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Latusa digital ano 6 39 dezembro de 2009

O corpo se goza 1

Ruth Helena Pinto Cohen

A incidência política da psicanálise de orientação lacaniana vai de encontro aos sintomas de nossa época e ao sentido dos mesmos. A lógica desses funcionamentos faz parte de uma combinatória de semblantes, da qual podemos prescindir desde que nos sirvamos dela. 2 Lembremos que Lacan 3 fez uso da lógica proposicional de Frege, introduzindo os quantificadores (universal e particular), para localizar as posições femininas e masculinas na fórmula da sexuação, ou seja, do não-todo fálico ao todo fálico. Outra forma de utilizar a lógica, além da vertente acima citada, é fazer uso da escrita topológica borromeana. O nó ou “cadeia borromeana”, com sua maneira de enodar elos ou fios, que interessou aos matemáticos, sobretudo no século XX, foi amplamente utilizada por Lacan em seus últimos seminários. Extrair conseqüências desta modalidade lógica nos leva ao tema deste congresso, que busca pensar o estatuto do semblante, que com seu valor de borda, aponta para o núcleo de gozo do sinthoma, aqui entendido como Lacan o enuncia: o quarto nó que estabelece o laço enigmático do imaginário, do simbólico e do real 4 . O sintoma para além da formação significante, da mensagem cifrada dirigida ao Outro, é visto pelo último Lacan como uma forma de organização do gozo, um resto que persiste. Lacan diz que essa formação significante perpassada de gozo é escrita com o neologismo sinthome e assim faz referência a São Tomás de Aquino, tão caro a Joyce, que fez do ato de escrever sua confissão de gozo. Nessa trilha chegamos à referência que Lacan faz ao artista como uma tentativa de pensar as possíveis suturas quando há lapsus no nó 5 . Mesmo que os semblantes operem através do registro simbólico e do imaginário como formas de tratar o real, Lacan 6 nos alerta para o fato de que o nó borromeano não é semblante, não é modelo, é suporte, é real.

1 Expressão inspirada no texto de Roch, M-H. Do Litoral, em Psicanálise: uma Leitura de Lituraterra. Em: Papers Bulletin Electronique du Comité d'Action de l'École-Une, n. 4, octobre de 2009. VII Congresso da AMP, circulação em lista eletrônica.

2 Miller, J-A. Semblantes e sinthomas. Em: Opção Lacaniana, nº 52. São Paulo: Eolia, 2008, p. 15.

3 Lacan, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, p.

105.

4 Lacan, J. O Seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007, p. 21.

5 Idem. Capítulos V e VI.

6 Lacan, J. O Seminário, livro 22: R.S.I., cit. lição de 15 de abril de 1975, apud Ornicar?, nº 5, 1976, p.50.

Com esses instrumentos, como podemos pensar a clínica psicanalítica no século XXI, tendo como guias os semblantes em seus estatutos simbólicos e imaginários, tal como Lacan os enuncia, para operar uma modificação que localize para o falasser as singularidades dos seus modos de gozo? Tomemos alguns fragmentos do texto Ulisses, de Joyce, como guia para pensar uma das formas de gozo do corpo no homem contemporâneo. Se o corpo era do estatuto do imaginário, no estádio do espelho, de que corpo se fala agora? Que se opera com os órgãos transplantáveis, mutáveis, transfundidos, cortados, lipoaspirados, cujo valor mercadológico responde a demanda de preencher o que falha ou falta buscando uma suposta completude? Ou, por outro lado, a imagem que quer se ver completa, também é furada pelos objetos da moda, com os piercings, assim como o corpo que serve de tela para tatuagens, com suas formas ideográficas de escrita ou letras, tentativas de marcar com brasões, o simbólico na carne. Se não há ciência do real 7 , este se impõe fazendo com que recursos de semblantização pululem para socorrer o homem contemporâneo que não tem as garantias e recursos da consistência do Nome-do-pai para orientar suas ações. A psicanálise se vê desafiada por um modo de funcionamento do inconsciente em que o endereçamento do falasser não se dirige mais ao Outro, por ter sido substituído pelo corpo próprio, pois segundo Miller 8 não há mais amor ao pai, mas amor próprio, no sentido do amor a UM-corpo. Lacan toma Joyce para mostrar o que é possível fazer quando o nó do pai não se sustenta em sua amarração RSI. Em sua grande obra, Ulisses, o artista recria a vida. Não faz uma análise dela, apresenta o homem sem sentimentalizá-lo numa humanidade ordinária, onde os personagens são escutados muito mais do que vistos. Não se sabe sobre as suas aparências, mas conhecemos suas vozes, seus pensamentos. Essa linguagem expressa em frases agudas, exatas, taquigráficas ou sob a forma de refluxo de palavras em repetições entrelaçadas, transforma-se em unidades mais longas. O dia 16 de junho, o Bloom’s Day, são vinte e quatro horas de aventuras cotidianas. Um judeu maduro, que encontrou o jovem Stephen Dedalus, e fez desse encontro a pergunta fundamental: Se o pai que não tem filho não é pai, pode o filho que não tiver um pai ser

7 Lacan, J. O Seminário, livro 21: le non-dupes errent, lição de 12 e 19 fevereiro 1974 apud Schejtman,F. “Nós borromeanosem:Scilicet: semblantes e sintoma. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2009, p.255, nota 13.

8 Miller, J-A. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010, pp 110-111 e p. 123.

um filho? 9 Joyce transporta Odisseu para Dublin, fazendo, talvez, a mais homérica de todas as travessias. O personagem Telêmaco, da Odisséia, é transmutado em Dedalus, personagem a procura de um pai, assim como o artista, segundo Lacan, através da sua escrita. É importante evocar que não se tratava de qualquer escrita, mas de uma forma

de inscrição do objeto a conferindo uma dimensão do sem sentido, que tem efeitos sobre

o corpo e o modo de gozo. Desta forma o corpo deixa de ter o estatuto de imaginário e

simbólico, mas se goza, segundo a última definição de Lacan. Ele se goza pela letra, isto é visível na obra de Joyce. 10 O ego, assim como Lacan o desenhou a partir da obra de Joyce, se estabelece na relação com Um-corpo e tem a função de reconstituir o nó borromeano. 11 Lacan propõe a idéia de que o artista criou um saber-fazer com o sinthoma, o que significa utilizar um quarto elemento como instrumento de sutura para enlaçar o que está desamarrado. Joyce construiu com letras o nó suplente, que fez dele criador e criatura através da criação, mas nem toda suplência é uma invenção sinthomática. Nesse caso, a Santíssima Trindade - real, simbólico e imaginário - foram amarrados pelo nó da escritura joyceana. Com isso o ego em Joyce sinthomatiza, inventando um novo modo de enlaçamento. Retomando nossa pergunta inicial sobre o que pode a psicanálise operar sobre os modos

de gozo na clínica orientada pela lógica borromeana, encontramos, sem dúvida, orientação no último ensino de Lacan. Ele vai nos ajudar a pensar sobre o que fazer com

o resto, com o incurável que insiste, com a incidência do gozo no corpo, para além da

fantasia, e as possibilidades do falasser criar o seu sinthoma. O que orienta um saber-fazer com os modos de gozo, para o homem do século XXI, é poder extrair o que há de real na satisfação sintomática, ou seja, construir uma singular amarração do nó. A psicanálise, ao servir-se dos semblantes de sua época, não recua frente ao real impossível, tomado em sua peculiar fixidez de gozo, e o que pode oferecer

na direção do tratamento é a possibilidade de escolher, com entusiasmo, a solidão como caminho.

9 Joyce, J. Ulisses.Tradução de Antonio Houaiss. São Paulo: Abril Cultural,1980, p 159. 10 Roch, M-H. Do Litoral, em Psicanálise: uma Leitura de Lituraterra. Em: Papers, Bulletin Electronique du Comité d'Action de l'École-Une, n. 4, octobre de 2009. VII Congresso da AMP, circulação em lista eletrônica.

11 Lacan, J. O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007,p. 151.