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o QUE É UM CLÁSSICO?'

o assuntodo qual me dispus a falar resume-se apenas a

esta pergunta: "O que é um clássico?". Não é uma pergunta nova. Há. por exemplo. um célebre ensaio de Sainte-Beuve com esse mesmo título. A peltin~ncia de fazer essa perguma. tendo

em vista panicularmente

a definição a que cheguemos. ela não pode excluir Virgílio --

poderíamos dizer com tOda a seguran~a que ela dcve ser uma

das que expressamenteo levarãoem (onta. Mas.amcsde pros-

seguir. gostaria de descanar al~uns preconrcitos e antc(ipar cer- tos equivolOS. Não prelclhlo S\Ih~tilllir. IIU proscrcver. CJual. quer uso da palavra "clássico" que uma utilização anterior haja tornado permissível. A palavra tem, e continuará a ter. diversos significados em diversos conrextos; interesso-me por um único significado em um único contexto. Ao definir o termo nesse semido. não me comprometo, daqiJi em diante, a não utilizar o termo em nenhum dos OIllroSselllidus em que de tem sido empregado. Se. por exemplo, eu concluir que, em alguma futura ocasião, ao esuever, em disnuso píablico ou numa palestra, que devo ulÍlizar a palavra "clássico" apenas para reconhecer um "aUtor modelar" em qualquer língua -

Virgílio. é óbvia: qualquer que seja

I.

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11).t.1 1'111,111.1110Ild.,

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19.1). (N.A.)

 

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QUE ~ UM CLÁSSICO?

empregando-asimplesmentecomo indicaçãoda magnitude,

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ou da permanenda e da imponSncia. de um escritor em. seu

próprio campo de atividade,

form aI SI. Dominic's como um clássicoda ficção entre os estu-

como quando falamos de The fifth

dantes, ou do Handley cross como um clássico no campo da

caça-,

um livro muito interessante ioritulado A guide 10 lhe classics,

que ensina como ganhar a disputa do Derby. Em ouuas oca-

siões. permitir-me-ei considerar "os clássicos" -

ninguém deveráesperarque o estejaelogiando.E há

quer os das

literalUrasgrega e larina in 1010,quer os maioresautores que

se expressaram nessas linguas - conforme o contexto. E, final- mente, julgo que a avaliação do clássico que me proponho a fornecer aqui possa deslocá-Ia daquele terreno antitético enue '\!?ssico" e "romântico" - uma dupla de termos que per- tence à políticaliterária e que, por essa razão, insufla os ventos da paixão, os quais peço a Éolo,l nessa oportunidade, que

guardena sacola.

Isso me conduz à próxima consideração. Segundo os ter- mos da controvérsia clássico-rom~ntica. considerar qualquer obra de ane "clássica" implica ou o mais alto elogio, ou o mais desdenhoso abuso, conforme a pane a que penença. issQ

implica certos méritos ou defeitos particulares: seja ;1perfeição

da filrma, seja o zero absolulO da frigidez, Mas desejo definir uma espécie de afie, e não me interessa que ela seja absoluta- lIIenle e em cada aspertO melhor ou pior do que qualquer oUlla. Ellumerarci fertas qualid;lIks que presumiria fosse o clás-

sico capaz de manifesrar.Masnão afirmo que, se uma litera-

ilHa for uma grande literarura. deva ler algum autor, ou algum período, em que rodas essas qualidades se manifestem. Se, como suponho, rodas das se encomram em Virgílio, com rela- ção ao qual não cabe assegurar que seja o maior poeta de rodos

os lempos - tal afirmação acerca de qualquer poeta me parece

espalafílrdia -, não é decerto correto afirmar que a IÍlerarura

,I

latim, seja maior do Ilue qualquer

outra.

Não devemos

conside-

rar como

defeito

de nenhuma

literatura

se nenhum

autor, ou

ncnhum

período,

for rigorosamente

clássico; ou se, como ocorre

na lilcralura

inglesa,

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11li"", , prl

Ia

o período

que

11,0/""

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mais se ajusla

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(N T

)

78

T. S. ElIOT

clássican~o é o maior. Penso que essa5literatUras, das quais a inglesa ~ uma das mais ilustres, na qual as virtudes clássicasse acham dispersas entre vários autores e diversos períodos, pode. riam ser perfeitamente as mais ricas, Cada língua tem seus pró. prios rerursos e suas próprias limit:l~ões. As condições d(~uma língua e as condições da história do povo qU(~01f;,1apodniOlm colocar fora de questão a expectativa de um período clássico, ou de um autor clássico. Esse não é em si mesmo senão um assunlo mais pala uistC7.ado que parOl(ongr:uulaçào. ()( OlfC que a história de Roma foi tão grandc, o calátcr da língua latina tão poderoso. que, em detcrminado momento, um único poeta eStritamente clássicotornou-se possível, embora devêssemos nos lembrar de que isso exigiu que tal poeta. e toda uma vida de

trabalho da parte desse poeta, extraísse a obra clássica a partir

da matéria de que dispunha.

pôde saber que aquilo era o que ele estava fazendo, Ele foi,

se algum poeta chegou a sê.lo um dia, agudamente cunscicnte

do que estava tentando fazer; a única coisa quc não pôdc alllle-

jar, ou n~o sabia que estava fazendo. foi eSlrcveruma obra clás. sica, pois é somente graças a uma ICllllprcensãotardiOl,c cm

perspectiva histórica, quc um

como tal. Se houvessc uma palavra CIII quc pudésscmos nos fixar, capaz de sugerir o máximo do que pre«:ndo dizer COIIIa expres- s~o "um clássico", esta seria 11IaJrmd.de.OislÍnguirci enrrc o clássico universal, como Virgílio, e o clássico quc permanecc como tal apenas em relação à lit<:ralUrade sua própria língua, de acordo com a concepção de vida de um dcterminado pcríodo. Um clássico só pode aparecer quando uma civilização estiver madura, quando uma língua e uma litcratlua estiverem madu- ras; e deve constituir a obra de uma meme madura. É a impor- tância dessa civilizaçãoe dessa língua, bcm (Orno a aluangência da m~nte do poeta individual, que proporcionam a universali. dade, Definir maJunaade sem admitir que o ouvinte já saiba

E, naturalmente,

Virgílio não

cIássiw podc scr reconhecido

i

o que isso significa é quase impossível. Permitam. nos dizer,

portanto, que, se eSlivermosadequadamcllte malluros e formos pessoas educadas, podcrcmos reconhcccr a malUridadc numa civilização e numa litcrarura, do mesmo modo como [OIzemos

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aos

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QUE ~ UM CLÁSSICO?

79

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o significado da maturidade realmellle compreensível - na ver.

dade, até mesmo torná-Io aceitável -

impossível. Mas se formos maduros, reconheceremos de ime- diato a maruridade, ou viremos a reconhecê-Ia graças a um rela- cionamento mais íntimo. Nenllum leiwr d(' Shakespe:lfe. por

para o imaturo é talvez

cX{'mplo, pode ~e (~nganar ao f('Iollllcl cr, (JlOgressiv;lmcllle enquanro ele próprio cresce, o gradual amadurecimenro da mellle shakespeariana: até mesmo o mais medíocre leiror pode 111'(1('her o rápido dcsenvolvimenro da lirerarur;1 e do drama cli. sahetanos como um rodo. da primiriva crueza Tudor às pcças de Shakespeare, e captar um dcclínio na obra dos succssores

deste último. Podemos também observar. a panir de uma epi. dérmica familiaridade, que as peças de Christopher Marlowe

rcvelam

pcças que Shakespeare escreveu na mesma época: é imponante

cspecular que, se Marlowe tivesse vivido tanto quanto Shakespe- are, seu desenvolvimento poderia tcr continuado no mesmo

uma matUridade mental e estilística superior à das

ritmo.

Mas não

o creio,

pois

observamos

que

cenas

menres

amadurecem

antes

de ouuas,

da mesma

forma

como

verifica.

mos que aquelas que :Imadurnem muilo cedo ncm sempre vãl! muiw longe. Suscito essa qucstão como um lembrete: primeiro, porqllc o mérito da maturidade dependc do mérito daquele:

que amadurece; segundo, porque saberíamos quando eSIivésse- IIIOSprcocupados 10m a mOlruridade dc delermillOldos eS(firores e fOm a relativa matUridade de períodos literários. Um cscriror que tenha individualmente um espírito mais maduro poderá pcnenccr a um período menos maduro de que ouuo, dc modo quc, dcsse ponto de vista, sua obra será meuos madura. A maru- ridade de uma literatura é um reflexo da sociedade dentro da

qual ela se manifesta:

um

autor

individual

-

especialmente

Shakespeare

e

Virgílio

-

pode

fazer

muiw

para

desenv()lver

slla língua, mas não podc conduzi. essa língua à matUJidade a

para

scu reroque

leltl lima história auás de si - uma hisrória que não é apenas IIlIIa rrõnir;" um aI ím1lllo de III;IIIIISIrilOs c tI'XIO\dessa cspérie, mas uma ordenada. embora inconscienre, evolução de uma lín. glla Glpaz de realizar sllas próprias potcllcialid:uks delll ro ck \lIa\ J"'-Ip,ias lilllil:u;iks

menos

que a obra de seus antecessores

final.

Por conseguinte,

a tenha

preparado

uma literatUra amadurccida

80

T

S

ElIOT

Cumpre observar que uma sociedade e uma lireralUra, do mesmo modo que um ser humano como individuo, não amadu- recem necessariamentc de maneira idêlllira e corrente em cada um de seus aspectos. A criança prcwce é quase sempre, cm alguns óbvios senridos, tola para a sua idade em comparação

com as crianças comuns.

1.láalgum período da literarura inglesa

que possamos qualificar de plcnamcllle maduro em sua abran-

gênciae em equilíbrio?Não penso assim-

e, como repctirei

mais rarde, espero que não scja assim. Não posso dizer que algum poera na língua inglcsa haja se lornado, no (IIrso Ile sua vida, um homem mais maduro do que Shakcspeare; não pode-

mos sequer dizer que algum poera rcnha fcito tamo para tor- nar a língua inglesa capaz de exprimir o mais sutil pellSarncmo ou as mais refinadas nuanças de sentimcnlO. Todavia, não

podemos senão scntir quc uma peça corno W'ay of lhe Il'urld, de Congreve,} é, em cerro scntido, mais madura do quc qual- quer das peças de Shakcspearc, mas apenas quamo a esse aspc('\o. já que ela reflclc uma smiedalk m;lis madura, ou scja, uma maiol maluri.Jadc de (III/umt'l. A SOfic,bdc para a qll;1I Congrcve escreveu cra, do nosso ponlO dc vista, vulgal e bas- rame grosseira; no entanto, ela esrá mais próxima de nós do que a sociedade dos Tudor; ralvez por essa razào a julguemos com maior scveridade. Nào obslamc. cra uma socicdadc mais polida e menos provinciana: sua mentalidade era mais superfi- cial, sua scnsibilidade mais lacanha; dcscumpriu algumas pro- messas de maruridade, mas rcalizou ourras. Assim, à maruri- dade da menle devemos acrescentar a malluidadc dos cos/llmes. () avanço em dircção à maturidade dJ língua é. crcio eu,

mais facilmcnte reconhcrido e m:lis rapid.lIl1elllCaprni:ulo

dcscnvolvimemll da prosa do IIIICno da pocsia, Ao consillclar-

mos a prosa, pe([urbam-nos menos as difercnças indivilluais de grandeza, e inclinamo-nos ames a buslJr urna aproximação com um padrão comum, um vocabulário lonUlm c lima esUu-

no

3, (ollgrue,

dru,

grafo da ipoca da Reslauraç20, deslacando-se pela hal>ilidalle limica, a graça dos

diSlogos c. sobrelUdo,

oh5<ell<', Alim .Ie IP"J oflhe U"Ir/d,

(1693), 7'he .Ic,ub/e Ju/~,(I()(./oI) c I,III'efo,/o,"> (1('9~1 (N T,)

por um <Ínismo epigramálilCl c lomedido,

às vezes

William.

Dramanugo

ingles (Bardslry.

1'(110de t,eeds.

1670 -- 1.1111'

t729). considerado

por Vohaire o Molicre da Inglalwa.

escrila em

1'/1111

É o melhor comedió-

embora

7'he ,,1.11101<hdo,

Iri.ou

() QIIE ~ 11MnAsswo?

81

IUra fraseológica comum - na vcrdade, é a prosa que. com maior freqüência, se disrancia mais desses padrões comuns, que é individual ao exrremo, de modo qlle somos capazes de admi. lir uma "prosa poérica", Numa época em que a Inglarerra realizara milagres em poesia, sua prosa era rclalÍvamente ima-

Ilira, desenvolvidao bastantc para ccrtospropósitos,mas não

para olltros: nessa mesma época, 'Juando a língua francesa já oferccera pequenas promessas de pocsia rão grandes quanto as qllc se descortinavam cm inglês, a prosa francesa era muiro mais m;ielura do que a inglesa. Só dispomos de um ou outro cscrilOr Tudor para compará-Ios a Montaigne - ~ o próprio MOl1laigne.como estilista, é apenas um precursor. e seu estilo não amadureceu o baStallle para alellller às exigências franccsas do que fosse um clássico. Nossa prosa esrava pronta para algu- lIIas lardas antcs qlle Plldesse competir com olltras: um Malory

poderia aparecer muito antes ele 11mIlookà"l

ames de um Hobbes, e um IlohhC's antes de um Addison.

QllaiscJlll'r qlle sC'jalll as dlfirllld:llks qllc l('nh;IIIIOS ;10 aplil ar tais p;lIl,õcs à poesia, é possível OhSI'IV:1fqlle o dl'senvolvimC'I1IO

e um Hookcr

de uma prosa clássica é o dest'ovolvimemo em direção a um CJlllo comum. Por isso. não prerendo dizer que os melhores escritores sejam indistingllívcis cntre si. As difcrenças e caracte- rístitas essenciais permaneccm: não é que as diferenças sejam

mcnores,

mas se tornam

mais sUlis c refinadas.

Para 11m pala-

Swift

selá regisuada como a diferença cntre duas safras de vinho por 11mconnolJJeur. Num período de prosa clássira, o que COlon- lIall105 não é uma simplcs conven~ão comum de cscrila. como o !'SIilo II"mlm IllIs qlle rcdigclII os ali igos de IlIndo dos jor- nais, mas uma comunidadc do goslO. A épol a quc preccde lima época clássica podcrá rcvelar r;IIJ(Oa excclllricidade quanto a monolonia: monuwnia porque os relllrsos da língua não I(,ram ai,,,la explorados. e cxccllUicidadc porquc aindol não há nc'nhum padlão gencricamcnte acciro. caso sejói verdadc qlle se possa

dar sensível,

a difercnça

cnue

a prosa de Addisoll

e

a de

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.1 IInoker, RichAld. Teólogo c jurisla inglês (lIeaviuee, peno de E.eler, IH4 _ Bi,hopsbonrne, 1600), Processa,lo como herege por suas idéias conrririas ao purila. 11i\011I, escreveu uma obra mooumeOlal, em cilllo volumes, sob li litulo de O/llu 1./1/'101 u"~II",IiI"/ PO/IIJ (I ~9,1.1~<)1),lIolhel I'"r soa elegjnri. e~lilislica. (N T,)

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82

T

S. EJ.lOT

chamar de excentrico aquilo que não está no cenuo. Seus lex- tos poderio ser, ao mesmo tempo, pedantes e licenciosos. A lpoca que se segue a uma época clássica pode também revelar

excenuicidade e monotonia

porque os recursos da língua, pelo

menos para aquele tempo, foram esgotados, e excenlrilidade porque a originalidade se torna mais valorizada do que a corre- ção. Mas a época na qual enconuamos um eSlilo comum será uma época em que a sociedade já cristalizou um momenlO de ordem e de estabilidade, de equilíbrio e de harmonia, assim como a época que manifesta os maiores eXlfemosde eSlilo indi- vidual será uma época de imatUridade ou de senilidade. Pode-se presumir que a maturidade da língua acompanhe

a matUridade da melHe e dos costUmes. Podemos aJmilÍr que a

língua tangencia a malllridade no momento em que os ho- mens adquiram um sentido crhico do passado, uma confiança no presente e nenhuma dúvida quanro ao futuro. Em literatura, isso significa que o poeta está consciente de seus al1lecessores, e que estamos conscientes dos antecessores que pulsam por deuás de sua obra, assim como podemos estar conscientes dos traços ancestrais numa pessoa que é, ao mesmo tempo, única e individual. Os antecessores deveriam ser eles próprios grandes

e dignos, mas suas realizaçõesdevem ser de tal ordem que sugi-

ram recursos ainda não desenvolvidos da língua, não de modo

a imimidar os escritOresmais jovens com o temor de que tUdo

o que possaser feitOjá foi feitOem sua língua. O poela, é claro, numa época madura, pode ainda obler estímulo a panir da esperança de que esteja fazendo algo que seus anlecessores não fizeram; pode alt mesmo rebelar.se conua estes, «Imo um ado-

lescente promissor pode iusurgir-se fonll a as Ilen\aS, os hábilos

e as maneiras de seus pais, mas, relrospcnivamelHe, podemos

ohservar que ele é o herdeiro de suas uadições, o que preserva as características familiares, e que sua difercnça de comporta-

mento é uma diferença denlfo das circunstâncias de uma ouua época. E, por outro lado, assim como observamos às vezes cer- tos homens cujas vidas foram eclipsadas pela fama dos pais ou dos avós, homens dos quais qualquer realização de que foram capazes parecem comparativamente insignificantes, também uma época tardia da poesia pode ser conscientememe incapaz de competir com sua illlslfe ancesualidade. Encontramos poc-

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tas dessa estirpe no final de qualquer época, poetas com uma no- ção apenas do passado ou, alternativamente, poetas cuja espe- rança no futUro repousa na tentativa de renunciar ao passado. A persistência da criatividade em qualquer povo consiste, con- seqüentemente, na manutenção de um equilíhrio coletivo entre

a lIadição no sCl1Iielomais amplo - a persoualidade coleliva,

por

e a originalidade

assim

dizer.

consubslanciada

da geração

na literatura

do

passado

que se encontra

viva.

_

Não

podemos

considerar

a

literalura

em que pese a sua grandeza, inteiramente

da

madura; não pode.

era

dis;lhelana,

mos considerá-Ia clássica. Nenhum íntimo paralclismo pode ser rraçado cntre o desenvolvimento (tIs literaturas grega l- lalina.

esllOçar

um paralelismo cnrrc ambas e qualquer

pois as literatUras modernas

pois eSla tinha

aquela

atrás de si; tampouUl

têm

podemos

literatura

moderna,

tantO a latina

há ullla

a grega

aparênl ia de

Estamos cônscios

quanto

em suas origens.

maturidade

de uma aproximação mais íntima da matUridade

pleloce

Na Rcnascença

que foi herdada

da Antigüidade.

com Milton.

Milton se encontrava numa posição mais favorável para desen- volver um sentido crítico do passado - do passado na litera- tUra inglesa - do que seus grandes antecessores. Ler Milton é

a Spen2

se tOrnasse

não é U/TIestilo clássico: é

o eSlilo de uma língua ainda em formação, o eSlilo de um eser;-

lor cujos mel/reI não foram ingleses, mas lalinos c, em menor esc;da, gregos. Isso. creio ell, parafraseando o que disseram John- son e depois Landor ljllando se lJucixaram de que o cstilo de MillOn não era inteirameOle inglês. Permilalll-nos modificar

possível. Todavia,

confirmar

o respeito pelo gênio de Spenser,

e a gratidão

ser por haver comribuído

para que o verso de ~fihon

o eSlilo de Mihon

esse julgamento

dizendo

desde

já que

Mihon

mllilO

para

desenvolver

a língua.

Um

dos

indícios

do

aV;lnço em

direção

a 11meSlilo clássico é um desenvolvilllelllo

'111('Ic'm em mila

a

maior

desenvolvjm~nto é visível em uma única obra de Shakespeare. quando rasueamos seu estilo das primeiras às últimas peças:

podemos mesmo dizer que, em suas derradeiras peças, ele vai tão longe quanto possível rumo à complexidade dentro dos lirni-

les do

Tal

complexidade

da

frase

e

da

eSlfutUra

da

oração.

verso dramático,

os quais são mais restritos do que os

de

olllroS

gêneros.

Mas a complexidade,

para

S('II prcíprio

bem,

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8.

T. S. ELlOT

,

o

QUE S

UM CI.ÁSSICO?

8)

:nAo constitui um objetivo adequado; seu propósito deve ser,

a express:loconcisadas mais delicadas nuan-

ças da emoção e do pensamento; e, em segundo lugar, a inno- duç:lo de maior apuro e variedade musicais. Quando um autor

parece haver perdido, em seu amor à estn1lura elaborada, a capa- cidade de dizer. qualquer coisa de modo simples, quando seu apego ao modelo torna-se tal que ele diz coisas afetadamente no momento em que o melhor seria dizê-Ias com simplicidade, limitando assim seu espefno de expressão, o processo de com- plexidade deixa de ser inteiramente benigno, e o escritor começa a perder o (ODlalOcom a linguagem falada. Não obs-

tante, como o verso se desenvolve, nas mãos de um poeta após

ouno, ele transita da monotonia à variedade, da simplicidade

à complexidade; e, quando declina, caminha ouna vez em dire-

ção à monotonia, embora possa perpetuar a estrutura formal à qual o genio dá vida e significado. Vocês julgarão por si mes- mos até que ponto essa generalização é aplicável aos antecc~so-

res e seguidores de Virgílio: podemos lodos observar essa mono-

: antes de mais nada,

tonia

secundária nos imiladores de Milton durante

o século

XVIII

- ele mesmo nunca é monótono. E aí chega um tempo

em que uma nova simplicidade, até mesmo uma rdaliva cruela,

poderá ser a única ahern;lIiva. voces anteciparão a condusão

em direção à qual

eslOu

caminhando: que as virtudes do clássicoque até agora mencio- nei - maturidade mental. ele costumes, de língua e perfeição do estilo comum - são mais fáceis de serem comprovadas na literatura inglesa do século XVIII; e, na poesia, mais na poesia

de Pope. Se isso fosse tudo o que eu lÍvcsse a dizer sobre o assunto, decerto não seria novo, e nem valeria a pena dizê.lo. Consistiria apenas em propor uma escolha enne dois erros à qual os homens já chegaram: um, u de que o século XVIII é

o mais refinado período da literatura inglesa; ouno, o de que

a idéia clássicadeveria estar inteiramente desacreditada. Minha

opinião pessoal é a de que não possuímos, na língua inglesa, nenhuma época clássica nem qualquer poeta clássico; de que, quando observamos por que a siluação é essa, não temos a mais leve razão para nos ahorrecermos; mas que, apesar disso, devemos manter o ideal dássico dbnte de nos~osolhos. !'orque nos cumpre mantê-Io, e porque o gê/lio inglês da língua tem

tido outras coisas a fazer do que

realizá-Io, não podemos nos

dar o luxo nem de rejeitar nem de superestimar a época de Pope; não podemos encarar a literatura inglesa como um todo, ou visar corretamente o futuro, sem uma apreciação crítica do nível em que as virtudes clássicasestão exeltlplificadas na obra de Pope; e isso significa que, a menos que estejamos aptos a plenamente desfrutar a obra a poesia de Pope, inglesa. não podemos chegar a compreender

i.1

É absolutamente óbvio que a cristalizaçãodas virtudes clás- siras em Pope só foi oblÍda por alto preço, ou seja, mediante a exdusão de algumas das maiores pOlencialidades do verso inglês. Mas, em certa medida, o sacrifício de algumas potencia- lidades para consubstanciar Outras é uma condição da criação artística, como é uma condição da vida em geral. O homem que em vida Se recusa a sacrificar algo para ganhar Outra coisa em troca, acaba na mediocridade ou no fracasso, embora, por outro lado, haja o especialista que sacrificou muito por quase nóldól,ou aquele que tem tolerado a tal pOnto o especialista que nada tem a sacrificar. Mas na Inglaterra do século XVIII ternos motivo para pefl:e!>erque muilo mais se perdeu. Criou- se umól mentalidade madura, mas estreita, A sociedade e as It"rólsinglesas não furam provincia/las no sentido de que não se cnlOntravam isoladas das melhores sociedades e letras euro- péias, nem lampouco na retaguarda delas, ainda que a própria época fi)sse, por assim dizer, lI/lia época provinciana. Quando alguém pensa num Shakespeare, num Jeremy TaylorSou num

Milton, na Inglaterra

-

ou num Racine, num Molihe,

num

Pas-

durante o século XVII, mostra.se inrIinado

:1dizer que o século XVIII manteve perfeito o seu jardim con-

cal, na França -,

v('f)cional, restringindo apenas a área cultivada.

Condutmos

que, se o dássim é de lato um ideal digno, deve ser ele capaz de revelar uma amplitude, uma catolicidade, as quais o século XVIII não pode reivindicar para si; qualidades que estão visí-

~

hylor.J~r~my.

T~ólogo

~ religioso

inglEs

(Cambridg~,

t613

_

Lisburn,

1667),

um dos maior~s r~pr~s~nranr~s da Igr~ja anglicana no ~rlodo da gu~rra civil.

(;r:II,d~ pOria ~m prosa ~ m~SIl~ da r~16riu.

01,"1

rl~pojs

[oi o maior orador

O//,ro/,h"Y"1(

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111,nUIIII".

D~i.ou,

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86

T.

S.

ELlOT

veisem alguns grandes autores, como Chaucer,6que não podem. a meu ver. ser olhados como clássicosda Iheratura inglesa, e que se encontram presentes de corpo e alma na mente medie-

val de Dante.

qU:llquer de suas passagens, encontramos o clássico numa lín- gua européia moderna. Durame o século XVIII estamos sufoca- dos por um espectro restrito da sensibilidade, especialmente no plano do sentimenw religioso. Não é que a poesia, pelo menos na Inglaterra, não fossecristã. ({Imotampouco até mesmo os poetas não fossem cristãos devotos, pois um moddo de orto- doxia de princípios. e de sincera religiosidade de sentimentOs,

Pois em A divina comédia, possivelmente em

poderão ser vislumbrados muito ames que nos deparemos com

um poeta mais aUtêntico do que Samuel Johnson.

há evidências de uma sensibilidade religiosa mais profunda na

poesia de Shakespeate, ruja fé e prática podem ser apenas uma

quesdo de wnjectUra. E essa limitação da sensibilidade religiosa produz ela IIICsmauma espél:ie de regionalismo (emhora deva.

mos acrescenlar que,

mais provincl,lOo): o regionalismo que indica a desimcgração da cristandade, a decadência da crença e da cultura comuns. Pareceria, portal1lo, que o nosso século XVIII, apesar de sua

proeza clássica_ uma proeza, creio eu, que tem ainda grande importância como um exemplo p:IlOIo futuro --, eSlava per-

dendo certa condição que possibilita a criaçãode um verdadeiro clássico. Para descobrir o que seja lal ({IlIdição,devemos voltar a Virgílio. Em primeiro lugar, gostaria de insistir sobre as característi. cas que já atribUi ao clássico, aplicando.as especialmente a Vir- gílio. à sua língua, à sua civilização e ao momentO particular da história dessa língua e dessa civilização a que ele chegou. Maturidade da mente: isso implica a histófÍa. e a consciência da história. Essaconsciêncianão pode estar plcnamenle desperta, a lIão ser que haja ouua história além da histótia do próprio

Todavia,

nesse senti,lo, o século XIX foi ainda

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O QUE é UM CLÁSSICO?

87

povo do poeta; precisamos disso para ver nosso próprio lugar na história. Devemos conhecer a história de pelo menos outro povo altamente civilizado, e a de um povo cuja civilizaç~o~ suficientemente aparentada para ter influenciado e penetrado

a nossa própria história. Essa foi lima consciência que os roma. nos tiveram, e que os gregos, por mais que possamos estimar

em alto grau sua proeza

-

e, na verdade,

cumpre

respeitá-Ios

acima de tudo por isso -, não possuíram. Foi uma consciência que certamente o próprio Virgílio se empenhou bastante em desenvolver. Desde:o começo, Virgílio, como seus contemporâ- neos e antecessores ime:diatos, foi continuamente adaptando e

utilizando as descobertas, as tradições e as invenções da poesia grega; utilizar uma literatUra estrangeira nesse:sentido assinala

um estágio ulterior de civilização que suplanta aquele em que

apenas se:utilizam os primitivos estágios da slla própria, embora

eu julgue ser possível dizermos que: nenhUl!1poeta jamais reve- lou um se:nsode proporção mais aguçado que o de Virgílio quanto à utilização que ele faz dos poetas gregos e da primi- tiva poesia latina. É esse de:senvolvimemo de uma literatura, ou de uma civilização, relativameme à outra, que confere uma significaçãopeculiar à temática da épica virgiJiana. Em Homero, " o connito entre gregos e uoianos é acentuadamente mais amplo em alclnce do que uma disputa entre uma cidade-estado grega e uma coalizão de outras cidades-estados: atrás da história de Elléias7está a consciência da mais radical distinção, uma distin- ção que é, ao mesmo tempo, uma declaração de parenteIco entre duas grandes culturas e, afinal. de sua reconciliação sob um de:stinototalmente entrelaçado. A matUridade da mente de Virgílio, e:a matUridade de sua época, estão manifestas nessa consciência da história, Relacio- nei a maturidade da mente à mamridade das maneira! e à allsência de provincianismo. Suponho que, para um europeu moderno subitamente: imerso no passado. o comportamento

social dos romanos e dos atenienses poderia pare:ce:rindiferente-

mente:grosseiro, bárbaro

e agressivo. Masse o poeta puder retra.

7

Em lal.

A errUJ , em 11'- Aí"ri"

P,íncipr

uniallo,

h~rói d~ uma

1~II<laIIr~lIa

ICwmoda ~ ampliada

por

Viranio

00 E"eiá"

Essa I~nda supO~ a orill~m

osi',ica

<Ir (tr'os povos i,aliooos, pro'aydm~OI~

os (UUS,os.

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