísticas ou os hábitos
excretais ou sexuais do pretenso agressor
ou de algum membro da sua família. São
expressões belicosas cuja significação
pretende provocar algum constrangimen-
to na autoestima do interlocutor aciden-
tal. Por exemplo: – Rastilho curto! – que,
como calculam, também achincalha o
tamanho do autocontrolo dele.
No entanto, para atingir o adversário
de maneira cruenta e implacável, o vitu-
http://www.flickr.com/photos/reallyterriblephotographer/5618087763/

pério, não precisa coincidir, morfologica- mente, com um vocábulo de semântica obscena. Para tanto, a entoação deve col- matar a escassez de ignomínia. Recordo aqui a forma irretorquível como concluí uma altercação de trânsito, que deixou o meu antagonista em estupor, como touro lidado: – Ó meu caro amigo: Vodafone!

A forma mais vulgarizada, todavia, é a de aconselhar o contendor a encetar determinada atividade, ou a deslocar-se para determinado local, diferentes dos atuais, e que, na opinião do fustigador, se adequam melhor às caraterísticas do enxovalhado. As notícias da política internacional são um manancial de ex- pressões com sonoridades e construções ortográficas que sugerem conotações so- ezes e insultuosas. Aquando da guerra na ex-Jugoslávia, ouvi uma feirante verberar outra, nos seguintes termos: – Vá prà Bósnia, sua Herzegovina! Se fosse agora, talvez dissesse: – Vá Kandahar o Jalala- bad do Kabul com Afeganistão – que me parece de uma gravidade inquestionável. Ninguém merece ver-se confrontado com esta alternativa.

Outro significado de “palavrão”, este com alto grau de adequação, é “palavra grande e de pronúncia difícil”. Quando era mancebo, pensava que o maior pala- vrão da língua portuguesa era “incons- titucionalissimamente”, com 27 letras. Hoje, constato que o palavrão que me enchia de orgulho era apenas um pala- vrinho, como pénis de menino. O do pai chama-se Paraclorobenzilpirrolidinone- tilbenzimidazol, tem 43 letras e é uma

Joaquim Bispo

substância farmacêutica. O do vizinho africano chama-se Pneumoultramicrosco-

picosilicovulcanoconiótico, tem 46 letras

e significa “portador de uma doença

pulmonar aguda causada pela aspiração de cinzas vulcânicas”.

O mundo destes palavrões é atroz. Em-

baraça qualquer estudante de medicina, mas, sobretudo, aterroriza o portador da doença Hipopotomonstrosesquipedalio-

fobia, a qual – crueldade das crueldades

– é a “doença psicológica que se caracte-

riza pelo medo irracional de pronunciar palavras grandes ou complicadas”. Imagi- nem o pânico do doente de ser inquirido sobre a denominação da sua própria enfermidade!

Estes vocábulos escaganifobéticos parecem-me denunciar o pérfido sub- terfúgio de arquitetar termos complica- dos, pela mera acoplagem, numa mesma palavra, de outras muito mais curtas. Por esta técnica, também me posso qualificar como Homemextremamenteatraentein- teligentedivertido, epíteto de que só não faço uso por abominar redundâncias.

A terceira aceção de “palavrão” é

“expressão pomposa e empolada”. Não me ocorre, por ora, qualquer exemplo ilustrativo. Locuções grandiloquentes ou de sentido ininteligível estão afastadas do meu discurso, o qual, como foi patente, é sempre despretensioso e matizado ape- nas por vocábulos lhanos e percetíveis por todos.

Tenho dito!

Português, reformado, ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licencia- do tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007. Produziu em quantidade e ga- nhou destreza nas oficinas virtuais de Henry Bugalho e de Marco Antunes. Enquanto não consegue publicação, entretém-se a enviar textos para concursos literários em que obteve uma meia dúzia de prémios vários. Contacto: episcopum@hotmail.com

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Contos

O Moedor de Café Henry Alfred Bugalho
O Moedor de Café
Henry Alfred Bugalho

Não gosto de café. Não bebo. Nem uma única gota. E não se trata apenas do gosto, até o cheiro me causa aversão. Isto vem de longa data; lembro-me de quando eu era criança e, na casa de amigos, na hora do lanchinho da tarde, as mães deles preparavam a mesa e nos serviam, e da minha cara quando elas enchiam meu copo com café. — Não toma? E eu negava com a cabeça. Então, elas rapidamente trocavam meu copo por um outro, enchiam-no com leite e novamente aquela expressão de repulsa na minha cara.

— Também não toma?

— Só com Nescau — eu respondia, o

que as forçava a procurar no fundo de algum armário, resmungando, por aque- le pote de Nescau ou Toddy já vencido de tão velho. Este fato também me trazia emba- raços durante o tempo que morei na Europa. Toda vez que eu recusava uma xícara de café colombiano — dizem que é excelente — ou um cappuccino, imediatamente fulminavam-me com os olhos, como se eu houvesse proferi- do alguma heresia e o papa Bento XVI estivesse prestes a me excomungar por isto.

— Não gosto, porra, simples assim!

— Brasileiro que não gosta de café

não existe — retrucavam. “Eu existo, logo brasileiro que não gosta de café também”, lógica elementar. No entanto, paradoxalmente, um dos meus grandes prazeres quando eu contava uns dez anos era, nas férias, ao irmos para a casa de minha vó no inte- rior, moer café. Talvez você nunca tenha visto um an- tigo moedor de café na vida, eu mesmo não o teria se não fosse por causa des-

tas viagens, mas o princípio é simples: é um aparelho de ferro, fixo numa mesa, com uma entrada no topo semelhante

a um funil, uma manivela que aciona

uma roda para triturar o café torrado,

e uma abertura no fundo, de onde se recolhe o pó. Então, toda vez que minha vó per-

guntava:

— Quem quer moer o café?

Eu logo erguia a mão, apanhava o bocado de grãos torrados e corria para um galpão atrás da casa, onde ficava

o moedor. Meus primos e primas se

deliciavam com este período de folga, porque durante a minha breve visita eles se viam livres desta atividade que era obrigação diária. E era neste mesmo depósito que fica- vam armazenadas sacas e mais sacas de café, cuja existência nunca compreendi. Não sabia se eram para ser revendi- das, ou apenas para consumo próprio, mesmo que fosse impossível para uma única família beber tanto café na vida. Sozinho naquele depósito sujo, úmi- do, escuro, cheio de teias de aranha e, pelo que meus primos me diziam, de onde era muito fácil sair apinhado de piolhos, eu girava a manivela, imerso no cheiro de café torrado que subia do moedor. Este divertimento perdurou até uns treze anos, mas depois disto, eu só continuei perfazendo-o porque não

conseguia contrariar minha avó que, ao abrir um sorrisão que quase arremessa- va sua dentadura pra fora, perguntava, fitando-me:

— Quem quer moer o café?

E já antecipando minha resposta, ela me estendia o saco de café e, cons- trangido, eu me via forçado a ir para o galpão moê-lo, não sem antes ouvir os risinhos dos primos e os cochichos:

— Se ferrou!

Mas este depósito representaria mais para mim do que um mero prazer tor- nado martírio. Era aniversário de quatorze anos dum dos primos e toda a vizinhança foi con- vidada para a casa da minha vó. Não era exatamente uma superprodução de festa; minha vó sempre foi muito hu- milde — apesar de eu ter ouvido que ela tinha umas quinhentas cabeças de gado pastando numa de suas fazendas —, por isto ela fazia questão de que tudo fosse muito simples.

As minhas tias assumiam o papel de quituteiras, enrolando brigadeiros, bei- jinhos e fritando um punhado de coxi- nhas. Minha mãe, que não tinha talento algum para a cozinha, organizava a piazada para os preparativos — encher bexigas, arrumar as mesas no quintal —, enxotava os menorzinhos que filavam uns docinhos, ou mandava as primas para o banho. Meu primo, que já ema- nava ares de adulto — um ralo bigode e, segundo ele, um razoável chumaço de pentelhos —, achava toda aquela balbúr- dia ridícula.

— Pô, mãe, eu não sou mais criança!

Pra que bexiga? Uma das provas de que ele não se sentia mais criança podia ser encontra- da nas convidadas; logo avistamos uma revoada de meninas chegando pela rua, vindo em direção à casa de minha vó. A presença de garotas, ainda mais garotas de nossa idade, atiçou toda a molecada.

— É hoje que vou me dar bem! —

cada um dizia para si, mesmo que mui- tos não tivessem coragem de se aproxi- mar delas. Por outro lado, eu ainda me sentia o mais inexperiente de todos ali, apesar de ser um pouco mais velho do que eles. Quase todos os meus primos já haviam perdido a virgindade, alguns com menininhas do sítio, outros com putas mesmo, encorajados por seus pais. Apenas os mais novos, menores de doze anos, e eu é que ainda estávamos na fila para sermos descabaçados.

O aniversariante veio até mim e me disse:

— Está vendo aquela ali? Diz que viu

você na missa ontem. Vai lá, rapaz, que

ela é facinha.

— Sério?

— Sim. Todo mundo já traçou a Rafi- nha. É só chegar que ela dá.

E esta última frase foi fatal para mim. Minhas pernas começaram a tre- mer e eu fiquei tão aterrorizado de que aquela noite poderia ser a minha vez, que eu passei a vagar pelos cantos da festa, só me expondo para ir catar uns salgadinhos. Foi numa destas oportunidades que Rafinha me abordou.

— Oi? — ela molhou os lábios e me- xeu no cabelo.

Não me lembro o que respondi, mas gaguejei e ela riu.

— Você é tão bonitinho — ela disse.

Quando percebi, já nos atracávamos atrás duma árvore no quintal. Eu não era o rapaz mais experiente do mundo, mas já havia pegado nuns peitinhos an- tes. No entanto, logo estes meus poucos truques se esgotaram. Eu estava muito excitado, mas não tinha muita certeza de até onde poderia ir. Novamente, a iniciativa foi de Rafi- nha:

— Vamos pr’um lugar mais calmo?

E, num reflexo, pensei no depósito:

lugar mais calmo não havia.

Foi naquele canto escuro, úmido, teias de aranhas — quiçá, piolhos! —, atrás das sacas de café, que meu suor se misturou com o de Rafinha, que pela primeira vez me senti dentro duma mulher. Há momentos que mudam a vida duma pessoa: de alguns deles não nos lembramos, nem temos como: a data de nosso nascimento, nossas primeiras palavras ditas, a primeira vez que nos espantamos diante do nascer do sol, e talvez o dia de nossa morte, pois não sabemos se há algo para além ou se

é meramente o fim; mas há também

aqueles inesquecíveis: o primeiro dia na escola, aquele Natal no qual descobri- mos que Papai Noel não existe, o dia em que passamos no vestibular, a aqui- sição do primeiro carro, o nascimento

dos filhos, a morte de nossos pais

e Rafinha, corpos nus entrelaçados, é

uma destas lembranças. Eu me apaixonei por ela, adoeci de amor. Voltei para minha cidade e tudo me trazia a memória daquela noite. Ao chegar em casa, depois da aula, eu me jogava na cama, punha um CD de Johnny Rivers, e sonhava acordado, an- gustiado, aborrecido, oprimido pela sau- dade. À noite, antes de dormir, o desejo me consumia. As horas se arrastavam. Tinha de acordar cedo e o relógio na cabeceira indicava três horas da manhã. Batia uma punheta assistindo aqueles filmes eróticos da madrugada e, por mais aquele dia, eu vivia sem Rafinha. O passar dos meses foi uma eterni- dade. Só retornaria à casa de minha avó para as férias do fim de ano. De julho a dezembro, um, dois, três, quatro meses. Mas o tempo simplesmente havia para- do e, no meu peito, uma paixão como eu nunca sentira antes. Minha mãe comprou as passagens de ônibus e pude respirar aliviado, falta- vam apenas mais alguns dias.

Eu

Chegamos à minha vó de manhã

bem cedo. Todos acordaram para nos receber, como era de praxe. Vovó pre- parou um café para a gente, leite com Nescau pra mim, é óbvio! Meus primos também despertaram, olhos cheios de remelas e marcas de travesseiro no rosto. Puxei um deles pelo braço até o quarto e perguntei:

— E Rafinha, como ela está?

— Bem

— Eu preciso ver aquela menina de

acho.

novo.

— Sai desta, rapaz, ela já deu pra

você. Cata outra. Mas eu não queria outra. Meu primo me tranquilizou: comemoraríamos o aniversário duma das primas e Rafinha também viria. O repeteco prometia ser bom. A festa foi organizada, a mesma baderna de antes, criançada correndo pela casa, bexigas infladas e o cheiro de fritura. Os convidados chegaram.

Todavia, tudo estava diferente.

Rafinha sequer olhava para mim. Eu forçava um encontro, aproximava-me, mas era como se eu houvesse me torna- do o homem-invisível.

— Deixa disso, — me disseram — ela

é só uma piranhazinha. Então, eu não a vi mais. Perguntei aos primos e primas, mas ninguém sabia onde ela estava. Fui até atrás da mesma árvore em que estivemos, e nada. Deci- di arriscar, por fim, o depósito. Ouvi alguns ruídos vindos de dentro, gemidos abafados.

Henry alfred Bugalho

Estendi o braço e gentilmente en- treabri a porta. Pela fresta, pude ver Rafinha sentada sobre o balcão do mo- edor de café, vestido erguido até a cin-

tura, calcinha arriada até os tornozelos,

e no meio de suas pernas, um homem com a bunda exposta.

Dei um passo adiante e terminei de abrir a porta. O ranger fez com que ambos olhassem em minha direção. O olhar do homem pousou sobre mim, num misto de espanto, raiva e excita- ção.

— Tio? — perguntei, e antes que eu

pudesse ter qualquer reação, ele aban- donou Rafinha com as pernas arrega- nhadas e veio com a benga balançando até mim. Segurou-me com força pelo

braço, fechou a porta e me jogou contra

a parede.

— Você não vai contar nada pra sua

tia, moleque, senão eu te mato. Te mato!

Não gosto de café. Não bebo. Nem uma única gota. E não se trata apenas do gosto, até o cheiro me causa aver- são. Nunca gostei. Quando criança chegava a passar vergonha por causa disto na casa de amigos. Mas não era nojo, só não gostava. Mas hoje, toda vez que passo na frente dum boteco e vejo aquele líquido preto escorrendo do bule, fumegando, e o cheiro me alcança, não posso evitar de pensar em mim, em Rafinha, em sacas de café, no pau meio mole de meu tio e num moedor de café. Não consigo. Não dá.

Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera- tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun- dador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de- Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

Contos Thiago Jefferson dos Santos Galdino CRIANÇA PRODÍGIO Sempre foi a criança mais inteli- gente
Contos
Thiago Jefferson dos Santos Galdino
CRIANÇA PRODÍGIO
Sempre foi a criança mais inteli-
gente da turma. Alimentava-se sozinha
enquanto as demais comiam giz; apren-
deu a ler antes que as outras pudessem
soletrar; amarrava os próprios cadarços
quando o restante não sabia andar de
sandálias sem elástico no calcanhar.
centes iam para as festas; cursava uma
faculdade quando as demais estavam
no Ensino Médio; preferia trabalhar a
perder tempo em namoro.
Já usava brincos e maquiagem en-
quanto as outras garotas furavam as
orelhas e descobriam as revistas de
moda; abandonou as bonecas quando
as demais costuravam vestidinhos de
princesas; beijava garotos antes que o
restante deixasse de brincar de pique-
esconde.
Encontrou a tão sonhada estabilidade
financeira; dividia uma mansão com a
sua própria sombra; contava as tristezas
e alegrias para as atentas paredes; tinha
pavor de qualquer coisa que pudes-
se atrapalhar o seu emprego; possuía
tocofobia
Deixou de viver intensamente.
e “abortou” a criança
dentro de si!
que havia
Estudava enquanto as outras adoles-
thiago Jefferson dos Santos Galdino
Nascido em Mossoró/RN em 1993. Aprendiz Técnico em Segurança do Trabalho e
Escritor. Autor do livro “Suspeitas de um Mistério” pela Editora Multifoco; participou
também da 14ª Edição do projeto “Um poema em cada árvore”, do Instituto Psia.
http://www.flickr.com/photos/22326055@N06/4751249463/
Contos Filho da Pátria Sem mãe Marcelo Soriano Ela era torneada. Mulata. Escrava pós-moderna. De
Contos
Filho da Pátria Sem mãe
Marcelo Soriano
Ela era torneada. Mulata. Escrava
pós-moderna. De dia, filhinho no colo.
De noite, bolsinha a tiracolo. Era lin-
da. Morena da grife brasileña. Chiclete
provocativo. Madeixas de molejo sexy.
Olhar de lua. Sorriso de avenida. Beijo
de beco sem saída. Nudez de mini-saia
levantada (sem calcinha) na orla escura
da Barceloneta.
Quando amanhece, uma criança
perambula com as fraldas sujas por um
loft qualquer bem decorado da Rambla.
– Mamã
Mamã
Teta
Na hora de reassumir a maternida-
de nacionalista, a prostituta desapareceu.
Nunca mais voltou. Ela não conseguira
vencer a dor aberta do buraco fundo, frio
estreito, que deitou sangue no passeio
público daquela última noite, antes do
e
– O ponto é meu, traveco da porra!
– ¡No más! Muere perra!
retorno ao Brasil. Seria aquela, realmente,
a
sua última noite de sacrilégio, mas o
Um grito tremido depois do estalo
doído de um triste tapa na cara.
destino é um comboio cego
quem dá mole pela frente.
E atropela
Silêncio na madrugada
marcelo Soriano
Nascido em 11 de agosto de 1967, em Santa Maria – Rio Grande do Sul – Brasil.
Engenheiro Mecânico graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (2004) e pós-
graduado em Engenharia de Produção e Manufatura pela Universidade de Passo Fundo
(2010). Autor do Livro “CANTOPOEMAS: SOBRE MENINOS E PÁSSAROS”, juntamente com a
escritora moçambicana Isabel Gil (Alcance Editores. Maputo-MZ, 2011). Cronista das Revis-
tas Tempo e Literatas (Maputo-MZ, 2011).
http://www.flickr.com/photos/delafuente/3230692585/
Contos Vez em quando Cinthia Kriemler Um cheiro de saudade cruza por mim. Um perfume,
Contos
Vez em quando
Cinthia Kriemler
Um cheiro de saudade cruza por
mim. Um perfume, talvez um aro-
ma de pele. Não dá mais tempo de
impedir a memória, nem de punir
a sentinela da razão que se atrasou
por uns segundos. Já estou impreg-
nada desse vento de passado que me
força companhia.
agonia. Depois de você, tornei-me
matéria sólida, como as lajes e os
granitos. Sem os rompantes, sem a
histeria da partida. Nenhum sofri-
mento à superfície, nenhuma tristeza
deslocada. Apenas o suficiente para
prosseguir humana.
O cheiro de café torrado insiste
em fazer cócegas no meu cérebro,
me dizendo que não vai ser fácil
me livrar da sua lembrança. Pois
que seja. Não sou mais alguém em
Não consigo fixar seu rosto nos
meus pensamentos. Foi assim tam-
bém na primeira vez em que nos
encontramos. As pessoas eram
sempre pontos distorcidos em mi-
nhas fugas de álcool fácil e carnes
http://www.flickr.com/photos/stopthegears/2428574441/

esquecíveis. E você estava lá, numa daquelas noites que terminavam só depois da madrugada.

Além do prazer, dois hábitos me acompanhavam fielmente: eu nunca dormia fora da minha própria cama, nem chegava em casa sem uma boa xícara de café forte. Na verdade, eu sempre tive medo de acordar em camas estranhas. Como se olhar em volta e não reconhecer os objetos me impedisse de saber para onde ir embora. Eu pertencia a todas as ca- mas, mas deitava meu sono em meu próprio colchão, repleto de mim. O café forte era um ritual de purifica- ção. Nada que cortasse o efeito da bebida ou o sono, somente um amu- leto de dignidade que me deixava voltar para casa sem contaminar de embriaguez o ar.

Quando nos encontramos pela primeira vez, sua boca exalava café torrado. Por trás do balcão, uma mistura de amargos e doces flutuava abaixo de uma placa esnobe, onde se lia: Chez Fernand.

— Um café?

— Forte, por favor.

— Alguma coisa para comer?

— Não.

— Um croissant fresquinho? É a especialidade da família.

Fiz que não com a cabeça, en- quanto afastava a sensação de náu- sea que me vinha só de pensar em comida. Mas achei gentil a insistên- cia. E tive certeza de que voltaria ali quando estivesse sóbria.

Voltei, duas semanas depois, numa madrugada de chuva. Nenhum ál- cool naquela noite, nenhuma cama de onde tivesse saltado. Fui para enxergar o rosto ao qual pertencia aquela boca de café torrado. Atrás do balcão, dois rapazes se ocupa- vam dos expressos e dos chocolates. Ninguém que eu pudesse associar à voz modulada e cheirosa que tinha agradado aos meus instintos. Eu já me preparava para me levantar sem pedir nada, quando o mais alto dos dois se aproximou de mim:

— Como vai? Que bom que você voltou! Um café?

Era ele! A boca de café torrado, os dentes claros, benfeitos. Um menino! Quantos anos? Uns 24, no máximo

25.

— Um chocolate com creme, por

favor — respondi depressa, subita- mente sem jeito para incluir um licor no pedido.

— Chuva forte, hein? — perguntou

com delicadeza, enquanto colocava a

bebida.

Não respondi. Homens mais jo- vens não faziam parte dos meus vícios. Minha ânsia de afeto era aplacada por gente como eu, des- cartável, invisível, desraizada. E por álcool, para permitir que tudo fosse permitido. E por sexo, que me fa- zia atravessar a madrugada insone. Nada de amor, essa coisa estranha que se oferece em desencontro. Não, nada de homens jovens! Eles têm o péssimo vício de amar!

— Eu sou Fernand. O da placa —

revelou, vaidoso. — Como é o seu nome?

— Aimée.

— Aimée! Amada

Significa ama-

da, em francês, você sabia? Minha família é de origem francesa. Que coincidência! É um nome lindo.

Pedi a Deus que me tirasse de lá, porque meus pés não ofereciam essa opção! O rapaz estava flertando co- migo, se exibindo para mim! E, mes- mo assim, o que ele dizia entrava em meus ouvidos como uma escala afinada. Esperei realmente por um pequeno empurrão, uma lucidez acanhada. Mas tudo falhou. A divin- dade, os pés, a vontade.

Eu mesma derrubei as cercas, des- lembrada de que as cercas existem para guardar ou impedir. Fiz como o predador que fareja carne tenra:

desprezei as armadilhas, até ser co- lhida pela dor das estacas.

Fernand e eu fomos felizes por duas chuvas. Ele se fez caber por inteiro em meus espaços vazios. Afastou minhas urgências, ofereceu- me outras, me emprestou o riso, o colo, os olhos brilhantes. E eu me completei dele. Ganhei abraços de tirar o fôlego, brinquei sem pressa sobre a cama desfeita, escrevi pala- vras bobas, sem sentido, em bilhetes

e vidros embaçados de chuveiro. Fiz passeios de mãos dadas, desconcertei olhares. Dei gargalhadas no cinema, fiz sexo na escada e me senti bonita de cara lavada.

Então, numa data sem aviso, an- tes que a terceira chuva pudesse me trazer mais um ano, tomou conta de mim uma antiga sensação de ausên- cias. Não sei se foi um gesto dife- rente, um jeito de respirar acelerado, uma desatenção proposital. Sei que os fogos de artifício se tornaram, de repente, fósforos usados.

Talvez, se Fernand tivesse morrido, talvez se ele tivesse amado alguém mais jovem que eu, com menos ca- minhadas, eu teria podido me agar- rar ao consolo do plausível. Mas não foi assim. Fernand só queria mesmo ir embora.

Eu ainda não estava pronta para me encontrar com a mulher vazia que morava dentro de mim, mas a solidão me alcançou inflexível numa noite sem forças. E eu me cedi a ela. Com o tempo, acertamos uma tré- gua. Vez em quando, colho nas ruas um cheiro de saudade. Apenas o suficiente para prosseguir humana.

Cinthia Kriemler É contista e cronista. É autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crôni- cas “Do todo que me cerca”. Finalista de concursos literários, participa de duas cole- tâneas de poesia e uma de contos. É jurada dos Desafios dos Escritores e da Revista Literária. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escri- toras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos.

Contos relicário Tatiana Alves Maria abriu cuidadosamente o reli- cário, mirando os olhos da imagem
Contos
relicário
Tatiana Alves
Maria abriu cuidadosamente o reli-
cário, mirando os olhos da imagem que
ali ficava guardada. Ajoelhou, como fora
ensinada a fazer, e principiou a entoar
mecanicamente mais uma de suas pre-
ces. Emendava uma oração na outra, sem
jamais obter o alívio desejado. A santa
olhava, impassível, nada podendo fazer
diante daquela situação. Seu olhar conti-
nha uma espécie de tristeza, uma quase
resignação, que não ajudava muito a con-
fortar a devota que a ela se dirigia.
fria que vinha de fora. Cheiro de gente,
de rua, de vida. Calçou os chinelos gastos
e
pôs-se a ler.
Época de novena era assim mesmo. As
outras vinham à sua casa rezar o terço
durante vários dias. O motivo agora era
a
candidatura do pai de uma delas, pre-
“Mulher só sai de casa três vezes na
vida: para ser batizada, para casar e para
o próprio enterro”. As palavras da avó
ainda ecoavam em seus ouvidos. Bendi-
ta sois vós entre as mulheres. Por que,
então, tantas renúncias, ó mãe?
feito da cidade. A novena, contudo, não
parecia ajudar na reeleição do sujeito,
cuja popularidade caíra vertiginosamente
desde que fora visto saindo de uma casa
de tolerância na cidade vizinha. Era caso
perdido. E eleição também.
Persignou-se, acendeu uma vela e saiu
do cômodo. Em alguns segundos retor-
nou, e trancou o relicário, evitando o
olhar da santa. Em seguida, cerrou as
janelas, não sem antes respirar a brisa
Pediram, então, a imagem da santa.
Que percorreria a cidade, numa procis-
são improvisada e direcionada. Depois,
passaria alguns dias na casa de cada de-
vota integrante do grupo de oração, para
recuperar a nódoa na imagem do sujeito.
Maria, que não se interessava por polí-
tica mas não podia negar o favor, cedeu,
embora a contragosto.
No dia seguinte, bateram à porta
http://www.flickr.com/photos/mrbeck/1981387615/

bem cedo. Duas mulheres pertencen- tes ao grupo vinham buscar a Virgem, padroeira de Santa Maria da Renúncia. Dirigindo-se vagarosamente ao quarto, na

tentativa de protelar a retirada da ima- gem de sua casa, pegou cuidadosamente

o relicário. O grito foi uníssono. A santa

havia desaparecido. Como podia uma coisa dessas? Como ela podia ser tão desalmada e ingrata a ponto de forjar o roubo da imagem em vez de cedê-la para tão nobre propósito? As beatas do luga- rejo saíram, indignadas.

Os dias escoavam-se sem que a ima-

gem aparecesse. O relicário aberto asse- melhava-se a uma casca sem noz, a uma caixa sem presente. E Maria adoeceu com a falta da santinha. Ninguém mais

a essa altura duvidava que a santa tivesse

sido de fato roubada, embora nenhum forasteiro tivesse sido visto nos arredores na semana do desaparecimento.

De resto, tudo parecia normal em Santa Maria da Renúncia. Ou até melhor. Nem parecia inverno. As rosas desabro- charam antes do tempo, o gado – sem- pre tão passivo – ficou mais agitado, e a brisa que soprava no fim da tarde trazia agora um ardor inesperado. O frio, mar- ca característica do lugar, fora repenti- namente substituído por um calor sem precedentes, como se uma espécie de sezão assolasse o local. As mulheres, que antes permaneciam em casa, aquecidas, queriam agora sair. Joelhos ofereciam-se, não mais ao milho, mas à contemplação alheia. Ombros e decotes foram vistos por ali, e madonas renascentistas sur- giam a cada beco.

Maria mirava o relicário, agora um santuário de ausência, e pranteava a sau- dade que sentia de sua companheira de

tatiana alves

infortúnio. Adoecera na semana em que

a Virgem sumira. Febres inexplicáveis

atormentavam-na dia e noite. Certa vez, foi encontrada vagando perto da cachoei- ra, roupa molhada colada ao corpo. Delí- rio, dizia o médico. Pecado, dizia o padre.

E havia um moço que nada dizia, mas o

sorriso em seus olhos fazia a maior prece jamais entoada em louvor à santa. Ou ao roubo.

Os ardores de Maria eram agora conhecidos e tolerados por todos no lugarejo. As beatas benziam-se: tadinha. Uma alma pura que se perdera longe da proteção da santa. Bebia o vinho do pai, brindando à santa ausente. Rodopiava como se não soubesse mais o que era linha reta, e sua saia alçava voos de ser- pente alada. Gargalhava como se nunca houvesse frequentado colégio de freiras, e deitava-se no chão, mirando inexistentes estrelas que cintilavam proibidos latejos em sua cabeça. Em seu peito. Em seu ventre.

Dois meses depois, Maria foi desperta-

da pelo olhar da santa, dentro do relicá- rio. Incrédula, abriu-o, indagando, mental- mente, quem a havia roubado. Nenhuma resposta. Havia fugido, então? Um meio sorriso pareceu se desenhar no rosto da imagem. Devia estar mesmo louca, como todos julgavam. Tinha de anunciar o retorno da Virgem. Gritar. Sua protetora voltara. Abriu a janela, sentindo o ven- to frio de sempre agredir-lhe o rosto. A imagem, trancada no relicário, assumira

o tom triste de antes.

Não pensou duas vezes. Abriu o re- licário, piscando levemente, e voltou a dormir. Ambas sabiam que a santa não mais estaria ali quando Maria acordasse. Nem ela.

É poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Coluna Momento Lítero-Cultural, dos sites Cronópios, Anjos de Prata, Germina Lite- ratura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ e à Academia Cachoeirense de Letras. Possui seis livros publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.

http://www.flickr.com/photos/lightknight/949116165/

Contos

a deusa da chuva José Guilherme Vereza
a deusa da chuva
José Guilherme Vereza

E choveu o ano inteiro em 21 minutos.

ga lenga que é para tanta gente assinar um documento.

Cristina não é um nome que defina idade. Mas não me parece uma pós-adolescente, considerando que o CPF é daqueles beges e grandões, anteriores aos cartões azuis magne- tizados que dormem com cartões de créditos nas carteiras ricas.

Vidal, o nome do meio, insinua que a dona do documento perdido possa trazer raízes ibéricas, remotamente francesas, mas a preguiça mental me leva a encurtar caminho da história e admitir que seja descendente de uma sinhá de além-mar, que deu com os na- vios nas costas da Bahia, tendo envergonhado a família ao se enrabichar por um cafuso tí- pico, indolente por parte de pai e fogoso por parte de mãe. E saíram, colonizado e coloni- zadora, às cópulas pelas alcovas a povoar a cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Na enésima geração, nasceu Cristina. Claro que está tudo explicado: seu último sobrenome é Sotero, ó, ó, ó, digo isso meio girando repetidamente a mão direita com o polegar e o indicador em curva formando

Enquanto o ônibus não chega, perambulo os olhos pela rua, cantarolando as águas de Tom Jobim, e encontro Cristina num canti- nho de paus, pedras, restos de toco, um toco sozinho.

Não uma Cristina gente, morta ou viva, carente ou determinada, enérgica ou entre- gue à sorte impiedosa do verão, da natureza e do descaso. Mas uma Cristina de papel, plastificada, enlameada, materializada por um CPF sem rosto, discreto e sujo, que me dá pistas sobre sua pessoa.

De cara, descubro que é uma mulher. Está escrito em letras gagas de uma Remington:

Cristina Vidal Sotero, ao lado um número borrado, e no verso uma assinatura legível e inspiradora.

Decifra-me, diz o garrancho. Sou traço tosco de vítima do desprezo histórico que se tem pela educação dos pobres. Trata-se, então, de alguém que rala na vida, que não veio ao mundo a passeio. As maiúsculas tentando arabescos eruditos e as minúsculas finais apressadas tentando acabar com a len-

uma pinça, o gesto vulgar que denota ligação infame, ó, ó, Sotero de salvador, polis de cida- de, sacou? – adoro palavras cruzadas: nascido em Salvador, vertical, 14 letras.

Pronto. Definida a origem da criatura. Resta agora o quesito “o que faz na vida, além de explicar que perdeu documentos na chuva”. A caligrafia me cochicha: talvez seja diarista, talvez costureira, talvez balconista, caixa de supermercado. Pode ser faxineira, trocadora, a moça do café, a rainha dos servi- ços gerais numa empresa próspera e social- mente responsável.

Nada disso. Que seja uma cozinheira, de forno e fogão, de panelas de ferro e de barro, uma Gabriela de cravo e canela, uma Dona Flor sem maridos aparentes. Decidi. Sua moqueca é de arrasar, seu xinxim é de se lamber os beiços, seu vatapá é um manjar de deus e do diabo, honra e glória dos Vidal Sotero, que fizeram história nos sobrados do Pelourinho, manera no dendê, minha filha, minhas entranhas não aguentam mais ta- manha perdição, já basta o acarajé que me ofertaste e a pimenta que me ardeste.

Cristina Vidal Sotero já é íntima. Juro que descubro seu paradeiro. Vou de rua em rua nas redondezas, de soleira em soleira, curioso tenaz, encontro enfim a dona de história tão rica, dotes tão saborosos, sorriso generoso e um corpo surpreendente, esculpido por Jorge Amado. E me esvai a fala, aflauto a voz.

Você é Cristina Vidal Sotero?

Sim, senhor.

Estou mais perdido que seu documento.

O

senhor achou?

O

destino achou.

Então entra, tem recompensa, vem provar o gosto que a baiana tem.

E diante de tantos encantos noite adentro, ouso retribuir com um mimo.

Cristina, sou herdeiro único de uma tia abastada, que me deixou um domaine na Normandia.

Um quê, moço?

Um castelo na França, entendeu agora?

Pois prossiga, senhorinho formoso.

Indo direto ao ponto: quero levar você

para morar comigo nas terras dos bons vi- nhos, da culinária soberba e das vacas pre- miadas.

Mas eu não cozinho em francês, seu dotô.

Vai como minha mulher, há quem obede- ça a suas ordens naquela vida boa.

E se eu sentir saudade do tempero da

Bahia?

Mando trazer de avião.

E se painho der por minha falta?

Vem de avião também.

E como fica o calor da nossa terra?

Te aqueço, minha deusa, nos meus braços, nos meus abraços.

Mas não tenho CPF para tirar passaporte, moço, esse não presta mais.

Danou-se. Olho o documento encardido

e inútil. Penso em entregar a um Guarda

Municipal – deve haver uma porta escrita Achados e Perdidos em alguma repartição da Prefeitura. Imagino carregá-la no bolso, para sempre comigo, tenho tia abastada nada, sou um impostor, mas ofereço minha gaveta de moradia, meu quarto e sala é a Bahia, minha cama é o Pelourinho, me açoita, morena, vem, morena, vem seguir os desígnios dos santos do acaso, dos anjos dos sonhos, dos deuses da chuva.

Para tudo. Quem vem vindo agora é o

ônibus lotado de realidade e juízo. Escapando entre meus dedos, deixo Cristina carinho- samente no meio fio de onde veio. No pau, na pedra, no resto de toco, no toco sozinho.

E sigo, e subo, e suspiro, e sento no último

banco. Estico meus olhos àquele documento, que, acho, me olha também. Fecha o sinal da esquina, providência para um teimoso raio de olhar. Vejo na rua que ficou para trás um gari de perna fina, moroso e indiferente, passando a chuva a limpo, parando e olhan- do para um reles CPF jogado no chão. Antes da vassourada de misericórdia, ele se abaixa, pega e lê: Cristina Vidal Sotero.

Tenho vontade de botar a cabeça pra fora da janela: tira a mão daí, moleque!

Contos Otávio Martins o CataVENto ma LuCo Nunca perguntou ao pai porque a es- colha
Contos
Otávio Martins
o CataVENto ma
LuCo
Nunca perguntou ao pai porque a es-
colha de um tango argentino. Sua mãe,
ele bem o sabia, aquiescia a todos os seus
caprichos, e era de fazer-lhe companhia pelo
simples hábito de permanecerem juntos em
quase todos os momentos de lazer.
Morocho, como era carinhosamente chama-
do pelos porteños, logo começaria a contar
história de um grande amor, na inesquecí-
vel gravação de 1923.
a
À tardinha, o seu pai costumava colocar
na eletrola sempre o mesmo disco de Gar-
del – “uma relíquia!”, como costumava dizer
para, em seguida, sentar-se na sua pol-
trona preferida. Tudo parecendo mais uma
encenação da primeira vez em que escutou
junto com sua mãe, supunha – a belíssima
Quase encostada na parede do lado de
dentro da grande varanda, a eletrola, instala-
da num lindo móvel de três compartimen-
tos, todo em madeira envernizada, ganhava
um toque colorido por uma tela aveludada,
verde-escuro; o tecido, pespontado por fios
dourados, servia para cobrir o nicho onde
estavam instalados os alto-falantes. Dali
surgiriam os sons que impregnariam todo
composição de Gardel, Razzano e Celedonio
Flores.
o
ambiente com uma das mais conhecidas
músicas do cancioneiro argentino.
Nem lembrava direito desde quando os
acompanhava naquele ritual – quase um
culto à nostalgia. Enquanto o vinil era, cui-
dadosamente, colocado no prato da eletrola,
sua mãe e ele tomavam assento nas outras
duas poltronas e, sem qualquer palavra,
aguardavam os primeiros acordes da intro-
dução do Mano a Mano. Carlos Gardel, El
A iluminação da varanda, que tinha todo
um lado envidraçado, era proporcionada
pelas réstias que escapavam do sol a se pôr
detrás do quintal, atravessando por entre os
galhos e as folhagens das enormes figueiras
e
um imponente abacateiro. Não se atinava
para outros detalhes, como se todo o am-
biente fosse preenchido apenas pelo som
que vinha da eletrola e por aqueles tênues
raios de sol, além dos três personagens
http://www.flickr.com/photos/fiverweed/5265610106/

que permaneciam imóveis

e silentes durante toda a audição.

Logo após a última nota do Mano a Mano, o tem-

po retomava ao seu curso

e cada qual ia para o seu

canto. Enquanto seus pais encaminhavam-se vagaro- samente para o interior da casa, ele, num gesto quase autômato, dirigia-se ao seu quarto, que também lhe ser- via de estúdio. Localizado do lado esquerdo da varanda, quase chegando aos fundos da casa, a porta permanecia quase sempre fechada. Nem mesmo a senhora, que ainda vinha de vez em quando para dar um jeito na casa, entrava em seu quarto. Ele mesmo se encarregava de arrumá-lo. Não obstante, era de fazer-lhe algumas confi- dências.

De sua janela ele po- dia estender a vista além do quintal, até alcançar os trigais que o sol – recém passada a primavera e já nos primeiros dias de calor – ba- nhava com uma luz intensa, já ao tempo da colheita, dando-lhes a aparência de pequenas ondas douradas que corriam em direção ao horizonte. Durante o outo- no e o inverno, boa parte da terra ficava em descanso para outras safras, deixando

otávio martins

um vazio de aspecto triste,

talvez pela ausência da ve- getação e de algumas flores que só voltariam na próxi- ma primavera.

Do lado de fora, nada, ou

quase nada, se ouvia depois que ele trancava-se no quar- to. Espalhados pelo pequeno cômodo, enormes bonecos traziam entre as mãos cada um o seu instrumento: violi-

nos, violas, celo, postando-se, assim, como uma orquestra de câmara. Todos vestidos ao rigor de uma grande apresentação. Somente ele ouviria, através dos fones,

a música que passaria por

um amplificador de alta- fidelidade, trajando o melhor

de seus figurinos para a ocasião; tinha caídos, sobre os ombros, os cabelos soltos

e desalinhados, precocemen-

te grisalhos. Após alguns instantes de concentrado silêncio, com a voz baixa, dirigia-se aos outros compo- nentes da pequena orquestra, iniciando a contagem que definiria a divisão e o an- damento para os compassos que surgiriam ao erguer a batuta, num gesto de extre- ma delicadeza e elegância, iniciando a regência de uma das mais belas músicas de Mozart.

Depois que a mãe mor- reu, talvez por costume,

ainda acompanhava o seu pai nas audições do tango de Gardel, as quais continu- aram acontecendo por todas as tardinhas.

Em algumas manhãs, era de transpor os limites do quintal para ficar próximo à plantação de trigo e dos canteiros de girassóis que a circundavam e ali permane- cer, por longo tempo, imóvel, na feição de um espantalho, hipnotizado pelo espetáculo de luz e movimento.

Com o mesmo entusias- mo que regia a pequena orquestra, dedicava-se à

construção do seu catavento, de grandes dimensões, que ele chamava de circuladô de fulô, nome que apren- dera numa das canções de Caetano Veloso. Acreditava

que a sua engenhoca ainda o levaria, como as asas de um beija-flor, em meio a uma noite estrelada, muito além dos trigais e dos canteiros de girassóis.

No dia em que não mais precisou fazer com- panhia ao seu pai, para ouvirem o francês Charles Romuald Gardés – o verda- deiro nome de Carlos Gardel – numa de suas mais belas interpretações, trancou-se na velha casa e nunca mais foi visto pela vizinhança.

68 anos, fotógrafo, mantém um jornaleco eletrônico, O Spam. Trabalhou na TV Tupi, TV Cultura de SPaulo, produção de shows (Adoniran, Paulinho Nogueira, Eduardo Gudin, Márcia, Roberto Riberti, Tom Zé e outros); Festival de Verão do Guarujá, 1980 e Festival MPB Universitário, TV Cultura 1979, assistente de produção. Cozinheiro profissional, compositor MPB, música e letra.

Contos d EPuraÇÃo Silvana Michele Ramos A apuração dum crime de corrup- ção acadêmica passado
Contos
d
EPuraÇÃo
Silvana Michele Ramos
A apuração dum crime de corrup-
ção acadêmica passado numa academia
consistiu no seguinte: requisitou-se que
a
academia onde o crime de corrupção
acadêmica se tinha passado forneces-
se aquilo de que estava de posse sobre
esse crime de corrupção acadêmica
nela passado, o que a academia onde
o
crime de corrupção acadêmica se
tinha passado efetivamente fez, inclusi-
ve prontamente, fornecendo justamente
aquilo de que estava de posse sobre esse
crime de corrupção acadêmica nela
passado, e como a academia onde o
crime de corrupção acadêmica se tinha
passado efetivamente forneceu aquilo de
que estava de posse sobre esse crime de
corrupção acadêmica nela passado, in-
clusive prontamente, e como aquilo de
que ela estava de posse sobre esse crime
de corrupção acadêmica nela passado
não constituiu convicção suficiente de
que se tinha passado crime de corrup-
ção acadêmica nessa academia, a apu-
ração foi finalizada, o caso em comento
tendo sofrido arquivamento.
Silvana michele ramos
Natural de Belém, onde estudou Medicina, Inglês e Alemão. Ao longo da graduação em Medicina,
publicou 57 textos científicos em congressos e outros eventos médico-científicos. Iniciou carreira de
escritora em 2006 e possui, até o momento, onze distinções em certames literários.
http://www.flickr.com/photos/merlin1487/5518280677/

Contos

adivinho,

detetive

ou fofoqueiro

adivinho, detetive ou fofoqueiro
adivinho, detetive ou fofoqueiro
Contos adivinho, detetive ou fofoqueiro Roberto Klotz http://www.flickr.com/photos/anabadili/551898740/ 32 SAMIZDAT
Contos adivinho, detetive ou fofoqueiro Roberto Klotz http://www.flickr.com/photos/anabadili/551898740/ 32 SAMIZDAT

Roberto Klotz

http://www.flickr.com/photos/anabadili/551898740/

Jovem — Posso me sentar? — pergun- tou ao senhor grisalho.

von Silva — Por favor, fique à vonta- de.

J — Se o senhor se incomodar, posso me sentar em outra mesa.

vS — Oras, não é nenhum incômodo.

Acho melhor almoçar acompanhado a ficar só. A mesa é pequena, mas sufi- ciente para nós dois.

O mais moço encheu o garfo duas

vezes de peixe frito e falou sobre a vitória do seu time no jogo da noite anterior. Mais duas garfadas de arroz e comentou sobre a impunidade em to- das as esferas do governo. Comeu uma rodela de tomate e criticou o galã da novela. Tomou um gole de suco de aba- caxi e se desculpou por ter chutado a mesa desequilibrada no chão irregular da calçada.

Assim, entre mastiga, mastiga, mas- tiga, engole, o moço falou de música erudita a guerras no Oriente Médio. Foi de Nelson Rodrigues e Cecília Meire- les. E voltou de Sófocles e Platão.

O senhor de cabeça branca concor- dava ou discordava discretamente, com gestos suaves, sem dizer palavra.

J — Desculpe senhor, acho que falei

demais. Tomei a palavra e não larguei. Estamos sentados aqui já há algum tempo e sequer me apresentei

vS — Não há nenhum problema, Gil-

berto. A solidão nos leva a esse tipo de comportamento. Isso é absolutamente normal nos casos como o seu.

J — Como assim? De onde o senhor me conhece?

vS — Você sentou-se à minha frente há meia hora.

J — Em momento algum falei meu nome. Como sabe meu nome?

vS — Está escrito no seu crachá.

J — E esse negócio de solidão? Eu não

falei da minha vida particular. Caso como o meu? Por que acha que estou

solitário? Leu no meu crachá?

vS — Havia tantas mesas vazias. E você escolheu a que eu estava para ter companhia. Poderia ter escolhido aquela próxima à televisão. Mas prefe- riu gente. A televisão é sua companhia noturna. Você está só e continua apai- xonado por aquela que o deixou.

J — O senhor está semeando verde para colher maduro

vS — Olhe para aquela mesa com

aquela mocinha

você. Não é atraente?

J — É sim, e daí? O que tem a ver comigo?

vS — Você poderia ter escolhido aquela mesa. Seria uma companhia muito mais interessante. Significa que não está à procura de mulher. E sei que está sem nenhuma.

J — Como sabe que estou sem mu-

lher? Só porque fico vendo tevê? Onde o senhor leu isso?

Pouco mais nova que

vS — Na sua camisa.

J — Não entendi. Escrito na minha camisa?

vS — Sim. Você está usando a mesma camisa há vários dias.

J — Ela está cheirando?

vS — Não. — respondeu sério — Ela não foi passada e está manchada.

J — Isto não quer dizer nada.

vS — Quer dizer que você almoçou aqui na terça-feira e ontem com a mes- ma camisa.

J — O senhor também almoçou aqui?

vS — Não. Esta é minha primeira vez. No cartaz está escrito que, às terças, servem nhoque, e às quartas, feijoada.

E na sua camisa há molho de tomate e restos de feijão.

J — E o que mais, ó grande Sherlock,

o senhor vê na minha camisa?

vS — Vejo que você já teve um bom emprego e que agora está financeira- mente prejudicado.

J — A mancha deveria ser de estro- gonofe com champignon?

vS — Você está usando uma cami- sa social com seu monograma, GBAS, bordado no bolso. A gola e os punhos estão bem gastos. A sua linguagem e modos finos contrastam com a cami- seta vermelha por debaixo da camisa social. Noutras épocas, provavelmente, usaria um casaco para se proteger do

roberto Klotz

frio.

J — O senhor é adivinho, detetive ou

fofoqueiro? O que mais andou reparan-

do?

vS — Que agora é pedestre, sem car- ro. Só anda a pé ou de ônibus.

J — O senhor é totalmente maluco. A troco do quê eu não teria carro?

vS — O chaveiro que você colocou sobre a mesa não tem chave de carro.

E não se exalte, sua pressão vai subir mais ainda.

J — Pressão? O que o senhor sabe da minha saúde?

vS — Você despejou o saleiro sobre

sua comida, isso provoca pressão alta e aquela quantidade de malagueta sobre

o peixe frito provoca hemorróidas.

Gilberto, sem dizer mais nada, levan- tou-se e foi pagar a conta. Ainda pegou um café, quando viu seu companheiro de mesa se aproximar.

Com muita raiva, jogou o café no velho e perguntou provocativo:

J — E aí, sabe-tudo, o que achou?

vS — Achei sem açúcar.

Extraído do livro Cara de crachá de Roberto Klotz. Edição do autor, 2011

autor dos contos e crônicas de Pepino e farofa, Quase pisei! e Cara de crachá. Com linguajar leve, dinâmico, bem-humorado e finais surpreendentes foi premiado em mais de 20 concursos literários. Promove oficinas e palestras sobre a escrita. Jurado de concursos literários. É conselheiro de cultura em literatura da Secretaria de Cultura do DF. Participa do Núcleo de Literatura da Câmara dos Depu- tados. Recebeu elogios de Moacyr Scliar e Ignácio Loyola Brandão. Produziu 40 crônicas semanais ininterruptas sobre notícias publicadas no jornal. Está em robertoklotz.blogspot.com

Contos avessa ( o ) Sara Meynard Parecia que aquela seria mais uma das noites
Contos
avessa ( o )
Sara Meynard
Parecia que aquela seria mais uma
das noites em que se vai dormir com
quase quatro mil coisas na cabeça.
Deitei-me ainda cedo, com o objetivo
que o sono fosse mais proveitoso do
que enfrentar a madrugada fria.
covardia. Mas é que depois de tantas
feridas o corpo quer é sossego. Mesmo
que eu fosse covarde e me tendesse
para as pessoas, aquilo era muito mais
forte, era conforto.
Aquilo já era de costume, os sons dos
carros e motos na avenida invadindo o
meu quarto me embalavam e me fa-
ziam companhia. As luzes penetravam
inquietas pelas grades da janela, fazendo
com que minha escuridão fosse menor.
Todo aquele barulho me fazia sentir
mais em casa do que se eu estivesse no
silêncio de mim. Talvez fosse medo; ou
Mas não importava o meu conforto;
as feridas ainda estavam lá, mesmo que
não ousasse nem pronunciá-las. Igno-
rei. Segurei o ar com uma das mãos,
e movi a outra misteriosamente, como
se não soubesse onde fosse parar, até
que as duas se encontraram e se visita-
ram por dentro. Meu próprio calor me
aquecia, o corpo se repartia em dois,
transformando a solidão em duas, que
http://www.flickr.com/photos/josephstory/5908033496/

se ligavam. Que fosse só um disfarce, não importava.

Quando criei coragem para fechar os olhos e ver todos aqueles pesos, e mi- nhas pálpebras começaram a se fechar na mesma lentidão do pôr do sol, com todos os raios indo embora, o corpo se preparando para a noite, a vida recuan- do como se tivesse medo, nada veio. Eu até me assustei, mas já cansada, achei agradável e afundei na cama com a for- ça de um lutador.

Foi quando ela entrou. A porta do quarto se abriu devagar, e embora nenhum feixe de luz a acompanhasse, via sua silhueta claramente. Eu poderia falar que fiquei com medo, mas a verda- de é que eu não reconhecia perigo em uma companhia para a noite. Mesmo que fosse estrangeira; eu não poderia saber o motivo de temer aquilo, era estranho demais para mim.

Meus olhos no começo se arrega- laram; mas logo foram se fechando, à medida que ela ia chegando mais perto, e era tudo tão devagar que parecia ter todo tempo do mundo. Ao contrário dos dias corridos que se passavam em sufoco, naquela noite os acontecimen- tos foram se entrelaçando de maneira tão lenta, que era possível ver e sentir todos os fios soltos, e todos os fios que se uniam na construção do que agora narro nesse conto póstumo. Póstumo sim, pois alguma coisa morreu aquela noite.

Meus lençóis eram brancos, mas eu juro que acordaram vermelhos. Não me lembro em momento algum de haver sangue; nem dor. Pelo contrário, era uma paz tão grande que eu fechei mesmo os olhos – mas tenho certeza que não dormi, pois os abria sempre – e até comecei a gargalhar de prazer com aquela coisa se movendo em meu quarto.

A sombra dançava; os pés esticavam

e encurvavam; tinha a habilidade de

uma bailarina. Não me lembro que rou- pa usava, e nem se usava. Mas ela veio e se sentou ao meu lado. Agarrou minhas mãos, e as segurou assim como esta- vam: juntas. E sem falar nada, veio me pegando, me passando, me aninhando, com o mesmo calor do ventre mater- no e o mesmo prazer das mais fiéis ou infiéis amantes.

Eu não pensei muito aquela noite. Na verdade não pensei nada. Por isso não tive medo da respiração pesada no meu ouvido, das mãos que me rodeavam. E não deveria mesmo ter. Era tudo o que

eu esperava, meu avesso estava ali: e me segurando, apalpou meus arranhões, minhas marcas, meus vermelhões, roxos

e tudo mais que um dia houvera me ferido .

Só sentia minhas gargalhadas agora. Gargalhávamos juntas. Aquela sombra e eu. Rindo alto da vida que passava, do

tempo indecoroso, das ruas inacessíveis,

das roupas desnecessárias

muito mais. Era eu, e o avesso. A avessa.

Não me lembro quando dormi, e nem sei mesmo se dormi. Sei que quan- do abri os olhos, estava sozinha de novo. Mas já não me sentia assim. Era como se ela ainda estivesse ali, comi- go, como se tivesse se tornado parte de mim. Não; já era parte de mim antes. Eu só a achei.

E no riso fugido da noite, eu acordei ainda com os dentes de fora. A sen- sação de luto me tomava ao mesmo tempo em que o sol raiava forte. Nun- ca soube o que morreu aquela noite, e nunca nem procurei saber. Só sei que se perderam na sua inutilidade todas as quatro mil coisas, e eu tinha lençóis novos.

era tudo e

Contos Edweine Loureiro Co LE t IVo Toca o buzão motorista, esse ônibus passa no
Contos
Edweine Loureiro
Co
LE
t
IVo
Toca o buzão motorista, esse ônibus
passa no Largo, licença dona, tô indo pro
trabalho…
Pode baixar o som cumpadi, tu num tá
no ônibus sozinho, qual é seu mané, vai
encarar, Deus do céu, ele tá armado…
Sentou-se no banco de trás, o olhar
perdido. E agora, o que faria? Demitido,
endividado e três filhos para criar…
Tudo o que sabia é que, não im-
portando o que acontecesse, precisava
seguir vivendo. Amanhã mesmo…
Menina tu tá grávida, esse Botafogo
não tá mais com nada, viu o jogo ontem,
passa na praça sim senhor…
O que diria à esposa? Como reagiria
Mariana a uma notícia assim? Temeu
possíveis discussões; até mesmo a sepa-
ração.
Escapou pela janela o desgraçado, toca
pro hospital motorista, meu Deus, o tiro
pegou no peito, tá morto, não, ele tá ten-
tando dizer alguma coisa, silêncio gente,
pobre do homem, não tinha nada a ver
com a briga…
— Mariana…
Edweine Loureiro
Nasceu no Brasil em 20 de Setembro de 1975. É advogado, professor e reside no Japão desde
2001. Prêmios literários incluem: Primeiro Lugar na Categoria Crônica do 6º Desafio dos Escrito-
res (2010) e o Primeiro Lugar no V Concurso Crônica e Literatura – Prêmio Ferreira Gullar (Mi-
nas Gerais, 2011). É membro correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências (Rio
de Janeiro). Autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (Editora Litteris, 2000) e Clandestinos [e outras
crônicas] (Clube de Autores e Agbook, 2011).
http://www.flickr.com/photos/kdemetras/5816398/
Contos Zulmar Lopes Purgatório Está se vendo que você nunca se apai- xonou, não é,
Contos
Zulmar Lopes
Purgatório
Está se vendo que você nunca se apai-
xonou, não é, meu caro? Dizem que paixão
é uma coisa avassaladora, uma fábrica de
loucuras. O Frejat ilustrou bem isso naquela
música, como era mesmo a letra? Deixa pra
lá. Isto não deve ser do seu interesse, não é
mesmo?
Apesar de estar apaixonado, julgo que, o
que fiz por Lívia, não foi uma loucura de
amor, pensei inclusive estar agindo da ma-
neira correta e olha o que me aconteceu?
Aonde vim parar? Caso houvesse cometido
um desatino amoroso, certamente a história
teria sido outra e hoje estaríamos juntos e
felizes curtindo o nosso amor.
de garrafas e copos, sempre comandada aos
berros por aquela senhora de maus modos
que tudo fiscalizava por detrás da balança
onde os pratos eram pesados. “Lívia, não
esqueça o refrigerante do moço lá no fundo!
Vamos logo, menina, deixa de preguiça! Você
é uma estabanada mesmo, não serve pra
nada!” Elogios daquela mulher, eu creio que
minha amada nunca tenha ouvido.
Compunha o resto da família um sujeito
mal-encarado que ficava na caixa, invariavel-
mente trajando a camisa do Botafogo. Pouco
falava, muito grunhia para os clientes ao
devolver o troco.
Confesso que a primeira vez que eu a vi,
Lívia não me despertou a mínima atenção.
Mal a notei, diluída naquele vai e vem de
gente transitando dentro do restaurante de
comida a quilo da sua família. Na verdade,
eu estava faminto e os predicados do sexo
feminino me interessavam menos do que um
suculento prato de comida, baratinha, como
mostrava o cartaz do lado de fora do estabe-
lecimento.
Ela era a encarregada de servir as bebidas
do restaurante. Ficava de um lado para o
outro zanzando com uma bandeja apinhada
A comida não era grande coisa, mas por
aquele ser o restaurante mais próximo do
trabalho, tornei-me seu habitué e, pouco a
pouco, fui reparando na beleza rústica de
Lívia. Tinha o meu amor o rosto redondo,
sardentinho, decorado com dois olhos cha-
mativos, nunca soube ao certo serem verdes
ou azuis, e um cabelo cacheado, ruivo e há
tempos longe de um cabeleireiro. Seu cor-
po era de uma leve obesidade disfarçada
por uma coleção de calças jeans que mo-
delavam sensualmente os quadris. O busto,
farto, se escondia atrás das camisetas t-shirt
de algodão em cores e estampas berrantes.
http://www.flickr.com/photos/thejhop/117055834/

Aparentava pouco mais de 18 anos e uma enorme vontade em largar a escravidão fami- liar a que era submetida.

No final de uma semana eu já era um ho- mem apaixonado. Contudo, nossa aproxima- ção foi lenta e gradual. Trocávamos parcas palavras e fartos sorrisos maliciosos sempre que Lívia vinha servir-me o refrigerante. Certa vez, fui até audacioso e toquei de leve sua mão, enquanto ela depositava o copo so- bre a mesa. Lívia assentiu ao toque, contudo, não deixei de notar que ela procurou com os olhos certificar-se de que nem a mãe e o irmão haviam reparado em minha ousadia.

No dia seguinte à cena, ela disfarçada- mente deixou em minha mesa um pedaço de folha de caderno onde estava escrito “eu te amo” em garranchos quase infantis. A singela frase vinha acompanhada de dois corações entrelaçados mal desenhados. Feliz como um adolescente correspondido, guardei no bolso o recado ao mesmo tempo em que acompa- nhei com os olhos Lívia sumir em direção à cozinha do restaurante. Decidi que não pas- saria daquele dia mas, homem feito que era, desejei que as coisas fossem feitas às claras. Não estava em idade de namoros escondidos.

Resolução tomada, deixei a mesa onde costumeiramente almoçava e fui ao en- contro do irmão de Lívia. Ele parecia mais trombudo do que seu estado normal. A mãe encontrava-se a seu lado na caixa registrado- ra, certamente conferiam a féria do dia e não gostariam de ser incomodados, porém, eu tinha que falar com os dois acerca dos meus propósitos com a moça, como eu havia dito, desejava agir da maneira correta.

A senhora me recebeu munida de um sor- riso amável, pois já se acostumara com a mi- nha presença no restaurante. O botafoguense

zulmar Lopes

mal tirou os olhos das contas que fazia numa calculadora. As palavras jorraram da mi- nha boca descontroladas: “Bem, já faz algum tempo que almoço neste estabelecimento e só tenho elogios à comida aqui servida, mas, não é disso que desejo falar com vocês. É sobre Lívia. Sei que pode parecer estranho, mal nos conhecemos, mas, o amor tem dessas coisas. Sou um sujeito decente, respeitador

e minhas intenções com a menina são as

melhores possíveis. Preferi falar com os dois antes até do que com ela que, desculpem o modo de me expressar, já tem correspondido

a minha paixão. Gostaria de pedir permissão

a vocês para ”

Nunca imaginei que o botafoguense guardasse uma arma atrás do balcão. Ali- ás, deveria sim ter imaginado, pois a cidade andava muito perigosa naqueles tempos. Só não poderia supor que o sujeito era o ma- rido de Lívia e aquela senhora tratava-se na verdade da sogra da moça. Mas como é que

eu iria saber? Os três eram tão parecidos. O cara nem me deixou explicar o lamentável engano. Os tiros foram mortais. Nem cheguei

a experimentar sofrimento. Descobri que se

perde a consciência quase que imediatamen- te com várias balas alojadas no seu cérebro. Agora estou aqui, neste purgatório, esperando a minha triagem para a morada final. Você ainda vai demorar muito a decidir, meu caro? Veja bem. Fui um sujeito honesto, cumpridor dos meus deveres, bom cidadão. Apenas tra- ído por uma paixão arrebatadora, não sabia que Lívia era casada. Também, ela poderia ter me dito, não é verdade? O senhor é um anjo? É o responsável por este local? Amar a mulher errada não é um pecado que justi- fique minha passagem para o inferno, não é verdade? Poderia, por gentileza, avaliar com simpatia a minha situação?

Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem diversos prêmios literários com destaque para as menções honrosas no 11º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, 7º Concurso de Contos Luis Jardim e 23º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba. Vencedor do 33º Concurso Literário Felippe D’Oliveira na modalidade conto. Membro correspon- dente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”.

Contos doa-se um helicóptero. t ratar aqui. Leandro Luiz Doei minha casa, meu carro, meu
Contos
doa-se um
helicóptero.
t
ratar aqui.
Leandro Luiz
Doei minha casa, meu carro, meu iate, a
pousada do interior e a minha coleção de se-
los raros por uma boa causa, ou melhor, para
realizar um sonho: eu queria ser pobre. Olha,
foi um investimento a curto prazo que deu
muito certo, de dar inveja a qualquer econo-
mista de plantão.
para dormir. Tive que lutar contra tudo e
contra todos e, para piorar a situação, en-
frentando uma série crise pela falta de caviar
toda manhã.
Desde a minha infância, não aguentava a
vida que levava. Piscina, spa toda quinta-feira,
polo com o Clube dos Investidores de Petró-
leo, ah não, cansei. A minha vida era muito
chata, sempre regada a vinhos importados e
queijos caros. Troquei a escolta armada pela
liberdade, o condomínio de luxo por uma
modesta moradia e os restaurantes chiques,
ou chiquérrimo, como diz a minha tia-avó,
pelo delicioso churrasco grego do centro.
Com o suco grátis, diga-se de passagem.
Mas valeu a pena. Hoje estou realizado e
cheguei onde queria. Sou pobre e confesso
que, para chegar até aqui, foi um grande de-
safio. Duvida? Então, escuta essa: têm muitos
por aí que fazem mil promessas se ficarem
milionários. Dizem que vão fazer isso, com-
prar aquilo, largar o emprego, viajar e mais
um monte de blá-blá-blá. Agora, confesse:
você já viu alguém fazendo promessas caso
fique pobre? Tá vendo? Eu estou no per-
rengue e já tenho os meus projetos para o
futuro.
Estou agora com amigos verdadeiros, par-
ceiros para todas as ocasiões e “manos” (uma
gíria que aprendi na pelada aqui do bairro,
que prometo saber o que significa) incríveis.
Quero apenas ser feliz. Vou seguir a vida
cheio de alegria, cantando e, entre um cha-
ruto e outro, pedindo alguns trocados. Ué,
por que não? Afinal, eu podia tá comprando
empresas, gastando fortunas em joias, mas
estou aqui, na maior humildade, mano.
Chega de polo aos sábados, leilão aos
domingos, mocassim e roupa engomada até
Leandro Luiz
29 anos, é redator publicitário e, nas horas vagas, adora escrever sobre tudo e todos. Entre os
seus trabalhos literários, obteve três menções honrosas e, em 2011, foi destaque nacional no XVI
Concurso Literário Internacional de Poesias, Contos e Crônicas com a crônica “Chega de Au-Au”.
http://www.flickr.com/photos/hamsteren/2714583070/

Contos

rugas do

tempo

http://www.flickr.com/photos/bcmom/98545348/

do tempo http://www.flickr.com/photos/bcmom/98545348/ Juliano Ramos de Oliveira Saiu. A noite quente não lhe dava
do tempo http://www.flickr.com/photos/bcmom/98545348/ Juliano Ramos de Oliveira Saiu. A noite quente não lhe dava
Juliano Ramos de Oliveira
Juliano Ramos de Oliveira

Juliano Ramos de Oliveira

Saiu. A noite quente não lhe dava sossego, mas ânsias de partir. Partiu. O ar inflou-lhe o peito repleto de liberdade. Afastou-se da casa.

viajavam naquela hora. Reparou que um jovem muito próximo chorava em silêncio. Notando o olhar do velho, o rapaz controlou-se e ex-

Engraçado! Não voltaria. A certeza conduzia-

plicou-se sem que lhe perguntasse: “Desculpe-

lhe os passos. Engraçado! Imaginara-se sempre

me

minha esposa teve um parto difícil esta

tomando esta atitude num momento de angús-

noite

a criança se foi

a mãe também está

tias, mágoas. Mas não. Encontrava-se brando,

morrendo

me avisaram há pouco

e eu aqui,

os filhos com filhos e famílias a mais para se dedicarem. A esposa aposentada do professo-

preso nesta rodoviária. Não há ninguém para se pedir ajuda, este é o último ônibus para a

rado exercido com triunfo. Dona Glória de

minha cidade a tempo do enterro da criança e,

geografia sentiria sua falta, todavia toda dor

talvez, ver Maria viva

Entende minha aflição?

ameniza-se no todo dia.

Mesmo que saia pedindo

não há gente obas-

Partiu. No bolso algum dinheiro e o cartão

da “previdência” faziam-se suficientes. Buscava motivos para a fuga. Não há causas concretas? Há? Acordara no meio da noite com o suor que cobria-lhe o corpo. Levantou-se, observou o sono da esposa na semiclaridade vinda da fenda da porta. Ainda amava o vestígio da bela mulher de outrora. Deixou o cômodo. Apron- tou-se ligeiro. Fitou-se no espelho. Setenta e dois anos, envelhecera: as rugas do tempo cra- vadas na face avançada, os fios brancos doma-

vam as têmporas tempo?

Sentou-se, a passagem no bolso. Para onde? Não importava, escolhera um nome qualquer

na placa da cabine da empresa

está atrasado”, disseram. O atraso do carro arrastou-se na madrugada semideserta da rodoviária. O sono grosso empurrou-o sobre o banco convidativo, entregou-se

Acordou. Leu no ônibus o nome da cidade- destino. Não o perdera. Olhou a volta. Poucos

Seria a causa? As rugas do

“O ônibus

Juliano de oliveira ramos

tante para juntar o dinheiro

– Espere! – o velho vasculhou na carteira;

o dinheiro que trouxera não seria suficiente. Resolveu. Entregou-lhe a passagem que com- prara. – Vá você!

– Mas

senhor!?!?

– Pego o próximo, não importa se me atra- sar. Vá! Você tem mais pressa. Vá!

O rapaz resplendeceu, apertou-lhe vigoro-

samente a mão agradecendo-o e correu para o

veículo.

O velho pensou com saudade súbita na sua

vida de sempre, na família bem viva, criada, se- gura, na sua glória: Dona Glória de geografia

– Deus lhe abençoe! – disse o jovem da janela, acenando expansivamente.

– Amém! – murmurou o velho apiedado

do jovem em quem as rugas da vida se faziam

profundas e prematuras no tempo.

Nasceu em 1977 e vive na cidade de Avaré – SP – Brasil. Formado em Letras (Português/Inglês/ Espanhol), atua como professor efetivo na rede pública do estado de São Paulo em dois cargos. Além de educador, trabalha como ator e diretor teatral há mais de 10 anos, tendo atuado e diri- gido mais de 15 espetáculos. Escreve desde muito cedo. Portanto, além dos livros publicados pelo CLUBE DE AUTORES e AGBOOK, tem seus textos publicados em antologias e jornais literários de sua cidade natal e região.

http://www.flickr.com/photos/simoom/11178416/

Contos

Contos

m
m

inha vida,

meu pesadelo

inha vida, meu pesadelo
inha vida, meu pesadelo
Contos Contos m inha vida, meu pesadelo Sonia Regina Rocha Rodrigues http://www.flickr.com/photos/jen_lipp/5185981815/
Contos Contos m inha vida, meu pesadelo Sonia Regina Rocha Rodrigues http://www.flickr.com/photos/jen_lipp/5185981815/
Contos Contos m inha vida, meu pesadelo Sonia Regina Rocha Rodrigues http://www.flickr.com/photos/jen_lipp/5185981815/
Contos Contos m inha vida, meu pesadelo Sonia Regina Rocha Rodrigues http://www.flickr.com/photos/jen_lipp/5185981815/
Sonia Regina Rocha Rodrigues
Sonia Regina Rocha Rodrigues
Sonia Regina Rocha Rodrigues

Sonia Regina Rocha Rodrigues

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Não adianta trancar as portas e as janelas.

O inimigo já se instalou.

Como dizia Nietzsche: “Procuravas o fardo mais pesado e te encontraste a ti mesmo

Não podes mais libertar-te de ti mesmo

como eu bem compreendo as palavras de Za- ratustra! Eu sempre soube, desde bem pequena,

que o meu pior inimigo mora dentro de mim.

Neste momento mesmo, pode estar à es-

preita

Escrevi na porta de meu quarto minha frase favorita de Edgar Allan Poe: “A desgraça é variada. O infortúnio sobre a terra é multifor- me.”

”.

Ah,

E eu me sinto tão desprotegida!

E não conheço infortúnio maior do que ser

um personagem de Kafka, condenado, eu o sei,

a tornar-se um matricida.

Ah! Como eu entendo Kafka!

Todo filho único de mãe perfeccionista entende Kafka.

Condenado sem culpa antes de qualquer julgamento, o filho único de mãe perfeccio- nista jamais conhecerá a metamorfose que o tornaria humano.

É execrado pelos colegas desde o berçário

por sua precocidade genial e seu vocabulário

corretíssimo.

Este menino ou menina aos quatro anos de idade faz um rabisco à la Picasso usando cores como Matisse, em vão. Sua mãe torce o nariz:

‘para sua idade, até que está bom ’

Aos sete, ele ou ela desenha usando pers- pectiva, planos de fundo e sombreado que

obedece rigorosamente a posição da luz. Nem

os pintores italianos anteriores a Da Vinci

coloriam tão bem, porém a mãe boceja com enfado: ‘razoável’.

Em vão esta criança se aplica aos estudos.

Sonia regina rocha rodrigues

Se tira nove, poderia fazer melhor, se tira dez, não fez mais do que sua obrigação.

Se atleta, ao exibir orgulhoso o título de campeão estadual, ouve da mãe o comentário:

‘o campeão brasileiro, na sua idade, bateu o recorde mundial e o campeão sul-americano é mais novo que você’.

Ela nunca aplaude, para não ‘estragar’ o rebento.

Caso ganhe o ouro olímpico, a mãe afirma que ele está abaixo de suas possibilidades, que seu desempenho poderia ter sido melhor, pois ela, que o criou, sabe como ele é preguiçoso, contentando-se com um resultado inferior a seu potencial.

Quando a cumprimentam, ela recebe os louros especificando quantas horas sacrificou- se acompanhando o herdeiro a treinos e com- petições, frisando o quão dedicada foi e ainda é, saboreando sua fatia no triunfo do filho.

Filho que trocaria todos os prêmios, troféus, diplomas e medalhas pelo único elogio que ela nunca pronunciará.

E se um dia, ele, desesperado, pular no

pescoço da mãe, apertando, estrangulando, sa- cudindo, confirmará ser um filho ingrato que não reconhece o quanto ela faz por ele.

E eu sinto todos os dias estes impulsos agressivos.

Fico atento, vigilante, como aconselha a Bíblia, surpreendendo minuto a minuto os pensamentos furiosos do meu demônio inte- rior, intentando contra a vida da minha mãe. Sonho que estou com a faca nas mãos, tinta do sangue dela, e imagino inúmeras maneiras de assassiná-la. Acordo suando frio, sabendo que, um dia, perderei a batalha, e o demônio guiará minha mão, que se tornará a mão de um criminoso.

nasceu em 1955 no Brasil, em Santos, cidade histórica, espremida entre o mar e a serra, de clima instável, onde todas as estações do ano podem ocorrer no mesmo dia, e ocorrem. A partir de 1993 começou a divulgar seus textos, em vários periódicos nacionais e informativos de gru- pos literários. Participou do grupo editorial Um Dedo de Prosa e é autora dos livros: os romances Rosa, A fantástica experiência de Carolina Helena, Viagem ao Canadá, Dias de Outono, Encontro com a Deusa; Uma casa no interior – infantil; Dias de Verão – contos e crônicas.

Na internet, foi considerada uma das melhores prosadoras do site Blocos Online em 2004.

página pessoal - http://alegriadeler.blogspot.com

http://www.flickr.com/photos/houseofmiao/6697695293/

Contos

http://www.flickr.com/photos/houseofmiao/6697695293/ Contos marta e o gosto do tempo Fernanda Cristina de Paula Noite. O

marta e o gosto do tempo

marta e o gosto do tempo
marta e o gosto do tempo
Fernanda Cristina de Paula
Fernanda Cristina de Paula
Fernanda Cristina de Paula

Fernanda Cristina de Paula

Contos marta e o gosto do tempo Fernanda Cristina de Paula Noite. O estacionamento muito escuro.

Noite. O estacionamento muito escuro. Parou o carro e olhou-se pelo retrovisor. Ela esqueceu de pentear o cabelo. Mas não fazia tanta diferença. O cabelo liso e pesado, bagunçado desse jeito, ia parecer só char- me – ponderou. E olhando os próprios olhos orientais (irritados e sem maquiagem) mur- murou: charme de merda.

Seria justo tirar da boca aquele batom roxo (seu preferido), que passara às pressas. Mas desistiu da ideia.

Subitamente, se apressou: jogou os óculos e as chaves de casa de qualquer jeito dentro da bolsa e saiu com rapidez do carro. Char- me de merda.

Entrou no bar.

* * *

Estavam em pessoas nove no bar. Ela sorriu da piada que o Alexandre contou, mas virou delicadamente o rosto. Ao menos sorria.

Por todo o tempo, escorregava casual- mente os dedos pelo copo. E sorria, sempre suave.

Estavam em nove pessoas, não consegui- ram mesa. Estavam amontoados ali, junto ao balcão. Ela, sentada na banqueta (sempre sorrindo, simpática e delicada) tinha uma visão privilegiada de Marta, no meio da roda de amigos.

Marta insegura, tapada e mal resolvida.

Marta que se pensava mulher interessante, só porque se fazia sexualmente liberal. A bartender era a Leila. Leila, A Estranha (co- chichou maldosamente pra Roberta). Nor- malmente, tinha dó de Marta. Mas, nesse dia, sentada junto ao balcão, afundada na meia escuridão, Marta parecia lhe reluzir (esfu- ziante em sua vulgaridade de mulher mo- derna). Marta ao rir e conversar com todos e alisar constantemente o cabelo (charme de merda) reluzia de idiotice e falta de noção.

Passou com urgência a mão no próprio cabelo bagunçado; ainda desejosa de arran- car o batom. Sorria suave pra esconder seus bufos de impaciência. E desviava o rosto. Leila, sobrinha da prima de segundo grau do tio da cunhada do Edvaldo. Magrela e feia de doer: Leila, sempre sorrindo, atenciosa.

Queria tirar o batom. Escorregando os dedos lentamente pelo copo, ponderou que se ficasse bêbada acabaria dando pro sujo do Alexandre. E se ficasse bêbada acabaria (totalmente absurda e etílica e cambaleante) levando Marta para algum canto.

Se ficasse bêbada, tinha certeza, acabaria com a fala engrolada, tentando explicar cal- mamente à Marta: Que Porra Marta para de oferecer essa bunda pra todo mundo. Para, Marta! Você ‘tá fazendo a droga toda erra- da. Não vê, Marta? Não vê? Caralho, Marta, você não vê? Nenhum deles (os que te come- ram ou não) te respeitam. Eles nem fingem, Marta, nem fingem que te dão a porra d’uma atenção. Para de oferecer essa bunda feia pra todo mundo! Mas que caralho, Marta! Não vê? (a voz engrolada, os olhos dançando de bêbada). Você, pra eles, não é uma liberal, é só uma vagabunda fácil e suja com diploma de economista. Marta, eles são uns machistas tapados e sujos. Marta? (com voz de bêbada triste diria) Marta? Vai tomar no cu, Marta! Não vê?! Não vê?! (chacoalhando Marta pelo braço; Marta chorando; ela mesma choran- do, bêbada, derrubando a vodka do copo na roupa; Alexandre mandando-a soltar Mar- ta; Alexandre querendo levá-la embora pra comê-la, ela também como Marta: vagabun- da, fácil e suja).

Ela sorri da terceira piada que Luciano conta. Pondera internamente que não deve ficar bêbada. Ao mesmo tempo, escuta (per- feitamente atenciosa) Sandra contar sobre

a gravidez da Luana. Sorri suavemente nas

partes bonitas ou engraçadas da história:

sempre simpática em sua perfeita delicadeza oriental. O cabelo bagunçado e os olhos des- cuidadamente (mas eternamente) pousados no próprio copo. Se ficasse bêbada, pensa consigo mesma, seria um desastre. Seus dedos descem e sobem pelo copo: lentos de reflexão.

Nunca fora amiga da Marta. Às vezes, pas- sava horas escutando as lamúrias dela, via-a apenas uma ou três vezes a cada dois meses. Alardeava a dó que tinha da Marta (a vaca insegura) para quem quisesse ouvir.

Pega o guardanapo e, discretamente, tira

o batom da boca. Fora besteira ir ali. Não

suporta o próprio batom. Não tem força pra um sorriso genuíno. E Marta, inocente, reluz feito seu novo objeto de ódio na meia escu- ridão.

Adriano começa uma piada de japonês, percebe a gafe e faz um cumprimento orien- tal para ela, à guisa de desculpa. Todos riem; ela ri, faz sinal de que tudo bem, que ele podia continuar a piada. Sandra para a his- tória da gravidez da Luana pra ouvir a piada de Adriano. Ela sorri enquanto desvia sua- vemente o rosto. A Marta ri pra uns caras, ri, se jogando, se oferecendo. E observando Marta, ela fica brava ao ter a certeza de que acabará bêbada, gritando com Marta, dando pro Alexandre. Os olhos ardem com a força de segurar um choro ridículo. Ela bebe um gole e sorri para ninguém.

Leila, A Feia, prepara alguma bebida estra- nha. Leila percebe o olhar dela e oferece a bebida dizendo:

— Essa é grátis.

Ela sorri, pega o copo.

— É feito do quê?

— Prova primeiro.

Mentalmente, ela xinga Leila e ri (não queria a porra da droga de bebida nenhuma). Toma a tal da bebida. Engasga, tosse, cospe. Põe raiva na voz ao reclamar:

— É amargo.

Leila sempre-feia-simpática responde cal-

mamente:

— Feito teu tempo.

http://www.flickr.com/photos/biggreymare/5513025399/

tradução

tradução Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho a Galinha
Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho

Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho

tradução Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho a Galinha degolada 46 46 SAMIZDAT fevereiro de 2012

a Galinha degolada

46 46

SAMIZDAT fevereiro de 2012

SAMIZDAT fevereiro de 2012

Todo o dia, sentados no pátio em um banco, estavam os quatro filhos idiotas do casal Mazzini-Ferraz. Tinham a língua en-

tre os lábios, os olhos estúpidos e viravam

a cabeça com a boca aberta.

O pátio era de terra, fechado a oeste por

um muro de tijolos. O banco ficava parale- lo a ele, a cinco metros, e ali eles se man- tinham imóveis, fixos os olhos nos tijolos. Como o sol se ocultava atrás do muro, ao declinar os idiotas faziam festa. A luz que cegava chamava a atenção deles, a princí- pio, pouco a pouco seus olhos se anima- vam; riam-se, por fim, estrepitosamente, congestionados pela mesma hilariância ansiosa, olhando o sol com alegria bestial,

como se fosse comida.

Outras vezes, alinhados no banco, zum-

biam por horas inteiras, imitando o bonde elétrico. Os ruídos fortes sacudiam assim

a inércia deles, e então corriam, morden-

do a língua e mugindo ao redor do pátio. Mas quase sempre ficavam apagados numa sombria letargia de idiotismo, e passavam todo o dia sentados em seu banco, com as pernas suspensas e quietas, empapando de glutinosa saliva a calça.

O maior tinha doze anos e o menor, oito.

Em todo o aspecto sujo e desvalido deles, notava-se a falta absoluta de um pouco de cuidado maternal.

No entanto, estes quatro idiotas haviam sido um dia o encanto de seus pais. Aos três meses de casados, Mazzini e Berta orientaram seu estreito amor de marido e mulher, e mulher e marido, para um por- vir muito mais vital: um filho. Que maior benção para dois enamorados do que esta honrada consagração de seu carinho, li- bertado agora do vil egoísmo de um amor mútuo sem finalidade alguma e, o que é pior do que o amor mesmo, sem esperan- ças possíveis de renovação?

Assim o sentiram Mazzini e Berta, e quando o filho chegou, aos quatorze meses de matrimônio, acreditaram cumprida a felicidade. A criatura cresceu bela e radian- te, até que completou um ano e meio. Mas, no vigésimo mês, sacudiram-no uma noite convulsões terríveis, e na manhã seguinte

não conhecia mais seus pais. O médico o examinou com esta atenção profissional que está visivelmente buscando as causas do mal nas enfermidades dos pais.

Depois de alguns dias, os membros paralisados recobraram o movimento; mas a inteligência, a alma, até o instinto, se haviam ido de todo; havia ficado profunda- mente idiota, baboso, suspenso, morto para sempre sobre os joelhos de sua mãe.

— Filho, meu filho querido! — soluçava esta sobre aquela espantosa ruína de seu primogênito.

O pai, desolado, acompanhou o médico

até afora.

— A você se pode dizê-lo: creio ser um

caso perdido. Poderá melhorar, educar-se em tudo que lhe permita seu idiotismo, mas nada mais além.

— Sim! Sim! — assentia Mazzini — Mas,

diga-me: o senhor acredita que é herdado,

que ?

— Quanto a herança paterna, já lhe

disse o que acredito quando vi seu filho. A respeito da mãe, há ali um pulmão que não sopra bem. Não vejo nada mais, mas há um sopro um pouco áspero. Faça-a examinar detidamente.

Com a alma destroçada pelo remorso, Mazzini redobrou o amor por seu filho, o pequeno idiota que pagava os excessos do avô. Teve ainda que consolar, apoiar sem trégua Berta, ferida profundamente por aquele fracasso de sua jovem maternidade.

Como é natural, o casal pôs todo seu amor na esperança de outro filho. Nasceu este, e sua saúde e limpidez de riso reacen- deram o porvir extinto. Mas aos dezoito meses, as convulsões do primogênito se re- petiram, e no dia seguinte, o segundo filho amanhecia idiota.

Desta vez, os pais caíram em profundo desespero. Portanto seu sangue, seu amor estavam malditos! Seu amor, sobretudo! Vinte e oito anos ele, vinte e dois ela, e toda sua apaixonada ternura não conseguia criar um átomo de vida normal. Já não pediam mais beleza e inteligência como

para o primogênito, mas um filho, um filho como todos!

Do novo desastre brotaram novas labare- das do dolorido amor, uma louca ânsia de redimir de uma vez para sempre a santida- de de sua ternura. Sobrevieram gêmeos, e ponto por ponto repetiu-se o processo dos dois maiores.

Mas, por sobre sua imensa amargura havia em Mazzini e Berta uma grande compaixão por seus quatro filhos. Tiveram de arrancar do limbo da mais profunda animalidade, não mais suas almas, senão o instinto mesmo, abolido. Não sabiam deglu- tir, mudar de lugar, nem mesmo sentar- se. Aprenderam enfim a caminhar, mas chocavam-se contra tudo, por não se darem conta dos obstáculos. Quando os lavavam, mugiam até injetarem de sangue o rosto. Animavam-se apenas ao comer, ou quando viam cores brilhantes ou ouviam estrondos. Riam-se, então, pondo para fora a língua e rios de baba, radiantes de frenesi bestial. Tinham, em troca, certa faculdade imitati- va; mas não se podia obter nada mais.

Com os gêmeos pareceu haverem con- cluído a aterradora descendência. Mas pas- sados três anos desejaram de novo arden- temente outro filho, confiando que o longo tempo transcorrido houvesse aplacado a fatalidade.

Não satisfaziam suas esperanças. E neste ardente anseio que se exasperava em razão de sua infrutuosidade, azedaram. Até este momento cada qual havia tomado sobre si a parte que lhe correspondia na des- graça de seus filhos; mas a desesperança de redenção perante as quatro bestas que haviam nascido deles pôs para fora esta imperiosa necessidade de culpar os outros, que é patrimônio específico dos corações inferiores.

Iniciaram com a mudança de pronome:

seus filhos. E como além do insulto havia a insídia, a atmosfera se carregava.

— Parece-me — disse-lhe uma noite Mazzini, que acabava de entrar e lavava as mãos — que podia manter mais limpos os meninos.

Berta continuou lendo como se não hou- vesse ouvido.

— É a primeira vez — retrucou depois

de um tempo — que vejo você inquietar-se pelo estado de seus filhos.

Mazzini voltou um pouco o rosto para ela com um sorriso forçado:

— De nossos filhos, parece-me?

— Bem, de nossos filhos. Prefere assim? — ergueu ela os olhos.

Desta vez, Mazzini se expressou clara- mente:

— Creio que não vai dizer que eu tenha a culpa, não é?

— Ah, não! — sorriu Berta, muito páli-

da — mas eu também não, suponho! Não faltava mais! — murmurou.

— O que não faltava mais?

— Que se alguém tem a culpa, não sou

eu, entenda-o bem! É o que eu queria lhe

dizer.

Seu marido a olhou por um momento, com brutal desejo de insultá-la.

— Deixe estar! — articulou, secando en- fim as mãos.

— Como quiser; mas se quer dizer

— Berta!

— Como quiser!

Este foi o primeiro choque e se sucede- ram outros. Mas nas inevitáveis reconcilia- ções, suas almas se uniam com redobrado arrebatamento e loucura por outro filho.

Nasceu assim uma menina. Viveram dois anos com a angústia à flor da pele, espe- rando sempre outro desastre. Nada ocorreu, no entanto, e os pais puseram nela toda sua complacência, que a pequena os levava aos mais extremos limites do mimo e da má criação.

Se nos últimos tempos Berta ainda cuidava de seus filhos, ao nascer Bertita se esqueceu quase de todo dos outros. Só a recordação deles a horrorizava, como algo atroz que a houvessem obrigado a cometer. Com Mazzini, se bem que em menor grau,

passava o mesmo. Nem por isto a paz havia

chegado a suas almas. A menor indisposi- ção de sua filha os tirava agora de si, com

o terror de perdê-la, os rancores de sua

descendência podre. Haviam acumulado fel

de sobra para que, ao menor contato, o ve- neno se vertesse para fora do copo. Desde

o primeiro desgosto envenenado haviam-se

perdido o respeito; e se há algo a que o ho- mem se sente arrastado com cruel fruição

é, quando já se começou, a humilhar de

todo uma outra pessoa. Antes, continham- se pela mútua falta de êxito; agora que este havia chegado, cada qual, atribuindo-o a si mesmo, sentia maior a infâmia dos outros quatro engendros que o outro lhe havia forçado a criar.

Com estes sentimentos, não houve mais aos quatro filhos mais velhos afeto possí- vel. A empregada os vestia, dava-lhes de comer, punha-os para dormir, com visível brutalidade. Quase nunca os lavava. Passa- vam todo o dia sentados diante do muro, abandonados de toda remota carícia. Deste modo, Bertita cumpriu quatro anos, e nesta noite, resultado das guloseimas que aos pais era impossível lhe negar, a criatura teve alguns calafrios e febre. E o temor de vê-la morrer ou ficar idiota, tornou a reabrir a eterna chaga.

Fazia três horas que não falavam, e o motivo foi, como quase sempre, os fortes passos de Mazzini.

— Meu Deus! Não pode caminhar mais devagar? Quantas vezes ?

— Bom, é que me esqueço; acabou! Não

o faço de propósito.

Ela sorriu, desdenhosa: — Não, não creio tanto em você!

— Nem eu jamais havia acreditado tanto

em você

tísica!

— Quê! Que disse?

— Nada!

— Sim, eu ouvi algo! Olhe: não sei o que

você disse; mas lhe juro que prefiro qual- quer coisa a ter um pai como o que você

teve!

Mazzini ficou pálido.

— Enfim! — murmurou apertando os dentes — Enfim, víbora, disse o que queria!

— Sim, víbora, sim! Mas eu tive pais sau-

dáveis, ouça, saudáveis! Meu pai não mor- reu de delírio! Eu teria tido filhos como os de todo o mundo! Estes são filhos seus, seus os quatro!

Mazzini explodiu, por sua vez.

— Víbora tísica! Foi isto o que eu lhe

disse, o que quero lhe dizer! Pergunte, per-

gunte ao médico quem tem a maior culpa da meningite de seus filhos: meu pai ou o seu pulmão furado, víbora!

Continuaram cada vez com maior vio- lência, até que um gemido de Bertita selou instantaneamente suas bocas. À uma da manhã a ligeira indigestão havia desapare- cido, e como ocorre fatalmente com todos os casais jovens que se hão amado inten- samente uma vez sequer, a reconciliação chegou, tanto mais efusiva quanto infames foram os agravos.

Amanheceu um esplêndido dia, e en- quanto Berta se levantava cuspiu sangue. As emoções e a má noite passada tinham, sem dúvida, grande culpa. Mazzini a reteve abraçada por um longo tempo, e ela chorou desesperadamente, mas sem que ninguém se atrevesse a dizer uma palavra.

Às dez decidiram sair, depois de almo- çar. Como ainda tinham tempo, ordenaram a empregada que matasse uma galinha.

O dia radiante havia arrancado os idio- tas de seu banco. De modo que, enquanto a empregada degolava na cozinha o animal, sangrando-o com parcimônia (Berta havia aprendido com sua mãe este bom modo de conservar a frescura da carne), acredi-

tou ouvir algo como respiração atrás dela. Voltou-se e viu os quatro idiotas, com os ombros colados uns nos outros, olhando

estupefatos a operação lho

— Senhora! Os meninos estão aqui, na cozinha.

Berta chegou; não queria que jamais pisassem ali. E nem mesmo nestas horas de pleno perdão, esquecimento e felicidade

Vermelho

Verme-

reconquistada, podia evitar esta horrível visão! Porque, naturalmente, quanto mais intensos eram os arroubos de amor a seu marido e filha, mas irritado era seu humor com os monstros.

— Que saiam, Maria! Tire-os! Tire-os, eu lhe digo!

As quatro pobres bestas, sacudidas, brutalmente empurradas, foram dar a seu banco.

Depois de almoçar, saíram todos. A empregada foi a Buenos Aires e o casal a passear pelas quintas. Ao baixar o sol volta- ram; mas Berta quis saudar por um mo- mento as suas vizinhas da frente. Sua filha escapou-se em seguida para casa.

Entretanto, os idiotas não haviam se

movido durante todo o dia de seu banco.

O

sol havia transposto já o muro, começa-

va

a baixar, e eles continuavam olhando os

tijolos, mais inertes do que nunca.

De súbito, algo se interpôs entre seus olhares e o muro. Sua irmã, cansada de cinco horas paternais, queria observar por sua conta. Parada ao pé do muro, mirava pensativa o topo. Queria trepar, disto não havia dúvida. Por fim, decidiu-se por uma cadeira sem fundo, mas ainda não alcança- va. Recorreu então a um galão de querose- ne, e seu instinto topográfico fez-lhe colo- cá-lo verticalmente, com o qual triunfou.

Os quatro idiotas, o olhar indiferente, viram como sua irmã conseguia pacien- temente dominar o equilíbrio, e como em pontas de pé apoiava a garganta sobre o topo do muro, entre suas mãos tensas. Viram-na olhar para todos os lados, e bus- car apoio com o pé para subir mais.

Mas o olhar dos idiotas havia se anima- do; uma mesma luz insistente estava fixa em suas pupilas. Não apartavam os olhos de sua irmã enquanto crescente sensação de gula bestial ia mudando cada linha de seus rostos. Lentamente avançaram até o muro. A pequena, que tendo conseguido apoiar o pé, ia já montar e cair para o ou- tro lado, seguramente, sentiu-se pega pela perna. Debaixo dela, os oito olhos cravados nos seus lhe deram medo.

— Soltem-me! Deixem-me! — gritou sacu- dindo a perna. Mas foi puxada.

— Mamãe! Ai, mamãe! Mamãe, papai!

— chorou imperiosamente. Tentou ainda segurar-se à borda, mas foi arrancada e caiu.

— não pôde gritar

— Mamãe, ai! Ma

mais. Um deles lhe apertou o pescoço, apartando os cabelo como se fossem plu- mas, e os outros a arrastaram por uma só perna até a cozinha, onde essa manhã se havia sangrado a galinha, bem presa, arran- cando-lhe a vida segundo por segundo.

Mazzini, na casa em frente, pensou ouvir a voz de sua filha.

— Me parece que a chama — ele disse a Berta.

Prestaram atenção, inquietos, mas não ouviram mais. Contudo, um momento depois se despediram, e enquanto Berta ia tirar seu chapéu, Mazzini avançou para o pátio.

— Bertita!

Ninguém respondeu.

— Bertita! — ergueu mais a voz, já altera-

da.

E o silêncio foi tão fúnebre para seu co- ração sempre amedrontado, que subiu um calafrio pela espinha por causa do horrível pressentimento.

— Minha filha, minha filha! — correu já desesperado para o fundo. Mas ao passar frente à cozinha viu no chão um mar de sangue. Empurrou violentamente a porta encostada e lançou um grito de horror.

Berta, que já se havia lançado correndo por sua vez ao ouvir o angustiado chamado do pai, escutou o grito e respondeu com outro. Mas ao precipitar-se para a cozinha, Mazzini, lívido como a morte, se interpôs, contendo-a:

— Não entre! Não entre!

Berta chegou a ver o piso inundado de sangue. Apenas pôde levar os braços sobre a cabeça e cair sobre ele com um rouco suspiro.

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tradução

decálogo

do perfeito contista

tradução decálogo do perfeito contista Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho I Creia em um
tradução decálogo do perfeito contista Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho I Creia em um

Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho

I

Creia em um mestre — Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov — como em Deus mesmo.

II

Creia que sua arte é um cume inacessível. Não sonhe em domá-la. Quando puder fazê-lo, você o conseguirá sem mesmo sabê-lo.

III

Resista o quanto puder à imitação, mas imite se o influxo for forte demais. Mais do que qualquer outra coisa, o desenvolvimento da personalidade é uma grande paciência.

IV

Tenha fé cega não em sua capacidade para o triunfo, senão no ardor com que o deseja. Ame a sua arte como à sua namorada, dando-lhe todo seu coração.

V

Não comece a escrever sem saber desde a primeira palavra aonde vai. Em um conto bem realizado, as três primeiras linhas têm quase a importância das três últimas.

http://samizdat.oficinaeditora.com

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VI

Se quer expressar com exatidão esta circunstância: “Do rio sopra- va o vento frio”, não há em língua humana mais palavras do que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de suas palavras, não se preocupe em observar se são consoantes ou assonantes entre si.

VII

Não adjetive sem necessidade. Inúteis serão quantas notas de cor adicionar a um substantivo débil. Se achar aquele que é necessário, apenas ele terá uma cor incomparável. Mas tem de achá-lo.

VIII

Tome seus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o final, sem ver outra coisa além do caminho que lhes traçou. Não se distraia vendo o que eles podem ou não lhes importa ver. Não abuse do leitor. Um conto é um romance depurado de cascalho. Tenha isto como uma verdade absoluta, mesmo que não seja.

IX

Não escreva sob o império da emoção. Deixe-a morrer, e evoque- a depois. Se for capaz então de revivê-la tal qual foi, terá chegado à metade do caminho na arte.

X

Não pense em seus amigos ao escrever, nem na impressão que causará sua história. Conte como se seu relato não tivesse mais im- portância do que para o pequeno ambiente de seus personagens, dos quais você poderia ter sido um. De nenhum outro modo se obtém a vida do conto.

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SAMIZDAT fevereiro de 2012

SAMIZDAT fevereiro de 2012

Horacio quiroga

Horacio Silvestre Quiroga Forteza (Salto, 31 de dezembro de 1879 — Buenos Aires, 31 de dezem- bro de 1937) foi um escritor uruguaio famoso por seus contos, que geralmente tratavam de eventos fantás- ticos e macabros na linha de Edgar Allan Poe e de temas relacionados à selva, sobre- tudo da região de Misiones, na Argentina, onde Quiroga passou parte da vida. Sua obra mais famosa são os Cuentos de amor de locura y de muerte (1917; título sem vírgula no origi- nal), na qual se encontra o célebre conto A Galinha Degolada. Em 1937, após ter sido diagnosticado com câncer, Quiroga cometeu suicídio, ingerindo uma dose letal de cianureto.

http://samizdat.oficinaeditora.com

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teoria Literária

o que ninguém

numa oficina

o que ninguém numa oficina literária lhe dirá – parte 1 a Criação
o que ninguém numa oficina literária lhe dirá – parte 1 a Criação
o que ninguém numa oficina literária lhe dirá – parte 1 a Criação
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o que ninguém numa oficina literária lhe dirá – parte 1 a Criação

literária

o que ninguém numa oficina literária lhe dirá – parte 1 a Criação

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o que ninguém numa oficina literária lhe dirá – parte 1 a Criação
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a Criação

literária lhe dirá – parte 1 a Criação Henry Alfred Bugalho 54 54 SAMIZDAT fevereiro de
literária lhe dirá – parte 1 a Criação Henry Alfred Bugalho 54 54 SAMIZDAT fevereiro de
Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho
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Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho

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SAMIZDAT fevereiro de 2012

SAMIZDAT fevereiro de 2012

a escrita não tem nada a ver com talento e inspiração. uma carreira literária se faz de labor e persistência.

É célebre a frase de Albert Einstein que

diz que “O trabalho é 1% inspiração e 99% transpiração”, e não poderia ser mais verdadeira.

A inspiração é a origem da trama, de quem são os personagens, o tema de um

poema ou a ideia para uma crônica. Todo

o resto, a materialidade da escrita, é puro

trabalho.

É trabalho a leitura de outros escrito-

res. É trabalho o aprendizado da escrita.

É trabalho sentar-se diante da página em

branco e enchê-la de palavras na esperan- ça que alguém, em algum lugar do mundo em algum tempo, detenha-se para lê-las.

Após o vislumbre inicial, a grande ideia, nada mais resta senão o intenso trabalho

de escrita, reescrita, revisão, reescrita, edi-

ção, revisão, reescrita

nável, que tomará meses ou anos, às vezes para uma única obra.

É um labor intermi-

É neste ponto que entra a persistência,

pois os resultados da escrita são lentos e geralmente insatisfatórios.

Levará anos para se obter alguma espé- cie de reconhecimento, e muitos mais anos para ganhar alguns trocados com o que se escreve. O tempo e esforço investido serão muito maiores do que qualquer retorno

possível. As horas gastas trabalhando sobre

o texto se depararão com críticas ácidas e,

na maioria das situações, com indiferença.

Muitas vezes, aquele texto brilhante do

página oposta: Hesíodo e as Musas, de Gustave Moreau. O mito clássico da inspiração artística.

qual você tanto tem orgulho não será lido por ninguém. Então, você, muito teimoso, continuará escrevendo, pois é o seu traba- lho e o que lhe dá felicidade.

Escrever bem é facil. Criar uma boa história é fácil. o difícil é escrever bem uma boa história.

Não existe segredo algum para escrever. Existem normas ortográficas e gramaticais, basta um pouco de estudo para dominá-las quase completamente.

Já as histórias estão por aí, ao nosso

redor, ocorrendo no mundo inteiro o tem- po todo. Leia os jornais e a quantidade de desgraças e histórias interessantes a cada dia. Veja os grandes livros da História e perceba quantas histórias boas já foram escritas. Relembre sua própria vida, o que você viveu e ouviu, e perceberá que muito já aconteceu.

O problema começa quando se tem de

juntar uma boa história com uma boa escrita. Uma narrativa eficiente é um equi- líbrio entre o que é contado e como isto é contado. Idealmente, o estilo e as palavras não deveriam ofuscar o que está aconte- cendo na história.

Uma escrita muito rebuscada pode dis- trair o leitor. Uma escrita muito simplória pode afastar o leitor.

Uma história desinteressante é do tipo que dá sono. Uma história abarrotada de reviravoltas pode soar inverossímil.

Onde está o equilíbrio entre estilo e enredo?

Isto é o que todos os escritores do

mundo estão tentando descobrir.

Ser escritor é tentar convencer os demais que suas obras são originais e criativas, mesmo que não sejam.

Pense numa história

Imagine um per-

sonagem

Conceba uma ambientação

Agora, tenha certeza que alguém, em al- gum lugar do planeta, em algum momento da história da humanidade, já escreveu esta mesma história, com este mesmo perso- nagem nesta mesma ambientação. E pior! Provavelmente melhor do que você.

Desanimador, não?

Primeiro, porque o repertório de histó- rias e enredo é limitado. Segundo, porque todo o mundo pensa que existe um escri-

tor dentro de si. Por fim, somos humanos, e as histórias que contamos, via de regra, se espelham no mundo em que vivemos, que

é o mesmo de outros bilhões de pessoas.

Então, a sua tarefa de escritor, além de escrever sua obra da melhor maneira pos- sível, é também de convencer os demais de que ninguém mais poderia tê-la escrito. E isto não é fácil!

romance é romance, conto é conto, poesia é poesia, blog é blog. Se você é bom escrevendo um, não quer dizer que você também será bom escrevendo os outros.

Romance, conto e poesia são gêneros

literários. Jornais, livros, revistas, TV, rádio

e blogs são meios de comunicação.

Gêneros literários podem estar presentes nos mais diversos meios de comunicação. No entanto, os meios de comunicação também possuem linguagens específicas. Ser um bom jornalista não significa que o sujeito será um bom romancista, do mes- mo modo que ser um blogueiro de sucesso não o tornará um bom contista ou poeta. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

E o mesmo vale no interior dos próprios gêneros literários. Ser um contista não o tornará um bom romancista, são estruturas literárias diferentes com exigências dis- tintas. Entre prosa e poesia há um imenso abismo, que a maioria dos escritores não consegue transpor com competência.

Isto não quer dizer que você não deva se arriscar, mas esteja preparado. Ser bom em um gênero, ou em uma mídia, não quer di- zer que você terá competência nos demais.

Você aprenderá muito mais com as críticas do que com os elogios.

Todo jovem escritor precisa de elogios como uma flor necessita de sol e água. No começo, qualquer estímulo, por mais par- cial e vago que seja, já é um enorme incen- tivo para escrevermos as próximas linhas.

No entanto, elogios não tornarão sua es- crita melhor. Elogios lhe darão a ilusão que tudo está ótimo e que não há mais necessi- dade de se aperfeiçoar.

A escrita é uma estrada sem fim, você nunca terá descanso e nunca chegará ao destino. E você só saberá se pegou a rota errada quando alguém lhe enfiar o dedo na cara e for sincero com você.

Algumas críticas serão puramente des- trutivas, geralmente de pessoas que têm inveja de você. Todavia, haverá aquelas crí- ticas tão pertinentes, que poderão transfor- mar sua carreira. Algumas críticas atingem tanto o nervo que, todas as vezes que você sentar-se para escrever, elas estarão na sua mente, protegendo-o de certos equívocos, de clichês ou de atalhos equivocados.

Ter um bom crítico por perto é a me- lhor companhia de um escritor.

Escolha entre ser lido ou ser admirado. obras de vanguarda, densas, inovadoras e rebuscadas até podem chegar a ser admiradas, mas quase ninguém as lerá. o que os leitores gostam é de histórias com começo, meio e fim, personagens planos, nada mais que um entretenimento para ler no avião ou na privada.

Todos nós já quisemos revolucionar a Literatura, ser considerados gênios ou trazer a paz ao mundo através de nossos li- vros. Você pode tentar, mas é quase certe- za que isto não ocorrerá.

E todos nós temos um modernista den- tro da gente – aquele escritor que não está nem aí para os leitores, que deseja escrever romances sem parágrafos, sem pontuação, com páginas de cabeça para baixo, narrati- vas não lineares, sem personagens, ou com

Henry alfred Bugalho

milhares de personagens, com páginas em branco, sem enredo, e assim por diante.

Escreva, se você gosta disto, se lhe dá prazer! É o tipo de livros que você lê, ou só está fazendo isto para impressionar os outros, mostrar como você é brilhante ou genial?

Se for para escrever uma obra que ninguém lerá, que seja, pelo menos, pelos motivos certos

Mas lembre-se que os leitores são pes- soas normais, que assistem novela das oito, gostam dos filmes de Spielberg, ouvem for- ró universitário e quase nunca vão a mu- seus. Aliás, muitos dos leitores nem gostam muito de ler

A maioria deles deseja apenas uma história com começo, meio e fim, com personagens simples e com motivações claras. “De que adianta ler um livro se eu não posso contar a história para alguém depois?”, muitos devem pensar.

Quanto mais complexa e alternativa for sua escrita, menor será o seu público.

Você terá de escolher: quer ser lido ou admirado?

São raríssimos os casos de escritores li- dos por públicos imensos e admirados pela crítica. Ou você vende muito, ou é lido nas universidades. Nem sempre se pode ter tudo na vida.

Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera- tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun- dador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de- Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

teoria Literária CaSt ILLo E mod ErN: doIS Po E taS arGENt INoS Elias Antunes
teoria Literária
CaSt
ILLo
E mod
ErN:
doIS Po
E
taS arGENt
INoS
Elias Antunes
Quando se pensa na literatura argentina,
logo vêm a nossa mente os nomes de Jorge Luis
Borges e de Ernesto Sábato, escritores de uma
importância monumental para a Literatura, en-
tretanto esquecemos que existem outros escri-
tores e poetas excelentes nas letras argentinas.
dissolve
o mundo
em puro
pranto.
Prova disso está nas figuras de Horacio
Castillo e Rodolfo Modern, ambos eminentes
poetas e tradutores renomados, com diversos
livros publicados, mas, infelizmente, pouco
conhecidos fora do rincão argentino, ao menos
no Brasil.
Rodolfo Modern tornou-se ao longo do tem-
po um poeta refinado, lembrando os clássicos,
utilizando uma linguagem concisa, como um
bloco, ou monólito que em cada poema traz a
marca da emoção e da inteligência.
Rodolfo Modern consiste em ser um poeta
conciso, adepto do poema sintético, que conse-
gue expressar uma gama enorme de sentidos
em poucos versos, como no poema em que
presta homenagem a Paul Celan, poeta judeu
de expressão alemã:
Seus poemas são curtos, porém de grande
densidade poética e não é por acaso que con-
seguiu levantar importantes prêmios nesse país
excepcional que é a Argentina.
Nascido em 1922, em Buenos Aires, doutor
RESPOSTA A PAUL CELAN
Para quê
palavras
quando
a pele está
aberta
ao coração
o
agita
um vento
des-
acorrentado
e
o peso
da voz
http://minisdelcuento.files.wordpress.com/2011/10/rodolfomodern.jpg?w=549

em Direito e Ciências Sociais e em Filosofia e Letras; foi professor de Literatura Alemã na Universidade Nacional de La Plata e Buenos Ai- res; tradutor de vários autores de língua alemã, como: Hermann Hesse, Rilke, Paul Celan, entre outros. Seu campo de atuação é vasto como sua cultura e carrega a força da tradição, sem se descuidar da modernidade.

Horacio Castillo, por sua vez, também con- quistou prêmios importantes. Tradutor de po- etas gregos, como Odysseus Elytis, nasceu em 1934, em Ensenada, província de Buenos Aires. Advogado emérito, concebe uma poesia viva e vibrante, cheia da força da língua espanhola. Alguns de seus poemas são construídos à base de questionamentos e tendem a apresentar o olhar do poeta que capta o mundo de uma forma diferente, mais humana, mais consciente das leis da natureza, do que há de feérico e misterioso no universo. Há também uma apro- ximação da religiosidade, como no poema:

DUELO À HORA EM QUE CANTA O GALO

PRIMEIRO GALO

O desejo fez sua obra, mas excedendo-se

Promoveu a guerra santa da negação.

Estopa na boca, a alma sobre pregos,

Tudo perdido antes da estrela matutina.

E a matéria, um bem menor, híbrido,

Precipitando-se na região das mães mudas.

SEGUNDO GALO

A aurora vem e venderão seus olhos, a em-

purrões

Tropeçando até as largas mesas de pescados,

Elias antunes

Nuca deserta, láudano trágico, até a faca

Descamado, desossado, e o olho – vesgo –

Extraviado na mais completa lassidão.

A alma, a alma, diz vomitando as vísceras.

A alma, respondeu pisando a roda de seu

vestido

De noiva e correndo até o sumidouro

Meca de gatos exercendo também seus direitos.

TERCEIRO GALO

Graça abundante, atoleiro do orvalho,

Martírio na corredeira do jamais,

Todos ao funeral, todos ao funeral,

Às cegas frente à espreita do aguilhão.

Olá, chamariz do penacho rosa,

Nó cerrando-se com o peso do iminente.

E você, diamante ébrio, mito e natureza do pedernal.

Ambos os poetas argentinos convocam-nos a entrar em contato com poesias de alta qualida- de, abrindo-nos um universo de possibilidades. Esse contato leva-nos a alargar nossas frontei- ras culturais e fugir dos padrões impostos por uma dominação mercantilista, a mais das vezes de gosto duvidoso.

Professor, escritor e servidor público. Autor de mais de uma dezena de livros. Ga- nhador de mais de 140 prêmios literários. Seu romance “Suposta biografia do poeta da morte” ganhou os prêmios Hugo de Carvalho Ramos (2008), Prêmio Jabuti de 2011 (finalista) e Prêmio Il Convívio, na Itália, 2011 (1º lugar). Contato: jeliasantunes@bol.com.br

http://www.revistacriterio.com.ar/bloginst/wp-content/uploads/2011/08/kovadloff-guimaraes20rosa204.jpg

teoria Literária

teoria Literária o GraNdE SE rt Ão dE rIoBaLdo Alessa Bertazzo alessa
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Alessa Bertazzo

Alessa Bertazzo

alessa Bertazzo

Formada em Letras e pós-graduada em Teoria Literária pela Uniandrade – PR, atua como professora particular e, poeta nas horas vagas, participando de diversos concursos literários pelo Brasil. Tem participações em algumas antolo- gias, frutos destes concursos, alguns e-books publicados na Internet, além do blog de Poesias: http://transversu.blogspost.com e página no Recanto das Letras (http:// www.recantodasletras.com.br/autores/alebertazzo).

Discorrer sobre Guimarães Rosa ou Grande Sertão: Veredas, ou ainda sobre qualquer outra de suas obras é simples- mente “chover no molhado”. Praticamen- te tudo o que se podia dizer a respeito da genialidade do autor já foi dito pela grande maioria dos críticos literários brasileiros e até mesmo internacionais.

Entretanto, as várias leituras que suas obras permitem parece não se esgota- rem nunca. A cada releitura, descobre-se uma nova faceta escondida dentro de suas obras.Grande Sertão, talvez seja a obra que melhor traduza essa constata- ção. Ainda hoje vários pesquisadores e acadêmicos em trabalhos de conclusão de curso se debruçam sobre ela sempre em busca de novas veredazinhas nas grandes veredas da obra rosiana.

A saga de Riobaldo deixa de ser uma

simples “aventura” no sertão mineiro para tornar-se alvo de reflexões sérias e universais acerca da existência humana

e dois dos seus maiores conflitos: o bem

e o mal. Torna-se objeto de especulações

filosóficas, místicas, religiosas, metafísi- cas, psicológicas, etc.

É, portanto, motivo de inquietação

e perturbação não só para o jagunço

letrado como também para todo aque- le que se dispõe a ajudá-lo a caminhar pelas veredas do SER TÃO junto ao seu

ouvinte misterioso, a quem nunca é dada

a chance da réplica durante sua narrati- va.

Ainda chovendo no molhado, trata-se, obviamente de uma obra singular, que

a princípio incomoda pela peculiarida-

de com que Guimarães Rosa explora

a linguagem oral do sertanejo. É o tipo

de obra que o leitor deve estar disposto

a enfrentar, a percorrer com Riobal- do, acompanhando atentamente seu

relato um tanto quanto “desorganizado”, segundo ele.

Mas, uma vez vencida a barreira da linguagem, o sertão se revela um lugar onde, para Riobaldo, “tudo é e não é”, onde “viver é muito perigoso”.

Aliás, já nas primeiras páginas, Rio-

baldo previne o leitor de que “o sertão é onde manda quem é forte, com as astú- cias” e que “Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedaci-

nhozinho de metal”

sua tese sobre o perigo que é o viver.

E que o diabo está “na rua no meio do redemunho”.

Por aí se comprova

A partir dessas inquietações, Riobal-

do vai construindo sua narrativa e, à medida que o vai fazendo, vai também lançando outras dúvidas relacionadas a ela a fim de compreender sua trajetória de vida como jagunço no sertão e o que

a teria motivado, já que no momento do

relato encontra-se, como ele mesmo diz, “de range rede”, inventado no gosto de “especular ideia”.

Além disso, pode-se dizer que, entre outros motivos, o que o leva a refazer

suas andanças no sertão mineiro através da memória é também o relacionamen- to confuso e trágico desenvolvido com

o companheiro de ofício Reinaldo-Dia-

dorim, a quem conhece na beira do São Francisco e que mais tarde se revela De- odorina - filha de Joca Ramiro (o chefe do bando a que Riobaldo pertenceu) - sendo esta a vereda inicial de suas refle- xões existenciais, pois segundo ele, tudo começa e termina em Diadorim.

É, portanto, um livro que não se

deve deixar de ler, principalmente para aqueles leitores que gostam de se sentir desafiados.

Crônica Europa descarrilada João Paulo Hergesel Os britânicos tomavam seu pontu- al e tradicionalíssimo chá
Crônica
Europa descarrilada
João Paulo Hergesel
Os britânicos tomavam seu pontu-
al e tradicionalíssimo chá matinal; os
portugueses assistiam ao programa de
culinária exibido na televisão; os taiwa-
neses comemoravam o dia da juventude;
os brasileiros festejavam o aniversário
de duas metrópoles, Curitiba e Salvador;
os sumérios homenageavam Ishtar, deusa
mitológica. Era 29 de março e os russos
andavam de trem.
lhe aguardava; um poeta amador que só
queria divulgar seus versos metrificados
e fazer uma autopromoção; uma senhora
de cabelos grisalhos que falava sozinha,
em busca de alguém que ouvisse suas
loucuras. Algumas vidas entre muitas
outras.
Um vagão superlotado, gente de Mos-
cou, cada qual com seu objetivo trilha-
do. Uma mulher grávida com consulta
marcada no obstetra; um estudante
adolescente rumo à aula de ciências que
O rapaz de quinze anos estava cansado
de sua vida. Sabia que os dias seguintes
seriam iguais aos dias passados. Sentia-
se entediado de uma semana que apenas
começava. Para se distrair da rotina, fazia
algo também rotineiro: escutava música
moderna em seu celular moderno. O
alto-falante ligado, o suposto desejo de
http://www.flickr.com/photos/antonis/986676625/

compartilhar o lixo musical americano com os demais passageiros.

O ritmo acelerado de uma canção

para corações acelerados — All the single ladies, now put your hands up — se mis-

turava com as palavras proclamadas pelo frustrado escritor de meia-idade.

O tido poeta estava cansado de sua

vida. Todos os dias, pegava sempre o mesmo metrô, recitando sempre os mesmos versos, sempre para as mesmas pessoas. A mesmice era porque consi- derava aquela tentativa de trova a mais bem feita por ele.

A rima rara de um poema hendecassí-

labo — Não preciso de um caldeirão de água quente / Basta-me uma panelinha de água morna / Não quero cozer um ovo de avestruz / Só cozinharei um ovo de codorna —, acompanhada pela trilha sonora da Beyoncé, atrapalhava a história contada pela pobre anciã.

A idosa vista como louca estava cansada de sua vida. Haviam morrido os pais, os irmãos, o marido, o filho. Não ti- nha mais família, não tinha amigos e, as- sim, acabava não tendo nem a si mesma. Queria desabafar os tropeços que levara, mas tropeçava nas próprias palavras e não era entendida por ninguém.

O relato sem sentido — Eu tinha um

gato que não era meu e tinha um peixe que o gato comeu— juntamente da po- esia contemporânea e da balada (bada- lada?), irritava a grávida que só queria um minuto de sossego antes de ter que se despir e se submeter a um ultrassom

transvaginal.

A futura mamãe estava cansada de

sua vida. Já era crescida, a idade na casa

João Paulo Hergesel

dos trinta, mas não conseguia assumir o fardo de mãe solteira. A hipótese de um aborto já lhe perturbava muito a mente. Em meio a uma confissão nonsense, a um exemplo de literatura marginal e a uma melodia de black music, não aguentou o estresse sonoro e desembestou a gritar.

O grito foi um pedido de silêncio bem aceito: o metrô parou, as pessoas também. No entanto, não demorou a que uma nova perturbação ocorresse. A garota loura sentada no fundo ficou em pé e revelou o mecanismo que escondia sob o casaco. Assim que a bomba fosse acionada, todos estariam em uma roleta russa, sem saber quais sobreviveriam e quais dariam adeus à vida da que esta- vam cansados.

Um chá amargo difícil de ser ingerido, um erro de gravação que não pôde ser evitado, juventudes corrompidas, aniver- sários interrompidos. Uma situação que nem deuses foram capazes de impedir.

Da explosão, saíram os corpos. O ga- roto, com as mãos mutiladas, não agra- deceu por poder faltar às aulas daquela quinzena. O poeta, sem a pele do abdo- me, não ficou feliz por viver uma grande emoção que pudesse ser transcrita para o papel. A velha, cuja perna direita estava ensanguentada, não estava satisfeita por ter uma nova história para contar com detalhes.

Sem mais aborrecimentos, dúvidas ou queixas, a moça grávida, cruelmente decepada, representava, no chão do me- trô, duas vidas extintas, duas frases que receberam o impiedoso ponto final — sendo que uma ainda nem havia aberto as aspas.

Um jovem escritor brasileiro de 19 anos. Reside na cidade de Alumínio, onde é colunista de dois jornais locais. É estudante de Letras na Universidade de Sorocaba e se dedica principalmente às literaturas infantil e juvenil. Autor de um livro de contos e com participações em diversas anto- logias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais.

Poesia

a fila

a fila

a fila
a fila
Poesia a fila Volmar Camargo Junior em boa hora vens e me tomas em tuas patas
Volmar Camargo Junior
Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

Volmar Camargo Junior

em boa hora vens e me tomas em tuas patas

outra hora eras cão

agora és uma gratuidade devota

por ora és dono da calçada

[e de minhas botas

mas me incomoda estares a muito da altura dos olhos

e sei o quanto queres isso que cheira quente e suculento

[também eu quero, cãozinho

[tenho tanta fome quanto tu tens a mim

onde andei desconheciam-me

aonde vou idem

percorri esses espaços

para ir

para ser

para quê?

se

meus medos minhas manias

ah, sim, os apelos

estes eu tenho

aqueles não mais

não quero compartilhar mais nada

nem posso

nada possuo de meu para ser também de outrem

nenhum vício ou valor só meu

nunca mais talvez

talvez só o que eu tenha sejam esses pés com que brincas

[isso sim

[isso eu posso dividir contigo

contudo ainda preocupa-me a distância que estás dos narizes

[e definitivamente do lugar por onde anda a cabeça dos homens

ali, logo adiante, nietzsche de allstars discute com platão de camiseta do manowar

lá, um tanto atrás, uma criança pranteia o papai que foi, ou por um doce, ou por que lhe dói, ou porque

[há pouco melhor a fazer que chorar

aqui eu com vontade de chorar igualmente, cachorro

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SAMIZDAT SAMIZDAT fevereiro fevereiro de de 2012 2012

http://www.flickr.com/photos/16879141@N05/5601890824/

contigo nos pés rindo risos de cão

comigo noutro tempo rindo de ti

sozinho na fila (acho que sou o quadragé- simo segundo)

lá vai o banco do brasil para cima e para os lados

[se ele caísse esmagaria-nos a todos

[eu

[o bebê

[os filósofos

[as moças que confabulam

[a senhora no fiat apalpando os peitos

[a senhora à porta do restaurante que

nos chama “vamos chegar para o almoço”

[e a ti, cão

nem eu estaria olhando

nenhuma das caras na fila veria

ninguém veria

nada nada nada faria diferença

nunca mais se ouviria falar de mim ou de ti ou dessa gente toda com os dedos pinta- dos de preto

não, não foi dessa vez que o banco desa- bou

quem quase caiu foi um senhor de guar- da-chuva pisoteando sem ver

por cima de ti

por quê?

porque estás longe demais de para onde ele olha

e a carne morta em bifes no metal quente revolve as entranhas do velho

assim como revolve as minhas

como revolve as tuas, cão

por isso o homem te pisa

por isso quase cai como cairia o banco do brasil

por isso quase morreste esmagado e tives- te de sair chorando teu choro de dor de cão

porque és cão e ele é homem

e a carne nos move a todos pelas tripas

e a fila andou

é uma e meia

lá vamos nós

http://samizdat.oficinaeditora.com

http://samizdat.oficinaeditora.com

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http://www.flickr.com/photos/forestwander-nature-pictures/4807392948/

Poesia

#18.

mãe,

se é de deus que sejamos

tristes,