0

UNIVERSIDADE DE CUIABÁ FACULDADES DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS APLICADAS DE PRIMAVERA DO LESTE

DISCUSSÕES ÉTICO-JURÍDICAS NA REPRODUÇÃO ASSISTIDA

MARCELO LUIZ TREVIZAN

Primavera do Leste 2008/2

1

MARCELO LUIZ TREVIZAN

DISCUSSÕES ÉTICO-JURÍDICAS NA REPRODUÇÃO ASSISTIDA

Monografia apresentada à Faculdade de Direito de Cuiabá para obtenção do título de Bacharel em Direito. Orientador: Prof. Mestre José Carlos Iglesias.

Primavera do Leste

2008/2

2

MARCELO LUIZ TREVIZAN DISCUSSÕES ÉTICO-JURÍDICAS NA REPRODUÇÃO ASSISTIDA

Monografia para obtenção do título de Bacharel em Direito apresentada à Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais Aplicadas de Primavera do Leste da Universidade de Cuiabá (UNIC) em 10 de Outubro de 2008. Orientador: Prof. Mestre José Carlos Iglesias.

BANCA EXAMINADORA

________________________________ Prof. Me. José Carlos Iglesias Orientador ________________________________ Prof. Me. Marcelo Di Pieri

________________________________ Prof. Esp. Fabiane Marisa Salvajoli Guilherme

Primavera do Leste, 24 de outubro de 2008.

Nota final: _______

3

Trevizan, Marcelo Luiz. Discussões ético-jurídicas na reprodução assistida. Primavera do Leste, 2008. 46 f. Monografia (Bacharelado em Direito) - Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais Aplicadas, Universidade de Cuiabá, Primavera do Leste, 2008. RESUMO O trabalho monográfico visa abordar alguns aspectos relevantes da reprodução assistida com um enfoque ético e jurídico, recorrendo à interpretação Constitucional, ao direito comparado, ao projeto de Lei 90/99, a orientações éticas do Conselho Federal de Medicina, e a bioética, diante da ausência de legislação própria para regulamentar o tema. Para tanto, preciso se faz o entendimento da evolução da sociedade e da ciência, e o surgimento da bioética, seu desenvolvimento até o seu estado atual, com um enfoque latino-americano, procurando, ante a diversidade cultural do Brasil, estabelecer mínimos éticos em questões delicadas, como o início da vida, e a proteção jurídica recebida por um embrião ou por uma criança gerada em procedimento de reprodução assistida. Diante da falta de regulamentação, é possível a existência de controvérsias acerca da paternidade, da maternidade, do direito sucessório e da proteção jurídica recebida pelo pré-embrião, situações estas que acabam pondo em xeque o modelo tradicional de família. A temática ganha substancial importância diante dos bens jurídicos fundamentais que deveriam ser tutelados e diante das inúmeras controvérsias entre os países que regulamentam a questão. Imperativa é a necessidade de resguardar o direito do ser humano que será gerado, mesmo que para isto o direito de procriar deva ser restringido. Para esta pesquisa foi utilizado o método de abordagem dedutivo, e os de procedimento histórico e comparativo, consubstanciado pela técnica de documentação indireta, com análise bibliográfica doutrinária, filosófica e jurisprudencial, alem de legislação nacional e comparada. Palavras-chave: Bioética. Ciência. Dignidade da Pessoa Humana. Reprodução Assistida.

Ethical-legal quarrels in the assisted reproduction. University of Cuiabá. using the constitutional interpretation.4 Trevizan. the ethical guidelines of the Federal Council of Medicine. Due to the lack of regulation. establishing minimum ethical issues in delicate questions. and the historic procedure and comparative methods. its development until its present situation. motherhood. Dignity of the Human Person. and legal protection received by a child or an embryo created in the assisted reproduction procedure. For this study has been used the method of deductive approach. ABSTRACT The monographic study aims to approach some relevant aspects of assisted reproduction with an ethical and legal focus. and the emergence of bioethics. 2008. Monograph (Bachelor in Right) . and bioethics. even to do it the right to procreate must be restricted. philosophical and legal as well as national and comparative legislation. Science. 2008. due to the absence of a specific legislation to regulate the issue. the comparative law. Keywords: Bioethics. . with doctrinal literature review. Marcelo Luiz. with a Latin American approach.College of Applied Legal and Social Sciences. is necessary understanding the development of the society and science. the draft Law 90/99. Primavera do Leste. Primavera do Leste. trying. at the cultural diversity of Brazil. these situations that put in check the traditional model of family. 46 f. it is possible that there are controversies about fatherhood. To do so. embodied by the indirect documentation technique. Imperative is the necessity to protect the right of human being that will be generated. as the beginning of life. The thematic gets substantial importance in face of the basic legal rights that should be protected and in face of the numerous disputes between countries that govern this issue. Assisted Reproduction. the right of inheritance and legal protection received by the pre-embryo.

.................................................................5 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................................1 DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA.........10 3 BIOÉTICA: DO SURGIMENTO AO ESTADO ATUAL.14 3..................................1 ASPECTOS GERAIS DA REPRODUÇÃO ASSISTIDA.............................14 3..3 FECUNDAÇÃO IN VITRO....................................................1GÊNESE DA BIOÉTICA.....2...........................2...................................................25 5 DISCUSSÕES ÉTICO-JURÍDICAS ACERCA DA REPRODUÇÃO ASSISTIDA................31 5......................................................1 O PARADIGMA MODERNO E O SURGIMENTO DA CIÊNCIA MODERNA..........................................31 5.......................25 4........................................................................................32 5....44 ..35 5................2 O PRINCIPIALISMO E O ESTADO ATUAL DA BIOÉTICA.......................2 INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL..........1 Fecundação in vitro homóloga...2..............................17 4 FUNDAMENTOS E GARANTIAS CONSTITUCIONAIS REFERENTES À REPRODUÇÃO ASSISTIDA.........................................................2 PRINCÍPIO DO DIREITO A VIDA......06 2 O PARADIGMA MODERNO E A IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA........................................3..................................................22 4.................................28 5.................................................2 Fecundação in vitro heteróloga.............................36 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................22 4...............2 Inseminação artificial heteróloga...............................................3......................................................................................08 2.....1 Inseminação artificial homóloga e post mortem......................2 A DECADÊNCIA DO PARADIGMA DA MODERNIDADE.36 5...................41 REFERÊNCIAS..............................................................................................................1 Breves comentários acerca do início da vida..........................08 2.........................................30 5.............

estas novas situações de fato acabaram por abalar o direito posto. contudo. é preciso que o direito a auxilie. que nada mais é que um conjunto multidisciplinar preocupado com as conseqüências do desenvolvimento técnico-científico e que visa debater sobre estas limitações que devem ser impostas para a continuidade da vida humana digna no globo. e após o termino destes julgamentos. com a criação do Tribunal de Nuremberg para julgar os excessos cometidos na guerra. e. No entanto. o ordenamento jurídico pátrio deixou à margem as questões que surgiram da reprodução assistida. utilizado até então na história da sociedade. fazendo-se necessária uma nova conceituação do que vem a ser família. para que estas conclusões tenham força normativa cogente. por não . apesar destas preocupações da bioética. e não fiquem apenas no campo da ética profissional. Para que seja possível o debate acerca dos limites deste tipo de reprodução é preciso entender a evolução da sociedade. considerada como uma patologia. distorcendo o conceito tradicional de família diante da possibilidade de curar as pessoas que têm dificuldade de conceber um filho. O início deste tipo de debate acabou por desencadear o surgimento da bioética. Após o termino da segunda grande guerra. fazendo com que o critério sócio-afetivo ganhasse destaque nesta nova relação. passou a não mais determinar a filiação. No entanto. passando a exprimir a preocupação da sociedade como um todo quanto à coisificação dos seres humanos. aliada ao desenvolvimento científico. A infertilidade. sem que lhe fosse oposta nenhum tipo de limitação. até a Segunda Guerra Mundial. um código de ética para pesquisas com seres humanos foi elaborado. alguns destes avanços acabaram por colocar em risco a continuidade da vida no planeta. em especial da ciência. desde a ruptura da Idade Média até os dias de hoje. já que o critério biológico/genético. formaram a base da sociedade moderna. foi mitigada diante da possibilidade de gerar vida com auxílio da ciência. em virtude desta liberdade. já que a razão. foi realizada de maneira livre. Esta evolução.6 1 INTRODUÇÃO As técnicas de reprodução assistida alteraram o desenvolvimento natural da concepção. a falta de limites da pesquisa científica com seres humanos ficou evidente.

analisar algumas situações emergentes é crucial para que se possa fazer justiça no caso concreto. pela possibilidade de serem gerados filhos inclusive após a morte de um dos pais. o qual deve utilizar-se de interpretações constitucionais. a filiação. do direito comparado e de orientações éticas para tutelar bens jurídicos fundamentais. ou então. Portanto. a sucessão e demais situações que decorrem desta quebra da tradição familiar. buscando a solução destes conflitos sempre pautado no princípio da dignidade da pessoa humana. filhos com características genéticas distintas daqueles que serão sua família. como o direito a vida. enquanto não sobrevier norma regulamentando estes casos. .7 ter sido ainda editada nenhuma lei específica para regulamentar o caso. para que o magistrado possa optar por uma saída condizente com os objetivos do Estado democrático de direito. fazendo com que fique a cargo do magistrado decidir acerca da colisão de princípios.

São Paulo: Moderna. conforme Aranha3: “O século XVII COTRIM. De acordo com Cotrim1: “A partir do século XV. p. se desenvolveu sem questionamentos. com destaque para a transição do feudalismo para a modernidade. São Paulo: Saraiva. acabaram por deslocar o pensamento do teocentrismo (Deus como centro) para o antropocentrismo (homem como centro). e ampl. 2003. MARTINS. 3 ARANHA. e acabou por ficar especializada de tal maneira que pode comprometer a existência humana. o desenvolvimento do método. rev. 1 . Fundamentos da filosofia: história e grandes temas. Maria Lúcia de Arruda. a Reforma Protestante.” Movimento que obteve seu ápice no século XVII. se faz imperativo a rápida compreensão do desenvolvimento humano dos últimos séculos. p.136. inclusive em curto prazo.ed. 2.” Essas transformações. Portanto. Leciona-nos Cotrim2 que: “O movimento cultural que marcou essas transformações da mentalidade social européia foi chamado de Renascimento (séculos XV e XVI). reform.1 O PARADIGMA MODERNO E O SURGIMENTO DA CIÊNCIA MODERNA O paradigma da modernidade nasceu devido à inconformidade dos pensadores do final da Idade Média em relação à forma pela qual os problemas sociais eram tratados. 2 Ibid. Maria Helena Pires.137. no globo terrestre. 15. Filosofando: introdução a filosofia. Gilberto. com Descartes.130. até algumas décadas atrás.ed.8 2 O PARADIGMA MODERNO E A IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA Para que se possa discutir a reprodução assistida sob uma ótica éticojurídica se faz necessária a breve compreensão das transformações que ocorreram no mundo desde o momento do surgimento da ciência moderna até os dias hodiernos. ocorreu uma série de transformações histórico-sociais na Europa que se refletiram na construção de uma mentalidade moderna. para que se possa debater sobre os limites que podem ser impostos a ciência. p. 3. e a invenção da imprensa. A ciência. 2002.

Campanella e Bacon imaginaram 4 Ibid.9 representa a culminação de um processo em que se subverteu a imagem do próprio ser humano e do mundo que o cerca. através de diversos mecanismos de controle. Assume uma atitude polêmica perante a 4 tradição.) pretende um desenvolvimento harmonioso e recíproco do pilar da regulação e do pilar da emancipação. o indivíduo moderno opõe o poder exclusivo da razão de discernir. e pretende também que esse desenvolvimento se traduza indefectivelmente pela racionalização da vida coletiva e individual. o direito e a política na transição paradigmática. diante desta realidade. 2000. em detrimento ao conhecimento religioso. opõe a possibilidade da dúvida.” A Igreja Católica que detinha todo o poder neste período controlava toda sociedade com dogmas. por outro.177. conforme pondera Santos6: “Andrea. como exemplo a Inquisição. a envergadura das suas propostas abre um vasto horizonte à inovação social e cultural. p. mas também é um projeto de contradições internas. Para um novo censo comum: a ciência. Boaventura de Souza. suporte do saber da Idade Média. v. Ao critério da fé e da revelação. (. Por um lado.50. solidariedade e identidade. a partir do final daquele período e durante o Renascimento vinha sofrendo diversos abalos com o questionamento da autoridade papal. 6 Ibid. A possibilidade trazida por esta revolução social e a proposta de um novo horizonte fez que a força imaginativa dos filósofos da época criasse algumas utopias sociais. São Paulo: Cortez. Ao dogmatismo. Para a composição destes problemas. e posteriormente a proposta Iluminista. 5 SANTOS. o advento do protestantismo e a conseqüente destruição da unidade religiosa. 51. e entre eles e a práxis social – vai garantir a harmonização de valores potencialmente incompatíveis. com o surgimento do Renascimento. distinguir e comparar. a complexidade dos seus elementos constitutivos torna praticamente impossível evitar que o cumprimento das promessas seja nuns casos excessivo e noutros insuficientes. que prioriza o conhecimento científico. Ao desenvolver a mentalidade crítica.1. tais como justiça e 5 autonomia. o modelo paradigmático apresentava-se ineficiente. e... . igualdade e liberdade. nas palavras de Aranha: A religião. que tinha legitimidade para condenar pessoas com idéias que iam de encontro com o que era pregado pela igreja. p. tendo na religião a sustentação necessária para a perpetuação de seu domínio. questiona a autoridade da Igreja e o saber aristotélico. Entretanto. Esta dupla vinculação – entre os dois pilares. Só a razão é capaz de conhecer.. Segundo Santos: O paradigma da modernidade é um projeto ambicioso e revolucionário. p. surge primeiramente o Renascimento.

que acabaram por moldar e influenciar significativamente a vida nos séculos posteriores. De acordo com Santos: 7 Ibid. da fome. que se desenvolviam cada um com princípios próprios. pois os excessos seriam fortuitos e os déficits temporários. onde era preciso dividir para conhecer. assentado na razão e na ciência. . dando origem ao racionalismo e ao empirismo. abstratos e independentes. entretanto.2 A DECADÊNCIA DO PARADIGMA DA MODERNIDADE O paradigma moderno perdura desde seu surgimento até os dias de hoje. embora também determinante. assim como ocorreu na transição da Idade Média para a Moderna. o paradigma da modernidade na ciência moderna. que consideravam que este sistema se equilibraria. portanto. ao direito”. Não se pode precisar com exatidão o ciclo de vida de um paradigma. 2. tornando o conhecimento aperfeiçoado e epistemologicamente rigoroso. estendendo-se para todas as áreas de conhecimento humano. já dá sinais de falência e insuficiência para resolver os problemas sociais atuais. de forma subordinada. por via do uso sábio da ciência. e passa a ser a única fonte confiável de saber. Assenta-se. A estas contradições do projeto modernista foi dada uma solução pelos pensadores. este paradigma trazia no seu cerne algumas inconsistências. e já se suscita que este modelo se encontra em uma fase de transição. da injustiça. e do trabalho penoso. apesar da esperança por um mundo mais justo. e o da emancipação visando o progresso). por se tratar de um processo social. entre elas a autonomia dos pilares de sustentação (o da regulação que buscava a ordem. o saber humano lançou-se em um processo metodológico. não verificável e valorativo.” De Bacon a Descartes. 51. e segundo Santos7 “a gestão reconstrutiva dos excessos e dos déficits foi progressivamente confiada à ciência e. p.10 sociedades que.. que tem o condão de romper com toda a forma de conhecimento não sistematizado. Contudo. da ignorância. poderiam libertar-se da doença.

9 8 . podem até desconhecer o objetivo final. que se estudem os sinais da falência de um modelo para que se tenha uma idéia acerca das mudanças do porvir. este se utilizaria de todos os meios para provar sua teoria. portanto. alem do que ligam esta 9 imprevisibilidade ao modo de como irá se desenvolver a tecnociência. inclusive o relativamente próximo. da sua morte.. nos últimos 100 anos. (tradução minha). depois da morte de paradigma sóciocultural. que se desenvolve de forma independente.85.15. e com o poder de alterar substancialmente o mundo como é conhecido hoje. é imprevisível. independente de questionamentos éticos e morais. percebe-se que alguns destes problemas já não podem ser solucionados dentro deste paradigma. conforme assevera Iglesias: As grandes instituições contratam os melhores conhecedores e especialistas com a finalidade de levar adiante um projeto. Tais profissionais. (. porém são regiamente remunerados para darem o melhor de seu conhecimento. de acordo com Hottois: O questionamento pelo futuro está estreitamente ligado à tecnociência. Gilbert. Quatro séculos após a data aproximada de seu surgimento. Resta. projeto ou pretensão do pesquisador. O Ibid. onde qualquer que fosse o sonho. Essa liberdade fez com que a ciência ganhasse status de única fonte confiável de conhecimento. Barcelona: Anthropos. muitas vezes sem saberem realmente qual a finalidade deste. A imprevisibilidade do futuro decorre do fato de que desde seu surgimento a pesquisa científica desenvolveu-se sem questionamentos ou restrições. a ciência moderna tornou-se algo extremamente especializado. tornando-se autônoma. e são contratados com finalidades específicas. é possível afirmar com segurança que morreu e determinar a data.11 Ao contrário do que se passa com a morte dos indivíduos. Não só a maior parte dos futurólogos está de acordo em dizer que o futuro. também ao contrário do que sucede com os indivíduos.. só muitos anos. e. Somente interessava para modernidade aquilo que podia ser comprovado metodicamente.) Por outro lado. onde vários cientistas trabalham em um projeto. p. e tratava tudo àquilo que não pudesse ser demonstrado como algo místico e sem valor para a sociedade. HOTTOIS. ao analisar-se a ciência moderna. senão mesmo séculos. 1999. e transformando-se num ser orgânico. a morte de um dado paradigma traz dentro de si o paradigma que lhe há de suceder. El paradigma bioético: uma ética para la tecnociencia. em especial. e. 8 sempre aproximada.. p.

por essência. As conseqüências do desenvolvimento tecnológico desmedido são sensíveis. visando um objetivo único. como marionetes. sobre o período. ou seja. e diante desta inquietude nasce à proposta pós-moderna. a dependência dos países de terceiro mundo em relação aos países desenvolvidos.92. de ter a pretensão de tudo explicar a partir de paradigmas científicos laboratoriais. os desastres nucleares. Lourenço. 76 11 ELLUL. que têm como ponto comum a crítica ao projeto da modernidade. ou. entendido como o projeto de emancipação humano-social através do desenvolvimento da razão.. El paradigma bioético: uma ética para la tecnociencia. p. a grande desigualdade social e a pobreza que impera no mundo.79. Este tipo de situação fez com que a técnica consumisse a individualidade. e não apresenta mecanismos que possam solucionar este desequilíbrio. E conforme preceitua Ellul11 “A técnica deixa de ser o objeto para o homem para converter-se em sua própria substancia: já não se põe frente ao homem. como fizeram Adorno e Horkheimer. 5. UEL. A intensa luta para tornar tudo o que existia no mundo em algo certo e verificável fez com que houvesse um desencantamento do mundo. sejam eles intencionais (provenientes do desenvolvimento bélico) ou não (acidente de Chernobyl. e passa a aceitar aquilo que antes era o mito da modernidade.12 contratante joga com estes profissionais. o problema do lixo nuclear). de praticar uma “techne” puramente com fins lucrativos e ou 10 políticos-militares. em algo que devesse ser desenvolvida independente de questionamentos éticos. 12 NALINI.) Essa corrente de pensadores identificam. pós-moderno. 2000. Bioética: estudos e reflexões. e perdeu-se também a carga moral e ética que era carregada pelo inventor. ou o termo. ainda. 1999. Ética geral e profissional. 10 . José Eduardo. Londrina: Ed. que o mundo é a própria diversidade e 12 inconstância que se manifestam pelos fenômenos. Barcelona: Anthropos. o fenômeno da assimilação IGLESIAS. (tradução minha). José Renato. p. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Leonardo. são os primeiros sintomas de que o paradigma moderno está em colapso. PROTA. e nas palavras de Nalini: A pós-modernidade se desgarra do projeto de limpar o mundo do incognoscível. de estirpar toda a dúvida que se dilui ante ao método.ed. a ilusão da modernidade. Na mesma linha de raciocínio. Apud HOTTOIS. entre eles alguns filósofos.. 2006. se integra nele e progressivamente o absorve”. J. Gilbert. José Carlos In: SIQUEIRA. fazendo com que a ciência se transformasse. o desequilíbrio ambiental. ZANCANARO. p. (. nos ensina Cotrim: O termo pós-moderno se aplica a um grupo de intelectuais.

que acabou por desvirtuar-se da proposta de emancipação social. (. e faz também que nasça a bioética para que exista um maior diálogo. de discutir sobre as certezas científicas.226-227. p.. p. etc. a idéia de que a felicidade se encontra em obter bens materiais. Gilberto.. 15 NALINI. Cit. 13 14 COTRIM. José Renato. Cit. diante do potencial de periculosidade das transformações técnicocientíficas. Através da indústria cultural e da diversão se obteria a homogeneização dos comportamentos. multicultural. Op. transformando as pessoas em uma sociedade de massa. facilmente pastoreada pela indústria cultural. Diante deste caos da fase de transição.130. por intermédio da indústria cultural. técnico-jurídicas e ético-jurídicas. Portanto. para colocar a ciência em prol dos interesses capitalistas. revistas. o termo pós-moderno designa o fim do projeto da modernidade. sobre tudo que é posto como benção. assentado na razão.. faz-se necessário o desenvolvimento de novos parâmetros. a transição paradigmática traz novas bases e perspectivas para as discussões da sociedade. p.13 dos indivíduos ao sistema. Elucida-nos Cotrim: Indústria cultural é um termo difundido por Adorno e Horkheimer para designar a indústria da diversão vulgar..) Assim. onde se difundiu o consumismo. um fenômeno totalitário que se dá pela narcotização das consciências. Diante desta perspectiva. sua absorção pelo capitalismo. Pode-se perceber que inúmeras são às críticas ao paradigma moderno. jornais. Essa realidade contextual afirma realmente a necessidade do desabrochar de novas perspectivas teórico-jurídicas. músicas.). . onde se acentuam as criticas ao paradigma que está morrendo e buscam-se alternativas para este quadro.224. interdisciplinar acerca dos limites do desenvolvimento tecnológico.. (.. mas que podem mascarar os reais interesses econômicos. propagandas. e que alcança todos os setores da vida social. a 14 massificação das pessoas. nos ensina Nalini: Os avanços técnicos têm colocado à prova o direito (. a falência historicamente constatada de que a razão 13 possa favorecer a emancipação humana.). veiculada pela televisão. rádio. isto é. ou seja.. provocando a conjunção de estudos e atitudes dialógicas no sentido da renovação dos conhecimentos para que se possa fazer frente às inovações advindas do 15 empenho humano. Op. Ibid..

Considera-se relevante destacar a contribuição do obstetra e fisiologista holandês André Hellegers. Contudo o seu desenvolvimento se deve a um fato pretérito a primeira utilização do termo. 1970). com o fim de SCHRAMM. sem proteção alguma.1 GÊNESE DA BIOÉTICA Compreendida a evolução social dos últimos séculos. Rio de Janeiro. holismo moral e a 'bioética global' de V. 31/05/2005.01. no ano de 1971. uma ligação entre a biologia e os valores humanos. n. Durante este período de guerra. O termo bioética foi utilizado pela primeira vez na história no ano de 1970 pelo oncologista Potter. Potter. Rio Grande.96. seja por exposição destas ao frio europeu. R. diversas experiências em seres humanos foram realizadas com caráter científico. José Roberto.1. 4. Conforme preceitua Schramm16 “Potter é hoje reconhecido como o criador do neologismo bioethics com o sentido amplo de 'ética da sobrevivência' e autor de uma concepção 'global' de bioética (Potter. Saúde. Manguinhos.14 3 BIOÉTICA: DO SURGIMENTO AO ESTADO ATUAL 3. Fermin Roland. somaram-se outras contribuições para se estabelecer os novos rumos e abrangências da Bioética. Niilismo tecnocientífico. a Segunda Guerra Mundial. além do genocídio praticado por parte do partido nacional-socialista. 21. de acordo com Moreira Filho: Posteriormente. que desenvolveu nomenclatura a partir da ética médica e 17 das ciências biológicas. 17 MOREIRA FILHO. é possível discutir o surgimento da bioética. artigo o qual era um texto adaptado do seu livro lançado no ano subseqüente chamado de Bioethics: bridge to the future (Bioética: ponte para o futuro). v. 16 . 1988. the science of survival (Bioética. 1990. Hist. as transformações pelas quais a sociedade passou. também. em um artigo intitulado Bioethics. cienc. A bioética e a relação médico-paciente. seja por imersão em água fria. 1997.. a ciência da sobrevivência). durante a noite. sob o prisma da evolução da ciência. Atribui-se também a Hellegers a conceituação da bioética.. como por exemplo. p. Âmbito Jurídico. expor presos de guerra a temperaturas baixas. p. para a avaliação dos efeitos da hipotermia no corpo humano.” O sentido da palavra bioética era. neste primeiro momento.

28. para julgar os excessos cometidos neste período. Neste período. o período educacional. de educadores médicos e de um número pequeno de humanistas. p. fev. Tribunal de Nuremberg. em sua fase inicial. 1999. chamado de Tribunal de Nuremberg. p. Leo. A bioética. e um outro documento. O Tribunal demorou oito meses para julgá-los. Christian de Paul de. Neste contexto a religião e a teologia tinham um papel preponderante. devido aos brutais experimentos realizados em seres humanos. 2005. BARCHIFONTAINE. A partir de então. e ampl. 18 . que foram consideradas como criminosos de guerra . Com a queda do nazismo e o fim da guerra. De acordo com Costa Junior: O Tribunal de Nuremberg. uma preocupação humanística foi plantada no seio social e os debates começam a surgir acerca dos limites aos quais a ciência deve se submeter. vinte das quais médicos. foi criado um tribunal de exceção. o desenvolvimento deste pensamento não foi um processo súbito e tão pouco homogêneo. trazia em seu cerne discussões limitadoras do desenvolvimento. A esperança inicial para enfrentar este desafio foi infundir “valores humanos” na educação de médicos e enfermeiros ao ensinar ética. Prova disto são os três casos envolvendo COSTA JÚNIOR. O Código de Nuremberg é um documento composto de dez artigos que visa nortear as experiências com seres humanos. sendo que sete de morte. e trazem em seu texto normas que posteriormente acabariam por ser englobadas por princípios bioéticos.15 melhorar a eficiência do exército alemão. São Paulo: Loyola. rev. O impulso inicial surgiu do trabalho dos ministros religiosos nos campus das escolas médicas. que ficou conhecido como Código de Nuremberg. de acordo com Pessini: No estágio inicial. Este documento é um marco na história da humanidade. também chamado de protobioética (1960-1972). n. Problemas atuais de bioética. humanidades e/ou valores humanos numa visão aberta. a linguagem dos valores humanos predominava. Todos partilhavam a convicção de que um esforço multi e 19 interdisciplinar era necessário.. 8 ed. 19 PESSINI. Contudo. Teresina. Jus Navigandi..53. ano 3. Em 19 de agosto de 1947 o próprio Tribunal divulgou as sentenças. os quais começaram a ser aventados com maior veemência. Percepção da desumanização da medicina. Dijosete Veríssimo da.01. que iriam batalhar em terras russas durante o inverno. devido ao crescente poderio da ciência e da tecnologia. pois pela primeira vez foi estabelecida uma recomendação internacional sobre os aspectos 18 éticos envolvidos na pesquisa em seres humanos. julgou vinte e três pessoas. quando sequer o termo tinha surgido. em 9 de dezembro de 1946.

foram injetadas células cancerosas vivas em idosos doentes. a pressionar o governo para que um maior controle com pesquisas em seres humanos fosse realizado. com a consciência do governo norte-americano. em 1978.56. MOREIRA FILHO.56.. A pesquisa continuou até 1972. e os membros da comissão despenderam especial atenção a estes casos urgentes e específicos. A população norte-america começou. pelo Congresso Nacional dos Estados Unidos da América. Op. conhecido como Belmont Report. foram deixados sem tratamento quatrocentos negros sifilíticos para pesquisar a história natural da doença. no Hospital Israelita de doenças crônicas de Nova York. quatro anos mais tarde.16 experimentos humanos. Cit. alcançarem o objetivo. 22 PESSINI. e. Op. após ter conhecimento destes casos. e o desrespeito a estas normas não trazia nenhuma implicação legal. no hospital estatal de Willowbrook (NY). Criou-se. posteriormente. . O lapso temporal entre a criação da comissão até a edição do relatório de Belmont se deu diante dos inúmeros casos práticos emergenciais. constituiu o National Commission for the Protection of Human Subjects of Biomedical and Behavioral Research (Comissão nacional para a proteção dos seres humanos da pesquisas biomédica e comportamental). que conforme Pessini22 era “levar a cabo uma pesquisa e um estudo completo que 20 21 Ibid. Apesar de estas pesquisas ferirem o Código de Nuremberg. BARCHIFONTAINE. então. a qual. p. Cit. 3) desde os anos 40.. injetaram hepatite viral em crianças retardadas mentais. o povo estadunidense pressionou o governo. Christian de Paul de. que acabaram por vir a conhecimento público. apesar da 20 descoberta da penicilina em 1945. para. no caso de Tuskegee study no Estado de Alabama. Leo.. que posteriormente transformou-se na declaração de Helsinki em 1964. Com o escândalo. mas descoberto apenas em 1972. publicou o 21 Relatório Belmont.01. José Roberto. ambas com o escopo de delimitar um norte ético com relação às pesquisas em seres humanos. p. de acordo com Moreira Filho: O estabelecimento dos princípios ordenadores da Bioética decorreu da criação. de uma comissão encarregada de identificar e propalar os princípios éticos básicos que deveriam nortear a proteção da pessoa humana na pesquisa biomédica. 2) entre 1950 e 1970. que por meio do Congresso Nacional. que necessitavam de soluções rápidas. Os casos relatados por Pessini são: Em 1963. em 1974. a Comissão Nacional para a Proteção dos Seres Humanos em Pesquisas Biomédica e Comportamental. p. estes diplomas não eram considerados como regras de direito.

). portanto. p.. da “beneficência” (fazer o bem) e da “justiça”. 2006.) A partir do Quarto Congresso Mundial realizado em Tóquio. 24 Ibid.. Bases conceituais da bioética: enfoque latino americano. p.. dos escritores Beauchamp e Childress. a primeira obra de bioética e ficou conhecida em todo mundo. KOTTOW.) Até 1998. Tom Beauchamp e James Childress publicaram a primeira edição da obra tida como referência da chamada bioética principialista anglo-saxônica de origem estadunidense – Principles of biomedical ethics – incorporando aos três princípios acima mencionados um quarto. não causar danos). São Paulo: Gaia. as próprias interpretações morais autóctones dadas aos diferentes conflitos ou problemas neles verificados. SAADA. a “não maleficência” (do juramento hipocrático primum non nocere – 23 antes de tudo. enquadrando diversas questões que envolvem o ser humano.. a epistemologia da bioética se restringia a caminhos que apontavam para temas e problemas/conflitos preferencialmente individuais 24 com relação aos coletivos. Alya. foi publicada a obra Principles of Biomedical Ethics (Princípios da Ética Biomédica). principalmente..” A conclusão deste relatório culminou na identificação de três princípios básicos norteadores para a pesquisa científica. que desdobraram os três princípios em quatro. Logo após.. Com o desenvolvimento de uma visão global da bioética. desde a ética da relação médico- GARRAFA. 23 . (. no entanto. tomou como referência os princípios da “autonomia” das pessoas. contudo. em 1979. e começou a influenciar o mundo biomédico.2 O PRINCIPIALISMO E O ESTADO ATUAL DA BIOÉTICA O principialismo foi. em 1998. a partir do tema oficial do evento que foi “bioética global”. começaram a surgir críticas ao principialismo e à universalidade de seus princípios a partir. Segundo Garrafa: A epistemologia dessa bioética. (. da necessidade de que fossem respeitados os diferentes contextos sociais e culturais existentes mesmo em um mundo globalizado e. de base médica e clínica.. (.17 identificassem os princípios éticos básicos que deveriam nortear a experimentação em seres humanos nas ciências do comportamento e na biomedicina. 3. Miguel. Volnei.. contudo.11-12. a bioética (re)começa a percorrer outros caminhos. dando origem ao principialismo.12. Japão. emanados do conhecido Relatório de Belmont. um ano mais tarde. lembra-nos Garrafa: No início dos anos 1990. por extensão.

procurando analisar eticamente aqueles problemas. isto é. sua contingência e finitude. Biológica. filosófica. enquanto estes debates multidisciplinares ocorriam (ou ainda as adotam. e acabaram por gerar problemas éticos e jurídicos complexos. da biotecnologia etc. em nome de um saber laico e secular ou de uma fé religiosa. da embriologia. algumas áreas da pesquisa.. da medicina. envolvendo-se na área antropológica. então. São Paulo: Saraiva. pode-se conceituar modernamente a bioética. ficaram desprotegidas de regulamentação legal. impedir quaisquer abusos e proteger os direitos fundamentais das pessoas 25 e das próximas gerações.. . diante da amplitude destas matérias. rev.18 paciente até a simbiose entre o homem e o meio ambiente. sem que se considere prioritário chegar aos acordos que são aqueles buscados pela sociedade civil. médica.. clonagem humana e alteração do código genético. O estado atual do biodireito. Maria Helena. em um primeiro momento. atual. com o auxílio do direito. enquanto ocorrem tais discussões. psicológica. teológica. como a reprodução assistida. se pretende solucionar unilateralmente a insociável sociabilidade do ser humano. principalmente no que se refere às questões que envolvem o início e o fim da vida e na conservação do patrimônio genético humano. 2008. De acordo com Vásquez: Trata-se de dois extremos a partir dos quais. aum. podemos identificar. ela notadamente influencia e tem delimitado. 5 ed. para que após muito debate se autorizasse ou não o desenvolvimento científico destes temas previamente debatidos. Apesar do fato de a bioética ser recente na história mundial. nos dizeres de Diniz: A bioética seria. a saúde.11-12. a identidade ou a integridade física e psíquica. uma política conservadora em relação a pesquisas com embriões. política etc. que serão analisados em um capítulo posterior. a morte. sociológica. para que a biossegurança e o direito possam estabelecer limites a biotecnociência. decidindo sobre a vida. dois pólos defendendo seus interesses. A maioria dos governos mundiais adotou. principalmente nas sociedades latino-americanas. ecológica. um conjunto de reflexões filosóficas e morais sobre a vida em geral e sobre as práticas médicas em particular. por cidadãs e cidadãos 25 DINIZ. para solucionar problemas individuais e coletivos derivados da biologia molecular. Para tanto abarcaria pesquisas multidisciplinares. e de novos questionamentos que surgem a cada dia). seu sentido da vida. jurídica. da engenharia genética. do outro os interesses dos cientistas. p. de um lado encontram-se os interesses religiosos. os rumos da tecnociência. entretanto. genética. Nestas discussões.

assimétrico e heterônomo. religiosos e morais. Neste prisma de discussões bioéticas. p. José Eduardo de. KOTTOW. 28 SIQUEIRA. em especial em um país laico que deve resguardar os diversos interesses. Em oposição ao primeiro modelo.182. como por exemplo. com a obrigação de nos tolerarmos mutuamente para evitar não apenas o fantasma do terrorismo... (. dos variados seguimentos sociais. (. o uso de métodos contraceptivos. .. livres autônomos e iguais.19 urgidos a compartilhar mínimos éticos que respeitem. Neste modelo. o professor José Eduardo de Siqueira propõe quatro modelos de discussão bioética. Miguel. O primeiro modelo. por sua vez..) É um conjunto de regras que provêm de uma autoridade superior. na qual se baseia toda a possibilidade de compreensão mútua e de 27 acordos razoáveis. Guillermo Hoyos. portanto. na qual seja possível que nos compreendamos como participantes em culturas totalmente diferentes entre “o crer e o saber”.. sobre os diversos temas. não passíveis. pois não permite a deliberação sobre valores morais 28 considerados irrefutáveis a priori. In: GARRAFA. auto-suficientes e notadamente antagônicas..) são expressos no Manual de bioética de Elio Sgreccia.. da religião e da moral – para o que Jürgen Habermas parece encontrar uma solução somente se esse choque se instalar em uma “sociedade póssecular”. apenas. Daí firmou-se o conceito segundo o qual tudo deve ser feito com um respeito incondicional pela autonomia pessoal e com a utilização de 26 VÁSQUEZ. p. SAADA. é aquele que segundo Siqueira: As pessoas são consideradas sujeitos morais.cit. In: Ibid. diversas condutas adotadas corriqueiramente pela sociedade seriam imorais.. É um modelo claramente unidirecional.) O modelo doutrinal tem como pretensão. o chamado Liberal. parece difícil encontrar uma solução que agrade a estes estranhos morais.165. Alya.. que envolvem pessoas de múltiplas convicções. denominado de Doutrinal. segundo Siqueira: Enfatiza verdades indiscutíveis. Ob. para Vásquez: Neste choque de concepções onicompreensivas do sentido da vida.166-167. mas também a desqualificação cultural –. mas que convivem dentro de um mesmo Estado.) É preciso buscar uma solução prática baseada na tolerância e guiada pela competência comunicativa da pessoa. p. (. 27 Ibid.. é necessário refletir mais uma vez sobre os motivos para a tolerância moral e política nos próprios fundamentos do sentido da vida. é aquele que. Diante destas posturas a priori intolerantes.. Volnei. de qualquer discussão ou deliberação. ditar normas morais com aplicação na bioética. a 26 diversidade de valores culturais. Suas bases conceituais provêm da cultura judaico-cristã. (.

que diz: Esses autores consideram ser muito controversa a idéia de que se construa uma sociedade conformada por acordos harmônicos entre os homens. levando-se em consideração apenas a igualdade formal. sendo para Siqueira.20 contratos entre os sujeitos envolvidos em qualquer tomada de decisão. Isso é fundamentado pelas recomendações de Tristan 29 Engelhardt em seus Fundamentos da Bioética.. .. se ambas estivessem conscientes dos riscos à saúde. colocam tudo em dúvida. (. em qualquer um dos casos. De acordo com esta visão... seria lícita a comercialização de órgãos entre duas pessoas. Ibid. ou da comunidade de argumentação. O ultimo modelo descrito por Siqueira é o hipercrítico.182-183. e o Estado somente deveria garantir a liberdade de cada cidadão. portanto: O acordo obtido na ética do discurso não nega a racionalidade científica. mas procura transcender a projeção feita do ponto de vista da simples autorealização pessoal do modelo liberal.(. é aceitar. que prioriza o princípio da autonomia em detrimento dos outros três do principialismo (hoje considerados ultrapassados).. mínimos morais podem ser definidos.) eles. inclusive os fundamentos racionalistas e humanistas que sustentam as práticas discursivas que nos 29 30 Ibid. p. se faz necessário que as partes estejam em pé de igualdade e respeitem as posições contrárias.. que em hipótese alguma é possível qualquer tipo de auxílio na reprodução é imoral (visão esta defendida pelo modelo doutrinário) ou então sustentar-se que qualquer interferência neste processo é moral.. por exemplo. mas julga obrigatório que sejam buscadas soluções razoáveis frente às 30 diferentes posturas e percepções morais em sociedades plurais. portanto.) O discurso liberal considera que não cabe debater valores porque eles são sempre relativos.. diante da autonomia das partes (postura defendida pelo modelo liberal). independente de qualquer regulamentação.185. pelo contrário. (. e. Sustentar hoje. Esse modelo se limita a diferentes posturas morais. diante de uma consideração de que ambas as partes tem seu valor. mesmo não concordando entre si.) A ética do discurso propõe a deliberação sobre “o que fazer” diante de diferentes posturas morais para a obtenção de possíveis consensos. Ela assegura que os valores não podem ser universalizados e considera que não é necessário que seja assim. ligadas a este procedimento. p. O terceiro modelo foi chamado de deliberativo. tanto uma quanto outra corrente deve ser respeitada em pé de igualdade. mas sem valorá-las. que somente uma visão é valida e que deve ser estendida a todos os cidadãos. Para que se adote um discurso deliberativo.

p. ou seja. A conclusão que se pode chegar é a de que a tendência da bioética com enfoque latino-americano é de buscar uma discussão de acordo com o modelo deliberativo. maior a força dos argumentos. quanto maior o poder de determinada parte. . . com respeito á toda pluralidade cultural e oportunizando o desenvolvimento das minorias. alteração do código genético e como a reprodução assistida. não existem hipóteses de igualdade em uma discussão. e que seria impossível chegar a consensos realmente justos sobre os temas bioéticos. limitando aquilo que exceder a razoabilidade no tocante ao princípio da liberdade de pesquisa. sob um prisma que vise assegurar a manutenção de um Estado democrático de direito..21 prometem soluções razoáveis resultantes de pactos intersubjetivos com 31 presunção de simetria.186. de acordo com as deliberações ocorridas nestes debates bioéticos. Para este ultimo modelo. como a pesquisa embrionária. diante da pluralidade de comunidades sociais presentes em nosso país. 31 Ibid. frente a isto o direito tem um papel fundamental de regulamentar as novas situações que são colocadas frente à sociedade. pois a argumentação de cada parte estaria sustentada no poder que cada uma infere na sociedade. dando efetividade aos princípios da dignidade da pessoa humana e do direito a vida.

Direito Constitucional.1 DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA A primeira parte da Constituição da República. a constituição traz os fundamentos da República Federativa do Brasil.” A busca por uma conceituação do princípio da dignidade da pessoa humana é difícil. p. 31 ed. 33 NOVELINO.. Direitos Constitucionais. 2008.. São Paulo: Atlas. 34 MORAES. deve ser constante e não pode ser considerada definitiva. segundo Moraes34 “concede unidade aos direitos e garantias fundamentais. por ser aquele que.21. SILVA.” Dentre estes fundamentos encontram-se a soberania.201. é formada pelos princípios fundamentais da Constituição.91. em nenhum momento podem ser colocados de lado.. Dentre estes fundamentos. 23 ed. e atual. p. e que estas normas servirão de baliza para eventuais confrontos aparentes de normas.22 4 FUNDAMENTOS E GARANTIAS CONSTITUCIONAIS REFERENTES À REPRODUÇÃO ASSISTIDA 4. Alexandre de. rev. Curso de direito Constitucional positivo. atual. o que será abordado no presente estudo será o da dignidade da pessoa humana. centrando-se. Em seu artigo primeiro. que o desdobramento da constituição deve seguir estes princípios fundamentais. 2008. 32 .. Marcelo. verifica-se que o elemento nuclear da noção de dignidade da pessoa humana parece continuar reconduzindo – e a doutrina majoritária conforta esta conclusão – primordialmente à matriz kantiana. rev. o título I. Significa. 2008. 2 ed. por esta razão. São Paulo: Malheiros. São Paulo: Método. a cidadania. José Afonso. o significado dos fundamentos. à luz do que dispõe a Declaração Universal da ONU. portanto. os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. neste sentido nos ensina Sarlet: Assim. e ampl. bem como considerando os entendimentos colacionados em caráter exemplificativo. De acordo com Silva32 “Princípio aí exprime a noção de ‘mandamento nuclear de um sistema’”. a dignidade da pessoa humana. sendo inerente às personalidades humanas. portanto. p. ou seja. do primeiro ao quarto artigo. de acordo com Novelino33: “devem ser compreendidos como valores primordiais componentes da estrutura do Estado brasileiro e que.

a tortura e. e ampl. há quem aponte para o fato de que a dignidade da pessoa humana não deve ser considerada exclusivamente como algo inerente a natureza humana (no sentido de uma qualidade inata pura e simplesmente).. também estatal. De acordo com esta conceituação prévia. o poder constituinte impôs aos poderes públicos o dever não só de observar e proteger este valor. de uma ação positiva para SARLET. Cit. p. que o distingue dos outros animais. derradeiramente. segundo Novelino: Por derradeiro. Ingo Wolfgang. é possível deduzir ainda que ao reconhecer a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República. a conceituação deste fundamento Constitucional ainda não se encontra completa. p. expressa pela qualidade exclusiva da espécie humana de ser racional. de permitir o desenvolvimento livre do ser humano. diante dos horrores experimentados na guerra. sendo fruto do trabalho de diversas gerações e da humanidade em seu todo. e do poder de autonomamente fazer suas escolhas e viver de maneira que lhe convir. razão pela qual as dimensões natural e cultural da dignidade da 36 pessoa humana se complementam e interagem mutuamente.. a dignidade da pessoa humana seria uma característica inata do ser humano. mas também de promover os meios necessários ao alcance das condições mínimas indispensáveis a uma vida digna e ao pleno 38 desenvolvimento da personalidade. Op. diz Novelino que: A escravidão. 2 ed.206. Este fundamento constitucional possui um caráter dúplice.45. 38 Ibid. sendo. portanto. de um lado o dever de abstenção estatal. p. rev. 36 Ibid.23 na autonomia e no direito de autodeterminação da pessoa (de cada 35 pessoa). Porto Alegre: Livraria do Advogado. as terríveis experiências com seres humanos feitas pelos nazistas fizeram despertar a consciência sobre a necessidade de proteção da pessoa com o intuito de evitar a sua redução 37 à condição de mero objeto. 35 . Marcelo.. p. isto na medida em que a dignidade possui também um sentido cultural. É notória a carga humanística de proteção do ser humano em um sentido amplo. 37 NOVELINO. que tratavam o ser humano sem o menor respeito. Contudo.46. e por outro lado um dever de prestação. e também nos estados absolutistas. 2002. Nesta dimensão de condição primordial do ser humano aliada de uma construção cultural humana. contudo Sarlet ainda assevera: Por outro lado..207. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais: na Constituição Federal de 1988.

50..24 que o ser humano tenha condição de se desenvolver de forma digna. além de propiciar e promover sua participação ativa e coresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com 40 os demais seres humanos. na sua perspectiva assistencial (protetiva) da pessoa humana. não poderá a bioética e o 39 40 SARLET. o direito de ser tratado com dignidade (protegido e 39 assistido). ser este fundamento ainda como norte para a interpretação constitucional. de tal sorte que. e apesar de que o próprio doutrinador reconhece ser esta apenas uma tentativa de conceituação mais próxima possível da realidade. neste sentido. em caso de colisão de princípios. dadas as circunstâncias. a educação. prevalecer em face da dimensão autonômica.62. poderá. etc. a pessoa humana e sua dignidade constituem fundamento e fim da sociedade e do Estado. fica o conceito de Sarlet. implicando. . como o direito a vida. Ibid. e por fim. Conseqüentemente. que ensina: Temos por dignidade da pessoa humana a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração do Estado e da comunidade. Cit. Ingo Wolfgang. contudo. neste sentido afirma Sarlet: Assim. na falta de outro para complementá-lo). e ainda. Diniz argumenta que: Deveras. a dignidade. todo aquele a quem faltarem as condições para uma decisão própria e responsável (de modo especial no âmbito da biomedicina e da bioética) poderá até mesmo perder – pela nomeação eventual de um curador ou submissão involuntária a tratamento médico e/ou internação – o exercício pessoal de sua capacidade de autodeterminação. Sustenta-se inclusive que esta segunda função deva imperar diante da primeira. Diante destes breves comentários acerca do princípio da dignidade da pessoa humana.. um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano. Com mais especificidade quanto à discussão acerca do desenvolvimento científico e o princípio da dignidade da pessoa humana. a aplicação direta do próprio princípio (por se tratar este de uma norma de eficácia imediata. sendo o valor que prevalecerá sobre qualquer tipo de avanço tecnológico. As implicações decorrentes da presença do princípio da dignidade da pessoa humana como fundamento da Constituição da República são percebidas no próprio desdobramento constitucional. p. a saúde. como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável. restando-lhe.. Op. p. com a presença de inúmeros preceitos que visam à proteção e a promoção deste fundamento.

Marcelo..1 Breves comentários acerca do início da vida A evolução técnico-científica fez com que a discussão acerca do início da vida tomasse corpo e diversas disciplinas começaram a tratar do tema. 45 SILVA.. razão pela qual a Constituição consagra a sua inviolabilidade (art. .35. São Paulo: Saraiva. 4.. caput). p.24. 43 MORAIS. de ter a vida tutela pelo Estado. 2008. Cit. Neste sentido nos afirma Morais43 “O direito à vida é o mais fundamental de todos os direitos. 44 DINIZ. 5º. 5 ed. sobretudo. Alexandre de. p. e ainda de ter uma existência digna enquanto ser vivo. de permanecer vivo. Cit. alguns comentários tornam-se relevantes para que 41 DINIZ. consiste na proteção dada a este direito contra sua violação por parte de terceiros. Sem a pretensão de esgotar o assunto.198.. p.262. também assevera Silva45 “Por isto é que ela (a vida humana) constitui a fonte primária de todos os outros bens jurídicos” (parênteses nosso). uma vez que a dinâmica do mundo nela se contém e sem ela não terá sentido”. José Afonso. p. Op. Op. na mesma linha nos ensina Diniz44 “A vida tem prioridade sobre todas as coisas. 4. retirando dela a dignidade e o direito a uma vida digna. atual.. (. 42 NOVELINO. Cit. a existência digna (art. mas. 170).25 biodireito admitir conduta que venha a reduzir a pessoa humana à condição 41 de coisa.2. rev. já que constitui pré-requisito à existência de todos os demais fundamentos”. Op. Não parece haver dúvidas na doutrina de que este princípio é o de maior importância e constitui a base de todos ou outros direitos.) A proteção constitucional compreende não só o direito a 42 permanecer vivo. o direito à vida é o direito de inviolabilidade por terceiros.2 PRINCÍPIO DO DIREITO A VIDA Em linhas gerais. p. Maria Helena.16.. Neste sentido no ensina Novelino: O direito à vida é o pressuposto de todos os demais direitos fundamentais. Op. Cit. aum. O estado atual do biodireito..

a partir de então esta vida deveria ser tutela. Pacto de San José da Costa Rica. do artigo 5º. Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida.portaldafamilia. foi convencionado o seguinte: Artigo 4º . artigo 4º. em geral. da Constituição Federal. considerado como uma norma constitucional. e o segundo posicionamento. prevê o artigo 2º do Código Civil. portanto. . serão assimiladas pelo ordenamento pátrio como normas de hierarquia constitucional. Alem deste dispositivo. Acesso em: 02 de outubro de 2008. A razão desta distinção assenta-se na impossibilidade de esgotamento do tema acerca das diversas teorias e no fato de que com esta diferenciação já poderemos esgotar a implicação que o início da vida traria para o caso específico da reprodução assistida. Apesar de esta discussão ser incidental ao tema. Disponível em: <http://www.org/artigos/texto065. o que gera margem a interpretações divergentes.shtml>. ela acabar por gerar efeitos. A primeira corrente é a que parece prevalecer no ordenamento pátrio. as implicações que irão afetar a reprodução assistida podem ser divididas em: corrente conceptiva. a constituição acabou por não tratar especificamente acerca do início da vida.26 seja possível a discussão posterior de alguns casos específicos acerca da reprodução assistida. 46 Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente. (grifo nosso). Sob a ótica jurídica.Direito à vida 1. mas. que alega que a vida inicia com a fecundação. e. Esse direito deve ser protegido pela lei e. no trato da reprodução assistida. desde o momento da concepção. o seguinte: 46 PORTAL DA FAMÍLIA. diante da regra anunciada pelo novo parágrafo 3º. Diversos posicionamentos podem ser destacados. que tenham a República Federativa do Brasil como parte. que engloba as diversas teorias que vão desde a defesa que a vida começa com a nidação (quando há a fixação do zigoto no útero materno) até a teoria que este ser somente seria sujeito de direitos quando pudesse existir sem a presença da mãe (fato que ocorre entre a vigésima quarta e vigésima sexta semana). em especial quanto ao destino dos chamados embriões supérstites. No artigo quarto deste pacto. que diz que normas internacionais concernentes a direitos humanos. O pacto de São José de Costa Rica.

p. STF declara constitucional o artigo 5° da Lei de Bi ossegurança.105/2005. Disponível em: <http://www.br/ccivil_03/leis/2002/L10406. a célula-ovo ou célula-mãe. 6º. apesar desta interpretação. art. regulamentada no artigo 5º da Lei de Biossegurança. a pesquisa envolvendo célulastronco embrionárias. sob alegação que anteriormente a nidação.27. mas representa uma realidade distinta 49 da pessoa natural. in fine. Campos resume o voto do relator Carlos Ayres Britto: Carlos Britto qualificou a Lei de Biossegurança como um "perfeito" e "bem concatenado bloco normativo". 49 CAMPOS.11. 124 a 128). desde a concepção. Lei 48 n.gov. A interpretação que se pode extrair destes preceitos é que a vida se inicia com a concepção. arts. São Paulo. (grifo nosso). tem que haver a participação ativa da futura mãe.planalto. 47 PLANALTO. 47 mas a lei põe a salvo.25. Segundo ele. na mesma linha ensina Diniz: A vida humana é ampara juridicamente desde o momento da fecundação natural ou artificial do óvulo pelo espermatozóide (CC. Maria Helena.. 24. não existe vida viável. Por oito votos favoráveis e três contrários. III. p. 48 DINIZ. Sustentou a tese de que. porque ainda não tem cérebro formado. Código Civil Brasileiro. e CP.htm>. 30/05/2008. 2o A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida. o zigoto (embrião em estágio inicial) é a primeira fase do embrião humano.. Contudo. no Supremo Tribunal Federal.IV. No seu entender. LFG. e o entendimento que prevaleceu foi diverso. Cynthia Amaral.27 Art.21. art. 2º. foi objeto da ADI 3510.01. arts. Cit. . entenderam os ministros por constitucional a pesquisa. Op. Acesso em: 02 de outubro de 2008. para existir vida humana. é preciso que o embrião tenha sido implantado no útero humano. abrindo espaço para as pesquisas com células-tronco. os direitos do nascituro. 2º.

Ob Cit. tendo em vista a perpetuação da espécie humana. Em 1978. mediante a manipulação dos componentes genéticos da fecundação.org. o desejo de procriar de determinados casais estéreis e a vontade de fazer nascer homens no momento em que se quiser e com os caracteres que se pretender.) No final da década de 1970 a técnica de FIV obteve seus primeiros resultados com o grupo de Bourn Hall. a possibilidade de reproduzir-se de uma forma não-natural. mas também estabelecer normas de responsabilidade civil por dano moral 51 e/ou patrimonial que venha causar. Roger.. enquanto as técnicas de alta complexidade começaram a ser desenvolvidas no final dos anos 70. com o escopo de satisfazer o direito à descendência. John Hunter descreveu a Inseminação artificial como tratamento em um casal cujo marido apresentava hipospádia.. 50 mantendo os mesmos resultados obtidos anteriormente (6). Em 1976. p. do século passado. .htm> Acesso em: 28 de setembro..28 5 DISCUSSÕES ÉTICO-JURÍDICAS ACERCA DA REPRODUÇÃO ASSISTIDA As primeiras técnicas de reprodução assistida de baixa complexidade datam 1870. Estas técnicas podem ser divididas em métodos de baixa e métodos de alta complexidade. 51 DINIZ. obteve-se uma gestação ectópica após a fertilização "In Vitro" e transferência de um embrião (2). Simpósio: Aspectos Gerais de reprodução assistida. Entre as técnicas de baixa complexidade podemos incluir o coito programado e a Inseminação intra-uterina (IIU). Maria Helena. o mesmo grupo descreveu a primeira gestação com sucesso utilizando esta tecnologia... foi dado o nome de Técnicas de Reprodução Assistida (TRA). (..) A primeira gravidez obtida com essa técnica nos EUA ocorreu no ano de 1982 (4) e a primeira gravidez obtida no Brasil ocorreu no ano de 1984(5). trazendo em seu bojo a coisificação do ser humano..(. Diante desta nova realidade. Estas apresentam a vantagem de menores custos e não precisam ser realizadas em centros de reprodução assistida. De acordo com Abdelmassih: Ao conjunto de técnicas que auxiliam o processo de reprodução humana. Em 1989 os procedimentos passaram a ocorrer totalmente ambulatorial. ensina Diniz que: Essa nova técnica para a criação de ser humano em laboratório. 50 ABDELMASSIH.) Em 1870. constituindo um grande desafio para o direito e para a ciência jurídica pelos graves problemas ético-jurídicos que gera. Disponível em: <http://www. e o resultado foi o nascimento de uma criança do sexo feminino batizada com o nome de Louise Brown. chefiado pelos pesquisadores Patrick Steptoe e Robert Edwards (1). Entre as técnicas de alta complexidade incluímos a Fertilização In-Vitro convencional e a Injeção Intra-citoplasmática de espermatozóides (ICSI).br/revista/bio9v2/simpo1.01. na Inglaterra.521-522. (.. entusiasmou a embriologia e a engenharia genética. sendo imprescindível não só impor limitações legais às clínicas médicas que se ocupam da reprodução humana assistida. o que levou a uma diminuição no custo do processo.portalmedico. p.

II). uma resolução do Conselho Federal de Medicina. inclusive a post mortem. do Código de Ética Médica. este estará descoberto de legislação própria. visto que a matéria deverá ser tratada futuramente por lei específica. Disponível em: <http://jus2. é um exemplo. 2002.597. No entanto.com. e em segundo lugar. O art. p.asp?id=3127>. IV). ano 6.358/92. e a necessidade de que se coloque em primeiro plano a vida que irá surgir.105/05) tratou superficialmente da matéria.uol. 2008. e alteração genética em célula germinal humana. n. São Paulo: Paulus. 6º. mas não vai além. 3 ed. e serão analisadas estas orientações. em primeiro lugar. III) e ainda proibiu a clonagem humana (art. De acordo com Pessini52 “O Brasil carece de uma legislação específica sobre a reprodução assistida. VI e V. 52 . ao empreender estas técnicas. Jus Navigandi. De acordo com Aldrovandi: O Novo Código Civil menciona algumas técnicas de reprodução assistida. A reprodução assistida e as relações de parentesco. p. FRANÇA. 5º). zigoto humano ou embrião humano (art. desde que os participantes estejam cientes do procedimento. independente do procedimento de reprodução assistida a ser realizado no Brasil. que trata especificamente da reprodução assistida. não especifica ou limita nada. PESSINI. os princípios da dignidade da pessoa humana e do direito a vida sejam respeitados. pois além das hipóteses de presunção de paternidade previstas no código vigente. na medida em que as questões forem suscitadas. e vedou a alteração genética em organismo vivo ou o manejo in vitro (art. Andrea. Danielle Galvão de.. 1. 6º. Teresina. Léo. com a inserção dos incisos III.358/92 trata especificamente do tema. contudo. sendo que as únicas normas referentes ao tema provêm. o não respeito a estes mandamentos éticos pode levar apenas a um procedimento de infração ética profissional. em detrimento da vontade e do direito de procriação dos pais.01. BARCHIFONTAINE. com a prévia autorização do marido. 2005. 58. 6. e 53 inseminação artificial heteróloga. 53 ALDROVANDI. de fecundação in vitro (homóloga). também se presumem concebidos na constância do casamento os filhos havidos de fecundação artificial homóloga. através de 4 artigos.167. ago.” A resolução 1. a resolução CFM nº 1. Importante ressaltar que a Lei de Biossegurança (11. Fundamentos da bioética. Christian de Paul de. que trata da filiação.29 Nota-se a evidente preocupação de que. fato que torna estas orientações sobremaneira frágeis. Acesso em: 02 out.. O Código de Ética Médica (1988). autorizando a pesquisa com embriões provenientes de fecundação in vitro (art.br/doutrina/texto.

105/95). resolução nº 1. alguns princípios gerais. costumes. mas apenas constata a existência da problemática e procura dar solução exclusivamente ao aspecto da paternidade. quando existir a possibilidade de 54 VENOSA. Conforme nos ensina Venosa: "O Código Civil de 2002 não autoriza e nem regulamenta a reprodução assistida. os problemas que podem afetar substancialmente a coletividade parecem ter sido resolvidos. p. fato acaba por gerar insegurança jurídica. que é cada vez mais ampla e complexa. por 54 opção do legislador.. devem ser seguidos nos procedimentos de reprodução assistida. visando à melhor resolução prática e as discussões de maior relevância. e com a proibição da clonagem (pela Lei 11. proposto pelo senador Lúcio Alcântara. A primeira consideração importante é a de que estas técnicas devem ser utilizadas para o tratamento de infertilidade. principalmente quanto às peculiaridades de cada caso. Diante da impossibilidade de discussão de todas as implicações éticas que derivam deste procedimento. 5.30 No entanto. presentes nos primeiros artigos. Toda essa matéria. alguns contornos gerais relevantes serão abordados. deve ser regulada por lei específica. que pretende regulamentar estas questões acerca da reprodução assistida. etc. analogias ao direito comparado.. tanto que tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 90/99.1 ASPECTOS GERAIS DA REPRODUÇÃO ASSISTIDA De acordo com a supracitada resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina.01. no entanto.358/92). ainda existe um grande temor quanto à proteção jurídica cabida. Apesar de estas técnicas serem amplamente utilizadas no país à solução para os problemas decorrentes desta ficam a cargo de interpretações constitucionais. em especial ao embrião humano antes da fecundação e da preocupação sobre as implicações que estas técnicas podem gerar no direito de família. Silvio de Salvo In: Ibid. ." Com a vedação da alteração genética dos seres humanos. estes poucos dispositivos estão longe de regulamentar à questão. independente do utilizado.

o que ocorre é apenas um auxílio na fecundação.31 sucesso. Este tipo de reprodução pode ser homóloga. 5. a utilização de mais de quatro pré-embriões humanos por ciclo. I e II. em vida. Op. a inoculação do sêmen na mulher. inclusive as implicações legais decorrentes desta opção.2 INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL A inseminação artificial. não existe muito debate ético acerca do tema. estando os pais vivos. post mortem ou heteróloga. sem que haja qualquer manipulação externa do óvulo ou do embrião”. além da necessidade de falha em outras tentativas terapêuticas para a solução deste problema. ou após a sua morte”.597. realiza-se mediante o “método GIFT (Gametha Intra Fallopian Transfer). De fato. .521. em seu artigo 1. p. nas palavras de Diniz55. p. Alem disto. a inseminação é homóloga quando “praticada na esposa (convivente) com sêmen do marido (convivente). referindo-se à fecundação in vivo. Cit. ou seja. 55 56 DINIZ.. os pacientes devem ser informados dos riscos e da probabilidade de sucesso na utilização destas técnicas.1 Inseminação artificial homóloga e post mortem Segundo Diniz56.. 5. e quando a vida da mãe não correr risco com a operação. Ibid. Proibi-se a fecundação com qualquer outra finalidade que não seja a reprodução humana. e pode ser equiparado a uma fecundação natural. e qualquer forma de redução embrionária. estando acobertada esta situação pelo Código Civil. e.520.2. em caso de gravidez múltipla. A reprodução homóloga em vida a princípio não gera nenhum problema quanto à filiação e ao direito sucessório. Maria Helena.

III. “Filho” póstumo não possui legitimação para suceder. p. a União Estável. Devendo. Segundo Diniz: Mesmo com a solução dada pelo art. Danielle Galvão de.. 1.526-527.2.01.32 Surgem alguns problemas quando existe a fecundação após a morte do marido ou convivente. o filho biologicamente pertence a um terceiro. p. Cit. portanto. nem como conferir direitos sucessórios ao que nascer por inseminação artificial post mortem. 57 58 ALDROVANDI.798). manifestada com 58 testamento. Cit. mas não gera direito de sucessão. 59 Ibid. Poderia ser herdeiro por via testamentária. se inequívoca for a vontade do doador de sêmen de transmitir herança ao filho ainda não concebido. já que não estava gerado na ocasião da morte de seu pai genético (CC. . e nos lembra Diniz59. O artigo 1597. surge o do direito a sucessão.. Op. do novo Código Civil.2 Inseminação artificial heteróloga A inseminação heteróloga é a reprodução com a utilização do espermatozóide de um doador. sendo silente quanto ao convivente.597. 1. Op. 5. não abrangendo. visto que foi concebido após o óbito de seu “pai” genético e por isso é afastado da sucessão legítima ou ab intestato. o reconhecimento da criança ser realizado através de qualquer das hipóteses legais para o reconhecimento de filhos.. na Inglaterra é permitido. De acordo com Aldrovandi: Importante ressaltar que a presunção do art. uma vez que o casamento se extingue com a morte. FRANÇA.597 do Novo Código Civil diz respeito apenas ao casamento. p. art. Andrea. III assegura a filiação mesmo depois de falecido o marido. ou seja. 1609 do Novo Código Civil dispõe expressamente que o 57 reconhecimento pode preceder o nascimento do filho. Não há como aplicar a presunção de paternidade. A matéria é sem dúvida polêmica. Maria Helena. 1. nesse caso. França e a Suécia vedam este tipo de inseminação. admitindo a presunção de filiação. a não ser que exista documento expresso em contrário. fato que acaba por gerar dúvida quanto à filiação. visto que o art. Superado o problema de filiação. será preciso não olvidar que o morto não mais exerce direitos nem deveres a cumprir. que a Alemanha.527. DINIZ.

p. 94. se a mulher casada se submeter a uma fertilização com sêmen do doador (heteróloga) sem o consentimento do marido. dando-se prevalência ao elemento institucional e não ao biológico.531-532 62 ALDROVANDI. 539). p.. CC. o Código Civil suíço (art. deverá prevalecer como princípio da segurança das relações jurídicas. alínea 2..01. Assim sendo. 8º. O primeiro problema decorre justamente deste consentimento. Andrea. se houver sido feita enganadamente. sem o consentimento do marido.597. no mesmo teor de idéias. 311-20. porque nenhum ato voluntário poderá sê-lo se não for expressamente proibido por lei.. Cit. após ter anuído. pode o marido pedir pela dissolução do vínculo matrimonial. pela resolução do Conselho Federal de Medicina. nesse caso. 1). facilmente interpreta-se que não geraria a obrigação de reconhecimento de paternidade. o Código Civil francês 61 (art. Danielle Galvão de. na mesma linha preceitua Aldrovandi: Para José Roberto Moreira Filho (8). esta situação não apresenta uma saída tranqüila. o Código Civil holandês (art. 14/2006 (art. não é juridicamente ilícito. no entanto não deve ser descarta.653/94). Neste caso. querer rever sua decisão. Outro problema que decorre deste tipo de reprodução é o caso de mulher casada que. realiza tal tipo de reprodução. aplicando-se o dispositivo do art. na mesma linha assevera 60 Ibid. 1.33 De acordo com o art. V presumem-se filhos concebidos na constância do casamento àqueles gerados por reprodução heteróloga. lembra-nos Diniz60 que o Código Civil “deveria ter especificado que o consentimento para a inseminação artificial heteróloga fosse por escrito e irrevogável”. com redação dada pela Lei n. Portanto. desde que haja o consentimento do pai. o Código Civil de Quebec (art. 256-3) proíbe a impugnação de paternidade se o marido consentiu na inseminação heteróloga. 201. Ibid. 61 . Diante da necessidade de anuência do marido ou do convivente. p. Op. I). Diante desta omissão. FRANÇA. esta situação torna-se excepcional. mesmo com componente genético estranho. apesar de eticamente repugnante. a paternidade não poderá lhe ser imputada e constituirá até mesmo causa de dissolução do vínculo matrimonial e de ação negatória de paternidade cumulada com anulação do registro de 62 nascimento.532. a lei espanhola n. uma saída para o caso é. pois poderia o pai. e decidir opor uma ação negatória de paternidade. além da possibilidade de desconstituir a paternidade. segundo Diniz: Tal comportamento. importando compromisso vinculante entre os cônjuges de assumir a paternidade e maternidade. 1. Diante da ausência de disciplina legal.597.

. 37 do referido projeto de lei. de acordo com o art. 65 DINIZ. p. a possibilidade de fecundação por mulheres solteiras. ser estendido esse direito às mulheres que pretendem submeterem-se a inseminação artificial com a finalidade de formar uma família monoparental. configurando-se a injúria grave. Danielle Galvão de. Op. . p. Cit.” Outro questionamento relevante é a possibilidade de inseminação em mulheres solteiras. Op. é comum que amigos gays realizem esta modalidade. pode gerar situações irreversíveis. sendo que a lei sueca veda esta possibilidade. a possibilidade de inseminação em mulheres solteiras. FRANÇA. Alega o autor. com o apoio de entidades como a Gay Family Values (valores familiares gays. como argumento. Opinião contrária possui Eduardo de Oliveira Leite (15). que nesses casos. por entender que a inseminação deve atender a um projeto parental e não impessoal. na Grã Bretanha e nos Estados Unidos. devendo. conforme explica Diniz65. e. Maria Helena. tradução minha). parágrafo 4º a família monoparental. 226. a utilização de técnicas de reprodução assistida estaria vedada a mulheres solteiras (inclusive.34 Diniz63 “a ausência de consentimento do marido poderá ser motivo justificador da separação judicial por adultério casto ou da seringa. defende Guilherme Calmon Nogueira Gama (14) que não existe razão para se proibir tal procedimento. Utiliza ainda. como vocação natural e legítima 64 de ter um pai e uma mãe. Sem a pretensão de adentrar ao assunto acerca dos direitos de homossexuais (outro tema que carece de regulamentação) e sem nenhuma forma de preconceito quanto a estes direitos. permitida pela resolução do Conselho Federal de Medicina. visto que a própria Constituição Federal reconhece em seu art.529. ALDROVANDI. a criança seria órfã de pai desde o início do projeto. inseminar mulher solteira estaria tipificado como crime) fato que acabaria por proibir a inseminação em casais homossexuais.. há o risco de casais homossexuais ou transexuais obterem filhos diante desta situação. por analogia. já a lei iugoslava permite. enquanto esta relação não for equiparada ao casamento pelo ordenamento pátrio. e isso contraria o direito fundamental da criança ao biparentesco. o fato de a lei brasileira permitir a adoção de crianças por apenas um adotante (um pai ou uma mãe). por afetar a solidez do casamento. Cit. e de ser educada por ambos.529. p. 63 64 DINIZ. Cit. se aprovado o Projeto de Lei 90/99. De acordo com Aldrovandi existem posicionamentos divergentes quanto à licitude de tal ato: Sobre o tema. ante a falta de regulamentação jurídica destes.01.. Maria Helena. já que. Andrea. Além desta discussão. Op.

veda-se a realização de redução embrionária (estes dispositivos encontram-se dentro dos princípios gerais. ou dos dois. não é uma vida viável. por oito votos a três. que o embrião. com sêmen do marido ou de outro homem. Independente de ser homóloga (material genético do próprio casal) ou heteróloga (material genético de um dos pais. limitando-se apenas. . Este tipo de reprodução assistida gera conseqüências um pouco mais profundas na sociedade e no âmbito jurídico. autorizados pelos pais em qualquer caso. p. para fins de pesquisa terapêutica. devendo ser preservados por criopreservação. no entanto. esta resolução. portanto. ou estejam congelados a mais de três anos. para depois introduzir o 66 embrião no seu útero ou no de outra. que consiste na retirada de óvulo para fecundá-lo na proveta. para posterior implante. pois existe a possibilidade de gravidez múltipla. em caso de morte. permite-se a utilização dos embriões congelados. seja em outro. a quantia de embriões a serem produzidas é indeterminada. por doação. inclusive pela resolução do CFM nº 1. desde que estes sejam inviáveis.358/92. o STF entendeu.105/05. a vedar o implante de mais de quatro embriões num mesmo ciclo. Os pais devem determinar o destino dos excedentes. Quanto aos embriões que não são utilizados a fresco. e em caso de ocorrência disto. No entanto. veda-se o descarte. estaria em perfeita harmonia com a constituição o artigo que permite a pesquisa embrionária.35 5.520. e. no artigo 5º.. diferentes) existe o problema dos embriões supérstites. 66 Ibid. Alem disto é proibida a produção de pré-embriões com qualquer finalidade diversa da reprodução. artigos 6 e 7). divórcio ou doença grave e quando desejam doá-los. Hoje. Este artigo foi objeto de ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade).3 FECUNDAÇÃO IN VITRO De acordo com Diniz: A ectogênese ou fertilização in vitro concretiza-se pelo método ZIFT (Zibot intra fallopian transfer). seja do próprio casal. sem ser implantado em um útero. com a edição da Lei 11.

aliado à presença de tantas lacunas legislativas. mesmo que realizado após a morte. diante dos art. por inseminação artificial ou por fecundação in vitro. e não constituem objetivo do estudo. não diferem em seu aspecto jurídico. Contudo.2 Fecundação in vitro heteróloga 67 68 Ibid. diante da amplitude de situações que podem surgir. 5. parece ser uma decisão contrária a tendência normativa brasileira. após a realização do procedimento. parágrafo 1º) proíbe a produção de embriões excedentes. 1. presume-se o filho concebido na constância do casamento. 34) punível com reclusão de três a seis anos e multa. FRANÇA. Alem disto.36 Esta decisão gerou grande polemica porque grande parcela da sociedade considera como vida o embrião a partir da fecundação.538-541 ALDROVANDI.3. p. e o arrependimento posterior do casal. já que o Projeto de Lei 90/99 (art. o reconhecimento se dará nas mesmas hipóteses de uma procriação natural. . ou seja. as reproduções homólogas. inclusive tipificando tal conduta como crime (art.1 Fecundação in vitro homóloga Ressalvados os problemas decorrentes da utilização de embriões supérstites. Andrea. pode-se concluir que na fecundação in vitro homóloga. fato que poderia criar um desejo no casal de interromper a gestação. principalmente os seguimentos religiosos. Cit. a discussão de aspectos psicológicos. conforme Aldrovandi68. 14 e art. Op. 5. torna-se extremamente difícil. Diniz67 elenca outros aspectos como: a ofensa do direito da criança de ser concebido naturalmente.3. Portanto.01. 14. III e IV. uso de violência emocional contra a mulher.. induzindo-a a realizar tal tipo de reprodução. e em casais em união estável. Danielle Galvão de. reconhecimento voluntário ou judicial baseado na filiação biológica e afetiva. p.597 do CC. quando realizada por marido e mulher..

Na ausência de legislação que regule a questão. causando uma certa confusão. conforme nos lembra Aldrovandi: O Novo Código Civil ao mencionar a inseminação artificial heteróloga. haveria possibilidade de conflito positivo de maternidade e/ou paternidade? Segundo Aldrovandi: A doadora de óvulo não poderá reivindicar a maternidade em decorrência do sigilo exigido pelos laboratórios. Danielle Galvão de. Indaga-se: Houve falha do legislador? Caso se entenda desta forma poderia ser aplicado analogicamente o inciso V. do art. no momento da doação. dando prevalência 69 à paternidade socioafetiva. é determinada pela afetividade. poderia. não tenham as mesmas características genéticas do filho. aqui.37 Na fecundação in vitro heteróloga surge o conflito em relação à maternidade e a paternidade. tanto o pai quanto a mãe. p. e porque. pela possibilidade de doação. ou então todo o embrião poderia ser doado. Op. em analogia com a adoção. p. é assim que deverão resolver os tribunais. As conseqüências jurídicas deste procedimento quanto à paternidade parecem ser semelhantes aos da inseminação artificial heteróloga (que já foram abordados neste estudo). 1. e ainda com uma atenuante: ao contrário da fecundação. o legislador foi omisso quando a esta técnica no artigo 1. e. dessa forma. o marido consentindo com a fecundação. ou ambos. já que são casos análogos.01.01. Ibid..597 do NCC. determinada fica a filiação jurídica e afetiva. Mas. Neste caso. 1. acima de tudo: a filiação. que trata da inseminação heteróloga.. V. renunciou a maternidade voluntariamente. mesmo não sendo pai biológico. se houve consentimento. à fecundação heteróloga. pois se tratam de técnicas diferentes. leva à presunção de que o legislador teve a intenção de referir-se também à fecundação in vitro heteróloga. na adoção não há o parto. Andrea. que renuncia ao direito de filiação. . FRANÇA. o que é mais um ponto para determinar a filiação. Neste caso. no seu inciso V do art. No caso da fecundação in vitro heteróloga existe ainda a possibilidade de o óvulo ter material genético diverso do da mãe. da mesma forma como quem entrega uma criança para adoção. Cit.597. se a omissão foi intencional como ficaria a determinação da filiação frente a nossa legislação? Mediante um conflito positivo de paternidade os tribunais deverão resolver a questão por analogia com a adoção. já que biologicamente pode ser que.597. tal redação pode levar ao entendimento de que esta técnica não foi englobada nos casos do referido artigo. já que a filiação deixou de ser exclusivamente 70 biológica. Mas. 69 70 ALDROVANDI. contudo.

surge à discussão acerca do direito da criança de conhecer sua identidade genética. 73 DINIZ.01. que admitem ao filho o direito de saber sua origem ao completar a idade de 18 anos.3) a revelação da identidade do doador não implicará a determinação legal da filiação. seja por curiosidade. O Projeto de Lei 90/99 regulamenta a questão mais ou menos de acordo com a saída proposta por Diniz. ate atingir idade nupcial. Há países. o Projeto de Lei 90/99. em seus artigos 19 a 21. 18 Será atribuída aos beneficiários a condição de pais da criança nascida mediante o emprego das técnicas de Procriação Medicamente Assistida. anonimato não quer dizer que se deva esconder tudo. Em virtude deste sigilo. por meio do depositário dos registros concernentes à procriação. p. 6º. Além disto. p. extensivo a parentes. É assegurado ao doador e à criança de que trata este artigo o direito recíproco de acesso. nada obsta que se apontem ao filho que adveio de reprodução humana assistida os antecedentes genéticos do doador. como Inglaterra.543. Op. que no caso concreto. MOREIRA FILHO. Para Moreira Filho72 "o direito ao reconhecimento da origem genética é direito personalíssimo da criança. Apud Ibid. que expressa que os doadores e seus parentes não terão nenhum direito ou vinculo. sem contudo revelar sua identidade. não sendo passível de obstaculização. para o fim de consulta sobre 71 72 Ibid." Já Diniz parece ter uma saída intermediária para o caso. Aldrovandi71 lembra ainda. em seu artigo 18. que é a regra contida na resolução do CFM.01. art. renúncia ou disponibilidade por parte da mãe ou do pai. 14/2006. a possibilidade de ocorrência de casos de conflito positivo de paternidade será de difícil acontecimento. Parágrafo único. Maria Helena. n. Na Espanha (Lei n. ante o principio geral do direito à própria identidade e da ascendência genética. Bastante conveniente seria que houvesse estipulação legal do direito do filho a obter informações sobre o doador. diante do respeito ao anonimato dos doadores. todas as pessoas têm o direito de saber quem são seus ancestrais. logo. seja por necessidade. Cit. ante a exigência do sigilo profissional. decidindo pela paternidade sócio-afetiva. Nos países nórdicos e na Alemanha. quando diz: Ora. salvo os impedimentos matrimoniais. sendo esta situação encarada como excepcional... a qualquer tempo. 8º. observado o disposto no inciso III do art. José Roberto. p. mas não de sua identidade.. para verificar se há alguma tara 73 que possa ser transmitida a seus descendentes. visa acabar com este problema. parágrafo único quando dispõe: SEÇÃO VI DA FILIAÇÃO Art.38 No entanto. .

. a Lei espanhola n. O Projeto de Lei 90/99. revela bem (33): "Tudo que se faz é transferir a dor de uma mulher para outra. de acordo com Diniz: Divergem a esse respeito as legislações: o Código Civil búlgaro (art. 10. (. em seu artigo 19 que a mãe de substituição não terá qualquer direito sobre a criança.ghente. pois a filiação dos nascidos por gestação de substituição deve ser determinada pelo parto. em seu artigo 32. Cit. um juiz entregou a criança ao casal encomendante. Acesso em: 04 de outubro de 2008. e a legislação sueca requer que o casal que idealizou a fertilização in vitro venha a adotar o bebê. tipifica como crime.. devendo esta substituta ter parentesco de no máximo segundo grau com a doadora. sob pena de prisão e de pagar indenização? Na Áustria há projeto dispondo que a mãe substituta não é obrigada a ceder a criança. o filho. 74 em: .31). De acordo com Aldrovandi: A experiência mostra como os acordos de aluguel causam graves danos psicológicos e sociais à mãe de aluguel.39 disponibilidade de transplante de órgãos ou tecidos. e ainda garante. 75 ALDROVANDI..01. o 1877 Act de Illinois (EUA) requer a entrega da criança à doadora do óvulo. 14/2006. e ainda. Poderia haver obrigação legal por parte daquela que cedeu o útero de entregar a criança após o parto à mãe institucional. Danielle Galvão de. 18.htm>.358/92 permite ainda a gestação de substituição (quando o feto é gerado por uma terceira. art. e o risco da mãe substituta querer registrar como seu. Disponível <http://www. art. a realização de substituição com vantagem financeira. de uma mulher que esta sofrendo com a sua infertilidade a uma que 75 tem de desistir do seu bebê". Contudo. Andrea. em seu artigo 3º. e em caráter gratuito. e o discurso de uma mulher submetida ao procedimento de mãe de substituição para um casal infértil. Projeto de Lei 90/99. garantido o 74 anonimato. FRANÇA. em casos de problemas médicos que impeçam ou contra-indiquem a gestação na doadora genética. devendo os demais casos serem submetidos a apreciação dos Conselhos Regionais de Medicina. Op. 251. 1) entendem que a mãe é aquela que deu à luz. repete a disposição da resolução. porque tinha mais condições de criá-la. Nos Estados Unidos. normalmente chamado de “ventre de aluguel”). A resolução desta lide no caso concreto é muito delicada.org/doc_juridicos/pls90subst. 1796) considera que o filho será do casal encomendante. o Código Civil de Portugal (art. A resolução do CFM 1. a legislação do direito comparado. é grande.2 e o Código Civil suíço (art. ainda não existe norma regulamentando tal fato. p.) Julgamos que deverá o legislador optar pela prevalência da presunção de paternidade e da GHENTE.

. o filho. por ser deles a vontade 76 procriacional. fecundado pelo sêmen do marido ou de terceiro e gestado no ventre de outra mulher. pouco importando que tenha sido ou não gerado no útero da esposa ou se ela forneceu o óvulo. aos olhos da lei. Maria Helena. dele será. Cit. Op.542-543.. p. daqueles que decidiram e quiseram o seu nascimento. mesmo que o material genético não seja seu. portanto. O filho deverá ser.40 maternidade em prol do casal que idealizou o nascimento. 76 DINIZ.

podem gerar situações de conflito tanto em relação aos pais. Estas leis devem estar de acordo com a dignidade da pessoa humana. e o pós-modernismo. e não resta dúvida que é imperativo a edição urgente de lei que regulamente a situação para tutelar bens jurídicos tão importantes. . o princípio da dignidade da pessoa humana. por conseguinte. Os problemas de desigualdades e injustiças continuam presentes. e principalmente. focar as decisões sob este argumento parece ser a única saída justa para solucionar os diversos conflitos existentes na reprodução assistida. tutelando o interesse do ser que irá nascer por tratar-se da pessoa mais indefesa e que. parece ser a saída para este mundo. respeitando o direito a vida. quanto à própria proteção jurídica da criança. e que não permite a utilização destes como um meio. o norte. apesar de estar em um estágio inicial e ainda incompleto.41 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS O paradigma moderno teve como sua base a ciência para buscar a ordem e o progresso no desenvolvimento do povo ocidental nos últimos séculos. e os mecanismos de emancipação dentro do paradigma moderno demonstram-se insuficientes. pela razão e pelo antropocentrismo. Este princípio/fundamento é aquele que coloca o ser humano como um fim do Estado. necessita de maior amparo estatal. dominado por interesses puramente econômicos. Portanto. une-se perfeitamente com esta preocupação e deve ser o guia. A ciência casou perfeitamente com o capitalismo. e hoje é possível dizer que grande parte do desenvolvimento tecnológico visa atender exclusivamente aos interesses de mercado. Um dos fundamentos da república federativa do Brasil. este ultimo personificado pela autonomia pessoal. transformaram a técnica em fonte exclusiva e suficiente do conhecimento. É neste contexto que nasce a bioética. fato que acabou por torná-la autoritária e ilimitada. Estas técnicas. A busca da ruptura do conhecimento dogmático e controlado pela Igreja Católica. em suas diversas modalidades. para a resolução dos diversos conflitos que eventualmente brotem. com a preocupação de debater acerca destes excessos. e o direito tem papel preponderante para regulamentar estas questões emergentes.

Não parece justo o encargo de suportar toda a gravidez e ser obrigada ainda a ceder a criança a outro casal. o controle da distribuição destes materiais doados. O acesso a estas informações deve ser controlado e sempre deve ser preservado o anonimato. enquanto. a relação sócio-afetiva deve prevalecer em detrimento do critério genético. um cadastro que contenha as diversas informações úteis a saúde da nova vida. Quanto aos eventuais conflitos de maternidade ou paternidade. fato que resolveria inclusive os problemas de trato sucessório. para evitar situações que possam constranger tanto uma quanto a outra parte. para a autorização da realização destes procedimentos. a infertilidade deve prevalecer se as condições indicarem que esta nova vida não terá todas as garantias que uma criança gerada por um processo natural tem. Deve-se exigir declaração irretratável dos pais (nos casos em que doadores estejam presentes). e ainda. limitando-se à utilização deste material a um doador por casal. O Estado deve criar mecanismos que garantam o anonimato dos doadores (fato que por si evitaria tais situações). Melhor ainda seria que mais direitos fossem atribuídos a esta nova vida. Com a legislação atual parece prudente conceder direitos sucessórios apenas se previstos testamentariamente. O ventre de substituição (previsto no Projeto de Lei 90/99) deveria ser proibido diante das implicações psicológicas que geram na gestante. já que seu nascimento deriva de um ato planejado. diante de um eventual assédio desta familiar que a gestou. Parece-nos que a decisão pela constitucionalidade da lei foi . Neste sentido pode ser incluída a proibição da reprodução post mortem. para que este ser tenha uma base familiar minimamente sólida. se algum procedimento sem o consentimento de ambos for realizado. Por isto. autorizando apenas pessoas casadas (ou em união estável). sob pena de responsabilização das clínicas. podendo inclusive estabelecer-se um lapso temporal mínimo de relacionamento. mesmo que pertencentes a mesma família. Este fator de proximidade pode gerar muitos danos na criança. na reprodução natural. isto muitas vezes não ocorre. para que se evite o cruzamento genético inconsciente. Situação mais polêmica parece ser a permissão da pesquisa com célulastronco embrionárias. parece prudente limitar a reprodução. proibindo-se a possibilidade deste novo ser conhecer o doador.42 Neste sentido.

pois este ato claramente fere o fundamento da dignidade da pessoa humana e viola o direito a vida. parece que o STF acabou por não ter outra saída. este argumento pode ser refutado por outro critério também biológico que é a genética. Os conceitos científicos são temporários e a cada dia novas descobertas põem por terra conceitos amplamente difundidos. e. Fundamentar o início da vida sob qualquer critério diferente da concepção será uma mera convenção permissiva. a não ser autorizar a experimentação nestes embriões considerados agora inúteis. uma mera legalização de um homicídio em um ser que arbitrariamente terá sua potencialidade de desenvolvimento interrompida. Buscar eventuais curas sacrificando a vida de outros seres é algo intolerável para sociedade. já que se não for bem sucedida na primeira tentativa. . e empreender esta técnica é bem oneroso. A finalidade da criação de um embrião é exclusivamente a reprodução. O primeiro nascimento em virtude da técnica de fertilização in vitro ocorreu em 1984. Determinou-se nesta orientação ética que os embriões excedentes deveriam ser congelados. entretanto até 1992 sequer uma orientação ética existia sobre a matéria. portanto. não haveria maneira de coagir os responsáveis a implantar tais seres. um novo procedimento de coleta e fecundação deve ser realizado. É importante ressaltar que não é necessária a existência de embriões extranumerários para o sucesso da técnica. aqueles que defendem o desenvolvimento a todo custo da ciência. então. entretanto. criando alguns argumentos “biológicos” para dizer quando se dá o início de uma vida. Mais importante. o que foi um grave erro. e este ato é realizado visando economia financeira. já que uma decisão contrária iria garantir o direito à vida destes embriões. em vez de proibidos. conforme apontado no estudo. O Projeto de Lei 90/99 trás a vedação da existência de embriões supérstites. começaram a mitigar o conceito de vida.43 uma saída hipócrita para um problema existente em decorrência de uma omissão legislativa. portanto. considerando a produção destes como crime. em virtude disto. Diante da existência de tantos embriões congelados. é vedar a produção de embriões excedentes.

Fundamentos da filosofia: história e grandes temas. Disponível em: <http://jus2. Dijosete Veríssimo da. A reprodução assistida e as relações de parentesco. Maria Helena. 1999. Teresina. GARRAFA. O estado atual do biodireito. abrindo espaço para as pesquisas com células-tronco. ENGELHARDT JR. ano 3.uol.lfg. n. DINIZ.. 2008. São Paulo: Saraiva. Maria Helena Pires.portalmedico. COSTA JÚNIOR. 28. H. reform. Disponível em <http://www. LFG. Tribunal de Nuremberg .ed. ALDROVANDI.ed. 5 ed.org. Ceschin. Jus Navigandi. Danielle Galvão de. 2008. 3. Volnei. fev. São Paulo: Loyola. Disponível em: <http://www. ARANHA. Acesso em: 05 set. Jus Navigandi. rev. 2003. Andrea. 2002. Gilberto. STF declara constitucional o artigo 5° da Lei de Biossegurança. 30/05/2008. COTRIM. ago.com.br/public_html/article. Disponível em: <http://jus2. Simpósio: Aspectos Gerais de reprodução assistida. CAMPOS. Tradução de José A. Alya. T. 2002. São Paulo: Gaia.br/doutrina/texto. 2008.php?story=20080530125838692> Acesso em: 27 de setembro de 2008. São Paulo. 58. São Paulo: Moderna.uol. revista.asp?id=3127>.htm> Acesso em: 28 de setembro. 15.br/revista/bio9v2/simpo1. Roger. 2006. Acesso em: 02 out. MARTINS. aum.com.44 REFERÊNCIAS ABDELMASSIH. atual. FRANÇA. Teresina. Filosofando: introdução a filosofia. Cynthia Amaral.asp?id=1639>. Fundamentos da bioética.br/doutrina/texto. Miguel. e ampl. Maria Lúcia de Arruda. . SAADA.com. 1998. Bases conceituais da bioética: enfoque latino americano. n. ano 6. KOTTOW. São Paulo: Saraiva.

e ampl. BARCHIFONTAINE.planalto.ghente. MARCONI.portalmedico. Christian de Paul de. PLANALTO. Ética Geral e Profissional. Problemas atuais de bioética. Alexandre de. 5. 5. Fundamentos da bioética. BARCHIFONTAINE. Marcelo. MOREIRA FILHO. HOTTOIS. Léo. Leo. 3 ed. São Paulo: Loyola. Âmbito Jurídico. São Paulo: Editora Atlas. Resolução CFM 1. NALINI. Goiânia: Kelps.45 GHENTE.gov. Metodologia do Trabalho Científico. 2008.ed.ambitojuridico.org/doc_juridicos/pls90subst. 8 ed. PARISE. 31/05/2005.br/ccivil_03/leis/2002/L10406. Maria de Andrade. PESSINI.. Disponível em: <http://www. Acesso em 08/09/2008. PESSINI. 2005. NOVELINO. 21. . 2008. Acesso em: 04 de outubro de 2008. Rio Grande. MORAES. Disponível em: <http://www. José Roberto.br/site/index. Acesso em: 02 de outubro de 2008. El paradigma bioético: uma ética para la tecnociencia. Direito Constitucional. 1999.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=518. A bioética e a relação médico-paciente. rev. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Direitos Constitucionais. São Paulo: Método. PORTALMÉDICO. 23 ed. 2 ed. Gilbert. Disponível em http://www.br/resolucoes/cfm/1992/1358_1992. atual. Eva Maria. São Paulo: Paulus. 2006.htm>.htm>. LAKATOS. José Renato. Patrícia Spagnolo. Disponível em <http://www. Christian de Paul de. Código Civil Brasileiro. São Paulo: Atlas.htm>.com.ed. Barcelona: Anthropos. 2003.org. Projeto de Lei 90/99. rev. 2005.358/92. O biodireito e a manipulação genética de humanos. e ampl. 2001. Acesso em 02 de outubro de 2008.

cienc. saude-Manguinhos . o direito e a política na transição paradigmática. célulastronco e o início da vida humana . Rio de Janeiro.br/scielo.scielo.1590/S0104-59701997000100006 SILVA. Niilismo tecnocientífico. Bioética: estudos e reflexões. SANTOS FILHO. 1757. São Paulo: Malheiros. Disponível em: <http://jus2. Curso de direito Constitucional positivo. 2002. Euclydes Antônio dos. Fermin Roland.1. doi: 10. Londrina: Editora UEL. Ingo Wolfgang. Acesso em: 05 Sep 2008. v. R. SIQUEIRA. São Paulo: Cortez. Potter. . e ampl. ZANCANARO. 2008. Leonardo.php?script=sci_arttext&pid=S010459701997000100006&lng=en&nrm=iso>. Lourenço. 4. n. 2000. SCHRAMM. rev. Disponível em: <http://www. 23 abr.46 SANTOS. 1.asp?id=11184>. 2008. rev. ano 12. Hist. Acesso em: 24 abr.uol. Para um novo censo comum: a ciência. e atual. 2000.br/doutrina/texto. José Afonso. holismo moral e a 'bioética global' de V. SARLET. O Supremo Tribunal Federal. PROTA. José Eduardo. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais: na Constituição Federal de 1988. 31 ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado. n.com. 1997 . Jus Navigandi. 2 ed. 2008. v. Boaventura de Souza. Teresina.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful