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Micro Histórias

Luís Soares

Índice

Introdução ....................................................................................................................3
O Suicida ......................................................................................................................4
O Acidente ...................................................................................................................5
A Fraude.......................................................................................................................7
O Trabalhador .............................................................................................................8
A Cortesã e o Vassalo ...............................................................................................10
Silent Rave..................................................................................................................12
Leite com Chocolate..................................................................................................13
O Ciber Espaço ..........................................................................................................15
Habib...........................................................................................................................17
O Rapaz do Call Center .............................................................................................19
A Rapariguinha do Shopping ...................................................................................20
O Medo .......................................................................................................................21
Conduzido..................................................................................................................22

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durará mais perto de duas horas.Introdução Alguém desatento acreditaria que a emergente cultura de snacks e clips é uma descoberta ou invenção desta primeira década do Século XXI. é coisa mais antiga. Deixo-vos por isso estas treze histórias. da leitura de um romance. claro. Essa sempre foi a duração média razoável de uma cantiga. Condicionados pelas playlists radiofónicas e pela necessidade que as estações têm de agarrar as audiências. passando pelas lieder do Séc. três minutos e meio. esperem! Isto não é coisa da rádio. Há excepções. A própria telenovela tem a sua raiz óbvia no folhetim de jornal ou de rádio. Conta-se hoje uma história em trinta segundos de telemóvel. Já uma série de televisão tem um tempo que se aproxima mais do formato épico. o exemplo da música. os compositores de música popular habituaram- se a exprimir-se no tempo máximo de três minutos. XIX. Afinal quanto tempo demora a contar uma história? Vou usar. Ah. tal como uma peça de teatro. não. desde a Idade Média ao Renascimento. daquelas mais populares. Esse é também o tempo médio para uma ária de ópera. estamos a falar de média. como se contou já num Haiku ou numa cantiga de amigo. 3 . tal como uma longa metragem de cinema. mas uma ópera completa. mas não. permitam-me.

Tinha ainda as chaves da porta do seu apartamento no quinto andar. 4 . Na sua ideia de pessoa decidida. Não suportava a ideia de que os pais sofressem com o seu suicídio inexplicável e inexplicado (não deixaria uma nota). Depois punha-se a imaginar a reacção das pessoas à sua morte. as chaves do carro e outras coisas que se perdem. Decidiu assim em vez disso tornar-se num assassino psicopata e matar os pais antes de suicidar-se. ficar entrevado e dependente da pena de outros para o resto da vida. a namorada. O primeiro medo que o assolava era o de saltar da janela (dar um tiro. Havia apenas um problema. os pais.O Suicida Considerou durante várias semanas a hipótese de se suicidar. da ex-namorada. cortar os pulsos. Dos colegas de trabalho. tão decidida que escolheria o momento da sua morte. das chaves do carro. o espanto e a comoção. tomar comprimidos) e não morrer. de quase todos lhe agradava o sofrimento. essa dependência assustava-o deveras. para que estes não sofressem. Tinha perdido o emprego.

Era de manhã cedo. apesar de pisar o travão a fundo. apesar de terem uma 5 . mas apenas conseguiria chegar ao trabalho a horas se não houvesse imprevistos. esse. algumas buzinas. quando reparou que a condutora choramingava sentada ainda no seu lugar. O trânsito contornava-os. saiu. homens que tratariam do que havia a tratar. Suspirou. fazendo-o também a ele deslizar uns metros. Raramente dava margem para imprevistos na sua vida. Incólume. avisando que chegaria atrasado. óleo. Tinha travado para deixar passear um peão. Viajara de avião até um porto do Mediterrâneo para embarcar num cruzeiro de duas semanas. Na noite anterior mal tinha dormido. pressa sobretudo. Foi bater no da frente.O Acidente Tinha chovido toda a noite e madrugada e o mês anterior tinha sido de seca e vento. Sentiu o carro escapar-se. água e a normal porcaria da cidade conspiravam contra os seus pneus antigos. preocupada em pesadelos e insónias com a filha que se preparava para se separar do genro. Ela informou-o de que já tinha pedido ajuda. Certificou-se de que não estava ferida. Enquanto esperavam pelo marido e pelo mediador de seguros. a senhora contou-lhe que tudo lhe corria mal recentemente. Pó. Deu a volta pela frente do carro e sentou-se ao seu lado. A companhia área perdera-lhe as malas e passara as duas semanas a força de desodorizante e roupa comprada no paquete a preços exorbitantes. assumiu a sua culpa por uma fresta de janela aberta e estava ao telefone.

quando dois carros batiam assim no trânsito. resignada. Por trás. Surpreendida. Tinha já alguma idade.criança de cinco anos apenas. Nada disse. Ele lembrou-se da avó que lhe costumava dizer. mais de sessenta anos talvez. Pousou por isso os lábios muito ao de leve na face dela. 6 . dois dedos de conversa no cabeleireiro e na mercearia. tentando descobrir a pele para além dos cremes. Talvez esperasse apenas. a senhora secou os olhos e sorriu-lhe. da base. em silêncio. com um penteado parecido com aquele. E agora um estranho batera no seu carro. Ele achou-se uma boa pessoa. esperava conforto e calma da vida. Nunca gostara muito do genro mas temia pelo futuro do neto. "é um beijinho".

numa taberna do porto de Roterdão. Leu isso em que livro de banda desenhada? Logo o outro percebeu que também Kepler tirava prazer de inventar teorias. visto que como todos sabem. Um dia. declarou a um estranho de chapéu de abas largas com quem partilhava uma cerveja: . Quem lhe era íntimo. Demonstrava tamanha habilidade em discorrer com retórica inabalável e firmeza na voz sobre assuntos dos quais não sabia sequer o princípio. .A Fraude Os seus melhores amigos sabiam que tinha um prazer secreto em ser fraudulento. Ora o estranho em causa não era mais do que o famoso astrónomo Johannes Kepler e logo lhe retorquiu. que por sinal não sabem cozinhar muito bem os seus bifes. naquele tempo ainda não tinha nascido Hugo Pratt. conhecia-lhe e descontava-lhe a fraqueza.A Via Láctea é a costura na tenda que é o céu. 7 . as estrelas buraquinhos por onde escapa a luz. Sorria condescendente por trás de uma caneca. que aqueles que o desconheciam acreditavam no que lhes dizia e repetiam as mesmas frases a terceiros.Fique sabendo caro amigo que isso é apenas o que acham os tártaros. Assim se propagava esse falso conhecimento que não raras vezes ganhava força de lei e levava pobres coitados a serem queimados na fogueira.

num ritmo vagaroso mas certo. um resto. num tom calmo e familiar. com uma boa educação feita da escolha breve de palavras. movido por um sentido de dever inabalável. Tudo bem? (.. desleixo.. impecavelmente penteado (nem um cabelo liberto do jugo da pomada). Cercavam-no com preguiça. todos eram vinte. . impecavelmente vestido (a gravata condizia com o lenço no bolso do casaco).. as poucas tarefas que ainda lhe destinavam. ao cruzarem-se nos corredores. mãe. pegava no telefone e marcava o mesmo número e tinha o mesmo tipo de conversa.Olá... Todos os dias. Fizeste bem. . a seguir ao almoço. Era sempre cortês. 8 . ao trocarem impressões que nunca escapavam do domínio do profissional.) Cozida.. Tinha apenas um capricho.) Pois. entusiasmo desbragado por vezes. Eu não comi nada de especial (.Nunca variava muito. não? (. À sua volta.) Almoçaste bem? O quê? (.. quarenta anos mais novos que ele.O Trabalhador Sentava-se no seu lugar todos os dias. Ele respondia com um curto e correcto bom senso. trinta.). Secretamente ambicionava ser um modelo futuro para aquelas pessoas. Mentalmente contava os dias do ano e três meses que lhe faltavam para a reforma e cumpria.. A todos saudava no princípio e no fim do dia. mas não tinha ilusões e sabia que não passava de um intruso. com legumes. para eles. conversas de que compreendia apenas algumas palavras.

como quase tudo sobre ele. Os que o rodeavam ignoravam esse facto.Contudo. Ignoravam igualmente que o número que marcava era de uma linha telefónica de sexo que prometia mulatas de grandes rabos. 9 . a sua mãe tinha já falecido.

Não particularmente bela. na perfeição dos cortes de cabelo. Não lhe foi difícil em três dias seguidos. contudo. pelo tempo que demorasse o prazer. tez morena. Vivia mais alto que a torre de qualquer castelo. sem nunca arriscar perder o controlo da sua figura majestosa e sedutora. dançava. Alta e volumosa. Sabia exactamente ocupar todo o espaço que a pele lhe delimitava.A Cortesã e o Vassalo Era uma mulher extraordinária. aparecia em fotografias. mais do que compensavam essas pequenas falhas em brilho de jóias e roupas. no seu corpo. sem ser excessiva. boca pequena. bebia até quase se embriagar. cerrava os lábios até desaparecerem. Com eles dormia e acordava. Ao terceiro dia convidou-o a entrar no seu apartamento. mesmo que o elevador fosse a descer. Um dia. Era vista com eles. no elevador. Vivia publicamente nesse mundo dos ricos. A cada andar que passava. 10 . num vigésimo quarto andar que lhe oferecia larga vista sobre todos os hipotéticos domínios da sua sedução. na face sedosa e bem tratada. por alguns momentos. O nariz desenhava um certo excesso de personalidade e quando se irritava. mais o desejo subia. na sua vida. Os apetrechos da sua vida de cortesã. o seu olhar caiu sobre um jovem de ar distraído. cabelo mais longo do que o calor aconselharia. garantir que subia ou descia no elevador sob o olhar crescentemente voraz daquele prospectivo vassalo. jantava. contudo.

Estavam ambos deitados cansados na larga cama quando ele falou um pouco de si e ela percebeu a sua tenra idade. sendo inevitável que dele teria de se afastar. mandou matá-lo no dia seguinte. o seu coração condenado a ser plebeu. Para não o esquecer como o imaginara. 11 . a sua falta de ambição (que poderia eventualmente ter compensado a idade). um instante de beleza e prazer.

com álcool. nada editado no último ano ou mesmo ainda por editar e só disponível na Internet. ali no meio de Union Square. Mudei-me para esta cidade há quanto tempo? Não fez um mês ainda e eis-me em Union Square com um grupo de desconhecidos (são cada vez mais) em silêncio mas acompanhado. de auscultadores nos ouvidos (os mais variados tamanhos e formatos). de João Braz) No primeiro momento acho só que devemos ter todos um ar ridículo. Eu ouço Tom Waits. Depois percebo o prazer de estarmos cada um a ouvir a sua música. pernas em movimento. fumo. vistos de fora: pouco mais de uma centena de pessoas em silêncio.Silent Rave (A propósito da foto da capa. Eu ouço o Tom e imagino um bar no Inverno. quase Verão e está toda a gente com pouca roupa já. Deixo de achar estranho não estar a ouvir música para dançar. É secreto e solitário. braços a abanar. decotes à mostra. ombros à mostra. casacos. nem sequer música electrónica. Reparo por fim no casal que se beija. Em que mais alguma rave poderia eu ouvir Tom Waits? Ainda por cima é Primavera. cada um abanando o corpo a um ritmo diferente e pessoal. 12 . ouvindo a música que me apetece.

O petiz nunca chegava a perceber de onde vinha esse monstro de pressa. o banho tomado na noite anterior. para emergir um número incerto de minutos mais tarde. não ter tempo de beber o leite com chocolate em casa. A vida era uma precipitação. Ele adorava que a palhinha ficasse encaixada exactamente no pequeno buraco prateado. em vez de esperar pela manhã para sair da casa de banho a correr. Nunca havia um momento em que ficasse à espera. Não tinha. quando o ar entrava e o leite deixava de suster a respiração. contorcer-se na sua mão à medida que sugava o leite cada vez com maior dificuldade. fôlego. contudo. O leite com chocolate ficava sempre para o elevador. embrulhada numa toalha. A mãe. Já lhe tinha perguntado por que não tomava ela duche na noite anterior como ele fazia. não escolhia a roupa e arrumava a mala de véspera. Gostava de sentir o pacote emagrecer. o atraso. vestida e disparando-lhe um sorriso instantâneo seguido de um "já estamos atrasados" como uma bala quase feliz.Leite com Chocolate Era perfeitamente normal. para beber tudo de uma vez. por ter a mala arrumada. nunca havia uns segundos livres. não compreendia aquele prazer da luta contra o pequeno pacote de cartão e protestava sempre contra o resfolegar no fim. O torvelinho da mãe não parava até saírem de casa. Esforçava-se sempre por se vestir a tempo. bater com a porta do quarto. que não bebia leite com chocolate. 13 .

Acabava sempre antes de chegarem ao carro e abandonava aí o pacote como o cadáver de um inimigo derrotado. 14 . O chão do carro era um cemitério de pacotes de leite com chocolate derrotados. às pessoas e às fachadas. antes de pôr o cinto no banco de trás e dedicar o seu olhar ao céu.

estas estavam. Ao canto. um cabo ligado algures. o décimo terceiro. mas obedeceu à voz curta e decidida da secretária. à sua luz esverdeada. supermercados. Temia pelo pior sempre que aquele número piscava ao ritmo do toque no visor antiquado de LCD baço. até ao topo. alguém olhava para as suas várias imagens num painel de ecrãs. uma câmara de vigilância. fez o elevador ao chegar. temeu. em cima. Mas e aquelas na porta da sua garagem. opaca. com certeza. Chamou o elevador para cima. Estariam ligadas a estas? Existiria por trás de todos estes olhares um único organismo electrónico a vigiá-lo? 15 . a apontar para o lugar de estacionamento? As outras nos centros comerciais. em tudo semelhante à primeira. com obras de arte antigas e modernas nas paredes. No espelho ajeitou o nó da gravata. reparou numa semi-esfera brilhante.O Ciber Espaço Quando o telefone tocou e ele viu o número no visor. andar de má sorte. passou os dedos pelo cabelo. Estacou. Ao canto do tecto. uma objectiva em forma de cilindro. consultórios. Escondia outra câmara decerto. preta. Quando saiu para o átrio apainelado a madeira. o andar da administração. Plim. reparou numa terceira câmara. E se estivessem todas ligadas? Quer dizer. um paralelepípedo de plástico branco.

Só depois reparara no olhar sinistro da câmara. Quando entrou no gabinete do chefe e ele lhe deu uma pancada nas costas e uns "Parabéns!" sentidos. Não sabia se ela reparara também. aquele homem controlava com certeza tudo. 16 . ele também certamente vigiado. sob o efeito do vinho caro. Ali mesmo tinha deixado cair as calças. Com tantos olhos. Nada dissera à mulher.Ontem a mulher puxara-o para cima do capot. lhe tinha levantado a saia. do restaurante elegante. Excitante até. da promoção no seu escritório. não teve a certeza se era pelo seu bom trabalho na empresa ou pela maneira dedicada como fizera amor com a mulher em cima do carro.

Viro as costas e 17 . mas sorri também. camisola do Barcelona. Talvez Habib tenha medo de ter perdido um cliente e decide oferecer-me três bananas que arranca de um gancho por cima da minha cabeça. Abro um armário frigorífico envidraçado. vem de lá do fundo um homem de bigode. – Hola mi amigo! Que tal? Que tal? Fala-me como se nos conhecêssemos. Não são. Será que a rapariga está a olhar para mim? Escolho uma garrafa gelada de Font D’Or e quando me vou a virar. – Aponta para a rapariga da caixa e encara-me com ar sisudo antes de me dar uma pancada nas costas e se desmanchar a rir. não sei de que jogador. Olho para ele estupefacto. com um lenço branco na cabeça. Sorrio-lhe ao passar. alguma semelhança nas feições. – Yo soy Habib. mas tira um saco de trás do balcão onde as mete e empurra-o na minha direcção. eu próprio baixando os olhos embaraçado. Procuro num bolso moedas para pagar. Vou comprar uma garrafa de água. cobrindo-lhe todo o cabelo e parte significativa do pescoço. Aceito e agradeço. Baixa os olhos. – Nosotros somos de Bangladesh. Da entrada consigo ver que está uma rapariga na caixa. Contemplo o conteúdo mais tempo do que o necessário.Habib É uma pequena mercearia numa rua estreita da cidade antiga. Esta es mi hija. Percebo que só poderei olhá-la nos olhos de novo se as minhas intenções forem sérias. tão moreno como ela.

espreito o saco. Uma esquina adiante. As bananas estão maduras de mais e abandono-as numa papelera. 18 .ponho-me a andar dali.

mas tinha pena de não saber o seu nome. o rapaz moreno da barbicha fumava e envelhecia. a roupa. em cima atrás. os piercings. Quantos cigarros já tinham partilhado? Trocaram apenas um aceno de cabeça. da sombra das copas. Tinha no tornozelo uma tatuagem que era só uma vela triangular. Fumava com displicência e sentia a hipótese permanente de os calções largos lhe caírem até aos tornozelos. a rasta. e uma face imberbe. Tinha vinte anos mas ninguém lhe dava mais de quinze ao primeiro olhar. o que nem o incomodava particularmente.O Rapaz do Call Center Caminhava debaixo da sombra das árvores sem hesitar. apertado com a força exacta. Ao entrar no Call Center. tudo aquilo somado era apenas a semente do desejo. o cigarro. lábios rechonchudos. Ria-se sem confirmar ou desmentir. A tatuagem. 19 . Gostava dos troncos sólidos. mas pouca gente a percebia. O cinto estava no sítio certo. Orgulhava-se da rasta no seu cabelo. das folhas largas que o Outono amarelecia e soltava. Sentou-se no seu lugar à hora exacta e teve a certeza de que o dia ia correr bem quando a namorada e supervisora. Tinha poucos pelos no corpo. lhe deu um beijo de boas vindas. dez anos mais velha. mas tal nunca iria acontecer. tudo isto ele tinha consciência de serem provocações que a sua cara de bebé dirigia ao olhar dos transeuntes. Para alguns. apenas uma soltando-se do corte rasteiro. Orgulhava-se da argola no lábio e da outra na narina do mesmo lado. com timidez e insolência. Uma vela de barco.

ombros largos. brancos e polidos. ser alguém que os homens desejassem na praia. Hoje duvidava. Não poderia antes ter ficado em casa. apessoado. Um arremedo de príncipe encantado? Sorriu-lhe. espreitou-lhe a aliança no dedo e perguntou “O que deseja?” 20 . o peito demasiado pequeno. um bater de pestanas devidamente alongadas e encurvadas e. enrolada na cama nua.A Rapariguinha do Shopping Mascava pastilha elástica tentando manter a boca fechada. Maquilhava-se sempre com cuidado e uma sensibilidade que a mãe apelidava de artística. mas sempre que tentava emagrecer. tudo lhe pesava. era tudo pele. o decote. favolas. o rabo demasiado largo. mas tremendamente feio. Usava a língua e a pastilha para limpar os restos do almoço de fast food dos dentes de que normalmente se orgulhava. Não usava colares. Detestava dietas. certinhos. hoje: as argolas das orelhas. Queria ficar elegante. Hesitava sempre entre combater a celulite ou encantar com o sorriso. Mas que sabia a mãe de arte? E no fim. parecia-lhe que era no peito que perdia peso e deixava de se poder orgulhar dos seus decotes exibindo um vale bem definido entre os seios. mas tudo lhe pesava. A roupa tinha sido escolhida com cuidado. é claro. uma hora depois de ninguém. a fivela grande e dourada na cintura. Seriam demasiado grandes? Dentolas. absolutamente ninguém entrar na loja. alto. a comer chocolate? Bateu as pestanas uma vez e entrou um homem.

21 . embora afirmasse compreender as celebrações na Palestina no dia 11 de Setembro. foi "inventada" a SIDA e acabou por sucumbir ao retro-romantismo consequente. Com o Muro de Berlim também caído. como condição de toda a humanidade. o triunfo desbragado do liberalismo afligia-o. Nessa altura compreendeu a inevitabilidade da sua existência. assim.O Medo O homem crescera na época do medo de um dia acordar e ser "O Dia Seguinte" a uma guerra nuclear a que por um motivo qualquer tivesse sobrevivido. O apocalipse terrorista do princípio do milénio também não lhe soou como uma boa opção. Não precisava de trabalhar e todas estas dúvidas nunca lhe tinham ido ao bolso. Decidiu assumir o medo como estado permanente. sentiu-se órfão de causas e tímido de esperança. Passou. nascera rico e nunca tivera de se preocupar mais com a sua vida do que com a vida do mundo. Quando chegou à idade em que podia já aproveitar a Revolução Sexual (coisa do tempo dos seus pais). tendo sido doutrinado politicamente como canhoto. Por sorte (ou azar). Por outro lado. a viver feliz sem nunca sair de casa. O Medo. pensava com letra maiúscula.

uma noite mais fria. Um vento morno limpava as nuvens do céu. Nos calaboiços da memória. o medo. roubei um beijo depois de apagar um cigarro. a descoberta. no fim quando entrei no hospital era um dia lindo de Primavera.Conduzido Vinha a pensar em quantos lugares se esconde o conhecimento do que um homem verdadeiramente é. Vivi. fui humilhado. escuridão. procurando cavernas onde esperam encontrar veios de ouro e o brilho de pedras preciosas. Segredar. E no fim. Subindo aquela calçada recebi um telefonema. com jardins em forma de labirinto e salões de baile em que a música está demasiado alta para nos conseguirmos ouvir. Ao virar aquela curva bati no carro da frente. Lisboa. castelos de equívocos que se amuralham no que desejamos que os outros sejam. descendo túneis mal iluminados. Tantas vezes. Barcelona – 2008 22 . até onde conseguem chegar. o desejo. À sombra bruxuleante que a copa da árvore desenha na luz do candeeiro. talvez. na verdade. Palácios de intenções. o calor do Sol. Quantas pessoas julgam conhecer outras pessoas? E o que sabem. a solidão. E que lugares são estes a que chamamos cidades onde vamos deixando aos poucos as nossas vidas. Naquela esquina fui assaltado.

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