primeira reunião de lugares Júlia de Carvalho Hansen

apresentação Conforme passam as coisas que me acontecem, tenho a nitidez de que o movimento é o que há. E, se não me equivoco, o lugar é, articulado com o tempo, a fundação do movimento. É um estar, atravessado por muitas histórias, no cotidiano dos costumes, é um recorte, a diferença de ser um particular e não nenhum outro lugar. Enquanto se escreve, e quando se lê, o texto atravessa. O lugar é correspondência imediata no que escrevo, sensação de permeabilidade com o espaço. Na minha produção poética aparecem nomeações aos sítios geográficos em que me encontro, o que cria também um amálgama de narrativas de viagens, de deslocamentos e de experiências enquanto estrangeira, livre ou sitiada. Reúno aqui recorrentes criações de lugares nos meus poemas. Se há textos que não se explicam claramente nesta seleção, constam nela porque não os teria escrito se não em outro lugar que não Portugal, levando em conta a minha condição de estrangeira e brasileira morando em Lisboa. E tudo o quanto isso pode implicar para uma escritora: desde os encontros com outros modos de viver, ou com os livros publicados por editoras portuguesas (não necessariamente de autores portugueses) e, sobretudo, pela constante convivência com a semelhança: nas diferenças e igualdades culturais e lingüísticas entre Brasil e Portugal, posso optar por um lugar intermédio, que ora se apaga, ora permanece, onde a sintaxe se explode. Por fim, a distância do Brasil me trouxe algum convívio com a solidão, que por sua vez dimensionou um lado espiritual que não havia nos meus textos anteriores. Sinto que tenho um domínio, minha fala é um lugar que antes eu não tinha. Esta reunião traça transversais temporais nos meus poemas, pois aqui estão juntos textos de diferentes meios e épocas, que eu não pensava em organizar em uma só publicação, antes do convite de José Maia, que é também o organizador deste volume. Talvez o acúmulo do tempo, em alguns anos, me faça vê-los mais próximos do que agora consigo percebê-los. Reunidos para a ocasião da exposição Transporto sempre uma viagem, selecionei estes textos a partir de situações diferentes. Ao final dos textos se apresentam siglas que remetem a cada um dos lugares: CDE, para o meu primeiro livro de poemas, o cantos de estima (2009); de arquivos de dois blogues meus: o alforria blues [AB] e o um samba sobre o movimento [USSM]; e, finalmente, do livro que estou escrevendo atualmente, o poemas do destino do mar [PDDDM]. . Júlia de Carvalho Hansen Lisboa, 3 de janeiro de 2011 – ano 455 da deglutição do Bispo Sardinha

Nasci de olhos abertos então fechei fechei até não poder mais a primeira planta que comprei em Portugal se chama comigo ninguém pode a segunda foi brinco de princesa. Acaso, te juro, as duas somadas dão o conhecimento da minha pessoa.

[AB]

castidade I Antes de dormir, ontem, eu lia, crescente de honestidade o meu Al berto - - - ou as desfibrilações que sinto ao deitar, coração que vira terremoto, a idade do tempo, a coluna vertebral do tempo se agitando é um fóssil, no mais marinho dos oceanos, o sono que se aproxima, e sinto nas minhas pálpebras que piscam no travesseiro, os cílios arados do medo. Ouvia esse bater dos olhos quando criança e achava que eram os mortos que se comunicam nos segundos anteriores do dormir. Falavam só de espanto e o estouro de silêncio da ausência colava nas paredes do quarto. II Passei o dia desenhando sobre o Sr. Fernando Pessoa. Estou tentando alguma coisa honesta que acabe enfrentando as coisas. Porque há fantasmas demais nesse mundo. E nossos motivos fazem as coisas não funcionarem. O Sr. Fernando Pessoa gosta imensamente de mim e garante que o Sr. Ricardo Reis teria gostado imensamente de mim se tivéssemos nos conhecido na temporada em que vivemos respectivamente em nossos países trocados. O Sr. Fernando Pessoa por mais que tentasse, o Sr. Fernando Pessoa não acordava diariamente e pensava SOU PORTUGUÊS, ao comprar pequenas coisas e discutir trocados. O Sr. Fernando Pessoa se ouvisse a minha língua, pensava. Não sei o que o Sr. Fernando Pessoa consideraria ao saber que nenhum brasileiro ao ouvir "o brasileiro" pensaria em algo além do povo ou de um indivíduo, e que nunca (a não ser a viver em Portugal), nunca pensaria que o "brasileiro" pode se referir ao idioma falado no Brasil. Será que Sr. Fernando Pessoa, em seu escondido sem profundeza, sentiria uma ponta de orgulho ao saber que falamos (nós?) português? Ao Sr. Fernando Pessoa ergueram-se monumentos, os monumentos ao Sr. Fernando Pessoa. Também estimo o Sr. Fernando Pessoa e faço votos para que o Sr. Fernando Pessoa encontre o Sr. Fernando Pessoa a cantar com o Sr. Fernando Pessoa enquanto bebe um café com o Sr. Fernando Pessoa vestindo uma camiseta do Sr. Fernando Pessoa e pense Ah! bom mesmo era o Sr. Fernando Pessoa. O Sr. Fernando Pessoa foi português. [AB]

pro inferno com a literatura este é pro Marcos Numa coincidência infame tivemos a oportunidade Bob Dylan e eu de morrermos os dois amanhã e os amigos lembrariam ah como tinha futuro ah como tinha talento ah como sabia viver ah como tinha sorte ah até que veio que morreu no mesmo dia que o Bob Dylan eu nunca me esqueceria desse dia estavam ambos em Lisboa tomada por um ataque nos eléctricos nos bondes nos pickpockets no pitoresco mundo ibérico dos franceses que em realidade nunca entendem absolutamente nada ah souvenires coqueluches tíquetes de ingresso aos céus! meia dúzia de vezes em um século alguém pode dizer que sua amiga morreu no mesmo dia que o Bob Dylan morreu.

[CDE]

A palavra é fechada. Há presos pela atenção. É um campo e depois uma jaula. não simule terremotos em Lisboa. as coisas só acontecem no tempo. Livre é onde não estás. [AB] . Há desatentos presos. Sentimos medo. Enquanto durmo. própria. Eu olho para um lado e o meu estômago para outro. Onde já se viu? Em todo lugar! Com a placa na frente (o mapa do zoológico sou eu): LIBERDADE. pois misturá-los é voltar e dar adeus na curva que já dobramos. façamos leis: separa o livro do corpo. A palavra é nunca. É um campo de jaulas. Há a prisão e há o caminho. Onde já se viu enjaular o sonho dando o nome de liberdade. Alheia. Liberdade é esquecer o nome de quem? Jaula. ferimos. Livre é fluir. suor No mesmo lugar. days. Se liberdade é coisa que passa. Convidei-a e fiz uma regra para essa noite: Terra. não que se estabiliza.songs. A palavra é pouco. Não há grades.

Acordei aqui os pés enfiados a espera da tua chegada por terra. [CDE] . fumo até partir do corpo em heterônimos escrever como o mar que avança depois de muito retroceder duas ondas juntando a água que veio de trás.caderno de viagem Do alto a terra é tão extensa que assim só conhecia o mar se à noite fico bem quieta meu ouvido é uma concha em qual se ouve o rugido.

oceano é o mar que nos divide. Às vezes resolve uma mulher e sai andando por sobre o Atlântico um dia você será daquela espécie de homem-marfim que parou de respirar e agora só vive debaixo d’água. [CDE] .Lisboa Parece que há uma luz lá dentro que não se apaga nem mesmo de dia dentro do cômodo branco de cal de modo que ficava dourado e quando a luz incendeia meus olhos cansados é me encostar nas paredes para estar à fresca. II Me encontro em renomear o mundo com palavras que já são dele: amor.

e-mails quanta dissipação. dores de cabeça caroços que incham corcundas húngaras contadas na televisão. meu deus. milhares de partículas no ar denso desse verão. vem a mim me dar essa loucura? miragem.o espelho imantado Te pus dormindo sobre o rio trajando o negro de sempre tua imagem bóia fica comigo e o rio era largo vermelho e dourado perpendicular à cama que durmo o fim da tarde iluminando pelo colarinho sua camisa me forçava a ser o vestido que eu usava rente à janela pensando que irias nele me querer e bem aqui perdi a metáfora como em outros tempos mulheres perdiam estolas perdi a matéria neste espelho minha carne se perdeu posso discutir com meia dúzia de amigas o vácuo a estratégia da beleza posso até fotografar-nos posando disso mas não sei se é você quem me visita ou é essa luz e meia que me enfeitiça? que sentido faria um amor tão longe de me visitar agora? nessa hora? que é? pombos-correios. teus olhos por trás de mim falam por dentro daqui me olham neste incômodo na Hungria de todos os espelhos deste infinito apartamento de Budapeste quantas amostras emolduradas desde 1824 miraram sem se ver? não sabem a voz que ouço da imagem de vidro talvez pela primeira vez este espelho fale português essa língua cheia de dúvida em conjugar amar ou amando de quem? . Embratel.

vítima e conquistadora sempre a primeira e a última no pódio de chegada a melhor definição de amor não vale um beijo de namorado e essa tela fria e tão sem cheiro tão sem seu beijo. nunca vai limpar o Pinheiros e o dedo que me atravessa o cabelo era capaz de ser teu fantasma de pau tua língua minha língua estrangeira de mim em qualquer parte. é perigoso. tão sem seu jeito parece uma fila de amputadas mulheres pelo tempo no recorte do meu corpo apartada atravessa tua imagem o leito dos meus olhos aos litros e muito pisco nublados e tento meditar como te suicido se o momento de morte em mim do amor trará para sempre a morte do amor ou de mim. É uma maravilhosa sonolência que te traz em imagem enigmática mas como um galho pela margem a correnteza estanca pára de rodar o Danúbio. [CDE] .

As pedras do calçamento são a estrela d’alva definitiva não sei se migro feito gaivota pro oceano da minha saliva. Inscrevo calcanhares à margem da brita meu coração palpita sem adormecer o rio sem peixes das palavras me acorda pra ver pescadores a ver o mar sem ver. O Tejo é mesmo dentro da gente e enquanto a sereia deseja quem lhe ouça escrevo entre o seios das coisas pra que tirar comoção de pedras? [CDE] .desta amurada Aceite este pequeno cascalho empoeirado relicário da minha fé lasca desencarnada de vida e sobre ainda estou em pé.

porque tudo que é. absolutamente estrangeiro a mim nesse interior sem tamanho eu juro que esse túnel não acaba estão nos levando a um lugar de verdade. ah oceano cavalgadura. lendo a realidade cientistas descobrem Alpes submersos na Austrália na contracapa um coração selvagem pela metade o cheiro de perto do sal um potro de pulmões novos e o mar. marulho. é o nosso estou no ponto pro Jardim da Glória. [CDE] . o metrô que é o nosso trovão então você acha que os cantos estão mudando de lugar mas é a gente que vê os homens constrangidos da cidade e tenta: enseada sobre asfalto.os guardas dormem na fronteira De repente manifesto a gente vai se voltar a um outro escalão: montanha. névoa. essa manhã.

Eu e o Bernardo. [ AB] . a gente assistia na televisão. Comíamos milho em lata esperando o melhor. Prédios se erguem mostrando as tripas tão depressa e já parecem ruínas mais rápido que o amor desses gajos e tenho que arrumar a casa encontrar um trabalho esquecer a mordaça e fico só a pensar e a pensar nas crianças que em todos os lugares do mundo (aqui é primavera) estão aprendendo a falar. Eram os algarvios que tinham começado e os israelenses eram cruéis.“a pior crise desde a 2ª Guerra Mundial” Sonhei que o Algarve era bombardeado por Israel. As coisas voavam pelos ares em terracota e amarelo.

joyeux. Jouer.Aqueles que nunca atravessam o horizonte de si mesmos não sei se tem sorte ou cruzeiro. Ou alguém muito esnobe a quem pergunto: por que a cultura é tão trajada? por que há balões cor de dourados pendurados no teto? por que nessa cor de roupa estás? você não. Cowboy com fertilidade. Não respondem. reiterado. [AB] . Revolucionário mesmo é de repente frustrar o outro ao não defender o que gosta como o que é bom. Se toda roupa é um código de esconder aqueles que se vestem com mais atenção estão escondendo na brincadeira? Ou tudo que escondemos é definitivamente uma simulação que está na roupa? Eu. a mulher-cavalo. Escondeu. não desviar os olhos: sequer não pousá-los. ali no fundo. ou: um dos melhores meios de inspirar confiança: para si é sempre para o outro: parecer integrado. Um dos melhores modos de parecer fazer parte de algo. julee. azul marinho e vermelho-de-terra. pertencente.

flamengo. esfrego os ouvidos e é português.Depois pensei que me aconteceram umas coisas maravilhosas nos últimos dias. 28 graus) (em Portugal. tcheco. e às vezes é mesmo. depois é flamengo de novo. russo. então todos estão falando português de Portugal. Basquiat).) (acho que esse verão viro basco. percebo. E de repente me deu um medo e medo é vontade de poupar tudo (enquanto isso a música alta. Portugal não rima com grau) (nossa língua desigual) (esses últimos dias fiquei sem falar com ninguém vou no parque deito e tenho certeza que estão falando flamengo. Baco. alemão. 0h00 em Portugal) (27. [AB] .

além disso.O vento sobe nas bandeiras de todas as nações como se eu pudesse dizê-lo The world is still blue. voando. indiferente. a poesia? Alguém dizia: o que é a poesia? Primeiro fazia que nem olhava. Depois silêncio. depois parto. Dou tudo para os amigos então tenho que abandoná-los. sobre um quarto de lua crescente. Das coisas que mais me lembro são das indecifráveis palmeiras do meu país a palma delas. O que é. [USSM] . ronrono. Faço a minha própria cama de gato amacio. então Eu repetia: cor.

. vai dizer-te tudo que pensa vai trançá-lo até o êxtase e depois BANG acabado BANG BANG BANG vai meter na tua caixa palavras calorosas de um frio e.. como somos jovens.... eu lia). todos eles contando da minha técnica de exaustão (eu gosto disso... como somos jovens. pensei como somos jovens... de ter muitos emails todos os dias..voltamos) como um método de sucumbir para depois levantar.. [AB] ...e não... COMO SOMOS JOVENS. e de repente passa e não seremos jovens e não poderei mais usar a minha técnica infalível do recomeçar derrubando ano a ano o salão da minha conduta escrita que me conduz.. respondi uns 3 ou seis emails. nunca te metas com um escritor se quiseres um par leal com as palavras...pois que palavra essencial é amor é amizade é eu e és tu . um escritor vai dizê-las..(antes quando não tinha isso..e percebam que sou só remetente de palavras que me remeteram em vigores lombos adestrados e vazios: escrever...... ameno sempre estará do outro lado se revigorando com elas sempre maravilhado com as caixinhas de montar com a propriedade das palavras de provocarem misturarem incitarem CLARÕES . respondo a cada um deles e antes de dormir faço a minha oração compaixão com os escritores destinatários compaixão que eles nos levem à sério .

[USSM] . resposta em branco: Amor. espécie espantada de monstro anônimo foi feita uma declaração em silêncio te mando.Chego da rua e encontro à lápis tua letra se fosse simples. ah se fosse mas antes de tudo havia o mar de fundo havia o mar o mar. como é indelicado ter razão.

levem todos os Alpes. Penso na minha avó Brancaglone Campora e na Luiza que está pra nascer. é toda um equívoco. Tenho as mãos mais velhas do que eu. mesmo. Penso em lingüiças quando as vejo. Ao saírem. [AB] . calabresas. meu bem. Paris. Amo vocês.ps.

Mas me sinto só num sono tão antigo quanto a escrita chinesa. assim.catástrofe em Paris Alavancaram mais uma situação crítica como o eixo da situação. As ilhas do destino imaginário. (Às vezes preciso anunciar uma gaivota ao mar gaivota ao mar!) Naufragar os parênteses até cambaleando se tornarem canoas ou teremos fé no que vem. Escolheram as derradeiras ilhas para implodir a salvação. inexperimentado? [AB] . Entre os náufragos. escrever nada com nada e ficam me acreditando doida visionária. opto por ser o oráculo.

[USSM] . um mísero. no vidro as gotinhas da chuva pintando de mosaico a luz dos postes. vendeu tudo que era da mãe e até o que não era minha mão sobre a minha barriga cheia o ritmo do motorista era da idade o do taxímetro. então É agora. Deixei o taxista parado minutos. eu vendo no farol aberto tudo me contando uma história só porque eu vou embora nada me importa o cais o areal a desventura rodagem do dinheiro a história da juíza que tem o filho drogado não é só gente pobre que cheira-cola. o da cidade .abro as retinas dos acordes. Que São Paulo se abre lentamente tudo que está sendo dura dois segundos a mais.o ritmo que vou deixar nem sei essa cidade prova que o dinheiro dá errado e vou viver vivendo que só sabia um pedaço.

o Lero quando se agitava a gente ia junto pra praia ele imensão pegava os prédios em redor com a sua garra pegava as pessoas e as barracas de sorvete arrancava as pedras do calçadão tirava de mim toda essa lembrança e lançava ao grande verde feito tudo fosse aquário cheio de peixes que um dia se descobre decorativo e afunda no meio da água do Atlântico silêncio violento que se ouve do cais e os peixes libertos todos se põem a contar notícias de além-mar. veio na direção do meu amigo Lero – – – o guindaste e disse pra ele que não dava pra jogar aquele jogo: — é a cabeça que pensa ou é o corpo inteiro? o Lero que era só corpo o Lero que não lia Sontag bem. [CDE] . um cata-vento trazendo o cheiro do laranjal.memória escolar Foi preciso chamar a atenção das crianças que descascavam as laranjas com facas sem corte: as atividades no pomar têm limites não se ponham a arrancar as ervas do chão como meninas desprezadas e raivosas depois de uma ciranda é proposto pedagogicamente que se faça um desenho feito um contrapeso do que a nossa cabeça pensa as crianças todas riem de satisfação mas o menino mais novo.

[CDE] .infância Não com essa ressaca e ainda mais cedo papai me levava ao dentista e depois de cada barbárie obturada me recompensava com um sundae no Brooklin o poeta não consola a herança de nascermos destros não cuida de terem me tirado os dentes da vida de um jeito que nem sorvete adiantava lembro das suas gengivas sangrando tinta de lula trinta e dois pontos na sala de televisão o céu da boca da nossa morte de dentro da sua enorme lucidez não finja mais que não teme ao seu redor dispersões bandidos choques elétricos a noite que seu pai não veio mais.

[CDE] .carne Seja a casa onde for construir estantes no pensamento de derrubá-las forrar as prateleiras com flores no papel de parede e livros de capa branca forrar todos os livros todas as páginas dos livros de branco com algodão secá-los da úmida solidão do que está escrito.

pelo sopro tua voz me ilumina.navio no. # um coração que não tivesse centro. 2 levantei-me com o cavalo os perigos da solidão a dois um sonho que não sei contar não rolo mais entre as pedras dos sentidos. [USSM] . sou pelo vento.

romance ao marechal dos ares Deixei um cartão num banco de parque em Amsterdam contava a história completa e as gotas no papel parecem nuvens. [CDE] .

faço-me a heroína. quem sabe pro Nilo. quem sabe em viagem. por que não ontem. talvez o recesso.Agora mais sentimental Talvez seja a idade. virá o que fui e trará desde o fundo O musgo a bóia o resmungo a corja a vespa e a várzea que é meu coração. [AB] . talvez o deserto. quem vive o que dá? Quase o que sei. mais me criei. quem vai de regresso? Quem quer o que planta. menos esqueci. Bom mesmo será me apaixonar e fazer bobagem pra sempre. talvez o rancor? Quem sabe o carinho. quem come o que morre. Será amanhã. Do amor.

mulher havia algo com que me deparar vinha desde a noite do nome que dei a algo que sabia tão bem pequena e que até ontem não sabia que sabia bem assim alguma coisa com nome de amor uma luz que às vezes ilumina minhas mãos e há nitidez nas ranhuras das digitais e sinto uma ternura imensa pelo passado pelo futuro tantas vezes é de noite e me acompanha pensar na morte como uma insônia madrugada passada acordei berrando porque pedia pesadelo pra amiga grita grita pra nos salvar ela não gritou ao que eu gritei levantei a cabeça olhei as montanhas das minhas clarezas antes de dormir e escrevi logo ao acordar: esqueci e fiquei olhando as montanhas e as estrelas pra ver se elas se mexiam.hoje there are some mornings when the sky looks like a road there are some dragons who were built to have and hold Joanna Newson Acalma teu brio de fugir. [CDE] .

it’s friday I’m in love. [CDE] .strike a poet Tiro fotos da minha casa até acreditar que é uma cidade sigo abraçando cadeiras entre o olhar imperativo dos gatos a mão que afaga este problema a materialidade dos livros ajuda no colegial me chamavam de menina de outra época meu pai dizia que minha avó era uma mulher da terra isso resume pra mim toda a poesia contemporânea de repente ganharam o medo de dizer coração é preciso paciência e a sensibilidade de um peixe. vergonha não é a palavra finalmente. os miados num abraço a gatinha tem fome e cheiro de ser vivo pela primeira vez em um mês deixo a sala é mais fácil o mar abrir em dois do que interromper o trânsito é por isso que não atravesso a rua meio-dia sou o Torquato de colar de contas descendo as delícias de aves nas mãos ela pensa em casamento no sol de quase dezembro uma mãe me olha saindo pelo corredor até o portãozinho de aço range a filha vai pra escola a mala de rodinha. Devem me ver como um dragão rasante. virei artista os dedos sujos de tinta e o uniforme azul-marinho o cabelo imundo embora a seda tenha rasgado só consigo desafinar o coro dos contentes me alimentar com drogas pra me manter escrevendo acordada e cansada e insuficiente esta melodia chega o texto ao fim e não reviso.

em que descobri que te amava. Era domingo. A cidade parecia toda plana e eu tinha dormido cinco horas. ginga de cintura. brota feito flor num vasinho de barro em cima da mureta o rabo do cachorro derruba no chão branco de pedra a terra se espalha e tantas vezes bruta me impressiono com a delicadeza a minha. ao sair da tua casa. Te perdi na semana seguinte. meu amor. é quando você se endurece mais. Era eu a cidade. Desde antes tem algo em aberto na minha vida muito em grande nesses últimos momentos. aprendi a comer o melhor iogurte do mundo e fui embora. Como naquela manhã. um bafo de estrela. [AB] . Você não tinha orgulho de ter orgulho. acordamos um em cima do outro. diariamente. Depois falamos de Duchamp. E é como se eu sentisse o bafo disso. Ou numa festa do interior. Então nos levantamos da cama. E de repente você fez um discurso que não era o melhor como parecia se achar. então tinha te encontrado em mim. Me arrancou um pedaço.Crescer é tão brutal.

é menos do que querer. nem morte é. E que tudo entrado sendo colocado. E menos do que querer.dis tan Há algo um pouco triste entre nós/ um pouco rígido/ algo um pouco/ só/ o que há entre nós. E menos do que viver. E depois isso tudo fica em resto e combustível. Pra isso que a gente vive. é muito menos do que viver. E que tudo colocado vai transformando. [AB] . E é tudo tão calmo agora. Se não. Você não imagina quando alguém entra na sua vida.

Desligo a aparelhagem. me deito no fundo escuro da cama e durmo contigo a salivação do oceano. se insisto ou se parto. queimando os lugares reticentes do mundo aperto o botão e do início a gravação na tela curta se reproduz de imediato. És o homem que desenha os trajes aos homens na hora de pisarem na lua calculas em ti todos os específicos a respiração do ar lunar e quando um astronauta pisa o solo do satélite tu também encontras a poeira homem subindo as solas e organizando-se à outra gravidade celeste. Então os homens voltam pra casa os bolsos cheios de estrelas tua ternura abraçá-los de perto os poros feito uma cratera.raio Entro no quarto enquanto dormes escuro com a câmera de gravar tudo tão quieto respira tão bem e o meu maquinário tem a propriedade de filmar mas só passa os sonhos do que amamos em cores não sei. Tomas a pedra sem quarentena entre os dedos o homem do teu sonho não tem medo coloca e chupa dentro da boca é uma bala doce que lá da lua veio sentado com os amigos bebendo uma coca-cola o homem constrói então um novo objeto: redes de caçar borboletas para astronautas onde na falta de borboletas lunares se prende o invisível. Então tu? sonhas a lua? Tem uma relva cresce um rio lilás mas lá não estás. então posso. [CDE] .

À sombra da figueira brava que sobe pelas tuas costas cresce um blues furioso. uma flor a quem alguém chama pelo nome do futuro. Em outra vida talvez fossemos nômades estrelas-cadentes ou o coral que levanta das tuas cartas os meus pontos finais de areia a água revolvida e encruzilhada. sugerindo o que mostra e estende a palma aberta trouxestes o que me falta? Todo meu corpo está calmo olho ao outro como se visitasse um aquário entre as anêmonas do vir-a-ser a vida sem lógica sentimental dos peixes.poemas do destino do mar I Como não sei onde vamos morrer por baixo de um lençol branco só vejo nas minhas unhas um pouco sujas a limpeza áspera das tuas mãos. Como um deus judeu de cem mil nomes em segredo ou um vazio mais pleno do que turvo o que ainda não veio se faz de face sorri. As pontas dos meus dedos rangem umas sobre as outras e só percebo esta denúncia. .

II Meus lábios estão partidos e acho que me apaixonei. A água do banho estava quente e queimou meus pés. Preciso fazer uma lista das coisas que me importam e dar pra ele. Abacate com limão ardeu minha boca. Nunca ganhei um anel de alguém. não saberei como resolvê-las. ainda estou livre. E se um dia nosso amor me encher de dúvidas. . ao que parece.

que os passageiros não alcançarão. É o seu eco que cola as sílabas umas as outras rejuntes de significado. um dia. Um avião cruza os ares em direção a um batizado. Agora sou na tua rocha.III Temes a noite onde os nomes não se registram nos radares e as palavras como joelhos afastados pela mão de outro são caixas-pretas boiando no mais marinho dos oceanos. tentei. também contigo. Como eu. maneiras de permanecer. só poderei aceitar atrelar-me. ama as pérolas. um canteiro de plantio para as alfaces – soníferas e insípidas – do cotidiano. Age antes de querer com todos os olhos de quem nunca tinha tocado bivalves sem enciclopédia ou Discovery Channel feito um miúdo se maravilha. feito cal. Se só pensas em assentar as mais corretas. espalhado pelas espáduas trêmulo cimentado teu coração. E de mim se aproxima outro. . como um mexilhão. sabe bem mastigá-las com os dentes até parti-las. De ti. amálgamas do esquecimento.

IV Sou apenas um cavalo o mundo não vale o mundo. coices. não. comigo o amor infundido. . é ele quem me leva. infindável. E quando alguém sonha e confunde o amor comigo. patas. O cavalo (que vive por mim) abre mão de ter cascos. mas de correr no sol. é o cavalo. meu bem no entanto.

V Espero a hora de dizer: o jeito que te vejo vivo em mim como um cavalo derrubando as paredes pelas escadarias. O mar guardado em tuas gavetas. .

Lembro dos cachorros que escapavam iam viver na rua de cima. Menos me assustavam as ausências mas sim deixar a casa para trás e se entregar ao caminho que tinha uma vala tão grande na curva. sem asfalto. Às vezes tinha que atirar cascalhos. Os cães voltavam caramelos como o chão e se eu ia lá chamar. dissimulava pedras pra que eles corressem de mim. mordiam-se as orelhas. Foi o modo de ficarmos juntos. fingida lançava.VI Um mal entendido faz-te de cada jeito. .

meus. fecho: estou na caverna mais encantada que desde criança perco encontro. . acho sou.VII Eu ainda encontro na mesma cor que é vida de vermelho de terra em rosa e quando os olhos.

toda lançada. dinheiro: nada: se fecho os olhos o que vejo são vagas. Mas os pombos não migram e prendem nas patas as linhas das pipas. das minhas coxas transtorna o cotidiano que vivia feito um pombo preso no túnel e depois alcançou a plataforma do metrô. Como um cometa. todo o meu poder de confissão. uma pedra que me arrastava do centro. Esperava deste parque aquele por quem a vida corria. natural como as baratas que sobrevivem desde os dinossauros.VIII Desde os dezesseis anos estou neste estacionamento. Do que restou interessa a voracidade da alegria um falar mais honesto emergirá na superfície a pérola homem que cresce por dentro das ostras. Viagens. Ir com ele. Do emaranhado solto o medo no meio e desfaço a tua relíquia. Não é a primeira vez que lanço um pássaro sobre ti. putrefação. não acredito mais. Fui eu mesma vim viver aqui. . lustres. Não me balizaram. neste ângulo entre paredes. folhas de eucalipto caindo. Sismo veio todo o mundo do juízo. Encontros de concreto. Um arco e duas flechas.

pastando. as letras maiúsculas. lento orgulho. as vidas minúsculas. comigo de comigo comigo de com ele contigo e consigo consigo finalmente um homem sem idéias e então ele me sela. enleve vai nos reduzir o tédio. melhor sem eu isto ainda é orgulho. meu pigmento de seda. de todos de dívidas imaginárias das idéias.IX Ver até passar a idéia de que não consegues deixar a idéia de conseguir uma idéia que leve. ele me revigora é ele meu vento de viração alazão do azul parti ção. . as escolhas de sermos as idéias de deixarmos os cavalos com elas. pastando a identificação não encontro nesse 3x4 nada que seja meu só encontro as idéias do que gostaria que fosse eu e quando digo. melhor sem idéias. a tracejar todos os horizontes.

Eterno ser sem se apropriar da impossibilidade de organizarmos em formas calmas. são nuvens de uma chuva dramática e sem aprendizagem. permanentes.X O céu que nos prometa um ano bêbado sem por enquantos um ano que diz ENTÃO MOSTRA e sacode feito leitoa as tetas que caem. este céu que nos promete Sou eu o messias e anuncio mais uma rodada de anos bêbados. . necessárias tanto você como também eu ou nós podemos pular e estaremos no alto através dele.

E o corpo. chega. Mas bom. Não é de hoje que o vento dissipa a minha cara. insistente contra o chiado das frestas. como um pé de monstro pisando.XI pro José. mudando em água a morte que lhe toca. o peito fértil da raiz se alargando no campo. A nossa dureza terá de ser a dos ossos pra conter a meteorologia do coração. feito pedra de nascente. Só me cabe seguir ao mais radical dos lugares. . no seu aniversário No dia a dia do diário abro a página da previsão de Lisboa vejo a mínima virando a máxima e sei quais são os tempos que virão. E mesmo os abutres são mais felizes no verão. Quando o sol desaparece sou eu quem tem de ir a um lugar em que nunca viajei.

não esquece. neon das estrelas do coração. amor. penso. depende tanto tudo. passa em mim como uma poça de água parada por onde atravessou um caminhão. Ele abre a janela e sorri como o vento mostra os dentes do cavalo dado não olha assim. no máximo. Não sei pra onde dizem vão essas placas abandonadas nem porque elas ficam assim penduradas. Ninguém salva a ninguém de si mesmo brinca de farol. Ao seu lado o tempo. .XII Enquanto ele fala sobre um furacão e a força repentina que é nascer eu ouço.

Então ele disse: “mergulha”: e o fundo fez da superfície o coração do impulso. banha-me pelo centro feito um grito de soltura. . voa. ladeado. Um nadador a ordenar as ondas de cujo olhar ao espelho. Esfria as costas no pássaro que mergulha. o teto do mundo nasce. Anjo que viu o demônio na sombra e continuou pelo branco. Eu quis ter minha janela para a baía.XIII Dentro dele mora um bosque de musgo um cavaleiro do azul escudado. céu. Mas a água com círculos esmaltava a passagem do mergulhador.

[PDDDM] . Ao meu lado desenhavas as linhas de um mar apavorado mas grande demais para fugir. Guardo esse instante nas milhares imagens digitais feitas pelos turistas no mundo.XVI Acordei em Lisboa com o barulho de abrirem um lençol molhado no céu e tentavam arrastar as colinas para o rio.

Essa reserva. Desses quero a carne comida. No entanto. Sua solidão não me interessa. delícia e resto. é o que não vacila em se acumular. Sei que preciso matar em mim para escrever. De algum modo ainda é assim. Ou complemento da necessidade do sentido. sem trabalho. experiência da palavra como trânsito. Nunca sei mesmo se o que escrevo tem transparência suficiente para o entendimento. nós produzimos encontros. Meu fenômeno é a lealdade. Saber que os tenho comigo. que não conseguiram controlar ao anoitecer. Se estamos a todo momento brincando de cegos. estava tudo aqui. Uma língua de fronteira. guio a palavra que me guia. Fui ao Brasil. E algo em Portugal é o que vivo. minha vida segue sem você. Não a aliteração da ausência. sem escrita. ou a Europa.sol Havia um tempo em que decalcar o silêncio. fronteira. sem estudo. [AB] . Seja aqui ou lá. Sou tão clara. irrigação. This land is your sea. Terra-terra-terra. Minha bandeira . pirataria do amarelo. Para dar o conhecimento que tenho da palavra. há muita gente boa que acompanho. temo. Ou alguma incerteza do meio-fio. quando voltei. Mas a correspondência. Da morte. me trouxeram alguma espécie de reserva. E algo nas drogas já não me interessa tanto. E que em Portugal não se sabe usar a minha língua. era a entrada para o estar. como uma gordura do pensamento. Nem no Brasil. Ou a confusão espontânea entre o que vivo e traço. No entanto. só realizo o que me acontece quando escrevo. um corpo forte. E algo na idéia de Brasil me interessa mais. o fogo não é brando. É um fogo de ontem. anulando-o. Ou se é só uma sonoridade transitada que fica. em mim.

Porto. Janeiro de 2011.com. de Júlia de Carvalho Hansen organizado por José Maia para a exposição Transporto sempre uma viagem. AB para os do blogue Alforria blues. .com. Galeria Quadrum. poemas do destino do mar. e PDDDM para os retirados do livro inédito. http://cubodenoite.blogspot.blogspot. http://alforriablues. USSM para os de Um samba sobre o movimento.Primeira Reunião de Lugares A recolha desta reunião está resumida no pé da página dos textos. através das siglas: CDE para os retirados do cantos de estima (2009). Lisboa.