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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO CURSO DE JORNALISMO

JORGE ROBESPIERRE TOMÁS JAPUR

ANÁLISE DA ATIVIDADE MIDIÁTICA DE UMA EMISSORA FRONTEIRIÇA: ESTUDO DE CASO DA RÁDIO QUARAÍ AM

Santa Maria 2009

JORGE ROBESPIERRE TOMÁS JAPUR

ANÁLISE DA ATIVIDADE MIDIÁTICA DE UMA EMISSORA FRONTEIRIÇA: ESTUDO DE CASO DA RÁDIO QUARAÍ AM

Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social – Hab. Jornalismo, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, RS), como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social – Hab. Jornalismo.

Orientador(a): Profª. Drª. Ada Cristina Machado Silveira

Santa Maria 2009

Universidade Federal de Santa Maria Centro de Ciências Sociais e Humanas Cursos de Comunicação Social Habilitação em Jornalismo

A Comissão Examinadora, abaixo assinada, aprova o Trabalho de Conclusão de Curso

ANÁLISE DA ATIVIDADE MIDIÁTICA DE UMA EMISSORA FRONTEIRIÇA: ESTUDO DE CASO DA RÁDIO QUARAÍ AM

elaborada por Jorge Robespierre Tomás Japur

como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social – Hab. Jornalis mo

COMISSÃO EXAMINADORA:

Profª. Drª. Ada Cristina Machado Silveira (UFSM) (Presidenta/Orientadora)

Prof. Esp. Paulo Roberto de Oliveira Araujo (UFSM)

Prof. Bel. Leandro Stevens (UFSM)

Santa Maria, 07 de janeiro de 2010.

Dedico este trabalho a todos aqueles que, assim como meu pai, lutam por um jornalismo sério e responsável mesmo com inúmeras adversidades.

Antes de tudo agradeço aos meus pais – Jorge Alberto Lamb Japur e Lilian Teresa Tomás Japur – pelo apoio incondicional que me deram durante todo o meu percurso, privando-se, às vezes, de confortos para que eu pudesse seguir com meus estudos. Agradeço ao meu avô (in memoriam), por ter materializado em vida o seu sonho de menino; e à minha avó, Izar, por ter mostrado o quão grandioso isso foi. Agradeço à minha família uruguaia, a todos os meus tios, à abuela Julia, pelo carinho e pela torcida que sempre me ofereceram. Agradeço principalmente à pela professora Ada, pela sábia orientação durante e o

liberdade

proporcionada

desenvolvimento deste trabalho. Agradeço à minha irmã, Aline Vanessa Tomás Japur, cuja atenta leitura evitou erros de digitação que passaram despercebidos por mim. E, finalmente, aos bons amigos feitos durante a faculdade, cuja amizade carregarei com carinho por toda a vida.

Velha milonga Argentina, Uruguaia e Brasileira, Contrabandeaste a Fronteira na alma dos pajadores, Sempre a falar dos amores, na tua rima baguala Se diferente na fala, no cantar de cada um... Tens essa pátria comum, no Pampa todos iguala...

(trecho de Milonga do Contrabando, de Luiz Menezes)

RESUMO

As práticas midiáticas de um veículo de comunicação fronteiriço estão submetidas a uma lealdade cruzada que, de um lado, põe em relevo a conjuntura local e, por outro, as determinações do Estado-nação ao qual pertence. Estar subordinado a essa ordem faz com que esses veículos trabalhem com uma riqueza cultural típica de uma cultura híbrida como é a fronteiriça. Por outro lado, acarreta dificuldades políticas e econômicas que podem influir inclusive na sua subsistência. Como caracterizar a atividade midiática da Rádio Quaraí AM? Este estudo de caso tenta resolver esse problema para compreender como uma emissora de rádio de uma cidade limítrofe participa desse fenômeno. A partir dessa compreensão é possível especular sobre algo que parece estar se tornando uma tendência nas Terras de Fronteira do Rio Grande do Sul: o fechamento de pequenas emissoras de rádio ou a inevitável venda dos seus canais por dificuldades, dentre outras, financeiras; originadas, em parte, pelas mesmas instâncias que elas representam. Em um primeiro momento, exploram-se questões relacionadas à fronteira e ao conceito de rádio local. Logo após, analisa-se a atividade midiática da emissora. Dentre os resultados encontrados, destaca-se a compreensão de como o contexto fronteiriço interfere no processo de subsistência de uma pequena emissora de rádio da fronteira com o Uruguai, a partir do detalhamento de práticas existentes nessa região. Palavras-chave: Rádio – Fronteira – Comunicação - Atividade Midiática – Local.

RESUMEN

Las prácticas mediáticas de un vehículo de comunicación fronterizo están sometidas a una lealtad cruzada que, de un lado, pone en relevo la coyuntura local y, por otro, las determinaciones del Estado-nación al cual pertenece. Estar subordinado a esa orden hace con que esos vehículos trabajen con una riqueza cultural típica de una cultura hibrida como es la fronteriza. Por otro lado, trae dificultades políticas y económicas que pueden influir incluso en su subsistencia. ¿Cómo caracterizar la actividad mediática de la Rádio Quaraí AM? Este estudio de caso intenta resolver ese problema para comprender como una emisora de radio de una ciudad limítrofe participa de ese fenómeno. A partir de esa comprensión es posible especular sobre algo que parece estar tornándose una tendencia en las Tierras de Frontera del Rio Grande del Sur: el cerramiento de pequeñas emisoras de radio o la inevitable venta de sus canales por dificultades, así como otras, financieras; originadas, en parte, por las mismas instancias que ellas representan. En un primer momento, explorase cuestiones relacionadas a la frontera y al concepto de radio local. Después, analizase la actividad mediática de la emisora. Entre los resultados obtenidos, destacase la comprensión de cómo el contexto fronterizo interfiere en el proceso de subsistencia de una pequeña emisora de radio de la frontera con el Uruguay, a partir del detallamiento de prácticas existentes en esa región. Palabras-clave: Radio – Frontera – Comunicación – Actividad Mediática – Local.

SUMÁRIO INTRODUÇÃO......................................................................................................................... 09 METODOLOGIA ..................................................................................................................... 13 1 A QUESTÃO FRONTEIRIÇA ............................................................................................ 17 1.1 EXPLORANDO O CONCEITO DE FRONTEIRA ....................................................... 17 1.1.1 Fronteira e Hibridismo Cultural .................................................................................... 18 1.1.2 Estabelecendo o local em uma Rádio de Fronteira....................................................... 21 1.1.3 A Malha de Comunicação local-inte rnacional e a Ordem Heterônoma..................... 23 1.2 A FRONTEIRA DA CONCÓRDIA: QUARAÍ (BRA)-ARIGAS (URU)...................... 24 2 ANÁLISE DA ATIVIDADE MIDIÁTICA DA RÁDIO QUARAÍ AM ........................... 27 2.1 A CIDADE SE DIVERTE: A CONSTRUÇÃO/FIXAÇÃO DE CANAIS HÍBRIDOS ATRAVÉS DA RÁDIO QUARAÍ...................................................... 27 2.2 LENDAS, MISCIGENAÇÃO E PROSPERIDADE: A EMISSORA FRONTEIRIÇA E OS SEUS VÍNCULOS ............................................................................. 39 2.3 RÁDIO QUARAÍ E FRONTEIRA: A EMISSORA E O FUTURO .............................. 53 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 71 OBRAS CONSULTADAS ....................................................................................................... 75 ANEXOS.................................................................................................................................... 79

9 INTRODUÇÃO Quem viaja pelas estradas em direção à fronteira oeste do Rio Grande do Sul costuma reclamar da viagem por conta das longas retas que ligam as cidades fronteiriças. Durante o percurso, a única coisa que se vê em todas as direções é o pampa: milhares de quilômetros quadrados de campo rasteiro que se perdem no horizonte, tendo acima apenas o céu azul. Ao entardecer, mas principalmente à noite, essa paisagem costuma produzir no espírito dos viajantes um sentimento de nostalgia. Esse percurso - que parece desolado - em certos trechos oferece uma única companhia ao viajante: o rádio AM. Atuando como um verdadeiro marco nas fronteiras brasileiras, as emissoras de rádio AM são as únicas que atingem quase 100% do território fronteiriço, cobrindo lugares em que a televisão, a telefonia celular, e outras tecnologias não chegam. Tais emissoras, por estarem localizadas nas fronteiras do Estado Brasileiro, trabalham com uma riqueza cultural típica de uma zona híbrida como a fronteiriça. Nas suas programações, elas contam com a participação de brasileiros, uruguaios e argentinos desde os seus primórdios. E como não poderia deixar de ser, atendem aos anseios de quem necessita dos seus serviços, sem se preocupar com a nacionalidade do ouvinte. É claro que essas emissoras não esquecem, contudo, do Estado-nação ao qual pertencem, já que elas representam- no naquele que é um dos extremos do Brasil. O caso estudado por este trabalho, a Rádio Quaraí AM, fundada em 17 de março de 1957, traz desde essa época algo que parece ser uma lição para o mundo contemporâneo, pois desde sempre trabalhou com aquilo que é diferente, representando ao mesmo tempo a realidade local da fronteira Quaraí (BRA)-Artigas (URU) e os desígnios do Brasil frente ao país vizinho, o Uruguai. A lealdade cruzada 1 com que a emissora lida há mais de meio século proporcionou-lhe uma história rica em informações que auxiliam na compreensão de como é a vivência na fronteira do Brasil com o Uruguai. Além disso, oferece- nos informações sobre como uma emissora fronteiriça de pequeno porte passou pelos diferentes períodos da história nacional do rádio (ou não, considerando que a emissora ficou alheia a algumas dessas transformações). A Rádio Quaraí AM vivenciou a época do rádio espetáculo, com os seus programas de auditório e radionovelas próprias; reagiu com certo atraso às transformações sofridas pelo rádio nacional nas décadas de 70 e 80, quase fechando as suas portas no início da década de 90; e hoje se mantém como a única emissora AM de Quaraí, com as atuais incertezas sobre o
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SILVEIRA, 2002-b.

10 destino do rádio AM no Brasil e a chegada do sistema digital de rádio. Durante todo esse período, a emissora ainda amadureceu os seus laços com o país vizinho, incorporando tanto os benefícios desse contato quanto as dificuldades. Dessa forma, estudar a Rádio Quaraí AM é um modo de levantar dados importantes sobre emissoras de pequeno porte do Brasil, para que as futuras políticas voltadas ao rádio possam usufruir dessas informações para tentar representá- las de forma justa. O que se tem hoje são políticas verticais: decide-se o destino do rádio em uma instância superior, tomandose por base o exemplo das grandes emissoras do país. As pequenas emissoras devem acompanhar as mudanças, sendo que esse processo normalmente é disp endioso para as emissoras de pequeno porte. Dessa forma, tais políticas eventualmente acabam, em vez de auxiliarem no desenvolvimento das pequenas emissoras, implicando ainda mais dificuldades por não considerarem as suas especificidades. Acreditamos que conhecer a realidade das pequenas emissoras de rádio do país é uma das únicas formas, talvez, de evitar algo que parece estar se tornando uma tendência nas Terras de Fronteira do RS (e quiçá de outras regiões do país): o fechamento de pequenas emissoras de rádio ou a sua venda para grandes conglomerados de comunicação, igrejas ou ainda para políticos. Evitar que isso aconteça é uma das poucas formas de garantir, na radiodifusão, a tão sonhada pluralidade de vozes necessária para o amadurecimento de um regime democrático. Isso não quer dizer, obviamente, que não haja pesquisas que tentem conhecer as pequenas emissoras de rádio do país. O que este trabalho propõe é um estudo de caso que contribua com informações mais aprofundadas sobre a realidade dessas emissoras, para que elas sirvam de alguma forma no complemento dessas pesquisas. Isso graças à escolha de um caso que, pela sua condição fronteiriça, por ser a única rádio AM da sua cidade, e ainda por ter acompanhado as principais transformações do rádio no país é um registro vivo das glórias e das dificuldades do rádio brasileiro. A pesquisa tenta resolver o seguinte problema: como caracterizar a atividade midiática da Rádio Quaraí AM? O problema foi formulado considerando bibliografia especializada em estudos sobre fronteiras e também sobre o rádio na fronteira. Acredita-se que resolvendo essa questão, será possível compreender detalhes sobre a realidade de emissoras de pequeno porte que trabalham em condições semelhantes à Rádio Quaraí AM. Para o autor da pesquisa, que tem relações tanto com o contexto fronteiriço quanto com o objeto analisado, estudar a Rádio Quaraí AM é uma forma de atentar para algumas dificuldades que são presenciadas desde a sua infância. Filho de pai brasileiro e mãe

11 uruguaia, um doble chapa, como se diz na fronteira, é possível que essa experiência ajude a recriar o contexto fronteiriço com detalhes que possivelmente passariam despercebidos por outros pesquisadores. O autor da pesquisa possui vínculos de consangüinidade com os sócios que compõem a direção da emissora, tendo sido ambientando desde os seus primórdios com a rádio e o seu funcionamento. Na juventude passou a auxiliar na técnica e também na produção de comerciais, jingles, vinhetas e outros materiais radiofônicos. Esse exercício construiu uma memória de materiais que puderam ser utilizados nesta pesquisa. Tais elementos, que não seguem uma linha cronológica regular, provavelmente ficariam de fora da pesquisa caso outro pesquisador selecionasse uma amostra fixa e limitada. Tem-se consciência, no entanto, das dificuldades metodológicas que tal aproximação acarreta. Uma crítica que pode ser levantada é sobre a legitimidade e isenção frente aos dados apresentados. Segundo trabalhos que investigam tema, não há como não admitir que valores estejam imbricados nas pesquisas sociais 2 . Isso se reflete na própria escolha do tema. No entanto, é possível analisar um determinado problema a partir de uma bibliografia especializada. No caso desta pesquisa, o fenômeno é visto a partir da bibliografia selecionada, e não a partir das experiências do pesquisador. Acredita-se que a experiência prévia do pesquisador auxilia, no entanto, na seleção de materiais que podem enriquecer a pesquisa, seja por ter conhecimento de jingles, vinhetas, entrevistas e comerciais que provavelmente não seriam abarcados em outras condições. Além disso, a experimentação prévia do lugar pode permitir uma construção mais acurada do contexto analisado. Sabe-se que apenas parte da história da Rádio Quaraí AM foi registrada neste escrito. Prova disso são as pilhas de documentos que infelizmente não foram acessadas a tempo, e também das pessoas que não se pôde entrevistar (há muitos personagens já falecidos; outros vivem em localidades de difícil acesso). A bibliografia que deu suporte à pesquisa forneceu os subsídios necessários para a seleção dos materiais que poderiam contribuir de forma mais imediata para este escrito. Cabe ressaltar outra dificuldade que é possível verificar na leitura do trabalho. Tentouse analisar a atividade midiática da Rádio Quaraí AM atendendo hermeticamente a cada uma das categorias escolhidas que lhe enquadram no ramo da comunicação. No entanto, a análise dos materiais recolhidos demonstra que essas categorias não estão dissociadas. Sendo assim, é

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GIL, 1999.

12 importante destacar que nos capítulos de análise não há uma divisão fidedigna que atenda a cada uma das três categorias rigorosamente em separado. Mesmo dividindo-se a atividade midiática da emissora, é possível perceber que em certos mo mentos as categorias se misturam na sua análise. Isso não atrapalha, no entanto, o desenvolvimento da pesquisa. Outra ressalva consiste no fato de que, além dos documentos acessados – fragmentados e normalmente não atendendo a uma ordem cronológica – serviram de base para este trabalho diversas entrevistas. Ou seja, parte significativa da história da Rádio Quaraí AM foi reconstruída a partir de fontes orais, já que a emissora nunca pôs em prática ações com o intuito de registrar a sua história para as gerações posteriores. Uma crítica que pode ser levantada sobre essa questão pode ser formulada da seguinte maneira: até que ponto os relatos não distorcem a realidade tal como ela é? A pergunta de cunho metodológico é de difícil solução. No entanto, de acordo com trabalhos que falam sobre o método da história oral3 , um dos problemas está relacionado ao fato de que o método normalmente é utilizado para preencher carências geradas pela falta de documentos sobre determinado tema. Se isso é legítimo ou não, não é o propósito desta pesquisa discutir. No entanto, cabe ressaltar que o método tem sido considerado válido por si mesmo quando o objetivo é a reconstrução de histórias 4 . Nesta pesquisa, simplesmente não há uma história documental sobre a Rádio Quaraí AM. E por isso, antes de entender as fontes orais como complemento para registros documentais, elas são o eixo que permitem a reconstrução da história da emissora. Os escassos documentos existentes servem para corroborar (ou não) as informações recolhidas nas entrevistas 5 . A análise desta pesquisa está dividida em três subcapítulos que não estão dissociados. Espera-se com este trabalho que as informações sobre a Rádio Quaraí AM, que se assemelham em muitos aspectos a outras emissoras de pequeno porte localizadas nas fronteiras brasileiras, sirvam para aprofundar a realidade em que elas atuam.

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MEIHY, 2000. “Alguns autores têm insistido na validade de se considerar a história oral por si mesma. Ela é relevante também para facilitar o entendimento de aspectos subjetivos de casos que, normalmente, são filt rados por racionalis mos, objetividades e neutralidades, esfriados pelas versões oficiais ou dificultados pela lógica da documentação escrita que encerra um código diverso do oral” (MEIHY, 2000, p. 28). O autor fala também sobre a distinção entre história oral e fonte oral. A primeira depende de um projeto, como é o caso desta pesquisa, a segunda se realiza em u ma gravação qualquer. 5 Ponte (2000) estudou as radionovelas produzidas pela Rádio Quaraí AM no final da década de 50. No entanto, da mes ma forma co mo esta pesquisa, a autora se serviu de entrevistas para reconstruir a história que até então estava guardada apenas na memória dos entrevistados.

13 METODOLOGIA Sodré (2002) situa o campo comunicação dentro de um espectro de ações e práticas, a saber: veiculação, vinculação e cognição. Esse aporte teórico é importante porque é ele que oferece os subsídios teóricos necessários para enquadrar a atividade midiática da Rádio Quaraí AM no campo da Comunicação. Segundo o autor, veiculação designa “antropotécnicas eticistas ou práticas de natureza empresarial [...] voltadas para a relação ou o contato entre os sujeitos sociais por meio das tecnologias da informação, como imprensa escrita, rádio, televisão, publicidade, etc.” (2002, p. 234). Nesse campo enquadra-se a produção midiática que vai ao ar pelo veículo de radiodifusão 6 . Comerciais, jingles, vinhetas, reportagens, entrevistas, transmissões esportivas, enfim, todo e qualquer produto radiofônico que relaciona os sujeitos sociais através da emissora faz parte desta categoria. No entanto, o contexto fronteiriço possui algumas peculiaridades que tornam especial a produção radiofônica da Rádio Quaraí AM (assim como a de outras emissoras fronteiriças). O porquê disso pode ser entendido a partir dos vínculos sociais estabelecidos por essas emissoras decorrentes do contexto ao qual pertencem. Sodré (2002) define vinculação como:

[...] práticas estratégicas de promoção ou manutenção do vínculo social, empreendidas por ações comunitaristas ou coletivas, animação cultural, ativ idade sindical, diálogos, etc. Diferentemente da pura relação produzida pela míd ia autonomizada, a vinculação pauta-se por formas diversas de reciprocidade comunicacional (afetiva e dialógica) entre os indivíduos. As ações vinculantes, que têm natureza basicamente societável, deixam claro que comunicação não se confina à atividade midiática (SODRÉ, 2002, p.234)

No caso da Rádio Quaraí AM, as características que mais sobressaem a respeito dessa categoria dizem respeito ao seu enquadramento nas Terras de Fronteira e à sujeição à ordem heterônoma (SILVEIRA, 2003). O conceito originalmente utilizado por Kant da heteronomia designa uma relação de subordinação a forças externas. No caso das sociedades fronteiriças, de uma ordem constituída por uma lealdade cruzada 7 que põe em relevo a conjuntura local e as determinações do Estado. Observam-se pelo menos dois tipos de vínculos: (1°) político com o Estado-nação brasileiro; (2°) cultural com o espaço Platino.

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O conceito de rádio utilizado nesta pesquisa foi extraído de FERRARETTO, Lu iz Artur. Rádi o: o veículo, a história e a técnica. Porto Alegre: Dora Lu zzatto, 2007. p. 21-3. 7 SILVEIRA, 2002-b.

14 O vínculo com o Estado-nação brasileiro pode ser constatado a partir da própria adequação da emissora à sua estrutura burocrática, já que a rádio atua segundo as políticas internacionais vigentes frente ao Estado-nação vizinho. Esse vínculo também pode ser percebido a partir das parcerias que a Rádio Quaraí AM tem com rádios e agências de notícias de outros lugares do país, que a contemplam com materiais – desde informativos até transmissões esportivas - de cunho nacional, realçando o pertencimento dessa localidade ao Estado brasileiro. Por outro lado, o vínculo cultural com o espaço platino pode ser identificado pelas práticas consolidadas não só na atualidade, mas também na história da emissora. Atualmente é feita, por exemplo, consulta diária à meteorologia e ao câmbio de Artigas, bem como campanhas das mais variadas ordens nos dois lados da fronteira. Há também a participação na programação de ouvintes das duas nacionalidades (mas que compartilham um vínculo comum – a cultura do gauchismo). Tais vínculos são construídos e reforçados desde a fundação da emissora em março de 1957, ocasião em que – durante a parte do dia que não havia energia elétrica em Quaraí – a rádio, com auxílio de um gerador, fazia a sua transmissão em espanhol para a cidade de Artigas (PONTE, 2000, p. 33). O vínculo cultural é reforçado/construído porque a Rádio Quaraí AM dese mpenha, de certa forma, uma comunicação de proximidade.

Pedro Coelho, socorrendo-se das palavras de Moragas Spá [...] define os meios de comunicação de proximidade como todos os que se “dirigem a u ma comunidade humana de tamanho méd io ou pequeno, delimit ada territorialmente, com conteúdos relativos à sua experiência quotidiana, às suas preocupações e aos seus problemas, ao seu patrimônio lingüístico, art ístico, cultural e à sua memória histórica”. Os meios de comunicação de proximidade serão, portanto, “os que produzem e emitem conteúdos de proximidade e que respeitam, por isso, o pacto de proximidade” (RIBEIRO, 2007, p .453)

Sodré estabelece ainda uma terceira categoria chamada cognição. Esse conceito significa:

Práticas teóricas relat ivas à posição de observação e sistematização das práticas de veiculação e das estratégias de vinculação. Aqui, a Comunicação emerge não como uma disciplina no sentido rigoroso do termo, mas co mo u ma maneira de pôr em perspectiva o saber tradicional sobre a sociedade, po rtanto, como u m constructum hipertextual (interface de saberes oriundos de diversos campos científicos) a partir de posições interpretativas. A “ciência” da comunicação impõe se, a exemplo da filosofia concebida por Wittgenstein, como u ma atividade crítica, só que voltada para a sociabilidade, a eticidade e as práticas de socialização pela cultura, u ma espécie de „filosofia pública‟. (SODRÉ, 2002, p.235)

15 A programação da Rádio Quaraí AM e a sua adequação ao contexto fronteiriço são objetos teorizáveis segundo essa categoria. A observação e análise desses tópicos, através de depoimentos, fotografias, gravações e entrevistas que ilustrem a tentativa de “observação e sistematização das práticas de veiculação e das estratégias de vinculação” (SODRÉ, 2002, p. 235) são objetos de análise da pesquisa. Estando a atividade midiática da Rádio Quaraí AM devidamente enquadrada segundo os pressupostos Sodré (2002), estabelecem-se assim os três ramos a seguir pela pesquisa: 1) Analisar a atividade midiática da Rádio Quaraí AM em face da sua condição de veículo de comunicação, através da análise da sua produção radiofônica (programas, vinhetas, comerciais, jingles, músicas, notícias, narrações de programas esportivos e sociais, entrevistas, programas humorísticos); 2) Analisar a atividade midiática da Rádio Quaraí AM em face da sua condição de vínculo social, tendo basicamente como objetos a legislação que regulamenta o funcionamento da emissora e as suas parcerias (vínculo com o Estado- nação brasileiro), bem como exemplos – atuais e presentes na sua história - que ilustrem a comunicação de proximidade desempenhada pela emissora (vínculo cultural com o espaço platino e vínculo social com a comunidade). 3) Analisar o discurso cognitivo da Rádio Quaraí AM proposto em sua atividade midiática. A programação da emissora e a sua adequação ao contexto fronteiriço são os objetos a serem analisados, através de depoimentos, fotografias, gravações, entrevistas e outros elementos da cultura midiática. Cabe ressaltar que essas três categorias não são isoladas. De certa maneira elas são interligadas, como demonstrou o estudo do material coletado. Para a coleta e o tratamento dos dados optou-se pelo estudo de caso, por ter sido o método que melhor se adequou ao tipo de objeto analisado. A justificativa disso deve-se ao seguinte: (1º) do objeto analisado: para tentar caracterizar a atividade midiática da Rádio Quaraí AM, não bastou analisar apenas a sua produção radiofônica. Foi necessário, além disso, entender os vínculos estabelecidos pela emissora com o contexto ao qual pertence. Dependendo do tipo de vínculo tratado, não há um objeto palpável que prove a sua existência. Além disso, o estudo toma como pressuposto que a emissora pertence ao contexto fronteiriço (ou seja, está submetido à ordem heterônoma). Isso é significativo para entender que não se pretende simplesmente entender como a Rádio Quaraí AM atua na fronteira; significa, isto sim, tentar compreender como a Rádio Quaraí AM atua na fronteira por estar na fronteira. As condições de cientificidade necessárias para esse tipo de estudo são contempladas pelo

16 estudo de caso. (2º) do método escolhido: as diretrizes do método estabelecem que um caso só é significativo se “um observador puder referenciá- lo em uma categoria analítica ou teórica [...] Se desejarmos falar sobre um caso, precisamos dos meios de interpretá- lo ou contextualizá- lo em uma realidade” (DUARTE, 2005, p. 218). A autora ainda comenta que o método “se desenvolve numa situação natural, é rico em dados descritivos, tem um plano aberto e flexível e focaliza a realidade de forma complexa e contextualizada” (2005, p. 218) 8 . Ao lado da descrição, outras características do método são importantes para este estudo, a saber:

1) particu larismo : o estudo se centra em uma situação, acontecimento, programa ou fenô meno particular, proporcionando assim u ma excelente via de análise prática de problemas da vida real; 2) descrição: o resultado final consiste na descrição detalhada de um assunto submetido à indagação; 3) explicação: o estudo de caso ajuda a compreender aquilo que submete à análise, fo rmando parte de seus objetivos a obtenção de novas interpretações e perspectivas, assim co mo o descobrimento de novos significados e visões antes despercebidas; 4) indução: a maioria dos estudos de caso utiliza o raciocín io indutivo, segundo o qual os princípios e generalizações emergem a partir da análise dos dados particulares. Em mu itas ocasiões, mais que verificar hipóteses formu ladas, o estudo de caso pretende descobrir novas relações entre elementos. (DUARTE, 2005, p. 217-8)

De acordo com Duarte, os objetos/procedimentos passíveis de análise segundo as características descritas na citação anterior podem ser “documentos, registros em arquivo, entrevistas, observação direta, observação participante e artefatos físicos” (2005, p. 229). Mesmo com defasagens e lacunas nos seus arquivos, a Rádio Quaraí AM ofereceu o material necessário para o estudo. O critério utilizado para selecionar quais desses materiais mais convinham ao estudo é o de adequação ao referencial teórico utilizado. Segundo Duarte, o pesquisador deve ter uma estratégia analítica geral, que consiste em selecionar – segundo o nível de prioridade – o que será estudado e por quê. A literatura empregada na pesquisa forneceu os parâmetros teóricos para a seleção dos objetos analisados.

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Para satisfazer essa condição, recorreu-se aos parâmetros existentes em Sodré (2002) no intento de enquadrar a atividade midiát ica da Rádio Quaraí AM no campo da Comunicação. E para situar a emissora ao contexto fronteiriço, recorreu-se, dentre outros, aos estudos de Silveira (2003, 2006, 2007 e 2008).

17 1 A QUESTÃO FRONTEIRIÇA 1.1 EXPLORANDO O CONCEITO DE FRONTEIRA A construção do marco teórico da pesquisa teve como critério de seleção a possibilidade de operacionalizar o problema. Como a literatura sobre Fronteiras é vasta, a pesquisa explorou os modos como o termo é utilizado em diferentes trabalhos sobre o tópico. Em pesquisas sobre fronteiras, os autores possuem alguns pontos concordantes e outros díspares. Um primeiro ponto de discordância diz respeito à localização geográfica ao empregar o termo. Coloquialmente percebe-se que o termo fronteira é usado para demarcar o limite entre dois Estados, para designar municípios limítrofes. No entanto, cidades de fronteira pode se referir a municípios limítrofes e também não limítrofes, desde que estejam dentro da faixa de fronteira. A Lei n° 6.634, de 02.05.79, que dispõe sobre a faixa de fronteira, considera “área indispensável à Segurança Nacional a faixa interna de 150 km (cento e cinqüenta quilômetros) de largura, paralela à linha divisória terrestre do território nacional” 9 . Cabe ressaltar que o Brasil, ao lado de Peru e Bolívia, são os únicos países da América do Sul que possuem faixa de fronteira 10 . Nesse aspecto, faixa de fronteira ou zona de fronteira compreende todas aquelas cidades que estão dentro desse raio, e não só as cidades limítrofes de um país. Em alguns trabalhos sobre rádios de fronteira, tais como Raddatz (2007) e Zamin (2006), verifica-se que os autores utilizam expressões tais como fronteira e cidades de fronteira para se referirem a municípios limítrofes. Raddatz (2007), apesar de parecer considerar tais elementos ao estudar o Rádio FM de Fronteira, toma por objeto de estudo as emissoras de rádio de cidades limítrofes. Zamin (2006), de forma semelhante, recorre à expressão cidades de fronteira para se referir aos municípios de Santana do Livramento e Uruguaiana (formam divisa com Rivera-URU e Paso de los Libres-ARG, respectivamente). A

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BRASIL. lei n. 6.634, de 2 de maio de 1979. Dispõe sobre a faixa de fronteira. DNPM – Departamento Naci onal de Produção Mineral, Brasília, DF, 3 mai. 1979. Disponível em: <http://www.dnpm.gov.br/conteudo.asp?IDSecao=67&IDPagina=84&IDLeg islacao=9> Acesso em: 10 abr. 2009. Estão em tramitação no Senado duas propostas de emenda à Constituição (PEC) no intento de diminuir a área da faixa de fronteira. A primeira, do senador gaúcho Sérgio Zambiasi (PTB), pretende encurtar a faixa de fronteira para 50 km. A segunda, de Osmar Dias (PDT-PR), quer reduzir o espaço para 15 km. 10 Silveira (2004, p. 18) ap resenta mais in formações sobre a questão: “Verificando-se o contexto fronteiriço de outras nações da América do Sul, Rebeca Steiman (2002) reuniu e analisou a legislação básica e os projetos especiais, tendo constatado que parte dele foi construído em dissonância com normas anteriores e sem o conhecimento, muitas vezes, das normas entre países limítro fes. A autora consta tou que apenas cinco países possuem legislação específica sobre o tema promulgada na década de 90, sendo que Bolív ia e Peru designam os 50 Km internos para tal, enquanto Colômb ia, Equador e Venezuela não especificam a sua largura” .

18 autora, no entanto, toma o cuidado de usar a expressão município limítrofe para especificar as localidades onde será aplicada sua pesquisa. O conceito de Terras de Fronteira apresenta mais detalhes sobre a questão geográfica:
Terras de Fronteira co mo parte em parte formada pela atual fa ixa de fronteira, além dos territórios geograficamente pertencentes à micro -reg ião da Campanha (ou fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul), ademais das micro -regiões das Missões e Depressão Central (também a divisão do estado em zonas turísticas toma em consideração esta nossa noção, ao relacionar aspectos geográficos e culturais), totalizando, assim, 182 mun icíp ios (SILVEIRA , 2002-a, p.4)

Esse conceito, ao abordar aspectos geográficos, instiga também outro tópico relevante no estudo sobre a fronteira: a questão cultural. Ele sugere que o termo fronteira não se refere só à localização geográfica, mas a todo um complexo intercultural que caracteriza tais localidades. A preocupação dada à nomenclatura é legitimada por um ponto levantado por todos os autores pesquisados, a saber, que o sujeito fronteiriço 11 - pelo tipo de experiência que vivencia – é culturalmente híbrido. Nesse aspecto, supõe-se que quanto mais freqüente é o contato com quem pertence a outro país, mais características híbridas refletem-se na forma de ser de quem vive na fronteira. E aqui surge a questão que justifica tal preocupação: afinal, será que as experiências de um sujeito de uma cidade limítrofe como Quaraí, Uruguaiana ou Santana do Livramento são semelhantes às de sujeitos de cidades não limítrofes, mas que fazem parte da faixa de fronteira? Na seção destinada à análise da atividade midiática da Rádio Quaraí AM surgem indícios de que a prática da emissora é, em alguns aspectos, facilitada e às vezes dificultada por causa do contato diário com o país vizinho. A preocupação destinada à nomenclatura é para evitar possíveis equívocos em relação ao uso de expressões como fronteira, faixa de fronteira, ou cidade limítrofe neste trabalho. Neste caso, sempre que se fizer menção à fronteira, estar-se-á tratando especificamente de uma cidade limítrofe (por mais que se tenha em mente que outras cidades pertencentes à faixa de fronteira também sejam híbridas e apresentem dificuldades semelhantes).

1.1.1 Fronteira e Hibridismo Cultural

11

Ou seja, o sujeito que pertence às localidades constituintes da faixa de fronteira.

19 Para os autores pesquisados, o conceito de fronteira relaciona-se com a questão da cultura. Para efeitos pragmáticos, cultura será entendida aqui como o conjunto de normas que torna possível o funcionamento de um grupo social (PENTEADO, 2008). Para Raddatz:

Essa nova fronteira, a que nos referíamos antes, tem u ma relação u mbilical com a questão da cultura. A linha imag inária e invisível concebe-se como u m espaço de convivência entre culturas que, às vezes, nem imaginávamos existir. (RA DDATZ, 2007, p.96-7)

Podemos dizer que a fronteira, nesse aspecto, é um espaço multicultural 12 , constituído por dois povos diferentes. Esse conceito, apesar de ajudar no intento de analisar o conceito de fronteira, não é suficiente para esgotá- lo, pois concebe as diferentes comunidades culturais como sendo homogêneas e imutáveis mesmo após a sua interação. Dessa forma, estabelecer um conceito de local para estudar o rádio na fronteira segundo essa perspectiva não seria suficiente para explorar a riqueza da localidade, já que aparentemente as relações estabelecidas entre os sujeitos dessas comunidades constroem novas identidades. Foi dito no parágrafo anterior que a fronteira é um espaço onde há interações. Sendo assim, a fronteira também é um espaço intercultural. A interculturalidade é entendida como um processo comunicativo responsável pela interação entre culturas. Essa interação vai promovendo as representações, as negociações e os conflitos entre os povos ( RODRIGO, 1999). As idéias de Bhabha (1998) auxiliam a entender o que acontece a partir dessa interação:
O afastamento das singularidades de „classe‟ ou „gênero‟ como categorias conceituais e organizacionais básicas resultou em u ma consciência das posições do sujeito – de raça, gênero, geração, local institucional, localidade geopolít ica, orientação sexual – que habitam qualquer pretensão à identidade no mundo moderno. O que é teoricamente inovador e politicamente crucial é a necessidade de passar além das narrativas de subjetividades originárias e iniciais e de focalizar aqueles momentos ou processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria idéia de sociedade [...] É na emergência dos interstícios - a sobreposição e o deslocamento de domín ios da diferença - que as experiências intersubjetivas e coletivas de nação, o interesse comunitário ou o valor cultural são negociados (BHABHA, 1998, p. 1920)

12

Segundo Hall (2003, p. 52): “Multicultural é u m termo qualificativo. Descreve as características sociais e os problemas de governabilidade apresentados por qualquer sociedade na qual diferent es comunidades culturais convivem e tentam construir uma vida em co mu m, ao mesmo tempo em que retêm algo de sua identidade „orig inal‟. (...) é, por definição, p lural” .

20

O autor não fala de uma simples interação entre dois grupos diferentes que se mantêm “iguais” após esse contato. A partir dessa articulação de diferenças culturais, esses “entrelugares”, ou seja, “o espaço entre o nós e os outros, que não é nem nosso, nem dos outros, pode ser um espaço instigante para cultivarmos o inter, o espaço privilegiado da negociação cultural” (BHABHA apud BACKES, 2003, p. 64). Utilizando o termo de Bhabha (1998), é a partir do interstício cultural que acontece uma hibridização dos sujeitos a partir da cultura. Cabe ressaltar que esse espaço não consiste simplesmente em um momento de troca de figurinhas entre membros de grupos culturais distintos. Seria, antes, um espaço intermediário entre a minha cultura e a cultura do outro, onde alguém poderia conhecer a sua própria cultura a partir da comparação com outra. Esse jogo de significações amplia o conhecimento da cultura local, pois o indivíduo de um determinado grupo aprende a ver a si mesmo pela perspectiva do outro. Ele adquire novos elementos que podem ser utilizados na avaliação da própria cultura. No caso das fronteiras, as malhas de interação criadas, seja por via de miscigenação familiar, cultural, econômica, acabam construindo uma identidade que, mesmo contendo elementos proporcionados pelas suas culturas, diferencia-se delas, formando no final uma terceira, que contém elementos das culturas originais, mas que, de certa forma, diferencia-se delas (BHABHA, 1998). O trecho da fronteira gaúcha que corresponde à região campanha e à fronteira oeste, por exemplo, foi marcada por conflitos históricos até a segunda metade do século XIX (SILVEIRA, 2002-a). Esses séculos de conflitos, primeiro entre as coroas ibéricas, e depois entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata estabeleceram uma miscigenação que se estende a vários campos: sanguíneo, econômico, cultural. Tais interações construíram/constroem formas de agir que fazem com que o sujeito ali residente adquira um modo de viver próprio. “[...] os habitantes dos territórios de fronteira, ao mesmo tempo em que são membros de instituições políticas, constroem redes de relações informais que competem com o Estado (SILVEIRA, 2007, p.2)”. O processo de construção das redes de relações informais em partes do território sulrio-grandense, como já exposto, é de tempos remotos. Nos estudos de Antropologia da Civilização é possível identificar alguns indícios do por que tais práticas tornaram-se tão enraizadas nas zonas fronteiriças com os países do Prata, através das relações construídas pelos habitantes da região nos primórdios dos seus Estados-nação. Dois deles se fazem mais

21 presentes: 1) a enorme distância do centro do Império do Brasil; 2) as décadas de conflito que fizeram móvel a fronteira rio-grandense. Darcy Ribeiro explica:

Os caudilhos sulinos, brasileiros porque especialmente não castelhanos e opostos a estes por suas antigas disputas, mas opostos também ao Império longínquo – sem olhos e sensibilidade para seus problemas -, configuram u ma etnia ainda não inteiramente identificada com u ma brasilidade remota que apenas desabrochava. Seus conflitos fronteiriços e a sua independência frente ao Império mantêm toda a campanha em pé de guerra, ao longo de décadas. É conflagrada pelas lutas entre os caudilhos, nas célebres califórnias, em que disputavam campos e rebanhos; dos caudilhos com os lavradores e comerciantes de origem açoriana, assentados no litoral, apegados à autoridade central e almejando impor ordem à campanha; e de parcelas de uns e outros contra o domínio imperial, pela república ou por qualquer forma de governo que atendesse melhor às suas aspirações (RIBEIRO, 1995, p. 421)

O contrabando, por exemplo, é uma das atividades ilícitas edificadas nessa época. Ele perdura até os dias de hoje 13 . A literatura regional de hoje ilustra tais especificidades:

O ho mem da fronteira não é que ele queira ser diferente. É sua natureza que o faz d istinto. Existem características mu ito específicas da gente que lá nasce. Uma delas é que todo fronteiriço é contrabandista de nascença. Traz impregnado em seus genes o sentimento de que fazer co mpras do outro lado da fronteira é normal. Nem lhe passa pela cabeça sentir culpa por introduzir no país algo que não é importado por vias legais. Para ele, limites geográficos não são os mesmos dos mapas cartográficos. Sua fronteira é delimitada pelo coração. E tudo isso dependendo da ocasião e o motivo. As grandes divergências, como um exemplo, são o futebol. Mas são poucas as diferenças. Outra coisa maravilhosa é a mistura, o entrevero de palavras e os ditos populares. Eles costumam ter u ma identidade própria, e já tem estudiosos que dizem que lá se fala o "portunhol". Nas famílias misturadas, como é gostoso sentir culturas diferentes. Lembrar das coisas de criança, e depois de adulto, ver que tudo o que aconteceu foi uma aula de hu manidade (PROENÇA, 2003, p.78)

Sendo uma zona limítrofe (como a fronteira Quaraí-Artigas) um lugar onde identidades nacionais e costumes híbridos convivem, compartilhando semelhanças e diferenças a ponto de se estabelecer uma identidade local, coloca-se uma dificuldade conceitual que deve ser abordada se o pretendido é pesquisar rádios fronteiriças: como definir o local em uma rádio de fronteira? 1.1.2 Estabelecendo o local em uma Rádio de Fronteira Por causa da facilidade de acesso, e também para evitar dificuldades teóricas a respeito de possíveis diferenças entre fronteiriços de cidades limítrofes e não- limítrofes, optou-se em observar somente as características da atividade radiofônica em uma cidade limítrofe, Quaraí 13

O filme El Baño del Papa, produzido em 2006, d irigido por Enrique Fernández e Cesar Ch arlone, ilustra algumas dessas práticas em uma cidade de fronteira. Trailer disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=kH40Hdvncks&feature=related >. Acesso em: 28. nov. 2008.

22 RS, mesmo tendo-se em conta que o conceito de fronteira abrange outras localidades que não somente a analisada. Um problema conceitual que surge nesses locais pode ser enunciado da seguinte forma: como definir o local em rádios de cidades limítrofes? A pesquisa bibliográfica revelou que, diferente do que é comumente definido como rádio local, as rádios de fronteira, como nos mostra Zamin (2006), devem lidar constantemente com elementos de aproximação e repulsão, semelhanças e diferenças, interesses comuns e interesses específicos. Entretanto, não são apenas dualidades que as rádios fronteiriças consideram (ou deveriam considerar) em suas programações. Raddatz (2007) diz que na programação de rádios de fronteira a questão das práticas culturais pode ser percebida através de materiais que, apesar de serem veiculados para dois países diferentes, expressam uma identidade compartilhada pelos dois povos. Isso sugere que esse espaço intercultural permite a construção de uma identidade que, mesmo contendo elementos proporcionados pelas suas culturas, diferencia-se delas, formando ao final uma terceira, que contém elementos das culturas originais, mas que, de certa forma, diferencia-se delas. A partir das características levantadas pelas autoras surgem indícios sobre quais elementos se devem levar em conta para definir o local em uma rádio de fronteira. Segundo Vasques (2005), ser local significa ter uma linguagem que mantenha as características de seus apresentadores, locutores e repórteres, sendo tais especificidades referentes à forma de falar, ao sotaque e aos termos locais. De modo semelhante, Zamin (2006, p.5) diz que o “local pode ser entendido como espaço delimitado no qual se desenrola a vida de determinado grupo ou conjunto de grupos”. Essas definições, apesar de fazerem menção a características das rádios de fronteira, não parecem englobar de forma satisfatória a complexidade das mesmas, por serem genéricas a ponto de não aludirem ao processo de hibridização dos sujeitos e dos costumes aí presentes. As rádios de cidades limítrofes lidam com populações mescladas, que pertencem a dois países distintos, mas constituídos por uma mesma raiz cultural, a do gauchismo. Essa condição paradoxal manifesta-se em algumas práticas alternativas existentes nesse contexto, que ora competem com as leis do estado por darem mais importância à realidade local, ora acusam as mesmas práticas alternativas em prol do seu país de origem. O modo como isso se dá está em constante elaboração 14 .

14

O processo de construção da identidade a partir do interstício cultural (BHABHA, 1998) não é algo já finalizado ou em vias de finalização. A identidade compartilhada por essas populações está em constante construção/reconstrução.

23 Considerando o levantado até o momento, pode-se sugerir que rádio de fronteira lida com “entre- lugares”, espaços híbridos de construção identitária. Sendo esse processo contínuo, a emissora influencia e ao mesmo tempo é influenciada por ele. Isso se dá, dentre outras coisas, pelo tipo de programação dessas emissoras, que veiculam conteúdos que se estendem aos dois lados da fronteira. São dois povos ao representarem os seus respectivos Estados-nação, mas é um único povo ao que se refere à identidade local.

1.1.3 A Malha de Comunicação Local-internacional e a Orde m Heterônoma

A articulação da comunicação em terras de fronteira, tendo-se em conta o vínculo duplo das rádios fronteiriças, é abordada pelo conceito de malha de comunicação localinternacional. Silveira a define da seguinte forma:

[...] u ma membrana que separa, recebe e transmite vibrações. Ela pretende expressar a auto-compreensão de uma sociedade mediada por sua relação a u m Estado-nação e polarizada por uma lealdade cruzada claramente em dois níveis: o político, responsável por sua vinculação ao Brasil, e o cultural, compreendido pelo pertencimento histórico à conformação do espaço platino. Sua condição fronteiriça lhe determina u ma cotidianidade permeada pelas relações de poder das nações circunvizinhas e guiada por sua pertença irrecusável a uma delas. Trata -se de um circuito composto de canais e/ou agentes interligados segundo o princípio unificador de atividades midiáticas que, de outra forma, estariam d ispersas em centenas de práticas atuantes no nível local - o território fronteiriço-, co m sentidas repercussões no nível internacional, a saber, o espaço colindante dos Estados -nação do Cone Sul. Assim co mpreendida, a malha envolve a estrutura permanente de canais e/ou agentes variados e os processos comunicacionais deles decorrentes (SILVEIRA, 2008, p.3-4).

Esse conceito afirma que as sociedades fronteiriças estão sujeitas a uma lealdade cruzada em pelo menos dois âmbitos: “o político, responsável por sua vinculação ao Brasil, e o cultural, compreendido pelo pertencimento histórico à conformação do espaço platino” (SILVEIRA, 2008). Através da sua atividade midiática os meios de comunicação auxiliam na construção/fixação desses canais por onde acontece a hibridização fronteiriça, mas são, ao mesmo tempo, responsáveis por divulgar materiais que reafirmam o seu pertencimento ao Estado-nação ao qual fazem parte. Os meios de comunicação da fronteira, dentre os quais se incluem as rádios de fronteira, estão submetidos a essa ordem heterônoma. No âmbito político, essa dialética se caracteriza pela marginalidade das Terras de Fronteira frente ao Estado-nação, cabendo a essas cidades a manutenção dos interesses do Estado brasileiro, através da adequação a uma rígida estrutura burocrática que atende às políticas internacionais vigentes frente ao Estado-nação vizinho; no meio cultural, elas

24 usufruem de uma cultura híbrida construída a partir de séculos de aproximação com as culturas platinas 15 , que resultou em uma “malha de comunicação heterogênea [...], desconhecida e por vezes irreconhecível ou indiscernível por outras sociedades” (SILVEIRA, 2008, p. 9).

1.2 A FRONTEIRA DA CONCÓRDIA: QUARAÍ (BRA)-ARTIGAS (URU)

Localizada na fronteira oeste do estado do Rio Grande do Sul, entre as cidades de Santana do Livramento e Uruguaiana, essa fronteira foi primitivamente habitada por diversos grupos indígenas, tais como Jaros, Guaicurus e Charruas. Foi também parte integrante do território das Missões Orientais do Uruguai. Suas terras foram motivo de grandes disputas entre Portugal e Espanha que se alternavam em sua posse. Foi reduto de tropas artiguistas, bem como mais tarde palco de lutas como resultante de sua incorporação ao grupo republicano durante a Revolução Farroupilha. Até então esse território alternava seu domínio entre o Império do Brasil e os países do Prata. As primeiras ações que fizeram com que a fronteira adquirisse a configuração atual ocorreram anos mais tarde, durante a Guerra Civil que se deu no Urugua i entre blancos e colorados.
Ao final da Guerra Grande, em troca da ajuda do Brasil para derrotar a Rosas, Andrés Lamas, Embaixador Uruguaio, no Rio de Janeiro firma 5 (cinco) Tratados. O Tratado de Limites estabelece como divisa o Quaraí e o Jaguarão. (CHEGUHEM , 1991-b, p. 11)

A cidade de Quaraí, assim, nasceu de uma decorrência política de necessidade de fixação brasileira frente ao Uruguai. Em 1852, o governo uruguaio fundou San Eugenio del
15

“Os gaúchos brasileiros têm u ma formação histórica co mu m à dos demais gaúchos platinos. Surgem da transfiguração étnica das populações mestiças de varões espanhóis e lusitanos com mu lheres Guaran i. Especializam-se na exploração do gado, alçado e selvagem, que se mult iplicava pro digiosamente nas pradarias naturais das duas margens do rio da Prata” (RIBEIRO, 1995, p. 408). Segundo o autor, a princípio os gaúchos não se identificavam nem co m os espanhóis e nem com os portugueses, eram nô mades mestiços não atrelados a quaisquer instâncias. Tal pro ximidade iniciou apro ximadamente no primó rdio dos estados nacionais da região do Prata, graças a u ma co mplexa rede de vínculos construída durante o processo de ocupação da campanha, e dos ulteriores anos de conflito. Interessante também é a e xp ressão usada pelo autor ao tratar sobre o Brasil Su lino. Darcy Ribeiro utiliza “os representantes atuais dos antigos gaúchos” (1995, p. 409). Essa expressão sugere que, apesar da tentativa atual do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) de construir e le gitimar u ma identidade a partir da figura do gaúcho nômade e mestiço (vítima no processo civilizatório, segundo o antropólogo; herói destemido e orgulhoso, para os tradicionalistas), predomina em alguns gaúchos de hoje a influência herdada dos europeus, que muito dista dos primeiros. Para mais info rmações sobre o processo de marginalização do gaúcho original, cf. RIBEIRO, 1995, p. 408-44. Cf. também RIBEIRO, 1977, p. 477-84. Neste último o autor fala em processo de extermínio do gaúcho. Na literatura, essa figura é ilustrada pela Trilogia do Gaúcho a Pé, de Cyro Martins. A trilogia é co mposta por Sem Rumo (1937), Porteira Fechada (1944) e Estrada Nova (1954).

25 Cuareim, atual departamento de Artigas 16 , à margem esquerda do Rio Quaraí. O governo Imperial fortificou a margem direita, destacando uma guarnição militar comandada pelo Coronel Simeão Francisco Pereira. Tal guarnição, em 1859, veio a se transformar na Freguesia de São João Batista de Quarahyn (CHEGUHEM, 1991-a, p. 18). A criação dos dois povoados foi o primeiro passo para essa fronteira adquirir a configuração atual, já que até então os caudilhos que tinham posse de terras nessa localidade viviam em pé de guerra. Atualmente a população do município de Quaraí, entre a sede e a sua zona rural, conta com aproximadamente 22.883 habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 17 . A área do município é de 3.147 km². Artigas, cidade sede do departamento de mesmo nome, localizada no extremo norte da República Oriental do Uruguai, herda o nome do prócer de seu país, o caudilho José Gervasio Artigas 18 . O departamento tem 11.928 km², com população aproximada de 75.066 habitantes, residindo 40.249 desses na cidade sede 19 . A importância de se conhecer tais dados reside no fato de que a Rádio Quaraí AM tem parte da sua programação voltada para a população rural dos dois municípios. As duas cidades têm forte tradição agropecuarista, tendo na produção primária a sua principal fonte de renda. No início do século XX, Quaraí possuía duas grandes charqueadas: a

16 17

Departamento no Uruguai equivale a Estado no Brasil. IBGE. Es ti mati vas da população para 1° de julho de 2009. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/estimativa2009/POP2009_ DOU.pdf >. Acesso em: 16 ago. 2009. 18 Interessante é a trajetória do general José Gervasio Artigas. Após as decisivas participações na guerra de emancipação dos países do Prata contra a coroa ibérica, procedeu com a criação da Liga Federal, que contemplava territórios da atual Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul. O seu programa previa u ma reforma agrária nas terras da bacia do Prata, transformando o gaúcho simples em proprietário de terra em u ma república liv re. Seus ideais libertários, republicanos e reformistas - que na posteridade o fizeram prócer do povo uruguaio sob os títulos de Jefe de Los Orientales e Protector de Los Pueblos Libres - fez com que na época o general fosse perseguido tanto pelo Império do Brasil quanto pelos caudilhos platinos. Ao seu lado, leais, ficaram apenas os negros, gaúchos e indígenas que desde os primórdios do caudilho fo ram os seus companheiros na vida do campo. Tais personagens eram considerados pela alta sociedade montevideana e portenha a parte marg inalizada da sociedade. Assim descrevia o co merciante britânico John Parish Robertson o acampamento que viria a se tornar por pouco tempo a capital da Liga Federal, chamada Purificación: “Tenía alrededor de 1.500 seguidores andrajosos en su campamento que actuaban en la doble capacidad de infantes y jinetes. Eran indios principalmente sacados de los decaídos establecimientos jesuíticos, admirables jinetes y endurecidos en toda clase de privaciones y fatigas. Las lomas y fértiles llanuras de la Banda Oriental y Entre Ríos suministraban abundante pasto para sus caballos, y numerosos ganados para alimentarse. Poco más necesitaban . Chaquetilla y un poncho ceñido en la cintura a modo de kilt escocés, mientras otro colgaba de sus hombros, completaban con el gorro de fajina y un par de botas de potro, grandes espuelas, sable, trabuco y cuchillo, el atavío artigueño. Su campamento lo formaban filas de toldos de cuero y ranchos de barro; y éstos, con una media docena de casuchas de mejor aspecto, constituían lo que se llamaba Villa de la Purificación ”. Ext raído de EL 23 DE SETIEM BRE DE 2000: JOSÉ ARTIGAS A 150 AÑOS DE SU M UERTE. In : URUGUA YTotal.co m. Disponível em: <http://www.uruguaytotal.com/especiales/artigas2.htm>. Acesso em: 12. ago. 2009. Cf. RIBEIRO, 1997, p. 468. Cf. ainda GA LEANO, 1979, p. 128 -33. 19 Informações e xtraídas do sítio da Intendência de Artigas. Disponível em: <http://www.artigas.gub.uy/WebArtigas/>. Acesso em: 02. set 2009.

26 de Novo Quaraí e a de São Carlos. Os saladeiros, como são conhecidos na região, tiveram o seu ápice no período compreendido entre os anos de 1894-1923. Apesar da sua grande importância histórica, o interesse nelas, para esta pesquisa, reside no fato da sua história corroborar laços alternativos criados com os uruguaios a partir das dificuldades de acesso a outros locais do Estado e também do país. O empreendimento, segundo Cheguhem (1991, p. 142): “era destinado a suprir os Portos do Litoral Brasileiro, mas não havia estradas transitáveis que ligassem Quaraí ao Centro do País”. Por proximidade política de algumas personalidades da época frente a autoridades uruguaias, conseguiu-se uma concessão especial para transportar os produtos para o litoral brasileiro através do porto de Montevidéu.

Este fato incentivou a cobiça de exportadores uruguaios que se aproveitavam de nossa concessão para juntar suas mercadorias ao nosso charque. Isto originou o contrabando em alta escala do qual ficou ciente o governo brasileiro que em 1928 resolveu decretar uma Lei Federal (Lei da Desnacionalização do Charque) na qual proibia a entrada do Charque em território brasileiro, tendo, por esta razão, fracassado a comercialização do nosso Charque. Essa Lei que vedava o trânsito do Charque que era levado aos nossos portos do litoral através dos portos do território uruguaio sem as taxas de exportação e respectiva importação, oneraria tanto o produto que o colocou fora do mercado nacional, seu maior consumidor. (CHEGUHEM, 1991-a, p. 143)

Os estrangeiros que imigraram para a região (dentre eles árabes e italianos), por sua vez, fortaleceram outra prática que é forte entre as duas cidades: o comércio. Ele fo i facilitado após a inauguração da Ponte Internacional da Concórdia em 1968 20 . Nos dias de hoje é possível verificar a forte dependência que as duas cidades têm entre si nesse segmento, já que durante o dia a Ponte da Concórdia é tomada por uruguaios e bras ileiros que buscam mercadorias nos dois lados da fronteira. Pela sua localização geográfica as cidades de Quaraí e Artigas constituem uma das principais portas de escoamento de mercadorias do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), já que ficam a uma distância semelhante de capitais como Porto Alegre, Buenos Aires, Montevidéu e Assunção. A cidade de Quaraí possui duas emissoras de rádio e dois jornais impressos. Artigas, por sua vez, possui sete emissoras de rádio homologadas, outras tantas não homologadas e uma emissora de TV independente. Constituída dessa forma, a fronteira Quaraí- Artigas aprendeu a conviver cordialmente com as diferenças, miscigenando-se entre si, de tal forma que aos olhos do fronteiriço essa experiência, como sugere Proença (2003, p.78), é uma “aula de humanidade”.
20

Até a década de 60 o transporte de passageiros pelo Rio Quaraí era feito em botes. A prática dos boteiros é ilustrada no romance Sem Rumo, de Cyro Mart ins. Atualmente é possível observar carroceiros transportando mercadorias pelo rio nos dois sentidos.

27 2 ANÁLISE DA ATIVIDADE MIDIÁTICA DA RÁDIO QUARAÍ AM

2.1 A CIDADE SE DIVERTE: A CONSTRUÇÃO/FIXAÇÃO DE CANAIS HÍBRIDOS ATRAVÉS DA RÁDIO QUARAÍ AM No final da década de 50, quando o rádio no Brasil já começava a perder parte do seu romantismo inicial graças ao advento da televisão, surge a Rádio Quaraí AM na fronteira Quaraí-Artigas. Nessa fronteira, considerando que a população não possuía ainda nem energia elétrica em tempo integral (pelo menos em Quaraí), o advento da sua primeira emissora de rádio causou grande expectativa frente ao que iria proceder a partir de então. Apesar de já se captar emissoras de rádio de cidades vizinhas (as pessoas que tinham receptores ouviam as emissoras de Uruguaiana, Alegrete, bem como emissoras argentinas e uruguaias), o fato de se ter uma programação voltada para o local - trabalhando com elementos híbridos já estabelecidos da cultura, e outros em processo de elaboração - era uma novidade. ZYU 56, ZYH 335 e atualmente ZYK 282, esses são os prefixos que marcam a trajetória da Rádio Quaraí AM. Fundada em 17 de março de 1957, a emissora, localizada na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, na cidade fronteiriça de Quaraí, desde os seus primórdios trabalhou com elementos híbridos da comunidade local. Isso graças aos programas de auditório que um dia produziu, bem como às radionovelas próprias que chegaram a ser adaptadas para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, ou ainda com os incontáveis programas que até hoje são voltados ao gauchismo, que constitui um elo entre brasileiros e uruguaios residentes nesse local. A emissora, no entanto, nunca deixou de realçar o seu pertencimento ao Estado-nação ao qual pertence. A vinheta a seguir, que atualmente é utilizada nos os blocos comerciais da emissora, é um exemplo disso:

Operando em 1540 kHz, desde a República Federativa do Brasil, estado do Rio Grande do Sul, cidade de Quaraí: ZYK 282, Rádio Quaraí, há mais de meio século unindo povos de Brasil, Uruguai e Argentina.

Analisando a vinheta percebe-se que mesmo emblemática no sentido de situá-la como pertencente ao Estado Brasileiro na região, servindo de porta- voz dos seus interesses frente ao Uruguai e à Argentina, ela também representa a população híbrida que constitui a fronteira: há mais de meio século unindo povos de Brasil, Uruguai e Argentina. Dentre outras coisas, pode-se dizer que isso se dá graças à sua programação, que é voltada à cidade e ao campo, já que o município de Quaraí e o departamento de Artigas possuem uma vasta extensão rural. Esta outra vinheta realça essa característica:

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[música Gauchinha Bem Querer, dos Três Xirus, ao fundo] - Por estarmos situados na região da campanha gaúcha, direcionamos 50% da nossa programação ao folclore e ao nativismo. Rád io Quaraí, há quase meio século integrando cidade, interior, e fronteiras Brasil, Uruguai e A rgentina.

Essas vinhetas, no entanto, só sustentam com convicção a sua atuação como representante do nível local por causa dos vínculos construídos pela emissora com a sociedade fronteiriça desde os seus primórdios. Nesse aspecto, os seus microfones desde sempre serviram como elo entre o habitante da fronteira e o mundo, seja divertindo os ouvintes com músicas gauchescas, brasileiras e internacionais, ou ainda com programas que instigam à participação dos ouvintes; informando, com notícias locais, nacionais e internacionais; auxiliando quando necessário, através das suas campanhas sociais; ou ainda oferecendo espaço para as manifestações de quem vê nela a maneira mais eficaz de expor os seus anseios e/ou insatisfações. O material acessado por esta pesquisa, apesar de fragmentado e por vezes com grandes lacunas temporais, ressalta os modos como se deu processo de construção dos laços da emissora com a sociedade fronteiriça ao longo de mais de meio século de existência. No início das suas atividades, a emissora adotou o padrão do Rádio Espetáculo. Segundo Ferraretto (2007, p. 112), as emissoras dessa época eram caracterizadas por “uma programação voltada ao entretenimento, predominando programas de auditório, radionovelas e humorísticos”. Além desses, as coberturas esportivas também compunham a programação das emissoras de então. Desse período, A Cidade se Diverte foi um dos primeiros programas veiculados pela Rádio Quaraí AM depois da sua inauguração. O programa de auditório acontecia no cinema que havia na cidade, o cine-teatro Carlos Gomes. Segundo Ponte (2000, p. 21): “as pessoas lotavam o cinema da cidade do qual era transmitido, e participavam de diversas brincadeiras, sorteios e assistiam a um show de calouros”. Os participantes, pessoas da comunidade, eram brasileiros e uruguaios que estavam experimentando a grande novidade da fronteira: uma emissora de rádio. “Qualquer um podia participar”, diz em entrevista uma das sócias da emissora e viúva de Jorge Japur, Izar Teixeira Lamb 21 . “Era só ter coragem de subir ao
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Jorge Japur, nascido em 14 de junho de 1926, foi o fundador da Rádio Quaraí AM. Segundo a edição de 11 de junho de 2003 do jornal Zero Hora, u m d ia após o seu falecimento, “Japur era considerado um ícone do radialis mo”, por ter atuado mais de 50 anos no ramo. Filho de imigrantes libaneses, desde pequeno despertou o gosto pela eletrônica e era fascinado pelo cinema e pelo rád io. Ao lado de familiares, co mo o seu irmão Nad ir Japur, e de amigos como o uruguaio Basílio Borgato, pôs em prática o sonho de criar u ma emissora na cidade de Quaraí. Autodidata, construiu um transmissor artesanal que serviu para pôr em funcionamento a emissora antes de ela ser legalizada, em 1957. Fo i u m dos sócios fundadores da Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e

29 palco... Nós ríamos muito”, complementa dona Izar. Os uruguaios, por sua vez, atravessavam o Rio Quaraí em botes para poderem participar, já que ainda não existia nessa época a Ponte da Concórdia. O programa foi um sucesso na fronteira ao lado das radionovelas produzidas pela emissora. Estas possuem uma especificidade: a mescla do talento da escritora e radioatriz carioca Hedy Maia, consagrada na Rádio Nacional do Rio de Janeiro nas décadas de 40 e 50, com a utilização de um elenco amador composto por brasileiros e uruguaios que experimentavam o rádio pela primeira vez. “Quem poderia imaginar que uma emissora localizada em um dos extremos do país teria radionovelas próprias escritas por tão prestigiada personalidade?”22 , comenta Izar Teixeira Lamb. As páginas amareladas dos scripts das quatro radionovelas produzidas pela Rádio Quaraí AM durante a estada de Hedy Maia em Quaraí, guardadas hoje em um dos escritórios da emissora, é um valioso registro de como a questão fronteiriça foi tratada na era de ouro do rádio. A emissora produziu quatro radionovelas, a saber: A Canção da Vingança, A Loura de Vermelho (que posteriormente ficou conhecida como La Rubia de Rojo), Os mortos não falam e Sorriso do Cadáver. Ao descrever o contexto em que eram feitas tais produções, Ponte (2000) comenta:

Uma época em que as pessoas não cobravam nada para servir de entretenimento. Pois, conforme dona Izar, nem os atores, nem a própria Hedy Maia, recebiam cachê para fazer o rad ioteatro. Era tudo feito apenas pelo prazer de interpretar e criar enredos e personagens inalcançáveis. Uma época de ingenuidade

Televisão (A GERT). Casado três vezes, teve três filhos: Vânia Japur e Harvey Japur do p rimeiro casamento, e Jorge Alberto Lamb Japur, jornalista responsável e atual diretor executivo da Rádio Quaraí AM, fruto do seu matrimôn io com Izar Teixeira Lamb, que atualmente é uma das sócias da emissora. Sempre irreverente Japur foi locutor dos programas Ponto de Encontro e do Informativo do meio-dia. No primeiro, falava dos problemas da comunidade e fazia campanhas para famílias carentes. No informativo do meio-dia repassava recados, muitas vezes cômicos, aos moradores da zona rural dos municípios de Quaraí e Art igas. No dia do seu falecimento, 10 de junho de 2003, a emissora não fechou, atendendo a um pedido feito pelo próprio Japur em vida: “Quando eu morrer, a rádio tem que ficar aberta para que todos saibam que eu morri”, brincava Japur. Nem fo i preciso, já que no dia do seu enterro a cidade parou. O prefeito de então decretou três dias de luto oficial. A emissora veiculou durante todo o dia um CD que continha músicas em que Japur cantava serestas e boleros. Nesse período, brasileiros e uruguaios tristes vinham deixar as suas últimas homenagens através dos microfones da Rádio Quaraí AM. Para o autor desta monografia, neto de Jorge Japur, um dos depoimentos mais emb lemáticos foi feito por um uruguaio que disse o seguinte aos prantos: “Japur no fue alguien importante solamente para Quaraí... Artigas también llora, por todo que él hizo y nos enseño… La comunidad de Artigas reconoce todo que la radio hizo por nuestra gente… Si, la frontera tiene una deuda contigo… hoy es un día triste”. 22 Hedy Maia foi uma importante autora de radionovelas na década de 40 e 50. Na década de 60 escreveu novelas também para a telev isão. Segundo Ponte (2000, p. 35): “Hedy Maia já havia trabalhado na Rádio Nacional do Rio de Janeiro como radioatriz, além de ter sido escrit ora de algumas das novelas, na metade da década de 40 e início dos anos 50. Ela vivenciou o auge desse gênero, introduzido pelos cubanos na América Latina”. A escritora é também autora de prestigiadas novelas veiculadas pela TV Globo, co mo A Grande Mentira (1968) e Cabana do Pai Tomás (1969). Casada com militar, esteve em Quaraí no final da década de 50, durante o período em que seu marido serviu no 5° Regimento de Cavalaria Mecanizado (5° RCMec).

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tanto na forma de se fazer rádio, quanto na maneira de se ganhar a vida, o dinheiro com esse veículo (PONTE, 2000, p.46-7)

Compunha o elenco das radionovelas o proprietário da Rádio Quaraí, Jorge Japur, os seus irmãos, Nadir Japur e Olga Japur (primeira locutora da Rádio Quaraí), o uruguaio Basílio Borgato 23 , bem como parentes e amigos. Segundo dona Izar, essa foi uma das fases mais promissoras da Rádio Quaraí AM. Isso tanto nas reminiscências de quem atuou nas radionovelas quanto na de ouvintes dos dois lados da fronteira, seja pelo fascínio causado por ter uma emissora local produzindo material de qualidade equiparável ao da Rádio Nacional – graças ao talento de Hedy Maia e dos seus artistas improvisados – seja pelos causos que ficaram na memória de quem, hoje, rememora o passado com carinho:

La primera emisora que tuvo la frontera fue la Radio Quaraí, de la vecina ciudad brasileña del mismo nombre. Allí, el propietario de la misma, el Turco J... [Jorge Japur], intentó hacer un radioteatro local, donde su esposa hacía de estrella femenina. No recuerdo el nombre del personaje que ella interpretaba, pero pongámosle "María". Borgato también participaba. Su personaje se llamaba "Montenegro". En determinado momento Montenegro y María debían protagonizar una fogosa escena de amor. El diálogo se produjo de la siguiente forma: la mu jer decía el nombre del personaje de Borgato, y éste respondía con el nombre de la heroína, siempre en tono meloso: "Montenegro"..."María"..."Montenegro"..."María". Así hasta que Montenegro se excedió en la composición del personaje, y la protagonista solo pudo exclamar: “Me solta, Borgato!”24

Segundo Ponte (2000): “antes mesmo do Brasil questionar quem matou Salomão Ayala [...], na pequena Quaraí, no fim da década de 50, a população queria descobrir quem havia matado a personagem Jandira” (PONTE, 2000, p. 44). Foi feito um concurso na cidade sobre o destino da personagem, que fazia parte da radionovela Os Mortos não Falam. A participação da população de Quaraí e Artigas foi maciça, segundo Izar Teixeira Lamb. É provável que o primeiro contato dos uruguaios com as novelas brasileiras tenha se dado nessa região pela Rádio Quaraí AM, já que a televisão não havia chegado nesse local. As lembranças das pessoas que conviveram com as radionovelas são carregadas de emoções. Carinho, risadas e algumas gafes, enfim, essas histórias corroboram o impacto que as radionovelas produzidas pela emissora tiveram na sociedade fronteiriça de então. No seu
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Basílio Bo rgato sempre fo i u m dos grandes amigos de Jorg e Japur. Co mpartilhava co m este o gosto pelo cinema e o fascínio pelo rád io. Ajudou Jorge Japur na criação da Rádio Quaraí, e trabalhava nela como locutor durante o período do dia em que não havia energia elétrica em Quaraí, fazendo uma programação em espa nhol voltada a Artigas. Fundou em 1963 a Radio Frontera, e lá ficou conhecido pelo modo irreverente como fazia propaganda para os seus anunciantes. Durante o processo de legalização da Rádio Quaraí, período em que Jorge Japur fugiu para o Uruguai com medo de represálias, Borgato hospedou Japur em sua casa. Mais informações na seção 2.2. 24 Co mentário de internauta extraído de ALLÁ LEJOS Y HACE TIEMPO... In : TODO.co m.uy. Disponível em: <http://memorias.todouy.com/ mempdartigas.htm>. Acesso em: 19 out. 2009.

31 estudo, Ponte (2000) atenta ainda para o modo como a escritora dividia os papéis entre os radioatores. Basílio Borgato, por ter uma voz grave, enfática, com certo grau de ironia, normalmente era convocado por Hedy Maia para fazer o papel de “descendente de índio ou de o castelhano peleador, justamente pelo seu perfil meio machista” (PONTE, 2000, p. 41). É por causa da sua participação, inclusive, que a novela A Loura de Vermelho ficou conhecida como La Rubia de Rojo. A escritora escolhia os papéis de acordo com o perfil de cada um dos atores. Segundo Ponte, Jorge Japur interpretava o galã:

Ele afirma que era por ser diretor que a escritora o colocava como personagem principal. No entanto, ela talvez o escolhesse pelo seu timbre de voz diferente e, principalmente, pelo seu jeito de conquistador. Izar Teixeira Lamb era normalmente escolhida co mo a mocinha das tramas , provavelmente pelo seu aspecto frágil (2000, p. 41)

Hedy Maia reservou ainda para Milton Souza, um dos primeiros locutores da Rádio Quaraí, o papel do capataz Mariano em Os mortos não falam, radionovela inspirada na história de Quaraí25 . Segundo Ponte (2000, p. 42): “Ele se revelou como o melhor ator do casting na opinião de dona Izar, e quiçá de Hedy Maia, de quem recebeu muitos elogios”. Ponte menciona ainda uma curiosidade: o teor de uma carta enviada por Hedy Maia à sua amiga Izar Teixeira Lamb no final da década de 60, período em que estava adaptando para o português A Cabana do Pai Tomás, novela transmitida pela Rede Globo em 1969. Segundo a autora:
Na carta, além de noticiar o falecimento de seu marido, conta que adaptou para a Rádio Nacional a novela Os Mortos não Falam com o nome de Terra sem Alma, fazendo o maior sucesso. – Naquela época, tinha um radioator, o Cícero Acaiaba, que era famoso e fez o papel do Milton Souza, e ela mandou dizer que: “por incrível que pareça o Cícero Acaiaba não conseguiu superar o Milton Souza no papel do Mariano” (PONTE, 2000, p. 48-9)

Pode-se dizer que as radionovelas produzidas pela Rádio Quaraí AM foram uma experiência in loco de como um gênero consolidado no centro do país funcionou em um dos seus extremos, não simplesmente reproduzindo produções prontas, mas utilizando o talento de alguém de lá para criar histórias que incorporavam o modo de ser da fronteira ao seu enredo. Ainda durante esse período pode-se citar as transmissões esportivas da Rádio Quaraí AM. Narrações de competições esportivas entre brasileiros e uruguaios, entre os times de
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Milton Souza, já falecido, foi u m dos primeiros locutores da Rádio Quaraí AM. Talentoso, após trabalhar alguns anos na emissora foi contratado pela Rádio São Miguel AM, de Uruguaiana. Foi idealizador e um dos fundadores de um dos principais festivais nativistas do estado, a Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaiana.

32 Quaraí, transmissões bilíngües, dentre outros, ajudaram a aproximar a comunidade dos dois lados da fronteira. “Ficaram famosas as transmissões dos jogos de futebol entre Quaraí Futebol Clube e o Brasil Futebol Clube” (PONTE, 2000, p. 22). A respeito do futebol, nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1994, a emissora realizou uma transmissão bilíngüe durante as partidas realizadas entre Brasil e Uruguai. “A emissora levou dois locutores, um brasileiro da própria rádio, Cléber de Oliveira, e o outro, radialista cedido pela Radio Frontera de Artigas” (PONTE, 2000, p. 24). Quando o Brasil estava com a posse de bola, o radialista brasileiro fazia a locução; quando a posse era da seleção uruguaia, o outro locutor narrava em espanhol. Até o ano de 2009, a emissora, que possui equipe esportiva própria, realizava a cobertura dos jogos dos principais times do Rio Grande do Sul, Internacional e Grêmio, nos principais campeonatos do país. As transmissões eventualmente contavam co m a participação de torcedores e comentaristas uruguaios. Por conta dos custos elevados, a rádio teve que finalizar as transmissões e hoje retransmite os jogos pela Rádio Bandeirantes AM de Porto Alegre. Os avisos, notas e comunicados da emissora, princip almente os veiculados no Informativo do meio-dia, também são importantes no sentido de integrar a população de Quaraí e Artigas. “Atenção no interior do município, atenção no interior do município...”, alertava Jorge Japur, que desde os princípios da emissora – até 2003 - foi o responsável pelo Informativo. “Fulano, avisam aqui da cidade que cicrano está doente... é importante que tu venhas pra cá já”. A verdade, no entanto, é que a pessoa adoentada havia falecido no hospital de Quaraí, e estava posta a questão de como avisar os familiares do mesmo – moradores do interior do município - sobre isso. Eis então que foram veiculadas as palavras que, dentre outras, eternizaram-se na memória de brasileiros e uruguaios da fronteira como mais uma das passagens que, ainda hoje, ouvintes recordam com carinho: “por via das dúvidas, vem de luto!”. Jorge Japur recorria ao humor também na hora de fazer anúncios comerciais, provavelmente por acreditar que isso auxiliava na fixação de uma marca ou promoção. “Vendem-se camas para bebês de ferro”, “vendem-se botas para homens de borracha”, ou ainda “vendem-se gaiolas para papagaios de ferro”, essas eram algumas das brincadeiras que o radialista fazia durante O Ponto de Encontro ou o Informativo do meio-dia. Além disso, Jorge Japur, filho de libaneses, costumava implicar nos seus discursos com a comunidade palestina que vive na cidade. Certa vez, ao fazer referência aos conflitos israelo-palestinos,

33 disse: “Eu sou a favor de Israel e dos Estados Unidos, tem que matar toda essa gentalha palestina!”. Os funcionários da emissora, atônitos, diziam- lhe para ter cuidado com as afirmações. “E não é que ele sai pela cidade depois, indo às lojas dos palestinos para discutir com eles sobre as bobagens que tinha falado?”, comenta Jorge Alberto Lamb Japur. “Todo mundo achava uma farra, a ponto de rirem de questões sérias como o conflito sem problema algum”, acrescenta Jorge Alberto. O que é ainda mais incrível para o diretor é o fato de serem esses palestinos que riam das afirmações os mesmos que imigraram para o Brasil fugindo dos conflitos no Oriente Médio. É provável que em outros contextos esse tipo de afirmação pudesse gerar conseqüências graves. Jorge Japur, no entanto, não fazia esse mesmo tipo de comentário a respeito dos uruguaios, provavelmente porque, para ele, não havia diferenças entre quem vivia em Quaraí ou Artigas, já que eram simplesmente fronteiriços. Em estudos sobre comunicação em faixa de fronteira é comum verificar ênfase à importância dos comunicados para o interior realizados pelas emissoras dos municípios da fronteira. Silveira e Adamczuk (2004, p.123) afirmam: “o alto grau de importância deste serviço se verifica na medida em que o rádio constituía-se no único meio de comunicação entre a área urbana e rural”. Pessoas com parentes no interior, latifundiários com avisos para os seus trabalhadores rurais, comunicados dos órgãos municipais, dentre outros, constituem o tipo de conteúdo que até hoje é veiculado por esses avisos 26 . Hoje em dia esse tipo de serviço é mais restrito, já que o desenvolvimento tecnológico permitiu que outras formas de comunicação fossem estabelecidas entre a área urbana e a área rural do município. Radiotransmissores que normalmente utilizam antenas colocadas no telhado de casas e posteriormente a telefonia móvel diminuíram a necessidade da emissora para esse tipo de tarefa 27 . O que não quer dizer, no entanto, que o serviço não seja mais usual ou menos importante, já que essas tecnologias não cobrem parte dos municípios de Artigas e Quaraí. O rádio AM continua sendo o único capaz de cobrir praticamente 100% desses territórios. De acordo com o atual diretor da emissora, Jorge Alberto Lamb Japur, é comum de se ouvir na Rádio Quaraí AM avisos como, por exemplo: “Atenção fulano no interior do município, cicrano avisa que precisa falar urgente contigo, mas o teu celular não está pegando”. Além desses, outros avisos para o interior também são comuns, como este
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Segundo Ponte (2000, p. 40): “os hilários avisos do meio -dia tinham, em sua maior parte, graves erros de concordância e gramática. Eles, no entanto, não podiam ser modificados, porque as pessoas que os redigiam não aceitavam que fossem corrigidos. Alguns alegavam que atrapalharia a compreensão de quem iria receber a mensagem”. 27 A cidade de Artigas possui na atualidade uma in fin idade de radiotransmissores desse tipo, reflexo da grande quantidade de produtores primários. Cf. anexo.

34 veiculado no dia 03.11.2009 no Informativo do meio-dia: “Desapareceu entre quinta e sextafeira uma porca branca de rabo curto (Pitoca), do estabelecimento de fulano de tal, no Quaraí– Mirim. Se alguém souber do seu paradeiro avise no telefone xxx-xxxx. Será gratificado”28 . O cômico caso descrito no aviso acima ilustra o forte vínculo que a população da fronteira tem com a vida do campo, o que explica o porquê da programação da emissora ser em grande parte voltada para ela. Nesse aspecto, informações culturais sobre tradicionalismo, músicas gauchescas, e quaisquer outras manifestações desse gênero encontram público nos dois lados da fronteira, pois tanto o gaúcho brasileiro quando o gaucho uruguaio compartilham em parte uma mesma raiz cultural. Segundo o apresentador do Informativo Rural, e também do programa matutino Cambona e Cordeona, Miguel Castro: “É o deus deles o gaúcho da fronteira. Os uruguaios participam todos os dias”. O apresentador, que é ligado ao tradicionalismo e participa de eventos relacionados ao tema, comenta que não há diferenças significativas entre o gaúcho brasileiro e o gaucho uruguaio. Em eventos sobre o tema, a única diferença explícita é, segundo ele, a língua. “No más, é tudo igual”, conclui. No caso da Rádio Quaraí AM, é comum observar a participação de gaúchos brasileiros e uruguaios na programação. Em alguns dos seus programas nativistas e gauchescos, a emissora recebe participações por telefone de pessoas dos dois lados da fronteira. Parte desse público possui parentes espalhados pelo departamento de Artigas e pelo município de Quaraí que interagem oferecendo músicas e homenagens através dos programas musicais da rádio. Outro programa da emissora, o Canto Nativo, divulga informações sobre a história da região, falando sobre personagens históricos e datas importantes dos dois países. Durante esse programa, músicas de festivais nativistas são veiculadas a pedido de ouvintes dos dois lados da fronteira 29 . Sobre esse aspecto a emissora sempre participou dos festivais nativistas surgidos a partir dos anos 70. “Califórnia, em Uruguaiana, Salamanca da Canção Nativa, em Quaraí, e a Tertúlia de Santa Maria” (PONTE, 2000, p. 23). E quando a emissora não tinha condições de enviar uma equipe própria para outros locais do estado, como tem acontecido nos últimos
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O Quaraí-Mirim faz parte da zona rural do municíp io de Quaraí, fica a nordeste da cidade sede. É também nome de u m riacho que deságua no Rio Quaraí. 29 Música nativista é um gênero musical brasileiro típico do Rio Grande do Sul. Normalmente são músicas com letras elaboradas que tratam de temas como os costumes do gaúcho, a sua história e a sua realidade atual. Diferem, de certa forma, das músicas tradicionalistas, tanto pelo rit mo quanto pelas letras mais elaboradas. No Rio Grande do Sul existem os Festivais de Música Nativista, em que freqüentemente é possível verificar a presença de uruguaios e argentinos

35 anos por falta de patrocínio, ela divulga tais eventos através dos discos que compra 30 . Ponte (2000) registra um fato curioso ocorrido durante a transmissão de um desses eventos, através das palavras do fundador da emissora, Jorge Japur:

Uma vez nós estávamos transmitindo a primeira Tertúlia e todas as rádios já estavam inovando com maletas transistorizadas, automáticas, bonitas... e eu mandei o Nadir daqui junto com o Abela. O Abela transmit ia de lá, porque já morava em Santa Maria e era do Fórum. Então o Nadir mandou uma maleta, mas a da Quaraí era a única do tempo da maleta à lu z e de ferro, enquanto que todas as outras rádios com as transistorizadas. Deu a causalidade que antes de começar as transmissões ouve um temporal lá, de raios, e de faíscas. Todas as mesas que estavam ligadas queimaram, então o nadir que estava lá não teve problema, e disse para o pessoal, “esta aqui não queima, porque é de luz, então eu vou dar o som daqui, e vocês mandam até trocarem”. Assim todas as rádios ficaram ligadas na maleta. A energia dela era suficiente para até quinze estações (PONTE, 2000, p. 23)

Uma lembrança da esposa do atual diretor da emissora, Lilian Teresa Tomás Japur, ajuda a ilustrar a expectativa que os festivais nativistas criavam na população da fronteira: “Acuérdome de la abuela de Jorginho [Jorge Alberto Lamb Japur] sentada al lado del radio haciendo crochet... Ella decía con gran expectativa: „vai ganhar Orelhano, tenho certeza‟”. A música citada, do compositor quaraiense Mário Eleú Silva, que em 1984 competiu na 5ª Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria, não venceu na ocasião. No entanto, ela traz na sua letra a idéia de que o gaúcho pertence a mais de um país, tanto pelos seus costumes quanto pela sua origem comum 31 . A Rádio Quaraí AM, por sua vez, trabalha com esses elementos híbridos da realidade local através da sua programação. No entanto, não é apenas nos programas voltados ao gauchismo que há participação de brasileiros e uruguaios. Em programas musicais de gênero variado, em que são veiculadas canções brasileiras e internacionais, também há participação do público dos dois lados da fronteira. Isso indica que a emissora, ao mesmo tempo em que trabalha com elementos da cultura local, também serve como vitrine para produtos da indústria cultural – tanto brasileira quanto internacional. Nos sábados à tarde vai ao ar o programa Sábado Show, apresentado por Cléber de Oliveira, locutor que está na emissora desde 1966. O programa apresenta músicas variadas, e
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Durante a década de 70 e de 80 os festivais nativistas no Rio Grande do Sul reuniam milhares de pessoas em mu itas cidades gaúchas. Saber qual música venceria a Califórnia, por exemp lo, atraía tanto quanto o desfecho de uma telenovela veiculada em rede nacional. Hoje, alguns desses festivais ainda perdu ram, sendo que outros deixaram de existir, co mo a própria Tertúlia Musical Nativista, de Santa Maria, e também a Salamanca da Canção Nativa, de Quaraí. 31 Uma das estrofes da música: “Orelhano, brasileiro, argentino... Castelhano campesino, gaúcho de nascimento. São tranças de um mesmo tempo, sustentando um ideal, sem sentir a marca quente, nem o peso do buçal”. Orelhano refere-se ao gado livre, não marcado nas orelhas. O termo designa, dessa forma, o gaúcho andarilho sem destino fixo . Buçal, por sua vez, é u ma espécie de cabresto forte com focinheira.

36 conta com a participação do ouvinte na escolha de quem será o artista homenageado na próxima semana. Depois de selecionado o artista, o apresentador pesquisa sobre a vida e obra do homenageado para o programa seguinte. De acordo com Cléber de Oliveira: “esses dias ligou um uruguaio pedindo para que tocássemos Vicente Celestino32 . Nem os brasileiros sabem quem foi Vicente Celestino”. A emissora também retransmite programas da Rádio Nacional de Brasília, como o Saudade Nacional e o Eu de Cá, você de lá. Este, apresentado por Luiz Alberto, oferece músicas, notícias e conta com a participação de ouvintes de todo o Brasil. Eventualmente algum ouvinte de Quaraí e Artigas entra em contato com a Rádio Nacional, o que aproxima, em parte, Quaraí ao país ao qual pertence; os uruguaios, por sua vez, sentem-se fascinados por conhecerem mais do país vizinho. Analisando trechos desse programa retransmitido pela Rádio Quaraí, encontrou-se um registro de participação de uma ouvinte da cidade. O apresentador atendeu a chamada da seguinte maneira:
- Alô, quem fala!? – É fulana, de Quaraí! – Guaraí? Onde fica? – Não, não, Lu iz, é Quaraí, no Rio Grande do Sul! – Ahh, como? Guaraí? Guaraí no Rio Grande do Sul! Fica em que parte do estado, fulana? – É na fronteira co m Art igas, no Uruguai. – Veja só! Que bom contar co m a sua participação, fulana! O que vai pedir? – Eu gostaria de mandar u ma música do Roberto Carlos para o cicrano e beltrano que estão agora em A rtigas nos ouvindo33 .

Cantores, conjuntos e compositores brasileiros são amplamente conhecidos no Uruguai, - primeiro pela atuação das rádios fronteiriças, e posteriormente pelo advento da televisão 34 . Por outro lado, as rádios brasileiras próximas à fronteira veiculam freqüentemente ritmos musicais como cumbias e reggaetons, gêneros musicais bastante difundidos em quase todos os países de língua espanhola da América Latina, sendo que no Uruguai e Argentina há numerosos conjuntos que exploram esses ritmos.

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Vicente Celestino, falecido em 1964, fo i um dos mais importantes cantores brasileiros do século XX. Ficou conhecido por composições como O Ébrio (1936), Coração Materno (1937) e Mia Gioconda (1946). 33 A Rádio Quaraí AM retransmite a Rádio Nacional de Brasília em alguns horários do fim de semana. Alguns programas, como o Eu de Cá, Você de Lá, apresentado por Luiz Alberto, até pouco tempo retransmitido durante a semana no período em que a Rádio Quaraí AM não possuía programa local após A Voz do Brasil, é emb lemático no sentido de permitir que pessoas do país inteiro conheçam o Brasil e as suas dimensões continentais, porque conta com a part icipação de ouvintes de todo o país. Em 2004, logo após a série de tsunamis que assolou a Ásia, Luiz Alberto recebe a seguinte participação no seu programa: “ - Alô! Quem fala? – Oi, Luiz Alberto! É fulano, da Tailândia! – Tailândia, fulano? Ora, vejam só, temos a participação de um brasileiro que nos ouve pela internet nesse país sofrido, que está passando por inúmeras dificuldades neste momento... u ma tristeza... – Nããão, Luiz Alberto, estou falando da Tailândia do Pará”. O apresentador, em meio a risos, comentou: “Ahhh, mas Tailândia não é o país lá da Ásia?”, ao que o ouvinte respondeu: “Não, não, Luiz Alberto, Tailândia fica no Pará”. 34 Algumas emissoras de televisão brasileiras cobrem todo o norte do Uruguai.

37 Tratando-se do radiojornalismo 35 , apesar das dificuldades estruturais da emissora, temse nessa prática a veiculação de informações voltadas aos dois lados da fronteira. São veiculadas pela rádio informações sobre o câmbio do dia, condições climáticas na fronteira (em Artigas há um centro meteorológico), ocorrências liberadas pela polícia para a divulgação, informações preventivas dos bombeiros, bem como entrevistas com brasileiros e uruguaios que tratam de temas comuns. Uma entrevista que ilustra a questão de como o conceito de local em uma emissora fronteiriça abarca bem mais do que o seu município de origem ocorreu em 20.09.2009, ocasião em que foi entrevistado o deputado uruguaio Lolo Caram. Durante sua entrevista, realizada por conta das campanhas presidenciais de 2009 no Uruguai, o deputado pediu apoio aos uruguaios residentes dos dois lados da fronteira 36 . Além disso, falou da importância para que se reflita sobre as especificidades de ssa região, como mostra o trecho a seguir:

Hay brasileños que tienen empresas en Uruguay y que no tienen derecho a tener un auto. [...] Hay cosas que son incomprensibles… No hemos podido hacer que las autoridades nacionales entendieran como es el modo d e vida de la frontera. Esa vivencia solo los sabemos nosotros… tenemos que convencer las autoridades nacionales de los dos países de cómo es.

Uma das especificidades da fronteira é o modo como se dá o comércio entre brasileiros, uruguaios e argentinos. A fala do deputado uruguaio, embora não aprofunde o tema, levanta uma das problemáticas que dificulta a subsistência de inúmeras emissoras de pequeno porte da fronteira (tanto do lado brasileiro quanto do uruguaio), a saber: a informalidade do comércio que, do modo como é feito, não reconhece na propaganda um instrumento necessário para a prosperidade de empreendimentos. “Alguns acham que um alto- falante pendurado em um poste é suficiente”, comenta o atual diretor da emissora, Jorge Alberto Lamb Japur. Além dessa questão a região convive com o problema das rádios clandestinas que cobram valores irrisórios pelos seus serviços 37 . Dessa forma, a emissora tenta superar as dificuldades provenientes dessa ordem explorando a sua credibilidade, mostrando que a propaganda é, antes de tudo, um investimento:

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Os conceitos sobre radiojornalismo utilizados nesta pesquisa foram extraídos de Ferraretto (2007), Prado (1989) e Vasques (2005). Para mais informações sobre radiojornalis mo na fronteira, ver as discussões entre as páginas 48-51 e também 58-9 deste trabalho. 36 Segundo o deputado, é possível que aproximadamente 3.000 uruguaios vivam dispersos do lado brasileiro da fronteira. Desses, 2.000 estariam em condições de votar no Uruguai. 37 Aprofundamos a discussão sobre o comércio na fronteira e também sobre as rádios clandestinas nos capítulos seguintes. Para mais informações, Cf. p. 56-64.

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Se você quer mesmo vender o seu produto, anuncie na Rádio Quaraí, o primeiro shopping da cidade. A melhor vitrine para os seus negócios e serviços. Quaraí, quase meio século de existência, a rádio de sua confiança.

Até aqui se pode dizer que a Rádio Quaraí AM atua em duas direções: (1°) realçando os laços locais entre brasileiros e uruguaios, através do entretenimento que explora o gauchismo, dos programas de utilidade pública voltados para a sociedade fronteiriça, bem como informações (nem sempre organizadas jornalisticamente) que contribuem para destacar os acontecimentos da região; (2°) serve como instrumento do Estado brasileiro no momento em que atua segundo as políticas vigentes frente ao Estado-nação vizinho. Além disso, veicula produtos da indústria cultural brasileira e internacional, bem como notícias de cunho nacional e internacional graças às suas parcerias com agências de notícias do país 38 . Para esta pesquisa seria impossível analisar toda a programação da emissora, considerando que ela tem mais de meio século de existência. Além disso, percebe-se que independente do conteúdo que vai ao ar (seja musical ou informativo), corrobora-se a dialética que define a emissora. De um lado, atende ao contexto local; de outro, ao Estadonação ao qual pertence. Algumas histórias que viriam a enriquecer este trabalho forçosamente tiveram que ficar de fora. Exploraram-se, dessa forma, trechos relacionados à sua produção midiática que ilustram a lealdade cruzada descrita por Silveira (2002). A emissora atende, em parte, às especificidades da realidade local, da mesma forma que atenta também para os desígnios outorgados pela legislação que regulamenta o seu funcionamento e a sua postura frente ao país vizinho. No entanto, analisando a programação da emissora percebe-se que ora ela incorpora algumas características da fronteira, e ora tenta distanciar-se delas. É possível que a rádio auxilie na manutenção dos vínculos já estabelecidos na fronteira, ou ainda na quebra de alguns deles. Os trechos da programação analisados sugerem que a rádio trabalha considerando esse modo próprio de ser da fronteira. Isso tanto no momento em que lida com a sua riqueza cultural híbrida (como no caso do personagem da radionovela que era contrabandista e falava portunhol, ou ainda nas transmissões esportivas bilíngües), quanto na tentativa de superar problemas específicos da fronteira que afetam diretamente as emissoras de rádio (como o comércio informal e as emissoras clandestinas). Esse contexto, que neste capítulo não foi detalhado, será analisado com detalhes na seqüência deste trabalho.

38

Para mais informações, cf. p. 64.

39 2.2 LENDAS, MISCIGENAÇÃO E PROSPERIDADE: A EMISSORA FRONTEIRIÇA E OS SEUS VÍNCULOS Após passar pelas sete provas e as sete tentações, Blau Nunes, ga úcho pobre e simples, ficou encantado com a beleza da Teiniaguá 39 . “Pelas sete provas que passaste sete escolhas lhe darei”, anunciou a Teiniaguá 40 . O gaúcho poderia ter escolhido desde nunca perder no jogo, ou ainda amarrar nas cordas da sua viola o coração da mulher que desejasse, até ser o mandão no seu distrito de modo que todos obedecessem sem resmungar. No entanto, a única coisa que o rústico dizia com convicção era “não!”. A princesa moura, trancada no corpo da Teiniaguá, disse então: “nada te darei, porque do prometido nada quiseste. Vai-te!”. Blau nem se moveu,

e carpindo dentro de si a própria rudeza, pensou no que queria dizer e não podia e que era assim: Teiniaguá encantada eu te queria a ti porque és tudo. És tudo o que eu não sei o que é, porque atino que existe fora de mim, em volta de mim e superior a mim. Eu te queria a t i, Teiniaguá encantada!

Observando a fronteira a partir da fala do personagem Blau Nunes é possível, de certa forma, suscitar algumas características sobre o modo simples do fronteiriço e a sua incapacidade de explicar o que acontece na fronteira. Diferente da lenda, isso não se deve ao fato do fronteiriço ser tão rústico a ponto de não conseguir externar o que vê, mas talvez porque essas práticas estão tão enraizadas no seu modo de ser que às vezes só conhecendo outras realidades é possível atentar para aquilo que é seu e não de outro. Nela estão fixadas e ainda estão em construção práticas híbridas proporcionadas pela mescla que se procedeu/procede pelo convívio diário. Estes são laços de amizade e de consangüinidade, a língua entreverada, as práticas clandestinas que competem com as leis do Estado – como o contrabando – que na prática está longe de parecer ao fronteiriço algo ilegal. A própria lenda da Salamanca do Jarau, orgulho da terra Sentinela do Jarau (denominação dada à cidade de Quaraí), através de seus personagens ilustra as várias vertentes culturais que estão incorporadas à identidade fronteiriça 41 . A Rádio Quaraí AM foi fundada em 17 de março de 1957, e desde então auxilia na elaboração/legitimação dos laços construídos/reconstruídos pelo contato entre os dois povos. Isso acontece seja aproximando os fronteiriços da fronteira oeste do Rio Grande do Sul
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. Trechos da lenda da Salamanca do Jarau, documentada e adaptada por João Simões Lopes Neto, extraídos de LOPES NETO, J. Simões. Contos Gauchescos e lendas do Sul. São Paulo : Globo, 1996. 40 “lagartixa”, em tupi-guarani 41 Cf. PONT, 1986.

40 através da sua programação, seja através dos vínculos criados durante a sua atuação em mais de meio século de existência; atuação essa que coincidiu cronologicamente com importantes transformações no desenvolvimento da fronteira Quaraí–Artigas. A emissora - que no início operava com o prefixo ZYU 56 -, ocupava uma casa na praça central da cidade. Dela, hoje, só resta um pilar com uma placa de bronze fazendo referência ao fato. No início de suas operações o seu equipamento era alimentado por geradores próprios, já que a cidade, no fim da década de 50, não possuía e nergia elétrica em tempo integral 42 . Na mentalidade da fronteira oeste do Rio Grande do Sul de então pairavam resquícios de uma forte influência positivista. Nela, a idéia de progresso e desenvolvimento transformava-se em póstumo orgulho e grande apego àq uilo que era concebido nesse território. Isso se deve, dentre outros, a três fatores: (1°) A grande distância do centro do Brasil, já que os meios de comunicação – apesar de estarem funcionando a pleno vapor no centro do país, - na fronteira Quaraí-Artigas eram incipientes (tratando-se de emissoras de rádio e televisão). Dessa forma, havia um sentimento de fascínio por ter perto de si algo que só se conhecia à distância (emissoras brasileiras de outros locais, uruguaias e argentinas). (2°) O isolamento e a dificuldade de acesso a outras localidades – principalmente por questões técnicas, que retardou o desenvolvimento dessa região, bem como o fim de empreendimentos que, a seu tempo, tiveram relevância econômica e social não só para Quaraí e o Rio Grande do Sul, mas para o Brasil 43 ; (3°) A história do município possui exemplos de empreendimentos desmantelados cujas ruínas ainda hoje servem para corroborar o dito popular que sustenta: Quaraí é a terra do já teve. Dentre esses exemplos, podemos citar a antiga viação férrea, o antigo campo de pouso do aeroporto de Quaraí (que outrora recebeu importantes personagens do cenário nacional), as ruínas do saladeiro, ou ainda o antigo centro desportivo municipal. Apesar de menos numerosos na época, tais exemplos já existiam antes da inauguração da emissora em Quaraí, o que tornou o vínculo da população com novos empreendimentos, como a Rádio Quaraí AM, ainda mais acentuado.
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PONTE, 2000, p. 21. Ilustram esse sentimento de perda e de isolamento as reminiscências de Bernardino A. Machado, que viveu em Quaraí durante a primeira metade do século XX. Segundo Machado (apud CHEGU HEM , 1991-a, p. 52): “os filhos de Quaraí devem ter remorsos porque não tomaram iniciativa de qualquer espécie no sentido de evitar que os dois estabelecimentos de industrialização dos produtos pecuários [charqueadas de Novo Quaraí e de São Carlos], que é até hoje a sua maior fortuna, fossem co mpletamente desmantelad os, restando apenas escombros, para dizer aos pósteros – aqui, em p rincípios do século – havia civilização. Os jovens que não conheceram ou nunca souberam que Quaraí tinha indústria quando em visita a esses lugares poderão perguntar para si mesmos por aqui passou alguma tempestade ou esses escombros são obra dalgum terremoto?”. Na literatura da região também é possível encontrar referências a esse sentimento de que no passado era melhor (cf. a Triologia do Gaúcho a Pé, de Cyro Mart ins). Se realmente era melhor ou não - o que parece improvável - é outra discussão.

41 Um evento que ilustra esse sentimento do forte vínculo que a emissora viria a ter com a comunidade encontra-se já nos seus primórdios. Entrevistados por Ponte (2000), o exdiretor e um dos sócio- fundadores da emissora, Jorge Japur, hoje falecido, e também a historiadora quaraiense Diva Simões relatam um evento que ocorreu antes mesmo da inauguração da emissora. Ao decidir-se por criar a rádio, Jorge Japur e seu irmão, Nadir Japur, autodidatas em eletrônica, construíram um transmissor artesanal. Eles receberam da prefeitura de Quaraí uma casa situada no centro da principal praça da cidade (até então, única praça), e lá começaram a montar a primeira emissora das duas cidades. Essa rádio, criada unicamente pelo sonho de se ter uma emissora na cidade – mas sem amparo legal – mesmo com forte apoio da comunidade local viria a ser denunciada ao antigo Ministér io da Viação e Obras Públicas , segundo a alegação de que funcionava sem autorização do mesmo 44 . O transmissor artesanal, mesmo funcional, não estava no padrão permitido pelo governo de então. Além desse problema, havia a suspeita de que Jorge Japur possuía dupla nacionalidade, já que, segundo seus parentes, ele era registrado tanto no Uruguai quanto no Brasil. Isso, já na época, impossibilitaria que ele adquirisse controle de uma empresa jornalística. Segundo Jambeiro, uma preocupação explícita na Constituição de 1934 era o controle de empresas jornalísticas por estrangeiros. Segundo o autor, em uma postura que pode ser entendida tanto como reserva de mercado para a mão-de-obra nacional, quanto uma precaução contra influências colonialistas, “os constituintes impuseram que o controle destas empresas e a sua administração estejam nas mãos de brasileiros natos e com residência no país ” (2002, p. 10). Isso não impediu, no entanto, que a população local – com o apoio do governo municipal – apoiasse Jorge Japur no momento em que o fiscal do governo chegou à cidade para lacrar a emissora clandestina.

No dia em que chegou o oficial de justiça com a ordem para lacrar a porta da rádio clandestina, o pároco da cidade – padre Orlando – teve a idéia de chamá-lo para tomar um cafezinho. Assim poderia dar tempo para o locutor Milton Souza avisar o proprietário que se encontrava trabalhando no cinema. Nesse meio tempo, a
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Segundo Simis (2006, p. 5): ”conforme o decreto 21.111/32, a concessão de um canal de radiodifusão precisava ser requerida junto ao Departamento dos Correios e Telégrafos, med iante uma vistoria t écnica e o pagamento de uma taxa de licenciamento anual, enquanto o Ministério da Educação e Saúde Pública ficava responsável pelas orientações necessárias para atender aos objetivos do serviço no que se refere a conteúdo e como entidade e o Ministério de Viação e Obras Públicas pela fiscalização nas questões técnicas de engenharia, sinais e transmissões”. Ponte (2000, p.31) d iz que o Min istério de Viação e Obras Públicas “tinha u ma espécie de convênio com a Philips, empresa que fornecia os equipamentos para as radioemissoras”. E de fato, o primeiro transmissor que a Rádio Quaraí AM teve depois de regularizada foi u m Ph ilips holandês.

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primeira dama da época, Diamantina Giudice, liderou u ma parte da população para que entrasse na rádio e levasse tudo o que existia lá dentro, como forma de evitar que a casa fosse lacrada e depois não se pudesse mais reco lher os objetos e o radioamador. Foi u m alvoroço na cidade. A população estava indignada com a irremediável perda do que poderia ser seu principal entretenimento. Mas, no ano seguinte, depois dos devidos tramites, o Ministério de Obras Públicas concedeu a licença para o funcionamento, bem co mo para a instalação da torre. A população devolveu todo o equipamento e os objetos que existiam na rádio. – Até o crucifixo que ficava pendurado na parede, eles devolveram..., diz Diva Simões (PONTE, 2000, p.32)

Segundo a viúva de Jorge Japur, Izar Teixeira Lamb, na época a denúncia foi feita por um correligionário do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) que, mesmo conhecido de Jorge Japur e das pessoas que desejavam a emissora na cidade (independente dela ser ilegal ou não), recorreu aos órgãos competentes e realizou a denúncia. Esse ato é, provavelmente, reflexo da influência das políticas nacionalistas instituídas por Vargas que tinham, em forma de lei, rígido controle sobre os meios de comunicação ainda na década de 50. Nesse aspecto, Silveira e Adamczuk (2004) destacam a Campanha de Nacionalização (1937) que instituía, dentre outras coisas, a adoção e o uso exclusivo da língua portuguesa em emissoras de rádio. Jambeiro (2002, p. 10), por sua vez, destaca o Art. 136 da Constituição de 1934 que determina que o controle de empresas jornalísticas fosse de brasileiros natos com residência no país. Dessa forma, Jorge Japur, acusado de dupla nacionalidade, não poderia ter vínculo com uma empresa jornalística. Esse fato ilustra também o que Silveira e Adamczuk (2004) assinalaram sobre a fronteira ser detentora de um testemunho histórico sobre a convivência com distintos estadosnação, bem como mostrar-se especialmente vulnerável à política de fronteiras nacional, refletindo em suas experiências particulares as contradições que lhe são inerentes. No exemplo assinalado, a contradição se dá no momento em q ue grande parte da população local e órgãos oficiais da cidade endossam a emissora ilegal que estava se constituindo – a tal ponto que a Prefeitura Municipal forneceu um local para que ela funcionasse. Após o fechamento da emissora clandestina Jorge Japur exilou-se em Artigas na residência do seu amigo e colaborador uruguaio, Basílio Borgato, receoso das punições que poderia receber por conta do ocorrido. Segundo a sua viúva, Izar Teixeira Lamb, durante esse tempo “senhores com influência política nos auxiliaram na regularização da emissora e da condição do Jorge”.

43 Dentre essas pessoas, dona Izar destaca o advogado Luiz Pacheco Prates 45 . Dr. Prates, como é chamado pelos nossos entrevistados, foi uma Ilustre personagem da cidade de Quaraí durante a metade do século XX. Segundo o advogado Marcello Gomes 46 , entusiasta da cultura local, o jurista possuía laços de parentesco com Getúlio Vargas 47 . Além disso, “o estadista brasileiro e o advogado freqüentavam assiduamente a Cabanha Azul”, diz Marcello 48 . Após o fechamento da emissora clandestina, Dr. Prates se inseriu como sócio da emissora para forçar a abertura da mesma. Gozando de prestígio político e simpatizando com Jorge Japur, foi o seu auxílio que permitiu a regularização da emissora e a liberação da concessão para a cidade de Quaraí. Cabe ressaltar que a denúncia contra a emissora clandestina partiu de um correligionário do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Por sua vez, Luiz Pacheco Prates, que gozava de prestígio junto a Vargas, possuía um grau de influência maior frente ao governo de então, e assim conseguiu a regularização da emissora ao se tornar um dos seus sócios. Segundo Jorge Alberto Lamb Japur, atual diretor da emissora, filho de Jorge Japur e Izar Teixeira Lamb, Dr. Prates foi um dos sócios da emissora até o seu falecimento na década de 70. Durante esse período, “nunca interferiu na programação dizendo o que poderia ou não ser veiculado. Quando ele precisava da rádio, pedia um espaço e falava da mesma forma como qualquer outro”, diz Jorge Alberto. Ou seja, a sua influência política garantiu a regularização da emissora e a liberação da concessão. No seu uso, servia-se dela como qualquer cidadão, sem nunca interferir, segundo os entrevistados, na programação. No seu testamento, destacou que se os seus herdeiros não quisessem continuar como sócios da emissora, só poderiam vender as partes herdadas para Jorge Japur. Segundo Jorge Alberto, foi o que aconteceu. Após regularizar sua situação, Jorge Japur optou pela nacionalidade brasileira. Mesmo assim ele continuou com medo de cruzar o rio Quaraí para regressar ao Brasil. Segundo sua
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Lu iz Pacheco Prates foi um influente jurista durante o período dos acontecimentos descritos. Segundo Izar Teixeira Lamb, a sua influência, por conta dos seus contatos, era de nível nacional. Em Quaraí, há estabelecimentos que o homenageiam carregando consigo o seu nome. Existe uma lenda de que recusou um convite de Vargas ao governo do Estado por preferir a ju risprudência. Em outubro de 2009 ocorreu na cidade a inauguração do prédio da Ordem dos Advogados do Brasil (OA B). Na ocasião, estiveram presentes descendentes de Luiz Pacheco Prates, também advogados. 46 Marcello Go mes é filho de Juarez Custódio Go mes, importante personagem da história de Quaraí que ocupou a prefeitura em duas oportunidades: primeiro como interventor designado pelo governo militar para suceder Heraclides Santa Helena, entre os anos de 1979-1985; depois entre os anos de 1989-1992, no incip iente regime democrático que co meçava a florescer. 47 Cf. anexo . 48 A Cabanha Azul é u ma das mais prestigiadas estâncias da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Tornou -se referência nacional por seu pioneiris mo no uso de alta tecnologia aplicada à pecuária. Em 23 de jun ho de 2005, a Rede Brasil Su l (RBS) veiculou u m capítulo do especial Fazendas & Estâncias sobre ela.

44 viúva, Izar Teixeira Lamb, “ele tinha um medo danado de voltar”, tendo que ir o seu pai, Pachá Lamb, perguntar ao subcomandante do exército em Quaraí se Jorge Japur não seria preso caso retornasse. “Quando o avisamos que ele estava livre para retornar, mesmo assim ele se manteve com medo, tendo que ir o papai e o subcomandante até Artigas para convencêlo”, diz dona Izar. O exemplo descrito até aqui traz pelo menos dois dados que devem ser observados: (1°) O tipo de práticas alternativas que tornam a fronteira um local único. Essas práticas trazem à tona um modus operandi criado por laços construídos/reconstruídos durante os séculos de proximidade entre os indivíduos dos dois lados da fronteira. Aos olhos de quem não pertence a tal ordem, essas práticas podem parecer atos de má fé, como o contrabando, que normalmente é representado por periódicos de circulação nacional como uma ameaça. O contrabando, assim como outras práticas alternativas, possui uma complexidade tal que é difícil investigar até que ponto ele é benéfico ou nocivo (tanto para o fronteiriço quanto para o país ao qual ele pertence) 49 ; (2°) Em relação à Rádio Quaraí nos seus primórdios cabe ressaltar o grau de informalidade que fazia parte das relações entre a emissora e a sociedade da época. Um aspecto positivo disso foi a facilidade com que se deu a aceitação e a participação do público na emissora. Foi durante esse período de descobertas que tanto a Rádio Quaraí AM quanto a fronteira Quaraí- Artigas cresceram em parceria. Foi com esse clima que os moradores da fronteiram - que contavam até então com cinemas (cine Artigas e cine Aída em Artigas, e cine-teatro Carlos Gomes em Quaraí) -, passaram a contar também com uma emissora de rádio. O fascínio por essas novas tecnologias constituiu solo fértil para a promoção de uma prática que mesmo nos dias de hoje perdura, e que no início foi um dos modos como a emissora criou os primeiros vínculos com a sociedade fronteiriça: as campanhas sociais. A análise da história da emissora oferece diversos exemplos nesse sentido. No início da década de 60 a Rádio Quaraí, com o seu fundador, Jorge Japur, e o seu amigo e colaborador uruguaio, Basílio Borgato, através dos seus microfones auxiliou na construção do primeiro Banco de Sangue e Plasma da fronteira, localizado em Artigas. Nessa cidade a Rádio Quaraí liderou também o movimento para a instalação do Corpo de Bombeiros, que sempre
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Existem, na prática, diferentes tipos de contrabando. O tipo mais comum que se pode observar na fronteira é o de pessoas simp les carregando víveres, nor malmente por ser o p roduto em questão (alimentício, têxtil) mais barato do outro lado (diversos fatores influem para isso, principalmente o câmbio). É dessa prática que subsistem essas pessoas. Por não ofertarem perigo à soberania nacional, as polícias adu aneiras dos dois países fazem vista grossa a esse tipo de prática. Eventualmente a fronteira serve como porta de entrada de mercadorias ilegais como armas e entorpecentes, e sobre essas sim se tenta manter um rígido controle. Acabar com o contrabando ou nã o? Uma resposta simp les a essa questão desconsideraria a complexidade de tal prática, e conseqüentemente refletirse-ia em políticas ineficazes para a fronteira.

45 desempenhou importantes serviços na fronteira Quaraí-Artigas 50 . Segundo o atual diretor executivo da emissora, Jorge Alberto Lamb Japur, além disso, a rádio fazia campanhas esporádicas que auxiliavam os bombeiros a suprirem algumas necessidades mais emergentes do destacamento, como peças para a manutenção dos veículos, combustível, etc. Em outubro de 2009, a Rádio Quaraí recebeu convite para participar dos festejos do dia do bombeiro no Uruguai, como acontece todo o ano. Apesar dos festejos terem sido alterados por conta da campanha presidencial no Uruguai, a emissora homenageou os bombeiros da cidade vizinha em sua programação. O destacamento brasileiro, por sua vez, foi recentemente criado. Na ocasião, a Rádio Quaraí endossou as campanhas que apoiavam a instalação do Corpo de Bombeiros em Quaraí. Além desses trabalhos, “vieram as campanhas comunitárias para o hospital de Artigas, suas escolas da cidade e do interior” 51 . Campanhas de vacinação, com palestras e textos, campanhas cívicas, etc. Observa-se que a maioria das campanhas logrou sucesso porque, no início, além da própria necessidade de melhoramentos – seja da cidade ou do campo participar de tais campanhas era também uma forma de se sentir parte da novidade que se colocou na fronteira. Na sua pesquisa, Ponte descreve o sentimento da população nesse período, ao falar das radionovelas que foram produzidas pela emissora no fim da década de 50:
As pessoas se aglomeravam aos empurrões para disputar um lugarzinho, porque queriam en xergar e tentar descobrir quem fazia o quê na história, e o curioso é que faziam isso sem escutar praticamente nada (PONTE, 2000, p. 37)

Outro fator que favoreceu o sucesso dessas campanhas, e que tornou a emissora ainda mais importante no contexto fronteiriço, foi a necessidade de se incrementar as relações entre os dois povos graças ao próprio desenvolvimento natural da fronteira (favorecido pela chegada de novas tecnologias à região, pelo melhoramento técnico que facilitava a locomoção para outras cidades, pelos recentes imigrantes). Ponte relata que a professora Diva Simões, ao ser entrevistada, conta que a emissora surgiu em uma época na qual houve incremento no comércio entre as duas cidades:

Foi aquela época em que o peso uruguaio teve uma supervalorização. O comércio foi muito valorizado. Nesse aspecto, Quaraí recebeu pela primeira vez uma primeira leva de patrícios. Recebeu um tipo de comércio nunca visto na cidade que é a confecção. A compra dos uruguaios foi muito acelerada, então isso
50

É prática co mu m na fronteira bombeiros do destacamento uruguaio cruzar a Ponte Internacion al da Concórdia para au xiliar a cidade de Quaraí quando necessário, e vice-versa. 51 TRINTA e três anos. Folha de Quaraí, Quaraí, 17 mar. 1990. In : CHEGUHEM, 1991-a, p. 126.

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fomentou um meio de comunicação entre Quaraí e Artigas, através da Quaraí. (PONTE, 2000, p. 33)

Cabe ressaltar que mesmo com as leis da era Vargas ainda vigorando a respeito da exclusividade da língua portuguesa nas transmissões radiofônicas, a emissora, agora funcionando legalmente depois da sua inauguração em 17 de março de 1957, continuou realizando transmissões bilíngües. Durante o período em que havia energia elétrica em Quaraí, em português; no restante do tempo a programação era voltada para Artigas, em espanhol. E fazem parte desse conjunto bilíngüe as campanhas sociais realizadas por Jorge Japur e Basílio Borgato, bem como programas de auditório, como o Cidade se Diverte, ou ainda as radionovelas produzidas pela emissora. Pelo menos duas hipóteses podem explicar a vista grossa das autoridades (as mesmas que, anteriormente, fecharam a rádio clandestina) frente a esse fato : 1ª) Influência política de personagens da época, como o advogado Luiz Pacheco Prates. A atuação do Dr. Prates, na prática, pode ser descrita como uma herança caudilhista cujos resquícios até hoje podem ser percebidos na fronteira. Nessa ordem, quem tem mais força, manda 52 ; 2ª) O apego da comunidade ao novo empreendimento de maneira a não interessar de se tratar de uma prática ilegal para as leis da época. Isso é algo que, assim como o contrabando, ilustra a lealdade cruzada do fronteiriço descrita por Silveira (2002-b). Até aqui se discorreu sobre como a emissora estabeleceu os primeiros vínculos com a sociedade da fronteira Quaraí-Artigas. Até esse momento pode-se dizer que a Rádio Quaraí, com brasileiros e uruguaios com programas variados, com eventuais transmissões bilíngües, com as campanhas sociais voltadas para os dois lados da fronteira, não realçava a dicotomia Brasil-Uruguai pelos seus microfones. Um dos seus diversos slogans representa bem a emissora nesse período: Rádio Quaraí, fator de progresso na comunidade, sendo que o uso do termo comunidade não distinguia quem era brasileiro ou uruguaio. Segundo os antropólogos Thomas M. Wilson e Hastings Donnan (apud SILVEIRA e ADAMCZUK, 2004, p. 17): “as fronteiras são registros espácio temporais das relações entre comunidades locais e entre estados”. No caso da fronteira Quaraí-Artigas, trabalhava-se prioritariamente com o nível local durante os primeiros anos de funcionamento da Rádio Quaraí AM. Foi apenas nos anos seguintes que a dicotomia Brasil-Uruguai - Comunidade Local se realçou. Poder-se- ia colocar como primeiro fator dessa dicotomia o momento em que apareceram as primeiras emissoras de rádio na cidade de Artigas. Basílio Borgato, um dos
52

O p róprio tratamento dado a Lu iz Pacheco Prates pelos nossos entrevistados, que se referem a ele co mo Dr. Prates, é um exemp lo do tipo de reverência que personagens com influência possuíam (ou possuem) nesse contexto.

47 principais colaboradores da Rádio Quaraí AM, bem como grande amigo de Jorge Japur, fundou em 1963 com a ajuda deste a Radio Frontera AM. Em conjunto as duas emissoras continuaram com o mesmo tipo de trabalho realizado até então, seja no setor do entretenimento, seja ainda nas campanhas sociais que visavam o aprimoramento da fronteira Quaraí-Artigas. Toti Borgato, filha de Basílio, rememora o espírito assistencialista de Basílio Borgato e Jorge Japur com fatos da sua infância:
Ellos querían solucionar los problemas del mundo! Fíjate que yo entraba en casa y a veces perdía mis zapatos, y entonces yo preguntaba: „¡¿papá, y mis zapatos?!‟, al que él decía: „regalé, cómprate otro ahora‟.

O fato de serem as duas primeiras emissoras da fronteira Quaraí-Artigas não estabeleceu, no entanto, qualquer espécie de concorrência entre elas. Ao contrário, realçou ainda mais o modo especial com que se dava a relação de Jorge Japur e Basílio Borgato com a comunicação, e, principalmente, com quem necessitava dela. De acordo com Toti Borgato: “lo que ellos hacían era arte. Era una relación de respeto, porque ya en aquella época veían la comunicación con fines útiles, y no para hacer dinero”. De acordo com a entrevistada, além da questão social trabalhada principalmente nas campanhas assistenciais, eles manuseavam elementos da cultura local, e por isso os dois personagens possuem um valor inestimável para a fronteira:
Ellos trabajaron con elementos que traían desde ideas de cómo se entendía la sociedad de la época hasta leyes de Estado, y trabajaron eso en un contexto donde no había nada. Ellos entran con el comercio, la publicidad – pero no es una publicidad de marketing – es algo cultural, accesible, agradable... Usaron una parte cómica del individuo, la diversión del juego, que es algo que se ha olvidado por las actuales competencias53 . Nunca hubo competencia. Usaron mucho la sociabilidad, o sea, la sociabilidad en ayuda mutua, para aquel que esta triste, alegre, para aquel que necesita algo por ser la radio un medio de transparencia .

As propagandas citadas pela entrevistada são avisos e notas cômicas que tanto Jorge Japur quanto Basílio Borgato costumavam apresentar. São passagens que até hoje fazem parte da memória da população da fronteira 54 . A criação da Radio Frontera e posteriormente das outras que foram abertas em Artigas não diminui a proximidade da Rádio Quaraí com as duas cidades. Segundo Lilian Teresa Tomás Japur, esposa do atual diretor da emissora, Jorge Alberto Lamb Japur, o seu

53

Em espanhol a palavra competencia, além de significar “competente” ou “apto para realizar algo”, significa também “concorrência”. E é co m este sentido que a palavra é utilizada pela entrevistada. 54 Cf. seção 2.1, p. 32-3.

48 pai, Robespierre Tomás Fernández, costumava intercalar o período em que ouvia a Rádio Quaraí e as emissoras uruguaias:
Acuérdome que papá escuchaba el informativo de las radios uruguayas, pero después, a las 18h, cambiaba para la Rádio Quaraí. Le gustaba escuchar un programa con músicas del cantante Teixeirinha. Ahí se quedaba la radio, porque a las 20h le gustaba las radionovelas que pasaban en la Rádio Quaraí. Eso fue cerca de 1969, un año antes de papá morir.

Cabe ressaltar que as radionovelas citadas pela entrevistada não se referem mais as mesmas feitas pela Rádio Quaraí no início de suas operações. Perto da década de 70 a emissora reproduzia radionovelas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que chegavam a ela em fitas de rolo. Esse foi o período em que a emissora começou a veicular com mais freqüência materiais vindos do centro do país, o que fortaleceu a sua atuação como representante dos interesses do Estado brasileiro na região. Durante esse período o Brasil vivia sobre as políticas impostas pela ditadura militar. Ferraretto (2007) afirma que durante esse período ocorreram diversos casos de censura e perseguição às rádios brasileiras. O fechamento da rádio carioca Mayrink Veiga, bem como a demissão de 36 profissionais da Rádio Nacional em 1964, ilustram para o autor o tipo de tratamento recebido por alguns veículos de comunicação durante o período. O panorama fica ainda pior com a instituição do Ato Institucional N°5 (AI- 5)

A censura já existente torna-se, com base no AI-5, u ma prática comu m e ganha amparo com o Decreto-lei n° 898, de 29 de setembro de 1969, que define, no seu artigo terceiro, o conceito de segurança nacional como prevenção e repressão à guerra psicológica adversa e à guerra revolucionária e subversiva (FERRARETTO, 2007, p. 153)

A partir disso, os meios de comunicação do país começam a servir de instrumento do regime militar no intento de propagar a sua rígida doutrina nacionalista. Quem não se adequava ou não aceitava as ordens sofria punições, que consistiam na cassação de concessões, na mudança – à força – dos diretores do veículo, dentre outros. De acordo com o autor um dos reflexos dessa política do medo instituída pelo regime militar foi a autocensura praticada por alguns proprietários de veículos de comunicação:

A ameaça da perda da concessão incentiva esta prática. A publicidade governamental constitui-se em outra arma nas mãos dos militares. Em mu itas emissoras, especialmente as de pequeno porte, as empresas e bancos estatais representavam parcela significat iva do faturamento comercial. A possibilidade de perder estas verbas publicitárias fez co m que muitos rádios omitissem fatos que poderiam ofender aos donos do poder. O Brasil vive os anos de chumbo da ditadura

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entre 1969 e 1974, quando o general Emílio Garrastazu Médici preside o país (FERRARETTO, 2007, p. 154)

Em Quaraí, um dado curioso ao se conversar com pessoas da cidade que acompanharam essa época é a tendência de alguns em dizer que o período regido pelos militares foi um dos mais promissores da história brasileira. Essa generalização se dá, provavelmente, pelas inovações ocorridas no município durante o período. Dentre elas, a chegada da energia elétrica em tempo integral à cidade 55 , a construção da BR-293 - primeira estrada asfaltada desde a criação Quaraí -, a revitalização da zona urbana da cidade, a criação de novas vilas, bem como a construção e a inauguração da Ponte Internacional da Concórdia. Nesse período a Rádio Quaraí AM, pela postura política do seu diretor de então, Jorge Japur, era alinhada com o governo militar. Aparentemente não por coerção, como sugere Ferraretto (2007), mas por Jorge Japur simpatizar com o regime (ou pelo menos com os representantes do regime na cidade, seus amigos) 56 . Nas campanhas sociais, como lembra Jorge Alberto Lamb Japur, seu filho, a Rádio Quaraí não deixava de utilizar seus microfones para reclamar, por exemplo, da má condição das estradas do interior ou da falta de estrutura do hospital de caridade. No entanto, não havia manifestações contrárias ao regime em si. Uma das possíveis explicações para essa visão positiva do regime é a de que essas inovações na cidade, bem como a sua própria incorporação à Área de Segurança Nacional, diminuíram em parte o sentimento de cidade esquecida que vigorava até então, trazendo uma nova maneira de se portar frente aos estrangeiros. E a porta- voz dessa nova maneira de se perceber era a única emissora de rádio da cidade de Quaraí, a Rádio Quaraí AM. Os interesses do Estado brasileiro eram divulgados na época principalmente pela Hora do Brasil. Segundo Silveira e Adamczuk (2004), era durante esse espaço que o governo divulgava as suas ações políticas e obras realizadas. Segundo Jorge Alberto Lamb Japur, na época a emissora transmitia a Hora do Brasil tentando sintonizar alguma emissora próxima em um pequeno receptor de rádio. Colocando-o na frente do microfone, era assim que a emissora veiculava o programa até a última década. A Hora do Brasil, que em 1971 passou a

55

Nesse período era prefeito de Quaraí Heraclides Santa Helena. Ele foi u m dos interventores designados pelo governo militar para governar a cidade. Du rante o seu governo aconteceram importantes avanços estruturais na cidade, como a chegada da energia elétrica ao mun icíp io em tempo integral a partir de 1965, bem co mo a inauguração da Ponte Internacional da Concórdia, em 1968. Tendo ocupado por 12 anos o governo da cidade, nos seus contos regionalistas, alguns dos quais aparentemente de caráter autobiográfico, apresenta -nos interessantes pensamentos acerca da política: “há muita ingratidão, muita canseira e nela muito se perde, nada se ganha e, de repente, tudo se transforma”. Trecho extraído de SANTA HELENA, Heraclides. Onze Braças de Campo e Algumas Sobras. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1982, p. 61. 56 Uma curiosidade ao entrar na discoteca da emissora é encontrar alguns discos de vinil co m faixas riscadas. Segundo os funcionários da emissora, isso acontecia por ordem de Jorge Japur.

50 se chamar a Voz do Brasil por determinação do presidente Emílio Garrastazu Médici 57 , foi aparentemente a primeira prática que vinculava a emissora localizada em um dos extremos do país ao seu Estado-nação de fato. Ferraretto rememora ainda o Projeto Minerva, que nos anos 70 foi uma tentativa do governo militar de utilizar os meios de comunicação com fins educacionais.
O uso educacional dos meios de co municação insere-se em u ma visão tecnicista da ditadura em que pontificam expressões como tecnologias de ensino, instrução programada, máquina de ensinar, educação via satélite e teleensino. Neste contexto de um processo pedagógico voltado apenas a instrumentalizar o indivíduo para o trabalho, sem refletir crit icamente sobre a realidade, o governo determina horários obrigatórios para a transmissão de programas educativos. (FERRARETTO, 2007, p. 162)

Jorge Alberto Lamb Japur recorda que os programas do Projeto Minerva chegavam à Rádio Quaraí em fitas gravadas, e eram veiculados na emissora depois da Voz do Brasil. Apesar do objetivo do projeto ser diferente e o seu conteúdo não possuir o mesmo caráter da Voz do Brasil, ele foi mais um dos projetos outorgados pelos militares que realçava a pertença da emissora ao Estado-brasileiro. O entrevistado recorda também de outro serviço que desde antes de 1964 já existia, que era o ZZP-2. O Centro de Controle de Emissões Radiofônicas e Radielétricas de São Paulo, prefixo ZZP-2, era um órgão ligado aos Correios e Telégrafos que tinha por fim fiscalizar as emissoras do país com o objetivo de verificar se elas operavam na freqüência correta. De acordo com o entrevistado, chegava um telegrama à emissora alguns dias antes da aferição. O telegrama avisava o dia e o horário em que o ZZP-2 entraria em contato pelo ar. Normalmente isso ocorria de madrugada. Nesse período algum locutor da emissora deveria ficar no estúdio para responder aos chamados do ZZP-258 . Do lado uruguaio as políticas nacionalistas também ganharam consistência depois que o presidente Juan María Bordaberry apoiou os militares em um golpe de estado em 1973, sob a alegação de que a crise econômica e social pela qual o Uruguai passava era causada por grupos armados que atuavam no país. Assim que o regime militar foi instituído no país, Barrios y Pugliese (2004) afirmam que se iniciou também uma campanha contra o uso do português nas fronteiras (e de quaisquer dialetos originados pela mescla deste com o espanhol, como o portunhol).
57 58

SANTA RNECCHI, 2004. Escassa é a bibliografia sobre o tema. As poucas informações disponíveis para comp lementar as lemb ranças dos nossos entrevistados estão em sites dedicados ao rádio no Brasil. Cf. CAROS OUVINTES. Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia. Florianópolis, 2005. Disponível em: <http://www.carosouvintes.org.br/blog/>. Acesso em: 14 nov. 2009.

51 No seu trabalho as autoras pesquisaram diversos periódicos do Uruguai com o objetivo de explicar qual era a política lingüística do país durante o regime militar. Segundo elas, o discurso xenófobo atacou de um modo geral qualquer forma estrangeira, mas foi mais centrada no português, como demonstra este trecho extraído do diário El País, de 03.07.1979:
[…] la falta de pureza del idioma español (¿o castellano?) en los puntos linderos con el Brasil, alimentada por el vasto material disponible en las mencionadas zonas que incluyen televisión, radio, revistas y periódicos, han determinado una reacción de nuestra parte a favor de la lengua que hablamos y que es la oficialmente nuestra (BA RRIOS Y PUGLIESE, 2004)

Segundo as autoras esse projeto de purificação do espanhol não obteve o sucesso esperado nas zonas fronteiriças:

Esta política lingüística demostró ser particularmente eficaz en el caso de las lenguas migratorias (ya en franco retroceso), pero tortuosamente instrumentable en las localidades fronterizas. Aunque el español ha avanzado en esa región, el portugués sigue vital en su variedad dialectal de “portuñol” (BA RRIOS Y PUGLIESE, 2004)

Toti Borgato, professora no Uruguai, recria o contexto descrito com suas lembranças : “en esa época había niños que hablaban las dos lenguas, y sabéis que la tendencia es hablar como vos escribís”. A entrevistada comenta que há diversas palavras no português e no espanhol que possuem o mesmo significado com pronúncia parecida. “Pero cuando necesitaba escribirlas, yo cambiaba la „i‟ por la „e‟, por ejemplo”, comenta Toti. De acordo com a entrevistada, no Uruguai proibiu-se o uso do português nas escolas durante parte da ditadura militar uruguaia. Barrios y Pugliese (2004) comentam que em 1979 o governo uruguaio realizou um curso de aperfeiçoamento docente para professores do idio ma espanhol nos departamentos limítrofes com o Brasil. Supõe-se com isso que até os professores das escolas fronteiriças, por estarem em um contexto misto, possuíam costumes híbridos que se refletiam na própria fala. Segundo a sua pesquisa, as autoras descobriram ainda que os grandes vilões do problema fronteiriço – para o governo uruguaio e para alguns usuários comuns da língua – eram os veículos de comunicação da fronteira (não só brasileiros, mas também uruguaios pelo costume de admitir brasileiros em sua programação), como nos mostra esta carta do leitor presente no diário El País de 27.11.79:

Quiere decir que a cambio de dineros por pago de publicidad [en portugués] se realiza el atropello contra el idioma y las buenas costumbres. Habría que poner

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coto a eso simplemente prohibiendo la difusión de propaganda escrita en un idioma no nacional (BA RRIOS y PUGLIESE, 2004)

Para as políticas ufanistas dos regimes militares de Brasil e Uruguai, esse tipo de disfunção lingüística era considerada uma deturpação dos seus idiomas oficiais. Como se sabe, longe de ser uma disfunção ou uma deturpação do idioma, trata-se antes do processo de hibridização que séculos de convivência outorgaram à região. Esse processo vai, inclusive, muito além da língua, refletindo-se no próprio modo de ser do fronteiriço, no modus operandi da fronteira. Os meios de comunicação, por sua vez, contribuem na manutenção desse processo. De acordo com Jorge Alberto Lamb Japur, “nunca deixaram de participar uruguaios na rádio”, mesmo durante o período ditatorial em que havia restrições quanto à participação de estrangeiros nos veículos de comunicação nacionais. “Eles não podiam trabalhar aqui, mas nada impedia que viessem como convidados, ou que pedissem músicas, ou avisos”, explica Jorge Alberto. De forma semelhante atuaram as rádios uruguaias. Além disso, brasileiros e uruguaios da fronteira compartilham uma mesma raiz cultural, que é a do gauchismo. Nesse aspecto, qualquer emissora que trabalhasse com elementos dessa cultura atrairia quaisquer fronteiriços, independente da nacionalidade. A programação da Rádio Quaraí já era nessa época boa parte voltada a essa cultura, o que ocasionou, provavelmente, o fracasso das políticas instituídas na fronteira de resguardo da nacionalidade de origem. “Para nós esse tipo de proibição não fazia sentido”, explica Jorge Alberto. A análise da atuação da emissora durante esse período serve como base para que se possa especular sobre a necessidade de se conhecer a realidade de populações híbridas antes de se instituírem leis ou programas arbitrários nessas localidades, como no caso das fronteiras nacionais. Caso isso não aconteça, corre-se o risco do modus operandi fronteiriço tornar as políticas voltadas a essa região inviáveis e/ou inoperantes. Além disso, o exemplo realça a importância das cidades limítrofes para o Estado-nação ao qual fazem parte. Silveira e Adamczuk (2004, p. 19) já haviam pesquisado sobre essa questão, quando descreveram o modo como o rádio de fronteira era visto na era Vargas, como uma “cortina sonora de proteção e alerta contra uma possível invasão cultural e de resguardo à cultura nacional”. O curioso é que o fracasso dessas ações não se dá por ser a fronteira uma zona onde florescem ilegalidades, como habitualmente a mídia dos grandes centros a representa 59 . É
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Durante o segundo semestre de 2009 o autor desta monografia trabalhou como bolsista CNPq do projeto “Brasil, mostra a tua cara. A ambivalência de fronteiras e favelas na cobertura jornalística sobre as periferias”. O projeto em andamento, coordenado pela Profª. Drª. Ada Cristina Machado Silveira, do Departamento de Ciências

53 possível que apenas não se esteja atentando para as suas especificidades sócio-culturais. Independente da resposta, o fracasso de políticas voltadas a essas regiões trazem à tona um problema ainda maior, a saber: a dificuldade do povo brasileiro em lidar com as suas diferenças internas, reflexo de um problemático processo de integração nacional 60 . Este capítulo analisou alguns dos vínculos estabelecidos pela Rádio Quaraí AM com a comunidade local e também com as políticas estabelecidas pelo Estado-nação ao qual faz parte. Cabe ressaltar, no entanto, que foram analisados até aqui dados recolhidos de documentos e depoimentos relacionados à história da emissora, ou seja, de informações cujas influências não sofrem mais o fluxo dos acontecimentos (a não ser, é claro, do tempo, já que ele atua na memória das pessoas que forneceram importantes informações para esta pesquisa). No próximo capítulo investigar-se-á a emissora do presente, bem como as suas expectativas para o futuro.

2.3 RÁDIO QUARAÍ AM E FRONTEIRA: A EMISSORA E O FUTURO

Antes de se falar sobre a Rádio Quaraí AM segundo o rumo que o título deste capítulo propõe, é razoável que se faça uma breve explanação a respeito de algumas transformações pelas quais o rádio brasileiro passou nas últimas décadas. Isso porque se supõe que rádios de pequeno porte, como a emissora estudada nesta pesquisa, também são influenciadas, de certo modo, por essas mudanças (se a influência é positiva ou negativa, tratar-se-á dessa questão até o final do capítulo). Ferraretto (2007) denomina como decadente o período compreendido entre os anos de 1955 a 1970 em relação ao rádio nacional. Segundo o autor, diversos fatores foram preponderantes para que o rádio sofresse transformações, como o surgimento da televisão e a conseqüente perda de publicidade para ela, a euforia em relação a novas tecnologias no ramo da comunicação, as turbulências políticas que revolucionaram o país, dentre outros. Esses eventos retiraram do rádio a aura romântica que fazia, outrora, parte das suas atividades. No fim dos anos 70 o Brasil entra em um processo de abertura política. “A efervescência política chama a atenção do público e a informação ganha destaque na

da Comunicação da UFSM, recolheu matérias jornalísticas dos periódicos de circulação nacional Isto É e Época relacionadas às periferias nacionais, entre o período compreendido de janeiro de 2006 a dezembro de 2007. Apesar de o projeto estar na fase inicial e não haver ainda conclusões definitivas, dados preliminares sugerem que há generalizações nocivas na cobertura jornalística dessas periferias. 60 Cf. SILVA, 2009.

54 programação das rádios”61 . Essas mudanças contextuais, aliadas às inovações tecnológicas que vão ao mesmo tempo acontecendo no ramo da comunicação levam a uma reestruturação do rádio no Brasil – sendo o fortalecimento do processo de segmentação, bem como a disseminação das redes via satélite conseqüências dessas inovações. A segmentação significa, segundo Ferraretto (2007, p. 52): “oferecer um serviço com destinatário definido, buscando também anunciantes adequados a estes ouvintes específicos”. É exemplo desse processo o aparecimento de emissoras com programação exclusivamente jornalística, de rádios voltadas para o público jovem, ou ainda de emissoras comunitárias. O que aconteceu com as rádios AM a partir da consolidação das emissoras FM no país também é exemplo desse processo:

No final da década de 70, co m a consolidação comercial da freqüência modulada, co meça u m processo crescente de divisão entre as emissoras musicais que exploravam a qualidade de som da FM e as rádios AM cuja programação girava em torno do jornalismo, do esporte ou do serviço (FERRA RETTO, 2007, p. 168)

O aparecimento das redes via satélite na década de 80, por sua vez, também ocasionou transformações ao rádio, principalmente relacionadas à estrutura organizacional das emissoras. Essas redes começam a unir as grandes emissoras das capitais às pequenas emissoras do interior (sendo o modo como isso se dá nem sempre harmonioso). As primeiras, ampliando a sua cobertura com o auxílio das pequenas emissoras (aumentando, em tese, o seu faturamento); as rádios do interior, por sua vez, sem muitas perspectivas e muitas vezes alheias a esse processo de reestruturação começam a depender cada vez mais dessas redes, seja tentando aumentar o seu faturamento, seja com o objetivo de taparem buracos nas suas programações. Essa estrutura, cada vez mais complexa, exige uma organização não menos complexa que a gerencie, e também administre os recursos produzidos por ela. Essa estrutura complexa modifica a maneira como se dá a relação dos meios de comunicação com a sociedade, bem como a relação da sociedade com os meios de comunicação 62 . Motta (2005) diz que o paradigma sociocêntrico representa de maneira
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FERRARETTO, 2007, p. 165. A mudança na relação da sociedade com os meios de comunicação é um fenômeno mais recente, pelo menos em algu mas pesquisas em co municação. O professor da Universidade de São Paulo (USP), prof. Dr. Manuel Carlos Chaparro, chama a atenção para o poder que a fonte possui nos dias de hoje em co mparação às últimas décadas. A Revolução das Fontes, expressão usada pelo professor, teve como uma das suas causas as inovações tecnológicas do meio co municacional. De acordo com o prof. Chaparro: “Apesa r de desprezadas pela cultura arrogante dos manuais de redação, as fontes se organizaram, adquiriram co mpetência, poder e querer, transformando o jornalismo no espaço público das suas ações discursivas” CHAPA RRO, C. M. Quarta revolução, a das fontes. Disponível em: <http://www.eca.usp.br/pjbr/arquivos/comentarios_mural8.ht m> Acesso em: 25 nov. 2009.

55 menos ingênua essa perspectiva. Na relação entre os meios de comunicação e a sociedade, o jornalismo passa a ser “um espaço de disputa onde prevalecem os interesses dos grupos hegemônicos (como não poderia deixar de ser), mas é um espaço passível de conquistas, que cede e negocia continuamente” (2005, p. 11). O autor completa:
Nesse paradigma a sociedade é formada por classes, frações de classe, grupos organizados, mov imentos sociais com graus de organização, de enfrentamento e de articulação diversos, capazes de romper as barreiras políticas e de tornar visíveis suas bandeiras no interior do jornalismo conservador. O paradigma é inteiramente outro, menos ingênuo, mais realista, capaz de captar as nuances da cultura política (2005, p. 11-2)

Segundo o paradigma sociocêntrico de Motta, os meios de comunicação passam a ser entendidos pelo viés empresarial. Longe de eles serem um aparato ideológico

homogeneizador da cultura e do pensamento, eles são vistos como grupos organizados no meio de tantos outros constituintes de uma sociedade civil. Como tal, possuem interesses que são negociados na relação com outros grupos. As emissoras de rádio do país seguiram a tendência e também se estruturaram/estão se estruturando como podem a essa nova ordem, sendo que normalmente essas mudanças começam nas grandes zonas metropolitanas do país, e gradativamente vão atingindo o interior, até, por fim, chegar às suas periferias. Em nível de curiosidade, cabe ressaltar que ao entender os veículos de comunicação desse modo aumentou-se a descrença na possibilidade de um jornalismo genuinamente imparcial e livre de interesses, pelo menos por parte de comunicólogos e alguns jornalistas. A resultante da dicotomia interesses comerciais–práticas comunicacionais passa a representar as escolhas tomadas pelos veículos de comunicação na atualidade 63 . Ainda tratando-se das idéias de Motta, cabe ressaltar que apesar do autor se referir ao jornalismo especificamente, parece razoável que qualquer produção realizada por um veículo de comunicação possa servir como moeda de troca na sua relação com a sociedade. Isso porque uma das hipóteses a respeito da origem da credibilidade de um veículo de comunicação é a capacidade de ele exercer uma comunicação de proximidade eficaz, pelo menos no caso das emissoras locais. Segundo Vasques (2005, p. 9): “essa forma de abordar o rádio comercial local tem como sua pedra fundamental o conceito da proximidade entre a rádio e o seu ouvinte”. Apoiando-se em diversos pesquisadores, a autora comenta que para se chegar ao conceito de proximidade, duas categorias devem ser observadas: a geográfica e a

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O jargão do jornalismo imparcial que tem como único interesse o bem da comunidade passou a ser trabalhado pelos veículos de comunicação como estratégia para dar credibilidade à sua produção, e conseqüentemente atrair mais consumidores. É claro que isso não significa que não existe mais jornalis mo responsável.

56 cultural. É na presença das duas categorias, ou pelo menos de uma delas, que se pode falar do rádio como próximo ao seu ouvinte. A idéia básica é a de que se uma emissora local consegue desempenhar de forma eficaz uma comunicação de proximidade, terá credibilidade, independente de se o material produzido por ela for jornalístico ou não. Isso não quer dizer, no entanto, que o jornalismo não seja um dos principais elementos para que se possa desempenhar de forma eficaz uma comunicação de proximidade.
A força do jornalismo numa emissora de rádio local é o instrumento que dá a ela a sensação de ser verdadeiramente local. Estações de rádio locais que querem atingir grande audiência e ignoram o jornalis mo correm riscos. Nu m mercado cada vez mais disputado, o jornalismo é u ma das poucas coisas que distinguem as emissoras locais de todas as outras. Afinal, notícias obtidas na esquina são tão ou mais importantes do que as recebidas de outras partes do mundo (CHANTLER apud VA SQUES, 2005, p. 9)

A discussão a respeito de até que ponto a credibilidade de uma emissora local depende do jornalismo que ela pratica reside no seguinte questionamento: até que ponto uma emissora da fronteira oeste do Rio Grande do Sul consegue fazer jornalismo de fato? Seguindo o exemplo do nosso caso estudado, bem como a análise de outras pesquisas que tem o rádio de fronteira como objetos de estudo, é possível fazer algumas observações. A própria análise do caso estudado por esta pesquisa sustenta a idéia de que é possível uma rádio local ter credibilidade sem desempenhar jornalismo strictu sensu 64 . Segundo pesquisa feita através de telemarketing ativo no estado do RS realizada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Opinião Pública (INBRAP), a Rádio Quaraí AM atingiu, em 2005, a marca de 98% de reconhecimento da sua marca. Segundo o diretor da emissora, Jorge Alberto Lamb Japur, essa marca pode ter sido atingida por diversos fatores, como a prestação de serviço, que desde a sua fundação é uma das suas características, ou ainda pelas informações locais veiculadas – nem sempre organizadas jornalisticamente, ou também pelos diversos programas de gêneros variados que compõem a sua grade de programação. Vasques (2005, p. 6) destaca: “Em tese, as emissoras de rádio organizadas possuem seu departamento de jornalismo organizado”. Isso pressupõe uma estrutura física mínima e
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Tem-se consciência que os estudos sobre comunicação divergem a respeito dos valores que constituem a prática jornalística. A este escrito não cabe discorrer sobre essas questões, já que esse não é o objetivo do trabalho. Cabe ressaltar, no entanto, que se adotaram as concepções de Traquina (2004) sobre a distinção entre informação e opinião na prática jornalística atual, bem co mo as noções de objetividade e imparcialidade discutidas em Tuchman (1999). Acredita-se que tais valores estão impregnados na prática jornalística nacional, e por isso o conceito de jornalismo usado neste trabalho contempla esses valores. Se eles são bons ou ruins, se estão certos ou errados, não cabe a este escrito julgar. No caso específico do radiojornalismo, adotamos orientações presentes em Ferretto (2007) e Prado (1989).

57 principalmente uma equipe qualificada. Ao falar sobre os recursos humanos que uma emissora organizada deve dispor para fazer jornalismo, Vasques enumera: “há a necessidade de uma equipe constituída por profissionais como, jornalista responsável, redator, repórter, locutor noticiarista, que dominem a linguagem jornalística” (2005, p. 6). A esse respeito, Jorge Alberto, que é graduado em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), comenta: “eu me sinto de certa forma frustrado por não poder aplicar direito aquilo que aprendi na faculdade”, fazendo referência à falta de recursos físicos e humanos que caracterizam o seu contexto. Ele ainda completa:
Temos ótimos comunicadores, sem dúvida, mas são poucos em número e não temos condições financeiras de contratar mais. Além disso, mais da metade desses que estão conosco não é qualificada para tratar as informações que chegam a eles com a responsabilidade que a atividade jornalística exige. Para a rádio que abre às 6h e fecha à meia-noite, temos u m repórter policial, u m repórter geral e u m apresentador. Além desses temos um apresentador para o informat ivo rural que vai ao ar aos sábados. E só. Mas isso não quer dizer que não tenhamos credibilidade. Prova disso é que há 52 anos estamos no ar.

Apesar deste escrito não pretender analisar especificamente a prática do jornalismo em rádios da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, vale a pena destacar sucintamente o modo como pesquisas sobre o tema costumam representá- la. Habitualmente elas buscam elementos jornalísticos nas suas práticas primárias (para não dizer rudimentares). Zamin (2008), ao analisar a prática jornalística de emissoras comunitárias das cidades de Uruguaiana e Santana do Livramento (fronteira com Paso de Los Libres-ARG e Rivera-URU, respectivamente), constata que as pessoas responsáveis pelos programas jornalísticos analisados carregam, por vezes, a função de pauteiro- locutor-apresentador-entrevistador-operador-comentarista. Um “faz tudo”, segundo Zamin (2008, p. 95). As informações jornalísticas locais veiculadas nesses casos, em que se embaralham fatos com comentários pessoais carregados de achismos imprecisos, é um retrato pungente de como as emissoras dessas localidades trabalham em más condições (por mais que esses funcionários possam não acreditar nisso, achando que o fato de acumular funções é prova da sua capacidade individual 65 ). Esse contexto ilustra pelo menos duas coisas: (1°) graves problemas estruturais cujas causas deveriam ser pesquisadas no caso de se desejar melhorar esse quadro; (2°) falta de preparo dos profissionais que atuam no meio, já que os municípios dessas localidades não captam a mão de obra formada nos principais

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Segundo um dos repórteres da Rádio Quaraí AM, “nem em rád io grande conseguem fazer isso!”.

58 centros de ensino do estado 66 . Por sua vez, os que ficam herdam a maneira informal de agir comentada na seção 2.2. Voltando à questão das transformações contextuais sofridas pelo rádio nacional nas últimas décadas, esse processo foi imbuído de incertezas a respeito de quais mudanças seriam mais benéficas ou nocivas nesse percurso (na atualidade existem outras incertezas, como as discussões sobre o rádio digital e também sobre o futuro das emissoras AM). Emissoras outrora importantes passam por dificuldades na nova ordem, e outras ganham importância 67 . Outras ainda ficaram alheias a essas a essas mudanças até o final da década de 90, sendo que as rádios do interior do Rio Grande do Sul estão, em parte, nessa categoria. Além disso, pesquisas acadêmicas sugerem que a legislação que regula os o funcionamento dos meios de comunicação não acompanhou os avanços organizacionais e tecnológicos experimentados por eles. Tais estudos apontam para o fato de que ela possui brechas que permitem uma série de abusos, como o coronelismo eletrônico, por exemplo. A expressão, utilizada por Lima (2008), refere-se à posse de veículos de comunicação por parte de políticos, principalmente de emissoras de rádio. Segundo o autor,
O coronelismo eletrônico é uma prática antidemocrática com profundas raízes históricas na política brasileira que perpassa diferentes governos e partidos políticos. Através dela se reforçam os vínculos históricos que sempre existiram entre as emissoras de rádio e televisão e as oligarquias políticas locais e regionais, e aumentam as possibilidades de que um número cada vez maior de concessionários de radiodifusão e/ou seus representantes diretos se elejam para cargos políticos, especialmente co mo deputados e/ou senadores. [...] O Congresso é a última instância de poder onde são outorgadas e renovadas as concessões desse serviço público e, mais que isso, aprovadas as leis que regem o setor. Por isso mesmo, a continuidade do coronelismo eletrônico se constitui num dos principais obstáculos à efetiva democratização das comunicações no país . (LIMA apud PINTO, 2009, p. 8)

Cozer (2009) alerta para o fato de que não são apenas políticos que usufruem de brechas na legislação para obter concessões. Ao estudar o oligopólio no sistema de radiodifusão de Santa Catarina, a autora atenta para o fato de quatro famílias possuírem emissoras de rádio em mais de 40% dos municípios do estado. Segundo ela, “se brechas legais permitem que políticos sejam donos de meios de radiodifusão, há também fatores que

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Co mo Quaraí não possui centros de ensino superior, a tendência é a de que jovens com o secundário completo saiam da cidade para estudar em centros de ensino superior de outras cidades do estado. Rara é a volta desses jovens a Quaraí depois que os seus estudos estão completos. Semelhante é o destino dos jovens das outras cidades da fronteira do Rio Grande do Sul. Em longo prazo, é possível que esse quadro seja alterado pelo aparecimento de novas instituições de ensino superior nos últimos anos na região. 67 Ferretto (2007) exemplifica esse período no Rio Grande do Sul co mentando a redução da influência da Emp resa Jornalística Caldas Júnior e a amp liação da Rede Brasil Su l (RBS).

59 favorecem a formação das chamadas empresas familiares no Brasil” 68 . Na seqüência é explicado o modo como isso é possível:
A não obrigatoriedade de divulgação dos verdadeiros concessionários, que contraria u ma necessária transparência no setor, é um deles. O decreto -lei 236 de 1967 permite a concessão de apenas duas TVs por estado para cada pessoa física. No entanto, há uma estratégia que possibilita às famílias aumentar seu poder, ao distribuir as concessões entre parentes – desta maneira, quanto maior a família, maior poderá ser o patrimôn io dela. Cada um dos acionistas permanece dentro da lei, mes mo quando o veículo de comunicação não seja dirigido, de fato, por eles. (COZER, 2009, p. 8)

Christofoletti (2008) diz que a acumulação e a concentração de recursos no setor da comunicação aconteceram (e ainda acontecem) não só pelo número de fusões e aquisições ocorridas, “mas também pelas condições pré-existentes no país que facilitavam o crescimento de grupos já estabelecidos”69 . Segundo o autor, há na legislação que regulamenta os veículos de comunicação brasileiros lacunas e ambigüidades que não estabelecem limites claros à propriedade cruzada, e também “um sistema promíscuo de distribuição de concessões de rádio e TV – aproximando (e confundindo) perigosamente as figuras de legisladores e proprietários” (2008, p. 3). Ferraretto (2007) acrescenta outro fenômeno ocorrido a partir da década de 80, que é a busca de emissoras de rádio por seitas e igrejas que vêem nelas um instrumento para difundir seu projeto espiritual. Segundo o autor, um exemplo da presença de seitas e igrejas na radiodifusão é a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada em 1977:
No mes mo ano, com o dinheiro doado por uma devota, são alugados dez minutos diários na Rádio Metropolitana, do Rio de Janeiro. No final da década de 70, a pregação eletrônica já se estende por duas horas. Na mesma época, outro programa similar co meça a ser transmit ido na Rádio Cacique, de Santo André (SP). Em 1982, a Igreja passa a alugar espaço em rádios baianas, acabando por arrendar uma emissora em Salvador. Dois anos depois, a Universal compra a sua primeira rádio, a Copacabana, no Rio. Desde então, os investimentos em comunicação não param (FERRA RETTO, 2007, p. 183)

Para o autor um dado preocupante sobre o avanço das igrejas no setor das telecomunicações é o perigo de que se perca o caráter aberto e pluralista da mídia, especialmente do rádio. Segundo ele, uma de cada sete emissoras de rádio do país está vinculada a uma igreja. No caso da Rádio Quaraí AM, atualmente elas contribuem com o orçamento da emissora na medida em que alugam espaços para reproduzirem programas próprios. Segundo o diretor da emissora, Jorge Alberto Lamb Japur, hoje em dia elas ocupam
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COZER, 2009, p. 8 CHRISTOFOLETTI, 2008, p. 2.

60 principalmente horários do domingo, já que são igrejas locais de pequeno porte, e o horário nesse dia é mais barato. A cidade de Artigas é vista pelas igrejas de Quaraí como um nicho em potencial para as suas atividades, já que os convites de fé para a participação em cultos e em eventos estendem-se aos dois lados da fronteira, às vezes em portunhol, às vezes em português 70 . Essa condição fronteiriça, que aparentemente poderia atrair mais os olhares cobiçosos de grupos religiosos com condições de adquirir pequenas emissoras de rádio não parece realmente atraílas. Segundo Jorge Alberto Lamb Japur,
Pelas experiências anteriores que tivemos em relação às igrejas de grande porte, consolidadas, dá para perceber que elas não querem pequenas emissoras como a nossa, de 1 kW. No máximo colocam algu m programa por algu m tempo para sondar a receptividade que elas têm no local. Além disso, pela sua estrutura elas podem cru zar as fronteiras do país sem necessitar do nosso auxílio, co mo é o caso da Igreja Universal, que já atua no Uruguai. A não ser, é claro, se elas descobrem que há alguma emissora ruim das pernas a ponto de se fundir, o que não é difícil de achar. Aí o assunto muda. No entanto, quem realmente já nos procurou tentando comprar a emissora por valores irrisórios foram políticos. Esses sim estão sempre à espreita.

Após as sucintas considerações feitas a respeito das transformações ocorridas com o rádio nas últimas décadas, passa-se agora a tratar especificamente da Rádio Quaraí AM. Localizada em uma periferia nacional, especificamente na fronteira Quaraí-Artigas, mesmo com as transformações contextuais descritas a emissora continuou atuando até a década de 90 sob aquela informalidade que fazia parte das suas relações na década de 50 e 60. Sobre a questão, Ponte, ao entrevistar o hoje falecido fundador da emissora, Jorge Japur, afirma:
Quanto ao caráter comercial da emissora, ela não tinha uma estrutura publicitária. Tudo era feito de maneira o mais informal possível. O patrocinador pagava uma taxa não muito alta e ainda tinha a vantagem de saldá -la quando quisesse, como afirma o ex-d iretor da rádio Jorge Japur. Os anos que se seguiram continuaram da mes ma fo rma (2000, p.22)

O contexto descrito na seção 2.2, relativo ao período de fundação da emissora e dos seus primeiros anos de atividade, era propício para que ela trabalhasse de maneira informal, afinal, além de o rádio ser uma novidade naquele local, a própria fronteira e o modo de ser do fronteiriço contribuíam para isso. Fundada nesse contexto ela desfrutava, além disso, de prestígio por ser a única emissora da fronteira. Após a criação das primeiras emissoras de rádio em Artigas, continuou sendo a única emissora de Quaraí 71 . Segundo a viúva de Jorge
70

Uma das igrejas que anuncia na emissora já possui atividades consolidadas em boa parte do norte do Uruguai, com temp los em pelo menos dois departamentos. 71 Ainda hoje é a única emissora AM de Quaraí.

61 Japur, Izar Teixeira Lamb, o retorno financeiro era algo natural na época da fundação da emissora: “não havia preocupação com o dinheiro... o Jorge fazia o que gostava e o retorno vinha ao natural”, comenta dona Izar. Com o passar dos anos, no entanto, o modo informal de ser acarretou, dentre outras coisas, dificuldades de transição aos moldes de rádio moderno/rádio empresa que o passar dos anos, bem como o exemplo das grandes emissoras do centro do país, outorgou ao rádio. Além disso, mudanças locais também alteraram a forma como a comunidade percebia a emissora. Sobre esse aspecto, podem-se destacar as seguintes características a partir dos depoimentos recolhidos e pelos documentos acessados por esta pesquisa : (1°) O fascínio existente na época de descobrimento do rádio na fronteira passou. Ou seja, a facilidade com que o retorno financeiro era atingido, como disse Izar Teixeira Lamb, acabou; (2°) Apesar de o contexto ter mudado, o modo como a emissora trabalhava não foi alterado. Jorge Alberto Lamb Japur explica que apesar de popular e líder de audiência antes de 1996 (ano em que assumiu a direção), a rádio sofria com a falta de profissionalismo da direção e dos empregados. Segundo ele, “a emissora era tratada como objeto de poder e vaidades pessoais”. Feita sem jornalismo qualificado e se limitando à radioescuta das emissoras do centro do país, bem como à programação musical; (3°) Os avanços tecnológicos na área da comunicação, e principalmente a facilidade de acesso a pequenos transmissores gerou na fronteira um boom de emissoras clandestinas que competem com as emissoras homologadas vendendo propagandas por preços irrisórios. Isso principalmente no lado uruguaio onde o combate às emissoras clandestinas não é tão eficaz como no Brasil; (4°) O fato de não haverem políticas no meio radiofônico que considerem as dificuldades do meio fronteiriço e a alta carga tributária que não contempla as especificidades de emissoras de rádio de pequeno porte como a Rádio Quaraí AM. Ponte, ao analisar as radionovelas produzidas pela Rádio Quaraí AM, fez um pequeno levantamento histórico sobre a emissora. Nele a autora já atentava para mudanças operacionais a partir de 1996:

Está quase toda informat izada. A inserção de informes comerciais e noticiosos (da Rádio Nacional) e a gravação de alguns programas em co mputador fizeram co m que ela perdesse um pouco daquele caráter informal (2000, p. 24)

Em entrevista concedida a Ponte, o ex-diretor Jorge Japur, hoje falecido, diz que “desapareceu da rádio o trabalho comunitário” (2000, p. 24). No mesmo trabalho, a

62 historiadora local Diva Simões comenta que “ela [a emissora] perdeu a sua função na cidade, já que não se integra mais com ela” 72 . Nota-se que tais colocações referem-se à impossibilidade de se manter o caráter informal nas relações da emissora com a sociedade cujos reflexos se mantiveram até o fim da década de 90. Nessa visão, não se integrar com a comunidade significaria, antes, não ser informal no trato, ou em outras palavras, não se deixar levar pelo coração. De certa forma, isso lembra aspectos do conceito de homem cordial descrito por Holanda (1995), que descreve alguém que não vê distinção entre o privado e o público, que transplanta para a vida pública os valores compartilhados pela família, porque se guia antes pela emoção do que pela a razão 73 . O atraso em relação às modificações contextuais do rádio no Brasil, bem como a manutenção das relações informais da emissora (inclusive do seu setor comercial) – destino provavelmente compartilhado por inúmeras emissoras de pequeno porte do país que até hoje temem pelo seu futuro – quase levou a emissora a fechar as suas portas. Segundo Jorge Alberto Lamb Japur, a emissora estava fadada ao encerramento das atividades pela falta de recursos e a falta de seriedade nas relações sócio-econômicas com a população de Quaraí e Artigas 74 . Ao atuar informalmente, a emissora, cuja rentabilidade depende do mercado publicitário, foi, talvez, em parte responsável por propagar a idéia que se tem na fronteira de que propaganda não é fator decisivo na legitimação de uma marca, sendo colocada em segundo plano, por donos de empresas, como um fator de prosperidade de um empreendimento comercial. Segundo Jorge Alberto, “o modo como se dá o comércio na fronteira, mas principalmente o contrabando é responsável por isso”. O diretor não descarta, no entanto, que atuando informalmente por muitos anos a emissora também contribuiu para a construção e a manutenção dessa mentalidade.

72 73

Idem, p. 25. “No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo da nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu amb iente próprio em círcu los fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal. Dentre esses círculos, foi sem dúvida o da família aquele que se exprimiu co m mais força e desenvoltura em nossa sociedade. E u m dos efeitos decisivos da supremacia incontestável, absorvente, do núcleo familiar – a esfera, por excelência dos chamados “contratos primários”, dos laços de sangue e de coração – está em que as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós. Isso ocorre mesmo onde as instituições democráticas, fundadas em princípios neutros e abstratos, pretendem assentar a sociedade em normas antiparticularistas” (HOLANDA, 1995, p. 146) 74 Ainda segundo Jorge Alberto, foi principalmente nesse período de dificuldades que políticos sondaram a emissora com propostas de compra.

63 Segundo o entrevistado, as diferenças cambiais fazem com que uma série de produtos seja mais barato no Brasil, assim como outros sejam mais baratos no Uruguai 75 . “O comércio daqui sabe que os uruguaios naturalmente vêm a Quaraí, e vice- versa, e esse é um dos motivos pelos quais temos dificuldades”, afirma Jorge Alberto. Ele se refere ao fato de que as empresas de Quaraí e Artigas – e de outros locais da fronteira – acreditam que a propaganda não é um fator decisivo na efetivação da sua marca, por conta do modo como se dá o comércio na fronteira. Qualquer tipo de publicidade serve para eles, segundo o diretor. “É uma mentalidade atrasada... A gente compete até com carro de som e alto- falante”, diz Jorge Alberto. Para o entrevistado isso é reflexo do modus operandi do fronteiriço. Na impressão do diretor, desde 2003 o quadro está ligeiramente se modificado nesse quesito, por conta de migrantes que estão chegando à cidade com o intuito de explorar as pedras semipreciosas que são abundantes na região, como a ametista (a exploração ainda está nas fases iniciais); empresários novos que estão tendo a oportunidade de avançar além do curso secundário e ter idéia da importância de investir em sua marca; cursos de qualificação promovidos por instituições que atuam na capacitação de pessoas que atuam na indústria e no comércio (endossadas pela emissora), dentre outros. Está previsto para 2014 a inda a chegada de um Parque Eólico no município, evento que provavelmente contribuirá para que essas modificações continuem. Se um dia a Rádio Quaraí AM auxiliou na manutenção de uma mentalidade atrasada em relação à importância da propaganda na fronteia, hoje em dia as rádios clandestinas no Uruguai tornaram-se as responsáveis por isso. Elas, que em Artigas contabilizam mais de dezessete emissoras, fazem propagandas até de graça para estabelecimentos comerciais de Quaraí e Artigas. Segundo um comerciante uruguaio entrevistado que anuncia em uma delas, “yo pagaba U$ 50 [cinqüenta pesos uruguaios] por semana para tener propaganda de mi almacén en la Sol FM todos los días”. A quantia, que no câmbio atual corresponde a aproximadamente R$ 4,50, é um exemplo dos tipos de absurdos com que rádios da fronteira devem lidar. A problemática é complexa. Em um primeiro momento podemos citar o fato de que enquanto uma emissora legal necessita manter uma tabela de preços mínima para honrar os seus impostos, bem como a manutenção dos seus equipamentos, os custos com os seus
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A Ponte Internacional da Concórdia está diariamente repleta de brasileiros e uruguaios que atravessam a fronteira em busca de produtos. Os uruguaios costumam ir ao Brasil em busca de artigos têxteis, assim como alguns tipos de alimentos, gás, e outros produtos do gênero. Os brasileiros, por sua vez, procuram alguns g êneros alimentícios, como laticínios e carne. Nos free shop uruguaios eles vão a busca de bebidas e equipamentos eletrônicos. Essas, no entanto, são apenas pequenas impressões sobre uma comp lexa rede de comércio estabelecida na fronteira.

64 funcionários, dentre outros, uma emissora clandestina não possui quaisquer compromissos. Sendo assim, o valor que elas cobram não chegam muitas vezes a um sexto do valor de um comercial em uma emissora legal. Em matéria sobre o tema, o jornal A Platéia de Santana do Livramento mostra que a proliferação de rádios clandestinas é comum em toda extensão da fronteira com o Uruguai. O texto ajuda a compreender o problema que também está presente na fronteira Quaraí-Artigas:
A propaganda em rádio, na fronteira, é algo comp letamente incompreensível para quem não vive nas duas cidades irmãs. Para alinhar ao tema da pirataria nas ondas do rádio, pode ser definida em u ma guerra de canhões surdos, com as naus legais quebrando ondas de um mar revolto chamado mercado publicitário. Para o cliente, a questão preço é determinante e raras são as medições de pesquisa de audiência - as quais, obviamente, não contemplam as rádios piratas, pois a lógica indica que sua não formalidade pressupõe inexistência oficial. Na prática, no entanto, não é assim. Por vezes, o cliente anuncia em determinada emissora pirata, a qual é estimu lado a ouvir - “sintoniza, ouve, me diz se gostou e depois a gente conversa” ou “eu vou colocar em tal dia no ar e aí veja se gostou, depois voltamos a falar” - sem saber que se trata de uma rádio não legalizada. A emissora clandestina não tem qualquer obrigação de recolher qualquer tipo de tributo, não tem obrigações trabalhistas, não faz pagamentos, não utiliza áudio legalizado, preferindo músicas pirateadas - e não poderia ser diferente pela sua condição - ao mesmo tempo em que seu sistema, geralmente, é também - co mo virou moda, na atualidade - cópia não autorizada de programas de computador para “gerenciar” a programação que coloca no ar. Claro que Bill Gates nem fica sabendo, assim como os clientes que, por vezes convencidos pela argúcia dos vendedores anunciam, mas o Windows pirata deve rodar muito bem nos sistemas das emissoras não legalizadas 76 .

Para ilustrar a questão, ponha-se o seguinte exemplo: imagine-se o valor relatado pelo comerciante uruguaio que gasta o seu dinheiro em rádios clandestinas. O valor correspondente a U$ 50 (cinqüenta pesos uruguaios), aproximadamente R$ 4,30, lhe dá direito a várias inserções diárias 77 . Como a cobrança é semanal, se gasta ao final de um mês R$ 17,20. A tabela de preços da Rádio Quaraí AM coloca que uma inserção diária, de segunda- feira a sábado, exige um investimento de R$ 180 mensais. O valor cobrado pela emissora clandestina é mais de dez vezes inferior ao valor cobrado pela emissora homologada. Segundo a responsável pelo setor financeiro da emissora, Lilian Teresa Tomás Japur (esposa de Jorge Alberto), é difícil para a emissora manter uma tabela de preços considerando a concorrência desleal. Jorge Alberto Lamb Japur cita um exemplo: “pagamos mensalmente

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PIRATARIA... nas ondas do rádio. A Platéia. Santana do Livramento, 21 e 22 out. 2007. Disponível em: <http://srv3.v-exp ressa.com.br/edicoes/2007/outubro/211007/a2.pdf> Acesso em: 17 nov. 2009. 77 Para o exemplo utilizou-se a cotação do dia 04 dez. 2009 em que 1R$ equivalia U$11,62. Para fazer a conversão recorreu-se ao conversor de moedas disponível no site do Banco Central. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br/> Acesso em: 04 dez. 2009.

65 de ECAD 78 R$ 496 – isso com o desconto. Ainda temos sorte que Quaraí possui aproximadamente 24mil habitantes declarados, daí é mais barato”. O entrevistado comenta que os impostos pagos pela emissora, reunidos, consomem aproximadamente 40% do seu faturamento bruto. Somando despesas com funcionários, manutenção e outras contas, como água, luz e telefone, 80% do faturamento da emissora são consumidos. “É complicado manter a rádio com uma concorrência desleal dessas”, afirma Jorge Alberto. No Brasil, a lei não define o que é uma emissora clandestina. O que ela faz é estabelecer o que é uma emissora legalizada. Toda emissora que não possui amparo legal para funcionar é caracterizada como clandestina, sendo que a competência legal para o combate à clandestinidade é exclusiva da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) 79 . O uso de radiofreqüência sem autorização é tratado pelo Art. 163 da Lei Geral de Telecomunicações (LGT) 80 , e as sanções estão previstas no Art. 173 da mesma lei. Criou-se, no ano de 2008, uma emissora clandestina na cidade de Quaraí, sob a alcunha de Rádio Concórdia. A emissora veiculava o seu material através de link com o transmissor de uma emissora uruguaia homologada, sendo que o seu dono, uruguaio, tinha recebido de Brasília autorização para fazer apenas reportagens externas na cidade de Quaraí. Após denúncia recebida pela ANATEL, a emissora clandestina foi fechada em ação da Polícia Federal, tendo todos os seus equipamentos recolhidos, conforme outorga a lei. No caso das rádios clandestinas que estão do lado uruguaio (sendo que algumas delas têm proprietários brasileiros), a única coisa que a ANATEL pode fazer é informar a situação ao Ministério das Relações Exteriores, para que o Itamaraty repasse as informações à administração do país vizinho, para que ele tome as providências necessárias com base em sua le gislação. No Uruguai, o órgão responsável pela fiscalização das emissoras clandestinas é a Unidad Reguladora de Servicios de Comunicaciones (URSEC). A questão sobre as rádios clandestinas ficou em suspenso enquanto o país reformulava a sua legislação no intento de regulamentar a radiodifusão comunitária. Uma brecha na legislação permitia que muitas

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Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD) é o órgão responsável pela a arrecadação e distribuição dos direitos autorais das obras musicais. O órgão, que no Art. 1° do seu Estatuto afirma não ter fins lucrativos, cobra mensalmente de emissoras de rádio e TV imposto para que estas possam executar músicas nacionais e estrangeiras. No site do ECA D é possível simu lar os valores cobrados às emissoras. Disponível em: http://www.ecad.org.br/. Acesso em: 04 dez. 2009 79 Tornamos públicos os nossos agradecimentos ao engenheiro da ANATEL, Jairo Karnas, que gentilmente nos orientou a respeito da legislação que serve de base no combate a emissoras clandestinas no Brasil. 80 BRASIL. lei n. 9.472, de 16 de julho de 1997. Dispõe sobre a organização dos serviços de telecomunicações, a criação e funcionamento de um órgão regulador e outros aspectos institucionais, nos termos da Emenda Constitucional n° 8, de 1995. Ministério das Comunicações, Brasília, DF, 10 dez. 1996. Disponível em: <http://www.wisetel.co m.br/acoes_de_governo/leis_e_decretos_lei/lei_9472.ht m#LGT > Acesso em: 04 dez. 2009.

66 emissoras clandestinas se defendessem argumentando que eram emissoras comunitárias, e não piratas. Como o país não disponibilizava uma legislação específica para o setor, diversas emissoras se organizaram em associações para forçar o debate, como a Asociación Mundial de Radios Comunitarias Uruguay (AMARC Uruguay). Outras emissoras, no entanto, aproveitaram as brechas da legislação uruguaia para explorarem o serviço de radiodifusão em benefício próprio, causando interferência em emissoras comerciais uruguaias e também em estações brasileiras localizadas na faixa de fronteira 81 . Em 22 de dezembro de 2007 foi aprovada pelo Uruguai a Ley de Radiodifusión Comunitaria, Ley N° 18.232. Desde então o governo está realizando um mapeamento das emissoras que se classificam nessa categoria para regulamentá-las. Até a questão ser concluída, a problemática das rádios piratas está, em parte, em suspenso, pois não é possível saber quais emissoras são comunitárias ou quais operam de maneira ilegal. Além disso, mesmo aprovada há dois anos, a Lei, que tomou como exemplo a legislação brasileira ao ser redigida, tem apresentado algumas inconsistências na prática. Para sanar esses problemas a URSEC realizou em 2009 uma consulta pública sobre a regulamentação da lei de radiodifusão comunitária. É provável que as emissoras clandestinas continuem a se proliferar até que essa problemática seja resolvida pelo país vizinho. Nos quadros a seguir estão destacadas as emissoras homologadas e as clandestinas existentes na fronteira Quaraí- Artigas 82 : Quadro 1: Rádios Homologadas na Fronteira Quaraí (BRA) – Artigas (URU)
Emissora Rádio Quaraí Radio Cuareim La Voz de Artigas Frontera(1) Salamanca Amatista Frontera Viva Acuarius(2) Cidade Quaraí Artigas Artigas Artigas Quaraí Artigas Artigas Artigas Artigas Freqüência 1540 kHz 1270 kHz 1180 kHz 900 kHz 101.3 MHz 90.7 MHz 88.3 MHz 89.5 MHz 94.7 MHz

AM AM AM AM FM FM FM FM FM

(1) Emissora fora do ar por d ificuldades financeiras; (2) Perdeu a concessão, está fora do ar.
81

Segundo mapeamento realizado pela URSEC, havia em 2007 vinte e seis emissoras clandestinas no departamento de Artigas. Nosso mapeamento encontrou 17 só na cidade sede. 82 Mapeamento realizado no dia 15 ago. 2009. Infelizmente não foi possível obter o nome de todas emissoras clandestinas. Algumas dessas rádios não veiculam vinhetas e também não possuem locutores. Equipamento utilizado: Ph ilips CEM 220 CD-PLA YER/TUNER 4x50W.

67 Quadro 2: Rádios Clandestinas na Fronteira Quaraí (BRA) – Artigas (URU)
Emissora Horizonte(1) Amanecer Sol N.i. (2) Don Quijote N.i. N.i. Cosmos(3) Aries N.i. N.i. Alternativa(4) N.i. N.i. (5) N.i. N.i. N.i. Cidade Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Artigas Freqüência 91.3 MHz 92.7 MHz 95.1 MHz 97.1 MHz 98.1 MHz 98.5 MHz 99.1 MHz 100.3 MHz 101.9 MHz 102.3 MHz 102.7 MHz 103.1 MHz 104.3 MHz 105.7 MHz 106.1 MHz 106.9 MHz 107.9 MHz

FM FM FM FM FM FM FM FM FM FM FM FM FM FM FM FM FM

(1) Algu mas das emissoras nomeadas estão tentando a sua regularização. (2) Não identificada. (3) Emissora fora do ar no dia do mapeamento. (4) Emissora clandestina localizada no Uruguai co m proprietário brasileiro. (5) Emissora fora do ar no dia do mapeamento. Segundo a URSEC, é co mu m tais emissoras mudarem a sua freqüência com medo de rastreamentos. No entanto, algumas delas estampam em muros da cidade o nome de suas emissoras. Cf. anexo.

Enquanto isso a Rádio Quaraí AM tenta garantir o seu espaço (e a sua subsistência) investindo na sua credibilidade. Em relação às práticas das rádios clandestinas, Jorge Alberto Lamb Japur diz: “É algo amador, artesanal, eles não têm idéia de público alvo, de como se constrói uma mensagem considerando as potencialidades do meio...”. A emissora, por estar desde 1957 no ar, por ser a única AM da cidade de Quaraí, e também pelas incontáveis campanhas sociais, bem como por ter tido consigo diversos personagens importantes que já passaram pelos seus microfones, possui audiência garantida em quase toda a região da fronteira oeste do Rio Grande do Sul. “Os clientes até chegam a colocar propaganda nessas clandestinas, mas depois de um tempo eles vêem que não tem retorno e recorrem a nós. Depois de um tempo, eles desistem de gastar dinheiro nelas”, diz Jorge Alberto. A emissora mantém o vínculo com a cultura do gauchismo tendo pelo menos 50% da sua programação voltada para o tradicionalismo e o nativismo. Músicas, homenagens e informações culturais são veiculadas para os habitantes dos dois lados da fronteira e conta com a participação de brasileiros e uruguaios. Além disso, as campanhas sociais e o desenvolvimento de informações locais (nem sempre organizadas jornalisticamente, pelas

68 dificuldades estruturais) contribuem para a manutenção dos vínculos da emissora com a esfera local. Além disso, há uma parceria informal entre emissoras de rádio da região que se auxiliam trocando notícias relacionadas às suas cidades. “Com o propósito de servir à comunidade a emissora foi fundada. E mesmo com as transformações que ocorreram, a idéia segue o mesma...”, explica Jorge Alberto. As diversas parcerias da emissora, por sua vez, mantém ao mesmo tempo ela ligada ao seu Estado- nação, servindo como porta voz do estado brasileiro na região. Atualmente a Rádio Quaraí AM tem como parceiras a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a Rádio Nacional, O Grupo Bandeirantes de Comunicação nos esportes 83 , Rádio Agência Senado, Rádio Agência Câmara, Central de Radiojornalismo do Paraná e BBC Brasil, sendo que todas elas fornecem matérias jornalísticas de cunho nacional e/ou regional. Além dessas, a emissora também possui uma parceria internacional com a Rádio Netherlands. A emissora holandesa costuma enviar reportagens em português sobre o Brasil. Além disso, encaminha periodicamente por correio produções próprias que divulgam diferentes culturas ao redor do mundo. Segundo Jorge Alberto Lamb Japur e Izar Teixeira Lamb, promessa de desenvolvimento é a expressão que definia a emissora nos seus primórdios. A fronteira Quaraí-Artigas experimentou nas décadas passadas, contando com o auxílio da Rádio Quaraí AM, avanços em diversos setores, que vão desde estruturais até humanísticos. A integração entre brasileiros e uruguaios foi intensificada, de modo que falar espanhol, português, ou ainda portunhol, era só um detalhe para aqueles homens que, vivendo em conjunto e falando línguas entreveradas, eram iguais no momento em que experimentavam o mesmo sentimento de fascínio frente ao microfone que a partir de então passou a representá-los. Nesse aspecto, as experiências da Rádio Quaraí AM e dos personagens que estiveram envolvidos com ela constituem uma lição para o mundo atual, globalizado, já que a emissora é um exemplo de empreendimento que desde as suas raízes soube encontrar e também explorar características comuns de sujeitos que se diziam diferentes. Mesmo com as transformações contextuais que quase a levaram à falência no início da década de 90, a Rádio Quaraí AM conseguiu manter-se. Isso graças aos investimentos que fez
83

Até o fim do primeiro semestre de 2009 a Rád io Quaraí AM retransmit ia os jogos dos times gaúchos de mais prestígio do Estado, Internacional e Grêmio, com equipe esportiva própria. Era co mu m quaraienses residentes em outras partes do país – que ouviam as jornadas esportivas da emissora pela internet - telefonarem durante os jogos para mandarem um alô para parentes em Quaraí. Co mpunha a equipe esportiva da emissora nomes como Cléber de Oliveira e Jaldemiro Mazzu í, importantes locutores da região que já passaram por emissoras consagradas como a Rádio Guaíba. Por não conseguir na cidade p atrocínio suficiente para cobrir os elevados custos das transmissões, a emissora optou pela parceria co m a Rád io Bandeirantes AM 640 kHz, de Porto Alegre.

69 no intuito de realçar o que, para Jorge Alberto, é o que descreve a emissora no presente: a sua credibilidade. Em um contexto de práticas e costumes híbridos, e muitas vezes alternativos (o que não quer dizer necessariamente ilegais ou de má fé), a emissora continua com o seu trabalho comunitário, informativo e diversional, e graças ao sucesso que tem em trabalhar essas questões na fronteira consegue atrair investidores da cidade local que desejam ter a sua marca associada a essa credibilidade. Isso não significa, no entanto, que o contexto seja favorável. Jorge Alberto comenta:
Temos que trabalhar sozinhos... Além das emissoras clandestinas, nós, emissoras de pequeno porte, não temos representatividade em órgãos como a AGERT 84 . Eles dizem nos representar, mas na verdade nos usam apenas como massa de manobra para representar a eles próprios e às grandes emissoras do estado. Nunca recebemos nenhum tipo de auxílio deles. Eu já desfiliei a rádio de lá, e até hoje eles usam o nosso nome no site deles. O que é mais triste é que o pai [Jorge Japur] foi u m dos seus sócios fundadores. A ABERT 85 , bem, mes mo que possam representar as pequenas emissoras, está muito distante de nós. Só somos filiados ao SindiRádio 86 , que nos proporciona descontos no ECAD. Além d isso, somos explorados por agências de publicidade da capital [Porto Alegre] que dizem nos representar. Certa vez nos ligaram de Porto Alegre, era o gerente de uma rede de farmácias do RS solicitando um comprovante de irradiação, já que, segundo ele, fazíamos propaganda deles aqui na rádio. Nunca recebemos nenhum contato para que isso fosse feito. Ele disse que há três anos pagavam relig iosamente a agência de publicidade que nos representava. A agência embolsava tudo usando o nosso nome.

Até o momento o presente da Rádio Quaraí é positivo, já que ela subsiste, mesmo com as dificuldades geradas pelo contexto descrito. É provável, no entanto, que essa sorte não seja compartilhada por outras emissoras da faixa de fronteira do Rio Grande do Sul. Segundo o diretor, percebe-se isso no momento em que uma emissora de pequeno porte das redondezas é comprada por políticos, por igrejas, ou ainda por grandes conglomerados do ramo da comunicação. O futuro, nesse aspecto, é uma incógnita. As discussões a respeito do Rádio Digital, bem como as incertezas sobre o porvir das emissoras AM no país causam a impressão de que cada vez mais tais emissoras estão por sua conta e risco. O diretor da emissora diz que o futuro da Rádio Quaraí AM será promissor, porque mesmo com todas as adversidades ela consegue subsistir e manter a sua credibilidade na região. Ressalta, no entanto, que os órgãos competentes pelas decisões no setor de radiodifusão do país não têm ciência das dificuldades das emissoras de pequeno porte. Para Jorge Alberto, um exemplo disso foi o questionário de uma pesquisa enviada para a emissora em 2009:
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Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Telev isão. Jorge Japur, fundador da Rádio Quaraí AM, foi u m dos sócios fundadores da AGERT. 85 Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. 86 Sind icato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado do Rio Grande do Sul.

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Em u ma das perguntas eles questionaram qual era o orçamento mín imo que a emissora disporia caso necessitasse adotar o padrão digital de rádio. O valor mais baixo da questão era R$ 300.000,00. Nosso orçamento bruto anual não chega nem na metade disso! Havia ainda alternativa que falava em milhões. Rádio de pequeno porte só ouve falar de valores altos como esses quando está devendo na justiça, prestes a fechar as portas.

Mesmo com as incertezas sobre o futuro do rádio no Brasil, uma coisa parece razoável considerando as informações levantadas até aqui: conhecer a realidade de pequenas emissoras, como a Rádio Quaraí AM, é, talvez, uma das poucas maneiras de evitar que elas fechem as portas, ou ainda sejam vendidas para grupos que possam comprá- las. Essa é, provavelmente, uma das poucas maneiras de garantir a tão sonhada pluralidade de vozes que é requisito básico para o amadurecimento de um regime democrático.

71 CONSIDERAÇÕES FINAIS Na medida em que a pesquisa avançava – seja na coleta dos dados, ou ainda no seu tratamento; mas principalmente na leitura de fontes que cada vez mais tornavam menos ingênuo o modo de ver a fronteira – percebeu-se que o universo onde está situada a emissora é de uma complexidade tal que seria uma ousadia sem tamanho afirmar que este estudo explorou todas as suas nuances. Os registros históricos sobre as fronteiras sul-riograndenses, bem como os estudos de antropologia acessados, permitiram vislumbrar o que está contido nos trabalhos teóricos que versam sobre o processo de construção de identidades híbridas. A partir disso, tendo-se enquadrado a atividade midiática da Rádio Quaraí AM no campo da comunicação, pôde-se confirmar a hipótese de pesquisa deste trabalho, ou seja, de que a emissora contribui para a manutenção desse processo híbrido. Cabe ressaltar que a análise não conseguiu, no entanto, estudar a atividade midiática da emissora separando-a hermeticamente em cada uma das três categorias propostas por Sodré (2002), já que elas não estão dissociadas. Tentou-se, na medida do possível, analisar a emissora segundo a sua produção que é veiculada, segundo os seus vínculos sociais e como ela se vê no seu contexto (cognição). A partir dessa constatação algumas características gerais sobre a fronteira e a emissora tornaram-se evidentes. A primeira delas diz respeito ao fato de que o modo como as zonas de fronteira normalmente são representadas pelos veículos de comunicação - como uma zona marginal, porta de entrada de entorpecentes, armamentos e mercadorias ilegais – não passa de uma generalização apressada. Essa visão, ao ser incorporada no discurso oficial com o auxílio da grande mídia, dificulta na exploração das potencialidades que a região fronteiriça tem (seja de cunho cultural, social ou econômico). Outra constatação realizada, que não propriamente tem a ver com o trabalho, mas com a forma de analisar os dados, versa sobre a facilidade de lidar com informações de épocas passadas. Ao recorrer à história da emissora e da fronte ira oeste, a grande dificuldade para trazer tais dados foi, sem dúvida, a falta de registros (sejam escritos ou orais) que pudessem complementar algumas lacunas da pesquisa. Nesse caso, trabalhou-se sem conjeturas que não pudessem ser verificadas, por mais que se tenha em mente que há diversos fatores relevantes nesse contexto que poderiam, inclusive, alterar o rumo das investigações, e se baseou apenas em dados concretos que foram alcançados.

72 Esse material, no entanto, além de ser revestido por uma aura romântica 87 , não traz consigo algo que pareceu ser uma complicação ao analisar os dados atuais sobre a emissora: o fato de estes estarem aí, sofrendo intervenção do fluxo dos acontecimentos sociais, políticos e culturais do meio. Afinal, por mais que possa ser uma afirmação polêmica, poder-se- ia parafrasear um dos grandes aforismos dos manuais de comunicação que afirmam “a comunicação é uma relação de ser a ser que quer, que passa uma mensagem a outro” 88 , para dizer que esta pesquisa tem uma intenção, como qualquer ato de comunicar. E de fato ela tem, e isso fica subjacente à própria escolha do tema de qualquer trabalho. Mas isso certamente é diferente de a pesquisa é partidária. Para evitar que se incorresse nessa possibilidade, fez-se o necessário para tratar de hipóteses que respondessem à bibliografia que serviu de parâmetro para a análise do material acessado, segundo o método proposto. Outro dado encontrado, que pela bibliografia utilizada não parece ser uma especificidade só da fronteira Quaraí-Artigas, é o fato da história desses locais ser contada de forma vertical. Ou seja, os registros históricos existentes pertencem a uma elite composta por famílias importantes de outrora. Não é raro perceber nesses escritos a dicotomia famílias importantes, cultas – população rústica, iletrada. Diz- se isso com base em algumas passagens extraídas tanto na bibliografia sobre Quaraí e Artigas que serviu de base a este trabalho quanto em algumas entrevistas coletadas, bem como em trabalhos de outros autores sobre Quaraí89 . Essa mentalidade, presente no início da emissora (e muito antes dela, coisa que sabemos graças à literatura da região), nunca atrapalhou no pleno envolvimento da emissora com a população das duas cidades. Embaraçou, talvez, a modernização da emisso ra na medida em que o contexto social e tecnológico ia se modificando com o passar dos anos. Assim como ressaltamos a lealdade cruzada com que a emissora trabalha, constituída por elementos do contexto local e também pelas relações de subordinação frente ao seu Estado-nação, percebe-se que as dificuldades provêm dos mesmos locais que ela representa. De um lado, há problemas relacionados ao descaso para com as emissoras de pequeno porte no Brasil, seja no momento em que não há políticas específicas para elas, ou ainda no
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Isso corrobora uma das características do povo da fronteira oeste do RS, a saber, o fato de ret irar os defeitos daquilo que já passou, por mais que em algu m mo mento ele não tenha sido tão bom assim. 88 PERUZZOLO, 2004, p. 21 89 Esta passagem registrada em u ma entrevista por Ponte (2000, p. 24) é ilustrativa: “programas de maior profundidade como os de entrevistas, noticiosos com co mentários [...] não têm mu ita aceitação. Para ela, esses gêneros em uma cidade como Quaraí, em que grande parte da população é iletrada, não atendem aos interesses e necessidades das pessoas, o que é uma lástima”. A entrevistada, no caso, acompanhou a emissora desde antes da sua fundação.

73 momento em que associações voltadas ao rádio no Brasil não parecem representá- las (pelo menos as emissoras de pequeno porte). Por outro lado, aparecem as práticas alternativas existentes na fronteira que geram dificuldades para as pequenas emissoras fronteiriças. Acreditamos que estudar a Rádio Quaraí AM é importante porque, pelo seu tempo de existência - mais de meio século - ela presenciou as principais transformações do rádio brasileiro. Por estar na fronteira, a transformação foi lenta e tortuosa, gerando- lhe dificuldades de subsistência, e por isso pode-se dizer que o seu caso ilustra as dificuldades de uma emissora de pequeno porte no Brasil. Ao ser fundada a Rádio Quaraí AM experimentou o glamour do Rádio Espetáculo, acumulando histórias e riquezas; nas décadas de 70 e 80, viu de longe as inovações do rádio e passou a experimentar dificuldades nunca dantes experimentadas, a ponto de quase ter as suas portas fechadas na década de 90; hoje em dia, mesmo com o contexto adverso e com as incertezas sobre o rádio AM no Brasil, ela mantém-se como a única emissora AM de Quaraí, mesmo com as dezenas de emissoras clandestinas no Uruguai e com as despesas que lhe são outorgadas pelo estado que consomem quase todo o seu faturamento. E o futuro? Foi no intento de oferecer dados que ajudem na reflexão sobre o futuro que se colocou este estudo de caso. As pequenas emissoras de rádio do interior, e principalmente as fronteiriças, são, como disse um dos nossos entrevistados, verdadeiros marcos das fronteiras do Brasil com os países vizinhos. Não só pela sua atuação como representante do Brasil na região, mas simplesmente pelo rádio AM continuar sendo o único a conseguir cobrir praticamente 100% desse território. Nem todas emissoras fronteiriças compartilham da mesma sorte que a Rádio Quaraí AM tem na atualidade, que é a de subsistir. E é por isso que o conhecimento da realidade dessas emissoras torna-se importante: para evitar que elas deixem de funcionar (como já acontece em Artigas mesmo, com a saudosa Radio Frontera AM, de Basílio Borgato. Apesar de ser no Uruguai, a emissora sofre com as mesmas dificuldades provenientes da sua condição fronteiriça, como a Rádio Quaraí). As transformações pelas quais o rádio brasileiro passará nos anos seguintes, independente de quais forem, devem levar em conta as dificuldades e especificidades das pequenas rádios do interior. A mudança não pode ser vertical, ou seja, simplesmente ser determinada considerando-se a realidade das principais emissoras do país e se outorgar: Rádios do Brasil: adaptem-se. Refletir sobre o modo como isso se dará é, antes de tudo, uma questão de respeito para com essas emissoras que, dentre outras coisas, alcançam os lugares

74 mais remotos do país, guardando consigo histórias de um Brasil que nem se imagina que exista. Além disso, evitar que tais emissoras fechem as portas é também impedir que o nosso recente sistema democrático seja ameaçado com a ampliação de grandes conglomerados comunicacionais, de igrejas, ou ainda do abuso cometido por políticos que, antes de legislarem a favor de um país melhor, aproveitam-se de brechas na legislação para explorar indevidamente os serviços da radiodifusão. Enquanto isso, a Rádio Quaraí AM, ZYK 282, operando na freqüência de 1540 kHz, desde a República Federativa do Brasil, estado do Rio Grande do Sul, cidade de Quaraí, fundada em 17 de março de 1957 por um sonhador, segue cumprindo o seu papel. Resta- nos esperar que as suas condições de existência tornem-se menos ásperas no futuro. Até lá, a emissora deve seguir o exemplo do personagem Blau Nunes da lenda: “Alma forte, coração sereno”. Isso para evitar que a sua história se perca na vastidão dos pampas que ela tanto ama representar.

75 OBRAS CONSULTADAS BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998. BACKES, José Licínio. A compreensão da diferença cultural numa dimensão intercultural: a contribuição de Homi Bhabha. II Seminário Internacional: Educação Intercultural, Gênero e Movimentos Sociais. UFSC, 2003. BARRIOS, G; PUGLIESE, L. Política lingüística y dictadura militar: las campañas de defensa de la lengua. In: MARCHESI, A. et al. (org). El presente de la dictadura: Estudios y reflexiones a 30 años del golpe de Estado en Uruguay. Montevideo: Trilce, 2004. Disponível em: <http://elies.rediris.es/elies23/barrios_pugliese.htm>. Acesso em: 26 nov. 2009. CHEGUHEM, Sonia S. Quaraí Histórico “I”. Quaraí: [S.n.], 1991-a. ______. Quaraí Histórico “II”. Quaraí: [S.n.], 1991-b. CHRISTOFOLETTI, R. Concentração de mídia, padronização jornalística e qualidade do noticiário: o caso de Santa Catarina. In: 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo - SBPJOR, 2008, São Bernardo do Campo. Anais. São Bernardo do Campo: Ed. Metodista, 2008. Disponível em: <http://sbpjor.kamotini.kinghost.net/sbpjor/admjor/arquivos/coordenada_10_rogeriochristofol etti.pdf> Acesso em: 20 nov. 2009. COZER, Karis. Oligopólio no sistema de radiodifusão de Santa Catarina. In: X Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul, 2009, Blumenau. Anais. Blumenau: 2009. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2009/resumos/R16-11001.pdf> Acesso em: 20 nov. 2009. DUARTE, Marcia Yukiko. Estudo de caso. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio (org). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2005. Cap. 14, p.215235. FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio: o veículo, a história e a técnica. Porto Alegre: Dora Luzzatto, 2007. GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da Amé rica Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1999. HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003. HAUSSEN, D. F. A produção científica sobre o rád io no Brasil: livros, artigos, dissertações e teses (1991-2001). Revista FAMECOS. Porto Alegre: v. 25, p. 119-126, 2004. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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78

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ANEXOS ANEXO A – Vista da cidade de Artigas e suas inúmeras antenas

Data da imagem: 15 ago. 2009

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ANEXO A1 – Antena de rádio clandestina

Data da imagem: 15 ago. 2009

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ANEXO A2 – Emissora clandestina não identificada

Data da imagem: 15 ago. 2009

82

ANEXO A3 – Emissora clandestina com inscrição no muro ao lado do seu estúdio

Data da imagem: 15 ago. 2009

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ANEXO A4 – Emissora clandestina que se autodenomina comunitária

Data da imagem: 15 ago. 2009

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ANEXO B – Pacheco Prates (ao fundo de traje branco) e Getúlio Vargas na inauguração da Ponte Internacional Uruguaiana-Paso de los Libres

Fonte: Arquivo pessoal da família Custódio Gomes

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ANEXO C – Transmissão de jogo de futebol com Basílio Borgato (segurando o microfone) e Jorge Japur (à direita)

Fonte: Arquivos da Rádio Quaraí AM

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ANEXO C1 – Programa A Cidade se Diverte

Fonte: Arquivos da Rádio Quaraí AM

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ANEXO D - Cópia do script original do 8° capítulo da radionovela “A Loura de Vermelho”

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ANEXO D1 - Cópia do script original do 11° capítulo da radionovela “A Canção da Vingança”

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ANEXO D2 - Cópia do script original do 12° capítulo da radionovela “Os Mortos Não Falam”

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