IMAGENS DO VELHO CHICO NA CULTURA DO VALE DO SÃO FRANCISCO Jayro Luna

Edupe
2009

SUMÁRIO Apresentação. – Benedito Gomes Bezerra – 3 Introdução - 6 O Rio Como Símbolo – 8 O Rio São Francisco como tema da MPB – 13 O Ciúme, de Caetano Veloso – 29 Do São Francisco ao Mississipi –35 Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira – 42 Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco – 53 A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco – 58 Algumas Considerações Acerca das Representações Pictóricas do Rio São Francisco – 63 Mamulengo Revisitado – 77 A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira – 79 Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico – 91

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APRESENTAÇÃO O Rio São Francisco representa um dos elementos de maior peso simbólico na cultura e imaginário nordestino, fato que se reflete na música, na literatura, na pintura e nas artes em geral. Ultimamente, o Velho Chico tem sido objeto de acalorada e polêmica discussão, em virtude do projeto de transposição de águas idealizado pelo governo federal. É lamentável, contudo, que o foco das reflexões sobre o Rio tenha se concentrado de modo quase exclusivo nos aspectos políticos e ideológicos da questão. O livro do professor Jayro Luna, a propósito, vem preencher essa lacuna, trazendo para a comunidade acadêmica e o público em geral um amplo e variado conjunto de textos debruçados sobre a riqueza cultural constituída em torno do São Francisco. O propósito do autor é, como ele mesmo afirma, “levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região”, bebendo para isso nas inúmeras fontes disponíveis. Duas particularidades devem ser ressaltadas no trabalho do autor. A primeira é que não se trata, de forma alguma, de pesquisa meramente bibliográfica, fruto de observação distanciada. Em muitos textos, o leitor perceberá a argúcia do observador integrado ao objeto de sua investigação, examinando de perto aquilo de que fala, não sem trair a paixão do autor pelos aspectos culturais em questão. A segunda particularidade é o ponto de vista do autor, construído a partir da região do Agreste Meridional, onde se situa a Universidade de Pernambuco, Campus de Garanhuns, de modo que relações muito pertinentes e interessantes são demonstradas entre a riqueza cultural dessa região e o imaginário do Rio, próprio do sertão cujas terras suas águas percorrem. Daí a presença, por exemplo, de um capítulo que trata do santuário de Santa Quitéria em Frexeiras, localidade próxima a Garanhuns. O livro se organiza em onze capítulos que tratam do imaginário e da cultura do Velho Chico sob variados ângulos. A maioria dos capítulos enfoca as diferentes maneiras como o Rio São Francisco é representado em diversas expressões artísticas, como a MPB, a poesia, a arte popular das carrancas, a pintura e a escultura. Outros tratam de manifestações culturais direta ou indiretamente ligadas ao Rio. O primeiro capítulo, intitulado “O rio como símbolo”, estabelece as bases para muito do que será dito nos demais, demonstrando a centralidade da simbologia do rio em diversas culturas do mundo e de outras regiões brasileiras. O segundo capítulo explora o Rio São Francisco como tema privilegiado da Música Popular Brasileira, abrangendo desde a chamada música de raiz, passando pelos temas de escola de samba e por Luiz Gonzaga até a música engajada de Sá e Guarabira, lembrando de forma crítica a profecia de Antonio Conselheiro: “O sertão vai virar mar/ dá no coração/ o medo que algum dia/ o mar também vire sertão”. No terceiro capítulo, o autor analisa especificamente a letra da música “O ciúme”, de Caetano Veloso, cujo tema, comum a outras composições da MPB, é a relação entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, separadas pelo São Francisco, mas unidas pela ponte ali construída na década de 1950. O quarto capítulo traça um interessante paralelo entre o imaginário do Rio São Francisco e do Rio Mississipi (nos Estados Unidos) conforme representado pela música em ambos os contextos. Conforme demonstra o autor, as imagens de ambos os rios são 3

com estilos variados e diferentes posturas de engajamento em relação ao Rio. constituindo um rico painel de representação pela pintura. dessa forma. mas incluídas na obra. que no caso do artista Ledo-Ivo Gomes de Oliveira. A partir do século XVII. o Rio também tem sido representado na arte pictórica. o capítulo décimo primeiro apresenta o santuário popular de Frexeiras como uma curiosa representação do sincretismo religioso e cultural brasileiro. intitulado “Algumas considerações acerca de algumas representações pictóricas do São Francisco”. Se. não cristã. substitui os traços populares por traços inspirados na simetria da arte clássica. evitando que se arrisquem demasiadamente nas águas do Rio. o autor apresenta a lenda do Nego d´água como parte do imaginário do povo ribeirinho. cujo valor monetário se define pelo talento e renome do mestre escultor. O capítulo nono. no caso americano do Mississipi. com um oportuno destaque para o “Castelo de João Capão”. do castelo e do palácio na cultura brasileira. no caso do São Francisco. acossados pelas constantes cheias do rio e abandonados pelos representantes do poder. começando por Castro Alves e sua obra A cachoeira de Paulo Afonso e culminando com João Cabral de Melo Neto e o “sertão sem rio”. tema do capítulo oitavo. Sobressai. O sexto capítulo. deusas greco-romanas e super-heróis de origem estrangeira. negros geralmente.construídas de maneira bastante diferente. cuja função parecer ser sobretudo intimidar as crianças. o retrato dos dramas sociais desde a colonização até a transposição. pintores estrangeiros e nacionais têm oferecido suas visões do Velho Chico. Como não podia deixar de ser. mostra como as carrancas sofreram um desvio em sua função original de proteger as embarcações “contra perigos concretos e imaginários”. bem como as influências próprias do colonizador europeu e cristão. predomina a crítica social retratando os dramas dos ribeirinhos pobres. O estudo inclui desde o pitoresco uso do termo “rei” para praticamente qualquer atividade desenvolvida pelas pessoas (“rei do samba” “rei do futebol”. Já o capítulo décimo brinda o leitor com um alentado estudo da simbologia do rei. predominam as imagens poéticas inspiradas numa cultura medieval transportada para o sertão nordestino. operando uma espécie de recriação eventualmente sujeita a polêmica. Já no quinto capítulo. “Por uma mitologia das carrancas do Vale do São Francisco”. traz uma breve abordagem sobre a arte do mamulengo. O autor ressalta as peculiaridades das carrancas como objeto artístico para o qual convergem elementos da herança indígena e negra. No sétimo capítulo. ponto turístico da cidade de Garanhuns em Pernambuco. Uma preocupação central do autor é traçar um paralelo entre o imaginário popular e a representação artística do Nego dá água. o autor se volta para as imagens do Velho Chico na obra dos poetas brasileiros. por fazer parte de uma cultura comum. como um complemento bastante interessante dessa mostra da cultura nordestina que é o livro de Jayro Luna. “rei da juventude” etc) até uma apresentação dos principais castelos existentes em terras brasileiras. transformando-se em objetos artesanais destinados ao comércio. criador de uma colossal estátua do personagem. na poesia brasileira. especificando tipologias e resgatando o nome de artistas situados no Agreste Meridional. Os últimos três capítulos abrangem temáticas não ligadas diretamente ao Velho Chico. tendo como palco e pivô o grande rio do povo nordestino. creio eu. A cultura popular nordestina se mostra aí como uma cultura de resistência 4 . Fechando o volume. capaz de reunir num mesmo espaço santas.

Será uma experiência significativa para quem já conhece e ama essa cultura. 5 . a leitura de Imagens do Velho Chico na cultura do Vale do São Francisco proporcionará ao leitor uma rica e profunda imersão na herança cultural do Nordeste. por trazer essa obra ao público brasileiro. além de oferecer a todo o povo brasileiro uma nova e abrangente visão acerca do Rio São Francisco. Em suma. sem dúvida será uma descoberta apaixonante. com especial destaque para os elementos culturais construídos em torno do Rio São Francisco.inclusive contra a dominação religiosa. alunos e demais pessoas interessadas na arte popular e na cultura nordestina de modo geral. o livro será de grande utilidade para pesquisadores. evidenciando a capacidade do povo de moldar e cultivar seus próprios santos e santuários. Para quem não a conhece. notadamente seu campus de Garanhuns. Com certeza. Está de parabéns a Universidade de Pernambuco.

isto é. tendo em vista. O projeto visava pesquisar as imagens na cultura do Vale do Rio São Francisco. pareceu-nos pertinente fazer estudos comparativos e de influências entre as duas regiões. que o projeto incluiu uma parte de estudos acerca do Agreste Meridional. distante fisicamente 223 km do rio São Francisco (município de Paulo Afonso). pois. com apoio do CNPq. a do Vale do São Francisco e a do Agreste Meridional. Paraíba. tendo como subtema as modificações que o projeto de transposição do rio São Francisco potencialmente poderá causar nessa mesma cultura. contos. Ainda. possivelmente interferindo na paisagem sertaneja semiárida do Ceará. a dimensão cultural e social que envolve a bacia do Rio São Francisco tem aspectos de influência não apenas climática e de geografia física sobre a região. tendo em vista a proximidade da implantação do projeto de transposição do Rio São Francisco. Acresce ainda.Introdução Este livro é resultado de um projeto de pesquisa realizado na UPE/FACETEG durante o período 2007-2009. arte popular) procurando nas diversas manifestações levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região. com destaque na micro-região para a cidade de Garanhuns. tendo em vista que essa micro-região está próxima da bacia do São Francisco. que receberá pelo projeto de transposição uma adutora para regularização do fornecimento de água à região. a construção do imaginário acerca do arquétipo que o Rio São Francisco preenche na região do Polígono das Secas. todos esses aspectos de localização geográfica. contígua do sertão. mas também no âmbito cultural. Pernambuco e Rio Grande do Norte. próxima também do litoral (Zona da Mata). iconográfico e artístico da cultura da região do Vale do São Francisco. buscamos observar as primeiras e possíveis alterações nesse significado em função de uma nova dimensão regional do vale do Rio São Francisco. na região do baixo São Francisco. Completou-se o projeto com a formação de um acervo bibliográfico. mitos e lendas. Embora Garanhuns esteja situada no Agreste. abordando a produção literária (prosa e poesia) bem como as manifestações de literatura popular (cordel. A obra de transposição do leito do Rio São Francisco implica em profundas alterações nessa situação em todo o interior do 6 .

... espero que o leitor desse livro possa tomar contato com os resultados de nossa pesquisa. Neste livro acreditamos que abordamos sob um novo aspecto a questão da cultura do Vale do São Francisco...... mas também àquelas que a esse imaginário se dirigem....... tendo ainda por horizonte. à música popular brasileira.................. a previsão de que esse imaginário tende a modificações estruturais significativas de acordo com os resultados da transposição do leito do rio... E... ... nosso trabalho já aponta para uma atitude de ponta na abrangência que a UPE/Faceteg se coloca nas questões não apenas de sua microrregião. Prof.. mas sim... à tradição regional do vale de um ângulo que ainda não encontramos em outras publicações.estado......... Jayro Luna 7 ......... numa interrelação dessa microrregião com fatores externos que possam alterar e modificar de modo decisivo seu caráter microrregional. Nossa pesquisa justificou-se na medida mesma em que tem por princípio um estudo das imagens do Rio São Francisco na representação do imaginário não apenas nas manifestações próprias das cidades do vale...... analisando tópicos referente às artes plásticas. Assim............... fazendo com que a distinção típica entre as micro-regiões do estado possam mesmo ser revistas.

o Tibre. A simbologia esotérica e mística desde tempos antigos tem trabalhado a imagem do rio. modesto afluente do Tietê. o remontar do curso das águas. Coomaraswamy. basta lembrarmos que o rio Ipiranga. A história do Egito antigo é a história da civilização do rio Nilo. No sentido de que seja um lugar propício à agricultura. o retorno à Nascente 8 . Não menos importantes para o desenvolvimento de nações foram o Rio Amarelo. à navegação é à pesca. O rio como símbolo tem forte presença no desenvolvimento cultural dos mais variados povos. destacando duas imagens ligadas ao rio. e que. Em relação ao rio. esta se liga à simbologia da ponte. e que têm também relação direta com a Shekinah [Presença divina]. 300-301) Assim. à defesa de território. comentando o trabalho de Ananda K. é um ritual de purificação na Índia. No caso do Brasil.O Rio Como Símbolo O rio tem marcado a presença como um dos lugares mais importantes da história do homem. evidentemente. o retorno à indiferenciação. é um dos símbolos de nossa independência. o acesso ao Nirvana. o Mississipi. a primeira. o que ele chama de “remontar corrente” e a segunda. outros de extensão consideravelmente menor tornaramse simbólicos por suas posições geográficas estratégicas fundamentais para a vida de vários povos: o Reno. Na Cabala também se fala das águas que ‘correm para o alto’. No Cristianismo. ao mesmo tempo. a imagem da “travessia” e por conseguinte. Guénon comenta: “O primeiro caso. o Ganges. o Tejo. o da fertilidade. o símbolo do rio é apresentando de modo a destacar o simbolismo das margens e da água corrente: “O simbolismo do rio e do fluir de suas águas é. hoje praticamente coberto pela cidade. ou a travessia de uma margem à outra. pois deve-se então conceber o rio como identificado ao ‘Eixo do Mundo’: trata-se do ‘rio celeste’ que desce para a terra.Schuon). mas pela inversão de direção da própria corrente. o Níger. desde o princípio da civilização o rio se destaca. René Guénon observa essa aspecto. No Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant. o remontar das águas significa. O curso das águas é a corrente da vida e da morte. Acerca da primeira imagem. p. ‘remontar corrente’. da morte e da renovação. alguns rios são sagrados para determinados povos. A descida para o oceano é o ajuntamento das águas. na tradição hindu. banhar-se nas águas do Ganges. Jesus foi batizado por João Batista no Jordão. pode-se considerar: a descida da corrente em direção ao oceano. é designado por nomes tais como Gangâ [Ganges] e Saraswatí. que é em suma o equivalente da Shakti.” (GUÉNON: 1989. por exemplo. não mais para pelo remontar da corrente. expressão do retorno à fonte celeste representado então. Na Cabala hebraica esse ‘rio da vida’ encontra sua correspondência nos ‘canais’ da árvore sefirótica. o Jordão são alguns exemplos. pelos quais as influências do ‘mundo em cima’ são transmitidas ‘ao mundo de baixo’. o Tamisa. é talvez o mais notável sob certos aspectos. que são exatamente os nomes de certos aspectos da Shakti. o da possibilidade universal e o da fluidez das formas (F. Os rios Tigre e Eufrates na civilização babilônica. e não pensemos apenas nos grandes rios. o rio Nilo do Egito são exemplos marcantes dessa importância do rio na história da civilização.

os rios foram muito mais encarados como caminhos do que como fronteiras. que julgou tratar-se dum mar. em cujas margens surgiram algumas das principais cidades da região do polígono das secas. Essas são só algumas poucas lembranças imediatas de obras poéticas. até as de Francisco Orellana e Pedro Teixeira. Porém. a poesia e a música não têm deixado de tratar do tema do rio. o mundo dos sentidos e o estado de não-vinculação. a China e o Rio Amarelo. que por sua vez. país de grandes bacias fluviais. em boa medida. 780-781) Por esses aspectos a análise da cultura que se desenvolve ao longo do percurso de um rio é também. notadamente na região de Petrolina e Juazeiro. A Literatura brasileira. Antes. Rio que determinava a existência de duas possibilidades de sertão. Os limites europeus do Império romano incluíam as margens do Reno e do Danúbio. Rio do processo de colonização do sertão. e é o estado que existe para além do ser e do não-ser. de Lúcio Cardoso.divina. Assim. O Egito dos faraós e o Nilo. são apenas alguns dos exemplos que envolvem essa interligação entre o rio e a cultura. para além do qual ficavam os bárbaros. caminhos para a conquista do paraíso selvático. uma com água e outra sem o precioso líquido. antes deles. como signo representativo de um interior que lança grandes 9 . no caso brasileiro. surgiram. o rio da energia elétrica. cria um mundo mítico e mágico na floresta do Rio Amazonas. desde as primeiras entradas e bandeiras que definiam grande parte de seu trajeto em função dos rios que penetravam a floresta ainda inexplorada. de eldorados. O Rio São Francisco marcou boa parte da cultura sertaneja do Nordeste Brasileiro. de José Lins do Rego ou ainda. dois estados: o mundo fenomenal e o estado incondicionado. A cultura Hindu e o Ganges. eletrificou praticamente toda a região do sertão. Caminhos para a descoberta dos territórios inexplorados. Castro Alves narra em verso o drama Cachoeira de Paulo Afonso. Aliás. No caso específico do Brasil. Mário de Andrade escreve suas “Enfibraturas do Ipiranga” em Paulicéia Desvairada (1922). é a paramita. a Babilônia e o Tigre e Eufrates. lembremos de Uma Tragédia no Amazonas (1880). trazendo mais do que luz. Maleita (1935). O Rio Amazonas na região Norte. Raul Bopp em Cobra Norato.” (CHEVALIER & GHEERBRANT. no caso do Brasil. só mais recentemente as possibilidades de irrigação que o rio poderia oferecer foram exploradas. em quase sua totalidade em razão da proximidade navegável com o grande rio. de Raul Pompéia. Desde a expedição de Vicente Pinzón à foz do Amazonas. ensina o Patriarca zen Hueineng. como também pela água corrente sem espuma. Riacho Doce (1939). A margem oposta. No romance. a análise da própria evolução cultural da humanidade. p. porém. e a travessia é a de um obstáculo que separa dois domínios. temos esse processo de busca de compreensão da enorme extensão de terra desconhecida em que se suspeitava a existência de tesouros perdidos. o papel dos rios no desenvolvimento de nosso país foi de suma importância. Mar Dulce. com exemplo do rio Amazonas. A simbologia indígena que destaca o papel do rio no processo mitológico de criação do mundo. o rio como imagem do caminho da colonização do sertão. esse estado é simbolizado não só pela outra margem. como entrada dos bandeirantes. Assim. ainda hoje. a principal via de comunicação entre as cidades. que a partir da Chesf e da usina de Paulo Afonso. ao Princípio. a possibilidade do progresso para as cidades com a instalação de indústrias de beneficiamento da produção agro-pecuária.

10 . Que a sereia canta bela. em que a água sempre está por um fio. O rio como estrada. o barco são os meios utilizados para tal. mas da vida por viver. como caminho é uma estrada fluídica. Ó pescador! Pescador da barca bela.. Rios são de água pouca. A canoa. a canoa que levará ao encontro com o mar. que necessita dum suporte para que o homem possa seguir por seu curso. na acepção cristã. Que perdido é remo e vela Só de vê-la. Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela. Num sentido alegórico. Este como morada da alma. cujo passado é memória. Muito sucesso fez o poema “A barca bela” de Almeida Garrett: BARCA BELA Pescador da barca bela. Onde vais pescar com ela. é o barco. Foge dela. a totalidade. Que é tão bela. Ó pescador! No Brasil. lembremos dum poema de João Cabral de Melo Neto: Os rios Os rios que eu encontro vão seguindo comigo. foge dela. o rio como metáfora da estrada da vida tem como suporte material para sua alegórica navegação o corpo humano. Mas cautela. Inda é tempo. Ó pescador! Não se enrede a rede nela. favorece a alegoria de ver o rio como símbolo da vida. Ó pescador! Deita o lanço com cautela..quantidades de água ao mar. da vida que corre do presente para o futuro.

lemos a descrição do caminho que se deve fazer para se chegar à casa de Marília : Entra nesta grande terra. Passa a segunda e a terceira Tem um palácio defronte. cita como um dos locais propícios à pesca o estar sobre a ponte: Pescador Pescador. da Marília de Dirceu. muitos só com apelido. outros com nome de bicho. em que a alegorização do rio como símbolo atinge um de seus mais altos graus na literatura brasileira: “Sou homem de tristes palavras. apenas Ouço a água ponteando no peito da tua canoa. Conhecido é o conto de Guimarães Rosa. o rio — pondo perpétuo. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios.” 11 .. Uns com nome de gente. Rios todos com nome e que abraço como a amigos. de Tomás Antonio Gonzaga. sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio. portanto. Os rios têm afigurado no imaginário brasileiro como caminhos. tanta culpa? Se o meu pai. De que era que eu tinha tanta. Na primeira estrofe de “O Pescador”. deixa de ser um aspecto corroborador do rio como obstáculo. como signo de passagem no sentido alegórico. contemplar como observador o curso contínuo das águas que vêm de distantes paragens e seguem em direção ao mar ou a rio maior. A ponte.. Na lira XXXVII. Passa uma formosa ponte. numa das estrofes. o ponto em que o homem pode. uns com nome de santo. Seguindo o sentido dessa visão do rio como caminho. “A Terceira Margem do Rio”. como signo da união das duas margens. os rios brasileiros têm sido muito mais caminho que interrupções ou obstáculos do caminho. A ponte. onde vais pescar esta noitada: Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? Está tão perto que eu não te vejo pescador. é no seu ápice.Cortados no verão que faz secar todos os rios. Vinícius de Moraes. ponto de admiração e de contemplação do rio. para ser sim.

Lisboa. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro. MELO NETO. São Paulo. Obra Completa. Poesia e Teatro.Haroldo de Campos. e como tal. José Olympio. João Cabral de. 1989. Vinícius de. Tomás Antônio. Nova Aguillar. ROSA. MORAES. Tal concepção parte da premissa de que o tempo a tudo modifica e que a correnteza do rio é a alegoria do tempo. Seja como for. Alain. René. São Paulo. Própria. 2005. a evolução. Galáxias. Ex Libris. entender na sua fluidez a modificação. Nacional. de momentos diversos desse rio. Almeida. CHEVALIER. o rio é um dos símbolos mais fortes da nossa cultura. a passagem do tempo e da vida acaba por ser uma das mais ricas imagens poéticas. Martin Claret. GUÉNON. 1994. Rio de Janeiro. Poesia Completa e Prosa. São Paulo. 1984. Mas em Haroldo de Campos. Figueirinhas. 1944. São Paulo. a idéia é de uma sincronização de acontecimentos. Os Símbolos da Ciência Sagrada. 2008. 2004. Guimarães. Nova Aguillar. Pensamento. 2005. Haroldo de. Marília de Dirceu. GONZAGA. Primeiras Histórias. GARRETT. Referências Bibliográficas CAMPOS. Sergipe 12 . Rio de Janeiro. Heráclito de Éfeso apresenta o argumento de que não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. apresenta-nos a idéia dum contínuo aventuroso da linguagem poética como a correnteza do rio. Jean & GHEERBRANT. nas suas Galáxias.

representar a tristeza. é assim o lugar de alegria para o eu lírico. estas com seu aspecto assustador vão trazer nos adultos a lembrança dos medos que as crianças têm de caras feias. tem como um de seus sucessos a música Nilo Brasileiro. mas “com” São Francisco. Depois. por meio desses comentários. A seguir. um dístico que se desenvolve na canção como um refrão: “Navegarei no infinito / Navegarei com São Francisco”. em Minas Gerais. pode ainda. é em referência ao nome dado ao rio. por sua vez. em ritmo nordestino de baião. flora São Francisco é santo. obra divina. As duas primeiras se referem à riqueza natural que envolve a bacia do São Francisco. é flora. O infinito aqui redimensiona a figura do rio como metáfora da vida. tentaremos perceber qual é imagem do Velho Chico que está presente nessas canções. a de santo. criada em 1981. O rio pode ser um símbolo conquanto represente a vida. rio São Francisco em Pirapora Soltarei o meu sorriso” Agora. a passagem do tempo ou a inevitabilidade do fluir dos acontecimentos. sinta voltar A criança que está em você” A estrofe cita o local de nascimento do rio. mas a terceira qualidade.O Rio São Francisco Como Tema da MPB Neste breve artigo comentaremos acerca de algumas letras de música popular brasileira que colocaram como tema o Rio São Francisco. a cidade que está próxima à nascente do rio. faz referência às carrancas. são várias as imagens. a canção passa a adotar o nome do rio acrescido de outras qualidades: é fauna. lemos: “São Francisco é fauna. Pirapora. O tema do rio na música é antigo e tem suas metáforas características. as mágoas. Na segunda estrofe. como protetor dos animais e da Natureza se mostra aqui como o santo católico mais adequado a emprestar o nome ao rio. Guardadas as devidas proporções. tal comparação se faz jus mediante o papel integrador que ambos os rios desempenharam. logo colocando o nome “Nilo” como qualificativo do São Francisco. Lailton Araújo e Wanderley Araújo. assim não mais se navega “no”. como busca da eternidade. ou as lágrimas numa aplicação de hipérbole. O santo. Na primeira estrofe da canção lemos: “Nas entranhas da ‘Canastra’ Nasce um grande aventureiro ’Nilo’. é santo. ambos da Banda Moxotó. 13 . ou se. apresenta já no título a comparação entre o rio São Francisco e o Nilo. na serra da Canastra e também do longo percurso (“um grande aventureiro). uma vez que a Natureza rica em fauna e flora se apresenta como obra santificada. nome milenar Filho do solo brasileiro Margeando o seu leito As carrancas vão assustar Nas lembranças. A música. deixando de lado o qualificativo de “Nilo”.

os compositores falam de lembranças da infância em volta do rio. Na primeira estrofe a canção faz referências aos elementos da mitologia indígena (Jaci. Bahia De Januária à Curuçá” Assim. a cantiga em homenagem ao rio que corta o sertão semi-árido. Alagoas e Bahia que ficam às margens do rio. A penúltima estrofe se compõe de nomes de cidades em Pernambuco. Todo o processo aos olhos do menino é um processo mágico. as cores das bandeiras nas festas populares das cidades ribeirinhas se tornam imagens metonímicas da riqueza que vem com as hidrelétricas. O a que se desdobra e que ecoa pela caatinga como eco da canção do rio. Brejo Grande Águas tão nordestinas” Porém. Pão de Açúcar Petrolândia e Petrolina Ibiraba. bem à lenda do colonizador acerca do Eldorado. entre os indígenas na luta de preservação de sua nação e cultua e a do europeu em busca da imaginada cidade de ouro no meio da mata: “Um grande rio as formou Pelas lágrimas de Iaty Na consagração do sol e da lua Homem branco veio invadir 14 . No carnaval paulista de 2006.Na estrofe seguinte. O eu lírico aqui se apresenta relembrando as imagens que estavam na consciência do eu enquanto criança. a escola de samba Mocidade Alegre desfilou sob o samba-enredo “Das Lágrimas de Iaty surge o Rio.Para os Olhos do Mundo um Símbolo de Integração Nacional: Rio São Francisco". trazendo energia para toda a região. presenciando o processo de desenvolvimento da região com a chegada das hidrelétricas: “As bandeiras da fortuna Velhos sonhos coloridos Esmeraldas. a criança que está ainda vida nos compositores e que se expressa por meio do verso e da canção. Assim instaura-se o conflito. o que são “Águas tão nordestinas”? O rio que corre uma região semiárida. Iaty). ecoará pela caatinga. e que tem a capacidade de sustentar hidrelétricas. O dístico final da composição: “No toque da minha cantiga / Irrigarão a caatinga”. O título num tom quase barroco já se propõe a utilizar os aspectos lendários e do imaginário da colonização da região do São Francisco. de fornecer água para irrigação é nesse aspecto um “Nilo”. hidrelétricas O menino viu passar Na pureza da magia Nas cidades que nasciam Em Minas Gerais. do Imaginário Indígena a Saga de Opara. e também uma visão “mágica” aos olhos de uma criança. terminando com o verso que designa a localização regional dessas cidades: “São Romão. de ser navegável.

O ritual profano do Toré é apresentado como ritual de fé. Na estrofe seguinte um caleidoscópio em que imagens se misturam para contar do processo de miscigenação e de colonização da região do vale do São Francisco... não mais em sentido explícito de conflito. de modo a criar atmosfera da comunhão entre a religiosidade do Pajé e a do pescador cristão.. “Vapor encantado. a festa do Divino. mas em conjunção para compor a cena: o pajé e o pescador. pode-se planejar um futuro mais promissor. a referência ao ritual do Toré e a citação à Iara. conquistando essa identidade que ora se apresenta multifacetada e em mosaico. as romarias. o sincretismo religioso e a mistura de elementos europeus. A tribo indígena. Tudo é resumido na idéia de uma “Tribo Brasil”. 15 . O Toré Se o pescador o Velho Chico encara Se encanta nas águas. mistérios no ar Lá vai sertanejo.. estórias contar Miscigenação. o epíteto de “Rio da Integração Nacional” se apresenta como resultado histórico do processo de colonização. Processo semelhante ao que o Romantismo do século XIX adotou para compor a história poética do Brasil em poemas como A Confederação dos Tamoios. E assim.. já extinta. De Iara” Agora dois personagens estão aí colocados. Rica cultura o tempo ultrapassou Festa do Divino. de Gonçalves de Magalhães ou nos poemas indígenas de Gonçalves Dias.E despertou das profundezas maus espíritos Jacy a grande noite provocou Ao proteger o paraíso do invasor Visando o Eldorado a procura de riquezas A cobiça prevaleceu Batalhas e guerras sangrentas No coração da mata o índio defendeu o que era seu” Na segunda estrofe. Romaria abençoou Vai a carranca todo mal espantar Vem repentista canta esse santuário Um rio de integração nacional Terra Mãe . fornece com seu sacrifício os elementos de uma sublimação do espaço e do tempo conquistados. pede proteção Resgata a "Tribo Brasil" O futuro está em nossas mãos” Ainda nesta estrofe. De fato. africanos e indígenas está presente na maioria das festividades folclóricas da região. as carrancas. mito indígena das águas: “Na dança do Pajé Um ritual de fé. A estrofe sugere que é preciso resgatar o passado – notadamente os valores do passado pré-colonial – para se unir à “Terra Mãe” como forma de afirmação da identidade da cultura brasileira. O sertanejo..

A seguir se repete duas vezes os versos: “Pra não morrer de saudade. A seguir lemos os versos: “Do outro lado do rio tem uma cidade / que em minha mocidade eu visitava todo dia. Navegar” Numa imagem poética de alegorização o rio é transposto para a avenida onde se apresenta a escola de samba.Na estrofe final. o compositor escreve: “Hoje eu me lembro que nos tempos de criança / Esquisito era a carranca e o apito do trem”. a carranca incutia medo na 16 . chorou tanto que suas lágrimas formaram a cachoeira de casca Dantas. formando o curso do rio São Francisco... então se diz que a construção humana se harmonizou com a Natureza. Em que se pese o tom ufanista da letra do samba-enredo. / vou voltar pra Petrolina”. como se o desfile da escola fosse a metáfora da correnteza do rio. hoje substituído. Aqui a ponte se apresenta como o elo de ligação entre os dois lugares que fizeram parte das lembranças da infância do compositor. diante do ritmo avassalador do processo de colonização. Jorge de Altinho. A elipse aí colocada entre esse dístico e os versos antecedentes é que o compositor quer voltar à Petrolina para ver a beleza da ponte.” O compositor então se coloca como morador de Petrolina e que costumava visitar a cidade do outro lado do rio. por ser tão bela. Segundo lenda indígena. composição gravada pelo Trio Nordestino primeiramente. as lágrimas de Iaty é que vão compor as águas que correm no Rio São Francisco. com ambigüidades características. mas sim sujeito do segundo verso (“Ela – a beleza – conservou a natureza”). nasceu a beleza / E a natureza ela conservou”. incorporando ao discurso poético a referência à forte religiosidade do povo nordestino. o que se entende que a construção da ponte conseguiu tal relação com a Natureza devido à bênção de Jesus. a composição apresenta os elementos centrais da discussão acerca da preservação cultural. sendo esta uma obra abençoada. mas depois por Elba Ramalho. notadamente indígena. Por outro lado. fazendo da ponte parte da própria Natureza – o que seria uma interessante construção poética. Numa linguagem bem popular. A música tem como tema o cenário da ponte que liga as duas cidades. O terceiro verso diz: “Jesus abençoou com sua mão divina”. Retomando a idéia do título do samba-enredo. pelo processo de urbanização e de desmatamento. Se entendemos que o pronome “ela” se refere à beleza. é o resultado direto no poema dessa busca de identidade que se supõe esteja no imaginário do índio transposto para a cultura do colonizador: “Corre nas veias do sertão "Opará" a salvação Vamos preservar Vem a Morada do Samba. Jorge de Altinho começa a canção dizendo: “Na margem do São Francisco. A seguir. Iaty era o nome de linda índia que chorou a morte do amado em uma guerra. a referência ao nome indígena do rio (“Opará”). e as águas seguiram os passos dos guerreiros desaparecidos. Como na composição de Laílton e Wanderley Araújo. se lemos que “ela” não é objeto direto de “natureza”. compositor popular. então se diz que a Natureza incorporou a construção da ponte. teve como um de seus primeiros sucessos “Petrolina Juazeiro”. Outra música que trata do tema é “Ciúme” de Caetano Veloso (esta canção analisamos em outro artigo). apresentando explicitamente suas memórias de criança. Geraldo Azevedo e Alceu Valença.

mas aqui é o compositor que se transfigura liricamente na imaginação duma criança que tenha vivido entre as duas cidades). A barcarola tem como aspecto definidor o de tratar do tema da água. mas adorar tem além do sentido de prestar culto. Geraldo Azevedo. também pode significar amar. se refere ao exótico. o compositor vai criando a metáfora rítmica do barco a navegar sob águas calmas: É a luz do sol que encandeia Sereia de além mar Clara como o clarão do dia Mareja o meu olhar Olho d'água. uma vez que gostar. confere um sentido rítmico ao movimento da ponte e do trem. compôs sob o tema a música Barcarola do São Francisco. pois o trem que vinha apitando. O título da canção é “Petrolina Juazeiro” e no verso final temos a ordem Juazeiro – Petrolina. O dístico final: “Todas as duas eu acho uma coisa linda / Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina”. como que simbolizando a volta depois da ida. mas pode também sugerir uma graduação. a de Geraldo Azevedo. demonstrando como a engenhosidade humana pode se harmonizar com a beleza da Natureza. gravou também a música de Jorge de Altinho. No caso. em grandiosidade para que o barco à vapor passasse. Nos dois versos seguintes. o menino via beleza na engenhosidade da ponte pênsil se levantar. Já o apito do trem era para a criança um outro motivo ligado ao adjetivo esquisito. que como já dissemos. vela a bailar Barcarola de São Francisco Me leve para o mar Era um domingo de lua Quando deixei Jatobá Era quem sabe a esperança Indo à outro lugar Barcarola de São Francisco 17 . grande e barulhento. Na sua simplicidade de compositor popular. criando um aspecto metalingüístico com a música. município próximo de Caruaru. A expressão “gostoso vai e vem”. Jorge de Altinho cria uma atmosfera de ingenuidade e de encantamento diante da ponte que liga as duas cidades. sugere que a ponte criou essa união entre as duas cidades e que o menino – recuperado pelas memórias do compositor – se eterniza na visão que o compositor tem ao rever a ponte. Jorge de Altinho escreve: “Mas achava lindo quando a ponte levantava / E o vapor passava num gostoso vai e vem”. causava na criança esse estranhamento. Se primeiro “esquisito” se refere à carranca como feio. notadamente de um rio ou corrente de água e ter um tom sentimental romântico. no caso do apito do trem. região do Agreste Pernambucano. bucólico ou infantil. mas em Altinho. Opondo-se ao estranhamento do apito do trem e á feiúra da carranca. num ritmo híbrido com versos octassílabos e hexassílabos.criança pelo seu aspecto assustador. como se tal ação significasse a harmonia entre o barco e a ponte. beira de rio Vento. ao estranho. A ponte enfim faz esse elo de união entre os dois lugares que compõem as lembranças do compositor (em que se pese o fato de que biograficamente Jorge de Altinho não viveu em Petrolina ou Juazeiro. Os verbos gostar e adorar tem aqui uma função sinonímica. o de amar exageradamente.

Luiz Gonzaga. como momento inicial dessa busca esperançosa se contrapõe ao presente. O domingo de luar de prata. ponte de chegada. sem tesouro de prata ou de luar. O conflito entre o querer e a realidade.Velejo agora no mar Sem leme. esta se mostra inatingível. entre a esperança e o alcançado: “Era quem sabe a esperança / Indo a outro lugar”. na busca da sereia. colocado na “Noite longe que ficou em mim”. realização. como passado. No presente o eu lírico agora tem a esperança de voltar a ver o brilho do sol no horizonte sobre o corpo da sereia. Geraldo Azevedo. como musa perfeita distante da realidade. em sonho um beija-flor Rasgando tardes vou buscar Em outro céu Noite longe que ficou em mim Noite longe que ficou em mim Quero lembrar Era um domingo. Os dois lugares. apresenta sua barcarola recuperando o sentido lírico.. nos apresenta um outro cenário acerca do rio São Francisco. caminho. menestrel reciclado do sertão e do mundo moderno. o primeiro como início. Metáfora da busca da felicidade. a canção faz do rio São Francisco o espaço mágico dessa busca. ponto de partida.. a junção da luz do sol com a silhueta da sereia encanta o eu lírico que se lança a navegar em busca de alcançar a sereia. mítico e bucólico do cenário das águas do São Francisco. o brilho do sol ilumina o corpo da sereia de além mar. rio e mar. No início da canção. a sua oposição como espaço de águas com o sertão seco. como destino. o segundo. em “Serra do Navio”. Porém. mapa ou tesouro De prata ou luar Eu. solitário no mar. “Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Se eu fosse um peixe Ao contrário do rio Nadava contra as águas E nesse desafio Saía lá do mar pro Riacho do Navio Saía lá do mar pro 18 . Por sua vez.

Voltar para o sertão para ver sua terra natal.Riacho do Navio Pra ver o meu brejinho Fazer umas caçada Ver as "pegás" de boi Andar nas vaquejada Dormir ao som do chocalho E acordar com a passarada Sem rádio e nem notícia Das terra civilizada Sem rádio e nem notícia Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Riacho do Navio. que só sobrevive nelas. O eu lírico busca a si mesmo esquecendo o mundo urbano – Fugere Urbem reinventado nas circunstâncias do sertão. Porém. As águas. Riacho do Navio. que vive nas águas. Luiz Gonzaga. Porém a relação entre Lócus amenus e lócus horrendus aqui é ambígua. as vaquejadas. que por sua vez é afluente do São Francisco. o sertão. da qual pretende fugir. como o flagelado da seca deixar sua terra. após o refrão. o do Navio e o Pajeú passam meses sem água. de fato é inóspito pelas condições climáticas. Nesse outro lugar o sertanejo se sente deslocado. o riacho do Navio é um dos principais afluentes do rio Pajeú. Tando lá não sinto frio”. De fato. é inóspito pela condição social em que o sertanejo se encontra. aqui. daí sua necessidade de voltar e de esquecer o lugar em que fora forçado a ir: “Sem rádio e sem notícia das terras civilizada”. apresenta a estrofe em que demonstra o desejo do sertanejo longe de sua terra de voltar ao seu torrão: “Se eu fosse um peixe / ao contrário do rio / nadava contra as águas”. Rios de caráter temporário. 19 . a vida de vaqueiro enfim. A música tem como refrão uma descrição do caminho das águas do Riacho do Navio até a foz do São Francisco. metáfora da condição do imigrante do polígono das secas que procura as capitais do litoral ou do sudeste como forma de escapar da condição de flagelado da seca. O lugar agradável. como forma de recuperar sua identidade. Metamorfoseado em peixe. bem ritmado no baião. Luiz Gonzaga propõe a volta. tanto é natural ás águas irem para o mar. arrisca-se ao fazer o caminho inverso das águas. Bacia hidrográfica da região do semi-árido. Essa saudade do sertanejo se opõe à condição da vida na cidade grande. Assim. sem reconhecimento. se mostrando insatisfeito com a situação de degredo forçado. A terra civilizada é o espaço da comunicação – o rádio aqui representa essa comunicação. ao passo que a cidade. o caminho inverso. essa agitação típica da cidade. reviver as caçadas.

o rei. O arco-íris trovejou . é um sertão medieval. Compõese versos acerca da arte do amor. O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor . As canções 2. com violas na afinação característica. O príncipe das Verdejanças e o amor do Verdejar .(Patinhas .(Fernando Lona . costumes. A primeira canção (“O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor”) é no ritmo do repente. As faixas que compõem o disco Águas do São Francisco (1979) de Carlos Pita são: 1. Carlos Pita vai compondo um panorama caleidoscópico de personagens característicos como a princesa.(Carlos Pita) 2.(Carlos Pita) 5.O caminho do rio Pajeú e do riacho do Navio é a metáfora desse desejo do sertanejo. estavam presentes. o príncipe. com destaque para o cenário do Rio São Francisco. Princesa sertaneja . ao inverso do São Francisco. enfim.(Patinhas . 3 e 4 formam uma trilogia centrada na imagem das novelas de cavalaria: "Cavaleiro enluarado. geografia e folclore da região.Gereba) 10. flora. se afastam do mar. A história dos quatro reinos desaparecidos e os guerreiros do Mal Viver .Carlos Pita) 12. em que a letra vai se formando com referências à fauna. O romance do rei do Ensolarar com a bela das Rendas de Lua . Carlos Pita em 1979 lançou um disco constituído de músicas que formam uma espécie de narrativa tendo como tema uma transposição do universo das novelas de cavalaria para o sertão.Kapenga) 8.(Carlos Pita) 9.(Carlos Pita) 3. A rainha do Trançar e o violeiro dos Esqueces .(Carlos Pita) 6. acerca das guerras de cavalaria. que entre outros. De onde vens que não se chega? De que terra traz partida Coração sujo de estradas?" (“A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar”) A terceira canção (“A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca”) busca metaforizar o vaqueiro do sertão com a figura do cavaleiro medieval. Dércio Marques e Fábio Paes. a rainha. de fato ambos os rios correm no sentido do Nordeste para o Sudoeste.Carlos Pita) 11.(Carlos Pita) 4. A princesa do Agreste e o cantador do elo ao mar . que ao pegar as águas desses rios dá à elas o sentido esperado de seguir em direção ao mar. o cavaleiro. A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear .Carlos Pita) 7. a donzela. ou seja. No 20 . daí sua armadura de couro e corda e sua dama ser uma certa “dama dos Rasos de Seca”. A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca .(Fernando Lona . Por essa época Carlos Pita estava envolvido com o grupo de artistas liderados por Elomar. A história da princesa das Candeias de amor com o cego do Alumiar .(Carlos Pita) Tendo como pano de fundo as raízes medievais do canto repentista e da literatura de cordel.A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar . Xangai.(Fernando Lona .

mas já se encontra latente na obra de Guimarães Rosa. como outras que até aqui vimos.) Você é o espelho da pura bondade”. Fundada num imaginário que vê reis. Em outra composição. transposta para a pregação de beatos como Antônio Conselheiro e José Lourenço.” A seguir. Esse rio é um verdadeiro mar. E farei a luz do Amor Clarear teu coração. compositor natural de Xique-xique. defendiam a monarquia. que se qualifica pela bondade e pela pureza: “Sei que és meu amigo. na poesia épica de Marcus Accioly. A letra da composição. talvez desses imaginários que é natural da infância.. te vendo passar. em que reis de reinos imaginários dum sertão lendário se aventuram em guerras e conquistas de amores. Conta as guerras que te atreves. Molhado à garoa. princesas. tem a música “Rio São Francisco”. tem como argumento as lembranças de criança numa infância em torno do rio: “Lembro das pescarias. tem também suas bases no sincretismo religioso que vai buscar essas figuras na religiosidade medieval vinda com o colonizador português. “Assobio do Vapor”. O tema do sertão medieval é constante nas obras teatrais de Ariano Suassuna. Pedro Sampaio.” O Rio São Francisco é personificado por Pedro Sampaio num amigo. cavaleiros e cantadores espalhados pelos confins do sertão. uma monarquia messiânica.mesmo tom vai a canção seguinte (“A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear”). presta. E eu sentado na proa. A canção “A Princesa do Agreste e o Cantador do Elo ao Mar”. Fazendo a república jus a essa imagem pela forma violenta com que tratou essas manifestações sertanejas de beatos. na música de Elomar Figueira de Melo. já no título. com fortes elementos do sebastianismo português e que viam na jovem república a antropomorfização de elementos demoníacos e apocalípticos.. Bahia. Pedro Sampaio canta a navegação no Rio São Francisco: 21 . que de certa forma. em que o cavaleiro sertanejo é um vaqueiro: “Cavaleiro que passas Que vais pro Sertão Qual o destino que levas? Que queres correndo o chão? Conta os caminhos que segues. as canções do disco seguem um tom de narrativas de aventuras palacianas. tu podes provar (. uma homenagem ao cantador Elomar. Quando meu pai me dizia.

“Quem ouviu o assobio do vapor Quem vai partir Que arrume as trouxas por favor Vai subir o rio afora Vai chegar em Pirapora Não tem camas nem retratos na parede (do vapor) Só o balanço que embalança A minha rede (de tricô) Vou levando minha viola E as cantigas com o parceiro Loiola” O assobio do vapor serve de motivação inicial para descrever a navegação pelo rio. Gino e Geno criam uma composição em que a enchente do São Francisco não é apresentada como destrutiva. O São Francisco é. ainda por cima. o parceiro Loiola. e isto eu achei bom demais" 22 . Uma das maiores enchentes ocorreu em 1979 em que cidades como Barra (BA). Pedro Sampaio. Destacando o porto fluvial de Pirapora (MG). aumentava o amor da gente E eu pedindo ao São Pedro. nesse sentido. origens medievais. cerca de 450 mil pessoas sofreram com as enchentes neste ano. tem como ajudante ou escudeiro. a presentificação do rio da vida. época em que aumentam as chuvas nas cabeceiras. sonhar. mas em outubro. fui obrigado a voltar Pra casa do meu amor e passei a noite por lá Fiquei a noite inteirinha Ao lado da moreninha esperando as águas baixar Enquanto as águas baixava. o rio parece muito calmo. faz do rio o caminho que cruza pelo sertão e pela vida para mostrar suas composições. e o aspecto rústico da embarcação (“não tem camas. como menestrel. de tal maneira que o dormir à rede. as águas do São Francisco me impediram de atravessar a ponte e eu voltei pra casa do meu amor. Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) sofreram com vários bairros alagados e segundo estimativas. Com velocidade de águas raramente superior a 7 quilômetros por hora. que aumentasse a enchente: São Pedro eu estou gostando As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente Falado: " É meus amigos. ocorrem as enchentes. assim como o do compositor. nem retratos na parede”) e o hábito sertanejo de dormir em redes (“Só balanço que embalança / a minha rede”). cujo nome tem. mas apenas como força que impede o personagem de atravessar a ponte. eu tomava café quente Muitos beijos e abraços. E como um Dom Quixote ou um cavaleiro menestrel. servindo assim como álibi ou desculpa para que ele retorne aos braços de sua amada: As águas do São Francisco estava por cima da ponte Este é o grande motivo que eu não pude atravessar Mas isso eu achei foi bom. O tema parte da cena das enchentes do rio. O compositor. O balanço da rede assim se harmoniza com o ritmo das águas do rio. é parte desse rio alegórico que representa o caminho da vida. A dupla de música caipira Gino e Geno criaram a música “As Águas do São Francisco”.

Os dois versos seguintes vão agora contextualizar a região da construção da represa (“O São Francisco lá pra cima da Bahia. tal se deve ao imaginário que envolve a cultura do vale do São Francisco. represas e barcos. a fronteira com Pernambuco que é constituída pelo próprio rio São Francisco. A profecia que tem cunho apocalíptico e sebastianista pode ser encontrada no discurso de cantadores. pontes. porém. era de regularizar a vazão do rio compreendido o trecho entre aquela região e o delta. suas origens são mais antigas. O verso seguinte contextualiza a questão da construção de represas: “Tira gente. de um rio tranqüilo. a imagem de um cenário pastoril. surge a referência à profecia popular de que o sertão vai virar mar. Os três verbos com sujeito oculto (tirar. a letra da canção fala desse espaço lírico em que o amor é o motivo principal. de modo que em Paulo Afonso e em Xingo a água pudesse chegar com uma vazão constante. dizer) nos pés de três sílabas dão um ritmo de grande velocidade à ação humana. sendo a enchente o artifício que permite ao eu lírico a continuação de seu encontro amoroso. a 40 km de Juazeiro (BA) e que deslocou pequenas cidades da região para fora do alcance do lago a ser formado. De fato. / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar”). O “lá pra cima da Bahia” se refere ao mapa da Bahia. A canção se inicia com um verso que pode ser considerado um lema da defesa do meio ambiente: “O homem chega e já desfaz a natureza”. coloca a ação num futuro improvável. sua porção norte. A seguir. música que é quase um hino em questão ambiental. latente e próximo. O refrão da música em versos de redondilha menor e maior faz um jogo de palavras com a profecia do beato: “O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão” 23 . O objetivo principal da represa. porém. mas não nos parece esse o tópico principal. as águas calmas de não mais que 7 quilômetros por hora em seu maior trecho. e os verbos finais mudam o ritmo dos pés (vai \ mu \ dar). põe represa. Lembremos que a grande enchente de 1979 pode ser controlada no referido trecho. segundo a Chesf. O tema da música é acerca da construção da barragem de Sobradinho. diz que tudo vai mudar”. A profecia é atribuída ao beato Antônio Conselheiro. de águas constantes. de um rio “aparentemente” cercado pela civilização de cidades. Este pé. se os compositores fazem da enchente do São Francisco motivo para um affair amoroso ao contrário de citar a destruição que a força das águas provoca. A expressão “dia menos dia” coloca o acontecimento como um tempo indefinido. constituído de uma locução verbal. “Sobradinho” de Sá e Guarabira talvez seja das mais conhecidas músicas acerca da questão das represas do Vale do São Francisco. assim como períodos de seca. vinda desde o processo de colonização do sertão. não é outro o motivo que faz Carlos Pita criar composições de caráter romanesco medieval. pôr. Poderíamos falar em alienação. O rio São Francisco está envolto assim num imaginário que faz do ritmo mais constante de suas águas. de tal forma que o pedido e o agradecimento a São Pedro: “São Pedro eu estou gostando / As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente”. bucólico cercado pelo sertão quente e inóspito. O próprio nome de “O Velho Chico” reforça essa imagem. beatos e poetas anteriores e posteriores a Antônio Conselheiro. com alguns “erros” de concordância.Numa linguagem bem popular.

Junto à orla da represa surgiu o bairro conhecido como “Chico Periquito” com bares e restaurantes à beira do lago. e aí ela tem um sentido apocalíptico religioso. “Casa Nova” nos dá a idéia de casa recentemente construída. na profecia se diz que o mar virará sertão quando o sertão virar mar. pela destruição do antigo em face do novo. o sentido da canção é poeticamente ambíguo. início de uma vida nova e feliz. Casa Nova. Os dois versos seguintes: “Vai ter barragem no salto do Sobradinho \ E o povo vai se embora com medo de se afogar”. Este medo do progresso é que dá força ao discurso. da tradição. esta por sua vez. conforme se lê no primeiro verso. Sento Sé Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir” O nome das cidades tem um significado maior do que simplesmente toponímico: “Remanso” (se originalmente o significado é uma enseada tranqüila. esclarece o motivo da destruição das cidades locais. com formato de uma curva em arco. antes originalmente era apenas a vila dos trabalhadores empregados na construção da barragem. percebemos que a voz da letra da canção é a do povo local às vésperas da construção da represa. messiânico. mas é também. no sentido figurado é também descanso. 24 . e passaram a utilizá-lo para pilar o sal que salgava o peixe. o medo diante do novo. A desordem na vida local causada pelo progresso. A seguir uma quadra em versos dodecassílabos. o dia do juízo final. permanente. do cumprimento da profecia do beato: a construção da barragem de Sobradinho. O homem é o sujeito da ação na canção de Sá e Guarabira. De fato o lago artificial ali formado é o segundo maior lago artificial do mundo. A poluição das águas e a conseqüente destruição da Natureza pelo homem mesmo e não por uma ação castigadora de Deus. permanente. em Sá e Guarabira o sentido é ecológico. Convém ressaltar que os municípios citados foram reconstruídos em local mais seguro e que com o tempo obtiveram progresso econômico e social com a barragem de Sobradinho. Assim. Desse modo. Assim. relendo a letra de Sá e Guarabira. “Sento Sé” se refere ao lugar em que a Sé (igreja principal de uma diocese) se localiza. em uma das margens do rio São Francisco. no contexto da construção da represa e dos benefícios que ela trouxe. cita o nome das localidades atingidas pela subidas águas e compõe a cena do gaiola – tradicional embarcação do rio – navegado por onde antes era uma cachoeira. O verso “Debaixo d’água lá se vai a vida inteira” faz referência à perda das raízes. a construção da barragem deu origem a uma nova cidade. desaparecida pelo aumento das águas: “Adeus Remanso. E por sua vez. o de Sobradinho. tranqüilidade). o aumento das águas vem provocar a destruição da tranqüilidade local. De fato. a quebra do que parecia imóvel. da identidade. “Pilão Arcado”. com autonomia de município em 1989.A inversão da profecia (“o medo que algum dia / o mar também vire sertão”) tem um sentido apocalíptico. Conta a tradição local que a denominação está ligada a uma lenda de pescadores que encontraram um pilão. Porém. sob esses aspectos. As incertezas causadas pela modificação do cotidiano. o que nos dá uma idéia de localização duradoura. de tal forma que ao mesmo tempo é crítica mordaz e bem fundada à destruição da Natureza pelo homem. do aumento das águas.

inclusive pelo episódio de uma greve de fome contra o projeto. esta musica foi composta logo após uma viagem minha ao nordeste no mês de novembro de 2004.” Sílvio Brito faz referência ao processo de assoreamento do rio e à poluição. 25 . Esta é minha contribuição ao movimento e eu a estou colocando à disposição para ser utilizada na sua campanha ‘Uma vida pela vida’.” 1 A canção de Sílvio Brito tem como refrão os versos distribuídos em duas quadras de rimas cruzadas ABAB e tendo em cada quadra. Sílvio Brito escreveu ao frei: “Querido irmão. tem se mostrado que o curso do rio São Francisco vem sofrendo continuamente com isso. três versos octassílabos e um quarto heptassílabo: “O Velho Chico tá morrendo Já nem tem mais navegação E ainda tem gente querendo Essa tal transposição O Velho Chico tá sumindo Ta suplicando salvação Mas em seu leito tá pedindo A revitalização. criando dois grandes canais que serviriam água para o sertão de Pernambuco e Ceará. até a bacia dos rios Piranhas e Jaguaribe. na bacia do mesmo nome. sejam – principalmente – as indústrias. tendo sua vazão prejudicada ano a ano. sejam as próprias populações ribeirinhas. Tais ações envolvem políticas concretas. E apresenta como solução para o problema a revitalização do rio. os agrotóxicos e o desmatamento da vegetação ciliada. Conte com este amigo no que puder te servir neste bom combate. e o outro indo até a Paraíba.html. O que se entende por revitalização é o controle das causas do assoreamento e a devida política de controle dos agentes poluidores locais.br/musica_silvio.umavidapelavida. De fato. daí na canção Sílvio Brito diz: “Mas é preciso mais boa vontade Mais ação e decisão Para fazer de verdade A revitalização Pois então vamos reciclar o lixo 1 Silvio Brito em: http://www. O frei Luiz Cappio se notabilizou pela campanha contra a transposição.Já a canção de Sílvio Brito. quando vi o rio São Francisco e fiquei muito triste ao saber que aquele rio que fornece vida para todos os seres que vivem em suas margens poderia vir a morrer. O engajamento é na defesa que comunidades locais do São Francisco fizeram contra o projeto federal de transposição das águas do rio.com. “O Velho Chico” é literalmente uma canção engajada.

Chega de poluição Vamos transformar o Chico No oásis do sertão”. Outro aspecto da canção de Sílvio Brito é o jogo que faz entre o nome do rio e do santo: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza.” Assim, o compositor mineiro, natural de Três Pontas, famoso por sucessos como “Farofa-fa”, “Pare o Mundo que eu quero descer” e “Tá todo mundo louco”, apresenta também um argumento messiânico, da ação divina em defesa da Natureza. Mas tal argumento é apenas simplório e se perde no contexto geral da canção de repúdio ao projeto de transposição, de tal modo que a expressão “Tem gente” no verso “E ainda tem gente querendo”, logo seguido pelo verso “Essa tal transposição”, em que a expressão “Essa tal” tem um sentido pejorativo, na linguagem popular, dá um sentido de que o projeto está fundamento em razões equivocadas e de desconhecimento do verdadeiro problema do rio. Porém, é de se ressaltar que de fato existe a necessidade da revitalização, mas que ambos os projetos, o de revitalização e o de transposição não são excludentes, sendo no máximo dependentes, ou seja, a transposição teria como pré-requisito para seu sucesso a revitalização da bacia do rio. Morares Moreira compôs a música São Francisco, num ritmo agalopado, com predomínio de versos em redondilha maior. A canção sintetiza aspectos culturais do Vale do São Francisco. Partindo de uma comparação entre o compositor e o rio, Moraes Moreira começa a apresentar as características comuns a ambos, num processo de personificação do rio: “O meu caminho eu escolho Tirando o cisco do olho Enxergo longe, me arrisco Sou como o Rio São Francisco Faço no tempo viagens No espaço da noite e do dia, Indo, fluindo às margens De Pernambuco e Bahia Andando por todos os lados Sincretizando os Estados Arrematando as costuras Na integração das culturas” Ora fazendo quadras com rimas emparelhadas, ora com rimas cruzadas, vai tornando o ritmo alucinante das imagens apresentadas. O ofício de compositor popular é 26

assim emparelhado com o caminho do rio: “Andando por todos os lados / Sincretizando os Estados”. Percebamos o verbo aí colocado: Sincretizar, ou seja, integrar elementos diferentes numa síntese. Nas duas quadras seguintes, Moraes Moreira diz que está em busca do que é mais novo, ou seja, do progresso e se apresenta como ponte que unifica, comparando o papel da ponte que liga Petrolina a Juazeiro: “Assim como o rio promovo O abraço que a gente precisa Em busca do que é mais novo Sim ultrapasso a divisa Fazendo a ponte, sem medo Antonio sou brasileiro João, Geraldo Azevedo Petrolina e Juazeiro” Cita nomes populares como Antonio e João, e presta homenagem a Geraldo Azevedo. O verso “Sim, ultrapasso a divisa” é mais do que o sentido de ultrapassar fronteiras regionais ou estaduais, mas no sentido da avant-garde, do ir além do comum, do previsível. Neste sentido, se pensamos não na obra de Moraes Moreira, mas no rio com que se identifica, temos que o rio São Francisco sempre foi palco de discussões acerca do progresso, tido como rio da integração nacional. Na quadra seguinte, Moraes Moreira nos fala da imensidão do Brasil, e que o trabalho de compositor é tão grande quanto o percurso do rio: “Por essas águas tão boas Sou navegante feliz Sergipes e Alagoas Minas, imensos brasis” Sergipe e Alagoas são os pequenos estados que estão na foz do São Francisco. O fato de colocar o nome dos estados no plural é uma forma de torná-los substantivos comuns, fazendo referência que na bacia do Vale do São Francisco, que se inicia em Minas Gerais, cabem várias vezes o tamanho desses dois estados. O verso “sou navegante feliz”, tem um sentido metafórico, é mais do que a referência às navegações no rio, mas sim no sentido de que a história da sua carreira de compositor é uma navegação. A parte final da canção compreende os seguintes versos: “Quem pode parar a planície, Os rios e os oceanos? Ah meu amor, acredite Também assim sem limite É o sonho dos seres humanos Quem pode parar o planeta? E o movimento que há? 27

Ah meu amor, com certeza As forças da natureza O vento quem pode parar? Lavam na beira do rio As lavadeiras de Deus A alma dos pecadores E o coração dos ateus” Aqui duas quintilhas precedem a última quadra. A primeira quintilha começa com uma indagação: “Quem pode parar a planície / Os rios e os oceanos?” Argumentando assim que a força da natureza, especialmente a que se expressa no rio São Francisco é ainda mais forte do que a engenhosidade do homem, e que é o sonho humano dominar o rio, um sonho “sem limite”. Referência indireta às represas, barragens e o projeto de transposição. Por outro lado, na quadra que se segue, o compositor responde que a Natureza pode parar a rotação do planeta, superando assim a força humana. Por fim, mais um questionamento acerca da força da Natureza: “O vento quem pode parar?” A resposta implícita é de que o homem não pode. A quadra final, fecha a canção com a imagem das tradicionais lavadeiras de roupa às margens do rio. Porém, num sentido figurado, a lavagem da roupa suja é também a lavagem dos pecados e da arrogância do homem para com a Natureza. Daí lavar a “alma dos pescadores e o coração dos ateus”. Buscamos apresentar aqui algumas composições populares que tratam do tema do rio São Francisco, é possível que tenhamos esquecidos algumas até mais significativas que estas, mas acreditamos que conseguimos aqui apresentar o panorama da imagem do rio São Francisco na música popular brasileira.

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br\site) e o site (www. do outro lado do rio. tudo quer buscar.com. nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens de Minas De onde o oculto do mistério se escondeu Sei que o levas todo em ti.° Congresso Internacional da Abralic. 1. Cremos que aquela que divide a canção em 5 estrofes. sendo as duas primeiras e as duas últimas transcritas como quartetos. nossa análise já foi parcialmente apresentada no congresso regional da SBPC. nem triste. Pernambuco. Certa feita num bar à beira do Rio São Francisco. sem dúvida. o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Que nem alegre. Canção de Caetano Veloso Uma das canções mais bonitas que fazem referência ao Rio São Francisco é.com. em 2007. cadê Tanta gente canta. e a estrofe central com 5 versos. tomávamos uma cerveja e ouvimos o cantor que ali se apresentava. eu Juazeiro nem te lembras desta tarde Petrolina nem chegaste a perceber Mais na voz que canta tudo ainda arde Tudo é perda. tanta gente cala 29 . do lado de Juazeiro da Bahia. fazer uma interpretação também bem intimista da música.caetanoveloso. com seu violão. próximo à ponte que une a cidade baiana à Petrolina. a que melhor representa essa nossa necessidade: O Ciúme Dorme o sol a flor do Chico meio dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte. inclusive os sites que se apresentam como oficiais de Caetano Veloso (www. em companhia do amigo Benedito Bezerra. Assisti a um vídeo no Youtube com Gal Costa e o próprio compositor baiano em belíssimo dueto interpretando a música. não me ensinas E eu sou só.Acerca de “O Ciúme”. assim como também falamos um pouco acerca disso no 11. ocorrido na UNIVASF. Bahia Só vigia um ponto negro. Rio. A Forma e o Ciúme A letra da canção foi por nós consultada em diferentes sites.1. Neste breve texto pretendo fazer uma análise da letra desta canção. Buscamos encontrar a forma de transcrição da letra que mais correspondesse às necessidades poéticas de uma composição versificada. em 2008. menos dramática que a dos dois tropicalistas. eu só.caetanoveloso.br). Já ouvi essa música na voz de Geraldo Azevedo que dá uma interpretação um pouco mais ligeira e ao mesmo tempo. na USP. “O Ciúme” de Caetano Veloso. em Pernambuco.

existe. não permite uma escansão tão simétrica e regular quanto a que propomos para as demais. Assim. mas a engenhosidade de sua metrificação híbrida e o fato de estar colocada ao centro do poema dá um sentido simbólico à forma: Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas De on/ de o/ o/ cul/ to/ do/ mis/ té/ rio/ se es/ con/ deu Sei/ que/ o /le/ vas/ to/ do em/ ti. é também um símbolo da igualdade e da identificação (1=1). o aspecto de que o número 11 é primo./ não/ me/ en/ si/nas E/ eu/ sou/ só. assim como o palindrômico número 11./ mons/ tru/ o/ sa/ som/ bra/ do/ ci/ ú/me. 7ª e 11ª sílabas: Dor/ me o/ sol/ a/ flor/ do/ Chi/ co/ mei/ o/ di/a (11) Tu/ do es/ bar/ ra em/ bri/ a/ ga/ do/ de/ seu/ lu/me (11) Dor /me/ pon/ te./ eu 30 . Podemos contar os quartetos como formados por endecassílabos. A ponte funciona nos dois sentidos./ nem/ tris/ te./ Ba/ hi/a (11) Só/ vi/ gia / um/ pon/ to/ ne/ gro. (11) O número 11 é do tipo palindrômico. na numerologia é um número de avatar. não sendo divisível além de por ele mesmo e pelo número 1. porém. uma diante da outra./ Per/ nam/ bu/ co. com rimas cruzadas. em termos numéricos./ Rio./ tu/do/ quer/ bus/car. A estrofe central do poema./ ca/dê (11) Tan/ ta /gen/ te/ can/ ta. esse processo de divisão assume o caráter psico-simbólico de que a separação entre o eu e o outro é ao mesmo tempo um elo para a auto-identificação. o/ meu/ ci/ ú/me (11) O/ ci / ú/ me/ lan/ çou/ su/ a/ fle/ cha/ pre/ta (E) (11) E/ se/ viu/ fe/ ri/ do/ jus/ to/ na/ gar/ gan/ta (11) Que/ nem/ a/ le/ gre./ nem/ po/ e/ta (11) En /tre/ Pe/ tro/ li/ na e/ Ju / a/ zei/ ro/ can/ta (11) Ju/ a/ zei/ ro/ nem/ te/ lem/bras/ des/ta/ tar/de (11) Pe/ tro/ li/ na/ nem/ che/gas/te a/ per/ce/ber (11) Mais/ na/ voz/ que/ can/ ta/ tu/ do/ ain/ da / ar/de (11) Tu/do é/ per/da./ tan/ ta/ gen/ te/ ca/la (11) Tan/ tas/ al/ mas/ es/ ti/ ca/ das/ no/ cur/ tu/me (11) So/ bre/ to/ da a es/ tra/ da. as duas cidades. isto é.Tantas almas esticadas no curtume Sobre toda a estrada. Como. o número 11 é formado pela repetição do algarismo primeiro. quanto para o reconhecimento do outro. e acentos predominantes na 3. em constante processo de autoidentificação e espelhamento./ eu/ só. Petrolina e Juazeiro estão. sobre toda sala Paira. E ainda. monstruosa sombra do ciúme./ so/ bre/ to/ da/ sa/la (11) Pai/ ra.ª. indo e vindo. de espiritualidade e de intuição. pode ser lido de trás para frente que não modifica o seu valor.

Pode obter esse alívio .ª sílaba é a última do primeiro hemistíquio do alexandrino e a primeira do hemistíquio seguinte.A estrofe pode ser escandida em dois versos heptássilabos e dois dodecassílabos. levam a cabo o que nos hemistíquios se apresenta como possibilidade. evitando o ciúme. para que isso ocorra. daquele filho 2 Carl Gustav Jung. As razões estão na questão do herdeiro. é preciso que o segundo hemistíquio modifique sua característica de acentuação. É preciso reconhecer no outro aquilo que reflete de nós mesmos e saber trabalhar isso. para o homem tornou-se evidente a garantia da paternidade. 271) Ver no outro.G. 8ª e 12ª sílabas. deriva-se. Aqui começamos a falar do ciúme. especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio. é um sentimento que causa dor a ambos. 1993. temos a possibilidade de formar um verso dodecassílabo: “Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas /E eu/ sou/ só.e. ou seja exatamente ao meio do poema. temos uma distinção de três tipos de ciúmes: o competitivo ou normal. O terceiro verso é um alexandrino com elisão na 7. Já que esta 7. para Freud. de Memórias. O segundo verso da estrofe é um dodecassílabo com acentos na 4. é preciso que se modifique algumas características da individualidade. 3. alexandrino.ª sílaba. implica na quebra da solidão também. notadamente dos aspectos egoístas do ser. eu” Porém. ao que se enciúma e ao que sofre o efeito da ação enciumada do outro. que também no processo de união de dois seres. por conseguinte.ª. do poema. temos na forma.ª pessoa do plural. a analogia com a ponte que une (/do–em/). o projetado e o delirante. Desde a antiguidade mais remota.se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade”. Sílabas pares. Freud acerca da projeção do ciúme escreve: “O ciúme da segunda camada. Os dois heptassílabos seriam num sentido significativo da forma da estrofe. reflexões. Se os juntamos. do verso endecassílabo dá a analogia numerológica do que seja essa projeção. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade. o “Ciúme é a falta de Amor” 2 . por analogia. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá. presente do indicativo. Os dois versos centrais da estrofe e. na paranóia e no homossexualismo. no texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. na verdade. Para C. só se mantém em face de tentações contínuas. (FREUD: 1976. sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. o ciúme projetado. Do-em (doem). de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. para que tal união seja prazerosa a ambos. não obstante. tanto nos homens quanto nas mulheres. 31 . Jung. Nesse sentido. O ser “só eu”. o que implica em dizer. um dos quais. a absolvição de sua consciência . no âmbito da relação amorosa ou de amizade é. sonhos. o número 11. O ciúme é doloroso. O ciúme é o processo inverso da autoidentificação na relação de união. dois hemistíquios separados. aquilo que temos medo em reconhecer que existe em nós mesmos. Os nomes Petrolina (gênero feminino) e Juazeiro (gênero masculino) formam. a união masculino-feminino da relação amorosa. eu/ só. p. A origem desse sentimento parece ter causas diferentes. o elemento causador do ciúme projetado. do verbo doer. em Freud. e o par é a união.

não existiria razão causadora do ciúme. esse sentimento é exteriorizado pelo eu lírico. unifica ambos. 1996(a e b). logo é compreendida pelo outro. A descoberta de uma falsa paternidade. essa luz vem de sua interioridade. para satisfação sexual. Este terceiro é o rio São Francisco. Não são poucas as obras literárias que tratam da questão da descoberta da paternidade como elemento definidor da trama. maior necessidade de envolvimento emocional para a prática do sexo. consoante Sheets e Wolfe (2001). a infidelidade sexual tem diferentes conotações para homens e mulheres. A canção termina nesses termos: “Paira. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Na simbologia esotérica. A luz que se reflete. O homem. a Sombra do Ego. 1996 e Harris & Christenfeld. -. monstruosa sombra do ciúme”. que se interpõe entre as duas cidades: “Entre Petrolina e Juazeiro canta”. econômicas e morais. Todavia. o investimento na geração de filhos. o causador do ciúme entre ambos. Jung. O material reprimido forma um self negativo. orientador Ailton Amélio da Silva. O brilho do sol refletido nas águas do São Francisco em oposição ao “ponto negro”. os sentimentos que buscamos negar em nós mesmos formam uma sombra. por seu turno. sentia.G. A estrofe central. A ponte que se constrói. 234 p. implica na perda do que foi feito para outro. Para C. Uma vez que possui luz própria. O rio é o viajante que vem de longe e se coloca entre Juazeiro e Petrolina. em geral. Área de Concentração: Psicologia Experimental) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Não havendo a possibilidade do terceiro. 3 32 . Manter o marido significava a garantia de poder criá-los a bom termo perante as exigências sociais. de modo que o ciúme pode ocultar o brilho do Sol. a infidelidade masculina não tem tal implicação porque os homens têm mais condições de praticar sexo sem amor. ao se discorrer sobre a temática do ciúme é necessário lembrar que para alguns teóricos. pelo menos na cultura ocidental. começa por tratar diretamente do rio: “Velho Chico vens de Minas”. admiração. como em O Arco de Sant’Anna de Almeida Garrett. se tomamos o gênero das palavras “Petrolina” e “Juazeiro” para compor a analogia de um casal masculino-feminino.que continuará a obra do pai. que ao contrário da lua que a reflete. Na primeira estrofe da canção. é a luz do conhecimento que é preciso adquirir exteriormente. Na última estrofe. 1996). Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações / Thiago de Almeida. (ALMEIDA: 2007 3 ) Na letra de O Ciúme. Para a mulher. fazendo com que seja superada a dificuldade causada pela passagem do rio. no lar. temos rima lume/ciúme. no caso da Lua. isto faz com que se imagine que a infidelidade sexual feminina esteja associada com o envolvimento emocional com outro parceiro (De Steno & Salovey. apenas. Como observa Thiago de Almeida: Ainda. sentia-se em condição de se dedicar à mulher e arrumar uma ou mais amantes. como De Steno & Salovey. é preciso que identifiquemos um terceiro. A mulher.São Paulo. esse ciúme logo é superado. pois o viajante segue seu curso. tinha sentido diverso. ao passo que a luz que vem de dentro é a da sabedoria. o Sol representa os sentimentos do coração. Como o amor geralmente é um pré-requisito para o envolvimento de uma mulher em um relacionamento sexual. 2007. Porém. como tal. a admiração que causa a um e o outro a beleza do rio. intrínseco do sentimento de ciúme.

leva o poeta a opor seu “ponto negro” de ciúme ao brilho do Sol sobre as águas do rio. 18. “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. é na canção. Vol. FREUD. Agora o ciúme é o do artista diante da Natureza. Essa obra que substitui o que se perde. quando na verdade é artificial. 33 . eis o mistério.A sombra do self negativo. encontra artifícios para superar a dor da perda iminente pela alegria da descoberta da nova sensação. a dor causada pelo ciúme tira a aura da canção. transforma-se em canto isolado: “O ciúme lançou sua flecha preta / E se viu ferido justo na garganta”. orientador Ailton Amélio da Silva. quanto são os que os ouvem (“Tanta gente canta. 1976. na paranóia e no homossexualismo”. mas enquanto tal.4). que de Juazeiro vieram João Gilberto. se dedica a tentar aprender um modo de controlar o que não consegue conquistar. é sua tênue possibilidade de vitória. O Canto do Ciúme e os sentidos da percepção O ciúme se transforma também no canto do eu lírico: “o meu ciúme” (v. musa da música bahiana contemporânea. pois a obra produzida. Referências Bibliografias: ALMEIDA. o da auto-identificação do eu lírico. Imago. eu”. pois que a beleza da Natureza. O mistério oculto a que se refere a canção é. ao corpo e à alma. se reduz. Thiago de. São Paulo. transgredindo-a. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. A tentativa de captar essa beleza vista ali da ponte entre Petrolina e Juazeiro. tanta gente cala”). substitui o bem que não se pode ter. como aparente parte da cena. 2007. é também o maior trunfo do artista. pois. Sigmund. pois. Porém. cadê”. numa visão trágica. tragédia). Tantos são os cantadores da beleza. reduz o valor do canto à expressão de um sentimento que não é de tristeza (drama. que se sente diminuído pela impossibilidade de posse da beleza da Natureza. A impossibilidade de posse da Natureza causa esse sentimento. 2. a obra materializada expondo-se aos seus sentidos. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. endurecendo-se aos sentimentos como se fossem peles “esticadas no curtume”. A obra humana que se apresenta bela por desafiar a Natureza e conjugar-se no cenário. e a obra de arte a expressão desse ciúme. Ferindo a garganta. não me ensinas / E eu sou só. eu só. Busca incessante de apreensão do belo que resulta no moto contínuo da própria arte. O cantar poético também se modifica. a propósito. mas tal tarefa é fadada ao fracasso do simulacro. Rio de Janeiro. restando a solidão. Movido por esse sentimento. mas o simulacro: “Mais na voz que canta tudo ainda arde /Tudo é perda. eclipsar essa luz do Sol interior. lhe parece fugidia como as águas do rio passando por sob a ponte e seus pés: “Sei que o levas todo em ti. seu canto.2. Lembremos. o criador da Bossa-Nova e Ivete Sangalo. tudo quer buscar. Freud. A vida sob o Sol. não é a verdade. O artista teme perder o que não tem. mas apenas a indiferença do distanciamento causada pela modificação da memória (épica). na impossibilidade de modificar esse estado de impotência de apreensão da verdadeira percepção da Natureza. unindo-se à própria Natureza. dominada pelo ciúme pode. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações Dissertação de Mestrado. nem poética (lírica). É o reconhecimento da mimesis como um processo de imitação. In: S. 1. Nessa atitude inicial de consolação. 234 p. representada pela ponte. alegria (comédia). o reconhecimento dessa impossibilidade (“Sei que o levas”).

34 .Do São Francisco ao Mississipi: O Rio e o Homem na Música Popular.

O rio como cenário bucólico do idílio amoroso não é um tema muito significativo.ex. em Geraldo Azevedo (“Barcarola do São Francisco”. Cabe lembrar. cavaleiros. Ponte Presidente Dutra. que este texto tem de certo modo um pré-requisito de leitura que o que se intitula “O Rio São Francisco como tema de MPB”.ex. uma lenda acerca do vapor. se o leitor considerar que já tem alguma noção acerca das músicas que aqui serão citadas. ocorrendo ocasionalmente. a infância que fala é feita de lembranças compostas pelas imagens dos barcos (gaiolas).Neste capítulo tecemos algumas considerações acerca das representações do rio na música popular brasileira e norte-americana. a construção de represas (“Sobradinho”. que por vezes. São Paulo e Rio de Janeiro principalmente. p. Outro elemento constante nas músicas acerca do rio São Francisco é a referência à ponte que une Petrolina e Juazeiro. é possível ler este sem ler aquele. tem uma raiz de caráter medieval. das carrancas – estas geralmente trazendo o medo na memória da criança – e a vida ribeirinha. porém. O Rio São Francisco na música popular brasileira tem sido representado como rio que em sua bacia guarda uma rica cultura regional. a tripulação fantasma do barco sai pela cidade de 35 . 1979). de ligação. p. Xangai e Vital Farias). Em várias canções a ponte é citada geralmente como signo de união. tendo como nome atual. Cultura essa. A de que em noites de lua cheia. do polêmico projeto de transposição das águas do rio (“O Velho Chico”. é uma das mais movimentadas do país. O primeiro vapor a navegar as águas do rio São Francisco veio dos EUA. inclusive. “As Águas do São Francisco”). de Sílvio Brito. A ponte construída em 1950. Tal processo tem suas bases na corrente de imigração sertaneja-nordestina para as capitais litorâneas ou para o sudeste do país.) e da força da natureza em resposta às interferências (“São Francisco”. princesas e encantamentos. de Moraes Moreira. Outro aspecto constante nas músicas que tratam do tema do rio São Francisco são as lembranças de infância.ex). Rebatizado no Brasil com o nome de “Saldanha Marinho” o vapor navegou de 1871 a 1970. é relativamente comum no caso da cultura brasileira e um tanto quanto um pouco mais raro no caso da cultura norte-americana. o autor se imagina um homem que tendo deixado a região. traz na memória lembranças da infância vividas à beira rio. Mesmo que o compositor não tenha passado a infância na região do propriamente dita do vale do rio. da fórmula e composição na medida velha. Esse sertão medieval tem raízes históricas no processo de colonização portuguesa. num processo de formação da voz lírica da letra da canção. para tanto tomamos como base o São Francisco no caso da geografia cultural brasileira e a bacia do Mississipi-Missouri no caso da norte-americana. o que não é difícil para boa parte dos leitores que têm o hábito de escutar música brasileira e música norte-americana. de Sá e Guarabira. Como memórias dessa voz lírica imigrada. como na música de Gino e Geno. Em algumas canções se trata da questão da interferência do homem no curso da rio. Criou-se. transpondo para o sertão aspectos do sebastianismo messiânico. atualmente recuperado pela prefeitura de Juazeiro é um dos pontos turísticos da cidade.). de certo modo. Essas raízes medievais aparecem em composição de Carlos Pita (no disco Águas do São Francisco. música incluída em disco produzido com Elomar. O que convenhamos. povoando o sertão dum imaginário de reis. O “vaporzinho” como é chamado navegou antes nas águas do Mississipi e hoje é aberto à visitação na cidade de Juazeiro (BA). qual sejam as raízes da poesia de cordel e do trovar dos repentistas. das novelas de cavalaria e poesia palaciana. p.

” 36 . podemos dizer que simbolicamente este barco conheceu os dois rios e pode. social e política. A letra é direta e crítica sobre os danos que causam as enchentes do rio e mostra a incapacidade do homem de dominar a Natureza. tendo inclusive uma extensão maior que a do próprio Mississipi. recriada pelo Led Zeppelin. Uma das composições mais impressionantes sobre as enchentes do Mississipi é “When the levee breaks”. várias guerras e disputas com a França. levees goin to break. A navegação a vapor e as obras de construção de canais e represas estiveram ligadas à história da ocupação daquela região. inúmeras são as canções que tratam direta ou indiretamente do rio. rudes. Espécie de recriação da lenda do Holandês Voador. All last night sat on the levee and moaned. selvagens. Mas se o vapor navegou nas águas do Mississipi e nas águas do São Francisco. a Inglaterra e a Espanha acabaram por deixar os Estados Unidos com um imenso território. Obras de contenção e de regularização do fluxo de águas foram construídas no intuito de estabilizar a vazão das águas durante o período anual de cheias. considerando no conjunto. as barragens irão romper Se continuar chovendo. terminando por conseguir do México a Califórnia. Após a independência das treze colônias britânicas em 1776. A bacia do Mississipi-Missouri corta a região central dos Estados Unidos e tem a foz no sudeste no estado de Louisiana.Juazeiro a seqüestrar pessoas – principalmente moças – para uma viagem pelo rio. eternizada em ópera de Wagner. No âmbito da música popular. ainda. levees goin to break. “If it keeps on rainin. Thinkin bout me baby and my happy home. O rio está ligado sob vários aspectos ao processo de expansão territorial dos Estados Unidos. comparando.” (“Se continuar chovendo. When the levee breaks Ill have no place to stay. como ninguém. saber das semelhanças e das diferenças entre os dois rios. daqueles que perdem tudo por causa das inundações é retratado de forma direta nos versos dessa canção: “All last night sat on the levee and moaned. A bacia do Mississipi-Missouri era assim uma espécie de fronteira era o Nordeste dos Estados Unidos. Em 1927 houve uma grande cheia do rio Mississipi que desabrigou centenas de milhares de pessoas. as barragens irão romper Quando a barragem romper. sempre que possível com composições brasileiras relativas ao rio São Francisco. civilizado. mas que originalmente é um blues de Menphis Minnie e Joe Maccoy. O Missouri é o maior afluente do Mississipi. urbanizado e livre com as terras d’além do rio e do sul. não terei onde ficar”) O desespero dos desabrigados. o percurso Mississipi-Missouri tem 6700 quilômetros. Em sua memória está ecoando as canções norte-americanas e brasileiras acerca desses rios. A guerra civil americana bem demonstrou essa dicotomia cultural. If it keeps on rainin. Trataremos brevemente de algumas. no mais das vezes. só superada pela cheia de 1993.

como eram chamados os brancos pobres (literalmente “os quebrados” – sem grana. em 1927 a segregação racial era forte nos Estados Unidos e na fala atribuída ao presidente. Randy Newman contextualiza historicamente a cena ao citar o presidente Coolidge. assumindo a presidência com a morte deste." (“O Presidente Coolidge veio num trem da ferrovia Com um homenzinho gordo com um bloco de nota nas mãos O Presidente disse. No verso final. então presidente dos EUA: “President Coolidge came down in a railroad train With a little fat man with a note-pad in his hand The President say. Sua política era marcada pelo conservadorismo. afinal não se diz que ele veio com o exército ou uma equipe de salvamento. fazendo referência histórica a uma das maiores enchentes da foz do Mississipi. Vemos aqui que o idílio amoroso. o que sugere algumas soluções paliativas e de gabinete. A ironia também se apresenta no modo como se apresenta o presidente. "Little fat man isn't it a shame what the river has done to this poor crackers land. se vê a preocupação com os “crackers”. sendo Louisiana uma cidade cuja população era em maior parte negra. em que se pede para que São Pedro aumente a enchente para que o personagem lírico da canção possa continuar com um álibi para continuar nos braços de sua amada e não ter que atravessar a ponte. numa espécie de ultra-romantismo acrônico serve de motivo para que não se veja os danos que a enchente traz às populações 37 . A canção começa com a apresentação do quadro da tempestade e da enchente: “What has happened down here is the wind have changed Clouds roll in from the north and it started to rain Rained real hard and rained for a real long time Six feet of water in the streets of Evangeline” (“O que aconteceu aqui é que o vento tudo mudou Nuvens vieram do norte e começou a chover Choveu de verdade muito e choveu por muito tempo mesmo Seis pés de água nas ruas de Evangeline”) Numa estrofe final. sem dinheiro). Lembremos aqui da canção gravada por Gino e Geno.(“Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Pensando no meu bem e no meu lar feliz”) Randy Newman compôs Louisiana 1927. Águas do São Francisco.”) Calvin Coolidge era vice de Warren Harding. vindo de trem com um “little fat man” e seu bloco de notas. “Homenzinho gordo é uma vergonha O que o rio fez com os brancos pobres dessa terra. a ironia. pela pouca ação nos problemas sociais e pelo abandono ou veto de projetos que ajudassem o campo e regiões menos favorecidas.

O grupo Creedence Clearwater Revival compôs Proudy Mary. em ritmo de rancho carnavalesco. não falta água. rollin. um desatino Sertão divino é convivência seu porvir Povo vizinho ao rio não tem acesso à água Como pode dar a água se o filho não tem para si? É ilusão a redenção fartura d´água. Dércio Marques em canção mais ousada.ribeirinhas. Dércio Marques apresenta um engajamento com versos mais refenhos em defesa de seu ponto de vista. o fato é que os projetos não são excludentes. desviar onde ele ir Mas que delírio de poder. Dércio Marques alude ao fato de que as águas servirão para criação de camarão como produto de exportação e que nas regiões que mais sofrem com a seca. complementares. porém. melhor se dá Sílvio Brito que em O Velho Chico sugere um projeto de revitalização em oposição ao de transposição das águas.” (A grande roda girando. com letra que critica a política governamental. rollin on the river. Rollin. Bombar água pra subir” Em outras duas estrofes. No contexto social. 38 . o que falta é vontade política de fazer a correta distribuição das águas dos açudes: “Deixa não vingar transposição Pra criar camarão Em nome do vil metal A nação se ufana em exportação Enquanto o povo do rio tem fome em seu quintal No Ceará. mas sim. Proud mary keep on burnin. não Orós e Castanhão Têm volume abissal Esbanja a elite água de irrigação Enquanto mata de sede o irmão em seu quintal” Assim. sugerindo que a obra favorece a elite e despreza de fato a ajuda ao povo que sofre com a seca: “O que será de todos nós sem o Velho Chico As suas águas já sem forças pra seguir E vem um bando aventureiro cabotino Dar ao rio outro destino. Vão cobrar o olho da cara. Rancho Eterno Chico. fazendo duras críticas às práticas de favorecimento. música na qual se coloca o cenário dos vapores que navegavam no Mississipi: “Big wheel keep on turnin. de apadrinhamento e de elitização da política.

Rolando. Até que eu desci o rio de barco. Life on the Missisipi. conta a história do rio. Blues da autoria de Kern e Hammerstein. Na canção Moon River lemos: “Two drifters Off to see the world There's such A lot of world to see We're after The same rainbow's end 39 . de como seus momentos de lazer se faziam quando navegavam nos vapores em direção à New Orleans: “Cleaned a lot of plates in Memphis. médio Mississipi. Rolando. “He don't plant tater's. estado do Tennesse. Mas então o que ele planta são filhos esquecidos. ele apenas guarda rolando por aí. até a foz. Huckleberry Finn. Nessa obra. But I never saw the good side of the city. teve uma brilhante versão pelo Jeff Beck Group. e nós sabemos que ele não colhe algodão. But them that plant 'em. Pumped a lot of pain down in New Orleans. New Orleans. com Rod Stewart cantando. til I hitched a ride on a river boat queen. that Old man river. Sondando muita dor em New Orleans. Ol’ Man River é uma das canções que tratam da vida dos trabalhadores nas fazendas de algodão na bacia do Mississipi. Que o Rio Velho. e tem um capítulo dedicado a um dos maiores ladrões que viveram às suas margens.Altiva Mary vá queimando.” Comenta-se da vida dura dos trabalhadores. O título é uma referência a um dos “apelidos” do rio Mississipi. assim como aqui. Rolando pelo rio. sim. além das aventuras do rapaz que mora num barraco às margens do rio.” (“Limpando muitos pratos em Memphis.”) O percurso de Memphis.”) Louis Armstrong gravou Moon River. estado de Louisiana era o trecho mais navegado do rio pelos vapores. and we all know he don't pick cotton.” (“Ele não planta batatas. Mas eu nunca vi o lado bom da cidade. Outro livro de Mark Twain. John Murrell. de Mark Twain. oh yes he does. é isso aí. chamamos o São Francisco de “Velho Chico”. he just keeps rolling along. música que faz referência a um dos personagens da literatura americana mais característicos do rio Mississipi. are soon forgotten.

cheia de lamentos e dor. O Rio-lua E eu. e mesmo numa canção engajada como a de Silvio Brito lemos versos como: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza. Assim temos exemplo nas composições de Carlos Pita em Águas do São Francisco. Tal visão tem fundamento no trabalho escravo durante os séculos XVIII e XIX. O primeiro homem é o que sofre a força da natureza ou de outro homem.” (Dois vagabundos livres para ver o mundo. são temas constantes de várias músicas que giram em torno do cenário do Rio Mississipi. cavaleiros e natureza mágica. Deus. Esperando-nos na curva do rio.”) Assim. nas constantes enchentes do rio e na situação de pobreza que boa parte da população ribeirinha viveu em contraposição à riqueza e à fartura das grandes cidades americanas. na segregação racial. que trouxe uma cultura de caráter medieval. o sofrimento dos trabalhadores. princesas. eivado de reis. em Moraes Moreira. em que se pese a pobreza de suas populações ribeirinhas. Meu amigo Huckleberry. Por outro lado. depois. E há um bocado De coisas no mundo para ver! Nós. no Nordeste brasileiro.” Na cultura do Rio São Francisco. os santos católicos. em Geraldo Azevedo. o sofrimento do polígono das secas e as enchentes do rio. o que domina o imaginário de muitas das canções acerca do rio da integração nacional é um cenário imaginário dum sertão medieval. os beatos têm um papel fundamental no imaginário cultural da região para mediação e solução dos conflitos. num procedimento típico do imaginário medieval. Não é por acaso que em New Orleans e Memphis temos o berço do blues e do jazz. os conflitos sociais. a navegação dos vapores como diversão e em geral. Assim. Veremos o fim do arco-íris. o segundo homem 40 . a idéia de que a vida em torno do rio é dura. uma religiosidade católica exacerbada e mitos messiânicos de feição sebastianista. Tal visão parece ter suas raízes no processo de colonização português. econômicos e políticos são apresentados como entre o destino do homem e os desígnios dos céus. o Rio São Francisco. com suas raízes musicais negras. instalada após a guerra civil americana. No caso da cultura do Mississipi os conflitos se regem pela tríade homem x natureza x homem.Waitin' 'round the bend My huckleberry friend Moon river And me.

o conflito é velado. por exemplo nos versos da canção When the Levee Breaks: “Cryin won’t help you. cryin won’t help you. ocultado pelo espelho da introspecção criativa que busca no imaginário medieval razões para acreditar na concretização de profecias acerca dum futuro melhor ou na ação providencial da mão divina. you got to move. escrava e a branca. No caso do rio São Francisco. rezar não adiantará muito Quando a barragem romper. No caso do rio Mississipi. duas diferenças fulcrais no modo de encarar a realidade circundante. fundado no conflito entre a cultura negra. pois. prayin’ won’t do you no good. você terá que se mudar”) São. o modo de tratar o imaginário em relação ao rio.é o que se beneficia desse conflito. É o que vemos.” (“Chorar não irá te ajudar. parece ser bem mais pragmático. prayin’ won’t do you no good. mama. Now. O panorama foi montado de forma a não ser apenas 41 . When the levee breaks. Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira Nesse capítulo buscamos apresentar interpretações acerca do modo como o Rio São Francisco é colocado na poesia brasileira num panorama que vai do Romantismo até a Literatura Contemporânea. rezar não adiantará muito Não! Chorar agora não irá te ajudar. européia. Nega.

acaba encontrando-a vagando numa canoa como que buscando a morte. depois de algumas negativas. Maria conta que o autor trata-se de seu meio-irmão. Maria. querendo vingar-se indaga da amada o autor da sua desonra. Castro Alves e as Imagens Clássicas e Românticas O primeiro grande texto de poesia brasileira a tratar do Rio São Francisco foi o livro A Cachoeira de Paulo Afonso de Castro Alves (1876). João Cabral de Melo Neto. “O Baile na Flor” apresenta a descrição de uma natureza rica. apresenta um entardecer em que os sons da natureza parecem pressentir o desenlace fatal: “Contemplando o infinito. Após ser convencido por Maria a evitar a vingança. pois.. no poema homônimo seguinte. Embora possa se encontrar citações eventuais em outras obras poéticas de autores anteriores. p. / Que a perna te esconde em vão. 77) Não é por acaso. de forma que o cenário da morte coincide com a escuridão noturna. Desde uma imagem romantizada da Natureza intocada até às preocupações com os danos que a civilização urbanizada causa ao meio ambiente...historiográfico e exaustivo. de onde se precipitam na canoa num ato delirante que simbolicamente representaria suas núpcias. intocada. Marisa Lajolo e Samira Campedelli assim comentam o aumento da tensão dramática na obra: “Como que acompanhando o aumento da tensão dramática do primeiro para o último poema.. considerada inútil diante da opressão que a condição de escravos os condena. 1. quanto estético e formal. / Que se banha nas termas do oriente. é apresentada de modo bem ao estilo da verve cabocla e sertaneja. é com Castro Alves que este cenário brasileiro ganha uma dimensão lírica que ainda não havia tido na poesia brasileira. Após a apresentação do cenário da tarde. inclusive do século XVIII. o prenúncio do fim do dia acompanha o ato final dos amantes. na floresta / Rolar o som da funeral orquestra!!!”. tanto no nível semântico.” O terceiro poema.. que o primeiro poema.. Procurando por ela.. em lindos cardumes. a poesia brasileira quando se propôs ao tema soube mesclar na linguagem poética diversos aspectos dessas imagens e preocupações.. passando pela preocupação com o registro e a preservação de uma cultura local. paisagem vai progressivamente escurecendo. exuberante. e. já em voga no Romantismo desde a primeira geração: “Onde Vais à tardezinha / Mucama tão bonitinha / Morena flor do sertão? / A grama um beijo te furta / Por baixo da saia curta. cheia de vida: “Ali das bromélias nas flores doiradas / Há silfos e fadas. Dantas Motta.Tu és do céu a pálida donzela. Assim.. que fazem seu lar. mas não encontra sua amada. mas antes compor um painel cuja amostra deva esboçar as diferentes visões ecológicas e sócio-culturais que moldaram a imagem do Rio São Francisco em diferentes épocas. “Tarde” tem versos como “Hora meiga da Tarde! Como és bela / Quando surges do azul da zona ardente! / . Passando por Castro Alves.” Mais adiante o mesmo poema.” Este poema é também uma das mais ousadas experiências formais de 42 . Os personagens do drama são o escravo Lucas e sua noiva Maria. Composto de 33 poemas A Cachoeira de Paulo Afonso forma uma espécie de narrativa dramática. resolvem navegar até a Cachoeira de Paulo Afonso. filho do senhor.. em belíssimo contraste com a brancura das espumas da cachoeira” (LAJOLO & CAMPEDELLI. o poeta nos mostra Lucas voltando para sua cabana. entre outros.. 1980. Descobre que Maria fora violentada. / Sutis vaga-lumes / Acendem os lumes / Pra o baile na flor. / E.

.” A estrofe é brilhante na conjugação da cena dramática e dos recursos poéticos. O quinto poema é “A Queimada”.... “Mãe Penitente” e “O Segredo” vão revelar o laço sanguíneo entre Lucas e o agressor de sua amada........ E onde em meio das flores vão chilrando -Alegres sobre o abismo – os passarinhos!. E tudo se acabou!.... A canoa é comparada com um ninho que caiu sobre as águas calmas e desconhecendo o perigo.tombam as selvas seculares.. uma vez que a mancha do texto na folha busca sugerir a forma de uma flor... O ponto de exclamação do verso final da estrofe. Na última estrofe a destruição causada pelo fogo é apresentada de forma apocalíptica: “Então passa-se ali um drama augusto. Segue-se o poema “Crepúsculo Sertanejo” que inicia com o verso “A Tarde morria! Nas águas barrentas” e os poemas “O Bandolim da Desgraça” e “A Canoa Fantástica” que vão preparar a entrada do cenário em que os dois amantes resolvem ir em direção do abismo.Castro Alves....... E após.. vai de encontro ao abismo...Sim!” A partir daqui os 11 poemas seguintes vão apresentar um crescendo do drama em que Lucas encontra Maria vagando na canoa e busca compreender o que lhe acontecera. // E o eco responde: ... tamanho.. Parecia... que tombam sobre o rio...... / Que pode esmagar-te assim?... ...... sabemos que Maria está a vagar perdida em sua canoa: “Lá no meio do rio. assim vista ao sol poente.... Os quatro poemas seguintes – “História de um Crime”...... N’último ramo do pau-d’arco adusto O jaguar se abrigou. a natureza é violentada pela ação do homem: “A floresta rugindo as comas curva.. Como o dorso de enorme crocodilo... feroz.. Em “A Queimada” (quarto poema). O rio é metaforizado na imagem de um crocodilo.. pobre criança / Que fazes tu sobre a terra? // E o eco responde? – Erra! (. que cintila. nele. “Tirana” e “Senzala” apresentam a chegada de Lucas e a descoberta da ausência de Maria. Esses ninhos... O próximo poema “Diálogo dos Ecos” compõe uma cena em que Lucas parece conversar com o eco num verso solitário que se segue à cada estrofe: “Maria.. Mas rubro é o céu. o que cria uma contradição entre calmaria e ataque iminente. O quarto e quinto poemas compõem a metáfora da violação tanto de Maria quanto da Natureza.. / As asas foscas o gavião recurva... 43 ........ “Último Abraço”..... Recresce o fogo em mares...... seguido de reticências e uma linha pontilhada compõe o ritmo que insinua o perigo. até o momento em que a noiva se vê convencida a contar o nome do agressor... Já manso e manso escoa-se a canoa...” Os três poemas seguintes – “Lucas”.) Houve pois um braço estranho / Robusto.. / Espantado a gritar”.

.. Os coqueiros e cipós são vistos poeticamente como arcos a ladear todo o curso do rio: “Como pontes aéreas – do coqueiro / Os cipós escarlates se atirando... e o céu!. Lembra-me que Joaquim Inojosa foi o agente de ligação com os rapazes de São Paulo. / Do sacerdote o punho e a roxa fronte.. o futuro autor de Catimbó entregou os pontos...... Destaca-se na primeira estrofe a distância que o rio corre pelos sertões (“Longe... bem longe. Ascenso a princípio não quis saber da novidade. / De grinaldas em flor tecendo a arcada / São arcos triunfais de tua estrada!.. Envolvido que estava com a causa abolicionista... II)..” Os quatro últimos poemas retomam a narrativa dramática dos dois amantes e vão num crescendo preparando o momento em que a canoa se atira pela cachoeira: “.. 2.... Manuel Bandeira em prefácio escreve: “Não sei quando o movimento modernista se propagou ao Recife... babando. / A canoa rolava!.” “A Cachoeira” constrói uma imagem metafórica de grande tensão... / Por hidra – um rio! Por augure – um monte! / Por aras de Minerva – uma montanha! / E em torno ao pedestal laçados. natureza / homem. / Como filhos – chorando-lhe – os penedos!!!. Mais ao final do poema evoca-se o mito de Laocoonte para efeito de comparação: “Grupo enorme do fero Laocoonte / Viva a Grécia acolá e a luta estranha!.” 44 ... A luta entre a serpente-rio e o penhasco-touro ganha contornos de grandiosidade mitológica: “A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo! / A briga colossal dos elementos! / As garras do Centauro em paroxismo / Raspando os flancos dos parcéis sangrentos”. Castro Alves busca concluir as contradições entre vida / morte. O percurso do rio pelas então províncias de Minas Gerais e Bahia é trabalhado de forma a personificar as regiões como mulheres cortejadas e amantes do rio: “-Linfa Amorosa – co’a nitente espuma / Orlava o seio da Mineira linda (.... / .O poema “O São Francisco” apresenta a visão de Castro Alves do rio... “A Cachoeira” busca apresentar o cenário do clímax dramático do poema...... “Vem – à busca talvez de desafogo / Bater à porta da Baiana altiva. / Co’a serpente no dorso parte o touro. vingança / perdão. que permearam todo o poema... quanto a função colonizadora que as populações caboclas tiveram no povoamento do Vale do São Francisco... Abriu-se a um tempo / O precipício!. tredos. dos cantões bravios”). sânie.../ Titubantes – no álveo do rio – tremem as lapas dos titães coevas!. Castro Alves soube colocar nesse conjunto de poemas tanto a questão da opressão sobre o escravo.. Na última estrofe do poema. numa forma de comentar poeticamente a função irrigatória que o rio exerce sobre vasta região do sertão nordestino.)/ Viramno aos beijos. / E as serpentes de Tênedos em sanha!. de lamber demente / As rijas formas da cabocla linda”(est... assim como a extensão do rio (“Do São Francisco a soberana vaga / Léguas e léguas triunfante alaga!”). A Revisão Modernista do Drama Romântico: Ascenso Ferreira Ascenso Ferreira (1895-1965) foi um dos nomes mais importantes da divulgação das idéias modernistas em Recife. o rio é metamorfoseado numa serpente e as rochas que formam a queda d’água são vistas como o corpo de um touro: “Então doido de dor.Um beijo infindo suspirou nos ares... Assim se abre o poema: “Mas súbito da noite no arrepio / Um mugido soturno rompe as trevas.. III).. luz / trevas..”..” Nesse verso final de coloração fundada num oxímoro. o rio é denominado de “Nilo brasileiro”.... água / terra.. / Nas verdes canas o gemente rogo / Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva” (est. Mas quando Guilherme de Almeida passou em Pernambuco e declamou o seu poema ‘Raça’ no Teatro Santa Isabel.” O poema seguinte...

(FERREIRA, 1981, p.11). Sérgio Milliet, comentando a obra de Ascenso, observa como o grupo de modernistas do Recife conseguiu uma certa autonomia estética em relação ao modelo de São Paulo: “Na renovação poética do Brasil, já observou Manuel Bandeira, o grupo do Recife escapou à influência imediata e imperialista dos modelos europeus. Da revolução que se iniciou em São Paulo só lhe interessou a liberdade conquistada.”(FERREIRA, 1981, p. 14). Em Xenhenhém, conjunto de 25 poemas publicados em 1951, encontramos um intitulado “O Meu Poema do São Francisco”. O poema começa com quatro versos anafóricos: “É Cabrobó! / É Orocó! / É o Ibó / É Curaçá!...” São nomes de cidades na divisa entre Pernambuco e Bahia. Do lado de Pernambuco (Cabrobó, Orocó e Ibó) ficam na região do rio e da serra de Ouricuri, do outro lado do São Francisco está Curaçá, na Bahia. A sonoridade dos nomes das cidades é explorada poeticamente. Em outro poema, “Sertão”, do livro Catimbó, também o poeta utiliza o efeito de explorar a sonoridade dos nomes das cidades, só que cria um itinerário diverso, partindo de Cabrobó em direção do sertão, até Exu, nome já evocativo das dificuldades e agruras do semi-árido: “Sertão! – Jatobá! / Sertão! Cabrobó! / -Cabrobó! / - Ouricuri! / -Exu! / -Exu!”. No poema do São Francisco, Ascenso Ferreira após a apresentação dos nomes das cidades, coloca um dístico que é o estribilho do poema: “Meu Deus, ela veio das bandas de lá! / Meu Deus, ela veio das bandas de lá!”. O viajante pede ao barqueiro que siga a voz encantada de mulher que segue pelo curso do rio: “Barqueiro, me traga o meu reco-reco, que eu quero chamá-la para um xenhenhém... Que nada! Ela é sempre para mim como um eco Que longe responde, porém nunca vem... Barqueiro, desçamos pelo rio abaixo... Vamos ver, barqueiro, aonde ela está.” A seguir, utilizando a mesma estratégia inicial, Ascenso apresenta o nome de quatro localidades baianas, tirando novamente o efeito estético de suas sonoridades: “Chorrochó / Cocorobó / Patamuté / UAUÁ!”. Este último nome de cidade é grafado com maiúsculas, chamando a atenção para o som do nome que se assemelha ao do choro, evocando o sentimento melancólico do eu-lírico em busca da voz de mulher. Após a repetição do estribilho e de novo pedido ao barqueiro que continue seguindo rio abaixo, segue-se novamente o nome de quatro cidades às margens do rio São Francisco, porém, agora elas não rimam nem supõem uma harmonia sonora com a mesma intensidade musical das anteriores: “E é Floresta / Itacuruba / Santo Antônio, / Jatobá!” Essa quebra de ritmo funciona no poema como aviso de que as águas tranqüilas do rio serão interrompidas, assim avisa o barqueiro: “-Passageiro, volte que lá é a cachoeira. É morte na certa, não teime, não vá!” O verso solitário a seguir é acompanhado por reticências e uma linha pontilhada – recurso que já notamos em Castro Alves – e o nome da cidade que evoca o choro: 45

“-Barqueiro, ela chama é mesmo de lá... ............................................................... -UAUÁ!!!” Em Ascenso Ferreira, como em Castro Alves, o percurso do rio cria um crescendo dramático até a cachoeira de Paulo Afonso. Em ambos, a busca da morte parece o objetivo dos navegantes como forma de fuga das desilusões da vida, a morte na cachoeira como representação também de um ritual de passagem para uma dimensão mágica da existência. 3. Dantas Motta e a Transposição do São Francisco para um Imaginário Sincrético de caráter cristão. Elegias do País das Gerais (1958), livro de poemas de Dantas Mota (1913-1974) apresenta um grande conjunto de poemas divididos em “livros” como se articulassem a estrutura de um grande livro sibilino. Referências bíblicas se misturam às figuras históricas do Brasil. Paisagens das terras bíblicas são metáforas constantes das paisagens visitadas por Dantas Mota em Minas Gerais e no Nordeste. Mário de Andrade numa das cartas que escreveu ao autor diz: “Suas Elegias das Gerais estão prontérrimas, lindas e re-relidas e anotadas.”(MOTA, 1988, p. 330). Uma das partes da obra Elegias do País das Gerais intitula-se “Quarto Livro: Epístola de São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, o Vale”. O título já nos apresenta uma sobreposição entre a figura do santo e do rio. No poema, o rio é a voz lírica que narra acerca de seu próprio curso e sua história de colonização. Acerca desse “Quarto Livro”, o próprio poeta em carta a João Condé escrevia: “Fui assim, à pasta a buscar os petrechos necessários à tosa, encontrando-os embrulhados numa página do suplemento ‘Sintra’ e, dentro dela, vista de cara, a seguinte notícia: ‘Em Aracaju, reuniram-se, na semana passada, os Bispos da Bacia do São Francisco para estudar os problemas advindos de sua transformação.’ Mais ou menos isso. Dessa notícia nasceu a idéia do poema, informe, imprecisa e vaga, com a visão de Jerusalém carregada de bispos, tetrarcas e ametistas, postados todos em Aracaju, a qual depois, era transunta do sergipano país para este, o das Gerais, e que tantos males tem infligido a este Brasil, por força de sua intemperança no juro, na política e nos juizados da paz.” (MOTA, 1988, p. 339) O discurso do rio é marcado pela dor, pela angústia de ser o rio que atravessa a região mais árida do país, estigmatizada pela pobreza, pelo abandono: “Ora, toda unidade é estéril e todo mistério, terrível. E me fizestes uno, misterioso e triste, Não segundo minha paisagem interior, de pobreza, Que estava certa, mas conforme vossa jurisdição, Que ia desde Paracatu do Príncipe, No País das Gerais, Até Olinda e Recife, no País de Pernambuco!” 46

Em determinado momento, buscando apresentar a nascente do rio, Dantas Mota nos mostra o rio comparando sua nascente na Serra da Canastra com um caixão e os peixes com o corpo do morto “Ora, tudo o que se verificar aquém e além dele (o caixão) / é um mistério de unidade estéril (...)// De vez que todo caixão é aquário, / e, como tal, é ele o invólucro; / e o corpo, que dentro dele navega, / sob um céu de morim barato, / o peixe facilmente deteriorável”. Personagens e cenários bíblicos aparecem em constância para compor a imagem desse rio triste e angustiado que é o São Francisco de Dantas Mota: Cristo, Melquisedeque, José, Jerusalém, Eufrates, Cativeiro na Babilônia, etc... A população ribeirinha é apresentada como a descendência de Agar: “Em verdade, subindo vou o Setentrião, / enquanto meus habitantes o Setentrião descendo vão / -Felás de um tempo redivivo, / tormentados com Hórus /(...)/Porque, apesar das secas e dos desertos / (gente proscrita da progênie de Agar) / há uma paisagem de riacho e rugas / nas faces chicoteadas de sol e peixe”. Em contrapartida Lampião, Canudos, e outros personagens e cenários do Nordeste são evocados misturados aos bíblicos: “E, provando a procedência deste razoado, / Uns homens sem respeito para a minha vergonha. / E a república, que triunfou de Canudos, / Batendo, depois, além dele, meu rei Lampião, / No qual, com o ser o meu renovo, me comprazo, / Aqui, empós alguns lustros e sóis passados, / Se sublimou em tetrarquias com os Cunegundes, / os Pantaleões, os Batista e os Santa Bárbara. / Afinal morri. Primeiro em vós. Depois em mim”. Desse modo, as revoltas populares, tanto a do cangaço (Lampião), quanto à mística-beata de Antônio Conselheiro são apresentadas como representativas do povo do São Francisco, ao passo que a República é – retomando uma colocação do próprio Antônio Conselheiro – como a Babilônia. Dantas Mota buscava desse modo fazer a crítica do abandono e do flagelo que a região do semi-árido se encontrava. O episódio do velho testamento referente ao cativeiro na Babilônia (Jeremias) é amalgamado poeticamente à vitória violenta e sangrenta da república sobre Canudos e sobre Lampião. O coronelismo que dominou a política regional se apresenta como o período de cativeiro propriamente dito, neste sentido o povo nordestino da região do sertão estaria em condição semelhante aos hebreus no cativeiro da Babilônia. A seguir, em “Recuperação do Paraíso”, o rio no seu discurso nos diz que deixou sua condição de rio natural para ser uma autarquia. A ironia se refere à construção da hidrelétrica de Paulo Afonso, a primeira grande hidrelétrica construída no seu curso. Delmiro Gouveia que em 1913 iniciou o processo de aproveitamento energético do rio São Francisco construindo a usina de Angiquinhos que aproveitava a força da cachoeira de modo parcial, mas cujo efeito posterior foi incentivar projetos maiores. Em 1948, Getúlio Vargas procede à criação da Chesf e se inicia a construção da Usina de Paulo Afonso, terminada em 1954, até então a maior usina hidrelétrica do país. “Morri eu afinal, que de Francisco mais não sou, Porquanto, hidrelétrico, em autarquia transformado fui.” O discurso do rio ironiza o processo de eletrificação, que de princípio atendeu aos interesses políticos dos coronéis, pois de fato, pequenas propriedades e até mesmo algumas cidades ficaram sem a energia de Paulo Afonso: “Uma lâmpada de mil velas brilha no fundo do inferno”. O trecho final, “As Alegorias em Trânsito”, nos apresenta um anjo 47

o rio se consola com o fato de que a energia que ilumina terras distantes. / mas tem cuidado 48 . deixa. Os missionários conquistaram as almas”. à beira do abismo”. violência. As autarquias.” Assim. as almas formariam o sentido simbólico do rio Opara (São Francisco) como elementos que sofreram opressão. / Vindo dos portões em ruínas do Paraíso. / Depois desceram feras à procura de escravos”. agora transformado / transfigurado: “Também ilumino e não sou sol. irmanados assim ao próprio rio. é também continuação do próprio rio. Dura crítica de caráter marxista ao governo de Getúlio Vargas. de certa forma. O povo submisso (“turba genuflexa / beijando a terra”) seguia esses homens como se fossem santos. é o único que cita o nome indígena do rio: “E primeiro desceram pelo rio Opara / os homens que foram ferir a terra à procura de ouro. sob certo aspecto. / de poita / de groseira. indica também o início da decadência do III Reich: “Se organizaram em quadrilhas de sociedade anônima. o fero estado a que se refere o poema são comparados ao procedimento nazista. com as asas cheias de poeira. Por extensão. O garimpeiro deflorou a terra. / cemitérios. / Sua dejecção de pássaro. / de tarrafa. / Ou autarquias que o fero Estado cria. estudaram. / Esquecidos de que eu também posso ser / A curva de Dniéper / O cotovelo do Don. as vilas. mostrando que na intensidade do delírio não tinham diferença. Henderson uma pescaria de jereré. O surgimento das primeiras povoações se dá no contexto desse processo: “Então o povo crente ergue cruzes nas margens / e capelas / e igrejas.” A cobiça é destacada como o motivo principal da conquista da região. a convite da corte imperial. com desprezo.” O rio compara sua nova face transfigurada com as batalhas que marcaram o início da reação russa contra a invasão nazista que. 4. porém. / E eram antônios conselheiros e jesuítas / e eram missões / e era a turba genuflexa / beijando a terra por onde os santos iam. desenharam. No final. 1928. ali. Dentre os poetas que analisamos. O cangaceiro saqueou as vilas. Jorge de Lima passa a evocar os nomes de pintores naturalistas e exploradores estrangeiros que no século XIX. beatos como Antônio Conselheiro e os jesuítas são postos lado a lado. enquanto eu. os escravos fugidos. o poema fala da religião e da escravidão como partes do processo de colonização: “E depois os que foram alçar a cruz para curar as chagas / que o ouro fez.metamorfoseado em ave pousando sobre um comutador de energia no meio do sertão: “Um anjo. a devoção religiosa é apresentada como um delírio coletivo. / Amém”. a sociedade anônima. logo a seguir. esquecidos. / Pousa num comutador e. a terra. ave sagrada. A conquista do rio é mostrada como a defloração violenta da natureza: “E todos eles defloraram o rio. Jorge de Lima e a História do Rio São Francisco Revisitada Jorge de Lima escreve o poema “Rio de São Francisco” para o livro Poemas. / Todo o norte se ilumina. escreveram e pintaram acerca da flora e fauna brasileiras: Henderson (Vem pintar. portanto antecedendo a Dantas Motta em mais de duas décadas. Os capitães-de-mato deram caça aos negros.

Citase que as almas dos holandeses enterraram tesouros. / que o rio desce e as lendas descem com esse rio”.” O poema continua citando casos lendários entre descrições da navegação no rio: “E o rio desce. vai compondo os seus versos seguindo metaforicamente o curso do rio. O fim da estação da seca e conseqüente volta das chuvas marca um intenso renascimento que no poema atinge âmbitos lendários e místicos: “e o homem delira outra vez a nevrose dos Sertões. / e espuma. meu Debret. devido ao que parece. / as torrentes. gado pastando nos cercados bodes pulando pelos morros. meus irmãos. / tenho para os vossos bichos um restinho de ervas no surrão”.”. A seguir cita-se num verso o empreendimento pioneiro de Delmiro Gouveia: “E o cearense desceu com uma turbina na mão”. Debret”). Halfeld e Saint-Hilaire (“Nisso tudo passaram Halfeld e Saint-Hilaire com as bandeiras / da sabedoria / e viram na Igreja Santa do Rosário / a baita coroa do Imperador do Divino”. / E um dia os riachos. há florestas de mastros pelos cais. / Frei Doroteu renasce. enfrentava práticas de 49 . que o sino de Piranhas geme como gente no dia de finados.que as piranhas podem comer os teus pincéis. O flagelo da fome é destacado: “-Senhor! dai-me que comer! Senhor”. Debret (“Vem. meu Debret”. “E são bonitos. tenho aqui algum peixe. Então. potros correndo danados. / o Conselheiro renasce. guardando assim a cachoeira de Paulo Afonso para o clímax narrativo: “E o rio. vem. / os outros rios vêm visitar o rio Opara”. à maior notoriedade que sua obra alcançou (“Passam engenhos pitorescos. um dia enfim / deixa de chover no Piauí / não chove no Ceará”. / e o povo volta de novo / a tomar bênção ao Padre Cícero”. que um certo galo preto depenado canta à meia-noite “Salvador! Salvador!” Toda a vida das cidadezinhas é sintetizada em imagens instantâneas como flashes do cotidiano: “e quando o dia nasce. / o canoeiro pachola tocador de violão”. Como nos poetas anteriormente aqui citados. Jorge de Lima faz menção da cultura folclórica acerca das lendas que envolvem o rio São Francisco: “Vinde caçadores de lendas. a briga que a companhia de linhas de algodão implantada por Delmiro Gouveia na região travava com a Machine Cotton (Linhas Corrente) da Inglaterra. suspende-se esse ritmo descritivo-narrativo tênue para anunciar a chegada da estação da seca: “Mas um dia. Delmiro que recusou vender sua empresa aos ingleses. / as nuvens. Debret é o mais citado no poema. / bandeirantes de todos os feitios. Este é também um dos raros momentos em que o rio se personifica e assume a voz no poema. o grande rio como a alma do sertão / desce de Paulo Afonso com sete ataques de doido. Cita então Jorge de Lima. Numa parte relativamente grande do poema. Jorge de Lima. cegos cantando. ovelhas descendo das encostas. e ruge. e bate e dorme lá embaixo / como um gigante que sofre de ataques de convulsão”. feiras. ver o pitoresco do rio. O rio então surge como único refúgio: “Tenho água fresca.

e quando o mestiço inspirado pelo santo ia fazer o milagre da multiplicação e salvar o Nordeste e remir o sertão. intratável e agressiva. estanque no poço dela mesma. é porque assim estanque. Dois anos depois. embora de unhas. Em situação de poço. embora sabres. a água se quebra em pedaços. corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. Porém. o presidente Artur Bernardes para proibir a prática desleal de concorrência inglesa no mercado de linhas. Essa ausência significativa do São Francisco na poesia de João Cabral pode ser explicada.dumping na disputa do mercado nacional. por pressão de banqueiros ingleses a lei foi revogada. 50 . já no governo de Washington Luís. e mais: porque assim estancada. faz alto à beira daquele leito tumba. antes. em parte. Em 1926. nesse aspecto. taxou o produto importado. muda. João Cabral e o Sertão sem o Rio João Cabral de Melo Neto tem uma produção poética que tem como uma das marcas o cenário sertanejo. do agreste e do litoral de Pernambuco. iluminaram os capões. pela constante oposição que o poeta trata entre o cenário do sertão. é o rio Capibaribe o seu rio preferido na poesia. a vegetação em volta. em água paralítica. o rio São Francisco não é o cenário fluvial constante nos seus poemas. o rio Capibaribe contém todos os elementos. estancada. a fábrica de Delmiro foi finalmente vendida e logo depois desmontada. em poços de água. 5. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada. de areia múmia” (“Na Morte dos Rios”) Em “Rios sem Discurso”. e muda porque com nenhuma comunica. cortado. Delmiro foi assassinado em circunstâncias não esclarecidas em 1917: “E os braços edificaram a caatinga. o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. de rios intermitentes numa linguagem seca que lembra a de Graciliano Ramos na prosa: “Desde que no Alto Sertão um rio seca. João Cabral trata dessa condição dos rios intermitentes que mal terminando a época das chuvas desaparecem: “Quando um rio corta. Faz alto à agressão nata: jamais ocupa o rio de ossos areia. Quando João Cabral trata do sertão é um cenário sem água.

fazem com que a forma do poema. da nascente à foz. para a opressão do estado sobre o indivíduo. E vai acolitar os empreiteiros da seca. Se o projeto der certo. afluentes temporãos do São Francisco. na sua sucessão de versos. justificando que o rio busca correr toda sua vazão num só dia como se tivesse medo de morrer em poços. não raras vezes. Se em Dantas Mota. Jorge de Lima. quase como um deserto. podemos supor que poetas cantarão a grandiosidade e a beleza da obra como desde tempos imemoriais temos narrativas sobre o modo como os egípcios e babilônicos enfrentaram o deserto. mostrando como. e outro para seguir pela Paraíba – devemos supor que um novo cenário não apenas hidrográfico e econômico se propõe. trata metaforicamente duma quebra de narratividade. Castro Alves e Ascenso Ferreira. de modo que a natureza dura. mas ainda com zelos de novato: Aviando com eutanásia o morto incerto. João Cabral retorna à imagem dos rios intermitentes. mas uma transformação também cultural. rústica é também o local de uma população sofrida. fio de água por que ele discorria”. porém. sob a divisa do progresso (construção da usina de Paulo Afonso. Ele. João Cabral ao tratar dos rios intermitentes. esfacelado: “esses rios do Sertão falam tão claro / que induz ao suicídio a pressa deles: / para fugir na morte da vida em poças / que pega quem devagar por tanta sede”. que no civil quer o morto claro. pois prevendo cedo Que lhe imobilizarão a técnica e o tacto.porque cortou-se a sintaxe desse rio. marcando bem as injustiças sociais ali cometidas (escravidão em Castro Alves). teremos. Que o enquadrariam num melhor salário. em Dantas Mota e em Jorge de Lima) se encontra espaço para a usurpação de direitos. cuja natureza que lhe é agressiva. não supera. por outro lado. que esperar que a poesia do rio São Francisco continue 51 . passa a funcionário. pondo como ponto alto de dramaticidade a cachoeira de Paulo Afonso. p. o urubu. a dureza da própria sociedade e do estado: “Durante as secas do Sertão. muitos deles. Veterano. imite o percurso do rio. para o cerceamento da liberdade.. O urubu não retira. por certo. Nesse âmbito. Cala os serviços prestados e diplomas. ao tratarem do grande rio do Nordeste.” (“O Urubu Imobilizado”) Podemos colocar a poesia dos poetas que tratarão do rio São Francisco e que foram aqui comentados como autores de textos que destacaram a grandiosidade natural do grande rio do Nordeste e que mostraram em diferentes aspectos o modo como a povoação da região se deu. de urubu livre. Em “Os Rios de Um Dia”.ex. quando presentemente se justifica e se apronta o início das obras de transposição do rio São Francisco em dois canais que cortarão o sertão de Pernambuco – um para atingir o Ceará e ligando-se à bacia hidrográfica daquele estado. se os receios de grupos mobilizados da sociedade contra a obra se justificarem. A poesia de João Cabral quando trata do sertão pernambucano faz destacar a questão da seca. da quebra de discurso que o conjunto de poços e cacimbas representa.

1980. Xenhenhém. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. como de autoria deste ou daquele mestre artesão mais reconhecido. do sofrimento enfim. tanto quanto o suicídio de Lucas e Maria em Castro Alves. 1988. Dantas. ainda. Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco As carrancas dos barcos do Vale do São Francisco hoje perderam sua função inicial de proteção das embarcações contra perigos concretos e imaginados do percurso do rio por uma função de peça de comércio artesanal. 1979. Rio de Janeiro. Recife. Obra Completa. FERREIRA. da tensão. MELO NETO.sendo a poesia do drama. Ática. Rio de Janeiro. Elegias do País das Gerais – Poesia Completa. Antologia Poética. Rio de Janeiro. 1981. como disse Jorge de Lima “o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. Rio de Janeiro / Brasília. Seleção. Literatura Comentada. Cana Caiana. 1. BIBLIOGRAFIA ALVES. José Olympio / INL. 1980. do passageiro de Ascenso Ferreira. Nova Aguilar. Jorge de. São Paulo. Ascenso. Nordestal. João Cabral. dos erros. para ficarmos efetivamente com o sertão de João Cabral. Algumas carrancas. quando apresentadas pelo marchand. alcançam no 52 . MELO NETO. do cativeiro na Babilônia e a conseqüente travessia do deserto e. Castro. João Cabral. José Olympio. estudo e notas de Marisa Lajolo e Samira Campedelli. José Olympio. Rio de Janeiro. vol. Poemas de Ascenso Ferreira: Catimbó. MOTA. sem rio São Francisco. Poesia Completa. 1980. 1997. Castro. Nova Fronteira. LIMA. ALVES.

com o decréscimo e quase desaparecimento da navegação ribeirinha assim como o fim dos gaiolas. nasceu em 1923. 2006) Alguns estudiosos mais ligados ao âmbito das teorias menos comprováveis cientificamente e de caráter mais polêmico. Assim.”(Zanoni. a utilização das carrancas ganhou uma função de artefato artístico artesanal. refugiado do Convento da Bahia que amasiou-se com uma negra africana de Moçambique. como inscrições na Amazônia. de modo que a flutuabilidade. sustentam que esse seria um indício da passagem dos Vikings pelo Brasil em época muito anterior ao descobrimento. Tese ousada. filha de artesã e agricultor. às margens do São Francisco. 53 . Figura. 33). quanto à origem das carrancas. distrito de Ouricuri. em Santa Filomena. indo morar na cidade de Curacá. Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987). estéticos e culturais das carrancas do São Francisco e as carrancas das galeras vikings. jesuíta espanhol. próximo a cidade de Juazeiro. segundo Zanoni Neves: “Na segunda metade do século XIX. mas que peca pela ausência de dados comprováveis de qualquer uso de carrancas anterior ao período de colonização do Vale do São Francisco. que no livro Os Vikings no Brasil argumenta que existem vários indícios dessa passagem. De fato. mais comumente têm sido utilizadas como peças decorativas de cantos de salas e escritórios.comércio de peças de artesanato internacional valores consideráveis. ou simplesmente “Guarany”. Mestre Davi (Davi José Miranda Filho). os primeiros registros de existência das carrancas aparecem na segunda metade do século XIX. Pernambuco. que começou sua produção em 1972 é outro importante artesão de carrancas. Guarany é bisneto de José Dy Lafuente. através da arte de talhar a madeira. Um dos defensores dessa tese é Jacques Mahieu. Mestre Davi tornou-se internacionalmente conhecido quando Jacques Cousteau levou uma carranca a todos os cantos do mundo pelo barco "Calypso". Ana das Carrancas é um dos nomes mais conhecidos quando se fala em carrancas do rio São Francisco Ubaldino. a história e a cultura dos povos ribeirinhos. na Pedra da Gávea (RJ) e as carrancas que seria um costume transmitido pelos Vikings. bem como a adaptabilidade da carranca ao barco tornou-se um aspecto mais secundário. um famoso carranqueiro de Pirapora perpetua. hoje conhecida como carranca. Um dos primeiros cronistas a mencioná-la foi Durval Vieira de Aguiar em 1882: ''Na proa vê-se uma carranca ou grifo de gigantescas formas. onde passou a trabalhar como professor e constituiu sua família. filho de Guarany. hoje. os barqueiros adotaram a figura. figura de proa e leão de barca são os termos ou expressões que os remeiros e outros ribeirinhos utilizavam para se referirem às carrancas. p. seu aparecimento perde-se um pouco no tempo. Alguns artesãos se destacaram na produção de carrancas. De qualquer forma é inegável a possibilidade de comparações entre aspectos funcionais. Ana das Carrancas é Ana Leopoldina Santos. que avisariam com três gemidos a proximidade destes. as carrancas. de modelos sem dúvida transmitidos pelos exploradores dos tempos coloniais'' (1979. no lugar de servirem como elemento protetor contra maus espíritos e perigos do rio. bem como com suas feições agressivas afugentariam outros espíritos. destacou-se como o maior artista de carrancas.

a popa. Expedito Viana. brinquedos. machado e formão) o artesão vai moldando a peça de maneira intuitiva. As carrancas. potes. astutos pela descoberta de riquezas teriam contra si o espírito do rio. navegantes gananciosos. A de madeira tem com o barco. pois. que se encontra na Avenida Salmeron. feroz na ação de proteção da embarcação. de Ouricuri. As carrancas. uma vez que as ferramentas para composição já não serão as mesmas. que ao cabo. O que buscamos destacar nesse nosso breve texto. na Praça do Posto Três Palmeiras. destaque nesse caso para as próprias mãos no ato de moldar o barro e o torno de oleiro. dá a dimensão da própria modificação da função de uso da carranca. Sendo originalmente artesã ceramista. machado e formão. uma identificação harmoniosa do material. que navegam atendendo as necessidades das populações ribeirinhas seriam protegidos. havendo. com 3. também de madeira. Nosso intento maior é uma observação acerca do modo de produção das carrancas e um comentário acerca da natureza estética dessas figuras. tementes a Deus. de cabeça do barco personificado ou metamorfoseado num vivente. Expedito ficou conhecido quando confeccionou a majestosa estátua de São Francisco de Assis. Ana das Carrancas. quebra-se essa harmonia de material. sua boa e seus dentes 54 .5 metros de altura. agora quando ela passa a produzir carrancas também de barro o que ocorre é a transposição de uma técnica para outra. carranqueira também de Pirapora. Porém. Simbolicamente o material usado. não é um painel dos artistas. Não se tem o hábito de se fazer um esboço ou desenho. dentes caninos proeminentes. colocada na ponta da proa. é uma artista que demonstra habilidade no manuseio de instrumentos como facão. Com a utilização de instrumentos para o corte e o talhe da peça de madeira (facão. são apresentadas como figuras com bocas enormes abertas mostrando. Assim. Ana compunha antes panelas. por vezes. como no outro extremo. notadamente as de Ana das Carrancas têm uma função mais de peça decorativa artística de colecionadores e admiradores da arte popular do que propriamente a função de carrancas de embarcações. que a produção de carrancas de barro. usa o barro extraído do próprio rio São Francisco para composição de suas figuras de carranca. mas com o próprio rio sua identificação. cavalinhos e santos de barro. Essa identificação. boi-zebus. nem tampouco a busca da explicação da origem das carrancas. Ao se fazer a carranca de barro. como que garante à cabeça de carranca. em geral. metamorfoseado em animal aquático que desliza pelas águas do rio. a condição de vigia. ainda de Pirapora (MG) é outro importante artesão carranqueiro que preserva a arte de entalhar a madeira. por sua parte. madeira ou barro. mas diretamente na madeira o artista vai compondo a cabeça da figura. se colocava uma estrutura semelhante à calda do animal. são feitas de madeira. cuja cabeça é a carranca e o corpo o próprio barco. representa o próprio corpo do animal formado pelo conjunto barco-carranca. é fato. uma vez que o barro vindo do leito do próprio rio agora mantém não com o barco. Assim. em geral. bem como o forno para cozimento. Nesse sentido. Listamos aqui apenas alguns dos nomes mais conhecidos no universo do artesanato de carrancas. navegadores virtuosos. contendo algumas não só a cabeça de carranca (em geral a cabeça de um dragão). a carranca de barro como que se distancia da função de protetora do barco para ser a representação do espírito do rio que pode proteger ou não a embarcação em função da intenção do navegador ser aceita pelo rio ou não. porém. Nas galeras vikings era essa a conotação que a estrutura do barco buscava.Dona Lurdes Barroso. Tal boca e dentes têm a intenção de conotar a agressividade da figura. assim como os barcos a que se destinavam. de outra forma.

algo diabólico. estas mantêm por mais tempo o vigor de suas cores. Os remeiros ou barqueiros eram predominantemente de característica negra. os olhos e os dentes. talvez. descolorindo depois de algumas estações. entre outras). abrigadas que estão dos efeitos nocivos do sol e da água do rio. quando é colocada na figura. José Vicente. Desse modo. As orelhas. que costumeiramente vazava os olhos de suas carrancas de barro. o conjunto da figura impressiona pela aglutinação de elementos desproporcionais que disputam o espaço da cabeça. algumas carrancas mais antigas têm a coloração desbotada. são de leão ou cachorro. entre outros. iourubá e/ou de nação de angola. físico. as cabeças das carrancas têm aspectos antropomórficos híbridos. boca e dentes. A língua. o nariz e o queixo. supõe-se um rugido. bem como da força que a protege. por sua vez. no mais das vezes. cabelos. Numa espécie de simbiose ou sincretismo. Nesse sentido. São as cores mais usadas. pouco resistente às intempéries. um canto de aviso aos espíritos malignos da chegada da embarcação. assim como o negro e o branco reforçam as idéias expostas pelos olhos. fruto da característica do pigmento. O vermelho usado em muitas figuras. também têm o mesmo padrão de desproporcionalidade. ou ainda. de aspecto protetor. Os olhos da carranca. são destacadas em tamanho assim como a boca. Já as carrancas que são adquiridas por colecionadores. Santa Bárbara. quando são de aspecto humanóide. ao passo que a carranca se contrapõe pela agressividade nas suas formas monstruosas. Os aspectos africanos da carranca aparecem mais ainda quando observamos as que têm cores fortes (como o vermelho e o tom negro) com o fato das formas desproporcionais ou bem proeminentes como é característico das peças em madeira do artesanato antropomórfico africano banto. Segue-se assim também as sobrancelhas. ao sol forte da região. demonstra a força vital e guerreira da carranca. não apenas o mundo concreto. De forma geral. admiradores e turistas e que as colocam nas salas. No caso específico de Ana das Carrancas. por vezes. tal característica dos olhos das carrancas de Ana mostra ainda mais esse aspecto de visão de um mundo invisível. Abrindo a boca. devido ao fato de seu marido. XVII). escravos que 55 . se caracterizam por uma imagem amistosa ou de bem-aventurança. Signo. a carranca típica do São Francisco interpõe-se como o artefato que usa da força diabólica para uma missão de proteção ao navegante cristão. XIX). marcante no caso das de Guarany. ou em alguns casos. ser cego. conotam a noção de que tudo a carranca vê. formando um conjunto de aspecto monstruoso. Santo Olavo. de Saint-Hilaire (séc. de uma associação entre a simbologia imagética característica de mitologia africana ou mesmo ameríndia com a religiosidade cristã. Bom Jesus Protetor dos Navegantes. A cabeleira da carranca. do viajante Sir Richard Burton (1867). agressivas. Outras têm a coloração dourada também. O mal a serviço do bem. Sabemos que as primeiras populações ribeirinhas do Rio São Francisco a partir do período da colonização eram de característica negra ou índia. nos escritórios. mas principalmente o invisível. A cruz. como atestam relatos do Padre Martinho Nantes (séc. o espiritual e mágico. numa espécie de homenagem incorporada ao seu imaginário. o mundo dos espíritos. ou descascada. como se fosse uma juba caindo pelos lados do pescoço da figura. grandes também. a proteção declarada que a carranca oferece também apresenta um sentido invertido das figuras de proteção religiosa usadas na náutica. não acessível aos olhos do mundo físico. sendo até o período anterior à abolição da escravidão. a imagem de algum santo ou santa (Nossa Senhora dos Navegantes.formam o primeiro aspecto dessa força animal e vital. As cores formam outro aspecto importante da carranca.

NANTES. As carrancas são o resultado. de modo que a idéia de espíritos do rio e espíritos da mata possam ajudar ou prejudicar uma travessia é também natural do imaginário ameríndio. notadamente do âmbito dos navegadores e exploradores transposto para o cenário da colonização do sertão. Editora Nacional/MEC/INL. em geral. de um cruzamento de influências do imaginário cristão português. SAINT-HILAIRE. 2002 O rio São Francisco e a Chapada Diamantina. Zanoni. Francisco Alves. Paulo. Teodoro Sampaio traz informações mais detalhadas acerca da natureza étnica dos remeiros. PARDAL. vol 46. São Paulo. 1975a Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. fonte:Fonte:http://www. como concretizações de figuras de espíritos malignos dominados pelo sentido cristão e postos a serviço da exploração das águas do rio. Martins Fontes. 1979 Relação de uma missão no rio São Francisco. São Paulo/Brasília. porém. SAMPAIO. São Paulo.faziam o serviço de travessia e ligação entre as diferentes cidades. que a cultura cabocla também incorporou elementos da cultura indígena. T. misturados sobremaneira com fortes doses do imaginário africano e ameríndio. 2006. Carrancas do São Francisco. Os Vikings no Brasil. n. Companhia das Letras. “Os Remeiros do São Francisco na Literatura” em: Revista de Antropologia. Vivaldi Moreira. Padre M. Rio de Janeiro. grandes. Cia. Referências Bibliográficas: MAHIEU. A. Jacques. a nosso ver. Itatiaia/Edusp.php?script=sci_arttext&pid=S003477012003000100004. Prancha de Figuras – As Carrancas 56 .1. os elementos afro e ameríndio os aspectos estéticos e formais da carranca. O cristianismo deu o sentido de proteção. Belo Horizonte/São Paulo.br/scielo. São Paulo.scielo. 1976. 2003. Trad. mas também com predominância da cor negra e lisos ajustam-se mais ao tipo étnico indígena sulamericano do que africano. coleção Raízes. NEVES. Não se deve esquecer. Os cabelos das carrancas.

o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores. Ana das Carrancas e algumas de suas carrancas de barro Três carrancas de madeira do mestre Guarany A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco Os rios. careca e mãos e pés de pato. Com origem na mitologia indígena temos a Iara. muitas vezes. O rio São Francisco também tem suas lendas. Aparecendo dás águas com suas gargalhadas. se analisamos o processo de povoação dessas regiões. Personagem de destaque no Macunaíma de Mário de Andrade. recriando a lenda em águas do ribeirão do Carmo. Uma das lendas mais curiosas do folclore do rio São Francisco é a “A Lenda do Nego D’Água”. Minas Gerais. preto.Carrancas típicas em escala industrial. além do imaginário palaciano e de cavalaria. Esta lenda também é encontrada com referência ao rio Tocantins. Polifemo e Galatéia. este modelo é reproduzido aos milhares. Pareceme que aqui é o caso de uma migração da lenda do São Francisco para o Tocantins. Lembro do poema de Cláudio Manoel da Costa. Mãe d’água. são repositórios de lendas. se eles recusarem dar-lhe um peixe. espíritos maus. As ninfas do Tibre. 57 . envolvendo carrancas. vapores assombrados. do Tejo são cantadas desde a poesia barroca.

Conta-se o caso de que certa feita no Rio São Francisco deu-se o seguinte acontecimento: “Um pescador contou que pescava a noite quando percebeu um vulto de um animal morto boiando na correnteza. a canoa foi sacudida. que amedrontam o caboclo d’água. o que sossega os corações das mães.br) Outro fato narrado no São Francisco e que envolve a figura do Negro D’Água é a seguinte: “Há quem afirme de viva voz que já viu aquela figurinha atarracada de cabeça grande e olho no meio da testa. Nesse instante lembrou-se o pescador que trazia um pequeno pedaço de fumo. principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil e no Rio São Francisco. Suas características são muito peculiares. para roubar-lhes fumo ou beiju”.valedoriosaofrancisco. sua função seria a de amedrontar as pessoas que por ali passam. costuma aparecer nas casas de farinha das ilhas ou dos barrancos e noite de farinhada. os beiradeiros jogam nesse ponto cacos de vidro. para que não tenham sua embarcação virada. partindo anzóis de pesca. Como a caipora.etc. adora fumo. ele seria a fusão de homem negro alto e forte. o ‘nego d’água’. Apesar de viver também fora da água. espécie de versão afro-masculina da sereia. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio. comumente depois que os trabalhadores se acomodam para dormir. o que provoca tombamento do mesmo. Não há evidências de como surgiu a Lenda. o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele. povoa a imaginação de todo menino beiradeiro. (Fonte: www. com um anfíbio. Segundo a Lenda do Negro D'Água.br) 58 . e aí tentou encostar a canoa para verificar a marca ou ferro. costume que faz com que os pescadores atirem fumo a água para cair nas graças do negrinho que gosta desse agrado. percebendo ao se aproximar que se tratava de um cavalo. muito difundida entre os pescadores. tange-os para longe da rede de pesca. corpo coberto de escamas mistas com pele. O fato é que o nego d'água. ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio. ele nunca se afasta muito da beira do rio. como também escava suas covas na base do barranco da beira do rio. para avisar ao dono. Para afugentá-lo desses locais que terminava alargando o rio. Remou apressadamente em direção ao animal.Alguns pescadores guardam o hábito supersticioso de. que habita nos locais dos rochedos do meio do rio. dos quais muitos dizem já ter o visto. que imediatamente atirou para o neguinho que dando cambalhotas. pois a noite os pequenos só se aproximavam da água acompanhados por adultos”. ao sair para pescar. passeando entre os que estão adormecidos. afugenta os peixes.com. levar uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio. (Fonte: www. percebendo o pescador que um nego d’água agarrado à borda da embarcação tentava virá-la. Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas. agradando assim o Negro D’Água. Alguns dizem que existe apenas um nego d'água em todo o rio. quando o animal afundou e logo em seguida. furando redes e dando sustos em pessoas a barco. Quando não gosta de um pescador.com.valedoriosaofrancisco. desapareceu no fundo das águas. outros dizem que são muitos.

num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. aqui chamado de Caboclo D’Água: “O senhô pode me creiá. com doze metros de altura. no escuro que fazia. colocada sobre uma pedra. donde nós tava. o bicho rolar pra dentro d'água. Eventualmente. eu mais o fio mais novo. Muitos desconhecendo a lenda ou o motivo da obra se perguntam como ela foi parar lá no meio do rio? Ao aproximar de barco ou de canoa da estátua ela começa a impressionar pelo tamanho. Existe uma versão narrada por J. sentada sobre uma pedra. algumas vezes subindo pelas suas costas até seus ombros. Os homens que não ouvem seus apelos. segundo ribeirinhos.” (J. A. noutra. tudo leva a crer tratar-se de um símbolo transplantado do mito hidrolático da Mãe D’Água (a Iemanjá dos negros iorubas do litoral). numa pescaria. apresenta-se como materialização do imaginário das lendas. ele leva-os para o seu reino como escravos. recriando a linguagem do caboclo. maretando o rio. de uns dezoito janeiros de idade. 1956) Edilberto Trigueiros no livro A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco esclarece a respeito da lenda do Negro D’Água a sua origem: “Também chamado moleque d’água. Encantado como eles ficou.124) Na cidade de Juazeiro. oferecendo-lhe fumo. mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: "Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai". Eu e meus dois menino.” (TRIGUEIROS. nós escutou os menino gritando demais. até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede. o caçula. Nisso. nas informações turísticas da cidade. Macedo. embaraiando o sem-vergonha. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos. 1977. A estátua que se vê como que emergindo das águas. causa uma surpresa na paisagem das águas ao olhar do observador. o artista plástico Ledo-ivo Gomes de Oliveira criou uma de suas principais obras plásticas. Eles três tavam numa canoa e. acerca de um ataque do Negro D’Água. E nós viu. Macedo. p. O Nego D’Água gosta de batuque nas proas das embarcações e tem o poder de naufragá-las”. 59 .A. pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar.Segundo o site da prefeitura de Juazeiro. ele arrasta as mulheres bonitas que encontra nas margens do rio e leva para o seu reino. adaptado às condições mesológicas do São Francisco. Nós remou depressa pra lá. turistas ou crianças descem à pedra e rodeiam à estátua. A estátua do Negro D’Água. Dizem que ele é meio homem e meio lontra. se diz a respeito da lenda que: “O Nego D’ Água vive no fundo do rio São Francisco. nas águas do São Francisco. A referida obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira é de grande beleza plástica. Conhecido também como compadre das águas.

apoiando a perna direita dobrada com o auxílio da mão direita. continuou seus estudos de Historia. o artista plástico se preocupou em apresentar uma versão do Negro D’Água de belas feições e com harmonia das partes.. entalha e esculpi.. De anfíbio o que temos na estátua é uma espinha dorsal externa escamada que parte do alto da cabeça até o cócix. modificando assim a descrição geral do Negro D’Água que costuma referir as suas partes baixas como as de um anfíbio. o que se poderia classificar como uma obra plástica moderna. Aliás. A figura se posiciona como quem observa ao longe. 60 . Semiologia. o medo pela agradabilidade. Historia da Arte (Antiga e Contemporânea). com o Urbanismo. liturgicamente. pois. Essa versão apresentada por Ledo-ivo tem de certo implicações com uma tentativa – consciente ou inconsciente – de harmonização com preceitos clássicos de estrutura das partes da obra e de aparência segundo dados de uma anatomia fundamentadas no número de ouro e na divina proporção. O personagem é assim redimensionado a um sentido mais humano. quando se faz necessário. Na página da Internet que apresenta dados do artista. embora os traços pouco lembrem a aparência dos afro-descendentes. tanto de sua aparência. Spock. nas bibliotecas e ateliês da vida . lapidando assim seu “ Formão da Vida ”. numa posição de observador tranqüilo mas atento. denotando assim. Substitui-se desse modo na lenda. em meio a Brutal interferência do Homem com o Meio-ambiente. a sua Origem Espiritual. seguindo o preceito clássico horaciano e aristotélico. Dr.à Verdadeira Expressão desta Arte. repugnação ou receio a figura da estátua. As orelhas são pontudas que lembram as do personagem de Jornada nas Estrelas. A figura tem pés e pernas humanas. O rosto delgado tem sobrancelhas bem definidas e salientes e o pescoço longo. mas de imediato nos impressiona a sua beleza harmoniosa. a certa altura lemos: “Estudante Autodidata. Filosofia e Comunicação. Geopolítica. quanto de sua pose. de tal forma que não nos causa medo. descritas no renascimento pelo homem vitruviano. essencialmente. como um Michelangelo à Davi: ‘ Parla !!!’ ” Está claro aí a presença de influências clássicas e renascentistas na obra do artista.A estátua tem uma aparência bela. esticado.” No caso da estátua do Negro D’Água encontramos na versão classicizante do personagem folclórico a intenção de buscar esse “significado existencial”. de cor escura é que dá o sentido de se tratar da imagem de um caboclo negro. Não é. ele. como a utilização do grotesco. sentado sobre a pedra. do disforme. com que. como quem quer ver ao longe completa os tênues traços anfíbios. a reportar a esse mesmo Homem o seu próprio Significado Existencial e às suas Origens. mas é clássica no sentido de buscar a harmonia da figura com a anatomia e as proporções da figura humana. A pedra utilizada. cuja relação primordial é com a própria Arquitetura e. mais agradável. existem relatos de ribeirinhos que alegam ter visto o Negro D’Água como sendo de baixa estatura e atarracado. funcionando a sua Obra como uma espécie de Marco-humanizador. Segundo o próprio artista sua arte tem a característica de buscar a: “ . de cabeça achatada. Sociologia. no sentido das características típicas do moderno.

2 de dezembro de 1956 TRIGUEIROS.Três fotografias do Negro D’Água. A. FUNARTE. Belo Horizonte.com. http://www. "O caboclo-d'água". Referências: MACEDO.br/revista/galeria/ca84011f. Rio de Janeiro. Edilberto. A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco. obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira. Folha de Minas.asp 61 . 1977. Internet: JANGADA BRASIL.jangadabrasil. J.

das festas populares das populações ribeirinhas ao Velho Chico. das carrancas. Não poderíamos aqui fazer um verdadeiro livro de arte panorâmico. Com essas considerações. Pinturas Holandesas 62 .Algumas Considerações Acerca de Algumas Representações Pictóricas do São Francisco Neste capítulo pretendemos comentar acerca de algumas telas de pintura cujo tema é o Rio São Francisco. telas com temas ao rio São Francisco ligado. Sabemos que não são poucas as telas que foram pintadas com o tema do rio São Francisco. poder contribuir para o entendimento do processo do imaginário que formou na consciência nacional uma representação do rio. histórico-pictórico a levantar todas ou as principais telas. 1. ou ainda. acreditamos. antes o que pudemos fazer é tratar das telas as quais tivemos acesso mais imediato. como acerca das lendas.

mas em floração. Acresce a isso. o fato de que em toda tela não se destaca nenhuma árvore. Os artistas holandeses a serviço de Maurício de Nassau puderam pintar vários aspectos da vida e da paisagem colonial daquela parte do Brasil. um barco atracado à margem. vemos uma paca de pelo marrom escuro. percebe-se o forte holandês. Natural de vegetação do semi-árido. Seguindo. Franz Post que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644. mesmo na distante outra margem que aparece ao fundo. um xique-xique. uma estrada de terra que leva até o forte. tais estranhezas não alteram o significado geral da planta cactácea ali pintada. de avaliar a 63 . A ocupação holandesa. Pelo tamanho da paca e do xique-xique e o tamanho com que aparece o barco e o forte ao fundo. Franz Post. Ligeiramente retorcido. calmamente. ao que me parece. Rio São Francisco Primeiro. com isso Post informa sobre a natureza climática da região. Post pinta uma paisagem das margens do São Francisco. é pouco provável que a paca se dispusesse a servir de modelo.Começamos por falar das pinturas holandesas do século XVII. A paca ali pintada é com o objetivo de fornecer dados sobre a fauna local. principalmente em Pernambuco. bem como da passividade com que as pacas se portavam diante da presença humana na terra ainda pouco desbravada. Um de seus quadros. esta parece dominada por vegetação rasteira ou arbustiva. Se pensamos no tempo real que o pintor levaria para a pintura. formado por gomos. Pouco à frente do xique-xique. acredita-se que tenha pintado pelo menos 18 telas. trouxe algumas contribuições para a formação cultural da região. tranqüilamente ali. e com o tronco acinzentado. como que querendo beber água. Demonstrando a firmeza da ocupação holandesa na região. Ao fundo na outra margem. 10 das quais ainda desaparecidas. podemos observar com destaque às margens. é plausível encontrá-la com freqüência próximo ao rio. bem como sobre as condições de povoamento. pinta o rio São Francisco. temos na possibilidade da perspectiva aplicada pelo pintor. o preceito de que o pintor deve escolher o cenário ou o momento mais significativo de um propósito geral para que possa ter nesse momento os elementos que realmente possam expressar o que se deseja ou se busca. sobre umas pedras. de modo que nela vemos informações sobre a vegetação e a fauna da região.

Ainda as águas calmas. 64 . no modo como dá o efeito de queda d’água. Franz Post. já após a queda ela se reconforma para seguir seu caminho e no modo como os rochedos parecem resistir à força brutal da cachoeira. Post fez por pintar a cachoeira de tal maneira que parecesse pouco mais do que as que são comuns há muitos outros rios de vazão menor que o São Francisco. Todavia. inclusive existem dúvidas sobre sua nacionalidade. dá dados da facilidade de navegação. Noutra tela. de como depois. a beleza da pintura paisagística de Post esta lá ainda presente.F.Schute – pouco se sabe acerca desse pintor. vegetação) nada que sirva de parâmetro para uma aproximada medida da cachoeira. praticamente sem ondas. suíço ou alemão. não dá ao observador a dimensão do tamanho da queda d’água. Á época em que pintou ela ainda não tinha esse nome. Colocando-se o pintor num ângulo de relativa distância para que pudesse pintar um plano geral de frente da queda d’água.distância duma margem à outra. porém. chamada antes pelos portugueses de “Sumidouro” ou “Forquilha”. Não nos dão os elementos da tela (pedras. Podemos comparar esse quadro de Post com um pintado posteriormente por E. mostrando aos olhos de que observa o quadro quão largo é naquele trecho o rio. Franz Post pinta a cachoeira de Paulo Afonso. agora. Cachoeira de Paulo Afonso A pintura de Post. se austríaco.

Cachoeira de Paulo Afonso. deixando-nos a impressão de que as figuras humanas ali paradas estão não só admirando a paisagem.E. O quadro é de metade do século XIX. Jan Vingboons. mas também percebendo qual dura será a travessia. Reforçando essa impressão da hora. numa posição que permita ver o alto da queda. A névoa que se levanta da cachoeira também tem um efeito plástico belo. no primeiro plano temos o domínio dos tons escuros. O céu de várias tonalidades de azul no alto. vai baixando para um tom próximo do rosicler ao fundo. Penedo 65 . O quadro do rio São Francisco de Post pode ser comparado com a ilustração de um compatriota seu. e as água vem de pelo menos três direções diferentes. As figuras estão de costas para o observador. Schute se coloca no alto dos rochedos. em que algumas árvores pairam à beirada. como se buscassem demonstrar a altura da queda.F. caso se dispusessem a fazer. para alcançar o outro lado dos rochedos. 1850 possivelmente. que pintou a região de Penedo. Vingboons. mais ao fundo duas figuras humanas servem de parâmetro para que se possa ter noção do volume e da extensão de águas ali. Aqui em Schute a pintura paisagística é nitidamente romântica. Escolhendo um ângulo diferente de Post. Em primeiro plano vemos uma palmeira pendendo em direção à queda d’água. como que anunciando um final de tarde. como se estivessem convidando o observador do quadro a olhar o cenário e admirá-lo também.Schute.

alguns com aspectos de barcos de pesca. as cores das roupas e as cores das casas. Um exemplo é o pintor Militão dos Santos. Uma de suas telas intitula-se “Rio São Francisco”.Na pintura de Vingboons vemos uma frota de barcos. seja nos barcos. os agrupamentos de pessoas. porém seu plano é mais próximo. Artista de caráter primitivista. Pinturas Contemporâneas No âmbito das pinturas contemporâneas e modernas. Não se vê figura humana. Vemos muitos barcos menores. Os barcos. focalizando mais nitidamente as casas e construções da outra margem. surdo. e a vila aparenta calma. assim as duas caravelas portuguesas que ali aparecem passam a idéia de que seja a ação de um agressor que vem quebrar a ordem e o progresso do lugar. O movimento também é sincrônico e complementar. principalmente os oriundos da região do vale e do Nordeste em geral. 2. mas de uma vegetação verde rasteira. um deles inclusive atirando de seus canhões. A bandeira das caravelas parece ser de tropas coloniais portuguesas. 66 . sugerindo a descrição do ataque das forças baianas na reconquista de Penedo. A vegetação presente na margem de primeiro plano é diferente da que se apresenta em Post. as plantações de hortaliças bem verdes. casas e estradas é que sugerem que em cena existam muitas pessoas em ação. um barco vai à esquerda. uma vez que não temos sinal do xique-xique. assim como o vôo dos pássaros. o rio São Francisco tem sido tema recorrente de vários pintores. Os vários barcos pequenos colocados próximos às vilas dão a idéia de um lugar de muita movimentação. outro vem à direita. Adotando as idéias de composição e cores apreendidas com Rubens Fortes Bustamante. natural do Recife. o verde e o vermelho dos barcos. em proposição de complementaridade. Vingboons coloca-se num ângulo muito parecido ao de Post. o azul vivo das águas. as casas. o marrom avermelhado e o negro da terra. o que vemos é uma riqueza de cores contrastantes. nas margens ou na vila.

pintadas como se lembrassem fogos de artifício explodindo ou enormes lírios dos campos coloridos. Josinaldo Ferreira . para sugerir o espaço ocupado por duas colinas. O Sol. a compor o espaço das nuvens. branca. na sua disposição radial de folhas. Seus quadros são repletos de figuras humanas. O céu dividido em três faixas. sugerindo a idéia duma terra adubada. não está pintado no cenário do quadro. Rio São Francisco A copa das árvores de João Militão. rica em húmus. lembrando um bocado das pinturas modernistas da década de 20. a sugerir o domínio do Sol. tudo delimitado quase que geometricamente. mas as cores vivas.João Militão. fortes. Sua pintura de caráter primitivista é bem colorida e com bastante movimento. Mais ao fundo a campina verde se faz presente em duas tonalidades de verde. uma azul. Essa característica primitivista de utilizar cores vivas. num amarelo ocre. fortes. casas. por vezes numa riqueza de contrastes. tem 67 . de pintar movimento e variedade de personagens encontramos também em outro pintor da região. Por outro lado. Parte da terra da plantação é pintada em cor negra. Josinaldo Ferreira nasceu em Remanso (BA) em 1951. por sua vez. que se confunde com o horizonte. árvores. e outra superior. bandeiras. e a riqueza de movimentos e personagens passam essa idéia de dia cheio de luz. uma intermediária.

Josinaldo Ferreira. lembra a dos românticos paisagistas como Benedito Calixto. mais lenta como o fluir das águas serenas do rio São Francisco. também se notabiliza por uma pintura com temas locais – do rio São Francisco e do sertão – mas sua técnica é diferente do primitivismo de Josinaldo Ferreira. para o longínquo. A terra vermelha e a cor bronzeada da pele das pessoas dão outra similaridade ao quadro. Assim. o tempo é circular. Joel Dantas. como se essa paisagem se mantive repetitivamente sendo reencenada. passa a impressão da circularidade. na outra margem. O uso das cores. no que concerne à forma e ao uso da perspectiva. quanto à Lua aparecendo e recebendo ainda os raios do Sol que se encontra ao poente. Augusto Muller ou Fachinetti. Na margem umas canoas. a perspectiva e a disposição de seus elementos criam essa sensação. confluindo nas matas ciliares que acompanham o rio. perpendicularmente ao olhar do observador. tudo numa configuração de movimento mais calma. nessa tela. como se as águas do rio dirigem-se nosso olhar para o infinito. Sua técnica. podemos notar o barco passando pelo rio São Francisco. reconfigurada para o momento contemporâneo. todas com listras horizontais. uma vela dum pequeno barco.também uma certa similaridade com as xilogravuras nordestinas. coqueiros. Rio São Francisco No quadro que apresentamos nesse artigo. pessoas fazem acenos para o barco. Essa forma festiva de apreensão pictórica da realidade local é uma característica advinda da simpatia e da amabilidade da população ribeirinha que apesar das dificuldades cotidianas sem mantém assim por natureza mesmo de sua gente. mais paisagística. No quadro “O Velho Chico”. Ao fundo. demonstrando assim um certo aspecto de isolamento do lugar. Porém. o rio é colocado em perspectiva. atualizada. pessoas lavando-se ou lavando roupas. 68 . carregado de pessoas e bandeirolas. nascido em Pilão Arcado (BA) em 1950. O céu azul e branco pintado como parte de uma abóbada. o céu azulado e um astro avermelhado que tanto pode ser o Sol em rosicler. Na margem do rio. Notemos as camisetas listradas das pessoas. criando uma relação de similaridade com o rio.

Crianças. se divertindo ás margens. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira”. tela e moldura. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira Aqui a contradição é absoluta. Um barco com carranca aportado à margem. A moldura em pvc cria um contraste de tal densidade com a tela que é difícil pensar numa unidade artística entre ambas. fechando numa torneira. a contradição de estilos. ao centro da parte inferior da moldura. o objetivo é justificado. feita de canos de pvc. O Velho Chico. exceto por conter uma maior movimentação das figuras e uma vida mais alegre. O título provocativo se justifica pela moldura. promovida pela ONG Sociedade Semear. Joel Dantas. mas apenas nesse sentido. O distanciamento do olhar do observador faz que vejamos um panorama de pessoas nadando. “O Velho Chico. Se o propósito foi a crítica ao modo como as questões do rio São Francisco são tratadas. também de pvc. Rio São Francisco Joel Dantas tem outra tela.Joel Dantas. entre março e maio de 2007. uma vez que artisticamente talvez fosse merecedora a tela também de uma pintura 69 . mulheres e homens ali numa conjunção prazerosa com o rio. O cenário apresentando em pouco difere da técnica comentada do quadro anterior. não só de conteúdos: a água do rio e a água encanada que nunca chega. apresentada na exposição “Águas de Março”. mas tem outra mais latente ao meu modo de ver.

mas apresentado na sua crueza. No quadro “Carranca do São Francisco”.que se ajustasse melhor ao quadro. pintor norte-americano. Num certo sentido. Nesse ponto. Paul Berenson. mas diferente de Josinaldo Ferreira. atualmente vive em Portugal. meio fantasmático. mas por outro lado. é de se teorizar sobre a técnica. de caráter modernista. esta mesma. mais geométrica. sem camisa. O barco com a carranca surge assim. Márcia Berenguer Cabral nasceu em 1948. sugerindo quase que uma névoa. ouve o choque entre a linha de pintura do autor e a ousadia da mensagem provocativa. O Brasil é um dos seus destinos preferidos. O Rio de Janeiro. a perspectiva é colocada de modo que o observador como que estivesse numa posição inferior ao barco. como que querendo assustar a quem a vê. Márcia Berenguer Cabral. parece ter que fazer uso de força para empurrar com o remo o barco. meio místico. a floresta Amazônica. Aqui a idéia de uma viagem de solidão se contrapõe à alegria festiva do barco de Josinaldo Ferreira. sociais. O que se vê é uma abstração pictórica da visão área que se tem da boca do rio. Carranca O barqueiro. emprega uma técnica de suspensão ou indefinição do fundo e de valorização da figura de primeiro plano. a margem virtual que aponta para o espaço real em que se encontra o observador do quadro. é rica de cores. vindo de outras eras para o presente do observador. sobre usa contemporaneidade. desafiadora e envolventemente neobarroca. choque que não foi resolvido. São formas diferentes de apreender a realidade pictórica do vale do São Francisco. culturais e por isso mesmo. costuma pintar quadros dos locais por onde viaja. Desde 1971 este pintor vem construindo um conjunto de obras com mais de duas mil telas. rica de contradições históricas. o que nos passa é a idéia do distanciamento. deve-se também observar esse distanciamento como significativo mesmo da 70 . as praias do litoral nordestino são seus temas preferidos. numa técnica mais abstrata ou concreta. sinalizando que este se aproxima da margem. estivesse o artista olhando pela janela do avião a paisagem e se inspirou por retratá-la. num predomínio dum plano mais próximo. Salvador (BA). penso eu. Um de seus quadros intitula-se “Mouth of São Francisco River” e nesse caso. Suponho. O fundo todo azulado mistura-se com as águas do rio. Sua pintura. assim a carranca se situa num canto superior da tela.

Locais turísticos. faltam os espinhos. o distanciamento revela-nos quase um quadro abstrativista. “Antropofagia”). caindo pelos lados. o olhar de turista encantado com a Natureza local. Alfredo Mallet. Uma baga superior se empina firme em direção ao Sol. esse é seu olhar. A tela lembra um pouco um estilo de pintura de Tarsila do Amaral (“Abaporu”. Penso eu. modernas e artísticas acerca da pintura. que seria mais interessante se não tivesse o título e poderíamos aventar hipóteses mais estruturalistas. São Francisco Mouth Na já cita exposição “Águas de Março”notamos o quadro de Alfredo Mallet (Rio de Janeiro. revela-nos apenas o óbvio. O título. o de um pintor turista. O verde e o azul. compondo uma forma indefinida que só ganha sentido concreto quando olhamos seu título. se mistura com o fundo. enfim. O fundo é todo de tons vermelhos e o Sol.compreensão do lugar. Paul Berenson. 1942). porém. Duas delas. também vermelho. dando a entender que caem pelo excesso de calor e aridez da paisagem. Pelo contrário. se constitui de três bagas bem rombudas. mas pela robustez delas. No quadro de Mallet vemos uma espécie de cacto que. portanto. “Êta Transposição”. No caso particular dessa tela. “O Ovo”. Êta Transposição 71 . da gente e da terra que retrata em suas telas. como se fosse também pelo peso da água acumulada.

Recuperando o nome indígena do rio São Francisco. no mais das vezes. representativo desse processo. Antônio da Cruz. seja pelo desequilíbrio ecológico. Antônio da Cruz (Maruim. A interpretação do quadro é. a aridez. Os filetes derretidos caem sobre um bloco. como se fossem as lágrimas num choro contínuo. porém tal luta. ou melhor.A terra num tom ocre oleoso sugere a aridez do terreno. Ou entendemos que a obra é contrária à transposição. seja pelo modo consumista e destrutivo com que. qual seja a questão do modo como os modernistas de São Paulo e Rio de Janeiro viam o processo de interiorização. 1956) destaca-se como artista pelo trabalho de escultor. de modo que sua aparente robustez logo se desvanecerá. tem resultados insatisfatórios. mas é de se destacar nesse quadro. ou. de cujos olhos escorrem dois filetes derretidos de aço inoxidável. algo ambígua. Antônio da Cruz apresenta uma máscara em cobre. caem pela sua frente e continuam pelo chão. Na exposição “Águas de Março” apresentou a obra “Lágrimas de Opará”. nos remetem a um novo tópico. Lágrimas de Opará 72 . nesse sentido. entendemos que a transposição viria a solucionar o problema da seca. e sua comparação com as citadas obras de Tarsila. A lembrança com o estilo de Tarsila do Amaral não é uma característica constante da obra de Alfredo Mallet. aludindo assim a provável falta de planejamento que os críticos do projeto buscam demonstrar. a necessidade desse processo. A luta do homem para o domínio da Natureza de modo a torná-la sujeita as necessidades humanas. Ainda se pode interpretar que o estranho cacto ali no cenário semi-árido seja simbolicamente o próprio projeto de transposição. o processo se deu. pois. o aspecto ecológico entra como componente crítico de avaliação do processo de interiorização. O cacto na tela de Mallet é. SE. sendo vencido aos poucos pela incongruência da paisagem. por outro lado. cerca de 70 anos após o advento do Modernismo. uma vez que apresenta o calor. na maioria das vezes. Assim.

com. temos a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” de Ismael Pereira. do “Neo-regionalismo para o Abstracionismo Informal”. É uma coisa muito universal. Assim é como Ismael Pereira define a exposição. É difícil conseguir a alquimia adequada. o quadro “Era uma vez um Rio São Francisco”. Não raras vezes o desejo de engajamento numa causa política ou social. o antigo Farol da Atalaia e. transforma o produto artístico em panfleto.. a primeira palavra é que melhor se adequa à obra. Assim. O vocábulo portmanteau. os galos de briga. Na mesma exposição. ao bom estilo modernista. vemos uma tarja preta com a frase: “. aço inoxidável e cobre dão uma concretude contemporânea. uma vez que a mensagem artística. “Ousadia sexagenária”. 73 . lemos: “Os trabalhos são inspirados em temas que vão desde a mitologia greco-romana à cultura popular do Nordeste. E eu gosto muito dessa liberdade”. inclusive. Crítica ao progresso desmedido que não se preocupa com a preservação ambiental. ressignifica o mito de Opará. sem perspectiva e uma mandala se coloca ali como o Sol – signo artístico de Ismael Pereira. denuncia um processo apressado de engajamento. Ícone do neo-regionalista. no caso. “Eu acho que o abstrato tem como pátria a humanidade e como bandeira.” (fonte: http://www. ao meu modo de ver. o sol. No caso da obra em questão. declara o sergipano de Capela.A obra num estilo bem contemporâneo. o rio que na mitologia indígena se forma pelas lágrimas da linda Iati. Um fundo cinza. perpendicularmente à tarja. o político-social. Numa notícia chamando a atenção para a última semana desta exposição. ao invés de ser dominado por esta escola. Lá estão a fênix. um desenho de uma placa vermelha com o dizer “TransImposição”. os jarros com flores.. uma homenagem ao gênio Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). o equilíbrio em que a obra de arte continue sendo obra de arte e o engajamento sócio-político. aqui é o próprio quem chora agora e suas lágrimas são de aço derretido.Era uma Vez um Rio São Francisco”.cinform. Nem sempre a primeira impressão.br/noticias/19820081283251459) Porém. se faz submergir diante do sentido extra-artístico. porém. Os materiais usados. que se realiza no próprio meio. chorando a ausência de seu amado guerreiro. peca pelo excesso de intenção engajada. que passa. ele enveredou pelo abstracionismo porque possui qualidades para dominar. como ele mesmo intitula uma de suas exposições. num processo em que tal transformação resulta numa diminuição de suas qualidades estéticas. uma de suas obras mais conhecidas é justamente uma intitulada “Mandala”. A máscara se apresenta como o mito antigo diante das contradições do mundo moderno.

mundo da realização das formas em matéria plástica. e. branco e negro combinam-se e alternam-se nas faixas horizontais dando a dimensão plástica das águas do rio. Em “Aurora” as cores são mais quentes. da poesia visual. o vermelho do calor e do Sol. seria mais de se considerar a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” uma variante dos poemas postais. o branco de nuvens. e a realidade concreta. Aurora. numa delas os tons de azul. abstraídas de suas formas. Nas três telas acerca do Rio São Francisco. As cores formam o espectro do cenário: o verde das matas. os cartazes poéticos dum Maiakóvsky. 74 . assim como também as faixas horizontais se dividem em grupos retangulares e um circular (referência ao Sol). A pintura de Gonçalo Ivo é de uma geometrização que confere ao pictórico uma dimensão lúdica numa interface com a realidade física que abre o jogo entre a abstração. pelo modo metalingüístico e poético com que se apropria de lemas da revolução russa. uma poesia visual cuja visualidade se encontra subordinada ao verbal. duma fase pré-concretista. tem um conjunto de três telas acerca do Rio São Francisco. mas nesse caso. justificadas por um contexto da fluvialidade das águas. Pintor cuja influência abstracionista e concreta se faz notar. Assim. ainda. o suplantem.Ismael Pereira. redimensionam o espaço pictórico num jogo criativo e encantador aos sentidos visual e táctil... As cores de Gonçalo Ivo. . Rico de combinações de cores. por exemplo. Gonçalo Ivo (Rio de Janeiro. o azul das águas. um poema assim. temos o domínio dessas linhas horizontais. uma delas subintitulada. um cartaz. a obra acaba se realizar como um panfleto. com domínio das linhas horizontais. assim.Era uma Vez Um Rio São Francisco O verbal aqui suplanta o pictórico. filho do poeta Ledo Ivo. enquanto mundo das idéias das formas. Ou de outro modo. 1958).

me suma. DESENVOLV. Internet: CINFORM: “Última Semana Para Ver a Ousadia Sexagenária de Ismael Pereira” Postado em 19/08/2008. Não é esse panorama completo nem extenso. Mercedez-Benz do Brasil. bem pode ser subdenominada de “Entardecer”. VALE DO SÃO FRANCISCO. As cores dominantes são os tons de vermelho e marrom.cinform. 1967.Telas de Gonçalo Ivo com o tema do Rio São Francisco Uma terceira tela. mas me ative as telas que tive maior familiaridade e contato. sendo que muito provavelmente esqueci ou deixei passar telas significativas da história pictórica do tema em questão.com. A matização da tela assim substancia o rio como um rio sólido. Referências CIA. José Roberto Teixeira. Gonçalo Ivo. na sua morosidade do ritmo de entardecer sertanejo. O que busquei comentar nesse capítulo foi. A Pintura no Brasil Holandês. 1978. Assim. LEITE. http://www. São ás águas calmas do rio São Francisco refletindo a luz. São Francisco: O Rio da Unidade. GRD. dentro do conjunto. em termos de técnica abstracionista.sociedadesemear. em que o fluídico se encontra disfarçado pelos tons mais densos. Rio de Janeiro.br/noticias/19820081283251459 SEMEAR: “Exposição Águas de Março”. me parece o pintor que melhor soube apreender a natureza pictórica do Velho Chico. SP. http://www. São Bernardo do Campo. embora tenha o título apenas de “Rio São Francisco”.org.br 75 . um breve panorama quase crítico das representações pictóricas do Rio São Francisco. É o reflexo do rosicler solar sobre as águas turvas do rio.

inclusive em Portugal. A chegada do teatro de bonecos está associada também à chegada da arte circense. O mamulengo é 76 . incluindo-se aí um longo espectro de adaptações e modificações. O teatro de bonecos era comum na idade média na Europa. sendo apoiado pela Igreja. Era comum um espetáculo de bonecos denominado de “Presépio” de característica de difusão do imaginário cristão.Mamulengo Revisitado: A Arte das Mãos na Ligeireza dos Bonecos A origem do teatro de bonecos chamado de “mamulengo” perde-se um pouco no próprio processo de aquisição de cultura durante a colonização. à transposição de lendas européias para a cultura brasileira.

partindo da cabeça para a mão do manipulador. Quitéria. o mamulengo se aproximava visualmente da performance do ventríloquo. o valente. o Moleque Benedito. dispensava a necessidade de uma caixa para palco. cujo movimento é produzido pela mão (dedo indicador colocado na cabeça e o polegar e o médio nos braços). vestindo um camisolão de pano. definiu aspectos do mamulengo como um teatro de bonecos que. feito de madeira. Modernamente a distinção entre o teatro de bonecos e o teatro de fantoches tornouse muito tênue. Tal habilidade. a onça. em alguns casos. Piauí.os bonecos são suspensos por uma haste de metal. num certo sentido. o cachorro. A origem do mamulengo em Pernambuco está associada ao período da invasão holandesa. a nosso ver. diferindo do Presépio medieval com caráter mais religioso e mesmo de desenvolvimentos mais acadêmicos ou eruditos como o teatro simbolista de marionetes de um Maeterlinck. etc. Nesse aspecto. ao passo que no mamulengo era a mão do bonequeiro que dava sustentação e a forma definida ao corpo do boneco ao ser introduzida por debaixo do boneco em orifícios próprios para a ação dos braços. o Cabo Setenta. Catirina. daí espalhando-se para estados como Alagoas. Nesse sentido. Mané Pacaru e João Redondo. a comédia tornou-se o gênero característico. A tipologia das personagens demonstra. como o teatro de bonecos mamulengo conseguiu absorver um procedimento crítico da sociedade fundado na técnica da alegoria e da ironia.boneco de madeira ou outro material. uma vez que por aquela época era uma arte comum na Holanda. Hoje. o padre. Essa tipificação característica de personagens se eleva um pouco mais quando notamos a ocorrência de personagens com nomes próprios mais delimitados como o Professor Tiridá. o galo. etc. por vezes.boneco com cabeça de madeira. o teatro do mamulengo já tem como padrão a utilização do palco de bonecos e da separação visual entre o bonequeiro e o boneco. ou ainda. existem os personagens que representam alegoricamente determinados valores de conduta. conhecida como “Jan Pickel Herringe”. como a raposa. no entanto. tendo o mamulengo incorporado. conforme a técnica utilizada. b) de vareta . o briguento. Assim. que permite ao manipulador movimentá-los. o papagaio e o jacaré. Papafigo. principalmente em Pernambuco. da boca e até dos olhos. c) de haste . d) de fio . temos nesse caso o bondoso. o molenga.os bonecos são ligados por fios a um controle. por exemplo. 77 . Diferia o mamulengo do teatro de fantoches ou de marionetes pelo fato de que no teatro de fantoches a ação dos bonecos era mediada por linhas. Simão. articulado e movimentado por varetas. Há também os bichos.característico do Nordeste. a técnica dos bonecos suspensos por cordões ou cordas. Os personagens típicos do mamulengo são definidos por uma tradição que representa papéis sociais que se cristalizaram na formação da sociedade nordestina: o coronel. Rio Grande do Norte. de massa ou papelão. podendo também ter fios para os braços e as pernas. o policial (a volante). que chega ao teatro de bonecos como forma de diminuir a possibilidade de participação do ator na construção do texto teatral. cordões ou cordas que sustentam o boneco. de uma cortina que separasse visualmente o bonequeiro do boneco. dos seguintes tipos: a) de luva (ou também “guignol”) . hoje se considera que os bonecos de mamulengo podem ser. Além destes. algumas vezes. A origem do termo parece estar implicada com a corruptela da expressão “mão molenga” com que se definia a habilidade do bonequeiro em movimentar o boneco.

Simão é a prefiguração do dizer euclidiano-pós-positivista de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”. na constância de busca de superação dos limites impostos pela maquiavélica exploração social das agruras das intempéries. Do mesmo modo. terminando o século pela proclamação e instalação da república nos governos de Marechal Deodoro e Floriano Peixoto (1889-1894). O nosso século XIX foi marcado nesse âmbito pelos dois reinados (1822-1889). porém. p. Introdução: O Rei e seu Castelo O Brasil foi o único país da América do Sul a ter um período monárquico ligado às tradições e às famílias nobres européias. personagem sincrético entre elementos do imaginário cristão. no lugar da conquista do amor ou da validação do poder da fé. o padre. O resgate do boi nos faz lembrar do poema “Cobra Norato” de Raul Bopp. muitas vezes. assume a condição de sátira. não é tanto pela sua inabilidade de polícia e pelas trapalhadas pelas quais passa e provoca. o que temos é uma outra mensagem simbólica: a persistência. uma vez que a própria família real portuguesa mantinha laços estreitos por meio de casamentos e outras 78 . antecedido pelo período da permanência da família real portuguesa (1808-1815). a namoradeira. não poucas vezes. De certo modo. associada historicamente como parte do aparelho de institucionalização do coronelismo. A figura simbólica do boi nas histórias populares do Nordeste. a mulher fofoqueira. Se o Cabo Setenta nos faz rir. misturando ainda elementos de personagens folclóricos diversos. tanto mais que os personagens característicos costumeiramente acabam por se construírem sobre estereótipos de papéis sociais enraizados na estrutura da sociedade nordestina. Aqui.A comédia no mamulengo. mas também. A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira 1. o que temos é um processo de carnavalização (bakhtiniana) na formulação e apresentação do espetáculo do mamulengo. As ligações com as famílias nobres européias superavam os limites do domínio da metrópole. desprovidos de estrutura logística.ex.). vai também acrescentando os seus. entre outros. acrescido dos interregnos da regência (1831-1840) e do reino unido (1815-1822). indígena e africano. denotando sua universalidade enquanto arquétipo (a serpente emplumada. mas também de configuração maia e egípcia. personificam a visão da sociedade por um viés que na sua forma satírica e estereotípica faz por desnudar as contradições dessa mesma sociedade. se liga ao mito de Orfeu e sua descida aos infernos e num contexto cristão à aventura de Jonas no vente da baleia. Sabendo revisitar os personagens criados por outros mestres mamulengueiros. em que o poeta se veste da pele de cobra e sai em busca da princesa do sem fim. aqui é articulado com a figura da cobra grande (originária do imaginário indígena). Waldeck de Garanhuns é um artista do mamulengo que tem se destacado por um trabalho de revisão e reinvenção dessa arte. em que o boi depois de aprender a dançar é engolido por uma cobra. O Nordestino materializa sua fé na persistência. Uma de suas peças mais conhecidas é “Simão e o Boi Pintadinho”. e em outros casos. mas principalmente por que a personagem alegoriza-se sob a visão popular acerca do policiamento nas pequenas cidades do Nordeste. de pessoal treinado e de recursos os mais variados para seu trabalho. o rapaz Simão tenta então resgatar o boi do ventre da cobra e acaba por entrar no ventre em busca de seu animal.

No Maranhão. aos 15 de outubro de 1864 (fonte: Wikipédia). Jesus Cristo é apresentado como o “rei dos reis”. aos príncipes Gastão de Orléans e seu primo. refugiando-se na Inglaterra junto ao ex-rei da França. Aos seis anos. Isabel e D. com quem casou-se em 4 de setembro de 1842. de origem portuguesa. temos então as razões históricas para o desenvolvimento e a permanência no imaginário brasileiro da figura do rei e do castelo. devido à Revolução de 1848. respectivamente. D. filha única do general e duque Fernando Jorge Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. Pedro teria cogitado em pedir a anulação do matrimônio por conta de seus minguados atributos físicos: era baixa. Leopoldina. com Leopoldina e Isabel. Condessa de Belmonte e ama do jovem monarca. Seu nome original em italiano: Dona Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias. duque de Némours. da Espanha e da Inglaterra inclusive. no qual Antônio Conselheiro em suas prédicas denunciava a república como a grande inimiga da fé e preconizava a volta de um mitológico Dom Sebastião que viria restaurar não a monarquia ou o reino de Portugal. a prova direta dessas ramificações para além da família real portuguesa.da esquerda para a direita: Conde d'Eu. em Pernambuco entre Era filho primogênito de Luís Carlos Filipe Rafael de Orléans. Filha do rei Francisco I do Reino das Duas Sicílias. entre outras pessoas. ao conhecer a esposa. Se contarmos ainda o longo período colonial de ligação com o governo monárquico absolutista e centralizador português. e de Vitória Francisca Antonieta Juliana Luísa. terceira e última Imperatriz do Brasil. temos sim que levar em conta o imaginário cristão católico de que Portugal foi um grande difusor. duquesa de Saxe. Assim. com quem casara por procuração. 5 4 Dona Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltazar Melquior Januária Rosália Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bondosa André d'Avelino Rita Leodegária Gertrudes Venância Tadéia Espiridião Roca Matilda de Bourbon-Sicílias e Bragança (Nápoles. No imaginário cristão. Isabel Leopoldina Cristina de Bragança e Duas-Sicílias no Rio de Janeiro. A propósito de Dom Sebastião. 28 de Dezembro de 1889). Fez sondagens com a ajuda de sua irmã. manca e feia. Mariana Carlota de Verna Magalhães. É lá que passa a maior parte da infância e da adolescência. Francisca. se casassem com chefes doutras dinastias para dar continuidade à linhagem. Ganhou o título de conde D'Eu ao nascer. É claro que tal simbologia do rei e do castelo não se deve exclusivamente à ligação com a monarquia em Portugal e no Brasil.alianças familiares com as famílias da Áustria. Luís Maria Filipe e de D. Pedro II. encontra no Brasil várias adaptações no imaginário popular. é obrigado a fugir do país com a família. mas sim o reino de Cristo. Alguns cronistas relatam que o casamento só teria se consumado um ano depois e que o imperador só não remeteu a esposa de volta à sua terra natal graças à intervenção de D. D. a figura do rei-santo que voltará a restabelecer o seu reino. em Goiás. Estes chegaram ao Brasil em 1864 para se casarem. princesa de Joinville. imperatriz Teresa Cristina e D. foi a esposa do imperador Pedro II. Gastão de Orléans. D. Família Imperial . Augusto de Saxe. 79 . o rei da França. Pedro de Alcântara. Mas as princesas tomaram a liberdade de escolher seus noivos. (fonte: Wikipédia). Antônio Gastão. No Brasil o Cond’Eu 4 e a imperatriz Teresa Cristina 5 eram. princesa de Saxe-Coburgo-Gota. conde d'Eu. casou-se com a Princesa Imperial D. dado por seu avô. D. a D. da França. neto de Luís Filipe. seu enlace foi motivo de decepção para o marido. Se cruzamos a influência histórica da coroa portuguesa e da monarquia brasileira com a simbologia cristã temos o amálgama completo que dá razão à existência desse apego do imaginário na cultura brasileira à figura do rei e de seu castelo. de D. 14 de Março de 1822 — Porto. rei da França. Pedro II do Brasil queria que suas filhas. Há quem afirme que. Isabel Leopoldina. em Minas Gerais. Pai de D. Sintomático e exemplar disso é o episódio de Canudos.

Dom Sebastião no Brasil. vez por outra é utilizada para qualificação de um elemento arquetípico que represente perigo. uma breve observação sobre alguns índices encontráveis na linguagem cotidiana já é um suficiente para a constatação dessa simbologia no imaginário do povo brasileiro. mas a rainha da jovem guarda (Wanderléia) e o príncipe (Ronnie Von). a pilhéria. “the magic”. 6 De fato. Parece que o processo de adjetivação nos USA prefere ao “the king” outras qualificações como “the best”. col. Para fins comparativos. 7 O movimento musical denominado de Jovem Guarda tinha não apenas o rei.João VI e o reinado de D. basta atentarmos para um outro país cuja colonização tivesse sido marcada pela sujeição à uma metrópole monárquica e a religiosidade. a crítica sarcástica e a alegria desmesurada. sequer podemos falar numa efetiva guerra da independência em que se pese os confrontos na Bahia em 1823 transformados num desconhecido épico de Ladislau dos Santos Titara. o “Rei do Samba de breque”. uma das principais manifestações populares do Brasil. A palavra “king” como adjetivo. “the big”. ainda apresentado simplesmente como “o Rei”. ofício ou função que logo recebe a denominação de rei. No caso do Brasil. São Paulo. A guerra da Independência americana e o domínio do protestantismo parecem que são fatores a diminuir o sentido que a figura do rei poderia ter no imaginário norteamericano. políticos e sóciopsicolingüísticos com o passado monárquico. substituindo o imaginário do rei luso pelo sentimento A esse respeito indicamos o trabalho de Marcio Honório Godoy. 6 80 . Este de deus da mitologia grega passa a rei do carnaval num longo processo de transformação do festejo. dominada pelo imaginário cristão. Sinhô foi o “Rei do Samba” ao passo que Moreira da Silva. em que já se pese mais de um século de período republicano. Satan é o “Prince of Darkness” uma vez que não pode existir o reino das trevas que se oponha o reino de Deus. ainda que nosso romantismo inicial tenha se esmerado em se apresentar como antilusitano. assim é caso do King Kong. se constituiu uma hierarquia monárquica com o príncipe do futebol (Dirceu Lopes. Reginaldo Rossi é por muitos considerado o “Rei do Brega”. já um pouco passado na idade e no estilo musical. 25.Pedro I. Na cultura norteamericana a idéia do rei como adjetivo mais comum para alguém que se destaque nalguma profissão. Roberto Carlos. se apresenta como o desfile da corte e dos súditos para um rei. Mesmo expressões como “the king of rock” parece ter sua origem na Inglaterra e não nos Estados Unidos. que desde o seu início muito têm feito pela eliminação de vínculos culturais. 2005. Havendo uma continuidade entre o governo de D. Basta alguém se destacar numa arte. No futebol. Pelé é o rei do futebol. arte ou função parece não ser a mais usual. Tendo como marca a basófia. ameaça e que se caracterize como algo do exterior. The King of Crime (1914). Perspectiva. tendo porém a ausência de um período monárquico na fase independente. Por outro lado. década de 70) e Didi (príncipe etíope). Podemos pegar como exemplo os Estados Unidos. o Rei Momo. o único rei admitido sem restrições no imaginário WASP (White. Khronos. de Sidney Northcote é um filme que se nos afigura como representativo dessa simbologia. Jesus Christ é o “King of the Kings”. Ayrton Senna foi o “Rei das Pistas”.outros estados. também. O carnaval. mas tão somente um estado de exílio. vol. foi por décadas conhecido como o “Rei da Juventude” 7 e hoje. AngloSaxonic and Protestant). “the star”. Al Capone foi cognominado o rei do crime em livro de Nate Hendley. ainda é possível encontrar festas populares cujas representações estão direta ou indiretamente ligadas ao sebastianismo. também.

Nesse âmbito é que os castelos são de característica mais própria ao contexto político e social da Idade Média. que se destaca da paisagem citadina por estar colocado no alto de uma colina. etc. a necessidade do fosso e das muralhas. barbacã. de um chefe de governo”. para realmente ser admirada e vista de longa distância. uma vez que o que seria apenas suntuosidade e pompa no palácio. Desse modo a expressão ganha sentido ambíguo. O Dicionário tem o significado primeiro semelhante ao Houaiss. o Castelo é o lugar do rei. o palácio a Wikipédia define exatamente como os dicionários Houaiss e Aurélio. a idéia de que o Rei é a qualificação natural para aquele que se destaque num grupo social. destacar a suntuosidade. de um alto dignitário eclesiástico. Romário e Túlio). próximo a vias de comunicação.francófono. quanto positivo. Dez anos depois a expressão foi utilizada no âmbito esportivo para ser referir à disputa entre três grandes jogadores no campeonato carioca de 1995 (Renato Gaúcho. uma vez que o castelo é uma construção típica da arquitetura medieval. por exemplo. em primeiro lugar. cercada por torre e um fosso. de um alto dignitário do poder eclesiástico. com muralhas. de Fábio Barreto. substituindo-se. de “castellum” (latim). Uma torre. fosso. inclusive reis. dependendo de seu contexto. No Brasil. sem portanto. tanto podendo ter um sentido pejorativo. no palácio a arquitetura de uma torre tem função mais para ostentação. embora isso ficasse implícito pela designação de “residência de um monarca”. No imaginário da cultura brasileira a idéia de castelo apresenta já um anacronismo histórico. ao passo que os palácios são mais característicos do período em que a realeza efetivamente superou os receios de eventuais ataques de hordas inimigas. com Nuno Leal Maia e Nelson Xavier. Por sua vez. por amplos jardins.” Sobre sua origem. se referia a uma torre de vigilância. era geralmente erguido em posição dominante no terreno. como morada preferível tendo em vista a sua condição de fornecer proteção contra ataques. confiando sua defesa aos quartéis e fortificações militares que circundariam e protegeriam os palácios. Fortificação de tipo permanente. com funções defensiva e residencial. tanto no âmbito culto e erudito.” E para palácio o Aurélio define como “Residência de um monarca. por exemplo. como faz Houaiss. ou quando não. permitir aos acastelados olhar à longa distância. O aspecto defensivo do palácio é diminuído. no castelo por vezes tem sobreposto a função defensiva ou de vigilância. A suntuosidade do palácio é que o distingue do castelo. isolando-se assim do contexto 81 . Por sua vez. além de permitir a observação de vasto terreno tendo em vista sua localização sempre ao alto de uma colina ou montanha. fortaleza. Na Idade Média é que os castelos evoluíram para morada dos senhores feudais e nobres. típica da Idade Média. A enciclopédia on line Wikipédia. ao passo que no castelo sua função é a de efetivamente. define castelo como “Um castelo (diminutivo de castro) é uma estrutura arquitectónica fortificada. fontes e espelhos d’água. ao passo que a palavra “palácio” parece se referir mais especificamente às construções nobres do renascimento para diante. Ainda convém lembrar que o castelo está associado à idéia de um local afastado do urbano.. O Dicionário Houaiss define castelo no seu significado primeiro como “residência real ou senhorial dotada de fortificações” e palácio como “vasta e suntuosa residência de um monarca. Lembremos do filme O Rei do Rio (1985). que conta a disputa entre dois bicheiros pelo domínio da contravenção. o que facilitava o avistamento das tropas inimigas e as comunicações a grandes distâncias. seu âmbito natural. acrescido de que o castelo é “Praça forte.”. quanto no popular e folclórico. de um chefe de estado etc. da qual a revolução francesa logo sucumbiu ao império ditatorial napoleônico tão exaltado num Domingos José Gonçalves de Magalhães.

Teresópolis.urbano ao redor. O fato de não termos idade média e a absorção ao imaginário popular de lendas e histórias medievais como as do ciclo do rei Arthur. não está de tal forma elevado que o acesso a ele se faz de forma dificultosa. Não é por acaso também que um dos quadros mais conhecidos de Manuel de Araújo Porto-Alegre seja a coroação de Dom Pedro II em que a figura do rei/imperador se materializa no ritual de coroação dentro do ambiente do palácio. de Frankenstein. mas como que se coloca numa situação central entre os caminhos da cidade. No caso do Brasil. no mais das vezes. nos lembram algo de um certo modelo arquetípico dos castelos medievais. em geral. No entanto. entre outras personagens similares. Cidades como Petrópolis. 82 . Seria isso um anacronismo? Um processo de kitschização? Possivelmente encontraremos esses aspectos na análise de construções que pareçam castelos na arquitetura brasileira. podemos ver isso no quadro “Grota” em que o pintor. eventualmente. de Dom Dinis e de Dom Sebastião. conhecido pela representação exuberante da natureza brasileira. bem como das figuras de Drácula. Grota. Manuel de Araújo Porto Alegre. Na pintura romântica brasileira. além do Rio de Janeiro se notabilizaram por seus palácios. se dispôs no quadro a imaginar um cenário tipicamente medieval europeu. podemos nos deparar aqui e ali com construções que embora contemporâneas. Durante o período imperial é que a construção de palácios nobres se destacou. de Carlos Magno. criou-se no imaginário popular a necessidade de castelos supratemporais e supraespaciais que poderiam compor a paisagem local materializando a idéia arquetípica do lugar misterioso e de passado glorioso ou histórico. Já o palácio está cercado pelo ambiente urbano. a inexistência do período medieval e nossa ligação colonial com a Europa a partir do barroco e do iluminismo fez com que os palácios se tornassem as moradas dos governadores. além da popularização da imagem de castelos mal-assombrados na Europa (em especial na Escócia). entre outras.

como se fosse 83 . Os Castelos do Brasil Para o menos avisado e ao mesmo tempo mais crítico do sentido etimológico das palavras. com base na etimologia e nos dicionários pesquisados. se transforma em ambiente imaginário da sublimação do desejo de realeza e nobreza diante do cenário exuberante da natureza tropical brasileira. alguns construídos com material (pedras. condes. de fato. escrevemos apenas sobre os castelos. Porém. do algodão e de outras monoculturas que renderam a alguns o prestígio e a riqueza suficientes para a ostentação materializada em suntuosas moradias. porém. da cana-de-açúcar. Como se a união do castelo ao cenário brasileiro fosse a recuperação de um ideal de civilização que se acredita perdido. estando de fato presente apenas como espaço arquetípico que necessita de preenchimento. madeira) trazido da Europa para dar à construção maior legitimidade. os palácios e palacetes da aristocracia do café. Ou seja. embora não tivéssemos idade média temos castelos de caráter medieval. não pertencendo a qualquer momento real desse passado. viscondes e duques. Coroação de Dom Pedro II O que comentamos a seguir é como o castelo medieval que não tem raízes históricas no Brasil. ao contrário do palácio imperial pós-renascentista tem. Ainda se acresce a eles. o título dessa secção deveria ser “Os Palácios do Brasil”. 2. quanto pela nobreza de barões.Manuel de Araújo Porto Alegre. seguindo a definição que propomos na introdução desse texto. do tabaco. de fato. o título está correto. tanto pela família real. tendo em vista os palácios construídos durante o período monárquico no Brasil.

telhas de ardósia francesa. colunas e forros que foram talhados na Europa. 2. mas nos prenderemos a quatro castelos em especial. vitrais austríacos e pisos de mármore italiano). a construção deu aos arquitetos o prêmio de da grande medalha de prata do salão de Belas Artes de 1924. o barão colaborou no custeio da construção da estrada de ferro Leopoldina. Smith de Vasconcelos. ferragens inglesas. que para nosso propósito. duas torres. halls. Aberto à visitação pública e sendo uma das mais curiosas e interessantes atrações turísticas da cidade fluminense. curiosamente alguns elementos. dependências para hóspedes. escadas. sala de música. tendo em vista. Castelo Itaipava. como determinadas portas. descendente de família nobre inglesa e portuguesa. tendo assim direito a que uma estação de trem ficasse dentro dos domínios do seu castelo. eles parecem preencher as nuanças do fenômeno em questão. o Castelo do Barão de Itaipava foi construído pelo barão J. Não comentaremos de todos os castelos. Itaipava RJ. Tendo a intenção de reproduzir nos trópicos uma cópia fiel dos castelos medievais europeus o barão solicitou aos arquitetos Lúcio Costa e Fernando Valentim a elaboração do projeto. foram feitos em jacarandá. O castelo tem 42 cômodos distribuídos em 19 quartos. ala dos serviçais e 84 . Castelo Lacave (Caxias do Sul)e o Castelo de João Capão (Garanhuns – PE). Para a construção do castelo o material foi trazido todo da Europa (blocos de pedra portuguesa. terraços.1. 7 banheiros. diversos salões.possível transplantar o tempo por meio da materialização da construção com materiais do lugar de origem dos castelos. Castelo das Pedras Altas (Pedras Altas – RS). são eles: Castelo do Barão de Itaipava (Itaipava – RJ). Rio de Janeiro. Castelo do Barão de Itaipava. terminado em 1920. madeira natural do Brasil. o maior castelo medieval do Brasil. Para o transporte do material. bibliotecas.

de um desejo de sublimação da realeza perdida com a república (1889). 85 . lembrando sob certos aspectos o personagem queirosiano de A Cidade e as Serras. o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845). estilo colonial. ao passo que o castelo do Barão de Itaipava era para satisfação pessoal. Chefe da Revolução de 1923. mas que tenham uma eficiente dose de magia e ostentação. / O livro que amanha a alma. 2. Acreditando que era possível viver no ambiente rural sem necessariamente abdicar do conforto da civilização urbana. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça. assinado no próprio castelo. o qual havia exercido por mais de 30 anos. com a diferença que este último é para fins de catarse coletiva e obtenção de lucro com o mundo do entretenimento. mas principalmente para satisfação coletiva de um imaginário popular que busca preencher sua história fragmentada com retratos. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. revolucionários e intelectuais. É considerado o único castelo em estilo normando nas Américas e também o maior do Brasil. o barão J. Cada objeto conta alguma história. criando um espaço mágico. que pertenceu a Bento Gonçalves. Smith de Vasconcelos soube investir na construção dessa obra arquitetônica que transcende a linha diacrônica da história. A medida foi uma das cláusulas do acordo de paz. transformando-se atualmente em atração turística não apenas pela beleza e riqueza de materiais. Fruto. A beleza de sua estrutura. A construção centenária foi cenário para importantes decisões políticas das primeiras décadas do século passado. de seus aposentos e salões. Um enorme relógio. talvez. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes" Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. o castelo de Pedras Altas busca justificar uma das frases preferidas do revolucionário gaúcho que estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (SP) e foi adepto do movimento republicano: “Em certas ocasiões mais vale um dia de ver do que um dia de ler” . cria um sentimento de êxtase estético no visitante como se um processo mágico no tempo pudesse transportar-nos ao cenário dos reis e cavaleiros medievais. mesmo que montados e/ou anacrônicos. porém.galerias.” Contendo 44 cômodos. Á entrada do castelo lê-se os seguintes versos: “Bem-vindo à mansão que encerra / Dura lida e doce calma: / O arado que educa a terra. O Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas Construído por Joaquim Francisco de Assis Brasil em 1904. Assis Brasil determinou o afastamento de Borges de Medeiros do posto de governador do Estado.2. com móveis. importados de Nova York. não muito diferente do desejo que faz surgir castelos mágicos na Disneylândia. que acomodaram políticos. aliada à beleza natural da serra fluminense a sua volta.

bem como seja a concretização de ideais estéticos e filosóficos de seu construtor. menos consciente desses aspectos históricos. pois. o conflito de harmonia causado pelas impressões iniciais das diferenças históricas sedimentadas nos estudos de História do ensino fundamental. Olyr. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou. o castelo de aparência medieval vai se reciclando e se amalgamando a um substrato histórico não característico de sua arquitetura. Assim visitar o castelo é também conhecer um pouco da história e das contradições inerentes a essa história. Aos poucos a revolução de 1923 vai se apresentando na biblioteca. mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. tomando conta como o fantasma escocês esperado de um castelo medieval: “A paz de Pedras Altas. Homem de cultura e de experiência política e diplomática num período conturbado da solidificação da república no Brasil. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses. nesse sentido.Este. Porto Alegre. Antes. a surpresa da construção medieval na paisagem cria o antagonismo. por isso. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893. nos corredores. que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. o que se apresenta emoldurando o castelo de Pedras Altas é a própria história do município e daquela região. 86 . As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular. Ao viajante. Zero Hora.) Desse modo. a preocupação em todo o país.” (ZAVASCHI. ao adentrar e visitar o castelo essa impressão inicial vai sendo substituída pela sensação de que esse castelo não poderia estar em outro lugar a não ser ali. o transplante do castelo medieval para o cenário gaúcho foi se efetivando de tal forma que não se encontra hoje diretamente anacrônico ou anódino. de imediato. na janela quebrada. entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. é um castelo que se apresenta impregnado de história política do Rio Grande do Sul. Porém. 25-11-2003 página 54.

Castelo Lacave. as caves de armazenamento de vinhos. Além da visita histórica.Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. mas também fica informado acerca da produção de vinho além de ver espetáculos inspirados na idade média. resolveu reconstruí-lo na região vinícola de Caxias do Sul. como desfile de cavaleiros trajados em armaduras e brasões característicos da Idade Média. Ao entrar. objetos. Assis Brasil de Pedras Altas. 87 . a taberna e varejo. o castelo do vinho. escolhidas com cuidado para não repetir de nenhum reino verdadeiro. com ambientação pré-renascentista. Sala dos Barris de Carvalho. As recepcionistas que acompanham a visita vestem trajes medievais e seus salões e corredores exibem tapeçarias. os visitantes são recepcionados na Sala dos Tronos. foi reaberto à visitação em 2004. passando à família Basso. Descendente de uma família nobre espanhola. O visitante lá conhece não apenas o castelo. tornando-se uma das principais atrações turísticas de Caxias do Sul. seria a sede da vinícola Chateau Lacave. os visitantes aprendem os processos de produção de vinhos para apreciar ainda mais esta bebida milenar. 2. ocorrendo inclusive um acidente com morte de operário após a queda de uma das paredes. armaduras e pinturas semelhantes às da época. Construção sofrida e demorada em razão da falta de experiência acerca da construção de castelos. móveis. O castelo ganhou um brasão e as cores próprias para sua bandeira. Os novos proprietários tiveram extremo cuidado ao decorar e ambientar seu interior com móveis e estilo da época. e tendo uma planta original de um castelo que pertenceu a sua família no século XI. Terminado em 1968. e depois de uma reforma e recuperação.3. O Castelo Lacave foi resultado do sonho de um empresário espanhol que residia no Uruguai. Em 2001 a vinícola mudou de dono. segundo o padrão característico da construção de castelos. há até armaduras. passando para a Sala das Cruzadas. o local de recepção de uva. Para dar o clima de realismo. em pedra. Demorou dez anos a construção do castelo. Salão das Bandeiras.

O Castelo de João Capão em Garanhuns (PE) O Castelo de João Capão no Agreste Meridional Pernambucano. Aqui a história é uma representação. somando-se à reprodução de espetáculos de cavalaria medieval. sem posses. Ainda em construção. não mais que 40 anos. 88 . Tendo ainda como elo fulcral a descendência de seu construtor e associando-se à simbologia do vinho.Castelo Lacave. De fato. um pedaço reconstruído da Idade Média transplantado no tempo e no espaço para o Brasil. a suntuosidade não existe nesse castelo. em que o local é alugado por modestos 200 reais. o Castelo de João Capão. O construtor foi apelidado de Capão. a festa mais importante de Garanhuns. ou quando do Festival de Inverno da Cidade. no município de Garanhuns é o menos imponente e suntuoso dos castelos aqui mencionados. de história e de mistério antigo. 2. um espetáculo que encena a história medieval européia. Incluído já no roteiro turístico da cidade. porque além de eletricista foi goleiro de um time amador e era considerado por alguns como “frangueiro”. Fruto do sonho de um eletricista. confirmado a necessidade inconsciente do imaginário popular brasileiro de preenchimento de um arquétipo vago na nossa cultura opacamente marcado pelo substrato histórico do período colonial e monárquico. conta com a doação de visitantes que por curiosidade comparecem ao local. ainda que apenas como espetáculo ou como representação. para se transformar num restaurante temático. Assim. Caxias do Sul (RS) Possuindo um restaurante. daí o apelido de “capão”. iniciada há 17 anos. além da taberna para degustação de vinhos.4. É assim. o que confirma o índice de mais de 70 mil visitas desde que foi reaberto. à beira da Br-423. se destaca na paisagem modesta do subúrbio em que se localiza. o Castelo Lacave faz o inverso do processo histórico que determina a característica do Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. A imitação como base da mimesis fornece aqui o elemento de catarse para o visitante desejoso de vivenciar um pouco de tradição. quase nos esquecemos que o castelo foi construído em 1968. como empreendimento é um sucesso. que decidiu construir um castelo depois de assistir filmes no cinema da cidade em que via castelos e reis da idade média. ou seja. o espetáculo que é uma visita ao castelo Lacave se transforma numa experiência estética de tal complexidade e amplitude que a realidade se vê subvertida pelo objeto artificial.

O banheiro. Essa desconstrução do castelo no castelo de João Capão. 89 . E o castelo de João Capão se mostra ainda mais característico quando o comparamos com outra construção do município de Garanhuns que é o Palácio Celso Galvão. ainda em processo de acomodação. não o desmistifica. construído em 1943 pelo interventor Agamenon Magalhães e inaugurado na gestão do prefeito que lhe dá o nome. porém. Ao assistir as fitas de cinema. por exemplo. Misto de imagem de casa de classe média alta com elementos de castelo medieval é no máximo uma casa temática de aspecto kitsch. carecendo de conhecimentos arquitetônicos e históricos. pelo contrário. em termos estruturais e estéticos.Castelo de João Capão. uma caricatura quase kitsch de um castelo. na Avenida Santo Antônio. como os ramos cruzados à entrada do castelo. é essa obra a perfeita consubstanciação dessa falta histórica que só é falta pela imposição em nossa história cultural de um ideal de passado e glória vinda da Europa e que impregnou nosso imaginário. esta impressão vai se desfazendo. desejoso de viver num castelo medieval como um rei arturiano após assistir filmes no cinema é o melhor exemplo do que busco apresentar aqui como hipótese. a de que a imagem do rei e de seu castelo se apresenta no imaginário popular brasileiro de tal forma que nos distinguimos nesse aspecto em comparação com as outras nações da América. Lembra um pouco palácios de Florença ou Veneza. situado no centro da cidade. entre lojas e bancos. em parte pelos aspectos próprios de nossa história que teve quase um século de monarquia. ou o salão central com suas paredes pintadas em tom ocre de tinta à cal. alguns templos de igrejas evangélicas que se apresentam com torres medievais no lugar do campanário. e o acúmulo de símbolos desconexos. tem janelas e torres em estilo pós-renascentista italiano. ameríndia e africana. O conflito entre nossa herança européia. assim como temos casas com colunas jônicas ou dóricas. Esta vontade que fundamentou o sonho do pobre construtor. assim como centro político da cidade. é simbolicamente a imagem do processo de domínio da burguesia na estrutura social ocidental. além de algumas paredes rebocadas. Se por fora as torres em estilo medieval e a estrutura de tijolos imitando pedras dá ar de construção medieval. com paredes de lajota de cerâmica esmaltada e com aspecto de um banheiro típico de uma casa de classe média. O Palácio justifica o epíteto de palácio pela forma arquitetural. O castelo. vão nos mostrando que o castelo de João Capão é antes um conjunto contraditório de impressões do que seja um castelo para seu construtor. é na verdade. o que não ocorrera com os castelos anteriormente aqui comentados. Lembra também. misturadas com janelas modernas em bairros de classe média de várias cidades. João Capão teve despertado aquilo que já subjazia no seu inconsciente advindo de um inconsciente coletivo e arquetípico. localizado na área mais comercial da cidade. por dentro. porém. Se um Policarpo Quaresma teria convulsões diante de tal construção é apenas porque veria ali a contradição mais forte e característica de nossa formação como nação e cultura. Garanhuns (PE) O modesto castelo se apresenta dotado de uma força incomum para quem o visita quando sabe da história de seu construtor. em parte pela forte simbologia religiosa dada por um Portugal barroco e medievalista.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. a convicção de fatos que se não vêem”. sua alma não é reta nele. Vozes. Paidos. Rio de Janeiro. Márcio Honório. acaba morrendo martirizado. de como lá a torre do castelo é o lugar da loucura. 1978. Lembremos. Dan. 1978. col. Psicologia e Religião. 1970. 2004. 2004. São Paulo. Na História a Fé tem sido um instrumento não só de caráter relativo à espiritualidade. do caos simbólico entre realidade e sonho. do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna. temos a possibilidade de ver a diferença entre castelo e palácio na cultura brasileira. “emuná” e é traduzida pela primeira com o sentido que usamos no livro de Habakuk (2:4): "Eis aqui um soberbo. Perspectiva. a fé é a certeza de coisas que se esperam. Khronos. Etimologicamente a palavra vem do hebraico. São Paulo. Cultrix. Na colonização da 90 . JUNG. Buenos Aires. São Paulo. que acreditava. 2006. Nos Hebreus (11:1) encontramos a seguinte definição de fé: “Ora. SPERBER. HOUAISS. Objetiva. mas também um instrumento de dominação. Nova Fronteira. para exemplificar com a literatura. ________. Carl. Quando Raimundo Lúlio tenta converter os Sarracenos munido apenas de sua Ars Combinatória. possuiria o poder da conversão instantânea pelo poder imagético e matemático de sua linguagem. G. que só se resolve pela compreensão do que seja nossa herança cultural. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HOLANDA. Arquétipos e Inconsciente Coletivo. Rio de Janeiro. que só existe como passado como resultado de um conflito histórico de nossa herança cultural. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. ao passo que o palácio é associado ao poder pela fundamentação real que nossa histórica tem com essa arquitetura. Aurélio B. GODOY. quando contrapomos o Palácio Celso Galvão ao Castelo de João Capão. mas como aquele lugar que é dotado de um passado inexistente. sede da prefeitura de Garanhuns (PE) Assim. Antonio. O Simbolismo em Geral. O castelo não é propriamente mais visto como a sede do poder. Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico A Fé é decididamente o grande instrumento do homem para a realização de suas conquistas históricas e espirituais. e um justo (que) em sua fé viverá".Palácio Celso Galvão. Dom Sebastião no Brasil.

uma ideologia. feiticeiros malignos e benignos. por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Líbio Severo em viagem pela Península Ibérica. dominadas pelo português europeu. No povoado existe o culto à Santa Quitéria. isto é. o povoado de Frexeiras é um retrato emblemático desse sincretismo e dessa fé algo abstrata de definir apenas na conceituação religiosa. no sentido de compreensão da relação contextual do homem com a sociedade que constrói. Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia. Os beatos. que no entender católico é o dia em que a alma do santo deixou a terra e se elevou aos céus. A história da santa é dramática e dotada de acontecimentos misteriosos que beiram o macabro. que com medo de represália do marido. A história de Frexeiras é a história da fé popular. Santo Ovídio. as culturas indígenas e africana. Gema. Crenças. mas concretamente antropológica. Próximo a Garanhuns. Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga. no século V da nossa era. já no município de São João. o sincretismo religioso se instaura diante. tendo se assustado com o fato de ter dado a luz a nove meninas. Antônio Conselheiro. Sabemos que uma língua não é apenas um conjunto de regras normativas gramaticais e um vocabulário da qual se o falante faz uso indiferente. tudo a suas expensas. Basilissa e Vitória) e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs. desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de Maio do ano de 477. homem de procedimento muito rígido. a Fé foi o instrumento de conversão ideológica mais eficaz que os europeus puderam apresentar aos gentios americanos. afogando-as num rio. governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano. Mas. Marinha. dentro das igrejas cristãs. em Braga. mulher de Lúcio Caio Otílio. Liberata. O sertão Nordestino é um espaço histórico rico de sincretismos. o dia 22 de maio é dia de Santa Quitéria. enquanto instrumento da Igreja para conversão dos fiéis e garantia de sua dominação. Otílio condenou-a à morte.América. deixaram sua marca neste imaginário. de profecias. de crendices. tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano. agreste meridional de Pernambuco. No calendário cristão católico. Anos mais tarde. Quitéria estava com 15 anos de idade. deixaram na língua dominante marcas inconfundíveis. que as batizou as meninas (Eufemia. porém. No Brasil. Antes. Naquela época predominavam as superstições. movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo. na região do Minho. Ante a recusa da filha. superstições indígenas e africanas povoaram os espaços vagos das contradições cristãs. José Lourenço – beatos. Padre Cícero. os padres povoaram o imaginário sertanejo de personagens mágicos. da fé tomada pelo povo em oposição à fé. Quitéria nasceu no ano de 462. Segundo consta do hagiológio português e na história de Braga. país cuja miscigenação tornou-se característica fundamental de sua população. é no dia 7 de setembro que existe a maior comemoração em Frexeiras. a ponto de a mãe. Marciana. instruiu a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. Assim. ao redor e por vezes. 91 . Genebra. uma forma particular de construir a realidade. rituais. A data de um santo é geralmente colocada como a data de sua morte. Quitéria. Frei Damião – religiosos. cada língua tem inscrita na sua estrutura uma visão de mundo.

Santa Quitéria. inclusive pagãs. acumulativo. A família não permite a entrada de religiosos. é um dos maiores depósitos naturais de urânio do país. Fotos antigas. o culto à Santa Quitéria seguiu um caminho dominado pelo imaginário popular. 8 Fonte: http://acertodecontas.” 8 O fato atual é que o povoado de Santa Quitéria transformou num local de peregrinação. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada. Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos. A casa grande original foi se atulhando de ex-votos. porém a Igreja não tem qualquer domínio ou intervenção na localidade. vem muita gente a pé. coloridas. de santinhos. criando no expectador de imediato uma desorientação. já trouxeram os escravos e quando chegaram aqui na região construíram a casa para morar e foram preparando a terra para a cultura de subsistência e quando eles vieram de Portugal trouxeram na bagagem a imagem de Santa Quitéria. os escravos começaram essa devoção à Santa Quitéria. o culto de Santa Quitéria é bem difundido. essa imagem que está aqui de 44 cm e que era a imagem de devoção da família. foi transformada nesse espaço para receber as constantes visitas que vinham montadas em lombo de burro. As paredes povoadas de fotografias transformam-se num grande mural do tempo.artigo de André Raboni. sob o domínio do imperador Adriano. Existe uma disputa entre a família Guilherme da Rocha e a Igreja. e no final do século XVII. a casa. de velas. Cada uma. eis como começou o culto à Santa Quitéria: “Tudo começou quando minha família veio de Portugal tomar posse de terras que foram concedidas pelo governo de Portugal em 1695. As terras onde se encontra o povoado de Santa Quitéria pertencem à família Guilherme da Rocha. no Ceará. de informações contraditórias que se dirigem aos nossos olhos. Tal se deve ao receio de que a Igreja tome posse do culto sem auferir à família algum acerto financeiro ou de uso. de estatuetas as mais variadas. pessoas em variadas poses e lugares. além dos vendedores de bugigangas.As datas aqui colocadas não são de todo confiáveis. e Santa Quitéria no Maranhão. existe uma versão de que teriam tais fotos ocorridos no século II. de caminhões pau de arara. que foi para abrigar uma família. ao entrar no local o que se nos mostra de imediato é um grande painel neobarroco. Tendo nascido Quitéria no ano 120 e morrido em 135. carregando objetos. Assim. Quitéria tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada. novas. os índios também. 92 . em carro de boi até a modernidade de hoje em que elas vêm de ônibus. no Nordeste existem dois municípios com essa denominação. Assim.blog. No Brasil. de fotografias de diversos tamanhos das pessoas que se dizem agraciadas. que existia uma santa milagrosa e aí começou a peregrinação. e os escravos foram espalhando para os escravos de outras propriedades e os donos de outras fazendas. apresentando aqueles inúmeros rostos. em p&b. Com as freqüentes novenas realizadas aqui na casa (a família era muito católica). que veio de Portugal em 1695. que entre outras características. Conforme conta um dos herdeiros.br/atualidades/santuario-no-interior-e-causa-de-briga-juridica-entre-aigreja-catolica-e-familia-proprietaria-de-imagem/ . Assoma-se a movimentação das pessoas que entram e saem dos aposentos acendendo velas.

Se a data de Santa Quitéria é 22 de Maio e em Frexeiras o dia mais comemorado é o de 7 de Setembro. na coletividade de imagens. joga-se o bilhar. o que temos é a inversão dum significado. E a morte é o grande medo do homem. estátuas de santas que pela denominação. assim como ocorreu no Ceará com o Padre Cícero. Os ex-votos. passou uma. o dia da independência 93 . o sincrético e o místico. onde se paga um real para entrar. ao dirigir-se ao altar de Santa Quitéria. ele que o imediato concreto. dezenas de barracas de mascates vendem santinhos. Numa das estantes velhas de madeira. brinquedos de plástico. cabeças. a fé se exercita. pilhas. com a diferença que agora se presentificam enquanto objetos tridimensionais. duas. mas também desordenadamente pós-moderna. O homem sertanejo que vive a dureza das condições sócioeconômicas. Lá encontramos uma variedade de objetos velhos. Quando de uma das minhas visitas. presenciei um fato interessante e ilustrativo. o culto à Santa Quitéria de Frexeiras segue seu caminho numa trilha entre o folclórico. Os mais novos. muitos deles. é sua cruz inseparável. o 7 de setembro. doces.signo de uma história particular. que no imaginário popular foi a época em que santos e santas andavam pelo mundo. automóveis. alguns almoçam o prato feito. Santa Vitória. mas o imaginário popular tratou de fazer o seu próprio processo de santificação. naquele povoado. notas e moedas antigas. braços. mãos dos que estavam nas fotos se materializassem ali. de madeira. que fica numa outra casa. ou de parafina: pés. formava-se uma fila de pessoas. Imediatamente uma outra senhora vendo isso. As irmãs de Santa Quitéria não foram santificadas pela igreja. No comércio das bodegas. busca na fé mais do que a elevação espiritual ou a ascese. ônibus de diversas procedências. uma estatueta em gesso de Vênus/Afrodite. individual. dia da Independência é aqui transmutado no dia de Santa Quitéria. existe um museu. balas. em geral mais velhas. já velhos. se presencia ali. da historicidade de agruras e desmandos. são carros dos mascates. Santa Liberata. outros tomam cachaça. capas para celular. disso a uma outra: -“Vamos também passar por três vezes aí embaixo que dá sorte e proteção!” E. braços. passando por debaixo do oratório. No estacionamento. reciclando continuamente as crenças individuais num caldeirão de mitos. três vezes. a realidade concreta é muito dura. e colocadas em alguns nichos. Ali. de curiosos ou de pessoas movidas pela fé que têm a condição de ter um automóvel mais novo. até estatuetas de Jesus. desde de rádios de válvula. Na única rua do povoado. esta senhora resolveu passar por debaixo da mesinha que sustenta parte do oratório. O imaginário necessita do sobrenatural. povoado de santas vindas de ilusórias terras também santas. diante de nossos sentidos. Como se os pés. em pouco tempo. Uma velha senhora. cabeças colocadas em sob tábuas de madeira ou penduradas nas paredes também criam um novo panorama que se acumula ao das fotos. Próximo a casa grande. pessoal. Cria-se assim um mundo místico. mãos. Assim. Homem Aranha. A elevação da alma da Santa aos céus é também o signo de sua morte corpórea na terra. de uma época irreal. Assim. que. são as irmãs de Santa Quitéria: Santa Gemma. Lá fora uma barraca vendendo super-heróis de plástico: Wolverine. meio mágico. do abandono. cuja imagem encontra-se adornada de inúmeros colares dourados. no entanto. querendo ser provas irrefutáveis dos milagres. fez o sinal da cruz e foi-se embora. Hulk. sem o concurso da Igreja.

Prancha de Figuras – Frexeiras 94 .da alma sertaneja diante dos grilhões históricos de sua condição. Símbolo da regeneração das forças para continuar sua luta diária e cotidiana.

Imagem de Santa Quitéria de Frexeiras.Os retratos na parede compondo um painel sincrônico de promessas e pedidos Parede e prateleira repleta de ex-votos. PE. 95 .