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CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

1. Marquei esta conferência de imprensa por duas razões.

Primeira: expressar a posição do CDS sobre o “diálogo de surdos” que, aparente e


previsivelmente, se instalou na Educação, entre o Ministério e os representantes dos
professores. O país – e no fim de contas, a escola e os jovens -, pagarão um elevado preço
neste ano lectivo se não houver uma negociação séria e se, como primeiro passo, o Governo
não escolher a via de flexibilidade.

Segunda razão: o CDS quer trazer para este debate elementos novos, exemplos diferentes e
soluções melhores. Somos, desde o primeiro dia, a favor do princípio de avaliação; somos,
desde o primeiro dia, sem necessidade de mudar de posição, contra este modelo de
avaliação. O mero facto de a senhora Ministra acabar sempre por reconhecer que é preciso
simplificar o modelo revela até que ponto este modelo é complicado – e injusto. Tínhamos,
portanto, razão.

Entendo até que devo ir mais longe. O país já conhece os argumentos de uns e de outros. Em
breve, pode ficar cansado com a repetição do conflito. A senhora Ministra costuma dizer que
quem é contra este modelo de avaliação não apresenta outro. Engana-se: sou fiel ao princípio
de que a oposição deve ser competente a dizer o que não quer, mas também deve ser
competente a dizer o que quer; numa palavra, há alternativas a este modelo e o CDS tenciona
ser agente construtivo, positivo, alternativo, também na questão da avaliação – como tem sido
na defesa da liberdade de escolha da escola, na valorização de um sistema de exames
nacionais, ou na questão da disciplina, para dar três exemplos.

Vamos, então, por partes.

2. A situação de “incomunicação” a que se chegou entre a enorme maioria dos professores e a


senhora Ministra da Educação terá consequências que ninguém de bom senso deseja: um
clima desagradabilíssimo nas escolas; mais um factor de desmotivação dos professores;
novos ataques à sua autoridade; greves em catadupa; menos aulas, menos qualidade e
menos exigência; escolas que avaliam e escolas que não avaliam – enfim, um desastre, se
pensarmos no valor das escolas, no prestígio dos professores e na preparação dos alunos.

Perante a degradação a que estamos a assistir na escola do Estado, mais e mais famílias,
naturalmente, legitimamente, e tantas vezes com muitas dificuldades, tenderão a recusar, o
que vêem no ensino do Estado, por não oferecer garantias suficientes de estabilidade,
disciplina e exigência. O problema é que, em Portugal, a liberdade de escolha da escola é só
para alguns: os que podem pagar a matricula e a propina no ensino não estatal. Se a liberdade
de escolha fosse maior, tenho a certeza de que o conflito na avaliação seria menor.

A primeira e última responsabilidade da senhora Ministra não é a obstinação com uma política;
é assegurar que as escolas funcionam, que os professores são respeitados e que os alunos
estudam.

Ora, o Ministério da Educação é claramente responsável por esta situação indesejável nas
escolas. Porque inventou um modelo centralizado, em vez de o promover, apenas e depois de
desenvolvida a autonomia das escolas. Porque complicou o que poderia ser simples. Porque
fez da avaliação dos professores uma nada recomendável técnica para inflacionar as notas
dos alunos, numa cegueira estatística que pouco tem a ver com o desempenho de quem
ensina e com os méritos de quem aprende.
E ainda por outra razão. O Ministério da Educação especializou-se na insegurança jurídica e
na precariedade legal: é tumultuosa a sucessão de circulares e despachos que revêem,
alteram e rectificam, casuisticamente, os decretos e as leis que o Ministério fez publicar antes.
A burocracia do “eduquês” atingiu o seu zénite: creio que, se a senhora Ministra passasse uma
semana numa escola, perceberia, com humildade, os efeitos perversos do modelo teórico que
criou e (ainda) defende.

3. Aqui chegados, e não querendo ser cúmplice – por silêncio – do que pode vir a seguir-se,
quero, em nome do CDS, fazer um derradeiro apelo à senhora Ministra da Educação.
Rectifique, corajosamente, o seu modelo de avaliação.

Analisadas todas as posições, com a independência que é própria de um partido político,


entendo que o Ministério da Educação deveria, como mínimo, observar os seguintes pontos:

1º. Retirar da avaliação dos professores a ligação entre o desempenho do professor e a


classificação dos alunos ou o abandono escolar;

2º. Simplificar o número de fichas a preencher e reduzir o número de agentes com intervenção
no processo e de reuniões fastidiosas para a completar;

3º. Adaptar a periodicidade da avaliação aos calendários, mandatos e ritmos de trabalho do


novo modelo de gestão das escolas;

4º. Tornar facultativa - e portanto, não obrigatória – a assistência às aulas pelos avaliadores
que, no actual modelo, pura e simplesmente deixam de ter tempo para ser professores;

5º. Abandonar o carácter obrigatório da entrevista final entre o avaliador e o avaliado; a


entrevista poderá ser um direito deste último;

6º. Dispensar a avaliação dos professores que já atingiram o topo de carreira; muitos deles até
estão a menos de 4 anos do limite etário da aposentação. É desnecessário e é prejudicial.

7º. Evitar, de modo efectivo, que professores de escalões inferiores possam avaliar colegas de
escalões superiores; e evitar, tanto quanto possível, avaliações sem competência
pedagógica específica sobre as matérias cujos professores são sujeitos a avaliação.

Isto, do nosso ponto de vista, é o mínimo. A alternativa é deixar o essencial como está e
prolongar a degradação do sistema.

4. Se esta é a perspectiva conjuntural, devemos concentrar-nos,


também, no que é estrutural: um modelo bem melhor, só lançavel, com diálogo prévio, por
um Governo melhor.

A maioria dos Portugueses não o sabe – mas é nosso dever dar essa informação muito útil
nestes dias conturbados. Há, em Portugal, um modelo evolutivo de avaliação dos professores
que está a funcionar sobretudo nas escolas maiores, que foi subscrito pelos sindicatos e não
oferece polémicas inultrapassáveis. Refiro-me ao modelo de avaliação de desempenho dos
professores que está em vigor, desde o ano lectivo 2006/7, nas escolas de Ensino Particular e
Cooperativo. Não em todas, mas em muitas relevantes; um modelo infinitamente mais simples
e mais contratualizado do que o modelo que o Governo quer impor.

Dirão alguns que, por haver diferença entre o ensino do Estado e o particular ou cooperativo, o
modelo deste não é aplicável. Não serei eu a ignorar essas diferenças. Não proponho um
decalque. O que eu digo é que, com as devidas adaptações, a avaliação de professores feita
no ensino não estatal – até porque funciona; até porque foi consensualizada; até porque tem
resultados interessantes – pode e deve merecer atenção, pode e deve inspirar princípios de
um modelo novo e alternativo de avaliação dos professores.
Dou 7 exemplos para mostrar as diferenças. Os cidadãos que meditem nelas.

1º. A avaliação da senhora Ministra é complicada: implica, em condições normais, 23 critérios


bastante repetitivos e alguns bem subjectivos. A avaliação no ensino privado e cooperativo
é mais simples: resume-se a 11 critérios – diria eu, os essenciais.

2º. A avaliação da senhora Ministra é típica de um certo “socialismo basista”: todos ao molho a
avaliar e fé no Ministério. No Estado, há 5 agentes de avaliação; no privado e cooperativo,
apenas 3. No Estado, o avaliado, o coordenador, o titular, o executivo e a comissão de
avaliação; no privado, é tudo mais linear: apenas o avaliado, o director pedagógico e o
director do estabelecimento.

3º. Na avaliação da senhora Ministra, sucedem-se os documentos e as reuniões numa


“peregrinação” burocrática impensável: o portfolio do professor; a definição de objectivos; a
ficha de auto-avaliação; a ficha do Conselho Executivo; a conferência de validação; a
reunião de avaliadores, e por aí fora; no regime em vigor no ensino não estatal, existem
apenas dois momentos essenciais: o relatório de auto-avaliação do professor, feito ao
longo do ano, e a sua avaliação pelo Director Pedagógico;

4º. Na avaliação da senhora Ministra, a assistência às aulas do avaliado é obrigatória; no outro


modelo, é facultativa.

5º. Na avaliação da Senhora Ministra, a classificação dos alunos é colocada sob pressão: o
professor terá boa classificação se “promover” a boa classificação do aluno, uma técnica
nada recomendável de institucionalizar o facilitismo; e terá má classificação se for
exigente e, por exemplo, tiver uma turma pior, com alunos a deixarem a escola por
motivos totalmente alheios ao professor. Impensável, diria eu. No modelo alternativo, o
seguimento da avaliação dos alunos é muito mais inteligente: uma coisa é saber se o
professor ensina bem e faz tudo o que está ao seu alcance para que os alunos estudem
e aprovem; outra é contaminar as notas dos alunos através de dissimulados prémios na
carreira do professor. Avaliar o esforço do professor é importante. Confundi-lo com o
mérito do aluno é profundamente errado.

6º. Na avaliação de senhora Ministra, há 5 classificações relevantes. No modelo que tenho


estado a citar há, para o resultado final, apenas 3: insuficiente, suficiente e bom.

7º. Na avaliação da senhora Ministra, à boa maneira centralista, em caso de discórdia entre o
avaliado e a avaliação final, a instância de recurso é a Direcção Regional; no modelo do
ensino não estatal, existe um sistema de arbitragem.

Já agora, um derradeiro ponto: na avaliação promovida pelo Ministério da Educação, os


calendários sobrepõem-se às provas dos alunos e aos concursos de professores. No
caso do privado, é diferente: se é certo que a auto-avaliação vai sendo feita ao longo do
ano, a verdade é que o primeiro momento crucial acontece quando o ano escolar já
“terminou”, e o desfecho é conhecido antes de se “iniciar” o ano seguinte.

Estas diferenças, obviamente com adaptações, são importantes para se perceber que o
modelo do Governo não é o único – e que há quem faça avaliação de modo mais
simples, mais contratualizado, mais consensual.

5. Dito isto, são fáceis de compreender os princípios do sistema de avaliação de professores em


que o CDS está a trabalhar, e que constarão não apenas do nosso programa eleitoral – com
toda a transparência – como também farão parte de iniciativas legislativas que apresentaremos
ainda este ano. Passo a sublinhar esses princípios.

1º -A exigência não pode reflectir-se apenas na avaliação dos professores; tem de ir a par
com a avaliação dos alunos – onde o Governo tem relaxado tudo com a pouco debatida
avaliação das escolas; e com a avaliação de programas, currículos e manuais, de que,
pura e simplesmente, o Ministério não quer falar.

2º Uma avaliação de professores só é possível com a estabilização de um regime de


autonomia e descentralização das escolas. Se não for assim, estaremos a comparar-se
factos que, em bruto, são incomparáveis – por razões geográficas, culturais,
económicas e sociais.

3º A avaliação de professores deve basear-se no princípio da confiança. Parece-nos razoável


que o relatório de avaliação vá sendo construído pelo próximo professor, ao longo do
ano, e a seguir avaliado pela autoridade superior.

4º A avaliação deve ter uma hierarquia simples e reconhecida: o avaliador não é o colega do
lado, é o director pedagógico da escola, naturalmente com a ajuda da sua equipa de
direcção pedagógica.

5º A avaliação de professores não deve influenciar ou ser influenciada pelas classificações


dos alunos, a não ser em casos pontuais de manifesta disparidade de classificações.

6ª O número de documentos a entregar ou preencher deve ser reduzido ao essencial; por


isso, a sugestão do relatório de auto-avaliação é inspiradora – seguindo parâmetros o
mais possível objectivos e objectáveis.

7ª A avaliação dos professores deve ser espaçada no tempo. Defendemos que uma reforma
destas, como sucederia noutras, deve ter um período experimental; defendemos a não
coincidência no tempo com os concursos de professores; e defendemos uma formação
generalizada e prévia, para o regime consensualizado.

8º A avaliação de professores deverá ter, em caso de discordância, um sistema arbitral. É a


posição que está em linha com um regime de autonomia das escolas.

9ª A avaliação de professores deve ter um conteúdo essencialmente formativo, ajudando os


docentes a melhorar a sua função, prestação e realização profissionais.

10º Deste modo, evitam-se circuitos de avaliação altamente contestáveis, por carecerem, na
prática, de princípios de hierarquia reconhecida ou competência específica.

Estes são os princípios que, basicamente, defendemos. Naturalmente, são


aperfeiçoáveis. Mas consolidam a posição do CDS neste debate: com uma posição
justa – contra este modelo de avaliação – e uma atitude alternativa – a defesa de um
modelo diferente.