IMAGENS DO VELHO CHICO NA CULTURA DO VALE DO SÃO FRANCISCO Jayro Luna

Edupe
2009

SUMÁRIO Apresentação. – Benedito Gomes Bezerra – 3 Introdução - 6 O Rio Como Símbolo – 8 O Rio São Francisco como tema da MPB – 13 O Ciúme, de Caetano Veloso – 29 Do São Francisco ao Mississipi –35 Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira – 42 Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco – 53 A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco – 58 Algumas Considerações Acerca das Representações Pictóricas do Rio São Francisco – 63 Mamulengo Revisitado – 77 A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira – 79 Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico – 91

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APRESENTAÇÃO O Rio São Francisco representa um dos elementos de maior peso simbólico na cultura e imaginário nordestino, fato que se reflete na música, na literatura, na pintura e nas artes em geral. Ultimamente, o Velho Chico tem sido objeto de acalorada e polêmica discussão, em virtude do projeto de transposição de águas idealizado pelo governo federal. É lamentável, contudo, que o foco das reflexões sobre o Rio tenha se concentrado de modo quase exclusivo nos aspectos políticos e ideológicos da questão. O livro do professor Jayro Luna, a propósito, vem preencher essa lacuna, trazendo para a comunidade acadêmica e o público em geral um amplo e variado conjunto de textos debruçados sobre a riqueza cultural constituída em torno do São Francisco. O propósito do autor é, como ele mesmo afirma, “levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região”, bebendo para isso nas inúmeras fontes disponíveis. Duas particularidades devem ser ressaltadas no trabalho do autor. A primeira é que não se trata, de forma alguma, de pesquisa meramente bibliográfica, fruto de observação distanciada. Em muitos textos, o leitor perceberá a argúcia do observador integrado ao objeto de sua investigação, examinando de perto aquilo de que fala, não sem trair a paixão do autor pelos aspectos culturais em questão. A segunda particularidade é o ponto de vista do autor, construído a partir da região do Agreste Meridional, onde se situa a Universidade de Pernambuco, Campus de Garanhuns, de modo que relações muito pertinentes e interessantes são demonstradas entre a riqueza cultural dessa região e o imaginário do Rio, próprio do sertão cujas terras suas águas percorrem. Daí a presença, por exemplo, de um capítulo que trata do santuário de Santa Quitéria em Frexeiras, localidade próxima a Garanhuns. O livro se organiza em onze capítulos que tratam do imaginário e da cultura do Velho Chico sob variados ângulos. A maioria dos capítulos enfoca as diferentes maneiras como o Rio São Francisco é representado em diversas expressões artísticas, como a MPB, a poesia, a arte popular das carrancas, a pintura e a escultura. Outros tratam de manifestações culturais direta ou indiretamente ligadas ao Rio. O primeiro capítulo, intitulado “O rio como símbolo”, estabelece as bases para muito do que será dito nos demais, demonstrando a centralidade da simbologia do rio em diversas culturas do mundo e de outras regiões brasileiras. O segundo capítulo explora o Rio São Francisco como tema privilegiado da Música Popular Brasileira, abrangendo desde a chamada música de raiz, passando pelos temas de escola de samba e por Luiz Gonzaga até a música engajada de Sá e Guarabira, lembrando de forma crítica a profecia de Antonio Conselheiro: “O sertão vai virar mar/ dá no coração/ o medo que algum dia/ o mar também vire sertão”. No terceiro capítulo, o autor analisa especificamente a letra da música “O ciúme”, de Caetano Veloso, cujo tema, comum a outras composições da MPB, é a relação entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, separadas pelo São Francisco, mas unidas pela ponte ali construída na década de 1950. O quarto capítulo traça um interessante paralelo entre o imaginário do Rio São Francisco e do Rio Mississipi (nos Estados Unidos) conforme representado pela música em ambos os contextos. Conforme demonstra o autor, as imagens de ambos os rios são 3

“rei da juventude” etc) até uma apresentação dos principais castelos existentes em terras brasileiras. dessa forma. que no caso do artista Ledo-Ivo Gomes de Oliveira. o autor se volta para as imagens do Velho Chico na obra dos poetas brasileiros. o retrato dos dramas sociais desde a colonização até a transposição. traz uma breve abordagem sobre a arte do mamulengo. tendo como palco e pivô o grande rio do povo nordestino. especificando tipologias e resgatando o nome de artistas situados no Agreste Meridional. negros geralmente. O sexto capítulo. A cultura popular nordestina se mostra aí como uma cultura de resistência 4 . predomina a crítica social retratando os dramas dos ribeirinhos pobres. transformando-se em objetos artesanais destinados ao comércio. No sétimo capítulo. no caso americano do Mississipi. com estilos variados e diferentes posturas de engajamento em relação ao Rio. com um oportuno destaque para o “Castelo de João Capão”. ponto turístico da cidade de Garanhuns em Pernambuco. Sobressai. O capítulo nono. acossados pelas constantes cheias do rio e abandonados pelos representantes do poder. “Por uma mitologia das carrancas do Vale do São Francisco”. evitando que se arrisquem demasiadamente nas águas do Rio. Fechando o volume. creio eu. Já o capítulo décimo brinda o leitor com um alentado estudo da simbologia do rei. O estudo inclui desde o pitoresco uso do termo “rei” para praticamente qualquer atividade desenvolvida pelas pessoas (“rei do samba” “rei do futebol”. substitui os traços populares por traços inspirados na simetria da arte clássica. o capítulo décimo primeiro apresenta o santuário popular de Frexeiras como uma curiosa representação do sincretismo religioso e cultural brasileiro. Já no quinto capítulo.construídas de maneira bastante diferente. não cristã. mas incluídas na obra. o autor apresenta a lenda do Nego d´água como parte do imaginário do povo ribeirinho. por fazer parte de uma cultura comum. tema do capítulo oitavo. na poesia brasileira. do castelo e do palácio na cultura brasileira. criador de uma colossal estátua do personagem. operando uma espécie de recriação eventualmente sujeita a polêmica. pintores estrangeiros e nacionais têm oferecido suas visões do Velho Chico. como um complemento bastante interessante dessa mostra da cultura nordestina que é o livro de Jayro Luna. A partir do século XVII. O autor ressalta as peculiaridades das carrancas como objeto artístico para o qual convergem elementos da herança indígena e negra. bem como as influências próprias do colonizador europeu e cristão. Se. Os últimos três capítulos abrangem temáticas não ligadas diretamente ao Velho Chico. no caso do São Francisco. cujo valor monetário se define pelo talento e renome do mestre escultor. intitulado “Algumas considerações acerca de algumas representações pictóricas do São Francisco”. constituindo um rico painel de representação pela pintura. capaz de reunir num mesmo espaço santas. predominam as imagens poéticas inspiradas numa cultura medieval transportada para o sertão nordestino. começando por Castro Alves e sua obra A cachoeira de Paulo Afonso e culminando com João Cabral de Melo Neto e o “sertão sem rio”. o Rio também tem sido representado na arte pictórica. deusas greco-romanas e super-heróis de origem estrangeira. mostra como as carrancas sofreram um desvio em sua função original de proteger as embarcações “contra perigos concretos e imaginários”. cuja função parecer ser sobretudo intimidar as crianças. Como não podia deixar de ser. Uma preocupação central do autor é traçar um paralelo entre o imaginário popular e a representação artística do Nego dá água.

evidenciando a capacidade do povo de moldar e cultivar seus próprios santos e santuários. além de oferecer a todo o povo brasileiro uma nova e abrangente visão acerca do Rio São Francisco. com especial destaque para os elementos culturais construídos em torno do Rio São Francisco.inclusive contra a dominação religiosa. notadamente seu campus de Garanhuns. alunos e demais pessoas interessadas na arte popular e na cultura nordestina de modo geral. Com certeza. por trazer essa obra ao público brasileiro. 5 . a leitura de Imagens do Velho Chico na cultura do Vale do São Francisco proporcionará ao leitor uma rica e profunda imersão na herança cultural do Nordeste. Em suma. Será uma experiência significativa para quem já conhece e ama essa cultura. sem dúvida será uma descoberta apaixonante. o livro será de grande utilidade para pesquisadores. Está de parabéns a Universidade de Pernambuco. Para quem não a conhece.

contígua do sertão. isto é.Introdução Este livro é resultado de um projeto de pesquisa realizado na UPE/FACETEG durante o período 2007-2009. tendo em vista a proximidade da implantação do projeto de transposição do Rio São Francisco. com apoio do CNPq. na região do baixo São Francisco. a construção do imaginário acerca do arquétipo que o Rio São Francisco preenche na região do Polígono das Secas. que o projeto incluiu uma parte de estudos acerca do Agreste Meridional. pareceu-nos pertinente fazer estudos comparativos e de influências entre as duas regiões. O projeto visava pesquisar as imagens na cultura do Vale do Rio São Francisco. tendo como subtema as modificações que o projeto de transposição do rio São Francisco potencialmente poderá causar nessa mesma cultura. abordando a produção literária (prosa e poesia) bem como as manifestações de literatura popular (cordel. mitos e lendas. buscamos observar as primeiras e possíveis alterações nesse significado em função de uma nova dimensão regional do vale do Rio São Francisco. tendo em vista que essa micro-região está próxima da bacia do São Francisco. Pernambuco e Rio Grande do Norte. todos esses aspectos de localização geográfica. distante fisicamente 223 km do rio São Francisco (município de Paulo Afonso). que receberá pelo projeto de transposição uma adutora para regularização do fornecimento de água à região. pois. possivelmente interferindo na paisagem sertaneja semiárida do Ceará. Paraíba. Acresce ainda. Embora Garanhuns esteja situada no Agreste. arte popular) procurando nas diversas manifestações levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região. iconográfico e artístico da cultura da região do Vale do São Francisco. a dimensão cultural e social que envolve a bacia do Rio São Francisco tem aspectos de influência não apenas climática e de geografia física sobre a região. A obra de transposição do leito do Rio São Francisco implica em profundas alterações nessa situação em todo o interior do 6 . a do Vale do São Francisco e a do Agreste Meridional. tendo em vista. próxima também do litoral (Zona da Mata). Ainda. mas também no âmbito cultural. contos. com destaque na micro-região para a cidade de Garanhuns. Completou-se o projeto com a formação de um acervo bibliográfico.

Assim.. analisando tópicos referente às artes plásticas.... Nossa pesquisa justificou-se na medida mesma em que tem por princípio um estudo das imagens do Rio São Francisco na representação do imaginário não apenas nas manifestações próprias das cidades do vale................. E. a previsão de que esse imaginário tende a modificações estruturais significativas de acordo com os resultados da transposição do leito do rio.. fazendo com que a distinção típica entre as micro-regiões do estado possam mesmo ser revistas..............estado. . mas também àquelas que a esse imaginário se dirigem. espero que o leitor desse livro possa tomar contato com os resultados de nossa pesquisa...... à tradição regional do vale de um ângulo que ainda não encontramos em outras publicações.. mas sim. Prof............. nosso trabalho já aponta para uma atitude de ponta na abrangência que a UPE/Faceteg se coloca nas questões não apenas de sua microrregião. tendo ainda por horizonte....... Neste livro acreditamos que abordamos sob um novo aspecto a questão da cultura do Vale do São Francisco............ numa interrelação dessa microrregião com fatores externos que possam alterar e modificar de modo decisivo seu caráter microrregional... Jayro Luna 7 . à música popular brasileira.....

ou a travessia de uma margem à outra. o retorno à Nascente 8 . o acesso ao Nirvana. a imagem da “travessia” e por conseguinte. o remontar do curso das águas. pode-se considerar: a descida da corrente em direção ao oceano. à navegação é à pesca. No Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant. Acerca da primeira imagem. o Tamisa. o Ganges. o Mississipi. na tradição hindu. hoje praticamente coberto pela cidade. Jesus foi batizado por João Batista no Jordão. à defesa de território.O Rio Como Símbolo O rio tem marcado a presença como um dos lugares mais importantes da história do homem. No caso do Brasil. o remontar das águas significa. e que. banhar-se nas águas do Ganges. esta se liga à simbologia da ponte. pois deve-se então conceber o rio como identificado ao ‘Eixo do Mundo’: trata-se do ‘rio celeste’ que desce para a terra. Coomaraswamy. 300-301) Assim.Schuon). e não pensemos apenas nos grandes rios. o Tejo. o Níger. René Guénon observa essa aspecto. O curso das águas é a corrente da vida e da morte. Na Cabala também se fala das águas que ‘correm para o alto’. expressão do retorno à fonte celeste representado então. O rio como símbolo tem forte presença no desenvolvimento cultural dos mais variados povos. Não menos importantes para o desenvolvimento de nações foram o Rio Amarelo. o símbolo do rio é apresentando de modo a destacar o simbolismo das margens e da água corrente: “O simbolismo do rio e do fluir de suas águas é. pelos quais as influências do ‘mundo em cima’ são transmitidas ‘ao mundo de baixo’. evidentemente. o que ele chama de “remontar corrente” e a segunda. A história do Egito antigo é a história da civilização do rio Nilo. o retorno à indiferenciação. e que têm também relação direta com a Shekinah [Presença divina]. o da fertilidade. o rio Nilo do Egito são exemplos marcantes dessa importância do rio na história da civilização. o da possibilidade universal e o da fluidez das formas (F. No Cristianismo. o Tibre. basta lembrarmos que o rio Ipiranga. ‘remontar corrente’. Em relação ao rio. é designado por nomes tais como Gangâ [Ganges] e Saraswatí. que é em suma o equivalente da Shakti. é talvez o mais notável sob certos aspectos. é um dos símbolos de nossa independência. alguns rios são sagrados para determinados povos. modesto afluente do Tietê. Os rios Tigre e Eufrates na civilização babilônica. da morte e da renovação. a primeira. destacando duas imagens ligadas ao rio. por exemplo. A descida para o oceano é o ajuntamento das águas. Guénon comenta: “O primeiro caso. comentando o trabalho de Ananda K. ao mesmo tempo. mas pela inversão de direção da própria corrente. desde o princípio da civilização o rio se destaca. que são exatamente os nomes de certos aspectos da Shakti. é um ritual de purificação na Índia. Na Cabala hebraica esse ‘rio da vida’ encontra sua correspondência nos ‘canais’ da árvore sefirótica. outros de extensão consideravelmente menor tornaramse simbólicos por suas posições geográficas estratégicas fundamentais para a vida de vários povos: o Reno. p.” (GUÉNON: 1989. No sentido de que seja um lugar propício à agricultura. A simbologia esotérica e mística desde tempos antigos tem trabalhado a imagem do rio. não mais para pelo remontar da corrente. o Jordão são alguns exemplos.

a principal via de comunicação entre as cidades. a análise da própria evolução cultural da humanidade. porém. trazendo mais do que luz. ao Princípio. 780-781) Por esses aspectos a análise da cultura que se desenvolve ao longo do percurso de um rio é também. em cujas margens surgiram algumas das principais cidades da região do polígono das secas. ensina o Patriarca zen Hueineng. o rio como imagem do caminho da colonização do sertão. Caminhos para a descoberta dos territórios inexplorados. em boa medida. Os limites europeus do Império romano incluíam as margens do Reno e do Danúbio. para além do qual ficavam os bárbaros. O Egito dos faraós e o Nilo. surgiram. o papel dos rios no desenvolvimento de nosso país foi de suma importância. o rio da energia elétrica. O Rio Amazonas na região Norte. são apenas alguns dos exemplos que envolvem essa interligação entre o rio e a cultura. até as de Francisco Orellana e Pedro Teixeira. cria um mundo mítico e mágico na floresta do Rio Amazonas. Antes. Mar Dulce. desde as primeiras entradas e bandeiras que definiam grande parte de seu trajeto em função dos rios que penetravam a floresta ainda inexplorada. Rio que determinava a existência de duas possibilidades de sertão. que por sua vez. ainda hoje. e é o estado que existe para além do ser e do não-ser. A Literatura brasileira. eletrificou praticamente toda a região do sertão. que julgou tratar-se dum mar. a possibilidade do progresso para as cidades com a instalação de indústrias de beneficiamento da produção agro-pecuária. uma com água e outra sem o precioso líquido. esse estado é simbolizado não só pela outra margem. como também pela água corrente sem espuma. Mário de Andrade escreve suas “Enfibraturas do Ipiranga” em Paulicéia Desvairada (1922). Rio do processo de colonização do sertão. e a travessia é a de um obstáculo que separa dois domínios. Castro Alves narra em verso o drama Cachoeira de Paulo Afonso. antes deles.” (CHEVALIER & GHEERBRANT. No caso específico do Brasil. Porém. caminhos para a conquista do paraíso selvático. os rios foram muito mais encarados como caminhos do que como fronteiras. que a partir da Chesf e da usina de Paulo Afonso. de Lúcio Cardoso. Aliás. como entrada dos bandeirantes. Riacho Doce (1939). de eldorados. temos esse processo de busca de compreensão da enorme extensão de terra desconhecida em que se suspeitava a existência de tesouros perdidos.divina. de Raul Pompéia. é a paramita. A simbologia indígena que destaca o papel do rio no processo mitológico de criação do mundo. Assim. país de grandes bacias fluviais. a China e o Rio Amarelo. lembremos de Uma Tragédia no Amazonas (1880). a Babilônia e o Tigre e Eufrates. com exemplo do rio Amazonas. de José Lins do Rego ou ainda. no caso brasileiro. Maleita (1935). em quase sua totalidade em razão da proximidade navegável com o grande rio. Essas são só algumas poucas lembranças imediatas de obras poéticas. A margem oposta. o mundo dos sentidos e o estado de não-vinculação. p. A cultura Hindu e o Ganges. Raul Bopp em Cobra Norato. notadamente na região de Petrolina e Juazeiro. Assim. No romance. dois estados: o mundo fenomenal e o estado incondicionado. Desde a expedição de Vicente Pinzón à foz do Amazonas. O Rio São Francisco marcou boa parte da cultura sertaneja do Nordeste Brasileiro. como signo representativo de um interior que lança grandes 9 . a poesia e a música não têm deixado de tratar do tema do rio. no caso do Brasil. só mais recentemente as possibilidades de irrigação que o rio poderia oferecer foram exploradas.

A canoa. que necessita dum suporte para que o homem possa seguir por seu curso. em que a água sempre está por um fio. Inda é tempo. Foge dela. favorece a alegoria de ver o rio como símbolo da vida. é o barco. O rio como estrada. Ó pescador! No Brasil. a totalidade. Ó pescador! Não se enrede a rede nela. o rio como metáfora da estrada da vida tem como suporte material para sua alegórica navegação o corpo humano. Ó pescador! Deita o lanço com cautela. na acepção cristã. lembremos dum poema de João Cabral de Melo Neto: Os rios Os rios que eu encontro vão seguindo comigo. cujo passado é memória. Muito sucesso fez o poema “A barca bela” de Almeida Garrett: BARCA BELA Pescador da barca bela. foge dela.. Que a sereia canta bela. o barco são os meios utilizados para tal. Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela. da vida que corre do presente para o futuro. Que perdido é remo e vela Só de vê-la. Que é tão bela. como caminho é uma estrada fluídica. Este como morada da alma. 10 .quantidades de água ao mar. Ó pescador! Pescador da barca bela. Mas cautela. a canoa que levará ao encontro com o mar.. Num sentido alegórico. Onde vais pescar com ela. Rios são de água pouca. mas da vida por viver.

os rios brasileiros têm sido muito mais caminho que interrupções ou obstáculos do caminho. onde vais pescar esta noitada: Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? Está tão perto que eu não te vejo pescador. Na primeira estrofe de “O Pescador”. tanta culpa? Se o meu pai. o rio — pondo perpétuo. como signo de passagem no sentido alegórico. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios. ponto de admiração e de contemplação do rio. outros com nome de bicho. em que a alegorização do rio como símbolo atinge um de seus mais altos graus na literatura brasileira: “Sou homem de tristes palavras. Passa a segunda e a terceira Tem um palácio defronte. sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio. contemplar como observador o curso contínuo das águas que vêm de distantes paragens e seguem em direção ao mar ou a rio maior. o ponto em que o homem pode.” 11 . lemos a descrição do caminho que se deve fazer para se chegar à casa de Marília : Entra nesta grande terra. Os rios têm afigurado no imaginário brasileiro como caminhos. De que era que eu tinha tanta. numa das estrofes. para ser sim. Rios todos com nome e que abraço como a amigos. é no seu ápice.Cortados no verão que faz secar todos os rios. como signo da união das duas margens.. da Marília de Dirceu. deixa de ser um aspecto corroborador do rio como obstáculo. cita como um dos locais propícios à pesca o estar sobre a ponte: Pescador Pescador. A ponte. portanto. de Tomás Antonio Gonzaga. Vinícius de Moraes. Uns com nome de gente. Conhecido é o conto de Guimarães Rosa. Seguindo o sentido dessa visão do rio como caminho. apenas Ouço a água ponteando no peito da tua canoa. Passa uma formosa ponte. uns com nome de santo.. muitos só com apelido. Na lira XXXVII. “A Terceira Margem do Rio”. A ponte.

Guimarães. Vinícius de. Rio de Janeiro. MORAES. 2004. Alain. a evolução. Almeida. João Cabral de. Pensamento. Mas em Haroldo de Campos. Poesia Completa e Prosa. 1984. São Paulo. Figueirinhas. Lisboa. Própria. Dicionário de Símbolos. Primeiras Histórias. Sergipe 12 . Jean & GHEERBRANT. Rio de Janeiro. e como tal. Referências Bibliográficas CAMPOS. Tomás Antônio. CHEVALIER. 2005. Marília de Dirceu. 2008. 1994. Martin Claret. Heráclito de Éfeso apresenta o argumento de que não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. Seja como for. 1989. entender na sua fluidez a modificação. a passagem do tempo e da vida acaba por ser uma das mais ricas imagens poéticas. nas suas Galáxias. René. apresenta-nos a idéia dum contínuo aventuroso da linguagem poética como a correnteza do rio. Poesia e Teatro. a idéia é de uma sincronização de acontecimentos. São Paulo. São Paulo. GONZAGA. Ex Libris. Nova Aguillar. MELO NETO. o rio é um dos símbolos mais fortes da nossa cultura. Nova Aguillar. ROSA.Haroldo de Campos. Obra Completa. Nacional. Os Símbolos da Ciência Sagrada. Tal concepção parte da premissa de que o tempo a tudo modifica e que a correnteza do rio é a alegoria do tempo. GARRETT. Galáxias. de momentos diversos desse rio. GUÉNON. 1944. Haroldo de. 2005. José Olympio. São Paulo. Rio de Janeiro.

lemos: “São Francisco é fauna. logo colocando o nome “Nilo” como qualificativo do São Francisco. faz referência às carrancas. as mágoas. representar a tristeza. mas “com” São Francisco. a cidade que está próxima à nascente do rio. ou as lágrimas numa aplicação de hipérbole. As duas primeiras se referem à riqueza natural que envolve a bacia do São Francisco. em Minas Gerais. ambos da Banda Moxotó. é flora. pode ainda. Depois. mas a terceira qualidade. criada em 1981. A seguir.O Rio São Francisco Como Tema da MPB Neste breve artigo comentaremos acerca de algumas letras de música popular brasileira que colocaram como tema o Rio São Francisco. assim não mais se navega “no”. O santo. tentaremos perceber qual é imagem do Velho Chico que está presente nessas canções. Pirapora. tal comparação se faz jus mediante o papel integrador que ambos os rios desempenharam. em ritmo nordestino de baião. por meio desses comentários. O rio pode ser um símbolo conquanto represente a vida. O tema do rio na música é antigo e tem suas metáforas características. Na segunda estrofe. é assim o lugar de alegria para o eu lírico. tem como um de seus sucessos a música Nilo Brasileiro. é em referência ao nome dado ao rio. rio São Francisco em Pirapora Soltarei o meu sorriso” Agora. sinta voltar A criança que está em você” A estrofe cita o local de nascimento do rio. O infinito aqui redimensiona a figura do rio como metáfora da vida. na serra da Canastra e também do longo percurso (“um grande aventureiro). flora São Francisco é santo. a de santo. ou se. por sua vez. a canção passa a adotar o nome do rio acrescido de outras qualidades: é fauna. a passagem do tempo ou a inevitabilidade do fluir dos acontecimentos. são várias as imagens. um dístico que se desenvolve na canção como um refrão: “Navegarei no infinito / Navegarei com São Francisco”. Guardadas as devidas proporções. deixando de lado o qualificativo de “Nilo”. Na primeira estrofe da canção lemos: “Nas entranhas da ‘Canastra’ Nasce um grande aventureiro ’Nilo’. como protetor dos animais e da Natureza se mostra aqui como o santo católico mais adequado a emprestar o nome ao rio. nome milenar Filho do solo brasileiro Margeando o seu leito As carrancas vão assustar Nas lembranças. uma vez que a Natureza rica em fauna e flora se apresenta como obra santificada. é santo. apresenta já no título a comparação entre o rio São Francisco e o Nilo. como busca da eternidade. obra divina. estas com seu aspecto assustador vão trazer nos adultos a lembrança dos medos que as crianças têm de caras feias. A música. Lailton Araújo e Wanderley Araújo. 13 .

O dístico final da composição: “No toque da minha cantiga / Irrigarão a caatinga”. a escola de samba Mocidade Alegre desfilou sob o samba-enredo “Das Lágrimas de Iaty surge o Rio. O a que se desdobra e que ecoa pela caatinga como eco da canção do rio. do Imaginário Indígena a Saga de Opara. de ser navegável.Na estrofe seguinte. Assim instaura-se o conflito. O eu lírico aqui se apresenta relembrando as imagens que estavam na consciência do eu enquanto criança. Bahia De Januária à Curuçá” Assim. ecoará pela caatinga. e também uma visão “mágica” aos olhos de uma criança. presenciando o processo de desenvolvimento da região com a chegada das hidrelétricas: “As bandeiras da fortuna Velhos sonhos coloridos Esmeraldas. No carnaval paulista de 2006. A penúltima estrofe se compõe de nomes de cidades em Pernambuco. entre os indígenas na luta de preservação de sua nação e cultua e a do europeu em busca da imaginada cidade de ouro no meio da mata: “Um grande rio as formou Pelas lágrimas de Iaty Na consagração do sol e da lua Homem branco veio invadir 14 . trazendo energia para toda a região. Na primeira estrofe a canção faz referências aos elementos da mitologia indígena (Jaci. a cantiga em homenagem ao rio que corta o sertão semi-árido. terminando com o verso que designa a localização regional dessas cidades: “São Romão. e que tem a capacidade de sustentar hidrelétricas.Para os Olhos do Mundo um Símbolo de Integração Nacional: Rio São Francisco". a criança que está ainda vida nos compositores e que se expressa por meio do verso e da canção. O título num tom quase barroco já se propõe a utilizar os aspectos lendários e do imaginário da colonização da região do São Francisco. hidrelétricas O menino viu passar Na pureza da magia Nas cidades que nasciam Em Minas Gerais. bem à lenda do colonizador acerca do Eldorado. Todo o processo aos olhos do menino é um processo mágico. de fornecer água para irrigação é nesse aspecto um “Nilo”. Alagoas e Bahia que ficam às margens do rio. Iaty). Brejo Grande Águas tão nordestinas” Porém. as cores das bandeiras nas festas populares das cidades ribeirinhas se tornam imagens metonímicas da riqueza que vem com as hidrelétricas. os compositores falam de lembranças da infância em volta do rio. o que são “Águas tão nordestinas”? O rio que corre uma região semiárida. Pão de Açúcar Petrolândia e Petrolina Ibiraba.

E assim. já extinta. o sincretismo religioso e a mistura de elementos europeus.. Rica cultura o tempo ultrapassou Festa do Divino. as romarias. estórias contar Miscigenação.. De Iara” Agora dois personagens estão aí colocados. 15 . as carrancas. “Vapor encantado. De fato.. pede proteção Resgata a "Tribo Brasil" O futuro está em nossas mãos” Ainda nesta estrofe. não mais em sentido explícito de conflito. A tribo indígena. fornece com seu sacrifício os elementos de uma sublimação do espaço e do tempo conquistados. Na estrofe seguinte um caleidoscópio em que imagens se misturam para contar do processo de miscigenação e de colonização da região do vale do São Francisco. africanos e indígenas está presente na maioria das festividades folclóricas da região. a festa do Divino...E despertou das profundezas maus espíritos Jacy a grande noite provocou Ao proteger o paraíso do invasor Visando o Eldorado a procura de riquezas A cobiça prevaleceu Batalhas e guerras sangrentas No coração da mata o índio defendeu o que era seu” Na segunda estrofe.. conquistando essa identidade que ora se apresenta multifacetada e em mosaico. O Toré Se o pescador o Velho Chico encara Se encanta nas águas. mistérios no ar Lá vai sertanejo. Processo semelhante ao que o Romantismo do século XIX adotou para compor a história poética do Brasil em poemas como A Confederação dos Tamoios. pode-se planejar um futuro mais promissor. de Gonçalves de Magalhães ou nos poemas indígenas de Gonçalves Dias. O ritual profano do Toré é apresentado como ritual de fé. mito indígena das águas: “Na dança do Pajé Um ritual de fé. Romaria abençoou Vai a carranca todo mal espantar Vem repentista canta esse santuário Um rio de integração nacional Terra Mãe . de modo a criar atmosfera da comunhão entre a religiosidade do Pajé e a do pescador cristão. mas em conjunção para compor a cena: o pajé e o pescador. O sertanejo. a referência ao ritual do Toré e a citação à Iara. o epíteto de “Rio da Integração Nacional” se apresenta como resultado histórico do processo de colonização. Tudo é resumido na idéia de uma “Tribo Brasil”. A estrofe sugere que é preciso resgatar o passado – notadamente os valores do passado pré-colonial – para se unir à “Terra Mãe” como forma de afirmação da identidade da cultura brasileira.

incorporando ao discurso poético a referência à forte religiosidade do povo nordestino. notadamente indígena. A seguir lemos os versos: “Do outro lado do rio tem uma cidade / que em minha mocidade eu visitava todo dia. hoje substituído. se lemos que “ela” não é objeto direto de “natureza”. composição gravada pelo Trio Nordestino primeiramente. Outra música que trata do tema é “Ciúme” de Caetano Veloso (esta canção analisamos em outro artigo). apresentando explicitamente suas memórias de criança. A seguir. teve como um de seus primeiros sucessos “Petrolina Juazeiro”. Se entendemos que o pronome “ela” se refere à beleza. A música tem como tema o cenário da ponte que liga as duas cidades. mas depois por Elba Ramalho. Navegar” Numa imagem poética de alegorização o rio é transposto para a avenida onde se apresenta a escola de samba. a composição apresenta os elementos centrais da discussão acerca da preservação cultural. pelo processo de urbanização e de desmatamento. O terceiro verso diz: “Jesus abençoou com sua mão divina”. chorou tanto que suas lágrimas formaram a cachoeira de casca Dantas. mas sim sujeito do segundo verso (“Ela – a beleza – conservou a natureza”). então se diz que a construção humana se harmonizou com a Natureza. o compositor escreve: “Hoje eu me lembro que nos tempos de criança / Esquisito era a carranca e o apito do trem”. então se diz que a Natureza incorporou a construção da ponte. A seguir se repete duas vezes os versos: “Pra não morrer de saudade. Iaty era o nome de linda índia que chorou a morte do amado em uma guerra. Segundo lenda indígena. por ser tão bela. como se o desfile da escola fosse a metáfora da correnteza do rio. sendo esta uma obra abençoada. a carranca incutia medo na 16 . com ambigüidades características. as lágrimas de Iaty é que vão compor as águas que correm no Rio São Francisco.. Por outro lado. Aqui a ponte se apresenta como o elo de ligação entre os dois lugares que fizeram parte das lembranças da infância do compositor.” O compositor então se coloca como morador de Petrolina e que costumava visitar a cidade do outro lado do rio.. A elipse aí colocada entre esse dístico e os versos antecedentes é que o compositor quer voltar à Petrolina para ver a beleza da ponte. a referência ao nome indígena do rio (“Opará”). diante do ritmo avassalador do processo de colonização. Jorge de Altinho começa a canção dizendo: “Na margem do São Francisco. Em que se pese o tom ufanista da letra do samba-enredo. é o resultado direto no poema dessa busca de identidade que se supõe esteja no imaginário do índio transposto para a cultura do colonizador: “Corre nas veias do sertão "Opará" a salvação Vamos preservar Vem a Morada do Samba.Na estrofe final. nasceu a beleza / E a natureza ela conservou”. Jorge de Altinho. Geraldo Azevedo e Alceu Valença. fazendo da ponte parte da própria Natureza – o que seria uma interessante construção poética. Numa linguagem bem popular. e as águas seguiram os passos dos guerreiros desaparecidos. Retomando a idéia do título do samba-enredo. formando o curso do rio São Francisco. / vou voltar pra Petrolina”. compositor popular. Como na composição de Laílton e Wanderley Araújo. o que se entende que a construção da ponte conseguiu tal relação com a Natureza devido à bênção de Jesus.

ao estranho. grande e barulhento. também pode significar amar. Já o apito do trem era para a criança um outro motivo ligado ao adjetivo esquisito. o de amar exageradamente. criando um aspecto metalingüístico com a música. uma vez que gostar. região do Agreste Pernambucano. A barcarola tem como aspecto definidor o de tratar do tema da água. se refere ao exótico. vela a bailar Barcarola de São Francisco Me leve para o mar Era um domingo de lua Quando deixei Jatobá Era quem sabe a esperança Indo à outro lugar Barcarola de São Francisco 17 . em grandiosidade para que o barco à vapor passasse. pois o trem que vinha apitando. o compositor vai criando a metáfora rítmica do barco a navegar sob águas calmas: É a luz do sol que encandeia Sereia de além mar Clara como o clarão do dia Mareja o meu olhar Olho d'água. causava na criança esse estranhamento. Se primeiro “esquisito” se refere à carranca como feio. A ponte enfim faz esse elo de união entre os dois lugares que compõem as lembranças do compositor (em que se pese o fato de que biograficamente Jorge de Altinho não viveu em Petrolina ou Juazeiro. Opondo-se ao estranhamento do apito do trem e á feiúra da carranca. Na sua simplicidade de compositor popular. como se tal ação significasse a harmonia entre o barco e a ponte. notadamente de um rio ou corrente de água e ter um tom sentimental romântico. mas aqui é o compositor que se transfigura liricamente na imaginação duma criança que tenha vivido entre as duas cidades). mas adorar tem além do sentido de prestar culto. sugere que a ponte criou essa união entre as duas cidades e que o menino – recuperado pelas memórias do compositor – se eterniza na visão que o compositor tem ao rever a ponte. como que simbolizando a volta depois da ida. num ritmo híbrido com versos octassílabos e hexassílabos. Jorge de Altinho cria uma atmosfera de ingenuidade e de encantamento diante da ponte que liga as duas cidades. bucólico ou infantil. Jorge de Altinho escreve: “Mas achava lindo quando a ponte levantava / E o vapor passava num gostoso vai e vem”. mas em Altinho. a de Geraldo Azevedo. Nos dois versos seguintes. demonstrando como a engenhosidade humana pode se harmonizar com a beleza da Natureza. A expressão “gostoso vai e vem”. gravou também a música de Jorge de Altinho. município próximo de Caruaru. Os verbos gostar e adorar tem aqui uma função sinonímica. mas pode também sugerir uma graduação. O título da canção é “Petrolina Juazeiro” e no verso final temos a ordem Juazeiro – Petrolina. que como já dissemos. compôs sob o tema a música Barcarola do São Francisco. no caso do apito do trem. O dístico final: “Todas as duas eu acho uma coisa linda / Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina”.criança pelo seu aspecto assustador. No caso. beira de rio Vento. o menino via beleza na engenhosidade da ponte pênsil se levantar. confere um sentido rítmico ao movimento da ponte e do trem. Geraldo Azevedo.

a sua oposição como espaço de águas com o sertão seco. “Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Se eu fosse um peixe Ao contrário do rio Nadava contra as águas E nesse desafio Saía lá do mar pro Riacho do Navio Saía lá do mar pro 18 . Por sua vez. o brilho do sol ilumina o corpo da sereia de além mar.Velejo agora no mar Sem leme. menestrel reciclado do sertão e do mundo moderno. Porém. entre a esperança e o alcançado: “Era quem sabe a esperança / Indo a outro lugar”. Os dois lugares. No início da canção. mítico e bucólico do cenário das águas do São Francisco. como musa perfeita distante da realidade. o primeiro como início. ponto de partida. solitário no mar. nos apresenta um outro cenário acerca do rio São Francisco. como momento inicial dessa busca esperançosa se contrapõe ao presente. sem tesouro de prata ou de luar. caminho. na busca da sereia. em sonho um beija-flor Rasgando tardes vou buscar Em outro céu Noite longe que ficou em mim Noite longe que ficou em mim Quero lembrar Era um domingo. O domingo de luar de prata. O conflito entre o querer e a realidade. No presente o eu lírico agora tem a esperança de voltar a ver o brilho do sol no horizonte sobre o corpo da sereia. ponte de chegada. como passado. colocado na “Noite longe que ficou em mim”... a canção faz do rio São Francisco o espaço mágico dessa busca. Luiz Gonzaga. o segundo. esta se mostra inatingível. a junção da luz do sol com a silhueta da sereia encanta o eu lírico que se lança a navegar em busca de alcançar a sereia. em “Serra do Navio”. como destino. apresenta sua barcarola recuperando o sentido lírico. rio e mar. mapa ou tesouro De prata ou luar Eu. Metáfora da busca da felicidade. Geraldo Azevedo. realização.

Luiz Gonzaga. o caminho inverso. daí sua necessidade de voltar e de esquecer o lugar em que fora forçado a ir: “Sem rádio e sem notícia das terras civilizada”. bem ritmado no baião. As águas. aqui. como o flagelado da seca deixar sua terra. que por sua vez é afluente do São Francisco. ao passo que a cidade. como forma de recuperar sua identidade. após o refrão. o do Navio e o Pajeú passam meses sem água. A música tem como refrão uma descrição do caminho das águas do Riacho do Navio até a foz do São Francisco. Rios de caráter temporário. Riacho do Navio. Nesse outro lugar o sertanejo se sente deslocado. reviver as caçadas. o riacho do Navio é um dos principais afluentes do rio Pajeú. Porém. Essa saudade do sertanejo se opõe à condição da vida na cidade grande. essa agitação típica da cidade. sem reconhecimento. Luiz Gonzaga propõe a volta. a vida de vaqueiro enfim. Tando lá não sinto frio”. Metamorfoseado em peixe. que só sobrevive nelas. da qual pretende fugir. tanto é natural ás águas irem para o mar. se mostrando insatisfeito com a situação de degredo forçado. De fato. O lugar agradável. que vive nas águas. O eu lírico busca a si mesmo esquecendo o mundo urbano – Fugere Urbem reinventado nas circunstâncias do sertão.Riacho do Navio Pra ver o meu brejinho Fazer umas caçada Ver as "pegás" de boi Andar nas vaquejada Dormir ao som do chocalho E acordar com a passarada Sem rádio e nem notícia Das terra civilizada Sem rádio e nem notícia Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Riacho do Navio. Voltar para o sertão para ver sua terra natal. 19 . as vaquejadas. A terra civilizada é o espaço da comunicação – o rádio aqui representa essa comunicação. o sertão. é inóspito pela condição social em que o sertanejo se encontra. de fato é inóspito pelas condições climáticas. metáfora da condição do imigrante do polígono das secas que procura as capitais do litoral ou do sudeste como forma de escapar da condição de flagelado da seca. Porém a relação entre Lócus amenus e lócus horrendus aqui é ambígua. Assim. Bacia hidrográfica da região do semi-árido. arrisca-se ao fazer o caminho inverso das águas. apresenta a estrofe em que demonstra o desejo do sertanejo longe de sua terra de voltar ao seu torrão: “Se eu fosse um peixe / ao contrário do rio / nadava contra as águas”.

daí sua armadura de couro e corda e sua dama ser uma certa “dama dos Rasos de Seca”.(Carlos Pita) 2. é um sertão medieval. Carlos Pita vai compondo um panorama caleidoscópico de personagens característicos como a princesa. A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca . As faixas que compõem o disco Águas do São Francisco (1979) de Carlos Pita são: 1.(Carlos Pita) 9. Carlos Pita em 1979 lançou um disco constituído de músicas que formam uma espécie de narrativa tendo como tema uma transposição do universo das novelas de cavalaria para o sertão. No 20 . o cavaleiro. em que a letra vai se formando com referências à fauna.O caminho do rio Pajeú e do riacho do Navio é a metáfora desse desejo do sertanejo.Carlos Pita) 11. que entre outros. ao inverso do São Francisco. Dércio Marques e Fábio Paes. Xangai.Kapenga) 8. a rainha.Gereba) 10. O arco-íris trovejou . com destaque para o cenário do Rio São Francisco. A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear . O romance do rei do Ensolarar com a bela das Rendas de Lua . A história da princesa das Candeias de amor com o cego do Alumiar . De onde vens que não se chega? De que terra traz partida Coração sujo de estradas?" (“A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar”) A terceira canção (“A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca”) busca metaforizar o vaqueiro do sertão com a figura do cavaleiro medieval. Princesa sertaneja .Carlos Pita) 7. se afastam do mar.(Carlos Pita) Tendo como pano de fundo as raízes medievais do canto repentista e da literatura de cordel. Por essa época Carlos Pita estava envolvido com o grupo de artistas liderados por Elomar. ou seja. A primeira canção (“O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor”) é no ritmo do repente.(Carlos Pita) 4.(Patinhas . Compõese versos acerca da arte do amor. As canções 2.Carlos Pita) 12.A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar . flora.(Carlos Pita) 3. enfim. que ao pegar as águas desses rios dá à elas o sentido esperado de seguir em direção ao mar. O príncipe das Verdejanças e o amor do Verdejar . a donzela. 3 e 4 formam uma trilogia centrada na imagem das novelas de cavalaria: "Cavaleiro enluarado.(Fernando Lona . A rainha do Trançar e o violeiro dos Esqueces . de fato ambos os rios correm no sentido do Nordeste para o Sudoeste.(Fernando Lona . geografia e folclore da região.(Carlos Pita) 5. A princesa do Agreste e o cantador do elo ao mar . estavam presentes. o príncipe.(Fernando Lona . costumes.(Patinhas . A história dos quatro reinos desaparecidos e os guerreiros do Mal Viver . O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor . acerca das guerras de cavalaria.(Carlos Pita) 6. com violas na afinação característica. o rei.

cavaleiros e cantadores espalhados pelos confins do sertão. que de certa forma. Em outra composição. “Assobio do Vapor”. uma monarquia messiânica.. transposta para a pregação de beatos como Antônio Conselheiro e José Lourenço.) Você é o espelho da pura bondade”.” A seguir. com fortes elementos do sebastianismo português e que viam na jovem república a antropomorfização de elementos demoníacos e apocalípticos. A canção “A Princesa do Agreste e o Cantador do Elo ao Mar”. princesas. A letra da composição. Molhado à garoa. Pedro Sampaio canta a navegação no Rio São Francisco: 21 . te vendo passar. compositor natural de Xique-xique. O tema do sertão medieval é constante nas obras teatrais de Ariano Suassuna. Quando meu pai me dizia. E farei a luz do Amor Clarear teu coração. talvez desses imaginários que é natural da infância. Esse rio é um verdadeiro mar. tem também suas bases no sincretismo religioso que vai buscar essas figuras na religiosidade medieval vinda com o colonizador português. Conta as guerras que te atreves. tem como argumento as lembranças de criança numa infância em torno do rio: “Lembro das pescarias. em que reis de reinos imaginários dum sertão lendário se aventuram em guerras e conquistas de amores. tem a música “Rio São Francisco”. que se qualifica pela bondade e pela pureza: “Sei que és meu amigo. Fundada num imaginário que vê reis. presta. mas já se encontra latente na obra de Guimarães Rosa.” O Rio São Francisco é personificado por Pedro Sampaio num amigo. como outras que até aqui vimos. E eu sentado na proa. Fazendo a república jus a essa imagem pela forma violenta com que tratou essas manifestações sertanejas de beatos.. Pedro Sampaio. em que o cavaleiro sertanejo é um vaqueiro: “Cavaleiro que passas Que vais pro Sertão Qual o destino que levas? Que queres correndo o chão? Conta os caminhos que segues. já no título.mesmo tom vai a canção seguinte (“A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear”). na música de Elomar Figueira de Melo. na poesia épica de Marcus Accioly. tu podes provar (. uma homenagem ao cantador Elomar. defendiam a monarquia. as canções do disco seguem um tom de narrativas de aventuras palacianas. Bahia.

nem retratos na parede”) e o hábito sertanejo de dormir em redes (“Só balanço que embalança / a minha rede”). eu tomava café quente Muitos beijos e abraços. O tema parte da cena das enchentes do rio. o rio parece muito calmo. assim como o do compositor. O compositor. A dupla de música caipira Gino e Geno criaram a música “As Águas do São Francisco”. época em que aumentam as chuvas nas cabeceiras. Com velocidade de águas raramente superior a 7 quilômetros por hora. fui obrigado a voltar Pra casa do meu amor e passei a noite por lá Fiquei a noite inteirinha Ao lado da moreninha esperando as águas baixar Enquanto as águas baixava. nesse sentido. cujo nome tem. de tal maneira que o dormir à rede. que aumentasse a enchente: São Pedro eu estou gostando As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente Falado: " É meus amigos. servindo assim como álibi ou desculpa para que ele retorne aos braços de sua amada: As águas do São Francisco estava por cima da ponte Este é o grande motivo que eu não pude atravessar Mas isso eu achei foi bom. Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) sofreram com vários bairros alagados e segundo estimativas. mas apenas como força que impede o personagem de atravessar a ponte. O balanço da rede assim se harmoniza com o ritmo das águas do rio. Uma das maiores enchentes ocorreu em 1979 em que cidades como Barra (BA). e isto eu achei bom demais" 22 . a presentificação do rio da vida. tem como ajudante ou escudeiro. faz do rio o caminho que cruza pelo sertão e pela vida para mostrar suas composições. cerca de 450 mil pessoas sofreram com as enchentes neste ano. é parte desse rio alegórico que representa o caminho da vida. Pedro Sampaio. e o aspecto rústico da embarcação (“não tem camas. como menestrel. o parceiro Loiola. Destacando o porto fluvial de Pirapora (MG). aumentava o amor da gente E eu pedindo ao São Pedro. sonhar. E como um Dom Quixote ou um cavaleiro menestrel. ocorrem as enchentes. mas em outubro.“Quem ouviu o assobio do vapor Quem vai partir Que arrume as trouxas por favor Vai subir o rio afora Vai chegar em Pirapora Não tem camas nem retratos na parede (do vapor) Só o balanço que embalança A minha rede (de tricô) Vou levando minha viola E as cantigas com o parceiro Loiola” O assobio do vapor serve de motivação inicial para descrever a navegação pelo rio. origens medievais. Gino e Geno criam uma composição em que a enchente do São Francisco não é apresentada como destrutiva. O São Francisco é. as águas do São Francisco me impediram de atravessar a ponte e eu voltei pra casa do meu amor. ainda por cima.

Numa linguagem bem popular. a letra da canção fala desse espaço lírico em que o amor é o motivo principal. constituído de uma locução verbal. Os dois versos seguintes vão agora contextualizar a região da construção da represa (“O São Francisco lá pra cima da Bahia. beatos e poetas anteriores e posteriores a Antônio Conselheiro. O próprio nome de “O Velho Chico” reforça essa imagem. diz que tudo vai mudar”. vinda desde o processo de colonização do sertão. A seguir. se os compositores fazem da enchente do São Francisco motivo para um affair amoroso ao contrário de citar a destruição que a força das águas provoca. põe represa. porém. a imagem de um cenário pastoril. sendo a enchente o artifício que permite ao eu lírico a continuação de seu encontro amoroso. segundo a Chesf. A profecia que tem cunho apocalíptico e sebastianista pode ser encontrada no discurso de cantadores. com alguns “erros” de concordância. mas não nos parece esse o tópico principal. era de regularizar a vazão do rio compreendido o trecho entre aquela região e o delta. “Sobradinho” de Sá e Guarabira talvez seja das mais conhecidas músicas acerca da questão das represas do Vale do São Francisco. de um rio tranqüilo. pôr. coloca a ação num futuro improvável. O tema da música é acerca da construção da barragem de Sobradinho. O objetivo principal da represa. porém. não é outro o motivo que faz Carlos Pita criar composições de caráter romanesco medieval. Poderíamos falar em alienação. música que é quase um hino em questão ambiental. a fronteira com Pernambuco que é constituída pelo próprio rio São Francisco. O refrão da música em versos de redondilha menor e maior faz um jogo de palavras com a profecia do beato: “O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão” 23 . tal se deve ao imaginário que envolve a cultura do vale do São Francisco. A expressão “dia menos dia” coloca o acontecimento como um tempo indefinido. de modo que em Paulo Afonso e em Xingo a água pudesse chegar com uma vazão constante. De fato. suas origens são mais antigas. bucólico cercado pelo sertão quente e inóspito. Lembremos que a grande enchente de 1979 pode ser controlada no referido trecho. e os verbos finais mudam o ritmo dos pés (vai \ mu \ dar). de tal forma que o pedido e o agradecimento a São Pedro: “São Pedro eu estou gostando / As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente”. O rio São Francisco está envolto assim num imaginário que faz do ritmo mais constante de suas águas. as águas calmas de não mais que 7 quilômetros por hora em seu maior trecho. O verso seguinte contextualiza a questão da construção de represas: “Tira gente. pontes. de águas constantes. latente e próximo. represas e barcos. de um rio “aparentemente” cercado pela civilização de cidades. A profecia é atribuída ao beato Antônio Conselheiro. sua porção norte. A canção se inicia com um verso que pode ser considerado um lema da defesa do meio ambiente: “O homem chega e já desfaz a natureza”. a 40 km de Juazeiro (BA) e que deslocou pequenas cidades da região para fora do alcance do lago a ser formado. / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar”). dizer) nos pés de três sílabas dão um ritmo de grande velocidade à ação humana. assim como períodos de seca. Os três verbos com sujeito oculto (tirar. Este pé. surge a referência à profecia popular de que o sertão vai virar mar. O “lá pra cima da Bahia” se refere ao mapa da Bahia.

A seguir uma quadra em versos dodecassílabos. a quebra do que parecia imóvel. antes originalmente era apenas a vila dos trabalhadores empregados na construção da barragem. “Sento Sé” se refere ao lugar em que a Sé (igreja principal de uma diocese) se localiza. Assim. Os dois versos seguintes: “Vai ter barragem no salto do Sobradinho \ E o povo vai se embora com medo de se afogar”. do cumprimento da profecia do beato: a construção da barragem de Sobradinho. A poluição das águas e a conseqüente destruição da Natureza pelo homem mesmo e não por uma ação castigadora de Deus. o dia do juízo final. Este medo do progresso é que dá força ao discurso. As incertezas causadas pela modificação do cotidiano. Sento Sé Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir” O nome das cidades tem um significado maior do que simplesmente toponímico: “Remanso” (se originalmente o significado é uma enseada tranqüila. esclarece o motivo da destruição das cidades locais. o aumento das águas vem provocar a destruição da tranqüilidade local. Desse modo. permanente. permanente. cita o nome das localidades atingidas pela subidas águas e compõe a cena do gaiola – tradicional embarcação do rio – navegado por onde antes era uma cachoeira. início de uma vida nova e feliz. com autonomia de município em 1989. com formato de uma curva em arco. o medo diante do novo. mas é também. a construção da barragem deu origem a uma nova cidade. tranqüilidade). De fato. no contexto da construção da represa e dos benefícios que ela trouxe. o sentido da canção é poeticamente ambíguo. relendo a letra de Sá e Guarabira. 24 . Convém ressaltar que os municípios citados foram reconstruídos em local mais seguro e que com o tempo obtiveram progresso econômico e social com a barragem de Sobradinho. esta por sua vez.A inversão da profecia (“o medo que algum dia / o mar também vire sertão”) tem um sentido apocalíptico. Assim. Porém. E por sua vez. “Pilão Arcado”. da identidade. A desordem na vida local causada pelo progresso. desaparecida pelo aumento das águas: “Adeus Remanso. O verso “Debaixo d’água lá se vai a vida inteira” faz referência à perda das raízes. do aumento das águas. em Sá e Guarabira o sentido é ecológico. Casa Nova. na profecia se diz que o mar virará sertão quando o sertão virar mar. messiânico. e passaram a utilizá-lo para pilar o sal que salgava o peixe. conforme se lê no primeiro verso. Junto à orla da represa surgiu o bairro conhecido como “Chico Periquito” com bares e restaurantes à beira do lago. “Casa Nova” nos dá a idéia de casa recentemente construída. Conta a tradição local que a denominação está ligada a uma lenda de pescadores que encontraram um pilão. o de Sobradinho. percebemos que a voz da letra da canção é a do povo local às vésperas da construção da represa. pela destruição do antigo em face do novo. da tradição. de tal forma que ao mesmo tempo é crítica mordaz e bem fundada à destruição da Natureza pelo homem. sob esses aspectos. no sentido figurado é também descanso. O homem é o sujeito da ação na canção de Sá e Guarabira. o que nos dá uma idéia de localização duradoura. em uma das margens do rio São Francisco. e aí ela tem um sentido apocalíptico religioso. De fato o lago artificial ali formado é o segundo maior lago artificial do mundo.

sejam as próprias populações ribeirinhas. Conte com este amigo no que puder te servir neste bom combate.html. criando dois grandes canais que serviriam água para o sertão de Pernambuco e Ceará. 25 . inclusive pelo episódio de uma greve de fome contra o projeto. Sílvio Brito escreveu ao frei: “Querido irmão. daí na canção Sílvio Brito diz: “Mas é preciso mais boa vontade Mais ação e decisão Para fazer de verdade A revitalização Pois então vamos reciclar o lixo 1 Silvio Brito em: http://www.” Sílvio Brito faz referência ao processo de assoreamento do rio e à poluição. tem se mostrado que o curso do rio São Francisco vem sofrendo continuamente com isso. quando vi o rio São Francisco e fiquei muito triste ao saber que aquele rio que fornece vida para todos os seres que vivem em suas margens poderia vir a morrer. O engajamento é na defesa que comunidades locais do São Francisco fizeram contra o projeto federal de transposição das águas do rio. E apresenta como solução para o problema a revitalização do rio. O que se entende por revitalização é o controle das causas do assoreamento e a devida política de controle dos agentes poluidores locais. Esta é minha contribuição ao movimento e eu a estou colocando à disposição para ser utilizada na sua campanha ‘Uma vida pela vida’. e o outro indo até a Paraíba. De fato. Tais ações envolvem políticas concretas. “O Velho Chico” é literalmente uma canção engajada.” 1 A canção de Sílvio Brito tem como refrão os versos distribuídos em duas quadras de rimas cruzadas ABAB e tendo em cada quadra.com. três versos octassílabos e um quarto heptassílabo: “O Velho Chico tá morrendo Já nem tem mais navegação E ainda tem gente querendo Essa tal transposição O Velho Chico tá sumindo Ta suplicando salvação Mas em seu leito tá pedindo A revitalização. tendo sua vazão prejudicada ano a ano.br/musica_silvio. na bacia do mesmo nome. O frei Luiz Cappio se notabilizou pela campanha contra a transposição.umavidapelavida. até a bacia dos rios Piranhas e Jaguaribe. sejam – principalmente – as indústrias. esta musica foi composta logo após uma viagem minha ao nordeste no mês de novembro de 2004.Já a canção de Sílvio Brito. os agrotóxicos e o desmatamento da vegetação ciliada.

Chega de poluição Vamos transformar o Chico No oásis do sertão”. Outro aspecto da canção de Sílvio Brito é o jogo que faz entre o nome do rio e do santo: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza.” Assim, o compositor mineiro, natural de Três Pontas, famoso por sucessos como “Farofa-fa”, “Pare o Mundo que eu quero descer” e “Tá todo mundo louco”, apresenta também um argumento messiânico, da ação divina em defesa da Natureza. Mas tal argumento é apenas simplório e se perde no contexto geral da canção de repúdio ao projeto de transposição, de tal modo que a expressão “Tem gente” no verso “E ainda tem gente querendo”, logo seguido pelo verso “Essa tal transposição”, em que a expressão “Essa tal” tem um sentido pejorativo, na linguagem popular, dá um sentido de que o projeto está fundamento em razões equivocadas e de desconhecimento do verdadeiro problema do rio. Porém, é de se ressaltar que de fato existe a necessidade da revitalização, mas que ambos os projetos, o de revitalização e o de transposição não são excludentes, sendo no máximo dependentes, ou seja, a transposição teria como pré-requisito para seu sucesso a revitalização da bacia do rio. Morares Moreira compôs a música São Francisco, num ritmo agalopado, com predomínio de versos em redondilha maior. A canção sintetiza aspectos culturais do Vale do São Francisco. Partindo de uma comparação entre o compositor e o rio, Moraes Moreira começa a apresentar as características comuns a ambos, num processo de personificação do rio: “O meu caminho eu escolho Tirando o cisco do olho Enxergo longe, me arrisco Sou como o Rio São Francisco Faço no tempo viagens No espaço da noite e do dia, Indo, fluindo às margens De Pernambuco e Bahia Andando por todos os lados Sincretizando os Estados Arrematando as costuras Na integração das culturas” Ora fazendo quadras com rimas emparelhadas, ora com rimas cruzadas, vai tornando o ritmo alucinante das imagens apresentadas. O ofício de compositor popular é 26

assim emparelhado com o caminho do rio: “Andando por todos os lados / Sincretizando os Estados”. Percebamos o verbo aí colocado: Sincretizar, ou seja, integrar elementos diferentes numa síntese. Nas duas quadras seguintes, Moraes Moreira diz que está em busca do que é mais novo, ou seja, do progresso e se apresenta como ponte que unifica, comparando o papel da ponte que liga Petrolina a Juazeiro: “Assim como o rio promovo O abraço que a gente precisa Em busca do que é mais novo Sim ultrapasso a divisa Fazendo a ponte, sem medo Antonio sou brasileiro João, Geraldo Azevedo Petrolina e Juazeiro” Cita nomes populares como Antonio e João, e presta homenagem a Geraldo Azevedo. O verso “Sim, ultrapasso a divisa” é mais do que o sentido de ultrapassar fronteiras regionais ou estaduais, mas no sentido da avant-garde, do ir além do comum, do previsível. Neste sentido, se pensamos não na obra de Moraes Moreira, mas no rio com que se identifica, temos que o rio São Francisco sempre foi palco de discussões acerca do progresso, tido como rio da integração nacional. Na quadra seguinte, Moraes Moreira nos fala da imensidão do Brasil, e que o trabalho de compositor é tão grande quanto o percurso do rio: “Por essas águas tão boas Sou navegante feliz Sergipes e Alagoas Minas, imensos brasis” Sergipe e Alagoas são os pequenos estados que estão na foz do São Francisco. O fato de colocar o nome dos estados no plural é uma forma de torná-los substantivos comuns, fazendo referência que na bacia do Vale do São Francisco, que se inicia em Minas Gerais, cabem várias vezes o tamanho desses dois estados. O verso “sou navegante feliz”, tem um sentido metafórico, é mais do que a referência às navegações no rio, mas sim no sentido de que a história da sua carreira de compositor é uma navegação. A parte final da canção compreende os seguintes versos: “Quem pode parar a planície, Os rios e os oceanos? Ah meu amor, acredite Também assim sem limite É o sonho dos seres humanos Quem pode parar o planeta? E o movimento que há? 27

Ah meu amor, com certeza As forças da natureza O vento quem pode parar? Lavam na beira do rio As lavadeiras de Deus A alma dos pecadores E o coração dos ateus” Aqui duas quintilhas precedem a última quadra. A primeira quintilha começa com uma indagação: “Quem pode parar a planície / Os rios e os oceanos?” Argumentando assim que a força da natureza, especialmente a que se expressa no rio São Francisco é ainda mais forte do que a engenhosidade do homem, e que é o sonho humano dominar o rio, um sonho “sem limite”. Referência indireta às represas, barragens e o projeto de transposição. Por outro lado, na quadra que se segue, o compositor responde que a Natureza pode parar a rotação do planeta, superando assim a força humana. Por fim, mais um questionamento acerca da força da Natureza: “O vento quem pode parar?” A resposta implícita é de que o homem não pode. A quadra final, fecha a canção com a imagem das tradicionais lavadeiras de roupa às margens do rio. Porém, num sentido figurado, a lavagem da roupa suja é também a lavagem dos pecados e da arrogância do homem para com a Natureza. Daí lavar a “alma dos pescadores e o coração dos ateus”. Buscamos apresentar aqui algumas composições populares que tratam do tema do rio São Francisco, é possível que tenhamos esquecidos algumas até mais significativas que estas, mas acreditamos que conseguimos aqui apresentar o panorama da imagem do rio São Francisco na música popular brasileira.

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Assisti a um vídeo no Youtube com Gal Costa e o próprio compositor baiano em belíssimo dueto interpretando a música.br\site) e o site (www. Bahia Só vigia um ponto negro. sem dúvida. em Pernambuco. tomávamos uma cerveja e ouvimos o cantor que ali se apresentava. a que melhor representa essa nossa necessidade: O Ciúme Dorme o sol a flor do Chico meio dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte. do lado de Juazeiro da Bahia. Canção de Caetano Veloso Uma das canções mais bonitas que fazem referência ao Rio São Francisco é. Já ouvi essa música na voz de Geraldo Azevedo que dá uma interpretação um pouco mais ligeira e ao mesmo tempo.caetanoveloso. eu só. 1. Pernambuco.com. e a estrofe central com 5 versos. ocorrido na UNIVASF. nossa análise já foi parcialmente apresentada no congresso regional da SBPC. em 2007. tanta gente cala 29 .1. em companhia do amigo Benedito Bezerra. nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens de Minas De onde o oculto do mistério se escondeu Sei que o levas todo em ti. o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Que nem alegre. fazer uma interpretação também bem intimista da música. não me ensinas E eu sou só. tudo quer buscar.caetanoveloso.° Congresso Internacional da Abralic.Acerca de “O Ciúme”. Cremos que aquela que divide a canção em 5 estrofes. eu Juazeiro nem te lembras desta tarde Petrolina nem chegaste a perceber Mais na voz que canta tudo ainda arde Tudo é perda. menos dramática que a dos dois tropicalistas. A Forma e o Ciúme A letra da canção foi por nós consultada em diferentes sites. cadê Tanta gente canta. Rio. próximo à ponte que une a cidade baiana à Petrolina. inclusive os sites que se apresentam como oficiais de Caetano Veloso (www. Neste breve texto pretendo fazer uma análise da letra desta canção.com. Buscamos encontrar a forma de transcrição da letra que mais correspondesse às necessidades poéticas de uma composição versificada. com seu violão. Certa feita num bar à beira do Rio São Francisco. do outro lado do rio. “O Ciúme” de Caetano Veloso. em 2008. na USP. sendo as duas primeiras e as duas últimas transcritas como quartetos.br). assim como também falamos um pouco acerca disso no 11. nem triste.

(11) O número 11 é do tipo palindrômico. Assim. em termos numéricos. A ponte funciona nos dois sentidos. em constante processo de autoidentificação e espelhamento. Petrolina e Juazeiro estão./ eu/ só. sobre toda sala Paira. indo e vindo. quanto para o reconhecimento do outro. com rimas cruzadas. A estrofe central do poema. Como. pode ser lido de trás para frente que não modifica o seu valor./ nem/ tris/ te. não sendo divisível além de por ele mesmo e pelo número 1./ Per/ nam/ bu/ co. as duas cidades./ não/ me/ en/ si/nas E/ eu/ sou/ só./ Ba/ hi/a (11) Só/ vi/ gia / um/ pon/ to/ ne/ gro./ mons/ tru/ o/ sa/ som/ bra/ do/ ci/ ú/me. porém. de espiritualidade e de intuição. Podemos contar os quartetos como formados por endecassílabos. assim como o palindrômico número 11. esse processo de divisão assume o caráter psico-simbólico de que a separação entre o eu e o outro é ao mesmo tempo um elo para a auto-identificação./ tu/do/ quer/ bus/car. monstruosa sombra do ciúme. e acentos predominantes na 3./ nem/ po/ e/ta (11) En /tre/ Pe/ tro/ li/ na e/ Ju / a/ zei/ ro/ can/ta (11) Ju/ a/ zei/ ro/ nem/ te/ lem/bras/ des/ta/ tar/de (11) Pe/ tro/ li/ na/ nem/ che/gas/te a/ per/ce/ber (11) Mais/ na/ voz/ que/ can/ ta/ tu/ do/ ain/ da / ar/de (11) Tu/do é/ per/da. E ainda. 7ª e 11ª sílabas: Dor/ me o/ sol/ a/ flor/ do/ Chi/ co/ mei/ o/ di/a (11) Tu/ do es/ bar/ ra em/ bri/ a/ ga/ do/ de/ seu/ lu/me (11) Dor /me/ pon/ te. mas a engenhosidade de sua metrificação híbrida e o fato de estar colocada ao centro do poema dá um sentido simbólico à forma: Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas De on/ de o/ o/ cul/ to/ do/ mis/ té/ rio/ se es/ con/ deu Sei/ que/ o /le/ vas/ to/ do em/ ti.Tantas almas esticadas no curtume Sobre toda a estrada. uma diante da outra. na numerologia é um número de avatar. o número 11 é formado pela repetição do algarismo primeiro. é também um símbolo da igualdade e da identificação (1=1)./ tan/ ta/ gen/ te/ ca/la (11) Tan/ tas/ al/ mas/ es/ ti/ ca/ das/ no/ cur/ tu/me (11) So/ bre/ to/ da a es/ tra/ da./ so/ bre/ to/ da/ sa/la (11) Pai/ ra./ Rio./ ca/dê (11) Tan/ ta /gen/ te/ can/ ta. o aspecto de que o número 11 é primo. não permite uma escansão tão simétrica e regular quanto a que propomos para as demais. isto é. existe./ eu 30 . o/ meu/ ci/ ú/me (11) O/ ci / ú/ me/ lan/ çou/ su/ a/ fle/ cha/ pre/ta (E) (11) E/ se/ viu/ fe/ ri/ do/ jus/ to/ na/ gar/ gan/ta (11) Que/ nem/ a/ le/ gre.ª.

do verso endecassílabo dá a analogia numerológica do que seja essa projeção. um dos quais. que também no processo de união de dois seres.ª. As razões estão na questão do herdeiro. em Freud.ª sílaba é a última do primeiro hemistíquio do alexandrino e a primeira do hemistíquio seguinte. (FREUD: 1976.e. no âmbito da relação amorosa ou de amizade é.ª pessoa do plural. Freud acerca da projeção do ciúme escreve: “O ciúme da segunda camada. o projetado e o delirante. deriva-se. Já que esta 7. é preciso que se modifique algumas características da individualidade. o que implica em dizer. 271) Ver no outro.ª sílaba. para que tal união seja prazerosa a ambos. ao que se enciúma e ao que sofre o efeito da ação enciumada do outro. Do-em (doem). notadamente dos aspectos egoístas do ser. o número 11. p. 1993.A estrofe pode ser escandida em dois versos heptássilabos e dois dodecassílabos. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá. dois hemistíquios separados. Os dois versos centrais da estrofe e. a união masculino-feminino da relação amorosa. sonhos. daquele filho 2 Carl Gustav Jung.se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade”. o elemento causador do ciúme projetado.G. Desde a antiguidade mais remota. por conseguinte. na verdade. no texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. o ciúme projetado. para que isso ocorra. do poema. Pode obter esse alívio . o “Ciúme é a falta de Amor” 2 . 8ª e 12ª sílabas. para o homem tornou-se evidente a garantia da paternidade. a analogia com a ponte que une (/do–em/). é preciso que o segundo hemistíquio modifique sua característica de acentuação. 3. O ciúme é doloroso. levam a cabo o que nos hemistíquios se apresenta como possibilidade. não obstante. tanto nos homens quanto nas mulheres. só se mantém em face de tentações contínuas. É preciso reconhecer no outro aquilo que reflete de nós mesmos e saber trabalhar isso. 31 . de Memórias. do verbo doer. aquilo que temos medo em reconhecer que existe em nós mesmos. presente do indicativo. Aqui começamos a falar do ciúme. Para C. temos a possibilidade de formar um verso dodecassílabo: “Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas /E eu/ sou/ só. Os dois heptassílabos seriam num sentido significativo da forma da estrofe. para Freud. na paranóia e no homossexualismo. O ciúme é o processo inverso da autoidentificação na relação de união. especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio. A origem desse sentimento parece ter causas diferentes. O ser “só eu”. reflexões. de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. a absolvição de sua consciência . O segundo verso da estrofe é um dodecassílabo com acentos na 4. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade. temos na forma. O terceiro verso é um alexandrino com elisão na 7. por analogia. alexandrino. é um sentimento que causa dor a ambos. implica na quebra da solidão também. eu” Porém. ou seja exatamente ao meio do poema. evitando o ciúme. Se os juntamos. Nesse sentido. eu/ só. Sílabas pares. sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. Os nomes Petrolina (gênero feminino) e Juazeiro (gênero masculino) formam. e o par é a união. Jung. temos uma distinção de três tipos de ciúmes: o competitivo ou normal.

Não havendo a possibilidade do terceiro. no caso da Lua. essa luz vem de sua interioridade. Na primeira estrofe da canção. esse ciúme logo é superado. a infidelidade sexual tem diferentes conotações para homens e mulheres. a admiração que causa a um e o outro a beleza do rio. O rio é o viajante que vem de longe e se coloca entre Juazeiro e Petrolina. 1996 e Harris & Christenfeld. 1996(a e b). tinha sentido diverso. é preciso que identifiquemos um terceiro. Para C. os sentimentos que buscamos negar em nós mesmos formam uma sombra. ao se discorrer sobre a temática do ciúme é necessário lembrar que para alguns teóricos. econômicas e morais. o Sol representa os sentimentos do coração. O brilho do sol refletido nas águas do São Francisco em oposição ao “ponto negro”. se tomamos o gênero das palavras “Petrolina” e “Juazeiro” para compor a analogia de um casal masculino-feminino. Na última estrofe. isto faz com que se imagine que a infidelidade sexual feminina esteja associada com o envolvimento emocional com outro parceiro (De Steno & Salovey. ao passo que a luz que vem de dentro é a da sabedoria. em geral. intrínseco do sentimento de ciúme. a Sombra do Ego. de modo que o ciúme pode ocultar o brilho do Sol. unifica ambos. A mulher. A estrofe central. começa por tratar diretamente do rio: “Velho Chico vens de Minas”. por seu turno. temos rima lume/ciúme. Uma vez que possui luz própria. Como o amor geralmente é um pré-requisito para o envolvimento de uma mulher em um relacionamento sexual. é a luz do conhecimento que é preciso adquirir exteriormente. Manter o marido significava a garantia de poder criá-los a bom termo perante as exigências sociais. O material reprimido forma um self negativo. não existiria razão causadora do ciúme. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações / Thiago de Almeida. que ao contrário da lua que a reflete. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. 3 32 . 2007. maior necessidade de envolvimento emocional para a prática do sexo.que continuará a obra do pai. implica na perda do que foi feito para outro. 1996). O homem. A ponte que se constrói. como em O Arco de Sant’Anna de Almeida Garrett.G. Área de Concentração: Psicologia Experimental) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. A descoberta de uma falsa paternidade. Todavia. (ALMEIDA: 2007 3 ) Na letra de O Ciúme. Porém. pelo menos na cultura ocidental. como tal. monstruosa sombra do ciúme”. Na simbologia esotérica. fazendo com que seja superada a dificuldade causada pela passagem do rio. esse sentimento é exteriorizado pelo eu lírico. o investimento na geração de filhos. Jung. Para a mulher. que se interpõe entre as duas cidades: “Entre Petrolina e Juazeiro canta”. consoante Sheets e Wolfe (2001). sentia-se em condição de se dedicar à mulher e arrumar uma ou mais amantes. no lar. o causador do ciúme entre ambos. pois o viajante segue seu curso. Como observa Thiago de Almeida: Ainda. apenas. Este terceiro é o rio São Francisco. como De Steno & Salovey. A canção termina nesses termos: “Paira. para satisfação sexual. A luz que se reflete. sentia. -. 234 p. logo é compreendida pelo outro. Não são poucas as obras literárias que tratam da questão da descoberta da paternidade como elemento definidor da trama.São Paulo. admiração. orientador Ailton Amélio da Silva. a infidelidade masculina não tem tal implicação porque os homens têm mais condições de praticar sexo sem amor.

a propósito. quanto são os que os ouvem (“Tanta gente canta. São Paulo. que de Juazeiro vieram João Gilberto. mas enquanto tal. substitui o bem que não se pode ter. Imago. que se sente diminuído pela impossibilidade de posse da beleza da Natureza. A vida sob o Sol. a obra materializada expondo-se aos seus sentidos. é na canção. Vol. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. eu”. o da auto-identificação do eu lírico. mas tal tarefa é fadada ao fracasso do simulacro. numa visão trágica. A obra humana que se apresenta bela por desafiar a Natureza e conjugar-se no cenário. Sigmund. mas apenas a indiferença do distanciamento causada pela modificação da memória (épica). cadê”. 2.4). o criador da Bossa-Nova e Ivete Sangalo. O mistério oculto a que se refere a canção é. pois que a beleza da Natureza. tanta gente cala”). Movido por esse sentimento. é também o maior trunfo do artista. a dor causada pelo ciúme tira a aura da canção. e a obra de arte a expressão desse ciúme. 234 p. Ferindo a garganta. Nessa atitude inicial de consolação. alegria (comédia). se dedica a tentar aprender um modo de controlar o que não consegue conquistar. “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. Tantos são os cantadores da beleza. pois. endurecendo-se aos sentimentos como se fossem peles “esticadas no curtume”. A tentativa de captar essa beleza vista ali da ponte entre Petrolina e Juazeiro. como aparente parte da cena. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Essa obra que substitui o que se perde. reduz o valor do canto à expressão de um sentimento que não é de tristeza (drama. na paranóia e no homossexualismo”. transforma-se em canto isolado: “O ciúme lançou sua flecha preta / E se viu ferido justo na garganta”. FREUD. pois. restando a solidão. eu só. seu canto. é sua tênue possibilidade de vitória. O artista teme perder o que não tem. transgredindo-a. Thiago de. tudo quer buscar. 1. não me ensinas / E eu sou só.A sombra do self negativo.2. tragédia). 2007. 1976. musa da música bahiana contemporânea. Lembremos. O Canto do Ciúme e os sentidos da percepção O ciúme se transforma também no canto do eu lírico: “o meu ciúme” (v. Referências Bibliografias: ALMEIDA. encontra artifícios para superar a dor da perda iminente pela alegria da descoberta da nova sensação. representada pela ponte. dominada pelo ciúme pode. unindo-se à própria Natureza. A impossibilidade de posse da Natureza causa esse sentimento. na impossibilidade de modificar esse estado de impotência de apreensão da verdadeira percepção da Natureza. mas o simulacro: “Mais na voz que canta tudo ainda arde /Tudo é perda. O cantar poético também se modifica. Rio de Janeiro. Porém. não é a verdade. 33 . lhe parece fugidia como as águas do rio passando por sob a ponte e seus pés: “Sei que o levas todo em ti. quando na verdade é artificial. eis o mistério. pois a obra produzida. leva o poeta a opor seu “ponto negro” de ciúme ao brilho do Sol sobre as águas do rio. 18. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações Dissertação de Mestrado. o reconhecimento dessa impossibilidade (“Sei que o levas”). eclipsar essa luz do Sol interior. Freud. nem poética (lírica). ao corpo e à alma. se reduz. Busca incessante de apreensão do belo que resulta no moto contínuo da própria arte. É o reconhecimento da mimesis como um processo de imitação. In: S. orientador Ailton Amélio da Silva. Agora o ciúme é o do artista diante da Natureza.

Do São Francisco ao Mississipi: O Rio e o Homem na Música Popular. 34 .

O Rio São Francisco na música popular brasileira tem sido representado como rio que em sua bacia guarda uma rica cultura regional. de Sá e Guarabira. O rio como cenário bucólico do idílio amoroso não é um tema muito significativo. Rebatizado no Brasil com o nome de “Saldanha Marinho” o vapor navegou de 1871 a 1970. uma lenda acerca do vapor. transpondo para o sertão aspectos do sebastianismo messiânico. do polêmico projeto de transposição das águas do rio (“O Velho Chico”. Criou-se.ex). de ligação. 1979). se o leitor considerar que já tem alguma noção acerca das músicas que aqui serão citadas. de certo modo. das carrancas – estas geralmente trazendo o medo na memória da criança – e a vida ribeirinha. p. Cabe lembrar. a construção de represas (“Sobradinho”. ocorrendo ocasionalmente. A ponte construída em 1950. de Moraes Moreira. a tripulação fantasma do barco sai pela cidade de 35 . tendo como nome atual. Em várias canções a ponte é citada geralmente como signo de união. Tal processo tem suas bases na corrente de imigração sertaneja-nordestina para as capitais litorâneas ou para o sudeste do país. de Sílvio Brito. Ponte Presidente Dutra. em Geraldo Azevedo (“Barcarola do São Francisco”. porém. p.ex.) e da força da natureza em resposta às interferências (“São Francisco”. inclusive. O “vaporzinho” como é chamado navegou antes nas águas do Mississipi e hoje é aberto à visitação na cidade de Juazeiro (BA). O que convenhamos.ex. para tanto tomamos como base o São Francisco no caso da geografia cultural brasileira e a bacia do Mississipi-Missouri no caso da norte-americana. princesas e encantamentos. que este texto tem de certo modo um pré-requisito de leitura que o que se intitula “O Rio São Francisco como tema de MPB”. a infância que fala é feita de lembranças compostas pelas imagens dos barcos (gaiolas). é uma das mais movimentadas do país.Neste capítulo tecemos algumas considerações acerca das representações do rio na música popular brasileira e norte-americana. A de que em noites de lua cheia. cavaleiros. música incluída em disco produzido com Elomar. qual sejam as raízes da poesia de cordel e do trovar dos repentistas. das novelas de cavalaria e poesia palaciana. Xangai e Vital Farias). é possível ler este sem ler aquele. o autor se imagina um homem que tendo deixado a região. o que não é difícil para boa parte dos leitores que têm o hábito de escutar música brasileira e música norte-americana. num processo de formação da voz lírica da letra da canção. Em algumas canções se trata da questão da interferência do homem no curso da rio.). Cultura essa. Essas raízes medievais aparecem em composição de Carlos Pita (no disco Águas do São Francisco. traz na memória lembranças da infância vividas à beira rio. povoando o sertão dum imaginário de reis. p. Outro aspecto constante nas músicas que tratam do tema do rio São Francisco são as lembranças de infância. é relativamente comum no caso da cultura brasileira e um tanto quanto um pouco mais raro no caso da cultura norte-americana. “As Águas do São Francisco”). Outro elemento constante nas músicas acerca do rio São Francisco é a referência à ponte que une Petrolina e Juazeiro. São Paulo e Rio de Janeiro principalmente. O primeiro vapor a navegar as águas do rio São Francisco veio dos EUA. tem uma raiz de caráter medieval. atualmente recuperado pela prefeitura de Juazeiro é um dos pontos turísticos da cidade. como na música de Gino e Geno. da fórmula e composição na medida velha. que por vezes. Esse sertão medieval tem raízes históricas no processo de colonização portuguesa. Mesmo que o compositor não tenha passado a infância na região do propriamente dita do vale do rio. Como memórias dessa voz lírica imigrada.

Espécie de recriação da lenda do Holandês Voador. as barragens irão romper Quando a barragem romper.” (“Se continuar chovendo. A bacia do Mississipi-Missouri era assim uma espécie de fronteira era o Nordeste dos Estados Unidos. urbanizado e livre com as terras d’além do rio e do sul. várias guerras e disputas com a França. Em sua memória está ecoando as canções norte-americanas e brasileiras acerca desses rios. levees goin to break. A navegação a vapor e as obras de construção de canais e represas estiveram ligadas à história da ocupação daquela região. o percurso Mississipi-Missouri tem 6700 quilômetros. “If it keeps on rainin. só superada pela cheia de 1993. Obras de contenção e de regularização do fluxo de águas foram construídas no intuito de estabilizar a vazão das águas durante o período anual de cheias. When the levee breaks Ill have no place to stay. recriada pelo Led Zeppelin. civilizado. eternizada em ópera de Wagner. considerando no conjunto. comparando. levees goin to break. terminando por conseguir do México a Califórnia.Juazeiro a seqüestrar pessoas – principalmente moças – para uma viagem pelo rio. não terei onde ficar”) O desespero dos desabrigados. No âmbito da música popular. inúmeras são as canções que tratam direta ou indiretamente do rio. Após a independência das treze colônias britânicas em 1776. a Inglaterra e a Espanha acabaram por deixar os Estados Unidos com um imenso território. ainda. Thinkin bout me baby and my happy home. A guerra civil americana bem demonstrou essa dicotomia cultural. rudes. as barragens irão romper Se continuar chovendo. A bacia do Mississipi-Missouri corta a região central dos Estados Unidos e tem a foz no sudeste no estado de Louisiana. All last night sat on the levee and moaned. O rio está ligado sob vários aspectos ao processo de expansão territorial dos Estados Unidos. Mas se o vapor navegou nas águas do Mississipi e nas águas do São Francisco. social e política. A letra é direta e crítica sobre os danos que causam as enchentes do rio e mostra a incapacidade do homem de dominar a Natureza. Trataremos brevemente de algumas. sempre que possível com composições brasileiras relativas ao rio São Francisco. mas que originalmente é um blues de Menphis Minnie e Joe Maccoy. saber das semelhanças e das diferenças entre os dois rios. como ninguém. podemos dizer que simbolicamente este barco conheceu os dois rios e pode. If it keeps on rainin. tendo inclusive uma extensão maior que a do próprio Mississipi. Uma das composições mais impressionantes sobre as enchentes do Mississipi é “When the levee breaks”. daqueles que perdem tudo por causa das inundações é retratado de forma direta nos versos dessa canção: “All last night sat on the levee and moaned.” 36 . no mais das vezes. O Missouri é o maior afluente do Mississipi. selvagens. Em 1927 houve uma grande cheia do rio Mississipi que desabrigou centenas de milhares de pessoas.

fazendo referência histórica a uma das maiores enchentes da foz do Mississipi. Randy Newman contextualiza historicamente a cena ao citar o presidente Coolidge. Vemos aqui que o idílio amoroso. sendo Louisiana uma cidade cuja população era em maior parte negra. a ironia. Sua política era marcada pelo conservadorismo. pela pouca ação nos problemas sociais e pelo abandono ou veto de projetos que ajudassem o campo e regiões menos favorecidas. "Little fat man isn't it a shame what the river has done to this poor crackers land. vindo de trem com um “little fat man” e seu bloco de notas.(“Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Pensando no meu bem e no meu lar feliz”) Randy Newman compôs Louisiana 1927. afinal não se diz que ele veio com o exército ou uma equipe de salvamento.”) Calvin Coolidge era vice de Warren Harding. então presidente dos EUA: “President Coolidge came down in a railroad train With a little fat man with a note-pad in his hand The President say. assumindo a presidência com a morte deste. em que se pede para que São Pedro aumente a enchente para que o personagem lírico da canção possa continuar com um álibi para continuar nos braços de sua amada e não ter que atravessar a ponte. sem dinheiro)." (“O Presidente Coolidge veio num trem da ferrovia Com um homenzinho gordo com um bloco de nota nas mãos O Presidente disse. Águas do São Francisco. em 1927 a segregação racial era forte nos Estados Unidos e na fala atribuída ao presidente. “Homenzinho gordo é uma vergonha O que o rio fez com os brancos pobres dessa terra. numa espécie de ultra-romantismo acrônico serve de motivo para que não se veja os danos que a enchente traz às populações 37 . A canção começa com a apresentação do quadro da tempestade e da enchente: “What has happened down here is the wind have changed Clouds roll in from the north and it started to rain Rained real hard and rained for a real long time Six feet of water in the streets of Evangeline” (“O que aconteceu aqui é que o vento tudo mudou Nuvens vieram do norte e começou a chover Choveu de verdade muito e choveu por muito tempo mesmo Seis pés de água nas ruas de Evangeline”) Numa estrofe final. Lembremos aqui da canção gravada por Gino e Geno. A ironia também se apresenta no modo como se apresenta o presidente. No verso final. se vê a preocupação com os “crackers”. o que sugere algumas soluções paliativas e de gabinete. como eram chamados os brancos pobres (literalmente “os quebrados” – sem grana.

ribeirinhas. não falta água. Rollin. com letra que critica a política governamental. Dércio Marques em canção mais ousada. desviar onde ele ir Mas que delírio de poder. Dércio Marques apresenta um engajamento com versos mais refenhos em defesa de seu ponto de vista. rollin on the river. o que falta é vontade política de fazer a correta distribuição das águas dos açudes: “Deixa não vingar transposição Pra criar camarão Em nome do vil metal A nação se ufana em exportação Enquanto o povo do rio tem fome em seu quintal No Ceará. Rancho Eterno Chico. Bombar água pra subir” Em outras duas estrofes. porém. melhor se dá Sílvio Brito que em O Velho Chico sugere um projeto de revitalização em oposição ao de transposição das águas. sugerindo que a obra favorece a elite e despreza de fato a ajuda ao povo que sofre com a seca: “O que será de todos nós sem o Velho Chico As suas águas já sem forças pra seguir E vem um bando aventureiro cabotino Dar ao rio outro destino. mas sim. em ritmo de rancho carnavalesco. 38 . rollin. Dércio Marques alude ao fato de que as águas servirão para criação de camarão como produto de exportação e que nas regiões que mais sofrem com a seca. um desatino Sertão divino é convivência seu porvir Povo vizinho ao rio não tem acesso à água Como pode dar a água se o filho não tem para si? É ilusão a redenção fartura d´água. fazendo duras críticas às práticas de favorecimento. música na qual se coloca o cenário dos vapores que navegavam no Mississipi: “Big wheel keep on turnin. não Orós e Castanhão Têm volume abissal Esbanja a elite água de irrigação Enquanto mata de sede o irmão em seu quintal” Assim. Vão cobrar o olho da cara. No contexto social.” (A grande roda girando. o fato é que os projetos não são excludentes. O grupo Creedence Clearwater Revival compôs Proudy Mary. Proud mary keep on burnin. complementares. de apadrinhamento e de elitização da política.

música que faz referência a um dos personagens da literatura americana mais característicos do rio Mississipi.” Comenta-se da vida dura dos trabalhadores. Rolando. Sondando muita dor em New Orleans. assim como aqui.” (“Limpando muitos pratos em Memphis. ele apenas guarda rolando por aí. are soon forgotten. “He don't plant tater's. de Mark Twain. Blues da autoria de Kern e Hammerstein. Huckleberry Finn. John Murrell.” (“Ele não planta batatas. and we all know he don't pick cotton. sim. But them that plant 'em. New Orleans. e nós sabemos que ele não colhe algodão. til I hitched a ride on a river boat queen. até a foz. Life on the Missisipi. O título é uma referência a um dos “apelidos” do rio Mississipi. Outro livro de Mark Twain. de como seus momentos de lazer se faziam quando navegavam nos vapores em direção à New Orleans: “Cleaned a lot of plates in Memphis. e tem um capítulo dedicado a um dos maiores ladrões que viveram às suas margens. But I never saw the good side of the city. Na canção Moon River lemos: “Two drifters Off to see the world There's such A lot of world to see We're after The same rainbow's end 39 . Mas então o que ele planta são filhos esquecidos. Ol’ Man River é uma das canções que tratam da vida dos trabalhadores nas fazendas de algodão na bacia do Mississipi. that Old man river. teve uma brilhante versão pelo Jeff Beck Group. médio Mississipi. com Rod Stewart cantando. Até que eu desci o rio de barco.”) Louis Armstrong gravou Moon River. Mas eu nunca vi o lado bom da cidade. oh yes he does.”) O percurso de Memphis.Altiva Mary vá queimando. chamamos o São Francisco de “Velho Chico”. conta a história do rio. Pumped a lot of pain down in New Orleans. estado de Louisiana era o trecho mais navegado do rio pelos vapores. é isso aí. he just keeps rolling along. além das aventuras do rapaz que mora num barraco às margens do rio. Que o Rio Velho. estado do Tennesse. Nessa obra. Rolando pelo rio. Rolando.

os santos católicos.Waitin' 'round the bend My huckleberry friend Moon river And me. são temas constantes de várias músicas que giram em torno do cenário do Rio Mississipi. que trouxe uma cultura de caráter medieval. O Rio-lua E eu. num procedimento típico do imaginário medieval. e mesmo numa canção engajada como a de Silvio Brito lemos versos como: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza. com suas raízes musicais negras. Veremos o fim do arco-íris. E há um bocado De coisas no mundo para ver! Nós. instalada após a guerra civil americana.”) Assim. o sofrimento dos trabalhadores. No caso da cultura do Mississipi os conflitos se regem pela tríade homem x natureza x homem. eivado de reis. O primeiro homem é o que sofre a força da natureza ou de outro homem. princesas. a idéia de que a vida em torno do rio é dura. Não é por acaso que em New Orleans e Memphis temos o berço do blues e do jazz. Tal visão parece ter suas raízes no processo de colonização português. em Geraldo Azevedo. Assim temos exemplo nas composições de Carlos Pita em Águas do São Francisco. na segregação racial. o sofrimento do polígono das secas e as enchentes do rio. Por outro lado. Esperando-nos na curva do rio. depois. a navegação dos vapores como diversão e em geral. no Nordeste brasileiro. o Rio São Francisco. Deus. os conflitos sociais. cheia de lamentos e dor. cavaleiros e natureza mágica. Tal visão tem fundamento no trabalho escravo durante os séculos XVIII e XIX. Assim. os beatos têm um papel fundamental no imaginário cultural da região para mediação e solução dos conflitos. Meu amigo Huckleberry.” Na cultura do Rio São Francisco. em que se pese a pobreza de suas populações ribeirinhas. nas constantes enchentes do rio e na situação de pobreza que boa parte da população ribeirinha viveu em contraposição à riqueza e à fartura das grandes cidades americanas. o que domina o imaginário de muitas das canções acerca do rio da integração nacional é um cenário imaginário dum sertão medieval. econômicos e políticos são apresentados como entre o destino do homem e os desígnios dos céus. uma religiosidade católica exacerbada e mitos messiânicos de feição sebastianista. em Moraes Moreira. o segundo homem 40 .” (Dois vagabundos livres para ver o mundo.

parece ser bem mais pragmático. Now. Nega.” (“Chorar não irá te ajudar.é o que se beneficia desse conflito. ocultado pelo espelho da introspecção criativa que busca no imaginário medieval razões para acreditar na concretização de profecias acerca dum futuro melhor ou na ação providencial da mão divina. você terá que se mudar”) São. O panorama foi montado de forma a não ser apenas 41 . fundado no conflito entre a cultura negra. o conflito é velado. pois. escrava e a branca. you got to move. rezar não adiantará muito Quando a barragem romper. européia. por exemplo nos versos da canção When the Levee Breaks: “Cryin won’t help you. cryin won’t help you. o modo de tratar o imaginário em relação ao rio. prayin’ won’t do you no good. É o que vemos. duas diferenças fulcrais no modo de encarar a realidade circundante. prayin’ won’t do you no good. When the levee breaks. No caso do rio São Francisco. Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira Nesse capítulo buscamos apresentar interpretações acerca do modo como o Rio São Francisco é colocado na poesia brasileira num panorama que vai do Romantismo até a Literatura Contemporânea. rezar não adiantará muito Não! Chorar agora não irá te ajudar. mama. No caso do rio Mississipi.

mas não encontra sua amada. de onde se precipitam na canoa num ato delirante que simbolicamente representaria suas núpcias. a poesia brasileira quando se propôs ao tema soube mesclar na linguagem poética diversos aspectos dessas imagens e preocupações. resolvem navegar até a Cachoeira de Paulo Afonso. / E. apresenta um entardecer em que os sons da natureza parecem pressentir o desenlace fatal: “Contemplando o infinito.. Assim. tanto no nível semântico. que fazem seu lar. acaba encontrando-a vagando numa canoa como que buscando a morte. Procurando por ela. Os personagens do drama são o escravo Lucas e sua noiva Maria. o poeta nos mostra Lucas voltando para sua cabana. Maria. cheia de vida: “Ali das bromélias nas flores doiradas / Há silfos e fadas. Maria conta que o autor trata-se de seu meio-irmão. Embora possa se encontrar citações eventuais em outras obras poéticas de autores anteriores. no poema homônimo seguinte.. depois de algumas negativas. / Que a perna te esconde em vão. “Tarde” tem versos como “Hora meiga da Tarde! Como és bela / Quando surges do azul da zona ardente! / .. Composto de 33 poemas A Cachoeira de Paulo Afonso forma uma espécie de narrativa dramática. considerada inútil diante da opressão que a condição de escravos os condena.” Este poema é também uma das mais ousadas experiências formais de 42 . na floresta / Rolar o som da funeral orquestra!!!”. e.. p. em lindos cardumes. Após ser convencido por Maria a evitar a vingança. 1. já em voga no Romantismo desde a primeira geração: “Onde Vais à tardezinha / Mucama tão bonitinha / Morena flor do sertão? / A grama um beijo te furta / Por baixo da saia curta.. de forma que o cenário da morte coincide com a escuridão noturna. Marisa Lajolo e Samira Campedelli assim comentam o aumento da tensão dramática na obra: “Como que acompanhando o aumento da tensão dramática do primeiro para o último poema. quanto estético e formal.” O terceiro poema.” Mais adiante o mesmo poema. pois. / Que se banha nas termas do oriente. Passando por Castro Alves. Castro Alves e as Imagens Clássicas e Românticas O primeiro grande texto de poesia brasileira a tratar do Rio São Francisco foi o livro A Cachoeira de Paulo Afonso de Castro Alves (1876). Após a apresentação do cenário da tarde. / Sutis vaga-lumes / Acendem os lumes / Pra o baile na flor. mas antes compor um painel cuja amostra deva esboçar as diferentes visões ecológicas e sócio-culturais que moldaram a imagem do Rio São Francisco em diferentes épocas. é com Castro Alves que este cenário brasileiro ganha uma dimensão lírica que ainda não havia tido na poesia brasileira. paisagem vai progressivamente escurecendo.. passando pela preocupação com o registro e a preservação de uma cultura local. exuberante. filho do senhor.... João Cabral de Melo Neto. o prenúncio do fim do dia acompanha o ato final dos amantes. Desde uma imagem romantizada da Natureza intocada até às preocupações com os danos que a civilização urbanizada causa ao meio ambiente. é apresentada de modo bem ao estilo da verve cabocla e sertaneja. inclusive do século XVIII.Tu és do céu a pálida donzela. intocada. em belíssimo contraste com a brancura das espumas da cachoeira” (LAJOLO & CAMPEDELLI. 77) Não é por acaso. entre outros. que o primeiro poema.. querendo vingar-se indaga da amada o autor da sua desonra. Descobre que Maria fora violentada. Dantas Motta. “O Baile na Flor” apresenta a descrição de uma natureza rica. 1980.historiográfico e exaustivo..

..... Já manso e manso escoa-se a canoa..... Os quatro poemas seguintes – “História de um Crime”. / Espantado a gritar”...tombam as selvas seculares.” A estrofe é brilhante na conjugação da cena dramática e dos recursos poéticos. N’último ramo do pau-d’arco adusto O jaguar se abrigou.. Como o dorso de enorme crocodilo.. tamanho.. Parecia.... Mas rubro é o céu...... assim vista ao sol poente..... .... a natureza é violentada pela ação do homem: “A floresta rugindo as comas curva... sabemos que Maria está a vagar perdida em sua canoa: “Lá no meio do rio..... “Tirana” e “Senzala” apresentam a chegada de Lucas e a descoberta da ausência de Maria.Sim!” A partir daqui os 11 poemas seguintes vão apresentar um crescendo do drama em que Lucas encontra Maria vagando na canoa e busca compreender o que lhe acontecera. E tudo se acabou!.. o que cria uma contradição entre calmaria e ataque iminente. nele.... O próximo poema “Diálogo dos Ecos” compõe uma cena em que Lucas parece conversar com o eco num verso solitário que se segue à cada estrofe: “Maria.... O quarto e quinto poemas compõem a metáfora da violação tanto de Maria quanto da Natureza.” Os três poemas seguintes – “Lucas”...... Esses ninhos. vai de encontro ao abismo... Na última estrofe a destruição causada pelo fogo é apresentada de forma apocalíptica: “Então passa-se ali um drama augusto.... “Mãe Penitente” e “O Segredo” vão revelar o laço sanguíneo entre Lucas e o agressor de sua amada. que cintila...... E após.... E onde em meio das flores vão chilrando -Alegres sobre o abismo – os passarinhos!.. O ponto de exclamação do verso final da estrofe.. / As asas foscas o gavião recurva. // E o eco responde: . A canoa é comparada com um ninho que caiu sobre as águas calmas e desconhecendo o perigo. O quinto poema é “A Queimada”. pobre criança / Que fazes tu sobre a terra? // E o eco responde? – Erra! (... que tombam sobre o rio.) Houve pois um braço estranho / Robusto. uma vez que a mancha do texto na folha busca sugerir a forma de uma flor. até o momento em que a noiva se vê convencida a contar o nome do agressor.. / Que pode esmagar-te assim?....... Em “A Queimada” (quarto poema). feroz. seguido de reticências e uma linha pontilhada compõe o ritmo que insinua o perigo... “Último Abraço”... Segue-se o poema “Crepúsculo Sertanejo” que inicia com o verso “A Tarde morria! Nas águas barrentas” e os poemas “O Bandolim da Desgraça” e “A Canoa Fantástica” que vão preparar a entrada do cenário em que os dois amantes resolvem ir em direção do abismo.....Castro Alves.. O rio é metaforizado na imagem de um crocodilo.. Recresce o fogo em mares. 43 ...

Os coqueiros e cipós são vistos poeticamente como arcos a ladear todo o curso do rio: “Como pontes aéreas – do coqueiro / Os cipós escarlates se atirando. sânie. Castro Alves busca concluir as contradições entre vida / morte. babando..” Os quatro últimos poemas retomam a narrativa dramática dos dois amantes e vão num crescendo preparando o momento em que a canoa se atira pela cachoeira: “. / Como filhos – chorando-lhe – os penedos!!!.. e o céu!. II). / Nas verdes canas o gemente rogo / Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva” (est. Mais ao final do poema evoca-se o mito de Laocoonte para efeito de comparação: “Grupo enorme do fero Laocoonte / Viva a Grécia acolá e a luta estranha!. o futuro autor de Catimbó entregou os pontos. quanto a função colonizadora que as populações caboclas tiveram no povoamento do Vale do São Francisco..... numa forma de comentar poeticamente a função irrigatória que o rio exerce sobre vasta região do sertão nordestino.... / . natureza / homem. de lamber demente / As rijas formas da cabocla linda”(est. vingança / perdão.. A luta entre a serpente-rio e o penhasco-touro ganha contornos de grandiosidade mitológica: “A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo! / A briga colossal dos elementos! / As garras do Centauro em paroxismo / Raspando os flancos dos parcéis sangrentos”... / E as serpentes de Tênedos em sanha!...Um beijo infindo suspirou nos ares. Lembra-me que Joaquim Inojosa foi o agente de ligação com os rapazes de São Paulo.. / Do sacerdote o punho e a roxa fronte.. luz / trevas.O poema “O São Francisco” apresenta a visão de Castro Alves do rio. Castro Alves soube colocar nesse conjunto de poemas tanto a questão da opressão sobre o escravo.. assim como a extensão do rio (“Do São Francisco a soberana vaga / Léguas e léguas triunfante alaga!”).. A Revisão Modernista do Drama Romântico: Ascenso Ferreira Ascenso Ferreira (1895-1965) foi um dos nomes mais importantes da divulgação das idéias modernistas em Recife. 2. O percurso do rio pelas então províncias de Minas Gerais e Bahia é trabalhado de forma a personificar as regiões como mulheres cortejadas e amantes do rio: “-Linfa Amorosa – co’a nitente espuma / Orlava o seio da Mineira linda (. / De grinaldas em flor tecendo a arcada / São arcos triunfais de tua estrada!. dos cantões bravios”)./ Titubantes – no álveo do rio – tremem as lapas dos titães coevas!.. “A Cachoeira” busca apresentar o cenário do clímax dramático do poema..........” O poema seguinte.. tredos.. / Por hidra – um rio! Por augure – um monte! / Por aras de Minerva – uma montanha! / E em torno ao pedestal laçados....... Assim se abre o poema: “Mas súbito da noite no arrepio / Um mugido soturno rompe as trevas. Na última estrofe do poema.” 44 . que permearam todo o poema.. Envolvido que estava com a causa abolicionista.. água / terra. Ascenso a princípio não quis saber da novidade.. / A canoa rolava!. o rio é denominado de “Nilo brasileiro”... bem longe..”.. o rio é metamorfoseado numa serpente e as rochas que formam a queda d’água são vistas como o corpo de um touro: “Então doido de dor....)/ Viramno aos beijos. Mas quando Guilherme de Almeida passou em Pernambuco e declamou o seu poema ‘Raça’ no Teatro Santa Isabel...” “A Cachoeira” constrói uma imagem metafórica de grande tensão. Destaca-se na primeira estrofe a distância que o rio corre pelos sertões (“Longe.... Abriu-se a um tempo / O precipício!... III). / Co’a serpente no dorso parte o touro....” Nesse verso final de coloração fundada num oxímoro. “Vem – à busca talvez de desafogo / Bater à porta da Baiana altiva.. Manuel Bandeira em prefácio escreve: “Não sei quando o movimento modernista se propagou ao Recife.

(FERREIRA, 1981, p.11). Sérgio Milliet, comentando a obra de Ascenso, observa como o grupo de modernistas do Recife conseguiu uma certa autonomia estética em relação ao modelo de São Paulo: “Na renovação poética do Brasil, já observou Manuel Bandeira, o grupo do Recife escapou à influência imediata e imperialista dos modelos europeus. Da revolução que se iniciou em São Paulo só lhe interessou a liberdade conquistada.”(FERREIRA, 1981, p. 14). Em Xenhenhém, conjunto de 25 poemas publicados em 1951, encontramos um intitulado “O Meu Poema do São Francisco”. O poema começa com quatro versos anafóricos: “É Cabrobó! / É Orocó! / É o Ibó / É Curaçá!...” São nomes de cidades na divisa entre Pernambuco e Bahia. Do lado de Pernambuco (Cabrobó, Orocó e Ibó) ficam na região do rio e da serra de Ouricuri, do outro lado do São Francisco está Curaçá, na Bahia. A sonoridade dos nomes das cidades é explorada poeticamente. Em outro poema, “Sertão”, do livro Catimbó, também o poeta utiliza o efeito de explorar a sonoridade dos nomes das cidades, só que cria um itinerário diverso, partindo de Cabrobó em direção do sertão, até Exu, nome já evocativo das dificuldades e agruras do semi-árido: “Sertão! – Jatobá! / Sertão! Cabrobó! / -Cabrobó! / - Ouricuri! / -Exu! / -Exu!”. No poema do São Francisco, Ascenso Ferreira após a apresentação dos nomes das cidades, coloca um dístico que é o estribilho do poema: “Meu Deus, ela veio das bandas de lá! / Meu Deus, ela veio das bandas de lá!”. O viajante pede ao barqueiro que siga a voz encantada de mulher que segue pelo curso do rio: “Barqueiro, me traga o meu reco-reco, que eu quero chamá-la para um xenhenhém... Que nada! Ela é sempre para mim como um eco Que longe responde, porém nunca vem... Barqueiro, desçamos pelo rio abaixo... Vamos ver, barqueiro, aonde ela está.” A seguir, utilizando a mesma estratégia inicial, Ascenso apresenta o nome de quatro localidades baianas, tirando novamente o efeito estético de suas sonoridades: “Chorrochó / Cocorobó / Patamuté / UAUÁ!”. Este último nome de cidade é grafado com maiúsculas, chamando a atenção para o som do nome que se assemelha ao do choro, evocando o sentimento melancólico do eu-lírico em busca da voz de mulher. Após a repetição do estribilho e de novo pedido ao barqueiro que continue seguindo rio abaixo, segue-se novamente o nome de quatro cidades às margens do rio São Francisco, porém, agora elas não rimam nem supõem uma harmonia sonora com a mesma intensidade musical das anteriores: “E é Floresta / Itacuruba / Santo Antônio, / Jatobá!” Essa quebra de ritmo funciona no poema como aviso de que as águas tranqüilas do rio serão interrompidas, assim avisa o barqueiro: “-Passageiro, volte que lá é a cachoeira. É morte na certa, não teime, não vá!” O verso solitário a seguir é acompanhado por reticências e uma linha pontilhada – recurso que já notamos em Castro Alves – e o nome da cidade que evoca o choro: 45

“-Barqueiro, ela chama é mesmo de lá... ............................................................... -UAUÁ!!!” Em Ascenso Ferreira, como em Castro Alves, o percurso do rio cria um crescendo dramático até a cachoeira de Paulo Afonso. Em ambos, a busca da morte parece o objetivo dos navegantes como forma de fuga das desilusões da vida, a morte na cachoeira como representação também de um ritual de passagem para uma dimensão mágica da existência. 3. Dantas Motta e a Transposição do São Francisco para um Imaginário Sincrético de caráter cristão. Elegias do País das Gerais (1958), livro de poemas de Dantas Mota (1913-1974) apresenta um grande conjunto de poemas divididos em “livros” como se articulassem a estrutura de um grande livro sibilino. Referências bíblicas se misturam às figuras históricas do Brasil. Paisagens das terras bíblicas são metáforas constantes das paisagens visitadas por Dantas Mota em Minas Gerais e no Nordeste. Mário de Andrade numa das cartas que escreveu ao autor diz: “Suas Elegias das Gerais estão prontérrimas, lindas e re-relidas e anotadas.”(MOTA, 1988, p. 330). Uma das partes da obra Elegias do País das Gerais intitula-se “Quarto Livro: Epístola de São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, o Vale”. O título já nos apresenta uma sobreposição entre a figura do santo e do rio. No poema, o rio é a voz lírica que narra acerca de seu próprio curso e sua história de colonização. Acerca desse “Quarto Livro”, o próprio poeta em carta a João Condé escrevia: “Fui assim, à pasta a buscar os petrechos necessários à tosa, encontrando-os embrulhados numa página do suplemento ‘Sintra’ e, dentro dela, vista de cara, a seguinte notícia: ‘Em Aracaju, reuniram-se, na semana passada, os Bispos da Bacia do São Francisco para estudar os problemas advindos de sua transformação.’ Mais ou menos isso. Dessa notícia nasceu a idéia do poema, informe, imprecisa e vaga, com a visão de Jerusalém carregada de bispos, tetrarcas e ametistas, postados todos em Aracaju, a qual depois, era transunta do sergipano país para este, o das Gerais, e que tantos males tem infligido a este Brasil, por força de sua intemperança no juro, na política e nos juizados da paz.” (MOTA, 1988, p. 339) O discurso do rio é marcado pela dor, pela angústia de ser o rio que atravessa a região mais árida do país, estigmatizada pela pobreza, pelo abandono: “Ora, toda unidade é estéril e todo mistério, terrível. E me fizestes uno, misterioso e triste, Não segundo minha paisagem interior, de pobreza, Que estava certa, mas conforme vossa jurisdição, Que ia desde Paracatu do Príncipe, No País das Gerais, Até Olinda e Recife, no País de Pernambuco!” 46

Em determinado momento, buscando apresentar a nascente do rio, Dantas Mota nos mostra o rio comparando sua nascente na Serra da Canastra com um caixão e os peixes com o corpo do morto “Ora, tudo o que se verificar aquém e além dele (o caixão) / é um mistério de unidade estéril (...)// De vez que todo caixão é aquário, / e, como tal, é ele o invólucro; / e o corpo, que dentro dele navega, / sob um céu de morim barato, / o peixe facilmente deteriorável”. Personagens e cenários bíblicos aparecem em constância para compor a imagem desse rio triste e angustiado que é o São Francisco de Dantas Mota: Cristo, Melquisedeque, José, Jerusalém, Eufrates, Cativeiro na Babilônia, etc... A população ribeirinha é apresentada como a descendência de Agar: “Em verdade, subindo vou o Setentrião, / enquanto meus habitantes o Setentrião descendo vão / -Felás de um tempo redivivo, / tormentados com Hórus /(...)/Porque, apesar das secas e dos desertos / (gente proscrita da progênie de Agar) / há uma paisagem de riacho e rugas / nas faces chicoteadas de sol e peixe”. Em contrapartida Lampião, Canudos, e outros personagens e cenários do Nordeste são evocados misturados aos bíblicos: “E, provando a procedência deste razoado, / Uns homens sem respeito para a minha vergonha. / E a república, que triunfou de Canudos, / Batendo, depois, além dele, meu rei Lampião, / No qual, com o ser o meu renovo, me comprazo, / Aqui, empós alguns lustros e sóis passados, / Se sublimou em tetrarquias com os Cunegundes, / os Pantaleões, os Batista e os Santa Bárbara. / Afinal morri. Primeiro em vós. Depois em mim”. Desse modo, as revoltas populares, tanto a do cangaço (Lampião), quanto à mística-beata de Antônio Conselheiro são apresentadas como representativas do povo do São Francisco, ao passo que a República é – retomando uma colocação do próprio Antônio Conselheiro – como a Babilônia. Dantas Mota buscava desse modo fazer a crítica do abandono e do flagelo que a região do semi-árido se encontrava. O episódio do velho testamento referente ao cativeiro na Babilônia (Jeremias) é amalgamado poeticamente à vitória violenta e sangrenta da república sobre Canudos e sobre Lampião. O coronelismo que dominou a política regional se apresenta como o período de cativeiro propriamente dito, neste sentido o povo nordestino da região do sertão estaria em condição semelhante aos hebreus no cativeiro da Babilônia. A seguir, em “Recuperação do Paraíso”, o rio no seu discurso nos diz que deixou sua condição de rio natural para ser uma autarquia. A ironia se refere à construção da hidrelétrica de Paulo Afonso, a primeira grande hidrelétrica construída no seu curso. Delmiro Gouveia que em 1913 iniciou o processo de aproveitamento energético do rio São Francisco construindo a usina de Angiquinhos que aproveitava a força da cachoeira de modo parcial, mas cujo efeito posterior foi incentivar projetos maiores. Em 1948, Getúlio Vargas procede à criação da Chesf e se inicia a construção da Usina de Paulo Afonso, terminada em 1954, até então a maior usina hidrelétrica do país. “Morri eu afinal, que de Francisco mais não sou, Porquanto, hidrelétrico, em autarquia transformado fui.” O discurso do rio ironiza o processo de eletrificação, que de princípio atendeu aos interesses políticos dos coronéis, pois de fato, pequenas propriedades e até mesmo algumas cidades ficaram sem a energia de Paulo Afonso: “Uma lâmpada de mil velas brilha no fundo do inferno”. O trecho final, “As Alegorias em Trânsito”, nos apresenta um anjo 47

o rio se consola com o fato de que a energia que ilumina terras distantes.metamorfoseado em ave pousando sobre um comutador de energia no meio do sertão: “Um anjo. O surgimento das primeiras povoações se dá no contexto desse processo: “Então o povo crente ergue cruzes nas margens / e capelas / e igrejas. ave sagrada. / Depois desceram feras à procura de escravos”. No final. as almas formariam o sentido simbólico do rio Opara (São Francisco) como elementos que sofreram opressão. O garimpeiro deflorou a terra. beatos como Antônio Conselheiro e os jesuítas são postos lado a lado.” O rio compara sua nova face transfigurada com as batalhas que marcaram o início da reação russa contra a invasão nazista que. Jorge de Lima passa a evocar os nomes de pintores naturalistas e exploradores estrangeiros que no século XIX. O cangaceiro saqueou as vilas. Os capitães-de-mato deram caça aos negros. esquecidos. mostrando que na intensidade do delírio não tinham diferença. os escravos fugidos. desenharam. enquanto eu. / Sua dejecção de pássaro. é também continuação do próprio rio. Dura crítica de caráter marxista ao governo de Getúlio Vargas. Os missionários conquistaram as almas”. de certa forma. / Pousa num comutador e. / cemitérios. estudaram. / de poita / de groseira. Por extensão. violência. é o único que cita o nome indígena do rio: “E primeiro desceram pelo rio Opara / os homens que foram ferir a terra à procura de ouro. deixa. a convite da corte imperial. 4. As autarquias. Jorge de Lima e a História do Rio São Francisco Revisitada Jorge de Lima escreve o poema “Rio de São Francisco” para o livro Poemas. / Amém”. Dentre os poetas que analisamos. Henderson uma pescaria de jereré. com desprezo. a terra. com as asas cheias de poeira.” A cobiça é destacada como o motivo principal da conquista da região. / Esquecidos de que eu também posso ser / A curva de Dniéper / O cotovelo do Don. logo a seguir. O povo submisso (“turba genuflexa / beijando a terra”) seguia esses homens como se fossem santos. porém. à beira do abismo”. A conquista do rio é mostrada como a defloração violenta da natureza: “E todos eles defloraram o rio. / E eram antônios conselheiros e jesuítas / e eram missões / e era a turba genuflexa / beijando a terra por onde os santos iam. portanto antecedendo a Dantas Motta em mais de duas décadas. sob certo aspecto. escreveram e pintaram acerca da flora e fauna brasileiras: Henderson (Vem pintar. / Todo o norte se ilumina. o poema fala da religião e da escravidão como partes do processo de colonização: “E depois os que foram alçar a cruz para curar as chagas / que o ouro fez. o fero estado a que se refere o poema são comparados ao procedimento nazista. irmanados assim ao próprio rio.” Assim. / mas tem cuidado 48 . / Ou autarquias que o fero Estado cria. / de tarrafa. a sociedade anônima. / Vindo dos portões em ruínas do Paraíso. indica também o início da decadência do III Reich: “Se organizaram em quadrilhas de sociedade anônima. a devoção religiosa é apresentada como um delírio coletivo. agora transformado / transfigurado: “Também ilumino e não sou sol. 1928. as vilas. ali.

/ as nuvens. / Frei Doroteu renasce. Citase que as almas dos holandeses enterraram tesouros. guardando assim a cachoeira de Paulo Afonso para o clímax narrativo: “E o rio. Debret é o mais citado no poema. um dia enfim / deixa de chover no Piauí / não chove no Ceará”. ver o pitoresco do rio. / os outros rios vêm visitar o rio Opara”. cegos cantando. Cita então Jorge de Lima. / que o rio desce e as lendas descem com esse rio”. Delmiro que recusou vender sua empresa aos ingleses. meu Debret. devido ao que parece. ovelhas descendo das encostas. suspende-se esse ritmo descritivo-narrativo tênue para anunciar a chegada da estação da seca: “Mas um dia. potros correndo danados. meus irmãos. “E são bonitos. vai compondo os seus versos seguindo metaforicamente o curso do rio. Este é também um dos raros momentos em que o rio se personifica e assume a voz no poema. a briga que a companhia de linhas de algodão implantada por Delmiro Gouveia na região travava com a Machine Cotton (Linhas Corrente) da Inglaterra. Jorge de Lima faz menção da cultura folclórica acerca das lendas que envolvem o rio São Francisco: “Vinde caçadores de lendas. Halfeld e Saint-Hilaire (“Nisso tudo passaram Halfeld e Saint-Hilaire com as bandeiras / da sabedoria / e viram na Igreja Santa do Rosário / a baita coroa do Imperador do Divino”. / e espuma. / o canoeiro pachola tocador de violão”. / tenho para os vossos bichos um restinho de ervas no surrão”. O rio então surge como único refúgio: “Tenho água fresca.que as piranhas podem comer os teus pincéis. gado pastando nos cercados bodes pulando pelos morros.”. Como nos poetas anteriormente aqui citados. / as torrentes. meu Debret”. Então. / e o povo volta de novo / a tomar bênção ao Padre Cícero”. tenho aqui algum peixe. Numa parte relativamente grande do poema. feiras. Jorge de Lima. que um certo galo preto depenado canta à meia-noite “Salvador! Salvador!” Toda a vida das cidadezinhas é sintetizada em imagens instantâneas como flashes do cotidiano: “e quando o dia nasce. A seguir cita-se num verso o empreendimento pioneiro de Delmiro Gouveia: “E o cearense desceu com uma turbina na mão”. / E um dia os riachos. Debret (“Vem. enfrentava práticas de 49 . que o sino de Piranhas geme como gente no dia de finados. à maior notoriedade que sua obra alcançou (“Passam engenhos pitorescos. O fim da estação da seca e conseqüente volta das chuvas marca um intenso renascimento que no poema atinge âmbitos lendários e místicos: “e o homem delira outra vez a nevrose dos Sertões. e bate e dorme lá embaixo / como um gigante que sofre de ataques de convulsão”. há florestas de mastros pelos cais. / o Conselheiro renasce. e ruge. o grande rio como a alma do sertão / desce de Paulo Afonso com sete ataques de doido. O flagelo da fome é destacado: “-Senhor! dai-me que comer! Senhor”. vem.” O poema continua citando casos lendários entre descrições da navegação no rio: “E o rio desce. Debret”). / bandeirantes de todos os feitios.

dumping na disputa do mercado nacional. em água paralítica. e mais: porque assim estancada. e quando o mestiço inspirado pelo santo ia fazer o milagre da multiplicação e salvar o Nordeste e remir o sertão. a água se quebra em pedaços. faz alto à beira daquele leito tumba. nesse aspecto. antes. a fábrica de Delmiro foi finalmente vendida e logo depois desmontada. Em situação de poço. Dois anos depois. de areia múmia” (“Na Morte dos Rios”) Em “Rios sem Discurso”. a vegetação em volta. em poços de água. é porque assim estanque. muda. embora de unhas. estanque no poço dela mesma. João Cabral e o Sertão sem o Rio João Cabral de Melo Neto tem uma produção poética que tem como uma das marcas o cenário sertanejo. embora sabres. taxou o produto importado. em parte. o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. de rios intermitentes numa linguagem seca que lembra a de Graciliano Ramos na prosa: “Desde que no Alto Sertão um rio seca. e muda porque com nenhuma comunica. é o rio Capibaribe o seu rio preferido na poesia. Faz alto à agressão nata: jamais ocupa o rio de ossos areia. pela constante oposição que o poeta trata entre o cenário do sertão. Porém. intratável e agressiva. o rio São Francisco não é o cenário fluvial constante nos seus poemas. iluminaram os capões. Em 1926. do agreste e do litoral de Pernambuco. cortado. o presidente Artur Bernardes para proibir a prática desleal de concorrência inglesa no mercado de linhas. João Cabral trata dessa condição dos rios intermitentes que mal terminando a época das chuvas desaparecem: “Quando um rio corta. já no governo de Washington Luís. corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada. estancada. Essa ausência significativa do São Francisco na poesia de João Cabral pode ser explicada. por pressão de banqueiros ingleses a lei foi revogada. Delmiro foi assassinado em circunstâncias não esclarecidas em 1917: “E os braços edificaram a caatinga. o rio Capibaribe contém todos os elementos. 5. Quando João Cabral trata do sertão é um cenário sem água. 50 .

fio de água por que ele discorria”. O urubu não retira. imite o percurso do rio. por outro lado. A poesia de João Cabral quando trata do sertão pernambucano faz destacar a questão da seca. mostrando como. rústica é também o local de uma população sofrida. teremos. sob a divisa do progresso (construção da usina de Paulo Afonso. Ele. o urubu. a dureza da própria sociedade e do estado: “Durante as secas do Sertão.ex. Nesse âmbito. que esperar que a poesia do rio São Francisco continue 51 . Que o enquadrariam num melhor salário. João Cabral retorna à imagem dos rios intermitentes. Castro Alves e Ascenso Ferreira. pois prevendo cedo Que lhe imobilizarão a técnica e o tacto. porém. trata metaforicamente duma quebra de narratividade. passa a funcionário. Se o projeto der certo. quando presentemente se justifica e se apronta o início das obras de transposição do rio São Francisco em dois canais que cortarão o sertão de Pernambuco – um para atingir o Ceará e ligando-se à bacia hidrográfica daquele estado. João Cabral ao tratar dos rios intermitentes. para a opressão do estado sobre o indivíduo. Cala os serviços prestados e diplomas. ao tratarem do grande rio do Nordeste. justificando que o rio busca correr toda sua vazão num só dia como se tivesse medo de morrer em poços. não raras vezes. em Dantas Mota e em Jorge de Lima) se encontra espaço para a usurpação de direitos. podemos supor que poetas cantarão a grandiosidade e a beleza da obra como desde tempos imemoriais temos narrativas sobre o modo como os egípcios e babilônicos enfrentaram o deserto.porque cortou-se a sintaxe desse rio. de urubu livre. fazem com que a forma do poema. marcando bem as injustiças sociais ali cometidas (escravidão em Castro Alves). Se em Dantas Mota. da nascente à foz. Jorge de Lima. que no civil quer o morto claro. na sua sucessão de versos. quase como um deserto. mas ainda com zelos de novato: Aviando com eutanásia o morto incerto. e outro para seguir pela Paraíba – devemos supor que um novo cenário não apenas hidrográfico e econômico se propõe. esfacelado: “esses rios do Sertão falam tão claro / que induz ao suicídio a pressa deles: / para fugir na morte da vida em poças / que pega quem devagar por tanta sede”. Em “Os Rios de Um Dia”. para o cerceamento da liberdade. cuja natureza que lhe é agressiva. de modo que a natureza dura. se os receios de grupos mobilizados da sociedade contra a obra se justificarem. da quebra de discurso que o conjunto de poços e cacimbas representa. mas uma transformação também cultural.” (“O Urubu Imobilizado”) Podemos colocar a poesia dos poetas que tratarão do rio São Francisco e que foram aqui comentados como autores de textos que destacaram a grandiosidade natural do grande rio do Nordeste e que mostraram em diferentes aspectos o modo como a povoação da região se deu.. Veterano. pondo como ponto alto de dramaticidade a cachoeira de Paulo Afonso. E vai acolitar os empreiteiros da seca. não supera. afluentes temporãos do São Francisco. p. muitos deles. por certo.

ALVES. MELO NETO. Recife. como de autoria deste ou daquele mestre artesão mais reconhecido. Algumas carrancas. Seleção.sendo a poesia do drama. Dantas. Cana Caiana. Castro. José Olympio. da tensão. do cativeiro na Babilônia e a conseqüente travessia do deserto e. LIMA. quando apresentadas pelo marchand. Rio de Janeiro / Brasília. estudo e notas de Marisa Lajolo e Samira Campedelli. José Olympio. Nordestal. Obra Completa. para ficarmos efetivamente com o sertão de João Cabral. Rio de Janeiro. tanto quanto o suicídio de Lucas e Maria em Castro Alves. João Cabral. 1997. MOTA. Literatura Comentada. 1979. 1980. Rio de Janeiro. 1. MELO NETO. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. 1980. Poesia Completa. Castro. Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco As carrancas dos barcos do Vale do São Francisco hoje perderam sua função inicial de proteção das embarcações contra perigos concretos e imaginados do percurso do rio por uma função de peça de comércio artesanal. Nova Aguilar. Elegias do País das Gerais – Poesia Completa. 1980. como disse Jorge de Lima “o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. sem rio São Francisco. Rio de Janeiro. alcançam no 52 . do passageiro de Ascenso Ferreira. Ascenso. São Paulo. vol. Rio de Janeiro. 1981. 1988. do sofrimento enfim. João Cabral. ainda. José Olympio / INL. Ática. dos erros. BIBLIOGRAFIA ALVES. Poemas de Ascenso Ferreira: Catimbó. FERREIRA. Jorge de. Xenhenhém. Nova Fronteira. Antologia Poética.

os primeiros registros de existência das carrancas aparecem na segunda metade do século XIX. Guarany é bisneto de José Dy Lafuente. com o decréscimo e quase desaparecimento da navegação ribeirinha assim como o fim dos gaiolas. Um dos primeiros cronistas a mencioná-la foi Durval Vieira de Aguiar em 1882: ''Na proa vê-se uma carranca ou grifo de gigantescas formas.comércio de peças de artesanato internacional valores consideráveis. hoje conhecida como carranca. mas que peca pela ausência de dados comprováveis de qualquer uso de carrancas anterior ao período de colonização do Vale do São Francisco. bem como a adaptabilidade da carranca ao barco tornou-se um aspecto mais secundário. Assim. jesuíta espanhol. filho de Guarany. a história e a cultura dos povos ribeirinhos. bem como com suas feições agressivas afugentariam outros espíritos. a utilização das carrancas ganhou uma função de artefato artístico artesanal. ou simplesmente “Guarany”. um famoso carranqueiro de Pirapora perpetua. que começou sua produção em 1972 é outro importante artesão de carrancas. Mestre Davi tornou-se internacionalmente conhecido quando Jacques Cousteau levou uma carranca a todos os cantos do mundo pelo barco "Calypso". Ana das Carrancas é um dos nomes mais conhecidos quando se fala em carrancas do rio São Francisco Ubaldino. que no livro Os Vikings no Brasil argumenta que existem vários indícios dessa passagem. 2006) Alguns estudiosos mais ligados ao âmbito das teorias menos comprováveis cientificamente e de caráter mais polêmico. em Santa Filomena. hoje. refugiado do Convento da Bahia que amasiou-se com uma negra africana de Moçambique. quanto à origem das carrancas. p. segundo Zanoni Neves: “Na segunda metade do século XIX. destacou-se como o maior artista de carrancas. próximo a cidade de Juazeiro. Figura. no lugar de servirem como elemento protetor contra maus espíritos e perigos do rio. mais comumente têm sido utilizadas como peças decorativas de cantos de salas e escritórios. na Pedra da Gávea (RJ) e as carrancas que seria um costume transmitido pelos Vikings. de modelos sem dúvida transmitidos pelos exploradores dos tempos coloniais'' (1979. 53 . Pernambuco. onde passou a trabalhar como professor e constituiu sua família. seu aparecimento perde-se um pouco no tempo. através da arte de talhar a madeira. que avisariam com três gemidos a proximidade destes. De fato. figura de proa e leão de barca são os termos ou expressões que os remeiros e outros ribeirinhos utilizavam para se referirem às carrancas. nasceu em 1923. distrito de Ouricuri. às margens do São Francisco. estéticos e culturais das carrancas do São Francisco e as carrancas das galeras vikings. Alguns artesãos se destacaram na produção de carrancas. 33). Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987).”(Zanoni. Tese ousada. de modo que a flutuabilidade. De qualquer forma é inegável a possibilidade de comparações entre aspectos funcionais. indo morar na cidade de Curacá. filha de artesã e agricultor. como inscrições na Amazônia. as carrancas. sustentam que esse seria um indício da passagem dos Vikings pelo Brasil em época muito anterior ao descobrimento. os barqueiros adotaram a figura. Mestre Davi (Davi José Miranda Filho). Ana das Carrancas é Ana Leopoldina Santos. Um dos defensores dessa tese é Jacques Mahieu.

a carranca de barro como que se distancia da função de protetora do barco para ser a representação do espírito do rio que pode proteger ou não a embarcação em função da intenção do navegador ser aceita pelo rio ou não. de outra forma. são feitas de madeira. usa o barro extraído do próprio rio São Francisco para composição de suas figuras de carranca. representa o próprio corpo do animal formado pelo conjunto barco-carranca. nem tampouco a busca da explicação da origem das carrancas. astutos pela descoberta de riquezas teriam contra si o espírito do rio. mas diretamente na madeira o artista vai compondo a cabeça da figura. cavalinhos e santos de barro. com 3. As carrancas. Expedito ficou conhecido quando confeccionou a majestosa estátua de São Francisco de Assis. bem como o forno para cozimento. a popa. Nesse sentido. de cabeça do barco personificado ou metamorfoseado num vivente. metamorfoseado em animal aquático que desliza pelas águas do rio. havendo. Expedito Viana. dentes caninos proeminentes. carranqueira também de Pirapora. são apresentadas como figuras com bocas enormes abertas mostrando. como que garante à cabeça de carranca. uma identificação harmoniosa do material. Ana das Carrancas. em geral. em geral. Sendo originalmente artesã ceramista. tementes a Deus. que a produção de carrancas de barro. Com a utilização de instrumentos para o corte e o talhe da peça de madeira (facão. Não se tem o hábito de se fazer um esboço ou desenho. madeira ou barro. Listamos aqui apenas alguns dos nomes mais conhecidos no universo do artesanato de carrancas. pois. por sua parte. A de madeira tem com o barco. destaque nesse caso para as próprias mãos no ato de moldar o barro e o torno de oleiro. se colocava uma estrutura semelhante à calda do animal. boi-zebus. Essa identificação. agora quando ela passa a produzir carrancas também de barro o que ocorre é a transposição de uma técnica para outra. navegadores virtuosos. O que buscamos destacar nesse nosso breve texto. Assim. assim como os barcos a que se destinavam. por vezes. Nas galeras vikings era essa a conotação que a estrutura do barco buscava. Assim. sua boa e seus dentes 54 . Ao se fazer a carranca de barro. é fato. notadamente as de Ana das Carrancas têm uma função mais de peça decorativa artística de colecionadores e admiradores da arte popular do que propriamente a função de carrancas de embarcações. não é um painel dos artistas. também de madeira. que ao cabo. como no outro extremo. de Ouricuri. As carrancas. quebra-se essa harmonia de material. dá a dimensão da própria modificação da função de uso da carranca. Nosso intento maior é uma observação acerca do modo de produção das carrancas e um comentário acerca da natureza estética dessas figuras. porém. potes.Dona Lurdes Barroso. uma vez que as ferramentas para composição já não serão as mesmas. mas com o próprio rio sua identificação. brinquedos. ainda de Pirapora (MG) é outro importante artesão carranqueiro que preserva a arte de entalhar a madeira.5 metros de altura. feroz na ação de proteção da embarcação. machado e formão. navegantes gananciosos. é uma artista que demonstra habilidade no manuseio de instrumentos como facão. Tal boca e dentes têm a intenção de conotar a agressividade da figura. na Praça do Posto Três Palmeiras. que se encontra na Avenida Salmeron. Ana compunha antes panelas. a condição de vigia. uma vez que o barro vindo do leito do próprio rio agora mantém não com o barco. que navegam atendendo as necessidades das populações ribeirinhas seriam protegidos. contendo algumas não só a cabeça de carranca (em geral a cabeça de um dragão). machado e formão) o artesão vai moldando a peça de maneira intuitiva. Porém. colocada na ponta da proa. cuja cabeça é a carranca e o corpo o próprio barco. Simbolicamente o material usado.

de aspecto protetor. os olhos e os dentes. por sua vez. o mundo dos espíritos. como se fosse uma juba caindo pelos lados do pescoço da figura. pouco resistente às intempéries. as cabeças das carrancas têm aspectos antropomórficos híbridos. A língua. são de leão ou cachorro. mas principalmente o invisível. nos escritórios. um canto de aviso aos espíritos malignos da chegada da embarcação. Outras têm a coloração dourada também. quando são de aspecto humanóide.formam o primeiro aspecto dessa força animal e vital. Signo. no mais das vezes. Já as carrancas que são adquiridas por colecionadores. marcante no caso das de Guarany. O mal a serviço do bem. ao passo que a carranca se contrapõe pela agressividade nas suas formas monstruosas. Segue-se assim também as sobrancelhas. Santa Bárbara. numa espécie de homenagem incorporada ao seu imaginário. assim como o negro e o branco reforçam as idéias expostas pelos olhos. ou em alguns casos. José Vicente. De forma geral. ou descascada. algo diabólico. escravos que 55 . admiradores e turistas e que as colocam nas salas. conotam a noção de que tudo a carranca vê. algumas carrancas mais antigas têm a coloração desbotada. supõe-se um rugido. iourubá e/ou de nação de angola. que costumeiramente vazava os olhos de suas carrancas de barro. grandes também. sendo até o período anterior à abolição da escravidão. ou ainda. bem como da força que a protege. Nesse sentido. a imagem de algum santo ou santa (Nossa Senhora dos Navegantes. agressivas. são destacadas em tamanho assim como a boca. As cores formam outro aspecto importante da carranca. estas mantêm por mais tempo o vigor de suas cores. entre outras). Abrindo a boca. não acessível aos olhos do mundo físico. Os remeiros ou barqueiros eram predominantemente de característica negra. de uma associação entre a simbologia imagética característica de mitologia africana ou mesmo ameríndia com a religiosidade cristã. a carranca típica do São Francisco interpõe-se como o artefato que usa da força diabólica para uma missão de proteção ao navegante cristão. XIX). o nariz e o queixo. No caso específico de Ana das Carrancas. Sabemos que as primeiras populações ribeirinhas do Rio São Francisco a partir do período da colonização eram de característica negra ou índia. A cruz. Bom Jesus Protetor dos Navegantes. o conjunto da figura impressiona pela aglutinação de elementos desproporcionais que disputam o espaço da cabeça. ser cego. Desse modo. físico. cabelos. também têm o mesmo padrão de desproporcionalidade. do viajante Sir Richard Burton (1867). não apenas o mundo concreto. de Saint-Hilaire (séc. A cabeleira da carranca. tal característica dos olhos das carrancas de Ana mostra ainda mais esse aspecto de visão de um mundo invisível. formando um conjunto de aspecto monstruoso. Os olhos da carranca. descolorindo depois de algumas estações. Santo Olavo. XVII). São as cores mais usadas. a proteção declarada que a carranca oferece também apresenta um sentido invertido das figuras de proteção religiosa usadas na náutica. fruto da característica do pigmento. Numa espécie de simbiose ou sincretismo. por vezes. entre outros. demonstra a força vital e guerreira da carranca. boca e dentes. o espiritual e mágico. abrigadas que estão dos efeitos nocivos do sol e da água do rio. ao sol forte da região. devido ao fato de seu marido. quando é colocada na figura. talvez. como atestam relatos do Padre Martinho Nantes (séc. As orelhas. se caracterizam por uma imagem amistosa ou de bem-aventurança. Os aspectos africanos da carranca aparecem mais ainda quando observamos as que têm cores fortes (como o vermelho e o tom negro) com o fato das formas desproporcionais ou bem proeminentes como é característico das peças em madeira do artesanato antropomórfico africano banto. O vermelho usado em muitas figuras.

2002 O rio São Francisco e a Chapada Diamantina. Os Vikings no Brasil.1. Francisco Alves. São Paulo/Brasília.scielo. 2006. Padre M. que a cultura cabocla também incorporou elementos da cultura indígena. Não se deve esquecer. Belo Horizonte/São Paulo.br/scielo. Teodoro Sampaio traz informações mais detalhadas acerca da natureza étnica dos remeiros. como concretizações de figuras de espíritos malignos dominados pelo sentido cristão e postos a serviço da exploração das águas do rio. PARDAL. n. em geral. os elementos afro e ameríndio os aspectos estéticos e formais da carranca. Editora Nacional/MEC/INL. Trad. T. Jacques. Carrancas do São Francisco. SAMPAIO. A. grandes. Paulo. Prancha de Figuras – As Carrancas 56 . porém. NANTES. de um cruzamento de influências do imaginário cristão português. Itatiaia/Edusp. misturados sobremaneira com fortes doses do imaginário africano e ameríndio. Vivaldi Moreira. Companhia das Letras. Referências Bibliográficas: MAHIEU. fonte:Fonte:http://www. SAINT-HILAIRE. 1976. Martins Fontes. 1975a Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. de modo que a idéia de espíritos do rio e espíritos da mata possam ajudar ou prejudicar uma travessia é também natural do imaginário ameríndio. São Paulo. mas também com predominância da cor negra e lisos ajustam-se mais ao tipo étnico indígena sulamericano do que africano. a nosso ver. Rio de Janeiro. coleção Raízes. Os cabelos das carrancas. Zanoni. vol 46. NEVES. As carrancas são o resultado. O cristianismo deu o sentido de proteção. São Paulo. “Os Remeiros do São Francisco na Literatura” em: Revista de Antropologia. São Paulo.php?script=sci_arttext&pid=S003477012003000100004.faziam o serviço de travessia e ligação entre as diferentes cidades. notadamente do âmbito dos navegadores e exploradores transposto para o cenário da colonização do sertão. 1979 Relação de uma missão no rio São Francisco. Cia. 2003.

se analisamos o processo de povoação dessas regiões. As ninfas do Tibre. envolvendo carrancas. careca e mãos e pés de pato. O rio São Francisco também tem suas lendas. Esta lenda também é encontrada com referência ao rio Tocantins. se eles recusarem dar-lhe um peixe. Polifemo e Galatéia. Lembro do poema de Cláudio Manoel da Costa. são repositórios de lendas.Carrancas típicas em escala industrial. vapores assombrados. muitas vezes. do Tejo são cantadas desde a poesia barroca. Personagem de destaque no Macunaíma de Mário de Andrade. Mãe d’água. Uma das lendas mais curiosas do folclore do rio São Francisco é a “A Lenda do Nego D’Água”. 57 . preto. Pareceme que aqui é o caso de uma migração da lenda do São Francisco para o Tocantins. Aparecendo dás águas com suas gargalhadas. recriando a lenda em águas do ribeirão do Carmo. Minas Gerais. Ana das Carrancas e algumas de suas carrancas de barro Três carrancas de madeira do mestre Guarany A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco Os rios. espíritos maus. este modelo é reproduzido aos milhares. Com origem na mitologia indígena temos a Iara. o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores. além do imaginário palaciano e de cavalaria.

Remou apressadamente em direção ao animal.br) 58 .valedoriosaofrancisco. desapareceu no fundo das águas. adora fumo. dos quais muitos dizem já ter o visto. principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil e no Rio São Francisco. Suas características são muito peculiares. passeando entre os que estão adormecidos. Apesar de viver também fora da água. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio. agradando assim o Negro D’Água. o que sossega os corações das mães. (Fonte: www. Segundo a Lenda do Negro D'Água. Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas. muito difundida entre os pescadores. os beiradeiros jogam nesse ponto cacos de vidro. e aí tentou encostar a canoa para verificar a marca ou ferro. Quando não gosta de um pescador. (Fonte: www. Nesse instante lembrou-se o pescador que trazia um pequeno pedaço de fumo. para avisar ao dono. o ‘nego d’água’. ele seria a fusão de homem negro alto e forte. O fato é que o nego d'água.com.com. levar uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio. costume que faz com que os pescadores atirem fumo a água para cair nas graças do negrinho que gosta desse agrado. para roubar-lhes fumo ou beiju”. como também escava suas covas na base do barranco da beira do rio. percebendo ao se aproximar que se tratava de um cavalo. com um anfíbio. a canoa foi sacudida. para que não tenham sua embarcação virada. quando o animal afundou e logo em seguida. ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio. afugenta os peixes. Alguns dizem que existe apenas um nego d'água em todo o rio. Conta-se o caso de que certa feita no Rio São Francisco deu-se o seguinte acontecimento: “Um pescador contou que pescava a noite quando percebeu um vulto de um animal morto boiando na correnteza. espécie de versão afro-masculina da sereia. tange-os para longe da rede de pesca. percebendo o pescador que um nego d’água agarrado à borda da embarcação tentava virá-la. costuma aparecer nas casas de farinha das ilhas ou dos barrancos e noite de farinhada. corpo coberto de escamas mistas com pele. o que provoca tombamento do mesmo. pois a noite os pequenos só se aproximavam da água acompanhados por adultos”. ele nunca se afasta muito da beira do rio. Para afugentá-lo desses locais que terminava alargando o rio. outros dizem que são muitos. Não há evidências de como surgiu a Lenda. sua função seria a de amedrontar as pessoas que por ali passam. partindo anzóis de pesca. ao sair para pescar.Alguns pescadores guardam o hábito supersticioso de.br) Outro fato narrado no São Francisco e que envolve a figura do Negro D’Água é a seguinte: “Há quem afirme de viva voz que já viu aquela figurinha atarracada de cabeça grande e olho no meio da testa.valedoriosaofrancisco. que amedrontam o caboclo d’água. o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele. furando redes e dando sustos em pessoas a barco. que imediatamente atirou para o neguinho que dando cambalhotas. comumente depois que os trabalhadores se acomodam para dormir. que habita nos locais dos rochedos do meio do rio.etc. Como a caipora. povoa a imaginação de todo menino beiradeiro.

oferecendo-lhe fumo. ele arrasta as mulheres bonitas que encontra nas margens do rio e leva para o seu reino. nas informações turísticas da cidade. causa uma surpresa na paisagem das águas ao olhar do observador. 1956) Edilberto Trigueiros no livro A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco esclarece a respeito da lenda do Negro D’Água a sua origem: “Também chamado moleque d’água. adaptado às condições mesológicas do São Francisco. Nós remou depressa pra lá. apresenta-se como materialização do imaginário das lendas. num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. aqui chamado de Caboclo D’Água: “O senhô pode me creiá. nós escutou os menino gritando demais. o artista plástico Ledo-ivo Gomes de Oliveira criou uma de suas principais obras plásticas. segundo ribeirinhos.A. Muitos desconhecendo a lenda ou o motivo da obra se perguntam como ela foi parar lá no meio do rio? Ao aproximar de barco ou de canoa da estátua ela começa a impressionar pelo tamanho. Eventualmente. se diz a respeito da lenda que: “O Nego D’ Água vive no fundo do rio São Francisco. eu mais o fio mais novo. noutra. embaraiando o sem-vergonha. colocada sobre uma pedra. A estátua do Negro D’Água.124) Na cidade de Juazeiro. A estátua que se vê como que emergindo das águas. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos. turistas ou crianças descem à pedra e rodeiam à estátua. de uns dezoito janeiros de idade. maretando o rio. donde nós tava. Encantado como eles ficou.Segundo o site da prefeitura de Juazeiro. ele leva-os para o seu reino como escravos. mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: "Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai". O Nego D’Água gosta de batuque nas proas das embarcações e tem o poder de naufragá-las”. Nisso. algumas vezes subindo pelas suas costas até seus ombros. tudo leva a crer tratar-se de um símbolo transplantado do mito hidrolático da Mãe D’Água (a Iemanjá dos negros iorubas do litoral). até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede. 1977. recriando a linguagem do caboclo. p. com doze metros de altura. A referida obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira é de grande beleza plástica.” (J. sentada sobre uma pedra. E nós viu. acerca de um ataque do Negro D’Água. o caçula. nas águas do São Francisco. Eles três tavam numa canoa e. numa pescaria. A.” (TRIGUEIROS. no escuro que fazia. Conhecido também como compadre das águas. Macedo. 59 . Existe uma versão narrada por J. Eu e meus dois menino. Dizem que ele é meio homem e meio lontra. pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar. Os homens que não ouvem seus apelos. o bicho rolar pra dentro d'água. Macedo.

pois. liturgicamente. repugnação ou receio a figura da estátua. quanto de sua pose. Semiologia. como um Michelangelo à Davi: ‘ Parla !!!’ ” Está claro aí a presença de influências clássicas e renascentistas na obra do artista. denotando assim. a certa altura lemos: “Estudante Autodidata.. Historia da Arte (Antiga e Contemporânea). existem relatos de ribeirinhos que alegam ter visto o Negro D’Água como sendo de baixa estatura e atarracado. O rosto delgado tem sobrancelhas bem definidas e salientes e o pescoço longo. Essa versão apresentada por Ledo-ivo tem de certo implicações com uma tentativa – consciente ou inconsciente – de harmonização com preceitos clássicos de estrutura das partes da obra e de aparência segundo dados de uma anatomia fundamentadas no número de ouro e na divina proporção. como quem quer ver ao longe completa os tênues traços anfíbios. nas bibliotecas e ateliês da vida . tanto de sua aparência. o artista plástico se preocupou em apresentar uma versão do Negro D’Água de belas feições e com harmonia das partes. A figura se posiciona como quem observa ao longe. quando se faz necessário. como a utilização do grotesco. do disforme. mas é clássica no sentido de buscar a harmonia da figura com a anatomia e as proporções da figura humana.A estátua tem uma aparência bela. sentado sobre a pedra. esticado. embora os traços pouco lembrem a aparência dos afro-descendentes. de cabeça achatada. Na página da Internet que apresenta dados do artista. Spock. 60 . A pedra utilizada. numa posição de observador tranqüilo mas atento. Não é. continuou seus estudos de Historia..à Verdadeira Expressão desta Arte. ele. A figura tem pés e pernas humanas. de cor escura é que dá o sentido de se tratar da imagem de um caboclo negro. mais agradável. As orelhas são pontudas que lembram as do personagem de Jornada nas Estrelas. o medo pela agradabilidade. a reportar a esse mesmo Homem o seu próprio Significado Existencial e às suas Origens. seguindo o preceito clássico horaciano e aristotélico. Filosofia e Comunicação. essencialmente. com que. de tal forma que não nos causa medo. De anfíbio o que temos na estátua é uma espinha dorsal externa escamada que parte do alto da cabeça até o cócix. O personagem é assim redimensionado a um sentido mais humano. mas de imediato nos impressiona a sua beleza harmoniosa. entalha e esculpi. Sociologia. cuja relação primordial é com a própria Arquitetura e. descritas no renascimento pelo homem vitruviano. em meio a Brutal interferência do Homem com o Meio-ambiente. a sua Origem Espiritual. Substitui-se desse modo na lenda. no sentido das características típicas do moderno. lapidando assim seu “ Formão da Vida ”.” No caso da estátua do Negro D’Água encontramos na versão classicizante do personagem folclórico a intenção de buscar esse “significado existencial”. apoiando a perna direita dobrada com o auxílio da mão direita. Segundo o próprio artista sua arte tem a característica de buscar a: “ . o que se poderia classificar como uma obra plástica moderna. Aliás. funcionando a sua Obra como uma espécie de Marco-humanizador. com o Urbanismo. Dr. Geopolítica. modificando assim a descrição geral do Negro D’Água que costuma referir as suas partes baixas como as de um anfíbio.

asp 61 .Três fotografias do Negro D’Água.jangadabrasil. Internet: JANGADA BRASIL.br/revista/galeria/ca84011f. http://www. Edilberto.com. obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira. J. A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco. Folha de Minas. Referências: MACEDO. 1977. Belo Horizonte. FUNARTE. "O caboclo-d'água". A. Rio de Janeiro. 2 de dezembro de 1956 TRIGUEIROS.

Algumas Considerações Acerca de Algumas Representações Pictóricas do São Francisco Neste capítulo pretendemos comentar acerca de algumas telas de pintura cujo tema é o Rio São Francisco. como acerca das lendas. antes o que pudemos fazer é tratar das telas as quais tivemos acesso mais imediato. acreditamos. poder contribuir para o entendimento do processo do imaginário que formou na consciência nacional uma representação do rio. telas com temas ao rio São Francisco ligado. histórico-pictórico a levantar todas ou as principais telas. Pinturas Holandesas 62 . das festas populares das populações ribeirinhas ao Velho Chico. das carrancas. Sabemos que não são poucas as telas que foram pintadas com o tema do rio São Francisco. ou ainda. 1. Não poderíamos aqui fazer um verdadeiro livro de arte panorâmico. Com essas considerações.

Ao fundo na outra margem. é pouco provável que a paca se dispusesse a servir de modelo. vemos uma paca de pelo marrom escuro. como que querendo beber água. de avaliar a 63 . A paca ali pintada é com o objetivo de fornecer dados sobre a fauna local. e com o tronco acinzentado. percebe-se o forte holandês. podemos observar com destaque às margens. um xique-xique. Demonstrando a firmeza da ocupação holandesa na região. pinta o rio São Francisco. o preceito de que o pintor deve escolher o cenário ou o momento mais significativo de um propósito geral para que possa ter nesse momento os elementos que realmente possam expressar o que se deseja ou se busca. Pouco à frente do xique-xique. esta parece dominada por vegetação rasteira ou arbustiva. sobre umas pedras. A ocupação holandesa. bem como sobre as condições de povoamento. mas em floração. é plausível encontrá-la com freqüência próximo ao rio. de modo que nela vemos informações sobre a vegetação e a fauna da região. formado por gomos. um barco atracado à margem. Acresce a isso. Franz Post que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644. ao que me parece. Um de seus quadros. com isso Post informa sobre a natureza climática da região. Seguindo. bem como da passividade com que as pacas se portavam diante da presença humana na terra ainda pouco desbravada. tais estranhezas não alteram o significado geral da planta cactácea ali pintada. Post pinta uma paisagem das margens do São Francisco. Os artistas holandeses a serviço de Maurício de Nassau puderam pintar vários aspectos da vida e da paisagem colonial daquela parte do Brasil.Começamos por falar das pinturas holandesas do século XVII. 10 das quais ainda desaparecidas. Ligeiramente retorcido. acredita-se que tenha pintado pelo menos 18 telas. uma estrada de terra que leva até o forte. Pelo tamanho da paca e do xique-xique e o tamanho com que aparece o barco e o forte ao fundo. principalmente em Pernambuco. Natural de vegetação do semi-árido. mesmo na distante outra margem que aparece ao fundo. Se pensamos no tempo real que o pintor levaria para a pintura. tranqüilamente ali. calmamente. Rio São Francisco Primeiro. o fato de que em toda tela não se destaca nenhuma árvore. Franz Post. temos na possibilidade da perspectiva aplicada pelo pintor. trouxe algumas contribuições para a formação cultural da região.

Franz Post pinta a cachoeira de Paulo Afonso. Post fez por pintar a cachoeira de tal maneira que parecesse pouco mais do que as que são comuns há muitos outros rios de vazão menor que o São Francisco. Noutra tela. suíço ou alemão.distância duma margem à outra. já após a queda ela se reconforma para seguir seu caminho e no modo como os rochedos parecem resistir à força brutal da cachoeira. mostrando aos olhos de que observa o quadro quão largo é naquele trecho o rio. Todavia. Colocando-se o pintor num ângulo de relativa distância para que pudesse pintar um plano geral de frente da queda d’água. se austríaco.F. Podemos comparar esse quadro de Post com um pintado posteriormente por E. praticamente sem ondas. 64 . a beleza da pintura paisagística de Post esta lá ainda presente. agora. Cachoeira de Paulo Afonso A pintura de Post. Não nos dão os elementos da tela (pedras. de como depois. não dá ao observador a dimensão do tamanho da queda d’água. vegetação) nada que sirva de parâmetro para uma aproximada medida da cachoeira. Á época em que pintou ela ainda não tinha esse nome. dá dados da facilidade de navegação. Franz Post. porém. Ainda as águas calmas. chamada antes pelos portugueses de “Sumidouro” ou “Forquilha”. no modo como dá o efeito de queda d’água.Schute – pouco se sabe acerca desse pintor. inclusive existem dúvidas sobre sua nacionalidade.

Em primeiro plano vemos uma palmeira pendendo em direção à queda d’água. para alcançar o outro lado dos rochedos. Vingboons. que pintou a região de Penedo. A névoa que se levanta da cachoeira também tem um efeito plástico belo. deixando-nos a impressão de que as figuras humanas ali paradas estão não só admirando a paisagem. e as água vem de pelo menos três direções diferentes. Schute se coloca no alto dos rochedos. Penedo 65 . no primeiro plano temos o domínio dos tons escuros. Escolhendo um ângulo diferente de Post. como se buscassem demonstrar a altura da queda. O quadro é de metade do século XIX.Schute. como que anunciando um final de tarde. mas também percebendo qual dura será a travessia. Reforçando essa impressão da hora.F. Aqui em Schute a pintura paisagística é nitidamente romântica. em que algumas árvores pairam à beirada. numa posição que permita ver o alto da queda.E. Jan Vingboons. Cachoeira de Paulo Afonso. caso se dispusessem a fazer. 1850 possivelmente. O quadro do rio São Francisco de Post pode ser comparado com a ilustração de um compatriota seu. As figuras estão de costas para o observador. O céu de várias tonalidades de azul no alto. vai baixando para um tom próximo do rosicler ao fundo. como se estivessem convidando o observador do quadro a olhar o cenário e admirá-lo também. mais ao fundo duas figuras humanas servem de parâmetro para que se possa ter noção do volume e da extensão de águas ali.

A bandeira das caravelas parece ser de tropas coloniais portuguesas. o azul vivo das águas. o verde e o vermelho dos barcos. Um exemplo é o pintor Militão dos Santos. as casas. principalmente os oriundos da região do vale e do Nordeste em geral. Os vários barcos pequenos colocados próximos às vilas dão a idéia de um lugar de muita movimentação. nas margens ou na vila. alguns com aspectos de barcos de pesca. o marrom avermelhado e o negro da terra.Na pintura de Vingboons vemos uma frota de barcos. casas e estradas é que sugerem que em cena existam muitas pessoas em ação. Uma de suas telas intitula-se “Rio São Francisco”. assim como o vôo dos pássaros. os agrupamentos de pessoas. 2. e a vila aparenta calma. natural do Recife. outro vem à direita. Artista de caráter primitivista. o rio São Francisco tem sido tema recorrente de vários pintores. sugerindo a descrição do ataque das forças baianas na reconquista de Penedo. 66 . surdo. porém seu plano é mais próximo. Não se vê figura humana. Os barcos. A vegetação presente na margem de primeiro plano é diferente da que se apresenta em Post. seja nos barcos. uma vez que não temos sinal do xique-xique. Vemos muitos barcos menores. Adotando as idéias de composição e cores apreendidas com Rubens Fortes Bustamante. as cores das roupas e as cores das casas. Pinturas Contemporâneas No âmbito das pinturas contemporâneas e modernas. assim as duas caravelas portuguesas que ali aparecem passam a idéia de que seja a ação de um agressor que vem quebrar a ordem e o progresso do lugar. o que vemos é uma riqueza de cores contrastantes. Vingboons coloca-se num ângulo muito parecido ao de Post. O movimento também é sincrônico e complementar. em proposição de complementaridade. mas de uma vegetação verde rasteira. as plantações de hortaliças bem verdes. um deles inclusive atirando de seus canhões. um barco vai à esquerda. focalizando mais nitidamente as casas e construções da outra margem.

Sua pintura de caráter primitivista é bem colorida e com bastante movimento. tem 67 . O Sol. Josinaldo Ferreira nasceu em Remanso (BA) em 1951. que se confunde com o horizonte. branca. lembrando um bocado das pinturas modernistas da década de 20. Josinaldo Ferreira . a sugerir o domínio do Sol. sugerindo a idéia duma terra adubada. por vezes numa riqueza de contrastes. Por outro lado. mas as cores vivas. rica em húmus. pintadas como se lembrassem fogos de artifício explodindo ou enormes lírios dos campos coloridos. e outra superior. não está pintado no cenário do quadro. por sua vez. uma intermediária. num amarelo ocre. uma azul. Rio São Francisco A copa das árvores de João Militão. fortes. árvores. para sugerir o espaço ocupado por duas colinas. O céu dividido em três faixas.João Militão. Mais ao fundo a campina verde se faz presente em duas tonalidades de verde. de pintar movimento e variedade de personagens encontramos também em outro pintor da região. casas. e a riqueza de movimentos e personagens passam essa idéia de dia cheio de luz. Essa característica primitivista de utilizar cores vivas. tudo delimitado quase que geometricamente. na sua disposição radial de folhas. fortes. bandeiras. Seus quadros são repletos de figuras humanas. a compor o espaço das nuvens. Parte da terra da plantação é pintada em cor negra.

o tempo é circular. Josinaldo Ferreira. Assim. passa a impressão da circularidade. confluindo nas matas ciliares que acompanham o rio.também uma certa similaridade com as xilogravuras nordestinas. podemos notar o barco passando pelo rio São Francisco. atualizada. O uso das cores. na outra margem. lembra a dos românticos paisagistas como Benedito Calixto. nessa tela. No quadro “O Velho Chico”. também se notabiliza por uma pintura com temas locais – do rio São Francisco e do sertão – mas sua técnica é diferente do primitivismo de Josinaldo Ferreira. como se essa paisagem se mantive repetitivamente sendo reencenada. 68 . para o longínquo. Augusto Muller ou Fachinetti. Rio São Francisco No quadro que apresentamos nesse artigo. tudo numa configuração de movimento mais calma. pessoas fazem acenos para o barco. Na margem do rio. Na margem umas canoas. demonstrando assim um certo aspecto de isolamento do lugar. Notemos as camisetas listradas das pessoas. todas com listras horizontais. Ao fundo. pessoas lavando-se ou lavando roupas. reconfigurada para o momento contemporâneo. como se as águas do rio dirigem-se nosso olhar para o infinito. criando uma relação de similaridade com o rio. uma vela dum pequeno barco. carregado de pessoas e bandeirolas. Joel Dantas. Porém. a perspectiva e a disposição de seus elementos criam essa sensação. no que concerne à forma e ao uso da perspectiva. quanto à Lua aparecendo e recebendo ainda os raios do Sol que se encontra ao poente. perpendicularmente ao olhar do observador. nascido em Pilão Arcado (BA) em 1950. mais lenta como o fluir das águas serenas do rio São Francisco. Essa forma festiva de apreensão pictórica da realidade local é uma característica advinda da simpatia e da amabilidade da população ribeirinha que apesar das dificuldades cotidianas sem mantém assim por natureza mesmo de sua gente. A terra vermelha e a cor bronzeada da pele das pessoas dão outra similaridade ao quadro. o céu azulado e um astro avermelhado que tanto pode ser o Sol em rosicler. O céu azul e branco pintado como parte de uma abóbada. coqueiros. o rio é colocado em perspectiva. mais paisagística. Sua técnica.

promovida pela ONG Sociedade Semear. O título provocativo se justifica pela moldura. O Velho Chico. se divertindo ás margens. apresentada na exposição “Águas de Março”. o objetivo é justificado. mas apenas nesse sentido. Rio São Francisco Joel Dantas tem outra tela. Se o propósito foi a crítica ao modo como as questões do rio São Francisco são tratadas. a contradição de estilos. feita de canos de pvc. mas tem outra mais latente ao meu modo de ver. O cenário apresentando em pouco difere da técnica comentada do quadro anterior. entre março e maio de 2007. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira”. O distanciamento do olhar do observador faz que vejamos um panorama de pessoas nadando. mulheres e homens ali numa conjunção prazerosa com o rio. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira Aqui a contradição é absoluta. ao centro da parte inferior da moldura. também de pvc. tela e moldura. Joel Dantas.Joel Dantas. fechando numa torneira. “O Velho Chico. exceto por conter uma maior movimentação das figuras e uma vida mais alegre. A moldura em pvc cria um contraste de tal densidade com a tela que é difícil pensar numa unidade artística entre ambas. não só de conteúdos: a água do rio e a água encanada que nunca chega. Crianças. Um barco com carranca aportado à margem. uma vez que artisticamente talvez fosse merecedora a tela também de uma pintura 69 .

mas apresentado na sua crueza. de caráter modernista. deve-se também observar esse distanciamento como significativo mesmo da 70 . mas por outro lado. Paul Berenson. numa técnica mais abstrata ou concreta. a margem virtual que aponta para o espaço real em que se encontra o observador do quadro. estivesse o artista olhando pela janela do avião a paisagem e se inspirou por retratá-la. sugerindo quase que uma névoa. São formas diferentes de apreender a realidade pictórica do vale do São Francisco. num predomínio dum plano mais próximo. é rica de cores. meio fantasmático. meio místico. as praias do litoral nordestino são seus temas preferidos. mais geométrica. O fundo todo azulado mistura-se com as águas do rio. como que querendo assustar a quem a vê. costuma pintar quadros dos locais por onde viaja. sem camisa. Um de seus quadros intitula-se “Mouth of São Francisco River” e nesse caso. choque que não foi resolvido. parece ter que fazer uso de força para empurrar com o remo o barco.que se ajustasse melhor ao quadro. O Rio de Janeiro. Suponho. Márcia Berenguer Cabral. pintor norte-americano. a floresta Amazônica. Aqui a idéia de uma viagem de solidão se contrapõe à alegria festiva do barco de Josinaldo Ferreira. Salvador (BA). Carranca O barqueiro. O barco com a carranca surge assim. ouve o choque entre a linha de pintura do autor e a ousadia da mensagem provocativa. desafiadora e envolventemente neobarroca. penso eu. a perspectiva é colocada de modo que o observador como que estivesse numa posição inferior ao barco. O Brasil é um dos seus destinos preferidos. vindo de outras eras para o presente do observador. Márcia Berenguer Cabral nasceu em 1948. No quadro “Carranca do São Francisco”. é de se teorizar sobre a técnica. O que se vê é uma abstração pictórica da visão área que se tem da boca do rio. mas diferente de Josinaldo Ferreira. Num certo sentido. Sua pintura. rica de contradições históricas. assim a carranca se situa num canto superior da tela. Nesse ponto. sinalizando que este se aproxima da margem. emprega uma técnica de suspensão ou indefinição do fundo e de valorização da figura de primeiro plano. sobre usa contemporaneidade. o que nos passa é a idéia do distanciamento. culturais e por isso mesmo. sociais. atualmente vive em Portugal. Desde 1971 este pintor vem construindo um conjunto de obras com mais de duas mil telas. esta mesma.

compondo uma forma indefinida que só ganha sentido concreto quando olhamos seu título. Penso eu. modernas e artísticas acerca da pintura. caindo pelos lados. o distanciamento revela-nos quase um quadro abstrativista. porém. da gente e da terra que retrata em suas telas. dando a entender que caem pelo excesso de calor e aridez da paisagem. Êta Transposição 71 . “O Ovo”. Paul Berenson. “Êta Transposição”. “Antropofagia”). O fundo é todo de tons vermelhos e o Sol. Duas delas. No quadro de Mallet vemos uma espécie de cacto que. 1942). portanto. Alfredo Mallet. como se fosse também pelo peso da água acumulada.compreensão do lugar. mas pela robustez delas. que seria mais interessante se não tivesse o título e poderíamos aventar hipóteses mais estruturalistas. O verde e o azul. faltam os espinhos. O título. enfim. o de um pintor turista. esse é seu olhar. o olhar de turista encantado com a Natureza local. se constitui de três bagas bem rombudas. A tela lembra um pouco um estilo de pintura de Tarsila do Amaral (“Abaporu”. Locais turísticos. São Francisco Mouth Na já cita exposição “Águas de Março”notamos o quadro de Alfredo Mallet (Rio de Janeiro. também vermelho. Pelo contrário. No caso particular dessa tela. revela-nos apenas o óbvio. Uma baga superior se empina firme em direção ao Sol. se mistura com o fundo.

o aspecto ecológico entra como componente crítico de avaliação do processo de interiorização. Recuperando o nome indígena do rio São Francisco. mas é de se destacar nesse quadro. o processo se deu. cerca de 70 anos após o advento do Modernismo. de modo que sua aparente robustez logo se desvanecerá. uma vez que apresenta o calor. por outro lado. nos remetem a um novo tópico. nesse sentido. Ainda se pode interpretar que o estranho cacto ali no cenário semi-árido seja simbolicamente o próprio projeto de transposição. sendo vencido aos poucos pela incongruência da paisagem. Lágrimas de Opará 72 . Na exposição “Águas de Março” apresentou a obra “Lágrimas de Opará”. 1956) destaca-se como artista pelo trabalho de escultor. ou. Antônio da Cruz (Maruim. ou melhor. SE. na maioria das vezes. seja pelo modo consumista e destrutivo com que. de cujos olhos escorrem dois filetes derretidos de aço inoxidável. O cacto na tela de Mallet é. no mais das vezes. Os filetes derretidos caem sobre um bloco. a necessidade desse processo.A terra num tom ocre oleoso sugere a aridez do terreno. tem resultados insatisfatórios. Antônio da Cruz apresenta uma máscara em cobre. entendemos que a transposição viria a solucionar o problema da seca. A luta do homem para o domínio da Natureza de modo a torná-la sujeita as necessidades humanas. Assim. a aridez. pois. representativo desse processo. Antônio da Cruz. como se fossem as lágrimas num choro contínuo. e sua comparação com as citadas obras de Tarsila. A lembrança com o estilo de Tarsila do Amaral não é uma característica constante da obra de Alfredo Mallet. algo ambígua. qual seja a questão do modo como os modernistas de São Paulo e Rio de Janeiro viam o processo de interiorização. porém tal luta. A interpretação do quadro é. Ou entendemos que a obra é contrária à transposição. seja pelo desequilíbrio ecológico. aludindo assim a provável falta de planejamento que os críticos do projeto buscam demonstrar. caem pela sua frente e continuam pelo chão.

Na mesma exposição.br/noticias/19820081283251459) Porém. sem perspectiva e uma mandala se coloca ali como o Sol – signo artístico de Ismael Pereira. transforma o produto artístico em panfleto. inclusive. “Eu acho que o abstrato tem como pátria a humanidade e como bandeira. Numa notícia chamando a atenção para a última semana desta exposição. que se realiza no próprio meio. perpendicularmente à tarja. É uma coisa muito universal. peca pelo excesso de intenção engajada. uma homenagem ao gênio Arthur Bispo do Rosário (1909-1989).cinform. vemos uma tarja preta com a frase: “. Lá estão a fênix. o equilíbrio em que a obra de arte continue sendo obra de arte e o engajamento sócio-político. Nem sempre a primeira impressão. se faz submergir diante do sentido extra-artístico. ao invés de ser dominado por esta escola. E eu gosto muito dessa liberdade”. uma vez que a mensagem artística. denuncia um processo apressado de engajamento. uma de suas obras mais conhecidas é justamente uma intitulada “Mandala”. Assim.” (fonte: http://www. que passa. um desenho de uma placa vermelha com o dizer “TransImposição”..com. os jarros com flores. aqui é o próprio quem chora agora e suas lágrimas são de aço derretido. Ícone do neo-regionalista. do “Neo-regionalismo para o Abstracionismo Informal”. o rio que na mitologia indígena se forma pelas lágrimas da linda Iati. aço inoxidável e cobre dão uma concretude contemporânea. a primeira palavra é que melhor se adequa à obra. lemos: “Os trabalhos são inspirados em temas que vão desde a mitologia greco-romana à cultura popular do Nordeste. ressignifica o mito de Opará. como ele mesmo intitula uma de suas exposições. Um fundo cinza. ao meu modo de ver. o quadro “Era uma vez um Rio São Francisco”. num processo em que tal transformação resulta numa diminuição de suas qualidades estéticas. Crítica ao progresso desmedido que não se preocupa com a preservação ambiental. os galos de briga. É difícil conseguir a alquimia adequada. no caso.A obra num estilo bem contemporâneo.. chorando a ausência de seu amado guerreiro. Os materiais usados. No caso da obra em questão. 73 . ele enveredou pelo abstracionismo porque possui qualidades para dominar. o antigo Farol da Atalaia e. declara o sergipano de Capela. porém. o sol. O vocábulo portmanteau. Assim é como Ismael Pereira define a exposição. Não raras vezes o desejo de engajamento numa causa política ou social. “Ousadia sexagenária”. A máscara se apresenta como o mito antigo diante das contradições do mundo moderno. o político-social.Era uma Vez um Rio São Francisco”. ao bom estilo modernista. temos a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” de Ismael Pereira.

Aurora. tem um conjunto de três telas acerca do Rio São Francisco. pelo modo metalingüístico e poético com que se apropria de lemas da revolução russa. e. Rico de combinações de cores. redimensionam o espaço pictórico num jogo criativo e encantador aos sentidos visual e táctil. As cores formam o espectro do cenário: o verde das matas. Gonçalo Ivo (Rio de Janeiro. As cores de Gonçalo Ivo. filho do poeta Ledo Ivo. justificadas por um contexto da fluvialidade das águas.Era uma Vez Um Rio São Francisco O verbal aqui suplanta o pictórico. Ou de outro modo. mundo da realização das formas em matéria plástica. o branco de nuvens.. Assim. por exemplo. o suplantem. 1958). seria mais de se considerar a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” uma variante dos poemas postais. e a realidade concreta. com domínio das linhas horizontais. um cartaz. 74 . enquanto mundo das idéias das formas. uma delas subintitulada. numa delas os tons de azul. a obra acaba se realizar como um panfleto. uma poesia visual cuja visualidade se encontra subordinada ao verbal. Pintor cuja influência abstracionista e concreta se faz notar. o vermelho do calor e do Sol. . da poesia visual. duma fase pré-concretista. A pintura de Gonçalo Ivo é de uma geometrização que confere ao pictórico uma dimensão lúdica numa interface com a realidade física que abre o jogo entre a abstração. ainda. um poema assim. os cartazes poéticos dum Maiakóvsky. branco e negro combinam-se e alternam-se nas faixas horizontais dando a dimensão plástica das águas do rio.Ismael Pereira. Nas três telas acerca do Rio São Francisco. temos o domínio dessas linhas horizontais. assim. assim como também as faixas horizontais se dividem em grupos retangulares e um circular (referência ao Sol).. Em “Aurora” as cores são mais quentes. o azul das águas. abstraídas de suas formas. mas nesse caso.

br/noticias/19820081283251459 SEMEAR: “Exposição Águas de Março”. 1978. http://www. dentro do conjunto. um breve panorama quase crítico das representações pictóricas do Rio São Francisco. Referências CIA. sendo que muito provavelmente esqueci ou deixei passar telas significativas da história pictórica do tema em questão. Não é esse panorama completo nem extenso. me suma. José Roberto Teixeira. me parece o pintor que melhor soube apreender a natureza pictórica do Velho Chico. Gonçalo Ivo. GRD. bem pode ser subdenominada de “Entardecer”.br 75 . na sua morosidade do ritmo de entardecer sertanejo. LEITE.cinform. Internet: CINFORM: “Última Semana Para Ver a Ousadia Sexagenária de Ismael Pereira” Postado em 19/08/2008. As cores dominantes são os tons de vermelho e marrom.Telas de Gonçalo Ivo com o tema do Rio São Francisco Uma terceira tela. embora tenha o título apenas de “Rio São Francisco”. Mercedez-Benz do Brasil. SP. VALE DO SÃO FRANCISCO. DESENVOLV. mas me ative as telas que tive maior familiaridade e contato. em termos de técnica abstracionista. em que o fluídico se encontra disfarçado pelos tons mais densos. São Francisco: O Rio da Unidade. A Pintura no Brasil Holandês. 1967. É o reflexo do rosicler solar sobre as águas turvas do rio. São Bernardo do Campo.sociedadesemear. Assim.org. São ás águas calmas do rio São Francisco refletindo a luz. http://www.com. Rio de Janeiro. O que busquei comentar nesse capítulo foi. A matização da tela assim substancia o rio como um rio sólido.

inclusive em Portugal. à transposição de lendas européias para a cultura brasileira. sendo apoiado pela Igreja. O mamulengo é 76 . incluindo-se aí um longo espectro de adaptações e modificações. O teatro de bonecos era comum na idade média na Europa.Mamulengo Revisitado: A Arte das Mãos na Ligeireza dos Bonecos A origem do teatro de bonecos chamado de “mamulengo” perde-se um pouco no próprio processo de aquisição de cultura durante a colonização. Era comum um espetáculo de bonecos denominado de “Presépio” de característica de difusão do imaginário cristão. A chegada do teatro de bonecos está associada também à chegada da arte circense.

da boca e até dos olhos. definiu aspectos do mamulengo como um teatro de bonecos que. temos nesse caso o bondoso. o policial (a volante). como o teatro de bonecos mamulengo conseguiu absorver um procedimento crítico da sociedade fundado na técnica da alegoria e da ironia.boneco com cabeça de madeira. podendo também ter fios para os braços e as pernas. conhecida como “Jan Pickel Herringe”. o molenga. Tal habilidade. o galo. por vezes. Simão. etc. o cachorro. algumas vezes. cujo movimento é produzido pela mão (dedo indicador colocado na cabeça e o polegar e o médio nos braços). o papagaio e o jacaré. Hoje. d) de fio . feito de madeira. Há também os bichos. etc. diferindo do Presépio medieval com caráter mais religioso e mesmo de desenvolvimentos mais acadêmicos ou eruditos como o teatro simbolista de marionetes de um Maeterlinck. Os personagens típicos do mamulengo são definidos por uma tradição que representa papéis sociais que se cristalizaram na formação da sociedade nordestina: o coronel. ou ainda.os bonecos são suspensos por uma haste de metal. o mamulengo se aproximava visualmente da performance do ventríloquo. Assim. a nosso ver. Piauí. Nesse sentido. A origem do mamulengo em Pernambuco está associada ao período da invasão holandesa. o Moleque Benedito.boneco de madeira ou outro material. o padre. dos seguintes tipos: a) de luva (ou também “guignol”) . o Cabo Setenta. de uma cortina que separasse visualmente o bonequeiro do boneco. partindo da cabeça para a mão do manipulador. no entanto. vestindo um camisolão de pano.os bonecos são ligados por fios a um controle. principalmente em Pernambuco. b) de vareta . num certo sentido. o briguento. Diferia o mamulengo do teatro de fantoches ou de marionetes pelo fato de que no teatro de fantoches a ação dos bonecos era mediada por linhas. Nesse aspecto. conforme a técnica utilizada. Papafigo. Quitéria. daí espalhando-se para estados como Alagoas. Rio Grande do Norte. Mané Pacaru e João Redondo. 77 . a onça. como a raposa. cordões ou cordas que sustentam o boneco. ao passo que no mamulengo era a mão do bonequeiro que dava sustentação e a forma definida ao corpo do boneco ao ser introduzida por debaixo do boneco em orifícios próprios para a ação dos braços. existem os personagens que representam alegoricamente determinados valores de conduta. Essa tipificação característica de personagens se eleva um pouco mais quando notamos a ocorrência de personagens com nomes próprios mais delimitados como o Professor Tiridá. de massa ou papelão. que chega ao teatro de bonecos como forma de diminuir a possibilidade de participação do ator na construção do texto teatral. A origem do termo parece estar implicada com a corruptela da expressão “mão molenga” com que se definia a habilidade do bonequeiro em movimentar o boneco. articulado e movimentado por varetas. c) de haste . a comédia tornou-se o gênero característico. o teatro do mamulengo já tem como padrão a utilização do palco de bonecos e da separação visual entre o bonequeiro e o boneco. em alguns casos. A tipologia das personagens demonstra. que permite ao manipulador movimentá-los. dispensava a necessidade de uma caixa para palco. Modernamente a distinção entre o teatro de bonecos e o teatro de fantoches tornouse muito tênue. Além destes. hoje se considera que os bonecos de mamulengo podem ser. a técnica dos bonecos suspensos por cordões ou cordas.característico do Nordeste. uma vez que por aquela época era uma arte comum na Holanda. por exemplo. tendo o mamulengo incorporado. o valente. Catirina.

o que temos é um processo de carnavalização (bakhtiniana) na formulação e apresentação do espetáculo do mamulengo. não é tanto pela sua inabilidade de polícia e pelas trapalhadas pelas quais passa e provoca. As ligações com as famílias nobres européias superavam os limites do domínio da metrópole. aqui é articulado com a figura da cobra grande (originária do imaginário indígena). mas também de configuração maia e egípcia. de pessoal treinado e de recursos os mais variados para seu trabalho. misturando ainda elementos de personagens folclóricos diversos. e em outros casos. porém. De certo modo. o padre. acrescido dos interregnos da regência (1831-1840) e do reino unido (1815-1822).ex. Se o Cabo Setenta nos faz rir. Waldeck de Garanhuns é um artista do mamulengo que tem se destacado por um trabalho de revisão e reinvenção dessa arte. a mulher fofoqueira. O Nordestino materializa sua fé na persistência. em que o boi depois de aprender a dançar é engolido por uma cobra. antecedido pelo período da permanência da família real portuguesa (1808-1815). uma vez que a própria família real portuguesa mantinha laços estreitos por meio de casamentos e outras 78 . Simão é a prefiguração do dizer euclidiano-pós-positivista de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”. na constância de busca de superação dos limites impostos pela maquiavélica exploração social das agruras das intempéries. desprovidos de estrutura logística. se liga ao mito de Orfeu e sua descida aos infernos e num contexto cristão à aventura de Jonas no vente da baleia. o que temos é uma outra mensagem simbólica: a persistência. personagem sincrético entre elementos do imaginário cristão. personificam a visão da sociedade por um viés que na sua forma satírica e estereotípica faz por desnudar as contradições dessa mesma sociedade. Uma de suas peças mais conhecidas é “Simão e o Boi Pintadinho”. entre outros. Do mesmo modo. associada historicamente como parte do aparelho de institucionalização do coronelismo. A figura simbólica do boi nas histórias populares do Nordeste. O resgate do boi nos faz lembrar do poema “Cobra Norato” de Raul Bopp. denotando sua universalidade enquanto arquétipo (a serpente emplumada. A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira 1. Aqui. p. a namoradeira. indígena e africano. Sabendo revisitar os personagens criados por outros mestres mamulengueiros. no lugar da conquista do amor ou da validação do poder da fé. em que o poeta se veste da pele de cobra e sai em busca da princesa do sem fim. Introdução: O Rei e seu Castelo O Brasil foi o único país da América do Sul a ter um período monárquico ligado às tradições e às famílias nobres européias. mas também. terminando o século pela proclamação e instalação da república nos governos de Marechal Deodoro e Floriano Peixoto (1889-1894). O nosso século XIX foi marcado nesse âmbito pelos dois reinados (1822-1889).). o rapaz Simão tenta então resgatar o boi do ventre da cobra e acaba por entrar no ventre em busca de seu animal.A comédia no mamulengo. muitas vezes. tanto mais que os personagens característicos costumeiramente acabam por se construírem sobre estereótipos de papéis sociais enraizados na estrutura da sociedade nordestina. mas principalmente por que a personagem alegoriza-se sob a visão popular acerca do policiamento nas pequenas cidades do Nordeste. não poucas vezes. assume a condição de sátira. vai também acrescentando os seus.

em Goiás. Ganhou o título de conde D'Eu ao nascer. no qual Antônio Conselheiro em suas prédicas denunciava a república como a grande inimiga da fé e preconizava a volta de um mitológico Dom Sebastião que viria restaurar não a monarquia ou o reino de Portugal. Condessa de Belmonte e ama do jovem monarca. aos príncipes Gastão de Orléans e seu primo. de D. encontra no Brasil várias adaptações no imaginário popular. D. a prova direta dessas ramificações para além da família real portuguesa. Isabel Leopoldina Cristina de Bragança e Duas-Sicílias no Rio de Janeiro. ao conhecer a esposa. refugiando-se na Inglaterra junto ao ex-rei da França. Isabel e D. Filha do rei Francisco I do Reino das Duas Sicílias. Estes chegaram ao Brasil em 1864 para se casarem. Mariana Carlota de Verna Magalhães. com quem casou-se em 4 de setembro de 1842. Antônio Gastão. Pedro de Alcântara. D. D. D. duque de Némours. conde d'Eu. 28 de Dezembro de 1889). Família Imperial . É claro que tal simbologia do rei e do castelo não se deve exclusivamente à ligação com a monarquia em Portugal e no Brasil. se casassem com chefes doutras dinastias para dar continuidade à linhagem. Isabel Leopoldina. imperatriz Teresa Cristina e D. duquesa de Saxe. dado por seu avô. Leopoldina. o rei da França. a D. Assim. Pedro teria cogitado em pedir a anulação do matrimônio por conta de seus minguados atributos físicos: era baixa. (fonte: Wikipédia). Francisca. manca e feia. temos então as razões históricas para o desenvolvimento e a permanência no imaginário brasileiro da figura do rei e do castelo. princesa de Joinville. respectivamente. Se cruzamos a influência histórica da coroa portuguesa e da monarquia brasileira com a simbologia cristã temos o amálgama completo que dá razão à existência desse apego do imaginário na cultura brasileira à figura do rei e de seu castelo. devido à Revolução de 1848. Pedro II do Brasil queria que suas filhas. aos 15 de outubro de 1864 (fonte: Wikipédia). e de Vitória Francisca Antonieta Juliana Luísa. Mas as princesas tomaram a liberdade de escolher seus noivos. da Espanha e da Inglaterra inclusive.alianças familiares com as famílias da Áustria. Gastão de Orléans. com Leopoldina e Isabel. 14 de Março de 1822 — Porto. Pai de D.da esquerda para a direita: Conde d'Eu. Augusto de Saxe. neto de Luís Filipe. princesa de Saxe-Coburgo-Gota. Há quem afirme que. No imaginário cristão. é obrigado a fugir do país com a família. Fez sondagens com a ajuda de sua irmã. No Maranhão. Aos seis anos. casou-se com a Princesa Imperial D. em Pernambuco entre Era filho primogênito de Luís Carlos Filipe Rafael de Orléans. de origem portuguesa. a figura do rei-santo que voltará a restabelecer o seu reino. Luís Maria Filipe e de D. em Minas Gerais. Pedro II. 5 4 Dona Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltazar Melquior Januária Rosália Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bondosa André d'Avelino Rita Leodegária Gertrudes Venância Tadéia Espiridião Roca Matilda de Bourbon-Sicílias e Bragança (Nápoles. temos sim que levar em conta o imaginário cristão católico de que Portugal foi um grande difusor. terceira e última Imperatriz do Brasil. 79 . da França. foi a esposa do imperador Pedro II. mas sim o reino de Cristo. entre outras pessoas. Seu nome original em italiano: Dona Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias. seu enlace foi motivo de decepção para o marido. Jesus Cristo é apresentado como o “rei dos reis”. Alguns cronistas relatam que o casamento só teria se consumado um ano depois e que o imperador só não remeteu a esposa de volta à sua terra natal graças à intervenção de D. filha única do general e duque Fernando Jorge Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. rei da França. No Brasil o Cond’Eu 4 e a imperatriz Teresa Cristina 5 eram. A propósito de Dom Sebastião. com quem casara por procuração. É lá que passa a maior parte da infância e da adolescência. Se contarmos ainda o longo período colonial de ligação com o governo monárquico absolutista e centralizador português. Sintomático e exemplar disso é o episódio de Canudos.

Pelé é o rei do futebol. Jesus Christ é o “King of the Kings”. A palavra “king” como adjetivo. No caso do Brasil. mas a rainha da jovem guarda (Wanderléia) e o príncipe (Ronnie Von). uma breve observação sobre alguns índices encontráveis na linguagem cotidiana já é um suficiente para a constatação dessa simbologia no imaginário do povo brasileiro. ainda que nosso romantismo inicial tenha se esmerado em se apresentar como antilusitano. em que já se pese mais de um século de período republicano. uma das principais manifestações populares do Brasil. Satan é o “Prince of Darkness” uma vez que não pode existir o reino das trevas que se oponha o reino de Deus. substituindo o imaginário do rei luso pelo sentimento A esse respeito indicamos o trabalho de Marcio Honório Godoy. o Rei Momo. Perspectiva. década de 70) e Didi (príncipe etíope). Parece que o processo de adjetivação nos USA prefere ao “the king” outras qualificações como “the best”. vez por outra é utilizada para qualificação de um elemento arquetípico que represente perigo. Este de deus da mitologia grega passa a rei do carnaval num longo processo de transformação do festejo. Khronos. Para fins comparativos. que desde o seu início muito têm feito pela eliminação de vínculos culturais. já um pouco passado na idade e no estilo musical. arte ou função parece não ser a mais usual. o único rei admitido sem restrições no imaginário WASP (White. ainda apresentado simplesmente como “o Rei”. basta atentarmos para um outro país cuja colonização tivesse sido marcada pela sujeição à uma metrópole monárquica e a religiosidade. Roberto Carlos. col. sequer podemos falar numa efetiva guerra da independência em que se pese os confrontos na Bahia em 1823 transformados num desconhecido épico de Ladislau dos Santos Titara. o “Rei do Samba de breque”. Sinhô foi o “Rei do Samba” ao passo que Moreira da Silva. AngloSaxonic and Protestant). 6 De fato. 6 80 . Havendo uma continuidade entre o governo de D. Dom Sebastião no Brasil. A guerra da Independência americana e o domínio do protestantismo parecem que são fatores a diminuir o sentido que a figura do rei poderia ter no imaginário norteamericano. Podemos pegar como exemplo os Estados Unidos. “the magic”. 7 O movimento musical denominado de Jovem Guarda tinha não apenas o rei. São Paulo. O carnaval. Al Capone foi cognominado o rei do crime em livro de Nate Hendley. Reginaldo Rossi é por muitos considerado o “Rei do Brega”. Basta alguém se destacar numa arte. mas tão somente um estado de exílio. 25. foi por décadas conhecido como o “Rei da Juventude” 7 e hoje. se apresenta como o desfile da corte e dos súditos para um rei. Na cultura norteamericana a idéia do rei como adjetivo mais comum para alguém que se destaque nalguma profissão. Mesmo expressões como “the king of rock” parece ter sua origem na Inglaterra e não nos Estados Unidos. assim é caso do King Kong. ainda é possível encontrar festas populares cujas representações estão direta ou indiretamente ligadas ao sebastianismo. também. políticos e sóciopsicolingüísticos com o passado monárquico. No futebol. vol. Ayrton Senna foi o “Rei das Pistas”. Tendo como marca a basófia. “the star”. de Sidney Northcote é um filme que se nos afigura como representativo dessa simbologia. a crítica sarcástica e a alegria desmesurada. The King of Crime (1914). dominada pelo imaginário cristão. tendo porém a ausência de um período monárquico na fase independente.outros estados. também. “the big”. 2005.Pedro I. ameaça e que se caracterize como algo do exterior. a pilhéria. se constituiu uma hierarquia monárquica com o príncipe do futebol (Dirceu Lopes.João VI e o reinado de D. ofício ou função que logo recebe a denominação de rei. Por outro lado.

ou quando não.francófono. por exemplo. dependendo de seu contexto. a idéia de que o Rei é a qualificação natural para aquele que se destaque num grupo social. de um alto dignitário do poder eclesiástico. substituindo-se. O Dicionário Houaiss define castelo no seu significado primeiro como “residência real ou senhorial dotada de fortificações” e palácio como “vasta e suntuosa residência de um monarca. típica da Idade Média. ao passo que no castelo sua função é a de efetivamente. da qual a revolução francesa logo sucumbiu ao império ditatorial napoleônico tão exaltado num Domingos José Gonçalves de Magalhães. tanto podendo ter um sentido pejorativo. Dez anos depois a expressão foi utilizada no âmbito esportivo para ser referir à disputa entre três grandes jogadores no campeonato carioca de 1995 (Renato Gaúcho. ao passo que os palácios são mais característicos do período em que a realeza efetivamente superou os receios de eventuais ataques de hordas inimigas. com funções defensiva e residencial. próximo a vias de comunicação. quanto positivo. de um chefe de estado etc. Romário e Túlio). com Nuno Leal Maia e Nelson Xavier. embora isso ficasse implícito pela designação de “residência de um monarca”. de Fábio Barreto. seu âmbito natural.” E para palácio o Aurélio define como “Residência de um monarca. com muralhas. Por sua vez. que se destaca da paisagem citadina por estar colocado no alto de uma colina. como faz Houaiss. além de permitir a observação de vasto terreno tendo em vista sua localização sempre ao alto de uma colina ou montanha. Por sua vez. sem portanto. destacar a suntuosidade. o palácio a Wikipédia define exatamente como os dicionários Houaiss e Aurélio. Desse modo a expressão ganha sentido ambíguo.” Sobre sua origem. No Brasil. barbacã. de um chefe de governo”. Nesse âmbito é que os castelos são de característica mais própria ao contexto político e social da Idade Média. acrescido de que o castelo é “Praça forte. o que facilitava o avistamento das tropas inimigas e as comunicações a grandes distâncias. por exemplo. O Dicionário tem o significado primeiro semelhante ao Houaiss. fontes e espelhos d’água. No imaginário da cultura brasileira a idéia de castelo apresenta já um anacronismo histórico. fosso. em primeiro lugar. de “castellum” (latim). para realmente ser admirada e vista de longa distância. quanto no popular e folclórico. define castelo como “Um castelo (diminutivo de castro) é uma estrutura arquitectónica fortificada. A enciclopédia on line Wikipédia. etc. Ainda convém lembrar que o castelo está associado à idéia de um local afastado do urbano.. tanto no âmbito culto e erudito. de um alto dignitário eclesiástico.”. o Castelo é o lugar do rei. como morada preferível tendo em vista a sua condição de fornecer proteção contra ataques. no palácio a arquitetura de uma torre tem função mais para ostentação. O aspecto defensivo do palácio é diminuído. isolando-se assim do contexto 81 . Fortificação de tipo permanente. permitir aos acastelados olhar à longa distância. Lembremos do filme O Rei do Rio (1985). confiando sua defesa aos quartéis e fortificações militares que circundariam e protegeriam os palácios. fortaleza. que conta a disputa entre dois bicheiros pelo domínio da contravenção. Uma torre. a necessidade do fosso e das muralhas. uma vez que o castelo é uma construção típica da arquitetura medieval. A suntuosidade do palácio é que o distingue do castelo. era geralmente erguido em posição dominante no terreno. por amplos jardins. ao passo que a palavra “palácio” parece se referir mais especificamente às construções nobres do renascimento para diante. cercada por torre e um fosso. no castelo por vezes tem sobreposto a função defensiva ou de vigilância. se referia a uma torre de vigilância. uma vez que o que seria apenas suntuosidade e pompa no palácio. Na Idade Média é que os castelos evoluíram para morada dos senhores feudais e nobres. inclusive reis.

Manuel de Araújo Porto Alegre. nos lembram algo de um certo modelo arquetípico dos castelos medievais. de Dom Dinis e de Dom Sebastião. No entanto. Grota. Teresópolis. Cidades como Petrópolis. além da popularização da imagem de castelos mal-assombrados na Europa (em especial na Escócia). O fato de não termos idade média e a absorção ao imaginário popular de lendas e histórias medievais como as do ciclo do rei Arthur. no mais das vezes. No caso do Brasil. Não é por acaso também que um dos quadros mais conhecidos de Manuel de Araújo Porto-Alegre seja a coroação de Dom Pedro II em que a figura do rei/imperador se materializa no ritual de coroação dentro do ambiente do palácio. conhecido pela representação exuberante da natureza brasileira. de Frankenstein. em geral. se dispôs no quadro a imaginar um cenário tipicamente medieval europeu. eventualmente. Durante o período imperial é que a construção de palácios nobres se destacou.urbano ao redor. a inexistência do período medieval e nossa ligação colonial com a Europa a partir do barroco e do iluminismo fez com que os palácios se tornassem as moradas dos governadores. entre outras personagens similares. criou-se no imaginário popular a necessidade de castelos supratemporais e supraespaciais que poderiam compor a paisagem local materializando a idéia arquetípica do lugar misterioso e de passado glorioso ou histórico. Seria isso um anacronismo? Um processo de kitschização? Possivelmente encontraremos esses aspectos na análise de construções que pareçam castelos na arquitetura brasileira. podemos nos deparar aqui e ali com construções que embora contemporâneas. 82 . entre outras. Na pintura romântica brasileira. podemos ver isso no quadro “Grota” em que o pintor. de Carlos Magno. Já o palácio está cercado pelo ambiente urbano. bem como das figuras de Drácula. além do Rio de Janeiro se notabilizaram por seus palácios. mas como que se coloca numa situação central entre os caminhos da cidade. não está de tal forma elevado que o acesso a ele se faz de forma dificultosa.

de fato. alguns construídos com material (pedras. Ainda se acresce a eles. Os Castelos do Brasil Para o menos avisado e ao mesmo tempo mais crítico do sentido etimológico das palavras. como se fosse 83 . tendo em vista os palácios construídos durante o período monárquico no Brasil. se transforma em ambiente imaginário da sublimação do desejo de realeza e nobreza diante do cenário exuberante da natureza tropical brasileira. de fato. ao contrário do palácio imperial pós-renascentista tem. da cana-de-açúcar. viscondes e duques. o título dessa secção deveria ser “Os Palácios do Brasil”. Como se a união do castelo ao cenário brasileiro fosse a recuperação de um ideal de civilização que se acredita perdido. Coroação de Dom Pedro II O que comentamos a seguir é como o castelo medieval que não tem raízes históricas no Brasil. do tabaco. seguindo a definição que propomos na introdução desse texto. quanto pela nobreza de barões. os palácios e palacetes da aristocracia do café. do algodão e de outras monoculturas que renderam a alguns o prestígio e a riqueza suficientes para a ostentação materializada em suntuosas moradias.Manuel de Araújo Porto Alegre. Porém. escrevemos apenas sobre os castelos. madeira) trazido da Europa para dar à construção maior legitimidade. não pertencendo a qualquer momento real desse passado. com base na etimologia e nos dicionários pesquisados. 2. embora não tivéssemos idade média temos castelos de caráter medieval. condes. tanto pela família real. Ou seja. porém. estando de fato presente apenas como espaço arquetípico que necessita de preenchimento. o título está correto.

7 banheiros. diversos salões.possível transplantar o tempo por meio da materialização da construção com materiais do lugar de origem dos castelos. a construção deu aos arquitetos o prêmio de da grande medalha de prata do salão de Belas Artes de 1924. que para nosso propósito. Para o transporte do material. o maior castelo medieval do Brasil. Castelo das Pedras Altas (Pedras Altas – RS). o barão colaborou no custeio da construção da estrada de ferro Leopoldina. duas torres. telhas de ardósia francesa. terraços. halls. Aberto à visitação pública e sendo uma das mais curiosas e interessantes atrações turísticas da cidade fluminense. Tendo a intenção de reproduzir nos trópicos uma cópia fiel dos castelos medievais europeus o barão solicitou aos arquitetos Lúcio Costa e Fernando Valentim a elaboração do projeto. Para a construção do castelo o material foi trazido todo da Europa (blocos de pedra portuguesa. dependências para hóspedes. tendo em vista. Castelo Lacave (Caxias do Sul)e o Castelo de João Capão (Garanhuns – PE). descendente de família nobre inglesa e portuguesa. escadas. madeira natural do Brasil. Smith de Vasconcelos. eles parecem preencher as nuanças do fenômeno em questão. Itaipava RJ. como determinadas portas. sala de música. 2. curiosamente alguns elementos. Castelo Itaipava. o Castelo do Barão de Itaipava foi construído pelo barão J.1. mas nos prenderemos a quatro castelos em especial. ala dos serviçais e 84 . Castelo do Barão de Itaipava. tendo assim direito a que uma estação de trem ficasse dentro dos domínios do seu castelo. vitrais austríacos e pisos de mármore italiano). terminado em 1920. ferragens inglesas. são eles: Castelo do Barão de Itaipava (Itaipava – RJ). colunas e forros que foram talhados na Europa. O castelo tem 42 cômodos distribuídos em 19 quartos. foram feitos em jacarandá. Rio de Janeiro. Não comentaremos de todos os castelos. bibliotecas.

de um desejo de sublimação da realeza perdida com a república (1889). ao passo que o castelo do Barão de Itaipava era para satisfação pessoal. mas principalmente para satisfação coletiva de um imaginário popular que busca preencher sua história fragmentada com retratos. revolucionários e intelectuais. o barão J. Assis Brasil determinou o afastamento de Borges de Medeiros do posto de governador do Estado. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. Á entrada do castelo lê-se os seguintes versos: “Bem-vindo à mansão que encerra / Dura lida e doce calma: / O arado que educa a terra. transformando-se atualmente em atração turística não apenas pela beleza e riqueza de materiais.” Contendo 44 cômodos. 85 . o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845). mesmo que montados e/ou anacrônicos. / O livro que amanha a alma. Um enorme relógio. O Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas Construído por Joaquim Francisco de Assis Brasil em 1904. o castelo de Pedras Altas busca justificar uma das frases preferidas do revolucionário gaúcho que estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (SP) e foi adepto do movimento republicano: “Em certas ocasiões mais vale um dia de ver do que um dia de ler” . A construção centenária foi cenário para importantes decisões políticas das primeiras décadas do século passado. criando um espaço mágico. Chefe da Revolução de 1923. cria um sentimento de êxtase estético no visitante como se um processo mágico no tempo pudesse transportar-nos ao cenário dos reis e cavaleiros medievais. não muito diferente do desejo que faz surgir castelos mágicos na Disneylândia. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. 2. com a diferença que este último é para fins de catarse coletiva e obtenção de lucro com o mundo do entretenimento. argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes" Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. que pertenceu a Bento Gonçalves. Cada objeto conta alguma história. É considerado o único castelo em estilo normando nas Américas e também o maior do Brasil. de seus aposentos e salões. Acreditando que era possível viver no ambiente rural sem necessariamente abdicar do conforto da civilização urbana. A beleza de sua estrutura. assinado no próprio castelo. com móveis. talvez. aliada à beleza natural da serra fluminense a sua volta.2. o qual havia exercido por mais de 30 anos. mas que tenham uma eficiente dose de magia e ostentação. porém. lembrando sob certos aspectos o personagem queirosiano de A Cidade e as Serras. Fruto. A medida foi uma das cláusulas do acordo de paz. Smith de Vasconcelos soube investir na construção dessa obra arquitetônica que transcende a linha diacrônica da história. importados de Nova York.galerias. estilo colonial. que acomodaram políticos.

de imediato. o que se apresenta emoldurando o castelo de Pedras Altas é a própria história do município e daquela região. o castelo de aparência medieval vai se reciclando e se amalgamando a um substrato histórico não característico de sua arquitetura. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular.Este. menos consciente desses aspectos históricos. Assim visitar o castelo é também conhecer um pouco da história e das contradições inerentes a essa história. pois. é um castelo que se apresenta impregnado de história política do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. a surpresa da construção medieval na paisagem cria o antagonismo. o conflito de harmonia causado pelas impressões iniciais das diferenças históricas sedimentadas nos estudos de História do ensino fundamental. mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. Porém. que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. 25-11-2003 página 54. Antes. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893. por isso. entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. nos corredores. Ao viajante. na janela quebrada. tomando conta como o fantasma escocês esperado de um castelo medieval: “A paz de Pedras Altas. nesse sentido. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou.) Desse modo. Aos poucos a revolução de 1923 vai se apresentando na biblioteca.” (ZAVASCHI. Homem de cultura e de experiência política e diplomática num período conturbado da solidificação da república no Brasil. Zero Hora. Olyr. a preocupação em todo o país. ao adentrar e visitar o castelo essa impressão inicial vai sendo substituída pela sensação de que esse castelo não poderia estar em outro lugar a não ser ali. 86 . o transplante do castelo medieval para o cenário gaúcho foi se efetivando de tal forma que não se encontra hoje diretamente anacrônico ou anódino. bem como seja a concretização de ideais estéticos e filosóficos de seu construtor.

como desfile de cavaleiros trajados em armaduras e brasões característicos da Idade Média. Os novos proprietários tiveram extremo cuidado ao decorar e ambientar seu interior com móveis e estilo da época. o local de recepção de uva. em pedra. com ambientação pré-renascentista. móveis. foi reaberto à visitação em 2004. as caves de armazenamento de vinhos. Ao entrar. ocorrendo inclusive um acidente com morte de operário após a queda de uma das paredes. escolhidas com cuidado para não repetir de nenhum reino verdadeiro. tornando-se uma das principais atrações turísticas de Caxias do Sul. Descendente de uma família nobre espanhola. o castelo do vinho. armaduras e pinturas semelhantes às da época.3. os visitantes são recepcionados na Sala dos Tronos. seria a sede da vinícola Chateau Lacave. passando à família Basso. há até armaduras. e tendo uma planta original de um castelo que pertenceu a sua família no século XI. mas também fica informado acerca da produção de vinho além de ver espetáculos inspirados na idade média. O Castelo Lacave foi resultado do sonho de um empresário espanhol que residia no Uruguai. Sala dos Barris de Carvalho. Terminado em 1968. Salão das Bandeiras.Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. O visitante lá conhece não apenas o castelo. Construção sofrida e demorada em razão da falta de experiência acerca da construção de castelos. segundo o padrão característico da construção de castelos. resolveu reconstruí-lo na região vinícola de Caxias do Sul. Castelo Lacave. Em 2001 a vinícola mudou de dono. 2. As recepcionistas que acompanham a visita vestem trajes medievais e seus salões e corredores exibem tapeçarias. os visitantes aprendem os processos de produção de vinhos para apreciar ainda mais esta bebida milenar. Assis Brasil de Pedras Altas. passando para a Sala das Cruzadas. O castelo ganhou um brasão e as cores próprias para sua bandeira. objetos. 87 . Demorou dez anos a construção do castelo. e depois de uma reforma e recuperação. a taberna e varejo. Para dar o clima de realismo. Além da visita histórica.

Fruto do sonho de um eletricista. ou quando do Festival de Inverno da Cidade. O construtor foi apelidado de Capão.Castelo Lacave. ou seja. se destaca na paisagem modesta do subúrbio em que se localiza. ainda que apenas como espetáculo ou como representação. um pedaço reconstruído da Idade Média transplantado no tempo e no espaço para o Brasil. o Castelo Lacave faz o inverso do processo histórico que determina a característica do Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. no município de Garanhuns é o menos imponente e suntuoso dos castelos aqui mencionados. sem posses. somando-se à reprodução de espetáculos de cavalaria medieval. além da taberna para degustação de vinhos. que decidiu construir um castelo depois de assistir filmes no cinema da cidade em que via castelos e reis da idade média. 88 . O Castelo de João Capão em Garanhuns (PE) O Castelo de João Capão no Agreste Meridional Pernambucano. A imitação como base da mimesis fornece aqui o elemento de catarse para o visitante desejoso de vivenciar um pouco de tradição. Ainda em construção. de história e de mistério antigo. De fato. Aqui a história é uma representação. Assim. daí o apelido de “capão”. não mais que 40 anos. confirmado a necessidade inconsciente do imaginário popular brasileiro de preenchimento de um arquétipo vago na nossa cultura opacamente marcado pelo substrato histórico do período colonial e monárquico. Caxias do Sul (RS) Possuindo um restaurante. a suntuosidade não existe nesse castelo.4. Tendo ainda como elo fulcral a descendência de seu construtor e associando-se à simbologia do vinho. um espetáculo que encena a história medieval européia. a festa mais importante de Garanhuns. Incluído já no roteiro turístico da cidade. porque além de eletricista foi goleiro de um time amador e era considerado por alguns como “frangueiro”. como empreendimento é um sucesso. quase nos esquecemos que o castelo foi construído em 1968. o Castelo de João Capão. iniciada há 17 anos. em que o local é alugado por modestos 200 reais. à beira da Br-423. o que confirma o índice de mais de 70 mil visitas desde que foi reaberto. 2. conta com a doação de visitantes que por curiosidade comparecem ao local. para se transformar num restaurante temático. É assim. o espetáculo que é uma visita ao castelo Lacave se transforma numa experiência estética de tal complexidade e amplitude que a realidade se vê subvertida pelo objeto artificial.

assim como centro político da cidade. em parte pela forte simbologia religiosa dada por um Portugal barroco e medievalista. E o castelo de João Capão se mostra ainda mais característico quando o comparamos com outra construção do município de Garanhuns que é o Palácio Celso Galvão. Esta vontade que fundamentou o sonho do pobre construtor. como os ramos cruzados à entrada do castelo. carecendo de conhecimentos arquitetônicos e históricos. é na verdade. localizado na área mais comercial da cidade. não o desmistifica. ou o salão central com suas paredes pintadas em tom ocre de tinta à cal. o que não ocorrera com os castelos anteriormente aqui comentados. ameríndia e africana. a de que a imagem do rei e de seu castelo se apresenta no imaginário popular brasileiro de tal forma que nos distinguimos nesse aspecto em comparação com as outras nações da América.Castelo de João Capão. O banheiro. esta impressão vai se desfazendo. Lembra também. ainda em processo de acomodação. por exemplo. uma caricatura quase kitsch de um castelo. 89 . Ao assistir as fitas de cinema. é essa obra a perfeita consubstanciação dessa falta histórica que só é falta pela imposição em nossa história cultural de um ideal de passado e glória vinda da Europa e que impregnou nosso imaginário. situado no centro da cidade. O castelo. Se por fora as torres em estilo medieval e a estrutura de tijolos imitando pedras dá ar de construção medieval. em parte pelos aspectos próprios de nossa história que teve quase um século de monarquia. pelo contrário. porém. O Palácio justifica o epíteto de palácio pela forma arquitetural. vão nos mostrando que o castelo de João Capão é antes um conjunto contraditório de impressões do que seja um castelo para seu construtor. e o acúmulo de símbolos desconexos. com paredes de lajota de cerâmica esmaltada e com aspecto de um banheiro típico de uma casa de classe média. assim como temos casas com colunas jônicas ou dóricas. na Avenida Santo Antônio. entre lojas e bancos. é simbolicamente a imagem do processo de domínio da burguesia na estrutura social ocidental. porém. Garanhuns (PE) O modesto castelo se apresenta dotado de uma força incomum para quem o visita quando sabe da história de seu construtor. além de algumas paredes rebocadas. por dentro. tem janelas e torres em estilo pós-renascentista italiano. em termos estruturais e estéticos. João Capão teve despertado aquilo que já subjazia no seu inconsciente advindo de um inconsciente coletivo e arquetípico. O conflito entre nossa herança européia. construído em 1943 pelo interventor Agamenon Magalhães e inaugurado na gestão do prefeito que lhe dá o nome. misturadas com janelas modernas em bairros de classe média de várias cidades. desejoso de viver num castelo medieval como um rei arturiano após assistir filmes no cinema é o melhor exemplo do que busco apresentar aqui como hipótese. Essa desconstrução do castelo no castelo de João Capão. Se um Policarpo Quaresma teria convulsões diante de tal construção é apenas porque veria ali a contradição mais forte e característica de nossa formação como nação e cultura. Lembra um pouco palácios de Florença ou Veneza. Misto de imagem de casa de classe média alta com elementos de castelo medieval é no máximo uma casa temática de aspecto kitsch. alguns templos de igrejas evangélicas que se apresentam com torres medievais no lugar do campanário.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HOLANDA. Khronos. Antonio. Vozes. mas também um instrumento de dominação. G. O castelo não é propriamente mais visto como a sede do poder. a fé é a certeza de coisas que se esperam. Etimologicamente a palavra vem do hebraico. Perspectiva. Na colonização da 90 . Buenos Aires. mas como aquele lugar que é dotado de um passado inexistente. Nova Fronteira. Nos Hebreus (11:1) encontramos a seguinte definição de fé: “Ora. 2004. sede da prefeitura de Garanhuns (PE) Assim. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. SPERBER. sua alma não é reta nele. 1978. Psicologia e Religião. 1978. 2004. GODOY. 2006. São Paulo. ao passo que o palácio é associado ao poder pela fundamentação real que nossa histórica tem com essa arquitetura. Lembremos. que acreditava. a convicção de fatos que se não vêem”. Aurélio B. de como lá a torre do castelo é o lugar da loucura. Dom Sebastião no Brasil. que só existe como passado como resultado de um conflito histórico de nossa herança cultural. e um justo (que) em sua fé viverá". Paidos. Dan. temos a possibilidade de ver a diferença entre castelo e palácio na cultura brasileira. Márcio Honório. acaba morrendo martirizado. para exemplificar com a literatura. do caos simbólico entre realidade e sonho. O Simbolismo em Geral. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro. São Paulo. Arquétipos e Inconsciente Coletivo. “emuná” e é traduzida pela primeira com o sentido que usamos no livro de Habakuk (2:4): "Eis aqui um soberbo. que só se resolve pela compreensão do que seja nossa herança cultural. HOUAISS.Palácio Celso Galvão. Quando Raimundo Lúlio tenta converter os Sarracenos munido apenas de sua Ars Combinatória. quando contrapomos o Palácio Celso Galvão ao Castelo de João Capão. possuiria o poder da conversão instantânea pelo poder imagético e matemático de sua linguagem. São Paulo. ________. Na História a Fé tem sido um instrumento não só de caráter relativo à espiritualidade. Rio de Janeiro. Carl. Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico A Fé é decididamente o grande instrumento do homem para a realização de suas conquistas históricas e espirituais. 1970. Objetiva. do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna. col. JUNG. Cultrix.

que com medo de represália do marido. Liberata. Genebra. Otílio condenou-a à morte. rituais. tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano. o povoado de Frexeiras é um retrato emblemático desse sincretismo e dessa fé algo abstrata de definir apenas na conceituação religiosa. país cuja miscigenação tornou-se característica fundamental de sua população. ao redor e por vezes. A data de um santo é geralmente colocada como a data de sua morte. 91 . Gema. Sabemos que uma língua não é apenas um conjunto de regras normativas gramaticais e um vocabulário da qual se o falante faz uso indiferente. a Fé foi o instrumento de conversão ideológica mais eficaz que os europeus puderam apresentar aos gentios americanos. movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo. Anos mais tarde. deixaram na língua dominante marcas inconfundíveis. mulher de Lúcio Caio Otílio. uma ideologia. desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. dentro das igrejas cristãs. o dia 22 de maio é dia de Santa Quitéria. Próximo a Garanhuns. Mas. Assim. Ante a recusa da filha. homem de procedimento muito rígido. Marciana.América. no século V da nossa era. tendo se assustado com o fato de ter dado a luz a nove meninas. Segundo consta do hagiológio português e na história de Braga. que no entender católico é o dia em que a alma do santo deixou a terra e se elevou aos céus. Naquela época predominavam as superstições. Antônio Conselheiro. cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de Maio do ano de 477. Frei Damião – religiosos. A história de Frexeiras é a história da fé popular. cada língua tem inscrita na sua estrutura uma visão de mundo. afogando-as num rio. Antes. tudo a suas expensas. mas concretamente antropológica. uma forma particular de construir a realidade. os padres povoaram o imaginário sertanejo de personagens mágicos. em Braga. A história da santa é dramática e dotada de acontecimentos misteriosos que beiram o macabro. Quitéria. no sentido de compreensão da relação contextual do homem com a sociedade que constrói. Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia. José Lourenço – beatos. No Brasil. feiticeiros malignos e benignos. deixaram sua marca neste imaginário. Crenças. de crendices. O sertão Nordestino é um espaço histórico rico de sincretismos. agreste meridional de Pernambuco. de profecias. Quitéria nasceu no ano de 462. No povoado existe o culto à Santa Quitéria. já no município de São João. é no dia 7 de setembro que existe a maior comemoração em Frexeiras. Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga. isto é. enquanto instrumento da Igreja para conversão dos fiéis e garantia de sua dominação. No calendário cristão católico. Marinha. da fé tomada pelo povo em oposição à fé. Basilissa e Vitória) e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs. que as batizou as meninas (Eufemia. governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano. porém. Os beatos. Quitéria estava com 15 anos de idade. a ponto de a mãe. Padre Cícero. superstições indígenas e africanas povoaram os espaços vagos das contradições cristãs. instruiu a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. Santo Ovídio. dominadas pelo português europeu. as culturas indígenas e africana. por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Líbio Severo em viagem pela Península Ibérica. na região do Minho. o sincretismo religioso se instaura diante.

novas. pessoas em variadas poses e lugares. Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos. o culto à Santa Quitéria seguiu um caminho dominado pelo imaginário popular. os escravos começaram essa devoção à Santa Quitéria. e os escravos foram espalhando para os escravos de outras propriedades e os donos de outras fazendas. de fotografias de diversos tamanhos das pessoas que se dizem agraciadas. Assim. criando no expectador de imediato uma desorientação. Existe uma disputa entre a família Guilherme da Rocha e a Igreja. 92 . Santa Quitéria. foi transformada nesse espaço para receber as constantes visitas que vinham montadas em lombo de burro. no Ceará. eis como começou o culto à Santa Quitéria: “Tudo começou quando minha família veio de Portugal tomar posse de terras que foram concedidas pelo governo de Portugal em 1695. vem muita gente a pé. de informações contraditórias que se dirigem aos nossos olhos. inclusive pagãs. a casa. ao entrar no local o que se nos mostra de imediato é um grande painel neobarroco. existe uma versão de que teriam tais fotos ocorridos no século II. além dos vendedores de bugigangas. que entre outras características. 8 Fonte: http://acertodecontas. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada. Tendo nascido Quitéria no ano 120 e morrido em 135. Cada uma. já trouxeram os escravos e quando chegaram aqui na região construíram a casa para morar e foram preparando a terra para a cultura de subsistência e quando eles vieram de Portugal trouxeram na bagagem a imagem de Santa Quitéria. que veio de Portugal em 1695. sob o domínio do imperador Adriano. Fotos antigas. o culto de Santa Quitéria é bem difundido.As datas aqui colocadas não são de todo confiáveis. A casa grande original foi se atulhando de ex-votos.artigo de André Raboni. As paredes povoadas de fotografias transformam-se num grande mural do tempo. coloridas. Com as freqüentes novenas realizadas aqui na casa (a família era muito católica). é um dos maiores depósitos naturais de urânio do país.br/atualidades/santuario-no-interior-e-causa-de-briga-juridica-entre-aigreja-catolica-e-familia-proprietaria-de-imagem/ . Tal se deve ao receio de que a Igreja tome posse do culto sem auferir à família algum acerto financeiro ou de uso. de velas. e no final do século XVII. que foi para abrigar uma família. apresentando aqueles inúmeros rostos. que existia uma santa milagrosa e aí começou a peregrinação. de santinhos. A família não permite a entrada de religiosos. acumulativo. e Santa Quitéria no Maranhão.blog. em carro de boi até a modernidade de hoje em que elas vêm de ônibus. os índios também.” 8 O fato atual é que o povoado de Santa Quitéria transformou num local de peregrinação. No Brasil. em p&b. no Nordeste existem dois municípios com essa denominação. Conforme conta um dos herdeiros. Assim. de caminhões pau de arara. As terras onde se encontra o povoado de Santa Quitéria pertencem à família Guilherme da Rocha. essa imagem que está aqui de 44 cm e que era a imagem de devoção da família. de estatuetas as mais variadas. porém a Igreja não tem qualquer domínio ou intervenção na localidade. carregando objetos. Quitéria tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada. Assoma-se a movimentação das pessoas que entram e saem dos aposentos acendendo velas.

de madeira. Hulk. diante de nossos sentidos. cabeças. Quando de uma das minhas visitas. é sua cruz inseparável. formava-se uma fila de pessoas. doces. o sincrético e o místico. mãos.signo de uma história particular. Lá encontramos uma variedade de objetos velhos. em geral mais velhas. braços. Santa Liberata. esta senhora resolveu passar por debaixo da mesinha que sustenta parte do oratório. A elevação da alma da Santa aos céus é também o signo de sua morte corpórea na terra. Próximo a casa grande. Na única rua do povoado. estátuas de santas que pela denominação. onde se paga um real para entrar. mas o imaginário popular tratou de fazer o seu próprio processo de santificação. capas para celular. reciclando continuamente as crenças individuais num caldeirão de mitos. pessoal. fez o sinal da cruz e foi-se embora. povoado de santas vindas de ilusórias terras também santas. meio mágico. naquele povoado. existe um museu. na coletividade de imagens. três vezes. pilhas. No comércio das bodegas. que fica numa outra casa. que. balas. Cria-se assim um mundo místico. se presencia ali. da historicidade de agruras e desmandos. o que temos é a inversão dum significado. ou de parafina: pés. E a morte é o grande medo do homem. desde de rádios de válvula. Imediatamente uma outra senhora vendo isso. são carros dos mascates. cabeças colocadas em sob tábuas de madeira ou penduradas nas paredes também criam um novo panorama que se acumula ao das fotos. assim como ocorreu no Ceará com o Padre Cícero. uma estatueta em gesso de Vênus/Afrodite. querendo ser provas irrefutáveis dos milagres. As irmãs de Santa Quitéria não foram santificadas pela igreja. O imaginário necessita do sobrenatural. O homem sertanejo que vive a dureza das condições sócioeconômicas. presenciei um fato interessante e ilustrativo. muitos deles. ônibus de diversas procedências. automóveis. o culto à Santa Quitéria de Frexeiras segue seu caminho numa trilha entre o folclórico. a fé se exercita. Os mais novos. Homem Aranha. outros tomam cachaça. dia da Independência é aqui transmutado no dia de Santa Quitéria. Ali. ele que o imediato concreto. passou uma. de uma época irreal. individual. braços. Assim. Se a data de Santa Quitéria é 22 de Maio e em Frexeiras o dia mais comemorado é o de 7 de Setembro. brinquedos de plástico. a realidade concreta é muito dura. mãos dos que estavam nas fotos se materializassem ali. No estacionamento. passando por debaixo do oratório. duas. com a diferença que agora se presentificam enquanto objetos tridimensionais. disso a uma outra: -“Vamos também passar por três vezes aí embaixo que dá sorte e proteção!” E. notas e moedas antigas. Uma velha senhora. em pouco tempo. o dia da independência 93 . Lá fora uma barraca vendendo super-heróis de plástico: Wolverine. Santa Vitória. de curiosos ou de pessoas movidas pela fé que têm a condição de ter um automóvel mais novo. sem o concurso da Igreja. dezenas de barracas de mascates vendem santinhos. no entanto. cuja imagem encontra-se adornada de inúmeros colares dourados. são as irmãs de Santa Quitéria: Santa Gemma. joga-se o bilhar. ao dirigir-se ao altar de Santa Quitéria. que no imaginário popular foi a época em que santos e santas andavam pelo mundo. até estatuetas de Jesus. Os ex-votos. mas também desordenadamente pós-moderna. já velhos. do abandono. alguns almoçam o prato feito. Numa das estantes velhas de madeira. busca na fé mais do que a elevação espiritual ou a ascese. e colocadas em alguns nichos. Assim. o 7 de setembro. Como se os pés.

Símbolo da regeneração das forças para continuar sua luta diária e cotidiana. Prancha de Figuras – Frexeiras 94 .da alma sertaneja diante dos grilhões históricos de sua condição.

Imagem de Santa Quitéria de Frexeiras. 95 .Os retratos na parede compondo um painel sincrônico de promessas e pedidos Parede e prateleira repleta de ex-votos. PE.

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