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SIMPÓSIO SOBRE BOVINOCULTURA DE CORTE Piracicaba, 24 a 26 de julho de 2001

Conferência 05:

1) INTRODUÇÃO

Confinamento Estratégico Ricardo Bürgi 1

Até há poucos anos, a atividade de confinamento de bovinos no Brasil tinha como principal justificativa a possibilidade de permitir o aproveitamento do diferencial de preços do boi gordo, entre a safra e a entressafra. Mais do que as vantagens de abater um bovino mais novo, com acabamento adequado, ou de aproveitar subprodutos na sua alimentação, a grande motivação dos confinadores era o abate de seus bovinos na entressafra e o recebimento de um valor da arrôba pelo menos 30 % mais alto do que o praticado na safra. Este diferencial de preços era consequencia da elevada concentração de abates no 1o. semestre (cerca de 70 % do abate anual ocorria entre janeiro e junho), decorrente do crescimento estacional das pastagens: alta disponibilidade de forragem, em termos de quantidade e qualidade, entre novembro e abril, e baixa disponibilidade entre maio e outubro. De um modo geral, se os bois não eram vendidos até o final do 1o. semestre, perdiam peso na seca e somente voltavam a estar em condições de abate no ano seguinte

Nos dias atuais, com o advento de forrageiras como o braquiarão, cuja massa diferida para a seca apresenta uma qualidade razoável, e de técnicas de suplementação protéica (nitrogenada) de baixo custo, é possível manter os bois gordos e em condição de abate, por um período mais longo, até os meses de julho ou agosto. Paralelamente, cresceu muito no país o confinamento e o semi-confinamento de bovinos. Desse modo, o diferencial de preços da arrôba do boi gordo, entre os períodos de safra e de entressafra, reduziu-se nos últimos anos para cerca de 10 a 12 %.

O confinamento hoje no Brasil é uma atividade que apresenta rentabilidade reduzida e as justificativas para sua adoção não são mais preponderantemente de ordem econômica. Hoje o confinamento deve ser encarado como uma alternativa estratégica para produzir novilhos precoces, reduzir a lotação das pastagens na seca, constituir uma reserva de alimentos volumosos, aumentar a escala de produção da propriedade, etc

1 BOVIPLAN Consultoria Agropecuária - Piracicaba/SP

2) HISTÓRICO DO CONFINAMENTO NO BRASIL

Na década de 70, os órgãos de extensão rural do país divulgaram entre os pecuaristas as vantagens da adoção da atividade de confinamento, dando ênfase às vantagens econômicas da atividade. Nesta época, o pacote tecnológico sobre confinamento era adaptado de modelos europeus, envolvia investimentos elevados com instalações (confinamento com piso, cochos cobertos, lotes pequenos, etc.) e indicava como opções de volumosos as silagens de milho e de sorgo. Predominavam confinamentos de pequeno porte (100 a 500 cabeças), organizados a nível de propriedade, para engorda de gado próprio do confinador.

Na década de 80, surgiram confinamentos de porte maior (1.000 até 15.000 cabeças), as instalações foram simplificadas (piquetes sem piso, cochos descobertos, etc.) e começou-se a utilizar, em maior escala, volumosos mais baratos, como a cana picada e o capim elefante. Nesta época, surgiram também os confinamentos que utilizavam como componentes principais da ração subprodutos agro-industriais das indústrias alimentícias do milho (silagem de restos de espigas de milho verde) e do tomate (pele e sementes) e, principalmente, das usinas e destilarias de açúcar e álcool (bagaço hidrolisado, levedura, melaço, etc.). Os operadores desses confinamentos, em grande parte, atuavam apenas na terminação dos bovinos, sendo que compravam os bois magros na safra (maio-junho) e os vendiam gordos para abate na entressafra (setembro a novembro). O diferencial de preços da safra para a entressafra continuou sendo o grande atrativo do confinamento, mas a compra de bois magros para confinar ficou mais difícil, no final da década. O mercado sofisticou-se, com a cotação do boi gordo e a possibilidade de sua comercialização no mercado futuro e com os incentivos governamentais para a produção do novilho precoce. Surgiram os confinamentos de aluguel, com capacidades para 5.000 a 15.000 cabeças, geralmente utilizando rações à base de resíduos e subprodutos agro- industriais. No final da década, acentuou-se a preocupação dos confinadores com a qualidade e com os custos de reposição dos bois confinados e muitos passaram a associar o confinamento com a atividade de recria ou mesmo com o ciclo completo de produção pecuária (cria-recria-engorda).

Na década de 90, a atividade de confinamento cresceu muito e surgiram alguns confinamentos de grande porte (até 50.000 cabeças). As margens econômicas da atividade se estreitaram muito e o bom desempenho técnico passou a ser determinante na rentabilidade do confinamento. Enquanto que nas décadas anteriores o diferencial de preços da safra para a entressafra geralmente já garantia o lucro da atividade, mesmo que o desempenho técnico (ganho de peso, conversão alimentar) fosse baixo, na década de 90 esse diferencial de preços reduziu-se para apenas 10-12% e tornou-se bem menos importante para a rentabilidade do empreendimento do que os índices de desempenho técnico. Os principais volumosos utilizados nas rações de confinamento passaram a ser as silagens de capins tropicais (principalmente mombaça, tanzânia e braquiarão), além da cana e seus subprodutos e do crescente uso de silagens de sorgo forrageiro e de milheto. Acentuou-se a

associação do confinamento com as atividades de recria ou de ciclo completo. Aquele esquema de giro rápido, com compra dos bois magros na safra e venda dos bois gordos na entressafra, passou a ser de alto risco, pois, como vimos, o diferencial de preços se reduziu, devido ao aumento da oferta de bois gordos na entressafra e à elevação dos preços do boi magro na safra, especialmente em se tratando de bois magros de qualidade, capazes de apresentar bom desempenho técnico no confinamento. Por outro lado, os produtores que já utilizavam o confinamento associado às atividades de cria e recria, passaram a tirar proveito da produção de bezerros melhores, especializados na produção intensiva de carne. A utilização de cruzamentos dirigidos, visando a exploração da heterose (cruzamentos industriais), cresceu muito e as centrais de inseminação passaram a vender mais sêmen de raças taurinas de corte do que de raças zebuínas. Surgiram os confinamentos de novilhos super-precoces (confinados logo após a desmama) e aumentou a participação de fêmeas nos confinamentos, especialmente novilhas de cruzamentos industriais. Cresceu muito também, nesta última década, a utilização da irrigação de pastagens. Esta prática permite engordar bois durante a seca, especialmente nas regiões do Centro- Oeste e do Nordeste. É mais uma técnica que resulta em maior oferta de bois na entressafra, que também concorre para reduzir o diferencial de preços da arrôba, durante o ano.

3) ASPECTOS ECONÔMICOS E OPERACIONAIS DA IMPLANTAÇÃO DE UM CONFINAMENTO

O confinamento em si não é a fase mais rentável da produção pecuária. O custo da engorda de bovinos confinados está na faixa de R$ 32,00 a R$ 35,00 por arrôba de ganho de peso. Enquanto isso, a fase de cria apresenta um custo de produção de aproximadamente R$ 30,00/@ e a fase de recria um custo de apenas R$ 16,00 a R$ 18,00/@. O confinamento, porém, proporciona vantagens econômicas indiretas, pois, dentre outros aspectos, permite terminar os bois mais cedo, adiantar a realização de receitas, aumentar a escala de produção da propriedade e aliviar as pastagens durante a seca. O diferencial de preços da arrôba do boi gordo, entre os períodos da safra e da entressafra, se bem que não mais tão acentuado como no passado, ainda exerce uma influência benéfica na rentabilidade do sistema de produção que inclui o confinamento.

3.1) O confinamento no Sistema de Produção de Ciclo Completo

Os quadros 01 e 02, a seguir, apresentam uma comparação entre os custos de produção das 3 fases de produção de bovinos de corte, em sistemas de produção intensificados, com e sem a engorda em confinamento.

QUADRO 01. PRODUÇÃO DO NOVILHO PRECOCE (MACHO)

Custos de Produção da Arrôba nas 3 Fases de Produção de Gado de Corte - Cria, Recria e Engorda a Pasto

CRIA Semi-Intensiva 80 % nat. (PRSI)

 

RECRIA INTENSIVA

 

ENGORDA A PASTO

TOTAL

SECA

ÁGUAS

SECA

ÁGUAS

(SAL PROT.)

(PRI)

(SAL+U)

 

(PE)

1,2 vacas/ha

8,0 cab./ha

8,0 cab./ha

2,0 cab./ha

2,0 cab./ha

1,67 ha

240 dias

150 dias

210 dias

150

dias

170 dias

920 dias

out-00

mai-01

mai-01

out-01

out-01

mai-02

mai-02

out-02

out-02

abr-03

out-00

abr-03

35

179 kg

179

202 kg

202 328 kg

328

358 kg

358

460 kg

35

460 kg

0,600 kg/dia

0,150 kg/dia

0,600 kg/dia

0,200 kg/dia

0,6 kg/dia

0,461 kg/dia

R$ 186,77

R$ 21,23

R$ 60,40

R$ 27,89

R$ 79,36

R$ 375,65

5,97 @

0,75 @

4,20 @

1,00 @

4,32 @

16,24 @

R$ 31,30

/@

R$ 28,30

/@

R$ 14,38

/@

R$ 27,89

/@

R$ 18,38

/@

R$ 23,14

/@

QUADRO 02. PRODUÇÃO DO NOVILHO PRECOCE (MACHO)

Custos de Produção da Arrôba nas 3 Fases de Produção de Gado de Corte - Cria, Recria e Engorda em Confinamento

CRIA Semi-Intensiva 80 % nat. (PRSI)

 

RECRIA INTENSIVA

 

ENGORDA CONF.

TOTAL

SECA

ÁGUAS

SECA

(SAL PROT.)

(PRI)

(RAÇÃO)

1,2 vacas/ha

8,0 cab./ha

8,0 cab./ha

40,0 cab./ha

1,19 ha

240 dias

150 dias

210 dias

110

dias

710 dias

out-00

mai-01

mai-01

out-01

out-01

mai-02

mai-02

set-02

out-00

set-02

35

179 kg

179

202 kg

202 328 kg

328

460 kg

35

460 kg

0,600 kg/dia

0,150 kg/dia

0,600 kg/dia

1,200 kg/dia

0,5979 kg/dia

R$ 186,77

R$ 21,23

R$ 60,40

R$ 164,85

R$ 433,24

5,97 @

0,75 @

4,20 @

5,32 @

16,24 @

R$ 31,30

/@

R$ 28,30

/@

R$ 14,38

/@

R$ 30,99

/@

R$ 26,68

/@

PRSI = pastejo rotacionado semi-intensivo intensivo SAL PROT. = sal proteinado (1g/kg de peso vivo/dia)

Fonte: Anualpec 2001

PRI = pastejo rotacionado

Nas condições de produçao apresentadas, os quadros indicam que se pode aumentar em cerca de 40 % o rebanho de matrizes, quando se adota a engorda em confinamento. Apesar de o custo de produção do boi confinado ser mais elevado do que o do boi a pasto, o ganho de escala na produção, permitido pela liberação de áreas de pastagens para aumentar o rebanho de matrizes, decorrente do confinamento, resulta em maior rentabilidade, conforme resumido no Quadro 03 a seguir:

Quadro 03. Rentabilidade de Sistemas de Produção de Pecuária de Corte - Ciclo Completo Engorda a Pasto X Engorda em Confinamento

Premissa:

Propriedade com 1.000 ha de áreas de pastagens

 

Cria, Recria, Engorda a Pasto

Cria, Recria,

Discriminação

Engorda em

 

Confinamento

No. abates/ano

600

cabeças

840 cabeças

No. de matrizes

780

matrizes

1.092 matrizes

Áreas (ha)

   

- pastagens semi-intensivas

 

925,0

874,0

- pastagens intensivas

 

75,0

105,0

- área de corte p/silagem

 

-

21,0

Produção de carne (kg/ha.ano)

 

276,0

386,4

Total de Arrôbas vendidas (@/ano)

9.744,0

13.641,6

Custeio da Produção (R$/ano)

225.476,16

363.957,89

Resultado líquido(R$/ano)

   

- valor da arrôba = R$ 34,00

105.819,84

99.856,51

- valor da arrôba = R$ 36,00

125.307,84

127.139,71

- valor da arrôba = R$ 38,00

144.795,84

154.422,91

- valor da arrôba = R$ 40,00

164.283,84

181.706,11

A comparação entre os resultados líquidos anuais da engorda a pasto e do confinamento, nas condições acima consideradas, indica vantagem crescente para o sistema confinado, quando os preços da arrôba são mais altos. Levando em conta um diferencial de preço de 10-12 %, entre os períodos da safra e da entressafra (valores em negrito no Quadro 03), verifica-se uma vantagem econômica adicional.

3.2) O confinamento no sistema de produção de recria e engorda

Considerando que o sistema de produção adotado inclui apenas as atividades de recria e engorda, que os bezerros para recria são adquiridos a R$ 300,00/cabeça e que os custos de produção das fases de recria e de engorda são iguais aos apresentados nos Quadros 01 e 02, foram calculados os custos de produção da arrôba e a necessidade de área de pastagens apresentados no Quadro 04.

Quadro 04. Custo de Produção da Arrôba em Sistemas de Produção de Recria e Engorda (sistema intensivo)

Sistema de Produção

Custo de produção

Área de pastagens por boi produzido

Recria e engorda a pasto

R$ 30,10/@

0,63 ha

Recria e engorda confinada

R$ 33,65/@

0,15 ha

O Quadro 05 apresenta uma comparação entre as rentabilidades dos sistemas de recria e engorda com e sem confinamento.

Quadro 05. Rentabilidade de Sistemas de Produção de Pecuária de Corte

- Recria e Engorda

Engorda a Pasto X Engorda em Confinamento

Premissas:

Propriedade com 1.000 ha de áreas de pastagens

Discriminação

Recria e Engorda a Pasto

Recria e Engorda em Confinamento

No. abates/ano

1.580 cabeças

6.660 cabeças

No. de matrizes

-

-

Áreas (ha)

   

- pastagens semi-intensivas

790,0

-

- pastagens intensivas

210,0

830,0

- área de corte p/silagem

-

170,0

Produção de carne (kg/ha.ano) (*)

444,0

1.871,5

Total de Arrôbas vendidas (@/ano)

25.659,2

108.158,4

Custeio da Produção (R$/ano)

772.341,92

3.639.530,10

Resultado líquido(R$/ano)

   

- valor da arrôba = R$ 34,00

100.070,88

37.855,50

- valor da arrôba = R$ 36,00

151.389,28

254.172,30

- valor da arrôba = R$ 38,00

202.707,68

470.489,10

- valor da arrôba = R$ 40,00

254.026,08

686.805,90

(*) descontado o peso de compra dos bezerros

Para o pecuarista que pratica apenas as fases de recria e engorda, o confinamento permite um elevado grau de intensificação, pois pastagens antes usadas para a engorda, com apenas 2 bois/ha, são liberadas para o manejo intensivo de recria, com 8 cabeças por hectare e, além disso, cada hectare utilizado para silagem de capim pode produzir volumosos suficientes para 40 bois confinados. Desse modo, o confinamento permite quadruplicar a produção na mesma área. Contudo, o custo de produção se eleva bastante e a rentabilidade torna-se muito mais sensível aos preço de venda do boi gordo.

3.3) Necessidade de Insumos com a Instalação de um Confinamento.

A instalação de um confinamento envolve investimentos, discriminados no

capítulo a seguir, mas, acima de tudo, envolve questões operacionais, de planejamento, de treinamento de mão de obra, de aquisição de insumos e de manejo geral da propriedade, que irão requerer do pecuarista uma dedicação muito mais intensa, em termos de administração e controle, do que a simples engorda a pasto. O Quadro 06 que segue, apresenta as necessidades dos principais insumos externos (sal, ração, adubos, etc.) que devem ser adquiridos para os sistemas de produção de ciclo completo, com e sem confinamento, conforme definido no Quadro 03.

Quadro 06. Necessidades de Insumos, Sistema de produção Ciclo Completo - com e sem confinamento - 1.00 ha de pastagens

 

QUANTIDADES A SEREM ADQUIRIDAS POR ANO

INSUMOS

Cria, Recria, Engorda a Pasto (780 matrizes)

Cria, Recria, Engorda em Confinamento (1.092 matrizes)

Sal Mineral

61

t

60

t

Sal Proteinado

18

t

25

t

Calcário

360

t

420

t

Fertilizantes

177

t

200

t

Ração

-

460

t

Óleo Diesel

15

t

40

t

TOTAL

631

t

1.205 t

O confinamento dobra a necessidade de insumos da propriedade.

3.3) Investimentos para a Instalação do Confinamento

Os investimentos para a instalação de um confinamento são da ordem de R$

140,00 por boi confinado. É possível utilizar as instalações para até 2 ciclos

de confinamento, entre os meses de maio e novembro. O Quadro 07 apresenta uma relação dos investimentos necessários em instalações e equipamentos para se confinar 2.000 bois.

Quadro 07. CONFINAMENTO PARA 2.000 BOIS

INVESTIMENTOS EM INSTALAÇÕES E EQUIPAMENTOS

Instalações

 

Currais de confinamento Barracão 10X20 m p/ração Silos trincheira p/silagem capim SUBTOTAL

50.000,00

24.000,00

7.500,00

81.500,00

Equipamentos para Silagem de Capim (5.000 t /ano)

 

02

forrageiras de área total

26.000,00

02

carretas ensiladoras cap 24 m3

26.000,00

01

Trator 90 HP (usado)

25.000,00

02

Tratores 75 HP (usados)

30.000,00

01

carreta distribuidora de esterco cap 10 m3

14.500,00

01

adubadora-calcareadora cap. 5 t

5.500,00

SUBTOTAL

127.000,00

Equipamentos para Preparo e Distribuição de Ração

 

01

vagão forrageiro com balança cap. 10 m3

21.000,00

01

fábrica de rações cap. 3 t/hora

16.000,00

01

garra desensiladeira STARA

12.500,00

01

silo grãos cap 50 t

8.500,00

01

conj. moega/elevador de canecas cap 20 t/hora

4.500,00

01

silo para ração pronta cap. 30 t

6.000,00

SUBTOTAL

68.500,00

 

TOTAL

277.000,00

4) O CONFINAMENTO ESTRATÉGICO

Com a estabilidade econômica, a terra deixou de ser uma proteção contra a inflação e o custo de propriedade começou a ser considerado por muitos pecuaristas. A intensificação do uso da terra, assim como a de outros fatores de produção, passou a ser perseguida pelos pecuaristas-empresários. Na pecuária brasileira, a intensificação da produção envolve principalmente o aumento da produção forrageira da propriedade, com o consequente aumento da lotação das pastagens, visando produzir mais carne por hectare por ano.

Na fase de cria, o aumento do rebanho de matrizes de uma propriedade é limitado pela baixa produção das pastagens durante a seca. O rebanho de matrizes, como todos sabem, deve ser mantido na propriedade o ano todo, com exceção de um percentual de até 20 ou 25 % das matrizes, que pode ser descartado, geralmente na entrada da seca. De todo modo, já lá deverão estar, prontas para substituir estas matrizes descartadas, as novilhas de

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reposição. Quando se parte de um sistema extensivo de produção e são adotadas medidas adequadas de manejo e de adubações corretivas de solo, é possível conseguir algo como até 50% de aumento no suporte das pastagens, considerando um manejo exclusivamente a pasto e durante o ano todo. A alimentação de vacas de cria com alimentos volumosos no cocho, seja silagem ou feno, ainda é uma prática onerosa e de baixo retorno, de modo que a intensificação da atividade de cria fica mesmo limitada pelo suporte das pastagens da propriedade durante a seca.

Na fase de recria, é possível aumentar, com relativa facilidade, em 4 ou 5 vezes a lotação das pastagens. Esse aumento de lotação, obviamente, pode ser obtido apenas no período das águas e desde que se adote o manejo rotacionado intensivo, com adubações corretivas e de reposição. Não é difícil trabalhar, na maioria dos casos, com lotações de 5 UA/ha, ou 7 a 8 cabeças em recria/ha. É lógico que esta é uma lotação para o período das águas e, no período seco, a lotação certamente será menor. Mas, as pastagens de recria, no início da seca, recebem bezerros recém-desmamados, o que representa uma carga animal leve. Estas pastagens devem ter boa disponibilidade de massa para a seca e o fornecimento de sal proteinado é obrigatório. Além do mais, se necessário, estes bezerros podem ser alimentados, a baixo custo, com volumosos no cocho. Desse modo, fica claro que na fase de recria a intensificação da produção pode ser muito efetiva. Em uma área reduzida da propriedade, pode-se concentrar todos os bovinos desta fase, liberando áreas de pastagens para aumentar o rebanho de cria e, em consequencia, a escala de produção da propriedade.

Na fase de engorda, o grau máximo possível de intensificação é o

confinamento. Existem medidas intermediárias de intensificação, como a engorda em pastagens irrigadas, em pastagens de inverno, em pastagens

sob manejo rotacionado intensivo, etc

apresenta o mesmo impacto de permitir uma utilização tão intensiva da terra como o confinamento. O quadro que segue apresenta uma comparação entre alguns sistemas de engorda de bovinos:

Contudo, nenhuma dessas medidas

Comparação entre Sistemas de Engorda de Bovinos

Premissas: - início da engorda

- junho

- peso dos bois magros

- 360 kg

- idade dos bois magros

- 20 meses

- peso dos bois gordos

- 460 a 480 kg

Sistema de

Seca

Águas

   

Engorda

Lotação

GPD

Lotação

GPD

Período

Produção

(cab/ha)

(kg/cab.dia)

(cab/ha)

(kg/cab.dia)

(kgPV/ha.ano)

Pastagem extensiva Pastagem rot. intensiva Pastagem rot. intensiva + irrigação (*) Confinamento (**)

0,8

0,10

0,8

0,60

jun-mar

84

1,5

0,15

5,0

0,60

jun-fev

394

5,0

0,80

8,0

0,60

jun-nov

1.464

dez-mai

40,0

1,20(0,50)

-

-

jun-out

4.800 (2.000)

(*) dois lotes de engorda por ano (**) produção anual de silagem = 80 t/ha.ano ; confinamento de 100 dias; entre parênteses está o ganho de peso que pode ser atribuído à contribuição energética do volumoso na ração de confinamento.

Fonte: Anualpec 2001

O engorda em confinamento usa a terra apenas para a produção do alimento volumoso. Pode-se produzir, por exemplo, com gramíneas tropicais do gênero Panicum (mombaça, tanzânia, etc.), cerca de 80 t de silagem de capim/ha.ano. Esta quantidade é suficiente para engordar 40 bois, durante 100 a 120 dias. Se a área de produção de volumosos for irrigada, estes números podem ser dobrados. O volumoso contribui com 40-50% da energia digestível nas rações de confinamento. Mesmo considerando este aspecto, a produtividade de carne da propriedade é muito mais elevada do que com outros sistemas de engorda. O confinamento pode tirar toda uma "era" de bois dos pastos da propriedade, liberando, desse modo, uma grande área de pastagens para aumentar a escala das atividades de cria e/ou recria. Cada 2 bois confinados, em um sistema de produção de ciclo completo, abre espaço na propriedade para aumentar o rebanho de matrizes em 1 vaca. Cada boi confinado, em um sistema de produção de recria-engorda, abre espaço na propriedade para 2 garrotes em recria.

Finalmente, com o crescimento dos confinamentos de aluguel, que buscam lucrar com a grande escala de produção ou com a utilização localizada e exclusiva de determinados alimentos baratos (resíduos e sub-produtos agro- industriais), o pecuarista pode enviar seus bois para terminação fora da propriedade e, assim, usufruir dos mesmos benefícios já referidos, sem contudo investir em instalações e maquinário para produção de silagem.

Hoje em dia, a engorda de bovinos em confinamento, apesar de pouco atrativa economicamente (as margens são estreitas), é uma alternativa estratégica para o pecuarista que quer administrar com menor risco, ganhar escala no seu sistema de produção e ganhar qualidade em seus produtos.

Os principais benefícios do confinamento podem ser resumidos conforme segue:

- Adiantar receitas e acelerar o giro de capital.

- Distribuir melhor as receitas da propriedade, durante o ano.

- Reduzir a lotação das pastagens da fazenda durante a seca.

- Aumentar a escala de produção, pois o confinamento retira toda uma "era" de bois do pasto, abrindo espaço para se aumentar a cria e/ou a recria.

- Aumentar expressivamente a produtividade da propriedade, resultando em melhor retorno sobre o capital investido na atividade, inclusive a terra.

- Permitir o abate de bovinos mais jovens, de melhor qualidade e melhor preço de venda.

- Constituir uma reserva considerável de volumosos conservados na propriedade, que pode ser usada também para outros negócios, como engorda de vacas descarte, trato de novilhas na seca, etc., além de representar uma válvula de segurança no caso de uma seca mais severa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANUALPEC 99 - Anuário estatístico da Produção Animal, 1999: coordenação técnica de Victor Abou Nehmi Filho e outros, Editora Argos Comunicação, São Paulo/SP, 447 p. ANUALPEC 2001 - Anuário estatístico da Produção Animal, 2001: coordenação técnica de Victor Abou Nehmi Filho e outros, Editora Argos Comunicação, São Paulo/SP, no prelo

Simpósio sobre Produção Animal, 5o., Piracicaba/SP, 1987. Confinamento de bovinos de corte e leiteiros: anais / editado por Aristeu Mendes Peixoto, José Carlos de Moura e Vidal Pedroso de Faria. - Piracicaba: FEALQ, 1987. Simpósio sobre Nutrição de Bovinos, 6o., Piracicaba/SP, 1995. Utilização de resíduos culturais e de beneficiamento na alimentação de bovinos: anais / editado por Aristeu Mendes Peixoto, José Carlos de Moura e Vidal Pedroso de Faria. - Piracicaba: FEALQ,

1995.