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LEON ELIACHAR

LEON ELIACHAR Fotografia do autor O homem ao quadrado CÍRCULO DO LIVRO CIRCULO DO LIVRO S.A.

Fotografia do autor

LEON ELIACHAR Fotografia do autor O homem ao quadrado CÍRCULO DO LIVRO CIRCULO DO LIVRO S.A.

O homem ao quadrado

CÍRCULO DO LIVRO

CIRCULO DO LIVRO S.A. Caixa postal 7413 São Paulo, Brasil Edição integral Copyright by Leon Eliachar Ilustrações de Cyro Del Nero

2ª edição

1975

Licença editorial para o Círculo do Livro por cortesia da Livraria Francisco Alves Editora S.A.

Nota do digitalizador: O autor usa como recurso humorístico a forma errada de se escrever alguma palavras e a própria diagramação do livro, que procurei respeitar na medida do

possível. Porém só em uma versão impressa poder-se-á perceber tudo que o autor quis transmitir.

HUMORISMO é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico para se fazer.

LEON ELIACHAR

OBRAS DO AUTOR

1922 — POR QUE NASCI — Inédito

1923 — MEUS PRIMEIROS PASSOS — Inédito

1924 — COMO FAZER AMIGOS SEM SUJAR AS FRALDAS —

Inédito

1925 — COMO FAZER FRALDAS SEM SUJAR OS AMIGOS —

Inédito

1926 — MINHA MAMADEIRA, MINHA ALMA — Inédito

1927 — MENINO PRÉ-COICE — Inédito

1928 — ÉRAMOS UM — Inédito

1929 — AS NEVES QUE TE MANJARAM — Inédito

1930/45 — MEUS QUINZE ANOS DE SILÊNCIO — Censurado

1946 — O MAR FOI MINHA RUÍNA — Inédito

1947 — SANGUE, SUOR E RISOS — Inédito

1948 — MEU ENCONTRO COM BB Inédito

1949 — MINHA LUTA COM CC — Inédito

1950 — UM INCERTO SORRISO — Inédito

1951 — DR. CHICAGO — Inédito

1952 — MAR VIVO — Inédito

1953 — VINHAS DO IRÃ — Inédito

1954 — A VELHA E O LAR — Inédito

1955 — BOM DIA, ALEGRIA — Inédito

1956 — PELE, BOLA E CANELA — Inédito

1957 — EM BUSCA DO TEMPO RECUPERADO — Inédito

1958 — GUERRA E PÁS — Inédito

1959 — OS IRMÃOS CARA-OU-COROA — Inédito

1960 — O HOMEM AO QUADRADO — Editado (até que enfim!)

PÁGINA PARA DEDICATÓRIA

À MINHA MÃE

a

que primeiro me viu chorar

e

a quem primeiro fiz rir

AGRADECIMENTO

O autor agradece a César a valiosa colaboração, sem a qual não

seria possível a confecção deste livro. Ele é o autor do autor. A César

o que é de César.

PRE FAÇO

A gente nasce, cresce um pouquinho, vai brincar de esconder com

os meninos da rua, quebra vidraça do vizinho, mamãe chega e põe a gente de castigo, não dá sobremesa durante uma semana, papai suspende a matinal do cinema e se a gente facilita ainda vai pra um colégio interno. Depois a gente cresce mais um pouquinho, já está na escola aprendendo uma porção de coisas que a gente não sabia como era nem por que era, mas acaba sabendo só "como", já que o "por que" a gente nunca aprende. Isso não se faz, aquilo é muito feio, veja o exemplo de fulano, que é um homem direito e respeitável. Aí a gente resolve também ser um "homem direito e respeitável". E acaba sendo humorista. Foi assim que abri a porta de casa e saí. Nunca mais voltei. Lá

fora, me diziam uma coisa, eu via outra. Nada importava: já não precisava das notas mensais para passar de ano. Agora os anos passariam por mim. Eu só olhava. Este livro é o meu mundo e o seu mundo — mas como eu o vejo. Você é até capaz de rir: ou de mim, ou do mundo.

O Autor

SUMÁRIO De trás para diante, porque ri melhor quem ri por último

35

CAPITULO FINAL

146

34

COMO FAZER ANÚNCIOS E

INFLUENCIAR PESSOAS

Como se deve anunciar uma aliança

145

Anúncio com erro de revisão

145

T-Vendo

144

Elas por Elas

144

Internacionais

144

Achados e perdidos

143

Diversos

142

A

arte de vender

142

33

TV COMO SE VÊ

141

32

FALANDO AO TELEFONE

140

31

UM DIA NAS CORRIDAS

Variações sobre o turfe

139

O

equipamento

137

O

jóquei

137

O

hipódromo

137

30

A PÁGINA QUE OLHA

136

29

O QUE É CERTO E O QUE É ERRADO

133

28

SITUAÇÕES DIFÍCEIS

A

carta anônima

131

As flores

 

131

27

MEIOS DE TRANSPORTE

O

lotação

130

O

carro particular

130

O

bonde

129

A

barca

129

O

trem

129

O

táxi

129

26

DEZ PRETEXTOS PARA NÃO TRABALHAR 125

25

PARA LER NO BANHEIRO

126

24

A CRÔNICA ORIGINAL

120

23

DEDICADO AOS PAIS

Desenhos

120

Dicionário infantil

120

Como educar seu filho

119

22

RASCUNHO

115

21 CINEMA

Filme em série

113

Galãs

112

Torre de Pisa

111

Isto é Hollywood

111

Conceitos cinematográficos, pre

110

20

NÁUFRAGOS

108

19

LIÇÕES DE ESTILO

106

18

AS 10 COISAS MAIS DO ANO

103

17

PARA O FÍGADO

102

16

A PSICANÁLISE AO ALCANCE DE (QUASE) TODOS

Conheça a sua mulher

97

Conheça o seu marido

95

Conheça-se a si mesmo

92

Psicotestes

90

15

PARA RIR NAS ENTRELINHAS

86

14

DO DIÁRIO DE UM (QUASE) LOUCO

84

INTERVALO

80

13

b COMO SE CONQUISTA UMA MULHER

76

13

a MULHER — UM CAPITULO À PARTE

A

parte mais cara da mulher está na etc. etc. etc

76

A

mulher nunca se cansa de etc. etc. etc

75

A

mulher não tem a idade que etc. etc. etc

74

Mulher que se preza não mente: inventa etc. etc. etc.

73

A

mulher só quer o que outra mulher diz que etc. etc.

72

A

mulher sabe quando, quanto e como usar etc. etc.

71

O

homem inventou o suicídio mas a mulher etc. etc.

70

Mais vale dois carros na contramão do que uma mulher etc. etc

69

A

mulher não se conforma que ninguém se conforme

com etc. etc

67

A

mulher custa um "sim" de entrada e vários etc. etc.

66

13

HUMOR CONCRETO

Turfe

65

Trânsito

61

Semana da asa

60

Encontro com mulheres

59

Brincando com a máquina

56

Poesia moderna

56

12

A MESMA PIADA

Pra ler no jato

55

Pra ler no WC

55

Pra ler no ônibus

55

Pra ler no bonde

54

Pra ler no avião

53

Piadinhas à minuta

51

O

fim

51

Tipos

50

Psiquiatra

 

50

Os 5 motivos básicos do casamento

49

Apenas frases

48

10

A VERDADE É UMA SÓ: TODO MUNDO MENTE

46

9

ASSINATURAS DO AUTOR

44

8

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL

40

7

HUMOR NEGRO

Os 5 mandamentos da aeromoça

:

39

A

arte de voar

38

O

homem que viveu por procuração

38

Epitáfios

 

37

6

SEU TOSTÃO VALE UM MILHÃO

34

5

DATILÓGRAFAS

31

4

DICIONÁRIO DE BOLSO

24

3

TESTES

Quem matou o milionário?

 

23

Sem resposta

22

Com resposta

21

Com qual das duas?

21

Caracol

20

Como atravessar o rio?

18

Qual foi a idéia?

18

2

CONTOS

A mosca

 

17

A operação

16

Indiferença

16

O

poderoso

15

O

ladrão

13

Violência

 

13

A

mulher exemplar

12

O

encontro

12

A

dúvida

12

A

máquina

11

Quarto de hotel

 

11

Os seis "gangsters" de Chicago

10

O judeu

10

1 SEM MODÉSTIA À PARTE

8

1

SEM MODÉSTIA À PARTE

POR ALTO, BIOGRAFIA

Nasci no Cairo, fui criado no Rio; sou, portanto, "cairoca". Tenho cabelos castanhos, cada vez menos castanhos e menos cabelos. Um metro e 71 de altura, 64 de peso, 84 de tórax (respirando, 91), 70 de cintura e 6,5 de barriga. Em 1492, Colombo descobriu a América; em 1922, a América me descobriu. Sou brasileiro desde que cheguei (aos dez meses de idade), mas oficialmente, há uns sete anos: passei 35 anos tratando da naturalização. Minha carreira de criança começou quando quebrei a cabeça, aos dois anos de idade; minha carreira de adulto, quando comecei a fazer humorismo (passei a quebrar a cabeça diariamente). Tive vários empregos: ajudante de balcão, ajudante de escritório, ajudante de diretor de cinema, ajudante de diretor de revista, ajudante de diretor de jornal. Um dia resolvi ajudar a mim mesmo sem a humilhação de ingressar na política: comecei a fazer gracinhas — fora da Câmara. Nunca me dei melhor. Meu maior sonho é ter uma casa de campo com piscina, um iate,

um apartamento dúplex, um corpo de secretárias, um helicóptero, uma boa conta no banco, uma praia particular e um short. Por enquanto já tenho o short. Sou a favor do divórcio, a favor do desquite e a favor do casamento.

Sem ser a favor deste último não poderia ser dos primeiros. Sou contra o jogo, o roubo, a corrupção

e o golpe; se eu fosse candidato,

isso não deixaria de ser um grande golpe.

O

que mais adoro: escrever cartas.

O

que mais detesto: pô-las no

Correio. Minha cor preferida é a

morena, algumas vezes a loura.

Meu prato predileto é o prato fundo.

O que mais aprecio nos

homens: suas mulheres — e nas mulheres, as próprias. Acho a pena de morte uma pena. Não sou superticioso, mas por via das dúvidas evito o "s" depois do "r" nessa palavra. Se não fosse

o que sou, gostaria de ser humorista. Trabalho vinte horas por dia, mas, felizmente, só uma vez por semana; nos outros dias, passo o tempo recusando propostas — inclusive de casamento. Acho que a mulher

ideal é a que gosta da gente como

a gente gostaria que ela gostasse

— isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal

é o que quer casar. Mas deixa

de ser ideal logo depois do casamento,

quando o ideal seria que não deixasse. Mas isso não impede que eu seja, algum dia, um homem ideal.

2

CONTOS

O JUDEU

Faltavam apenas 6 cruzeiros e 50 centavos para ele descer do táxi. Já eram 80 cruzeiros da noite e ele ainda, não havia feito um bom negócio. Entrou num restaurante e comeu 18 cruzeiros; tomou 08 centavos de café e saiu 10% mais tarde. Na rua encontrou uma belíssima mulher, trajada com 48 000 cruzeiros de jóias. Há mais de 2 milhões de cruzeiros que não via uma mulher tão elegante. Convidou- a para um cinema. Ela regateou um pouco, mas por fim cedeu. Sentaram-se primeiro numa confeitaria e bateram um papo de 25 cruzeiros. Depois assistiram a 12 cruzeiros de CinemaScope:

namoraram 6 cruzeiros de entrada e o resto a longo prazo. Um dia, decorridos 85 000 cruzeiros de vida em comum — terminaram tudo, à vista.

OS SEIS GANGSTERS DE CHICAGO

O primeiro gangster chegou na janela, apontou a metralhadora

para a rua: BANG BANG BANG BANG — BANG — BANG — BANG — BANG — BANG — BANG!

O segundo gangster escondeu-se atrás do prédio da esquina e

reagiu imediatamente: BENG BENG BENG — BENG — BENG — BENG — BENG — BENG -- BENG!

O terceiro gangster surgiu no prédio em frente e começou a atirar:

BING BING BING BING BING — BING ---- BING ---- BING — BING — BING — BING! Foi quando se ouviu, lá no terraço, o quarto gangster em ação:

BONG BONG BONG BONG BONG — BONG — BONG —

BONG — BONG — BONG -- BONG!

O quinto gangster saiu do banco empunhando a sua metralhadora

de mão e atirou nos policiais que cercavam o prédio: BUNG BUNG

BUNG BUNG BUNG — BUNG — BUNG — BUNG — BUNG — BUNG — BUNG!

O sexto gangster ficou completamente impassível porque não

havia mais vogais.

QUARTO DE HOTEL Quando o gerente, atendendo à reclamação dos outros hóspedes, chegou à porta do 505, ouviu exatamente" um homem" e uma mulher falando em voz alta. Dizia o homem: "meu amor", respondia a mulher:

"my love"; dizia o homem "minha querida", respondia a mulher "my darling"; dizia o homem "minha vida", respondia a mulher "my life"; dizia o homem "meu sonho", respondia a mulher "my dream". Foi aí que o gerente^se irritou, usou a chave-mestra, invadiu o apartamento para tomar uma atitude. Foi então que o gerente ficou com uma cara deste tamanho, quando o professor pediu licença à sua aluna e lhe perguntou se também queria aprender inglês.

A MÁQUINA

Diante do gigante de aço, um homem gesticulava:

— Como o senhor está vendo, esta máquina faz tudo ao mesmo

tempo. Este tubo aqui exala um ar quente que, em contato com o monóxido de carbono que passa por esse outro tubo, impulsiona esse pequeno gancho que fricciona essa pedrinha aqui, provocando a faísca que inflama o combustível. Este desce por esse cano e vai impulsionar os motores que giram a uma velocidade de 3 728 rotações por segundo. Estes pratos provocam um calor que movimenta estes

motores que funcionam a jato, enquanto que este dínamo gera

eletricidade própria. Tudo funcionando normalmente, produz um resultado consideravelmente satisfatório, pois essa máquina fabrica 1100 pães de forma por minuto, 350 mostradores de relógios, 810 alfinetes de cabeça, 25 máquinas de escrever, 986 cabos de vassoura, além de pequenos pares de peças para aviões bimotores.

O visitante ficou boquiaberto:

— Mas isso é fantástico! E como é que se faz funcionar essa

máquina?

O inventor esfregou as mãos de contente e respondeu:

— Muito simples. Basta apertar esse botãozinho aqui.

O visitante, cheio de curiosidade, quase que implorando:

— Então, o senhor podia me dar uma demonstraçãozinha?

O inventor, mudando a fisionomia, completamente triste:

— Infelizmente ainda não descobri como fazer funcionar este maldito botão.

A

DÚVIDA

O

marido já não acreditava mais naquela história de dentista.

Primeiro, era uma vez por semana, depois passou a três e agora era

todo dia.

A desculpa não variava nunca:

— Querido, hoje vou ao dentista.

Foi por isso que resolveu tirar tudo a limpo. Quando a esposa se arrumou e saiu, ele resolveu segui-la. Meia hora depois entrava num prédio, pegava um elevador e entrava num consultório de dentista. Foi aí que ele passou a dormir calmamente e a viver tranqüilo. E foi aí que ela passou a ter mais liberdade de traí-lo com o dentista.

O

ENCONTRO

O

telefone tocou, ele atendeu, marcaram encontro. Fez a barba,

tomou banho, vestiu-se. Há uma semana que não via a noiva e hoje era domingo, dia de ir ao cinema com ela. Apertou o botão, esperou o elevador, desceu, alcançou a rua e foi esperar o ônibus. Fez baldeação e chegou lá duas horas depois. Meyer. Ainda teve de esperar quarenta minutos para que ela acabasse de se arrumar. Sua futura sogra serviu- lhe um cafezinho na varanda, seu futuro sogro conversou com ele sobre a situação internacional, depois leu um jornal, depois ela apareceu. Saíram apressados. O cinema era logo ali na esquina. Foram correndo. Ele entrou na fila e ela ficou esperando perto da portaria. Trinta e oito minutos depois ele apareceu com os ingressos na mão. Entraram. No salão escuro o vagalume indicou: "um lugar". Ela então correu e sentou.

A MULHER EXEMPLAR

Antes de tudo, linda. Esbelta. Elegante. Um olhar inteligente. Lábios frescos, bem vermelhos. Pele rosada. Cabelos castanho-claros.

Jóias caríssimas. Não fumava. Não bebia. Não jogava. Centenas de pessoas paravam para admirá-la. Era discutida. Na maioria das vezes elogiada. Enaltecida. Permanecia impassível. Indiferente. Seus olhos azuis pareciam brilhar de orgulho. Incapaz de dar um sorriso para quem quer que a fitasse. Era um quadro.

VIOLÊNCIA

Segurou a moça pelo braço e fê-la deitar-se. Depois deu-lhe vários

puxões no pescoço. Ela gritou. Ele não teve a menor reação. Passou a dar-lhe tapas no rosto. Ela tentou retirar-se, mas ele segurou-a violentamente e colocou-a de costas. Puxou-lhe as pernas, os braços, e começou a dar-lhe socos nas costas. Depois de algum tempo, disse apenas:

— Agora pode ir.

Era massagista.

O LADRÃO

Acabou de ler a notícia do assalto do dia, amassou o jornal e deixou-o cair no chão, já a caminho da bilheteria do cinema.

— Me dá meia.

Até a carteirinha de estudante era falsificada, mas já era a sétima vez, naquela semana, que havia entrado com ela. Desta vez estava um pouco trêmulo, com receio que o porteiro lhe descobrisse nos olhos o que lhe ia na mente. Sua maior preocupação era fazer aquele ar de despreocupado, evitar aquele jeito de suspeito de bandido de fita policial. Essa era a parte mais difícil do plano. O resto estava ali, na tela, dando sopa, pra quem quisesse aprender. Fita policial, não perdia uma. Algumas eram bobas, infantis mesmo, mas outras, como esta que ia ver de novo, eram muito bem feitas. Nunca havia visto um assalto tão perfeito quanto esse; o que precisava evitar era apenas o fim da fita, em que o gangster é apanhado pelo FBI. Mas isso era difícil; primeiro porque aqui no Brasil não tem FBI, segundo porque só mesmo um sujeito tão idiota voltaria ao local do crime para apagar um "vestígio". Só rindo mesmo, essa não! Com ele o negócio ia ser diferente: todo o plano e toda a sua execução já estavam decorados, inclusive os menores detalhes, como aquele do serrote silencioso. Até isso ele já mandara fazer. E o melhor de tudo é que era um assalto exclusivamente cerebral: bastava uma pessoa. O perigo de parceria (isso ele já estava farto de ver) é que um é sempre apanhado e acaba delatando os outros. Fazer tudo sozinho era mais difícil, porém mais seguro. Era preciso ter coragem, sangue-frio e, sobretudo, muita presença de espírito para qualquer eventualidade que não estivesse dentro do previsto.

Acendeu um cigarro, fez aquela pose de displicente, não muito forçada que pudesse ser notada, mas também não tão leve que ninguém deixasse de perceber a sua displicência. Especialmente o porteiro, pois a este é que interessava dar aquele ar de pouco caso. Afinal, fora tantas vezes ao cinema, aquela semana, que já marcara a fisionomia do porteiro; era possível também que o porteiro houvesse marcado a sua. Deu uma baforada mais longa, espichou a mão com o

ingresso, e passou, sentindo na nuca o olhar fixo do porteiro. Estaria desconfiado de alguma coisa? Mas como? Não se pode mais ir ao cinema? Bolas, vou quantas vezes quiser e ninguém tem nada com

— pensou. E mergulhou na sala de projeção, procurando

proteger-se na escuridão. A fita já havia começado, mas isso não tinha a menor importância, porque a história, ele já a sabia de cor e salteado. O que interessava mesmo era a cena do assalto. A esta sim, ele precisava dar o máximo de atenção, mesmo porque era o último dia da fita em cartaz. Depois, só Deus sabe em que cinema do subúrbio ela iria passar, e ter de ir ao subúrbio só pra ver a fita de novo era muito humilhante; já bastava ter nascido lá. Tateou um pouco, entrou numa fila qualquer, foi esbarrando em alguns joelhos, sentou numa cadeira. Sentiu-se inteiramente só, até que seus olhos se acostumaram à escuridão; foi então que percebeu que havia uma multidão de pessoas ao seu redor. Mas era como se estivesse só, pois estavam todos com a atenção presa na fita; ia começar a cena do assalto. O gangster escorregava por um telhado escuro, pulava em cima de uma árvore, pendurava-se num galho e saltava num terreno baldio. Tudo escuro; apenas o luar macio fazia reluzir em sua mão o cano de um revólver. Era preciso estar prevenido para o que desse e viesse. A escuridão da cena fazia com que ele se sentisse mais à vontade, mais sozinho para viver a emoção do personagem. Sentia-se o próprio protagonista da história, já antecipando as emoções que teria ao viver a sua própria façanha. Um close-up do gangster mostrava, propositadamente, o suor em seu rosto. Puxou um lenço do bolso e passou por sua testa; ele também suava. Moveu a cabeça para os lados para ver se alguém o observava. Sentiu que uma cara ao lado o condenava. Talvez fosse impressão, seria certamente uma repreensão muda por ele ter-se mexido na cadeira. Fingiu que não viu, continuou observando a fita: agora o gangster cavava um buraco e enterrava o revólver no chão justamente no momento em que se ouviam passos e o gangster se escondia atrás de uma moita. No cinema, eles sempre procuram emocionar a platéia

isso

com esses pequenos incidentes: na vida real, nada disso acontece, porque se acontecer será fatal. Percebeu que uma senhora na frente deu um suspiro e mexeu a cabeça. Inclinou o corpo para' o lado e sentiu tocar no braço do sujeito que o havia olhado firme, momentos antes. Retirou o braço depressa, fixou os olhos na tela. Era preciso prestar atenção, muita atenção, especialmente no detalhe do tempo:

toda a operação do assalto não durava mais de dois minutos e meio. Isso era muito importante. Um big-close-up focalizou o relógio do gangster: 23 horas em ponto. Instintivamente olhou para o pulso, não tinha relógio. Era preciso arranjar um relógio. Seus olhos pousaram no pulso do homem que estava ao seu lado. Uma idéia lhe ocorreu, mas tentou apagá-la, com receio que estivesse sendo visto o seu raciocínio. Moveu-se de novo na cadeira, outra vez foi encarado pelo homem ao lado. Virou o rosto, cruzou as pernas. Descruzou novamente. Deu a entender que estava nervoso por causa do filme. O homem o estava encarando. Decidiu mudar de lugar, fez pressão sobre o braço da poltrona, mas, propositadamente, deixou sua mão escorregar até o pulso do homem. Pediu desculpas, enquanto saía, já com o relógio entre os dedos. O homem do lado saiu na direção oposta. Suspirou, aliviado, reintegrou-se no filme. Uma lanterna iluminou sua face, como se estivesse sendo acusado de alguma coisa. E estava: dois homens o fitavam, um deles pediu que saísse sem provocar escândalo. Tentou sair pelo outro lado, mas um joelho forte impediu sua passagem, enquanto uma voz ordenava: está preso! Que azar, roubar logo o relógio de um investigador.

O PODEROSO

Havia no mínimo trezentas pessoas falando, gritando. Um verdadeiro comício. Ele chegou mais perto e fez um pequeno gesto com o dedo. Bastou isso para que todos fossem embora e se fizesse o mais completo silêncio. Mas não tardou muito. Uma mulher começou a lhe dar conselhos, que não devia fazer isso, que afinal de contas isso não era atitude que se tomasse, que agisse com mais calma, que tivesse um pouquinho de paciência, que fosse mais condescendente. Aí ele não agüentou mais. Moveu novamente o dedo e desligou o rádio.

INDIFERENÇA

Aquela multidão de gente corria para ele. Subitamente, pararam todos. Alguém adiantou-se e lhe pediu,-por misericórdia, que arranjasse emprego para aquela gente. Afinal, eles só queriam ganhar o pão de cada dia. Estavam com fome. Ele ficou impassível. A multidão ajoe- lhou-se. Algumas senhoras, com as crianças no colo, chegaram a chorar. Ele continuou indiferente. Uma velhinha veio caminhando em sua direção e caiu. Alguém lhe disse que estava morta. Ele não falou nada. Aproximou-se então uma menina de seus dezesseis anos, ajoelhou-se diante do corpo da anciã e caiu em prantos. Aquele choro brutal, tétrico, tocou-lhe o coração. Foi aí que se levantou e tomou uma atitude: saiu do cinema.

A OPERAÇÃO Quando me deitei na maça que me conduziu à sala de operações, confesso que tremia de medo. Eram 12 horas e 45 minutos e a operação estava marcada para as 12 e 50. O médico se aproximou de mim e me garantiu que era uma coisa muito simples, que não tivesse receio. Quando recebi a primeira injeção de anestesia, senti o peito adormecer. Foi então que o médico me explicou que era a primeira vez que fazia uma operação no coração com anestesia local. Dessa experiência poderiam resultar grandes benefícios para a cirurgia. Suei frio. Quando o médico passou com o bisturi por cima do meu rosto, tive a impressão de estar vendo um assassino com um punhal na mão. Tive vontade de impedir o seu gesto, lhe dizer que estava arrependido de tudo. Eu estava completamente tonto. Quando um dos assistentes arregalou os olhos para mim, tremi de medo. Haviam mandado chamar outro médico e os três se reuniram num canto da sala. Folhearam um livro, todos com as mãos trêmulas, e um deles marcou uma página, largou os outros de lado, pegou o bisturi e partiu furioso para mim. Fechei os olhos, fingi que estava dormindo. Talvez eles ficassem com pena. Foi então que o meu coração enfraqueceu até sumir. Quando acordei, os três médicos haviam tirado as máscaras. Uma enfermeira loura sorria para mim. Cobriu-me com um lençol, percebi então que o teto estava andando. Tentei levantar-me, ela me acariciou

o rosto, fez-me engolir uma pílula, disse-me que devia repousar.

Depois chegou um enfermeiro mal-encarado, colocou-me numa cama de ferro, fez anotações numa ficha. Olhou para um sujeito barbudo que estava sentado numa cadeira e disse claramente: "Acho que escapa". Daí em diante, não me lembro de mais nada, São Pedro!

A MOSCA

A mosca saiu do açucareiro.

Zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz

zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz. Pousou numa xícara. O homem espantou-a com a mão. Zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz. Parou perto de outra mosca. Conversaram!

— Zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz!

— Zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz?

— Zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz

— Zzzzzzzzzz zzzzzzzzz!

— Zzzzzzzzzz zzzz! — z.

E voltaram as duas.

Zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz

zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz.

O homem tornou a afastá-las.

Zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zzzz zz zz zz zz.

Elas tornaram a voltar. Agora eram três. Zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz.

O homem levantou e foi embora.

Moral: é mais fácil uma mosca espantar um homem do que um homem espantar uma mosca.

3

TESTES

QUAL FOI A IDÉIA?

De toda a caravana, sobraram apenas dois. Profissão: revisores. Restavam ainda alguns milhares de quilômetros' para completarem a travessia do deserto. A sede aumentava à proporção que diminuíam as possibilidades de salvação. Apenas duas gotas d'água. Até os camelos haviam sucumbido, o que demonstrava a sua extraordinária resistência física. A impressão de que iam morrer torrados já ia longe; agora a certeza já lhes marcava a pele. Dividiram as duas gotas d'água, uma para cada um. Sua esperança era que passasse uma carrocinha de coca-cola, a que está em todas. Mas nem isso. De repente, um deles teve uma idéia, quando viu uns ossos. E assim conseguiram se salvar. Você sabe qual foi a idéia?

Resposta: Sendo ambos revisores, trataram logo de corrigir os ossos para oásis

COMO ATRAVESSAR O RIO?

Um caçador chega à beira de um rio e não pode atravessá-lo de maneira alguma: não havia uma embarcação, não havia o menor recurso para fazer uma ponte. Tampouco podia recuar, pois — impedindo a sua volta — havia gigantesca cascavel fitando-o fixamente. E ele não tinha sequer uma arma para matá-la. Atravessar o

rio a nado seria suicídio certo, pois as piranhas o devorariam em poucos segundos. Mas o fato é que ele conseguiu atravessar o rio. Você sabe como resolveu o caçador esta "situação"?

Resposta: Esperou a cascavel dar o bote, pegou rapidamente o bote e atravessou o rio.

Este espaço não vale um caracol?

Este espaço não vale um caracol?

COM QUAL DAS DUAS?

Brigite e Caroline eram vizinhas e muito amigas. Acontece que ambas conheceram Leon no mesmo dia e ambas lhe deram o telefone para convidá-las a um passeio. Sabendo-se que as duas eram bonitas e jovens, com qual das duas saiu Leon no dia seguinte?

Resposta: Com Brigite. Não discuta a lógica desta resposta, pois o Leon do teste era eu.

TESTE COM RESPOSTA

Saíram no mesmo carro para Petropolis e chegaram no mesmo carro, com uma diferença de meia hora de um carro para b outro. Por quê?

Resposta: O relógio de um estava atrasado.

TESTE SEM RESPOSTA

TESTE SEM RESPOSTA Isto é um quadro que custa os olhos da cara ou uma cara

Isto é um quadro que custa os olhos da cara ou uma cara que custa os olhos do quadro?

QUEM MATOU O MILIONÁRIO?

Quando o detetive John High chegou ao local do crime, olhou rapidamente o quarto desarrumado e chegou a uma conclusão. No centro do quarto, sobre um tapete verde, o corpo do milionário

Shmiler estava estendido, com um punhal cravado nas costas. Não havia o menor indício de luta. Apenas o pickup continuava em movimento no fim de um disco que continuava girando. Ao lado da vitrola, sobre o aparelho de televisão, havia um retrato com uma dedicatória: "Para o meu único amor, Wilma". Não tinha data. Sobre uma cadeira, havia um pedaço de papel e uma caderneta de telefones aberta na letra "L": Lionel, Lipton, Lamberg, Livingston, Lerner, Lindade, Lawerson, Lawrence. O detetive segurou o caderno com

lenço.

Examinou os nomes e

exclamou: "quem ma-

tou o milionário foi

Lawrence". E

realmente, dias depois,

a polícia prendia

Lawrence". E realmente, dias depois, a polícia prendia um Lawrence. Pergunta-se: você sabe por que o

um

Lawrence. Pergunta-se:

você sabe por que o detetive John High

esta

chegou

conclusão tão rápida?

a

Resposta:Porque viu o dedo apontando o nome de Lawrence.

4

DICIONÁRIO DE BOLSO

Adiar — é essa atitude que estamos sempre tomando daqui a pouco. Adultério — é isso que liga três pessoas sem uma saber. Agiota — é esse sujeito que ganha a vida alugando dinheiro. Aliança — é isso que sai de uma mão para outra e consegue arrastar um homem. Ama-seca — quem ama o molhado, seco lhe parece. Aniversário — comemoração que sempre fazemos com menos um ano de entusiasmo. Armário embutido — é um pedaço da nossa casa que entra pelas paredes. Baliza — uma rede com goleiro e um fotógrafo atrás. O goleiro perde as melhores bolas e o fotógrafo as melhores chapas. Biombo — é isso que separa uma curiosidade de um lado e um assustado de outro. Biquíni — é um pedaço de pano cercado de mulher por todos os lados. Boxe — é esse esporte em que um milhão de indivíduos brigam de graça por causa de dois sujeitos que brigam por dinheiro. Boxeador — sujeito que se prepara durante oito horas por dia para se deitar na lona durante dez segundos. Buzina — é esse ruído que irrita o motorista da frente quando o de trás já está irritado. Cabeleireiro — é esse sujeito que primeiro muda a fisionomia da mulher e depois a do marido. Cabotino — é esse sujeito que consegue transformar qualquer assunto numa autobiografia. Cabotino — sujeito que não encontra assunto para colocar entre dois eu.

Cadeira de balanço — é essa cadeira que a gente tem que ficar empurrando pra frente e pra trás para ter a sensação que está descansando. • Camelô — um susto cercado de curiosidade por todos os lados. Camelô — é esse sujeito que passa a metade do dia explicando aos curiosos como funciona o seu balangandã e a outra metade à polícia como funciona o seu negócio. Canhoto — sujeito que só escreve direito com a mão esquerda. Cartão de visita — pequeno mostruário de nossas vaidades. Cartório — lugar onde se reconhecem firmas completamente irreconhecíveis. Certidão de nascimento — documento que a gente é obrigada a mostrar para provar que nasceu. Cigarro — é a única coisa que não acaba no fim. Clips — é esse grampinho que ajuda a gente a perder mais de um documento. Cobrador — é esse sujeito que nunca tem a sorte de encontrar alguém em casa. Confidencia — é isso que a gente diz a todo mundo pra não dizer a ninguém. Confissão — limpeza que fazemos na nossa consciência tendo o cuidado de deixar sempre um pequeno saldo. Convenção social — é o fato de um indivíduo segurar uma pequena todinha e depois ir ao pai dela pedir a sua mão. Coquetel — grupo de pessoas dividido em vários grupinhos. Corista — o mínimo de cabeça no máximo de pernas. Crédito — é esse lucro que o comerciante divide em parcelas. Cruzamento — sinal luminoso cercado de palavrões por todos os lados. Datilografa — funcionária que tem agilidade nos dedos mas impressiona mais com os joelhos. Delicadeza — quatro sujeitos cansadíssimos diante de uma cadeira vazia. Democracia — é esse sistema de governo em que todos concordam em discordar um do outro. Dentista — sujeito que ganha a vida com o suor do rosto alheio. Desastre — encontro pontual de dois veículos. Devedor — sujeito que tem a habilidade de nunca estar em lugar nenhum.

Discussão — é isso que começa quando duas mulheres chegam a um acordos uma terceira está ouvindo. Displicente — sujeito que passa o dia inteiro preocupado em aparentar displicência. Dívida — é uma desculpa a longo prazo. Elevador — é esse compartimento tão pequeno onde as pessoas são obrigadas a entender-se por meio de números. Empresário — sujeito que vive à custa do talento alheio. Esquecimento — desculpa que nos dão e que nunca mais esquecemos. Fatalidade — tudo aquilo que a gente só prevê depois que acontece. Fechadura — buraco mais freqüentado por um olho do que por uma chave. Filante — sujeito que só traz cigarro no bolso dos outros. Gorjeta — vergonha que a gente deixa em cima da mesa em forma de dinheiro. Gráfico — é esse risco que corre para cima e para baixo dentro de uma firma, até acabar o risco ou até acabar a firma. Gravata — forca da elegância. Guarda de trânsito — sujeito que só começa a trabalhar quando é posto na rua. Herói — é esse sujeito que teve a sorte de escapar vivo. Hipócrita — indivíduo que faz tudo para parecer que é aquilo que ele pensa que nós pensamos que ele é. Horóscopo — é isso que a gente consulta sempre pra ver o que vai acontecer amanhã, mas amanhã a gente só se preocupa novamente com o que vai acontecer amanhã. Imbecil — sujeito que nunca concorda conosco ou então concorda sempre. Improviso — capacidade de decorar mentalmente. Indecisão — espaço de tempo que o nosso pé leva do acelerador ao freio diante do sinal amarelo. Indiferença — é isso que as mulheres começam a aparentar quando já não estão indiferentes. Intermediário — é esse sujeito que faz a ligação entre dois interesses, visando exclusivamente ao seu. Irritação — curto-circuito no sistema nervoso. Jingle — musiquinha que repete três vezes as mesmas palavras, as mesmas palavras, as mesmas palavras.

Jogador — sujeito que de tanto jogar acaba mais marcado do que

o baralho. Kilograma — medida que depois que passou a ser escrita com QU não conseguiu pesar mais de 900 gramas. Lenço — pecinha que o homem traz sempre duas no bolso: uma para oferecer à mulher, quando ele sai, e outra para apresentar à mulher, quando ele volta. Louco — sujeito que cisma que é Napoleão, desde os tempos de Napoleão, que foi o único verdadeiro, vai dizer que não fui. Luva — peça que a mulher experimenta diversas vezes até encontrar uma que se ajuste bem nos seus dedos, depois passa a usá-la fora da mão. Manchete — é isso que sai em cima com letra grande para vender

o jornal; assim o jornal pode vender a outra manchete que sai com letra menor. Manicure — é essa pequena a quem a gente tem sempre de dar uma mãozinha para ela trabalhar. Mata-borrão — isso que absorve melhor do que ninguém as nossas palavras. Mecânico — sujeito que nos toma a diferença que conseguimos quando compramos um carro mais barato. Menu — isso que a gente lê várias vezes pra ver o que tem e pedir

o que não tem. Mesa-redonda — discussão de vários problemas pessoais para resolver um comum. Intruso — justamente isso: uma palavra que começa com "i" sair na letra "m". Miss — pequena que divide p seu tempo entre o maio e a fita métrica. Modéstia — vergonha que temos de reconhecer que somos realmente os maiores. Modesto — sujeito que se aborrece conosco se concordarmos com ele em achá-lo uma besta. Mulher — amontoado de palavras numa embalagem de carne e osso. Namoro — passatempo a quatro mãos. Noivado — período de desajustamento antes do casamento. Oba — palavra que todo revistógrafo brasileiro usa para encerrar

o seu show musicado. Na Espanha se usa OLÉ e nos Estados Unidos,

IUHU.

Ópera — conjunto de pessoas que praticam os maiores desatinos cantando. Orador — sujeito que quando abre a boca faz todo mundo fechar os olhos. Palavrão — equipamento mais importante do motorista. Patrocinador — único sujeito que paga para ouvir seus programas. Perdão — melhor maneira de esquecer o erro do próximo até a primeira oportunidade. Pêsames — palavras de gentileza sempre recebidas com a cara fechada. Plágio — outro sujeito ter tido a nossa idéia primeiro. Pontualidade — coincidência de duas pessoas chegarem com o mesmo atraso. Problema — é isso que a gente tem e pede prós outros resolver mas os outros também têm e pedem pra gente resolver. Procurador — é esse sujeito que passa o dia inteiro nos procurando para saber qual a atitude que deve tomar em nosso lugar. Promissória — intervalo entre uma assinatura e um milhão de desculpas. Quadro-negro — é esse quadro que sempre sai branco nos desenhos. Quarto de hora — são esses quarenta minutos que a namorada nos pede para retocar a pintura no toalete. Quinta-feira — dia em que percebemos que não fizemos esta semana tudo o que vamos deixar para a semana que vem. Rascunho — é o que a gente escreve cinco vezes de forma diferente em cima do mesmo papel e quando vai passar a limpo não entende mais o que escreveu. Recibo — comprovante que a gente guarda toda a vida pra provar que pagou e só dão de duvidar que não pagamos no dia em que resolvemos rasgá-lo. Rede — coisa que só pára de balançar quando a gente dorme. Regente — sujeito que só enfrenta o público de costas. Relógio de pulso — algema que nos prende apenas por um pulso. Renúncia — gesto que se torna nobre porque não há outro jeito. Reta — uma curva cortando caminho. Retrato — isso que a gente fica por conta quando não sai parecido e mais por conta quando sai.

Retrocesso — tecla que não entra no curso de datilografia mas que os datilógrafos acabam usando mais. Revólver — isso que traz sempre um valente atrás do cabo e um covarde na frente do cano. Rotina — é esse esforço que a gente faz diariamente para sair da rotina. Sacrifício — pequena cota do nosso "eu" que depositamos- na boa fé alheia para sacar com juros. Saldo — grande estoque que encalha e o comerciante resolve vender uma peça de cada vez. Sapato — condução de pobre. Saudade — retrocesso do pensamento. Secretária — moça que arruma a vida do patrão e desarruma a da patroa. Segredo — isso que vai rolando de ouvido em ouvido e volta sempre com mais detalhes. Sexo — coisa que antes de Freud era indecência; depois, psicanálise. Sinal luminoso — é isso que abre precisamente com a buzina do carro que está atrás do nosso. Striptease — uma mulher vestida de olhos. Suéter — é essa peça de lã que as mulheres usam para fazer os homens suarem. Tatuagem — mapa de recalques. Táxi — é esse meio de transporte que só quer nos levar para o lado contrário de onde queremos ir. Teatro — é esse lugar onde a gente está sempre desejando que os atores falem mais alto e os espectadores mais baixo. Teatro — recinto onde algumas pessoas passam horas pigarreando no palco para uma multidão que fica tossindo na platéia. Técnico — sujeito que se especializa em não entender nada de apenas uma matéria. Telegrama — a única forma da gente dizer alguma coisa medindo as palavras. Televisão — aparelho que se coloca no meio da sala para as visitas fingirem que estão vendo justamente na hora em que o dono da casa finge que está querendo conversar. Ternura — massagem em long-play. Tintureíro — equilibrista que anda montado numa bicicleta com um cabide de um lado e um ônibus do outro.

Túmulo — último buraco em que o indivíduo se mete. Um quilo — são as 900 gramas de mercadoria que ficam no outro prato da balança. Urna — caixinha onde uma porção de gente coloca um papelzinho para fazer sorteio e às vezes o azar é tanto que sai um presidente. Vaga — é esse espaço que um automóvel consegue fazer entre dois automóveis. Velhice — infância fechando o círculo vicioso. - Vício — o que sempre estamos fazendo pela última vez. Vigarista — é esse camarada que resolveu industrializar a sua simpatia. Voador, disco — objeto que ninguém identifica mas todo mundo fotografa. Voto — papeleta que se coloca dentro da urna sem deixar ninguém ver o que está escrito, nem mesmo quem coloca. Xerife — sujeito que passa a metade do filme limpando a estrelinha e a outra metade limpando o revólver, porque quem limpa a cidade é o mocinho. Y — ossi etnematsuj é — EUGOY. Zarolho — sujeito que tira uma pequena para dançar e saem as duas.

5

DATILÓGRAFAS

5 DATILÓGRAFAS
5 DATILÓGRAFAS
5 DATILÓGRAFAS
5 DATILÓGRAFAS
5 DATILÓGRAFAS

6

SEU TOSTÃO VALE 1 MILHÃO

Antes mesmo de Einstein, o dinheiro já era uma coisa muito relativa. Por exemplo, para muita gente, um jantar no Bife de Ouro é barato; para outros, uma média-com-pão-e-manteiga num boteco qualquer é muito cara, e a prova de que o valor do dinheiro é nenhum

é que o "pão de tostão" custa mesmo alguns cruzeiros. Partindo desse princípio, cada um dá ao dinheiro o valor que lhe pode dar, e se ele serve exclusivamente para adquirir mercadorias, a esperteza está em estipularmos o valor que queremos. Conclui-se, portanto, que o dinheiro é apenas um "veículo" para obter mercadorias; por isso mesmo, o bem-estar de cada indivíduo está, aparentemente, entrelaçado em relação ao seu padrão monetário: ter mais dinheiro significa ter mais facilidade de adquirir mercadorias (e mercadorias, no caso, implicam uma série de coisas que proporcionam

o bem-estar do indivíduo). O problema, portanto, se resume num só ponto: adquirir dinheiro, para trocá-lo por mercadoria. É aí, justamente, que entra a demonstração de que o dinheiro é relativo: uns procuram ludibriar a boa fé alheia, na conquista do dinheiro fácil e rápido, outros preferem ganhá-lo lentamente, em troca da paz de espírito; ambas as "fórmulas" têm seu preço. Depois de estudar atentamente essas duas "fórmulas", não me foi difícil descobrir uma terceira: a de não gastar dinheiro pela ausência de possuí-lo. Explico melhor: se o bem-estar se compra com dinheiro, por que a ausência de mal-estar não deve também valer dinheiro? Muito simples: porque o bem-estar se adquire e o mal-estar se evita. Então o processo é fácil: adquirir bem-estar e evitar mal-estar. Dinheiro, já ficou provado, se adquire com fraude ou com trabalho (a herança é um caso à parte), mas bem-estar pode-se adquirir também sem dinheiro, porque é exclusivamente um problema interior. Nesse caso, por que não passar por cima do problema do dinheiro e ir diretamente ao bem-estar? Exemplo: muita gente tem dinheiro, gosta

de praia, mas não pode ir à praia, porque não tem tempo (já vê que nesse caso o tempo vale mais que dinheiro); eu, particularmente, se tivesse dinheiro e tivesse que pagar para ir a uma praia, não hesitaria em pagar 1 000 cruzeiros de cada vez, ou 3 000, de acordo com a quantidade de dinheiro que eu tivesse. Ora, não tendo nada, o único problema é arranjar tempo — que equivalerá ao preço que eu mesmo estipular, digamos "mil pratas" para facilitar o raciocínio. Conclusão:

quanto mais eu for à praia, mais capital estarei realizando. Baseado nessa "fórmula", de que o bem-estar vale dinheiro e a ausência de mal-estar também vale dinheiro, consegui "gastar" no ano de 1960 1 milhão — sem despender tostão. E para que o leitor veja que isso não é impossível, aí vai a lista, detalhada, de meus lucros, isentos, é claro, do Imposto sobre a Renda:

Média de vinte praias por mês, a "mil pratas", durante cinco meses Cr$ 100 000,00 Indo à praia, praticando esporte, capitalizei saúde, o que me poupou a chamada do médico, pelo menos

duas vezes Evitando a chamada do médico, poupei a compra de remédios que, infalivelmente,

Cr$

2 000,00

ele receitaria Andei de calça e camisa esporte, o ano todo, poupando a confecção de

Cr$

5 000,00

pelo menos dois ternos Não usando terno, dispensei o uso de gravatas, abotoaduras, prendedor

Cr$

24 000,00

de gravatas, etc Deixei de beber, em média, dois uísques por dia a 150 cruzeiros a dose (pra facilitar o balanço), poupando

Cr$

13 000,00

9 000 por mês, ou seja, um total de Oito uiquendes em casas de milionários, com banhos de piscina, passeios de

Cr$

108 000,00

lancha, cineminha em casa, alta-fidelidade, drinques diversos e condução de porta a porta,

tudo o que ando no meu carro, gastaria uma média de 79 500 por mês, ficando um saldo a meu favor de 49 500 num total de

Cr$

Cr$

Cr$

594 000,00

Cinqüenta e duas idas aos cinemas Bruni, com "permanente" que vale pra dois de cada vez

5 200,00

Presentes que recebi das fábricas de discos (diversas) numa média de oito long-plays por mês, a 600 cruzeiros cada um

57 600,00

Ir para fora no fim do ano, poupando "festas"

aos profissionais de listas de natal, numa média

de vinte e nove, a 200 cruzeiros cada

Cr$

Cr$

5 800,00

Jornais e revistas que li nas bancas e nos cabeleireiros, especialmente para arredondar a conta

4 600,00

Total

Cr$

1 000 000,00

P.S. — Na primeira edição desse livro, seu tostão valia exatamente 1 milhão. Agora, nesta edição, com a alta de todos os preços, seu milhão deve estar por volta dos 50 milhões — e o milhão já não é mais milhão, é bilhão. Quanto valera seu tostão na próxima edição? Poupe-me trabalho e faça você mesmo as contas: é duro fazer humorismo com números no Brasil.

7

Humor negro

EPITÁFIOS

DE UM HUMORISTA Aqui jaz uma gargalhada cercada de choro por todos os lados.

DE UM CHOFER DE PRAÇA Sua única corrida sem cobrar a volta.

DE UM CAÇADOR Foi o dia da caça.

DE UM MOCINHO DE CINEMA Fora da tela bastou um tiro.

DE UM PREFEITO Este foi o único buraco que ele não fez.

DE UM JOGADOR Foi pegado com cinco ases na mão.

DE UM LOCUTOR

E

agora passemos a outro programa.

DE UM TOUREIRO O touro correu mais.

DE UM AÇOUGUEIRO

A

carne é fraca.

DE UM COVEIRO Chegou a minha vez.

O HOMEM QUE VIVEU POR PROCURAÇÃO

Nunca fez nada na vida. Em criança, não brincava, não pulava, não dizia nac Em estudante colava. Formou-se. Gostou de uma moça. Viu-a apenas uma vez, porque ela viajou no dia seguinte. Correspondeu-se com ela durante dois anos: quem escrevia as cartas era um amigo, quem botava no correio era um empregado, quem lia respostas era sua irmã. Casou-se por procuração. Ela continuou vivendo lá e ele aqui. Arranjaram-lhe um emprego:

funcionário público. Quem assinava o ponto por ele era um colega; quem recebia por ele era outro colega. Mandava todo o dinheiro para a mulher. Ingressou no cinema, fez um filme em Hollywood: Cowboy cantor. Quem cantava por ele era outro; quem brigava por ele era o stand-in. Ganhou uma fortuna, deixou tudo no Imposto de Renda. Ainda assim ficou rico: recebeu uma herança. Montaram-lhe uma indústria, gastaram todo o seu dinheiro, ficou na miséria. Quem sofreu foi sua mulher. Um dia, planejou um assalto. Arranjou cinco capangas e mandou executar o serviço, enquanto ele ficou em casa. Na execução do plano, os cinco capangas morreram e um deles denunciou o autor do crime. Foi então que a polícia o prendeu 6 o condenou à cadeira elétrica. Nem nisso foi atingido: tinha um sósia.

A ARTE DE VOAR

Santos Dumont não fez nenhuma vantagem; vantagem fazem os nossos pilotos que levantam vôo com certos aviões. — Isto é rapidez! A gente entra no avião, o avião decola e a gente sai no jornal. O passageiro do lado quer sempre dar a impressão de que não tem medo de viajar de avião. Mas não esqueça de que você também é o passageiro do lado.

A carreira de um piloto é paradoxal: quanto melhor ele desce,

mais sobe. Alguns aviões são disciplinados: vêm cair justamente no

aeroporto. Em qualquer meio de transporte o menor ruído começa a incomodar;, no avião, só incomoda quando o ruído

OS CINCO MANDAMENTOS DA AEROMOÇA

I

Quando o avião decola e os passageiros apertam o cinto, a aeromoça deve apertar a cinta.

II

A

aeromoça tem obrigação de nos fazer esquecer a viagem, mas

não a ponto de esquecermos a própria esposa.

III

O

sorriso da aeromoça é tão importante que^ quando o avião

estiver caindo, ela deve sorrir até o último centímetro.

IV

Em caso de estar funcionando apenas um motor, aeromoça deve

repetir sempre: "NÃO É NADA", "NÃO NADA", "NÃO É NADA", "NÃO É NADA", "NÃO É

V

Em caso de incêndio, a aeromoça deve distrair a atenção dos passageiros, contando uma anedota. De preferência bem curta, senão

não dá tempo de acabar.

8

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL

CARTA: Meu marido gosta de dormir com a luz acesa e eu com a luz apagada. O resultado é que passamos as noites discutindo. O senhor pode me ajudar? (Sonolenta — Macaé) RESPOSTA: Em primeiro lugar lhe aconselho a não discutir, em hipótese alguma, pois da discussão (à noite), nasce a luz (da madrugada). O jeito mesmo é a senhora trocar as lâmpadas ou trocar de quarto. Em último caso, troque mesmo de marido. De preferência por um de 60 watts, que é mais fraquinho e não se queima com facilidade.

há mais de seis anos que o meu marido não me dá

um vestido e o único que eu tenho já está acabando. (Infeliz — Rio) RESPOSTA: Aproveite a sua aparente infelicidade e procure rapidamente um produtor cinematográfico brasileiro. Ele não só lhe oferecerá um teste, como aproveitará o seu traje para a grande cena do baile, depois da briga na boate.

CARTA: —

CARTA: Conheci um rapaz de dezoito anos, vinte anos mais moço do que eu, que sou casada com um velho de 68, trinta anos mais velho do que eu. O caso é o seguinte: estou apaixonada pelo rapaz, mas meu marido não se importa, pois está apaixonado pela minha irmã caçula, de dezessete anos. O rapaz também não se importa comigo, pois está louco para se casar com a minha tia, irmã (viúva) do meu marido e mãe de dois filhos, um dos quais noivo de minha irmã ca- çula, a tal que vem sendo cortejada pelo meu marido. Minha avó é de opinião que devo desistir do rapaz, mas já minha filhinha de catorze anos acha que não. E o senhor, que me aconselha? RESPOSTA: Para esses casos, minha filha, lhe aconselho a procurar um especialista: o Sr. Nelson Rodrigues ou o Sr. Tennessee Williams.

CARTA: Meu marido é camelô, mas eu o adoro. Acontece que nunca dorme em casa, chega de manhã cedinho, toma café e sai para

o trabalho, geralmente mal-humorado. Será que ele passa as noites fora do Distrito Federal? (Inquieta — Brasília) RESPOSTA: Não há motivos para se preocupar; ele passa as noites no Distrito.

CARTA: Estou casada há 25 anos e nunca briguei com o meu

marido, porque logo depois do casamento ele fez uma viagem e não voltou até hoje. Mas o que me desespera é que em todo esse tempo ele nunca escreveu uma carta e já estou começando a ficar preocupada.

O senhor acha que devo pedir o desquite? (Desorientada — Natal)

RESPOSTA: Convém não ser precipitada, minha senhora, porque a precipitação tem levado à ruína muitos lares felizes como o seu. Espere mais 25 anos e então sim! se ele nem ao menos lhe passar um telegrama, peça o desquite. De preferência, amigável; nunca litigioso.

CARTA: SOM casada há mais de trinta anos e já tive 22 filhos, sendo que o último nasceu há dois anos. Ontem tive um choque: meu marido ameaçou abandonar-me. Que faço? (Desiludida — r Pelotas) RESPOSTA: Tenha o vigésimo terceiro filho.

CARTA: Ele tentou segurar a minha mão e eu não deixei. Tentou de novo e eu não deixei. Tentou durante dias, semanas, meses, e eu não deixei. Soube hoje que ele casou com a minha melhor amiga. Que devo fazer? (Impaciente — Cachoeiro) RESPOSTA: Deixe ele segurar sua mão, agora.

CARTA: SOU jovem, dezoito anos, loura, bonita, meiga, carinhosa, venci duas competições de plástica, tenho curso superior, sou

elegante, mas ninguém me dá RESPOSTA: Passe aqui.

(Beija-Flor — Copacabana)

CARTA: Recebi uma proposta de casamento do meu tio. Devo aceitar? (Esperançosa — Espírito Santo) RESPOSTA: O mal dos casamentos de família é a confusão que causam. Se você tiver um filho, não saberá nunca se ele será sobrinho ou neto de seus pais; se será sobrinho ou primo de seus irmãos, etc. Só de uma coisa você estará certa: é que, como esposa de seu tio, você será sempre sua só-brinha, unida apenas pelo traço de união.

CARTA: Recebi uma carta anônima que diz misérias de mim. Tenho a impressão de que sei quem foi que mandou, mas não tenho certeza. Mostrei-a a várias amigas, algumas delas concordaram com tudo e brigaram comigo outras tiveram a mesma suspeita que eu. Acha que devo tomar uma satisfação? (Desconfiada — Caruaru) RESPOSTA: Sua carta é um pouco confusa, tomar satisfação de quem? Das amigas que brigaram com você, das que tiveram a mesma suspeita, ou de quem você suspeita? De qualquer maneira posso lhe adiantar que o mal das cartas anônimas, minha filha, é que elas não são assinadas. O melhor, nesses casos, é não ler a carta. De outra vez, evite todos esses dissabores não abrindo nem o envelope.

CARTA: Minha irmã tem apenas dezesseis anos e casou a semana passada, eu já estou com 58 e não consigo arranjar marido. Devo desistir? (Desgostosa — Curitiba) RESPOSTA: Até aos 98 você pode ir tentando, e para isso, o melhor sistema é freqüentar clubes, ir à praia todos os dias, de biquíni, jantar em boate com relativa assiduidade, participar de torneios de ié-ié-ié, etc. Se chegar aos 98 sem arranjar nada, então, minha filha, você já pode desconfiar de um provável — mas não certo — celibato. Quando menos você esperar, seu Príncipe Encantado poderá aparecer, não tão príncipe e não tão encantado, mas dá para o gasto. Provavelmente virá apoiado numa muleta e você mesma deverá provocar que ele tropece. Depois então é só ajudá-lo a levantar-se e conduzi-lo ao altar.

CARTA: Há 25 anos que tenho recusado propostas de casamento de um cavalheiro que vem me jazendo a corte. Ontem, soube que ele casou com outra, o que veio confirmar a minha opinião sobre os homens, de que nenhum deles presta. Não tenho razão? (Arrependida — Colatina) RESPOSTA: Da próxima vez, não espere 25 anos; quando chegar aos 24, tome coragem e diga "sim".

CARTA: Tentei o suicídio cinco vezes e até nisso me sinto frustrada. Gostaria que o senhor me indicasse uma fórmula definitiva de me matar. (Tristonha — Barbacena) RESPOSTA: Agora que você já se tornou vedete da crônica policial, acho desnecessário procurar a morte; procure um empresário teatral que ele a contratará para estrelar uma peça musicada.

CARTA: Meu marido passa a noite inteira jogando biriba e isso está me irritando de tal maneira que às vezes chego a pensar em deixá-lo. Que me aconselha? (Irritada — Uberaba) RESPOSTA: Ensine-o a jogar buraco.

CARTA: Meu noivo mudou muito depois que conheceu minha irmã. Chegou mesmo a confessar-me que pretende esperar ela crescer (ela só tem catorze anos) para decidir com quem vai casar, se comigo ou com ela. Que devo jazer: submeter-me a essa humilhante espera ou abandoná-lo? (Indecisa — Ilhéus) RESPOSTA: Tudo se resolve com calma, filha. Raciocine:

abandoná-lo agora seria destruir toda a possibilidade de um lindo futuro para sua irmãzinha; esperar que ela cresça também não é aconselhável, pois se ele está interessado pela sua irmã, agora que ela tem catorze anos, o que não fará quando ela completar dezesseis? O seu caso só tem mesmo uma solução: procure saber se seu noivo tem um irmãozinho menor, espere ele também crescer, e quando todos já estiverem adultos, então qualquer resolução será satisfatória para todos, e tudo ficará em família.

CARTA: Tenho dois namorados que venho revezando há mais de quatro anos. Mas os dois descobriram tudo e exigiram que eu decidisse: um ou outro. Que faço? Não sei qual escolher. (Sapeca — Quati) RESPOSTA: Tenha calma, filha, vamos analisar o seu caso com o cuidado que ele merece. Se você tiver de escolher um dos dois, ficará arrependida de qualquer maneira — pois viverá pensando sempre que deveria ter escolhido o outro: a dúvida a atormentará o resto da vida. Só há, portanto, uma solução: brigue com os dois. E logo em seguida arranje outros dois.

9

ASSINATURAS DO AUTOR

9 ASSINATURAS DO AUTOR se exibindo para efeito de bilheteria diante do espelho resfriado com juros

se exibindo

para efeito de bilheteria

diante do espelho

resfriado

com juros de 10% a.a

no tombadilho

homenageando G.B.S.

com falta de ar

no hipódromo

às pressas

no fim do mês .

no túmulo

emocionado

no testamento

no escuro

nos contratos .

com tosse

homenagem a Soraya no álbum de discos por baixo na correspondência com desconto na polícia

homenagem a Soraya

no álbum de discos

por baixo

na correspondência

com desconto

na polícia

pelos amigos

dedicado ao Lion's

só para mulheres

dando autógrafos

no Maracanã

com a batuta na mão

de perfil

se despedindo

10

A VERDADE É UMA SÓ:

TODO MUNDO MENTE

O

OTIMISTA: "OS últimos serão os primeiros".

O

DELEGADO: "Tomaremos providências".

O

CHEFE DE REPARTIÇÃO: "Um momento".

O

DEVEDOR: "Amanhã, sem falta".

O

SAPATEIRO: "Depois alarga no pé".

O

ALFAIATE: "Depois de amanhã o terno fica pronto".

O

MECÂNICO: "É O carburador".

O

ANFITRIÃO: "Ainda é cedo".

O LOCUTOR DE TV: "E até a próxima semana, neste mesmo horário".

O

ORADOR: "Apenas duas palavras".

O

JOGADOR DE FUTEBOL: "Tudo faremos pela vitória".

O

DENTISTA: "Não vai doer nada".

O

INIMIGO DO MORTO: "Era um bom sujeito".

O

NAMORADO: "Você foi a única mulher que eu realmente amei".

O

NOIVO: "Casaremos o mais breve possível".

O

RECÉM-CASADO: "Até que a morte nos separe".

A

SOGRA: "Em briga de marido e mulher não me meto".

A

TIA: "OS homens são todos iguais".

A

AVÓ: "No meu tempo as coisas eram muito diferentes".

O

DIVORCIADO: "Noutra que eu não caio".

O

DESQUITADO: "O pior são os filhos".

A

GESTANTE: "Nunca mais terei outro filho".

O

BÊBEDO: "Sei perfeitamente o que estou dizendo".

O

SUICIDA: "Perdoe o meu gesto".

O

VICIADO: "Essa vai ser a última".

O CRÍTICO DE CINEMA: "Bom, no gênero".

O

ALPINISTA: "Esta escalada é uma barbada".

 

O

ANÚNCIO DE JORNAL: "Vendo por motivo de viagem".

 

O

POBRE:

"Se

eu

fosse

milionário

espalhava

dinheiro

todo

mundo".

O

QUITANDEIRO: "Pode levar em confiança que a laranja é doce".

 

O

CANDIDATO: "Se eu for eleito endireito esta cidade".

 

A

DESILUDIDA: "Não quero mais saber de homem".

O

PRODUTOR DE

CINEMA BRASILEIRO:

"O

que

O

público quer é isso mesmo".

11

Leve minha filha, se quiser, mas se voltar no próximo episódio, juro que te

carrego nas costas quinze anos de

Corta, corta! Corta o jacaré, imbecil, que a cena já foi cortada há mais de dez

Cochilei com o cigarro na mão, quando acordei tinha fumado até o cotovelo.

Vá andando na frente, mulher: se alguém mexer com você te dou mil pratas.

Se esse jato correr mais um pouco, chegaremos hoje no avião de amanhã.

Descruze as pernas, menina, que você não está no escritório!

Os passageiros vão me desculpar, mas o freio está falh

Garção, me traz outra mosca que essa morreu afogada.

Sair da rotina é duro, sei por experiência:

APENAS FRASES

originalidade.

minutos!



mato!

PARA LER DEITADO

O que me preocupa é só uma coisa: se o tiro falhar, minha vítima virá aqui, pessoalmente,

— Inclua no envelope a cópia de carbono; faço questão que ele leia esta carta duas vezes.

— Dexas experiênxas nunca max eu faxo: veja xó como ficou a minha boca!

O homem se casa para vencer a solidão. A mulher, para ficar só. O homem se casa por constrangimento. A mulher, por desespero. O homem se casa para ser marido. A mulher, para ser mãe. O homem se casa para ficar em casa. A mulher, para sair. O homem se casa por descuido. A mulher, por precaução.

OS CINCO MOTIVOS BÁSICOS DO CASAMENTO

— Essa lente é muito boa; o preço foi aumentado por ela?

trocar este revólver.

5.

1.
2.

3.
4.

PSIQUIATRIA

Psiquiatra é um sujeito cercado de complexos por todos os lados.

Muitos psiquiatras, depois de tanto estudarem, acabam recalcados.

É que não conseguem nenhum cliente. Quando dois psiquiatras estão conversando, a gente fica sempre

querendo adivinhar qual dos dois é o paciente.

O psiquiatra é um teimoso profissional, porque só quer saber de

nós aquilo que nunca lhe revelaremos. Consultório de psiquiatra é a "sala de visitas" das grã-finas do society. Mas elas só revelam a vida íntima das amigas.

Psiquiatra nortista não usa diva, usa rede.

Existem psiquiatras que são tão procurados pelos clientes que acabam sofrendo de mania de perseguição.

O bom psiquiatra não tem complexos: cobra uma fortuna sem o

menor constrangimento.

O pior é que a gente começa a ir a um psiquiatra para se livrar de

certas manias e acaba adquirindo a mania do psiquiatra.

TIPOS

Há dois tipos de bebidas: a que a gente traz pra casa e a que traz a gente. Há dois tipos de discos: o que a gente só ouve de um lado e o que

a gente só ouve do outro. Há dois tipos de esposas: a que arruma a casa e a que se arruma. Há dois tipos de restaurantes: o em que a gente come e depois vai deitar e o em que a gente come e deita lá mesmo. Há dois tipos de políticos: o que é eleito e o que se elege. Há dois tipos de fotografias: a que sai como a gente é e a que sai como a gente gostaria de ser. Há dois tipos de gravatas: a que a gente compra e a que a gente ganha no aniversário. Há dois tipos de bêbedos: o que vê dobrado e o que não vê nada. Há dois tipos de conquistadores: o que namora e depois não casa

e

o que casa e depois namora. Há dois tipos de cinzeiros: o que a gente apanha na casa dos outros

e

o que os outros apanham na casa da gente.

Há dois tipos de mulheres: a nossa e a dos outros. Há dois tipos de televisão: a que a gente só vê e a que a gente só ouve. Há dois tipos de filme brasileiro: o que acaba mal e o que mal acaba.

O FIM

A última vez que viu o amigo, ele estava examinando o cano, e o

amigo, o gatilho.

A última vez que viu o seu navio foi quando tentou tirar uma

mancha do torpedo.

A última vez que viu o patrão foi quando o surpreendeu beijando a

secretária.

A última vez que viu um incêndio foi pelo lado de dentro.

A última vez que viu um avião foi justamente a primeira que viu

um rochedo.

A primeira vez que visitou um necrotério foi a última.

PIADINHAS À MINUTA

Casada para outra: "Não sei o que fazer. Meu marido deu pra

chegar pontualmente em casa". Adolescente para a namorada: "Você não tem nada pra fazer hoje? Então não vamos fazer nada juntos". Agiota para a esposa: "Viajarei 880 000 cruzeiros e só voltarei 5% mais tarde". Tarzan de Hollywood gritando para o diretor: "Vou desistir do cinema; estou farto de trabalhar com animais". Padre chileno para casal chileno numa igreja do Chile: "Até que o

terremoto vos

Senhora advertida pelo guarda, depois de avançar o sinal: "Vi o

sinal, sim senhor; o que não vi foi o senhor". Louco para outro louco: "Desconfio que o nosso médico já está ficando bom".

."

Dom Juan para outro Dom Juan: "A qualidade que mais aprecio nas mulheres é a infidelidade. Não fosse isso e eu estaria sempre sozinho". Freguês no restaurante: "Garção, leve este bife. Está tão mal passado que mal lhe encosto a faca ele começa a gemer". Noiva para o noivo, em Monte Cario: "Só casarei com você com comunhão de fichas!"

12

A MESMA PIADA

PRA LER NO AVIÃO

Antes de mais nada, apague o cigarro, aperte o cinto: o avião vai decolar. Não digo para abrir o livro porque você foi mais ligeiro que eu e já abriu, senão não estaria lendo este capítulo. De qualquer modo, faça aquela pose de displicência que está habituado a fazer sempre que viaja de avião e comece a ler. Aí vai:

Joãozinho era um menino muito travesso. Toda vez que matava a aula dizia pra sua mãe que o professor tinha faltado (agora disfarce com classe e dê uma olhadinha pela janelinha pra ver se o motor não está parado. Está? Então verifique se o avião não está parado. Está? Que vergonha, e você não percebeu que ainda está em terra! Disfarce

bastante, vire os olhos para o livro e depois a cabeça, lentamente, para não dar a idéia de que você quis verificar se estava tudo em ordem, pois afinal de contas esse não é o seu serviço e sim da aeromoça. Erga

a cabeça com dignidade, baixe as pálpebras, finja um rápido cochilo,

feche o livro como quem quer dar a entender que só gosta de ler quando o avião está no ar, isso lhe dá assim um aspecto de autoconfiança, de superioridade do homem sobre a máquina e, principalmente, sobre os outros passageiros. O azar é se tiver outro passageiro lendo também este livro, neste capítulo, aí não há disfarce que resolva: verifique). Mas como eu dizia, Joãozinho dava sempre desculpas em casa. Sua mãe não acreditava muito nesta história do professor faltar, e por isso, raro era o dia em que — como era mesmo

o nome dele? — não ficava de castigo (um momento: eu perguntei

como era o nome dele justamente porque achei que você não estava prestando atenção na história; confesse, você está mais preocupado com a decolagem do avião do que com o destino de — afinal lembrou-se do nome do menino? Que diabo, você é medroso, mas não dá o braço a torcer. As estatísticas estão fartas de lhe demonstrar que viajar de avião não há perigo, e é considerado, mesmo, o transporte mais seguro do século. Pronto: nessa altura o avião já deve estar nas

nuvens, e você quer ou não quer que eu continue a contar a história do Joãozinho — ah! lembrou-se do nome dele ou só se lembrou depois que eu escrevi de novo? Mas isso não importa, vamos à história. Bem, você já sabe que Joãozinho mata aula e que a mãe dele o punha de castigo, então agora faça um esforço e leia até o fim, quando você deverá esboçar um sorriso, sorriso esse que lhe valerá como um atestado de coragem, ou, para não ir tão longe, de displicência, ou mais exatamente, de indiferença. Só o fato de você ler e sorrir dentro de um avião, em pleno espaço, lhe dá um mérito muito maior que o da própria companhia, uma vez que seu esforço para fingir que não está no ar é muito maior do que o do avião para se conservar nele). Um dia, a mãe de Joãozinho o pegou em flagrante matando passarinho no quintal; correu para o calendário e verificou que não era domingo, não era feriado, não era dia santo, não era ponto facultativo e nenhum presidente estava visitando o Brasil. Pegou o chinelo, correu pro quintal e gritou: "Joãozinho, já pra dentro, que hoje não é dia de matar passarinho!" Você não achou graça? Então finja que. Lembre-se do que lhe disse: um sorriso nos lábios já é meio caminho andado. Pode olhar pra baixo: é ou não é?

PRA LER NO BONDE

Joãozinho era um menino muito travesso. Toda vez que matava aula dizia pra sua mãe que o professor tinha faltado. Acontece que a mãe de Joãozinho não acreditava muito nessa história e quase todo dia botava o Joãozinho de castigo. Um dia (ora, francamente, não vai dizer que está tão interessado na história que ainda não ouviu o condutor gritar "faz favor" mais de dez vezes. Não custa interromper e pegar os cinco cruzeirinhos, eu não vou fugir, não, e mesmo que fugisse a história já está escrita, vamos, pague logo e não fique aí lendo essa lengalenga toda, que enquanto você não pagar eu não conto o resto. Está vendo? Agora vem com essa desculpa que tem de saltar aí, não é? Golpe manjado, muito mais manjado do que esse de fingir que está lendo. Já estou até me sentindo seu cúmplice. Com licença, não conto mais nada. Salte, agora, por sua conta. Mas não pense que vai ler o resto da história em casa, isto não, que eu vou saltar aqui mesmo — e com o bonde andando).

PRA LER NO ÔNIBUS

Joãozinho (opa) era um menino (quase, hem?) muito travesso. Toda vez (não foi nada, só um arranhão) que matava aula (poste miserável!) dizia pra sua mãe (já é o terceiro pedestre que escapa) que o professor tinha (esse agora teve azar, coitado) faltado. Mas a mãe de Joãozinho (ih, essa batida foi feia, vamos ver qual vai ser a desculpa do motorista. Ué, ele fugiu pela janela, e agora, de quem vai ser a culpa? De fato, eu sei que você quer ler, mas vai ser difícil no meio desse tumulto todo. Desculpe a observação: mas já reparou se você está inteiro? Não custa verificar: essa mão que está segurando o livro pra você é sua mesmo? Tente fazer um movimento. Não disse? Bem, vamos deixar essa história do Joãozinho pra outra ocasião. Feche o livro se puder, e caia fora, senão vão lhe pegar pra testemunha e ninguém vai acreditar que você estava lendo e que não viu nada. Cuidado: você ia esquecendo sua mão em cima da poltrona. Ah, não era sua? Vai ver que é daquele maneta que está saindo de mansinho

PRA LER NO WC

Joãozinho (isso você já deve saber) era um menino travesso. Toda vez que matava aula (isso também você já deve saber) dizia pra sua mãe que o professor tinha faltado. A mãe de Joãozinho (isso você também está farto de saber) não acreditava muito nessa história e quase todo dia botava o (parece que estão batendo, pode responder:

— Tem gente! Agora o melhor é sair logo, deve ter alguém com muita vontade de ler a história do Joãozinho).

PRA LER NO JATO

Joãozinho (ué, já chegamos?).

13

HUMOR CONCRETO

SECRETARIA

ARQUITETURA

Prezado

Pedra

Senhor

Sobre

Pela

Pedra

Presente

Sobre

Tenho

Pedra

o

1." andar

Prazer

Pedra

De

Sobre

Ui !

Pedra

Sobre

Pedra

2." andar

Pedra

Sobre

POESIA MODERNA

Pedra

Sobre

Pedra

3.° andar

Pedra

Sobre

MULHER

DELICADEZA

Pedra

Não!!!!!

senhor primeiro

Sobre

Não!!!!

Primeiro o senhor

Pedra

Não !!!

O senhor primeiro

4." andar

Não !!

Primeiro o senhor

Depois

Não !

O senhor primeiro

Tudo

Não

Primeiro o senhor

Cai

Então

N

Passam os dois

?

TOURADA

O PERNETA

Olé !

Poema triste com "toc” de humor

Olé !

Toc

Olé !

Toc

Olé !

Toc

Olé !

Toc

Olé !

Toc

Oié !

Toc

Ahhh !

Toc

MAMBO

Toc Toc Toc Toc

Passinho pra lá

PUGILISTA

Passinho pra cá

Um

Passinho pra lá

Dois

Passinho pra cá

Três

Passinho pra lá

Quatro

Passinho pra cá

Cinco

UUUUUUHHHH !

Seis

Sete

Oito

Nove

DEZ!

FILA DE CINEMA Anda Para Anda Para Anda Anda Anda Anda Anda Anda Anda Anda
FILA DE
CINEMA
Anda
Para
Anda
Para
Anda
Anda
Anda
Anda
Anda
Anda
Anda
Anda
Anda
Para!
Lotação
esgotada

BRASÍLIA

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JK

JK

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JK

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JK

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JK

JK

Jato

JatÔ lá

CRUZEIRO

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cr$ cr$

POEMA CONCRETO (ARMADO)

C

L

C O

 

QUARTO

ALICERCE

P

G

M

R

D

A

5

E

E

INCORPORAÇÃO

N

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SALA

PROJETO

G C

M

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I

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M

O

BANHEIRO

T

COZINHA

POEMA CONCRETO (DESARMADO)

Pum

Pum Pum

Pum Pum

Pum

Acabaram as balas.

M E I E M O BANHEIRO T COZINHA POEMA CONCRETO (DESARMADO) Pum Pum Pum Pum

ENCONTRO COM MULHERES

ENCONTRO COM MULHERES

TURFE

TURFE
TURFE
TURFE

13 A

MULHER UM CAPÍTULO À PARTE

A MULHER CUSTA UM "SIM" DE ENTRADA E VÁRIOS

"QUERO MAIS" A LONGO PRAZO

Quando um homem pede a mão de uma mulher, raramente ele pode imaginar quanto vai lhe custar ó resto. Sim, porque a mulher só se acha realmente mulher quando mergulha numa porção de substâncias que, segundo ela, lhe dão o chamado "toque final". Assim, se colocássemos uma mulher num laboratório, para uma análise minuciosa, separando todas as substâncias, certo é que de mulher mesmo, pouco sobraria; o excesso seria o relógio de pulso,

pulseirinha, figuinha, figuinha maior, figuinha pouco maior, figa propriamente dita, figa grande, figa enorme, anelzinho de pedra falsa, anelzinho de pedra verdadeira (sem a pedra), broche, colar, meia transparente, cinta, sutiã, anágua, calcinha, sapato, batom; xampu, grampos, cilion, creme facial, ruge, pó de arroz, perfume, piteira, água-de-colônia, esmalte, luvas, caderninho de telefone, isqueiro, cigarros, lencinhos, ligas e uma bolsa bem pequenina — onde ela consegue meter tudo isso. Como se vê, de mulher mesmo só restam 10%. Uma mulher completa, hoje em dia, custa uma fortuna; mulher simples é mais barato, mas ninguém vai querer sair desfilando por aí com apenas 10% de mulher — isso até dá impressão de que se deixou o resto no prego.

O grande erro do homem, portanto, é chamar de "cara-metade" o

outro pedaço que ele escolhe para ser sua companheira: o certo mesmo é "cara-dobro", porque daí em diante é que ele vai passar a gastar

exatamente o dobro do que gastava em solteiro. Mas infelizmente o homem não pensa assim, pois o serviço de "relações públicas" da mulher é dos mais perfeitos do mundo. Ela passa o dia inteiro convencendo o homem que, se ele casar com ela, reduzirá pela metade

todas as suas despesas: "Onde come um, comem dois", diz ela — mas sempre esquece de dizer que o prato dele será dividido com ela e ele passará a comer apenas meio prato no almoço e meio prato no jantar. A habilidade da mulher chega a tal ponto, que ela não se cansa de frisar que dará uma excelente "dona de casa". Vai daí, que o homem acredita mesmo, e na hora de assinar o contrato do "até que a morte nos separe", ela impõe a cláusula da comunhão de bens. Depois, ao menor pretexto, brigam e se separam e, geralmente, cabe à mulher receber uma casa — justamente quando ela vem provar o que sempre disse: que daria uma excelente dona de casa.

A

MULHER

NÃO

SE

CONFORMA

QUE

NINGUÉM

CONFORME COM A SUA IDADE

SE

Vê se pode: aos 15 anos, a mulher fica louquinha pra crescer e poder ver os filmes "impróprios pra 18 anos", mas quando faz 18 não quer saber de cinema porque já começou a freqüentar boate. Aos 16 anos, a mulher diz pro namorado que já tem 21, mas quando chega aos 21, faz tudo pra que ele pense que ela tem só 16. Aos 17 anos, a mulher jura que a coisa melhor do mundo é dançar, mas já aos 20 não compreende como perdeu tanto tempo dando passinhos-pra-cá-passinhos-pra-lá e decide casar, por isso para o dia inteiro esperando o noivo — passinhos-pra-cá-passinhos-pra-lá. Aos 18 anos, a mulher começa a preocupar todo mundo e só se preocupa consigo mesma se não conseguir preocupar ninguém. Aos 19 anos, a mulher começa a alimentar idéias de "ser independente", porque isso de se sujeitar aos pais já está ficando irritante, por isso arranja logo um emprego — e passa a se sujeitar só ao patrão. Aos 21 anos, a mulher percebe que é tempo de comemorar menos aniversários, e se puder suprimir um de dois em dois anos, já leva uma vantagem: só ficará balzaca aos 39. Aos 25 anos, que em verdade já são 29, a mulher insiste em tomar atitudes infantis, para que todos pensem que ainda é muito jovem, mas o máximo que consegue é que a achem uma retardada mental. Aos 28 anos, se a mulher tiver um filho, é considerada "muito moça"; se não tiver "já está ficando velha".

Aos 30 anos, que como ficou matematicamente provado são 39, a mulher resolve usar a cabeça (pela primeira vez fora do cabeleireiro) e decide pensar no "futuro", quando, em verdade, ela já está no futuro

há muito tempo.

Aos 35 anos, que de fato são 50, a mulher se convence disso — pois não consegue convencer mais ninguém, e resolve fazer 15 anos de uma tacada só, equilibrando assim a sua conta corrente de idade:

agora, sim, ela tem realmente a idade que aparenta.

Aos 60 anos, a mulher entra na chamada "fase da fotografia", isto

é, reúne as amigas em casa pra mostrar as fotografias do tempo em

que era moça. Aos 70 anos, a mulher leva tudo a sério e não admite brincadeiras, por isso mesmo, paro aqui.

MAIS VALEM DOIS CARROS NA CONTRAMÃO DO QUE UMA MULHER NA MÃO

Mulher dirigindo é a coisa mais displicente do mundo. Mais displicente do que ela, só mesmo o examinador que lhe deu a carteira de motorista. E só porque tem carteira, a mulher passa a dirigir por auto-sugestão, isto é, se lhe deram carteira, é porque acharam que ela sabe dirigir. E ela se compenetra disso de tal maneira que sai por aí dirigindo, não o seu carro, mas o trânsito todo. Por exemplo: mulher nunca sabe qual o sinal que dá passagem, se

o verde, o vermelho ou o amarelo. Ela pára e anda por simples

intuição: alguma coisa no seu íntimo lhe diz que se o carro da frente andou ela também deve andar, se o carro da frente parou ela também deve parar. Só que a maioria das vezes ela pára em cima do outro. A gente nunca sabe por que a mulher põe o braço pra fora do carro: se pra secar as unhas, bater a cinza do cigarro, mostrar as jóias, dar adeusinho para alguma conhecida, virar à esquerda, virar à direita, seguir em frente ou parar. Em verdade, ela mesma também não sabe, e

só se convence que estava com o braço pra fora porque as testemunhas

do desastre lhe garantem isso, depois. Mulher tem espírito prático, isso tem. De fato, deve ser inútil esse negócio de usar freio; ela usa mesmo é o pára-choque do carro da frente.

Preste atenção, toda vez que o trânsito pára mais de meia hora, não pode ser outra coisa: tem mulher colocando carro na garagem. E toda vez que há um desastre, tem mulher metida no meio — se ela não estava dirigindo, estava atravessando a rua. Grande parte dos acidentes de tráfego verificados com mulher são devidos à sua vaidade: ela pensa que espelhinho é pra se ajeitar toda vez que o vento desmancha os seus cabelos.

A mulher não tem problema de estacionamento, porque nunca

procura vaga para estacionar: ela mesma faz a sua vaguinha entre dois carros.

Mas numa coisa a mulher leva vantagem sobre os homens, quando dirige: é incapaz de correr a mais de 120 — e por isso mesmo, quando

o ponteiro chega a 110, ela não tira mais os olhos do velocímetro.

O HOMEM INVENTOU O SUICÍDIO, MAS A MULHER SE

DÁ MUITO BEM COM A TENTATIVA

A mulher é a maior "chantagista sentimental" que existe no

mundo. Para obter o que quer, usa e abusa de todos os recursos que

possam amolecer o chamado coração duro masculino. E, geralmente, não só amolece como até derrete, porque os seus métodos se aperfeiçoam cada vez mais: o "está tudo acabado" da noiva, o "vou

pra casa da mamãe" da esposa e o "te dou um tiro na cara" da amante, se ainda surtem efeito, é, convenhamos, um efeito muito relativo. Segundo estatísticas especializadas, a mulher moderna que se preza apela para a mais recente conquista do seu sexo: a tentativa de suicídio. Assim, não há mulher que resista a esse novo processo de conseguir as coisas: além de emocionante é, inclusive, muito variado,

e a mulher se sente perfeitamente à vontade. Por exemplo: antes de

tomar sua decisão final, a mulher pára para refletir (refletir é força de

expressão, porque mulher só reflete mesmo é no espelho): ela tem uma série interminável de processos que lhe permitem o luxo de

escolher entre "cortar os pulsos", "abrir o gás", "ingerir formicida", "atirar-se pela janela", etc. Há — isto é evidente — uma certa correlação entre o processo de tentativa escolhido e o motivo pelo qual ele é escolhido. Segundo a já consagrada "intuição feminina", para a reconquista do noivo perdido,

o melhor processo é mesmo "cortar os pulsos". Para isso, usa-se uma

gilete bem limpinha (para evitar infecção), dá-se um talhinho bem ligeiro e corre-se para a vizinha, onde se simula um desmaio. Está na cara: a primeira coisa que a vizinha faz é telefonar para o noivo e, logo em seguida, para o pronto-socorro. Se o noivo chegar primeiro que a ambulância, a "pobre e infeliz vítima" está salva.

O método de "abrir o gás" é, de todos, o mais suave — mas não é

usado com freqüência porque a pseudovítima nunca sabe se terá forças de desligá-lo, caso ninguém apareça em seu socorro. Ainda assim, a mulher mais medrosa o utiliza, tendo antes o cuidado de quebrar discretamente o vidro da janela, por onde deverá escapar o gás. Ela escapa mesmo pela porta. "Ingerir formicida" é geralmente usado para os chamados "pactos de morte": a mulher, farta de suportar tanto sofrimento, consegue convencer o seu amado de que a melhor solução para o seu caso (deles) é repousarem o sono eterno. Vai daí, trancam-se num quarto, enchem um copo de guaraná para cada um e bebem. A mulher sempre se arrepende, na hora de tomar o seu — mas já é tarde, porque o infeliz do homem emborcou direto. Mulher que se atira pela janela, pra valer, só salta do último andar. Mas como é apenas tentativa, o melhor mesmo é o primeiro e, de preferência, na grama, que alivia a queda. Só em casos excepcionais ela deve se atirar do segundo, isto se o seu noivo morar no apartamento de baixo: se ela conseguir cair na sua varanda, a reconciliação é certa. A não ser que ele não esteja em casa. Mas isso não quer dizer nada, é só deixar passar uma semana e tentar de novo. O que é preciso é muito cuidado e pouca afobação. Certas mulheres, que fazem a exceção da regra, exageram na dose e o máximo que conseguem é um bonito caixão.

A MULHER SABE QUANDO, QUANTO E COMO USAR A

CABEÇA

Ninguém entende a mulher; nem outra mulher. É esquisito: muitas vezes, uma mulher, de longe, parece interessante, chega perto, não é; outras vezes é desinteressante de longe, chega perto é interessante — e quando coincide (o que é raro) ser interessante de longe e de perto, entra num concurso de misses e perde. A vida da mulher se divide em duas fases: antes e depois de qualquer coisa (não se precipitem que eu chego lá). Por exemplo:

antes e depois de se vestir, antes e depois de se pintar, antes e depois de desfiar sua meia, antes e depois de receber um telefonema, antes e depois de ir ao cabeleireiro, antes e depois de noivar, antes e depois de casar, antes e depois de ter um filho, antes e depois de ver a lua. Como se vê, fase é o que não falta pra mulher se dividir. E muitas se dividem de tal maneira, que conseguem manter dois namorados ao mesmo tempo, sem que nenhum dos dois saiba — embora todo mundo co- mente ("todo mundo", aí, são as outras mulheres). Algumas correm, inclusive, o risco de marcar encontro com os dois na mesma hora e no mesmo lugar, e comparecem com a maior calma deste mundo, sem que nada de anormal aconteça — pois a chamada "intuição feminina" lhes diz exatamente que podem ir sem susto, porque um dos dois vai faltar. Qual, elas também não sabem, que a sua "intuição" não chega a tanto, mas que um vai faltar, disso elas não têm dúvida: e vão ao encontro justamente por isso, para saber qual o que faltou — porque curiosidade de mulher nunca é passada para trás. Como se vê, mulher raciocina até pelos cabelos — ou principalmente. Por isso mesmo é que ela passa a maior parte do tempo no cabeleireiro, onde tem tempo de sobra pra arquitetar os seus planos e, se possível, destruir os de suas amigas mais ligadas (ligadas ao secador, é claro). E enquanto muda exteriormente de fisionomia, vai mudando também interiormente. Aliás, quem está certo é o cabeleireiro: "A senhora vai sair daqui inteiramente outra". De fato, assim que ela sai do cabeleireiro, sai tão outra que não reconhece mais ninguém. E isso lhe facilita viver duas vidas: quando sai de casa, que é ela mesma, e quando sai do cabeleireiro — que passa a ser imediatamente "a outra".

A MULHER SÓ QUER O QUE OUTRA MULHER DIZ QUE

TAMBÉM QUER

A mulher tem hábitos verdadeiramente estranhos, capazes de enlouquecer qualquer pessoa um pouco mais equilibrada. Por

exemplo: não pode ver vitrina que pára logo pra olhar. Quer saber das novidades, quer saber dos preços, quer ver qual a cor que está na moda. Até aí, nada de mais.

O pior é que a mulher entra na loja.

Até aí, também, nada de mais: depois de examinar a mercadoria com os olhos, ela quer u senti-la" com os dedos. Sobe caixa, desce

caixa, abre gaveta, fecha gaveta, pede vários tamanhos, experimenta, olha no espelho, joga pra cima, larga no chão, pisa em cima, amassa com as mãos, cheira e depois devolve. Até aí, nada de mais.

O pior é que a mulher pede outra coisa.

Mas até aí, também, nada de mais: se não gostou de uma coisa, é possível que goste de outra. Vira daqui, mexe dali, anda pra lá, volta pra cá, pára, olha pra todo mundo pra ver se todo mundo está olhando

pra ela. Está. Então pergunta a um por um qual a sua opinião, se não acha que fica bem assim, se outra cor não lhe assenta melhor do que aquela, se acha que vai encolher, se não vai esticar; depois discorda de todos e devolve tudo de novo. Até aí, nada de mais.

O pior é que a mulher continua na loja.

Mas até aí, também, nada de mais: é possível que ela não tenha encontrado o que deseja, mas quem sabe ela acabará gostando de alguma coisa que outra freguesa esteja examinando? Exatamente isso:

.começa logo a dar palpite na mercadoria da outra, puxa daqui, puxa

dali, rasga daqui, rasga dali, discute, empurra. insiste, desiste, torna a insistir, torna a desistir, e quando a outra desiste definitivamente ela sorri vitoriosa e manda embrulhar. Até aí, nada de mais. O pior é que, depois que a outra vai embora, ela manda desembrulhar e diz que também não gostou. Mas até aí, também, nada de mais. Se a outra desistiu da mercadoria por que é que ela também não pode desistir? Seria um absurdo muito grande ela ter de comprar uma mercadoria "rejeitada", um "encalhe", isso nunca! E por isso mesmo vai embora. Até aí, nada de mais.

O pior é quando ela volta pra loja e manda embrulhar tudo. E,

infalivelmente, meus amigos, a experiência da vida nos ensina: mulher sempre volta.

MULHER

VERDADES

QUE

SE

PREZA

NÃO

MENTE:

INVENTA

Enquanto o homem inventa foguetes para ir à Lua, a mulher inventa macetes para viver na Terra. Sua capacidade inventiva a coloca entre os seres mais evoluídos do mundo, incluindo nisso o próprio homem, ou melhor, alguns homens, ou mais precisamente: o seu marido. Desde a maçã de Eva, até os tempos de hoje, que a mulher não dá tréguas à sua mirabolante imaginação, criando, com a sua inesgotável

fonte de sagacidade, algumas das mais engenhosas invenções da humanidade, como o "bolo", a "tia", o "dentista", a "irmãzinha menor", o "telefone enguiçado", o "extravio", a "cabeça lavada" — e até mesmo o "etc."

O "bolo" foi inventado para as situações difíceis. Para evitar o

outro bolo, o posterior, cujas conseqüências ela não pode prever, usa o primeiro.

A "tia" foi inventada para casos de doença, onde a mulher vai

repousar. Mulher que passa o dia na casa da "tia" não é vista por ninguém, mas em caso de desconfiança a "tia" é o mais perfeito álibi

que se possa imaginar. O "dentista", que hoje evoluiu e tentou tomar o nome de odontologista, mas que não pegou, porque a mulher que passa a tarde toda na rua nunca vai ao odontologista, mas sim ao dentista, entre outras coisas, tem a vantagem de tratar dos seus dentes.

A "irmãzinha menor" serve de pretexto, não só para evitar certos

abusos de certos cavalheiros cuja companhia ela adora para levá-la ao cinema, como inclusive para chegar cedo em casa, deixar a irmãzinha — e sair de novo com o abusado de quem ela gosta.

O "telefone enguiçado" não passa de um telefone bom que a

mulher põe fora do gancho e vai pra casa da vizinha receber os telefonemas que lhe interessam — e só assim fica livre daquele "noivo chato" que lhe telefona diariamente e não decide coisa nenhuma. No dia seguinte, ela toma a iniciativa de reclamar do noivo a falta de con- sideração, pois ela de cama, sem poder levantar, e ele nem sequer deu um telefonema — e não adianta explicar coisa nenhuma, porque essa história de dizer que o telefone estava ocupado é uma chapa muito batida, "pode perguntar pra vovó, que ficou ao meu lado a noite inteirinha e ninguém nem pegou no telefone", e o noivo, com- pletamente desmoralizado, encontra a saída do "então o seu telefone

estava enguiçado" — e isso ainda rende uma cestinha de flores.

O "extravio" é o invento mais genial dos últimos anos porque

antes mesmo do homem inventar o correio, já ela — a mulher — havia bolado o "extravio". Só assim ela pode ir à praia, ao cinema, à sorveteria, à costureira, à manicure, não lhe sobrando o mínimo tempo para escrever uma cartinha ao namorado que está fora — e por mais que um homem conheça uma mulher, não resta dúvida que ele conhece muito mais o correio. A importância do "extravio" na vida de uma mulher é tão grande que as estatísticas acusam anualmente um grande índice de "juventude extraviada".

A "cabeça lavada" é um pretexto pra mulher não sair e passar a

noite jogando biriba com as amigas. Mulher que lava a cabeça todo

dia, não tenha dúvida: é viciada em jogo.

A MULHER NÃO TEM A IDADE QUE APARENTA: TEM A

IDADE QUE NOS CONVENCE APARENTAR

Uma das coisas que mais preocupam a mulher é a idade, não só a sua (dela) como — e principalmente — a de suas amigas. Em verdade,

não há mulher que se conforme em saber que sua amiga tem menos idade do que ela; e como a amiga também não se conforma em ter uma amiga com menos idade, já se pode calcular a luta de ambas para ficarem cada uma mais moça do que a outra. Como, não importa; o que importa é que todas as outras acreditem nisso.

A natureza inventou vários recursos para envelhecer a mulher; um

deles — e o mais forte — é o Tempo. Contra esse é que se trava a verdadeira luta da mulher, que não se cansa de inventar antídotos que possam eliminar os poderosos efeitos do Tempo. Exemplo: a inge- nuidade, a maquilagem e a mentira. Vamos por partes. Quando a mulher vai ficando madura (e isso acontece todos os dias), recorre à ingenuidade: o fato dela fingir que não sabe de certas coisas lhe dá assim um ar juvenil. Mas se ela não consegue nada com isso, além do ridículo, ou se lhe ensinam — mais uma vez — tudo o que ela já sabia, e que fingiu não saber, apela então para a maquilagem. Mas a maquilagem não dura muito, tem de ser renovada a cada instante, e numa pequena distração qualquer pessoa descobre que sob aquele fictício rosado da face e aquele falso brilho dos olhos repousam alguns anos habilidosamente suprimidos pela indústria do

remoçamento. Nada mais resta senão o recurso supremo da mentira: o jeito mesmo é enganar a data dó nascimento e, toda vez que for possível, ausentar-se da cidade no dia do seu aniversário: sem festa e sem comemoração, raramente alguém se lembra que uma pessoa cresceu mais um ano, a não ser outra mulher. Mas para essas nem uma falsa certidão de nascimento convence, porque uma sabe mais da vida da outra do que da dela mesma. Entre mulheres, o melhor processo é se juntarem todas e firmarem um acordo de honra: suprimir cinco anos de cada uma, porque assim ficam todas mais moças na mesma

proporção. E, uma vez firmado o pacto, tomar o máximo cuidado para não brigarem entre si — pois basta brigar com uma para que todas as outras cresçam cinco anos suprimidos. Isso sem admitirmos a hipótese de uma vingança, em que podem crescer de dez até quinze anos — e todo mundo acredita. Sim, porque essa história de dizer que a mulher tem a idade que aparenta é uma conversa: se tem mesmo, pior pra elas.

A MULHER NUNCA SE CANSA DE SE CANSAR DELA MESMA

No fundo, são todas iguais, porque o que querem mesmo é ser diferentes umas das outras, sem perceber que a única mulher diferente, no duro, é a que quer ser igual — mas isso é dificílimo de conseguir, porque nenhuma mulher é igual nem a ela mesma, pois muda de cinco

em cinco minutos. Querem uma prova? Reparem: a mulher acorda e a primeira coisa que faz, antes mesmo de escovar os dentes e tomar banho, é correr para o espelho para ver se está com boa aparência. Fica horas experimentando os cabelos para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita, e finalmente decide jogá-los para trás. Escova os dentes, toma banho, volta para o espelho, sente tédio da sua fisionomia: afinal de contas, ver aquela mesma cara todo o dia enjoa qualquer um. Desmancha novamente os cabelos, inventa um penteado diferente, desses que agradam os homens e desagradam as mulheres — que é que ela pode querer mais? Nada disso adianta, porque, logo depois do almoço, quando vai retocar a pintura, percebe que esse penteado também não está bom. Tenta mais uns três ou quatro e acaba perdendo a paciência: liga para o cabeleireiro e marca hora. Afinal, o que ela queria mesmo era um pretexto para ir ao cabeleireiro saber das novidades. O cabelo é o que menos importa; tanto assim que pede para pintá-los de louro, e quando o cabeleireiro se espanta, dizendo que os seus cabelos já estão louros, ela olha no espelho, finge um ar de

espanto e diz: "Oh, meu Deus, como sou

Então pinta de

." À noite vai a uma boate exibir o novo penteado, mas acontece que

preto

as amiguinhas que encontra não a vêem há apenas dois dias e "

dança, corre para o toalete, fica meia hora estudando uma cor que não

seja nem loura nem morena, volta pra mesa, inventa um pretexto pra ir

exclamam surpresas: "Ué, você continua morena?

Ela interrompe a

pra casa porque isso de ficar numa boate sem chamar atenção não interessa. Ninguém entende coisa alguma, a não ser as amiguinhas, que, como ela, conhecem também o problema, pois passam diariamente pela mesma coisa. Em casa, não dorme, fica no espelho imaginando como ficará se fizer assim, ou assim, ou não será melhor Finalmente, vai dormir, acorda mais cedo, liga para o cabeleireiro e ele lhe diz que tem um penteado e uma cor de cabelos inteiramente novos, recém-chegados de Paris; ela corre para lá e sorri vitoriosa. Quando der de cara com as amiguinhas, logo mais, vai ser um tiro. Dito e feito, quando se encontram, ficam todas mudas: como é que pode? Não é que estão todas com o mesmo penteado?

A PARTE MAIS CARA DA MULHER ESTÁ NA CARA: A LÁGRIMA

Quando a mulher começa a chorar, não há dinheiro que chegue para fazê-la parar. Não adianta oferecer lenço, não adianta oferecer conselhos; o homem experiente sabe perfeitamente que o talão de cheques é o único mata-borrão capaz de secar os seus olhos, e mal acaba de assinar o nome, já a mulher está sorrindo. Mas o pior não é isso; é que a mulher chora sob qualquer pretexto e, muitas vezes, até sem pretexto — porque até a falta de pretexto é pretexto pra mulher chorar. Conclui-se, portanto, que a mulher chorando é cheque ao portador, daí a expressão de que a mulher custa "rios de dinheiro". Um homem pode perfeitamente dizer que vive com a sua mulher há de- zenas de Quando se pergunta à mulher por que motivo está chorando, nem ela mesma sabe; mas se lhe perguntam o que ela quer para parar de chorar, isso ela sabe. Difícil, se não impossível, é descobrir a verdadeira razão das suas lágrimas; nem mesmo Freud se aventurou a tanto, que ele não era bobo de cair no ridículo. De fato, o assunto é de- masiadamente complexo: mulher chora quando está sozinha, chora quando está acompanhada, chora quando namora, chora quando desmancha, chora quando fica noiva, chora quando casa, chora quando tem filho — se é menino, chora porque queria menina; se é menina, chora porque queria menino. Mulher não tem mais o que inventar para chorar: tira fotografia e chora porque saiu feia; quando folheia o álbum de recordações, chora com saudades do tempo em que era bonita.

No lar, então, nem se fala: se o marido não vem jantar, chora porque tem de jantar sozinha; se o marido vem, chora porque tem de cozinhar. Se o marido quer sair, chora porque quer ficar em casa; se o marido quer ficar em casa, chora porque quer sair. Se o marido a leva

ao teatro, chora porque queria ir ao cinema; se a leva ao cinema, chora

porque o filme é triste, e quando o filme é alegre chora porque queria que fosse um filme triste.

Para o choro da mulher só há mesmo uma solução: assim como já

existe o Banco de Sangue, devia haver também o Banco de Lágrimas:

o marido faria o depósito em dinheiro e a mulher sacaria com lágrimas. Era só chegar no balcão e abrir o berreiro.

13B

COMO

SE

MULHER

CONQUISTA

UMA

A MULHER AO ALCANCE DE TODOS

Pequenos truques que permitem um fulminante êxito no variado e complicado mercado feminino. Mas não esqueça que dez por cento dependem de você.

A INTELECTUAL Só faz questão de uma coisa: afinidade. Topa qualquer parada, desde um banho de mar à noite até uma viagem inesperada ao Amazonas. Despreza as poltronas para sentar-se no chão, não tem preconceito de espécie alguma, gosta de conversar pelo telefone, de madrugada, sobre Proust, Kafka, Saint-Exupéry, Carlos Drummond. Fale-lhe sempre por metáforas e lhe conquistará inteiramente o espírito. No pouco que resta, seja objetivo, mas cuidado com a colocação dos pronomes.

O BROTO

É sempre problema, quer seja para os pais, amigas, professores,

colegas. Broto que não é problema para ninguém é problema para si mesmo. Gosta de matar aula, de mascar chicletes, de decorar letras de kits, de ir à praia e freqüentar matinais de cinema. Adora passear de carro, mas não vai; adora dormir tarde, mas não dorme. Tem hora certa para chegar em casa, porque precisa acordar cedo para ir à aula. Com jeito e muita persistência, você quebra esses tabus e consegue levá-la a uma boate — mas ela leva também a mamãe.

A BALZAQUIANA

Tem quase sempre quarenta anos, mas insiste em não sair dos trinta. Tem ar de mulher experiente e faz questão de frisar isso sob qualquer pretexto, ou mesmo sem. Leva, semanalmente, a cabeça ao cabeleireiro e, diariamente, o corpo a restaurantes. Come, fuma, joga e bebe com desembaraço. Adora exibir os namorados, principalmente se são maridos de suas ex-amigas. Mostra-se exigente nos mínimos detalhes, mas a verdade é uma: o que vier, ela traça.

A FEIA

Sempre acha que é mais feia do que realmente o é, e, na maioria das vezes, é mesmo. Mas se convence, sabe-se lá como, de que é mais simpática, mais culta e mais desembaraçada que todas as mulheres. Faz questão de dizer que a amizade é mais importante que o amor, e está sempre cercada de amigos. Nunca participa de um concurso de beleza, mas comparece a todos, para dar a sua opinião. De qualquer forma, mulher feia é um perigo; a prova é que todas casam. Se você facilita pode ser o marido, já pensou?

A GRÃ-FINA

Nem sempre é rica, mas nasceu pra ser. Tem automóvel e chofer; quando não pode ter chofer, tem só o automóvel, e quando não tem automóvel, não fica bem ter só o chofer — mas às vezes tem. Freqüenta coquetéis, premières, macumbas e abertura de saison. Gosta de exposições de pintura, mas só vai quando dizem que é vernissage. Assiste a todos os desfiles de moda, mas raramente compra. Fala mal dos colunistas sociais, mas freqüenta suas colunas e é freqüentada por eles. Não faz fins de semana, só uiquendes. Se você não está com a "bomba", desista; se está, cuidado, pode estourar.

A BONITA

Se faz de difícil, mas não existe mulher difícil; o que existe é mulher que leva mais tempo ou menos tempo.

A bonita leva mais, porque está sempre rodeada de pretendentes,

nenhum acreditando que uma mulher tão bonita possa gostar dele. Há vários processos de conquistas, mas está claro que, especialmente neste caso, não vou ensinar todos. Um truque bom é namorar sua amiga feia (e toda mulher bonita tem uma amiga feia). Ela se sentirá

tão rebaixada que dará tudo pra tomar você da amiga. Se não tomar, azar o seu.

INTERVALO

14

DO DIÁRIO DE UM (QUASE) LOUCO

Por exemplo, o porteiro do meu edifício não deixa ninguém entrar depois das 10 porque é ordem do síndico, aliás todo síndico tem complexo de ser dono e por isso toma atitudes extravagantes semelhantes às de um presidente da República, que, como o síndico, também pensa que o Brasil é seu. Mas não é e está acabado, o máximo que ele pode fazer é construir a sua brasiliazinha muito na moita, ou muito na vista, como queira, e transferir pra lá todos os problemas de cá, e enquanto não transferir ir criando outros, claro que problemas! e se vocês me interrompem mais uma vez com essa atitude de dúvida diante do que escrevo, acabo me perdendo, mas não me perco e volto ao síndico, ou melhor, ao porteiro: já imaginaram se um dia chego em casa depois das 10 e lá encontro um novo porteiro que não me conhece e não quer me deixar entrar? Como é que vou provar pra ele que moro lá se minha carteira de identidade está lá em cima, na gaveta, e ele não me deixa entrar sem que eu prove primeiro que moro lá mesmo? Das duas, uma: ou o síndico não deve mudar de porteiro sem aviso prévio ou sou obrigado a chegar pontualmente em casa, antes das 10, mas como ser pontual nesta cidade paradoxal em que a Rádio Relógio diz uma coisa e a Central diz outra, o Repórter Esso diz outra e o Padre Vasconcelos não diz nada? Relógio eu tenho, sim, mas não sei por onde acertá-lo e tenho a impressão que a televisão também não sabe, pois se soubesse não atrasava tanto, diga se não é. E se ninguém atrasasse, vocês não acham que estaria sobrando um verbo? Verbo foi feito pra ser conjugado e só se conjuga o verbo atrasar chegando tarde, seja lá onde for e principalmente, mesmo porque a pontualidade nesta cidade só existe na Hora do Brasil, que nem Hora tem mais (só tem meia), mas em compensação ganhou em voz (Voz do Brasil), que ninguém sabe porque ninguém ouve e quando ouve já checa atrasado, depois do locutor dizer o título, e daí? A solução é a gente discar pro Observatório Nacional, mas como é irritante a gente procurar o número na lista telefônica o melhor é tentar "umzerodois" só pra ouvir a telefonista mandar a gente procurar na lista. No

Observatório eles atendem e dizem o que se convencionou chamar de "hora certa" que não é tão importante assim pois não' adianta a gente ficar com a hora certa se os outros estão com a hora errada, porque aí dá na mesma, ao invés da gente chegar atrasada acaba chegando adiantada e tem que esperar do mesmo jeito. Vai daí que o remédio é fazer um apelo na Câmara para que alguém apresente um projeto para a oficialização do tempo, e bom pra isso é o tal deputado que ainda não foi eleito, mas já convenceu a todo mundo que é carioca e trabalhador, e só o fato de ser carioca já é um handicap, o que estraga um pouco é ser trabalhador, porque quem trabalha pra homem é re- lógio, por isso mesmo, dizia eu, ninguém melhor do que ele apresentar o "Projeto Relógio", que, uma vez aprovado, o relógio passaria a trabalhar pra todos nós, mas isso é quase uma utopia, não a elaboração do projeto, mas a sua aprovação, pois ninguém ignora que as nossas Câmaras estão sempre vazias, pois tanto deputados como vereadores passam a metade do mandato descansando da última campanha e a outra metade se preparando para a próxima, mas isso não quer dizer nada porque o povo compreende perfeitamente que votou justamente naqueles que mais trabalharam para convence-los e se eles tiveram esse trabalho antes é muito "juxto” que descansem depois, ainda que a palavra "justo" tenha sido escrita "juxto", contra a minha própria vontade, pois gastei um tempão estudando datilografia com os dez dedos e depois de tirado o curso comprei uma máquina de escrever com as teclas todas trocadas e como não posso trocar os dedos para aproveitar o curço (estão vendo?) o jeito é ir me adaptando à máquina, tenho culpa. me digam, tenho culpa?

15

PARA RIR NAS ENTRELINHAS

Eram cinco horas da tarde, quando ele saiu da cidade com

destino a Copacabana — e por isso mesmo não lhe seria difícil

cobrir aquele percurso de dez minutos em apenas 1 hora e 30.

Ainda assim, ficou indeciso: não sabia se devia seguir de marcha

à ré, para estar em posição adequada em caso de emergência,

ou se devia sair mesmo de frente, para evitar ver a fila dos

outros carros que lhe aumentavam cada vez mais o seu terrível

complexo de perseguição. De uma forma ou de outra, o fato é

que tinha de tomar uma atitude: o que não podia era continuar

naquela posição horizontal, atravessado no meio da rua, sem

deixar passar pra cá os carros que vinham de lá e sem deixar

pra lá os que iam de cá. Raciocinou rápido, mas não tão rápido

quanto devia vir o socorro — e mesmo que viesse não poderia

atravessar aquela massa de carros, cuidadosamente arrumada,

uns ao lado dos outros, sem haver espaço para que nenhum

deles pudesse abrir a porta. É verdade: ainda que ele quisesse

sair para telefonar para o socorro, não podia abrir a porta e

sair. Nunca lhe havia ocorrido que um simples enguiço do seu

carro pudesse enguiçar toda a sua vida. E a mulher: acreditaria

mesmo que seu carro estivesse enguiçado? Na certa começaria a

fazer perguntas das quais ele não teria saída, ou melhor, teria

menos saída do que o seu carro. Ele não sabia explicar bem

por quê, mas só pensava em helicóptero, helicóptero, helicóptero.

E daí? O pior eram as buzinas: sentia o sangue subir-lhe à

cabeça, sentia que a cabeça crescia, crescia. Tanto que talvez

nem coubesse mais dentro do carro. Fechou os vidros das janelas

para trancar a sua vergonha. Mas vergonha de quê? Acaso era

ele o culpado de seu carro enguiçar? Será que ninguém com-

preendia isso? Chegou a sentir que só o seu carro enguiçava,

o dos outros nunca. Assim que saísse dali o venderia a qualquer

preço. Sentiu ódio do carro, sentiu desprezo. As buzinas não

paravam. Apertou o botão de arranque, nada. Seu maior pavor

era que aparecesse um desses mecânicos de rua que surgem

não se sabe de onde e que começam a azucrinar os ouvidos

da gente com "carburador", "bomba de gasolina", "platinado",

'ignição", etc. Já bastavam as buzinas. Mexeu na chave, oh!

não é que estava desligada?! Ligou: deu no arranque,

o motor pegou

As buzinas pararam, como passe de mágica,

Desceu os vidros das janelas, sorriu vitorioso, meio tímido, dis-

farçou com receio de que alguém percebesse a gafe, engrenou

o carro e tentou sair devagarinho: bateu. Ouviu, então, o pri-

meiro palavrão de uma série

PS. — As entrelinhas foram feitas bem espaçosas para que o leitor ria à vontade.