Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

. baseada num conceito vago. No entanto. Causalidade Significa que. 4 . o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. 4. defesa do consumidor). Mas há zonas periféricas. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. ex. É muito elegante linguística e estilisticamente. Resulta do movimento da pandectística. O legislador optou por emitir leis avulsas. prescrição. A responsabilidade civil é ampla. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. as obrigações.Existem. O Direito das Obrigações é super estável. É muito difícil mexer nele. p. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. 809º. O Direito das Obrigações alemão é líder. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. nesse caso. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. transposição de directivas comunitárias. Foi muito pouco mexido. A causalidade contrapõe-se à abstracção. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. O Direito civil é muito estável. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. A codificação da boa-fé. que nascem de uma determinada fonte. 942º. a obrigação não subsiste. Se a fonte for inválida. que merecem reforma em Portugal. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. 457º. doutrina. renunciem aos seus direitos. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. 812º. antes de terem as coisas. no Código Civil. 863º. O BGB. A responsabilidade civil é fechada. A validade de um cheque. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. O BGB é de 1900. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. todavia. Protegem-se as pessoas contra si próprias. analítica. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. É um código típico do início do séc. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. (448º. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. regras. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. Não se quer que as pessoas. XIX. 947º. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. 2. é abstracto. por regra. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. daí tal importância. 994º). para não darem o que não têm.

Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. sendo revigorados os já conhecidos. sendo uma enorme influência. O Código não é de inspiração alemã. Anglo-saxónico É um mundo à parte. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. sequer. canónica. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. na China não aconteceu isso. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. surgem institutos até então desconhecidos. O Direito português é aberto ao exterior. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. não havendo negócio jurídico separado dos contratos.3. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. Não há correspondência. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. Além da redistribuição germânica das matérias. mantiveram-se em vigor as Ordenações. no entanto. Mas. Chinês É muito antigo. 5. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. islâmica. Naturalmente. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. 4. XIX. muito avançado. Há pouca influência romana. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. No Brasil. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. Antes da aprovação do Código de Seabra. Este sistema não é codificado. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. Há união entre religião e Estado. Mas tem uma organização e conceptualização originais. tal como a cultura chinesa. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. O Código de Seabra é. a partir de 1911. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. entre os conceitos desta família e os das anteriores. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. Mas foi uma novidade científica que vingou. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. 5 . tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. há um período de pré-codificação. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes.

Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. com Teixeira de Freitas. quando ocorreu a ocupação. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. Há algum atraso na sua aprovação. numa segunda fase. foi aprovado um Código Comercial novo. Em Timor. O Prof. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. marcaram as primeiras reconstruções do CC. como membro da OEA. houve maior inteligência política. sendo substituída pelo inglês. voltou a vigorar o Direito português. tendo-os traduzido para chinês. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. Com a independência. As revisões ministeriais do Prof. depois da aprovação. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. Em África Em Angola. ainda em meados do séc. Em Cabo Verde. um período de exegese. O Código brasileiro aparece só em 1916. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). Em Macau. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. verificou-se a invasão indonésia em 1975. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. Ele é de 1966. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. O português era a segunda língua. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. O CC de 1916 tem já influência germânica. vigora também o código de 1966. Na Guiné. O Código de 1966 vigora actualmente. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. numa primeira fase. Tem influência germânica e do Código de 1966. com algumas alterações após a independência. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. mas já havia recepção do pandectismo.No Brasil Na doutrina brasileira. XIX. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. mas começa a ser preparado no pósguerra. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. Houve. Em Moçambique. logo em meados de oitocentos. Foi necessário recomeçar. Todavia. Antes da entrega de Macau. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. mas havia a barreira linguística. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. 6 .

) de sistemas próximos do germânico. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. um pequeno país na Europa. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. Ciência do Direito. É um Direito que tem uma evolução histórica. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. Quanto a autonomia doutrinária. foi do Direito alemão. As regras sobre a moeda única. que é do final de Oitocentos). A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). predomina o inglês. também com as operacionais: inglês. De um modo geral. Mais tarde. evolução histórica. Mas havia uma grande projecção ultramarina. Todavia. ao contrário do que acontece no Direito português. Cumpre saber que língua é utilizada. mesmo quando escritos em inglês. não são de common law. O Prof. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. Assiste-se à implantação (Portugal. a directriz não vigora. Somos. Em termos planetários. No Direito francês há distinção. francês e alemão. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. hoje. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. de Common Law. provêm de regulamento. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. etc. até. quantidade de falantes da língua. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). Há as directrizes e os regulamentos.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. uma enorme barreira linguística. Japão. Há. Há 23 línguas oficiais na Europa. entre interpretação e integração. Brasil. é diferente. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. O Direito lusófono não tem só essa influência. 7 . a grande influência. na área dos negócios e nas relações entre povos. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. Coreia do Sul. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. que suportou a nossa independência. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. Nas obrigações.. O caso português é singular. ex. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. Se não o fizerem. Turquia. língua. Mas na área do Direito não é assim. p. ganha pelo mérito. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. estão em causa relação inter-pessoais.

O direito subjectivo. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. No plano oficial. era o poder da vontade. Não teve consequências. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. e não a totalidade. O Prof. forçar a vontade humana. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). Esta noção presta-se a críticas. intra muros. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. MENEZES CORDEIRO. mas com exagero. quando existia obrigação. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. havia um Direito europeu das obrigações. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. há muitos constrangimentos. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. havia um domínio de alguém sobre outrem. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. como a falta de competência dos órgãos europeus. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. Fala de um bem a prestar. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado.No tempo do ius commune. O melhor Direito é o interno. ele começa a desaparecer. Se A tem direito. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. dada a insuficiência da língua inglesa. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. não há um Governo europeu. 8 . dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. a vantagem é o bem que será prestado. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. Nós. para SAVIGNY. Para o Prof. No espaço europeu. nem uma política externa comum. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. Antigamente. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. juristas portugueses. há 500 milhões de pessoas.

mas o seu património. A obrigação não é apenas um bem a prestar. extingue-se a haftung. Pode ser um facere ou um non facere. surge a nova noção de obrigação. o dever é sempre um constrangimento ético. 9 . O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. sim. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). todavia. Na prescrição. Assim. Em regra. independentemente de terem culpa). chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Há. independentemente de ser cumprida ou não. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. No séc. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. pode-se atingir o seu património. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. XIX. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. mas as suas obrigações permaneciam.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. assentes apenas em deveres acessórios. Primeiro. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Depois. Os romanistas diziam que não havia. obrigações. Pode haver obrigações sem prestação. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. no início. Ela. Se o devedor não cumprir. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. já é um valer em si. pelo que é excepção o recurso ao património. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. As pessoas morriam. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. A ideia remonta ao antigo Direito romano. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. um direito ao património do devedor. surgiu a respondência. as obrigações são cumpridas. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas.

a responsabilidade é patológica. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. não tendo interesse para o Direito nesse caso. por si só. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. O credor fica adstrito a deveres de segurança. linguística. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. só. A prestação pode não existir. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. deveres secundários e deveres acessórios. sabe-se hoje. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. A obrigação pressupõe um dever específico. Estas construções são úteis.. pelo que obrigação não é uma prestação. pode ainda não existir. A obrigação do fiador é secundária. pode haver nulidade. não interessam. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. 10 . qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. Se é assim. compreende um dever de prestar principal. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. Se o devedor principal não cumprir. Se são. colaboração. outra concepção diz que há um direito real de garantia. O BGB já não exige natureza patrimonial. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. Mas. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. com dois regimes). GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. noutros ainda. A obrigação. noutros. em termos pragmáticos. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. O regime é solicitado para um tratamento unitário. é o fiador que deve cumprir. Se não são. etc.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. tratado mais à frente. não podendo servir para construir. um conceito de obrigação. com o credor e vice-versa. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. Em certos casos. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência.

não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. É assim ao nível global. 2ª parte remete para o interesse. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. não necessariamente em todas as situações. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. o 398/2. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). há ressarcibilidade dos danos morais. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. à partida. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). pode haver responsabilidade pela deferência. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. de sistema. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. 11 . chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. tem conteúdo económico. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. há sanções pecuniárias compulsórias. mas pode receber dinheiro. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. mas havendo danos. Pode haver execução específica. acção directa. ela é avaliável em dinheiro. compensação – e não de equivalência. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. Direito. boa educação) que não relevam para o direito. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. O 397º define obrigação. Como são ressarcíveis. Hoje isso não é assim. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica).Se um artista se obriga a entoar uma ária. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. As relações de obsequiosidade não são.

A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal.Há também deveres de protecção. contrapondo-se aos direitos reais. há figuras como a execução específica. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). mas não se pode retirar daí uma regra. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. Nas obrigações. nos direitos pessoais de gozo. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). absoluta. Em obrigações. Noutra acepção. encontramos sempre uma dança a dois. erga omnes. há créditos absolutos. o que tem de surgir é o serviço. são para cumprir – se não forem. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. A obrigação é uma relação jurídica. por exemplo). Quanto aos acordos de cavalheiros. Assim. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. a relatividade existe quando há relação jurídica. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. o credor aproveita imediatamente a coisa. duas partes. relações de vizinhança. Os acordos de cavalheiros são relevantes. Os créditos não são sempre relativos. que são absolutos? Em termos estruturais. Deve-se sempre perguntar qual a origem. Podem fazê-lo? Em princípio. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. não. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. Se a prestação for um serviço. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). A convida B para dançar. Os direitos potestativos são absolutos. Em direitos reais há só uma. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Uma última. Esta noção vale o que vale. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. o direito real é uma situação absoluta. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. no caso dos direitos reais). diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. mas não se pode esfarrapar o par de dança. 12 . no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. seria sempre necessária a mediação. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora.

Mas há também deveres no tráfego que. A eficácia interna é entre credor e devedor. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). a obrigação produziu efeitos perante terceiros. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. p. Deveres acessórios. com MANUEL DE ANDRADE. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. A regra é de que a eficácia é meramente interna. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. No início. As obrigações são vínculos. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. a externa é perante terceiros. médio ou fraco.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. Havia uma quebra maliciosa do contrato. que se manifestam predominantemente perante o devedor. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. No sentido forte. Se é assim. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. 13 .. o que lhes daria uma tutela relativa. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. com os pactos de preferência. ex. se incumpridos. Se é assim. Mas inverteu-se a tendência. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Na Alemanha diz-se que não. A doutrina tem evoluído nesse domínio. a figura do terceiro cúmplice). dão lugar a responsabilidade civil. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. relações jurídicas. Mas há outras regras. pode existir oponibilidade em sentido forte. então há oponibilidade média. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Há contratos com protecção de terceiros. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. Há uma acção. PESSOA JORGE).

Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. O terceiro não pode. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. os factos são descritos concretamente. não havendo lacuna. Argumentos a favor. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Dá. em princípio inatingíveis. não estão assim tão mal. Se A contrata com B. Só pode estatuir com recurso a tipos. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. Isso justifica-se em ramos agressivos. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. há responsabilidade.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. Num ramo típico. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. há um numerus clausus – o número de factos é finito. Quando existe um devedor. Mas esses não se aplicam a terceiros. Isso em princípio. ao atribui direitos subjectivos. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. pois. Há tipicidade exemplificativa. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. como o penal ou o fiscal. as economias britânica e francesa. Contratar-se-ia menos. Quando a lei recorre a descrição da realidade. países que admitem a figura. Noutros casos é mesmo normativa. 14 . mas há várias vias para o conseguir. proíbe autotutela. aplicam-se os artigos 798º e ss. Se existe uma descrição típica das condutas. descrevendo as condutas.  Diz que está proibida a analogia. O legislador pode dar uma série de exemplos. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. é muito mais restrita. O Direito objectivo. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. protecção jurídica. um terceiro faz-se passar por credor. Está tudo ligado. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. Se ele for atingido.  Diz que existe numerus clausus. Quando existe uma previsão normativa. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. recorre a tipos – tipicidade. diz-se. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Todavia.

por via de condicionalismos históricos. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. Isto é o núcleo duro – há desvios. Obrigações. Há tipicidades de tipo científico. direito a uma coisa corpórea. Autonomizou-se do Direito das obrigações. de facto. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. em princípio. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. um direito e um dever. aqui. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. Nas obrigações isso não existe. o regime tem um desvio. Há. tipicidade exemplificativa. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. 15 . um princípio de tipicidade. Os direitos reais têm. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. O Direito comercial é outro ramo especial. não há numerus clausus e pode haver lacunas. Mas tem regras especiais. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. ex. invariavelmente. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. venire contra factum proprio. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Mas existem muitas obrigações nessa área. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. O conteúdo das obrigações é sempre. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. obrigações naturais. É muito especial. Há situações de direitos reais que. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família.).Nos contratos há descrição abstracta. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Aí. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. por conjunções históricas. O mediato é também designado por objecto. ao contrário. Há. etc. tudo é parecido com o Direito das obrigações. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. p. O conteúdo distingue-se do objecto. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. também.

O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. noutras pretendem o resultado. por um esforço de análise. De pati. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. as partes pretendem uma determinada conduta. É o homem médio. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. é um homem médio colocado no caso concreto. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. A de dare consiste na entrega de uma coisa. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias.). Por vezes. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. É o critério do bonus paterfamiliae. Se se comportar abaixo da bitola. Todavia.) e a aquiliana (483º e ss. De dare. São instrumentais em relação a ela. São prestações que complementam a prestação principal. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Não se trata de um non facere. Não se obrigam a resultados. O devedor está obrigado à diligência média. Ex. Só é exigível que se esforce até esse ponto. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. Podemos. aquilo que for normal num homem médio. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. tendo em conta as circunstâncias do caso. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Seguem o regime da prestação principal. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. Temos de saber o que é exigível. tem culpa. 16 . As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. Foi o critério escolhido pelo legislador.: o médico não tem obrigação de curar. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. A prestação principal é o núcleo da obrigação. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799).

O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. determinável. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. etc. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. A base legal é o 762/2. observando os deveres acessórios. mas há deveres acessórios pré-contratuais. tal como se não cumprir o dever acessório. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). contratuais e pós-contratuais. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. Os deveres acessórios são imprevisíveis. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Podem ser deveres de lealdade. Está em causa o princípio da tutela da confiança. possível. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. são soluções para problemas novos. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. só depois a indemnização. Não basta cumprir a obrigação. A indemnização é uma consequência de segunda linha. 17 . só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas.. segurança. a obrigação é uma realidade muito complexa. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. nos deveres acessórios são ambos. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Como decorrem da boa fé. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. depois a reconstituição natural. O legislador quer primeiro cumprimento. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. integração de lacunas. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. A culpa in contrahendo. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva).  Círculo externo. é preciso cumprir de boa fé. rerum sic stantibus. Substancializam a obrigação. informação. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita.

porteiro.). etc. mas são regularmente utilizadas no sector. 3. 4. se consigo exprimir com uma única expressão é simples.  Obrigação de abstenção (simples. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. Em princípio.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. Absolutas. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. nas mistas há vários deveres. trata-se de obrigação complexa. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). 18 . Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. A regra é da fungibilidade. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). outros não.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis.). ex. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. como concessão. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. 5. atípica resulta da autonomia privada. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. p. transferência de propriedade.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). ambos). 2. uns relacionados. Não é o mesmo que coisa fungível. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. na relativa há.

não obstante. Obrigações duradouras Partimos da prestação. forma de cessação de um contrato duradouro. É necessário. Hoje. O Direito civil é um direito prático. Tipos de obrigações 1. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. E relações perpétuas. era instantânea. e outras que se cumprem no tempo. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. A denúncia seria um dos esquemas. A denúncia. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. mas pessoais.6. O Prof. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. um pré-aviso. Implica especialidade quanto à sua cessação. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. As questões sociais vieram pugnar por protecção. Havendo agência. com dilação temporal juridicamente relevante. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). É um contrato em especial. sob pena de nulidade (280º). 2. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. A retribuição é a renda ou aluguer. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. surge na periferia. como reacção ao regime feudal. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. ao contrário das obrigações comuns. 19 . entre o agente e o principal há relação duradoura. determinável. O conteúdo tem de ser sempre. para tutela da confiança. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. em que havia obrigações perpétuas. se tiver poder de representação celebra também os negócios). também. Há lacuna. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. O DL 178/86 trata da cessação da agência. claro está. o principal. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. Não se extinguem com o cumprimento. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. Se fosse logo satisfeito. pelo menos. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras.

XX. porque ele é sempre real). Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. com a industrialização e grande pressão urbanística. etc. Chegou-se a um regime vinculístico. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. trânsito caótico. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Mas também não explica o que é o gozo. Em 1990 tentou-se de novo. Surgem teorias mistas (entre nós. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. as rendas vão degradando. Em 2006 houve um projecto.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. contraindo empréstimos. Se houver inflação. é figura real o direito de locatário. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. A solução de quem chega ao mercado é comprar.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). para o futuro). mas também não chegou a bom porto. Quanto mais baixa a renda. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. actualizando as rendas. XIX. Logo. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. menor taxa de natalidade. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. políticos. Há subúrbios. económicos. havendo transmissão da coisa arrendada. centros das cidades abandonados. Se é assim.No arrendamento domina a autonomia privada. É um direito real.  Congelamento das rendas.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). por exemplo. impedindo actualização das rendas. O 1743º do CC francês determina que. 20 . No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. Nos finais do séc. inícios do séc. maior o lucro do trespasse. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. Chegou-se a este panorama aos poucos. Em 1985 tentou-se reformar. Há bloqueios ideológicos. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas.

pois. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Estabelece que prevalece o direito real. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Obrigações naturais É figura muito estudada. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. Comportam-se. de forma similar aos direitos reais. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. no conflito com outros direitos. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Era um débito sem respondência. o que os aproxima dos direitos de crédito. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). já que é ela que as explica. o locatário pode fazer obras. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. Seguem. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. pelo que ele se pode defender sozinho. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). com recurso aos tribunais). mas sem shuld. na locação. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. como direitos reais. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. Uns são pessoais e outros são reais. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. defender o seu direito face a terceiros. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. nesta matéria o regime dos direitos reais. em regra. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. 21 . 3. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. Mas mudou de ideias. Admitese a existência de direitos de gozo. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Não tem uma grande relevância prática. é histórica. Em geral. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. tendo um direito de preferência sobre a coisa. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. entre os direitos reais e os de crédito. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. por ser figura próxima do direito de crédito. Essa tese é inaceitável. Juridicamente não tinha personalidade. A pessoa estava obrigada a fazer algo. porque não era uma pessoa. Mas pode ser integrado no Livro II. O Direito dizia que ele estava obrigado.

não jurídicas. Tiveram uma evolução muito atormentada. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. jurídica. não posso pedir devolução do que paguei. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. A lei. etc. porque elas são típicas. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais.. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. Noção legal (402º).  As obrigações naturais são típicas (809º). Não pode ser exigível judicialmente. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. não têm valor patrimonial. Se eu pagar.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. Todavia. Isso não é verdade. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. Mas isto não pode ser. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. diferente de um Direito moralmente enformado. A justiça é aquilo que o Direito consagra. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. Aparentemente.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. diz-se por vezes.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. Não podem ser constituídas por contrato. a moral é uma coisa e o Direito outra. com base no 404º. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. aplica-se o regime das obrigações civis. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. Hoje. mas também as obrigações 22 . As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais.  O 404º. transformando-as em naturais. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos.A isso chamaram obrigações naturais. pois. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. etc. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). Mas são aqueles os dois momentos cruciais. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. Havia ligação entre o Direito e a moral. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. sociais. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. Esta matéria está regulada no 402º. Em tudo o resto. As obrigações naturais. No período medieval. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. É jurídico. A obrigação natural deve ser.

há obrigação genérica. se nada for estipulado. Os contraentes podem estipular diferentemente. dando lugar a obrigações genéricas. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. Não é o sentido do 400º. há uma lacuna negocial. Só se determina o género. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. com a massificação das transacções. 23 . o critério deve ser o da mediania. Na falta de acordo. Não havendo convenção. dare ou pati. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. As obrigações genéricas são muito importantes. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade.civis podem não ser cumpridas. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. A escolha e o risco O 539º estabelece que. 4. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. Ele é determinável mas não está determinado. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. escolhe o devedor. podendo ser qualquer litro de azeite. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. Desde que a coisa a entregar não seja única. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. rege o favor debitoris. o critério é o da mediania. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. O problema que surge é o da determinação do objecto. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. que podem ser de facere. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Deve-se escolher a coisa média. quantidade ou qualidade. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. No Direito romano eram desconhecidas. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. é fungível. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. Logo.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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Existe uma presunção de igualdade das quotas. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. a lei estabelece solidariedade. para proteger o lesado. de modo a assegurar o cumprimento. Rege o 512º . por exemplo). O credor só pode exigir de cada um essa parte. seja porque existe expressão linguística unitária. um concerto de orquestra. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. que é sempre singular). Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. Há obrigações que são à partida divisíveis. porque também temos de tratar das relações internas. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. Ao contrário da parciariedade. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota.noção. quando há vários sujeitos numa obrigação. É um regime mais duro para o devedor. 27 . Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. Quando vão cumprir. mas complexa. Aumenta a garantia do credor. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. todos têm de prestar ao mesmo tempo. No Direito comercial. Em resumo. Na prática. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. É só uma. MENEZES CORDEIRO defende que. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. Os vários sujeitos têm relações entre si. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. na falta de estipulação em contrário. Presume-se que as partes de cada um são iguais. Nestes casos. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. os credores). há outras que só o são se as partes acordarem.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. a regra supletiva é a da solidariedade. seja porque o regime é unitário. isso não multiplica a obrigação.

Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. p. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. acrescentou a lei. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. No período da pré-codificação francesa. já que o fraccionamento é feito posteriormente. Mas é uma pluralidade heterogénea. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. é natural que existam meios de defesa dos devedores. p. significa que há alguma coisa a mais. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. tem regime diferente. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. Eram fontes que. São duas fontes fundamentais de obrigações. ex. aqui. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. o do devedor e o do fiador. uma classificação das fontes. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. ter duplo aproveitamento. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. tal como os direitos reais. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. um credor e um credor pignoratício.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. Precisa de um facto jurídico para nascer. há “gato”. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade.). ex. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. presunção de igualdade (516º). Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. Uma prestação pode. à estatuição de uma norma. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. Normalmente. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. um A. se não houver outro acordo. só dele (não os meios pessoais de outro). 28 . Também existe. pessoal seria a prescrição. ex. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. A lei poderia ser fonte de obrigações. Na solidariedade há co-devedores. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. p. quando alguém contrata a solidariedade. Surgiu o esforço de sistematização. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. não sendo nem uma nem outra. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. É uma bipartição importante.

). Enumera algumas fontes. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. apesar de não haver classificação qua tale. 29 . No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. Em termos estatísticos. enquanto a lei é norma heterónoma. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. que é comum a todos os direitos europeus. como se usou em 1867 e 1966. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. nuns e noutros a mesma coisa. Mas ele é mesmo muito reduzido. a gestão de negócios. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. É difícil unificar. p. enumera-se o contrato. todavia. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. o negócio unilateral. no tempo e no espaço. ex. Há um encadeamento. de se autodeterminarem. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. a melhor técnica é a tipológica. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. então. As divisões não significam. em vez de adoptar a repartição tradicional. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. Com o CC de 1966 também não existe classificação. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. Já nos sécs. a partir do 405º. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. O que se deve. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). O Código de Seabra faia um elenco original. o enriquecimento sem causa. O direito privado tem 2000 anos. desde logo. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. mas enumeração. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. Faz-se. referência à tetrapartição. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças.

Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. está em crise. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). É o sistema de tipo francês. 30 . O contrato. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. O CCP trata da matéria. Daria frutos no período jusnaturalista. já o negócio obtém-se pela razão. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. se a sociedade é subdesenvolvida. O contrato valia por si. o contrato está sempre subjacente. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. É importante considerar o canonismo. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. manifestação da importância do contrato. No Direito sucessório é mais raro. mas se lemos artigos sobre negócios. D. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. o próprio contrato perde espaço. igualmente. diz-se muitas vezes. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. tem menos aplicação. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. Assim. É necessário que haja propriedade. O socialismo ataca o contrato. No Direito da Família também: contrato de casamento. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. com SAVIGNY. Os romanos conheciam figuras equivalentes. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. Passava a ser vinculativo por isso. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. mas existe pacto sucessório. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. Dá-se uma grande explosão. consensual – basta haver contrato. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. vai na direcção do contrato. O contrato tem um papel muito alargado. em lei de Maio de 1352. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. a bona fides perderá o seu significado. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. nas Obrigações é o contrato. Mais tarde. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). para o Prof.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. Menezes Cordeiro. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. Dinis. É um diploma bem feito. surgindo os contratos que hoje são básicos. de acordo com a escola histórica e a pandectística.

como o da boa fé. Todavia. Com a queda do Muro. etc. racionalidade. Não houve.).  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. Tecnicamente. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação.). O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. É uma visão pessimista. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. pecuniários. Mas isso não aconteceu. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. não se trata de um recuo do contrato.No séc. O 56º/3 garante a contratação colectiva. É óbvia. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. os observadores previram explosão dos contratos. pelo menos para coisas úteis. O contrato tem peso em si. etc. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. O contrato é um véu que tapa os olhos. diminuindo a liberdade contratual (banca. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. incluindo direitos de créditos). visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. à partida. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. Se a lei não dissesse nada. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. seguros. O contrato é. Graças às convenções internacionais. Tutela constitucional do contrato A CRP. no artigo 8º/2. pois. valores mobiliários.  Áreas reguladas. não relevaria: eles devem ser cumpridos.  Intervenção judicial nos contratos. plurais. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. 31 . mas de certos contratos. porque não foi necessário. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. necessidade de consagrar na CRP. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores.

Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. Todos os negócios são contratos bilaterais. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. Consensuais. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. Fala-se. é nominado mas atípico. maior equilíbrio. Terceiro. 2. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. o contrato é bilateral. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. 5. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. Perante o conceito de negócio jurídico. nominados e inominados. Pode haver tipo social e tipo legal. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. no entanto. vindo a aperfeiçoar-se. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. fica fragilizada. não dá para classificar em abstracto.1. bem como diminui as dúvidas. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. É distinção relativa. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. reais quoad constitutionem e quoad effectum. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Segundo. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. regulando com especialidade. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. Quando a lei não lhe dá um nome. 3. em princípio também não o regula. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. mas a lei não o disciplinou. por vezes. 32 . O contrato de hospedagem. consideradas mais sensíveis. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão.

O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. a parte geral é muito restrita. querendo. uma delas não fica obrigada. solicitar ao outro a efectuação da prestação. Há 16 contratos regulados no Código Civil. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. Tipologias de contratos Contratos típicos. 7. uma vez que domina a autonomia privada. 33 . A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. no entanto. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. O problema é que. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. 6.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. Embora o 405º seja muito abrangente. as partes têm liberdade de celebrar livremente. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. É diferente da vinculatividade. hoje. Há. O estudo desta matéria não é fácil. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. Em regra. É sinalagmático. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. À luz do 405º. Nos monovinculantes há duas partes. se as partes celebram contratos mistos. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. Os gratuitos são. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. pois. passa entre as gotas da chuva. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. podemos distinguir entre negócios típicos. em regra. A generalidade das normas é supletiva. As partes querem dar. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. Fica com o direito potestativo de. reciprocidade. O problema é que. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. Tendo em conta este facto. tendo em conta o relevo de que se revestem.

Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção).: A comprou 15 dias num cruzeiro. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. 3. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. Em troca do preço recebe um quarto (locação). o locador. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. 4.: A compra por preço muito baixo. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. não para que se porte como proprietário.: A arrenda um quarto a B. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. O resto é extra. 34 . Ex. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). Isto só resulta se houver confiança. mas como tendo a casa como refém. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. mas recebe em géneros. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. o negócio aproxima-se da gratuitidade. que lava também a roupa de cama. entretenimento. na prática. Os combinados distinguem-se dos complementados. em troca de explicações. os serviços de limpeza. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. Ex. Não tem salário. que absorverá os outros. cama. A tem dívida para com B. não havendo uma principal. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu.: A recebe habitação. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. etc. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. aplicando todos. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. quando acabar. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. comida. Não pode ser um mero pormenor. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. comida. próprias de vários contratos. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. Ex. 2. Há mistura. A autonomia privada é o pano de fundo. devolve-lha.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. embora tenha havido preço. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. Ex.

o combinado e o híbrido. O método foi o da analogia. O limite é o das normas imperativas. a outra também. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). P. No caso do porteiro isso é evidente. Em Portugal. bem como sinergia do ponto de vista económico. Hoje. mas os serviços que o centro proporciona. acabavam os centros comerciais. no entanto. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. 3. se na lei houver solução. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. Quando há lacuna contratual. aplica-se essa solução. A seguir temos de resolver com analogia. sem intenção de enganar). O que é específico é a marca. Pode. Se ele corresponder ao tipo x. Aqui. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x.2. A solução foi a da analogia. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. Mas isso é raro. Regra geral. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. Se não for suficiente. mas o contrato é usado para uma função diferente. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. O promotor é remunerado através da renda. Quando nada se diz. é uma área vinculística. 35 . o arrendamento tem muitas normas imperativas. 4. É contrato de agência que foi encontrado. para que os distribua. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. Mas não é normal. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. e também com a agência. aplicam-se as regras desse tipo. Pode haver várias funções: simulação. tal como o da vontade das partes. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. Recorre-se ao regime da agência. ex. nomeia concessionários. a primeira solução é a da vontade das partes. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. Há semelhança entre a agência e a concessão. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. publicidade. a solução também foi a da analogia. segurança. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. aplica-se o regime do tipo x. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). a quem entrega os bens. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. é também acompanhado de distribuição. é esse que se aplica. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. gestão do centro. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. então celebra-se o y). por analogia.

Procura-se o centro de gravidade. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae).Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. M. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. São óbices consideráveis. porque doações de bens futuros não são permitidas. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. era o proprietário da coisa. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. Descobrindo-o. mas para o de terceiro. Quem recebia a coisa com fidutia. O fiduciário é de execução prolongada. Se ela tem natureza real. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. ao contrário do alemão. a fidúcia é muito violenta para o devedor. 36 . Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Mas o Prof. Se for à falência. interna e alternada. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. aplica-se o regime correspondente. O fiduciário é proprietário. o fiduciário. No Direito português. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. O fiduciante é só entre outros. em benefício de quem a entregava. não permite divisão da coisa entregue. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. na contratação alternada valia ou um ou o outro. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. Mas. Ele é permitido se não violar regras imperativas. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). teremos uma figura real não prevista na lei. já que o Direito existe para proteger os fracos.

de tipo não processual. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). há centros de gravidade múltiplos. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. Hodiernamente. 830º. rege nos contratos mistos. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. No Direito português tem grande importância.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). a promessa valia apenas como prestação de facto. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. tem eficácia real. A promessa por escrito era válida na hora. por exemplo. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. devia ser celebrado por escrito. 442º. A figura da absorção. A celebração de uma escritura pública demora tempo. Importou do BGB a execução específica. causais. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. Mas nunca é irrelevante. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. execução específica). O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. É uma ideia relativamente recente. 37 . dependentes e independentes. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. sem recorrer à escritura pública. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. O contrato prometido e o contrato definitivo. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). Segundo o Código de 1867. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. homogéneos e heterogéneos.. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. para o sinal. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. sendo diferente o regime. de tipo processual. Há muita jurisprudência sobre isto.

os contratos são dotados de prometibilidade forte. 1. ex. financiamento. regulativa autónoma. acabamento da coisa. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. Quanto à prometibilidade fraca. desformalização. para preparar o contrato definitivo. 5. um modo geral de celebrar outros contratos. é possível a execução específica no caso de incumprimento. O contrato-promessa distingue-se da proposta. tendo isso em conta. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. Regra geral. Por vezes. 2. Há contratos que. 4. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. p.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. Desformalização. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. É a função preparatória. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. por vezes. É usado. Regulativa autónoma. É um formato. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. Função preliminar. ex.. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. mitigada. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. transacção meramente obrigacional. um modus vivendi. 38 . Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. Como no Direito alemão. etc. do contrato preparatório material. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço.). Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. sobre a entrega. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). uma vez prometido. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Mitigada ou mitigadora. na promessa sabe-se). P. 3. na promessa tem de haver negociação). Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. do exercício de preferência. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. não podem ser objecto de promessa. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. do dever legal de contratar. Meramente obrigacional. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo.

Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. Isso não é correcto. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. Com o não cumprimento. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. e o outro não cumprir. Não se trata de um contrato-promessa. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. às consequências pela ingratidão. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. do 1591º e SS. o que está em causa não é a regulação de um contrato. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. a obrigar a algo que poderia revogar. No contrato-promessa. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada.. mas que tinha um regime especial. a proposta ainda não foi feita. Mas. O nome é parecido. Isso não vem na lei. estão nos antípodas. O problema é que. etc. à partida. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. Não vincula o promitente a doar. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. imperativo. tendo em conta o regime. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. Não há contrato-promessa de doação. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria.) que conduz à possibilidade de revogação. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. proximidade. também não há uma regra expressa que o diga. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. mas ineficaz quanto às prestações principais. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. se não houve entrega da coisa. É um contrato à parte. 39 . até é possível haver excepções ao que se disse. etc. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. como executo? Os clássicos diziam que não era possível.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. diferente do regime do contrato-promessa.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. mas a situação subjacente é diferente. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. É verdade que existe um regime jurídico. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). Pode fazê-lo. Contrato-promessa e doação são dois contratos que.

A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. para ser quantos se obrigam. ainda que não tenham as duas assinaturas. 40 . O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. não se entende porque só um assina. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. autêntico ou particular. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. o regime é o do 219º liberdade de forma. Mas isso é errado. Estipulações acessórias são válidas. Não haveria problema de prova nem dúvidas. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. Assim. MENEZES CORDEIRO em princípio. A questão das assinaturas é meramente formal. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. é preciso o acordo de ambas). pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. tendo enorme relevância. aplica-se a regra geral. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Por isso. Uns defendem a redução. Se for livre também o contrato-promessa é livre. Na prática. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura.Hoje em dia. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. A conversão. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. em regra o promitente alienante. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. outros a conversão. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Na normalidade dos casos. é a solução. não se precisa é de assinar. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. O 410º/2 regula a forma. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). Se o documento é a materialização do acordo. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Se para o prometido for necessário documento. Para o prof. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. nos termos do 293º.

que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. Há. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. com excepção das relativas à forma e as disposições que. Admite que. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria.Mas não é fundamentalista. possa reduzir-se o negócio. no 3. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. de invalidade mista. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. Se a promessa for monovinculante. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. MC sugere a ideia de modus contrahendo. este deve adquiri-la. a se. Obedece a normas: os princípios da correspondência. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. havendo grandes atropelos ao direito. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. Havendo contrato-promessa. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. Pode ser paralisada através do abuso de direito. Trata-se. 41 . A parte geral também tem regras. Surgiu na década de 1980. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. o regime é o da reforma de 1986. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. ficando com um contrato-promessa monovinculante. concretização e boa fé. por sua razão de ser. também. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. se nada disserem. Nestes casos. em certos casos. Neste momento. p. integralidade. Este princípio. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. ex. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos.

Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. pode haver resolução. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. Pode haver recusa antecipada a cumprir. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. imputação. O incumprimento extingue a prestação principal. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. Pode acontecer que seja lacunar. Incumprimento há quando. não foi. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. Legitimidade. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. lugar. inclui-se a coisa no cumprimento. a lei prevê a interpelação admonitória. se for cumprido. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. o faltoso é o que não cumpre. violação positiva do contrato. Se isto não for possível. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. Se houver situação de mora. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. que resolvem inovar. 42 . MC entende que isso não pode ficar assim.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. Se não houver. há inadimplemento. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). alterando as palavras.. prazo. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. etc. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Muitas vezes há AA. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. impossibilidade superveniente. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). O definitivo está previsto no contrato-promessa. uma via crucis. etc. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). Isto é uma trapalhada. se não for cumprido. À partida. devolve-se em dobro.). Ou há mora. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). local. violação de deveres acessórios. Pode haver uma impossibilidade superveniente. aplica-se o 280º. se o contrato-promessa permitir. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. O promitente fiel é o que é prejudicado. se forem válidas e eficazes. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss.). mantendo-se o contrato-promessa.

mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. o sinal ganha coloração particular. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. na fase executiva. se houve incumprimento. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. ajudava a provar a existência do contrato. A ideia era: como a inflação é muito alta. Quando metido no contrato-promessa. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. Assim. recebiam-se sinais. Houve várias propostas para resolver a situação. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. penal. que chegava aos 20. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. O retentor pode. Quando mexeu no 442º. 30%. O que estava em causa eram casas de habitação. faziam-se casas. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. celebrando-se contratos-promessas. A jurisprudência. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. Em 1980 havia grande inflação. Assim. com a inflação.  Quando há tradição da coisa prometida. o sinal tinha alcance coercivo. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. no entanto. Tem um direito de liquidação judicial. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. O Governo resolveu intervir. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). O problema viria a ser resolvido em 1986. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. Tornava-se compensador não cumprir. vender a coisa e recolher o preço. a indemnização já não é o sinal em dobro. os sinais deixavam de valer tanto. mas o valor actual da coisa. Afastouse a possibilidade de execução específica.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. 43 . No Direito romano tinha um sentido confirmatório. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados.No Direito grego antigo. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. O imobiliário estava sempre a subir. mexeu no regime do sinal. começou a resolver o problema diferentemente. Enganou-se e mexeu em tudo. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo.

ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. Em 1986 o legislador interveio novamente. Houve excessos legislativos. exige mais garantias. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. Assim. Se houver sinal.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. Além disso. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. ainda assim. introduzir correcções. Tentou-se limar algumas arestas. a favor do promitente adquirente traditário.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Tendo havido mora. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. com a solução do Prof. pela interpretação). MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. Se houver morar.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. O Prof. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. Todavia. não há logo incumprimento definitivo. É uma “excepção de cumprimento”. Assim. mesmo que anteriormente registada. Se houver mora. fixa-se um novo prazo. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. congelando o direito ao valor da coisa. 44 . o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. doutrinariamente. Lobo Xavier. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. ele é deduzido do preço. perderam a objectividade. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. a primeira consequência é entrar em mora (805º). ficou consagrada a indemnização pelo valo. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. não sendo necessária a interpelação admonitória. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. Tentou-se. É um esquema complicado. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. Vários AA. é mais selectivo. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. O hipotecário ver-se-ia preterido.

O contrato-promessa já é um contrato misto. O que é que as partes pretenderam? 1. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. O sinal visa uma função compensatória. No Direito funciona-se com prazos. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. O Prof. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. no entanto. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. deve ser tomado seriamente. 45 . É posse semelhante à do arrendatário. A distinção é importante. a troco da entrega da casa. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. Alguns autores dizem que. A resolução. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. porque tem uma cláusula daquelas.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. É um contrato que dá direitos muito precários. Um contrato de comodato. 3. Se é esse o sentido da cláusula. Se for um representante. bem entendido. Neste momento. não há posse. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. É celebrado contrato-promessa. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. A menos que. 2. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. destrói o contrato retroactivamente. Pode ser uma gentileza mais demorada. É verdade. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). Assim. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. se há sinal. o que deve fazer é resolver o contrato. Tradição da coisa Tecnicamente. quando haja incumprimento. Se for possuidor tem defesas possessórias. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. Se resolve o contrato por incumprimento. É uma posse muito elementar. operando o sinal. desaparece também o sinal. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião).

a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. dir-se-á que não podemos obrigar. Se há excepção do cumprimento. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. A solução mais normal é a execução específica. Estamos perante um facto. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Se de facto houve perda do interesse. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. Em 1980 o regime foi alterado. Mas isso já estava subentendido. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. Se tivesse havido incumprimento definitivo. muda o regime. 46 . por maioria de razão também há sinal comum. Se houve. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Leva ao mesmo.4. O interessado pode ainda optar pela execução específica. para além da tradição. já vinha de trás. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. é muito difícil determinar a indemnização. Passa até à frente do credor pignoratício. seria impossível apresentar-se a cumprir. Foi uma ideia prussiana. Assim. colocando no terreno. Quando se trata de acções humanas. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. Aqui temos posse em termos de propriedade. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. houver sinal. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. Já está tudo pago. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. através dos seus meios. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. houve incumprimento. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Consoante o tipo de posse. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. mas não especificou. Contudo. pelo que há entrega da coisa. também. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. Assim. soluções alternativas à indemnização. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”.

Contudo.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. ex. já que a prestação se tornou impossível. contudo. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. as custas ficaram por sua conta. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. p. em 1980 o legislador foi desastrado. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. no momento em que é decretada a execução específica.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica.Houve soluções doutrinárias. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. O Prof. Simplesmente. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Mas nem sempre. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. O tribunal não emite. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. verdadeiramente. a declaração faltosa. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. mas vende a C. Não valerá a pena recorrer à execução. Perante o incumprimento. Nos outros a questão não se colocava. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Aí. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. Simplesmente. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. 47 . A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. é muito difícil calcular a indemnização. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. Haverá consequências indemnizatórias.

Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. MC entende que sim. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. demissão). in fine). na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. depois. No caso do contrato de trabalho. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Contudo. Mas.  A exclusão convencional. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. pode acontecer que. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. tão pouco. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. Mas aí não cabe execução específica. Tem de haver ponderação de interesses. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. Não pode haver execução de contrato que não existe. poderia ser revogado. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. já não é de todo possível a execução. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. Todavia. p. Se houver situação de inexistência. Mas a lei admite mandato irrevogável. Nessa altura. Igualmente. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Aí já faz sentido. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. o 830/1 admite a possibilidade. Quando seja celebrado um contrato-promessa.) também não pode haver execução. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. ex. Contudo. O comodato pode cessar a qualquer altura. mesmo que houvesse. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. se verifique uma alteração das circunstâncias. comodato). 48 . não se iria muito longe (despedimento. por sua natureza. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). Não faria sentido a execução de um contrato que.

registo da promessa. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. 49 . O que está em causa é que o dever seja cumprido. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. Através da eficácia real conseguir-se-ia. que a foi buscar ao Direito alemão. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Deixou de se exigir a escritura. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. Se o preço não for pago há injustiça. Ora. a lei alemã permite um pré-registo. mas contra o terceiro (Dias Marques).  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. O Prof. outros recusam essa solução. não é norma de excepção.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos.  Há execução específica. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. ficando privada do preço. Assim. A outra parte pode não ter sido paga. execução específica. reforçando-se o registo. convenção expressa de atribuição de eficácia real. qual a solução? Normalmente. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo.Depósito do preço A sentença é translativa. alguns entendem que cabe execução específica. Promove logo a transmissão da propriedade. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. vendendo a terceiro. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. Se não for cumprido. Vaz Serra. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. escritura pública. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar.

o contrato definitivo não perde em categoria. em relação ao definitivo. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. em definitivo. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. como contrato autónoma. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. no entanto. Nos extremos. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. na promessa. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. de facto. a contratar. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. uma vez concluída. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). tão-pouco é declarativa. as partes regularem. Mau grado a primazia reguladora da promessa. 50 . o que esteja em causa. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. uma vez que dela nada sai de preexistente. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. apenas. com o contrato definitivo. continua a ser um verdadeiro contrato. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. pelo menos em parte. as partes obrigam-se. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. em função dele. De seguida. a celebração das promessas. delimitando. no fundo. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. à negação da própria promessa. Justamente por. levar ao apagamento do definitivo. por vezes. ainda que devido e pré-regulamentado. A lei proíbe. tão-só. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. Ao celebrar o contrato-promessa. a execução específica não é puramente executiva. A primeira opção explicativa leva. um acto de execução do que já estaria combinado. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação.

A favor do fundeiro (1535º). pelo artigo 1535º (1901º). uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. O direito de preferência. Da mesma forma. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. um dia. ao preferente. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. A favor do senhorio (1112º/4). por χ. deve vendê-lo. Por exemplo: o obrigado. ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. De resto. perdendo a plena disposição do seu bem. tem. pelo preço em causa. Em regra. nesse sentido. 1380º e 1381º). com o qual o negócio fora ajustado. caso este queira. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. A favor do co-herdeiro (2130º). A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. antes. essencialmente. Diz-se. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. 51 . a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. 1519º e 1523º). que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). quando convencionalmente estabelecido. em Direito. caso queira vender um prédio a alguém.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º.

uma indemnização. Na primeira. todavia. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real.  A preferência obrigacional. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. 52 . ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. ao preferente.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. a real. consoante a opção das partes e isso desde que. na opinião dominante. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. violado o pacto. As preferências convencionais são ora obrigacionais. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. observadas determinadas formalidades. ao obrigado faltoso. ora reais. através de uma acção de preferência (1410º/1).  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). permite ao preferente exigir. apenas uma das partes fica obrigada. uma vez que a outra emite logo a declaração final. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. a preferência real confere. sejam. nesta última hipótese. ainda e por elas. nos termos do 414º.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. a preferência legal advém da lei. tem cabimento recorrer à acção de preferência. quando violada. Na segunda.  A opção – figura inominada e atípica. não podendo o preferente fazer seu o negócio. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. Modalidades. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. relativo à acção da preferência.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. a um direito real de aquisição. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito.

Todavia. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. do princípio da equiparação. o artigo 410º/2. a essa luz. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. à preferência. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. perante o Direito vigente. E sendo este o caso. pretenda contratar com o obrigado à preferência. em regra. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. Pergunta-se se o terceiro que. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). como cláusula num pacto mais vasto. por definição. o terceiro deve-se abster de contratar. é afectado de algum modo. como a de fazer a competente comunicação. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. ao pacto de preferência. deve-se lidar com os deveres acessórios.  Porém. das regras aplicáveis à capacidade. Num pacto de preferência comum. a menos que ambas as partes se vinculem. Bastaria a assinatura deste. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. por parte de um terceiro. desencadeando o funcionamento do pacto. quer autêntico quer particular. de onde promanam deveres para ambas as partes. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. os ónus e os encargos envolvidos. ao pacto de preferência. Propõe-se a aplicação. recebem os deveres. se o pacto for bivinculante (bilateral). O modus praelationis. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. quando o contrato preferível exija documento. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. Tendo conhecimento do pacto de preferência. próprias do contrato preferível. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. podendo. de acordo com as regras gerais (219º). deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. daí resulta a aplicação. por ele. Com uma prevenção: numa situação de preferência. de liberdade de forma. 53 . eventualmente. próprio do contrato-promessa.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência.Forma O artigo 415º manda aplicar.

a renúncia. por aplicação do 410º/2.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. o contrato. Havendo aceitação da comunicação de preferência. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. pelo menos. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. o represente. afinal.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. Havendo vários preferentes. convicto de que. quer autêntico. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. isto é. se vem mesmo a concluir na esfera deste. e estará enganado. A “aceitação” da comunicação para preferência. Finalmente. envolve. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. pelo menos. modificações ou reticencias. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. ao seu direito.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. declarando que não está interessado. se não o fizer. perfila-se o contrato definitivo. 54 .  Ou o preferente rejeita. ficando o contrato por celebrar. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. com poderes bastantes. exige-se forma escrita. esta deve ser feita ao preferente. quer particular. A não se verificarem tais requisitos. A comunicação não está sujeito. não o quer. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. por lei expressa. com base nela. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência.Na posse dessa proposta. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. uma de duas:  Ou o preferente prefere. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). por parte do preferente. de pleno direito. É o que dispõe o artigo 416º/1. na mesma linha.  Ou renuncia à preferência. por opção do beneficiário. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. o terceiro ficará com o negócio. A resposta do preferente. deixando o negócio para o terceiro que. na presença de um projecto de contrato firme e sério. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. já que o terceiro não celebraria tal contrato. com alterações. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou.

As valorações subjacentes ao artigo 417º. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. divisível?  E não sendo divisível. 1ª parte). o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. é excluída da preferência. nenhum princípio de especialidade. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. então. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. recebida a comunicação. quando se reporte a uma universalidade. dependendo das circunstâncias. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. pode. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. De todo o modo. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. ou não. o que terá que provar. Prestação acessória. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. Observar-se-á. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. 55 . A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado.  Não sendo avaliável em dinheiro. Existem três possibilidades básicas.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. Não o sendo. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. sem prejuízo para o interessado. o preferente desiste ou prefere em conjunto. apontam. podem umas e outros ser desagregados. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. no nosso Direito da compra e venda. o contrato será seguramente único. não o sendo. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. ou não.

A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. A prestação principal é. feito no artigo 410º/2. com isso. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. Segundo o artigo 1410º/1. os restantes: não havendo processo de escolha. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. fazer seu o negócio faltoso. ao preço e à identidade do requerente. esta última: trata-se de um facere jurídico. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). sempre. sem seguir o procedimento da preferência.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. abre-se licitação. com o preferente. em caso de violação de uma preferência real. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. a todos os preferentes. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). seguramente. nas condições fixadas. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. Havendo eficácia real. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. em termos de aquisição. Verificados os pressupostos. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. 1ª parte). A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. 56 . afastando.  Concluir o contrato em causa.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. desde que este as acompanhe. A acção de preferência permite ao preferente.

o qual. no cumprimento. a celebração. na opção basta a declaração do beneficiário. o titular ou o optante) recebe o direito de. por analogia. passando a integrar o definitivo. execução e incumprimento No que toca ao optante. esta não depende da intervenção da parte vinculada. Haverá que aplicar. Logo. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. por ambas as partes. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. ele recebe o direito potestativo de. a opção cessa. Aplicam-se aqui. do definitivo. A opção. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. da posição de contratante e do valor que ela representa. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. aqui. na execução.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. que exigirá. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. por mera declaração unilateral. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. provocar o aparecimento do contrato definitivo. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. todavia. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. um verdadeiro contrato-promessa. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção.  Quanto à execução. o artigo 411º: o vinculado pede. perante o concreto contrato definitivo em causa.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. excepto no que tanja ao cumprimento deste. Direito e deveres. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. por uma simples manifestação da sua vontade. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. tendentes à conformação do contrato definitivo. ao tribunal.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. só será válida e eficaz se. na opção. na conclusão. dá azo ao contrato definitivo. ora. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. 57 . fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. declarações de ambas as partes. directamente ou por analogia.

O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. pode facturar o premio da opção. há que lhe aplicar. Ainda o mesmo optante pode colocar. no memento escolhido. que exercerá o seu direito se o entender. do definitivo. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. 58 . O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. Assim. Funções. O risco desaparece. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. o qual deve ser cumprido. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. uma das partes (o promitente) assume. o artigo 272º: na pendência da opção. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. entre outros aspectos. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). O obrigado. Actuada a opção. o artigo 762º/2 e. por analogia. respectivamente.todavia. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). por via dos artigo 295º e 221º/2. no mercado. a sua opção. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. directamente. designadamente para a parte optante. a cargo. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. surge o contrato definitivo. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. No plano do seu conteúdo. Como princípio geral. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. partes no contrato. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. por seu turno. dando-a em garantia ou alienando-a. com relevo para o pagamento do preço da opção. natureza e aplicações Celebrando uma opção. a qual adquire um direito à prestação. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. perante a outra (promissário). as partes congelam as condições da venda. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). Ambas as partes ficam . ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. do optante e do adstrito. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção.

excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume.  A de exigir. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. do promitente. de forma geral. 1ª parte). O regime concreto de tais prestações. As prestações que.  A de exigir. nessa altura. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. a efectivação da promessa ao terceiro. contratos como o casamento ou a doação. a contrario e 448º/1. quando esse seja o conteúdo da promessa. deste cerne. as prestações ou outras vantagens que. A posição do terceiro O terceiro adquire. especificamente. porventura. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. o direito à prestação: independentemente da aceitação. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). do promitente. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. pelo contrário. ao promitente. imediatamente. lhe possam advir da relação básica (405º). Tal permite excluir. 59 . independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1).  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. devam ser trocadas entre os mesmos.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. fundamentalmente. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). a prestação principal O promitente tem. O terceiro adquire o direito à prestação. por exigência deste e do promissário. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. pelo contrato a seu favor. porventura. A posição do promitente. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. perante o terceiro.

Esta apenas consolida um contrato que.Perante um contrato a favor de terceiro. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. não tem. Eligendus: o terceiro. Desde modo. Electio ou electio amici: a escolha. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. pode desinteressar-se dela ou. nada fazer. ao abrigo das regras gerais (217º). Pode-se. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. sobre si. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. não sendo parte do contrato. de adesão. pode ser menos diligente ou até. ainda. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. a contrario). Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. Amicus: o terceiro. a fiscalização da contraparte. através da regra da boa fé (762º/2). de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. instável. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. porém.  Torna a promessa firme (446º/1. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. antes de ter ocorrido a sua nomeação. logo. de lealdade e de informação. Na linguagem desde subsector. 60 . a contrario e fortiori). quando se desempenhe perante o terceiro.  O promissário. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. antes dela. por não ser o destinatário da prestação acordada. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. por não ter sido celebrado com o terceiro é. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. desconhece os precisos termos envolvidos. no limite. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. Num primeiro tempo.  O terceiro.

inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. tal como sucede com a ratificação (262º/2). foram surgindo figuras que. produz efeitos em relação ao contraente originário.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. do próprio contrato que a contenha. As fontes paracontratuais Ao longo da História. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. 61 . altura em que o contrato ficará sem efeito. a cláusula “pessoa a nomear”.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. Como tratá-las? Com o tempo. seja em moldes sócio culturais. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. Feita regularmente e comunicada a designação. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato.Regime. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. concordância do amicus e electio. pois. A electio tem. num todo coerente. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). quando superior (454º/2). dele se aproximavam. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. Embora a lei não o diga. eficácia retroactiva. não reunindo as características perfeitas do contrato. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. Ele implica. seja em termos técnicos. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. ao outro contraente. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). Concluído o contrato para pessoa a nomear. em princípio. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito.

o contrato. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). Relações paracontratuais em especial 1. Surgindo.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. chega-se. tivesse ocorrido qualquer contrato. isolam-se:  As relações contratuais de facto. muitas vezes.  As relações contratuais sem contrato. execução de relações duradouras. ser reconduzidas ao contrato mas que. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique.  Inserção em organizações comunitárias. Sublinha-se que. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. com ele. pelo menos. para certos fins. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. através de meros comportamentos materiais.  Situações de proximidade contratual. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que.  Situações de relações jurídicas complexas. esta relação fundir-se-ia nele. seja na formação. no espaço jurídico. seja nos preliminares. 62 .  Os contratos com protecção de terceiros. no tráfego moderno de massas. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. em termos rigorosos. uma parte razoável do seu regime. depois. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. derivada do facto simples de um contacto social. de lealdade e de informação. sem integrar previsões contratuais. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. na sua origem.

Há impossibilidade inicial da prestação. pelas partes. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. O círculo interior. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. nas protecções dispensadas. 3. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. em face de um contrato:  Alguém que. no contrato considerado. revogado ou denunciado. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. Também está claro e assente que. perante a prestação principal e em face do credor. Em termos analíticos. O contrato é resolvido. não seja parte. e existe. para terceiros. que se reporta aos bens postos em jogo. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. De novo há um círculo exterior. O contrato é anulado. independentemente de qualquer especial vontade. o círculo interior. no caso de violação. ainda que insubsistente. mercê dos contratos preliminares. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. A “fonte”. ainda. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. promane deveres acessórios (de segurança. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. tenha uma proximidade visível. o Direito manda proteger. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. 2. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. que veicula os valores fundamentais do sistema. por estar vulnerabilizada. Em termos gerais. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. Com as devidas adaptações. igualmente. nele. Havendo proximidade. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. Surge uma impossibilidade superveniente. 63 . a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. por qualquer razão.

quando violados. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. o que (ainda) não têm e subscreverem. No que se lhe reporta. De facto. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. em termos jurídico-positivos. ainda se poderiam manter determinados deveres. por sua livre e exclusiva vontade. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato.  Os perigos da adstrição ad nutum. aplicar. como um simples facto stricto sensu. que explique os deveres resultantes. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. de obrigações futuras. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. “negócio” engloba. aparentemente. fora de série. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. aqui. com ligeireza. Antes de fundam na lei. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se.  Um numerus clausus de realidades relevantes. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. podendo. 64 .Tecnicamente. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. 5. as normas típicas. o inerente instituto. cessado o contrato. com facilidade. nesse sentido nuclear. uma vez que ele não é partes. São os deveres pós-eficazes. mas noutros locais. de lealdade e de informação. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. uma regra de tipicidade. 4. o proprio acto unilateral (457º-463º). por analogia. a responsabilidade obrigacional. O artigo 457º proclama. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. para as partes. tais deveres não têm origem contratual. Mas têm moldagem contratual. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. O negócio unilateral implica que alguém. fique adstrito a realizar uma prestação. operando o contrato. ad nutum. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. Em rigor.  A proibição de. dando origem. perante eles. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. obrigações que (só) irão pensar depois.

cabe salientar a confiança que. no Direito português. já antiga. A regra não origina nenhuma obrigação nova. Da oferta ao público (230º/3). a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). quanto à existência de adequada fonte das mesmas. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. igualmente por via da boa fé. por força de qualquer outra fonte. devidas. Assim:      Da proposta de contrato.  Fonte essa cuja existência se presume. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. 65 . No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. Deve-se ter também em conta os terceiros que. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. deve sublinhar-se. de que. para além da concreta eficácia suscitada. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. ainda. Quanto muito. também aqui. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. até prova em contrário (pelo devedor). anteriormente. existe aqui. Em bom rigor. a afirmação.Mantém-se. numa segunda vertente. ainda. limitada à inversão do ónus da prova. Do anúncio público (225º). distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. Os negócios unilaterais distinguem-se. Dogmática geral O negócio unilateral. de resto. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. a tipicidade dos negócios unilaterais. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. No que tange ao autor do acto. Do testamento. pelo princípio da causalidade. deve imperar. pois. com a promessa pública como modelo. passando pela tradição de uma coisa. a primazia da materialidade subjacente que. proclamada no artigo 457º. fica o credor dispensado de a exibir. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. é aparente. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. De contratos com apenas uma assinatura. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. isto é. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. pode-se admitir tipos abertos. sobretudo quando interessados. sem indicação da sua fonte. Negócios unilaterais em especial 1. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”.

às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. só nessa altura se constituindo.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. 3. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. surgindo alguém nas condições nela previstas. a sua obrigação. constituir o contrato. Feita a promessa. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). aqui. ainda. pode. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. da oferta ao público (230º/3): nesta. pelo cumprimento. aqui. um motivo atendível. in fine). Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. desde logo. propriamente obrigado. da indeterminação do destinatário. O público. naquela. fica vinculado desde logo à promessa”. pela aceitação. por justa causa (461º/1. por anúncio público. apenas. seja revogada. constitui uma especial modalidade de promessa pública. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). relativo a concursos púbicos. Até que.2.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). exclusivamente. Concurso público O artigo 463º. objectiva ou subjectivamente. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). na sua falta. A situação distingue-se. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. ele extinga. não tendo prazo. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. o promitente fica obrigado:  Até que. Até que. muito claramente. que torne a promessa inexigível. seja revogada (461º/1). o concurso ficaria indefinidamente aberto. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. 66 . a título de prémio. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. ficando. antes dele. tendo prazo. A justa causa será. o promitente adstrito à sua efectivação. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. deriva.

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