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LOGOS, ETHOS E PATHOS NO ELOGIO DE HELENA: RELAÇÕES ENTRE A SOFÍSTICA E A ANÁLISE DO DISCURSO

RESUMO

Melliandro Mendes Galinari 1 NAD/FALE/UFMG FAPEMIG

O OBJETIVO DO PRESENTE ARTIGO É REALIZAR UMA REFLEXÃO SOBRE O TEXTO SOFÍSTICO DE GÓRGIAS DE LEONTINI, INTITULADO ELOGIO DE HELENA, COM O INTUITO DE CONSTRUIR ALGUMAS IMPLICAÇÕES TEÓRICAS ÚTEIS À ANÁLISE DO DISCURSO CONTEMPORÂNEA, NAQUILO QUE CONCERNE OS SEUS ESTUDOS SOBRE A ARGUMENTAÇÃO. O TRABALHO PARTE DO PRESSUPOSTO DO GRANDE VALOR FILOSÓFICO E EDUCATIVO PRESENTE NAS ATIVIDADES DOS SOFISTAS EM AÇÃO NA ATENAS DO SÉCULO V A.C., NA CHAMADA ERA DEMOCRÁTICA DE PÉRICLES.

PALAVRAS-CHAVE

ANÁLISE DO DISCURSO, ARGUMENTAÇÃO, SOFÍSTICA, GÓRGIAS, ELOGIO DE HELENA

INTRODUÇÃO

Hoje, com base numa diversidade de pesquisas, pode-se partir tranquilamente do

pressuposto de que os sofistas – Protágoras de Abdera, Górgias de Leontini, Pródico de Ceos,

Trasímaco da Calcedônia e tantos outros –, em atividade na Atenas democrática de Péricles

(século V a. C.), não eram “impostores”, “mercenários” e/ou “vendedores de sabedoria

aparente”, como nos tem ensinado o persistente preconceito platônico-aristotélico e a

recorrente carga semântica (negativa) de palavras como “sofisma” ou mesmo “sofística” 2 .

1 Doutor em Letras/Lingüística pela FALE/UFMG, com realização de Pós-Doutorado na Università degli Studi di Padova – UNIPD (cidade de Pádua/Itália), onde desenvolveu a pesquisa intitulada “Lingüística Italiana, Retórica e Argumentação”. Atualmente usufrui de uma bolsa pós-doutoral da FAPEMIG, no POSLIN/FALE/UFMG, onde dá continuidade à pesquisa sobre Retórica e Argumentação no campo da Análise do Discurso.

2 São vários os trabalhos e estudos contemporâneos que resgatam o valor filosófico e educativo dos sofistas, livrando-os do preconceito platônico-aristotélico que os consagrou como enganadores, mercenários ou sujeitos que do conhecimento detinham apenas a aparência. Como exemplo, podemos citar: Untersteiner (2008), Vignali (2006), Pinto (2000), Romilly (1988), Romeyer Dherbey (1985) e Saitta (1938), dentre outros. Como se sabe, o conhecimento produzido pelos sofistas desapareceu quase que totalmente. O que nos restam são apenas alguns fragmentos e, principalmente, testemunhos, como os de Diógenes Laércio, Sexto Empírico, Platão e Aristóteles (inclusive) e tantos outros que citam e discutem as questões colocadas pelos sofistas. Felizmente hoje contamos com autores que reuniram em uma só obra tais fragmentos e testemunhos antigos a partir do grego e do latim. Os

Filhos do próprio tempo, engendrados por circunstâncias histórias e políticas bem particulares, esses pensadores, filósofos, educadores e hábeis oradores preencheram uma lacuna importante no mundo antigo: preparar os cidadãos para o exercício ativo da vida pública (pelo menos aqueles aptos a pagar pelas lições de oratória), para a resolução de problemas comuns através do discurso e da controvérsia, para a defesa e para a acusação, exigências da própria democracia ateniense, além de terem eles próprios – os sofistas – tomado partido em várias questões, seja de caráter político, seja de caráter teórico- especulativo ou ético-filosófico. Segundo Vignali (2006), os ensinamentos sofísticos giravam em torno de quatro disciplinas complementares: Gramática, Dialética, Retórica e Cultura Geral e, com base em Romeyer Dherbey (1985), podemos dizer que eles inauguraram, de certa forma, o estatuto do intelectual moderno, que (sobre)vive de seu próprio fazer- intelectual, enquanto professores itinerantes que foram. Neste artigo, porém, pretende-se apenas fazer uma rápida leitura da obra Elogio de Helena, de Górgias, ressaltando como tal texto aborda a questão da persuasão e das próvas retóricas (logos, ethos e pathos), contendo elementos teóricos de interesse para a Análise do Discurso (AD), mesmo se indiretamente. Sabe-se, hoje, que o texto de Górgias, um dos poucos textos sofísticos que chegaram até nós na íntegra, é baseado no conhecido mito homérico sobre a origem da Guerra de Tróia, no qual a bela Helena, casada com o Rei de Esparta, Menelau, teria fugido com Paris para Tróia (ou teria sido raptada). O evento bélico teria começado então com a invasão ou o ataque dos gregos a Tróia, com o intuito de recuperar Helena e vingar o “traído” Menelau, embate que teria durado anos e anos. O texto de Górgias, o Elogio de Helena, um verdadeiro encômio de caráter epidíctico, parte do pressuposto da existência de uma condenação generalizada à Helena, presente na doxa ou no senso comum grego, mesmo séculos depois das narrativas de Homero ou da referida Guerra. Desde o início, Górgias busca isentar Helena da culpa de ter ocasionado o incidente bélico e, por conseguinte, da má fama de traidora dos gregos. Evidentemente, tratar-se-ia de uma empresa oratória árdua, visto que se argumenta contra uma crença, o que se configura num verdadeiro desafio para o hábil orador. Especula-se aqui e ali que esse texto sofístico teria sido apenas um modelo de discurso e/ou um exemplo de boa oratória, construído por

primeiros foram Diels e Kranz que os traduziram para o alemão, na obra Die Fragmente der Vorsokratiker. Algum tempo depois o italiano Untersteiner (1967) fez o mesmo em seu idioma, porém com uma edição mais completa e aperfeiçoada (I Sofisti: testimonianze e framenti), certamente a mais completa até a escrita deste texto. Sousa e Pinto (2005), por sua vez, realizaram uma versão em português a partir dos trabalhos anteriores, a qual estou utilizando neste artigo por questões de comodidade.

Górgias para ilustrar os seus ensinamentos durante as suas atividades didáticas, e que, por isso, não foi um texto usado efetivamente na esfera cidadã. A escolha de Helena como tema teria sido feita em função dessa personagem, ou melhor, da sua defesa, se configurar numa empreitada retórica difícil, em função da sua (suposta) condenação no mencionado senso comum. Num caso ou noutro, nos interessam aqui as reflexões teóricas decorrentes da leitura dessa obra. A seguir, abordo, então, o Elogio de Helena, seguindo o passo-a-passo da argumentação gorgiana.

HELENA ABSOLVIDA

Górgias esclarece, no início de seu discurso, a grande finalidade de sua empreitada retórica, a saber, inocentar Helena das graves acusações a ela correntemente direcionadas:

importa refutar os detractores de Helena, mulher a respeito da qual se tornou uníssono e unânime quer o testemunho dos poetas que falaram das coisas que ouviram quer a fama do seu nome, que se tornou um símbolo de calamidades. Portanto, eu quero, desenvolvendo o discurso segundo um certo raciocínio, libertá-la da acusação que a difamou e, ao demonstrar que os detractores mentem e ao mostrar a verdade, pôr termo à ignorância. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:127-128)

Nos termos da AD, Górgias evoca um ethos prévio ou uma imagem negativa de Helena, presente na doxa grega sob a forma de saberes partilhados, evidenciando a má reputação da personagem em questão, que o discurso atual – o Elogio de Helena – pretende desfazer, instaurando um ethos discursivo que não apenas se contrapõe ao mencionado ethos prévio, mas que, sobretudo, busca substitui-lo por algo considerado como a verdade. Um rápido parêntese se faz aqui necessário. Refletindo sobre o Elogio, percebe-se que faço referências ao ethos de Helena, e não ao ethos de Górgias enquanto a instância de produção do discurso (o que seria perfeitamente possível ou até mesmo o mais esperado). Isso, no campo teórico, nos permite falar também da possibilidade de se construir análises discursivas destinadas a elucidar os “ethè de outrem”, o que estenderia o ethos não apenas às imagens de si das instâncias de produção dos discursos abordados, mas também às imagens de seres ou instituições tematizados por esses mesmos discursos. É o que acontece no Elogio de Helena e, em geral, em discursos de caráter epidíctico, que têm por objetivo o elogio ou a censura (de

outrem) 3 . Não é por acaso que, tempos depois, Aristóteles reconheceu essa possibilidade teórica do ethos – o que chamo aqui de “ethos de outrem” –, ao iniciar seus ditos sobre o referido gênero epidíctico:

falemos da virtude e do vício, do belo e do vergonhoso; pois estes são os

objectivos de quem elogia ou censura. Com efeito, sucederá que, ao mesmo tempo que falarmos destas questões, estaremos também a mostrar aqueles meios pelos quais nós deveremos ser considerados como pessoas de um certo carácter. Esta era a segunda prova [ou seja, o ethos]; pois é pelos mesmos meios que poderemos inspirar confiança em nós próprios e nos outros no que respeita à virtude. (ARISTÓTELES, 1998:75) (grifo meu)

) (

Voltando, então, ao processo argumentativo destinado a inocentar e promover Helena, convém dizer que Górgias começa por evocar no interior de seu Elogio aquilo que no mundo grego antigo, principalmente na mentalidade oligárquica que precedera a era democrática de Péricles, era dado como indício de nobreza, a saber, uma nobreza de sangue que refletia em si uma descendência divina, fonte de poder e beleza:

não é desconhecido nem para alguns que, pela natureza e pela estirpe, a

mulher que é o objecto deste discurso sobressaiu entre os primeiros homens e as primeiras mulheres. Com efeito, é sabido que sua mãe foi Leda e seu pai

Nascida de tais pais, herdou uma beleza divina que

recebeu e não deixou ficar escondida. Ela despertou, em muitos, muitas paixões; com um só corpo, atraiu inúmeros corpos de homens que alimentavam grandes idéias de grandes feitos. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:128)

um deus, Zeus (

).

Essa era Helena: filha do Senhor do Universo e de uma nobre mortal, o que a colocava, antes de qualquer coisa, como alguém oriunda de um lugar cósmico sublime, por um lado, e de uma esfera social de muito prestígio, por outro 4 . Estamos, aqui, diante de uma dimensão do ethos comum em sociedades aristocráticas e, por que não, presente também em nossa civilização atual, onde as pessoas se distinguem e são discriminadas socialmente por “títulos de nobreza”, como diplomas acadêmicos (“curso superior”), apadrinhamentos, filiações ou ligações com instituições e pessoas, além de outras honrarias simbólicas. Sendo

3 Tais discursos construíram a fama de Górgias no mundo antigo como notável orador, que misturava com perfeição elementos poéticos na estrutura de seus textos destinados à apreciação pública. Górgias teria, portanto, transportado a estilística epidíctica para o campo da política.

4 Leda, na mitologia grega, era a rainha de Esparta. Leda fora seduzida por Zeus, quando este, para atraí-la, se transformou num cisne imenso e de bela plumagem, união da qual nascera a bela Helena.

assim, com o terreno preparado, ou seja, deixando inicialmente claro que não estamos diante

de uma pessoa qualquer, Górgias se propõe a expor “(

verossímil a viagem de Helena para Tróia”. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:128) Na argumentação do sofista, Helena só poderia ter feito o que fez por quatro razões possíveis, todas examinadas criteriosamente por ele: (i) ou por imposição do Destino (vontade dos Deuses/Necessidade Divina), (ii) ou por arrebatamento (levada à força

para Tróia), (iii) ou pela persuasão, ou seja, pela força do discurso (logos), (iv) ou subjugada pelo Amor. Em qualquer um dos casos, para Górgias, ela será inocente, pois teria se tornado vítima de processos externos à sua pessoa. Vejamos, daqui em diante, uma a uma essas 4 possíveis causas do ato de Helena. Quando pertinente, ressaltarei algumas implicações teóricas para a AD presentes na argumentação de Górgias. (i) Se o ato de Helena foi obra do Destino ou fruto da Vontade Divina: obviamente a

é impossível deter a providência divina com a

previdência humana”. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:129) Sendo os Deuses ou o Destino mais fortes, o que pode o mais fraco senão seguir o que foi traçado? Sendo assim, “se se deve atribuir a culpa ao Destino ou a um deus, deve libertar-se Helena da ignomínia”. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:129) Não tendo essa primeira causa nenhuma implicação teórica substancial para a AD, passemos à segunda. (ii) Se Helena foi levada à força ou raptada: nesse caso, também fica óbvio o verdadeiro motivo do deslocamento de Helena para Tróia, sem que a mesma tenha qualquer culpa ou possa ter agido de má fé: sendo ultrajada pela força bruta, nada mais seria, a pobre Helena, que vítima de uma injustiça, prova fatal de um doloroso infortúnio. Para Górgias,

bela Helena aqui não seria culpada, pois “(

as causas pelas quais se tornou

)

)

o bárbaro que levou a cabo um empreendimento bárbaro merece ser responsabilizado pelo discurso, pela lei e pela acção: pelo discurso, merece a acusação; pela lei, o ostracismo; pela acção, o castigo. Mas a que foi violentada e arrancada à pátria e privada dos amigos não deveria ser mais lamentada do que difamada? De facto, ele fez coisas terríveis e ela sofreu-as. É justo compadecermo- nos dela e detestá-lo a ele. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO,

2005:129)

Nota-se, aqui, uma restauração do ethos de Helena, posta como refém das circunstâncias. É interessante também perceber que, ao colocar Helena como vítima ou paciente de uma ação violenta, com resultados dolorosos e privações terríveis para a mesma,

configura-se através do discurso (ou logos) uma argumentação pelo pathos, artifício retórico que busca desencadear emoções ou afetos no auditório, levado, aqui, a sentir uma “justa” piedade e/ou um “justo” compadecimento. Obviamente, tratar-se-ia de um fazer-sentir intimamente ligado (ou destinado) a um fazer-crer, a saber, na suposta inocência de Helena. Em termos teóricos, é oportuno ressaltar também a ligação de tudo isso com a questão da interdependência das provas retóricas, desenvolvida por pesquisadores atuais da AD 5 . No

trecho acima, um único logos ou discurso constrói, ao mesmo tempo, o ethos vitimizado de Helena e um potencial pathos, em função das emoções possíveis a serem deflagradas nos interlocutores, tais como a piedade. Noutras palavras, pode-se dizer que tal ethos vitimizado se desdobra, num segundo momento de leitura, em um pathos (mas sem deixar de ser ethos!),

o que atesta também a ligação visceral entre logos, ethos e pathos, categorias cada vez mais

vistas como solidárias. Dito isso, podemos passar a terceira razão possível da ida de Helena

para Tróia. (iii) Se Helena foi persuadida e enganada pelo discurso: essa causa representa para nós

um interessante ganho teórico em relação ao logos enquanto prova retórica, ou em relação à própria dimensão argumentativa do discurso em geral. Segundo Górgias (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:129), se foi o discurso que seduziu Helena, levando-

a a agir do modo que agiu, não será difícil libertá-la das infames acusações, e, nesse

momento, para corroborar a sua tese, o sofista constrói interessantes definições para o logos, dando a este elemento um grande poder de ação sobre os indivíduos (retomo apenas alguns

dos fragmentos presentes no texto de Górgias):

o discurso [logos] é um tirano poderoso que, com um corpo microscópico e

invisível, executa acções divinas. Consegue suprimir o medo e pôr termo à

Os encantamentos

inspirados pelas palavras levam ao prazer e libertam da dor. Na verdade, a força do encantamento, misturando-se com a opinião da alma, sedu-la,

A força do discurso em relação

à disposição da alma é comparável às prescrições dos medicamentos em

relação à natureza dos corpos. Assim como os diferentes medicamentos expulsam do corpo os diferentes humores e uns põem termo à doença e outros à vida, assim também de entre os discursos uns entristecem e outros alegram, uns amedrontam e outros incutem coragem nos ouvintes, outros há que envenenam e enfeitiçam a alma com uma persuasão perniciosa. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:127-133)

persuade-a e transforma-a por feitiçaria. (

dor e despertar a alegria e intensificar a paixão. (

)

)

5 Sobre a inter-relação das provas retóricas na instauração da adesão, ver Galinari (2007b) e Menezes (2007).

É devido à força avassaladora e mágica do discurso que seria condenável, então, na retórica gorgiana, a “difamação” de Helena, sem contar que ela pode também ter sido

aconselhada pela opinião ou pela doxa, diante de um discurso mal intencionado, admitindo-se

a maior parte dos homens, sobre a maior parte dos assuntos, oferece à alma a

opinião como conselheira. Todavia, a opinião, que é vacilante e insegura, lança em situações vacilantes e inseguras os que dela fazem uso”. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:130). Note-se, portanto, que as disposições da alma – ou a subjetividade humana, pode-se dizer – e a sua relação com a doxa influem nitidamente na adesão (ou não) de um auditório a um determinado discurso. No caso presente, Helena poderia, como a maior parte dos homens, ter se apoiado numa (má) opinião, que teria favorecido o discurso persuasor. Voltando ao poder do discurso, descrito acima por Górgias, é interessante ressaltar ainda que o logos sofístico nos permite ter uma visão mais real ou completa dessa prova retórica, no que diz respeito à argumentação e seus efeitos possíveis, indo além de uma perspectiva estritamente racional, baseada numa releitura provavelmente errônea, mas corrente, da retórica aristotélica e do logos ali presente. Muitas vezes, hoje, a argumentação é teoricamente valorizada como uma atividade de influência capaz de desencadear um processo de adesão estritamente cognitivo, “mental”, no sentido de influenciar seus interlocutores em termos de “teses” sobre o mundo. Não por acaso, somos comumente confrontados a estruturações do tipo: (i) A C (ou A T), que esquematizam a passagem de um argumento a uma conclusão ou tese, e (ii) E1 E2, que esquematiza a passagem de um enunciado 1, com valor de argumento, a um enunciado 2, com valor conclusivo, de acordo com fórmulas presentes em Toulmin (1958), Anscombre & Ducrot (1983), Charaudeau (1992) e Plantin (1996). Essa redução teórica da adesão a resultados meramente intelectuais parece ter origem na concepção estritamente racional do logos, proveniente de uma releitura limitada de Aristóteles. Assim, tal prova retórica – o logos – seria sinônimo de demonstração (verdadeira ou aparente), sendo tais demonstrações portadoras de conclusões ou teses, seja pelo método da dedução entimemática, que encontra a sua forma plena no silogismo dialético, seja pelo artifício do exemplo, que se constrói com a técnica da indução. Sabemos, contudo, que Aristóteles leva em consideração também o pathos e as paixões dirigidas ao auditório e, ao teorizar sobre a oratória judicial e deliberativa, deixa a entender que o discurso retórico (ou logos) pode se dirigir a ações, ao fazer-deliberar, ao fazer-julgar. Tenho defendido a posição

que “(

)

(GALINARI, 2007a e 2007b) de que precisamos ter em mente uma concepção mais ampla da argumentação e de seus efeitos (possíveis) num eventual auditório, antes de partirmos para as análises de corpus propriamente ditas. E, para tanto, devemos considerar teoricamente, como integrantes legítimas da adesão, não apenas teses sobre o mundo, mas também ações (ou comportamentos) e emoções (ou sentimentos/afetos) 6 . Acredito, enfim, que discursos políticos, publicitários e tantos outros possuem como meta retórica principal a instituição destas duas últimas modalidades da adesão (ações e emoções), tais como “fazer-votar”, “fazer-comprar/consumir”, “fazer-rir”, “fazer-amedrontar” etc., o que não exclui evidentemente um “fazer-crer em algo” como meio intermediário para a adesão dominante (por exemplo, fazer-crer para fazer-sentir ou fazer-crer para fazer-fazer). Gostaria de salientar que reflexões dessa natureza encontram apoio nos fragmentos das obras sofísticas que chegaram até nós: não apenas nas obras de Górgias, assunto específico deste artigo, mas também nos fragmentos e testemunhos de outros sofistas (como Protágoras), os quais foram, infelizmente, esquecidos pela Análise do Discurso em função de um “aristotelicocentrismo” e de um “platonismo” teóricos. Voltando mais uma vez à última citação de Górgias, pode-se dizer, enfim, que o logos sofístico, para (re)agir, depende do interlocutor, mistura-se com as suas opiniões atingindo a sua subjetividade, seus valores e imaginários; além de tudo, é comparável à magia, à feitiçaria e ao poder dos fármacos, tendo conseqüências múltiplas no plano da adesão. O logos, portanto, além de transmitir pensamentos (teses), pode também levar o outro a agir, como teria agido Helena ao acompanhar um bárbaro para Tróia, e pode também suscitar nesse outro alegria, medo, coragem, em suma, emoções. Temos, aqui, uma definição mais ampla para o logos grego, ou pelo menos uma visão a mais, que não se reduz a uma perspectiva estritamente racional e de instituição intelectual de teses sobre o mundo. Restaria à AD aproveitar tais reflexões e ajusta-las às suas práticas de análise. Passemos à quarta e última causa da conduta de Helena.

6 Procurei, em Galinari (2007a e 2007b), expandir as fórmulas usuais que buscam definir a argumentação, inserindo e considerando teoricamente, no campo da adesão, as ações e as emoções. Assim, cunhei o seguinte esquema: “ARG (logos, ethos e pathos ) TAE”, onde, à direita da seta, temos as variáveis da intensidade de adesão (teses, ações e emoções) visadas por um discurso persuasivo e, à esquerda, os seus elementos deflagradores (os argumentos ou provas retóricas). Inserir teoricamente as ações e emoções no campo das adesões possíveis seria, pois, uma forma de perguntarmos aos nossos corpora: o que queres (ou podes) tu ocasionar em função de teu contexto de circulação, das características psicológicas e sociais dos sujeitos sociais que colocas em interação? Queres tu apenas fazer-crer em algo (uma tese)? Levar alguém a agir ou a se comportar de tal modo? A sentir algo? Um pouco de tudo isso? Trata-se, enfim, de uma “malícia teórica” que deveríamos ter antes de começarmos o nosso trabalho de análise argumentativa.

(iv) Se Helena foi movida pelo Amor: não se pode ficar surpreso diante do ato de Helena, se o Amor apoderou-se do seu frágil ser. O Amor era visto como um Deus, ou algo

com um poder tal que tornariam vãs as vontades individuais: “se o amor, sendo um deus [tem]

a força divina dos deuses, como poderia um ser inferior repeli-lo e resistir-lhe? E, se é uma doença humana e uma ignorância da alma, não é de censurar como culpa, mas de considerar como uma desventura”. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:132) Górgias salienta ainda a ligação do Amor com a vista, ou seja, com as impressões sensoriais que temos no instante de um contato visual com seres ou objetos (no caso, um contato visual de Helena com o bárbaro), impressões muitas vezes perigosas, pois podem omitir os aspectos negativos do que se apresenta diante de nós e, assim, enganar o olhar. Segundo o sofista, “através da vista, a alma é moldada até no seu caráter íntimo”. (GÓRGIAS, Elogio de Helena apud SOUSA e PINTO, 2005:131) Poderíamos fazer um paralelismo aqui com uma conhecida máxima do sofista Protágoras, a saber, que o “homem é a medida de todas as coisas”, de acordo com vários testemunhos presentes em Sousa e Pinto (2005). Segundo um deles, de Platão (apud SOUSA

e PINTO, 2005:70), Protágoras sustentava que “(

o homem é a medida de todas as coisas,

tal como as coisas me parecem ser, assim elas são para mim; tal como elas te parecem a ti, assim elas são para ti”. É provavelmente nessa perspetiva que o bárbaro teria, na argumentação de Górgias, parecido a Helena algo belo e digno de amor, quando, na verdade, não o era. Mais uma vez nota-se a subjetividade humana, embora com outras terminologias, que é capaz de avaliar, por comportar valores, representações e desejos, os objetos e seres a ela apresentados (inclusive discursos [logoi]). Tudo isso conduz novamente a nossa atenção para a grande importância e consideração teórica do auditório, assim como dos componentes de sua “alma”, para uma eficaz especulação dos efeitos possíveis dos discursos sociais. Enfim, examinadas as 4 razões possíveis da ida de Helena para Tróia, e ressaltadas algumas possíveis implicações teóricas, passarei às considerações finais.

)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De modo geral, procurei sustentar a tese de que a Sofística e seus expoentes contém elementos teóricos interessantes para a Análise do Discurso e a sua abordagem argumentativa,

e que tais elementos não têm sido infelizmente aproveitados por nós, que muitas vezes reproduzimos o preconceito platônico-aristotélico comumente direcionado àqueles

pensadores. A Sofística é alvo de muitas confusões e interpretações equivocadas, devido,

muitas vezes, ao fato de o pesquisador em AD não ter ainda tomado conhecimento da vasta

bibliografia dedicada ao assunto, oriunda da Filosofia e outras áreas. De modo particular,

procurei, enfim, mostrar a mencionada utilidade da Sofística através de algumas implicações

teóricas decorrentes da obra o Elogio de Helena, de Górgias. No entanto, ainda restam muitos

pontos a serem resgatados, não apenas no restante dos fragmentos e testemunhos de Górgias,

mas também nos escritos de Protágoras e outros, sem esquecermos-nos dos trabalhos atuais

que discutem as questões colocadas por aqueles antigos mestres de oratória, filósofos e

educadores da democracia ateniense.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANSCOMBRE, Jean-Claude & DUCROT, Oswald. L’argumentation dans la langue. Bruxelles: Mardaga, 1983.

ARISTÓTELES. Retórica. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1998.

CHARAUDEAU, Patrick. Grammaire du Sens et de l’Expression. Paris: Hachette, 1992.

GALINARI, Melliandro Mendes. A Era Vargas no Pentagrama: dimensões político- discursivas do canto orfeônico de Villa-Lobos. 2007a. Tese (Doutorado em Lingüística) – Faculdade de Letras, UFMG, Belo Horizonte.

GALINARI, Melliandro Mendes. As Emoções no Processo Argumentativo. In: MACHADO, Ida Lucia; MENEZES, William.; MENDES, Emília. As Emoções no Discurso. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007b. p. 221-239.

MENEZES, William Augusto. Um Pouco sobre as Emoções no Discurso Político. In:

MACHADO, Ida Lucia; MENEZES, William; MENDES, Emília. As Emoções no Discurso. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. p. 310-328.

PINTO, Maria José Vaz. A Doutrina do Logos na Sofística, Lisboa, Edições Colibri/Instituto de Filosofia da Linguagem, 2000.

PLANTIN, Christian. L’argumentation. Paris: Seuil, 1996.

ROMEYER DHERBEY, Gilbert. Les Sophistes. Paris : Presses Universitaires de France,

1985.

SAITTA, Giuseppe. L’Illuminismo della Sofistica Greca. Milano: Fratelli Bocca, 1938.

SOUSA, Ana Alexandre Alves de; PINTO, Maria José Vaz. Sofistas: Testemunhos e Fragmentos. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005.

TOULMIM, Stephen. E. The uses of argument. Cambridge: Cambridge University Press,

1958.

UNTERSTEINER, Mário. I Sofisti. Milano: Bruno Mondadori, 2008.

UNTERSTAINER, Mario. Sofisti: Testimonianze e Frammenti, Firenze, La Nuova Italia,

1967.

VIGNALI, Daniele. I Sofisti: Retori, Filosofi ed Educatori, Roma, Armando Editore, 2006.