Artigo Original

A CONTRIBUIÇÃO DE BOSSUET À GLÓRIA DO REI SOL
BOSSUET’S CONTRIBUTION TO THE GLORY OF THE SUN KING
Maria Izabel Barbosa* BARBOSA, M. I. A contribuição de bossuet à glória do rei sol. Akropólis, Umuarama, v. 15, n. 1 e 2, p. 61-72, jan./jun. 2007.
RESUMO: Desde o início de seu reinado pessoal em 1661, por meio de Colbert, Luís XIV reuniu os intelectuais e artistas franceses e estrangeiros em academias controladas pelo Estado a fim de que estes utilizassem todo o seu poder criativo para uma maior glorificação do rei e do reino. Buscaremos compreender qual foi o papel de Bossuet neste universo de exaltação e engrandecimento do Rei Sol. PALAVRAS-CHAVE: Arte. Literatura. Poder. Glória. Luís XIV. Bossuet. ABSTRACT: Since the beginning of his reign in 1661, by means of Colbert, Luis XIV congregated both French and foreign intellectuals and artists in academies controlled by the State so that they would use their creative power for more glorification of the King and the kingdom. We will attempt to understand what Bossuet’s role was in this universe of exaltation and honor of the Sun King. KEYWORDS: Art. Literature. Power. Glory. Luis XIV. Bossuet.

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Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense e Aluna do Programa de Doutorado da Universidade de Brasília

Recebido em abril/2007 Aceito em maio/2007

Akrópolis, Umuarama, v. 15, n. 1 e 2, p. 61-72, jan./jun. 2007

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Em 1682. 21). “Da mesma forma”. “Glória era uma palavra-chave da época./jun. Luís XIV exigia ordem em tudo. 1994. “os escritos do período não deixam dúvida acerca da importância da reputação ou glória de reis ou nobres semelhantes”. Sua importância foi sublinhada nas Mémoires de Luís. 1994. 15. BURKE.. que se tornou sobretudo o quartelgeneral dos fabricantes de sua imagem. 92. v. um lugar de diversões e festas. foi produzido por um pequeno comitê integrado por Lebrun. 1970. uma decoração abundante. Luís encarregou Le Vau de aumentar o castelo e Le Nôtre de projetar os jardins (BURKE. (. que se resumia a um pequeno castelo construído para Luís XIII em 1624. os palácios reais e Paris deviam refletir a grandiosidade do regime como também contribuir para a glória do rei. (. Paris ganhou edifícios magníficos: foram construídos arcos do triunfo. que outro astro poderia representar o brilho e esplendor tanto dele como de seu reino? Com sua ampla perspectiva.) Enquanto isso. túmulos e obeliscos (SHENNAN. (SHENNAN. em balés e em monumentos públicos. 1994. devido ao pluralismo de denominações religiosas introduzido pelo protestantismo. As reconstruções de Versalhes e do Louvre foram os mais importantes projetos artísticos da década de 60 (BURKE. pp. Assim como impôs o poder centralizado a uma sociedade que ainda não se encontrava totalmente preparada para tal. pirâmides. Artistas e intelectuais a serviço do Grande-Rei No início de seu reinado pessoal. As academias e Versalhes são as testemunhas dessa escolha” (MANDROU. 1994. passou relativamente pouco tempo nesse palácio.. p. Sem dúvida. “no começo era um parque.) O rei. a monarquia francesa buscou restaurar a unidade religiosa num país em que isto era impossível. Le Vau e Claude Perrault. (BURKE. 78. 37. superintendente das construções reais.. INTRODUÇÃO Por guardar as terríveis lembranças da Fronda. p. o rei tinha voltado sua atenção para Versalhes. um instrumento para ostentar o seu poder. 68). I. A personificação da Glória aparecia em peças teatrais. Na esfera das Belas-Artes a ordem foi imposta por meio da fundação de várias academias a fim de regular todas as atividades artísticas para realçar o brilho e o prestígio da monarquia francesa. Umuarama. 16-17). 1970.BARBOSA. p. No século XVII há uma grande relação entre arte e poder. p. 221). pp. Para isso. 61-72. Era um palácio acanhado demais para as necessidades de uma corte do século XVII e o incêndio que destruiu parte dele em 1661 pôs sua reconstrução como ponto prioritário na agenda. (BURKE. pp. Segundo Peter Burke. n. 97. a partir de 1682 Versalhes tornou-se a residência real oficial. Luís XIV “reconstituiu o Louvre e Versalhes. p. 109). [La louange se donne par les particuliers. por isso recorreram a todas as formas de representações para aumentar a sua glória. Este. ele mudou-se com sua corte definitivamente para lá. Por meio de Colbert.. 1994. Desde 1662. p. conforme constata Robert Mandrou. Em seu trabalho como superintendente das edificações 62 reais isso ficou muito bem demonstrado. p. (. p. O Louvre era um palácio medieval reconstruído no estilo renascentista durante o reinado de Francisco I. Há uma Fonte da Glória nos jardins de Versalhes” (BURKE. 78-79). Luís XIV estava “persuadido de que a reputação e a glória se adquiriam também pela magnificência das construções”. “ela quis se dar um adorno sem igual e instaurar uma ordem no domínio das Belas-Artes. Tomou-se a decisão de reconstruir um novo palácio e de encomendar projetos a vários arquitetos de renome. em janeiro de 1664 (GOUBERT. No século XVII. Sendo assim. Versalhes tornou-se um dos Akrópolis. pp. Afinal. após ter sido um encontro de caça” (GOUBERT. Mademoiselle de Scudéry ganhou uma medalha da Academia Francesa por seu ensaio sobre o tema. Em sua concepção. a qual durou por mais de um século. GOUBERT. finalmente agraciado com a aprovação oficial. Versalhes foi um dos meios utilizados por Luís XIV para representar a sua glória.. Segundo Peter Burke. Conforme lembra Peter Burke. 14. 108-109). glória distinguia-se de louvor porque ‘o louvor é dado por indivíduos e a glória por todo o mundo’. onde seus aposentos estavam localizados no centro. Luís XIV adotou a imagem do sol como emblema pessoal. 1970. 1 e 2. tanto italianos como franceses. Luís XIV utilizou Versalhes como um cenário. A maior preocupação de Colbert era a de aumentar o poder e a reputação do rei e do reino. no entanto. a partir da segunda década do século XVI. “num dicionário do período. 1954. sob Colbert. jan.) O projeto para o Louvre. M.. 17). Logo depois de iniciar seu governo pessoal. p. 1954. 1970. Situado a dezoito quilômetros de Paris. que desde 1661 já o servia como membro do Conselho Real das Finanças. nomeou Colbert. 113). 19-20. o que realmente significava esta glória tão almejada pela realeza e nobres? De acordo com este autor. Luís XIV (1638-1715) e seus conselheiros preocupavam-se muito com a imagem real. et la gloire par le général du monde]”. 2007 . 1994.

Amable de Bourzeis servira a Richellieu como escritor. 1950. Neste mesmo ano. APOSTOLIDÈS. a contragosto de seus fundadores. Luís XIV percebeu. 1994. a Petite Académie era um conselho restrito. para orientar a vida intelectual da nação. em 1671. Na verdade. 1993. que de início era uma instituição privada. e o conselheiro de Colbert na esfera literária. 109-110). MÉTHIVIER. foi fundada a Académie Royal d’Architecture. que incluía os historiadores. Luís XIV amava e protegia as belas artes./jun. em 1634-1635. todas as produções intelectuais e artísticas eram submetidas ao escrutínio da Petite Académie. p. p. Tudo. foi preciso que todas as artes. No ano de 1648. e as letras e as ciências concorressem para exaltar sua pessoa e seu reino. Como observava Spanhein. jan. MÉTHIVIER. foi retomada por Colbert em 1661. Colbert fundou a Académie de Musique em 1669. 225). Na concepção de Colbert. 61-72. p. Aí destacou-se o abade Perrin e três anos depois Lulli como superintendente e diretor. um comitê. toda a obra concorria no sentido de celebrar a pessoa e a glória do monarca. Jacques de Cassagnes também era escritor. p. Desta forma. Em 1664. os jovens pintores. 1954. Em 1663. 61. no plano da arquitetura. ele fundou a Académie de France à Rome. Luís XIV a reestruturou. 70). exercendo nesta esfera um mecenato de Estado. 221. Conforme salienta Pierre Goubert. 65-68. “a Petite Académie é sobretudo o olho do poder sobre a produção intelectual” (APOSTOLIDÈS. Cassagnes. tendo Chapellain como seu intermediário. que representava o olhar atento de Luís XIV sobre aquela. pp. 62. p. “obra realizada apenas para a glória do monarca. Colbert instituiu a Petite Académie para administrar toda a produção intelectual e artística. 29). Na década de 60. 1 e 2. que as construções não bastavam para aumentar a sua glória. Ele é um “literato conhecido em nossos dias. pp. na verdade ele as utilizou como um instrumento de glória. Charles Perrault e François Charpentier. Toda a produção intelectual era supervisionada pela Petite Académie. Segundo constata Jean-Marie Apostolidès. como Chapeuzinho Vermelho”. 107). em Roma. o conselheiro de Colbert no âmbito literário. Finalmente. Charles Perrault o substituiu como o encarregado das edificações. símbolos da monarquia absoluta francesa. ele fundou a Académie des Inscriptions et Belles-Lettres. 109. 1994. copiar e estudar as obras da Antiguidade Clássica era a missão desta academia. 1994. 62-63. 37. Ele desejava que todos os artistas usassem o seu talento artístico para uma maior glorificação do Rei Sol. “como no tempo de Augusto. em 1671. Em 1666. formado por Jean Chapelain. um grupo de pintores liderados por Le Brun criou a Académie de Peinture. A escala de uma corte numerosa. Luís XIV tornou-se o protetor e Colbert o vice-protetor desta academia. 1950.. servindo como modelo a todas as outras. Colbert tanto fundou academias como oficializou as existentes. v. Amable de Bourzeis. Umuarama. Foi com este propósito que ele estimulou a produção e impôs a disciplina nas Belas-Artes criando o academismo. Ao escrever uma ode louvando o cardeal Richelieu ganhara a sua simpatia. (MANDROU. na ordem e na obediência” (GOUBERT. desempenhou próximo de Luís XIV a mesma função que Mecenas representou junto de Augusto. escolhendo Le Brun para dirigi-la. colocando-a sob a proteção do chanceler Séguier. p. cuja tarefa era retomar as doutrinas de Alberti e de 63 Akrópolis. n. Colbert é quem foi o verdadeiro mecenas (BURKE. exclusivamente”. Foi eleito membro da Académie des Inscriptions e Belles-Lettres em 1663 (BURKE. Versalhes deve ser considerado sob este aspecto. a palavra de ordem na produção intelectual e artística. Em 1663. naturalmente. Colbert reorganizou a Académie Mazarine de Peinture et de Sculpture. Colbert incentivou os eruditos Baluze e Clérambault a montarem uma Bibliotèque. em 1663. onde os sábios se reuniam. SHENNAN. tornou-a oficial colocando-a sob sua proteção. ainda no ministério de Richelieu que. Em 1664. que significava a regulamentação. os temas decorativos com os grandes atos do reino. Jean Chapelain era poeta e crítico. sobretudo por ter reescrito contos populares. as artes eram úteis porque contribuíam para a glória de Luís XIV. juntamente com Colbert e Jean Chapelain. Neste ano. Charles Perrault era um protegido de Colbert. a primeira a ser fundada em 1634 por um grupo de intelectuais. 2007 . A Académie Française. 1970. um embaixador prussiano do século XVII. possibilitando aos artistas franceses receberem na Itália a tradição da Antiguidade. Ele era o conselheiro de Colbert. Os artistas incumbidos da tarefa de elaborar a nova imagem do soberano deviam se reunir nas novas instituições controladas pelo Estado: as academias.. este regulava o trabalho dos pintores e escolhia os temas a serem trabalhados por eles. 61. p. enfim. escultores e arquitetos que a integravam foram incumbidos de copiar “tudo o que havia de belo em Roma”. Esse grupo se reunia na casa de Colbert nas terças e sextas-feiras. 29). Conforme constata Robert Mandrou. François Charpentier era escritor e servira a Mazarino. quando Colbert se tornou o Surintendant. Aliás. 1970. (BURKE. 15. tornou-se oficial em 1666. pp. A Académie des Sciences. pp. 1993.A contribuição de Bossuet à glória. Ele era membro da Académie Française desde a sua fundação. Essas três academias também eram dirigidas por Le Brun. Colbert supervisionou o patrocínio real das artes.

esse domínio expressou-se também no mundo das letras. entre eles homens importantíssimos. pp. 1950. MÉTHIVIER. 225226). “para se tornarem os turiferários do soberano. “a importância de Colbert reside em sua visão geral da contribuição de todas as artes para a glória do rei”. 1950. 1970. Os dois dedicaram muitos anos para produzir uma história do reino completamente voltada para a glória do monarca. 230). 225-226). a Petite Académie recebeu o título oficial de Académie d’Inscriptions et des Médailles. pp. música e pintura. A distribuição de benefícios e pensões. Os homens de letras. tanto quanto lhe é possível. 110-112. 1994. p. e os entretenedores dos cortesãos” (MANDROU. M. pp. não “poderiam servir diretamente às distrações e às grandes obras da monarquia”. “os artistas e os escritores não imaginam seu papel fora do serviço do Estado”. Umuarama. 227-228. Tudo isso expressa o empenho de Luís XIV “de reunir em Versalhes todos os artistas capazes de contribuir à sua grandeza. mais conhecido como Boileau. É bom lembrar que os homens de letras como Molière. fixam o gosto e a sensibilidade. MANDROU. a soldo real. Colbert atraiu um considerável número de artistas e escritores para o serviço do monarca. objetivando ilustrar Versalhes 64 e seu reinado. expressam o momento em que Luís XIV empenhou-se para “pôr as artes ao serviço exclusivo de sua glória” (MANDROU. porém. pp. Nicolas Despréaux. pp. 29. (GOUBERT. De fato. p. mas de exaltar o rei (MANDROU. as academias ditam as regras. Após ter cumprido a sua tarefa de direção geral da vida cultural. reagrupavam-se no centro de novas instituições. 1993. I. esses poetas e homens de letras não foram encarregados apenas das festividades de Versalhes. o recrutamento de sábios para ilustrar a Académie des Sciences era um dos meios desta política real (MANDROU. De acordo com Robert Mandrou. 204205). 1970.BARBOSA. de 1692. Os louvores que os escritores a soldo real lhe rendiam o afirmam. A adoção de lições da Antiguidade Clássica. A Académie des Sciences foi fundada com esta finalidade. 67-69). Esses intelectuais vinham dos ofícios tradicionais da literatura. De acordo com Peter Burke. em todas as direções que lhe parecem digna de sua glória”. 1970. na segunda metade do século XVII. o poeta Boileau cantou as vitórias reais. No século XVII a maioria era laica e suas técnicas deviam muito mais às artes. No início do reinado pessoal de Luís XIV. Esses artistas assalariados residiam em Versalhes e executavam seus trabalhos sob a encomenda real (MÉTHIVIER. 1970. 30-32. “sob Luís XIV os artistas deverão servir ao príncipe. as academias. toda essa organização dos artistas que dava uniformidade ao mecenato real era conseqüência da organização de Versalhes. De acordo com Apostolidès. 108-110. ao qual antes se dirigiam. jan. 1970. encorajam os artistas que as respeitam. dirigir as artes e as letras e toda a Europa. sendo aí admitidos a serviço do príncipe. 108). Colbert recorria a especialistas para sugestões concretas: na literatura teve como conselheiro Chapelain. 230). “o castelo fornece o modelo. No século de Luís XIV. É claro que eles eram encarregados de fornecer divertimentos ao teatro da corte: as comédias de Racine e as óperas e balés de Lulli o atestam muito bem. A organização de academias por Colbert implicava a elaboração de uma verdadeira doutrina no campo das artes. pp. na pintura e escultura Charles Le Brun e na arquitetura Charles Perrault (BURKE. Luís XIV incumbiuse de reformar o governo e a administração. Racine e Lulli não foram somente entretenedores de cortesãos ociosos. 1994. Conforme constata Mandrou. sábios e poetas franceses como também estrangeiros. e de assegurar a esse pequeno mundo fechado de algumas centenas de pessoas a distração necessária por sua ociosidade” (MANDROU. em 1661. Ele recorreu a todos os meios possíveis para ilustrar a sua imagem de Rei Sol. em 1701. p. 2007 . pp. p. 63. 61-72. O Rei Sol buscou reunir em sua volta escritores. a qual era freqüentemente confundida com o primeiro. v. 68). No entanto. “a França clássica é principalmente a expressão de uma vontade de poder que é exercida em todos os domínios. pp. eram convidados a residir em Versalhes. a de seus sucessores e do lugar que ele ocupava na Europa. 63. O classicismo artístico se constitui nesta perspectiva”. 1970. É somente no século de Voltaire que a produção das idéias será entendida pelos filósofos como uma atividade livre. Aos clérigos da cristandade sucedem os da monarquia”. Antes os letrados pertenciam à Igreja e suas técnicas deviam à teologia. em sua Ode sur la prise de Namur. Os acadêmicos que animavam o Journal des Sçavans tiveram seu espaço nesta esfera científica. O plano de Versalhes e a direção das artes. Mais tarde ele foi nomeado historiógrafo oficial do rei e trabalhou junto de Racine. Portanto. assim como os pintores e escultores que decoravam Versalhes com os altos feitos do reino. as diferentes artes Akrópolis. enfim. APOSTOLIDÈS. Luís XIV quis dar um brilho incomparável à monarquia francesa. BURKE. 1970. a qual atraiu sábios estrangeiros interessados em altas pensões. esquecer o público amplo e diversificado de Paris. pp./jun. 15. Victruve. n. 1 e 2. Ao assumir o poder pessoalmente. a distribuição dos prêmios aos artistas mais esmerados e disciplinados.

Ao dirigir este projeto. 1993. 107). Segundo constata Apostolidès. ou retrato moral. Poetas e historiadores contribuíram para a glória do rei por meio de sonetos e poemas louvando as suas vitórias durante as guerras (BURKE. finalmente foi implantada na França a ópera. do soberano. Os intelectuais que se opunham ao controle total do Estado sobre as produções intelectuais e artísticas foram severamente perseguidos por ele. pp.) são encontrados em sua casa um projeto de cadastro e memórias sobre a reforma do reino. compôs uma história do rei por meio da figura mítica de Alexandre Magno. Em alguns anos foram produzidas uma história do rei por meio da eloqüência. 61-72. O escultor em marfim Simon Jaillot. 1994.. 1993. monumentos. Além das pinturas. pp. Colbert não estava interessado em glorificar-se. nota. 23-24.) o príncipe reinante não é senão a 14ª reencarnação de um mesmo Luís. inimigo de Le Brun. gravuras. 37). 86-87). estátuas eqüestres. p. 28).) é objeto de censuras policiais (APOSTOLIDÈS. Charles Perrault lembrava a Le Brun. 27-29. quase 700 gravuras do rei se encontram 65 Akrópolis. 1994. medalhas. no início do reinado de Luís XIV. “Assim. 31-32). Como observa Apostolidès. 1954. n. que ele era apenas um instrumento da glória de Luís XIV. os tesouros achados” (PERRAULT. O tema escolhido para a propaganda monárquica era nada menos que “as façanhas do rei”. 1950. “essas larguezas incitam os artistas e autores a fazer o panegírico do reino. Segundo Peter Burke... Charles Le Brun. 36). Em uma época em que a história era vista como um gênero literário. Segundo Méthivier. imediatamente teve a sua pensão reduzida por Colbert (MÉTHIVIER. p. 2527). Mais de 300 medalhas foram cunhadas para celebrar os grandes eventos do reinado.) O movimento acadêmico do século XVII mostra-se como empreendimento de confisco e transformação do saber pelo Estado” (APOSTOLIDÈS.. tapeçarias. jovem poeta que rimou em Paris sem convenções: é condenado por blasfêmia e enforcado. peças teatrais. Mais de 300 retratos do rei foram conservados. Citemos o caso de Claude Petit. e que teus semelhantes/ Só do príncipe são. Racine e Molière eram conhecidos por suas bajulações cortesanescas. jan. p. pois. p. v. sempre vencedor”. o abade Pierre-Valentin Faydet. outro espírito libertino. “Tudo o que é saber torna-se saber pelo Estado ao mesmo tempo em que saber sobre o Estado. “Esse mecenato se impôs também como um instrumento de propaganda” (MÉTHIVIER. APOSTOLIDÈS. A concessão de pensões aos artistas por Luís XIV não era um ato desinteressado: ele esperava que em troca os artistas exaltassem a ele e ao reino francês (BURKE. 1993. 110). p. tapeçarias e pintura. 1994. pp. p. Em 1674. pp. 108. Umuarama. 65. obeliscos. provavelmente em 1665. 1993. Colbert e Chapelain esforçaram-se por encontrar historiadores que melhor celebrassem os altos feitos do rei. pp. 1993. 1994. pp.. A psicologia real é finalmente analisada por Spanheim: ‘se o rei ama dar. 63-64). gravuras. apud APOSTOLIDÈS. / Sente que deve a ele os teus traços triunfantes. pp. arcos do triunfo. para sempre a tua mão laboriosa/ Persiga de Luís essa história gloriosa. a qual mais tarde passou a ser celebrada nos tetos e paredes da imensa galeria de Versalhes. Tratava-se de fixar a história do rei de uma forma que os seus grandes feitos fossem percebidos pela posteridade da mesma forma que aos contemporâneos que gozavam do privilégio de os terem vivenciado (APOSTOLIDÈS.. 28). quando o historiador Mézeray criticou as tailles e as gabelles em seus escritos. As obras de arte produzidas sob o impulso da Petite Académie também serviam como propaganda da França e do Rei Sol (SHENNAN. com falas atribuídas a participantes eminentes [mas freqüentemente inventados pelo historiador]” (BURKE. foram monopolizadas pelas academias. 1950. 1 e 2. é também exilado (. que possuía o título de primeiro pintor. sempre glorioso. (. em seu poema De la Peinture. e lhe estão reservados/ Tal como. 15. que multiplica os epigramas contra Bossuet (. “Trata-se de dar a Luís XIV uma imagem que ultrapasse o tempo e possua caráter imediatamente histórico (. Segundo constata Méthivier. outras por meio de espetáculos. ele ama ainda mais em congregar. Boileau.A contribuição de Bossuet à glória. “Esperava-se que uma obra de história incluísse uma série de passagens primorosas dedicadas ao ‘caráter’. as quais foram institucionalizadas sob a proteção do monarca. de um ministro ou comandante. 34-35). / Que aí vai sua glória. em terras dele. 2007 . Mais tarde. Essa nova arte foi a que melhor propagou a imagem oficial de Luís XIV em sua glória (BURKE.... seu interesse consistia somente em aumentar a glória do Rei Sol. / Sem que um outro labor ou quadros inferiores/ Profanem doravante os teus pincéis e cores. entende-se a nomeação dos poetas Racine e Boileau como historiógrafos da realeza./jun. sua beneficência ou sua liberalidade é de uso interessado. Conforme Apostolidès. Por outro lado. ele dá tanto mais para ostentação que por escolha’”. o vívido relato de uma batalha e a apresentação de debates. André Houatte é perseguido por ter gravado ‘uma prancha insolente’ e foge para o estrangeiro. medalhas.. músicas e balés.

pp. v. Eis o que nos coloca acima da inveja. pronunciadas por Bossuet. Conforme Apostolidès. 27). o principal instrumento da retórica em toda a tradição do cristianismo. 165. “No momento da recepção de La Fontaine. era recorrente comparar Luís XIV com os deuses e heróis da mitologia grega. ter como único objetivo propor a eternidade de seu nome. 27-28). Na Oraison funèbre de Louis de Bourbon. Luís XIV se identificava com ele e queria que os súditos também o identificassem como tal. 1681670. em 1671. a produção da imagem heróica de Luís XIV provavelmente não se destinava à maioria dos vinte milhões de franceses. 47). como Hercules à força. o abade de La Chambre resume a tarefa dos intelectuais do Estado: ‘trabalhar pela glória do príncipe. em 1683 e em 1686 respectivamente. 1874. no elogio do rei. 1994. a linguagem alegórica era muito conhecida. onde recebeu uma calorosa recepção por parte de seus pares. 1994. aí residiu no período do preceptorado. as vitórias deste príncipe. haja vista que “os meios de comunicação de Luís XIV não eram meios de comunicação de massa”. observa Peter Burke que. de 1670 a 1681. Conforme lembra Calvet. 39. 211). 27). Em 1671 foi qualificado oficialmente de 66 ‘grand’. 1994. jan. 61-72. o maior monarca do universo. um tipo de discurso apreciado no século XVII. Henrique IV. 202. 163. e nas orações fúnebres. p. Algumas estátuas de Luís XIV eram imensas. Os escritores e artistas responsáveis pela fabricação e difusão da imagem real não buscavam mostrar Luís XIV como ele realmente era. na época de sua instalação. na Bibliothèque Nationale. Bossuet “amava e admirava Luís XIV e o louvava publicamente como a etiqueta e sua convicção o ordenavam” (CALVET. o Grande” (BOSSUET. o príncipe de Bossuet é heroicizado: possui a força de Sansão. o seu nome aparecia em letra maiúscula LOUIS LE GRAND (BURKE. Após a revogação do Edito de Nantes os pregadores se empenhavam em formar uma imagem religiosa do monarca. Recordemos que ele foi convidado por Luís XIV para pregar sermões na corte. Para isso. Compara o príncipe de Condé a Alexandre. 1 e 2. p. pronunciada em 1687. Era comparado a príncipes do passado também chamados de grande. pois ele tinha a maior característica dos conquistadores. Ao término de todo discurso pronunciado na Académie Française havia a incensação a Luís XIV. pintores e escritores se inspiravam numa longa tradição de formas triunfais” (BURKE. a coragem de Apolo. No século XVII. “Quanto à função da imagem ela não visava. Ao contrário./jun. 18. 1993. Luís XIV recebia vários elogios. Nos sermões. persuadir expectadores. p. o rei era louvado. 21. Bossuet celebra a glória. I. A arte oratória e a poesia também eram utilizadas. Em vários de seus textos. 31). consagrar todas as vigílias unicamente à sua honra. 1993. n. Akrópolis. em meio a textos escritos em caixa baixa. A este respeito. A imagem de Luís XIV era constantemente associada a heróis do passado. Freqüentemente. como a estátua de Luís de pé na Place des Victoires e a estátua eqüestre para a Place Louis-le-Grand. Infelizes de nós se falharmos nisso’” (APOSTOLIDÈS. Assim. 43). Apolo à coragem. 1994. Deuses e heróis clássicos eram associados a qualidades morais.BARBOSA. 293). que se constituía numa parte quase obrigatória ao final dos sermões. mas como os franceses deviam acreditar e deviam esperar que fosse. Ao pedir a Le Brun que o pintasse como Alexandre. de não se deter diante dos obstáculos (BOSSUET. 20 homens se sentaram dentro do cavalo para almoçar (BURKE. etc. como “Luís. entrou para a Académie Française. prince de Condé. ele louvou as virtudes do rei. 1952. Umuarama. as classes altas francesas e as estrangeiras (BURKE. glorificá-lo. que deviam ser entendidas como referência ao presente. p. Ele foi proclamado um novo Alexandre por suas conquistas. Eis o cúmulo de nossa alegria. Em sua Oraison funèbre de Louis de Bourbon. No sermão pronunciado em 1662. Ele era qualificado como herói por poetas e historiadores. Nas orações fúnebres da rainha Maria Tereza e do chanceler Michel Le Tellier. Para se ter uma idéia de seu tamanho. É provável que os comunicadores do século XVII buscassem atingir três alvos: a posteridade. prince de Condé. a finalidade era celebrar Luís. Entre os tipos de alegorias estavam as representações do passado. 174). a fornecer uma cópia reconhecível dos traços do rei ou uma descrição sobre suas ações. como no livro nono da Politique. A eloqüência sagrada seguia o mesmo ritmo. 1994. referir a isso todos os estudos? Eis o que nos distingue de todas as outras pessoas de letras. Luís XIV era elevado à categoria das divindades (APOSTOLIDÈS. etc. como Ciro da Pérsia e a seu avô. Neste período. de modo geral. Bossuet: apologia a Luís XIV Bossuet (1627-1704) fez parte deste universo de exaltação e engrandecimento do Rei Sol. sobretudo de seu amigo La Bruyère. entre as elites. p. em outras palavras. pp. p. 1909. Qual a eficácia da campanha do Rei Sol? A quem ela se destinava? Conforme constata Peter Burke. Luís XIV é divinizado por Bossuet. pp. pp. Bossuet refere-se a Luís XIV como o “maior dos reis”. 2007 . Luís XIV era descrito como o representante de Deus na terra por Bossuet e outros teóricos políticos (BURKE. M. redigido em 1701. 15. 205. ouvintes e leitores de sua grandeza.

112-113). no século XV. 1989. Constata-se que a partir de fins da Idade Média a maioria dos súditos obedecia às ordens do monarca não mais por coerção direta de suas forças militares. XVII e XVIII. 1996. no século XVII. quando a doutrina ganhou seus contornos teóricos. mais que qualquer outra época. era considerado representante de Deus na Terra e. pp. Mas foi no século XVII que a divinização da realeza atingiu o clímax. B. 99-101).. atinge o seu ponto culminante. No entanto. no plano francês. Desde as civilizações da Antigüidade oriental. a teoria do direito divino. A doutrina do direito divino dos reis foi muito criticada em seu próprio tempo. s. 61-72. A. a maior parte das grandes potências européias e muitas das potências menores adotaram a forma de governo conhecida pelo nome de ‘absolutismo’ – isto é. p. 1989. a maior glorificação a Luís XIV vinha da exaltação a sua autoridade. Na segunda metade do século XVII. pp. tem sido prática comum justificar o poder da realeza por delegação divina (LOPES. é preciso levar em consideração que esta doutrina. e as sublevações camponesas e urbanas. tais crises enfraqueciam o poder do monarca.. as sociedades políticas se encontravam frágeis e inseguras. XVII e XVIII. Isto fez com que muitos historiadores a desprezassem como objeto de estudo. quase todos os gêneros literários. Devemos levar em consideração que alterações nas atitudes dos súditos em relação ao poder político. “o século XVII. 1989. sublinhou abertamente a natureza quase divina da monarquia e. 85. ocorridas no final do século XV e início do século XVI. p. Robert Filmer. 15. as Guerras Religiosas do século XVI. pp. pp.. ao final de cada uma delas. teve como conseqüência a emergência do Estado absolutista no Ocidente. dos reis aos súditos. Toda a sociedade política. 25-42). 238). 1980. aceitou-a como um elemento “natural” na esfera da vida pública e até 67 Akrópolis. sobretudo na França.d. As novas estruturas institucionais da monarquia impulsionaram o desenvolvimento do absolutismo: “exército. 69-70).d. De acordo com o historiador inglês C. burocracia. a Guerra dos Cem Anos. destinados à educação do Delfim. mas com a ajuda de todo um simbolismo religioso que a envolvia (STRAYER. jan. Com isso. 25-46). promover a paz e a ordem no reino. 22). No entanto. Umuarama. o poder do monarca se fortaleceu progressivamente (LOPES. Behrens.d. assim. 1997. 2007 . p. 1997. pp. impedindo que a construção do absolutismo francês fosse um processo linear (ANDERSON. nos séculos XVI. por obra e graça de Jaime I. fossem políticos ou não. De fato. e a Guerra dos Trinta Anos. tributação e diplomacia” (ANDERSON. p. que se conhece já há tempo. v. com atributos semidivinos” (BEHRENS. As constantes crises constituíramse em empecilhos. no século XVII. Dessa forma. Cardin Lebret e de outros formuladores do absolutismo. durante os dez anos do curso do preceptorado. período de afirmação crescente das teorias políticas liberais. 1 e 2. p./jun. Foi na segunda metade do século XVII que o absolutismo francês conheceu seu momento de maior esplendor. foi defendida com grande vigor teórico e com apaixonada crença política e religiosa. por ser um misto de ambas as coisas. no século XVII. insere-se nesse movimento de exaltação à glória monárquica. sobretudo no início do reinado pessoal de Luís XIV. pp. s. Porém. em 1661. devido às constantes guerras entre as casas nobiliárquicas. 23-41). e bastante ridicularizada por pensadores dos séculos XVIII e XIX. daí o seu anseio por um governante forte. 173). A doutrina do direito divino dos reis contribuiu poderosamente para o fortalecimento da monarquia francesa. arrasou a Europa nos séculos XIV e XV. até do rei” (BLOCH. pp. in KING. o Estado absolutista francês chegou ao seu ponto culminante (ANDERSON. 85). 85). para. 112-113). “durante os séculos XVI. Neste período. Este sentimento já estava largamente disseminado na França e na Inglaterra de fins da Idade Média. versavam ou incluíam em seus discursos a exaltação das virtudes morais da realeza sagrada (LOPES. 1971. 235). WARRENDER. Os cinco primeiros livros da Politique de Bossuet. Jean Bodin. no plano internacional. Bossuet dedicouos para falar da origem do poder e da autoridade do príncipe. 97-98. p. a seu poder. O sufocamento dessas revoltas contribuiu para o progresso da centralização administrativa. no reinado de Luís XIV. a monarquia absolutista francesa não se consolidou apenas por seus aparatos técnicos e burocráticos.. No início. Houve na Europa. no transcorrer do século XVI (ANDERSON. A crise econômica e social que. É preciso levar em consideração que a lealdade dos súditos ao soberano se tornou mais forte ainda com a sistematização da doutrina do direito divino (STRAYER. Conforme afirma Marc Bloch. justificadora do absolutismo. No entanto. s. p. 1952. uma forma de monarquia hereditária em que o monarca recebia o seu poder de Deus. não foi somente por meio desses aparatos técnicos e burocráticos que a monarquia absolutista francesa conseguiu se consolidar. escritos entre 1677 e 1679. a Fronda. n. foi de fundamental importância.A contribuição de Bossuet à glória. 1989. com poderes centralizados em sua pessoa. mas por laços de identificação com a sua capacidade de liderança (STRAYER. 96-98. pp.

e são Pedro reúne esses dois deveres: ‘Crêde em Deus. Bossuet recorre a São Paulo e a São Pedro para demonstrar que os súditos devem obedecer ao príncipe como obedecem a Deus./jun. M. foi “essencialmente uma teoria popular. apregoada em praça pública e defendida no campo de batalha” (FIGGIS. somente se encontra no preceito que obriga a honrar seus pais” (BOSSUET. até mesmo as teorias contrárias a esta doutrina eram baseadas na Bíblia. mas na vida cotidiana também (FIGGIS. 71). o rei está sentado sobre o trono de Deus. Afinal. jan. 1942. Neste sentido. pp. Desde os primeiros séculos São Gregório fez da coroa da França esse singular elogio: ‘Ela está acima das outras coroas do mundo.BARBOSA. formas semelhantes de sustentação teórico-teológica do poder régio descem ao leito mais profundo da história da realeza. pois tornou possível a sua independência e supremacia em relação ao domínio eclesiástico. 20-21). a não ser um trono. “até para fins utilitários. o neto de Henrique IV. quem melhor que Bossuet poderia elevar o poder daquele que no momento seria Akrópolis. 61-72. E mais! Ele exalta a superioridade da monarquia francesa. 1 e 2. Nesta exaltação ao poder do príncipe. 38). É este o ponto de vista que compartilhamos com o pastor anglicano e historiador inglês John Neville Figgis. “Há então alguma coisa de religiosa no respeito que se tem pelo príncipe. pp. 1942. O direito divino dos reis foi uma teoria que. em que Bossuet fala das quatro características da autoridade da realeza. p. A doutrina do direito divino dos reis. E o porquê de. v. p. 1967. sendo assim. Segundo ele. 13-14). e de tantos reis. filha de Henrique o Grande. e tão alto elevou a raça de Meroveu. 92). em sua Oraison Funèbre de Henriette-Marie. São Paulo disse que os servidores deviam obedecer aos mestres temporais 68 como obedecem a Deus. segundo Bossuet. A rigor. Descendente desta raça. p. 1967. O poder dos reis vem de Deus. que nos chama a atenção para o fato de que. e que os reis se fazem segundo o modelo dos pais. O trono real é o trono de Deus. “Pertence então ao espírito do cristianismo fazer respeitar os reis como uma espécie de religião. E Bossuet acrescenta. Esta doutrina possibilitou a consolidação da monarquia absolutista. “A pessoa do rei é sagrada e atentar contra ele é um sacrilégio”. privada. o seu grande coração sobrepujou o seu nascimento. Todo o mundo exigia alguma forma de autoridade divina para qualquer teoria de governo”. como bem o demonstrou a obra clássica de James Frazer. se situarmos a “doutrina do sistema monárquico” em seu tempo.) a primeira idéia de poder que existiu entre os homens. Os reis são a imagem de Deus na Terra. que o próprio Tertuliano chama muito bem de ‘a religião da segunda majestade’” (BOSSUET. três dias depois. no ano seguinte. tê-lo convidado para ser bispo de Condom e. pp. No terceiro livro da Politique. Por isto.. que os estabelece como seus ministros na Terra. 1874. proclamada desde o púlpito. 15. Tanto a sua concepção como a sua defesa foram resultados das circunstâncias históricas num período de afirmação do poder régio. Em meados do século XVII. ele afirma que a autoridade real é sagrada. seria indigno dela (BOSSUET. No tempo de Bossuet. 2007 . referindo-se a rainha Henriette-Marie. Se nestes termos falou do tempo do rei Childebert. Bossuet ressalta que a autoridade real é absoluta. à viúva de Carlos I e tia de Luís XIV. Bossuet defende a autoridade do príncipe como sendo fundamental à manutenção da ordem no reino. era preciso encontrar um fundamento religioso se se pretendia ter aceitação. Umuarama. na concepção de Luís XIV. Em 1669. como resultado da refutação dos escritores imperialistas às pretensões do papado ao poder universal. O ramo de ouro. no Ancien Régime. Qualquer outro lugar. Bossuet lembra que a autoridade real é paternal: “os reis têm o lugar de Deus que é o verdadeiro pai do gênero humano. ao ouvir os elogios aos reis e ao reino da França pela boca daquele que já era considerado o maior orador francês. É possível imaginar o quão envaidecido sentiu-se Luís XIV. O serviço de Deus e o respeito para com os reis são coisas unidas. por se relacionar com a teologia bem como com a política. todo mundo está de acordo que a obediência que é devida ao poder público. honrai o rei’”. p. nada se encontra debaixo do sol que iguale a sua grandeza. Por fim. Neste sentido. alcançou importância imensa e o seu valor teórico-doutrinal foi reconhecido nas principais cortes européias. (. é a do poder paternal. não poderá ser julgada do ponto de vista de uma época em que ambas se encontram separadas. perceberemos que de ridículo ela não teve nada. O direito divino dos reis pertenceu a uma época em que teologia e política estavam imbricadas não somente em teoria. como a dignidade real está acima das fortunas particulares’.. 6569). imagine o que diria do sangue de São Luís e de Carlos Magno. isto significa que o poder do príncipe é indivisível e que ele não deve prestar contas a ninguém de suas decisões (BOSSUET. I. 1967. n. desta forma. confiar-lhe o cargo importantíssimo de preceptor do Delfim. A doutrina tem suas origens remotas no século XIV. tal como se apresentou no século XVII.

quando Bossuet afirma “vos morrereis como homens. vos morrereis como homens. pp.. ele está sujeito às paixões e à morte como os demais. e vós sois filho do Altíssimo. ao contrário do corpo natural. Ao afirmar que os reis eram ministros de Deus na Terra. Deus põe sobre a fronte dos soberanos e sobre sua face uma marca de divindade. o corpo natural do rei é composto por membros naturais como os outros homens. lançava-se o seu caixão no fosso fúnebre gritando “O rei está Akrópolis. De fato. mas o Rei... 1985. e esse Corpo é extremamente vazio de Infância e Velhice e de outros Defeitos e Imbecilidades naturais. exaltar a sua glória? Bossuet atinge o ápice da exaltação monárquica em seu Sermon sur les devoirs des rois. Bossuet afirmava. místico.. “A obra Politique. Mas seu Corpo político é um Corpo que não pode ser visto ou tocado. está presente em seu pensamento a idéia de distinção entre o rei enquanto instituição e a pessoa de Luís XIV. 1985. este corpo político não está sujeito nem às paixões nem à morte. De acordo com os juristas elizabetanos. (.. “No entanto. não morre jamais: a imagem de Deus é imortal (BOSSUET. A morte do corpo natural do rei não significa a morte de seu corpo político. vós sois deuses. Não importa.. Seu Corpo natural (. mas o Rei. vossa autoridade não morre jamais. um Corpo natural e um Corpo político. ajudou a elevar o absolutismo. afirmando “Vós sois deuses”. a saber. subentendia. Bossuet eleva Luís XIV à categoria das divindades. vós sois deuses. defendiam a doutrina dos dois corpos do rei. é verdade. pois. dizemos. Que grandeza um simples homem deter tanto poder!’. 123). e que ‘o estado é o príncipe. assegurar sua autoridade com tanto empenho. O homem morre. e um corpo político. 24-25). o mesmo respeito. 1 e 2. 61-72. No quarto ano do reinado da rainha Elizabeth. 15. as teorias sustentadas anteriormente por alguns defensores do absolutismo. 1985.. disse Davi. como qualquer outro homem. os dois corpos são separados.) não morre jamais: a imagem de Deus é imortal”. ainda que vós morrais. sujeito a todas as Enfermidades que ocorrem por Natureza ou Acidente. Neste sermão. Mas. Na divinização de Luís XIV feita acima. Quando da sagração de um rei. este espírito de realeza passa completamente a vossos sucessores (. 82).. mostrando que mesmo que ele morra a sua autoridade não morre jamais.. ainda que vós morrais.. mas tem origens na Idade Média. O corpo político do rei nunca morre. pp. e que a falta de autoridade no reino levaria à anarquia.) O homem morre. este espírito de realeza passa completamente a vossos sucessores. e constituído para a Condução do Povo e a Administração do bem-estar público. portanto. à Imbecilidade da Infância ou da Velhice e Defeitos similares que ocorrem aos Corpos naturais das outras Pessoas. p.) Vós sois deuses. Umuarama. 1966. 21). Esta idéia pertence à doutrina dos dois corpos do rei. Não importa. é verdade. p. a que o Corpo natural está sujeito. e imprime em toda parte a mesma crença. v. mas. pois ela é imortal: Para estabelecer este poder que representa o seu. 1977. escrita por Bossuet para instruir o Delfim nas suas prerrogativas e deveres futuros. o Rei tem em si dois Corpos. Mas deus de carne e sangue. na concepção dos cristãos “o príncipe não morre”. que os súditos deviam obedecer-lhes como a um pai. a população gritava em alta voz: “Vivat rex! Ou Vivat rex inaeternum!”.) é um Corpo mortal./jun. No enterro de um rei. Na concepção dos teóricos dos dois corpos do rei. o futuro rei da França. Neste caso. (. in TRUCHET.. estava a contribuir para a apoteose do Rei Sol” (BAUMER. século XVI na Inglaterra. 22-24). quando Bossuet escreveu que ‘os reis são deuses e participam da independência divina’.. tal como era praticado pelo Rei”. composto de Política e Governo. sendo assim. a este respeito. jan. O corpo político é imediatamente transmitido do corpo natural morto para outro corpo natural (KANTOROWICZ. deus de terra e de pó. pronunciado em 1662.A contribuição de Bossuet à glória. o corpo natural e o corpo político são inseparáveis. p... em que ele é a cabeça e os súditos são os membros. vossa autoridade não morre jamais. eles estão incorporados em uma única pessoa. retomando máximas comuns entre os juristas medievais. compondo um só corpo. incapaz de imperfeições. e as imperfeições do corpo natural são removidas pelo corpo político que é mais amplo e superior (KANTOROWICZ. que foi extremamente defendida no Para os juristas elizabetanos. Conforme observa Franklin Baumer. e que sua autoridade era absoluta. os juristas da coroa inglesa. havia a possibilidade de separação no caso da morte do rei. 2007 69 . Já o seu corpo político é uma corporação constituída por ele e os seus súditos. segundo a qual o rei possuía dois corpos: um corpo natural. apesar da unidade entre os dois corpos. (Apud KANTOROWICZ. n. eram feitos segundo o modelo dos pais. sem contestação. a mesma veneração. p.

Marcos Lopes observa que. Esta idéia “será repetida de século em século e ainda por Bossuet”. a teoria da resistência constitucional (SKINNER. a realeza da época moderna pode ser compreendida como um símbolo que transpersonaliza o poder monárquico. Segundo Marcos Lopes. Conforme Houx. representou um severo golpe ao absolutismo neste país. um dos aspectos desta doutrina. Em 1649 o rei Carlos I foi decapitado. 13). “O príncipe morre. Durante a Revolução Inglesa de 1640. mas para todas as nações governadas por monarcas absolutistas: um rude golpe no poder efetivo dos príncipes. de que o rei como corpo político não morre. de onde os puritanos ingleses buscaram o fundamento para resistir. na França do Ancien Régime. O poder real ficou extremamente limitado. p. por força das limitações de seu corpo físico. Bossuet lamentou as conseqüências da Revolução Inglesa de 1640 e buscou advertir os monarcas absolutistas do perigo que a religião protestante representava ao absolutismo. 266). não somente para os ingleses. n. p. subsistindo a monarquia para sempre” (LOPES. a realeza se fundamenta num simbolismo que transcende a pessoa do rei. Os monarcas absolutistas da Europa Ocidental e todos 70 os seus defensores assistiram. 1999. viva o rei!”. e não meramente uma realidade temporal” (LOPES. para Bossuet. 1985. que foi refundada em novas bases de sustentação política. em 1498. “Segundo Manuel García-Pelayo. Nesta revolução foi proclamada a República Puritana sob a liderança de Oliver Cromwell. Entretanto. quando se proclama “O rei Carlos está morto. conforme eram denominados os calvinistas na Inglaterra. mas. na qual. já que o rei cedeu a maioria de suas prerrogativas ao Parlamento. em 1649? (HILL. pronunciada em 1669. aterrorizados. 8. 1997. Apenas após 1550. 266). I. pp. a partir de então. é que alguns teóricos radicais. e se faz constante no pensamento político de Bossuet. jan. em que milhares de protestantes foram mortos na França. 1 e 2. Bossuet lançou mão de todo o seu poder de argumentação para defender a autoridade do príncipe. Nesta célebre oração fúnebre. Reine de la GrandeBretagne. Conforme salienta Perry Anderson. pp. quando a França era governada por Mazarino. p. 192. M. já havia o desejo de se afirmar a transmissão do poder do rei morto ao seu sucessor sem nenhuma interrupção (HOUX. “Sob certos aspectos. à Revolução Inglesa de 1640 e toda a seqüência de episódios que debilitaram a monarquia absolutista inglesa. liderada por puritanos. a Fronda pode ser considerada como uma alta ‘crista’ da onda prolongada de revoltas populares. 1997. chegando a ponto de divinizá-la. e que Deus consentia em que eles se rebelassem contra o poder constituído sempre que os perseguisse. 1997. no contexto da Revolução Inglesa de 1640. os camponeses e trabalhadores da cidade engrossaram as fileiras de seus senhores contra o exército real (CORVISIER. os reis tinham que se submeter a todas as suas imposições. Ela se encontrava bem elaborada e difundida no século XVII./jun. 2007 . no final do século XV. A realeza é uma essência mística e intangível. A Revolução Inglesa de 1640. mas a autoridade é imortal” (HOUX. os cristãos acreditavam que “O rei não morre jamais”. ou seja. 465616) Esta teoria serviu para justificar a resistência dos protestantes diante da perseguição dos governantes católicos. Em sua Oraison funèbre de Henriette-Marie de France. Afinal. no período da menoridade de Luís XIV. Os calvinistas adotaram a teoria da resistência pela força às perseguições advindas do poder constituído. por Akrópolis. 113). diante dos ataques cada vez mais intensos que os protestantes passaram a sofrer por parte dos governantes católicos. Como vimos. 61-72. 1976. p. p. 1992. A doutrina dos dois corpos do rei era corrente também na França do século XVII. A doutrina dos dois corpos do rei estava presente no pensamento político inglês do século XVII. é preciso situá-lo em um contexto imediatamente posterior à Fronda e à Revolução Inglesa de 1640. Houx nos adverte que somente no século XVI é que esta célebre frase foi dita pela primeira vez. 1648-1653. sendo retomada pelo Parlamento no contexto da Revolução Inglesa de 1640 (KANTOROWICZ. viva o rei Luís!”. sua autoridade é imortal. na França ocorreu a Fronda. v.BARBOSA. morto. Eles afirmavam que a sua religião era a verdadeira. Não é difícil imaginar o que o ato da decapitação de Carlos I representou naquela época. 1997. CONCLUSÃO Para uma melhor compreensão da defesa da autoridade do príncipe por Bossuet. Alguns anos depois a monarquia foi restaurada pelo Parlamento. Para ele. também é defendido por ele. começaram a conceber uma teoria oposta. “Mesmo que o rei seja perecível. além de um recuo das dimensões simbólicas do absolutismo. 30). 72). Esses eventos influenciaram decisivamente o seu pensamento político. usurpar o trono e até decapitar o rei Carlos I. Nesta guerra civil. De fato. sobretudo após o massacre de São Bartolomeu de 1672. luteranos e calvinistas. 196-197). 15. pp. p. É bom lembrar que tanto Lutero quanto Calvino defendiam a submissão dos súditos mesmo diante de um príncipe tirano. Umuarama.

. 104). “mais vale. “com uma pompa próxima dos funerais”. 9). e melhor ainda que o mestre possa ser o próprio rei que o ministro” (SAINTE-BEUVE. “a França aspira à ordem e à paz. p. p. Ele expressou. p. em que se mostrava “onipotente em sua púrpura” (SAINTE-BEUVE. p. ed. e da obediência que lhe é devida!” (SAINTE-BEUVE. C. p. 1977. ocupando o cargo de conselheiro do Parlamento desta cidade. 31. v. em 1649. Como observa Ernest Lavisse. Quando o pai de Bossuet instalou-se em Metz. BAUMER. A desordem e a miséria que assolaram a França. 1928.A contribuição de Bossuet à glória. “as idéias sustentadas por Claude Joly insistem demoradamente sobre os limites do poder real” (TOUCHARD. pp. o primeiro-ministro de Luís XIII. 1989. Segundo Henri Sée. colocase em defesa da liberdade individual” (SÉE. Bossuet é o seu infatigável doutrinador” (TOUCHARD. 127). com quinze anos. jan. A Fronda representou uma grande ameaça ao poder constituído. p. 1928. Neste sentido. Lisboa: Edições 70. um senhor que mil senhores. 358)./jun. 106). 29. Esta observação de Bossuet mostra a sua total desaprovação ao fato de ter sido Richelieu quem de fato governou a França desde o início de seu ministério em 1624 até a sua morte em 1642. 1993. e sempre se colocou ao seu serviço. BEHRENS. REFERÊNCIAS ANDERSON. chegando a declarar aos nobres que “seria preciso agir para que o mal de Paris não pudesse chegar até eles” e que “os habitantes de Dijon nunca se afastariam da fidelidade que eles juraram ao Rei. que era conselheiro do Parlamento da cidade de Dijon (SAINTE-BEUVE. Devido à sua fidelidade a este príncipe foi promovido de Conselheiro do Rei no Parlamento de Dijon a Visconde-Maior da cidade (Cf. B.. 1 e 2. Lisboa: Verbo. 28). setores da alta nobreza. 108). deixou os filhos sob a responsabilidade do tio Claude Bénigne Bossuet. coberta por um lençol escarlate. Desde a infância e adolescência de Bossuet sua família sempre mostrou fidelidade absoluta ao rei. Akrópolis. F. causadas pelas perturbações da Fronda. Bossuet assistiu à Fronda e à anarquia desencadeada por esta guerra civil. O Ancien régime. Segundo constata Touchard. Olympio: Brasília. pp.1. por um instante. certamente. . da magistratura detentora de cargos e da burguesia municipal lançaram mão do descontentamento das massas para seus próprios fins. 376). Nos tempos turbulentos da Reforma. 15. 1971. após a Fronda. p. Umuarama. transportado em uma liteira. voltava do Midi. um breve espaço de tempo. pronunciam-se pelos direitos dos Estados Gerais e dos Parlamentos. P. Segundo constata Touchard. São Paulo: Brasiliense. presenciou uma cena que marcou a sua vida.d. Rio de Janeiro: J. As perturbações da Fronda ficaram gravadas na memória de Bossuet de uma tal maneira que em vários de seus textos. ele defenderá o poder centralizado na pessoa do príncipe e condenará abertamente todos os tipos de revoltas dos súditos contra ele. n. constituiu-se em respostas aos fatos reais que surgiram diante dele. 1970. Linhagens do estado absolutista. 1982. SAINTE-BEUVE. p. Edumb. No dia em que aí chegou. “os panfletários elevamse contra a Razão de Estado. dando a sua significativa parcela de contribuição à glória do Rei Sol. 1928. Bossuet foi a Paris pela primeira vez. O rei máquina: espetáculo e política no tempo de Luís XIV. “Bossuet nasceu sob fundo realista sólido”. 1989. os progressos da doutrina do absolutismo foram interrompidos pela Fronda. entre eles a Oraison funèbre de Henriette-Marie. Claude Joly invoca as leis fundamentais. 1928. então.. s. O pensamento europeu moderno: séculos XVII e XVIII. e Bossuet soube tirar deles uma grande lição. 2. O cardeal Richelieu. pp. Levando em consideração as terríveis conseqüências desses eventos políticos para o absolutismo. p. 108). 1923. Ao passo que Luís XIV encarna a monarquia absoluta. O príncipe de Condé era amigo e protetor da família de Bossuet (SAINTE-BEUVE. 31). sua família sempre manteve a sua fidelidade à Igreja e ao rei (LAVISSE. Para ele. p. ficaram gravadas na memória de um jovem destinado a defender vigorosamente a soberania indivisível na pessoa do príncipe. J. 2007 71 . A. já moribundo. L.M. 1970. 97-98). Em setembro de 1642. v. contra o Estado absolutista” (ANDERSON. 1928. Esses dois episódios foram “um curso resumido de política”. 129). Alguns anos depois. 1928. da Liga e da Fronda. Claude Bénigne Bossuet mantinha relações estreitas com o príncipe de Condé. 61-72. Claude Joly defende o direito de resistência ativa diante dos abusos dos governantes (CHEVALLIER. A idéia de que há um pacto entre o rei e o povo foi revivida. toda a sua lealdade ao príncipe de Condé. Na segunda magistratura de Claude Bénigne Bossuet explodiu a Fronda parlamentar. APOSTOLIDÈS. como também ao fato de no decorrer da Fronda o poder ter sido temporariamente descentralizado. torna-se mais fácil entendermos o porquê de Bossuet ter defendido a autoridade do príncipe com tanto esforço. podemos afirmar que a doutrina de Bossuet formou-se a partir de confrontos com problemas concretos.

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