As narrativas do corpo representadas no universo ficcional das bonecas blythes

Sandra Helena Rodrigues (1) Fundação Joaquim Nabuco

Sabe-se que, as representações de mundo são continuamente construídas a partir das próprias narrativas e das narrativas de outros ou daquilo que se absorve do mundo. Assim, o vocabulário, os gestuais e o corpo se apresentam como leituras que possibilitam identificar o ser. Neste contexto sabe-se que, o ser humano dialoga com si e com o outro. Na atualidade essa percepção do corpo fica mais evidenciada pelas mídias, uma vez que vivencia-se uma cultura que permite mostrar-se através de imagens como vídeos, fotografias, entre outros. Neste sentido as mídias sociais se configuram como espaços de troca e aprendizado estimulando o diálogo e a sensibilização, permitindo assim se construir novas relações e absorção de novas narrativas. Neste universo das novas tecnologias digitais advindas com a era da comunicação informacional, o uso da imagem através da fotografia ganha espaço permitindo que as pessoas comuns e não mais apenas os fotógrafos profissionais, fotografem pessoas, ambientes, coisas e a si próprio. Essa gestualidade que a fotografia ganha nesses novos contextos representa assim o universo vivenciado pela atual sociedade a partir da corporificarão, dos gestos e das linguagens. São imagens que ganham espaço nos ambientes de mídias sociais como Facebook, Orkut, Flickr e tantos outros. A pesquisadora Sibilia (2008) que vem estudando esse comportamento do que ela denomina “show do eu”, salienta que, “esses novos recursos abrem uma infinidade de possibilidades que eram impensáveis até pouco tempo e que passam a ser extremamente promissoras”, e é neste sentido que a mesma vem a afirmar que,

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Sandra Helena Rodrigues atualmente coordena o Laboratório de Ensino a Distância da Fundação Joaquim Nabuco. É Mestra na área de gestão em C&T, Especialista na área de Gestão em TI pela FCAP e Artes Visuais e Cultura pelo SENAC/PE. Vem desenvolvendo pesquisas na área de Educação e Tecnologia, Corpo e Imagem em ambientes digitais.

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É por isso que grandes ambições e extrema modéstia aparecem de mãos dadas nesta insólita promoção de você e eu que se espalha pelos circuitos interativos: glorifica-se a menor das pequenezas, enquanto se parece buscar a maior das grandezas. (SIBILOIA, 2008)

Essa exposição do corpo através do uso de imagens fotográficas expostas em ambientes midiáticos e que se configura como um fenômeno recente e com grande demanda a partir dos portais de relacionamento, parte do uso da fotografia como elemento para captação da imagem e apreensão visual. Parece assim fazer sentido o que a autora Quintas (2010) contextualiza quando afirma que a imagem fotográfica é um jogo de visão de mundo e imaginação:
A dimensão subjetiva da fotografia se dá entre o real e a ficção, entre a realidade visível e a construção de um novo realismo, e tudo isso pode vir a ser muito surreal. Não falo do surrealismo enquanto estilo artístico, mas sim, da realidade movediça que se apresenta concreta enquanto índice visual. O que vemos a partir da imagem são as causas e os efeitos dela própria em nosso olhar. (QUINTAS, 2010)

É neste sentido que este estudo volta-se para analisar o fenômeno do corpo como reflexo a partir de um ambiente ficcional de imagens fotográficas de bonecas japonesas denominadas Blythes. O objetivo do estudo em si é promover uma discussão sobre a questão da imagem fotográfica como projeção do corpo ou espelho natural de uma identidade do ser a partir do contexto tecnológico atual. O ambiente definido aqui para analise foi o Flickr a partir da analise de imagens de um grupo de fotografas e colecionadoras de bonecas Blythes, que interagem diariamente postando fotos, comentando fotos, criando histórias, novelas, mostrando assim de forma lúdica um pouco de sua relação com o mundo e traduzindo assim sua identidade. Observando a letra da música do cantor Emilio Santiago, Verdade Chinesa, um trecho chama a atenção e concilia-se com as questões a serem aqui abordadas: “(...) Muita coisa a gente faz, seguindo o caminho que o mundo traçou, seguindo a cartilha que alguém ensinou, seguindo a receita da vida normal...” (SANTIAGO, 2010) e é diante desse “ser” que se compõe de traços que se aprende no decorrer

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da vida e se configuram na forma de imagem, que se analisa as fotos das bonecas e a incorporação de características ou vivencias de quem esta por trás das mesmas. O método aqui descrito é analise de imagem a partir da analise das narrativas imagéticas expostas nas fotos analisadas. No entanto para melhor compreender o grupo estudado, buscou-se na pesquisa participante a melhor forma para apreender e compreender o discurso do grupo em foco. Neste sentido, buscou-se assim, refletir sobre o reflexo do corpo e gestualidades através das imagens fotográficas das bonecas Blythes, mostrando assim que a extensão do corpo enquanto identidade se apresenta não apenas na sua aparência física mais nas narrativas que circundam todo o ser e que se representam quando o mesmo se insere no olhar fotográfico. Assim para melhor tratar do tema parte-se do seguinte questionamento: Sabendo que, a construção do “ser” como “espelho” natural de uma identidade pode ser criado e re-criado a partir da convivência com o grupo social, é possível perceber e/ou identificar o outro a partir do olhar fotográfico? Neste sentido busca-se assim analisar as linguagens expressivas reveladas nas imagens fotográficas das bonecas inseridas no ambiente Flickr, estimulando-se o pensar não apenas sobre a forma estética, mas de sua relação com a cultura intersubjetiva. O universo das blythes na atualidade Como se sabe, o fascínio por bonecas é algo bem antigo e acompanha a história da humanidade. Há indícios de que há 40 mil anos atrás elas já existiam. No Museu de História Natural de Viena, na Áustria encontra-se a Vênus de Willendorf que se caracteriza como uma estatueta sendo similar a uma boneca. Em torno de toda a história da humanidade, elas se proliferaram e muitas destas não estavam vinculadas a questão do brinquedo ou relacionado a crianças. De cera, madeira, marfim, porcelana, pano ou outro material, sabe-se que há uma variedade de bonecas que povoam regiões, sejam elas utilizadas como objeto infantil, como item de colecionador ou até mesmo para rituais. As bonecas das quais trata-se neste estudo, chamam-se de Blythes e foram lançadas no ano de 1972 pela empresa americana Kenner. Diz-se que as mesmas não agradaram as crianças, seu público-alvo , possivelmente pelo fato das mesmas terem as cabeças e os olhos grandes, diferentemente do padrão de boneca da 3

época que eram alongadas, com feições de mulheres e belas. Assim as mesmas foram rapidamente retiradas do mercado. Simultaneamente as Blythes também foram comercializadas no Japão com o nome “Mahou no Hitomi AiAi Chan”, que significa “Os olhos de Magia AiAi Chan” licenciada pela Tomy Corp Brinquedos. O diferencial da boneca era seu mecanismo que permitia mudança nos olhos, fazendo fechar os olhos, circular pelas laterais. Em 1977 a produtora de TV e vídeo Gina Garan se encanta com a boneca e resolve fotografá-la em suas viagens, lançando assim a publicação This is Blythe, o que ampliou assim a difusão da boneca no campo da fotografia. Apesar das feições desproporcionais, as bonecas ganharam nas lentes de Gira Garan uma vivacidade nunca antes perceptíveis em outras bonecas, pois nas fotos elas ganham vida e personalidade. Em 2001 as Blythes voltam ao mercado com nova designação de Neo Blythes produzida pela empresa CWC e fabricada através da Takana. Para o relançamento foi realizado uma exposição de fotos de Gina Garan. A partir de então a boneca volta ao mercado com força total, porém com preço diferenciado. Neste lançamento foram vendidas 1000 bonecas em menos de uma hora. O que se observa hoje é uma ampla difusão de imagens fotográficas dessas bonecas na sua forma original denominada de stock ou customizadas, – o que dá a mesma uma individualidade enquanto boneca –, e representando dessa forma uma gama de personalidades. Um desses espaços de difusão imagética da boneca é o ambiente virtual Flickr. Este ambiente é um espaço para divulgação de imagens fotográficas que além de dispor de área livre ou paga (dependendo do quantitativo de imagens a serem inseridas no mesmo) possui comunidades on-line que interagem e dialogam, criando assim grupos e espaços coletivos. As comunidades de colecionadoras de Blythes e/ou bonequeiras (termo tratado continuamente no ambiente Flickr) se espalham de forma ampla, tendo muitas dessas comunidades regras, brincadeiras concursos, distribuição de brindes e até bonecas viajantes, que circulam em cidades diferenciadas. No Brasil, foco do estudo, as bonequeiras são organizadas em grupos tendo inclusive um censo (criado pelas próprias bonequeiras) de quantas oficialmente colecionam as bonecas e participam ativamente das ações e atividades propostas no ambiente. 4

No período da realização da pesquisa existiam 174 colecionadoras de Blythes cadastradas no ambiente em diferentes cidades que diariamente postam fotos de suas bonecas no Flickr. Isso não significa que são apenas essas as colecionadoras e bonequeiras, pois existem muitas outras que não estão no cadastro. No mundo todo há grupos formados de colecionadoras, não se tendo exatamente a dimensão de números de colecionadoras, porém sabe-se que é um quantitativo considerável.

Foto 1: Boneca Blythe Fonte: Coleção particular da autora

Alguns hábitos foram observados nessas colecionadoras/bonequeira cadastradas como o acompanhamento da rotina das fotos das bonecas (como seguidoras de outras bonequeiras), o “favoritar” as fotos que gostam ou seja, marcas as fotos e adicioná-las a sua lista de fotos preferidas, o comentar as fotos postadas 5

e a divulgação de anseios e necessidades a partir da visualização de imagens postadas, pois continuamente as bonequeiras mostram fotos das novas aquisições de bonecas, fazendo com que, o desejo de compra se amplie. Neste universo algumas necessidades podem ser também observadas como a necessidades de receber comentários nas fotos, a necessidade de participação de promoções e consumo ou seja, compra de mais bonecas e acessórios para as mesmas. É interessante observar os diálogos travados no ambiente a partir da observação de uma foto de uma Blythe postada, que se apresenta bem trajada com cabelos longos e loiros, muito bem vestida e com maquiagem bem delineada. A bonequeira/colecionadora visitante abre o seguinte comentário:
ADORO!!*O* linda adore ela!! poxa!'-' será q tem alguma doll q vc tenha q eu não gosto!D: puts são todas tão lindas nem sei qual a minha favorita!D: adoro toda a sua coleção!*-* (BONEQUEIRA COMENTARISTA, 2011)

Em resposta tem-se o comentário da bonequeira/colecionadora que postou a foto:
Caramba que legal saber. Ainda mais vc que tem Pullips e Taes e Dals. Geralmente quem tem muito essas dolls detestam as blythes. ahahahahha Mas de verdade eu sou fascinada nelas. (BONEQUEIRA, 2011)

A conversa segue com o seguinte trecho da bonequeira/colecionadora visitante:
(...) tipo eu gosto muito de blythes! só não tive dinheiro ainda p compra uma! quero uma custom completa!xD a unica stoke q eu gosto é a Momolita!xD já sei o preço de tudo só me resta juntar a grana!xD (BONEQUEIRA COMENTARISTA, 2011)

Outros ambientes virtuais ampliam a participação das bonequeiras e colecionadoras como o Twitter, o Facebook e o Orkut, expandindo assim o raio de ação das imagens das bonecas. Destaca-se aqui dois sites bastante visitados pelas mesmas que são: o We Love Blythes, com dicas de customização de bonecas e vendas e o Blythe.com.br, que atualmente foi reformulação. Este segundo site, tem o formato de blog e abre espaço para divulgação das bonecas e suas colecionadoras como a que abaixo é apresentada:

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““Minha história com as Blythes começou em 2008, eu que sempre adorei decoração, me deparei em uma das minhas andanças virtuais com a foto de uma boneca de cabeça enorme e corpo pequeno, vestida de feiticeira, ocupando destaque em um aparador de sala. Incrível como aquela imagem chamou minha atenção. Confesso que tudo ao redor tornou-se supérfluo, só conseguia prestar atenção nas formas e expressão nada convencionais da garotinha.” (COLECIONADORA, 2010).

A relação das bonequeiras com as Blythes ganha dimensão quase ficcional, pois as bonecas encantam suas donas de forma que as mesmas começam a acreditar que as bonecas possuem vida. Vejam trecho abaixo:
Hoje, sete meses após toda essa loucura, a minha pequena Lucy tem uma personalidade que no início eu nem acreditava que seria possível. Ela tem um coração enorme e tem uma imaginação enorme. Veja só, ela já foi a menina aranha, uma cantora de blues improvisado e tem até o seu nome artístico, Lucy Juice. A Lucy pilota meus Keds e já foi escoteira. Ama Beatles, Audrey Hepburn, Phineas & Ferb, ET’s, Lego e principalmente a sua melhor amiga para todo o sempre: Minduim! Que na verdade é a Alice, do começo da história, mas que para a Lucy tem cabelo da mesma cor que amendoim. Há sete meses que eu durmo com a porta do guarda roupa aberta porque a Lucy está lá dentro, e se ela quiser sair para ir no banheiro, fazer um lanche, brincar com o cachorro… ? (BONEQUEIRA, 2011)

Apesar da boneca Blythe ter preço nada convidativo – são extremamente dispendiosas -, as mesmas vêm ganhando espaço entre o público-alvo adulto ou seja, mulheres de faixa etária diversificada. Encontrou-se no ambiente desde bonequeiras na faixa de 13 anos como bonequeiras na faixa de mais de 50 anos. Há também um público masculino, em número reduzido que também colecionam as bonecas. Observou-se uma ligação sentimental entre a boneca e a dona (dono). Isso é possível detectar em todas as falas descritas no ambiente e nas entrevistas observadas em blogs e sites relacionados ao tema. Vejam o trecho abaixo:
No dia 17 de junho de 2010, a Fedra chegou. Quando abri a caixa, a minha irmã perguntou: ela é tudo o quê você imaginou? Pensei um pouco e respondi: não, ela é muito mais! A Fedra chegou toda tímida e curiosa. Acho que estava assustada com os apertos que eu dava/dou nela. Aos poucos, ela foi se descobrindo e me mostrando a garotinha que ela é. E, que garotinha! (BONEQUEIRA, 2011)

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Corpo imagético, ficção e realidade

Ao se partir para a análise das fotografias criadas com as bonecas Blythes, tendo como estudo a relação de quem produz as imagens ou seja, as colecionadoras e/ou bonequeiras, vê-se claramente a existência do olhar no seu contexto sócio-cultural.

Foto 2: Boneca Blythe Fonte: Coleção particular da autora

Parece assim que ao observar as imagens produzidas há uma relação que poderia se denominar como sociedade da ficção. A co-existência de elementos que pertencem ao universo existencial de quem produz a imagem, assim a ficção e a realidade se complementam na imagem, 8

causando a sensação de uma presença que não se faz presente na foto. Neste sentido buscou-se em Vila Nova (2005) compreender esse ambiente ficcional de imagens, uma vez que o mesmo acredita que, a obra de ficção apesar de não ser compreendida como produto sócio-cultural é fonte de compreensão da sociedade, merecendo ser vista com mais atenção pelo cientista social. O mesmo exemplifica o sociólogo Gilberto Freyre, reconhecido como um dos maiores cientistas sociais, que outrora já considerava a ficção com seriedade e contribuição ao conhecimento do homem e da sociedade. Neste sentido afirma Vila Nova (2005) que, provavelmente, o descaso generalizado pela ficção como dado sociologicamente relevante se deve, antes de tudo, a preconceituosa distinção entre arte e ciência, enquanto consideradas formas dicotômicas de conhecimento. (VILA NOVA. P. 20, 2005) É evidente que, ao se tratar de ciência acredita-se que os dados devem ser concretos e quando lida-se com a ficção, trata-se de um ambiente complexo, abstrato e múltiplo. Afirma Vila Nova (2005) que, ao personagem de ficção, as situações do romance não são representações do único e do complexo. São antes simplificações da complexidade percebida no universo. Neste sentido, o mesmo acredita que, toda obra de ficção encerra dentro de si uma estrutura social. É neste contexto que pode concluir que, há de fato uma relação entre o mundo de ficção e a sociedade, pois as situações e personagens são frutos de valores, crenças, atitudes, sentimentos e outros que, se espelham ou refletem o universo social. Neste sentido afirma Vila Nova (2005) que, “a coerência da estrutura social da obra de ficção é dada, em última análise, por símbolos e normas”. Salienta ainda o autor que, de fato, símbolo e normas constituem a base da sociedade real, como da “sociedade” de romance.
São de tal modo, indissociáveis entre si, que não se pode falar de um sem aludir ao outro. Todo símbolo é, ao mesmo tempo, norma em si mesmo, e normante em seus fins sociais: toda norma é, direta ou indiretamente, simbolizada. O mundo social do homem é um mundo de símbolos. E o significado último, implícito ou explicito em graus diversos, desses símbolos, é sempre normativo. (VILA NOVA, p. 31, 2005)

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Ao tratar neste estudo da relação entre o ambiente ficcional das bonecas Blythes e sua relação com as imagens fotográficas produzidas por colecionadoras e/ou bonequeiras, é de fato relevante observar as imagens produzidas por essas colecionadoras, que se deixam incorporar pelo campo ficcional e buscar compreender essa relação com base na sociedade real. É importante salientar aqui, que trata-se de uma publicização de imagens fundamentadas na subjetividade e na pregnância de uma cultura exposta em ambientes apoiados pela tecnologias digitais, sendo assim um espaço de socialização que ainda não foi totalmente compreendido. É neste contexto que a autora Sibilia (2008, pág. 26) vem a aborda que, “a irradiação destas práticas pelos diversos meios de comunicação, por sua vez, passa a impregnar os imaginários globais com um denso tecido de valores, crenças, desejos, afetos e idéias”. As fotos parecem numa primeira leitura apenas fotografias postadas com o objetivo único de prática e lazer, mas ao se aprofundar neste ambiente e conviver mais efetivamente com o grupo é possível ver que através das imagens existem incorporados não apenas simples imagens mais desejos, alegrias, tristezas e uma gama de sentimentos e costumes que inter-relacionam dialogando assim com o outro. Essa apropriação da imagem dispostas no ambiente e socializadas são de fato significativas, criando novas subjetividades como salienta Sibilia (2008):
A rede mundial de computadores se tornou um grande laboratório, um terreno propício para experimentar e criar novas subjetividades: em seus meandros nascem formas inovadoras de ser e estar no mundo, que por vezes parecem saudavelmente excêntricas e megalomaníacas, mas outras vezes (ou ao mesmo tempo) se atolam na pequenez mais rasa que se pode imaginar. (SIBILIA, 2008)

Para validar esse estudo buscou-se em Martins (2008) compreender a imagem, a partir da analise da sociologia da imagem e da fotografia, quando o mesmo salienta que,
A imagem fotográfica foi incorporada por sociólogos e antropólogos como metodologia adicional nesse elenco de técnicas de investigação. E os próprios historiadores a agregaram à lista da documentação a que recorrem para ampliar as evidências documentais da realidade social dom passado que constituem a matéria-prima de suas analises. Um recursos que, em diferentes campos, amplia e enriquece a variedade de informações de que o

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pesquisador pode dispor para reconstruir e interpretar determinada realidade social. (MARTINS, 2008)

Já Barthes (p. 51, 1984) encontrou-se algumas questões que melhor aportam as reflexões aqui descritas. Segundo o mesmo a fotografia permite ter acesso a um infra-saber fornecendo o que ele chama de “uma coleção de objetos parciais” e que podem favorecer “um certo fetichismo”, pois segundo o mesmo “ há um “eu” que gosta do saber, que sente a seu respeito como que um gosto amoroso. Barthes (p. 127, 1984) traduz de forma bastante clara o sentido da fotografia não como simples técnica, mas o que acredita-se neste estudo ser a essência da foto ou seja a presença do não presente. Neste contexto, Barthes afirma que,
A fotografia não fala (forçosamente) daquilo que não é mais, mas apenas e com certeza daquilo que foi. Essa sutileza é decisiva. Diante de uma foto, a consciência não toma necessariamente a via nostálgica da lembrança (quantas fotografias estão fora do tempo individual), mas, sem relação a qualquer foto existente no mundo, a via da certeza: a essência da fotografia consiste em ratificar o que ela representa” ( BARTHES, 1984.)

Assim o mesmo salienta que, “toda fotografia é um certificado de presença”. Como Barthes, o autor Manguel (p. 177, 2003) em suas reflexões sobre imagem acredita que todo retrato é, em certo sentido, um auto-retrato que reflete o espectador, “atribuí-se a um retrato as nossas percepções e as nossa experiência” (MANGUEL , 2001). Já o sociólogo Martins (2008) em recente publicação qualifica a ligação da Sociologia com a imagem ao afirmar que,
É, portanto, no terreno da ficção social e cotidiana, do conhecimento que da fotografia tem o seu usuário, o que usa a fotografia como instrumento de auto-identificação e de conhecimento de sua visualidade na sociedade em que vive, que se pode encontrar o material de referência para a uma Sociologia da fotografia e da imagem no que se interpreta, e não simples e mecanicamente no que se vê. (MARTINS, 2008)

O Eu personagem ficcional: a pesquisa Para melhor compreender as imagens analisadas das bonecas Blythes aqui descritas, a pesquisadora vem participando do universo do Flickr compartilhando e 11

observando as imagens postadas diariamente. O grupo tem uma atividade diária de postagem de fotos, além de compartilhamento de atividades como participação em eventos, promoções entre outros como salientado anteriormente. As bonecas que circulam no ambiente recebem denominações que as fazem ganhar espaço e personalidade, pois quase que diariamente elas se fazem presentes ao ambiente. Nesse sentido as fotos demonstram seus sentimentos, ações, alegrias entre outros. A cada boneca que surge no ambiente, a mesma ganha uma foto de apresentação ao grupo e passa a ser personagem permanente do ambiente. Várias dessas bonecas têm características marcantes e há também algumas Blythes que são customizadas e passam a atuar como personagem do sexo masculino, virando assim um Blytho. Esses também ganham personalidade e atuam de forma expressiva. Como salientado anteriormente, a pesquisa teve um caráter de pesquisa participante – nesse sentido a pesquisadora passou a atuar e postar no ambiente – , iniciando assim um acervo de bonecas customizadas e stocks. Um dos pontos interessantes observados é que em alguns períodos as bonecas incorporam personagens que se ampliam e se multiplicam no espaço. Pode-se ver ao mesmo tempo uma infinidade de bonecas corporificando fantasmas (com rostos esbranquiçados, olhos claros e salientes e cabelos amontoados em estilo “mohair”, termo referente ao cabelo desalinhado parecendo um algodão. Outros períodos proliferaram bonecas com características de vampiras, roqueiras assim como personalidades conhecidas na mídia e em desenhos animados. Nas postagens diárias algumas bonecas passam a apresentar histórias de vida que são acompanhadas continuamente por outras bonequeiras. Observem o trecho abaixo que serviu de legenda para a foto. Aqui descrevese um diálogo de uma boneca que atua como uma atriz cinematográfica reconhecida e que, de vez em quando entra em estado de depressão. Nesta fala a boneca encontra-se hospedada em um hotel em Curitiba. A boneca trava assim uma conversa com a mãe (bonequeira). 12

Eu falando: Alô filha. Vc está chorando no telefone. O que foi? Boneca falando chorando: Eu estou passando mal mamy. Eu falando: Ahhh filha eu não estou aí com vc, mas eu vou pedir para alguém chamar a sua médica para te examinar. Boneca falando chorando: Tá mamy. Eu falando: Filha Boneca falando chorando falando chorando: Fiquei mamy com uma coisinha aí. Eu falando: Filhota vc esqueçeu que a médica disse que vc não pode ficar nervosa. Bom mas agora é tarde . Vou ligar lá para doutora. ++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++ ++++++ Eu falando: Alô filha. Eu já liguei para a sua médica e falei para ela passar aí para te examinar. Ela disse que ia chegar aí em 5 minutinhos. Fique Boneca falando: Obrigada mamy. Eu falando: Filhota eu ligo mais tarde para ver como vc está. Boneca falando: Tá mamy.

O que chama atenção nessa personagem acima descrita é seu estado permanente de alteração de sentimentos, tendo sempre períodos prolongados de depressão. Esses momentos em que a boneca encontra-se acuada, representada pela simbologia da “cama” e olhar tristonho – o estar deitada na cama –, fazendo com que as bonequeiras reclamem continuamente. Outras observações referem-se a forma como as fotos são trabalhadas. Há imagens em ambientes externos, em cenários montados, em família (grupo de bonecas). Aqui cabem algumas indagações: Qual mensagem o corpo aqui representado pela boneca de plástico passa de informação quando é fotografada? Pode-se de fato considerar que esta se tratando da lógica da visibilidade e da exteriorização do “eu”? O que de fato emerge dessa prática de autoconstrução que se utiliza de recursos visuais para se vivenciar uma subjetividade temporária? Ao observar uma dessas bonecas em plano médio com olhos expressivos que parece estar a observar o outro que a observa de fato, pode-se imaginar que relação este fotógrafo (a) quis de fato transmitir? Um “eu” posso? O sentido de possuir enquanto autor da imagem ou um “corpo falante/espelho de mim mesmo?

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Sibilia (2008) traduz toda essa inquietação aqui exposta com uma simples argumentação focada na autoficção quando afirma que proliferam as narrativas biográficas, as espetacularização da intimidade e as explorações artísticas de todas as arestas do eu. Neste sentido a mesma acredita que, transita nestes ambientes digitais o autor-narrador-personagem, que recorre a imagem para explanar uma realidade midiatizada e espetacularizada, sendo assim buscando provocar e tornarse visível dentro dessa linguagem altamente codificada que a mídia oferece.
O real, então, recorre ao glamour de algum modo irreal – embora inegável – que emana do brilho das telas, para se realizar plenamente nessa ficcionalização. Um dos principais clientes destes eficazes mecanismos de realização através da ficção é, justamente, o eu de cada um de nós. (SIBILIA, 2008, pag. 221)

Quando a autora Santaella (2004) salienta que, “o corpo tornou-se, assim, um nó de múltiplos investimentos e inquietações” e que “uma crise do sujeito, do eu, da subjetividade que coloca em causa até mesmo ou, antes de tudo, nossa corporalidade e corporeidade”, nos faz refletir sobre esse olhar que se traduz na fotografia a partir desses corpos que se delineiam e formam uma teia de emoções. Emocionam tanto que, quem interage com essas imagem por algum tempo, sente-se tentado a comprar a boneca e interagir neste universo lúdico, buscando não apenas o prazer relacionado ao ato de colecionar, mas a inter-relacionar através da imagem com o outro. E neste sentido, buscando a partir da imaginação, ousadia e sensibilidade chamar a atenção para o corpo representado pela boneca, corpo este que de alguma forma fala, não mais oralmente, mas imageticamente. Santaella (2004) contextualiza esse experimentar e percepção corpórea quando vem a afirmar que,
Pensar é algo que diz respeito a nossas cabeças, é algo que produzimos, manipulamos à vontade e interrompemos quando nos aptece. O que persiste em nós, portanto, é a imagem de uma experiência intransferível, inquestionável e irrenunciável, trata-se de um dado que define nossa própria condição humana. Assim, cremos que aquilo que nos diferencia dos animais não é mais do que nossa capacidade reflexiva, a possibilidade de representarmos a nós mesmos como entidades próprias, a habilidade de sermos conscientes de nós mesmos. (SANTAELLA, 2004).

Assim conclui-se que, vive-se hoje em um contexto bastante complexo de

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relações e subjetividades que, o instrumental tecnológico vem a favorecer a produção de novas narrativas, muitas destas, ficcionais a partir da representação de um corpo que fala e interage. Esse tecido imaginário, e aqui relacionamos esse ambiente estudado, – onde os corpos falantes são representações de bonecas de plásticos – , metaboliza uma nova forma de comunicação que se retro-alimenta de consumo criando assim modelos identitários diferenciados. Ao buscar-se compreender esse ambiente complexo de interações com imagens fotográficas, buscou-se assim em primeiro momento detectar pistas que focalizassem esse corpo e sua subjetividade a partir da imagem exposta buscando assim reafirmar que, a imagem é uma representação de memórias e expressões culturais, porém mais que isso, este estudo que não se encerra aqui com essas provocações, abre espaço para outras modelagens desse corpo que se revela em uma sociedade permanentemente em transformação.

Referência Bibliográfica BARTHES, ROLAND. A Câmara Clara: notas sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2002. BLYTHE COM BR. Bonecas sempre bem vindas. Disponível em http://www.blythe.com.br. Acesso em 11.04.2011. DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico. Campinas, São Paulo: Papirus, 1993. MANGUEL, Alberto. Lendo Imagens: uma história de amor e ódio. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. MARTINS, José de Souza. Sociologia da Fotografia e da Imagem. São Paulo: Contexto, 2008.

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QUINTAS, Geórgia. O que mais fotografar. In Fotografia Contemporânea. Disponível 10.04.2011. SANTAELLA, Lúcia. Corpo e comunicação: sintoma da cultura. São Paulo: Paulus, 2004. SANTIAGO, Emílio. Verdade Chinesa. Disponível em em <http://www.fotografiacontemporanea.com.br/>. Acesso em

<http://letras.terra.com.br/emilio-santiago/45703/> . Acesso em 10.04.2011. SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. ______________. O Homem Pós-Orgânico: Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. VILA NOVA, Sebastião. A realidade social da ficção. Recife: Editora Massangana, FJN, 2005. WE LOVE BLYTHES. Disponível em <http://www.weloveblythe.com.br/>. Acesso em 11.04.2011.

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