Você está na página 1de 14

1

A Exigência Ética da Educação

Denis Coitinho Silveira - Doutor em Filosofia1

Resumo: O objetivo deste ensaio é refletir sobre a exigência ética da educação, pensando
sobre a questão de como a escola pode contribuir para a formação ética de seus membros em
nossa sociedade contemporânea. Inicia-se com a análise sobre a relação de pertença entre
ética e educação, abordando a relação conceitual dos termos e reconstruindo os principais
paradigmas ético-educacionais. Posteriormente, propõe-se um esboço normativo para
fundamentar eticamente a educação formal atual, pautando-se nos princípios de cidadania,
democracia, justiça, solidariedade e autonomia, visando contribuir para a efetivação de uma
escola republicana e democrática.

Palavras-chave: ética – educação – filosofia – cidadania – democracia – justiça –
solidariedade – autonomia

Quero responder, neste ensaio, a seguinte questão: como a escola formal pode
contribuir para a formação ética dos indivíduos em nossa sociedade, isto é, como a educação
pode assumir a sua exigência ética contemporaneamente? Qual a finalidade desta
investigação? Em primeiro lugar, por que identifico que a escola não está conseguindo
desempenhar o seu papel na formação humana integral (moral e intelectual) dos educandos,
em razão da supremacia das regras particulares de poder, mediocrização e competição que
imperam em nossa sociedade planetária. Em segundo, porque penso ser responsabilidade de
todos os educadores defender a exigência ética da educação pautada nos princípios de
cidadania, democracia, justiça, solidariedade e autonomia, pois só assim poderemos
oportunizar um espaço público republicano para o desenvolvimento das capacidades
individuais e para a garantia da igualdade de oportunidades em nossa desigual sociedade.
Muito se tem falado e escrito sobre a responsabilidade ética do processo de ensino-
aprendizagem, de como a escola deve ter por objetivo a construção de cidadãos participativos
e conscientes, isto é, indivíduos responsáveis e solidários com a comunidade e autônomos
intelectualmente, de como a escola está empenhada em desenvolver atividades que tematizam
os direitos humanos e o Estatuto da Criança e do Adolescente e despertar o respeito ao meio
ambiente (natureza). Salvo melhor juízo, não é possível observar o grande sucesso apregoado
pelas escolas e educadores nesta questão tão premente. Mais e mais jovens estão saindo das
escolas sem um sentimento de pertença à comunidade e à natureza e, também, sem possuir
1
Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Professor Titular
de Ética e Filosofia Política e Pesquisador da URI – Campus de Erechim. Membro do Grupo de Pesquisa CNPq
Ética e Educação e Teorias da Justiça. Bolsista da CAPES/CEBRAP (2005-2006).

É possível pensar que o processo de ensino-aprendizagem ocorra sem uma referência ética? Ou então. Em síntese. Em conseqüência desta ruptura. 2 A palavra ética é derivada da palavra grega éthos que possui dois significados. p. no sentido de uma ética profissional (como a trabalhada na universidade) ou de uma ética moralizadora (como a que possibilitaria o controle da indisciplina escolar). através de uma pequena análise sobre a relação de pertença entre ética e educação. a ética tem sua preocupação na forma como legitimamos nossas relações societárias (VÁZQUEZ. legitimar as ações morais intersubjetivas. podendo-se pensar na ética como morada do éthos. Em um segundo sentido. no sentido de uma “catequização” de valores morais para o educando? (HERMANN. quais sejam: vivemos em uma época em que há um grande distanciamento entre a ética e a educação. Ética é a reflexão sobre o ato moral. é necessário um esclarecimento conceitual introdutório. . 1996. que é a de responder qual é a relação existente entre ética e educação contemporaneamente? A colocação da pergunta já evidencia um problema. Posteriormente. compreendendo a ética como a forma de validar os princípios normativos da sociedade em um contexto educacional científico-tecnológico. Relação entre Ética e Educação Visando explicar os motivos do fracasso moral educacional. além de não possuírem autonomia moral para fundamentar racionalmente sua ação moral (deliberação). como o lugar puramente humano para validar as regras morais. éthos (épsilon) tem referência aos costumes. é possível que se pense na ética apenas como uma teorização do agir moral. êthos (éta) significa morada. p. Em primeiro lugar. Reflete a cerca do que se deve fazer em uma perspectiva coletiva e não puramente individual2. sem uma vinculação com a prática humana no horizonte ético? Ainda sobre o mesmo problema: tem ainda significado continuar falando da ética como uma forma de fundamentar o processo educativo atualmente. 2 autonomia intelectual para a resolução de problemas cognitivos e práticos. A questão em pauta nos aponta para algumas evidências essenciais. é a forma de fundamentar. que teriam a função de orientar o educando. inicio com uma primeira questão relevante. isto é. revelando o aspecto histórico-social da moral. é o que pretendo abordar inicialmente. Em razão disto. Por que isso ocorre. 11-14). 2001. Essas evidências apontadas já indicam que os termos ‘ética’ e ‘educação’ são compreendidos e vivenciados de múltiplas formas em nosso contexto. a ética é interpretada como um conjunto de regras comportamentais. meu objetivo é propor um esboço normativo a respeito do que se pode fazer para contribuir com uma concepção educativa que esteja alicerçada em uma concepção ética de responsabilidade solidária. lugar habitual. aos hábitos de uma comunidade.

estando restrita a esfera privada e que não se relaciona com a esfera pública. Nesta fragmentação moral- tecnológica. saúde e educação deficitárias. isto é. por exemplo. observa-se uma ruptura entre o ético e o político-econômico. vide. como a supremacia das regras de mercado e poder para a fundamentação da vida humana. acúmulo de informação. como por exemplo: fome de um bilhão de pessoas. o que oportuniza um desenvolvimento científico (tecnológico) e uma atrofia moral (OLIVEIRA. abordo teoricamente o problema através de um pequeno panorama dos paradigmas ético-educacionais. entre o ético e o entretenimento (divertimento). 1979. guerras imperialistas e problemas ambientais. em um universo de seis bilhões. através da busca de um ordenamento coerente do todo que está fragmentado. que assuma uma responsabilidade solidária com a comunidade (com o outro homem) e com a natureza. exclusão-pobreza de dois bilhões de pessoas. é possível identificar que a ciência e a tecnologia ocasionam um desenraizamento cultural e uma colonização das finalidades centrais da vivência social (LADRIÈRE. educação (educere) significa a formação integral do ser humano. Em uma segunda forma. ou seja. entre outros motivos. e como podemos sugerir uma alternativa para a . 3 12). O problema que temos atualmente é que a ética é considerada de um ponto de vista puramente individual (como somente no âmbito da moralidade particular). p. concepção esta que continua com muito prestígio atualmente. A educação. educação (educare) representa apenas instrução. 115). Essa é a educação técnica que visa somente a transmissão quantitativa de informações. da mesma forma. O objetivo desse panorama quer evidenciar como e quando surgiu o problema contemporâneo da educação: o abandono de um referencial ético no processo ensino-aprendizagem. sobretudo. entre o ético e o educativo. compreenda-se enquanto membro de uma comunidade. Como já estamos inseridos em um momento de ruptura entre a ética e o processo educativo. significa possuir e perseguir o ideal de ser humano. é importante fazermos uma reconstrução desta relação para. nas instituições privadas. pode ser interpretada de duas maneiras distintas. em que se verifica uma indiferenciação generalizada aos problemas humanos. que é fazer com que o indivíduo que se forma. a cultura da demanda mercadológica na oferta de cursos superiores nas universidades brasileiras. revela-se uma exigência ética . através da predominância das regras privadas para pautar a vida pública. Por isso. Em um primeiro sentido. e não possui uma fundamentação ética. sociedade e mundo. 11). posteriormente. p. 1993. situarmos nossa proposta normativa. Com essa segunda maneira de compreender a educação. Como segunda questão. o desenvolvimento de suas potencialidades com uma fundamentação ética para sua formação integral.

Proponho. que permite o controle dos desejos e da vontade. como pode ser percebido pela reflexão contra a ideologia e a 3 Por exemplo. situando-os em cinco horizontes da reflexão filosófica e suas respectivas concepções de educação. não a considerando enquanto pura legalidade. segundo Kant. Para Platão. 419 a – 445 e). O ideal educativo é compreendido como paidéia. 1997. efetivando-se quando cada um faz a sua parte. 39-91). sendo entendida como aufklärung. No contexto do século XIX. a saída da menoridade do homem. de uso prático da razão. através da criação do indivíduo autônomo. 4 A proposta de Kant da construção de uma Fundamentação da Metafísica dos Costumes tem a pretensão de dotar o homem emancipado de uma ética cujos fundamentos metafísicos encontram-se na própria liberdade. imitando a perfeição divina. através de uma ética da responsabilidade intersubjetiva. 4 questão. isto é. a concepção educativa permanece muito semelhante. deparamo-nos com o horizonte filosófico cosmocêntrico-objetal que buscava a fundamentação racional em uma ordem imutável. é possível verificar a continuação do ideal educativo do esclarecimento. A justiça irá permear e sintetizar as outras virtudes. como hipótese para análise. através de uma defesa de fundamentação na efetividade histórica e nas relações interpessoais. como uma formação que visa o esclarecimento humano. O horizonte filosófico é o antropocêntrico-subjetal. Essa construção do melhor homem é evidenciada em sua concepção de uma ética das virtudes para a compreensão do bem como critério universal. opiniões e imagens) para a entrada no mundo conceitual (raciocínio dedutivo e raciocínio puro). quatro paradigmas éticos. procurando estabelecer o que permite a possibilidade do imperativo categórico. o fundamento do agir moral está na ordem incondicionada da idéia de bem. pois a fundamentação localiza-se na razão subjetiva humana. isto é. Na modernidade. constituindo-se como a base de sustentação ético-racional. isto é. o homem como perfeito. isto é. na racionalidade. com sua relação com o mundo). possibilidade de uma lei moral universal (KANT. O exemplo mais representativo deste paradigma do ser é a alegoria da caverna de Platão. por exemplo. p. Como exemplos deste paradigma da consciência encontramos Locke. uma formação integral do ser humano. Hegel e Marx são exemplos de pensadores que faziam uso de um paradigma ético da consciência (porém. que opera com a possibilidade de saída do mundo das sombras (crenças. como. identifica-se uma crítica ao solipsismo moderno (razão monológica) com o horizonte historiocêntrico- relacional. Este é o paradigma ético do ser que está situado em uma ética das virtudes. quando cada classe social faz aquilo que lhe cabe para o bem comum da pólis (PLATÃO. O Bem está no conhecimento. a priori. na natureza. Dessa maneira. através do ideal de homem belo e bom (ideal de kalokagathía). No âmbito da filosofia grega e medieval. Livro IV. Rousseau e Kant4. apresentada no Livro VII da República. Este controle é compreendido como virtude e que é possibilitado pela sabedoria3. a justiça é uma virtude privilegiada no interior da pólis. manifestada em sua autonomia pelo estabelecimento de condições transcendentais. Sua preocupação é encontrar as condições de possibilidade da lei moral em relação à qual se julga a moralidade do agir humano. . 1996. na idéia de bem ou de Deus.

6 Utiliza-se o princípio discursivo (Princípio D) para fundamentar o agir moral. a educação se reduz à transmissão de informação e. Como exemplo deste novo paradigma ético podemos fazer referência a ética do discurso. 1992.73). apenas uma interpretação moral dos fenômenos” (§ 108. isto é. A intenção primordial da ética discursiva é estabelecer uma ética solidária universal em um contexto globalizado. entre outros. ética da responsabilidade solidária etc. o infinitismo em ética começa a dar lugar a uma interpretação no horizonte da finitude humana (Ver a esse respeito. Foucault. também. 2000. Nietzsche irá desestruturar a investigação ética. tematizando a insuficiência da razão para a fundamentação ética. com uma fundamentação na racionalidade comunicativa intersubjetiva. busca uma validade intersubjetiva (razão comunicativa) para os princípios que servirão de referência pública. Heidegger. que possibilitarão o consenso em uma sociedade pluralista6. tendo a educação a tarefa de humanizar o homem. No final do século XIX e início do XX. Nietzsche afirma: “Não existem fenômenos morais. Levinas. abrindo espaço para a compreensão da educação como técnica e como lúdica (estética). evidenciando a historicidade dos conceitos de bom e mau (moral de senhores e moral de escravos) e propondo a transvaloração de todos os valores pelo além-do-homem (übermensch) através do exercício da vontade de potência5. É de fundamental importância destacar que a 5 Em Além do Bem e do Mal. ética das virtudes. em uma interpretação genealógica da moral. 65-77) sobre a ética da finitude em Heidegger). Freud. como associada ao prazer puramente subjetivo. Habermas. impedir que ele se aliene e perca características próprias. A concepção de educação perde sua referência ética. em que se evidenciam várias propostas éticas. O paradigma ético é o da desconstrução. ética do discurso. isto é. O que isso representa? Como a ética está impossibilitada de dar validade objetiva aos juízos normativos. p. Wittgenstein. Este é o paradigma da linguagem no qual nos encontramos hodiernamente. 5 alienação. a análise de Zeljko Loparic (LOPARIC. O ideal educativo do esclarecimento é colocado em xeque pelo horizonte filosófico desconstrutivo. sendo que as normas podem sustentar sua pretensão de validade na medida em que são justificadas mediante argumentos que sejam aceitos racionalmente pelos participantes. A suspeita é estabelecida por Nietzsche. como a ética da alteridade. desenvolvidos segundo as normas de uma comunidade ideal de comunicação . está segurança na fundamentação racional é colocada sob suspeita. Entende a linguagem e o discurso como médium de toda fundamentação (validação) dos princípios normativos. Rawls. tematizando o fim dos conceitos metafísicos de bem e mal. que tematizou a crítica da metafísica e a impossibilidade de fundamentação da ação moral. A partir deste contexto. formulada por Apel e Habermas. O horizonte da reflexão filosófica contemporânea é o lingüístico-plural. A partir da segunda metade do século XX acontece uma retomada do projeto de uma fundamentação ética da educação com uma racionalidade comunicativa. quer dizer. MacIntyre. entre outros. Como exemplos de pensadores circunscritos a este paradigma podemos citar Apel. p.

nem tampouco pelo nascimento (ARISTÓTELES. Esboço Normativo A seguir. justiça. nem pelos direitos jurídicos (direito de acusar e de se defender no tribunal). A primeira é: o que é ser cidadão? A segunda. por encontrar neste pensador uma reflexão cuidadosa e atual de cidadania. p. Na interpretação aristotélica. 2000. Aristóteles elabora uma concepção política de indivíduo. p. em que só faz sentido pensar na educação como um processo que possibilite aos indivíduos a validação dos princípios morais que servem de pressupostos para a (con)vivência em sociedade. 1275 a 5-13. . 1. a cidadania não é oportunizada nem pelo local de nascimento. em que as normas são válidas quando são capazes de obter o reconhecimento de todos os envolvidos (HERRERO. 2. como um indivíduo que deve participar da esfera pública de forma ativa e responsável. pois pode oportunizar um local dialógico para possibilitar o estabelecimento da validade dos princípios que vão orientar esta mesma convivência em sociedade. 1275 b 21-26). 180-183). duas questões essenciais a serem respondidas. busco auxílio na Política de Aristóteles. isto é. Isto ressalta o papel primordial da educação no processo de formação dos indivíduos. a saber: cidadania. isto é. 6 reflexão ética contemporânea vê como possível e imprescindível resgatar a validade intersubjetiva dos juízos normativos (de dever ser). É aqui que obtém destaque a relação de pertença entre ética e educação. assim. temos. o que conduz necessariamente a uma definição de cidadão como um indivíduo que participa da esfera pública de forma ativa. solidariedade e autonomia. a afirmação de que a escola deve pautar a sua ação pedagógica na formação de cidadãos. em que o ser humano é compreendido enquanto um ser político que deve construir-se através de uma prâxis ético-política no interior da comunidade política. Chega-se ao princípio de universalização (Princípio U). É importante destacar o argumento utilizado que evidencia que (situação ideal de fala). não apresenta a mesma simplicidade e consiste na pergunta: como se forma um cidadão? Para responder a primeira questão. 1997. democracia. É uma unanimidade no contexto educacional. Partindo desse contexto. deve desenvolver as potencialidades dos indivíduos para sua conquista de cidadania. III. Cidadania: A escola deve possibilitar que o educando se entenda enquanto cidadão. visando ao estabelecimento de um mínimo comum para orientar a convivência nas sociedades plurais. gostaria de propor um esboço normativo para circunscrever eticamente a educação contemporânea pautado em cinco princípios básicos.

pois. o que não propicia a aquisição do 7 É importante ressaltar que Aristóteles confere status de cidadania apenas ao homem (sexo masculino) adulto. Pode-se partir do domínio dos diversos gêneros textuais em uso. A idéia defendida é que a cidadania não é uma pura formalidade. televisão. A única possibilidade de formar um indivíduo autônomo é capacitá-lo na utilização e na busca da informação. que é possibilitar aos educandos o domínio dos múltiplos códigos culturais da civilização. DVD. sobretudo. Esta é a definição de cidadão para Aristóteles: um indivíduo que possui a potência de participação nas coisas públicas. filosofia. para se chegar ao domínio (parcial) da cultura da sociedade: literatura. como computador. Mas como a escola pode formar um cidadão em uma sociedade que parece estar apenas preocupada com questões utilitárias particulares? Penso. revistas. um estado garantido pelo nascimento e por direitos civis abstratos. sim. pois. . pois ele deve ter acesso e saber utilizar estas ferramentas cotidianas. cidadania é uma conquista do indivíduo através de sua participação responsável nos assuntos públicos de sua comunidade. cidadão é entendido como aquele que pode participar nos cargos deliberativos e judiciais da pólis e alcançar a cidadania. em geral. É claro que contemporaneamente não é possível aceitar essa compreensão ultrapassada e preconceituosa de Aristóteles. escultura. 7 esses indivíduos só seriam cidadãos de uma maneira imperfeita. Destarte. sem isso. a escola trabalha apenas com informações desconectadas. jornais. A partir desta interpretação que utilizamos. os escravos e os jovens. entretanto o que se revela como fundamental é verificar o entendimento absolutamente ‘moderno’ da concepção aristotélica de cidadania como participação política e não somente como uma realidade dada. em que o cidadão conquista sua cidadania em função de sua participação na esfera pública a partir dos poderes deliberativo e judiciário. religião etc. sendo este o que dá sustentação para a cidadania. ciência. bem como os jovens e os anciãos que já foram dispensados de suas atividades públicas. mas. é necessário que a escola desenvolva nos educandos a capacidade de estabelecer relações com as informações obtidas. Como é possível adquirir um sentimento de pertença à nossa comunidade se desconhecemos o que ela produziu e produz culturalmente? Como terceiro eixo. em quatro eixos fundamentais que se interligam. o que garantirá a autonomia (autárkeia)7. que a cidadania é uma atividade (ação humana). que é livre e natural da comunidade política. o que lhe confere uma pertença natural e legal à comunidade. não se alcança o conhecimento. A escola deve possibilitar o acesso e o domínio dos atuais meios de informação e comunicação disponíveis. livros. pintura. vídeo. excluindo da categoria de cidadão as mulheres. Isto nos conduz ao segundo eixo. Creio que aqui se apresenta o nó górdio da educação básica brasileira. pois não possuem a capacidade de atividade na esfera pública no que diz respeito às questões de justiça e de governo. internet. o que revela que a definição de cidadão estará inscrita na categoria de cidadania. cinema.

alcançando o reconhecimento “num mundo social intersubjetivamente partilhado” (HABERMAS. Os três aspectos anteriores devem conduzir-nos para um compromisso em estimular a participação responsável dos alunos nas decisões e compromissos grupais. reconhecendo a validade simbólica do outro. que é o Programa Ética e Cidadania que incentiva a criação do Fórum Escolar de Ética e Cidadania8. mas. o que nos encaminha ao princípio ético de democracia. 8 conhecimento por parte do educando. isto é. funcionários. que está ancorada na vontade coletiva para a realização do bem comum. . o que no caso da escola significa incluir todos os professores. Democracia: A escola deve implementar a democracia em sua prática pedagógica através da criação de um espaço público para a validação intersubjetiva das normas. realizações de atividades educativas por toda comunidade escolar para efetivar a democracia.br/seif/eticaecidadania/index. alcançar um entendimento dialógico sobre os princípios fundamentais que devem reger a convivência grupal. de forma consciente e responsável. 2004. avaliações.gov. o que não representa alcançar a unanimidade. assembléias. criado pelo MEC em 2004. alunos. Destas razões expostas. Mas como realizar (desencadear) este processo? É importante que ela (a escola) transforme-se em um espaço público. Aceitar ouvir e entender as razões dos outros é um importante exercício para a saída de um atomismo monológico. gostaria de comentar um novo exemplo. sim. isto é. devem ser escolhidas as melhores razões pelo grupo. A escola como espaço público deve ser um local para todos poderem expor as suas razões. p. Toda escola pode vir a participar deste programa e isto pode representar uma grande contribuição na construção de uma educação 8 www. Isso nos conduz a uma visão de sociedade que não é apenas a soma de todas as vontades individuais. por seu turno. Além da organização de fóruns. Parto do princípio básico da democracia que é: quem deve decidir sobre as normas grupais são todos os membros pertencentes a este grupo.mec.html. suas demandas e concepções. passada e futura. o que possibilita que se chegue a um consenso ético-político. A escola e a universidade devem estar engajadas no processo de efetivação da democracia como um princípio ético-político republicano para poder auxiliar a comunidade escolar na conquista de sua cidadania. que pertença a toda a comunidade escolar presente. sim. aceitando. mas . o que possibilita acolher a alteridade do outro. as razões dos outros membros. 109). responsáveis pelos alunos e comunidade em geral nas decisões. deixando de ser tratada como uma instituição da esfera privada.

que todo indivíduo deve ser responsável pela sua criação (ou recriação) e não recebê-los de forma heterônoma (passiva). o coordenador faz a inscrição eletrônica e a escola passa a receber o material elaborado pelo MEC que tem a tarefa de subsidiar o grupo. O material contém roteiros. Como isso pode ser realizado? Em primeiro lugar. que interpreta democracia com confusão e perda de tempo. escolhendo um coordenador. Uma atividade com este perfil é o que possibilita que a escola transforme-se em um local em que todos os envolvidos se sentirão responsáveis e aprenderão a convivência social democrática. a comunidade escolar deve ter conhecimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos e do Estatuto da Criança e do Adolescente. liberdade. de entender os valores ético-políticos democráticos que estão sendo assegurados e defendidos como princípios substanciais de convivência em sociedade. Não podemos esquecer que são as práticas democráticas bem sucedidas que nos ensinam o valor fundamental da democracia. alunos. todo o seu trabalho terá sido em vão. pois apenas irá reproduzir a visão preconceituosa da média da sociedade brasileira. onde deve acontecer a formação de um grupo composto de professores. isto é. defendendo os princípios da vida. igualdade de oportunidades e diferença. A criação do Fórum é de responsabilidade de cada escola. Se a escola não tiver êxito em transformar a democracia em um valor positivo. Não se trata de apenas ter a informação. Inclusão Social. igualdade de oportunidades e o respeito pela diferença. . liberdade. destacando a característica construtivista desses princípios. Direitos Humanos. textos e indicação de filmes para orientar os encontros do Fórum e sugere algumas atividades para serem desenvolvidas com todos os membros da comunidade. direção. Justiça: A escola deve estabelecer como imperioso a defesa dos Direitos Humanos e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). sobretudo. 9 democrática. Pautar a prática pedagógica no princípio da democracia é assumir o compromisso com a criação das condições de possibilidade para a realização da justiça. refletindo a respeito da história de sua criação e qual o significado político desses direitos. Convivência Democrática. mas. Em segundo lugar. Após isso. Falar da justiça como um princípio ético que deve pautar a ação pedagógica é firmar um compromisso com a defesa incondicional dos direitos humanos fundamentais como vida. São quatro eixos básicos sugeridos para serem trabalhados: Ética (cidadania). em um processo de democratização da democracia. funcionários. deve se pensar em determinadas estratégias e atividades que propiciem a valorização desses princípios através da participação coletiva. famílias da comunidade etc.

é defender a existência de princípios ético-políticos. O que isso representa? Que falar em direitos humanos. Pelo contrário. liberdade de consciência. Aqui está o engano. 55). sobretudo. Importante lembrar que o Estatuto da Criança e do Adolescente encontra-se no mesmo paradigma dos direitos humanos e pode oportunizar seu entendimento através de seu estudo e valorização. A partir da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. 10 Ao estudar a história dos direitos humanos. no processo revolucionário francês. interdependente e indivisível. econômicos e culturais de forma universal. Muitos poderiam argumentar que a escola não tem qualquer obrigação com a justiça. visando a criação de uma sociedade política-social- econômica-culturalmente mais justa. como vida. pois defender a justiça significa utilizar os princípios básicos acordados como referencial para todos os posteriores acordos. que ressalta a necessidade de incorporação do princípio da igualdade de oportunidades e do princípio da diferença. que é realizar votações para . quer dizer. 2003. p. que defendia. promulgada em 1789. a escola reproduz a ineficiente lógica da “democracia”. que essa questão deve ser tratada na esfera legislativa. Atividades educativas que tematizam e valorizam essa história. p. 2003. criados pelos indivíduos para servir de fundamentação e referência para a convenção constitucional e para a posterior ordenação legal e jurídica. nos deparamos com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. congregam-se esses direitos civis e políticos com os direitos sociais. uma “sociedade democrática como um sistema eqüitativo de cooperação social entre cidadãos livres e iguais” (RAWLS. justiça passa a ser compreendida enquanto eqüidade. Afirmar positivamente os direitos humanos é tarefa educativa primeira que deve servir de referencial para a construção do conhecimento. indo em direção a construção de uma cultura de direitos humanos que deve impactar sobre as relações interpessoais e a conformação das subjetividades (CARBONARI. como a afirmação dos princípios da igual liberdade. isto é. executiva e judiciária. De que vale para a comunidade escolar este conhecimento? O que fazer com ele? A sua importância está em possibilitar à comunidade o entendimento que esses princípios não são meras regras positivas para serem obedecidas. igualdade jurídica e alguns mecanismos eqüitativos. são princípios construídos historicamente pela coletividade. p. 2004. Esses direitos civis e políticos foram considerados como princípios essenciais para a posterior constituição. Assim. da igualdade de oportunidades e da diferença em sociedades plurais e democráticas (RAWLS. Em várias situações. 24). a afirmação de direitos inalienáveis dos indivíduos. demonstram o comprometimento da educação com a construção da justiça na esfera pública. 60).

Sendo eu ser humano. 11 a escolha de algo. em razão tanto de minha própria defesa. sendo apenas a vontade particular majoritária. Ao contrário do que é realizado. é necessário assumir um compromisso com a defesa do outro. faz-se urgente realizar-se ações para auxiliar na inclusão do outro dentro do sistema social. animais (pessoas não-humanas) e comunidade como outro. pois se pressupõe que o resultado é a média das vontades dos indivíduos. urbano. o que nos conduz à utilização dos princípios ético-políticos para a orientação de uma eleição. por exemplo. Dessa forma. Esse processo de reconhecimento da alteridade pode ser compreendido enquanto solidariedade. em função do significado da outridade. pois sem o respeito e o comprometimento com a alteridade (LÉVINAS. ser solidário é colocar-se no lugar do outro. p. isto é. empregado. Mas de que maneira pode a escola fazer . principalmente. a mulher. podendo-se entender tanto a natureza. branco. o negro e indígena. não porque é um igual a mim. sobretudo. mas. o agricultor e o analfabeto. Em segundo lugar. ele já teria cumprido seu papel essencial. justiça passa a ser entendida como aquilo que todos concordamos e defendemos. afirmando a necessidade de estabelecimento de critérios para as escolhas. ao reconhecer a validade simbólica do outro. homem. escolarizado. o homossexual. porque é diferente. no reconhecimento da diferença. Solidariedade: A escola deve contribuir para que seus membros assumam a responsabilidade solidária com a Comunidade (outro homem) e com a Natureza. o outro pode ser entendido como a natureza (e animais). em que todos podem e devem participar. servindo de base consensual para as possíveis disputas entre o grupo. O que é solidariedade então? Em primeiro lugar. adulto. Importante frisar que solidariedade não pode ser entendida enquanto caridade. não se substancializa uma educação ética. Se o processo educativo formal conseguisse auxiliar os indivíduos no reconhecimento do outro. como pode-se constatar na problemática relação dos grupos (tribos). O erro não se encontra nas votações. Mas quem é o outro realmente? É todo àquele que não pode ser lido e analisado segundo as minhas próprias características e categorias. se pode exercer a autoridade formativa para esclarecer o mecanismo de uma escolha. pois ele foge da padronização encontrada em minha subjetividade. o desempregado (sem-terra). assistencialismo ou qualquer tipo de ação em que o outro é apenas tolerado. 1954. Em terceiro. mas na ilusão de que o resultado será positivo. o jovem e idoso. Nossa grande dificuldade de relacionamento com a alteridade reside no constante mecanismo de interpretar a outra identidade a partir da nossa. heterossexual. 370). mas.

o próximo passo é compreender que o diferente não é meu inimigo. o outro tem que falar sobre suas razões. Esse parece ser o princípio ético educativo por excelência. não se trata de desvalorizar todo o conhecimento produzido pela humanidade ao longo de nossa história. que saibam deliberar moralmente através de princípios e não apenas através de uma vivência acrítica dos valores morais sociais. a comunidade escolar deve ser orientada e desafiada a solucionar problemas a partir do seu conhecimento pessoal. assim. Este é o entendimento de uma educação ética da responsabilidade solidária. com Kant. para a valorização das relações entre as informações e o reconhecimento das respostas encontradas. Autonomia: A escola deve contribuir para que os indivíduos tornem-se autônomos. quer dizer. que ele não me ameaça e. sobretudo. dessa forma. que está pautado somente no elogio ao cumprimento de regras. isso . para fazer as relações adequadas e encontrar as soluções de problemas. principalmente. a fim de possibilitar que o mesmo reconheça esta diferença. Entretanto. o estranhamento entre as diversas realidades. fazendo relações entre as informações disponíveis e. Iniciar refletindo sobre a problemática do racismo e da homofobia pode ser interessante para quebrar o silêncio que habita nesta identidade negada. Dificilmente alguém irá tomar conhecimento do outro. Teríamos. da conquista da maioridade intelectual e moral por parte dos indivíduos. todos os atores (sujeitos) do processo educativo concordam com esse objetivo. Evidentemente. estaremos criando as condições de possibilidade para uma convivência pública solidária. que tem o objetivo de auxiliar que os seus membros adquiram uma capacidade de estabelecer relações solidárias com a comunidade e com a natureza. uma educação que estaria voltada não mais para o domínio de informações somente. mas. Descoberta a diferença. notícias para esse fim. é falar. Falar de autonomia. Uma primeira questão é esclarecer este processo autônomo. debates temáticos. Intelectualmente. Evidentemente. 12 a diferença nesse contexto? Acredito que uma possibilidade concreta é a de problematizar e refletir sobre o tema. A pergunta que urge é: como alcançar a autonomia em um sistema político- econômico-social-cultural que privilegia a heteronomia. intelectualmente e moralmente. que sintetiza todos os anteriores. é possibilitar que as pessoas saibam solucionar problemas através da reflexão própria. se não houver situações limites em que surja o choque. isto é. isto é. que saibam resolver problemas através do pensamento racional e assumam seu dever para com os outros homens em sociedade. De início. Podem ser utilizados filmes.

E Agora? Evidentemente não tive a pretensão de ter resolvido o problema contemporâneo educativo com esse esboço apresentado. O convite está lançado. é necessária a experiência de situações heterônomas. uma conquista individual que é intersubjetivamente mediada. Nesse nível. SEED. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos: Ministério da Educação. Meu objetivo foi o de trazer para o centro do debate a relação necessária entre a ética e o processo educativo. pois. SEMTEC. O primeiro nível é o pré-convencional. Lisboa: Vega. obedecendo ao que é imposto (moralidade da obediência e da punição e moralidade do hedonismo instrumental). Lodi. A vivência da regra deve servir de sustentáculo para o segundo nível. São Paulo: PAD. BRASIL. Apenas dessa maneira é possível que o jovem que entende a importância da regra e faz uso de regras intersubjetivamente acordadas. chega-se ao nível pós-convencional. 1998. para alcançá-la. 101-189). para se alcançar a autonomia. SEIF. 1981. Após. não é possível refletir sobre a validade da regra. Liberdade não é um estado natural. como desenvolver a autonomia do indivíduo? Sirvo-me do pensamento do psicólogo Lawrence Kohlbert. 2004. que é o convencional. sim. em que os indivíduos utilizam-se de princípios morais universais para fundamentar a sua ação. Gomes. o educando deve passar por dois níveis anteriores. p. em que se possibilita a vivência intersubjetiva através da obtenção da aprovação e da moralidade da lei e da ordem. Amaral e Carlos C. CARBONARI. Paulo. Ética e Cidadania: construindo valores na escola e na sociedade/coordenadora- geral: Lúcia H. no qual o educando tem condições de estabelecer as regras que pautarão a convivência social. que se situa no terceiro nível que é chamado de pós-convencional. 2003. sendo necessário o reconhecimento da validade da regra. 13 deve apenas servir como uma fundamentação para a conquista do pensamento autônomo e. como o fim último da educação. ABONG. em que a autoridade formativa deve orientar a conduta do jovem que se forma. Política. I. em que deve surgir a obediência à autoridade e cumprimento do dever. Para Kohlbert. Bekker. Edição Bilíngüe grego-português. em que os indivíduos devem obedecer às regras que fazem parte do éthos grupal. não. que trata do desenvolvimento da consciência moral em uma perspectiva cognitivo-desenvolvimentista. Creio que falta essa clareza a respeito da autonomia. mas. . Direitos Humanos de Todos e Todas. Ed. possa pautar a sua ação através de princípios éticos universais (KOHLBERG. Bibliografia ARISTÓTELES. Mas moralmente. Trad. António C.

RAWLS. In: OLIVEIRA.). 1993. 1992. “Ética da Finitude”. 8. Maria H. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. p. Moral Stages and the Idea of Justice. ed. Claudia Berliner. p. Petrópolis: Vozes. LOPARIC. Além do Bem e do Mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Ética e Sociabilidade. São Paulo: Loyola. 2001. Milton C. São Paulo: Martins Fontes. Trad.R. Trad. Paulo C.). 14 HABERMAS. 2000. OLIVEIRA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Trad. Trad. Jürgen. São Paulo: Companhia das Letras. LÉVINAS. Manfredo (Org. NIETZSCHE. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. Ética. KANT. Essays on Moral Development: The Philosophy of Moral Development. Correntes Fundamentais da Ética Contemporânea. São Francisco: Harper & Row. John. “Ética do Discurso”. Nadja. 65-77. 1996. Jean. Lawrence. Pereira. Verdade e Justificação: ensaios filosóficos. HERRERO. Correntes Fundamentais da Ética Contemporânea. Pluralidade e Ética em Educação. Souza. VÁZQUEZ. 2003. Immanuel. A. Emmanuel. 1979. “Le Moi et la Totalité”. Petrópolis: Vozes. LADRIÈRE. Lisboa: Edições 70. Sánches. 4 (1954). 163-192. A República. In: OLIVEIRA. p. Trad. 353-373. 2004. Trad. 1996. Manfredo Araújo de. Justiça como Eqüidade: uma reformulação. PLATÃO. Zeljko. Javier. . São Paulo: Loyola. João Dell’Anna. KOHLBERG. HERMANN. Friedrich. Mota. 1981. Rio de Janeiro: DP&A. Petrópolis: Vozes. Paulo Quintela. Manfredo (Org. Os Desafios da Racionalidade: o desafio da ciência e da tecnologia às culturas. Hilton Japiassu. Revue de Méthaphisique et de Morale. 1985. 2000.