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A Energia e a Sociedade

1 A Energia e a Sociedade G G E E S S T T Ã Ã

GGEESSTTÃÃOO DDEE EENNEERRGGIIAA

MMeessttrraaddoo IInntteeggrraaddoo eemm EEnnggeennhhaarriiaa EElleeccttrroottééccnniiccaa ee ddee CCoommppuuttaaddoorreess

Porto Dezembro, 2009

Nome: Gestão de Energia Editor: Fernando Pires Maciel Barbosa Capa e Paginação por: António Sérgio

Nome:

Gestão de Energia

Editor:

Fernando Pires Maciel Barbosa

Capa e Paginação por:

António Sérgio Ribeiro da Silva Bruno António de Oliveira Santos

Faculdade de Engenharia, Dezembro de 2009

G G E E S S T T Ã Ã O O D D E

GGEESSTTÃÃOO DDEE EENNEERRGGIIAA

MMeessttrraaddoo IInntteeggrraaddoo eemm EEnnggeennhhaarriiaa EElleeccttrroottééccnniiccaa ee ddee CCoommppuuttaaddoorreess

DDeezzeemmbbrroo,, 22000099

Preâmbulo

O Presente volume é constituído por 18 trabalhos realizados no âmbito da disciplina de Gestão de Energia, do 5º ano do Mestrado Integrado de Engenharia Electrotécnica e de Computadores, disciplina da Especialização em Energia e da Formação Complementar de Automação e Telecomunicações. Cada Capítulo foi elaborado por um grupo constituído tipicamente por 3 alunos, embora dois dos grupos só tivessem dois e um outro só um aluno. Os tópicos dos diferentes Capítulos abordam diversos aspectos ligados à Gestão de Energia, tendo em consideração a sustentabilidade do Planeta Terra.

 

Página

Capítulo 1

A

Energia e a Sociedade

António Sérgio Ribeiro Silva, António Pinto Neves Aires de Matos & Bruno José Lopes Tavares

7

Capítulo 2

Energia e Sustentabilidade

Carlos Miguel de Sousa Leite, Cláudio Daniel Galvão & João Mauro das Neves Rocha

19

Capítulo 3

Dependência Energética na União Europeia

Fábio Marcelo da Silva Robalinho, João Paulo Regalado de Sousa & Nuno Miguel Cardoso Félix

33

Capítulo 4

Energias Fósseis versus Energias Renováveis

Sérgio Miguel Pereira Baptista Santos, Pedro Miguel Carvalho Pereira & Justino Miguel Ferreira Rodrigues

45

Capítulo 5

As Energias Fósseis como Fonte Energética

José Luís Monteiro Meirinhos, Pedro Miguel Pinhanços Batista & Pedro Miguel Silva da Costa

61

Capítulo 6

A

Energia e o Ambiente

José Paulo dos Reis Moura & Filipe Fernandes dos Santos

75

Capítulo 7

O

Protocolo de Quioto

Pedro Gonzaga, Jorge Vaz & Fernando Ribeiro

91

Capítulo 8

O

Problema Energético Português

Sérgio Joaquim Correia de Bessa Cerdeira, Ivan Queli Gomes Pereira & Carlos Manuel Silva Oliveira

101

Capítulo 9

Sistemas Tarifários/Liberalização do Mercado de Energia

Rui Manuel Proença Bidarra & Rafael Martins

123

Capítulo 10

A

Iluminação Artificial e a Gestão de Energia

Daniel Filipe dos Santos Moreira, João Daniel Gomes de Almeida & Manuel Clemente Almeida Costa

133

Capítulo 11

A

Co-Geração e a Gestão de Energia

Ana Lisa Martins Rodrigues, Fernando Miguel Carvalho da Costa & Paulo Roberto Moreira Saraiva

151

Capítulo 12

Domótica /Edifícios Inteligentes

6

Gestão da Energia

 

Página

Capítulo 13

Sistemas de Supervisão (Sistemas SCADA, DMS e EMS)

Bruno António de Oliveira Santos, Ivo Ricardo Freitas Araújo & Nuno Monteiro Gomes da Silva

173

Capítulo 14

Legislação Portuguesa sobre Eficiência Energética/Programas de Apoio à Eficiência Energética

Francisco Miguel Marques Moreira, Sérgio Filipe Rodrigues da Silva & Tiago Miguel Dias Oliveira

181

Capítulo 15

Concepção Eficiente de Edifícios em Termos Energéticos

Celso Filipe Moreira da Silva, Charly Rodrigues Videira & Hélio José Gonçalves Martins

203

Capítulo 16

Certificação Energética dos Edifícios

Henrique Manuel Pinto, Rita Isabel Pimentel Moreira & Filipe José da Cruz Coimbra

219

Capítulo 17

Auditorias Energéticas

José Autílio Silva, Ribamar Nelson & Davide Sarmento

235

Capítulo 18

Domótica na Habitação, Normas e Gestão de Energia

Rui Manuel Alves de Sousa

245

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A Energia e a Sociedade

António Matos, António Silva & Bruno Tavares

1.1. Introdução

O uso da energia tem sido fundamental no desenvolvimento da humanidade, ajudando a que esta se consiga adaptar a

qualquer tipo de ambiente ou condições atmosféricas. A gestão do uso da energia é inevitável em qualquer sociedade estruturada e funcional. No mundo industrializado, o desenvolvimento de recursos energéticos tornou-se essencial para

a agricultura, os transportes, a recolha de resíduos, as tecnologias de informação e de comunicação, que são

fundamentais para criar e manter uma sociedade desenvolvida e em permanente mutação. Na sociedade e no âmbito das ciências humanas, o termo energia é usado como sinónimo de recursos energéticos, e na maioria das vezes refere-se a combustíveis, derivados de petróleo/gás natural e à energia eléctrica em geral. Estas são as formas de energia utilizável, na medida em que podem ser facilmente transformadas em outros tipos de energia que podem servir o uso particular, como por exemplo na indústria, transportes, ou serviços.

Toda a relação entre a Energia e a Sociedade passa pelos três grandes princípios enumerados na figura 1.1.

Viabilidade Económica Desenvolvimentos Problemas Tecnológicos Ambientais
Viabilidade
Económica
Desenvolvimentos
Problemas
Tecnológicos
Ambientais

Fig. 1.1. Os três vértices da relação entre a Energia e a Sociedade

Teremos então:

(a) Desenvolvimentos Tecnológicos com a evolução dos Sistemas Eléctricos de Energia, o desenvolvimento das redes

de gás nas cidades e as vias de transporte, quer de bens, quer de informação, o uso de energia passou a estar ao alcance de todos; todos os meios que aproximam o cidadão de forma mais acessível a equipamentos e bens consumíveis.

(b) Viabilidade Económica todos os investimentos realizados na área da energia são alvo de intensos e exaustivos

estudos de modo a apurar a solução mais rentável e viável;

(c) Problemas Ambientais nos primórdios do uso globalizado da energia, este tipo de problemas não se colocavam;

com os consumos sempre a crescer, a eficiência muito reduzida da maior parte dos equipamentos e a quantidade de substâncias poluentes que emitiam, os problemas ambientais começaram a revelar-se da maior importância e um dos pontos mais críticos no crescimento sustentável da sociedade.

1.2. Passado

Sempre que utilizamos o carro, ligamos o computador, fazemos o jantar, vemos televisão, ou qualquer outra actividade do nosso quotidiano, estamos a utilizar energia. Não é de estranhar, portanto, que a energia tenha uma tão grande importância.

8

Gestão de Energia

A energia pode manifestar-se sob a forma de calor, movimento, ou luz, convertendo-se nas mais diversas formas de

impulsionar os nossos estilos de vida.

A energia existe na Natureza em diferentes formas e, para ser utilizada, necessita de ser transformada.

A figura 1.2 mostra algumas formas de energia:

transformada. A figura 1.2 mostra algumas formas de energia: Fig. 1.2. Algumas formas de Energia Sem

Fig. 1.2. Algumas formas de Energia

Sem entrar em pormenor, uma vez que será objecto de estudo no Capítulo 4, as diversas fontes de energia dividem-se em dois grandes grupos: as fontes de energia renovável/alternativas e fontes de energia não renovável/fóssil. As fontes de energia renovável distinguem-se por serem inesgotáveis, ou que podem ser repostas a curto ou médio prazo, espontaneamente, ou por intervenção humana. A figura 1.3 mostra as fontes de energia renováveis.

Hídrica Eólica Marés Ondas Solar Biomassa Geotérmica
Hídrica
Eólica
Marés
Ondas
Solar
Biomassa
Geotérmica

Fig. 1.3. Fontes de Energia Renovável

No que toca a fontes de energia não renovável, são fontes que se encontram na Natureza em quantidades limitadas e que

se esgotam com a sua utilização. A figura 1.4 mostra as fontes de energia não renovável.

Gás Carvão Petróleo Urânio Natural
Gás
Carvão
Petróleo
Urânio
Natural

Fig. 1.4. Fontes de Energia Não Renovável

O acesso à energia é, sem dúvida, fundamental para o desenvolvimento das sociedades.

1.2.1 As Revoluções Industriais

O uso da energia tem uma forte relação com as Revoluções Industriais, facto que não pode deixar de ser mencionado.

Antes da máquina a vapor, além da energia hídrica e da energia eólica, usadas sobretudo para mover moinhos e barcos à vela, as energias utilizadas eram fundamentalmente a força de tracção animal e a força muscular do homem. Com tão rudimentares formas de energia, a produtividade do trabalho humano era extremamente reduzida. Era necessário que 85% a 90% da população activa trabalhasse de sol a sol, no sector primário, para conseguir arrancar da

terra os produtos mínimos que permitissem a sobrevivência. Nessa altura, ocupava-se no sector secundário (manufactura, indústria), bem como no sector terciário (serviços), entre 5 a 7% da população activa.

A Energia e a Sociedade

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Segundo vários autores, é possível distinguir três Revoluções Industriais, conforme a natureza da energia usada; o início de cada uma delas assinala-se precisamente com o principal tipo de energia utilizada. Assim, a primeira Revolução Industrial (de 1769 a 1839) foi considerada a revolução do carvão e da máquina a vapor; a segunda (de 1839 a 1945) foi a revolução do petróleo e da electricidade; por fim, a terceira, chamada também “Revolução Científico-Técnica” (desde 1945) afigura-se como a revolução da cibernética, da informática e do computador.

Nas duas primeiras, a máquina substitui a força muscular do homem. Na terceira, a própria inteligência do homem está a ser substituída, com grandes vantagens, por formas de inteligência artificial.

1.2.2 Consequências das Revoluções Industriais

Como consequências destas Revoluções houve um extraordinário aumento do volume de produção, as populações passaram a ter acesso a bens industrializados e deslocaram-se para os centros urbanos em busca de trabalho. O que levou a um rápido crescimento económico, até então permanentemente lento. Para recordar, ficam algumas invenções, que de certa forma alteraram a forma de viver das civilizações. Na figura 1.5 estão representados alguns marcos das Revoluções Industriais.

1825 1876 1879 1885 1895 ( ) • George • Alexander Bell inventa o telefone
1825
1876
1879
1885
1895
(
)
• George
• Alexander Bell
inventa o
telefone
• A iluminação
eléctrica foi
inaugurada
em Mento
Park, New
Jersey
• Gottlieb
• Marconi
• (
)
Stephenson
Daimler
inventa a
inaugura a
inventou o
radiotelegrafia
primeira
motor de
ferrovia entre
explosão
Darlington e
Stockton-on-
Tees, UK

Fig. 1.5. Alguns marcos das Revoluções Industriais

1.2.3 Aumento dos Consumos

Como reverso da medalha, para se satisfazer as necessidades das revoluções industriais e para alimentar o crescente aumento do consumo das populações e da indústria, verificou-se um incremento muito acentuado da procura de energia. Com o desenvolvimento dos Sistemas Eléctricos de Energia e das vias rodoviárias, começou a procura da electricidade, da gasolina e concomitantemente do Carvão e do Petróleo. Dados da Agência Internacional de Energia (IEA) (ver figura 1.6) mostram que, desde a década de 70, o crescimento do consumo energético a nível planetário tem crescido a uma média de 155 milhões de toneladas de petróleo por ano. Como é do conhecimento geral, a velocidade a que a humanidade está a gastar as reservas de petróleo do planeta não é comparável à velocidade a que este recurso foi criado. A criação do petróleo é um fenómeno muito lento que ocorre pela junção de material orgânico morto com lama ou areia, em pântanos ou em rios com caudais reduzidos. Ao longo do tempo estes sedimentos combinados com calor e pressão transformaram-se num material negro e pegajoso chamado Querogénio. Este, combinado com carbono e hidrogénio formou o petróleo e o gás natural. As grandes reservas existentes no planeta formaram-se no período pré-histórico.

no planeta formaram-se no período pré-histórico. Fig. 1.6. Energia produzida a nível mundial de 1971 a

Fig. 1.6. Energia produzida a nível mundial de 1971 a 2006 (MToe), Fonte: IEA

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Gestão de Energia

Adicionalmente, a utilização intensiva destes combustíveis fósseis aumenta a concentração de dióxido de carbono na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global do Planeta. O denominado efeito de estufa, que será objecto de análise nos capítulos 6 e 7. As consequências deste aquecimento tornam-se também cada vez mais evidentes ao nível das alterações climáticas globais e regionais, verificadas ao longo das últimas décadas. A menos que os comportamentos mudem, será difícil inverter a situação. Entre várias medidas possíveis, ganha relevância a aposta de diversos países na redução das emissões de gases com efeito de estufa (GEE).

1.2.4 Medidas a nível Internacional Em 1997 foi proposto o Protocolo de Quioto, (abordado em detalhe no capitulo 7) fruto de uma convenção internacional sobre alterações climáticas que, no quadro da ONU, vincula os participantes a cumprirem metas de redução das emissões de GEE até 2010. À imagem desta iniciativa, outras se tomaram no decorrer dos anos, de forma a amenizar os efeitos negativos pelo consumo descontrolado de energia pelo Homem; além do citado Protocolo de Quioto, organizações como a Greenpeace (criada em 1971, no Canadá) e, a nível nacional, a Quercus (Associação Nacional de Conservação da Natureza, fundada em 1985), foram instituídas com o objectivo de defender o crescimento sustentável e uma forte preocupação ambiental. Apresenta-se na figura 1.7 uma pequena cronologia de alguns acontecimentos marcantes, protagonizados pela utilização e crescente procura de energia.

1961 1982 1984 1985 1986 1992 1999 2003 2007 2008 2009 • Criada a •
1961
1982
1984 1985
1986
1992
1999 2003
2007 2008
2009
Criada a
Publicação da
• Desastre
• Descoberto o
• Acidente
Tratado de
Naufrágio do
Criação da
UE aprova os
• Plano
Pacto dos
Organização
"Carta
industrial
Nuclear em
Maastricht, o
petroleiro
objectivos
Nacional para
Autarcas
World Wide
Mundial da
numa Fábrica
Fund for
Natureza"
de Químicos,
buraco na
camada de
Ozono
Chernobyl
ambiente
"Erika"
Bolsa do Clima
em Chicago
"20-20-20"
a Eficiência
torna-se
energética
Nature (WWF)
pela ONU
Índia
• Convenção de
política
Viena para a
protecção da
Camada de
Ozono
comunitária

Fig. 1.7. Cronologia de alguns acontecimentos marcados pela procura energética

Esta procura desmesurada de Energia não encerra apenas um problema ambiental, de facto, existem também interesses políticos. Os governos procuram influenciar a partilha/distribuição dos recursos energéticos, entre várias secções da sociedade através de mecanismos de preços. Por outro lado, a instabilidade política e económica pode levar a crises energéticas, como por exemplo, o choque petrolífero de 1973, que teve como causa o embargo à exportação dos maiores produtores árabes, fruto do apoio de Israel na Guerra Israelo-Árabe e ainda o choque petrolífero de 1979, que teve como origem a Revolução Iraniana. A mais recente controvérsia política internacional sobre fontes de energia reside no contexto da guerra do Iraque. Alguns analistas políticos afirmam que a razão oculta para ambas as guerras a de 1991 e a de 2003 se prendem com o controlo estratégico dos recursos energéticos internacionais.

Todas estas efemérides justificam a evolução inconstante do preço da energia em geral e do petróleo em particular (ver figura 1.8)

da energia em geral e do petróleo em particular (ver figura 1.8) Fig. 1.8. Evolução do

Fig. 1.8. Evolução do preço do petróleo. Fonte: IEA

A Energia e a Sociedade

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1.2.5 A energia em Portugal Portugal, como será discutido no capítulo 8, tem uma forte dependência externa de fontes de energia. Desde a segunda metade do século XIX, após o estabelecimento da malha ferroviária no país, aliado ao desenvolvimento industrial, do comércio e à dinâmica do colonialismo, registou-se um aumento do consumo energético nos mais diversos sectores. Como ilustra a figura 1.9, o sector dos transportes registou um forte crescimento na última década, tendo estagnado depois da crise financeira mundial dos últimos anos.

depois da crise financeira mundial dos últimos anos. Fig. 1.9. Evolução do consumo por sector em

Fig. 1.9. Evolução do consumo por sector em Portugal. Fonte: IEA

No entanto este aumento foi sobretudo suportado pela importação de combustíveis fósseis, nomeadamente o petróleo. Pelos dados da Agência Internacional de Energia (IEA), Portugal regista desde 1971, um forte crescimento na dependência do petróleo como fonte de energia para os mais diversos sectores (ver figura 1.10)

de energia para os mais diversos sectores (ver figura 1.10) Fig. 1.10. Fontes de energia do

Fig. 1.10. Fontes de energia do consumo dos diversos sectores.

1.3. Presente

Embora a tendência nas últimas décadas tenha sido para um aumento de consumo a cada ano que passa, no último ano, devido à grave crise económica e financeira, o consumo diminuiu. Lembremos que os objectivos da OCDE são apoiar um crescimento económico duradouro e sustentável, desenvolver o emprego, elevar o nível de vida e manter a estabilidade financeira. De seguida apresenta-se alguns dados comparativos entre 2008 e 2009.

As tabelas 1.1 e 1.2 mostram, segundo dados publicados pela Agência Internacional de Energia (IAE), que o consumo nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico desceu em 2009, este facto é uma causa e simultaneamente um efeito da grave crise económico financeira que se sentiu em 2008/2009:

 

Julho 2009

Julho 2008

Diferença

Total de Produção mensal na OCDE

861.9 TWh

919.6 TWh

-57.7 TWh em 2009

Tabela 1.1. Produção de energia eléctrica nos países da OCDE em Julho 2009 e Julho 2008. Fonte: International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics

12

Gestão de Energia

 

Janeiro Julho 2009

Janeiro Julho 2008

Diferença

Total de Produção na OCDE

5693.2 TWh

6028.9 TWh

-335.7 TWh em 2009

Tabela 1.2. Produção de energia eléctrica nos países da OCDE no período Janeiro Julho 2009 e Janeiro Julho 2008. Fonte: International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics

Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics Fig. 1.11. Produção de energia eléctrica nos países da

Fig. 1.11. Produção de energia eléctrica nos países da OCDE por tecnologia. Fonte: International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics

Portugal

É sabido que Portugal é dos países com pior relação energia/produção. Como podemos ver na tabela 3, mesmo quando

todo o mundo contraía o seu consumo energético, Portugal aumentou.

 

Julho 2009

Julho 2008

Diferença

Total de Produção mensal em Portugal

4606 GWh

4091 GWh

+515 GWh em 2009

Tabela 1.3. Produção de energia eléctrica em Portugal em Julho 2009 e Julho 2008. Fonte: International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics

No entanto, devemos realçar que a produção de origem Geotérmica/Eólica/Solar/outras subiu em percentagem 50,4% em relação ao ano anterior. As importações também diminuíram 496 GWh, o que representa uma descida de 7,2%.

diminuíram 496 GWh, o que representa uma descida de 7,2%. Fig. 1.12. Comparação da produção por

Fig. 1.12. Comparação da produção por cada tipo de tecnologia em 2007, 2008 e 2009 em Portugal. Fonte: International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics

O uso da energia pela sociedade tem várias componentes que a seguir se analisa.

1.3.1 Produção de electricidade

A

produção de energia eléctrica utilizável para cobrir as necessidades humanas é uma actividade essencial na sociedade

e

é aplicado grande esforço e dedicação por parte dos intervenientes nestes serviços, em particular os engenheiros

electrotécnicos, para que a electricidade chegue a todos nas melhores condições, isto é, em quantidade e qualidade adequadas. Apesar de durante muitas décadas esta garantia de fornecimento ter sido garantida pela construção de centrais térmicas “alimentadas” por carvão e por petróleo, com a entrada no novo milénio, os preços crescentes dos combustíveis fósseis e a tomada de consciência dos perigos da utilização destes combustíveis, novas formas de produção de energia têm sido desenvolvidas e implementadas nos SEE. A constante inovação nos Sistemas Eléctricos de Energia tem tido como tendência a alteração de paradigma ao incorporar cada vez mais produção dispersa em níveis mais baixos de tensão (principalmente em Média Tensão e em Baixa Tensão), as Micro-Redes e a implementação de processos cada vez mais eficientes de produção de energia. Com a inclusão da produção dispersa, a normal evolução da tecnologia e dos componentes conseguiu-se fornecer energia eléctrica a mais pessoas e com maior qualidade de serviço.

A Energia e a Sociedade

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Ao aproximar a produção dos consumidores consegue-se uma diminuição significativa das perdas na rede.

3,15%

3,27%

0,76%

0,02%

das perdas na rede. 3,15% 3 , 2 7 % 0 , 7 6 % 0,02%
7,62% 9,98% 54,13% 15,74%
7,62%
9,98%
54,13%
15,74%

5,35%

Hidroeléctrica Biomassa (aquecimento) Solar Fotovoltáico/Solar de Concentração/Colectores de Calor Eólica Mini-hídrica Biomassa (geração electricidade) Geotérmica Biodiesel Energia das Ondas

Fig. 1.13. Potência Instalada de Energias Renováveis a nível mundial, final de 2008. Fonte: Renewables - Global Status Report; 2009 Update

1.3.2 Transportes

Todas as sociedades necessitam de materiais e bens alimentares, que na maior parte das vezes não estão próximos dos locais de consumo e por isso necessitam de ser transportados. Todos os dias milhares de aviões, de comboios, de barcos e

milhões de automóveis circulam no planeta de forma a levar pessoas e bens de um lado para o outro, tudo isto com o natural consumo de energia.

Se quantificar a necessidade de uma pessoa se deslocar de um local para outro é subjectiva, há números que nos fazem

pensar. Num relatório de 2006, a International Energy Agency estimou que por cada caloria sob a forma de alimento nos nossos supermercados são gastas três para tratar, embalar e transportar essa mesma caloria. Considere-se um caso prático, um pacote de esparguete de 500 gramas contém 355 cal (1491J), para o manufacturar, embalar e transportar são necessárias 1065 cal (4473J). Isto são os números para um simples pacote de esparguete num supermercado; se

imaginarmos a quantidade de produtos que temos nos nossos supermercados e o número de supermercados que existem no planeta, rapidamente compreendemos que a energia gasta para o transporte tem um impacto significativo nos produtos que consumimos. De toda a energia consumida no planeta o sector dos transportes representa actualmente 28% desse consumo (Schneider Electric Eficiência Energética, 2008).

1.3.3 Ambiente

Todas as acções que fazemos quando consumimos energia, desde ligar uma lâmpada em casa, a ligar o motor do nosso carro, tem um efeito no meio ambiente. Como é sabido, tanto nos EUA, na China e na maioria dos países do mundo a energia eléctrica que satisfaz as necessidades dos consumidores é proveniente de centrais térmicas alimentadas a carvão

e

a petróleo. Ao queimar este tipo de combustíveis são lançados na atmosfera gases poluentes como CO 2 , SO X , NO X . CO 2

é,

como sabemos, dos mais importantes gases de efeito de estufa, responsáveis pelo aquecimento global. O aumento do

consumo de energia no século XX veio trazer um aumento das emissões de CO 2 e um aumento da temperatura média do planeta.

Na queima dos combustíveis fósseis para a produção de energia eléctrica, ou nos motores dos nossos veículos, libertam-

se

também metais como cádmio, cobre, manganês, mercúrio, níquel e prata que actuam como poluentes na atmosfera.

O

aquecimento global já provocou a subida de 0,8°C na temperatura média do planeta, no último século. Segundo os

ambientalistas, este valor ainda não é um caminho sem regresso, mas é um sinal de alerta que não deve ser desprezado. Nos últimos 200 anos, a humanidade tem gasto cada vez mais energia.

De acordo com os especialistas, a situação do planeta torna-se crítica e sem retorno caso o CO 2 presente na atmosfera seja

de 400/500ppm, em 2007 eram de já 300ppm. Com os valores críticos de CO 2 podemos assistir ao aumentar dos desertos

norte-americanos, à redução da floresta amazónica para 1/3 da área actual e à repetição mais frequente de furacões como

o Katrina.

No entanto, diversas tecnologias das ditas energias renováveis não poluem o meio ambiente, sendo por isso incentivadas nos países desenvolvidos de maneira a contribuir para um futuro mais limpo. Tecnologias de energias renováveis como

a energia solar, energia eólica, hidroeléctricas têm emissões zero de CO 2 , uma vez que as suas fontes de energia primária

14

Gestão de Energia

são respectivamente a luz, o vento e a água. Podemos dizer que só no processo de fabrico e ciclo de fim de vida é que estes equipamentos podem ter algum impacto ambiental negativo. Este tema será desenvolvido em mais profundidade no capítulo 6 “A Energia e o Ambiente”.

1.3.4 Economia A produção e o consumo de energia são o motor de toda a economia. Todas as actividades económicas utilizam um ou

outro tipo de energia. Usamos energia para fabricar produtos, para os transportes, para que os computadores funcionem e para que toda a actividade industrial labore. Alguns indicadores económicos levam em conta a relação entre a energia gasta por um país e o volume de produção desse país. Dessa forma, podemos constatar se a energia utilizada está direccionada para o crescimento económico do país. Podemos ver que existe uma relação íntima entre o crescimento da economia e o consumo de energia. Durante o período

de crise atravessado em 2008/09 com o aumento do preço do petróleo, o rebentamento da bolhade especulação

imobiliária e consequente retracção da economia também o consumo energético baixou.

Como vimos, o consumo de energia é global e transversal à sociedade actual e está, grosso modo, dividido como representado na figura 1.14.

Indústria Residencial Serviços Transportes •33% •21% •18% •28%
Indústria
Residencial
Serviços
Transportes
•33%
•21%
•18%
•28%

Fig. 1.14. Percentagem da utilização de energia nos vários sectores

O aumento da eficiência dos dispositivos que possuímos, o aumento da inserção de energia originária de fontes

renováveis na rede e a aproximação dos centros produtores de bens do consumidor são os desafios de futuro da sociedade. Para um crescimento sem os problemas de um aquecimento global acima dos 1°C, temos de actuar agora para

que o crescimento do planeta seja sustentável mesmo com o aumento esperado da população.

1.4. Futuro

O futuro da energia poderá ditar o rumo da nossa vida e até mesmo alterá-la, devido ao grande crescimento

populacional e ao aumento da procura da energia. A nossa dependência dos combustíveis fósseis não pode continuar da forma que ocorre hoje em dia, para sempre. Cada vez mais a tecnologia tem meios para aumentar a eficiência energética e a consciência das pessoas está a ficar cada vez mais desperta para os problemas relacionados com a energia. Segundo as previsões da Agência Internacional de Energia, em 2030 o mundo poderá estar a utilizar mais 45% da energia que utiliza hoje. Uma forma de vermos a velocidade a que aumentou o consumo de energia é o de atentarmos no consumo de petróleo. Há 150 anos, desde a primeira produção de petróleo em escala industrial, foram usados cerca de um trilião de barris. Segundo algumas estimativas, o próximo trilião de barris de petróleo poderia durar para 30 anos ou menos.

A Energia e a Sociedade

15

A Energia e a Sociedade 15 Fig. 1.15. Evolução da procura de energia pelos diferentes graus

Fig. 1.15. Evolução da procura de energia pelos diferentes graus de desenvolvimento dos países. Fonte: International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics

1.4.1 Principais tendências em matéria de energia

Ao longo das próximas décadas, três tendências são susceptíveis de afectar a poderosa indústria de energia mundial,

ajudando as decisões relativas à energia que as empresas, governos e indivíduos terão que fazer:

(a) Forte crescimento da procura de energia, devido ao aumento populacional e ao facto de países até aqui em

desenvolvimento que não procuravam conforto social e económico o estarem agora a procurar, por exemplo, a China;

(b) Os governos europeus procuram formas de reduzirem a sua dependência externa do petróleo e reduzirem as

emissões de CO 2 apostando nas energias renováveis, mas países como a China, ou a Índia, apostam na produção de

electricidade baseada em centrais térmicas e, com isso, produzem elevadas emissões CO 2 ;

(c) As questões ambientais estão na agenda do futuro, a preocupação mundial sobre os possíveis efeitos do aquecimento

global aumenta;

O futuro da energia será determinado em grande parte pelo sucesso do mundo em equilibrar estas três tendências.

1.4.2 O Papel dos Combustíveis Fósseis

Os combustíveis fósseis como o petróleo, o gás natural e o carvão, fornecem actualmente cerca de 85% das necessidades mundiais de energia primária, e estes combustíveis continuarão a ser fundamentais para o abastecimento energético global, pelo menos durante os próximos 20 a 30 anos. A Comissão Europeia prevê que, por volta de 2030, os 27 países da

União Europeia terão que importar 93% do petróleo que necessitam. Mas devido à necessidade da União Europeia em diminuir a dependência externa, o consumo deste combustível terá de ser diminuído. O petróleo vai continuar a ser uma fonte de energia importantíssima nos próximos anos, mas é evidente que precisamos de desenvolver tecnologias e fontes de energia que nos permitam ter alternativas, utilizando o petróleo da maneira mais eficiente possível.

utilizando o petróleo da maneira mais eficiente possível. Fig. 1.16. Reservas Globais de Petróleo. Fonte: Agência

Fig. 1.16. Reservas Globais de Petróleo. Fonte: Agência Internacional de Energia. Fonte: International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics

Às taxas actuais de consumo, as quantidades estimadas de petróleo, são calculadas para durar mais de 40 anos; as reservas de gás natural iriam durar cerca de 60 anos e as reservas de carvão perto de 130 anos. As quantidades estimadas

16

Gestão de Energia

de petróleo são o que os dados geológicos e de engenharia demonstram com razoável certeza poderem ser recuperáveis no futuro em reservatórios conhecidos nas actuais condições económicas e operacionais. Estes números não incluem as quantidades de petróleo convencional, gás ou carvão, que ainda poderão ser encontrados.

1.4.3 População Mundial

A população mundial deverá crescer do nível actual de 6,7 biliões para 9 biliões em 2050, atingindo um pico de cerca de

9,5 biliões de pessoas até meados do século XXI. Muito desse crescimento ocorrerá nos países em desenvolvimento, incluindo China e Índia, que já são os dois países mais populosos do mundo.

que já são os dois países mais populosos do mundo. Fig. 1.17. Previsão da população Mundial

Fig. 1.17. Previsão da população Mundial no ano 2050. Fonte: International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics

As mudanças demográficas a esta escala poderiam começar a redesenhar o mapa mundial de energia, com um fluxo maciço de energia necessária em países com necessidades de energia previamente baixa.

1.4.4 A Ascensão do Mundo em Desenvolvimento

Nos últimos anos, muitos países em desenvolvimento têm experimentado um crescimento económico significativo, com

a indústria a ocupar o lugar da agricultura em muitas economias locais.

a ocupar o lugar da agricultura em muitas economias locais. Fig. 1.18. Alterações previstas na distribuição

Fig. 1.18. Alterações previstas na distribuição geográfica da população. Fonte: International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics

O aumento de consumo até ao ano 2050 está relacionado com o aumento da população mundial até essa data. Por outro

lado, os habitantes dos países em desenvolvimento começarão a utilizar mais energia de forma a aumentar o seu conforto doméstico e económico. Tudo isto aumenta a procura e consumo da energia. A partir da década de 1990 até hoje, cerca de 90% do crescimento do consumo mundial de energia primária provém do mundo em desenvolvimento. Segundo a citação “hoje em dia é impossível falar de energia sem falar de alterações climáticas” podemos abordar o tema da Redução do consumo de energia e de CO 2 . Um novo acordo vai ser realizado na Cimeira de Copenhaga no dia 7 a 18 de Dezembro 2009 para tentar encontrar um sucessor para o Protocolo de Quioto, que expira em 2012. Este novo protocolo tem como objectivo a celebração de um acordo internacional global que permita reduzir as emissões nos países desenvolvidos, limitar o aumento das emissões nos países em desenvolvimento e financiar as acções destinadas a mitigar os efeitos das alterações climáticas e os

esforços de adaptação dos países pobres.

A Energia e a Sociedade

17

Como principais emissores de gases de efeito de estufa temos a China, a Índia, os EUA e a Rússia, que estarão presentes na cimeira de modo a acordarem compromissos de emissões.

O tema Copenhaga será abordado com mais pormenor no capítulo 7.

Até 2050, a diminuição colectiva das emissões de CO 2 deverá ficar entre 60% e 80%, de modo a evitar mais complicações

ambientais.

1.4.5 Meta 20/20/20

A União Europeia aprovou em 2007 uma meta ambiciosa e um exemplo mundial de compromisso com a energia e o

ambiente, pretende-se que em 2020 se reduza 20% das suas emissões de gases com efeito de estufa (GEE), chegar aos 20%de energias renováveis e 20% de aumento de eficiência energética. De acordo com o estudo Portugal Clima 2020, realizado por técnicos do Ministério do Ambiente e consultores externos, avaliou o impacto em Portugal das propostas da Comissão Europeia para reduzir as emissões de carbono e fomentar as energias renováveis. São três as directivas sugeridas por Bruxelas; se forem aprovadas, Portugal terá de ter, no seu boloenergético, 31 por cento de renováveis em 2020. O país terá ainda de contribuir para uma redução global de 21 por cento no dióxido de carbono das indústrias, através de uma nova versão do comércio europeu de licenças de emissões. Quanto ao sector da transformação da energia, pretende-se fazer um investimento em energias renováveis resultantes de compromissos com a União Europeia, até 2010 (5 800 MW de eólica, 150 MW de biomassa, 150 MW de solar, 250 MW de ondas, em zona piloto, 100 MW de biogás); aqui se inclui também instalação de capacidade de produção de biocombustíveis com base em óleos importados, a localizar em Sines, para atingir a meta de 10% de biocombustíveis utilizados nos transportes rodoviários, em 2010.

utilizados nos transportes rodoviários, em 2010. Fig. 1.20. Capacidade Instalada em Portugal por tecnologia.

Fig. 1.20. Capacidade Instalada em Portugal por tecnologia. Fonte: Energia em Portugal: resultados e perspectivas, José Manuel Perdigoto, Fevereiro 2009

Pela análise da capacidade instalada em Portugal por tecnologia verifica-se que a parcela referente às energias renováveis representará mais de 60% (30.1% de hídrica + 30.0% de eólica e 7.7% de outras renováveis) do total da capacidade instalada em Portugal para produção de electricidade.

A percentagem de gás natural aumentará em 2020, ao contrário das importações de petróleo que deverão diminuir, por

motivos óbvios.

1.4.6 A Terceira Revolução Industrial

A Europa tem a capacidade para assegurar a liderança de numa Nova Era mundial, marcada pelo que se designa de

"terceira revolução industrial", revolução essa que assenta em três pilares.

O primeiro está relacionado com as formas de energia renovável: solar, eólica, hidroeléctrica, geotérmica, ondas do mar e

biomassa, que deverão ter um impacto crescente na produção de energia eléctrica.

O segundo pilar assenta na capacidade de armazenamento. A UE está a investir nas energias renováveis, contudo, para

maximizar o recurso destas energias e minimizar custos, será necessário desenvolver métodos de armazenagem que facilitem a conversão de fornecimentos intermitentes dessas fontes renováveis em activos seguros e duráveis. As baterias têm essa capacidade limitada, mas o hidrogénio é o meio universal que "armazena" todas as formas de energia e poderá

assegurar a disponibilidade de um fornecimento estável e seguro para a nova geração a nível de energia e para o transporte.

O

terceiro pilar envolve a distribuição. A ideia é gerar energia renovável, localmente, e submetê-la a uma rede inteligente

e

integrada que permitirá a cada Estado-membro produzir a sua própria energia e partilhar os excedentes com os

parceiros, contribuindo para a segurança energética internacional.

18

Gestão de Energia

1.5. Conclusões

O nosso estilo de vida pode estar ameaçado e o nosso futuro comprometido se não encontrarmos novas soluções para o uso racional e eficaz da energia. Por essa razão, multiplicam-se os esforços na promoção da utilização eficiente da energia, discutido nos capítulos 11, 12 e 15, e na aposta nas fontes de energia renováveis como o sol, o vento ou a água. A utilização de energia tem sido crucial para o desenvolvimento da sociedade humana ao ajudá-la a controlar e a adaptar-se ao meio ambiente. Gerir o uso da energia, em detalhe nos capítulos 11 e 13, é inevitável em qualquer sociedade funcional. No mundo industrializado, o desenvolvimento de recursos energéticos tem-se tornado essencial à agricultura, aos transportes, à recolha de desperdícios, às tecnologias da informação e às telecomunicações, que são hoje pré-requisitos de uma sociedade desenvolvida. Neste primeiro capítulo do livro, exploramos os conceitos e desafios que pautam o uso e gestão da energia. A energia em todas as suas formas alimenta a sociedade, mas as questões da sustentabilidade e de um crescimento equilibrado têm de estar nas mentes dos decisores e dos cidadãos, de modo a que possamos fazer o melhor uso dessa energia.

1.6. Referências

DGE. (1998). Estatisticas rápidas Energia, Lisboa; Nascimento, Carlos; Lopes, Carlos. (1996). Caracterização dos Consumos de Energia no Sector Doméstico, Lisboa; Direcção Geral de Energia, Ministério da Economia. (2002). Energia Portugal 2001, Lisboa; BCSD Portugal, Manual de Boas Práticas de Eficiência Energética, BCSD,Novembro de 2005,

EDP Energias de Portugal, S.A. (2006). Guia Prático da eficiência energética, ISBN: 972-8513-71-2, Lisboa ; Viegas, José Manuel. (2008). Os Transportes Rodoviários e o Desafio das Alterações Climáticas, 1ºCongresso Nacional sobre alterações Climáticas, Aveiro, http://www.apea.pt/xFiles/scContentDeployer_pt/docs/Doc137.pdf BP. (2008). Statistical Review of World Energy, Londres; www.bp.com Direcção Geral de Geologia e Energia. (2008). Portugal Eficiência 2015, Lisboa,

E.Value,Lda - Projectos e Estudos em Ambiente e Economia, Lda. (2008). Portugal Clima 2020, Universidade Nova de Lisboa; Perdigoto, José Manuel. (2009). Energia em Portugal: resultados e perspectivas, Direcção Geral de Geologia e Energia, Lisboa; Jesus, Paulo M. de O. de (2007). Remuneration of Distributed Generation: A Holistic Approach, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto; Costa, João R. T. P. N. da (2008). As Energias Renováveis Aliadas à Construção Sustentável, Universidade de Aveiro Departamento de Engenharia Civil, Aveiro; Ferreira, Paula F. V. (2007). Electricity Power Planning in Portugal, Universidade do Minho Escola de Engenharia, Braga; Delgado, Joaquim D. B. (2002). Gestão da Qualidade Total Aplicada ao Sector do Fornecimento da Energia Eléctrica, Universidade de Coimbra - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Coimbra; International Energy Agency (2009). Monthly Electricity Statistics, Paris; www.iea.org/stats/surveys/mes.pdf Renewables - Global Status Report (2009), 2009 Update, Paris; http://www.ren21.net/pdf/RE_GSR_2009_Update.pdf

2

Energia e Sustentabilidade

Carlos Leite, Cláudio Galvão & João Mauro Rocha

2.1 Introdução

Actualmente, é impensável dissociar a vida e o bem-estar do Homem da utilização de energia. De facto, desde a Revolução Industrial que a necessidade de energia tem vindo a crescer de forma exponencial, pelo que tendo como pano de fundo as preocupações com o futuro surgiu o conceito de sustentabilidade e mais concretamente energia sustentável. Energia sustentável é um conceito relativo à provisão de energia tendo em vista as necessidades do presente, para que as gerações futuras também consigam suprir as suas necessidades energéticas. Na realidade, formas de energia consideradas sustentáveis são as que mundialmente se designam de “renováveis”, que englobam os biocombustíveis, energia solar, eólica, hídrica, das marés, geotérmica, entre outras. Tendo em conta o conceito de sustentabilidade, a exploração das fontes de energia deve ter em atenção que estas não se vão esgotar com o uso continuado, que a sua transformação e utilização não seja agressiva para o ambiente e que não apresentem riscos para a saúde humana. É lógico que estas exigências são dificilmente cumpridas na sua plenitude por qualquer forma de energia actualmente conhecida. Assim, o que se trata na realidade é de afirmar que algumas fontes de energia possam ser “mais sustentáveis ou menos insustentáveis que outras” (Reflexão do CNADS sobre Energia e Sustentabilidade, Junho de 2007).

2.2 Quadro energético actual

O problema ambiental e energético em que o mundo se encontra mergulhado assenta num grave conflito de interesses.

Em 2007 foram consumidas 11400 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep) e emitiram-se 27000 milhões de toneladas (Mt) de CO 2 . Considerando o actual ritmo de consumo de energia, as projecções apontam para um valor da ordem das 17700 Mtep consumidas em 2030, representando um crescimento de mais de 60% nas próximas décadas. O quadro energético actual não conseguirá sustentar este crescimento, uma vez que este se baseia em mais de 80% no consumo de combustíveis fósseis. Assim, esse aumento do consumo de energia iria implicar um crescimento exponencial das emissões de CO 2 e dos gases com efeito de estufa, e o que é necessário no futuro é reduzir essas emissões, o que coloca um grande dilema para a comunidade internacional resolver.

Hídrica +

Renováveis Nuclear 10% 9% Petróleo 35% Gás Natural 21% Carvão 25%
Renováveis
Nuclear
10%
9%
Petróleo
35%
Gás Natural
21%
Carvão
25%

Fig. 2.1. Cenário energético actual

Este sistema energético não apresenta qualquer flexibilidade, funcionando apenas no sentido da fonte geradora de energia para o consumidor final.

Nos últimos anos o combustível cujo consumo mais cresceu no mundo (cerca de 4.5% ao ano) foi o carvão, que também é

o mais poluente. A China, que é um dos países que se encontra em mais forte desenvolvimento, usa intensivamente este

recurso de tal forma que em cada cinco dias há uma nova central a carvão que entra em funcionamento. A China tem hoje cerca de 20 milhões de veículos, mas as projecções apontam para a possibilidade de uma sextuplicação da frota chinesa nas próximas duas décadas, prevendo graves consequências para o ambiente.

O modelo energético actual começa assim a levantar sérias preocupações e questões de sustentabilidade.

20

Gestão de Energia

2.3 Evolução (In)Sustentável

2.3.1 Perspectiva Histórica Actualmente, é inconcebível sequer imaginar o funcionamento do Mundo sem Energia. Desde o início do dia, que cada pessoa utiliza directa ou indirectamente inúmeros objectos movidos ou que de qualquer forma dependem da energia para o seu funcionamento. Mas nem sempre assim foi, apesar de o Homem ter tido sempre contacto com qualquer tipo de energia, desde a pré-história. Ainda assim, pode afirmar-se que o primeiro contacto com energia, em forma de descoberta, foi mesmo feito com a descoberta do fogo, que o Homem usou e continua a usar para cozinhar e para se aquecer. Também na era A.C. (Antes de Cristo), foi descoberto que o vento podia ser utilizado como fonte de energia, sendo que corria o ano de 1200 quando na Polinésia acontece o aproveitamento do vento como força propulsora para os barcos à vela.

Há cerca de 5000 anos, foi descoberta na China a influência das forças magnéticas que puxavam objectos ferrosos, existindo desde aí uma forte ligação deste tipo de energia com a náutica, nomeadamente ao nível da orientação (campo magnético terrestre orienta objectos ferrosos para o Norte). Por outro lado, a primeira forma de energia eléctrica foi descoberta quando um filósofo Grego, há 2500 anos atrás, quando friccionou ambar com peles de animais e notou que eram atraídas para o ambar partículas de pó. No fundo, tratavam-se de forças electrostácticas.

O

carvão como fonte de energia foi descoberto também na China, por volta de 1000 A.C

Como, ao contrário da madeira,

o

processo de combustão é mais longo e como produz mais calor, o carvão veio sendo muito utilizado como um

excelente combustível até há relativamente pouco tempo atrás. Mas a maior taxa de crescimento de utilização de energia deu-se realmente no século XIX, aquando do período histórico denominado de “Revolução Industrial”.

histórico denominado de “Revolução Industrial”. Fig. 2.2. Locomotiva a vapor (

Este período histórico teve início em Inglaterra, mas rapidamente a Revolução Industrial se espalhou para o resto da Europa e do Mundo. Na realidade, foi uma época caracterizada pelo aumento na utilização de maquinaria tendo em vista a produção em massa de bens, o que obviamente levou a um aumento exponencial na necessidade de energia. Também data deste período o aparecimento de novos meios de transporte, tais como a locomotiva, pelo que se tornou urgente o aparecimento de novas formas de aproveitamento de matérias tendo em vista o melhor aproveitamento energético. Ainda assim, a principal fonte de energia da altura era mesmo o carvão que, para além de ser um bem de manuseamento difícil, tem também outros factores adversos, como a agressividade para com a atmosfera e as reservas finitas. E foi principalmente com base na ideia de que as fontes deste combustível fóssil podiam extinguir-se que alguns cientistas começaram a pesquisar outras formas de produção de energia, tendo surgido nesta época aproveitamentos solares, hidroeléctricos e geotermais. Como se vê, a importância para os dias de hoje desta época histórica é extraordinária. O primeiro aproveitamento de energia solar data de 1860, em França, por Mouchout, e tinha como objectivo a concentração dos raios solares para ferver água e, com o vapor produzido, operar um pequeno motor. A evolução deste sistema deu-se a partir da observação do funcionamento desse motor por William Adams, que configurou uma série de espelhos que reflectiam os raios solares até uma caldeira de cobre elevada numa torre. O projecção desta série de acontecimentos nos nossos dias é, no fundo, o que se demonstra na seguinte figura:

Energia e Sustentabilidade

21

Energia e Sustentabilidade 21 Fig. 2.3. Aproveitamento solar moderno (

Fig. 2.3. Aproveitamento solar moderno

Com as suas experiências, William Adams conseguiu a produção de três vezes mais potência que a solução de Mouchout. Ainda assim, era uma época em que a consciência da população mundial não estava, logicamente, ocupada com preocupações ambientais, pelo que a implementação generalizada dos sistemas de produção, locomoção e outros a carvão levou ao insucesso comercial das soluções com base na energia solar. Também neste século começou a procura por soluções que aproveitassem a água para produção de energia. De facto, os primeiros moinhos tendo em vista a rega de culturas e mesmo a tentativa de produção de energia eléctrica tiveram origem por volta de 1878.

de energia eléctrica tiveram origem por volta de 1878. Fig. 2.4. Um dos primeiros aproveitamentos hídricos

Fig. 2.4. Um dos primeiros aproveitamentos hídricos (Fonte: Vaz Guedes, Manuel. O Gerador de Indução Trifásico:

funcionamento isolado, 2007)

Os sistemas de locomoção a derivados de petróleo teve origem ainda no século XIX, quando na Pensilvânia o coronel Edwin Drake descobriu petróleo bruto durante uma perfuração no solo. Desde aí, descobriram-se formas de derivar o petróleo em outros componentes, como o kerosene ou mesmo a gasolina e, se o primeiro era um produto ideal para candeias de iluminação, o segundo, com o aparecimento do motor a combustão pelo francês Jean Joseph Étienne Lenoir, levou ao desenvolvimento do automóvel como até hoje se conhece. Ainda assim, a utilização de derivados de petróleo como combustível teve o seu desenvolvimento durante o século XX, sendo para isso relevantes dois episódios:

a) Daimler e Benz inventam o primeiro automóvel com motor de combustão interna;

b) Henry Ford cria a produção em massa de automóveis.

De facto, o carro tornou-se o meio de transporte de eleição, o que se mantém até aos dias de hoje. Tendo como base o motor de combustão interna, apareceram ainda durante o século XX outras formas de transporte, como o primeiro protótipo de avião, pelos irmãos Wright.

22

Gestão de Energia

Considerações actuais Como se verifica, houve durante os anos uma evolução, tanto na utilização como nas formas de produção de energia. E são esses processos que na realidade fazem com que actualmente a discussão se prenda sobre os meios energéticos mais adequados para o futuro da sociedade. Durante os últimos dois séculos, foram sucessivamente implementados complementos indispensáveis ao bem-estar e tendo como objectivo o melhoramento das condições de vida da Humanidade. No entanto, uma enorme parte da energia necessária ao seu funcionamento provém de fontes que para além de terem reservas finitas na Terra, se provou levarem ao progressivo deterioramento do ambiente que nos rodeia, tão imprescindível para a nossa sobrevivência. Por métodos directos ou indirectos como a própria derivação do petróleo em componentes ou a combustão destes pelos motores dos automóveis, a utilização das fontes de energia que se referem tem vindo a potenciar a necessidade de se encontrarem e promoveram fontes alternativas.

de se encontrarem e promoveram fontes alternativas. Fig. 2.5. Consumo de energia primária ao longo dos

Fig. 2.5. Consumo de energia primária ao longo dos anos (Fonte:“BP, review of World Energy“)

Existindo já uma consciência a nível global dos problemas associados às energias mais poluentes, têm sido discutidas formas de potenciar a utilização de energias “limpas” e acabar com as preocupações relativas à quantidade dos recursos presentes no planeta. É precisamente aqui que se entra na discussão do subtema “Energia e sustentabilidade”.

2.3.2 Instabilidade e sustentabilidade do mercado petrolífero mundial

O mercado petrolífero mundial é uma estrutura onde interferem uma série de intervenientes com propósitos e métodos

de actuação muito diferentes. Este mercado apresenta elevada rentabilidade uma vez que não existem actualmente alternativas semelhantes que lhe possam fazer concorrência devido às suas características energéticas únicas, para além do seu forte impacto na economia mundial actual. Por outro lado, existe uma tal dependência do petróleo, que, mesmo com o aumento do preço deste, o consumo não diminui.

mesmo com o aumento do preço deste, o consumo não diminui. Fig. 2.6. Distribuição das reservas

Fig. 2.6. Distribuição das reservas de petróleo, em 1988, 1998 e 2008 (Fonte:“BP, review of world Energy“)

O facto do sistema económico mundial estar muito dependente do petróleo faz com que haja um maior receio da

comunidade internacional aquando de ameaças provenientes dos países produtores de petróleo. Muitos desses países utilizam o petróleo como arma que legitima a sua retórica anti-imperialista, anti-liberal e anti-capitalista, espalhando este sentimento por toda a sua área de influência dificultando a criação de vínculos diplomáticos e económicos do Ocidente nestas zonas.

Energia e Sustentabilidade

23

2.3.3 Impacto da dependência do petróleo

O ciclo alto do preço do petróleo que ocorreu entre 2004-2008 fomentou um conjunto de mudanças geopolíticas que

podem condicionar o futuro. Os países produtores de petróleo viram a sua influência política aumentar, juntamente com o seu poderio financeiro graças às receitas provenientes do petróleo. Disto resulta um reforço da posição das Companhias Nacionais de Petróleo dos países produtores (NOC‟s) que controlam mais de 80% das reservas mundiais de petróleo sendo que as Companhias Petrolíferas Internacionais (IOC‟s) controlam apenas 7%. Isto revela um novo fenómeno de consequências geopolíticas importantes, porque a dificuldade de acesso das Companhias Internacionais às reservas é cada vez maior. Assim, a dependência dos países consumidores em relação à OPEP tende a acentuar-se, não só pela OPEP deter mais de 70% das

reservas mundiais de petróleo, mas também devido ao declínio da produção dos países não pertencentes à OPEP e da OCDE. Tal situação poderá levar a alianças, que poderão polarizar a resistência à hegemonia americana. Esta realidade pode por em questão a segurança energética e a sustentabilidade ambiental.

a segurança energética e a sustentabilidade ambiental. Fig. 2.7. Grau de dependência de energia fóssil –

Fig. 2.7. Grau de dependência de energia fóssil – UE 25 (Fonte:“Comissão Europeia, Direcção Geral da Energia e Transportes 2006“)

Neste domínio, importa frisar as grandes disparidades de situação dos Estados-membro, quer quanto ao seu grau de dependência energética do exterior, quer quanto ao tipo de combustível fóssil de que dependem mais fortemente, e ter presente ao espírito as suas implicações profundas, do ponto de vista da segurança do abastecimento, que é hoje um dos grandes objectivos estratégicos da União Europeia. No primeiro caso, compare-se o caso do Reino Unido, ainda até há muito pouco tempo exportador líquido de petróleo, proveniente das suas jazidas no Mar do Norte, com o caso de Portugal, cujas necessidades de importação de energia se têm mantido de uma maneira persistente acima dos 80%. No segundo caso, contraste-se a situação dos países da Europa Central e de Leste (Hungria, Roménia, Eslováquia, Polónia, Alemanha, Áustria), muito dependentes da importação de gás natural da Rússia, com a de outros países europeus, entre

os

quais se inclui Portugal, cuja dependência é essencialmente petrolífera e que se abastece em gás natural, com origem

no

Norte de África e na Nigéria.

2.3.4 Crise social e escassez energética

Um maior crescimento económico significa maior complexidade social e económica, exigindo mais energia, e permitindo a descoberta e prospecção continuada da fonte energética dominante, para que a estruturação social e económica se mantenha. No entanto, este aumento da complexidade social, numa sociedade cada vez mais globalizada, poderá levar a

que os custos associados superem os benefícios, levando a um colapso económico e social. Ao longo do último século, os Estados economicamente dependentes do petróleo negligenciaram que a prosperidade económica que este permitiu é finita, motivada por um padrão de incremento económico e comercial global, que se baseia em remessas industriais de combustível não-renovável para se manter operacional e em constante movimento e intercâmbio.

A longo prazo, os benefícios que o petróleo trouxe às economias globais e às populações poderão ser ultrapassados pelos

custos continuados de uma aposta de curto-prazo, baseada numa economia petrolífera, sujeita a jogos de poder, negligenciando a ideia de longo-prazo e do desenvolvimento sustentável.

2.3.5 A necessidade da adopção de um novo paradigma energético

Tudo aponta para a necessidade de um novo paradigma energético, mas isso exige um trabalho conjunto e concertado das forças económicas, sociais, políticas e tecnológicas. Foi o que aconteceu nas grandes transições do paradigma

energético no passado quando se passou da lenha para o carvão e do carvão para o petróleo. O que é diferente hoje é o grau de complexidade da situação internacional e a vastidão das mudanças que estão a ocorrer nos mercados da energia,

na economia e na geopolítica. Estas mudanças, por um lado abrem novas perspectivas para o futuro, mas por outro lado

podem criar obstáculos adicionais à busca de um novo paradigma energético. De forma a mantermos o padrão de qualidade de vida atingido, sem infligir tantos sacrifícios à sociedade, tão dependente dos recursos fósseis, é preferível um desenvolvimento das fontes de energias renováveis, ao invés de uma

24

Gestão de Energia

estagnação da sociedade ou de uma “descomplexificacação” social, evitando que esta fique vulnerável às crises energéticas constantes causadas pela instabilidade dos mercados petrolíferos. Para que esta mudança no paradigma energético se verifique, serão necessários fortes investimentos e uma grande política, sendo que será “processo moroso, que exige enormes quantidades de capital e conhecimento, e cria não raras vezes uma série de anti-corpos sociais e económicos ao seu desenvolvimento” (World Business Council for Sustainable Development- WBCSD-, 2007).

O desenvolvimento de energias alternativas ao petróleo exigirá à sociedade e aos governos mundiais a adequação a uma

nova realidade energética e a novos hábitos, que permitam uma diminuição do consumo de combustíveis provenientes do petróleo, através da aposta em novas tecnologias e infra-estruturas. Esta necessária renovação energética terá de enfrentar o cepticismo de uma sociedade demasiado acomodada ao seu modo de vida, e que não tem a verdadeira noção do perigo iminente que o esgotamento das reservas petrolíferas irá acarretar, muito por culpa dos governos que tentam ocultar a real dimensão do problema, em especial para evitar o impacto que isso teria nos mercados energéticos. Esta resistência por parte das populações em avançar para uma nova realidade energética é até certo ponto compreensível e racional, uma vez que as pessoas têm grande dificuldade em pensar em tomar medidas a longo-prazo,

não actuando enquanto não se virem numa situação de perigo iminente. Por isso, cabe aos governos mundiais tomarem medidas que consciencializem e incentivem a sociedade para o grave problema da sustentabilidade energética. Para tornar esta reestruturação, tanto a nível de infra-estruturas como a nível tecnológico, mais eficiente, é necessário um esforço multilateral de cooperação por parte de todos os Estados, fomentando a troca de ideias e levando a uma transparência no que se refere às questões energéticas mundiais.

O objectivo de uma renovação energética será providenciar segurança, através de uma maior independência energética,

mas principalmente, de criação de bem-estar humano que assenta em remessas estáveis de energia abundante. Uma renovação energética significará uma maior democratização energética tanto na sua estrutura como no seu modo de organização no mercado, envolvendo de uma forma mais directa as populações.

É portanto necessário implementar um modelo energético mais flexível, que assente na contribuição de múltiplas formas

de energia e que o consumidor passe também a ter um papel de produtor de energia. É também necessário evoluir para uma melhor utilização dos recursos endógenos desde a energia hídrica à eólica, à solar, à energia das ondas, à geotermia,

à biomassa (

biocombustíveis de segunda e terceira geração que não competem com as culturas alimentares.

para além do desenvolvimento dos veículos eléctricos ou movidos a hidrogénio e à promoção dos

),

2.3.6 Dificuldades de um Mundo sem CO 2 Este novo paradigma energético virá quebrar hábitos e fazer com que o mundo se tenha que adaptar a uma nova realidade.

com que o mundo se tenha que adaptar a uma nova realidade. Fig. 2.8. Distribuição das

Fig. 2.8. Distribuição das emissões de CO 2 no Mundo, em 2002 (Fonte:“Energy efficiency policies and indicators“, World Energy Council)

Onde essa mudança terá grande impacto é no sector dos transportes, que no presente são dominados pelo petróleo. Com

o aparecimento dos carros eléctricos e dos carros movidos a hidrogénio, o sistema de transporte sofrerá uma grande

transformação. Outra questão que se coloca é em saber qual a reacção e a motivação dos países emergentes como a China

e a Índia a este novo paradigma energético, uma vez que estes países têm uma matriz energética baseada no carvão e possuem uma elevada ineficiência energética, o que os pode levar a colocar algumas barreiras a estas mudanças do panorama em questão. Surge assim uma batalha de interesses entre estes países em desenvolvimento e os países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos e os países europeus, que dificulta o alcance de uma solução harmoniosa e equilibrada para que se consiga a redução das emissões poluentes, tornando assim a assinatura de novos acordos nesta área profundamente complexas.

2.4 Revolução Energética: Chave para a sustentabilidade

2.4.1 Consumo versus Eficiência

A qualidade de vida de um país é directamente proporcional à quantidade de energia e eficiência com que a mesma é

utilizada.

Energia e Sustentabilidade

25

A eficiência energética surgiu como consequência dos dois choques petrolíferos, associados principalmente à

instabilidade política no Médio Oriente (1973 criação da OPEP e a revolução do Irão de 1979). Nessas ocasiões o mundo

constatou que a era da energia barata, plenamente disponível e controlada por algumas empresas internacionais, tinha passado. Depois destes choques, com os ajustes realizados, houve certa acomodação do consumo e dos preços internacionais. Na década de 90, novos acontecimentos a questão ambiental, o aquecimento global, novos aspectos geopolíticos, etc. trouxeram a questão da energia definitivamente para o topo da agenda mundial. Hoje a energia é tema permanente do G-8 e G-20 e, muitas vezes, domina a discussão dos principais líderes governamentais e empresariais nos diversos foros internacionais, mobilizando ainda a sociedade civil. Isso ocorre porque a forma como se produz, transporta e consome energia passou a ter implicações determinantes na geopolítica

mundial, com influência sobre o desenvolvimento económico e os padrões e níveis de consumo dos diversos países e, de forma decisiva, na questão dos impactos ambientais global, regional e local.

As políticas e medidas desenhadas para lidar com essas questões não são, no entanto, uniformes. Há uma visão que

considera que apenas o contínuo aumento da oferta de energia é a maior prioridade para atender às nossas necessidades energéticas. Por outro lado, há um outro enfoque que mostra que pode haver uma redução significativa do consumo de

energia através de políticas robustas de eficiência energética, reduzindo assim o aumento da oferta e os preços. A eficiência energética, por ter ainda um alcance mais amplo do que a oferta de energia, falando-se em termos da cadeia produtiva, gera também mudanças na forma como produzimos bens e serviços e no próprio hábito de consumo da população. Acontecimentos recentes vêm reforçando esta politica de eficiência energética:

a) As conclusões mais recentes dos estudos sobre o efeito estufa (relatório do IPCC e relatório “Stern” da Inglaterra), conjuntamente com novas negociações internacionais em curso no mundo avaliando os resultados do protocolo de Kyoto - que culmina com a reunião de Copenhaga agora no final de 2009;

b) A eleição de Barack Obama nos Estados Unidos, com sua visão de que os americanos precisam considerar seriamente o impacto ambiental global e serem mais independentes em termos energéticos;

c) A interdependência entre as fontes energéticas e seus usos, sugerindo que a as análises e decisões devam ir além das políticas especificas convencionais para energia eléctrica, petróleo, gás, carvão, combustíveis líquidos, etc.

No ambiente globalizado, por sua vez, a oferta de produtos e serviços segue decisões tomadas além das políticas industriais de cada país. Estimulado pela questão ambiental e pela nova posição americana prevê-se uma nova onda de investimentos em pesquisas que podem gerar mudanças na base tecnológica da oferta e da forma como se consome de energia. O exemplo mais típico é o carro eléctrico. É necessário então avaliar como essa nova onda poderá alterar a composição conjunta da oferta versus consumo de energia.

2.4.2 O Caminho para a Sustentabilidade

A

fonte energética mais utilizada no mundo tem sido a fóssil. Em primeiro lugar tem-se o petróleo, seguido pelo carvão e

o

gás mineral. Juntos, estes elementos são responsáveis pelo fornecimento de 80% da demanda mundial de energia. Este

cenário é preocupante, visto que estas fontes de energia não são renováveis e as suas reservas são limitadas, o que levará mais cedo ou mais tarde ao seu esgotamento. Outro aspecto a ser considerado é que os combustíveis fósseis (petróleo e carvão) são poluentes.

A Sustentabilidade é, cada vez mais, uma preocupação transversal nas sociedades modernas, devendo orientar não só a

actividade empresarial, mas a de cada um de nós em particular.

O caminho da sustentabilidade, baseada na responsabilidade, quer ao nível social, quer ambiental, quer económico.

Assim, ao sermos ricos em recursos naturais renováveis, e os potenciais energéticos (sejam eles solar, eólico, hídrico ou das ondas) assim o demonstram, temos de continuar e apostar na criação de legislação e medidas propícias ao acelerar

da penetração das Energias Renováveis no nosso potencial de produção.

O sector das Energias Renováveis tem evoluído muitos nos últimos anos, existindo ainda um enorme potencial de

crescimento. A energia que tem tido uma maior implementação é a eólica, no entanto estão a emergir outras tecnologias com potencial de larga escala, como a geotérmica e a energia solar concentrada. Estas, quando combinadas com os recursos tradicionais, poderão assumir um contributo muito positivo, com garantia de segurança no abastecimento, pois amenizam os problemas associados à incerteza do recurso natural. Por outro lado, as tecnologias no mar, que aproveitam a energia das ondas e do vento, surgirão a médio-prazo.

A quantidade de energia que pode ser aproveitada com as tecnologias actuais fornece um toltal de 5,9 vezes a

necessidade global de energia.

Sol

3,8 vezes

Calor Geotérmico

1 vez

Vento

0,5 vezes

Biomassa

0,4 vezes

Energia Hídrica

0,15 vezes

Energia dos Oceanos

0,05 vezes

Tabela 2.1. Energias Renováveis tecnicamente disponíveis actualmente (Fonte: Dr. Joachim Nitsch)

26

Gestão de Energia

Há ainda um factor muito importante a considerar, a par do impulso às renováveis, que é associado às tecnologias para redução do consumo. Não consumir, garantindo os mesmos padrões de segurança e de desempenho, também é um contributo importante para a economia e aqui existem oportunidades para novos paradigmas associados ao comportamento das cidades, desde um edificado mais eficiente com novas soluções construtivas, materiais mais eficientes ou até a modificação de comportamentos. Economias como a China e a Índia têm tido um crescimento bastante acentuado nos últimos anos, o que coloca na ordem do dia questões como a disponibilidade energética, prevendo-se uma duplicação da procura de energia a nível mundial até 2050. Assim, o principal objectivo a alcançar será contribuir para um crescimento responsável, que concilie desenvolvimento económico, protecção ambiental e redução das desigualdades globais. Para tal, será necessário um grande investimento nas tecnologias necessárias que possibilitarão

um futuro energético sustentável. Obviamente, o segredo é aproveitar ao máximo o potencial de todos os recursos energéticos. Todas as formas de energia devem ser desenvolvidas para fazer face às crescentes necessidades energéticas mundiais. Actualmente, o sector energético tem ao seu dispor as últimas tecnologias limpas (centrais a combustíveis fósseis de alta eficiência, energia nuclear, grande hídrica e outras renováveis) que lhes permitem contribuir para conciliar desenvolvimento e alterações climáticas.

A eficiência energética tem, também, que se tornar uma prioridade mundial tanto em termos de produção como de

consumo. A conservação de energia tem que se tornar numa das estratégias possíveis para aumentar a oferta de energia disponível.

Para além das políticas energéticas que se possam implementar, outro factor que pode proporcionar um maior investimento no que se refere à eficiência energética é o aumento do preço dos combustíveis fósseis, que levará a um maior diálogo entre governos e empresas do sector energético.

Para alcançar os desafios que se avizinham é necessária investigação e desenvolvimento mais intensivo e eficaz. Encontrar formas alternativas e mais limpas de energia, desenvolver os reactores nucleares de quarta geração bem como

a captura e armazenamento de carbono proveniente dos combustíveis fósseis, promover a eficiência energética

explorando vias promissoras formas de transporte com consumos mais eficientes, só será possível recorrendo as soluções

existentes e explorando activamente o potencial para soluções melhoradas.

2.4.3 A Importância da Sociedade Para que esta mudança de panorama energético se verifique é necessária uma mudança de hábitos e mentalidades por parte dos consumidores, de forma a evitar-se ao máximo o desperdício de energia. São necessárias medidas que

estimulem as pessoas a utilizarem mais os transportes públicos, assim como criar interdições aos automóveis no centro das cidades, sendo primordial uma reestruturação do urbanismo fazendo com que as cidades tenham um desempenho energético optimizado.

A sociedade tem que tomar consciência que é fundamental passar-se à acção no que respeita à eficiência energética. Essa

eficiência pode ser aplicada tanto aos edifícios, como a instalações industriais e aos seus equipamentos. É assim necessária uma melhor gestão dos recursos, de forma a compatibilizar o binómio energia e ambiente. Estas mudanças de hábitos têm que ser estimuladas por novas políticas que orientem a sociedade a práticas energéticas mais sustentáveis, devendo ser este o futuro das gestão pública.

 

Portugal (%)

EU 25 (%)

Como pretendo reduzir o meu consumo de energia não estou disponível para pagar mais

45

50

Não pretendo diminuir o meu consumo de energia e não estou disponível para pagar mais

19

15

Como não pretendo diminuir o meu consumo de energia estou disponível para pagar mais

15

12

Pretendo reduzir o meu consumo de energia e estou disponível para pagar mais

6

5

Nenhuma das anteriores

9

8

Não sabe

6

10

Tabela 2.2. Disponibilidade para reduzir o consumo de energia (Fonte: Eurobarómetro Atitudes em relação à energia, Janeiro de 2006)

Quando questionados sobre a sua disponibilidade para reduzir o consumo energético, mais de 5 em cada 10 europeus parecem estar dispostos a fazê-lo e 5% estão dispostos a operar esta mudança, mesmo que tenham que pagar mais por isso. Por outro lado, 1 em cada 4 europeus não estão dispostos a diminuir o seu consumo. Para o caso português é possível observar que cerca de 51% dos inquiridos referem estar disponíveis para diminuir o consumo, e apenas 1 em cada 10 está disposto a mudar e a pagar mais. Por outro lado, 15% afirmam que, como não estão dispostos a mudar os seus hábitos de consumo energético, estão disponíveis para pagar mais (12% EU 25).

Energia e Sustentabilidade

27

2.5 Indicadores de Sustentabilidade Energética

Os indicadores, por definição, representam valores estatísticos que revelam, no tempo, o estado específico e determinado de um fenómeno observável e mensurável. De maneira geral, os indicadores de sustentabilidade energéticos fornecem informações que servem de base para a formulação de políticas e medidas de gestão para planeamento. O objectivo fundamental desses indicadores é o estabelecimento de uma ferramenta analítica que possibilitasse a avaliação, a monitorização e a comparação do nível de sustentabilidade energética dos países.

A

discussão sobre o conceito de desenvolvimento sustentável e das formas de alcançá-lo leva à discussão, também, sobre

as

metodologias de medição do grau de desenvolvimento de uma sociedade e de quão sustentáveis são os seus sistemas

produtivos. Assim, dada à complexidade das dimensões envolvidas, a monitorização adequada do processo de sustentabilidade deve incluir um conjunto de factores de natureza social, política, económica ou ambiental. O progresso não pode se dar a qualquer custo. A construção de indicadores de sustentabilidade é necessária para se saber o custo do progresso no presente e para as gerações futuras. Além disso, deve envolver a evolução histórica, a situação actual e uma

visão de futuro em seu processo de construção, sem falar, no papel dos agentes envolvidos. No que concerne à questão energética, os indicadores devem mostrar o estado de um certo país em relação à sustentabilidade energética e, assim, possam orientar as políticas de investimento no sector e servir de ferramenta de tomada de decisão para os agentes públicos que actuam na regulação do sector. Na selecção dos indicadores, define-se também o nível de detalhe das informações com que se trabalhará. A escolha de muitos indicadores, ou extremamente detalhados, em vez de maior precisão, pode gerar dificuldades no processamento

e interpretação dos resultados. Por outro lado, escolher poucos indicadores ou indicadores muito superficiais, pode tornar as informações insuficientes para a avaliação da sustentabilidade de um país.

Ambiental

Económico

Quantidade de emissões de poluentes

População

Quantidade de emissões de gases de efeito estufa

PIB per capita

Percentagem de hidrogénio disponível

Actividade de transporte de cargas

Taxa de desflorestação

Consumo de energia per capita

Tempo remanescente das reservas de combustíveis fósseis

Importância do sector público nos investimentos energéticos não renováveis

Potencial de energias renováveis

Produção primária de energia

Emissões de CO2 do sector energético por habitante

Dependência externa de energia

Social

Vulnerabilidade energética

Desigualdade de renda

Matriz energética

Fracção da renda disponível gasta com consumo de energia

Tecnológicas

Percentagem de domicílios sem acesso a fontes de energia renovável

Intensidade energética

Consumo de electricidade residencial per capita

Difusão de energias renováveis

Tabela 2.3. Índices de sustentabilidade

Os indicadores ambientais permitem que cada país escolha o que considere ser o mais importante problema ambiental relacionado com a energia, tanto em relação aos seus impactos globais, como em relação aos seus impactos locais. Em relação aos indicadores sociais, os indicadores medem os domicílios com acesso à eletricidade e os investimos feitos em energia limpa que agem como incentivo à criação de empregos. Em referência aos indicadores económicos, eles medem a exposição aos impactos externos da exportação e da importação de energia e do volume de investimentos realizados pelo setor público na geração e transmissão de energia. Na dimensão tecnológica, os indicadores medem a intensidade energética, ou seja, o consumo de energia primária por unidade de PIB e a participação das fontes renováveis na oferta primária de energia.

2.6 Desenvolvimento Sustentável (União Europeia)

A proposta de discussão dos paradigmas de desenvolvimento e sua repercussão na utilização dos recursos naturais e

sistemas ecológicos, em detrimento ao tratamento das questões ambientais em seu sentido estrito senso, apresentada pelos países em desenvolvimento, culminou na definição de desenvolvimento sustentável: modelo de desenvolvimento que satisfaz as necessidades das gerações presentes sem afectar a capacidade de gerações futuras de também satisfazer suas próprias necessidades (WORLD COMISSION ON ENVIRONMENT AND DEVELOPMENT, 1987). As perspectivas das gerações futuras serem capazes de suprir as suas necessidades energéticas podem na actualidade ser representadas por uma série de desafios que a sociedade deve enfrentar. Ainda assim, o desenvolvimento sustentável tem de lidar com diversos factores, como as preocupações sociais, ambientais e económicas. Algumas das principais preocupações prendem-se com:

28

Gestão de Energia

a)

Mudanças climáticas e utilização de energias “limpas”;

b)

Transportes sustentáveis;

c)

Produção e consumo sustentáveis;

d)

Conservação e gestão dos recursos naturais.

O

conceito de desenvolvimento sustentável surgiu pela constatação de que o desenvolvimento económico também tem

que levar em consideração o equilíbrio ecológico e a preservação da qualidade de vida das populações humanas em nível global. Permite-se, assim, o restabelecimento do diálogo entre ONGs, comunidades científicas, empresários, governos de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento. As preocupações energéticas só foram incorporadas

ao discurso ambiental na última década em resposta às metas estabelecidas no Protocolo de Kyoto.

A primeira medida a tomar tendo em vista o cumprimento a médio longo-prazo de um objectivo está relacionada com a

tentativa de limitar as mudanças climáticas. Na realidade a União Europeia tem já exercido pressão sobre os países constituintes para que o protocolo de Kyoto seja cumprido e para que a emissão de gases para a atmosfera seja reduzida

em 20% até 2020.

2.6.1 Mudanças climáticas e utilização de energias “limpas” Sendo já um dado adquirido, as mudanças climáticas fazem parte desta geração e estão em constante aceleração. Existem

já zonas do globo que se encontram perante subidas de temperatura surreais, sendo que a temperatura média global

subiu já 0,76ºC desde o período da Revolução Industrial. Como já foi referido atrás, a quantidade de CO 2 que tem sido

libertado para a atmosfera derivado da queima de petróleo e outros combustíveis fósseis está intrinsecamente ligada ao piorar da situação climática. A médio-longo prazo não só o ambiente sofrerá, mas também toda a economia e sociedade em geral. Desde a assinatura do protocolo de Kyoto em 1997 que a União Europeia se comprometeu a até 2012 reduzir as emissões de gases poluentes em 8%, comparativamente a 1990. Já em 2007, foi aprovado um pacote de medidas tendo em vista mudanças na política energética até 2020:

a) Redução nas emissões de gases poluentes em 20% na Europa, ou em 30% se for atingido um consenso internacional sobre a matéria;

b) Melhoramento em 20% da eficiência energética;

c) Aumentar em 20% a utilização de energias renováveis;

d) Aumentar em 10% a utilização de biocombustíveis como energia principal para os transportes.

biocombustíveis como energia principal para os transportes. Fig. 2.9. Sectores responsáveis pela emissão de gases

Fig. 2.9. Sectores responsáveis pela emissão de gases poluentes (Fonte: A sustainable future in our hands, Novembro de 2007, Comissão Europeia)

Assim, a intensificação da eficiência energética e da co-geração, o aumento da participação das fontes alternativas na matriz energética, com ênfase nas energias renováveis, bem como a fixação de dióxido de carbono apresentam-se como estratégias complementares na busca do desenvolvimento sustentável em nível energético. No entanto, existe uma ampla gama de barreiras que limita a introdução e implementação da eficiência energética e de tecnologias de energias renováveis no mundo inteiro, envolvendo um grande número de oferta limitada de produtos associada a problemas de qualidade, bem como as de natureza comportamental, mais especificamente a baixa prioridade dada a questões energéticas ou a tendência de aquisição de produtos com base no menor custo inicial. Deficiências nos meios de operação do mercado e políticas de instituições públicas também são apresentadas por Geller (2003) como

barreiras ao desenvolvimento da energia sustentável. A primeira refere-se a consumidores mal informados, subsídios aos preços de energia, bem como falta de inclusão de custos sociais e ambientais nos preços da energia. A última refere-

se à falta de financiamento atraente e deficiências nas regulamentações, seja para medidas de eficiência ou para energias

renováveis. Acrescenta-se a isso ainda a penalização das políticas fiscais para esse tipo de tecnologia. Esse autor chama

Energia e Sustentabilidade

29

atenção que o objectivo final é tornar prática normal a eficiência energética, a tecnologia ou práticas de energias renováveis, por meio de um conjunto de intervenções coordenadas no mercado.

2.6.2 Transportes sustentáveis

Actualmente as estradas encontram-se sobrelotadas. É normal em horas de ponta perder-se muito tempo em filas de trânsito e, para além disso, são horas onde se emitem para a atmosfera uma quantidade desmesurada de gases poluentes. Na realidade, a emissão de gases devida ao tráfego aumentou em 26% entre 1994 e 2004, e isto sem contar com o tráfego aéreo, que também contribuiu com mais 87% desde 1990. A União Europeia tem então tomado uma série de medidas tendo em vista a obtenção de um futuro mais risonho ao nível dos transportes e pelo bem de um

desenvolvimento sustentável. Assim, é objectivo:

a) A redução de emissões poluentes de forma a minimizar efeitos na saúde humana e no ambiente;

b) Atingir um equilíbrio entre os períodos de utilização de todos os meios de transporte;

c) Reduzir emissões de CO 2 pelos veículos, apontando para um máximo de 140g/km em 2009 e 120g/km em 2012;

2.6.3 Produção e consumo sustentáveis

A sociedade actual é gerida pelo consumismo. São inúmeras as situações em que se compra um aparelho só para não ter

de se reparar o antigo, fazendo este parte do “lixo” que cada pessoa no mundo produz. Tudo isto representa pressões para a Terra em que vivemos, sendo que à medida que a população cresce, com os padrões de vida actuais também as agressões aumentam. O resultado está à vista, e implica a expansão das zonas urbanas, decrescimento da qualidade do

solo, percursos de água que secam ou estão poluídos

sendo que as fábricas onde eles servem como matéria-prima se constituem como grandes emissoras de gases poluentes. Tendo em vista tornar a produção e consumo de energia menos agressiva para os recursos terrestres, a União Europeia visa:

Os recursos minerais da Terra estão a ser também dizimados,

a) Por um fim na ligação entre o crescimento económico e agressões ao ambiente;

b) Encorajar por um lado a população e por outro as entidades governamentais a utilizar produtos ou serviços que tenham sido desenvolvidos de forma sustentável;

c) Apoiar o mercado das tecnologias “amigas”do ambiente;

2.6.4 Conservação e gestão dos recursos naturais

Até aos tempos de hoje, existiram já 5 extinções em massa derivadas de desastres naturais. Actualmente caminha-se para que possa acontecer a sexta extinção em massa desde o aparecimento dos primeiros seres vivos, pelo que urge realmente que seja constituída como principal preocupação a manutenção de um ambiente saudável, minimizando o risco de catástrofes naturais. Desta vez, nem só os animais estarão em risco de extinção, visto que se prevê que diversos minerais

não estejam a mais de alguns anos de desaparecerem. Deve assim fazer-se uma gestão e evitar a sobre-exploração de recursos humanos, pelo que a União Europeia tenta cumprir estes objectivos:

a) Reduzir a taxa de perda de biodiversidade mundial;

b) Reabilitar ambientes marinhos degradados e evitar a sobre-exploração dos mares relativamente à fauna marítima;

c) Promover reciclagem e reduzir criação de lixo;

2.7 Sustentabilidade no contexto português

Tendo em consideração que cerca de 88% da energia produzida anualmente para satisfazer as necessidades energéticas provém de combustíveis, e que nos próximos anos se espera que essas necessidades dupliquem, é necessário minimizar o aquecimento global e as alterações climáticas decorrentes desta situação, assim como reduzir as emissões de CO 2 para a atmosfera. Para além disso, como as reservas de crude se encontram maioritariamente em zonas politicamente instáveis, urge a necessidade de aumentar a diversificação de fontes de energia para garantir uma provisão fiável e contínua. Em Portugal, o conceito de sustentabilidade tem ainda uma importância maior, considerando que o país apresenta cerca de 90% de dependência energética, o que tem grande influência no facto de a dívida externa aumentar à volta de um milhão de euros por cada hora. Para além disso apresenta um dos maiores valores do indicador de intensidade energética (quociente entre o consumo global de energia e o PIB), o que indica que existe uma má utilização da energia.

30

Gestão de Energia

30 Gestão de Energia Fig. 2.10. Intensidade Energética (Fonte: Eurostat) O Decreto-Lei n.º 97/2002, de 12

Fig. 2.10. Intensidade Energética (Fonte: Eurostat)

O Decreto-Lei n.º 97/2002, de 12 de Abril, determina que a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) deve

“contribuir para a progressiva melhoria das condições técnicas, económicas e ambientais nos sectores regulados,

estimulando, nomeadamente, a adopção de práticas que promovam a utilização eficiente da electricidade e do gás natural e a existência de padrões adequados de qualidade do serviço e de defesa do meio ambiente”.

A evolução na regulação e liberalização dos mercados da electricidade e do gás natural tem levado a uma maior

eficiência no lado da oferta de energia. No entanto, no que respeita ao lado da procura, continuam a existir inúmeras

barreiras ao aumento da eficiência no consumo de energia, nomeadamente quanto à participação das empresas de energia em actividades de eficiência energética.

O reconhecimento da existência de diversas barreiras à adopção de equipamentos e hábitos de consumo mais eficientes

por parte dos consumidores, bem como a eventual existência de externalidades ambientais não reflectidas nos preços, justifica a implementação de medidas de promoção da eficiência no consumo. Estas barreiras de mercado ou falhas do mesmo dificultam ou impedem a tomada de decisões eficientes pelos agentes económicos. Entre as várias barreiras de mercado à eficiência no consumo estão o período de retorno alargado, diferença entre preços de fornecimento ou das

tarifas aplicáveis e os custos marginais de curto prazo, externalidades, falta de informação e elevados custos de transacção associados, desalinhamento de interesses entre os agentes ou restrições financeiras dos consumidores.

2.8 Conclusão

Sustentabilidade energética é a utilização ponderada dos recursos energéticos pela sociedade, de modo a satisfazer as suas carências na actualidade, mas que não degrade a biodiversidade e os ecossistemas naturais. A exploração sustentada destes recursos torna-se crucial para assegurar o desenvolvimento de todas as sociedades e permitir a satisfação das necessidades das gerações presentes e das gerações futuras. Uma exploração sustentada dos recursos tem como principal medida a adopção dos recursos energéticos renováveis como fontes de energia considerável. Estes recursos são a “salvação” da sociedade, em parte pelas vantagens que oferecem. No entanto, existem outras medidas que podem ser tomadas que ajudam a manter esta sustentabilidade:

a) Aumento do tempo de duração dos recursos não renováveis, através da redução do consumo, reciclagem e utilização de substitutos;

b) Adopção de outros tipos de energia, como a nuclear, que possui grandes reservas e polui menos;

c) Redução dos impactes ambientais negativos que resultam da exploração de recursos geológicos e energéticos.

Actualmente a gestão dos recursos de energia é um dos principais desafios da sociedade mundial. A superação desse desafio envolve a mudança de paradigma energético incluindo a garantia do progresso social, do equilíbrio ambiental e do sucesso económico. Geller (2003) garante que o desenvolvimento da energia sustentável deveria ser capaz de fornecer serviços adequados de energia para satisfazer as necessidades humanas básicas, melhorando o bem-estar social, além de atingir um desenvolvimento económico em todo o mundo. Em suma, para que se consiga um desenvolvimento sustentável é necessária uma união entre o sector económico, a sociedade e o ambiente.

Energia e Sustentabilidade

31

Energia e Sustentabilidade 31 Fi g . 2.11. Os três pilares do desenvolvimento sustentável (Fonte:

Fig. 2.11. Os três pilares do desenvolvimento sustentável (Fonte: http://sustentabilidade- energetica.blogspot.com/2009/01/sustentabilidade-energtica.html )

2.9 Referências

European

Comission.

A

sustainable

future

in

our

hands,

Novembro

de

2007

 

Yunhan,

Xiao.

Sustainable

Energy

Development

and

Technology

Innovation,

21

de

Fevereiro

de

2008,

BP Statistical Review of World Energy, bp.com/statisticalreview, Junho de 2009; World Energy Council, Comité Brasileiro. Desenvolvimento Energético Global Sustentável: o caso do carvão, www.worldenergy.org, ISBN 0 946121 14 1, Julho de 2004 ; CNADS. Reflexão do CNADS sobre Energia e sustentabilidade, Junho de 2007

World Energy council. Energy Efficiency : A Worldwide Review, www.worldenergy.org, ISBN 0 946121 17 6, Julho de 2004 Maciel, Marcela Alvares. Sustentabilidade Energética Industrial, 2008 (http://www.solenerg.com.br/figuras/monografia_maciel.pdf); Departamento de Prospectiva e Planeamento (DPP), “A Energia e a Globalização”, Lisboa, 18 Março 2008 A. Costa Silva, “A Europa: Segurança ou Insegurança Energética?”, Revista “Europa: Novas Fronteiras”, Centro de Informação Europeia Jacques Delors, Junho 2008 World Energy Council. O papel da Energia Nuclear na Europa, 2007 www.edp.pt [26 de Outubro de 2009] www.erse.pt [26 de Outubro de 2009] www.enerpar.pt [26 de Outubro de 2009] www.cpflcultura.com [28 de Outubro de 2009] www.willyoujoinus.com [11 de Novembro de 2009] www.netl.doe.gov/publications/others/pdf/oil_peaking_netl.pdf [11 de Novembro de 2009]

3

Dependência Energética na União Europeia

Fábio Robalinho, João Sousa & Nuno Félix

3.1. Introdução

Numa altura em que a questão dos problemas energéticos que assolam o mundo é cada vez mais discutida, chega-se à conclusão que a União Europeia (UE) ainda tem muito para resolver em relação a esta matéria.

A maior parte dos membros da União Europeia são países desenvolvidos ou em desenvolvimento e, por isso, com um

elevado consumo energético. Esta dependência energética é um assunto cada vez mais discutido por parte da UE.

A energia eléctrica é produzida de várias formas, utilizando variadas tecnologias e é proveniente de vários tipos de

fontes energéticas primárias. Os combustíveis fósseis constituem a maior parte destas fontes. A grande dependência destes combustíveis constitui um grave problema, uma vez que as reservas existentes são finitas. De modo a minimizar esta dependência, os órgãos da União Europeia têm se reunido no sentido de obterem soluções para se ultrapassar os principais desafios energéticos da actualidade. Esta dependência dos combustíveis fósseis, como o carvão ou o petróleo e os seus derivados, leva a outro problema e outro tipo de dependência. Uma vez que a maior parte dos países-membros não possuem reservas de exploração de combustíveis fósseis, é necessário importar essa energia, tornando a UE dependente de países externos. Este é um grave problema, tendo em conta que a União Europeia importa cerca de 50% da energia que consome, segundo dados da própria UE [1]. É por isso necessário implementar medidas a serem cumpridas por todos os países membros que tornem

a União Europeia independente a nível energético.

3.2 Dependência dos Combustíveis Fósseis

O carvão é um combustível fóssil que desde muito cedo foi bastante utilizado para a mobilidade (locomotivas e navios),

passando mais tarde a ser utilizado em centrais termoeléctricas. Hoje em dia as centrais a carvão subsistem mas a sua construção está praticamente extinta. Este desenvolvimento rápido tem como explicação a sua fácil extracção e grande abundância a nível mundial, possibilitando assim grandes e rápidos desenvolvimentos em máquinas a carvão. Relativamente ao petróleo e ao gás natural, possuem características e finalidades muito idênticas uma vez que são descobertos aproximadamente na mesma altura, mas devido à sua fácil extracção, e manuseamento o petróleo ganha uma elevada posição no mundo, onde passa a ser utilizado em todo tipo de máquinas (carros, navios, comboios, centrais termoeléctricas, etc). Quanto aos combustíveis fósseis, é extremamente importante ter-se a noção que estes, são recursos naturais não renováveis, pois são formados pela decomposição de matéria orgânica demorando milhares e milhares de anos a formarem-se. Não sendo renováveis á escala de tempo humana, mas sim ao longo de uma escala de tempo geológica, origina uma maior preocupação na medida em que é necessário diminuir a sua dependência, aumentando o consumo de energias renováveis. Considerando que o consumo de combustíveis fósseis se irá manter nos próximos anos estima-se que exista petróleo, gás natural e carvão para mais 42, 60, e 122 anos respectivamente. Embora não pareça, é um problema com consequências muito próximas, e portanto é uma questão importantíssima a resolver. Ainda para agravar a questão, como é sabido a união europeia é fortemente dependente de outros países, pois importa mais de 50% dos combustíveis fosseis que consome [2]. Contudo deve-se reter que todos estes valores são para reservas conhecidas ou activas, no entanto a subida dos preços do petróleo pode fazer com que compense a exploração de novos poços, aumentando assim as reservas e o tempo da sua extinção. Este fenómeno aplica-se aos outros dois combustíveis fósseis.

34

Gestão de Energia

34 Gestão de Energia Coal Proved reserves at end 2008   Share M illion tonnes Tot

Coal

Proved reserves at end 2008

 

Share

M illion tonnes

Tot al

of total

R/P ratio

T o tal Wo rld

826001

100,0%

122

of which: European Union

29570

3,6%

51

OECD

352095

42,6%

164

Former Soviet Union

225995

27,4%

433

Other EM Es

247911

30,0%

60

Fig. 3.1. Reservas de carvão em 2008, retirado de www.bp.com

3.1. Reservas de carvão em 2008, retirado de www.bp.com Natural gas Proved reserves   A t

Natural gas

Proved reserves

 

A t

end 2 0 0 7

A t

end 2 0 0 8

 

Trillion

Trillion

cubic

cubic

Share

R/P

metres

metres

of total

ratio

T o tal Wo rld

177,05

185,02

100,0%

60,4

of which: European Union

2,91

2,87

1,6%

15,1

OECD

16,56

16,63

9,0%

14,6

Former Soviet Union

51,50

57,00

30,8%

71,8

Fig. 3.2. Reservas de Gás Natural em 2008, retirado de www.bp.com

Oil

Oil

Proved reserves

 
 

A t

end 2 0 0 7

A t

end 2 0 0 8

 

Thousand

Thousand

million

million

Share

R/P

barrels

barrels

of total

ratio

T o tal Wo rld

 

1261,0

1258,0

100,0%

42,0

of which: European Union

 

6,7

6,3

0,5%

7,7

 

OECD

90,3

88,9

7,1%

13,2

OPEC

957,1

955,8

76,0%

71,1

Non-OPEC‡

174,7

174,4

13,9%

14,8

Former Soviet Union

129,2

127,8

10,2%

27,2

Fig. 3.3. Reservas de Petróleo em 2008, retirado de www.bp.com

União Soviética:

Arménia, Azerbaijão, Bielorrússia, Estónia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Letónia, Lituânia, Moldávia, Rússia, Tajiquistão, Turquemenistão, Ucrânia, Uzbequistão.

Membros OPEC (Organização de Países Exportadores de Petróleo) Médio Oriente: Irão, Iraque, Kuwait, Qatar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos. Norte de África: Argélia, Líbia. África Ocidental: Angola, Nigéria. Indonésia. América do Sul: Equador, Venezuela.

Membros OECD (Organização de Cooperação Económica e Desenvolvimento) Europa: Áustria, Bélgica, Republica Checa, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Islândia, Republica da Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Polónia, Portugal, Eslováquia, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido. Outros Países: Austrália, Canada, Japão, México, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Estados Unidos da América.

Outros EMEs (Mercados Económicos Emergentes) América do Sul e Central, África, Médio Oriente, não pertencentes à OECD Ásia e não pertencentes à OECD Europa.

Para além de todos estes problemas apresentados anteriormente acresce um outro problema que torna a situação ainda mais crítica, sendo este o aquecimento global do planeta. Este problema advém da queima de combustíveis, pois emitem poluentes para atmosfera tais como CO2, e metais pesados, como o mercúrio.

Dependência Energética na União Europeia

35

Dependência Energética na União Europeia 35 Fig. 3.4. Emissões de CO 2 per capita na UE

Fig. 3.4. Emissões de CO 2 per capita na UE em 2008, retirado de http://ec.europa.eu

Como combate aos combustíveis fósseis têm sido desenvolvidas novas tecnologias de produção e armazenamento de energia de forma limpa e renovável. Estas tecnologias já são bem conhecidas e actualmente estão a ser fortemente implementadas. Assim na União Europeia cerca de 18% da energia consumida advém de energias renováveis, diminuindo a sua dependência dos combustíveis fósseis e, consequentemente de países externos. No topo da tabela de países da União Europeia com maior independência energética situa-se o Reino Unido e de seguida Holanda e Noruega, sendo que o Reino unido é quase independente e tem a possibilidade de extracção de petróleo.

e tem a possibilidade de extracção de petróleo. Fig. 3.5. Percentagem de energia renovável produzida por

Fig. 3.5. Percentagem de energia renovável produzida por cada tecnologia relativamente à energia total produzida na UE. Retirado de http://ec.europa.eu

Para a melhoria desta dependência todos (Países da União Europeia) podem contribuir, construindo edifícios mais eficientes (cerca de 30%), utilizando máquinas mais eficientes, fazendo uma boa gestão da energia e aproveitando a queima de resíduos para a produção de electricidade. Relativamente ao facto do aumento de CO2 este pode ser evitado actuando em todos os campos anteriores e complementado com a plantação de árvores, “zonas verdes”. Como método alternativo à geração de electricidade através dos combustíveis fosseis estuda-se a possibilidade de utilização do hidrogénio, pois este é o elemento mais simples da tabela periódica e com maior existência no mundo. O hidrogénio pode ser obtido através de vários métodos e um deles é através da electrólise da água. Uma vez obtido o hidrogénio este pode ser o combustível das pilhas de combustível, gerando assim electricidade. Devido à grande variação de tamanho e forma das pilhas de combustível estas conseguem ter uma aplicação em quase todos os campos, tornando o hidrogénio a energia do futuro. Se o hidrogénio conseguir implementar-se de igual forma ao petróleo a União Europeia conseguirá ter uma elevada independência energética.

3.3. Dependência de Países Externos

Um elemento constante na pauta de todos os Estados é a ideia de segurança energética. Como consequência, a busca pela auto-suficiência em termos de energia é um objectivo crescentemente perseguido. Contudo, a questão da energia vai muito além do mundo da economia. O alcance da segurança energética obriga a que os actores em questão sigam alguns princípios básicos, como a busca da diversificação de fornecedores, a garantia de uma margem de segurança no sistema de oferta, o reconhecimento de uma realidade integrada na qual somente existe um único mercado de energia, e a importância da informação neste. Neste contexto, o suprimento de energia torna-se uma arma de política externa. [3] A União Europeia mantém uma elevadíssima dependência energética externa que constitui uma ameaça permanente ao fornecimento energético dos seus estados membros. Esta dependência energética de países externos da União Europeia está em contínuo crescimento. As necessidades energéticas da UE são cobertas em cerca de 50% com produtos importados e, se nada se fizer até 2020 ou 2030, este número poderá aumentará para 70%. Essa dependência externa implica diversos riscos, tais como riscos económicos, sociais, ecológicos e físicos para a UE. A importação de energia representa 6% do total de importações. A conclusão é clara: a Europa tem uma grande dependência do exterior e em especial da Rússia (27%) e, face ao declínio da produção do Mar do Norte, não está a prestar atenção suficiente à necessidade de diversificar os seus abastecimentos e reforçar a contribuição do Norte de África, da África Ocidental e da Bacia Atlântica. Relativamente ao gás natural a Europa assegura 53% das suas necessidades, tendo a Rússia (24%) e a Argélia (19%) como principais fornecedores. [4]

36

Gestão de Energia

Ora, a UE não dispõe ainda de todos os meios que permitam inflectir as tendências do mercado internacional.

A maioria dos países membros da UE tem apenas a Rússia como país fornecedor de gás.

da UE tem apenas a Rússia como país fornecedor de gás. Fig. 3.6. Dependência energética externa

Fig. 3.6. Dependência energética externa da Europa. Fonte: Comissão Europeia - Livro Verde para a Energia (2006)

Um agravante para esta situação de dependência externa reflecte-se quando se verifica que as duas principais fontes energéticas, ou seja, o petróleo e o gás natural, provêm de países complicados do ponto de vista geopolítico, nomeadamente do Médio Oriente e da Rússia.

geopolítico, nomeadamente do Médio Oriente e da Rússia. Fig. 3.7. Origem do Petróleo e Gás Natural

Fig. 3.7. Origem do Petróleo e Gás Natural consumidos na União Europeia (2005). Fonte: Comissão Europeia Portal da União Europeia (2007)

Comissão Europeia – Portal da União Europeia (2007) Fig. 3.8. Importações de Petróleo e Gás Natural.

Fig. 3.8. Importações de Petróleo e Gás Natural. Retirado de http://ec.europa.eu

A Rússia pretende dominar a produção de gás e o sistema de distribuição dos gasodutos contudo não pode ser

considerada como um fornecedor fiável de energia, como é exemplo as crises na Ucrânia e Bielorrússia.

3.3.1 Energia Como Arma de Guerra Política

A Ucrânia consome por volta de 80 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano. Dessa quantia, a Ucrânia é

responsável pela produção de 20 bilhões, compra por volta de 36 bilhões de metros cúbicos do Turquemenistão, e recebe cerca de 17 bilhões da Rússia, como pagamento pelo transporte de gás para a Europa. O resto (de 6 a 8 bilhões) é adquirido da Rússia. Segundo o CIA's World Factbook, a Ucrânia é o quarto maior importador e sexto maior consumidor

Dependência Energética na União Europeia

37

de gás natural do mundo. Isto é em parte devido ao desperdício e ineficiência, costume adquirido durante a época de dominação da União Soviética. [5] Através da Ucrânia transita 80% do gás que a união Europeia recebe da Rússia, um quarto do consumo total. A Rússia é responsável por cerca de 25% do gás consumido na União Europeia. Outros países da União Europeia respondem por 40% do fornecimento para os países do bloco, enquanto a Noruega é responsável por 16,7% e a Argélia por 10,9%.

a Noruega é responsável por 16,7% e a Argélia por 10,9%. Fig. 3.9. Gasodutos de gás

Fig. 3.9. Gasodutos de gás natural da Rússia a Europa. Retirado de http://wikipedia.org

A "guerra do gás" em fins do ano de 2008 e inícios do ano de 2009 entre Ucrânia e Rússia foi vista na Europa e nos

Estados Unidos como uma crise de curto prazo que colocou em dúvida a confiança na Rússia como fornecedora estável

de energia.

A Rússia apesar de enfrentar défice de democracia e graves problemas de infra-estrutura é uma potência energética

mundial. A Rússia controla 6% das reservas mundiais de petróleo, 34% das de gás e 18% das de carvão mineral. As interrupções no fornecimento do gás e petróleo que chegam à Alemanha e à UE através da Ucrânia e Bielorrússia foram interpretadas como demonstração do novo poder da Rússia, que há tempo perdeu seu estatuto de potência política e militar mundial. [6]

O emprego por Moscovo da "arma da energia" remonta os anos 90, quando cortou o fornecimento de energia aos países

bálticos em uma tentativa fútil de deter seus movimentos de independência. Ela foi usada novamente contra os Estados bálticos em 1992, em retaliação pelas exigências de que a Rússia removesse suas forças militares remanescentes. Em 1993 e 1994, a Rússia reduziu o fornecimento de gás para a Ucrânia, em parte para pressioná-la a ceder mais controle

sobre sua infra-estrutura de energia e sobre a Frota do Mar Negro. Mesmo a Bielorrússia, e indirectamente a Polónia e a Lituânia, sofreram em 2004 de reduções de fornecimento por motivação política. [7]

A disputa comercial pelo gás natural entre a Rússia e a Ucrânia em 2009 começou quando os dois países falharam em

alcançar um acordo sobre os preços e o fornecimento do gás natural para 2009.

A Rússia indicou à UE para monitorizar a circulação de gás que circula através das infra-estruturas ucranianas acusando

a Ucrânia de desviar gás destinado a Europa para uso próprio. Alexandre Medvedev, vice-presidente da empresa russa de gás Gazprom, acusou a Ucrânia de ter roubado 50 milhões de metros cúbicos de gás, do gasoduto em território ucraniano e de reservas subterrâneas. A Ucrânia negou essas acusações, alegando que problemas técnicos estavam a prejudicar o fluxo para a Europa. A empresa ucraniana Naftohaz afirmou que o uso da quantidade de gás foi realizado como "gás técnico" para as estações compressoras a fim de manter o fornecimento de gás para a Europa e para manter a pressão de gás no seu sistema de gasodutos. Assim sendo a empresa usou temporariamente 5,2 milhões de metros cúbicos para as suas necessidades técnicas garantindo a entrega de cerca de 1,5 bilhão de metros cúbicos de gás russo para a Europa, sendo o volume de gás devolvido posteriormente. A Naftohaz assegurou também que usou o gás de suas próprias reservas para manter a exportação do gás russo para a Europa e que a queda de pressão nos gasodutos não foi uma falha causada pela Ucrânia. Além a acusação de roubo de gás, a empresa Gazprom assegurou que a Ucrânia estaria atrasada com os pagamentos tendo acumulado grande divida.

3.3.1.1Estado de emergência

A disputa entre Rússia e Ucrânia sobre fornecimento de gás para o Leste Europeu deixou centenas de milhares de

residências europeias sem aquecimento, em meio ao inverno rigoroso. Mais de 15 países foram afectados pelo corte no

fornecimento do gás da Rússia. Entre os mais prejudicados estão Sérvia e Bósnia-Herzegovina.

38

Gestão de Energia

Pelo menos oito cidades ficaram completamente sem gás no país, deixando cerca de 100 mil pessoas sem aquecimento.

A maioria das estações que fornecem aquecimento às residências trocou o gás por fontes de energia alternativas. Grandes

usuários industriais, como as refinarias e indústrias químicas, foram aconselhadas a mudarem também para outras fontes de energia geralmente mais caras, como o petróleo. Outras, que operam apenas com gás, tiveram de ser fechadas

por causa do corte.

A Sérvia é praticamente dependente do gás russo e recebeu um fornecimento de emergência vindo da Hungria e da

Alemanha para tentar amenizar o impacto da paralisação do fornecimento. Polónia, Hungria, Roménia e Bulgária registaram uma queda no abastecimento de gás em mais de 40% depois que a empresa russa Gazprom, que detém o monopólio do carburante no país, interromper o fornecimento à Ucrânia no inicio do ano de 2009 por conta de disputas de preços. Com as baixas temperaturas desse inverno, os búlgaros também sentiram na pele as consequências. Devido a diminuição da pressão do gás, os andares mais altos dos prédios receberam pouco ou nenhum aquecimento. A “situação de crise” foi equacionada pelo governo búlgaro que aconselhou a população a baixar a temperatura dos aquecedores para economizar. Alguns países, como Hungria, República Checa e Eslováquia viram as suas reservas chegarem praticamente ao fim,

tendo a Hungria limitado a entrega de gás a consumidores e na Eslováquia ter sido declarado estado de emergência pelo governo. Na Bósnia, aproximadamente 72 mil residências ficaram privadas de aquecimento, com temperaturas que chegaram a atingir -15ºC. Nicola Spiric, primeiro-ministro bósnio afirmou que a situação registada do aquecimento no país foi pior

do que a registada durante o conflito da década de 90

Em suma, apesar do compromisso da Rússia em garantir o fornecimento de energia, iniciada há mais 40 anos, a seriedade política de Moscovo é posta em causa por muitos europeus. De acordo com a presidência da União Europeia, e com a Comissão Europeia, a crise do gás causou danos irreparáveis e irreversíveis na confiança dos consumidores na Rússia. Isto significa que tanto a Rússia quanto a Ucrânia já não são mais considerados partes confiáveis. A Agência Internacional de Energia disse que a Rússia perdeu o estatuto de fornecedor confiável de gás para a Europa. Michael Glos, ministro alemão da Economia, afirmou que as interrupções causadas pela Rússia foram a prova de que é necessário encontrar alternativas para a energia importada do Leste. Entretanto, o crescimento económico da China e da Índia obriga a uma nova organização geopolítica de consumos e necessidades energéticas. China e a Índia fazem encomendas gigantes, inflacionando os preços para os demais. Só a Índia deverá quadruplicar seu consumo de energia nos próximos 25 anos. Peritos advertem que os europeus vão sentir

na pele também esta fome de energia dos países emergentes.

3.3.2 Implicações Provocadas pelos Países Emergentes

A acentuada dependência externa da União Europeia é ainda agravada pela competição da China e da Índia no acesso a

novas reservas recorrendo a estratégias, em particular a China, que privilegiam as relações políticas inter- governamentais que favorecem as relações comerciais entre as companhias nacionais dos países produtores e as

companhias estatais chinesas.

A crescente procura de energia pela China e pela Índia desencadeou uma corrida mundial pelo acesso seguro aos

recursos escassos de combustível fóssil, tarefa que se torna ainda mais complicada em razão do surgimento de companhias nacionais de petróleo nos países possuidores de reservas. Paralelamente, o consumo de gás tende a aumentar na China em consequência da determinação governamental de

reduzir os níveis de poluição atmosférica causados pela queima do carvão, muito embora tenham sido descobertas novas reservas de gás no território chinês.

O grande crescimento da economia chinesa e indiana nos últimos anos surpreendeu os envolvidos, de uma forma ou de

outra, com a indústria de energia global. Hal Sirkin, sócio sénior e director gerente do BCG e presidente de práticas de operações globais da instituição, afirmou: “A China e a Índia estão modificando os pontos globais de equilíbrio dos

recursos disponíveis”, realçando que os mercados emergentes de consumidores nesses dois países estão por trás do impulso observado na procura.

O assunto das implicações estratégicas das necessidades chinesas de energia deve ser examinada, tendo como premissa a

crescente dependência da China ao petróleo e gás importados. Em contrapartida, no início dos anos 90, do século findo, a

China obtinha saldo positivo nas suas transacções internacionais com petróleo e, agora, converge, segundo projecções para o ano de 2020, para um volume de importações da ordem de 60% do petróleo e 30% do gás que utiliza.

A China apresentando um crescimento médio de 9,6 % por ano desde 1978, transformou-se num dos maiores

consumidores de recursos naturais do planeta. Desde de 2003, a crescente procura chinesa provocou grandes recordes nos preços do petróleo no mercado internacional. A China é o segundo maior consumidor de energia e deverá se tornar

o

primeiro em 2010.

a Índia vai se tornar o terceiro maior importador de petróleo antes de 2025, superando o Japão, e ficando atrás apenas

dos Estados Unidos e China. Segundo os cálculos da AIE, as necessidades energéticas do mundo serão 50% superiores em 2030 do que as actuais. Juntas, China e Índia, vão responder por 45% do aumento no consumo primário de energia.

Dependência Energética na União Europeia

39

O estudo prevê que os países consumidores de energia vão cada vez mais depender das importações de petróleo e gás,

principalmente do Médio Oriente e Rússia. No cenário mais provável traçado pela AIE, as importações da China e Índia,

combinadas, saltarão de 5,4 milhões de barris por dia em 2006 para 19,1 milhões de barris em 2030. [8]

por dia em 2006 para 19,1 milhões de barris em 2030. [8] Fig. 3.10. Procura energética.

Fig. 3.10. Procura energética. Fonte: Agência Internacional de Energia (AIE)

A diplomacia chinesa também faz-se presente, de forma vigorosa, no Médio Oriente e na Rússia, na Ásia Central, África

(Sudão) e América Latina, procurando parcerias estratégicas regionais que possibilitem o suprimento das suas crescentes

necessidades de petróleo e gás.

A Europa, na sua luta pelo acesso a recursos energéticos tem de lidar com o poder crescente das companhias nacionais

dos países produtores, a forte competição da China e da Índia, os constrangimentos estruturais do mercado energético e o crescimento da onda de nacionalismo dos recursos. Acresce a isto o facto da principal região produtora da Europa o Mar do Norte estar em declínio. É importante potenciar todas as possíveis alianças dentro do Continente e em especial com a Noruega que tem recursos importantes no Árctico, mas sem esquecer a necessidade de estabilizar a relação com a Rússia e o Médio Oriente que são parceiros importantes da Europa e assegurar o desenvolvimento das ligações com a

África, a Bacia Atlântica e a Ásia Central. Embora, ao que tudo indica, as companhias ocidentais venham a sofrer com as dificuldades próprias dos custos crescentes de energia, há um lado da escassez global que talvez seja positivo: a energia renovável e a energia nuclear oferecem imensas oportunidades a investidores e empreendedores, sobretudo agora que há uma preocupação no mundo todo com o impasse a que se chegou em torno dos volumes de emissão do dióxido de carbono.

3.4. Soluções Para Uma Maior Independência

Para evitar, ou minimizar, as dependências descritas nos pontos anteriores, a União Europeia tem elaborado vários acordos e pacotes de medidas das quais se podem salientar as seguintes:

a) Pacote Clima-Energia da EU;

b) Acordo de Nabucco;

c) Novas estratégias de compra;

3.4.1 Pacote Clima - Energia da UE Com o intuito de combater as alterações climáticas, a União Europeia elaborou um conjunto de medidas que têm como objectivo combater as alterações climáticas que assolam o planeta e, ao mesmo tempo, reforçar a sua segurança energética, reduzindo a sua dependência das importações de petróleo e gás do estrangeiro. Este conjunto de medidas está inserido no Pacote Clima - Energia da UE, do qual se destacam as principais metas a serem cumpridas até 2020:

a)

Redução das emissões de gases com efeito de estufa em, pelo menos, 20% relativamente aos níveis de 1990 (30%, se outros países desenvolvidos se comprometerem a realizar cortes comparáveis);

b)

Aumento da utilização das energias renováveis (eólica, solar, biomassa, etc.) para 20% da produção energética total (actualmente, cerca de 8,5%);

c)

Redução do consumo de energia em 20%, mediante um aumento da eficiência energética.

O

ponto fundamental deste pacote é a redução das emissões de gases de estufa. Para se atingir este objectivo existe

também uma meta importante que impõe uma redução de 10% em relação aos níveis de 2005 das emissões de CO2 provenientes dos transportes. Como é possível observar através do gráfico seguinte, a União Europeia é responsável por 26,9% das emissões mundiais

contribuindo com resultados catastróficos para todo o mundo, resultando daí a importância da diminuição deste número.

40

Gestão de Energia

40 Gestão de Energia Fig. 3.11. Emissões de CO2 de vários países e regiões mundiais. Retirado

Fig. 3.11. Emissões de CO2 de vários países e regiões mundiais. Retirado de http://www.ecodebate.com.br

Outra das metas definidas pela UE está relacionada com o aumento da produção de energia através de fontes renováveis. Esta solução fará com que seja necessário utilizar menos combustíveis fósseis e, consequentemente, importar menos energia primária doutros países. Apesar do objectivo da redução dos 20% ser comum a todos os países membros, as cotas não são as mesmas para cada país, tal como demonstra o gráfico seguinte.

para cada país, tal como demonstra o gráfico seguinte. Fig. 3.12. Percentagem de produção através de

Fig. 3.12. Percentagem de produção através de energias renováveis, dos vários países membros. Retirado de http:// ec.europa.eu

Salvo raras excepções a maior parte dos países já se encontra perto da meta definida e será provável que a consigam atingir até 2020, sendo que muitos deles definiram metas internas que ultrapassam as metas definidas pela União Europeia.

Dependência Energética na União Europeia

41

Outro dos objectivos da União Europeia para minimizar a sua dependência energética passa pela redução dos consumos. Em tempo de crise a redução do consumo parece quase inevitável, estimando-se que ocorra um decréscimo de 3,5% em 2009, devido principalmente à grande quebra verificada no sector industrial (entre 10% a 20%) e que está relacionada com a grande quantidade de indústrias europeias que fecharam as portas. No entanto a União Europeia continua a ser um dos grandes consumidores mundiais de energia eléctrica, sendo necessário que se criem as condições necessárias para resolver este problema.

A primeira fase de actuação passa pela criação de organismos que têm como objectivo divulgar esta questão e dar

conhecimento a todos os cidadãos pertencentes à UE através de campanhas para promover a redução do consumo de energia. Outro grande impulso para a redução dos consumos está relacionado com a certificação energética. Foi então criado um decreto-lei europeu que dá cumprimento à obrigatoriedade dos Estados-Membros de implementarem um sistema de certificação energética que assegure a melhoria do desempenho energético e da qualidade do ar interior nos edifícios e que garanta que estes passem a deter um Certificado de Desempenho Energético [9].

passem a deter um Certificado de Desempenho Energético [9]. Fig. 3.13. Índices energéticos. Retirado de

Fig. 3.13. Índices energéticos. Retirado de http://certificacao-energetica.pt

Através da certificação energética, os cidadãos podem ter a noção da qualidade energética das suas habitações e terem desta forma a opção e a capacidade de intervir directamente num problema comum a todos, melhorando as condições energéticas de que dispõem e levando a que o consumo diminua.

O consumo de energia dos serviços associados aos edifícios constitui, sensivelmente, um terço do consumo energético da

UE. A União Europeia considera que é possível, através da adopção de iniciativas neste domínio, fazer economias importantes e desta forma contribuir para os objectivos relacionados com a alteração climática e a segurança do abastecimento. Para abordar estes desafios de carácter comunitário, é necessário estabelecer medidas a nível comunitário

[10].

3.4.2 Acordo de Nabucco

O acordo de Nabucco foi assinado entre a União Europeia e a Turquia a 13 de Julho de 2009 e visa impedir que a Europa

dependa quase exclusivamente da Rússia e que se repitam os problemas com a passagem de gás russo pela Ucrânia [11].

O objectivo deste acordo é a construção dum gasoduto que permita à UE importar gás doutras regiões e doutros países

fornecedores que não a Rússia. O Nabucco não será uma alternativa ao gás proveniente da Rússia e que chega à Europa através da Ucrânia, uma vez que apenas poderá fornecer 5% a 10% das necessidades europeias, mas sim uma diversificação das fontes energéticas de abastecimento.

diversificação das fontes energéticas de abastecimento. Fig. 3.14. Gasoduto Nabucco em construção. Retirado de

Fig. 3.14. Gasoduto Nabucco em construção. Retirado de http://www.newstin.com.pt

Este acordo possibilita à União Europeia importar o gás proveniente das regiões do Mar Cáspio e do Médio Oriente utilizando a Turquia como ponto de ligação à União Europeia, passando pela Bulgária, Roménia e Hungria até à região austríaca de Baumgarten, em pleno centro da Europa.

42

Gestão de Energia

42 Gestão de Energia Fig. 3.15. Rota do gasoduto Nabucco. Retirado de http://www.dw-world.de A construção do

Fig. 3.15. Rota do gasoduto Nabucco. Retirado de http://www.dw-world.de

A construção do Nabucco origina benefícios, não só para a União Europeia, mas também para a Turquia, uma vez que com a criação de um gasoduto bidireccional, cria-se uma disposição técnica que permitirá fornecer gás à Turquia, em caso de crise, a partir da rede europeia [12]. Estima-se que a o gasoduto esteja concluído em 2014, transportando gás do Azerbaijão, que será o grande país fornecedor, mas também de países como o Turquemenistão, o Irão, o Iraque e o Egipto. Este gasoduto deve livrar a Europa das tradicionais guerras entre a Rússia e a Ucrânia, tornando a União Europeia mais independente energeticamente e evitando assim situações de quebra de abastecimento como as que aconteceram em Janeiro de 2009. O projecto Nabucco irá competir com um outro projecto de gasoduto, South Stream, desenvolvido pelos gigantes russo Gazprom e italiano ENI, que deve ligar a Rússia à Bulgária pelo mar Negro [12]. Este projecto, tal como outro denominado Nord Stream, que tem como objectivo ligar a Rússia à Alemanha através do Mar Báltico, evitam os conflitos Rússia-Ucrânia que têm prejudicado a Europa com interrupções de abastecimento de gás, mas não evitam a grande dependência energética europeia face à Rússia. No entanto, devido às grandes pressões exercidas pela Rússia, é provável que estes projectos avancem, fragilizando o Nabucco e fazendo com que a Europa continue a importar da Rússia a maior parte do gás que consome.

3.4.3 Novas estratégias de compra Uma vez que a União Europeia se encontra dependente da energia externa surge a necessidade de uma nova organização geopolítica de consumos e necessidades energéticas que consigam combater a inflação de preços provocada por países emergentes como a China e a Índia. Estes países, para além de possuírem uma extensa dimensão geográfica e uma população bastante numerosa, encontram-se em fase de grande desenvolvimento, o que leva a que façam grandes encomendas de energia, inflacionando os preços de mercado. Estima-se que a Índia quadruplique o seu consumo nos próximos 25 anos. Face a este problema a UE pretende estabelecer uma nova estratégia de compra em que as encomendas são feitas em nome de todos os países do bloco, pondo de parte a estratégia utilizada presentemente em que cada país faz a sua encomenda. Com isto será possível reduzir os preços da energia importada e dar uma demonstração de força enfrentando a concorrência no mercado eléctrico de energia.

3.5. Conclusão

Nos últimos anos, a União Europeia tem reunido esforços no sentido de evitar as suas grandes dependências energéticas. Apesar de essas dependências serem combatidas através das várias soluções adoptadas pelos países membros, o seu aumento é inevitável e estima-se que durante o presente século a dependência dos combustíveis fósseis e, por consequência, a dependência de fornecimento energético através de países externos continuem a aumentar. Soluções como o Acordo de Nabucco e o Pacote Clima-Energia ajudam a diminuir essas dependências mas revelam-se insuficientes, principalmente devido ao contínuo aumento do consumo energético.

3.6. Referências

4

Energias Renováveis versus Energias não Renováveis

Justino Rodrigues, Pedro Pereira & Sérgio Santos

4.1. Introdução

Nunca como na actualidade se discutiu tanto sobre a sustentabilidade energética mundial. O problema prende-se com a necessidade de abastecer o mundo de energia no futuro, perante o facto dos recursos fósseis serem limitados. Esta consciência começou a surgir de uma forma mais abrangente no público e na comunidade científica, após a crise do

petróleo nos anos 70, quando alguns países, grandes produtores de petróleo (nomeadamente os países do médio oriente)

se aperceberam da dependência ocidental, e passaram a influenciar de forma crucial os preços do petróleo desde então

até aos nossos dias. Começou-se por isso a pensar em apostar em energias renováveis ou inesgotáveis, e os principais candidatos foram desde logo a energia eólica e solar, seguindo-se posteriormente outros tipos de energia. A nuclear

também vê aumentado o interesse, muito por culpa da escalada dos preços do petróleo nos anos recentes, mas também este é um recurso não renovável. No entanto, ambos os lados possuem vantagens e desvantagens, que serão alvo de análise neste capítulo.

4.2. Energias fósseis

As energias fósseis são energias obtidas através dos combustíveis fósseis ou mais correctamente combustível mineral, que é uma substância formada de compostos de carbono, que resultam de uma transformação durante milénios, de restos de plantas e animais que foram enterrados no subsolo pelas mais diversas razões. O carvão, o petróleo e o gás natural são os tipos de combustíveis fósseis conhecidos. Como este tipo de combustíveis demora milhares de milhares de anos a formar-se, comparando com a escala humana, podem ser considerados como um recurso não renovável. No capítulo 5 encontra-se uma descrição mais aprofundada relativamente a este tipo de energia.

4.2.1. Carvão

O carvão é uma rocha orgânica, bastante abundante e é dos combustíveis mais baratos. É utilizado em algumas

indústrias (sector metalúrgico), a nível doméstico e na produção de energia eléctrica.

a nível doméstico e na produção de energia eléctrica. Fig. 4.1. Respostas tecnológicas para a redução

Fig. 4.1. Respostas tecnológicas para a redução de emissões poluentes na queima do carvão. (fonte: Teixeira, A. (2008) em: “Produção Termoeléctrica a Carvão”).

46

Gestão de Energia

A queima de carvão leva à formação de cinzas, dióxido de carbono, dióxidos de enxofre e óxidos de azoto em maiores

quantidades que os restantes tipos de combustíveis fósseis. As cinzas se não forem devidamente isoladas, poluem lençóis

de água e os gases produzidos causam danos nas florestas, lagos e rios através das chuvas ácidas que dão origem, para não falar da qualidade do ar que é diminuída. Outro aspecto ambiental negativo é que a sua extracção requer escavações no terreno, principalmente quando se trata de minas a céu aberto, que deixam uma marca na paisagem bem evidente. O maior problema deve-se aos entulhos resultantes da exploração mineira, que obviamente precisam de ser depositados algures. Apesar de não haver muito como contornar a questão da mineração do carvão, existem actualmente novas tecnologias para reduzir as emissões poluentes e aumentar a eficiência da queima do carvão. Algumas já se aplicam essencialmente na produção de energia eléctrica, enquanto outras ainda se encontram em desenvolvimento.

4.2.2. Petróleo

O petróleo é um óleo mineral de cor escura, que não é mais do que uma mistura de vários tipos de hidrocarbonetos, que

são separados na sua refinação. É extraído de jazidas subterrâneas onde se encontra. Do petróleo é possível obter vários

tipos de combustíveis e matérias-primas para as mais variadas utilizações. Do petróleo são obtidos combustíveis gasosos (Butano e propano por exemplo), combustíveis líquidos (gasolina, diesel, jet fuel por exemplo), materiais sólidos como o alcatrão e os polímeros sintéticos (vulgarmente conhecidos por plásticos) e outras substâncias para usos diversos (detergentes, medicamentos, etc). De facto, grande parte da nossa tecnologia é suportada por compostos provenientes do petróleo.

é suportada por compostos provenientes do petróleo. Fig. 4.2. Vários compostos derivados do petróleo. (

Fig. 4.2. Vários compostos derivados do petróleo. (www.remosa.net , Outubro 2009)

4.2.3. Gás natural

O gás natural é uma mistura de gases, que tal como o petróleo é extraído de jazidas subterrâneas, constituído quase na

sua totalidade por gás metano (ver tabela 4.1), e por isso é um combustível simples de usar que praticamente não precisa de ser refinado para ser utilizado, ao contrário do petróleo. Como o gás metano é constituído apenas por carbono e hidrogénio, a sua combustão é a mais limpas de todos os combustíveis fósseis. Produz apenas vapor de água e dióxido de carbono, e quantidades de óxidos de azoto muito inferiores às que resultam da combustão de outros tipos de combustíveis fósseis.

Metano (mínimo)

86%

Etano (máximo)

10%

Propano (máximo)

3%

C 4 + (máximo)

1,50%

Oxigénio (máximo)

0,50%

Inertes (máximo)

4%

Nitrogénio (máximo)

2%

Enxofre total

70mg/m 3

H 2 S (máximo)

10mg/m 3

Tabela 4.1. Constituição percentual do gás natural (o enxofre e o H2S aparecem em mg devido aos seus valores quase residuais) (www.petrobras.com.br , Outubro 2009)

Energias Renováveis versus Energias não Renováveis

47

4.2.4. Vantagens na utilização de combustíveis fósseis

a) São mais baratos: Actualmente este tipo de energia ainda é em geral mais barata que as energias renováveis, com

algumas excepções. Digamos que os custos para se produzir a mesma quantidade de energia são em geral mais baixos se estivermos a falar de combustíveis fósseis. Como se pode ver na fig. 4.3, apenas a energia hídrica e a energia nuclear (não

renovável) conseguem preços mais acessíveis que o carvão e o gás natural. A energia eólica também aparece numa posição bastante interessante que lhe permite competir no mercado. Tal ideia parece à partida contraditória pelo facto da energia primária utilizada nas energias renováveis ser abundante e inesgotável. De facto, o que torna as energias renováveis mais caras é a sua tecnologia. No futuro, prevê-se que com a produção em massa e com mais aperfeiçoamentos tecnológicos em termos de eficiência e de produção, o seu preço descerá consideravelmente, para níveis mais competitivos.

descerá consideravelmente, para níveis mais competitivos. Fig. 4.3. Comparação dos custos da energia (Ass. Americana

Fig. 4.3. Comparação dos custos da energia (Ass. Americana de Energia Eólica, Junho 2007)

b) Densidade energética: Os combustíveis fósseis possuem uma densidade de energia por unidade de volume, superior

a qualquer tipo de energia renovável. Só a energia nuclear possui uma densidade energética superior. É possível por isso armazenar mais energia em espaços mais pequenos, ideal por exemplo para a locomoção de veículos, permitindo boas autonomias com potências bastante razoáveis. Por exemplo um barril de petróleo equivale sensivelmente a 159 litros. Dependendo do tipo, o petróleo, pode apresentar uma densidade entre 700kg/m3 e 1000kg/m3, e uma tonelada de petróleo (1 TEP) armazena aproximadamente 49x109 Joules. Podemos concluir que um barril de petróleo equivale sensivelmente a 6,62x109 joules, ou que um litro de petróleo equivale a 4,165x107 Joules, que equivale a 11,569 kilowatt- hora de energia eléctrica num decímetro cúbico. A biomassa, catalogada como energia renovável é a única que apresenta características idênticas às energias fósseis no que diz respeito à densidade energética.

Densidade energética

Carvão Mineral

24-30 MJ/kg

Petróleo

43-49 MJ/kg

Gás Natural

39 MJ/m 3

Hidrogénio

10,8 MJ/m 3

Água (barragem com queda máxima de 100m)

Até 980 J/kg

Biomassa

17,5-20MJ/kg

Solar

150-350 W/m 2

Eólica (Vento a 15m/s)

146 J/m 3

Tabela 4.2. Densidade energética de alguns tipos de energia primária

c) Capacidade de armazenamento e transporte: Ao contrário da maioria das energias renováveis, é possível armazenar

os combustíveis fosseis para posterior utilização. Nas energias renováveis, apenas algumas como a biomassa, as pilhas de combustível ou a hídrica possuem esta capacidade. A energia hídrica apesar de armazenável (sob a forma de água),

48

Gestão de Energia

está confinada à localização da barragem, enquanto nos casos anteriores, pode ser armazenada e transportada para onde seja necessária com relativa facilidade. É esta característica que confere ao petróleo e ao gás natural uma grande vantagem, pois o facto de se encontrarem respectivamente no estado líquido e gasoso à temperatura ambiente, torna a sua extracção, transporte, armazenamento e utilização relativamente fácil. Já com o carvão, o seu transporte, armazenamento e utilização é mais complicado relativamente aos restantes tipos de combustíveis por ser um material sólido.

d) Disponibilidade: É uma grande vantagem dos combustíveis fósseis que resulta da sua capacidade armazenamento.

Ao contrário das energias renováveis, de carácter imprevisível, a disponibilidade das energias fósseis depende apenas da

capacidade de reposição dos stocks. Uma vez tendo este tipo de energia armazenada e pronta a usar, é possível satisfazer o consumo de forma regulada e totalmente previsível.

4.2.4. Desvantagens na utilização de combustíveis fósseis

a) Concentração geográfica: Ao contrário das energias renováveis, as jazidas de combustíveis fósseis não possuem uma

distribuição muito uniforme. As jazidas de petróleo são o maior exemplo disso como se pode ver na fig. 4.4, onde metades das jazidas conhecidas actualmente se encontram no médio oriente. A consequência disto é que, visto que nem todos os países possuem estes recursos, como se pode ver na fig. 4.5, pelo menos em quantidades suficientes para satisfazer as suas necessidades, levando a que fiquem dependentes de quem efectivamente dispõe destes recursos em abundância, levando por vezes a tensões políticas e a flutuações consideráveis dos preços dos combustíveis fósseis. Dos três tipos de energias fosseis, o carvão é a que apresenta uma melhor distribuição geográfica. Em todos os continentes existem reservas de carvão e gás natural consideráveis e mais ou menos uniformes quando comparadas com os consumos locais.

b) Reservas limitadas: Este tipo de energia é considerada não renovável precisamente por possuir reservas limitadas.

Seguindo as previsões futuras para o consumo, estima-se que as reservas de petróleo estejam esgotadas dentro dos próximos 30 a 40 anos, enquanto as reservas de carvão podem ainda durar cerca de 120 anos e as de gás natural podem

chegar para os próximos 50 anos.

e as de gás natural podem chegar para os próximos 50 anos. Fi g . 4.4.

Fig. 4.4. Concentração das reservas de petróleo no mundo e o respectivo montante em milhares de milhões de barris. (www.petrobras.com.br, Outubro 2009)

No entanto, tem-se verificado a divulgação de que as reservas de petróleo têm crescido de ano para ano. Desde 1971 até 2005 foram acrescentados 1500 mil milhões de barris às reservas provadas, enquanto que no mesmo período foram consumidos o equivalente 800 mil milhões de barris. O que ocorre é uma combinação de factores económicos e tecnológicos. À medida que o preço do petróleo aumenta nos mercados internacionais, torna-se rentável explorar jazidas que até à altura eram economicamente inviáveis. Por outro lado, a evolução tecnológica neste sector permite rentabilizar melhor as reservas já existentes, e se a algumas décadas as taxas de recuperação de petróleo dos poços era de 20%, hoje

Energias Renováveis versus Energias não Renováveis

49

em dia conseguem-se taxas de 35%, o que mesmo assim deixa dois terços do petróleo nos poços por ser economicamente inviável extrai-lo. Certamente que novos avanços tecnológicos futuros permitirão aumentar a rentabilidade dos poços, aumentando assim as reservas totais.

dos poços, aumentando assim as reservas totais. Fig. 4.5. Concentração das reservas dos três tipos de

Fig. 4.5. Concentração das reservas dos três tipos de combustíveis fósseis no mundo e o consumo de energias fósseis nos vários continentes. (Energias Alternativas um guia para principiantes, Marek Walisiewicz, 2002)

c) Poluição ambiental: Os combustíveis fósseis emitem gases que resultam da sua combustão, como já foi descrito anteriormente. Podemos comparar as emissões de gases no aproveitamento de vários tipos de energia ao longo do ciclo de vida, onde se pode verificar que os combustíveis fósseis apresentam os índices mais elevados de emissões (fig. 4.6). Também existe o risco ambiental por falhas no armazenamento ou transporte. O naufrágio de um petroleiro ou a ruptura de um oleoduto são sempre precursores de graves desastres ambientais, e neste aspecto, o risco de poluição é bem superior no caso do petróleo do que com os restantes tipos de combustíveis fósseis.

do que com os restantes tipos de combustíveis fósseis. Fig. 4.6. Emissões de gases e partículas

Fig. 4.6. Emissões de gases e partículas de alguns tipos de energia, em miligramas por kWh durante o ciclo de vida. (NMVOC: non-methane volatile organic compounds, em português, compostos orgânicos voláteis não-metano) (fonte:

University of Wollongong: Austrália)

4.3. Energia Nuclear

A energia nuclear, não é uma energia renovável, mas também não é uma energia fóssil. A energia nuclear é obtida através de reacções que ocorrem no núcleo dos átomos, libertando energia na forma de calor. Essa reacção pode ser de fissão ou de fusão, onde na fissão o núcleo do átomo é partido criando 2 novos átomos e energia (caso das centrais nucleares), na fusão dá-se a junção de 2 átomos criando um novo e libertando energia (Tokamak), este ultimo ainda se encontra em estado experimental. Estes processos utilizam a famosa fórmula de Einstein E=mc 2 , assim, uma reacção nuclear controlada transforma uma pequena quantidade de massa (por exemplo: urânio enriquecido) em energia.

50

Gestão de Energia

4.3.1. Urânio Enriquecido

O urânio na natureza ocorre mais abundantemente na forma de um minério chamado uraninita, que contem átomos de

urânio misturado com átomos de oxigénio, assim é necessário retirar os átomos de urânio desse minério. Os isótopos presentes no dióxido de urânio são o U-238 (99.284% da massa) e o U-235 (0.711% da massa), mas apenas o ultimo isótopo cria uma reacção de fissão através do choque com um neutrão. Desse modo é necessário criar urânio enriquecido, de pelo menos a 3% de U-235, para alimentar as centrais nucleares, criando uma reacção de fissão controlada e sustentada. Esta reacção ocorre num reactor que está rodeado por água, esta evapora com o calor criado pela reacção nuclear e faz rodar turbinas, sendo essa energia mecânica depois transformada em energia eléctrica. A saída deste processo é vapor de água e resíduos radioactivos, que devem de ser tratados e guardados em contentores que

selem a radioactividade, esses contentores devem depois ser armazenados em locais estanques.

4.3.2. Vantagens na utilização de combustível nuclear

a) Alternativa aos combustíveis fósseis: Possuindo as mesmas vantagens que os combustíveis fosseis, a energia nuclear

é uma energia que consegue suportar o nosso crescente aumento de consumo, é uma tecnologia já com alguma

maturidade e com novos sistemas de segurança o que a torna mais segura que nunca. Possuem potências elevadas (na casa dos GW) e o único gás de escape é o vapor de água. No Japão está instalada a maior central nuclear do mundo, com uma potência de 8,2 GW, suficiente para abastecer Portugal e ainda exportar alguma da energia. É uma energia relativamente barata, perfeitamente competitiva com os combustíveis fósseis neste aspecto. Como não depende de condições climatéricas torna-se bastante interessante se comparada com as energias renováveis.

b) Distribuição Geográfica: Existe urânio, em alguma forma, em quase todas as rochas sedimentares da crosta terrestre,

embora locais onde a sua concentração seja elevada seja menos frequente. Os principais países produtores são o Canada (em 2003 52%) e a Austrália (no mesmo ano 30%), mas existem outros.

52%) e a Austrália (no mesmo ano 30%), mas existem outros. Fig. 4.7. Países produtores de

Fig. 4.7. Países produtores de urânio. (http://www.desdeelexilio.com, Novembro 2009)

c) Pequeno Espaço: Uma central nuclear ocupa pouco espaço físico, quando comparado com uma central térmica e as

potências e energia produzida em jogo.

d) Facilidade de Transporte: O urânio, sendo um sólido, é fácil e seguro de transportar nas devidas condições quando

comparado com o gás ou o petróleo.

4.3.3. Desvantagens na utilização de combustíveis nucleares

a) Resíduos Radioactivos: A utilização deste tipo de combustível gera resíduos reactivos que são nocivos para a fauna e

flora do nosso planeta, o custo de tratamento e armazenamento destes resíduos é algo elevado e perigoso. Quando a central chega ao fim do seu ciclo de vida, é necessário isola-la. Não é possível dar uso a esse espaço para outros fins.

b) Riscos de Acidente: No caso da ocorrência de um acidente as consequências seriam desastrosas para uma vasta área à

volta da central nuclear, como o conhecido caso de Chernobyl.

c) Não é Renovável: Apesar de ser uma alternativa aos combustíveis fosseis, as reservas de urânio são finitas e pensa-se

(segundo a Agencia Internacional da Energia Atómica) que chegarão para alimentar as actuais centrais nucleares por

Energias Renováveis versus Energias não Renováveis

51

apenas mais 150 anos. Embora as reservas de urânio sejam alvo de algum secretismo devido aos potencias bélicos. O preço do urânio também tenderá a aumentar com a crescente procura, encarecendo esta energia.

4.4. Energias Renováveis

Este tipo de energia caracteriza-se pela sua proveniência de fontes renováveis ou inesgotáveis. Existem fenómenos que nunca acabam, pelo menos se considerarmos a escala temporal humana, como a luz solar, o vento, as marés, a força gravítica, o calor interno terrestre e a pluviosidade, entre outras, e é precisamente a energia contida nesses fenómenos que é alvo de exploração. Segue-se uma descrição dos vários tipos de tecnologias, e um balanço das vantagens e desvantagens deste tipo de energia.

4.4.1. Energia Solar

A energia solar, exceptuando a energia geotérmica, está na base de todas as outras energias renováveis. Até a energia das marés se deve em parte à força gravitacional do sol. Os ventos e as correntes marítimas devem-se aos fenómenos de convecção causados respectivamente pelo aquecimento dos solos e dos mares por parte da radiação solar, e a energia hídrica está dependente do vapor de água na atmosfera que existe por acção da radiação solar. Mesmo a biomassa depende da fotossíntese para existir. Durante muito tempo chegou mesmo a ser a única fonte de energia, pelo que não é correcto que seja encarada como uma novidade. O que é novidade é a sua utilização na produção de energia eléctrica (efeito fotovoltaico) ou no aquecimento de fluidos (sistemas solares térmicos e centrais térmicas solares), e como recurso de aproveitamento directo, é uma das energias renováveis mais abundantes e de distribuição mais homogénea como se vê na fig. 4.8 (a par da energia eólica). No entanto, a tecnologia actualmente existente para explorar este tipo de energia faz com que seja das energias renováveis mais cara, pelo que há a necessidade de investir na criação de equipamentos de maior vida útil, mais eficazes e mais baratos.

de maior vida útil, mais eficazes e mais baratos. Fig. 4.8. Densidade de energia solar média

Fig. 4.8. Densidade de energia solar média na superfície terrestre, e a superfície necessária para satisfazer todas as necessidades mundiais de energia (Mathias Loster, 2006).

Falemos um pouco dos três sistemas existentes, ou mais divulgados, para aproveitar a energia solar:

a) Sistemas Solares Térmicos: Este tipo de sistemas capta e usa directamente a energia do sol como energia térmica, sendo esta forma de aproveitamento de energia a mais utilizada, e a que de longe, dispõe de maior potência instalada globalmente relativamente aos restantes tipos de aproveitamento de energia solar, sendo um dos recursos renováveis mais utilizados. Em 2006 era aproximadamente de 128GW a nível global (ver fig. 9). Usa-se normalmente no aquecimento de água, na regulação da temperatura no interior de edifícios e outros tipos de recintos fechados, aquecimento de piscinas e até no sector industrial. O seu princípio de funcionamento baseia-se na recolha da energia do sol directamente, através da concentração da luz solar recorrendo a espelhos cilíndricos ou parabólicos ou a colectores planos (usualmente apropriado quando se quer obter temperaturas até 90º), ou então através para um líquido ou fluido circulante, que depois de atravessar um compressor, mediante um processo de compressão adiabática, eleva a sua temperatura, é canalizado para o local onde esse calor é desejado, permitindo temperaturas mais elevadas (Santos, 2008). No segundo caso, funciona mesmo sem energia solar directa e até mesmo à noite, pois na realidade, o que estes sistemas absorvem é o calor da radiação directa mas também o calor do ar. Tal é possível porque o líquido depois de fornecer a

52

Gestão de Energia

energia onde é pretendida, é sujeito a uma expansão adiabática que o coloca a uma temperatura mais baixa que a da atmosfera, permitindo uma contínua extracção de energia do ar mesmo de noite, embora em menores quantidades. Apesar de o compressor consumir energia eléctrica, o calor contido no fluido é superior ao que seria produzido pela energia eléctrica gasta no compressor, pelo que se verifica um ganho energético bastante apreciável em termos percentuais. A utilização destes dispositivos traduz-se por isso numa redução bem considerável na factura eléctrica.

isso numa redução bem considerável na factura eléctrica. Fig. 4.9. Capacidade total instalada e energia produzida

Fig. 4.9. Capacidade total instalada e energia produzida em 2006 de alguns tipos de energia renováveis (fonte: Solar Heat Worldwide 2008)

Segundo a Convenção do Clima da ONU, que ocorreu em Bali em 2007, avaliou que as tecnologias disponíveis mais confiáveis no combate ao aquecimento global, com maior índice de aprovação na pesquisa foi o uso de energia solar para aquecimento de água. Este sistema é praticamente isento de custos operacionais, o que reduz substancialmente o valor da factura da energia, e cobre rapidamente o valor investido na sua instalação. Por exemplo: o custo de um equipamento de energia solar (instalado) para 1000 litros é equivalente ao valor de aproximadamente 16.000 Kwh. O custo de implementação de um sistema de energia solar para 4.000 litros/dia é aproximadamente de 4 X 16.000 Kwh = 64.000 KWh. Considerando o índice de insolação anual igual a 80%, o tempo de retorno do investimento é de aproximadamente 23 meses. Como o tempo de vida útil do equipamento é, em geral, no mínimo 15 anos, fica fácil de perceber a grande economia proporcionada (solar heat worldwide, 2009). Pode parecer para o leitor, que a ênfase dada a este tipo de tecnologia relativamente às restantes descritas neste capítulo seja exagerada, mas achamos por bem fazê-lo pois é uma solução muito menos popular em termos de divulgação mas que pode levar a uma redução brutal no consumo de energia eléctrica, pois foca a sua atenção num tipo de consumo que a nível doméstico é o que mais energia consome: o aquecimento ambiente e de água, e que pode levar a reduções de consumo até 80%. Produzir mais energia renovável para abater o consumo de energias fósseis é uma solução, mas reduzir o consumo energético localmente não só é importante, como é um dos pilares básicos da gestão energética.

b) Sistemas fotovoltaicos: Este tipo de sistemas converte directamente a energia solar em energia eléctrica. São em geral

sistemas flexíveis e fáceis de instalar. São uma boa solução para sistemas de potência reduzida em locais remotos. De grosso modo, é a única tecnologia para a produção de electricidade que pode ser instalada praticamente em qualquer lugar, pois são raros os locais a céu aberto onde não existe diariamente luz solar. No entanto, é uma tecnologia ainda relativamente cara quando comparada à utilizada nas restantes energias renováveis. Espera-se que no futuro, com a massificação da indústria em torno destas tecnologias e com processos de fabrico cada vez mais económicos, os sistemas solares fotovoltaicos atinjam uma maturidade tecnológica superior e um custo bem mais atractivo. Este tipo de tecnologias possui também um rendimento de conversão relativamente baixo como se pode ver na fig. 4.10, que constitui só por si uma desvantagem.

Energias Renováveis versus Energias não Renováveis

53

Energias Renováveis versus Energias não Renováveis 53 Fig. 4.10. Rendimento máximo de conversão da energia solar

Fig. 4.10. Rendimento máximo de conversão da energia solar em energia eléctrica para os diversos tipos de tecnologias de produção de energia fotovoltaica. (fonte: proj. GREENPRO)

c) Centrais Térmicas Solares: Basicamente aproveitam a energia solar da mesma forma que os sistemas solares térmicos,

para a produção de energia eléctrica. A topologia mais na moda consiste no redireccionamento da energia solar através de espelhos para um reservatório com fluido, que transmitirá o seu calor a um reservatório de água, produzindo o vapor

de água que acciona a turbina do gerador eléctrico. São economicamente mais atractivos que as centrais fotovoltaicas, pois a sua construção é mais barata, e conseguem potências bastante mais elevadas quando comparamos as superfícies ocupadas, cujas potências para as maiores centrais, mais modernas ou ainda em projecto ou em instalação atingem valores de algumas centenas de MW, em contraste com as maiores centrais fotovoltaicas que se ficam por algumas dezenas de MW.

fotovoltaicas que se ficam por algumas dezenas de MW. Fig. 4.11. Central de Torre – Solar

Fig. 4.11. Central de Torre Solar Two, deserto Mojave, Califórnia (Associated Press, Outubro, 2006)

4.4.2. Energia eólica

A energia eólica é outro tipo de energia bastante atractiva e a mais competitiva em termos económicos depois da energia hídrica. Aproveita a abundante energia dos ventos, que geralmente está disponível em todos os lugares. Em termos tecnológicos já se encontra bastante desenvolvida, continuando apesar de tudo a desenvolver-se cada vez mais. Os sistemas mais vulgares consistem numa turbina de três pás de eixo horizontal, alocada a um gerador eléctrico e colocadas no topo de uma torre. Actualmente a energia eólica encontra-se em grande expansão, assumindo potências instaladas na ordem 152 GW em todo o mundo em 2009, tornando-a na maior fonte de energia eléctrica proveniente de fontes renováveis depois da energia hídrica. Para se ter uma ideia, a indústria de turbinas eólicas tem acumulado crescimentos anuais acima de 30% e movimentado cerca de 2 biliões de dólares em vendas por ano. Os inconvenientes deste tipo de energia, se é que pode ser apelidado desta maneira, são o impacto visual e o barulho produzido pelas turbinas (os protótipos iniciais tinham apenas duas pás, que conferiam um rendimento superior, mas o barulho era bastante considerável, pelo que se optou pelo formato com três pás, que atenuava bastante a poluição sonora, apesar de reduzir o rendimento). Também apresenta alguns perigos para a avifauna.

54

Gestão de Energia

54 Gestão de Energia Fig. 4.12. Evolução anual energia eólica no mundo (potência instalada em MW).

Fig. 4.12. Evolução anual energia eólica no mundo (potência instalada em MW).

4.4.3. Biomassa A biomassa, apesar de ser catalogada como energia renovável, baseia-se no mesmo princípio dos combustíveis fósseis:

combustão de massas orgânicas. No entanto são renováveis, pois substâncias como resíduos florestais, madeiras, resíduos agrícolas e resíduos urbanos são renováveis, pois conseguem ser produzidos num espaço de tempo curto, se tivermos em conta a escala de tempo humana. Este tipo de energia é o melhor exemplo a mostrar que ser renovável não significa ser não poluente. É um tipo de energia usada desde os primórdios da humanidade (a combustão da madeira como fonte de energia), que só começou a ser substituída praticamente nos inícios da revolução industrial. Ainda hoje, a biomassa representa 80% de toda a oferta de energia renovável disponível, constituindo 4% da energia consumida no mundo. Como se percebe, a queima de biomassa resulta na libertação de gases para a atmosfera e em alguns casos em resíduos sólidos, mas os gases produzidos são menos nocivos que os expelidos na queima de combustíveis fósseis, e os resíduos sólidos são mais inofensivos, onde geralmente são aproveitados como fertilizantes. Este tipo de energia possui um grande potencial, quer pelo seu potencial energético bastante interessante, quer pela gama de produtos e formas que pode assumir. De facto a biomassa engloba uma série bastante diversa de energias primárias que podem ser utilizadas, e são vários os processos que se podem aplicar e os produtos que se podem obter, de modo a permitir uma utilização mais eficiente e cómoda, para além da queima simples. Por isso este tipo de energia é a melhor candidata para ocupar o lugar dos combustíveis fósseis, pelo menos na configuração de utilização energética global actual, pois dela é possível derivar compostos semelhantes aos que derivam dos combustíveis fósseis, mas com carácter renovável (ver fig. 4.13).

fósseis, mas com carácter renovável (ver fig. 4.13). Fig. 4.13. Potencialidade de valorização da biomassa

Fig. 4.13. Potencialidade de valorização da biomassa (Oashi, 1999)

Energias Renováveis versus Energias não Renováveis

55

Existem países como o Brasil onde a sua utilização já faz parte do quotidiano à várias décadas, onde a utilização do álcool da cana de açúcar como combustível para veículos automóveis já se encontra bastante desenvolvida e disseminada. Vejamos em pormenor alguns tipos de combustíveis derivados da biomassa:

a) Gaseificação: consiste na conversão da biomassa num gás combustível que é utilizado para gerar vapor, o qual vai

accionar uma turbina, que, por sua vez liga um gerador que converte a energia mecânica em electricidade.

b) Pirólise: consiste no fornecimento de energia sob a forma de calor à biomassa, que, através de uma reacção química, é

convertido em óleo. Este pode ser posteriormente queimado como o petróleo, também para a produção de electricidade.

c) Bio-combustíveis: (quer os combustíveis puros, quer os aditivos) que podem ser classificados em quatro tipos

distintos:

1. Etanol: é o bio-combustível mais utilizado. É obtido através da fermentação da biomassa, (semelhante a fermentação alcoólica da cerveja). Combinando o etanol com a gasolina, obtêm-se um combustível menos poluente;

2. Metanol: é um combustível que pode ser obtido através gaseificação da biomassa. Neste processo, a biomassa é primeiro convertida num gás sintético, e só depois é transformada em metanol. A maior parte do metanol produzido é utilizada na indústria como solvente, anti-congelador ou ainda para sintetizar outras substâncias.

3. Biodiesel: é feito com óleos e gorduras encontradas em microalgas e outras plantas. Pode substituir o gasóleo utilizado por muitos meios de transporte que não só é mais poluente, como também é derivado do petróleo e por isso não e renovável;

4. Biogás (gás metano: CH4): é obtido através da acção das bactérias que, por digestão anaeróbia, actuam sobre os resíduos dos aterros sanitários ou dejectos da produção animal. Pode, no entanto, ser obtido ainda por gaseificação. Este gás liberta uma quantidade considerável de calor quando inflamado e é utilizado, sobretudo, na Industria.

Este tipo de energia ainda não consegue em geral competir de forma muito atractiva com as energias fósseis, com a excepção da madeira se usada em consumo doméstico. É necessário investimento na tecnologia e em conhecimento para mudar essa realidade.

4.4.4. Energia Geotérmica

Este tipo de energia provém do interior do nosso planeta sob a forma de calor e está relacionada com fenómenos geológicos que se processam abaixo da crosta terrestre. As aplicações mais vulgares deste tipo de energia são o aquecimento de habitações e de outros tipos de edifícios, banhos quentes e termas, e também outras aplicações em menor escalam como a agricultura, criação animal, aquacultura, em vários processos industriais e na produção de energia eléctrica. Este recurso pode ser classificado em duas categorias:

a) Alta temperatura (T>150 ºC): Este recurso está geralmente associado a áreas de actividade vulcânica, sísmica ou

magmática. A estas temperaturas é possível o aproveitamento para a produção de energia eléctrica. Numa central geotérmica de produção de energia eléctrica tira-se partido do calor existente nas camadas interiores da Terra através de poços ou canais suficientemente profundos que permitem aproveitar o aumento de temperatura. Ao injectar água no interior desses canais, esta transforma-se em vapor que irá accionar as turbinas. Em termos visuais são centrais discretas, e não emitem poluentes. No entanto, é uma energia dispersa a baixas temperaturas, sendo apenas uma parte desse calor aproveitável economicamente.

b) Baixa temperatura (T <100 ºC): Resultam geralmente da circulação de água de origem meteórica em falhas e

fracturas e por água residente em rochas porosas a grande profundidade. O aproveitamento deste calor pode ser

realizado directamente para aquecimento ambiente, de águas, piscicultura ou processos industriais.

c) Apesar de ser uma energia renovável, pode ser nociva para o ambiente devido às características próprias dos fluidos

geotérmicos, contendo enxofre, nitratos, metais pesados e outras partículas. A perfuração pode também gerar grandes quantidades de resíduos (lamas e pedras).

4.4.5. Energia Hídrica

A energia hídrica é a mais desenvolvida de todos os tipos de energias renováveis, em experiência e conhecimento acumulados. São centrais que aproveitam a energia potencial gravítica e cinética da água de cursos fluviais para a

56

Gestão de Energia

produção de energia eléctrica. As centrais hídricas apresentam a maior taxa de rendimento dos sistemas de produção de energia (em torno de 90%), sendo quase na totalidade automatizadas e apresentando como consequência custos operacionais relativamente baixos. Para além disso, as centrais hídricas desempenham um papel muito importante no planeamento dos recursos hídricos, na prevenção de cheias, na navegabilidade dos rios, na irrigação dos campos

agrícolas e na criação de áreas de lazer. Por outro lado, a fauna piscícola migratória sofre grandes impactos com este tipo de infra-estruturas ao ver os seus percursos bloqueados, assim como são ocupadas por água vastas áreas circundantes, principalmente quando se trata de centrais de albufeira, e normalmente são áreas com bom potencial agrícola. A energia hídrica actualmente é a que possui mundialmente, de longe, a maior capacidade em potência instalada e o seu potencial

é igualmente grande (fig. 4.15), representando aproximadamente 20% da energia eléctrica consumida no mundo em

2007. No mesmo ano existia uma potência instalada de 822GW, e foram produzidos 2997TWh de energia eléctrica proveniente da energia hídrica.

de energia eléctrica proveniente da energia hídrica. Fig. 4.14. Potência instalada (em cima) de vários tipos
de energia eléctrica proveniente da energia hídrica. Fig. 4.14. Potência instalada (em cima) de vários tipos

Fig. 4.14. Potência instalada (em cima) de vários tipos de energia no mundo em MW (valores de 2007) e o total de energia produzida em TWh (em baixo). (fonte: Energy Information Administration)

TWh (em baixo). (fonte: Energy Information Administration) Fig. 4.15. Potencial hidroeléctrico de alguns rios do

Fig. 4.15. Potencial hidroeléctrico de alguns rios do mundo. (2009)

As centrais hidroeléctricas podem ser essencialmente de dois tipos:

a) Albufeira: Centrais que se caracterizam pela capacidade de acumular água, inundando áreas consideráveis, que

chegam a milhares de quilómetros quadrados em algumas centrais. (A barragem de Akosombo, no Gana, criou um lago artificial (lago Volta) com uma área de 8502 quilómetros quadrados). Engloba praticamente as centrais de maior potência instalada.

b) Fio de água: Centrais com capacidade de armazenamento diminuto ou inexistente, geralmente com potências

instaladas inferiores às centrais de albufeira.

c) Outro aspecto deste tipo de energia é que depende da precipitação, mas mesmo assim, devido ao carácter dos rios e

do escoamento das aguas para o rio, a variabilidade deste tipo de energia é previsível pelo menos com boa fidelidade para a curto prazo (um dia ou vários dias), sendo por isso uma energia despachavel para um sistema eléctrico de energia. As centrais hidroeléctricas são frequentemente distinguidas como mini hídricas ou grandes centrais hídricas. É

certo que uma mini-hidríca causa menos impacto ambiental no meio circundante, mas na verdade, quer centrais grandes quer mini-hidrícas, aproveitam um recurso renovável para a produção de energia eléctrica.

4.4.6. Energia dos Oceanos

A energia dos oceanos refere-se ao aproveitamento da energia das ondas, das correntes, das marés e da energia associada

ao diferencial térmico. Como facilmente se adivinha, o seu potencial é enorme, pois depende respectivamente do vento, da luz solar e das influências gravitacionais do Sol e da Lua, e por isso também é inesgotável. Esta energia, devido ao preço das tecnologias disponíveis, e ao estado ainda muito incipiente do conhecimento nesta área, quando comparado

Energias Renováveis versus Energias não Renováveis

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com outros tipos de energias, fazem dela ainda pouco atractiva tecnicamente e economicamente. Cada tipo de aproveitamento da energia dos oceanos tem particularidades próprias:

d) Aproveitamento da energia das marés: Este tipo de aproveitamento tira proveito da maré diária. A força

gravitacional da lua e do sol dirige os fluxos da maré. A maioria das tecnologias de maré actuais transforma a energia cinética em electricidade através de turbinas. Infelizmente, as tecnologias disponíveis para aproveitar este recurso são demasiado dispendiosas e sem grande maturidade. O método principal para aproveitar esta energia consiste na construção de um reservatório junto ao mar. Quando a maré é alta, a água enche o reservatório, passando através da turbina hidráulica, tipo bolbo, e produzindo energia eléctrica. Na maré baixa, o reservatório é esvaziado e a água que sai do reservatório passa novamente através da turbina, em sentido contrário, produzindo a energia eléctrica. Este tipo de fonte é usado no Japão, na França e na Inglaterra. A primeira central maremotriz construída no mundo para geração de electricidade foi a de La Rance, em 1963.

e) Aproveitamento da energia das correntes: Este tipo de aproveitamento tira proveito da energia contida no fluxo das

correntes oceânicas e de outras situações que envolvem água em movimento, como as correntes dos golfos. São influenciadas pelo aquecimento solar, pela constituição química da água, entre outros factores. A maioria das tecnologias de maré actuais transforma a energia cinética em electricidade através de turbinas. Actualmente, com a tecnologia disponível, o aproveitamento desta energia só é viável em zonas de baixa profundidade. O método mais popular é designado por eólica submarina, que consiste na instalação de uma turbina de duas pás acoplado a um gerador, e suportado por uma coluna apoiada no fundo marítimo.

f) Aproveitamento da energia das ondas: Consiste no aproveitamento da energia contida nas ondas. Existem várias

tecnologias patenteadas para o aproveitamento deste tipo de energia, como a tecnologia Pelamis, estruturas offshore, bóias submarinas, etc…

g) Aproveitamento da energia diferencial térmica: Consiste no aproveitamento da energia devida às diferenças de

temperatura entre o fundo (mais frio) e as camadas mais superficiais (mais quentes). Possuem uma eficiência teórica máxima de 7%, visto que a baixa diferença de temperatura torna difícil aproveitar este tipo de energia. Ainda se encontra longe da viabilidade económica.

4.4.7. Hidrogénio e células de combustível

O hidrogénio é um elemento químico que existe em grandes quantidades na água, e é o elemento mais abundante do

universo. Possui uma capacidade energética maior do que qualquer outro tipo de energia, sendo superado apenas pela nuclear. (tabela 4.3). No entanto, a sua produção actualmente ainda é dispendiosa. Usar combustíveis fósseis na sua produção torna-o claramente inviável e sem sentido pela perda de rendimento no processo e pela perda da propriedade de energia limpa (a combustão de hidrogénio liberta apenas vapor de água). Talvez a massificação e aperfeiçoamento das tecnologias renováveis, com a consequente redução de custos, torna esta alternativa interessante.

redução de custos, torna esta alternativa interessante. Tabela 4.3. Poder calorífico de alguns tipos de

Tabela 4.3. Poder calorífico de alguns tipos de combustível (Santos, 2003)

A sua produção pode ser através dos seguintes métodos:

a) Electrólise da água: Este método baseia-se na utilização da energia eléctrica, para separar os componentes da água

(hidrogénio e oxigénio), sendo o rendimento global do processo da ordem dos 95%.

b) Vapor reformando o gás natural ou outros hidrocarbonetos: Esta técnica consiste em expor o gás natural ou outros

hidrocarbonetos a vapor a altas temperaturas para produzir o hidrogénio, monóxido de carbono e dióxido de carbono. O

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Gestão de Energia

c) Fotobiológica: Com esta tecnologia alguns micróbios fotossintéticos produzem H2 nas suas actividades metabólicas

usando a energia luminosa. Com o recurso de sistemas catalíticos e de engenharia o rendimento pode atingir os 24%.

d) Gaseificação de biomassa e pirólises: Utilização de enzimas de certos tipos de bactérias, consumindo a biomassa e

expelindo hidrogénio. As enzimas em causa (descobertas em 1996 por investigadores americanos) são resistentes ao

calor, pelo que poderão ser usadas em meios quentes, fazendo com que as reacções ocorram mais rapidamente. Também

os combustíveis fósseis podem ser usados neste processo.

A utilização do hidrogénio nas células de combustíveis permite uma conversão de energia que dependendo da

tecnologia pode chegar a 70% (Células de Electrólito Óxido Sólido - (SOFC)), que corresponde sensivelmente ao dobro

do rendimento dos motores de combustão interna actuais, mas actualmente a sua utilização em grande escala parece

distante, muito por culpa dos combustíveis disponíveis cujos preços podem variar de duas a dez vezes o preço das energias fósseis. (Moreira, 2008)

Células de Combustível a baixa temperatura

Alcalinas Membrana de permuta protónica Combustão directa de Metanol Acido Fosfórico

Células de Combustível a alta temperatura

Carbonato fundido Electrólito Oxido sólido

Tabela 4.4. Resumo dos principais tipos de células de combustível (santos, 2003)

4.4.8. Vantagens na utilização de energias renováveis

a) Abundância da energia primária: Pela sua abundância e disponibilidade não possuem qualquer custo, ao contrário

das energias fósseis cujos valores flutuam diariamente nos mercados internacionais ao sabor da especulação e das quantidades disponíveis. Seria ridículo pagar por algo que se sabe poder obter de graça em qualquer sítio sem dificuldade.

b) Boa distribuição: Este tipo de energias possui uma distribuição global muito maior que as energias fósseis. Apesar de

a distribuição não ser perfeitamente uniforme, a sua distribuição é indiscutivelmente mais interessante, pois a energia das marés está acessível a todos os países com costa marítima, há vento em todo o lado, existe luz solar todos os dias em quase todas as regiões do globo (excluído os pólos onde só existe durante metade do ano) assim como há cursos fluviais em quase todos os países.

c) É limpa: Este tipo de energia emite muito menos elementos poluentes para o ambiente. De todos os tipos de energias

considerados como energias renováveis, as mais poluentes são as que envolvem a queima de substâncias, como é o caso dos biocombustíveis, dos resíduos urbanos e florestais, que apesar de emitirem alguns elementos poluentes, os gases produzidos emitem muito menos elementos nocivos, e no caso dos resíduos, as cinzas podem ser usadas como fertilizantes sem apresentar grandes perigos ambientais. A energia hídrica também possui um impacto ambiental considerável, não em termos de poluição, mas na afectação de habitats, pois o aproveitamento desta energia implica a

existência de extensas albufeiras que inundam vastas áreas, mas por outro lado, melhora as condições de abastecimento

de água para consumo doméstico e para outras actividades económicas.

4.4.9. Desvantagens na utilização de energias renováveis

a) Tecnologia cara: Actualmente, salvo algumas excepções, o preço das tecnologias empregues na exploração das

energias renováveis faz com que o custo final as torne pouco competitivas com as energias fosseis. No entanto prevê-se que o cenário se altere com o decorrer do tempo, com o avanço da evolução tecnológica, dos processos de fabrico e com o aumento do mercado. A energia hídrica é uma das excepções. A exploração de energia hídrica já dispõe de uma tecnologia madura e de um vasto conhecimento ao seu dispor, e é o tipo de energia mais barata actualmente. A energia eólica já começa a ser interessante em termos económicos, e promete seguir o exemplo da energia hídrica à medida que o mercado desta tecnologia se expande.

Como se pode ver pela fig. 4.16, o preço do petróleo flutua ao longo do tempo, com tendência a aumentar, enquanto que

os custos da energia proveniente das fontes renováveis presentes mostram sempre uma tendência de queda ao longo do

Energias Renováveis versus Energias não Renováveis

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tempo. Isto é claramente um reflexo da abundância de ambas. As primeiras, à medida que se adquire conhecimento e aperfeiçoamento, os custos diminuem, pois a energia primária é abundante. No caso do petróleo, que apesar de ocorrer o mesmo com as tecnologias utilizadas, o conhecimento da limitação das suas reservas, conferem um valor de mercado a esta energia primária, que segundo a lei de oferta-procura, será maior quanto mais escasso se tornar ou ameace tornar-se (sugeito a conjunturas expeculativas).

ou ameace tornar-se (sugeito a conjunturas expeculativas). Fig. 4.16. Evolução dos preços das energias renováveis e
ou ameace tornar-se (sugeito a conjunturas expeculativas). Fig. 4.16. Evolução dos preços das energias renováveis e

Fig. 4.16. Evolução dos preços das energias renováveis e sua previsão até 2020 (à esquerda) e evolução dos preços do petróleo até 2007(à direita) (Energy Information Admistration, Novembro, 2009 & www.nymex.com, Novembro, 2009)

b) Carácter imprevisível: Ao contrário das energias fósseis, não é possível ter certezas quanto a valores precisos da quantidade de energia disponível no futuro para a maioria dos vários tipos de energias renováveis existentes, que basicamente depende em geral de factores meteorológicos. A energia geotérmica, as células de combustível, e a biomassa são algumas das excepções. Isto é de facto um grande inconveniente, pois torna praticamente impossível que um grande sistema eléctrico de energia subsista apenas com energias renováveis, a não ser que se recorra às excepções referidas acima, auxiliados por exemplo pela energia hídrica, que continuaria a desempenhar uma das funções que actualmente também lhe cabe: a compensação imediata das flutuações de carga. Este problema advém precisamente da falta de capacidade para armazenar este tipo de energias.

4.5. Conclusões e perspectivas para o futuro

É um facto que as energias fósseis terão que dar o seu lugar a outras fontes de energia. Uma primeira observação, tendo em conta tudo o que já foi referido neste capítulo, na nossa opinião, a biomassa apresenta-se como a candidata mais apetecível, principalmente pela quantidade de formas que engloba (energias primárias no estado sólido, líquido e gasoso), e pela quantidade de derivados que oferece, capazes de substituírem os três tipos de combustíveis fósseis. No entanto, traz consigo as sombras da desflorestação, da alienação de terrenos e recursos agrícolas essenciais à produção de alimentos, levando ao aumento dos preços de bens alimentares básicos como aconteceu recentemente e da emissão de poluentes para o ambiente (convém relembrar que a utilização da biomassa como fonte de energia baseia-se na combustão da mesma). Outra hipótese seria a energia geotérmica, cujo potencial é enorme. A energia solar e eólica (incluindo também outros tipos de energia de carácter pouco previsível e sem capacidade de armazenamento) precisa de ser melhorada quanto à sua regularidade. O ideal seria talvez arranjar uma maneira económica de a armazenar. Uma ideia consiste no seu uso na produção de hidrogénio. Sendo o hidrogénio um gás passível de ser utilizado como combustível, a sua produção seria uma maneira de armazenar a energia eólica e solar para posterior uso. É certo que a produção de hidrogénio para posterior combustão, ou em uso de células de combustíveis, muito mais eficientes que a combustão, no fim resultaria num rendimento final menor, mas assim que a maturidade tecnológica permitir um aproveitamento da energia solar e eólica a preços bastante atractivos, a produção de hidrogénio, recorrendo a uma energia barata resultaria certamente em algo economicamente interessante. Dados de 2007 revelam que já foi alcançado um rendimento de 70% na produção de hidrogénio recorrendo à energia solar. O hidrogénio em termos ambientais é limpo, pois da sua combustão resulta apenas vapor de água. A sua utilização pode ir desde a produção de energia eléctrica (células de combustível como melhor solução, ou uso de centrais de combustão) até ao abastecimento dos veículos. Vamos observar o aumento da utilização da energia nuclear, face ao crescente aumento dos preços das energias fosseis e enquanto as energias renováveis não ganham maturidade suficiente.

4.6. Referências

Carlos Moreira (2008). Dissertação submetida à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto para a

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Gestão de Energia

João Santos (2008). Projecto final do Mestrado Integrado em Engenharia Mecanica na Universidade de Engenharia da Universidade do Porto, Estudo de sistemas solares térmicos para aplicação a micro-cogeração, pp

30-35, Julho 2008, FEUP,

Porto

Projecto GREENPRO (2004). Energia Forovoltaica: Manual sobre Tecnologias, Projecto e Instalação, pagina 59, Janeiro de

2004

Santos, F. M. S; Santos, F. A. C. (2003). O combustível “hidrogéno”. EST ISPV, Viseu Teixeira, A. (2006). Conferência “Energia e Desenvolvimento regional”, Produção Termoeléctrica a Carvão, pagina 4, EDP Produção Weiss, W.; Bergmann, I. & Faninger, G. (2008). Solar Heat Worldwide: Markets and Contribution to the Energy supply

2006, edition 2008 (pp 10-18), SHC Oashi, M.C.G, (1999).Tese submetida à Universidade Federal de St.Catarina para a obtenção do grau de Doutorado em engenharia, Estudo da cadeia produtiva como subsidio para pesquisa e desenvolvimento do agronegócio do sisal na paraíba, 1999, UFSC, Florianópolis Energy Information Administration: Oficial Energy Statistics from de U.S. Governement (visitado em 21/10/2009) http://www.eia.doe.gov/emeu/international/contents.html University of Wollongong: Australia. Nuclear Power (visitado em 23/10/2009) http://www.uow.edu.au/eng/phys/nukeweb/reactors_nuc_v_coal.html World Wind Energy Association (visitado em 15/10/2009) http://www.wwindea.org/home/index.php

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As Energias Fósseis como Fonte Energética

José Monteiro Meirinhos, Pedro Pinhanços Batista & Pedro Silva da Costa

5.1. Introdução

Antes de mais, convém referir que se entende por energias fósseis o tipo de energia que se obtém através do combustível fóssil. Na verdade, este tipo de energia tem durante largos anos alimentado, saciado e sustentado todo o crescimento, desenvolvimento e progresso mundial. Se por um lado é bem verdade, tudo o que se diz de negativo acerca deste tipo de energia, é também essencial referir que não estaríamos onde estamos hoje, se não nos tivéssemos “agarrado” ao carvão, petróleo e mais recentemente o gás natural.

A palavra energia deriva de εργος (erfos), palavra do antigo idioma grego que significa trabalho, como tal, uma definição

possível de energia é a capacidade de realizar trabalho. Ora desde muito cedo o ser humano precisou de energia, há cerca de 500 000 anos atrás, a sua energia provinha unicamente da sua força corporal (ainda hoje muito utilizada), mais tarde, o homem descobriu o fogo, tornando-se esta a segunda energia utilizada pelo homem. Já mais tarde o homem foi

utilizando diversos tipos de energia, desde a força dos animais que domesticava, à biomassa aquando da fertilização na agricultura, passando pela energia do vento na época dos descobrimentos, a energia hidráulica para fazer mover os moinhos. Até que por volta dos meados do séc XVII, se deu a chamada revolução industrial, que na opinião de muitos continua até aos dias de hoje.

que na opinião de muitos continua até aos dias de hoje. Fig. 5.1. Primeiro motor a