Curso de Pós-Graduação Terapia Cognitivo-Comportamental

Violência doméstica contra as Mulheres e seus efeitos emocionais.

Manaus
Agosto 2008

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Curso de Pós-Graduação Terapia Cognitivo-Comportamental

Violência doméstica contra as Mulheres e seus efeitos emocionais.
Monografia apresentada á Coordenação do Curso de Pós-Graduação em Terapia Cognitiva Comportamental do Instituto de Ensino Superior da Amazônia da Faculdade Martha Falcão, como requisito necessário à obtenção do título de Especialista em Terapia Cognitiva Comportamental.

Autoria: Maricília Teixeira da Costa Sílvia Mendonça dos Santos e Santos

Orientador: Dr. Thomé Eliziário Tavares Filho

Manaus 2008

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5 SUMÁRIO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Assuntos Dedicatória Agradecimentos Sumário Resumo Introdução Concepção de Violência A Violência de Gênero: Violência contra a Mulher Violência doméstica: A Família em Crise. A Violência doméstica em Manaus. Páginas 03 04 05 06 07 09 12 18 22 27 31 35 37 39 . Considerações Finais. Programas de controle da violência contra a mulher no Brasil e em Manaus. Violência doméstica contra as mulheres e seus efeitos emocionais. Razões que levam as mulheres vitimas de violência doméstica a permanecerem no mesmo relacionamento. Referências.

à luz da literatura quais os aspectos psicológicos e sociais e quais as razões que levam as mulheres vítimas de violência doméstica a permanecerem no mesmo relacionamento. Mulheres. Com a realização do trabalho detectou-se que a violência doméstica produz conseqüências para a saúde mental das mulheres evidenciadas por meio do estresse. Objetiva-se ainda de forma específica realizar um estudo sobre a violência de gênero e doméstica. No que se refere aos procedimentos metodológicos. Quanto aos meios classifica-se como uma pesquisa bibliográfica. onde buscou-se descrever os efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. Efeitos emocionais. quanto aos fins este artigo classifica-se como uma pesquisa descritiva.6 RESUMO O objetivo geral desta Monografia foi de se discutir acerca dos efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. Palavras-chave: Violência doméstica. identificar os efeitos emocionais relacionados à violência doméstica e verificar. das ansiedades e até desordens de personalidade. a compreensão dos efeitos emocionais relacionados à violência doméstica. buscando através da revisão da literatura sobre o tema. das depressão. . as autoras buscaram ampliar e consolidar seus conhecimentos acerca do tema abordado. que partiu do método de abordagem dedutivo. Neste artigo.

é importante para os profissionais de psicologia que lidam com este tipo de violência compreender a natureza do problema para conseguir desenvolver intervenções eficazes. geralmente são os maridos e companheiros. a falta de atenção. na família. sabem de suas vulnerabilidades. Entretanto. culturais e psicológicas como: a má distribuição de renda. econômica. permanecem no relacionamento. na sociedade e às vezes. Na dimânica familiar. inclui-se a violência doméstica contra as mulheres. Neste contexto. tomando-se como base a experiência pessoal de uma das autoras que trabalha na área de segurança pública. que possuem livre acesso às vítimas. A violência contra a mulher é a submissão adquirida pelo aprendizado. Grande parte das mulheres vítimas de violência doméstica. . O comportamento violento é estruturado sobre vários enfoques sendo um deles um conceito multidimensional da agressão. Diante deste contexto. que atinge milhares de pessoas de ambos os sexos e não costuma obedecer nenhuma classe social. um problema universal silencioso e dissimulado. muitas vezes ocorre a violência. saúde. sabem de toda a sua atividade diária e o mais importante. religiosa ou cultural. No que se refere à justificativa para o desenvolvimento do presente artigo intitulado “A violência doméstica contra as mulheres e seus efeitos emocionais” é decorrente de motivação pessoal das autoras e experiência profissional de atendimento de mulheres envolvidas neste quadro.7 1. até na escola. destacando os efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. desemprego. percebe-se que os principais fatores que contribui para a violência contra a mulher têm raízes sociais. educação. INTRODUÇÃO A violência doméstica constitui-se no objeto de estudo deste artigo que discorre sobre o tema por meio de uma abordagem bibliográfica. por não possuir uma independência financeira. consumo de drogas e a desestruturação familiar. onde os agressores.

Quanto aos meios classifica-se como uma pesquisa bibliográfica. distúrbios alimentares. O problema que deu origem ao trabalho está delimitado na seguinte questão: Quais os efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres? A hipótese que norteou a pesquisa partiu da premissa de que a violência doméstica produz conseqüências para a saúde mental. onde buscou-se descrever os efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. desordens de personalidade e expressões de caráter obsessivo compulsivo. Logo. detectadas na forma de estresse pós traumático. entre pais e filhos. evitando-se desta forma ou pelo menos minimizando o problema da violência doméstica contra as mulheres. pois quando não ocorre acaba de certa forma acarretando diversos problemas de níveis sociais. como não poderia deixar de ser. Como objetivo geral deste artigo. buscando através da revisão da . depressão. parentes e amigos. identificar os efeitos emocionais relacionados à violência doméstica e verificar. que partiu do método de abordagem dedutivo. quanto aos fins este artigo classifica-se como uma pesquisa descritiva. arrasta-se em dimensão da violência doméstica e do espancamento. disfunções sexuais. que são apresentados nos relacionamentos conjugais. é necessária e importante a compreensão das relações dos casais no contexto familiar. à luz da literatura quais os aspectos psicológicos e sociais e quais as razões que levam as mulheres vítimas de violência doméstica a permanecerem no mesmo relacionamento. ansiedades. é de fundamental importância para o indivíduo uma boa estrutura familiar. pretendeu-se discutir acerca dos efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. Objetiva-se ainda de forma específica realizar um estudo sobre a violência de gênero e doméstica. fornecendo assim informações para melhorar a prática do bom relacionamento. No que se refere à metodologia. No caso específico dos relacionamentos conjugais. a condição de violência de gênero em que vive a sociedade brasileira se expressa em geral sob as mais variadas formas e.8 Além disso.

econômica. as violências são caracterizadas pelo uso intencional da força física ou do poder. Na última e quinta seção. Ramos (2003) evoca um conceito da raiz etimológica do termo violência correspondente aos verbos violentar. CONCEPÇÃO DE VIOLÊNCIA Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS (2002). social. e violência . Tomando-se como base os objetivos propostos. contra outra pessoa. A segunda seção contempla a violência de gênero. real ou em ameaça. dentre outras. bem como suas dimensões estruturais e culturais. sexual. política. Em seguida a terceira seção teve por escopo caracterizar a violência doméstica. como a obra “A representação social da mulher no contexto da violência conjugal na cidade de Manaus” de Ramos (2003). a compreensão dos efeitos emocionais relacionados à violência doméstica. 2. tomando-se como base pesquisas realizadas sobre a violência doméstica em Manaus. ou seja. Assim a violência poderia ser vista de qualquer perspectiva psicológica. dano psicológico. Segundo a OMS (2002). o que implicaria em uso de força para produzir dano. violar. entre parceiros íntimos ou membros da família. contra si próprio. b) violência interpessoal que são classificadas em dois âmbitos: violência intrafamiliar ou doméstica. a violência pode ser classificada em três categorias: a) violência dirigida contra si mesmo (auto-infligida). Na quarta seção se abordaram os efeitos emocionais da violência nas mulheres vítimas de violência doméstica. lesão. o artigo foi dividido em cinco seções principais como a seguir delineadas: Na primeira seção caracteriza-se a violência em geral. irá se traçar um panorama da violência doméstica em Manaus. Antes de se adentrar na questão da violência doméstica contra a mulher e no convívio conjugal. problemas de desenvolvimento ou privação. forçar. ou contra um grupo ou comunidade que possa resultar ou tenha alta probabilidade de resultar em morte. faz-se necessário caracterizar a violência em geral e suas dimensões estruturais e culturais.9 literatura sobre o tema.

1985. psicológico. Já quanto à natureza. O tema violência tornou-se. ser sujeito é construir com autonomia uma relação com determinantes do que somos e o que fazemos. regras e leis. mas sob dois outros ângulos. Nessa percepção. os atos violentos podem ser classificados como abuso físico. há violência (CHAUÍ.10 comunitária. caracterizados pela dominação de grupos e do estado. nas últimas décadas. de forma a ter uma capacidade aumentada ou diminuída. surge a indagação sobre a violência contra a mulher. sentir e agir. entre conhecidos e desconhecidos. mas a capacidade de autodeterminação para pensar. como conversão de uma diferença e de uma assimetria numa relação hierárquica de desigualdade. Esta se caracteriza pela inércia. como a ação que trataria um ser humano não como sujeito. Em segundo lugar. de exploração e opressão. conforme Lucinda. Em primeiro lugar. com fins de dominação. sendo localizado sobre diferentes vertentes analíticas. políticos e econômicos. 23-26). opção. Na visão de Chauí (1985). mas como coisa. negligência e privação de cuidados (CONASS. p. Nascimento e Candau . a violência é uma relação de forças caracterizada em um pólo pela dominação e no outro pela coisificação. que define violência não como violação ou transgressão de normas. se a liberdade é tomada como uma capacidade e um direito fundamental do ser humano. objeto de estudo deste artigo. de maneira submetida ou não a força e a violência ou sejamos agentes dela. pode-se dizer que a violência é uma violação do direito de liberdade. O conceito de violência. e c) violência coletiva que englobam atos violentos que acontecem nos âmbitos macrosociais. No entanto. pela passividade e pelo silêncio de modo que. que é aquela ocorre no ambiente social em geral. 2007). Nesse sentido. querer. quando a atividade e a fala de outrem são impedidas ou anuladas. Dentro do contexto da violência. um vasto campo de estudo de diversas disciplinas. sexual e envolvendo abandono. que pode ser entendida não como escolha voluntária. O pressuposto dessa definição é a idéia de liberdade. As ações caracterizadas como manifestações de violência abarcam freqüentemente uma gama grande de comportamentos. do direito de ser sujeito constituinte da própria história.

A violência. sem dúvida. também. No entanto. a sua relação com a desigualdade social. antes de tudo. ao argumentarem que o poder é a capacidade de agir em conjunto e a violência começa onde o consenso (e o poder) terminam. expressando-se através da quebra dos laços de solidariedade na sociedade e da crise das relações sociais tradicionais. Desta forma. em síntese. identifica-se violência com criminalidade e/ou agressão física. diluem-se as fronteiras que permitiriam distinguir uma situação de violência de outra. No âmbito da sociedade brasileira como um todo. Tomando-se como base o pensamento supra referenciado pode-se deduzir que a questão da violência é também um problema da cultura política do país. para Velho (1996). Uma das vertentes mais trabalhadas nos estudos sobre violência é. a marca constitutiva da violência seria a tendência à destruição do outro. é expressão da impotência. psicológico ou ético. podendo a ação situar-se no plano físico. É também comum uma abordagem tão abrangente da violência. A pobreza isoladamente não explica a perda de referenciais éticos que sustentem as interações entre grupos e indivíduos. . afinal a violência no Brasil é. não se pode afirmar que a pobreza constituía o único fator explicativo da violência na sociedade brasileira. Na concepção de Arnoud e Damascena (1996). como a crise econômica. que se situa a reflexão de Arnoud e Damascena (1996). apesar de se reconhecer a existência de elementos comuns entre ambas. não incluída na mesma categorização. quanto do complexo de mediações materiais e culturais que envolvem a violência. a miséria e o empobrecimento. ao desrespeito e à negação do outro. em geral. têm sido cada vez mais preocupantes os níveis de complexificação e banalização da violência. a violência é multicausal e plural. Neste sentido. que o espectro de comportamentos percebidos como violentos se amplia significativamente. o problema do modo pelo qual a sociedade estabelece culturalmente as relações de poder. A compreensão deste fenômeno depende tanto da percepção de fatores estruturais. Em seguida para um melhor entendimento sobre o assunto se discorrerá sobre as dimensões estruturais e culturais da violência. É nesta linha.11 (2001).

convém sempre ter presente a articulação entre as dimensões estrutural e cultural da violência. uma das variáveis fundamentais para compreender a crescente violência da sociedade brasileira é o fato de ser acompanhada por um esvaziamento de conteúdos culturais. pelas grandes cidades. como bem esclarecem Schraiber et al. colegas. sem dúvida. não é entendida como uma específica e particular transgressão aos direitos da mulher. corriqueiro. (2005) colocam a questão da violência de gênero como uma “questão invisível”. e elas não podem ser dissociadas. seriam problemas individuais. essas situações de violência não são valorizadas como problemas sociais ou de saúde. infelizmente. não reconhecem a situação como uma transgressão de direitos e um contexto instaurador de danos à saúde. não deveria receber atenção de mesmo porte socioinstitucional que as demais violências. chega a não ser considerada violência no sentido de transgressão de direitos e violação de dignidade da pessoa e. a comunidade. uma trama complexa e dramática da problemática da violência na sociedade brasileira hoje. dentro da qual se situam as questões específicas relativas às manifestações da violência doméstica contra as mulheres. é tomada tal qual uma violência qualquer. quando se percebe tal violência como um problema que iria além do âmbito de cada um. Por ser uma questão de gênero. tornando . e até as próprias mulheres vítimas de violência. Existe mútua implicação. Neste último caso. a violência contra a mulher foi tão banalizada que muitas vezes. espaço onde os contrastes dos modos de vida atuam como potencializadores da iniqüidade social. a ponto de tornar-se algo comum. No máximo. vizinhos. No entanto. pois há muitas situações de violência no dia-a-dia das mulheres e a freqüência com que essas situações ocorrem é muito alta. 3. os familiares. Diante deste contexto. no extremo oposto e pelas mesmas razões. O cenário privilegiado de tudo isto é constituído. de cada mulher. assim. os profissionais de saúde ou de outros serviços de assistência. Configurase. no sistema de relações sociais. (2005). por isso. particularmente os éticos. A VIOLÊNCIA DE GÊNERO: VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER Schraiber et al. ou. que tem por base a submissão feminina. Em decorrência desta visão.12 Para Velho (1996).

na grande maioria dos casos. embora também seja outro homem. a maus tratos psicológicos e a abusos ou assédios sexuais. enquanto. (2005) destacam que a violência contra a mulher. a Convenção Interamericana para Prevenir. Na atualidade a forma de violência contra a mulher consiste em entender tal temática como uma das formas de violência de gênero e deve muito de sua força ao movimento feminista. tanto na esfera pública como privada. em intenso contraste com a violência que sofrem os homens. televisões. Schraiber et al. jornais. dano ou sofrimento físico. São problemas para os quais cabem ações públicas e políticas sociais apropriadas. tratam da falta de reconhecimento de certos acontecimentos como sendo da sociedade como um todo e. Segundo o CONASS (2007). importante movimento social do século XX. Também a violência sexual acarreta uma série de agravos à saúde física e emocional de mulheres. seguido de outros familiares do sexo masculino. A violência contra a mulher constitui um problema de saúde pública devido a comprovação de que a violência de gênero está associada a um maior risco para diversos agravos à saúde física e mental. Além disso. devem ser alvo de propostas de resolução de caráter público para todos. campanhas antiviolência em meios de comunicação social como rádios. ou pelo menos de uma pessoa nada íntima (SCHRAIBER et al. . é caracterizada como atos dirigidos contra a mulher que correspondem a agressões físicas ou sua ameaça. (2005) se referem. Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará/ONU) em 1994 considera como violência contra a mulher qualquer ato ou conduta baseado no gênero. o principal agressor. além de trauma físico direto. trata-se com freqüência de um estranho. as mulheres encontram em seus parceiros íntimos o principal agressor.. 2005). A invisibilidade de que Schraiber et al. que cause morte.13 muito difícil compreender porque relações afetivas teriam o mesmo estatuto de violência que as ocorridas nas ruas e perpetradas por estranhos. por isso. e não de cunho estritamente individual. como aponta o Relatório Mundial sobre Violência e Saúde publicado pela Organização Mundial da Saúde em 2002. como programas de esclarecimentos públicos. revistas. além de programas de apoio em instituições de assistência. e também a uma procura mais freqüente dos serviços de saúde. física e sexual. no caso de homens adultos. superposição de suas formas psicológica. A violência contra a mulher apresenta uma freqüência muito alta de ocorrências e. sexual ou psicológico à mulher.

deveriam se envergonhar de seu comportamento “causador” da violência. . então. por sua “natureza”. comportamentos “provocadores”! Algumas pesquisas demonstram que mulheres que viveram diversas agressões e abusos. colocando sua saúde em risco. é por demais diverso o contexto em que ocorre a violência contra a mulher para ser apenas creditado às características pessoais ou individuais de certas mulheres. terceiro. Schraiber et al. não sendo restrita às mais desfavorecidas. quando. segundo. a violência é de alta freqüência mesmo em camadas sociais distintas.Produzir gestos e atitudes obscenos. via de regra. . em geral. . pessoal. elas mesmas.. violências de gênero. as humilhações ou os abusos de qualquer espécie. pois estas teriam. Conforme Gomes. as formas mais habituais de maus tratos e abusos contra as mulheres são: a) Violência Sexual: . e associado às valorizações culturais de comportamentos violentos. desencadeado as agressões. 2005). Tendem a assumir que teriam. Não há razões para acreditar que a violência se dê estritamente por motivos pessoais e que as mulheres. As mulheres que experimentam tais situações nem sempre percebem essa vivência como uma violência.Forçar relações sexuais.Discriminar a mulher por sua orientação sexual. mas que não chamam essas experiências de violência. ou.14 No contexto da violência de gênero. (2005) observam três questões: primeiro. Minayo e Silva (2005). em comum. identificados com certas formas de exercer as masculinidades. no máximo. não aquela perpetrada por familiares ou parceiros íntimos (SCHRAIBER et al. elas são.Estuprar e assediar sexualmente. . pela inadequação de todas as mulheres. trata-se de um fenômeno social e cultural existente em diversas partes do mundo.Forçar relações sexuais quando a mulher está com alguma doença. . por entenderem que violência corresponde a situações de agressão ou abusos praticados por estranhos. no trato com as mulheres. ao contrário. Uma parcela considerável da população feminina já sofreu agressão física ou sexual por um parceiro íntimo na vida. por causa de um comportamento seu.

à segurança pública e pessoal. . . . de assistência e de cuidados quando a mulher está doente ou grávida. c) Violência Psicológica: . Como pode-se perceber pela classificação da violência praticada contra as mulheres.Humilhar e ameaçar. além de violar os direitos destas pessoas ainda instaura agravos à saúde.Criticar de forma depreciativa e permanentemente sua atuação como mãe e mulher. manchas e fraturas.Deixar o cuidado e a responsabilidade do cuidado e da educação dos filhos e das filhas só para a mulher. tornar a violência contra a mulher.Oferecer menor salário que ao homem. arranhões.Insinuar que tem amante para demonstrar desprezo. .Promover e explorar a prostituição e o turismo sexual de meninas e de adultas.15 b) Violência Física: . . .Ameaçar de espancamento e de morte. sobretudo diante de filhos e filhas. compondo-se redes de várias assistências: à saúde. d) Violência Social: . à justiça e ao bem-estar social. Logo.Esconder ou rasgar seus pertences e documentos.Assediar sexualmente. dos inter-pessoais ou éticos aos políticos. . . então.ofender moral sua família.Exigir atestado de laqueadura ou negativo de gravidez para emprego. ações de caráter interdisciplinar e intersetorial.Impedir de trabalhar fora. cortes.Desrespeitar seu trabalho de cuidado com a família ou fora de casa. em todos os ângulos. . utensílios e móveis. .Rasgar suas roupas. .Privar de afeto. . . . (2005) seria.Ignorar e menosprezar o seu corpo.Quebrar seus objetos.Agredir deixando marcas como hematomas.Discriminar por atributos de gênero ou por aparência. .Usar linguagem ofensiva. este quadro requer políticas de intervenção social. . para o mesmo trabalho. Neste sentido.Trancar a mulher em casa. . . . de ter sua liberdade financeira e de sair. a visibilidade proposta por Schraiber et al.

pois é uma violência. uma questão social bastante complexa e difícil. Tomando-se como base a complexidade e seriedade da violência de gênero surgiu a necessidade de políticas de combate à violência contra as mulheres. e a garantia do cumprimento dos acordos internacionais e da legislação brasileira de enfrentamento à violência contra a mulher. tanto social quanto interindividual. humanizado e de qualidade às mulheres em situação de violência. a garantia do atendimento integral. objeto de intervenções que melhorem o convívio social e privado das pessoas. deve ser objeto das sanções que regem a violação dos direitos e das leis. Seria também torná-la como questão de gênero na sociedade. através da Lei n° 11. mas também fazer ver cada um percebendo e interpretando este acontecimento e. Em certa medida. que coíbe a violência doméstica e . E em outra medida. que tem a atribuição de formulação.16 como violação dos direitos humanos da pessoa mulher.340. em 1 de janeiro de 2003. e ao estímulo à ética da solidariedade. Para o enfrentamento das desigualdades entre as mulheres e os homens foi criada a Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. No Brasil já têm alguns sinais promissores. assim. ainda. não significa só ver e compreender. A violência de gênero constitui. em 07/08/2006. cada um participando dessa construção comunicacional. conforme descritos a seguir. Outra medida de extrema relevância foi a instituição da Lei de Violência Contra a Mulher (LVM). que não dizem respeito apenas à ordem ou à legalidade do viver em sociedade. coordenação e articulação de políticas que promovam a igualdade entre mulheres e homens. mas não qualquer violência. Um outro passo importante foi a elaboração do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres em 2006 que tem como um dos objetivos o enfrentamento à violência através de uma Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher prevendo a redução dos índices de violência. mas sobretudo à ética da igualdade entre humanos. sejam quais pessoas forem. A visibilidade da questão da violência de gênero.

Tudo isso redundou na criação da Lei 11. além de tipificar a violência doméstica como uma das formas de violação dos direitos humanos. Maria da Penha se mobilizou e procurou os organismos internacionais. sofreu tentativa de homicídio provocada pelo então marido Marco Antonio H. ou seja. Em Pernambuco. considerável avanço trouxe a Lei de Violência Contra a Mulher (LVM). Ponto Viveiros. a sociedade já mais adaptada trabalhará certamente em um plano mais de prevenção e de conscientização do que vem ocorrendo nesse primeiro momento. posto que a violência contra a mulher estava banalizada e a “coisificava” na medida em que. em apenas cinco dias foram registrados 13 flagrantes e em Tocantins. na ocasião.340/2006 que acabou sendo batizaria de “Maria da Penha”. 1 Como bem observam Souza e Kümpel (2007). um tiro nas costas que a tomou paraplégica. na ocasião. Em 2001. Esta lei que ficou conhecida como Lei Maria da Penha . recorrendo sempre em liberdade. apud Souza e Kümpel (2007) dedicou uma página inteira para retratar o sucesso da lei. impactando em um primeiro momento e conduzindo muitos homens violentos à prisão. em uma segunda ocasião. vem apresentando tremenda efetividade social. de forma que. já possui grande repercussão pelo País. O caso se tomou emblemático na medida em que o réu foi condenado em duas ocasiões (1991 e 1996). em Fortaleza/CE. A vítima recebera. dois flagrantes. chegando até a causar estranheza as várias alegações de inconstitucionalidade. . O jornal “O Estado de São Paulo”. do dia 12 de novembro de 2006. muito embora em vigor apenas desde o dia 22 de setembro de 2006. Sem sombra de dúvida. quando ameaçarem a integridade física da mulher. envolvendo a biofarmacêutica Maria da Penha Fenandes que.17 familiar contra a mulher. mas observar-se-á ao longo do trabalho que muitos são os mecanismos preventivos. quando não havia 1 O caso Maria da Penha ocorreu em 1983. Esse primeiro momento da Lei sem dúvida nenhuma é repressivo. a saber: o Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM). altera o Código Penal e possibilita que os agressores sejam presos em flagrante ou tenham sua prisão preventiva decretada. Além de a lei gozar de constitucionalidade. O certo é que as coisas não podiam continuar como estavam. 20 anos depois do fato. professor na Faculdade de Economia. Só para se ter uma idéia da efetividade e alcance da lei. a Lei Maria da Penha. acompanhado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Souza e Kümpel (2007) destacam que no Rio Grande do Sul as denúncias aumentaram em 50% somente nos primeiros 30 dias de vigência da lei. a Organização dos Estados Americanos (OEA) responsabilizou o Estado Brasileiro por negligência e omissão em relação à violência doméstica e recomendou a tomada de medidas com base no Caso Maria da Penha. bem como o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL). mas não chegou a ser preso. Marco Antonio acabou sendo preso apenas em 2003.

A família é a base de toda sociedade e por isso recebe especial proteção do Poder Público. como um grupo de indivíduos que. a família em crise. constituído pelos pais e seus filhos. Espera-se que estas políticas e leis sejam efetivamente implementadas na sociedade e não permaneçam apenas como propostas demagógicas de uso político na máquina da burocracia pública. ou por adoção. impunha ao agressor o pagamento de uma cesta básica. A família. 4. uma configuração muito diferente das formas antigas no que se refere às suas finalidades. Entretanto. As discussões em torno das causas das mudanças na estrutura da família e do futuro dessa instituição. que ao longo dos últimos tempos. têm se acirrado. que descendem de um tronco comum e se unem entre si pelo mesmo vínculo de sangue. Quando se fala em família. o que colocou muitas vezes. em geral. . atualmente. sob o mesmo teto. a família ter passado por mudanças profundas. formada por pais e filhos. pelos laços consangüíneos. Atualmente. composição e papel dos pais. ou gerações. a célula básica da família. vem passando por profundas mudanças no que se refere à sua definição e função. o que confere à família contemporânea. quanto à sua definição e função. ainda vem à mente aquele modelo tradicional formada por um homem e uma mulher unidos pelo casamento e cercados de filhos. pode ainda ser entendida. conceituá-la não ficou fácil. faz-se mister discorrer brevemente sobre a família. Costa (2008) conceitua a família como uma série de pessoas. Contudo essa realidade mudou e. conceituar família ficou cada vez mais difícil. que sempre foi considerada a célula-mãe da sociedade. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: A FAMÍLIA EM CRISE Antes de abordar a violência doméstica. em decorrência dos últimos anos. No entanto. conhecida como a família tradicional vem se alterando muito ao longo dos tempos. existem famílias que se distanciam do perfil tradicional. se acham ligados e vivendo.18 retratação. Hoje a situação é vista de maneira particularizada. A mulher em situação de violência tem um status constitucional diferenciado e a sua situação é tratada com base nos ditames da dignidade da pessoa humana.

ou tenha habitado. No entanto. seja física ou psicológica. De acordo com Schraiber et al. na qual o casamento se dá por escolha dos parceiros. por parte do marido ou companheiro. em muitos casos apenas incentiva o indivíduo a perpetrar outros atos abusivos contra a esposa ou companheira. o processo de modernização e o movimento feminista provocam outras mudanças na família e o modelo patriarcal. Como bem observa Tomaszewski (2004). a se desenvolver a família conjugal moderna. Sem dúvida alguma. pois além de enormes danos emocionais e psicológicos . As uniões sem casamento passam a ser regularmente aceitas pela sociedade e pela legislação. vigente até então. a violência no âmbito doméstico. sofrem violência do marido e batem nas crianças. segundo Venosa (2004). Inegavelmente somente resta contra o agente agressor uma lei branda. A violência doméstica contra mulheres tornou-se um acontecimento corriqueiro e que não deve ficar à margem do direito. que se limita à aplicação de multa ou pena restritiva de direitos. que exige a representação da vítima para o processamento do fato (lesão corporal dolosa. consubstanciando-se em verdadeira rotina forense e lamentáveis notícias da ocorrência de fatos desta natureza. com base no amor romântico. passa a ser questionado. por exemplo. a passagem da economia agrária à economia industrial atingiu irremediavelmente a família que deixou de ser uma unidade de produção na qual todos trabalhavam sob a autoridade de um chefe. Estes passam mais tempo na escola e em atividades fora do lar. as pressões econômicas. de natureza leve) e. transfigura-se a convivência entre pais e filhos. a partir da segunda metade do século XIX. Segundo Gueiros (2002). Com isso. a desatenção e o desgaste das religiões tradicionais fazem aumentar o número de divórcios. a violência doméstica é caracterizada por atos cometidos por um membro da família ou pessoa que habite. No caso da violência doméstica contra as mulheres as mesmas estão envolvidas na situação de agredidas. tendo como perspectiva a superação da dicotomia entre amor e sexo e novas formulações para os papéis do homem e da mulher no casamento. então. o beneficia com a possibilidade de transação penal. é uma realidade cada vez maior na sociedade. ainda. Os conflitos sociais gerados pela nova posição social dos cônjuges. quando. o mesmo domicílio.19 Historicamente. muitas vezes estão tanto na situação de agredidas como quanto agressoras. Começa. (2005).

2004. . se obtêm os seguintes índices: Quanto à questão da violência no Brasil. Tomaszewski (2004) esclarece que os estudos já existentes sobre a violência no âmbito doméstico contra as mulheres. Diante dos dados em evidência e obtidos a qualquer instante por simples pesquisa. os filhos de casais que enfrentam o problema da violência doméstica têm. Como se não bastassem estes modestos dados. Um levantamento do Banco Interamericano do Desenvolvimento considera que a violência doméstica incide sobre 25 a 50% das mulheres latino americanas. talvez por crerem que este é.147). em âmbito ampliado. temse que o índice de violência ocorrida no âmbito do lar é extremamente alto. senão o melhor. Esculpida a violência no íntimo do ser. pois mesmo quando não se trata de vítimas diretas. estatisticamente. sexual ou psicológica aparece como uma das principais causas do sofrimento para as crianças (TOMASZEWSKI. dividem-se basicamente em maus tratos físicos. afinal com o clima instaurado. sob as formas física. em situações em que quase sempre o agressor é o homem. produzem nefastas conseqüências na formação da personalidade dos filhos que presenciam e vivenciam tais fatos. embora não sejam capazes de dimensionar a magnitude do problema em toda sua extensão. são bastante capazes de detectá-los e classificá-los. sendo que mais de 60% delas foram vitimadas por seus companheiros. aumentam os riscos da manifestação de comportamentos agressivos ou de distúrbios afetivos nas crianças e adolescentes. apresentando crianças e adolescentes inclusive na condição de silenciosas vítimas. contribuindo para a clássica afirmação de que o filho de um agressor. a malformação da personalidade dos filhos destes casais está em imediata conseqüência. A violência doméstica. o único meio de se obter a solução dos próprios problemas. Estudos apontam que cerca de 25% das mortes de mulheres em idade fértil estão associadas à violência. p. muito freqüentemente o marido. as mulheres representam 66% das vítimas de agressões contra parentes. ela se perpetua para as famílias que ele constitui. que são agredidas dentro da sua própria casa. no lar. reúne todos os pressupostos para se tornar um igual. maior propensão à perpetuação da violência no âmbito do lar. É importante ainda salientar que os pais que utilizam de forma indiscriminada a punição física caracterizando desta forma a violência doméstica. De acordo com a visão de Tomaszewski (2004).20 que causam às mulheres vítimas de violência doméstica. pois enquanto expressão e forma. sexuais e psicológicos.

que não obstante o abnegado 2 Segundo Pelisoli et al. Destacando. abordando-a de forma diferenciada. os adultos que. mesmo nos países mais desenvolvidos é ainda muito insignificante. Todavia. foram criadas as Delegacias de Proteção à Mulher. vítimas de violência na infância. absorvem esta “cultura”. No contexto da multigeracionalidade. As que viveram situações de violência familiar aprendem a usá-la como mediadora de suas relações sociais em todas as fases da vida. contribuindo para a multigeracionalidade2 das crianças e adolescentes. também sejam violentos com seus filhos. a título de exemplo. em Massachusetts (EUA) demonstrou que 90% dos agressores de suas esposas. um estudo conduzido pela Universidade de Brandeis. a predominância. pode-se perceber claramente que a mulher luta pela sobrevivência e o homem para obter o controle. No Brasil. bem como a ausência de diálogo com os pais e entre os membros da família podem trazer conseqüências negativas para o desenvolvimento emocional e nas interações futuras. a transmissão intergeracional ou multigeracionalidade tem sido entendida como a repetição de um padrão aprendido de comportamento. Somente a título de exemplo. Muitos homens que vivem um histórico de violência na família. de certa forma seguindo-se orientação internacional no combate a este tipo de crime. sob a lente institucional muito se tem feito para coibir a violência doméstica. Tanto é assim que.21 A utilização de práticas coercitivas como uma das principais estratégias de educação utilizadas pelos pais. Normalmente neste tipo de ambiente deteriorado. a tendência deste é o progressivo afastamento. a multigeracionalidade pode ser um dos fatores ou não para que os adultos. Em uma relação de violência doméstica. de tão leves que eram. que é passado de geração a geração. vários Estados aprovaram leis específicas. os casais desenvolvem um padrão de comunicação tal que a despeito de que a mulher tente trazer o marido ou companheiro para o engajamento. ainda que levados à corte e condenados. de sorte a tratar desta violência diferentemente dos crimes em geral. para reproduzi-lo no futuro. principalmente no plano internacional. a pretensa proteção. deixam de ser processados e que. foram vítimas de violência tem um comportamento inadequado e violento. quando crianças. (2007). . Como bem esclarece Tomaszewski (2004). repetindo dessa forma o modelo dos pais. praticamente se poderia afirmar que eles nem mesmo vivenciaram a experiência oficial. as sentenças.

e mais ainda que esse problema seja abordado pelo profissional. não pode o profissional de psicologia. apesar de muitas vezes saberem que podem se machucar.22 esforço de muitos servidores ainda conta com falta de recursos. por exemplo. Mas. mas sim os resquícios de sua reprovável conduta sobre a saúde emocional da mulher e dos filhos ainda menores que convivem em tal ambiente. adaptam-se às mais diversas violências. depressão. baixa auto-estima. disfunções sexuais. ansiedades. quanto porque não tem sido experiência das mulheres o crédito e o acolhimento diante dessa revelação nesses espaços. No contexto dos atendimentos em saúde. . O que se retira de substancial é que é uma realidade que não se pode maquiar e diante de fatos que ocorrem diuturnamente. principalmente o que atua na área de segurança pública estar alheio. 5. idealizam e negam-se a ver a realidade. Isso ocorre tanto porque é bastante difícil falar sobre a violência. inclusive de pessoal e de treinamento adequado (TOMASZEWSKI. Trata-se pois de um problema de saúde coletiva e também da assistência à saúde das mulheres. passando a não se valorizar mais. muitas vezes não revelam espontaneamente essa situação. no entanto propicia e perpetua doenças emocionais. que colocam a vida efetivamente em risco. ou que seja registrado em prontuário e transformado em objeto de alguma conduta ou encaminhamento. pois não tem somente a implicação penal para o agressor. 2004). distúrbios alimentares e desordens de personalidade. Quando mulheres que estão sofrendo violência procuram os serviços de saúde. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA AS MULHERES E SEUS EFEITOS EMOCIONAIS A violência não é doença. como bem esclarecem Schraiber et al. tais como estresse. infelizmente ainda não é vista correntemente como tal. vítimas de violência doméstica. A violência chega ao ponto de afetar o discernimento a respeito do caráter destrutivo destas relações a ponto de se permitirem cair na sedução. porém sonham. (2005). é muito difícil que a violência doméstica apareça com clareza durante os atendimentos. Muitas das mulheres. não acreditam em seu potencial e não buscam ajuda.

Isso é o que tem sido chamado de violência institucional. Para tanto é essencial que o serviço não seja violento ele próprio. porque novas queixas surgem. o tratamento torna-se paliativo e reiterado. são os inúmeros protocolos que têm sido propostos para isso. que é um contexto instaurador de sofrimento e doenças emocionais. e até fisicamente. Na visão de Schraiber et al. É importante ter em mente que cuidar da mulher e do grupo familiar a que ela pertence inclui necessariamente lidar com a violência doméstica. o treinamento destes profissionais não alcançam o atendimento e o cuidado da pessoa como um ser integral. a falta de tempo. 2005). o primeiro passo para este cuidado é a possibilidade de relato e escuta dos episódios de violência. pois esses casos requerem uma postura ética e um acolhimento especial. a população.23 Desta forma. por sua alta prevalência. vários deles sugerindo que a pergunta acerca dessa forma de violência. . ou as antigas não desaparecem. governamental ou não. A primeira condição para a garantia dos direitos são profissionais comprometidos e respeitosos com a população em qualquer instituição pública. com funcionários que são negligentes ou que agridem verbalmente. (2005). seja por dificuldades das mulheres.. (2005). governos e hospitais ao redor do mundo na última década. as mulheres geralmente não contam que vivem em situação de violência. deveria ser feita para todas as mulheres atendidas nos serviços de segurança e saúde. o medo de ofender a mulher ao perguntar sobre o assunto. Infelizmente. Afinal. Diante deste contexto. Os estudos que investigam os motivos para tanto têm demonstrado que o sentimento de impotência diante dos casos. seja porque ainda não podem confiar nos atendimentos em delegacia ou nos serviços de saúde. o receio de identificar-se com a situação (especialmente em pacientes próximas do ponto de vista socioeconômico) e a falta de treinamento têm papel importante nessa dificuldade (SCHRAIBER et al. Nem os profissionais de segurança e nem os saúde investigam essa condição. tornar visível a violência doméstica no interior dos serviços de saúde tem sido uma preocupação de associações médicas. Prova disso como bem ressaltam Schraiber et al. sem esta abordagem.

chegando a ponto de perder o controle como situações bem antes das agressões físicas como: ameaças. insegurança. Seria necessário que essas mulheres fossem decididas para. não voltassem atrás. quando chegasse o momento de sair de casa. intimidade. sexualmente. pois nenhum ser humano é obrigado a ser violentado fisicamente.24 É importante ainda salientar que saber perguntar sobre agressões na família é tão importante quanto saber o que fazer quando a resposta é positiva. A violência doméstica é muito mais que um simples abuso físico entre casais. . vítimas de violência doméstica não conhecem os seus direitos diante das situações vividas quase que diariamente. vítimas de violência doméstica. Algumas mulheres. A falta de informação. abuso econômico. o que faz bem ou mal (RAMOS. seria de vital importância que as mulheres agredidas pudessem ou tivessem a coragem de enfrentar seus companheiros e tomassem finalmente a decisão de levá-lo a justiça para que a mesma tomasse as medidas cabíveis nessa situação. Na visão de Ramos (2003). traumas. Porém. Por isso treinamento. desistam de tentar ter uma vida menos conturbada. ou seja. sendo uma grande exposição do poder entre a pessoa que aplica a violência e seu executado. mágoas chegando a ponto de não mais diferenciarem o bom do ruim. culpa. financeiramente e de modo particular emocionalmente. Infelizmente os relacionamentos que envolvem violência são destrutivos e muitas dessas mulheres permitem estar ou continuar nessa relação que só traz perdas. uso dos filhos. abuso sexual e imposição do domínio masculino. diante de toda esta realidade tem que haver uma intervenção apropriada. supervisão e conhecimento por parte dos profissionais da rede de serviços se segurança e saúde existentes são fundamentais. As mulheres vítimas de violência doméstica precisam perceber que não precisam estar nessa situação de vida. isolação. sem receber ajuda necessária para finalmente sair e ver que é capaz de enfrentar qualquer obstáculo pela frente. caso contrário será um círculo vicioso onde agressor e agredido não mais cessaram tal procedimento. 2003). a dependência financeira faz com que muitas mulheres. abuso emocional.

Quando a mulher chega a esse processo. porque rompeu com os próprios desejos (PAPALIA e OLDS. e isso acontece não só porque a mulher permite que o outro não a respeite. não pode fechar os olhos e passar acreditar que estar vivendo. mas que também pode ensina a crescer. constatando que elas buscam diversas formas de apoio e meios de transformar a situação. d) raiva e desamor e e) colocar-se metas e projetos próprios. emocionais ou qualquer outra não pode se calar. ou seja. mas sim. 2000). b) saturação com a situação. e quando chegam a este estado de indiferença consigo mesmas. . Papalia e Olds (2000) ainda ressaltam que as mulheres que sofrem agressões físicas. como segue: No que se refere aos fatores facilitadores internos destacam-se os seguintes: a) convencimento de que os recursos pessoais se esgotaram. ela passa a questionar sua situação como pessoa. cuida dos ferimentos e muitas delas recomeçam a viver. c) convencimento de que o agressor não vai mudar. procura conhecer seus direitos. crescimento. Sagot apud Schraiber et al. já não mais tem auto respeito e muito menos a capacidade de se amar primeiramente. A mulher agredida precisa reagir e entender que permanecer no contexto da violência doméstica é uma escolha destrutiva que a machuca. que entrevistou em profundidade 400 mulheres. O estudo identificou os fatores que facilitaram e os que obstaculizaram o processo dessa rota. vai se modificando a partir das respostas recebidas das pessoas e/ou instituições procuradas. transformação e de ser respeitada como ser humano importante que é. Esta rota foi alvo de estudo de Sagot no ano de 2000. É uma rota interativa. as mulheres abrem mão de seus “eus”. e desta forma. como se viver fosse abrir mão de sonhos. é como se deixasse de ter vida própria para viver somente de acordo com aquilo que o companheiro concorda como certo. Para lidar com o problema da violência doméstica. (2005) sugere uma rota composta pelo conjunto de decisões tomadas por mulheres que vivem situações de violência e suas ações para lidar com o problema.25 Papalia e Olds (2000) destacam que quando a mulher desvaloriza tudo o que é e que pode realizar. desde que esteja pronta a reconhecer os erros e agir. que a faz sentir no fundo do poço. reúne forças recolhe os pedaços.

ainda foram listados os fatores obstaculizadores internos dentre os quais se destacam: a) medos. conforme esclarecem Schraiber et al. cunhadas e familiares. Nos estudos realizado por Sagot apud Schraiber et al. a burocracia e a dificuldade de acesso foram grandes inibidores. Já quanto aos fatores obstaculizadores externos destacam-se os seguintes: a) pressões familiares e sociais. enquanto o descaso. f) manipulação do agressor e dinâmicas do ciclo da violência e g) desconhecimento de seus direitos e falta de informação. esposa e mãe. Também a qualidade do cuidado recebido em instituições foi muito importante: o encorajamento. d) amor pelo agressor. mesmo que de forma ainda tímida. conduzindo. o não-julgamento e o respeito às decisões da mulher contribuíram para a continuidade para sair da situação de violência. Diante deste contexto. a busca de saídas é tardia. amigas e/ou agentes comunitários. é importante a ajuda de outras mulheres próximas. c) apoio de pessoas próximas. Diante das dificuldades. é importante salientar que o agravamento da violência.26 Já quanto aos fatores facilitadores externos destacam-se os seguintes: a) a própria violência contra ela. sentimento de vergonha e o desprestígio em relação ao cumprimento do papel esperado de mulher. muitas vezes. b) insegurança econômica e falta de recursos materiais. e) idéia de que o que ocorre no interior da família é privado. d) limitada cobertura de organizações governamentais e não-governamentais de mulheres e e) contextos sociais com histórias de violência. c) vergonha. c) atitudes negativas dos profissionais e respostas institucionais inadequadas. bloqueiam internamente a decisão de sair da situação de violência. (2005). a informação precisa. b) culpa. No entanto. (2005). geralmente de irmãs. que a mulher tome decisões por medo do que poderia vir a acontecer a ela e aos seus filhos. Os facilitadores mais significativos foram estes apoios. Fatores como a percepção da falta de apoio. b) a violência contra filhos e filhas. . tem se tornado um grande propulsor da mudança. d) condições econômicas e materiais favoráveis e e) informação precisa e serviços de qualidade.

por quem a sofre. outras relacionadas ao estigma associado à condição de vítima de violências. mas da cultura. amigos e familiares. por vezes. a violência doméstica ainda é uma realidade bastante freqüente entre as mulheres do mundo.27 6. Mas como precisar esse momento em situações de desrespeito e violência cotidiana? Como bem observam Schraiber et al. (2005). Até hoje. por permanecerem em situação de violência. exceto. portanto. afinal a dificuldade de transformação destas situações. é importante salientar que as escolhas de cada indivíduo dependem não apenas de sua consciência e vontade individual vistas isoladamente. é melhor como se diz no velho ditado popular “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. que não demandaria nenhuma providência. a violência doméstica contra as mulheres. do acesso a serviços. da situação social. aspectos que fazem parte da construção e reconstrução cotidiana desses indivíduos. Entretanto. acirra a idéia de que algumas mulheres estariam optando. algumas relacionadas à dinâmica própria do “ciclo da violência”. além da importância do casamento e do cuidado dos filhos como projeto de vida para as mulheres. . pode ser percebida pelos homens e até por algumas mulheres como um acontecimento dentro do usual. em casos de grande gravidade e risco de vida. e também entre as brasileiras. banal. como situação indesejável. livre e conscientemente. talvez. RAZÕES QUE LEVAM AS MULHERES VITIMAS DE VIOLENCIA DOMESTICA A PERMANECEREM NO MESMO RELACIONAMENTO Quando a discussão envolve o tema violência de gênero. e que. a agressão por parceiro íntimo é sempre percebida. diversas razões dificultam a saída da situação e o pedido de apoio. que não deveria ocorrer. surgem os seguintes questionamentos: Por que tantas mulheres se envolvem e permanecem em relações de intimidade permeadas de violência? Por que a mulher simplesmente não sai da relação violenta assim que esta se inicia? Não resta dúvidas de que estas questões não admitem respostas simples e nem descontextualizadas. percebe-se que apesar de todo o movimento das últimas décadas a favor dos direitos humanos das mulheres. Diante deste contexto. da opinião da comunidade. No entanto.

sentir-se incapaz de sobreviver sozinha. comprometendo a sua auto-confiança. Uma outra pesquisa realizada por Reiss e Roth apud Papalia e Olds (2000) revela que algumas mulheres têm medo de ir embora. temer por sua segurança e a de seus filhos. As mulheres. se for melhor esposa e mãe. elas são mais agredidas. Geralmente. vítimas de violência doméstica. a ponto de concordar com as agressões verbais.28 A mulher pode sentir-se culpada. sua vida estará trilhada pelo medo. seus parceiros as isolam da família e dos amigos e elas com freqüência são financeiramente dependentes e carecem de apoio social. Afinal. medo. as críticas. uma vez que alguns maridos abusivos posteriormente perseguem e espancam e até mesmo matam suas esposas afastadas. quando tomam uma atitute. até mesmo pela dependência financeira. Algumas mulheres acham que não tem a quem recorrer. um medo realista. Algumas mulheres têm baixa auto-estima e acham que merecem serem espancadas. a violência está cada vez mais infligindo a sociedade. A maioria apresenta uma baixa auto-estima. Uma pesquisa realizada por Demaris e Swinford apud Papalia e Olds (2000) demonstrou como as mulheres. para essa mulher voltar a ser ela mesma. Pode amar o parceiro. que são agredidas . e a manipulação psicológica destroem sua autoconfiança. não resta dúvidas de que as zombarias. afetiva. sonham. o marido vai mudar. como prometeu. sem amor próprio e sem nenhuma estrutura para viver no seu próprio mundo. vergonha. vítimas de violência doméstica. são mulheres que sofrem abusos sexuais. Quando a mulher é violentada é muito difícil voltar a ser a mesma. talvez porque sejam as que sentem menos controle sobre o que lhes acontece. tentam terminar o relacionamento ou chamar a polícia. idealizam e se negam a ver a realidade. as ameaças. na qual a mesma vem recebendo de seu marido. devido ela ter perdido seu referencial. Mulheres que são vítimas de violência severa ou de sexo coercitivo. pensar que o que sofre é banal e que ninguém daria importância. pode ter vergonha. Pode achar que. são as que mais têm medo. Na visão de Freitas apud Papalia e Olds (2000). Pode-se verificar como é difícil.

como a pobreza. A questão da violência está diretamente ligada ao problema da democracia e do autoritarismo. . a mulher é violentada. A vida da mulher é constituída dentro de padrões de comportamentos específicos cobrados pela sociedade em que vivem.29 fisicamente. a violência contra a mulher é uma atitude cultural. procuram ajuda e por vezes conseguem transformar a situação. o estresse e o ciúme. não se restringe somente ao homem. ainda. Na concepção de Silva (1992). foi iniciado um processo de reconhecimento da violência contra a mulher como um problema da sociedade. (2005). Está afetando todas as classes sociais embora isso seja uma questão pouco divulgada. As formas de violência retratam. levando a mulher a conquistar novos espaços. o uso de bebida alcoólica e. No entanto. Os estudos realizado por Moser apud Papalia e Olds (2000) demonstram que em determinadas condições existem alguns elementos que interferem no cotidiano da vida da mulher. nas duas últimas décadas do século XX. o processo de violência contra a mulher continua. Em todos os lugares onde tenha que competir de forma mais aberta com os homens. Sabe-se que não é um problema só das autoridades como de toda sociedade. no lar. Assim. A impressão que se tem é a de que pobre apanha e classes média ou rica não apanha. a influência dos fatores psicossociais na formação de atitudes sociais no que diz respeito aos estereótipos de homem e mulher. em maior ou menor escala. na política. embora ocorra freqüentemente no espaço doméstico e familiar. trata-se de uma vida difícil. Segundo Schraiber et al. verbalmente e psicologicamente. o que somente varia de acordo com a situação econômica e sociocultural. não apenas de cada mulher submetida a agressões. a violência é uma questão muito mais cultural do que econômica. pouco conhecida. no trabalho. As dificuldades para mudar as situações são muitas. mas também são variadas as formas com que as mulheres falam sobre seu problema. Foram realizadas campanhas e abertos serviços de diversas naturezas dedicados à questão. A violência contra a mulher. podendo ocorrer dentro ou fora do ambiente familiar. Apesar da luta feminista ter evoluído.

No entanto. tanto de amigos e familiares como das instituições de segurança como a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e serviços de saúde existentes. Há obstáculos que devem ser enfrentados. A violência contra a mulher não se resume somente às agressões onde ocorre o contato físico entre vítima e agressor. sexual ou psicológica. de uma forma geral. às perguntas colocadas a repeito da continuidade das situações e apontar meios coletivos de superação. Os percursos que as mulheres enfrentam ao tentarem lidar com suas situações de violência são difíceis. em relação à posição das mulheres na vida social. como demonstram os dados acerca das prevalências e conseqüências para a saúde emocional e física das mulheres. só uma sociedade atenta e ativamente contrária à violência contra a mulher.30 Mas isso ainda não é suficiente. se é verdade que essas situações muitas vezes se perpetuam. nem que seja parcialmente. . mas toda a violência que tenha por finalidade coagir e implementar sofrimento. parte-se da premissa de que. exige um grande esforço. vítimas de violência. coordenado e consciente. também é verdade que as mulheres. faz-se necessário um maior aprofundamento tanto na questão dos efeitos gerados à mulher no momento posterior ao da violência. poderá garantir que tais casos deixem de ocorrer. sendo ela verbal. bem como dificuldades de contar com pessoas próximas ou apoios institucionais. afinal. buscam formas de saída e fazem diversos esforços nesse sentido. de uma grande parcela da população. se algumas mulheres e homens conseguem mudar suas vidas e encontrar caminhos livres de violência. Neste sentido. que são os mais efetivos. Uma mudança tão profunda como a pretendida. tendo em vista a grande diversificação nos comportamentos adotados por elas. Compreender as condições necessárias para a superação da violência e os obstáculos colocados nesse trajeto pode ajudar a responder. quanto os motivos ou origens das situações que culminam na agressão. E essas formas serão tão mais eficazes quanto melhores forem as respostas encontradas. com sólidas e eficazes instituições.

pensando soluções e abordando com maior profundidade as raízes das doenças e sofrimentos emocionais.995 39 39 Fonte: Delegacia Especializada de Crimes Contra a Mulher – SESEG – Manaus-AM. portanto. O silêncio só contribui para perpetuar a violência. A situação de violência é muito comum. socos. seus familiares e amigos conheçam as importantes conseqüências para a saúde física e emocional de todos os envolvidos na violência.694 2. isto é. Em seguida vem a fase da reconciliação com pedidos. atritos com agressões verbais que são seguidos pela fase da agressão. o momento atual da sociedade revela que cada vez mais deixam de existir barreiras entre as classes sociais quando se trata da questão violência contra a mulher. é importante que as mesmas. não há motivo para envergonhar-se de ser vítima dela.31 Essa diversificação de comportamento mostra-se estar ligada às variáveis socioeconômicas e culturais. de perdão pensando a vítima que pelo carinho momentâneo.132 60 46 2001 1.426 Os tipos de violência desencadeada pelo marido/companheiro contra a mulher podem ser percebidos através da tabela 1. formais. e a discutam com os profissionais de segurança e saúde. Desta forma as vítimas são atingidas com empurrões.067 1. A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM MANAUS Em relação à violência doméstica a OMS (2002) alerta que pode se tomar um ciclo vicioso constituído por fases que se divide em: fase da tensão caracterizada por discussões com insultos. bem como seus caminhos de solução.668 2. já a física.355 62 34 2000 1. . Tabela 1 – Tipos de Violência cometida pelo Homem contra a Mulher em Manaus Ano Lesão Corporal Ameaças Estrupo Homicídios 1998 1. Vias de fato 2.355 101 Sem dados 1999 1.750 2. entre outros atos físicos contra a mulher. que permite visualizar as formas de violência cometida pelo homem contra a sua esposa/companheira na realidade de Manaus.681 1.370 2. 7. Para aumentar ainda mais a visibilidade da violência doméstica contra mulheres. não vá mais acontecer a agressão. e não ajuda em nada esconder o problema quando vamos buscar cuidados.659 1. como forma de descarregar tensões acumuladas.

por ordem de escala e alegações. erros cometidos pela mulher e bebida. mesmo sendo contestada é também aceita e perdoada pelo aspecto representativo e simbólico do senso de pertença que esta tem. a literatura não aponta causas enfáticas. o grande vilão como sendo o gênero. encontrando-se aqui o ponto que reforça a dificuldade no rompimento com a relação que produz a violência. meio de justificativas. em seus estudos. de acordo com o estudo realizado por Ramos (2003) colocam o “querer dominar” como motivo mais freqüente causador de violência. tomando. e contradizem-se no momento que relatam: “eu gritei mais que ele”. Desta forma. As causas alegadas pelos homens. contribui para a dominação masculina. por parceiros. a qual reproduz a forma de vida das sociedades antigas. ao viver sua historicidade. uma vez que as mulheres respondem negativamente afirmando que a violência não é a forma de resolver seus conflitos. um dos pilares da violência conjugal. “trabalhava fora e chegava atrasada”. seria uma forma inconsciente de acreditar que o companheiro tem o direito de puni-las quando há infração de normas estabelecidas. desta forma. que no caso da mulher manauara na relação conjugal. a violência está além das características individuais. costumes e comportamentos sócio-culturais. . Então pode-se notar que tal constituição reafirma o poder do homem sobre o corpo feminino. porém numa perspectiva macro. uso de poder ou explicação para sujeitar mulher. que possui duas vertentes. Quanto à forma de resolução de conflitos. seriam de ordens secundárias. podendo ele se achar dono da mulher o que leva à aceitação da violência no âmbito doméstico. As relações conjugais estão pautadas na base da construção das representações sociais dos gêneros. Essas seriam formas de justificar que mereceram a violência ao infringir normas do convívio conjugal. os fatos denotados como possíveis causas. A violência doméstica contra mulheres cometida. Ramos (2003) encontrou contradição entre o discurso e a fala de casais que estiveram conflitados.32 No que se refere às causas da violência doméstica em Manaus. está profundamente arraigada nos hábitos. no plano cultural e psicossocial da relação de forças entre os gêneros. seguido de infidelidade.

foi de que práticas. Afirma que a população de Manaus cresceu sob influência de vários outros tipos culturais o que levou o nativo a perder suas tradições e costumes. o que distribuídos trazem uma média de 550 .932 em 2000 com aumento gradativo que chega a 9. dados fornecidos pela Delegacia Especializada de Crimes Contra a Mulher. A autora em sua pesquisa sobre a representação social da mulher construída no contexto da relação conjugal violenta. a partir de 1978. o que está associado aos aspectos culturais adquiridos no decorrer de sua história. havendo controvérsias nos papéis desempenhados entre. por exemplo. relata que a leitura feita.33 Na visão de Ramos (2003). entre outro aspecto proveniente de sua constituição simbólica. a mulheres amazonenses eram obrigadas a provar que não estavam grávidas. ou seja. outrora exercia para os europeus. existindo amparo. Diante deste contexto. assim passa a descrever o contexto das simbolizações. entre homens e mulheres. além de muitas vezes sofrerem assédios. Segunda a autora acima dos hábitos sexuais.422 em 2005. que deve ser uma boa dona de casa. A imposição de outras culturas se dava com uma desvalorização preconceituosa dos indígenas. informam um aumento crescente de atos de violência praticados contra a mulher. da mesma forma a maternidade que era exercida sem que houvesse preocupação com a paternidade. Assim denota se o quanto a mulher indígena teve que incorporar e conviver com outra cultura e padrões impostos por processos migratórios. sendo os registros de ocorrências em torno de 6. enquanto que para os indígenas não existia tal valor. que trazia sobre a mulher o perdão e amor da tribo. Ramos (2003) afirma que a mulher manauara se introduz no mundo moderno urbano participando do processo de produção e reprodução do seu domínio próprio. Quanto à inserção no mercado de trabalho. pode-se notar divergência cultural ao relatar o valor que a castidade. europeus e indígenas. após utilização dos métodos que a orientou. em Maio de 2006. comunicações e ações da mulher amazonense denotaram que a mesma sente-se fraca em relação aos homens. Em Manaus. a realidade da mulher amazonense é diferente das demais de outras regiões. na lenda. reforçando a dominação masculina. era exclusivamente para jovens solteiras e sem filhos. para tanto a fim de serem aceitas. uma vez que o filho poderia ser do “boto”. valorizando mais os forasteiros que chegavam na cidade. que em sentido físico é mais fraca que os homens. de suas representações. que deve saber cuidar bem do marido. que não sendo aceitos implicava em demissão.

lesão corporal e vias de fato.392 Casos 8. Maio de 2006. 9.422 Casos 10. ameaças. por ordem decrescente do número de ocorrências. especialmente quando as denúncias eram feitas contra cônjuges.000 4. cerca de 18 casos por dia. elucidando ainda que tais dados somente são possíveis quando registrados em delegacia. erros cometidos pela mulher e bebida.000 6. anteriormente as denuncias feitas em delegacias não especializadas. As causas mais comuns citadas pelos homens: infidelidade.000 2. não surtiam efeitos em termos de que não se tomavam providências legais exigidas pela dimensão dos casos.34 ocorrências mensais. ameaças.000 0 Ano 2000 Ano 2005 Figura 1 – Violência praticada contra a mulher Fonte: Delegacia Especializada de Crimes Contra a Mulher. As maiores incidências concentram-se nos delitos de ameaças.000 6. ninguém mete a colher”. De acordo com a pesquisa realizado por Ramos (2003). Se compararmos com o que disseram as mulheres. em relação à violência cometida pelos homens contra as suas esposas/companheira. percebe-se não existir uma causa preponderante. Os delitos registrados são desde lesões corporais. sedução. sendo que. assédio sexual. . Ramos (2003) afirma que a partir de 1987. como no caso delas. o querer dominar. com a criação da Delegacia de Mulheres em Manaus. estupros. conforme o dístico popular: “briga de marido e mulher. vias de fato e até mesmo tentativas de homicídio. atentados violentos ao pudor. as denúncias aumentaram em função da propaganda do governo em relação à inauguração da mesma. difamação. onde o senso comum ainda pensava. percebe-se que bebida/ciúme/querer dominar são os elementos mais recorrentes nas justificativas dadas.

35 Constata-se. adolescentes e mulheres. mais conhecida como Lei Maria da Penha que coíbe a violência doméstica e familiar contra a mulher. em 07/08/2006. psicólogos. Serviços dirigidos aos homens também têm sido recentemente implementados e ampliados pouco a pouco.340. a tônica das falas masculinas reproduz o conteúdo semântico dos elementos centrais da representação social do homem entre os sujeitos desta pesquisa: dominador/chefe de família. comprometendo-se a combater a violência baseada nas relações de gênero (SCHRAIBER et al. justiça. Já o caboclo está mais voltado para os erros cometidos pela mulher. e da assinatura pelo país de diversas Conferências Internacionais. bem-estar social) foram criados e passaram a atender meninas e mulheres em situação de violência. como bem esclarecem Schraiber et al. Centros de Referência. médicos. Para o indígena. Serviços de Atendimento à Violência Sexual. Esses serviços possuem culturas institucionais variadas. (2005). Programas de controle da violência contra a mulher no Brasil e em Manaus Em nível Brasil. a causa mais citada é a infidelidade feminina. educadores) com saberes distintos e. em função de sua realidade cultural. está mais presente no discurso do manauara. dá uma acentuação diferenciada para cada razão alegada. 8. adolescentes e meninas em situação de violência. Se a bebida. nas duas últimas décadas houve o surgimento e o incremento de instituições que atendem mulheres. sobre um mesmo problema: a violência exercida principalmente contra as meninas. que cada categoria de sujeitos. . instituições governamentais e não-governamentais de diversos setores (saúde. para o indígena e o caboclo o seu peso é bem menor. segurança pública. além do surgimento de Conselhos da Condição da Mulher e das Coordenadorias da Mulher em administrações estaduais e municipais. Em todo caso. 2005). Como exemplo mais recente pode-se citar a instituição da Lei de Violência Contra a Mulher (LVM) . 2003). Além disso. policiais. assistentes sociais. no entanto.. respeito/caráter e trabalhador responsável (RAMOS. Casas brigo. por exemplo. Delegacias de Defesa da Mulher (DDM). por vezes. que em uma grande parcela dos casos atendidos é doméstica.Lei n° 11. juízes. operam com diversos profissionais (advogados. conflitantes.

cartilhas.36 No contexto da cidade de Manaus. Além disso. como o que fazer e a quem procurar em caso de abusos. a Delegacia de Mulheres representou uma grande conquista e é de fundamental importância na assistência às mulheres no tocante aos crimes praticados contra elas. A mídia também pode ser utilizada como meio de sensibilização da sociedade em relação à violência contra as mulheres. sendo que existem 70 casas abrigo que guardam vítimas de seus agressores (RAMOS. tendo a própria vítima que dirigir-se ao IML e ela própria entregar intimação ao agressor. vítimas de violência doméstica. no Brasil existem 339 Delegacias de Mulheres. contudo não há um tipo de ajuda que venha abranger o casal em suas dificuldades. revistas é significativa em todo o país e tem o objetivo de ajudar no norteamento de políticas públicas. A Prefeitura Municipal de Manaus mantém um serviço de atendimento a vítima de agressão sexual que recebe denúncias e atende a própria vítima para orientar em caso de violência contra a mesma. Os Conselhos Tutelares também estão orientados à acompanhar e aconselhar vítimas e denúncias efetivadas sobre violências de gênero sendo de qualquer tipo. por vezes paga uma indenização à mulher ou presta serviços públicos. Não resta dúvidas de que a oferta de serviços (delegacias. o que para esta autora é uma exposição à novas agressões. indicando que em casos de emergência a vítima procure o serviço de saúde mais próximo. A produção de pesquisas. 2003). Outro fato importante é que quando a denúncia chega até a justiça especializada. serviços de saúde e assistência social) seguramente aumenta o uso das mulheres e potencializa a efetivação dos . folhetos são distribuídos trazendo um esclarecimento sobre a violência assim. No entanto. um acordo é feito e o agressor sai impune. Para efeito comparativo do que acontece na cidade de Manaus. para tratamento e posterior orientação. manuais. dentre as quais destaca a falta de assistência psicológica ou qualquer outra no momento em que esta chega à delegacia. bem como orientações de como reagir em horas de ataque e como se proteger. como bem observa Ramos (2003). da qual a de Manaus está incluída. ainda existem muitas falhas no atendimento às mulheres.

não atingindo as questões primárias que hipoteticamente são os motivos das agressões. Dessa forma sem prevenção primária tornar-se-á cada vez mais difícil erradicar o problema. a fim de dar maior segurança às vítimas de agressão e um posterior acompanhamento aos casais conflitados e envolvidos em situação. assim como proteção nos demais casos. das ansiedades e até desordens de personalidade. e essa relação está baseada na amizade. Muitas. ela desiste de denunciar a violência doméstica. Além da dependência emocional. amor e sexualidade. oferecendo alternativas concretas de ação. promessas de mudanças. sociais e muitas vezes. Além disso. mas que merece atenção. reforçando a importância do cumprimento. pode-se inferir que a violência doméstica produz conseqüências para a saúde mental das mulheres evidenciadas por meio do estresse. já que a raiz do problema. muitas mulheres foram criadas para manter o casamento até o fim e diante das pressões. de seus compromissos internacionais. valores religiosos. das depressão. conforme relatada na bibliografia pesquisada. fora do âmbito conjugal e que não são de ocorrência física. a tarefa crucial. muitas mulheres ainda têm medo de quando o homem sair da prisão. em casos extremos. pode-se considerar também que os programas de apoio às mulheres poderiam ser mais bem planejados. Além disso. A existência destes locais favorece a percepção da violência como injustiça e a legitimidade de voltar-se contra ela. ainda permanecem no relacionamento por amor ao marido mesmo depois de sofrer violência. física e financeira. pelo Estado brasileiro. eles parecem “caminhar a passos curtos” já que medidas para minimização deste contexto somente são tomadas secundariamente. Quando denunciam seus algozes. Para se desenvolver um bom relacionamento. pelos seus dados alarmantes e pela própria complexidade de sua instalação. de acordo com os autores estudados. é que um casal possa se entender na vida a dois. os filhos fazem as mães desistirem de destruir a família. subjazem à constituição psicossocial e cultural dos gêneros. CONSIDERAÇÕES FINAIS Respondendo ao problema incial que motivou este artigo. A .37 direitos. A violência doméstica é um problema de grande abrangência social. Em relação aos avanços assistenciais. 9.

38 oportunidade deste trabalho foi valorosa para se observar que estas mulheres que são agredidas física. mas trabalhando com elas. para o adequado aprofundamento muitas obras devem ser consultadas. verbalmente e de modo particular emocionalmente. programas. . quanto mais se oculta o crime sofrido. Este artigo não teve a pretensão de esgotar o assunto e nem se tirar conclusões acerca do mesmo. a conscientização individual para gerar uma conscientização coletiva. logo. mais remotas são as chances de serem tomadas às atitudes necessárias para a solução do problema. fóruns. Afinal. Agindo dessa forma ela está se protegendo das futuras agressões que possam vir a ocorrer. pois os aspectos legais e emocionais que circundam a questão da violência doméstica contra as mulheres e seus efeitos emocionais são muitos e que um trabalho não pode contemplar em todas as suas especificidades. A utilização dos meios de comunicação como novelas. A violência doméstica existe em todos os níveis sociais. Além disso. afetiva e sexual. seja por falta de condições. não vendo diante de si qualquer perspectiva de vida melhor. criação de ONG´S de amparo financeiro são boas estratégias para combater a violência contra a mulher. faz-se necessário ainda a defesa dos direitos da mulher através da lei. vítimas de violência doméstica. por seus sentimentos não serem respeitados. sendo que algumas mulheres tem alto grau de dependência financeira. e de alguma forma se tornar exemplo para outras mulheres. sempre estão com sua auto-estima em baixa. eventos. opondo-se ao constrangimento e a autoridade. ou por acharem que não há necessidade para tal. propagandas. No que se refere às atitudes que as mulheres devem tomar. Tem-se consciência de que inúmeras obras com os mais renomados e competentes autores foram escritas. não procura um tratamento psicológico. Quanto às necessidades das mulheres é importante que as mesmas tenham consciência de que devem resgatar a sua autonomia. não se opondo às necessidades. A maioria das mulheres. a literatura revela que toda mulher violentada física ou moralmente deve ter coragem para denunciar o agressor.

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