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Cultura Material e Patrimônio de C&T

MUSEUS DE HISTÓRIA: Formação de coleções, memória e exclusão
Cecília Helena de Salles Oliveira*

Depuis longtemps, sinon la nuit des temps, l´histoire n´est-elle pas une « évidence » ? on en raconte,on en écrit, on en fait. L´histoire, ici et lá, hier comme aujourd´hui, va de soi. Portant, dire l´ « évidence de l´histoire », n´ést-ce pas dejá ouvrir un doute, laisser place à un point d´interrogation : est-ce si évident, après tout ? Et puis, de quelle histoire 1 parle-t-on ? (HARTOG, 2005, p. 11)

O
aconteceu”.
*

s Museus de História enfrentam atualmente tensões e contradições. Por um lado, como tem observado Dominique Poulot (2003), os vínculos entre as representações do passado expostas nessas instituições e o debate historiográfico contemporâneo são tênues e contraditórios, pois é notório o

descompasso entre imagens ali projetadas e o desenvolvimento da pesquisa nos vários campos de conhecimento histórico. Por outro lado, as dissonâncias se apresentam, também, entre aquilo que os museus oferecem em termos da “presentificação da história”, para usar uma expressão de Stephan Bann (1994), e as demandas do público visitante que muitas vezes espera encontrar em seu espaço a “história que realmente

- Museu Paulista, USP, Parque da Independência, s/n, Ipiranga, 04218-970 - Sâo Paulo, SP – Brasil. dirmp@usp.br. Possui graduação em História pela Universidade de São Paulo (1973), mestrado (1979) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1986). Atualmente é professora titular no Museu Paulista da Universidade de São Paulo e professora do Programa de Pós-Graduação em História Social da USP. 1 Desde muito tempo, senão desde a noite dos tempos, a história não é uma “evidência”? Ela é narrada, escrita e feita. A história, aqui e acolá, ontem como hoje, caminha por si só. Por outro lado, falar sobre a “evidência da história” não significa já abrir uma dúvida, dar lugar a um ponto de interrogação: é ela tão evidente, afinal? Além disso, de qual história se fala? (tradução nossa)

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eram centros privilegiados da produção e divulgação de conhecimentos históricos. dando origem ao primeiro museu público de São Paulo. o conhecido Museu do Ipiranga. a parcela maior da 27 . Data desse período parcela considerável das coleções do Museu Paulista. particularmente coleções textuais. foi apropriado pelas autoridades do novo regime para abrigar coleções de história natural. na emblemática trajetória de Affonso Taunay que. O fato de estar situado no palácio-monumento do Ipiranga fez com que. Ao longo dos anos. entre outras circunstâncias. oficialmente inaugurado a 7 de setembro de 1895. em especial. Naquela ocasião. marcada em sua trajetória por profunda ligação com a celebração da história nacional. cuja trajetória iniciou-se em 1893. Que princípios e práticas sustentam as “visões do passado” ali expostas? Em que medida essas visões. em 1922. ancoradas em recordações. MUSEU PAULISTA: PONTUANDO UMA TRAJETÓRIA Incorporado à Universidade de São Paulo em 1963. esquecimentos e exclusões. o acervo passou a incorporar também essas alegorias. Além disso. o caráter de museu de ciências naturais foi sendo modificado com o crescimento de coleções de documentos textuais. erguido pelo governo imperial na capital paulista nas proximidades do riacho do Ipiranga. com ênfase especial na história de São Paulo. bibliográficas e iconográficas. e simultaneamente à organização do regime republicano. em particular a História da Cultura Material no Brasil. mas sua realização prolongou-se por mais de uma década.Cultura Material e Patrimônio de C&T Nesse sentido. como diretor da instituição. objetos e iconografia. entre outras razões. fez-se historiador e intelectual influente na época. instituição centenária. minha proposta é problematizar alguns dos fundamentos das representações do passado inscritas em museus de História. em paralelo aos Institutos Históricos. As obras de decoração interna foram inicialmente idealizadas para as comemorações do Centenário da Independência. Trata-se de instituição científica e cultural centenária. o Museu se tornasse popularmente conhecido como Museu do Ipiranga. quando ainda os museus de História. o que se evidencia. à primeira metade do século XX. interferiram não só na seleção dos acervos a serem preservados como no delineamento de uma escrita sobre a História do Brasil? Refiro-me. o Museu Paulista é instituição voltada para o campo de conhecimentos da História. explorando particularmente o Museu Paulista da USP. para celebrar a Independência e a fundação do Império. o edifício-monumento. em função das obras de ornamentação interna do prédio. Em 1937. o Museu Paulista.

10/11. nas décadas de 1920 e 1930. em especial. Procurou-se evitar. as áreas de atuação do Museu Paulista foram redefinidas. sendo reforçado com a transformação do Museu em Instituto complementar à Universidade de São Paulo. representada pelos retratos de Martim Afonso de Souza. do qual a grandiosidade do Museu era uma das expressões. Anais do Museu Paulista. entre 1886 e 1888. História e Cultura Material. que o Museu ficasse circunscrito a núcleo de pesquisas. 1996. 1999. OLIVEIRA. 2001. consultar. Em linhas gerais. então. veio a se tornar a representação emblemática do episódio do “grito do Ipiranga”3. de Tibiriçá. BREFE. 2002/2003. A decoração ocupou os espaços previamente definidos do palácio-monumento para a montagem de um panteão nacional. bem como sua projeção científica como ponto de referência no campo da Cultura Material. 1997. os seguintes estudos: ELIAS. Sobre o painel concebido por Pedro Américo e suas implicações historiográficas e artísticas. 1999. Nova Série. 1937. simbolizada na figura de bandeirantes e nas ânforas de cristal contendo águas de rios brasileiros. envereda-se pelo período em que teria ocorrido a configuração do território. consultar: OLIVEIRA. ao momento da independência e soberania. 2005. buscando-se uma maior integração institucional à Universidade. sem compromissos com o enorme público não especializado que o Descrição detalhada da ornamentação interna do edifício pode ser encontrada em: TAUNAY. como os fundadores da nação. projetou um panorama do percurso da história do Brasil do século XVI até o século XX. Essa construção historiográfica e visual pode ser considerada como complemento e confirmação do painel “Independência ou Morte”. mas os últimos nichos na parede do edifício foram preenchidos apenas no início dos anos de 1960. A isso se somaram as demais salas de exposição compostas à época. v. de D. confeccionado por Pedro Américo. Esse direcionamento para o campo da História se verificou no período da gestão de Afonso d´ Escragnolle Taunay. Especialmente a partir da década de 1990. ao longo do século XX. 3 2 28 . Maria Quitéria e Sóror Angélica2.Cultura Material e Patrimônio de C&T decoração estava pronta. destinadas a expor aspectos da sociedade brasileira e paulista. Da colonização. Ali. entre 1917 e 1945. entre outros. ALVES. entretanto. WITTER. Idealizado especialmente para decorar o salão de honra do edifício-monumento ainda durante sua construção. Pedro I e por retratos e registros nominais em bronze daquelas personagens consideradas. João III e de João Ramalho alocados no saguão. evocado por meio da escultura monumental de D. 4 Sobre a trajetória do Museu Paulista. ornamentos da escadaria em mármore que leva ao piso superior da edificação. já em 19344. Leopoldina. adentra-se. aos quais foram integradas as figuras de Da.

em virtude das injunções do edifício e de parcela de suas coleções com o delineamento da memória nacional. configuraram-se articulações específicas entre passado. onde as descobertas científicas. Hartog apontou os vínculos entre o conceito. HISTÓRIA Numa primeira aproximação. O “presentismo” seria um regime de historicidade5 assinalado por uma “progressiva invasão do horizonte por um presente mais e mais ampliado [e] hipertrofiado”. seguir as críticas feitas por François Hartog a Pierre Nora. Ao utilizá-la procuro. deriva do mesmo: produzindo. segundo o autor. a obra Les Lieux de Mémoires e aquilo que denominou “presentismo”. em meio ao debate que cercou o bicentenário da Revolução Francesa e encontrase ligada à reflexão sobre delineamento da nação na França e aos modos pelos quais poder-se-ia escrever uma história nacional no momento daquelas comemorações.Cultura Material e Patrimônio de C&T visita. e seu entrelaçamento com a escrita da História. IMAGINAÇÃO. expressão que se tornou tão banalizada entre nós. que se restringisse ao papel de agente conservador de patrimônio histórico (MENESES. Combatendo qualquer simplificação de ordem linear ou evolutiva. KOSELLECK. produção e socialização de conhecimentos que provocou a problematização das tradições historiográficas e das representações do passado inscritas naquele espaço. Cabe lembrar que as reflexões de Hartog estão inscritas em amplo debate do qual fazem parte. na década de 1980. de instrumento heurístico e de categoria histórica de pensamento que permite interrogar. 1965. o que Hartog investiga são os fundamentos da atual relação com o tempo. uma relação específica com o tempo e o passado. 1994). 5 29 . 2006. (HARTOG. 1984). as inovações técnicas e a busca de ganhos tornam as coisas e os homens cada vez mais obsoletos. entretanto. os modos pelos quais. 1996. foi noção criada por Pierre Nora. Éditions du Seuil. finalmente. Regimes d´historicité. compreendido e exercido no âmbito da escrita da História. as contribuições essenciais de: FEBVRE.132) A expressão “regime de historicidade” remete às reflexões desenvolvidas por François Hartog acerca do tempo e das diferentes maneiras pelas quais foi apropriado. presente e futuro. Trata-se. ou que se tornasse um centro cultural e pedagógico. Presentisme et expériences du temps. “Lugar de memória”. cujo extraordinário desenvolvimento acompanhou esse movimento que é sua razão de ser. 2003. 2006. A mídia. o que denominou “presentismo”. Paris. p. consumindo e reciclando cada vez mais rapidamente mais palavras e imagens. Foi precisamente esse desejado entrelaçamento entre preservação de bens culturais. François. simultaneamente. Para o historiador: a força motriz foi o crescimento rápido e as exigências sempre maiores de uma sociedade de consumo. entre outras. seria possível considerar o Museu Paulista como “lugar de memória” (NORA. sem ligação com pesquisas inovadoras. Ver: HARTOG. ao longo do tempo. MEMÓRIA. CERTEAU. o que teria se tornado visível a partir dos anos de 1970/80. ou.

6 30 . podendo ser interpretado como encruzilhada onde se encontram ou deságuam diferentes caminhos de memória. para quem na atualidade e contrariamente às aparências “os trabalhos de confirmação entre museus de História e historiografia ou ensino da História são bastante fracos”. também. através de várias a expressão refere-se a lugares de iniciativas de pesquisa. a clivagem entre a história ensinada nas escolas e as expectativas de crianças e jovens motivados pelas experiências de aceleração do tempo que a cultura virtual pode proporcionar. tem seu próprio peso nas vicissitudes dos interesses sábios. quando o sentimento nacional o exige. e segundo os questionamentos acadêmicos em torno da maneira pela qual as histórias nacionais foram escritas. que compõe o Centro de Estudos do Oitocentos e o Projeto Temático “Nação e Cidadania no Brasil”.1750/1850”. o museu situa-se à Refiro-me. Afora o fato de que atualmente. ao grupo de pesquisadores de universidades fluminenses. liderado por José Murilo de Carvalho e Gladys Ribeiro. Nesse sentido....No entanto. Penso. a noção “lugar de memória” não poderia ser lida apenas de forma literal. coordenado por István Jancsó e sediado na Universidade de São Paulo. . é construído e reconstruído sem cessar. em particular. provocada. núcleos de historiadores procuram caminhos historiográficos para escrever uma nova história da nação no Brasil6.. Designa manifestações da tradição nacional. Quanto a esse ponto é importante lembrar algumas das observações de Dominique Poulot. que em razão disso mesmo é que se torna pertinente sua relação com o Museu Paulista. feixes de representações e redutos da história-memória autenticada pela política e por produções historiográficas do século XIX.. Como observa Hartog. reconstruída). atualmente. orientando ao mesmo tempo a seleção e preservação de fontes.Passa por momentos de maior intensidade ou de fervor. apontando para duas situações: primeiro. conforme Hartog. entretanto. funcional e simbólica nos quais o passado se encontra recuperado no presente. porém.Cultura Material e Patrimônio de C&T Essas circunstâncias se expressariam.. sanciona a emergência de novas curiosidades. O lugar não é simplesmente dado. os elos com esses lugares tornaram-se tênues. do patrimônio e das comemorações. Tanto Nora quanto Hartog ponderam. enquanto vulgariza mais ou menos bem os conhecimentos eruditos junto aos visitantes. por intermédio da valorização da memória (voluntária. mostrando-se mais como instrumento de investigação e interpretação que remete a preocupações específicas de como escrever uma história da nação francesa na atualidade.O museu de história trabalha com o repertório das fontes do historiador.. natureza material. bem como aos pesquisadores que formam o Projeto Temático “A fundação do Estado e da nação brasileiros. que um lugar de memória pode perder sua destinação e reconheceram que.

. 7 Ver: CATROGA. 1999.cit. No caso dos museus de história nacional.. Essa complexidade manifestava-se. evocam acontecimentos e personagens. como locais para articulações entre memória e imaginação. Mas. mediatiza e confere tangibilidade ao universo contraditório e multifacetado das representações por meio das quais os sujeitos históricos constroem sua vida. esculturas. esse aspecto adquire relevância. p.cit. também. ao lado da compilação e da preservação de indícios do passado. não esgotam a fisionomia matizada de instituições como essas. representando o passado e ensejando sua “visualização”. Mas se o “objeto ausente” pode ser ficcional para a imaginação.a discrepância entre a escrita da história e uma representação do passado capaz de evocar. como a escola.. bem como as implicações decorrentes do descolamento entre as representações do passado projetadas em espaços museológicos e o debate em torno da escrita da História desenvolvido contemporaneamente. estabelecem relações com o tempo. pois pinturas. ao mesmo tempo. tampouco observa o museu pela mediação do lugar social. Assim. 2006). segundo Michel de Certeau. não se trata tão somente de indicar que o Museu abriga um imaginário no sentido mais literal do termo. para a memória ele já não existe embora tenha existido anteriormente. cit. 31 .. Ambas evocam um “objeto ausente” (ou uma presença ausente). e especialmente no percurso do Museu Paulista. por outro lado. tornam-se espaços de e para a imaginação do diversificado público que o freqüenta e que necessariamente não compartilha as mesmas preocupações dos historiadores. imagens e objetos reescrevem a história.43-44). projetam interpretações sobre seu próprio percurso e sobre a trajetória da nação à qual pertencem.O espetáculo do museu ilustra . Ob.. no fato dos museus serem locais particularmente voltados para a conservação e estudo de coleções que referenciam diferentes dimensões da História.. como conjunto de imagens visíveis e simbólicas. da prática investigativa e da escrita que caracterizam. o museu também não constituiu uma matriz cultural. o reconhecimento do passado como tendo sido.. (POULOT. Trata-se de refletir sobre a complexidade de um ambiente que. Em concomitância às mediações entre história e memória.Cultura Material e Patrimônio de C&T margem da escrita da história. de outro modo que o da memória. como observou Stefan Bann (Ob.. Isolado da invenção intelectual dos escritos e dos reescritos. embora já não mais seja. a operação historiográfica (Ob. 1994). Ou seja.. os problemas apontados relacionados aos nexos entre história e memória. reflexões de Paul Ricouer e Fernando Catroga7 sugerem que museus podem ser vistos. Mediatizam a seleção de vestígios.

os procedimentos que fundamentaram a prática de historiar e o surgimento da instituição museu. mas refazer. seja por meio da concepção de lugar de memória. assim como outras inferências sobre o passado ali representado. procuram ou idealizam nesses espaços visões do e sobre o passado. em um mesmo momento histórico.. documentais. ao lado da sensação de um tempo acelerado e da vertigem gerada pela rapidez com a qual patrimonização. Talvez uma das razões do fascínio e do interesse que o Museu Paulista desperta esteja no fato de reunir objetos e emblemas que permitem imaginar tanto a vida e os costumes de tempos pretéritos como o cotidiano de personagens da história. a um ponto nodal da discussão sobre o papel dos museus de História. no século XIX. construídos por intermédio de registros e preocupações de variada natureza. ao contrário desses meios. Beatriz Sarlo apontou a coexistência. rememoração e obsolescência se alternam no mundo contemporâneo. Assim. p. indicado tanto por Chantal Georgel (2005) quanto por Manoel Luiz Salgado Guimarães (2006) . Mas. 2007). Nesse sentido. instituições que. congregam funções científicas. Entretanto. repensar. o Museu oferece algo que não pode ser desconsiderado: a experiência da releitura. 2007). seja por meio da imaginação. Esse entrelaçamento entre dimensões díspares e mesmo incongruentes do saber histórico é problema que diz respeito tanto à disciplina da História. é possível chegar-se. é trabalho. interagindo cotidianamente com públicos de matizada feição. que ainda habitam manuais escolares e sites sobre história do Brasil disponíveis na internet. quanto aos museus em particular. educativas e culturais (MENESES. de diferentes “passados”.”. de modo geral.Cultura Material e Patrimônio de C&T símbolos e sinais e sua eleição em documentos confiáveis para o estudo e a divulgação da História.a imbricação entre o delineamento do campo de conhecimento da História.. o que abre a possibilidade da recriação e atualização tanto da memória da Independência quanto de outros temas afeitos à instituição.. Como observou Ecléa Bosi: “lembrar não é reviver. as experiências do passado. com imagens e idéias de hoje. considerada 32 . que esperam. espaço de história. (1994.21). o que pode promover percepções diversas sobre a própria instituição e sobre o que ela reserva..a memória não é sonho. operando acervos materiais. reconstruir. cada visita ao Museu sugere uma experiência peculiar ensejada pelas circunstâncias do momento. a meu ver.. a História de corte acadêmico convive com sínteses históricas que visam a atender o mercado de consumo cultural e com reconstituições do passado pautadas nos trabalhos da memória (SARLO.

Eu buscava o que? Não sei. a duas citações . respectivamente. as palavras de Michelet registram como a História se configurou para ele a partir das experiências provocadas por esse museu. observou: 8 Ver. que me fazia bater o coração. quando ia e procurava ardente. Em trabalhos recentes8 também Manoel Luiz Salgado Guimarães se preocupou com os vínculos entre museus de História e formas de visualização do passado.. Sublinham.extraídas de um romance de Madame de Stäel e de uma carta de Freud – que. eu entrava sob esses arcos sombrios e contemplava esses rostos pálidos.120) Para Georgel. sempre a mesma e sempre viva. C. curioso. p. Na obra Corinne ou l´Italie escrita por Madame de Staël. ao início do século XIX e ao início do século XX. tomando como ponto de partida as relações entre o visível e o invisível. a despeito de se referirem. Para problematizar o tema recorreu. conforme observou. REPRESENTAR O PASSADO Ao abordar de que modo. GEORGEL. a protagonista em dado momento da visita à cidade de Roma. criativo de sala em sala e de época em época. durante o século XIX. relacionadas à visita que realizou. 2002. editada entre 1847 e 1853. pequeno. especialmente. 33 . a vida de então sem dúvida e o gênio do tempo. que estão “na raiz mesma do trabalho do historiador”. entre outras referências. por meio do apelo visual de imagens. (Cf. criado por Lenoir nos fins do século XVIII. VER A HISTÓRIA. quando. pois permitem desdobrar o registro de Michelet.Cultura Material e Patrimônio de C&T aqui em seu sentido etimológico. a História seria não só ensinada como teria a capacidade de ressuscitar. e publicada pela primeira vez em 1807.. a “visão-pensamento” de que tratou Alfredo Bosi ao estudar a fenomenologia do olha (1988). GUIMARÃES. quando criança ao Museu de Monumentos Franceses.. Chantal Georgel recorreu a anotações de Michelet em sua História da Revolução Francesa. ruínas e objetos. a instituição museu encontrava-se imbricada à produção da escrita da História.cit. igualmente. Diz o autor: Eu me lembro ainda da emoção. considero pertinente retomar. a maneira pela qual se considerava que em um museu. Ob.. bem como à concepção de que esta se tornaria acessível por meio da arte e de imagens.

30.. que confere ao estudo do passado o interesse e a vida que se 9 encontram na observação dos homens e dos fatos contemporâneos.. a importância atribuída ao olhar como mediação para o conhecimento. v. retomando Hartog. No romance. ao contrário se completam. os acontecimentos ocorrem pelo tempo e faz-se premente e necessário visitar o passado para antever o futuro (HARTOG. Não foi. 2003). da maneira como aprendêramos na escola”. p. (PRADEL. para Freud é a percepção sensorial das ruínas de Atenas que veio comprovar o que os livros continham. O contato direto com a Acrópole e as ruínas gregas era um sonho de há muito alimentado por ele e uma das sensações provocadas por esse cenário foi a de que “existia mesmo tudo aquilo. como narrativa do unívoco.É em vão que se confia na leitura da história para compreender o espírito dos povos. 15. em 1936. 10 9 34 . e os objetos exteriores provocam uma emoção forte.Cultura Material e Patrimônio de C&T . portanto.2. nesse sentido. n. a lembrança de uma situação vivenciada. aquilo que se vê excita em nós muito mais idéias que aquilo que se lê. aleatória a escolha de versos escritos por Paul Valéry para epígrafe do capítulo dedicado aos museus. sobretudo. Mas.. 1961. Cabe lembrar.. quando realizou viagem de férias a Atenas10. a essa experiência de conhecimento detalhada por Madame de Staël. Ambas as experiências não se contradizem. legitimando o saber conservado em suas páginas. que no regime de historicidade moderno há uma nítida quebra entre passado e presente e a História passa a ser compreendida enquanto processo único. em 1904. mais do que a leitura de textos eruditos. presente e futuro. do modo como os livros ensinavam e ajudavam a imaginar. é a visão das ruínas da antiga Roma. p. que sustenta o entendimento dos nexos entre passado. poderse-ia acrescentar uma outra também proporcionada pela observação de sítios erguidos e habitados na Antigüidade.1024) Ver nota 45 do artigo de Salgado Guimarães publicado nos Anais do Museu Paulista. bem como o saber sobre a História. Foi Manoel Luiz Salgado Guimarães que analisou e traduziu a experiência de Freud no já citado artigo publicado nos Anais do Museu Histórico Nacional. a fruição imediata e visível do passado inaugura o caminho para a imaginação e para o conhecimento. Enquanto. incluído na obra L´Histoire et ses méthodes organizada por Samaran: Coisas raras ou coisas belas Aqui sabiamente arrumadas Instruindo o olho a olhar Como jamais ainda vistas 11 Todas as coisas que estão no mundo. apontando por vias singulares as relações entre visão e escrita e.. Encontra-se em um texto de Freud que descreveu. Além disso. 11 Grifos e tradução feitos pela autora (CHSO). revelando-se muito mais preciosa que qualquer livro. para a personagem Corinne.

mas que não podem ser estabelecidos. Mas a isso se deve acrescentar a certeza de que aquele passado. Isso. Ver a obra de Lucien Febvre já citada e BENJAMIN. mensageira do passado” (HARTOG. não se restringindo ao campo dos especialistas. Entretanto. Pedro I.Cultura Material e Patrimônio de C&T Estas citações remetem à noção da História como “visão-pensamento do que aconteceu”. Importa considerar que é a imediatez da experiência do presente e as motivações mais voláteis da visita ao Museu que conferem sentido à “visão do passado” ali procurada e concebida. a exemplo do Museu Paulista. como no caso dos bandeirantes e de D. contradições e distanciamentos apontados por Poulot entre a escrita da História atual e os museus de História apresentam várias dimensões. não compromete sua influência tampouco altera os fatos que podem ser ordenados e apresentados de modos diferentes. ainda persistem de modo geral no tocante ao papel desempenhado por um museu de História. Abrangem. os modos pelos quais os diferentes segmentos de público do Museu interpretam o passado e o presente da instituição. segundo a qual a história é “testemunha dos séculos. p. Desde pelo menos o início do século XX esta noção vem sendo interrogada por diferentes vertentes teóricas. uma vez que são compreendidos como dados pré-existentes às interpretações que tornaram possível sua imortalidade. a exemplo de Lucien Febvre e Walter Benjamin12. 2001. ainda que possam ser ampliados ou modificados os conhecimentos sobre ele. luz de verdade. mas uma instituição centenária.145). também. A isso se alia o apelo ainda exercido pelos “grandes homens” ali representados em sua glória ou em painéis e esculturas que registram-nos em ação. vida da memória. encontra franca acolhida em parcela importante dos freqüentadores desses museus. Mas. efetivamente existiu e é imutável. bem como inferências feitas por Poulot sobre a defasagem entre museus de História e o atual debate sobre escrita da História. lembrando-se que o orador nesse caso não é um autor propriamente. a admiração ou curiosidade que suscitam encontra-se mediatizada pela certeza de que seus traços e gestos foram refinados e ampliados. A famosa definição de Cícero. reconhecida e autorizada. mestra da vida. acompanhando no século XIX o delineamento do campo de saber da História. tornando complexas as mediações entre demandas diferentes de História. tornado visível e autenticado particularmente pela ornamentação interna. pois afinal não poderiam aparecer de outra forma em um museu. 12 35 . inspirada nos antigos e atualizada. In: KOTHE. 1985. O que implica recordar observações de Sarlo sobre a produção concomitante de diferentes visões de passado nas sociedades contemporâneas. Teses sobre filosofia da História. no entanto. Walter. Assim.

Isso representa questionar o estatuto dos documentos. é colocar em discussão a maneira pelo qual o conhecimento histórico foi e é produzido. um dos traços que nos distinguem do regime de historicidade moderno. MURARI. 1997. sua narração e suas interpretações posteriores13. e principalmente o lugar ocupado pelo historiador na “teia” que envolve o movimento da história e a construção da memória. promovendo uma singular concomitância entre novidade e permanência. Se esses podem ser considerados procedimentos próprios ao ofício do historiador hoje. poder-se-ia indagar se o interesse e a curiosidade despertados ainda pelo Museu Paulista não estariam ancorados na possibilidade da instituição oferecer releituras de experiências visuais e sensoriais do passado.Cultura Material e Patrimônio de C&T No entanto. A instituição seria um contraponto à vivência do tempo premente. ganhando contornos específicos nos dias atuais. o lugar de partilha entre passado e futuro. suas coleções e suas exposições por meio das lentes diferenciadas da historiografia atual e vertigem gerada pela aceleração do tempo e rápida obsolescência das coisas? Como observou Dominique Poulot. marcado pela rapidez. A despeito do entrelaçamento da tradição dos séculos XVIII e XIX com nosso modo de pensar. os museus de História poderiam harmonizar distintas narrativas? Como encaminhar as demandas de diferentes públicos e ao mesmo tempo as demandas de historiadores e especialistas que pensam os museus. ao que denominar patrimônio. mas explicitassem os procedimentos de coleta e conservação bem como as práticas pelas quais a História pode ser trabalhada em um museu 13 A esse respeito consultar: VESENTINI. 1999. podendo tornar-se espaço para um diálogo entre tipos de saber histórico fundados no conhecimento sobre os objetos. pela sucessão veloz de eventos e situações e pela representação da ausência de durabilidade de referências. particularmente nas práticas relativas às decisões quanto ao que guardar. bem como as mediações entre acontecimentos. Essa percepção também atinge os historiadores e os que militam nos museus. 36 . as concepções e práticas de saber que fundamentaram a seleção e sobrevivência das fontes. o momento de se pensar na construção de narrativas que não só exteriorizassem seus fundamentos e as tradições com as quais se articulam. então. Seria. como essas práticas podem ser exercidas e explicitadas em um museu de História? Mesmo reconhecendo-se que nas sociedades contemporâneas há exigências por saberes e visões do passado que não se circunscrevem ao campo acadêmico. ao que ver e ao que excluir. o museu de História hoje deixou de ser o legislador do tempo.

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