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DEMENECK, Ben-Hur. Falta Nobel na Biblioteca (parte II). Jornal da Manhã , Ponta Grossa, PR

DEMENECK, Ben-Hur. Falta Nobel na Biblioteca (parte II). Jornal da Manhã, Ponta Grossa, PR , 24 Fev 2012 (sex, ed. 18.276). Primeiro caderno, Debates, p. 02. Gráfico anexo “Variação do número de autores Nobel presentes no acervo ao longo de cinco períodos de dez anos”.

Palavras-chave: dados de acervo público, literatura, prêmio Nobel (amostra 1959-2010), Biblioteca Bruno e Maria Enei, Ponta Grossa, Bibliotecas Públicas de Maringá, Biblioteca Pública do Paraná (BPP), indicador cultural, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, leitores.

Falta Nobel na Biblioteca

Parte 2

Ben-Hur Demeneck 1

Nas prateleiras da Biblioteca Bruno e Maria Enei, há pouco Nobel de Literatura de 1959 a 2010. A taxa da presença de autores laureados dentro da amostra é de 34%. Em Maringá, o valor chega a 56%. Na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, alcança os 76% (leia mais em “Parte I”, no JM de 19-22Fev). Interessa saber o que pessoas habituadas à leitura pensam da condição ponta-grossense em relação ao quadro comparativo.

Ponta Grossa é uma cidade universitária, na qual se recebem alunos de vários Estados, alguns originários de suas capitais. Para Luana Angreves, esse fato agrava quaisquer

1 O autor é jornalista e doutorando em Ciências da Comunicação (ECA-USP). Contato: b.demeneck@uol.com.br

negligências do acervo público diante de autores Nobel e de escritores brasileiros aclamados pela crítica. A leitora interpreta os dados do levantamento como constituintes de um cenário em que se priva a população do Município de evoluir culturalmente, pois “obras de ficção são retratos de uma época, tanto em termos históricos quanto estilísticos”.

“Uma biblioteca é como uma fonte. E é muito frustrante quando saímos de lá com as mãos vazias. Uma biblioteca sempre deveria ser mais sábia, mais curiosa, mais rica que seus leitores”, opina Eliete Marochi. Ela imagina uma coleção de livros como sendo uma “grande Mãe”, um espaço de busca e de encontro, de tal maneira que a perda cultural também se expressa na ausência de autores contemporâneos. Outro ponto que a desagrada é o número de mudanças de endereço do acervo, uma vez que o impossibilita de criar raízes, costume e história.

Contar com títulos ganhadores do Nobel é tão importante quanto dispor de séries famosas mundialmente, aposta Adrian Lincoln Clarindo. Para ele, aquisições nessas categorias podem mudar a imagem da Biblioteca, atrair um público afora das pesquisas escolares e a deixar mais convidativa para a prática não-utilitária da leitura. Questionado sobre como dar visibilidade midiática ao equipamento cultural, orienta “mostrar que os livros estão sempre conversando uns com os outros e que qualquer pessoa pode aumentar sua gama de experiências a partir de uma obra literária”.

Se há um déficit de escritores contemporâneos, o reverso da medalha é que os laureados entre 1901 e 1964 estão presentes na “Bruno e Maria Enei”. O mérito se deve à presença dos 64 volumes em capa dura da “Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura”, patrocinada pela Academia Sueca e pela Fundação Nobel. O conjunto de exemplares fica na coleção reserva, isto é, está sob regime restrito de consulta.

Quanto ao processo de atualização, houve uma queda ao longo das décadas. Dos autores premiados entre 1959 a 1968, cinco deles integram o acervo. Depois, o número de escritores a cada período de dez anos do recorte desta pesquisa oscila entre três e quatro até chegar aos anos 2000 no menor valor de sua história – dois. Quantificado o conteúdo que verga as prateleiras, importa qualificar quem circula diante delas.

Leitor é quem mergulha nos livros. Adrian está enredado em Beautiful Losers”, de Leonard Cohen, e usa toda fila de banco, toda espera pelo ônibus para avançar na história que tem em mãos. Eliete revisita a obra de Clarice Lispector. Começou com “A paixão segundo G.H.” e está terminando “A Hora da Estrela”. Gosta de ler na sala, no jardim, no carro. Mas

nem tanto em praças. Luana admira “A vida como ela é”, de Nelson Rodrigues, e “A sangue frio”, de Truman Capote. Quando pode, visita sebos e feiras de livro.

Falta Nobel dos últimos 50 anos na Biblioteca e a cidade está cheia de leitores para consultar e emprestar títulos atualizados. Os 90 votos obtidos por enquete virtual lançada há uma semana nas redes sociais, ao par destes textos, exemplificam a curiosidade pelo prêmio – a questão era “qual brasileiro vivo merece ganhar o Nobel de Literatura?”. Os poetas Ferreira Gullar e Manoel de Barros foram os campeões, recebendo, respectivamente, 23 e 21 indicações. Pense em quem você votaria e passe a sonhar.