Comprada pelo Doutor Cretino
Capa: @gialuidesign
Sumário
Sinopse
Playlist
Nota da Autora
Alerta de Gatilhos
Dedicatória
Prólogo
Brandon O’Connor
Capítulo 01
Brandon O’Connor
Capítulo 02
Mia Jones
Capítulo 03
Brandon O’Connor
Capítulo 04
Brandon O’Connor
Capítulo 05
Mia Jones
Capítulo 06
Brandon O’Connor
Capítulo 07
Mia Jones
Brandon O’Connor
Capítulo 08
Mia Jones
Capítulo 09
Brandon O’Connor
Capítulo 10
Brandon O’Connor
Mia Jones
Capítulo 11
Brandon O’Connor
Capítulo 12
Mia Jones
Capítulo 13
Brandon O’Connor
Capítulo 14
Mia Jones
Capítulo 15
Brandon O’Connor
Capítulo 16
Brandon O’Connor
Mia Jones
Capítulo 17
Brandon O’Connor
Mia Jones
Capítulo 18
Brandon O’Connor
Capítulo 19
Mia Jones
Brandon O’Connor
Capítulo 20
Brandon O’Connor
Capítulo 21
Brandon O’Connor
Capítulo 22
Brandon O’Connor
Mia Jones
Capítulo 23
Brandon O’Connor
Capítulo 24
Mia Jones
Capítulo 25
Brandon O’Connor
Capítulo 26
Mia Jones
Brandon O’Connor
Capítulo 27
Mia Jones
Brandon O’Connor
Capítulo 28
Brandon O’Connor
Capítulo 29
Brandon O’Connor
Mia Jones
Brandon O’Connor
Capítulo 30
Mia Jones
Capítulo 31
Brandon O’Connor
Mia Jones
Capítulo 32
Mia Jones
Capítulo 33
Brandon O’Connor
Capítulo 34
Brandon O’Connor
Capítulo 35
Brandon O’Connor
Mia Jones
Capítulo 36
Mia Jones
Brandon O’Connor
Capítulo 37
Mia Jones
Capítulo 38
Mia Jones
Capítulo 39
Brandon O’Connor
Mia Jones
Capítulo 40
Mia Jones
Capítulo 41
Brandon O’Connor
Mia Jones
Capítulo 42
Brandon O’Connor
Capítulo 43
Mia Jones
Brandon O’Connor
Capítulo 44
Mia Jones
Capítulo 45
Brandon O’Connor
Capítulo 46
Mia Jones
Brandon O’Connor
Capítulo 47
Mia Jones
Brandon O’Connor
Anthony Jones
Capítulo 48
Brandon O’Connor
Epílogo
Brandon O’Connor
Cenas Bônus
Brandon O’Connor
Agradecimentos
Meus livros
Pedido Especial
Segundo Livro da série
Sinopse
Brandon O’Connor
O início da noite seguia arrastado enquanto eu percorria os
corredores do hospital, fazendo minha última ronda do plantão. As
luzes frias refletiam nas paredes brancas, e os sons monótonos dos
monitores cardíacos preenchiam o silêncio — um silêncio cheio de
dor e esperança. Meus pequenos pacientes dormiam: uns tranquilos,
outros sob o alívio da medicação. Eu ajustava cobertores, verificava
prontuários, fingia que o cansaço não me vencia. Era uma calmaria
frágil, prestes a ruir.
O bip agudo do meu pager quebrou a calmaria. Peguei o
aparelho no bolso do jaleco e li a mensagem:
“Código Vermelho: Todos os médicos disponíveis para
a emergência. Urgente.”
Meu corpo se enrijeceu. O Código Vermelho era sinônimo de
desespero. De dor. Virei nos calcanhares e segui a passos largos pelo
corredor, descendo as escadas de dois em dois degraus até chegar
ao andar da emergência. Assim que entrei, a cena me atingiu de
forma violenta. O cheiro metálico de sangue impregnava o ar. O caos
tinha um gosto amargo e um som ensurdecedor. Ali, eu soube que
esse dia ficaria marcado na minha memória para sempre.
A sala já estava lotada. Macas sendo empurradas de um lado
para o outro, médicos e enfermeiros correndo, vozes se sobrepondo
em pedidos de material, exames e medicamentos.
— Precisamos de mais salas disponíveis! — A voz firme da
chefe da emergência, doutora Evelyn Carter, ecoou pelo espaço. —
Alguém entre em contato com o banco de sangue e peça mais
bolsas de O negativo! Enviem o que puderem!
Megan, a enfermeira-chefe, estava no centro da confusão,
direcionando pacientes e equipes médicas. Assim que me viu, correu
na minha direção.
— Tiroteio em um cinema! — informou, sem rodeios. —
Feridos graves a caminho. A maioria, crianças. Você está na linha de
frente.
Antes que eu pudesse responder, um grito rasgou o ambiente.
— AJUDEM MEU FILHO! POR FAVOR! — Um homem surgiu na
entrada da emergência, carregando uma criança nos braços. Sua
camisa estava encharcada de sangue, o rosto, pálido e desesperado.
Meu coração deu um solavanco.
— Aqui! — Corri até ele e tomei o menino em meus braços,
colocando-o rapidamente sobre uma maca. O pai cambaleou para
trás, e outro enfermeiro correu para segurá-lo. Só então percebi que
ele também estava ferido. O doutor Adam assumiu seu atendimento.
Eu não podia me deter.
Voltei minha atenção para a criança. Ele era pequeno, não mais
do que oito ou nove anos. Sua pele estava fria, a respiração
superficial. Meus olhos encontraram a ferida no peito — uma
perfuração muito perto do coração.
Sangue jorrando.
Muito sangue.
— Ele está entrando em choque hemorrágico! — gritei. — Sala
de cirurgia, agora!
Empurrei a maca com força, a equipe se juntando a mim em
um movimento frenético. Soro. Monitoramento. O bip começou a
desacelerar.
— Fica comigo, campeão… — sussurrei, apertando a lateral da
ferida para conter o sangramento. Minhas mãos, firmes. Eu não
podia parar. Não agora.
O monitor soltou um único som agudo. Estático. Parado.
— Assistolia! — alguém gritou.
Um arrepio gelado percorreu minha espinha. Mas não hesitei.
Saltei sobre a maca ainda em movimento e comecei as compressões
torácicas — cada uma como um grito silencioso de desespero. O
suor escorria pelas minhas têmporas. Uma dor aguda no peito me
atravessou, mas eu a ignorei. Não era hora de sentir nada. Só agir.
— Vamos, garoto… luta comigo… luta por mim… — falei com a
voz firme, mas por dentro, eu implorava.
— Epinefrina! — berrei.
A seringa foi passada de mão em mão, como uma esperança
líquida. O tempo parecia distorcido. Longo demais. Rápido demais.
Eu estava no limite. E ele… ele estava escorregando por entre os
meus dedos.
Mas eu não ia deixá-lo ir.
Cada segundo era uma batalha. Cada compressão, uma
tentativa de trazê-lo de volta. Ele não podia morrer. Não ali, não
naquela noite. Não enquanto houvesse um fio de vida. Um pulso.
Um sopro.
Naquela maca, entre sangue, desespero e promessas
silenciosas, o coração do menino estava nas minhas mãos.
E eu faria o impossível para que ele continuasse batendo.
Capítulo 01
Brandon O’Connor
O som da chamada ecoou pela sala assim que toquei no nome
dela. Minha irmã mais nova, Adrienne. Pediatra como eu, teimosa
como sempre.
— E aí, gênio da medicina! — atendeu com aquele tom
provocador que só ela conseguia manter. — Que honra a minha
receber uma ligação sua antes das dez da noite. Aconteceu alguma
coisa?
Sorri de leve, largando o celular no viva-voz enquanto me
encostava à janela da minha sala. Lá embaixo, o Memorial Chicago
Medical pulsava com vida. Ambulâncias chegavam, enfermeiros
corriam, pacientes entravam e saíam. O mesmo ritmo frenético de
sempre.
— Não aconteceu nada… ainda. Só estava pensando em como
você devia largar essa sua vida de estrela em Nova Iorque e vir
trabalhar comigo.
Ela soltou uma risada curta.
— Ah, pronto. Mais uma tentativa de me atrair pro lado
sombrio da força?
— Não é o lado sombrio, Adrienne. É a nossa casa. Esse
hospital… ele corre no nosso sangue.
— E é exatamente por isso que eu não volto — ela rebateu, a
voz mais suave, mas ainda assim firme. — Eu não quero viver à
sombra do legado da nossa família. Nem sob a sua proteção. Eu
preciso fazer meu próprio nome.
Fiquei em silêncio por um momento, absorvendo aquelas
palavras. Não era a primeira vez que ela dizia isso, mas, por algum
motivo, doeu mais hoje.
Olhei pela janela novamente. O letreiro brilhava na entrada
principal: Memorial Chicago Medical.
— Eu entendo — disse por fim. — Mas, às vezes, eu só queria
que você pudesse enxergar o que eu vejo quando entro aqui.
Ela não respondeu, então continuei:
— O Memorial não é só um hospital, Adrienne. Ele é história
viva. Nosso bisavô ajudou a erguer essas paredes quando Chicago
ainda estava se reerguendo da Grande Depressão. Três gerações de
O’Connors dedicaram suas vidas a isso aqui. Nossa mãe morreu
trabalhando por esse lugar. E hoje, não é por acaso, que a ala de
oncologia pediátrica leva o nome dela.
Minha voz vacilou no final, e eu precisei respirar fundo. Ainda
era difícil falar da minha mãe sem que a garganta apertasse.
— Eu sei disso, Brandon — ela respondeu, mais doce agora. —
E eu me orgulho de tudo isso. De você, da mamãe, do vovô. Mas…
eu só quero ser eu mesma, sabe? Sem carregar esse sobrenome
como uma âncora.
— Eu entendo — repeti, mesmo que não entendesse por
completo. — Mas a saudade não diminui, tá? Você faz falta aqui.
Ela riu baixinho do outro lado da linha.
— Eu também sinto sua falta, cretino. Às vezes, até da sua
rabugice crônica.
— Não exagera — murmurei, com um sorriso de canto.
A ligação terminou pouco depois, mas o peso da conversa
ficou. Me virei e encarei o quadro pendurado na parede da minha
sala: a foto da minha mãe sorrindo, com aquele olhar determinado
de quem enfrentava o mundo de frente todos os dias.
O hospital era feito de concreto, vidro e aço, mas também de
histórias. De vidas salvas. De dores compartilhadas. De sonhos que
nasceram aqui. O Memorial era mais do que uma instituição — era
um lar. Era o alicerce da minha vida. E, querendo ou não, também
era parte do que fazia de mim quem eu era.
Adrienne podia tentar fugir disso, mas no fim… esse lugar
corria no sangue dela tanto quanto corria no meu.
É
Éramos todos da mesma geração. Crescemos no caos da
medicina juntos, tropeçamos nas primeiras cirurgias, perdemos
pacientes, salvamos outros. Não éramos amigos — não no sentido
tradicional da palavra —, mas havia algo mais profundo nos ligando:
confiança e respeito. A certeza de que, quando tudo desmoronasse,
pelo menos aqueles rostos estariam lá, prontos para entrar na luta
com você para salvar uma vida.
— Pensei que ia dar pra fugir disso — murmurei ao passar por
Ethan.
— A gente pode fugir. O problema é que sabem onde a gente
trabalha — respondeu ele, sem nem tirar os olhos do grupo.
— Que tragédia.
Posicionei-me no fundo da sala enquanto Viktor tomava a
frente e começava as apresentações. Eu observava os rostos novos
— jovens, esperançosos, alguns com aquele brilho nos olhos que só
dura os primeiros meses.
Questionei-me quantos deles durariam. Quantos suportariam
as longas jornadas, os plantões de 36 horas, as noites sem dormir,
as perdas. Quantos estariam aqui quando o sistema engolisse tudo
que ainda restava da idealização.
Minha mente voltou, como sempre voltava, para o dia do
tiroteio. O sangue. As crianças. Os adultos. A correria. As sirenes. E
a impotência. Tínhamos feito tudo o que podíamos. E, mesmo assim,
perdemos. Ainda carrego cada um deles comigo. No fim, nem
sempre todo o estudo ou a dedicação é suficiente.
Respirei fundo.
Ali, naquela sala, estava a próxima geração. Eles ainda não
sabiam o que os aguardava. Mas logo saberiam.
E nós — os que já sabiam — estaríamos aqui para guiá-los. Ou,
pelo menos, tentar.
Capítulo 02
Mia Jones
Essa não era eu.
Encarei meu reflexo no espelho, enquanto ajustava a barra do
blazer. O conjunto de terninho preto me fazia parecer mais séria,
mais profissional — como se eu realmente pertencesse ao mundo
dos adultos responsáveis. Respirei fundo, tentando dissipar a
ansiedade. A entrevista para o hospital Memorial Chicago Medical
era uma oportunidade e tanto, e eu não podia errar.
Depois de um último olhar crítico no espelho, saí do quarto e
desci as escadas, sentindo o cheiro familiar de café e panquecas que
preenchia a casa. A cozinha estava movimentada, como sempre.
Minha mãe estava na bancada, preparando os lanches da escola,
enquanto Anthony, meu padrasto, lia algo na tela do telefone entre
um gole e outro de café. Harper, minha irmã de quatorze anos,
mexia no seu celular com um olhar entediado, à sua frente o bowl
cheio de cereal e um copo com leite e achocolatado. Já Oliver, meu
irmão caçula, devorava suas panquecas com mel como se fosse a
última refeição da vida.
— Você vai entupir suas artérias antes mesmo de chegar à
adolescência — provoquei Harper, pegando uma colherada do cereal
dela antes que pudesse protestar.
Ela revirou os olhos. — E você vai assustar seus
entrevistadores vestida desse jeito. Parece uma advogada de filme
dos anos 90.
— Elegância é atemporal — retruquei, dando um beijo estalado
na bochecha dela só para irritá-la ainda mais. Porque, a verdade é
que ela estava certa. Não que um dia eu fosse admitir.
Minha mãe riu, passando a mão nos meus cabelos como fazia
quando eu era criança.
— Você está linda, querida. Eles vão te contratar na hora.
— Assim espero. — Sorri, mas um peso familiar apertou meu
peito. Eu precisava daquele emprego. Precisava contribuir em casa,
pagar minha dívida estudantil, ajudar meus pais com a conta médica
que adquirimos depois do tiroteio. Enfim, eu precisava recomeçar.
Meu olhar pousou em Oliver. Ele comia em silêncio,
concentrado nas panquecas, e, por um momento, tudo ao meu
redor sumiu. A lembrança do pior dia da minha vida invadiu minha
mente sem aviso.
A viagem de fim de semana com minha chefe. O evento de
arrecadação de campanha para um senador. As luzes brilhantes do
salão luxuoso… E então, o toque do meu celular. A voz trêmula da
minha mãe:
Seu irmão e Anthony foram baleados. Eles estão no hospital.
O mundo parou. Meu coração disparou, minhas mãos
tremeram. Eu precisava voltar para casa. Agora.
Mas minha chefe… Deus, eu ainda conseguia ouvir a voz fria
dela quando avisei que estava indo embora: “Você não é médica.
Não faz diferença estar ou não lá. Mas aqui você pode ser útil.”
O sangue subiu à minha cabeça. Sem pensar, sem me importar
com quem estava assistindo, virei as costas para aquela mulher e saí
sem olhar para trás. No dia seguinte, recebi uma mensagem
informando que meu contrato havia sido encerrado. Como se perder
o emprego fosse o pior que poderia acontecer.
Respirei fundo, voltando ao presente. Meu irmão estava ali.
Vivo. Anthony estava bem. E agora, eu precisava seguir em frente.
— Boa sorte, querida — disse minha mãe, apertando minha
mão com carinho, antes de sair para deixar meus irmãos na escola.
— Vai dar tudo certo, Mia — Anthony acrescentou, sorrindo.
Olhei para minha família e assenti. Eu faria dar certo. Precisava
fazer.
Brandon O’Connor
A manhã estava começando devagar, do jeito que eu gostava.
Os corredores do hospital ainda não estavam abarrotados e havia
um tipo de silêncio que só existia nesse horário — cheio de
promessas, mas ainda sem caos.
Minha ronda me levou direto para a ala da oncologia
pediátrica, onde, sinceramente, meu coração ficava metade do
tempo. Eu fingia que era pelo trabalho. E era, em parte. Mas tinha
uma outra parte… uma que era toda sobre eles. Os meus minis
humaninhos.
— Bom dia, doutor O'Connor! — disse Sophie, uma das
enfermeiras, quando me viu passar.
— Bom dia. Algum sapeca já aprontando hoje? — perguntei, já
conhecendo bem meus pequenos. — Ela sorriu.
— Sarah está te esperando. Disse que você está atrasado pra
"hora do chá real".
Revirei os olhos com um sorriso. Claro que estava.
Bati levemente na porta do quarto 814 antes de entrar.
— Sarah, você requisitou minha presença? — falei, com uma
voz mais séria, tipo "voz de rei".
Ela estava sentada na cama, usando uma tiara dourada torta
na cabeça e segurando uma xícara de plástico rosa com glitter. Os
olhos dela brilharam.
— Finalmente! Sua Alteza Real, a Princesa Tiana estava prestes
a encerrar o chá sem você!
Coloquei uma mão no peito, fingindo horror.
— Não! Seria uma tragédia real!
Ela riu. Deus, aquele som... era meu remédio favorito.
— Sente-se. Pegue sua xícara. Você vai querer o biscoito
mágico de hoje? — disse, apontando para um biscoitinho de
brinquedo.
Peguei a xícara com todo o cuidado do mundo, como se fosse
feita de cristal.
— Permita-me elogiar o banquete. Tenho certeza de que está
uma delícia imaginária.
— É o meu favorito: Biscoito de chocolate com pozinho de
estrela. — Ela piscou, como se estivesse me contando um segredo
de estado.
— Você anda usando magia demais, Sarah. Vai acabar sendo
chamada pro próximo filme da Disney.
— Se eu for, você tem que ir comigo. Você pode ser o chef
rabugento do restaurante.
Fiz uma cara ofendida.
— Rabugento?
— Rabugento, mas com coração de ouro — disse ela, abrindo
aquele sorriso banguela que me desmonta inteiro.
Sentei-me ao lado da cama e, por alguns minutos, esqueci
onde estávamos. Esqueci que havia máquinas apitando, que havia
medicações sendo ajustadas, que Sarah estava em tratamento
contra uma leucemia agressiva. Porque ali, com a tiara torta, o
biscoito mágico e os olhos cheios de sonhos, ela era só uma criança
sendo criança.
— E como vai ser o seu restaurante dos sonhos, chef Sarah?
— Vai ser gigante. Vai ter janelas enormes, luzes penduradas e
mesas com toalhas roxas. E você vai cozinhar meu prato favorito.
— Que é…?
— Mac and cheese.
— Claro. Alta gastronomia — fiz um brinde com a xícara de
plástico. — Ao restaurante da princesa Sarah.
Ela ergueu a dela também.
— E ao chef rabugento, que cozinha como ninguém.
Quando saí do quarto, fechei a porta com cuidado. Me encostei
na parede por um segundo e respirei fundo. Aquela menina me
lembrava por que, mesmo nos dias mais difíceis, eu continuava.
Mesmo com a dor. Mesmo com o passado. Mesmo com tudo.
Sarah era esperança. Era luz. E, de algum jeito, ela fazia com
que eu acreditasse em finais felizes.
Brandon O’Connor
Coloquei a última muda de roupa na mochila e fechei o zíper
com um estalo rápido. Meu fiel escudeiro acompanhava cada passo
meu com olhar atento. Um olhar que já havia decorado passo a
passo do ritual que eu repetia várias e várias vezes.
Depois da nossa corrida matinal, voltávamos para casa, ele se
deitava para descansar depois de se hidratar e eu corria para o
chuveiro para me preparar para mais um dia. Trabalho, casa,
trabalho. A rotina perfeita para quem não quer — ou não sabe mais
— se conectar com absolutamente ninguém.
— Se comporta, Sirius — falei, olhando por cima do ombro
enquanto me virava para pegar as chaves.
Ele estava deitado no sofá como se fosse o rei da casa. Meu
pastor-belga groenendael, elegante, imponente e dramático do jeito
que só ele sabia ser, me encarava com aquelas orelhas erguidas e
olhos atentos, como se entendesse cada palavra.
— A senhora Guadalupe não vai demorar — acrescentei, me
agachando para fazer um carinho entre as orelhas dele. — Nada de
ficar latindo pra vizinha do 1002 só porque ela usa aquele perfume
insuportável. Seja educado, tá me ouvindo?
Ele latiu uma vez, firme. Dei uma risada curta.
É
— É, eu sei. Aquela mulher te provoca. Mas finge costume,
parceiro.
Fiquei ali por mais um segundo, com a mão no pelo dele, antes
de me levantar. Bati levemente nas minhas coxas como quem
encerra um papo, e saí do apartamento.
No carro, coloquei um velho álbum do Bon Jovi pra tocar.
“Livin’ On A Prayer” começou a vibrar pelos alto-falantes assim que
peguei a estrada rumo ao hospital. Tamborilei os dedos no volante
no ritmo da música, tentando distrair a mente — mas não adiantou.
A frase martelava dentro da minha cabeça como uma
sentença:
“Ou você casa até seu próximo aniversário, ou vou vender as
ações para o Donnelly. Ele tem se mostrado interessado em comprar
nossa parte e se for para essas ações irem para as mãos de outra
pessoa, prefiro que fique com alguém ligado a história do hospital.”
Eu quase podia ouvir a voz do meu avô dizendo aquilo. Fria.
Calculada. Como se o casamento fosse apenas uma peça no
tabuleiro de xadrez da família O’Connor. Eu amava meu avô, mas
odiava a forma como ele tentava manipular a tudo e a todos para
que as coisas fossem como ele queria. Ele sabia que eu jamais
deixaria que as ações saíssem das mãos dos O’Connor — por isso
estava me chantageando.
Pior, ele sabia que isso ia me desequilibrar. Sabia exatamente
onde pressionar, para me ter onde queria. Seis meses haviam se
passado desde o dia em que ele colocou a forca ao redor do meu
pescoço. E tudo ficou pior depois que Evellyn me disse que ouviu
uma conversa entre o pai dela e o meu. Os dois eram melhores
amigos e parceiros de negócio e, Cooper Donnelly não era alguém
confiável — assim como seu sócio.
Meu pai sempre deixou claro que o seu maior desejo depois
que mamãe morreu, era o de acabar com a fundação que ela havia
criado e que era muito importante não só para mim e para o
hospital, mas também para todas as crianças e adolescentes
carentes que ela atendia.
Eu não ia correr o risco de deixar os dois se unirem e
acabarem com tudo que minha mãe havia construído ao longo dos
anos. Cooper não tinha interesse real no hospital, ele não
administrava nem mesmo a parte que pertencia à própria família.
Esse interesse repentino dele em comprar nossa parte, tinha nome e
sobrenome. Um ao qual eu reneguei anos atrás.
Bradley, não podia — não devia — assumir o hospital. Ele era
um homem que só via números, resultados, cortes. Um empresário.
Um tubarão. Não um médico. Não alguém que entenderia o que é
colocar as próprias mãos dentro do peito de uma criança de seis
anos e lutar para que ela continue respirando. Não alguém que
amava o Memorial.
Não como eu.
Não como minha mãe.
Suspirei e passei uma das mãos no rosto, raspando a barba
curta.
Não era sobre me casar. Era sobre impedir que o legado da
minha mãe fosse jogado no lixo por um homem que nunca entendeu
por que ela amava o hospital, os pacientes, a medicina. E,
principalmente, porque ele seria capaz de qualquer coisa para
destruir tudo o que ela amava, por despeito.
O problema era: eu não tinha uma mulher. Nem namorada.
Nem pretendente. Nem paciência para o jogo de sedução.
E o tempo estava correndo.
Estacionei meu carro na vaga reservada e peguei minha
mochila no banco do passageiro. Os corredores do hospital já
começavam a ganhar vida com a movimentação típica de uma
manhã em Chicago — sirenes ao longe, pacientes chegando,
profissionais cruzando os corredores. Mas antes de enfrentar isso
tudo, eu precisava de café. Deixei minha mochila na minha sala e fui
atrás de ânimo líquido.
A Break Room Coffee ficava do outro lado da rua, a poucos
metros da entrada do Memorial. Um lugar aconchegante, com cheiro
constante de grãos moídos e pão quentinho. Era parada obrigatória
antes de qualquer plantão mais puxado. Entrei no espaço já familiar,
cumprimentei com um aceno discreto a atendente que me
reconheceu e fui direto ao balcão.
— Café preto duplo, sem açúcar — minha voz saiu firme e
seca. Como sempre.
Enquanto esperava, tirei o celular do bolso e abri uma
mensagem nova de Melaine.
“Estou na cidade. Precisamos nos ver. Saudade de você... e do
que a gente fazia juntos ”
Suspirei, já sabendo onde aquilo ia dar. Melaine nunca foi o
tipo de mulher que quisesse compromisso, e isso sempre nos serviu
bem. Sem dramas, sem cobranças. Só... prazer. E, naquele
momento, sexo era tudo o que eu precisava pra aliviar a tensão dos
últimos dias. Digitei rapidamente uma resposta curta, dizendo que
poderíamos nos ver à noite, e guardei o celular.
O barulho da máquina de café preenchia o ambiente,
misturado aos murmúrios de conversas e ao tilintar de xícaras.
Peguei o copo que a atendente colocou no balcão, murmurei um
"obrigado" e me virei de uma vez só para sair.
Foi aí que aconteceu.
Um impacto repentino. Um corpo esbarrou no meu com força,
e o café, ainda fervendo, se entornou direto na frente da minha
blusa clara. O calor atravessou o tecido, e eu recuei com um
palavrão abafado entre os dentes.
— Merda!
Olhei para baixo, vendo a mancha se espalhar, depois levantei
os olhos para o tornado que tinha me atropelado.
E lá estava ela. Caída no chão.
Uma garota, talvez nos seus vinte e poucos anos, olhos
arregalados de pavor e... Ela era linda — de um jeito meio caótico e
estabanado, o cabelo solto, usando um vestido longo azul-claro e
tênis branco. O rosto retorcido em culpa e indignação.
— Você não olha por onde anda? — acusei, observando a
destrambelhada sentada no chão me encarando com o olhar
inocente.
— Você que virou com tudo sem olhar se tinha alguém atrás —
tentou se defender. — Não vai me ajudar a levantar?
Não — respondi seco.
— Um cavalheiro me ajudaria — empinou o nariz e fechou o
semblante.
— Não sou um cavalheiro! — disse, me inclinando em sua
direção. — Deveria te cobrar pelo café.
— Você é um cretino — retrucou, se levantou e me encarou. —
Depois disso, nem que você fosse o Can Yaman.
— Quem?
Ela me lançou um olhar fulminante.
— Alguém que, com certeza, tem mais educação que você e
sabe como tratar uma dama.
Tive que morder a língua. Literalmente.
Eu não tinha tempo, nem paciência pra esse tipo de gente.
Estabanada, distraída, que anda por aí com a cabeça na lua ou
enfiada no celular e não presta atenção por onde anda. Mas, antes
que eu dissesse algo pior — e acredite, eu estava pronto pra isso —,
a atendente da cafeteria surgiu, oferecendo guardanapos para
ambos.
— Tá tudo bem — resmunguei, pegando alguns. — Só mais
um dia comum antes das sete da manhã...
Ela bufou, pegando os seus próprios guardanapos.
— Ótimo. Espero que seu dia melhore… Ou não.
E saiu, pisando firme.
Eu fiquei ali, olhando as costas dela se afastarem, franzindo o
cenho. Porque ela era uma coisinha petulante e… gostosa pra
caralho.
Não fazia a menor ideia de quem ela era. Mas algo me dizia
que esse não seria nosso único encontro.
Alerta de Ilustração
Cena do momento ilustrada na próxima página
Capítulo 05
Mia Jones
— Que babaca idiota!
Sair da cafeteria sem o meu café e com o vestido levemente
manchado com o restinho que sobrou do derramamento da fúria
divina em forma de cafeína não era exatamente como eu tinha
imaginado começar o dia. Mas, honestamente? Talvez fosse um sinal
do universo. Do tipo: “não gaste dinheiro, garota, você tá
desempregada”.
Suspirei, ajeitando a bolsa no ombro e atravessando a rua de
volta para o Memorial Chicago Medical. Tinham me chamado ao
hospital de novo, mas sem dar muitas explicações. Não disseram se
consegui ou não o emprego, só pediram que eu viesse. E, claro,
como boa desempregada com dívidas estudantis e autoestima em
modo oscilante, cá estou eu — na esperança de que essa visita
signifique alguma coisa boa.
Assim que entrei, fui direto para o elevador, tentando ignorar o
nervosismo que vinha subindo como bolhas de refrigerante agitado.
Quando as portas se abriram no décimo andar, encontrei a mesma
moça simpática da outra vez, atrás do balcão da recepção.
— Olá, Mia, certo? — disse ela, sorrindo como se nos
conhecêssemos há anos. — A Evellyn está te esperando.
Assenti, meio ansiosa, meio esperançosa, e segui até a sala
onde tinha feito a entrevista. Bati levemente na porta antes de
entrar, e Evellyn — linda, elegante e perfeitamente impecável como
sempre — me recebeu com um sorriso caloroso.
— Mia! Que bom que você veio — disse, se levantando e
apertando minha mão. — Obrigada por ter vindo conversar comigo.
— Claro! Eu… fiquei feliz com o contato. E curiosa, para ser
bem honesta — admiti, com um meio sorriso.
Ela se sentou e fez um gesto para que eu fizesse o mesmo.
— Eu te chamei porque quero te fazer uma proposta.
Minha espinha se esticou. Tentei não parecer
desesperadamente animada, mas falhei miseravelmente. Ela notou,
mas fingiu não perceber. Classe pura.
— Eu gostei muito de você, Mia. E, depois de analisar seu
currículo com mais atenção, percebi que você tem exatamente o que
estou procurando: energia, paixão e iniciativa. Eu preciso de uma
assistente de relações públicas, sim, mas quero mais do que isso.
Quero alguém em quem eu possa confiar. Alguém que esteja ao meu
lado como braço direito, que possa me representar quando eu não
puder estar presente.
Minha boca secou. Eu não esperava tanto. Tive que me forçar
a não arregalar os olhos como uma caricatura de desenho animado.
— Uau… eu não sei nem o que dizer.
Evellyn riu, com aquela calma de quem já teve o mundo
dizendo “sim" para ela muitas vezes.
— Diga que aceita. É um trabalho puxado, e você vai precisar
estar disposta a viajar comigo para eventos, comparecer a jantares e
reuniões, inclusive aos fins de semana, às vezes fora do expediente.
Mas, em troca, você vai aprender tudo que eu puder te ensinar. E vai
receber um salário digno disso.
— Eu aceito. — A resposta escapou antes mesmo de eu pensar.
Meu coração batia feito louco no peito. — Eu não sei como
agradecer… De verdade, obrigada por me dar essa chance.
— Não me agradeça ainda — ela disse, estendendo um
contrato. — Leia isso com calma. Se estiver tudo certo pra você,
assine e me devolva.
Peguei os papéis com as mãos quase tremendo. Li e assinei
meu nome com aquele sorrisinho bobo preso no canto dos lábios.
Evellyn levantou e apertou minha mão de novo — desta vez, com
mais firmeza.
— Seja bem-vinda à equipe. Te espero amanhã, às oito.
Saí da sala tentando manter uma postura digna, mas por
dentro eu era pura vibração. Me encostei na parede do corredor, tirei
o celular da bolsa e abri o grupo da família:
EU: CONSEGUIIIIIIIIII! O EMPREGOOOOOO!
EU: E não é vestida de frango, mãe. É de verdade.
Mandei com emojis, porque esse momento pedia, sim, uma
chuva de emoção digital. Respirei fundo e olhei para o teto,
sussurrando um obrigada silencioso ao universo. Pela primeira vez
em meses, tudo parecia se encaixar.
Brandon O’Connor
Passei o dia inteiro irritado.
Não pelo café derramado ou pela camisa arruinada — embora
aquela fosse uma das minhas preferidas —, mas porque eu
simplesmente não conseguia tirar o rosto dela da cabeça.
A estranha da cafeteria.
Ela tinha olhos grandes, expressivos, e um olhar que me
atravessou como uma flecha bem lançada. E mesmo depois do
esbarrão, do café escorrendo por mim, do meu mau humor — que
estava longe de ser sutil —, ela não baixou a cabeça. Não desviou os
olhos. Não gaguejou, nem se encolheu. Pelo contrário. Ela
respondeu. Encarou. Retrucou. Com raiva, é verdade, mas... com
firmeza. Aquela mulher tinha fogo nos olhos, nos mesmos olhos que
pareciam doces e gentis.
E, honestamente, aquilo foi mais perturbador do que eu
gostaria de admitir.
Soltei um suspiro irritado enquanto entrava no elevador,
ajeitando a alça da mochila no ombro. Precisava de uma distração.
Ou melhor, precisava transar.
O encontro com Melaine parecia, de repente, não só
conveniente, mas necessário. Sexo sem expectativas, sem drama,
sem conversa fiada. Exatamente o que eu precisava pra colocar a
cabeça no lugar e parar de pensar em olhos verdes-azulados e boca
atrevida.
As portas do elevador se abriram e, antes que fechassem de
novo, Adam entrou, como sempre, impecável no jaleco branco, os
cabelos levemente bagunçados, como se tivesse acabado de sair de
uma sessão de fotos para a capa de uma revista médica.
— Brandon — ele cumprimentou, com um leve aceno de
cabeça.
— Adam — retribuí, curto.
O silêncio se estendeu por um segundo antes de ele puxar
assunto.
— A reunião hoje foi… interessante — comentou, se referindo à
que a administração fez sobre a redução de gastos em cada setor.
Walter queria, a todo custo, aumentar os lucros do hospital e tinha
iniciado uma caça às bruxas, colocando todos os funcionários do
hospital em alerta sobre cortes no orçamento.
— Isso é uma forma polida de dizer que foi uma merda.
Ele soltou um sorriso discreto. O tipo de sorriso que ele
reservava pra quando queria parecer diplomático.
— Tem razão. Mas não é nada que a gente já não esteja
acostumado. Eles falam, a gente ignora, segue fazendo o que
precisa ser feito.
— Até o dia em que eles resolvam agir de verdade — retruquei.
— E aí o estrago já tá feito.
Adam não respondeu de imediato. Seus olhos fixos na porta
metálica à frente, como se calculasse exatamente o que poderia ou
não dizer. No fundo, todos sabíamos que estávamos pisando em
terreno instável.
As portas se abriram no estacionamento e nós dois saímos.
Caminhamos lado a lado por alguns metros, antes de ele parar ao
lado do carro dele.
— Vai direto pra casa? — ele perguntou.
— Tenho um... encontro — respondi, sem empolgação, como
se estivesse avisando que ia tirar o lixo.
Ele apenas assentiu.
— Bom… aproveite. A gente se vê amanhã.
— Até amanhã.
Nos despedimos e cada um seguiu seu caminho.
Mas, mesmo quando liguei o motor do carro e coloquei o
endereço do restaurante no GPS, o rosto dela voltou à minha mente.
Como se minha memória estivesse sabotando minha tentativa de
distração.
Os olhos. A boca. A maldita forma como o corpo dela se movia
enquanto saía da cafeteria.
Soltei um palavrão baixinho.
Definitivamente, eu precisava transar. E esquecer.
Antes que aquele maldito esbarrão se tornasse mais do que só
um acidente idiota.
Mia Jones
Acordei antes mesmo do despertador tocar.
Não que fosse difícil — mal consegui dormir. Fiquei rolando de
um lado para o outro na cama, tentando me convencer de que não
havia motivo para tanto nervosismo. Era só um novo emprego. Só
mais uma rotina diferente. Só mais uma chance de provar que eu
era boa o suficiente.
Mentira. Quem eu tô querendo enganar?
Era tudo. Uma nova vida. Uma responsabilidade enorme. E a
primeira oportunidade real de mostrar que eu podia ser alguém. Que
o esforço da minha mãe valia a pena. Que cada centavo da minha
dívida estudantil, um dia, se transformaria em orgulho.
Tomei banho, vesti uma roupa social discreta, mas elegante, e
me maquiei com o básico. Só o suficiente para parecer mais
desperta do que realmente estava. Amarrei o cabelo num rabo de
cavalo firme e, antes de sair, dei um abraço apertado em minha
mãe, sentindo aquele carinho que me ancorava em dias de caos.
Peguei o metrô até o hospital. As mãos suadas seguravam
minha bolsa como se ela fosse me impedir de tropeçar no próprio
medo. Quando saltei na estação, o prédio imenso do MCM se ergueu
à minha frente, imponente como um castelo de concreto, vidro e
história.
Eu sempre soube da importância daquele hospital. Todo mundo
em Chicago sabia. Mas agora, ele era mais do que uma referência
do lugar de salvar vidas — como fez com meu irmão e padrasto.
Agora, era meu novo lar profissional. E a simples ideia me dava
vontade de sorrir e vomitar ao mesmo tempo.
Assim que entrei, fui direto para o andar administrativo, onde
Evellyn me esperava. Andy, a recepcionista simpática, sorriu assim
que me viu.
— A senhorita Donnelly a aguarda, senhorita Jones.
Assenti, agradecendo, e entrei no escritório com o coração
acelerado. Evellyn estava de pé, ao telefone, mas me lançou um
sorriso caloroso assim que me viu. Finalizou a ligação com um “te
retorno em breve” e me chamou com um gesto.
— Bom dia, Mia. Que bom que veio.
— Bom dia. E obrigada mais uma vez pela oportunidade.
— Eu que agradeço. Tenho certeza de que você vai brilhar
aqui.
Conversamos por alguns minutos. Ela me mostrou meu novo
crachá e me entregou um tablet com o sistema interno do hospital.
Explicou minha rotina, horários, responsabilidades e me apresentou
a algumas pessoas. A cada nova informação, eu sentia a ansiedade
se transformando em entusiasmo. A energia dela era contagiante, e
estar ao lado de alguém tão competente me fazia querer ser ainda
melhor.
Já estava quase me convencendo de que tudo daria certo
quando seguimos até a sala de reuniões, onde aconteceria uma
coletiva para apresentar os novos projetos do setor de imagem e
relações públicas.
E foi quando ele entrou.
Eu estava organizando algumas pastas na bancada lateral
quando a porta se abriu e ele surgiu no batente, alto, elegante, com
um jaleco impecável por cima da camisa social. Cabelos escuros
perfeitamente desalinhados, barba marcada, o olhar... aquele
maldito olhar azul que parecia me atravessar feito uma tempestade
em câmera lenta.
Não era possível.
O homem da cafeteria.
Ele também estava ali. Aqui. No mesmo hospital que agora era
meu novo emprego.
Tentei me esconder atrás de uma pasta, como se fosse possível
sumir daquela situação embaraçosa, mas foi inútil. Nossos olhos se
encontraram por um segundo que durou uma eternidade. E eu juro
que vi o reconhecimento surgir nos olhos dele — junto com algo que
parecia... irritação?
Ótimo. Meu primeiro dia de trabalho e eu já estava encarando
o grosso do café. Só que agora ele estava na sala de reuniões do
hospital e provavelmente tinha algum cargo importante demais pra
alguém como eu.
— Mia? — A voz de Evellyn me chamou de volta à Terra. —
Está tudo bem?
Olhei para ela, depois para ele, que agora estava de braços
cruzados, encostado na parede do fundo da sala, me observando
com uma expressão difícil de decifrar.
— Claro… — engoli em seco, ajeitando a pasta contra o peito
como se fosse um escudo.
Respira, Mia. É só seu novo colega de trabalho.
Só o homem mais bonito — e mais mal-educado — que você já
viu na vida.
Isso vai ser... interessante.
Brandon O’Connor
Não acreditei quando entrei na sala de reuniões para ouvir
sobre o que estavam organizando para a arrecadação de fundos
para o hospital e dei de cara com a estranha da cafeteria.
Depois do impacto inicial de me reconhecer, ela recuperou o
controle sobre si e passou o restante da reunião sendo bem
participativa, dando várias sugestões para melhorar a imagem do
hospital e atrair mais benfeitores. Ela parecia brilhar ao falar, e todos
ao redor estavam encantados por ela — os homens, principalmente.
Não pude deixar de notar.
Recebi uma mensagem no pager e precisei sair antes da
reunião realmente acabar. Me troquei e fui para a emergência
pediátrica: uma menina havia caído e sofrido uma fratura exposta na
perna. O doutor Charles já estava fazendo o acompanhamento da
garotinha, mas pediu que eu fosse chamado.
— Oi, sou o doutor Brandon — me aproximei, pegando a ficha
dela e me apresentando —, sou o chefe da pediatria e vou
acompanhar a filha de vocês na cirurgia.
— Obrigada, doutor — a mãe segurou minha mão e agradeceu.
O pai fez o mesmo em seguida.
— Lyla, vai dar tudo certo — assegurei. Ela tinha doze anos, e
parecia muito forte. — Em breve você vai estar correndo por aí e
adicionando mais alguns fios brancos na cabeça dos seus pais.
Os três riram.
— As meninas vão te levar para o centro cirúrgico daqui a
pouquinho. Vou me preparar e a gente se encontra lá, ok? — Ela
assentiu, e eu me afastei.
Saí da sala de emergência e fui direto para o centro cirúrgico
me preparar. Os corredores do hospital eram meu santuário:
organizados, eficientes, previsíveis. Diferentes das pessoas.
Especialmente daquelas que surgem do nada, cheias de sorrisos
fáceis e uma tendência absurda a atrapalhar meu dia.
Lá estava ela.
De novo.
Eu não podia acreditar.
O mesmo cabelo desordenado com aquelas ondas estúpidas
que fazem ela parecer mais jovem, mais inocente e mais…
despreocupada. O mesmo olhar distraído, como se estivesse num
parque — e não num ambiente onde vidas dependem de
concentração.
Parei no meio do corredor, cruzando os braços, o prontuário
contra o peito. Ela se aproximava, rindo de algo que um residente
disse. Quando me viu, hesitou um segundo, mas continuou
andando.
— Você tá me seguindo agora? — disparei, franzindo a testa.
Ela arregalou os olhos e soltou uma risada, como se eu tivesse
contado a melhor piada do século.
— Te seguir? — Seu sorriso se ampliou. — Nem se você fosse
uma novela turca.
— O que você está fazendo aqui? — ignorei sua petulância.
Nem sabia o que ela quis dizer com “novela turca”. — No meu
hospital? — O residente que a acompanhava já tinha caçado seu
rumo a essa altura.
Ela cruzou os braços, imitando a minha postura e arqueou uma
sobrancelha. — Não vi seu nome na fachada do prédio. E,
sinceramente? Nem sei seu nome. Não me interessa. Eu trabalho
aqui. Tenho mais o que fazer do que ficar conversando com um
cretino que acha que o mundo gira em torno dele.
Antes que ela virasse as costas, segurei seu braço — firme,
mas sem força desnecessária. Só o bastante para deixar claro que
eu falava sério.
— Fique longe de mim — murmurei. — Não quero mais
esbarrar em você.
Ela puxou o braço com força, os olhos faiscando. — Então me
solta. E fica tranquilo, não vai ser um problema. — Ela me olhou de
cima a baixo antes de continuar: — Não tenho o menor interesse em
respirar o mesmo ar que um ser tão rabugento e de mal com a vida.
Ela se virou e saiu andando, deixando um rastro de perfume e
irritação atrás de si.
Suspirei.
Ótimo. Como se minha vida já não estivesse complicada o
suficiente. Tentei ignorar nosso encontro e focar no trabalho. Eu
tinha uma cirurgia para acompanhar, muitos pacientes para atender
e nenhum tempo a perder com essa garota.
Capítulo 08
Mia Jones
Segundo dia de trabalho. Ainda não sei como meu cérebro
absorveu tudo o que aprendi no primeiro, mas cá estou, sentada na
minha sala, com um crachá novo brilhando no peito, tentando não
surtar com a quantidade de tarefas que anotei num bloquinho cor-
de-rosa. A lista é longa, a letra é péssima, e eu estou aqui, igual a
uma detetive, tentando decifrar meu próprio código secreto.
Estava tão concentrada que quase caí da cadeira quando a
porta se abriu de repente e Evellyn apareceu.
— Mia, vem comigo. Quero te apresentar ao chefe da Pediatria.
Ele também é responsável pelas crianças da creche do hospital, além
de ser um dos donos.
Assenti, levantando rápido demais e derrubando a caneta no
chão. Claro. Ótimo. Um clássico.
— Ah! — comentei, enquanto a seguia pelo corredor. — Eu
ouvi duas enfermeiras se referindo a ele como “doutor Gru”. Tipo, o
do filme? Careca, rabugento, mas que, no fundo, tem um coração
enorme?
Evellyn riu alto, como se estivesse esperando por isso.
— Ele não é careca, mas o humor realmente lembra. O doutor
O’Connor não é muito simpático, mas é um dos médicos mais
dedicados que já vi. As crianças o adoram. E ele realmente faz
sucesso com os pequenos… e com algumas mães também.
Arqueei uma sobrancelha, fingindo um ar inocente.
— Entendi. O famoso mal-humorado irresistível. Toda empresa
tem um desses.
Respirei fundo, o riso morrendo nos meus lábios enquanto uma
lembrança me atravessava como uma onda gelada.
— Meu irmão e meu padrasto… eles estavam no tiroteio no
cinema, seis meses atrás. Eles foram trazidos pra cá. — Senti meu
coração apertar só de lembrar. — O médico que salvou o Oliver… eu
nunca soube como agradecer. Só sei que o nome dele era Brandon
O’Connor. É o mesmo médico?
Evellyn virou o rosto pra mim com um sorriso suave.
— O próprio. Ele estava na reunião de ontem, mas não sei se
você o notou. Hoje é seu dia de sorte, porque… é justamente ele
que vamos ver agora.
O elevador chegou com aquele “plim” característico, e
descemos para o andar da Pediatria.
Assim que as portas se abriram, fui invadida por uma sensação
inesperada. Diferente dos outros andares frios e estéreis, a ala
pediátrica era… viva. Havia cores nas paredes, desenhos variados, o
som distante de risadinhas. Se alguém me dissesse que aquilo ali era
uma escola infantil, eu acreditaria.
Eu estava tão maravilhada que só voltei à realidade quando
ouvi a voz da Evellyn:
— Olha, ele está ali.
Segui o olhar dela e... parei. Juro que o tempo deu uma
travada. O coração? Pulou uma batida. Ou três.
Porque ali, parado em frente a um dos quartos, com um jaleco
branco e um café na mão, estava o cretino da cafeteria.
Aquele homem.
A mesma postura arrogante. O mesmo corpo que minha mente
idiota teve a audácia de catalogar como "perfeitamente irritante".
Era ele. O doutor Brandon O’Connor.
O herói do meu irmão. E o homem que me tratou como uma
destrambelhada dois dias atrás.
— Doutor O’Connor! — Evellyn chamou, e ele virou
lentamente.
Nossos olhares se encontraram e, por um momento longo
demais, fiquei sem saber como funcionava a respiração. Ele me
reconheceu na hora. Claro que sim. E o sorrisinho de canto que
surgiu no rosto dele não foi nada simpático.
Ele caminhou ao nosso encontro como um felino
despreocupado por saber que estava no seu habitat. Onde ele
reinava e todos eram seus servos ou suas presas.
— Brandon, essa é minha nova assistente — Evellyn começou a
falar sem se dar conta da tensão que pairava no ar entre nós —, Mia
Jones.
— Ah, sim… nós já nos conhecemos — ele disse, se
aproximando mais. — Sua nova assistente, Evellyn, tem um certo
talento para… derrubar café nos outros. Um tanto quanto distraída,
mas eficiente, eu espero.
Filho da…
Sorri. Um daqueles sorrisos educados, falsos e perfeitamente
afiados.
— E você continua mal-humorado, doutor O’Connor. Pelo visto,
isso não era só impressão.
Ele arqueou uma sobrancelha, como se não esperasse que eu
revidasse tão rápido.
— Bom saber que sua memória está funcionando
perfeitamente, senhorita.
— Como um computador de última geração — completei, com
um toque de orgulho.
Ele me encarou por mais um instante, e juro que vi um
lampejo de curiosidade — ou provocação — nos olhos dele antes de
murmurar:
— Isso vai ser… interessante — disse ele, com aquela voz grave
que parecia carregar ironia até quando falava coisas simples, tipo a
previsão do tempo.
— Acredito que não vá ser tanto assim se o senhor decidir ser
civilizado — rebati com a melhor entonação de uma profissional
educada que eu conseguia.
Os olhos dele brilharam com alguma coisa que eu não soube
identificar. Curiosidade? Diversão? Tédio? Não dava pra ler aquele
homem com facilidade, o que me deixava ainda mais irritada.
Brandon O’Connor era uma muralha. De corpo, de atitude, de
tudo. Um daqueles que você bate e volta, mesmo sem querer bater
em nada.
— Bom, Mia — disse Evellyn, como se quisesse aliviar a tensão
que dava pra cortar com um bisturi —, esse é o responsável pela ala
pediátrica e pelas crianças da creche do hospital. Ele também
supervisiona parte dos programas sociais da fundação. Você vai lidar
bastante com ele.
Ele cruzou os braços, o jaleco se abrindo um pouco mais e
revelando os contornos definidos do tórax sob a camisa vinho do
uniforme hospitalar que ele usava por baixo. Ótimo. Tinha que ser
bonito, inteligente, arrogante e… tá, já chega Mia. Foco.
— Contanto que ela não resolva me afogar em café outra vez,
acho que podemos nos entender — ele comentou, um sorrisinho
presunçoso nos lábios.
— Prometo manter as bebidas longe do seu jaleco. — Sorri,
sem me deixar abalar. — Contanto que o senhor mantenha os
comentários ácidos sob controle.
Antes que ele pudesse responder, uma voz masculina soou
atrás de nós, grave e descontraída:
— Isso aqui está parecendo o início de uma comédia romântica
ruim ou é só impressão minha?
Virei-me e dei de cara com um homem loiro, alto, de terno
impecável e um sorriso fácil que contrastava completamente com o
ar fechado do doutor O’Connor.
— Mia, esse é o doutor Henry Prescott — Evellyn falou, já
sorrindo. — Nosso chefe da oncologia pediátrica e um dos membros
mais queridos do hospital.
— E mais modestos também — ele completou, estendendo a
mão pra mim com um charme natural. — Muito prazer.
— Mia Jones — respondi, apertando a mão dele.
— Nova assistente da Evellyn, certo? Ouvi comentários muito
positivos. E… — ele olhou de lado para Brandon — já foi oficialmente
recebida pelo nosso doutor rabugento.
— Estou sobrevivendo. — Sorri.
— Impressionante — Henry disse, rindo. — Isso por si só já te
torna parte da equipe. Só não deixa ele te intimidar, tá? Por trás
dessa carranca tem um bom coração. Bem no fundo, mas tem.
Brandon revirou os olhos e soltou um suspiro.
— Dá pra parar de espalhar mentiras?
— Estou só tentando manter sua reputação em um nível
minimamente humano — Prescott respondeu, rindo. Depois olhou
pra mim com um sorriso cúmplice. — Ele odeia que as pessoas
gostem dele, então só por isso já vale tentar.
— Vou anotar isso — respondi, tentando esconder o quanto
aquele ambiente descontraído, mesmo com as alfinetadas, estava
me fazendo bem.
Evellyn olhou o relógio e tocou meu ombro de leve.
— Temos outra reunião em quinze minutos. Mas agora que
você conhece o doutor O’Connor, talvez consiga sobreviver aqui sem
grandes traumas.
— Traumas psicológicos não são cobertos pelo plano da
empresa, só pra constar. — Brandon resmungou, já se virando para
uma das salas.
Troquei mais um olhar com Henry, que sorriu de leve, e depois
me despedi com um aceno.
Enquanto seguíamos de volta, meu coração ainda batia forte.
Não apenas por ter conhecido oficialmente o médico que salvara o
Oliver, mas porque… aquilo tudo estava começando a parecer o
começo de alguma coisa. E isso me deixava nervosa. Muito nervosa.
E quando Lays souber que o doutor Gru, o homem da cafeteria
e o médico que salvou meu irmão… são a mesma pessoa.. ah, ela
vai surtar.
Capítulo 09
Brandon O’Connor
Assinei o último relatório da manhã com um suspiro longo,
sentindo a rigidez nas costas gritar pela pausa que eu não teria.
Estava avaliando um bebê de apenas três meses, com um quadro
preocupante de insuficiência respiratória. Os exames ainda não
tinham saído, mas o pulmão dele soava como se estivesse sendo
espremido por dentro. A mãe — uma adolescente claramente
exausta — me olhava com olhos arregalados, e eu tentei ser o mais
direto possível sem assustá-la mais do que ela já estava.
Quando finalmente consegui sair do quarto, encontrei Gleina
parada na porta, como uma sentinela. A prancheta em mãos e
aquele olhar de quem já sabia que eu não estava no melhor dos
humores.
— As altas do quarto 205 e 211 estão liberadas, doutor
O’Connor. Aqui estão os papéis. — Ela estendeu os formulários pra
mim, e eu assinei com o mesmo entusiasmo de quem ganha na
loteria, porque era exatamente assim que me sentia a cada criança
que saía daqui de volta para suas casas, suas famílias, suas vidas.
— Alguma novidade sobre as duas enfermeiras novas? —
perguntei, devolvendo a prancheta e esticando o pescoço, tentando
afrouxar a tensão acumulada.
Ela soltou um som entre um riso nasalado e uma bufada.
— Nada. O RH ainda não respondeu meus e-mails, nem
retornou minhas ligações.
Revirei os olhos e deixei escapar um resmungo.
— Ótimo. Vamos ver quem entra em colapso primeiro: a ala
pediátrica ou eu.
— Se não respirar fundo de vez em quando, você vai ter um
infarto antes dos quarenta — disse ela, cruzando os braços e
arqueando a sobrancelha. — E olha que te avisar é um dos meus
hobbies favoritos.
Soltei um riso de verdade. Não aquele automático, de
educação. Um de verdade. Gleina era uma das poucas pessoas que
conseguiam arrancar isso de mim sem esforço. Talvez porque fosse
impossível não gostar dela. Filha de brasileiros, cheia de histórias
sobre a infância entre o inglês e o português, dizia que tinha “alma
americana com tempero”. E, honestamente? Tinha mesmo.
Temperamento afiado, coração mole. Era a mãezona da ala
pediátrica — respeitada por todos, temida por quem não sabia o que
estava fazendo.
Caminhamos juntos pelo corredor, os sons familiares do
hospital preenchendo o ambiente: o apito distante de um monitor, o
riso abafado de uma criança, o som de passos apressados de um
residente desesperado por cafeína.
Gleina desviou para o posto de enfermagem, e eu continuei até
os quartos das altas. No caminho, tentei ignorar o fato de que minha
cabeça — traidora do jeito que era — resolvera me lembrar da
garota da cafeteria.
Mia Jones.
Uma semana. Sete dias inteiros, e eu ainda me pegava olhando
em volta — nos corredores, no elevador, até mesmo no
estacionamento. Ontem, a vi saindo da Break Room com dois copos
de café nas mãos, e agradeci mentalmente a distância entre nós. Se
ela tivesse esbarrado em mim de novo, acho que teria entrado em
combustão espontânea.
Mas o pior não era o café. Era o rosto. Os olhos. O jeito como
ela me olhou naquele dia como se fosse uma tempestade pronta a
cair — só que quem ficou encharcado fui eu.
Bufei, tentando afastar o pensamento. Eu precisava transar de
novo. Urgente. Ou talvez fosse outra coisa. Alguma coisa mais
profunda. Mais incômoda.
Droga.
Sacudi a cabeça e bati levemente com o prontuário contra a
palma da mão, tentando me focar nas crianças. Elas sim, eram a
prioridade. Sempre foram.
Mas se essa garota continuasse cruzando o meu caminho...
não sei quanto tempo mais eu conseguiria manter meu foco.
E eu detesto perder o controle.
Brandon O’Connor
Sirius estava deitado ao lado do sofá, a cabeça apoiada na
minha perna enquanto eu passava os dedos distraidamente por trás
da orelha dele. A TV estava ligada em algum documentário aleatório
sobre o comportamento das baleias — zero foco da minha parte — e
a cerveja na mão já estava quente.
— Você acredita nisso, Sirius? — falei, soltando um suspiro. —
O moleque novo da Pediatria tá dando em cima da assistente da
Evellyn.
Ele levantou a cabeça e me olhou com aqueles olhos escuros e
atentos, como se entendesse tudo. Latiu uma vez, como se dissesse:
“tá com ciúmes, né?”
Revirei os olhos e me joguei um pouco mais contra o encosto
do sofá.
— Claro que não é ciúmes. Ela é só... irritante. E barulhenta. E
tem aquele olhar de quem vai fazer exatamente o oposto do que
você mandou, só pra te provocar.
Sirius me olhou sem piscar. Um julgamento silencioso e cheio
de razão.
— Tá, talvez só um pouco — fiz uma pausa. — Mas também,
você a viu? Claro que não viu, você estava em casa. Mas ela tem
aquele sorriso que desarma, e... aqueles olhos, que não saem da
minha mente. E tem aquele maldito café que caiu na minha camisa
favorita que me faz pensar nela toda vez que penso em café.
Sirius se levantou, deu uma volta e deitou de novo com um
suspiro pesado — claramente cansado dos meus dramas humanos.
— Tá bom, já entendi. Vou dormir. — Desliguei a TV, joguei a
garrafa vazia na lixeira e fui direto pro quarto, ainda com a imagem
dela e da tal conversa de almoço martelando na cabeça.
Brandon O’Connor
Estava sentado à minha mesa, os braços cruzados sobre o
peito, enquanto encarava a tela do computador, onde a agenda da
próxima semana já me causava uma leve dor de cabeça. O maldito
baile de arrecadação de fundos ocupava uma boa fatia do meu
sábado à noite, e a simples ideia de colocar um terno caro, sorrir
para empresários e fingir que estava completamente à vontade era
torturante.
Mas não havia como fugir. Aquele evento era uma das maiores
fontes de financiamento para os nossos programas gratuitos — e ver
uma criança ser tratada sem que os pais precisassem escolher entre
comida e saúde valia o sacrifício.
Ouvi duas batidas na porta antes dela se abrir sem esperar
resposta.
— Vai mesmo ficar aí fazendo essa cara de enterro a semana
toda por conta do baile? — Viktor entrou como sempre fazia: com ar
de dono do lugar, mesmo sendo dono somente de trinta e nove por
cento dele.
Soltei um suspiro e empurrei meu tablet em sua direção, com a
lista de convidados aberta.
— Já viu a quantidade de políticos que vai ter esse ano?
Ele se acomodou na poltrona em frente à minha mesa,
pegando o aparelho.
— Um mal necessário. Pronto para sorrir para as câmeras
como o bom herdeiro carismático que você é?
Revirei os olhos.
— Odeio esse tipo de evento. Gente metida, sorrisos falsos e
perguntas inconvenientes. Mas sei o quanto é importante para o
hospital. Vamos fingir que tenho talento para relações públicas por
uma noite.
Viktor riu, se recostando na poltrona.
— Vai levar alguém com você ou vai sozinho como sempre?
— Adrienne estará na cidade — respondi, sentindo uma
pontada de alívio só de mencionar minha irmã. — Vai me
acompanhar. Faz tempo que não a vejo direito, e ela adora esse tipo
de coisa.
— Que ótimo! — Viktor se animou. — Faz séculos que não a
vejo. Ela ainda está namorando o filho do senador?
— Não. É justamente por isso que ela está vindo para casa —
digo, enquanto giro minha caneta entre os dedos. — Ela não falou
muito, só disse que precisava respirar longe de tudo.
— Vai ser bom pra você. Você fica menos... ranheta com ela
por perto.
— Cuida da sua vida, West — rosnei, com um meio sorriso.
Ele ergueu as mãos em rendição, ainda rindo.
— E você? Vai com alguém? — perguntei, levantando uma
sobrancelha.
— Vou com a Evellyn — respondeu, com naturalidade. — Uma
saída tática. Ela também está fugindo de complicações e sabe que ir
comigo afasta os chatos de plantão.
— Uma dupla de gelo, então. Vão congelar o salão inteiro.
— Talvez. Ou talvez a gente só conquiste mais doadores com
nosso charme sombrio.
Dei uma risada curta. Era impossível não se divertir com ele,
mesmo em meio ao caos.
— Só espero que essa noite passe rápido. Quanto menos
conversas forçadas, melhor.
— Mas vamos conseguir mais dinheiro para o hospital, e é isso
que importa — ele completou.
Assenti. No fim das contas, tudo girava em torno disso: manter
o legado de nossas famílias e o que construímos de pé. Para mim,
era também uma forma de oferecer um futuro a crianças que, de
outra forma, não teriam nenhum.
E, se para isso eu tivesse que sorrir e fingir simpatia por
algumas horas... que assim fosse.
Mia Jones
Sorrisos, flashes, vestidos deslumbrantes e taças de espumante
circulando por todos os lados. Era o típico cenário de um baile de
gala que a gente vê em filmes — algo que eu só conhecia pela TV
ou pelas colunas sociais. E, agora, ali estava eu. No meio de tudo
isso.
Com o vestido azul-petróleo que comprei para o meu baile de
formatura, um coque preso com dez grampos e um batom que
minha mãe jurou que era “a minha cara”. Eu me sentia bonita.
Diferente. Mas também completamente deslocada.
Fiz questão de sorrir para cada pessoa que me foi apresentada
ao lado de Evellyn, mas por dentro ainda tentava digerir o choque
de descobrir que o doutor Gru era casado.
Quando ouvi a apresentação “Adrienne O'Connor”, senti a alma
sair do corpo. O que era totalmente irracional, afinal, ele era
somente um cara muito mal-educado que eu conhecia há pouco
mais de quinze dias.
É claro que aquele olhar malicioso que ele me lançou, quando
nossos olhos se encontraram tinha uma razão. Ele tinha percebido. E
estava se divertindo com isso. A única pessoa que não deveria notar
que eu fiquei abalada com aquela informação notou, e a vergonha
que eu sentia iria pagar em longas prestações — igual ao meu
financiamento estudantil.
Fugi da roda de conversa com a desculpa de resolver algo com
a equipe da recepção e fui respirar antes que minha dignidade
explodisse em confete colorido pelo salão.
Antes que pudesse sair do salão, fui parada por Brian. Estava
distraída com nossa conversa quando senti aquele olhar de novo.
Mesmo de longe. Como se minha pele reconhecesse o peso dele.
Como se meu corpo inteiro soubesse exatamente onde Brandon
O'Connor estava naquele salão lotado.
Quando me virei, discretamente, nossos olhos se encontraram
por um segundo que pareceu uma eternidade. O maxilar dele estava
tenso. O copo em sua mão, imóvel. O olhar, afiado como uma
navalha.
Desviei o olhar e não voltei a procurar por ele. Aquele homem
estava bagunçando minha cabeça. Depois de algum tempo, consegui
me distanciar de Brian e voltei para perto de Evellyn, que já estava
longe do doutor O’Connor, conversando com algumas pessoas
influentes da política de Chicago.
Estava concentrada no que Evellyn falava sobre a extensão dos
programas sociais do MCM, quando ele surgiu do nada ao meu lado,
com aquele perfume amadeirado e aquele terno que devia ter sido
feito sob medida para ele, porque mais perfeito não dava pra ficar.
— Então — ele disse baixo, inclinando um pouco o rosto — por
que você ficou tão incomodada com a presença da Adrienne?
Virei-me de frente para ele, arregalando os olhos.
— O quê? Tá maluco? — falei baixo, só para ele ouvir, mas
deixando minha indignação evidente no tom.
Ele sorriu, devagar. O típico sorriso de quem sabe exatamente
o que está fazendo.
— Maluco? — perguntou de forma retórica. — Seu rosto ficou
vermelho quando ouviu o sobrenome, e depois ficou procurando por
algo nas mãos dela. Mas talvez seja coisa da minha cabeça.
— Totalmente da sua cabeça — respondi, rindo nervosa. —
Aliás, absurdo total. Por que eu me incomodaria com isso ou com
qualquer coisa referente a você?
— Realmente, por que não, né mesmo? — ele disse, levando o
copo que segurava com uma bebida âmbar aos lábios. — Mas, só
para esclarecer, Adrienne é minha irmã.
— Sua... sua irmã? — Deus, eu era patética e a forma como
ele sorriu ao ver como me deixou sem palavras, me fez sentir
vontade de estapear a cara linda dele.
— Não sei qual reação sua me divertiu mais. — Ele não ia parar
de sorrir, não? Ele tinha um prazer sádico em me irritar?
Antes que eu conseguisse pensar numa resposta minimamente
inteligente, Brian apareceu ao meu lado como se tivesse surgido de
uma nuvem de fumaça encantada.
— Mia — ele sorriu, me estendendo a mão — aceita dançar?
Hesitei por um segundo. Não porque não quisesse dançar, mas
porque Brandon ainda estava ali. Perto demais. Intenso demais.
— Claro — aceitei, mais para sair dali do que qualquer outra
coisa. E foi ótimo ver o sorriso morrer na cara daquele doutor
cretino.
Deixei que Brian me conduzisse até a pista. A música era lenta,
suave, o tipo que pedia uma certa proximidade. Mantive uma
distância educada, que logo foi ignorada por ele quando tentou
envolver minha cintura. Sorri, fingindo que não percebi.
Mas meu foco não estava na dança.
Não consegui evitar.
Olhei por cima do ombro dele. E lá estava Brandon, com o
semblante ainda mais fechado que antes. Conversava com Viktor e
Adrienne, mas seus olhos e pensamentos não estavam neles.
Estavam em mim.
Ou era só coisa da minha cabeça? Talvez.
Mas algo me dizia que não.
Algo me dizia que ele não gostava de me ver dançando com
Brian. Que isso, de algum jeito, o incomodava. Tanto quanto me
afetou pensar nele como um homem casado. E isso, por mais que eu
não admitisse nem para mim mesma, fazia meu coração bater de
um jeito que eu preferia ignorar.
Brandon O’Connor
O ar da manhã ainda estava fresco quando empurrei a porta de
casa e entrei com Sirius ao meu lado, ofegante, mas satisfeito com a
corrida. Joguei a chave no aparador, tirei a coleira dele e o deixei ir
direto para a tigela de água, onde ele mergulhou a cara como se
tivesse corrido uma maratona, e não apenas o nosso circuito de
sempre.
Ainda estava suado, mas precisava de um momento de
silêncio. Caminhei até a cozinha, preparei um café forte e me sentei
na bancada de mármore, deixando o líquido quente escorrer pela
garganta como se aquilo fosse me preparar para o dia.
Meu celular vibrou em cima da mesa. Quando vi o nome do
meu avô na tela, soltei um suspiro. Sabia que ele ligaria, só não
esperava que fosse tão cedo, em pleno domingo.
— Vovô — atendi, tentando parecer mais animado do que
realmente estava.
— Brandon — ele respondeu em seu tom sempre firme, direto.
— Não vou tomar seu tempo. Só queria saber se já tem uma noiva
pra me apresentar. Seu prazo está acabando, garoto.
Fechei os olhos, respirando fundo.
— Vovô...
— Não me venha com desculpas. Sabe muito bem o que está
em jogo. Se no seu aniversário você não estiver casado, o acordo se
encerra. E sinceramente, Brandon, já passou da hora de você...
— Eu tenho uma noiva.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Do outro lado
da linha, só ouvi a respiração dele — lenta, surpresa.
— O quê?
— Eu tenho uma noiva — repeti, mantendo a voz firme,
mesmo que a mentira ainda estivesse quente na minha língua. —
Vamos nos casar em breve.
Outro segundo de silêncio. E então, o som mais improvável:
um suspiro. Um suspiro real, genuíno. De alívio.
— Graças a Deus. — Ele pareceu mais calmo de repente. — E
por que não fui apresentado a ela ainda?
Levantei-me da cadeira, como se isso fosse me fazer pensar
mais rápido.
— O hospital está uma loucura. A gente quase não tem tempo
pra respirar, mas... vamos te visitar em breve. Prometo.
— Hum. Não demore. Estou ansioso para conhecê-la. E
também pra ver se ela realmente existe, não é?
Ele deu uma risada curta, mas eu sabia que aquela frase não
era só uma brincadeira. Ele suspeitava. E com razão.
— Ela existe, vovô. Você vai gostar dela. — Era o que eu
esperava que acontecesse quando eu conseguisse uma.
— Certo. Estou aguardando vocês. E, Brandon...
— Sim?
— Fico feliz. Muito feliz. — A voz dele suavizou, e aquilo
apertou algo dentro do meu peito. — Você merece ter alguém.
Alguém de verdade ao seu lado.
— Obrigado — murmurei, me sentindo péssimo por estar
mentindo assim.
Desliguei. Fiquei encarando o telefone por um instante, como
se aquilo fosse me dar alguma resposta.
— Você tá maluco?
A voz veio da porta da cozinha. Virei rápido e dei de cara com
Adrienne, de moletom, cabelo preso de qualquer jeito e uma
sobrancelha arqueada de forma julgadora.
Droga.
Ela cruzou os braços, encostada no batente.
— Quer me contar quando exatamente ficou noivo? Porque,
sinceramente, fiquei confusa.
— Adrienne... — suspirei, passando a mão no rosto. — Eu
posso explicar.
— Pode começar agora — ela disse, entrando na cozinha como
se estivesse prestes a interrogar um criminoso. — E é bom que a
explicação seja muito boa, porque eu quero saber quem é a mulher
que você vai levar pro vovô conhecer sem nem me contar. E... — ela
parou, semicerrando os olhos — não me diga que é quem eu acho
que é.
A tensão nos meus ombros aumentou. Sirius se deitou no
chão, completamente alheio à confusão que eu mesmo estava
prestes a causar.
Mia Jones
O cheiro da lasanha da minha mãe invadia a casa toda,
misturado ao som de risadas vindo da sala. Domingo era
oficialmente dia sagrado: almoço em família, sem desculpas, sem
faltas. E por mais que às vezes eu só quisesse passar o dia de
pijama na cama, não havia nada no mundo que substituísse esse
momento. A mesa já estava posta e, assim que me sentei com meu
prato lotado, o interrogatório começou — como de costume.
— Então, Mia — começou minha mãe com aquele sorriso
maroto no rosto, apoiando o queixo nas mãos. — Como foi o tal
baile do hospital?
— Foi lindo — respondi, pegando o garfo. — Sério, mãe… o
lugar estava todo decorado, parecia cena de filme. E a imprensa em
peso. Eu me senti meio deslocada no começo, mas deu tudo certo.
— Você estava maravilhosa — disse Olivia, revirando os olhos,
dramática como toda adolescente de quatorze anos. — Só espero
que tenha aproveitado para arranjar um namorado e parar de pegar
no meu pé.
— Hahahaha! — soltei uma risada, olhando pra ela com um
sorriso. — Olha quem fala… Eu só pego no seu pé quando você dá
motivo, sua folgada.
— Eu reparava quando estive internado — Anthony, meu
padrasto, entrou na conversa com aquele ar de quem vai soltar uma
pérola. — Aquele hospital é cheio de médico bonitão. Não me diga
que nenhum te chamou atenção?
— Pai! — exclamei, rindo e quase derrubando meu garfo. — Eu
estou lá a trabalho, não a caça de um namorado.
— E alguém disse que não pode paquerar enquanto trabalha?
— ele rebateu, divertido. — Multitarefas, filha. Isso é uma habilidade
importante.
Todo mundo caiu na risada.
— Eu acho que a Mia deveria, sim, encontrar alguém —
comentou Olivia, cruzando os braços. — Assim ela para de se
preocupar tanto comigo e me deixa viver minha vida!
— Tá bom então, rebelde sem causa — provoquei, apertando a
bochecha dela, que resmungou.
— Só lembrando que qualquer pretendente vai ter que passar
pelo meu controle de qualidade — disse Oliver, meu irmão de oito
anos, com a cara mais séria do mundo. — Não vou deixar qualquer
um namorar minha irmã.
Meu coração derreteu. Beijei o topo da cabeça dele e sorri.
— Que ciumento, meu Deus! Um cavalheiro em miniatura.
— Tá certo ele — completou Anthony. — Depois do que aquele
idiota do Kevin te fez, não dá pra confiar em qualquer um.
O nome dele ainda dava um incômodo, uma pontada chata no
peito. Kevin foi o meu erro — daqueles que você tenta justificar,
relevar, salvar… até perceber que a única coisa que está salvando é o
orgulho ferido de alguém que nunca teve respeito por você.
— Kevin era um moleque — minha mãe disse, pegando minha
mão. — Você precisa abrir o coração de novo, Mia. Não pode ficar
presa a esse passado.
— Eu sei… — suspirei, apoiando o garfo no prato por um
instante. — Eu não tô presa. Só… estou com os olhos mais atentos,
só isso.
Ficamos em silêncio por um momento, até que minha boca se
abriu antes mesmo que o cérebro pensasse.
— Tem… um médico.
Todos viraram para me encarar como se eu tivesse gritado que
ia fugir para Las Vegas.
— Ué! — Anthony arregalou os olhos. — E você aí toda
misteriosa!
— Ele é ranzinza — disse, rindo sozinha ao lembrar da última
conversa. — Sério, tipo… nível "grumpy do ano". Mas também é o
homem mais bonito que eu já vi na vida. E, claro, nós dois juntos
não funcionamos. Água e óleo.
— Isso aí é a receita clássica para romance em filme, hein —
Olívia murmurou, mordendo a ponta da garrafinha de suco.
— Mais uma vez: a vida não é um filme — eu apontei o dedo
pra ela, sorrindo. — A vida real é muito mais complicada.
Mas no fundo, bem no fundo… o sorriso bobo no canto dos
meus lábios entregava mais do que eu gostaria. Porque eu bem que
queria que as coisas entre nós fossem menos complicadas.
Brandon O’Connor
Era fim de plantão — graças a Deus um dia relativamente
calmo. Os corredores estavam mais silenciosos do que o normal,
aquele clima de transição entre o caos do turno e o vazio temporário
antes de tudo começar de novo. Eu caminhava em direção à minha
sala, as mãos nos bolsos do jaleco, o corpo um pouco relaxado, mas
minha cabeça… essa não estava nem perto de descansar.
Fazia horas que eu me pegava pensando na mesma coisa — ou
melhor, na mesma pessoa. Desde que Adrienne plantou aquela ideia
maluca sobre Mia, eu não conseguia mais ignorar o quanto aquilo
fazia… sentido. E também, o quanto era completamente absurdo.
Pedir a assistente da Evellyn em casamento, mesmo que fosse
só de fachada, era o tipo de coisa que alguém desesperado faria. E
embora meu prazo estivesse apertando, eu ainda não tinha descido
até esse nível de insanidade. Certo?
Suspirei, prestes a entrar no corredor onde ficava a minha sala,
quando escutei a voz dela.
Instintivamente, meu passo desacelerou. Uma parte de mim
mandava seguir em frente, a outra — mais teimosa — me fez parar.
Fiquei próximo à parede, fora do alcance da visão, mas perto o
suficiente para ouvir.
— O vestido estava lindo, Mia! Foi você quem comprou? —
perguntou a secretária do andar da administração. O tom dela era
genuíno, quase empolgado.
— Não… — Mia respondeu com uma risadinha nervosa. — Foi
o vestido do meu baile de formatura. Não dava pra comprar outro
igual tão cedo, então tive que usar ele mesmo.
— Ah, mas você ainda vai em muitos eventos como aquele. Vai
arrasar sempre.
— Tomara, né? — Ela riu de novo, mas dessa vez com um
toque de cansaço. — Provavelmente vou ter que alugar ou pegar
emprestado da próxima vez. Por enquanto, o que eu posso comprar
de roupa nova é em loja de departamento, e só se estiver em
promoção. Estou atolada de dívida.
Dívidas? Com o quê?
— É o empréstimo estudantil?
— Sim. Parcelado pelos próximos vinte anos. E ainda tem a
hipoteca da casa dos meus pais… Então, prioridades. Vestido bonito
fica em segundo plano.
Meu peito apertou de um jeito estranho. Aquilo me pegou
desprevenido — não só pelo que ela disse, mas pelo tom de leveza
com que falou. Como se não fosse nada demais estar se virando em
mil para dar conta de tudo. Como se não fosse cansativo pra
caramba viver assim.
Me afastei em silêncio antes que elas me vissem, e dobrei o
corredor, indo direto para a sala do Viktor.
Ele estava terminando de revisar alguns documentos e me
olhou por cima dos óculos quando entrei.
— Você tem cara de quem ouviu vozes do além ou de quem vai
fazer besteira.
— Talvez os dois. — Fechei a porta atrás de mim e me joguei
na poltrona de frente pra ele.
Viktor soltou um riso baixo, cruzando os braços — ciente do
meu drama.
— Isso tem a ver com a ideia maluca que você ainda não
admitiu que está considerando?
— Quem disse que estou considerando?
— Sua cara.
Revirei os olhos e encostei a cabeça no encosto da cadeira.
— Eu escutei uma conversa dela agora… com a secretária do
andar de cima. Falando sobre o vestido do baile ser o mesmo da
formatura, sobre não poder comprar outro, sobre empréstimo
estudantil e ajudar os pais com a hipoteca.
Viktor me encarou em silêncio.
— É só que… — continuei. — A ideia de pedir isso a ela parece
mais errada agora do que antes. Seria como jogar mais uma
responsabilidade em cima de alguém que já carrega um mundo nas
costas.
— Ou talvez não. Talvez seja uma chance de aliviar um pouco
esse mundo. De dividir a carga com alguém. — Ele deu de ombros.
— Mas aí é você quem tem que saber. Só não me apareça casado
com alguém que não olha nos seus olhos. Já tem drama suficiente
por aqui.
Fechei os olhos por um momento. “Dividir a carga.” As palavras
ficaram martelando na minha cabeça.
Era loucura. Pura e simplesmente.
Mas… e se não fosse?
O elevador desliza suavemente pelos andares enquanto eu
apoio as costas contra a parede de aço escovado e respiro fundo. A
conversa com Viktor ainda ecoa na minha cabeça. As palavras dele,
o olhar questionador, o bom senso… tudo jogado contra a loucura
que estou prestes a considerar de verdade.
Casamento por contrato.
Merda.
Eu passo a mão pelos cabelos, frustrado. Eu só queria ir pra
casa, tomar um banho e tentar não pensar nela por cinco minutos.
Só cinco. Mas claro que o universo tem outro plano, porque o
elevador para no quinto andar… e lá está ela.
O destino tem um senso de humor cruel.
— Já não devia ter ido embora? — pergunto, tentando soar
casual, mesmo que a simples visão dela torne o ar mais pesado.
Ela entra com um leve sorriso nos lábios. — Estava esperando
uma carona. Aproveitei pra adiantar umas coisas.
O elevador começa a se mover de novo, e eu fico observando o
número dos andares diminuírem, tentando decidir se falo ou não. Eu
deveria deixá-la ir. Mas quando as portas se abrem no térreo, sigo
seus passos, mesmo sabendo que meu carro está dois níveis abaixo.
Ela me olha de lado, surpresa. — Vai sair por aqui?
— Vou — minto.
Ela se vira para mim ao chegar perto da entrada principal,
pronta para ir embora.
— Mia, espera — falei, com a voz firme. — Podemos conversar
por cinco minutos?
Ela hesita, dá uma olhada no celular. — Acho que sim. Minha
carona ainda deve demorar um pouco.
Carona. Eu travo a mandíbula, me forçando a não perguntar o
que quero.
— Quem é sua carona? — escapa mesmo assim.
Ela ergue uma sobrancelha. — Já estamos nesse nível de
interesse, doutor O’Connor?
— Só estou curioso. É... namorado?
— Não. — A resposta veio seca, e ela não explica mais nada.
Respiro fundo. Não posso mais rodear.
— Tenho uma proposta pra te fazer — falo.
Ela sorri de canto, meio debochada. — Que tipo de proposta?
Espero que não seja nada envolvendo-me buscar café para você.
Sabemos que nós três juntos é a combinação perfeita para o
desastre.
— Estou falando sério — interrompo, seco. — Quero que você
se case comigo. Por contrato.
Ela congela.
O sorriso desaparece, e seus olhos piscam algumas vezes,
como se não tivesse escutado direito.
— O quê?
— Em troca, eu pago todas as suas dívidas. Estudantil. A
hipoteca da casa. Tudo.
Ela dá um passo para trás — chocada, assustada.
— Como você sabe disso? — Sua voz sai cortante, tensa. —
Como você sabe das minhas dívidas?
— Isso não vem ao caso — respondo, firme. — O fato é que
você precisa de dinheiro. E eu preciso de uma esposa. Por dois anos.
Ela me encara por longos segundos, a confusão e a raiva se
misturando no rosto bonito.
— Você... você é louco. Totalmente desequilibrado.
Ela se vira para sair, mas eu seguro seu braço antes que ela se
afaste.
— Só pensa na proposta. É uma troca justa.
Ela se vira com os olhos faiscando.
— Eu não estou à venda — rosna, se livrando do meu toque
com firmeza.
Dou um sorriso torto, mais amargo do que gostaria. — Todo
mundo tem um preço, Mia. Só me diz o seu. Eu pago.
A expressão dela muda. É como se minhas palavras tivessem
acertado um nervo exposto. Ela me encara por um segundo intenso,
e então, dá um passo para trás.
— Fique longe de mim.
E, sem esperar mais uma palavra, vira-se e sai.
Eu fico ali parado, vendo-a se distanciar, até que um carro para
e ela dá a volta entrando no lado do passageiro.
O silêncio que fica é quase ensurdecedor.
Porra.
Que merda eu fiz?
Capítulo 16
Brandon O’Connor
Minhas mãos ainda estão levemente trêmulas — não de
nervosismo, mas de frustração. Merda, nunca fui de tremer. O que
eu esperava? Que ela aceitasse de imediato? Que sorrisse e me
agradecesse por resolver a vida dela em troca de um papel assinado
e algumas aparições públicas?
Claro que não.
Mas, mesmo assim... dói.
Respiro fundo, prendo o ar por alguns segundos e solto
lentamente. Tento me recompor, me lembrar de que isso é só uma
estratégia. Um plano. Frio. Racional. Funcional.
Merda nenhuma.
Entro no elevador de novo, agora de verdade, em direção ao
subsolo. Encosto a cabeça na parede metálica atrás de mim e fecho
os olhos por um segundo.
“Você é louco.”
Talvez eu seja mesmo.
A imagem dela recuando, os olhos arregalados, a forma como
ela puxou o braço de volta… tudo isso está queimado na minha
mente. Eu passei do ponto. Fui invasivo. Arrogante. Estúpido.
Mas o pior de tudo é que eu ainda acho que faz sentido.
Dois anos.
É tudo que eu preciso.
Eu assumo as ações. Mantenho os programas sociais
funcionando. Seguro o hospital. E ela… ela teria a vida resolvida. A
dívida estudantil. A hipoteca da casa da família. Um recomeço. É um
bom negócio.
Então por que eu me sinto como um babaca?
Quando o elevador chega ao subsolo, saio em passos lentos
em direção ao meu carro. Sirius deve estar jogado no sofá agora,
exausto do passeio que ia fazer com Adrienne, e eu aqui... exausto
de mim mesmo.
Abro a porta do carro, entro e fico com as mãos no volante por
alguns segundos antes de colocá-las no rosto.
Eu nunca fui o cara que perde o controle. Eu sou o cara do
controle. O cara do planejamento, da lógica, da estabilidade. Mas
com ela? Com Mia?
Tudo sai do eixo.
E agora, em vez de um plano executado com precisão, tenho
uma mulher furiosa — com toda razão — e um possível desastre
social prestes a acontecer se eu não resolver isso.
Droga, Brandon, o que você fez?
Olho pelo para-brisa, respirando fundo mais uma vez, tentando
encontrar alguma saída que não envolva enfiar a cabeça na parede.
Talvez Viktor esteja certo. Talvez Adrienne esteja certa.
Talvez… ela seja a única pessoa que realmente faça isso funcionar.
O problema é: como convencer alguém a entrar em um
casamento de mentira, quando você claramente já cruzou todas as
linhas do aceitável?
Pior ainda… e se, no fundo, o que eu estou tentando resolver
com esse acordo nem seja só sobre o hospital?
E se tiver mais a ver com o jeito que ela me olha?
E como reajo a ela?
Mia Jones
Entro no carro do Anthony bufando. Jogo a bolsa no colo com
mais força do que deveria e bato a porta como se ela tivesse alguma
culpa pelo absurdo que acabei de ouvir.
— Tá tudo bem? — ele pergunta, lançando um olhar de canto
enquanto dá a seta pra sair do estacionamento.
Respiro fundo, tentando controlar o calor que sobe pelo meu
rosto. Ainda sinto o toque da mão do Brandon no meu braço e o eco
daquelas palavras girando na minha cabeça como se ele tivesse
gravado um áudio que não para de repetir.
“Você aceita ser minha esposa por contrato?”
O quê?
— Tá sim, Anthony. Só foi um dia puxado — respondo,
tentando manter a voz firme, mesmo que minha cabeça esteja um
caos.
Ele franze a testa, mas não insiste. Sempre foi bom em
respeitar meu espaço, mesmo quando percebe que algo está errado.
Um silêncio confortável se instala entre nós, exceto dentro da minha
mente, que parece uma sala cheia de gente gritando ao mesmo
tempo.
Assim que chegamos em casa, agradeço pela carona, subo
para o meu quarto, tranco a porta e pego o celular. Só tem uma
pessoa que pode ouvir isso tudo e não me julgar — ou me julgar
muito, mas ao menos vai rir comigo depois.
— Amiga? — minha voz sai quase chorando, quase rindo. Um
misto de indignação, confusão e histeria reprimida.
— Oi! O que foi? Que voz é essa? Você tá bem?
— Você não vai acreditar no que aconteceu. Juro, Lays, parece
coisa de roteiro mal escrito de novela.
— Agora eu quero saber — ela diz, com aquele tom animado
que só me faz perceber que ela vai rir. — Fala logo!
Me jogo na cama e conto tudo. Desde o momento em que
entramos juntos no elevador até ele me fazer aquela proposta. A
cada palavra, a voz da Lays vai ficando mais aguda.
— Ele te ofereceu dinheiro pra casar com ele?! — ela
praticamente grita.
— Sim! Tipo… um contrato! Pagaria minhas dívidas, a hipoteca
dos meus pais, tudo!
— Caraca! E ele falou isso assim, do nada?
— Do nada, Lays! Como se eu fosse, tipo… um item numa
prateleira. “Oi, tudo bem? Me dá um contrato de casamento, por
favor?”
— Putz, Mia. Que loucura. Que cara ousado!
— Nem me fala. E quando eu me afastei, ele ainda falou que
“todo mundo tem um preço”. Eu quase virei uma onça ali e lhe dei
um “socotapa” na fuça. Mas estava no hospital e isso poderia me
gerar uma demissão por justa causa.
Lays cai na gargalhada — Ai, amiga. Desculpa, você falando é
muito engraçada.
— Mas a cena não foi nada engraçada, Lays Eigner! — falo seu
nome e sobrenome, mostrando minha indignação.
— Uau… Tudo bem, me desculpa? — ainda ouço o riso em sua
voz. — Agora real: por que um cara lindo, bem-sucedido, cheiroso e
provavelmente com uma conta bancária que dá inveja, precisaria de
um casamento por contrato?
— Exato. Isso não faz sentido! Ele podia ter qualquer mulher
se quisesse. Por que um casamento de fachada?
— Teorias: um, ele tá falido e precisa herdar algo. Dois, tem
um segredo cabeludo e precisa de uma história para servir como
camuflagem. Três, é parte de um culto secreto. Quatro, ele é gay e
não quer que ninguém saiba. Cinco, ele se apaixonou por você e não
sabe lidar com os sentimentos e resolveu agir como um ogro com
diplomas.
Solto uma risada. O tom indignado e criativo da Lays sempre
me arranca um sorriso mesmo quando o mundo parece desmoronar.
— Você está mesmo me dizendo que minha vida virou uma
novela?
— Amiga… tua vida virou uma novela daquelas com trilha
sonora dramática e câmera lenta. E eu, como sua melhor amiga,
estou aqui comendo pipoca e assistindo tudo.
— Não sei o que fazer se ele me procurar novamente com essa
proposta — confesso.
— Talvez você devesse aceitar — não acredito que ela está
falando isso —, já viu a quantidade de romances que começam com
um contrato de casamento?
— Na ficção, Lays, na ficção.
— Você que pensa, Mia. O mundo tá cheio de relacionamentos
que se iniciaram por questões puramente financeiras e/ou
diplomáticas. A arte imita a vida, querida.
— Meu Deus… — rio, mais alto agora, mesmo ainda me
sentindo um pouco zonza com tudo. — Isso não pode estar
acontecendo.
— Pode sim. E olha… esse médico grumpy ainda vai dar
trabalho. Se prepare. Se ele te quer como esposa fake, imagina o
que aconteceria se te quisesse de verdade?
Meu coração dá uma batida estranha, e eu fecho os olhos por
um instante.
Tomara que isso nunca aconteça.
Porque lidar com o Brandon O’Connor já é difícil o bastante
sem misturar sentimentos de verdade na história.
Capítulo 17
Brandon O’Connor
O relógio marcava quase três da tarde quando finalmente
consegui sair da ala pediátrica. O dia inteiro grudado na equipe de
plantão, acompanhando um caso atrás do outro, respondendo
dúvidas, revisando exames, colocando o cérebro pra funcionar como
uma máquina — tudo isso na tentativa frustrada de calar os
pensamentos insistentes que voltavam sempre ao mesmo ponto:
Mia.
Mas o hospital não nos dá tempo para distrações. E eu prefiro
assim.
Depois de um café rápido e mal tomado, voltei para o oitavo
andar — o andar da oncologia infantil. O lugar onde as crianças mais
corajosas que já conheci lutam suas batalhas todos os dias. E onde
está Sarah.
Abri a porta devagar. A luz baixa iluminava o quarto com uma
suavidade quase serena. Ela estava sentada na cama, o lenço azul-
claro cobrindo a cabeça, meio abraçada ao sapo de pelúcia que eu
mesmo tinha dado semanas atrás.
— Você tá atrasado, doutor rabugento — disse ela, sem nem
me olhar, os olhos fixos no livro de colorir.
— Tive um dia cheio — respondi, fechando a porta atrás de
mim. — Mas você sabe que eu sempre apareço.
Ela me olhou de canto, fingindo estar ofendida, mas o brilho
nos olhos não mentia. Sarah era esperta demais para seus oito anos.
E ainda assim, tão frágil.
— Trouxe as balas?
Tirei o pacote de gomas coloridas do bolso do jaleco e joguei
em cima da cama.
— Só se prometer não comer tudo de uma vez.
— Prometo… tentar.
Sentei-me na poltrona ao lado da cama, observando enquanto
ela abria o pacote com pressa. Tinha algo na forma como ela sorria
mesmo quando tudo doía. Como ela coloria aqueles desenhos como
se o mundo fosse cheio de possibilidades.
Crianças como ela mereciam o mundo inteiro.
E foi por isso que aquele baque me atingiu tão forte.
Minutos depois, já no corredor, fui abordado por Henry
Prescott, o chefe da oncologia pediátrica.
— Brandon — ele me chamou, o semblante sério. — Preciso te
falar uma coisa sobre a Sarah.
— O que foi? — perguntei, já com o estômago se contraindo.
— A mãe dela… não aparece desde ontem.
Demorei um segundo para processar.
— Como assim? O serviço social já tentou entrar em contato?
— Tentamos — ele suspirou. — Ligações, mensagens, tudo. Ela
não atende. E, pra ser honesto, algumas enfermeiras acham que…
ela tenha abandonado a Sarah.
— Isso não pode estar acontecendo — explodi, mais alto do
que devia. Várias pessoas no corredor se viraram. Henry me lançou
um olhar de aviso e eu respirei fundo, tentando conter a raiva.
Ele continuou:
— A sorte é que, mesmo que isso seja verdade, a Sarah está
sendo assistida pelo programa da Fundação O'Connor. Se não fosse
por isso…
Nem precisei que ele terminasse.
Eu sabia o que aquilo significava. Sem a Fundação, sem os
recursos, sem as ações ainda sob controle da minha família… Sarah
estaria completamente desamparada.
Caminhei alguns passos até a porta do quarto dela. A luz suave
ainda escapava pela fresta. A menina estava ali, lutando. Lutando
como ninguém.
E enquanto isso, adultos a deixavam para trás.
Não. Eu não podia deixar isso acontecer. Nenhuma outra
criança pode ser prejudicada porque meu avô quer me transformar
em um boneco perfeito de família comercial de margarina.
Se o preço para manter a fundação viva é o meu casamento…
então eu vou pagar.
Mesmo que a moeda seja uma mulher que me detesta.
Mesmo que eu precise convencê-la a me ouvir novamente.
Mesmo que o que eu esteja prestes a fazer possa mudar tudo.
É hora de conversar com Mia.
De verdade.
Mia Jones
A fila da lanchonete do hospital era quase tão demorada
quanto as consultas no pronto atendimento. Eu e Luke, um dos
meninos do marketing, esperávamos pacientemente por nossa vez,
comentando sobre a campanha da próxima semana e tentando
decidir se os lanches do dia estavam com uma aparência
minimamente confiável.
— Acho que vou na barrinha de cereal — ele disse, olhando o
cardápio suspenso com o cenho franzido. — Depois do jantar de
ontem na casa do meu namorado, meu estômago tá exigente.
Eu ri. Luke, era muito engraçado e não se cansava de elogiar o
namorado.
— Bom, só não reclame se acabar com fome depois —
brinquei.
Foi quando senti a presença de alguém atrás de nós. Ao me
virar, dei de cara com ninguém menos que o doutor Viktor West.
— Doutor West — cumprimentei com um sorriso. — Acho que
é a primeira vez que te vejo na fila da lanchonete.
— Preciso de café — ele respondeu, com um sorriso tranquilo.
— Mas, se não for incômodo… Mia, será que posso trocar duas
palavrinhas com você?
Meu coração deu um leve salto.
Por que ele queria falar comigo? Será que…?
— Claro — respondi prontamente, ainda que minha mente já
começasse a imaginar mil cenários.
Peguei meu lanche — pão com queijo e suco — e ele, o café
preto que parecia já fazer parte permanente da sua mão. Nos
sentamos em uma das mesas próximas à janela, onde o burburinho
era mais baixo.
— Fique tranquila, Mia — ele começou, adivinhando meu
nervosismo. — Não é nada profissional. Estou aqui apenas como
amigo. Como melhor amigo do Brandon, pra ser mais específico.
Assenti devagar, sentindo a tensão nos ombros.
— Sei sobre a proposta que ele te fez — disse, direto, mas com
gentileza. — E, antes que pense qualquer coisa… eu não estou aqui
pra defender a forma com que ele fez isso.
Suspirei. Então Brandon tinha contado pra ele.
— Foi... surreal — confessei. — Ainda não sei o que pensar
sobre aquilo.
— Acredite, eu entendo. O Brandon… ele tem um jeito peculiar
de lidar com as coisas. E, sinceramente, zero tato. Mas eu queria te
contar algo que talvez te ajude a entender por que ele está tão
desesperado.
Olhei para ele, curiosa, mas ainda com receio.
— A fundação que a mãe dele criou — ele começou, olhando
para o copo como se procurasse as palavras certas no fundo do café
— depende diretamente das ações que a família dele tem no
hospital. E são essas ações que estão ameaçadas se ele não cumprir
a exigência do avô: se casar antes do aniversário dele.
— E se ele não casar?
— Ele perde tudo. As ações vão para outra pessoa — alguém
que definitivamente não tem interesse em manter os programas
sociais. Inclusive o que garante tratamento gratuito para crianças
com câncer. Como a Sarah.
Meu estômago revirou com o nome dela. Sarah. A menininha
sorridente que lutava com tanta força, mesmo tão pequenininha… e
que está há tanto tempo internada, que o hospital é praticamente
sua casa.
— Ele nunca fala disso, sabe? — Viktor continuou. — Mas ele
cuida dessa fundação como quem protege a última coisa boa que
ainda tem da mãe. E, se ele está tentando esse acordo… é porque
sente que está ficando sem opções.
Fiquei em silêncio. O pão no prato já não parecia tão
interessante.
— Eu não sei o que fazer com essas informações — murmurei.
— É… é uma decisão muito difícil.
Viktor assentiu, respeitando o meu tempo.
— Só peço que pense com carinho. E, por favor, mantenha
essa conversa entre nós. O Brandon odiaria saber que eu fui contar
o lado sensível dele por aí. Ele prefere manter a pose de carrancudo
e mal-humorado.
Não consegui evitar a risada.
— Pode deixar. O segredo está seguro comigo.
Ele sorriu de volta, e por um momento me pareceu ainda mais
humano. Se levantou com um aceno discreto, me deixando ali com
meu lanche e uma avalanche de pensamentos.
Suspirei, apoiando os cotovelos na mesa. A imagem da Sarah
sorrindo surgiu na minha memória. Eu tinha uma dívida de gratidão
com Brandon, sabia que ele não tinha desistido do meu irmãozinho
e, só por isso, ele ainda estava vivo e teria um futuro.
Talvez Brandon O'Connor fosse mais do que um médico bonito
e rabugento. Talvez, por trás daquela muralha de sarcasmo e frieza,
existisse um homem que só queria continuar fazendo o bem da
única forma que sabia.
E talvez… eu precisasse começar a olhar para ele com outros
olhos.
Capítulo 18
Brandon O’Connor
Caminhei pelo corredor como se cada passo fosse um desafio.
O hospital parecia mais silencioso do que o normal, ou talvez fosse
apenas o barulho dentro da minha cabeça que estivesse abafando o
resto do mundo.
Depois de tudo o que Henry me contou sobre a situação da
Sarah, não dava mais para adiar. Eu sabia que precisava fazer algo a
respeito. Parei em frente à porta da sala da Mia, respirei fundo e bati
duas vezes antes de girar a maçaneta.
Ela levantou os olhos do computador, as sobrancelhas
arqueadas em uma expressão neutra.
— Oi, doutor O'Connor — a voz dela era firme. Quase
profissional demais. — Precisa de alguma coisa?
— Acha que podemos conversar? — perguntei, tentando
manter a voz baixa, estável. Ela assentiu e fez um gesto para que eu
entrasse.
Fechei a porta atrás de mim, mas não me sentei.
— Sobre o que eu disse ontem... — comecei, já sentindo o
peso do constrangimento escorregar pela espinha. — A proposta...
— Eu aceito — ela me cortou, a voz firme, sem hesitação.
Fiquei em silêncio por dois segundos inteiros — o suficiente
para ela levantar os olhos e me encarar, como se estivesse repetindo
mentalmente o que acabara de dizer.
— Você... aceita? — repeti, ainda atordoado. — Por quê? O que
mudou de ontem pra hoje?
Ela apoiou os cotovelos na mesa e cruzou as mãos, como se
estivesse diante de uma negociação corporativa.
— É como você falou. É um acordo. Você precisa de uma
esposa. Eu tenho dívidas que levariam anos pra pagar. Em dois anos,
a gente se divorcia e cada um segue com a sua vida. Todo mundo
sai ganhando.
Engoli em seco.
A frieza com que ela disse aquilo me pegou de jeito. Ela estava
tentando deixar tudo prático, racional, sem espaço para qualquer
emoção — e isso me incomodou mais do que eu gostaria de admitir.
— Certo — murmurei. — Dois anos.
— Mas precisamos conversar sobre como tudo isso vai
funcionar — ela continuou, séria. — E eu não abro mão de você
conhecer a minha família. Eles são tudo pra mim, e, se vamos
mentir pra eles… pelo menos quero ter certeza de que você vai
conseguir sustentar a história.
Arqueei uma sobrancelha, surpreso com a determinação dela.
Aquilo não era uma brincadeira. Ela estava realmente dentro disso.
— Tudo bem — concordei. — Podemos jantar depois do
plantão? Hoje?
Ela hesitou por um segundo e depois assentiu.
— Pode ser.
— Ótimo — murmurei, e, por um segundo, não soube mais o
que dizer.
Então me virei para sair, a cabeça fervendo, mas… havia algo
diferente. Algo mais leve. Um peso que, mesmo que ainda estivesse
sobre meus ombros, agora parecia dividido.
Pela primeira vez em muito tempo… senti que a ideia do meu
avô não era uma loucura completa.
Mia Jones
Assim que a porta do carro se fechou atrás de mim e Brandon
arrancou com o veículo rua abaixo, eu soltei um longo suspiro. Meu
corpo ainda estava tenso por conta de tudo que tinha acontecido
naquela noite. E, como se a situação já não estivesse insana o
bastante, a primeira coisa que ouvi ao entrar em casa foi:
— Quem era o bonitão que te deixou aqui?
Olívia, claro. Sentada no encosto do sofá, com uma tigela de
pipoca nas mãos e um sorriso travesso no rosto.
Revirei os olhos e larguei minha bolsa no aparador.
— Quem é que vive dizendo que eu preciso parar de cuidar da
sua vida mesmo?
— Ah, não tenta fugir do assunto — ela rebateu, dando um
pulo e me seguindo até a cozinha. — Era ele, né? O tal doutor
rabugento-gostosão?
Engasguei-me com a água que acabava de beber. Virei
lentamente para encará-la.
— Olívia!
— O quê? Eu estou apenas colocando em palavras o que você
claramente pensa.
— Você precisa urgentemente arrumar um hobby. Um que não
envolva a minha vida amorosa.
— Então quer dizer que existe uma vida amorosa? — Ela
arqueou uma sobrancelha. — Ahá! Sabia! Vai, conta! Quem é?
Suspirei, encostando na bancada e encarando minha irmã, que
me observava como se estivesse assistindo à temporada final da
série favorita dela.
— Tá bom, tá bom… As preces de vocês foram atendidas. Eu
estou… namorando.
A casa pareceu congelar por dois segundos. Em seguida, ouvi
passos vindo da sala e, logo, minha mãe e Anthony surgiram no
corredor.
— Como é que é? — minha mãe perguntou, como se tivesse
escutado errado.
— É isso mesmo que ela disse? — Anthony cruzou os braços,
um sorriso curioso nos lábios.
— Gente, calma! — ergui as mãos. — É algo muito recente,
ainda estamos nos conhecendo melhor. Mas sim, eu tô com alguém.
— E ele é médico! — Olívia explodiu antes que eu pudesse
continuar. — Eu sabia! Sabia que você e aquele doutor tinham
alguma coisa!
— Meu Deus, você virou uma detetive da CIA agora?
— Eu observo, tá? É um dom.
Todos riram. Até eu, apesar da confusão mental que era a
minha realidade atual.
— Bom — falei, respirando fundo — em breve eu marco um
almoço para que vocês o conheçam. Por agora, só posso adiantar
que ele é médico e que a gente se conheceu fora do hospital. Só
depois descobrimos que trabalharíamos juntos.
— Hum, misterioso — Anthony comentou. — Mas fico feliz por
você, princesa. Você merece.
— Obrigada — sorri com carinho. — Agora, se me dão licença,
eu vou subir, tomar um banho e tentar descansar.
— Vai lá, namoradeira — provocou Olívia.
Subi as escadas com uma risada fraca e o coração ainda
acelerado. Ao abrir a porta do quarto, Keren aproveitou a deixa e
passou por mim subindo na cama e me olhando como se dissesse
que era o dono do pedaço.
— Oi, Keren — falei, rindo, afagando a cabeça dele. — Gato
folgado, você não é o dono desse quarto, viu?
Ele miou, se ajeitando como se tivesse vencido algum tipo de
disputa.
— Tá bom, tá bom, você venceu.
Fui até o banheiro, tirei a roupa e entrei no banho. A água
quente caiu sobre meus ombros, aliviando a tensão. Fechei os olhos,
afundando os dedos nos cabelos enquanto o pensamento
inevitavelmente voltava para ele.
Brandon O’Connor.
Meu futuro marido por contrato.
Suspirei, rindo sem humor.
— Isso não pode dar certo… — murmurei, deixando a espuma
escorrer pelos fios. — Mas, meu Deus, como vai ser difícil resistir à
tentação de viver com ele.
Ê Ê
— Você… VOCÊ FEZ O QUÊ?! — Lays praticamente gritou no
meu ouvido, do outro lado da linha.
— Calma! — falei, rindo nervosa enquanto me jogava de costas
na cama. — Eu ainda não assinei nada. Só disse que aceito, mas
antes preciso analisar o contrato com calma.
— MIA. PELO AMOR DE DEUS. VOCÊ ACEITOU CASAR COM
ELE?!
— Por contrato. Não vamos esquecer esse detalhe importante.
— Detalhe, nada! — ela rebateu. — Você vai morar com o
doutor bonitão ranzinza, fingir que é apaixonada por ele, dormir na
mesma casa, talvez na mesma cama… AI MEU DEUS! Isso é
praticamente um dorama! E eu sou a melhor amiga que viu tudo
antes de acontecer!
Eu ri. Rir era o único jeito de não surtar de vez.
— Lays, eu estou tão confusa quanto você. Mas... ele vai pagar
minhas dívidas, vai quitar a hipoteca da casa dos meus pais. Eu não
estou vendendo minha alma — respirei fundo — só alugando ela por
dois anos.
— Dois anos com aquele homem. Você vai enlouquecer. Ou
engravidar. Ou os dois.
— LAYS!
— O que foi? Eu só estou dizendo o que TODO MUNDO vai
pensar assim que vocês começarem com os beijinhos públicos.
Porque… vai ter beijo, né?
— Vai… — murmurei, apertando os olhos. — A gente combinou
que pra família dele e pra minha, vamos precisar parecer um casal
apaixonado. Tipo… bem apaixonado.
— Tradução: beijos, olhares intensos, sorrisos cúmplices e
talvez umas mãos bobas escondidas no jantar de família.
— Lays!
— O quê? Eu tô tentando preparar você psicologicamente.
Suspirei, mordendo o lábio.
— Vai ser difícil. Muito. Ele é… ele é complicado. E lindo. E
intenso. E quando me olha, parece que vê tudo o que eu tento
esconder.
— Ai, estou apaixonada por vocês dois já. Isso aqui é fanfic
pura. Mas agora vamos ao que importa: esse contrato. Você vai ler
com atenção, né?
— Vou ler. Com total atenção. Eu sou a parte mais interessada
nisso, né? Mas quero que você leia também. Ele falou que eu não
poderia contar para ninguém, mas informei que minha advogada
precisaria ler para me orientar.
— E essa advogada seria eu no caso? Por que você sabe que
eu ainda não me formei e depois...
— Claro que é você — cortei os delírios dela. — Ele não precisa
saber que minha advogada ainda está em formação.
— Ok. Vamos garantir que tudo esteja bem alinhado. Tipo:
você vai dormir no quarto de hóspedes? Vocês vão dividir a cama?
Pode ou não pode envolver sentimentos reais? Se der ruim, qual é o
plano de fuga? Tem que pensar em tudo, amiga!
— Eu sei. E… a gente ainda vai conversar sobre os detalhes.
— E se, tipo… sei lá, vocês acabarem mesmo se apaixonando?
Fiquei em silêncio por um segundo, olhando para o teto.
— Aí... aí vai ser a maior confusão da minha vida.
— Ou a melhor.
Sorri.
— Talvez os dois.
Brandon O’Connor
A porta da cobertura ainda nem tinha se fechado atrás de mim
e a voz da Adrienne já ecoava pela sala.
— Brandon O’Connor, você demorou pra caramba!
— Boa noite pra você também — resmunguei, jogando as
chaves na mesinha de entrada e largando a mochila na poltrona.
Ela me seguiu até a cozinha com um pote de sorvete na mão,
usando pijama de moletom com estampas de gatos. Adrienne sendo
Adrienne.
— Então? — ela cutucou, de boca cheia. — Conseguiu uma
nova candidata para o posto de esposa fake?
Abri a geladeira, peguei uma garrafa d’água e a encarei antes
de responder.
— Ela aceitou.
— O QUÊ? QUEM?! — ela quase derrubou o sorvete.
— A Mia. Ela aceitou a proposta. Vamos nos casar.
Ela me olhou como se eu tivesse acabado de anunciar que ia
me mudar para Marte com um coelho de estimação.
— VOCÊ CONSEGUIU CONVENCÊ-LA A SE CASAR COM VOCÊ?!
— Sim — respondi, bebendo a água num gole só, tentando
parecer mais calmo do que realmente estava. — Por contrato. Dois
anos. Terminado esse período, cada um segue com sua vida.
Ela soltou uma gargalhada tão alta que ecoou pela cozinha.
— Isso é real, meu Deus do céu! Isso tá mesmo acontecendo!
— segurou minha mão como se quisesse confirmar que eu era de
verdade. — E quando vai ser o grande dia?
— Quanto antes, melhor. Já passei tempo demais enrolando. O
velho tá prestes a cortar minha cabeça se eu não mostrar um plano
sólido logo.
— Então você vai se casar com a garota que você mal conhece,
que você diz que vive batendo de frente, que você claramente tá
tentando fingir que não gosta… e ainda quer apressar tudo?
— É um acordo — repeti, firme, mas sem convicção. — A gente
vai manter as aparências. Vai ser tudo muito profissional.
Adrienne arqueou uma sobrancelha.
— Profissional. Claro. Porque toda relação contratual tem
tensão sexual suficiente para explodir um prédio.
— Adrienne…
— Estou só dizendo a verdade, irmão. Eu vi vocês dançando.
Tinha faísca ali. Tipo, nível “perigo de incêndio”.
Revirei os olhos e comecei a sair da cozinha, mas ela veio atrás
de mim, determinada.
— E o que a Mia exigiu em troca? Porque, depois do jeito que
você agiu como um idiota no outro dia, eu pediria ao menos um rim.
Talvez um iate. Melhor, um pedaço da cobertura.
— Ela quer que tudo seja feito direito. Que eu conheça a
família dela. Que a gente estabeleça regras. E que a gente pareça
um casal de verdade. Pelo menos para outros.
— Uau. Mia é melhor jogadora que você. Já gosto mais dela,
inclusive.
— Isso não é um jogo — falei, virando-me para encará-la. —
Isso é sério. Se algo sair do controle, posso perder tudo o que nossa
mãe construiu.
Adrienne suspirou, dessa vez com o semblante mais leve.
— Eu sei. Só estou tentando quebrar um pouco esse seu clima
“apocalipse emocional”. Mas, Brandon… — ela colocou a mão no
meu ombro. — Você sabe que, com ou sem contrato, essas coisas
têm um jeito de fugir do controle, né?
Fiquei em silêncio.
Porque sim… eu sabia.
E era exatamente isso que me deixava mais nervoso.
Capítulo 20
Brandon O’Connor
Coloquei os papéis sobre a mesa, organizando tudo de maneira
meticulosa enquanto Mia se sentava à minha frente, cruzando as
pernas com a leveza natural que parecia carregar até quando estava
exausta. Ela pegou a primeira folha, os olhos atentos varrendo as
palavras. Eu respirei fundo, passando as mãos pelos cabelos.
— Essa é uma versão inicial. Ainda pode ser ajustada, claro.
Mas cobri todos os pontos principais que conversamos
anteriormente.
Ela continuou lendo em silêncio, o cenho franzido levemente.
Quando virou a segunda página, seu olhar prendeu-se em uma
cláusula por alguns segundos a mais.
— “Ambas as partes se comprometem a residir sob o mesmo
teto a partir da data do casamento, a fim de manter a coerência do
acordo e da aparência de um casamento legítimo...” — leu em voz
alta, depois me encarou. — Morar juntos no mesmo dia?
— Sim. Já organizei tudo para transferirmos suas coisas, se
você concordar com o contrato. Facilita as aparências. E também...
— dei de ombros — vai nos ajudar a manter o controle sobre a
narrativa.
Ela não disse nada, apenas assentiu devagar, voltando à
leitura.
— “Todas as dívidas da parte da Sra. Jones serão quitadas pelo
Sr. O’Connor, que também se compromete a cobrir suas despesas
durante os dois anos de vigência do acordo...” — seus olhos se
estreitaram. — Isso é muita coisa, Brandon.
— Eu posso bancar. E quero garantir que você não esteja
sacrificando a própria vida por isso. — Inclinei-me para frente. — É o
mínimo que posso fazer, considerando que estou pedindo que você
viva uma mentira ao meu lado.
Ela virou mais umas páginas e leu a cláusula final referente aos
valores do contrato, onde mencionava a indenização.
— “Ao fim do contrato, a Sra. Jones receberá cinco milhões de
dólares como compensação pelo período de casamento sob regime
de separação total de bens...” — ela levantou os olhos devagar. —
Você realmente planeja me pagar isso? Acho que só piorou o
sentimento que tenho de estar sendo comprada.
— Não quero que você saia disso com um sentimento de
perda. Esse valor vai te garantir estabilidade. É o certo. Não estou te
comprando — ela arqueou uma sobrancelha como quem diz: nem
você acredita nas suas palavras. — É uma troca, meu dinheiro pelo
seu tempo.
— Ou seja...
— Não vamos partir por esse ponto.
— Tem um adendo sobre... — ela limpou a garganta —
relacionamentos extraconjugais?
— É um contrato comercial, Mia. Não vamos fingir que existe
romance nisso. Somos adultos, temos necessidades. Só pedi
discrição para preservar as aparências. É mais uma cláusula de
proteção.
Ela fechou a pasta devagar, o olhar mais sério do que eu
esperava.
— Isso não será um problema para mim — disse, sem
hesitação.
— Por que não? — perguntei, curioso. Aquilo me incomodava
mais do que deveria. Ela tem alguém?
Ela hesitou por um momento, depois encarou meus olhos como
se me desafiasse.
— Porque não se pode sentir falta de algo que nunca se teve.
Eu congelei.
— Você está dizendo que...
— Sim. — Ela sustentou o olhar, firme. — Nunca tive relações
sexuais com ninguém. Nunca me envolvi a esse ponto.
O silêncio se estendeu por alguns segundos, carregado de
surpresa da minha parte — e algo mais, que eu não conseguia
nomear.
— Mas por quê? — perguntei, num tom mais brando.
Ela desviou o olhar.
— Isso não vem ao caso, Brandon. Não é relevante para este
contrato — a voz estava mais firme agora, como se quisesse
encerrar o assunto de vez. — Vamos focar no que é: um acordo
entre as duas partes interessadas. Nada além disso.
Assenti devagar, mesmo que minha mente ainda estivesse
tentando digerir o que acabara de ouvir.
— Certo. Tem só mais uma coisa — disse, puxando outra folha.
— Quero manter isso fora dos corredores do hospital, ao menos por
enquanto. Não quero que ninguém trate você de forma diferente por
estar ligada a mim.
Ela franziu o cenho.
— Ligada a você?
— Casada com um dos donos. Isso muda a percepção das
pessoas. Quero que você continue sendo vista pelo que é:
competente, esforçada, dedicada. Não quero que pensem que você
conseguiu seu espaço por minha causa.
— Está bem — disse, respirando fundo. — Concordo. Mas
minha família vai saber. Eu não quero mentir pra eles, não tudo, pelo
menos.
— Claro. Eles precisam saber. E... irei conhecê-los. Como você
disse, é importante pra você e é o mínimo que posso fazer, já que
precisará conhecer a minha também.
— E quando será o casamento? — questionou.
— Em quinze dias.
— Tão rápido assim? — engoliu em seco.
— Poderia ser ainda mais rápido, mas acho que é o tempo
necessário para ambas as famílias serem apresentadas.
Ela me encarou por um instante, depois estendeu a mão.
— Então, temos um acordo?
Segurei sua mão.
— Temos um acordo.
Mas enquanto nossas mãos se tocavam, tudo dentro de mim
dizia que esse acordo estava longe de ser apenas papel e cláusulas.
Era o começo de algo que nenhum de nós ainda sabia como
controlar.
Assim que Mia saiu da minha sala, deixando para trás o
perfume suave que parecia grudar nas paredes, meu pager vibrou
sobre a mesa. Uma mensagem curta do Dr. Henry Prescott:
"Preciso falar com você. Na minha sala."
O aperto no peito foi imediato. Algo em mim já sabia que não
era uma boa notícia.
Subi um lance de escada e atravessei o corredor com passos
largos, desviando de enfermeiros, carrinhos de medicação e
pacientes. Quando bati na porta da sala de Henry, ele respondeu
com aquele tom grave que só usava quando a situação exigia
maturidade emocional — ou resiliência.
— Entre, Brandon.
Fechei a porta atrás de mim e me aproximei da mesa, onde ele
estava de braços cruzados, o semblante sombrio. À frente dele, uma
mulher de aparência séria e óculos finos — a assistente social do
hospital — organizava alguns papéis.
— O que aconteceu? — perguntei, direto.
Henry suspirou e passou a mão pelo rosto antes de falar.
— A polícia confirmou. E o serviço social do hospital também.
Soraya Lewis desapareceu.
— O quê? — dei um passo para trás, incrédulo. — Como assim
“desapareceu”?
— Ela não está em lugar nenhum, Brandon. Levou todas as
coisas da casa onde morava com a filha, deixou as contas em
aberto... — Henry fez uma pausa, e sua expressão ficou ainda mais
carregada. — E entregou uma carta a um vizinho que a repassou à
polícia.
— Uma carta?
A assistente social estendeu o documento dobrado. Eu peguei
com dedos tensos, o coração batendo forte enquanto lia a caligrafia
apressada:
"Não posso mais viver presa a um hospital, cuidando de uma
criança doente. Está sugando os melhores anos da minha vida.
Preciso ir embora, preciso ser feliz. Sarah vai sobreviver. Ela sempre
foi mais forte do que eu."
Que desgraçada, filha da puta!
A raiva me subiu como uma labareda. Trinquei os dentes e
joguei o papel sobre a mesa.
— Ela simplesmente abandonou a filha?
Henry assentiu lentamente.
— É o que tudo indica. E, com isso, Sarah agora está sob a
tutela do Estado. Pelo tempo que precisar ficar internada, ela está
sob a responsabilidade direta do hospital — concluiu Carla, a
assistente social.
— E depois? — perguntei, sentindo o estômago virar. — O que
acontece quando ela tiver alta?
Carla respondeu:
— Ela será encaminhada para um lar de acolhimento. Depois
disso, entra oficialmente no programa de adoção. A não ser que
algum parente apareça — o que, até agora, não aconteceu. Pelo que
parece, a mãe não tinha ninguém próximo e, na certidão, não
consta o nome do pai de Sarah.
O peso daquilo me esmagou. A pequena Sarah, que já
enfrentava o câncer como uma guerreira, agora tinha sido deixada
para trás pela única pessoa que deveria protegê-la.
— Isso é monstruoso — murmurei, mais para mim do que para
eles. — Como alguém tem coragem de fazer isso?
Henry colocou uma mão firme no meu ombro.
— Eu sei, Brandon. Também estou indignado. Mas agora, mais
do que nunca, essa menina precisa de estabilidade. De gente que
lute por ela.
Engoli em seco, a imagem de Sarah brincando com os bonecos
de pelúcia na cama surgindo na minha mente.
— Ela sabe?
— Ainda não. Mas precisamos contar. E precisamos ser
cuidadosos — a assistente social completou. — Estamos nos
preparando para isso, mas é algo que vai mexer com ela
profundamente. Eu preciso estar presente, mas talvez seja melhor
você a contar.
Assenti, ainda sem confiar na minha voz. Meu olhar recaiu na
janela fechada da sala. A cidade parecia girar lá fora, enquanto aqui
dentro o mundo de uma criança estava desmoronando em silêncio.
Eu sabia que, de algum jeito, teria que fazer mais por ela.
Capítulo 21
Brandon O’Connor
Saí da sala do Henry com os ombros tensos e a cabeça
fervilhando. Aquela carta ainda martelava na minha mente, cada
palavra como uma facada.
"Está sugando os melhores anos da minha vida."
Eu queria gritar. Socar alguma coisa. Extravasar a raiva que
estava sentindo.
Atravessava a recepção da oncologia, decidido a buscar fôlego
no corredor antes de ir até o quarto da Sarah, quando ouvi a voz
suave, mas firme, que já começava a se tornar familiar demais.
— Brandon? — Mia apareceu à minha esquerda, segurando o
tablet contra o peito. — Está tudo bem?
Parei. Respirei fundo. Eu poderia simplesmente dizer "sim" e
seguir meu caminho, manter tudo trancado como sempre fiz. Mas,
por algum motivo — talvez pela sinceridade no olhar dela, ou pela
forma como seu tom se tingia de preocupação genuína — minha
resposta foi outra.
— Não. — Sacudi a cabeça. — Mas você não precisa se
preocupar com isso.
Ela arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços.
— Ah, não. Você vai parar com isso agora. Se a gente vai se
casar, vai ter que aprender a dividir as coisas comigo.
Soltei uma risada sem humor.
— Não sei se você se lembra, mas será só um contrato. Não
um casamento de verdade.
— E daí? — rebateu. — Um contrato ainda exige parceria.
Agora, desembucha, O’Connor.
Hesitei por um segundo, encarando aquele par de olhos
intensos. Então, pela primeira vez em muito tempo, cedi. Dei um
passo para o lado, puxando-a até um canto mais reservado do
saguão, longe de olhares curiosos.
— A Sarah... a mãe dela realmente desapareceu. Levou tudo
da casa, deixou uma carta com um vizinho. Disse que não
aguentava mais cuidar de uma criança doente. Que isso estava
sugando os melhores anos da vida dela. — Eu disse as palavras
como se cuspisse cacos de vidro. — A polícia e o serviço social
confirmaram. Ela foi embora e largou a filha aqui.
Mia levou a mão à boca, os olhos arregalados.
— Meu Deus… essa mulher... ela simplesmente sumiu?
Assenti, apertando o maxilar.
— Sarah agora está sob a tutela do Estado. Enquanto estiver
internada, fica sob responsabilidade do hospital. Depois... lar de
acolhimento. Adoção.
— Isso é devastador... coitadinha.
— Estou indo conversar com ela agora. Não dá pra adiar mais.
— Então eu vou com você.
Olhei para ela, surpreso.
— Não precisa. Eu...
— Brandon. — Ela se aproximou um pouco, a voz baixa, porém
firme. — Ela confia em você. Mas talvez ouvir isso com uma
presença feminina ao lado ajude a suavizar o impacto. E... não sei.
Talvez eu possa ajudar. De algum jeito.
Fiquei em silêncio por um momento. E, estranhamente, desde
que recebi a notícia, senti um resquício de firmeza sob meus pés.
Como se não estivesse mais tentando enfrentar tudo sozinho.
Assenti devagar.
— Tudo bem. Vamos juntos. Mas preciso avisar a assistente
social, ela precisa estar presente também.
Caminhamos lado a lado pelo corredor, nossos passos em
sintonia. E, por mais que aquele momento estivesse envolto em dor
e incerteza, uma parte de mim se surpreendeu com o conforto
inesperado que era tê-la ali.
Ao meu lado.
Brandon O’Connor
O carro avançava pelas curvas da estrada arborizada, cercada
por uma tranquilidade irritante. Mia estava ao meu lado, observando
a paisagem com o que parecia ser um nervosismo contido. Usava
um vestido azul-claro, elegante, mas simples — como ela. Os
cabelos estavam soltos, levemente ondulados, e um perfume suave
preenchia o espaço entre nós.
— Ainda dá tempo de dar meia-volta — comentei, quebrando o
silêncio.
Ela me olhou de canto.
— Aí você teria que se casar com outra. E duvido que alguém
aceite esse contrato maluco com tanto estilo quanto eu.
Não consegui conter um sorriso.
— Tem razão. Não posso arriscar.
A mansão do meu avô logo surgiu à frente, imponente como
sempre. A fachada de pedra e vidro reluzia sob o sol do final da
tarde. O jardim, como de costume, impecável.
Quando o carro parou, soltei um suspiro discreto.
— Pronta? — perguntei.
— Não — ela respondeu, já abrindo a porta. — Mas vamos
mesmo assim.
O mordomo nos recebeu com formalidade, e não demorou
para que fôssemos guiados à varanda dos fundos, onde o velho
O'Connor costumava tomar seu chá das cinco.
E lá estava ele: terno azul-escuro, bengala apoiada ao lado da
cadeira e um olhar aguçado por trás dos óculos de leitura. Ele
ergueu a cabeça quando nos viu se aproximar.
— Brandon — disse, com a voz grave, mas firme. —
Finalmente resolveu me apresentar à moça que tem te feito andar
com a cabeça nas nuvens?
— Vô — murmurei, tentando manter a postura. — Essa é Mia.
Minha noiva.
Ele se levantou devagar, como se estudasse cada centímetro
dela, inclusive a mão que carregava o anel de diamante que eu
havia dado a ela antes de virmos para cá, e então estendeu a mão.
— É um prazer, senhor O’Connor — Mia disse, com um sorriso
encantador e natural, apertando a mão dele com segurança.
— O prazer é meu, querida. E, por favor, me chame de Edward.
Ou avô, se o relacionamento for mesmo sério.
Mia riu educadamente e se sentou ao lado dele na mesa
redonda de ferro fundido. Eu me sentei ao lado dela, ainda sentindo
o peso do julgamento do velho.
— Há quanto tempo estão juntos? — ele perguntou, direto
como sempre.
Mia me olhou, e eu respondi:
— Há quase três meses.
Ele arqueou a sobrancelha.
— E ela ainda te aguenta?
— Mais do que deveria — Mia respondeu, com um tom
divertido que arrancou uma risada do velho.
Surpreendente.
— E o que faz da vida, Mia?
— Me formei em Relações Públicas e agora trabalho no
hospital, sou assistente da Evellyn Donnelly.
— O mesmo onde meu neto trabalha?
— Sim, mas nos conhecemos antes — ela disse rapidamente,
como havíamos combinado. — Foi um acaso nos reencontrarmos lá.
Na verdade, a julgar pelo nosso primeiro encontro, nem sei como
acabamos nos relacionando.
— O que meu neto lhe fez, querida?
— E por que acha que eu que fiz algo? — questionei sério.
— Porque eu te conheço — Mia riu da situação. — Me conte,
Mia, estou curioso.
— Ele me derrubou no chão e nem ao menos me ajudou a
levantar — ela me olhou de soslaio. — Nem um pouco cavalheiresco
da parte dele.
— Não foi essa educação que lhe demos, Brandon.
— Não foi assim que as coisas aconteceram, mas isso nem
importa mais. Afinal, já nos resolvemos e estamos bem — segurei a
mão de Mia. — O acaso nos trouxe até aqui. — Beijei sua bochecha.
— O acaso… — ele repetiu, com um meio sorriso. — E quando
estão pensando em se casar?
Respirei fundo.
— Em breve, na verdade, os papéis já estão correndo.
O silêncio se instalou por alguns segundos.
— Bom — ele disse, olhando para Mia como se tentasse
enxergar sua alma. — Espero que saiba onde está se metendo. Meu
neto é teimoso, fechado, e tem um talento único para afastar
pessoas.
— Eu percebi — ela respondeu, tomando um gole do chá. —
Mas alguém precisa aguentá-lo, né?
O velho riu. Alto. E, pela primeira vez em anos, vi um brilho de
aprovação em seus olhos.
— Gosto dela — ele anunciou, batendo a bengala no chão. —
Tem coragem. E paciência.
— Isso é mais do que eu consigo, geralmente — murmurei.
Conversamos mais alguns minutos. Mia soube navegar pela
conversa com graça, respondendo, perguntando, sendo gentil sem
forçar nada. Eu, por outro lado, fiquei ali, observando-a interagir
com o homem que moldou parte do meu destino — e,
estranhamente, me sentindo protegido por sua presença.
Quando nos despedimos, o velho me puxou de lado.
— Você ainda é um idiota, Brandon. Mas, pela primeira vez,
parece estar fazendo uma escolha que faz sentido. Não estrague
isso.
Assenti, engolindo o incômodo que aquelas palavras sempre
provocavam.
No carro, Mia olhou para mim, esperançosa.
— Acha que passei no teste?
— Com louvor. Ele não nos mandou embora antes da
sobremesa. Isso é inédito.
Ela riu e olhou pela janela.
Esse plano maluco estava se tornando algo muito maior do que
um simples contrato. Mia me cativava cada dia mais e o desejo que
eu sentia por ela aumentava de forma avassaladora.
— Brandon.
— Mia — falamos juntos. — Você primeiro. — Deixei que ela
tomasse à frente da conversa enquanto seguíamos para a minha
casa. Havíamos combinado que ela dormiria lá hoje. Sua casa ficava
no completo oposto de onde meu avô morava, era sábado à noite,
não fazia sentido ela ir para casa. Como um casal apaixonado, era
normal querermos aproveitar o máximo de tempo juntos.
— Não é nada demais. É só que... — ela mordeu o canto dos
lábios, uma coisa que havia percebido que fazia sempre que estava
em dúvida sobre algo e que refletia diretamente no meu pau. — Eu
esqueci de contar que tenho um filho muito temperamental,
ciumento e territorialista.
— Você tem um filho? — Agora sim eu fui pego de surpresa. —
Mas espera, você me falou que é virgem, como iss.... — Ela caiu na
gargalhada.
— É um gato, Brandon. — Ela secou uma lágrima do canto do
olho. — Deus, a cara que você fez foi impagável.
— Você tem um prazer sádico em testar minha paciência, não
é mesmo?
— Mas estou falando sério, Keren é meu filho e vai junto
comigo morar na sua casa. Espero que não tenha problema com
isso. Não sei se você gosta de animais.
— Tanto quanto gosto das crianças — respondi rápido. — São
sinceros e gostam da gente pelo que somos, e não por quanto
dinheiro temos no banco.
— Isso é verdade, até porque se fosse esse o caso, eu seria
muito pouco amada, pelo Keren. — Ela riu.
— Que nome estranho para um gato.
— Ah, é uma homenagem ao amor da minha vida — falou
virando-se para mim, talvez esperando alguma reação minha. Mas
não entreguei nada, pelo menos acho que não a deixei perceber que
ouvir aquilo me incomodou. — Na minha imaginação a gente se
casou e teve vários filhinhos turcos.
— Turcos?
— Sim, ele é um ator turco de novelas e filmes. — Soltei a
respiração que nem percebi estava prendendo. — Queria me casar
com ele, mas vejam só como é a vida, não podemos ter tudo que
queremos e cá estou eu, quase me casando com o cara que me
derrubou no chão de uma cafeteria.
— Não foi bem assim que as coisas aconteceram — retruquei.
— Custava ter estendido a mão e ter me ajudado a levantar?
— Vai jogar isso na minha cara o tempo todo, não vai?
— Por pelo menos os próximos dois anos enquanto estivermos
casados — voltou a ajeitar a postura no banco. — Não costumo ser
uma pessoa rancorosa, fazer o quê, se você desperta coisas
obscuras em mim?!
Ah, Mia, eu quero despertar muitas coisas em você. Se
soubesse metade dessas coisas, fugiria para longe de mim.
Mia Jones
Entrei no elevador com o coração batendo mais rápido do que
deveria. Não sei se era nervosismo ou curiosidade. Talvez um pouco
dos dois. Brandon estava ao meu lado, com as mãos nos bolsos do
jeans, em silêncio — como sempre. O silêncio dele, era diferente de
outros, não incomodava. Era expressivo. Intenso. Tinha presença.
Tinha peso.
— Está arrependida? — ele perguntou de repente, me tirando
dos meus pensamentos.
Olhei para ele. A luz fria do elevador deixava seus traços ainda
mais marcantes, mas o que me pegava mesmo era aquele olhar
azul, tão intenso que parecia me atravessar.
— Ainda não — respondi, provocando, com um sorriso discreto
nos lábios.
Ele soltou um som baixo, algo entre um suspiro e uma risada
abafada. E por um momento, seus olhos desceram lentamente até a
minha boca. Meu corpo inteiro percebeu.
As portas se abriram com um "ding", interrompendo o que
quer que tivesse começado ali dentro. Ele saiu primeiro, mantendo o
porte sério. Eu o segui.
A entrada da cobertura era clean, discreta, com uma aura de
sofisticação silenciosa. Assim que Brandon destravou a porta e a
abriu, fomos recepcionados por um som alegre de patinhas no chão
e, em seguida, por um amontoado de pelo preto pulando em nós.
— Sirius! — ele chamou, se abaixando.
O cachorro abanava o rabo como se a vida dele dependesse
daquilo. Me aproximei com calma e estendi a mão.
— Oi, grandão.
Sirius me cheirou e, como se tivesse me aprovado, lambeu
minha mão e se deitou aos meus pés.
— Ele gostou de você — Brandon comentou, observando a
cena com um sorriso raro, discreto, mas real.
— Que bom, porque a aprovação dele parece mais fácil que a
sua.
Brandon arqueou uma sobrancelha e seguiu andando.
— Vem, vou te mostrar a casa.
A cobertura era linda e, para minha surpresa, muito mais
aconchegante do que imaginei. Tons quentes, iluminação suave,
objetos que contavam histórias espalhados aqui e ali. Não era o
apartamento de um homem frio. Era o lar de alguém que, um dia,
acreditou no calor.
— Você mesmo decorou? — perguntei.
— Eu? — ele riu baixo. — Claro que não. Adrienne fez questão.
E não, ela não é arquiteta, é médica — completou, antes que eu
perguntasse.
Assenti, mordendo o canto da boca, e continuei acompanhando
o tour: sala de estar, cozinha moderna com toques de madeira,
varanda com vista de tirar o fôlego... até que chegamos ao corredor.
Ele abriu a porta de um dos quartos.
— Esse aqui é o seu.
Entrei devagar. O quarto era amplo, confortável, com uma
cama enorme, travesseiros fofos e luzes indiretas que deixavam o
ambiente suave. Sobre o criado-mudo, um livro fechado: “O Grande
Gatsby”. Suspirei.
— Gostei da escolha — comentei, correndo os dedos pela capa.
— Mas você parece mais Fitzgerald do que Gatsby.
— Estou ofendido — ele disse, encostado no batente da porta,
os braços cruzados. — Por que não posso ser o herói trágico da
história?
— Porque você tem cara de quem escreve finais, não de quem
os vive.
Nos encaramos por alguns segundos. Longos demais. A tensão
entre nós se esticava como um fio invisível, puxado lentamente por
mãos incertas. Ele deu um passo para dentro. Meu coração deu um
salto.
— Mia... — a voz dele saiu mais baixa, rouca, como se não
soubesse o que dizer em seguida.
Eu me virei um pouco, de frente para ele, com a respiração
presa.
— O que foi?
Ele piscou devagar, como se ponderasse mil coisas ao mesmo
tempo.
— Ainda é cedo. Quer fazer algo? Assistir alguma coisa, talvez?
Desviei o olhar, rindo baixinho da forma como ele quebrou o
momento.
— Pode ir fazer o que tiver que fazer, Brandon. Eu vou tomar
banho e depois talvez leia um pouco. Não quero atrapalhar sua
rotina.
Ele assentiu, e já virava para sair quando parou e disse:
— Ah… comprei sorvete de morango. Está no congelador, se
quiser.
Sorri.
— Obrigada. Parece que está tentando me conhecer.
Ele me olhou por cima do ombro, os olhos percorrendo meu
rosto com algo que quase queimava.
— Acho que estou.
E então se foi.
Fechei a porta devagar e encostei nela, sentindo minhas pernas
um pouco trêmulas. Fui até a cama, sentei e respirei fundo. Aquele
homem era uma força da natureza. E viver com ele por dois anos…
seria um teste de resistência. Um bem perigoso.
Olhei para a porta fechada, depois para a janela. Depois, para
o teto.
— Deus, me dá forças — sussurrei, antes de ir para o banho.
Sorvete depois. Pensamentos proibidos… também.
Capítulo 23
Brandon O’Connor
O cheiro do pão começava a tomar conta do apartamento
quando saí do banho, enxugando o cabelo com uma toalha menor e
ajustando a outra na cintura. Tinha acordado mais cedo que o
habitual, saído para correr com Sirius e deixado o forno pré-
aquecido logo que voltei. Era uma das raras manhãs em que eu
estava... tranquilo. E queria surpreender Mia com um café decente.
Ouvi o latido de Sirius vindo da sala e franzi o cenho. Ele não
era de fazer escândalo assim sem motivo.
— Sirius — chamei baixo, andando em direção ao barulho, para
garantir que ele não acordasse Mia.
Mas já era tarde.
Quando dobrei o corredor e entrei na sala, ela estava lá.
De pé, parada no meio do cômodo, como se fosse parte da
decoração — só que infinitamente mais bonita. Vestia apenas uma
camisola de cetim rosa-claro, com detalhes de renda que se
agarravam às curvas do corpo dela de um jeito que fez meu sangue
ferver nas veias.
Nossos olhares se encontraram. Depois, eles desceram em uma
inspeção silenciosa.
Ela me olhou como se estivesse vendo mais do que devia — o
que era justo, considerando que eu só usava uma toalha enrolada na
cintura. Mas quando percebi que o olhar dela desceu devagar até
meu abdômen molhado, até a linha da toalha… meu corpo
respondeu antes mesmo de eu ter tempo de pensar.
Senti meu pau endurecer com rapidez, como se meu corpo
reconhecesse nela algo que minha mente ainda fingia evitar. Dei dois
passos na direção dela, segurando a toalha com mais firmeza. Sua
respiração acelerou e ela passou a língua pelos lábios de um jeito
que me fez imaginar como seria se essa fizesse esse movimento no
meu pau.
— Se você continuar me olhando desse jeito, Mia, vou ter que
resolver seu problema — disse, me aproximando lentamente.
Ela arqueou uma sobrancelha, desafiadora e linda. Sempre
linda.
— Que problema?
Inclinei levemente a cabeça, observando cada detalhe do corpo
dela sob o cetim fino, o modo como os mamilos endurecidos
marcavam o tecido, como as coxas se pressionavam uma contra a
outra numa inquietação involuntária.
— O tesão que você tá sentindo, Mia — respondi, a voz mais
rouca do que queria.
— Não estou com tesão — mentiu.
— Então, porque não para de esfregar as coxas uma na outra…
e seus seios estão praticamente implorando por atenção.
Por um instante, o silêncio nos engoliu — pesado, elétrico,
denso de possibilidades. E eu não podia mais fingir que não a
desejava de forma insana. Não podia simplesmente ignorar que ela
estava usando aquela maldita camisola que grudava no corpo como
uma segunda pele, ou o fato dela olhar para mim como se quisesse
me devorar ali mesmo, no meio da sala.
Não havia para onde ir.
Não havia mais controle. Não mais.
Fechei a pequena distância entre nós com um passo firme.
— Brandon…
Meu nome saiu dos lábios dela como um alerta. Um aviso.
Ou talvez uma permissão.
— Chega — falei baixo, minha voz mais grave do que eu
gostaria. — Chega desse jogo.
Ela me olhou como se tentasse encontrar forças para resistir.
Mas não recuou. Não se afastou.
E isso foi o suficiente.
Antes que ela pudesse protestar, minhas mãos estavam em sua
cintura, puxando-a para mais perto. E então, finalmente, depois de
tantos olhares, provocações… eu a beijei.
Não com suavidade.
Não com hesitação.
Mas com a fome de quem já esperou tempo demais.
Mia correspondeu de imediato, os braços se enroscaram ao
redor do meu pescoço enquanto sua boca se moldava à minha com
perfeição. O beijo era intenso, descompassado, cheio de desejo
contido — como se estivéssemos tentando descontar semanas de
tensão em minutos.
Minhas mãos escorregaram pelas costas dela, sentindo a pele
quente sob a seda fina. O gosto do hálito dela era doce, com um
leve toque de menta. O cabelo grudava em meu rosto, mas eu não
me importava. Nada mais importava naquele momento.
Ela gemeu baixo contra minha boca quando minha mão
encontrou o quadril dela, e aquele som fez meu autocontrole se
despedaçar de vez.
Que se dane o contrato.
Que se dane o plano.
Naquele instante, tudo que existia era ela.
— Mia… — sussurrei contra seus lábios, ofegante. — Me diz pra
parar… agora… ou eu juro que não vou conseguir.
Ela me encarou com os olhos dilatados, a respiração tão
descompassada quanto a minha. Por um segundo, achei que ela
fosse recuar. Mas então…
Ela se ergueu na ponta dos pés, me beijou de novo, com ainda
mais intensidade… e sussurrou contra minha boca:
— Então não para.
A puxei para meu colo num impulso. Mia enrolou as pernas na
minha cintura, nossas bocas a caminho de se encontrarem quando
ouvimos o som da porta da sala se abrir. Na mesma velocidade que
Mia veio para meu colo, ela desceu, pouco antes de Adrienne entrar
e nos pegar em uma situação no mínimo suspeita.
Porra, eu havia me esquecido da minha irmã.
Capítulo 24
Mia Jones
Quando Adrienne entrou pela porta, Brandon e eu estávamos
perigosamente perto de ultrapassar uma linha da qual seria
impossível voltar. O toque das mãos dele ainda ardia na minha pele.
O gosto do beijo ainda estava na minha boca.
Tentei parecer natural enquanto ajeitava o cabelo e a alça da
camisola, como se aquilo pudesse apagar os últimos minutos. Mas o
olhar atento da Adrienne dizia que ela era esperta demais pra não
perceber o clima.
Ela sorriu ao me ver, como se eu já fosse parte da família.
— Bom dia, cunhadinha. Espero não estar atrapalhando nada.
— Não, só estávamos... Bem, Brandon ia olhar o pão e eu
trocar de roupa — sorri, tentando parecer menos culpada do que me
sentia. — Me distraí com Sirius.
Sirius latiu baixinho como se confirmasse minha mentira e veio
para meus pés, sentando-se como um segurança peludo e leal. Me
abaixei para fazer carinho em sua cabeça, e ele retribuiu com um
focinho gelado na minha mão.
— Vendido — ouvi Brandon resmungar do outro lado da sala.
— Me troca por qualquer mão macia.
Adrienne riu e me lançou um olhar cúmplice. Quem visse a
cena jamais desconfiaria que esse relacionamento era uma farsa.
Que era tudo um teatro. Pra eles — e talvez pra mim também —
estava tudo começando a parecer real demais.
Adrienne se ofereceu para olhar o pão, enquanto Brandon e eu
fomos trocar de roupa. Quando entrei no quarto, levei a mão ao
peito. Meu coração estava acelerado. E se Adrienne não tivesse
chegado?
Eu não podia desenvolver sentimentos pelo meu futuro marido
de mentira. Éramos um acordo. Um contrato. Em dois anos tudo
acabaria.
Enquanto me trocava, não conseguia desviar meus
pensamentos dele.
Brandon me beijou.
E não foi um beijo qualquer. Foi um beijo de verdade. Com
fome, com intensidade… com sentimento. E eu estaria mentindo se
dissesse que não desejei que ele não tivesse parado.
Mas aí, Adrienne apareceu. E voltamos a colocar as máscaras.
De volta à sala, Sirius já estava deitado no tapete, como se
aquilo tudo fosse corriqueiro. Os irmãos tinham posto a mesa do
café da manhã e estavam conversando sobre o retorno de Adrienne
para Nova Iorque.
— Estava falando com Brandon, que infelizmente vou precisar
voltar amanhã para Nova Iorque, o trabalho me chama.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, com real curiosidade.
— Sim, a minha chefe ficou doente. Precisam que eu volte e
assuma a coordenação até ela voltar — deu de ombros.
— Espero que ela melhore rápido — disse, me servindo de café
e pegando um pedaço do pão que Brandon tinha assado.
— Queria ficar para o casamento de vocês… — ela me olhou
— é uma pena não poder estar aqui.
— Será algo simples, só no civil — dei de ombros. — Seu irmão
não quer esperar, não é, amor? — Assim que as palavras saíram da
minha boca. Adrienne começou a rir.
— Ai, me desculpe, Mia. Mas você é perfeita. — Fiquei por um
momento sem entender nada. — Eu sei que o casamento de vocês
será por conveniência, apesar de que depois do que quase vi hoje.
— Adrienne — Brandon falou o nome da irmã em tom de
repreensão.
— Então minha melhor amiga não pode saber, mas sua irmã e
o doutor West, sim? — acusei Brandon.
— Eu não contei pra ela, ela ouviu uma conversa minha com
meu avô e acabei tendo que lhe explicar a situação.
— Ok, na verdade já contei para a Lays de qualquer forma —
dei de ombros. Não ia me sentir culpada por isso. — Além do mais,
ela estuda Direito.
— Não sei por que ainda me surpreendo com você. É claro que
você sempre fará exatamente o contrário do que eu mandar
— Talvez seja pelo fato de você não mandar em mim, amor —
falei, mordendo um pedaço de pão — Hum, isso aqui está divino.
— Fico feliz que minha comida agradou ao seu paladar, amor
— usou o apelido de forma sarcástica assim como fiz com ele. —
Ninguém mais pode saber sobre esse contrato — frisou.
— Não saberão — respondi, de forma tácita.
— Deus, mas vocês dois são muito cegos mesmo — disse
Adrienne, se levantando. — Preciso me arrumar, vou sair para
almoçar com a Evellyn. — Adrienne se despediu com um beijo no
rosto do irmão e um abraço apertado em mim — Bom almoço para
vocês e espero que sua família aprove meu irmão, porque você já foi
aprovadíssima.
Quando a porta se fechou, ficamos apenas nós dois ali.
Brandon tinha me contado que a irmã possuía um apartamento no
andar de baixo, que ela só usava quando vinha para casa com o
antigo namorado ou como ontem, que não quis ficar na cobertura
para nos dar privacidade.
E, mesmo assim, quase nos deu um flagra.
Me virei para Brandon, com os braços cruzados e o coração
dando cambalhotas dentro do peito.
— E aí, preparado para o almoço com a minha família?
Brandon levantou as sobrancelhas, teatral.
— Preparado? Mia, eu enfrento cirurgias de doze horas,
pacientes gritando, burocracia hospitalar e até médicos que acham
que são deuses. Mas a sua família? — Ele fez uma pausa dramática.
— Isso sim é um verdadeiro teste de resistência psicológica.
— Covarde — ri, balançando a cabeça.
— Realista — enfatizou, dando um meio sorriso torto que me
fez perder o fôlego. — Mas não se preocupe. Se o seu pai tentar me
matar, pelo menos sou dono de um hospital.
Ri mais do que deveria, sentindo aquele calor estranho se
espalhar pelo peito. Essa história estava indo longe demais, e a cada
minuto que eu passava ao lado desse homem, ansiava por mais.
Capítulo 25
Brandon O’Connor
Chegar à casa da Mia foi como mergulhar em um universo
paralelo. A casa, de cerca branca, em um bairro de classe média,
parecia ter vida própria. Um jardim bem cuidado com flores
coloridas, vozes que vinham de todos os cantos, cheiro de comida
fresca no ar e uma energia tão familiar que me deixou
desconfortável por um instante. Eu não estava acostumado com
esse tipo de caos afetuoso.
Mia segurava minha mão enquanto me guiava pela sala até
sermos recebidos por uma adolescente de cabelos longos e
ondulados, com sorriso zombeteiro — claramente a irmã mais nova.
— Então você é o namorado misterioso? — disse ela, cruzando
os braços com uma sobrancelha arqueada. — Parabéns por aturar a
Mia. Você merece um troféu.
— Olivia! — Mia resmungou, dando um tapa leve no braço da
irmã.
— É sério, ele é bonito. Achei que você tinha inventado.
Antes que eu pudesse responder, um grito agudo cortou o ar:
— Doutor Brandon?
Me virei e vi um garotinho vindo em disparada pela sala. Não
precisei pensar muito. Aquele rosto... eu me lembrava.
Oliver.
Ele parou na minha frente, os olhos azuis arregalados de
emoção.
— É você! — E, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele
pulou nos meus braços, me abraçando com força.
O ar me faltou por um segundo.
Eu lembrava do medo, da tensão, do sangue... mas ali, nos
braços, eu segurava um garoto vivo. Saudável. Rindo.
As vozes ao redor silenciaram por um momento. Mia estava
parada ao meu lado, um sorriso pequeno nos lábios, e todos os
outros — o pai, a mãe, Olivia — pareciam não acreditar na
coincidência. Nem eu.
— Então o namorado da nossa Mia é o mesmo médico que
salvou nosso filho? — Anthony, o pai dela, perguntou.
— Sim — minha voz saiu mais rouca do que eu esperava. —
Estou tão surpreso quanto vocês. Mas eu só fiz o que todo médico
faria por esse garotão.
— Nem todo médico. Não diminua o fato de você não ter
desistido — disse ele, apertando minha mão com firmeza, os olhos
marejados. — Nunca poderei agradecer o bastante.
Todos sorriam. Todos... menos uma.
A mãe da Mia.
Ela sorriu, mas havia algo ali. Algo no olhar dela — um
julgamento escondido, uma análise disfarçada de casualidade. E isso
me incomodou. Havia alguma coisa que eu não sabia. E algo me
dizia que ela sabia que eu não sabia.
Mia não me contou que era irmã do menino. Por quê?
Anotei mentalmente que depois a gente precisaria conversar
sobre isso. Seguimos para a mesa, e o almoço foi servido com muito
barulho, piadas e comida demais.
Anthony era bem-humorado, do tipo que contava histórias
gesticulando tanto que quase derrubava os copos. De acordo com
Mia, os genes italianos do “paidrasto” o tornavam essa pessoa alegre
e receptiva, Olivia não deixava passar uma oportunidade de provocar
a irmã, e Mia rebatia com uma naturalidade que só irmãos
acostumados a se cutucar sabiam fazer.
E eu... bem, eu observava. Me pegava rindo em alguns
momentos, mesmo sem entender como tinha chegado ali.
Foi então que, entre uma garfada e outra, Mia limpou a
garganta e soltou, como quem comenta o tempo:
— Ah, Brandon me pediu em casamento.
Silêncio.
Eu quase derrubei minha taça.
— E eu disse sim — acrescentou ela, sorrindo com os olhos,
como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— O quê? — Anthony quase engasgou. — Vocês começaram a
namorar há poucos dia!
— Foi rápido — admiti, apoiando os cotovelos na mesa. — Mas,
na minha profissão, eu vejo todos os dias o quanto a vida é frágil. O
quanto ela pode mudar num piscar de olhos. Aprendi que a única
coisa que temos é o agora. E se estarmos juntos é o que
queremos... então não tem por que esperar.
Mia me olhou de lado. Seus olhos diziam muito mais do que
sua boca jamais diria na frente da família.
— Bom, quando colocam assim... — a mãe dela falou por fim,
sorrindo de forma contida. — O que importa é que estão felizes.
Um brinde foi feito. Copos se ergueram. Risos voltaram a
preencher o ar. Mas eu não conseguia parar de notar o jeito como
Mia se sentava perto de mim, como nossas pernas se tocavam por
baixo da mesa e como seu perfume me invadia de forma traiçoeira.
A tensão entre nós era palpável. E impossível de ignorar.
Foi quando senti algo roçando minha perna.
— Cuidado — Mia disse, entre uma garfada e outra. — É o
Keren. Ele morre de ciúmes de mim.
— Já arranhou dez ex-namorados dela — Olívia acrescentou. —
Não queremos que você desista também por culpa do gato.
Olhei para Mia, que logo desmentiu a irmã. — Só tive um
namorado e na época nem tinha o Keren ainda.
— O que é uma pena, ficaria feliz em ver a cara dele toda
arranhada — Anthony acrescentou.
— Ei, gatinho — chamei, olhando para baixo.
— Um monstro peludo, na verdade — Olivia voltou a falar. —
Um grande e folgado, diga-se de passagem.
Surpreendentemente, contra tudo que Mia falou, Keren se
esfregava nas minhas pernas como se eu fosse uma extensão da
Mia. E, antes que alguém pudesse alertar, ele pulou no meu colo e
ronronou como se me conhecesse há anos.
— Uau — Olivia arregalou os olhos. — Ok, isso é assustador. O
Keren odeia gente perto da Mia. Até o pai foge por medo dos ciúmes
dele.
— Acho que ele me aceitou — disse, passando a mão por trás
da orelha dele e sendo recompensado com mais ronronados.
Mia me olhou com um sorriso que me desmontou por dentro.
Era genuíno. Um sorriso de quem... talvez estivesse se perguntando
as mesmas coisas que eu.
Por quanto tempo conseguiríamos manter esse casamento
como uma mentira?
Porque, naquele momento, com a família dela rindo, Keren no
meu colo e Mia do meu lado...
Nada parecia falso.
Nada mesmo.
Mia Jones
Alguns minutos de folga entre um e-mail e outro… uma
apresentação e outra, e eu podia simplesmente tomar um café ou
responder mensagens atrasadas. Mas meu coração me puxou na
direção certa. Bati levemente na porta do quarto da Sarah e esperei
até ouvir sua vozinha animada.
— Entra!
Abri a porta e dei de cara com a pequena empoleirada na
cama, rodeada por folhas de desenho, lápis de cor espalhados e o
inseparável sapo de pelúcia descansando ao lado dela como um
soldadinho de guarda.
— E aí, artista? — sorri, entrando devagar.
— Mia! — ela gritou, abrindo os braços. Fui até ela e ganhei
um abraço que fez meu peito aquecer.
Conversamos sobre desenhos, desenhos animados e a nova
enfermeira que, segundo ela, “tem um cabelo que parece nuvem”.
Em determinado momento, ela puxou uma folha e me entregou com
um sorrisinho tímido.
— Fiz pra você.
Era um desenho nosso. Eu e ela, de mãos dadas, em meio a
um jardim florido. Ela com seu sapo e eu com um coração bem
grande no peito.
Senti os olhos arderem. Engoli o choro com força.
— Sarah… isso é lindo. Eu vou guardar pra sempre — beijei
sua testa e a abracei com carinho. — Eu volto depois do expediente,
tá?
— Promete?
— Prometo.
Saí dali com um nó no peito e uma certeza: faria qualquer
coisa por ela. E por todas as crianças como ela.
Restaurante L’Ardoise
Evellyn e eu estávamos sentadas com o prefeito de Chicago,
Gregory Wilton, e seu filho, Michael Wilton, o típico riquinho mimado
de terno caro e sorriso ensaiado.
Almoço de negócios.
A comida estava ótima, a conversa… nem tanto. Enquanto
Evellyn explicava os números que seriam arrecadados em prol da
nova ala de cuidados básicos com a maratona entre bombeiros e
policiais de Chicago, e a visibilidade positiva que isso traria para a
cidade, o filho do prefeito parecia mais interessado em mim do que
no projeto.
— E então, Mia, você trabalha há muito tempo no hospital? —
ele perguntou, com aquele sorriso que parecia mais um convite
indecente do que simpatia.
— Não, pouco tempo — respondi educadamente.
— Deve ser difícil se concentrar num hospital, rodeada de
médicos o dia inteiro. — Seus olhos percorreram meu rosto até parar
na minha boca. — Aposto que tem sempre um doutor querendo
examinar seu coração…
Senti a bile subir.
Fingi uma risada sem graça, desconversei e logo depois pedi
licença para ir ao banheiro.
Mal empurrei a porta para sair, e ele estava lá. Encostado na
parede, braços cruzados, como se tivesse saído direto de um filme
ruim.
— Achei que podíamos conversar sozinhos. Você é linda demais
pra fingir que não percebe o que tá rolando aqui.
— O que está rolando aqui, senhor Wilton — frisei o
sobrenome — é um almoço de negócios. Não uma sessão de
assédio.
Ele deu um passo na minha direção. Eu não recuei.
— Qual é… só estou sendo gentil. Aposto que nunca um
homem te valorizou como deveria.
— Ah, você não faz ideia de como está enganado, tenho um
noivo, que sabe bem como mostrar meu valor. — Cruzei os braços,
firme. — É ótimo com um bisturi na mão. E ficaria furioso se
soubesse que alguém me abordou desse jeito.
A cor sumiu do rosto dele.
— Ah… você é comprometida?
— Com um dos donos do hospital. — Sorri com doçura falsa. —
E ele adora resolver problemas com precisão cirúrgica.
Michael engoliu em seco e recuou um passo.
— Bom… foi só uma brincadeira. Você devia relaxar mais…
— E você devia aprender a ouvir um "não". — Esse moleque ia
ter que comer proteína para achar que poderia me assediar e achar
que eu aceitaria calada.
Saí andando sem olhar para trás. Quando voltei pra mesa, só
troquei um olhar rápido com Evellyn e me sentei como se nada
tivesse acontecido.
Brandon O’Connor
O dia estava sendo uma bagunça. Entre reuniões, atualizações
de casos e o dobro de papelada por causa da nova regulamentação,
tudo o que eu queria era verificar se ao menos os novos residentes
estavam fazendo o mínimo necessário.
Dobrei o corredor e parei. De longe, reconheci a silhueta da
Mia, eu sabia, ela estava rindo.
Com Brian.
Aquele idiota sorria como se tivesse algum mérito. Como se
merecesse um segundo do tempo dela. Como se…
Aproximei-me, o som da minha passada firme ecoando pelo
piso branco. A expressão de Brian murchou assim que me viu.
— Doutor O’Connor — ele endireitou a postura — eu estava
só…
— Atualizou os prontuários da sua ronda? — cortei, direto.
— Ainda não, senhor. Estava indo fazer isso agora…
— Então se apresse. E pare de perder tempo batendo papo
pelos corredores. Aqui é um hospital, não um clube social.
Ele engoliu seco, lançou um olhar desconfortável para Mia e
saiu quase trotando.
Mia cruzou os braços.
— Você não precisava ser grosso com ele.
— Precisava, sim — respondi, sem hesitar, ainda encarando o
fundo do corredor por onde o residente desaparecera. — Não quero
você conversando com meu residente.
— E qual o problema nisso, Brandon? — a voz dela vinha com
aquela mistura irritante de razão e doçura. — Trabalhamos no
mesmo lugar.
Virei para ela, mais perto do que deveria.
— O problema... é que ele quer o que é meu.
Os olhos dela se arregalaram, e sua respiração falhou por um
segundo. Vi quando engoliu em seco. Quando os olhos dela
desceram para a minha boca e voltaram para os meus.
— Você não pode dizer essas coisas pra mim.
— Posso, sim — falei com a voz baixa, arrastada. — Porque é
verdade.
E antes que ela dissesse qualquer outra coisa, segurei seu
pulso delicadamente e puxei com firmeza.
Abri a porta do depósito de medicamentos, empurrei com o pé
e a fechei atrás de nós com um clique. O som abafado do hospital
ficou do lado de fora. Aqui dentro, havia só prateleiras, remédios e a
tensão pulsando entre nós como eletricidade.
Ela me olhava com os lábios entreabertos, os olhos
arregalados. E nenhuma resistência.
Aproximei-me, até colar meu corpo ao dela, minhas mãos em
sua cintura, o calor do seu corpo atravessando as roupas.
— Eu não gosto quando você sorri pra outro homem.
— Brandon…
— Não quero te dividir. Nem fingir que não sinto isso — minha
voz saiu rouca, baixa, carregada.
Antes que ela dissesse qualquer coisa, eu a beijei.
Com fome. Com raiva. Com desejo acumulado demais para ser
contido por qualquer moral e regras que já me impus em outro
momento.
Ela correspondeu de imediato, como se estivesse esperando
por aquilo desde sempre. Suas mãos se enroscaram na gola do meu
jaleco, puxando-me ainda mais para si, e eu deixei as costas dela
colidirem suavemente contra a porta. Minhas mãos deslizaram para
sua cintura, depois subiram até seu pescoço, seu rosto, enquanto
minha boca explorava cada centímetro da dela.
O gosto dela era viciante. Doce, quente, faminto.
Ela gemeu contra meus lábios, e o som foi como gasolina
jogada no incêndio. Eu estava perdendo o controle. Ali, no maldito
depósito do hospital, como um adolescente apaixonado.
Ela era minha. Minha. E eu faria questão de lembrá-la disso
sempre que ela esquecesse.
Apertei seu seio por cima do vestido. Ela gemeu, fazendo meu
tesão aumentar. Abaixei seu vestido, e fui contemplado por dois
montes redondinhos de aréolas rosa. Os biquinhos entumecidos
imploraram pela minha boca. Não perdi tempo. Tomei um nos lábios,
enquanto o outro recebia atenção da minha mão. Chupei com
vontade, completamente dominado pelo tesão.
— Ahhhh, meu Deus! — Mia gemeu. — Como isso...
— Shiii, não queremos ser descobertos — levei meu dedo até
sua boca. — Não geme! — Voltei a beijá-la, ao mesmo tempo que
usava meu corpo para separar suas pernas. Levei uma mão até sua
intimidade, tocando sua boceta por cima do tecido de renda. Ela
estava molhada. Afastei a calcinha, tocando sua pele lisinha e
sensível.
— Por favor, Brandon — pediu, com a voz abafada pelos meus
beijos e por sua respiração entrecortada.
— Porra, Mia — apertei mais meu corpo contra o dela,
esfregando minha ereção dura em sua boceta —, quero tanto te
foder. Mas não aqui, não na sua primeira vez.
— Mas eu tô com tanto tesão — confessou.
— Eu vou te fazer gozar, sunshine. Mas, agora, será somente
nos meus dedos — toquei sua intimidade novamente, lambuzando
meus dedos em sua lubrificação. — Caralho, isso tudo é vontade de
sentir meu pau? Vontade de ser fodida por mim?
— Sim, sim. — Mia estava tão entregue, o rosto avermelhado,
a pele brilhando levemente pelo suor. Ela conseguia ser ainda mais
linda com tesão. Esfreguei seu pontinho duro com precisão,
enquanto um dedo entrava e saia só um pouquinho do seu canal
virgem, quente e apertado.
— Acho que... eu vou goz... — tomei seus lábios quando senti
que ela estava gozando, abafando seus gemidos. Assim que seu
corpo se acalmou, me afastei somente o suficiente para levar meus
dedos que antes estavam em sua boceta até minha boca e lambê-
los sob o olhar curioso de Mia.
— Não vejo a hora de sentir seu gosto direto da fonte — mordi
seus lábios — Você me deixa maluco — confessei, encostando os
lábios no canto da boca dela. — E isso… isso ainda nem começou.
Ela estava vermelha, os olhos em brasa, os lábios inchados do
beijo. Linda. Perigosa.
Ela mordeu a boca, o olhar ainda perdido em mim.
— A gente… precisa voltar pro trabalho — sussurrou.
Assenti lentamente, mas não consegui sair de perto.
— Hoje você vai para minha casa — sentenciei, beijando-a
novamente sem dar espaço para protesto. Não podia mais adiar o
que eu queria fazer desde o dia que nos conhecemos.
Mas agora, eu precisava respirar — ou perderia completamente
o controle.
Quebrei o beijo com esforço, ainda colado a ela, as testas
encostadas, nossas respirações ofegantes se misturando.
Então me afastei, ajudei-a se ajeitar e deixei-a sair primeiro do
depósito. Precisava de mais algum tempo para acalmar meu pau e
ela deveria estar distante para isso.
Capítulo 27
Mia Jones
Ainda sentia o gosto dele na minha boca.
A porta da minha sala se fechou atrás de mim com um clique
suave, e eu fiquei alguns segundos parada ali, tentando me
recompor. Minhas mãos tremiam levemente. Meu coração ainda
batia acelerado, como se tivesse corrido um quilômetro em dois
minutos.
Eu gozei nas mãos de Brandon O’Connor.
Não. Ele me beijou. Me pegou pela cintura, me encostou na
porta daquele depósito e me fez esquecer de absolutamente tudo —
inclusive o fato de que nosso casamento seria uma encenação.
E, antes de sair, ele lançou aquela sentença no ar como se
fosse a coisa mais natural do mundo:
“Hoje você vai para minha casa.”
Não perguntou. Não sugeriu. Apenas… afirmou.
E o pior?
Eu poderia dizer não.
Poderia tê-lo lembrado que a gente ainda não tinha assinado
nada, que ainda dava tempo de recuar, que tudo isso podia ser
apenas uma bolha de calor e carência prestes a estourar.
Mas eu queria?
Não.
Queria fugir do que estava sentindo?
Definitivamente, não.
Sentei-me à mesa e suspirei, apertando as têmporas. Não
podia me permitir pensar nele agora. Tinha trabalho a fazer. Coisas
urgentes para entregar. Vidas reais que dependiam de decisões bem
tomadas, não de impulsos entre corredores e beijos escondidos.
— Mia? — a voz de Vicent surgiu na porta com aquele tom
animado de sempre. — Tem um minuto?
— Tenho — respondi, endireitando a postura e forçando meu
cérebro a voltar para o modo profissional. — Entra.
Ele já veio com o tablet em mãos, pronto para mostrar os
dados da nova campanha de doação de órgãos.
— A gente está pensando em usar o caso do pequeno Logan
como ponto de partida. Tem vídeo, depoimento dos pais, o pós-
transplante...
— Isso pode funcionar bem se a gente souber dosar a carga
emocional — comentei, analisando os números. — Não queremos
parecer sensacionalistas, mas sim humanos. Empatia, esperança,
comunidade…
Vicent sorriu, animado.
— Isso! A ideia é mostrar que o hospital vai além das paredes.
Que somos um elo. A gente só precisa de você pra ajustar a
mensagem principal já que Evellyn está viajando, e te deixou à
frente de tudo.
Afundei-me no projeto com ele, discutindo palavras, cores,
impacto, público-alvo. Aos poucos, Brandon foi escorregando para o
fundo da minha mente, enterrado sob gráficos, ideias e relatórios.
Depois, mergulhei em um pedido de Evellyn: um relatório
detalhado sobre as parcerias externas da fundação. Estava tão
concentrada nas planilhas e nos dados que só percebi que o
expediente tinha acabado quando ouvi duas batidas secas na porta
da sala.
Antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa, a maçaneta
girou e ele entrou.
Brandon.
Sem jaleco agora. A camisa social de mangas dobradas deixava
à mostra os antebraços fortes. Os olhos cravados em mim. O ar
entre nós ficou mais denso. Mais quente.
Ele encostou-se no batente da porta com aquele jeito
displicente que eu já estava começando a entender ser só uma
fachada para esconder tudo o que ele sentia de verdade.
— Está pronta? — perguntou, com a voz baixa, firme, com uma
pontada de algo… perigoso.
Engoli em seco.
Estava pronta?
Não.
Sim.
Talvez?
Larguei a caneta com calma e fechei a tampa do notebook,
tentando parecer no controle. Mas ele percebeu. É claro que
percebeu. Ele sempre percebia.
Levantei-me, ajeitando o vestido com uma calma ensaiada.
Ergui o rosto, meus olhos encontrando os seus.
Havia algo neles. Um convite. Uma promessa não dita. E no
fundo, uma pergunta silenciosa:
Você vem mesmo? E eu iria.
Porque naquele instante, nada me parecia mais certo do que ir.
— Sim — respondi firme. — Só preciso fazer uma coisa antes.
Brandon O’Connor
Assim que a porta da cobertura se fechou atrás de nós, eu
soube que não conseguiria me controlar.
Ela entrou primeiro, os passos lentos ecoando pelo chão de
mármore preto. A luz suave do início da noite atravessava as janelas,
banhando o espaço num tom dourado e cálido. Sirius veio correndo
para receber a gente, abanando o rabo, mas até ele pareceu
perceber que havia algo no ar — alguma coisa elétrica, densa,
inevitável.
Ela virou-se para mim.
A boca entreaberta.
Os olhos grandes, brilhando sob a luz suave.
Meu coração bateu com força. E então, sem dizer uma palavra,
fechei a distância entre nós em dois passos e a beijei.
Não um beijo rápido. Não um beijo casto.
Foi um beijo quente, profundo, desesperado.
Minhas mãos seguraram seu rosto, puxando-a para mim como
se precisasse colar nossos corpos para respirar. A boca dela se abriu
sob a minha, as línguas se encontrando como se já soubessem o
caminho, como se estivéssemos tentando matar uma sede antiga
que nem sabíamos que existia.
Ela gemeu contra minha boca — um som baixo, rouco, que foi
direto para o meu pau.
A maciez da pele dela e seu sabor já estavam impressos na
minha memória desde mais cedo. Agora, sem o risco de sermos
interrompidos, o desejo se intensificou mais. Levei uma das mãos
até sua cintura, a outra desceu pelas suas costas até encontrar a
curva perfeita do quadril. Apertei ali, sentindo seu corpo se encaixar
no meu, como se tivesse sido feito pra isso.
Ela agarrou minha camisa com força, puxando como se
quisesse me despir ali mesmo, no meio da sala.
— Mia... — sussurrei contra seus lábios, ainda colado a ela.
— Não fala nada agora — ela murmurou de volta. — Só...
continua.
E eu continuei.
Empurrei-a suavemente até o encosto do sofá, nossos corpos
se movendo em perfeita sintonia. Cada beijo parecia mais urgente
que o anterior. As mãos dela subiram por minha nuca, os dedos se
enterrando em meus cabelos. Quando minha boca desceu pelo seu
pescoço, ela arqueou o corpo contra o meu e soltou um suspiro que
me fez perder o resto da razão.
Estávamos pegando fogo. Ali. Na sala. A dois passos da porta.
E mesmo assim, não era rápido. Nem bruto. Era intensidade
contida, um desejo que se acumulou em olhares e toques por dias
— e agora cobrava seu preço.
Minhas mãos deslizaram para a barra do seu vestido, mas
antes que eu pudesse levantar o tecido, ela me segurou pelo pulso.
Os olhos ainda estavam tomados de desejo, mas havia algo mais ali.
— Se a gente for continuar... precisa ser de verdade — ela
disse, ofegante. — Não só físico. Não só impulso.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo, lutando
contra o impulso de tê-la ali mesmo no tapete da sala.
Ela tinha razão. E isso me irritava e me encantava ao mesmo
tempo.
— Tudo com você já é de verdade, Mia — respondi, com a voz
rouca. — Esse é o maldito problema.
Ela mordeu o lábio, e eu soube que ela também estava lutando
contra os próprios limites.
Soltei o ar devagar, encostando minha testa na dela.
— Vamos comer alguma coisa antes que eu perca o resto da
minha sanidade.
Ela riu, baixinho, e foi o som mais bonito que eu ouvi o dia
inteiro.
— Só se tiver mais daquele sorvete de morango.
Sorri. — Sempre tem, Mia.
Sempre terá.
Capítulo 28
Brandon O’Connor
Pedimos uma pizza e enquanto esperávamos cada um foi para
seu quarto. Mia ainda não tinha roupa aqui, então, pegou uma blusa
minha emprestada antes de se enfiar em seu quarto para tomar
banho. Nunca imaginei que ficaria com ainda mais tesão por vê-la
dentro daquela malha larga que parecia mais um vestido nela. Foi
difícil não jogá-la por cima do ombro e levá-la para o meu quarto
como um neandertal.
Observava enquanto ela comia seu sorvete e casualmente
lambia a colher. Ela não percebia como isso estava mexendo comigo,
ou talvez soubesse e simplesmente estivesse se divertindo por me
torturar. Ela terminou a última colherada do sorvete com um sorriso
preguiçoso e os olhos me observando por baixo dos cílios longos.
Estávamos sentados no sofá, mais próximos do que deveríamos —
mais próximos do que qualquer resquício de autocontrole me
permitiria.
O silêncio entre nós não era desconfortável.
Era denso. Carregado. Cheio de promessas que não tinham
palavras.
Ela lambeu novamente a colher devagar, como se estivesse me
testando. Meu maxilar travou.
Levantei-me devagar, estendi a mão para ela.
Ela aceitou sem hesitar.
Levei-a até meu quarto, com passos firmes, mas por dentro
sentia meu coração disparado como o de um adolescente. O
caminho era curto, mas o peso do que estava prestes a acontecer
tornava cada segundo mais intenso.
Assim que a porta se fechou, não houve mais hesitação.
A beijei com a fome contida de noites mal dormidas, de
pensamentos proibidos. Minha boca capturou a dela como se fosse a
única coisa que fazia sentido no mundo. E era.
Suas mãos estavam em meu peito, depois nos meus ombros,
me puxando para mais perto. Meus dedos já estavam em sua
cintura, deslizando pela pele quente sob a blusa que logo voou para
o chão.
Minha blusa em seu corpo, agora parecia ter sido feita para
isso — para ser arrancada com desejo. — A pele dela era macia,
quente, viva sob meus toques. Mia estava completamente nua na
minha frente, no meu quarto, sob meu domínio.
— Tem certeza? — sussurrei contra a curva do seu pescoço,
respirando ofegante.
— Tenho. Desde o primeiro beijo — ela respondeu, e isso me
atingiu como um raio. Tirei minha própria roupa ficando apenas com
a cueca boxer.
A levei até a cama. Meus lábios explorando cada centímetro do
seu corpo. Da curva dos seios ao ventre que tremia sob meus beijos.
Seus gemidos suaves me guiavam, sua entrega me consumia.
Ela era doce e selvagem na medida exata. Me pedia mais com
os olhos, com o corpo, com a respiração entrecortada.
Nossos corpos se encaixavam como se sempre tivessem
pertencido um ao outro. Cada movimento era puro instinto, puro
fogo. Tomei um dos seus seios na boca, mamando com vontade,
fazendo Mia gemer alto. Agora ela podia gritar se quisesse. Queria
tudo dela. Depois de dar atenção aos dois seios. Beijei seus lábios
novamente.
— Já te chuparam antes, Mia? — questionei enquanto descia
minha mão para o meio de suas pernas — Me, diz que ninguém
chupou sua boceta antes de mim.
— Nunca deixei ninguém se aproximar tanto.
— Porra! Vou ser o seu primeiro, Sunshine — massageei seu
clitóris.— Seu primeiro em tudo.
— Sim, oh, continua... — rebolou nos meus dedos. Tão
molhada. Tão entregue.
— Vou te fazer gozar, amor — mordi seu pescoço. — Te
preparar para receber meu pau.
Desci beijos por sua barriga até parar no lugar que eu mais
desejava me afundar.
— Brandon — chamou meu nome quando abri seus grandes
lábios e passei minha língua de cima para baixo e de baixo para
cima, até parar em seu pontinho duro e sensível, que prendi entre
meus dentes depois de rodear com a língua.
— Eu sabia que seria muito melhor quando eu sentisse seu
gosto direto na minha língua. — Explorei sua entrada com os dedos,
com a língua. Fodendo-a com uma lentidão calculada. Testando seus
limites.
— Continua, eu estou quase gozando. — Suas mãos puxavam
meus cabelos, como se quisesse garantir que eu não fosse fugir.
— Goza gostoso. Me deixa beber do seu prazer, Mia. — Meti
um segundo dedo em seu canal, e porra, como era apertado. —
Deixa vir. — Então, ela se entregou, e eu continuei sugando,
lambendo toda sua intimidade até que seu corpo amoleceu. Me
levantei da cama e me afastei somente o suficiente para tirar a
boxer e pegar uma camisinha na mesinha ao lado.
Enquanto voltava para a cama, observei seu corpo lânguido, o
rosto vermelho e o sorriso frouxo no rosto.
Linda para caralho. E minha.
Eu sabia que não tinha volta. Ainda assinaremos aquele
contrato, ela ainda será minha esposa, mas sabia que não seria
capaz de deixá-la partir. Mia seria para sempre minha.
Ela ergueu um pouco o corpo apoiando o peso nos cotovelos,
me observando enquanto eu subia na cama. Ela lambeu os lábios,
seu olhar preso no meu pênis que estava inchado, duro, com as
veias saltadas. Eu fazia movimentos preciso de vai e vem nele, me
preparando para estar dentro dela. Para torná-la minha mulher.
— Você é muito grande — disse, mordendo a boca sem desviar
o olhar.
— Mas vai caber, sunshine — falei, parando entre suas pernas
enquanto rasgava o pacote do preservativo e envolvia meu membro
que pulsava ansioso — vai me receber bem, me tomar todo dentro
de você — disse, deitando-me sobre ela, encaixando meu pau em
sua entrada e tomando seus lábios num beijo apaixonado.
Ela envolveu minhas costas com as pernas, puxando-me para
mais perto, pedindo sem palavras que eu a tomasse por completo.
E eu tomei.
Com cuidado no início, ouvindo seus gemidos de dor, beijando
as lágrimas que rolaram involuntariamente. Mas logo o ritmo se
tornou mais intenso, mais urgente. Como se precisássemos nos
fundir, nos destruir para depois renascer.
— Que boceta apertada, Mia. — Eu entrava e saia, num ritmo
lento. Observando onde nossos corpos se fundiam. Ver meu cacete
deslizando, indo e vindo de dentro dela era a coisa mais erótica que
já vislumbrei. A mancha do seu sangue, a prova que eu era o único
a estar ali, a tomá-la de forma tão primal, só atiçou mais meu lado
possessivo.
Eu seria seu primeiro e único.
Os gemidos dela, os sussurros do meu nome, as unhas
arranhando minhas costas — tudo isso gravou esse momento na
minha pele, na minha alma.
Quando ela chegou ao clímax, gritando meu nome contra meu
pescoço, perdi o controle. Gozei com força, segurando-a apertado,
como se o mundo inteiro pudesse ruir ao nosso redor e só ela
importasse.
Foi avassalador.
Foi cru.
Foi real.
Ficamos ali, ofegantes, suados, grudados.
Meus dedos traçavam linhas lentas pela curva do seu quadril
enquanto eu tentava desacelerar o coração. Ela virou o rosto para
mim, os olhos fechados, um sorriso satisfeito nos lábios.
— Isso… — ela murmurou, rouca. — Foi insano.
— Isso… foi só o começo — respondi, beijando sua testa.
E eu sabia que era verdade.
Porque com ela, nada jamais seria simples ou passageiro. Ela
era o caos que meu coração negava, mas meu corpo e minha alma
já tinham aceitado completamente.
Capítulo 29
Brandon O’Connor
O quarto estava em silêncio, exceto pelo som dos nossos
corpos ainda ofegantes tentando recuperar o fôlego. A respiração
dela era suave, quase sincronizada com a minha. Minhas mãos ainda
estavam em sua pele, como se meu corpo não aceitasse se afastar
do dela.
Mia se mexeu levemente, e senti seus músculos se retesarem
sob meus dedos. Ela deslizou para a beirada da cama, puxando o
lençol para cobrir o corpo nu.
— Onde você pensa que vai? — minha voz saiu baixa, rouca,
carregada de exaustão e desejo ainda presente.
Ela me olhou por sobre o ombro, os cabelos bagunçados
caindo em ondas sobre a pele marcada pelo que tínhamos acabado
de fazer.
— Pro meu quarto… vou tomar banho — respondeu, com um
leve desvio de olhar.
Notei o rubor em seu rosto. Não era vergonha, não
exatamente. Era mais como... um certo desconcerto, um tipo de
vulnerabilidade que eu ainda não tinha visto nela. Isso apertou algo
dentro de mim.
— Você não vai a lugar nenhum — falei, me erguendo da
cama. Estendi os braços, me aproximando, até segurá-la com
firmeza. — Se for tomar banho, vai ser comigo. Aqui.
Ela arregalou os olhos por um segundo, mas não protestou
quando a ergui do colchão e a peguei nos braços, como se fosse a
coisa mais natural do mundo.
— Brandon… — sussurrou, em um meio riso abafado. — Isso é
loucura.
— É — concordei, já atravessando o quarto e empurrando a
porta do meu banheiro com o ombro. — Mas se você acha que
depois do que aconteceu eu vou te deixar sair do meu quarto...
então me conhece muito mal.
O banheiro se encheu com o vapor da água quente quando
abri o chuveiro. Coloquei-a de pé sobre o tapete felpudo, e ela ficou
ali por um momento, me observando em silêncio.
Entramos juntos, e a água escorreu por nossas peles
misturando suor, perfume, desejo e o calor ainda pulsante entre nós.
Peguei o sabonete líquido e comecei a massagear seus ombros com
suavidade, escorregando as mãos pelos braços, pelas costas. Ela
relaxou sob meu toque, soltando um suspiro.
— Você está bem? — perguntei, em voz baixa, inclinando o
rosto para perto do dela. — Tá dolorida?
Ela assentiu levemente, mordendo o canto do lábio.
— Um pouco. Mas… nada insuportável.
— Me avisa se eu fizer algo que te machuque.
— Você está sendo carinhoso — ela disse, surpresa, como se
isso fosse algo que não se encaixasse na ideia que tinha de mim.
— Talvez você não conheça todas as minhas versões —
retruquei, passando os dedos molhados por sua nuca e a puxando
delicadamente para um beijo lento, sem pressa, que não queria mais
nada além de sentir.
Ela encostou em meu peito, os braços envolvendo minha
cintura. Ficamos ali, sob a água morna, como se o mundo lá fora
não existisse. E talvez, por alguns instantes... não existisse mesmo.
Mia Jones
O quarto estava escuro, exceto por um feixe de luz suave que
entrava pela janela entreaberta. O ar ainda trazia o aroma da nossa
pele molhada, do sabonete do Brandon misturado ao cheiro do
shampoo. A cama grande nos envolvia, lençóis limpos e macios
roçando na minha pele ainda sensível, como se tudo ali fosse feito
para me lembrar do que tínhamos acabado de fazer.
Do que eu tinha feito.
Eu perdi minha virgindade com ele.
Com Brandon O’Connor.
O homem que, durante os próximos dois anos, será meu
marido... por contrato.
Fechei os olhos por um segundo, sentindo meu peito apertar.
Nada naquela noite foi um acordo comercial. Nenhuma das palavras
dele, nenhum dos toques, nenhum olhar. E mesmo assim… era
exatamente isso que nós tínhamos, não era?
Um contrato.
Dois anos.
Um acordo.
Mas era difícil lembrar disso com ele tão perto. O peito nu
colado às minhas costas, a respiração dele aquecendo minha nuca,
as mãos firmes e, simultaneamente, gentis. Tudo nele parecia
contraditório, e, ao mesmo tempo, fazia sentido. Um caos envolto
em autocontrole. Frieza com calor nos olhos. Distância e
proximidade, tudo ao mesmo tempo.
Eu estava me envolvendo. E isso era um problema. Um
enorme, perigoso e devastador problema.
Senti meu corpo se retesar quando deixei a mente vagar
demais, e talvez tenha suspirado alto demais, porque a voz dele veio
logo depois, grave e suave.
— Para de pensar tanto, Mia — ele disse, com aquela
autoridade tranquila que me fazia querer obedecer. — Só...
descansa.
Antes que eu pudesse responder, ele me puxou com mais
firmeza contra seu peito e beijou o topo da minha cabeça. Como se
fosse a coisa mais natural do mundo. Como se fosse rotina. Como se
fôssemos mesmo… marido e mulher.
Aquele gesto tão pequeno, tão íntimo, me desmontou. Suspirei
de novo, mas desta vez com o corpo rendido ao cansaço e ao toque
dele.
Eu queria dormir ali para sempre. Queria que essa noite não
acabasse. E, mais do que isso, percebi, com o coração apertando no
peito…
Eu não queria que isso acabasse. Nem agora. Nem em dois
anos.
Brandon O’Connor
O sol batia com força através dos vitrais do salão reservado em
um restaurante discreto e elegante no centro da cidade. A luz
refletia nos talheres polidos e nas taças de cristal, fazendo tudo
parecer um pouco mais irreal.
Por um instante, fiquei parado ali, observando a
movimentação. — Mia sorrindo ao lado da Lays, que gesticulava
animadamente com uma taça na mão, meu avô sentado com uma
dignidade silenciosa ao lado do irmão dela, Olívia fazendo alguma
piada que fez Anthony bufar e sacudir a cabeça.
E, no meio disso tudo, ela. Mia.
Vestida de branco, mas nada tradicional. Um vestido leve, de
tecido fluido, como ela. O cabelo preso de forma simples, a
maquiagem quase inexistente, e ainda assim... eu nunca a vi tão
linda.
Ela sorriu para mim, e por um segundo, só existimos nós dois.
Nada de contrato. Nada de prazo. Só a sensação estranha de que
aquilo não era encenação.
— Senhor O’Connor? — A voz do oficial do cartório me trouxe
de volta.
Assenti, ajustando o botão do paletó. O homem, com os papéis
na mão, olhou para nós com um sorriso sereno.
— Estamos aqui reunidos para celebrar a união de Brandon
O’Connor e Mia Jones. Um compromisso formalizado por lei, mas
que carrega o valor de todas as decisões importantes: a escolha.
Vocês escolheram caminhar juntos. Que esse caminho seja leve,
respeitoso e, acima de tudo, verdadeiro.
Senti o peso daquelas palavras e percebi, pelo leve tremor no
canto da boca de Mia, que ela também.
Assinamos os papéis. A mão dela tremia um pouco e, quando
devolveu a caneta, nossos dedos se tocaram. Não precisei olhar nos
olhos dela para saber que a eletricidade estava ali de novo. Ardendo.
Crescendo. Sempre à espreita.
Depois do beijo, veio um breve aplauso e os brindes. Anthony
se levantou primeiro.
— Sei que todos achamos tudo isso muito rápido — começou
ele, erguendo a taça. — Mas se tem uma coisa que aprendi com o
tempo... é que quando algo é certo, você sente. E minha filha
sempre teve um bom instinto. Então, Brandon... cuida bem da minha
menina. E Mia, não o assuste logo de cara, tá? — Todos riram.
Em seguida, meu avô se levantou com sua presença que
impunha silêncio.
— Brandon é um homem de poucas palavras, e menos ainda
sobre sentimentos — disse ele, com o olhar fixo em mim. — Mas
hoje... eu vi algo diferente nele. Vi leveza. Vi... luz. E sei que isso
tem a ver com você, Mia. Obrigado por trazer isso para a vida do
meu neto.
Engoli em seco. Aquele era meu avô. A figura mais dura e
respeitada da minha vida, dizendo que... estava feliz por mim.
Quando ele se sentou, Mia tocou minha mão. Só um toque
leve. Mas foi como se o mundo parasse de girar por um segundo. E
o meu olhar encontrou o dela de novo.
Ela não disse nada. Mas eu li. Eu senti.
Não éramos mais só duas pessoas presas a um acordo. Aquilo
ali... estava se transformando em algo muito real.
E isso era aterrorizante.
E, ao mesmo tempo, inevitável.
Capítulo 30
Mia Jones
Era estranho. Saber que aquele era, oficialmente, o meu novo
lar.
Mesmo tendo vindo outras vezes à cobertura do Brandon nos
últimos dias, inclusive ontem, quando trouxe minhas malas para cá,
agora era diferente. Porque não era uma visita. Era permanência.
Respirei fundo antes de abrir a porta. O coração batia forte,
acelerado, não só pela mudança, mas por tudo o que ela
representava. Sirius veio correndo assim que a porta se abriu,
abanando o rabo como se estivesse me esperando há dias — mesmo
que eu o tivesse visto ontem.
— Oi, bonitão — falei, me abaixando para dar carinho. Keren,
dentro da caixa de transporte que eu trazia nas mãos, soltou um
miado de protesto. — Calma, ciumento, já vou te tirar daí.
— Vamos descobrir como esses dois irão se sair — Brandon
disse ao meu lado.
— Pronto pra conhecer seu colega de casa? — perguntei,
abrindo a caixinha.
Keren saiu como se fosse o dono do lugar, caminhando com o
rabo empinado e o ar aristocrático de sempre. Sirius se aproximou
devagar, curioso. Esperei o ataque felino, o bufado indignado, ou um
arranhão… mas o que aconteceu me deixou sem palavras.
Keren cheirou Sirius, miou de leve — quase um "hum, tudo
bem" — e se esfregou nele. Sirius respondeu abanando o rabo e
encostando o focinho no lombo do gato. Dois segundos depois,
estavam sentados lado a lado na sala, como se fossem velhos
amigos.
— Isso... foi inesperado — comentei, olhando para Brandon.
Ele deu de ombros, com um meio sorriso.
— Acho que eles já sabiam que iam dividir o espaço. Assim
como nós.
Engoli em seco, sentindo a tensão que começava a se instalar
no ar. Era sutil, mas estava lá. Como sempre. Vibrando entre a
gente.
— Vou para o meu quarto organizar minhas coisas — disse,
tentando soar casual. — Preciso colocar tudo no lugar antes de me
perder no meio da rotina.
— Não precisa — ele respondeu, com aquela firmeza que fazia
meu estômago se contorcer. — Suas malas estão no meu quarto.
Nosso agora.
Pisquei algumas vezes.
— No seu...? Por quê?
Ele se aproximou, devagar, mas com aquele jeito predatório
que fazia minha pele se arrepiar mesmo antes de me tocar.
— Vai mesmo fingir que o que está rolando entre a gente ainda
é só sobre o contrato?
A respiração prendeu no meu peito. Eu abri a boca para
responder, mas ele seguiu, sem dar espaço.
— Eu não sou mais um moleque, Mia. Não estou aqui pra
joguinhos. — Ele estava tão perto agora que eu podia sentir o calor
do corpo dele, o perfume amadeirado que sempre me deixava
desnorteada. — Eu te quero na minha cama. Todos os dias.
Dormindo comigo, acordando comigo. Sendo minha mulher.
Meus joelhos amoleceram. A garganta secou.
Brandon levou a mão ao meu quadril, puxando meu corpo
contra o dele com precisão. A tensão que crescia entre nós
finalmente explodiu em contato.
— Você quer fingir que não sente também? Tudo bem. Mas vai
ter que fazer isso com a minha boca colada na sua, com a minha
mão na sua pele e com o meu corpo lembrando o seu do que a
gente viveu naquela cama.
Arfei.
Ele roçou os lábios nos meus, ainda sem me beijar, como se
estivesse me provocando, me testando. Meu coração batia como um
tambor.
— Só diz, Mia — sussurrou, a voz rouca. — Que você quer ir
para outro quarto. Que você não quer isso. Que você quer dormir
longe de mim.
Minha mão foi parar no peito dele, como se eu quisesse
empurrá-lo... ou me ancorar.
Mas eu não disse nada.[1]
Minha cabeça dizia para eu recuar.
Mas meu corpo já tinha escolhido por mim.
Porque, no fundo, eu queria tudo.
Tudo dele.
Brandon segurou minha mão com firmeza e me guiou em
direção ao quarto. Cada passo parecia carregado de eletricidade,
como se o ar entre nós tivesse se tornado espesso, quase sólido. Eu
ouvia o som das nossas respirações, sentia o peso do que estava
prestes a acontecer, e ainda assim, não tinha medo — só desejo.
Ele abriu a porta do quarto e me puxou para dentro. Assim que
ela se fechou atrás de nós, a tensão explodiu.
Sem dar espaço para dúvidas, Brandon me prensou contra a
parede e capturou minha boca em um beijo voraz. Não havia espaço
para delicadezas. Não havia suavidade ali — era fome, necessidade
crua, desejo bruto. Minhas mãos se agarraram nos ombros dele,
tentando me manter de pé enquanto o mundo inteiro girava.
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos meus olhos.
— Você é minha, Mia — murmurou, rouco. — E eu sou seu. De
um jeito que já não dá mais pra fingir que não é real.
Eu nem tentei lutar.
Segurei o rosto dele entre as mãos e o beijei de volta com toda
a intensidade do que eu sentia. Ele gemeu baixo, um som gutural
que vibrou direto entre minhas pernas. As mãos dele deslizaram pela
minha cintura, subiram sob o vestido que eu usava, tocando minha
pele quente.
Em segundos, estávamos nos despindo como se cada camada
de roupa fosse um obstáculo intolerável. Brandon me levantou do
chão com facilidade, e minhas pernas se enroscaram em sua cintura
como se fosse o lugar certo para elas estarem.
Ele me carregou até a cama, deitando-me com cuidado, mas
com uma urgência que deixava claro que ele estava no limite. Olhei
para ele ali, sobre mim, com o peito subindo e descendo rápido, os
olhos escuros como a noite.
— Você é linda demais pra ser real — disse, a voz rouca de
desejo. — Quero cada parte sua, Mia. Quero tudo o que estiver
disposta a me dar.
Toquei o rosto dele, acariciando a linha forte do maxilar,
sentindo o tremor sutil sob minha mão.
— Então, pegue tudo, Brandon — sussurrei.
Ele sorriu, aquele sorriso torto que me desarmava, antes de
descer a boca para a minha, reacendendo o fogo entre nós.
Não houve mais palavras. Só pele, toque, respiração
entrecortada. E a certeza silenciosa de que nós já pertencíamos um
ao outro.
Brandon me beijava como se estivesse faminto, como se eu
fosse a única coisa capaz de saciá-lo. Eu sentia cada músculo tenso
sob minhas mãos, cada batida do coração dele acelerando junto com
o meu.
Com uma paciência que parecia oposta à urgência que vi em
seus olhos, ele deslizou os lábios pelo meu pescoço, descendo
lentamente, saboreando minha pele como se estivesse memorizando
cada centímetro.
Quando sua boca encontrou um dos meus seios, eu arqueei as
costas, entregando-me completamente. Ele me provocou com a
língua e os dentes, arrancando suspiros roucos dos meus lábios.
— Brandon… — gemi, apertando os ombros dele.
Ele levantou a cabeça e sorriu de um jeito quase predador.
— Eu amo o som do meu nome saindo da sua boca — disse,
antes de descer ainda mais.
As mãos dele deslizaram pelas minhas coxas, separando-as
devagar. Eu tremia sob o seu toque, sentindo o calor e a expectativa
se acumularem dentro de mim, até parecer que eu ia explodir.
Brandon se posicionou entre minhas pernas, me encarando
como se eu fosse a visão mais preciosa que ele já tinha visto.
— Você é perfeita — murmurou, antes de me beijar ali, me
fazendo perder qualquer controle que eu ainda tentava ter.
Meu corpo reagiu instantaneamente, se curvando em direção a
ele, buscando mais, querendo mais.
—Você vai me matar desse jeito — falei, enquanto sentia dois
dedos dele me invadirem e sua língua rodear meu clitóris.
— Pelo contrário, sunshine, agora você vai saber como é se
sentir viva de verdade — falou, voltando a chupar minha boceta
como se fosse uma fruta madura, se lambuzando.
Ele sabia exatamente como me tocar, como me fazer esquecer
meu próprio nome. Quando achei que não podia aguentar mais
tantas sensações diferentes, senti sua língua descer para o meu
ânus e ele lambê-lo também.
— Jesus, amado! — Brandon se afastou.
— Não, amor, Jesus está longe de ter alguma relação com isso.
— Mordeu minha coxa e voltou a afundar a língua no meu canal. E
abri mais as pernas, dando mais acesso a ele. — Isso, quero você
assim, toda aberta para mim.
— Por favor... não para — pedi.
— Não tem a menor chance disso acontecer. — Brandon
chupava meu clitóris, sua língua pressionava com força, com
movimentos que me faziam estremecer e minhas vistas escurecerem
de tanto tesão.
Ele alternava entre me chupar, me foder com os dedos e dar
leves mordidas nos meus lábios vaginais, explorando cada parte
minha. Eu tremia, gemia e implorava sem nem perceber. Minha voz
era suplicante.
— Brandon... eu vou... — gemi, a voz falhando quando o
orgasmo me invadiu. Foi intenso, avassalador.
— Tão linda gozando. — Ele subiu beijando todo o caminho até
meus lábios, sua boca encontrando a minha num beijo sedento, me
fazendo sentir meu próprio gosto. — Agora quero foder essa
boquinha. — Disse se levantando e me levando com ele, sem dar
tempo de me recuperar totalmente.
Assim que fiquei sentada na beirada da cama e ele de pé, ele
segurou seu sexo e suavemente deslizou a mão para cima e para
baixo. Era uma cena hipnótica. Brandon era todo lindo. Alto, o corpo
todo trabalhado em músculos definidos e tinha seu pau… Ele era
grande, não de forma exagerada, só grande e grosso, cheio de veias
saltadas de uma forma incrivelmente deliciosa que fez minha boca
salivar desde a primeira vez.
Agora ele estava muito próximo do meu rosto. Dos meus
lábios. Levei minha mão até a dele, substituindo-a nos movimentos
que ele fazia. Brandon soltou um rugido rouco e seus olhos se
cravaram em mim.
— Abre a boca, sunshine — e eu abri, submissa, desesperada,
faminta por ele — vai chupar meu pau agora. — Ele o pressionou
contra meus lábios que se abriram para recebê-lo. Ele deslizou para
dentro da minha boca, lentamente, como se também precisasse se
conter. O senti fundo, tocando em minha garganta, então, ele
voltou, o tirando por completo, fazendo um barulho de estralo no
final. — Me fode, Mia, chupa meu pau, lambe como se fosse aquela
maldita colher com sabor de morango.
Ele não precisou pedir uma segunda vez. Meus dedos
agarraram a base do seu pau, enquanto a outra mão o segurava
pela coxa — grossa e musculosa —, guiando-o de volta à minha
boca. O levei até o fundo, testando meus limites, voltando e
chupando forte a cabeça vermelha e robusta. Brandon gemia alto,
seus sons vibravam dentro de mim, me deixando ainda mais
desejosa.
— Continua assim, Mia, você está me chupando tão bem, me
levando fundo nessa boquinha quente. — Brandon segurou meus
cabelos. — Relaxe o maxilar, me deixa te foder.
Cedi ao seu pedido e seus movimentos se aceleraram. Seu pau
ia e vinha por meus lábios, roçando minha garganta e em cada
investida eu me sentia mais molhada, escorrendo de vontade de tê-
lo me abrindo novamente, me preenchendo como da outra vez.
De repente, Brandon parou os movimentos e me puxou para
cima, tomando minha boca na sua. Nossos gostos se misturando.
Era insano. Uma combinação perfeita que me deixava ainda mais
molhada e desesperada para ser fodida por ele.
— Não vou ser suave hoje, Mia — Brandon disse mordendo
meus lábios e esfregando seu pau em mim. — Preciso te foder com
força, duro. Sentir essa bocetinha se abrir para me receber. — Suas
palavras não me assustavam, pelo contrário, só me fazia ansiar
mais.
— Eu quero isso. Me fode, Brandon. — Ele me virou de costas
e deu um tapa estalado em um lado da minha bunda.
— Sobre na cama de quatro e empina esse rabo gostoso para
mim. — Fiz o que ele mandou sem protestar. — Porra, é a visão do
paraíso. — Ele se aproximou e senti seu pau cutucando meu buraco
de trás. — Calma, amor! Não vou te comer aqui, não hoje pelo
menos, preciso te preparar antes.
Brandon apertou minha bunda com força, depois deslizou uma
das mãos para o meio das minhas pernas. Seus dedos me abriram e
ele os usou para espalhar minha lubrificação.
— Você está tão molhadinha... Me deixa te foder assim, Mia...
pele na pele? — a voz dele era grave, carregada de emoção. —
Nunca fodi ninguém sem camisinha antes. Estou limpo, posso te
mostrar...
— Eu acredito, Brandon, só me fode — supliquei.
— Minha esposa está ansiosa para levar pau? — rebolei em sua
ereção em resposta. — Caralho, você pediu por isso, sua safada. —
Antes que eu pudesse me preparar, senti seu pau me invadir de uma
vez. Minha boceta ardeu, mas logo a dor foi substituída por um
prazer maior. Seu pau me alargava a cada nova investida.
— Brandon... — Seu nome era como uma prece nos meus
lábios. Minha respiração ficou entrecortada. Me sentia totalmente
exposta, entregue.
Cada centímetro da minha pele arrepiada. Seus dedos se
infiltraram entre os meus cabelos e ele virou meu rosto um pouco
para o lado enquanto ele se inclinava sobre mim e tomava minha
boca em um beijo indecente. Sua língua fodendo minha boca, da
mesma forma que seu pau invadia minha boceta.
— Gostosa pra caralho. — Brandon endireitou o corpo, mas
suas mãos permaneceram em meus cabelos, me dominando. Senti
um tapa arder em minha bunda. — Rebola no meu pau, gostosa! —
Fiz o que ele mandou.
Enquanto rebolava, olhei por cima do ombro, nosso olhar se
encontrou. O seu era intenso, cheio de fome, selvageria e algo que
ia além do desejo.
— Brandon eu vou gozar — anunciei, sentindo a euforia
libertadora do orgasmo se aproximando.
— Porra, Mia, goza no meu pau — pediu, segurando minha
cintura com mais força, suas investidas ficando mais intensas. Eu o
senti ainda mais fundo, seu quadril chocando contra minha bunda,
suas bolas batendo na minha boceta. — Você é apertada para
caralho. Goza pra mim.
— Brandon — gritei seu nome, me agarrando aos lençóis
quando a onda de prazer me dominou. Gozei tão intensamente que
por um momento pensei que fosse possível morrer de tanto tesão.
Antes que eu pudesse me recuperar. Fui virada na cama e
deitada de costas. Brandon levou a boca a um dos meus seios e
chupou com força enquanto voltava a se encaixar na minha entrada.
Ele deslizou lentamente enquanto me encarava.
— Quero ver seu rosto lindo quando eu gozar forte dentro de
você. Quando te encher com a minha porra. — Ele se empurrou para
dentro de mim com calma e quando estava bem fundou falou: —
Diga que é minha, Mia. Fala que nunca vai haver ninguém além de
mim.
Passei os braços ao redor do pescoço dele e minhas pernas se
fecharam ao redor do seu quadril, puxando-o para mim.
— Eu sou sua — sussurrei e mordi seu lábio. — Agora me
mostra que também é meu. Me fode forte e goza gostoso dentro de
mim.
— Caralho, você é minha perdição! — Então, ele me tomou,
com um movimento firme e profundo que arrancou um gemido de
prazer de nós dois. Nossos corpos se encaixavam de um jeito
perfeito, como se tivéssemos sido feitos um para o outro.
Nos movíamos juntos, num ritmo que era só nosso, guiados
por algo muito maior do que desejo. Era entrega. Era necessidade.
Não éramos mais os mesmos.
Pertencíamos um ao outro.
Brandon me tomava de um jeito obsceno. O barulho dos
nossos corpos se chocando preenchia o quarto, os gemidos graves
dele rasgavam o ar, anunciando que ele estava muito perto. Sentia
seu pau cada vez mais inchado dentro de mim, enquanto ele ia cada
vez mais fundo.
— Essa bocetinha é tão perfeita — Brandon gemeu alto — Foi
feita para ser fodida por mim, para ser minha. — Eu gemia com ele,
a cada nova investida. Sem pudor, sem vergonha, implorando por
mais. — Vou gozar, sunshine. Encher sua bocetinha com a minha
porra — ele anunciou, antes do seu corpo se retesar e ele começar a
gozar forte e intenso.
Senti, meu próprio clímax se aproximando novamente, então
apertei mais minhas coxas ao seu redor, rebolando no seu pau,
sentindo seu líquido quente me preenchendo
— Ahhh... Brandon! — gritei, a voz tremendo.
O mundo pareceu desaparecer, deixando apenas nós dois,
conectados de uma forma que nenhuma assinatura de contrato
poderia explicar.
Brandon permaneceu sobre mim por um momento, nossos
corpos suados e entrelaçados, antes de rolar para o lado e me puxar
para o peito dele, como se jamais fosse me deixar ir.
Beijou o topo da minha cabeça e sussurrou, como uma
promessa selada no escuro:
— Minha.
E, pela primeira vez, eu acreditei que talvez a gente não
tivesse um tempo de duração.
Capítulo 31
Brandon O’Connor
Acordei com a sensação do corpo dela encaixado perfeitamente
no meu.
O sol filtrava-se pelas janelas, pintando a cama com tons
dourados, e Mia dormia tranquila, com a cabeça apoiada no meu
peito, a respiração suave acariciando minha pele. Eu poderia ficar
assim para sempre.
Passei a mão devagar pelos cabelos dela, apreciando o peso
confortável do corpo pequeno contra o meu.
Mia se mexeu, murmurando algo incompreensível, e apertou
ainda mais nossos corpos. Meu pau, que já tinha acordado duro por
causa dela, latejou em resposta ao movimento inocente.
Fechei os olhos, respirando fundo, tentando controlar o impulso
de puxá-la para baixo de mim de novo.
Era um sentimento estranho... e, ao mesmo tempo, a coisa
mais natural que já experimentei. Como se o lugar dela sempre
tivesse sido aqui. Comigo.
O som de patinhas contra o piso me fez erguer a cabeça. Sirius
trotava até a cama, abanando o rabo com empolgação, enquanto
Keren, com muito mais dignidade felina, vinha logo atrás, pulando
para cima do colchão com um salto preciso.
Sirius colocou o focinho na lateral da cama, soltando um
choramingo baixinho, claramente pedindo para subir também.
Eu ri baixo, para não acordar Mia, mas era tarde demais.
Ela se mexeu, esfregando o rosto sonolento contra meu peito
antes de erguer os olhos, ainda pesados de sono, para mim.
Deus, ela era linda.
— Bom dia... — murmurou, a voz rouca de recém-acordada me
atingindo como um golpe baixo.
Passei o polegar pela maçã do rosto dela.
— Bom dia, senhora O’Connor — respondi, sentindo uma
satisfação selvagem só de poder chamá-la assim.
Ela sorriu, pequeno, e corou um pouco. Meu peito se aqueceu
com aquilo. Puta merda... essa mulher ia me destruir.
— Que horas são?
— Cedo ainda — falei, acariciando suas costas. — Pode voltar a
dormir.
Keren se instalou bem ao lado dela, se espreguiçando com
toda pompa, e Mia sorriu de um jeito que derreteu tudo dentro de
mim.
— Parece que já estamos em família — brincou, afagando o
gato.
Sirius soltou outro choramingo.
— Vai, sobe logo — eu disse, batendo de leve na cama.
Ele saltou para cima de nós com a leveza de um elefante,
fazendo o colchão tremer, e enfiou o focinho entre nós dois,
lambendo a mão de Mia com adoração.
Ela riu, a cabeça caindo de volta contra o meu peito, enquanto
acariciava os dois animais.
Ali, naquele momento, com ela nos meus braços, Sirius
abanando o rabo, e Keren ronronando satisfeito, tudo parecia...
certo.
Eu nunca quis estabilidade. Nunca precisei de uma casa cheia.
Mas agora? Agora eu não conseguia imaginar nada melhor do que
isso.
Inclinei-me e a beijei, devagar, saboreando. Porque agora ela
era minha de verdade. E eu pretendia aproveitar cada segundo
disso.
Mia Jones
Ele me carregou até o sofá, sentou-se comigo no colo e me
beijou, lento e apaixonado, antes de afastar nossos lábios e soltar
uma pergunta que me pegou de surpresa:
— O que eu preciso fazer para que você se sinta mais segura
sobre nós?
Meu olhar encontrou o dele.
Tão aberto.
Tão honesto.
Engoli em seco antes de responder, escolhendo as palavras
com cuidado.
— Brandon... é que tudo isso é muito novo pra mim —
confessei. — Às vezes, sinto como se a gente se conhecesse há
anos... mas, na verdade, tem tanto que ainda não sei sobre você. E
você sobre mim.
Ele soltou um sorriso suave, e com um gesto preguiçoso,
ajeitou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.
— O que você quer saber? — perguntou, como se realmente
estivesse disposto a se abrir.
Suspirei, aproveitando o momento raro de vulnerabilidade que
ele oferecia.
— Eu conheci sua irmã, o seu avô... sei da sua mãe, do quanto
vocês eram próximos... — minha voz saiu baixa, hesitante. — Mas
você nunca falou nada sobre o seu pai. Como é a relação de vocês?
E... por que ele não veio ao nosso casamento?
No segundo em que as palavras deixaram meus lábios, senti o
corpo dele enrijecer sob o meu.
— Desculpa — falei rápido, me arrependendo de ter trazido
isso à tona. — Se for um assunto difícil, tudo bem. Não precisa...
Brandon passou a mão devagar pelas minhas costas, como se
estivesse se acalmando.
— Não, você está certa — disse ele, com a voz rouca. — Não
tem como a gente criar algo saudável se existirem coisas ocultas
entre nós.
Acariciei a mandíbula dele com a ponta dos dedos,
encorajando-o a continuar. E, depois de um longo silêncio, ele falou:
— Eu não falo com o meu pai desde que tinha vinte e cinco
anos. — Ele fechou os olhos por um instante, como se reviver aquilo
ainda doesse. — Para ser honesto, nós nunca fomos realmente
próximos. Ele sempre quis que eu seguisse os passos dele... cuidar
da Cooper Motors, assumir o legado da família.
Fiquei em silêncio, ouvindo, respeitando o espaço dele.
— Só que tudo o que eu queria era seguir os passos da minha
mãe — ele continuou, a voz baixa, mas firme. — Queria salvar vidas,
não construir máquinas. Ele nunca aceitou. Sempre dizia que eu era
uma decepção. Que estava jogando fora a chance de ter poder,
dinheiro e respeito. — Pausou, respirando fundo. — Depois que a
minha mãe morreu, tudo piorou. Ele ficou ainda mais frio... como se,
na cabeça dele, eu tivesse escolhido "trair" o que ele acreditava. Na
época em que entrei na residência médica, tivemos uma última briga
feia... e eu cortei contato de vez.
Senti meu coração apertar no peito.
Sem pensar, me movi para mais perto dele, abraçando-o com
força, como se pudesse, de alguma forma, preencher todos os
buracos que aquele passado tinha deixado.
Brandon enterrou o rosto no meu pescoço, e por alguns
minutos, apenas ficamos ali, respirando o mesmo ar, conectados.
— Eu sinto muito — murmurei.
— Não sinta — ele disse, se afastando um pouco só para me
olhar nos olhos. — Foi melhor assim. Eu escolhi quem eu queria ser.
E não me arrependo. Mas ser médico não foi o estopim para nossa
relação se desfazer de vez, e sim encontrá-lo fodendo minha
namorada em seu escritório, na nossa antiga casa, com várias
pessoas no lugar comemorando meu aniversário.
Levei minhas mãos à boca, totalmente em choque. Como
alguém pode fazer isso com o próprio filho? Eu passei por traição
também — algo que mexeu muito comigo, ainda mais porque era
muito nova — mas não se compara ao que Brandon passou. Ser
apunhalado dessa forma por alguém do seu sangue, pelo próprio
pai.
— Não sei nem o que dizer, não posso nem imaginar como se
sentiu depois de passar por algo assim. Mas deve ter doído ser
traído por duas pessoas que você amava.
Ele sorriu, mas não era um sorriso de verdade.
— Duvido que algum dos dois saiba o que é amar outra pessoa
de verdade, Mia. — Outra vez, ele colocou a mexa rebelde de cabelo
atrás da minha orelha. — Bradley nunca demonstrou amar ninguém.
Tudo com ele é sobre o quanto ele pode se beneficiar das relações,
eu realmente não entendia o que minha mãe tinha visto nele. — Ele
fez uma pausa, tocou meu rosto com carinho antes de continuar.
— E Harper sempre amou o status que namorar um herdeiro
trazia. Nosso relacionamento já estava andando sobre uma corda
bamba. Ela sempre tocava no assunto de morarmos juntos,
oficializar nossa relação, mas eu não a amava e não me via casado
com alguém sobre quem eu não tinha certeza se estaria ao meu
lado em todos os momentos — ele suspirou. — No final das contas,
eu estava certo.
Eu sorri, acariciando o rosto dele.
— Ainda bem — brinquei, tentando quebrar um pouco o peso
do momento. — Senão, eu teria perdido meu médico rabugento
favorito, mesmo que você tenha acabado se casando com alguém
sabendo que teria um prazo de validade.
Ele soltou uma risada baixa, rouca, antes de me puxar de volta
para os braços dele.
— Você é minha, Mia O’Connor — murmurou no meu ouvido, a
voz carregada de um sentimento que aquecia tudo dentro de mim.
— Inteira. Cada pensamento, cada suspiro. Cada sorriso. E podemos
ter começado pelas razões erradas, mas as coisas mudaram.
Fechei os olhos e me deixei envolver.
Naquele instante, eu sabia: a gente estava construindo algo
real. Tijolo por tijolo. Dor por dor. Amor por amor.
E eu queria ficar.
Queria ficar para sempre nos braços dele.
— Agora é sua vez — ele disse, mudando o foco para mim,
com aquele olhar que parecia enxergar além das palavras. — Por
que nunca se envolveu intimamente com alguém?
Respirei fundo, sentindo o peso da lembrança me puxar para
baixo.
— Pode-se dizer que temos algo em comum... — murmurei,
mordendo o lábio, como se isso pudesse conter a dor antiga que
voltava a latejar. — Nós dois fomos traídos.
Brandon me olhou em silêncio, respeitando meu tempo.
— Eu namorava um garoto da escola. Ele jogava basquete.
Ficamos juntos por quase dois anos. No baile de formatura do último
ano, eu decidi que era hora... que estava pronta para me entregar a
ele depois da festa — minha voz falhou, mas continuei. — Só que
naquela mesma noite, todos nós — os alunos — recebemos um
vídeo dele transando com a líder de torcida da escola.
Brandon apertou o punho ao meu lado.
— Que filho da puta — rosnou, com raiva cravada na voz.
— Um grandíssimo filho da puta — concordei, a boca amarga.
— Além de me trair, ele ainda expôs a garota para toda a escola.
Não que eu não a considerasse uma grande cretina também, por ter
ficado com ele sabendo que ele estava comigo... mas nenhuma
mulher merece ser humilhada desse jeito. Nenhuma.
Ele soltou uma risada rouca, tentando aliviar o clima.
— Você não existe.
Sorri, sem humor.
— O carma não falha — continuei, fazendo uma pausa quando
Keren pulou alegremente no sofá, como se tentasse espantar a
tristeza. — David perdeu a bolsa de estudos para a faculdade por
causa do que fez. Não vou fingir que fiquei triste. Seria hipocrisia.
Mas... isso não apagou o que aconteceu comigo. Nem o quanto
destruiu a minha confiança. Desde então, me fechei para qualquer
possibilidade de me entregar a alguém de novo.
Brandon se inclinou, seus olhos queimando ternura e algo mais
profundo.
— A única coisa boa dessa história toda... — ele sussurrou,
puxando-me para mais perto — foi que você acabou sendo só
minha. Acho que, de algum jeito, era pra ser assim. Era pra sermos
um do outro desde o começo.
Ele estava certo.
Eu sentia com cada fibra do meu corpo que meu lugar era ao
seu lado. Que eu pertencia a ele.
Capítulo 33
Brandon O’Connor
Dias depois
Estava ajustando o crachá no jaleco quando vi Carla, a
assistente social, acenando para mim com um semblante sério.
— Doutor O'Connor — chamou, se aproximando apressada, os
papéis amassados nas mãos.
— Carla — respondi, parando. — Alguma novidade sobre o
caso da Sarah?
Seus olhos brilharam com algo difícil de definir — alívio e
tristeza misturados.
— Conseguimos localizar a tia-avó — disse ela, ajeitando os
óculos. — Mas... ela abriu mão de qualquer direito sobre a menina.
Formalmente.
Senti algo apertar dentro do meu peito. Sarah... aquela
pequena guerreira agora estava oficialmente sozinha no mundo.
Cerrei os punhos e respirei fundo, lutando para manter a
compostura.
— E o que seria preciso para... — parei, recomeçando com
mais firmeza — para eu adotá-la?
Carla piscou, visivelmente surpresa. Seus olhos marejaram, e
ela demorou alguns segundos para encontrar a voz.
— O senhor quer... adotá-la?
Assenti, firme.
— Sim. — Não havia hesitação em mim. — O que eu preciso
fazer?
Ela ajeitou a prancheta contra o peito, ainda meio atordoada.
— O senhor precisaria entrar na fila de adoção, doutor.
Preencher alguns documentos, passar pelas entrevistas, avaliação
social... mas, com seu perfil, é provável que seja mais rápido do que
o habitual.
— Certo. — Passei a mão pelos cabelos, já pensando nos
próximos passos. — Pode enviar toda a documentação necessária
para o meu e-mail? Quero dar entrada nisso o quanto antes. — Só
precisava conversar com Mia sobre o assunto.
— Claro — ela sorriu, emocionada —, vou cuidar disso
pessoalmente.
Antes de se afastar, hesitei por um segundo.
— Carla... mantenha isso entre nós, por enquanto, por favor.
Ela assentiu rapidamente.
— Pode deixar. — E saiu, ainda sorrindo de leve.
Fiquei ali parado por um momento, deixando a decisão que
acabara de tomar se assentar dentro de mim. Não era algo
impulsivo. Não era um capricho. Era um chamado. Algo que vinha do
fundo da alma.
Sarah precisava de alguém. E, de alguma forma que eu não
sabia explicar, eu só sabia que seria eu.
Sacudi a cabeça, puxando a racionalidade de volta, e me virei
para seguir meu caminho.
— Gleina — chamei ao passar pela recepção.
Ela, sempre atenta, se virou para mim.
— Doutor?
— Estou indo para a emergência ajudar. Qualquer coisa
urgente, me bipa — disse, já seguindo em frente.
O som frenético dos monitores de batimentos cardíacos, dos
chamados pelos corredores e dos passos apressados preencheu
meus ouvidos assim que deixei meu andar e caminhei em direção à
emergência.
O hospital estava um caos controlado, como sempre acontece
quando a cidade resolve lembrar que é viva, e perigosa. Entrei na
zona de guerra, que era a emergência, naquele dia, pronto para
salvar mais vidas... mas, pela primeira vez em muito tempo,
sabendo que havia uma vida em especial que eu queria proteger
para sempre.
A da pequena Sarah.
Brandon O’Connor
Esperei na sala reservada da emergência, a luz fraca lançando
sombras nas paredes enquanto eu organizava os pensamentos.
Não existe treinamento que prepare alguém para dar esse tipo
de notícia.
O som apressado de passos me tirou da reflexão. Os pais do
garoto chegaram. Megan abriu a porta, dando passagem a eles. A
mãe entrou primeiro, os olhos arregalados e vermelhos de tanto
chorar, e o pai veio logo atrás, parecendo tão perdido quanto ela.
Levantei-me imediatamente, adotando uma postura calma. A
última coisa que eles precisavam agora era mais caos.
— Senhor e senhora Evans? — perguntei, minha voz suave.
Eles assentiram, agarrados um ao outro como se pudessem
impedir o mundo de desabar.
— Eu sou o Dr. Brandon O’Connor. — Estendi a mão, que o pai
apertou com força demais, como se se ancorasse em mim.
A mãe apenas olhou para mim, esperando. Esperando algo que
eu não poderia dar.
Dei um passo para o lado, convidando-os a sentar. Ambos
obedeceram, mas sem relaxar nem por um segundo.
— Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance — comecei,
escolhendo as palavras com cuidado —, mas o quadro do seu filho é
muito grave.
A mãe levou as mãos à boca, um soluço escapando antes que
eu pudesse continuar.
— Conseguimos estabilizar o coração dele — expliquei —,
mas... — engoli em seco, mantendo o contato visual — ele não
respondeu aos estímulos neurológicos.
O pai franziu a testa, a incompreensão estampada no rosto.
— O que... o que isso significa? — perguntou, a voz rouca.
— Significa que o cérebro dele parou de funcionar — disse
baixo. — Mesmo com o coração batendo, ele... — respirei fundo —
não está mais com a gente.
A mãe desabou em lágrimas copiosas. O choro sendo abafado
no peito do marido, enquanto ele apenas ficou ali, olhando para um
ponto fixo, como se não conseguisse processar.
Eu dei um momento a eles. O silêncio era carregado, pesado.
Quando a mãe ergueu os olhos para mim, ainda com lágrimas
escorrendo, eu continuei.
— Eu sei que é muito para absorver agora, mas... existe algo
que pode trazer um pouco de sentido a essa tragédia.
Eles me olharam sem entender.
— A doação de órgãos — falei, com a máxima gentileza que
consegui reunir. — O filho de vocês pode salvar muitas vidas. Ele
pode ser a esperança para famílias que, hoje, estão lutando para
manter seus pequenos vivos.
A mãe tapou a boca com as mãos novamente, o corpo
tremendo.
O pai olhou para ela, depois para mim, com olhos marejados.
— Você está dizendo... — ele começou, a voz falhando — que
o nosso menino... pode dar outra chance para outras crianças?
— Sim — confirmei, sentindo um nó se formar na minha
garganta.
Eles se entreolharam, agarrando-se ainda mais um ao outro. E
foi naquele olhar — um olhar cheio de dor, mas também de um
amor imenso — que eu soube que eles entenderam.
— Nós... — o pai começou, engolindo em seco — nós
queremos isso. — A mãe assentiu rapidamente, soluçando.
— Ele era um menino tão cheio de vida... — murmurou ela. —
Queremos que ele leve essa vida a outros.
Fechei os olhos por um segundo, permitindo-me sentir aquela
tristeza misturada àquela gratidão silenciosa.
— Obrigado — sussurrei. — Vocês são incrivelmente corajosos.
Levantei-me, prometendo que cuidaria de cada detalhe com
respeito e dignidade. Antes de sair da sala, virei-me para eles mais
uma vez.
— O filho de vocês será lembrado — prometi. Ele não será
apenas mais um número. Ele será a esperança. A centelha de vida
para muitos outros.
Nesses momentos, mais do que nunca, eu sabia: era por isso
que eu estava ali.
Era por isso que eu lutava todos os dias.
Pela vida. Pela memória. Por aqueles anjinhos que mesmo
diante da morte, ainda eram luz na vida dos outros.
O som ritmado dos meus dedos contra o teclado do
computador, preenchia o silêncio da minha sala enquanto atualizava
os prontuários. A manhã havia sido longa, pesada, e mesmo agora,
horas depois, o peso da perda ainda pairava sobre mim como uma
sombra teimosa.
Quando bateram à porta, soltei um suspiro cansado. — Entra
— falei, sem erguer os olhos.
O cheiro suave que eu já conhecia preencheu o ar, me fazendo
saber quem era antes mesmo de eu levantar a cabeça.
Mia.
Ela entrou, fechando a porta atrás de si, e por um instante só
ficou me olhando. Aquela presença — só a presença dela — já era
suficiente para fazer o aperto no peito aliviar.
— Passei para ver a Sarah — disse, a voz macia. — E a Sophie
me contou sobre... sobre o que aconteceu hoje na emergência.
Eu larguei a caneta na mesa, levantando-me sem pensar.
Quando alcancei Mia, não disse uma palavra. Apenas puxei-a para
mim e beijei sua boca.
Um beijo calmo, mas cheio de paixão. Cheio de sentimentos
que eu nem sabia que era capaz de sentir antes dela.
Ela correspondeu imediatamente, como se entendesse que
palavras seriam insuficientes para expressar tudo.
Quando me afastei um pouco, nossas testas ainda encostadas,
murmurei:
— Preciso conversar com você. Dividir um desejo... e saber o
que você pensa sobre isso.
Ela franziu o cenho, preocupada, mas permaneceu em silêncio,
esperando.
Segurei as mãos dela entre as minhas. — Hoje, falei com a
Carla... — comecei. — Eu perguntei o que seria necessário para
adotar a Sarah.
Os olhos de Mia se arregalaram, e ela abriu a boca, surpresa.
— Eu sei que a gente tá casado há pouco tempo — continuei, a
voz embargada pela vulnerabilidade que só ela conseguia arrancar
de mim. — Mas... isso é importante pra mim, Mia. Ela já é minha
família. Eu acompanho aquela princesa há mais da metade da jovem
vida dela. Agora quero cuidar dela não apenas como médico, eu
quero cuidar dela como pai, quero que ela seja minha. E eu queria...
— respirei fundo — queria muito ter o seu apoio nisso. Queria que
ela fosse nossa.
O silêncio entre nós foi preenchido pelo som de sua respiração
acelerada. Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha dela.
— Brandon... — sussurrou, a voz tremendo. — Eu estou
apaixonada por você.
As palavras explodiram no meu peito como um trovão.
— Eu tentei evitar, tentei resistir, mas não consegui — ela
continuou, os olhos brilhando. — Ver você todos os dias... ver o
homem incrível que é, o médico, o ser humano que se importa de
verdade... só reforçou o que eu senti desde o primeiro momento. A
gente não se conheceu por acaso.
Deixei escapar um suspiro que parecia carregar o peso de
anos.
Antes que ela dissesse mais alguma coisa, puxei-a contra meu
peito, abraçando-a como se o mundo lá fora pudesse desmoronar, e
ainda assim, eu a teria para segurar.
— Eu também amo você, Mia — disse, com a voz rouca de
emoção. — E não dou a mínima se parece rápido demais. Nunca tive
tanta certeza de nada quanto tenho de que você é a mulher da
minha vida.
Ela chorou em silêncio no meu ombro, e eu a segurei mais
forte, como se pudesse protegê-la de todas as dores do mundo.
Entre nós dois, naquele momento, não havia mais contratos,
promessas feitas por necessidade, ou medos. Só havia amor. Um
amor real, cru e imenso.
— Vamos construir essa família juntos — sussurrei contra os
cabelos dela. — Você, eu, a Sarah... o Sirius e o Keren também.
Ela soltou uma risadinha entre as lágrimas, e eu a beijei de
novo, prometendo silenciosamente que nunca, nunca a deixaria
duvidar do que éramos e do que estávamos construindo.
Nossa história estava apenas começando. E seria a mais bonita
de todas.
Capítulo 35
Brandon O’Connor
Quando cheguei em casa naquela noite, o cansaço ainda
latejava nos meus músculos, mas nada no mundo teria me
preparado para a cena que encontrei.
Assim que abri a porta da cobertura, fui recebido pelo latido
animado do Sirius, que correu até mim, balançando o rabo como se
fizesse meses que não me via. Keren, mais contido — como era
típico dos felinos —, veio atrás, miando baixo e enroscando o corpo
nas minhas pernas.
— Também estou feliz em ver vocês, pequenos — murmurei,
afagando a cabeça dos dois.
Mas foi quando ergui os olhos que realmente perdi o fôlego.
A sala de estar estava diferente. Na mesa de centro, havia
velas acesas, e o cheiro suave de comida recém-preparada
preenchia o ar. Uma música baixinha tocava no fundo — algo suave,
que fazia o coração aquecer só de ouvir.
E no meio de tudo isso... Mia.
Minha mulher.
Minha casa.
Minha vida.
Ela usava um vestido simples, de tecido leve, que parecia ter
sido feito sob medida para ela. O cabelo solto em ondas macias, e o
sorriso... Deus, aquele sorriso poderia iluminar qualquer escuridão.
— O que é isso? — perguntei, minha voz falhando um pouco.
Ela se aproximou, segurando duas taça de vinho. Me entregou
uma e manteve a outra consigo.
— Sei que hoje foi um dia especialmente difícil, mas esse é um
jantar de comemoração — disse, com os olhos brilhando. — Por nós.
Pela nossa família. Pela nossa decisão de adotar a Sarah.
Meu peito se apertou de um jeito bom, tão bom que doía.
Ergui a taça, entrelaçando meus dedos nos dela.
— A nós — disse, com a voz rouca.
— A nós — ela repetiu, sorrindo antes de tocar sua taça na
minha.
Sirius, sentindo-se deixado de lado, latiu e pulou na minha
perna, exigindo atenção. Keren, não querendo ficar atrás, miou alto
e saltou para o sofá, derrubando uma almofada no processo.
Mia soltou uma gargalhada deliciosa, e eu ri junto.
— Eles estão claramente querendo participar da comemoração
— falei, colocando a taça na mesa e me abaixando para fazer
carinho nos dois.
— Família completa, lembra? — disse Mia, se ajoelhando ao
meu lado e afagando o pelo macio de Keren, que ronronou como um
motorzinho.
Olhei para ela, tão linda, tão minha, e percebi que nunca em
toda minha vida tinha me sentido tão completo. E tudo só
melhoraria quando Sarah estivesse curada e aqui ao nosso lado.
Beijei sua testa, demoradamente.
— Você é a melhor parte da minha vida, Mia.
Ela sorriu, um sorriso cheio de ternura e algo mais. Algo que
prometia uma vida inteira de amor, cumplicidade e felicidade.
Sirius aproveitou o momento para lamber minha mão,
enquanto Keren tentou escalar meu ombro — o que resultou numa
cena caótica e hilária, com Mia rindo tanto que mal conseguia
respirar.
— Ok, definitivamente eles fazem parte do pacote — ela disse,
ainda rindo.
— E eu não mudaria nada disso — falei, pegando-a no colo de
repente, fazendo-a soltar um gritinho de surpresa.
— Brandon! — ela protestou entre risos.
— Hora de comemorar direito, senhora O'Connor.
Ela riu ainda mais e se aninhou contra meu peito, os braços
envolvendo meu pescoço.
Atrás de nós, Sirius latia empolgado e Keren miava indignado
pela interrupção dos carinhos.
Mas nada, nada poderia apagar a sensação que dominava meu
coração. Essa era a minha casa agora. Minha família. Meu futuro.
E eu sabia — de forma absoluta — nada importava mais.
Mia Jones
O filme rolava tranquilo quando o celular vibrou no meu bolso.
Meu coração deu aquele pequeno salto automático — era uma
reação incontrolável sempre que via o nome dele na tela.
Brandon 💙
Atendi rapidinho, me afastando um pouco da sala para
conseguir ouvir melhor.
— Oi, amor — falei baixinho, tentando conter o sorriso idiota.
— Oi, sunshine — a voz dele veio grave e quente do outro
lado. — Estava com saudade. Como está o almoço?
— Uma bagunça — ri. — Mas é a melhor bagunça do mundo.
Ouvi a respiração dele, como se estivesse sorrindo também.
— Eu queria estar aí com você — ele disse. — Mas saber que
você está rodeada de amor já me deixa mais tranquilo.
Fechei os olhos por um segundo, absorvendo aquelas palavras.
— Eu também queria que você estivesse aqui — revelei. —
Como está o plantão?
— Relativamente tranquilo. — Ouvi o barulho de uma cadeira
sendo arrastada. — Viktor chegou aqui. Me avise quando chegar em
casa, tá?
— Claro — concordei. — Amo você.
— Não mais que eu — respondeu com aquele jeito rouco que
sempre me desarma. — Te vejo em casa.
— Até — sussurrei antes de desligar.
Voltei para a sala com o peito quente e cheio de amor, como se
tivesse recebido um abraço à distância.
Dei uma colherada no meu sorvete, respirando fundo, e resolvi
aproveitar o momento para contar algo importante.
— Gente — chamei a atenção de todos —, eu queria conversar
sobre uma coisa.
Todos me olharam, curiosos.
— É sobre a casa — comecei, ajeitando o pote no colo. —
Brandon quitou a hipoteca.
— O quê? — Anthony quase derrubou o sorvete.
— Calma, pai — ri. — A casa continua no meu nome, então
não precisei fazer nenhuma comunicação antes. E... — respirei
fundo. — Eu quero passar a casa oficialmente para o nome do Oliver
e da Olivia. Será deles quando forem adultos.
Anthony balançava a cabeça, parecendo atordoado.
— Não, Mia, não. Eu não posso aceitar isso. Eu faço questão
de pagar cada centavo que esse rapaz gastou.
— Ah, Anthony, deixa de ser orgulhoso — minha mãe rebateu,
num tom ríspido que me fez arquear uma sobrancelha. — A família
dele é bilionária, esse valor da hipoteca é troco pra eles.
A forma como ela falou me incomodou de um jeito difícil de
explicar, como se houvesse um ressentimento escondido ali, algo
não dito.
Mas empurrei a sensação para o fundo da mente.
Agarrei os papéis que havia trazido e estendi para o meu pai.
— Por favor, aceita, pai. É um presente. Do Brandon. Nosso
presente para vocês.
Anthony me olhou longamente, com o orgulho e o amor
brigando em seu olhar.
Por fim, ele se levantou, colocou o pote de sorvete de lado e
me puxou para um abraço apertado.
— Você é a melhor escolha que eu já fiz na vida, filha — ele
murmurou contra meus cabelos. — Obrigado.
Sorri, com os olhos marejados.
— Eu amo vocês — falei, sentindo o coração transbordar.
Quando nos soltamos, Lays cutucou meu braço com o
cotovelo.
— Já que está todo mundo emotivo, vamos aproveitar que
estou aqui e marcar alguma coisa, né?
— Com certeza! — falei, rindo. — Um dia só de meninas.
Vamos ao spa, depois fazer compras, tomar um vinho...
— E fofocar horrores! — ela completou, piscando.
— Fechado!
Combinamos de acertar os detalhes durante a semana, e
enquanto todos voltavam a atenção para o filme, eu fiquei ali
sentada, abraçando a felicidade que preenchia cada espaço dentro
de mim.
Mas, bem no fundo, a sensação estranha causada pela reação
da minha mãe permaneceu como uma pequena sombra que eu me
recusei a encarar. Pelo menos por enquanto.
Brandon O’Connor
Encostei a cabeça na poltrona enquanto conversava com Mia,
mantendo nos lábios um sorriso que eu nem tentei disfarçar.
Ouvi o barulho da porta se abrindo sem cerimônia. Viktor
entrou como uma tempestade, arrastando uma das cadeiras até
parar de frente para minha mesa. Cruzou os braços e me observou
com aquele olhar exageradamente curioso, a sobrancelha arqueada
como se estivesse prestes a presenciar algo histórico.
— Não mais que eu… Te vejo em casa — falei, antes de
finalizar a ligação com minha mulher.
— Caralho, Brandon... — disse, dando uma risada seca. — Se
alguém tivesse me contado, eu não teria acreditado. Você, todo
romântico ao telefone. Achei que ia ouvir você fechando um acordo
milionário, não se derretendo.
Revirei os olhos, já acostumado às provocações dele.
— Vai se foder, Viktor — disparei, jogando uma caneta na
direção dele. Ele desviou como se fosse a coisa mais natural do
mundo e deu de ombros.
— Estou falando sério — insistiu, ainda rindo. — Fico feliz por
você, cara. De verdade. Não só conseguiu manter as ações do
hospital como ainda parece feliz com a sua "esposa comprada" —
disse, fazendo aspas no ar com os dedos, debochado.
Dei uma risada nasalada, mas logo o encarei de forma séria.
— As coisas entre mim e a Mia não são mais sobre o contrato,
Viktor — falei, com a voz firme. — Estamos construindo algo real.
Uma vida de verdade. Juntos.
Ele me encarou por alguns segundos, como se estivesse
avaliando se eu falava sério — e eu falava.
Viktor finalmente sorriu de verdade, aquele sorriso que poucas
pessoas viam dele, reservado só para momentos em que ele
realmente se importava.
— Bom pra vocês, irmão. Você merece isso. Ela também.
Assenti, sentindo uma paz estranha se espalhar pelo peito. Pela
primeira vez em muito tempo, eu sabia que tinha algo a perder... e
isso não me assustava. Me dava força.
Viktor se recostou na cadeira, cruzando os braços atrás da
cabeça como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo.
— E as ações? — perguntou, com um meio sorriso de quem já
sabia a resposta, só queria ouvir de mim.
Soltei um suspiro satisfeito, inclinando-me para frente sobre a
mesa.
— Meu avô já mandou preparar todos os documentos. Em
breve, as ações do hospital estarão definitivamente no meu nome.
Viktor assobiou baixinho, balançando a cabeça.
— Olha só quem virou o chefão de vez — riu. — Quando essa
papelada toda estiver assinada, a gente vai ter que sair pra
comemorar. Nada de desculpas. Vou arrastar sua bunda pra fora
daqui, nem que seja à força.
Dei uma risada e balancei a cabeça.
— Fechado — concordei. — Acho que dessa vez você merece
pelo menos uns bons drinks às minhas custas.
Viktor sorriu, mas logo a expressão dele mudou para algo mais
pensativo. Ele se inclinou na cadeira, apoiando os cotovelos nos
joelhos, olhando direto para mim.
— Agora... me diz uma coisa — começou, com aquele tom
casual que ele usava antes de soltar alguma verdade incômoda. —
Quando é que você e a Mia vão assumir de vez que são um casal?
Franzi a testa, desconfiado.
— Como assim?
— Brandon... — ele riu, como se fosse óbvio. — Você acha que
ninguém percebeu? Já existem murmurinhos nos corredores do
hospital. As pessoas não são idiotas. E, sinceramente, seria melhor
que soubessem logo que vocês são um casal de verdade, não
apenas dois colegas que se pegam. Ainda mais pela diferença de
hierarquia aqui dentro.
Passei a mão pela barba, pensativo.
Ele tinha razão. E eu sabia disso.
— Eu vou conversar com a Mia sobre isso — respondi,
decidido.
Viktor deu um tapa leve no braço da cadeira, satisfeito.
— Assim que se fala — sorriu. — Vocês dois merecem viver
isso sem essas amarras todas. E, cá entre nós, está na cara que
você está completamente fodido por ela.
Revirei os olhos, mas dessa vez sem qualquer irritação. Porque
ele estava certo.
Eu estava mesmo.
E não me importava nem um pouco.
Capítulo 37
Mia Jones
O céu estava absurdamente azul quando estacionei o carro em
frente ao spa. Era como se até o clima tivesse combinado com o
nosso "dia de meninas".
Desci animada, ajustando os óculos de sol no rosto, e mal
fechei a porta do carro quando vi Lays acenando do outro lado da
calçada, com aquele sorriso que sempre conseguia melhorar
qualquer dia ruim.
— Você está radiante, senhora O'Connor — ela brincou assim
que nos abraçamos.
— Ah, para — ri, sentindo minhas bochechas esquentarem.
Entramos no spa e fomos recebidas com sucos frescos e
música ambiente suave. A atmosfera era perfeita para esquecer o
mundo lá fora.
Começamos com massagens relaxantes, depois facial,
hidratação de cabelo… Cada etapa era uma desculpa para conversar
e rir ainda mais.
Quando finalmente nos jogamos nas cadeiras de pedicure,
enroladas em robes felpudos e rindo de coisas bobas, Lays me olhou
com aquele brilho curioso no olhar.
— Agora que estamos só nós duas... — ela começou, cruzando
as pernas — me conta: como está sendo a vida de casada? E não
me vem com respostas padrão, quero detalhes!
Ri, passando a mão pelos cabelos ainda úmidos do tratamento.
— Está sendo melhor do que eu imaginava.
— Melhor como? — ela insistiu, sorrindo marota.
Suspirei, apoiando a cabeça no encosto.
— O Brandon... ele é intenso, sabe? Mas também é tão
carinhoso, tão presente. Sinto que estou vivendo um sonho do qual
não quero acordar. Mas às vezes dá um medo bobo... de me perder
nesse sentimento.
Lays apertou minha mão, com aquele jeito dela de dizer tudo
sem precisar de palavras.
— Você não está se perdendo, Mia. Está se encontrando.
Sorri, emocionada.
— E morar com ele? Como está?
— Uma aventura diária — ri. — Sirius e Keren são inseparáveis
agora. Ontem mesmo peguei os dois dividindo o sofá como se
fossem irmãos de sangue. E Brandon... bom, ele deixou claro que
não existe essa de "seu quarto" e "meu quarto". Nosso quarto.
Nossa cama. Nosso lar.
Ela soltou um suspiro sonhador.
— Aí sim, amiga! E o romance? Ainda aquele fogo todo?
Revirei os olhos, rindo.
— Lays, o homem parece ter uma missão de vida de me deixar
sem fôlego... E eu... Jesus, descobri que sou uma safada.
Ela gargalhou, genuinamente feliz por mim.
— Você merece isso tudo, Mia. E muito mais. — Ela levantou
um pouco o rosto e me encarou. — Nada de dorama nem novela
turca, vocês estão vivendo um romance desses que a gente lê, com
bastante hot.
Gargalhei das loucuras da minha amiga, mas não poderia
discordar. Eu estava vivendo dias regados a muito amor e orgasmos.
Terminamos o spa nos sentindo novas e partimos para um
almoço tardio em um bistrô charmoso no centro.
Enquanto brindávamos com taças de vinho branco gelado,
percebia que momentos assim, simples e verdadeiros, eram os que
eu queria guardar para sempre.
Com amigas que conheciam minha alma.
Com o amor que havia encontrado, sem nem ao menos perceber
que estava procurando.
— Ao amor — Lays brindou, sorrindo.
— Ao amor — repeti, tocando minha taça na dela, sentindo
meu coração leve e cheio de esperança.
A vida era boa. E eu não tinha mais dúvidas: estava
exatamente onde deveria estar.
Mia Jones
Brandon me colocou no chão assim que passamos pela porta
do banheiro. Seu olhar percorreu meu corpo de um jeito que fez
minha pele superaquecer. Toda vez era assim, a mesma intensidade,
a mesma fome gritando em cada gesto, me fazendo sentir desejada,
adorada.
— Tira a roupa, Mia — ordenou. — Quero ver você tirando
peça por peça para mim.
Deus, eu amava o jeito mandão dele.
Sem pressa, comecei a deslizar a alça do meu vestido pelo
ombro, uma de cada vez. Meu olho no dele e o dele seguindo cada
movimento que eu fazia. Assim que o vestido caiu no chão aos meus
pés. Brandon deu um passo para frente, mas não me tocou. —
Porra, essa lingerie preta é sexy pra caralho — sorri satisfeita,
porque era exatamente essa reação que eu esperava dele.
Abri o fecho frontal do sutiã e deixei a peça seguir o mesmo
caminho do vestido. Mas assim que minhas mãos tocaram as laterais
da calcinha minúscula de renda, Brandon segurou meus pulsos.
— Deixa que ela eu tiro. — Observei enquanto ele se ajoelhava
aos meus pés descendo a peça ao mesmo tempo. Levantei os pés
para ajudar no processo e, assim que fiquei completamente nua,
Brandon separou minhas pernas e aproximou o rosto da minha
intimidade, usou os dedos para abrir minhas dobras e me lambeu de
cima para baixo e depois me chupou.
— Um dia longe dessa bocetinha e já fico louco de saudade —
disse, colocando minha perna em seu ombro, me deixando mais
aberta, mais exposta. — Olha que delícia — disse com adoração,
antes de voltar a explorar cada parte, me chupando, sugando e
penetrando com dedos e língua.
— Você ainda vai matar — falei entre gemidos. — Deus,
continua chupando, mais forte — pedi sem vergonha, sem pudor e
não demorei para gozar. Brandon sabia usar aquela boca
pecaminosa e não era só para dar ordens. O jeito como ele a movia,
era enlouquecedor.
Assim que sentiu que eu conseguiria me manter em pé sem
apoio, depois do orgasmo ter deixar minhas pernas mais moles que
gelatina, ele se despiu, ligou o chuveiro e me puxou para dentro do
box com ele, me prendendo dentro de um abraço apertado.
A água quente caía sobre nossos corpos, envolvendo-nos em
uma névoa densa e íntima. Por um momento, permanecemos
abraçados. Brandon mantinha as mãos apoiadas nas minhas costas,
me mantendo perto. Meus dedos deslizavam lentamente sobre o
peito dele, sentindo cada músculo rígido, cada batida forte do seu
coração.
O clima estava carregado de promessas não ditas e desejos à
flor da pele. Quando ergui os olhos para encarar os dele, encontrei o
olhar de Brandon fixo em mim: escuro, faminto. Completamente
devoto a mim.
Minha respiração falhou, e ele deve ter percebido, porque no
instante seguinte suas mãos deslizaram para a minha cintura,
apertando-me contra seu corpo. Senti sua ereção pressionando
minha barriga, um lembrete inegável do quanto ele me queria.
— Você tem ideia do que fez comigo? — ele murmurou, a voz
rouca, os lábios roçando minha têmpora enquanto falava.
Minhas pernas fraquejaram, e eu me apoiei nele, sentindo
minha pele arrepiar sob o toque quente e possessivo de suas mãos.
Eu mal consegui sussurrar:
— Se for o mesmo que fez comigo... então sim.
O gemido baixo que ele soltou vibrou contra minha pele
segundos antes de seus lábios capturarem os meus. O beijo
começou lento, como se ele quisesse saborear cada instante, cada
mínimo suspiro, cada pequeno tremor que causava em mim, como
se o orgasmo que ele tinha acabado de me proporcionar não fosse o
bastante.
Mas logo o controle dele se rompeu. Brandon me prensou
contra a parede de mármore, e nossas bocas se devoraram com
urgência. Sua língua invadiu minha boca com fome, exigente e
deliciosa. Eu gemi contra seus lábios, enterrando os dedos em seus
cabelos molhados enquanto ele explorava cada centímetro do meu
corpo com suas mãos, como se precisasse se certificar de que eu era
real.
A água escorria entre nós, tornando nossos corpos ainda mais
sensíveis, cada toque, um incêndio na minha pele. Quando ele
deslizou a mão entre nossos corpos e se posicionou na minha
entrada, gemi.
— Brandon... — supliquei, sem nem saber exatamente o que
pedia.
— Eu sei, baby — ele murmurou contra minha boca. — Não
vou fazer você esperar.
Ele me puxou para seu colo, me fazendo enlaçar sua cintura
com as pernas e com um único movimento preciso me penetrou.
Forte. Duro. Fundo.
— Caralho. Como eu amo foder essa bocetinha apertada que
você tem, sunshine. — Ele investia cada vez mais rápido dentro de
mim. Minhas costas batendo contra a parede fria. — Olha como a
gente se encaixa tão bem — disse olhando para baixo, para nossos
sexos se conectando.
— Amor... eu quero — minha voz falhou.
— O que você quer, sunshine? — perguntou antes de levar a
boca a um dos meus seios e me chupar com força. — Me diz, o que
você quer? — Seu olhar encontrou com o meu.
— Eu... — engoli em seco — quero tentar, você sabe, aquilo.
— Está dizendo que quer eu coma sua bunda, amor? — Mordi
os lábios e acenei com a cabeça. — Quero ouvir você pedindo, Mia.
— Quero que me foda atrás, Brandon — falei, sentindo minhas
bochechas pegarem fogo.
— Você fica ainda mais gostosa quando é safada e tímida ao
mesmo tempo — disse, mordendo meus lábios. — Vou comer seu
rabo amor, mas antes preciso foder sua boceta e te deixar bem
relaxada.
Brandon aumentou o ritmo que seu pau entrava e saia de
dentro de mim, enquanto sentia seus dedos explorando meu ânus,
me preparando. Quando ele colocou um dedo inteiro no buraco de
trás e começou a enfiar outro, eu já estava louca de tesão. Gemendo
alto e rebolando no pau dele.
— Eu vou gozar, Brandon — revelei. — Continua me fodendo...
ai senhor, que delíciaaaaa. — Quando atingi o orgasmo pela segunda
vez, Brandon me tirou do seu colo e saiu do box, pegando algo
dentro do armário, antes de voltar.
— Coloca as mãos na parede e empina a bunda para mim —
disse me virando de costas para ele, então se ajoelhou atrás de
mim. — Isso, inclina mais o corpo. — Assim que fiz o que ele pediu,
senti suas mãos me abrindo e sua língua me devorando. Brandon
rodeava meu ânus e se afundava no meu canal com vontade.
— Não acredito que ainda estou com tanto tesão — falei
rebolando em sua boca. — Isso é tão bom. — Ele riu e mordeu
minha bunda de um lado e deu tapa do outro.
— Você está se tornando insaciável, senhora O’Connor — ele
se levantou, passou a ereção por meu clitóris antes de meter na
minha boceta de novo. — E eu vou te foder sempre que estiver com
tesão.
— Promete? — questionei, com a voz manhosa. Senti quando
ele jogou o lubrificante no meio da minha bunda, espalhou e me
penetrou com um dedo, rodeando meu ânus, me alargando.
— É só você pedir, safada, que te dou meu pau, na boca, na
boceta, no rabo... — Senti sua cabeça forçando a entrada
apertadinha. — Relaxa, Mia, me deixa entrar gostoso nesse cuzinho.
— Aaahhh, Brandon — gritei alto quando ele empurrou mais
fundo. A dor misturada a algo mais, me fez ofegar, mas também
rebolar, pedindo por mais.
— Isso, rebola no meu pau e grita meu nome, minha safada.
— Quando finalmente ele enterrou tudo dentro de mim, senti-me
completa, mas longe de estar satisfeita. — Vou te comer forte, Mia.
— Sim, por favor — pedi e ele riu, dando um tapa de cada lado
da minha bunda, para depois segurar firme na minha cintura com as
duas mãos.
— Tá indo tão bem, sunshine, tão fodidamente bem — ele
falava enquanto me fodia com vontade, grunhindo, gemendo rouco .
— Que cuzinho gostoso. Porra, eu não vou durar desse jeito. —
Brandon me puxava para si, chocando sua pélvis com força contra
meu corpo.
Levei uma mão até meu clitóris que estava absurdamente
sensível. Pulsando. Pedindo atenção. Massageei, sentindo todo meu
corpo começar a tremer e o orgasmo se formar enquanto Brandon
comia meu cuzinho.
— Mais... mais forte, por favor — a minha voz saiu
entrecortada por causa das suas investidas.
— Porra, implorando para ser fodida — Brandon disse e senti
seu pau inchar e ficar ainda mais duro dentro de mim, ele não ia
demorar a gozar. — Você nasceu para ser minha, para receber meu
pau.
— Eu vou gozar. — A explosão cresceu dentro de mim,
começando na base da minha coluna, se expandindo, dominando
meu corpo, até atingir seu ápice.
— Seu rabo tá me esmagando, safada — rosnou. Seu quadril
me martelando com força, batendo com ainda mais intensidade,
seus dedos marcando a minha pele. — Vou te encher com a minha
porra.
Senti quando ele se derramou dentro de mim. Seu gozo me
enchendo, me marcando. Quente. Intenso. Ele continuou se
movendo, prolongando o momento, diminuindo a velocidade até
parar, sair de mim e me virar para ele.
— Você ainda vai me matar de tanto prazer, Mia. — Seus lábios
encontraram os meus num beijo feroz, dominante, que selou nosso
momento e nossa entrega.
Ali no chuveiro, com nossos corpos unidos, enquanto nos
recuperamos de um momento de desejo ardente, cru e primal, nada
mais importava, não naquele espaço de tempo.
Ele era meu.
Eu era dele.
Completamente.
Capítulo 39
Brandon O’Connor
Sentei-me na sala privativa do restaurante, ajeitando as
mangas da camisa enquanto esperava. Não demorou muito para que
vovô e o advogado, senhor Hamilton, chegassem. Cumprimentei os
dois com um aperto de mãos firme e um sorriso breve — algo que,
ultimamente, vinha saindo de mim com mais facilidade do que eu
lembrava ser possível.
Depois de alguns minutos de conversa casual, o senhor
Hamilton abriu a pasta de documentos e começou a explicar os
detalhes finais da transferência das ações do hospital para o meu
nome. Assinei onde foi indicado, sentindo o peso daquela decisão se
acomodar nos meus ombros. Mas, surpreendentemente, não parecia
uma prisão, como eu acreditava que seria quando era mais jovem.
Parecia certo.
— Parabéns, Brandon — disse o advogado, enquanto recolhia
os papéis. — Você assumirá oficialmente como um dos maiores
acionistas da fundação.
— Obrigado — respondi, com um aceno de cabeça.
Assim que o advogado se despediu, deixando apenas eu e
vovô à mesa, os pratos chegaram. Almoçamos em silêncio por
alguns minutos, até que ele pousou os talheres de lado e me
encarou.
— E o casamento? — perguntou com um sorriso curioso. —
Como está se saindo como homem casado?
Sorri de verdade, um daqueles sorrisos que aquecem o peito.
— Nunca pensei que fosse dizer isso... mas estou vivendo a melhor
fase da minha vida. — Peguei meu copo e tomei um gole de água,
tentando disfarçar a emoção que ameaçava subir à tona. — Mia
mudou tudo. Ela trouxe uma leveza que eu nem sabia que precisava.
Os olhos do meu avô brilharam, e ele assentiu lentamente. —
Sua mãe estaria muito feliz por você, Brandon — a voz dele saiu
baixa, carregada de sentimento. — Tudo o que ela queria era ver
você e Adrienne felizes... com vidas cheias de amor e propósito.
Minha garganta apertou. Apoiei os cotovelos na mesa e
esfreguei o rosto por um momento, respirando fundo antes de
encará-lo de novo. — Obrigado, vovô — minha voz saiu rouca. —
Por nunca desistir de mim. Por acreditar que eu podia ser feliz...
mesmo quando eu mesmo não acreditava.
Ele estendeu a mão sobre a mesa e apertou a minha com
força. — Sempre acreditei, Brandon. Você é o melhor de nós.
Sempre foi.
Sorri, sentindo algo quente e poderoso se espalhar dentro de
mim. Porque dessa vez, eu acreditava também.
Me despedi do meu avô, prometendo que Mia e eu faríamos
uma visita em breve. Dirigi de volta para o hospital pensando em
tudo o que aconteceu nos últimos meses. Mia havia entrado em
minha vida como um furacão, literalmente bagunçando tudo ao
mesmo tempo em que organizava.
Sentia uma energia diferente no corpo, uma leveza nova depois
do almoço com meu avô. Mas bastou atravessar as portas da sala de
reuniões para saber que essa paz não duraria muito.
Walter Hartley estava lá, como sempre impecável e com aquela
expressão de superioridade que me dava náuseas. Alguns outros
membros do conselho já estavam sentados, papéis e pastas abertas
na frente, incluindo Evellyn, acompanhada por Mia, que a seguia em
todas as reuniões importantes. Viktor chegou alguns minutos depois,
cumprimentando a todos com um aceno breve.
Assim que o relógio bateu no horário marcado, Walter se
levantou, pegou uma pasta preta e distribuiu cópias de alguns
documentos.
— Senhores, estou propondo algumas revisões nos programas
sociais do MCM — a voz dele era fria, calculada. — Incluindo ajustes
no sistema da creche dos funcionários, mudanças no atendimento
gratuito da emergência e, claro, uma reformulação no processo de
triagem para o tratamento infantil oncológico.
Fiquei imóvel, ouvindo, até ele jogar a bomba final:
— Não somos uma instituição de caridade. Não podemos ser
responsáveis por crianças que são abandonadas pelas próprias
famílias, como aquela menina, Sarah.
A cadeira arrastou com força para trás quando me levantei.
Meus punhos cerrados latejavam, mas mantive a voz firme.
— Sarah não está sozinha — declarei, rodeando a mesa com o
olhar cravado no dele. — Minha esposa e eu estamos em processo
para adotá-la..
O silêncio caiu pesado na sala. Walter arqueou uma
sobrancelha, surpreso. — Nem sabia que você era casado.
Senti um calor familiar subir quando olhei para Mia, enquanto
me aproximava de onde ela estava, estendendo a mão para ela, que
aceitou e se levantou, ficando ao meu lado.
— Mia O'Connor — falei, com orgulho reverberando na minha
voz. — Minha esposa.
O burburinho começou imediatamente — cochichos, olhares
trocados, alguns sorrisos discretos. Antes que alguém pudesse abrir
a boca, Viktor bateu a palma na mesa, exigindo silêncio.
— A vida pessoal de um dos membros do conselho não diz
respeito a esta mesa. — Ele olhou diretamente para Walter. — Ainda
mais quando este membro é agora o segundo maior acionista do
hospital.
Walter ainda tentou retrucar, com aquele veneno habitual. —
Brandon é apenas o representante legal da família.
Ri, inclinando-me levemente para frente, saboreando o
momento. — Corrija essa informação, Walter — minha voz era
cortante, cheia de um prazer frio. — As ações da família O'Connor
agora estão em meu nome. Exclusivamente. — Cruzei os braços e
sorri de lado. — E pode ter certeza de uma coisa: se eu não
concordar com essa proposta absurda que você está tentando enfiar
goela abaixo, você vai ter que passar por cima de mim para fazer
qualquer mudança.
Walter recuou na cadeira, a mandíbula travada de raiva
contida. Olhei ao redor da sala, deixando que todos vissem a certeza
em meus olhos. Eu não deixaria que transformassem esse hospital
num banco, onde só os números importavam.
Mia apertou minha mão discretamente e eu senti a força dela
me atravessar como uma corrente elétrica. Essa era a minha vida
agora. Nossa vida.
Juntos.
Lado a lado.
Mia Jones
Assim que a reunião acabou, senti que precisava finalmente
soltar o ar preso nos meus pulmões. A mão de Brandon ainda
segurava a minha enquanto caminhávamos em direção à saída.
Mal tínhamos cruzado a porta quando Evellyn nos interceptou,
com as sobrancelhas arqueadas e um sorriso brincando nos lábios.
— Ok, vocês dois... — ela começou, cruzando os braços. — Por
que não me contaram? Eu sabia que estava rolando algo entre
vocês, mas casados?
Senti minhas bochechas esquentarem. Tentei falar, mas as
palavras saíram aos tropeços: — Me desculpa, Evellyn... Eu devia ter
contado.
Antes que eu pudesse me complicar ainda mais, Brandon
passou o braço pelos meus ombros e falou, firme: — A culpa é
minha. Pedi para a Mia não comentar. — Ele olhou diretamente para
Evellyn, sem hesitar. — Queria proteger ela de qualquer julgamento.
Não queria que as pessoas agissem diferente com ela só porque é
minha esposa.
O sorriso de Evellyn se abriu de verdade dessa vez, suave e
compreensivo. — Eu entendo. — Ela deu um passo para mais perto
e piscou para mim. — Mas agora que o segredo saiu... a gente
precisa comemorar!
Brandon arqueou uma sobrancelha, divertido. — Comemorar?
— Claro! — Evellyn disse, rindo. — Você casou, se tornou
oficialmente o dono das ações do hospital... Isso tudo merece uma
celebração!
— Estou dentro — falei sem pensar, sentindo a leveza vibrar
em cada célula depois da tensão da reunião.
— O que acham de irmos ao Friends Bar? — Evellyn sugeriu. O
lugar era o ponto de encontro do pessoal do hospital.
Brandon olhou para mim, seus olhos brilhando daquele jeito
que ainda me faziam esquecer o próprio nome. — O que você acha,
senhora O'Connor? — ele perguntou, com um sorriso de canto que
parecia prometer muito mais do que uma noite tranquila.
— Vamos — respondi, sorrindo de volta, sentindo aquela
conexão entre nós se fortalecer ainda mais. Era como se cada dia
que passasse, cada obstáculo que superássemos, nos tornasse ainda
mais nós.
Alerta de Ilustração
Cena do momento ilustrada na próxima página
Capítulo 40
Mia Jones
O Friends Bar estava cheio, como quase todas as noites de
sexta. O som de risadas, música ambiente e o aroma de batatas
fritas e hambúrgueres frescos enchiam o ar.
Assim que entramos, Evellyn já acenava de uma mesa nos
fundos, rodeada por alguns rostos conhecidos do hospital. Sophie,
Vincent e até Viktor West estavam lá. Ele raramente se juntava a nós
nesses momentos.
— Vocês demoraram! — Evellyn brincou quando nos
aproximamos.
Brandon soltou uma risada baixa — aquela risada grave que eu
já conhecia tão bem — e puxou uma cadeira para mim antes de se
sentar ao meu lado. A mão dele, como se fosse o gesto mais natural
do mundo, repousou sobre a minha coxa debaixo da mesa, traçando
pequenos círculos com o polegar.
O toque simples fez meu corpo inteiro ficar alerta.
— A gente parou umas cinco vezes no caminho — Brandon
disse, lançando um olhar rápido e divertido para mim. — Ser o
"senhor O'Connor" agora tem um peso diferente.
A mesa explodiu em risadas e piadas internas. Sophie nos
entregou dois cardápios, mas era difícil focar em qualquer coisa com
a energia elétrica que vibrava entre nós.
Pedi uma cerveja artesanal e Brandon, como sempre, água
com gás e limão. Ele nunca bebia quando estava dirigindo. Nem um
gole sequer.
Conforme os pedidos chegavam, a conversa fluía fácil. Falamos
sobre o hospital, sobre os casos mais absurdos que já tinham
acontecido, e até mesmo sobre as viagens que cada um queria fazer
nas férias.
A certa altura, enquanto Evellyn descrevia uma situação hilária
de quando confundiu dois pacientes gêmeos, senti Brandon se
inclinar para mim, a boca roçando minha orelha: — Já falei que está
linda hoje?
Meu coração disparou. Olhei para ele, sorrindo tímida, e vi
aquele brilho nos olhos dele, aquele que era só para mim.
O mundo ao nosso redor parecia sumir quando Brandon me
olhava assim.
Entre um brinde e outro, August — um dos anestesistas —
sugeriu um brinde para "o novo casal mais poderoso do MCM".
Todos ergueram os copos. Brandon não soltou minha mão nem
por um segundo enquanto brindávamos.
— À Mia e ao Brandon! — Evellyn disse, sorrindo para nós.
Bebi um gole da minha cerveja, tentando controlar o sorriso
bobo que ameaçava escapar. Era impossível não me sentir parte de
algo maior ali.
Mais tarde, enquanto conversávamos em grupos menores,
Brandon deslizou para perto de mim outra vez, passando o braço
pelas minhas costas e me puxando contra o peito dele de maneira
casual, mas absolutamente possessiva, fazendo meu corpo arrepiar.
— Gosta disso? — ele murmurou, seus lábios roçando minha
têmpora.
— Muito — sussurrei de volta, deixando-me envolver. Amava
que ele não conseguia se manter longe por muito tempo.
Brandon O’Connor
O relógio marcava pouco depois das três da tarde quando
Carla, a assistente social, fechou a pasta de documentos e sorriu
para nós do outro lado da mesa.
— Tenho boas notícias — começou ela, cruzando as mãos
sobre o colo. — A situação da Sarah, somada ao histórico de vocês e
à influência positiva que o hospital exerce na comunidade, tem feito
o processo caminhar muito rápido.
Eu senti Mia prender a respiração ao meu lado, e segurei sua
mão sobre a mesa, apertando de leve.
— Significa que... — comecei, incapaz de esconder a ansiedade
na minha voz.
— Significa que em breve vocês terão a guarda provisória dela
— Carla explicou, com aquele sorriso gentil que sempre me fazia
confiar nela. — Depois desse período de convivência, se tudo correr
bem, e tudo indica que vai, a adoção definitiva será apenas uma
formalidade.
Meu peito se encheu de uma mistura de alívio, gratidão e um
medo bom, daquele que só sentimos quando algo realmente
importante está prestes a acontecer.
— Obrigado, Carla — disse, minha voz saindo mais rouca do
que eu pretendia. — De verdade.
Ela assentiu, fechando a bolsa.
— Agora é importante conversarem com ela. Explicar tudo com
muito cuidado. Vocês dois são incríveis. Tenho certeza de que ela vai
se sentir segura com vocês.
Carla se despediu, deixando a sala num silêncio que parecia
grande demais para o que eu estava sentindo.
Virei para Mia e encontrei o mesmo brilho emocionado nos
olhos dela que eu sabia que os meus também carregavam.
— Vamos falar com ela? — perguntei.
Ela assentiu rapidamente, se levantando junto comigo.
Seguimos de mãos dadas pelo corredor até a ala pediátrica.
Meu coração batia forte a cada passo. Abrimos a porta do quarto
devagar.
Sarah estava sentada na cama, com uma boneca nas mãos,
usando um dos vestidos coloridos que Mia tinha comprado para ela.
Quando nos viu, seus olhos castanhos se iluminaram de um jeito
que me desmontou inteiro por dentro.
— Brandon! Mia! — ela exclamou, sorrindo tão largo que a
bochecha dela ficou toda corada.
— Oi, pequena — Mia disse, se aproximando. — Podemos
conversar com você um pouquinho?
Sarah assentiu com a cabeça, largando a boneca de lado.
Sentei-me ao lado da cama, e Mia fez o mesmo do outro lado, como
se, instintivamente, quiséssemos cercá-la de amor.
Respirei fundo, buscando as palavras certas.
— Sarah, a gente tem pensado muito... — comecei, olhando
para Mia, que me encorajou com um sorriso doce. — E gostaríamos
de saber se você aceitaria morar com a gente quando sair do
hospital.
Os olhinhos dela se arregalaram.
— Morar com vocês?
— Isso mesmo — Mia disse, a voz suave. — A gente quer ser
sua família, se você também quiser.
Sarah ficou alguns segundos quieta, mordendo o lábio inferior.
— Uma atitude muito parecida com a de Mia, diga-se de passagem.
— Meu coração estava na garganta.
— Mas... e se eu ficar doente de novo? — ela sussurrou,
baixinho.
Meu peito apertou. Me inclinei para frente, segurando as
mãozinhas dela entre as minhas.
— Então nós vamos cuidar de você. Todos os dias. Sempre.
Mia assentiu, uma lágrima escapando do canto do olho.
— Não importa o que aconteça — ela completou. — Você
nunca vai estar sozinha de novo.
Sarah olhou para nós dois, como se estivesse tentando ver
através das palavras, tentando ter certeza de que podia confiar.
Então, com um soluço emocionado, ela se jogou nos nossos braços.
— Eu quero! — disse entre lágrimas. — Eu quero muito!
Fechei os olhos, abraçando aquele pequeno corpo contra o
meu com o maior cuidado do mundo, mas com todo o amor que eu
tinha para dar.
Envolvi as duas em um abraço triplo, e por um instante, o
mundo lá fora desapareceu. Só existiam nós três.
Família.
Finalmente, a nossa família.
Mia Jones
O hospital começava a desacelerar naquele horário no fim do
turno. Depois de um dia cheio, saber que iria voltar para casa ao
lado dele fazia meu peito se encher de um calor gostoso.
Passei pela ala da Pediatria, onde ele estava terminando uma
última visita, e sorri ao vê-lo no corredor, conversando com uma das
enfermeiras.
Quando me viu, Brandon deu aquele sorriso torto que parecia
derreter meu coração toda vez.
— Pronta para ir ? — perguntou, deslizando a mão pela minha
cintura com naturalidade.
— Sim. Não vejo a hora de chegar em casa — sorri. — Quero
te mostrar umas ideias para a decoração do quarto novo da Sarah.
— Vamos então. Só preciso pegar umas coisas na minha sala
— respondeu, seus olhos brilhando de uma forma que prometia
muito mais do que apenas uma noite tranquila. — Vou ver essas
decorações e depois... você é toda minha, sunshine.
O jeito que ele disse aquilo, a voz baixa e rouca no meu
ouvido, me fez estremecer. Subimos juntos no elevador, o silêncio
preenchido pela tensão doce entre nós. Brandon encostou de leve
seu quadril no meu, me puxando para mais perto.
— Hoje... — sussurrou, seus lábios quase tocando minha pele
— vai ser só você e eu. Sem distrações, sem complicações. Vou fazer
você esquecer do mundo, Mia.
Fechei os olhos por um segundo, apenas absorvendo a
promessa que ele jogava no ar, sentindo meu corpo inteiro vibrar em
antecipação.
O elevador parou no andar e seguimos para a sala dele.
Brandon abriu a porta com um gesto despreocupado, mas o que
encontramos lá dentro congelou tudo em volta.
Uma mulher, alta, morena, absurdamente bonita, estava
sentada casualmente na cadeira diante da mesa de Brandon. O
sorriso no rosto dela era presunçoso, como se tivesse todo o direito
de estar ali.
Senti a mudança imediata na postura de Brandon. Seu corpo,
que antes estava relaxado e próximo ao meu, enrijeceu. Os olhos
endureceram em segundos, e a linha de sua mandíbula ficou tensa.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, a voz fria
como aço.
A mulher levantou-se lentamente, cruzando os braços
enquanto o encarava com uma expressão carregada de intenções.
— Precisamos conversar, Brandon — disse ela, com uma voz
que tentava soar sedutora. — Eu voltei... por você.
Brandon soltou uma risada seca, carregada de desprezo.
— Nós não temos nada para conversar — rebateu, sem nem
disfarçar o nojo que parecia escorrer das palavras. — Você está
atrapalhando a minha noite. Eu e minha esposa estamos indo para
casa.
Ao ouvir ele me mencionar, meu peito se aqueceu em meio à
tensão. Fiquei quieta, observando, tentando entender quem era
aquela mulher e por que ela causava tamanha repulsa em Brandon.
— Eu não vou desistir de você — insistiu ela, dando um passo
em sua direção. — Sei que ainda sente algo por mim.
A pressão em seu maxilar intensificou, o olhar cortante.
— Sinto sim — disse, com um sorriso cruel. — Sinto repulsa.
Sinto nojo de você. E nem se você fosse a última mulher no mundo
eu perderia um segundo sequer pensando em você, Harper.
O golpe foi certeiro. A mulher piscou, como se tivesse levado
um tapa invisível. Ainda tentou abrir a boca, mas Brandon já estava
pegando minha mão, entrelaçando nossos dedos, deixando claro de
quem ele era.
— Agora... se me dá licença — disse ele, com desdém — eu
tenho uma esposa maravilhosa esperando para ir para casa comigo
e quero você fora da minha sala.
— Não vou desistir! — a mulher que agora eu sabia ser Harper,
a ex que o traiu com seu pai, disse antes de sair batendo a porta
atrás de si.
Eu ainda sentia meu coração acelerado, não de medo, mas da
intensidade que Brandon transmitia.
— Você está bem? — perguntei, enquanto ele pegava suas
coisas em cima da mesa e sua mochila.
Brandon soltou um suspiro pesado e apertou minha mão.
— Com você comigo, não tem como não estar perfeito —
respondeu, seus olhos encontrando os meus com tanta verdade que
me desarmou completamente.
Não havia dúvida.
Aquele homem realmente me amava.
Capítulo 42
Brandon O’Connor
Durante o caminho para casa, Mia começou a sentir cólica.
Doía em mim, vê-la se encolher no banco do carona, uma expressão
de desconforto evidente em seu rosto. Eu mantinha uma das mãos
no volante e a outra repousada de leve na coxa dela, tentando
transmitir alguma força, mesmo sem palavras.
Assim que chegamos, ela foi direto para o banheiro, e eu fiquei
rondando pela casa, impaciente. Detestava vê-la sentir qualquer tipo
de dor. Quando Mia voltou, vestida com uma daquelas camisetas
largas minhas e um shortinho, ela parecia um pouco melhor, mas
ainda abatida.
Ela se jogou no sofá da sala puxando uma manta para cima do
seu corpo, e logo Sirius e Kerem se aninharam ao lado dela, como
dois guardiões atentos. Eu me aproximei, me agachando na frente
dela.
— A dor melhorou? — perguntei, passando os olhos atentos
por cada traço do seu rosto.
Mia sorriu fraco, acariciando a cabeça de Sirius. Que está
deitando em suas pernas.
— Um pouco. É só aquele incômodo chato de sempre...
acontece uns dias antes da minha menstruação descer — explicou,
dando de ombros como se fosse algo normal. Talvez fosse. Mas pra
mim, normal ou não, ver ela sofrer era insuportável.
Sem dizer nada, sentei-me no sofá e puxei ela com cuidado
para mais perto, repousando minha mão sobre o ventre dela,
fazendo movimentos lentos, quase como uma carícia.
— Sua mão é quente... — ela murmurou, fechando os olhos. —
Tá ajudando a aliviar.
Sorri de leve, mas o nó no meu peito apertou.
— Não gosto de ver você assim. Me sinto impotente —
confessei. — Quero ver você sempre sorrindo. Feliz.
Ela me encarou e riu, aquela risada pequena que eu amava.
— Nem sempre eu vou estar feliz, Brandon... é normal.
— Se depender de mim, vai estar sim — retruquei de imediato,
arrancando outra risada dela. O som dela rindo era o melhor som do
mundo.
Ficamos ali, em silêncio, meu polegar desenhando círculos
suaves na pele dela, o calor da nossa conexão preenchendo a sala.
— Quer ver uns episódios daquela novela turca que você
estava assistindo outro dia? — perguntei, querendo distraí-la, fazê-la
esquecer um pouco do desconforto.
Ela me olhou, uma sobrancelha arqueada de brincadeira.
— Eu sabia que você ia se render! — provocou, rindo.
— Não me rendi, não. Só estou sendo solidário — bufei,
fingindo indignação, mas o sorriso que escapou me entregou.
Mia se aconchegou melhor, encostando a cabeça no meu peito,
enquanto eu pegava o controle da TV.
— Claro que não, Dr. O’Connor... você é um homem durão
demais pra gostar de novela turca — ela sussurrou com deboche,
me fazendo rir de verdade.
Coloquei o primeiro episódio e ficamos ali, ela aninhada em
mim, os filhos de quatro patas aos nossos pés, a TV preenchendo o
ambiente com vozes em um idioma que eu não entendia.
E todos os problemas do dia, inclusive o aparecimento de
Harper, ficaram do lado de fora.
Mia Jones
Estava sentada na mesa da cozinha, com o café ainda
fumegante ao meu lado, enquanto terminava de fazer umas
anotações em minha agenda. Amanhã o dia seria puxado. Tinha
uma reunião fora com Evellyn e uma consulta com a Dra. Pollyanna
Del Vec. Estava me sentindo mais fraca nos últimos dias e um pouco
intolerante a alguns alimentos que antes eu amava, então resolvi
que estava precisando de um check up.
Deixei a caneta em cima da mesa e peguei o celular me
preparando para conversar com Adrienne. Hoje era um daqueles
dias em que eu me sentia grata por ter a tecnologia ao meu alcance,
mesmo com a distância.
Conectei a videochamada, e logo Adrienne apareceu na tela,
sorrindo como sempre.
— Mia! Como você está? — ela perguntou, ajeitando o cabelo
de forma descontraída.
— Estou bem! — respondi, sorrindo de volta. — Só
aproveitando que o Brandon saiu para correr com Sirius, para
organizar minha agenda do dia.
Adrienne riu, e eu já podia sentir a leveza da nossa conversa.
— Então, o que vocês irão fazer amanhã? — Era aniversário de
Brandon e ele não queria sair para comemorar.
— Eu já sei o que vou fazer — sorri para ela, já empolgada
com a minha ideia. — Vou preparar um jantar especial para ele em
casa. Chamar o Viktor e a Evellyn, algo simples, só para nós e os
amigos dele. No domingo, vamos todos almoçar com seu avô, ele
fez questão de convidar minha família também.
Ela inclinou a cabeça para o lado, com uma expressão de
aprovação.
— Isso soa perfeito, Mia. Nada de grandes festas, só uma noite
tranquila. Mas você sabe que, por mais que ele não queira, você vai
ser a estrela dessa noite, certo?
— Pode apostar que sim! — ri. — Só espero que ele goste.
Mas, sabe... ele está tão centrado na rotina do hospital que nem se
lembra do quanto precisa de algo assim. Eu vejo o quanto ele fica
preso nesse ciclo.
— Sim, isso é verdade — Adrienne concordou. — E, falando
nisso, você está realmente animada para decorar o quarto da Sarah,
não é? Já planejou tudo?
Eu sorri ainda mais, meu coração se aquecendo com a ideia.
— Sim, estou super empolgada! Já comprei algumas coisas e
estou planejando a decoração. Quero que seja um ambiente
acolhedor, especialmente para ela se sentir segura e à vontade aqui.
Saber que é parte da nossa família, e eu quero que ela se sinta em
casa, de verdade.
Adrienne olhou para mim com carinho na expressão, como se
soubesse exatamente o que aquilo significava para mim.
— Eu amei ouvir isso, Mia. Acho que vocês dois estão fazendo
a diferença na vida dela.
Eu estava prestes a responder quando ouvi Sirius latindo lá
fora, e depois Brandon entrando pela porta.
— Vou ter que te deixar, Adrienne — falei rapidamente, já
vendo Brandon aparecer na porta da cozinha, com o cabelo um
pouco bagunçado da corrida, mas com aquele sorriso fácil no rosto.
— Ah, meu irmão está aí? — Ela perguntou, levantando uma
sobrancelha.
— Sim, ele acabou de chegar. Vou terminar de me arrumar
para sair com ele para o hospital. Ele odeia quando me atraso.
Brandon deu um sorriso de canto, fazendo uma expressão
engraçada, enquanto ele se aproximava.
— Eu não sou tão rigoroso assim — ele brincou, mas seus
olhos brilhavam, e eu sabia que ele estava apenas brincando
comigo.
Adrienne riu ao ver o sorriso dele.
— Eu sei como ele é, Mia. Não tem jeito, né?
— Não tem jeito! — ri junto com ela.
Olhei para Brandon, que já estava se encaminhando para o
banheiro.
— Preciso terminar de me arrumar, porque senão ele vai me
apressar mais do que o normal! — falei, já me levantando.
— Ah, claro! Vai lá antes que ele arrume um jeito de te
apressar. — Adrienne riu novamente.
— Beijo, Adrienne! Falo com você depois! — disse, antes de
desligar a chamada.
Eu passei alguns minutos arrumando meu cabelo e escolhendo
uma roupa, enquanto Brandon tomava banho. O som da água no
chuveiro era calmante, e eu me senti em paz com tudo. Um sorriso
escapou dos meus lábios ao pensar no que nos aguardava. Ele e eu,
juntos, sempre em sintonia. E amanhã, nós dois iríamos comemorar
o aniversário dele à nossa maneira depois do jantar com nossos
amigos.
Brandon O’Connor
Estava a caminho da oncologia, como sempre, passando pelos
corredores em direção aos meus pacientes. Sarah era minha
prioridade do dia, mas o caminho até o setor parecia mais longo do
que nunca. Talvez fosse o fato da tensão estar no ar, algo me
incomodava. Eu não sabia o que era até que virei a esquina e lá
estava ela, Mia, conversando com Henry Prescott, o chefe da
oncologia pediátrica.
Eu não sabia por que, mas algo dentro de mim se revirou. Vi a
maneira como eles estavam rindo, como ela parecia tão à vontade
com ele. Não que houvesse motivo para isso, era só mais uma
conversa. Mas... eu não conseguia afastar aquele maldito
sentimento, uma raiva irracional que crescia na minha garganta.
Minha voz saiu mais fria do que eu esperava.
— De qual piada vocês estão rindo?
Ela olhou para mim, os olhos estreitando. Mia imediatamente
se fechou, e senti a postura dela mudar. Os ombros se tensionarem,
como se ela tivesse sentido a mudança na minha energia antes de
qualquer outra coisa.
— Brandon — ela respondeu, a voz mais cortante do que eu
estava preparado para ouvir.
Eu vi Henry desconfortável, mas ele forçou um sorriso e, sem
muita graça, fez uma piada qualquer sobre a situação. Mas o que
me irritou mais foi o fato de Mia ainda estar sorrindo, divertida, com
ele. Algo ali me deu vontade de explodir.
— Podemos conversar? — perguntei, tentando manter a calma,
mas a raiva estava visível na minha voz. — A sós, na minha sala?
Ela se virou para ele e se desculpou com um sorriso forçado,
mas foi o tom de voz que me fez fechar os dentes com força.
— Desculpe pela interrupção do doutor O’Connor, Henry.
Podemos continuar essa conversa depois?
Ela não me chamou de “meu marido” ela me chamou de
“doutor O’Connor”. Nada naquele momento parecia certo, e eu sabia
que tinha acabado de fazer uma cena boba, mas não consegui
evitar.
O médico deu um passo para trás, se afastando com uma
piada sobre ‘deixar os maridos com ciúmes’ que, francamente, só
piorou a situação. Quando ele se afastou, a tensão entre Mia e eu
estava quase palpável. Ela estava com a cara fechada e saiu
andando na minha frente, claramente irritada.
Eu não sabia por que, mas senti algo em mim apertando mais
a cada passo que ela dava. Não queria discutir ali, mas o que estava
acontecendo não fazia sentido. Eu não sabia por que estava agindo
assim. Não estava nem mesmo pensando direito.
Segui atrás dela, tentando entender onde tinha perdido o
controle da situação.
No momento em que o elevador chegou, o espaço estava
apertado, e a tensão entre nós só aumentava. Ela não me olhava, e
eu não sabia o que dizer. As palavras estavam presas na garganta.
Quando as portas se fecharam e o elevador desceu, a tensão foi
ainda mais evidente. A presença dela ao meu lado só intensificava o
peso do que estávamos sentindo.
Finalmente, as portas se abriram, e ela saiu direto para a
minha sala sem nem olhar para trás. Eu a segui, já sabendo que
algo ia explodir. Eu podia sentir a raiva dela, e minha própria
frustração só aumentava. O que estava acontecendo comigo?
Assim que a porta se fechou atrás de nós, a explosão
aconteceu.
— Você não pode continuar dando showzinho toda vez que me
vê conversando com alguém do sexo masculino do corpo clínico —
ela disse, e sua voz estava carregada de raiva, mas também de algo
mais, algo que eu sabia que ela não estava dizendo.
Eu olhei para ela, tentando entender o que tinha acabado de
acontecer. Por um segundo, fiquei em silêncio, absorvendo a
intensidade das palavras dela. A raiva dela só aumentava à medida
que eu não reagia. Eu queria gritar, explodir também, mas algo me
segurava.
— Eu não... — comecei, mas ela não me deixou continuar.
— Não é assim que funciona, Brandon! Eu sou casada com
você, mas você não tem o direito de me tratar assim, como se fosse
meu dono.
Eu não sabia o que eu estava sentindo, mas sabia que
precisava falar algo. O que quer que fosse, precisava sair. Dei alguns
passos na direção dela e a puxei para meus braços. Segurando-a
pela cintura e pela nuca.
— Eu não deveria ter feito aquilo, mas me sinto irracional
quando vejo outro homem perto demais de você — me abaixei,
levando minha boca até a curva do seu pescoço. — Você é minha,
Mia e eu sei que outros homens te desejam, o que acaba
despertando meu lado irracional.
Ela suspirou, respirando fundo. Quando ela falou, foi bem mais
calma, mas a tensão ainda estava no ar.
— Você tem que confiar em mim, Brandon — ela disse
baixinho. — Eu não quero ninguém além de você. Nenhum deles
poderia nem de longe se comparar a você e as reações que desperta
em meu corpo.
Eu não sabia mais o que falar. As palavras pareciam faltar, mas
sabia que ela estava certa. Eu estava errado em tudo isso, e ainda
assim ela estava aqui, confessando como se sentia em relação a
minha atitude.
Eu podia sentir meu peito subindo e descendo rápido, um
turbilhão de sentimentos que me deixava completamente fora de
mim.
— Eu amo tanto você – murmurei, minha voz baixa, carregada
de uma fome crua. — Eu quero você o tempo todo. Agora mesmo,
estou duro, Mia, louco para te foder, pra te lembrar como é ser
minha.
— Me fode, Brandon, aqui, agora.
No segundo seguinte, nossos lábios se encontraram com
brutalidade, como se estivéssemos tentando descontar toda a
tensão acumulada naquele beijo. Eu dominando. Ela se entregando
completamente, os dedos cravando em meus cabelos, puxando com
força, como se também tivesse guardado aquela raiva misturada
com desejo.
Andei com ela até a cadeira mais próxima, puxando-a para
meu colo sem delicadeza, ela gemeu baixinho contra minha boca, o
som mais erótico que eu já tinha ouvido na vida. Passei minhas
mãos pelas curvas dela, sentindo o calor da pele por baixo do tecido
fino do vestido que ela usava.
Arranquei a peça por cima da sua cabeça — dando graças a
Deus pelo travamento eletrônico da porta das salas do staff — seu
sutiã seguiu o caminho do vestido, já a calcinha virou um fiapo
rasgado quando a puxei dos dois lados, rasgando-a. Mia rebolava no
meu colo enquanto eu levava um dos seus seios à boca e chupava
com força.
— Brandon... — ela arfou, as unhas arranhando meus ombros,
me incendiando ainda mais.
— Tira meu pau para fora e senta nele, sunshine – comandei,
beijando o pescoço dela, depois mordendo levemente a pele
sensível, arrancando outro gemido delicioso dela.
Sem hesitar, ela desceu as mãos que tremiam de desejo entre
nós, se afastando somente o suficiente para abaixar minha calça do
pijama cirúrgico junto com minha boxer e expor meu pau, duro e
babando por ela.
— Seu pau é tão gostoso — disse passando a glande por seus
grandes lábios, clitóris até encaixá-lo em sua entrada e começar a
descer, me engolindo — Ah que delícia, que tesão.
— Me fode gostoso, putinha safada. Me toma todo nessa
bocetinha apertada. — Dei dois tapas em sua bunda, o barulho
ecoando pela sala. Mia subiu e desceu de uma vez só no meu pau,
rebolando, se esfregando em mim.
Eu capturei sua boca de novo, profundo, urgente, tomando
seus gemidos para mim. Ela era minha. Minha mulher. Meu mundo
inteiro.
— Vou gozar, Brandon — avisou e mordeu meus lábios. Senti
seu canal me apertando, me fazendo ficar no limite. Mas eu
precisava comê-la de bruços, na minha mesa, com o rabo
empinando para mim.
Levantei-me com ela ainda, empalada no meu pau e caminhei
até perto da mesa, a desci e virei de bruços. Sem dar tempo para
protestos. Empurrei seu tronco em direção a mesa.
— Vou te foder com força e não é para você gritar, você me
entendeu? — falei entrando novamente em sua boceta e rodeando
seu cu com meu dedão.
— Sim, sim … — sua voz saiu abafada. Mia estava com a mão
na boca, para se impedir de gemer alto.
— Como é obediente, minha sunshine. — Dei mais um tapa em
sua bunda e comecei a fodê-la. Forte, duro, rápido e ritmado. A
mesa rangeu, mas eu não queria saber. Nesse momento, só me
importava tomar tudo da minha mulher para mim, e gozar intenso
dentro dela.
— Brandon, por favor... — ela começou.
— Peça, amor.
— Coloca mais um dedo — pediu. Mia tinha descoberto o
prazer de ter o rabo bem fodido e ela adorava me sentir nos dois
buracos ao mesmo tempo.
— Ah, cachorra — meti mais um dedo em seu buraco
aumentando a velocidade e a força com que a fodida por trás,
sincronizando com as investidas do meu pau na sua boceta. — Olha
que safada, quanto mais fodo esse cuzinho, mas sua bocetinha me
aperta.
— Eu vou gozar, de novo, ahhhh! — Dei um tapa bem forte
dessa vez em sua bunda, que a fez arquear as costas e quase
estrangular meus dedos e meu pau no apertão que deu.
— Falei para não gritar, porra — rugi, baixo e rouco. Sentindo
meu próprio orgasmo se formando. — Quer que saibam que estou te
fodendo como uma cachorra aqui dentro? Que o hospital inteiro
saiba o quão safada e gulosa por meu pau você é?
— Brandon... Brandon — choramingou baixinho, gozando,
tanto que senti seu líquido escorrer.
— Gostosa pra caralho — falei investindo mais uma, duas, três
vezes, até sentir minhas bolas pesarem, meu pau inchar e eu
esporrar dentro dela. — Minha, Mia. Você é toda minha. Nada vai
mudar isso.
Sai de dentro dela, pegando lenços em cima da minha mesa
para limpá-la antes de selar nossas bocas em um beijo, que dizia
mais que palavras o quanto eu a amava e, pela forma como ela me
puxava, como me beijava de volta, me dizia que ela sentia o mesmo.
Que a raiva, os ciúmes, a loucura... tudo era apenas outra face do
que sentíamos um pelo outro.
Ali, no meio da minha sala, com ela presa entre minhas mãos e
minha boca na dela, não existia nada além de nós dois.
Só essa fome absurda de pertencermos um ao outro, de nos
lembrarmos — da forma mais intensa possível — de que éramos
feitos para isso.
Feito um para o outro.
Alerta de Ilustração
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Capítulo 44
Mia Jones
Era aniversário de Brandon, e o dia estava lindo, mesmo que
minha cabeça já começasse a latejar depois daquela reunião. Evellyn
falava sobre alguma série nova enquanto atravessávamos o
estacionamento em direção à entrada do hospital, quando uma voz
chamou meu nome.
— Mia, podemos conversar? — a voz era doce, ensaiada. Falsa.
Harper.
Parei no mesmo instante, sentindo Evellyn endurecer ao meu
lado. Ela me lançou um olhar desconfiado, mas eu assenti para que
ela seguisse em frente. Eu precisava encerrar isso. Precisava colocar
essa mulher para correr da nossa vida.
Cruzei os braços e encarei Harper de frente.
— Fale logo — disse seca.
Ela sorriu, aquele tipo de sorriso que dava vontade de esfregar
a cara deslavada no asfalto.
— Você precisa se afastar do Brandon — começou, num tom
pretensamente calmo. — Ele não é para você. Você não é mulher
para ele.
Dei uma risada curta, cheia de ironia.
— E quem é você para me dizer o que é ou não bom para o
Brandon? — avancei um passo, sem medo. — A mulher que o traiu
com o próprio pai?
O sorriso de Harper vacilou. Ela se fez de ofendida, colocando
a mão no peito, como se eu tivesse dito algo absurdo.
— Eu fui seduzida... Bradley me enganou — disse ela, teatral.
A raiva ferveu dentro de mim, mas mantive a voz firme.
— Ele forçou você a transar com ele? — perguntei, com cada
palavra cortante como uma faca.
Harper ficou vermelha, os lábios tremendo.
— Não... — sussurrou.
— Então, você não foi vítima de ninguém além de si mesma.
Você sabia muito bem o que estava fazendo — avancei, sentindo o
gosto amargo da verdade na boca. — Você e o pai dele não valem
nada.
— Brandon vai ser meu de novo. Escute o que estou dizendo.
— Dessa vez ela me fez rir mesmo.
— Tem mulheres que não sabem mesmo a hora de recuar —
me aproximei mais dela. — Você acha mesmo que depois de tudo
que fez ele ainda iria te querer? Ainda mais depois de saber como é
ser meu? De estar dentro de mim?
A raiva subiu nos olhos dela como uma maré. Ela deu um
passo ameaçador na minha direção.
— Você não passa de uma interesseira ridícula — cuspiu. — E
mal sabe do que ele vai te chamar quando descobrir a verdade
sobre quem você é.
Franzi o cenho, confusa.
— Do que você está falando? — perguntei, a garganta
apertando.
Harper sorriu. Um sorriso cruel.
— A mãe dele... — começou, saboreando cada palavra
venenosa. — A mãe do Brandon morreu num acidente de carro...
voltando de um motel. Ela estava com o amante dela. E sabe quem
era esse amante?
Meu coração parou.
— Sean MacLean — sibilou Harper, os olhos brilhando de
malícia. — O seu pai.
A informação me atingiu como um soco no estômago. Dei um
passo para trás, cambaleando, o chão parecendo desmoronar sob
meus pés.
— Não... — sussurrei, incapaz de processar.
— Ah, é verdade, querida — ela continuou, como uma
serpente. — Quando Brandon souber, ele vai te odiar. Vai te
escorraçar da vida dele. Você vai perder tudo.
Minha visão embaçou. Um segurança se aproximou,
preocupado.
– Senhora O’Connor, está tudo bem? — respirei fundo,
forçando um sorriso fraco, mesmo que meu mundo estivesse
despedaçado.
— Está sim — respondi com a voz trêmula. Ele afastou dando
uma distância que mantinha a privacidade da nossa conversa, mas
perto o bastante para caso precisasse agir.
— Você está mentindo — falei, mas dentro de mim. No meu
coração, eu sentia que as coisas entre mim e Brandon estavam
prestes a mudar — Não sei qual o seu problema em vir aqui no dia
do aniversário dele, inventar essas mentiras.
— Não são mentiras. Estou dando a ele um presente que é se
livrar de vez da filha do homem que é o culpado pela mãe dele ter
morrido, filha do homem interesseiro que seduziu a mãe dele e foi o
culpado por Adrienne ter ficado sozinha nas mãos de Bradley
enquanto Brandon estava na faculdade. Todos irão te odiar.
— Não, ele não vai. — tentei afirmar mais para mim que para
ela. Mas como eu poderia ter tanta certeza disso? Como todos
ficarão quando essa verdade vier à tona.
Mal consegui dar alguns passos até a entrada do hospital,
sentindo meu peito pesado e minha cabeça girando.
“Ela estava com o amante.”
“Era o seu pai.”
As palavras martelavam na minha mente, implacáveis. Eu
precisava saber se era verdade. E mais ainda… precisava decidir o
que fazer com isso. Antes que minha vida desmoronasse para
sempre.
Brandon O’Connor
As palavras saíram da boca dela como uma lâmina afiada,
cortando tudo que eu conhecia, tudo que eu sentia.
"O homem que estava com a sua mãe, Brandon... era o meu
pai."
Meu corpo ficou imóvel, como se todas as articulações
tivessem travado. Um filme inteiro passou diante dos meus olhos: a
ligação fatídica, o corpo da minha mãe no hospital, Adrienne
chorando desesperada, pequena demais para entender o tamanho
da perda. Meu avô destruído. E o meu pai...
Meu pai cuspindo aquelas palavras venenosas: "Sua mãe
morreu porque era uma sem-vergonha. Porque fugiu do plantão
para se enfiar na cama do motorista."
Senti meu estômago se revirar.
A perda.
A dor.
E agora... o destino brincando comigo de novo. Me fazendo
amar justamente a filha do homem que acabou com a minha família.
Como isso podia ser real?
Como o universo podia ser tão cruel?
Passei a mão pelo cabelo, sentindo a respiração falhar. Eu não
conseguia pensar direito. Era como se minha mente estivesse
afundando num redemoinho de lembranças, raiva e confusão.
Foi só quando o silêncio se tornou ensurdecedor que percebi.
Mia não estava mais na sala.
Meu peito apertou num impulso desesperado. Saí atrás dela
sem pensar, o coração batendo como um tambor descompassado.
Fui direto para a sala dela, ignorando qualquer olhar pelo
corredor. Quando abri a porta, o vazio me acertou como um soco.
— Mia? — chamei, já sabendo que não teria resposta.
Me virei para a secretária, uma mulher que normalmente era
só sorrisos quando me via. Agora, me encarava com uma expressão
dura, desconfiada.
— Ela disse que não estava se sentindo bem — falou, seca. —
E que ia pra casa. Pediu para avisar a Evellyn.
Assenti, sentindo a garganta fechar.
Ela se foi.
E eu nem sequer consegui segurá-la.
Fiquei parado no meio do corredor, olhando para a porta
fechada da sala dela, me sentindo mais perdido do que em toda a
minha vida.
Porque no meio de toda a confusão, da dor, da raiva... O que
mais doía era saber que a amava. Que não tinha como desligar o
que sentia por Mia só porque o destino resolveu brincar com a
gente.
E eu não sabia se algum dia conseguiria olhar para ela... sem
lembrar do que aquilo custou. Mas a primeira coisa que eu precisava
no momento era encontrar minha mulher.
Não pensei duas vezes.
Saí do hospital praticamente correndo, ignorando olhares
curiosos e cumprimentos. Fui direto para casa, com a esperança de
encontrá-la ali, enrolada no sofá, tentando encontrar conforto no
colo dos nossos filhos de quatro patas.
Mas quando abri a porta, o silêncio da ausência dela me
engoliu. Sirius e Keren vieram ao meu encontro, mas não havia festa
dessa vez. Acho que os dois sentiam que as coisas estavam erradas.
Fora do lugar.
— Mia? — chamei, entrando.
Nada.
Procurei pela sala, pela cozinha. Subi as escadas com o
coração na garganta. Nosso quarto estava vazio. A cama arrumada.
Nenhum sinal dela.
Peguei o celular, as mãos tremendo, e disquei seu número. A
ligação tocou... e tocou... até cair na caixa postal.
Tentei de novo. E mais uma vez. Nada. Na terceira tentativa foi
direto para a mensagem eletrônica. Senti o desespero crescendo.
Resolvi ligar para a casa dos pais dela. Talvez, com sorte, ela
tivesse corrido para lá em busca de conforto. A chamada demorou e
foi perdida, ninguém respondeu.
Merda. Merda. Merda
Me sentei no sofá, passando as mãos pelos cabelos, o peito
apertado de angústia. Então pensei em uma pessoa que talvez
soubesse algo.
Anthony.
Disquei o número dele e esperei, rezando para que atendesse.
Depois de três toques, ouvi sua voz grave e familiar do outro lado.
— Brandon? — ele atendeu, confuso. — Está tudo bem?
— Anthony... — minha voz falhou por um segundo. — Você
sabe onde a Mia está?
Houve uma pausa curta e carregada.
— Não — ele respondeu, a voz ficando tensa. — Aconteceu
alguma coisa para você não saber onde minha filha está?
Fechei os olhos, respirando fundo antes de responder:
— A gente descobriu uma coisa hoje — passei a mão pelo
rosto, tentando encontrar as palavras certas. — Sobre o pai biológico
da Mia.
— O que tem ele? — Anthony perguntou, a tensão na voz
ficando ainda mais evidente.
Engoli em seco.
— Era o mesmo homem que... — minha garganta fechou, mas
forcei as palavras a saírem. — Que morreu com a minha mãe no
acidente.
O silêncio que caiu do outro lado da linha foi ensurdecedor.
— Sean MacLean — completei, porque precisava dizer em voz
alta. — O homem que era o amante da minha mãe. O pai da Mia.
Anthony soltou o ar devagar, como se estivesse absorvendo o
golpe.
— Eu não sabia — ele murmurou. — Eu juro, Brandon. Quando
adotei a Mia, tudo o que a Mayane me disse foi que o pai dela tinha
morrido em um acidente de carro. Eu nunca soube que ele estava...
com outra mulher. Muito menos que era a sua mãe.
Me apoiei nos joelhos, sentindo o peso do mundo nas costas.
— Talvez Mayane tenha escondido — eu disse, a mente
girando. — Por vergonha. Por medo. Não sei.
— Ou para proteger a Mia — Anthony completou, a voz
amarga. — Para que ela não carregasse uma culpa que nunca foi
dela, como deve estar fazendo agora.
Fechei os olhos, sentindo uma fisgada no peito.
— Eu vou tentar ligar para ela também — ele disse. — Vamos
manter contato, Brandon. Assim que eu souber de algo, te aviso.
— Obrigado — respondi, mesmo sabendo que a gratidão
parecia pequena demais diante da angústia que nos consumia.
Desliguei, ficando sozinho na sala silenciosa.
O vazio da casa parecia ainda maior sem Mia ali e com a
dúvida sobre o que seria de nós pairando no ar.
E naquele momento, eu soube: Não importava quem fosse o
pai dela. Não importava o passado.
Se eu a perdesse agora, ia perder tudo.
E não podia deixar isso acontecer.
Capítulo 46
Mia Jones
Saí do hospital como quem foge de um incêndio. O peito em
chamas, a garganta apertada. Entrei no carro sem pensar, liguei o
motor e deixei a cidade ficar para trás sem nem saber para onde
estava indo. Só precisava me afastar, respirar, tentar juntar os
pedaços de mim mesma que tinham se quebrado no instante em
que vi aquele olhar vazio no rosto do Brandon.
As palavras de Harper ecoavam na minha cabeça como um
mantra cruel, se misturando com a dor que eu li nos olhos dele. A
decepção, a mágoa, a distância brutal que se instalou entre nós em
segundos.
Depois de um tempo dirigindo sem rumo, vi a placa de um
hotel simples na beira da estrada. Estacionei como um robô, fiz o
check-in sem prestar atenção em nada além da chave em minha
mão trêmula, e subi para o quarto.
Assim que fechei a porta, larguei minha bolsa no chão e me
joguei na cama. Olhei para o teto branco e frio, sentindo a dor
apertar ainda mais no peito. Como a vida podia ser tão cruel? Como
podia juntar duas pessoas, fazer uma história tão linda nascer entre
nós, apenas para depois jogar uma bomba no meio dela?
As lágrimas vieram sem que eu pudesse conter. Quentes,
silenciosas. Chorei por mim, por ele, por nós. Chorei por tudo que
estávamos perdendo sem nem ter lutado.
O celular vibrou no chão, próximo à bolsa. Meu coração
disparou ao ver o nome dele na tela.
Brandon.
Fechei os olhos, respirando fundo, tentando parar de chorar. Eu
precisava falar com ele. Precisava explicar que eu nunca soube...
que nada daquilo mudava o que eu sentia. Que ele ainda era tudo
para mim.
Deixei o telefone tocar até parar. Na segunda chamada, juntei
coragem e me levantei para atender, mas a chama foi encerrada
antes pelo celular desligando sem bateria.
Fiquei olhando para o celular morto na minha mão, sentindo
um pânico novo nascer dentro de mim. Eu estava sozinha. Sem
bateria. Sem cabeça para raciocinar. Sem forças para fazer qualquer
coisa.
A cabeça latejava e o mundo parecia girar ao meu redor. Me
deitei de lado na cama, encolhendo as pernas contra o peito. Fechei
os olhos na esperança de fazer a dor diminuir.
E sem perceber, deixei o cansaço e a tristeza me vencerem,
adormecendo ali, sozinha com meu coração quebrado.
Brandon O’Connor
O relógio parecia zombar de mim a cada segundo que passava.
Cada tic-tac ecoava dentro do peito como um lembrete cruel da
ausência dela.
Passei o resto do dia tentando encontrá-la, ligando para cada
número que eu conhecia, revirando cada canto da cidade em
pensamentos, enquanto tentava me manter funcional. Mas no fundo,
eu só queria voltar no tempo e não tê-la deixado escapar, assim eu
não estaria aqui, agora esperando por ela.
Esperando para entender. Para ouvir da boca dela o que diabos
tudo aquilo significava. O que significava seu sumiço. Para dizer que,
apesar do choque, apesar do absurdo que era o destino ter nos
entrelaçado dessa maneira... eu não conseguia, não queria, e nem
sabia como viver sem ela.
Quando ouvi o click do elevador vindo do lado de fora, meu
corpo inteiro ficou em alerta. Me levantei do sofá num pulo, o
coração batendo tão rápido que mal conseguia respirar.
A porta se abriu devagar, e Mia apareceu. Cansada. Pálida. Os
olhos vermelhos. Meu instinto foi correr até ela. Puxá-la para meus
braços e nunca mais deixar ir.
Mas minhas pernas não se mexeram.
Ela fechou a porta atrás de si, e ficou parada ali, nos
encarando como se tivesse medo de dar o próximo passo.
Eu engoli em seco, sentindo minha garganta queimar.
— Mia — chamei, a voz saiu rouca. — Onde você estava? Eu...
eu estava ficando louco.
Ela baixou o olhar, abraçando a si mesma como se o mundo
fosse grande demais para ela carregar sozinha.
— Eu precisava de um tempo — ela murmurou, tão baixo que
quase não ouvi. — Eu precisava respirar.
Dei dois passos em direção a ela, parando a poucos
centímetros de distância.
— Você não precisava fazer isso sozinha — sussurrei, com uma
dor que parecia abrir fendas dentro de mim. — Não comigo. Nunca
comigo.
Os olhos dela encontraram os meus, e o que eu vi ali foi
apertou meu coração com punhos de ferro. Medo. Culpa. Tristeza.
Mas também amor. Tanto amor que doía.
— Me desculpa — ela sussurrou, e uma lágrima rolou pelo
rosto dela.
Antes que qualquer um de nós pudesse pensar, puxei-a para
meus braços, apertando-a contra meu peito como se o mundo
inteiro estivesse tentando roubá-la de mim.
Ela desabou. Eu também.
Ficamos ali, dois corpos quebrados tentando se remendar
apenas com o calor de um abraço.
— A gente vai dar um jeito nisso — prometi, minha voz
embargada. — Eu não dou a mínima para como tudo começou. Só
sei que eu te amo, Mia. E isso... isso ninguém vai tirar da gente.
Ela soluçou contra meu peito, apertando meus ombros com as
mãos pequenas.
— Eu também te amo — ela disse entre lágrimas. — Eu te amo
tanto que chega a doer. — Fechei os olhos, respirando o cheiro dela,
sentindo seu coração bater descompassado contra o meu.
Ela voltou.
Ela ainda era minha.
E enquanto tivéssemos esse amor... Não importava quão
ferrado o destino fosse.
Nós daríamos um jeito.
Mia Jones
O carro deslizava pela estrada, enquanto eu tamborilava os
dedos nervosamente no colo. A caminho da casa dos meus pais, a
ansiedade começou a crescer em mim de um jeito estranho, como
se meu corpo soubesse que algo estava errado antes mesmo da
minha mente compreender.
Antes de sairmos, eu tinha ligado para o meu padrasto. Ele
confirmou que Mayane trabalharia de casa naquela manhã. Eles
tinham aquele escritório de contabilidade, e nas terças e quintas ela
fazia home office. Era normal. Tudo parecia normal.
Suspirei, tentando acalmar meu peito acelerado.
Brandon, ao volante, parecia tranquilo. Pelo menos até
começarmos a virar a esquina da rua onde ficava a casa dos meus
pais. Foi quando ele desacelerou, franzindo o cenho.
— Aquele carro... — murmurou, apertando levemente o
volante.
Segui seu olhar e vi o veículo estacionado em frente à casa.
Um modelo de luxo, reluzente sob o sol. Não era nada que
combinasse com os hábitos discretos dos meus pais.
— Você conhece? — perguntei, minha voz soando tensa.
Brandon assentiu, a mandíbula travada.
É
— É o carro do Bradley — respondeu com absoluta certeza. —
Reconheço pela insígnia dourada da Cooper Motors... e pela placa
personalizada. Não tem erro.
Engoli em seco, sentindo um frio rastejar pela minha espinha.
Descemos do carro em silêncio, como se qualquer palavra
fosse quebrar algo que ainda não entendíamos. Caminhamos até a
porta da casa, parando lado a lado, nossos ombros quase se
tocando.
Foi então que a voz alterada da minha mãe atravessou a
madeira da porta, nítida, como uma bofetada.
— Eu não contei nada porque tinha medo deles acabarem
descobrindo a verdade!
Brandon e eu trocamos um olhar rápido, uma faísca de alarme
pulsando entre nós. Ficamos imóveis, como se nossos corpos
soubessem que o que viria depois mudaria tudo.
A voz dela, trêmula e desesperada, continuou:
— É melhor aceitar Mia como nora do que correr o risco de
todos descobrirem que nós éramos amantes e tivemos um filho
juntos!
Foi como se o mundo tivesse parado.
Levei a mão à boca, o estômago revirando violentamente. Uma
pergunta horrível rasgou minha mente: E se... e se eu fosse irmã do
Brandon?
Não pensei. Não hesitei. Apenas empurrei a porta com força e
entrei, o coração martelando no peito.
Bradley e Mayane estavam na sala, paralisados, como duas
crianças pegas em flagrante. A culpa estampada nos rostos.
Brandon entrou logo atrás de mim, a respiração pesada.
— Você mentiu pra mim esse tempo todo? — minha voz saiu
trêmula, carregada de choque e fúria. — Mãe... — avancei um
passo, sentindo as lágrimas queimarem nos olhos — você também
mentiu sobre quem é o meu pai?
Mayane abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. O silêncio
dela foi a resposta que eu mais temia.
E naquele instante, senti meu mundo começar a desmoronar.
— Que porra é essa Bradley? — Brandon bradou enquanto me
segurava em seus braços.
— Não é nada disso, Mia, vocês entenderam tudo errado —
Mayane tentou se aproximar, mas eu recuei. Eu não reconhecia
aquela mulher à minha frente. — Filha...
— NÃO ME CHAMA DE FILHA... — gritei. — EU QUERO A
PORRA DA VERDADE!
— Não fale comigo assim, eu ainda sou sua mãe — disse ela
mantendo a pose de ofendida.
— Eu não sei mais quem você é... — falei mais baixo. —
Responde, Mayane, Sean era o meu pai?
— Sim, claro que era. Eu nunca mentiria sobre isso — falou
com a voz chorosa. Mas não me comovi.
— Mas mentiu sobre todas as outras coisas — dessa vez foi
Brandon quem falou. — Você — disse apontando para o pai. — Eu
deveria acabar com sua raça, durante anos sujou a memória da
minha mãe, dizendo que ela estava com uma amante, enquanto ...
— Brandon parou de falar, tomando fôlego, passando a mão pelo
rosto.
— E queria que eu tivesse feito o quê, seu idiota patético e
sentimental? — olhei para aquele homem horrizada — Ela já estava
morta, e eu nunca me importei o suficiente eu só queria que você
desistisse da ideia estúpida de se tornar médico.
Não vi Brandon passando por mim, mas quando pisquei seu pai
já estava no chão com nariz sangrando. — Isso é pela minha mãe
seu desgraçado. E fique feliz de já ser um velho medíocre porque
senão eu ia quebrar cada osso do seu corpo filho da puta,
desgraçado.
— Brandon… — o chamei, tentando fazer ele se acalmar.
— Estou bem, Mia — ele disse se aproximando. — Se Mia não
é sua filha, onde está o filho que vocês tiveram? — Assim que a
pergunta deixou a boca de Brandon, o rosto de Oliver veio à minha
mente. Os cabelos mais escuros que os meus e de Olívia, os olhos
azuis tão diferentes da irmã e do pai. Meu Deus! Como ela pode
fazer isso com nossa família?
— Brandon... — seu nome saiu baixo dos meus lábios. — É o
Oliver, Brandon.
Brandon O’Connor
As palavras de Mia ecoaram na minha mente como um tiro.
Oliver... Oliver é filho do meu pai.
Um zumbido forte tomou conta dos meus ouvidos, abafando
tudo ao redor. A visão ficou turva, e de repente eu não estava mais
ali, no sofá com Mia. Eu estava de volta àquela maldita noite na
emergência do MCM.
As sirenes. O cheiro de sangue. Os gritos.
E no meio de tudo aquilo... Oliver. Tão pequeno. Tão indefeso.
Lembrei da sensação de segurá-lo nos braços, do sangue
escorrendo, do medo cortando minha garganta enquanto eu tentava
desesperadamente mantê-lo vivo. Eu sabia que não podia deixá-lo
morrer. Havia algo nele, algo que me puxava, algo que eu não
conseguia explicar naquela noite.
Agora fazia sentido.
O laço de sangue estava lá. Sempre esteve.
As lágrimas começaram a arder nos meus olhos, e eu
pressionei os punhos contra eles, tentando conter o colapso que
ameaçava me partir ao meio.
— Um irmão — sussurrei, quase sem voz. — Eu tenho um
irmão.
Soltei uma risada vazia, amarga.
— Um irmão... que também é irmão da minha esposa.
Esfreguei o rosto com força, tentando me situar, tentando
encaixar tudo em algum lugar lógico da minha cabeça — mas não
havia lógica suficiente no mundo pra isso.
Pensei em Anthony.
O homem que foi pai pra Mia. Que criou Oliver com amor, que
construiu uma família linda e honesta, mesmo carregando uma
traição que ele nem sabia que existia.
Pensei em Olívia, com seu sorriso zombeteiro, seu humor ácido
e seu jeito de defender Mia como uma leoa.
E tudo o que eu conseguia sentir era uma raiva crua, pulsando
nas veias.
Raiva de Bradley.
Por cada vida que ele destruiu com seu egoísmo. Por cada
ferida que deixou aberta, sangrando, em todos nós. E o pior era
saber que ainda não tinha acabado. Que a dor que ele causou
continuaria reverberando, atingindo inocentes, como sempre fez.
Aproximei-me de Mia e a apertei contra mim, sentindo seu
corpo trêmulo enquanto ela deixava a dor e desespero fluir. Com
certeza imaginando como seria de agora em diante, como seria para
Anthony descobrir toda essa sujeira, todo segredo sórdido de
Mayane. Ali com Mia em meus braços, no meio do caos daquelas
revelações, jurei que protegeria ela e Oliver do passado pobre que
Bradley espalhou pelo nosso caminho.
Que eu seria o oposto do homem que me colocou no mundo.
Fechei os olhos, deixando que uma lágrima solitária escapasse.
Eu era filho dele, mas não seria como ele.
Nunca.
— Vamos embora, Mia, não temos mais nada o que fazer aqui
— decretei.
— Filha, me escuta, você não pode contar nada para seus
irmãos ou para Anthony. — Mayane teve a audácia de pedir à filha
que mentisse para todos que amava? Antes que Mia pudesse
responder algo, uma pergunta ecoou alta pela sala.
— O que ela não pode me contar, Mayane? — Parado, ali no
batente da porta, o pai de Mia, encarava a cena no meio de sua sala
sem ter a mínima ideia de que a resposta para sua pergunta, iria
mudar por completo o rumo de sua vida.
Anthony Jones
Desde o dia anterior, algo dentro de mim dizia que havia algo
errado.
Mia sumir daquele jeito, sem dar explicações claras, já teria
sido estranho o suficiente. Mas o que realmente ficou martelando na
minha cabeça foi a conversa com Brandon — ele contou que o pai
de Mia havia morrido num acidente de carro junto com a mãe dele,
anos atrás. Um detalhe pesado, profundo... que Mayane nunca havia
mencionado para mim. Nunca.
Por que esconder isso?
E mais ainda: por que, mesmo depois de descobrir que nossa
filha estava se relacionando justamente com o filho da mulher que
tinha sido amante do seu antigo casamento, Mayane não disse
nada?
Meu estômago se revirava a cada pensamento.
Foi por isso que decidi sair do trabalho e ir pra casa. Precisava
ouvir essa conversa de perto. Precisava entender.
Quando estacionei em frente à casa, respirei fundo antes de
abrir a porta. Meu coração acelerava sem motivo aparente — ou
talvez com todos os motivos do mundo.
Dentro da sala, a cena me pegou como um tiro silencioso.
Mia estava ali, os olhos marejados, Brandon ao lado dela, com
o rosto fechado. E havia outro homem... mais velho, de aparência
forte, que parecia uma cópia mais madura de Brandon. Quem diabos
era ele?
Eu dei dois passos pra dentro, sentindo o clima pesado me
envolver.
— O que ela não pode me contar, Mayane? — perguntei,
olhando diretamente para minha esposa.
Ela se virou para mim, e o que vi no rosto dela me fez recuar
um passo sem querer. Lágrimas já desciam em rios, e a culpa
estampada na sua expressão era mais do que eu poderia aguentar.
— Anthony... — a voz dela quebrou. — Me perdoa, por favor...
— Perdoar pelo quê? — retruquei, a garganta seca.
Foi Mia quem respondeu.
A voz da minha filha, trêmula e sofrida, cortou o ar:
— Mayane e Bradley... eles foram amantes. — As palavras
saíram como facadas. — E eles... eles tiveram um filho juntos.
Um silêncio mortal tomou conta da sala.
Eu senti como se o chão tivesse se aberto sob meus pés.
Minha visão escureceu e precisei me segurar no encosto do sofá
para não desmoronar.
Meu mundo... tudo o que eu achava que era verdade... tinha
sido uma mentira.
— Não... — balbuciei, tentando encontrar ar. — Não pode ser...
Mayane se ajoelhou na minha frente, as mãos juntas como
quem suplica por misericórdia.
— Eu me arrependi, Anthony! Eu te amo! Foi um erro! Um erro
do passado! Eu juro que nunca mais...
Mas eu não acreditava em nada. Não conseguia. Não depois
disso.
Bradley, aquele desgraçado, passou a mão no nariz — onde
uma marca roxa já começava a se formar — e bufou, pronto para ir
embora.
— Já deu pra mim — murmurou, desdenhoso. — Nunca quis
saber desse bastardo mesmo. Não vai ser agora.
Antes que ele pudesse sair, meu punho encontrou o rosto dele.
Senti o impacto reverberar até o cotovelo, mas não me arrependi.
Nem um pouco.
— Fique longe do meu filho — rosnei entre os dentes, a raiva
latejando dentro de mim.
Bradley resmungou algo ininteligível e saiu cambaleando pela
porta, deixando um rastro de nojo atrás dele.
Senti uma mão firme apertar meu ombro.
Brandon.
— Você não está sozinho, Anthony — disse com uma voz firme,
cheia de certeza. — A gente vai superar isso. Como uma família.
Olhei pra ele, vi sinceridade nos seus olhos e algo dentro de
mim se acalmou, mesmo que só um pouco.
— Obrigado, filho — murmurei, sentindo a garganta embargar.
Respirei fundo e me virei para Brandon e Mia.
— Deixem a gente a sós — pedi, a voz pesada. — Mayane e eu
precisamos conversar. Ela vai contar os detalhes de tudo. Depois
precisamos decidir como... — engoli em seco — ...como vamos
contar a verdade para as crianças.
Mia hesitou por um segundo, me abraçando forte, depois
Brandon a puxou levemente pela mão, guiando-a para fora da sala
sem uma palavra.
Quando a porta se fechou atrás deles, eu encarei Mayane. E
me perguntei como alguém que eu amei tanto pôde mentir desse
jeito.
Capítulo 48
Brandon O’Connor
Fechei a porta de casa devagar, como se o simples clique da
fechadura pudesse quebrá-la ainda mais. Mia foi direto para o sofá,
o corpo dela parecia pequeno, frágil... quebrado de um jeito que
doía mais em mim do que qualquer ferida física que já tive na vida.
Ela se sentou, abraçando os próprios joelhos, e quando os
soluços começaram, cada som rasgava um pedaço da minha alma.
Fui até ela e me sentei ao seu lado, envolvendo seu corpo
trêmulo nos meus braços. A segurei com força, como se pudesse
protegê-la do mundo, das lembranças, do passado... de tudo.
— Shh... — sussurrei contra seus cabelos, sentindo meu
próprio peito apertar. — Vai ficar tudo bem, amor. Eu prometo.
Ela levantou o rosto, o olhar manchado de lágrimas e
desespero.
— Não vai — sussurrou com uma voz partida. — As coisas só
pioraram, você não consegue ver, Brandon? — As lágrimas correm
pelo seu rosto. — Nós nunca vamos conseguir ser felizes juntos.
— Uma porra que não vamos! — Segurei seus braços e a
trouxe ainda mais para perto de mim. — Você é minha, Mia. Que se
foda o passado. Eu não vou aceitar te perder por um erro que não é
nosso, está entendo?
Segurando o rosto dela entre as mãos, obrigando-a a me
encarar.
— Que se foda isso, Mia. — disse, minha voz saindo rouca,
pesada de emoção. — Você está me ouvindo?
Ela piscou, novas lágrimas deslizando pelas bochechas.
— Eu não quero ser sua tragédia. — sussurrou.
— E você não é — afirmei. — Você é a melhor coisa que já me
aconteceu. Você é o meu milagre no meio desse caos todo.
Ela balançou a cabeça, sem forças para acreditar.
— Não importa o que Harper tenha dito — continuei, sentindo
a fúria subir em mim só em lembrar daquela víbora. — Não importa
o que nossos pais tenham feito. Não importa o passado. Nada
disso muda o que somos.
Aproximei minha testa na dela, fechando os olhos.
— Nós nascemos para ser o amor um do outro, Mia —
sussurrei, deixando que cada palavra carregasse todo o peso da
minha certeza. — E eu não vou abrir mão disso. Nunca.
Ela deixou escapar um soluço engasgado, as mãos se
agarrando ao tecido da minha camiseta como se fosse a única
âncora dela naquele mar revolto.
— Me promete? — ela pediu, a voz quase inaudível.
Abri os olhos e olhei dentro dos dela, jurando com cada célula
do meu corpo:
— Eu prometo. Prometo lutar por nós. Prometo amar você
todos os dias da minha vida, não importa quantas tempestades
venham.
Beijei suas lágrimas, uma por uma, até sentir seu corpo relaxar
contra o meu. E no meio da nossa sala, segurando a mulher da
minha vida nos braços, soube que podíamos enfrentar qualquer
inferno que fosse, porque eu não desistiria.
Brandon O’Connor
. Encostei no batente da porta, cruzando os braços e deixando
a brisa do fim da tarde bater no meu rosto. A vida tinha se
organizado. Com o passar do tempo, todas as coisas foram se
ajustando. Meus cunhados acabaram indo morar com Anthony
depois de dois anos do divórcio. Eles ainda moravam perto da mãe,
mas preferiram morar com meu sogro, que vinha seriamente
cortejando Gleina, minha chefe da enfermagem. Um relacionamento
do qual eu gostava muito, para ser sincero.
Bradley havia falecido há mais de um ano. Infarto fulminante
enquanto transava com Harper. Aqueles dois se mereciam. Eu e
Adrienne, éramos seus únicos beneficiários no testamento, mas
fizemos questão de mudar as coisas e colocar Oliver como um dos
donos. Talvez quando ele tivesse idade suficiente, resolvesse assumir
a Cooper Motors, mas no momento sua única preocupação era ser
uma criança feliz.
Bradley deve se retorcer no caixão todo final de ano quando a
minha parte dos lucros da empresa vão direto para associação criada
pela minha mãe. Dinheiro gera dinheiro, e mesmo que meu pai não
valesse nada, ele não fundou a CM, ela era um legado antigo e
agora eu podia usar parte do dinheiro que ela rendia para salvar
vidas.
Voltei minha atenção ao jardim à minha frente, parecia ter
saído direto de um daqueles comerciais de margarina: crianças
rindo, cachorro correndo, gato escalando o que não devia... e no
meio da bagunça, estava a minha vida inteira.
Sarah gritava alguma coisa ininteligível enquanto fugia da
Black, nossa nova cadela, e de Sirius, que corriam atrás dela com a
língua de fora, achando que aquilo era a melhor brincadeira do
mundo. Sean, nosso filho que foi batizado com o nome do pai
biológico de Mia, com quase três anos de pura teimosia, tentava
montar em Black como se fosse um cavalo. Do outro lado, Luna se
fingia de superior — como toda boa gata — enquanto planejava
alguma travessura escondida e era admirada de perto por um Keren
já meio cansado de tanta bagunça.
E ali estava eu, completamente dominado por aquela pequena
tropa do caos. Senti braços envolverem minha cintura e sorri antes
mesmo de olhar.
Mia encostou o rosto nas minhas costas e falou, a voz
carregada de carinho:
— Está feliz?
Soltei uma risada baixa e virei um pouco o rosto para beijar
sua testa.
— Eu sou feliz desde o dia em que você jogou café na minha
camisa branca naquela maldita Break Room — respondi, puxando-a
mais para perto. — E ver essa bagunça toda... essa família que a
gente construiu... é tudo o que eu sempre quis. Se dependesse de
mim, teríamos pelo menos mais uns doze filhos. Biológicos,
adotados, de quatro patas, com asas... o que viesse.
Ela gargalhou, e o som misturado às risadas das crianças virou
minha trilha sonora favorita.
— Que ótimo saber disso — ela disse, com aquele sorriso
travesso que sempre me deixou de joelhos. — Porque em sete
meses... a casa vai ficar ainda mais cheia.
Demorei um segundo para entender. Pisquei. Olhei para ela.
Olhei para a barriga que ainda não mostrava nada. E aí ela apenas
assentiu, com aquele brilho nos olhos.
Antes que eu pudesse reagir, ouvimos um grito vindo do
quintal:
— Vem, Sirius Black! — Não aguentei, soltando uma
gargalhada.
Sean corria atrás dos cachorros, gritando o nome deles do jeito
mais errado — e fofo — possível. Fazendo parecer que ele estava
chamando o personagem de Harry Potter.
Eu ri, puxando Mia para um beijo que prometia mais confusão,
mais amor, mais tudo.
Porque no fim das contas, eu não precisava de nada além
disso: minha família, minha bagunça, minha felicidade.
E ainda bem que ela não pretende parar tão cedo.
Cenas Bônus
Brandon O’Connor
— Pronto para contar? — Mia perguntou, os olhos brilhando de
emoção.
Assenti, ajeitando Sean no meu colo enquanto Sarah se
sentava na frente da gente, abraçada a uma almofada quase do
tamanho dela.
— Temos uma notícia muito especial — comecei, sorrindo para
os dois.
Sarah inclinou a cabeça, curiosa.
Sean, por outro lado, já parecia pronto para sair correndo para
o jardim, porque ficar parado definitivamente não era o forte dele.
— A nossa família vai crescer — Mia disse, suave. — Tem um
bebê na barriga da mamãe.
Sarah abriu a boca num “O” gigante, maravilhada.
Sean franziu a testa.
Olhou para a barriga da Mia.
Olhou de novo.
Depois bateu palminhas, empolgado.
— Cadê?! — ele perguntou, correndo até ela e levantando a
blusa dela sem a menor cerimônia. — Quelo ver!
Mia riu, ajeitando a roupa antes de fazer um carinho nos
cabelos dele.
— Ainda vai demorar, Sean. O bebê tá bem pequenininho. Só
vai nascer daqui a sete meses.
Sean parou. Pensou.
Depois cruzou os bracinhos, completamente indignado.
— Mas sete meses é “munto” — ele reclamou, fazendo
biquinho. — Eu quelo meu bebê agora!
Sarah caiu na gargalhada, e eu me juntei a ela.
Mia tentava manter a compostura, mas seus olhos brilhavam
de diversão.
— A gente pode fazer muita coisa até lá — eu disse, puxando
Sean de volta para o meu colo. — Tipo pensar num nome legal pro
bebê.
— Sirius Black Dois! — ele sugeriu imediatamente, muito sério.
Sarah revirou os olhos como uma mini adulta.
— Sean, a gente não pode chamar o bebê de Sirius Black Dois!
— ela disse, cheia de autoridade. — Tem que ser um nome de
gente.
— Então Luna Dois? — ele insistiu.
Sarah soltou um suspiro dramático, como se já carregasse o
peso do mundo nas costas por ter que ensinar o irmãozinho.
Mia encostou a cabeça no meu ombro, rindo baixinho.
— Acho que vai ser uma longa espera... — ela murmurou.
E eu sorri, porque sinceramente?
Eu não queria nada diferente disso.
Cada bagunça, cada nome esquisito sugerido, cada risada
barulhenta — tudo fazia parte do que nós éramos.
Da nossa felicidade.
Da nossa família.
Bilhete do papai
Para você que ainda não quem é.
Quando você ler isso — se é que um dia vai ler —, quero
que saiba que, antes mesmo de nascer, você já era muito
amado.
Sua mãe e eu mal conseguimos esperar para te
conhecer. Seu irmão e sua irmã já disputam quem vai te
ensinar mais bobagens (e, acredite, eles têm um arsenal
infinito).
Black e Luna provavelmente vão tentar roubar seus
brinquedos. Ou dormir no seu berço. Mas Sirius e Keren,
serão seus guardiões fiéis, assim como são dos seus irmãos.
E eu...
Bem, eu já sou o pai mais orgulhoso do mundo, só por
saber que você existe.
Você veio para completar algo que a gente nem sabia
que ainda podia melhorar: nossa casa, nossa bagunça, nosso
amor.
Te esperamos com o coração cheio.
E com muitos abraços, beijos, histórias bobas, e, claro,
um punhado de caos que só nossa grande e feliz família
pode proporcionar.
Com todo amor que existe,
Papai.
Agradecimentos
Gostaria de dizer que conto com vocês para avaliarem meu livro
na Amazon. O retorno de cada um é muito importante para meu
trabalho, crescimento e amadurecimento.
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PutiANNES
Viktor West
Ela saiu da sala como se fosse dona de alguma liberdade.
Como se aquilo fosse uma escolha. Como se ela não tivesse
destruído a porra um pedaço de mim.
Meus olhos seguiram as costas dela até a porta, mas minhas
mãos tremiam tanto que precisei me segurar na beirada da mesa.
“Vamos nos divorciar.”
As palavras ecoavam feito um sino de luto dentro do meu
crânio.
Ela quer me deixar? Ela acha que pode simplesmente sair,
como se já tivesse pago o suficiente. Como se a dor que Rafael
sentiu tivesse preço. Como se o sangue que ele derramou pudesse
ser limpo com as lágrimas dela.
— Nem fodendo — murmurei, quase rindo, insano.
Subi as escadas como um furacão. A porta do quarto dela
estava aberta. Ela jogava algumas peças dentro de uma mala
pequena, sem sequer me olhar. As mãos tremiam, os olhos estavam
vermelhos. Mas ela tentava parecer firme.
— Acha que isso é o suficiente? — perguntei, parando na
porta, com a voz baixa, controlada. — Que pode simplesmente me
olhar na cara, cuspir um “divórcio” e sair andando?
Ela não respondeu. Só continuou dobrando uma peça de roupa
qualquer como se estivesse sozinha no mundo.
— Responde, porra! — minha voz explodiu, atravessando o
quarto.
Ela parou, e finalmente me encarou. Os olhos verdes estavam
marejados, mas firmes.
— Se você não pode me amar, Viktor… então me deixe ir.
Ri. Um riso seco. Cruel.
— Amor? — Passei a mão pelo rosto. — Não confunda o que
sente com o que merece. Você não é vítima nessa história, Camilly.
Nunca foi. Rafael se matou por sua causa. Acha mesmo que eu ia
ignorar isso?
— E ainda assim você casou comigo. Deitou comigo. Me fez
acreditar que... — a voz dela falhou. — Que eu poderia ser feliz com
você.
— Você vai me odiar agora? Por que joguei com as mesmas
cartas que você usou?
— Eu só quero sair daqui com o pouco de dignidade que me
resta — sussurrou.
— Então esqueça — murmurei, me aproximando até ela sentir
o meu cheiro. — Você é minha esposa, Camilly. E você não vai a
lugar nenhum.
Ela mordeu o lábio com força.
— O que você vai fazer? Me prender?
Ela não fez escândalos.
Não jogou nada em mim.
Não tentou me fazer mudar de ideia.
— Tenha uma boa vida, Viktor. E espero que você um dia
encontre paz, mas que seja bem longe de mim.
Ela passou por mim com os olhos baixos. Não desviou, não
pediu espaço. Só foi. Fechei a porta do quarto com força e prendi o
grito na garganta.
Ela não gritou, não implorou, não tentou parecer inocente. E
esse silêncio me desarmou.
[1]🛑