IMAGENS DO VELHO CHICO NA CULTURA DO VALE DO SÃO FRANCISCO Jayro Luna

Edupe
2009

SUMÁRIO Apresentação. – Benedito Gomes Bezerra – 3 Introdução - 6 O Rio Como Símbolo – 8 O Rio São Francisco como tema da MPB – 13 O Ciúme, de Caetano Veloso – 29 Do São Francisco ao Mississipi –35 Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira – 42 Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco – 53 A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco – 58 Algumas Considerações Acerca das Representações Pictóricas do Rio São Francisco – 63 Mamulengo Revisitado – 77 A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira – 79 Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico – 91

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APRESENTAÇÃO O Rio São Francisco representa um dos elementos de maior peso simbólico na cultura e imaginário nordestino, fato que se reflete na música, na literatura, na pintura e nas artes em geral. Ultimamente, o Velho Chico tem sido objeto de acalorada e polêmica discussão, em virtude do projeto de transposição de águas idealizado pelo governo federal. É lamentável, contudo, que o foco das reflexões sobre o Rio tenha se concentrado de modo quase exclusivo nos aspectos políticos e ideológicos da questão. O livro do professor Jayro Luna, a propósito, vem preencher essa lacuna, trazendo para a comunidade acadêmica e o público em geral um amplo e variado conjunto de textos debruçados sobre a riqueza cultural constituída em torno do São Francisco. O propósito do autor é, como ele mesmo afirma, “levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região”, bebendo para isso nas inúmeras fontes disponíveis. Duas particularidades devem ser ressaltadas no trabalho do autor. A primeira é que não se trata, de forma alguma, de pesquisa meramente bibliográfica, fruto de observação distanciada. Em muitos textos, o leitor perceberá a argúcia do observador integrado ao objeto de sua investigação, examinando de perto aquilo de que fala, não sem trair a paixão do autor pelos aspectos culturais em questão. A segunda particularidade é o ponto de vista do autor, construído a partir da região do Agreste Meridional, onde se situa a Universidade de Pernambuco, Campus de Garanhuns, de modo que relações muito pertinentes e interessantes são demonstradas entre a riqueza cultural dessa região e o imaginário do Rio, próprio do sertão cujas terras suas águas percorrem. Daí a presença, por exemplo, de um capítulo que trata do santuário de Santa Quitéria em Frexeiras, localidade próxima a Garanhuns. O livro se organiza em onze capítulos que tratam do imaginário e da cultura do Velho Chico sob variados ângulos. A maioria dos capítulos enfoca as diferentes maneiras como o Rio São Francisco é representado em diversas expressões artísticas, como a MPB, a poesia, a arte popular das carrancas, a pintura e a escultura. Outros tratam de manifestações culturais direta ou indiretamente ligadas ao Rio. O primeiro capítulo, intitulado “O rio como símbolo”, estabelece as bases para muito do que será dito nos demais, demonstrando a centralidade da simbologia do rio em diversas culturas do mundo e de outras regiões brasileiras. O segundo capítulo explora o Rio São Francisco como tema privilegiado da Música Popular Brasileira, abrangendo desde a chamada música de raiz, passando pelos temas de escola de samba e por Luiz Gonzaga até a música engajada de Sá e Guarabira, lembrando de forma crítica a profecia de Antonio Conselheiro: “O sertão vai virar mar/ dá no coração/ o medo que algum dia/ o mar também vire sertão”. No terceiro capítulo, o autor analisa especificamente a letra da música “O ciúme”, de Caetano Veloso, cujo tema, comum a outras composições da MPB, é a relação entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, separadas pelo São Francisco, mas unidas pela ponte ali construída na década de 1950. O quarto capítulo traça um interessante paralelo entre o imaginário do Rio São Francisco e do Rio Mississipi (nos Estados Unidos) conforme representado pela música em ambos os contextos. Conforme demonstra o autor, as imagens de ambos os rios são 3

pintores estrangeiros e nacionais têm oferecido suas visões do Velho Chico. deusas greco-romanas e super-heróis de origem estrangeira. o Rio também tem sido representado na arte pictórica. criador de uma colossal estátua do personagem.construídas de maneira bastante diferente. constituindo um rico painel de representação pela pintura. cujo valor monetário se define pelo talento e renome do mestre escultor. O sexto capítulo. operando uma espécie de recriação eventualmente sujeita a polêmica. ponto turístico da cidade de Garanhuns em Pernambuco. A cultura popular nordestina se mostra aí como uma cultura de resistência 4 . começando por Castro Alves e sua obra A cachoeira de Paulo Afonso e culminando com João Cabral de Melo Neto e o “sertão sem rio”. O capítulo nono. mostra como as carrancas sofreram um desvio em sua função original de proteger as embarcações “contra perigos concretos e imaginários”. A partir do século XVII. dessa forma. Fechando o volume. bem como as influências próprias do colonizador europeu e cristão. Uma preocupação central do autor é traçar um paralelo entre o imaginário popular e a representação artística do Nego dá água. o autor apresenta a lenda do Nego d´água como parte do imaginário do povo ribeirinho. Como não podia deixar de ser. evitando que se arrisquem demasiadamente nas águas do Rio. mas incluídas na obra. não cristã. O autor ressalta as peculiaridades das carrancas como objeto artístico para o qual convergem elementos da herança indígena e negra. com um oportuno destaque para o “Castelo de João Capão”. O estudo inclui desde o pitoresco uso do termo “rei” para praticamente qualquer atividade desenvolvida pelas pessoas (“rei do samba” “rei do futebol”. intitulado “Algumas considerações acerca de algumas representações pictóricas do São Francisco”. o autor se volta para as imagens do Velho Chico na obra dos poetas brasileiros. o capítulo décimo primeiro apresenta o santuário popular de Frexeiras como uma curiosa representação do sincretismo religioso e cultural brasileiro. capaz de reunir num mesmo espaço santas. o retrato dos dramas sociais desde a colonização até a transposição. transformando-se em objetos artesanais destinados ao comércio. Os últimos três capítulos abrangem temáticas não ligadas diretamente ao Velho Chico. na poesia brasileira. traz uma breve abordagem sobre a arte do mamulengo. cuja função parecer ser sobretudo intimidar as crianças. “rei da juventude” etc) até uma apresentação dos principais castelos existentes em terras brasileiras. por fazer parte de uma cultura comum. no caso do São Francisco. especificando tipologias e resgatando o nome de artistas situados no Agreste Meridional. com estilos variados e diferentes posturas de engajamento em relação ao Rio. como um complemento bastante interessante dessa mostra da cultura nordestina que é o livro de Jayro Luna. “Por uma mitologia das carrancas do Vale do São Francisco”. Já o capítulo décimo brinda o leitor com um alentado estudo da simbologia do rei. que no caso do artista Ledo-Ivo Gomes de Oliveira. tema do capítulo oitavo. tendo como palco e pivô o grande rio do povo nordestino. substitui os traços populares por traços inspirados na simetria da arte clássica. Sobressai. Já no quinto capítulo. No sétimo capítulo. Se. predominam as imagens poéticas inspiradas numa cultura medieval transportada para o sertão nordestino. acossados pelas constantes cheias do rio e abandonados pelos representantes do poder. negros geralmente. creio eu. do castelo e do palácio na cultura brasileira. no caso americano do Mississipi. predomina a crítica social retratando os dramas dos ribeirinhos pobres.

o livro será de grande utilidade para pesquisadores.inclusive contra a dominação religiosa. com especial destaque para os elementos culturais construídos em torno do Rio São Francisco. a leitura de Imagens do Velho Chico na cultura do Vale do São Francisco proporcionará ao leitor uma rica e profunda imersão na herança cultural do Nordeste. evidenciando a capacidade do povo de moldar e cultivar seus próprios santos e santuários. Para quem não a conhece. 5 . alunos e demais pessoas interessadas na arte popular e na cultura nordestina de modo geral. Está de parabéns a Universidade de Pernambuco. além de oferecer a todo o povo brasileiro uma nova e abrangente visão acerca do Rio São Francisco. notadamente seu campus de Garanhuns. por trazer essa obra ao público brasileiro. Em suma. Com certeza. sem dúvida será uma descoberta apaixonante. Será uma experiência significativa para quem já conhece e ama essa cultura.

pareceu-nos pertinente fazer estudos comparativos e de influências entre as duas regiões. possivelmente interferindo na paisagem sertaneja semiárida do Ceará. abordando a produção literária (prosa e poesia) bem como as manifestações de literatura popular (cordel. Completou-se o projeto com a formação de um acervo bibliográfico. A obra de transposição do leito do Rio São Francisco implica em profundas alterações nessa situação em todo o interior do 6 . contos. arte popular) procurando nas diversas manifestações levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região. buscamos observar as primeiras e possíveis alterações nesse significado em função de uma nova dimensão regional do vale do Rio São Francisco. Acresce ainda. Paraíba. a dimensão cultural e social que envolve a bacia do Rio São Francisco tem aspectos de influência não apenas climática e de geografia física sobre a região. que o projeto incluiu uma parte de estudos acerca do Agreste Meridional. tendo em vista a proximidade da implantação do projeto de transposição do Rio São Francisco. pois. com apoio do CNPq.Introdução Este livro é resultado de um projeto de pesquisa realizado na UPE/FACETEG durante o período 2007-2009. Ainda. iconográfico e artístico da cultura da região do Vale do São Francisco. mas também no âmbito cultural. Embora Garanhuns esteja situada no Agreste. com destaque na micro-região para a cidade de Garanhuns. próxima também do litoral (Zona da Mata). contígua do sertão. tendo em vista que essa micro-região está próxima da bacia do São Francisco. na região do baixo São Francisco. a construção do imaginário acerca do arquétipo que o Rio São Francisco preenche na região do Polígono das Secas. O projeto visava pesquisar as imagens na cultura do Vale do Rio São Francisco. Pernambuco e Rio Grande do Norte. que receberá pelo projeto de transposição uma adutora para regularização do fornecimento de água à região. isto é. todos esses aspectos de localização geográfica. a do Vale do São Francisco e a do Agreste Meridional. tendo como subtema as modificações que o projeto de transposição do rio São Francisco potencialmente poderá causar nessa mesma cultura. distante fisicamente 223 km do rio São Francisco (município de Paulo Afonso). mitos e lendas. tendo em vista.

tendo ainda por horizonte..... .... a previsão de que esse imaginário tende a modificações estruturais significativas de acordo com os resultados da transposição do leito do rio.........estado.......... Jayro Luna 7 ........ analisando tópicos referente às artes plásticas....... Nossa pesquisa justificou-se na medida mesma em que tem por princípio um estudo das imagens do Rio São Francisco na representação do imaginário não apenas nas manifestações próprias das cidades do vale.... mas sim... à tradição regional do vale de um ângulo que ainda não encontramos em outras publicações.. à música popular brasileira...... espero que o leitor desse livro possa tomar contato com os resultados de nossa pesquisa.. Assim... nosso trabalho já aponta para uma atitude de ponta na abrangência que a UPE/Faceteg se coloca nas questões não apenas de sua microrregião.... mas também àquelas que a esse imaginário se dirigem.... Prof........ Neste livro acreditamos que abordamos sob um novo aspecto a questão da cultura do Vale do São Francisco...... E. fazendo com que a distinção típica entre as micro-regiões do estado possam mesmo ser revistas..... numa interrelação dessa microrregião com fatores externos que possam alterar e modificar de modo decisivo seu caráter microrregional...

ou a travessia de uma margem à outra. à defesa de território. Na Cabala hebraica esse ‘rio da vida’ encontra sua correspondência nos ‘canais’ da árvore sefirótica. o da fertilidade. é um ritual de purificação na Índia. ‘remontar corrente’. a primeira. e que têm também relação direta com a Shekinah [Presença divina]. modesto afluente do Tietê. Acerca da primeira imagem. o Ganges. pois deve-se então conceber o rio como identificado ao ‘Eixo do Mundo’: trata-se do ‘rio celeste’ que desce para a terra. o Jordão são alguns exemplos. é talvez o mais notável sob certos aspectos. esta se liga à simbologia da ponte. na tradição hindu. da morte e da renovação. a imagem da “travessia” e por conseguinte. desde o princípio da civilização o rio se destaca. é um dos símbolos de nossa independência. destacando duas imagens ligadas ao rio. o Tejo. 300-301) Assim. No sentido de que seja um lugar propício à agricultura. expressão do retorno à fonte celeste representado então. ao mesmo tempo. basta lembrarmos que o rio Ipiranga. Os rios Tigre e Eufrates na civilização babilônica. Guénon comenta: “O primeiro caso. não mais para pelo remontar da corrente. o que ele chama de “remontar corrente” e a segunda. Não menos importantes para o desenvolvimento de nações foram o Rio Amarelo. No Cristianismo. Jesus foi batizado por João Batista no Jordão. René Guénon observa essa aspecto. A história do Egito antigo é a história da civilização do rio Nilo. O rio como símbolo tem forte presença no desenvolvimento cultural dos mais variados povos. o Tibre. e não pensemos apenas nos grandes rios. o rio Nilo do Egito são exemplos marcantes dessa importância do rio na história da civilização. o Níger. o Tamisa. A simbologia esotérica e mística desde tempos antigos tem trabalhado a imagem do rio. o acesso ao Nirvana. que é em suma o equivalente da Shakti. O curso das águas é a corrente da vida e da morte. alguns rios são sagrados para determinados povos.Schuon). mas pela inversão de direção da própria corrente. p. evidentemente.O Rio Como Símbolo O rio tem marcado a presença como um dos lugares mais importantes da história do homem. pelos quais as influências do ‘mundo em cima’ são transmitidas ‘ao mundo de baixo’.” (GUÉNON: 1989. o Mississipi. banhar-se nas águas do Ganges. pode-se considerar: a descida da corrente em direção ao oceano. Na Cabala também se fala das águas que ‘correm para o alto’. o remontar das águas significa. por exemplo. e que. que são exatamente os nomes de certos aspectos da Shakti. hoje praticamente coberto pela cidade. à navegação é à pesca. o retorno à indiferenciação. outros de extensão consideravelmente menor tornaramse simbólicos por suas posições geográficas estratégicas fundamentais para a vida de vários povos: o Reno. o retorno à Nascente 8 . o símbolo do rio é apresentando de modo a destacar o simbolismo das margens e da água corrente: “O simbolismo do rio e do fluir de suas águas é. o da possibilidade universal e o da fluidez das formas (F. No caso do Brasil. No Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant. comentando o trabalho de Ananda K. Coomaraswamy. A descida para o oceano é o ajuntamento das águas. Em relação ao rio. o remontar do curso das águas. é designado por nomes tais como Gangâ [Ganges] e Saraswatí.

” (CHEVALIER & GHEERBRANT. em boa medida. que por sua vez. Porém. A simbologia indígena que destaca o papel do rio no processo mitológico de criação do mundo. e é o estado que existe para além do ser e do não-ser. no caso do Brasil. até as de Francisco Orellana e Pedro Teixeira. ensina o Patriarca zen Hueineng. de José Lins do Rego ou ainda. A margem oposta. os rios foram muito mais encarados como caminhos do que como fronteiras. ao Princípio. é a paramita. de Raul Pompéia. Riacho Doce (1939). como entrada dos bandeirantes. de Lúcio Cardoso. uma com água e outra sem o precioso líquido. esse estado é simbolizado não só pela outra margem. A cultura Hindu e o Ganges. como também pela água corrente sem espuma. lembremos de Uma Tragédia no Amazonas (1880). caminhos para a conquista do paraíso selvático. Mário de Andrade escreve suas “Enfibraturas do Ipiranga” em Paulicéia Desvairada (1922). Caminhos para a descoberta dos territórios inexplorados. No caso específico do Brasil. ainda hoje. país de grandes bacias fluviais. em cujas margens surgiram algumas das principais cidades da região do polígono das secas. a China e o Rio Amarelo. Mar Dulce. que a partir da Chesf e da usina de Paulo Afonso. A Literatura brasileira. Raul Bopp em Cobra Norato. temos esse processo de busca de compreensão da enorme extensão de terra desconhecida em que se suspeitava a existência de tesouros perdidos. Rio do processo de colonização do sertão. Maleita (1935). para além do qual ficavam os bárbaros. no caso brasileiro. a Babilônia e o Tigre e Eufrates. 780-781) Por esses aspectos a análise da cultura que se desenvolve ao longo do percurso de um rio é também. Desde a expedição de Vicente Pinzón à foz do Amazonas. o rio como imagem do caminho da colonização do sertão. eletrificou praticamente toda a região do sertão. O Rio Amazonas na região Norte. Essas são só algumas poucas lembranças imediatas de obras poéticas. notadamente na região de Petrolina e Juazeiro. com exemplo do rio Amazonas. o rio da energia elétrica. Assim. Castro Alves narra em verso o drama Cachoeira de Paulo Afonso. O Rio São Francisco marcou boa parte da cultura sertaneja do Nordeste Brasileiro. o papel dos rios no desenvolvimento de nosso país foi de suma importância. a principal via de comunicação entre as cidades. antes deles. a possibilidade do progresso para as cidades com a instalação de indústrias de beneficiamento da produção agro-pecuária. No romance. trazendo mais do que luz. a poesia e a música não têm deixado de tratar do tema do rio. como signo representativo de um interior que lança grandes 9 . de eldorados. a análise da própria evolução cultural da humanidade. Aliás. surgiram. p. são apenas alguns dos exemplos que envolvem essa interligação entre o rio e a cultura. e a travessia é a de um obstáculo que separa dois domínios. o mundo dos sentidos e o estado de não-vinculação. dois estados: o mundo fenomenal e o estado incondicionado. cria um mundo mítico e mágico na floresta do Rio Amazonas. só mais recentemente as possibilidades de irrigação que o rio poderia oferecer foram exploradas. Rio que determinava a existência de duas possibilidades de sertão. O Egito dos faraós e o Nilo. Antes. Assim.divina. que julgou tratar-se dum mar. Os limites europeus do Império romano incluíam as margens do Reno e do Danúbio. desde as primeiras entradas e bandeiras que definiam grande parte de seu trajeto em função dos rios que penetravam a floresta ainda inexplorada. em quase sua totalidade em razão da proximidade navegável com o grande rio. porém.

é o barco.. Rios são de água pouca. Onde vais pescar com ela. Este como morada da alma. Ó pescador! No Brasil. na acepção cristã.quantidades de água ao mar. favorece a alegoria de ver o rio como símbolo da vida. foge dela. Ó pescador! Não se enrede a rede nela. lembremos dum poema de João Cabral de Melo Neto: Os rios Os rios que eu encontro vão seguindo comigo. Que a sereia canta bela. Ó pescador! Pescador da barca bela. Ó pescador! Deita o lanço com cautela. cujo passado é memória. como caminho é uma estrada fluídica. Muito sucesso fez o poema “A barca bela” de Almeida Garrett: BARCA BELA Pescador da barca bela. 10 . A canoa. o rio como metáfora da estrada da vida tem como suporte material para sua alegórica navegação o corpo humano. Mas cautela. mas da vida por viver. a totalidade.. Foge dela. Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela. da vida que corre do presente para o futuro. Que perdido é remo e vela Só de vê-la. que necessita dum suporte para que o homem possa seguir por seu curso. Num sentido alegórico. a canoa que levará ao encontro com o mar. Que é tão bela. o barco são os meios utilizados para tal. em que a água sempre está por um fio. O rio como estrada. Inda é tempo.

Os rios têm afigurado no imaginário brasileiro como caminhos. numa das estrofes. é no seu ápice. A ponte. como signo de passagem no sentido alegórico.. os rios brasileiros têm sido muito mais caminho que interrupções ou obstáculos do caminho. outros com nome de bicho. para ser sim. Na primeira estrofe de “O Pescador”. deixa de ser um aspecto corroborador do rio como obstáculo. cita como um dos locais propícios à pesca o estar sobre a ponte: Pescador Pescador. lemos a descrição do caminho que se deve fazer para se chegar à casa de Marília : Entra nesta grande terra. tanta culpa? Se o meu pai. uns com nome de santo. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios. apenas Ouço a água ponteando no peito da tua canoa. da Marília de Dirceu.” 11 . o rio — pondo perpétuo. como signo da união das duas margens. Conhecido é o conto de Guimarães Rosa. Uns com nome de gente.. Na lira XXXVII. o ponto em que o homem pode. Vinícius de Moraes. contemplar como observador o curso contínuo das águas que vêm de distantes paragens e seguem em direção ao mar ou a rio maior. De que era que eu tinha tanta. “A Terceira Margem do Rio”. ponto de admiração e de contemplação do rio. A ponte. em que a alegorização do rio como símbolo atinge um de seus mais altos graus na literatura brasileira: “Sou homem de tristes palavras. Passa uma formosa ponte. portanto. Rios todos com nome e que abraço como a amigos. de Tomás Antonio Gonzaga. Passa a segunda e a terceira Tem um palácio defronte.Cortados no verão que faz secar todos os rios. onde vais pescar esta noitada: Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? Está tão perto que eu não te vejo pescador. muitos só com apelido. Seguindo o sentido dessa visão do rio como caminho. sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio.

CHEVALIER. nas suas Galáxias. Rio de Janeiro. apresenta-nos a idéia dum contínuo aventuroso da linguagem poética como a correnteza do rio. Marília de Dirceu. Tal concepção parte da premissa de que o tempo a tudo modifica e que a correnteza do rio é a alegoria do tempo. Alain. Mas em Haroldo de Campos. de momentos diversos desse rio. Martin Claret. Poesia Completa e Prosa. 2005. Rio de Janeiro. Seja como for. a idéia é de uma sincronização de acontecimentos. Heráclito de Éfeso apresenta o argumento de que não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. Figueirinhas. 1944. Ex Libris. entender na sua fluidez a modificação. GARRETT. João Cabral de.Haroldo de Campos. Pensamento. Própria. Referências Bibliográficas CAMPOS. Nova Aguillar. MORAES. Haroldo de. Almeida. Rio de Janeiro. José Olympio. Vinícius de. e como tal. 1984. René. São Paulo. 2008. Galáxias. Guimarães. GUÉNON. Tomás Antônio. São Paulo. MELO NETO. Os Símbolos da Ciência Sagrada. Nacional. 1994. a evolução. 2004. São Paulo. Obra Completa. GONZAGA. 2005. 1989. Jean & GHEERBRANT. Lisboa. a passagem do tempo e da vida acaba por ser uma das mais ricas imagens poéticas. o rio é um dos símbolos mais fortes da nossa cultura. Dicionário de Símbolos. Poesia e Teatro. Nova Aguillar. ROSA. Primeiras Histórias. Sergipe 12 . São Paulo.

O rio pode ser um símbolo conquanto represente a vida. é santo. nome milenar Filho do solo brasileiro Margeando o seu leito As carrancas vão assustar Nas lembranças. O santo. ou as lágrimas numa aplicação de hipérbole. mas a terceira qualidade. é flora. assim não mais se navega “no”. tentaremos perceber qual é imagem do Velho Chico que está presente nessas canções. tal comparação se faz jus mediante o papel integrador que ambos os rios desempenharam. Na segunda estrofe. A música. são várias as imagens. O tema do rio na música é antigo e tem suas metáforas características. ambos da Banda Moxotó. O infinito aqui redimensiona a figura do rio como metáfora da vida. Na primeira estrofe da canção lemos: “Nas entranhas da ‘Canastra’ Nasce um grande aventureiro ’Nilo’. A seguir.O Rio São Francisco Como Tema da MPB Neste breve artigo comentaremos acerca de algumas letras de música popular brasileira que colocaram como tema o Rio São Francisco. Depois. apresenta já no título a comparação entre o rio São Francisco e o Nilo. como protetor dos animais e da Natureza se mostra aqui como o santo católico mais adequado a emprestar o nome ao rio. em Minas Gerais. como busca da eternidade. lemos: “São Francisco é fauna. é em referência ao nome dado ao rio. sinta voltar A criança que está em você” A estrofe cita o local de nascimento do rio. Guardadas as devidas proporções. por sua vez. flora São Francisco é santo. faz referência às carrancas. as mágoas. ou se. estas com seu aspecto assustador vão trazer nos adultos a lembrança dos medos que as crianças têm de caras feias. a cidade que está próxima à nascente do rio. mas “com” São Francisco. logo colocando o nome “Nilo” como qualificativo do São Francisco. 13 . tem como um de seus sucessos a música Nilo Brasileiro. As duas primeiras se referem à riqueza natural que envolve a bacia do São Francisco. obra divina. a de santo. um dístico que se desenvolve na canção como um refrão: “Navegarei no infinito / Navegarei com São Francisco”. deixando de lado o qualificativo de “Nilo”. a canção passa a adotar o nome do rio acrescido de outras qualidades: é fauna. a passagem do tempo ou a inevitabilidade do fluir dos acontecimentos. rio São Francisco em Pirapora Soltarei o meu sorriso” Agora. é assim o lugar de alegria para o eu lírico. uma vez que a Natureza rica em fauna e flora se apresenta como obra santificada. criada em 1981. na serra da Canastra e também do longo percurso (“um grande aventureiro). representar a tristeza. pode ainda. Lailton Araújo e Wanderley Araújo. por meio desses comentários. Pirapora. em ritmo nordestino de baião.

a criança que está ainda vida nos compositores e que se expressa por meio do verso e da canção. de ser navegável. Brejo Grande Águas tão nordestinas” Porém. Assim instaura-se o conflito. Na primeira estrofe a canção faz referências aos elementos da mitologia indígena (Jaci. a escola de samba Mocidade Alegre desfilou sob o samba-enredo “Das Lágrimas de Iaty surge o Rio. os compositores falam de lembranças da infância em volta do rio. Todo o processo aos olhos do menino é um processo mágico. trazendo energia para toda a região. O título num tom quase barroco já se propõe a utilizar os aspectos lendários e do imaginário da colonização da região do São Francisco. Alagoas e Bahia que ficam às margens do rio. presenciando o processo de desenvolvimento da região com a chegada das hidrelétricas: “As bandeiras da fortuna Velhos sonhos coloridos Esmeraldas. hidrelétricas O menino viu passar Na pureza da magia Nas cidades que nasciam Em Minas Gerais. e que tem a capacidade de sustentar hidrelétricas. o que são “Águas tão nordestinas”? O rio que corre uma região semiárida. O eu lírico aqui se apresenta relembrando as imagens que estavam na consciência do eu enquanto criança. O a que se desdobra e que ecoa pela caatinga como eco da canção do rio. entre os indígenas na luta de preservação de sua nação e cultua e a do europeu em busca da imaginada cidade de ouro no meio da mata: “Um grande rio as formou Pelas lágrimas de Iaty Na consagração do sol e da lua Homem branco veio invadir 14 . de fornecer água para irrigação é nesse aspecto um “Nilo”. terminando com o verso que designa a localização regional dessas cidades: “São Romão. Bahia De Januária à Curuçá” Assim.Na estrofe seguinte. do Imaginário Indígena a Saga de Opara. No carnaval paulista de 2006. ecoará pela caatinga. as cores das bandeiras nas festas populares das cidades ribeirinhas se tornam imagens metonímicas da riqueza que vem com as hidrelétricas. bem à lenda do colonizador acerca do Eldorado. O dístico final da composição: “No toque da minha cantiga / Irrigarão a caatinga”. A penúltima estrofe se compõe de nomes de cidades em Pernambuco. a cantiga em homenagem ao rio que corta o sertão semi-árido. Iaty). e também uma visão “mágica” aos olhos de uma criança. Pão de Açúcar Petrolândia e Petrolina Ibiraba.Para os Olhos do Mundo um Símbolo de Integração Nacional: Rio São Francisco".

a referência ao ritual do Toré e a citação à Iara.. de modo a criar atmosfera da comunhão entre a religiosidade do Pajé e a do pescador cristão.. De fato. A tribo indígena. O sertanejo. de Gonçalves de Magalhães ou nos poemas indígenas de Gonçalves Dias. pede proteção Resgata a "Tribo Brasil" O futuro está em nossas mãos” Ainda nesta estrofe.. fornece com seu sacrifício os elementos de uma sublimação do espaço e do tempo conquistados. mas em conjunção para compor a cena: o pajé e o pescador.. Rica cultura o tempo ultrapassou Festa do Divino. 15 . o sincretismo religioso e a mistura de elementos europeus. O ritual profano do Toré é apresentado como ritual de fé. as romarias. estórias contar Miscigenação. já extinta. Romaria abençoou Vai a carranca todo mal espantar Vem repentista canta esse santuário Um rio de integração nacional Terra Mãe . conquistando essa identidade que ora se apresenta multifacetada e em mosaico. a festa do Divino. A estrofe sugere que é preciso resgatar o passado – notadamente os valores do passado pré-colonial – para se unir à “Terra Mãe” como forma de afirmação da identidade da cultura brasileira. O Toré Se o pescador o Velho Chico encara Se encanta nas águas. Na estrofe seguinte um caleidoscópio em que imagens se misturam para contar do processo de miscigenação e de colonização da região do vale do São Francisco. não mais em sentido explícito de conflito. o epíteto de “Rio da Integração Nacional” se apresenta como resultado histórico do processo de colonização. mistérios no ar Lá vai sertanejo. africanos e indígenas está presente na maioria das festividades folclóricas da região.. mito indígena das águas: “Na dança do Pajé Um ritual de fé. as carrancas. E assim. De Iara” Agora dois personagens estão aí colocados. pode-se planejar um futuro mais promissor. “Vapor encantado. Processo semelhante ao que o Romantismo do século XIX adotou para compor a história poética do Brasil em poemas como A Confederação dos Tamoios..E despertou das profundezas maus espíritos Jacy a grande noite provocou Ao proteger o paraíso do invasor Visando o Eldorado a procura de riquezas A cobiça prevaleceu Batalhas e guerras sangrentas No coração da mata o índio defendeu o que era seu” Na segunda estrofe. Tudo é resumido na idéia de uma “Tribo Brasil”.

apresentando explicitamente suas memórias de criança. compositor popular. pelo processo de urbanização e de desmatamento. Se entendemos que o pronome “ela” se refere à beleza. A elipse aí colocada entre esse dístico e os versos antecedentes é que o compositor quer voltar à Petrolina para ver a beleza da ponte. como se o desfile da escola fosse a metáfora da correnteza do rio.” O compositor então se coloca como morador de Petrolina e que costumava visitar a cidade do outro lado do rio. Numa linguagem bem popular. por ser tão bela. então se diz que a Natureza incorporou a construção da ponte. Iaty era o nome de linda índia que chorou a morte do amado em uma guerra. teve como um de seus primeiros sucessos “Petrolina Juazeiro”. a composição apresenta os elementos centrais da discussão acerca da preservação cultural. Jorge de Altinho começa a canção dizendo: “Na margem do São Francisco. Navegar” Numa imagem poética de alegorização o rio é transposto para a avenida onde se apresenta a escola de samba. hoje substituído.. é o resultado direto no poema dessa busca de identidade que se supõe esteja no imaginário do índio transposto para a cultura do colonizador: “Corre nas veias do sertão "Opará" a salvação Vamos preservar Vem a Morada do Samba. notadamente indígena.Na estrofe final. / vou voltar pra Petrolina”. incorporando ao discurso poético a referência à forte religiosidade do povo nordestino. o que se entende que a construção da ponte conseguiu tal relação com a Natureza devido à bênção de Jesus. sendo esta uma obra abençoada. Jorge de Altinho. Retomando a idéia do título do samba-enredo. com ambigüidades características. Geraldo Azevedo e Alceu Valença. a referência ao nome indígena do rio (“Opará”). se lemos que “ela” não é objeto direto de “natureza”. A seguir. Como na composição de Laílton e Wanderley Araújo. chorou tanto que suas lágrimas formaram a cachoeira de casca Dantas. as lágrimas de Iaty é que vão compor as águas que correm no Rio São Francisco. A seguir se repete duas vezes os versos: “Pra não morrer de saudade. o compositor escreve: “Hoje eu me lembro que nos tempos de criança / Esquisito era a carranca e o apito do trem”. mas depois por Elba Ramalho.. Por outro lado. e as águas seguiram os passos dos guerreiros desaparecidos. Outra música que trata do tema é “Ciúme” de Caetano Veloso (esta canção analisamos em outro artigo). Aqui a ponte se apresenta como o elo de ligação entre os dois lugares que fizeram parte das lembranças da infância do compositor. Segundo lenda indígena. composição gravada pelo Trio Nordestino primeiramente. A música tem como tema o cenário da ponte que liga as duas cidades. fazendo da ponte parte da própria Natureza – o que seria uma interessante construção poética. formando o curso do rio São Francisco. a carranca incutia medo na 16 . então se diz que a construção humana se harmonizou com a Natureza. A seguir lemos os versos: “Do outro lado do rio tem uma cidade / que em minha mocidade eu visitava todo dia. mas sim sujeito do segundo verso (“Ela – a beleza – conservou a natureza”). nasceu a beleza / E a natureza ela conservou”. O terceiro verso diz: “Jesus abençoou com sua mão divina”. Em que se pese o tom ufanista da letra do samba-enredo. diante do ritmo avassalador do processo de colonização.

criando um aspecto metalingüístico com a música. bucólico ou infantil. mas aqui é o compositor que se transfigura liricamente na imaginação duma criança que tenha vivido entre as duas cidades). mas pode também sugerir uma graduação. beira de rio Vento. ao estranho. confere um sentido rítmico ao movimento da ponte e do trem. Os verbos gostar e adorar tem aqui uma função sinonímica. região do Agreste Pernambucano. A ponte enfim faz esse elo de união entre os dois lugares que compõem as lembranças do compositor (em que se pese o fato de que biograficamente Jorge de Altinho não viveu em Petrolina ou Juazeiro. Na sua simplicidade de compositor popular. A barcarola tem como aspecto definidor o de tratar do tema da água. como se tal ação significasse a harmonia entre o barco e a ponte. mas adorar tem além do sentido de prestar culto. Jorge de Altinho escreve: “Mas achava lindo quando a ponte levantava / E o vapor passava num gostoso vai e vem”. Nos dois versos seguintes. uma vez que gostar. Jorge de Altinho cria uma atmosfera de ingenuidade e de encantamento diante da ponte que liga as duas cidades. Opondo-se ao estranhamento do apito do trem e á feiúra da carranca. O título da canção é “Petrolina Juazeiro” e no verso final temos a ordem Juazeiro – Petrolina. A expressão “gostoso vai e vem”. num ritmo híbrido com versos octassílabos e hexassílabos. compôs sob o tema a música Barcarola do São Francisco. sugere que a ponte criou essa união entre as duas cidades e que o menino – recuperado pelas memórias do compositor – se eterniza na visão que o compositor tem ao rever a ponte. a de Geraldo Azevedo. Já o apito do trem era para a criança um outro motivo ligado ao adjetivo esquisito. que como já dissemos. o compositor vai criando a metáfora rítmica do barco a navegar sob águas calmas: É a luz do sol que encandeia Sereia de além mar Clara como o clarão do dia Mareja o meu olhar Olho d'água. no caso do apito do trem. vela a bailar Barcarola de São Francisco Me leve para o mar Era um domingo de lua Quando deixei Jatobá Era quem sabe a esperança Indo à outro lugar Barcarola de São Francisco 17 . município próximo de Caruaru. O dístico final: “Todas as duas eu acho uma coisa linda / Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina”. Geraldo Azevedo. o de amar exageradamente.criança pelo seu aspecto assustador. como que simbolizando a volta depois da ida. se refere ao exótico. No caso. em grandiosidade para que o barco à vapor passasse. mas em Altinho. pois o trem que vinha apitando. demonstrando como a engenhosidade humana pode se harmonizar com a beleza da Natureza. o menino via beleza na engenhosidade da ponte pênsil se levantar. Se primeiro “esquisito” se refere à carranca como feio. notadamente de um rio ou corrente de água e ter um tom sentimental romântico. também pode significar amar. causava na criança esse estranhamento. grande e barulhento. gravou também a música de Jorge de Altinho.

Luiz Gonzaga. a sua oposição como espaço de águas com o sertão seco. na busca da sereia. colocado na “Noite longe que ficou em mim”. entre a esperança e o alcançado: “Era quem sabe a esperança / Indo a outro lugar”. o segundo. ponto de partida. esta se mostra inatingível. como destino. caminho.. No presente o eu lírico agora tem a esperança de voltar a ver o brilho do sol no horizonte sobre o corpo da sereia. como momento inicial dessa busca esperançosa se contrapõe ao presente. o brilho do sol ilumina o corpo da sereia de além mar. solitário no mar. menestrel reciclado do sertão e do mundo moderno. O domingo de luar de prata. sem tesouro de prata ou de luar. Geraldo Azevedo. Os dois lugares. como passado. O conflito entre o querer e a realidade. “Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Se eu fosse um peixe Ao contrário do rio Nadava contra as águas E nesse desafio Saía lá do mar pro Riacho do Navio Saía lá do mar pro 18 . a junção da luz do sol com a silhueta da sereia encanta o eu lírico que se lança a navegar em busca de alcançar a sereia. Porém. em sonho um beija-flor Rasgando tardes vou buscar Em outro céu Noite longe que ficou em mim Noite longe que ficou em mim Quero lembrar Era um domingo.. como musa perfeita distante da realidade. mítico e bucólico do cenário das águas do São Francisco. rio e mar.Velejo agora no mar Sem leme. em “Serra do Navio”. apresenta sua barcarola recuperando o sentido lírico. a canção faz do rio São Francisco o espaço mágico dessa busca. Metáfora da busca da felicidade. realização. ponte de chegada. No início da canção. nos apresenta um outro cenário acerca do rio São Francisco. o primeiro como início. Por sua vez. mapa ou tesouro De prata ou luar Eu.

é inóspito pela condição social em que o sertanejo se encontra. que só sobrevive nelas. O lugar agradável. Assim. metáfora da condição do imigrante do polígono das secas que procura as capitais do litoral ou do sudeste como forma de escapar da condição de flagelado da seca. Essa saudade do sertanejo se opõe à condição da vida na cidade grande. Riacho do Navio. bem ritmado no baião. a vida de vaqueiro enfim. Rios de caráter temporário. como o flagelado da seca deixar sua terra. reviver as caçadas. De fato. ao passo que a cidade. o caminho inverso. como forma de recuperar sua identidade. tanto é natural ás águas irem para o mar. Luiz Gonzaga. arrisca-se ao fazer o caminho inverso das águas. sem reconhecimento. o do Navio e o Pajeú passam meses sem água. O eu lírico busca a si mesmo esquecendo o mundo urbano – Fugere Urbem reinventado nas circunstâncias do sertão. da qual pretende fugir. apresenta a estrofe em que demonstra o desejo do sertanejo longe de sua terra de voltar ao seu torrão: “Se eu fosse um peixe / ao contrário do rio / nadava contra as águas”. que por sua vez é afluente do São Francisco. 19 . aqui. após o refrão. o sertão. Voltar para o sertão para ver sua terra natal. Luiz Gonzaga propõe a volta. Nesse outro lugar o sertanejo se sente deslocado. Porém a relação entre Lócus amenus e lócus horrendus aqui é ambígua. daí sua necessidade de voltar e de esquecer o lugar em que fora forçado a ir: “Sem rádio e sem notícia das terras civilizada”. que vive nas águas. A música tem como refrão uma descrição do caminho das águas do Riacho do Navio até a foz do São Francisco. A terra civilizada é o espaço da comunicação – o rádio aqui representa essa comunicação. Metamorfoseado em peixe. essa agitação típica da cidade.Riacho do Navio Pra ver o meu brejinho Fazer umas caçada Ver as "pegás" de boi Andar nas vaquejada Dormir ao som do chocalho E acordar com a passarada Sem rádio e nem notícia Das terra civilizada Sem rádio e nem notícia Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Riacho do Navio. o riacho do Navio é um dos principais afluentes do rio Pajeú. de fato é inóspito pelas condições climáticas. as vaquejadas. se mostrando insatisfeito com a situação de degredo forçado. Bacia hidrográfica da região do semi-árido. Porém. As águas. Tando lá não sinto frio”.

o príncipe.(Carlos Pita) 4. Carlos Pita vai compondo um panorama caleidoscópico de personagens característicos como a princesa.(Carlos Pita) 5. No 20 . a rainha.A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar . De onde vens que não se chega? De que terra traz partida Coração sujo de estradas?" (“A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar”) A terceira canção (“A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca”) busca metaforizar o vaqueiro do sertão com a figura do cavaleiro medieval. Princesa sertaneja .O caminho do rio Pajeú e do riacho do Navio é a metáfora desse desejo do sertanejo. flora. O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor .(Patinhas . Xangai. A história da princesa das Candeias de amor com o cego do Alumiar . ou seja. em que a letra vai se formando com referências à fauna.Carlos Pita) 11.(Carlos Pita) Tendo como pano de fundo as raízes medievais do canto repentista e da literatura de cordel. o rei. enfim. se afastam do mar.(Fernando Lona . Por essa época Carlos Pita estava envolvido com o grupo de artistas liderados por Elomar.(Carlos Pita) 3. de fato ambos os rios correm no sentido do Nordeste para o Sudoeste. estavam presentes. com violas na afinação característica. com destaque para o cenário do Rio São Francisco.(Fernando Lona . Carlos Pita em 1979 lançou um disco constituído de músicas que formam uma espécie de narrativa tendo como tema uma transposição do universo das novelas de cavalaria para o sertão.Carlos Pita) 7. que entre outros. A história dos quatro reinos desaparecidos e os guerreiros do Mal Viver . ao inverso do São Francisco.Gereba) 10. A primeira canção (“O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor”) é no ritmo do repente. que ao pegar as águas desses rios dá à elas o sentido esperado de seguir em direção ao mar. A rainha do Trançar e o violeiro dos Esqueces . Dércio Marques e Fábio Paes. costumes.Kapenga) 8. é um sertão medieval. acerca das guerras de cavalaria.(Fernando Lona . A princesa do Agreste e o cantador do elo ao mar . O romance do rei do Ensolarar com a bela das Rendas de Lua . geografia e folclore da região. Compõese versos acerca da arte do amor. A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca .(Carlos Pita) 2. O príncipe das Verdejanças e o amor do Verdejar .(Carlos Pita) 6. O arco-íris trovejou . daí sua armadura de couro e corda e sua dama ser uma certa “dama dos Rasos de Seca”. As canções 2.(Patinhas . 3 e 4 formam uma trilogia centrada na imagem das novelas de cavalaria: "Cavaleiro enluarado. As faixas que compõem o disco Águas do São Francisco (1979) de Carlos Pita são: 1. A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear . o cavaleiro. a donzela.Carlos Pita) 12.(Carlos Pita) 9.

Molhado à garoa.mesmo tom vai a canção seguinte (“A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear”). já no título. tem a música “Rio São Francisco”. que se qualifica pela bondade e pela pureza: “Sei que és meu amigo. como outras que até aqui vimos. que de certa forma. com fortes elementos do sebastianismo português e que viam na jovem república a antropomorfização de elementos demoníacos e apocalípticos. uma homenagem ao cantador Elomar. presta. Pedro Sampaio canta a navegação no Rio São Francisco: 21 .” O Rio São Francisco é personificado por Pedro Sampaio num amigo. na música de Elomar Figueira de Melo. Em outra composição. “Assobio do Vapor”. Bahia. Conta as guerras que te atreves. Pedro Sampaio. mas já se encontra latente na obra de Guimarães Rosa. em que reis de reinos imaginários dum sertão lendário se aventuram em guerras e conquistas de amores. O tema do sertão medieval é constante nas obras teatrais de Ariano Suassuna. Esse rio é um verdadeiro mar.. te vendo passar. princesas. transposta para a pregação de beatos como Antônio Conselheiro e José Lourenço. Fundada num imaginário que vê reis. defendiam a monarquia. Quando meu pai me dizia.. A canção “A Princesa do Agreste e o Cantador do Elo ao Mar”. talvez desses imaginários que é natural da infância. na poesia épica de Marcus Accioly. tu podes provar (. Fazendo a república jus a essa imagem pela forma violenta com que tratou essas manifestações sertanejas de beatos. A letra da composição.” A seguir. E eu sentado na proa. compositor natural de Xique-xique. uma monarquia messiânica. em que o cavaleiro sertanejo é um vaqueiro: “Cavaleiro que passas Que vais pro Sertão Qual o destino que levas? Que queres correndo o chão? Conta os caminhos que segues. as canções do disco seguem um tom de narrativas de aventuras palacianas. tem também suas bases no sincretismo religioso que vai buscar essas figuras na religiosidade medieval vinda com o colonizador português. cavaleiros e cantadores espalhados pelos confins do sertão. tem como argumento as lembranças de criança numa infância em torno do rio: “Lembro das pescarias.) Você é o espelho da pura bondade”. E farei a luz do Amor Clarear teu coração.

faz do rio o caminho que cruza pelo sertão e pela vida para mostrar suas composições. Gino e Geno criam uma composição em que a enchente do São Francisco não é apresentada como destrutiva. época em que aumentam as chuvas nas cabeceiras. é parte desse rio alegórico que representa o caminho da vida. O compositor. E como um Dom Quixote ou um cavaleiro menestrel. mas apenas como força que impede o personagem de atravessar a ponte. A dupla de música caipira Gino e Geno criaram a música “As Águas do São Francisco”. assim como o do compositor. de tal maneira que o dormir à rede. aumentava o amor da gente E eu pedindo ao São Pedro. servindo assim como álibi ou desculpa para que ele retorne aos braços de sua amada: As águas do São Francisco estava por cima da ponte Este é o grande motivo que eu não pude atravessar Mas isso eu achei foi bom. ainda por cima. e isto eu achei bom demais" 22 . mas em outubro. que aumentasse a enchente: São Pedro eu estou gostando As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente Falado: " É meus amigos. Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) sofreram com vários bairros alagados e segundo estimativas. sonhar. eu tomava café quente Muitos beijos e abraços. Com velocidade de águas raramente superior a 7 quilômetros por hora. ocorrem as enchentes. tem como ajudante ou escudeiro. e o aspecto rústico da embarcação (“não tem camas. O balanço da rede assim se harmoniza com o ritmo das águas do rio. origens medievais. as águas do São Francisco me impediram de atravessar a ponte e eu voltei pra casa do meu amor. nesse sentido. cujo nome tem. Destacando o porto fluvial de Pirapora (MG). O São Francisco é. a presentificação do rio da vida. como menestrel. Pedro Sampaio. o parceiro Loiola. O tema parte da cena das enchentes do rio. cerca de 450 mil pessoas sofreram com as enchentes neste ano. Uma das maiores enchentes ocorreu em 1979 em que cidades como Barra (BA). fui obrigado a voltar Pra casa do meu amor e passei a noite por lá Fiquei a noite inteirinha Ao lado da moreninha esperando as águas baixar Enquanto as águas baixava. nem retratos na parede”) e o hábito sertanejo de dormir em redes (“Só balanço que embalança / a minha rede”).“Quem ouviu o assobio do vapor Quem vai partir Que arrume as trouxas por favor Vai subir o rio afora Vai chegar em Pirapora Não tem camas nem retratos na parede (do vapor) Só o balanço que embalança A minha rede (de tricô) Vou levando minha viola E as cantigas com o parceiro Loiola” O assobio do vapor serve de motivação inicial para descrever a navegação pelo rio. o rio parece muito calmo.

Lembremos que a grande enchente de 1979 pode ser controlada no referido trecho. diz que tudo vai mudar”. pontes. com alguns “erros” de concordância. as águas calmas de não mais que 7 quilômetros por hora em seu maior trecho. põe represa. se os compositores fazem da enchente do São Francisco motivo para um affair amoroso ao contrário de citar a destruição que a força das águas provoca. O verso seguinte contextualiza a questão da construção de represas: “Tira gente. O “lá pra cima da Bahia” se refere ao mapa da Bahia.Numa linguagem bem popular. mas não nos parece esse o tópico principal. de modo que em Paulo Afonso e em Xingo a água pudesse chegar com uma vazão constante. / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar”). sendo a enchente o artifício que permite ao eu lírico a continuação de seu encontro amoroso. O tema da música é acerca da construção da barragem de Sobradinho. coloca a ação num futuro improvável. O objetivo principal da represa. a 40 km de Juazeiro (BA) e que deslocou pequenas cidades da região para fora do alcance do lago a ser formado. latente e próximo. era de regularizar a vazão do rio compreendido o trecho entre aquela região e o delta. tal se deve ao imaginário que envolve a cultura do vale do São Francisco. pôr. não é outro o motivo que faz Carlos Pita criar composições de caráter romanesco medieval. De fato. porém. de um rio “aparentemente” cercado pela civilização de cidades. a letra da canção fala desse espaço lírico em que o amor é o motivo principal. surge a referência à profecia popular de que o sertão vai virar mar. bucólico cercado pelo sertão quente e inóspito. constituído de uma locução verbal. a imagem de um cenário pastoril. Os três verbos com sujeito oculto (tirar. A profecia é atribuída ao beato Antônio Conselheiro. vinda desde o processo de colonização do sertão. Os dois versos seguintes vão agora contextualizar a região da construção da represa (“O São Francisco lá pra cima da Bahia. de águas constantes. “Sobradinho” de Sá e Guarabira talvez seja das mais conhecidas músicas acerca da questão das represas do Vale do São Francisco. Poderíamos falar em alienação. represas e barcos. música que é quase um hino em questão ambiental. de tal forma que o pedido e o agradecimento a São Pedro: “São Pedro eu estou gostando / As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente”. de um rio tranqüilo. e os verbos finais mudam o ritmo dos pés (vai \ mu \ dar). assim como períodos de seca. a fronteira com Pernambuco que é constituída pelo próprio rio São Francisco. O refrão da música em versos de redondilha menor e maior faz um jogo de palavras com a profecia do beato: “O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão” 23 . A profecia que tem cunho apocalíptico e sebastianista pode ser encontrada no discurso de cantadores. segundo a Chesf. dizer) nos pés de três sílabas dão um ritmo de grande velocidade à ação humana. suas origens são mais antigas. porém. A seguir. A expressão “dia menos dia” coloca o acontecimento como um tempo indefinido. sua porção norte. beatos e poetas anteriores e posteriores a Antônio Conselheiro. O próprio nome de “O Velho Chico” reforça essa imagem. Este pé. O rio São Francisco está envolto assim num imaginário que faz do ritmo mais constante de suas águas. A canção se inicia com um verso que pode ser considerado um lema da defesa do meio ambiente: “O homem chega e já desfaz a natureza”.

percebemos que a voz da letra da canção é a do povo local às vésperas da construção da represa. e aí ela tem um sentido apocalíptico religioso. o que nos dá uma idéia de localização duradoura. com autonomia de município em 1989. do aumento das águas. tranqüilidade). o de Sobradinho. “Sento Sé” se refere ao lugar em que a Sé (igreja principal de uma diocese) se localiza. antes originalmente era apenas a vila dos trabalhadores empregados na construção da barragem. pela destruição do antigo em face do novo. na profecia se diz que o mar virará sertão quando o sertão virar mar. relendo a letra de Sá e Guarabira. conforme se lê no primeiro verso. Junto à orla da represa surgiu o bairro conhecido como “Chico Periquito” com bares e restaurantes à beira do lago. Este medo do progresso é que dá força ao discurso. A poluição das águas e a conseqüente destruição da Natureza pelo homem mesmo e não por uma ação castigadora de Deus. A seguir uma quadra em versos dodecassílabos. mas é também. Sento Sé Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir” O nome das cidades tem um significado maior do que simplesmente toponímico: “Remanso” (se originalmente o significado é uma enseada tranqüila. da tradição. o dia do juízo final. 24 . De fato o lago artificial ali formado é o segundo maior lago artificial do mundo. Porém. permanente. O verso “Debaixo d’água lá se vai a vida inteira” faz referência à perda das raízes. “Pilão Arcado”. esta por sua vez. Assim. sob esses aspectos. De fato. Desse modo. Convém ressaltar que os municípios citados foram reconstruídos em local mais seguro e que com o tempo obtiveram progresso econômico e social com a barragem de Sobradinho. Assim. a construção da barragem deu origem a uma nova cidade. em uma das margens do rio São Francisco. Os dois versos seguintes: “Vai ter barragem no salto do Sobradinho \ E o povo vai se embora com medo de se afogar”. e passaram a utilizá-lo para pilar o sal que salgava o peixe. com formato de uma curva em arco. do cumprimento da profecia do beato: a construção da barragem de Sobradinho. a quebra do que parecia imóvel. desaparecida pelo aumento das águas: “Adeus Remanso. messiânico. em Sá e Guarabira o sentido é ecológico. “Casa Nova” nos dá a idéia de casa recentemente construída. A desordem na vida local causada pelo progresso. E por sua vez. o sentido da canção é poeticamente ambíguo. As incertezas causadas pela modificação do cotidiano. da identidade. permanente.A inversão da profecia (“o medo que algum dia / o mar também vire sertão”) tem um sentido apocalíptico. o aumento das águas vem provocar a destruição da tranqüilidade local. no contexto da construção da represa e dos benefícios que ela trouxe. o medo diante do novo. O homem é o sujeito da ação na canção de Sá e Guarabira. esclarece o motivo da destruição das cidades locais. início de uma vida nova e feliz. cita o nome das localidades atingidas pela subidas águas e compõe a cena do gaiola – tradicional embarcação do rio – navegado por onde antes era uma cachoeira. no sentido figurado é também descanso. Casa Nova. Conta a tradição local que a denominação está ligada a uma lenda de pescadores que encontraram um pilão. de tal forma que ao mesmo tempo é crítica mordaz e bem fundada à destruição da Natureza pelo homem.

“O Velho Chico” é literalmente uma canção engajada. Esta é minha contribuição ao movimento e eu a estou colocando à disposição para ser utilizada na sua campanha ‘Uma vida pela vida’. tendo sua vazão prejudicada ano a ano. os agrotóxicos e o desmatamento da vegetação ciliada. e o outro indo até a Paraíba. Sílvio Brito escreveu ao frei: “Querido irmão. Tais ações envolvem políticas concretas. Conte com este amigo no que puder te servir neste bom combate. sejam as próprias populações ribeirinhas.” 1 A canção de Sílvio Brito tem como refrão os versos distribuídos em duas quadras de rimas cruzadas ABAB e tendo em cada quadra. na bacia do mesmo nome.br/musica_silvio. quando vi o rio São Francisco e fiquei muito triste ao saber que aquele rio que fornece vida para todos os seres que vivem em suas margens poderia vir a morrer. três versos octassílabos e um quarto heptassílabo: “O Velho Chico tá morrendo Já nem tem mais navegação E ainda tem gente querendo Essa tal transposição O Velho Chico tá sumindo Ta suplicando salvação Mas em seu leito tá pedindo A revitalização.html. tem se mostrado que o curso do rio São Francisco vem sofrendo continuamente com isso. até a bacia dos rios Piranhas e Jaguaribe. daí na canção Sílvio Brito diz: “Mas é preciso mais boa vontade Mais ação e decisão Para fazer de verdade A revitalização Pois então vamos reciclar o lixo 1 Silvio Brito em: http://www.com.” Sílvio Brito faz referência ao processo de assoreamento do rio e à poluição.umavidapelavida. O engajamento é na defesa que comunidades locais do São Francisco fizeram contra o projeto federal de transposição das águas do rio. sejam – principalmente – as indústrias.Já a canção de Sílvio Brito. esta musica foi composta logo após uma viagem minha ao nordeste no mês de novembro de 2004. inclusive pelo episódio de uma greve de fome contra o projeto. O que se entende por revitalização é o controle das causas do assoreamento e a devida política de controle dos agentes poluidores locais. De fato. E apresenta como solução para o problema a revitalização do rio. 25 . O frei Luiz Cappio se notabilizou pela campanha contra a transposição. criando dois grandes canais que serviriam água para o sertão de Pernambuco e Ceará.

Chega de poluição Vamos transformar o Chico No oásis do sertão”. Outro aspecto da canção de Sílvio Brito é o jogo que faz entre o nome do rio e do santo: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza.” Assim, o compositor mineiro, natural de Três Pontas, famoso por sucessos como “Farofa-fa”, “Pare o Mundo que eu quero descer” e “Tá todo mundo louco”, apresenta também um argumento messiânico, da ação divina em defesa da Natureza. Mas tal argumento é apenas simplório e se perde no contexto geral da canção de repúdio ao projeto de transposição, de tal modo que a expressão “Tem gente” no verso “E ainda tem gente querendo”, logo seguido pelo verso “Essa tal transposição”, em que a expressão “Essa tal” tem um sentido pejorativo, na linguagem popular, dá um sentido de que o projeto está fundamento em razões equivocadas e de desconhecimento do verdadeiro problema do rio. Porém, é de se ressaltar que de fato existe a necessidade da revitalização, mas que ambos os projetos, o de revitalização e o de transposição não são excludentes, sendo no máximo dependentes, ou seja, a transposição teria como pré-requisito para seu sucesso a revitalização da bacia do rio. Morares Moreira compôs a música São Francisco, num ritmo agalopado, com predomínio de versos em redondilha maior. A canção sintetiza aspectos culturais do Vale do São Francisco. Partindo de uma comparação entre o compositor e o rio, Moraes Moreira começa a apresentar as características comuns a ambos, num processo de personificação do rio: “O meu caminho eu escolho Tirando o cisco do olho Enxergo longe, me arrisco Sou como o Rio São Francisco Faço no tempo viagens No espaço da noite e do dia, Indo, fluindo às margens De Pernambuco e Bahia Andando por todos os lados Sincretizando os Estados Arrematando as costuras Na integração das culturas” Ora fazendo quadras com rimas emparelhadas, ora com rimas cruzadas, vai tornando o ritmo alucinante das imagens apresentadas. O ofício de compositor popular é 26

assim emparelhado com o caminho do rio: “Andando por todos os lados / Sincretizando os Estados”. Percebamos o verbo aí colocado: Sincretizar, ou seja, integrar elementos diferentes numa síntese. Nas duas quadras seguintes, Moraes Moreira diz que está em busca do que é mais novo, ou seja, do progresso e se apresenta como ponte que unifica, comparando o papel da ponte que liga Petrolina a Juazeiro: “Assim como o rio promovo O abraço que a gente precisa Em busca do que é mais novo Sim ultrapasso a divisa Fazendo a ponte, sem medo Antonio sou brasileiro João, Geraldo Azevedo Petrolina e Juazeiro” Cita nomes populares como Antonio e João, e presta homenagem a Geraldo Azevedo. O verso “Sim, ultrapasso a divisa” é mais do que o sentido de ultrapassar fronteiras regionais ou estaduais, mas no sentido da avant-garde, do ir além do comum, do previsível. Neste sentido, se pensamos não na obra de Moraes Moreira, mas no rio com que se identifica, temos que o rio São Francisco sempre foi palco de discussões acerca do progresso, tido como rio da integração nacional. Na quadra seguinte, Moraes Moreira nos fala da imensidão do Brasil, e que o trabalho de compositor é tão grande quanto o percurso do rio: “Por essas águas tão boas Sou navegante feliz Sergipes e Alagoas Minas, imensos brasis” Sergipe e Alagoas são os pequenos estados que estão na foz do São Francisco. O fato de colocar o nome dos estados no plural é uma forma de torná-los substantivos comuns, fazendo referência que na bacia do Vale do São Francisco, que se inicia em Minas Gerais, cabem várias vezes o tamanho desses dois estados. O verso “sou navegante feliz”, tem um sentido metafórico, é mais do que a referência às navegações no rio, mas sim no sentido de que a história da sua carreira de compositor é uma navegação. A parte final da canção compreende os seguintes versos: “Quem pode parar a planície, Os rios e os oceanos? Ah meu amor, acredite Também assim sem limite É o sonho dos seres humanos Quem pode parar o planeta? E o movimento que há? 27

Ah meu amor, com certeza As forças da natureza O vento quem pode parar? Lavam na beira do rio As lavadeiras de Deus A alma dos pecadores E o coração dos ateus” Aqui duas quintilhas precedem a última quadra. A primeira quintilha começa com uma indagação: “Quem pode parar a planície / Os rios e os oceanos?” Argumentando assim que a força da natureza, especialmente a que se expressa no rio São Francisco é ainda mais forte do que a engenhosidade do homem, e que é o sonho humano dominar o rio, um sonho “sem limite”. Referência indireta às represas, barragens e o projeto de transposição. Por outro lado, na quadra que se segue, o compositor responde que a Natureza pode parar a rotação do planeta, superando assim a força humana. Por fim, mais um questionamento acerca da força da Natureza: “O vento quem pode parar?” A resposta implícita é de que o homem não pode. A quadra final, fecha a canção com a imagem das tradicionais lavadeiras de roupa às margens do rio. Porém, num sentido figurado, a lavagem da roupa suja é também a lavagem dos pecados e da arrogância do homem para com a Natureza. Daí lavar a “alma dos pescadores e o coração dos ateus”. Buscamos apresentar aqui algumas composições populares que tratam do tema do rio São Francisco, é possível que tenhamos esquecidos algumas até mais significativas que estas, mas acreditamos que conseguimos aqui apresentar o panorama da imagem do rio São Francisco na música popular brasileira.

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nem triste.1. próximo à ponte que une a cidade baiana à Petrolina.caetanoveloso.° Congresso Internacional da Abralic. menos dramática que a dos dois tropicalistas. inclusive os sites que se apresentam como oficiais de Caetano Veloso (www.com. “O Ciúme” de Caetano Veloso. sendo as duas primeiras e as duas últimas transcritas como quartetos.com. e a estrofe central com 5 versos. o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Que nem alegre. nossa análise já foi parcialmente apresentada no congresso regional da SBPC. eu só. com seu violão. tudo quer buscar. A Forma e o Ciúme A letra da canção foi por nós consultada em diferentes sites. Canção de Caetano Veloso Uma das canções mais bonitas que fazem referência ao Rio São Francisco é. sem dúvida.br\site) e o site (www. nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens de Minas De onde o oculto do mistério se escondeu Sei que o levas todo em ti. em companhia do amigo Benedito Bezerra. ocorrido na UNIVASF. Rio. assim como também falamos um pouco acerca disso no 11. Neste breve texto pretendo fazer uma análise da letra desta canção. tomávamos uma cerveja e ouvimos o cantor que ali se apresentava. do outro lado do rio. 1. Certa feita num bar à beira do Rio São Francisco. Bahia Só vigia um ponto negro.Acerca de “O Ciúme”. fazer uma interpretação também bem intimista da música. na USP. do lado de Juazeiro da Bahia. Já ouvi essa música na voz de Geraldo Azevedo que dá uma interpretação um pouco mais ligeira e ao mesmo tempo. Cremos que aquela que divide a canção em 5 estrofes. tanta gente cala 29 .br). Assisti a um vídeo no Youtube com Gal Costa e o próprio compositor baiano em belíssimo dueto interpretando a música. em 2007. em Pernambuco. cadê Tanta gente canta. Buscamos encontrar a forma de transcrição da letra que mais correspondesse às necessidades poéticas de uma composição versificada. a que melhor representa essa nossa necessidade: O Ciúme Dorme o sol a flor do Chico meio dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte. eu Juazeiro nem te lembras desta tarde Petrolina nem chegaste a perceber Mais na voz que canta tudo ainda arde Tudo é perda. não me ensinas E eu sou só. Pernambuco. em 2008.caetanoveloso.

em constante processo de autoidentificação e espelhamento. pode ser lido de trás para frente que não modifica o seu valor.Tantas almas esticadas no curtume Sobre toda a estrada. não sendo divisível além de por ele mesmo e pelo número 1./ Per/ nam/ bu/ co. (11) O número 11 é do tipo palindrômico. Como. assim como o palindrômico número 11. em termos numéricos./ eu/ só. A estrofe central do poema. na numerologia é um número de avatar. Petrolina e Juazeiro estão. quanto para o reconhecimento do outro. e acentos predominantes na 3. existe. de espiritualidade e de intuição. Podemos contar os quartetos como formados por endecassílabos. indo e vindo./ nem/ po/ e/ta (11) En /tre/ Pe/ tro/ li/ na e/ Ju / a/ zei/ ro/ can/ta (11) Ju/ a/ zei/ ro/ nem/ te/ lem/bras/ des/ta/ tar/de (11) Pe/ tro/ li/ na/ nem/ che/gas/te a/ per/ce/ber (11) Mais/ na/ voz/ que/ can/ ta/ tu/ do/ ain/ da / ar/de (11) Tu/do é/ per/da. esse processo de divisão assume o caráter psico-simbólico de que a separação entre o eu e o outro é ao mesmo tempo um elo para a auto-identificação. não permite uma escansão tão simétrica e regular quanto a que propomos para as demais./ Rio./ ca/dê (11) Tan/ ta /gen/ te/ can/ ta.ª. sobre toda sala Paira. com rimas cruzadas. monstruosa sombra do ciúme. Assim. o aspecto de que o número 11 é primo. porém./ tu/do/ quer/ bus/car. as duas cidades. E ainda. uma diante da outra./ mons/ tru/ o/ sa/ som/ bra/ do/ ci/ ú/me./ Ba/ hi/a (11) Só/ vi/ gia / um/ pon/ to/ ne/ gro. é também um símbolo da igualdade e da identificação (1=1). mas a engenhosidade de sua metrificação híbrida e o fato de estar colocada ao centro do poema dá um sentido simbólico à forma: Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas De on/ de o/ o/ cul/ to/ do/ mis/ té/ rio/ se es/ con/ deu Sei/ que/ o /le/ vas/ to/ do em/ ti./ nem/ tris/ te./ tan/ ta/ gen/ te/ ca/la (11) Tan/ tas/ al/ mas/ es/ ti/ ca/ das/ no/ cur/ tu/me (11) So/ bre/ to/ da a es/ tra/ da. 7ª e 11ª sílabas: Dor/ me o/ sol/ a/ flor/ do/ Chi/ co/ mei/ o/ di/a (11) Tu/ do es/ bar/ ra em/ bri/ a/ ga/ do/ de/ seu/ lu/me (11) Dor /me/ pon/ te./ so/ bre/ to/ da/ sa/la (11) Pai/ ra. A ponte funciona nos dois sentidos. o número 11 é formado pela repetição do algarismo primeiro. isto é./ não/ me/ en/ si/nas E/ eu/ sou/ só./ eu 30 . o/ meu/ ci/ ú/me (11) O/ ci / ú/ me/ lan/ çou/ su/ a/ fle/ cha/ pre/ta (E) (11) E/ se/ viu/ fe/ ri/ do/ jus/ to/ na/ gar/ gan/ta (11) Que/ nem/ a/ le/ gre.

é um sentimento que causa dor a ambos. para que isso ocorra. é preciso que o segundo hemistíquio modifique sua característica de acentuação. o ciúme projetado. por analogia. reflexões. 31 . 3. p. ao que se enciúma e ao que sofre o efeito da ação enciumada do outro. dois hemistíquios separados. na paranóia e no homossexualismo. As razões estão na questão do herdeiro. só se mantém em face de tentações contínuas. Pode obter esse alívio . o projetado e o delirante. implica na quebra da solidão também. a absolvição de sua consciência . o que implica em dizer. (FREUD: 1976. um dos quais. eu/ só. evitando o ciúme. especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá. deriva-se. no âmbito da relação amorosa ou de amizade é. notadamente dos aspectos egoístas do ser. Os dois heptassílabos seriam num sentido significativo da forma da estrofe. Sílabas pares. que também no processo de união de dois seres. a analogia com a ponte que une (/do–em/). não obstante. Aqui começamos a falar do ciúme. em Freud. Para C. Se os juntamos. A origem desse sentimento parece ter causas diferentes. alexandrino. a união masculino-feminino da relação amorosa. na verdade. de Memórias. o número 11. O ciúme é o processo inverso da autoidentificação na relação de união. eu” Porém. O terceiro verso é um alexandrino com elisão na 7. do verbo doer. 8ª e 12ª sílabas. Desde a antiguidade mais remota.ª pessoa do plural. ou seja exatamente ao meio do poema. tanto nos homens quanto nas mulheres. 1993.A estrofe pode ser escandida em dois versos heptássilabos e dois dodecassílabos.ª sílaba.ª sílaba é a última do primeiro hemistíquio do alexandrino e a primeira do hemistíquio seguinte. e o par é a união. temos a possibilidade de formar um verso dodecassílabo: “Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas /E eu/ sou/ só. 271) Ver no outro. para o homem tornou-se evidente a garantia da paternidade.G.e. daquele filho 2 Carl Gustav Jung. de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão.ª. temos na forma. Freud acerca da projeção do ciúme escreve: “O ciúme da segunda camada. o “Ciúme é a falta de Amor” 2 . é preciso que se modifique algumas características da individualidade. por conseguinte. Jung. Já que esta 7. sonhos. do poema. levam a cabo o que nos hemistíquios se apresenta como possibilidade. aquilo que temos medo em reconhecer que existe em nós mesmos. presente do indicativo. sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. O ser “só eu”. Os dois versos centrais da estrofe e.se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade”. para que tal união seja prazerosa a ambos. Os nomes Petrolina (gênero feminino) e Juazeiro (gênero masculino) formam. temos uma distinção de três tipos de ciúmes: o competitivo ou normal. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade. O segundo verso da estrofe é um dodecassílabo com acentos na 4. do verso endecassílabo dá a analogia numerológica do que seja essa projeção. Nesse sentido. para Freud. Do-em (doem). no texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. o elemento causador do ciúme projetado. O ciúme é doloroso. É preciso reconhecer no outro aquilo que reflete de nós mesmos e saber trabalhar isso.

Jung. Na simbologia esotérica. que se interpõe entre as duas cidades: “Entre Petrolina e Juazeiro canta”. no caso da Lua. sentia. 234 p. pois o viajante segue seu curso. Área de Concentração: Psicologia Experimental) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. a Sombra do Ego. para satisfação sexual. econômicas e morais. unifica ambos. começa por tratar diretamente do rio: “Velho Chico vens de Minas”. A descoberta de uma falsa paternidade. admiração. Para C. intrínseco do sentimento de ciúme. o Sol representa os sentimentos do coração. essa luz vem de sua interioridade. como tal. A canção termina nesses termos: “Paira. de modo que o ciúme pode ocultar o brilho do Sol. isto faz com que se imagine que a infidelidade sexual feminina esteja associada com o envolvimento emocional com outro parceiro (De Steno & Salovey. a admiração que causa a um e o outro a beleza do rio. como De Steno & Salovey. é a luz do conhecimento que é preciso adquirir exteriormente. o causador do ciúme entre ambos. Para a mulher. Porém. A ponte que se constrói. 2007. O homem. no lar. Não são poucas as obras literárias que tratam da questão da descoberta da paternidade como elemento definidor da trama. implica na perda do que foi feito para outro. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. O brilho do sol refletido nas águas do São Francisco em oposição ao “ponto negro”. 3 32 . apenas. esse sentimento é exteriorizado pelo eu lírico. por seu turno. logo é compreendida pelo outro. Todavia. se tomamos o gênero das palavras “Petrolina” e “Juazeiro” para compor a analogia de um casal masculino-feminino. Como observa Thiago de Almeida: Ainda. pelo menos na cultura ocidental. o investimento na geração de filhos. orientador Ailton Amélio da Silva. esse ciúme logo é superado. fazendo com que seja superada a dificuldade causada pela passagem do rio. (ALMEIDA: 2007 3 ) Na letra de O Ciúme. temos rima lume/ciúme. Na primeira estrofe da canção. O rio é o viajante que vem de longe e se coloca entre Juazeiro e Petrolina. Este terceiro é o rio São Francisco. a infidelidade sexual tem diferentes conotações para homens e mulheres. A estrofe central. consoante Sheets e Wolfe (2001). Como o amor geralmente é um pré-requisito para o envolvimento de uma mulher em um relacionamento sexual. que ao contrário da lua que a reflete.que continuará a obra do pai. O material reprimido forma um self negativo. Manter o marido significava a garantia de poder criá-los a bom termo perante as exigências sociais. 1996 e Harris & Christenfeld. maior necessidade de envolvimento emocional para a prática do sexo. A mulher. em geral. -. sentia-se em condição de se dedicar à mulher e arrumar uma ou mais amantes. Uma vez que possui luz própria. a infidelidade masculina não tem tal implicação porque os homens têm mais condições de praticar sexo sem amor. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações / Thiago de Almeida. como em O Arco de Sant’Anna de Almeida Garrett. ao passo que a luz que vem de dentro é a da sabedoria. tinha sentido diverso. monstruosa sombra do ciúme”. não existiria razão causadora do ciúme. Na última estrofe. A luz que se reflete. 1996). os sentimentos que buscamos negar em nós mesmos formam uma sombra. ao se discorrer sobre a temática do ciúme é necessário lembrar que para alguns teóricos.São Paulo. Não havendo a possibilidade do terceiro. é preciso que identifiquemos um terceiro. 1996(a e b).G.

A sombra do self negativo. A vida sob o Sol. seu canto. a dor causada pelo ciúme tira a aura da canção. como aparente parte da cena. 2. FREUD. o criador da Bossa-Nova e Ivete Sangalo. eclipsar essa luz do Sol interior. e a obra de arte a expressão desse ciúme. tudo quer buscar. quando na verdade é artificial. é sua tênue possibilidade de vitória. Porém. Imago. substitui o bem que não se pode ter. pois. Ferindo a garganta. restando a solidão. O mistério oculto a que se refere a canção é. nem poética (lírica). A impossibilidade de posse da Natureza causa esse sentimento. leva o poeta a opor seu “ponto negro” de ciúme ao brilho do Sol sobre as águas do rio. endurecendo-se aos sentimentos como se fossem peles “esticadas no curtume”. o reconhecimento dessa impossibilidade (“Sei que o levas”). Rio de Janeiro. pois a obra produzida. musa da música bahiana contemporânea. cadê”. representada pela ponte. eu”. São Paulo. que de Juazeiro vieram João Gilberto. mas enquanto tal. Tantos são os cantadores da beleza. mas tal tarefa é fadada ao fracasso do simulacro. a obra materializada expondo-se aos seus sentidos. Referências Bibliografias: ALMEIDA. é na canção. Movido por esse sentimento. Thiago de. transgredindo-a. Busca incessante de apreensão do belo que resulta no moto contínuo da própria arte. se reduz. reduz o valor do canto à expressão de um sentimento que não é de tristeza (drama. não me ensinas / E eu sou só. Essa obra que substitui o que se perde. eis o mistério. Sigmund. se dedica a tentar aprender um modo de controlar o que não consegue conquistar. 1. pois. dominada pelo ciúme pode. eu só. 18. “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. A tentativa de captar essa beleza vista ali da ponte entre Petrolina e Juazeiro. tanta gente cala”). encontra artifícios para superar a dor da perda iminente pela alegria da descoberta da nova sensação.2. orientador Ailton Amélio da Silva. a propósito. não é a verdade. lhe parece fugidia como as águas do rio passando por sob a ponte e seus pés: “Sei que o levas todo em ti. Lembremos. mas o simulacro: “Mais na voz que canta tudo ainda arde /Tudo é perda. 234 p. Nessa atitude inicial de consolação. transforma-se em canto isolado: “O ciúme lançou sua flecha preta / E se viu ferido justo na garganta”. 33 .4). O cantar poético também se modifica. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. tragédia). ao corpo e à alma. O Canto do Ciúme e os sentidos da percepção O ciúme se transforma também no canto do eu lírico: “o meu ciúme” (v. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações Dissertação de Mestrado. Freud. Vol. na paranóia e no homossexualismo”. In: S. numa visão trágica. Agora o ciúme é o do artista diante da Natureza. É o reconhecimento da mimesis como um processo de imitação. unindo-se à própria Natureza. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. pois que a beleza da Natureza. quanto são os que os ouvem (“Tanta gente canta. mas apenas a indiferença do distanciamento causada pela modificação da memória (épica). O artista teme perder o que não tem. que se sente diminuído pela impossibilidade de posse da beleza da Natureza. o da auto-identificação do eu lírico. na impossibilidade de modificar esse estado de impotência de apreensão da verdadeira percepção da Natureza. A obra humana que se apresenta bela por desafiar a Natureza e conjugar-se no cenário. alegria (comédia). 2007. é também o maior trunfo do artista. 1976.

Do São Francisco ao Mississipi: O Rio e o Homem na Música Popular. 34 .

Neste capítulo tecemos algumas considerações acerca das representações do rio na música popular brasileira e norte-americana. a tripulação fantasma do barco sai pela cidade de 35 . a infância que fala é feita de lembranças compostas pelas imagens dos barcos (gaiolas).ex). tendo como nome atual. o que não é difícil para boa parte dos leitores que têm o hábito de escutar música brasileira e música norte-americana. Outro elemento constante nas músicas acerca do rio São Francisco é a referência à ponte que une Petrolina e Juazeiro. São Paulo e Rio de Janeiro principalmente. é relativamente comum no caso da cultura brasileira e um tanto quanto um pouco mais raro no caso da cultura norte-americana. Mesmo que o compositor não tenha passado a infância na região do propriamente dita do vale do rio. inclusive. de ligação. Rebatizado no Brasil com o nome de “Saldanha Marinho” o vapor navegou de 1871 a 1970. qual sejam as raízes da poesia de cordel e do trovar dos repentistas.) e da força da natureza em resposta às interferências (“São Francisco”. que por vezes. é uma das mais movimentadas do país. das carrancas – estas geralmente trazendo o medo na memória da criança – e a vida ribeirinha. cavaleiros. ocorrendo ocasionalmente. Essas raízes medievais aparecem em composição de Carlos Pita (no disco Águas do São Francisco. O Rio São Francisco na música popular brasileira tem sido representado como rio que em sua bacia guarda uma rica cultura regional. p. p. de certo modo. Ponte Presidente Dutra. “As Águas do São Francisco”). uma lenda acerca do vapor. de Sílvio Brito. como na música de Gino e Geno. tem uma raiz de caráter medieval. traz na memória lembranças da infância vividas à beira rio. é possível ler este sem ler aquele. que este texto tem de certo modo um pré-requisito de leitura que o que se intitula “O Rio São Francisco como tema de MPB”. num processo de formação da voz lírica da letra da canção. Tal processo tem suas bases na corrente de imigração sertaneja-nordestina para as capitais litorâneas ou para o sudeste do país. da fórmula e composição na medida velha.ex. Em algumas canções se trata da questão da interferência do homem no curso da rio. O rio como cenário bucólico do idílio amoroso não é um tema muito significativo. princesas e encantamentos. Outro aspecto constante nas músicas que tratam do tema do rio São Francisco são as lembranças de infância. Esse sertão medieval tem raízes históricas no processo de colonização portuguesa. Xangai e Vital Farias). música incluída em disco produzido com Elomar. A de que em noites de lua cheia. Criou-se. a construção de represas (“Sobradinho”. povoando o sertão dum imaginário de reis. A ponte construída em 1950. Em várias canções a ponte é citada geralmente como signo de união.ex. O que convenhamos. do polêmico projeto de transposição das águas do rio (“O Velho Chico”. de Moraes Moreira. Cabe lembrar. de Sá e Guarabira. transpondo para o sertão aspectos do sebastianismo messiânico. Como memórias dessa voz lírica imigrada. p.). se o leitor considerar que já tem alguma noção acerca das músicas que aqui serão citadas. das novelas de cavalaria e poesia palaciana. O “vaporzinho” como é chamado navegou antes nas águas do Mississipi e hoje é aberto à visitação na cidade de Juazeiro (BA). atualmente recuperado pela prefeitura de Juazeiro é um dos pontos turísticos da cidade. o autor se imagina um homem que tendo deixado a região. porém. para tanto tomamos como base o São Francisco no caso da geografia cultural brasileira e a bacia do Mississipi-Missouri no caso da norte-americana. Cultura essa. 1979). em Geraldo Azevedo (“Barcarola do São Francisco”. O primeiro vapor a navegar as águas do rio São Francisco veio dos EUA.

ainda. eternizada em ópera de Wagner. mas que originalmente é um blues de Menphis Minnie e Joe Maccoy. várias guerras e disputas com a França. o percurso Mississipi-Missouri tem 6700 quilômetros. tendo inclusive uma extensão maior que a do próprio Mississipi. A bacia do Mississipi-Missouri era assim uma espécie de fronteira era o Nordeste dos Estados Unidos. Em 1927 houve uma grande cheia do rio Mississipi que desabrigou centenas de milhares de pessoas. civilizado. A bacia do Mississipi-Missouri corta a região central dos Estados Unidos e tem a foz no sudeste no estado de Louisiana. Trataremos brevemente de algumas. as barragens irão romper Se continuar chovendo. O Missouri é o maior afluente do Mississipi. inúmeras são as canções que tratam direta ou indiretamente do rio. A navegação a vapor e as obras de construção de canais e represas estiveram ligadas à história da ocupação daquela região. recriada pelo Led Zeppelin. A guerra civil americana bem demonstrou essa dicotomia cultural. saber das semelhanças e das diferenças entre os dois rios. O rio está ligado sob vários aspectos ao processo de expansão territorial dos Estados Unidos. selvagens. All last night sat on the levee and moaned. Mas se o vapor navegou nas águas do Mississipi e nas águas do São Francisco. levees goin to break. as barragens irão romper Quando a barragem romper. “If it keeps on rainin. Uma das composições mais impressionantes sobre as enchentes do Mississipi é “When the levee breaks”. If it keeps on rainin. When the levee breaks Ill have no place to stay. como ninguém.Juazeiro a seqüestrar pessoas – principalmente moças – para uma viagem pelo rio.” 36 . Em sua memória está ecoando as canções norte-americanas e brasileiras acerca desses rios. levees goin to break. A letra é direta e crítica sobre os danos que causam as enchentes do rio e mostra a incapacidade do homem de dominar a Natureza. rudes. podemos dizer que simbolicamente este barco conheceu os dois rios e pode. Thinkin bout me baby and my happy home. Após a independência das treze colônias britânicas em 1776. não terei onde ficar”) O desespero dos desabrigados. considerando no conjunto. só superada pela cheia de 1993. social e política. Espécie de recriação da lenda do Holandês Voador. no mais das vezes. urbanizado e livre com as terras d’além do rio e do sul. a Inglaterra e a Espanha acabaram por deixar os Estados Unidos com um imenso território. daqueles que perdem tudo por causa das inundações é retratado de forma direta nos versos dessa canção: “All last night sat on the levee and moaned. No âmbito da música popular. terminando por conseguir do México a Califórnia.” (“Se continuar chovendo. sempre que possível com composições brasileiras relativas ao rio São Francisco. comparando. Obras de contenção e de regularização do fluxo de águas foram construídas no intuito de estabilizar a vazão das águas durante o período anual de cheias.

a ironia. fazendo referência histórica a uma das maiores enchentes da foz do Mississipi. sendo Louisiana uma cidade cuja população era em maior parte negra. “Homenzinho gordo é uma vergonha O que o rio fez com os brancos pobres dessa terra. Vemos aqui que o idílio amoroso. assumindo a presidência com a morte deste.”) Calvin Coolidge era vice de Warren Harding. em que se pede para que São Pedro aumente a enchente para que o personagem lírico da canção possa continuar com um álibi para continuar nos braços de sua amada e não ter que atravessar a ponte. A ironia também se apresenta no modo como se apresenta o presidente. Sua política era marcada pelo conservadorismo. A canção começa com a apresentação do quadro da tempestade e da enchente: “What has happened down here is the wind have changed Clouds roll in from the north and it started to rain Rained real hard and rained for a real long time Six feet of water in the streets of Evangeline” (“O que aconteceu aqui é que o vento tudo mudou Nuvens vieram do norte e começou a chover Choveu de verdade muito e choveu por muito tempo mesmo Seis pés de água nas ruas de Evangeline”) Numa estrofe final. Randy Newman contextualiza historicamente a cena ao citar o presidente Coolidge. o que sugere algumas soluções paliativas e de gabinete.(“Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Pensando no meu bem e no meu lar feliz”) Randy Newman compôs Louisiana 1927. em 1927 a segregação racial era forte nos Estados Unidos e na fala atribuída ao presidente. como eram chamados os brancos pobres (literalmente “os quebrados” – sem grana. Águas do São Francisco. vindo de trem com um “little fat man” e seu bloco de notas. numa espécie de ultra-romantismo acrônico serve de motivo para que não se veja os danos que a enchente traz às populações 37 . "Little fat man isn't it a shame what the river has done to this poor crackers land. então presidente dos EUA: “President Coolidge came down in a railroad train With a little fat man with a note-pad in his hand The President say. Lembremos aqui da canção gravada por Gino e Geno. se vê a preocupação com os “crackers”." (“O Presidente Coolidge veio num trem da ferrovia Com um homenzinho gordo com um bloco de nota nas mãos O Presidente disse. sem dinheiro). afinal não se diz que ele veio com o exército ou uma equipe de salvamento. No verso final. pela pouca ação nos problemas sociais e pelo abandono ou veto de projetos que ajudassem o campo e regiões menos favorecidas.

mas sim. porém. o que falta é vontade política de fazer a correta distribuição das águas dos açudes: “Deixa não vingar transposição Pra criar camarão Em nome do vil metal A nação se ufana em exportação Enquanto o povo do rio tem fome em seu quintal No Ceará. Bombar água pra subir” Em outras duas estrofes. Rollin. 38 . No contexto social. um desatino Sertão divino é convivência seu porvir Povo vizinho ao rio não tem acesso à água Como pode dar a água se o filho não tem para si? É ilusão a redenção fartura d´água. Dércio Marques alude ao fato de que as águas servirão para criação de camarão como produto de exportação e que nas regiões que mais sofrem com a seca. Dércio Marques em canção mais ousada. complementares. Rancho Eterno Chico. O grupo Creedence Clearwater Revival compôs Proudy Mary. música na qual se coloca o cenário dos vapores que navegavam no Mississipi: “Big wheel keep on turnin.ribeirinhas. em ritmo de rancho carnavalesco. com letra que critica a política governamental. melhor se dá Sílvio Brito que em O Velho Chico sugere um projeto de revitalização em oposição ao de transposição das águas. não Orós e Castanhão Têm volume abissal Esbanja a elite água de irrigação Enquanto mata de sede o irmão em seu quintal” Assim. não falta água. fazendo duras críticas às práticas de favorecimento. rollin on the river. desviar onde ele ir Mas que delírio de poder. Proud mary keep on burnin.” (A grande roda girando. sugerindo que a obra favorece a elite e despreza de fato a ajuda ao povo que sofre com a seca: “O que será de todos nós sem o Velho Chico As suas águas já sem forças pra seguir E vem um bando aventureiro cabotino Dar ao rio outro destino. de apadrinhamento e de elitização da política. rollin. Vão cobrar o olho da cara. o fato é que os projetos não são excludentes. Dércio Marques apresenta um engajamento com versos mais refenhos em defesa de seu ponto de vista.

Ol’ Man River é uma das canções que tratam da vida dos trabalhadores nas fazendas de algodão na bacia do Mississipi. Rolando pelo rio. médio Mississipi. he just keeps rolling along. Na canção Moon River lemos: “Two drifters Off to see the world There's such A lot of world to see We're after The same rainbow's end 39 . Rolando. Rolando. Huckleberry Finn. teve uma brilhante versão pelo Jeff Beck Group. Nessa obra. conta a história do rio. ele apenas guarda rolando por aí. e nós sabemos que ele não colhe algodão. assim como aqui. Que o Rio Velho. com Rod Stewart cantando. e tem um capítulo dedicado a um dos maiores ladrões que viveram às suas margens. “He don't plant tater's. chamamos o São Francisco de “Velho Chico”. Pumped a lot of pain down in New Orleans. Mas então o que ele planta são filhos esquecidos. música que faz referência a um dos personagens da literatura americana mais característicos do rio Mississipi. that Old man river.”) O percurso de Memphis. estado de Louisiana era o trecho mais navegado do rio pelos vapores. New Orleans. até a foz.” Comenta-se da vida dura dos trabalhadores. But them that plant 'em. Life on the Missisipi. é isso aí. O título é uma referência a um dos “apelidos” do rio Mississipi. estado do Tennesse. além das aventuras do rapaz que mora num barraco às margens do rio. Outro livro de Mark Twain. sim. John Murrell. oh yes he does.Altiva Mary vá queimando. de como seus momentos de lazer se faziam quando navegavam nos vapores em direção à New Orleans: “Cleaned a lot of plates in Memphis. Sondando muita dor em New Orleans. til I hitched a ride on a river boat queen.”) Louis Armstrong gravou Moon River. and we all know he don't pick cotton. Blues da autoria de Kern e Hammerstein. But I never saw the good side of the city.” (“Limpando muitos pratos em Memphis. Até que eu desci o rio de barco. de Mark Twain. are soon forgotten. Mas eu nunca vi o lado bom da cidade.” (“Ele não planta batatas.

em que se pese a pobreza de suas populações ribeirinhas. o sofrimento do polígono das secas e as enchentes do rio. Por outro lado. Veremos o fim do arco-íris. Meu amigo Huckleberry. a idéia de que a vida em torno do rio é dura. o segundo homem 40 .” Na cultura do Rio São Francisco. O Rio-lua E eu. os conflitos sociais. o sofrimento dos trabalhadores. no Nordeste brasileiro. instalada após a guerra civil americana. os santos católicos. num procedimento típico do imaginário medieval. No caso da cultura do Mississipi os conflitos se regem pela tríade homem x natureza x homem. Esperando-nos na curva do rio. E há um bocado De coisas no mundo para ver! Nós. em Geraldo Azevedo. os beatos têm um papel fundamental no imaginário cultural da região para mediação e solução dos conflitos. O primeiro homem é o que sofre a força da natureza ou de outro homem. econômicos e políticos são apresentados como entre o destino do homem e os desígnios dos céus.”) Assim. a navegação dos vapores como diversão e em geral. nas constantes enchentes do rio e na situação de pobreza que boa parte da população ribeirinha viveu em contraposição à riqueza e à fartura das grandes cidades americanas. cavaleiros e natureza mágica. cheia de lamentos e dor. e mesmo numa canção engajada como a de Silvio Brito lemos versos como: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza. Tal visão parece ter suas raízes no processo de colonização português. o Rio São Francisco. uma religiosidade católica exacerbada e mitos messiânicos de feição sebastianista.” (Dois vagabundos livres para ver o mundo. na segregação racial. Deus. com suas raízes musicais negras. Assim.Waitin' 'round the bend My huckleberry friend Moon river And me. depois. o que domina o imaginário de muitas das canções acerca do rio da integração nacional é um cenário imaginário dum sertão medieval. Assim temos exemplo nas composições de Carlos Pita em Águas do São Francisco. em Moraes Moreira. são temas constantes de várias músicas que giram em torno do cenário do Rio Mississipi. Não é por acaso que em New Orleans e Memphis temos o berço do blues e do jazz. princesas. Tal visão tem fundamento no trabalho escravo durante os séculos XVIII e XIX. eivado de reis. que trouxe uma cultura de caráter medieval.

duas diferenças fulcrais no modo de encarar a realidade circundante. o modo de tratar o imaginário em relação ao rio. O panorama foi montado de forma a não ser apenas 41 . fundado no conflito entre a cultura negra. pois. você terá que se mudar”) São. parece ser bem mais pragmático. mama. rezar não adiantará muito Não! Chorar agora não irá te ajudar.” (“Chorar não irá te ajudar. Nega. européia.é o que se beneficia desse conflito. No caso do rio São Francisco. É o que vemos. Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira Nesse capítulo buscamos apresentar interpretações acerca do modo como o Rio São Francisco é colocado na poesia brasileira num panorama que vai do Romantismo até a Literatura Contemporânea. por exemplo nos versos da canção When the Levee Breaks: “Cryin won’t help you. No caso do rio Mississipi. rezar não adiantará muito Quando a barragem romper. escrava e a branca. prayin’ won’t do you no good. Now. ocultado pelo espelho da introspecção criativa que busca no imaginário medieval razões para acreditar na concretização de profecias acerca dum futuro melhor ou na ação providencial da mão divina. prayin’ won’t do you no good. o conflito é velado. When the levee breaks. you got to move. cryin won’t help you.

Após a apresentação do cenário da tarde. apresenta um entardecer em que os sons da natureza parecem pressentir o desenlace fatal: “Contemplando o infinito. “Tarde” tem versos como “Hora meiga da Tarde! Como és bela / Quando surges do azul da zona ardente! / . cheia de vida: “Ali das bromélias nas flores doiradas / Há silfos e fadas. inclusive do século XVIII. “O Baile na Flor” apresenta a descrição de uma natureza rica. Embora possa se encontrar citações eventuais em outras obras poéticas de autores anteriores. é com Castro Alves que este cenário brasileiro ganha uma dimensão lírica que ainda não havia tido na poesia brasileira. de forma que o cenário da morte coincide com a escuridão noturna.” O terceiro poema. Após ser convencido por Maria a evitar a vingança. Os personagens do drama são o escravo Lucas e sua noiva Maria. / Sutis vaga-lumes / Acendem os lumes / Pra o baile na flor. entre outros. Dantas Motta. tanto no nível semântico. Procurando por ela. Maria conta que o autor trata-se de seu meio-irmão... em lindos cardumes. Marisa Lajolo e Samira Campedelli assim comentam o aumento da tensão dramática na obra: “Como que acompanhando o aumento da tensão dramática do primeiro para o último poema. 1980. passando pela preocupação com o registro e a preservação de uma cultura local. exuberante. pois. acaba encontrando-a vagando numa canoa como que buscando a morte. Castro Alves e as Imagens Clássicas e Românticas O primeiro grande texto de poesia brasileira a tratar do Rio São Francisco foi o livro A Cachoeira de Paulo Afonso de Castro Alves (1876).” Este poema é também uma das mais ousadas experiências formais de 42 . em belíssimo contraste com a brancura das espumas da cachoeira” (LAJOLO & CAMPEDELLI. mas não encontra sua amada. querendo vingar-se indaga da amada o autor da sua desonra.. quanto estético e formal. e. Maria. de onde se precipitam na canoa num ato delirante que simbolicamente representaria suas núpcias. o poeta nos mostra Lucas voltando para sua cabana. que fazem seu lar. a poesia brasileira quando se propôs ao tema soube mesclar na linguagem poética diversos aspectos dessas imagens e preocupações. / Que a perna te esconde em vão. Composto de 33 poemas A Cachoeira de Paulo Afonso forma uma espécie de narrativa dramática. intocada.. p. Desde uma imagem romantizada da Natureza intocada até às preocupações com os danos que a civilização urbanizada causa ao meio ambiente. Passando por Castro Alves. / Que se banha nas termas do oriente. é apresentada de modo bem ao estilo da verve cabocla e sertaneja.. 77) Não é por acaso... João Cabral de Melo Neto. o prenúncio do fim do dia acompanha o ato final dos amantes.. Descobre que Maria fora violentada. Assim. filho do senhor... já em voga no Romantismo desde a primeira geração: “Onde Vais à tardezinha / Mucama tão bonitinha / Morena flor do sertão? / A grama um beijo te furta / Por baixo da saia curta.historiográfico e exaustivo. 1. depois de algumas negativas. considerada inútil diante da opressão que a condição de escravos os condena. / E. mas antes compor um painel cuja amostra deva esboçar as diferentes visões ecológicas e sócio-culturais que moldaram a imagem do Rio São Francisco em diferentes épocas. que o primeiro poema. no poema homônimo seguinte.Tu és do céu a pálida donzela. resolvem navegar até a Cachoeira de Paulo Afonso.” Mais adiante o mesmo poema.. paisagem vai progressivamente escurecendo. na floresta / Rolar o som da funeral orquestra!!!”.

.. O rio é metaforizado na imagem de um crocodilo.. / As asas foscas o gavião recurva.. o que cria uma contradição entre calmaria e ataque iminente. nele..... que cintila.. E onde em meio das flores vão chilrando -Alegres sobre o abismo – os passarinhos!... que tombam sobre o rio............ E após.... pobre criança / Que fazes tu sobre a terra? // E o eco responde? – Erra! (. / Que pode esmagar-te assim?.” Os três poemas seguintes – “Lucas”.. sabemos que Maria está a vagar perdida em sua canoa: “Lá no meio do rio...) Houve pois um braço estranho / Robusto. tamanho.tombam as selvas seculares.. Segue-se o poema “Crepúsculo Sertanejo” que inicia com o verso “A Tarde morria! Nas águas barrentas” e os poemas “O Bandolim da Desgraça” e “A Canoa Fantástica” que vão preparar a entrada do cenário em que os dois amantes resolvem ir em direção do abismo. Parecia. Na última estrofe a destruição causada pelo fogo é apresentada de forma apocalíptica: “Então passa-se ali um drama augusto.... Recresce o fogo em mares.. Como o dorso de enorme crocodilo. “Último Abraço”.. E tudo se acabou!.... O ponto de exclamação do verso final da estrofe.. // E o eco responde: . O quarto e quinto poemas compõem a metáfora da violação tanto de Maria quanto da Natureza.. feroz. O próximo poema “Diálogo dos Ecos” compõe uma cena em que Lucas parece conversar com o eco num verso solitário que se segue à cada estrofe: “Maria.... Mas rubro é o céu...... 43 ... a natureza é violentada pela ação do homem: “A floresta rugindo as comas curva....Sim!” A partir daqui os 11 poemas seguintes vão apresentar um crescendo do drama em que Lucas encontra Maria vagando na canoa e busca compreender o que lhe acontecera.. “Mãe Penitente” e “O Segredo” vão revelar o laço sanguíneo entre Lucas e o agressor de sua amada.. Esses ninhos.” A estrofe é brilhante na conjugação da cena dramática e dos recursos poéticos..... Em “A Queimada” (quarto poema).. uma vez que a mancha do texto na folha busca sugerir a forma de uma flor. vai de encontro ao abismo......... seguido de reticências e uma linha pontilhada compõe o ritmo que insinua o perigo. O quinto poema é “A Queimada”.Castro Alves. Já manso e manso escoa-se a canoa. até o momento em que a noiva se vê convencida a contar o nome do agressor............ “Tirana” e “Senzala” apresentam a chegada de Lucas e a descoberta da ausência de Maria... A canoa é comparada com um ninho que caiu sobre as águas calmas e desconhecendo o perigo.. assim vista ao sol poente.. Os quatro poemas seguintes – “História de um Crime”. . / Espantado a gritar”. N’último ramo do pau-d’arco adusto O jaguar se abrigou..

” 44 . Assim se abre o poema: “Mas súbito da noite no arrepio / Um mugido soturno rompe as trevas. Mais ao final do poema evoca-se o mito de Laocoonte para efeito de comparação: “Grupo enorme do fero Laocoonte / Viva a Grécia acolá e a luta estranha!.. “A Cachoeira” busca apresentar o cenário do clímax dramático do poema... que permearam todo o poema.... / Por hidra – um rio! Por augure – um monte! / Por aras de Minerva – uma montanha! / E em torno ao pedestal laçados.. babando. / . / De grinaldas em flor tecendo a arcada / São arcos triunfais de tua estrada!. Lembra-me que Joaquim Inojosa foi o agente de ligação com os rapazes de São Paulo. / Do sacerdote o punho e a roxa fronte... Destaca-se na primeira estrofe a distância que o rio corre pelos sertões (“Longe. dos cantões bravios”). natureza / homem.” O poema seguinte. tredos......... Manuel Bandeira em prefácio escreve: “Não sei quando o movimento modernista se propagou ao Recife. vingança / perdão.... e o céu!. A luta entre a serpente-rio e o penhasco-touro ganha contornos de grandiosidade mitológica: “A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo! / A briga colossal dos elementos! / As garras do Centauro em paroxismo / Raspando os flancos dos parcéis sangrentos”..)/ Viramno aos beijos. III). / Co’a serpente no dorso parte o touro. Abriu-se a um tempo / O precipício!. / Como filhos – chorando-lhe – os penedos!!!... luz / trevas.Um beijo infindo suspirou nos ares.. numa forma de comentar poeticamente a função irrigatória que o rio exerce sobre vasta região do sertão nordestino. / A canoa rolava!.... / Nas verdes canas o gemente rogo / Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva” (est.. água / terra.. Castro Alves busca concluir as contradições entre vida / morte.... Envolvido que estava com a causa abolicionista....O poema “O São Francisco” apresenta a visão de Castro Alves do rio. Mas quando Guilherme de Almeida passou em Pernambuco e declamou o seu poema ‘Raça’ no Teatro Santa Isabel. assim como a extensão do rio (“Do São Francisco a soberana vaga / Léguas e léguas triunfante alaga!”).” Nesse verso final de coloração fundada num oxímoro.... Os coqueiros e cipós são vistos poeticamente como arcos a ladear todo o curso do rio: “Como pontes aéreas – do coqueiro / Os cipós escarlates se atirando.. de lamber demente / As rijas formas da cabocla linda”(est... Ascenso a princípio não quis saber da novidade.”.... 2. O percurso do rio pelas então províncias de Minas Gerais e Bahia é trabalhado de forma a personificar as regiões como mulheres cortejadas e amantes do rio: “-Linfa Amorosa – co’a nitente espuma / Orlava o seio da Mineira linda (.. o futuro autor de Catimbó entregou os pontos. Na última estrofe do poema. o rio é denominado de “Nilo brasileiro”../ Titubantes – no álveo do rio – tremem as lapas dos titães coevas!.. sânie...” “A Cachoeira” constrói uma imagem metafórica de grande tensão. Castro Alves soube colocar nesse conjunto de poemas tanto a questão da opressão sobre o escravo.. “Vem – à busca talvez de desafogo / Bater à porta da Baiana altiva. II)... / E as serpentes de Tênedos em sanha!. o rio é metamorfoseado numa serpente e as rochas que formam a queda d’água são vistas como o corpo de um touro: “Então doido de dor... A Revisão Modernista do Drama Romântico: Ascenso Ferreira Ascenso Ferreira (1895-1965) foi um dos nomes mais importantes da divulgação das idéias modernistas em Recife... quanto a função colonizadora que as populações caboclas tiveram no povoamento do Vale do São Francisco.” Os quatro últimos poemas retomam a narrativa dramática dos dois amantes e vão num crescendo preparando o momento em que a canoa se atira pela cachoeira: “. bem longe..

(FERREIRA, 1981, p.11). Sérgio Milliet, comentando a obra de Ascenso, observa como o grupo de modernistas do Recife conseguiu uma certa autonomia estética em relação ao modelo de São Paulo: “Na renovação poética do Brasil, já observou Manuel Bandeira, o grupo do Recife escapou à influência imediata e imperialista dos modelos europeus. Da revolução que se iniciou em São Paulo só lhe interessou a liberdade conquistada.”(FERREIRA, 1981, p. 14). Em Xenhenhém, conjunto de 25 poemas publicados em 1951, encontramos um intitulado “O Meu Poema do São Francisco”. O poema começa com quatro versos anafóricos: “É Cabrobó! / É Orocó! / É o Ibó / É Curaçá!...” São nomes de cidades na divisa entre Pernambuco e Bahia. Do lado de Pernambuco (Cabrobó, Orocó e Ibó) ficam na região do rio e da serra de Ouricuri, do outro lado do São Francisco está Curaçá, na Bahia. A sonoridade dos nomes das cidades é explorada poeticamente. Em outro poema, “Sertão”, do livro Catimbó, também o poeta utiliza o efeito de explorar a sonoridade dos nomes das cidades, só que cria um itinerário diverso, partindo de Cabrobó em direção do sertão, até Exu, nome já evocativo das dificuldades e agruras do semi-árido: “Sertão! – Jatobá! / Sertão! Cabrobó! / -Cabrobó! / - Ouricuri! / -Exu! / -Exu!”. No poema do São Francisco, Ascenso Ferreira após a apresentação dos nomes das cidades, coloca um dístico que é o estribilho do poema: “Meu Deus, ela veio das bandas de lá! / Meu Deus, ela veio das bandas de lá!”. O viajante pede ao barqueiro que siga a voz encantada de mulher que segue pelo curso do rio: “Barqueiro, me traga o meu reco-reco, que eu quero chamá-la para um xenhenhém... Que nada! Ela é sempre para mim como um eco Que longe responde, porém nunca vem... Barqueiro, desçamos pelo rio abaixo... Vamos ver, barqueiro, aonde ela está.” A seguir, utilizando a mesma estratégia inicial, Ascenso apresenta o nome de quatro localidades baianas, tirando novamente o efeito estético de suas sonoridades: “Chorrochó / Cocorobó / Patamuté / UAUÁ!”. Este último nome de cidade é grafado com maiúsculas, chamando a atenção para o som do nome que se assemelha ao do choro, evocando o sentimento melancólico do eu-lírico em busca da voz de mulher. Após a repetição do estribilho e de novo pedido ao barqueiro que continue seguindo rio abaixo, segue-se novamente o nome de quatro cidades às margens do rio São Francisco, porém, agora elas não rimam nem supõem uma harmonia sonora com a mesma intensidade musical das anteriores: “E é Floresta / Itacuruba / Santo Antônio, / Jatobá!” Essa quebra de ritmo funciona no poema como aviso de que as águas tranqüilas do rio serão interrompidas, assim avisa o barqueiro: “-Passageiro, volte que lá é a cachoeira. É morte na certa, não teime, não vá!” O verso solitário a seguir é acompanhado por reticências e uma linha pontilhada – recurso que já notamos em Castro Alves – e o nome da cidade que evoca o choro: 45

“-Barqueiro, ela chama é mesmo de lá... ............................................................... -UAUÁ!!!” Em Ascenso Ferreira, como em Castro Alves, o percurso do rio cria um crescendo dramático até a cachoeira de Paulo Afonso. Em ambos, a busca da morte parece o objetivo dos navegantes como forma de fuga das desilusões da vida, a morte na cachoeira como representação também de um ritual de passagem para uma dimensão mágica da existência. 3. Dantas Motta e a Transposição do São Francisco para um Imaginário Sincrético de caráter cristão. Elegias do País das Gerais (1958), livro de poemas de Dantas Mota (1913-1974) apresenta um grande conjunto de poemas divididos em “livros” como se articulassem a estrutura de um grande livro sibilino. Referências bíblicas se misturam às figuras históricas do Brasil. Paisagens das terras bíblicas são metáforas constantes das paisagens visitadas por Dantas Mota em Minas Gerais e no Nordeste. Mário de Andrade numa das cartas que escreveu ao autor diz: “Suas Elegias das Gerais estão prontérrimas, lindas e re-relidas e anotadas.”(MOTA, 1988, p. 330). Uma das partes da obra Elegias do País das Gerais intitula-se “Quarto Livro: Epístola de São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, o Vale”. O título já nos apresenta uma sobreposição entre a figura do santo e do rio. No poema, o rio é a voz lírica que narra acerca de seu próprio curso e sua história de colonização. Acerca desse “Quarto Livro”, o próprio poeta em carta a João Condé escrevia: “Fui assim, à pasta a buscar os petrechos necessários à tosa, encontrando-os embrulhados numa página do suplemento ‘Sintra’ e, dentro dela, vista de cara, a seguinte notícia: ‘Em Aracaju, reuniram-se, na semana passada, os Bispos da Bacia do São Francisco para estudar os problemas advindos de sua transformação.’ Mais ou menos isso. Dessa notícia nasceu a idéia do poema, informe, imprecisa e vaga, com a visão de Jerusalém carregada de bispos, tetrarcas e ametistas, postados todos em Aracaju, a qual depois, era transunta do sergipano país para este, o das Gerais, e que tantos males tem infligido a este Brasil, por força de sua intemperança no juro, na política e nos juizados da paz.” (MOTA, 1988, p. 339) O discurso do rio é marcado pela dor, pela angústia de ser o rio que atravessa a região mais árida do país, estigmatizada pela pobreza, pelo abandono: “Ora, toda unidade é estéril e todo mistério, terrível. E me fizestes uno, misterioso e triste, Não segundo minha paisagem interior, de pobreza, Que estava certa, mas conforme vossa jurisdição, Que ia desde Paracatu do Príncipe, No País das Gerais, Até Olinda e Recife, no País de Pernambuco!” 46

Em determinado momento, buscando apresentar a nascente do rio, Dantas Mota nos mostra o rio comparando sua nascente na Serra da Canastra com um caixão e os peixes com o corpo do morto “Ora, tudo o que se verificar aquém e além dele (o caixão) / é um mistério de unidade estéril (...)// De vez que todo caixão é aquário, / e, como tal, é ele o invólucro; / e o corpo, que dentro dele navega, / sob um céu de morim barato, / o peixe facilmente deteriorável”. Personagens e cenários bíblicos aparecem em constância para compor a imagem desse rio triste e angustiado que é o São Francisco de Dantas Mota: Cristo, Melquisedeque, José, Jerusalém, Eufrates, Cativeiro na Babilônia, etc... A população ribeirinha é apresentada como a descendência de Agar: “Em verdade, subindo vou o Setentrião, / enquanto meus habitantes o Setentrião descendo vão / -Felás de um tempo redivivo, / tormentados com Hórus /(...)/Porque, apesar das secas e dos desertos / (gente proscrita da progênie de Agar) / há uma paisagem de riacho e rugas / nas faces chicoteadas de sol e peixe”. Em contrapartida Lampião, Canudos, e outros personagens e cenários do Nordeste são evocados misturados aos bíblicos: “E, provando a procedência deste razoado, / Uns homens sem respeito para a minha vergonha. / E a república, que triunfou de Canudos, / Batendo, depois, além dele, meu rei Lampião, / No qual, com o ser o meu renovo, me comprazo, / Aqui, empós alguns lustros e sóis passados, / Se sublimou em tetrarquias com os Cunegundes, / os Pantaleões, os Batista e os Santa Bárbara. / Afinal morri. Primeiro em vós. Depois em mim”. Desse modo, as revoltas populares, tanto a do cangaço (Lampião), quanto à mística-beata de Antônio Conselheiro são apresentadas como representativas do povo do São Francisco, ao passo que a República é – retomando uma colocação do próprio Antônio Conselheiro – como a Babilônia. Dantas Mota buscava desse modo fazer a crítica do abandono e do flagelo que a região do semi-árido se encontrava. O episódio do velho testamento referente ao cativeiro na Babilônia (Jeremias) é amalgamado poeticamente à vitória violenta e sangrenta da república sobre Canudos e sobre Lampião. O coronelismo que dominou a política regional se apresenta como o período de cativeiro propriamente dito, neste sentido o povo nordestino da região do sertão estaria em condição semelhante aos hebreus no cativeiro da Babilônia. A seguir, em “Recuperação do Paraíso”, o rio no seu discurso nos diz que deixou sua condição de rio natural para ser uma autarquia. A ironia se refere à construção da hidrelétrica de Paulo Afonso, a primeira grande hidrelétrica construída no seu curso. Delmiro Gouveia que em 1913 iniciou o processo de aproveitamento energético do rio São Francisco construindo a usina de Angiquinhos que aproveitava a força da cachoeira de modo parcial, mas cujo efeito posterior foi incentivar projetos maiores. Em 1948, Getúlio Vargas procede à criação da Chesf e se inicia a construção da Usina de Paulo Afonso, terminada em 1954, até então a maior usina hidrelétrica do país. “Morri eu afinal, que de Francisco mais não sou, Porquanto, hidrelétrico, em autarquia transformado fui.” O discurso do rio ironiza o processo de eletrificação, que de princípio atendeu aos interesses políticos dos coronéis, pois de fato, pequenas propriedades e até mesmo algumas cidades ficaram sem a energia de Paulo Afonso: “Uma lâmpada de mil velas brilha no fundo do inferno”. O trecho final, “As Alegorias em Trânsito”, nos apresenta um anjo 47

As autarquias. 1928. a convite da corte imperial. O surgimento das primeiras povoações se dá no contexto desse processo: “Então o povo crente ergue cruzes nas margens / e capelas / e igrejas. indica também o início da decadência do III Reich: “Se organizaram em quadrilhas de sociedade anônima. 4. Os missionários conquistaram as almas”. os escravos fugidos. desenharam. Jorge de Lima e a História do Rio São Francisco Revisitada Jorge de Lima escreve o poema “Rio de São Francisco” para o livro Poemas. enquanto eu. ave sagrada. Dura crítica de caráter marxista ao governo de Getúlio Vargas. esquecidos. / cemitérios. mostrando que na intensidade do delírio não tinham diferença. / Amém”. é também continuação do próprio rio. No final. Por extensão. Dentre os poetas que analisamos. O cangaceiro saqueou as vilas. / de poita / de groseira. / Ou autarquias que o fero Estado cria.” O rio compara sua nova face transfigurada com as batalhas que marcaram o início da reação russa contra a invasão nazista que. à beira do abismo”. porém. com desprezo. / E eram antônios conselheiros e jesuítas / e eram missões / e era a turba genuflexa / beijando a terra por onde os santos iam.metamorfoseado em ave pousando sobre um comutador de energia no meio do sertão: “Um anjo. / Sua dejecção de pássaro. beatos como Antônio Conselheiro e os jesuítas são postos lado a lado. estudaram. / Pousa num comutador e. Henderson uma pescaria de jereré. a devoção religiosa é apresentada como um delírio coletivo. o poema fala da religião e da escravidão como partes do processo de colonização: “E depois os que foram alçar a cruz para curar as chagas / que o ouro fez. a terra. portanto antecedendo a Dantas Motta em mais de duas décadas. violência. / Depois desceram feras à procura de escravos”. Os capitães-de-mato deram caça aos negros. as vilas. escreveram e pintaram acerca da flora e fauna brasileiras: Henderson (Vem pintar. de certa forma. o fero estado a que se refere o poema são comparados ao procedimento nazista.” A cobiça é destacada como o motivo principal da conquista da região. O povo submisso (“turba genuflexa / beijando a terra”) seguia esses homens como se fossem santos. deixa. as almas formariam o sentido simbólico do rio Opara (São Francisco) como elementos que sofreram opressão. / Esquecidos de que eu também posso ser / A curva de Dniéper / O cotovelo do Don. / Todo o norte se ilumina.” Assim. a sociedade anônima. o rio se consola com o fato de que a energia que ilumina terras distantes. é o único que cita o nome indígena do rio: “E primeiro desceram pelo rio Opara / os homens que foram ferir a terra à procura de ouro. / Vindo dos portões em ruínas do Paraíso. Jorge de Lima passa a evocar os nomes de pintores naturalistas e exploradores estrangeiros que no século XIX. sob certo aspecto. / mas tem cuidado 48 . O garimpeiro deflorou a terra. logo a seguir. ali. com as asas cheias de poeira. A conquista do rio é mostrada como a defloração violenta da natureza: “E todos eles defloraram o rio. / de tarrafa. agora transformado / transfigurado: “Também ilumino e não sou sol. irmanados assim ao próprio rio.

o grande rio como a alma do sertão / desce de Paulo Afonso com sete ataques de doido. Debret”).”. à maior notoriedade que sua obra alcançou (“Passam engenhos pitorescos. cegos cantando. meus irmãos. / o Conselheiro renasce. vem. Jorge de Lima faz menção da cultura folclórica acerca das lendas que envolvem o rio São Francisco: “Vinde caçadores de lendas. Então. “E são bonitos.” O poema continua citando casos lendários entre descrições da navegação no rio: “E o rio desce. / bandeirantes de todos os feitios. Citase que as almas dos holandeses enterraram tesouros. tenho aqui algum peixe. Halfeld e Saint-Hilaire (“Nisso tudo passaram Halfeld e Saint-Hilaire com as bandeiras / da sabedoria / e viram na Igreja Santa do Rosário / a baita coroa do Imperador do Divino”. e ruge. / E um dia os riachos. guardando assim a cachoeira de Paulo Afonso para o clímax narrativo: “E o rio. Cita então Jorge de Lima. O rio então surge como único refúgio: “Tenho água fresca. / as nuvens. / e espuma. feiras. Delmiro que recusou vender sua empresa aos ingleses. / as torrentes. Debret é o mais citado no poema. um dia enfim / deixa de chover no Piauí / não chove no Ceará”. que o sino de Piranhas geme como gente no dia de finados. meu Debret”. Este é também um dos raros momentos em que o rio se personifica e assume a voz no poema. A seguir cita-se num verso o empreendimento pioneiro de Delmiro Gouveia: “E o cearense desceu com uma turbina na mão”. / e o povo volta de novo / a tomar bênção ao Padre Cícero”. vai compondo os seus versos seguindo metaforicamente o curso do rio. a briga que a companhia de linhas de algodão implantada por Delmiro Gouveia na região travava com a Machine Cotton (Linhas Corrente) da Inglaterra. ovelhas descendo das encostas. Jorge de Lima. / tenho para os vossos bichos um restinho de ervas no surrão”. e bate e dorme lá embaixo / como um gigante que sofre de ataques de convulsão”. Debret (“Vem. devido ao que parece. / que o rio desce e as lendas descem com esse rio”. Numa parte relativamente grande do poema. enfrentava práticas de 49 . / os outros rios vêm visitar o rio Opara”. há florestas de mastros pelos cais. / Frei Doroteu renasce. ver o pitoresco do rio. gado pastando nos cercados bodes pulando pelos morros. Como nos poetas anteriormente aqui citados. potros correndo danados. / o canoeiro pachola tocador de violão”. que um certo galo preto depenado canta à meia-noite “Salvador! Salvador!” Toda a vida das cidadezinhas é sintetizada em imagens instantâneas como flashes do cotidiano: “e quando o dia nasce. O fim da estação da seca e conseqüente volta das chuvas marca um intenso renascimento que no poema atinge âmbitos lendários e místicos: “e o homem delira outra vez a nevrose dos Sertões. suspende-se esse ritmo descritivo-narrativo tênue para anunciar a chegada da estação da seca: “Mas um dia.que as piranhas podem comer os teus pincéis. meu Debret. O flagelo da fome é destacado: “-Senhor! dai-me que comer! Senhor”.

intratável e agressiva. é porque assim estanque. Quando João Cabral trata do sertão é um cenário sem água. Delmiro foi assassinado em circunstâncias não esclarecidas em 1917: “E os braços edificaram a caatinga. a fábrica de Delmiro foi finalmente vendida e logo depois desmontada. Em situação de poço. pela constante oposição que o poeta trata entre o cenário do sertão. nesse aspecto. Em 1926. antes.dumping na disputa do mercado nacional. faz alto à beira daquele leito tumba. por pressão de banqueiros ingleses a lei foi revogada. 5. e muda porque com nenhuma comunica. cortado. já no governo de Washington Luís. embora de unhas. Porém. o rio São Francisco não é o cenário fluvial constante nos seus poemas. o rio Capibaribe contém todos os elementos. Dois anos depois. e quando o mestiço inspirado pelo santo ia fazer o milagre da multiplicação e salvar o Nordeste e remir o sertão. o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. de rios intermitentes numa linguagem seca que lembra a de Graciliano Ramos na prosa: “Desde que no Alto Sertão um rio seca. taxou o produto importado. estanque no poço dela mesma. em parte. Faz alto à agressão nata: jamais ocupa o rio de ossos areia. Essa ausência significativa do São Francisco na poesia de João Cabral pode ser explicada. é o rio Capibaribe o seu rio preferido na poesia. estancada. iluminaram os capões. em poços de água. 50 . do agreste e do litoral de Pernambuco. embora sabres. a vegetação em volta. João Cabral trata dessa condição dos rios intermitentes que mal terminando a época das chuvas desaparecem: “Quando um rio corta. de areia múmia” (“Na Morte dos Rios”) Em “Rios sem Discurso”. João Cabral e o Sertão sem o Rio João Cabral de Melo Neto tem uma produção poética que tem como uma das marcas o cenário sertanejo. muda. em água paralítica. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada. o presidente Artur Bernardes para proibir a prática desleal de concorrência inglesa no mercado de linhas. corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. a água se quebra em pedaços. e mais: porque assim estancada.

a dureza da própria sociedade e do estado: “Durante as secas do Sertão. Castro Alves e Ascenso Ferreira..” (“O Urubu Imobilizado”) Podemos colocar a poesia dos poetas que tratarão do rio São Francisco e que foram aqui comentados como autores de textos que destacaram a grandiosidade natural do grande rio do Nordeste e que mostraram em diferentes aspectos o modo como a povoação da região se deu. por outro lado. p. quando presentemente se justifica e se apronta o início das obras de transposição do rio São Francisco em dois canais que cortarão o sertão de Pernambuco – um para atingir o Ceará e ligando-se à bacia hidrográfica daquele estado. e outro para seguir pela Paraíba – devemos supor que um novo cenário não apenas hidrográfico e econômico se propõe. que esperar que a poesia do rio São Francisco continue 51 . fio de água por que ele discorria”. pondo como ponto alto de dramaticidade a cachoeira de Paulo Afonso. mas ainda com zelos de novato: Aviando com eutanásia o morto incerto. na sua sucessão de versos. Se o projeto der certo. se os receios de grupos mobilizados da sociedade contra a obra se justificarem. podemos supor que poetas cantarão a grandiosidade e a beleza da obra como desde tempos imemoriais temos narrativas sobre o modo como os egípcios e babilônicos enfrentaram o deserto. O urubu não retira. pois prevendo cedo Que lhe imobilizarão a técnica e o tacto. Cala os serviços prestados e diplomas. Ele. o urubu. para o cerceamento da liberdade.ex. da nascente à foz. porém. mas uma transformação também cultural. em Dantas Mota e em Jorge de Lima) se encontra espaço para a usurpação de direitos. João Cabral ao tratar dos rios intermitentes. A poesia de João Cabral quando trata do sertão pernambucano faz destacar a questão da seca. Nesse âmbito. justificando que o rio busca correr toda sua vazão num só dia como se tivesse medo de morrer em poços. fazem com que a forma do poema.porque cortou-se a sintaxe desse rio. passa a funcionário. Que o enquadrariam num melhor salário. imite o percurso do rio. não supera. mostrando como. rústica é também o local de uma população sofrida. por certo. quase como um deserto. esfacelado: “esses rios do Sertão falam tão claro / que induz ao suicídio a pressa deles: / para fugir na morte da vida em poças / que pega quem devagar por tanta sede”. muitos deles. Jorge de Lima. da quebra de discurso que o conjunto de poços e cacimbas representa. E vai acolitar os empreiteiros da seca. que no civil quer o morto claro. trata metaforicamente duma quebra de narratividade. Em “Os Rios de Um Dia”. Se em Dantas Mota. de urubu livre. afluentes temporãos do São Francisco. teremos. João Cabral retorna à imagem dos rios intermitentes. cuja natureza que lhe é agressiva. sob a divisa do progresso (construção da usina de Paulo Afonso. marcando bem as injustiças sociais ali cometidas (escravidão em Castro Alves). não raras vezes. para a opressão do estado sobre o indivíduo. ao tratarem do grande rio do Nordeste. de modo que a natureza dura. Veterano.

Seleção. como disse Jorge de Lima “o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. São Paulo. como de autoria deste ou daquele mestre artesão mais reconhecido. estudo e notas de Marisa Lajolo e Samira Campedelli. vol. 1981. José Olympio. Poesia Completa. MELO NETO. da tensão. 1979. Rio de Janeiro. José Olympio / INL. Elegias do País das Gerais – Poesia Completa. Castro. alcançam no 52 . Castro. Xenhenhém. BIBLIOGRAFIA ALVES. quando apresentadas pelo marchand. Algumas carrancas. 1. Nova Aguilar. sem rio São Francisco. Rio de Janeiro. tanto quanto o suicídio de Lucas e Maria em Castro Alves. Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco As carrancas dos barcos do Vale do São Francisco hoje perderam sua função inicial de proteção das embarcações contra perigos concretos e imaginados do percurso do rio por uma função de peça de comércio artesanal. 1997. para ficarmos efetivamente com o sertão de João Cabral. do passageiro de Ascenso Ferreira. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. ALVES. Antologia Poética. FERREIRA. Nordestal. Jorge de. Rio de Janeiro.sendo a poesia do drama. João Cabral. João Cabral. Cana Caiana. Ascenso. MOTA. Ática. Obra Completa. do sofrimento enfim. Poemas de Ascenso Ferreira: Catimbó. Rio de Janeiro / Brasília. MELO NETO. 1980. 1980. 1980. ainda. 1988. Nova Fronteira. LIMA. do cativeiro na Babilônia e a conseqüente travessia do deserto e. Recife. Rio de Janeiro. dos erros. José Olympio. Literatura Comentada. Dantas.

os primeiros registros de existência das carrancas aparecem na segunda metade do século XIX. De fato. Guarany é bisneto de José Dy Lafuente. na Pedra da Gávea (RJ) e as carrancas que seria um costume transmitido pelos Vikings. nasceu em 1923. 2006) Alguns estudiosos mais ligados ao âmbito das teorias menos comprováveis cientificamente e de caráter mais polêmico. com o decréscimo e quase desaparecimento da navegação ribeirinha assim como o fim dos gaiolas. De qualquer forma é inegável a possibilidade de comparações entre aspectos funcionais. destacou-se como o maior artista de carrancas. que avisariam com três gemidos a proximidade destes. de modo que a flutuabilidade. quanto à origem das carrancas. Um dos primeiros cronistas a mencioná-la foi Durval Vieira de Aguiar em 1882: ''Na proa vê-se uma carranca ou grifo de gigantescas formas. de modelos sem dúvida transmitidos pelos exploradores dos tempos coloniais'' (1979. sustentam que esse seria um indício da passagem dos Vikings pelo Brasil em época muito anterior ao descobrimento.”(Zanoni. no lugar de servirem como elemento protetor contra maus espíritos e perigos do rio. Alguns artesãos se destacaram na produção de carrancas. estéticos e culturais das carrancas do São Francisco e as carrancas das galeras vikings. figura de proa e leão de barca são os termos ou expressões que os remeiros e outros ribeirinhos utilizavam para se referirem às carrancas. filho de Guarany. Tese ousada. a história e a cultura dos povos ribeirinhos. através da arte de talhar a madeira. hoje conhecida como carranca. Um dos defensores dessa tese é Jacques Mahieu. em Santa Filomena. indo morar na cidade de Curacá. a utilização das carrancas ganhou uma função de artefato artístico artesanal. ou simplesmente “Guarany”. bem como com suas feições agressivas afugentariam outros espíritos. Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987). p. hoje. jesuíta espanhol. Pernambuco. 33). refugiado do Convento da Bahia que amasiou-se com uma negra africana de Moçambique. às margens do São Francisco. próximo a cidade de Juazeiro. 53 . Mestre Davi (Davi José Miranda Filho). como inscrições na Amazônia. Ana das Carrancas é um dos nomes mais conhecidos quando se fala em carrancas do rio São Francisco Ubaldino. Mestre Davi tornou-se internacionalmente conhecido quando Jacques Cousteau levou uma carranca a todos os cantos do mundo pelo barco "Calypso". seu aparecimento perde-se um pouco no tempo. as carrancas. distrito de Ouricuri. que começou sua produção em 1972 é outro importante artesão de carrancas. Figura. mas que peca pela ausência de dados comprováveis de qualquer uso de carrancas anterior ao período de colonização do Vale do São Francisco. mais comumente têm sido utilizadas como peças decorativas de cantos de salas e escritórios. um famoso carranqueiro de Pirapora perpetua. bem como a adaptabilidade da carranca ao barco tornou-se um aspecto mais secundário. Ana das Carrancas é Ana Leopoldina Santos. filha de artesã e agricultor. os barqueiros adotaram a figura.comércio de peças de artesanato internacional valores consideráveis. que no livro Os Vikings no Brasil argumenta que existem vários indícios dessa passagem. Assim. segundo Zanoni Neves: “Na segunda metade do século XIX. onde passou a trabalhar como professor e constituiu sua família.

colocada na ponta da proa. tementes a Deus. Tal boca e dentes têm a intenção de conotar a agressividade da figura. feroz na ação de proteção da embarcação. uma vez que as ferramentas para composição já não serão as mesmas. machado e formão. representa o próprio corpo do animal formado pelo conjunto barco-carranca. Essa identificação. carranqueira também de Pirapora. como que garante à cabeça de carranca. Assim. ainda de Pirapora (MG) é outro importante artesão carranqueiro que preserva a arte de entalhar a madeira. que a produção de carrancas de barro. a condição de vigia. boi-zebus. quebra-se essa harmonia de material. se colocava uma estrutura semelhante à calda do animal. a carranca de barro como que se distancia da função de protetora do barco para ser a representação do espírito do rio que pode proteger ou não a embarcação em função da intenção do navegador ser aceita pelo rio ou não. cuja cabeça é a carranca e o corpo o próprio barco. Com a utilização de instrumentos para o corte e o talhe da peça de madeira (facão. dá a dimensão da própria modificação da função de uso da carranca. astutos pela descoberta de riquezas teriam contra si o espírito do rio. são apresentadas como figuras com bocas enormes abertas mostrando. navegantes gananciosos. que ao cabo.5 metros de altura. é uma artista que demonstra habilidade no manuseio de instrumentos como facão. por vezes. Nas galeras vikings era essa a conotação que a estrutura do barco buscava. são feitas de madeira. destaque nesse caso para as próprias mãos no ato de moldar o barro e o torno de oleiro. Sendo originalmente artesã ceramista. Simbolicamente o material usado. assim como os barcos a que se destinavam. em geral. madeira ou barro. Assim. agora quando ela passa a produzir carrancas também de barro o que ocorre é a transposição de uma técnica para outra. de Ouricuri. bem como o forno para cozimento. mas com o próprio rio sua identificação. Nosso intento maior é uma observação acerca do modo de produção das carrancas e um comentário acerca da natureza estética dessas figuras. metamorfoseado em animal aquático que desliza pelas águas do rio. que se encontra na Avenida Salmeron. O que buscamos destacar nesse nosso breve texto. uma identificação harmoniosa do material. machado e formão) o artesão vai moldando a peça de maneira intuitiva. As carrancas. Listamos aqui apenas alguns dos nomes mais conhecidos no universo do artesanato de carrancas. como no outro extremo. nem tampouco a busca da explicação da origem das carrancas. Ana compunha antes panelas. é fato. de outra forma. sua boa e seus dentes 54 . uma vez que o barro vindo do leito do próprio rio agora mantém não com o barco. porém. usa o barro extraído do próprio rio São Francisco para composição de suas figuras de carranca. Ana das Carrancas. contendo algumas não só a cabeça de carranca (em geral a cabeça de um dragão). brinquedos. mas diretamente na madeira o artista vai compondo a cabeça da figura. a popa. dentes caninos proeminentes. por sua parte. navegadores virtuosos. Expedito Viana.Dona Lurdes Barroso. A de madeira tem com o barco. Porém. pois. Expedito ficou conhecido quando confeccionou a majestosa estátua de São Francisco de Assis. não é um painel dos artistas. com 3. potes. Não se tem o hábito de se fazer um esboço ou desenho. Nesse sentido. As carrancas. em geral. que navegam atendendo as necessidades das populações ribeirinhas seriam protegidos. na Praça do Posto Três Palmeiras. também de madeira. notadamente as de Ana das Carrancas têm uma função mais de peça decorativa artística de colecionadores e admiradores da arte popular do que propriamente a função de carrancas de embarcações. havendo. Ao se fazer a carranca de barro. de cabeça do barco personificado ou metamorfoseado num vivente. cavalinhos e santos de barro.

escravos que 55 . o conjunto da figura impressiona pela aglutinação de elementos desproporcionais que disputam o espaço da cabeça. a imagem de algum santo ou santa (Nossa Senhora dos Navegantes. as cabeças das carrancas têm aspectos antropomórficos híbridos. quando são de aspecto humanóide. A cabeleira da carranca. Os remeiros ou barqueiros eram predominantemente de característica negra. Os olhos da carranca. No caso específico de Ana das Carrancas. entre outras). iourubá e/ou de nação de angola. por sua vez. não acessível aos olhos do mundo físico. são destacadas em tamanho assim como a boca. Bom Jesus Protetor dos Navegantes. ou ainda. demonstra a força vital e guerreira da carranca. Segue-se assim também as sobrancelhas. ou descascada. também têm o mesmo padrão de desproporcionalidade. Abrindo a boca. formando um conjunto de aspecto monstruoso. ou em alguns casos. Os aspectos africanos da carranca aparecem mais ainda quando observamos as que têm cores fortes (como o vermelho e o tom negro) com o fato das formas desproporcionais ou bem proeminentes como é característico das peças em madeira do artesanato antropomórfico africano banto. Signo. a carranca típica do São Francisco interpõe-se como o artefato que usa da força diabólica para uma missão de proteção ao navegante cristão. abrigadas que estão dos efeitos nocivos do sol e da água do rio. que costumeiramente vazava os olhos de suas carrancas de barro. do viajante Sir Richard Burton (1867). entre outros. Sabemos que as primeiras populações ribeirinhas do Rio São Francisco a partir do período da colonização eram de característica negra ou índia. Desse modo. descolorindo depois de algumas estações. conotam a noção de que tudo a carranca vê. devido ao fato de seu marido. Santo Olavo. algo diabólico. sendo até o período anterior à abolição da escravidão. A língua. quando é colocada na figura. ser cego. XVII). de aspecto protetor. Santa Bárbara. Nesse sentido. supõe-se um rugido. As orelhas. algumas carrancas mais antigas têm a coloração desbotada. São as cores mais usadas. como atestam relatos do Padre Martinho Nantes (séc. A cruz. o nariz e o queixo. como se fosse uma juba caindo pelos lados do pescoço da figura. físico. Outras têm a coloração dourada também. cabelos. XIX). admiradores e turistas e que as colocam nas salas. estas mantêm por mais tempo o vigor de suas cores. O vermelho usado em muitas figuras. assim como o negro e o branco reforçam as idéias expostas pelos olhos. por vezes. os olhos e os dentes. As cores formam outro aspecto importante da carranca. nos escritórios. boca e dentes. agressivas. a proteção declarada que a carranca oferece também apresenta um sentido invertido das figuras de proteção religiosa usadas na náutica. no mais das vezes. grandes também. De forma geral. José Vicente. não apenas o mundo concreto. marcante no caso das de Guarany. um canto de aviso aos espíritos malignos da chegada da embarcação. de Saint-Hilaire (séc. fruto da característica do pigmento. pouco resistente às intempéries. o mundo dos espíritos. talvez. o espiritual e mágico. de uma associação entre a simbologia imagética característica de mitologia africana ou mesmo ameríndia com a religiosidade cristã. O mal a serviço do bem. se caracterizam por uma imagem amistosa ou de bem-aventurança. numa espécie de homenagem incorporada ao seu imaginário.formam o primeiro aspecto dessa força animal e vital. são de leão ou cachorro. Numa espécie de simbiose ou sincretismo. mas principalmente o invisível. Já as carrancas que são adquiridas por colecionadores. tal característica dos olhos das carrancas de Ana mostra ainda mais esse aspecto de visão de um mundo invisível. bem como da força que a protege. ao passo que a carranca se contrapõe pela agressividade nas suas formas monstruosas. ao sol forte da região.

As carrancas são o resultado. notadamente do âmbito dos navegadores e exploradores transposto para o cenário da colonização do sertão. Editora Nacional/MEC/INL. 2002 O rio São Francisco e a Chapada Diamantina. Companhia das Letras. São Paulo. Prancha de Figuras – As Carrancas 56 . Teodoro Sampaio traz informações mais detalhadas acerca da natureza étnica dos remeiros. Belo Horizonte/São Paulo. Francisco Alves. de um cruzamento de influências do imaginário cristão português. Os Vikings no Brasil. de modo que a idéia de espíritos do rio e espíritos da mata possam ajudar ou prejudicar uma travessia é também natural do imaginário ameríndio. como concretizações de figuras de espíritos malignos dominados pelo sentido cristão e postos a serviço da exploração das águas do rio. vol 46. São Paulo/Brasília. Referências Bibliográficas: MAHIEU. Cia. 1976. Padre M. grandes.php?script=sci_arttext&pid=S003477012003000100004.1. os elementos afro e ameríndio os aspectos estéticos e formais da carranca.faziam o serviço de travessia e ligação entre as diferentes cidades. misturados sobremaneira com fortes doses do imaginário africano e ameríndio. 2006. Os cabelos das carrancas. São Paulo. São Paulo. NEVES. Não se deve esquecer. Carrancas do São Francisco. Martins Fontes. em geral. NANTES. SAMPAIO. Rio de Janeiro.br/scielo. coleção Raízes. 1975a Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Jacques. O cristianismo deu o sentido de proteção. que a cultura cabocla também incorporou elementos da cultura indígena. Paulo. PARDAL. a nosso ver. “Os Remeiros do São Francisco na Literatura” em: Revista de Antropologia. Vivaldi Moreira. n. SAINT-HILAIRE. 1979 Relação de uma missão no rio São Francisco. mas também com predominância da cor negra e lisos ajustam-se mais ao tipo étnico indígena sulamericano do que africano. Zanoni. fonte:Fonte:http://www. Trad. Itatiaia/Edusp. T. 2003. A.scielo. porém.

Com origem na mitologia indígena temos a Iara. Ana das Carrancas e algumas de suas carrancas de barro Três carrancas de madeira do mestre Guarany A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco Os rios. muitas vezes. Esta lenda também é encontrada com referência ao rio Tocantins.Carrancas típicas em escala industrial. Aparecendo dás águas com suas gargalhadas. se eles recusarem dar-lhe um peixe. o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores. careca e mãos e pés de pato. As ninfas do Tibre. Minas Gerais. além do imaginário palaciano e de cavalaria. se analisamos o processo de povoação dessas regiões. Lembro do poema de Cláudio Manoel da Costa. 57 . Polifemo e Galatéia. Mãe d’água. vapores assombrados. espíritos maus. O rio São Francisco também tem suas lendas. Uma das lendas mais curiosas do folclore do rio São Francisco é a “A Lenda do Nego D’Água”. Personagem de destaque no Macunaíma de Mário de Andrade. envolvendo carrancas. são repositórios de lendas. preto. este modelo é reproduzido aos milhares. recriando a lenda em águas do ribeirão do Carmo. Pareceme que aqui é o caso de uma migração da lenda do São Francisco para o Tocantins. do Tejo são cantadas desde a poesia barroca.

ao sair para pescar. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio.valedoriosaofrancisco. principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil e no Rio São Francisco. Quando não gosta de um pescador. quando o animal afundou e logo em seguida.com. Conta-se o caso de que certa feita no Rio São Francisco deu-se o seguinte acontecimento: “Um pescador contou que pescava a noite quando percebeu um vulto de um animal morto boiando na correnteza. O fato é que o nego d'água. corpo coberto de escamas mistas com pele. o ‘nego d’água’. outros dizem que são muitos. dos quais muitos dizem já ter o visto. que habita nos locais dos rochedos do meio do rio. ele nunca se afasta muito da beira do rio. costume que faz com que os pescadores atirem fumo a água para cair nas graças do negrinho que gosta desse agrado. percebendo ao se aproximar que se tratava de um cavalo. tange-os para longe da rede de pesca. desapareceu no fundo das águas. para avisar ao dono. Remou apressadamente em direção ao animal. a canoa foi sacudida. com um anfíbio. Não há evidências de como surgiu a Lenda. passeando entre os que estão adormecidos. Apesar de viver também fora da água. afugenta os peixes. Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas. (Fonte: www. Alguns dizem que existe apenas um nego d'água em todo o rio. Como a caipora. que imediatamente atirou para o neguinho que dando cambalhotas. espécie de versão afro-masculina da sereia. o que sossega os corações das mães. levar uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio.br) 58 . muito difundida entre os pescadores. (Fonte: www. Nesse instante lembrou-se o pescador que trazia um pequeno pedaço de fumo. adora fumo. para roubar-lhes fumo ou beiju”. Suas características são muito peculiares. povoa a imaginação de todo menino beiradeiro. costuma aparecer nas casas de farinha das ilhas ou dos barrancos e noite de farinhada. o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele. como também escava suas covas na base do barranco da beira do rio.br) Outro fato narrado no São Francisco e que envolve a figura do Negro D’Água é a seguinte: “Há quem afirme de viva voz que já viu aquela figurinha atarracada de cabeça grande e olho no meio da testa. percebendo o pescador que um nego d’água agarrado à borda da embarcação tentava virá-la.com. para que não tenham sua embarcação virada. os beiradeiros jogam nesse ponto cacos de vidro. que amedrontam o caboclo d’água. Segundo a Lenda do Negro D'Água. partindo anzóis de pesca. ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio.etc. sua função seria a de amedrontar as pessoas que por ali passam. ele seria a fusão de homem negro alto e forte. agradando assim o Negro D’Água.valedoriosaofrancisco. e aí tentou encostar a canoa para verificar a marca ou ferro. o que provoca tombamento do mesmo. furando redes e dando sustos em pessoas a barco. pois a noite os pequenos só se aproximavam da água acompanhados por adultos”. Para afugentá-lo desses locais que terminava alargando o rio. comumente depois que os trabalhadores se acomodam para dormir.Alguns pescadores guardam o hábito supersticioso de.

o bicho rolar pra dentro d'água. pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar. A referida obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira é de grande beleza plástica. 1956) Edilberto Trigueiros no livro A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco esclarece a respeito da lenda do Negro D’Água a sua origem: “Também chamado moleque d’água. Macedo. Muitos desconhecendo a lenda ou o motivo da obra se perguntam como ela foi parar lá no meio do rio? Ao aproximar de barco ou de canoa da estátua ela começa a impressionar pelo tamanho. Existe uma versão narrada por J.A. A. nas águas do São Francisco. de uns dezoito janeiros de idade. embaraiando o sem-vergonha. numa pescaria. Conhecido também como compadre das águas. Macedo. eu mais o fio mais novo. p. o caçula. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos. com doze metros de altura. apresenta-se como materialização do imaginário das lendas. Eu e meus dois menino. A estátua que se vê como que emergindo das águas. Encantado como eles ficou. noutra. nós escutou os menino gritando demais.124) Na cidade de Juazeiro. tudo leva a crer tratar-se de um símbolo transplantado do mito hidrolático da Mãe D’Água (a Iemanjá dos negros iorubas do litoral). adaptado às condições mesológicas do São Francisco. colocada sobre uma pedra.Segundo o site da prefeitura de Juazeiro. maretando o rio. mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: "Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai". A estátua do Negro D’Água. 59 .” (J. oferecendo-lhe fumo. sentada sobre uma pedra. aqui chamado de Caboclo D’Água: “O senhô pode me creiá. nas informações turísticas da cidade. donde nós tava. Eventualmente. 1977. recriando a linguagem do caboclo. Nisso. Nós remou depressa pra lá. acerca de um ataque do Negro D’Água. no escuro que fazia. algumas vezes subindo pelas suas costas até seus ombros. Os homens que não ouvem seus apelos. o artista plástico Ledo-ivo Gomes de Oliveira criou uma de suas principais obras plásticas. se diz a respeito da lenda que: “O Nego D’ Água vive no fundo do rio São Francisco. num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. E nós viu. Eles três tavam numa canoa e.” (TRIGUEIROS. turistas ou crianças descem à pedra e rodeiam à estátua. Dizem que ele é meio homem e meio lontra. causa uma surpresa na paisagem das águas ao olhar do observador. segundo ribeirinhos. até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede. ele leva-os para o seu reino como escravos. ele arrasta as mulheres bonitas que encontra nas margens do rio e leva para o seu reino. O Nego D’Água gosta de batuque nas proas das embarcações e tem o poder de naufragá-las”.

o que se poderia classificar como uma obra plástica moderna. Não é. no sentido das características típicas do moderno. embora os traços pouco lembrem a aparência dos afro-descendentes. 60 . Spock. Na página da Internet que apresenta dados do artista. apoiando a perna direita dobrada com o auxílio da mão direita. a certa altura lemos: “Estudante Autodidata. o medo pela agradabilidade. mas é clássica no sentido de buscar a harmonia da figura com a anatomia e as proporções da figura humana. Filosofia e Comunicação. descritas no renascimento pelo homem vitruviano.. a reportar a esse mesmo Homem o seu próprio Significado Existencial e às suas Origens. seguindo o preceito clássico horaciano e aristotélico. Sociologia. essencialmente. do disforme. Geopolítica. Aliás. numa posição de observador tranqüilo mas atento. de tal forma que não nos causa medo. quando se faz necessário. Substitui-se desse modo na lenda. o artista plástico se preocupou em apresentar uma versão do Negro D’Água de belas feições e com harmonia das partes. com o Urbanismo.à Verdadeira Expressão desta Arte. quanto de sua pose. liturgicamente. de cor escura é que dá o sentido de se tratar da imagem de um caboclo negro. como quem quer ver ao longe completa os tênues traços anfíbios. Dr. De anfíbio o que temos na estátua é uma espinha dorsal externa escamada que parte do alto da cabeça até o cócix. nas bibliotecas e ateliês da vida . As orelhas são pontudas que lembram as do personagem de Jornada nas Estrelas. A pedra utilizada. sentado sobre a pedra. de cabeça achatada. cuja relação primordial é com a própria Arquitetura e. existem relatos de ribeirinhos que alegam ter visto o Negro D’Água como sendo de baixa estatura e atarracado. O rosto delgado tem sobrancelhas bem definidas e salientes e o pescoço longo. Essa versão apresentada por Ledo-ivo tem de certo implicações com uma tentativa – consciente ou inconsciente – de harmonização com preceitos clássicos de estrutura das partes da obra e de aparência segundo dados de uma anatomia fundamentadas no número de ouro e na divina proporção. esticado. repugnação ou receio a figura da estátua. funcionando a sua Obra como uma espécie de Marco-humanizador. Segundo o próprio artista sua arte tem a característica de buscar a: “ . denotando assim. com que. em meio a Brutal interferência do Homem com o Meio-ambiente. A figura se posiciona como quem observa ao longe. O personagem é assim redimensionado a um sentido mais humano. Semiologia. continuou seus estudos de Historia..” No caso da estátua do Negro D’Água encontramos na versão classicizante do personagem folclórico a intenção de buscar esse “significado existencial”.A estátua tem uma aparência bela. a sua Origem Espiritual. ele. pois. como a utilização do grotesco. Historia da Arte (Antiga e Contemporânea). modificando assim a descrição geral do Negro D’Água que costuma referir as suas partes baixas como as de um anfíbio. mas de imediato nos impressiona a sua beleza harmoniosa. mais agradável. lapidando assim seu “ Formão da Vida ”. A figura tem pés e pernas humanas. entalha e esculpi. como um Michelangelo à Davi: ‘ Parla !!!’ ” Está claro aí a presença de influências clássicas e renascentistas na obra do artista. tanto de sua aparência.

Três fotografias do Negro D’Água.jangadabrasil. 1977. Rio de Janeiro. J. obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira.br/revista/galeria/ca84011f. "O caboclo-d'água". A. FUNARTE. A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco. http://www. Internet: JANGADA BRASIL. Edilberto.com. Referências: MACEDO. Folha de Minas.asp 61 . Belo Horizonte. 2 de dezembro de 1956 TRIGUEIROS.

Algumas Considerações Acerca de Algumas Representações Pictóricas do São Francisco Neste capítulo pretendemos comentar acerca de algumas telas de pintura cujo tema é o Rio São Francisco. das carrancas. telas com temas ao rio São Francisco ligado. acreditamos. ou ainda. Não poderíamos aqui fazer um verdadeiro livro de arte panorâmico. 1. Sabemos que não são poucas as telas que foram pintadas com o tema do rio São Francisco. histórico-pictórico a levantar todas ou as principais telas. Com essas considerações. das festas populares das populações ribeirinhas ao Velho Chico. poder contribuir para o entendimento do processo do imaginário que formou na consciência nacional uma representação do rio. como acerca das lendas. Pinturas Holandesas 62 . antes o que pudemos fazer é tratar das telas as quais tivemos acesso mais imediato.

Franz Post que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644. de avaliar a 63 . bem como da passividade com que as pacas se portavam diante da presença humana na terra ainda pouco desbravada. o fato de que em toda tela não se destaca nenhuma árvore. Ligeiramente retorcido. Natural de vegetação do semi-árido. A ocupação holandesa. A paca ali pintada é com o objetivo de fornecer dados sobre a fauna local. sobre umas pedras. Um de seus quadros. temos na possibilidade da perspectiva aplicada pelo pintor. percebe-se o forte holandês. e com o tronco acinzentado. Ao fundo na outra margem. Acresce a isso. Seguindo. esta parece dominada por vegetação rasteira ou arbustiva. Pouco à frente do xique-xique. como que querendo beber água. Rio São Francisco Primeiro. pinta o rio São Francisco. acredita-se que tenha pintado pelo menos 18 telas. um barco atracado à margem. calmamente. podemos observar com destaque às margens. uma estrada de terra que leva até o forte. é plausível encontrá-la com freqüência próximo ao rio. formado por gomos. com isso Post informa sobre a natureza climática da região.Começamos por falar das pinturas holandesas do século XVII. o preceito de que o pintor deve escolher o cenário ou o momento mais significativo de um propósito geral para que possa ter nesse momento os elementos que realmente possam expressar o que se deseja ou se busca. Se pensamos no tempo real que o pintor levaria para a pintura. mesmo na distante outra margem que aparece ao fundo. 10 das quais ainda desaparecidas. é pouco provável que a paca se dispusesse a servir de modelo. tranqüilamente ali. tais estranhezas não alteram o significado geral da planta cactácea ali pintada. mas em floração. Pelo tamanho da paca e do xique-xique e o tamanho com que aparece o barco e o forte ao fundo. Franz Post. um xique-xique. Post pinta uma paisagem das margens do São Francisco. Demonstrando a firmeza da ocupação holandesa na região. principalmente em Pernambuco. bem como sobre as condições de povoamento. vemos uma paca de pelo marrom escuro. Os artistas holandeses a serviço de Maurício de Nassau puderam pintar vários aspectos da vida e da paisagem colonial daquela parte do Brasil. trouxe algumas contribuições para a formação cultural da região. de modo que nela vemos informações sobre a vegetação e a fauna da região. ao que me parece.

Cachoeira de Paulo Afonso A pintura de Post. 64 . praticamente sem ondas. suíço ou alemão.distância duma margem à outra. Franz Post. já após a queda ela se reconforma para seguir seu caminho e no modo como os rochedos parecem resistir à força brutal da cachoeira. Ainda as águas calmas. porém. a beleza da pintura paisagística de Post esta lá ainda presente. Todavia. Noutra tela. Podemos comparar esse quadro de Post com um pintado posteriormente por E. Post fez por pintar a cachoeira de tal maneira que parecesse pouco mais do que as que são comuns há muitos outros rios de vazão menor que o São Francisco.F. Colocando-se o pintor num ângulo de relativa distância para que pudesse pintar um plano geral de frente da queda d’água. se austríaco. no modo como dá o efeito de queda d’água. Á época em que pintou ela ainda não tinha esse nome.Schute – pouco se sabe acerca desse pintor. não dá ao observador a dimensão do tamanho da queda d’água. mostrando aos olhos de que observa o quadro quão largo é naquele trecho o rio. chamada antes pelos portugueses de “Sumidouro” ou “Forquilha”. Não nos dão os elementos da tela (pedras. dá dados da facilidade de navegação. vegetação) nada que sirva de parâmetro para uma aproximada medida da cachoeira. Franz Post pinta a cachoeira de Paulo Afonso. agora. de como depois. inclusive existem dúvidas sobre sua nacionalidade.

mas também percebendo qual dura será a travessia. em que algumas árvores pairam à beirada. como se estivessem convidando o observador do quadro a olhar o cenário e admirá-lo também. que pintou a região de Penedo. Jan Vingboons. O quadro é de metade do século XIX. vai baixando para um tom próximo do rosicler ao fundo. Escolhendo um ângulo diferente de Post. caso se dispusessem a fazer. Em primeiro plano vemos uma palmeira pendendo em direção à queda d’água. Vingboons. O quadro do rio São Francisco de Post pode ser comparado com a ilustração de um compatriota seu.F. Schute se coloca no alto dos rochedos.Schute.E. numa posição que permita ver o alto da queda. para alcançar o outro lado dos rochedos. Cachoeira de Paulo Afonso. Reforçando essa impressão da hora. As figuras estão de costas para o observador. A névoa que se levanta da cachoeira também tem um efeito plástico belo. como se buscassem demonstrar a altura da queda. deixando-nos a impressão de que as figuras humanas ali paradas estão não só admirando a paisagem. e as água vem de pelo menos três direções diferentes. O céu de várias tonalidades de azul no alto. Aqui em Schute a pintura paisagística é nitidamente romântica. 1850 possivelmente. como que anunciando um final de tarde. mais ao fundo duas figuras humanas servem de parâmetro para que se possa ter noção do volume e da extensão de águas ali. Penedo 65 . no primeiro plano temos o domínio dos tons escuros.

o verde e o vermelho dos barcos. Um exemplo é o pintor Militão dos Santos. nas margens ou na vila. alguns com aspectos de barcos de pesca. o azul vivo das águas. Não se vê figura humana. focalizando mais nitidamente as casas e construções da outra margem. principalmente os oriundos da região do vale e do Nordeste em geral. as plantações de hortaliças bem verdes. 66 . A bandeira das caravelas parece ser de tropas coloniais portuguesas. o rio São Francisco tem sido tema recorrente de vários pintores. uma vez que não temos sinal do xique-xique. o marrom avermelhado e o negro da terra. seja nos barcos. outro vem à direita. as cores das roupas e as cores das casas. O movimento também é sincrônico e complementar. Pinturas Contemporâneas No âmbito das pinturas contemporâneas e modernas. Vemos muitos barcos menores. Artista de caráter primitivista. sugerindo a descrição do ataque das forças baianas na reconquista de Penedo.Na pintura de Vingboons vemos uma frota de barcos. e a vila aparenta calma. um barco vai à esquerda. mas de uma vegetação verde rasteira. porém seu plano é mais próximo. os agrupamentos de pessoas. Os vários barcos pequenos colocados próximos às vilas dão a idéia de um lugar de muita movimentação. Adotando as idéias de composição e cores apreendidas com Rubens Fortes Bustamante. assim as duas caravelas portuguesas que ali aparecem passam a idéia de que seja a ação de um agressor que vem quebrar a ordem e o progresso do lugar. casas e estradas é que sugerem que em cena existam muitas pessoas em ação. Vingboons coloca-se num ângulo muito parecido ao de Post. as casas. surdo. natural do Recife. assim como o vôo dos pássaros. em proposição de complementaridade. Os barcos. um deles inclusive atirando de seus canhões. A vegetação presente na margem de primeiro plano é diferente da que se apresenta em Post. Uma de suas telas intitula-se “Rio São Francisco”. o que vemos é uma riqueza de cores contrastantes. 2.

para sugerir o espaço ocupado por duas colinas. uma intermediária. Parte da terra da plantação é pintada em cor negra. bandeiras. fortes. por vezes numa riqueza de contrastes. casas. Josinaldo Ferreira . pintadas como se lembrassem fogos de artifício explodindo ou enormes lírios dos campos coloridos. rica em húmus. que se confunde com o horizonte. na sua disposição radial de folhas. Seus quadros são repletos de figuras humanas. O céu dividido em três faixas. Josinaldo Ferreira nasceu em Remanso (BA) em 1951. lembrando um bocado das pinturas modernistas da década de 20. num amarelo ocre. Por outro lado. árvores. a sugerir o domínio do Sol. de pintar movimento e variedade de personagens encontramos também em outro pintor da região. sugerindo a idéia duma terra adubada. tudo delimitado quase que geometricamente.João Militão. Sua pintura de caráter primitivista é bem colorida e com bastante movimento. a compor o espaço das nuvens. não está pintado no cenário do quadro. tem 67 . e a riqueza de movimentos e personagens passam essa idéia de dia cheio de luz. branca. e outra superior. uma azul. por sua vez. mas as cores vivas. Mais ao fundo a campina verde se faz presente em duas tonalidades de verde. O Sol. fortes. Essa característica primitivista de utilizar cores vivas. Rio São Francisco A copa das árvores de João Militão.

quanto à Lua aparecendo e recebendo ainda os raios do Sol que se encontra ao poente. Joel Dantas. todas com listras horizontais. coqueiros. como se as águas do rio dirigem-se nosso olhar para o infinito. Josinaldo Ferreira. pessoas lavando-se ou lavando roupas. o tempo é circular. tudo numa configuração de movimento mais calma. demonstrando assim um certo aspecto de isolamento do lugar.também uma certa similaridade com as xilogravuras nordestinas. A terra vermelha e a cor bronzeada da pele das pessoas dão outra similaridade ao quadro. também se notabiliza por uma pintura com temas locais – do rio São Francisco e do sertão – mas sua técnica é diferente do primitivismo de Josinaldo Ferreira. para o longínquo. nessa tela. uma vela dum pequeno barco. Na margem do rio. Assim. na outra margem. carregado de pessoas e bandeirolas. Na margem umas canoas. perpendicularmente ao olhar do observador. Rio São Francisco No quadro que apresentamos nesse artigo. o rio é colocado em perspectiva. lembra a dos românticos paisagistas como Benedito Calixto. no que concerne à forma e ao uso da perspectiva. criando uma relação de similaridade com o rio. Notemos as camisetas listradas das pessoas. Ao fundo. O uso das cores. 68 . Porém. O céu azul e branco pintado como parte de uma abóbada. nascido em Pilão Arcado (BA) em 1950. pessoas fazem acenos para o barco. Augusto Muller ou Fachinetti. como se essa paisagem se mantive repetitivamente sendo reencenada. mais paisagística. reconfigurada para o momento contemporâneo. passa a impressão da circularidade. atualizada. mais lenta como o fluir das águas serenas do rio São Francisco. o céu azulado e um astro avermelhado que tanto pode ser o Sol em rosicler. a perspectiva e a disposição de seus elementos criam essa sensação. No quadro “O Velho Chico”. Essa forma festiva de apreensão pictórica da realidade local é uma característica advinda da simpatia e da amabilidade da população ribeirinha que apesar das dificuldades cotidianas sem mantém assim por natureza mesmo de sua gente. confluindo nas matas ciliares que acompanham o rio. podemos notar o barco passando pelo rio São Francisco. Sua técnica.

A moldura em pvc cria um contraste de tal densidade com a tela que é difícil pensar numa unidade artística entre ambas. também de pvc. ao centro da parte inferior da moldura. O distanciamento do olhar do observador faz que vejamos um panorama de pessoas nadando. Joel Dantas. se divertindo ás margens. “O Velho Chico. a contradição de estilos. entre março e maio de 2007. mulheres e homens ali numa conjunção prazerosa com o rio. Se o propósito foi a crítica ao modo como as questões do rio São Francisco são tratadas. O cenário apresentando em pouco difere da técnica comentada do quadro anterior. apresentada na exposição “Águas de Março”. tela e moldura. mas tem outra mais latente ao meu modo de ver. exceto por conter uma maior movimentação das figuras e uma vida mais alegre. o objetivo é justificado. fechando numa torneira. Rio São Francisco Joel Dantas tem outra tela. Crianças.Joel Dantas. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira”. promovida pela ONG Sociedade Semear. O Velho Chico. mas apenas nesse sentido. Um barco com carranca aportado à margem. uma vez que artisticamente talvez fosse merecedora a tela também de uma pintura 69 . feita de canos de pvc. O título provocativo se justifica pela moldura. não só de conteúdos: a água do rio e a água encanada que nunca chega. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira Aqui a contradição é absoluta.

costuma pintar quadros dos locais por onde viaja. mas por outro lado. No quadro “Carranca do São Francisco”. parece ter que fazer uso de força para empurrar com o remo o barco. Sua pintura. deve-se também observar esse distanciamento como significativo mesmo da 70 . O que se vê é uma abstração pictórica da visão área que se tem da boca do rio. é rica de cores. sugerindo quase que uma névoa. sem camisa. penso eu. a floresta Amazônica. rica de contradições históricas. de caráter modernista. mas diferente de Josinaldo Ferreira. sinalizando que este se aproxima da margem. sociais. numa técnica mais abstrata ou concreta. emprega uma técnica de suspensão ou indefinição do fundo e de valorização da figura de primeiro plano. sobre usa contemporaneidade. choque que não foi resolvido. Suponho. Desde 1971 este pintor vem construindo um conjunto de obras com mais de duas mil telas. as praias do litoral nordestino são seus temas preferidos. Nesse ponto. O fundo todo azulado mistura-se com as águas do rio. O barco com a carranca surge assim. atualmente vive em Portugal. São formas diferentes de apreender a realidade pictórica do vale do São Francisco. meio místico. Carranca O barqueiro.que se ajustasse melhor ao quadro. vindo de outras eras para o presente do observador. O Rio de Janeiro. ouve o choque entre a linha de pintura do autor e a ousadia da mensagem provocativa. mais geométrica. meio fantasmático. culturais e por isso mesmo. pintor norte-americano. esta mesma. O Brasil é um dos seus destinos preferidos. o que nos passa é a idéia do distanciamento. mas apresentado na sua crueza. é de se teorizar sobre a técnica. assim a carranca se situa num canto superior da tela. desafiadora e envolventemente neobarroca. a margem virtual que aponta para o espaço real em que se encontra o observador do quadro. Um de seus quadros intitula-se “Mouth of São Francisco River” e nesse caso. como que querendo assustar a quem a vê. Márcia Berenguer Cabral nasceu em 1948. Num certo sentido. Salvador (BA). num predomínio dum plano mais próximo. Aqui a idéia de uma viagem de solidão se contrapõe à alegria festiva do barco de Josinaldo Ferreira. Márcia Berenguer Cabral. estivesse o artista olhando pela janela do avião a paisagem e se inspirou por retratá-la. Paul Berenson. a perspectiva é colocada de modo que o observador como que estivesse numa posição inferior ao barco.

dando a entender que caem pelo excesso de calor e aridez da paisagem. “Antropofagia”). enfim. Penso eu. se constitui de três bagas bem rombudas. São Francisco Mouth Na já cita exposição “Águas de Março”notamos o quadro de Alfredo Mallet (Rio de Janeiro. Alfredo Mallet. o distanciamento revela-nos quase um quadro abstrativista. faltam os espinhos. O título. que seria mais interessante se não tivesse o título e poderíamos aventar hipóteses mais estruturalistas. No quadro de Mallet vemos uma espécie de cacto que. No caso particular dessa tela. Uma baga superior se empina firme em direção ao Sol.compreensão do lugar. também vermelho. da gente e da terra que retrata em suas telas. se mistura com o fundo. revela-nos apenas o óbvio. modernas e artísticas acerca da pintura. “O Ovo”. mas pela robustez delas. Locais turísticos. O verde e o azul. Paul Berenson. A tela lembra um pouco um estilo de pintura de Tarsila do Amaral (“Abaporu”. porém. esse é seu olhar. caindo pelos lados. Duas delas. o de um pintor turista. Êta Transposição 71 . 1942). compondo uma forma indefinida que só ganha sentido concreto quando olhamos seu título. O fundo é todo de tons vermelhos e o Sol. como se fosse também pelo peso da água acumulada. portanto. Pelo contrário. “Êta Transposição”. o olhar de turista encantado com a Natureza local.

de modo que sua aparente robustez logo se desvanecerá. ou melhor. o processo se deu. A lembrança com o estilo de Tarsila do Amaral não é uma característica constante da obra de Alfredo Mallet. seja pelo modo consumista e destrutivo com que. sendo vencido aos poucos pela incongruência da paisagem. seja pelo desequilíbrio ecológico. uma vez que apresenta o calor. Antônio da Cruz. nos remetem a um novo tópico. ou. SE. Ainda se pode interpretar que o estranho cacto ali no cenário semi-árido seja simbolicamente o próprio projeto de transposição. Na exposição “Águas de Março” apresentou a obra “Lágrimas de Opará”. a aridez. entendemos que a transposição viria a solucionar o problema da seca. qual seja a questão do modo como os modernistas de São Paulo e Rio de Janeiro viam o processo de interiorização. representativo desse processo. porém tal luta. Antônio da Cruz apresenta uma máscara em cobre. cerca de 70 anos após o advento do Modernismo. mas é de se destacar nesse quadro. de cujos olhos escorrem dois filetes derretidos de aço inoxidável. caem pela sua frente e continuam pelo chão. Ou entendemos que a obra é contrária à transposição. a necessidade desse processo. no mais das vezes. por outro lado.A terra num tom ocre oleoso sugere a aridez do terreno. Recuperando o nome indígena do rio São Francisco. 1956) destaca-se como artista pelo trabalho de escultor. O cacto na tela de Mallet é. Os filetes derretidos caem sobre um bloco. como se fossem as lágrimas num choro contínuo. aludindo assim a provável falta de planejamento que os críticos do projeto buscam demonstrar. Lágrimas de Opará 72 . pois. na maioria das vezes. Assim. nesse sentido. o aspecto ecológico entra como componente crítico de avaliação do processo de interiorização. A luta do homem para o domínio da Natureza de modo a torná-la sujeita as necessidades humanas. Antônio da Cruz (Maruim. e sua comparação com as citadas obras de Tarsila. tem resultados insatisfatórios. A interpretação do quadro é. algo ambígua.

do “Neo-regionalismo para o Abstracionismo Informal”. O vocábulo portmanteau. porém. o sol. o político-social. Nem sempre a primeira impressão. o quadro “Era uma vez um Rio São Francisco”. “Ousadia sexagenária”. o rio que na mitologia indígena se forma pelas lágrimas da linda Iati. Assim.br/noticias/19820081283251459) Porém. lemos: “Os trabalhos são inspirados em temas que vão desde a mitologia greco-romana à cultura popular do Nordeste. No caso da obra em questão. um desenho de uma placa vermelha com o dizer “TransImposição”. se faz submergir diante do sentido extra-artístico. ao bom estilo modernista. os jarros com flores. temos a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” de Ismael Pereira. num processo em que tal transformação resulta numa diminuição de suas qualidades estéticas. os galos de briga.cinform. E eu gosto muito dessa liberdade”. uma vez que a mensagem artística.. perpendicularmente à tarja. uma homenagem ao gênio Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). vemos uma tarja preta com a frase: “. a primeira palavra é que melhor se adequa à obra. uma de suas obras mais conhecidas é justamente uma intitulada “Mandala”. aço inoxidável e cobre dão uma concretude contemporânea. A máscara se apresenta como o mito antigo diante das contradições do mundo moderno. ao invés de ser dominado por esta escola. Lá estão a fênix. transforma o produto artístico em panfleto. declara o sergipano de Capela. Numa notícia chamando a atenção para a última semana desta exposição. Assim é como Ismael Pereira define a exposição. Crítica ao progresso desmedido que não se preocupa com a preservação ambiental.Era uma Vez um Rio São Francisco”. denuncia um processo apressado de engajamento.” (fonte: http://www. Não raras vezes o desejo de engajamento numa causa política ou social. inclusive. chorando a ausência de seu amado guerreiro. É uma coisa muito universal. o equilíbrio em que a obra de arte continue sendo obra de arte e o engajamento sócio-político. aqui é o próprio quem chora agora e suas lágrimas são de aço derretido. Os materiais usados. ao meu modo de ver.. no caso. Ícone do neo-regionalista. como ele mesmo intitula uma de suas exposições. ressignifica o mito de Opará. Na mesma exposição. É difícil conseguir a alquimia adequada. que passa. Um fundo cinza. peca pelo excesso de intenção engajada. o antigo Farol da Atalaia e.com.A obra num estilo bem contemporâneo. ele enveredou pelo abstracionismo porque possui qualidades para dominar. que se realiza no próprio meio. sem perspectiva e uma mandala se coloca ali como o Sol – signo artístico de Ismael Pereira. 73 . “Eu acho que o abstrato tem como pátria a humanidade e como bandeira.

abstraídas de suas formas. mundo da realização das formas em matéria plástica. uma poesia visual cuja visualidade se encontra subordinada ao verbal.Ismael Pereira. seria mais de se considerar a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” uma variante dos poemas postais. o vermelho do calor e do Sol. pelo modo metalingüístico e poético com que se apropria de lemas da revolução russa. 1958). assim. Gonçalo Ivo (Rio de Janeiro.. com domínio das linhas horizontais. temos o domínio dessas linhas horizontais. tem um conjunto de três telas acerca do Rio São Francisco. redimensionam o espaço pictórico num jogo criativo e encantador aos sentidos visual e táctil. Aurora. Nas três telas acerca do Rio São Francisco. um poema assim. filho do poeta Ledo Ivo. o suplantem. o branco de nuvens. . por exemplo. justificadas por um contexto da fluvialidade das águas. Rico de combinações de cores. Ou de outro modo. As cores de Gonçalo Ivo. uma delas subintitulada. a obra acaba se realizar como um panfleto. ainda. e. da poesia visual. enquanto mundo das idéias das formas.Era uma Vez Um Rio São Francisco O verbal aqui suplanta o pictórico. duma fase pré-concretista. Em “Aurora” as cores são mais quentes.. Assim. Pintor cuja influência abstracionista e concreta se faz notar. As cores formam o espectro do cenário: o verde das matas. branco e negro combinam-se e alternam-se nas faixas horizontais dando a dimensão plástica das águas do rio. assim como também as faixas horizontais se dividem em grupos retangulares e um circular (referência ao Sol). mas nesse caso. A pintura de Gonçalo Ivo é de uma geometrização que confere ao pictórico uma dimensão lúdica numa interface com a realidade física que abre o jogo entre a abstração. 74 . os cartazes poéticos dum Maiakóvsky. e a realidade concreta. o azul das águas. um cartaz. numa delas os tons de azul.

Rio de Janeiro.Telas de Gonçalo Ivo com o tema do Rio São Francisco Uma terceira tela. Gonçalo Ivo. O que busquei comentar nesse capítulo foi. VALE DO SÃO FRANCISCO. São Bernardo do Campo. DESENVOLV. José Roberto Teixeira. LEITE. São ás águas calmas do rio São Francisco refletindo a luz. mas me ative as telas que tive maior familiaridade e contato. A matização da tela assim substancia o rio como um rio sólido. me suma. http://www. em termos de técnica abstracionista. A Pintura no Brasil Holandês. SP. As cores dominantes são os tons de vermelho e marrom. Assim. Referências CIA. Não é esse panorama completo nem extenso. embora tenha o título apenas de “Rio São Francisco”. É o reflexo do rosicler solar sobre as águas turvas do rio. 1967. 1978.br 75 . GRD. em que o fluídico se encontra disfarçado pelos tons mais densos. um breve panorama quase crítico das representações pictóricas do Rio São Francisco. São Francisco: O Rio da Unidade. Internet: CINFORM: “Última Semana Para Ver a Ousadia Sexagenária de Ismael Pereira” Postado em 19/08/2008.com. bem pode ser subdenominada de “Entardecer”.org.cinform. dentro do conjunto. http://www.br/noticias/19820081283251459 SEMEAR: “Exposição Águas de Março”. sendo que muito provavelmente esqueci ou deixei passar telas significativas da história pictórica do tema em questão. Mercedez-Benz do Brasil.sociedadesemear. me parece o pintor que melhor soube apreender a natureza pictórica do Velho Chico. na sua morosidade do ritmo de entardecer sertanejo.

sendo apoiado pela Igreja. incluindo-se aí um longo espectro de adaptações e modificações. A chegada do teatro de bonecos está associada também à chegada da arte circense. Era comum um espetáculo de bonecos denominado de “Presépio” de característica de difusão do imaginário cristão. à transposição de lendas européias para a cultura brasileira. O teatro de bonecos era comum na idade média na Europa.Mamulengo Revisitado: A Arte das Mãos na Ligeireza dos Bonecos A origem do teatro de bonecos chamado de “mamulengo” perde-se um pouco no próprio processo de aquisição de cultura durante a colonização. inclusive em Portugal. O mamulengo é 76 .

o Moleque Benedito. vestindo um camisolão de pano. uma vez que por aquela época era uma arte comum na Holanda. d) de fio . o molenga. Rio Grande do Norte. cordões ou cordas que sustentam o boneco. o padre. como o teatro de bonecos mamulengo conseguiu absorver um procedimento crítico da sociedade fundado na técnica da alegoria e da ironia. o valente. de uma cortina que separasse visualmente o bonequeiro do boneco. Hoje. conhecida como “Jan Pickel Herringe”. A tipologia das personagens demonstra. o papagaio e o jacaré. a comédia tornou-se o gênero característico. b) de vareta .os bonecos são suspensos por uma haste de metal. diferindo do Presépio medieval com caráter mais religioso e mesmo de desenvolvimentos mais acadêmicos ou eruditos como o teatro simbolista de marionetes de um Maeterlinck. principalmente em Pernambuco. c) de haste . o cachorro. daí espalhando-se para estados como Alagoas. podendo também ter fios para os braços e as pernas. dos seguintes tipos: a) de luva (ou também “guignol”) .boneco com cabeça de madeira. algumas vezes. A origem do mamulengo em Pernambuco está associada ao período da invasão holandesa. temos nesse caso o bondoso. A origem do termo parece estar implicada com a corruptela da expressão “mão molenga” com que se definia a habilidade do bonequeiro em movimentar o boneco. no entanto. o policial (a volante). o mamulengo se aproximava visualmente da performance do ventríloquo. Essa tipificação característica de personagens se eleva um pouco mais quando notamos a ocorrência de personagens com nomes próprios mais delimitados como o Professor Tiridá. tendo o mamulengo incorporado. Quitéria. Catirina. o briguento. ao passo que no mamulengo era a mão do bonequeiro que dava sustentação e a forma definida ao corpo do boneco ao ser introduzida por debaixo do boneco em orifícios próprios para a ação dos braços. 77 . feito de madeira. Os personagens típicos do mamulengo são definidos por uma tradição que representa papéis sociais que se cristalizaram na formação da sociedade nordestina: o coronel. o teatro do mamulengo já tem como padrão a utilização do palco de bonecos e da separação visual entre o bonequeiro e o boneco. a técnica dos bonecos suspensos por cordões ou cordas. etc. dispensava a necessidade de uma caixa para palco. hoje se considera que os bonecos de mamulengo podem ser. a onça.os bonecos são ligados por fios a um controle. por exemplo. como a raposa. num certo sentido.característico do Nordeste. Há também os bichos. o Cabo Setenta.boneco de madeira ou outro material. Piauí. existem os personagens que representam alegoricamente determinados valores de conduta. Nesse sentido. definiu aspectos do mamulengo como um teatro de bonecos que. ou ainda. em alguns casos. Tal habilidade. Nesse aspecto. de massa ou papelão. articulado e movimentado por varetas. Mané Pacaru e João Redondo. etc. Diferia o mamulengo do teatro de fantoches ou de marionetes pelo fato de que no teatro de fantoches a ação dos bonecos era mediada por linhas. da boca e até dos olhos. Além destes. conforme a técnica utilizada. partindo da cabeça para a mão do manipulador. Modernamente a distinção entre o teatro de bonecos e o teatro de fantoches tornouse muito tênue. que permite ao manipulador movimentá-los. cujo movimento é produzido pela mão (dedo indicador colocado na cabeça e o polegar e o médio nos braços). por vezes. Simão. Assim. Papafigo. a nosso ver. o galo. que chega ao teatro de bonecos como forma de diminuir a possibilidade de participação do ator na construção do texto teatral.

antecedido pelo período da permanência da família real portuguesa (1808-1815). Simão é a prefiguração do dizer euclidiano-pós-positivista de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”.ex. personificam a visão da sociedade por um viés que na sua forma satírica e estereotípica faz por desnudar as contradições dessa mesma sociedade. em que o boi depois de aprender a dançar é engolido por uma cobra. Sabendo revisitar os personagens criados por outros mestres mamulengueiros. De certo modo.). personagem sincrético entre elementos do imaginário cristão. o rapaz Simão tenta então resgatar o boi do ventre da cobra e acaba por entrar no ventre em busca de seu animal. O resgate do boi nos faz lembrar do poema “Cobra Norato” de Raul Bopp. Introdução: O Rei e seu Castelo O Brasil foi o único país da América do Sul a ter um período monárquico ligado às tradições e às famílias nobres européias. muitas vezes. Aqui. entre outros. A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira 1. a mulher fofoqueira. se liga ao mito de Orfeu e sua descida aos infernos e num contexto cristão à aventura de Jonas no vente da baleia. indígena e africano. Se o Cabo Setenta nos faz rir. não é tanto pela sua inabilidade de polícia e pelas trapalhadas pelas quais passa e provoca. na constância de busca de superação dos limites impostos pela maquiavélica exploração social das agruras das intempéries. misturando ainda elementos de personagens folclóricos diversos. de pessoal treinado e de recursos os mais variados para seu trabalho. denotando sua universalidade enquanto arquétipo (a serpente emplumada. A figura simbólica do boi nas histórias populares do Nordeste. O Nordestino materializa sua fé na persistência. mas também. o padre. desprovidos de estrutura logística. não poucas vezes. e em outros casos. o que temos é um processo de carnavalização (bakhtiniana) na formulação e apresentação do espetáculo do mamulengo. Do mesmo modo. acrescido dos interregnos da regência (1831-1840) e do reino unido (1815-1822). a namoradeira. vai também acrescentando os seus. o que temos é uma outra mensagem simbólica: a persistência. tanto mais que os personagens característicos costumeiramente acabam por se construírem sobre estereótipos de papéis sociais enraizados na estrutura da sociedade nordestina. aqui é articulado com a figura da cobra grande (originária do imaginário indígena). Uma de suas peças mais conhecidas é “Simão e o Boi Pintadinho”.A comédia no mamulengo. porém. p. O nosso século XIX foi marcado nesse âmbito pelos dois reinados (1822-1889). Waldeck de Garanhuns é um artista do mamulengo que tem se destacado por um trabalho de revisão e reinvenção dessa arte. uma vez que a própria família real portuguesa mantinha laços estreitos por meio de casamentos e outras 78 . no lugar da conquista do amor ou da validação do poder da fé. terminando o século pela proclamação e instalação da república nos governos de Marechal Deodoro e Floriano Peixoto (1889-1894). assume a condição de sátira. As ligações com as famílias nobres européias superavam os limites do domínio da metrópole. mas principalmente por que a personagem alegoriza-se sob a visão popular acerca do policiamento nas pequenas cidades do Nordeste. em que o poeta se veste da pele de cobra e sai em busca da princesa do sem fim. mas também de configuração maia e egípcia. associada historicamente como parte do aparelho de institucionalização do coronelismo.

No Maranhão. D. com Leopoldina e Isabel. é obrigado a fugir do país com a família. em Minas Gerais. terceira e última Imperatriz do Brasil. no qual Antônio Conselheiro em suas prédicas denunciava a república como a grande inimiga da fé e preconizava a volta de um mitológico Dom Sebastião que viria restaurar não a monarquia ou o reino de Portugal. com quem casara por procuração. Alguns cronistas relatam que o casamento só teria se consumado um ano depois e que o imperador só não remeteu a esposa de volta à sua terra natal graças à intervenção de D. 28 de Dezembro de 1889). conde d'Eu. refugiando-se na Inglaterra junto ao ex-rei da França. com quem casou-se em 4 de setembro de 1842. Ganhou o título de conde D'Eu ao nascer. D. a D. princesa de Saxe-Coburgo-Gota. Sintomático e exemplar disso é o episódio de Canudos. em Goiás. o rei da França. Há quem afirme que. D. neto de Luís Filipe. duquesa de Saxe. aos 15 de outubro de 1864 (fonte: Wikipédia). Francisca. temos então as razões históricas para o desenvolvimento e a permanência no imaginário brasileiro da figura do rei e do castelo. Antônio Gastão. Pedro II do Brasil queria que suas filhas. Luís Maria Filipe e de D. Fez sondagens com a ajuda de sua irmã. Assim. Leopoldina. Isabel e D. É claro que tal simbologia do rei e do castelo não se deve exclusivamente à ligação com a monarquia em Portugal e no Brasil. 5 4 Dona Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltazar Melquior Januária Rosália Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bondosa André d'Avelino Rita Leodegária Gertrudes Venância Tadéia Espiridião Roca Matilda de Bourbon-Sicílias e Bragança (Nápoles. Estes chegaram ao Brasil em 1864 para se casarem. Aos seis anos. ao conhecer a esposa. D. Gastão de Orléans. Se contarmos ainda o longo período colonial de ligação com o governo monárquico absolutista e centralizador português. Augusto de Saxe. entre outras pessoas. Pedro teria cogitado em pedir a anulação do matrimônio por conta de seus minguados atributos físicos: era baixa. Se cruzamos a influência histórica da coroa portuguesa e da monarquia brasileira com a simbologia cristã temos o amálgama completo que dá razão à existência desse apego do imaginário na cultura brasileira à figura do rei e de seu castelo. (fonte: Wikipédia). seu enlace foi motivo de decepção para o marido. rei da França. encontra no Brasil várias adaptações no imaginário popular. princesa de Joinville. da Espanha e da Inglaterra inclusive. a figura do rei-santo que voltará a restabelecer o seu reino. Mariana Carlota de Verna Magalhães. de origem portuguesa. Pai de D. a prova direta dessas ramificações para além da família real portuguesa. de D. temos sim que levar em conta o imaginário cristão católico de que Portugal foi um grande difusor. Isabel Leopoldina.alianças familiares com as famílias da Áustria. mas sim o reino de Cristo. devido à Revolução de 1848.da esquerda para a direita: Conde d'Eu. manca e feia. Jesus Cristo é apresentado como o “rei dos reis”. Pedro II. aos príncipes Gastão de Orléans e seu primo. casou-se com a Princesa Imperial D. imperatriz Teresa Cristina e D. dado por seu avô. 79 . Mas as princesas tomaram a liberdade de escolher seus noivos. foi a esposa do imperador Pedro II. Família Imperial . Pedro de Alcântara. A propósito de Dom Sebastião. Seu nome original em italiano: Dona Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias. filha única do general e duque Fernando Jorge Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. No Brasil o Cond’Eu 4 e a imperatriz Teresa Cristina 5 eram. e de Vitória Francisca Antonieta Juliana Luísa. É lá que passa a maior parte da infância e da adolescência. se casassem com chefes doutras dinastias para dar continuidade à linhagem. 14 de Março de 1822 — Porto. Isabel Leopoldina Cristina de Bragança e Duas-Sicílias no Rio de Janeiro. duque de Némours. respectivamente. em Pernambuco entre Era filho primogênito de Luís Carlos Filipe Rafael de Orléans. da França. No imaginário cristão. Filha do rei Francisco I do Reino das Duas Sicílias. Condessa de Belmonte e ama do jovem monarca.

também. 7 O movimento musical denominado de Jovem Guarda tinha não apenas o rei. também. já um pouco passado na idade e no estilo musical. o “Rei do Samba de breque”. Jesus Christ é o “King of the Kings”. 2005.outros estados. 25. ofício ou função que logo recebe a denominação de rei. “the big”. A palavra “king” como adjetivo. Para fins comparativos. vez por outra é utilizada para qualificação de um elemento arquetípico que represente perigo. o Rei Momo. No futebol. AngloSaxonic and Protestant). Parece que o processo de adjetivação nos USA prefere ao “the king” outras qualificações como “the best”. 6 80 . dominada pelo imaginário cristão. mas a rainha da jovem guarda (Wanderléia) e o príncipe (Ronnie Von). Khronos.Pedro I. que desde o seu início muito têm feito pela eliminação de vínculos culturais. década de 70) e Didi (príncipe etíope). A guerra da Independência americana e o domínio do protestantismo parecem que são fatores a diminuir o sentido que a figura do rei poderia ter no imaginário norteamericano. tendo porém a ausência de um período monárquico na fase independente. Perspectiva. de Sidney Northcote é um filme que se nos afigura como representativo dessa simbologia. sequer podemos falar numa efetiva guerra da independência em que se pese os confrontos na Bahia em 1823 transformados num desconhecido épico de Ladislau dos Santos Titara. Basta alguém se destacar numa arte. mas tão somente um estado de exílio. col. Dom Sebastião no Brasil. uma breve observação sobre alguns índices encontráveis na linguagem cotidiana já é um suficiente para a constatação dessa simbologia no imaginário do povo brasileiro. Satan é o “Prince of Darkness” uma vez que não pode existir o reino das trevas que se oponha o reino de Deus. ainda apresentado simplesmente como “o Rei”. Reginaldo Rossi é por muitos considerado o “Rei do Brega”. The King of Crime (1914). Tendo como marca a basófia. ameaça e que se caracterize como algo do exterior. em que já se pese mais de um século de período republicano. 6 De fato. Ayrton Senna foi o “Rei das Pistas”. o único rei admitido sem restrições no imaginário WASP (White. São Paulo. basta atentarmos para um outro país cuja colonização tivesse sido marcada pela sujeição à uma metrópole monárquica e a religiosidade. uma das principais manifestações populares do Brasil. Al Capone foi cognominado o rei do crime em livro de Nate Hendley. Podemos pegar como exemplo os Estados Unidos. políticos e sóciopsicolingüísticos com o passado monárquico. Sinhô foi o “Rei do Samba” ao passo que Moreira da Silva. se apresenta como o desfile da corte e dos súditos para um rei. foi por décadas conhecido como o “Rei da Juventude” 7 e hoje. Roberto Carlos. ainda é possível encontrar festas populares cujas representações estão direta ou indiretamente ligadas ao sebastianismo. vol. O carnaval. ainda que nosso romantismo inicial tenha se esmerado em se apresentar como antilusitano. “the magic”. substituindo o imaginário do rei luso pelo sentimento A esse respeito indicamos o trabalho de Marcio Honório Godoy. arte ou função parece não ser a mais usual. a pilhéria. “the star”. se constituiu uma hierarquia monárquica com o príncipe do futebol (Dirceu Lopes. Este de deus da mitologia grega passa a rei do carnaval num longo processo de transformação do festejo. Por outro lado. Mesmo expressões como “the king of rock” parece ter sua origem na Inglaterra e não nos Estados Unidos. a crítica sarcástica e a alegria desmesurada. Havendo uma continuidade entre o governo de D.João VI e o reinado de D. assim é caso do King Kong. Pelé é o rei do futebol. No caso do Brasil. Na cultura norteamericana a idéia do rei como adjetivo mais comum para alguém que se destaque nalguma profissão.

uma vez que o castelo é uma construção típica da arquitetura medieval. O Dicionário Houaiss define castelo no seu significado primeiro como “residência real ou senhorial dotada de fortificações” e palácio como “vasta e suntuosa residência de um monarca. permitir aos acastelados olhar à longa distância. que conta a disputa entre dois bicheiros pelo domínio da contravenção. inclusive reis. de um chefe de estado etc. Por sua vez. fortaleza. de um chefe de governo”. no palácio a arquitetura de uma torre tem função mais para ostentação. no castelo por vezes tem sobreposto a função defensiva ou de vigilância. Na Idade Média é que os castelos evoluíram para morada dos senhores feudais e nobres. que se destaca da paisagem citadina por estar colocado no alto de uma colina. No Brasil. típica da Idade Média. como faz Houaiss. A enciclopédia on line Wikipédia. a idéia de que o Rei é a qualificação natural para aquele que se destaque num grupo social. tanto no âmbito culto e erudito. era geralmente erguido em posição dominante no terreno. de “castellum” (latim). seu âmbito natural. além de permitir a observação de vasto terreno tendo em vista sua localização sempre ao alto de uma colina ou montanha. sem portanto. Romário e Túlio). acrescido de que o castelo é “Praça forte. A suntuosidade do palácio é que o distingue do castelo. Fortificação de tipo permanente. se referia a uma torre de vigilância. com funções defensiva e residencial. Ainda convém lembrar que o castelo está associado à idéia de um local afastado do urbano. de Fábio Barreto. barbacã. etc. Desse modo a expressão ganha sentido ambíguo. com muralhas. próximo a vias de comunicação.. confiando sua defesa aos quartéis e fortificações militares que circundariam e protegeriam os palácios.” Sobre sua origem. para realmente ser admirada e vista de longa distância. quanto positivo. a necessidade do fosso e das muralhas. define castelo como “Um castelo (diminutivo de castro) é uma estrutura arquitectónica fortificada. por exemplo. O aspecto defensivo do palácio é diminuído. substituindo-se.”. tanto podendo ter um sentido pejorativo. com Nuno Leal Maia e Nelson Xavier. No imaginário da cultura brasileira a idéia de castelo apresenta já um anacronismo histórico. ao passo que a palavra “palácio” parece se referir mais especificamente às construções nobres do renascimento para diante. ao passo que no castelo sua função é a de efetivamente. uma vez que o que seria apenas suntuosidade e pompa no palácio. quanto no popular e folclórico. da qual a revolução francesa logo sucumbiu ao império ditatorial napoleônico tão exaltado num Domingos José Gonçalves de Magalhães. Uma torre. Lembremos do filme O Rei do Rio (1985). O Dicionário tem o significado primeiro semelhante ao Houaiss. de um alto dignitário do poder eclesiástico. como morada preferível tendo em vista a sua condição de fornecer proteção contra ataques. por exemplo. de um alto dignitário eclesiástico. fosso.francófono. dependendo de seu contexto.” E para palácio o Aurélio define como “Residência de um monarca. ou quando não. o Castelo é o lugar do rei. isolando-se assim do contexto 81 . Nesse âmbito é que os castelos são de característica mais própria ao contexto político e social da Idade Média. por amplos jardins. em primeiro lugar. ao passo que os palácios são mais característicos do período em que a realeza efetivamente superou os receios de eventuais ataques de hordas inimigas. embora isso ficasse implícito pela designação de “residência de um monarca”. o palácio a Wikipédia define exatamente como os dicionários Houaiss e Aurélio. fontes e espelhos d’água. Dez anos depois a expressão foi utilizada no âmbito esportivo para ser referir à disputa entre três grandes jogadores no campeonato carioca de 1995 (Renato Gaúcho. Por sua vez. cercada por torre e um fosso. destacar a suntuosidade. o que facilitava o avistamento das tropas inimigas e as comunicações a grandes distâncias.

Grota. No caso do Brasil. Teresópolis. podemos ver isso no quadro “Grota” em que o pintor. O fato de não termos idade média e a absorção ao imaginário popular de lendas e histórias medievais como as do ciclo do rei Arthur. nos lembram algo de um certo modelo arquetípico dos castelos medievais. além da popularização da imagem de castelos mal-assombrados na Europa (em especial na Escócia). mas como que se coloca numa situação central entre os caminhos da cidade. além do Rio de Janeiro se notabilizaram por seus palácios. entre outras. se dispôs no quadro a imaginar um cenário tipicamente medieval europeu. Durante o período imperial é que a construção de palácios nobres se destacou. em geral. criou-se no imaginário popular a necessidade de castelos supratemporais e supraespaciais que poderiam compor a paisagem local materializando a idéia arquetípica do lugar misterioso e de passado glorioso ou histórico. de Frankenstein. entre outras personagens similares. não está de tal forma elevado que o acesso a ele se faz de forma dificultosa. de Dom Dinis e de Dom Sebastião. no mais das vezes. Na pintura romântica brasileira. conhecido pela representação exuberante da natureza brasileira. No entanto. Já o palácio está cercado pelo ambiente urbano. eventualmente. Não é por acaso também que um dos quadros mais conhecidos de Manuel de Araújo Porto-Alegre seja a coroação de Dom Pedro II em que a figura do rei/imperador se materializa no ritual de coroação dentro do ambiente do palácio. Cidades como Petrópolis. a inexistência do período medieval e nossa ligação colonial com a Europa a partir do barroco e do iluminismo fez com que os palácios se tornassem as moradas dos governadores. de Carlos Magno. Seria isso um anacronismo? Um processo de kitschização? Possivelmente encontraremos esses aspectos na análise de construções que pareçam castelos na arquitetura brasileira. Manuel de Araújo Porto Alegre. 82 .urbano ao redor. bem como das figuras de Drácula. podemos nos deparar aqui e ali com construções que embora contemporâneas.

Manuel de Araújo Porto Alegre. escrevemos apenas sobre os castelos. Ainda se acresce a eles. da cana-de-açúcar. tanto pela família real. do algodão e de outras monoculturas que renderam a alguns o prestígio e a riqueza suficientes para a ostentação materializada em suntuosas moradias. ao contrário do palácio imperial pós-renascentista tem. do tabaco. alguns construídos com material (pedras. viscondes e duques. o título dessa secção deveria ser “Os Palácios do Brasil”. Porém. se transforma em ambiente imaginário da sublimação do desejo de realeza e nobreza diante do cenário exuberante da natureza tropical brasileira. embora não tivéssemos idade média temos castelos de caráter medieval. com base na etimologia e nos dicionários pesquisados. de fato. madeira) trazido da Europa para dar à construção maior legitimidade. Como se a união do castelo ao cenário brasileiro fosse a recuperação de um ideal de civilização que se acredita perdido. Os Castelos do Brasil Para o menos avisado e ao mesmo tempo mais crítico do sentido etimológico das palavras. seguindo a definição que propomos na introdução desse texto. o título está correto. porém. Ou seja. condes. estando de fato presente apenas como espaço arquetípico que necessita de preenchimento. como se fosse 83 . Coroação de Dom Pedro II O que comentamos a seguir é como o castelo medieval que não tem raízes históricas no Brasil. 2. tendo em vista os palácios construídos durante o período monárquico no Brasil. de fato. os palácios e palacetes da aristocracia do café. não pertencendo a qualquer momento real desse passado. quanto pela nobreza de barões.

Castelo Itaipava. Castelo das Pedras Altas (Pedras Altas – RS). tendo em vista. vitrais austríacos e pisos de mármore italiano). ala dos serviçais e 84 . telhas de ardósia francesa. Para a construção do castelo o material foi trazido todo da Europa (blocos de pedra portuguesa. Rio de Janeiro. o barão colaborou no custeio da construção da estrada de ferro Leopoldina. mas nos prenderemos a quatro castelos em especial. diversos salões. Smith de Vasconcelos. a construção deu aos arquitetos o prêmio de da grande medalha de prata do salão de Belas Artes de 1924. curiosamente alguns elementos. duas torres. halls. terraços. Não comentaremos de todos os castelos. descendente de família nobre inglesa e portuguesa. Itaipava RJ. que para nosso propósito. como determinadas portas. sala de música. Tendo a intenção de reproduzir nos trópicos uma cópia fiel dos castelos medievais europeus o barão solicitou aos arquitetos Lúcio Costa e Fernando Valentim a elaboração do projeto.1. colunas e forros que foram talhados na Europa. Castelo Lacave (Caxias do Sul)e o Castelo de João Capão (Garanhuns – PE). escadas. Aberto à visitação pública e sendo uma das mais curiosas e interessantes atrações turísticas da cidade fluminense. ferragens inglesas. Para o transporte do material. eles parecem preencher as nuanças do fenômeno em questão. dependências para hóspedes. o Castelo do Barão de Itaipava foi construído pelo barão J. madeira natural do Brasil. foram feitos em jacarandá. são eles: Castelo do Barão de Itaipava (Itaipava – RJ). bibliotecas. tendo assim direito a que uma estação de trem ficasse dentro dos domínios do seu castelo. Castelo do Barão de Itaipava. terminado em 1920. O castelo tem 42 cômodos distribuídos em 19 quartos.possível transplantar o tempo por meio da materialização da construção com materiais do lugar de origem dos castelos. 2. o maior castelo medieval do Brasil. 7 banheiros.

2. Smith de Vasconcelos soube investir na construção dessa obra arquitetônica que transcende a linha diacrônica da história. assinado no próprio castelo. 2. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845). Cada objeto conta alguma história. com a diferença que este último é para fins de catarse coletiva e obtenção de lucro com o mundo do entretenimento. A construção centenária foi cenário para importantes decisões políticas das primeiras décadas do século passado. lembrando sob certos aspectos o personagem queirosiano de A Cidade e as Serras. aliada à beleza natural da serra fluminense a sua volta. com móveis. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. mesmo que montados e/ou anacrônicos. de um desejo de sublimação da realeza perdida com a república (1889). o qual havia exercido por mais de 30 anos. o barão J. que pertenceu a Bento Gonçalves. porém. argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes" Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça. revolucionários e intelectuais. Á entrada do castelo lê-se os seguintes versos: “Bem-vindo à mansão que encerra / Dura lida e doce calma: / O arado que educa a terra. o castelo de Pedras Altas busca justificar uma das frases preferidas do revolucionário gaúcho que estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (SP) e foi adepto do movimento republicano: “Em certas ocasiões mais vale um dia de ver do que um dia de ler” . ao passo que o castelo do Barão de Itaipava era para satisfação pessoal. talvez. É considerado o único castelo em estilo normando nas Américas e também o maior do Brasil. não muito diferente do desejo que faz surgir castelos mágicos na Disneylândia.galerias. importados de Nova York. criando um espaço mágico. Chefe da Revolução de 1923. A medida foi uma das cláusulas do acordo de paz. estilo colonial.” Contendo 44 cômodos. A beleza de sua estrutura. Assis Brasil determinou o afastamento de Borges de Medeiros do posto de governador do Estado. cria um sentimento de êxtase estético no visitante como se um processo mágico no tempo pudesse transportar-nos ao cenário dos reis e cavaleiros medievais. que acomodaram políticos. O Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas Construído por Joaquim Francisco de Assis Brasil em 1904. Um enorme relógio. 85 . Acreditando que era possível viver no ambiente rural sem necessariamente abdicar do conforto da civilização urbana. Fruto. de seus aposentos e salões. mas que tenham uma eficiente dose de magia e ostentação. / O livro que amanha a alma. mas principalmente para satisfação coletiva de um imaginário popular que busca preencher sua história fragmentada com retratos. transformando-se atualmente em atração turística não apenas pela beleza e riqueza de materiais.

bem como seja a concretização de ideais estéticos e filosóficos de seu construtor. ao adentrar e visitar o castelo essa impressão inicial vai sendo substituída pela sensação de que esse castelo não poderia estar em outro lugar a não ser ali. menos consciente desses aspectos históricos. por isso. Antes. o conflito de harmonia causado pelas impressões iniciais das diferenças históricas sedimentadas nos estudos de História do ensino fundamental. Olyr. o transplante do castelo medieval para o cenário gaúcho foi se efetivando de tal forma que não se encontra hoje diretamente anacrônico ou anódino. mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. é um castelo que se apresenta impregnado de história política do Rio Grande do Sul. de imediato. o castelo de aparência medieval vai se reciclando e se amalgamando a um substrato histórico não característico de sua arquitetura. Porém. que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. a preocupação em todo o país. nos corredores.” (ZAVASCHI. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular.Este. Zero Hora. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses.) Desse modo. 25-11-2003 página 54. a surpresa da construção medieval na paisagem cria o antagonismo. nesse sentido. tomando conta como o fantasma escocês esperado de um castelo medieval: “A paz de Pedras Altas. Ao viajante. Aos poucos a revolução de 1923 vai se apresentando na biblioteca. o que se apresenta emoldurando o castelo de Pedras Altas é a própria história do município e daquela região. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou. 86 . Porto Alegre. na janela quebrada. pois. entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. Assim visitar o castelo é também conhecer um pouco da história e das contradições inerentes a essa história. Homem de cultura e de experiência política e diplomática num período conturbado da solidificação da república no Brasil.

Para dar o clima de realismo. e depois de uma reforma e recuperação. como desfile de cavaleiros trajados em armaduras e brasões característicos da Idade Média. As recepcionistas que acompanham a visita vestem trajes medievais e seus salões e corredores exibem tapeçarias. Sala dos Barris de Carvalho. ocorrendo inclusive um acidente com morte de operário após a queda de uma das paredes. móveis. Castelo Lacave. Demorou dez anos a construção do castelo. Construção sofrida e demorada em razão da falta de experiência acerca da construção de castelos. escolhidas com cuidado para não repetir de nenhum reino verdadeiro. armaduras e pinturas semelhantes às da época. os visitantes são recepcionados na Sala dos Tronos. Ao entrar. e tendo uma planta original de um castelo que pertenceu a sua família no século XI. Descendente de uma família nobre espanhola.3. a taberna e varejo. 2. passando para a Sala das Cruzadas. Salão das Bandeiras. Em 2001 a vinícola mudou de dono. com ambientação pré-renascentista. Assis Brasil de Pedras Altas. o local de recepção de uva. segundo o padrão característico da construção de castelos. O visitante lá conhece não apenas o castelo. o castelo do vinho. O Castelo Lacave foi resultado do sonho de um empresário espanhol que residia no Uruguai. foi reaberto à visitação em 2004. há até armaduras. 87 . O castelo ganhou um brasão e as cores próprias para sua bandeira. objetos. resolveu reconstruí-lo na região vinícola de Caxias do Sul. as caves de armazenamento de vinhos. Os novos proprietários tiveram extremo cuidado ao decorar e ambientar seu interior com móveis e estilo da época. seria a sede da vinícola Chateau Lacave. passando à família Basso. os visitantes aprendem os processos de produção de vinhos para apreciar ainda mais esta bebida milenar. mas também fica informado acerca da produção de vinho além de ver espetáculos inspirados na idade média. tornando-se uma das principais atrações turísticas de Caxias do Sul.Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. em pedra. Terminado em 1968. Além da visita histórica.

de história e de mistério antigo. em que o local é alugado por modestos 200 reais. Assim.Castelo Lacave. Caxias do Sul (RS) Possuindo um restaurante. Fruto do sonho de um eletricista. 2. o espetáculo que é uma visita ao castelo Lacave se transforma numa experiência estética de tal complexidade e amplitude que a realidade se vê subvertida pelo objeto artificial. um espetáculo que encena a história medieval européia. confirmado a necessidade inconsciente do imaginário popular brasileiro de preenchimento de um arquétipo vago na nossa cultura opacamente marcado pelo substrato histórico do período colonial e monárquico. que decidiu construir um castelo depois de assistir filmes no cinema da cidade em que via castelos e reis da idade média. a festa mais importante de Garanhuns.4. De fato. somando-se à reprodução de espetáculos de cavalaria medieval. porque além de eletricista foi goleiro de um time amador e era considerado por alguns como “frangueiro”. Incluído já no roteiro turístico da cidade. no município de Garanhuns é o menos imponente e suntuoso dos castelos aqui mencionados. além da taberna para degustação de vinhos. para se transformar num restaurante temático. o Castelo Lacave faz o inverso do processo histórico que determina a característica do Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. A imitação como base da mimesis fornece aqui o elemento de catarse para o visitante desejoso de vivenciar um pouco de tradição. 88 . como empreendimento é um sucesso. um pedaço reconstruído da Idade Média transplantado no tempo e no espaço para o Brasil. daí o apelido de “capão”. iniciada há 17 anos. a suntuosidade não existe nesse castelo. à beira da Br-423. quase nos esquecemos que o castelo foi construído em 1968. o que confirma o índice de mais de 70 mil visitas desde que foi reaberto. Tendo ainda como elo fulcral a descendência de seu construtor e associando-se à simbologia do vinho. ainda que apenas como espetáculo ou como representação. O Castelo de João Capão em Garanhuns (PE) O Castelo de João Capão no Agreste Meridional Pernambucano. sem posses. não mais que 40 anos. conta com a doação de visitantes que por curiosidade comparecem ao local. O construtor foi apelidado de Capão. ou quando do Festival de Inverno da Cidade. Ainda em construção. se destaca na paisagem modesta do subúrbio em que se localiza. ou seja. o Castelo de João Capão. É assim. Aqui a história é uma representação.

Misto de imagem de casa de classe média alta com elementos de castelo medieval é no máximo uma casa temática de aspecto kitsch. O banheiro. é na verdade. porém. assim como temos casas com colunas jônicas ou dóricas. ainda em processo de acomodação. Lembra um pouco palácios de Florença ou Veneza. na Avenida Santo Antônio. tem janelas e torres em estilo pós-renascentista italiano. assim como centro político da cidade. Garanhuns (PE) O modesto castelo se apresenta dotado de uma força incomum para quem o visita quando sabe da história de seu construtor. ou o salão central com suas paredes pintadas em tom ocre de tinta à cal. vão nos mostrando que o castelo de João Capão é antes um conjunto contraditório de impressões do que seja um castelo para seu construtor. O Palácio justifica o epíteto de palácio pela forma arquitetural. esta impressão vai se desfazendo. 89 . O castelo. O conflito entre nossa herança européia. como os ramos cruzados à entrada do castelo. uma caricatura quase kitsch de um castelo. desejoso de viver num castelo medieval como um rei arturiano após assistir filmes no cinema é o melhor exemplo do que busco apresentar aqui como hipótese. construído em 1943 pelo interventor Agamenon Magalhães e inaugurado na gestão do prefeito que lhe dá o nome. carecendo de conhecimentos arquitetônicos e históricos. a de que a imagem do rei e de seu castelo se apresenta no imaginário popular brasileiro de tal forma que nos distinguimos nesse aspecto em comparação com as outras nações da América. é essa obra a perfeita consubstanciação dessa falta histórica que só é falta pela imposição em nossa história cultural de um ideal de passado e glória vinda da Europa e que impregnou nosso imaginário. o que não ocorrera com os castelos anteriormente aqui comentados. Lembra também. não o desmistifica. por dentro.Castelo de João Capão. em parte pela forte simbologia religiosa dada por um Portugal barroco e medievalista. situado no centro da cidade. é simbolicamente a imagem do processo de domínio da burguesia na estrutura social ocidental. porém. entre lojas e bancos. ameríndia e africana. Se por fora as torres em estilo medieval e a estrutura de tijolos imitando pedras dá ar de construção medieval. com paredes de lajota de cerâmica esmaltada e com aspecto de um banheiro típico de uma casa de classe média. além de algumas paredes rebocadas. Essa desconstrução do castelo no castelo de João Capão. misturadas com janelas modernas em bairros de classe média de várias cidades. localizado na área mais comercial da cidade. João Capão teve despertado aquilo que já subjazia no seu inconsciente advindo de um inconsciente coletivo e arquetípico. em termos estruturais e estéticos. alguns templos de igrejas evangélicas que se apresentam com torres medievais no lugar do campanário. por exemplo. pelo contrário. E o castelo de João Capão se mostra ainda mais característico quando o comparamos com outra construção do município de Garanhuns que é o Palácio Celso Galvão. e o acúmulo de símbolos desconexos. Se um Policarpo Quaresma teria convulsões diante de tal construção é apenas porque veria ali a contradição mais forte e característica de nossa formação como nação e cultura. Esta vontade que fundamentou o sonho do pobre construtor. em parte pelos aspectos próprios de nossa história que teve quase um século de monarquia. Ao assistir as fitas de cinema.

e um justo (que) em sua fé viverá". Paidos. 2006. a convicção de fatos que se não vêem”. Na colonização da 90 . quando contrapomos o Palácio Celso Galvão ao Castelo de João Capão.Palácio Celso Galvão. Na História a Fé tem sido um instrumento não só de caráter relativo à espiritualidade. São Paulo. Psicologia e Religião. GODOY. Márcio Honório. 1978. mas como aquele lugar que é dotado de um passado inexistente. do caos simbólico entre realidade e sonho. São Paulo. Nos Hebreus (11:1) encontramos a seguinte definição de fé: “Ora. Lembremos. possuiria o poder da conversão instantânea pelo poder imagético e matemático de sua linguagem. do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna. Antonio. Quando Raimundo Lúlio tenta converter os Sarracenos munido apenas de sua Ars Combinatória. HOUAISS. Dom Sebastião no Brasil. Etimologicamente a palavra vem do hebraico. Buenos Aires. 1978. 2004. Aurélio B. 2004. Rio de Janeiro. que só existe como passado como resultado de um conflito histórico de nossa herança cultural. mas também um instrumento de dominação. “emuná” e é traduzida pela primeira com o sentido que usamos no livro de Habakuk (2:4): "Eis aqui um soberbo. acaba morrendo martirizado. temos a possibilidade de ver a diferença entre castelo e palácio na cultura brasileira. Arquétipos e Inconsciente Coletivo. 1970. ________. Objetiva. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HOLANDA. Dan. G. de como lá a torre do castelo é o lugar da loucura. para exemplificar com a literatura. a fé é a certeza de coisas que se esperam. Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico A Fé é decididamente o grande instrumento do homem para a realização de suas conquistas históricas e espirituais. Carl. Khronos. JUNG. São Paulo. O castelo não é propriamente mais visto como a sede do poder. sua alma não é reta nele. O Simbolismo em Geral. Cultrix. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. sede da prefeitura de Garanhuns (PE) Assim. Nova Fronteira. que só se resolve pela compreensão do que seja nossa herança cultural. Rio de Janeiro. Perspectiva. ao passo que o palácio é associado ao poder pela fundamentação real que nossa histórica tem com essa arquitetura. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. SPERBER. que acreditava. col. Vozes.

Quitéria. dentro das igrejas cristãs. Padre Cícero. Quitéria nasceu no ano de 462. uma ideologia. Liberata. A data de um santo é geralmente colocada como a data de sua morte. Naquela época predominavam as superstições. é no dia 7 de setembro que existe a maior comemoração em Frexeiras. movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo. Gema. O sertão Nordestino é um espaço histórico rico de sincretismos. uma forma particular de construir a realidade. No Brasil. Crenças. agreste meridional de Pernambuco. que as batizou as meninas (Eufemia. na região do Minho. Assim. no sentido de compreensão da relação contextual do homem com a sociedade que constrói. Marciana. Sabemos que uma língua não é apenas um conjunto de regras normativas gramaticais e um vocabulário da qual se o falante faz uso indiferente. porém. Os beatos. rituais. Genebra. de crendices. Anos mais tarde. superstições indígenas e africanas povoaram os espaços vagos das contradições cristãs. Segundo consta do hagiológio português e na história de Braga. mulher de Lúcio Caio Otílio. feiticeiros malignos e benignos. deixaram sua marca neste imaginário. 91 . tendo se assustado com o fato de ter dado a luz a nove meninas. Quitéria estava com 15 anos de idade. por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Líbio Severo em viagem pela Península Ibérica. que com medo de represália do marido. A história da santa é dramática e dotada de acontecimentos misteriosos que beiram o macabro. que no entender católico é o dia em que a alma do santo deixou a terra e se elevou aos céus. dominadas pelo português europeu. desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano.América. tudo a suas expensas. Marinha. os padres povoaram o imaginário sertanejo de personagens mágicos. Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia. Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga. homem de procedimento muito rígido. Frei Damião – religiosos. cada língua tem inscrita na sua estrutura uma visão de mundo. país cuja miscigenação tornou-se característica fundamental de sua população. em Braga. Antes. a ponto de a mãe. a Fé foi o instrumento de conversão ideológica mais eficaz que os europeus puderam apresentar aos gentios americanos. o dia 22 de maio é dia de Santa Quitéria. No calendário cristão católico. A história de Frexeiras é a história da fé popular. o povoado de Frexeiras é um retrato emblemático desse sincretismo e dessa fé algo abstrata de definir apenas na conceituação religiosa. isto é. enquanto instrumento da Igreja para conversão dos fiéis e garantia de sua dominação. Antônio Conselheiro. Basilissa e Vitória) e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs. No povoado existe o culto à Santa Quitéria. da fé tomada pelo povo em oposição à fé. as culturas indígenas e africana. ao redor e por vezes. mas concretamente antropológica. Otílio condenou-a à morte. José Lourenço – beatos. o sincretismo religioso se instaura diante. instruiu a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. Mas. já no município de São João. Próximo a Garanhuns. afogando-as num rio. cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de Maio do ano de 477. no século V da nossa era. deixaram na língua dominante marcas inconfundíveis. tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano. Santo Ovídio. Ante a recusa da filha. de profecias.

br/atualidades/santuario-no-interior-e-causa-de-briga-juridica-entre-aigreja-catolica-e-familia-proprietaria-de-imagem/ . e os escravos foram espalhando para os escravos de outras propriedades e os donos de outras fazendas. no Ceará. em carro de boi até a modernidade de hoje em que elas vêm de ônibus. de informações contraditórias que se dirigem aos nossos olhos. de estatuetas as mais variadas. de caminhões pau de arara. de fotografias de diversos tamanhos das pessoas que se dizem agraciadas. 8 Fonte: http://acertodecontas. pessoas em variadas poses e lugares. 92 . ao entrar no local o que se nos mostra de imediato é um grande painel neobarroco. As paredes povoadas de fotografias transformam-se num grande mural do tempo. já trouxeram os escravos e quando chegaram aqui na região construíram a casa para morar e foram preparando a terra para a cultura de subsistência e quando eles vieram de Portugal trouxeram na bagagem a imagem de Santa Quitéria. sob o domínio do imperador Adriano. Existe uma disputa entre a família Guilherme da Rocha e a Igreja. criando no expectador de imediato uma desorientação. As terras onde se encontra o povoado de Santa Quitéria pertencem à família Guilherme da Rocha. Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos. que veio de Portugal em 1695. A casa grande original foi se atulhando de ex-votos. Fotos antigas. Assim. a casa. Santa Quitéria.As datas aqui colocadas não são de todo confiáveis. inclusive pagãs. Conforme conta um dos herdeiros. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada. em p&b. e Santa Quitéria no Maranhão. o culto de Santa Quitéria é bem difundido. novas. além dos vendedores de bugigangas. o culto à Santa Quitéria seguiu um caminho dominado pelo imaginário popular.” 8 O fato atual é que o povoado de Santa Quitéria transformou num local de peregrinação. Quitéria tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada. Com as freqüentes novenas realizadas aqui na casa (a família era muito católica). Tal se deve ao receio de que a Igreja tome posse do culto sem auferir à família algum acerto financeiro ou de uso. acumulativo. que foi para abrigar uma família. porém a Igreja não tem qualquer domínio ou intervenção na localidade. essa imagem que está aqui de 44 cm e que era a imagem de devoção da família. coloridas. e no final do século XVII. é um dos maiores depósitos naturais de urânio do país. Tendo nascido Quitéria no ano 120 e morrido em 135. existe uma versão de que teriam tais fotos ocorridos no século II. Cada uma. foi transformada nesse espaço para receber as constantes visitas que vinham montadas em lombo de burro. No Brasil. no Nordeste existem dois municípios com essa denominação.blog.artigo de André Raboni. os escravos começaram essa devoção à Santa Quitéria. Assim. carregando objetos. vem muita gente a pé. que existia uma santa milagrosa e aí começou a peregrinação. de santinhos. A família não permite a entrada de religiosos. apresentando aqueles inúmeros rostos. Assoma-se a movimentação das pessoas que entram e saem dos aposentos acendendo velas. que entre outras características. os índios também. eis como começou o culto à Santa Quitéria: “Tudo começou quando minha família veio de Portugal tomar posse de terras que foram concedidas pelo governo de Portugal em 1695. de velas.

No estacionamento. fez o sinal da cruz e foi-se embora. dezenas de barracas de mascates vendem santinhos. mas o imaginário popular tratou de fazer o seu próprio processo de santificação. ou de parafina: pés. Imediatamente uma outra senhora vendo isso. muitos deles. Os mais novos. sem o concurso da Igreja. Numa das estantes velhas de madeira. mãos dos que estavam nas fotos se materializassem ali. do abandono. A elevação da alma da Santa aos céus é também o signo de sua morte corpórea na terra. esta senhora resolveu passar por debaixo da mesinha que sustenta parte do oratório. Hulk. Como se os pés. Se a data de Santa Quitéria é 22 de Maio e em Frexeiras o dia mais comemorado é o de 7 de Setembro. braços. Uma velha senhora. meio mágico. balas. em geral mais velhas. alguns almoçam o prato feito.signo de uma história particular. o dia da independência 93 . da historicidade de agruras e desmandos. passou uma. a realidade concreta é muito dura. Assim. com a diferença que agora se presentificam enquanto objetos tridimensionais. de curiosos ou de pessoas movidas pela fé que têm a condição de ter um automóvel mais novo. Santa Liberata. Próximo a casa grande. três vezes. Ali. Cria-se assim um mundo místico. são as irmãs de Santa Quitéria: Santa Gemma. Na única rua do povoado. E a morte é o grande medo do homem. assim como ocorreu no Ceará com o Padre Cícero. Lá fora uma barraca vendendo super-heróis de plástico: Wolverine. em pouco tempo. desde de rádios de válvula. ele que o imediato concreto. reciclando continuamente as crenças individuais num caldeirão de mitos. capas para celular. já velhos. até estatuetas de Jesus. joga-se o bilhar. de madeira. O homem sertanejo que vive a dureza das condições sócioeconômicas. Assim. que fica numa outra casa. Santa Vitória. uma estatueta em gesso de Vênus/Afrodite. naquele povoado. pilhas. passando por debaixo do oratório. querendo ser provas irrefutáveis dos milagres. Homem Aranha. busca na fé mais do que a elevação espiritual ou a ascese. e colocadas em alguns nichos. são carros dos mascates. Os ex-votos. é sua cruz inseparável. no entanto. povoado de santas vindas de ilusórias terras também santas. o sincrético e o místico. mãos. de uma época irreal. o 7 de setembro. As irmãs de Santa Quitéria não foram santificadas pela igreja. que no imaginário popular foi a época em que santos e santas andavam pelo mundo. dia da Independência é aqui transmutado no dia de Santa Quitéria. Lá encontramos uma variedade de objetos velhos. se presencia ali. ao dirigir-se ao altar de Santa Quitéria. cabeças. disso a uma outra: -“Vamos também passar por três vezes aí embaixo que dá sorte e proteção!” E. Quando de uma das minhas visitas. o que temos é a inversão dum significado. notas e moedas antigas. existe um museu. braços. cabeças colocadas em sob tábuas de madeira ou penduradas nas paredes também criam um novo panorama que se acumula ao das fotos. O imaginário necessita do sobrenatural. diante de nossos sentidos. individual. doces. formava-se uma fila de pessoas. ônibus de diversas procedências. presenciei um fato interessante e ilustrativo. que. na coletividade de imagens. outros tomam cachaça. No comércio das bodegas. automóveis. brinquedos de plástico. pessoal. mas também desordenadamente pós-moderna. onde se paga um real para entrar. duas. a fé se exercita. estátuas de santas que pela denominação. cuja imagem encontra-se adornada de inúmeros colares dourados. o culto à Santa Quitéria de Frexeiras segue seu caminho numa trilha entre o folclórico.

da alma sertaneja diante dos grilhões históricos de sua condição. Símbolo da regeneração das forças para continuar sua luta diária e cotidiana. Prancha de Figuras – Frexeiras 94 .

Imagem de Santa Quitéria de Frexeiras. 95 .Os retratos na parede compondo um painel sincrônico de promessas e pedidos Parede e prateleira repleta de ex-votos. PE.