ESCOLA DE ENSINO MÉDIO MARIA MARINA SOARES MATERIAL COMPLEMENTAR DE GEOGRAFIA 1ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO – 2011 MANHÃ E TARDE

PROFESSOR: MENDONÇA

Resumo O presente artigo objetiva descrever e analisar o surgimento da Geografia como ciência, além das suas principais correntes epistemológicas – determinismo, possibilismo, método regional, nova Geografia e Geografia crítica. 1. Introdução O caráter científico da Geografia provém de sua origem alemã, na primeira metade do século XIX, através dos trabalhos pioneiros do naturalista e viajante Alexander von Humboldt, e do filósofo e historiador Karl Ritter. Contudo a Geografia, “considerada no seu sentido mais lato, como ciência da Terra, é um dos mais antigos ramos do saber humano” (DE MARTONNE, 1953, p.2). O horizonte geográfico para os povos primitivos da Europa era muito restrito; a expansão do conhecimento geográfico europeu só se deu após as colonizações greco-fenícias (estabelecendo colônias em todo o Mar Mediterrâneo e Negro, além de organizar expedições – os chamados périplos – para regiões localizadas já em pleno Oceano Atlântico), as explorações de Alexandre (que conquistou regiões como Egito, Arábia, Pérsia e Índia), e as conquistas romanas (império que se estendeu desde o Oriente Médio até a Grã-Bretanha, passando pela África do Norte). As primeiras viagens e explorações dos antigos gregos já produziam como resultado trabalhos geográficos, mesmo que meramente descritivos. O nome que se destaca nessas expedições é Heródoto, dando início ao que é chamado de Geografia Regional – isto é, estudos. de regiões: seus povos, suas culturas, aspectos naturais, etc. No mesmo período surge uma outra face da Geografia, a Geografia Geral, que encara o planeta com uma visão mais holística; esses estudos eram direcionados para medições de distâncias, cálculos de dimensões terrestres, entre outros. São notáveis, nos trabalhos de Geografia Geral, nomes como Tales de Mileto e Eratóstenes. Dualismo ou Dicotomia na Geografia: G. Regional x G. Geral; G. Humana x G. Física O período medieval representou uma época de obscuridade para a Geografia na Europa; “é devido aos árabes que o fogo se mantém e que a actividade geográfica ainda se manifesta” (DE MARTONNE, 1953, p. 5). Os geógrafos árabes foram grandes viajantes, que continuaram a Árabes: Ibn Batuta e Al Idrizi produzir estudos importantes, ainda que descritivos. A Idade Moderna caracterizou-se por ser o período dos grandes descobrimentos, realizados especialmente pelos navegadores portugueses e espanhóis. “Em trinta anos o horizonte geográfico, que não ultrapassava 60º de latitude por 100º de longitude, alargou-se até abranger quase toda a Terra” (DE MARTONNE, 1953, p. 7). Nessa época, os estudos de Geografia Regional (mais ligados à Etnografia) e Geografia Geral (voltados para a Astronomia e Cartografia) tornam-se mais intensos, em razão do rápido conhecimento do planeta por parte dos desbravadores europeus, que demandavam mais estudos sobre os lugares descobertos, além de instrumentos de navegação e localização mais precisos. O dualismo entre Geografia Geral e Regional é verificado durante toda a Antigüidade, Idade Média e Idade Moderna. A primeira grande tentativa de aproximar esses dois ramos ocorreu somente no princípio do século XIX, com Humboldt e Ritter. Somente após os estudos desses dois sábios a Geografia deixa de ser um mero “saber” para se tornar uma verdadeira ciência. ____________________

Thiago Alexandre Soares de Lemos¹

¹ Acadêmico da segunda fase do curso de Geografia da UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina

11). devido ao grande império colonial pertencentes a esses dois países. A gênese da Geografia moderna Os estudiosos. e a divisão das ciências é apenas uma tentativa de compatibilizar a vastidão deste conhecimento com a capacidade de acumulação de conhecimentos pelo homem” (ANDRADE. 1953. ligada à Estatística e à Matemática. cujos professores vieram da França. procuraram dividir a ciência em vários ramos. consolidando a escola francesa de Geografia. e o francês principalmente nas recém-criadas faculdades. os franceses. e sim estabelecendo relações de causa e conseqüência entre eles – surgindo daí o princípio de causalidade. No dia em que foi compreendida a significação de tudo isso nasceu a Geografia moderna. afetando também a produção geográfica brasileira. A aplicação deste princípio é o desmoronamento definitivo da barreira que separa a Geografia Regional da Geografia Geral. p. p. esta foi. (ANDRADE. sobretudo através da obra de Milton Santos. como estes mesmo dependem uns dos outros” (DE MARTONNE. Humboldt possuía uma visão holística. Esta é. 1989. ou seja. p. os belgas e em seguida os alemães fizeram o levantamento de amplos territórios na Ásia e na África. a Rússia asiática. 11). sem qualquer finalidade pedagógica. Humboldt mostra também grande curiosidade pelo homem e pela organização social e política dos territórios […]. Além do princípio de causalidade. 13). 117). 1953. o possibilismo. durante as primeiras décadas do século XX: o pensamento alemão presente sobretudo nos órgãos do Governo. Após a década de 50. cedendo espaço para a Geografia Crítica. Seus méritos são altamente reconhecidos: fundou os métodos de observação de quase todas as áreas dentro da Geografia Física. as ciências humanas (com exceção da Sociologia) foram excluídas das suas classificações. O método regional foi uma corrente que esteve em voga em fins do século XIX e princípios do século XX. a partir do século XVIII. a partir do final dos anos 70. Humboldt também foi animador das chamadas Sociedades de Geografia. Foram essas duas escolas que exerceram a maior influência no estabelecimento da Geografia brasileira. 13). especialmente na França e na Inglaterra. p. como naturalista e grande viajante. a chamada Nova Geografia ou Geografia Quantitativa. a aproximação destes dois ramos duma mesma ciência e a sua recíproca fecundação. cujo principal nome é Frederich Ratzel. 1989. 1989. “ninguém mostrou de modo mais preciso como o homem depende do solo. a Colômbia e a Venezuela. 2. 13). “[…] o conhecimento científico não pode ser compartimentado. p. Meramente prático. “Foi assim que os ingleses. o México. achando que há uma grande relação entre estas e as condições naturais” (PEREIRA. no século XIX. especialmente nas regiões dominadas pelos grandes impérios coloniais europeus. Convém não esquecer que. corrente que teve em Vidal de la Blache seu maior expoente. que “só conquistaria a posição de ciência autônoma nas últimas décadas do século XIX”. (DE MARTONNE. que utilizava a teoria marxista como base ideológica. p. a Geografia moderna teve seus primeiros grandes mestres nesse país. a América Central. e organizaram suas colônias” (ANDRADE. posteriormente. do clima. porém. ele é um só. na França. além de haver aplicado os princípios fundamentais da Geografia. observando os grandes fenômenos físicos e biológicos. que organizavam expedições e pesquisas em diversas partes do mundo. Humboldt também aplicou o chamado princípio de geografia geral. Intelectuais como Kant e Comte são notados pelas suas classificações científicas. o conhecimento geográfico somente adquire seu caráter científico a partir dos estudos de Alexander von Humboldt e Karl Ritter. percorreu a Europa. nenhum lugar da Terra pode ser estudado sem o conhecimento do seu conjunto. que a fizeram definitivamente uma ciência independente e original. contudo.Nascendo na Alemanha. Em oposição ao determinismo alemão surgiu. seus trabalhos são todos de natureza científica. a escola alemã de Geografia notou-se por seu caráter determinista. a corrente mais difundida no Brasil. “[…] apesar de naturalista. sendo que um fenômeno verificado em determinada região pode ser generalizado para todas as outras áreas do globo com características semelhantes. sua obra . 1993. da vegetação. não analisando apenas um fator isolado. Humboldt. atualmente. inclusive a Geografia. primeiro. empírico e descritivo até o final do século XVIII. como a vegetação é função dos fenômenos físicos. novos paradigmas surgiram na Geografia.

É por essa razão que a Geografia surge em território alemão. Da divisão do território alemão em pequenos Estados decorrem várias outras problemáticas: a inexistência de um Estado nacional. As escolas nacionais e as correntes do pensamento geográfico Após a sua institucionalização. “se a questão que se colocava fosse meramente a fragmentação do território. por incorporar a necessidade política e econômica. A formação do Estado nacional alemão precisa de estímulos. de diferentes formações. A influência de Humboldt e Ritter foi. 13). comprova seu interesse em relacionar a sociedade e o meio onde ela se estabelece. “somente a análise da especificidade do desenvolvimento do capitalismo e das idéias neste país pode explicar as razões que fizeram a sociedade alemã valorizar a temática geográfica” (PEREIRA. diversidades culturais entre as várias unidades políticas germânicas e ausência de relações duradouras entre elas. instituições e sistemas de utilização de recursos. surgem as escolas nacionais e. 1992). p. segundo. comparando povos. foi animada sobretudo pelo afã de se construir um Estado alemão rico e desenvolvido. um território fragmentado em dezenas de pequenos reinos.Ensaio político sobre o Reino da Nova Espanha. o desejo de expansão imperialista – constitutivo do capitalismo industrial. Cada um desses paradigmas reflete a situação sócio-político-econômica da época em que se desenvolveram. era necessário o surgimento de uma ciência que buscasse soluções práticas para os problemas colocados para a sociedade alemã da época – a unificação e a superação do atraso econômico. decisiva para conferir à Geografia o seu verdadeiro caráter científico. “O grande mérito de Ritter é ter sentido e formulado claramente os princípios que Humboldt aplicara. consolidando o sentimento de pátria através da identidade territorial” (PEREIRA. “Os dois sábios alemães. sendo que. 1989. Ao contrário de Humboldt. método regional. e o atraso econômico dos inúmeros Estados alemães. com elas. Ritter exerceu uma evidente influência nos geógrafos da Alemanha. disputas de fronteiras com países vizinhos não-germânicos. 1992). e mesmo nos da França. a Geografia teve uma gênese grega – a primeira civilização a produzir estudos geográficos – e uma segunda. Portanto. a unificação. p. A segunda gênese. as correntes de pensamento. Concentrou seus estudos nos vários sistemas de organização espacial. a Geografia poderia ter surgido em outras regiões da Europa que viviam idêntica situação” (PEREIRA. sobretudo na Alemanha. e que viria a originar a maior potência capitalista da Europa). apresentam sempre caráter pedagógico. p. portanto. O significado da Alemanha Conforme Mamigonian (1999. davam origem a uma nova ciência de cuja existência certamente não suspeitavam ao iniciarem as suas reflexões” (ANDRADE. Assim. que resultou na institucionalização da Geografia como ciência. Humboldt. suas idéias fundamentais inspiram. possibilismo. que por alguns é considerada a primeira verdadeiramente geográfica no sentido moderno. nova Geografia e Geografia crítica. 13). Os principais paradigmas geográficos são: determinismo. para poder competir de maneira igualitária com as grandes nações européias (França e Inglaterra). inicialmente. a falta de um centro econômico forte e organizador do espaço. Duas foram as condições que propiciaram o surgimento da Geografia moderna na Alemanha: primeiro. até hoje. com motivações de natureza política. 3. alemã. não se deu por acaso na Alemanha. culturas. pois. Karl Ritter foi um “geógrafo de gabinete”. foi o precursor do método comparativo em Geografia. 1953. Em virtude de sua grande influência. Por outro lado. Então. o atual movimento de delimitação da Geografia. O desejo de expansão imperialista apresentou-se como decisivo para a consolidação da nova ciência. Todas essas questões foram de extrema relevância. o que faz com que o discurso geográfico assuma uma centralidade. porém não foram suficientes. desde o surgimento da . 169). liderada sob a égide da Prússia (um pequeno e atrasado reino feudal do Báltico. nascendo comprometida com a aristocracia prussiana. em vez de os enunciar dogmaticamente” (DE MARTONNE. 4. não gozou de prestígio entre os geógrafos: sua obra foi muito mais difundida entre os naturalistas. “o surgimento da Geografia articula-se. 1992). suas publicações são resultado de seu trabalho na Universidade de Berlim – portanto.

por uma necessidade de afirmação nacional e expansão territorial. durante a guerra franco-prussiana. definindo e relacionando.2 – Possibilismo A corrente possibilista surgiu em reação ao determinismo ambiental. francês em sua origem. 11). 1974). Esta oposição fundamenta-se nas diferenças entre os dois países” (CORRÊA. as possibilidades de progresso e as demandas territoriais” (CORRÊA. visto que a perda da guerra pela França foi atribuída não ao exército alemão. sendo o homem o principal agente geográfico. MUTAÇÃO A Geografia teve como grande nome da teoria determinista o naturalista e etnógrafo alemão Frederich Ratzel. opõe-se ao determinismo ambiental germânico. são determinantes para a evolução do homem. La Blache também redefine o conceito de gênero de vida. Esse fato impulsionou o crescimento da Geografia na França. p. Em seu livro Antropogeografia. 1991. hábitos. herdado do determinismo: trata-se não mais de uma conseqüência inevitável da natureza. sobretudo as teorias de Lamarck (sobre a hereditariedade dos caracteres adquiridos) e Darwin (sobre a adaptação dos indivíduos mais bem preparados para sobreviverem no meio natural). foi o principal nome do determinismo nos Estados Unidos. 1991. tendo em Vidal de la Blache seu grande mestre. e posteriormente na Alemanha (início do século XX) e Estados Unidos (década de 20). muito voltado para as aspirações da sociedade alemã da época. discípula de Ratzel. A escola estadunidense também nasceu sob a influência determinista. 4. devido às suas idéias que originaram a política do “espaço vital”² e do direito de conquista dos povos “inferiores” pelos “superiores”. uma região “é a expressão espacial da ocorrência de uma mesma paisagem geográfica” (CORRÊA. para que uma nação possa desenvolver-se é necessário que ela possua um território suficientemente rico . como na Alemanha. estando. deste modo. existentes há muito tempo. 1991. Ratzel fundamenta toda a sua teoria determinista. possibilismo e método regional. Sob a égide possibilista. Cada uma das principais escolas nacionais também teve seus trabalhos orientados para uma ou duas das correntes de pensamento – sobretudos as pioneiras: determinismo. ela se confunde com a Geografia Regional. que lhe permitiram utilizar os recursos naturais disponíveis” (CORRÊA. e “foi o determinismo ambiental o primeiro paradigma a caracterizar a Geografia que emerge no final do século XIX” (CORRÊA. As rivalidades existentes entre França e Alemanha. O filósofo inglês Herbert Spencer foi o grande defensor de idéias naturalistas nas ciências sociais. a Geografia francesa se desenvolve. mais tarde. Essa política foi. 13 apud CLAVAL. 13). inicialmente na França (final do século XIX). Esse fato também se deu. sendo o objeto da Geografia possibilista a região. 4. mas sim à sua Geografia. p. portanto. 9). que possui uma extensão territorial razoavelmente identificável. deste modo. mas de “um acervo de técnicas. Essas duas teorias serviram como fundamentação para a tese do determinismo ambiental. Assim. Ellen Semple. p. isto é. usos e costumes. Os teóricos deterministas afirmam que as condições naturais. 12). Não foi por acaso que esta corrente nasceu na França. que viveu no período da unificação alemã. ___________________ ² A teoria do espaço vital defende que o território representaria “o equilíbrio entre a população ali residente e os recursos disponíveis para as suas necessidades.ciência geográfica. Os estadunidenses justificaram sua expansão e domínio de territórios mexicanos e indígenas através da teoria determinista. portanto. Os gêneros de vida ocorrem em uma paisagem geográfica – aquela que já foi natural e passou a ser modificada pela ação humana –. A natureza passou a ser encarada como uma fornecedora de possibilidades para a modificação humana. 1991. aumentaram com a perda da região francesa da AlsáciaLorena para a Prússia. portanto. p. Também é considerado um dos precursores da Geopolítica. em especial as climáticas. sempre houve uma ou duas correntes dominantes. p.1 – Determinismo A Geografia é instituída como uma disciplina universitária a partir de 1870. desenvolver-se-iam os povos ou países que estivessem localizados em áreas climáticas mais favoráveis. sendo por isso apontado como o fundador da escola determinista alemã. e não determinando sua evolução. utilizada por Hitler para justificar sua expansão nazista através da Europa. 1991. “O possibilismo.

p. O pensamento de Hartshorne é de que o cerne da Geografia é a regional. Suas origens remontam a fins do século XIX. 4. únicas em suas características (CORRÊA. criticando severamente a nova Geografia. p. propiciando o surgimento da nova Geografia. da recuperação econômica da Europa. apresentando estudos que nada exprimiam. submergida pela Geografia “oficial”. 1991. o método regional. poder-se-ia esconder a situação real. a partir da 2ª. Essa corrente é calcada no materialismo histórico e na dialética marxista. Essa corrente evidencia a necessidade de se produzir uma Geografia regional. a Geografia crítica. Contudo. 20). industrialização e expansão de capital. dominar territórios de outras nações. aliado aos movimentos libertários nos países subdesenvolvidos. regiões. gerando modificações profundas na organização espacial. ligada aos interesses dominantes.5 – Geografia crítica Em oposição ao pensamento da Nova Geografia emerge. esse método foi esquecido na passagem do século XIX para o XX. mesmo que essa nação necessite. ambos anarquistas. as quais. 14). Por essa razão. Somente a partir dos anos 40. p. quando foi proposta pelo francês Elisée Reclus e pelo russo Piotr Kropotkin. que são resultado de uma integração única de fenômenos heterogêneos. possibilismo e método regional –. 643-4). do desmantelamento dos impérios coloniais e do progresso tecnológico. em função da disputa vigente entre determinismo e possibilismo. 4. sustentado por informações oriundas de seus serviços de propaganda. “Os modelos normativos e as teorias de desenvolvimento foram reduzidos ao que efetivamente são: discursos ideológicos. Ao contrário da nova Geografia. respectivamente. Essa foi a Geografia oficial do Brasil. para o estudo de áreas. opõe-se às duas anteriores.para atender às demandas de sua população. esse paradigma voltou a ser valorizado. o de justificar a expansão capitalista e seu poder imperialista. não considera que a região é o objeto da Geografia: o importante é o método de identificação das diferenciações de áreas. mas sim da integração de fenômenos heterogêneos em uma dada porção da superfície da Terra” (CORRÊA. O momento histórico em que surgiu esse paradigma foi caracterizado pela intensa urbanização.3 – Método regional A terceira corrente de pensamento geográfico. Contudo. “a Geografia crítica descobre o . 1991. essas modificações inviabilizaram a aplicação dos três paradigmas tradicionais – determinismo. Esse paradigma é voltado. em qualquer nível da divisão. 4. a partir da década de 70. especialmente nos Estados Unidos. são como as partes temporais da História. Esse arsenal de regras e princípios resulta de um compromisso ideológico da Nova Geografia. 16 apud HARTSHORNE. passando por Kant e Ritter. na qual utilizaram-se freqüentemente técnicas estatísticas e matemáticas. Estados Unidos e Suécia. isto é. animou o surgimento da Geografia crítica. Gerard O método regional tem sido estudado desde o século XVII. através dessa metodologia. na Inglaterra. nos séculos XVIII e XIX. 1939. portanto. 1991. durante o período da ditadura militar – regime apoiado pelos grandes Estados capitalistas. tendo no centro dessa valorização o geógrafo estadunidense Richard Hartshorne.4 – Nova Geografia Essa corrente do pensamento geográfico surgiu em meados do século XX. visto que “a diferenciação de áreas não é vista a partir das relações entre o homem e a natureza. passou a ser conhecida também como Geografia quantitativa ou teorética. O agravamento das tensões sociais nos países desenvolvidos. por Varenius. Foi o período da chamada “Guerra Fria”. Contudo não obteve expressão. no melhor dos casos empregados por pesquisadores ingênuos e bem intencionados” (CORRÊA. o emprego da geometria e de modelos normativos. sobretudo os Estados Unidos. Guerra Mundial. A corrente crítica não foi apoiada pelo Estado capitalista como a quantitativa. O objeto da Geografia regional é unicamente o caráter variável da superfície da Terra – uma unidade que só pode ser dividida arbitrariamente em partes. visto que não podia mais desempenhar seu papel de controle. para tanto. um conhecimento sintético sobre as diferentes áreas do globo.

o crescimento da destruição da natureza e uma série de reações populares que atingiram. almejando uma reforma da sociedade e melhor distribuição de renda. 1992. marca o surgimento da Geografia crítica no Brasil. Foi com esse impulso que nasceu a Geografia crítica. que buscavam o progresso a qualquer custo. A contribuição dos geógrafos brasileiros para as discussões da Geografia crítica é muito importante. assim como o tema da região. Elisée Reclus. As relações homem-natureza. realizado no ano de 1978 em Fortaleza. visto que foi fundado pelo intelectual escolhido pelo governo francês para instituir a Geografia na França. a Geografia. p. até então o maior nome da Geografia francesa. não realizando seu desejo de formar um império colonial na África e na Ásia (assim como outros países europeus). procuraram despolitizar formalmente a Geografia. justamente por ser anarquista e. refutadas pela nova Geografia. sempre procurando atender às necessidades das mesmas. 13) – neutralidade que provou ser falsa. Vê-se. Paul Vidal de la Blache. 16). procurando torná-la uma matemática espacial” (ANDRADE. políticos e econômicos” (ANDRADE. a Geografia pôde estabelecer-se sobre bases científicas verdadeiras. vegetação. deslumbrada com o desenvolvimento tecnológico. sendo ela uma ciência social. sob uma visão dialética. a ciência geográfica começa a procurar satisfazer às aspirações da sociedade como um todo. A corrente determinista. O 3º Encontro Nacional de Geógrafos. nascida na Alemanha. sua verdadeira gênese como ciência ocorreu na Alemanha do século XIX. p. sob a luz do marxismo. de Milton Santos. sendo que o livro Por uma Geografia nova. “reunindo em um só bloco todos aqueles que. Considerações finais inda que a Geografia possua uma gênese grega. portanto. foi retomado pelos nazistas a partir das primeiras décadas do século XX. somente a partir da década de 70. à luz dos trabalhos de Alexander von Humboldt e Karl Ritter. porque […] atendia melhor às necessidades da burguesia francesa” (MAMIGONIAN. que a Geografia já nasceu profundamente atrelada aos interesses das classes dominantes. os industriais. relevo. Esse fato ocasionou o agravamento da pobreza. teve sua figura esquecida por muito tempo. portanto. 14). p. os incorporadores imobiliários. justamente por não atender às conveniências governamentais. clima. sem nenhuma preocupação com a preservação ambiental. suas causas e conseqüências. Essa característica fez com que ele fosse difundido nos países que possuíam grandes impérios coloniais – sobretudo França e Inglaterra –. buscando soluções tanto para questões internas da própria Geografia (como a definição do seu objeto e de suas categorias de análise) quanto para os problemas sócio-ambientais que estão hoje colocados de maneira tão evidente. Posteriormente. é retomada na corrente crítica. pois catalogava todas as informações necessárias sobre as regiões dominadas pelas potências imperialistas: riquezas minerais. possuía uma visão extremamente ligada aos interesses nacionalistas e expansionistas alemães do século XIX que. não se adequar aos interesses oficiais. “A Geografia de La Blache […] foi a que expandiu com maior força. fundamentada na busca pelas relações entre natureza e sociedade. é um dos marcos dessa corrente. quando os alemães procuraram dominar a Europa. “Em nome da ‘neutralidade científica’. Somente após a brilhante contribuição desses grandes mestres. . com a corrente crítica. O método regional estava voltado para a catalogação de lugares. uma vez que os quantitativistas acabaram prestando grandes serviços aos Estados capitalistas desenvolvidos. etc. 5. etc. 1991. Já o possibilismo também estava diretamente relacionado com o poder. batalharam para sensibilizar a Geografia e os geógrafos para os problemas sociais. p. surgiu a Nova Geografia. Essa corrente procura agir de maneira diferente de todas as outras anteriores. além de exterminar os grupos étnicos que não eram considerados “puros”. 1992. deixando de ser uma simples descrição do planeta para transformar-se em uma ciência. 2003.” (CORRÊA. e que dela tenham resultado os primeiros estudos geográficos. não só para o Brasil mas também para a Geografia mundial. obviamente. 21). aos regimes ditatoriais e às grandes corporações empresariais.Estado e os demais agentes da organização espacial: os proprietários fundiários.

1999. n. 116-123. PEREIRA. Manuel Correia de. Armen. maio 2003. 93 p. ANDRADE. Da Geografia que se ensina à gênese da Geografia moderna. Roberto Lobato. SP. Noções gerais. 11-19. CORRÊA. In: ________. v. p. 979 p. . 2. São Paulo: Ática. Florianópolis. 6. A Geografia como ciência. 85 p.GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL IMMANUEL KANT ALEXANDER VON HUMBOLDT CARL Referências RITTER FRIEDRICH RATZEL PAUL VIDAL DE LA BLACHE ANDRADE. Florianópolis: EDUFSC. vol. ed. In: ________. n. Raquel Maria Fontes do Amaral.. Manuel Correia de. Gênese e objeto da Geografia: passado e presente. In: ________. 14. A escola francesa de Geografia e o papel de A. Piracicaba. 167-170. MAMIGONIAN.. 1993. Florianópolis. PEREIRA. SP: Papirus. 1. Geografia. 1989. MAMIGONIAN. p. 2. Revista Geosul. 1992. 1-22. p.. Caminhos e descaminhos da Geografia. Armen. 1953. Campinas. jul. Região e organização espacial. p. DE MARTONNE. Lisboa: Edições Cosmos. 1992. ciência da sociedade – uma introdução à análise do pensamento geográfico. In: Seminário de História da Ciência e Epistemologia. 131 p. A Geografia como união entre o geográfico e o histórico. Panorama da Geografia – Geografia Física. 143 p. Emmanuel. p. 28. O significado da Alemanha para a gênese da Geografia moderna. Cadernos geográficos. p. As correntes do pensamento geográfico.. Cholley. Raquel Maria Fontes do Amaral. 1991. In: ________. São Paulo: Atlas. 7-45. 7-21.

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