PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO ACÓRDÃO/DECISÃO MONOCRÁTICA REGISTRADO(A) SOB N°

17 e 38 ACÓRDÃO

*03540925*

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravos de Instrumento n° 0559642-95.2010.8.26.0000 e 0023142-53.2011.8.26.0000, da Comarca de São Paulo,

em que é agravante CARLOS ALBERTO PARENTE SETTANNI E OUTRO sendo agravado COOPERATIVA HABITACIONAL DOS

BANCÁRIOS DE SAO PAULO -BANCOOP.

ACORDAM,

em

Ia

Câmara

de Direito

Privado

do

Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "DERAM PROVIMENTO EM PARTE AO AGRAVO DA

DEVEDORA E PELOS ADMINISTRADORES, E NEGARAM AO AGRAVO INTERPOSTO PELO CREDOR, V. U.", de conformidade com o voto do(a) Relator(a), que integra este acórdão.

O

julgamento

teve

a

participação

dos

Desembargadores LUIZ ANTÔNIO DE GODOY HÉLIO FARIA.

(Presidente) e

São Paulo, 17 de maio de 2011.

CLÁUDIO GODOY RELATOR

PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO PRIMEIRA CÂMARA DA SEÇÃO DE DIREITO PRIVADO

AGRAVO DE INSTRUMENTO Processo n. 0559642-95.2010 e 0023142-53.2011.8.26.00000 Comarca: São Paulo Agravantes e agravados: CARLOS ALBERTO PARENTE SETTANI e COOPERATIVA HABITACIONAL DOS BANCÁRIOS DE SÃO

PAULO - BANCOOP E OUS. Juiz: José Antônio Lavouras Haicki Voton. 1.068

Cumprimento de sentença. Penhora. Numerário inexistente em conta. Preservação de recursos com destinação específica ao término de outros empreendimentos. Forma cooperativa. Objetivos desviados. Abuso. Relação de consumo. Autorização da desconsideração da personalidade jurídica, ainda que sem inclusão dos responsáveis no pólo passivo. Decisão mantida, apenas com esta ressalva. Agravo de

instrumento interposto pelo credor desprovido e provido em parte o agravo interposto pela devedora e

administradores.

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Cuida-se

de

recursos

de

agravo

de

instrumento voltados contra decisão que, em cumprimento de sentença, indeferiu bloqueio de valores destinados ao término de outros

empreendimentos de compradores igualmente prejudicados, mas deferiu desconsideração da personalidade jurídica da devedora para o fim de se alcançar depósito em conta dos administradores.

Recorrem ambas as partes, o autor para defender a possibilidade de constrição de quaisquer bens da cooperativa devedora e esta, de seu turno, juntamente com os administradores, para defender desautorizada a desconsideração, pela pretensa ausência dos requisitos a tanto erigidos.

Recursos regularmente processados, sem liminar, e respondidos.

E o relatório.

A decisão agravada, que, desde logo se adianta, não se considera esteja a merecer senão pequeno reparo, não pode ser cindida, como se não guardasse uma coerência interna e como se suscitasse, em verdade, duas discussões distintas.

Com efeito, a desconsideração foi deferida porque, ausentes demais bens desonerados, o MM. Juiz não autorizou fossem constritados valores depositados em contas próprias vincuuaqasia

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outros empreendimentos da cooperativa. Note-se, neste ponto a decisão nãol

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impôs, simplesmente, a quem a ele não se sujeitava de modo obrigatório, a observância de acordo firmado pela devedora com o Ministério Público, em ação civil pública que então corria (v. fls. 587/600 dos autos n. 0559642 e 616/628 dos autos n. 0023142).

Certo é que o credor individual, inclusive nos termos do artigo 104 do CDC, não estava inibido de tomar medidas próprias para satisfação de seus direitos, de resto conforme se expressou nos considerando do mesmo acordo. Mais, nem mesmo se entende que a questão se ponha diante da exigência de que a execução se faça de modo menos oneroso ao devedor (art. 620 do CPC).

A rigor, inclusive como já teve ocasião de decidir este Tribunal (v.g. AI 990.10.332822-1 e AI 994.09.282252-2), todo e qualquer bem da cooperativa devedora, teoricamente, se submeteria a constrição. O que fez a decisão recorrida foi proceder a real juízo de ponderação, de proporcionalidade. Tomado todo o extenso rol de pessoas prejudicadas pelo malogro dos tantos empreendimentos a cuja consecução, nunca ultimada, a devedora captou recursos, cujo destino se apura, inclusive, ao que se noticia (fls. 692/696 dos autos n., 0023142), na esfera penal, considerou a sentença de preservar depósitos de contas próprias, abertas, por força daquele acordo, de forma vinculada a cada empreendimento, com isso garantindo-se que eles pudessem ser erguidos e, assim, o público consumidor pudesse ser atendido.

Ou seja, a decisão - que a mropósito\ se mantém - em última análise como que procurou garantir uma espécie\de

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par conditio creditorum, tal a extensão dos consumidores frustrados, nas mesmas circunstâncias, pela ação lesiva da devedora. Quer dizer, ainda que não se cuidando de processo coletivo, o Magistrado de origem procurou manter a igualdade substancial dos credores, evitando que a satisfação do direito de um pudesse comprometer a expectativa de que o direito de outros - no caso os adquirentes de unidades em outros empreendimentos também fosse acatado. Este, de resto, o espírito que norteou a abertura de contas vinculadas e individualizadas conforme o empreendimento, assim respeitando-se os fundos próprios de cada respectiva massa de adquirentes arrecadado.

Neste sentido, veja-se que o caso não envolveu penhora ou bloqueio de qualquer bem da devedora. A ressalva estava nos depósitos existentes nestas contas vinculadas, ademais o que já havia motivado parcial deferimento de tutela recursal em demanda semelhante (Ap. civ. n. 994.09.328361-7 ou 663.000-4/0-00, rei. Des. Testa Marchi, cf. fls. 609/613 dos autos n. 0023142).

Pois

isto

feito,

e

porque

recursos

disponíveis à constrição não se encontraram nas contas vinculadas ao empreendimento em tela, não constando existência de outros bens indicados e livres, é que a desconsideração se concedeu. E aqui vale a ressalva de que, a despeito do quanto deduzido pela cooperativa na interposição de seu agravo, não se informaram bens desonerados outros que servissem à garantia do Juízo. \\ \ \

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O que se viu foi a defesa de preservação de contas individualizadas para o empreendimento mas, ao mesmo tempo, a inexistência de quaisquer recursos em caixa que se vinculassem ao empreendimento a que aderiu o credor presente. Pior, isto ainda com a constatação de que o respectivo terreno nunca esteve titulado pela devedora e foi diretamente transferido a terceiro (fls. 697/705).

Aí, então, a deliberação de desconsideração. E, ao quanto se entende, a providência estava autorizava no caso em tela.

Em primeiro lugar e, de resto, como mais de uma vez decidido por este Tribunal - o que já é sintoma claro da situação da devedora e reforça a medida adotada -, a desconsideração, na espécie, se há de amparar na previsão do artigo 28, parágrafo 5o, do CDC (v.g. AI 990.10.343219-3). Consoante já se assentou, "embora a agravante se apresente como uma sociedade cooperativa, trata-se sim de uma empresa de natureza mercantil, ainda que sob as vestes de uma associação, com a finalidade de agregar o intuito de lucro, refletindo, destarte, o tipo de sociedade plasmada com fins lucrativos, sendo admissível, assim, a aplicação da teoria da despersonalização da pessoa jurídica:' (AI 520.336-4/0-00)

Ou seja, não colhe a asserção de que a forma mutualística determine diversa norma de regência ou afaste a incidência da legislação de proteção ao consumidor. Aliás, não éx mesmo raro que, sob a forma cooperativa, mercê de contrato como o presenteiem verdade se entabule real financiamento, constituído mediante adníinistração

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de entidade que recebe por isso, oferecendo o negócio por mecanismos publicitários típicos da atividade mercantil. Portanto, no fundo o que se chama de desfuncionzalização ilícita, no caso, do instituto cooperativo.

Sucede

que,

assim

agindo,

os

administradores acabaram, ademais, incidindo no desvio de que cuida o artigo 50 do CC/02. Vale dizer, ainda não se queira aplicável, pela via do artigo 28, parágrafo 5o, do CDC, e conforme a interpretação que se lhe empreste, a denominada teoria menor da desconsideração, de toda sorte resta a dita teoria maior que está na lei comum.

E evidente a dissociação da atuação da devedora do espírito mutualístico que se põe na base das cooperativas, disciplinadas pela Lei 5.764/71. Aliás, já não fossem os arestos colacionados, outro mais vetusto também o reconheceu (Ap. civ. 552.789.4/5-00). Porém, ainda pior, no caso em tela a repercussão dos fatos havidos foi muito além da inobservância da finalidade desviada da cooperativa. Repita-se, não foi sem motivo que demanda criminal para apuração de crime na sua gestão foi recebida. Não foi sem motivo, ainda, que ação civil pública acabou sendo movida.

Não se nega, por óbvio, a presunção de inocência ou o acordo que, na demanda coletiva, acabou se consumando. Mas não se pode olvidar que imensos recursos foram captados, sem que, na espécie, ao que se vê da sentença proferida, o empreendimento teijtfia saído da planta. Mais, mesmo o terreno sobre o qual ele se edificana foi

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transferido. Tudo afinal sem que das contas vinculadas ao empreendimento em tela se encontrasse qualquer recurso depositado.

Bem se vê, então, que não se trata apenas de insuficiência de fundos, como quer a devedora. Tem-se contexto bem mais amplo, aliás objeto de ruidoso noticiário, não custa lembrar, de real desvio de finalidade, quando não de abuso, indicado, nos autos, e em tantos outros símiles, de modo desconsideração. suficiente ao menos para autorizar a

Num único ponto, todavia, a decisão agravada merece reparo. É que o caso de desconsideração envolve a efetivação de responsabilidade de terceiro que, nem por isso, se transforma ou se considera devedor, propriamente dito. Em outras palavras, corolário da teoria dualista da obrigação, há muito desenvolvida - ainda que não sem críticas -, insta não baralhar os conceitos de débito e de responsabilidade. Possível que alguém seja responsável sem ser devedor. E exatamente o caso, dentre outros, como o do garantidor real, do fiador (enquanto não havido inadimplemento desconsideração. e excussão dos bens do afiançado), da

Por isso, o bloqueio se defere, mas sem inclusão dos administradores no pólo passivo.

Para este fim, apenas, DÁ-SE, V portanto, PARCIAL PROVIMENTO ao agravo manifestado pela devedora e pêlos

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administradores, NEGADO PROVIMENTO ao agravo interposto pelo credor.

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