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WAGNER TADEU DA SILVEIRA

ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE OS PRÓLOGOS DE JÓ E FAUSTO

Belo Horizonte

Faculdade de Letras da UFMG DEZ/2008 2 .

ministrada pelo Professor Georg Otte.WAGNER TADEU DA SILVEIRA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE OS PRÓLOGOS DE JÓ E FAUSTO Trabalho apresentado ao Curso de Graduação em Letras da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito para obtenção de créditos na disciplina Introdução à Literatura Comparada. Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG DEZ/2008 3 .

............................. 6 Os prólogos ..............................4 Origem histórica de Fausto e Jó .....6 Bibliografia ...................................................................................................................................................................................................................................................................................... 4 Aspectos formais ................. 10 4 ......................................Sumário Introdução ..............................................................................................................

Eclesiastes e Cantares de Salomão. Profissionais de outros campos do conhecimento têm aproveitado melhor a fonte bíblica do que propriamente os literatos: como os historiadores. Estes ocupam. são cinco: Jó. Erfurt. no entanto há material abundante que permite afirmar a dimensão histórica do personagem. quarenta e nove livros divididos em três categorias. Bamberg e Wittenberg. e teve morte.Introdução É incontestável o valor de Goethe e sua obra para a Literatura mundial. sobretudo a alemã. Deixando para outros possíveis estudos a investigação do valor literário dos demais livros. Origem Histórica de Fausto e Jó A origem da figura mítica do Fausto remonta o Séc. a última parte do Velho Testamento. Acerca do motivador da figura lendária do Fausto. afirma Erwin Theodor: . o primeiro e mais antigo destes O Livro de Jó. poéticos e proféticos. 5 . Em alguma fase da sua vida foi registrado como residindo nas cidades de Gelnhausem. viveu um indivíduo de nome Georg Faust. para os fins aos quais este trabalho se propõe.. por exemplo. na Bíblia ocidental.. XVI. Salmos. entre os anos de 1480 e 1540. O Fausto de Goethe dialoga com esta obra bíblica. aproximadamente. de duvidosa reputação. O Velho Testamento hebraico utiliza outra ordem. conhecida como Velho Testamento. Interessa-nos. consideraremos o grupo dos poéticos – livros construídos em sua grande parte em verso – como material escrito primordialmente com formato literário. porém são raros os trabalhos que consideram os livros bíblicos com algum potencial literário. Provérbios. Würzburg. este último também conhecido como Cântico dos Cânticos de Salomão. a saber: históricos. natural de Knittlingen. a grande maioria das obras do cânon divino foi escrita com intuitos distintos do de meramente construção de um corpo literário. esses o centro e aqueles o princípio. Todos do grupo poderiam ser editados e distribuídos separadamente como Literatura. A Bíblia tem em sua primeira coleção. De fato. Examinando a origem histórica dos personagens principais da obra e os prólogos de ambos passaremos a estabelecer as relações de influência que o mais antigo determinou sobre o mais novo.

é considerada o primeiro grande esforço para se traduzir a Bíblia para o grego. a partir da criatividade popular. uma delas narra que ela teria sido feita por 72 sábios judeus. em troca de fortuna. mais remota ainda seria a época em que viveu o possível personagem histórico que deu origem ao relato. 1) Notadamente o mito fáustico tem uma dimensão histórica. Acerca das leituras das lendas fáusticas feitas por Goethe. 4 e 5) Entre os livros poéticos da Bíblia. 2 Ver Gênesis 36:33. anonimamente. 6 . Muito se escreveu sobre a lenda do Fausto antes de Goethe e é sabido que este se interessava enormemente sobre o tema. Muitos consideram O Livro de Jó como o mais antigo de toda a Bíblia e sua autoria. ainda hoje. Dentro deste campo puramente especulativo. este livro não faz parte dos tempos áureos da história dos hebreus. em Staufen. relativos ao Fausto. em acontecimentos fantásticos que forjaram a lenda. A história desta tradução está envolta em mitos e lendas.provavelmente violenta. centrados em feiticeiros ou curandeiros que teriam vendido a sua alma ao diabo. Diferentemente dos demais do grupo. eterna juventude ou amor. é um mistério completo. o segundo rei de Edom2. (Theodor. pág. o Livro de Jó destaca-se. A O Livro de Jó normalmente é atribuída uma data muito mais antiga que os tempos de Davi e Salomão. expõe Erwin: Sabe-se que Goethe leu todos os relatos acessíveis. seis de cada uma das doze tribos de Israel. se encontravam em circulação. (Theodor. 1 Elaborada logo nos primeiros séculos da era cristã. época em que os outros livros bíblicos chamados poéticos tiveram quase a totalidade de suas construções. Se o livro é antigo. Na verdade. não há nada que podemos afirmar com total segurança a respeito da vida deste homem que não seja especulação. desde o Livro Popular até as histórias que. pág. prefácio de Fausto a edição em português da Editora Itatiaia Limitada. prefácio de Fausto a edição em português da Editora Itatiaia Limitada. as excentricidades de Georg Faust possivelmente foram potencializadas pelo afastamento temporal e eventos – que possivelmente fugiam a trivialidade – transmutaram. a Septuaginta1 identificou Jó como Jobabe.

Ao Fausto não ousaremos comentar estilo e forma poética. triplas ou quádruplas. Distanciada da formatação comumente conhecida de poesia. duas obras-primas e dois homens separados por milênios que ainda se comunicam. formando dísticos. Sabia que toda grande obra não podia surgir do nada e entendia que construía sobre o já edificado. Halley: A poesia hebraica não tem métrica nem rima..) Às vezes as parelhas são duplas. como um arsenal que militava em favor da obra literária. mesmo se houvesse espaço para tal empreitada. estendendo-se de Edom. ainda assim. Não escondia que refletia em sua obra toda a sua bagagem cultural. ao rio Eufrates e ladeava a rota de caravanas entre a Babilônia e o Egito. como a nossa. a obra bíblica que trata de Jó está sobre o signo da poesia hebraica. sextilhas ou oitavas. é denominado: “terra de Uz”3 e presumisse que ficava nos limites da Palestina com a Arábia. acerca desta. pelo norte e pelo leste. Nada obstante O Livro de Jó possua algumas partes em prosa – o prólogo que analisaremos é um exemplo – são.O cenário da história. sinônimos ou antitéticos. se se considerarmos Jó como Jobabe estamos falando de mais de um milênio e meio antes de Cristo. afirma Henry H. gênio como era entendia que toda Literatura anterior ao artista era sua propriedade e não negava as suas influências.. quadra. Os Prólogos Não há dúvidas quanto à influência de Jó na obra de Goethe. sobretudo numa obra como O 3 Ver Jó 1:1 7 . relatado no primeiro capítulo do livro. o segundo contrastando-se com o primeiro ou levando-o a uma culminância. O mesmo pensamento é repetido com palavras diferentes. Todo o livro parece respirar uma atmosfera muito antiga. ou idéias rítmicas. formado uma parelha de versos. (. Consiste antes em paralelismos. Aspectos Formais Ambas as obras se apresentam em versos e as duas têm um tamanho considerável.

Outro aspecto que parece interessante está no primeiro verso da fala de Mefistófeles. 76) Antes do prólogo que nos interessa para este trabalho. Sua intenção parece ser a de modificar o assunto. O primeiro aspecto interessante é que parece que Goethe quer ampliar e detalhar o prólogo de Jó. e Satanás também veio com eles. “Da du. como o Satanás de Jó. porém ele se interessa pelo Homem. Goethe utiliza as partes do prólogo de Jó como um mote para descortinar em sua obra os elementos que completariam a obra antiga. Porquanto quando lemos em Jó: “Certo dia os anjos vieram apresentar-se ao Senhor. desde a Antiguidade até ao mundo contemporâneo.Fausto em que trabalhou durante incríveis sessenta anos. ainda que o seu discurso seja de queixume e questionador da condição humana. dich einmal wieder nahst”. Depois que se lê Prólogo do Céu este contamina o texto bíblico de forma que ao ler O livro de Jó o Satanás ali descrito também é o Mefistófeles e entre um trecho narrativo e outro de Jó colocamos as elucubrações mefistotélicas que Goethe apresenta. Logo a seguir começa o nosso “Prolog im Himmel”. entra como a figura promovedora do desequilibro. no prólogo de O Fausto entramos na mente de Mefistófeles. de jure ao poeta? Somente se pode produzir algo grande apropriando-se de tesouros alheios. as apresentações dos arcanjos: Rafael. declarou o próprio: Não pertence tudo o que se fez.Citação publicada na obra Deus e o Diabo no Fausto de Goethe. Eu não me apropriei de Jó para Mefistófeles e da canção de Shakespeare? (Goethe . podemos claramente imaginar as primeiras cinco estrofes do prólogo de Goethe. Este último parece funcionar como um roteiro para o autor de O Fausto. Goethe apresenta sua dedicatória em verso e um primeiro prólogo chamado de “Vorspiel auf dem Theater”. o Herr. recorrendo à tradução de Jenny 4 Ver Jó 1:6a 8 . mas Goethe se ocupa delas e as expressa. passamos a perscrutar o até então inimaginável e acabamos por forjar uma imagem tão poderosa que não desassociamos mais um texto do outro. os anjos falaram da Terra e de seus aspectos naturais. Enquanto em Jó estamos presos a uma estrutura superficial narrativa que parece girar em torno de Satanás. Gabriel e Miguel e a apresentação de Mefistófeles.”4. O cânon divino menciona as apresentações angelicais. seu discurso quebra a seqüência adoradora dos anjos. Mefistófeles. p. Acerca das influências.

O que Deus diz em Jó é quase exatamente o que Ele fala em O Fausto. e em Fausto: “So lang er auf der Erde lebt. enquanto o Diabo de Jó limita-se a responder que rodeava a Terra e perambulava por ela. observemos em Jó: “Siehe da. o texto de Goethe se afasta de Jó no que concerne ao modo com que o Demônio introduz a idéia da aposta e na forma como os diálogos se estruturam – não há mais equivalência entre o momento de cada fala. em Jó Satanás se retira e as desgraças na vida da personagem começam a acontecer. versão luterana. é Deus quem cita e insere as personagens principais na trama que começa a se desenrolar. No Fausto nós ficamos com um Satanás goethiano que não usará das mesmas táticas que foram usadas em Jó. quais sejam: nas duas obras quem propõe a aposta é Satanás e também nota-se claramente que há a necessidade de permissão divina para que o Diabo possa atuar na vida de Fausto e de Jó. Deste ponto em diante. 7 Ver Das Buch Hiob 2:6. Mefistófeles alude outra vez à condição da humanidade e menospreza novamente a índole do homem. doch schone seines Lebens!”7. 9 . duas delas são mais relevantes. Porém o paralelismo continua em muitos outros aspectos. Depois das apresentações nas duas obras a palavra é dada a Deus. em Fausto: “Hast du mir weiter nichts zu sagen? Kommst du nur immer anzuklagen? Ist auf der Erde ewig dir nichts recht?” nas duas obras a resposta do demônio trata dos aspectos terrenos. er sei in deiner Hand. pois em ambas Deus prepara um questionamento. talvez até uma referência indireta ao encontro que teria acontecido no passado por ocasião da tentação de Jó. A forma como Deus aceita o desafio é semelhante nos dois livros. nesse momento o paralelismo entre as obras é ainda mais claro. este último foi tentado pela escassez enquanto Fausto será tentado pela abundancia. assim em Jó temos: “De onde Vens?”5. Senhor. agora na tradução bíblica de Lutero para avaliarmos em alemão: “Hast du achtgehabt auf meinen Knecht Hiob?”6. Agora Deus responde de forma extremamente semelhante nas duas obras. 5 6 Ver Jó 1:6b Ver Das Buch Hiob 1:8. porém nesse último há o desdobramento em duas falas. de novo te aproximas. e em Fausto: “Kennst du den Faust?” e Mefistófeles: “Den Doctor?”.” no trecho o termo “einmal” parece remeter a encontros anteriores.” Aceita a aposta. novamente Deus: “Meinen Knecht!”. Vejamos como Deus questiona o Diabo em Jó. versão luterana.Klabin Segall: “Já que. So lange sei dir's nicht verboten.

além da elevação e da cultura moral do cristianismo. mögen die Naturwissenschaften in immer breiterer Ausdehnung und Tiefe wachsen und der menschliche Geist sich erweitern. revelado por ele mesmo: Mag die geistige Kultur nun immer fortschreiten. expanda-se o espírito humano tanto quanto queira.wissen-im-netz. é que não irão. 10 . como ele resplandece nos Evangelhos. citado em http://www.htm) Continue avançando a cultura intelectual. Tal postura de Goethe faz jus ao respeito que este possuía pelo cânon sagrado.Notadamente estamos frente a uma relação de influência que ao contrário de escamotear a referência ou plagiar. wie er will. progridam as ciências naturais sempre mais em extensão e profundidade. wie es in den Evangelien schimmert und leuchtet. dialoga de forma enriquecedora.info/literatur/goethe/biografien/eckermann/31830ff/18320311. – über die Hoheit und sittliche Kultur des Christentums. wird er nicht hinauskommen! (Goethe.

São Paulo. Manual Bíblico. Edições Vida Nova.wissen-im-netz.BIBLIOGRAFIA CAMPELO. prefácios de Erwin Theodor e Antonio Houaiss. Walter Andrade. posfácio de Sergio Buarque de Holanda. Edições Vida Nova.http://www. Editora Perspectiva S. 4ª edição. . Editora Itatiaia. .eti. 2ª Edição revista e atualizada no Brasil. A questão da Septuaginta.luz.br/es_septuaginta. Traduzida por João Ferreira de Almeida.DIVERSOS (1980). (1994).GOETHE.html .info/literatur 11 . Deus e o Diabo no Fausto de Goethe. Belo Horizonte.CAMPOS. São Paulo. de Mendonça. Disponível em: http://www. (1749-1832) O Fausto. Henry H. São Paulo. Traduzido por David A. A Bíblia Nova. Johann Wolfgang Von. Tradução de Jenny Klabin Segall. . Haroldo de (1981).A.Halley. .