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A.P.SINNETT

O BUDISMO ESOTÉRICO

PENSAMENTO

ÍNDICE

Prefácio à Edição Comentada

2

Prefácio da Edição Original

10

 

Ao Leitor

17

1. INSTRUTORES ESOTÉRICOS

19

 

COMENTÁRIOS

32

2. A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM

37

 

COMENTÁRIOS

47

3. A CADEIA PLANETÁRIA

51

 

COMENTÁRIOS

64

4. OS PERÍODOS DO MUNDO

67

5. O DEVACHAN

85

 

COMENTÁRIOS

105

6. KÂMA-LOKA

106

 

COMENTÁRIOS

120

7. A ONDA DA MARÉ HUMANA

134

 

COMENTÁRIOS

145

8. O PROGRESSO DA HUMANIDADE

149

 

COMENTÁRIOS

163

9. BUDA

166

10. O NIRVANA

182

11. O UNIVERSO

191

12. REVISÃO DA DOUTRINA

203

Prefácio à Edição Comentada

Este livro foi publicado pela primeira vez no começo de 1883. Desde então,

recebi numerosas informações referentes a muitos dos problemas de que trata. Mas

apraz-me dizer que, se os ensinamentos posteriores mostram o caráter incompleto

de minha concepção original da doutrina esotérica, de modo algum eles evidenciam

qualquer erro material. Na verdade, recebi do próprio Grande Adepto, de quem

obtive minha instrução, a certeza de que o livro, como se apresenta agora, é uma

exposição segura e digna de confiança do esquema da Natureza tal como os

iniciados da ciência oculta a entendem. Esta pode ser, em futuro próximo, ampliada

consideravelmente, se o interesse que estimula for suficiente para levar a uma

procura acentuada de ensinamentos desse tipo por qualquer um, mas nunca terá de

ser reformada ou justificada. Em vista dessa certeza, parece melhor que eu exponha

minhas conclusões últimas e as minhas informações complementares sob a forma

de comentários em cada um dos ramos do assunto, sem fundi-los no texto original,

onde, devido às circunstâncias, não me disponho a introduzir qualquer alteração.

Este é o plano adotado para a presente edição.

Querendo transmitir meu reconhecimento indireto da harmonia geral a ser

estabelecida entre esses ensinamentos e os reconhecidos dogmas filosóficos de

algumas outras grandes escolas de pensamento hindu, passo aqui a referir-me às

críticas a este livro, publicadas na revista indiana Theosophist, em junho de 1883,

por "Um hindu brâmane". Lamenta-se o autor que, ao interpretar a doutrina

esotérica, eu me tenha afastado desnecessariamente da nomenclatura sânscrita

aceita. Entretanto, sua objeção significa simplesmente que, em alguns casos, dei

nomes pouco familiares para idéias já incorporadas aos sagrados escritos hindus, e

que honrei demasiado o sistema religioso comumente conhecido por Budismo,

apresentando-o mais intimamente ligado à doutrina esotérica do que nenhum outro.

Diz o meu crítico brâmane: "A sabedoria popular da maior parte dos hindus até o dia

de hoje é mais ou menos influenciada pela doutrina esotérica ensinada no livro de

Mr. Sinnett, impropriamente denominado O budismo esotérico, enquanto que não

existe uma só aldeia ou vilarejo, em toda a índia, em que o povo não esteja mais ou

menos familiarizado com os sublimes princípios da filosofia

Os efeitos

do karma no próximo nascimento, o gozo de seus frutos, bons ou maus, num estado

subjetivo ou espiritual de existência, anterior à reencarnação da mônada espiritual

neste ou nalgum outro mundo, o vagar das almas insaciadas ou dos cascões

humanos na Terra (Kâma-loka), os períodos malaicos e manvantáricos

não são

apenas inteligíveis, como também, para muitos hindus, são familiares sob nomes

diferentes dos usados pelo autor de O budismo esotérico”. É tanto melhor que assim

seja — permito-me contestar — sob o ângulo dos leitores ocidentais, para os quais

deve ser indiferente se a religião esotérica, hindu ou budista, está mais ou menos

próxima da ciência espiritual absolutamente verdadeira, que por certo não deveria

admitir nome algum que pareça fazê-la solidária, no mundo exterior, a uma fé mais

do que

a outra.

Na Europa,

tudo o que podemos aspirar é chegar

à clara

compreensão

dos

princípios

essenciais

daquela

ciência;

e

se

neste

livro

encontramos definidos esses princípios, conforme os representantes ilustrados de

mais de uma das grandes crenças orientais, como à altura de verdades subjacentes

a todos os diversos sistemas, estaremos tanto mais propensos a crer que a presente

exposição da doutrina merece nossa atenção.

Com referência à crítica de que os ensinamentos, aqui reduzidos a uma forma

inteligível, estão incorretamente descritos pelo nome que este livro leva, não posso

fazer nada melhor do que citar a nota com que o redator de Theosophist replica a

seu colaborador brâmane. Essa nota diz: "Publicamos a carta anterior porque

expressa, em linguagem cortês e de modo hábil, as opiniões de grande número de

nossos irmãos hindus. Ao mesmo tempo, deve ser dito que o nome O budismo

esotérico foi dado à última publicação de Mr. Sinnett, não porque a doutrina nela

exposta pretenda estar especialmente identificada com qualquer forma particular de

fé, mas porque Budismo significa a doutrina dos Budas, dos Sábios, isto é, a

Religião da Sabedoria". De minha parte, necessito apenas aduzir que aceito e

admito plenamente essa explicação do assunto. Seria, na verdade, uma concepção

errônea do propósito a que este livro responde o fato de supor que se preocupa em

recomendar, ao gosto do diletante moderno, modos de pensamento religioso

próprios do Mundo Antigo. As formas externas e fantasias religiosas, em uma época,

podem ser mais puras e, em outra, mais corrompidas, mas inevitavelmente se

adaptam a seu tempo, e seria extravagância imaginar que se possam substituir

umas pelas outras. Esta declaração não é formulada na esperança de converter em

budistas os seguidores de qualquer outro sistema, porém com o fito de comunicar

aos pensadores que nos lêem, tanto no Oriente como no Ocidente, uma série de

idéias-guia, referentes às verdades efetivas da Natureza e aos fatos reais do

progresso do homem através da evolução, e que, tendo sido comunicadas ao autor

pêlos filósofos orientais, amolda-se assim com mais facilidade ao Oriente. Quanto ao

valor

desses

ensinamentos,

talvez

se

apreciará

melhor

quando

se

perceber

claramente que seu caráter é mais científico do que controverto. Ai verdades

espirituais, se são verdades, podem evidentemente ser tratado com espírito no

menos científico do que as reações químicas. E nenhum sentimento religioso, de

qualquer espécie que seja, precisa ser perturbado pela importação, ao repertório

geral do conhecimento, de novos descobrimentos sobre a constituição e a natureza

do homem, no plano de suas mais altas atividades. Á religião verdadeira atinaria,

eventualmente,

com

um

procedimento

para

assimilar

muitos

conhecimentos

recentes, do mesmo modo que sempre acaba por admitir maior expansão do

Conhecimento, no plano físico. À primeira vista, isso pode confundir noções

associadas a crenças religiosas — assim como, no início, a geologia complicou a

cronologia bíblica. Mas com o tempo os homens foram vendo que a essência das

afirmações bíblicas não reside no sentido literal das passagens cosmológicas do

Antigo Testamento, e os conceitos religiosos purificaram-se muito com o subsídio

que assim lhes pôde ser propiciado. Da mesma forma, quando os conhecimentos da

ciência positiva começarem a abranger uma compreensão das leis relativas ao

desenvolvimento espiritual do homem, alguns conceitos errôneos da Natureza,

durante muito tempo misturados com religião, poderão ser suplantados, mas apesar

de tudo se descobrirá que as idéias fundamentais da verdadeira religião foram mais

aclaradas

e

robustecidas,

mediante

aquele

processo.

À

medida

que

tais

procedimentos continuam, em especial as dissensões internas do mundo religioso

serão fatalmente superadas. A luta entre seitas pode ser devida apenas à deficiência

da parte dos sectários rivais em compreender os fatos fundamentais. Quem sabe

chegará um dia em que as idéias fundamentais, nas quais a religião se apóia, sejam

compreendidas com a mesma certeza que compreendemos algumas leis físicas

elementares e que as discordâncias sobre elas sejam consideradas ridículas por

todas as pessoas instruídas; então, não haverá lugar para tantas acres divergências

no sentimento religioso. As circunstâncias externas ao pensamento religioso serão

diferentes ainda, em diferentes climas e entre raças diferentes, como diferem a

indumentária e o regime alimentar; mas tais diferenças não causarão antagonismo

intelectual.

A meu ver, os fatos fundamentais da natureza indicada são desenvolvidos na

exposição da ciência espiritual que obtivemos agora de nossos amigos orientais.

Para os pensadores religiosos, é completamente inútil afastar-se deles sob a

impressão de que esses argumentos favoreçam algum credo oriental, em detrimento

da crença mais generalizada do Ocidente. Se a ciência médica descobrisse um fato

novo sobre o corpo humano, se desvendasse algum princípio até agora oculto, em

que se baseasse o crescimento da pele, da carne e dos ossos, essa descoberta não

seria encarada como uma violação do domínio da religião. O domínio da religião

poderia considerar-se invadido, por exemplo, por uma descoberta que, por trás da

ação

dos

nervos,

revelasse

urna

série

mais

delicada

de

atividades

que

os

manipulassem, do mesmo modo como eles manipulam os músculos? De qualquer

modo, malgrado tal descoberta pudesse ser um princípio para reconciliar ciência e

religião, nenhum homem que permita que suas faculdades superiores tomem parte

em seus pensamentos religiosos desprezaria como hostil à religião um fato positivo

plenamente demonstrado da Natureza. Sendo um fato, inevitavelmente se ajustaria

a todos os outros fatos, assim como a verdade religiosa. Isso acontece com a

grande

massa

de

informações

relativas

à

evolução

espiritual

do

homem,

compreendida na presente exposição. Nosso melhor intento é perguntar, antes de

nos fixarmos no relato que dou a público. Não se enquadra, sob todos os seus

aspectos, com opiniões preconcebidas. E realmente nos insere numa série de fatos

naturais relacionados com o crescimento e com o desenvolvimento das mais altas

faculdades do homem. Se assim é, podemos sabiamente examinar os fatos,

primeiramente com espírito científico e, depois, deixar que eles exerçam seus efeitos

razoáveis e legítimos nas crenças colaterais.

À medida que a explanação prossegue, ramificando-se em muitas direções,

ver-se-á que a afirmação principal que agora se divulga é uma teoria antropológica

que completa e espiritualiza as noções correntes da evolução física. A teoria que

assinala

o

desenvolvimento

do

homem,

por

meio

de

sucessivos

e

graduais

aperfeiçoamentos das formas animais, de geração em geração, é uma teoria muito

desinteressante e pobre, se encarada como uma explicação que compreende a

criação inteira. Entretanto, devidamente entendida, facilita o acesso à compreensão

do processo concorrente superior que faz evoluir a alma do homem no reino

espiritual da existência. Á atual visão do assunto reconcilia o método evolucionista

com

o

anseio

profundamente

arraigado

em

cada

entidade

consciente,

de

perpetuação da vida individual. As séries desarticuladas de formas progressivas

existentes na Terra não têm individualidade. À vida de cada uma é, por sua vez, uma

operação separada que não encontra na próxima e similar operação qualquer

compensação pêlos sofrimentos que a acompanham. Nenhuma justiça, nenhum

fruto de seus esforços. Todavia, pode-se argumentar, na suposição de nova e

independente criação de uma alma humana, cada vez que nova forma humana é

produzida por desenvolvimento fisiológico, que nos estados espirituais posteriores

desta alma a justiça será concedida. Mas, nesse caso, essa concepção está em

desacordo com a idéia fundamental da evolução que faz depender ou crê fazer

depender, em cada caso, a origem da alma das operações da matéria altamente

desenvolvida. Isso não deixa de ser discrepante com as analogias da Natureza,

mas, sem entrar neste assunto, basta por enquanto perceber que a teoria da

evolução espiritual, tal como ela aparece nos ensinamentos da ciência esotérica,

harmoniza-se em todo caso com essas analogias, ao passo que, ao mesmo tempo,

coincide com

as

exigências

continuação da vida individual.

Esta teoria reconhece

da justiça

e

satisfaz

a demanda

instintiva,

pela

a evolução da alma como um processo

que

é

inteiramente contínuo em si mesmo, embora efetivado, em parte, por intermédio de

uma grande série de formas dissociadas que servem como instrumentos. Deixando

de lado, por agora, a metafísica profunda da teoria que revela a origem do princípio

da vida, a primeira causa original do cosmos, encontramos a alma como uma

entidade emergente do reino animal e passando às formas humanas primigênias,

sem estar ainda preparada naquele tempo para a mais elevada vida intelectual com

que estamos familiarizados, no estado presente da humanidade. Porém, devido às

sucessivas encarnações nas formas, cujo aprimoramento físico, sob a lei de Darwin,

está constantemente se ajustando para ser a sua morada a cada retomo à vida

objetiva, adquire gradualmente aquele raio de experiência em que a resultante é o

seu mais elevado desenvolvimento. Nos intervalos entre as suas encarnações

físicas, prolonga, desenvolve e por fim esgota ou transforma as experiências

pessoais de cada vida em desenvolvimento proporciona abstrato. Esta é a chave da

explicação verdadeira daquela dificuldade aparente que persegue a forma mais crua

da

teoria

da

reencarnação,

apresentada

algumas

vezes

pela

especulação

independente. Cada homem é inconsciente das vidas por que passou anteriormente,

por

isso

sustenta

que

as

vidas

subseqüentes

não

podem

lhe

proporcionar

compensação alguma para esta presente. Não se dá conta da enorme importância

do estado espiritual intermediário, no qual de modo algum esquece as aventuras e

emoções pessoais pelas quais passou e durante o qual refina estas em outros

tantos progressos cósmicos. Nas páginas que seguem, tenta-se elucidar este

mistério, profundamente interessante. O exame dos acontecimentos, pêlos quais

atualmente passamos, não é só' uma solução dos problemas da vida e da morte,

mas também de muitas das desconcertantes experiências que ocorrem na região

limítrofe entre estas duas condições — ou antes, entre a vida física e a espiritual —

que tanto prenderam a atenção e foram objeto de especulação nos últimos anos,

nos países mais civilizados.

Prefácio da Edição Original

Os ensinamentos compreendidos neste volume lançam luz sobre questões

relacionadas com a doutrina budista, que deixaram perplexos os escritores que se

ocuparam dessa religião, e oferecem, ao mundo, pela primeira vez, uma chave

prática para o significado de quase todo o antigo simbolismo religioso. Mais ainda,

uma vez propriamente entendida a doutrina esotérica, ver-se-á que ela possui

razões muito poderosas para que todos os pensadores sérios lhe dêem atenção.

Seus princípios não nos são apresentados como a invenção de algum fundador ou

profeta. Seu testemunho não se baseia em nenhuma escritura. Suas opiniões sobre

a Natureza foram desenvolvidas graças às pesquisas de uma série enorme de

perquiridores, qualificados para sua missão, pela posse de faculdades e percepções

espirituais de uma ordem mais elevada que as pertencentes à humanidade comum.

No

decorrer

dos

tempos,

o

repertório

de

conhecimentos

assim

acumulados,

referentes às origens do mundo e do homem e aos destinos posteriores de nossa

raça — relativos também à natureza de outros mundos e a estados de existência

que diferem dos de nossa vida presente — comprovados e examinados em cada um

de seus aspectos, e constantemente sujeitos a completo exame, chegou a ser

encarado por seus defensores como sendo a verdade absoluta, no que diz respeito

às coisas espirituais, ao estado real dos fatos nas vastas regiões de atividade vital,

mais além desta existência terrena.

A filosofia

européia,

quer

se

refira

à

religião,

quer

à

metafísica

pura,

acostumou-se,

durante

tanto

tempo,

a

um

sentimento

de

insegurança

nas

especulações além dos limites da experiência física, que os pensadores prudentes

dificilmente reconhecem como objeto razoável de investigação, a verdade absoluta

sobre as coisas espirituais. Na Ásia, porém, adquiriram-se outros hábitos de

pensamento. A doutrina secreta, que em extensão considerável tenho agora a

oportunidade de expor, é considerada não só por seus seguidores, como por grande

número dos que nunca esperaram conhecer dela outra coisa do que saber que

existe, como uma mina de conhecimentos inteiramente dignos de fé, da qual todas

as religiões e filosofias tiraram o que possuem de verdade e com os quais toda

religião deve coincidir, se pretende ser um modo de expressão da verdade.

De fato, isso é uma pretensão audaciosa, mas me aventuro a declarar que o

conteúdo deste livro é de suma importância para o mundo, porque creio que essa

pretensão pode ser justificada.

Não digo que dentro dos limites deste volume se possa provar a autenticidade

da doutrina esotérica. Essa prova não se apresenta por nenhum processo de

argumentação, mas apenas pelo desenvolvimento de per si das faculdades exigidas

à observação direta da Natureza, ao longo da senda indicada. Esta conclusão prima

fade pode se determinar pela importância que tenham para o indivíduo as opiniões

que se vão expor sobre a Natureza, e pelas razões que existem para confiar nos

poderes de observação daqueles que a comunicaram.

Pode-se supor, talvez, que a própria magnitude da presente pretensão em

benefício da doutrina esotérica suscite esta afirmação oriunda da região a que se

refere seu título — a da pesquisa relativa ao significado real e interno da religião

definida e específica chamada Budismo.

O fato, contudo,

é

que

o Budismo

Esotérico, embora de maneira alguma esteja divorciado das relações com o

Budismo Exotérico, não deve ser concebido como constituindo mero imperium in

imperio — uma escola central de cultura no vórtice do mundo budista. À medida que

o Budismo se retira dos recessos de sua fé, descobre-se que estes se misturam com

os recessos de outras crenças. As concepções cósmicas e o conhecimento da

Natureza nos quais repousa o Budismo, como também constituem o Budismo

Esotérico, são as mesmas do Bramanismo esotérico. E a doutrina esotérica é assim

considerada por todos os "iluminados" (no sentido budista) das crenças como a

verdade mais absoluta referente à Natureza, ao Homem, à origem do Universo e aos

destinos para os quais tendem os seus habitantes. Ao mesmo tempo, o Budismo

Exotérico permaneceu em união mais estreita com a doutrina esotérica do que

qualquer uma das outras religiões populares. A exposição da ciência interna estará

associada, portanto, de forma irresistível por si mesma, com as descrições familiares

dos ensinamentos budistas. Com certeza, conferindo a estes um significado vívido,

que no geral lhes parece faltar, mas por isso mesmo contribuindo para que a

doutrina esotérica seja estudada em seu aspecto budista: além disso, um aspecto

que foi tão fortemente impresso sobre ela, desde os tempos de Gautama Buda.

Embora a essência da doutrina seja bem mais remota, o colorido budista penetrou

por completo em sua substância. O que vou expor ao leitor é o Budismo Esotérico, e

para estudantes acidentais, que pela primeira vez o abordam, seria imprópria

qualquer outra denominação.

À exposição das doutrinas deve ser considerada pelo leitor em seu conjunto,

antes que possa compreender por que os iniciados na doutrina esotérica consideram

como de assombrosa grandeza a situação que envolve uma revelação atual do

esboço geral desta doutrina. Uma explicação desse sentimento pode ser vista surgir,

de imediato, da extrema sacralidade que está sempre incorporada aos antigos

guardiães das verdades íntimas e vitais da Natureza. Até hoje, esta santidade tem

prescrito sua ocultação absoluta do rebanho profano. E, no que este costume de

ocultação — tradição de muitos séculos — vai sendo na atualidade substituído pelo

novo costume que determina o aparecimento deste livro, o será com surpresa e

pesar por grande número de discípulos iniciados. Submeter à crítica, que pode às

vezes ser desairosa e irreverente, doutrinas que até agora foram tidas por tais

pessoas como de importância demasiado majestosa, para que se fale delas apenas

em circunstâncias de condizente solenidade, parecer-lhes-á uma terrível profanação

dos grandes mistérios. Considerando este livro do ponto de vista europeu, seria

pouco razoável esperar que se possa livrá-lo da dureza costumeira dispensada às

idéias novas. E as convicções especiais ou o fanatismo vulgar podem fazer com

que, algumas vezes, no caso presente, tal conduta se torne particularmente hostil.

Apesar de tudo isso e ainda que dar à luz tais conhecimentos seja coisa lógica de se

esperar de expositores europeus como eu, será encarado com grande pesar e

desgosto

pelos

seus

mais

antigos

e

regulares

representantes.

Com

tristeza,

apelarão à sabedoria sancionada pelo tempo em que, no antigo e simbólico estilo,

se proibia aos iniciados jogar pérolas aos porcos.

Felizmente, conforme eu penso, não se permitiu que a regra funcionasse por

mais tempo em detrimento de todos aqueles que, apesar de estarem ainda muito

longe de ser iniciados, no sentido oculto da palavra, estão aptos, pela pura força da

cultura moderna, a apreciar essa concessão.

Parte

das

informações

contidas

nas

páginas

que

se

seguem

foi,

primeiramente, divulgada de modo fragmentário no Theosophist, revista mensal

publicada em Madras, índia, pêlos diretores da Sociedade Teosófica. Como quase

todos os artigos foram assinados por mim, não vacilei em entremear trechos dos

mesmos, quando achei conveniente no presente volume. Desse modo, consegui

certa vantagem, mostrando como as separadas peças do mosaico, pela primeira vez

apresentadas a público, ajustam-se naturalmente em seus respectivos lugares no

pavimento já concluído.

A doutrina ou sistema agora revelado, em seus traços essenciais, foi tão

zelosamente guardado até hoje que nenhum gênero de pesquisas literárias, embora

houvessem esquadrinhado a índia inteira, pôde trazer à luz a menor partícula do

conteúdo aqui revelado. Foi, afinal, dada ao mundo pela livre vontade daqueles sob

cuja custódia haviam permanecido até hoje. Ninguém teria arrancado deles nem a

sua primeira letra. Somente após ler com atenção estas explicações é que a atitude

em geral, com respeito às suas atuais revelações ou à reticência anterior, pode ser

criticada ou mesmo compreendida. As opiniões sobre a Natureza, agora expostas,

são bastante estranhas para os pensadores europeus. O modo de agir dos

graduados na ciência esotérica, resultado de uma longa intimidade com essas

opiniões, deve ser considerado em relação com o alcance peculiar da própria

doutrina.

Quanto às circunstâncias sob as quais estas revelações foram pela primeira

vez apresentadas no Theosophist, agora completadas e aqui expostas, como

perceberão nossos leitores, basta dizer, no momento, que a Sociedade Teosófica,

por meio da qual e graças à minha relação com ela vieram às minhas mãos as

informações deste livro, deve sua existência a certas pessoas que se incluem entre

os defensores da ciência esotérica. O assunto que, por fim, é exibido em proveito

dos que estão aptos a recebê-lo, é apresentado ao mundo por intermédio da

Sociedade Teosófica desde sua fundação, e somente circunstâncias posteriores

indicaram-me como o agente através de quem esta comunicação poderia ser feita

de modo conveniente.

É preciso que se saiba que não me considero o único expositor da verdade

esotérica para o mundo exterior, durante esta crise. Estes ensinamentos constituem

a conseqüência, no tocante ao conhecimento filosófico, das relações estabelecidas

com o mundo exterior pelos guardiães da verdade esotérica por meu intermédio. E

apenas em virtude dos atos e intenções destes instrutores esotéricos que decidiram

atuar por meu intermédio é que possuo um determinado conhecimento. Mas, em

diferentes sentidos, alguns outros escritores empreenderam, parece, a exposição

em benefício do mundo — e, segundo creio, de conformidade com um vasto plano,

do qual este volume é uma parte — das mesmas verdades que, sob outros

aspectos, tenho a missão de revelar. É provável que a grande efervescência

existente, hoje em dia, nas especulações literárias a respeito de problemas que

ultrapassam os limites da ciência física, tenham provocado tal conduta por parte dos

grandes guardiães da verdade esotérica, em que meu livro é, por certo, mais uma

manifestação. Já o ardor agora demonstrado nas "Pesquisas Psíquicas" por homens

ilustres e cultos à testa da Sociedade que se dedica, em Londres, a tal propósito,

segundo minhas convicções íntimas — conhecendo, como conheço, algo relativo ao

modo

como

as

aspirações

espirituais

do

mundo

estão

sendo

secretamente

influenciadas por aqueles cujos trabalhos ocorrem nesse departamento da Natureza

— é fruto evidente de esforços paralelos àqueles com os quais estou mais

diretamente preocupado.

Agora me resta negar, com relação ao estudo que se segue, qualquer

pretensão minha quanto à perfeição de linguagem. Uma familiaridade maior com o

vasto e complicado

esquema

da

cosmogonia

revelada

sugerirá,

sem

dúvida,

aperfeiçoamentos na fraseologia empregada de minha exposição. Há dois anos,

nem eu nem outro europeu conhecíamos o alfabeto da ciência aqui exposta pela

primeira vez, sob uma forma científica — ou, pelo menos, tentada nesta direção —,

a ciência das Causas Espirituais e de seus Efeitos, da Consciência Suprafísica, da

Evolução Cósmica. Embora tais idéias comecem a se revelar ao mundo, sob um

disfarce mais ou menos embaraçoso de simbolismo místico, não se tentara até há

dois anos, por nenhum instrutor esotérico, expor a doutrina em sua clara pureza

abstrata. À medida em que progredia a minha própria instrução neste sentido,

inventei frases e sugeri palavras como equivalentes às idéias que se apresentavam

à minha mente. Não tenciono ficar convencido de que em todas as oportunidades

tenha inventado as melhores frases possíveis, nem que haja encontrado as palavras

mais nítidas e expressivas. Por exemplo, no início da obra, precisamos atribuir

nomes aos elementos ou atributos de que se compõe o ser humano completo.

"Elemento" seria um termo inadequado para se usar, devido à confusão que se

originaria de sua utilização com outros sentidos. Também sujeita a objeções foi a

palavra

"princípio".

Para

um

ouvido

educado

nas

sutilezas

das

expressões

metafísicas, esse termo soará de um modo pouco satisfatório, em algumas de suas

presentes aplicações. É bem possível que, com o passar do tempo, a nomenclatura

ocidental da doutrina esotérica se desenvolva muito mais a partir do que eu construí

provisoriamente. A nomenclatura oriental é bem mais apurada. Mas o sânscrito

metafísico parece embaraçar penosamente o tradutor — embora a culpa, segundo

meus amigos indianos, não seja do sânscrito, mas da linguagem em que pretendem

expressar a idéia sânscrita na atualidade. Com a ajuda do grego, que nos é familiar,

às vezes recebe-se melhor a nova doutrina — ou, antes, a primitiva doutrina, tal

como ela foi revelada recentemente — do que no Oriente se presumiu fosse

possível.

Ao Leitor

Todos os que lerem hoje este livro devem lembrar-se de que ele foi publicado

pela primeira vez em 1883, e constitui o mais primitivo esboço da doutrina esotérica

já revelada ao público em geral, em linguagem simples. Desde que ele foi escrito, o

estudo da teosofia e a posterior ajuda obtida dos Mestres originais ampliaram muito

o nosso conhecimento, e de muitas maneiras os pontos de vista que somos capazes

de expressar a respeito da evolução humana e da vida suprafísica são muito mais

ricos de detalhes que naquele esboço primitivo, que é considerado agora como

incompleto,

até

conhecimentos

certo

da

vida

ponto

no

enganoso.

Plano

Astral

Por

(ou

exemplo,

neste

livro

todos

os

Kâma-Ioka)

estão

inteiramente

desatualizados. Meu trabalho seguinte, O crescimento da alma, elucida o assunto de

alguma forma. Um livro ulterior, No próximo mundo, aborda também outros aspectos

das condições variadas em que a Terra está dividida, com a prevalência dos

subplanos do vasto invólucro suprafísico. Do mesmo modo, todos os relatos neste

texto sobre o "Devachan" supervalorizam a importância desse estado — na verdade,

apenas um dos aspectos da vida no plano do Manas — e não propriamente um

objetivo a ser visado por toda a humanidade. Resumindo, a teosofia, considerada

uma ciência espiritual, avançou e está progredindo tão magnificamente que os seus

livros mais antigos são interessantes principalmente como registros de suas origens

— um prognóstico incompleto da riqueza de conhecimentos, acumulada mais tarde

em nossas mãos. A primeira coleção dos Anais da Loja de Londres, publicada

durante os anos de 1884-1902, revelou grande parte do progresso obtido; a nova

coleção (em circulação), de 1913-1916, já incorporou os resultados desse discreto

trabalho posterior.

A Ética da Teosofia é demasiado clara e simples para necessitar de revisão

constante. Em seu aspecto intelectual, a Teosofia é uma ciência viva repleta de

possibilidades futuras infinitas. Assim como o químico moderno deve remontar a

épocas anteriores com interesse, não desprovido de humor, para a especulação

transata sobre o "flogisto" e o "ar sem flogístico", bem assim os teosofistas precisam,

qualquer que seja seu estado, espero, ter uma espécie de tolerância pêlos muitos

equívocos contidos em O budismo esotérico, lembrando que, apesar deles, o livro

teve a honra de inaugurar o grande movimento teosófico no plano físico do mundo

ocidental.

A.P.SINNETT

1918

1. INSTRUTORES ESOTÉRICOS

As informações contidas nas páginas a seguir não são uma coleção de

inferências deduzidas de estudos. Aos leitores, apresento conhecimentos obtidos

mais por generosidade que por esforços. Disso não decorre que seu valor seja

menor; ao contrário, aventuro-me a declarar que será incalculavelmente maior pela

facilidade com que os obtive, do que quaisquer resultados proporcionados pêlos

métodos ordinários de pesquisas, mesmo se eu tivesse possuído, em seu grau mais

elevado, o que não pretendo possuir de modo algum — a Ciência Oriental.

Todos os que se preocupam com a literatura indiana, e mais ainda, qualquer

pessoa que na índia tenha tratado de assuntos filosóficos com nativos cultos,

estarão cientes da convicção geral no Oriente de que há homens que sabem mais

sobre filosofia, na acepção mais elevada da palavra — a ciência, o verdadeiro

conhecimento das coisas espirituais —, do que se acha registrado em qualquer livro.

Na Europa, a noção de segredo aplicada à ciência repugna tanto ao instinto

dominante que a primeira tendência dos pensadores europeus é negar a existência

daquilo com que antipatizam. Mas as circunstâncias me deram a certeza cabal,

durante minha estada na índia, de que a convicção que acabo de mencionar está

perfeitamente bem fundamentada. Afinal, tive o privilégio de receber uma massa

considerável de instrução sobre a até hoje ciência secreta, a respeito da qual os

filósofos orientais meditaram em silêncio até agora. Essa instrução foi unicamente

comunicada a estudantes preparados para penetrar nas regiões do segredo, e

permanecendo seus instrutores muito tranqüilos com relação à dúvida em que têm

ficado os demais investigadores, acerca da existência ou não de algo de importância

a aprender deles.

Compartilhando em princípio essa grande antipatia pela antiga regra de

conduta oriental, no que diz respeito ao conhecimento, cheguei, no entanto, a

perceber que a antiga ciência oriental era efetivamente uma verdade Importante. E

escusável considerar as uvas como verdes quando estão totalmente fora de

alcance, mas seria loucura persistir nessa opinião se um amigo de estatura elevada

pudesse apanhar um cacho e as achasse doces.

Por razões que aparecerão no decurso desta obra, a massa considerável de

ensinamentos até hoje secretos, que ela contém, me foi comunicada não só fora das

condições normais, mas com a finalidade explícita de que, de minha parte, eu as

comunicasse sem reservas ao mundo.

Sem a luz da ciência oriental, até agora secreta, é impossível que apenas

pelo estudo de sua literatura publicada — em língua inglesa ou em sânscrito — até

mesmo os estudantes da melhor qualificação científica possam compreender as

doutrinas internas e o significado verdadeiro de qualquer religião oriental. Esta

assertiva não envolve repreensão alguma aos escritores eruditos e laboriosos de

grande gênio, que têm estudado as religiões orientais em geral, e o Budismo de

modo especial, em seus aspectos exteriores. O Budismo é sobretudo uma religião

que tem gozado de uma existência dual desde o início de sua introdução no mundo.

O significado real interno de suas doutrinas foi mantido apartado dos estudantes

não-inicia-dos,

enquanto

seus

ensinamentos

externos

têm

sido

simplesmente

apresentados à multidão, como um código de lições morais e com uma literatura

simbólica e velada, que indicava a existência de conhecimentos anteriores.

Esta ciência secreta, na verdade, é muito anterior à passagem de Gautama

Buda pela vida terrena. A filosofia bramânica, em épocas anteriores a Buda,

compreendia a mesma doutrina que na atualidade pode ser chamada de Budismo

Esotérico. Com efeito, os seus contornos haviam-se apagado e as suas formas

científicas

haviam

sido

parcialmente

confundidas;

mas

a

massa

geral

de

conhecimentos já estava em poder de uns poucos eleitos antes que Buda viesse a

participar dos mesmos. Buda, entretanto, empreendeu a tarefa de revisar e restaurar

a ciência esotérica do círculo interno de iniciados, bem como a moralidade do

mundo externo. As circunstâncias em que esta tarefa foi feita foram muito mal-

entendidas; uma verdadeira explicação não seria inteligível sem as elucidações, que

deveriam ser obtidas por um exame prévio da própria ciência esotérica.

Desde o tempo de Buda, até hoje, a ciência esotérica de que nos ocupamos

tem sido zelosamente guardada como uma preciosa herança, privativa tão-só dos

membros regularmente iniciados das associações misteriosamente organizadas.

Estes, no que diz respeito ao Budismo, são os Arhats a que se refere a literatura

budista. São os iniciados que trilham a "quarta senda da santidade", de que se fala

nos escritos budistas. Mr. Rhys Davids, referindo-se à multiplicidade de textos

originais e às autoridades sânscritas, diz: "Podem-se escrever páginas e páginas

com os louvores impregnados de um sentimento temeroso e de êxtase, de que são

pródigos os escritos budistas a este estado da mente, o fruto da quarta senda, o

estado de um Arhat, de um homem perfeito segundo a fé budista." E depois de fazer

uma série de citações oriundas de autoridades sânscritas, expressa: "Para aquele

que chegou ao fim da senda e passou além da tristeza; que se libertou por si

mesmo de tudo; que se desprendeu de todos os grilhões, não existe mais nem a

paixão, nem o desgosto

Para ele não há mais nascimentos

acha-se no gozo do

Nirvana. Seu antigo karma está esgotado, não foi produzido nenhum novo karma;

seu coração está livre de anseios por uma vida futura e, não gerando novos

desejos, eles, os sábios, se extinguiram tal o lume de uma vela." Estes e outros

parágrafos semelhantes conduzem, de qualquer modo, os leitores europeus a uma

idéia completamente falsa no que concerne ao tipo de pessoa que um Arhat é

efetivamente, à vida que leva enquanto está na Terra e à que espera no futuro. Mas

a elucidação destes pontos pode ser adiada no momento. Primeiramente se podem

expor outros parágrafos procedentes de tratados esotéricos, que demonstram o que

é que geralmente se supõe ser um Arhat.

Mr. Rhys Davids, falando de Jhana e Samadhi (a crença de que era possível,

por meio de intensa auto-absorção, atingir faculdades e poderes sobrenaturais) diz

ainda: "Tanto quanto é do meu conhecimento, não se registra nenhum caso de

alguém, seja um membro da ordem, ou um asceta brâmane, que tenha adquirido

estes poderes. Um Buda sempre os possui; se os Arhats, como tais, realizam os

milagres especiais em questão, e se dentre os mendicantes somente os Arhats ou

unicamente

os

Asekhas

podem

realizá-los,

é

coisa

que

não

está

clara

na

atualidade." As fontes de informação que foram exploradas até agora sobre o

assunto esclarecem muito pouco. Mas limito-me a mostrar que a literatura budista é

abundante em alusões relativas à grandeza e aos poderes dos Arhats. Quanto a um

conhecimento mais íntimo a respeito deles, circunstâncias especiais nos devem

apresentar explicações cabíveis.

Mr. Arthur Lillie, em Buda e o budismo primitivo, nos relata: "Seis faculdades

sobrenaturais se requerem do asceta antes que ele possa pretender o grau de

Arhat. A elas se alude constantemente nos Sutras como as seis faculdades

sobrenaturais, em geral sem nenhuma outra especificação

O homem possui um

corpo constituído dos quatro elementos

neste corpo transitório está acorrentada a

sua inteligência, e, achando-se assim confuso, o asceta dirige a sua mente à criação

do Manas. Ele imagina a si mesmo, em pensamento, com outro corpo criado a partir

desse corpo material — um corpo com uma forma, com membros e órgãos. Com

relação ao corpo material, este corpo é o que a espada é para a bainha, ou como

uma serpente saindo de um cesto em que estivesse confinada. Então o asceta,

purificado e aperfeiçoado, começa a pôr em prática faculdades sobrenaturais.

Encontra-se

apto

a

passar

através

de

obstáculos

materiais,

como

paredes,

muralhas, etc.; é capaz de lançar sua fantástica aparição em muitos lugares ao

mesmo tempo

pode abandonar este mundo e até alcançar o céu do próprio

Brahma

Adquire o poder de ouvir os sons do mundo invisível de forma tão nítida

quanto os do mundo fenomenal — ainda mais nitidamente na realidade. Também

pelo poder dos Manas, é capaz de ler os pensamentos mais secretos dos outros e

de dar conta de seus caracteres." E assim sucessivamente com os demais

exemplos. Mr. Lillie não adivinhou com exatidão a natureza da verdade existente

atrás desta versão popular dos fatos; porém, a rigor, não é necessário citar mais,

para demonstrar que os poderes dos Arhats e sua penetração nas coisas espirituais

são respeitados pelo inundo budista do modo mais profundo, por mais que os

próprios Arhats se tenham mostrado singularmente pouco dispostos a facilitar o

mundo com autobiografias ou relatos científicos dos "seis poderes sobrenaturais".

Algumas proposições da tradução recente feita por Mr. Hoey, da obra Buda:

sua vida, sua doutrina, sua ordem, do Dr. Oldenberg, podem-se inserir neste local,

após o que seguiremos adiante. Nela lemos: "A proverbial filosofia budista atribui,

em inúmeras passagens, a posse do Nirvana ao santo que ainda pisa a Terra: 'O

discípulo que se livrou da sensualidade e do desejo, rico em sabedoria, conseguiu

aqui na Terra livrar-se da morte; atingiu o repouso, o Nirvana, o estado eterno.

Aquele que escapou dos difíceis labirintos do Samsara, que cruzou e chegou à

costa, absorvido em si mesmo, sem tropeços e sem dúvidas, que se livrou por si

mesmo das coisas terrenas e alcançou o Nirvana, a esse eu chamo de um

verdadeiro brâmane.' Se o santo quer pôr fim ao seu estado de existência, pode

fazê-lo, mas muito continua nele, até que a Natureza tenha atingido sua meta; a

respeito disso, cabem aquelas palavras postas na boca do mais eminente dos

discípulos de Buda: 'Não desejo a morte; não desejo a vida; espero que chegue

minha hora, como um obreiro que aguarda o seu salário'."

A multiplicação de citações semelhantes equivaleria a repetir, em formas

variadas,

os

conceitos

exotéricos

sobre

o Arhats.

Como

todos

os

fatos

ou

pensamentos do Budismo, o Arhat tem dois aspectos: um sob o qual ele se

apresenta ao mundo em geral, e o outro no qual vive, move-se e existe. No que se

refere à apreciação popular, ele é um santo aguardando um galardão espiritual do

gênero que o vulgo pode entender — um produtor de maravilhas graças a agentes

sobrenaturais. Na verdade, ele é o guardião, por longo tempo provado, da filosofia

mais profunda e secreta da religião fundamental que Buda renovou e restaurou; um

investigador da ciência natural, situado no próprio cume do conhecimento humano,

não só no que diz respeito aos mistérios do espírito, mas também em tudo o que se

relaciona com a constituição material do mundo.

Arhat é uma designação budista. Na índia, onde os atributos da ordem de

Arhat não estão necessariamente associados com as profissões do Budismo, a

designação mais familiar é Mahâtmâ. A Índia está saturada de narrativas sobre os

Mahâtmâs. Os mais antigos Mahâtmâs são, geralmente, chamados Rishis. Mas os

termos são permutáveis, e ouvi aplicar o título de Rishis a homens que estão vivos

hoje. Todos os atributos dos Arhats, que se descrevem nos escritos budistas, são

mencionados com não menos reverência na literatura indiana que os atributos

Mahâtmâs; e este volume poderia facilmente encher-se com traduções de livros do

país, referindo fatos milagrosos verificados por aqueles a quem a história e a

tradição conhecem por tal nome.

Com efeito, os Arhats e os Mahâtmâs são os mesmos homens. Naquela

altura de exaltação espiritual, o conhecimento supremo da doutrina esotérica

harmoniza todas as distinções sectárias originais. Seja qual for o nome que se dê a

esses illuminati 1 , eles são os adeptos da ciência oculta, algumas vezes, na índia de

hoje, chamados Irmãos e depositários da ciência espiritual que lhes foi legada por

seus predecessores.

Seria em vão pesquisar a literatura antiga e moderna, em busca de qualquer

explicação

sistemática

de

sua

doutrina

ou

ciência.

Boa

parte

dela

está

obscuramente exposta nos escritos ocultos; mas muito poucos têm utilidade para os

leitores

que

empreendem

a

tarefa

sem

um

prévio

conhecimento

adquirido

independentemente dos livros. Pelo fato de eu ter recebido instrução direta de um

entre eles, posso agora tentar um esboço dos ensinamentos dos Mahâtmâs, do

mesmo modo como adquiri o que sei relativo à organização a que pertence a maior

parte deles, bem como os maiores, da atualidade.

Em todo o mundo há ocultistas de diversos graus de eminência e, igualmente,

há fraternidades ocultas que têm muito em comum com a fraternidade dirigente

estabelecida no Tibete. Mas todas as minhas investigações sobre o assunto me

convenceram de que a Fraternidade Tibetana é incomparavelmente a mais elevada

dessas associações, e como tal é considerada por todas as demais — dignas, por

sua vez, de serem encaradas como "iluminadas", no sentido oculto da palavra. Na

verdade, existem na índia muitos místicos isolados, que receberam uma auto-

educação integral sem vinculação com as associações ocultas. Muitos destes dizem

que atingem mais altos pináculos da iluminação espiritual do que os Irmãos do

1 No original em italiano. Vale dizer: os Iluminados. (N. T.)

Tibete, ou do que qualquer outra pessoa na Terra. Porém, o exame dessas

pretensões, em todos os casos com que me deparei, creio que conduziria qualquer

leigo imparcial, por pouco qualificado que estivesse em seu desenvolvimento

pessoal para julgar sobre iluminação oculta, à conclusão de que são completamente

infundadas. Por exemplo, conheço um natural da índia, homem de educação

européia, que goza de alto prestígio no Governo, de boa posição social, de caráter

elevado e que é respeitado de modo invulgar pêlos europeus que com ele se

relacionam na vida oficial. Essa pessoa concede aos Irmãos do Tibete apenas um

segundo lugar no mundo da iluminação espiritual. Considera o primeiro lugar

ocupado por uma pessoa que já não está neste mundo — seu próprio mestre oculto

na vida —, que ele convictamente afirma ter sido uma encarnação do Ser Supremo.

Seus próprios (do meu amigo) sentidos internos foram despertados por esse Mestre,

de forma que as visões do estado extático, em que pode imergir silenciosamente à

vontade, são para ele a única região espiritual digna de interesse. Convencido de

que o Ser Supremo foi seu instrutor pessoal desde o início, e que continua ainda

sendo no estado subjetivo, ele é naturalmente inacessível a sugestões de que suas

impressões podem ser deturpadas em vista de seu desenvolvimento psicológico mal

dirigido. Por outro lado, os devotos de alta erudição, que eventualmente se podem

encontrar na índia, que erigem sua concepção de Natureza, do Universo e de Deus

sobre uma base completamente metafísica, e que desenvolveram seus sistemas

pela força pura do pensamento transcendental, tomarão algum reconhecido sistema

de filosofia como fundamento e irão amplificá-lo a um ponto que apenas um

metafísico oriental poderia sonhar. Conseguem discípulos que depositam neles uma

fé tácita e fundam a sua pequena escola, que floresce durante certo tempo dentro de

seus próprios limites. Porém, uma filosofia especulativa dessa espécie é antes uma

ocupação para a mente do que um conhecimento. Esses "Mestres", comparados

aos Adeptos organizados da mais alta fraternidade, são como botes a remo

comparados com os transatlânticos — meios úteis de locomoção em seu próprio

lago ou rio, mas nunca uma embarcação em que se possa confiar para uma grande

viagem marítima ao redor do mundo.

Descendo a um nível ainda mais baixo na escala, a índia está saturada de

ioguins e faquires, em todos os graus de autodesenvolvimento, desde o dos mais

sujos selvagens, muito pouco superiores aos ciganos ledores de sorte que acorrem

às nossas corridas de cavalo, até o de homens em cuja reclusão um estrangeiro

dificilmente penetraria, cujas anormais faculdades e poderes bastam ser vistos ou

experimentados para quebrar a incredulidade dos mais ardorosos representantes do

moderno

ceticismo

ocidental.

Os

pesquisadores

superficiais

confundem

com

facilidade

tais

pessoas

com

os

Grandes

Adeptos,

dos

quais

ouviram

falar

vagamente.

Entretanto, no que diz respeito aos verdadeiros Adeptos, não me aventuro a

dizer nada sobre o que é a organização tibetana, quanto às suas mais altas

autoridades dirigentes. Esses próprios Mahâtmâs — sobre os quais os leitores que

pacientemente me seguirem até o fim poderão formar uma idéia mais ou menos

adequada — estão subordinados, em seus diversos graus, ao chefe de todos.

Tratemos, antes de tudo, das primeiras condições da instrução oculta, o que pode

ser entendido com mais facilidade.

O grau de elevação que constitui um homem — chamado no mundo exterior

Mahâtmâ ou "Irmão" — só é alcançado após prolongada e penosa provação e

ansiosas provas de uma severidade realmente terrível. Há pessoas que passaram

vinte, trinta ou mais anos de irrepreensível e árdua devoção, dedicadas à missão

que empreenderam na vida, mas apesar disso, ainda se acham nos primeiros graus

de seu chelado, contemplando as alturas do adeptado, que estão muito acima de

suas possibilidades. E em qualquer idade que um garoto ou um homem se dedique

à carreira do ocultismo, dedica-se, entenda-se bem, sem reservas de nenhum

gênero e por toda sua vida. A missão que leva a cabo é o desenvolvimento em si

mesmo de muitas faculdades e atributos, de cuja existência nem se suspeita devido

ao fato de serem completamente latentes na massa da humanidade, sendo negada

a possibilidade de seu desenvolvimento. Estas faculdades e atributos devem ser

desenvolvidos pelo próprio cheia, com muito pouca ajuda, se houver alguma, além

da orientação e direção de seu mestre. Diz um aforismo oculto: "O Adepto se torna

um adepto: ele não é convertido em um." Pode-se ilustrar isto com o que acontece

num exercício físico corriqueiro. Todo homem com o uso normal de seus membros é

capaz de nadar. Mas mergulhem aqueles que, segundo provérbio popular, não

podem nadar em águas profundas, e eles se afogarão. O simples procedimento de

mover os membros não é um mistério. Porém, a menos que o nadador, ao movê-los,

acredite que tais movimentos produzirão o resultado almejado, este não será obtido.

Nesse caso, ocupamo-nos com forças meramente mecânicas, mas o mesmo

princípio se aplica às forças mais sutis. A mera "confiança" conduz o neófito oculto

muito mais longe do que o vulgo geralmente imagina. Quantos leitores europeus

permaneceriam totalmente incrédulos se se relatassem a ele alguns resultados que

os cheias ocultistas, dos graus mais incipientes de sua instrução, têm de obter por

pura força da confiança e, apesar disso, ouvem amiúde na igreja as familiares

afirmações bíblicas de que o poder reside na fé, e permitem que as palavras passem

como o vento, sem deixar qualquer impressão.

O grande fim e propósito do Adeptado é realizar o desenvolvimento espiritual,

cuja natureza está velada e disfarçada nas frases comuns da linguagem exotérica.

Dizer que o Adepto procura unir sua alma com Deus, para poder, por esse meio,

entrar no Nirvana, é uma assertiva destituída de significação para o leitor comum, e

quanto mais examiná-la, baseado em livros e métodos elementares, tanto menos

plausível lhe será a compreensão da natureza do processo observado, ou do estado

desejado. Em primeiro lugar, é preciso conhecer o conceito esotérico de Natureza e

a origem e os destinos do Homem, o que se diferencia por completo dos conceitos

teológicos, antes que se torne inteligível uma explicação da meta que o Adepto

persegue. Enquanto isso, entretanto, é desejável, logo de início, abrir os olhos do

leitor para o falso conceito, que provavelmente possa ter formado, sobre os objetivos

do Adeptado.

O desenvolvimento dessas faculdades espirituais, cujo cultivo se relaciona

com os mais elevados objetivos da vida oculta, proporciona, à medida que progride,

um conhecimento casual, relativo às leis físicas ainda não compreendidas da

Natureza em geral. Esse conhecimento, e a arte prática de manipular certas forças

ocultas da Natureza, como conseqüência, confere a um Adepto, e até aos discípulos

de um Adepto, num estágio incipiente de sua instrução, poderes extraordinários, cuja

aplicação nos assuntos da vida diária gera, em algumas ocasiões, resultados que

parecem completamente milagrosos. Do aspecto habitual, a aquisição de um poder

de aparência milagrosa é uma conquista tão estupenda que as pessoas, às vezes,

se sentem inclinadas a imaginar que o desígnio do Adepto, ao procurar os

conhecimentos que obtém, não foi outro que ele próprio investir-se desses poderes

cobiçados. Isso seria tão racional como dizer de qualquer grande patriota da história

militar que o seu propósito, ao ser soldado, foi o de portar um vistoso uniforme e

aguçar a imaginação das amas-secas.

O método oriental para o cultivo do saber sempre diferiu diametralmente do

seguido no Ocidente, durante o desenvolvimento da ciência moderna. Enquanto a

Europa pesquisou a Natureza da forma a mais pública possível, sendo discutido

cada passo com a mais ampla liberdade e circulando de imediato cada recente fato

adquirido para o benefício de todos, a ciência asiática foi estudada em segredo e

suas conquistas zelosamente guardadas. Não é necessário que eu tente no

momento a crítica ou a defesa desses métodos. Mas, de qualquer modo, esses

métodos foram afrouxados até certo ponto em meu próprio caso, e como já afirmei,

tenho o pleno consentimento de meus instrutores para seguir minhas inclinações

como europeu, comunicando o que aprendi a todos os que desejarem recebê-lo.

Posteriormente se verá como a transgressão das regras elementares do estudo

ocultista,

incorporada

às

concessões

agora

feitas,

cai

naturalmente

no

lugar

apropriado do esquema completo da filosofia oculta. O acesso a essa filosofia

esteve sempre, de certo modo, aberto a todos. Através do mundo, por vários meios,

foi vagamente difundida a idéia de que certos processos de estudo, que alguns

homens realmente seguiram, aqui e acolá, podiam conduzir à aquisição de um

gênero de conhecimento mais elevado do que o que é geralmente ensinado à

humanidade nos livros ou por meio de pregadores públicos religiosos. O Oriente,

como já foi assinalado, esteve sempre mais que vagamente impressionado por essa

crença, porém mesmo no Ocidente a massa inteira de literatura simbólica, referente

à astrologia, alquimia e ao misticismo em geral, fermentou na sociedade européia,

levando algumas poucas inteligências, singularmente receptivas e qualificadas, à

convicção

de

que

detrás

de

toda

essa

falta

de

sentido,

superficialmente

incompreensível, grandes verdades jazem ocultas. A essas pessoas, esse excêntrico

estudo revelou algumas vezes passagens ocultas que conduziam aos maiores

reinos imagináveis da iluminação. Porém, até agora, em todos esses casos, de

acordo com a lei dessas escolas, tão logo o neófito forçava passagem na região do

mistério, era-lhe imposto o segredo mais inviolável a tudo o que se relacionasse com

seu ingresso nessa região e com os seus progressos ulteriores. Na Ásia, do mesmo

modo, o cheia, ou discípulo de ocultismo, tão logo se converte em um cheia, deixa

de ser testemunha da realidade da ciência oculta. Fiquei espantado ao ver, assim

que comecei a tratar deste assunto, quão numerosos são os cheias. Mas é

impossível imaginar algum ato humano mais improvável do que a revelação não

autorizada, por parte de qualquer cheia, aos profanos, de sua qualificação como tal.

E assim é como a grande escola esotérica de filosofia conserva com sucesso o seu

segredo.

Num livro anterior, O mundo oculto, apresentei um completo e fiel relato das

circunstâncias sob as quais estive em contato com homens de dons elevados e

profundamente instruídos, de quem obtive as informações contidas neste volume.

Não preciso repetir a história. Agora tratarei do assunto sob novo ângulo. A

existência

de

Adeptos

ocultistas

e

a

importância

de

suas

aquisições

são

estabelecidas por intermédio de duas diferentes Unhas de argumento: em primeiro

lugar, considerando-se a evidência externa — o depoimento de testemunhas

qualificadas, a manifestação de pessoas relacionadas com Adeptos de faculdades

anormais que proporcionem algo mais que mera suposição da existência de

conhecimentos de anormal amplitude; em segundo lugar, pela apresentação de uma

parte

considerável

desses

conhecimentos,

suficiente

para

dar

a

segurança

intrínseca de seu próprio valor. Meu primeiro livro seguia o primeiro destes métodos.

Agora, enfrento um desafio maior, utilizando o segundo.

COMENTÁRIOS

Quanto mais avançamos no estudo do ocultismo, tanto mais exaltadas se

tomam, sob muitos aspectos, as nossas concepções sobre os Mahâtmâs. A

compreensão global da maneira como estas pessoas chegam, ao final de longo

tempo, a diferenciar-se da espécie humana não é algo que se obtém apenas com a

ajuda do esforço intelectual. Há aspectos na natureza do Adepto que se relacionam

com o extraordinário desenvolvimento dos princípios superiores do homem, que não

podem ser compreendidos pela aplicação dos inferiores. Mas enquanto os conceitos

incompletos, formados a princípio, por pouco não alcançam o nível verdadeiro dos

fatos, surge uma curiosa complicação do problema nesse caminho. A primeira idéia

que fazemos de um Adepto que conquistou o poder de penetrar os tremendos

segredos da natureza espiritual é formulada de acordo com os nossos conceitos de

um homem de ciência muito talentoso, em nosso próprio plano. Estamos aptos a

pensar que, uma vez Adepto, ele será sempre um Adepto — um ser humano muito

digno, que necessariamente deve usar, em todas as circunstâncias de sua vida, as

qualidades que lhe são pertinentes como um Mahâtmâ. Desse modo — como já

indicamos — não conseguiremos, certamente, por mais que nos esforcemos, fazer

justiça em nossos pensamentos aos seus atributos ás Mahâtmâ. Podemos com

bastante facilidade incorrer no extremo oposto ao pensarmos nele em seu aspecto

humano comum e, destarte, ficaremos perplexos, à medida que começarmos a nos

familiarizar com as características do mundo da ciência oculta. Precisamente porque

os mais elevados atributos do adeptado se relacionam com os princípios da

natureza humana, que transcendem inteiramente os limites da existência física, é

que o Adepto ou Mahâtmâ apenas pode ser um Adepto, na mais alta acepção do

termo, enquanto está, como diz a expressão, "fora do corpo" ou, de qualquer modo,

num estado anormal alcançado por sua própria vontade. Quando não tem por que

entrar em tal estado, nem sair completamente fora das limitações de sua prisão

carnal, parece-se muito mais com um homem comum, do que a experiência dos

discípulos sobre algum de seus aspectos poderia fazê-los supor.

Uma apreciação correta desse estado de coisas explica a contradição

aparente, com base na posição do discípulo de ocultismo diante de seus mestres

comparada com algumas das declarações que o próprio mestre faz freqüentemente.

Por exemplo, os Mahâtmâs asseveram que não são infalíveis, que eles são homens

como os demais, talvez com uma compreensão mais ampla da Natureza que o

comum da humanidade, mas, apesar de tudo, capazes de enganar-se tanto na

direção

dos

assuntos práticos

com

que

podem

estar relacionados, como na

apreciação dos atributos de outros homens, ou na apreciação da capacidade dos

candidatos para o desenvolvimento oculto. Mas como conciliarmos afirmações

dessa natureza com o princípio fundamental, existente no fundo de toda pesquisa do

ocultismo, que induz o neófito a confiar absolutamente e sem nenhuma reserva nos

ensinamentos e na orientação do mestre? A solução da dificuldade está no estado

de coisas, ao qual nos referimos anteriormente. Embora o Adepto possa ser um

homem capaz de enganar-se algumas vezes de modo surpreendente, quanto aos

assuntos mundanos, do mesmo modo que entre nós alguns dos maiores gênios

estão propensos a cometer erros em sua vida comum, que talvez não cometeria

jamais o vulgo de outro lado, assim que um Mahâtmâ se ocupa com os mais

elevados mistérios da ciência espiritual, ele o faz devido ao exercício de seus

atributos de Mahâtmâ, e, no que tange a estes, dificilmente é considerado capaz de

enganar-se.

Esta consideração permite-nos sentir que a confiança que merecem os

ensinamentos derivados dessa fonte, em que se inspira o presente volume, está

completamente fora do alcance dos pequenos incidentes que no progresso de nossa

experiência pareçam pedir a retificação dessa confiança entusiástica na sabedoria

suprema dos Adeptos, que geralmente evoca as primeiras abordagens ao estudo do

ocultismo.

Isso não quer dizer que esse entusiasmo ou reverência diminua por parte de

algum cheia ocultista, à proporção que cresça sua compreensão do mundo em que

penetra. O homem, que em um de seus aspectos é um Mahâtmâ, antes é conduzido

dentro dos limites do afetuoso respeito humano, do que privado de seus direitos à

reverência, pela consideração de que em sua vida comum não está acima do nível

comum dos sentimentos humanos, como algumas de suas nirvânicas experiências

nos levariam a crer.

Se temos sempre presente na mente que um Adepto só é verdadeiramente

um Adepto quando está exercendo as suas funções e que no exercício destas pode

elevar-se à relação espiritual com tudo aquilo que é, ao menos dentro dos limites de

nosso sistema solar, o que na prática significa para nós a onisciência, livrar-nos-

emos então de muitos de nossos erros gerados pelas dificuldades do assunto.

Pode-se relatar aqui algo atinente à intrincada natureza do Adepto, o que

seria difícil compreender sem fazer referência a alguns dos últimos capítulos deste

livro. Mas, como isto tem um significado tão importante para tudo quanto se refira à

compreensão do que é o Adeptado, será conveniente tratar dele de uma vez. A

natureza dúplice do Mahâtmâ é tão completa que algo de sua influência ou

sabedoria, nos planos mais elevados da Natureza, pode atingir os que estão em

singulares relações psíquicas com ele, sem que o Mahâtmâ-homem sequer perceba

no momento em que esse apelo lhe foi dirigido. Por essa via, estamos livres para

especular sobre a possibilidade de que a relação entre o Mahâtmâ espiritual e o

Mahâtmâ-homem algumas vezes pertença antes à Natureza do que às vezes se

menciona nos escritos esotéricos como um obscurecimento (overshadowing), em

vez de uma encarnação no amplo sentido da palavra.

Além disso, como outra complicação independente do assunto, devemos

apreciar o fato de que cada Mahâtmâ não é meramente um ego humano num estado

muito exaltado, mas pertence, por assim dizer, a algum departamento específico da

grande organização da Natureza. Cada Adepto deve pertencer a um ou a outro dos

sete grandes tipos do Adeptado. Mas embora possamos, quase com certeza, inferir

que existam correspondências entre esses vários tipos e os sete princípios do

homem, eu evitaria tentar a elucidação completa desta hipótese. Será suficiente

aplicar a idéia ao que conhecemos vagamente sobre a organização ocultista em

suas mais altas regiões. Há algum tempo, afirmou-se que nos escritos esotéricos

existem cinco grandes Chohans ou Mahâtmâs superiores, que presidem sobre toda

a fraternidade dos Adeptos. Quando foi escrito o capítulo precedente deste livro, eu

tinha a impressão de que um chefe supremo, situado num nível diferente, exercia

autoridade sobre esses cinco Chohans. Agora, parece-me que este personagem

deve antes ser considerado como um sexto Chohan, cabeça de um sexto tipo de

Mahâtmâ. Esta conjectura conduz, de uma vez, a outra inferência: deve existir um

sétimo Chohan para completar as correlações que assim discernimos. Mas como o

sétimo

princípio

na

Natureza

ou

no

homem

é

um

conceito

de

ordem

mais

inacessível, que escapa ao poder de qualquer inteligência e que seria descrito em

nebulosas frases ininteligíveis sobre metafísica, podemos portanto estar seguros de

que o sétimo Chohan está fora de toda compreensão dos intelectos não versados na

matéria. Mas ele, fora de dúvida, desempenha um papel naquilo que pode ser

chamado

a

mais

elevada

organização

da

Natureza

espiritual,

sendo

que

tal

personagem

é,

às

vezes,

visível

para

alguns

dos

outros

Mahâtmâs.

Mas

a

especulação que lhe diz respeito é valiosa, principalmente para ratificar a idéia

segundo a qual os Mahâtmâs podem ser compreendidos em seu verdadeiro

aspecto, como fenômenos necessários da Natureza, sem os quais a evolução da

humanidade dificilmente seria imaginada como avançando, e não como homens

excepcionais que atingiram um estado de grande exaltação espiritual.

2. A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM

Um exame da Cosmogonia, tal como a compreende a ciência oculta, deve

preceder toda tentativa de explicação dos meios pêlos quais se chegou a obter o

conhecimento dessa mesma Cosmogonia. Os métodos de pesquisa esotérica são o

resultado de fatos naturais, que a ciência exotérica desconhece totalmente. Estes

fatos

naturais

relacionam-se

ao

desenvolvimento

precoce

de

faculdades

nos

Adeptos ocultos, que a humanidade em geral não desenvolveu ainda. Estas

faculdades, por sua vez, capacitam seus possuidores à exploração dos mistérios da

Natureza e à comprovação das doutrinas esotéricas, na manifestação vindoura de

seu

sublime

desígnio.

O

estudante

prático

de

ocultismo

pode

desenvolver

primeiramente suas faculdades e aplicá-las depois à observação da Natureza. Mas,

para os leitores ocidentais, que só procuram a compreensão intelectual, deve

preceder a consideração dos sentidos internos utilizados pela pesquisa oculta, antes

de expor a teoria da Natureza. Por outro lado, o exame da Cosmogonia, tal como é

compreendida pela ciência oculta, só pode ser sistematizado cientificamente em

detrimento da inteligibilidade para os leitores europeus. Antes de mais nada,

devemos tentar entender o estado do Universo anterior ao início da evolução. Isso

não foi negligenciado de modo algum pêlos estudantes esotéricos, e, mais adiante,

no curso deste esboço, serão feitas algumas sugestões relativas à opinião que o

ocultismo sustenta sobre os processos primitivos, através dos quais a matéria

cósmica passa em seu percurso evolutivo. Mas uma ordenada exposição dos

processos mais primitivos da Natureza incluiria indicações à constituição espiritual

do homem, que não seria entendida sem alguma explicação preliminar.

A ciência esotérica reconhece sete princípios distintos na constituição do

homem. A classificação difere de um modo tão absoluto de tudo aquilo com que os

leitores europeus estão familiarizados que, naturalmente, me questionarão sobre as

bases em que o ocultismo se apóia para chegar a essa conclusão. Porém, devido às

peculiaridades inerentes ao assunto, que mais adiante serio compreendidas, devo

pedir para esta ciência oriental que dou a conhecer, certa atenção, por assim dizer,

de tipo oriental. Os sistemas oriental e europeu de transmitir conhecimento diferem

completamente em seus métodos. O método ocidental instiga e provoca, a cada

momento, o instinto da controvérsia do discípulo. Ele é animado a debater e a opor-

se à evidência. Proíbe-se-lhe aceitar qualquer afirmação científica tão-somente por

sua autoridade. Pari passu, à medida que adquire conhecimentos, deve aprender o

modo como eles são adquiridos e faz-lhe sentir que nenhum fato é digno de ser

conhecido, a menos que se conheça ao mesmo tempo a maneira de se demonstrá-

lo como tal. O método oriental dirige seus discípulos de uma forma bem diferente.

Está atento à necessidade de demonstrar seus ensinamentos como o Ocidente, mas

fornece provas de um gênero bem diferente. Dá poder ao estudante de pesquisar

por si mesmo a Natureza e de comprovar seus ensinamentos naquelas regiões em

que a filosofia ocidental só pode penetrar por intermédio da especulação e do

argumento. Jamais se dá ao trabalho de questionar sobre nada. Afirma: "O fato é

assim e assim; eis a chave dos conhecimentos; agora vai e observa por ti mesmo."

Assim ocorre que o ensinamento per se não é nada mais que ensinamento pela

autoridade. O ensinamento e a demonstração não vão de mãos dadas. Seguem-se

um ao outro na devida ordem. Outra conseqüência deste método é que a filosofia

oriental emprega o método que no Ocidente foi afastado, por boas razões, como

incompatível com nossa própria atitude de desenvolvimento intelectual: o sistema de

raciocinar do geral ao particular. Os objetivos que a ciência européia costuma ter em

mente não seriam resolvidos por esse plano, porém penso que qualquer pessoa que

se adiante na presente questão sentirá que esse sistema, de partir dos detalhes

para chegar às conclusões gerais, não se aplica ao assunto que ora discutimos. Não

se pode compreender pormenores neste ramo de conhecimentos, até que se

adquira um discernimento geral do esquema completo das coisas. Até o fato de

comunicar esta compreensão apenas por meio da linguagem é uma tarefa enorme e

nada fácil. Deter-se a cada momento da exposição, a fim de recolher toda evidência

capaz de provar cada afirmativa de per se, seria praticamente impossível. Tal

método acabaria com a paciência do leitor e o impediria de deduzir, como o faria de

um estudo sinóptico, esse conceito definido sobre o que a doutrina esotérica quer

ensinar e que me toca evocar.

Esta reflexão pode sugerir, de passagem, uma nova luz que guarda uma

íntima vinculação com o assunto presente dos sistemas de raciocínio platônico e

aristotélico. O sistema de Platão, descrito grosseiramente como raciocinando do

universal ao particular, é condenado pêlos hábitos modernos em prol do segundo e

exatamente sistema inverso. Mas Platão se restringia à tentativa de defender o seu

sistema. Todas as razões nos levam a crer que sua familiaridade com a ciência

esotérica é o que movia seu método e que as habituais restrições que sobre ele

pesavam, como ocultista iniciado, proibiam-no de dizer tudo o que poderia tê-lo

justificado. Ninguém que estude a ciência oculta, contida neste volume, e que logo

se direcione para Platão, ou para qualquer resumo inteligente de seu sistema,

deixará de encontrar correlações colhidas em cada passagem.

Os mais elevados princípios da série que forma o homem não estão

desenvolvidos na humanidade que conhecemos, mas um homem completo ou

perfeito poderia ser determinado nos elementos seguintes. Para facilitar a aplicação

destas explicações aos usuais escritos exotéricos budistas, são dados também os

nomes sânscritos desses princípios, assim como os termos adequados em nossa

linguagem 2 .

1 O Corpo: Rûpa

2 Vitalidade: Prana ou Jîva

3 Corpo Astral: Linga-sharîra

4 Alma Animal: Kâma-rüpa

5 Alma Humana: Manas

6 Alma Espiritual: Buddhi

7 Espírito: Âtma

Quando conceitos tão transcendentais, como alguns dos incluídos nesta

análise, são expostos de forma tabular, incorre-se, ao que parece, em certa

degradação

contra

a

qual

devemos

estar

sempre

prevenidos,

tratando

de

compreender com clareza o que se pretende significar. De fato, seria impossível

mesmo para o mais hábil professor de ciência oculta exibir cada um desses

princípios, isolada e distintamente dos outros, como se procede com os elementos

físicos de um corpo composto, ao separá-los por meio da análise e conservá-los

independentes uns dos outros. Os elementos de um corpo físico estão todos no

mesmo plano de materialidade, mas os elementos do homem estão em planos muito

diferentes. Os gases mais sutis, capazes de entrar na composição química do corpo

humano, acham-se ainda, ao menos proporcionalmente, quase no nível mais

2 A nomenclatura aqui adotada difere ligeiramente da que apareceu na Theosophist, quando alguns fragmentos dos presentes ensinamentos foram expostos pela primeira vez. Depois se verá que os nomes, atualmente preferidos, incluem um conceito mais completo de todo o sistema e evitam algumas dificuldades a que nos nomes primitivos davam origem. Não se deve estranhar que as primeiras exposições da ciência esotérica fossem imperfeitas, pois eram uma conseqüência natural das dificuldades com que os expositores ingleses lidavam. Mas não há que confessar, nem deplorar erro algum substancial. As conotações dos nomes atuais são mais precisas do que as escolhidas de início; porém, as explicações dadas originariamente, quanto a seu alcance, estavam em completa harmonia com as que se desenvolvem na atualidade.

material de todos os elementos. O segundo princípio, por sua associação com a

matéria grosseira, transforma-a, do que de costume chamamos matéria inorgânica

(o que com mais propriedade seria chamá-la inerte), em matéria viva, sendo algo

bem diverso da matéria mais inferior que conhecemos. Constitui, portanto, o

segundo princípio algo que possamos chamar verdadeiramente de matéria? A

questão nos conduz, assim, ao princípio desta indagação, ao centro da sutil

discussão metafísica sobre se a força e a matéria são diferentes ou idênticas. Basta,

no momento, assentar que a ciência oculta as considera idênticas e que não

observa nenhum princípio da Natureza como totalmente imaterial. Desse modo,

embora nenhum conceito do Universo, do destino do homem ou da Natureza em

geral

seja

mais

espiritual

do

que

os

da

ciência

oculta,

esta

ciência

está

completamente livre do erro lógico de atribuir resultados materiais às causas

imateriais. A doutrina esotérica é, portanto, na realidade, o elo que falta entre o

materialismo e a espiritualidade.

A chave do mistério que isso envolve encontra-se no fato, diretamente

reconhecível pêlos ocultistas versados, de que a matéria existe sob outros estados

além dos que podem ser reconhecidos pêlos cinco sentidos.

O segundo princípio do Homem, a Vitalidade, consiste, portanto, na matéria

em seu aspecto como força. Sua afinidade com o estado mais grosseiro da matéria

é tão grande que não pode ser separada de qualquer partícula ou massa da mesma,

salvo por instantânea translação para alguma outra massa ou partícula. Quando o

corpo do homem morre, por abandono de seus princípios superiores que o haviam

convertido numa realidade viva, o segundo, ou seja, o princípio da vida, não

constituindo mais uma unidade por si mesma, é ainda inerente, contudo, às

partículas do corpo enquanto este se decompõe, unindo-se a outros organismos aos

quais dá origem o mesmo processo de decomposição. Enterre-se o corpo na terra e

seu Jîva se unirá por si à vegetação que brota na superfície, ou às formas animais

inferiores

que

se

desenvolvem

de

sua

substância.

Queime-se

o

corpo,

e

o

indestrutível Jîva voa não menos instantaneamente ao mesmo planeta donde foi

originalmente tomado, entrando em alguma nova combinação determinada por suas

afinidades.

O terceiro princípio, o Corpo Astral ou Linga-sharîra, é um duplo etéreo do

corpo físico, seu desenho original. Ele é quem guia o Jîva em seu trabalho sobre as

partículas físicas e é a origem para que este construa a forma que aquelas

assumem. Vitalizado pêlos princípios mais elevados, sua unidade é conservada

apenas pela união de todo o grupo. Na ocasião da morte, desencarna-se por um

breve período, e sob condições anormais é transitoriamente visível para algumas

pessoas. Sob tais condições, é tomado naturalmente pelo espectro da pessoa

morta. As aparições espectrais podem, às vezes, ter outras causas, mas o terceiro

princípio, quando isso se apresenta como um fenômeno visível, é mera agregação

de

moléculas

num

estado

particular,

destituído

de

toda

espécie

de

vida

ou

consciência. Já não é um Ser, como não o é qualquer nuvem suspensa que no

espaço casualmente tome a semelhança de algum animal. Em termos gerais, o

Linga-sharîra jamais abandona o corpo, exceto à morte, nem mesmo neste caso

migra muito longe dele. Quando é visto, o que só pode ocorrer raramente, será

unicamente percebido perto do lugar onde o corpo físico ainda permanece. Em

alguns casos muito peculiares de mediunidade espírita, pode, durante um breve

tempo, sair do corpo físico e ser visível perto deste, mas o médium, nesse caso,

permanece

todo

o

tempo

em

perigo

iminente

de

vida.

Perturbem-se

inconscientemente as condições nas quais o Linga-sharîra se libertou e sua volta

pode ser impedida. Então, o segundo princípio logo deixaria de animar o corpo físico

como uma unidade e se seguiria a morte.

Durante os dois últimos anos, enquanto indícios e fragmentos de ciência

oculta se difundiram pelo mundo, a expressão "Corpo Astral" vem sendo aplicada a

certa semelhança da forma humana plenamente habitada por seus mais elevados

princípios,

podendo

projetar-se

a

qualquer

distância

do

corpo

físico,

lançada

conscientemente

e

com

intenção

precisa

por

um

Adepto

vivo,

ou

sem

intencionalidade, por meio da aplicação acidental de certas forças mentais a seus

princípios desprendidos por alguma pessoa no momento da morte. Para uso

comum, não há inconveniente prático no uso da expressão "Corpo Astral" para a

aparência assim projetada. De fato, qualquer expressão mais estritamente rigorosa,

como se vê, seria embaraçosa e devemos empregar a expressão em ambos os

significados. Não é preciso criar-se nenhuma confusão. Porém, estritamente falando,

o Linga-sharîra ou terceiro princípio é o corpo astral, e não pode ser lançado para

fora como veículo dos princípios superiores.

Os três princípios inferiores, como se vê, pertencem à Terra. Perecíveis por

natureza, como entidade isolada, embora sejam indestrutíveis com relação às suas

moléculas e em absoluto dissociados do homem em sua morte.

O quarto princípio é o primeiro dos que pertencem à natureza superior do

homem. A denominação sânscrita Kâma-rûpa é com freqüência traduzida por "Corpo

de Desejo", o que parece antes uma expressão confusa e pouco exata. Talvez

"Veículo da Vontade" seria uma tradução mais aproximada, se relacionando melhor

ao significado do que às palavras. Porém, o nome adotado anteriormente, "Alma

Animal" é o que sugere uma idéia mais exata.

Na Theosophist de outubro de 1881, quando se divulgaram as primeiras

indicações sobre a constituição setenária do homem, o quinto princípio era chamado

"alma

animal",

para

distingui-lo

do

sexto,

"alma

espiritual".

Embora

essa

nomenclatura fosse suficiente para fixar a distinção exigida, degradava-se o quinto

princípio, que é essencialmente o princípio humano. Apesar de a humanidade ser

animal em sua natureza, se ela for comparada com o espírito, em todos os outros

aspectos acha-se acima da criação propriamente animal. Introduzindo um novo

nome para o quinto princípio, fazemos retroceder a denominação "alma animal" a

seu lugar devido. Esta classificação não se opõe, entretanto, à apreciação do modo

como o quarto princípio constitui o centro da vontade ou do desejo a que o nome

sânscrito se refere. O Kâma-rûpa é a alma animal, o princípio mais desenvolvido da

criação bruta, suscetível de evoluir e converter-se em algo mais elevado, por sua

união com o crescente quinto princípio no homem. Mas, de todo modo, a alma

animal, da qual nenhum homem prescinde, é o centro de todos os desejos animais e

uma potente força no corpo humano, atuando, por assim dizer, tanto para cima como

para baixo, e capaz de influenciar o quinto princípio, para fins práticos, bem como

ser influenciada por ele, para o seu domínio e aperfeiçoamento. O quinto princípio, a

"alma humana" ou Manas (como é descrito em sânscrito por um de seus aspectos),

é a sede da razão e da memória. Uma parte deste princípio, animada pelo quarto, é

o que em realidade se projeta a lugares distantes por um Adepto, quando faz sua

aparição no que se chama comumente seu corpo astral.

O quinto

princípio,

ou

"alma

humana",

não

está

ainda

plenamente

desenvolvido na maior parte da humanidade. Este fato, sobre o desenvolvimento

imperfeito dos princípios superiores, é muito importante. Não podemos conceber

com exatidão o lugar atual do homem na Natureza, se cometemos o erro de encará-

lo como um ser já completamente aperfeiçoado. E esse erro seria fatal para

qualquer previsão razoável relativa ao futuro que o aguarda — fatal também para

qualquer apreciação do verdadeiro caráter do futuro, que a doutrina esotérica nos

explica e que efetivamente o espera.

Uma vez que o quinto princípio não está plenamente desenvolvido, fica

subentendido que o sexto princípio ainda está em estado embrionário. Essa idéia foi

indicada de variadas maneiras em recentes previsões da grande doutrina. Algumas

vezes, foi dito que não possuíamos, a rigor, nenhum sexto princípio, porém que

simplesmente temos o seu germe. Também foi dito que o sexto princípio não está

em nós, mas adeja sobre nós. É algo para onde se devem dirigir as mais altas

aspirações de nossa natureza. Mas também foi dito: Todas as coisas, não apenas o

homem, cada animal, planta e mineral, tem os seus sete princípios, e o mais elevado

princípio de todos — o sétimo — vitaliza aquele fio contínuo de vida que passa

através de toda a evolução, unindo em sucessão definida as quase inumeráveis

encarnações daquela vida que forma uma série completa. Devemos assimilar todos

esses diferentes conceitos e uni-los uns com os outros, ou extrair a sua essência,

para aprender a doutrina do sexto princípio. Seguindo a ordem de idéias que agora

mesmo nos sugere a aplicação do termo "alma animal" ao quarto princípio, e "alma

humana" ao quinto, pode o sexto ser denominado a "alma espiritual" do homem, e o

sétimo, por conseguinte, o próprio espírito.

Sob outro aspecto da idéia, o sexto princípio pode ser chamado o veículo do

sétimo, e o quarto, o veículo do quinto. Contudo, outra forma de focalizar o problema

nos ensina a considerar cada um dos princípios superiores, a contar do quarto para

cima, como um veículo do que na Filosofia Budista se chama de Vida Una ou

Espírito. Segundo este modo de abordar o assunto, a Vida Una é aquilo que se

aperfeiçoa,

ao

habitar

os

diferentes

veículos.

No

animal,

a

Vida

Una

está

concentrada no Kâma-rûpa. No homem, começa do mesmo modo a penetrar o

quinto princípio. No homem aperfeiçoado penetra o sexto, e quando penetra o

sétimo princípio o homem deixa de ser homem, atingindo uma condição de

existência completamente superior.

Este último modo de situar a questão é especialmente valioso, por prevenir-

nos contra a noção de que os quatro princípios superiores são como um feixe de

varas, atadas juntas, mas possuindo cada uma a sua individualidade, no caso de se

desatarem. Nem a "alma animal" sozinha nem a "alma espiritual" sozinha têm

qualquer individualidade. Por outro lado, o quinto princípio não poderia separar-se

dos outros, em tal grau que conservasse sua individualidade, ao passo que os

outros dois princípios ficassem inconscientes. Foi dito que mesmo os princípios mais

sutis são materiais e moleculares em sua constituição, embora compostos por uma

ordem de matéria muito mais elevada do que podem captar os sentidos físicos.

Portanto, são dissociáveis, e o mesmo sexto princípio pode ser imaginado como

divorciando-se de seu vizinho inferior. Neste estado de separação, porém, e no grau

atual de desenvolvimento da humanidade, poderia em semelhante circunstância

simplesmente reencarnar-se e desenvolver um novo quinto princípio, por contato

com um organismo humano. Neste caso, o quinto princípio se apoiaria no quarto,

sendo proporcionalmente degradado. Apesar de tudo, este quinto princípio, que não

pode permanecer só, é o que constitui a personalidade do homem e a sua essência,

em união com o sexto, a sua contínua individualidade através das vidas sucessivas.

As circunstâncias e as atrações, sob cuja influência os princípios se dividem,

e o modo como a consciência do homem atua sobre eles, serão objeto de discussão

mais adiante. Entrementes, compreenderemos melhor o aspecto geral da questão

ocupando-nos

de

início

dos

processos

de

evolução

desenvolvem os princípios do homem.

COMENTÁRIOS

por

meio

dos

quais

se

Alguma objeção foi levantada ao método de como a Doutrina Esotérica é

apresentada ao leitor, neste livro, com o fundamento de que é materialista. Duvido

eu que, por qualquer outro procedimento, as idéias de que trato pudessem ser

postas ao alcance da inteligência, sendo fácil, uma vez entendidas, traduzi-las nos

termos

próprios

de

seu

idealismo.

Os

princípios

superiores

poderão

ser

considerados melhor como outros tantos estados diferentes do Ego, quando os

atributos

destes

estados

forem

considerados

separadamente

como

princípios

submetidos à evolução. Mas vale frisar algo sobre o aspecto da constituição humana

que apresenta a consciência da entidade, emigrando sucessivamente através dos

distintos graus de desenvolvimento que os diferentes princípios significam.

Quanto à evolução mais elevada, da qual temos de ocupar-nos agora — a do

Mahâtmâ perfeito —, declarou-se algumas vezes, nos ensinamentos ocultos, que a

consciência do Ego adquiria o poder de viver integralmente no sexto princípio. Seria,

porém, uma maneira errônea, além de crassa, de considerar o assunto, supor que o

Mahâtmâ tenha descartado por completo, como inúteis, os invólucros do quarto e do

quinto

princípios,

nos

quais

sua

consciência

pode

haver morado

durante

os

anteriores estados de sua evolução. A entidade que era antes o quarto ou quinto

princípio, chegou agora a ser diferente em seus atributos e a ficar divorciada por

completo de certas tendências ou disposições, e é, portanto, um sexto princípio. A

mudança pode ser descrita, em termos mais gerais, como uma emancipação da

natureza do Adepto da servidão de seu eu inferior aos desejos da vida terrena

comum

e

mesmo

das

limitações

dos

afetos.

Porque

o

Ego,

que

está

completamente consciente em seu sexto princípio, realizou sua unidade com os

verdadeiros Egos de toda humanidade, no plano superior, e não pode mais ser

atraído pêlos laços de simpatia mais para uns do que para outros. Atingiu aquele

amor pela humanidade como um todo, que transcende o amor de Mâyâ ou ilusão,

que constitui a criatura humana e é a causa do sentimento de separação do ser

limitado nos planos inferiores da evolução. Não é que tenha perdido seus quarto e

quinto princípios — mas estes alcançaram o Mahatmado. Do mesmo modo como a

alma animal do reino inferior, ao alcançar a humanidade, floresce no quinto estado.

Aquela consideração nos ajuda a entender com maior exatidão a passagem dos

seres humanos comuns através de longas séries de encarnações no plano humano.

Tendo penetrado diretamente naquele plano de existência, a consciência do homem

primitivo vai gradualmente adquirindo os atributos do quinto princípio. Mas o Ego, a

princípio, permanece , um centro de atividade mental trabalhando principalmente

com impulsos e desejos pertencentes ao quarto estágio da evolução. Lampejos da

razão humana superior iluminam-no com intermitência no início, mas, por graus, o

homem mais intelectual atinge a plena posse daquela. Os impulsos da razão

humana afirmam-se cada vez mais vigorosamente. A mente fortalecida converte-se

em força predominante na vida. A consciência é transferida ao quinto princípio,

oscilando, entretanto, durante muito tempo, entre as tendências da natureza inferior

e as da superior, ou seja: durante vários períodos evolutivos e várias centenas de

vidas — e assim purificando e exaltando o Ego. Durante esse tempo, o Ego constitui

assim uma unidade, tomado deste ponto de vista, enquanto o sexto princípio é

apenas uma potencialidade de desenvolvimento posterior. No tocante ao sétimo

princípio, este é o verdadeiro Incognoscível, a causa suprema reguladora de todas

as coisas, o mesmo em todos os homens, o mesmo tanto para a humanidade., como

para o reino animal, o mesmo para todos os planos de existência: físico, astral,

devachânico

ou

nirvânico.

Nenhum

homem

adquiriu

um

sétimo

princípio,

na

concepção

superior

do

assunto:

todos

nós

somos

encobertos,

do

mesmo

incompreensível modo, pelo sétimo princípio do cosmos.

Como se harmoniza esta forma de encarar o assunto com a asserção feita no

capítulo anterior de que, em certo sentido, os princípios são dissociáveis e que até

pode imaginar-se o sexto como se divorciando de seu próximo e inferior vizinho e

desenvolvendo, por reencamação, um novo quinto princípio por meio do contato

com um organismo humano? Não existe qualquer incompatibilidade no espírito de

ambas as opiniões. O sétimo princípio é uno e indivisível em toda a Natureza; mas,

por intermédio dele, existe uma misteriosa persistência de certos impulsos de vida,

os

quais

constituem

assim

fios

em

que

sucessivas

existências

podem

estar

engastadas. Tal impulso de vida não expira, nem mesmo no caso hipoteticamente

extraordinário em que um Ego, por ele projetado e desenvolvido, até certo ponto, se

desprenda

dele

totalmente

e

como

um

todo

completo.

Não

irei

expressar

precisamente o que ocorre em caso semelhante, mas as subseqüentes encarnações

do espírito ao longo daquela linha de impulso se devem, é claro, à seqüência

original. E, destarte, dado o modo materialista de abordar a idéia, pode-se dizer,

aproximando-nos da precisão tanto quanto nos permita a linguagem, que o sexto

princípio da entidade caída separa-se do quinto original e se reencarna por sua

própria conta.

Mas não é necessário que nos ocupemos demasiadamente desses processos

anormais. A evolução normal é o problema que temos de resolver primeiro. A

consideração dos sete princípios como tais é, a meu ver, o método mais instrutivo

para abordar o problema. E convém considerar sempre que o Ego é uma unidade

que

progride

através

de

várias

esferas

ou

estados

de

existência,

sofrendo

mudanças, crescimentos e purificações durante o curso de sua evolução — ou seja,

uma consciência que reside neste, naquele ou em outro dos atributos potenciais de

uma entidade humana.

3. A CADEIA PLANETÁRIA

A ciência esotérica, apesar de ser o sistema mais espiritual que se possa

imaginar, nos apresenta, ao atuar em toda a Natureza, o sistema de evolução mais

completo que a inteligência humana possa conceber. A teoria darwiniana da

evolução

é

simplesmente

o

descobrimento

independente

de

uma

parte

infelizmente só de uma pequena parte — de uma vasta verdade natural. Porém, os

ocultistas sabem explicar a evolução sem degradar os mais elevados princípios do

homem. A doutrina esotérica não tem nenhuma obrigação de manter a sua ciência e

religião em compartimentos estanques. Sua teoria da física e sua teoria da

espiritualidade não são irreconciliáveis; estão intimamente vinculadas e dependem

uma da outra. E o primeiro grande fato que a ciência oculta nos exibe, com relação à

origem do homem neste globo, vem em auxílio da imaginação para alguns sérios

problemas da noção científica familiar de evolução. A evolução do homem não

consiste num processo que apenas acontece neste planeta. É um resultado para o

que

contribuem

muitos

mundos

em

condições

diferentes

de

desenvolvimento

material e espiritual. Se esta asserção fosse exposta apenas como uma conjectura,

é certo que forçosamente se recomendaria por si mesma às inteligências racionais.

Pois existe uma irracionalidade manifesta na noção banal de que a existência do

homem está dividida num começo material, que dura sessenta ou setenta anos, e

num resto espiritual de eterna duração. O irracional converte-se em absurdo quando

se pretende que os atos dos sessenta ou setenta anos — as confusas e frívolas

ações da ignorante vida humana — sejam consentidos pela perfeita justiça de uma

sapientíssima Providência, para definir as condições daquela vida póstuma de

duração infinita. Não é menos disparatado imaginar que, excetuada a questão de

justiça, a vida do além deva estar isenta da lei da mudança, do progresso e do

aperfeiçoamento, que todas as analogias da Natureza indicam como funcionando

provavelmente em todas as variadas existências do Universo. Mas abandone-se de

uma vez por todas

a idéia

de uma vida do além uniforme, invariável e não

progressiva — admita-se por um instante o conceito de mudança e progresso

naquela vida — e conceba-se a idéia de uma variedade dificilmente compatível com

qualquer outra hipótese senão a do progresso através de mundos sucessivos. Como

afirmamos antes, não é isto, de modo algum, uma hipótese para a ciência oculta,

mas um fato determinado e comprovado (por ocultistas) fora de qualquer dúvida ou

contradição.

A vida e os processos evolucionários deste planeta — numa palavra, tudo o

que faz dele

algo mais que uma massa inerte de matéria caótica — estão

encadeados com a vida e os processos evolucionários de vários outros planetas.

Mas não vá supor-se a inexistência de finalidade no que se refere ao esquema desta

união planetária a que pertencemos. A imaginação humana, uma vez posta em

liberdade, às vezes arremessa-se bem longe. Aceite-se plenamente como provável

ou verdadeira esta noção de que a Terra constitui meramente um elo na grande

cadeia de mundos, e poderia originar a idéia de que a totalidade dos céus estrelados

é a herança da família humana. Tal idéia implicaria um erro grave. Um só globo não

oferece lugar à Natureza para os processos mediante os quais o gênero humano foi

evocado do caos. Estes processos exigem apenas um número limitado e definido de

globos. Separados como estão no tocante à grosseira matéria física de que são

formados, os globos se acham estreita e intimamente unidos por meio de sutis

correntes e forças, cuja existência não requer muito esforço racional para ser

admitida, desde o momento em que a existência de alguma conexão — de força ou

meios etéreos — que une todos os corpos celestes visíveis, prova-se pelo mero fato

de que são visíveis. Por intermédio dessas correntes sutis é como os elementos de

vida passam de um mundo a outro.

Entretanto, o fato é, ao mesmo tempo, suscetível de má interpretação

decorrente de opiniões preconcebidas. Alguns leitores imaginarão que queremos

afirmar que, após a morte, a alma será arrastada pelas correntes daquele mundo

com o qual as suas afinidades se relacionam. O processo real é mais metódico. O

sistema de mundos é um circuito em torno do qual todas as entidades espirituais

individuais devem passar igualmente, e esta passagem constitui a Evolução do

Homem. Deve-se entender, portanto, que essa evolução é um processo ainda em

atividade e que de modo algum ele está completo. Os escritos darwinianos

ensinaram o mundo moderno a encarar o macaco como um antecessor, mas a

simples

vaidade

da

especulação

ocidental

raras

vezes

permitiu

que

os

evolucionistas europeus dessem uma rápida olhada noutra direção, reconhecendo a

probabilidade de que para os nossos remotos descendentes podemos ser o que

aquele tão mal-recebido progenitor é para nós. Apesar disso, os dois fatos citados

apenas apóiam-se um no outro. A evolução superior será consumada por nosso

progresso através dos mundos sucessivos do sistema, e em formas mais elevadas

voltaremos a esta Terra de vez em quando. Mas as linhas de pensamento, por

intermédio das quais contemplamos essa perspectiva futura, são de uma extensão

quase inconcebível.

Poder-se-á supor, facilmente, que os mundos que compõem a cadeia à qual

pertence esta Terra não estão todos preparados para uma existência material

exatamente ou mesmo aproximadamente semelhante à nossa Não teria sentido

numa cadeia organizada de mundos, que todos fossem parecidos e que todos

pudessem ser amalgamados num só. Na verdade, os mundos com os quais

estamos relacionados diferem uns dos outros, não só em suas condições externas,

mas também naquela característica suprema da proporção em que o espírito e a

matéria

combinam-se

em

sua

constituição.

Nosso

próprio

mundo

geralmente

apresenta-se-nos em condições de equilíbrio entre o espírito e a matéria. Não se

deve presumir que ocupe um lugar alto na escala de perfeição. Ao contrário,

permanece num nível muito inferior nessa escala. Os mundos mais elevados na

escala são aqueles em que o espírito amplamente predomina. Existe um outro

mundo, por assim dizer, atado à cadeia em vez de formar uma parte dela, em que a

matéria se manifesta até mesmo mais decisivamente que na Terra; mas disso

podemos falar mais adiante.

Que os mundos superiores, que o homem possa habitar em sua evolução

progressiva, tomem-se gradualmente mais e mais espirituais em sua formação —

por

estar

neles

a

vida

mais

e

mais

nitidamente

separada

das

grosseiras

necessidades materiais — parecerá à primeira vista bastante razoável. Mas também

à

primeira

vista

se

pode

imaginar

que

todos

os

que

inversamente

forem

denominados

mundos

inferiores,

mas

que

a

rigor

denominam-se

mundos

precedentes, devem ser menos espirituais, mais materiais do que esta Terra. O fato

é bem o oposto, e assim deve ser, visto tratar-se de uma cadeia de mundos sem fim,

isto é, uma cadeia em torno da qual percorre o processo evolucionário. Se este

processo somente tivesse uma jornada ao longo de um caminho que jamais

retornasse sobre si mesmo, poderíamos considerá-lo, deste ponto de vista, como

atuando da matéria quase absoluta até o quase absoluto espírito; mas a Natureza

atua sempre em curvas completas e viaja sempre por caminhos que retornam sobre

si mesmos. Os anteriores bem como os posteriores mundos desenvolvidos — pois a

própria cadeia foi crescendo por graus —, tanto os mais atrasados como os mais

adiantados são os mais imateriais, os mais etéreos de toda a série; e isto, estando

bem de acordo com o modo próprio de ser das coisas, pode ser comprovado,

refletindo-se que aquele mundo, estando numa situação mais avançada de todos,

não é nenhuma região de finalidade, mas o primeiro patamar para atingir o que está

mais atrás de todos, da mesma forma como o mês de dezembro nos conduz

novamente ao de janeiro. Não se trata de que a mônada individual caia, como por

uma catástrofe, do ápice de desenvolvimento ao estado do qual lentamente

ascendeu

milhões

de

anos.

Desde

esse

mundo,

por

motivos

que

logo

apresentaremos, que deve ser considerado como o mais alto no arco ascendente do

círculo até aquele que deve ser considerado como o primeiro no arco descendente

— ou seja, o mais baixo na ordem do desenvolvimento —, não existe descida

alguma, mas sempre ascensão e progresso. Pois a mônada ou entidade espiritual,

que percorreu seu caminho ao redor de todo o ciclo da evolução, tomando-a em

qualquer

das muitas etapas

de

desenvolvimento

em

que as existências são

agrupadas, começa seu próximo ciclo no grau superior que segue, e deste modo

está ainda realizando progresso à medida que passa do mundo Z outra vez ao

mundo A. Muitas vezes percorre o círculo deste modo em torno do sistema, mas sua

passagem ao redor dele não se deve julgar que seja tal qual uma revolução circular

numa órbita. Na escala da perfeição espiritual, está constantemente ascendendo.

Então, se comparamos o sistema de mundos a um sistema de torres situadas numa

planície — cada uma delas de muitos andares e simbolizando a escala de perfeição

—, vemos que a mônada espiritual representa um progresso em espiral em redor da

série, passando por cada uma das torres, cada vez que em sua volta chega a cada

uma delas e a um nível mais elevado que antes.

Por falta de compreensão desta idéia, a especulação relativa à evolução física

é amiúde sustada por obstáculos intransponíveis. Estão-se buscando os elos

perdidos num mundo em que jamais serão encontrados, porque, tendo apenas um

objetivo temporal, eles desapareceram. O homem, diz o darwiniano, foi certa vez um

macaco. Muito certo. Mas o macaco conhecido pelo darwiniano jamais se converterá

num homem — isto é, z. forma não mudará de geração em geração até que a cauda

desapareça e os pés se convertam em mãos, e assim por diante. A ciência comum

confessa que, embora as mudanças de forma sejam percebidas no progresso dentro

dos limites das espécies, as mudanças, de espécie para espécie, podem somente

ser inferidas; para explicá-las, pressupõem-se grandes intervalos de tempo e a

extinção das formas intermediárias. Ocorreu, sem dúvida, uma extinção das formas

intermediárias ou primitivas de todas as espécies (na acepção mais ampla da

palavra) — isto é, das correspondentes aos reinos mineral, vegetal, animal, humano,

etc. — mas a ciência comum meramente conjectura que tal fato ocorra, sem

compreender as condições que o tomaram inevitável e que proibiam a renovada

geração das formas intermediárias.

É o caráter espiralado do progresso realizado pelos impulsos vitais que

desenvolvem os vários reinos da Natureza o responsável pelos claros que se

observam agora nas formas animadas que povoam a Terra. A rosca de um parafuso,

que na realidade é um plano inclinado uniforme, se parece com uma sucessão de

degraus se for examinada apenas ao longo de uma linha paralela ao seu eixo. As

mônadas espirituais que percorrem em volta do sistema ao nível animal passam a

outros mundos, enquanto exerceram aqui sua volta de encarnação animal. Quando

de novo retornam, já estio prontas para uma encarnação humana e então não é

necessário o desenvolvimento ascendente das formas animais em formas humanas

— estas já estão esperando por seus moradores espirituais. Mas se voltarmos

bastante para trás, chegaremos a um período em que não existiam na Terra formas

humanas já desenvolvidas. Quando as mônadas espirituais, percorrendo o nível

humano mais baixo ou primitivo, começavam a circular desse modo, seu impulso

para a frente, num mundo que não continha senão formas animais, provocou o

melhoramento das mais elevadas dessas formas na forma exigida — o elo perdido

de que tanto se fala.

Focalizando essa questão sob determinado aspecto, pode-se objetar que esta

explicação é idêntica ao pressuposto evolucionismo darwiniano, com relação ao

desenvolvimento e extinção dos elos perdidos. Afinal de contas, um materialista

pode argumentar que "não nos interessa expressar uma opinião sobre a origem da

tendência nas espécies a desenvolver formas mais elevadas. Dizemos que elas

desenvolvem estas formas mais elevadas por meio de elos intermediários que se

extinguem, e vós dizeis exatamente o mesmo". Mas existe entre ambas as idéias

uma diferença para quem possa compreender distinções sutis. Ao processo natural

de evolução relacionado à influência de circunstâncias locais e à seleção sexual,

não se deve atribuir a produção de formas intermediárias, e este é o motivo pelo

qual se toma inevitável que as formas intermediárias sejam de natureza transitória e

se extingam. Do contrário, veríamos o mundo repleto de elos perdidos de todas as

espécies, aproximando-se ávida animal do gênero humano, por graus claramente

visíveis e misturando-se as formas humanas com as dos animais em indistinguível

confusão. O impulso à nova evolução de formas superiores é dado, efetivamente,

como já indicamos, por ondas de mônadas espirituais que chegam por ciclos num

estado apropriado para poder habitar nas novas formas. Estes impulsos de vida

superiores rompem a crisálida da forma mais antiga no planeta que invadem,

surgindo uma eflorescência de algo mais elevado. As formas que nada mais fizeram

do que se repetir por milhares de anos recomeçam o seu crescimento. Com rapidez

relativa, se elevam através das formas intermediárias às formas superiores, e, então,

como estas, por sua vez, multiplicam-se com o vigor e a rapidez de todos os novos

crescimentos, proporcionam habitações de carne para as entidades espirituais que

vão atingindo aquele estado ou plano de existência, enquanto que para as formas

intermediárias

não

existem

mais

inevitavelmente, elas se extinguem.

moradores

que

as

exijam.

Assim,

Desse modo consuma-se a evolução, no que se refere a seu impulso

essencial, por meio de um progresso em espiral através dos mundos. Na exposição

desta idéia, antecipamos em parte o enunciado de outro fato relevante, como auxílio

para corrigir opiniões sobre o sistema do mundo a que pertencemos. Trata-se do

fato de que a maré de vida — a onda de existência, o impulso espiritual, chame-se

como quiser — passa de planeta a planeta por vagas ou golfadas, e não como uma

corrente contínua. No intuito de ilustrar no momento essa idéia, o processo é

comparável à operação de encher uma série de orifícios ou de tubos fincados no

chão, como são vistos algumas vezes na boca de nascentes pouco férteis, os quais

são unidos uns aos outros por meio de pequenos canais superficiais. À medida que

brota a corrente do manancial é, no início, inteiramente recolhida pelo primeiro

orifício, ou tubo A, e apenas quando este está completamente cheio, a corrente

contínua de água que brota da fonte, ao extravasar, passa a encher o tubo B. Este,

ficando cheio, transborda pelo canal em direção ao tubo C. E assim sucessivamente.

Pois bem, embora uma analogia tão tosca como esta certamente não nos leve muito

longe, esclarece, no entanto, a evolução da vida numa cadeia de mundos como a

que pertencemos. E esclarece até mesmo a evolução dos próprios mundos.

Porquanto, o processo que ocorre não implica a preexistência de uma cadeia de

globos que a Natureza se encarrega de encher com vida, mas sim num processo em

que a evolução de cada um dos globos é o resultado de evoluções prévias e a

conseqüência

de

certos

impulsos

provenientes

de

seu

predecessor

na

superabundância de seu desenvolvimento. Agora vamos estudar a característica do

processo a ser descrito, mas para isso devemos imaginar que recuamos no tempo, a

um período anterior no desenvolvimento de nosso sistema, muito anterior ao que

trata nosso assunto na atualidade, ou seja: a evolução do homem. É evidente que

tão logo comecemos a falar de princípios de mundos, nos ocupemos de fenômenos

que têm muito pouco a ver com a vida, tal como a entendemos, e, portanto, pode-se

supor que eles nada têm a ver com os impulsos da vida. Mas voltemos por etapas.

Atrás do resultado humano do impulso de vida existe o resultado das meras formas

animais, como qualquer um compreende. Atrás desta, permanecem as formas

meramente

vegetais

pois

algumas

delas

antecederam

indubitavelmente

a

aparição da primitiva vida animal no planeta. Além disso, antes das organizações

vegetais, existiam as minerais — visto que até um mineral é produto da Natureza,

evolução

de

algo

existente

atrás

dela,

como

deve

ser

toda

a

manifestação

imaginável