Você está na página 1de 48

O Livro da Consciência

A Construção do Cérebro Consciente

António

Damásio

O Livro da Consciência

A Construção do Cérebro Consciente

António Damásio O Livro da Consciência A Construção do Cérebro Consciente
Autor: António Damásio (c) Autor, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2010 Revisão: João

Autor: António Damásio (c) Autor, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2010 Revisão: João Assis Gomes Capa: ARD‑Cor sobre ilustração de Julião Sarmento Pré‑impressão: ARD‑Cor Impressão: ??????

1.ª edição: Setembro de 2010 ISBN (Temas e Debates): 978‑989‑644‑120‑3 N.º de edição (Círculo de Leitores): 7577 Depósito legal:

Reservados todos os direitos. Nos termos do código do Direito de Autor, é expres‑ samente proibida a reprodução total ou parcial desta obra por quaisquer meios, incluindo a fotocópia e o tratamento informático, sem a autorização expressa dos titulares dos direitos.

Para Hanna

«Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e ran- gem, cordas e harpas, timbales e tam- bores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.»

Fernando Pessoa,

Livro do Desassossego

«O que não consigo construir não consigo compreender.»

richard Feynman

Sumário

PArte I

ComeçAR De Novo

15

1 - DeSPeRTAR

. objectivos e justificações

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

17

20

Abordar o

21

o

eu como testemunha

28

Para além de uma intuição enganadora

A

estrutura .

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

29

Uma perspectiva integrada

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

31

33

. Antevisão das ideias principais

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

37

A

vida e a mente consciente

46

2 - DA RegULAção DA vIDA Ao vALoR BIoLógICo

 

49

Quando a realidade mais parece ficção

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

49

vontade

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

51

. As origens da homeostase

Ficar vivo

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

61

63

Células, organismos multicelulares

 

e sistemas artificiais

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

65

. valor biológico em organismos complexos

valor biológico

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

66

69

10

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

o

êxito dos nossos antepassados remotos

71

Desenvolver incentivos

74

Relacionar a homeostase, o valor e a consciência

77

PArte II

o QUe Há No CéReBRo

CAPAz De

CRIAR A

85

3 - FAzeR mAPAS e FAzeR ImAgeNS

 

87

mapas e imagens

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

87

Um corte por debaixo da superfície

 

90

mapas e

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

95

A

neurologia da mente

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

98

. Nota sobre os colículos superiores

os começos da mente

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

103

110

mais perto da criação da mente?

 

113

4 - o CoRPo em

117

o

tópico da mente

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

117

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

120

mapear o Do corpo ao cérebro

. Representar quantidades e idealizar qualidades

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

125

127

Sentimentos

 

130

mapear estados corporais e simular estados corporais

 

131

A

origem de uma

135

Um cérebro que se preocupa com o corpo

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

137

5 - emoçõeS e SeNTImeNToS

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

139

Situar a emoção e o sentimento

 

139

Definir emoção e sentimento

140

Desencadear e executar emoções

143

o

estranho caso de William James

 

147

Sentimentos de

149

11

S u M ári O

Como sentimos uma emoção?

 

153

A

regulação das emoções e dos sentimentos

 

155

As variedades da

156

Percorrendo a escala emocional

159

Um aparte sobre a admiração e a compaixão

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

160

6

- UmA ARQUITeCTURA PARA A memóRIA

 

165

Algures, de certo modo

165

A

natureza dos registos de memória

 

167

Primeiro as disposições, depois os

 

169

A

memória em funcionamento

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

172

Um breve aparte sobre os tipos de memória

 

175

Uma possível solução para o

177

zonas de convergência‑divergência

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

179

Algo mais sobre as zonas de

 

182

o

modelo em funcionamento

 

186

o

como e o onde da percepção e do recordar

 

189

PArte III

eSTAR CoNSCIeNTe

 

195

7 - A CoNSCIêNCIA oBSeRvADA

 

197

. Decompor a consciência

Definir consciência

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

197

200

Remover o eu e manter a

 

204

Completar uma definição preliminar

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

208

Tipos de consciência

 

209

Consciência humana e não‑humana

213

Aquilo que a consciência não é

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

215

o

inconsciente freudiano

 

220

8 - CoNSTRUIR UmA meNTe CoNSCIeNTe

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

225

Uma hipótese de Abordar o cérebro consciente

.

.

.

.

.

.

225

228

12

 

O livr O

 

d A

C O n S C iên C i A

 

Antevendo a mente consciente

 

230

os componentes de uma mente

232

o

proto‑eu.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

237

mapas mapas gerais do organismo mapas dos portais

o

eu nuclear

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

237

243

sensoriais orientados para o exterior

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

244

Construir o eu

Uma viagem pelo cérebro

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

250

254

durante a construção da consciência

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

258

9 - o eU AUToBIogRáFICo

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

261

Dar consciência à

 

261

Construir o eu autobiográfico

263

o

problema da

 

264

. Um possível papel para os córtex posteromediais

os

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

266

270

os córtex posteromediais em acção

 

275

outras considerações sobre os córtex posteromediais

278

Uma nota final sobre as patologias da

291

10 - JUNTAR AS PeçAS

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

297

À maneira de resumo

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

297

A neurologia da

 

300

Um engarrafamento anatómico

 

307

Do trabalho conjunto dos sistemas de grande escala ao trabalho dos neurónios individuais

309

Quando sentimos a nossa percepção

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

311

Qualia

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

312

Qualia

II.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

315

Qualia e o eu

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

321

o

que ainda falta fazer

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

322

13

S u M ári O

PArte IV

mUITo DePoIS DA CoNSCIêNCIA

325

11 - vIveR Com A CoNSCIêNCIA

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

327

Porque prevaleceu a consciência

 

327

o

eu e a questão do controlo

 

329

Um aparte sobre o inconsciente

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

334

Uma nota sobre o inconsciente

 

340

A

sensação de vontade consciente

 

342

educar o inconsciente cognitivo

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

343

Cérebro e justiça Natureza e cultura

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

345

347

e surge eu na mente

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

352

As consequências de um eu que

 

354

APêNDICe

. Arquitectura

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

363

363

Tijolo e argamassa

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

366

Algo mais sobre a arquitectura de grande escala

 

371

A

importância da localização

 

376

entre o cérebro e o mundo

 

378

A

propósito da equivalência mente‑cérebro

 

381

NoTAS

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

385

 

415

ÍNDICe RemISSIvo

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

000

P ART e I
P ART e
I

Começar de novo

CAPítulO 1

Despertar

Q uando acordei estávamos a descer. Tinha dormido o suficien‑

te para não me aperceber dos avisos sobre a aterragem e sobre

as condições atmosféricas. Tinha perdido a noção de mim

próprio e do ambiente que me cercava. Tinha estado inconsciente. Na biologia humana há poucas coisas aparentemente tão triviais como este bem a que chamamos consciência, a fantástica capacidade de ter uma mente equipada com um dono, um protagonista da exis‑ tência, um eu que analisa o mundo interior e exterior, um agente que parece a postos para a acção. A consciência não é um mero estado de vigília. Quando acordei, há apenas dois parágrafos, não olhei à minha volta distraidamente, apreendendo as imagens e os sons como se a minha mente desperta não pertencesse a ninguém. Pelo contrário, soube, quase de imedia‑ to, com pouca, ou nenhuma, hesitação, sem esforço, que se tratava de mim a bordo de um avião, a minha identidade volante de regresso a Los Angeles com uma longa lista de coisas a fazer antes do fim do dia, consciente de uma estranha combinação entre fadiga de voo

18

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

e entusiasmo pelo que me esperava, curioso quanto à pista em que

iríamos aterrar e atento às variações na potência dos motores que nos aproximavam de terra. Sem qualquer dúvida, estar vigilante era

essencial a um tal estado, mas a vigília não era de todo a sua caracte‑ rística principal. e que característica principal era essa? o facto de os numerosos conteúdos exibidos na minha mente, independentemen‑ te da sua nitidez ou ordem, estarem ligados a mim, proprietário da minha mente, através de fios invisíveis que reuniam esses conteúdos na festa em permanente movimento a que chamamos o eu. e, igual‑ mente importante, o facto de a ligação ser sentida. A experiência do eu ligado estava imbuída de sensação. Ter acordado levou ao regresso da minha mente temporariamen‑ te perdida, mas agora comigo presente, tanto a propriedade (a men‑ te) como o proprietário (eu) em uníssono. o acordar permitiu‑me reemergir e inspeccionar o meu domínio mental, a vasta projecção de um filme mágico, em parte documentário, em parte ficção, a que também chamamos mente humana consciente. Todos dispomos de livre acesso à consciência. ela surge com tanta facilidade e abundância nas nossas mentes que não hesita‑ mos, nem nos sentimos apreensivos, quando permitimos que seja desligada todas as noites, quando adormecemos, e deixamos que re‑ gresse de manhã, quando o despertador toca, pelo menos trezentas

e sessenta e cinco vezes por ano, sem contar com as eventuais sestas. Contudo, poucos são os constituintes do nosso ser tão espantosos, fundamentais e aparentemente misteriosos como a consciência. Sem ela, ou seja, sem uma mente dotada de subjectividade, não po‑ deríamos saber que existimos, e muito menos quem somos e aquilo em que pensamos. Se a subjectividade não tivesse surgido, mesmo que de forma muito modesta ao início, em seres vivos muito mais simples do que nós, a memória e o raciocínio provavelmente não se teriam expandido de forma tão prodigiosa como se veio a verificar,

e o caminho evolutivo para a linguagem e para a elaborada versão

humana da consciência que agora detemos não teria sido aberto.

19

d e S P ert A r

A criatividade não se teria desenvolvido. Não teria havido música,

nem pintura, nem literatura. o amor nunca teria sido amor, apenas

sexo. A amizade não passaria de uma mera vantagem cooperativa.

A dor nunca se teria tornado sofrimento, o que pensando bem não

teria sido mau, mas tratar‑se‑ia de vantagem equívoca, dado que o prazer nunca se viria a tornar em alegria. Se a subjectividade não

tivesse feito a sua entrada radical, não haveria conhecimento, nem ninguém que se apercebesse disso e, consequentemente, não ha‑ veria uma história daquilo que as criaturas fizeram ao longo dos tempos, não haveria cultura de todo. embora ainda não tenha apresentado uma definição funcional

de consciência, espero não deixar qualquer dúvida quanto ao que sig‑

nifica não ter consciência: na ausência da consciência, a visão pessoal suspende‑se; não temos conhecimento da nossa existência; e não sa‑ bemos que existe mais alguma coisa. Se a consciência não se tivesse desenvolvido ao longo da evolução, expandindo‑se até à sua versão humana, a humanidade que agora nos é familiar, com todas as suas fragilidades e forças, também não se teria desenvolvido. é arrepiante pensar que uma simples mudança de direcção poderia representar a perda das alternativas biológicas que nos tornam verdadeiramente humanos. Claro que, nesse caso, nunca teríamos vindo a saber que nos faltava alguma coisa.

nunca teríamos vindo a saber que nos faltava alguma coisa. olhamos para a consciência como coisa

olhamos para a consciência como coisa garantida por que é tão

disponível, por ser tão simples de usar, tão elegante nos seus apareci‑ mentos e desaparecimentos diários. No entanto, todas as pessoas, cien‑ tistas incluídos, ficam perplexas ao pensar em tal fenómeno. De que é feita a consciência? Parece‑me que terá de ser a mente com algumas pe‑ culiaridades, visto que não podemos estar conscientes sem uma men‑

te da qual podemos ter consciência. mas de que é feita a mente? virá

do ar, ou do corpo? As pessoas inteligentes dizem que vem do cérebro,

20

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

que se encontra no cérebro, mas a resposta não é satisfatória. Como é que o cérebro faz a mente? especialmente misterioso é o facto de ninguém ver a mente dos outros, consciente ou não. Podemos observar‑lhes o corpo e o que fazem, dizem ou escrevem, e podemos opinar com algum conheci‑ mento quanto àquilo em que estarão a pensar. No entanto, não po‑ demos observar‑lhes a mente e apenas nós próprios somos capazes de observar a nossa, a partir do interior, e através de uma janela bem estreita. As propriedades da mente, já para não falar da mente cons‑ ciente, apresentam‑se de uma forma tão díspar daquelas da matéria viva visível, que as pessoas atentas se interrogam sobre a forma como um processo – a mente consciente – se funde com os outros proces‑ sos – as células vivas que se unem em aglomerados a que chamamos tecidos. Claro que dizer que a mente consciente é misteriosa, que o é, não é o mesmo que dizer que o mistério é insolúvel. Não é o mesmo que dizer que nunca seremos capazes de entender como um orga‑ nismo vivo dotado de cérebro desenvolve uma mente consciente ou declarar que a solução do problema se encontra fora do alcance do ser humano. 1

Objectivos e motivos

este livro aborda duas questões. Primeira: como é que o cére‑ bro constrói uma mente? Segunda: como é que o cérebro torna essa mente consciente? Tenho perfeita noção de que abordar questões não é o mesmo que responder‑lhes e que, no que respeita à mente consciente, seria disparatado partir do princípio que é hoje possí‑ vel obter uma resposta definitiva. Além disso, apercebo‑me de que o estudo da consciência se expandiu de tal maneira que deixou de ser possível fazer‑se justiça a todas as novas contribuições. esse facto, a par das questões da terminologia e da perspectiva, fazem com que o

21

d e S P ert A r

actual trabalho sobre a consciência se assemelhe a um passeio atra‑ vés de um campo minado. Todavia, é razoável analisar as questões

e usar os dados presentes, por mais incompletos e provisórios que

sejam, para elaborar uma conjectura testável e sonhar com o futuro. o objectivo deste livro é reflectir sobre essas conjecturas e discutir um corpo de hipóteses. o ponto central é a estrutura necessária ao cérebro humano e a forma como tem de funcionar para que surjam mentes conscientes. Todos os livros devem ser escritos por uma boa razão e a razão para este foi começar de novo. Há mais de trinta anos que estudo a mente e o cérebro humanos e já escrevi sobre a consciência em ar‑

tigos científicos e em livros. 2 Todavia, a reflexão sobre descobertas relevantes em projectos de investigação, recentes e antigos, tem vin‑ do a alterar profundamente o meu ponto de vista em duas questões particulares: a origem e a natureza dos sentimentos, e os mecanismos por trás da construção do eu. este livro constitui uma tentativa de debater noções actuais. em grande medida, o livro é também sobre aquilo que ainda não sabemos, mas gostaríamos muito de saber. o resto do capítulo 1 situa o problema, explica a estrutura es‑ colhida para o abordar e antevê as principais ideias que irão surgir nos capítulos que se seguem. Alguns leitores poderão pensar que esta longa apresentação retarda a leitura, mas prometo que também fará com que o resto do livro se torne mais acessível.

Abordar o problema

Antes de tentarmos avançar para a questão de como o cérebro humano cria a mente consciente, importa reconhecer dois legados

importantes. Um deles consiste nas anteriores tentativas de des‑ cobrir a base neural da consciência, com projectos que remontam

a meados do século xx. Numa série de estudos pioneiros levados

a cabo na América do Norte e em Itália, um pequeno grupo de

22

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

investigadores isolou com uma notável pontaria um sector do cére‑ bro que está hoje inequivocamente ligado à criação da consciência – o tronco cerebral – identificando‑o como promotor essencial da consciência. À luz do que sabemos hoje, não admira que o relato destes pioneiros – Wilder Penfield, Herbert Jasper, giuseppe mo‑ ruzzi e Horace magoun – estivesse incompleto, e por vezes incor‑ recto. Claro que nada menos do que louvor e admiração é devido aos cientistas que intuíram o alvo correcto e a ele se dirigiram com tanta precisão. Foi esse o magnífico início da empresa para a qual vários de nós desejam hoje contribuir. 3 Desse legado fazem também parte os estudos levados a cabo mais recentemente com pacientes neurológicos cuja consciência foi comprometida por lesões cerebrais focais. o trabalho de Fred Plum

e Jerome Posner foi o ponto de partida. 4 Ao longo do tempo, estes

estudos, que complementam os dos pioneiros da investigação sobre

a consciência, deram origem a um poderoso conjunto de factos rela‑

cionados com as estruturas cerebrais que podem ou não estar ligadas

ao que faz com que a mente humana se torne consciente. Podemos avançar a partir dessa base.

o outro legado que deve ser reconhecido consiste numa longa

tradição na formulação de conceitos relacionados com a mente e a consciência. é uma história rica, tão longa e variada como a própria história da filosofia. A partir da profusão de ideias que nos são ofe‑ recidas, elegi o trabalho de William James como base do meu pen‑ samento, embora isso não signifique uma defesa absoluta das suas posições sobre a consciência e especialmente sobre o sentimento. 5

o título deste livro, bem como as suas páginas iniciais, não dei‑

xam dúvidas quanto ao facto de que privilegio o eu ao abordar a men‑ te consciente. Acredito que a mente consciente surge quando o eu é acrescentado a um processo mental básico. Quando o eu não ocorre no seio da mente, essa mente não se torna consciente na verdadeira acepção da palavra, uma circunstância com que se deparam os seres humanos cujo processo de construção do eu se encontra suspenso

23

d e S P ert A r

durante o sono sem sonhos, durante a anestesia ou durante certas doenças cerebrais. Todavia, não é assim tão simples definir o processo de identi‑

dade que considero indispensável à consciência. é por isso que William James se revela tão essencial a este preâmbulo. James es‑ creveu com eloquência sobre a importância do eu e, no entan‑ to, referiu também que, em muitas ocasiões, a presença do eu é tão discreta que o conteúdo da mente domina a consciência. An‑ tes de prosseguirmos é necessário confrontar esta imprecisão e decidir quanto às suas consequências. existirá um eu, ou não?

A existir um eu, estará presente sempre que nos encontramos cons‑

cientes, ou não? As respostas são inequívocas. existe, com efeito, um eu, mas

trata‑se de um processo, não de uma coisa, e esse processo encontra‑ ‑se presente em todos os momentos em que se presume que esteja‑ mos conscientes. Podemos apreciar o processo do eu a partir de dois pontos de vista. Um é o ponto de vista de um observador que aprecia um objecto dinâmico – o objecto dinâmico constituído por certas operações da nossa mente, certos traços do comportamento e uma certa história da nossa vida. o outro ponto de vista é o do eu en‑ quanto «conhecedor», o processo que concede um centro às nossas experiências e que acaba por nos permitir reflectir sobre essas mes‑ mas experiências. A combinação dos dois pontos de vista dá origem à noção dual do eu que é usada ao longo deste livro. Tal como veremos,

as duas noções correspondem a duas fases do desenvolvimento evo‑

lutivo da identidade, com o eu enquanto conhecedor a ter origem no eu‑enquanto‑objecto. Na vida diária, cada uma destas noções corres‑ ponde a um nível diferente de funcionamento da mente consciente, tendo o eu‑enquanto‑objecto um âmbito mais simples do que o eu enquanto conhecedor. Seja qual for o ponto de vista, o processo apresenta vários cam‑ pos de acção e intensidades, e as suas manifestações variam com a

ocasião. o eu pode funcionar num registo mais subtil, algo como

24

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

uma sensação de presença num organismo vivo, 6 ou num registo saliente que inclua a personificação e a identidade do dono dessa mente. ora nos apercebemos, ora deixamos de nos aperceber, mas sentimo‑lo sempre: é a melhor maneira de descrever a situação. James pensou no eu‑enquanto‑objecto como sendo a soma de tudo o que um indivíduo poderia considerar seu – «não só o corpo e os poderes psíquicos, mas também as roupas, a esposa e os filhos, os antepassados e os amigos, a reputação e as obras, as terras e os cava‑ los, o iate e a conta bancária». 7 esquecendo a incorrecção política, essa descrição é algo com que concordo. No entanto, James também pensou em outra coisa com a qual ainda concordo mais: aquilo que permite que a mente tenha conhecimento da existência de tais domí‑ nios e saiba que estes pertencem ao seu proprietário mental – corpo, mente, passado e presente, e tudo o resto – é o facto de a percepção de qualquer desses aspectos e factos gerar emoções e sentimentos; por sua vez, os sentimentos permitem a separação entre os conteúdos que pertencem ao eu e aqueles que não lhe pertencem. Segundo a minha perspectiva, tais sentimentos servem de marcadores. São os si‑ nais baseados na emoção que designo como marcadores somáticos. 8 Quando no fluxo mental surgem conteúdos que dizem respeito ao eu, eles levam ao aparecimento de um marcador que se junta ao fluxo mental na forma de uma imagem, justaposta à imagem que o desen‑ cadeou. estes sentimentos estabelecem uma distinção entre o eu e o não‑eu. São, resumidamente, sentimentos de conhecimento. veremos como a elaboração de uma mente consciente depende, em várias fa‑ ses, da formação de tais sentimentos. Quanto à minha definição do eu material, o eu‑enquanto‑objecto, ela é a seguinte: um agrupamen‑ to dinâmico de processos neurais integrados, centrado na representação do corpo vivo, que encontra expressão num agrupamento dinâmico de processos mentais integrados. o eu‑enquanto‑sujeito, enquanto conhecedor, é uma presença mais fugidia, muito menos agregada em termos mentais ou biológi‑ cos do que o eu‑enquanto‑objecto, mais dispersa, regra geral dissol‑

25

d e S P ert A r

vida no fluxo de consciência, por vezes tão exasperantemente discre‑ ta que está e não está presente. Não há dúvida de que o eu enquanto conhecedor é mais difícil de captar do que o simples eu. Claro que isso não reduz a sua importância para a consciência. o eu enquanto sujeito e conhecedor é não só uma presença real mas também um ponto de viragem na evolução biológica. Podemos imaginar que o eu enquanto sujeito e conhecedor se encontra, por assim dizer, por cima do eu enquanto objecto, como uma nova camada de processos neurais que dá origem a mais uma camada de processos mentais. Não há uma verdadeira dicotomia entre o eu‑enquanto‑objecto e o eu‑ ‑enquanto‑conhecedor. Assistimos, isso sim, a uma continuidade e

a uma progressão. o eu enquanto conhecedor tem a sua raiz no eu enquanto objecto.

enquanto conhecedor tem a sua raiz no eu enquanto objecto. A consciência não se resume a

A consciência não se resume a imagens mentais. Terá, no mínimo,

a ver com uma organização de conteúdos mentais centrada no organismo

que produz e motiva esses conteúdos. Porém, a consciência, no sentido vivido pelo leitor e pelo autor sempre que o desejam, é mais do que uma mente que se organiza sob a influência de um organismo vivo e activo. é, isso sim, uma mente capaz de ter noção da existência desse organismo vivo e activo. é certo que o facto de o cérebro ser capaz de criar padrões neurais que organizam as experiências vividas sob a forma de imagens é parte importante do processo de estar conscien‑ te. orientar essas imagens na perspectiva do organismo é outra parte notável do processo. mas isso não é o mesmo que saber de forma auto‑ mática e explícita que existem imagens dentro de mim, que são minhas

e, em termos correntes, accionáveis. é verdade que a simples presença

de imagens organizadas que se encadeiam numa corrente produz uma mente, mas a menos que se lhe acrescente um novo processo, a mente permanece inconsciente. A essa mente inconsciente falta um eu. Para que o cérebro se torne consciente, precisa de adquirir uma nova pro‑

26

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

priedade: a subjectividade – e um traço da subjectividade que a define é o sentimento que percorre as imagens que experimentamos de for‑ ma subjectiva. Para um tratamento contemporâneo da importância da subjectividade na perspectiva da filosofia, ler John Searle. 9 em consonância com este conceito, o passo decisivo para o apare‑ cimento da consciência não é o fabrico de imagens e a criação básica da mente. o passo decisivo é tornar nossas essas imagens, levá‑las a perten‑ cer aos seus devidos donos, os organismos singulares e absolutamente circunscritos nos quais as imagens emergem. Na perspectiva da evo‑ lução e da história da vida de um indivíduo, o conhecedor surgiu em passos ordenados – o proto‑eu e os seus sentimentos primordiais; o eu nuclear impulsionado pelas acções e, por fim, o eu autobiográfico que incorpora dimensões sociais e espirituais. Claro que falamos de pro‑ cessos dinâmicos, não de algo rígido, e os seus níveis sofrem flutuações constantes – simples, complexos, ou algures num ponto intermédio – podendo ser ajustados prontamente de acordo com as circunstâncias. Para que a mente se torne consciente, o conhecedor, seja qual for a designação que lhe atribuamos – eu, experienciador, protagonista –, tem a sua origem no cérebro. Quando o cérebro consegue introduzir um conhecedor na mente, o resultado é a subjectividade. Caso o leitor se interrogue sobre a necessidade desta defesa do eu, permita‑me que lhe garanta que é justificável. Neste preciso mo‑ mento, os neurocientistas cujo trabalho pretende esclarecer a cons‑ ciência defendem abordagens diferentes quanto ao eu, desde consi‑ derar o eu um tópico indispensável para os trabalhos de pesquisa, à crença de que ainda não chegou a altura de lidar com o sujeito (li‑ teralmente!). 10 Uma vez que o trabalho associado a cada abordagem continua a produzir ideias úteis, não é, por enquanto, a necessário decidir qual a abordagem que se virá a revelar mais satisfatória. Te‑ mos, no entanto, de reconhecer que os resultados destas abordagens são diferentes. entretanto, é importante notar que estas duas atitudes dão con‑ tinuidade a uma diferença de interpretação que já separava William

27

d e S P ert A r

James de David Hume, algo geralmente ignorado nas discussões deste problema. James pretendia garantir que as suas concepções de eu apresentavam uma base biológica firme: o seu «eu» não se‑ ria confundido com uma entidade metafísica. Isso, no entanto, não o impediu de reconhecer uma função de conhecimento para o eu, mesmo sendo essa função subtil e não exuberante. Por outro lado, David Hume pulverizou o eu ao ponto de o eliminar. As passagens que se seguem ilustram os conceitos de Hume: «Nunca sou capaz de me observar sem uma percepção e não consigo observar nada além da percepção.» e vai ainda mais longe: «Quanto ao resto da humanidade, arrisco‑me a afirmar que não passa de um aglomerado de percepções diferentes, que se sucedem umas às outras com uma rapidez inconcebível, e que se encontram num fluxo e movimento perpétuos.» Ao comentar a eliminação do eu por parte de Hume, William James foi levado a proferir uma repreensão memorável e defender a existência do eu, destacando nele a estranha mistura de «unidade e diversidade» e chamando a atenção para o «núcleo de uniformida‑ de» que percorre os ingredientes do eu. 11 A base providenciada por William James foi modificada e au‑ mentada por filósofos e neurocientistas, vindo a incluir diferentes aspectos do eu. 12 Claro que a importância do eu para a edificação da mente consciente não ficou diminuída. Duvido que a base neural da mente consciente possa ser esclarecida de forma abrangente sem que primeiro se torne compreensível o eu enquanto objecto – o eu material – e o eu enquanto conhecedor. os trabalhos contemporâneos sobre filosofia da mente e psico‑ logia alargaram o legado conceptual, enquanto que o extraordinário desenvolvimento da biologia geral, da biologia evolutiva e da neuro‑ ciência ampliou o legado neural, produziu uma vasta série de técnicas para a investigação do cérebro e coligiu uma quantidade colossal de factos. os indícios, conjecturas e hipóteses apresentados neste livro baseiam‑se em todos estes desenvolvimentos.

28

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

O eu como testemunha

Ao longo de milhões de anos, inúmeras criaturas têm tido men‑ tes activas, mas apenas nos casos em que se desenvolveu um eu capaz de agir como testemunha dessa mente é que a sua existência foi re‑ conhecida. Também só depois de essas mentes terem desenvolvido linguagem e sobrevivido para contar a sua história é que a existência de mentes se tornou conhecida. o eu como testemunha é o elemento adicional que revela a presença, em cada um de nós, dos aconteci‑ mentos a que chamamos mentais. é necessário compreender a forma como esse elemento adicional é criado. Não pretendo que os conceitos de testemunha e de protagonis‑ ta sejam simples metáforas literárias. espero que ajudem a ilustrar a vasta gama de papéis que o eu assume na mente. Uma mente que não seja testemunhada por um eu protagonista não deixa de ser uma mente. No entanto, uma vez que o eu é a nossa única forma natural de apreender a mente, estamos inteiramente dependen‑ tes da presença, capacidade e limites do eu. Tendo em conta esta dependência sistemática, torna‑se extremamente difícil imaginar de forma independente a natureza do processo mental, embora, a partir de uma perspectiva evolutiva, seja bem claro que os proces‑ sos mentais simples antecedem os processos do eu. o eu permite o vislumbre da mente, mas produz uma visão enevoada. os aspectos do eu que nos permitem formular interpretações quanto à nossa existência e quanto ao universo continuam a evoluir, com toda a certeza ao nível cultural, e provavelmente também a nível biológi‑ co. Por exemplo, as camadas superiores do eu estão ainda a ser mo‑ dificadas pelas mais variadas interacções sociais e culturais, e pela acumulação de conhecimento científico sobre o funcionamento da mente e do cérebro. Um século de cinema terá, certamente, tido um grande impacto no ser humano, bem como o espectáculo das socie‑ dades globalizadas, transmitido de forma instantânea pelos meios de comunicação electrónica. o impacto da revolução digital, por

29

d e S P ert A r

seu lado, apenas começa a ser avaliado. em resumo, a nossa única visão directa da mente depende de uma parte dessa mesma mente, um processo individual que temos bons motivos para crer não ser capaz de nos providenciar uma descrição abrangente e fidedigna daquilo que está a acontecer. À primeira vista, depois de reconhecer o eu como forma de aces‑ so ao conhecimento, talvez seja paradoxal, já para não dizer ingrato, pôr em causa a sua fidedignidade. No entanto, é exactamente essa a situação. À parte a janela directa que o eu abre para os nossos pra‑ zeres e sofrimentos, a informação que nos dá tem de ser posta em causa, especialmente quando essa informação tem a ver com a pró‑ pria natureza do eu. Contudo, foi também o eu que tornou possível a razão e a observação científica, e a razão e a ciência, por seu lado, têm vindo a corrigir as intuições enganadoras a que o eu, por si só, nos pode levar.

Para além de uma intuição enganadora

Podemos dizer que as culturas e as civilizações não teriam sur‑ gido na ausência da consciência, o que faz da consciência um desen‑ volvimento notável na evolução biológica. No entanto, a natureza da consciência levanta sérios problemas a quem procura esclarecer a sua biologia. A observação da consciência a partir da nossa posição actual, atentos e dotados de um eu, é responsável por uma distor‑ ção compreensível mas perturbante dos estudos sobre a mente e a consciência. observada do alto, a mente adquire um estatuto espe‑ cial, isolada do resto do organismo à qual pertence. vista de cima, a mente não só parece ser muito complexa, o que certamente é o caso, como também parece um fenómeno de natureza diferente do dos tecidos e funções biológicas do organismo que a alberga. Na prática, quando observamos o nosso ser adoptamos dois tipos de óptica: ve‑ mos a mente com olhos dirigidos para o interior; vemos os tecidos

30

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

biológicos com olhos dirigidos para o exterior e, como se a diferença não fosse suficientemente grande, servimo‑nos de microscópios para aumentar a nossa visão. Dadas as circunstâncias, não surpreende que

a mente pareça ter uma natureza não‑física e que os seus fenómenos

pareçam pertencer a uma categoria distinta. o encararmos a mente como um fenómeno não‑físico, isola‑ do da biologia que a cria e mantém, é responsável pela colocação da mente fora das leis da física, uma discriminação à qual outros fenó‑ menos cerebrais geralmente não estão sujeitos. A manifestação mais

marcante desse facto bizarro é a tentativa de ligar a mente consciente

a propriedades materiais ainda não descritas e, por exemplo, explicar

a consciência em termos de fenómenos quânticos. o raciocínio por

trás deste conceito aparenta ser o seguinte: a mente consciente pare‑ ce misteriosa; como a física quântica continua misteriosa, talvez os dois mistérios estejam associados. 13

Dado o conhecimento incompleto que temos tanto da biologia como da física, é preciso usar de cautela antes de rejeitar explicações alternativas. Afinal de contas, apesar do grande sucesso da neurobio‑ logia, o nosso entendimento do cérebro humano permanece incom‑ pleto. mesmo assim, permanece em aberto a possibilidade de explicar parcimoniosamente a mente e a consciência, dentro dos limites da neurobiologia segundo os conceitos actuais. A possibilidade não de‑ verá ser abandonada, a menos que se esgotem os recursos técnicos e teóricos da neurobiologia, uma perspectiva improvável. A nossa intuição diz‑nos que a efémera e volátil mente carece de extensão física. Penso que essa intuição é falsa, e que deve ser atri‑ buída às limitações do eu desarmado. Não vejo motivo para que essa intuição mereça mais crédito do que anteriores intuições evidentes

e poderosas, como por exemplo a noção pré‑coperniciana do que

acontece com o Sol e com a Terra, ou mesmo a noção de que a mente

residia no coração. As coisas nem sempre são o que parecem. A luz

branca é a mistura das cores do arco‑íris, embora isso não seja óbvio

31

d e S P ert A r

Uma perspectiva integrada

A maior parte dos avanços feitos até à data no que respeita aos

aspectos neurobiológicos da mente consciente baseou‑se na com‑ binação de três perspectivas: 1. a perspectiva de observação directa da mente consciente individual, que é pessoal, privada e única; 2. a perspectiva comportamental, que nos permite observar as acções re‑ veladoras de outros, que, presumimos, tenham também uma mente consciente; 3. e a perspectiva do cérebro, que nos permite estudar certos aspectos da função cerebral em indivíduos em quem a cons‑

ciência esteja presente ou ausente. Infelizmente, os dados obtidos a partir destas três perspectivas, mesmo quando alinhados de forma inteligente, não bastam para permitir uma transição harmónica entre os três tipos de fenómenos – introspectivos, inspecção na primeira pessoa; comportamentos externos; e fenómenos cerebrais. Acima de tudo, parece haver um enorme desfasamento entre os dados obtidos

a partir de uma introspecção na primeira pessoa e os obtidos atra‑

vés do estudo de fenómenos cerebrais. Como poderemos ultrapassar

esse desfasamento?

é assim necessária uma quarta perspectiva, a qual exige uma al‑

teração radical na forma de encarar e de relatar a história das mentes conscientes. em trabalhos anteriores aventei a ideia de se transformar

a regulação da vida no apoio e justificação do eu e da consciência, e

essa ideia sugeriu um rumo para esta nova perspectiva: a busca de antecedentes do eu e da consciência no passado evolutivo. 15 Assim,

a quarta perspectiva baseia‑se em factos da biologia e da neurobiolo‑ gia evolutivas. exige que comecemos por tomar em consideração os primeiros organismos vivos e que avancemos ao longo da história da evolução, até aos organismos actuais. exige que tenhamos em con‑ ta as modificações graduais do sistema nervoso e que as associemos

à emergência progressiva, respectivamente, do comportamento, da

mente e do eu. exige ainda uma hipótese preliminar: que os aconte‑

cimentos mentais equivalem a certos tipos de fenómeno cerebral. é

32

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

claro que a actividade mental é provocada pelos fenómenos cerebrais que a antecedem, mas em certos estádios do processo os fenómenos mentais correspondem a certos estados de circuitos cerebrais. Por

outras palavras, alguns padrões neurais são também imagens mentais. Quando outros padrões neurais também dão origem a um processo

de eu suficientemente rico, as imagens podem tornar‑se conhecidas.

No entanto, se não for criado um «sujeito», as imagens continuam a existir, mesmo que ninguém, interior ou exterior ao organismo, saiba

da

sua existência. A subjectividade não é essencial para a existência

de

estados mentais, é apenas essencial para que venham a ser conhe‑

cidos a nível privado. Resumidamente, a quarta perspectiva pede‑nos que, em simul‑ tâneo, edifiquemos uma visão do passado, com a ajuda dos factos

disponíveis, e que invoquemos, a partir do interior, literalmente uma imagem imaginada de um cérebro que contém uma mente conscien‑ te. Trata‑se de uma perspectiva conjectural, hipotética. existem fac‑ tos que sustentam este imaginário, mas estou a descrever aproxima‑ ções teóricas e não explicações completas. Poderá ser tentador considerar a equivalência hipotética entre

os fenómenos mentais e certos fenómenos cerebrais como sendo uma redução grosseira do complexo ao simples. No entanto, essa seria uma impressão falsa, uma vez que, pelo contrário, os fenóme‑ nos neurobiológicos são extremamente complexos, são tudo me‑ nos simples. As reduções explanatórias aqui sugeridas não são do complexo para o simples, mas sim do extremamente complexo para o ligeiramente menos complicado. embora este livro não trate da biologia dos organismos simples, os factos aos quais aludo no Ca‑ pítulo 2 deixam bem claro que a vida das células tem lugar em uni‑ versos extraordinariamente complexos que, em muitos aspectos, se assemelham, a nível formal, ao nosso elaborado universo humano.

o mundo e o comportamento de um organismo unicelular como

o Paramecium são maravilhosos de contemplar, e estão bem mais

próximos do nosso do que pode parecer à primeira vista.

33

d e S P ert A r

é igualmente tentador interpretar a equivalência proposta como sinal de monosprezo pelo papel da cultura na criação da mente, ou como uma minimização do papel do esforço individual na modela‑ ção da mente. Tal como virá a tornar‑se claro, nada pode estar mais distante da minha formulação. graças à quarta perspectiva, posso agora reformular algumas das declarações enunciadas mais atrás de uma forma que tenha em conta os factos da biologia evolutiva e que inclua o cérebro: há milhões de anos que inúmeras criaturas têm mentes activas no cérebro mas a consciência só teve início, em rigor, depois de esse cérebro ter desen‑ volvido um protagonista com a capacidade de testemunhar, e só de‑ pois de esse cérebro ter desenvolvido linguagem é que se tornou am‑ plamente conhecido que as mentes de facto existem. A testemunha é o elemento adicional que revela a presença de fenómenos cerebrais implícitos a que chamamos mentais. entender a forma como o cére‑ bro produz esse elemento adicional, o protagonista que transporta‑ mos connosco e ao qual chamamos o eu, é um objectivo importante da neurobiologia da consciência.

O quadro teórico das investigações

Antes de esboçar o quadro teórico que guiou a organização deste livro terei de apresentar alguns factos básicos. os organismos criam mentes a partir da actividade de células especiais, conhecidas como neurónios. os neurónios partilham a maioria das caracterís‑ ticas de outras células do nosso corpo e, contudo, o seu funciona‑ mento é distinto. São sensíveis às alterações que acontecem em seu redor, são excitáveis (uma propriedade interessante que partilham com as células musculares). graças a uma extensão fibrosa, conhe‑ cida como axónio, e à extremidade do axónio, conhecida como si‑ napse, os neurónios podem enviar sinais a outras células – outros neurónios, células musculares – por vezes muito distantes. os neu‑

34

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

rónios concentram‑se, acima de tudo, num sistema nervoso central (conhecido abreviadamente como cérebro), mas enviam sinais ao corpo do organismo, bem como ao mundo exterior, e recebem si‑ nais de ambos.

o número de neurónios em cada cérebro humano é da ordem

dos milhares de milhões, e os contactos sinápticos que os neurónios

estabelecem entre si chegam aos triliões. os neurónios organizam‑se em pequenos circuitos microscópicos, cuja combinação forma cir‑

cuitos cada vez maiores, os quais por sua vez formam redes, ou siste‑ mas. Para ler um pouco mais sobre neurónios e organização cerebral, ver o apêndice.

A mente surge quando a actividade de pequenos circuitos se

organiza em grandes redes, capazes de criar padrões neurais. estes padrões representam objectos e acontecimentos situados fora do cé‑ rebro, tanto no corpo como no mundo exterior, mas certos padrões representam igualmente o processamento de outros padrões por par‑ te do cérebro. o termo mapa pode ser aplicado a todos esses padrões representativos, alguns simples e toscos, outros muito refinados, al‑ guns concretos e outros abstractos. em resumo, o cérebro mapeia o mundo em seu redor, bem como o seu próprio funcionamento. esses mapas são experienciados como imagens na nossa mente, e o termo imagem refere‑se não só às imagens de tipo visual mas também a ima‑ gens com origem em qualquer sentido, sejam elas auditivas, viscerais, ou tácteis, por exemplo.

sejam elas auditivas, viscerais, ou tácteis, por exemplo. Concentremo‑nos agora no quadro teórico propriamente

Concentremo‑nos agora no quadro teórico propriamente dito. Será talvez um pouco deslocado usar o termo teoria para descrever as propostas sobre como o cérebro produz um fenómeno específi‑ co. A menos que se trabalhe numa escala suficientemente grande, a maior parte das teorias não passam de hipóteses. este livro, no entanto, propõe mais do que isso, uma vez que se articulam vários

35

d e S P ert A r

componentes hipotéticos para diferentes aspectos dos fenómenos que irei abordar. Aquilo que pretendemos explicar é demasiado complexo para que o tentemos abordar com uma única hipótese

e não pode ser justificado por um único mecanismo. escolhi, por

isso mesmo, a expressão «quadro teórico» para me referir ao tra‑ balho desenvolvido. Para que se justifique este título pomposo, os conceitos apresen‑ tados nos capítulos que se seguem terão de cumprir certos objecti‑ vos. Uma vez que pretendemos entender a forma como o cérebro torna a mente consciente, e uma vez que é manifestamente impossí‑ vel lidar com todos os níveis de funcionamento cerebral ao compor uma explicação, o quadro teórico deverá especificar o nível a que se

aplica a explicação. Trata‑se do nível de sistemas em grande escala, o nível em que as regiões cerebrais macroscópicas compostas por cir‑ cuitos neurais interagem com outras regiões semelhantes e formam sistemas. Necessariamente, esses sistemas são macroscópicos, mas a anatomia microscópica subjacente é conhecida em parte, tal como

o são as regras gerais de funcionamento dos neurónios que os com‑

põem. o nível de sistemas de grande escala presta‑se à investigação através de várias técnicas, tanto recentes como mais antigas. Nelas se incluem a versão moderna do método das lesãos (que se baseia no estudo de pacientes neurológicos com lesões focais cerebrais, investigadas através de neurovisualização estrutural e de técnicas cognitivas e neuropsicológicas experimentais); a neurovisualização funcional (baseada na ressonância magnética, tomografia de emissão de positrões, magnetoencefalografia e em outras técnicas electrofi‑ siológicas); registo neurofisiológico directo da actividade neural no contexto de tratamentos neurocirúrgicos; e estimulação magnética transcraniana. o quadro teórico terá de interligar os fenómenos comporta‑ mentais, mentais e cerebrais. Neste segundo objectivo, o quadro te‑ órico aproxima o comportamento, a mente e o cérebro e, uma vez

que se baseia na biologia evolutiva, garante um contexto histórico

36

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

à consciência, um posicionamento especialmente adequado aos or‑

ganismos que têm vindo a registar transformações evolutivas através

da selecção natural. Além disso, a maturação dos circuitos neurais em cada cérebro é também vista como estando sujeita a pressões de

selecção, impostas pela actividade dos organismos e pelos processos

de aprendizagem. os repertórios dos circuitos neurais, inicialmente

providenciados pelo genoma, são alterados em conformidade. 16

o quadro teórico indica o posicionamento de regiões envolvidas

na criação da mente, a uma escala cerebral, e propõe a forma como

certas regiões cerebrais podem trabalhar em conjunto para produzir

o eu. Sugere como uma arquitectura cerebral onde se verifica a con‑

vergência e a divergência de circuitos neurais desempenha um papel

na coordenação de imagens e é essencial para a construção do eu e de outros aspectos da função cognitiva, nomeadamente a memória, a imaginação e a criatividade.

o quadro teórico precisa de decompor o fenómeno da consciên‑

cia em componentes favoráveis à pesquisa neurocientífica. o resul‑ tado da decomposição oferece‑nos dois domínios investigáveis: os processos mentais, e os processos do eu. Decompõe ainda o processo do eu em subtipos. esta separação garante duas vantagens: a pressu‑

posição e a investigação da consciência em espécies que apresentem a possibilidade de ter processos do eu, mesmo que menos elaborados;

e a criação de uma ponte entre os níveis mais elevados do eu e o espa‑

ço sociocultural em que os seres humanos se movimentam. outro objectivo: o quadro teórico terá de abordar a questão de

como os macrofenómenos do sistema são criados a partir de microfenó‑ menos. Neste caso, a estrutura apresenta como hipótese a equivalência dos estados mentais a certos estados de actividade cerebral regional.

o quadro teórico parte do princípio de que quando certos níveis de

intensidade e de frequência de actividade neural ocorrem em peque‑ nos circuitos neurais, quando alguns destes circuitos são activados sin‑ cronamente, e quando se registam certas condições de conectividade da rede, o resultado é uma «mente com sentimentos». Por outras

37

d e S P ert A r

palavras, como resultado da dimensão e complexidade crescentes das redes neurais, verifica‑se uma expansão escalonada da «cognição» e do «sentimento», do micronível para o macronível, através das di‑ versas hierarquias. Podemos encontrar na fisiologia do movimento um modelo desta evolução para uma mente com sentimento. A con‑ tracção de uma única célula muscular microscópica é um fenómeno insignificante, ao passo que a contracção simultânea de um grande número de células musculares produz um movimento visível.

Antevisão das ideias principais

i De entre as ideias apresentadas neste livro, nenhuma é mais im‑ portante do que a noção de que o corpo é o alicerce da mente consciente. Sabemos que os aspectos mais estáveis da função corporal estão representados no cérebro, na forma de mapas, contribuindo assim com imagens para a mente. esta é a base para a hipótese de que as estruturas cerebrais que produzem o mapeamento do corpo, e de que imagens mentais do corpo aí produzidas, constituem um instrumento que prefigura a exis‑ tência do eu: o proto‑eu. De notar que estas estruturas básicas para o mapeamento do corpo e para a produção de imagens se si‑ tuam abaixo do nível do córtex cerebral, numa região conhecida como tronco cerebral. Trata‑se de uma parte antiga do cérebro, partilhada com muitas outras espécies.

ii outra ideia central baseia‑se no facto comprovado, mas habi‑ tualmente ignorado, de que as estruturas cerebrais do proto‑eu não se limitam a ter a ver com o corpo. estão, isso sim, literal e inextrincavelmente ligadas ao corpo. especificamente, estão li‑ gadas às partes do corpo que bombardeiam de modo contínuo

o

cérebro com os seus sinais, sendo bombardeadas em resposta

e

criando assim um arco ressonante. este arco é perpétuo, sen‑

38

O

livr O

d A

C O n S C iên C i A

do apenas interrompido por doenças cerebrais ou pela morte.

o corpo e o cérebro estabelecem uma união. Como resultado

desta arquitectura, as estruturas do proto‑eu têm uma relação

privilegiada e directa com o corpo. As imagens que criam, rela‑ cionadas com o corpo, são concebidas em circunstâncias dife‑ rentes de outras imagens cerebrais, por exemplo das visuais, ou auditivas. Tendo em conta estes factos, o corpo será preferen‑ cialmente concebido como a pedra onde se ergue o proto‑eu,

ao passo que o proto‑eu é o eixo em torno do qual gira a mente consciente.

iii Neste cenário, avento a hipótese de que o produto principal e mais elementar do proto‑eu são os sentimentos primordiais, que ocorrem espontânea e continuamente sempre que estamos acor‑ dados. eles garantem a experiência directa do nosso corpo vivo, sem palavras, sem adornos e sem qualquer outra ligação que não

seja a própria existência. estes sentimentos primordiais reflectem o estado actual do corpo ao longo de diversas escalas, como por exemplo a escala que vai do prazer à dor, e têm origem ao nível

do tronco cerebral, e não do córtex cerebral. Todos os sentimen‑

tos de emoção são variações dos sentimentos primordiais. 17 Na arquitectura funcional aqui esquematizada, a dor e o pra‑ zer são fenómenos corporais. mas esses fenómenos são também mapeados num cérebro que nunca se encontra separado do seu

corpo. os sentimentos primordiais são um tipo especial de ima‑ gem gerado graças a esta interacção obrigatória corpo‑cérebro,

às características do circuito que permitem a interacção e a cer‑

tas propriedades dos neurónios. Avento a hipótese de que, além

de deter uma relação única com o corpo, a maquinaria do tronco

cerebral responsável pela criação das imagens a que chamamos sentimentos consegue misturar sinais do corpo, criando assim estados complexos com as novas e especiais propriedades que re‑ conhecemos no sentimento, e não apenas simples e servis mapas

39

d e S P ert A r

do corpo. A razão porque as imagens que não são sentimentos acabam também por ser sentidas prende‑se ao facto de normal‑ mente, todas essas outras imagens serem acompanhadas por sen‑ timentos. Tudo isto implica que a ideia de que existe uma fronteira rígida entre o corpo e o cérebro é problemática. A minha formula‑ ção sugere também uma abordagem potencialmente útil de um problema vexante: como e porquê os estados mentais parecem sempre conter alguma forma de sentimento.

iV

o cérebro não começa a edificar a mente consciente ao nível

do córtex cerebral, mas sim ao nível do tronco cerebral. os

sentimentos primordiais não só são as primeiras imagens ge‑ radas pelo cérebro, como também manifestações instantâneas de consciência. São o alicerce que o proto‑eu prepara para a construção de níveis mais complexos do eu. estas ideias estão em conflito directo com os pontos de vista tradicionais sobre

a consciência, embora Jaak Panksepp (citado anteriormente)

tenha defendido uma posição comparável, bem como Rodolfo Llinás. No entanto, a mente consciente, tal como a conhecemos,

é algo completamente diferente da mente consciente que surge

no tronco cerebral, e esta é uma ideia sobre a qual todas as opi‑ niões podem convergir. os córtex cerebrais dotam o processo

de criação da mente de uma profusão de imagens que, tal como

Hamlet pudesse dizer, vão bem mais além do que tudo o que o

pobre Horácio jamais poderia sonhar, no céu ou na terra.

A mente consciente tem início quando o eu entra na mente,

quando o cérebro mistura um processo de eu ao resto da men‑ te, de forma modesta ao início, mas mais tarde com imenso vi‑