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GOODWILL – BREVES REFLEXÕES

António José Oliveira Lamelas

Técnico Auxiliar de ROC

INTRODUÇÃO

Vivemos num mundo em constante mutação, onde as linhas de orientação de vários segmentos organizacionais se direccionam, cada vez mais, para uns bens empre- sariais de importância crescente, os denominados activos intangíveis. Pela sua dificuldade de definição, mensuração e estimativa de duração, estes bens são considerados integrantes de uma das áreas mais complexas da Contabi- lidade e um dos seus principais desafios. A economia em que vivemos tem como maiores referências do património das empresas a tecnologia, as marcas, a infor- mação e o capital intelectual, de que são bom exemplo, as emergentes empresas do ramo da internet, tornando os intangíveis nos principais focos de investigação de estudiosos e das diversas organizações de normalização contabilística à escala mundial. Verificamos todos os dias que empresas são compradas e vendidas por valores completamente distintos daqueles correspondentes ao património líquido contabilístico das mesmas; que as acções de determinadas empresas são negociadas nas Bolsas de Mercados por valores muito distantes daqueles que resultam das Demonstrações Fi- nanceiras; que empresas com prejuízos acumulados são valorizadas por milhões de euros; e que entidades que não existem fisicamente valem milhões. A questão que se coloca é muito simples: Porquê? Aquilo que sabemos é que, cada vez mais, o uso de informações contabilísticas tem sido insuficiente para determinar e evidenciar o real valor das empresas, tendo sido a Contabilidade passada (erradamente) para segundo plano em termos de ferramenta de gestão. Esta constatação torna-se ainda mais evidente quando nos deparamos com as empresas da denominada “nova economia”, onde na composição dos seus valores estão presentes, essencialmente, as marcas, licenciamento de programas, passes de atletas, a reputação, a carteira de clientes e software. São milhões de euros associados a itens não corpóreos. Cada vez mais estamos perante um “mundo intangível”. A forte con-

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corrência no mercado e a expectativa de lucros futuros acima do esperado reclamam pela avaliação desses intangíveis. Com efeito, a Contabilidade tem de perceber o desafio e inserir-se neste novo meio tendo em vista à avaliação e tratamento desta nova realidade: os activos intangíveis. Neste artigo temos como objectivo elaborar um sucinto referencial teórico acerca deste conceito ainda pouco enraizado na Contabilidade nacional, não com o intuito de aprofundar por completo este tema tão abrangente, mas sim tentar agregar um conjunto de reflexões para a sua melhor compreensão.

1. ACTIVOS INTANGÍVEIS

Segundo Iudícibus 1 , o estudo do Activo é o capítulo fundamental na Contabili- dade que, pela sua definição e mensuração, influencia directamente a principal finali- dade da empresa: o lucro. De acordo com a Norma Internacional de Contabilidade n.º 38, um activo é um recurso:

(a) controlado por uma entidade como resultado de acontecimentos passados; e (b) do qual se espera que fluam benefícios económicos futuros para a entidade.”

Contudo, dentro dos activos existentes, a mensuração dos Activos Intangíveis constitui um grande desafio para a Contabilidade que, segundo Santos 2 , não são mais do que “bens incorpóreos, mais reconhecidos como direitos e serviços, que podem gerar benefícios econômicos futuros prováveis, obtidos ou controlados por dada en- tidade em conseqüência de transações ou eventos passados”. No momento em que um recurso intangível preencha esses critérios, deve ser reconhecido como activo, assim como seria feito com um recurso tangível, mas se, e só se, segundo Aquino 3 , existir uma forte probabilidade dos benefícios económicos atribuídos aos activos ocorrerem e o seu custo puder ser calculado de forma fiável.

1 IUDÍCIBUS, S. – Teoria da Contabilidade – São Paulo, Editora Atlas, 2a Edição, 1987, pág. 102 citado por SILVEIRA, A S.M. e COELHO, F. “Ativo Intangível – Uma Abordagem Teórica”. Programa de Mestrado em Ciências Contábeis – Faculdade de Administração e Finanças – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

2 SANTOS, N. – Lucro Passível de Distribuição e Manutenção do Capital da Empresa – São Paulo, 1990, Caderno de Estudos, Fipecafi, pág. 43 citado por SILVEIRA, A S.M. e COELHO, F. “Ativo Intangível – Uma Abordagem Teórica”. Programa de Mestrado em Ciências Contábeis – Faculdade de Administração e Finanças – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

3 AQUINO, W. D. – Contribuição à Avaliação da Marca Corporativa – Rio de Janeiro, 2000, Dissertação de Mestrado – UERJ, pág. 35 citado por SILVEIRA, A S.M. e COELHO, F. “Ativo Intangível – Uma Abordagem Teórica”. Programa de Mestrado em Ciências Contábeis – Faculdade de Administração e Finanças – Universi- dade do Estado do Rio de Janeiro.

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Já para Hendriksen 4 , os “intangíveis não deixam de ser activos simplesmente

porque não possuem substância”. Assim sendo, o seu reconhecimento deve obedecer, portanto, às mesmas regras válidas para todos os activos, isto é, devem passar pelos

mesmos testes de reconhecimento aplicados aos activos tangíveis e, se o resultado for positivo, deverão fazer parte das Demonstrações Financeiras.

A Contabilidade admite dois tipos de activos intangíveis: os identificáveis e os

não identificáveis. Os primeiros tornam-se identificáveis quando estão associados a uma descrição objectiva. Hendriksen cita que “ o facto de que se pode ser dado um nome a um activo intangível geralmente indica que se trata de um activo identificável.”. Por outro lado, o activo não identificável indica que não é possível definir com clareza a sua origem, descrição e controlo, sendo que o activo intangível não identificável mais conhecido é precisamente o goodwill.

2. CONCEITO DO GOODWILL

A expressão goodwill poderá ser traduzida para português como Fundo de Co-

mércio, embora normalmente seja utilizado o termo original. Em termos contabilísticos, goodwill é o valor do nome e da reputação de uma empresa, da sua relação com os clientes e outros factos intangíveis que resultem num potencial de lucros futuros acima do esperado para a empresa. Em termos mais técni- cos, ainda que não da forma mais correcta, goodwill é caracterizado como um activo

intangível que pode ser identificado pela diferença entre o valor contabilístico e o valor de mercado de uma empresa.

O goodwill pode ainda ser definido como uma espécie de mais valia, resultante

de um valor agregado em função da lealdade dos clientes, da imagem, da reputação, do seu nome, da marca dos seus produtos, da política comercial, das patentes registadas, dos direitos exclusivos de comercialização, da formação e habilidade dos funcionários, entre outros. Contudo, todos estes exemplos tornam-se difíceis de mensurar dada a subjectividade dos mesmos, sendo esta a grande problemática para a correcta contabilização do goodwill e a razão pela qual recaem sobre ele as mais diversas definições, das quais de seguida enumeramos as que nos parecem mais elucida- tivas.

4 HENDRIKSEN, S & Breda, V. – Teoria da Contabilidade – São Paulo, Ed. Atlas, 5a Ed., 1999, pág. 388 citado por SILVEIRA, A S.M. e COELHO, F. “Ativo Intangível – Uma Abordagem Teórica”. Programa de Mestrado em Ciências Contábeis – Faculdade de Administração e Finanças – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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Segundo Almeida 5 , “o goodwill pode ser considerado como a diferença entre o valor actual dos fluxos de caixa futuros, gerados pelos activos da empresa e o valor dos custos dos elementos que propiciaram tal fluxo. Usualmente, as empresas não registam o goodwill devido às dificuldades quanto à questão da objectividade .”. Por sua vez, Iudícibus 6 considera que “a maior dificuldade em mensurar o goodwill é a projecção dos fluxos de caixa. A subjectividade na determinação da taxa de desconto e do horizonte temporal em que os benefícios poderão ser gerados repre- senta o ponto crítico desta projecção ”. Para Monobe 7 o “goodwill não é um Ativo independente como um Ativo tangível qualquer, que pode ser vendido ou trocado. Ao contrário, trata-se de um valor ligado à continuidade da empresa, representando o excesso do valor dos seus Ativos combi- nados, sobre a soma dos seus valores individuais. ”. Tentando sintetizar todas estas definições através de um exemplo, podemos dizer que se num processo de avaliação de uma empresa se realizarem todos os esforços para que a diferença entre o seu valor contabilístico e seu valor de mercado sejam identi- ficados e alocados aos seus Activos mais apropriados e, se mesmo assim, a empresa for negociada por um valor superior àquele avaliado, gera-se um resíduo não identi- ficado que pode ser definido de goodwill. Em suma, o goodwill é o resíduo positivo entre o valor de mercado e o valor identificável de uma empresa.

3. BREVES REFERÊNCIAS HISTÓRICAS

O goodwill é, ainda nos dias de hoje, um assunto de grande controvérsia, embora este termo seja utilizado desde o século XVI. A expressão foi empregue pela primeira vez na corte de Inglaterra, em decisões de disputa por terras, onde foi considerado na valorização do terreno um valor adicional pela sua localização. A terminologia, ainda utilizada nos dias de hoje foi sistematizada pela primeira vez num trabalho produzido

5 ALMEIDA, M. G. M. – Mensuração e Avaliação do Ativo: uma Revisão Conceitual e uma Abordagem do Goodwill e do Ativo Intelectual – São Paulo, 1997, Caderno de Estudos, Fipecafi, v. 9, n. 16 citado por SILVEIRA, A S.M. e COELHO, F. “Ativo Intangível – Uma Abordagem Teórica”. Programa de Mestrado em Ciências Contábeis – Faculdade de Administração e Finanças – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

6 IUDÍCIBUS, S. – Teoria da Contabilidade – São Paulo, Editora Atlas, 2a Edição, 1987, pág. 102 citado por SILVEIRA, A S.M. e COELHO, F. “Ativo Intangível – Uma Abordagem Teórica”. Programa de Mestrado em Ciências Contábeis – Faculdade de Administração e Finanças – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

7 MONOBE, M. – Contribuição à mensuração e contabilização do Goodwill não adquirido – São Paulo, 1986, Tese de Doutoramento – FEA/USP citado por SILVEIRA, A S.M. e COELHO, F. “Ativo Intangível – Uma Abordagem Teórica”. Programa de Mestrado em Ciências Contábeis – Faculdade de Administração e Finanças – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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por Francis More, publicado em 1891 pela revista “The Accountant”, na Escócia, onde foi abordada com especial enfoque a questão da mensuração do goodwill. 8 Contudo, a aplicabilidade deste termo no mundo da Contabilidade é bastante mais recente. Até meados da década de 80, a grande preocupação no mundo dos negócios era avaliar o activo tangível ou corpóreo, isto é, bens físicos, materiais, nomeadamente, automóveis, terrenos, prédios, máquinas, móveis. O activo intangível ou incorpóreo respeita, precisamente, àquilo que não se pode tocar e que passou a ter grande relevância a partir das ondas de fusões e incorporações verificadas entre em- presas na Europa e nos Estados Unidos. Um dos negócios mais marcantes, e que despertou o meio académico para esta problemática, foi quando a Philip Morris, em 1988, incorporou a indústria de produtos alimentares KRAFT (que comercializa marcas conhecidas como a Milka, Toblerone, Cote d’Or, Tang ou Suchard Express) por 10 biliões de dólares. Tal operação foi surpreendente pelo facto do património físico da empresa adquirida estar contabilizado por apenas 1 bilião de dólares, sendo que os 9 biliões de dólares adicionais referiam- -se precisamente aos designados bens intangíveis, como o poder da marca, a imagem

e a posição comercial da empresa. Inicialmente, este capital intelectual de difícil mensuração era definido, precisa- mente, como a capacidade intelectual humana. Com o tempo adicionou-se à inteligên- cia e ao conhecimento existente dentro da empresa outras variáveis, tais como: marcas,

patentes, designs, liderança tecnológica, clientes e a sua lealdade, tecnologia de infor- mação, formação dos funcionários, indicadores de qualidade, relacionamento com fornecedores e desenvolvimento de novos produtos. Daqui se depreende a complexi- dade deste fenómeno, uma vez que, se a própria definição de capital intelectual ainda não está consolidada, muito menos está a sua mensuração no campo objectivo da Contabilidade. A dificuldade de transposição deste conceito para a Contabilidade deste conceito advém do facto dos registos contabilísticos colocarem a sua ênfase no passado, na avaliação objectiva, enquanto a ideia de capital intelectual é precisamente a do futuro,

o qual pode ser influenciado por factores dinâmicos ocultos que afectam o destino da organização e que nem sempre podem ser avaliados.

8 MARTINS, E. Uma contribuição à avaliação do ativo intangível. Tese de doutorado. 1973 citado no sítio da Internet em http://pt.wikipedia.org/wiki/Goodwill – Wikipédia – A enciclopédia livre.

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4. TIPIFICAÇÃO DO GOODWILL

O goodwill pode conter características distintas responsáveis pelo seu surgimento, existindo, por isso, diversas classificações para definir esses diferentes activos intan- gíveis não identificáveis:

Goodwill Comercial – surge em função dos serviços de apoio, da qualidade do produto, em relação ao preço e do reconhecimento público, em relação ao nome da empresa ou da marca do produto decorrente de determinada publi- cidade e propaganda;

Goodwill Industrial – surge em função dos benefícios e oportunidades profis- sionais criadas aos funcionários da empresa, como por exemplo, planos de saúde, participação dos funcionários nos lucros, ascensão hierárquica;

Goodwill Financeiro – surge em função da atitude de investidores, finan- ciadores e credores. A manutenção da imagem favorável da empresa cria condições de captação de recursos e resultados favoráveis;

Goodwill Político – obtido em função das relações positivas com o governo. Têm-se como exemplo as empresas do sector de construção civil que mantêm fortes relações com o Governo a fim de manterem as perspectivas de cresci- mento e até de continuidade;

Goodwill Negativo ou Badwill – segundo Hendriksen é difícil imaginar que exista goodwill com valor negativo “Pois, se a empresa valesse em conjunto menos do que seus activos separadamente, os proprietários anteriores certa- mente os teriam vendido separadamente.”. No entanto, do mesmo modo que uma empresa é capaz de gerar benefícios económicos futuros a partir dos seus activos, por ter bom relacionamento com os clientes, fornecedores, funcioná- rios e comunidade, bem como capacidade de inovação e capital intelectual, também é possível que uma empresa não tenha nenhum destes atractivos e, além disso, esteja localizada em lugar desfavorável ao negócio, não tenha uma boa administração ou mesmo por consequência de imperfeições no mercado. Sendo assim, os proprietários podem preferir vender a empresa por um valor abaixo do seu valor patrimonial, o que poderia ser caracterizado por um lado numa compra vantajosa, ou por outro numa venda forçada. O goodwill nega- tivo é assim a diferença entre o valor pago e o valor contabilístico dos activos da empresa adquirida;

Goodwill Subjectivo – são expectativas subjectivas sobre os lucros futuros acima do custo de oportunidade e que não são registadas pela Contabilidade;

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Goodwill Comprado – quando uma empresa é comprada, o preço pago pode ser alocado às contas da empresa compradora. Por exemplo, a prática ameri- cana consiste em alocar o máximo possível do preço de compra aos activos específicos. O valor residual é considerado goodwill comprado ou adquirido.

5. O QUE PODE GERAR O GOODWILL ?

É com muita frequência que verificamos nas Demonstrações Financeiras das empresas, gastos responsáveis pela geração de um “lucro futuro” e que são reconhe- cidos como custos. Em muitas situações, os custos suportados podem representar di- reitos relativos a serviços não realizados a serem recebidos no futuro. São exemplos flagrantes destes casos os custos de publicidade e propaganda associados a anúncios televisivos e radiofónicos que podem vir a gerar lucros futuros e cujo custo é, na prática corrente, reconhecido no exercício em que ocorre a referida propaganda. A marca é o recurso gerado internamente mais conhecido. O valor de mercado das marcas é resultado de altos e intensivos investimentos em publicidade e propagan- da. Actualmente, esses gastos são lançados como custos. Contudo, é permitido no normativo nacional que o custo de desenvolvimento de marcas seja capitalizado numa conta com o nome da marca. Uma vez desenvolvida a marca, a capitalização cessa e começa a sua amortização. O objectivo será deslocar a contabilização de despesas com publicidade e propaganda do momento em que são realizadas para o período presumi- do em que os benefícios serão reconhecidos. Outra das situações mais conhecidas é a do designado “capital intelectual” que pode ser entendido, segundo Straioto 9 , como “um conjunto de conhecimentos, informa- ções e know how, que agregam valor aos produtos e/ou serviços, mediante a aplicação da inteligência. É considerada uma vantagem sustentável de competitividade pela contemplação de importantes investimentos em capital humano. ”. A prática actual não reconhece os custos na formação profissional dos recursos humanos como um inves- timento. Para Straioto esta omissão é uma distorção, afirmando que nenhuma empresa faria investimentos substanciais em pessoas, a não ser que este “Capital Humano” representasse um activo com benefícios futuros esperados e agregasse valor aos seus produtos e/ou serviços.

9 STRAIOTO, D. M.G. T. – A Contabilidade e os Ativos que Agregam Vantagens Superiores e Sustentáveis de Competitividade – O Capital Intelectual – Santa Catarina, 2000, Revista Brasileira de Contabilidade, Ano XXIX. N. 124 citado por SILVEIRA, A S.M. e COELHO, F. “Ativo Intangível – Uma Abordagem Teórica”. Programa de Mestrado em Ciências Contábeis – Faculdade de Administração e Finanças – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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6. MENSURAÇÃO

Uma das características do goodwill é a inseparabilidade, ou seja, não é possível separar o goodwill da empresa, ou mesmo identificá-lo numa máquina ou num imóvel. O goodwill é gerado pela sinergia dos activos, sendo ainda caracterizado pela incerteza de gerar benefícios económicos futuros prováveis. Hendriksen 10 apresenta três níveis para mensuração do goodwill:

a) Mensuração das atitudes favoráveis em relação à empresa. Respeita à valori- zação do comportamento intangível da empresa, ou seja, está relacionado com a boa administração, o bom relacionamento com os clientes, fornecedores, funcionários e comunidade, bem como vantagens negociais e localização fa- vorável ao negócio. Pode-se verificar que estes atributos não estão relacio- nados com um activo em particular, mas com a empresa como um todo;

b) Valor actual da diferença positiva entre o lucro futuro esperado e o retorno considerado normal sobre o investimento total, não incluindo o goodwill. Refere-se ao valor presente dos fluxos financeiros, isto é, o goodwill é, neste caso, é mensurado pelo valor actual das expectativas de lucros futuros em excesso (também designado pelo método DCF – “ Discounted Cash Flow”);

c) Diferença entre o valor total da empresa e as avaliações dos seus activos líquidos tangíveis e intangíveis individuais. Todos os activos, tangíveis e in- tangíveis, são identificados e avaliados a valores de mercado individualmente. Após a identificação de todos os activos, se mesmo assim sobrar algum valor residual, este será o goodwill, que não é alocado a nenhum activo específico, mas sim à empresa como um todo.

Uma das formas mais usuais para a determinação do valor de mercado, ou valor potencial (goodwill) das partes sociais de uma sociedade, resulta de um estudo de avaliação da empresa que vai para além da mera análise das Demonstrações Financei- ras, incluindo o estudo da carteira de clientes, do mercado existente e potencial, da estratégia da empresa, entre outros factores. Este estudo de avaliação conduz a um valor contabilístico que, normalmente, serve de referência para o valor pelo qual vai ser efectuada a alienação das partes sociais.

10 HENDRIKSEN, S & Breda, V.- Teoria da Contabilidade – São Paulo, Ed. Atlas, 5a Ed., 1999 citado por SILVEIRA, A S.M. e COELHO, F. “Ativo Intangível – Uma Abordagem Teórica”. Programa de Mestrado em Ciências Contábeis – Faculdade de Administração e Finanças – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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Segundo Hendriksen o goodwill pode ser reconhecido a qualquer momento, reavaliando-se o património líquido a valores de mercado, sendo que, se for possível mensurar o valor dos benefícios económicos futuros prováveis desse património, tal valor deve ser reconhecido contabilisticamente. Hendriksen afirma que ao vender-se uma empresa não existe criação de goodwill, este apenas emerge. Corroborando esta afirmação, observa-se que quando uma empresa entra na Bolsa, o valor da acção negociada no mercado de capitais excede o valor patrimonial, uma vez que o inves- tidor tem a perspectiva que o retorno dos fluxos de caixa futuros excederão o valor investido. A perspectiva positiva do investidor demonstra confiança nos benefícios futuros que serão gerados pelos activos da empresa.

7. TRATAMENTO CONTABILÍSTICO

Como já referimos, o goodwill é a diferença entre o valor pago e o justo valor dos activos líquidos adquiridos, ou seja, é realizada uma avaliação dos activos líqui- dos, procurando alocar-se o valor pago aos activos. O valor residual, ou o valor não atribuído a nenhum activo é chamado de goodwill. Para efeitos contabilísticos aplica-se a Directriz Contabilística n.º 1/91, de 8 de Agosto (DC 1), e supletivamente a NIRF 3 – Concentrações de Actividades Empresa- riais, segundo a qual a operação deverá ser contabilizada de acordo com o método da compra. Em conformidade com esse método a adquirente (incorporante) reconhece os activos adquiridos e os passivos e passivos contingentes assumidos, incluindo aqueles não reconhecidos nas Demonstrações Financeiras da entidade adquirida (incorporada). Assim sendo, a participação financeira será “desreconhecida” do Balanço, no momento da incorporação, sendo que após todos os registos efectuados o valor da diferença, devedora, ou credora, será considerado goodwill, e será idêntico ao valor antes calcu- lado. Este, se positivo, e de acordo com a DC 1, deverá ser sistematicamente e direc- tamente amortizado por contrapartida de Custos e perdas financeiras; se negativo, deverá ser reconhecido como um proveito diferido ou como uma redução dos activos não monetários individuais adquiridos. Note-se que a NIRF 3 consagra diferente tra- tamento contabilístico para esta diferença. O registo contabilístico da aquisição é evidenciado nas demonstrações indivi- duais da investidora pelo valor pago, podendo existir ou não a segregação do goodwill. Contudo, nas demonstrações consolidadas o goodwill deve ser evidenciado no grupo de intangíveis. A amortização do goodwill é realizada de acordo com o fundamento que deu origem ao seu valor, isto é, quando a mais valia for resultado da diferença entre o valor

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de mercado dos activos líquidos da investida e o respectivo valor contabilístico, a amortização deverá ser realizada a medida que os activos forem sendo realizados por depreciação, amortização, alienação ou deperecimento do investimento. Quando o

goodwill for fundamentado na expectativa de lucros futuros deve ser amortizado de acordo com a expectativa de benefícios económicos futuros projectados, pelo abate por alienação ou perecimento, desde que não exceda o prazo máximo de 20 anos (ver pontos 3.2.5 e 3.2.6 da Directriz Contabilística n.º 1/91). Quando o goodwill for de- corrente de direitos de exploração, concessão ou permissão delegada pelo poder públi- co, deve ser amortizado no período contratado ou estimado de uso, vigência ou perda da substância económica, ou por alienação ou deperecimento do investimento. Caso não exista fundamento económico para manutenção do valor do goodwill, este deve ser diminuído imediatamente no resultado do exercício (imparidade), e evidenciado em nota explicativa no anexo ao balanço e à demonstração dos resultados. O apuramento do goodwill em aquisições de participações financeiras, e o res- pectivo registo contabilístico, é efectuado de acordo com o POC de forma semelhante

à preconizada pelas Normas Internacionais de Relato Financeiro (NIRF). Contudo, a

NIRF 3, publicada já em 2004, em alternativa à amortização do goodwill prevista pelo POC, preconiza que sejam efectuados testes de imparidade periódicos. Adicionalmen- te, o mesmo normativo estabelece que o goodwill negativo seja reconhecido imedia- tamente em resultados, ao contrário do POC (Directriz Contabilística n.º 1) que prevê

a possibilidade do seu diferimento ou o reconhecimento em capitais próprios. As abordagens para a amortização destes activos têm sido várias. A Norma Internacional de Contabilidade (NIC) n.º 38 presume que os activos intangíveis devem ser amortizados num prazo que não exceda 20 anos e que, caso existam evidências de uma vida útil maior, a empresa deverá amortizar o activo intangível na melhor estima- tiva de sua duração e, simultaneamente, testar anualmente a recuperabilidade do activo para eventual diminuição do seu valor, divulgando sempre as razões e os factores que levaram a superar ou reduzir o prazo de amortização do bem. De acordo com a NIC n.º 38, “ uma entidade deve avaliar se a vida útil de um activo intangível é finita ou indefinida e, se for finita, a duração de, ou o número de produção ou de unidades similares constituintes, dessa vida útil. Um activo intangível deve ser visto pela entidade como tendo uma vida útil indefinida quando, com base numa análise de todos os factores relevantes, não houver limite previsível para o período durante o qual se espera que o activo gere influxos de caixa líquidos para a entidade.”.

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8. DIFERENÇAS ENTRE GOODWILL E TRESPASSE

Não raras vezes, o conceito de goodwill é considerado como se de um trespasse

se

tratasse. Contudo, estes conceitos são distintos. Fazendo um enquadramento global, os trespasses podem incluir, além do direito

ao

arrendamento, dos bens do activo imobilizado e das existências, a carteira de clien-

tes

e até o goodwill do negócio que pode ser valorizado. Torna-se assim, imprescin-

dível enumerar e quantificar os valores transmitidos, para que o sujeito passivo possa

contabilizar quer os bens do imobilizado, quer as existências pelos respectivos valores

de transmissão, assim como o intangível associado a essa transmissão.

Esse intangível, deverá ser registado numa conta de imobilizações incorpóreas, e corresponderá ao valor remanescente, ou seja, ao valor resultante da dedução ao valor pago dos valores atribuídos (justo valor – Directriz Contabilística n.º 12) aos bens, direitos e obrigações transmitidas, nomeadamente imobilizado, existências e, eventualmente, o próprio direito ao arrendamento, também ele um imobilizado incorpóreo. Só haverá goodwill se o valor pago pela aquisição for superior ao justo valor dos bens, pois caso contrário estaremos perante um simples trespasse. Resumindo, o trespasse pressupõe a continuidade da actividade anteriormente exercida, normalmente incluindo a transmissão de um direito ao arrendamento de um estabelecimento comercial ou industrial, podendo gerar ou não um goodwill, o qual incorpora a localização do estabelecimento, a clientela, entre outros factores.

CONCLUSÕES

As mudanças resultantes da revolução tecnológica da década de 90 têm trazido

para a comunidade empresarial novos paradigmas de logística e cultura organizacional.

A análise de todos os factores abordados e sua relação com as informações

contabilísticas servem de base para uma profunda reflexão sobre os princípios e fun- damentos da actual Contabilidade. A mudança no perfil das empresas no mundo é uma forte razão que justifica a constante busca pelo aperfeiçoamento da Contabilidade em factos tão relevantes como:

• O distanciamento cada vez maior entre o valor de mercado de uma empresa e o seu valor contabilístico;

• A ausência de uniformidade nas directrizes contabilísticas a

para fazer face à multinacionalidade que as empresas vêm adoptando como

nível mundial

organizações efectivamente globais;

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• E, principalmente, o enorme peso da intangibilidade no real valor das empre- sas.

Este último ponto, abordado ao longo deste artigo, tem representado um desafio enorme para a Contabilidade pela dificuldade da sua mensuração. Um activo intangível

é um activo sem existência física que surge dos gastos com direitos e/ou serviços que

possam gerar benefícios económicos futuros exclusivos ao seu proprietário. Dos dois tipos de activos intangíveis, os identificados e os não identificados, destacamos o goodwill, maior exemplo destes últimos, e que pode ser definido como o resíduo positivo entre o valor de mercado e o valor identificável de uma empresa. Contudo, todo reconhecimento deste tipo de activos está comprometido pela falta

de objectividade, além de questões como a separabilidade, os usos alternativos e, claro,

a incerteza de recuperação de determinado investimento. Os intangíveis são de difícil

avaliação, principalmente na determinação dos fluxos de caixa futuros, mas podem ter

o seu custo histórico determinado tão precisamente quanto o de qualquer outro activo

tangível. No entanto, é prática comum os gastos com sua aquisição serem tratados como custos e não serem capitalizados. Como podemos aferir desta nossa breve abordagem, a discussão acerca da contabilização do denominado goodwill terá um longo caminho a percorrer até chegar ao seu término, dado que a mesma requer um estudo constantemente aprofundado e crítico. Só assim a Contabilidade conseguirá responder de uma forma eficaz à sua mensuração e continuar a ser o principal e mais fiável sistema de informação quanti- tativo a nível empresarial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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