Você está na página 1de 66

Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

1

Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

2

 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. A codificação da boa-fé. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. Se a fonte for inválida. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. 994º). Resulta do movimento da pandectística. Protegem-se as pessoas contra si próprias. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. defesa do consumidor). renunciem aos seus direitos. O BGB é de 1900. baseada num conceito vago. 942º. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. Foi muito pouco mexido. transposição de directivas comunitárias. 4 . nesse caso. a obrigação não subsiste. por regra. para não darem o que não têm. ex. A responsabilidade civil é ampla. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. 457º. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. regras. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. as obrigações. doutrina. A causalidade contrapõe-se à abstracção. 809º. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. que nascem de uma determinada fonte. O Direito das Obrigações alemão é líder. É um código típico do início do séc. É muito difícil mexer nele. p. prescrição. antes de terem as coisas. (448º.Existem. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. A validade de um cheque.. é abstracto. no Código Civil. A responsabilidade civil é fechada. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. 2. O legislador optou por emitir leis avulsas. Causalidade Significa que. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. daí tal importância. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. analítica. todavia. que merecem reforma em Portugal. Não se quer que as pessoas. XIX. Mas há zonas periféricas. É muito elegante linguística e estilisticamente. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. O BGB. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. O Direito civil é muito estável. No entanto. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. 812º. 4. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. 863º. O Direito das Obrigações é super estável. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. 947º.

canónica. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. Há união entre religião e Estado. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. Mas foi uma novidade científica que vingou. Mas tem uma organização e conceptualização originais. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. Chinês É muito antigo. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. islâmica. a partir de 1911. O Código de Seabra é. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. sendo revigorados os já conhecidos. surgem institutos até então desconhecidos. No Brasil. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. no entanto. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. tal como a cultura chinesa. Naturalmente. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Anglo-saxónico É um mundo à parte. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. mantiveram-se em vigor as Ordenações. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. Não há correspondência. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. O Direito português é aberto ao exterior. 5 . Este sistema não é codificado. na China não aconteceu isso. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. muito avançado. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Antes da aprovação do Código de Seabra. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. Há pouca influência romana. há um período de pré-codificação. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. O Código não é de inspiração alemã. sendo uma enorme influência. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. sequer. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. 4. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. Além da redistribuição germânica das matérias. 5. Mas. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. XIX.3. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica.

Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. Em Macau. O CC de 1916 tem já influência germânica. logo em meados de oitocentos. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. com algumas alterações após a independência. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. O Código brasileiro aparece só em 1916. XIX. como membro da OEA. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). depois da aprovação. houve maior inteligência política. tendo-os traduzido para chinês. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. Em África Em Angola. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. Com a independência. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. Em Timor. mas começa a ser preparado no pósguerra. Há algum atraso na sua aprovação. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. Na Guiné. vigora também o código de 1966. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. mas já havia recepção do pandectismo. Em Moçambique. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. Antes da entrega de Macau. Tem influência germânica e do Código de 1966. As revisões ministeriais do Prof. sendo substituída pelo inglês. voltou a vigorar o Direito português. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem.No Brasil Na doutrina brasileira. verificou-se a invasão indonésia em 1975. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. numa segunda fase. marcaram as primeiras reconstruções do CC. mas havia a barreira linguística. um período de exegese. Ele é de 1966. foi aprovado um Código Comercial novo. numa primeira fase. ainda em meados do séc. 6 . O Código de 1966 vigora actualmente. O Prof. Houve. Todavia. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. Foi necessário recomeçar. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. com Teixeira de Freitas. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Em Cabo Verde. quando ocorreu a ocupação. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. O português era a segunda língua. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra.

ganha pelo mérito. é diferente. um pequeno país na Europa. também com as operacionais: inglês. Coreia do Sul. Cumpre saber que língua é utilizada. O Direito lusófono não tem só essa influência. Há as directrizes e os regulamentos. Nas obrigações. Se não o fizerem. quantidade de falantes da língua. não são de common law. O Prof. que é do final de Oitocentos). os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. foi do Direito alemão. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. Mais tarde. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. Há 23 línguas oficiais na Europa. língua. As regras sobre a moeda única.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. uma enorme barreira linguística. Ciência do Direito. Assiste-se à implantação (Portugal. No Direito francês há distinção. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. Quanto a autonomia doutrinária. p. De um modo geral. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. ex. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. Mas havia uma grande projecção ultramarina. provêm de regulamento. ao contrário do que acontece no Direito português. que suportou a nossa independência. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. Todavia. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. 7 . A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). de Common Law. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. Há. Mas na área do Direito não é assim. francês e alemão. Brasil. predomina o inglês. Japão. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. mesmo quando escritos em inglês. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. O caso português é singular. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. Turquia. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. etc. a directriz não vigora. não havendo confusão com os sistemas da pandectística.. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). hoje. estão em causa relação inter-pessoais. até. Somos. a grande influência. na área dos negócios e nas relações entre povos. entre interpretação e integração. É um Direito que tem uma evolução histórica. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso.) de sistemas próximos do germânico. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. Em termos planetários. evolução histórica. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica.

No plano oficial. O Prof. dada a insuficiência da língua inglesa. Esta noção presta-se a críticas. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. MENEZES CORDEIRO. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. e não a totalidade. Se A tem direito. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. ele começa a desaparecer. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. Antigamente. havia um domínio de alguém sobre outrem. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. No espaço europeu. como a falta de competência dos órgãos europeus. Fala de um bem a prestar. não há um Governo europeu. para SAVIGNY. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. quando existia obrigação. a vantagem é o bem que será prestado. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. 8 . MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. há muitos constrangimentos. há 500 milhões de pessoas. O direito subjectivo. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. nem uma política externa comum. mas com exagero. juristas portugueses. O melhor Direito é o interno. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo).No tempo do ius commune. Nós. intra muros. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. era o poder da vontade. havia um Direito europeu das obrigações. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. Não teve consequências. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. Para o Prof. forçar a vontade humana.

independentemente de terem culpa). Em regra. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). Há. As pessoas morriam. obrigações. Depois. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. um direito ao património do devedor. no início. A ideia remonta ao antigo Direito romano. as obrigações são cumpridas. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). Se o devedor não cumprir. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. XIX. extingue-se a haftung. 9 . pelo que é excepção o recurso ao património. mas as suas obrigações permaneciam. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Primeiro. Pode haver obrigações sem prestação. todavia. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. Ela. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. independentemente de ser cumprida ou não. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. assentes apenas em deveres acessórios. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. pode-se atingir o seu património. já é um valer em si. sim. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. No séc. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). o dever é sempre um constrangimento ético. mas o seu património. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Na prescrição. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. surge a nova noção de obrigação. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). surgiu a respondência. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. Assim. Os romanistas diziam que não havia.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. Pode ser um facere ou um non facere. A obrigação não é apenas um bem a prestar. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver.

com o credor e vice-versa. não interessam. O BGB já não exige natureza patrimonial. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. A obrigação. etc. Se não são. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. A obrigação do fiador é secundária. compreende um dever de prestar principal. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. A obrigação pressupõe um dever específico. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. Se o devedor principal não cumprir. outra concepção diz que há um direito real de garantia.. tratado mais à frente. Mas.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. pode haver nulidade. O regime é solicitado para um tratamento unitário. deveres secundários e deveres acessórios. O credor fica adstrito a deveres de segurança. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. com dois regimes). Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. pode ainda não existir. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. por si só. colaboração. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. não podendo servir para construir. a responsabilidade é patológica. Em certos casos. não tendo interesse para o Direito nesse caso. 10 . Estas construções são úteis. é o fiador que deve cumprir. um conceito de obrigação. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. sabe-se hoje. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. linguística. em termos pragmáticos. Se é assim. noutros. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. A prestação pode não existir. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. pelo que obrigação não é uma prestação. noutros ainda. Se são. só.

será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). o 398/2. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. de sistema. O 397º define obrigação. compensação – e não de equivalência. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. 2ª parte remete para o interesse. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). mas havendo danos. Hoje isso não é assim. Pode haver execução específica. não necessariamente em todas as situações.Se um artista se obriga a entoar uma ária. As relações de obsequiosidade não são. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. 11 . chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. há sanções pecuniárias compulsórias. tem conteúdo económico. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). acção directa. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. Como são ressarcíveis. boa educação) que não relevam para o direito. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. ela é avaliável em dinheiro. há ressarcibilidade dos danos morais. mas pode receber dinheiro. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. Direito. à partida. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. É assim ao nível global. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. pode haver responsabilidade pela deferência. Não tem de haver natureza patrimonial (398º).

por exemplo). Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. o que tem de surgir é o serviço. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). são para cumprir – se não forem.Há também deveres de protecção. Nas obrigações. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. não. mas não se pode retirar daí uma regra. Assim. nos direitos pessoais de gozo. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. A convida B para dançar. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. duas partes. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. no caso dos direitos reais). que são absolutos? Em termos estruturais. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. Uma última. há créditos absolutos. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. o credor aproveita imediatamente a coisa. A obrigação é uma relação jurídica. absoluta. Esta noção vale o que vale. Deve-se sempre perguntar qual a origem. o direito real é uma situação absoluta. Em obrigações. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. Os acordos de cavalheiros são relevantes. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. a relatividade existe quando há relação jurídica. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Os direitos potestativos são absolutos. seria sempre necessária a mediação. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). Se a prestação for um serviço. relações de vizinhança. há figuras como a execução específica. Quanto aos acordos de cavalheiros. encontramos sempre uma dança a dois. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. 12 . Podem fazê-lo? Em princípio. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). Em direitos reais há só uma. contrapondo-se aos direitos reais. Os créditos não são sempre relativos. erga omnes. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Noutra acepção.

a externa é perante terceiros. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. relações jurídicas. com MANUEL DE ANDRADE. Mas inverteu-se a tendência. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. Deveres acessórios. Mas há outras regras. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. dão lugar a responsabilidade civil. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. o que lhes daria uma tutela relativa. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. As obrigações são vínculos. médio ou fraco. ex. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. No sentido forte. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. Se é assim. p. a figura do terceiro cúmplice). Há uma acção. No início. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. com os pactos de preferência. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. 13 . A doutrina tem evoluído nesse domínio. Na Alemanha diz-se que não. A nossa jurisprudência acordou em 1964. A eficácia interna é entre credor e devedor. Se é assim. PESSOA JORGE). A regra é de que a eficácia é meramente interna. Há contratos com protecção de terceiros. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. então há oponibilidade média. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. Mas há também deveres no tráfego que. pode existir oponibilidade em sentido forte. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. que se manifestam predominantemente perante o devedor. Havia uma quebra maliciosa do contrato.. se incumpridos. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro.

Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida.  Diz que existe numerus clausus. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Se existe uma descrição típica das condutas. O Direito objectivo. O legislador pode dar uma série de exemplos. Todavia. Está tudo ligado. Noutros casos é mesmo normativa. Quando existe um devedor. Contratar-se-ia menos. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. em princípio inatingíveis. Argumentos a favor. Há tipicidade exemplificativa. protecção jurídica. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. Mas esses não se aplicam a terceiros. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. Dá. descrevendo as condutas. é muito mais restrita. ao atribui direitos subjectivos. recorre a tipos – tipicidade. há responsabilidade. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Se ele for atingido. um terceiro faz-se passar por credor. não estão assim tão mal. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. Quando a lei recorre a descrição da realidade. as economias britânica e francesa. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. Quando existe uma previsão normativa. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. mas há várias vias para o conseguir.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. aplicam-se os artigos 798º e ss. Se A contrata com B. não havendo lacuna. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. 14 . pois. como o penal ou o fiscal. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso.  Diz que está proibida a analogia. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. países que admitem a figura. os factos são descritos concretamente. Só pode estatuir com recurso a tipos. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. há um numerus clausus – o número de factos é finito. O terceiro não pode. Isso em princípio. Num ramo típico. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. diz-se. Isso justifica-se em ramos agressivos. proíbe autotutela.

aqui. por conjunções históricas. ao contrário. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Há.Nos contratos há descrição abstracta. tudo é parecido com o Direito das obrigações. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. p. Há tipicidades de tipo científico. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). venire contra factum proprio. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. O conteúdo distingue-se do objecto. de facto. O mediato é também designado por objecto. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. o regime tem um desvio. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Mas existem muitas obrigações nessa área. Mas tem regras especiais. ex. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. direito a uma coisa corpórea. invariavelmente. Obrigações. Os direitos reais têm. O conteúdo das obrigações é sempre. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado.). É muito especial. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. em princípio. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. Nas obrigações isso não existe. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. 15 . um direito e um dever. também. tipicidade exemplificativa. Há. etc. não há numerus clausus e pode haver lacunas. obrigações naturais. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. O Direito comercial é outro ramo especial. Isto é o núcleo duro – há desvios. Há situações de direitos reais que. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. por via de condicionalismos históricos. Aí. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. Autonomizou-se do Direito das obrigações. um princípio de tipicidade.

É o homem médio. São instrumentais em relação a ela. De dare. De pati. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. O devedor está obrigado à diligência média. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias.) e a aquiliana (483º e ss. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. A prestação principal é o núcleo da obrigação. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. as partes pretendem uma determinada conduta. Temos de saber o que é exigível. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. Só é exigível que se esforce até esse ponto. Todavia. Não se trata de um non facere. Não se obrigam a resultados. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. São prestações que complementam a prestação principal. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. Podemos.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Seguem o regime da prestação principal. Por vezes. A de dare consiste na entrega de uma coisa. É o critério do bonus paterfamiliae. tem culpa. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. tendo em conta as circunstâncias do caso. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. Se se comportar abaixo da bitola. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. é um homem médio colocado no caso concreto. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei.). O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. aquilo que for normal num homem médio. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. noutras pretendem o resultado. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). mas à prestação de um serviço com determinada diligência. Ex. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. 16 .: o médico não tem obrigação de curar. por um esforço de análise. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. Foi o critério escolhido pelo legislador.

possível. a obrigação é uma realidade muito complexa. é preciso cumprir de boa fé. rerum sic stantibus. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes).  Círculo externo. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. A culpa in contrahendo. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. só depois a indemnização. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. informação. Os deveres acessórios são imprevisíveis. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. depois a reconstituição natural. 17 . Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. integração de lacunas. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. são soluções para problemas novos. nos deveres acessórios são ambos. determinável. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. tal como se não cumprir o dever acessório. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. O legislador quer primeiro cumprimento. observando os deveres acessórios.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. Não basta cumprir a obrigação. segurança. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. etc. Podem ser deveres de lealdade. A indemnização é uma consequência de segunda linha. Como decorrem da boa fé. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. Substancializam a obrigação. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva).. contratuais e pós-contratuais. A base legal é o 762/2. Está em causa o princípio da tutela da confiança. mas há deveres acessórios pré-contratuais.

2. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. outros não. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. ex. A regra é da fungibilidade. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). uns relacionados. ambos). 18 .  Obrigação de abstenção (simples. 3. Absolutas.). 4. Não é o mesmo que coisa fungível. trata-se de obrigação complexa. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. 5. atípica resulta da autonomia privada. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. transferência de propriedade. Em princípio. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. mas são regularmente utilizadas no sector. etc. nas mistas há vários deveres. porteiro.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. como concessão. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples).).Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. na relativa há.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). p.

Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. Implica especialidade quanto à sua cessação. pelo menos. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. A denúncia seria um dos esquemas. não obstante. determinável. se tiver poder de representação celebra também os negócios). surge na periferia. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. Tipos de obrigações 1. 2. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. Obrigações duradouras Partimos da prestação. É um contrato em especial. sob pena de nulidade (280º). como reacção ao regime feudal. E relações perpétuas. ao contrário das obrigações comuns.6. As questões sociais vieram pugnar por protecção. Não se extinguem com o cumprimento. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. A retribuição é a renda ou aluguer. e outras que se cumprem no tempo. Se fosse logo satisfeito. claro está. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. com dilação temporal juridicamente relevante. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. forma de cessação de um contrato duradouro. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. o principal. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. O Direito civil é um direito prático. em que havia obrigações perpétuas. também. mas pessoais. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. um pré-aviso. Hoje. Há lacuna. Havendo agência. O DL 178/86 trata da cessação da agência. para tutela da confiança. era instantânea. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. É necessário. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. entre o agente e o principal há relação duradoura. 19 . A denúncia. O Prof. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). O conteúdo tem de ser sempre.

políticos. Chegou-se a este panorama aos poucos. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. Se houver inflação. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. 20 . Se é assim. havendo transmissão da coisa arrendada. contraindo empréstimos. por exemplo. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. Há subúrbios. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. porque ele é sempre real). Em 2006 houve um projecto. impedindo actualização das rendas. maior o lucro do trespasse. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Mas também não explica o que é o gozo.No arrendamento domina a autonomia privada. actualizando as rendas. XIX. A solução de quem chega ao mercado é comprar. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. Em 1985 tentou-se reformar. etc. centros das cidades abandonados. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. XX. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. Chegou-se a um regime vinculístico. É um direito real.  Congelamento das rendas. trânsito caótico. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. Nos finais do séc. Em 1990 tentou-se de novo. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. económicos. é figura real o direito de locatário. com a industrialização e grande pressão urbanística. Surgem teorias mistas (entre nós. as rendas vão degradando. Obrigação de deixar usar? Seria negativo.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Quanto mais baixa a renda. inícios do séc. mas também não chegou a bom porto. para o futuro). Logo. Há bloqueios ideológicos. menor taxa de natalidade.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). O 1743º do CC francês determina que.

21 . a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). defender o seu direito face a terceiros. Era um débito sem respondência. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Seguem. o que os aproxima dos direitos de crédito. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. Essa tese é inaceitável. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). Comportam-se. como direitos reais. Não tem uma grande relevância prática. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). Os direitos pessoais de gozo não são típicos. pelo que ele se pode defender sozinho. em regra. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. é histórica. entre os direitos reais e os de crédito. nesta matéria o regime dos direitos reais. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. por ser figura próxima do direito de crédito. mas sem shuld. Estabelece que prevalece o direito real. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. 3. A pessoa estava obrigada a fazer algo. Mas mudou de ideias. de forma similar aos direitos reais. Juridicamente não tinha personalidade. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Obrigações naturais É figura muito estudada. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. O Direito dizia que ele estava obrigado. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. Uns são pessoais e outros são reais. tendo um direito de preferência sobre a coisa. Mas pode ser integrado no Livro II. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. porque não era uma pessoa. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. o locatário pode fazer obras. Admitese a existência de direitos de gozo. já que é ela que as explica. na locação. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. Em geral. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. pois. no conflito com outros direitos. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. com recurso aos tribunais).

Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. porque elas são típicas. Se eu pagar. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. mas também as obrigações 22 . pois. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. transformando-as em naturais. não jurídicas. A lei. Em tudo o resto. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. Havia ligação entre o Direito e a moral. a moral é uma coisa e o Direito outra. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. Todavia. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. Hoje. Aparentemente. Não pode ser exigível judicialmente.  O 404º. diz-se por vezes. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. aplica-se o regime das obrigações civis. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade.  As obrigações naturais são típicas (809º). o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. No período medieval.. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. com base no 404º.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. As obrigações naturais. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. Esta matéria está regulada no 402º.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. diferente de um Direito moralmente enformado. É jurídico. Noção legal (402º).A isso chamaram obrigações naturais. Isso não é verdade. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. jurídica. etc. Tiveram uma evolução muito atormentada. A obrigação natural deve ser. Mas isto não pode ser. sociais. não posso pedir devolução do que paguei. não têm valor patrimonial. A justiça é aquilo que o Direito consagra. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. etc. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Não podem ser constituídas por contrato.

Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. rege o favor debitoris. Os contraentes podem estipular diferentemente. dare ou pati. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. A escolha e o risco O 539º estabelece que. há obrigação genérica. No Direito romano eram desconhecidas. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. dando lugar a obrigações genéricas. com a massificação das transacções. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. Desde que a coisa a entregar não seja única. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. 23 . Só se determina o género. As obrigações genéricas são muito importantes. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. escolhe o devedor. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Não havendo convenção. que podem ser de facere. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. Deve-se escolher a coisa média. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. 4. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Logo. Não é o sentido do 400º. podendo ser qualquer litro de azeite. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. quantidade ou qualidade. é fungível. se nada for estipulado. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. O problema que surge é o da determinação do objecto. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. há uma lacuna negocial. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. Na falta de acordo. o critério deve ser o da mediania. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. Ele é determinável mas não está determinado. o critério é o da mediania.civis podem não ser cumpridas.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

24

7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

26

uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. seja porque o regime é unitário. por exemplo). implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. de modo a assegurar o cumprimento. Na prática. que é sempre singular).noção. a regra supletiva é a da solidariedade. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. MENEZES CORDEIRO defende que. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. na falta de estipulação em contrário. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. O credor só pode exigir de cada um essa parte. mas complexa. para proteger o lesado. a lei estabelece solidariedade. Nestes casos. todos têm de prestar ao mesmo tempo. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. Rege o 512º . um concerto de orquestra. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. quando há vários sujeitos numa obrigação. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. É um regime mais duro para o devedor. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. Existe uma presunção de igualdade das quotas. Quando vão cumprir. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. Aumenta a garantia do credor. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. os credores). A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. Há obrigações que são à partida divisíveis. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. Ao contrário da parciariedade. Em resumo. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. porque também temos de tratar das relações internas. Os vários sujeitos têm relações entre si. seja porque existe expressão linguística unitária. É só uma. No Direito comercial. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. isso não multiplica a obrigação. Presume-se que as partes de cada um são iguais. 27 . há outras que só o são se as partes acordarem.

Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. No período da pré-codificação francesa. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. não sendo nem uma nem outra. ex. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. pessoal seria a prescrição. Uma prestação pode. São duas fontes fundamentais de obrigações. o do devedor e o do fiador. tal como os direitos reais. quando alguém contrata a solidariedade. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. Na solidariedade há co-devedores. um credor e um credor pignoratício.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. É uma bipartição importante. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. Normalmente. à estatuição de uma norma. se não houver outro acordo. tem regime diferente. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. Mas é uma pluralidade heterogénea. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. é natural que existam meios de defesa dos devedores. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. significa que há alguma coisa a mais. p. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. já que o fraccionamento é feito posteriormente. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. há “gato”. A lei poderia ser fonte de obrigações. Eram fontes que. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. ex. Surgiu o esforço de sistematização. aqui. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação.). Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. p. 28 . um A. ter duplo aproveitamento. Também existe. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. só dele (não os meios pessoais de outro). uma classificação das fontes. presunção de igualdade (516º). O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. ex. p. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. acrescentou a lei. Precisa de um facto jurídico para nascer.

no tempo e no espaço.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. nuns e noutros a mesma coisa. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. O direito privado tem 2000 anos. p. As divisões não significam. enquanto a lei é norma heterónoma. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações.). Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. O que se deve. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. enumera-se o contrato. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. 29 . É difícil unificar. todavia. mas enumeração. Há um encadeamento. como se usou em 1867 e 1966. que é comum a todos os direitos europeus. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. desde logo. Já nos sécs. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. apesar de não haver classificação qua tale. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. de se autodeterminarem. ex. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). Onde se avançou mais foi na matéria contratual. a gestão de negócios. em vez de adoptar a repartição tradicional. Com o CC de 1966 também não existe classificação. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. O Código de Seabra faia um elenco original. referência à tetrapartição. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. Mas ele é mesmo muito reduzido. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. a partir do 405º. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. Faz-se. o enriquecimento sem causa. Enumera algumas fontes. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. a melhor técnica é a tipológica. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. Em termos estatísticos. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. então. o negócio unilateral.

O contrato. Passava a ser vinculativo por isso. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. para o Prof. O socialismo ataca o contrato. É importante considerar o canonismo. manifestação da importância do contrato. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. É o sistema de tipo francês. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. É necessário que haja propriedade. diz-se muitas vezes. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. já o negócio obtém-se pela razão. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). o próprio contrato perde espaço. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. mas se lemos artigos sobre negócios. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. Mais tarde. Os romanos conheciam figuras equivalentes. No Direito da Família também: contrato de casamento. o contrato está sempre subjacente. nas Obrigações é o contrato. surgindo os contratos que hoje são básicos. igualmente. Dá-se uma grande explosão. em lei de Maio de 1352. O contrato valia por si. está em crise. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. com SAVIGNY. 30 . Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). tem menos aplicação. Dinis. se a sociedade é subdesenvolvida. vai na direcção do contrato. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. mas existe pacto sucessório. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. D. a bona fides perderá o seu significado. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. Assim. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. de acordo com a escola histórica e a pandectística. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. No Direito sucessório é mais raro. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. Daria frutos no período jusnaturalista. É um diploma bem feito. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. consensual – basta haver contrato. O CCP trata da matéria. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. Menezes Cordeiro. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. O contrato tem um papel muito alargado. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus.

O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. pois. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. valores mobiliários. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. racionalidade. necessidade de consagrar na CRP. Todavia. pelo menos para coisas úteis.No séc. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. Com a queda do Muro. não se trata de um recuo do contrato.). O contrato tem peso em si. os observadores previram explosão dos contratos. etc. Não houve. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. pecuniários. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. porque não foi necessário. 31 . no artigo 8º/2. Tutela constitucional do contrato A CRP. à partida. Tecnicamente. Mas isso não aconteceu. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. É uma visão pessimista. É óbvia. diminuindo a liberdade contratual (banca. incluindo direitos de créditos). os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. seguros. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. Se a lei não dissesse nada.). como o da boa fé. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. etc. mas de certos contratos.  Intervenção judicial nos contratos. O contrato é. plurais. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. Graças às convenções internacionais.  Áreas reguladas. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. O 56º/3 garante a contratação colectiva. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. não relevaria: eles devem ser cumpridos. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. O contrato é um véu que tapa os olhos.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial.

32 . Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. Pode haver tipo social e tipo legal. no entanto. Consensuais. não dá para classificar em abstracto. reais quoad constitutionem e quoad effectum. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. O contrato de hospedagem. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. maior equilíbrio. em princípio também não o regula. mas a lei não o disciplinou. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. bem como diminui as dúvidas. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. é nominado mas atípico. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. 3. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. regulando com especialidade. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. fica fragilizada. 5. 2. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. vindo a aperfeiçoar-se. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Quando a lei não lhe dá um nome. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais.1. o contrato é bilateral. nominados e inominados. Fala-se. Perante o conceito de negócio jurídico. Terceiro. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. consideradas mais sensíveis. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. É distinção relativa. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. Todos os negócios são contratos bilaterais. Segundo. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. por vezes.

O problema é que. pois. tendo em conta o relevo de que se revestem. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. Tipologias de contratos Contratos típicos. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. hoje. Tendo em conta este facto. Nos monovinculantes há duas partes. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. Há 16 contratos regulados no Código Civil. reciprocidade. O problema é que. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. uma delas não fica obrigada. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. em regra. podemos distinguir entre negócios típicos. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. Embora o 405º seja muito abrangente. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. se as partes celebram contratos mistos. É sinalagmático. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. O estudo desta matéria não é fácil. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. uma vez que domina a autonomia privada. Há. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. É diferente da vinculatividade. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. 7. a parte geral é muito restrita. Os gratuitos são. As partes querem dar. solicitar ao outro a efectuação da prestação. 33 . O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. A generalidade das normas é supletiva. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. À luz do 405º. querendo. Fica com o direito potestativo de. no entanto. passa entre as gotas da chuva. Em regra. as partes têm liberdade de celebrar livremente. 6.

não para que se porte como proprietário. mas recebe em géneros. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. aplicando todos. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. não havendo uma principal. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. 34 .: A comprou 15 dias num cruzeiro. O resto é extra. devolve-lha. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. em troca de explicações. etc. na prática. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. Os combinados distinguem-se dos complementados. que lava também a roupa de cama.: A compra por preço muito baixo. Ex. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. o negócio aproxima-se da gratuitidade. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. embora tenha havido preço. que absorverá os outros.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. Ex. Ex. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. os serviços de limpeza. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. A autonomia privada é o pano de fundo. comida. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. Isto só resulta se houver confiança. 3. mas como tendo a casa como refém. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. cama. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. quando acabar. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. 4. A tem dívida para com B. Em troca do preço recebe um quarto (locação).: A arrenda um quarto a B. Há mistura. próprias de vários contratos. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. 2. Não tem salário. entretenimento. Ex. comida. Não pode ser um mero pormenor. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. o locador.: A recebe habitação. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português.

Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. se na lei houver solução. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. mas os serviços que o centro proporciona. o arrendamento tem muitas normas imperativas. sem intenção de enganar). tal como o da vontade das partes. 3. Pode haver várias funções: simulação. O que é específico é a marca. A seguir temos de resolver com analogia.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. Regra geral. Aqui. é também acompanhado de distribuição. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). P. Quando nada se diz. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. nomeia concessionários. O limite é o das normas imperativas. no entanto. Quando há lacuna contratual. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. é esse que se aplica. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. ex. e também com a agência. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. O método foi o da analogia. aplica-se o regime do tipo x. É contrato de agência que foi encontrado. para que os distribua. mas o contrato é usado para uma função diferente. Se não for suficiente. aplica-se essa solução. então celebra-se o y). Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. bem como sinergia do ponto de vista económico. A solução foi a da analogia. Há semelhança entre a agência e a concessão. Mas isso é raro. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. O promotor é remunerado através da renda. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. 35 . gestão do centro. a solução também foi a da analogia. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. a primeira solução é a da vontade das partes. a outra também. Recorre-se ao regime da agência. Hoje. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. 4. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. Se ele corresponder ao tipo x. é uma área vinculística. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. por analogia. publicidade. No caso do porteiro isso é evidente. aplicam-se as regras desse tipo. Pode. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza.2. o combinado e o híbrido. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. Mas não é normal. segurança. acabavam os centros comerciais. Em Portugal. a quem entrega os bens.

São óbices consideráveis. Se ela tem natureza real. No Direito português. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. o fiduciário. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. Quem recebia a coisa com fidutia. em benefício de quem a entregava. a fidúcia é muito violenta para o devedor. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. porque doações de bens futuros não são permitidas. M. Procura-se o centro de gravidade. era o proprietário da coisa. ao contrário do alemão. O fiduciário é proprietário. interna e alternada. Se for à falência. aplica-se o regime correspondente.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. mas para o de terceiro. na contratação alternada valia ou um ou o outro. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Ele é permitido se não violar regras imperativas. teremos uma figura real não prevista na lei. Descobrindo-o. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). não permite divisão da coisa entregue. 36 . Os nossos clássicos dizem que não é permitido. O fiduciante é só entre outros.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. Mas o Prof. Mas. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. O fiduciário é de execução prolongada. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. já que o Direito existe para proteger os fracos. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia.

de tipo não processual. por exemplo. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. homogéneos e heterogéneos. 830º. Importou do BGB a execução específica. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. A figura da absorção. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. execução específica). A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. causais. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. No Direito português tem grande importância.. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. dependentes e independentes. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. de tipo processual. Segundo o Código de 1867. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. A celebração de uma escritura pública demora tempo. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. para o sinal. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Há muita jurisprudência sobre isto. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. sem recorrer à escritura pública. devia ser celebrado por escrito. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. sendo diferente o regime. 442º. há centros de gravidade múltiplos. a promessa valia apenas como prestação de facto. O contrato prometido e o contrato definitivo. Mas nunca é irrelevante. É uma ideia relativamente recente. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. Hodiernamente. 37 . tem eficácia real. A promessa por escrito era válida na hora. rege nos contratos mistos.

A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. Regra geral. 1. O contrato-promessa distingue-se da proposta. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. um modo geral de celebrar outros contratos. 3. um modus vivendi. ex. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. etc. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. para preparar o contrato definitivo. na promessa tem de haver negociação). 38 . Há contratos que. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. desformalização. Como no Direito alemão. é possível a execução específica no caso de incumprimento. É a função preparatória.). Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. por vezes. do dever legal de contratar. Quanto à prometibilidade fraca. transacção meramente obrigacional. 4. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa.. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). financiamento. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. Função preliminar. ex. Desformalização. p. do exercício de preferência. os contratos são dotados de prometibilidade forte. tendo isso em conta. Regulativa autónoma. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. do contrato preparatório material. Mitigada ou mitigadora. É usado.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. 5. acabamento da coisa. mitigada. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. uma vez prometido. sobre a entrega. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. É um formato. na promessa sabe-se). do convite a contratar (A solicita a B que contrate). regulativa autónoma. Meramente obrigacional. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. 2. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). P. não podem ser objecto de promessa. Por vezes.

Pode fazê-lo. a proposta ainda não foi feita. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. Mas. Não se trata de um contrato-promessa. etc. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. etc. Isso não é correcto. Isso não vem na lei. e o outro não cumprir. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. Não há contrato-promessa de doação. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. proximidade. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. o que está em causa não é a regulação de um contrato. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. Com o não cumprimento. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. estão nos antípodas. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. 39 . se não houve entrega da coisa. também não há uma regra expressa que o diga. mas ineficaz quanto às prestações principais. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. É um contrato à parte. imperativo.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. O nome é parecido. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. até é possível haver excepções ao que se disse. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º.) que conduz à possibilidade de revogação. mas a situação subjacente é diferente. a obrigar a algo que poderia revogar. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. Não vincula o promitente a doar.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. O problema é que. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. tendo em conta o regime.. às consequências pela ingratidão. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. É verdade que existe um regime jurídico. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. No contrato-promessa. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). mas que tinha um regime especial. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. à partida. do 1591º e SS. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. diferente do regime do contrato-promessa.

o regime é o do 219º liberdade de forma. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. não se entende porque só um assina. A questão das assinaturas é meramente formal. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. é a solução. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. Não haveria problema de prova nem dúvidas. Para o prof. Se para o prometido for necessário documento. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Uns defendem a redução. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. aplica-se a regra geral. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). autêntico ou particular. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Assim. 40 . O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. é preciso o acordo de ambas). para ser quantos se obrigam. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. Mas isso é errado. outros a conversão. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. nos termos do 293º. Se o documento é a materialização do acordo. ainda que não tenham as duas assinaturas. A conversão. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Na prática. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. O 410º/2 regula a forma. Na normalidade dos casos. MENEZES CORDEIRO em princípio. tendo enorme relevância. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. Se for livre também o contrato-promessa é livre.Hoje em dia. Estipulações acessórias são válidas. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. Por isso. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. em regra o promitente alienante. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. não se precisa é de assinar. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão.

A parte geral também tem regras. também. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. p. ficando com um contrato-promessa monovinculante. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. integralidade. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. Obedece a normas: os princípios da correspondência. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. Há. possa reduzir-se o negócio. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. no 3. Surgiu na década de 1980. com excepção das relativas à forma e as disposições que. por sua razão de ser. 41 . A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. Neste momento. em certos casos. Nestes casos. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. Trata-se. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. havendo grandes atropelos ao direito. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. Admite que. concretização e boa fé. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). ex. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. de invalidade mista. Se a promessa for monovinculante. Este princípio. Pode ser paralisada através do abuso de direito. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. se nada disserem.Mas não é fundamentalista. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. Havendo contrato-promessa. a se. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. o regime é o da reforma de 1986. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. este deve adquiri-la. MC sugere a ideia de modus contrahendo. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo.

em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. etc. Incumprimento há quando. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. não foi. alterando as palavras. Se não houver. impossibilidade superveniente. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). violação positiva do contrato. pode haver resolução. O promitente fiel é o que é prejudicado. Ou há mora. mantendo-se o contrato-promessa. etc. aplica-se o 280º. uma via crucis. Isto é uma trapalhada. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. O incumprimento extingue a prestação principal. 42 . o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). o faltoso é o que não cumpre. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). se o contrato-promessa permitir. Se isto não for possível. se for cumprido. que resolvem inovar. há inadimplemento. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. se forem válidas e eficazes. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. Muitas vezes há AA. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. local. Legitimidade. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento.). MC entende que isso não pode ficar assim. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. a lei prevê a interpelação admonitória. O definitivo está previsto no contrato-promessa. Pode haver uma impossibilidade superveniente. À partida. prazo. se não for cumprido.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. imputação.. violação de deveres acessórios. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss.). Pode acontecer que seja lacunar. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. Se houver situação de mora. Pode haver recusa antecipada a cumprir. inclui-se a coisa no cumprimento. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. lugar. devolve-se em dobro. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo.

 Quando há tradição da coisa prometida. que chegava aos 20. o sinal tinha alcance coercivo. Assim. Tem um direito de liquidação judicial. Houve várias propostas para resolver a situação. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980).  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. A jurisprudência.No Direito grego antigo. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. no entanto. Tornava-se compensador não cumprir. penal. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. os sinais deixavam de valer tanto. Enganou-se e mexeu em tudo. Em 1980 havia grande inflação. mas o valor actual da coisa. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. ajudava a provar a existência do contrato. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. vender a coisa e recolher o preço. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. se houve incumprimento. o sinal ganha coloração particular. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. Quando metido no contrato-promessa. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. O Governo resolveu intervir. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. celebrando-se contratos-promessas. O imobiliário estava sempre a subir. na fase executiva. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. A ideia era: como a inflação é muito alta. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. O problema viria a ser resolvido em 1986. Quando mexeu no 442º. recebiam-se sinais. mexeu no regime do sinal. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. faziam-se casas. com a inflação. começou a resolver o problema diferentemente. 43 . Assim. O retentor pode. 30%. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. O que estava em causa eram casas de habitação. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. a indemnização já não é o sinal em dobro. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). Afastouse a possibilidade de execução específica. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género.

44 . A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. Tendo havido mora. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. Lobo Xavier. Além disso. a favor do promitente adquirente traditário. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. não há logo incumprimento definitivo. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. introduzir correcções. mesmo que anteriormente registada. fixa-se um novo prazo. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. é mais selectivo. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. Se houver morar. a primeira consequência é entrar em mora (805º). exige mais garantias. Tentou-se. congelando o direito ao valor da coisa. Houve excessos legislativos. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. ele é deduzido do preço. Todavia. Assim.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. Se houver sinal. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. com a solução do Prof. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. Tentou-se limar algumas arestas. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. Assim. pela interpretação). Em 1986 o legislador interveio novamente. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. O hipotecário ver-se-ia preterido. perderam a objectividade. não sendo necessária a interpelação admonitória. O Prof. É um esquema complicado. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. doutrinariamente. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. ficou consagrada a indemnização pelo valo. Vários AA.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. ainda assim. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. Se houver mora. É uma “excepção de cumprimento”. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa.

Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). destrói o contrato retroactivamente. Se for um representante. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. O que é que as partes pretenderam? 1. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. não há posse. Se é esse o sentido da cláusula. Pode ser uma gentileza mais demorada. É posse semelhante à do arrendatário. Um contrato de comodato. É uma posse muito elementar. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. A menos que.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. quando haja incumprimento. porque tem uma cláusula daquelas. 45 . MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. a troco da entrega da casa. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. O contrato-promessa já é um contrato misto. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. se há sinal. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. No Direito funciona-se com prazos. no entanto. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. É um contrato que dá direitos muito precários. 2. É celebrado contrato-promessa. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. Neste momento. O Prof. Assim. A resolução. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. deve ser tomado seriamente. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. A distinção é importante. É verdade. Tradição da coisa Tecnicamente. O sinal visa uma função compensatória. Se resolve o contrato por incumprimento. desaparece também o sinal. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. Se for possuidor tem defesas possessórias. 3. bem entendido. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. Alguns autores dizem que. o que deve fazer é resolver o contrato. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. operando o sinal.

Se há excepção do cumprimento. A solução mais normal é a execução específica. houve incumprimento. colocando no terreno. Aqui temos posse em termos de propriedade. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. Mas isso já estava subentendido. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. 46 . No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Consoante o tipo de posse. dir-se-á que não podemos obrigar. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. Quando se trata de acções humanas. seria impossível apresentar-se a cumprir. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. Estamos perante um facto. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. Contudo. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. muda o regime. mas não especificou. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Passa até à frente do credor pignoratício. também. soluções alternativas à indemnização. Leva ao mesmo. houver sinal. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. é muito difícil determinar a indemnização. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. através dos seus meios. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. por maioria de razão também há sinal comum. Se tivesse havido incumprimento definitivo. Se de facto houve perda do interesse.4. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Assim. Em 1980 o regime foi alterado. O interessado pode ainda optar pela execução específica. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. Assim. Foi uma ideia prussiana. Se houve. Já está tudo pago. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. para além da tradição. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. pelo que há entrega da coisa. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. já vinha de trás.

A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. mas vende a C. as custas ficaram por sua conta. contudo. Contudo. Mas nem sempre. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. verdadeiramente. O Prof. ex. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. em 1980 o legislador foi desastrado. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B.Houve soluções doutrinárias. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. O tribunal não emite. Simplesmente. no momento em que é decretada a execução específica. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. Simplesmente. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. Não valerá a pena recorrer à execução. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. 47 .  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Aí. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. é muito difícil calcular a indemnização. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. Nos outros a questão não se colocava. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. Haverá consequências indemnizatórias. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. p. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. Perante o incumprimento. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. já que a prestação se tornou impossível. a declaração faltosa. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3.

Já no penhor ou no mútuo faz sentido. p. poderia ser revogado. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. O comodato pode cessar a qualquer altura. No caso do contrato de trabalho. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Contudo. 48 . limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. comodato). Quando seja celebrado um contrato-promessa. in fine). ex. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias.  A exclusão convencional. MC entende que sim. demissão). O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. tão pouco. já não é de todo possível a execução. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Contudo. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. mesmo que houvesse. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. Igualmente. pode acontecer que.) também não pode haver execução. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. Não faria sentido a execução de um contrato que. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. Mas a lei admite mandato irrevogável.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. Tem de haver ponderação de interesses. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. Aí já faz sentido. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). por sua natureza. Nessa altura. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. Mas. Se houver situação de inexistência. se verifique uma alteração das circunstâncias. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. Mas aí não cabe execução específica. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. depois. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. Não pode haver execução de contrato que não existe. Todavia. o 830/1 admite a possibilidade. não se iria muito longe (despedimento. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática.

 Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. alguns entendem que cabe execução específica. Promove logo a transmissão da propriedade. ficando privada do preço. convenção expressa de atribuição de eficácia real. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. execução específica. Se não for cumprido.  Há execução específica. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. A outra parte pode não ter sido paga. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. mas contra o terceiro (Dias Marques). pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. escritura pública. não é norma de excepção. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. vendendo a terceiro. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. a lei alemã permite um pré-registo. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. outros recusam essa solução. Se o preço não for pago há injustiça. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. Ora. Através da eficácia real conseguir-se-ia. que a foi buscar ao Direito alemão.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. qual a solução? Normalmente. Assim. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. Vaz Serra. registo da promessa. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel.Depósito do preço A sentença é translativa. O Prof. Deixou de se exigir a escritura. reforçando-se o registo. O que está em causa é que o dever seja cumprido. 49 .

pelo menos em parte. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. A lei proíbe. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. por vezes. levar ao apagamento do definitivo. à negação da própria promessa. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. ainda que devido e pré-regulamentado. Desta primazia dogmática do contrato-promessa.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. uma vez concluída. com o contrato definitivo. em definitivo. A primeira opção explicativa leva. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. a execução específica não é puramente executiva. uma vez que dela nada sai de preexistente. as partes obrigam-se. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. a celebração das promessas. em relação ao definitivo. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. o que esteja em causa. no entanto. Justamente por. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. De seguida. como contrato autónoma. tão-só. as partes regularem. de facto. a contratar. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. na promessa. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. Ao celebrar o contrato-promessa. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. tão-pouco é declarativa. um acto de execução do que já estaria combinado. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. delimitando. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. Mau grado a primazia reguladora da promessa. o contrato definitivo não perde em categoria. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. no fundo. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. continua a ser um verdadeiro contrato. 50 . apenas. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. em função dele. Nos extremos.

uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. em Direito. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. A favor do co-herdeiro (2130º). nesse sentido. deve vendê-lo. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. pelo artigo 1535º (1901º). com o qual o negócio fora ajustado. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. O direito de preferência. pelo preço em causa. por χ. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). perdendo a plena disposição do seu bem. ao preferente. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. antes. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. Em regra. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. caso este queira. Diz-se. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). A favor do fundeiro (1535º). Da mesma forma. o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. Por exemplo: o obrigado. 1380º e 1381º). um dia. quando convencionalmente estabelecido. tem. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. essencialmente. 1519º e 1523º). A favor do senhorio (1112º/4). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. De resto.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. 51 . A favor da pessoa designada em testamento (2235º). caso queira vender um prédio a alguém.

na opinião dominante. apenas uma das partes fica obrigada. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau.  A opção – figura inominada e atípica. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. 52 . ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. Na segunda. observadas determinadas formalidades. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. todavia.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. ora reais. Modalidades. ainda e por elas. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. uma vez que a outra emite logo a declaração final. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. consoante a opção das partes e isso desde que. ao preferente. a real. relativo à acção da preferência. tem cabimento recorrer à acção de preferência. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. nos termos do 414º. violado o pacto. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). a preferência real confere. Na primeira. a preferência legal advém da lei. não podendo o preferente fazer seu o negócio.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. através de uma acção de preferência (1410º/1). sejam. uma indemnização. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. a um direito real de aquisição. ao obrigado faltoso. quando violada. nesta última hipótese. permite ao preferente exigir. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. As preferências convencionais são ora obrigacionais. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro.  A preferência obrigacional.

o artigo 410º/2. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. Propõe-se a aplicação. do princípio da equiparação. se o pacto for bivinculante (bilateral). a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. como cláusula num pacto mais vasto. desencadeando o funcionamento do pacto. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. a menos que ambas as partes se vinculem. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). quando o contrato preferível exija documento. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. Tendo conhecimento do pacto de preferência. de acordo com as regras gerais (219º). de liberdade de forma. como a de fazer a competente comunicação. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. Num pacto de preferência comum. O modus praelationis. Bastaria a assinatura deste. daí resulta a aplicação. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. recebem os deveres. ao pacto de preferência. por ele. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. os ónus e os encargos envolvidos.Forma O artigo 415º manda aplicar.  Porém. a essa luz. deve-se lidar com os deveres acessórios.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. de onde promanam deveres para ambas as partes. próprias do contrato preferível. à preferência. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. Todavia. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. por parte de um terceiro. é afectado de algum modo. E sendo este o caso. ao pacto de preferência. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. o terceiro deve-se abster de contratar. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. pretenda contratar com o obrigado à preferência. próprio do contrato-promessa. por definição. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. podendo. Com uma prevenção: numa situação de preferência. eventualmente. perante o Direito vigente. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. 53 . quer autêntico quer particular. em regra. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). das regras aplicáveis à capacidade. Pergunta-se se o terceiro que.

Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. exige-se forma escrita. de pleno direito. quer particular.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. com alterações. convicto de que. A comunicação não está sujeito. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. A não se verificarem tais requisitos. com base nela. A resposta do preferente. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. o represente. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. quer autêntico. envolve.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. não o quer. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. modificações ou reticencias. por opção do beneficiário. declarando que não está interessado. já que o terceiro não celebraria tal contrato. isto é.  Ou renuncia à preferência.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. A “aceitação” da comunicação para preferência. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. na mesma linha. com poderes bastantes. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. pelo menos. se vem mesmo a concluir na esfera deste. Havendo vários preferentes. na presença de um projecto de contrato firme e sério. se não o fizer. afinal. É o que dispõe o artigo 416º/1. por parte do preferente. o terceiro ficará com o negócio. ficando o contrato por celebrar. por lei expressa. Havendo aceitação da comunicação de preferência. perfila-se o contrato definitivo. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. 54 . o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. deixando o negócio para o terceiro que. Finalmente. ao seu direito. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. e estará enganado. uma de duas:  Ou o preferente prefere. por aplicação do 410º/2. esta deve ser feita ao preferente. o contrato. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou.  Ou o preferente rejeita. a renúncia. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). pelo menos.Na posse dessa proposta.

Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. pode. é excluída da preferência. Prestação acessória. quando se reporte a uma universalidade. Não o sendo. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. o preferente desiste ou prefere em conjunto. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. então. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. De todo o modo. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. ou não. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. não o sendo. nenhum princípio de especialidade. 1ª parte).  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. recebida a comunicação. 55 . o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. dependendo das circunstâncias. sem prejuízo para o interessado. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1.  Não sendo avaliável em dinheiro. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. podem umas e outros ser desagregados. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. o que terá que provar.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. Observar-se-á. As valorações subjacentes ao artigo 417º. Existem três possibilidades básicas. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. ou não. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. o contrato será seguramente único. no nosso Direito da compra e venda. apontam. divisível?  E não sendo divisível.

moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. sempre. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). abre-se licitação. esta última: trata-se de um facere jurídico. a todos os preferentes. em caso de violação de uma preferência real. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. Havendo eficácia real. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. 56 . E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. em termos de aquisição. A prestação principal é.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. sem seguir o procedimento da preferência. afastando. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. com o preferente. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. Verificados os pressupostos.  Concluir o contrato em causa. A acção de preferência permite ao preferente. seguramente. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. com isso. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. nas condições fixadas. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. Segundo o artigo 1410º/1. fazer seu o negócio faltoso. 1ª parte). revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). feito no artigo 410º/2. desde que este as acompanhe. os restantes: não havendo processo de escolha. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. ao preço e à identidade do requerente.

o titular ou o optante) recebe o direito de. ora. esta não depende da intervenção da parte vinculada. na conclusão. por mera declaração unilateral. 57 . na opção. a celebração. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. aqui. A opção.  Quanto à execução. no cumprimento. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). Haverá que aplicar. por uma simples manifestação da sua vontade. o qual. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. Aplicam-se aqui. provocar o aparecimento do contrato definitivo. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. declarações de ambas as partes. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. excepto no que tanja ao cumprimento deste. na opção basta a declaração do beneficiário. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. execução e incumprimento No que toca ao optante. que exigirá. do definitivo. o artigo 411º: o vinculado pede. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. Logo. directamente ou por analogia. tendentes à conformação do contrato definitivo.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. por analogia.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. só será válida e eficaz se. dá azo ao contrato definitivo. por ambas as partes. a opção cessa. um verdadeiro contrato-promessa. todavia. ao tribunal. passando a integrar o definitivo. Direito e deveres. ele recebe o direito potestativo de. na execução. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. da posição de contratante e do valor que ela representa. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. perante o concreto contrato definitivo em causa.

no memento escolhido. uma das partes (o promitente) assume. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. com relevo para o pagamento do preço da opção. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. Assim. dando-a em garantia ou alienando-a. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). por analogia. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. natureza e aplicações Celebrando uma opção. a cargo. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. designadamente para a parte optante. o artigo 762º/2 e. perante a outra (promissário). as partes congelam as condições da venda. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. do definitivo. a sua opção. Actuada a opção. Como princípio geral. Ambas as partes ficam . entre outros aspectos. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. por seu turno. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. a qual adquire um direito à prestação. Funções. Ainda o mesmo optante pode colocar. surge o contrato definitivo.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. no mercado. o qual deve ser cumprido. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). No plano do seu conteúdo. pode facturar o premio da opção. respectivamente. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. que exercerá o seu direito se o entender. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. o artigo 272º: na pendência da opção. O obrigado.todavia. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. partes no contrato. do optante e do adstrito. por via dos artigo 295º e 221º/2. há que lhe aplicar. O risco desaparece. 58 . uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). directamente. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa.

deste cerne. devam ser trocadas entre os mesmos.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. quando esse seja o conteúdo da promessa. pelo contrário.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. O regime concreto de tais prestações.  A de exigir. porventura. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. O terceiro adquire o direito à prestação. nessa altura. a contrario e 448º/1. perante o terceiro. especificamente. as prestações ou outras vantagens que. ao promitente. A posição do promitente. 1ª parte). a efectivação da promessa ao terceiro. imediatamente. a prestação principal O promitente tem. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. porventura. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. por exigência deste e do promissário. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. fundamentalmente.  A de exigir. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. Tal permite excluir. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). do promitente. lhe possam advir da relação básica (405º). a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. o direito à prestação: independentemente da aceitação. As prestações que. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. A posição do terceiro O terceiro adquire. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. contratos como o casamento ou a doação. do promitente. 59 . de forma geral. pelo contrato a seu favor.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem.

Desde modo. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. não sendo parte do contrato. a contrario). Num primeiro tempo. de lealdade e de informação. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade.Perante um contrato a favor de terceiro. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva.  O terceiro. Electio ou electio amici: a escolha. antes dela. ainda. no limite. Na linguagem desde subsector. por não ser o destinatário da prestação acordada. de adesão. sobre si. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. por não ter sido celebrado com o terceiro é. não tem. logo. a fiscalização da contraparte. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro.  Torna a promessa firme (446º/1. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. a contrario e fortiori). o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. quando se desempenhe perante o terceiro. ao abrigo das regras gerais (217º). pode desinteressar-se dela ou. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. antes de ter ocorrido a sua nomeação. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. desconhece os precisos termos envolvidos. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. nada fazer. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. Amicus: o terceiro. Pode-se. pode ser menos diligente ou até. Esta apenas consolida um contrato que. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. 60 . instável. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. porém. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar.  O promissário. Eligendus: o terceiro. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. através da regra da boa fé (762º/2). pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente.

Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). Embora a lei não o diga. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. num todo coerente. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. seja em termos técnicos. concordância do amicus e electio.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. seja em moldes sócio culturais. altura em que o contrato ficará sem efeito.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. pois. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato.Regime. A electio tem. Como tratá-las? Com o tempo. a cláusula “pessoa a nomear”. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. Concluído o contrato para pessoa a nomear. produz efeitos em relação ao contraente originário. dele se aproximavam. tal como sucede com a ratificação (262º/2). Feita regularmente e comunicada a designação. ao outro contraente. em princípio. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. Ele implica. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). foram surgindo figuras que. do próprio contrato que a contenha. 61 . quando superior (454º/2). Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. eficácia retroactiva. As fontes paracontratuais Ao longo da História. não reunindo as características perfeitas do contrato. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma.

seja na formação. sem integrar previsões contratuais. no tráfego moderno de massas.  Situações de proximidade contratual. chega-se.  Inserção em organizações comunitárias. seja nos preliminares. derivada do facto simples de um contacto social. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. 62 . de lealdade e de informação. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. em termos rigorosos.  As relações contratuais sem contrato. uma parte razoável do seu regime.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. depois. ser reconduzidas ao contrato mas que. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. para certos fins. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas.  Situações de relações jurídicas complexas. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. o contrato. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). tivesse ocorrido qualquer contrato. Relações paracontratuais em especial 1. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique.  Os contratos com protecção de terceiros. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. esta relação fundir-se-ia nele. com ele. execução de relações duradouras. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. na sua origem. isolam-se:  As relações contratuais de facto. muitas vezes. Surgindo. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. através de meros comportamentos materiais. pelo menos. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. Sublinha-se que. no espaço jurídico.

é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. Surge uma impossibilidade superveniente. Também está claro e assente que. que se reporta aos bens postos em jogo. e existe. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. por estar vulnerabilizada. independentemente de qualquer especial vontade. no contrato considerado. ainda que insubsistente. O contrato é resolvido. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. promane deveres acessórios (de segurança. revogado ou denunciado.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. 63 . nas protecções dispensadas. mercê dos contratos preliminares. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. que veicula os valores fundamentais do sistema. pelas partes. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. perante a prestação principal e em face do credor. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. tenha uma proximidade visível. ainda. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. não seja parte. 2. Com as devidas adaptações. o círculo interior. o Direito manda proteger. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. no caso de violação. Em termos gerais. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. Havendo proximidade. De novo há um círculo exterior. nele. Em termos analíticos. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. Há impossibilidade inicial da prestação. por qualquer razão. 3. O contrato é anulado. O círculo interior. em face de um contrato:  Alguém que. igualmente. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. A “fonte”. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. para terceiros.

quando violados. ad nutum. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. perante eles. De facto. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. o inerente instituto. dando origem. as normas típicas. para as partes. com ligeireza. mas noutros locais. Em rigor. Antes de fundam na lei. 64 . uma vez que ele não é partes. nesse sentido nuclear. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. “negócio” engloba. cessado o contrato. São os deveres pós-eficazes. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. aparentemente. obrigações que (só) irão pensar depois. 4. tais deveres não têm origem contratual. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. com facilidade. de obrigações futuras. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual.  Os perigos da adstrição ad nutum.  A proibição de. aplicar. Mas têm moldagem contratual. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. fique adstrito a realizar uma prestação.Tecnicamente. por sua livre e exclusiva vontade. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. O artigo 457º proclama. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. uma regra de tipicidade. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. por analogia. operando o contrato. o proprio acto unilateral (457º-463º). 5. aqui. a responsabilidade obrigacional. como um simples facto stricto sensu. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime.  Um numerus clausus de realidades relevantes. No que se lhe reporta. em termos jurídico-positivos. fora de série. O negócio unilateral implica que alguém. o que (ainda) não têm e subscreverem. ainda se poderiam manter determinados deveres. podendo. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. que explique os deveres resultantes. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. de lealdade e de informação. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se.

fica o credor dispensado de a exibir. passando pela tradição de uma coisa. sobretudo quando interessados. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. Do testamento. é aparente. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida.Mantém-se.  Fonte essa cuja existência se presume. igualmente por via da boa fé. limitada à inversão do ónus da prova. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. a tipicidade dos negócios unilaterais. pelo princípio da causalidade. proclamada no artigo 457º. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. por força de qualquer outra fonte. ainda. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. No que tange ao autor do acto. cabe salientar a confiança que. de que. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. com a promessa pública como modelo. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. pode-se admitir tipos abertos. devidas. 65 . Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. Os negócios unilaterais distinguem-se. pois. a afirmação. Quanto muito. De contratos com apenas uma assinatura. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. deve sublinhar-se. deve imperar. numa segunda vertente. Deve-se ter também em conta os terceiros que. ainda. A regra não origina nenhuma obrigação nova. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). Do anúncio público (225º). importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. Assim:      Da proposta de contrato. para além da concreta eficácia suscitada. existe aqui. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. de resto. já antiga. a primazia da materialidade subjacente que. isto é. Dogmática geral O negócio unilateral. Negócios unilaterais em especial 1. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. anteriormente. também aqui. sem indicação da sua fonte. Da oferta ao público (230º/3). no Direito português. até prova em contrário (pelo devedor). Em bom rigor.

desde logo. Feita a promessa. apenas. seja revogada. por anúncio público. a título de prémio.2. A justa causa será. um motivo atendível. não tendo prazo. aqui. por justa causa (461º/1. antes dele. objectiva ou subjectivamente. ele extinga. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. in fine). o promitente adstrito à sua efectivação. o concurso ficaria indefinidamente aberto. relativo a concursos púbicos. o promitente fica obrigado:  Até que. A situação distingue-se. da oferta ao público (230º/3): nesta. exclusivamente. constituir o contrato. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. só nessa altura se constituindo. 66 . surgindo alguém nas condições nela previstas.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). seja revogada (461º/1).  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. a sua obrigação. pela aceitação. ainda. da indeterminação do destinatário. deriva. propriamente obrigado. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. muito claramente. ficando. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). que torne a promessa inexigível. pelo cumprimento. O público. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). Até que. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. tendo prazo. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). Concurso público O artigo 463º. pode. constitui uma especial modalidade de promessa pública. aqui. na sua falta. 3. naquela. fica vinculado desde logo à promessa”. Até que.