Você está na página 1de 149

SUMÁRIO

lIngüíStICa II 1. sEmântICa formaL ............................................................. lIng II 05 2. sEmântICa da EnunCIação E sEmântICa
CognItIVa ............................................................................... lIng II 17

3. síntEsE Para auto-aVaLIação ....................................... lIng II 27 4. PragmátICa ........................................................................... lIng II 33 5. anáLIsE da ConVErsação ............................................... lIng II 49 6. síntEsE Para auto-aVaLIação ....................................... lIng II 61 7. LIngüístICa tExtuaL .......................................................... lIng II 65 8. do tExto ao dIsCurso ..................................................... lIng II 77 9. síntEsE Para auto-aVaLIação ....................................... lIng II 85 10. anáLIsE dE dIsCurso ........................................................ lIng II 89 11. HEtErogEnEIdadE EnunCIatIVa .................................. lIng II 101 12. síntEsE Para auto-aVaLIação ...................................... lIng II 111 13. BaKHtIn, dIaLogIsmo E gÊnEros
do dIsCurso ........................................................................ lIng II 115

14. Estudos sEmIótICos ....................................................... lIng II 129 15. síntEsE Para auto-aVaLIação ..................................... lIng II 145

REFERÊnCIa CRUZaDa
lingüística II

apOStIla
atIVIDaDE
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15

IntERnEt
atIVIDaDE
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15

aSSUntO
sEmântICa formaL sEmântICa da EnunCIação E sEmântICa CognItIVa síntEsE Para auto-aVaLIação PragmátICa anáLIsE da ConVErsação síntEsE Para auto-aVaLIação LIngüístICa tExtuaL do tExto ao dIsCurso síntEsE Para auto-aVaLIação anáLIsE dE dIsCurso HEtErogEnEIdadE EnunCIatIVa síntEsE Para auto-aVaLIação BaKHtIn, dIaLogIsmo E gÊnEros do dIsCurso Estudos sEmIótICos síntEsE Para auto-aVaLIação

aSSUntO
Vídeoaula 1 Vídeoaula 2 auto-avaliação Vídeoaula 3 Vídeoaula 4 auto-avaliação Vídeoaula 5 Vídeoaula 6 auto-avaliação Vídeoaula 7 Vídeoaula 8 auto-avaliação Vídeoaula 9 Vídeoaula 10 auto-avaliação

p. de acordo com Pietroforte e Lopes (2003. por exemplo. ilustradas lIng II – 5 . o significado não é a “coisa” nomeada pelo signo e sim um conceito.. de forma a priorizar o ponto de vista e não o objeto. de ordem semântica. a semântica é o campo da Lingüística que se ocupa do estudo do significado. duas hipóteses podem ser levantadas quando se trata de construir e investigar sentidos na linguagem: “[. uma idéia. a segunda hipótese sugere uma teoria da linguagem que privilegia os diferentes modos de olhar as “coisas do mundo”. duas grandezas que constituem o signo lingüístico. recortado” (PIEtrofortE. as línguas naturais seriam como que nomenclaturas apensas às coisas e um mundo preliminarmente discretizado. e o significado é o “conceito. com bases nos ensinamentos de ferdinand de saussure. p. de ordem fonológica. “Para essa visão.] seria a estruturação do mundo em categorias algo previamente constituído nas próprias coisas ou dependeria ela das diferentes maneiras de olhar para o mundo?” a primeira hipótese revela uma teoria ancorada no referente externo à linguagem – nas “próprias coisas” – e independe da inserção sócio-histórica e cultural dos sujeitos. a idéia”. LoPEs. 2003. tExto Em linhas gerais. as diferentes maneiras de tratar a linguagem e seus sentidos. é possível dizer. ao definir a relação entre significante e significado. que sujeitos pertencentes a comunidades lingüísticas distintas não vêem o mundo da mesma maneira e podem atribuir diferentes sentidos a um mesmo objeto. saussure (1916) postula que o significante é a “imagem acústica” do signo. 113-114). Lembremos que. nessa perspectiva.SEMântICa FORMal oBjEtIVos atIVIdadE 1 LIngüístIca II Introduzir os estudos de semântica e abordar fundamentos e princípios de análise da semântica formal. 113)..

outra. lIng II – 6 . que ele saiu”. • Procuraremos ampliar a abordagem dessas três linhas como um recorte teórico de estudos que vêm se desenvolvendo no Brasil. desenvolvemos nesta aula estudos de semântica formal.LIngüístIca II atIVIdadE 1 acima pela apresentação de duas hipóteses. da semântica argumentativa. da semântica discursiva. posto que todas elas investigam o significado. a Semântica Formal Para müller e Viotti (2003. de observar como as diversas teorias recortam o objeto e estabelecem ou privilegiam aspectos envolvidos na análise do significado. Pires de oliveira (2001.. p. pela semântica Cognitiva – a sentença é descrita “a partir da hipótese de que na sua interpretação formamos espaços mentais: o espaço mental em que há um homem”. da semântica textual. p.19) sintetiza o papel dessas linhas de estudo ao mostrar como uma ocorrência lingüística – a pressuposição – recebe tratamento diferenciado em cada abordagem. a voz de mais de um enunciador: “uma fala (‘voz’) que diz que há um indivíduo. mas sem desconsiderar a existência da semântica lexical. a semântica formal pode ser descrita como “um programa de pesquisa que procura responder às seguintes perguntas: o que ‘representam’ ou ‘denotam’ as expressões lingüísticas? Como calculamos o significado de expressões complexas a partir dos significados de suas partes?” a semântica formal considera como propriedades centrais das línguas humanas a referencialidade e a produtividade. Essa pluralidade teórico-metodológica é introduzida pela breve apresentação de três formas de fazer semântica: a semântica formal. a semântica da Enunciação e a semântica Cognitiva. e o significado possui vários ângulos.. que ele está de chapéu e outra. não se trata de reconhecer perspectivas totalmente incompatíveis. revelam embates entre as várias formas de tratar o significado e apontam para a existência de diferentes semânticas e de diferentes sentidos para significado. sobretudo. pela semântica da Enunciação – ocorre a presença da polifonia. 140). uma mesma sentença – “o homem de chapéu saiu” – pode ser analisada: • • pela semântica formal – há uma pressuposição de existência: “existe um e apenas um indivíduo tal que ele é homem e está de chapéu e saiu”. tratase.

(Composição s + P = o sujeito maria pertence ao conjunto das pessoas inconstantes. “em parte. 2003. um. conhecer o significado de uma sentença é. mas sabemos em que situações ela seria verdadeira. mencionada acima. mas sim a disposição das palavras na sentença. (Composição s + P = o sujeito maria pertence ao conjunto das pessoas inteligentes e assim é descrito no predicado.) Em (b). Para a semântica formal. faz parte do nosso conhecimento do significado da sentença. não só pela flexibilidade de criação de novas palavras como também pela possibilidade de construir e compreender novas sentenças.) o significado de uma sentença não é determinado apenas pelo significado de suas palavras. “saber em que circunstâncias. torna possível produzir e compreender significados novos. já que esse conhecimento é semântico (e gramatical) em sua natureza. mas é inconstante. Por exemplo. na.) – Maria é inteligente. pessoas. falamos sobre objetos. VIottI. (joão ocupa a posição e a função de sujeito agente em relação ao processo verbal. isto é. (denotação de sentenças coordenadas = maria é simultaneamente inteligente e inconstante.. no mundo. lIng II – 7 • • . mesmo considerando variáveis como “o ladrão está no quarto”. p.. se não conhecemos as condições em que uma sentença é verdadeira. moradia). “o ladrão está sobre o telhado” etc. que construímos o significado da sentença pelo significado de suas partes. ladrão (indivíduo que furta ou rouba). percebemos que não é o significado das palavras analisadas individualmente o responsável pelo sentido. outra propriedade central das línguas naturais. no que concerne à produtividade. (maria ocupa a posição e a função de sujeito agente em relação ao processo verbal. o significado é a descrição de uma situação. ou ainda como mundo ficcional ou hipotético. fatos. nessa perspectiva. quando ouvimos uma frase como “Há um ladrão na casa”. Construímos as suas condições de verdade a partir do significado dos elementos que a constituem – há (tem.atIVIdadE 1 LIngüístIca II Por referencialidade. não conhecemos seu significado. é possível perceber que: cada parte de uma sentença contribui de forma sistemática para a construção de seu significado e de suas condições de verdade: – Maria é inteligente. existe). casa (imóvel. Esse “mundo” sobre o qual falamos por meio da linguagem pode ser tomado como real ou parte dele. numa soma das situações descritas anteriormente. não sabemos se ela é verdadeira ou falsa. tal como descreve o predicado. 139). nesse paradigma. Considera.) – Maria é inconstante. entende-se o significado como uma relação entre a linguagem e aquilo sobre o que a linguagem fala.) – João deixou Maria. mas também por sua estrutura gramatical: – Maria deixou João. aquela sentença pode ser considerada verdadeira ou falsa” (müLLEr. Por meio de tal propriedade.acontecimentos. conhecer suas condições de verdade”.

nessa perspectiva. lIng II – 8 . a verdade não está. “avaliar se o que dizemos é falso ou é verdadeiro. vemos uma face diferente da mesma lua. Essa imagem compartilhada é o sentido. por exemplo ‘Papai noel tem barba branca’. o sentido permite alcançarmos um objeto no mundo. na linguagem. entende-se que a linguagem é apenas instrumento de “alcance” da verdade ou da falsidade. não pode ser cognitiva. afirmam müller e Viotti (2003. Relações semânticas no nível da palavra e da sentença as sentenças constituem-se de palavras e sintagmas que estabelecem nexos 1. 22). “Em outros termos. porque ela não se refere a um objeto real” (PIrEs dE oLIVEIra. p. Para frege. é necessário entender a diferença entre as noções de sentido e de referência. 2001. gottlob frege (1848 – 1925) traz para a semântica em geral a noção de significado. ou seja. ainda no campo de estudos da semântica formal e para entender relações semânticas no nível da palavra e do sintagma. A imagem da lua formada pelas lentes do telescópio é o que tanto eu quanto você vemos. o lógico alemão gottlob 1 frege propõe uma analogia com um telescópio voltado para a lua. Lembremos que a imagem mental que cada um de nós forma da imagem objetiva do telescópio está fora dos interesses da Semântica (PIRES DE OLIVEIRA. no entanto. dessa interpretação. 22). Para esclarecer a diferença entre sentido e referência. mas não para a Semântica Formal contemporânea. p. Ao mudarmos o telescópio de posição. Ela pode. 2001. p. 2001. alcançamos o mesmo objeto por meio de outro sentido. mas nos fatos do mundo” (PIrEs dE oLIVEIra.LIngüístIca II atIVIdadE 1 em uma estrutura sintática relacionada à estrutura argumental do verbo.22). ser olhada a partir de diferentes perspectivas. p 140). afirma que o estudo científico do significado só é possível quando se diferenciam seus diversos aspectos e se retêm apenas aqueles que são objetivos. correspondentes a propriedades equivalentes no nível da sentença. “É a introdução de uma estrutura sentencial que possibilita à semântica avançar para além do estudo do significado das palavras”. pois. e observála de um ângulo pode nos ensinar algo novo sobre ela. “sentenças que falam de personagens fictícios carecem de valor de verdade. para determinar quem é o sujeito (agente) e quem é o objeto (paciente) em cada frase. entende-se que o sentido só nos permite conhecer algo se a ele corresponder uma referência. uma sentença ficcional. A lua é a referência: sua existência e propriedade independem daquele ou daquela que a observa. mas é o objeto no mundo que nos permite formular um juízo de valor”.

] podemos entender por que (1) é uma sentença informativa e (3) não é: as expressões o organizador do livro Introdução à Lingüística I e José Luiz Fiorin têm a mesma referência. a sentença (2) parece descrever bem o significado da sentença (1). Em determinadas situações. 144): “[. 2003. Essa é uma verdade estabelecida independentemente dos fatos do mundo” (müLLEr. 143). VIottI. (4) josé Luiz fiorin = josé Luiz fiorin na análise das autoras. teremos que aceitar a sentença (3) como sinônima de (1). Entretanto. “entende-se por referência a operação lingüística por meio da qual selecionamos no mundo que nos cerca um ou mais objetos (isto é. se observarmos bem. p. posto que não se estabelece a priori.atIVIdadE 1 semânticos para que se produzam sentidos. já que em ambas afirmamos uma relação de igualdade entre um indivíduo e ele mesmo. p.. a seguir. Contudo. as sentenças (1) e (3) não dizem a mesma coisa. não são sinônimas. Sentido e referência de acordo com Ilari (2006. (2) e (3): (1) o organizador do livro Introdução à Lingüística I é josé Luiz fiorin.. pessoas. observados em (1). ilustramos esses mecanismos lingüísticos. Para ilustrar. no entanto. transcrevemos exemplos de müller e Viotti (2003. o significado de uma sentença possui tanto um sentido quanto uma referência. a sentença (1) é informativa. nem sempre se preserva a verdade de um raciocínio pela substituição de duas expressões com a mesma referência. mas com sentidos diferentes. Essa perspectiva de análise põe de lado o postulado de frege de que a referência de uma sentença é o seu valor de verdade. p. ou seja. p. pode-se identificar um mesmo referente em sentenças distintas (elas apontam para um mesmo objeto). a esse respeito. Como vimos acima. tal como representamos em (4). Elas nos informam que o indivíduo José lIng II – 9 LIngüístIca II . acontecimentos) específicos. se é verdade que (2) explicita o significado de (1). (2) o indivíduo que organizou o livro Introdução à Lingüística I é o indivíduo nomeado pela expressão José Luiz Fiorin. (3) josé Luiz fiorin é josé Luiz fiorin. elas apontam para o mesmo indivíduo no mundo. as relações semânticas no nível sentencial constroem-se por meio de mecanismos da língua e das propriedades de tais mecanismos para a constituição do significado. 143). 176). coisas. já a sentença (3) traduz a “obviedade de que um indivíduo é igual a ele mesmo. tomando-os como assunto de nossas falas”. sua veracidade precisa ser verificada no mundo. acrescentam müller e Viotti (2003. elas possuem sentidos diferentes.

monitor. 389): “Comprou um computador. pois. de tal modo que o significado de uma inclui-se no significado da outra. consideramos que se é verdade que Júlia continua a escrever poemas. teclado e impressora pertencem a um mesmo campo semântico – o universo da informática. que é a referência de uma sentença. como ilustram Cereja e magalhães (2005. “enquanto a relação de hiponímia é uma relação que pode se estabelecer também entre sentidos. 145). Para verificar que (5) acarreta (6). Por isso é que podemos dizer que aprendemos algo com a sentença (1) e não com a sentença (3)”. a sentença (5) acarreta a sentença (6). o hipônimo é uma palavra de sentido mais específico e o hiperônimo. a noção de acarretamento é formalmente definida com base no conceito de verdade. a palavra equipamento engloba todas as outras e denota um sentido mais amplo. Interpretamos essas sentenças em um mesmo mundo e com base em um mesmo referencial temporal. p. no campo semântico “universo da informática”. a hiponímia opõe-se à hiperonímia. Em (6) temos hipônimo de (5). sintagmas e sentenças estabelecem relações semânticas. acarretamento é uma relação que se estabelece exclusivamente entre referências”. teclado e impressora são hipônimos de equipamento que.LIngüístIca II atIVIdadE 1 Luiz Fiorin pode ser encontrado no mundo por caminhos diferentes. sem esse equipamento. de sentido mais genérico. um monitor. necessariamente. um teclado e uma impressora para o escritório. Para chegar à noção de acarretamento. a falsidade da primeira”. computador. a hiponímia pode ser definida como a relação de sentido entre palavras. a verdade da segunda. p. Essas relações ora se manifestam entre os sentidos. geral. é um hiperônimo dessas palavras. e a falsidade da segunda garante. ora entre as referências. Identificamos na locução “continua a escrever” lIng II – 10 . não conseguiria dar conta do trabalho. acarretamento e pressuposição a noção de acarretamento depende da noção de hiponímia. (6) júlia escreveu poemas. monitor. Hipônimos e hiperônimos são palavras pertencentes a um mesmo campo semântico. finalizamos este item reiterando que palavras.” Computador. consideramos que a noção de hiponímia estende-se à sentença: (5) júlia continua a escrever poemas. “uma sentença acarreta uma outra sentença se a verdade da primeira garante. necessariamente. também é verdade que ela escreveu poemas. Entretanto e de acordo com müller e Viotti (2003. por sua vez.

p. logo a noção de acarretamento não se aplica. se esse mesmo alguém nos disser que o carro não parou de trepidar apesar de ir ao mecânico. e tanto pressupõem quanto acarretam “o carro trepidava”. no contexto de (8) e (9). o carro não parou de trepidar. o que nos permite também afirmar que tal ação-processo iniciou-se no passado – em outro momento. nesses exemplos. d. LIngüístIca II as sentenças a. 2006. júlia “escreveu” poemas. como segue: (7) a. Eu lamento que o carro não tenha parado de trepidar. 85). uma noção próxima à de acarretamento é a noção de pressuposição2. Como diferenciar um caso de pressuposição de um caso de acarretamento? a diferença pode ser constatada em contextos que preservam pressuposições mas não acarretamentos. e. b. o acarretamento é definido em termos de preservação da verdade. a paráfrase consiste na relação de sinonímia entre sentenças. também um tipo de implicação. o carro parou de trepidar? c. trata-se aqui de pressuposição lógica. 85). lIng II – 11 . pois. também concluiremos que o carro trepidava antes (ILARI.atIVIdadE 1 uma ação-processo em continuidade espaço-temporal. outras noções de pressuposição podem ser encontradas nos estudos do significado. o carro parou de trepidar. a seguir. Em b. então seu desempenho deve ter melhorado. c. temos uma pergunta e não podemos atribuir a ela nem verdade nem falsidade. “diz-se que uma informação é pressuposta quando ela se mantém mesmo que neguemos a sentença que a veicula”. a sentença b apenas pressupõe. de acordo com rodolfo Ilari (2006. d. pois os interlocutores reconhecem que “o carro trepidava antes” (não seria possível parar de trepidar sem que isso acontecesse antes). o verbo parar introduz uma pressuposição. Sinonímia e paráfrase a sinonímia define-se como a relação entre expressões lingüísticas que têm sentidos semelhantes. se o carro parou de trepidar. tanto no contexto “parou de trepidar” quanto no contexto “não parou de trepidar”. carro e automóvel podem ser consideradas expressões sinônimas: 2. como já vimos. Ilari assim exemplifica: Se alguém nos disser que o carro parou de trepidar depois que foi ao mecânico concluímos que o carro trepidava antes de ir ao mecânico. p.

pois nascer e morrer não são processos contraditórios. nos exemplos acima. Como vimos nos estudos de sintaxe. de modo que se perceba estar a noção de contradição ligada às noções de acarretamento e de sinonímia. também é verdade que o carro foi consertado pelo mecânico. o constituinte topicalizado é o paciente da voz verbal (o “objeto-alvo” do processo verbal). há diferenças na forma de organizar a informação e enfatizar um ou outro elemento. afirmam as autoras que embora as sentenças apresentem itens lexicais considerados opostos. Com os exemplos a seguir. 151): (12) Carlos nasceu na Bahia. (10) o mecânico consertou o carro. é rema – ou informação nova – na voz passiva. o par de sentenças não pode ser simultaneamente verdadeiro ou simultaneamente falso: lIng II – 12 . (11) o carro foi consertado pelo mecânico. observamos uma relação de antonímia que é contraditória. Podemos dizer. dizem as autoras que “o que é tema – ou informação velha – na forma ativa. p. Para müller e Viotti (2003. Contradição Quando duas expressões têm sentidos incompatíveis com a mesma situação. como ilustram müller e Viotti (2003. mas momentos extremos do processo de viver. (9) o mecânico consertou o automóvel. a relação lexical comumente chamada antonímia (oposição) pode ou não envolver contradição. construídas pelo mecanismo lingüístico de emprego de voz verbal ativa e passiva. que (10) acarreta (11): se é verdade que o mecânico consertou o carro. constatamos que as formas ativa e passiva alteram a organização informacional das sentenças. já em (10) e (11) temos sentenças em relação de paráfrase. não há contradição. inocente. p. na voz verbal passiva analítica. 150). de forma a percebermos que as relações entre sentenças não se esgotam nas relações lógicas que estabelecem. a voz verbal ativa apresenta em tópico o constituinte que exerce a função e “sujeito agente” em relação ao processo verbal. Embora sejam sentenças estruturalmente sinônimas. a escolha entre sentenças estruturalmente sinônimas não se dá de maneira impensada. ainda. e vice-versa”.LIngüístIca II atIVIdadE 1 (8) o mecânico consertou o carro. (13) Carlos morreu na Bahia. são expressões contraditórias.

trata-se de um recurso expressivo utilizado para atender às especificidades do gênero de texto no que concerne à sua função social. (18) o monge caminhava para o silencioso convento. uma sentença torna-se ambígua quando oferece diferentes possibilidades de relação entre constituintes. a existência de contradição produz um significado metafórico ou irônico colocado em discurso pelos interlocutores. ambigüidade LIngüístIca II Como vimos nos estudos de sintaxe. porém. Há. (15) Comprei um carro velho.atIVIdadE 1 (14) Comprei um carro novo. como em “joão e maria não se casaram. apresentada abaixo. manifestam-se por elementos lexicais ou pelo contexto de uso da linguagem. as diferentes relações entre constituinte observadas em (17) e (18) desfazem a ambigüidade presente em (16). Relações dêiticas e anafóricas as relações dêiticas dizem respeito ao uso de dêiticos que se interpretam lIng II – 13 . charges. Em algumas situações. das quais decorrem diferentes sentidos: (16) o monge caminhava para o convento silencioso. foi a maria que se casou com joão”. textos humorísticos e poéticos. cartoons. ilustra um caso em que a sentença é ambígua porque a palavra coroa é ambígua no contexto: Esse tipo de ambigüidade intencional ocorre com freqüência em anúncios publicitários. (17) o monge caminhava silencioso para o convento. a foto de um outdoor. ambigüidades que não decorrem da estruturação de constituintes sentenciais.

faz referência: (1) à situação em que esse enunciado é produzido. a sentença é ambígua. os pronomes “eu” e “você/tu”. as referências à situação. entre outros. a sentença pode significar “que um certo candidato jovem foi escolhido por vários eleitores” ou “que cada um entre os eleitores escolheu um candidato jovem. (3) ao falante (modalização)” (duBoIs et al. os dêiticos manifestam-se como pronomes demonstrativos. acima). “Dêitico é todo elemento lingüístico que.] neste sábado = o tempo verbal aliado à expressão adverbial de tempo constituída pelo pronome demonstrativo “neste” indica futuro próximo (o sábado mais próximo). a interpretação da sentença “depende da relação de distribuição entre vários eleitores e um candidato”. advérbios de lugar e de tempo. por exemplo. (21) Eles virão me visitar neste sábado (em referência a “meus amigos”. meus = pronome possessivo que “indica” a marca da pessoa que fala (1ª pessoa). 55) chama de anafóricas “as expressões que se interpretam por referência a outras passagens do texto” e servem para “retomar” outras passagens do texto. 2007.. a abordagem dos fundamentos de semântica lIng II – 14 . (19) meus amigos virão me visitar neste sábado. num enunciado. Virão [. p. Ilari (2006. como em: (20) a gasolina subiu de novo. como ilustram as autoras: (22) Vários eleitores escolheram um candidato jovem.. faz referência ao aumento da gasolina). de primeira e segunda pessoa. mas não necessariamente o mesmo. artigos (“o que está próximo” oposto a “o que está distante). 167). os quais remetem à pessoa que fala e à pessoa com quem se fala. 154). p. e constituem aspectos indiciais da língua.LIngüístIca II atIVIdadE 1 por referência a elementos do contexto extralingüístico. pronomes pessoais.. (2) ao momento do enunciado (tempo e aspecto do verbo). e isso vai gerar outros aumentos de preço (= a palavra isso. “relações de escopo são as relações que se estabelecem quando a interpretação de uma expressão depende da interpretação de outra”. ao momento e ao sujeito da linguagem constituem a dêixis. respectivamente. nesse contexto. no exemplo 19. Como podemos notar. p. Relações de escopo de acordo com müller e Viotti (2003.

PIrEs dE oLIVEIra. thereza Cochar. 2. 2003. são Paulo: atual. duBoIs. E. I. r. 2003. na próxima unidade. L. são Paulo: Contexto. 2005. a.). ILarI. L. V. 15. magaLHãEs. In: fIorIn. PIEtrofortE. trataremos de semântica da Enunciação e semântica Cognitiva. saussurE. 2. 2006. semântica. BEntEs. C. LoPEs. 2007. 2003. a. Introdução à Semântica: brincando com a gramática. anOtaçõES lIng II – 15 . (org. ferdinand de (1916).). C. são Paulo: Cultrix. j. são Paulo: Cortez 2001. Curso de lingüística geral.. semântica e interação. j. VIottI. são Paulo: Contexto. (orgs. Introdução à lingüística II: princípios de análise. 6.atIVIdadE 1 formal encerra-se aqui. são Paulo: Contexto. et al. 2. LIngüístIca II rEfErÊnCIas CErEja. L. In: fIorIn. são Paulo: Cultrix. ed. (org. a.. Willian. Introdução à Lingüística II: princípios de análise. ed. In: mussaLIn. v. ed. r. com a expectativa de que outras leituras sejam feitas para ampliar o conhecimento desse campo dos estudos lingüísticos. ed. j. de P. Gramática reflexiva: texto. de C. f. Dicionário de lingüística. a semântica lexical.. semântica formal.). müLLEr. Introdução à lingüística: domínios e fronteiras.

LIngüístIca II atIVIdadE 1 anOtaçõES lIng II – 16 .

tExto no capítulo “semântica”. p. tratamos dos fundamentos de semântica formal. • na aula anterior. o que nos permite falar objetivamente sobre o mundo e. Como vimos anteriormente. há na sentença a presença da polifonia. Na Semântica Formal. 2001. a partir de uma sentença – “o homem de chapéu saiu” – a autora apresenta as seguintes interpretações: • • para a semântica formal. conseqüentemente. que ele saiu”. apresentamos e discutimos as perspectivas teóricas da semântica da Enunciação e da semântica Cognitiva no estudo do significado. lIng II – 17 . a voz de mais de um enunciador: “uma fala que diz que há um indivíduo. pela semântica da Enunciação e pela semântica Cognitiva. há a hipótese de que na interpretação da sentença formam-se espaços mentais: “o espaço mental em que há um homem”. mussaLIm. para a semântica da Enunciação. ducrot considera inadequado o tratamento da semântica formal por ela se respaldar num modelo informacional que situa o conceito de verdade externamente à linguagem. BEntEs.SEMântICa Da EnUnCIaçãO E SEMântICa COgnItIVa atIVIdadE 2 LIngüístIca II oBjEtIVo apresentar fundamentos de semântica da Enunciação e de semântica Cognitiva e como essas linhas teóricas investigam a linguagem. 19) propõe discutir como a pressuposição é tratada pela semântica formal. a Semântica da Enunciação as críticas de oswald ducrot à concepção de linguagem que subsidia a semântica formal possibilitaram o surgimento de um outro “modelo” – a semântica da Enunciação. É possível que o conceito de referência em Frege 1. Pires de oliveira (2001. nesta. a linguagem é um meio para alcançarmos uma verdade que está fora da linguagem. outra. para a semântica Cognitiva. que ele está de chapéu e outra. há uma pressuposição de existência: “existe um e apenas um indivíduo tal que ele é homem e está de chapéu e saiu”. em Introdução à lingüística: domínios e fronteiras1. adquirir um conhecimento seguro sobre ele.

Bakhtin utiliza o termo polifonia em 1929 ao estudar a criação em dostoievski.. 2006. isto é. Embora Bakhtin e ducrot não falem da mesma coisa. têm em comum um mesmo objetivo – a multiplicidade de “vozes” que se manifestam na linguagem. o pensador russo mikhail Bakhtin já apresentava tal conceito em suas reflexões. 1980). 2006. do sentido. a lua. ducrot integra o conceito de polifonia e coloca em discussão a unicidade do sujeito. adota um ponto de vista “estritamente lingüístico”. a noção de enunciação formulada por oswald ducrot nos anos 1970 é considerada como o acontecimento correspondente à produção do enunciado. como afirma acima. p. ducrot distingue entre frase e enunciado e. [a enunciação] é o acontecimento histórico constituído pelo fato de que um enunciado foi produzido. Com essa abordagem. alusões que fazem parte do sentido mesmo desse enunciado. lIng II – 18 .. 2001. fundada no princípio dialógico. a semântica da Enunciação trata o significado como o resultado de um jogo argumentativo criado na linguagem e por ela. Para ele. p. atividade 13 – videoaula 9. ducrot. Um tal estudo se deixa conduzir de um ponto de vista estritamente lingüístico.] as alusões que um enunciado faz à enunciação.LIngüístIca II atIVIdadE 2 esteja mesmo revestido de tal realismo: a metáfora do telescópio deixa claro que o objeto descrito. 178). resgata o dialogismo bakhtiniano quando o considera como princípio constitutivo da linguagem e do sentido dos 2. seja no nível textual. seja no discursivo. a frase é “o encaixamento sintagmático virtual” e o enunciado “é o segmento efetivamente produzido pelo locutor” (PaVEau. não vemos luas diferentes (PIRES DE OLIVEIRA. É o nosso conhecimento da lua que depende do sentido. Bakhtin discute as relações de reciprocidade entre o autor e o herói. os postulados de mikhail Bakhtin serão retomados na matéria 5. que uma frase foi realizada. Pode-se estudá-lo buscando as condições sociais e psicológicas que determinam essa produção. uma abordagem análoga à de Émile Benveniste2. 179). Em outro momento (1929). Vemos a lua a partir de pontos de vista diferentes.. Para ducrot (apud PaVEau.] Mas podese também estudar [. o que sintetiza sua descrição na noção de polifonia3. destinado aos estudos de Pragmática. [. não é uma função da descrição dada. sarfatI. sarfatI. no quadro teórico da semântica da enunciação. o conceito e enunciação de Émile Benveniste é discutido no próximo conteúdo. 3. 27). na medida em que todas as línguas comportam palavras e estruturas cuja interpretação faz necessariamente intervir o fato da enunciação. Em seu estudo Lês motes du discours (as palavras do discurso. p.

da pergunta. E toma-se conseqüentemente que este ser designado por eu é ao mesmo tempo o que produz o enunciado. p.. que conta. é habitual atribuir ao sujeito falante uma terceira propriedade.. ducrot contesta a tese da unicidade do sujeito falante. suporte dos processos expressos por um verbo cujo sujeito é eu. contrária a essa tese de unicidade do sujeito. ordens. tal como apresenta Brandão (1995. Em seu Esboço de uma teoria polifônica da enunciação (1984/1987). da asserção. 58): “Primeira distinção: locutor/sujeito falante empírico. p.. que é tido como fonte do discurso. e é também aquele cujo enunciado exprime as promessas. 57): • • • LIngüístIca II o sujeito é encarregado de toda atividade psicofisiológica necessária à produção do enunciado. assim. asserções etc. neste caso. O locutor é o ser apresentado como responsável pelo dizer. 1972).atIVIdadE 2 enunciados. além da produção física do enunciado e da execução dos atos ilocutórios. o proprietário dos objetos qualificados de meus.. a teoria polifônica de ducrot. lIng II – 19 . aquele que diz eu ou/e origina os atos ilocutórios não são obrigatoriamente o mesmo. estabelece que o sujeito que produz psicofisiologicamente o enunciado. o sujeito é o autor. é ele que se encontra no lugar chamado aqui. a de ser designado em um enunciado pelas marcas da primeira pessoa quando elas designam um ser extralingüístico: ele é. com base na teoria da narrativa apresentada por genette (Figures III. a origem dos atos ilocutórios executados na produção do enunciado (atos do tipo da ordem. pois se trata de uma ficção discursiva. 1995. É a ele que referem o pronome eu e as outras marcas da primeira pessoa. É aquele que fala. Podemos esquematizar assim as suas colocações: A figura do locutor corresponde à figura do narrador da teoria de Genette. faz duas distinções.). especificada a partir de três propriedades (Brandão. A teoria de Genette faz aparecer na narrativa duas instâncias semelhantes às por ele detectadas na linguagem ordinária. mas não é um ser no mundo. distingue. locutor e enunciador e.

mas pode ser recusado ao narrador. • • Segunda distinção: locutor/enunciador Esquematicamente. Assim. mas aquele em que o narrador conta. Dentre essas características. interior. vivendo em 1991. que conta o que se passou no ano 2000. citam-se três: • a primeira. Segundo Genette. responsável pela narração e que tem características diferentes das de um autor. pertencendo ao sentido do enunciado. a segunda relaciona-se com o tempo: o tempo gramatical utilizado num relato pode muito bem não tomar como ponto de referência o momento em que o autor escreve. da mesma forma que o narrador é um ser fictício. pode imaginar um narrador. está inscrito na descrição que o enunciado dá de sua enunciação. a terceira diz respeito à existência empírica que é predicado necessário ao autor. o autor de uma narrativa (romancista ou novelista) mobiliza um narrador. É a figura da enunciação que representa a pessoa de cujo ponto de lIng II – 20 . um autor. o narrador os relata. o locutor se distingue do sujeito falante empírico – o produtor efetivo do enunciado e exterior ao seu sentido. o paralelo que Ducrot estabelece é o seguinte: O enunciador se distingue tanto do locutor quanto do sujeito falante. vivendo no ano 2100.LIngüístIca II atIVIdadE 2 Assim como o narrador se distingue do autor. o locutor é um ser de discurso que. desenvolvida por Genette. diz respeito à atitude do narrador em relação aos acontecimentos relatados: enquanto o autor imagina ou inventa estes acontecimentos. Por exemplo.

. a formulação de um período composto por subordinação. os verbos dicendi (verbos introdutores ou verbos de elocução. Contribuem também para marcar a citação da fala de alguém em discurso direto o emprego de aspas (como no exemplo) ou o emprego de travessões. resulta: lIng II – 21 . tem-se um caso de dupla enunciação e de “existência” de dois locutores – L1 e L2 – sendo que L1 é responsável pela totalidade do enunciado e L2 é responsável por parte do enunciado. o exemplo dado em (a). Corresponde ao ‘centro de perspectiva’ de Genette ou ao ‘sujeito de consciência’ dos autores americanos. L2: “preciso de um vestido novo” nesse caso. As atitudes expressas no discurso por um locutor podem ser atribuídas a enunciadores dos quais ele se distancia. tentamos exemplificar tais manifestações no discurso relatado na forma direta e na forma indireta.atIVIdadE 2 vista os acontecimentos são apresentados. que conta. Se o locutor é aquele que fala. Esse tipo de construção caracteriza-se pela ocorrência de subordinação em que. as marcas lingüísticas de 1ª pessoa expressas pelos pronomes minha (possessivo) e me (pessoal oblíquo) e pela terminação verbal em preciso referem-se a locutores diferentes. isto é. como observamos a seguir: L1: minha filha me disse: “preciso de um vestido novo”. a polifonia no discurso relatado a polifonia pode ocorrer tanto no nível do locutor quanto no nível do enunciador.] Aquele ‘que fala’ e aquele ‘que vê’ constituem papéis não atribuíveis a um único ser.. porém de maneira menos delimitada. o locutor incorpora lingüisticamente em sua fala a fala de L2. ‘como os pontos de vista manifestos numa narração podem ser os de sujeito de consciência estranhos ao narrador’. • a polifonia no discurso indireto manifesta-se também de forma marcada. afirmar. na formulação do discurso indireto.) participam da construção de sentido e possibilitam ao leitor/ouvinte depreender as apreciações do discurso citante em relação ao discurso citado. com a ocorrência de uma conjunção integrante que ou equivalente. construído na forma indireta. [. responder etc. o enunciador é aquele que vê. é o lugar de onde se olha sem que lhe sejam atribuídas palavras precisas. • LIngüístIca II a polifonia no discurso direto manifesta-se por desdobramentos da figura do locutor. como dizer.

1965. Laços de família (contos). a conjunção integrante que introduz o complemento de dizer. rio de janeiro: Editora do autor. embora o locutor fale de perspectivas enunciativas diferentes. por exemplo. 2006. ao momento concreto da enunciação. lIng II – 22 . encontra-se sua melhor forma de ilustrar a polifonia: todo enunciado negativo de um locutor L1 supõe a existência de um enunciado inverso/afirmativo de um locutor L2. o conceito de polifonia de ducrot tem sido adotado e. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos. contrastes) ou depender do sistema mimogestual (mímicas. “a intenção irônica do locutor impõe ao interlocutor uma estratégia de decifração que pode. opõe-se a um ponto de vista inverso que diria “sim. p. no estudo da negação. L1 manifesta-se como o eu que enuncia (minha filha me disse) e incorpora um referente marcado pela terceira pessoa do discurso (ela disse. Uns comunistas. Por exemplo. tom)” (PaVEau. como a negação e a ironia. sem autoridade? o rancor roncava no seu peito vazio. outros elementos lingüísticos podem modalizar o enunciado e demarcar a perspectiva de quem fala. uns comunistas.LIngüístIca II atIVIdadE 2 L1: minha filha disse que precisa de um vestido novo. quando se diz “maria não está em casa”. era o que eram. maria está em casa”. sarfatI. a fala de L2 agora “diluída” na fala de L1. fracos. fracassar”. • a polifonia no discurso indireto livre não é demarcada lingüisticamente. por vezes. outros casos de “dupla enunciação”. mas que em ducrot resume-se ao presente. a sua família”4. uns comunistas” – expressa a fala do locutor de sua própria perspectiva. mas dera aqueles azedos e infelizes frutos. Bakhtin. olhou-os com sua cólera de velha. compete plenamente à lingüística enunciativa uma vez que os sinais que a marcam são implícitos e contextuais. sem capacidade sequer para uma boa alegria. os sinais da ironia “podem ser inscritos na matéria linguageira (palavras enfáticas. era o que eram. são estudados por ducrot para provar a pertinência da enunciação. 186). nesse caso. sobretudo no que concerne à noção de historicidade. às vezes. Pareciam ratos se acotovelando. quando se diz “Que gracinha!” a uma criança travessa ou inconveniente. p. no que concerne à ironia. o enunciado em destaque – “uns comunistas. 4. reformulado por muitos pesquisadores em lingüística e análise de discurso. Vejamos um exemplo em Clarice Lispector: “o tronco fora bom. por exemplo: minha filha [afirmou] que precisa de um vestido novo [urgentemente]. 56. mas de forma ambígua reflete também a perspectiva da personagem. fundamental para m. ela precisa).

e não pura ou prioritariamente lingüístico (PIrEs dE oLIVEIra. uma abordagem que entra em choque com a gerativista. nem todos os nossos conceitos resultam de esquemas 5. afirma-se na semântica Cognitiva que o significado nada tem a ver com a relação de pareamento entre linguagem e mundo. 2001. “Estou em florianópolis”. nesse campo de estudos. em 1980. 2001. o significado emerge de dentro para fora. Por outro lado. há instâncias do esquema do rECIPIEntE5. p. lIng II – 23 . organizações cinestésicas diretamente apreendidas. o significado de nossas expressões lingüísticas sobre o espaço ancora-se na nossa experiência corpórea com o mundo: “fui do quarto para a sala”. 35). já que ambas negam a hipótese da referência. constróise a partir de nossas interações físicas. os conceitos e esquemas são sempre apresentados em caixa alta. corpóreas. ao contrário. carregam uma memória de movimentação ou de experiência. no entanto. o significado é uma questão da cognição em geral. “Esses esquemas. nos dois primeiros casos. na semântica Cognitiva. com bases em Pires de oliveira (2001): • LIngüístIca II • • a semântica Cognitiva está mais próxima da semântica da Enunciação.atIVIdadE 2 a Semântica Cognitiva a semântica Cognitiva tem como um de seus marcos inaugurais a publicação de Metaphors we live by. “Vim de são Paulo”. algumas particularidades da semântica Cognitiva são apresentadas a seguir. Por exemplo. inclusive a lógica e a linguagem. nos dois últimos casos. proposto por Lakoff. com o meio em que vivemos. “nasceu no Brasil”. parte-se da hipótese de que o significado é central na investigação da linguagem. p. há instâncias do esquema do CamInHo (de a – fonte do movimento – para B – alvo do movimento). 34). o significado corpóreo não é exclusiva e prioritariamente lingüístico. “a forma deriva da significação. daí a semântica Cognitiva se inscrever no quadro do funcionalismo” (PIrEs dE oLIVEIra. difere da semântica da Enunciação. É essa memória que ampara nosso falar e pensar”. porque é a partir da construção de significados que aprendemos. que defende a centralidade da sintaxe. pois não se baseia na crença de que a referência é constituída pela própria linguagem nem que a linguagem é um jogo de argumentação. na semântica Cognitiva. e por isso é motivado. de george Lakoff e mark johnson.

há um percurso que identificamos pela idéia de direção das preposições para e a. o termo metáfora em semântica Cognitiva tem um sentido especial. um hamster etc. 41). p. pelo processo de metonímia. p. Essa construção é para a semântica Cognitiva uma metáfora lingüística. “falamos. aprendidos diretamente pelo nosso corpo. provavelmente. o Congresso foi de terça a sexta-feira. diríamos. que expressa uma maneira “figurada” de falar. a exemplo de “aquele homem é um leão”. 2001. por exemplo. 2001. o preço dos combustíveis subiu. Isso significa que conceituamos o tempo a partir de correspondências com o espaço. Essas sentenças são consideradas metafóricas. diferente daquele que aprendemos na escola. cachorro. como a metáfora e a metonímia. trata-se de “um processo cognitivo que permite criar relações de hierarquias entre conceitos”. que o animal de estimação de maria é um cachorro. 36). assim como a metáfora. embora o animal de estimação pudesse ser um gato. o termo metáfora nomeia “um processo cognitivo que permite mapearmos esquemas. como observamos nas sentenças a seguir: • • de ontem para hoje. temos em animal uma categoria genérica e em animal de estimação uma categoria superordenada com relação à categoria de nível básico. pois organizamos dados da nossa experiência de maneira mais concreta. 2001. não é tratada pela semântica Cognitiva como uma figura de linguagem. cuja experimentação é indireta” (PIrEs dE oLIVEIra. o tempo decorrido entre os dois pontos. em domínios mais abstratos. a semântica Cognitiva afirma que: Aprendemos primeiro e diretamente categorias como cachorro e mesa e só posteriormente. as categorias genéricas animal e móveis e as lIng II – 24 . como observamos. isto é. e há um ponto de chegada.LIngüístIca II atIVIdadE 2 imagéticos-cinestésicos. respectivamente hoje e sexta-feira. Há o ponto de partida do movimento temporal ontem. não é uma metáfora conceitual. pelo esquema imagético CamInHo mapeado para o domínio do tempo. um coelho. pensamos e agimos sobre o tempo como se ele fosse uma linearidade. Em semântica Cognitiva. na primeira sentença. e terça na segunda sentença. p. em “maria saiu com seu animal de estimação” (PIrEs dE oLIVEIra. como uma reta direcionada para o futuro” (PIrEs dE oLIVEIra. Com bases em experimentos da Psicologia. 36). por se tratar de uma situação mais familiar. Há aqueles que dependem de mecanismos de abstração privilegiados pela semântica Cognitiva. a metonímia.

são Carlos. n. 43). Introdução à Análise do Discurso. Eduardo guimarães. As grandes teorias da Lingüística: da gramática comparada à pragmática. O dizer e o dito. 2001. r. rev. BEntEs. C. sP: Claraluz. o que nos leva a perceber. 40). são Paulo: Cortez.-a. gregolin et al. que os problemas são tratados de maneiras diferentes. H. tradução de m. 2001. rEfErÊnCIas Brandão. sP: Pontes. podemos dizer que a descrição semântica está relacionada à visão que se tem de linguagem e de suas relações com o mundo e o conhecimento. sarfatI. constatamos que a questão do significado na Lingüística contemporânea não é descrita por uma metodologia única. 1995. 2001.. duCrot. m. de que o extralingüístico tem um papel na determinação do significado. é necessário.atIVIdadE 2 particulares como boxer e mesa de cabeceira. mas será que podemos dizer que a linguagem é lógica? Por outro lado. por vezes. PIrEs dE oLIVEIra. PaVEau. Por exemplo. 2006. a metonímia estende as categorias (PIRES DE OLIVEIRA. em que introduzimos os estudos de semântica. Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. Esse também é um postulado polêmico” (PIrEs dE oLIVIEra. semântica. r. finalmente. lIng II – 25 . Campinas. 4. H. Da mesma forma que metáfora é o processo para estender os esquemas imagéticos.. “jogamos fora a idéia de que a verdade tem algo a ver com o significado. 2. entendemos que. por ser a linguagem um objeto de estudo tão complexo. tratamos o significado com bases no instrumental da semântica formal. trad. mas é secundária na semântica da Enunciação. também. se entendemos que a linguagem estrutura-se logicamente. LIngüístIca II nas duas aulas iniciais deste semestre. que coexistam diversos modos e métodos de abordá-la. se adotamos o ponto de vista da semântica da Enunciação e da semântica Cognitiva. sP: EdunICamP. v. de certo modo. Há diferentes modos de descrever o significado. f. p. In: mussaLIm. ed. g-É. a categorização interessa à semântica formal e à semântica Cognitiva. a. p. o. 1987. Campinas.

LIngüístIca II atIVIdadE 2 anOtaçõES lIng II – 26 .

relações entre expressões lingüísticas e conceitos mentais a elas associados): • • • todo homem é mortal. (óbvio) lIng II – 27 . joão é mortal. a contribuição de Frege (lógico alemão. tExto a semântica formal Busca descrever o significado. dificuldade: a questão do significado está ligada à aquisição do conhecimento – como é possível (se é que é possível) o conhecimento? Há várias semânticas e várias maneiras de conceber “significado”: Saussure: o significado se constrói na diferença – “mesa se define por não ser cadeira. Semântica formal – o significado é um termo complexo que se compõe de duas partes: o sentido e a referência: “o sentido de um nome a mesa da professora é o modo de representação do objeto/referência mesa da professora” (modelo lógico. o raciocínio é garantido apenas pelas relações. joão é homem.SíntESE paRa aUtO-aValIaçãO oBjEtIVos atIVIdadE 3 LIngüístIca II rever e fixar conceitos. mas encontra dificuldades: • • 1a. Logo. não se considera o sentido de “homem” e “mortal”. da semântica da Enunciação e da semântica Cognitiva. dificuldade: não há consenso entre semanticistas para definir “significado”. fundamentos e princípios de análise dos estudos do significado na perspectiva da semântica formal. abajur” (posição relativista). 2a. 1848-1925) 1) Distinção entre sentido e referência – o sentido é o que nos permite chegar a uma referência no mundo: • a estrela da manhã é a estrela da manhã. sofá. relação da linguagem com o mundo.

não só . daí o termo quantificador”. 2) O conceito de quantificador – o predicado pode ser preenchido por uma expressão quantificada (outro tipo de argumento).LIngüístIca II atIVIdadE 3 • • a estrela da manhã é a estrela da tarde.. • • • • uma cidade de santa Catarina é a capital de santa Catarina. • são Paulo é a capital de são Paulo. não se refere a um objeto real). (a sentença carece de verdade.. falsidade) o valor de verdade se estabelece nos “argumentos” que preenchem os espaços do predicado ----------. assim. Cada aluno leu dois livros (possivelmente) distintos. (quantificador universal e quantificador existencial – duplo sentido) o joão não convidou só a maria.. a interpretação da sentença depende da relação de distribuição entre vários eleitores e um candidato. (quantificador universal – aplica-se a todos os elementos aos quais se aplica o predicado “ser homem”) todos os meninos amam uma professora. Papai Noel tem barba branca. Cada aluno tem escopo sobre dois livros. . a linguagem é apenas o instrumento para alcançar a verdade ou a falsidade”. mas também..só não. • • • Cada aluno nesta sala leu dois livros. a sentença “Vários eleitores escolheram um candidato jovem” pode significar que um certo candidato jovem foi escolhido por vários eleitores ou que cada um entre vários eleitores escolheu um candidato jovem.. Existem dois livros determinados que cada aluno leu. “a verdade não está na linguagem. lIng II – 28 . (interpretado) descoberta da astronomia – Estrela da manhã e estrela da tarde são as mesmas (Vênus) – dois caminhos para chegar à mesma referência. Verdade) • são Paulo é a capital de santa Catarina. (ref. mas não necessariamente o mesmo.. (duplo sentido) ....... não é cognitiva.(expressão “insaturada”. • 3 + 3 = 10 – 4 (lógica) – a referência é 6. (quantificador existencial – apenas uma cidade) todos os homens são mortais. Relação de escopo – é estabelecida quando a interpretação de uma expressão depende da interpretação de outra.apresenta ligação dupla. mas nos fatos do mundo (real). (ref. predicado de dois lugares). “uma expressão quantificada indica um certo número de elementos.é capital de ----------------.

falamos para construir um mundo e a partir lIng II – 29 . não falamos para o mundo. • a referência é uma ilusão criada pela linguagem – ao usarmos dêiticos (termos cujo conteúdo é a remissão à externalidade lingüística). na semântica formal (frege): • a linguagem se respalda num modelo informacional. • a linguagem é o meio para alcançarmos uma verdade que está fora da linguagem. pois: 1. poderia negar a existência de um presidente. há dois caminhos. é pragmática (frege). mas é o objeto no mundo que nos permite formular um juízo de valor – avaliar se o que dizemos é falso ou verdadeiro. • o sentido só nos permite conhecer algo se a ele corresponder uma referência. para alcançarmos a mesma referência). temos a sensação/ilusão de estar fora da língua. pressuposição: não é um fenômeno do sentido.atIVIdadE 3 Relações dêiticas (dêixis) e anafóricas: • • • dêiticos – “palavras que mostram” dêixis – “ato de mostrar” O presidente do Brasil é sociólogo. • na semântica da Enunciação (ducrot): • a linguagem constitui o mundo. conseqüentemente. LIngüístIca II o artigo “o” é um dêitico – mostra a situação em que a sentença é proferida (“o” e não “um” ou “nosso presidente é sociólogo”). por isso não é possível sair dela. adquirir um conhecimento seguro sobre ele (relações lógicas: 3+3 = 10-4. o presidente do Brasil não é sociólogo. • o sentido nos permite alcançar um objeto no mundo. (neste caso. dois sentidos. a linguagem é um jogo de argumentação enredado em si mesmo. o que nos permite falar objetivamente sobre o mundo e. se a pressuposição fosse semântica. em que o conceito de verdade é exterior. mas esse alguém não é sociólogo. Existe alguém que é presidente. outro dêitico é o uso do presente do indicativo (“é” – momento atual: fHC).) a Semântica da Enunciação ducrot – considera inadequada a visão de linguagem que subsidia a semântica formal. • para ducrot.

• a semântica cognitiva nesse campo de estudos. polissemia = um mesmo enunciado se abre num leque de significados diferentes. 2. mas para convencer o outro a entrar no nosso jogo discursivo. afirma-se na semântica Cognitiva que o significado nada tem a ver com a lIng II – 30 . parte-se da hipótese de que o significado é central na investigação da linguagem. no entanto. na medida em que nego o enunciador que afirma a existência de um carro que seja meu). mas relacionados. a linguagem é dialogia. meu carro não está mal estacionado (porque está bem estacionado). meu carro não está mal estacionado (porque não tenho carro). para convencê-lo de nossa verdade. = negação polêmica (nego o quadro criado por meu interlocutor. é argumentação. uma abordagem que entra em choque com a gerativista. a semântica Cognitiva está mais próxima da semântica da Enunciação. o conceito de pressuposição é substituído pelo conceito de enunciador. ou melhor. difere da semântica da Enunciação. = negação metalingüística (o locutor retoma a fala do outro para negá-la). E1: o Brasil já foi “paisinho de terceiro mundo”. não falamos para trocar informações sobre o mundo. E2: o Brasil aceitou ser “paisinho de terceiro mundo”. nas versões atuais da semântica da Enunciação. verdade criada pela e nas nossas interlocuções.LIngüístIca II atIVIdadE 3 dele tentar convencer nosso interlocutor da nossa verdade. negação polêmica (caráter refutativo) e metalingüística (feita pela própria linguagem): seu carro está mal estacionado! • não. 4. pois não se baseia na crença de que a referência é constituída pela própria linguagem nem que a linguagem é um jogo de argumentação. já que ambas negam a hipótese da referência. não. 3. que defende a centralidade da sintaxe. um enunciado constitui-se de vários enunciadores (“vozes” que dialogam e se manifestam no espaço discursivo): Brasil não aceita mais ser “paisinho de terceiro mundo”. a verdade deixa de ser um atributo do mundo e passa a ser relativa à comunidade que se forma na argumentação. E3: o Brasil não é um “paisinho de terceiro mundo”.

como observamos. aprendidos diretamente pelo nosso corpo. por se tratar de uma situação mais familiar. há instâncias do esquema do CamInHo (de a – fonte do movimento – para B – alvo do movimento). nomeia “um processo cognitivo que permite mapearmos esquemas. provavelmente. um coelho. a categorização interessa à semântica formal e à semântica Cognitiva. também. constrói-se a partir de nossas interações físicas. lIng II – 31 . nos dois primeiros casos. em que introduzimos os estudos de semântica. cachorro. e por isso é motivado. o termo metáfora. a metonímia. p. em “maria saiu com seu animal de estimação” (PIrEs dE oLIVEIra. um hamster etc. de certo modo. nos dois últimos casos. em sC. mas é secundária na semântica da Enunciação.atIVIdadE 3 LIngüístIca II relação de pareamento entre linguagem e mundo. há instâncias do esquema do rECIPIEntE. podemos dizer que a descrição semântica está relacionada à visão que se tem de linguagem e de suas relações com o mundo e o conhecimento. diríamos. corpóreas. “Estou em florianópolis”. ao contrário. embora o animal de estimação pudesse ser um gato. que o animal de estimação de maria é um cachorro. “Vim de são Paulo”. trata-se de “um processo cognitivo que permite criar relações de hierarquias entre conceitos”. assim como a metáfora. o que nos leva a perceber. cuja experimentação é indireta” – CamInHo mapeado pelo domínio do tempo: “de ontem para hoje. por exemplo. em domínios mais abstratos. o significado de nossas expressões lingüísticas sobre o espaço ancora-se na nossa experiência corpórea com o mundo: “fui do quarto para a sala”. que os problemas são tratados de maneiras diferentes. Há diferentes modos de descrever o significado. com o meio em que vivemos. o preço dos combustíveis subiu” e “o Congresso de Lingüística foi de terça a sexta-feira”. não é tratada pela semântica Cognitiva como uma figura de linguagem. Por exemplo. 2001. constatamos que a questão do significado na Lingüística contemporânea não é descrita por uma metodologia única. o significado emerge de dentro para fora. 41). temos em animal uma categoria genérica e em animal de estimação uma categoria superordenada com relação à categoria de nível básico. proposto por Lakoff. “nasceu no Brasil”. nas duas aulas iniciais deste semestre.

LIngüístIca II atIVIdadE 3 anOtaçõES lIng II – 32 .

pRagMÁtICa oBjEtIVo

atIVIdadE 4

LIngüístIca II

Introduzir fundamentos teóricos e princípios de análise da Pragmática, campo de estudos que investiga a prática lingüística, a linguagem em uso.

tExto
a Pragmática é a ciência do uso lingüístico. tal campo de estudos investiga as condições que governam a utilização da linguagem, a prática lingüística. dubois et al. (2007, p. 480) postulam que o aspecto pragmático da linguagem concerne às características de sua utilização (motivações psicológicas dos falantes, reações dos interlocutores, tipos socializados da fala, objeto da fala etc.) por oposição ao aspecto sintático (propriedades formais das construções lingüísticas) e semântico (relação entre as unidades lingüísticas e o mundo). na verdade, é preciso reconhecer que essas oposições mencionadas dizem respeito ao tratamento que os estudos sintáticos, semânticos e pragmáticos dão à linguagem, uma vez que o estudo dos aspectos pragmáticos toma como base a expressão lingüística na enunciação, durante a produção de enunciados. É por meio da organização dos enunciados e dos elementos dêiticos que se investiga o uso da linguagem, a prática lingüística. o estudo pragmático considera que os sujeitos é que possibilitam a “existência” da linguagem. trata-se, pois, de reconhecer os aspectos lingüísticos e extralingüísticos que participam do ato de linguagem. Correntes da pragmática a Pragmática é uma área genérica, no sentido de que se define por pesquisar os usos lingüísticos, por meio de temas amplos e variados. Paveau e sarfati (2006, p. 217) postulam que a Pragmática, quer seja autônoma (“filosofia da linguagem ordinária”), quer seja incorporada (“pragmática lingüística”), conserva uma identidade própria. “suas orientações tomam um caminho diferente daquele do Curso de lingüística geral de saussure. dois debates históricos (Benveniste/austin; ducrot/searle) fizeram a pragmática progressivamente adaptar-se à lingüística”. relembrando, saussure considerava que o verdadeiro objeto da lingüística é a língua – a linguagem menos a fala –, isto é, a linguagem menos seu uso concreto. a Pragmática não considera a língua isolada da utilização da linguagem; ocupa-se em estudar a relação entre a estrutura da linguagem e seu uso.
lIng II – 33

LIngüístIca II

atIVIdadE 4

a Pragmática tem como ponto de partida trabalhos dos filósofos da linguagem, em particular john austin e Paul grice. Para austin, a linguagem não tem uma função descritiva, mas uma função de agir. “ao falar, o homem realiza atos. Por exemplo, ao dizer Eu lhe prometo vir, o ato da promessa é realizado quando se diz Eu prometo”. Para grice, a linguagem natural comunica mais do que aquilo que se significa num enunciado, “pois quando se fala, comunicam-se também conteúdos implícitos. Quando alguém diz a outro que está se aprontando para sair, São oito horas, ele não está fazendo uma simples constatação sobre o que marca o relógio, mas dizendo Apresse-se; Vamos chegar atrasados” (fIorIn, 2003a, p.166). Pinto (2001, p. 51) observa que três correntes podem ser delimitadas nos estudos pragmáticos – “o pragmatismo americano, influenciado pelos estudos semiológicos de Willian james; os estudos de atos de fala, sob o crédito dos trabalhos do inglês j. L. austin; e os estudos da comunicação, com preocupação firmada nas relações sociais, de classe, de gênero, de raça e de cultura, presentes na atividade lingüística”. a autora também observa que os franceses oswald ducrot e Émile Benveniste e o americano H. P. grice são referências para a Pragmática até o final da década de 1980. no entanto, a evolução dos trabalhos desses estudiosos conferiu-lhes campos de estudos e métodos hoje separados dos pragmáticos. a semântica argumentativa (já mencionada na aula anterior) e a análise da Conversação (que estudaremos na próxima aula) são duas correntes que participaram do movimento que integrou componentes pragmáticos aos estudos lingüísticos. fiorin (2003a, p. 167), citando moeschler1, diz haver “três domínios de fatos lingüísticos que exigem a introdução de uma dimensão pragmática nos estudos lingüísticos: os fatos de enunciação, de inferência e de instrução”. Enunciação: ato de produzir enunciados – as realizações lingüísticas concretas. Certos fatos lingüísticos só são entendidos em função do ato de enunciar, por exemplo: • os dêiticos (estudo ampliado adiante) – elementos lingüísticos que indicam o lugar ou o tempo em que um enunciado é produzido, e os participantes da enunciação (produção do enunciado); • enunciados performativos – realizam a ação que eles nomeiam (promessa, ordem, juramento, desejo, agradecimento, pedido de desculpas etc). Por exemplo, Eu prometo não sair de casa sozinha – Eu prometo – não há possibilidade de realizar esse ato senão enunciando-o; • uso de conectores, por exemplo em Você pode vir aqui um pouquinho? Porque estou precisando de ajuda, o conector porque não liga conteúdos, mas atos de enunciação, isto é, explica o motivo da pergunta e não seu conteúdo; • certas negações, como em O trânsito não estava ruim; estava péssimo – “negação não incide sobre a proposição negada, mas sobre sua
1. moEsCHLEr, jacques e rEBouL, anne. dictionnaire encyclopédique de pragmatique. Paris: seuil, 1994.
lIng II – 34

atIVIdadE 4

LIngüístIca II

assertabilidade, isto é, sobre a possibilidade de sua afirmação”. o que o falante diz não é que o trânsito esteja ruim, e sim que o termo é pouco apropriado para caracterizar o estado do trânsito; advérbios de negação, como em Sinceramente, não gostei de sua atitude – o advérbio sinceramente não modifica o verbo,mas qualifica o próprio ato de dizer como sincero.

Inferência: “Certos enunciados têm a propriedade de implicar outros. assim, quando se diz João é meu sobrinho, esse enunciado implica Sou tio de João; quando se afirma Se tivesse chovido, não haveria falta de energia, essa afirmação implica que Não choveu e há falta de energia”. Trata-se de informações derivadas dos próprios enunciados, mas há outras que só podem ser entendidas em contextos específicos, como em Não há mais homens no mundo, “o que está se dizendo, quando se comenta, por exemplo, o fato de que muitos homens cuidam da casa, enquanto as mulheres trabalham fora, é que o papel masculino, tal como era concebido, está mudando”. são relevantes algumas observações de fiorin (2003a, p. 168) sobre o “papel” da Pragmática: A Pragmática deve explicar como os falantes são capazes de entender não literalmente uma dada expressão, como podem compreender mais do que as expressões significam e por que um falante prefere dizer alguma coisa de maneira indireta e não de maneira direta. Em outras palavras, a Pragmática deve mostrar como se fazem inferências necessárias para chegar ao sentido dos enunciados. Há duas distinções fundamentais em Pragmática: significação versus sentido e frase versus enunciado. A frase é um fato lingüístico caracterizado por uma estrutura sintática e uma significação calculada com base na significação das palavras que a compõem, enquanto o enunciado é uma frase a que se acrescem as informações retiradas da situação em que é enunciada, em que é produzida. A mesma frase pode estar vinculada a diferentes enunciados. A frase Está chovendo pode ocorrer, dependendo da situação em que é enunciada, como os seguintes enunciados: Finalmente, seca vai acabar; Não podemos sair agora; É preciso ir recolher a roupa; Feche as janelas etc. A significação é o produto das indicações lingüísticas dos elementos componentes da frase. Assim, a significação de Está chovendo é Tomba água do céu. O sentido, no entanto, é a significação da frase
lIng II – 35

217-230). entre o uso de sentenças para descrever fatos e eventos e sentenças que são usadas para realizar (to perform) algo.] Austin (1962. para utilizar a língua em diferentes situações enunciativas. “Prometo que lhe pagarei amanhã”. cria-se o significado de adversidade. a primeira corrente “pensa que a Pragmática. cada uma estudando aspectos diferentes do sentido”. no segundo. p. Está chovendo pode significar Agora o racionamento vai acabar. como conectores. da conclusão que se tira de cada uso. Para o autor. por estudar fatos de fala. no que concerne aos papéis atribuídos à sintaxe. e a Pragmática explica a interpretação completa dos enunciados.LIngüístIca II atIVIdadE 4 acrescida das indicações contextuais e situacionais. A frase é estudada pela sintaxe e pela semântica. enquanto o enunciado é objeto da Pragmática. fiorin (2003a. no primeiro caso. a semântica ocupa-se da significação. austin e a teoria dos atos de fala a Pragmática. isto é. [. está radicalmente separada da semântica. isto é. a segunda integra a Pragmática e a semântica. Num contexto em que se comenta o problema do racionamento de energia derivado do esvaziamento das represas das hidrelétricas. à semântica e à Pragmática.. por exemplo. conjunções. advérbios.. Um exemplo de constatativo típico é “Maria está brincando na praça” e. preposições. 170) aponta para duas grandes correntes da Pragmática: “uma que considera que ela estuda o conjunto de conhecimentos que deve ter o falante. pode-se dizer. e não para descrever ou relatar. Enquanto constatativos podem ser lIng II – 36 . tal como é hoje conhecida. 1ª Conferência) parte da hoje famosa distinção entre constatativos e performativos. e outra que afirma que os aspectos pragmáticos estão codificados na língua” (contêm todas as instruções para os usos possíveis). que a sintaxe ocupa-se da boa formação das frases. as chamadas palavras do discurso. numa relação de conseqüência. teve início com o desenvolvimento da teoria dos atos de fala de austin. de performativo. p. de acordo com marcondes (2006. grosso modo. os significados de “e” nos seguintes casos: Ele é rico e vive pedindo dinheiro emprestado e Ele é rico e vive distribuindo dinheiro aos pobres. apresentam variação de funções de acordo com o contexto em que são utilizadas e significam porque há uma instrução sobre a maneira de interpretá-las. Instrução: para a Pragmática. conclui-se sobre uma ação adicionada a outra.

Por isso. considerando o ato de fala como a unidade básica de significação e tomando-o. isto é. pensamentos e ações dos ouvintes. ou de outras pessoas. uma vez que não descreve um fato. bem como dotadas de sentido e referência. 2006) como caracterizando-se pelas “conseqüências do ato em relação aos sentimentos. pode-se dizer que a realização de um ato de fala com uma determinada força vai além de seus elementos lingüísticos propriamente ditos. não se trata de uma descrição de intenções ou de estado mental. a força consiste no performativo propriamente dito. • ato locucionário – consiste na dimensão lingüística propriamente dita. uma vez que o constatativo tem também uma dimensão performativa. o proferimento (no original. mas deve ser considerado como bem ou mal sucedido. já que mantêm uma relação com um fato. nas palavras e sentenças empregadas de acordo com as regras gramaticais aplicáveis. os atos ilocucionários também podem ser realizados com verbos performativos implícitos e. • ato ilocucionário – pode ser considerado o núcleo do ato de fala. e pode ter sido realizado com o objetivo. a força do ato é a da promessa. ou do falante. um performativo não é realmente nem verdadeiro nem falso. como constituído por três dimensões integradas ou articuladas: respectivamente os atos locucionário. dependendo das circunstâncias e conseqüências da realização do ato. tomando-se o exemplo acima. foi definido por austin (1962 apud marCondEs. isto é. por sua vez. utterance) do verbo “prometer” constitui o próprio ato de prometer. Propõe. assim como os performativos têm uma dimensão constatativa. que sua concepção do uso da linguagem como uma forma de agir seja estendida para toda a linguagem. • ato perlocucionário – tem recebido menos atenção dos especialistas. ilocucionário e perlocucionário. intenção ou propósito de gerar essas conseqüências”. ao proferir a sentença. Austin logo percebeu que esta dicotomia era inadequada. ainda de acordo com marcondes (2006). o fato de eu lhe ter ou não pago no dia seguinte. e os verbos performativos geralmente descrevem as forças ilocucionárias dos atos realizados. lIng II – 37 LIngüístIca II . ainda assim. Portanto. constituindo o tipo de ato realizado. portanto. o falante realiza a promessa. “prometer” é um verbo performativo. descrever é também um ato que realizamos e pode ser bem ou mal sucedido.atIVIdadE 4 verdadeiros ou falsos em relação aos fatos que descrevem. Quando alguém diz “Prometo que lhe pagarei amanhã”. tem como aspecto fundamental a força ilocucionária. ter a força que pretendem ter (Eu lhe pagarei amanhã).

normas. a análise dos motivos pelos quais alguns atos falham. é reveladora das regras que foram rompidas nesses casos e pode. 2) exercitivos. A doutrina das infelicidades proposta por Austin (1962. ou são infelizes. subjetivas. como vimos acima. Com freqüência. nem sempre um performativo explícito é empregado. no caso de um grupo de amigos discutindo o resultado da final do campeonato de futebol. p. 2ª Conferência) é precisamente uma maneira de lidar com esse aspecto dos atos de fala. l. Uma vez que o mapeamento ou a explicitação completa das regras pode ser uma tarefa inexeqüível. se originem de práticas sociais. temos a seguinte classificação das forças ilocucionárias dos proferimentos em cinco tipos gerais: 1) veredictivos. Mas. mas estão sendo aplicadas. ser uma boa forma de torná-las evidentes. 1962). em seguida. JustiN As convenções são de natureza social e podem ser mais formais. 3) compromissivos ou comissivos. e Austin procura tornar a definição de cada classe mais clara por meio de exemplos. assim. especialmente em circunstâncias informais. caracterizar as condições pressupostas para a realização desses atos. J. embora. §§ 205. ou informais. essas regras são implícitas. A satisfação dessas condições é o critério do sucesso ou fracasso da tentativa de realização do ato. com variados graus de formalidade. 337). as convenções estão presentes. no caso de um tribunal. portanto. 217-230) acrescenta que austin vai. Seu objetivo com isso parece ser a identificação do tipo de ato realizado. procedimentos habituais. em última análise. 5) expositivos. 4) comportamentais. enquanto elementos básicos do contexto de realização dos atos. As intenções são consideradas como psicológicas e. Na última conferência de How to Do Things with Words (Austin. e a análise dependeria. por exemplo. em meio a uma combinação de intenções do falante e convenções sociais com diferentes graus de formalidade.LIngüístIca II atIVIdadE 4 marcondes (2006. porém constitutivos de suas formas de conduta. portanto. da identificação do ato lIng II – 38 . uma vez que. Wittgenstein dizia que não se poderia ter a intenção de jogar xadrez se o xadrez não existisse (Investigações filosóficas. e isso se torna evidente quando são violadas. e os falantes estão seguindo regras. em ambos os casos. Esta classificação é proposta como provisória.

Exijo que você trabalhe bastante. Alice não pôde deixar de rir. inicia o capítulo “Pragmática” com o seguinte texto: – Veja. o conteúdo proposicional é sempre o mesmo: Paulo trabalhar bastante. como pensava austin. mas disponibilizamos no material de apoio desta matéria uma sugestão de leitura que resgata alguns aspectos teóricos desenvolvidos até aqui sobre a teoria dos atos de fala. respectivamente. não ampliaremos. 3. um dos sucessores de austin. Paulo trabalha bastante. com ênfase à questão dos dêiticos. os atos ilocucionais são.174). a abordagem sobre as propostas de searle.. o conselho e a ordem. john searle. p. a interrogação. – Dois pence por semana e doces todos os outros dias. retoma seu programa e desenvolve uma série de aspectos de sua teoria. os exemplos a seguir mostram que enunciados que têm força ilocucional diferente podem exprimir a mesma proposição: 1. fazemos uma discussão breve sobre os estudos pragmáticos da enunciação. Paulo trabalha bastante? trabalhe bastante. LIngüístIca II searle mostra que não podemos confundir a proposição com a força ilocutória. acho que a senhora devia ter uma dama de companhia! – Aceito-a com todo prazer! – disse a Rainha . em Introdução à Lingüística II. na seqüência da aula. Isso revela que já na formulação inicial de Austin a preocupação com um método de explicitação de elementos implícitos é um dos objetivos centrais da teoria e uma das principais características de sua visão pragmática. Paulo.atIVIdadE 4 para a reconstrução das regras que tornam possível a sua realização. agora a senhora está bem melhor! Mas. são realizados um ato proposicional e um ato ilocucional.. ao comunicar uma frase. “o primeiro corresponde à referência e à predicação. 4. francamente. enquanto respondia: Não estou me candidatando. o segundo. ao dizer”. lIng II – 39 . Em exemplo dado por fiorin (2003a. no sentido de que. e não gosto tanto assim de doces. ao ato que se realiza na linguagem. a afirmação. neste segmento. Os estudos pragmáticos da enunciação fiorin (2003b). observa-se um dos aspectos teóricos desenvolvidos por searle. nos enunciados acima. 2. Paulo. ou seja. ao conteúdo comunicado.

se a regra é doce amanhã e doce ontem. – Hoje você não poderia ter. não pode – disse a Rainha. Alice nunca poderá ter os doces. quando aparece num texto escrito. Por isso. como você sabe.). nem pelo menos nem pelo mais – disse a Rainha. – Bom. ontem etc. ed. os marcadores temporais da enunciação (p. por isso. p. no estudo de semântica formal. São Paulo: Summus. 3. (Quem esteve aqui? Quando é ontem? onde é aqui?) Para saber o sentido de eu/ontem/aqui é necessário não só o conhecimento lingüístico como também o conhecimento da situação de uso desses elementos lingüísticos. pelo menos. ora. 161). As aventuras de Alice. Por exemplo. aquele etc. lá. de acordo com fiorin (2003b). a enunciação – situação de produção do enunciado – é um dos domínios lingüísticos que exigem a introdução de uma dimensão pragmática de estudos. lIng II – 40 . 182). – A regra é: doce amanhã e doce ontem – e nunca doce hoje. ex. a dêixis compreende a referência feita pelos dêiticos à situação de enunciação.) e os marcadores espaciais da enunciação (p. Já Alice mostra que o sentido dessas palavras está relacionado ao ato de produzir um enunciado e. os conceitos de dêitico e dêixis. o sentido das palavras ontem. O significado da palavra hoje se dá na relação com a situação de comunicação (FIORIN.LIngüístIca II atIVIdadE 4 – É doce de muito boa qualidade – afirmou a Rainha. nesta sala etc. Vimos. advérbios ou expressões adverbiais de lugar aqui. (CARROLL. Tem de ser sempre doce todos os outros dias. já que hoje é o dia em que um ato de fala é produzido. p. ex. não estou querendo. um dêitico só pode ser entendido dentro da situação de comunicação e. Lewis. a situação enunciativa deve ser explicitada. você encontra um bilhete que diz “Estive aqui ontem”. algumas vezes “tem de ser doce hoje”. hoje. – Algumas vezes tem de ser “doce hoje”– objetou Alice. esse. o dia de hoje não é outro dia qualquer. fiorin explica o significado do dêitico hoje na produção do enunciado: Para a rainha. – Não. 2003b.você). Com esse excerto de As aventuras de Alice. hoje e amanhã é fixo. como acontece com os dêiticos. advérbios e expressões adverbiais de tempo hoje. e pronomes demonstrativos este. agora. na enunciação). essa exigência ocorre por haver fatos lingüísticos que só são entendidos em função do ato de enunciar (= ato de produzir enunciados. os dêiticos são os elementos lingüísticos que indicam os participantes da enunciação (pronomes pessoais eu/tu.

mostra que as categorias de pessoa. organizam-se todas as relações espaciais e temporais” (fIorIn.BeNVeNiste relação. p. Émile Benveniste define a enunciação com um “colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização”. 83). a língua não é senão possibilidade da língua”. o eu estabelece uma outra pessoa. o que requer investigação de como o sentido se forma em palavras. 2003b. a partir desses dois elementos. “assim. e nos caracteres lingüísticos que marcam essa e. nas linguagens visuais. p 163-164). por sua vez. o homem constitui-se como sujeito na/pela linguagem. 163). p. na enunciação. “a relação do locutor com a língua determina os caracteres lingüísticos da enunciação. a categoria de pessoa é essencial para que a linguagem transforme-se em discurso. aquela à qual ele diz tu e que lhe diz tu. “eu é aquele que diz eu. o locutor mobiliza a língua por sua conta. constitui-se como “eu”. o aqui é o espaço do eu e o agora é o momento da enunciação. “o ato individual pelo qual se utiliza a língua introduz em primeiro lugar o locutor como parâmetro nas condições necessárias da enunciação. manifestam-se em qualquer língua e em qualquer modo de usar a linguagem. ao contrário. do hic (aqui) e do nunc (agora). toma a palavra”. Com a utilização de termos latinos. segundo Émile benveniste LIngüístIca II Em Problemas de lingüística geral (2005. Benveniste afirma ser a enunciação o lugar do ego (eu). a enunciação supõe a conversão individual da língua em discurso. que neles se enuncia. espaço e tempo não são particulares de algumas línguas. a língua é efetuada em uma instância de discurso. o sujeito da enunciação (enunciador e enunciatário) é ponto de referência para a organização do tempo e do espaço. nos atos de linguagem. que toma a língua por instrumento. emana de um locutor (enunciador) e atinge um interlocutor (enunciatário). o eu existe por oposição ao tu. em um texto há basicamente três instâncias enunciativas: lIng II – 41 .” Para Benveniste (2005. as instâncias enunciativas de acordo com fiorin (2003b. o que suscita uma outra enunciação de retorno. p. dessa forma. por exemplo. 82). espaço e tempo estão na dependência do eu. antes da enunciação. deve-se considerá-la como o fato do locutor. depois da enunciação. tem como “objeto” o ato mesmo de produção do enunciado e não o texto do enunciado.atIVIdadE 4 a enunciação. quando. ao produzir linguagem.

em que se opõem lIng II – 42 . duas correlações: • a correlação da pessoalidade. que compreende o segundo nível da hierarquia enunciativa. adultos. por exemplo. “enunciador e enunciatário correspondem ao autor e ao leitor implícitos ou abstratos. quando se narra uma história em terceira pessoa” (fIorIn. para Benveniste (2005). de certa forma. que compreende o terceiro nível da hierarquia enunciativa. ao produzir um enunciado.LIngüístIca II atIVIdadE 4 • a instância do enunciador e do enunciatário. narrador e narratário. que compreende o primeiro nível da enunciação “considerada como ato implícito de produção do enunciado e logicamente pressuposto pela própria existência do dito”. a quem se dirige. leigos. espaço e pessoa que se manifestam no enunciado constituem o que Benveniste chamava o aparelho formal da enunciação. em discurso direto” (fIorIn. se considerarmos como exemplo a produção da divulgação científica. à imagem (grifo nosso) do autor e à do leitor construídas pela obra”. o enunciador tem em perspectiva um enunciatário. Eu e tu são. narrador e narratário “podem permanecer implícitos como. 2003b. especialistas etc). a categoria de pessoa possui. como o eu que se manifesta em “Eu afirmo que todos virão”. Instala-se “quando o narrador dá voz a uma personagem. cada qual com suas especificidades de linguagem para atender a diferentes públicos leitores (crianças. Enunciador e enunciatário participam conjuntamente da produção do discurso. respectivamente. 2003b. por exemplo: • • josé disse a sua esposa: – todos virão! tempo. espaço e pessoa – o “aparelho formal” da enunciação as categorias de tempo. orienta o discurso. perceberemos que esse gênero de discurso circula em diferentes veículos de informação. a instância do interlocutor e do interlocutário. a partir do exemplo anterior. p. a instância do eu e do tu instalados no enunciado. 163) ou. formular “todos virão”. 164). nessa instância. ou seja. e quem. p.

chegam. o ele. o momento de referência passado indica anterioridade ao momento da enunciação.atIVIdadE 4 pessoa (eu/tu) e não-pessoa (ele) – participantes da enunciação e elementos do enunciado. com a qual se lIng II – 43 . o tempo lingüístico comanda as marcações cronológicas referidas no texto. p. Os portugueses chegam oficialmente à terra brasileira. passa a ser o eu e eu me torno tu. o tempo do discurso é sempre uma criação da linguagem. em que um processo é relatado como “fenômeno” cuja produção não está ligada a qualquer agente ou causa (Chove. o agora (estamos.). Pode representar qualquer sujeito ou nenhum sujeito. ele é o tu. tem) está colocado no passado cronológico remoto (em 1500). anterior ou posterior a cada um dos momentos de referência (presente. além disso. usa-se a terceira pessoa nas chamadas expressões impessoais. Tem início o processo de colonização. a primeira é a pessoa subjetiva (quem fala) e a segunda é a pessoa não subjetiva (com quem se fala). “pois é ela que determina quem são os participantes do ato enunciativo e quem não participa dele”. a categoria de tempo marca se um acontecimento é concomitante. pois ela não implica “nenhuma pessoa”. isto é. Para fiorin (2003b. passado e futuro) estabelecidos em função do momento da enunciação: • • • • o momento presente é um agora – coincide com o momento da enunciação. faz sol. o eu e o tu. fiorin também chama a atenção ao fato de que é a situação de enunciação que especifica o que é pessoa e o que é não pessoa. expresso ou não. faz dois anos. como segue: LIngüístIca II Estamos em 1500. embora o momento da enunciação possa ser colocado em qualquer divisão do tempo cronológico. o autor denomina pessoas enunciativas aquelas que participam do ato de comunicação. no entanto. quando ele me responde.. isto é. com uma ancoragem do tempo lingüístico no tempo cronológico. e pessoa enunciva aquela que pertence ao domínio do enunciado. o momento de referência futuro indica posterioridade ao momento da enunciação. nesse caso. não é possível a reversibilidade com o ele”. 164). “eu e tu são reversíveis na situação de enunciação. os momentos passado e futuro precisam ser marcados no enunciado. Quando dirijo a palavra a alguém. em que se contrapõem eu versus tu. a terceira pessoa (ele) jamais é instaurada como participante da situação de enunciação. • a correlação da subjetividade.

por exemplo. o presente em passado. p. o momento do • lIng II – 44 .. Isso significa que se aplica [. o passado em presente. obtemos um tempo que indica concomitância ao presente. que determina a existência de dias. passado. do calendário. há coincidência entre ele e o momento da enunciação”. Ordena sua progressão. tem seu centro no presente da instância da fala. o evento fulgurar ocorre no momento de referência presente. 166-167). “Como este é um ponto preciso no tempo. 22). “o momento de referência presente é um agora. 166). 1758. Em relação a ele. Pretérito perfeito 1 (simples) – marca uma relação de anterioridade entre o momento do acontecimento e o momento de referência presente: Luís Felipe Scolari assumiu a seleção para salvar a pátria do vexame da eliminação de uma Copa (Veja. ed. anterioridade ao presente. 2005). temos o que se revela no aspecto verbal como um presente histórico. quais são concomitantes e quais são posteriores. pois. p. MA – momento do acontecimento (concomitante. p. “uma coisa é situar um acontecimento no tempo cronológico e outra é inseri-lo no tempo da língua. quanto do tempo físico”. o tempo lingüístico é diferente tanto do tempo cronológico. A temporalidade lingüística marca as relações de sucessividade entre os eventos representados no texto..LIngüístIca II atIVIdadE 4 pode transformar o futuro em presente. esta é sua singularidade (BEnVEnIstE. MR – momento de referência (presente. o tempo físico é marcado. anterior e posterior a cada um dos momentos de referência (FIORIN. 2003b. Há. três momentos significativos para a determinação do tempo lingüístico: ME – momento da enunciação. o tempo cronológico é o tempo dos acontecimentos.] a categoria concomitância vs não concomitância (anterioridade vs posterioridade) a cada um dos momentos de referência e. futuro). reproduzimos como exemplos de análise: • Presente pontual – existe coincidência entre mr e mE: Um relâmpago fulgura no céu. no exemplo em questão. de acordo com fiorin (2003b. pelo movimento dos astros. mas. anos etc. posterioridade ao passado e assim sucessivamente. assim. Entre muitas situações textuais apresentadas por fiorin. julho 2002. já o tempo lingüístico está ligado ao exercício da fala. mostra quais são anteriores.

o espaço lingüístico é aquele onde se desenrola a cena enunciativa. em algum momento anterior ao momento em que estou falando. espaço e pessoa: um esboço de análise apresentamos. o ato de telefonar é concomitante”. espaço e pessoa em uma charge de angeli. scolari assumiu a seleção”. futuro do presente simples – marca uma relação de posterioridade em relação ao momento de referência: No momento em que eu terminar. de tal forma que os pronomes têm se tornado equivalentes. os pronomes demonstrativos este e esse indicam o espaço da cena enunciativa. Em relação a ele. E esse que está com você? Você sabe quem é aquela garota que acabou de entrar? Cabe observar que no português brasileiro é comum os falantes não diferenciarem este/esse. na seqüência. uma análise ilustrativa das categorias de tempo. LIngüístIca II • a categoria de espaço expressa-se lingüisticamente pelos pronomes demonstrativos e por certos advérbios de lugar. tempo. lIng II – 45 .atIVIdadE 4 acontecimento (assumir) é anterior. publicada na Folha de S. para que se observem os dêiticos na cena enunciativa criada pelo chargista. o demonstrativo aquele indica o que está fora da cena enunciativa. Paulo – 1º/3/2006 – opinião. ou seja. “o momento de referência futuro é o momento da chegada. com nítido predomínio de esse nos usos cotidianos. Em função dêitica. telefonarei para você. como nos exemplos: • • Este livro que está comigo foi escrito por mario de andrade.

em reforço à crítica. Paulo de 28/2/06. não ocorre. e outro. “.LIngüístIca II atIVIdadE 4 a imagem do presidente Lula e de d. “Lula não sabe nadar”. em legendas. o que possibilita dizer que a situação sintetizada e re-significada na charge se dá na relação lIng II – 46 . marisa na praia. a constatação do enunciador a respeito de uma transformação de estado considerada necessária no momento da enunciação.. articulada à fala representada na legenda. a exemplo do noticiário. mas também por constituírem um todo cuja função principal é propiciar ao leitor ponto de vista e informação atualizada. na construção de sentidos do enunciado. explícito lingüisticamente. neste país. nessa oposição. dialoga com o conteúdo da reportagem de Luciana Constantino. o sentido de hoje na correlação com o emprego do presente em “me faz falta” aponta. Essa maneira de retratar o fato leva a identificar no gênero a característica narrativa. observamos as formas de representação do dd e de demarcação da pessoa. constrói-se o tom crítico-opinativo próprio do estilo do gênero e. os sintagmas “minha vida” e “minha história”. mas torna-se um acontecimento passado se considerarmos a presença de um narrador que implicitamente introduz a fala. na medida em que uma síntese do acontecimento é apresentada ao leitor e permite a ele inferir detalhes e relacioná-los por meio da intertextualidade encontrada no todo do jornal.. o que gera. Folha de S. estava aqui pensando na minha vida. marcados pelo pronome/adjetivo possessivo de primeira pessoa. registrado lingüisticamente. a oposição entre dois presentes: um. “Escândalo do mensalão/o Presidente”. são posicionados de forma gradativa em relação ao sintagma “neste país”. a citação da fala em discurso direto. aí. percebi o quanto hoje me faz falta não ter freqüentado uma escolinha de natação!” trata-se de características do gênero textual. outro dado da demarcação temporal consiste em observar na fala de Lula o momento do “hoje”. articulada aos dispositivos de opinião crítica e humor. elementos contratuais estabelecidos no próprio discurso jornalístico e na adesão de um público leitor que já tem consciência do que o jornal vai lhe oferecer.. na charge.. tal transformação. não só relativas à necessidade de se integrar aos textos opinativos que comentam a história do presente noticiada pelo jornal. produz efeito similar à transcrição de falas em balões nas histórias em quadrinhos.Marisa. no entanto. na minha história. em que o tempo semântico do dêitico coincide com o tempo cronológico da constatação feita pelo “eu” que enuncia. como em “Lula disse:. no que concerne à demarcação do tempo. implícito na metáfora “Lula enfrenta um mar de problemas”.”. há o efeito de concomitância entre o discurso do enunciador e do enunciatário no momento de referência presente que se estabelece pela leitura. quando olhei para esse mar infinito. ainda sobre a demarcação do tempo. ou seja.

a teoria dos atos de fala como concepção pragmática de linguagem. v.. et al. duBoIs. j. ed. “Estive aqui pensando em minha vida”)/Lula constrói sua história e a história do país (“. 2005. P. j. sP: Pontes. 2009. são Paulo: Cultrix. In: fIorIn..br/ publicacoes_cientificas/images/stories/pdfs_filosofia/vol7n3/art01_marcondes. 2006. (org.atIVIdadE 4 causa/conseqüência temporal: Lula vive (em aspecto durativo. 2007.) Introdução à lingüística: objetos teóricos. 2003. ed. v. tradução de frederico Pessoa de Barros et al. É. a linguagem em uso. recomendamos a leitura do material de apoio. Pragmática. Filosofia Unisinos v. são Carlos. 15. C.. do professor josé Luiz fiorin. PInto. LIngüístIca II rEfErÊnCIas BEnVEnIstE. In: fIorIn. acesso em: 20 jan. 1. 3. 162-185. 165-186.) Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. Dicionário de lingüística. 2003b. L.. L. In: mussaLIm. j. (org. 2. Campinas. j..-a.”).pdf >. L. f. r.unisinos. tempo e espaço na enunciação. tradução de m. m. 2. sP: Claraluz. BEntEs../dez. (orgs. 7. p. 217-230. lIng II – 47 .) Introdução à lingüística: objetos teóricos. . d. 2006. disponível em: <http://www. sarfatI. sugerimos leitura do livro As astúcias da enunciação. p. Pragmática. são Paulo: Cortez. 2. estive pensando na minha vida. para ampliar as discussões sobre as categorias de pessoa. a. ed. marCondEs.. 2001. Para finalizar. Problemas de lingüística geral. neste país. j. As grandes teorias da Lingüística: da gramática comparada à pragmática. set. p. ed. v. 5. das obras mencionadas nas referências bibliográficas e. gregolin et al. sabemos da necessidade de um estudo mais aprofundado das teorias abordadas nesta aula. são Paulo: Contexto. 2. n.. PaVEau. são Paulo: Contexto. g-É. na minha história. fIorIn.

LIngüístIca II

atIVIdadE 4

anOtaçõES

lIng II – 48

anÁlISE Da COnVERSaçãO oBjEtIVos

atIVIdadE 5

LIngüístIca II

Estudar os fundamentos teóricos que subsidiam a análise da Conversação e estimular a observação e análise dos mecanismos da linguagem falada nos processos conversacionais e na interação.

tExto
a análise da Conversação (aC), como o próprio nome diz, é um campo de estudos que tem como objeto os processos conversacionais. Consiste em uma abordagem discursiva de tais processos, como formas de interação verbal. Conversar é a prática social mais comum do ser humano, uma dentre as razões que justificam o estudo da conversação. outra razão é que a prática da conversação não só favorece as relações interpessoais como também desempenha importante papel na construção de identidades sociais. além disso, conversar “exige uma enorme coordenação de ações que exorbitam em muito a simples habilidade lingüística dos falantes” (marCusCHI, 2003, p. 5), o que possibilita abordar questões que envolvem a sistematicidade da língua em uso e seu estudo.

Fonte: BrowNe, diK. o mElHor DE HAgAr o HorrívEl. Porto alegre: l&PM, 1996.

lIng II – 49

LIngüístIca II

atIVIdadE 5

o primeiro livro de análise da Conversação lançado no Brasil, na década de 1980, foi produzido pelo professor Luiz antonio marcuschi. Para o autor, “a conversação é a primeira das formas de interação a que estamos expostos e provavelmente a única da qual nunca abdicamos pela vida afora”1. Conversação aqui compreende todas as formas de interação verbal existentes na sociedade, ainda que muitos estudiosos a concebam como interações verbais face a face. a análise da Conversação teve origem na década de 1960, ligada aos estudos sociológicos específicos da Etnometodologia, com os trabalhos de Harold garfinkel, Harvey sacks, Emanuel schegloff e gail jefferson. Enquanto os sociólogos reconhecem que a conversação nos diz algo sobre a vida social, ao procurarem responder a questões do tipo “como nós conversamos?”, os lingüistas da Análise da Conversação perguntam “como a linguagem é estruturada para favorecer a conversação?” e reconhecem que a conversação nos diz algo sobre a natureza da língua como fonte para fazer a vida social (EGGINS; SLADE, 1997 apud DIONÍSIO, 2001, p. 70). de acordo com marcuschi (2003, p. 8), a Etnometodologia de garfinkel (início dos anos 1960) liga-se à sociologia da Comunicação e à antropologia Cognitiva e se preocupa com as ações humanas diárias nas mais diversas culturas. Trata da constituição da realidade no mundo do diaa-dia e investiga as formas de as pessoas se apropriarem do conhecimento social e das ações (daí o radical etno); diz respeito à forma metódica de como os membros de uma sociedade aplicam aquele seu saber sociocultural (daí o radical metodologia). a partir dessa descrição da Etnometodologia, marcuschi (op. cit.) explica que, com a motivação desse campo de estudos, a análise da Conversação estabelece desde o início sua preocupação básica com a vinculação situacional “e em conseqüência, com o caráter pragmático da conversação e de toda a atividade lingüística diária.” Em outros termos, para marcuschi, “a vinculação contextual da ação e interação social faz com que toda a atividade de fala seja vista ligada à realização local, mas de uma forma complexa, uma vez que a contextualidade é reflexiva e o contexto de agora é, em princípio, o emulador do contexto seguinte.” são os interlocutores que fornecem ao analista as evidências das atividades que eles desenvolvem.

1. marCusCHI, L. a.. Análise da conversação. 6. ed. são Paulo: ática, 2003, p. 14.
lIng II – 50

as nossas conversas cotidianas espontâneas misturam o verbal (lingüístico) e o não-verbal. “o essencial é que o analista saiba quais os seus objetivos e não deixe de assinalar o que lhe convém. 2001. Podem. consideram-se não só materiais verbais como também entonacionais. proxêmica: a distância mantida entre os interlocutores. 9) afirma que “não existe melhor transcrição. paralingüísticos. 3. significativas para a construção do sentido do enunciado proferido. lIng II – 51 . stEInBErg. nessa reprodução. cinésica: movimentos do corpo como gestos. tacêsica: o uso de toques durante a interação. sorrisos. ainda. marcuschi (2003. Informações adicionais. no que concerne à transcrição de dados. Expressões faciais. aparecem nas transcrições. 77). reforçadores (“reforçam ou enfatizam o ato verbal”). 77). todas são mais ou menos boas”. p. p. gestos. os recursos não-verbais utilizados pelos falantes são sistematizados por 2 steinberg (1988 apud dIonísIo. entre outros. Para o autor. expressão facial. postura. tal como transcrevemos a seguir: • • • • • paralinguagem: sons emitidos pelo aparelho fonador. quando ocorrem e se são relevantes. 1988. se alguém quiser analisar a 2. Quanto à coleta de dados para transcrição. como “Shhh” para indicar “fique quieto”). são Paulo: atual. olhar e riso. m. silêncio: a ausência de construções lingüísticas e de recursos da paralinguagem. descritivos (“suplementam o significado do diálogo através dos ouvidos e dos olhos”). a transcrição deve ser limpa e legível. LIngüístIca II Para Steinberg. em geral. substituir um enunciado lingüístico no processo interacional face a face. sem uma função semântica) (DIONÍSIO. os atos paralingüísticos e cinésicos desempenham funções variadas no curso da interação e de acordo com essas funções podem ser classificados como lexicais (episódios não-verbais com significado próprio.atIVIdadE 5 transcrição de conversações Vimos que a análise da Conversação (doravante aC) procede com base em material empírico e reproduz conversações reais. p. Os elementos não-verbais da conversação. mas que não fazem parte do sistema sonoro da língua usada. p. falamos com a voz e com o corpo. 2001. sem sobrecarga de símbolos complicados”. embelezadores (movimenta-se o corpo todo para realçar a fala) e acidentais (aqueles que ocorrem por acaso. entonações específicas são.

Alongamento de vogal :: (médio) fico até:: o: tempo todo ::: (grande) 5.. 76)... extraído de dionísio (2001. Ênfase MAIÚSCULAS ela comprou um OSSO : (pequeno) eu não tô querendo é dizer que. lIng II – 52 ... Comentário do transcritor (( )) M. Segmentos incompreensíveis () bora gente. sabia? 7.”.. “deve ter símbolos muito claros para a marcação da posição do olho e do corpo. Para transcrever palavras pronunciadas de modo diferente da norma padrão.. é: o eu 4. Ocorrências Sinais Exemplificação H28 os falantes devem ser indicados M33 1. existe.. pera aí.. marcuschi (2003.. [você ( ) do homem.”. Para truncamentos: “compr (= comprou). 9). você acha. Indicação dos falantes em linha.outras orientações para o formato da transcrição da conversação dizem respeito à seqüência de linhas não muito longas para melhor visualização do conjunto. p. vô etc.. tenho aula.. com letras ou alguma Doc..H. isso é besteira. Pausas . não. pera aí...”. sô.. diferentemente das transcrições fonéticas e fonológicas em que se utilizam os símbolos do alfabeto fonético Internacional. 11.. a regra geral básica da conversação é: fala um de cada vez). é (( rindo )) “mai Jandira eu vô dizê a Anja agora que 10. 3. vam di (= vamos dizer) etc. pre/pretendo comprar / desvio sintático 9. Superposição de vozes [ M33. Para eliminação de morfemas finais: “qué.. devem-se também evitar as letras maiúsculas em início de turno (entende-se por turno o momento da fala de cada interlocutor... tava etc.LIngüístIca II atIVIdadE 5 correlação entre o movimento dos olhos. p. Em uma transcrição de conversações... Citações ““ ela vai apanhá a profissão de madrinha agora mermo” H28. Em geral. comé.. ( ) daqui ou ininteligíveis (ininteligível) 8. Truncamento de palavras ou eu... as normas para transcrição de conversações têm seguido as orientações do Projeto nurC – Projeto de Estudo Coordenado da norma urbana Lingüística Culta.. 2. 2003. sigla convencional Inf. . Essas normas são sintetizadas no quadro reproduzido a seguir. o sistema sugerido é o ortográfico. a mudança de tópico e o problema das trocas de turno. é. e aí só uma gravação em vídeo será favorável a esta transcrição” (marCusCHI. à indicação dos falantes com siglas (iniciais do nome ou letras do alfabeto) e a não cortar as palavras na passagem de uma linha a outra. Interrogação ? ela é contra a mulher machista. p.. Silabação do-minadora 6.....10) sugere “alguns consensos: né. [pera aí. prum.. pra.

Na entrevista com Débora Bloch (linha 89). L2 já teve almoço. ahã.. na seqüência.. desta matéria. [ L1 então teve ...revistaveredas.. Fonte: dioNísio (2001.pdf lIng II – 53 .. ((risos)) L1 mas Débora. as autoras discutem propriedades que identificam a polidez na atividade interacional em alguns programas televisivos de entrevista. 2003) e contemplados no trecho reproduzido acima.ufjf. reproduzimos um trecho de entrevista analisado no artigo “Papéis discursivos e estratégias de polidez nas entrevistas de televisão” (fáVEro.. já começou um clima assim. gostoso? L2 dia seguinte. sem querer ser indiscreto. P.. para que se observem também outros aspectos da atividade conversacional em dado contexto.br/volumes/6/artigo7.... [ L1 ué... Para o atual momento de estudo da aC. [[ mas eu garanto que muita coisa H28.. tá. vô. no dia seguinte já teve café da manhã? ((risos)) L2 ahn.. 2. ressaltamos a necessidade de que o artigo mencionado seja lido integralmente.atIVIdadE 5 12. L1 dia seguinte já teve almoço.. ah. a título de ilustração. Simultaneidade de vozes 13. [[eu acho eu acho é a autoridade tô.. mhm LIngüístIca II Quadro: NorMas Para traNscrição.......... cê tá sendo muito indiscreto. 76). resguardando sua face e possibilitando a organização de um contexto em que a distensão é matiz principal: (10) L1 e depois. Ortografia [[ M33. Jô Soares reveste-a de elementos lingüísticos que amenizam a interação (sem querer ser indiscreto). andradE E aQuIno)3... nesse jantar já.. 3.. e mãe de família não toma café não? ((risos)) Com o objetivo de analisar a especificidade do discurso oral “entrevista”. já rolou um romance. ((risos)) L2 eu sou uma mãe de família. artigo disponível em http://www. cuja leitura integral está indicada no material de apoio do fórum n. chamamos a atenção do leitor para os aspectos normativos de transcrição apresentados no quadro da página anterior (dIonísIo.. eu vou ficar com vergonha.. ao formular uma pergunta.

LIngüístIca II

atIVIdadE 5

na seqüência, retomamos os estudos de marcuschi (2003) para tratar das características organizacionais da conversação. a conversação e suas características organizacionais a conversação é “matriz para a aquisição da linguagem” e gênero básico da interação humana (LEVInson, 1983, p. 284 apud marCusCHI, 2003, p. 14). Quando conversamos, geralmente o fazemos por meio de perguntas e respostas ou asserções e réplicas. de acordo com marcuschi (2003, p. 14), se observarmos a interação da mãe com a criança desde seus primeiros dias de vida, veremos que a mãe se dirige à criança dialogicamente e lhe atribui turnos. “mas a mãe não só atribui turnos à criança, como também atribui (constrói) significados para os silêncios ou sons da criança, uma vez que põe conteúdos comunicativos naquelas manifestações.” Para marcuschi, “não é fundamental saber se a mãe está inferindo corretamente ou não; o fundamental é que a criança está aprendendo a interagir; está internalizando estilos entonacionais e prosódicos, e montando uma complexa matriz de valores simbólicos”. Em meio a um aprendizado sistemático, culturalmente marcado, com regras de uso que se sobrepõem às regras lingüísticas, essa criança está se introduzindo na atividade conversacional. ao fazer tais observações, marcuschi as apresenta como preâmbulo à análise da organização elementar da conversação, em que se encontram cinco características básicas constitutivas: • • • • • interação entre pelo menos dois falantes; ocorrência de pelo menos uma troca de falantes; presença de uma seqüência de ações coordenadas; execução numa identidade temporal; envolvimento numa “interação centrada” (2003, p. 15).

Fonte: BrowNe, diK. o mElHor DE HAgAr o HorrívEl. Porto alegre: l&PM, 1996.

as características acima, ilustradas pela tira de dik Browne, indicam que a
lIng II – 54

atIVIdadE 5

LIngüístIca II

conversação é uma interação verbal centrada “que se desenvolve durante o tempo em que dois ou mais interlocutores voltam sua atenção visual e cognitiva para uma tarefa comum” (dIttmann, 1979 apud marCusCHI, 2003, p. 15). no que concerne à interação verbal centrada, é condição necessária para que haja uma conversação, diferentemente da interação verbal face a face. Como exemplo, tomemos a conversação telefônica. os falantes estão em espaços diversos, mas interagem no mesmo tempo, organizam a conversa turno a turno e desenvolvem um dado tema. outras características são apontadas por marcuschi (2003): • • • • a exigência de pelo menos dois falantes permite excluir das conversações o monólogo, o sermão, a conferência etc; ao se iniciar uma conversação, tem-se como pressuposta a aceitação do “outro” quanto ao objetivo e ao tema tratado; os participantes de uma interação conversacional devem agir com atenção aos fatos lingüísticos, paralingüísticos e cinésicos; para produzir e sustentar uma conversação, as pessoas devem partilhar um mínimo de conhecimentos comuns – aptidão lingüística, envolvimento cultural e domínio de situações sociais (as conversações inter-étnicas, por exemplo, podem ser críticas.

seguindo a proposta do lingüista alemão H. steger, marcuschi (2003, p. 16) lembra ser possível distinguir dois tipos de diálogos. o autor ressalta que apenas em (b) ocorre a conversação em sentido estrito: • diálogos assimétricos: em que um dos participantes tem o direito de iniciar, orientar, dirigir e concluir a interação e exercer pressão sobre o(s) outro(s). É o caso das entrevistas, dos inquéritos e da interação em sala de aula; diálogos simétricos: em que vários participantes têm supostamente o mesmo direito à auto-escolha da palavra, do tema a tratar e de decidir sobre seu tempo. as conversações diárias e naturais são o protótipo dessa modalidade.

Embora se afirme a simetria papéis e direitos em (b), acrescenta marcuschi (2003, p. 16): [...] sabemos que isso é pouco verdadeiro, pois a diferença de condições socioeconômicas e culturais ou de poder entre os indivíduos deixa-os em diferentes condições de participação no diálogo. A própria
lIng II – 55

LIngüístIca II

atIVIdadE 5 construção e negociação de identidades na interação bem como a apropriação da palavra ficam afetadas por essas condições. as seqüências na conversação

as seqüências conversacionais revelam movimentos coordenados e cooperativos. Entre elas, existem algumas altamente padronizadas quanto à organização. devido à contigüidade e o tipo de relações, as seqüências são denominadas pares adjacentes ou pares conversacionais. Cada par adjacente ou conversacional compreende uma seqüência de dois turnos para a organização local da conversação, entre os quais citamos (marcuschi, 2003): • • • • • • • pergunta-resposta ordem-execução convite-aceitação/recusa cumprimento-cumprimento xingamento-defesa/revide acusação-defesa/justificativa pedido de desculpa-perdão/recusa

os pares adjacentes representam, muitas vezes, uma co-ocorrência obrigatória, que não pode ser adiada ou cancelada, como em “cumprimento-cumprimento”, sendo inadequado inserir algo entre um turno e outro. trata-se de reconhecer nos pares os aspectos semântico-pragmáticos que explicam as relações entre seus elementos constituintes, na medida em que a segunda parte do par só será produzida se a primeira já foi entendida. Os marcadores conversacionais na aC não se empregam as mesmas unidades sintáticas da escrita. os marcadores conversacionais – verbais, não-verbais e supra-segmentais – são “sinais” que cumprem tanto funções sintáticas como funções conversacionais. o que tratamos por frase, na escrita, na aC é uma unidade comunicativa (uC), uma expressão de conteúdo que não tem, necessariamente, as características sintáticas da frase. Essas unidades são, via de regra, assinaladas por pausa, entonação e por certos elementos lexicais ou paralexicais. tem-se para a fala e a escrita um mesmo sistema lingüístico, porém seu uso é diferenciado, tal como se depreende da proposta funcionalista de m. a. K. Halliday. de acordo com marcuschi (2003, p. 61-62),

lIng II – 56

mas situam-no no contexto geral. tais como o olhar. têm um papel fundamental na interação face a face. Estabelecem. de grande ocorrência e recorrência. Muitas vezes. mantêm e regulam o contato: uma palmadinha com a mão durante um turno. Como se verá..].atIVIdadE 5 Os recursos verbais que operam como marcadores formam uma classe de palavras ou expressões altamente estereotipadas. Não contribuem propriamente com informações novas para o desenvolvimento do tópico. mas não de caráter verbal. As pausas podem ser curtas (micropausas). São freqüentes em final de unidades comunicativas e geralmente coocorrem em outros marcadores. “ahã”. as pausas propiciam mudanças de turno. 1981). podem surgir também no início unidades. reproduzimos a seguir o quadro dos sinais conversacionais proposto por marcuschi (2003. em conversações informais.. um olhar incisivo ou um locutor que nunca enfrenta seu parceiro significam muito (sobre o olhar. p. Goodwin. LIngüístIca II lIng II – 57 . Os dois mais importantes para o nosso caso são as pausas e o tom de voz. particular ou pessoal da conversação. Os recursos não-verbais. “ué” e muitos outros. Alguns não são sequer lexicalizados. as pausas longas têm uma função cognitiva ao operarem como momentos de planejamento verbal ou organização do pensamento. [. os meneios de cabeça. sobretudo como hesitações (ou pausas preenchidas). a gesticulação. Nos monólogos. o riso. Os recursos supra-segmentais são de natureza lingüística. 68). tais como “mm”. cf. médias ou longas constituem um fator decisivo na organização do texto conversacional.

. eu vou liqüidar essa decisão por simples cálculo.. Inf.... nenhuma outra precaução..nenhuma outra precaução. a..... 4. de primeiro de janeiro de sessenta e oito a. ((vozes e risos)). então... coletada em banco de dados do Projeto nurC e disponibilizado no site do museu da Língua Portuguesa (acesso em 2 de novembro de 2008)4: Inf.. eu trabalhei...: o empregado pode chegar e dizer assim. ganhando o salário xis” Aluno: primeiro de maio é feriado... eu vou dizer. Inf.. lIng II – 58 . reproduzimos trecho de transcrição de conversa entre um professor universitário e alunos (1970 – 1974).. “bom.: ( ) a firma estava autorizada a trabalhar em dia feriado e pagava em dobro. ((vozes e risos)).. de primeiro de setembro..para liqüidar...((vozes e risos)). Conservou-se o formato de transcrição da fonte........... bom..........LIngüístIca II atIVIdadE 5 Para observação de ocorrência de sinais conversacionais verbais. se nesse processo existem todos os dados... então. não há necessidade de que eu tome outra nenhuma outra precaução... ele ganhava tanto.. porque todos os elementos estão dentro do processo. mais tanto por duas horas e tanto.. ( ) ((risos e vozes)) bom.. tanto.. ocorrem no trecho transcrito sinais do falante para orientar o ouvinte (bom.. nenhuma outra precaução.. tanto.: como? Aluno: primeiro de maio é feriado.... a:a: a primeiro de maio de setenta e oito. tanto........

também não se pode dizer que em uma conversação haja um enfileiramento aleatório e sucessivo de turnos. “a coerência é um processo que ocorre na orientação temporal em que a reversibilidade não se verifica. recursos supra-segmentais e muitos outros” (marCusCHI. Para finalizar. na conversação. contextuais. encerramos a abordagem com a sugestão de que outras fontes sejam consultadas. além disso. preocupação lIng II – 59 LIngüístIca II . e recursos suprasegmentais como “pausas” de hesitação em co-ocorrência com o marcador verbal “então” e recorrência de expressões repetidas. Como desenvolvemos um curso voltado para a licenciatura. também por questões de espaço. muito ainda deveria ser dito sobre a aC. 2003. nos materiais de apoio são mencionados alguns artigos disponibilizados em revistas eletrônicas. há diferenças que se manifestam na organização textual dessas duas modalidades de linguagem.. CaVasIn). tal processo gera no falante “dificuldades de assegurar o tópico.uncnet.. os quais apresentam discussões teóricas e análises. 76). ao contrário do que se dá no texto escrito”. no entanto. considerando-se a troca de papéis de falante/ouvinte decorrente da troca de turno.pdf>. sugerimos particularmente a leitura do artigo “Infância e linguagem: a construção do texto falado em crianças que freqüentam a educação infantil” (souZa. seja na interação conversacional.pesquisa. local e ordenada”. Constitui-se por meio de vários recursos. marcadores. estereótipos.br/pdf/educacaoInfantil/InfanCIa_LInguagEm_ ConstruCao_tExto_faLado_CrIanCas_frEQuEntam_EduCaCao_ InfantIL. não deixando de considerar também os conhecimentos (temáticos. disponível em: <http://www. não podemos deixar de ressaltar a relevância dos estudos em aC para o ensino de línguas. o qual. como recursos não verbais transcritos como “risos”. “como unidades lexicais. Coerência conversacional da mesma forma como não se considera que um texto escrito seja constituído por uma seqüência aleatória de frases e parágrafos. observam-se também outras classes de marcadores. no entanto. situacionais) compartilhados pelos interlocutores. dispositivos não-verbais. p. não pudemos anexar. considerando-se a finalidade didática deste material e o espaço destinado às discussões. a coerência é da ordem do conteúdo seja nas produções escritas. a coerência “é um processo verbal e implica interpretação mútua.atIVIdadE 5 então) e do ouvinte para orientar o falante (como?). uma vez que não pode programar o segmento completo” (a fala não é planejada como a escrita).

P. L. Análise da conversação. Papéis discursivos e estratégias de polidez em entrevistas de televisão. rEfErÊnCIas dIonísIo.. et al.LIngüístIca II atIVIdadE 5 que vem se manifestando com freqüência nos materiais de orientação pedagógica e nas propostas de inserção dos gêneros orais no cotidiano escolar. (Princípios). 2. ed. L. acesso em: 20 jan.ufjf. 1. n. são Paulo: ática. v. são Paulo: Cortez. a. â. disponível em: <http://www. 5. 67-77. In: mussaLIm. fáVEro. BEntEs. marCusCHI. análise da conversação. p. C. f. Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. a.pdf>. revistaveredas. 4. 2001. v. 2003. 2009. L. anOtaçõES lIng II – 60 . Veredas – revista de estudos lingüísticos.br/volumes/6/artigo7.

“ao falar. constituindo o tipo de ato realizado. em particular john austin e Paul grice. ato locucionário – consiste na dimensão lingüística propriamente dita. trata-se. ato ilocucionário – pode ser considerado o núcleo do ato de fala. Para austin. Para grice. pois. mas uma função de agir. o falante realiza a promessa. São oito horas. austin e a teoria dos atos de fala – a Pragmática. foi definido por austin como caracterizando-se pelas “conseqüências do ato em relação aos sentimentos. nas palavras e sentenças empregadas de acordo com as regras gramaticais aplicáveis. ao dizer Eu lhe prometo vir. a força consiste no performativo propriamente dito. o homem realiza atos. o ato da promessa é realizado quando se diz Eu prometo”. Para austin. tal como é hoje conhecida. tem como aspecto fundamental a força ilocucionária. bem como dotadas de sentido e referência. Quando alguém diz “Prometo que lhe pagarei amanhã”.SíntESE paRa aUtO-aValIaçãO oBjEtIVos atIVIdadE 6 LIngüístIca II rever e fixar aspectos essenciais dos estudos de Pragmática e da análise da Conversação. teve início com o desenvolvimento da teoria dos atos de fala de austin. tal campo de estudos investiga as condições que governam a utilização da linguagem. pensamentos e ações dos ouvintes. o proferimento (no original. que está se aprontando para sair. ilocucionário e perlocucionário. Vamos chegar atrasados”. a prática lingüística. Por exemplo. utterance) do verbo “prometer” constitui o próprio ato de prometer. de reconhecer os aspectos lingüísticos e extralingüísticos que participam do ato de linguagem. “pois quando se fala. isto é. ou do falante. ao proferir a sentença. a linguagem natural comunica mais do que aquilo que se significa num enunciado. a Pragmática tem como ponto de partida trabalhos dos filósofos da linguagem. ato perlocucionário – tem recebido menos atenção dos especialistas. o estudo pragmático considera que os sujeitos é que possibilitam a “existência” da linguagem. ou de outras lIng II – 61 . a linguagem não tem uma função descritiva. ele não está fazendo uma simples constatação sobre o que marca o relógio. o ato de fala é constituído por três dimensões integradas ou articuladas: respectivamente os atos locucionário. mas dizendo Apresse-se. tExto pragmática a pragmática é a ciência do uso lingüístico. comunicam-se também conteúdos implícitos. não se trata de uma descrição de intenções ou de estado mental. Quando alguém diz a outro.

entre outros.). diferentemente das transcrições fonéticas e fonológicas em que se utilizam os símbolos do alfabeto fonético Internacional. o que requer investigação de como o sentido se forma em palavras. outra razão é que a prática da conversação não só favorece as relações interpessoais como também desempenha importante papel na construção de identidades sociais. entonações específicas são. o locutor mobiliza a língua por sua conta. análise da conversação a análise da Conversação (aC). lá. “a relação do locutor com a língua determina os caracteres lingüísticos da enunciação. Em uma transcrição. na enunciação. consideram-se não só materiais verbais como também entonacionais.ex. ainda.” Para Benveniste. Podem. e pronomes demonstrativos este. falamos com a voz e com o corpo. esse. uma dentre as razões que justificam o estudo da conversação. nesta sala etc. o essencial é que o analista saiba quais os seus objetivos e não deixe de assinalar o que lhe convém. os marcadores temporais da enunciação (p. aparecem nas transcrições. a enunciação supõe a conversão individual da língua em discurso. sem sobrecarga de símbolos complicados. aquele etc. que toma a língua por instrumento.você). nessa reprodução.ex. e nos caracteres lingüísticos que marcam essa relação. pragmática e enunciação – a enunciação – situação de produção do enunciado – é um dos domínios lingüísticos que exigem a introdução de uma dimensão pragmática de estudos. substituir um enunciado lingüístico no processo interacional face a face. deve-se considerá-la como o fato do locutor. o sistema sugerido é o ortográfico. sorrisos. é um campo de estudos que tem como objeto os processos conversacionais. quando ocorrem e se são relevantes. gestos. os dêiticos são os elementos lingüísticos que indicam os participantes da enunciação (pronomes pessoais eu/tu. Expressões faciais.) e os marcadores espaciais da enunciação (p. paralingüísticos. significativas para a construção do sentido do enunciado proferido. Consiste em uma abordagem discursiva de tais processos. ontem etc. como acontece com os dêiticos. as nossas conversas cotidianas espontâneas misturam o verbal (lingüístico) e o não-verbal.LIngüístIca II atIVIdadE 6 pessoas. na enunciação). advérbios e expressões adverbiais de tempo hoje. transcrição de conversações – a análise da Conversação (doravante aC) procede com base em material empírico e reproduz conversações reais. Informações adicionais. em geral. Conversar é a prática social mais comum do ser humano. as variantes lingüísticas devem ser consideradas e lIng II – 62 . advérbios ou expressões adverbiais de lugar aqui. a dêixis compreende a referência feita pelos dêiticos à situação de enunciação. como o próprio nome diz. como formas de interação verbal. a transcrição deve ser limpa e legível. agora. intenção ou propósito de gerar essas conseqüências”. pois há fatos lingüísticos que só são entendidos em função do ato de enunciar (= ato de produzir enunciados. e pode ter sido realizado com o objetivo.

envolvimento numa “interação centrada” (2003. por exemplo. geralmente o fazemos por meio de perguntas e respostas ou asserções e réplicas. existem algumas altamente padronizadas quanto à organização. 15). LIngüístIca II outras características são apontadas por marcuschi (2003): • • • • a exigência de pelo menos dois falantes permite excluir das conversações o monólogo. a conferência etc. Quando conversamos. execução numa identidade temporal. tem-se como pressuposta a aceitação do “outro” quanto ao objetivo e ao tema tratado. podem ser críticas. na organização elementar da conversação encontram-se cinco características básicas constitutivas: • • • • • interação entre pelo menos dois falantes. p. devem-se evitar as letras maiúsculas em início de turno (entende-se por turno o momento da fala de cada interlocutor. Características organizacionais – a conversação é “matriz para a aquisição da linguagem” e gênero básico da interação humana. Entre elas. Seqüências conversacionais – também chamadas “pares adjacentes”. o sermão. ao se iniciar uma conversação. para produzir e sustentar uma conversação. a regra geral básica da conversação é: fala um de cada vez).atIVIdadE 6 registradas. os participantes de uma interação conversacional devem agir com atenção aos fatos lingüísticos. envolvimento cultural e domínio de situações sociais (as conversações interétnicas. revelam movimentos coordenados e cooperativos. presença de uma seqüência de ações coordenadas. tais como: • • • • • • • pergunta-resposta ordem-execução convite-aceitação/recusa cumprimento-cumprimento xingamento-defesa/revide acusação-defesa/justificativa pedido de desculpa-perdão/recusa lIng II – 63 . paralingüísticos e cinésicos. ocorrência de pelo menos uma troca de falantes.. as pessoas devem partilhar um mínimo de conhecimentos comuns – aptidão lingüística.

as características sintáticas da frase. via de regra. não-verbais e supra-segmentais – são “sinais” que cumprem tanto funções sintáticas como funções conversacionais. no entanto.LIngüístIca II atIVIdadE 6 os pares adjacentes representam. anOtaçõES lIng II – 64 . muitas vezes. há diferenças que se manifestam na organização textual dessas duas modalidades de linguagem. na medida em que a segunda parte do par só será produzida se a primeira já foi entendida. que não pode ser adiada ou cancelada. Coerência conversacional – da mesma forma como não se considera que um texto escrito seja constituído por uma seqüência aleatória de frases e parágrafos. na escrita. também não se pode dizer que em uma conversação haja um enfileiramento aleatório e sucessivo de turnos. K. trata-se de reconhecer nos pares os aspectos semântico-pragmáticos que explicam as relações entre seus elementos constituintes. entonação e por certos elementos lexicais ou paralexicais. necessariamente. o que tratamos por frase. uma co-ocorrência obrigatória. sendo inadequado inserir algo entre um turno e outro. Halliday. na aC é uma unidade comunicativa (uC). a coerência é da ordem do conteúdo seja nas produções escritas. assinaladas por pausa. como em “cumprimento-cumprimento”. porém seu uso é diferenciado. Os marcadores conversacionais – na aC não se empregam as mesmas unidades sintáticas da escrita. uma expressão de conteúdo que não tem. a. os marcadores conversacionais – verbais. tal como se depreende da proposta funcionalista de m. seja na interação conversacional. tem-se para a fala e a escrita um mesmo sistema lingüístico. Essas unidades são.

n. “é a descontinuidade entre enunciado e texto. como ciência da estrutura e do funcionamento dos textos. 7. Linguistik der Lüge. às inadequações observadas no tratamento gramatical de aspectos como a referência. Romanistisches Jarbuch. tal desenvolvimento deve-se. começou a se desenvolver na década de 1960 na Europa.5-6). tExto a lingüística textual. Verlag Lambert schneider. alguns questionamentos: • o que é competência textual? 1. 2. nos processos de leitura e produção. 1999. as relações entre sentenças ligadas por conjunções. H. então. p. CosÉrIu. já que há uma diferença qualitativa entre ambos (e não meramente quantitativa)” (FÁVERO. Weinrich2. a justificativa para que se considerem tais inadequações sustentam-se no fato de que esses mecanismos de linguagem só podem ser estudados e explicados no nível do texto ou em referência a um contexto situacional. Cosériu1 embora. WEInrICH. a ordem de palavras no enunciado. surgem. no sentido que lhe é atualmente atribuído.lIngüíStICa tExtUal oBjEtIVos atIVIdadE 7 LIngüístIca II Introduzir fundamentos teóricos de Lingüística textual e possibilidades de textos e estudar e compreender os fatores responsáveis pela textualidade na constituição de textos diversos. Sendo o texto mais do que a soma dos enunciados que o compõem. como afirma Conte (1977. p. lIng II – 65 . determinación y entorno. a origem do termo lingüística textual encontra-se em E. a correlação dos tempos verbais. Para a autora. sua produção e compreensão derivam de uma competência específica do falante – a competência textual. p. 1966. o que legitima a Lingüística textual é sua capacidade de explicar fenômenos inexplicáveis por meio de uma gramática do enunciado ou. Heidelberg. especialmente na alemanha. tenha sido empregado pela primeira vez por H. sobretudo. E. 17-8). dos problemas de una lingüística del hablar. de acordo com fávero (1999). 1955. a entonação. entre outros. 29-54.

uma propaganda. um léxico. contextualizada. e nem os estudiosos são unânimes ao conceituá-lo.LIngüístIca II atIVIdadE 7 • • E o que é texto? do que se constitui e em que se distingue de um conjunto de frases? o que faz com que um grito isolado “socorro!” e um soneto de Camões sejam textos? o que os diferencia de um pseudotexto. Também o fato de em algumas línguas como o alemão e o holandês só existir o termo “texto” (do qual se criaram as denominações “lingüística textual” e “gramática textual”). pois. uma conversação de um texto científico. definir intuitivamente o que faz com que um texto seja um texto. como as românicas. Em sentido amplo. um filme. e em outras. porém. uma escultura. Todas essas habilidades explicitam a competência textual e justificam a construção de uma gramática textual. ora com sentidos diferentes. Em sentido estrito. texto designa toda e qualquer manifestação de linguagem que. a par do termo “texto”. lIng II – 66 . 6-7) assim explica: Todo falante de uma língua tem a capacidade de distinguir um texto coerente de um aglomerado incoerente de enunciados e esta competência é lingüística. Se sabemos intuitivamente não só distinguir entre textos e não-textos mas também que nossa produção lingüística se dá com textos e não com palavras isoladas. de resumi-lo. uma receita culinária etc. um poema. existir também o termo “discurso” acabou por criar uma confusão entre os dois termos. Qualquer falante é também capaz de parafrasear um texto. de uma poesia). p. de atribuir-lhe um título. é capaz de produzir sentido e por meio da qual se revela a capacidade textual do ser humano (uma música. ora empregados como sinônimos. o termo “texto” tem sido utilizado em pelo menos duas acepções. trata-se. não sabemos. Chomsky em Aspects of the theory of syntax (1965)).). por exemplo. de produzir um texto a partir de um título dado e de distinguir um texto segundo os vários tipos de texto (por exemplo. texto compreende “qualquer passagem falada ou escrita que forma um todo significativo independente de sua extensão. de uma receita de bolo. em sentido amplo (distingue-se da competência frasal ou lingüística em sentido estrito. por exemplo? Em resposta. fávero (1999. como a descreve.

muitos estudiosos dos anos 70 encontram-se ainda muito próximos das gramáticas estruturais. a partir dos anos 1970. condicionado sócio-culturalmente. reproduzimos trechos extraídos da introdução do livro A coesão textual. sob a forma de modelos cognitivos globais (“frames”. no entanto. como um texto não é simplesmente uma seqüência de frases isoladas e sim uma unidade lingüística com propriedades estruturais específicas. entre outros pressupostos. ganham espaço as Teorias do Texto. a partir dos anos 1980. 7). de Ingedore g. cujos principais representantes são mencionados a seguir. tal como é entendida atualmente. anteriormente.pdf. Isso faz com que a Lingüística textual. no site da Editora Contexto. apresente diversas vertentes. aceitabilidade. e a informatividade. www. 3. a introdução da referida obra está disponível em arquivo Pdf. o nome no plural justifica-se pelo fato de que. na seqüência. na Europa. no estudo da coerência e do processamento do texto. Apontam como critérios de textualidade a coesão e a coerência (centrados no texto). os fatores de textualidade serão discutidos adiante. principalmente da gramática gerativa. ainda. que a Lingüística textual surgiu na década de 1960. e intertextualidade” (fáVEro. p. que é armazenado na memória. distinção nítida entre processos ligados à coesão e à coerência do texto. Adotam. essas gramáticas – gramáticas textuais – têm por objetivo apresentar os princípios de constituição do texto em dada língua. Com a preocupação inicial de descrever processos sintático-semânticos ocorrentes entre frases ou seqüências de frases. É esse o momento da análise transfrástica.3 a lingüística textual e seus representantes LIngüístIca II Vimos. lIng II – 67 .editoracontexto. em que não há. os da semântica procedural. diferem no enfoque dado ao objeto de estudo. 1999.atIVIdadE 7 de um contínuo comunicativo contextual caracterizado pelos fatores de textualidade: informatividade. a intertextualidade. mas também ao conhecimento construído através da vivência. dando realce. com. a situacionalidade. situacionalidade. tratamos das vertentes da Lingüística textual. a intencionalidade e a aceitabilidade (centrados nos usuários). esquemas. embora essas teorias fundamentem-se em pressupostos básicos comuns. Beaugrande e Dressler – que se vêm dedicando ao estudo dos principais critérios ou padrões de textualidade e do processamento cognitivo do texto. e seus representantes.br/files/livro/CoEsao_tExtuaL_IntroduCao. onde ganha projeção a partir dos anos 70. “scripts”. Villaça Koch. não só ao conhecimento declarativo (dado pelo conteúdo proposicional dos enunciados).

tal como uma “partitura musical a duas vozes”. e ao das superestruturas ou esquemas textuais e. Desde 1985. em virtude disto. de um lado. uma “estrutura determinativa”. Para Weinrich. com base no tratamento textual de categorias gramaticais como os artigos. mais tarde. toda Lingüística é. na construção de uma teoria semiótica dos textos verbais a que denominou TeSWeST (Teoria da Estrutura do lIng II – 68 . conseqüentemente. à questão da tipologia dos textos. a examinar outros tipos de superestruturas. estes autores aproximam-se da linha americana da análise do discurso (KOCH. com as formas de construção lingüística do texto enquanto seqüência de frases. com os processos de produção e compreensão) e. a princípio. Postula como método heurístico o da “partitura textual”. vem atuando na perspectiva da Análise Crítica do Discurso (Critical Discourse Analysis. que consiste em unir a análise frasal por tipo de palavras e a estrutura sintática do texto num só modelo. 2007). Weinrich – cujos trabalhos objetivam a construção de uma macrossintaxe do discurso. Givón e outros estudiosos filiados à linha americana da Análise do Discurso – preocupados. especialmente as do noticiário jornalístico. “um andaime de determinações onde tudo se encontra interligado”. Van Dijk – cujo trabalho se tem voltado. portanto. (KOCH. 2007). particularmente. maior atenção às superestruturas narrativas. necessariamente. inicialmente. passou. Lingüística de Texto (KOCH. 2007). de modo recíproco. 2007). o texto é uma seqüência linear de lexemas e morfemas que se condicionam reciprocamente e que. ao estudo das macroestruturas textuais e. à produção de resumos. constituem o contexto: texto é. pois. Neste sentido. de outro lado com a questão do processamento cognitivo do texto (isto é. com o estudo dos mecanismos e modelos cognitivos envolvidos nesse processamento. os verbos etc. buscam subsídios em pesquisas nas áreas da Psicologia da Cognição e da Inteligência Artificial (KOCH. Tendo dedicado. Petöfi – empenhado. Para ele.LIngüístIca II atIVIdadE 7 planos). Para tanto.

Vigner. os lingüistas franceses como Charolles.12-13). deve considerar a organização reticulada ou tentacular. Em suma. também. É preciso lembrar. lIng II – 69 LIngüístIca II . como o estudo das operações lingüísticas e cognitivas reguladoras e controladoras da produção. ou seja. à questão da compreensão/produção de textos (KOCH. Adam e outros que se dedicam aos problemas de ordem textual e à operacionalização dos construtos teóricos para o ensino de línguas (KOCH. em grande parte. elementos con-textuais (externos ao texto) e cotextuais (internos ao texto). Daí preferir a denominação Teoria de Texto a Lingüística de Texto (KOCK. os interesses desse autor e de seu grupo voltam-se hoje. construção. deve preservar a organização linea. portanto. por outro. Por um lado. implicando. Segundo ele. 2007). Marcuschi (1983. não linear. dos níveis de sentido e intenções que realizam a coerência no aspecto semântico e funções pragmáticas” (KOCH. e. 2007).r que é o tratamento estritamente lingüístico abordado no aspecto da coesão. Combettes. mesmo que provisória e genericamente. Como decorrência. Schmidt – para quem o texto é “qualquer expressão de um conjunto lingüístico num ato de comunicação – no âmbito de um ‘jogo de atuação comunicativa’ – tematicamente orientado e preenchendo uma função comunicativa reconhecível. assim. inclusive os lingüísticos. textualidade é o modo de toda e qualquer comunicação transmitida por sinais. 2007). Seu tema abrange a coesão superficial ao nível dos constituintes lingüísticos.atIVIdadE 7 Texto – Estrutura do Mundo). apresenta uma definição provisória de Lingüística Textual: “Proponho que se veja a Lingüística do Texto. a coerência conceitual ao nível semântico e cognitivo e o sistema de pressuposições e implicações ao nível pragmático da produção do sentido no plano das ações e intenções. realizando um potencial ilocucionário reconhecível”. funcionamento e recepção de textos escritos ou orais. a Lingüística Textual trata o texto como um ato de comunicação unificado num complexo universo de ações humanas. visando ao relacionamento entre a estrutura de um texto e a interpretação extensional (em termos de mundos possíveis) do mundo (ou do complexo de mundos) que é textualizado em um texto. 2007). p. tentando detectar os pontos comuns às diversas correntes.

assim. semânticos. daí reiterarmos o que foi dito acima – a coesão manifesta-se materialmente na superfície textual. 2006): lIng II – 70 . não importa a dimensão). o estabelecimento da coerência está ligado a outros fatores. a diferença existente entre frase e texto é de ordem qualitativa e não quantitativa. à intencionalidade e aceitabilidade etc. sobre os trabalhos de Beaugrande e dressler (1981 apud KoCH. é estabelecida também na interlocução. é ao mesmo tempo semântica e pragmática. referente ao texto como um todo. à informatividade. Para Koch e travaglia (1995.LIngüístIca II atIVIdadE 7 É consensual que o texto seja considerado muito mais que a simples justaposição de palavras e frases que o constituem. há os chamados fatores de textualidade que atestam os aspectos qualitativos e distintivos do texto em relação à frase. na interlocução. com todos os seus componentes (sintáticos. assunto que desenvolvemos no próximo item. Como vimos na citação acima. socioculturais etc. fIorIn. tal propriedade não se limita à boa formação e inteligibilidade do texto. p. o conhecimento de mundo. isto é. b) o encadeamento de segmentos do texto (conexão e justaposição). pragmáticos. a coerência é uma propriedade global. a coesão por retomada – ou coesão anafórica – e a coesão por antecipação – ou coesão catafórica – são mecanismos que asseguram a progressão textual por meio do encadeamento das partes. expressões ou frases já ditos (anáfora) ou sua antecipação (catáfora). tais como o conhecimento lingüístico. o estudo da coerência poderia ser visto como uma teoria do sentido do texto (seja ele uma frase ou um livro todo. são elementos formais que assinalam vínculos entre os componentes textuais. a coerência é da ordem do conteúdo. alguns exemplos (PLatão. 2007).) a coesão se estabelece por meio de mecanismos lingüísticos capazes de promover a ligação entre as partes que compõem um texto. à situacionalidade. na orientação do texto ao interlocutor. 13). numa conversação. os elementos coesivos integram o repertório da língua. a coesão revela-se por meio de marcas lingüísticas presentes (ou não) na superfície textual. savioli e fiorin (2006) identificam dois tipos principais de mecanismos de coesão: a) a retomada de termos. Fatores de textualidade centrados no texto – Coesão e coerência Coesão e coerência formam uma espécie de “par distintivo/opositivo”. dentro de um ponto de vista de que o usuário da língua tem competência textual e/ou comunicativa e que a língua só funciona na comunicação. o conhecimento partilhado. numa situação comunicativa entre usuários da linguagem.

Quadros. no entanto. fIorIn. embora. maço de cigarros. paletó. organizada com ou sem seqüenciadores. a coerência se manifesta na justaposição das informações. já que. papéis. prato. mas as colheitas foram boas. “meu pai disse isto: vá deitar cedo” – neste caso. Jornal. bloco de notas. 2006): “Preciso sair imediatamente. a coesão se faz por retomada. Papéis. níqueis. devorava. guardanapo. Mesa. fotos. Cigarro e fósforo. Escova. canetas. vaso com plantas. porque contrapõe elementos com orientação argumentativa contrária” (saVIoLI. cortina. agenda. ora. projetor de filmes. sapatos. xícara. fIorIn. como fragmento de “Circuito fechado”. cheques. papéis. sabonete. mas que sejam coerentes. de saída. relatórios. telefone. o verbo fazer retoma o verbo de ação trabalhar e o pronome oblíquo o tem função demonstrativa (= isso) – andré quase não faz isso (= trabalhar). quadros.” o ponto final substitui o conector porque (pois. Mesa e poltrona. Cigarro. relógio. cavalete. bloco de papel. bilhetes. de ricardo ramos. cadeiras. Pia. abotoaduras. xícara e pires. vales. memorandos. bule. fósforo. sabonete. notas. esboços de anúncios. lIng II – 71 . creme de barbear. cinzeiro. água fria. pincel. já que etc). papéis. Embora o conector não esteja presente. mesmo sem um elemento coesivo explícito. ana e Carolina trabalham muito. a seguir. Água. creme dental. a coesão por encadeamento – conexão – é feita por operadores responsáveis pela criação de relações entre segmentos do texto. cigarro. espuma. podemos considerar a existência de textos sem coesão. Carteira. pastas. talheres. Relógio. espátula. o pronome demonstrativo isto é catafórico. isto é etc. cartas. porque. a idéia causal-explicativa se estabelece no sentido produzido pela relação entre as informações do texto.” – neste caso. camisa. o termo livro é retomado em anáfora por um hipônimo. cadeira. gravata. se entendemos que a coerência é da ordem do sentido. cigarro. Policiais. caixas de entrada. caneta. calça. descarga. Mas é o conector adequado a esse período. antecipa a informação “vá deitar cedo”. caixa de fósforos. fósforo. dessa forma. tenho um compromisso. copo com lápis. como no exemplo (saVIoLI. então. carro. água. espuma. Creme para cabelo. toalha. 2006). telefone. vaso. telefone. cadeiras. andré quase não o faz” (= trabalha) – neste caso. a coesão por encadeamento – justaposição – é feita pelo estabelecimento da seqüência do texto.atIVIdadE 7 • LIngüístIca II • • “Pedro. pente. xícara pequena. nem se fala. toda espécie de livro. lenço. Chinelos. tais como: então. documentos. água. Por exemplo: “Este ano a chuva não foi abundante. “Lia muito. meias. Cueca. Mesa. água quente. fósforo. Pasta. policiais. chaves. Bandeja. caneta. cinzeiros. gilete.

copos. quadro-negro. ao final do dia). xícara. quanto maior a previsibilidade. fósforo.. Carro. calça. caixa de fósforos. previsível/imprevisível. Maço de cigarros. Mictório. Cigarro e fósforo. quanto menor a previsibilidade”. folheto. telefone. pia.]” (KoCH. água. Táxi. fósforo. p. Mesa e poltrona. jornal.LIngüístIca II atIVIdadE 7 cartaz. relógio. Mesa. Cigarro e fósforo. Paletó. chinelos. copo. no entanto. exigindo do receptor um esforço maior para calcular-lhe o sentido [. poltrona. Escova de dentes. Como é possível observar. pratos. baixo (1). papel. papel. fósforo.1995. papéis. livro. espuma. Coberta. giz. xícara. revista. telefone. Para chegar ao sentido e à coerência do texto. cigarro. papel e caneta. guardanapos. garrafa. desde o momento de acordar esse preparar para ir ao trabalho até o momento de retornar para casa. meias. o leitor interpreta. água. externo. lápis. toalha. a informatividade exerce lIng II – 72 . pratos. Televisor. parecer incoerente. água. a informatividade pode ser avaliada em graus – alto (3). “se toda a informação do texto for inesperada/imprevisível. prova de anúncio. papéis. em casa e no trabalho. traVagLIa. Abotoaduras. pia. pasta. copo de papel. telefone interno. gravata. papéis. Quadros. 81). copos. cigarro. “assim. revista. talheres. os quais são abordados a seguir. cueca. cama. Fatores de textualidade centrados no leitor Informatividade Considera-se a informatividade como a característica relativa à medida da informação do texto no processo de interlocução – informação esperada/não esperada. um cenário (frame) em que se reconhecem elementos específicos de uma situação (ou de várias. cigarro. à primeira vista. Poltrona. Vaso. cadeiras. médio (2). o reconhecimento e a interpretação dessas expressões possibilita ao leitor construir o sentido da descrição de um dia na rotina de um homem. pasta. Cigarro e fósforo. caneta e papel. pela disposição dos substantivos. pijama. a proposta de leitura de “Circuito fechado” permite que se analisem também os fatores de textualidade e coerência centrados no leitor. cadeiras. o texto será tanto menos informativo. guardanapo. creme dental. Maço de cigarros. o texto é constituído apenas por expressões nominais de valor substantivo. como interpretamos no texto as ações desenvolvidas durante um dia. cigarro. papel e caneta. e tanto mais informativo. água. camisa. talheres. telefone. caixa de fósforos. Xícaras. caneta e papel. fósforo. sapatos. o texto poderá. descarga. travesseiro. Chinelos.. Mesa. escova. Poltrona.

Esses diálogos podem se manifestar na forma e/ou no conteúdo textual. C. como segue4: 4. 1995. em seu modelo da situação comunicativa (do “mundo real”). “a mediação é aqui entendida como a extensão em que as pessoas introduzem. perspectivas”. 2000. textos extraídos de romuaLdo. as expectativas e o conhecimento prévio interferem na produção de linguagem (KoCH.” É importante lembrar que “a relação textosituação se estabelece em dois sentidos: da situação para o texto e do texto para a situação”. Charge jornalística: intertextualidade e polifonia.atIVIdadE 7 LIngüístIca II importante papel na organização do texto. Situacionalidade “a situacionalidade refere-se a um conjunto de fatores que tornam um texto relevante para dada situação de comunicação corrente ou passível de ser construída. se por um lado a situação comunicativa interfere na constituição do texto. traVagLIa. convicções. suas crenças. uma vez que o “modelo de mundo”. Ilustramos a ocorrência de intertextualidade. p. lIng II – 73 . Incluem-se também os fatores ligados a tipos textuais (gêneros de textos). objetivos. E. 76-78). de modo a facilitar ou dificultar o estabelecimento da coerência. já que esta é introduzida no texto pela mediação. maringá: Eduem. por outro lado o texto tem reflexos sobre a situação. Intertextualidade Entendida de maneira simples. a intertextualidade diz respeito aos “diálogos” que se estabelecem entre textos. Isso significa que o texto jamais será um espelho do mundo real.

se dúvida. Villaça Koch.. é necessário que o leitor ative seu conhecimento prévio – lingüístico. 1995). o resultado da charge é. e que tenha para eles utilidade ou relevância (KoCH.LIngüístIca II atIVIdadE 7 ao produzir a charge. isto é.. no processo de leitura da charge. enciclopédico. ressaltamos a importância e aplicabilidade dos fundamentos da Lingüística textual nas atividades de leitura e produção de textos. partilhado e de mundo – para que se depreendam os efeitos de sentido relativos à intencionalidade do autor e à relevância da charge no contexto do jornal. a coerência da charge se estabelece na medida em que o leitor faz inferências e chega ao sentido. outras discussões sobre a Lingüística textual e o ensino de língua portuguesa são encontradas no material de apoio desta aula. para que ela cumpra suas funções textuais... já a aceitabilidade diz respeito às manifestações dos interlocutores de aceitarem tal manifestação de linguagem como coesa e coerente. o material de apoio do fórum número três traz outras possibilidades de análise textual. Para finalizar. seja no contexto do ensino de língua. em artigo da professora Ingedore g. traVagLIa. assim. Intencionalidade e aceitabilidade a intencionalidade diz respeito à intenção do locutor de produzir e apresentar ao seu(s) interlocutor(es) uma manifestação de linguagem coesa e coerente para produzir efeitos específicos de sentido. uma crítica com tons de humor e sarcasmo. seja nas práticas cotidianas. lIng II – 74 . o chargista angeli buscou elementos formais e de conteúdo em outros gêneros de textos do jornalismo (foto jornalística e noticiário) e no discurso de orientação das “figurinhas” Amar é. busca informações que permitem compreender as relações não explícitas entre os elementos do texto.

L. 2006. disponível em: <www. V. anOtaçõES lIng II – 75 . fIorIn. f. L. g.com. 1999 (Princípios). são Paulo: ática. V.atIVIdadE 7 LIngüístIca II rEfErÊnCIas fáVEro. ed. Texto e coerência. L. traVagLIa. KoCH. P. Coesão e coerência textuais. editoracontexto. A coesão textual (Introdução). 2007..pdf>. são Paulo: ática. 6. C.. acesso em: 10 dez. saVIoLLI. KoCH. são Paulo: Contexto. 1995. g.br/files/livro/CoEsao_tExtuaL_IntroduCao. I. são Paulo: Cortez. Lições de texto: leitura e redação. 5. I. ed. j. L.

LIngüístIca II atIVIdadE 7 anOtaçõES lIng II – 76 .

Notícias Populares. ms. ou seja. Percebemos. franca. o editor de uma revista feminina procura atender às necessidades e curiosidades do público feminino.jan. Cláudia etc. ao preparar uma prova. Paulo. Convém esclarecer que o conceito de diálogo adotado nesta apresentação 1.DO tExtO aO DISCURSO oBjEtIVos atIVIdadE 8 LIngüístIca II antecipar conceitos e fundamentos de estudos do texto e do discurso e refletir sobre a prática significativa de leitura e produção de diferentes gêneros textuais e discursivos em circulação na sociedade contemporânea. situam-se em determinado lugar (espaço) e em determinada época (tempo). 2007 . docente dos cursos de Letras. assim.). 2008. maria madalena Borges gutierre. Podemos também dizer que os usos da linguagem são feitos mediante contratos estabelecidos entre sujeitos que interagem no tempo e no espaço e se identificam em uma cultura. dialógica. unIfran. indivíduos que fazem parte de grupos. Comércio da Franca etc. material apostilado. tempo e espaço – são essenciais para compreendermos o funcionamento da linguagem. É preciso considerar. Estas categorias – sujeito. que a essência dialógica da linguagem manifesta-se antes mesmo de sua concretização na forma de textos e do processo de circulação e recepção desses textos. da mesma forma. o professor orienta os questionamentos aos alunos e alunas situados no contexto das aulas. antes de tudo.).. Programa universidade de Verão. que o sentido de um texto é construído por seus leitores e produtores de maneira coletiva. ao produzir um texto o locutor orienta sua prática a um interlocutor histórica e culturalmente identificado. tradutor e Intérprete e Publicidade e Propaganda da universidade de franca. Iniciamos a abordagem com uma breve apresentação de conceitos que fundamentam a prática de leitura e produção textual na perspectiva discursiva. Podemos citar alguns exemplos que justificam tal afirmação: um jornalista conhece seu público leitor e de certa forma sabe o que esse público espera encontrar nas páginas de um jornal (Folha de S. elaborado pela Profa. referimo-nos aqui aos sujeitos sociais. em geral fazendo adequações à faixa etária dos grupos de leitoras (Capricho. lIng II – 77 . tExto “Do texto ao discurso”1 Fundamentos para a construção de sentidos na leitura e na produção de diferentes gêneros de linguagem Considerações iniciais: alguns conceitos o presente estudo destina-se a uma discussão didática do percurso de produção de sentido em textos. com finalidade didática. suas formas e funções. dez.

de acordo com machado (1995). referência. as relações do homem com o mundo e da linguagem com a vida. um modo bastante comum de tratar o diálogo entre textos é a intertextualidade. elementar na existência humana. cuja compreensão é determinante nos processos de interpretação e produção textual. o Brasil já começou a conquistar as suas.LIngüístIca II atIVIdadE 8 encontra-se nas reflexões de mikhail Bakhtin. manifesta-se também nas formas de linguagem que o homem produz. e diz respeito à dimensão ampla do termo – qualquer manifestação de linguagem que permite entrever a presença de um Eu e de um outro. paródia. filósofo da linguagem russo.” lIng II – 78 . a necessidade do outro. ou seja. nesse sentido. por alusão. o dialogismo bakhtiniano é a ciência das relações que celebra a alteridade. o diálogo deixa de ser entendido apenas como troca verbal (“conversa”) falada ou escrita e passa a ser fundamento para as relações sociais em diferentes lugares e épocas. Percebemos a intertextualidade quando constatamos que um texto/autor remete a outro texto/autor. nos textos. paráfrase. assim como o diálogo sustenta as relações do homem com a vida. Vejamos alguns exemplos: texto 1: “antes dos atletas conquistarem as primeiras medalhas.

em julho de 2007. serve aos interesses governamentais de oferecer à população justificativas/resultados do grande investimento para a realização dos jogos – “Investir no Pan é investir no Brasil”.” LIngüístIca II texto 3: “um dos saltos mais importantes quem vai dar é o nosso país. na imagem do agente de segurança. tendo em vista os inúmeros problemas com a violência e o crime no rio de janeiro. o Cristo redentor é eleito. principalmente no futebol. Em contraposição tenta-se construir a imagem de proteção àqueles que.atIVIdadE 8 texto 2: “Para vencer o jogo da segurança. a alusão a esta “vitória” brasileira é encontrada no texto verbal do primeiro anúncio (texto 1) – “antes dos atletas conquistarem as primeiras medalhas. equipe de segurança etc. é possível perceber que lIng II – 79 . operários. em que a expressão “salto”. traz a idéia de avanço do país nos investimentos em esporte. a expressão “craques”. venham participar do evento esportivo. o Brasil está investindo nos maiores craques. busca produzir o efeito de destreza e capacidade dos profissionais que cuidam da segurança. comum nos esportes.) dialogam com a imagem do Cristo redentor – “de braços abertos para o mundo”. símbolo da cidade do rio de janeiro. cultura. mesclam-se também os discursos político e religioso. episódios conhecidos mundialmente. educação. alusão a uma modalidade praticada por nadadores. Por meio dessas ilustrações e de uma breve análise. o diálogo intertextual se faz também por “jogos” de palavras em que se evidencia a duplicidade de sentidos – “Para vencer o jogo da segurança. no segundo anúncio (texto 2).” a campanha dos jogos Pan-americanos vem assinada pelo governo federal (ministério do Esporte e ministério da Ciência e tecnologia) e reúne uma série de “vozes” sociais e políticas presentes no contexto de produção dos anúncios. tal efeito de sentido é construído também no terceiro anúncio (texto 3). as fotos dos participantes dos jogos (atletas. e a referência ao Cristo de braços abertos. o Brasil está investindo nos maiores craques”. em votação realizada pela New 7 Wonders Foundation (suíça). lazer. o Brasil já começou a conquistar as suas”. uma das sete novas maravilhas do mundo moderno. de uma forma ou de outra.

extensão definida. texto literário. a notícia e a síntese de um acontecimento (predominantemente político). assim. informação e humor próprios do discurso jornalístico e com características diferentes de outros discursos. convencer e divertir. algumas observações sobre a constituição do texto e do discurso não como conceitos opostos ou distantes. em geral. texto didático etc. por que e para que utilizamos a linguagem em diferentes situações. paródia do acontecimento). formas. o que gera também diferentes formatos (gêneros) e estilos (texto jornalístico. faremos. tantas que o espaço de que dispomos neste material seria insuficiente para uma apresentação detalhada. os classificados. opinar e divertir. é possível entender que dentro de um mesmo veículo – um jornal impresso – circulam diferentes gêneros (tipos) de textos integrados ao discurso jornalístico: a notícia. as funções de informar. inicialmente.LIngüístIca II atIVIdadE 8 o processo de produção e leitura de um texto não se restringe à seleção e organização de recursos verbais e não-verbais. sabemos que o jornalismo cumpre. as tirinhas de lIng II – 80 . mas como categorias de análise para entender como. reconhecemos na charge um gênero de texto integrado ao discurso jornalístico. • pode ser produzido com elementos verbais (diz respeito à utilização da língua falada e escrita) e/ou não-verbais (imagens. além de serem determinantes na significação que as formas de linguagem adquirem na interlocução. em circulação no jornalismo impresso. gestos. Do texto ao discurso Várias definições de texto e de discurso podem ser encontradas em diferentes linhas teóricas dos estudos da linguagem.). ainda utilizando o jornalismo como exemplo. em essência. cores. nas bases da construção de sentido. posto que em suas funções articulam-se a opinião crítica dos editoriais. tomemos a charge como um texto jornalístico. posto que agrega elementos de opinião. o editorial. podemos dizer que a charge é um gênero (tipo) de texto do discurso jornalístico. texto publicitário. televisivo e na internet. portanto. Contentemo-nos. em entender o texto como um todo de sentido que: • não tem. além do humor produzido pelos efeitos caricaturais (deformação de traços de personagens. • configura-se dentro de diferentes gêneros de discurso (discurso jornalístico.). discurso publicitário. fatores socioculturais e históricos são fundamentais para que um texto cumpra sua função de informar. de acordo com os propósitos da interação. • apresenta diferentes funções. discurso literário. sons). discurso pedagógico etc.

tenta difundir valores e hábitos que se preservam no tempo e no espaço de determinadas culturas. já que visa a atingir o público consumidor de maneira direta. no centro do anúncio encontramos a frase “a vida vem aos pares”. em geral. cuja função predominante é “apelativa” ou “conativa”. além das características de uso da linguagem.. p. 310).atIVIdadE 8 humor. Em síntese. Por gêneros de discurso entendemos. LIngüístIca II texto 4: “a vida vem aos pares. serem modos relativamente estáveis de utilizar a linguagem. que. Convida-o a observar o produto e o convence a comprá-lo. o discurso é “a representação de linguagens em confronto. é claro. reconhecemos um texto principalmente pelas diferenças em relação a outro texto e. ou seja. principalmente no que concerne à informação. pelo fator “textualidade”. o que garante a existência de um sentido e não um amontoado de frases e palavras.” trata-se de um texto do discurso publicitário. por exemplo. sendo inadmissível uma concepção meramente lingüística” (maCHado. [a] manifestação da linguagem em sua plenitude concreta. opinar ou divertir. para divulgar a marca Havaianas. o discurso jornalístico apresenta um outro aspecto que o diferencia de outros discursos – a temporalidade. nesse sentido. na perspectiva bakhtiniana. entre outros cuja função é informar. o painel do leitor. de uma campanha publicitária da empresa são Paulo alpargatas s/a.]. o discurso se constrói no contexto das relações de alteridade. os discursos também dialogam e esse diálogo é tratado como interdiscursividade. que remete o leitor a diferentes possibilidades lIng II – 81 . os quais adquirem caráter representativo nas esferas sociais em que são produzidos e circulam. Vejamos o texto a seguir. Essa temporalidade não é observada de maneira tão marcante no discurso de auto-ajuda. 1995.. no exercício da linguagem por um sujeito e em sua relação com o outro através de confrontos enunciativos [. sabemos que um jornal “envelhece” de um dia para outro.

Considerações finais ao final desta breve apresentação. na forma de enunciados concretos. tempo e espaço são categorias essenciais para a compreensão dos “modos de dizer” e de suas diferentes funções nas mais diversas esferas da atividade humana. podemos entender que o processo de produção e leitura/interpretação de textos implica não só conhecimento organizacional dos recursos de linguagem como também e no mesmo nível de importância conhecimentos relativos à função social da linguagem e sua representatividade. com diferentes propósitos e em diferentes situações. um outro exemplo da interdiscursividade e da relação entre gêneros de discurso pode ser observado na produção da divulgação científica. no quadro à esquerda. percebemos o diálogo entre discursos. o pé esquerdo da sandália é colocado sobre a imagem do fogo. ele busca informações no contexto sociocultural dos sujeitos que constituem seu público leitor. a linguagem deve ser entendida e analisada em sua estreita relação com a vida. com predominância do azul. em tons de amarelo e vermelho. fonte de dados. Essa idéia também pode ser interpretada nas relações humanas – homem não se criou para viver sozinho. de acordo com os postulados de mikhail Bakhtin (2000). entre outras. bem/mal. não é necessário que diga “compre o produto”. que produzimos e utilizamos de diferentes maneiras. o pé direito é colocado sobre água. na forma de cadernos contidos nos jornais impressos. a divulgação científica circula no meio jornalístico. Com essa criação. ou seja. de interdependência e de existência das forças naturais. com predominância do vermelho. e constrói-se com recursos da linguagem jornalística. Por meio dessas reflexões. Está presente uma idéia de equilíbrio. Como é possível perceber. como textos de livros didáticos e muitos outros instrumentos de informação. o produtor do texto não cria ingenuamente o seu material. mas “aos pares”. como segue. sujeito. o discurso publicitário dialoga com o discurso de ordem da natureza. o que ressalta a dualidade das experiências humanas também presente nas relações masculino/feminino. Em todo evento de produção e circulação de linguagem. de forma a tornar acessível o jargão científico. criando também efeitos sensoriais de “calor” (fogo/vermelho) e “frio” (azul/água). entre outras. simplifica a linguagem da ciência para informar o leitor comum. no quadro à direita. o discurso de divulgação científica constitui-se a partir de dois outros gêneros – o discurso científico e o discurso jornalístico – e se destina a divulgar ao leitor comum os resultados da pesquisa científica. como documentários televisivos ou em vídeo. cria estados de atração do consumidor pelo produto quando sugere valores e crenças presentes na sociedade.LIngüístIca II atIVIdadE 8 de reflexão sobre questões duais da vida. no processo de produção. sustenta-se nas bases do discurso científico. lIng II – 82 . ao contrário. em geral com formato de revistas como Ciência Hoje. em tons de azul e branco. a expressão “aos pares” permite que se construa no sentido das cores a relação “cores quentes versus cores frias”.

atIVIdadE 8 o caráter representativo da linguagem e sua concepção como gêneros de discurso possibilita perceber como a cultura atravessa os indivíduos e os orienta na produção de sentidos. tradução de de maria Ermantina galvão. anOtaçõES lIng II – 83 . . 2006. O romance e a voz: a prosaica dialógica de mikhail Bakhtin. 2005. maCHado. 1997. (org. B. são Paulo: martins fontes. são Paulo: Contexto. sP: unicamp. . Estética da criação verbal. I. sugestões de leituraBraIt. rio de janeiro: Imago. são Paulo: fapesp. são Paulo: Contexto. Campinas. dialogismo e construção do sentido. LIngüístIca II rEfErÊnCIas BaKHtIn. Bakhtin: outros conceitos-chave. 1995. seja por valores difundidos e preservados. Bakhtin: conceitos-chave. Bakhtin. 2000.). seja por meio de conhecimentos previamente adquiridos no grupo social. m.

LIngüístIca II atIVIdadE 8 anOtaçõES lIng II – 84 .

situacionalidade. Fatores de textualidade centrados no texto – Coesão e coerência Coesão e coerência formam uma espécie de “par distintivo/opositivo”. o estabelecimento da coerência está ligado a outros fatores. como ciência da estrutura e do funcionamento dos textos. a entonação. texto compreende “qualquer passagem falada ou escrita que forma um todo significativo independente de sua extensão. a ordem de palavras no enunciado. Em sentido amplo. tal propriedade não se limita à boa formação e inteligibilidade do texto. sobretudo. isto é. trata-se. é ao mesmo tempo semântica e pragmática. é capaz de produzir sentido e por meio da qual se revela a capacidade textual do ser humano (uma música. tal desenvolvimento deve-se. a coerência é uma propriedade global. e intertextualidade” (fáVEro. aceitabilidade. uma receita culinária etc. as relações entre sentenças ligadas por conjunções. entre outros. o conhecimento de lIng II – 85 .SíntESE paRa aUtO-aValIaçãO oBjEtIVos atIVIdadE 9 LIngüístIca II rever e fixar conceitos e fundamentos de Lingüística textual e compreender princípios de análise que orientam os estudos do texto e do discurso. na orientação do texto ao interlocutor. a coesão revela-se por meio de marcas lingüísticas presentes (ou não) na superfície textual. a coerência é da ordem do conteúdo. p.). referente ao texto como um todo. 7). assim. numa conversação. uma propaganda. Em sentido estrito. às inadequações observadas no tratamento gramatical de aspectos como a referência. é estabelecida também na interlocução. tExto lingüística textual a lingüística textual. texto designa toda e qualquer manifestação de linguagem que. o termo “texto” tem sido utilizado em pelo menos duas acepções. um poema. uma escultura. tais como o conhecimento lingüístico. numa situação comunicativa entre usuários da linguagem. a justificativa para que se considerem tais inadequações sustentam-se no fato de que esses mecanismos de linguagem só podem ser estudados e explicados no nível do texto ou em referência a um contexto situacional. a correlação dos tempos verbais. começou a se desenvolver na década de 1960 na Europa. de um contínuo comunicativo contextual caracterizado pelos fatores de textualidade: informatividade. contextualizada. um filme. 1999. especialmente na alemanha. pois.

algumas observações sobre a constituição do texto e do discurso não como conceitos lIng II – 86 . Por meio do conhecimento prévio. busca informações que permitem compreender as relações não explícitas entre os elementos do texto. à situacionalidade. e que tenha para eles utilidade ou relevância (KoCH. Intertextualidade – entendida de maneira simples. traVagLIa. quanto maior a previsibilidade. a intertextualidade diz respeito aos “diálogos” que se estabelecem entre textos. previsível/imprevisível. o texto será tanto menos informativo. a informatividade exerce importante papel na organização do texto. Intencionalidade e aceitabilidade – a intencionalidade diz respeito à intenção do locutor de produzir e apresentar ao seu(s) interlocutor(es) uma manifestação de linguagem coesa e coerente para produzir efeitos específicos de sentido. à informatividade. isto é. É importante lembrar que “a relação texto-situação se estabelece em dois sentidos: da situação para o texto e do texto para a situação”. ativados no processamento textual. quanto menor a previsibilidade”. Situacionalidade – refere-se a um conjunto de fatores que tornam um texto relevante para dada situação de comunicação corrente ou passível de ser construída”. partilhado e de mundo. enciclopédico. Do texto ao discurso Várias definições de texto e de discurso podem ser encontradas em diferentes linhas teóricas dos estudos da linguagem. à intencionalidade e aceitabilidade etc. faremos. 1995).LIngüístIca II atIVIdadE 9 mundo o conhecimento partilhado. Esses diálogos podem se manifestar na forma e/ou no conteúdo textual. Incluem-se também os fatores ligados a tipos textuais (gêneros de textos). a coerência se estabelece na medida em que o leitor faz inferências e chega ao sentido. e tanto mais informativo. Conhecimento prévio – compreende o conhecimento lingüístico. portanto. de modo a facilitar ou dificultar o estabelecimento da coerência. já a aceitabilidade diz respeito às manifestações dos interlocutores de aceitarem tal manifestação de linguagem como coesa e coerente. tantas que o espaço de que dispomos neste material seria insuficiente para uma apresentação detalhada. “assim. Fatores de textualidade centrados no leitor Informatividade – característica relativa à medida da informação do texto no processo de interlocução – informação esperada/não esperada.

p. com diferentes propósitos e em diferentes situações. discurso publicitário. sujeito. 310). extensão definida.atIVIdadE 9 LIngüístIca II opostos ou distantes. no exercício da linguagem por um sujeito e em sua relação com o outro através de confrontos enunciativos [. Em todo evento de produção e circulação de linguagem. por que e para que utilizamos a linguagem em diferentes situações. texto literário.. Por gêneros de discurso entendemos. mas como categorias de análise para entender como. Contentemo-nos. serem modos relativamente estáveis de utilizar a linguagem. sons). texto publicitário. formas. discurso pedagógico etc. cores. em geral.). • • o discurso é “a representação de linguagens em confronto. lIng II – 87 . sendo inadmissível uma concepção meramente lingüística” (maCHado. em entender o texto como um todo de sentido que: • • não tem. apresenta diferentes funções. configura-se dentro de diferentes gêneros de discurso (discurso jornalístico. os quais adquirem caráter representativo nas esferas sociais em que são produzidos e circulam.].). de acordo com os propósitos da interação. pode ser produzido com elementos verbais (diz respeito à utilização da língua falada e escrita) e/ou não-verbais (imagens. a linguagem deve ser entendida e analisada em sua estreita relação com a vida. de acordo com os postulados de mikhail Bakhtin (2000). 1995.. na perspectiva bakhtiniana. discurso literário. inicialmente. ou seja. tempo e espaço são categorias essenciais para a compreensão dos “modos de dizer” e de suas diferentes funções nas mais diversas esferas da atividade humana. gestos. que produzimos e utilizamos de diferentes maneiras. o que gera também diferentes formatos (gêneros) e estilos (texto jornalístico. na forma de enunciados concretos. [a] manifestação da linguagem em sua plenitude concreta. o discurso se constrói no contexto das relações de alteridade. texto didático etc.

LIngüístIca II atIVIdadE 9 anOtaçõES lIng II – 88 .

a qualquer ótica que tende a tratar a frase como a unidade lingüística terminal. discurso aproxima-se de enunciação. visão próxima da distinção saussureana langue/parole (língua/ fala). (sin. p. tais como: • discurso versus frase: “o discurso é uma unidade lingüística constituída de uma sucessão de frases”. 2008) fala de “análise do discurso”. inicialmente. o Dicionário de Lingüística (duBoIs et al. ou lIng II – 89 . • Para Charaudeau e maingueneau. apresentar diferentes acepções do termo discurso. considerado do ponto de vista das regras de encadeamento das seqüências de frases. também tratada em (1). a perspectiva da análise do discurso opõe-se. nessa acepção.anÁlISE DE DISCURSO oBjEtIVo atIVIdadE 10 LIngüístIca II Introduzir estudos e fundamentos teóricos da análise do discurso de linha francesa. relacionadas a diferentes teorias lingüísticas. Buscamos.) na sua acepção lingüística moderna. Em Benveniste (1966/2005). 168-169). então.) o discurso é uma unidade igual ou superior à frase. maInguEnEau. • discurso versus língua: pauta-se na definição de língua como sistema de valores virtuais em oposição ao uso da língua em um contexto particular. tExto neste capítulo. no Dicionário de análise do discurso (2008. um meio e um fim. alguns falam de “gramática do discurso”. 2007. tratamos da análise do discurso. Harris (1952 apud CHaraudEau. o discurso entra em uma série de oposições clássicas. 192) traz as seguintes definições de discurso: • • discurso é a linguagem posta em ação. o discurso designa todo enunciado superior à frase. atualmente fala-se de “lingüística textual”.: EnunCIado.. (sin. acima.: faLa. a língua assumida pelo falante. é constituído por uma seqüência que forma uma mensagem com um começo. p.

com sentido de estudo da dimensão transfrástica. 169). um estudo lingüístico das condições de produção faz do texto um discurso. i. Pode tratar-se também de “um posicionamento em um campo discursivo (o discurso comunista. ainda. na comunicação lingüística. conceito mencionado anteriormente nas definições de discurso1. 2008. focalizamos a perspectiva de estudos da análise do discurso. 202). o discurso surrealista)”. s. o contexto é entendido como condições de produção e recepção do discurso. lIng II – 90 . 2006. discurso televisivo. “de uma função da linguagem (o discurso polêmico. 2008. para os anglo-saxões. p. • Discurso versus texto: concebe-se o discurso como a inclusão de um texto em seu contexto.. Paveau e sarfati (2006) agrupam sob o rótulo de lingüísticas discursivas a lingüística textual. maInguEnEau.. o termo análise do discurso origina-se na tradução de discourse analysis proposta por Z. Harris (1952).. 169). p. a semântica de textos e a análise do discurso. atribuiu-se à análise do discurso um ponto de vista específico: olhar um texto do ponto de vista de sua estruturação lingüística faz dele um enunciado.)”. discurso do professor em sala de aula. a língua é assumida pelo indivíduo que fala em condições de intersubjetividade..LIngüístIca II atIVIdadE 10 seja.. linhas que se fundamentam na dimensão transfrástica dos enunciados. o discurso é “um conjunto de enunciados na medida em que eles provêm de uma mesma formação discursiva de um tipo de discurso (discurso jornalístico. • Discurso versus enunciado: essa oposição permite distinguir “dois modos de apreensão das unidades transfrásticas: como unidade lingüística (enunciado) e como traço de um ato de comunicação sóciohistoricamente determinado”. 1. (CHaraudEau. o discurso das mães de família.e. “a análise do discurso corresponde à análise conversacional. Em foucault (apud CHaraudEau.)” ou. p. discurso administrativo. na frança. Em capítulos anteriores. neste.. apresentamos e discutimos semântica e Lingüística textual. o discurso prescritivo. a abordagem da análise do discurso (ad) desenvolvida neste capítulo tem bases no que se denomina Escola francesa e estuda as produções verbais no interior de suas condições sociais de produção.. Conceitos da ad francesa devem ser estudados também no material de apoio desta aula. sarfatI. maInguEnEau. cujo postulado é que todo discurso é fundamentalmente interativo” (PaVEau. uma corrente das ciências da linguagem que toma como objeto o discurso. próximo ao sentido da lingüística textual.)” ou de “produções verbais específicas de uma categoria de locutores (o discurso das enfermeiras. o estudo de trocas verbais orais ou escritas. Em linhas gerais.

não é suficiente para marcar sua especificidade no campo dos estudos da linguagem. o que faz a expressão “análise do discurso” proliferar e se generalizar. inicialmente. É sob a influência desses dois teóricos que Pêcheux. 2. analisar corpus tipologicamente mais marcados. p. E será da Arqueologia do saber [de Foucault] que Pêcheux extrairá a expressão “formação discursiva” da qual a AD se apropriará.atIVIdadE 10 perspectiva teórica da aD francesa a ad francesa preconiza um quadro teórico que alia o lingüístico e o social. Psicanálise etc. no entanto. a influência mais direta se faz a partir do seu trabalho sobre os Aparelhos Ideológicos de Estado na conceituação do termo “formação ideológica”. elabora os seus conceitos. o espaço próprio que cada discurso configura para si mesmo no interior de um interdiscurso. sobretudo discursos políticos de esquerda. p. tal aspecto. que se cristalizam nos discursos. 18). o que a distingue das outras áreas das ciências humanas com que dialoga (História. as idéias de Foucault. 1995. definir seu campo de atuação e procura.). as quais delimitam fortemente a enunciação. 18). como “formação lingüística a exigir de seus usuários uma competência específica”. fala-se atualmente em análise de discursos. sob o risco de se fixar numa lingüística imanente. os embates históricos. p. 1995). sociais etc. a ad francesa busca. o campo de estudos da ad estende-se a outras áreas do conhecimento. tais como: • • • o quadro das instituições em que o discurso é produzido. de forma que dois conceitos tornam-se nucleares: o conceito de ideologia e o conceito e discurso. 1995. do lado do discurso. Por articular o lingüístico e o social. Como aponta maingueneau (1987 apud Brandão. submetendo-a a um trabalho específico. dada a polissemia do termo discurso2. de acordo com Brandão (1995. De Althusser. as duas grandes vertentes que influenciam a ad são. a ad apóia-se em conceitos e métodos da Lingüística. os conceitos de Althusser e. 18). LIngüístIca II dessa forma. que se manifesta através de uma competência sócio-ideológica” (Brandão. um dos estudiosos mais profícuos da AD. mas também como “formação ideológica. a linguagem passa a ser estudada não só em relação ao seu sistema interno. assim. e textos impressos (Brandão. é necessário considerar outras dimensões. sociologia. do lado da ideologia. lIng II – 91 .

Embora haja diferenças notórias. a segunda parte do ensaio de althusser traz indagações sobre o conceito de ideologia. 267). o papel do Estado se faz por meio de seus aparelhos repressores – arE (o governo. o conceito de ideologia. 238 apud CHaraudEau. a fim de manter sua dominação. digamos que a ideologia como sistema de representações se distingue da ciência pelo fato de que nela a função práticosocial predomina sobre a função teórica (ou de conhecimento)” (aLtHussEr. ideológicas e políticas de exploração. a informação). 2008. Boudon. o sindicato. 1995. Balibar.3 no ensaio Ideologia e aparelhos ideológicos do estado (1970). a política. maInguEnEau. lIng II – 92 . como todo funcionamento da ideologia dominante está concentrado nos aIE. p. “a ideologia tem uma existência porque existe sempre num aparelho e na sua prática ou suas práticas” – os aparelhos ideológicos “regulam” as práticas materiais dos sujeitos. filósofo marxista. a ideologia nesse período é definida de maneira consensual – “um sistema global de interpretação do mundo social” (aron. a ad francesa busca em Louis althusser. p. Como mencionamos anteriormente. a ideologia materializa-se nos atos concretos e assume um caráter moldador das ações. referências à ideologia marxista são encontradas no capítulo destinado aos estudos bakhtinianos. por parte de diferentes autores. 267) dotado de “uma existência e de um papel históricos no seio de uma sociedade determinada. p. Exército. althusser afirma que a classe dominante cria mecanismos de perpetuação ou de reprodução das condições materiais. os tribunais. o direito. althusser. sem entrar no problema das relações de uma ciência com seu passado (ideológico). 375 apud CHaraudEau. 2008. entre eles marx e Engels. 22).1965. de forma a explicar uma “ideologia em geral” com base em três hipóteses: • “a ideologia representa a relação imaginária de indivíduos com suas reais condições de existência” – o homem cria formas simbólicas representativas de sua relação com a realidade (concreta). a hegemonia ideológica exercida através deles é importante para se criarem as condições necessárias para reprodução das relações de produção” (Brandão. a religião. a cultura. “a ideologia interpela indivíduos como sujeitos” – o sujeito insere a si mesmo e a suas ações em práticas reguladas por aparelhos ideológicos. a administração. maInguEnEau. • • 3. o Estado intervém pela repressão ou pela ideologia e tenta forçar a classe dominada a se submeter às relações e condições de exploração (Brandão. “althusser assinala que. 1995). p. a polícia.LIngüístIca II atIVIdadE 10 O conceito de ideologia na aD francesa numerosas definições podem ser encontradas para ideologia. aron. nos anos 60 e 70.) e de seus aparelhos Ideológicos – aIE (instituições como a família. p. as prisões etc. 1968.

é um espaço em que enunciados são retomados e reformulados num esforço constante de fechamento de suas fronteiras em busca da preservação de sua identidade.] (Brandão.[. [.atIVIdadE 10 LIngüístIca II a ideologia. Concebida por foucault (1969/2000) e elaborada por Pêcheux. é descrever a dispersão desses sentidos. determinam ‘o que pode e deve ser dito’ a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada” (Brandão. instalando a pluralidade. paradoxalmente. formação discursiva (fd) e formação ideológica (fI) são dois conceitos tradicionais na ad. a noção de fd envolve. um dos pontos fundamentais da articulação da teoria dos discursos com a lingüística. foucault a concebe como uma dispersão.] Enquanto a paráfrase é um mecanismo de ‘fechamento’. p. segundo Pêcheux (1975).] descrever um conjunto de enunciados no que ele tem de singular.. o termo designa aquilo que remete a uma construção anterior e exterior. 1995. “a noção de fd representa na ad um lugar central de articulação entre língua e discurso”. a polissemia rompe essas fronteiras. o pré-construído: constitui. 1995. quando se analisa a articulação da ideologia com o discurso. 43). por oposição ao que é ‘construído’ pelo enunciado. Por ser “um espaço” atravessado por outras fds. 39). na medida em que se apóiem na mesma formação discursiva”. É o elemento que irrompe na superfície discursiva como se estivesse já-aí. Discurso e enunciado em Foucault Vimos anteriormente que a ad francesa traz de michel foucault o conceito de discurso. de ‘delimitação’ das fronteiras de uma formação discursiva.. as formações discursivas. uma fd estabelece o que pode ou deve ser dito a partir de determinado lugar social. ‘embaralhando’ os limites entre diferentes formações discursivas.. entendida como uma relação imaginária que os homens mantêm com as suas reais condições de existência. formalmente. a ideologia solidifica as relações sociais.. tornando-as suportáveis para os seus diversos atores” (grEgoLIn. a multiplicidade de sentidos. independente.. p. Introduzido por Henry (1975). 38). 2004. “em uma formação ideológica específica e levando em conta uma relação de classe. 135) chama de discurso “um conjunto de enunciados. • dito de outro modo. constitui-se como conceito central para a teoria althusseriana. p. detectando lIng II – 93 . p. “[. foucault (2000. no sentido de que o enunciado é dialeticamente construído pela singularidade e pela repetição. “derivando do domínio do vivido. dois tipos de funcionamento: • a paráfrase: uma fd é constituída por um sistema de paráfrase. isto é..

podemos tomar como exemplo o conceito de frase que em geral se encontra em gramáticas e que ora sintetizamos: “enunciado de sentido completo. ou seja. transformações. de acordo com regras preestabelecidas. correlações. Nova gramática do português contemporâneo. L. Para a reflexão aqui proposta. foucault (2000. um sujeito social e não uma unidade lingüística. mas. chega-se ao nível de seus constituintes” (2000. pois. 91) parte de conceitos que têm circulado nos estudos da linguagem – frase. consideram-se os constituintes lingüísticos previstos na organização de uma unidade qualquer de significação. não há dúvidas de que a função dos enunciados bem como os sentidos 4. em compensação. não se pode mais falar em enunciado quando. o estatuto de frase é. funcionamentos. foucault responde que “sempre que existe uma frase gramaticalmente isolável. 35. a constituição da materialidade dos textos e os sentidos que aí são produzidos encontra suporte nas reflexões de foucault sobre “o enunciado e o arquivo”. atos de fala – e discute a passagem dessas categorias a enunciado por meio da função enunciativa e não propriamente pela forma como tais estruturas se organizam. Michael foucault (1926-1984) Da materialidade ao sentido (o conceito de enunciado em Foucault): um esboço de análise a necessidade de discutir e considerar. p. p. CunHa.” (grEgoLIn. ao seu próprio questionamento sobre a necessidade de admitir uma equivalência entre frase e enunciado. uma ordem em seu aparecimento sucessivo. ao tratar o enunciado como “unidade elementar do discurso”. sob a própria frase. conferido a uma estrutura lingüística que preserva certa estabilidade na articulação dos termos que a compõem. posições. C... lIng II – 94 . 2004. em Arqueologia do Saber. imp. 92). independentemente de que se reconheça em tal estrutura uma posição de sujeito que enuncia de/em um contexto sócio-histórico. a frase só pode ser entendida como enunciado quando considerada em sua existência.LIngüístIca II atIVIdadE 10 uma regularidade. CIntra. o que pressupõe uma posição de sujeito que enuncia e se insere em um tempo e em um espaço. 1985.. na análise de discursos. p. assim como qualquer outra forma de linguagem. em sua função enunciativa... 2. rio de janeiro: nova fronteira. nessa formulação. geralmente acompanhado de uma melodia. iniciado por letra maiúscula e interrompido por uma pausa conclusa”4.. pode-se reconhecer a existência de um enunciado independente. em que os elementos da língua são combinados e relacionados na elaboração de um todo.ed. 90). proposição.

Paulo – 25/5/2005 – oPInIão Em Assim caminha a humanidade. 117) que o caracteriza e ao mesmo tempo identifica como representativo de uma instituição. simultaneamente. de uma época.atIVIdadE 10 que nele se produzem tomam forma na materialidade textual. 2000. paródia e/ou ilustração de fatos e situações em destaque. de um contexto. bem como as condições de produção do texto e os diálogos que nele/por meio dele se estabelecem. o enunciado tem um regime de materialidade repetível” (fouCauLt.5 Pelo reconhecimento de uma relação intertextual com o filme. de forma articulada ao editorial e ao noticiário. seja sincrética. em que sentidos são produzidos entre identidades e diferenças. É importante destacar que a produção e a leitura da charge realizam-se no “todo” do jornal em que circula. que lhe é constitutiva: ele precisa ter uma substância. lIng II – 95 . características dos gêneros opinativos e informativos com que dialoga. o leitor é levado a resgatar na história referências para interpretar na charge a situação política em questão. um suporte. seja ela verbal ou não verbal. adquire diferentes matizes quando se consideram as relações estabelecidas com os demais elementos da frase nos diferentes contextos de circulação. o enunciado é “sempre apresentado em uma espessura material. “deste modo” – tanto se analisado na frase que nomeia o filme de george stevens (1956) quanto na charge de angeli (2005). Esse sentido. na medida em que possibilita inferir sobre a narrativa de incidentes políticos e conflitos registrados no Brasil ao longo do tempo. a charge apresenta. um lugar. LIngüístIca II Fonte: Folha de S. a saga de conflitos sociais e disputas econômicas de três gerações de texanos retratada no filme orienta a produção de sentidos da charge. como síntese. p. o signo “assim” estabiliza um sentido previsto na função adverbial que desempenha – “desta forma”. a esse respeito e por meio da observação da frase utilizada como título da charge a seguir – Assim caminha a humanidade – entendemos que a materialidade repetível permite a identificação simultânea de um campo de estabilização e de um campo de utilização. no entanto. uma data. 5.

as expressões encontradas nas legendas. a Folha de S. sujeitos e dizeres.) o efeito de atualização de sentidos (e de discursos) é também produzido pelo emprego do presente verbal.. tais sentidos constroem-se também na interpretação das reticências. de acordo com os mandatos. no aqui e no agora da enunciação. quanto em relação ao contexto de produção e circulação. na materialidade verbal das legendas. reitera um discurso que se faz presente e se renova em diferentes situações e épocas. no editorial. tanto em relação aos elementos lingüísticos e imagéticos do gênero.. a crítica é dirigida a aldo rebelo no texto “Beletrismo alarmista”. a frase dita em pelo menos dois momentos históricos estabiliza-se no plano expressivo. p. uma visão pontual do presente e em uma única cena (a situação política no país muda e permanece a mesma). Paulo veiculou também na página de opinião a crítica considerada séria. lógica. além de permitir a identificação de certa regularidade temática. em geral. aparentemente. posicionada sob a caricatura de Lula.LIngüístIca II atIVIdadE 10 outro dado significativo da charge. preserva certa identidade em que se aproximam e se cruzam épocas. mas consolida e revela. a descrição e os sentidos do enunciado 6. orientada ao leitor que busca o parecer verdadeiro. Considerada no todo enunciativo. um acontecimento discursivo distinto. fragmentos pronunciados ao longo de diferentes mandatos. em que se destaca o “delírio histórico” do ministro em suas tentativas de explicar e justificar a crise política do momento (CPI dos Correios) com base em fatos passados. a fala do atual presidente confunde-se com a fala dos demais e o emprego do pretérito perfeito composto do indicativo exprime um processo que se inicia no passado.e abalar os alicerces da democracia. transformando-se nas diferentes situações de uso. lIng II – 96 . que marcam a interrupção de dada situação e sua continuidade num momento posterior (Denúncias não passam de manobra da oposição. o leitor tem uma visão linear do cenário político nacional (Assim caminha.... evidente na materialidade textual nãoverbal. produz-se ao mesmo tempo o efeito de continuidade e de pontualidade. a singularidade em Assim caminha a humanidade é revelada na dispersão de sentidos que o jogo discursivo promove quando se constatam as interferências sócio-históricas e dos sujeitos que as engendram. na galeria do Palácio do governo. aqui entendido como a organização de elementos lingüísticos. repete-se ou se prolonga até o presente. ao mesmo tempo em que adquire existência própria e singular. observado nas legendas até o penúltimo quadro. é a seqüência narrativa que se faz por meio de quadros. em uma intertextualidade formal com as fotos dos presidentes organizadas cronologicamente. posto que a desestabilização governamental é tratada no todo da charge como fruto de manobras de oposição. na última legenda.) e. a conclusão Tenho dito!. em face dos propósitos de utilização em cada contexto. 113). parecem não apontar para acusações particulares sobre antagonismos partidários ocorridos entre um e outro mandato. têm-se. “uma seqüência de elementos lingüísticos só é enunciado se estiver imersa em um campo enunciativo em que apareça como elemento singular”././na tentativa de desestabilizar o governo. produzem certo efeito de “solidariedade partidária”.6 Para foucault (2000... ao mesmo tempo. mas articulados de tal forma que se perceba uma relativa estabilização de sentidos (os discursos são sempre os mesmos: resgatam antigos problemas e não oferecem soluções). na data em que foi publicada a charge em análise.. na apresentação dos quadros.

2001). Em síntese. no interior de posições ideológicas e de lugares sociais menos conflitantes”. 114). 7. Em analogia com o postulado de noam Chomsky de que o sistema de regras é responsável pela geração de sentenças. a primeira época da análise do discurso (ad1. “aparece em Pêcheux (1969) com a hipótese de ‘que a um estado determinado das condições de produção (discursivas)’ correspondem ‘invariantes semântico-retóricas. maInguEnEau. As três fases da AD e a definição de sujeito e de objeto LIngüístIca II distinguem-se três fases na ad francesa. (2) a análise lingüística feita pelo levantamento das construções sintáticas e do léxico. 2001. que consiste em construir sítios de identidade por meio de sinonímia (substituição de uma palavra por outra no contexto) e de paráfrase (seqüências substituíveis por si no contexto) (mussaLIm. Pressupõe-se que esses discursos sejam mais “estabilizados” e produzidos em condições mais estáveis e homogêneas. mas são as intervenções dos sujeitos produtores e das convenções sociais e históricas que permitem que o texto exerça uma função enunciativa. básica para a ad e alicerçada na expressão marxista condições econômicas de produção. na dialética entre o contínuo e o descontínuo que a língua possibilita construir e materializar. (3) a análise discursiva. nessa concepção de sujeito. pois. concebidas como princípios semânticos que definem.atIVIdadE 10 situam-se. “máquina discursiva”: uma estrutura (condições de produção estáveis) responsável pela geração de um processo discursivo. “isto é. ao mesmo tempo que caracterizam o discurso como objeto de análise. ou uma ideologia”. identificando-se nas três fases: ad1. tais discursos caracterizamse “por permitirem uma menor carga polissêmica. delimitam um discurso (mussaLIn. p. a noção de condições de produção. estáveis’. por exemplo um manifesto do Partido Comunista. p. ou uma teoria. uma vez que se submete às regras específicas que delimitam o discurso (o sujeito não é fonte de seu dizer). 118). no conjunto dos discursos suscetíveis de serem produzidos” (CHaraudEau. uma menor variação de sentido devido a um maior silenciamento do outro (outro discurso/outro sujeito)”. a partir dessa noção. a ad formula e reformula procedimentos de análise e seu objeto de estudo. “quem de fato fala é uma instituição. as condições de produção são responsáveis pela geração de discursos. tal como os discursos políticos teórico–doutrinários. lIng II – 97 . relacionadas a diferentes modos de tratar seu objeto de estudo. a partir de um conjunto de argumentos e de operadores responsáveis pela construção e transformação das proposições. Para mussalim (2001. 117). 2008. ad2 e ad3. o sujeito da ad1 é “assujeitado” à “maquinaria discursiva”7 que gera o discurso. p. isto é. também chamada aad – análise automática do discurso – 1969-1975) tem como objeto discursos mais “estabilizados” e pouco polêmicos. os procedimentos de análise da ad1 são realizados por etapas que compreendem (1) a seleção de um corpus fechado de seqüências discursivas.

P. a noção de sujeito. a noção de dispersão do sujeito é aqui retomada. enuncia de dentro de uma formação discursiva (fd) “liberdade de expressão”. são PauLo: Best. produzidos em condições de produção menos homogêneas. atravessada por outras formações discursivas. entre 1975 e 1978).LIngüístIca II atIVIdadE 10 Essa vertente da análise do discurso é “abandonada” nas fases posteriores e o conceito de sujeito passa por reformulações. “o sujeito passa a ser concebido como aquele que desempenha diferentes papéis de acordo com as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo” (mussaLIm. nessa terceira fase. p. um professor não fala só a partir de seu lugar de professor. 2001. tem como objeto de análise discursos menos “estabilizados”. É a relação interdiscursiva que “estrutura a identidade” das fds em questão. p. refuta a idéia de unidade. posto que as ideologias não vivem isoladas (remetemos ao conceito de fd). por exemplo. de Bill Watterson. 1. V. nesse confronto lIng II – 98 . 2001. na tira acima. 134). dividido (mussaLIm. um direito constitucionalmente garantido (discurso político). clivado. ‘a concepção de sujeito é definida de forma um pouco menos estruturalista’”. o sujeito também não o é”. 1994. Considera-se que uma formação discursiva é heterogênea. É na terceira época da ad (ad3 – a partir de 1978) que se dá a “desconstrução” da maquinaria discursiva. as noções de sujeito e de discurso caminham para a heterogeneidade. Pode-se dizer que nessa concepção de sujeito convivem diferentes ideologias. a segunda época da ad (ad2. na ad3. o menino Calvin. personagem que assume o papel de sujeito do discurso. por exemplo. no interior de uma formação ideológica (fI) que valoriza a possibilidade de os sujeitos se expressarem sem serem repreendidos. bastante atual da análise do discurso. É compatível com a noção de discurso marcado pela heterogeneidade – o sujeito é essencialmente heterogêneo. 49. Fonte: o ataque doS tranStornadoS monStroS de neve mutanteS aSSaSSinoS. mas tem sua fala atravessada pela ideologia. no sentido de que “se uma fd não é formada por elementos ligados entre si por um princípio de unidade. a noção de sujeito “sofre um deslocamento que inaugura uma nova vertente. como um debate político. entendida no interior da noção de formação discursiva de foucault. tal fd é colocada em confronto com outra enunciada pelo pai e que se situa no interior da ideologia moralizante da sociedade sobre “a responsabilidade de ser culturalmente educado e capaz de fazer distinções críticas”. atenuando-se o sentido de “assujeitamento”. 133).

entre elas o discurso adulto de proteção à criança. da mesma forma como o discurso o é (MUSSALIM. apenas orientam o leitor a buscar os caminhos para iniciar os estudos neste campo de investigação da linguagem. o discurso infantil marcado pela lógica dos questionamentos. mas que ele é dividido. passa a fazer parte de sua identidade. Para explicar a articulação da heterogeneidade mostrada no discurso com a heterogeneidade constitutiva do discurso. Cabe ressaltar também a característica interdisciplinar da ad. na psicanálise de Lacan. seja no interior das linhas teóricas da Lingüística. o sujeito é clivado pelo inconsciente. a Psicanálise. Nesse sentido. que traz para o campo de estudos do discurso o conceito de heterogeneidade discursiva. revela-se no interdiscurso. o discurso político de garantia de direitos constitucionais. conceito presente nos estudos atuais do discurso. como a semântica da 8. seja no diálogo que estabelece com outras áreas das ciências humanas.atIVIdadE 10 discursivo. assunto que discutiremos na próxima aula. o enunciador Calvin instiga reflexões sobre os limites da liberdade de expressão. consideram-se as formas lingüisticamente marcadas na materialidade do texto. Essas teorias consideram que o centro do sujeito não é mais o estágio consciente. O sujeito é constitutivamente heterogêneo. a heterogeneidade mostrada na superfície discursiva ancora-se nesse princípio. o discurso dos pais que “enrolam” os filhos quando não têm uma resposta convincente. clivado entre o consciente e o inconsciente. no texto em análise. mas estruturado pela linguagem. no primeiro caso. Inserido nesta base conceitual. sem poder definir-se em momento algum como sujeito inteiramente consciente do que diz. um sujeito condizente com os interesses centrais da ad de conceber os textos como produtos de um trabalho ideológico não-consciente. authier-revuz recorre ao dialogismo tratado nas reflexões do Círculo de Bakhtin. o sujeito da AD se movimenta entre esses dois pólos. mas é limitada pelas convenções sociais. que se define agora como sendo a relação entre o ‘eu’ e o ‘outro’. LIngüístIca II authier-revuz trata da heterogeneidade constitutiva do discurso e da heterogeneidade mostrada no discurso como formas de manifestação da presença do “outro”. a heterogeneidade. no sentido de que diferentes “vozes discursivas” manifestam-se e dialogam no enunciado. então. o ‘eu’ perde a sua centralidade. explícitas ou implícitas. o inconsciente. como a História. simples ou complexas. o desconhecido. deixando de ser senhor de si. a nova vertente da ad (ou ad3) desenvolve-se em torno dos trabalhos de jacqueline authier-revuz. de forma a entender que ela existe. lIng II – 99 . a sociologia. no segundo caso. tem-se o princípio que fundamenta a própria natureza da linguagem – ser constitutivamente heterogênea. p. Encerramos esta abordagem introdutória da análise do discurso ressaltando que as informações contidas neste texto não esgotam o assunto. a autora incorpora em seus trabalhos descobertas das teorias do inconsciente8. já que o ‘outro’. 2001. O sujeito é. um sujeito descentrado. 134).

LIngüístIca II atIVIdadE 10 Enunciação e a Pragmática. ed. r. Arqueologia do saber. do r. In: mussaLIm. (orgs. a. mussaLIm. análise do discurso. f. são Paulo: Contexto.. 2007. Coord. gregolin. são Paulo: Cultrix. et al.). m. são Carlos. ao contrário. Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. fabiana Komesu. de L. Coord. Esses diálogos não a tornam “fugaz”. j. trad. 2001. fouCauLt. são Paulo: Cortez. m. sP: Claraluz. C. anOtaçõES lIng II – 100 . sarfatI. Campinas. Baeta neves. 1995.-a. P. duBoIs. 2006. são Carlos. g. n. BEntEs. H. f. maInguEnEau. 2004. grEgoLIn. de trad. de trad. PaVEau. definem sua especificidade como disciplina que analisa a linguagem em uma perspectiva históricoideológica e não reduz o discurso a análises estritamente lingüísticas. ed. rEfErÊnCIas Brandão. f. CHaraudEau. rio de janeiro: forense universitária.. 2000. trad. Foucault e Pêcheux na análise do discurso: diálogos e duelos. sP: EdunICamP. Dicionário de lingüística. H. 2. v. 2008. m.-É. ed.. Dicionário de análise do discurso. V. 2. 15. d. sP: Claraluz. As grandes teorias da lingüística: da gramática comparada à pragmática. ed. m. Introdução à Análise do Discurso. Izidoro Blikstein. 4. 6.

“uma forma de negociação com a heterogeneidade constitutiva. as formas não marcadas de heterogeneidade mostrada. o sujeito permite que se revelem diferentes vozes. e analisar as manifestações da heterogeneidade em narrativas produzidas no contexto escolar. respectivamente. a autora busca no dialogismo bakhtiniano fundamentos para discutir a heterogeneidade do discurso. de acordo com mikhail Bakhtin (2000. lIng II – 101 . authier-revuz (1990) trata de duas formas de heterogeneidade: a constitutiva e a mostrada. porque joga com a diluição. onde este.HEtEROgEnEIDaDE EnUnCIatIVa oBjEtIVos atIVIdadE 11 LIngüístIca II discutir o conceito de heterogeneidade enunciativa. a homogeneidade. 13). pode ser enfaticamente confirmado. Postula a autora que a presença do outro emerge no discurso e quebra a continuidade. com a dissolução do outro no um. mas também onde pode se perder” (autHIEr-rEVuZ. reflexões propostas por Borges-gutierre (2005). Quanto à segunda forma de heterogeneidade – a mostrada –. a incerteza que caracteriza a referência ao outro. representam. p. assim como o homem não pode ser pensado fora das relações pessoais. para Bakhtin. a partir dos estudos de jacqueline authier-revuz. o filósofo da linguagem afirma. 35-36). ao produzir discursos. também é dialógica e deve ser tratada no contexto da vida em sociedade. tais ocorrências são estudadas por authier-revuz (1990 apud BorgEsgutIErrE. o discurso já traz em sua concepção a imprescindível presença do outro. é impossível pensar no homem fora das relações sociais. precisamente aqui. uma forma mais arriscada. 2005. em síntese. ampliamos o conceito de heterogeneidade enunciativa mencionado na aula anterior. p. que a “vida é dialógica por natureza”. pelo continuum. a primeira diz respeito à relação dialógica inerente à linguagem e pode ser definida pelos atos intersubjetivos e interdiscursivos. o uso de metáforas e jogos de palavras. tExto neste segmento. tomamos como referência os estudos de authier-revuz (1990 e 1998) e transcrevemos excertos de análise de manifestações da heterogeneidade em narrativas escolares. a ironia. através de marcas explícitas ou diluídas. no que concerne à heterogeneidade constitutiva. como heterogeneidade mostrada marcada e heterogeneidade mostrada não marcada. como o discurso indireto livre. a linguagem. nesse sentido. Dialogismo e heterogeneidade Como dissemos anteriormente.

o DD é considerado “fiel”. Authier-Revuz (1998. Do ponto de vista gramatical. excepcional na língua”. a proposta de produção textual trazia o seguinte tema. além de ser caracterizado como estilo literário dos grandes mestres. suavizada pela supressão do elemento subordinante (conjunção subordinativa). p. “representam uma negociação com as forças centrífugas. e o segundo resulta de uma “estrutura homogênea. p. Em estudo da heterogeneidade em narrativas escolares. com instruções para que os alunos continuassem a frase que inicia a narrativa: lIng II – 102 . p. as formas marcadas de heterogeneidade mostrada (aspas. o discurso indireto e o discurso indireto livre. de desagregação. p. com bases nos estudos de authier-revuz. A autora apresenta. ou seja. já o DIL (discurso indireto livre) é analisado como uma mistura de DD e DI.LIngüístIca II atIVIdadE 11 1990. Para ilustrar as reflexões sobre as formas de heterogeneidade no discurso relatado. Para Authier-Revuz (1998. em face da unidade (homogeneidade) do DI. p. mas como “dois modos radicalmente distintos de representação de um outro ato de enunciação”. 133) menciona as formas de abordagens contidas nos manuais de gramática. o DD corresponde a uma “operação de citação” da mensagem relatada e o DI corresponde a uma “operação de reformulação” dessa mensagem. 150). Borges-gutierre (2005. da heterogeneidade constitutiva” (autHIEr-rEVuZ. enquanto o DI é visto como uma variante morfossintática do DD. p. caracterizada pela regularidade sintática (subordinação) e pela necessidade de um verbo introdutor. 33). 14) discute. Borges-gutierre (2005. já que não os considera apenas como variantes sintáticas. 34). a manifestação do discurso direto (dd) e do discurso indireto (dI): No campo do discurso relatado – “modos de representação no discurso de um discurso outro” –.1990. o DD apresenta funcionamento considerado “simples”. 14-15) analisa uma produção narrativa de 5ª série desenvolvida durante a edição 1998 do sistema de avaliação de rendimento Escolar de são Paulo (saresp). a dualidade (heterogeneidade) do DD. marcada pela subordinação. No plano semântico-enunciativo. consideradas pela autora como uma exposição limitada do funcionamento discursivo: o discurso direto. ainda. citações e outras) constituem uma “proteção” necessária para que um discurso seja mantido. da sintaxe normal da língua”. o DD é bem mais complexo que o DI. enquanto o DI representa a maneira como o narrador vê o fato. posto que o primeiro “apresenta uma estrutura heterogênea. “objetivo”. no plano sintático. por ser variada e irregular.

.] na formulação do discurso relatado.Bruno. então um de nós tinham que fazer algo.. Estávamos em contato com outro planeta.. verificamos que o sujeito atende à sugestão de enriquecimento textual pelo emprego do “diálogo”.” alguns resultados da análise e as propostas da autora são transcritos a seguir. pare de brincar e venha jantar! lIng II – 103 . Nós saímos da nave.].. não quero machucar vocês. contudo. Aí mamãe chegou e disse: . Estávamos em contato com outro planeta. Os xisdoisoianos Finalmente a nave aterrissou no planeta x2-12. remetem também às situações cotidianas. Um dos Xisdoisoianos disse: . vou dar-lhes um cachimbo da paz. sem que se atente. eu disse: . aos efeitos de sentido que provoca no texto. pare de brincar e venha jantar! LIngüístIca II na análise do texto.atIVIdadE 11 “Finalmente nossa nave aterrissou no planeta x2-12. como observamos em: (1) Aí mamãe chegou e disse: . a autora questiona os critérios de avaliação do sistema.Paz! Eu sou do planeta Terra. trata-se da utilização de uma estrutura sintática padrão do dd. Elas nos olhavam como estivéssemos feito alguma coisa errada. conforme veiculado na prova de redação da 5ª série [. nossas aventuras estavam apenas começando. “[.. na medida em que as fontes enunciativas.Como prova que não quero machucar vocês. a partir da produção escolar “os xisdoisoianos”. além de criar situações inéditas sugeridas pelo tema. nossas aventuras estavam apenas começando. a discussão é apresentada como segue. Borges-gutierre (2005. os quais se fecham no desenvolvimento da estrutura textual proposta – a narrativa – e não atentam para os efeitos de sentido que se depreendem do texto. então seres de oito a doze olhos parecendo tarântulas apareceram. p.. 15-16) analisa não só as formas de manifestação do discurso relatado como também os diálogos e confrontos discursivos presentes na narrativa da criança.Bruno.

“em dd justapõem-se. a modalização enunciativa imperativa. nesse contexto. já que o discurso citado subordina-se ao discurso citante e os traços enunciativos de E2 são apagados. (5) Aí mamãe chegou e disse a Bruno que parasse de brincar e fosse jantar! lIng II – 104 . assim. quando se trata de obrigação vs. numa cadeia internamente heterogênea. (declarativa afirmativa) (3) . as outras duas possibilidades para o discurso citado (2) e (3). temos em (1): (1) 1ª fonte enunciativa (narrador): Aí mamãe chegou e disse: 2ª fonte enunciativa (personagem): – Bruno.LIngüístIca II atIVIdadE 11 a interrupção da fantasia pela voz da mãe não é feita de forma aleatória. não produziriam o efeito de sentido desejado/adequado. pare de brincar e venha jantar! já no discurso indireto. mas consciente do que representa a figura materna na esfera social familiar. marcada principalmente pelo verbo no modo imperativo e reforçada pelo vocativo e pela exclamação. do ponto de vista sintático. p. de acordo com authier-revuz (1998. remete o leitor ao contexto em que se dá a interlocução: a fala da mãe é imperativa e contém indícios da autoridade que caracteriza a figura materna no convívio familiar. diversão.Bruno logo vai parar de brincar e vir jantar. p. há que se considerar também a heterogeneidade enunciativa do dd.155) como resultado de uma estrutura homogênea. note-se aqui que “estrutura homogênea” compreende o modo de organização discursiva. Em dI. e de l (segunda fonte enunciativa) na m (mensagem) ‘mencionada’”. elementos ligados à subjetividade de L (primeira fonte enunciativa) no sintagma introdutor. “todo elemento desse tipo será interpretado como emanando de L. o aluno reconhece no gênero os aspectos regulares que caracterizam o discurso materno. abaixo. única ‘fonte enunciativa’” (no sentido de que só um enunciador/locutor concretiza a fala). tendo em vista que a seleção de dizer como verbo introdutor possibilitaria estabelecer: Aí mamãe chegou e disse: (2) . mais freqüente no uso da língua: única fonte enunciativa (narrador): (4) Aí mamãe chegou e disse que eu parasse de brincar e fosse jantar.Você quer parar de brincar e vir jantar. da sintaxe normal da língua. considerado por authier-revuz (1998. em que são mostradas a voz de E1 (enunciador 1) – o narrador/discurso citante – e a voz de E2 – (enunciador 2) a personagem/discurso citado. apenas uma modalidade enunciativa é possível a cada escolha lexical e o discurso é interpretado como “emanando de uma única fonte enunciativa”. 154155). Bruno? (interrogativa direta) além da heterogeneidade promovida pelos variados usos sintáticosemânticos.

B. de seus 1. quer dizer mãe. a Marciana está falando comigo e me chamou de filho! . Aprenda a separar as coisas. filho acabou a brincadeira. na medida em que a “voz” da mãe “quebra” a continuidade da fantasia” – “Comandante! marcianas à vista!”/”filho. p. não estou com brincadeiras. .. 16). fCLa – unEsP.Jorge.” . 2005. sou sua mãe e não tem direito de me chamar de marciana” – ainda que o filho tente preservá-la: “mas marciana. não estou com brincadeiras. como ilustra o texto seguinte: Sonho Espacial “Finalmente nossa nave aterrissou no planeta x2-12. já pro banho! Agora! Já! . Heterogeneidade nas redações escolares: a resposta dos alunos ao sarEsP. de acordo com Borges-gutierre (2005). deixe de criancice. “aspectos de aproximação e distanciamento entre os dois discursos são especialmente revelados pelo dd. marcado pelo contexto lingüístico. sou sua mãe e não tem direito de me chamar de Marciana.Filho. .Mas Marciana.Filho. m. entenda que estou em um “Sonho Espacial”. LIngüístIca II neste caso. . dissertação de mestrado. nossas aventuras estavam apenas começando.Filho. a reiteração do discurso materno nos textos escolares pode ser observada em grande parte das redações de 5ª série produzidas durante o saresp e coletadas durante a pesquisa1 desenvolvida pela autora. a fala da mãe irrompe do texto sem que seja introduzida por um verbum dicendi (ou verbo introdutor). m. gutIErrE.Comandante! Marcianas à vista! ..Mãe.Comandante Space. como ocorre na interação face-a-face” (BorgEs-gutIErrE. estou no planeta x2-12. 2003. quer dizer mãe. o que você está fazendo com essas panelas na cabeça.atIVIdadE 11 (6) Aí mamãe chegou e perguntou se Bruno queria parar de brincar e ir jantar. estou no planeta x2-12”. a autora analisa que fantasia e realidade se aproximam e se confrontam. de acordo com Barros (1999. lIng II – 105 . 62). hora de brincar é hora de brincar. “o exame das relações entre efeitos e mecanismos é uma das etapas da construção dos sentidos do texto. que hora do banho é hora do banho. você já é grande o bastante para entender. Estávamos em contato com outro planeta. e dentro de uma caixa? . de forma que os turnos de fala sejam alternados. “assim se desencadeia o dd. no que concerne ao desenvolvimento temático. p.

p 18): lIng II – 106 . que pouco ou nada estimulam as reflexões sobre a linguagem. resulta em atividades mecânicas. inclusive a do aluno. tanto no que diz respeito aos recursos da língua que utilizamos na expressão quanto pelas vozes discursivas presentes nos enunciados.LIngüístIca II atIVIdadE 11 fins e de suas ‘verdades’”. exemplo analisado anteriormente e que retomamos a fim de examinar o valor do verbum dicendi na narrativa escolar (BorgEs-gutIErrE. contemporânea à condição feminina no contexto familiar atual”. ao entrar em uma construção indireta. por exemplo. e vice-versa. p. que é minha mãe e que eu não tenho direito de chamá-la de Marciana. as formas sintáticas do dd e do dI são tratadas no contexto escolar como esquemas padronizados para citar a fala do “outro”. “em que algumas sutilezas da atividade verbal. recursos que poderiam registrar impressões do locutor. não produziria o mesmo efeito de sentido: minha mãe disse que não estava com brincadeira. propor atividades escritas e avaliá-las como meros procedimentos de formulação e reformulação gramatical. na produção de uma enunciação. prioridade na esfera escolar. 16-17). passam despercebidas ou se perdem na laboração de esquemas sintáticos”. Bakhtin (1997) discute a tendência analítica do dI. “É preciso considerar. como aspas. já que nessa forma expressiva não são literalmente transpostos “elementos emocionais e afetivos” do discurso alheio. segundo a autora. a autora refere-se particularmente aos processos de construção do dd e reformulação em dI. pois permite vislumbrar o contexto sócio-histórico e a formação ideológica em que o texto se insere. em que se atenta aos usos de pontuação e da subordinação em “que” e pouco ou nada se discute a seleção vocabular. ou os verbos introdutores. Verbum dicendi e sentido: outra forma de heterogeneidade tratados como formas clássicas da heterogeneidade enunciativa (maInguEnEau. o dd e o dI são discutidos por Borges-gutierre (2005) de modo que se considerarem os enfoques gramaticais de estruturação textual. Para Borges-gutierre (2005. Citada de forma indireta. a tendência analítica do dI pode ser observada na reformulação de (1). por meio de que se depreende o sentido. portanto. esses elementos passam a fazer parte do conteúdo reformulado pelo enunciador-narrador ou podem ser expressos no comentário inicial. autorizada. em relação ao dd e ao dI. Pelas observações acima. o uso de sinais interpretativos. que as estratégias sintáticas e o sentido estabelecem vínculos que permitem aos interlocutores interpretar nos textos o saber-fazer dos alunos”. a “voz materna é determinante. de acordo com a seleção do verbo dicendi. 2005. como sugerem os manuais de gramática e as provas de redação. 1993). e os enfoques discursivos da manifestação de diferentes vozes. no texto analisado anteriormente. percebemos que a heterogeneidade da linguagem manifesta-se e pode ser analisada na materialidade textual. verdadeira. Por outro lado. a estabilidade dessas formas torna-se mais evidente na prática escolar da escrita.

o sentido de ‘dizer’ é ampliado pela modalização imperativa do discurso materno. integra-a à sua própria enunciação mediante o emprego de equivalentes semânticos. citado de forma direta. de acordo com Bakhtin (1997).18). a característica analítica do dI. distinguem a variante analisadora de expressão e a variante analisadora de conteúdo. Na variante analisadora de conteúdo. sem reproduzir a enunciação de E2. a autora considera. expressões adjetivas e adverbiais são também recursos expressivos analíticos. emerge principalmente do “comentário” de um verbo introdutor. ainda.atIVIdadE 11 (1) Aí mamãe chegou e disse: . no sentido de que a tarefa de produção e reformulação textual ultrapasse os limites formais da organização gráfico-visual. [pediu] de acordo com Borges-gutierre (2005. o mesmo verbo introdutor não seria ‘eficiente’ no trato da fala materna imperativa citada de forma indireta”: Mamãe chegou e disse a Bruno que parasse de brincar e fosse jantar. ainda que o discurso seja reformulado: [ordenou] Mamãe chegou e [aconselhou] que Bruno parasse de brincar e fosse jantar. importantes na reformulação em dI: [nervosa] Mamãe chegou [apressada] e disse a Bruno que parasse de brincar e fosse jantar [imediatamente]. p. o narrador dá sua versão do conteúdo citado. que. a transformação do dd em dI requer que se considerem os valores semânticos do verbo introdutor. predominantes nas narrativas escolares. permite que se reflita sobre as atividades de linguagem e de reflexão e operação sobre a linguagem propostas nos documentos oficiais destinados a orientar a prática docente. pare de brincar e venha jantar! “Como vimos na análise anterior.Bruno. além dos verbos introdutores. como observamos nas poslIng II – 107 LIngüístIca II . de que trata Bakhtin (1997). Outros aspectos concernentes à característica analítica do DI. para que a característica analítica do dI conserve e transmita o sentido da enunciação citada. “comentadores”. o emprego de “dizer” e equivalentes. Nessa perspectiva.

podemos entender que a heterogeneidade constitutiva da linguagem revela-se por meio da manifestação de diferentes “vozes”. são freqüentes também situações em que o verbo introdutor é dispensado ou ocorre apenas na fala inicial. entre aspas. Questões relativas ao dialogismo bakhtiniano e aos gêneros do lIng II – 108 . foram verificadas no conjunto de narrativas escolares coletadas ocorrências regulares de dizer. pode conduzir a pressuposições como: “Bruno deve obediência à mãe”. porém subordinando-as à sua enunciação. que aparentemente “substituem” os demais verbos introdutores. “se Bruno não for jantar. o narrador destaca certas expressões de E2. de tal forma que seja necessário refletir sobre o papel da instituição escolar na formação de seus alunos e no tratamento dado às atividades de língua e de linguagem. a mãe ficará nervosa e poderá castigá-lo”. ressaltamos a importância que tem a escola na vida dos sujeitos. mas tratadas em sua essência dialógica e heterogênea e de acordo com suas funções sociais. as aspas “constituem antes de mais nada um sinal construído para ser decifrado por um destinatário” (maInguEnEau. normalmente. na variante analisadora de expressão.. falar e responder. 1993. por ser imperativa e decisiva. valores e experiências diversas. as quais são colocadas em discurso por meio de recursos expressivos próprios de cada gênero de texto.. os indivíduos interagem pela linguagem e assim se constituem como seres sociais e históricos. detêm hábitos. 19). como em: Mamãe “sugeriu” a Bruno que parasse de brincar e fosse jantar imediatamente. Para finalizar.LIngüístIca II atIVIdadE 11 sibilidades de reformulação em DI mencionadas acima (BORGESGUTIERRE. nessa possibilidade de reformulação em dI. tais expressões vêm. Borges-gutierre (2005) acrescenta que apesar da relevância dos verbos dicendi no discurso relatado bem como as várias possibilidades de uso desse recurso expressivo. tais atividades não devem ser conduzidas sob formas de reprodução de modelos. como gêneros de discurso. a partir das análises apresentadas acima. 91). “a alimentação no horário adequado é mais importante que a brincadeira”. Essa diversidade revela-se não só pela postura que os sujeitos assumem em relação à vida como também pela maneira como se manifestam na/pela linguagem. entre outros. “sugeriu” é interpretado em face da situação de produção do discurso. em que a fala da mãe. p. p. 2005. utilizadas para marcar a alteridade e estabelecer limites entre E1 e E2.

ed. 49. (V.unesp. Cadernos de estudos lingüísticos. j. . n. 1990. BaKHtIn. Marxismo e filosofia da linguagem. 2005.1. pdf>. 8. fIorIn. 1993. Alfa Revista de Lingüística. maInguEnEau. Novas tendências em análise do discurso. p. v. d. Teoria semiótica do texto. P. michel Lahud et al. BorgEs-gutIErrE. Voloshinov). m. trad. Campinas: Pontes/ unICamP. j. Heterogeneidade(s) enunciativa(s). 25-45. ed. são Paulo: Hucitec. são Paulo: martins fontes. 2000. são Paulo: ática. disponível em versão impressa indicada nas referências bibliográficas e também on line. Campinas. 1996. anOtaçõES lIng II – 109 . Barros. ed.atIVIdadE 11 discurso serão retomadas e ampliadas na próxima unidade. 19.alfa. L. outros aspectos de análise de produções escolares podem ser encontradas no artigo de Borges-gutierre supramencionado. m. 2. pelo endereço <http://www. LIngüístIca II rEfErÊnCIas autHIEr-rEVuZ.br/download/v49/v49-1/cap1.ibilce. Estética da criação verbal. 1997. m. p. 7-29. de. 3. L. são Paulo: ática. As astúcias da enunciação. n. 1999. Heterogeneidade em narrativas escolares: sentidos que se constroem nas diferenças e nos desvios. d. unICamP. v.

LIngüístIca II atIVIdadE 11 anOtaçõES lIng II – 110 .

a ad francesa busca em Louis althusser. para os anglo-saxões. sarfatI. a ad francesa preconiza um quadro teórico que alia o lingüístico e o social. no ensaio Ideologia e aparelhos ideológicos do estado (1970). o que a distingue das outras áreas das ciências humanas com que dialoga (História. p. sociais etc. mas também como “formação ideológica. de forma que dois conceitos tornam-se nucleares: o conceito de ideologia e o conceito de discurso. próximo ao sentido da lingüística textual. como “formação lingüística a exigir de seus usuários uma competência específica”. os embates históricos. que se cristalizam nos discursos. o conceito de ideologia. tExto análise do Discurso o termo análise do discurso origina-se na tradução de discourse analysis proposta por Z. o estudo de trocas verbais orais ou escritas. tal aspecto. tais como: • • • o quadro das instituições em que o discurso é produzido. i. 202). a linguagem passa a ser estudada não só em relação ao seu sistema interno. no entanto. o espaço próprio que cada discurso configura para si mesmo no interior de um interdiscurso. que se manifesta através de uma competência sócio-ideológica” (Brandão. “a análise do discurso corresponde à análise conversacional. com sentido de estudo da dimensão transfrástica. 1995. não é suficiente para marcar sua especificidade no campo dos estudos da linguagem. s. Psicanálise etc). Como aponta maingueneau. Em linhas gerais. sob o risco de se fixar numa lingüística imanente.SíntESE paRa aUtO-aValIaçãO oBjEtIVos atIVIdadE 12 LIngüístIca II rever e fixar conceitos e fundamentos teóricos da análise do discurso de linha francesa.e. p. sociologia. incluindo-se os estudos de authier-revuz sobre heterogeneidade enunciativa. as quais delimitam fortemente a enunciação. Harris (1952).. é necessário considerar outras dimensões. 2006. cujo postulado é que todo discurso é fundamentalmente interativo” (PaVEau. filósofo marxista. a abordagem da análise do discurso (ad) desenvolvida neste capítulo tem bases no que se denomina Escola francesa e estuda as produções verbais no interior de suas condições sociais de produção. althusser afirma lIng II – 111 . dessa forma. 18). a ad apóia-se em conceitos e métodos da Lingüística.

É compatível com a noção de discurso marcado pela heterogeneidade – o sujeito é essencialmente heterogêneo. também chamada aad – análise automática do discurso – 1969-1975) tem como objeto discursos mais “estabilizados” e pouco polêmicos. a política. ‘a concepção de sujeito é definida de forma um pouco menos estruturalista’”.) e de seus aparelhos Ideológicos – aIE (instituições como a família. as formações discursivas. a fim de manter sua dominação. a noção de sujeito. “a noção de fd representa na ad um lugar central de articulação entre língua e discurso”. “em uma formação ideológica específica e levando em conta uma relação de classe. por exemplo. nessa terceira fase. o papel do Estado se faz por meio de seus aparelhos repressores – arE (o governo. “o sujeito passa a ser concebido como aquele que desempenha diferentes papéis de acordo com as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo” (mussaLIm. os tribunais. É a relação interdiscursiva que “estrutura a identidade” das fds em questão. a segunda época (ad2. a administração. p. É na terceira época da ad (ad3 – a partir de 1978) que se dá a “desconstrução” da maquinaria discursiva. a primeira época da análise do discurso (ad1. p. Concebida por foucault (1969/2000) e elaborada por Pêcheux. as noções de sujeito e de discurso caminham para a heterogeneidade. ideológicas e políticas de exploração. o sujeito também não o é”. 133). produzidos em condições de produção menos homogêneas. 38). p. a cultura. Considera-se que uma formação discursiva é heterogênea. atravessada por outras formações discursivas. 1995. que traz para o campo de estudos do discurso o conceito de heterogeneidade discursiva. 134). lIng II – 112 . 1995). 2001. o Estado intervém pela repressão ou pela ideologia e tenta forçar a classe dominada a se submeter às relações e condições de exploração (Brandão. clivado. o sindicato. a noção de dispersão do sujeito é aqui retomada. a informação). na ad3. a polícia. como um debate político. entendida no interior da noção de formação discursiva de foucault. o direito. determinam ‘o que pode e deve ser dito’ a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada” (Brandão. formação discursiva (fd) e formação ideológica (fI) são dois conceitos tradicionais na ad. 2001. entre 1975 e 1978) tem como objeto de análise discursos menos “estabilizados”. na medida em que se apóiem na mesma formação discursiva”. no sentido de que “se uma fd não é formada por elementos ligados entre si por um princípio de unidade. Exército. refuta a idéia de unidade. p. Identificam-se três fases na ad francesa. as prisões etc. a ad francesa traz de michel foucault o conceito de discurso. a religião. bastante atual da análise do discurso. 135) chama de discurso “um conjunto de enunciados. quando se analisa a articulação da ideologia com o discurso. dividido (mussaLIm. foucault (2000. a noção de sujeito “sofre um deslocamento que inaugura uma nova vertente.LIngüístIca II atIVIdadE 12 que a classe dominante cria mecanismos de perpetuação ou de reprodução das condições materiais. a nova vertente da ad (ou ad3) desenvolve-se em torno dos trabalhos de jacqueline authier-revuz.

authier-revuz recorre ao dialogismo tratado nas reflexões do Círculo de Bakhtin. simples ou complexas. no primeiro caso. no segundo caso. tem-se o princípio que fundamenta a própria natureza da linguagem – ser constitutivamente heterogênea. explícitas ou implícitas. Para explicar a articulação da heterogeneidade mostrada no discurso com a heterogeneidade constitutiva do discurso. anOtaçõES lIng II – 113 . a heterogeneidade mostrada na superfície discursiva ancora-se nesse princípio. consideram-se as formas lingüisticamente marcadas na materialidade do texto.atIVIdadE 12 Heterogeneidade enunciativa LIngüístIca II authier-revuz trata da heterogeneidade constitutiva do discurso e da heterogeneidade mostrada no discurso como formas de manifestação da presença do “outro”.

LIngüístIca II atIVIdadE 12 anOtaçõES lIng II – 114 .

nos primeiros anos da revolução. na estabilidade e na transformação. princípio que rege a vida e a linguagem. pensador russo. DIalOgISMO E gÊnEROS DO DISCURSO atIVIdadE 13 LIngüístIca II oBjEtIVos ampliar estudos dos fundamentos bakhtinianos no tratamento da linguagem e desenvolver reflexões sobre o dialogismo bakhtiniano e os gêneros do discurso. Essa energia pode ser entendida “como um campo de força criado pelo embate ininterrupto entre forças centrífugas. iguais”. as idéias fundamentais de Bakhtin foram forjadas no contexto soviético. viveu entre 1895 e 1975. na aproximação e no distanciamento. em sua manifestação plena e concreta. “as forças centrífugas compelem ao movimento. é o meio lIng II – 115 . as forças centrípetas exigem estase. e centrípetas. abominam a história e desejam a quieta mesmice da morte” (CLarK. 1998. e constitui. p. ocupa lugar de destaque nas reflexões de Bakhtin. que está constantemente no processo de ser produzida pelas próprias forças por ela impulsionadas”. diferenciadas umas das outras. HoLQuIst. tExto Mikhail bakhtin e o dialogismo mikhail Bakhtin. uma enorme energia. que se empenham em manter as coisas juntas. ao longo da vida. elas aspiram à mudança e à vida nova. a orientação de um “eu” a um “outro”. apartadas. unificada. o diálogo. Clark e Holquist (1998. e profundamente alteradas ao longo de sua vida. de forma a se constituírem na identidade e na diferença. separadas. 35). 35) postulam haver no âmago da obra de Bakhtin “um reconhecimento da existência como uma atividade incessante. entre outras áreas que tomam como referência a linguagem. resistem ao devir. Bakhtin tentou compreender como o diálogo entre essas forças manifestava-se em outras espécies de diálogo. ao devir e à história. suas reflexões e seu nome têm sido invocados em diferentes vertentes de estudos lingüísticos e literários.baKHtIn. p. após o colapso do sistema soviético. a categoria primordial por meio da qual o pensador russo trata as relações sociais e culturais. que se empenham em manter as coisas variadas. o dialogismo – “ciência” das relações – celebra a alteridade. por isso. o exercício da linguagem. temse buscado construir uma imagem mais verdadeira da obra bakhtiniana e ao mesmo tempo avaliá-la no contexto de suas origens. sobretudo no que diz respeito à linguagem.

ou seja. no processo de produção e recepção do texto. constitui-se na interação com outros sujeitos. nesta abordagem. de mundo e de vida. ou seja. nas reflexões do Círculo de Bakhtin. constitui um “tecido de múltiplas vozes”. o contexto social. histórico e cultural. um outro diálogo se estabelece – o lIng II – 116 . o discurso constrói-se no contexto das relações de alteridade. linguagem e diálogo Como mencionamos acima. e o diálogo entre discursos. na interlocução. o dialogismo é constitutivo da linguagem e condição de sentido do discurso: • • • na interação verbal entre enunciador e enunciatário (intersubjetividade). a situação de produção. 39): a interação face a face retratada entre Hagar e Helga ilustra o sentido restrito de diálogo. o tempo e o espaço em que acontece. o horizonte do interlocutor. o princípio dialógico permeia a concepção bakhtiniana de linguagem. nesta segunda acepção de dialogismo. social e histórico. na medida em que interioriza outros textos e discursos. a enunciação pressupõe aspectos “externos” e “internos” do texto. na relação eu/tu – o “outro” é importante na constituição do sentido. a voz do locutor. Barros (1997) identifica nos escritos de Bakhtin duas noções de dialogismo: o diálogo entre interlocutores. toda palavra traz em si a perspectiva de outra voz. o sujeito é originalmente social. Vejamos uma possibilidade de análise.LIngüístIca II atIVIdadE 13 pelo qual o discurso se materializa e se revela na relação do sujeito com o “outro”. em que o texto adquire estatuto pleno de objeto discursivo. princípio fundador da linguagem e cujo sentido se constrói no processo de interação verbal. na intertextualidade/interdiscursividade (diálogo entre textos/discursos). p. nas relações entre sujeitos no momento em que produzem seus enunciados. o enunciado é concebido como produto de múltiplos discursos. a partir da leitura da tira de dik Browne (1996.

representada por Helga. no sentido de que a fala de Helga traduz um discurso de oposição. justificará a “existência” do próprio discurso mediante as relações que nele/por ele se estabelecem. ainda que de maneira irônica. Há um “eu” produtor de linguagem que orienta o enunciado a um “outro” pressuposto na enunciação. alem disso. e propõe um outro sentido. um dos recursos de linguagem mencionados pela autora é a ironia. reconhecendo-os como constitutivos. Os gêneros do discurso Para introduzir as reflexões do Círculo de Bakhtin sobre os gêneros do discurso. 2000). a presença do interlocutor. na medida em que quebra a continuidade de uma proposição – “o grande homem” – tanto pela inversão em “o homem grande” quanto pelo efeito sarcástico da fala de Helga no último balão. em geral. os quais são. no contexto da tira. transcrevemos excertos do artigo “a natureza social e heterogênea dos gêneros discursivos” (gutIErrE. porém marcados por recursos expressivos do texto. Por meio desse diálogo intertextual e interdiscursivo. tal opinião manifesta-se não só sobre o sentido do dito popular como também sobre a falta de percepção e sensibilidade masculina revelada na fala de Hagar – “E como é que estou caminhando atrás de você?”. um gênero que se caracteriza também pela veiculação de valores. o interlocutor está na perspectiva do locutor e é ele (o interlocutor) quem. um diálogo com o discurso da sabedoria popular – “Por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher”. o que consolida uma relação intersubjetiva (entre sujeitos enunciadores). Contudo. em descontinuidade ao sentido anterior. de inversão de valores que coloca em questão a imagem masculina. revela a opinião feminina. de certa forma. Consolida-se a imagem masculina nos efeitos de sentido produzidos na resposta de Helga – “Adivinha!”. discussão que ampliamos adiante. Em discussões anteriores sobre heterogeneidade enunciativa. interpelando o discurso e nele interferindo direta ou indiretamente. questionados. as vozes sociais e históricas que se manifestam no texto reiteram a característica dialógica e heterogênea da linguagem e dos gêneros de discurso. ao mesmo tempo. chamamos a atenção do leitor para a complexidade lIng II – 117 . no que concerne aos gêneros. 2005). uma forma de diálogo presente na tira. orientará o discurso e sua constituição (BaKHtIn. a fala de Helga – “Por trás de todo homem grande há sempre uma mulher” – estabelece. vimos que authier-revuz busca interpretar na materialidade da linguagem como os diálogos se manifestam.atIVIdadE 13 LIngüístIca II diálogo entre enunciador e enunciatário como papéis representados e colocados em discurso. representada por Hagar e. constrói-se o percurso de humor da tira. identificamos também o diálogo entre o discurso da sabedoria popular que manifesta no provérbio mencionado – entendido como um gênero de linguagem – e o discurso de humor e crítica dos cartoons.

por exemplo nos textos artísticos. Através da palavra. Opõe-se.. Bakhtin (2000) considera na estabilidade dos gêneros o “todo” enunciativo. 95). uma vez que a palavra se orienta a um interlocutor. Além desse estilo geral há o estilo individual evidente. presente nas formulações de mikhail Bakhtin e de seu Círculo: O estreito vínculo existente entre a língua e a vida. p. “normativos”. Bakhtin situa o fenômeno lingüístico nas relações sociais e considera a linguagem em sua historicidade e heterogeneidade constitutivas. 2000). no artigo supramencionado.) em relação à coletividade” (BAKHTIN/VOLOSHINOV. 1929/1997. Ao tomar a interação verbal como a realidade fundamental da língua.LIngüístIca II atIVIdadE 13 do assunto e do pensamento bakhtiniano. a que a língua tenha meramente a função de expressar o universo individual do locutor. no tema e no estilo. defino-me em relação ao outro. assim. p. gutierre (2005) inicia a discussão com destaque à característica representativa da linguagem e dos gêneros. o diálogo e a representatividade da linguagem são formulações que se encontram na essência dos estudos inspirados nas reflexões bakhtinianas sobre gêneros (BAKHTIN. ou seja. de certa forma. de forma que o conteúdo deste capítulo tenha como objetivo nortear caminhos de leitura e de busca de outras fontes bibliográficas. embora nem todos os gêneros sejam propícios ao estilo individual. a relativa estabilidade dos gêneros do discurso manifesta-se na composição (nos aspectos expressivos presentes na materialidade textual). ressaltam-se as finalidades didáticas do presente estudo. em todos os seus itens. Para ele. há um estilo próprio do gênero que o caracteriza como pertencente a uma ou outra esfera social.113). os gêneros do discurso são definidos como modos relativamente estáveis de utilizar a linguagem – “modos de enunciar” – utilizados nas mais diversas esferas da atividade humana. “Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. (. a palavra é ideológica por natureza – “a palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial” (BAKHTIN/VOLOSHINOV. principalmente do próprio autor. cujos constituintes são. o tratamento aos gêneros de discursos não se restringe a que a linguagem seja lIng II – 118 . o que o leva a refletir sobre a língua em seu estreito vínculo com a vida e não como um sistema de formas abstratas. Assim. 1929/1997. é o produto da interação.. ao conceito de gênero do discurso em Bakhtin (2000) articula-se o conceito de enunciado concreto – a produção efetiva da linguagem nos atos de interação.

tal como exemplifica a autora: Ao confrontarmos dois gêneros distintos – os textos produzidos por um mesmo grupo de sujeitos em diferentes contextos – por exemplo. demonstram conhecimento do que essas práticas discursivas distintas representam nas relações sociais: em relação ao gênero “redação escolar”. à necessidade de atendimento aos aspectos “normativos” e relativamente estáveis de tais gêneros vinculam-se valores em que estão presentes. nos contratos de regulação das relações sociais mencionados por gutierre (2005). situadas no tempo e no espaço. portanto. sofrem as coerções que a prática discursiva implica e. os sujeitos claramente orientam seus textos a um possível interlocutor – a instituição escolar representada pelo professor – e sabem o que esse interlocutor espera. Em relação ao gênero “bate-papo virtual”. a aceitação e a ascensão do sujeito nas esferas sociais em que esses “modos de enunciar” circulam. Isso significa que a expressão lingüística tem um propósito e não se desvincula da representatividade social. dos contratos que são estabelecidos na/pela própria interação e entre os sujeitos. incluem-se também os usos da linguagem. nas diferentes situações de interação. própria dos gêneros. na sala de aula e nas salas de bate-papo virtual (via internet). quando fazem ou querem fazer parte de um dado grupo em dado momento. este. Trata-se. um gênero que vem se firmando atualmente e que acompanha as transformações sociais e tecnológicas – veremos que. é na materialidade lingüística e através dela que se manifestam os valores socioculturais adquiridos e em circulação nas mais diversas esferas da atividade humana. sobretudo. pronta para uso. Nesse sentido. de forma a se perceber que diferentes situações de interlocução e diferentes contextos pressupõem a utilização de diferentes gêneros de discurso.atIVIdadE 13 concebida como forma acabada. quando indagados. As relações sociais. Ao mesmo tempo em que participam de um “jogo” de interesses sociais. 2005). tem fundamental importância a presença do outro a quem o enunciado se dirige. aquele que está na perspectiva do enunciador como um participante dos contratos que regulam as relações sociais (GUTIERRE. A coerção vincula-se tanto à avaliação e ao “jogo de notas” quanto aos valores atribuídos à atividade escrita na inserção social. a coerção se instala lIng II – 119 LIngüístIca II . revelam as mudanças que ocorrem na linguagem e por meio dela. Ao contrário.

por isso.. disponível em: <http://www.] o meio social extra-artístico afetando de fora a arte. Lê discours dans le vie et le discours dans la poésie.. 1981. no que concerne às categorias textuais. uma maneira peculiar de utilizar a língua portuguesa: o internetês. remontam aos estudos clássicos. t. o que nos leva a refletir sobre um outro aspecto das questões bakhtinianas: a completude do enunciado se faz pela alternância de sujeitos. V. (port. entre as diversas formas de manifestação da linguagem. o caráter imanentemente social da arte é mais tarde discutido por Bakhtin (Voloshinov) em “Discurso na Vida e Discurso na Arte1”: “[. encontra resposta direta e intrínseca dentro dela. a. BaKHtIn. a subversão do gênero pode ter como conseqüência a exclusão do sujeito. no que se refere à interlocução. ora de outros” (A Poética Clássica). Para compreender o conceito de gênero a partir da Poética de aristóteles.. VoLosHInoV. mas de uma formação social. p.) de C. [. Os estudos aristotélicos sugerem que imitamos aquilo que temos prazer em contemplar e. o estético. Contribuición à une poétique sociologique.. n.. o que 1. le principle dialogique.com/ imagens/03-textos/autores/Bakhtin_discurso_na_vida. a mesma orientação a um “destinatário” acontece na sala de aula e nos chats. seja na linguagem das salas de bate-papo virtual..pdf >. outras ora de uns. a imitação artística é interior. Paris: seuil. trad. Há uma tipologia herdada desses estudos e que perdura na teoria literária. e por que não dizer.] Aristóteles menciona que as artes se utilizam de diferentes meios de imitação e que diferem entre si por usarem “umas de todos a um tempo.LIngüístIca II atIVIdadE 13 na medida em que se define a aceitação do sujeito no grupo. Em outro contexto. Seja na escrita escolar. mediante o cumprimento de um contrato estabelecido nas trocas lingüísticas entre os membros desse grupo – o uso de um código pré-estabelecido. Não se trata de um elemento estranho afetando outro. faraco e C. é apenas uma variedade do social”. as representações do real podem apresentar as coisas menos ou mais belas do que realmente são. mikhail Bakhtine. tezza (mimeo). ou como poderiam ou deveriam ser. O estudo dos gêneros no tempo as preocupações em “organizar” a linguagem para analisar a essência de seus fenômenos são antigas e. na medida em que se constatam estreitas relações entre a arte e a vida. tal como o jurídico ou o cognitivo. é necessário compreender o conceito de mimesis. lIng II – 120 .linguagensdesenhadas. In: todoroV. m. 181216. a atividade humana e a vida em sociedade. embora a “atitude responsiva” (ativa ou passiva) do interlocutor seja particularmente diferente em ambos os casos.

inicialmente preocupações da poética e da retórica. Bakhtin (2000) chama a atenção para a necessidade de estudar as formas de linguagem entendendo-as tão diversas quanto são as esferas sociais. ao argumentar que os gêneros refletem e modelam a experiência social dos indivíduos. ao fazer objeções a algumas premissas formalistas. 2000. fazem parte da cultura. é óbvio. fraseológicos e gramaticais – mas também. pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais. entre outras áreas do saber que se preocupam com a linguagem (GUTIERRE. coerções e modelos. Bakhtin define os gêneros como “tipos relativamente estáveis de enunciados”. a teoria dos gêneros no Círculo de Bakhtin LIngüístIca II morson e Emerson (1990) postulam que a teoria dos gêneros. tanto que procurou retomá-los e estendê-los em seus estudos posteriores. por sua construção composicional” (BaKHtIn. [. com funções e finalidades ideologicamente determinadas. não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal. mas também suscetível a transformações. situada em dado lugar e em dado momento. p. de acordo com morson e Emerson (1990). introduzem-se em nossa experiência e em nossa consciência conjuntamente e sem que sua estreita correlação seja rompida. judiciário e epidítico.. 279). assim como a língua. por palavras isoladas) (BaKHtIn. elaborados em cada esfera de utilização da língua na atividade humana. e que retratam “as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas. mais adiante (p. tal como é discutida no Círculo. constituem atualmente tema para discussões também no campo da lingüística. os gêneros. ou seja. ou seja.atIVIdadE 13 consagrou a distinção entre gêneros literários. apreendidos pelos sujeitos ao mesmo tempo e similarmente à aquisição da língua materna. o autor postula serem os enunciados “constituídos de uma forma padrão e relativamente estável de estruturação de um todo”. de acordo com as circunstâncias em que são pronunciados: deliberativo. a retórica antiga também legou as suas formas de reconhecer e classificar os discursos. argumenta que o lIng II – 121 . 2005). Com esta breve referência aos estudos aristotélicos da linguagem.. 301). Bakhtin parece ter sido influenciado pelos argumentos de medvedev. postura semelhante é encontrada em medvedev. fundamentada e regida por normas. Além da literatura. constatamos que as discussões sobre gêneros não se fixaram apenas no campo da teoria literária. p.] Esses “meios” ou formas de discursos. menos ainda. assim como qualquer outra instituição. aprender a falar é aprender a estruturar enunciados (porque falamos por enunciados e não por orações isoladas e. as formas da língua e as formas típicas de enunciados. no capítulo destinado aos “gêneros do discurso”. os gêneros do discurso. e sobretudo. 301). 2000. isto é. teria início não pelo próprio Bakhtin e sim com as reflexões de medvedev. o estudo dos gêneros pressupõe uma análise da língua como instituição social.

utilizam estrutura e vocabulário que caracterizam um estilo geral de linguagem construído na situação de interlocução em tempo real. aquelas consideradas hierarquicamente mais ou menos complexas. em que não há planejamento prévio da escrita (“Vamos teclar?”) 2. representam a situação sociocultural imediata. A invenção do cotidiano: 1. Nesse processo de interação vem se consolidando um novo gênero discursivo. artes de fazer. a linguagem. já mencionados neste artigo. p. “não aparecem mais só como quadros normativos. Michel de Certeau2 diz serem os provérbios ou outros discursos “utensílios marcados por usos”. rio de janeiro: Vozes. em cuja composição são encontrados recursos próprios e característicos do tipo de enunciado que os usuários elaboram e em que deixam entrever as condições de sua realização. ou seja. os modelos são criados e reforçados pelo uso na medida em que servem aos objetivos e necessidades da interação verbal.LIngüístIca II atIVIdadE 13 trabalho com a linguagem não deveria ser dividido em elementos lingüísticos. mas governam nossa fala diária. os gêneros não pertencem exclusivamente à literatura. Oscilam entre a fala e a escritura. em frases. na medida em que a eles se opõem. Evidências da utilização e do direcionamento dos recursos da língua podem ser observadas na linguagem veiculada atualmente nos bate-papos virtuais. nesse sentido. De fato. por isso. orações e palavras que se combinam para formar um todo unificado por uma idéia comum ou um tema. indicadores da historicidade social e que. mas um modo de conceber o mundo. entre estas. em suas mais diversas formas de manifestação. normativa”. 1994. na seleção dos recursos lingüísticos para a constituição do enunciado embutem-se valores e funções sociais inerentes ao processo de interação e que eliminam do enunciado a condição de “estrutura formal. michel de. os modos de utilizar a linguagem constituem-se como sistemas de representação da história e da sociedade. nas diversas esferas da atividade humana há formas de enunciados específicas para cada finalidade e. e que. 82. ao interagir pela linguagem. CErtEau. Ao se referir à enunciação proverbial e à cultura popular. mas como instrumentos manipuláveis por usuários”. bem como a esfera de atividade humana em que se concretizam. modela-se nas situações da vida cotidiana e assume características próprias e bem marcadas de cada uma dessas situações. fazem parte dos costumes. lIng II – 122 . o sujeito direciona o uso da língua de forma a atender suas reais e momentâneas necessidades de “intercâmbio” ou de “contrato” social. subvertem outros gêneros culturalmente valorizados pela modalidade lingüística culta que apresentam. que o gênero não é uma estrutura hierarquizada pronta para ser utilizada.

um dinamismo próprio da linguagem e da sociedade que se manifesta nos gêneros e reitera sua representatividade. Para Bakhtin. p. desde que seja aceito pelo interlocutor (GUTIERRE. portanto. diz que “o tempo. 1929/1995). que ainda não tomaram forma. 293) observam que Bakhtin concebe o gênero como “um raio-x de uma visão de mundo específica. Um estilo individual caracterizado pelo uso da norma padrão também é possível. [.] a palavra penetra literalmente em todas as relações entre indivíduos. nas relações de colaboração. não se refere à palavra como unidade do léxico. Em vários aspectos das reflexões bakhtinianas percebem-se as preocupações do autor não só em destacar a presença do outro – o “auditório” a que o eu se dirige . mesmo daquelas que apenas despontam. mas a palavra em uso. 309-310). que ainda lIng II – 123 LIngüístIca II . Clark e Holquist (1998. Bakhtin reflete sobre a natureza ideológica da palavra. que na perspectiva bakhtiniana vem designar a relação de interdependência entre tempo e espaço. constituem-se nos diálogos entre estabilidade e instabilidade. ao se inscrever no espaço. 2005). como também resgata o modo de ver o mundo de uma época e um autor. o signo ideológico. de forma que se possa entender a existência cultural do gênero e as forças sócio-históricas que interferem nessa existência. o gênero se define pelo seu cronotopo. Há. uma cristalização dos conceitos peculiares a um dado tempo e a um dado estrato social em uma sociedade determinada”. em relação ao cronotopo bakhtiniano.. como também o tempo e o espaço de produção. o cronotopo possibilita a leitura do tempo no próprio discurso”. As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios. pelo gesto ou pela resposta verbal dos outros participantes da enunciação (BaKHtIn/VoLoCHInoV. os “modos de enunciar” acompanham as transformações sociais e nelas se renovam. tornase não somente outra dimensão deste (o espaço). É portanto claro que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais. na identidade e na diferença.atIVIdadE 13 e em que se manifestam os registros da fala. nos encontros fortuitos da vida cotidiana. dicionarizada. que se insere diretamente no contexto verbalizado da vida corrente e nele se amplia pela ação.. Irene machado (1995.na elaboração e “acabamento” do enunciado. mas de base ideológica. a ideologia em bakhtin Em diferentes passagens de Marxismo e filosofia da linguagem. nas relações de caráter político etc. p. a situação e o auditório obrigam o discurso interior a se realizar em uma expressão exterior definida.

de acordo com miotello (2005. situa-se. 2005. no pensamento bakhtiniano.LIngüístIca II atIVIdadE 13 não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados. os intelectuais do Círculo “destroem e reconstroem parte dessa concepção. ou que esteja apenas na consciência individual do homem.] ou outras formas sígnicas”.. na proximidade social com as condições de produção e reprodução da vida”. questões as quais abordamos anteriormente. depreende-se dessa passagem que. Em marx e Engels. que diz: “Por ideologia entendemos todo o conjunto dos reflexos e das interpretações da realidade social e natural que tem lugar no cérebro do homem e se expressa por meio de palavras [. o mundo é dominado e se mantém como é. a ideologia do cotidiano é entendida como a que surge nos encontros casuais e fortuitos. pelo exercício do poder público.168). 1997.. p. ao mesmo tempo.. como estrutura ou conteúdo relativamente estável”. a única definição direta e explícita de ideologia do Círculo de Bakhtin é encontrada no texto “Que é a linguagem” (1930). mas como expressão de uma tomada de posição determinada. tal “ocultamento” é promovido pelas forças dominantes e. 2005. de um lado. a linguagem é o veículo da ideologia. é também percebida nas concepções de linguagem e de gênero de discurso no contexto das reflexões de Bakhtin e de seu Círculo. em relação recíproca. Bakhtin inicia suas reflexões no livro Marxismo e filosofia da linguagem. já que a linguagem é.. mais efêmeras das mudanças sociais (BAKHTIN/VOLOSHINOV. 169). a partir da linguagem/ideologia. p. Bakhtin e seu Círculo não tratam a ideologia como algo pronto e já dado. p. 169). de outro lado está a ideologia do cotidiano. a ideologia oficial é entendida como “dominante” e procura instituir uma concepção única de produção de mundo. trata-se a ideologia como “falsa consciência”. reiteramos que em seu pensamento inexistem idéias e discursos neutros. Essa maneira dialética de tratar a ideologia.] A palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas. por meio de confrontos entre a estabilidade da estrutura e a instabilidade do acontecimento. do intelectual Voloshinov. e ambas formando o contexto ideológico completo e único. 41). Por não concordarem inteiramente com o “ocultamento” da realidade social e com a não-percepção de contradições e de existência de classes sociais. colocando ao lado da ideologia oficial a ideologia do cotidiano”. sem perder de vista o processo global de produção e reprodução social” (mIotELLo. no marxismo oficial. a ideologia surge no momento em que a divisão social do trabalho separa trabalho manual e trabalho intelectual (mIotELLo. “como acontecimento relativamente instável. assinado por lIng II – 124 . p. oculta-se a realidade social de forma que não se percebam as contradições e a existência de divisão de classes. “no lugar do nascedouro dos sistemas de referência. [. “a ideologia oficial. retrato e reflexo da sociedade.

apenas de buscar “inovações” nos campos de estudo. como as discussões sobre “casamento de pessoas do mesmo sexo”. bem como sua orientação social. e isso resulta das ações dos indivíduos em contato com outros indivíduos. como postula Bakhtin. de forma que se manifestem sobre ela as impressões dos sujeitos. situando o sujeito no tempo e no espaço das relações sociais e. ao mesmo tempo se transformam e conservam aspectos de sua origem. ainda. no entanto. mas os movimentos sociais e a constituição de grupos exigem que se olhe para diferentes tipos de casamento. a relação entre linguagem e ideologia manifesta-se. pois. sobretudo. a ideologia oficial constitui-se como sistema de referência empossado pela classe dominante e se impõe como valor social na relação com a ideologia do cotidiano. não se trata. a realidade é. de se expressar e de agir dos indivíduos revelam sua postura frente aos valores dos grupos que integram. muito há. tanto nos materiais destinados à formação docente quanto nos livros didáticos. Por exemplo. sobretudo. de adotar uma postura diferente nos modos de conceber e trabalhar a linguagem. citam-se os diferentes sentidos para a palavra “casamento”. Dialogismo. considera que o ponto de partida para a constituição da ideologia é a vida cotidiana. de acordo com miotello (2005). ao representar a realidade por meio de um universo de signos. gênero e ensino o pensamento bakhtiniano sobre a linguagem e os gêneros do discurso vem se firmando no contexto de ensino. como sujeito histórico. a ideologia manifesta-se pelos gêneros de linguagem (gêneros do discurso) e os gêneros.atIVIdadE 13 LIngüístIca II Voloshinov. mas. o sujeito da linguagem integra um “ponto de vista” ao conjunto de signos que utiliza. a ideologia oficial busca produzir um sentido relativamente estável (união entre duas pessoas de sexo diferente). a ser discutido sobre a prática de linguagem e como ela deve ser entendida e trabalhada. no entanto. a ressignificação desses mesmos valores e pontos de vista. a articulação do conceito de gênero discursivo no meio escolar (ainda que superficial devido à maneira como os fundamentos são apresentados nos materiais de orientação pedagógica) é relevante para que a atividade de produção escrita não lIng II – 125 . “a durabilidade da ideologia oficial não é maior que o tempo de duração da ideologia do cotidiano”. Como vimos no exemplo dado. assim. na interação. no campo do sentido e do significado. as forças de equilíbrio possibilitam preservar determinados valores e pontos de vista. os modos de pensar. com freqüência. representada a partir de um lugar valorativo. mas as forças de mudança exigem. nesse sentido. então. todo signo é signo ideológico e vai integrando a consciência verbal dos grupos sociais à medida que se constituem. portanto. como postula Bakhtin. os movimentos histórico-sociais encarregam-se de destruir cotidianamente a ideologia oficial. já que a representação do mundo é expressa por palavras ou outras formas de manifestação.

histórico e biográfico e o espaço é sempre social (morson. uma observação rápida da maneira como utilizamos a linguagem no dia-a-dia é suficiente para que identifiquemos diferentes formas de texto para diferentes situações e finalidades. no interior de um jornal impresso. atribuirá às atividades de leitura e produção textual finalidades muito mais significativas do que o simples ato de avaliar e ser avaliado. é possível pensar na atividade de linguagem no contexto escolar como atividade de interlocução e de interação. vimos que a atividade de linguagem articula as categorias de sujeito. 2000. sem considerar que os gêneros não só têm funções sociais como também se constituem no meio. É necessário agregar ao texto. Concebido como “objeto” de interação. geralmente. que se situa no tempo e no espaço. a reflexão bakhtiniana situa a constituição e definição do gênero nas relações espaço-temporais – relações cronotópicas – em que o tempo é. organiza-se histórica e socialmente. portanto. Considerado objeto e produto da criação ideológica. como leitores reconhecemos características específicas do texto na organização da linguagem. Entendemos. com base em restrições. representam e retratam historicamente a sociedade. tratar a linguagem com vistas ao diálogo e na perspectiva de gêneros de discurso exige muito mais que um exercício mecânico de escrita. de concebê-lo como lIng II – 126 . divertir. nesse sentido. certamente. Essas categorias podem ser entendidas no estudo dos gêneros (mesmo correndo o risco da simplificação e do didatismo) como elementos essenciais da linguagem – o sujeito. identificamos diferentes modos de organizar a linguagem (os gêneros de textos do discurso jornalístico) para que se cumpram diferentes funções – informar. para atividades e funções específicas. tempo e espaço. EmErson. Por outro lado. outro aspecto relevante é reconhecer a necessidade de percorrer os caminhos de sentido dos textos. “apenas o enunciado comporta uma relação imediata com a realidade e com o sujeito”. p. que é histórico e social. anunciar – de acordo com os contratos estabelecidos entre a instituição jornalística e a sociedade. fora dessa relação o enunciado não tem realidade (a não ser como texto)” (BaKHtIn. 350 . permite que se conheça o ponto de vista do locutor em relação ao interlocutor e à realidade. tendo em vista que as funções sociais da linguagem também se manifestam por meio dos gêneros. Por meio dessas reflexões. que os gêneros de discurso ao mesmo tempo retratam e representam as esferas sociais em que circulam.LIngüístIca II atIVIdadE 13 se restrinja à organização interna de um dado tipo textual.351). por exemplo. o texto é a resposta dada ao(s) interlocutor(es) e. Para Bakhtin. Em estudos anteriores da enunciação. assim. opinar. assim como os sujeitos. Isto significaria limitar o estudo da diversidade textual a formas prototípicas de enunciados e suas características estritamente lingüísticas. além de seus aspectos composicionais e expressivos. outras características por meio das quais se revelam valores e ideologias. 1990). o texto. é um todo de sentido. ele se constitui não só pelas relações entre sujeito e objeto como também “por sua relação imediata com os outros enunciados dentro dos limites de uma esfera de comunicação. o que. não se trata. que integra o discurso jornalístico.

de modo a se constituir em diferentes linhas teóricas e métodos de análise. mas ter em vista os sentidos que veicula e os valores que adquire em seu contexto de circulação. os gêneros representam discursos e esferas sociais. faremos uma breve abordagem da teoria semiótica. Queremos. porém constitutivos de um mesmo objeto – a língua. no contexto da Lingüística. no estilo geral e nos temas. várias gramáticas priorizam as relações morfossintáticas e semânticas como elementos interdependentes tanto na constituição quanto na análise da sentença. tempo e espaço (dos estudos da enunciação) estão presentes nas reflexões de mikhail Bakhtin. agora leitores mais experientes. que morfologia.. certa estabilidade na composição. o que vemos como diferenças entre as tendências da Lingüística são as particularidades que cada modelo teórico desenvolve para tratar seu objeto de modo específico.atIVIdadE 13 “forma” – materialidade lingüística –. por exemplo. Para finalizar. sugerir que alunas e alunos. no entanto. no próximo e último capítulo deste semestre. posto que em sentido amplo atuam sobre um mesmo objeto. ao olhar para um texto na perspectiva do gênero reconhecemos nele os contratos sociais a que estão vinculados também os interesses do sujeito em fazer parte de um grupo. LIngüístIca II Estamos chegando ao final de mais uma etapa de estudos. ao situar a produção de linguagem no diálogo com a vida e a sociedade. no tratamento dos gêneros do discurso. vimos que os “modos relativamente estáveis de usar a linguagem” integram elementos expressivos. reflitam sobre fatores de identidade e de diferenças presentes nos diversos campos abordados. a refutação das regras pode significar a exclusão do sujeito. por isso. cuja preocupação é traçar o percurso de construção de sentidos do texto e entender como o texto diz aquilo que diz. traçamos uma trajetória de estudos da linguagem em que as linhas teóricas e os princípios de análise não se excluem.. e certamente podemos dizer que o tratamento dado à linguagem diversifica-se no tempo e no espaço. Como ocorre em qualquer esfera social. E sabemos que nos estudos atuais da estrutura e do funcionamento da língua. o que tende a ser associado a regras. assim. estilísticos e que as categorias de pessoa. temáticos. lIng II – 127 . sintaxe e semântica atuam em segmentos distintos. revelam. Constatamos.

g. 2. ed. stanfors: stanfors university Press. BaKHtIn. A poética clássica. 8.. tradução de m. (org. maCHado. Estética da criação verbal. m.). m. In: BraIt. são Paulo: Cultrix. m. BaKHtIn. Revista Estudos Lingüísticos XXXIV. B. 3. C. V. Mikhail Bakhtin. HoráCIo. Barros. ed. ed. EmErson. CLarK. são Paulo: Hucitec. Ideologia. B. B. dialogismo e construção do sentido. LongIno. 1998. anOtaçõES lIng II – 128 .). Vieira. de.gel. HoLQuIst. tradução de jaime Bruna. Mikhail Bakhtin: creation of a prosaics. disponível em: <www. d. V. são Paulo: Contexto. 235-240. são Paulo: martins fontes. f. P.. 2005. morson. VoLosHInoV. Lahud e Y. 1929/1997. mIotELLo. 2000. gutIErrE./ são Paulo: fapesp. K. m. In: BraIt. rio de janeiro: Imago. 2005.LIngüístIca II atIVIdadE 13 rEfErÊnCIas arIstótELEs. Bakhtin.br>.org. são Paulo: Perspectiva. a natureza social e heterogênea dos gêneros discursivos. 5. n. m. s. O romance e a voz.. 1992. 1995. L. p. Bakhtin: conceitos-chave.. ed. I. Contribuições de Bakhtin às teorias do discurso. Marxismo e filosofia da linguagem. 1990. (org.

o parecer verdadeiro. em termos semióticos. mas por vias do como. que tendem a se especializar em teorias do texto literário. portanto.. ao estalIng II – 129 . não o sentido verdadeiro.. a teoria semiótica propõe a descrição da significação em níveis – fundamental. recusando também a paráfrase. o simulacro. o desenvolvimento do formalismo russo e a teoria da significação proposta por algirdas julien greimas (PIEtrofortE. dizem Cortina e marchezan (2004. há uma instância do sentido que goza de um estatuto comum independentemente de sua manifestação em diferentes linguagens. mas como resultado de articulações que levam à totalidade do sentido. impressionista. portanto. o modo pelo qual o sentido se constitui. uma teoria da linguagem e não particularmente uma teoria lingüística (como em sua herança). não a fragmentação do sentido. p. para a semiótica. voltamos nossa atenção à semiótica de greimas. antes. a interpretação intuitiva. opondo-se. Busca explicitar o que um texto diz e como diz o que diz. tendo em vista a ênfase dada ao processo de significação. pelo menos.] busca-se o quê. por ser evidente ou intraduzível. atua em uma perspectiva que entende a significação não como algo já estabelecido.EStUDOS SEMIótICOS oBjEtIVo ??? atIVIdadE 14 LIngüístIca II tExto teoria semiótica: breve abordagem Pode-se dizer que há. o processo de textualização é descrito por semióticas específicas. isto é. do texto visual. é essa constituição do sentido que a semiótica busca expressar. 396) que. não-verbais e sincréticos. de acordo com Cortina e marchezan (2004. narrativo e discursivo – que compõem o percurso gerativo do sentido. 2004). nesta abordagem. [. três semióticas: a doutrina dos signos elaborada por Charles sanders Peirce. A semiótica não se restringe. 394). pessoal. mas a totalidade. p. ao posicionamento de que sobre o sentido nada se pode ou se deve dizer. depreendida da unidade textual. independentemente de suas diferentes textualizações. mas. da canção etc. a semiótica define-se como a teoria geral da significação. como um modelo de previsibilidade comum a textos verbais.

p. Embora a semiótica tivesse suas preocupações situadas nos postulados saussurianos. em relação ao que vê ou ouve. com Semântica estrutural. 8). Essas formulações da semiótica geral aproximam-se das preocupações de ferdinand de saussure. o estatuto de sua significação se encontra situado num nível metalingüístico em relação ao conjunto estudado. j. o plano lIng II – 130 . que se especifica e se concretiza na instância da enunciação. p. assim como a manifestação de línguas naturais distintas. ao mesmo tempo que esta também daquelas se nutre. no nível discursivo” (PIEtrofortE.LIngüístIca II atIVIdadE 14 belecimento das especificidades de cada linguagem. 2004. cujas formulações decorrem da semiótica geral. Isso nos permite a formulação de um princípio de dimensão mais geral: diremos que esta metalíngua transcritiva ou descritiva não apenas serve ao estudo de qualquer conjunto significante. 1979. Hjelmslev e. pressupõe ele a existência de um conjunto significante “pintura”. o “conjunto significante” mencionado por greimas pertence aos domínios da expressão. acompanha as propostas de L. a semiótica descreve a significação no modelo do percurso gerativo do sentido. nos primeiros momentos do desenvolvimento teórico da semiótica. “música”. 24). Assim. p. pelo próprio fato de que fala. Sua fala constitui-se. que no Curso de Lingüística Geral referia-se a uma ciência geral – a semiologia – que abarcasse os sistemas de signos não-lingüísticos e estudasse “a vida dos signos no seio da vida social” (saussurE. Isso se justifica por serem os processos da significação o objeto da semiótica que. embora também delas se ocupe ao propor semióticas particulares. qualquer que seja a natureza do significante ou o estatuto hierárquico do conjunto significante considerado. uma metalíngua. mas também que ela própria é indiferente à escolha da língua natural utilizada (GREIMAS. 23). 2003. situa os domínios da semiótica no plano de conteúdo: Quando um crítico fala da pintura ou da música. geral e abstrato. nos domínios do conteúdo. Essa diferença de nível é ainda mais visível quando se trata do estudo de línguas naturais: assim o alemão ou o inglês podem ser estudados numa metalíngua que utiliza o francês e vice-versa. de a. pois. a partir de suas definições de plano de expressão e plano de conteúdo. em sua trajetória inicial. seus procedimentos metodológicos não constituem uma transposição do “modelo” do signo lingüístico proposto por saussure. greimas. “que prevê a geração do sentido por meio do nível semio-narrativo.

Pietroforte (2004. p. pela concepção intradiscursiva da referencialização. como objeto do mundo real passível de representação”. Essa relação é chamada semi-simbólica. 397). de modo que a sombra refira-se à morte e a luz. Porém. assim. Lopes (1995 apud CortIna. lIng II – 131 . 1.atIVIdadE 14 LIngüístIca II de expressão foi colocado de lado. à propos du jeu. reconhece-se o valor relacional do significado – tido. a semiótica. que se depreende de um sistema de diferenças. 2003. 13.. 15) –. transfere a discussão da verdade para a do dizer-verdadeiro. antes de mais nada. positivamente. greimas também recorre à metáfora do jogo de xadrez de saussure que. j. explicam Cortina e marchezan (2004. de maneira mais simples. exterior e real. mas tem em saussure a “pré-formalização” de sua estrutura elementar da significação. mas é motivada por relacionar os dois planos da linguagem – o de expressão e o de conteúdo. o percurso gerativo – “núcleo duro” da semiótica – “supera e ultrapassa as dicotomias saussurianas”. ainda em relação ao pensamento de saussure – “é o ponto de vista que cria o objeto” (saussurE. p. pelas relações que mantém com os outros elementos lingüísticos. Portanto. Actes sémiotiques – Documents. substitui a idéia do referente-coisa. à vida”. por exemplo. por aquilo que é. negativamente. grEImas. Em “a propósito do jogo”1. II. de acordo com E. a relação semi-simbólica é arbitrária por se fixar em determinado contexto. a analogia com o jogo é mencionada por greimas. 21) assim ilustra uma relação semi-simbólica: “uma pintura em que o conteúdo é articulado de acordo com a categoria semântica vida vs. 1980. sombra. a. partindo dos conceitos saussurianos de signo e símbolo. Passa a ser tomado como objeto de estudo quando uma categoria do significante se relaciona com uma categoria do significado. 2004. morte. p. elemento do nível mais abstrato do percurso gerativo do sentido. decorre da tradição do pensamento saussuriano. anteriormente. que constitui uma primeira configuração do sentido. em analogia com as peças do tabuleiro. entre o arbitrário de signo e o motivado de símbolo. diz que cada elemento lingüístico não é definido. marCHEZan. quando há uma relação entre uma forma da expressão e uma forma do conteúdo. interpretando dessa forma o pensamento saussuriano. Por essa via. no sentido saussuriano cada elemento lingüístico tem um valor. p. Paris: v. que consiste em imprimir ao discurso um fazer parecer verdadeiro. 397) que a tal ponto de vista “importa a descrição do valor dos elementos lingüísticos. a veridicção. ou. mas. n. pode ter sua expressão formada de acordo com uma categoria plástica luz vs. a descrição da estrutura elementar da significação. o semi-simbolismo define-se.

Para o lingüista estruturalista. autômatos. que se levantem os olhos para observar também a presença dos jogadores que não são sujeitos abstratos. Essa distinção. as ações discursivas. tal como explicita greimas (1973. e.. que não se considere exclusivamente o tabuleiro. 398). é necessário retomar as jogadas anteriormente realizadas e as posteriormente programadas. como vimos no estudo das reflexões de saussure. Para saussure (saussurE. mas não necessariamente lingüística. mas apenas os planos da forma têm interesse lingüístico. o autor. em que há. Com o desdobramento entre forma da expressão e forma do conteúdo. de que resultam imagens de uma sociedade descarnada e despersonalizada. ressalta Greimas. e mais pelo enfrentamento de quereres e poderes. p. O sentido do jogo está também na dança das peças. “históricos”. o sentido. vincula-se à distinção saussuriana entre forma e substância. 2003. seguindo mesmo a metáfora do jogo. critica a tentação de incluir também os indivíduos na descrição por negação. que se define menos pelo compartilhamento de um código comum ou pela troca de uma generosidade. 37): A oposição da forma e da substância se acha [. nas várias configurações do jogo.LIngüístIca II atIVIdadE 14 mas interpretada de modo diferente. no diálogo intersubjetivo. Essa proposição tem importância para a semiótica. p. delimita o objeto da lingüística e sua atuação na “fronteira” em que se combinam conteúdo e expressão. restritos ao objetivo final e direto da vitória. mas também escolhas não-interditas. e. mas o processo do jogo. formal. prescrições. mas sujeitos cognitivos. na semiótica. não-prescritivas. Quando não se trata apenas de descrever as posições sincrônicas das peças no tabuleiro ou a aplicação das regras. esses quatro campos existem quando há linguagem. Sustenta. dotados de um saber-fazer e também de competências persuasivas e interpretativas.131). Hjelmslev abre caminho para um estudo particular do sentido.] inteiramente situada dentro da análise do conteúdo. uma vez que os planos da substância têm existência perceptiva. assim. por isso mesmo. ela não é a oposição do significante lIng II – 132 . estimulado pelo postulado do isomorfismo dos dois planos – o da expressão e o do conteúdo. dessubstanciada das peças-termos. p. Hjelmslev “cruzou” as distinções expressão/conteúdo e forma/substância e propôs o duplo recorte – forma da expressão/forma do conteúdo e substância da expressão/ substância do conteúdo. “a língua produz uma forma e não uma substância”. interditos. de acordo com Cortina e marchezan (2004.

em que os princípios yin-yang aparecem figurativizados nas cores branca e preta”: 2. a princípio. 534). Inclui-se também nessa proposta o signo não-lingüístico. p. o que leva a semiótica a preferir o termo “figura” ao termo “semema2”. a conceituação que a semiótica confere ao semema distingue-o do lexema” (CortIna. na terminologia da análise sêmica. 2007. conteúdos semânticos similares ou comparáveis”. a referência ao taoísmo remete ao símbolo religioso da mônada chinesa. como uma longa tradição do século XIX pretendia fazer-nos admitir. lIng II – 133 . de arnaldo antunes (2 ou + corpos no mesmo espaço): LIngüístIca II tao VEZ Pietroforte (2004. p. dessa forma e de acordo com greimas e Courtés (s/d. um dos textos analisados pelo autor é o poema Tao-vez. marCHEZan. 158) exemplifica a aproximação entre o estatuto semiótico do poema e o símbolo religioso e acrescenta que a recorrência do discurso religioso não é estranha para os concretistas. “no poema Tao-vez. Para tentar ilustrar a figurativização em semiótica. Dicionário de Lingüística. A forma é tão significante quanto a substância. “em que a organização do sentido é. e é de espantar que essa formulação de Hjelmslev não tenha encontrado até o momento receptividade merecida. p. 403). o semema é a unidade que tem por correspondente formal o lexema.atIVIdadE 14 (forma) e do significado (conteúdo). em Semiótica visual: os percursos do olhar (2004). 399). ele é composto de um feixe de traços semânticos chamados semas (unidades mínimas não suscetíveis de realização independente. (duBoIs et al. transcrevemos alguns excertos de análise de Pietroforte. considerada independentemente de sua forma de expressão. são Paulo: Cultrix. É nesse caminho que a semiótica propõe o estudo da forma do conteúdo. tal distinção “libera a análise semântica das coerções do signo e permite encontrar. no capítulo “o tao da escrita”. 2004. sob revestimentos lexemáticos diferentes. p.

na mônada. para traçar o sentido do texto. do abstrato ao concreto. tal como a trata greimas. p. E acrescenta que “todo símbolo religioso precisa de uma ancoragem em seu processo histórico. p. lIng II – 134 . Barros (1999. como alerta Pietroforte 2004. procurando chegar ao sujeito por meio desse discurso. procura-se determinar as condições e que um objeto torna-se objeto significante para o homem. a presença do ponto de cor contrária nas superfícies branca e preta. tomar o texto como representação e propor uma análise imanente. do descontínuo. e a semiótica de cada um deles só pode ser determinada na relação que o discurso ao qual pertence contrai com os demais discursos sociais de sua época”. na semiótica. de acordo com Barros (2001. Embora a recorrência ao discurso religioso não seja estranha aos concretistas. de forma que a análise parta do mais simples ao mais complexo. 8-9) postula ser fundamental à semiótica a noção de percurso gerativo do sentido e sintetiza essa noção como segue. reiterando que o percurso gerativo do sentido vai do mais simples e abstrato ao mais complexo e concreto: • são estabelecidas três etapas no percurso. 160). • • Como vimos. O percurso gerativo do sentido na teoria semiótica.. Isso quer dizer que. no sentido saussuriano. a mônada chinesa figurativiza os princípios ativo e passivo [. o fato de. a significação decorre da diferença. p. a fim de identificar as “leis” que regem o discurso. um poema ser semelhante ou aludir a um símbolo religioso não o torna um deles. a teoria semiótica caracteriza-se por: • • elaborar um método de análise interna do discurso. que em geral ocorre em qualquer texto.]. entender o percurso gerativo do sentido como um percurso de conteúdo. como se disse acima. 13). simboliza também a presença de um no seio do outro”. além de simbolizar a dinâmica entre os princípios. a linguagem é entendida como uma rede de relações significativas e não como um sistema de signos encadeados. muito embora o sentido do texto dependa da relação entre os níveis.LIngüístIca II atIVIdadE 14 “Em seu texto.. considerar o trabalho de construção do sentido por meio de um percurso gerado desse sentido. podendo cada uma delas ser descrita e explicada por uma gramática autônoma. considerando-se as condições de produção e de recepção do texto. em sua semiótica. a semiótica concebe o seu plano do conteúdo sob a forma de um percurso gerativo.

de Luiz Henríquez. denominado nível narrativo ou das estruturas narrativas. já nascemos livres. sujeito (s) e objeto (o) na teoria semiótica são “papéis” identificados no interior do discurso. Essa análise integra as discussões de Barros (1999. organiza-se a narrativa. p. recebe o nome de nível fundamental ou das estruturas fundamentais e nele surge a significação como uma oposição semântica mínima. no segundo patamar. senhora.. o terceiro nível é o do discurso ou das estruturas discursivas em que a narrativa é assumida pelo sujeito da enunciação. não reconhecerás. a mais simples e abstrata. reproduzimos uma apresentação ilustrativa de cada nível do percurso. Senhor. todo momento: Fique em casa. senhorio Felino. gatos. que a caracteriza como “uma primeira apresentação [. almofada e trato todo dia filé-mignon ou mesmo um bom filé. sérgio Bardotti e Chico Buarque. já nascemos pobres porém. História de uma gata Me alimentaram me acariciaram me aliciaram me acostumaram. sem filé e sem almofada lIng II – 135 . Detefon. LIngüístIca II • • Cabe aqui uma observação de ordem conceitual. Para explicar o papel do percurso gerativo na construção semiótica do sentido do texto. O meu mundo era o apartamento. não tome vento Mas é duro ficar na sua quando à luz da lua tantos gatos pela rua toda a noite vão cantando assim: Nós.de gato me diziam... a partir do exame da letra da canção infantil “História de uma gata”. não esgota o estudo do texto em questão. do ponto de vista de um sujeito.. de acordo com a autora.] em rápidas pinceladas”.atIVIdadE 14 • a primeira etapa do percurso. De manhã eu voltei pra casa fui barrada na portaria. 8-12) e.

“senhor. “no nível das estruturas fundamentais é preciso determinar a oposição ou as oposições semânticas a partir das quais se constrói o sentido do texto”. já nascemos livres. de acordo com a autora. disfórica” (grifos nossos). p. não reconhecerás. já nascemos pobres porém. mais gata numa louca serenata que de noite sai cantando assim: Nós. senhorio” etc. estabelece-se no nível das estruturas fundamentais um percurso entre os termos. opressão) Essa oposição manifesta-se de formas diversas no texto: “me aliciaram/me acostumaram”. o percurso é ilustrado a seguir: dominação (disforia) não-dominação (não-disforia) liberdade (euforia) no quadrado semiótico. abaixo. a liberdade é eufórica. no texto em exame. “fique em casa.LIngüístIca II atIVIdadE 14 por causa da cantoria. senhora. “as categorias fundamentais são determinadas como positivas (ou eufóricas) e negativas (ou disfóricas). não tome vento”. a opressão. Barros (1999. Felino. Senhor. no texto. 10) acrescenta que “além das relações mencionadas e de sua determinação axiológica. gatos. a análise do texto empreendida por Barros (1999) considera cada nível separadamente e procura oferecer uma visão geral de como são concebidos o percurso e suas etapas. denominação (exploração. “já nascemos livres”. a categoria semântica fundamental é: liberdade vs. representa-se a estrutura elementar preenchida semanticamente com o conteúdo fundamental do texto: lIng II – 136 . da dominação negativa à liberdade positiva”. “mas é duro ficar na sua”. senhora ou senhorio. Mas agora o meu dia-a-dia é no meio da gataria pela rua virando lata eu sou mais eu. Em “História de uma gata”. Passa-se.

os elementos das oposições semânticas fundamentais são assumidos como valores por um sujeito e circulam entre sujeitos. portanto. e bons tratos”. “não se misture com os gatos de rua”.”. É reconhecido como “bom gato” e recompensado com “filé-mignon. O sujeito gata quer cumprir e realmente cumpre o acordo. comida – para que “fique em casa”. Surgem. carinho. não se trata mais de afirmar ou de negar conteúdos. 78) Entende-se por não-dominação a negação da dominação.. com outros valores. “História de uma gata” é. lIng II – 137 . e a afirmação da liberdade eufórica”. para receber os valores que o tentam. porém. estados de liberdade ou de opressão. proteção. de asseverar a liberdade e de recusar a dominação. nível das estruturas narrativas. “seja fiel”. p. Ou seja. pela ação do sujeito. Barros (1999. 1999 P. o que aparece sobretudo em “mas é duro ficar na sua. sentida como negativa. os da liberdade (sem filé e sem almofada). o texto História de uma gata “tem. os gatos de rua. mas de transformar. 11) analisa o segundo patamar. graças à ação também de sujeitos.. nesse nível. assim.atIVIdadE 14 LIngüístIca II (Fonte: Barros. por conseguinte. o primeiro compromisso. que também tentam o sujeito gata e fazem que ele vá à rua e ponha de lado. detefon. como conteúdo mínimo fundamental a negação da dominação ou da exploração. a história de um sujeito (“gata”) manipulado por um outro sujeito (“dono”) por tentação – boa casa.

ainda que o fosse. “almofada” etc. integra. ela tenta parecer fiel. almofada e trato/todo dia filé-mignon”. há duas formas de enunciado elementar que. um de disjunção (s u o – lê-se “sujeito em disjunção com o objeto”) e outro de conjunção (s ∩ o – lê-se “sujeito em conjunção com o objeto”). o sujeito “gata” estava em conjunção com os objetos-valor. portanto./detefon. entra em disjunção com esses objetos. mas um modo de ser da relação juntiva” (Barros. Opõem-se valores e a gata sincretiza os papéis de sujeito de fazeres contrários. um programa narrativo é definido por um enunciado de fazer que rege um enunciado de estado. 1999. Há também um fazer transformador (representado por →) responsável pela transformação de um estado a outro. as mudanças de estado são ocasionadas por transformações como: • • • a gata sai para a rua. a gata volta para a rua. dono barra a gata na portaria. os enunciados de fazer – o sujeito “dono” transforma a relação do sujeito “gata” com os objetos “apartamento”. como se viu.LIngüístIca II atIVIdadE 14 A gata esforça-se por esconder o rompimento do primeiro contrato e “volta para casa”: ela procura não parecer uma “gata de rua”. a partir daí. p. nos versos “o meu mundo era o apartamento. estabelecem a distinção entre estado e transformação: • os enunciados de estado – no texto analisado. Assume. sofreu desdobramento polêmico. “a disjunção não é ausência de relação. A narrativa. Em História de uma gata. o sujeito “gata” mantém relação de junção com vários objetos. O segredo ou a mentira são desmascarados e ela perde o reconhecimento de “bom gato” e as recompensas. Há na narrativa mínima dois estados. a formalização dessas transformações em um modelo teórico constitui o nível narrativo do percurso gerativo do sentido. o desenvolvimento de uma narrativa sustenta-se em transformações de estado do sujeito em relação ao objeto-valor. ao ser barrada na portaria pelo sujeito “dono”. têm-se duas diferentes relações ou funções transitivas na relação s/o: a junção e a transformação. • • a unidade elementar da organização narrativa de um texto é chamada programa narrativo. Há uma mudança de estado em “fui barrada na portaria. estados e transformações. embora tivesse praticado a infidelidade. no texto. os valores da liberdade. lIng II – 138 .19)./sem filé e sem almofada”: s ∩ o → s u o (= o sujeito em conjunção com o objeto passa a entrar em disjunção com ele). Logo.

os programas de uso. no entanto. a transformação é a de ficar em casa. o sujeito de estado é a gata). são formalizados pela semiótica como a modalização de um saber ou de um poder. de acordo com o modelo abaixo (Barros.atIVIdadE 14 Pode-se representar o texto em análise como programa narrativo. além desse. “a semiótica prevê quatro tipos de manipulação. mais gata” (o sujeito do fazer é a gata. pelo menos. uma seqüência de programas narrativos relacionados é chamada de percurso narrativo. a partir de explicações de Barros (1999. Quando o destinador manipulador usa seu lIng II – 139 . por mais variados que possam ser. ao ficar em casa. um saber-fazer e um poder-fazer. o programa principal é chamado programa narrativo de base e os demais são chamados programas narrativos de uso. a transformação é a de sair à rua. a transformação é a de acariciar. o sujeito narrativo precisa adquirir. carinho etc. um programa principal e outros programas subordinados. a competência necessária para tal. citam-se os programas narrativos de História de uma gata: • PN 1 : a gata recebe do dono os objetos-valor apartamento. o manipulador é chamado de destinador e o manipulado é chamado de destinatário da manipulação. que tem sua situação alterada é a gata). perde os valores de liberdade e de identidade (o sujeito do fazer é a gata. a articulação entre competência e performance define o que a semiótica denomina percurso narrativo da ação. há mais dois percursos narrativos: o da manipulação e o da sanção. por meio dos programas de uso. Para que um sujeito comece seu percurso da ação ele precisa ser manipulado para isso. PN 3 : a gata sai de casa para a rua e com isso adquire os valores de liberdade e de “ser mais eu. relativos à performance. ou seja. p. de acordo com Pietroforte (2004. PN 2 : o dono toma da gata os objetos-valor (o sujeito do fazer é o dono. alimentar etc. PN 4 : a gata. o fazer é “barrar na portaria”. p. para realizar o programa narrativo de base. o sujeito de estado é a gata) • • • a realização do programa de base é chamada pela semiótica performance. comida. 1999. (o sujeito do fazer é o dono da gata. 17). 20). detefon.. o sujeito de estado é a gata). o sujeito de estado. 20): Pn = f [s1 → (s2 ∩ oV)] f = função ∩ = transformação s1 = sujeito do fazer s2 = sujeito do estado = conjunção OV = objeto de valor LIngüístIca II Em uma narrativa mais complexa há.

Esse processo é chamado de sedução. o destinatário vê-se obrigado a negá-la. que a tentam com os valores ‘positivos’ de liberdade e de identidade própria. Na positiva. não se misturar com os gatos de rua. podem ser mencionados dois exemplos de manipulação por tentação. Pietroforte (2004. quando o objeto é negativo. a semiótica chama esse processo tentação”. lIng II – 140 . o destinador-manipulador “dono” estabelece um contrato com o destinatáriosujeito “gata”. organizado pelo encadeamento e dois tipos de programa narrativo: o de sanção cognitiva ou interpretação e de sanção pragmática ou retribuição. o terceiro percurso é o do destinador julgador. Vimos agora o percurso narrativo da ação e da manipulação. na imagem negativa. como é o caso dos castigos. Contrariamente. em que o dono oferece à gata valores “positivos”. ele busca incitar um querer por parte do destinatário. para assim receber os valores contratuais. 17) que. 30). Quando o objeto é positivo. ele se vê com vontade de confirmá-la. pode oferecer a ele um objeto de valor positivo ou negativo. 29): No primeiro. tais como alimentos. Contrariamente. Esse processo é chamado de intimidação. por exemplo. Em História de uma gata. ainda. como é o caso dos prêmios e das recompensas. ele procura manipular por meio do querer do destinatário. isto é. não sair de casa. um dever. por exemplo. p. carinho. ser fiel. Ele aparece no caso da bajulação e do elogio. p. ocorreria. “quando a gata é manipulada pelos gatos de rua. que ela deseja. já o segundo caso de tentação manifesta-se do décimo primeiro ao décimo oitavo verso. a que ela também aspira” (Barros. A gata se deixa persuadir. se o sujeito “dono” dissesse ao sujeito “gata”: “se você sair. não mais poderá voltar”. luxo. Esse processo é chamado de provocação. com uma imagem positiva. já que. ele sabe fazer uma imagem positiva ou negativa dele. como explica Barros (1999. o destinador manipulador procura incitar o dever do destinatário. aceita o contrato e passa a querer-fazer o que lhe é solicitado. quando o destinador manipulador usa um saber sobre o destinatário. 1999.LIngüístIca II atIVIdadE 14 poder sobre o manipulado. p. enfeitar a casa. em troca de um “bom comportamento”. o percurso da sanção. o percurso da manipulação por tentação é observado do primeiro ao décimo verso. diz. assumindo. acredita nos valores e no poder do dono. portanto.

1999). tema socioeconômico da marginalização da boemia. de forma a comprovar se o sujeito cumpriu o compromisso assumido na manipulação. delega-se a palavra aos manipuladores. p. e chega-se à ilusão de realidade”. no texto em exame. observam-se as oposições fundamentais que. depois do julgamento negativo. como visualizamos abaixo. Para retomar o estudo do percurso gerativo de sentido. lIng II – 141 . utilizam-se recursos discursivos variados para criar a ilusão de verdade. sofre julgamento negativo e punição. o sujeito “gata” sofre como punição a perda das “mordomias” (Barros. Em História de uma gata. desenrolam-se várias leituras temáticas. na sanção pragmática ou retribuição. passemos ao nível discursivo. concretizam-se por meio de figuras. não tome vento”). já o sujeito “desmascarado” como não cumpridor dos contratos. no texto. indetermina-se o sujeito da primeira manipulação (“me alimentaram”. o julgamento negativo e a punição são observados em “fui barrada na portaria/sem filé e sem almofada/por causa da cantoria”. “Projeta-se um narrador em eu e obtém-se o efeito de subjetividade. LIngüístIca II “as leituras abstratas temáticas estão concretizadas em diferentes investimentos figurativos. Em História de uma gata. tema da sexualidade da mulher-objeto ou de exploração da mulher comparada para o prazer. espaciais e temporais que separam. em muitos textos. todos eles caracterizados pela oposição de traços sensoriais. se o sujeito é reconhecido como cumpridor dos contratos. “me diziam”. é julgado positivamente e recebe uma retribuição. o simulacro. a interpretação é feita em nome de uma ideologia. donos e gatos de rua. “fui barrada”) e cria-se o efeito de generalização. responsável pela produção e pela comunicação do discurso. uma recompensa. a última etapa do percurso gerativo. o destinador julga o sujeito pela verificação de suas ações e dos valores com que se relaciona. “as estruturas discursivas devem ser examinadas do ponto de vista das relações que se instauram entra a instância da enunciação. analisada por Barros (1999. ainda no nível discursivo. e o texto-enunciado”. 11-12) é o nível das estruturas discursivas. listadas por Barros: • • • • tema da domesticidade ou da dominação e exploração do animal doméstico pelo homem. a liberdade da dominação”. assumidas como valores narrativos.atIVIdadE 14 no programa de sanção cognitiva ou interpretação. tema da passagem da adolescência à idade adulta ou da opressão da família sobre a criança e o jovem (“fique em casa. desenvolvem-se sob a forma de temas e.

há três formas de definição da existência do sujeito: • • existência semiótica. P. o traço olfativo. greimas lança as primeiras bases para o estudo das paixões. tratam de um panorama dos estudos da semiótica. “Esses traços organizam figuras diferentes nas diferentes leituras temáticas. vimos tratar-se das formas de ação dos sujeitos no discurso. por exemplo. áspero frio (vento) malcheiroso (lixo) ruim. apresentam uma metodologia das paixões. os autores desenvolvem uma análise sobre a avareza e. existência semântica. fechado interno dia macio quente cheiroso gostoso silencioso claro Liberdade aberto externo noite duro. greimas e j. no terceiro.azedo ruidoso penumbra (luz da lua) Fonte: Barros.LIngüístIca II atIVIdadE 14 Traço espacial espacial temporal tátil tátil olfativo gustativo auditivo visual Dominação vs. como perfumes e cosméticos. na da mulher-objeto. p. na leitura do animal doméstico. sobre o ciúme. entendidas como um efeito de sentido de qualificações modais que atuam sobre o sujeito de estado. Posteriormente. fontanille propõem a teorização das paixões. no percurso da ação. O estudo das paixões Pelo exame do processo de modalização do fazer. caracterizada pela relação do sujeito com o valor (narrativa como sintaxe de comunicação entre sujeitos). de acordo com Barros (2002. as paixões são entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito de estado e desencadeiam suas ações. na última parte desse primeiro capítulo. 12). e como cuidados e limpeza (talcos. da manipulação e da sanção. 62). em Semiótica das paixões: dos estados de coisas aos estados de alma. e apresentam uma epistemologia das paixões. lIng II – 142 . no final dos anos 1980. determinada pela relação sintática entre sujeito e objeto (definição topológica de narrativa como lugar de circulação de valores). a. Como dissemos acima. Com o livro Da imperfeição. com enfoque no contínuo e no descontínuo. p. no segundo capítulo. j.12. já a modalização do ser vai desencadear o exame das paixões. pomadas) na do adolescente” (Barros. no primeiro capítulo. 1999. 1999. manifesta-se sob a forma do detefon.

tensos-disfóricos ou relaxados-eufóricos. por um bom tempo.atIVIdadE 14 • existência modal. tal como ilustra o quadro a seguir. ou seja. nas paixões complexas. o estudo das paixões reabilita. na instância do discurso. “sema”. tal sufixo designa a unidade mínima de descrição de um fenômeno no campo de pertinência das ciências da linguagem (como em “fonema”. “várias organizações de modalidades constituem. LIngüístIca II a expressão “patêmico” é um neologismo formado a partir da raiz pathos e do sufixo –ema. a dimensão patêmica constitui objeto da semiótica das paixões. o patema é uma unidade semântica do domínio passional. p. o sujeito segue um percurso. o sujeito do estado que. como se observa a seguir (Barros. lIng II – 143 . 2002. a regra é a complexidade narrativa e percursos passionais complexos”. as paixões simples ou paixões de objetos resultam de um arranjo modal da relação sujeito-objeto e decorrem da modalização pelo /querer-ser/. de Barros (2002. 63). distinguem-se paixões simples e paixões complexas. uma configuração patêmica e desenvolvem percursos. entendido como uma sucessão de estados passionais. no interior da semiótica (sem se confundir com a psicologia). em que o sujeito se define pela modalização do seu ser e assume papéis patêmicos (narrativa como sintaxe modal). os “estados de alma” estão relacionados à existência modal do sujeito. foi posto de lado. p. 69). “semema”). –êmico.

Teoria semiótica do texto. BEntEs. número 2.LIngüístIca II atIVIdadE 14 Para finalizar. a. Cientes de que o assunto não se esgota aqui. a. 2004). são Paulo: Cultrix. é que entendemos ser importante observar um texto a partir da perspectiva semiótica. 2003.. encerramos este capítulo com palavras de Cortina e marchezan (2004. 1973. grEImas. tradução de Haquira osakabe.. Nesse sentido. leitores deste capítulo. 2007).Casa .fclar. lIng II – 144 . para procurar dar conta da constituição de seu sentido. principalmente devido à complexidade e amplitude dos estudos semióticos. d. a. marCHEZan. disponível em http://www. s/d. C. . C. Curso de lingüística geral. v. portanto. assim.) Introdução à lingüística: fundamentos epistemológicos. P. são Paulo: Cultrix. 2002. j.. são Paulo: Humanitas/ffLCH/ usP. f. de.. rEfErÊnCIas Barros. a oportunidade de estar em contato com uma análise semiótica das paixões. 3. CourtÉs. ed. a. 1999. Semântica estrutural. dezembro de 2007. dando destaque às paixões.unesp. são Paulo: Cortez. 2004. recomendamos a leitura do artigo “diferentes formas de manifestação do ciúme: uma perspectiva semiótica” (CortIna et al. 2004. de manuel Bandeira (aLmEIda. ferdinand de (1916). V.. 4. grEImas. L. tradução de alceu dias Lima et al. são Paulo: Contexto. anexado no material de apoio do fórum número 5. Semiótica visual: os percursos do olhar. Dicionário de semiótica. são Paulo: ática. volume 5. saussurE. teoria semiótica: a questão do sentido. importa perceber como sua reflexão teórica acumulada durante seu longo percurso de desenvolvimento é capaz de resolver a questão da análise. CortIna. Teoria do discurso: fundamentos semióticos.427): Na medida em que nos valemos da semiótica para interpretar textos. p. j.br/grupos/ casa/Casa-home. j. além de ampliar a abordagem até aqui desenvolvida. PIEtrofortE. a.html . são Paulo: Cultrix. (orgs. ed. 3. outra leitura recomendada é “análise semiótica do poema ‘os sapos’.Cadernos de semiótica aplicada.. r. na tentativa de oferecer aos alunos e alunas. In: mussaLIn.

o dialogismo – “ciência” das relações – celebra a alteridade. não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal. dialogismo e gêneros do discurso mikhail Bakhtin. lIng II – 145 . elaborados em cada esfera de utilização da língua na atividade humana. princípio que rege a vida e a linguagem. e profundamente alteradas ao longo de sua vida. na relação eu/tu – o “outro” é importante na constituição do sentido. ocupa lugar de destaque nas reflexões de Bakhtin. o diálogo. 2000. tExto bakhtin. sobretudo no que diz respeito à linguagem. e que retratam “as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas. toda palavra traz em si a perspectiva de outra voz. viveu entre 1895 e 1975. nos primeiros anos da revolução. após o colapso do sistema soviético. Os gêneros do discurso Bakhtin define os gêneros como “tipos relativamente estáveis de enunciados”. o dialogismo é constitutivo da linguagem e condição de sentido do discurso: • • • na interação verbal entre enunciador e enunciatário (intersubjetividade). p. fraseológicos e gramaticais –. nas reflexões do Círculo de Bakhtin. a categoria primordial por meio da qual o pensador russo trata as relações sociais e culturais. por sua construção composicional” (BaKHtIn. ou seja. entre outras áreas que tomam como referência a linguagem. o autor postula serem os enunciados “constituídos de uma forma padrão e relativamente estável de estruturação de um todo”. e sobretudo. tem-se buscado construir uma imagem mais verdadeira da obra bakhtiniana e ao mesmo tempo avaliá-la no contexto de suas origens. por isso. e constitui. pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais. na intertextualidade/interdiscursividade (diálogo entre textos/discursos). suas reflexões e seu nome têm sido invocados em diferentes vertentes de estudos lingüísticos e literários. pensador russo. 279). as idéias fundamentais de Bakhtin foram forjadas no contexto soviético. a orientação de um “eu” a um “outro”.SíntESE paRa aUtO-aValIaçãO oBjEtIVos atIVIdadE 15 LIngüístIca II rever e fixar fundamentos das reflexões de mikhail Bakhtin sobre dialogismo e gêneros do discurso e rever e fixar conceitos e fundamentos da teoria semiótica. mas também.

teoria semiótica: breve abordagem Pode-se dizer que há. menos ainda. ao representar a realidade por meio de um universo de signos. p. pelo menos. 2004). linguagem e ideologia no pensamento bakhtiniano. os gêneros. atua em uma perspectiva que entende a significação não como algo já estabelecido. nas mais diversas esferas em que é produzida e em que circula. considera que o ponto de partida para a constituição da ideologia é a vida cotidiana. portanto. situando o sujeito no tempo e no espaço das relações sociais e. de forma que se manifestem sobre ela as impressões dos sujeitos. isto é. como postula Bakhtin. ou seja. mas como resultado de articulações que levam à totalidade do sentido. aprender a falar é aprender a estruturar enunciados (porque falamos por enunciados e não por orações isoladas e. narrativo e discursivo – que compõem o percurso gerativo do sentido. o desenvolvimento do formalismo russo e a teoria da significação proposta por algirdas julien greimas (PIEtrofortE. os gêneros do discurso. a linguagem é o veículo da ideologia. fazem parte da cultura. na interação. o gênero é “o raio-x” da sociedade. 301). o sujeito da linguagem integra um “ponto de vista” ao conjunto de signos que utiliza. uma teoria da linguagem e não particularmente uma teoria lingüística (como em sua herança). três semióticas: a doutrina dos signos elaborada por Charles sanders Peirce. assim. Busca explicitar o que um texto diz e como diz o que diz. o estudo da linguagem na perspectiva de gêneros de discurso considera o aspecto representativo desta. Bakhtin inicia suas reflexões no livro Marxismo e filosofia da linguagem. e isso resulta das ações dos indivíduos em contato com outros indivíduos. a semiótica define-se como a teoria geral da significação. a partir do vínculo linguagem/ideologia. assim como a língua. a realidade é. voltamos nossa atenção à semiótica de greimas. introduzem-se em nossa experiência e em nossa consciência conjuntamente e sem que sua estreita correlação seja rompida. nesse sentido. representada a partir de um lugar valorativo. todo signo é signo ideológico e vai integrando a consciência verbal dos grupos sociais à medida que se constituem. é óbvio. isto é. assinado por Voloshinov. nesta abordagem. a teoria semiótica propõe a descrição da significação em níveis – fundamental. 2000. as formas da língua e as formas típicas de enunciados. bem como sua função social. por palavras isoladas) (BaKHtIn.LIngüístIca II atIVIdadE 15 apreendidos pelos sujeitos ao mesmo tempo e similarmente à aquisição da língua materna. como sujeito histórico. lIng II – 146 . tendo em vista a ênfase dada ao processo de significação. o modo pelo qual o sentido se constitui. então. já que a representação do mundo é expressa por palavras ou outras formas de manifestação.

em sua trajetória inicial. nos primeiros momentos do desenvolvimento teórico da semiótica. Isso se justifica por serem os processos da significação o objeto da semiótica que. de maneira mais simples. entre o arbitrário de signo e o motivado de símbolo. ou. sombra. a partir de suas definições de plano de expressão e plano de conteúdo. da canção etc. Hjelmslev e. greimas. morte. que no Curso de Lingüística Geral referia-se a uma ciência geral – a semiologia – que abarcasse os sistemas de signos não-lingüísticos e estudasse “a vida dos signos no seio da vida social” (saussurE. acompanha as propostas de L. Passa a ser tomado como objeto de estudo quando uma categoria do significante se relaciona com uma categoria do significado. de modo que a sombra se refira à morte e a luz. Com o desdobramento entre forma da expressão e forma do conteúdo. vincula-se à distinção saussuriana entre forma e substância. mas não necessariamente lingüística. assim. seus procedimentos metodológicos não constituem uma transposição do “modelo” do signo lingüístico proposto por saussure. esses quatro campos existem quando há linguagem. Essa relação é chamada semi-simbólica. a relação semi-simbólica é arbitrária por se fixar em determinado contexto. Hjelmslev “cruzou” as distinções expressão/conteúdo e forma/substância e propôs o duplo recorte – forma da expressão/forma do conteúdo e substância da expressão/substância do conteúdo. do texto visual. Embora a semiótica tivesse suas preocupações situadas nos postulados saussurianos. o processo de textualização é descrito por semióticas específicas. o sentido. como vimos no estudo das reflexões de saussure.atIVIdadE 15 LIngüístIca II como um modelo de previsibilidade comum a textos verbais. com Semântica estrutural. 2003. o plano de expressão foi colocado de lado. “a língua produz uma forma e não uma substância”. partindo dos conceitos saussurianos de signo e símbolo. Hjelmslev abre caminho para um estudo particular do sentido. que tendem a se especializar em teorias do texto literário. j.131). 2003. quando há uma relação entre uma forma da expressão e uma forma do conteúdo. estimulado pelo postulado do isomorfismo dos dois planos – o da expressão e o do conteúdo. de a. 24). situa os domínios da semiótica no plano de conteúdo. Para o lingüista estruturalista. p. à vida”. uma vez que os planos da substância têm existência perceptiva. lIng II – 147 . o semi-simbolismo define-se. mas é motivada por relacionar os dois planos da linguagem – o de expressão e o de conteúdo. Essa distinção. não-verbais e sincréticos. na semiótica. delimita o objeto da lingüística e sua atuação na “fronteira” em que se combinam conteúdo e expressão. p. mas apenas os planos da forma têm interesse lingüístico. as formulações da semiótica geral aproximam-se das preocupações de ferdinand de saussure. pode ter sua expressão formada de acordo com uma categoria plástica luz vs. Para saussure (saussurE. como exemplifica Pietroforte: “uma pintura em que o conteúdo é articulado de acordo com a categoria semântica vida vs. por exemplo.

entender o percurso gerativo do sentido como um percurso de conteúdo. Isso quer dizer que. do descontínuo. do abstrato ao concreto. tal como a trata greimas. no segundo patamar. considerar o trabalho de construção do sentido por meio de um percurso gerado desse sentido. a primeira etapa do percurso. de forma que a análise parta do mais simples ao mais complexo. Há na narrativa lIng II – 148 . reiterando que o percurso gerativo do sentido vai do mais simples e abstrato ao mais complexo e concreto: • são estabelecidas três etapas no percurso. • • • Cabe aqui uma observação de ordem conceitual. a formalização dessas transformações em um modelo teórico constitui o nível narrativo do percurso gerativo do sentido. muito embora o sentido do texto dependa da relação entre os níveis. procura-se determinar as condições e que um objeto torna-se objeto significante para o homem.LIngüístIca II atIVIdadE 15 O percurso gerativo do sentido na teoria semiótica. a fim de identificar as “leis” que regem o discurso. no sentido saussuriano. considerando-se as condições de produção e de recepção do texto. a mais simples e abstrata. que em geral ocorre em qualquer texto. p. o desenvolvimento de uma narrativa sustenta-se em transformações de estado do sujeito em relação ao objeto-valor. de acordo com Barros (2001. tomar o texto como representação e propor uma análise imanente. sujeito (s) e objeto (o) na teoria semiótica são “papéis” identificados no interior do discurso. a linguagem é entendida como uma rede de relações significativas e não como um sistema de signos encadeados. na semiótica. o terceiro nível é o do discurso ou das estruturas discursivas em que a narrativa é assumida pelo sujeito da enunciação. procurando chegar ao sujeito por meio desse discurso. denominado nível narrativo ou das estruturas narrativas. recebe o nome de nível fundamental ou das estruturas fundamentais e nele surge a significação como uma oposição semântica mínima. a significação decorre da diferença. organiza-se a narrativa. podendo cada um delas ser descrita e explicada por uma gramática autônoma. do ponto de vista de um sujeito. 8-9) postula ser fundamental à semiótica a noção de percurso gerativo do sentido e sintetiza essa noção como segue. • • Barros (1999. p. a teoria semiótica caracteriza-se por: • • elaborar um método de análise interna do discurso. 13).

no texto. para realizar o programa narrativo de base. a unidade elementar da organização narrativa de um texto é chamada programa narrativo. Para que um sujeito comece seu percurso da ação ele precisa ser manipulado para isso. além desse. A articulação entre competência e performance define o que a semiótica denomina percurso narrativo da ação. Logo. por mais variados que possam ser. da lIng II – 149 . integra. portanto. relativos à performance.19). os programas de uso. estabelecem a distinção entre estado e transformação: • • • os enunciados de estado – o sujeito mantém relação de junção com o objeto. têm-se duas diferentes relações ou funções transitivas na relação s/o: a junção e a transformação. mas um modo de ser da relação juntiva” (Barros. pelo menos. o sujeito narrativo precisa adquirir. estados e transformações. os enunciados de fazer – o sujeito 1 transforma a relação do sujeito 2 com os objetos. há duas formas de enunciado elementar que. “a disjunção não é ausência de relação. ele procura manipular por meio do querer do destinatário. Há também um fazer transformador (representado por →) responsável pela transformação de um estado a outro. por meio dos programas de uso. p. no percurso da ação. ou seja. o programa principal é chamado programa narrativo de base e os demais são chamados programas narrativos de uso. no entanto. são formalizados pela semiótica como a modalização de um saber ou de um poder. há mais dois percursos narrativos: o da manipulação e o da sanção. Quando o destinador manipulador usa seu poder sobre o manipulado. 1999. como é o caso dos prêmios e das recompensas. uma seqüência de programas narrativos relacionados é chamada de percurso narrativo. Em uma narrativa mais complexa há. um programa principal e outros programas subordinados. s ∩ o → s u o (= o sujeito em conjunção com o objeto passa a entrar em disjunção com ele). “a semiótica prevê quatro tipos de manipulação. um saber-fazer e um poder-fazer. pode oferecer a ele um objeto de valor positivo ou negativo. um de disjunção (s u o – lê-se “sujeito em disjunção com o objeto”) e outro de conjunção (s ∩ o – lê-se “sujeito em conjunção com o objeto”). Quando o objeto é positivo. a semiótica chama esse processo tentação”. O estudo das paixões Pelo exame do processo de modalização do fazer. a competência necessária para tal. a realização do programa de base é chamada pela semiótica performance. o manipulador é chamado de destinador e o manipulado é chamado de destinatário da manipulação. um programa narrativo é definido por um enunciado de fazer que rege um enunciado de estado.atIVIdadE 15 LIngüístIca II mínima dois estados.

“semema”). em que o sujeito se define pela modalização do seu ser e assume papéis patêmicos (narrativa como sintaxe modal). de acordo com Barros (2002. no interior da semiótica (sem se confundir com a psicologia). entendidas como um efeito de sentido de qualificações modais que atuam sobre o sujeito de estado. 62). o estudo das paixões reabilita. distinguem-se paixões simples e paixões complexas. a dimensão patêmica constitui objeto da semiótica das paixões. tensos-disfóricos ou relaxados-eufóricos. por um bom tempo. o sujeito do estado que. • • a expressão “patêmico” é um neologismo formado a partir da raiz pathos e do sufixo –ema. o sujeito segue um percurso. lIng II – 150 . há três formas de definição da existência do sujeito: • existência semiótica. entendido como uma sucessão de estados passionais. “sema”. p. determinada pela relação sintática entre sujeito e objeto (definição topológica de narrativa como lugar de circulação de valores). vimos tratar-se das formas de ação dos sujeitos no discurso. já a modalização do ser vai desencadear o exame das paixões. foi posto de lado. existência modal. tal sufixo designa a unidade mínima de descrição de um fenômeno no campo de pertinência das ciências da linguagem (como em “fonema”.LIngüístIca II atIVIdadE 15 manipulação e da sanção. o patema é uma unidade semântica do domínio passional. caracterizada pela relação do sujeito com o valor (narrativa como sintaxe de comunicação entre sujeitos). ou seja. os “estados de alma” estão relacionados à existência modal do sujeito. existência semântica. –êmico. as paixões simples ou paixões de objetos resultam de um arranjo modal da relação sujeito-objeto e decorrem da modalização pelo /querer-ser/.