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VIOLÊNCIA DOMÉSTICA- UMA REALIDADE ESCONDIDA!

Paula Catarina Botelho Viveiros Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada RESUMO Escondida por detrás de uma sociedade moderna, mais ou menos desenvolvida, camuflada de ironias e sorrisos que calam a angústia, a dor, a vergonha, vive uma realidade tenebrosa que põe em causa a dignidade humana- a violência doméstica. Qualquer tipo de violência, física, emocional, verbal ou até sexual, resulta sempre em danos emocionais profundos que se repercutem no saudável desenvolvimento do indivíduo, podendo mesmo levar à morte, o que se traduz numa preocupação da Saúde Comunitária. O enfermeiro deve ter um papel primordial na prevenção, no cuidar da vítima e no encaminhamento da mesma para outros técnicos especializados. INTRODUÇÃO A violência doméstica é um situação, nem permitir que esse imenso flagelo continue constrangido, calado, escondido, há que revelá-lo e intervir junto das vítimas, apoiando-as e encaminhandoas para as entidades competentes, como são exemplo os centros comunitários de apoio às vítimas. A VIOLÊNCIA… Embora o reconhecimento e o tratamento de maus tratos sejam um fenómeno recente, exemplos de maus tratos e negligência foram documentados durante milhares de anos. Hoje em dia, com a evolução dos tempos, tudo está mais técnicos de saúde não facilitado e não se valoriza o que há de melhor- as relações humanas. Assim, 1

problema universal que atinge milhares de pessoas que, na sua maioria, vivem de forma silenciosa e dissimulada, carregando sobre si sentimentos de culpa e vergonha perante a própria sociedade. Este artigo integra-se na disciplina de Cuidados de Enfermagem Natureza e Tendências do 5.º Curso de Complemento de Formação em Enfermagem, do ano lectivo 2004/2005 e destina-se a promover uma reflexão sobre o papel do enfermeiro perante esta realidade, de forma a garantir uma resposta adequada e um encaminhamento eficaz a uma vítima de violência. Como podemos compactuar com esse tipo de

a violência doméstica não se limita à violência física. também sofrem de abusos sexuais e o que torna a situação mais dolorosa é o facto do agressor ser. incapacidade de se desligar daquele ambiente(…) por razões materiais ou emocionais”. culpa. alguém da confiança da criança. além de sentir medo de represálias. tão ou mais prejudicial que a física(…). às vezes. a violência psicológica é 2 muito mais dolorosa e como nos refere a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) (in Ballone e Ortolani). a ocorrência destes crimes puníveis pela lei. embora numa percentagem mais baixa. As crianças.UMA REALIDADE ESCONDIDA! constatamos que há um desinteresse. sendo assim mais susceptíveis ao adulto abusivo”. culturas. 3). mas todas partilham sentimentos de “insegurança. Lado a lado com este tipo de violência. 1997:57). Geralmente apresenta pouca auto-estima e o agressor acusa a vítima de ser a responsável pela agressão. mas emocionalmente causa cicatrizes indeléveis para toda a vida” (p. um afastamento dos próprios elementos das famílias. São maridos que maltratam esposas e vice-versa. grupos sócio-económicos. netos que abusam dos avós. Kellogg (in Rakel. No entanto. Que realidade é essa? Onde se esconderam os valores? Como se consegue viver uma vida na sombra. . medo e vergonha” (p. Hoje em dia tornou-se banal falar-se de violência sexual. geralmente.15). Por vezes. justifica que quando estas são pequenas “confiam inequivocamente no adulto que se aproveita” pelo facto de serem inocentes. várias idades e religiões.VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. a qual acaba por se sentir culpada e envergonhada. sobretudo. tende a ser ocultada. pelas frequentemente confundidas rápidas mudanças físicas e emocionais. Trata-se de uma agressão que não deixa marcas corporais visíveis. enfim um vasto leque de casos horripilantes! Só nos Estados Unidos da América. As vítimas são na sua maioria adolescentes do sexo feminino. a “agressão emocional é. mais de 3 crianças morrem diariamente em virtude dos maus tratos. pais que negligenciam crianças. infelizmente. onde se agridem mutuamente com expressões ofensivas e humilhatórias. há a tortura verbal por que passam. a vítima “apresenta uma atitude de aceitação. Assim. os casais aquando dos conflitos familiares. isolamento. são filhos que batem nos pais. ao uso da força com o objectivo de ferir o outro. no entanto também se verifica no sexo masculino. O mesmo autor refere ainda que as vítimas de violência doméstica provêm de vários estilos de vida. calando um sofrimento tão profundo? Segundo Ballone e Ortolani (2003:2). Refere ainda que são “na puberdade.

como nos assegura Kellogg (in Rakel. para não falar no sofrimento que causa a todos os elementos dessa comunidade. O ENFERMEIRO E A VÍTIMA… E que papel nessa sociedade tem prevenção em vários níveis. por exemplo. num ambiente de respeito mútuo. Os danos emocionais também são vastos e podem impedir um bom desenvolvimento físico e emocional da vítima. constatamos que é extremamente difícil construir uma relação de confiança com a vítima. 1999:816). É um problema de Saúde Pública uma vez que.VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. nas suas múltiplas dimensões. O diálogo que estabelece com o seu cliente favorece a relação entre os dois e poderá promover a detecção da existência ou não de maus tratos. de aceitação” (p. nomeadamente o SIDA. decerto. 3 o enfermeiro como técnico de saúde? Que apoio se poderá oferecer a essas vítimas ? A violência e os maus tratos humanos tornaram-se gradualmente uma preocupação da Saúde Comunitária. pode levar até à morte. ideais políticos ou religiosos. bem como a observação de comportamentos anti-sociais. 1997:61). que são qualificados para empregar medidas de . Flynn e Krothe (in Stanhope e Lancaster. afirmam que a identificação dos factores de risco são importantes na prevenção. os casos de abuso sexual podem levar à ocorrência de gravidezes não desejadas. 63). do qual resultarão cuidados individualizados e. abortos clandestinos. O segredo profissional facilita a abertura da pessoa e a capacidade de observação também proporcionará a identificação tanto de danos físicos como de comportamentos alterados. logo uma preocupação da Enfermagem Comunitária. Ainda o mesmo autor revela que “a intervenção efectiva exige uma atitude colaborativa. Não obstante. Cada pessoa é um ser único. O enfermeiro deve estar com a vítima e os enfermeiros especialmente manter-se firme a seu lado. a sua idade ou situação sócioeconómica e até a sua própria forma de comunicação. tal como ela o define. levando a distúrbios de ordem afectiva e até de personalidade para o resto da vida. indicadores de perigo. Neste constatam sentido. para não falar na diminuição da auto-estima. são tudo factores que coexistem com a pessoa e que o enfermeiro tem de ter em conta para promover o bemestar desta. além de muitas vezes resultar em severos traumatismos. sobretudo doenças na adolescência. além de um vasto leque de sexualmente transmissíveis. A sua cultura. Resulta numa morbilidade e mortalidade significativas.UMA REALIDADE ESCONDIDA! A violência doméstica. mas nisso o enfermeiro tem uma mais valia.

as relações quanto mais ricas forem. sequer. o que se traduz numa prestação de cuidados fracassada à partida. a paciência permite “que os outros cresçam no seu tempo e estilo”. confirmar e valorizar as pessoas sensíveis e apoiá-las na sua forma de crescer sensível”. o que segundo Flynn e Krothe (in Stanhope e Lancaster. é ser advogado do doente e ter a humildade de compreender que há sempre mais a aprender sobre o outro e até sobre nós próprios.UMA REALIDADE ESCONDIDA! facilitará a relação estabelecida. por exemplo a existência de centros de apoio que esta poderá frequentar. porque o agir implica sempre correr riscos. Refere ainda que há que promover o fortalecimento das vítimas para fazer face ao stress e exigências da situação. significa “aquele que auxilia a discussão do problema e procura alternativas para se lidar com a situação”. mas é a própria pessoa que terá de optar pelo caminho que pretende enveredar e ao seu ritmo. . inseguranças e vergonha e a não se sentir culpada. Como nos refere Mayeroff. referindo que “assistentes sociais. Boykin e Schoeenhofer (2001:198). a participação desta na resolução do 4 PREVENINDO… seu próprio problema. com a colaboração de outras disciplinas. mas ser enfermeiro é isso mesmo. esquecendo-se do todo que a constituí. o que implica paciência. É necessária coragem de ambas as partes. Há que ajudar a vítima a ultrapassar os seus medos. 1999:818). conhecer o outro e as suas potencialidades para ultrapassar o problema. Essa relação envolve ainda honestidade. maior será o potencial do cuidar.VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. daí resulta que o que nós fazemos como enfermeiros envolve aceitar. O técnico de saúde deve assegurar a informação e conhecimentos necessários à vítima. salientam que “o cuidar faz com que o único objectivo de enfermagem seja cuidar das pessoas com a compreensão de que elas são susceptíveis de crescer no cuidar de momento a momento. É ainda essencial uma abordagem multidisciplinar. não se promove relação ou. Enquanto a Enfermagem se basear no modelo biomédico e categorizar a pessoa. Kellogg (in Rakel) confirma. profissionais de saúde mental(…) podem ajudar a assegurar a continuidade adequada do tratamento e utilização apropriada dos recursos da comunidade” (1999:61). Aquando da ocorrência de uma situação de violência. Há que cuidar a vítima. o enfermeiro deve intervir como facilitador. Como refere Boykin e Schoeenhofer (2001:198). esperança e confiança no crescimento do outro e na sua capacidade de enfrentar essa fase difícil da sua vida.

os aspectos legais no processo de violência. propunha como sugestão para reflexão. Os mesmos autores referem conseguir ainda que que “os sejam enfermeiros iniciados BIBLIOGRAFIA comunitários servem de catalisadores para Concluímos constatando que ao reflectirmos sobre a violência doméstica nos dias de hoje. segundo Beverly Flynn (in Stanhope e Lancaster. evitar conflitos e lembrar aos pais que são os modelos dos filhos. O enfermeiro comunitário deve ter um papel activo na prevenção da violência.VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. Infelizmente habita muitos lares com os mais variados estilos de vida. sentimos que esta tem vindo a acentuar-se. CONCLUSÃO  BALLONE Violência G. onde não haja dificuldade de cada um revelar frustrações. (http://www. A violência não tem classe sócioeconómica. fornecendo apoio e até informação orientadora de uma conduta saudável. descobrindo aos poucos a beleza da sua pessoa e oferecendo cuidados que a respeite como ser único. J. idade ou religião. o acompanhamento das famílias “suspeitas” e o encaminhamento das mesmas. Este encaminhamento é muito importante e. “os enfermeiros comunitários devem saber quais os recursos comunitários disponíveis para as vítimas de maus tratos(…)”. os enfermeiros devem promover um desenvolvimento saudável. Por fim. enquanto que os valores. grupos comunitários. Ortolanidoméstica.med. o respeito pela dignidade humana têm vindo a desaparecer. 1999:820). através de ensinos nas escolas às crianças e de formação aos pais.UMA REALIDADE ESCONDIDA! Há que implementar estratégias que previnam a violência e poder-se-á começar pela orientação dos pais para o ensino aos filhos da necessidade de uma boa comunicação na família. Finalmente.. programas(…)” de ajuda a essas pessoas. Nas escolas. centros e outras instituições. quando necessário. Ainda cabe ao enfermeiro comprometer-se numa relação mútua com a vítima.br/ 5 . para entidades especializadas. A descrição das consequências negativas da violência também ajuda na percepção do casal. são acções válidas e essenciais para o enfermeiro.psiqweb. Que direitos terão as vítimas de maus tratos? Que protecção? Porque a lei que vigora ainda não estabelece critérios de defesa à pessoa violentada. além de identificar sinais de potenciais maus tratos.

P.html) 1/09/2003 18p. do 5.º Curso de Complemento de Formação em Enfermagem. 2004..VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.On Caring. SCHOEENHOFER. Enfermagem famílias e JeanetteComunitáriaindivíduos. Nancy D. Loures. in MELO. Leonor. Savina Anne. 4. Nova Gráfica. Beverly C. Lisboa. KROTHE. N.  FLYNN. M.. Lusociência..º 4 (2001).Apontamentos das aulas de Cuidados de Enfermagem Natureza e Tendências. Promoção da saúde de grupos. ISBN: 972-8383-05-3. 6 . 2004.Guia para técnicos na intervenção contra a violência doméstica. Robert E.- Natureza e Tendências.56-69. Ponta Delgada.Violência e maus tratos humanos.  MAYEROFF. O.  CENTRO COMUNITÁRIO DE APOIO Á MULHER. ISSN: 0871-2370. P.  KELLOGG.UMA REALIDADE ESCONDIDA! infantil/ violdome.Tratado de Medicina de Família. P.º Curso de Complemento de Formação em Enfermagem. Invista em si próprio: será que há mesmo tempo para cuidar? Servir.Violência Doméstica. LANCASTER. do 5. 1999.Apontamentos das aulas de Cuidados de Enfermagem  BOYKIN. 801826. Guanabara.. Márcia. Rio de Janeiro. in RAKEL.. 5. Leonor. 74 p. 1997. Joyce S.  MELO. 196-199.ª ed. in STANHOPE. 1999.ª ed..