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A "Lei da Cumbuca

":
a Revolta contra o Sorteio Militar
Fábio Faria Mendes
No ano de 1875, o recrutamento para o Exército e a Armada seria
realizado no Império brasileiro, pela primeira vez, através de um sorteio univer­
sal. A nova forma de seleção militar substituria o odioso recrotamemo forçado até
então vigente. A mudança havia sido introduzida pela Lei n
O
2.556, de setembro
de 1874, que marcou o início dos trabalhos das juntas de alistamento em todo o
Império para l
°
de agosto de 1875.
A nova lei espelhava as novas modalidades de prestação militar de corte
universalizante que estavam-se tornando regra na Europa depois da guerra
franco-prussiana (Howard, 1970). Fazia parte, por outo lado, de um amplo
conjunto de reformas moderzantes que vinha sendo implementado pelo
gabinete conservador de Rio Branco, incidindo sobre a instrução pública, a
questão servil, o regime eleitoral, a magistratura e a Guarda Nacional. Para os
militares refoIlllistas, a lei do sorteio militar permitiria que o Exército se aproxi­
masse dos modelos de organização militar europeus, torando-se mais profs­
sionalizado, eficiente e "nacional" (Dudley, 1976). Para as elites civis, o principal
Nota: Este artigo é uma versão modificada do capítulo 6 de minha tese de doutorado, O ,ribulO de sangue:
recrtamenlO militar e c01lrução do Estado no Brasil Imperial, apresentada ao Iuperj em 1997.
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benefício da reforma seria indireto: a eliminação das perniciosas influências do
recrutamento sobre os pleitos eleitorais.
Em agudo contraste com o ideário europeizante das elites, no entanto, a
década de 1870 foi um momento de profunda inquietação nos espíritos populares,
especialmente nas áreas rurais. Iniciando-se com os ecos da questão religiosa,
uma série de enigmáticosji,rores populares, que passou pelos "quebra-quilos" e
pelas ações dos "rasga-listas" no Nordeste e em Minas, pelo movimento mes­
siânico dos Muckers no Sul, pela "revolta do vintém" na própria Corte, e se
encerrou talvez apenas com as epopéias messiânicas de Canudos e do Contestado
já na República, reagiu a processos de secularização e racionalização que rede­
finiam as relações ente o Estado e os habitantes dos sertões mais remotos
(Carvalho, 1992; Costa, 1987). Postos em movimento por uma conjugação de
motivos complexos, tais episódios anunciavam profundas fssuras entre o mundo
dos letrados e a cultura oral dos sertões.
Na opinião daqueles que promoviam a reforma do recrutamento, tratava­
se de u grande avanço institucional. A lei do sorteio substituía a "caçada
humana" do recrutamento forçado por uma forma mais racional e eqüitativa de
distribuição do serviço das armas. O próprio imperador vinha insistindo, desde
1 872, nafala do tono, na necessidade de profundas mudanças no sistema em
fnção das injustiças e tropelias que o recrutamento forçado invariavelmente
suscitava (Falas do tono, 1977: 410).
A lei de 26 de setembro de 1874 estabeleceu o alistamento militar e o
sorteio para homens livres e libertos entre 19 e 30 anos. Voluntários e designados
pelo sorteio serviriam seis anos, enqu· anto o termo de serviço dos refratários se
alongaria para oito anos. A lei permitia, em tempo de paz, tanto a substituição
pessoal quanto a comutação pecuniária.
A nova lei aboliu também os castigos corporais no Exército e extinguiu
as posições de cadetes e camaradas. Buscando tornar mais suave e atrativo o serviço
das armas, a nova legislação procurava eliminar os elementos mais arcaicos da
disciplina brutal e arbitrária, assim como as marcas de distinção hierárquica, e
para isso suprimiu os sinais mais assustadores do estigma dos soldados.
As juntas de alistamento seriam formadas pelo juiz de paz, pelo subdele­
gado e pelo pároco local. Os alistamentos seriam revistos, com as respectivas
reclamações, por uma junta de revisão nas sedes das comarcas. Os contingentes
anuais da Corte e das províncias seriam fxados na proporção dos indivíduos
apurados. Seriam srteados indivíduos na razão do triplo do contingente esta­
belecido.
O número e a variedade das isenções permitidas por lei reduziram-se
drasticamente. Isenções tradicionais, como a dos casados, desapareceram. A nova
lei, combinada com a reforma da Guarda Nacional de 1873, alterou também
(IA Lei da Cumbuca"
radicalmente as relações do Exército com a corporação. A Guarda seria objeto de
um realistamento geral, perdia suas atribuições de polícia e não constituía mais
isenção ao recrutamento.
A reação popular à nova lei quando da instalação das juntas de alis­
tamento, entretanto, surpreendeu ao govero. Em várias províncias do Império,
e mais intensamente na província de Minas, multidões de homens e mulheres
investiram contra as juntas, instaladas no adro das igrejas, destruindo os papéis
do alistamento. Temeroso das repercussões, o governo imperial retrocedeu e
adiou sile die a realizaçao do sorteio. Novas tentativas de implementação da lei,
nos anos subseqüentes, seriam também impedidas pela reação popular.
Os revoltosos seriam acusados de fanatismo, de incompreensão e, sobre­
tudo, de ignoráncia, pois parecia evidente àqueles que defendiam a nova lei que
seu objetivo era modernizante e civilizatório, e que sua implementação tornaria
mais eqüitativo e suave o serviço das armas. Uma interpretação conspiratória do
movimento sugeria que os "rasga-listas" haviam sido, na verdade, conduzidos
por forças e motivos exteriores à revolta em si. Os amotinados, em sua ingenui­
dade, teriam sido manipulados pelos jesuítas ou pelos liberais radicais. As
autoridades, tomadas de espanto, simplesmente não podiam crer que um
movimento de tal extensão, ordem e sucesso, tramado silenciosamente e defla­
grado em várias províncias simultaneamente, não fosse resultado de uma cons­
piração premeditada por elementos pertencentes, de algum modo, ao mundo dos
letrados.
O veio conspira tório inspirava a narrativa dos acontecimentos miúdos,
aparentemente contraditórios. O promotor público de Prata, na província de
Minas, por exemplo, relatando a destruição das listas por um grupo armado,
acreditava que, no intento, realizado por "homens de pouca ou nenhuma im­
portância no lugar", estes "(".) não foram executores da própria vontade e
desígnio, mas sim do que alguém (athé est'ahora desconhecido), em melhor
p
o
sição social relativa a taes instrumentos de desordem." J
As evidências indicam que as redes partidárias representaram papel
importante na recepção hostil à lei. O debate no parlamento e na imprensa sobre
a lei do sorteio havia influenciado profundamente os espíritos, mesmo nos
,
lugares mais distantes. E inegável que as fagulhas lançadas por liberais radicais
e ultramontanos, na tribuna e no altar, haviam alimentado o descontentamento
popular. Em muitas localidades, os revoltosos, após a destruição dos alistamentos,
dariam "vivas ao partido liberal", ou a suas lideranças de maior destaque que,
principalmente no Senado, haviam combatido veementemente o projeto. A
interferência dos padres seria ainda mais importante. As fissuras entre Igreja e
Estado produzidas pela prisão dos bispos repercutiam ainda vivamente. Em
alguns lugares, a indisposição dos párocos para com a lei os colocaria na linha de
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fente dos que a ela se opunham. Complicava mais ainda a situação o fato de a lei
ter definido o pároco local como um dos três membros da junta de alistamento,
a qual, na ausência de qualquer um dos membros, não poderia reunir-se. A
própria lei do sorteio, em certa medida, imobilizava as operações das juntas de
alistamento, ao dar substancial poder de veto aos párocos.
Mas, para além das querelas partidárias e religiosas, a insatisfação popu­
lar encontrava seus motivos principais nas profundas mudanças na rotina do
recrutamento que a nova lei introduzia. Os tumultos sobrepunham-se às cli­
vagens partidárias e ideológicas convencionais. A extensão do movimento, e os
eloqüentes testemunhos das atas das juntas de alistamento, não deixam dúvidas
de que existiam, no espírito da população livre em geral, sentimentos profnda­
mente enraizados de oposição à nova lei, que revelavam fraturas na interpretação
do significado do sorteio entre os mundos da cultura letrada e da cultura oral.
Na tipologia de Charles Tilly, a ação dos "rasga-listas" seria classificada
como uma forma de protesto popular fundamentalmente reativa, ou seja, que
representa "esforços de um grupo para reafirmar direitos estabelecidos quando
algo ou alguém os viola ou desafia" (Tilly, 1 978: 145). Movimentos reativos
constituiriam ações eminentemente defensivas conta intrusões perturbadoras
em rotinas e ananjos tradicionais provocadas por mercados internacionais em
expansão e/ou Estados nacionais. Taxação, recrutamento e abastecimento haviam
sido, na Europa dos séculos XVII e XVIII, os motivos típicos das revoltas da
multidão pré-industrial (Tilly, 1975: 380-455).
Como os estudos clássicos de Rudé, Hobsbawm e T hompson demons­
traram, na desordem aparente das aglomerações e explosões da multidão pré-in­
dustrial é possível identificar formas de organização e lógicas de ação surpreen­
dentemente coerentes (Rudé, 1979; Hobsbawm, 1 978; Thompson, 1993: 185-
258). As regularidades na pauta de ação dos motins revelam a operação de regras
precisas, objetivos bem definidos e considerável auto-restrição de parte da
multidão. O motim pré-industrial é, fundamentalmente, de natureza /egitimist
à
.
Ele visa ao retoro do habitual e do aceitável, à restauração da ordem natural das
coisas, tansgredida de algum modo pela ação ou omissão da autoridade. O motim
é, sobretudo, uma forma elaborada e sutil de negociação ritualizada entre a
multidão e as autoridades.
O que se propõe aqui é uma interpretação das palavras e ações dos
"rasga-listas" no quadro de referências de uma economia moral do recrutamento.
A revolta é interpretada aqui como prática coletiva cuja forma exprime repre­
sentações e expectativas dos agentes sobre a natureza da ordem social. A lei do
sorteio rompia expectativas tradicionais quanto à forma e aos objetivos do
recrutamento, introduzindo novos elementos de incerteza. No contexto das
experiências adquiridas com as práticas do recrutamento, os "rasga-listas" cer-
"A Lei da Cumbuca"
tamente tinham muito boas razões para agir coro agiram. Ao contrário de
demonstração de ignorância, tais movimentos revelavam um sóbrio senúdo de
pn4dêllcia, assim coro capacidades consideráveis de ação coletiva.
A modernização do recrutamento será interretada pela população livre
como uma ampliação injustificada dos encargos exigidos pelo Estado imperial,
uma ameaça à liberdade que aproximaria perigosamente a condição do homem
livre pobre daquela do cativo. Ser soldado no Brasil imperial significava estar
sujeito a longos anos de disciplina brutal e arbitrária, trabalhos pesados,privações
e riscos de toda sorte. A disciplina militar no Exército e na Armada seguiria sendo
regida, até 1874, pelo terrível código do Conde de Lippe, e a punição mais comum
era o casúgo das "pranchadas" de espada. Contrastados com as terríveis reali­
dades do serviço nas linhas, os apelos à virtude cívica e à honra militar deviam
soar absurdos.
Os alistamentos reduziam, ademais, os horizontes de invisibilidade d
poulção, garantia fndamental de proteção frente às demandas extrativas do
Estado (Hespanha, 1986). Do ponto de vista da plebe libre, maior eficiência nas
operações do recrutamento resul taria em maior capacidade de tiranizar o cidadão
comum.
A proximidade entre o censo demográfico, os alistamentos do sorteio e
o novo arrolamento de escravos aumentava, certamente, as desconfanças quanto
à "lei do cativeiro". A lei do registro civil, em 1851, havia levantado apreensões
quanto à possibilidade de reescravização dos libertos, dando origem ao
movimento conhecido como "guerra dos marimbondos" (Palacios, 1989). Os
arrolamentos para o sorteio também sugeriam vínculos, reais ou metafóricos,
com a idéia do caúveiro. A condição dos soldados, submetidos a longos termos
de seriços, privações várias e disciplina severa e arbitrária, era, com freqüência,
associada à do "caúvo" (McBeth, 1972: 60-78). Afinal, o recrutamento forçado
fora sempre a "caçada humana".
Na pequena paróquia do Melo, na província de Minas, por exemplo, os
"rasga-listas" teriam dito aos membros da junta que "não queriam aquella ley
que lhes vinha arrebatar seus filhos que lhes tinha custado criar", pois que
"alforriam nossos escravos e querem captivar-nos com a ley da cumbuca". Em
Ouro Branco, um grupo de homens e mulheres gritava "viva a liberdade, morra
a escravidão, não queremos a lei do sorteio, lei de caúveiro para os nossos filhos".
No que se refere ao recrutamento, as relações entre o Estado imperial e
a população livre pobre sempre haviam sido marcadas por um alto grau de
desconfiança mútua e arbitrariedade. Os agentes do recrutamento feqüente­
mente desrespeitavam asgaranúas legais representadas pelas isenções. Os agentes
usavam de todos os ardis imagináveis para capturar recrutas, e as autoridades
sistematicamente fechavam os olhos às traduções lcais das levas que se operavam
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através da administação diletante e dos partidos. A recente mobilização para a
guerra, fesca ainda na memória, havia colocado em suspenso todas as fronteiras
tradicionais das redes de privilégio e isenção.
Apesar de toda a arbitrariedade e confusão, no entanto, o recrutamento
forçado estabelecera um modo de convivência precário, mas relativamente
estável, com alto grau de certeza acerca dos grupos sobre os quais recairiam,
provavelmente, os encargos. O recrutamento cumpria importantes funções de
controle social (Beattie, 1994: 33-86). Seu fncionamento obedecia a certa
"economia moral" no contexto da paróquia, punindo seletiva e preferencial­
mente indivíduos turbulentos, pequenos criminosos, maridos inféis, filhos
ingratos, trabalhadores pouco diligentes (Meznar, 1992). O modo altamente
discricionário de realização das levas era equilibrado pelas precárias garantias da
extensa rede de isenções consensuais que, embora nem sempre respeitadas,
atribuíam sent às decisões de local jutce de distribuição dos encargos com
referência a certo "utilitarismo corporativo" (Mendes, 1997: 139-200).
A adoção das ltea como principal mecanismo de alocação militar
rompia esse modo de convivência por várias razões. Algumas dessas razões
tinham a ver com as propriedades formais das loterias; outras relacionavam-se
aos problemas de confana envolvidos nas relações entre o Estado imperial, a
administração honorária e as várias categorias de cidadãos, dadas as circunstân-
• • •
clas em que se processana o sorteIO.
Idealmente, as loterias oferecem aos recipientes potenciais, inde­
pendentemente das suas propriedades circunstanciais, probabilidades idênticas
de obtenção de um bem ou encargo. As suas condições formais básicas são a
eqüiprobabil e a impessoalide. Na presença de indivisibilidade, heterogenei­
dade ou escassez extrema na distribuição de um bem ou encargo, as lter seriam
o mecanismo alocativo que mais se aproximaria do ideal de um igualitarismo
simples (Elster, 1992: 62-76).
Diferentemente de decisões alocativas baseadas em alguma forma de
adjudicação ou de mercados, as loterias não oferecem quaisquer razões para as
distribuições que detemlinam (Komhauser & Sager, 1988: 483-516). Ao que
parece, em muitas situações alocativas trágicas de distribwção de "males", as
loterias são escolhidas precisamente por tal silêncio, que remete a escolha ao
acaso, ao infortúnio ou ao destino.
As loterias seriam, pois, na expressão de Calabresi e Bobbitt, decisoes de
evadir-se da responsabilidade da escolha, especialmente quando a escolha é
insuportável (1978: 41). As loterias dramatizam as ambigüidades e tensões
inerentes à idéia de igualdade. Quanto menos diferenças relevantes são reconhe­
cidas entre os recipientes, maiores as probabilidades de resultados que sejam
vistos como absurdos de algum ponto de vista substantivo.
UA Lei da Cumbuca"
Operacionalmente, as loterias reduzem drasticamente os custos de in­
formação e decisão de determinada escolha (Broome, 1984: 38-55). Elas evitam
os problemas de complexidade moral das comparações relativas de escalas de
mérito, direitos e conseqüências. As loterias, sendo procedimentos de decisão
mecânicos, limitam também as possibilidades de corrupção e parcialidade dos
distribuidores. Por todas essas razoes, podem ser preferidas como mecanismo de
alocação quando há elevada desconfiança com relação à honestidade dos respon­
sáveis pela alocação.
O sorteio passava a representar uma ameaça imprevisível, combinando
elementos de chance e compulsão. Da análise das propriedades formais das
loterias, pois, emergiriam três pontos críticos relacionados ao sorteio militar nas
circunstâncias peculiares do Império brasileiro. Primeiro, o problema de cOllf­
ança com relação à eficácia das sanções disponíveis aos refratários, de um lado, e
à honestidade dos responsáveis pela alocação, de outro. Sérias dúvidas seriam
levantadas, durante as discussões da lei no parlamento, acerca das possibilidades
de manipulação discricionária oferecidas pela composição das juntas e pelo modo
de produção dos alistamentos. O segundo problema era a intransitividade entre
a contingência e impessoalidade dos resultados (potencialmente absurdos, de
qualquer ponto de vista substantivo) e as concepções correntes do significado de
uma distribuição "justa" ou "eqüitativa", corporificados nos "hábitos e cos­
tumes" do país. Por fim, considerando-se que o sorteio supõe 11 decisões de lcal
justice realizadas de fOIlna descentralizada, especialmente na preparação dos
alistamentos, importariam decisivamente as diferenças no desempenho das
várias agências locais de alocação da prestação militar, com possíveis resultados
agregados de glbal injustice.
Tanto os refratários quanto mesmo os não premiados com um número
"ruim" se viam agora sob ameaça permanente de captura. A nova lei exponen­
ciava a incerteza, já crônica, produzida pelas levas. A lei determinava que no
sorteio seriam tirados números correspondentes ao triplo do contingente desig­
nado para a paróquia. O número adicional de sorteados tinha em vista consi­
derações de prudência, visto que as isenções requeridas, substituições, dispensas
médicas, evasão dos refratários etc. precisavam, de algum modo, ser compensadas
por novas designações. Parecia óbvio, entretanto, que o resultado de tal disposi­
tivo seria pôr em movimento sucessivas ondas de refratários em fuga, colocando
praticamente toda a população masculina em perigo de se ver chamada às
bandeiras a qualquer tempo. A incerteza, que no recrutamento forçado se con-
, Æ
centava em certos momentos cntlcos, torava-se permanente, e sempre reno-
vada.
As garantias de eqüidade e honestidade nos alistamentos, ademais, não
pareciam suficientes a ninguém. O arsenal das possibilidades de manipulação
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dos alistamentos poderia ser tão extenso quanto o das tricas eleitorais. Temia-se
que isenções antes obtidas pelo reconhecimento legal de imunidades, privilégios
ou utilidade social se tornassem objeto de mercado. Isenções tradicionais, tal
como a dos casados, não haviam sido incorporadas à lei. Na cidade de Pouso
Alegre, um dos "rasga-listas" diria ao juiz de paz que o sorteio era "uma rede que
o govero armava para colher o povo, que então não se podia dar isençõens". Em
São Caetano do Chopotó, cerca de 100 pessoas informavam solenemente à junta
que "não aceitavam a lei por ser injusta". Em Paraíba do Mato Dentro, informava
a junta, "homens ignorantes que nem ler sabem ( ... ) entendem que a ley é muito
peior que a antiga, e intendem que o sorteio é feito em todos de 19 a 3S annos,
quer seja solteiros ou casados, e não há exenção algua". Ademais, "não querem
explicação alguma, dizem que o que se quer é illudir a elles".
Talvez o elemento mais decisivo a tocar o senso de injustiça e a chamar
à ação os "rasga-listas" fosse, entretanto, o fato de que o advento do sorteio
representava uma perda fndamental para o controle local sobre o recrutamento
e as possibilidades de tadução local das levas. O sorteio reduzia drasticamente as
possibilidades de negociação e barganha características da dinâmica do recru­
tamento forçado, impondo a presença de um Estado distante e impessoal. No
mundo dos homens livres pobres, os laços pessoais estruturados em redes de
parentes, clientes e amigos ofereciam proteção contra as ameaças do recru­
tamento. O sorteio ameaçava eliminar as linhas de demarcação entre protegidos
e desprotegidos (Meznar, 1992). Em Diamantina, por exemplo, a junta informava
que ao fazer saber do aviso do Ministério da Guerra de 3 de agosto, declarando
que as juntas não eram competentes para atender as reclamações,
A doutrina deste aviso, causou tal impressão nos Ci­
dadãos alistados e mesmo no Povo, que momentos depois do seu conhe­
cimento e execuçao propalava-se que um grupo aI mado, à exemplo de
outras partes, pretendia dar cabo de todo trabalho começado. ( ... ) Muitos
Cidadãos compareceram e pediram a Junta para não dar-lhe execução,
pois do contrário teria de se reproduzir aqui as scenas de outras partes.
De forma reveladora, em muitas localidades a multidão que rasgava as
listas acompanhava sua faina de "vivas" à antiga lei do recrutamento. Em Boa
Vista do Rio Novo, por exemplo, homens e mulheres gritavam "viva a velha lei"
enquanto rasgavam os papéis. No Prata, "homens de pouca ou nenhuma im­
portãncia no lugar", simples "lavradores ignorantes", davam "vivas ao antigo
systema de recrutamento". Em Sant'Ana dos Ferros, os revoltosos afirmavam
que "não aceitavam a lei do recrutamento, e já estavam cansados de aturar leis
tão vexatórias". Em Coromandel, os "rasga-listas" gritavam "viva a constituição
fiA Lei da Cumbuca
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do Império, a Religião Catholica e abaixo a reforma da ley do recrutamento".
Como analisava o chefe de polícia da província de Minas,
Desde que o povo, em sua maior parte quasi ignorante,
e que muito difcilmente poderá comprehender, e até mesmo ler e
conhecer esta lei, está imbuído na idéia de que é péssima, de que esta lei,
em vez do recrutamento, que era feito pelas authoridades e recahía sobre
um ou outro desordeiro da localidade, o faz recahir actualmente sohre
os flhos do grande e do pobre, e que portanto, não há meios de recorrer
aos matos e de fugir da localidade onde se é perseguido; desde que o povo
entende que a lei é péssima, que não há meio de fgir della, e que o
remédio é por embaraço à sua execução, elle assim o faz, ainda mesmo à
custa do derramamento de seu sangue e da sua própria vida. (Am!aes d
Assembla Pruincial, 1876: 308)
Os alistamentos reduziam drasticamente os /wriomes de invisibilidad da
pulaço, que até então indisponibilizavam grande parte dela para fins militares.
De outro lado, o sorteio evocava uma idéia de eqüidade na distribuição dos
encargos que procurava eliminar as possibilidades de tratamento discricionário.
Paradoxalmente, as fontes do ódio popular à lei baseavam-se precisamente na
crença na justiça da distribuição desiual do encargo e no temor de sua dis­
tribuição incena.
Tocqueville, ao analisar os mecanismos de seleção militar entre os
americanos, afrmara que nas sociedades democráticas a paixão da inveja fazia
tolerar o peso do encargo do serviço militar, mas não a sua desigualdade (Toc­
queville, 1980: 499; Elster, 1993: 151-55). O que os habitantes do Brasil imperial
não podiam admitir, movidos por inveja aristocrática, inversamente, era o
tratamento igual para seres que consideravam como fundamentalmente
desiguais. Como Calabresi e Bobbin observaram, a principal dificuldade com o
mecanismo alocativo das loterias é que elas são incapazes de distinguir diferenças
relevantes entre os indivíduos, trazendo a possibilidade de resultados absurdos.
Elas são incapazes de resolver os problemas colocados por valores discretos em
confito (Calabresi & Bobbin, 1978).
N o dia determinado para a reunião das juntas de alistamento em todo o
Império, 1
0
de agosto de 1875, em várias províncias, multidões de homens e
mulheres invadiriam os adros das igrejas, impedindo a realização das reuniões
das juntas ou destntindo os alistamentos que ali se realizavam. Em Minas Gerais,
São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba,
Rio Grande do Norte e Ceará, as atas das juntas de alistamento de inúmeras
paróquias relatariam a ação de grupos de homens e mulheres interrompendo
repentinamente as reuniões das juntas e destroçando os papéis do recrutamento.
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A geografa dos distúrbios, entretanto, seria marcada por intensidades variáveis,
no tempo e no espaço.
Na feguesia de Leopoldina, em Pernambuco, cerca de 200 homens
armados, "depois de ter travado o cacete, e muita facada corrida", rasgaram as
listas. Da confsão resultariam um morto e muitos feridos. Em Cimbres, Bonito,
São Caetano, Altinho, São Bento, Gravatá, Garanhuns, Buíque, Bom Conselho
e Triunfo, haveria "grande exaltação", com os habitantes recusando-se a dar os
nomes para as listas, rasgando os editais e ameaçando os inspetores de quarteirão
e os membros das juntas. Em Itambé, seriam rasgadas todas as listas e demais
papéis durante a noite, com a signifcativa exceção das petições que requeriam
isenções. Na Paraíba, igualmente, "sintomas de oposição à nova lei" se faziam
sentir em Alagoa Grande, A1agoa Nova, Ingá, Campina Grande e Pilar. Nas
,
Alagoas, listas seriam rasgadas em Palmeira dos Indios e Penedo.
Em Acarapé, no Ceará, cerca de 60 "desordeiros armados de fouces e
cacetes" haviam entrado em conflito com a força pública, resultando a escara­
muça em mortes e ferimentos. Em Limoeiro, Quixadá, Boa Viagem, Saboeiro e
Conceição do Baturité, grupos de mulheres ocupariam as igrejas e rasgariam
todos os alistamentos. Em Goianinha, no Rio Grande do Norte, cerca de 300
pessoas entraram em conflito com a tropa, resultando em três mortes e sete
feridos. Alguns dias depois, ocorreria novo conflito com a tropa em Canguare­
tama, com novos feridos e presos.
Na Bahia, um sério confronto já havia oposto povo e tropa na cidade de
Salvador no dia 2 de julho, quando, durante os festejos públicos da independência
da Bahia, a tropa atirou sobre a multidão. O comandante Frias Villar, que ordenou
os disparos, seria espancado por populares quase até a morte, sem encontrar
abrigo em qualquer parte (Villar, 1876). A tensão latente entre tropa e povo na
cidade parecia ligar-se diretamente à questão dos alistamentos que estavam por
se iniciar. Na seqüência dos eventos do 2 de julho, apareceriam inúmeras
proclamações e provocações de resistência contra o recrutamento, mesmo nos
jornais (A,maes d Senad, 1875[IV]: 2). Homens e mulheres armados des­
truiriam as listas em Santa Ana do Catu, Barcelos e Maraú, todos na comarca de
Camamu, bradando que se tratava de uma "lei para captivar o povo". Seguir-se­
iam prisões e confrontos com a tropa em várias dessas localidades.
Nas províncias do Norte, a reação contra o recrutamento seguia de perto
os passos da rebelião contra o sistema métrico que havia varrido a região entre
novembro de 1874 e janeiro de 1875, e que fcaria conhecida como "quebra­
quilos" (Barman, 1977: 401-424). A açao de "quebra-quilos" e "rasga-listas" se
concentraria, coincidentemente, na regiao do agreste, onde uma florescente
agricultura de brejo baseada no trabalho livre dos "matutos" abastecia o sertão e
a mata, por meio de uma extensa rede de feiras locais, e se dedicava igualmente
liA Lei da Cumbuca U
à produção comercial do algodão Qofily, 1892: 1 15-118). Em certa medida,
"quebra-quilos" e "rasga-listas" reproduziam geografa muito semelhante à
revolta dos "marimbondos" e ao "ronco da abelha", de vinte e poucos anos antes
(Palacios, 1989). Os motivos e inquietações também guardavam certa seme­
lhança. Em Canguaretama, no Rio Grande do Norte, por exemplo, a lei do sorteio
seria rebatizada pelos insurgentes, tal como havia sido a lei do censo de 1851, de
"lei do cativeiro":
( ... ) por um crescido grupo de homens e mulheres de
400 a mais pessoas, armadas de cacetes, e gritando que não queriam a lei
do governo, que tinha de ser executada nesta villa com o supposto título
de lei do recrutamen to, qua/ldo sabiam, que era lima lei para captivar o povo,
capitaneado este grupo por um pardo de nome Antônio Hilário Pereira
morador nesta Villa, o qual gritava em altas vozes que era o maior homem
desta terra, e que se continuassem os morreriam em primeiro lugar o
Doutor Juiz de Direito da Comarca, o Juiz de Paz presidente e o Vigário
da Freguesia, além de outros que ousassem auxiliar a junta.
Os "quebra-quilos" haviam dirigido sua ira contra os novos pesos e
medidas, as coletorias e os registros notariais, mas não se haviam esquecido,
também, das casas maçônicas, dos impostos provinciais e da nova lei do recru­
tamento (Souto Maior, 1978: 31). Com a destruição dos novos pesos e medidas
do sistema métrico nas feiras, a queima dos papéis dos registros notariais, dos
correios e das coletorias, os "quebra-quilos" procuravam eliminar, ainda que
apenas simbolicamente, os instrumentos da progressiva racionalização das re­
lações entre o Estado, o mercado e os cidadãos. Talvez em analogia ao sempre
presente problema das "moedas falsas", a substituição das múltiplas referências
concretas tradicionais por medidas abstratas e desconhecidas trazia suspeitas de
que a interferência da regulação estatal no domínio das medidas teria o efeito de
desfavorecer os pequenos lavradores e os consumidores em geral nas suas relações
com os comerciantes e arrematadores de impostos. A violenta repressão que se
seguiria àquele movimento, pela coluna militar do coronel Severiano da Fonseca,
realizando rigoroso recrutamento entre os insurgentes e aplicando o castigo do
"colete de couro" a muitos outros, deixaria, aderais, sérias dúvidas se a nova lei
do sorteio iria realmente "modernizar" os procedimentos do recrutamento.
Se no Norte a ação dos "rasga-listas" seguia uma linha de continuidade
com as agitações dos "quebra-quilos", em São Paulo, curiosamente, os acon­
tecimentos pareciam apenas transbordar os eventos da vizinha província de
Minas. As poucas paróquias atingidas pelos "rasga-listas" na província eram,
coincidentemente, todas limítrofes de Minas. O ministro da Justiça, ao relatar os
acontecimentos em São Paulo, registrava a sua ligação com os deslocamentos dos
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278
estudos históricos. 1999 - 24
mineiros: "Mais de 100 homens armados, dirigindo-se do sul da proíncia d Min. as
para a cidade de Franca pelas vilas do Cajurú e Santo Antônio da Alegria,
destruíram os livros e objetos relativos ao recrutamento" (Relatório d Ministério
da]ltiça, 1877: 5).
Na paróquia do Rio Verde, onde seriam também rasgados os livros e
injuriados os membros da junta, o juiz de paz comentava que o movimento
sedicioso concentrava-se justamente naqueles lugares onde havia passagem de
romeiros. O chefe de polícia de São Paulo também responsabilizaria, além do
pároco local, os habitantes da província de Minas pelos distúrbios na sua
jurisdição: "Segundo informa o Jttiz de Direito da Commarca há sérias suspeitas
de ser o Vigário da Paróchia o promotor de tal attentado.( ... ) Tem se dado a
coincidência de taes movimentos só terem aparecido nas localidades em que
existem muitos mineiros."
A maior parte dos protestos contra a aplicação da nova lei, entretanto,
concentrava-se na província de Minas Gerais, já então famosa pela invencível
aversão dos seus habitantes ao serviço militar. Durante todo o mês de agosto, as
juntas de alistamento de pelo menos 78 localidades daquela província seriam
atacadas por multidões que, segundo os informes das atas de instalação das juntas,
variavam entre 30 e 500 pessoas. Nessas ocasiões, os alistamentos em preparação
seriam rasgados ou queimados, e às vezes as próprias autoridades insultadas e
mesmo agredidas. Em setembro, outras 30 paróquias assistiriam a tumultos
semelhantes. Entre outubro de 1875 e abril de 1876, pelo menos mais 19 outras
localidades seguiriam o mesmo destino, com agitação crescente. O chefe de
polícia informava, laconicamente, em setembro de 1875:
Se pode asseverar que em nenhuma parocrua da Provín­
cia se conseguio ainda que a junta Parochial funccionasse regularmente
e telninasse os seus trabalhos, por que são elles interrompidos por
massas de povo de ambos os sexos, que invadem as igrejas, accomettem
as Juntas, e as obrigam a dispersar-se inutilizando os papéis relativos ao
recrutamento. As circunstancias da Província actualmente, é preciso
dizê-lo fancamente, são melindrosas e assustadoras.
Em contraste com o que acontecia no Norte, a ação dos "rasga-listas"
mineiros seria acompanhada, ao menos no primeiro momento, de relativamente
pouca violência e praticamente nenhuma resistência das autoridades. Os poucos
casos de conflito aberto parecem ter-se concentrado naquelas cidades em que
com a questão do recrutamento entrelaçava-se a luta entre católicos e maçons,
como aconteceria em Ponte Nova, São Domingos do Prata, Uberaba e Serro.
Acontecimentos como aqueles relatados pelo joral liberal O Mineiro, de Pouso
Alegre, em que a aglomeração motivada pelas comemorações do dia da in de-
"A Lei da Cumbuca"
pendência haviam criado as condições práticas e a referência simbólica para a
destuição dos alistamentos, poderiam ser considerados típicos da pauta de ação
dos "rasga-listas" na província:
Desde as 4 horas da tarde, mais ou menos, que para o
lado do Rozário subiam ao ar innúmeras Girandolas, e os que ignoravam
o movimento não viam nisto sinão que se preparavam para festejar o
aniversário de nossa independência. As 6 horas da tarde, mais de duzen­
tas pessoas, com a corporação musical à sua fente, sahio a fente, dando
vivas a Nação Brasileira, ao dia 7 de setembro, ao Partido Liberal, ao
povo, aos Conselheiros N abuco, Saraiva, Silveira Lobo e Zacharias.
Dirigiram-se à casa do Sr. Capitão Caetano G. Lopes,
onde se achavam reunidos, em um divertimento familiar, o Sr. Dr. Juiz
de Direito da Comarca, o Sr. Delegado de Polícia, algumas pessoas
distintas e o principal redator desta folha; ahi, depois de tocar a música,
o povo exigio a presença do redator do "Mineiro"; acodindo ao chama­
mento, foi este enthusiasticamente saudado pelo povo; agradecendo as
saudações que lhe eram dirigidas, pedio que lhe dissessem o que preten­
diam de sua pessoa; foi então quando os manifestantes explicaram o
motivo d'aquella reunião: pediam em altas vozes que queriam rasgar as
listas, livros e mais papéis concernentes ao alistamento; ( ... ) Dirigio-se
o numeroso ajuntamento à casa do Juiz de Paz, presidente da Junta, e
exigio pacificamente que lhe fizesse entrega das listas e todos os papéis
do alistamento depois de alguma hesitação, o Juiz de Paz entregou os
papéis que o povo destruio em poucos instantes, e como que saptisfeito
do que havia feito, continuou a percorrer pacificamente as ruas, sempre
com a música à fente, e na maior harmonia, dando repetidos e entusiásti­
cos vivas à soberania do povo, à Nação brasileira, ao dia 7 de setembro e
aos mais eminentes vultos do partido liberal do Império.
Assim como em Pouso Alegre, em muitas ou tras localidades a destruição
das listas seria acompanhada de comemorações festivas e contaria com a conivên­
cia, às vezes mesmo com a participação ativa, dos principais do lugar. Em Madre
de Deus, por exemplo, a junta acusaria que "entre o povo de classe baixa, haviam
pessoas de posição mais elevada". Em Uberaba, a destruição das listas havia sido
realizada por um "grupo de homens moradores em suas roças", mas, em verdade,
"esta gente era dirigida por pessoas da cidade", e dizia-se mesmo que "o Juiz de
Paz era sabedor deste plano". Em Botelhos, um "grupo de povo", tendo à fente
o alferes Francisco Ferreira, entregara um protesto escrito conta a lei,e se retirara
pacificamente. Em Piedade da Boa Esperança, depois de destrUírem listas e
edital, homens e mulheres haviam percorrido o arraial acompanhados de música,
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280
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"demonstrando regozijo por terem frustrado o alistamento". Em Lavras do
Funil, analisava a junta, "não foi somente a Plebe que fez a sedição", e a vitória
dos "rasga-listas" seria comemorada com fogos e "infernal alarido". No Serro,
depois do dia agitado, seguiram-se comemorações à noite, com casas iluminadas,
"banda de música e longos discursos do Dr. Mares Guia".
Na verdade, não é de surpreender que a geografia da revolta tivesse seu
centro naquela província. As taxas de voluntariado e o apurado no recrutamento
forçado tinham sido sempre ali proporcionalmente muito inferiores a qualquer
outra província do Império. A aversao dos mineiros ao serviço das armas era
proverbial. Ali se havia estabelecido forte tradição de resistência às exigências do
Estado imperial, sustentada pelas interpretações consuetudinárias das "isenções
de utilidade", e que gozavam da concordância tácita das próprias autoridades. Na
verdade, a revolta contra os alistamentos reproduzia um padrão de repulsa a
qualquer modalidade de serviço militar que vigoraria ali durante todo o século
(Mendes, 1997: 101-109).
A oposição à lei era facilitada, ademais, pelas dimensões da província e
pela precariedade dos recursos à disposição do governo provincial. As inúmeras
solicitações de tropa que fariam as juntas de alistamento para fazer valer sua
autoridade, acalmar os ânimos ou punir os revoltosos, ou não poderiam ser
atendidas ou o seriam tardiamente e de forma insufciente. O chefe de polícia
lamentaria a total ausência de meios repressivos para conter a revolta na provín-

Cla:
A falta de authoridades policiaes, não obstante os es­
forços empregados para preencherem-se na máxima parte a execução da
referida ley, accresce que há absoluta carencia de força pública, por que
tendo sid dissolvido o corpo policial por le pncial, que creou a Guarda
Municipal, incompleta em toda Província, entretanto ainda não foi
possível, apesar dos esforços empregados, conseguir-se a reorganização
do Coro Policial, em que não é permi tido o recrutamento, havendo geral
negação para o serviço militar. A Guarda Nacional, desorganizada em
sua totalidade, quasi nenhum auxílio pode prestar, alem de que é in­
volvida nas perturbações locaes a maior parte da população que a consti­
tue.
Minas era uma província interior muito grande, e a mais populosa do
Império. Apesar das muitas cidades e vilas, a ocupação do território era dispersa,
e os transportes e comunicações difíceis. O censo de 1872-74 indicava a presença
de aproximadamente 300.000 escravos e I. 700.000 habitantes livres na província,
metade dos quais eram classificados como negros ou pardos. Em Minas concen­
travam-se cerca da metade da população livre e quase 2/3 das paróquias do
ttA Lei da Cumbuca
11
Império. As Iimi tações materiais e morais da administração honorária se faziam
sentir em toda a sua intensidade ali, como admitia o presidente da província em
1875:
As condições especiais d'esta Província, sua extensão
territorial, a multiplicidade de freguesias, muitas delas com pessoal
pouco habilitado, sem párochos, ou com estes estrangeiros, habitando os
membros de que se compõe as juntas a grandes distâncias do lugar da
reunião, são outros tantos motivos que concorrem para que a lei do
alistamento e sorteio militar encontre embaraços na sua inteligência e
fiel execução.
Contribuições recentes têm revelado que a economia da província era
altamente dinâmica e diversificada, apesar de servir fundamentalmente ao mer­
cado interno. Dada a ampla disponibilidade de terras, prosperava ali um pro to­
campesinato livre, de pequenos sitiantes, ligado à produção de alimentos para o
abastecimento da própria província e da Corte, assim como uma importante
indústria têxtil doméstica de panos de algodão (Martins, 1980; Libby, 1991:
1-35). Embora as dinâmicas da economia e da sociedade prosseguissem sendo
solidamente escravistas, e a província fosse mesmo durante boa parte do século
uma importadora líquida de escravos, os plantéis médios de escravos eram muito
menores do que nas regiões agroexportadoras tradicionais de café, açúcar ou
tabaco (Martins, 1983). Ao que parece, fazendeiros, agregados e sitiantes depen­
diam mais do trabalho livre sob bases domésticas do que em outras regiões do
,
paIs.
Minas Gerais e o agreste nordestino, os dois principais focos da geografia
das revol tas da década de 1 870, distinguiam-se, em certa medida, por trajetórias
à parte no processo de transição ao trabalho livre. 3 Nessas regiões de concentração
da pequena produção mercantil, a relativa liberdade dos sitiantes dos laços de
dependência contrastaria com a sujeição dos agregados e moradores das áreas de
plamatolZ. Laços mais horizontais que verticais peIlnitiriam, supostamente,
maiores capacidades de ação coletva, e portanto maior resistência às demandas
do Estado.
Apesar das variações regionais, entretanto, o 1
0
de agosto fazia explodir
uma situação de tensão latente que era comum a praticamente todo o Império.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, não consta que a realização dos alistamentos
encontrasse obstáculo na ação da multidão. Ap contrário, os trabalhos das juntas
parecem ter-se realizado ali com ordem e regularidade. Província de tradição
militar, é de supor que a presença das tropas oferecesse muito mais garantias à
operação das juntas que no restante do país. Ainda assim, os alistamentos seriam
281
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estudos históricos. 1999 24
marcados por problemas que revelavam claramente as múltiplas dificuldades que
a administação honorária impunha à implementação da nova lei.
Apesar de os alisramentos realizarem-se na província do Rio Grande sem
a presença visível de disrúrbios ou hostilidade popular, o trabalho das juntas seria
objeto de ral grau de manipulação que romaria inviável a realização dos sorreios.
A tadução /cal que caracreristicamente marcava o recruramento forçado se trans­
feria a para a realizaço dos alisramentos. O juiz de paz de Dores, distito de Porro
Alegre, por exemplo, acusaria a junra de alisrar exclusivamente os cidadãos de uma
parcialidade política, excluindo os da conrrária. Em São Leopoldo, a junta revisora
se desesperaria na presença das falhas dos alisramentos:
As falras comeridas pelas juntas parochiais foram rais e
de ral alcance que a despeito de rodo o esforço empregado os rrabalhos
da Junta de revisão não podem deixar de se ressentir de uma origem
viciosa.( ... ) Todas as Juntas parochiaes desra comarca ralvez não ranto por
ignorância dos preceitos da nova lei, como pelo desejo de osrentar
arribuições que nao lhes foram conferidas, se não limiravam a dar opinião
sobre cada um dos cidadãos maiores de 19 e menores de 30 anos,
contemplados em rói pelos lnspecrores de Quarreirão, se arrogavam do
direiro de julgar as isenções, e todos aqueles que em seu conceiro se
achavam em raes condições não foram contemplados no alisramento.
Seus nomes apenas se encontram nas acras dos rrabalhos das juntas. O
Alisramento pous em geral consistiu no lançamento daquelles cidadãos
que no conceito das Juntas parochiaes não tinham isenção ou não
reclamavam.
Em Bajé a junta de a1isramento, a pedido do comando da guarda na­
cional, havia eliminado 278 guardas do alisramento, julgando que já se ocupavam
sufcientemente nas liturgias e, porranto, não deviam ser incluídos no rol dos
possíveis sujeiros ao sorreio, como ela assim procurava jusrificar:
Ora, sendo uma verdade que a Guarda Nacional das
fonteiras da Província esrá em consrantes deslocamentos; que sem o
menor custo ou embaraços por parre da administração, presra essa
milícia seus serviços como se tivesse organização milirar, sempre que dela
há precisão, como presenremenre, guarnecendo uma das alas da linha
divisória com a república vizinha, por esras considerações não reve a
junra dúvida alguma em deferir a dira reclamação.
Nas províncias aringidas pela agiração dos "rasga-lisras", a desordem
aparente dos acontecimentos encobria a presença de padrões de ação coletiva bem
esruturados. Antes do dia 10 de agosto, inúmeros sinais e rumores haviam
/IA Lei da Cumbuca"
anunciado a tempestade que estava por vir. Atravessando os sertões da Bahia, no
início de 1875, o viajante inglês James Wells seria denunciado em certo lugar
como o anticristo que havia chegado para "escravizar o povo" (Wells, 1 886: 74).
Talvez a iminência do sorteio e suas novas incertezas estivessem a sugerir
evocações escatológicas. Em outros lugares, mais concretamente, haviam circu­
lado "boatos aterradores", coro comentava, por exemplo, o juiz de paz da
distante Paracatu, e certos elementos estavam explorando a lei "como meio de
tomar odioso ao Povo, tanto o Govero superior coro as authoridades subalter­
nas".
Sinais mais evidentes da hostilidade com relação ao alistamento, entre­
tanto, seriam notados quando da afação dos editais. Em Conceição do Serro,
por exemplo, a junta informava que: "No dia 1
o
de julho foi afxado na porta da
Igreja Matriz o competente edital, o qual nesta mesma noite foi subtraído, sem
que fosse possível descobrir o author de tão criminoso acto."
Os editais anunciando os alistamentos, afixados sempre à porta da igreja
matriz, seriam o primeiro objeto da fúria popular. Em Catas Altas da Noruega,
eles seriam substituídos por "pasquins ameaçadores". No distrito de Boa Família,
o edital seria rasgado e no seu lugar representados "uma porção de porretes". Em
São Bento, Pernambuco, o edital seria arrancado e substituído por um pasquim
em que "se convidava o povo a resistir à execução da lei, e ameaçados e injuriados
o delegado, vigário e escrivão de paz". Em Panelas, naquela mesma província, os
editais seriam manchados de sangue.
Outros sinais perrurbadores chegavam do trabalho inicial da produção
das listas que antecedia a reuniao das juntas. Os inspetores de quarteirão,
responsáveis pela recolha das informações preliminares para a preparação dos
alistamentos, informavam que os habitantes os hostilizavam e procuravam, por
todos os modos, obstruir seu trabalho. Em Campestre, por exemplo, um inspetor
contava que "percorrendo seus Quarteiroens, não pode obterem por forma
alguma os Nomes, Idades, exatamente dos que deviam ser alistados". Em São
José do Areado, alguns inspetores afirmavam que "deversas pessoas ( . . . ) se
opusemo a dar os nomes, Idade, Estados e naturalidade, assim como todos estes
q'. se opuseram ainda tem ameaçado publicam
,e
. de agredirem a mesa q
do.
estiver
fncionando". Em Nossa Senhora do Patrocínio, a mesa informava que havia
recebido apenas três listas e, mesmo estas, incompletas. Os demais inspetores
"não acharam pessoas algumas que quizessem dar seus nomes nem p
r
o
si nem p
r
o
seus fhos, dizendo que preferiam antes morrer, ou matar".
Os inspetores, e também os membros que compunham as juntas de
alistamento, passaram a sofrer ameaças e insultos. Em Carmo do Campestre,
haviam aparecido cerca de 200 pessoas e advertido a junta de que "nao consentiam
que seguissem os trabalhos desta Ley, e que se prosseguissem esbandalhavam a
283
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estudos históricos. 1999 24
mesa e a Ley. " Em São Francisco do Rio da Glória, afirmavam que "si reuniçe a
Junta a1istadora, voltariam e antão correria muito sangue". Em São Miguel do
Anta, avisavam que "vinham com o propósilO de tomar os papéis, e em caso de
resistência teriam os membros da Junta de morrer".
As juntas feqüentemente sabem de antemão que algo de grave irá se
passar, o que dá aos relatos cerro sabor teatral. Por vezes as juntas antecipam-se,
avisando as aUlOridades dos ânimos da população, pedindo garantias ou adiando
o início dos trabalhos. Em tal situação de tensão latente, grande número de juntas
de alistamento evitaria prudentemente reunir-se, pretextando desculpas de
viagem, doença, ausência de membros, fal!a de material ou dúvidas sobre os
procedimentos a seguir. Outros recuariam à vista dos acontecimentos. Em
Piranga, por exemplo, os alistamenlOs haviam sido rasgados e incendiados por
"500 homens alwados e desconhecidos", a 22 de agoslO de 1875, aos grilOS de
"urna, urna". O pároco local, assustado pelos acontecimenlOs, pedia prudência
ao governo imperial, suspendendo a odiada lei:
Prevendo que muilO sangue terá de correr nesta locali­
dade, a realizarem-se as promessas daqueles homens. E, como minha
missão seja IOda de paz, mui sensível ser-me-ha semelhante cousa, em
que eu pela força da lei tenha de figurar, em risco de perder m
a
. vida, que
não desejo dar tão barata, e que som
e
. darei em defesa da religião do
Calvário e da Pátria. Pelo que, na emergência de ver-me novamente pela
força da lei na procedencia dos trabalhos da junta, de que infelismente
faço parte, acarretando, assim, a animadversão de muitas ovelhas, que
consideram, por sua inepcia, a Junta como a mais oposta a suas idéias,
por isso ella vira a ser o prim
O
alvo dos seos desmandos, pelo que, logo
que me consta que nova sedição se forma, e para a porra da Matriz se
encaminha, iminentemente, me retiro para a minha caza; porque, como
já disse, não estou disposto a dar a vida por preço tão diminuto. Muito
bom seria que o Exmo. Governo em sua sabedoria poupasse, da melhor
forma, sem
e
. guerra civil.
A geografia da rebelião dos "rasga-listas" não refletia, pois, toda a
extensão do fracasso da lei do sorreio. Em muitas das localidades, as juntas
simplesmente não se haviam reunido pela ausência de alguns dos seus membros,
o que constituía impedimento legal para o seu funcionamento. Se, de um lado,
tais ausências revelavam prudência estudada, ou secreta concordância com os
fins dos insurgentes, apontavam também para os problemas operacionais que
obstruíam o funcionamento das juntas, em função de sua natureza diletante. As
juntas de alistamento enfrentavam, ademais, difceis problemas de interpretação
"A Lei da Cllmbuca"
da complexa teia de procedimentos que a lei do sorteio havia instituído, os quais
se refletiam na disposição para colaborar dos membros das juntas.
Segundo a lei do sorteio, a junta de alistamento devia ser composta pelo
juiz de paz, pelo subdelegado e pelo pároco local. A tarefa não era remunerada,
demandava longos trabalhos e encontrava forte oposição de todos os lados.
Muitos párocos, ademais, na esteira da questão religiosa, faziam oposição
sistemática à lei. Em Ponte Nova, por exemplo, o promotor argumentava que o
vigário era "o chefe sedicioso e agitador em todos os tempos". Havia usado o
púlpito para criticar o governo por ocasião da emancipação dos nascituros e da
questão religiosa, e agora "rebelara-se contra a lei da conscripção, fazendo disso
alarde e ostentação na Tribuna sagrada, no altar, nas ruas e nas praças". O modo
colegiado e diletante de realização dos alistamentos introduzia um elemento de
ficção de dificil controle, acentuando a incerteza da colaboração das autoridades:
São aquelas autoridades acordes em declarar que ha
geralmente prevenção contra o systema adoptado pela citada lei para a
composição de nossas forças de terra e mar, sendo o primeiro obstáculo
que se encontra neste serviço a falta de listas ou o modo incompleto por
que são fei tas as que se apresentam os inspetores de quarteirões, e o pouco
zelo das juntas parochiaes, a despeito das penas impostas aos membros
das indicadas juntas, que, sem motivo justificado, tem deixado de com­
parecer para os respectivos trabalhos. (Relatório d Ministério da Gera,
1 884 : 5)
Ademais, muitas das próprias autoridades compartilhavam, secre­
tamente, as opiniões dos "rasga-listas" quanto à indesejabilidade da lei do sorteio.
Alguns mesmo, mais ousados, se apresentariam pessoalmente à cabeça dos
motins. Em São Francisco do Rio da Glória, a turba seria comandada por um dos
inspetores de quarteirão. Em Tabuleiro do Pomba, a junta informava que muitos
dos insurretos eram agregados do subdelegado. Em São Domingos, na comarca
do Serro, o juiz municipal acusava membros da junta de alistamento de serem os
cabeças do movimento. Em Ponte Nova, o pároco não só não compareceria aos
trabalhos da junta como convidava à desobediência à lei em suas prédicas, sendo
acusado de mentor do incêndio da casa do "promotor maçon". Como comentaria
o chefe de polícia da província de Minas Gerais:
Em geral só não se tem realizado estes factos n'aquellas
localidades em que as authoridades policiaes, coniventes com o povo,
opõe embaraços à execução da lei por meio da inércia, furtando-se ao
cumprimento desse dever por motivos frívolos, e contemporizando com
o povo. ( ..^)
285
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estudos históricos. 1999 24
Nas perturbações gerais da ordem pública, tem tomado
parte grande número de pessoas de todas as classes, ou directa ou
indirectamente, em todas as localidades, e em geral há da parte das
authoridades policiaes, a mesma repugnância à lei mencionada.
Ali onde as ameaças veladas e a hostilidade latente não haviam sido
suficientes para dissuadir a junta de reunir-se, os "rasga-listas" põem-se em ação.
As práticas da rebelião e suas pautas de ação coletiva, apesar da variedade das
situações, apresentam regularidades surpreendentes, embora nada fizesse supor
qualquer tipo de coordenação entre os movimentos que emergiam, simul­
taneamente, nos pontos mais diversos. Por certo, o sucesso dos primeiros eventos
e a impotência do govero provincial animariam a repetição de acontecimentos
em outras localidades. No geral, o movimento fazia lembrar a ação ritualística
das Tlobs do século XVIII europeu (Rudé, 1979).
A rebelião dos "rasga-listas" alterava radicalmente as pautas de ação
coletiva e as estratégias de evasão do recrutamento vigentes até então. Na
operação do recrutamento forçado, as formas de evasão do serviço .haviam-se
concentrado em pontos de fuga oferecidos por aquelas isenções cujas pro­
priedades eram, de alguma forma, manipuláveis pelos próprios indivíduos. Os
ameaçados pelo recrutamento casavam-se, fugiam para os matos, forjavam docu­
mentos, entravam para a Guarda Nacional, para os conventos, para as aulas de
letras, diziam-se praticantes de certo ofício designado nas Inslrções de 1822 ou,
em último caso, mutilavam-se. Como as condições de isenção eram altamente
discricionárias e dependentes de interpretação, o recrutamento resultava em um
complexo jogo de galO e ralO, em que entravam em confito autoridades e
testemunhos. Nas novas condições do sorteio, as possibilidades de manipulação
se transferiam para os alistamentos, e enOIlles poderes discricionários concen­
travam-se nas juntas de alistamento.
A dependência da realização dos alistamentos para a distribuição dos
contingentes ofereceria aos muitos descontentes com a nova lei do sorteio um
meio simples e eficaz de impedir a sua implementação: a destruição dos alis­
tamentos. A lei moldava as novas formas de ação coletva que obstruiriam a sua
execução. A experiência dos sucessivos facassos na realização dos alistamentos
faria com que alguns ministros sugerissem que as paróquias refatárias fossem
submetidas ao recrutamento forçado, como meio de correção do problema, mas
a solução não chegaria a ser implementada (Dicuros, 1882). Apesar dos con­
tinuados esforços, o sorteio efetivamente nunca se realizaria.
Com algumas variações no padrão geral, os amotinados dirigem seu furor
fndamentalmente às listas e papéis do recrutamento, que são rasgados ou
queimados. Os arrolamentos se tomariam o campo de batalha entre os "rasga­
listas" e as juntas, numa luta em que os revoltosos procuravam manter os
"A Lei da Cumbuca"
horontes de illvisibilidade da população e impedir a realização do sorteio. A ação
dos "rasga-listas" acompanha-se de u uso regulado da violência física, a não ser
quando encontra resistência oposta. Os relatos das juntas são, inúmeras vezes,
estrururados na forma do diálogo, em que ficam evidentes os elementos de
negociação entre a multidão e as autoridades. A junta de Catas Altas da Noruega,
por exemplo, relatava a 1 1 de agosto:
Foi a Igreja invadida por um grupo de mais de setenta
indivíduos desarmados, os quaes dirigindo-se àJunta intimaram-na para
encontinente entregar-lhes todos os papéis e livros concernentes ao
alistamento, declarando que pretendiam rasgá-los, visto como não tole­
rariam a execução de tal suppra citada lei. Nesta occasião levantando-me
fallei ao Povo forcejando para convencê-lo de que o meio que empre­
gavam, sobre ser Ilegal e violento, nada produziria; que a nossa consti­
ruição nos garantia o direito de petição, e que representasse aos poderes
competentes. A isto responderam-me que a nada cederiam, e avançando
para a Meza foram se apoderando dos papéis e livros.C ... ) Os papéis e
livros arrebatados pelo Povo foram immediatamente rasgados no eio de
grupos de viva, e protestos de que reproduziriam as mesmas scenas todas
as vezes que a junta se reunisse para a continuação dos trabalhos.
Reunida secretamente em algum lugar das proximidades da paróquia,
a multidão segue para a Igreja, o local marcado pela lei para a reunião da junta
de alistamento. A igreja é referência central da organização do espaço urbano das
cidades. Espaço do sagrado, é também local de atividades profanas, reuniões
públicas e festas e, sobretudo, funções administrativas e políticas. As eleições ali

se realizam, os editais são afixados à sua porta. E ali também que devem se realizar
os alistamentos. Ali, pois, se encena o drama da revolta, de caráter simul­
taneamente simbólico e demonstrativo. As ocasiões festivas, religiosas ou profa­
nas, servirão muitas vezes de elemento catalisador para os ajuntamentos. A
descrição dos eventos de Piranga é característica:
A junta parochial tem a honra de levar ao conhecimento
de V Excia., que, achando-se reunida no consistório da Ma triz provisória
desta cidade de Piranga, em continuação de seus trabalhos as duas horas
do dia 23 do corrente, foi aggredida por um grupo de 50 homens mais
ou menos, armados de paus, foices e facas de ponta, recclamando a urna
Ccomo que se a houvera!) para despedaça-la, ao que o Presidente e demais
membros responderam: "que tal urna não existia." Em virrude de que
reclamaram entrega de todos os papéis que achavam-se sobre a mesa dos
trabalhos, e como a Junta não lhes entregassem, lançaram mãos violentas
sobre elles, achado-se esses papéis de mais a mais colocados entre a
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288
estudos históricos. 1999 24
imagem do Crucificado e de sua mai Santíssima, que para obstar a
maiores males foram por unâneme aprovação da meza colocados sobre
a referida meza de trabalhos.
A multidão tem, quase sempre, uma composição mista, com homens,
grupos de mulheres e por vezes mesmo crianças. Em Sant' Ana, por exemplo, vem
precedida de crianças de dez a 1 2 anos que, como porta-vozes da multidão, dizem
à junta: "deem-nos licença que queremos essa urna". A enigmática participaçao
das mulheres nos motins, recorrente nos relatos da maioria das paróquias, talvez
representasse u modo de manter a salvo de represálias os possíveis recrutáveis.
O perfl das mulheres não emerge claramente dos relatos das juntas. Por vezes
são consideradas como "perdidas"; em outros contextos, são reconhecidas como
mães que desejam proteger os filhos do recrutamento.
A trama dos acontecimentos seria marcada por intensidades de ação
variadas e por deslocamentos geográficos dos boatos, das referências a acon­
tecimentos próximos e dos próprios insurretos. O amplo consenso no interior
das localidades sobre a indesejabilidade da lei ultrapassava mesmo as fronteiras
do mundo da paróquia. Em São Miguel do Anta, por exemplo, uma multidão de
cerca de 200 mulheres, "gente ignorante e de baixa classe", havia rasgado as listas
com grande algazarra. Informava o juiz de paz que "os povos desta feguesia só
apresenta contra". Mas na oposição à lei não estavam sozinhos, pois que o motim
havia contado também com a colaboração de "mais um povo de Capivara, povo
ordinário", que também estava "conluiado com os de Arripiados". Em Peçanha,
já no ano seguinte, nova tentativa de realização de alistamentos faria convergir
sobre a cidade gente de várias freguesias vizinhas:
Disseram que ali iam para rasgar os papéis, pois que não
queriam a lei da conscripção. Não pude garantir a junta porque além do
grande grupo de gente que se dirigiu à Matriz, estavam todos os pontos
do arraial cercados de outros grupos de gente, tendo no mato muitos
indivíduos armados e de caras pintadas. Qualquer opposição que fizesse
sacrificaria-me, sacrificaria os membros da junta e aos soldados; pois
calculou-se que havia no arraial naquele dia, só de pessoas de fora, mais
de mil, sendo elas não só da freguesia do Peçanha, como das do Patrocínio
e S. Miguel e Almas, que foram convidados para auxiliar os da primeira,
apresentando-se como cabeças Joaquim da Silva Graça, conhecido por
Joaquim Peão, Vicente de Souza Sarema e Manuel de Souza Sarema.
Consta que estão falados frustrarem quantos alistamentos se pretender
fazer em qualquer das outras freguesias.
O vocabulário político da multidão seria parcialmente registrado pelos
atemorizados juízes de paz nos seus relatos dos acontecimentos. Nos relatos, a
liA Lei da Cllmbucan
multidão dos "rasga-listas" está sempre bem apetrechada de instrumentos de
desordem. Por vezes at mada "de caçete e pedras", ora "aI mados de cacetes e armas
de fogo", "armados de cacetes e fouces", ou por vezes "embriagados quasi todos".
As estanhas palavras de ordem que precediam ou acompanhavam o ato de
destruir os alistamentos, entretanto, como registraram os juízes de paz, apelavam
antes aos símbolos da ordem monárquica e às bençãos da igreja.
No Prata, por exemplo, apareceram, no dia 10 de agosto, 42 homens a
cavalo armados de cacetes e armas de fogo. Segundo a ata da junta, eram "homens
sem educação e embriagados quasi todos", "homens de pouca ou nenhuma
importância no lugar". Espantosamente, davam vivas a Nossa Senhora do Carmo
(a padroeira do lugar), às "autoridades do Prata" e, sobretudo, "vivas ao antigo
systema de recrutamento". Em Lamim, a multidão, depois de rasgar as listas,
percorre as ruas da cidade munida de uma bandeira branca, dando vivas à
religião, à liberdade e à soberania nacional.
Em outros lugares, a multidão gritaria "Vivas a D. Pedro II e morra essa
lei", "Viva a Constituição do Império, a religião católica e abaixo a reforma da lei
do recrutamento", "Morrer sim, aceitar a lei, não!", "Respeitamos todas as leis
do Império, menos as do recrutamento", "Viva a velha lei" e mesmo, de modo
provocativo, "Vivas à liberdade e à República". O acento nos símbolos da ordem
tradicional, a monarquia, a lei, a religião, dramatiza a dimensão legilimisla do
movimento, restaurando a ordem do mundo abalada. A multidão não se furtava,
também, das inversões simbólicas representadas pela idéia da "república".
Ecos da "questão religiosa" se fariam ouvir também em vários dos
episódios relatados. Como comentaria um deputado provincial sobre os fatos
acontecidos em Diamantina,
( ... ) os factos que se deram também na Diamantina, por
occasião da reunião da junta de Alistamento. Ainda ultimamente deram­
se graves perturbações da ordem pública no termo de S. João Baptista.
Alí não foi somente causa a reunião da junta de alistamento, foi também
a questão religiosa. Formou-se um partido religioso. Esse partido se opoz
aos maçons e lhes declarou guerra de morte. Formaram-se dous partidos
e a ordem pública esteve gravemente ameaçada, e há até mesmo alguns
crimes a lamentar-se. (Annaes d AssembMa Proincial, 1 876: 3\0)
Tais depoimentos demonstram que a ruptura entre Estado e Igreja com
a prisão dos bispos havia ecoado profundamente na "economia moral" popular.
A hostilidade contra os maçons atingia diretamente o Estado imperial, já que Rio
Branco, assim como outras figuras importantes do gabinete que fizera passar as
reformas do sistema métrico e do recrutamento, pertencia também à alta hierar-
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290
estudos históricos. 1999 24
quia da maçonaria. Já durante os "quebra- quilos", em 1 874, os maçons haviam
sido um dos alvos prediletos da ira popular.
N em mesmo a anistia aos bispos iria apagar da memória popular a
hostilidade e a desconfança contra o Estado alimentada pela "questão religiosa".
Os maçons, pivôs da "questão religiosa", se tornariam o principal alvo da irritação
popular em muitas das localidades atingidas pelos "rasga-listas". Se, do lado das
autoridades, uma versão explicativa de fundo conspiratório atribuía os levantes
a maquinações secretas dos jesuítas ou dos liberais, uma versão conspiratória
popular, por sua vez, interpretava a lei do sorteio como obra diabólica do maçon
Rio Branco. De acordo com o promotor público da pequena localidade de São
Domingos do Prata,
( ... ) a idéia sediciosa vae tomando incremento entre os
lavradores mais ignorantes, cujos filhos estão no caso de serem recru­
tados. O poderoso auxiliar de tal incremento vae sendo o boato adrede
espalhado de que a nova lei do recrutamento é elaborada pela maçonaria
do Brasil, e, assim, seo instrumento para os fns os mais destratados
(conforme comentam com a mais vergonhosa ignorância).
Esta vendée do sertão efetivamente impediria que o Estado imperial
efetuasse o sorteio, torando a lei de 26 de setembro de 1874 "letra morta". Nos
anos subseqüentes, todas as vezes que a administração imperial procurou no­
vamente implementar a lei do sorteio, os "rasga-listas" voltaram à ação. Ademais,
os "rasga-listas" expandiriam, progressivamente, a sua fúria a outros objetos de
irritação: casas maçônicas, coletorias, impostos municipais. Para se ter uma idéia
de a que extremos chegariam os ânimos, veja-se o que diz o presidente da
província de Minas em seu relatório, ainda em 1 881 :
Em algumas freguesias do município do Serro, por
ocasião de por-se em execução as leis de registro civil e do alistamento
militar, bem coro um projeto da respectiva Câmara municipal, estabele­
cendo um pequeno imposto para a creação de escolas, occurrências bem
desagradáveis se deram também ( ... ) Alguns indivíduos mal inten­
cionados começaram então a espalhar boatos assustadores entre o povo,
habitante daquelas matas, por demais crédulo e sem nenhuma noção de
direito. Alarmou-se ele então, formando desde logo o seu plano de ataque,
que era: invadir e saquear o distrito dos Paulistas; seguir para o Vermelho,
onde arrancaria o fndo de guerra preciso, e depois para a cidade do Serro,
que saquearia igualmente, e nela estabeleceria u govero.
De fato, no dia 1 0 de janeiro, reuniram-se no Turvo mais
de 300 pessoas armadas, percorreram as ruas, dando tiros, foram ao

"A Lei da Cumbuca"
cartório do Juiz de Paz, rasgaram e queimaram todos os papéis sobre o
alistamento militar. (Relatório da Presiência da Píncia, 1 881 : 6-7)
4
A tentativa de implementação do sorteio militar pelo Estado imperial
procurava contornar os dramáticos problemas de oferta de soldados e as inter­
ferências políticas do recrutamento, estabelecendo um mecanismo de alocação
dos encargos de corte igualitário. Procurava, também, contornar o gradiente de
discrição dos notáveis na definição das circunstâncias do recrutamento, estabele­
cendo um mecanismo cego às propriedades contingentes dos indivíduos. Insuf­
ciente e contraditória para alguns, pelas oportunidades desiguais de escusa do
serviço que permitia, tirânica e arbitrária para outros, pelas incertezas que criava,
a lei do sorteio seria inviabilizada pela oposição dos "rasga-listas". A lei de 1 874
se tornaria "letra mona".
No t as
1. As citações e informações que utilizo
provêm de Correspondência, Oficios e
Atas das Juntas de Alistamento e
Revisão, assim como de outras
autoridades, encontrados em: Arquivo
Público Mineiro, Seção Provincial: SG15
Códice 161(1875); SG15 Códice
162(1875); SG15 Códice 163(1875); SG15
Códice 16(1876); SG15 Códice
170(1882); SG18 Códice 329(1 875); SG18
Códice 402(1881); e Arquivo Nacional,
SDA Códice 603, vol. 5; IG1 200; IG1215;
IJ1601; IJI 649. Para referências mais
precisas, cf Mendes (1997: 250-318).
Re
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e rênci as bi bli o
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2. Documentos em Arquivo Nacional,
SDA. Códice 603 [ol. 5), Coresndência
sobre Moimentos Polít i cos em Vára
Pínc (/822-/89). Também fazem
referência ao movimento Souto Maior
(1978: 181-193), Harer (l989: 49-94),
Meznar (1992: 335-351) e Bettie (1994).
3. Para o Nordeste de uma forma geral,
cf. Eisemberg (1977). Cf. também
Palacios (1987: 325-358).
4. Os relatórios de 1877, 1 878, 1879 e
1880 e 1885 também relatam a
continuação das resistências à aplicação
da lei.
Amen Histal Re, vaI. 57, nO
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24

benefício da reforma seria indireto: a eliminação das perniciosas influências do recrutamento sobre os pleitos eleitorais. Em agudo contraste com o ideário europeizante das elites, no entanto, a década de 1870 foi um momento de profunda inquietação nos espíritos populares, especialmente nas áreas rurais. Iniciando-se com os ecos da questão religiosa, uma série de enigmáticosji,rores populares, que passou pelos "quebra-quilos" e pelas ações dos "rasga-listas" no Nordeste e em Minas, pelo movimento mes­ siânico dos Muckers no Sul, pela "revolta do vintém" na própria Corte, e se encerrou talvez apenas com as epopéias messiânicas de Canudos e do Contestado já na República, reagiu a processos de secularização e racionalização que rede­ finiam as relações entre o Estado e os habitantes dos sertões mais remotos (Carvalho, 1992; Costa, 1987). Postos em movimento por uma conjugação de motivos complexos, tais episódios anunciavam profundas fissuras entre o mundo dos letrados e a cultura oral dos sertões. Na opinião daqueles que promoviam a reforma do recrutamento, tratava­ se de um grande avanço institucional. A lei do sorteio substituía a "caçada humana" do recrutamento forçado por uma forma mais racional e eqüitativa de distribuição do serviço das armas. O próprio imperador vinha insistindo, desde 1 872, na f ala do trono, na necessidade de profundas mudanças no sistema em função das injustiças e tropelias que o recrutamento forçado invariavelmente suscitava (Falas do trono, 1977: 410). A lei de 26 de setembro de 1874 estabeleceu o alistamento militar e o sorteio para homens livres e libertos entre 19 e 30 anos. Voluntários e designados pelo sorteio serviriam seis anos, enqu· alongaria para oito anos. A lei permitia, em tempo de paz, tanto a substituição pessoal quanto a comutação pecuniária. A nova lei aboliu também os castigos corporais no Exército e extinguiu as posições de cadetes e camaradas. Buscando tornar mais suave e atrativo o serviço das armas, a nova legislação procurava eliminar os elementos mais arcaicos da disciplina brutal e arbitrária, assim como as marcas de distinção hierárquica, e para isso suprimiu os sinais mais assustadores do estigma dos soldados. As juntas de alistamento seriam formadas pelo juiz de paz, pelo subdele­ gado e pelo pároco local. Os alistamentos seriam revistos, com as respectivas reclamações, por uma junta de revisão nas sedes das comarcas. Os contingentes anuais da Corte e das províncias seriam fixados na proporção dos indivíduos apurados. Seriam s.orteados indivíduos na razão do triplo do contingente esta­ belecido. O número e a variedade das isenções permitidas por lei reduziram-se drasticamente. Isenções tradicionais, como a dos casados, desapareceram. A nova lei, combinada com a reforma da Guarda Nacional de 1873, alterou também
268

269 . Os amotinados. O debate no parlamento e na imprensa sobre a lei do sorteio havia influenciado profundamente os espíritos. O promotor público de Prata. acreditava que. mesmo nos lugares mais distantes. e mais intensamente na província de Minas. haviam alimentado o descontentamento popular. e que sua implementação tornaria mais eqüitativo e suave o serviço das armas. no intento. seriam também impedidas pela reação popular. os revoltosos. de ignoráncia. Novas tentativas de implementação da lei. não fosse resultado de uma cons­ piração premeditada por elementos pertencentes. As fissuras entre Igreja e Estado produzidas pela prisão dos bispos repercutiam ainda vivamente. As autoridades." J As evidências indicam que as redes partidárias representaram papel importante na recepção hostil à lei. A Guarda seria objeto de um realistamento geral. E inegável que as fagulhas lançadas por liberais radicais e ultramontanos. relatando a destruição das listas por um grupo armado. A interferência dos padres seria ainda mais importante. simplesmente não podiam crer que um movimento de tal extensão. Em alguns lugares. Em muitas localidades. na tribuna e no altar. após a destruição dos alistamentos. tramado silenciosamente e defla­ grado em várias províncias simultaneamente. dariam "vivas ao partido liberal". multidões de homens e mulheres investiram contra as juntas. aparentemente contraditórios. principalmente no Senado. por exemplo. o governo imperial retrocedeu e adiou sille die a realizaçao do sorteio. ou a suas lideranças de maior destaque que. Os revoltosos seriam acusados de fanatismo.) não foram executores da própria vontade e desígnio. destruindo os papéis do alistamento. de algum modo. perdia suas atribuições de polícia e não constituía mais isenção ao recrutamento. O veio conspiratório inspirava a narrativa dos acontecimentos miúdos. ao mundo dos letrados. surpreendeu ao governo. ordem e sucesso. de incompreensão e. A reação popular à nova lei quando da instalação das juntas de alis­ tamento. conduzidos por forças e motivos exteriores à revolta em si. instaladas no adro das igrejas. em sua ingenui­ dade.(IA Lei da Cumbuca" radicalmente as relações do Exército com a corporação. sobre­ tudo. na verdade. Uma interpretação conspiratória do movimento sugeria que os "rasga-listas" haviam sido. nos anos subseqüentes. realizado por "homens de pouca ou nenhuma im­ portância no lugar". Temeroso das repercussões. em melhor posição social relativa a taes instrumentos de desordem. haviam combatido veementemente o projeto. a indisposição dos párocos para com a lei os colocaria na linha de . tomadas de espanto. Em várias províncias do Império. entretanto. teriam sido manipulados pelos jesuítas ou pelos liberais radicais. estes "(". mas sim do que alguém (athé est'ahora desconhecido). na província de Minas. pois parecia evidente àqueles que defendiam a nova lei que seu objetivo era modernizante e civilizatório.

a insatisfação popu­ lar encontrava seus motivos principais nas profundas mudanças na rotina do recrutamento que a nova lei introduzia. Na tipologia de Charles Tilly. imobilizava as operações das juntas de alistamento. para além das querelas partidárias e religiosas. na ausência de qualquer um dos membros. A revolta é interpretada aqui como prática coletiva cuja forma exprime repre­ sentações e expectativas dos agentes sobre a natureza da ordem social. introduzindo novos elementos de incerteza. no espírito da população livre em geral. de natureza /egitimistà. Mas. uma forma elaborada e sutil de negociação ritualizada entre a multidão e as autoridades. recrutamento e abastecimento haviam sido. O motim é. 1999 - 24 frente dos que a ela se opunham. O que se propõe aqui é uma interpretação das palavras e ações dos "rasga-listas" no quadro de referências de uma economia moral do recrutamento. Os tumultos sobrepunham-se às cli­ vagens partidárias e ideológicas convencionais. Complicava mais ainda a situação o fato de a lei ter definido o pároco local como um dos três membros da junta de alistamento. a qual. 1 978. 1993: 185258). transgredida de algum modo pela ação ou omissão da autoridade. e os eloqüentes testemunhos das atas das juntas de alistamento. sobretudo. A lei do sorteio rompia expectativas tradicionais quanto à forma e aos objetivos do recrutamento. que revelavam fraturas na interpretação do significado do sorteio entre os mundos da cultura letrada e da cultura oral. Movimentos reativos constituiriam ações eminentemente defensivas contra intrusões perturbadoras em rotinas e ananjos tradicionais provocadas por mercados internacionais em expansão e/ou Estados nacionais. à restauração da ordem natural das coisas. os motivos típicos das revoltas da multidão pré-industrial (Tilly. os "rasga-listas" cer270 .estudos históricos. 1975: 380-455). Thompson. O motim pré-industrial é. que representa "esforços de um grupo para reafirmar direitos estabelecidos quando algo ou alguém os viola ou desafia" (Tilly. Taxação. fundamentalmente. em certa medida. sentimentos profunda­ mente enraizados de oposição à nova lei. Ele visa ao retorno do habitual e do aceitável. não deixam dúvidas de que existiam. Hobsbawm e T hompson demons­ traram. não poderia reunir-se. A extensão do movimento. 1 978: 145). na desordem aparente das aglomerações e explosões da multidão pré-in­ dustrial é possível identificar formas de organização e lógicas de ação surpreen­ dentemente coerentes (Rudé. a ação dos "rasga-listas" seria classificada como uma forma de protesto popular fundamentalmente reativa. Como os estudos clássicos de Rudé. A própria lei do sorteio. 1979. ao dar substancial poder de veto aos párocos. ou seja. na Europa dos séculos XVII e XVIII. Hobsbawm. objetivos bem definidos e considerável auto-restrição de parte da multidão. As regularidades na pauta de ação dos motins revelam a operação de regras precisas. No contexto das experiências adquiridas com as práticas do recrutamento.

os apelos à virtude cívica e à honra militar deviam soar absurdos. Ser soldado no Brasil imperial significava estar sujeito a longos anos de disciplina brutal e arbitrária. os alistamentos do sorteio e o novo arrolamento de escravos aumentava. morra a escravidão. pois que "alforriam nossos escravos e querem captivar-nos com a ley da cumbuca". trabalhos pesados. reais ou metafóricos. A modernização do recrutamento será interpretada pela população livre como uma ampliação injustificada dos encargos exigidos pelo Estado imperial. com freqüência. os "rasga-listas" teriam dito aos membros da junta que "não queriam aquella ley que lhes vinha arrebatar seus filhos que lhes tinha custado criar". Os alistamentos reduziam. em 1851. havia levantado apreensões quanto à possibilidade de reescravização dos libertos. dando origem ao movimento conhecido como "guerra dos marimbondos" (Palacios. Os agentes usavam de todos os ardis imagináveis para capturar recrutas. as relações entre o Estado imperial e a população livre pobre sempre haviam sido marcadas por um alto grau de desconfiança mútua e arbitrariedade. lei de caúveiro para os nossos filhos". e as autoridades sistematicamente fechavam os olhos às traduções locais das levas que se operavam 271 . Em Ouro Branco. associada à do "caúvo" (McBeth. por exemplo. Os arrolamentos para o sorteio também sugeriam vínculos. tais movimentos revelavam um sóbrio senúdo de pn4dêllcia. as desconfianças quanto à "lei do cativeiro". um grupo de homens e mulheres gritava "viva a liberdade. assim corno capacidades consideráveis de ação coletiva. A lei do registro civil. garantia fundamental de proteção frente às demandas extrativas do Estado (Hespanha. submetidos a longos termos de serviços. A condição dos soldados. Contrastados com as terríveis reali­ dades do serviço nas linhas. Do ponto de vista da plebe libre. Na pequena paróquia do Melo. privações várias e disciplina severa e arbitrária. até 1874. na província de Minas. Ao contrário de demonstração de ignorância. ademais. com a idéia do caúveiro. e a punição mais comum era o casúgo das "pranchadas" de espada. 1989). não queremos a lei do sorteio. No que se refere ao recrutamento. pelo terrível código do Conde de Lippe. o recrutamento forçado fora sempre a "caçada humana". Afinal. certamente. A proximidade entre o censo demográfico. maior eficiência nas operações do recrutamento resul taria em maior capacidade de tiranizar o cidadão comum.privações e riscos de toda sorte. Os agentes do recrutamento freqüente­ mente desrespeitavam as garanúas legais representadas pelas isenções."A Lei da Cumbuca" tamente tinham muito boas razões para agir corno agiram. os horizontes de invisibilidade da população. 1972: 60-78). era. uma ameaça à liberdade que aproximaria perigosamente a condição do homem livre pobre daquela do cativo. 1986). A disciplina militar no Exército e na Armada seguiria sendo regida.

embora nem sempre respeitadas. ao infortúnio ou ao destino. atribuíam sentido às decisões de local justice de distribuição dos encargos com referência a certo "utilitarismo corporativo" (Mendes. no entanto. pois. As loterias seriam. 1988: 483-516). Apesar de toda a arbitrariedade e confusão. Quanto menos diferenças relevantes são reconhe­ cidas entre os recipientes. outras relacionavam-se aos problemas de confiança envolvidos nas relações entre o Estado imperial. em muitas situações alocativas trágicas de distribwção de "males". o recrutamento forçado estabelecera um modo de convivência precário. as loterias seriam o mecanismo alocativo que mais se aproximaria do ideal de um igualitarismo simples (Elster. as loterias oferecem aos recipientes potenciais. As suas condições formais básicas são a eqüiprobabilidade e a impessoalidade. maiores as probabilidades de resultados que sejam vistos como absurdos de algum ponto de vista substantivo. • • • Idealmente. com alto grau de certeza acerca dos grupos sobre os quais recairiam. 1992: 62-76). 1992). fresca ainda na memória. Ao que parece. A recente mobilização para a guerra. O recrutamento cumpria importantes funções de controle social (Beattie. Diferentemente de decisões alocativas baseadas em alguma forma de adjudicação ou de mercados. Seu funcionamento obedecia a certa "economia moral" no contexto da paróquia. especialmente quando a escolha é insuportável (1978: 41). O modo altamente discricionário de realização das levas era equilibrado pelas precárias garantias da extensa rede de isenções consensuais que. as loterias não oferecem quaisquer razões para as distribuições que detemlinam (Komhauser & Sager. dadas as circunstânclas em que se processana o sorteIO. punindo seletiva e preferencial­ mente indivíduos turbulentos. 1999 - 24 através da administração diletante e dos partidos. as loterias são escolhidas precisamente por tal silêncio. heterogenei­ dade ou escassez extrema na distribuição de um bem ou encargo. decisoes de evadir-se da responsabilidade da escolha. mas relativamente estável. 272 . Na presença de indivisibilidade. a administração honorária e as várias categorias de cidadãos. probabilidades idênticas de obtenção de um bem ou encargo. inde­ pendentemente das suas propriedades circunstanciais. 1997: 139-200). trabalhadores pouco diligentes (Meznar. pequenos criminosos. os encargos. na expressão de Calabresi e Bobbitt. filhos ingratos. 1994: 33-86). A adoção das loterias como principal mecanismo de alocação militar rompia esse modo de convivência por várias razões.estudos históricos. maridos infiéis. havia colocado em suspenso todas as fronteiras tradicionais das redes de privilégio e isenção. As loterias dramatizam as ambigüidades e tensões inerentes à idéia de igualdade. que remete a escolha ao acaso. Algumas dessas razões tinham a ver com as propriedades formais das loterias. provavelmente.

Primeiro. visto que as isenções requeridas. importariam decisivamente as diferenças no desempenho das várias agências locais de alocação da prestação militar. O número adicional de sorteados tinha em vista consi­ derações de prudência. O arsenal das possibilidades de manipulação 273 . não pareciam suficientes a ninguém. .UA Lei da Cumbuca" Operacionalmente. durante as discussões da lei no parlamento. colocando praticamente toda a população masculina em perigo de se ver chamada às bandeiras a qualquer tempo. que o resultado de tal disposi­ tivo seria pôr em movimento sucessivas ondas de refratários em fuga. especialmente na preparação dos alistamentos. Elas evitam os problemas de complexidade moral das comparações relativas de escalas de mérito. dispensas médicas. entretanto. corporificados nos "hábitos e cos­ tumes" do país. substituições. . Tanto os refratários quanto mesmo os não premiados com um número "ruim" se viam agora sob ameaça permanente de captura. evasão dos refratários etc. de um lado. ademais. emergiriam três pontos críticos relacionados ao sorteio militar nas circunstâncias peculiares do Império brasileiro. podem ser preferidas como mecanismo de alocação quando há elevada desconfiança com relação à honestidade dos respon­ sáveis pela alocação. direitos e conseqüências. considerando-se que o sorteio supõe 11 decisões de local justice realizadas de fOIlna descentralizada. o problema de cOllfi­ ança com relação à eficácia das sanções disponíveis aos refratários. precisavam. Da análise das propriedades formais das loterias. tornava-se permanente. Por todas essas razoes. e à honestidade dos responsáveis pela alocação. combinando elementos de chance e compulsão. acerca das possibilidades de manipulação discricionária oferecidas pela composição das juntas e pelo modo de produção dos alistamentos. A incerteza. sendo procedimentos de decisão mecânicos. As loterias. limitam também as possibilidades de corrupção e parcialidade dos distribuidores. ser compensadas por novas designações. pois. Por fim. já crônica. A lei determinava que no sorteio seriam tirados números correspondentes ao triplo do contingente desig­ nado para a paróquia. As garantias de eqüidade e honestidade nos alistamentos. O sorteio passava a representar uma ameaça imprevisível. de algum modo. Sérias dúvidas seriam levantadas. A nova lei exponen­ ciava a incerteza. Parecia óbvio. que no recrutamento forçado se concentrava em certos momentos cntlcos. e sempre renovada. produzida pelas levas. 1984: 38-55). com possíveis resultados agregados de global injustice. de qualquer ponto de vista substantivo) e as concepções correntes do significado de uma distribuição "justa" ou "eqüitativa". de outro. as loterias reduzem drasticamente os custos de in­ formação e decisão de determinada escolha (Broome. O segundo problema era a intransitividade entre a contingência e impessoalidade dos resultados (potencialmente absurdos.

à exemplo de cimento e execuçao propalava-se que um grupo aI outras partes. cerca de 100 pessoas informavam solenemente à junta que "não aceitavam a lei por ser injusta". em muitas localidades a multidão que rasgava as listas acompanhava sua faina de "vivas" à antiga lei do recrutamento. informava a junta. "homens ignorantes que nem ler sabem (. (. simples "lavradores ignorantes". dizem que o que se quer é illudir a elles". e não há exenção algua". causou tal impressão nos Ci­ dadãos alistados e mesmo no Povo. No mundo dos homens livres pobres. Em Boa Vista do Rio Novo. os laços pessoais estruturados em redes de parentes.) Muitos Cidadãos compareceram e pediram a Junta para não dar-lhe execução. e já estavam cansados de aturar leis tão vexatórias". Na cidade de Pouso Alegre.estudos históricos. por exemplo. Em São Caetano do Chopotó. pois do contrário teria de se reproduzir aqui as scenas de outras partes. que momentos depois do seu conhe­ mado.) entendem que a ley é muito peior que a antiga. quer seja solteiros ou casados. Ademais. A doutrina deste aviso. Em Diamantina. a junta informava que ao fazer saber do aviso do Ministério da Guerra de 3 de agosto. por exemplo.. homens e mulheres gritavam "viva a velha lei" enquanto rasgavam os papéis. 1999 - 24 dos alistamentos poderia ser tão extenso quanto o das tricas eleitorais. Talvez o elemento mais decisivo a tocar o senso de injustiça e a chamar à ação os "rasga-listas" fosse. entretanto. tal como a dos casados. 1992).. Em Sant'Ana dos Ferros. Em Coromandel. "não querem explicação alguma. Isenções tradicionais. pretendia dar cabo de todo trabalho começado. não haviam sido incorporadas à lei. O sorteio ameaçava eliminar as linhas de demarcação entre protegidos e desprotegidos (Meznar. os "rasga-listas" gritavam "viva a constituição 274 . "homens de pouca ou nenhuma im­ portãncia no lugar". e intendem que o sorteio é feito em todos de 19 a 3S annos.. davam "vivas ao antigo systema de recrutamento". De forma reveladora. que então não se podia dar isençõens". os revoltosos afirmavam que "não aceitavam a lei do recrutamento. clientes e amigos ofereciam proteção contra as ameaças do recru­ tamento. privilégios ou utilidade social se tornassem objeto de mercado. Em Paraíba do Mato Dentro.. O sorteio reduzia drasticamente as possibilidades de negociação e barganha características da dinâmica do recru­ tamento forçado. Temia-se que isenções antes obtidas pelo reconhecimento legal de imunidades. No Prata. impondo a presença de um Estado distante e impessoal. um dos "rasga-listas" diria ao juiz de paz que o sorteio era "uma rede que o governo armava para colher o povo. o fato de que o advento do sorteio representava uma perda fundamental para o controle local sobre o recrutamento e as possibilidades de tradução local das levas. declarando que as juntas não eram competentes para atender as reclamações.

O que os habitantes do Brasil imperial não podiam admitir. o faz recahir actualmente sohre os filhos do grande e do pobre. Espírito Santo. que não há meio de fugir della. elle assim o faz. a Religião Catholica e abaixo a reforma da ley do recrutamento". não há meios de recorrer aos matos e de fugir da localidade onde se é perseguido. trazendo a possibilidade de resultados absurdos. Paradoxalmente. Rio de Janeiro. Elas são incapazes de resolver os problemas colocados por valores discretos em conflito (Calabresi & Bobbin. afirmara que nas sociedades democráticas a paixão da inveja fazia tolerar o peso do encargo do serviço militar. 275 . e que o remédio é por embaraço à sua execução. Paraíba. ao analisar os mecanismos de seleção militar entre os americanos. e até mesmo ler e conhecer esta lei. Rio Grande do Norte e Ceará. as fontes do ódio popular à lei baseavam-se precisamente na crença na justiça da distribuição desigual do encargo e no temor de sua dis­ tribuição incena. Bahia. Alagoas. (Am!aes da Assemblea Pruvincial. em vez do recrutamento. 10 de agosto de 1875. as atas das juntas de alistamento de inúmeras paróquias relatariam a ação de grupos de homens e mulheres interrompendo 2 repentinamente as reuniões das juntas e destroçando os papéis do recrutamento. o sorteio evocava uma idéia de eqüidade na distribuição dos encargos que procurava eliminar as possibilidades de tratamento discricionário. multidões de homens e mulheres invadiriam os adros das igrejas. Como analisava o chefe de polícia da província de Minas. e que muito dificilmente poderá comprehender. Em Minas Gerais. 1978). Desde que o povo. movidos por inveja aristocrática. e que portanto. em várias províncias. ainda mesmo à custa do derramamento de seu sangue e da sua própria vida. 1993: 151-55). São Paulo. Pernambuco. 1980: 499. desde que o povo entende que a lei é péssima. em sua maior parte quasi ignorante. inversamente. Tocqueville. a principal dificuldade com o mecanismo alocativo das loterias é que elas são incapazes de distinguir diferenças relevantes entre os indivíduos. que até então indisponibilizavam grande parte dela para fins militares. impedindo a realização das reuniões das juntas ou destntindo os alistamentos que ali se realizavam. que era feito pelas authoridades e recahía sobre um ou outro desordeiro da localidade. No dia determinado para a reunião das juntas de alistamento em todo o Império. era o tratamento igual para seres que consideravam como fundamentalmente desiguais. está imbuído na idéia de que é péssima. mas não a sua desigualdade (Toc­ queville.fiA Lei da Cumbuca 11 do Império. De outro lado. Como Calabresi e Bobbin observaram. de que esta lei. Elster. 1876: 308) Os alistamentos reduziam drasticamente os /wrizomes de invisibilidade da população.

1999 - 24 A geografia dos distúrbios. Na Paraíba. um sério confronto já havia oposto povo e tropa na cidade de Salvador no dia 2 de julho. 1876). Seguir-se­ iam prisões e confrontos com a tropa em várias dessas localidades. Barcelos e Maraú. durante os festejos públicos da independência da Bahia. apareceriam inúmeras proclamações e provocações de resistência contra o recrutamento. Nas províncias do Norte. Buíque. ocorreria novo conflito com a tropa em Canguare­ tama. bradando que se tratava de uma "lei para captivar o povo". Campina Grande e Pilar. todos na comarca de Camamu. 1875[IV]: 2). entretanto. 1977: 401-424). coincidentemente. cerca de 200 homens armados. Em Cimbres.estudos históricos. grupos de mulheres ocupariam as igrejas e rasgariam todos os alistamentos. na regiao do agreste. resultando a escara­ muça em mortes e ferimentos. haveria "grande exaltação". no Ceará. São Caetano. Na freguesia de Leopoldina. em Pernambuco. São Bento. Em Limoeiro. Saboeiro e Conceição do Baturité. . a tropa atirou sobre a multidão. seriam rasgadas todas as listas e demais papéis durante a noite. Boa Viagem. "sintomas de oposição à nova lei" se faziam sentir em Alagoa Grande. mesmo nos jornais (A. Nas Alagoas. com novos feridos e presos. no tempo e no espaço. sem encontrar abrigo em qualquer parte (Villar. no Rio Grande do Norte. "depois de ter travado o cacete. rasgaram as listas. Em Acarapé. A açao de "quebra-quilos" e "rasga-listas" se concentraria. com os habitantes recusando-se a dar os nomes para as listas. Homens e mulheres armados des­ truiriam as listas em Santa Ana do Catu. e que ficaria conhecida como "quebra­ quilos" (Barman. Bonito. que ordenou os disparos. seria espancado por populares quase até a morte. Da confusão resultariam um morto e muitos feridos. cerca de 300 pessoas entraram em conflito com a tropa. Garanhuns. O comandante Frias Villar. resultando em três mortes e sete feridos. igualmente. Em Goianinha. quando. listas seriam rasgadas em Palmeira dos Indios e Penedo. cerca de 60 "desordeiros armados de fouces e cacetes" haviam entrado em conflito com a força pública. Alguns dias depois. e se dedicava igualmente 276 . e muita facada corrida". rasgando os editais e ameaçando os inspetores de quarteirão e os membros das juntas. Em Itambé. Quixadá. por meio de uma extensa rede de feiras locais. seria marcada por intensidades variáveis. Na seqüência dos eventos do 2 de julho. com a significativa exceção das petições que requeriam isenções. a reação contra o recrutamento seguia de perto os passos da rebelião contra o sistema métrico que havia varrido a região entre novembro de 1874 e janeiro de 1875.maes do Senado. Altinho. onde uma florescente agricultura de brejo baseada no trabalho livre dos "matutos" abastecia o sertão e a mata. Ingá. A tensão latente entre tropa e povo na cidade parecia ligar-se diretamente à questão dos alistamentos que estavam por se iniciar. Na Bahia. A1agoa Nova. Bom Conselho e Triunfo. Gravatá.

. que tinha de ser executada nesta villa com o supposto título de lei do recrutamen to. Talvez em analogia ao sempre presente problema das "moedas falsas". Em Canguaretama. que era lima lei para captivar o povo. coincidentemente. a substituição das múltiplas referências concretas tradicionais por medidas abstratas e desconhecidas trazia suspeitas de que a interferência da regulação estatal no domínio das medidas teria o efeito de desfavorecer os pequenos lavradores e os consumidores em geral nas suas relações com os comerciantes e arrematadores de impostos. adernais. das casas maçônicas. tal como havia sido a lei do censo de 1851. o qual gritava em altas vozes que era o maior homem desta terra. de "lei do cativeiro": (. sérias dúvidas se a nova lei do sorteio iria realmente "modernizar" os procedimentos do recrutamento. ainda que apenas simbolicamente. Os "quebra-quilos" haviam dirigido sua ira contra os novos pesos e medidas. a lei do sorteio seria rebatizada pelos insurgentes. no Rio Grande do Norte. em São Paulo. os instrumentos da progressiva racionalização das re­ lações entre o Estado.liA Lei da Cumbuca U à produção comercial do algodão Qoffily. dos impostos provinciais e da nova lei do recru­ tamento (Souto Maior. capitaneado este grupo por um pardo de nome Antônio Hilário Pereira morador nesta Villa. Em certa medida. e que se continuassemos morreriam em primeiro lugar o Doutor Juiz de Direito da Comarca. qua/ldo sabiam. o Juiz de Paz presidente e o Vigário da Freguesia. mas não se haviam esquecido. O ministro da Justiça. realizando rigoroso recrutamento entre os insurgentes e aplicando o castigo do "colete de couro" a muitos outros. as coletorias e os registros notariais. curiosamente. 1892: 1 15-118). Com a destruição dos novos pesos e medidas do sistema métrico nas feiras. também. de vinte e poucos anos antes (Palacios. Os motivos e inquietações também guardavam certa seme­ lhança. armadas de cacetes. a queima dos papéis dos registros notariais. 1989). os "quebra-quilos" procuravam eliminar. deixaria. ao relatar os acontecimentos em São Paulo. 1978: 31). registrava a sua ligação com os deslocamentos dos 277 . ) por um crescido grupo de homens e mulheres de 400 a mais pessoas. "quebra-quilos" e "rasga-listas" reproduziam geografia muito semelhante à revolta dos "marimbondos" e ao "ronco da abelha". dos correios e das coletorias. todas limítrofes de Minas. A violenta repressão que se seguiria àquele movimento. e gritando que não queriam a lei do governo. por exemplo. pela coluna militar do coronel Severiano da Fonseca. além de outros que ousassem auxiliar a junta. As poucas paróquias atingidas pelos "rasga-listas" na província eram. os acon­ tecimentos pareciam apenas transbordar os eventos da vizinha província de Minas. Se no Norte a ação dos "rasga-listas" seguia uma linha de continuidade com as agitações dos "quebra-quilos". o mercado e os cidadãos..

Na paróquia do Rio Verde. os alistamentos em preparação seriam rasgados ou queimados. a ação dos "rasga-listas" mineiros seria acompanhada. 1999 - 24 mineiros: "Mais de 100 homens armados.. As circunstancias da Província actualmente. pelo menos mais 19 outras localidades seguiriam o mesmo destino. e as obrigam a dispersar-se inutilizando os papéis relativos ao recrutamento. para a cidade de Franca pelas vilas do Cajurú e Santo Antônio da Alegria. por que são elles interrompidos por massas de povo de ambos os sexos. com agitação crescente. em que a aglomeração motivada pelas comemorações do dia da inde278 . e às vezes as próprias autoridades insultadas e mesmo agredidas. em setembro de 1875: Se pode asseverar que em nenhuma parocrua da Provín­ cia se conseguio ainda que a junta Parochial funccionasse regularmente e telIninasse os seus trabalhos. São Domingos do Prata. o juiz de paz comentava que o movimento sedicioso concentrava-se justamente naqueles lugares onde havia passagem de romeiros. já então famosa pela invencível aversão dos seus habitantes ao serviço militar. Uberaba e Serro. laconicamente. variavam entre 30 e 500 pessoas. de Pouso Alegre. O chefe de polícia informava. segundo os informes das atas de instalação das juntas. os habitantes da província de Minas pelos distúrbios na sua jurisdição: "Segundo informa o Jttiz de Direito da Commarca há sérias suspeitas de ser o Vigário da Paróchia o promotor de tal attentado. destruíram os livros e objetos relativos ao recrutamento" (Relatório do Ministério da]ltStiça. ao menos no primeiro momento. são melindrosas e assustadoras. Nessas ocasiões. Em contraste com o que acontecia no Norte. concentrava-se na província de Minas Gerais. Os poucos casos de conflito aberto parecem ter-se concentrado naquelas cidades em que com a questão do recrutamento entrelaçava-se a luta entre católicos e maçons. O chefe de polícia de São Paulo também responsabilizaria. Durante todo o mês de agosto. que invadem as igrejas.( . accomettem as Juntas. 1877: 5). outras 30 paróquias assistiriam a tumultos semelhantes.estudos históricos. além do pároco local. Acontecimentos como aqueles relatados pelo jornal liberal O Mineiro. como aconteceria em Ponte Nova. dirigindo-se do sul da província de Minas . de relativamente pouca violência e praticamente nenhuma resistência das autoridades. é preciso dizê-lo francamente. Em setembro." A maior parte dos protestos contra a aplicação da nova lei. ) Tem se dado a coincidência de taes movimentos só terem aparecido nas localidades em que existem muitos mineiros. as juntas de alistamento de pelo menos 78 localidades daquela província seriam atacadas por multidões que.. entretanto. onde seriam também rasgados os livros e injuriados os membros da junta. Entre outubro de 1875 e abril de 1876.

um "grupo de povo". em um divertimento familiar. livros e mais papéis concernentes ao alistamento. ao Partido Liberal. tendo à frente o alferes Francisco Ferreira. Lopes. sempre com a música à frente. Juiz de Direito da Comarca.. presidente da Junta. acodindo ao chama­ mento. ao dia 7 de setembro e aos mais eminentes vultos do partido liberal do Império. Dirigiram-se à casa do Sr. e os que ignoravam o movimento não viam nisto sinão que se preparavam para festejar o aniversário de nossa independência. agradecendo as saudações que lhe eram dirigidas. ao povo. ao dia 7 de setembro. Em Madre de Deus. continuou a percorrer pacificamente as ruas. algumas pessoas distintas e o principal redator desta folha. Em Botelhos. o Sr. Capitão Caetano G. em muitas outras localidades a destruição das listas seria acompanhada de comemorações festivas e contaria com a conivên­ cia. Saraiva. Dr. e como que saptisfeito do que havia feito.e se retirara pacificamente. à Nação brasileira. entregara um protesto escrito contra a lei. e na maior harmonia. homens e mulheres haviam percorrido o arraial acompanhados de música. 279 . depois de tocar a música. a junta acusaria que "entre o povo de classe baixa. Em Piedade da Boa Esperança. dos principais do lugar. com a corporação musical à sua frente. em verdade. por exemplo. As 6 horas da tarde."A Lei da Cumbuca" pendência haviam criado as condições práticas e a referência simbólica para a destruição dos alistamentos. aos Conselheiros N abuco. mais de duzen­ tas pessoas. a destruição das listas havia sido realizada por um "grupo de homens moradores em suas roças". poderiam ser considerados típicos da pauta de ação dos "rasga-listas" na província: Desde as 4 horas da tarde. foi então quando os manifestantes explicaram o motivo d'aquella reunião: pediam em altas vozes que queriam rasgar as listas. sahio a frente.. mas. Silveira Lobo e Zacharias. depois de destrUírem listas e edital. ( . haviam pessoas de posição mais elevada". foi este enthusiasticamente saudado pelo povo. às vezes mesmo com a participação ativa. e dizia-se mesmo que "o Juiz de Paz era sabedor deste plano". ahi. o Sr. Delegado de Polícia. pedio que lhe dissessem o que preten­ diam de sua pessoa. o Juiz de Paz entregou os papéis que o povo destruio em poucos instantes. "esta gente era dirigida por pessoas da cidade". que para o lado do Rozário subiam ao ar innúmeras Girandolas. mais ou menos. onde se achavam reunidos. Em Uberaba. o povo exigio a presença do redator do "Mineiro". dando vivas a Nação Brasileira. dando repetidos e entusiásti­ cos vivas à soberania do povo. e exigio pacificamente que lhe fizesse entrega das listas e todos os papéis do alistamento depois de alguma hesitação. Assim como em Pouso Alegre. ) Dirigio-se o numeroso ajuntamento à casa do Juiz de Paz.

acalmar os ânimos ou punir os revoltosos.000 escravos e I. não obstante os es­ forços empregados para preencherem-se na máxima parte a execução da referida ley. A aversao dos mineiros ao serviço das armas era proverbial. No Serro. accresce que há absoluta carencia de força pública. A Guarda Nacional. não é de surpreender que a geografia da revolta tivesse seu centro naquela província. e que gozavam da concordância tácita das próprias autoridades. alem de que é in­ volvida nas perturbações locaes a maior parte da população que a consti­ tue. Em Minas concen­ travam-se cerca da metade da população livre e quase 2/3 das paróquias do 280 . conseguir-se a reorganização do Corpo Policial. "banda de música e longos discursos do Dr. pelas dimensões da província e pela precariedade dos recursos à disposição do governo provincial.estudos históricos. 700. As inúmeras solicitações de tropa que fariam as juntas de alistamento para fazer valer sua autoridade. 1999 - 24 "demonstrando regozijo por terem frustrado o alistamento".000 habitantes livres na província. apesar dos esforços empregados. ou não poderiam ser atendidas ou o seriam tardiamente e de forma insuficiente. e os transportes e comunicações difíceis. e a mais populosa do Império. incompleta em toda Província. O censo de 1872-74 indicava a presença de aproximadamente 300. a revolta contra os alistamentos reproduzia um padrão de repulsa a qualquer modalidade de serviço militar que vigoraria ali durante todo o século (Mendes. 1997: 101-109). O chefe de polícia lamentaria a total ausência de meios repressivos para conter a revolta na provínCla: • A falta de authoridades policiaes. A oposição à lei era facilitada. Minas era uma província interior muito grande. quasi nenhum auxílio pode prestar. com casas iluminadas. Apesar das muitas cidades e vilas. entretanto ainda não foi possível. que creou a Guarda Municipal. Na verdade. por que tendo sido dissolvido o corpo policial por ley provincial. desorganizada em sua totalidade. seguiram-se comemorações à noite. As taxas de voluntariado e o apurado no recrutamento forçado tinham sido sempre ali proporcionalmente muito inferiores a qualquer outra província do Império. Mares Guia". Na verdade. em que não é permitido o recrutamento. depois do dia agitado. sustentada pelas interpretações consuetudinárias das "isenções de utilidade". ademais. "não foi somente a Plebe que fez a sedição". metade dos quais eram classificados como negros ou pardos. analisava a junta. havendo geral negação para o serviço militar. e a vitória dos "rasga-listas" seria comemorada com fogos e "infernal alarido". a ocupação do território era dispersa. Em Lavras do Funil. Ali se havia estabelecido forte tradição de resistência às exigências do Estado imperial.

entretanto. e a província fosse mesmo durante boa parte do século uma importadora líquida de escravos. e portanto maior resistência às demandas do Estado. ligado à produção de alimentos para o abastecimento da própria província e da Corte. ou com estes estrangeiros. Dada a ampla disponibilidade de terras. Libby. Contribuições recentes têm revelado que a economia da província era altamente dinâmica e diversificada. como admitia o presidente da província em 1875: As condições especiais d'esta Província. Embora as dinâmicas da economia e da sociedade prosseguissem sendo solidamente escravistas. sem párochos. Minas Gerais e o agreste nordestino. No Rio Grande do Sul. são outros tantos motivos que concorrem para que a lei do alistamento e sorteio militar encontre embaraços na sua inteligência e fiel execução. 1983). açúcar ou tabaco (Martins. os dois principais focos da geografia das revoltas da década de 1 870. por trajetórias à parte no processo de transição ao trabalho livre. 1991: 1-35). Província de tradição militar.3 Nessas regiões de concentração da pequena produção mercantil. . muitas delas com pessoal pouco habilitado. a multiplicidade de freguesias. a relativa liberdade dos sitiantes dos laços de dependência contrastaria com a sujeição dos agregados e moradores das áreas de plamatiolZ.ttA Lei da Cumbuca 11 Império. supostamente. não consta que a realização dos alistamentos encontrasse obstáculo na ação da multidão. os alistamentos seriam 281 . sua extensão territorial. Ao que parece. Ap contrário. fazendeiros. o 10 de agosto fazia explodir uma situação de tensão latente que era comum a praticamente todo o Império. é de supor que a presença das tropas oferecesse muito mais garantias à operação das juntas que no restante do país. os trabalhos das juntas parecem ter-se realizado ali com ordem e regularidade. habitando os membros de que se compõe as juntas a grandes distâncias do lugar da reunião. os plantéis médios de escravos eram muito menores do que nas regiões agroexportadoras tradicionais de café. por exemplo. apesar de servir fundamentalmente ao mer­ cado interno. Laços mais horizontais que verticais peIlnitiriam. Ainda assim. maiores capacidades de ação coletiva. assim como uma importante indústria têxtil doméstica de panos de algodão (Martins. As Iimi tações materiais e morais da administração honorária se faziam sentir em toda a sua intensidade ali. Apesar das variações regionais. distinguiam-se. 1980. de pequenos sitiantes. agregados e sitiantes depen­ diam mais do trabalho livre sob bases domésticas do que em outras regiões do paIs. prosperava ali um proto­ campesinato livre. em certa medida.

contemplados em rói pelos lnspecrores de Quarreirão. A tradução /ocal que caracreristicamente marcava o recruramento forçado se trans­ feria ali para a realização dos alisramentos. excluindo os da conrrária. por esras considerações não reve a junra dúvida alguma em deferir a dira reclamação. Em Bajé a junta de a1isramento. O Alisramento pous em geral consistiu no lançamento daquelles cidadãos que no conceito das Juntas parochiaes não tinham isenção ou não reclamavam. julgando que já se ocupavam suficientemente nas liturgias e. havia eliminado 278 guardas do alisramento. 1999 - 24 marcados por problemas que revelavam claramente as múltiplas dificuldades que a administração honorária impunha à implementação da nova lei. e todos aqueles que em seu conceiro se achavam em raes condições não foram contemplados no alisramento. Seus nomes apenas se encontram nas acras dos rrabalhos das juntas. presra essa milícia seus serviços como se tivesse organização milirar. se não limiravam a dar opinião sobre cada um dos cidadãos maiores de 19 e menores de 30 anos. inúmeros sinais e rumores haviam 282 . que sem o menor custo ou embaraços por parre da administração. O juiz de paz de Dores.. distrito de Porro Alegre. como pelo desejo de osrentar arribuições que nao lhes foram conferidas. o trabalho das juntas seria objeto de ral grau de manipulação que romaria inviável a realização dos sorreios. a junta revisora se desesperaria na presença das falhas dos alisramentos: As falras comeridas pelas juntas parochiais foram rais e de ral alcance que a despeito de rodo o esforço empregado os rrabalhos da Junta de revisão não podem deixar de se ressentir de uma origem viciosa. Apesar de os alisramentos realizarem-se na província do Rio Grande sem a presença visível de disrúrbios ou hostilidade popular. Em São Leopoldo. porranto. ) Todas as Juntas parochiaes desra comarca ralvez não ranto por ignorância dos preceitos da nova lei. Antes do dia 10 de agosto. por exemplo. a pedido do comando da guarda na­ cional.estudos históricos. como ela assim procurava jusrificar: Ora. não deviam ser incluídos no rol dos possíveis sujeiros ao sorreio. sendo uma verdade que a Guarda Nacional das fronteiras da Província esrá em consrantes deslocamentos. se arrogavam do direiro de julgar as isenções.. acusaria a junra de alisrar exclusivamente os cidadãos de uma parcialidade política. Nas províncias aringidas pela agiração dos "rasga-lisras".( . como presenremenre. guarnecendo uma das alas da linha divisória com a república vizinha. sempre que dela há precisão. a desordem aparente dos acontecimentos encobria a presença de padrões de ação coletiva bem esrruturados.

seriam notados quando da afixação dos editais. o viajante inglês James Wells seria denunciado em certo lugar como o anticristo que havia chegado para "escravizar o povo" (Wells. um inspetor contava que "percorrendo seus Quarteiroens. Em São Bento. no início de 1875. Em Campestre. por exemplo. os editais seriam manchados de sangue. e certos elementos estavam explorando a lei "como meio de tomar odioso ao Povo. Em Catas Altas da Noruega. eles seriam substituídos por "pasquins ameaçadores". . por exemplo. de agredirem a mesa q estiver funcionando". afixados sempre à porta da igreja matriz. por todos os modos. vigário e escrivão de paz". sem que fosse possível descobrir o author de tão criminoso acto. incompletas. 1 886: 74). a mesa informava que havia recebido apenas três listas e. Idade. a junta informava que: "No dia 1 de julho foi affixado na porta da Igreja Matriz o competente edital. se opuseram ainda tem ameaçado publicam . Outros sinais perrurbadores chegavam do trabalho inicial da produção das listas que antecedia a reuniao das juntas. o juiz de paz da distante Paracatu. ou matar". corno comentava. passaram a sofrer ameaças e insultos. ) se opusemo a dar os nomes. e ameaçados e injuriados o delegado. informavam que os habitantes os hostilizavam e procuravam. o edital seria arrancado e substituído por um pasquim em que "se convidava o povo a resistir à execução da lei.. mais concretamente. Em outros lugares. alguns inspetores afirmavam que "deversas pessoas (. o edital seria rasgado e no seu lugar representados "uma porção de porretes". Em Nossa Senhora do Patrocínio. Em Conceição do Serro. dizendo que preferiam antes morrer. seriam o primeiro objeto da fúria popular. e também os membros que compunham as juntas de alistamento. o qual nesta mesma noite foi subtraído. Os demais inspetores ro ro "não acharam pessoas algumas que quizessem dar seus nomes nem p si nem p seus ftlhos. Em São José do Areado." Os editais anunciando os alistamentos. assim como todos estes do. o por exemplo. Em Carmo do Campestre./IA Lei da Cumbuca " anunciado a tempestade que estava por vir. Os inspetores de quarteirão. naquela mesma província. e que se prosseguissem esbandalhavam a 283 . haviam circu­ lado "boatos aterradores". mesmo estas. obstruir seu trabalho.e q'. Os inspetores. Estados e naturalidade. No distrito de Boa Família. Atravessando os sertões da Bahia. não pode obterem por forma alguma os Nomes. Em Panelas. Sinais mais evidentes da hostilidade com relação ao alistamento.. tanto o Governo superior corno as authoridades subalter­ nas". Talvez a iminência do sorteio e suas novas incertezas estivessem a sugerir evocações escatológicas. haviam aparecido cerca de 200 pessoas e advertido a junta de que "nao consentiam que seguissem os trabalhos desta Ley. exatamente dos que deviam ser alistados". responsáveis pela recolha das informações preliminares para a preparação dos alistamentos. Idades. entre­ tanto. Pernambuco.

iminentemente. em risco de perder ma. não estou disposto a dar a vida por preço tão diminuto. as juntas simplesmente não se haviam reunido pela ausência de alguns dos seus membros. Em São Miguel do Anta. urna". como já disse. voltariam e antão correria muito sangue". darei em defesa da religião do Calvário e da Pátria. pelo que. O pároco local. As juntas freqüentemente sabem de antemão que algo de grave irá se passar. o que dá aos relatos cerro sabor teatral. fal!a de material ou dúvidas sobre os procedimentos a seguir. Governo em sua sabedoria poupasse. Em Piranga. como minha missão seja IOda de paz. e para a porra da Matriz se encaminha. a animadversão de muitas ovelhas. afirmavam que "si reuniçe a Junta a1istadora. mui sensível ser-me-ha semelhante cousa. Pelo que. pretextando desculpas de viagem. a realizarem-se as promessas daqueles homens. Em muitas das localidades. pois.estudos históricos. de que infelismente faço parte. seme. vida. tais ausências revelavam prudência estudada. por isso ella vira a ser o primO alvo dos seos desmandos. e que som e. Outros recuariam à vista dos acontecimentos. a Junta como a mais oposta a suas idéias. pedindo garantias ou adiando o início dos trabalhos. os alistamenlOs haviam sido rasgados e incendiados por "500 homens alwados e desconhecidos". 1999 - 24 mesa e a Ley. Em tal situação de tensão latente. o que constituía impedimento legal para o seu funcionamento. da melhor forma. me retiro para a minha caza. em função de sua natureza diletante. A geografia da rebelião dos "rasga-listas" não refletia. grande número de juntas de alistamento evitaria prudentemente reunir-se. Muito bom seria que o Exmo. na emergência de ver-me novamente pela força da lei na procedencia dos trabalhos da junta. a 22 de agoslO de 1875. assim. guerra civil. avisando as aUlOridades dos ânimos da população. As juntas de alistamento enfrentavam. doença. porque. e em caso de resistência teriam os membros da Junta de morrer". ou secreta concordância com os fins dos insurgentes. E. logo que me consta que nova sedição se forma. aos grilOS de "urna. ademais. por sua inepcia. que não desejo dar tão barata. de um lado. pedia prudência ao governo imperial. acarretando. que consideram. em que eu pela força da lei tenha de figurar. ausência de membros. por exemplo. difíceis problemas de interpretação 284 . suspendendo a odiada lei: Prevendo que muilO sangue terá de correr nesta locali­ dade. assustado pelos acontecimenlOs. Por vezes as juntas antecipam-se. " Em São Francisco do Rio da Glória. apontavam também para os problemas operacionais que obstruíam o funcionamento das juntas. toda a extensão do fracasso da lei do sorreio. avisavam que "vinham com o propósilO de tomar os papéis. Se.

sendo acusado de mentor do incêndio da casa do "promotor maçon". na esteira da questão religiosa. fazendo disso alarde e ostentação na Tribuna sagrada. furtando-se ao cumprimento desse dever por motivos frívolos. Havia usado o púlpito para criticar o governo por ocasião da emancipação dos nascituros e da questão religiosa. Como comentaria o chefe de polícia da província de Minas Gerais: Em geral só não se tem realizado estes factos n'aquellas localidades em que as authoridades policiaes. o pároco não só não compareceria aos trabalhos da junta como convidava à desobediência à lei em suas prédicas. a junta informava que muitos dos insurretos eram agregados do subdelegado. sem motivo justificado. Segundo a lei do sorteio. ) . o juiz municipal acusava membros da junta de alistamento de serem os cabeças do movimento. coniventes com o povo. Muitos párocos. a turba seria comandada por um dos inspetores de quarteirão. Alguns mesmo. se apresentariam pessoalmente à cabeça dos motins. Em São Francisco do Rio da Glória. Em Ponte Nova. Em Tabuleiro do Pomba. faziam oposição sistemática à lei. ademais.. nas ruas e nas praças". 1 884 :5) Ademais. e agora "rebelara-se contra a lei da conscripção. O modo colegiado e diletante de realização dos alistamentos introduzia um elemento de fricção de dificil controle. mais ousados. no altar. as opiniões dos "rasga-listas" quanto à indesejabilidade da lei do sorteio. secre­ tamente. muitas das próprias autoridades compartilhavam. a junta de alistamento devia ser composta pelo juiz de paz. Em Ponte Nova. e o pouco zelo das juntas parochiaes. demandava longos trabalhos e encontrava forte oposição de todos os lados. opõe embaraços à execução da lei por meio da inércia. (Relatório do Ministério da Guerra. e contemporizando com o povo."A Lei da Cllmbuca " da complexa teia de procedimentos que a lei do sorteio havia instituído. A tarefa não era remunerada. Em São Domingos. (. que. por exemplo. os quais se refletiam na disposição para colaborar dos membros das juntas. acentuando a incerteza da colaboração das autoridades: São aquelas autoridades acordes em declarar que ha geralmente prevenção contra o systema adoptado pela citada lei para a composição de nossas forças de terra e mar. tem deixado de com­ parecer para os respectivos trabalhos. a despeito das penas impostas aos membros das indicadas juntas. sendo o primeiro obstáculo que se encontra neste serviço a falta de listas ou o modo incompleto por que são fei tas as que se apresentam os inspetores de quarteirões. 285 . pelo subdelegado e pelo pároco local. na comarca do Serro. o promotor argumentava que o vigário era "o chefe sedicioso e agitador em todos os tempos".

o movimento fazia lembrar a ação ritualística das TIlobs do século XVIII europeu (Rudé. as possibilidades de manipulação se transferiam para os alistamentos. Por certo. Na operação do recrutamento forçado. em todas as localidades. A experiência dos sucessivos fracassos na realização dos alistamentos faria com que alguns ministros sugerissem que as paróquias refratárias fossem submetidas ao recrutamento forçado. de alguma forma. os "rasga-listas" põem-se em ação. que são rasgados ou queimados. o sorteio efetivamente nunca se realizaria. Os arrolamentos se tomariam o campo de batalha entre os "rasga­ listas" e as juntas. como meio de correção do problema. Como as condições de isenção eram altamente discricionárias e dependentes de interpretação. 1882). simul­ taneamente. e em geral há da parte das authoridades policiaes. A lei moldava as novas formas de ação coletiva que obstruiriam a sua execução. e enOIIlles poderes discricionários concen­ travam-se nas juntas de alistamento. nos pontos mais diversos. entravam para a Guarda Nacional.haviam-se concentrado em pontos de fuga oferecidos por aquelas isenções cujas pro­ priedades eram. numa luta em que os revoltosos procuravam manter os 286 . A rebelião dos "rasga-listas" alterava radicalmente as pautas de ação coletiva e as estratégias de evasão do recrutamento vigentes até então. Ali onde as ameaças veladas e a hostilidade latente não haviam sido suficientes para dissuadir a junta de reunir-se. os amotinados dirigem seu furor fundamentalmente às listas e papéis do recrutamento. mutilavam-se. Com algumas variações no padrão geral. o recrutamento resultava em um complexo jogo de galO e ralO. 1999 - 24 Nas perturbações gerais da ordem pública. a mesma repugnância à lei mencionada. No geral. mas a solução não chegaria a ser implementada (Discursos.estudos históricos. As práticas da rebelião e suas pautas de ação coletiva. diziam-se praticantes de certo ofício designado nas Inslrnções de 1822 ou. apesar da variedade das situações. para os conventos. Nas novas condições do sorteio. o sucesso dos primeiros eventos e a impotência do governo provincial animariam a repetição de acontecimentos em outras localidades. A dependência da realização dos alistamentos para a distribuição dos contingentes ofereceria aos muitos descontentes com a nova lei do sorteio um meio simples e eficaz de impedir a sua implementação: a destruição dos alis­ tamentos. as formas de evasão do serviço . forjavam docu­ mentos. para as aulas de letras. Os ameaçados pelo recrutamento casavam-se. ou directa ou indirectamente. 1979). em último caso. embora nada fizesse supor qualquer tipo de coordenação entre os movimentos que emergiam. em que entravam em conflito autoridades e testemunhos. apresentam regularidades surpreendentes. Apesar dos con­ tinuados esforços. tem tomado parte grande número de pessoas de todas as classes. manipuláveis pelos próprios indivíduos. fugiam para os matos.

A descrição dos eventos de Piranga é característica: • A junta parochial tem a honra de levar ao conhecimento de V. em continuação de seus trabalhos as duas horas do dia 23 do corrente. é também local de atividades profanas. o local marcado pela lei para a reunião da junta de alistamento. e protestos de que reproduziriam as mesmas scenas todas as vezes que a junta se reunisse para a continuação dos trabalhos. sobre ser Ilegal e violento. Os relatos das juntas são. que.. a não ser quando encontra resistência oposta. armados de paus. lançaram mãos violentas sobre elles.C. ao que o Presidente e demais membros responderam: "que tal urna não existia. Excia. Reunida secretamente em algum lugar das proximidades da paróquia. pois. estrururados na forma do diálogo. por exemplo.. e avançando para a Meza foram se apoderando dos papéis e livros. e como a Junta não lhes entregassem. achado-se esses papéis de mais a mais colocados entre a 287 . recclamando a urna Ccomo que se a houvera !) para despedaça-la. de caráter simul­ taneamente simbólico e demonstrativo. inúmeras vezes. nada produziria. os editais são afixados à sua porta. As ocasiões festivas. A isto responderam-me que a nada cederiam. servirão muitas vezes de elemento catalisador para os ajuntamentos. sobretudo. funções administrativas e políticas. Ali. ) Os papéis e livros arrebatados pelo Povo foram immediatamente rasgados no eio de grupos de viva. A junta de Catas Altas da Noruega. em que ficam evidentes os elementos de negociação entre a multidão e as autoridades. Espaço do sagrado. que a nossa consti­ ruição nos garantia o direito de petição. foi aggredida por um grupo de 50 homens mais ou menos. a multidão segue para a Igreja. Nesta occasião levantando-me fallei ao Povo forcejando para convencê-lo de que o meio que empre­ gavam. reuniões públicas e festas e. religiosas ou profa­ nas. relatava a 1 1 de agosto: Foi a Igreja invadida por um grupo de mais de setenta indivíduos desarmados. os quaes dirigindo-se àJunta intimaram-na para encontinente entregar-lhes todos os papéis e livros concernentes ao alistamento. As eleições ali se realizam. achando-se reunida no consistório da Matriz provisória desta cidade de Piranga. e que representasse aos poderes competentes. A igreja é referência central da organização do espaço urbano das cidades. se encena o drama da revolta. visto como não tole­ rariam a execução de tal suppra citada lei.. E ali também que devem se realizar os alistamentos. foices e facas de ponta. A ação dos "rasga-listas" acompanha-se de um uso regulado da violência física. declarando que pretendiam rasgá-los."A Lei da Cumbuca" horizontes de illvisibilidade da população e impedir a realização do sorteio." Em virrude de que reclamaram entrega de todos os papéis que achavam-se sobre a mesa dos trabalhos.

tendo no mato muitos indivíduos armados e de caras pintadas. vem precedida de crianças de dez a 1 2 anos que. havia rasgado as listas com grande algazarra. pois que o motim havia contado também com a colaboração de "mais um povo de Capivara. como porta-vozes da multidão. Por vezes são consideradas como "perdidas". Em Sant' Ana. Informava o juiz de paz que "os povos desta freguesia só apresenta contra". com homens. uma multidão de cerca de 200 mulheres. a 288 . são reconhecidas como mães que desejam proteger os filhos do recrutamento. grupos de mulheres e por vezes mesmo crianças. Mas na oposição à lei não estavam sozinhos. "gente ignorante e de baixa classe". estavam todos os pontos do arraial cercados de outros grupos de gente. sendo elas não só da freguesia do Peçanha. quase sempre. conhecido por Joaquim Peão. Qualquer opposição que fizesse sacrificaria-me. nova tentativa de realização de alistamentos faria convergir sobre a cidade gente de várias freguesias vizinhas: Disseram que ali iam para rasgar os papéis. O amplo consenso no interior das localidades sobre a indesejabilidade da lei ultrapassava mesmo as fronteiras do mundo da paróquia. que para obstar a maiores males foram por unâneme aprovação da meza colocados sobre a referida meza de trabalhos. por exemplo. Em São Miguel do Anta. talvez representasse um modo de manter a salvo de represálias os possíveis recrutáveis. A enigmática participaçao das mulheres nos motins. Consta que estão falados frustrarem quantos alistamentos se pretender fazer em qualquer das outras freguesias. A multidão tem. povo ordinário". como das do Patrocínio e S. em outros contextos. que também estava "conluiado com os de Arripiados". pois calculou-se que havia no arraial naquele dia. pois que não queriam a lei da conscripção. Nos relatos. Vicente de Souza Sarema e Manuel de Souza Sarema. recorrente nos relatos da maioria das paróquias. por exemplo. dizem à junta: "deem-nos licença que queremos essa urna". das referências a acon­ tecimentos próximos e dos próprios insurretos. só de pessoas de fora. Em Peçanha. Não pude garantir a junta porque além do grande grupo de gente que se dirigiu à Matriz.estudos históricos. 1999 - 24 imagem do Crucificado e de sua mai Santíssima. sacrificaria os membros da junta e aos soldados. mais de mil. Miguel e Almas. apresentando-se como cabeças Joaquim da Silva Graça. já no ano seguinte. O perfil das mulheres não emerge claramente dos relatos das juntas. uma composição mista. A trama dos acontecimentos seria marcada por intensidades de ação variadas e por deslocamentos geográficos dos boatos. que foram convidados para auxiliar os da primeira. O vocabulário político da multidão seria parcialmente registrado pelos atemorizados juízes de paz nos seus relatos dos acontecimentos.

A hostilidade contra os maçons atingia diretamente o Estado imperial. a monarquia. também. Segundo a ata da junta. no dia 10 de agosto. Formou-se um partido religioso. percorre as ruas da cidade munida de uma bandeira branca.liA Lei da Cllmbucan No Prata. Pedro II e morra essa lei". depois de rasgar as listas. O acento nos símbolos da ordem tradicional. apelavam antes aos símbolos da ordem monárquica e às bençãos da igreja. e há até mesmo alguns crimes a lamentar-se. Por vezes at de fogo". já que Rio Branco. "vivas ao antigo systema de recrutamento". apareceram. 42 homens a cavalo armados de cacetes e armas de fogo. ora "aI mados de cacetes e armas desordem. a multidão. "armados de cacetes e fouces". à liberdade e à soberania nacional. Ecos da "questão religiosa" se fariam ouvir também em vários dos episódios relatados. "Vivas à liberdade e à República". A multidão não se furtava. ou por vezes "embriagados quasi todos". de modo provocativo. dando vivas à religião. por occasião da reunião da junta de Alistamento. a religião. Ainda ultimamente deram­ se graves perturbações da ordem pública no termo de S. pertencia também à alta hierar289 multidão dos "rasga-listas" está sempre bem apetrechada de instrumentos de mada "de caçete e pedras". aceitar a lei. às "autoridades do Prata" e. não!". Alí não foi somente causa a reunião da junta de alistamento. Em Lamim. "homens de pouca ou nenhuma importância no lugar". a lei. davam vivas a Nossa Senhora do Carmo (a padroeira do lugar). 1 876: 3\0) Tais depoimentos demonstram que a ruptura entre Estado e Igreja com a prisão dos bispos havia ecoado profundamente na "economia moral" popular. "Viva a Constituição do Império. por exemplo. a religião católica e abaixo a reforma da lei do recrutamento". a multidão gritaria "Vivas a D. sobretudo. restaurando a ordem do mundo abalada. Esse partido se opoz aos maçons e lhes declarou guerra de morte. . (. As estranhas palavras de ordem que precediam ou acompanhavam o ato de destruir os alistamentos. Formaram-se dous partidos e a ordem pública esteve gravemente ameaçada. dramatiza a dimensão legilimisla do movimento. entretanto.. (Annaes da AssembMa Provincial. foi também a questão religiosa.. menos as do recrutamento". das inversões simbólicas representadas pela idéia da "república". Em outros lugares. Como comentaria um deputado provincial sobre os fatos acontecidos em Diamantina. João Baptista. ) os factos que se deram também na Diamantina. eram "homens sem educação e embriagados quasi todos". "Respeitamos todas as leis do Império. assim como outras figuras importantes do gabinete que fizera passar as reformas do sistema métrico e do recrutamento. "Morrer sim. "Viva a velha lei" e mesmo. como registraram os juízes de paz. Espantosamente.

onde arrancaria o fundo de guerra preciso. percorreram as ruas. De fato. De acordo com o promotor público da pequena localidade de São Domingos do Prata. por demais crédulo e sem nenhuma noção de direito. foram ao 290 • . Se. ) Alguns indivíduos mal inten­ cionados começaram então a espalhar boatos assustadores entre o povo. veja-se o que diz o presidente da província de Minas em seu relatório. do lado das autoridades. formando desde logo o seu plano de ataque.estudos históricos . Nos anos subseqüentes. Os maçons. ) a idéia sediciosa vae tomando incremento entre os lavradores mais ignorantes. interpretava a lei do sorteio como obra diabólica do maçon Rio Branco. reuniram-se no Turvo mais de 300 pessoas armadas. assim.. Ademais. Nem mesmo a anistia aos bispos iria apagar da memória popular a hostilidade e a desconfiança contra o Estado alimentada pela "questão religiosa". e depois para a cidade do Serro. que era: invadir e saquear o distrito dos Paulistas. O poderoso auxiliar de tal incremento vae sendo o boato adrede espalhado de que a nova lei do recrutamento é elaborada pela maçonaria do Brasil. estabele­ cendo um pequeno imposto para a creação de escolas. occurrências bem desagradáveis se deram também (.. que saquearia igualmente. se tornariam o principal alvo da irritação popular em muitas das localidades atingidas pelos "rasga-listas". e nela estabeleceria um governo. 1999 - 24 • quia da maçonaria. Alarmou-se ele então. os maçons haviam sido um dos alvos prediletos da ira popular. uma versão explicativa de f undo conspiratório atribuía os levantes a maquinações secretas dos jesuítas ou dos liberais. impostos municipais. seguir para o Vermelho. no dia 1 0 de janeiro. e.. por ocasião de por-se em execução as leis de registro civil e do alistamento militar. coletorias. por sua vez. pivôs da "questão religiosa". (. Para se ter uma idéia de a que extremos chegariam os ânimos. habitante daquelas matas. a sua fúria a outros objetos de irritação: casas maçônicas.quilos". Já durante os "quebra. todas as vezes que a administração imperial procurou no­ vamente implementar a lei do sorteio. os "rasga-listas" voltaram à ação. progressivamente. os "rasga-listas" expandiriam. tornando a lei de 26 de setembro de 1874 "letra morta". bem corno um projeto da respectiva Câmara municipal. cujos filhos estão no caso de serem recru­ tados. dando tiros. uma versão conspiratória popular. em 1 874.. ainda em 1 8 8 1 : Em algumas freguesias do município do Serro. seo instrumento para os fins os mais destratados (conforme comentam com a mais vergonhosa ignorância). Esta vendée do sertão efetivamente impediria que o Estado imperial efetuasse o sorteio.

assim como de outras Atas das Juntas de Alistamento e 1. estabelecendo um mecanismo de alocação dos encargos de corte igualitário. SDA Códice 603. cf. SG18 3. a lei do sorteio seria inviabilizada pela oposição dos "rasga-listas". precisas. sobre Movimentos Polítcos em Várias i Províncias (/822-/894). Transf ll/7/. 5). 1994.ing enlisted anny service in Brazü. e Arquivo Nacional. Oficios e Revisão. SG15 Códice 163(1875). Mendes (1997: 250-318). IJ1601. 291 . SG15 Códice 164(1876). No t a s provêm de Correspondência. Documentos em Arquivo Nacional. SG15 Códice 170(1882). IG1215. 1879 e 1880 e 1885 também relatam a continuação das resistências à aplicação da lei. também Palacios (1987: 325-358). 1 8 8 1 : 6-7) A tentativa de implementação do sorteio militar pelo Estado imperial procurava contornar os dramáticos problemas de oferta de soldados e as inter­ ferências políticas do recrutamento. Seção Provincial: SG15 referência ao movimento Souto Maior (1978: 181-193). Para o Nordeste de uma forma geral. Os relatórios de 1 877. Também f azem SDA. BEATTIE. pelas incertezas que criava. Peter M. A lei de 1 874 se tornaria "letra mona". 1 878. vol. Insufi­ ciente e contraditória para alguns. IG1 200. tirânica e arbitrária para outros. estabele­ cendo um mecanismo cego às propriedades contingentes dos indivíduos. Para referências mais 4. As citações e informações que utilizo 2. 57. Procurava. IJI 649. Correspondência autoridades. Meznar (1992: 335-35 1) e Bettie ( 1994). 162(1875). 5. rasgaram e queimaram todos os papéis sobre o 4 alistamento militar. Cf. vaI. encontrados em: Arquivo Códice 161(1875). cf. Eisemberg (1977). Harner (l989: 49-94). Códice 402(1881). SG15 Códice Público Mineiro. 1874-1875". pelas oportunidades desiguais de escusa do serviço que permitia. (Relatório da Presidência da Pr(f/)íncia. Roderick. "The Brazilian peasanrry reexaminated: the implicarions of the Quebra Quilo Revolt. também. 1977. Códice 603 [Vol. nO 3/401-424."A Lei da Cumbuca" cartório do Juiz de Paz. contornar o gradiente de discrição dos notáveis na definição das circunstâncias do recrutamento. The Hispanic American Historical Review. R e e rê n c i a s b i b l i ográ icas f f B ARMAN. SG18 Códice 329(1 875).

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