IMAGENS DO VELHO CHICO NA CULTURA DO VALE DO SÃO FRANCISCO Jayro Luna

Edupe
2009

SUMÁRIO Apresentação. – Benedito Gomes Bezerra – 3 Introdução - 6 O Rio Como Símbolo – 8 O Rio São Francisco como tema da MPB – 13 O Ciúme, de Caetano Veloso – 29 Do São Francisco ao Mississipi –35 Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira – 42 Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco – 53 A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco – 58 Algumas Considerações Acerca das Representações Pictóricas do Rio São Francisco – 63 Mamulengo Revisitado – 77 A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira – 79 Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico – 91

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APRESENTAÇÃO O Rio São Francisco representa um dos elementos de maior peso simbólico na cultura e imaginário nordestino, fato que se reflete na música, na literatura, na pintura e nas artes em geral. Ultimamente, o Velho Chico tem sido objeto de acalorada e polêmica discussão, em virtude do projeto de transposição de águas idealizado pelo governo federal. É lamentável, contudo, que o foco das reflexões sobre o Rio tenha se concentrado de modo quase exclusivo nos aspectos políticos e ideológicos da questão. O livro do professor Jayro Luna, a propósito, vem preencher essa lacuna, trazendo para a comunidade acadêmica e o público em geral um amplo e variado conjunto de textos debruçados sobre a riqueza cultural constituída em torno do São Francisco. O propósito do autor é, como ele mesmo afirma, “levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região”, bebendo para isso nas inúmeras fontes disponíveis. Duas particularidades devem ser ressaltadas no trabalho do autor. A primeira é que não se trata, de forma alguma, de pesquisa meramente bibliográfica, fruto de observação distanciada. Em muitos textos, o leitor perceberá a argúcia do observador integrado ao objeto de sua investigação, examinando de perto aquilo de que fala, não sem trair a paixão do autor pelos aspectos culturais em questão. A segunda particularidade é o ponto de vista do autor, construído a partir da região do Agreste Meridional, onde se situa a Universidade de Pernambuco, Campus de Garanhuns, de modo que relações muito pertinentes e interessantes são demonstradas entre a riqueza cultural dessa região e o imaginário do Rio, próprio do sertão cujas terras suas águas percorrem. Daí a presença, por exemplo, de um capítulo que trata do santuário de Santa Quitéria em Frexeiras, localidade próxima a Garanhuns. O livro se organiza em onze capítulos que tratam do imaginário e da cultura do Velho Chico sob variados ângulos. A maioria dos capítulos enfoca as diferentes maneiras como o Rio São Francisco é representado em diversas expressões artísticas, como a MPB, a poesia, a arte popular das carrancas, a pintura e a escultura. Outros tratam de manifestações culturais direta ou indiretamente ligadas ao Rio. O primeiro capítulo, intitulado “O rio como símbolo”, estabelece as bases para muito do que será dito nos demais, demonstrando a centralidade da simbologia do rio em diversas culturas do mundo e de outras regiões brasileiras. O segundo capítulo explora o Rio São Francisco como tema privilegiado da Música Popular Brasileira, abrangendo desde a chamada música de raiz, passando pelos temas de escola de samba e por Luiz Gonzaga até a música engajada de Sá e Guarabira, lembrando de forma crítica a profecia de Antonio Conselheiro: “O sertão vai virar mar/ dá no coração/ o medo que algum dia/ o mar também vire sertão”. No terceiro capítulo, o autor analisa especificamente a letra da música “O ciúme”, de Caetano Veloso, cujo tema, comum a outras composições da MPB, é a relação entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, separadas pelo São Francisco, mas unidas pela ponte ali construída na década de 1950. O quarto capítulo traça um interessante paralelo entre o imaginário do Rio São Francisco e do Rio Mississipi (nos Estados Unidos) conforme representado pela música em ambos os contextos. Conforme demonstra o autor, as imagens de ambos os rios são 3

Sobressai. mostra como as carrancas sofreram um desvio em sua função original de proteger as embarcações “contra perigos concretos e imaginários”. cujo valor monetário se define pelo talento e renome do mestre escultor. especificando tipologias e resgatando o nome de artistas situados no Agreste Meridional. Já no quinto capítulo. no caso do São Francisco. bem como as influências próprias do colonizador europeu e cristão. começando por Castro Alves e sua obra A cachoeira de Paulo Afonso e culminando com João Cabral de Melo Neto e o “sertão sem rio”. tema do capítulo oitavo. não cristã. o capítulo décimo primeiro apresenta o santuário popular de Frexeiras como uma curiosa representação do sincretismo religioso e cultural brasileiro. substitui os traços populares por traços inspirados na simetria da arte clássica. transformando-se em objetos artesanais destinados ao comércio. cuja função parecer ser sobretudo intimidar as crianças. com um oportuno destaque para o “Castelo de João Capão”. No sétimo capítulo. Já o capítulo décimo brinda o leitor com um alentado estudo da simbologia do rei. o retrato dos dramas sociais desde a colonização até a transposição. creio eu. deusas greco-romanas e super-heróis de origem estrangeira. “rei da juventude” etc) até uma apresentação dos principais castelos existentes em terras brasileiras. capaz de reunir num mesmo espaço santas. que no caso do artista Ledo-Ivo Gomes de Oliveira. intitulado “Algumas considerações acerca de algumas representações pictóricas do São Francisco”. Uma preocupação central do autor é traçar um paralelo entre o imaginário popular e a representação artística do Nego dá água. pintores estrangeiros e nacionais têm oferecido suas visões do Velho Chico. evitando que se arrisquem demasiadamente nas águas do Rio. Os últimos três capítulos abrangem temáticas não ligadas diretamente ao Velho Chico. Como não podia deixar de ser. dessa forma. traz uma breve abordagem sobre a arte do mamulengo. o Rio também tem sido representado na arte pictórica. mas incluídas na obra. O autor ressalta as peculiaridades das carrancas como objeto artístico para o qual convergem elementos da herança indígena e negra. predomina a crítica social retratando os dramas dos ribeirinhos pobres. A partir do século XVII. Fechando o volume. negros geralmente. por fazer parte de uma cultura comum. acossados pelas constantes cheias do rio e abandonados pelos representantes do poder. o autor se volta para as imagens do Velho Chico na obra dos poetas brasileiros. no caso americano do Mississipi. O estudo inclui desde o pitoresco uso do termo “rei” para praticamente qualquer atividade desenvolvida pelas pessoas (“rei do samba” “rei do futebol”. O capítulo nono. predominam as imagens poéticas inspiradas numa cultura medieval transportada para o sertão nordestino. o autor apresenta a lenda do Nego d´água como parte do imaginário do povo ribeirinho. constituindo um rico painel de representação pela pintura. ponto turístico da cidade de Garanhuns em Pernambuco. na poesia brasileira. como um complemento bastante interessante dessa mostra da cultura nordestina que é o livro de Jayro Luna. tendo como palco e pivô o grande rio do povo nordestino. “Por uma mitologia das carrancas do Vale do São Francisco”. operando uma espécie de recriação eventualmente sujeita a polêmica. do castelo e do palácio na cultura brasileira. A cultura popular nordestina se mostra aí como uma cultura de resistência 4 . Se. criador de uma colossal estátua do personagem. com estilos variados e diferentes posturas de engajamento em relação ao Rio. O sexto capítulo.construídas de maneira bastante diferente.

com especial destaque para os elementos culturais construídos em torno do Rio São Francisco. o livro será de grande utilidade para pesquisadores.inclusive contra a dominação religiosa. a leitura de Imagens do Velho Chico na cultura do Vale do São Francisco proporcionará ao leitor uma rica e profunda imersão na herança cultural do Nordeste. sem dúvida será uma descoberta apaixonante. Está de parabéns a Universidade de Pernambuco. Com certeza. 5 . Para quem não a conhece. Será uma experiência significativa para quem já conhece e ama essa cultura. além de oferecer a todo o povo brasileiro uma nova e abrangente visão acerca do Rio São Francisco. notadamente seu campus de Garanhuns. evidenciando a capacidade do povo de moldar e cultivar seus próprios santos e santuários. por trazer essa obra ao público brasileiro. Em suma. alunos e demais pessoas interessadas na arte popular e na cultura nordestina de modo geral.

todos esses aspectos de localização geográfica. pois. arte popular) procurando nas diversas manifestações levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região. possivelmente interferindo na paisagem sertaneja semiárida do Ceará. distante fisicamente 223 km do rio São Francisco (município de Paulo Afonso). A obra de transposição do leito do Rio São Francisco implica em profundas alterações nessa situação em todo o interior do 6 . pareceu-nos pertinente fazer estudos comparativos e de influências entre as duas regiões. tendo em vista. Completou-se o projeto com a formação de um acervo bibliográfico. a construção do imaginário acerca do arquétipo que o Rio São Francisco preenche na região do Polígono das Secas.Introdução Este livro é resultado de um projeto de pesquisa realizado na UPE/FACETEG durante o período 2007-2009. isto é. Paraíba. tendo como subtema as modificações que o projeto de transposição do rio São Francisco potencialmente poderá causar nessa mesma cultura. O projeto visava pesquisar as imagens na cultura do Vale do Rio São Francisco. abordando a produção literária (prosa e poesia) bem como as manifestações de literatura popular (cordel. buscamos observar as primeiras e possíveis alterações nesse significado em função de uma nova dimensão regional do vale do Rio São Francisco. que o projeto incluiu uma parte de estudos acerca do Agreste Meridional. com apoio do CNPq. próxima também do litoral (Zona da Mata). Ainda. com destaque na micro-região para a cidade de Garanhuns. mas também no âmbito cultural. Embora Garanhuns esteja situada no Agreste. tendo em vista a proximidade da implantação do projeto de transposição do Rio São Francisco. Pernambuco e Rio Grande do Norte. contos. que receberá pelo projeto de transposição uma adutora para regularização do fornecimento de água à região. mitos e lendas. Acresce ainda. iconográfico e artístico da cultura da região do Vale do São Francisco. na região do baixo São Francisco. a dimensão cultural e social que envolve a bacia do Rio São Francisco tem aspectos de influência não apenas climática e de geografia física sobre a região. tendo em vista que essa micro-região está próxima da bacia do São Francisco. contígua do sertão. a do Vale do São Francisco e a do Agreste Meridional.

............. tendo ainda por horizonte. espero que o leitor desse livro possa tomar contato com os resultados de nossa pesquisa......... fazendo com que a distinção típica entre as micro-regiões do estado possam mesmo ser revistas.............. Nossa pesquisa justificou-se na medida mesma em que tem por princípio um estudo das imagens do Rio São Francisco na representação do imaginário não apenas nas manifestações próprias das cidades do vale. . E. à tradição regional do vale de um ângulo que ainda não encontramos em outras publicações...... analisando tópicos referente às artes plásticas..... à música popular brasileira... Prof... Jayro Luna 7 ..... Assim. mas sim....estado. numa interrelação dessa microrregião com fatores externos que possam alterar e modificar de modo decisivo seu caráter microrregional.. mas também àquelas que a esse imaginário se dirigem.... Neste livro acreditamos que abordamos sob um novo aspecto a questão da cultura do Vale do São Francisco.... a previsão de que esse imaginário tende a modificações estruturais significativas de acordo com os resultados da transposição do leito do rio.. nosso trabalho já aponta para uma atitude de ponta na abrangência que a UPE/Faceteg se coloca nas questões não apenas de sua microrregião..............

o Jordão são alguns exemplos. evidentemente. esta se liga à simbologia da ponte. o Ganges. desde o princípio da civilização o rio se destaca. Em relação ao rio. banhar-se nas águas do Ganges. Na Cabala também se fala das águas que ‘correm para o alto’. o da fertilidade. o Mississipi.” (GUÉNON: 1989. ao mesmo tempo. o Tejo. alguns rios são sagrados para determinados povos. destacando duas imagens ligadas ao rio. o acesso ao Nirvana. o Tibre. a primeira. o que ele chama de “remontar corrente” e a segunda. e que têm também relação direta com a Shekinah [Presença divina]. comentando o trabalho de Ananda K. Os rios Tigre e Eufrates na civilização babilônica. o remontar das águas significa. é talvez o mais notável sob certos aspectos. o Tamisa. A simbologia esotérica e mística desde tempos antigos tem trabalhado a imagem do rio. e que. Guénon comenta: “O primeiro caso. mas pela inversão de direção da própria corrente. na tradição hindu. No Cristianismo. o retorno à indiferenciação. da morte e da renovação. outros de extensão consideravelmente menor tornaramse simbólicos por suas posições geográficas estratégicas fundamentais para a vida de vários povos: o Reno. ou a travessia de uma margem à outra. e não pensemos apenas nos grandes rios. à navegação é à pesca. No sentido de que seja um lugar propício à agricultura. o remontar do curso das águas. o Níger. o símbolo do rio é apresentando de modo a destacar o simbolismo das margens e da água corrente: “O simbolismo do rio e do fluir de suas águas é. hoje praticamente coberto pela cidade. Coomaraswamy. modesto afluente do Tietê. pois deve-se então conceber o rio como identificado ao ‘Eixo do Mundo’: trata-se do ‘rio celeste’ que desce para a terra. ‘remontar corrente’. expressão do retorno à fonte celeste representado então. 300-301) Assim. A história do Egito antigo é a história da civilização do rio Nilo. O curso das águas é a corrente da vida e da morte. No Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant. por exemplo. que é em suma o equivalente da Shakti. a imagem da “travessia” e por conseguinte. A descida para o oceano é o ajuntamento das águas. O rio como símbolo tem forte presença no desenvolvimento cultural dos mais variados povos. é designado por nomes tais como Gangâ [Ganges] e Saraswatí. o rio Nilo do Egito são exemplos marcantes dessa importância do rio na história da civilização. pelos quais as influências do ‘mundo em cima’ são transmitidas ‘ao mundo de baixo’. não mais para pelo remontar da corrente. o da possibilidade universal e o da fluidez das formas (F. é um dos símbolos de nossa independência. pode-se considerar: a descida da corrente em direção ao oceano.O Rio Como Símbolo O rio tem marcado a presença como um dos lugares mais importantes da história do homem. é um ritual de purificação na Índia.Schuon). Não menos importantes para o desenvolvimento de nações foram o Rio Amarelo. Na Cabala hebraica esse ‘rio da vida’ encontra sua correspondência nos ‘canais’ da árvore sefirótica. Jesus foi batizado por João Batista no Jordão. No caso do Brasil. basta lembrarmos que o rio Ipiranga. René Guénon observa essa aspecto. p. à defesa de território. que são exatamente os nomes de certos aspectos da Shakti. o retorno à Nascente 8 . Acerca da primeira imagem.

o rio como imagem do caminho da colonização do sertão. desde as primeiras entradas e bandeiras que definiam grande parte de seu trajeto em função dos rios que penetravam a floresta ainda inexplorada. a Babilônia e o Tigre e Eufrates. O Egito dos faraós e o Nilo. temos esse processo de busca de compreensão da enorme extensão de terra desconhecida em que se suspeitava a existência de tesouros perdidos. A Literatura brasileira. é a paramita. o papel dos rios no desenvolvimento de nosso país foi de suma importância. Mário de Andrade escreve suas “Enfibraturas do Ipiranga” em Paulicéia Desvairada (1922). de José Lins do Rego ou ainda. a China e o Rio Amarelo. Essas são só algumas poucas lembranças imediatas de obras poéticas. Assim. ainda hoje. Porém. e a travessia é a de um obstáculo que separa dois domínios. dois estados: o mundo fenomenal e o estado incondicionado. uma com água e outra sem o precioso líquido. para além do qual ficavam os bárbaros. Assim. A simbologia indígena que destaca o papel do rio no processo mitológico de criação do mundo. surgiram. no caso brasileiro. No caso específico do Brasil.divina. só mais recentemente as possibilidades de irrigação que o rio poderia oferecer foram exploradas. trazendo mais do que luz. Aliás. de eldorados. com exemplo do rio Amazonas. lembremos de Uma Tragédia no Amazonas (1880). e é o estado que existe para além do ser e do não-ser. Maleita (1935). como signo representativo de um interior que lança grandes 9 . Raul Bopp em Cobra Norato. a poesia e a música não têm deixado de tratar do tema do rio. o mundo dos sentidos e o estado de não-vinculação. Riacho Doce (1939). antes deles. A margem oposta. que julgou tratar-se dum mar. como também pela água corrente sem espuma. O Rio Amazonas na região Norte. a principal via de comunicação entre as cidades. em cujas margens surgiram algumas das principais cidades da região do polígono das secas. notadamente na região de Petrolina e Juazeiro. no caso do Brasil.” (CHEVALIER & GHEERBRANT. caminhos para a conquista do paraíso selvático. 780-781) Por esses aspectos a análise da cultura que se desenvolve ao longo do percurso de um rio é também. esse estado é simbolizado não só pela outra margem. em quase sua totalidade em razão da proximidade navegável com o grande rio. Desde a expedição de Vicente Pinzón à foz do Amazonas. a análise da própria evolução cultural da humanidade. No romance. Os limites europeus do Império romano incluíam as margens do Reno e do Danúbio. como entrada dos bandeirantes. O Rio São Francisco marcou boa parte da cultura sertaneja do Nordeste Brasileiro. Rio do processo de colonização do sertão. A cultura Hindu e o Ganges. o rio da energia elétrica. a possibilidade do progresso para as cidades com a instalação de indústrias de beneficiamento da produção agro-pecuária. Rio que determinava a existência de duas possibilidades de sertão. ensina o Patriarca zen Hueineng. p. país de grandes bacias fluviais. de Raul Pompéia. Antes. até as de Francisco Orellana e Pedro Teixeira. Castro Alves narra em verso o drama Cachoeira de Paulo Afonso. porém. são apenas alguns dos exemplos que envolvem essa interligação entre o rio e a cultura. Mar Dulce. os rios foram muito mais encarados como caminhos do que como fronteiras. cria um mundo mítico e mágico na floresta do Rio Amazonas. em boa medida. ao Princípio. que por sua vez. de Lúcio Cardoso. Caminhos para a descoberta dos territórios inexplorados. que a partir da Chesf e da usina de Paulo Afonso. eletrificou praticamente toda a região do sertão.

Ó pescador! Deita o lanço com cautela. Ó pescador! No Brasil. Ó pescador! Pescador da barca bela. o rio como metáfora da estrada da vida tem como suporte material para sua alegórica navegação o corpo humano. que necessita dum suporte para que o homem possa seguir por seu curso.quantidades de água ao mar. favorece a alegoria de ver o rio como símbolo da vida. o barco são os meios utilizados para tal. 10 . Este como morada da alma. lembremos dum poema de João Cabral de Melo Neto: Os rios Os rios que eu encontro vão seguindo comigo. mas da vida por viver. Inda é tempo. Ó pescador! Não se enrede a rede nela. Num sentido alegórico.. Mas cautela. Onde vais pescar com ela. é o barco.. a canoa que levará ao encontro com o mar. Foge dela. A canoa. Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela. foge dela. Que é tão bela. O rio como estrada. em que a água sempre está por um fio. Muito sucesso fez o poema “A barca bela” de Almeida Garrett: BARCA BELA Pescador da barca bela. a totalidade. na acepção cristã. da vida que corre do presente para o futuro. como caminho é uma estrada fluídica. cujo passado é memória. Rios são de água pouca. Que perdido é remo e vela Só de vê-la. Que a sereia canta bela.

. lemos a descrição do caminho que se deve fazer para se chegar à casa de Marília : Entra nesta grande terra. apenas Ouço a água ponteando no peito da tua canoa. de Tomás Antonio Gonzaga. é no seu ápice. em que a alegorização do rio como símbolo atinge um de seus mais altos graus na literatura brasileira: “Sou homem de tristes palavras. como signo de passagem no sentido alegórico. Seguindo o sentido dessa visão do rio como caminho. Passa a segunda e a terceira Tem um palácio defronte. Rios todos com nome e que abraço como a amigos.” 11 . o ponto em que o homem pode. deixa de ser um aspecto corroborador do rio como obstáculo. Passa uma formosa ponte. Vinícius de Moraes. A ponte. uns com nome de santo. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios. para ser sim. Na lira XXXVII. Na primeira estrofe de “O Pescador”.Cortados no verão que faz secar todos os rios. o rio — pondo perpétuo. cita como um dos locais propícios à pesca o estar sobre a ponte: Pescador Pescador.. os rios brasileiros têm sido muito mais caminho que interrupções ou obstáculos do caminho. tanta culpa? Se o meu pai. contemplar como observador o curso contínuo das águas que vêm de distantes paragens e seguem em direção ao mar ou a rio maior. ponto de admiração e de contemplação do rio. numa das estrofes. A ponte. Uns com nome de gente. sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio. onde vais pescar esta noitada: Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? Está tão perto que eu não te vejo pescador. Conhecido é o conto de Guimarães Rosa. outros com nome de bicho. como signo da união das duas margens. portanto. da Marília de Dirceu. muitos só com apelido. Os rios têm afigurado no imaginário brasileiro como caminhos. De que era que eu tinha tanta. “A Terceira Margem do Rio”.

Tomás Antônio. CHEVALIER.Haroldo de Campos. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro. Marília de Dirceu. apresenta-nos a idéia dum contínuo aventuroso da linguagem poética como a correnteza do rio. GONZAGA. São Paulo. Seja como for. Dicionário de Símbolos. a evolução. 1994. René. GUÉNON. 2005. Almeida. 2008. Guimarães. São Paulo. de momentos diversos desse rio. São Paulo. Figueirinhas. Os Símbolos da Ciência Sagrada. Pensamento. 1944. MELO NETO. a idéia é de uma sincronização de acontecimentos. 1989. ROSA. Haroldo de. Ex Libris. Martin Claret. Vinícius de. Primeiras Histórias. entender na sua fluidez a modificação. e como tal. Sergipe 12 . Nacional. Referências Bibliográficas CAMPOS. Galáxias. 1984. Poesia e Teatro. Heráclito de Éfeso apresenta o argumento de que não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. Alain. nas suas Galáxias. Rio de Janeiro. MORAES. 2004. GARRETT. São Paulo. João Cabral de. Nova Aguillar. Mas em Haroldo de Campos. Lisboa. Obra Completa. Jean & GHEERBRANT. o rio é um dos símbolos mais fortes da nossa cultura. José Olympio. 2005. Rio de Janeiro. Própria. a passagem do tempo e da vida acaba por ser uma das mais ricas imagens poéticas. Tal concepção parte da premissa de que o tempo a tudo modifica e que a correnteza do rio é a alegoria do tempo. Nova Aguillar.

apresenta já no título a comparação entre o rio São Francisco e o Nilo. como busca da eternidade. tal comparação se faz jus mediante o papel integrador que ambos os rios desempenharam. ou as lágrimas numa aplicação de hipérbole. Pirapora. ambos da Banda Moxotó. uma vez que a Natureza rica em fauna e flora se apresenta como obra santificada. A música. O tema do rio na música é antigo e tem suas metáforas características. lemos: “São Francisco é fauna. Lailton Araújo e Wanderley Araújo. As duas primeiras se referem à riqueza natural que envolve a bacia do São Francisco.O Rio São Francisco Como Tema da MPB Neste breve artigo comentaremos acerca de algumas letras de música popular brasileira que colocaram como tema o Rio São Francisco. em Minas Gerais. tentaremos perceber qual é imagem do Velho Chico que está presente nessas canções. é assim o lugar de alegria para o eu lírico. um dístico que se desenvolve na canção como um refrão: “Navegarei no infinito / Navegarei com São Francisco”. mas “com” São Francisco. a canção passa a adotar o nome do rio acrescido de outras qualidades: é fauna. assim não mais se navega “no”. ou se. rio São Francisco em Pirapora Soltarei o meu sorriso” Agora. por sua vez. é santo. Depois. Na segunda estrofe. a de santo. representar a tristeza. A seguir. é em referência ao nome dado ao rio. obra divina. como protetor dos animais e da Natureza se mostra aqui como o santo católico mais adequado a emprestar o nome ao rio. na serra da Canastra e também do longo percurso (“um grande aventureiro). em ritmo nordestino de baião. a cidade que está próxima à nascente do rio. por meio desses comentários. Na primeira estrofe da canção lemos: “Nas entranhas da ‘Canastra’ Nasce um grande aventureiro ’Nilo’. logo colocando o nome “Nilo” como qualificativo do São Francisco. O infinito aqui redimensiona a figura do rio como metáfora da vida. flora São Francisco é santo. pode ainda. Guardadas as devidas proporções. estas com seu aspecto assustador vão trazer nos adultos a lembrança dos medos que as crianças têm de caras feias. faz referência às carrancas. é flora. sinta voltar A criança que está em você” A estrofe cita o local de nascimento do rio. nome milenar Filho do solo brasileiro Margeando o seu leito As carrancas vão assustar Nas lembranças. O rio pode ser um símbolo conquanto represente a vida. a passagem do tempo ou a inevitabilidade do fluir dos acontecimentos. deixando de lado o qualificativo de “Nilo”. mas a terceira qualidade. tem como um de seus sucessos a música Nilo Brasileiro. são várias as imagens. criada em 1981. 13 . as mágoas. O santo.

entre os indígenas na luta de preservação de sua nação e cultua e a do europeu em busca da imaginada cidade de ouro no meio da mata: “Um grande rio as formou Pelas lágrimas de Iaty Na consagração do sol e da lua Homem branco veio invadir 14 .Para os Olhos do Mundo um Símbolo de Integração Nacional: Rio São Francisco". trazendo energia para toda a região. e que tem a capacidade de sustentar hidrelétricas. O dístico final da composição: “No toque da minha cantiga / Irrigarão a caatinga”. a criança que está ainda vida nos compositores e que se expressa por meio do verso e da canção. Todo o processo aos olhos do menino é um processo mágico. de fornecer água para irrigação é nesse aspecto um “Nilo”. O a que se desdobra e que ecoa pela caatinga como eco da canção do rio. o que são “Águas tão nordestinas”? O rio que corre uma região semiárida. Na primeira estrofe a canção faz referências aos elementos da mitologia indígena (Jaci. Assim instaura-se o conflito. terminando com o verso que designa a localização regional dessas cidades: “São Romão. e também uma visão “mágica” aos olhos de uma criança. presenciando o processo de desenvolvimento da região com a chegada das hidrelétricas: “As bandeiras da fortuna Velhos sonhos coloridos Esmeraldas.Na estrofe seguinte. do Imaginário Indígena a Saga de Opara. bem à lenda do colonizador acerca do Eldorado. No carnaval paulista de 2006. de ser navegável. Iaty). a escola de samba Mocidade Alegre desfilou sob o samba-enredo “Das Lágrimas de Iaty surge o Rio. hidrelétricas O menino viu passar Na pureza da magia Nas cidades que nasciam Em Minas Gerais. ecoará pela caatinga. os compositores falam de lembranças da infância em volta do rio. a cantiga em homenagem ao rio que corta o sertão semi-árido. A penúltima estrofe se compõe de nomes de cidades em Pernambuco. O título num tom quase barroco já se propõe a utilizar os aspectos lendários e do imaginário da colonização da região do São Francisco. as cores das bandeiras nas festas populares das cidades ribeirinhas se tornam imagens metonímicas da riqueza que vem com as hidrelétricas. Brejo Grande Águas tão nordestinas” Porém. Alagoas e Bahia que ficam às margens do rio. O eu lírico aqui se apresenta relembrando as imagens que estavam na consciência do eu enquanto criança. Pão de Açúcar Petrolândia e Petrolina Ibiraba. Bahia De Januária à Curuçá” Assim.

de Gonçalves de Magalhães ou nos poemas indígenas de Gonçalves Dias. De Iara” Agora dois personagens estão aí colocados. de modo a criar atmosfera da comunhão entre a religiosidade do Pajé e a do pescador cristão... mas em conjunção para compor a cena: o pajé e o pescador. O sertanejo.. O Toré Se o pescador o Velho Chico encara Se encanta nas águas. Tudo é resumido na idéia de uma “Tribo Brasil”. Na estrofe seguinte um caleidoscópio em que imagens se misturam para contar do processo de miscigenação e de colonização da região do vale do São Francisco. mito indígena das águas: “Na dança do Pajé Um ritual de fé. De fato. não mais em sentido explícito de conflito. africanos e indígenas está presente na maioria das festividades folclóricas da região. O ritual profano do Toré é apresentado como ritual de fé. Romaria abençoou Vai a carranca todo mal espantar Vem repentista canta esse santuário Um rio de integração nacional Terra Mãe . A tribo indígena. mistérios no ar Lá vai sertanejo. “Vapor encantado. E assim. pede proteção Resgata a "Tribo Brasil" O futuro está em nossas mãos” Ainda nesta estrofe. A estrofe sugere que é preciso resgatar o passado – notadamente os valores do passado pré-colonial – para se unir à “Terra Mãe” como forma de afirmação da identidade da cultura brasileira. a festa do Divino. pode-se planejar um futuro mais promissor. estórias contar Miscigenação. já extinta.. Rica cultura o tempo ultrapassou Festa do Divino.. a referência ao ritual do Toré e a citação à Iara. conquistando essa identidade que ora se apresenta multifacetada e em mosaico. as carrancas.. Processo semelhante ao que o Romantismo do século XIX adotou para compor a história poética do Brasil em poemas como A Confederação dos Tamoios. fornece com seu sacrifício os elementos de uma sublimação do espaço e do tempo conquistados.E despertou das profundezas maus espíritos Jacy a grande noite provocou Ao proteger o paraíso do invasor Visando o Eldorado a procura de riquezas A cobiça prevaleceu Batalhas e guerras sangrentas No coração da mata o índio defendeu o que era seu” Na segunda estrofe. o epíteto de “Rio da Integração Nacional” se apresenta como resultado histórico do processo de colonização. 15 . as romarias. o sincretismo religioso e a mistura de elementos europeus.

A seguir lemos os versos: “Do outro lado do rio tem uma cidade / que em minha mocidade eu visitava todo dia. e as águas seguiram os passos dos guerreiros desaparecidos. Geraldo Azevedo e Alceu Valença. Iaty era o nome de linda índia que chorou a morte do amado em uma guerra. por ser tão bela.” O compositor então se coloca como morador de Petrolina e que costumava visitar a cidade do outro lado do rio. formando o curso do rio São Francisco. então se diz que a Natureza incorporou a construção da ponte. Por outro lado.. A música tem como tema o cenário da ponte que liga as duas cidades. hoje substituído. Como na composição de Laílton e Wanderley Araújo. Segundo lenda indígena. pelo processo de urbanização e de desmatamento. Navegar” Numa imagem poética de alegorização o rio é transposto para a avenida onde se apresenta a escola de samba. A seguir se repete duas vezes os versos: “Pra não morrer de saudade. mas sim sujeito do segundo verso (“Ela – a beleza – conservou a natureza”). o que se entende que a construção da ponte conseguiu tal relação com a Natureza devido à bênção de Jesus. teve como um de seus primeiros sucessos “Petrolina Juazeiro”. O terceiro verso diz: “Jesus abençoou com sua mão divina”.. A elipse aí colocada entre esse dístico e os versos antecedentes é que o compositor quer voltar à Petrolina para ver a beleza da ponte. Se entendemos que o pronome “ela” se refere à beleza. Jorge de Altinho começa a canção dizendo: “Na margem do São Francisco. a composição apresenta os elementos centrais da discussão acerca da preservação cultural. fazendo da ponte parte da própria Natureza – o que seria uma interessante construção poética. a carranca incutia medo na 16 . Jorge de Altinho. Retomando a idéia do título do samba-enredo. o compositor escreve: “Hoje eu me lembro que nos tempos de criança / Esquisito era a carranca e o apito do trem”. apresentando explicitamente suas memórias de criança. como se o desfile da escola fosse a metáfora da correnteza do rio. sendo esta uma obra abençoada. mas depois por Elba Ramalho.Na estrofe final. composição gravada pelo Trio Nordestino primeiramente. notadamente indígena. Numa linguagem bem popular. é o resultado direto no poema dessa busca de identidade que se supõe esteja no imaginário do índio transposto para a cultura do colonizador: “Corre nas veias do sertão "Opará" a salvação Vamos preservar Vem a Morada do Samba. diante do ritmo avassalador do processo de colonização. / vou voltar pra Petrolina”. Outra música que trata do tema é “Ciúme” de Caetano Veloso (esta canção analisamos em outro artigo). Em que se pese o tom ufanista da letra do samba-enredo. a referência ao nome indígena do rio (“Opará”). Aqui a ponte se apresenta como o elo de ligação entre os dois lugares que fizeram parte das lembranças da infância do compositor. então se diz que a construção humana se harmonizou com a Natureza. incorporando ao discurso poético a referência à forte religiosidade do povo nordestino. chorou tanto que suas lágrimas formaram a cachoeira de casca Dantas. as lágrimas de Iaty é que vão compor as águas que correm no Rio São Francisco. se lemos que “ela” não é objeto direto de “natureza”. com ambigüidades características. A seguir. nasceu a beleza / E a natureza ela conservou”. compositor popular.

se refere ao exótico. como se tal ação significasse a harmonia entre o barco e a ponte. vela a bailar Barcarola de São Francisco Me leve para o mar Era um domingo de lua Quando deixei Jatobá Era quem sabe a esperança Indo à outro lugar Barcarola de São Francisco 17 . Jorge de Altinho escreve: “Mas achava lindo quando a ponte levantava / E o vapor passava num gostoso vai e vem”.criança pelo seu aspecto assustador. A expressão “gostoso vai e vem”. município próximo de Caruaru. Opondo-se ao estranhamento do apito do trem e á feiúra da carranca. O título da canção é “Petrolina Juazeiro” e no verso final temos a ordem Juazeiro – Petrolina. Se primeiro “esquisito” se refere à carranca como feio. uma vez que gostar. demonstrando como a engenhosidade humana pode se harmonizar com a beleza da Natureza. a de Geraldo Azevedo. compôs sob o tema a música Barcarola do São Francisco. o de amar exageradamente. Geraldo Azevedo. ao estranho. Nos dois versos seguintes. mas aqui é o compositor que se transfigura liricamente na imaginação duma criança que tenha vivido entre as duas cidades). Já o apito do trem era para a criança um outro motivo ligado ao adjetivo esquisito. confere um sentido rítmico ao movimento da ponte e do trem. O dístico final: “Todas as duas eu acho uma coisa linda / Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina”. gravou também a música de Jorge de Altinho. sugere que a ponte criou essa união entre as duas cidades e que o menino – recuperado pelas memórias do compositor – se eterniza na visão que o compositor tem ao rever a ponte. também pode significar amar. criando um aspecto metalingüístico com a música. o compositor vai criando a metáfora rítmica do barco a navegar sob águas calmas: É a luz do sol que encandeia Sereia de além mar Clara como o clarão do dia Mareja o meu olhar Olho d'água. em grandiosidade para que o barco à vapor passasse. causava na criança esse estranhamento. mas adorar tem além do sentido de prestar culto. que como já dissemos. bucólico ou infantil. mas em Altinho. grande e barulhento. A ponte enfim faz esse elo de união entre os dois lugares que compõem as lembranças do compositor (em que se pese o fato de que biograficamente Jorge de Altinho não viveu em Petrolina ou Juazeiro. Na sua simplicidade de compositor popular. região do Agreste Pernambucano. Os verbos gostar e adorar tem aqui uma função sinonímica. beira de rio Vento. pois o trem que vinha apitando. notadamente de um rio ou corrente de água e ter um tom sentimental romântico. Jorge de Altinho cria uma atmosfera de ingenuidade e de encantamento diante da ponte que liga as duas cidades. No caso. o menino via beleza na engenhosidade da ponte pênsil se levantar. como que simbolizando a volta depois da ida. mas pode também sugerir uma graduação. no caso do apito do trem. num ritmo híbrido com versos octassílabos e hexassílabos. A barcarola tem como aspecto definidor o de tratar do tema da água.

como passado. O conflito entre o querer e a realidade.Velejo agora no mar Sem leme. Luiz Gonzaga. Porém. Metáfora da busca da felicidade. Geraldo Azevedo. ponte de chegada. Os dois lugares.. a sua oposição como espaço de águas com o sertão seco. rio e mar. a canção faz do rio São Francisco o espaço mágico dessa busca. apresenta sua barcarola recuperando o sentido lírico. mítico e bucólico do cenário das águas do São Francisco. o primeiro como início. No presente o eu lírico agora tem a esperança de voltar a ver o brilho do sol no horizonte sobre o corpo da sereia. a junção da luz do sol com a silhueta da sereia encanta o eu lírico que se lança a navegar em busca de alcançar a sereia. nos apresenta um outro cenário acerca do rio São Francisco. menestrel reciclado do sertão e do mundo moderno. o segundo. esta se mostra inatingível. No início da canção. em sonho um beija-flor Rasgando tardes vou buscar Em outro céu Noite longe que ficou em mim Noite longe que ficou em mim Quero lembrar Era um domingo. como momento inicial dessa busca esperançosa se contrapõe ao presente. em “Serra do Navio”. como destino. como musa perfeita distante da realidade. realização. solitário no mar.. mapa ou tesouro De prata ou luar Eu. sem tesouro de prata ou de luar. entre a esperança e o alcançado: “Era quem sabe a esperança / Indo a outro lugar”. Por sua vez. O domingo de luar de prata. na busca da sereia. o brilho do sol ilumina o corpo da sereia de além mar. “Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Se eu fosse um peixe Ao contrário do rio Nadava contra as águas E nesse desafio Saía lá do mar pro Riacho do Navio Saía lá do mar pro 18 . ponto de partida. colocado na “Noite longe que ficou em mim”. caminho.

Porém. Tando lá não sinto frio”. o caminho inverso. como o flagelado da seca deixar sua terra. apresenta a estrofe em que demonstra o desejo do sertanejo longe de sua terra de voltar ao seu torrão: “Se eu fosse um peixe / ao contrário do rio / nadava contra as águas”. metáfora da condição do imigrante do polígono das secas que procura as capitais do litoral ou do sudeste como forma de escapar da condição de flagelado da seca. 19 . após o refrão. bem ritmado no baião. que só sobrevive nelas. sem reconhecimento.Riacho do Navio Pra ver o meu brejinho Fazer umas caçada Ver as "pegás" de boi Andar nas vaquejada Dormir ao som do chocalho E acordar com a passarada Sem rádio e nem notícia Das terra civilizada Sem rádio e nem notícia Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Riacho do Navio. Rios de caráter temporário. Bacia hidrográfica da região do semi-árido. De fato. o do Navio e o Pajeú passam meses sem água. Nesse outro lugar o sertanejo se sente deslocado. O eu lírico busca a si mesmo esquecendo o mundo urbano – Fugere Urbem reinventado nas circunstâncias do sertão. se mostrando insatisfeito com a situação de degredo forçado. é inóspito pela condição social em que o sertanejo se encontra. arrisca-se ao fazer o caminho inverso das águas. Metamorfoseado em peixe. Luiz Gonzaga. Voltar para o sertão para ver sua terra natal. daí sua necessidade de voltar e de esquecer o lugar em que fora forçado a ir: “Sem rádio e sem notícia das terras civilizada”. A terra civilizada é o espaço da comunicação – o rádio aqui representa essa comunicação. Riacho do Navio. que por sua vez é afluente do São Francisco. O lugar agradável. aqui. da qual pretende fugir. As águas. como forma de recuperar sua identidade. a vida de vaqueiro enfim. de fato é inóspito pelas condições climáticas. Porém a relação entre Lócus amenus e lócus horrendus aqui é ambígua. Luiz Gonzaga propõe a volta. o riacho do Navio é um dos principais afluentes do rio Pajeú. ao passo que a cidade. A música tem como refrão uma descrição do caminho das águas do Riacho do Navio até a foz do São Francisco. Essa saudade do sertanejo se opõe à condição da vida na cidade grande. essa agitação típica da cidade. que vive nas águas. as vaquejadas. Assim. tanto é natural ás águas irem para o mar. reviver as caçadas. o sertão.

(Carlos Pita) 6.(Carlos Pita) 2. Carlos Pita em 1979 lançou um disco constituído de músicas que formam uma espécie de narrativa tendo como tema uma transposição do universo das novelas de cavalaria para o sertão. é um sertão medieval.(Carlos Pita) 5.Carlos Pita) 7. a donzela.(Fernando Lona . o rei.(Carlos Pita) 3. Xangai. Por essa época Carlos Pita estava envolvido com o grupo de artistas liderados por Elomar.(Carlos Pita) 4. em que a letra vai se formando com referências à fauna. O arco-íris trovejou .Carlos Pita) 12. A história dos quatro reinos desaparecidos e os guerreiros do Mal Viver . A história da princesa das Candeias de amor com o cego do Alumiar . o príncipe.(Patinhas . De onde vens que não se chega? De que terra traz partida Coração sujo de estradas?" (“A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar”) A terceira canção (“A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca”) busca metaforizar o vaqueiro do sertão com a figura do cavaleiro medieval. que ao pegar as águas desses rios dá à elas o sentido esperado de seguir em direção ao mar.(Carlos Pita) 9. ao inverso do São Francisco. com violas na afinação característica. A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear .Gereba) 10. A primeira canção (“O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor”) é no ritmo do repente.(Patinhas .(Carlos Pita) Tendo como pano de fundo as raízes medievais do canto repentista e da literatura de cordel. As canções 2. Carlos Pita vai compondo um panorama caleidoscópico de personagens característicos como a princesa.Kapenga) 8. que entre outros.O caminho do rio Pajeú e do riacho do Navio é a metáfora desse desejo do sertanejo. O romance do rei do Ensolarar com a bela das Rendas de Lua . flora. se afastam do mar. 3 e 4 formam uma trilogia centrada na imagem das novelas de cavalaria: "Cavaleiro enluarado. estavam presentes.(Fernando Lona . ou seja.(Fernando Lona . acerca das guerras de cavalaria. A rainha do Trançar e o violeiro dos Esqueces . No 20 . geografia e folclore da região. As faixas que compõem o disco Águas do São Francisco (1979) de Carlos Pita são: 1. Dércio Marques e Fábio Paes. A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca . enfim. a rainha. A princesa do Agreste e o cantador do elo ao mar . Compõese versos acerca da arte do amor. costumes. daí sua armadura de couro e corda e sua dama ser uma certa “dama dos Rasos de Seca”. O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor . com destaque para o cenário do Rio São Francisco. o cavaleiro. Princesa sertaneja . de fato ambos os rios correm no sentido do Nordeste para o Sudoeste.A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar .Carlos Pita) 11. O príncipe das Verdejanças e o amor do Verdejar .

transposta para a pregação de beatos como Antônio Conselheiro e José Lourenço. cavaleiros e cantadores espalhados pelos confins do sertão. em que reis de reinos imaginários dum sertão lendário se aventuram em guerras e conquistas de amores.. que se qualifica pela bondade e pela pureza: “Sei que és meu amigo. A canção “A Princesa do Agreste e o Cantador do Elo ao Mar”. princesas. tem como argumento as lembranças de criança numa infância em torno do rio: “Lembro das pescarias. E eu sentado na proa. E farei a luz do Amor Clarear teu coração. já no título. que de certa forma. com fortes elementos do sebastianismo português e que viam na jovem república a antropomorfização de elementos demoníacos e apocalípticos. uma monarquia messiânica. Pedro Sampaio canta a navegação no Rio São Francisco: 21 .” A seguir. Esse rio é um verdadeiro mar. Pedro Sampaio. Fazendo a república jus a essa imagem pela forma violenta com que tratou essas manifestações sertanejas de beatos. Bahia. Molhado à garoa. as canções do disco seguem um tom de narrativas de aventuras palacianas. presta. tu podes provar (. na poesia épica de Marcus Accioly.” O Rio São Francisco é personificado por Pedro Sampaio num amigo. mas já se encontra latente na obra de Guimarães Rosa. Fundada num imaginário que vê reis. Quando meu pai me dizia.. na música de Elomar Figueira de Melo. defendiam a monarquia.) Você é o espelho da pura bondade”. como outras que até aqui vimos. te vendo passar. tem também suas bases no sincretismo religioso que vai buscar essas figuras na religiosidade medieval vinda com o colonizador português. talvez desses imaginários que é natural da infância. A letra da composição. compositor natural de Xique-xique.mesmo tom vai a canção seguinte (“A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear”). tem a música “Rio São Francisco”. Conta as guerras que te atreves. O tema do sertão medieval é constante nas obras teatrais de Ariano Suassuna. “Assobio do Vapor”. em que o cavaleiro sertanejo é um vaqueiro: “Cavaleiro que passas Que vais pro Sertão Qual o destino que levas? Que queres correndo o chão? Conta os caminhos que segues. uma homenagem ao cantador Elomar. Em outra composição.

sonhar. O São Francisco é. época em que aumentam as chuvas nas cabeceiras. E como um Dom Quixote ou um cavaleiro menestrel. Uma das maiores enchentes ocorreu em 1979 em que cidades como Barra (BA). O balanço da rede assim se harmoniza com o ritmo das águas do rio. nem retratos na parede”) e o hábito sertanejo de dormir em redes (“Só balanço que embalança / a minha rede”). tem como ajudante ou escudeiro. as águas do São Francisco me impediram de atravessar a ponte e eu voltei pra casa do meu amor. fui obrigado a voltar Pra casa do meu amor e passei a noite por lá Fiquei a noite inteirinha Ao lado da moreninha esperando as águas baixar Enquanto as águas baixava. O tema parte da cena das enchentes do rio.“Quem ouviu o assobio do vapor Quem vai partir Que arrume as trouxas por favor Vai subir o rio afora Vai chegar em Pirapora Não tem camas nem retratos na parede (do vapor) Só o balanço que embalança A minha rede (de tricô) Vou levando minha viola E as cantigas com o parceiro Loiola” O assobio do vapor serve de motivação inicial para descrever a navegação pelo rio. cerca de 450 mil pessoas sofreram com as enchentes neste ano. faz do rio o caminho que cruza pelo sertão e pela vida para mostrar suas composições. A dupla de música caipira Gino e Geno criaram a música “As Águas do São Francisco”. e o aspecto rústico da embarcação (“não tem camas. ainda por cima. Com velocidade de águas raramente superior a 7 quilômetros por hora. o rio parece muito calmo. Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) sofreram com vários bairros alagados e segundo estimativas. eu tomava café quente Muitos beijos e abraços. Pedro Sampaio. aumentava o amor da gente E eu pedindo ao São Pedro. de tal maneira que o dormir à rede. é parte desse rio alegórico que representa o caminho da vida. assim como o do compositor. a presentificação do rio da vida. como menestrel. que aumentasse a enchente: São Pedro eu estou gostando As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente Falado: " É meus amigos. mas em outubro. origens medievais. Gino e Geno criam uma composição em que a enchente do São Francisco não é apresentada como destrutiva. Destacando o porto fluvial de Pirapora (MG). nesse sentido. ocorrem as enchentes. cujo nome tem. mas apenas como força que impede o personagem de atravessar a ponte. servindo assim como álibi ou desculpa para que ele retorne aos braços de sua amada: As águas do São Francisco estava por cima da ponte Este é o grande motivo que eu não pude atravessar Mas isso eu achei foi bom. e isto eu achei bom demais" 22 . o parceiro Loiola. O compositor.

A expressão “dia menos dia” coloca o acontecimento como um tempo indefinido. não é outro o motivo que faz Carlos Pita criar composições de caráter romanesco medieval. “Sobradinho” de Sá e Guarabira talvez seja das mais conhecidas músicas acerca da questão das represas do Vale do São Francisco. era de regularizar a vazão do rio compreendido o trecho entre aquela região e o delta. sua porção norte. A profecia é atribuída ao beato Antônio Conselheiro. pôr. mas não nos parece esse o tópico principal. suas origens são mais antigas. diz que tudo vai mudar”. De fato. O tema da música é acerca da construção da barragem de Sobradinho. a 40 km de Juazeiro (BA) e que deslocou pequenas cidades da região para fora do alcance do lago a ser formado. latente e próximo. porém. A profecia que tem cunho apocalíptico e sebastianista pode ser encontrada no discurso de cantadores. pontes. com alguns “erros” de concordância. O próprio nome de “O Velho Chico” reforça essa imagem. O refrão da música em versos de redondilha menor e maior faz um jogo de palavras com a profecia do beato: “O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão” 23 . sendo a enchente o artifício que permite ao eu lírico a continuação de seu encontro amoroso. O objetivo principal da represa. / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar”). Poderíamos falar em alienação. de tal forma que o pedido e o agradecimento a São Pedro: “São Pedro eu estou gostando / As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente”. põe represa. constituído de uma locução verbal. de um rio tranqüilo. de águas constantes. se os compositores fazem da enchente do São Francisco motivo para um affair amoroso ao contrário de citar a destruição que a força das águas provoca. Este pé. tal se deve ao imaginário que envolve a cultura do vale do São Francisco. A canção se inicia com um verso que pode ser considerado um lema da defesa do meio ambiente: “O homem chega e já desfaz a natureza”. Lembremos que a grande enchente de 1979 pode ser controlada no referido trecho. O verso seguinte contextualiza a questão da construção de represas: “Tira gente. coloca a ação num futuro improvável. O rio São Francisco está envolto assim num imaginário que faz do ritmo mais constante de suas águas. dizer) nos pés de três sílabas dão um ritmo de grande velocidade à ação humana. assim como períodos de seca. O “lá pra cima da Bahia” se refere ao mapa da Bahia. e os verbos finais mudam o ritmo dos pés (vai \ mu \ dar). segundo a Chesf. porém.Numa linguagem bem popular. as águas calmas de não mais que 7 quilômetros por hora em seu maior trecho. surge a referência à profecia popular de que o sertão vai virar mar. vinda desde o processo de colonização do sertão. a fronteira com Pernambuco que é constituída pelo próprio rio São Francisco. a letra da canção fala desse espaço lírico em que o amor é o motivo principal. Os dois versos seguintes vão agora contextualizar a região da construção da represa (“O São Francisco lá pra cima da Bahia. a imagem de um cenário pastoril. represas e barcos. música que é quase um hino em questão ambiental. beatos e poetas anteriores e posteriores a Antônio Conselheiro. de modo que em Paulo Afonso e em Xingo a água pudesse chegar com uma vazão constante. de um rio “aparentemente” cercado pela civilização de cidades. A seguir. bucólico cercado pelo sertão quente e inóspito. Os três verbos com sujeito oculto (tirar.

E por sua vez. Junto à orla da represa surgiu o bairro conhecido como “Chico Periquito” com bares e restaurantes à beira do lago. Sento Sé Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir” O nome das cidades tem um significado maior do que simplesmente toponímico: “Remanso” (se originalmente o significado é uma enseada tranqüila. em uma das margens do rio São Francisco. A desordem na vida local causada pelo progresso. a quebra do que parecia imóvel. Assim. “Sento Sé” se refere ao lugar em que a Sé (igreja principal de uma diocese) se localiza. e passaram a utilizá-lo para pilar o sal que salgava o peixe. em Sá e Guarabira o sentido é ecológico. A seguir uma quadra em versos dodecassílabos. Porém. mas é também. com autonomia de município em 1989. conforme se lê no primeiro verso. O verso “Debaixo d’água lá se vai a vida inteira” faz referência à perda das raízes. com formato de uma curva em arco. e aí ela tem um sentido apocalíptico religioso. início de uma vida nova e feliz. As incertezas causadas pela modificação do cotidiano. Desse modo. esclarece o motivo da destruição das cidades locais. na profecia se diz que o mar virará sertão quando o sertão virar mar. o de Sobradinho. relendo a letra de Sá e Guarabira. da tradição. do cumprimento da profecia do beato: a construção da barragem de Sobradinho. de tal forma que ao mesmo tempo é crítica mordaz e bem fundada à destruição da Natureza pelo homem. Os dois versos seguintes: “Vai ter barragem no salto do Sobradinho \ E o povo vai se embora com medo de se afogar”. no sentido figurado é também descanso. A poluição das águas e a conseqüente destruição da Natureza pelo homem mesmo e não por uma ação castigadora de Deus. o dia do juízo final. o sentido da canção é poeticamente ambíguo. desaparecida pelo aumento das águas: “Adeus Remanso. tranqüilidade).A inversão da profecia (“o medo que algum dia / o mar também vire sertão”) tem um sentido apocalíptico. Este medo do progresso é que dá força ao discurso. permanente. permanente. o que nos dá uma idéia de localização duradoura. Assim. cita o nome das localidades atingidas pela subidas águas e compõe a cena do gaiola – tradicional embarcação do rio – navegado por onde antes era uma cachoeira. antes originalmente era apenas a vila dos trabalhadores empregados na construção da barragem. Convém ressaltar que os municípios citados foram reconstruídos em local mais seguro e que com o tempo obtiveram progresso econômico e social com a barragem de Sobradinho. a construção da barragem deu origem a uma nova cidade. no contexto da construção da represa e dos benefícios que ela trouxe. sob esses aspectos. pela destruição do antigo em face do novo. O homem é o sujeito da ação na canção de Sá e Guarabira. 24 . da identidade. o medo diante do novo. messiânico. “Pilão Arcado”. do aumento das águas. Conta a tradição local que a denominação está ligada a uma lenda de pescadores que encontraram um pilão. o aumento das águas vem provocar a destruição da tranqüilidade local. De fato o lago artificial ali formado é o segundo maior lago artificial do mundo. percebemos que a voz da letra da canção é a do povo local às vésperas da construção da represa. De fato. Casa Nova. “Casa Nova” nos dá a idéia de casa recentemente construída. esta por sua vez.

tendo sua vazão prejudicada ano a ano. os agrotóxicos e o desmatamento da vegetação ciliada. esta musica foi composta logo após uma viagem minha ao nordeste no mês de novembro de 2004. 25 . Conte com este amigo no que puder te servir neste bom combate. e o outro indo até a Paraíba. daí na canção Sílvio Brito diz: “Mas é preciso mais boa vontade Mais ação e decisão Para fazer de verdade A revitalização Pois então vamos reciclar o lixo 1 Silvio Brito em: http://www. sejam as próprias populações ribeirinhas.com. três versos octassílabos e um quarto heptassílabo: “O Velho Chico tá morrendo Já nem tem mais navegação E ainda tem gente querendo Essa tal transposição O Velho Chico tá sumindo Ta suplicando salvação Mas em seu leito tá pedindo A revitalização. “O Velho Chico” é literalmente uma canção engajada.umavidapelavida. Esta é minha contribuição ao movimento e eu a estou colocando à disposição para ser utilizada na sua campanha ‘Uma vida pela vida’.Já a canção de Sílvio Brito. quando vi o rio São Francisco e fiquei muito triste ao saber que aquele rio que fornece vida para todos os seres que vivem em suas margens poderia vir a morrer. inclusive pelo episódio de uma greve de fome contra o projeto. O engajamento é na defesa que comunidades locais do São Francisco fizeram contra o projeto federal de transposição das águas do rio.br/musica_silvio.html. De fato.” Sílvio Brito faz referência ao processo de assoreamento do rio e à poluição. Tais ações envolvem políticas concretas. O frei Luiz Cappio se notabilizou pela campanha contra a transposição. sejam – principalmente – as indústrias. até a bacia dos rios Piranhas e Jaguaribe. tem se mostrado que o curso do rio São Francisco vem sofrendo continuamente com isso.” 1 A canção de Sílvio Brito tem como refrão os versos distribuídos em duas quadras de rimas cruzadas ABAB e tendo em cada quadra. Sílvio Brito escreveu ao frei: “Querido irmão. criando dois grandes canais que serviriam água para o sertão de Pernambuco e Ceará. O que se entende por revitalização é o controle das causas do assoreamento e a devida política de controle dos agentes poluidores locais. E apresenta como solução para o problema a revitalização do rio. na bacia do mesmo nome.

Chega de poluição Vamos transformar o Chico No oásis do sertão”. Outro aspecto da canção de Sílvio Brito é o jogo que faz entre o nome do rio e do santo: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza.” Assim, o compositor mineiro, natural de Três Pontas, famoso por sucessos como “Farofa-fa”, “Pare o Mundo que eu quero descer” e “Tá todo mundo louco”, apresenta também um argumento messiânico, da ação divina em defesa da Natureza. Mas tal argumento é apenas simplório e se perde no contexto geral da canção de repúdio ao projeto de transposição, de tal modo que a expressão “Tem gente” no verso “E ainda tem gente querendo”, logo seguido pelo verso “Essa tal transposição”, em que a expressão “Essa tal” tem um sentido pejorativo, na linguagem popular, dá um sentido de que o projeto está fundamento em razões equivocadas e de desconhecimento do verdadeiro problema do rio. Porém, é de se ressaltar que de fato existe a necessidade da revitalização, mas que ambos os projetos, o de revitalização e o de transposição não são excludentes, sendo no máximo dependentes, ou seja, a transposição teria como pré-requisito para seu sucesso a revitalização da bacia do rio. Morares Moreira compôs a música São Francisco, num ritmo agalopado, com predomínio de versos em redondilha maior. A canção sintetiza aspectos culturais do Vale do São Francisco. Partindo de uma comparação entre o compositor e o rio, Moraes Moreira começa a apresentar as características comuns a ambos, num processo de personificação do rio: “O meu caminho eu escolho Tirando o cisco do olho Enxergo longe, me arrisco Sou como o Rio São Francisco Faço no tempo viagens No espaço da noite e do dia, Indo, fluindo às margens De Pernambuco e Bahia Andando por todos os lados Sincretizando os Estados Arrematando as costuras Na integração das culturas” Ora fazendo quadras com rimas emparelhadas, ora com rimas cruzadas, vai tornando o ritmo alucinante das imagens apresentadas. O ofício de compositor popular é 26

assim emparelhado com o caminho do rio: “Andando por todos os lados / Sincretizando os Estados”. Percebamos o verbo aí colocado: Sincretizar, ou seja, integrar elementos diferentes numa síntese. Nas duas quadras seguintes, Moraes Moreira diz que está em busca do que é mais novo, ou seja, do progresso e se apresenta como ponte que unifica, comparando o papel da ponte que liga Petrolina a Juazeiro: “Assim como o rio promovo O abraço que a gente precisa Em busca do que é mais novo Sim ultrapasso a divisa Fazendo a ponte, sem medo Antonio sou brasileiro João, Geraldo Azevedo Petrolina e Juazeiro” Cita nomes populares como Antonio e João, e presta homenagem a Geraldo Azevedo. O verso “Sim, ultrapasso a divisa” é mais do que o sentido de ultrapassar fronteiras regionais ou estaduais, mas no sentido da avant-garde, do ir além do comum, do previsível. Neste sentido, se pensamos não na obra de Moraes Moreira, mas no rio com que se identifica, temos que o rio São Francisco sempre foi palco de discussões acerca do progresso, tido como rio da integração nacional. Na quadra seguinte, Moraes Moreira nos fala da imensidão do Brasil, e que o trabalho de compositor é tão grande quanto o percurso do rio: “Por essas águas tão boas Sou navegante feliz Sergipes e Alagoas Minas, imensos brasis” Sergipe e Alagoas são os pequenos estados que estão na foz do São Francisco. O fato de colocar o nome dos estados no plural é uma forma de torná-los substantivos comuns, fazendo referência que na bacia do Vale do São Francisco, que se inicia em Minas Gerais, cabem várias vezes o tamanho desses dois estados. O verso “sou navegante feliz”, tem um sentido metafórico, é mais do que a referência às navegações no rio, mas sim no sentido de que a história da sua carreira de compositor é uma navegação. A parte final da canção compreende os seguintes versos: “Quem pode parar a planície, Os rios e os oceanos? Ah meu amor, acredite Também assim sem limite É o sonho dos seres humanos Quem pode parar o planeta? E o movimento que há? 27

Ah meu amor, com certeza As forças da natureza O vento quem pode parar? Lavam na beira do rio As lavadeiras de Deus A alma dos pecadores E o coração dos ateus” Aqui duas quintilhas precedem a última quadra. A primeira quintilha começa com uma indagação: “Quem pode parar a planície / Os rios e os oceanos?” Argumentando assim que a força da natureza, especialmente a que se expressa no rio São Francisco é ainda mais forte do que a engenhosidade do homem, e que é o sonho humano dominar o rio, um sonho “sem limite”. Referência indireta às represas, barragens e o projeto de transposição. Por outro lado, na quadra que se segue, o compositor responde que a Natureza pode parar a rotação do planeta, superando assim a força humana. Por fim, mais um questionamento acerca da força da Natureza: “O vento quem pode parar?” A resposta implícita é de que o homem não pode. A quadra final, fecha a canção com a imagem das tradicionais lavadeiras de roupa às margens do rio. Porém, num sentido figurado, a lavagem da roupa suja é também a lavagem dos pecados e da arrogância do homem para com a Natureza. Daí lavar a “alma dos pescadores e o coração dos ateus”. Buscamos apresentar aqui algumas composições populares que tratam do tema do rio São Francisco, é possível que tenhamos esquecidos algumas até mais significativas que estas, mas acreditamos que conseguimos aqui apresentar o panorama da imagem do rio São Francisco na música popular brasileira.

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com.com. A Forma e o Ciúme A letra da canção foi por nós consultada em diferentes sites. tudo quer buscar. Canção de Caetano Veloso Uma das canções mais bonitas que fazem referência ao Rio São Francisco é. assim como também falamos um pouco acerca disso no 11. próximo à ponte que une a cidade baiana à Petrolina. o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Que nem alegre. ocorrido na UNIVASF. eu só.br). nossa análise já foi parcialmente apresentada no congresso regional da SBPC. fazer uma interpretação também bem intimista da música. nem triste. a que melhor representa essa nossa necessidade: O Ciúme Dorme o sol a flor do Chico meio dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte.br\site) e o site (www. e a estrofe central com 5 versos. Já ouvi essa música na voz de Geraldo Azevedo que dá uma interpretação um pouco mais ligeira e ao mesmo tempo. sendo as duas primeiras e as duas últimas transcritas como quartetos. 1. do outro lado do rio. “O Ciúme” de Caetano Veloso. em companhia do amigo Benedito Bezerra. Buscamos encontrar a forma de transcrição da letra que mais correspondesse às necessidades poéticas de uma composição versificada. Bahia Só vigia um ponto negro. sem dúvida. tanta gente cala 29 . em 2007. eu Juazeiro nem te lembras desta tarde Petrolina nem chegaste a perceber Mais na voz que canta tudo ainda arde Tudo é perda. na USP. Neste breve texto pretendo fazer uma análise da letra desta canção. tomávamos uma cerveja e ouvimos o cantor que ali se apresentava.caetanoveloso. em Pernambuco. do lado de Juazeiro da Bahia.° Congresso Internacional da Abralic. não me ensinas E eu sou só.caetanoveloso. Pernambuco.1. com seu violão.Acerca de “O Ciúme”. Assisti a um vídeo no Youtube com Gal Costa e o próprio compositor baiano em belíssimo dueto interpretando a música. em 2008. Rio. menos dramática que a dos dois tropicalistas. Cremos que aquela que divide a canção em 5 estrofes. cadê Tanta gente canta. Certa feita num bar à beira do Rio São Francisco. nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens de Minas De onde o oculto do mistério se escondeu Sei que o levas todo em ti. inclusive os sites que se apresentam como oficiais de Caetano Veloso (www.

o/ meu/ ci/ ú/me (11) O/ ci / ú/ me/ lan/ çou/ su/ a/ fle/ cha/ pre/ta (E) (11) E/ se/ viu/ fe/ ri/ do/ jus/ to/ na/ gar/ gan/ta (11) Que/ nem/ a/ le/ gre./ nem/ po/ e/ta (11) En /tre/ Pe/ tro/ li/ na e/ Ju / a/ zei/ ro/ can/ta (11) Ju/ a/ zei/ ro/ nem/ te/ lem/bras/ des/ta/ tar/de (11) Pe/ tro/ li/ na/ nem/ che/gas/te a/ per/ce/ber (11) Mais/ na/ voz/ que/ can/ ta/ tu/ do/ ain/ da / ar/de (11) Tu/do é/ per/da. E ainda.Tantas almas esticadas no curtume Sobre toda a estrada./ so/ bre/ to/ da/ sa/la (11) Pai/ ra. monstruosa sombra do ciúme. A estrofe central do poema. na numerologia é um número de avatar./ não/ me/ en/ si/nas E/ eu/ sou/ só. em termos numéricos. as duas cidades. Podemos contar os quartetos como formados por endecassílabos./ eu 30 . pode ser lido de trás para frente que não modifica o seu valor. mas a engenhosidade de sua metrificação híbrida e o fato de estar colocada ao centro do poema dá um sentido simbólico à forma: Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas De on/ de o/ o/ cul/ to/ do/ mis/ té/ rio/ se es/ con/ deu Sei/ que/ o /le/ vas/ to/ do em/ ti. Como. de espiritualidade e de intuição./ tu/do/ quer/ bus/car. em constante processo de autoidentificação e espelhamento. 7ª e 11ª sílabas: Dor/ me o/ sol/ a/ flor/ do/ Chi/ co/ mei/ o/ di/a (11) Tu/ do es/ bar/ ra em/ bri/ a/ ga/ do/ de/ seu/ lu/me (11) Dor /me/ pon/ te./ ca/dê (11) Tan/ ta /gen/ te/ can/ ta./ Ba/ hi/a (11) Só/ vi/ gia / um/ pon/ to/ ne/ gro. Assim. uma diante da outra. é também um símbolo da igualdade e da identificação (1=1). A ponte funciona nos dois sentidos./ tan/ ta/ gen/ te/ ca/la (11) Tan/ tas/ al/ mas/ es/ ti/ ca/ das/ no/ cur/ tu/me (11) So/ bre/ to/ da a es/ tra/ da. (11) O número 11 é do tipo palindrômico./ mons/ tru/ o/ sa/ som/ bra/ do/ ci/ ú/me. assim como o palindrômico número 11. o número 11 é formado pela repetição do algarismo primeiro. não permite uma escansão tão simétrica e regular quanto a que propomos para as demais. não sendo divisível além de por ele mesmo e pelo número 1. quanto para o reconhecimento do outro./ eu/ só./ Rio. o aspecto de que o número 11 é primo. Petrolina e Juazeiro estão. porém. existe. sobre toda sala Paira./ nem/ tris/ te./ Per/ nam/ bu/ co. isto é. indo e vindo. e acentos predominantes na 3. esse processo de divisão assume o caráter psico-simbólico de que a separação entre o eu e o outro é ao mesmo tempo um elo para a auto-identificação.ª. com rimas cruzadas.

do verbo doer. ou seja exatamente ao meio do poema. o número 11. na paranóia e no homossexualismo.se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade”. Aqui começamos a falar do ciúme. Freud acerca da projeção do ciúme escreve: “O ciúme da segunda camada. Pode obter esse alívio . notadamente dos aspectos egoístas do ser. especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio. Se os juntamos. A origem desse sentimento parece ter causas diferentes. levam a cabo o que nos hemistíquios se apresenta como possibilidade.G.ª. dois hemistíquios separados. presente do indicativo. no texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. Já que esta 7. o “Ciúme é a falta de Amor” 2 . o ciúme projetado. um dos quais. (FREUD: 1976. temos na forma. daquele filho 2 Carl Gustav Jung. temos a possibilidade de formar um verso dodecassílabo: “Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas /E eu/ sou/ só. a união masculino-feminino da relação amorosa.e. de Memórias. na verdade. Os dois versos centrais da estrofe e. o que implica em dizer. 31 . eu/ só. Para C. tanto nos homens quanto nas mulheres. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá. aquilo que temos medo em reconhecer que existe em nós mesmos. O segundo verso da estrofe é um dodecassílabo com acentos na 4. o elemento causador do ciúme projetado. O ser “só eu”. só se mantém em face de tentações contínuas. de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. p. temos uma distinção de três tipos de ciúmes: o competitivo ou normal. para Freud. do poema. O ciúme é o processo inverso da autoidentificação na relação de união. sonhos. 1993. o projetado e o delirante. reflexões. para o homem tornou-se evidente a garantia da paternidade. é um sentimento que causa dor a ambos. As razões estão na questão do herdeiro. é preciso que o segundo hemistíquio modifique sua característica de acentuação.ª pessoa do plural. sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. É preciso reconhecer no outro aquilo que reflete de nós mesmos e saber trabalhar isso. a analogia com a ponte que une (/do–em/). para que tal união seja prazerosa a ambos. por analogia. e o par é a união. ao que se enciúma e ao que sofre o efeito da ação enciumada do outro. por conseguinte. O ciúme é doloroso. eu” Porém.ª sílaba é a última do primeiro hemistíquio do alexandrino e a primeira do hemistíquio seguinte.ª sílaba. não obstante. Desde a antiguidade mais remota. alexandrino. Sílabas pares. Os dois heptassílabos seriam num sentido significativo da forma da estrofe. Jung. deriva-se. O terceiro verso é um alexandrino com elisão na 7. a absolvição de sua consciência . É fato da experiência cotidiana que a fidelidade. para que isso ocorra. 3. implica na quebra da solidão também.A estrofe pode ser escandida em dois versos heptássilabos e dois dodecassílabos. Nesse sentido. no âmbito da relação amorosa ou de amizade é. é preciso que se modifique algumas características da individualidade. evitando o ciúme. que também no processo de união de dois seres. 8ª e 12ª sílabas. 271) Ver no outro. em Freud. Do-em (doem). do verso endecassílabo dá a analogia numerológica do que seja essa projeção. Os nomes Petrolina (gênero feminino) e Juazeiro (gênero masculino) formam.

não existiria razão causadora do ciúme. Porém. a infidelidade masculina não tem tal implicação porque os homens têm mais condições de praticar sexo sem amor. Todavia. é a luz do conhecimento que é preciso adquirir exteriormente. logo é compreendida pelo outro. 3 32 . Para a mulher. se tomamos o gênero das palavras “Petrolina” e “Juazeiro” para compor a analogia de um casal masculino-feminino. os sentimentos que buscamos negar em nós mesmos formam uma sombra. Como o amor geralmente é um pré-requisito para o envolvimento de uma mulher em um relacionamento sexual. em geral. 1996). A ponte que se constrói. A mulher. econômicas e morais.São Paulo. pois o viajante segue seu curso. Manter o marido significava a garantia de poder criá-los a bom termo perante as exigências sociais. a infidelidade sexual tem diferentes conotações para homens e mulheres. unifica ambos. implica na perda do que foi feito para outro. no lar. consoante Sheets e Wolfe (2001). como tal. o Sol representa os sentimentos do coração. A descoberta de uma falsa paternidade. 234 p. como em O Arco de Sant’Anna de Almeida Garrett. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Na simbologia esotérica. O homem. (ALMEIDA: 2007 3 ) Na letra de O Ciúme. ao se discorrer sobre a temática do ciúme é necessário lembrar que para alguns teóricos. a Sombra do Ego. Este terceiro é o rio São Francisco. monstruosa sombra do ciúme”. 1996 e Harris & Christenfeld. Como observa Thiago de Almeida: Ainda. ao passo que a luz que vem de dentro é a da sabedoria. Uma vez que possui luz própria. no caso da Lua. A luz que se reflete. Para C. orientador Ailton Amélio da Silva. para satisfação sexual. Na primeira estrofe da canção.que continuará a obra do pai. temos rima lume/ciúme. O material reprimido forma um self negativo. esse ciúme logo é superado. que ao contrário da lua que a reflete. sentia-se em condição de se dedicar à mulher e arrumar uma ou mais amantes. admiração. que se interpõe entre as duas cidades: “Entre Petrolina e Juazeiro canta”. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações / Thiago de Almeida. O rio é o viajante que vem de longe e se coloca entre Juazeiro e Petrolina. pelo menos na cultura ocidental. é preciso que identifiquemos um terceiro. -. maior necessidade de envolvimento emocional para a prática do sexo. apenas. O brilho do sol refletido nas águas do São Francisco em oposição ao “ponto negro”. Área de Concentração: Psicologia Experimental) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. de modo que o ciúme pode ocultar o brilho do Sol. Na última estrofe. Não são poucas as obras literárias que tratam da questão da descoberta da paternidade como elemento definidor da trama. como De Steno & Salovey. o investimento na geração de filhos. começa por tratar diretamente do rio: “Velho Chico vens de Minas”. fazendo com que seja superada a dificuldade causada pela passagem do rio. Jung. o causador do ciúme entre ambos.G. intrínseco do sentimento de ciúme. 2007. sentia. Não havendo a possibilidade do terceiro. 1996(a e b). por seu turno. tinha sentido diverso. esse sentimento é exteriorizado pelo eu lírico. A estrofe central. A canção termina nesses termos: “Paira. a admiração que causa a um e o outro a beleza do rio. essa luz vem de sua interioridade. isto faz com que se imagine que a infidelidade sexual feminina esteja associada com o envolvimento emocional com outro parceiro (De Steno & Salovey.

na impossibilidade de modificar esse estado de impotência de apreensão da verdadeira percepção da Natureza. Imago. Rio de Janeiro. eis o mistério. mas enquanto tal. se reduz. eu só. musa da música bahiana contemporânea. é sua tênue possibilidade de vitória. não é a verdade. o reconhecimento dessa impossibilidade (“Sei que o levas”). 33 . lhe parece fugidia como as águas do rio passando por sob a ponte e seus pés: “Sei que o levas todo em ti. 2. Agora o ciúme é o do artista diante da Natureza. é também o maior trunfo do artista. que de Juazeiro vieram João Gilberto. Referências Bibliografias: ALMEIDA. que se sente diminuído pela impossibilidade de posse da beleza da Natureza. o criador da Bossa-Nova e Ivete Sangalo. “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. quanto são os que os ouvem (“Tanta gente canta. a dor causada pelo ciúme tira a aura da canção. dominada pelo ciúme pode. Freud. tragédia). ao corpo e à alma. tudo quer buscar. FREUD. como aparente parte da cena. Lembremos. reduz o valor do canto à expressão de um sentimento que não é de tristeza (drama. não me ensinas / E eu sou só. seu canto. o da auto-identificação do eu lírico. São Paulo. restando a solidão.4). na paranóia e no homossexualismo”. 18. Ferindo a garganta. 1. unindo-se à própria Natureza. endurecendo-se aos sentimentos como se fossem peles “esticadas no curtume”. pois. In: S. A impossibilidade de posse da Natureza causa esse sentimento. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. O artista teme perder o que não tem. mas o simulacro: “Mais na voz que canta tudo ainda arde /Tudo é perda. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. orientador Ailton Amélio da Silva. A obra humana que se apresenta bela por desafiar a Natureza e conjugar-se no cenário. Movido por esse sentimento. numa visão trágica. pois que a beleza da Natureza. pois. 234 p. a obra materializada expondo-se aos seus sentidos. Tantos são os cantadores da beleza. Sigmund. nem poética (lírica). cadê”. O mistério oculto a que se refere a canção é. mas apenas a indiferença do distanciamento causada pela modificação da memória (épica). transforma-se em canto isolado: “O ciúme lançou sua flecha preta / E se viu ferido justo na garganta”. pois a obra produzida. se dedica a tentar aprender um modo de controlar o que não consegue conquistar. 1976. e a obra de arte a expressão desse ciúme. É o reconhecimento da mimesis como um processo de imitação. eclipsar essa luz do Sol interior. O cantar poético também se modifica. a propósito. alegria (comédia). A tentativa de captar essa beleza vista ali da ponte entre Petrolina e Juazeiro. Busca incessante de apreensão do belo que resulta no moto contínuo da própria arte. A vida sob o Sol. Thiago de. encontra artifícios para superar a dor da perda iminente pela alegria da descoberta da nova sensação. O Canto do Ciúme e os sentidos da percepção O ciúme se transforma também no canto do eu lírico: “o meu ciúme” (v. Nessa atitude inicial de consolação. Essa obra que substitui o que se perde. representada pela ponte. eu”. leva o poeta a opor seu “ponto negro” de ciúme ao brilho do Sol sobre as águas do rio.2. 2007. tanta gente cala”). Vol. substitui o bem que não se pode ter. é na canção.A sombra do self negativo. mas tal tarefa é fadada ao fracasso do simulacro. transgredindo-a. quando na verdade é artificial. Porém. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações Dissertação de Mestrado.

Do São Francisco ao Mississipi: O Rio e o Homem na Música Popular. 34 .

atualmente recuperado pela prefeitura de Juazeiro é um dos pontos turísticos da cidade. transpondo para o sertão aspectos do sebastianismo messiânico. do polêmico projeto de transposição das águas do rio (“O Velho Chico”. como na música de Gino e Geno. de Sílvio Brito. Ponte Presidente Dutra. tem uma raiz de caráter medieval.ex.Neste capítulo tecemos algumas considerações acerca das representações do rio na música popular brasileira e norte-americana. 1979). de ligação. das carrancas – estas geralmente trazendo o medo na memória da criança – e a vida ribeirinha. O “vaporzinho” como é chamado navegou antes nas águas do Mississipi e hoje é aberto à visitação na cidade de Juazeiro (BA). a tripulação fantasma do barco sai pela cidade de 35 . Cabe lembrar. Cultura essa. princesas e encantamentos.) e da força da natureza em resposta às interferências (“São Francisco”. porém. p. qual sejam as raízes da poesia de cordel e do trovar dos repentistas. o que não é difícil para boa parte dos leitores que têm o hábito de escutar música brasileira e música norte-americana. O primeiro vapor a navegar as águas do rio São Francisco veio dos EUA. A de que em noites de lua cheia. de Sá e Guarabira. tendo como nome atual.). que por vezes. inclusive.ex. num processo de formação da voz lírica da letra da canção. das novelas de cavalaria e poesia palaciana. Esse sertão medieval tem raízes históricas no processo de colonização portuguesa. traz na memória lembranças da infância vividas à beira rio. O rio como cenário bucólico do idílio amoroso não é um tema muito significativo. Criou-se.ex). a infância que fala é feita de lembranças compostas pelas imagens dos barcos (gaiolas). o autor se imagina um homem que tendo deixado a região. Em algumas canções se trata da questão da interferência do homem no curso da rio. Outro aspecto constante nas músicas que tratam do tema do rio São Francisco são as lembranças de infância. música incluída em disco produzido com Elomar. é uma das mais movimentadas do país. se o leitor considerar que já tem alguma noção acerca das músicas que aqui serão citadas. em Geraldo Azevedo (“Barcarola do São Francisco”. é possível ler este sem ler aquele. Outro elemento constante nas músicas acerca do rio São Francisco é a referência à ponte que une Petrolina e Juazeiro. Mesmo que o compositor não tenha passado a infância na região do propriamente dita do vale do rio. é relativamente comum no caso da cultura brasileira e um tanto quanto um pouco mais raro no caso da cultura norte-americana. da fórmula e composição na medida velha. Em várias canções a ponte é citada geralmente como signo de união. A ponte construída em 1950. São Paulo e Rio de Janeiro principalmente. que este texto tem de certo modo um pré-requisito de leitura que o que se intitula “O Rio São Francisco como tema de MPB”. para tanto tomamos como base o São Francisco no caso da geografia cultural brasileira e a bacia do Mississipi-Missouri no caso da norte-americana. de certo modo. p. a construção de represas (“Sobradinho”. “As Águas do São Francisco”). O que convenhamos. Xangai e Vital Farias). p. cavaleiros. povoando o sertão dum imaginário de reis. Rebatizado no Brasil com o nome de “Saldanha Marinho” o vapor navegou de 1871 a 1970. de Moraes Moreira. O Rio São Francisco na música popular brasileira tem sido representado como rio que em sua bacia guarda uma rica cultura regional. Essas raízes medievais aparecem em composição de Carlos Pita (no disco Águas do São Francisco. Tal processo tem suas bases na corrente de imigração sertaneja-nordestina para as capitais litorâneas ou para o sudeste do país. Como memórias dessa voz lírica imigrada. ocorrendo ocasionalmente. uma lenda acerca do vapor.

social e política. No âmbito da música popular. mas que originalmente é um blues de Menphis Minnie e Joe Maccoy.Juazeiro a seqüestrar pessoas – principalmente moças – para uma viagem pelo rio. A bacia do Mississipi-Missouri era assim uma espécie de fronteira era o Nordeste dos Estados Unidos. Em 1927 houve uma grande cheia do rio Mississipi que desabrigou centenas de milhares de pessoas. Uma das composições mais impressionantes sobre as enchentes do Mississipi é “When the levee breaks”. A navegação a vapor e as obras de construção de canais e represas estiveram ligadas à história da ocupação daquela região. A letra é direta e crítica sobre os danos que causam as enchentes do rio e mostra a incapacidade do homem de dominar a Natureza. comparando. as barragens irão romper Quando a barragem romper. no mais das vezes. as barragens irão romper Se continuar chovendo. eternizada em ópera de Wagner.” (“Se continuar chovendo. sempre que possível com composições brasileiras relativas ao rio São Francisco. não terei onde ficar”) O desespero dos desabrigados.” 36 . rudes. só superada pela cheia de 1993. a Inglaterra e a Espanha acabaram por deixar os Estados Unidos com um imenso território. A guerra civil americana bem demonstrou essa dicotomia cultural. considerando no conjunto. daqueles que perdem tudo por causa das inundações é retratado de forma direta nos versos dessa canção: “All last night sat on the levee and moaned. selvagens. tendo inclusive uma extensão maior que a do próprio Mississipi. O rio está ligado sob vários aspectos ao processo de expansão territorial dos Estados Unidos. If it keeps on rainin. Trataremos brevemente de algumas. All last night sat on the levee and moaned. A bacia do Mississipi-Missouri corta a região central dos Estados Unidos e tem a foz no sudeste no estado de Louisiana. urbanizado e livre com as terras d’além do rio e do sul. o percurso Mississipi-Missouri tem 6700 quilômetros. várias guerras e disputas com a França. levees goin to break. saber das semelhanças e das diferenças entre os dois rios. Espécie de recriação da lenda do Holandês Voador. “If it keeps on rainin. Obras de contenção e de regularização do fluxo de águas foram construídas no intuito de estabilizar a vazão das águas durante o período anual de cheias. ainda. O Missouri é o maior afluente do Mississipi. recriada pelo Led Zeppelin. Em sua memória está ecoando as canções norte-americanas e brasileiras acerca desses rios. levees goin to break. Após a independência das treze colônias britânicas em 1776. inúmeras são as canções que tratam direta ou indiretamente do rio. When the levee breaks Ill have no place to stay. Thinkin bout me baby and my happy home. Mas se o vapor navegou nas águas do Mississipi e nas águas do São Francisco. civilizado. podemos dizer que simbolicamente este barco conheceu os dois rios e pode. como ninguém. terminando por conseguir do México a Califórnia.

a ironia.”) Calvin Coolidge era vice de Warren Harding. Lembremos aqui da canção gravada por Gino e Geno. numa espécie de ultra-romantismo acrônico serve de motivo para que não se veja os danos que a enchente traz às populações 37 . como eram chamados os brancos pobres (literalmente “os quebrados” – sem grana. A canção começa com a apresentação do quadro da tempestade e da enchente: “What has happened down here is the wind have changed Clouds roll in from the north and it started to rain Rained real hard and rained for a real long time Six feet of water in the streets of Evangeline” (“O que aconteceu aqui é que o vento tudo mudou Nuvens vieram do norte e começou a chover Choveu de verdade muito e choveu por muito tempo mesmo Seis pés de água nas ruas de Evangeline”) Numa estrofe final. Sua política era marcada pelo conservadorismo. se vê a preocupação com os “crackers”. então presidente dos EUA: “President Coolidge came down in a railroad train With a little fat man with a note-pad in his hand The President say. fazendo referência histórica a uma das maiores enchentes da foz do Mississipi. No verso final.(“Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Pensando no meu bem e no meu lar feliz”) Randy Newman compôs Louisiana 1927. A ironia também se apresenta no modo como se apresenta o presidente. assumindo a presidência com a morte deste. em 1927 a segregação racial era forte nos Estados Unidos e na fala atribuída ao presidente. sendo Louisiana uma cidade cuja população era em maior parte negra. afinal não se diz que ele veio com o exército ou uma equipe de salvamento. “Homenzinho gordo é uma vergonha O que o rio fez com os brancos pobres dessa terra. Águas do São Francisco. Randy Newman contextualiza historicamente a cena ao citar o presidente Coolidge. "Little fat man isn't it a shame what the river has done to this poor crackers land. Vemos aqui que o idílio amoroso. o que sugere algumas soluções paliativas e de gabinete. sem dinheiro)." (“O Presidente Coolidge veio num trem da ferrovia Com um homenzinho gordo com um bloco de nota nas mãos O Presidente disse. pela pouca ação nos problemas sociais e pelo abandono ou veto de projetos que ajudassem o campo e regiões menos favorecidas. em que se pede para que São Pedro aumente a enchente para que o personagem lírico da canção possa continuar com um álibi para continuar nos braços de sua amada e não ter que atravessar a ponte. vindo de trem com um “little fat man” e seu bloco de notas.

Dércio Marques alude ao fato de que as águas servirão para criação de camarão como produto de exportação e que nas regiões que mais sofrem com a seca. não falta água. o que falta é vontade política de fazer a correta distribuição das águas dos açudes: “Deixa não vingar transposição Pra criar camarão Em nome do vil metal A nação se ufana em exportação Enquanto o povo do rio tem fome em seu quintal No Ceará. complementares. um desatino Sertão divino é convivência seu porvir Povo vizinho ao rio não tem acesso à água Como pode dar a água se o filho não tem para si? É ilusão a redenção fartura d´água. O grupo Creedence Clearwater Revival compôs Proudy Mary. música na qual se coloca o cenário dos vapores que navegavam no Mississipi: “Big wheel keep on turnin. mas sim. desviar onde ele ir Mas que delírio de poder. de apadrinhamento e de elitização da política. não Orós e Castanhão Têm volume abissal Esbanja a elite água de irrigação Enquanto mata de sede o irmão em seu quintal” Assim. Dércio Marques em canção mais ousada. No contexto social.” (A grande roda girando. Bombar água pra subir” Em outras duas estrofes.ribeirinhas. com letra que critica a política governamental. o fato é que os projetos não são excludentes. melhor se dá Sílvio Brito que em O Velho Chico sugere um projeto de revitalização em oposição ao de transposição das águas. em ritmo de rancho carnavalesco. Rancho Eterno Chico. Rollin. rollin on the river. Vão cobrar o olho da cara. Proud mary keep on burnin. rollin. 38 . sugerindo que a obra favorece a elite e despreza de fato a ajuda ao povo que sofre com a seca: “O que será de todos nós sem o Velho Chico As suas águas já sem forças pra seguir E vem um bando aventureiro cabotino Dar ao rio outro destino. Dércio Marques apresenta um engajamento com versos mais refenhos em defesa de seu ponto de vista. porém. fazendo duras críticas às práticas de favorecimento.

Pumped a lot of pain down in New Orleans. New Orleans. But them that plant 'em. e nós sabemos que ele não colhe algodão. música que faz referência a um dos personagens da literatura americana mais característicos do rio Mississipi.” (“Ele não planta batatas. estado do Tennesse. Nessa obra. chamamos o São Francisco de “Velho Chico”.” (“Limpando muitos pratos em Memphis. Sondando muita dor em New Orleans. Ol’ Man River é uma das canções que tratam da vida dos trabalhadores nas fazendas de algodão na bacia do Mississipi.” Comenta-se da vida dura dos trabalhadores. ele apenas guarda rolando por aí. Mas então o que ele planta são filhos esquecidos. Na canção Moon River lemos: “Two drifters Off to see the world There's such A lot of world to see We're after The same rainbow's end 39 . til I hitched a ride on a river boat queen. John Murrell. é isso aí.”) Louis Armstrong gravou Moon River. até a foz. assim como aqui. sim.Altiva Mary vá queimando. com Rod Stewart cantando. and we all know he don't pick cotton. Outro livro de Mark Twain. Huckleberry Finn. de Mark Twain. are soon forgotten. Rolando. médio Mississipi. e tem um capítulo dedicado a um dos maiores ladrões que viveram às suas margens. oh yes he does. he just keeps rolling along. Blues da autoria de Kern e Hammerstein. estado de Louisiana era o trecho mais navegado do rio pelos vapores. teve uma brilhante versão pelo Jeff Beck Group. Rolando pelo rio. Rolando. O título é uma referência a um dos “apelidos” do rio Mississipi. Até que eu desci o rio de barco. “He don't plant tater's.”) O percurso de Memphis. de como seus momentos de lazer se faziam quando navegavam nos vapores em direção à New Orleans: “Cleaned a lot of plates in Memphis. conta a história do rio. Mas eu nunca vi o lado bom da cidade. that Old man river. além das aventuras do rapaz que mora num barraco às margens do rio. Que o Rio Velho. Life on the Missisipi. But I never saw the good side of the city.

Não é por acaso que em New Orleans e Memphis temos o berço do blues e do jazz. o Rio São Francisco.” (Dois vagabundos livres para ver o mundo. econômicos e políticos são apresentados como entre o destino do homem e os desígnios dos céus. E há um bocado De coisas no mundo para ver! Nós.” Na cultura do Rio São Francisco. eivado de reis. num procedimento típico do imaginário medieval. O primeiro homem é o que sofre a força da natureza ou de outro homem. os santos católicos. cavaleiros e natureza mágica. que trouxe uma cultura de caráter medieval. uma religiosidade católica exacerbada e mitos messiânicos de feição sebastianista. No caso da cultura do Mississipi os conflitos se regem pela tríade homem x natureza x homem. a navegação dos vapores como diversão e em geral. o sofrimento dos trabalhadores. Deus. Assim temos exemplo nas composições de Carlos Pita em Águas do São Francisco.Waitin' 'round the bend My huckleberry friend Moon river And me. depois. princesas. O Rio-lua E eu. Esperando-nos na curva do rio.”) Assim. nas constantes enchentes do rio e na situação de pobreza que boa parte da população ribeirinha viveu em contraposição à riqueza e à fartura das grandes cidades americanas. são temas constantes de várias músicas que giram em torno do cenário do Rio Mississipi. Assim. a idéia de que a vida em torno do rio é dura. Por outro lado. o sofrimento do polígono das secas e as enchentes do rio. os conflitos sociais. o segundo homem 40 . instalada após a guerra civil americana. em que se pese a pobreza de suas populações ribeirinhas. Tal visão parece ter suas raízes no processo de colonização português. e mesmo numa canção engajada como a de Silvio Brito lemos versos como: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza. em Geraldo Azevedo. em Moraes Moreira. os beatos têm um papel fundamental no imaginário cultural da região para mediação e solução dos conflitos. cheia de lamentos e dor. na segregação racial. Veremos o fim do arco-íris. Tal visão tem fundamento no trabalho escravo durante os séculos XVIII e XIX. o que domina o imaginário de muitas das canções acerca do rio da integração nacional é um cenário imaginário dum sertão medieval. com suas raízes musicais negras. no Nordeste brasileiro. Meu amigo Huckleberry.

Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira Nesse capítulo buscamos apresentar interpretações acerca do modo como o Rio São Francisco é colocado na poesia brasileira num panorama que vai do Romantismo até a Literatura Contemporânea. No caso do rio Mississipi. fundado no conflito entre a cultura negra. o conflito é velado. Nega. duas diferenças fulcrais no modo de encarar a realidade circundante. you got to move. escrava e a branca. Now. o modo de tratar o imaginário em relação ao rio. européia. When the levee breaks.é o que se beneficia desse conflito. No caso do rio São Francisco. cryin won’t help you. ocultado pelo espelho da introspecção criativa que busca no imaginário medieval razões para acreditar na concretização de profecias acerca dum futuro melhor ou na ação providencial da mão divina. rezar não adiantará muito Não! Chorar agora não irá te ajudar. É o que vemos. mama. pois. prayin’ won’t do you no good. prayin’ won’t do you no good. por exemplo nos versos da canção When the Levee Breaks: “Cryin won’t help you. rezar não adiantará muito Quando a barragem romper.” (“Chorar não irá te ajudar. parece ser bem mais pragmático. O panorama foi montado de forma a não ser apenas 41 . você terá que se mudar”) São.

“O Baile na Flor” apresenta a descrição de uma natureza rica. Composto de 33 poemas A Cachoeira de Paulo Afonso forma uma espécie de narrativa dramática. João Cabral de Melo Neto. 1980. o poeta nos mostra Lucas voltando para sua cabana. 77) Não é por acaso. intocada. / Que a perna te esconde em vão. Passando por Castro Alves. é com Castro Alves que este cenário brasileiro ganha uma dimensão lírica que ainda não havia tido na poesia brasileira.” Mais adiante o mesmo poema. no poema homônimo seguinte.. Embora possa se encontrar citações eventuais em outras obras poéticas de autores anteriores. depois de algumas negativas... a poesia brasileira quando se propôs ao tema soube mesclar na linguagem poética diversos aspectos dessas imagens e preocupações. filho do senhor.. entre outros... 1. que o primeiro poema. paisagem vai progressivamente escurecendo. na floresta / Rolar o som da funeral orquestra!!!”. Marisa Lajolo e Samira Campedelli assim comentam o aumento da tensão dramática na obra: “Como que acompanhando o aumento da tensão dramática do primeiro para o último poema.. mas antes compor um painel cuja amostra deva esboçar as diferentes visões ecológicas e sócio-culturais que moldaram a imagem do Rio São Francisco em diferentes épocas. querendo vingar-se indaga da amada o autor da sua desonra. considerada inútil diante da opressão que a condição de escravos os condena.” Este poema é também uma das mais ousadas experiências formais de 42 .. cheia de vida: “Ali das bromélias nas flores doiradas / Há silfos e fadas.” O terceiro poema. Após a apresentação do cenário da tarde. que fazem seu lar. “Tarde” tem versos como “Hora meiga da Tarde! Como és bela / Quando surges do azul da zona ardente! / . tanto no nível semântico. passando pela preocupação com o registro e a preservação de uma cultura local. é apresentada de modo bem ao estilo da verve cabocla e sertaneja.. em lindos cardumes. Os personagens do drama são o escravo Lucas e sua noiva Maria. quanto estético e formal. inclusive do século XVIII. p. e. exuberante. apresenta um entardecer em que os sons da natureza parecem pressentir o desenlace fatal: “Contemplando o infinito. Assim. acaba encontrando-a vagando numa canoa como que buscando a morte. de forma que o cenário da morte coincide com a escuridão noturna. em belíssimo contraste com a brancura das espumas da cachoeira” (LAJOLO & CAMPEDELLI.historiográfico e exaustivo. / Sutis vaga-lumes / Acendem os lumes / Pra o baile na flor. Descobre que Maria fora violentada. / E. Maria. pois. de onde se precipitam na canoa num ato delirante que simbolicamente representaria suas núpcias. Desde uma imagem romantizada da Natureza intocada até às preocupações com os danos que a civilização urbanizada causa ao meio ambiente. mas não encontra sua amada. Castro Alves e as Imagens Clássicas e Românticas O primeiro grande texto de poesia brasileira a tratar do Rio São Francisco foi o livro A Cachoeira de Paulo Afonso de Castro Alves (1876). o prenúncio do fim do dia acompanha o ato final dos amantes.. / Que se banha nas termas do oriente. Maria conta que o autor trata-se de seu meio-irmão. resolvem navegar até a Cachoeira de Paulo Afonso.Tu és do céu a pálida donzela. Dantas Motta. Procurando por ela.. Após ser convencido por Maria a evitar a vingança. já em voga no Romantismo desde a primeira geração: “Onde Vais à tardezinha / Mucama tão bonitinha / Morena flor do sertão? / A grama um beijo te furta / Por baixo da saia curta.

vai de encontro ao abismo. a natureza é violentada pela ação do homem: “A floresta rugindo as comas curva...... N’último ramo do pau-d’arco adusto O jaguar se abrigou.. até o momento em que a noiva se vê convencida a contar o nome do agressor. “Tirana” e “Senzala” apresentam a chegada de Lucas e a descoberta da ausência de Maria. Em “A Queimada” (quarto poema).. E após..... Na última estrofe a destruição causada pelo fogo é apresentada de forma apocalíptica: “Então passa-se ali um drama augusto... O ponto de exclamação do verso final da estrofe... O quarto e quinto poemas compõem a metáfora da violação tanto de Maria quanto da Natureza. assim vista ao sol poente. o que cria uma contradição entre calmaria e ataque iminente. / Espantado a gritar”... nele. que cintila.. sabemos que Maria está a vagar perdida em sua canoa: “Lá no meio do rio. pobre criança / Que fazes tu sobre a terra? // E o eco responde? – Erra! (... “Último Abraço”.. Como o dorso de enorme crocodilo.... .. Mas rubro é o céu. // E o eco responde: . Esses ninhos....... uma vez que a mancha do texto na folha busca sugerir a forma de uma flor..Sim!” A partir daqui os 11 poemas seguintes vão apresentar um crescendo do drama em que Lucas encontra Maria vagando na canoa e busca compreender o que lhe acontecera.. Segue-se o poema “Crepúsculo Sertanejo” que inicia com o verso “A Tarde morria! Nas águas barrentas” e os poemas “O Bandolim da Desgraça” e “A Canoa Fantástica” que vão preparar a entrada do cenário em que os dois amantes resolvem ir em direção do abismo.... E tudo se acabou!. O próximo poema “Diálogo dos Ecos” compõe uma cena em que Lucas parece conversar com o eco num verso solitário que se segue à cada estrofe: “Maria.. feroz....” Os três poemas seguintes – “Lucas”....... tamanho.....Castro Alves.. / As asas foscas o gavião recurva...) Houve pois um braço estranho / Robusto............. E onde em meio das flores vão chilrando -Alegres sobre o abismo – os passarinhos!. / Que pode esmagar-te assim?... O quinto poema é “A Queimada”.. O rio é metaforizado na imagem de um crocodilo.. 43 . que tombam sobre o rio..tombam as selvas seculares....” A estrofe é brilhante na conjugação da cena dramática e dos recursos poéticos. Já manso e manso escoa-se a canoa.... Os quatro poemas seguintes – “História de um Crime”. Parecia. A canoa é comparada com um ninho que caiu sobre as águas calmas e desconhecendo o perigo.. “Mãe Penitente” e “O Segredo” vão revelar o laço sanguíneo entre Lucas e o agressor de sua amada..... Recresce o fogo em mares... seguido de reticências e uma linha pontilhada compõe o ritmo que insinua o perigo.

” Os quatro últimos poemas retomam a narrativa dramática dos dois amantes e vão num crescendo preparando o momento em que a canoa se atira pela cachoeira: “./ Titubantes – no álveo do rio – tremem as lapas dos titães coevas!......)/ Viramno aos beijos.. “A Cachoeira” busca apresentar o cenário do clímax dramático do poema.. / Nas verdes canas o gemente rogo / Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva” (est.Um beijo infindo suspirou nos ares.. Envolvido que estava com a causa abolicionista.. III). II).”.. / Como filhos – chorando-lhe – os penedos!!!.. quanto a função colonizadora que as populações caboclas tiveram no povoamento do Vale do São Francisco.. Manuel Bandeira em prefácio escreve: “Não sei quando o movimento modernista se propagou ao Recife.. / A canoa rolava!..O poema “O São Francisco” apresenta a visão de Castro Alves do rio. o futuro autor de Catimbó entregou os pontos. Destaca-se na primeira estrofe a distância que o rio corre pelos sertões (“Longe.. Na última estrofe do poema.... Mais ao final do poema evoca-se o mito de Laocoonte para efeito de comparação: “Grupo enorme do fero Laocoonte / Viva a Grécia acolá e a luta estranha!. babando. 2.. / .. sânie....” O poema seguinte..... bem longe. / De grinaldas em flor tecendo a arcada / São arcos triunfais de tua estrada!.. Assim se abre o poema: “Mas súbito da noite no arrepio / Um mugido soturno rompe as trevas... natureza / homem.” Nesse verso final de coloração fundada num oxímoro.. Os coqueiros e cipós são vistos poeticamente como arcos a ladear todo o curso do rio: “Como pontes aéreas – do coqueiro / Os cipós escarlates se atirando.. e o céu!.. vingança / perdão. o rio é denominado de “Nilo brasileiro”.” 44 . dos cantões bravios”). que permearam todo o poema. tredos.” “A Cachoeira” constrói uma imagem metafórica de grande tensão. “Vem – à busca talvez de desafogo / Bater à porta da Baiana altiva.... de lamber demente / As rijas formas da cabocla linda”(est. A Revisão Modernista do Drama Romântico: Ascenso Ferreira Ascenso Ferreira (1895-1965) foi um dos nomes mais importantes da divulgação das idéias modernistas em Recife. Castro Alves busca concluir as contradições entre vida / morte. luz / trevas. / Co’a serpente no dorso parte o touro. / Do sacerdote o punho e a roxa fronte.. água / terra. Ascenso a princípio não quis saber da novidade..... o rio é metamorfoseado numa serpente e as rochas que formam a queda d’água são vistas como o corpo de um touro: “Então doido de dor.. Castro Alves soube colocar nesse conjunto de poemas tanto a questão da opressão sobre o escravo.... / E as serpentes de Tênedos em sanha!.. / Por hidra – um rio! Por augure – um monte! / Por aras de Minerva – uma montanha! / E em torno ao pedestal laçados... Lembra-me que Joaquim Inojosa foi o agente de ligação com os rapazes de São Paulo. O percurso do rio pelas então províncias de Minas Gerais e Bahia é trabalhado de forma a personificar as regiões como mulheres cortejadas e amantes do rio: “-Linfa Amorosa – co’a nitente espuma / Orlava o seio da Mineira linda (..... A luta entre a serpente-rio e o penhasco-touro ganha contornos de grandiosidade mitológica: “A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo! / A briga colossal dos elementos! / As garras do Centauro em paroxismo / Raspando os flancos dos parcéis sangrentos”.. assim como a extensão do rio (“Do São Francisco a soberana vaga / Léguas e léguas triunfante alaga!”)..... Abriu-se a um tempo / O precipício!. numa forma de comentar poeticamente a função irrigatória que o rio exerce sobre vasta região do sertão nordestino. Mas quando Guilherme de Almeida passou em Pernambuco e declamou o seu poema ‘Raça’ no Teatro Santa Isabel.

(FERREIRA, 1981, p.11). Sérgio Milliet, comentando a obra de Ascenso, observa como o grupo de modernistas do Recife conseguiu uma certa autonomia estética em relação ao modelo de São Paulo: “Na renovação poética do Brasil, já observou Manuel Bandeira, o grupo do Recife escapou à influência imediata e imperialista dos modelos europeus. Da revolução que se iniciou em São Paulo só lhe interessou a liberdade conquistada.”(FERREIRA, 1981, p. 14). Em Xenhenhém, conjunto de 25 poemas publicados em 1951, encontramos um intitulado “O Meu Poema do São Francisco”. O poema começa com quatro versos anafóricos: “É Cabrobó! / É Orocó! / É o Ibó / É Curaçá!...” São nomes de cidades na divisa entre Pernambuco e Bahia. Do lado de Pernambuco (Cabrobó, Orocó e Ibó) ficam na região do rio e da serra de Ouricuri, do outro lado do São Francisco está Curaçá, na Bahia. A sonoridade dos nomes das cidades é explorada poeticamente. Em outro poema, “Sertão”, do livro Catimbó, também o poeta utiliza o efeito de explorar a sonoridade dos nomes das cidades, só que cria um itinerário diverso, partindo de Cabrobó em direção do sertão, até Exu, nome já evocativo das dificuldades e agruras do semi-árido: “Sertão! – Jatobá! / Sertão! Cabrobó! / -Cabrobó! / - Ouricuri! / -Exu! / -Exu!”. No poema do São Francisco, Ascenso Ferreira após a apresentação dos nomes das cidades, coloca um dístico que é o estribilho do poema: “Meu Deus, ela veio das bandas de lá! / Meu Deus, ela veio das bandas de lá!”. O viajante pede ao barqueiro que siga a voz encantada de mulher que segue pelo curso do rio: “Barqueiro, me traga o meu reco-reco, que eu quero chamá-la para um xenhenhém... Que nada! Ela é sempre para mim como um eco Que longe responde, porém nunca vem... Barqueiro, desçamos pelo rio abaixo... Vamos ver, barqueiro, aonde ela está.” A seguir, utilizando a mesma estratégia inicial, Ascenso apresenta o nome de quatro localidades baianas, tirando novamente o efeito estético de suas sonoridades: “Chorrochó / Cocorobó / Patamuté / UAUÁ!”. Este último nome de cidade é grafado com maiúsculas, chamando a atenção para o som do nome que se assemelha ao do choro, evocando o sentimento melancólico do eu-lírico em busca da voz de mulher. Após a repetição do estribilho e de novo pedido ao barqueiro que continue seguindo rio abaixo, segue-se novamente o nome de quatro cidades às margens do rio São Francisco, porém, agora elas não rimam nem supõem uma harmonia sonora com a mesma intensidade musical das anteriores: “E é Floresta / Itacuruba / Santo Antônio, / Jatobá!” Essa quebra de ritmo funciona no poema como aviso de que as águas tranqüilas do rio serão interrompidas, assim avisa o barqueiro: “-Passageiro, volte que lá é a cachoeira. É morte na certa, não teime, não vá!” O verso solitário a seguir é acompanhado por reticências e uma linha pontilhada – recurso que já notamos em Castro Alves – e o nome da cidade que evoca o choro: 45

“-Barqueiro, ela chama é mesmo de lá... ............................................................... -UAUÁ!!!” Em Ascenso Ferreira, como em Castro Alves, o percurso do rio cria um crescendo dramático até a cachoeira de Paulo Afonso. Em ambos, a busca da morte parece o objetivo dos navegantes como forma de fuga das desilusões da vida, a morte na cachoeira como representação também de um ritual de passagem para uma dimensão mágica da existência. 3. Dantas Motta e a Transposição do São Francisco para um Imaginário Sincrético de caráter cristão. Elegias do País das Gerais (1958), livro de poemas de Dantas Mota (1913-1974) apresenta um grande conjunto de poemas divididos em “livros” como se articulassem a estrutura de um grande livro sibilino. Referências bíblicas se misturam às figuras históricas do Brasil. Paisagens das terras bíblicas são metáforas constantes das paisagens visitadas por Dantas Mota em Minas Gerais e no Nordeste. Mário de Andrade numa das cartas que escreveu ao autor diz: “Suas Elegias das Gerais estão prontérrimas, lindas e re-relidas e anotadas.”(MOTA, 1988, p. 330). Uma das partes da obra Elegias do País das Gerais intitula-se “Quarto Livro: Epístola de São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, o Vale”. O título já nos apresenta uma sobreposição entre a figura do santo e do rio. No poema, o rio é a voz lírica que narra acerca de seu próprio curso e sua história de colonização. Acerca desse “Quarto Livro”, o próprio poeta em carta a João Condé escrevia: “Fui assim, à pasta a buscar os petrechos necessários à tosa, encontrando-os embrulhados numa página do suplemento ‘Sintra’ e, dentro dela, vista de cara, a seguinte notícia: ‘Em Aracaju, reuniram-se, na semana passada, os Bispos da Bacia do São Francisco para estudar os problemas advindos de sua transformação.’ Mais ou menos isso. Dessa notícia nasceu a idéia do poema, informe, imprecisa e vaga, com a visão de Jerusalém carregada de bispos, tetrarcas e ametistas, postados todos em Aracaju, a qual depois, era transunta do sergipano país para este, o das Gerais, e que tantos males tem infligido a este Brasil, por força de sua intemperança no juro, na política e nos juizados da paz.” (MOTA, 1988, p. 339) O discurso do rio é marcado pela dor, pela angústia de ser o rio que atravessa a região mais árida do país, estigmatizada pela pobreza, pelo abandono: “Ora, toda unidade é estéril e todo mistério, terrível. E me fizestes uno, misterioso e triste, Não segundo minha paisagem interior, de pobreza, Que estava certa, mas conforme vossa jurisdição, Que ia desde Paracatu do Príncipe, No País das Gerais, Até Olinda e Recife, no País de Pernambuco!” 46

Em determinado momento, buscando apresentar a nascente do rio, Dantas Mota nos mostra o rio comparando sua nascente na Serra da Canastra com um caixão e os peixes com o corpo do morto “Ora, tudo o que se verificar aquém e além dele (o caixão) / é um mistério de unidade estéril (...)// De vez que todo caixão é aquário, / e, como tal, é ele o invólucro; / e o corpo, que dentro dele navega, / sob um céu de morim barato, / o peixe facilmente deteriorável”. Personagens e cenários bíblicos aparecem em constância para compor a imagem desse rio triste e angustiado que é o São Francisco de Dantas Mota: Cristo, Melquisedeque, José, Jerusalém, Eufrates, Cativeiro na Babilônia, etc... A população ribeirinha é apresentada como a descendência de Agar: “Em verdade, subindo vou o Setentrião, / enquanto meus habitantes o Setentrião descendo vão / -Felás de um tempo redivivo, / tormentados com Hórus /(...)/Porque, apesar das secas e dos desertos / (gente proscrita da progênie de Agar) / há uma paisagem de riacho e rugas / nas faces chicoteadas de sol e peixe”. Em contrapartida Lampião, Canudos, e outros personagens e cenários do Nordeste são evocados misturados aos bíblicos: “E, provando a procedência deste razoado, / Uns homens sem respeito para a minha vergonha. / E a república, que triunfou de Canudos, / Batendo, depois, além dele, meu rei Lampião, / No qual, com o ser o meu renovo, me comprazo, / Aqui, empós alguns lustros e sóis passados, / Se sublimou em tetrarquias com os Cunegundes, / os Pantaleões, os Batista e os Santa Bárbara. / Afinal morri. Primeiro em vós. Depois em mim”. Desse modo, as revoltas populares, tanto a do cangaço (Lampião), quanto à mística-beata de Antônio Conselheiro são apresentadas como representativas do povo do São Francisco, ao passo que a República é – retomando uma colocação do próprio Antônio Conselheiro – como a Babilônia. Dantas Mota buscava desse modo fazer a crítica do abandono e do flagelo que a região do semi-árido se encontrava. O episódio do velho testamento referente ao cativeiro na Babilônia (Jeremias) é amalgamado poeticamente à vitória violenta e sangrenta da república sobre Canudos e sobre Lampião. O coronelismo que dominou a política regional se apresenta como o período de cativeiro propriamente dito, neste sentido o povo nordestino da região do sertão estaria em condição semelhante aos hebreus no cativeiro da Babilônia. A seguir, em “Recuperação do Paraíso”, o rio no seu discurso nos diz que deixou sua condição de rio natural para ser uma autarquia. A ironia se refere à construção da hidrelétrica de Paulo Afonso, a primeira grande hidrelétrica construída no seu curso. Delmiro Gouveia que em 1913 iniciou o processo de aproveitamento energético do rio São Francisco construindo a usina de Angiquinhos que aproveitava a força da cachoeira de modo parcial, mas cujo efeito posterior foi incentivar projetos maiores. Em 1948, Getúlio Vargas procede à criação da Chesf e se inicia a construção da Usina de Paulo Afonso, terminada em 1954, até então a maior usina hidrelétrica do país. “Morri eu afinal, que de Francisco mais não sou, Porquanto, hidrelétrico, em autarquia transformado fui.” O discurso do rio ironiza o processo de eletrificação, que de princípio atendeu aos interesses políticos dos coronéis, pois de fato, pequenas propriedades e até mesmo algumas cidades ficaram sem a energia de Paulo Afonso: “Uma lâmpada de mil velas brilha no fundo do inferno”. O trecho final, “As Alegorias em Trânsito”, nos apresenta um anjo 47

estudaram. / de poita / de groseira.” O rio compara sua nova face transfigurada com as batalhas que marcaram o início da reação russa contra a invasão nazista que. / Todo o norte se ilumina. Dura crítica de caráter marxista ao governo de Getúlio Vargas. a convite da corte imperial. com desprezo. / Ou autarquias que o fero Estado cria. violência. sob certo aspecto.metamorfoseado em ave pousando sobre um comutador de energia no meio do sertão: “Um anjo. O cangaceiro saqueou as vilas. No final. / cemitérios. irmanados assim ao próprio rio. Dentre os poetas que analisamos. desenharam. as vilas. enquanto eu. esquecidos. O surgimento das primeiras povoações se dá no contexto desse processo: “Então o povo crente ergue cruzes nas margens / e capelas / e igrejas. à beira do abismo”. Os missionários conquistaram as almas”.” A cobiça é destacada como o motivo principal da conquista da região. ave sagrada. o poema fala da religião e da escravidão como partes do processo de colonização: “E depois os que foram alçar a cruz para curar as chagas / que o ouro fez. / mas tem cuidado 48 . Henderson uma pescaria de jereré. porém. o fero estado a que se refere o poema são comparados ao procedimento nazista. de certa forma. / de tarrafa. deixa. 1928. a terra. / Vindo dos portões em ruínas do Paraíso. A conquista do rio é mostrada como a defloração violenta da natureza: “E todos eles defloraram o rio. o rio se consola com o fato de que a energia que ilumina terras distantes. / Pousa num comutador e. / E eram antônios conselheiros e jesuítas / e eram missões / e era a turba genuflexa / beijando a terra por onde os santos iam. Por extensão. logo a seguir. a devoção religiosa é apresentada como um delírio coletivo. as almas formariam o sentido simbólico do rio Opara (São Francisco) como elementos que sofreram opressão. 4. / Esquecidos de que eu também posso ser / A curva de Dniéper / O cotovelo do Don. / Sua dejecção de pássaro. ali. indica também o início da decadência do III Reich: “Se organizaram em quadrilhas de sociedade anônima. é também continuação do próprio rio. é o único que cita o nome indígena do rio: “E primeiro desceram pelo rio Opara / os homens que foram ferir a terra à procura de ouro. beatos como Antônio Conselheiro e os jesuítas são postos lado a lado. a sociedade anônima. Jorge de Lima e a História do Rio São Francisco Revisitada Jorge de Lima escreve o poema “Rio de São Francisco” para o livro Poemas.” Assim. Jorge de Lima passa a evocar os nomes de pintores naturalistas e exploradores estrangeiros que no século XIX. mostrando que na intensidade do delírio não tinham diferença. com as asas cheias de poeira. escreveram e pintaram acerca da flora e fauna brasileiras: Henderson (Vem pintar. / Amém”. agora transformado / transfigurado: “Também ilumino e não sou sol. os escravos fugidos. As autarquias. Os capitães-de-mato deram caça aos negros. portanto antecedendo a Dantas Motta em mais de duas décadas. O garimpeiro deflorou a terra. O povo submisso (“turba genuflexa / beijando a terra”) seguia esses homens como se fossem santos. / Depois desceram feras à procura de escravos”.

o grande rio como a alma do sertão / desce de Paulo Afonso com sete ataques de doido. enfrentava práticas de 49 . que o sino de Piranhas geme como gente no dia de finados. Então. vem.” O poema continua citando casos lendários entre descrições da navegação no rio: “E o rio desce. O flagelo da fome é destacado: “-Senhor! dai-me que comer! Senhor”. Jorge de Lima. ver o pitoresco do rio. meu Debret. cegos cantando. que um certo galo preto depenado canta à meia-noite “Salvador! Salvador!” Toda a vida das cidadezinhas é sintetizada em imagens instantâneas como flashes do cotidiano: “e quando o dia nasce. / o canoeiro pachola tocador de violão”. “E são bonitos. A seguir cita-se num verso o empreendimento pioneiro de Delmiro Gouveia: “E o cearense desceu com uma turbina na mão”. / e o povo volta de novo / a tomar bênção ao Padre Cícero”. meus irmãos. e ruge. Este é também um dos raros momentos em que o rio se personifica e assume a voz no poema. Jorge de Lima faz menção da cultura folclórica acerca das lendas que envolvem o rio São Francisco: “Vinde caçadores de lendas. ovelhas descendo das encostas. potros correndo danados. devido ao que parece. Cita então Jorge de Lima. O fim da estação da seca e conseqüente volta das chuvas marca um intenso renascimento que no poema atinge âmbitos lendários e místicos: “e o homem delira outra vez a nevrose dos Sertões. a briga que a companhia de linhas de algodão implantada por Delmiro Gouveia na região travava com a Machine Cotton (Linhas Corrente) da Inglaterra. um dia enfim / deixa de chover no Piauí / não chove no Ceará”. Delmiro que recusou vender sua empresa aos ingleses. à maior notoriedade que sua obra alcançou (“Passam engenhos pitorescos. Como nos poetas anteriormente aqui citados. / tenho para os vossos bichos um restinho de ervas no surrão”. O rio então surge como único refúgio: “Tenho água fresca.”. Debret é o mais citado no poema. Citase que as almas dos holandeses enterraram tesouros. Debret”). gado pastando nos cercados bodes pulando pelos morros. / o Conselheiro renasce. Debret (“Vem. / E um dia os riachos. e bate e dorme lá embaixo / como um gigante que sofre de ataques de convulsão”. meu Debret”. tenho aqui algum peixe. suspende-se esse ritmo descritivo-narrativo tênue para anunciar a chegada da estação da seca: “Mas um dia. vai compondo os seus versos seguindo metaforicamente o curso do rio. Halfeld e Saint-Hilaire (“Nisso tudo passaram Halfeld e Saint-Hilaire com as bandeiras / da sabedoria / e viram na Igreja Santa do Rosário / a baita coroa do Imperador do Divino”.que as piranhas podem comer os teus pincéis. / os outros rios vêm visitar o rio Opara”. Numa parte relativamente grande do poema. guardando assim a cachoeira de Paulo Afonso para o clímax narrativo: “E o rio. / as nuvens. feiras. / bandeirantes de todos os feitios. / Frei Doroteu renasce. há florestas de mastros pelos cais. / que o rio desce e as lendas descem com esse rio”. / e espuma. / as torrentes.

a água se quebra em pedaços. Porém. muda. Dois anos depois.dumping na disputa do mercado nacional. 50 . cortado. o rio São Francisco não é o cenário fluvial constante nos seus poemas. de areia múmia” (“Na Morte dos Rios”) Em “Rios sem Discurso”. em poços de água. pela constante oposição que o poeta trata entre o cenário do sertão. taxou o produto importado. por pressão de banqueiros ingleses a lei foi revogada. Essa ausência significativa do São Francisco na poesia de João Cabral pode ser explicada. Delmiro foi assassinado em circunstâncias não esclarecidas em 1917: “E os braços edificaram a caatinga. embora sabres. e muda porque com nenhuma comunica. Em situação de poço. e mais: porque assim estancada. Quando João Cabral trata do sertão é um cenário sem água. faz alto à beira daquele leito tumba. em água paralítica. o rio Capibaribe contém todos os elementos. 5. é porque assim estanque. Faz alto à agressão nata: jamais ocupa o rio de ossos areia. do agreste e do litoral de Pernambuco. embora de unhas. Em 1926. a vegetação em volta. em parte. a fábrica de Delmiro foi finalmente vendida e logo depois desmontada. estancada. João Cabral trata dessa condição dos rios intermitentes que mal terminando a época das chuvas desaparecem: “Quando um rio corta. corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. intratável e agressiva. de rios intermitentes numa linguagem seca que lembra a de Graciliano Ramos na prosa: “Desde que no Alto Sertão um rio seca. já no governo de Washington Luís. nesse aspecto. é o rio Capibaribe o seu rio preferido na poesia. e quando o mestiço inspirado pelo santo ia fazer o milagre da multiplicação e salvar o Nordeste e remir o sertão. antes. João Cabral e o Sertão sem o Rio João Cabral de Melo Neto tem uma produção poética que tem como uma das marcas o cenário sertanejo. o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. estanque no poço dela mesma. o presidente Artur Bernardes para proibir a prática desleal de concorrência inglesa no mercado de linhas. iluminaram os capões. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada.

E vai acolitar os empreiteiros da seca. que esperar que a poesia do rio São Francisco continue 51 .. justificando que o rio busca correr toda sua vazão num só dia como se tivesse medo de morrer em poços. A poesia de João Cabral quando trata do sertão pernambucano faz destacar a questão da seca. O urubu não retira. fazem com que a forma do poema. que no civil quer o morto claro. rústica é também o local de uma população sofrida. ao tratarem do grande rio do Nordeste. cuja natureza que lhe é agressiva. se os receios de grupos mobilizados da sociedade contra a obra se justificarem. em Dantas Mota e em Jorge de Lima) se encontra espaço para a usurpação de direitos. Jorge de Lima. da nascente à foz. mostrando como. não raras vezes. Cala os serviços prestados e diplomas. Veterano. Castro Alves e Ascenso Ferreira. quase como um deserto.porque cortou-se a sintaxe desse rio. Se o projeto der certo. na sua sucessão de versos.” (“O Urubu Imobilizado”) Podemos colocar a poesia dos poetas que tratarão do rio São Francisco e que foram aqui comentados como autores de textos que destacaram a grandiosidade natural do grande rio do Nordeste e que mostraram em diferentes aspectos o modo como a povoação da região se deu. fio de água por que ele discorria”. muitos deles. Se em Dantas Mota. porém. para a opressão do estado sobre o indivíduo. de urubu livre. o urubu. João Cabral retorna à imagem dos rios intermitentes. quando presentemente se justifica e se apronta o início das obras de transposição do rio São Francisco em dois canais que cortarão o sertão de Pernambuco – um para atingir o Ceará e ligando-se à bacia hidrográfica daquele estado. a dureza da própria sociedade e do estado: “Durante as secas do Sertão. afluentes temporãos do São Francisco. para o cerceamento da liberdade. teremos.ex. Em “Os Rios de Um Dia”. por certo. mas ainda com zelos de novato: Aviando com eutanásia o morto incerto. João Cabral ao tratar dos rios intermitentes. de modo que a natureza dura. da quebra de discurso que o conjunto de poços e cacimbas representa. pondo como ponto alto de dramaticidade a cachoeira de Paulo Afonso. trata metaforicamente duma quebra de narratividade. imite o percurso do rio. passa a funcionário. Que o enquadrariam num melhor salário. não supera. por outro lado. Ele. p. marcando bem as injustiças sociais ali cometidas (escravidão em Castro Alves). sob a divisa do progresso (construção da usina de Paulo Afonso. Nesse âmbito. pois prevendo cedo Que lhe imobilizarão a técnica e o tacto. mas uma transformação também cultural. podemos supor que poetas cantarão a grandiosidade e a beleza da obra como desde tempos imemoriais temos narrativas sobre o modo como os egípcios e babilônicos enfrentaram o deserto. esfacelado: “esses rios do Sertão falam tão claro / que induz ao suicídio a pressa deles: / para fugir na morte da vida em poças / que pega quem devagar por tanta sede”. e outro para seguir pela Paraíba – devemos supor que um novo cenário não apenas hidrográfico e econômico se propõe.

dos erros. Nordestal. Castro. MOTA. José Olympio / INL. Seleção. Ascenso. ALVES. Jorge de. tanto quanto o suicídio de Lucas e Maria em Castro Alves. Rio de Janeiro. 1980. Recife. 1997. Castro. do cativeiro na Babilônia e a conseqüente travessia do deserto e. José Olympio. do passageiro de Ascenso Ferreira. ainda. quando apresentadas pelo marchand. BIBLIOGRAFIA ALVES. LIMA. Literatura Comentada. João Cabral. Xenhenhém. Antologia Poética. Cana Caiana. 1980. do sofrimento enfim. 1981. como de autoria deste ou daquele mestre artesão mais reconhecido. estudo e notas de Marisa Lajolo e Samira Campedelli. João Cabral. Obra Completa. Dantas.sendo a poesia do drama. como disse Jorge de Lima “o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. FERREIRA. Poemas de Ascenso Ferreira: Catimbó. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. Ática. 1980. da tensão. para ficarmos efetivamente com o sertão de João Cabral. 1. vol. Rio de Janeiro / Brasília. alcançam no 52 . Elegias do País das Gerais – Poesia Completa. Rio de Janeiro. 1979. José Olympio. Algumas carrancas. Rio de Janeiro. 1988. Nova Fronteira. Poesia Completa. São Paulo. Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco As carrancas dos barcos do Vale do São Francisco hoje perderam sua função inicial de proteção das embarcações contra perigos concretos e imaginados do percurso do rio por uma função de peça de comércio artesanal. MELO NETO. MELO NETO. Rio de Janeiro. Nova Aguilar. sem rio São Francisco.

Ana das Carrancas é Ana Leopoldina Santos. filho de Guarany. hoje conhecida como carranca. Um dos primeiros cronistas a mencioná-la foi Durval Vieira de Aguiar em 1882: ''Na proa vê-se uma carranca ou grifo de gigantescas formas. Tese ousada. na Pedra da Gávea (RJ) e as carrancas que seria um costume transmitido pelos Vikings. segundo Zanoni Neves: “Na segunda metade do século XIX. 2006) Alguns estudiosos mais ligados ao âmbito das teorias menos comprováveis cientificamente e de caráter mais polêmico. que no livro Os Vikings no Brasil argumenta que existem vários indícios dessa passagem. às margens do São Francisco. como inscrições na Amazônia. onde passou a trabalhar como professor e constituiu sua família. 33). destacou-se como o maior artista de carrancas. estéticos e culturais das carrancas do São Francisco e as carrancas das galeras vikings. que avisariam com três gemidos a proximidade destes. a utilização das carrancas ganhou uma função de artefato artístico artesanal. bem como com suas feições agressivas afugentariam outros espíritos. filha de artesã e agricultor. Figura.”(Zanoni.comércio de peças de artesanato internacional valores consideráveis. os primeiros registros de existência das carrancas aparecem na segunda metade do século XIX. p. de modo que a flutuabilidade. mas que peca pela ausência de dados comprováveis de qualquer uso de carrancas anterior ao período de colonização do Vale do São Francisco. 53 . De fato. em Santa Filomena. as carrancas. de modelos sem dúvida transmitidos pelos exploradores dos tempos coloniais'' (1979. Guarany é bisneto de José Dy Lafuente. Pernambuco. refugiado do Convento da Bahia que amasiou-se com uma negra africana de Moçambique. mais comumente têm sido utilizadas como peças decorativas de cantos de salas e escritórios. De qualquer forma é inegável a possibilidade de comparações entre aspectos funcionais. Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987). jesuíta espanhol. Mestre Davi (Davi José Miranda Filho). com o decréscimo e quase desaparecimento da navegação ribeirinha assim como o fim dos gaiolas. indo morar na cidade de Curacá. hoje. Assim. sustentam que esse seria um indício da passagem dos Vikings pelo Brasil em época muito anterior ao descobrimento. os barqueiros adotaram a figura. através da arte de talhar a madeira. a história e a cultura dos povos ribeirinhos. distrito de Ouricuri. ou simplesmente “Guarany”. nasceu em 1923. seu aparecimento perde-se um pouco no tempo. Um dos defensores dessa tese é Jacques Mahieu. figura de proa e leão de barca são os termos ou expressões que os remeiros e outros ribeirinhos utilizavam para se referirem às carrancas. que começou sua produção em 1972 é outro importante artesão de carrancas. no lugar de servirem como elemento protetor contra maus espíritos e perigos do rio. Ana das Carrancas é um dos nomes mais conhecidos quando se fala em carrancas do rio São Francisco Ubaldino. Mestre Davi tornou-se internacionalmente conhecido quando Jacques Cousteau levou uma carranca a todos os cantos do mundo pelo barco "Calypso". quanto à origem das carrancas. bem como a adaptabilidade da carranca ao barco tornou-se um aspecto mais secundário. um famoso carranqueiro de Pirapora perpetua. próximo a cidade de Juazeiro. Alguns artesãos se destacaram na produção de carrancas.

tementes a Deus. assim como os barcos a que se destinavam. pois. uma vez que as ferramentas para composição já não serão as mesmas. cavalinhos e santos de barro. havendo. também de madeira. usa o barro extraído do próprio rio São Francisco para composição de suas figuras de carranca. é uma artista que demonstra habilidade no manuseio de instrumentos como facão. astutos pela descoberta de riquezas teriam contra si o espírito do rio. a carranca de barro como que se distancia da função de protetora do barco para ser a representação do espírito do rio que pode proteger ou não a embarcação em função da intenção do navegador ser aceita pelo rio ou não. mas com o próprio rio sua identificação. Expedito Viana. madeira ou barro. é fato. machado e formão. Nosso intento maior é uma observação acerca do modo de produção das carrancas e um comentário acerca da natureza estética dessas figuras. Não se tem o hábito de se fazer um esboço ou desenho. nem tampouco a busca da explicação da origem das carrancas. carranqueira também de Pirapora. brinquedos. As carrancas. Sendo originalmente artesã ceramista. que se encontra na Avenida Salmeron. Ana compunha antes panelas. sua boa e seus dentes 54 . As carrancas. são apresentadas como figuras com bocas enormes abertas mostrando. Expedito ficou conhecido quando confeccionou a majestosa estátua de São Francisco de Assis. machado e formão) o artesão vai moldando a peça de maneira intuitiva. bem como o forno para cozimento. Assim. boi-zebus. uma vez que o barro vindo do leito do próprio rio agora mantém não com o barco. agora quando ela passa a produzir carrancas também de barro o que ocorre é a transposição de uma técnica para outra. metamorfoseado em animal aquático que desliza pelas águas do rio. Tal boca e dentes têm a intenção de conotar a agressividade da figura. dá a dimensão da própria modificação da função de uso da carranca. na Praça do Posto Três Palmeiras. O que buscamos destacar nesse nosso breve texto. Listamos aqui apenas alguns dos nomes mais conhecidos no universo do artesanato de carrancas.Dona Lurdes Barroso. Ana das Carrancas.5 metros de altura. potes. que ao cabo. feroz na ação de proteção da embarcação. Simbolicamente o material usado. a popa. mas diretamente na madeira o artista vai compondo a cabeça da figura. de outra forma. em geral. destaque nesse caso para as próprias mãos no ato de moldar o barro e o torno de oleiro. Com a utilização de instrumentos para o corte e o talhe da peça de madeira (facão. notadamente as de Ana das Carrancas têm uma função mais de peça decorativa artística de colecionadores e admiradores da arte popular do que propriamente a função de carrancas de embarcações. cuja cabeça é a carranca e o corpo o próprio barco. de Ouricuri. que navegam atendendo as necessidades das populações ribeirinhas seriam protegidos. Nas galeras vikings era essa a conotação que a estrutura do barco buscava. navegadores virtuosos. Nesse sentido. de cabeça do barco personificado ou metamorfoseado num vivente. porém. como no outro extremo. que a produção de carrancas de barro. quebra-se essa harmonia de material. não é um painel dos artistas. representa o próprio corpo do animal formado pelo conjunto barco-carranca. uma identificação harmoniosa do material. dentes caninos proeminentes. como que garante à cabeça de carranca. são feitas de madeira. a condição de vigia. por vezes. A de madeira tem com o barco. se colocava uma estrutura semelhante à calda do animal. colocada na ponta da proa. Essa identificação. com 3. Assim. Ao se fazer a carranca de barro. por sua parte. em geral. ainda de Pirapora (MG) é outro importante artesão carranqueiro que preserva a arte de entalhar a madeira. contendo algumas não só a cabeça de carranca (em geral a cabeça de um dragão). navegantes gananciosos. Porém.

fruto da característica do pigmento. se caracterizam por uma imagem amistosa ou de bem-aventurança. Já as carrancas que são adquiridas por colecionadores. Signo. conotam a noção de que tudo a carranca vê. no mais das vezes. algumas carrancas mais antigas têm a coloração desbotada. não apenas o mundo concreto. bem como da força que a protege. também têm o mesmo padrão de desproporcionalidade. sendo até o período anterior à abolição da escravidão. As cores formam outro aspecto importante da carranca. marcante no caso das de Guarany. grandes também. admiradores e turistas e que as colocam nas salas. como se fosse uma juba caindo pelos lados do pescoço da figura. de uma associação entre a simbologia imagética característica de mitologia africana ou mesmo ameríndia com a religiosidade cristã. demonstra a força vital e guerreira da carranca. XVII). mas principalmente o invisível. A cruz. Santo Olavo. abrigadas que estão dos efeitos nocivos do sol e da água do rio. XIX). Desse modo. Abrindo a boca. ao passo que a carranca se contrapõe pela agressividade nas suas formas monstruosas. Nesse sentido. A cabeleira da carranca.formam o primeiro aspecto dessa força animal e vital. ou ainda. o mundo dos espíritos. formando um conjunto de aspecto monstruoso. a imagem de algum santo ou santa (Nossa Senhora dos Navegantes. Segue-se assim também as sobrancelhas. a proteção declarada que a carranca oferece também apresenta um sentido invertido das figuras de proteção religiosa usadas na náutica. Sabemos que as primeiras populações ribeirinhas do Rio São Francisco a partir do período da colonização eram de característica negra ou índia. São as cores mais usadas. por vezes. são de leão ou cachorro. agressivas. um canto de aviso aos espíritos malignos da chegada da embarcação. ou em alguns casos. talvez. Santa Bárbara. pouco resistente às intempéries. físico. de Saint-Hilaire (séc. o conjunto da figura impressiona pela aglutinação de elementos desproporcionais que disputam o espaço da cabeça. De forma geral. O vermelho usado em muitas figuras. ao sol forte da região. os olhos e os dentes. As orelhas. José Vicente. descolorindo depois de algumas estações. Os aspectos africanos da carranca aparecem mais ainda quando observamos as que têm cores fortes (como o vermelho e o tom negro) com o fato das formas desproporcionais ou bem proeminentes como é característico das peças em madeira do artesanato antropomórfico africano banto. entre outros. cabelos. assim como o negro e o branco reforçam as idéias expostas pelos olhos. ser cego. Bom Jesus Protetor dos Navegantes. tal característica dos olhos das carrancas de Ana mostra ainda mais esse aspecto de visão de um mundo invisível. estas mantêm por mais tempo o vigor de suas cores. a carranca típica do São Francisco interpõe-se como o artefato que usa da força diabólica para uma missão de proteção ao navegante cristão. Outras têm a coloração dourada também. as cabeças das carrancas têm aspectos antropomórficos híbridos. algo diabólico. ou descascada. entre outras). boca e dentes. A língua. Os remeiros ou barqueiros eram predominantemente de característica negra. o nariz e o queixo. nos escritórios. Os olhos da carranca. O mal a serviço do bem. de aspecto protetor. quando é colocada na figura. devido ao fato de seu marido. são destacadas em tamanho assim como a boca. o espiritual e mágico. Numa espécie de simbiose ou sincretismo. iourubá e/ou de nação de angola. quando são de aspecto humanóide. do viajante Sir Richard Burton (1867). que costumeiramente vazava os olhos de suas carrancas de barro. escravos que 55 . não acessível aos olhos do mundo físico. como atestam relatos do Padre Martinho Nantes (séc. numa espécie de homenagem incorporada ao seu imaginário. No caso específico de Ana das Carrancas. supõe-se um rugido. por sua vez.

Martins Fontes. Cia. Carrancas do São Francisco. grandes. A. PARDAL. NANTES. Não se deve esquecer. O cristianismo deu o sentido de proteção. 1976. Prancha de Figuras – As Carrancas 56 . 1975a Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Os Vikings no Brasil. SAMPAIO. Teodoro Sampaio traz informações mais detalhadas acerca da natureza étnica dos remeiros. Francisco Alves. “Os Remeiros do São Francisco na Literatura” em: Revista de Antropologia. misturados sobremaneira com fortes doses do imaginário africano e ameríndio. Padre M. Os cabelos das carrancas. que a cultura cabocla também incorporou elementos da cultura indígena. como concretizações de figuras de espíritos malignos dominados pelo sentido cristão e postos a serviço da exploração das águas do rio. notadamente do âmbito dos navegadores e exploradores transposto para o cenário da colonização do sertão. Vivaldi Moreira. 2003. a nosso ver. porém.scielo. São Paulo/Brasília.1. Companhia das Letras. 2002 O rio São Francisco e a Chapada Diamantina. vol 46. São Paulo. Itatiaia/Edusp.php?script=sci_arttext&pid=S003477012003000100004.faziam o serviço de travessia e ligação entre as diferentes cidades. em geral. Paulo. de modo que a idéia de espíritos do rio e espíritos da mata possam ajudar ou prejudicar uma travessia é também natural do imaginário ameríndio. Jacques. fonte:Fonte:http://www. São Paulo. As carrancas são o resultado. Editora Nacional/MEC/INL. os elementos afro e ameríndio os aspectos estéticos e formais da carranca.br/scielo. Zanoni. NEVES. Rio de Janeiro. SAINT-HILAIRE. n. coleção Raízes. de um cruzamento de influências do imaginário cristão português. 1979 Relação de uma missão no rio São Francisco. mas também com predominância da cor negra e lisos ajustam-se mais ao tipo étnico indígena sulamericano do que africano. 2006. Referências Bibliográficas: MAHIEU. Belo Horizonte/São Paulo. São Paulo. Trad. T.

espíritos maus. Com origem na mitologia indígena temos a Iara. Minas Gerais.Carrancas típicas em escala industrial. careca e mãos e pés de pato. Uma das lendas mais curiosas do folclore do rio São Francisco é a “A Lenda do Nego D’Água”. 57 . do Tejo são cantadas desde a poesia barroca. envolvendo carrancas. se eles recusarem dar-lhe um peixe. Pareceme que aqui é o caso de uma migração da lenda do São Francisco para o Tocantins. este modelo é reproduzido aos milhares. muitas vezes. Mãe d’água. As ninfas do Tibre. Polifemo e Galatéia. se analisamos o processo de povoação dessas regiões. Esta lenda também é encontrada com referência ao rio Tocantins. Aparecendo dás águas com suas gargalhadas. Personagem de destaque no Macunaíma de Mário de Andrade. O rio São Francisco também tem suas lendas. além do imaginário palaciano e de cavalaria. Ana das Carrancas e algumas de suas carrancas de barro Três carrancas de madeira do mestre Guarany A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco Os rios. são repositórios de lendas. vapores assombrados. o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores. preto. recriando a lenda em águas do ribeirão do Carmo. Lembro do poema de Cláudio Manoel da Costa.

que habita nos locais dos rochedos do meio do rio. afugenta os peixes. dos quais muitos dizem já ter o visto. (Fonte: www. o ‘nego d’água’.br) Outro fato narrado no São Francisco e que envolve a figura do Negro D’Água é a seguinte: “Há quem afirme de viva voz que já viu aquela figurinha atarracada de cabeça grande e olho no meio da testa. percebendo ao se aproximar que se tratava de um cavalo. quando o animal afundou e logo em seguida. comumente depois que os trabalhadores se acomodam para dormir. O fato é que o nego d'água. para que não tenham sua embarcação virada. costume que faz com que os pescadores atirem fumo a água para cair nas graças do negrinho que gosta desse agrado. Suas características são muito peculiares. Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas. que imediatamente atirou para o neguinho que dando cambalhotas. adora fumo. Não há evidências de como surgiu a Lenda. ao sair para pescar. percebendo o pescador que um nego d’água agarrado à borda da embarcação tentava virá-la. Remou apressadamente em direção ao animal. o que provoca tombamento do mesmo. com um anfíbio. para avisar ao dono. tange-os para longe da rede de pesca. e aí tentou encostar a canoa para verificar a marca ou ferro. pois a noite os pequenos só se aproximavam da água acompanhados por adultos”. ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio.com. ele nunca se afasta muito da beira do rio. o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele. Quando não gosta de um pescador. Segundo a Lenda do Negro D'Água. Como a caipora.com. o que sossega os corações das mães. principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil e no Rio São Francisco. muito difundida entre os pescadores. Nesse instante lembrou-se o pescador que trazia um pequeno pedaço de fumo. costuma aparecer nas casas de farinha das ilhas ou dos barrancos e noite de farinhada. furando redes e dando sustos em pessoas a barco.Alguns pescadores guardam o hábito supersticioso de. sua função seria a de amedrontar as pessoas que por ali passam. que amedrontam o caboclo d’água. Apesar de viver também fora da água. Para afugentá-lo desses locais que terminava alargando o rio. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio. passeando entre os que estão adormecidos. Alguns dizem que existe apenas um nego d'água em todo o rio. agradando assim o Negro D’Água.valedoriosaofrancisco.valedoriosaofrancisco. povoa a imaginação de todo menino beiradeiro. Conta-se o caso de que certa feita no Rio São Francisco deu-se o seguinte acontecimento: “Um pescador contou que pescava a noite quando percebeu um vulto de um animal morto boiando na correnteza. partindo anzóis de pesca. (Fonte: www. espécie de versão afro-masculina da sereia. a canoa foi sacudida. como também escava suas covas na base do barranco da beira do rio. ele seria a fusão de homem negro alto e forte. os beiradeiros jogam nesse ponto cacos de vidro. para roubar-lhes fumo ou beiju”. levar uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio. outros dizem que são muitos. corpo coberto de escamas mistas com pele.br) 58 . desapareceu no fundo das águas.etc.

A. Nós remou depressa pra lá.Segundo o site da prefeitura de Juazeiro. nas águas do São Francisco. com doze metros de altura. turistas ou crianças descem à pedra e rodeiam à estátua. Eles três tavam numa canoa e. A referida obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira é de grande beleza plástica. pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar. Macedo. no escuro que fazia. adaptado às condições mesológicas do São Francisco. causa uma surpresa na paisagem das águas ao olhar do observador. Muitos desconhecendo a lenda ou o motivo da obra se perguntam como ela foi parar lá no meio do rio? Ao aproximar de barco ou de canoa da estátua ela começa a impressionar pelo tamanho. o caçula. se diz a respeito da lenda que: “O Nego D’ Água vive no fundo do rio São Francisco. Nisso. Eu e meus dois menino. E nós viu. aqui chamado de Caboclo D’Água: “O senhô pode me creiá. sentada sobre uma pedra. A estátua do Negro D’Água. Conhecido também como compadre das águas. embaraiando o sem-vergonha. 1977. segundo ribeirinhos. o artista plástico Ledo-ivo Gomes de Oliveira criou uma de suas principais obras plásticas. A estátua que se vê como que emergindo das águas. oferecendo-lhe fumo.” (TRIGUEIROS. acerca de um ataque do Negro D’Água. 1956) Edilberto Trigueiros no livro A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco esclarece a respeito da lenda do Negro D’Água a sua origem: “Também chamado moleque d’água. O Nego D’Água gosta de batuque nas proas das embarcações e tem o poder de naufragá-las”. 59 . ele arrasta as mulheres bonitas que encontra nas margens do rio e leva para o seu reino. nas informações turísticas da cidade. até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede. o bicho rolar pra dentro d'água. eu mais o fio mais novo. numa pescaria. Macedo. Eventualmente. p. de uns dezoito janeiros de idade. mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: "Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai". Dizem que ele é meio homem e meio lontra. donde nós tava. recriando a linguagem do caboclo. colocada sobre uma pedra. tudo leva a crer tratar-se de um símbolo transplantado do mito hidrolático da Mãe D’Água (a Iemanjá dos negros iorubas do litoral). apresenta-se como materialização do imaginário das lendas. A. Existe uma versão narrada por J. Os homens que não ouvem seus apelos.124) Na cidade de Juazeiro. noutra. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos. Encantado como eles ficou.” (J. maretando o rio. algumas vezes subindo pelas suas costas até seus ombros. ele leva-os para o seu reino como escravos. num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. nós escutou os menino gritando demais.

numa posição de observador tranqüilo mas atento. quando se faz necessário. O personagem é assim redimensionado a um sentido mais humano. Geopolítica. do disforme. modificando assim a descrição geral do Negro D’Água que costuma referir as suas partes baixas como as de um anfíbio.. ele. de tal forma que não nos causa medo. em meio a Brutal interferência do Homem com o Meio-ambiente. continuou seus estudos de Historia. As orelhas são pontudas que lembram as do personagem de Jornada nas Estrelas. Essa versão apresentada por Ledo-ivo tem de certo implicações com uma tentativa – consciente ou inconsciente – de harmonização com preceitos clássicos de estrutura das partes da obra e de aparência segundo dados de uma anatomia fundamentadas no número de ouro e na divina proporção. repugnação ou receio a figura da estátua. de cabeça achatada. cuja relação primordial é com a própria Arquitetura e. funcionando a sua Obra como uma espécie de Marco-humanizador. 60 . Aliás. descritas no renascimento pelo homem vitruviano. como quem quer ver ao longe completa os tênues traços anfíbios. como a utilização do grotesco. apoiando a perna direita dobrada com o auxílio da mão direita. Na página da Internet que apresenta dados do artista. o medo pela agradabilidade. como um Michelangelo à Davi: ‘ Parla !!!’ ” Está claro aí a presença de influências clássicas e renascentistas na obra do artista. mais agradável. De anfíbio o que temos na estátua é uma espinha dorsal externa escamada que parte do alto da cabeça até o cócix. embora os traços pouco lembrem a aparência dos afro-descendentes. o que se poderia classificar como uma obra plástica moderna. liturgicamente. Dr. A figura se posiciona como quem observa ao longe. Segundo o próprio artista sua arte tem a característica de buscar a: “ . com o Urbanismo. no sentido das características típicas do moderno. Semiologia. Spock. sentado sobre a pedra. denotando assim. Sociologia. lapidando assim seu “ Formão da Vida ”.à Verdadeira Expressão desta Arte. Não é. com que. nas bibliotecas e ateliês da vida . o artista plástico se preocupou em apresentar uma versão do Negro D’Água de belas feições e com harmonia das partes.A estátua tem uma aparência bela. essencialmente. O rosto delgado tem sobrancelhas bem definidas e salientes e o pescoço longo. de cor escura é que dá o sentido de se tratar da imagem de um caboclo negro.” No caso da estátua do Negro D’Água encontramos na versão classicizante do personagem folclórico a intenção de buscar esse “significado existencial”. a reportar a esse mesmo Homem o seu próprio Significado Existencial e às suas Origens. entalha e esculpi. mas de imediato nos impressiona a sua beleza harmoniosa. esticado. a certa altura lemos: “Estudante Autodidata. tanto de sua aparência. seguindo o preceito clássico horaciano e aristotélico. a sua Origem Espiritual. Filosofia e Comunicação. quanto de sua pose. mas é clássica no sentido de buscar a harmonia da figura com a anatomia e as proporções da figura humana. Historia da Arte (Antiga e Contemporânea). pois. Substitui-se desse modo na lenda. existem relatos de ribeirinhos que alegam ter visto o Negro D’Água como sendo de baixa estatura e atarracado. A pedra utilizada. A figura tem pés e pernas humanas..

J. Rio de Janeiro. obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira.br/revista/galeria/ca84011f. Belo Horizonte. 2 de dezembro de 1956 TRIGUEIROS.Três fotografias do Negro D’Água. FUNARTE. A. Internet: JANGADA BRASIL.jangadabrasil. "O caboclo-d'água". 1977.com. A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco. http://www.asp 61 . Folha de Minas. Referências: MACEDO. Edilberto.

1. Não poderíamos aqui fazer um verdadeiro livro de arte panorâmico. das carrancas. poder contribuir para o entendimento do processo do imaginário que formou na consciência nacional uma representação do rio. antes o que pudemos fazer é tratar das telas as quais tivemos acesso mais imediato. acreditamos. Com essas considerações. histórico-pictórico a levantar todas ou as principais telas. Pinturas Holandesas 62 . como acerca das lendas. Sabemos que não são poucas as telas que foram pintadas com o tema do rio São Francisco. das festas populares das populações ribeirinhas ao Velho Chico. ou ainda.Algumas Considerações Acerca de Algumas Representações Pictóricas do São Francisco Neste capítulo pretendemos comentar acerca de algumas telas de pintura cujo tema é o Rio São Francisco. telas com temas ao rio São Francisco ligado.

Post pinta uma paisagem das margens do São Francisco. tais estranhezas não alteram o significado geral da planta cactácea ali pintada. vemos uma paca de pelo marrom escuro. o preceito de que o pintor deve escolher o cenário ou o momento mais significativo de um propósito geral para que possa ter nesse momento os elementos que realmente possam expressar o que se deseja ou se busca. é pouco provável que a paca se dispusesse a servir de modelo. sobre umas pedras. Ligeiramente retorcido. um barco atracado à margem. Um de seus quadros. mesmo na distante outra margem que aparece ao fundo. bem como sobre as condições de povoamento. formado por gomos. esta parece dominada por vegetação rasteira ou arbustiva. pinta o rio São Francisco.Começamos por falar das pinturas holandesas do século XVII. é plausível encontrá-la com freqüência próximo ao rio. trouxe algumas contribuições para a formação cultural da região. e com o tronco acinzentado. uma estrada de terra que leva até o forte. principalmente em Pernambuco. Os artistas holandeses a serviço de Maurício de Nassau puderam pintar vários aspectos da vida e da paisagem colonial daquela parte do Brasil. Se pensamos no tempo real que o pintor levaria para a pintura. Franz Post. Acresce a isso. temos na possibilidade da perspectiva aplicada pelo pintor. tranqüilamente ali. com isso Post informa sobre a natureza climática da região. o fato de que em toda tela não se destaca nenhuma árvore. A ocupação holandesa. Franz Post que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644. de avaliar a 63 . A paca ali pintada é com o objetivo de fornecer dados sobre a fauna local. percebe-se o forte holandês. como que querendo beber água. ao que me parece. Pouco à frente do xique-xique. Rio São Francisco Primeiro. podemos observar com destaque às margens. acredita-se que tenha pintado pelo menos 18 telas. bem como da passividade com que as pacas se portavam diante da presença humana na terra ainda pouco desbravada. Ao fundo na outra margem. um xique-xique. Demonstrando a firmeza da ocupação holandesa na região. de modo que nela vemos informações sobre a vegetação e a fauna da região. Seguindo. Natural de vegetação do semi-árido. calmamente. Pelo tamanho da paca e do xique-xique e o tamanho com que aparece o barco e o forte ao fundo. 10 das quais ainda desaparecidas. mas em floração.

Podemos comparar esse quadro de Post com um pintado posteriormente por E. Ainda as águas calmas. dá dados da facilidade de navegação. 64 . Post fez por pintar a cachoeira de tal maneira que parecesse pouco mais do que as que são comuns há muitos outros rios de vazão menor que o São Francisco. Não nos dão os elementos da tela (pedras. Todavia. no modo como dá o efeito de queda d’água. Franz Post pinta a cachoeira de Paulo Afonso.F. Cachoeira de Paulo Afonso A pintura de Post. Colocando-se o pintor num ângulo de relativa distância para que pudesse pintar um plano geral de frente da queda d’água. mostrando aos olhos de que observa o quadro quão largo é naquele trecho o rio. não dá ao observador a dimensão do tamanho da queda d’água. se austríaco. chamada antes pelos portugueses de “Sumidouro” ou “Forquilha”. de como depois. agora. Á época em que pintou ela ainda não tinha esse nome. a beleza da pintura paisagística de Post esta lá ainda presente. praticamente sem ondas.distância duma margem à outra. Noutra tela. porém. suíço ou alemão. Franz Post. vegetação) nada que sirva de parâmetro para uma aproximada medida da cachoeira. já após a queda ela se reconforma para seguir seu caminho e no modo como os rochedos parecem resistir à força brutal da cachoeira.Schute – pouco se sabe acerca desse pintor. inclusive existem dúvidas sobre sua nacionalidade.

como se estivessem convidando o observador do quadro a olhar o cenário e admirá-lo também. Penedo 65 . em que algumas árvores pairam à beirada. Escolhendo um ângulo diferente de Post. como que anunciando um final de tarde. que pintou a região de Penedo. Schute se coloca no alto dos rochedos. no primeiro plano temos o domínio dos tons escuros. numa posição que permita ver o alto da queda. caso se dispusessem a fazer.Schute. Vingboons. mais ao fundo duas figuras humanas servem de parâmetro para que se possa ter noção do volume e da extensão de águas ali. como se buscassem demonstrar a altura da queda. A névoa que se levanta da cachoeira também tem um efeito plástico belo. Em primeiro plano vemos uma palmeira pendendo em direção à queda d’água. Aqui em Schute a pintura paisagística é nitidamente romântica. As figuras estão de costas para o observador. O céu de várias tonalidades de azul no alto. vai baixando para um tom próximo do rosicler ao fundo. mas também percebendo qual dura será a travessia. para alcançar o outro lado dos rochedos. deixando-nos a impressão de que as figuras humanas ali paradas estão não só admirando a paisagem. Jan Vingboons. e as água vem de pelo menos três direções diferentes. Reforçando essa impressão da hora. O quadro é de metade do século XIX.F. O quadro do rio São Francisco de Post pode ser comparado com a ilustração de um compatriota seu. Cachoeira de Paulo Afonso. 1850 possivelmente.E.

as cores das roupas e as cores das casas. o que vemos é uma riqueza de cores contrastantes. natural do Recife. focalizando mais nitidamente as casas e construções da outra margem. as plantações de hortaliças bem verdes.Na pintura de Vingboons vemos uma frota de barcos. outro vem à direita. Um exemplo é o pintor Militão dos Santos. 66 . 2. assim as duas caravelas portuguesas que ali aparecem passam a idéia de que seja a ação de um agressor que vem quebrar a ordem e o progresso do lugar. casas e estradas é que sugerem que em cena existam muitas pessoas em ação. um barco vai à esquerda. alguns com aspectos de barcos de pesca. e a vila aparenta calma. porém seu plano é mais próximo. A vegetação presente na margem de primeiro plano é diferente da que se apresenta em Post. seja nos barcos. uma vez que não temos sinal do xique-xique. Adotando as idéias de composição e cores apreendidas com Rubens Fortes Bustamante. A bandeira das caravelas parece ser de tropas coloniais portuguesas. nas margens ou na vila. as casas. o rio São Francisco tem sido tema recorrente de vários pintores. o verde e o vermelho dos barcos. mas de uma vegetação verde rasteira. o azul vivo das águas. Vemos muitos barcos menores. Pinturas Contemporâneas No âmbito das pinturas contemporâneas e modernas. Os vários barcos pequenos colocados próximos às vilas dão a idéia de um lugar de muita movimentação. sugerindo a descrição do ataque das forças baianas na reconquista de Penedo. o marrom avermelhado e o negro da terra. assim como o vôo dos pássaros. em proposição de complementaridade. Os barcos. um deles inclusive atirando de seus canhões. Não se vê figura humana. Vingboons coloca-se num ângulo muito parecido ao de Post. O movimento também é sincrônico e complementar. os agrupamentos de pessoas. surdo. principalmente os oriundos da região do vale e do Nordeste em geral. Uma de suas telas intitula-se “Rio São Francisco”. Artista de caráter primitivista.

fortes. por vezes numa riqueza de contrastes. a compor o espaço das nuvens. mas as cores vivas. na sua disposição radial de folhas. a sugerir o domínio do Sol. de pintar movimento e variedade de personagens encontramos também em outro pintor da região. bandeiras. Seus quadros são repletos de figuras humanas. e outra superior. fortes. Josinaldo Ferreira . Rio São Francisco A copa das árvores de João Militão. uma intermediária. rica em húmus. Josinaldo Ferreira nasceu em Remanso (BA) em 1951. Parte da terra da plantação é pintada em cor negra. para sugerir o espaço ocupado por duas colinas.João Militão. pintadas como se lembrassem fogos de artifício explodindo ou enormes lírios dos campos coloridos. Por outro lado. tudo delimitado quase que geometricamente. O Sol. uma azul. por sua vez. num amarelo ocre. que se confunde com o horizonte. tem 67 . branca. O céu dividido em três faixas. Mais ao fundo a campina verde se faz presente em duas tonalidades de verde. não está pintado no cenário do quadro. e a riqueza de movimentos e personagens passam essa idéia de dia cheio de luz. sugerindo a idéia duma terra adubada. Essa característica primitivista de utilizar cores vivas. árvores. Sua pintura de caráter primitivista é bem colorida e com bastante movimento. lembrando um bocado das pinturas modernistas da década de 20. casas.

no que concerne à forma e ao uso da perspectiva. mais paisagística. demonstrando assim um certo aspecto de isolamento do lugar. como se essa paisagem se mantive repetitivamente sendo reencenada. Rio São Francisco No quadro que apresentamos nesse artigo. Sua técnica. lembra a dos românticos paisagistas como Benedito Calixto. Na margem do rio. como se as águas do rio dirigem-se nosso olhar para o infinito. carregado de pessoas e bandeirolas. 68 . pessoas fazem acenos para o barco. Ao fundo. reconfigurada para o momento contemporâneo. Essa forma festiva de apreensão pictórica da realidade local é uma característica advinda da simpatia e da amabilidade da população ribeirinha que apesar das dificuldades cotidianas sem mantém assim por natureza mesmo de sua gente. passa a impressão da circularidade. o tempo é circular. tudo numa configuração de movimento mais calma. podemos notar o barco passando pelo rio São Francisco. criando uma relação de similaridade com o rio. a perspectiva e a disposição de seus elementos criam essa sensação. A terra vermelha e a cor bronzeada da pele das pessoas dão outra similaridade ao quadro. atualizada. o rio é colocado em perspectiva. mais lenta como o fluir das águas serenas do rio São Francisco. nessa tela. pessoas lavando-se ou lavando roupas. Joel Dantas. Na margem umas canoas. Porém. Assim. confluindo nas matas ciliares que acompanham o rio. quanto à Lua aparecendo e recebendo ainda os raios do Sol que se encontra ao poente. na outra margem. Augusto Muller ou Fachinetti. O céu azul e branco pintado como parte de uma abóbada. uma vela dum pequeno barco. todas com listras horizontais.também uma certa similaridade com as xilogravuras nordestinas. o céu azulado e um astro avermelhado que tanto pode ser o Sol em rosicler. para o longínquo. perpendicularmente ao olhar do observador. Josinaldo Ferreira. coqueiros. Notemos as camisetas listradas das pessoas. O uso das cores. No quadro “O Velho Chico”. nascido em Pilão Arcado (BA) em 1950. também se notabiliza por uma pintura com temas locais – do rio São Francisco e do sertão – mas sua técnica é diferente do primitivismo de Josinaldo Ferreira.

o objetivo é justificado. O cenário apresentando em pouco difere da técnica comentada do quadro anterior. tela e moldura. O distanciamento do olhar do observador faz que vejamos um panorama de pessoas nadando. Rio São Francisco Joel Dantas tem outra tela. entre março e maio de 2007. mas apenas nesse sentido. “O Velho Chico. ao centro da parte inferior da moldura. fechando numa torneira. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira”. mulheres e homens ali numa conjunção prazerosa com o rio. apresentada na exposição “Águas de Março”. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira Aqui a contradição é absoluta. uma vez que artisticamente talvez fosse merecedora a tela também de uma pintura 69 . mas tem outra mais latente ao meu modo de ver. Joel Dantas. Um barco com carranca aportado à margem. A moldura em pvc cria um contraste de tal densidade com a tela que é difícil pensar numa unidade artística entre ambas. Crianças. a contradição de estilos. não só de conteúdos: a água do rio e a água encanada que nunca chega. se divertindo ás margens. feita de canos de pvc. O Velho Chico. também de pvc. exceto por conter uma maior movimentação das figuras e uma vida mais alegre. promovida pela ONG Sociedade Semear. Se o propósito foi a crítica ao modo como as questões do rio São Francisco são tratadas.Joel Dantas. O título provocativo se justifica pela moldura.

as praias do litoral nordestino são seus temas preferidos. a margem virtual que aponta para o espaço real em que se encontra o observador do quadro. é de se teorizar sobre a técnica. Paul Berenson. pintor norte-americano. estivesse o artista olhando pela janela do avião a paisagem e se inspirou por retratá-la. sem camisa. São formas diferentes de apreender a realidade pictórica do vale do São Francisco. Sua pintura. rica de contradições históricas. Nesse ponto. atualmente vive em Portugal. o que nos passa é a idéia do distanciamento. esta mesma. O Brasil é um dos seus destinos preferidos. Suponho. mas por outro lado. mas diferente de Josinaldo Ferreira. sinalizando que este se aproxima da margem. num predomínio dum plano mais próximo. No quadro “Carranca do São Francisco”. a floresta Amazônica. mas apresentado na sua crueza. a perspectiva é colocada de modo que o observador como que estivesse numa posição inferior ao barco. sociais. numa técnica mais abstrata ou concreta. Desde 1971 este pintor vem construindo um conjunto de obras com mais de duas mil telas. Carranca O barqueiro. O Rio de Janeiro. emprega uma técnica de suspensão ou indefinição do fundo e de valorização da figura de primeiro plano. meio fantasmático. choque que não foi resolvido. Salvador (BA). sobre usa contemporaneidade. Aqui a idéia de uma viagem de solidão se contrapõe à alegria festiva do barco de Josinaldo Ferreira. ouve o choque entre a linha de pintura do autor e a ousadia da mensagem provocativa. deve-se também observar esse distanciamento como significativo mesmo da 70 . O fundo todo azulado mistura-se com as águas do rio. é rica de cores. Márcia Berenguer Cabral nasceu em 1948. culturais e por isso mesmo. desafiadora e envolventemente neobarroca. assim a carranca se situa num canto superior da tela.que se ajustasse melhor ao quadro. O que se vê é uma abstração pictórica da visão área que se tem da boca do rio. sugerindo quase que uma névoa. Num certo sentido. de caráter modernista. parece ter que fazer uso de força para empurrar com o remo o barco. como que querendo assustar a quem a vê. mais geométrica. costuma pintar quadros dos locais por onde viaja. penso eu. O barco com a carranca surge assim. Márcia Berenguer Cabral. meio místico. vindo de outras eras para o presente do observador. Um de seus quadros intitula-se “Mouth of São Francisco River” e nesse caso.

porém. se mistura com o fundo. Êta Transposição 71 . como se fosse também pelo peso da água acumulada. “Êta Transposição”. compondo uma forma indefinida que só ganha sentido concreto quando olhamos seu título. enfim. O título. o distanciamento revela-nos quase um quadro abstrativista. também vermelho. A tela lembra um pouco um estilo de pintura de Tarsila do Amaral (“Abaporu”. No caso particular dessa tela. modernas e artísticas acerca da pintura. mas pela robustez delas. “O Ovo”. 1942). No quadro de Mallet vemos uma espécie de cacto que. que seria mais interessante se não tivesse o título e poderíamos aventar hipóteses mais estruturalistas. portanto. Penso eu.compreensão do lugar. O fundo é todo de tons vermelhos e o Sol. esse é seu olhar. Uma baga superior se empina firme em direção ao Sol. o olhar de turista encantado com a Natureza local. da gente e da terra que retrata em suas telas. “Antropofagia”). Duas delas. Paul Berenson. São Francisco Mouth Na já cita exposição “Águas de Março”notamos o quadro de Alfredo Mallet (Rio de Janeiro. se constitui de três bagas bem rombudas. revela-nos apenas o óbvio. O verde e o azul. caindo pelos lados. o de um pintor turista. faltam os espinhos. dando a entender que caem pelo excesso de calor e aridez da paisagem. Alfredo Mallet. Locais turísticos. Pelo contrário.

nos remetem a um novo tópico. o processo se deu. sendo vencido aos poucos pela incongruência da paisagem. e sua comparação com as citadas obras de Tarsila. qual seja a questão do modo como os modernistas de São Paulo e Rio de Janeiro viam o processo de interiorização. ou. Na exposição “Águas de Março” apresentou a obra “Lágrimas de Opará”. de modo que sua aparente robustez logo se desvanecerá. tem resultados insatisfatórios. no mais das vezes. mas é de se destacar nesse quadro. Ou entendemos que a obra é contrária à transposição. Ainda se pode interpretar que o estranho cacto ali no cenário semi-árido seja simbolicamente o próprio projeto de transposição. como se fossem as lágrimas num choro contínuo. a aridez. Os filetes derretidos caem sobre um bloco. representativo desse processo. caem pela sua frente e continuam pelo chão. o aspecto ecológico entra como componente crítico de avaliação do processo de interiorização. pois. cerca de 70 anos após o advento do Modernismo. seja pelo desequilíbrio ecológico. a necessidade desse processo. 1956) destaca-se como artista pelo trabalho de escultor. Antônio da Cruz apresenta uma máscara em cobre. seja pelo modo consumista e destrutivo com que. porém tal luta. uma vez que apresenta o calor. aludindo assim a provável falta de planejamento que os críticos do projeto buscam demonstrar. A lembrança com o estilo de Tarsila do Amaral não é uma característica constante da obra de Alfredo Mallet. ou melhor. Lágrimas de Opará 72 . de cujos olhos escorrem dois filetes derretidos de aço inoxidável. nesse sentido. SE. algo ambígua. Antônio da Cruz (Maruim. na maioria das vezes.A terra num tom ocre oleoso sugere a aridez do terreno. A luta do homem para o domínio da Natureza de modo a torná-la sujeita as necessidades humanas. por outro lado. Recuperando o nome indígena do rio São Francisco. O cacto na tela de Mallet é. A interpretação do quadro é. entendemos que a transposição viria a solucionar o problema da seca. Assim. Antônio da Cruz.

A obra num estilo bem contemporâneo.Era uma Vez um Rio São Francisco”. uma homenagem ao gênio Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). Assim é como Ismael Pereira define a exposição. como ele mesmo intitula uma de suas exposições. o político-social. Ícone do neo-regionalista. É uma coisa muito universal.br/noticias/19820081283251459) Porém.cinform. 73 . se faz submergir diante do sentido extra-artístico.. Não raras vezes o desejo de engajamento numa causa política ou social. os galos de briga. num processo em que tal transformação resulta numa diminuição de suas qualidades estéticas. Lá estão a fênix.” (fonte: http://www. Numa notícia chamando a atenção para a última semana desta exposição. transforma o produto artístico em panfleto. No caso da obra em questão. A máscara se apresenta como o mito antigo diante das contradições do mundo moderno. que se realiza no próprio meio. ao bom estilo modernista. ele enveredou pelo abstracionismo porque possui qualidades para dominar. declara o sergipano de Capela. aço inoxidável e cobre dão uma concretude contemporânea. aqui é o próprio quem chora agora e suas lágrimas são de aço derretido. Um fundo cinza. ressignifica o mito de Opará. vemos uma tarja preta com a frase: “. Assim. temos a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” de Ismael Pereira. o antigo Farol da Atalaia e. “Eu acho que o abstrato tem como pátria a humanidade e como bandeira. denuncia um processo apressado de engajamento. chorando a ausência de seu amado guerreiro. Os materiais usados. O vocábulo portmanteau. ao meu modo de ver. o quadro “Era uma vez um Rio São Francisco”. Nem sempre a primeira impressão. Crítica ao progresso desmedido que não se preocupa com a preservação ambiental. a primeira palavra é que melhor se adequa à obra. no caso. uma vez que a mensagem artística. Na mesma exposição. ao invés de ser dominado por esta escola. os jarros com flores.. o sol. lemos: “Os trabalhos são inspirados em temas que vão desde a mitologia greco-romana à cultura popular do Nordeste. do “Neo-regionalismo para o Abstracionismo Informal”. um desenho de uma placa vermelha com o dizer “TransImposição”. o equilíbrio em que a obra de arte continue sendo obra de arte e o engajamento sócio-político. E eu gosto muito dessa liberdade”. “Ousadia sexagenária”. uma de suas obras mais conhecidas é justamente uma intitulada “Mandala”. que passa. o rio que na mitologia indígena se forma pelas lágrimas da linda Iati. É difícil conseguir a alquimia adequada. porém. sem perspectiva e uma mandala se coloca ali como o Sol – signo artístico de Ismael Pereira.com. peca pelo excesso de intenção engajada. perpendicularmente à tarja. inclusive.

Pintor cuja influência abstracionista e concreta se faz notar.. As cores de Gonçalo Ivo. Gonçalo Ivo (Rio de Janeiro. assim como também as faixas horizontais se dividem em grupos retangulares e um circular (referência ao Sol). numa delas os tons de azul. da poesia visual. um cartaz. Rico de combinações de cores. seria mais de se considerar a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” uma variante dos poemas postais. 74 . justificadas por um contexto da fluvialidade das águas. duma fase pré-concretista. Assim. Ou de outro modo. por exemplo. temos o domínio dessas linhas horizontais. assim. Aurora.Ismael Pereira. mundo da realização das formas em matéria plástica. branco e negro combinam-se e alternam-se nas faixas horizontais dando a dimensão plástica das águas do rio. o vermelho do calor e do Sol. o suplantem. ainda.Era uma Vez Um Rio São Francisco O verbal aqui suplanta o pictórico. A pintura de Gonçalo Ivo é de uma geometrização que confere ao pictórico uma dimensão lúdica numa interface com a realidade física que abre o jogo entre a abstração. pelo modo metalingüístico e poético com que se apropria de lemas da revolução russa. os cartazes poéticos dum Maiakóvsky. As cores formam o espectro do cenário: o verde das matas. Em “Aurora” as cores são mais quentes. e a realidade concreta. abstraídas de suas formas. o azul das águas. com domínio das linhas horizontais. o branco de nuvens. e. . mas nesse caso. Nas três telas acerca do Rio São Francisco. uma delas subintitulada. a obra acaba se realizar como um panfleto. enquanto mundo das idéias das formas. 1958). tem um conjunto de três telas acerca do Rio São Francisco. redimensionam o espaço pictórico num jogo criativo e encantador aos sentidos visual e táctil.. uma poesia visual cuja visualidade se encontra subordinada ao verbal. um poema assim. filho do poeta Ledo Ivo.

Referências CIA.Telas de Gonçalo Ivo com o tema do Rio São Francisco Uma terceira tela. embora tenha o título apenas de “Rio São Francisco”.org. São Francisco: O Rio da Unidade. As cores dominantes são os tons de vermelho e marrom.cinform. VALE DO SÃO FRANCISCO.com. Não é esse panorama completo nem extenso. A Pintura no Brasil Holandês. me parece o pintor que melhor soube apreender a natureza pictórica do Velho Chico. DESENVOLV. O que busquei comentar nesse capítulo foi. http://www. Internet: CINFORM: “Última Semana Para Ver a Ousadia Sexagenária de Ismael Pereira” Postado em 19/08/2008. A matização da tela assim substancia o rio como um rio sólido. SP. em que o fluídico se encontra disfarçado pelos tons mais densos. em termos de técnica abstracionista. me suma. É o reflexo do rosicler solar sobre as águas turvas do rio. bem pode ser subdenominada de “Entardecer”. Mercedez-Benz do Brasil. http://www. Rio de Janeiro. na sua morosidade do ritmo de entardecer sertanejo. São ás águas calmas do rio São Francisco refletindo a luz. Gonçalo Ivo. LEITE. José Roberto Teixeira. 1967.sociedadesemear. Assim. 1978. mas me ative as telas que tive maior familiaridade e contato.br 75 . um breve panorama quase crítico das representações pictóricas do Rio São Francisco. São Bernardo do Campo.br/noticias/19820081283251459 SEMEAR: “Exposição Águas de Março”. sendo que muito provavelmente esqueci ou deixei passar telas significativas da história pictórica do tema em questão. GRD. dentro do conjunto.

O mamulengo é 76 . O teatro de bonecos era comum na idade média na Europa. incluindo-se aí um longo espectro de adaptações e modificações. Era comum um espetáculo de bonecos denominado de “Presépio” de característica de difusão do imaginário cristão. inclusive em Portugal. sendo apoiado pela Igreja. à transposição de lendas européias para a cultura brasileira.Mamulengo Revisitado: A Arte das Mãos na Ligeireza dos Bonecos A origem do teatro de bonecos chamado de “mamulengo” perde-se um pouco no próprio processo de aquisição de cultura durante a colonização. A chegada do teatro de bonecos está associada também à chegada da arte circense.

no entanto. articulado e movimentado por varetas. da boca e até dos olhos. Além destes. Assim.os bonecos são ligados por fios a um controle. por exemplo. Os personagens típicos do mamulengo são definidos por uma tradição que representa papéis sociais que se cristalizaram na formação da sociedade nordestina: o coronel. Catirina. Papafigo. Nesse sentido. algumas vezes. em alguns casos. conforme a técnica utilizada. que chega ao teatro de bonecos como forma de diminuir a possibilidade de participação do ator na construção do texto teatral. o policial (a volante). A origem do termo parece estar implicada com a corruptela da expressão “mão molenga” com que se definia a habilidade do bonequeiro em movimentar o boneco. a comédia tornou-se o gênero característico.boneco com cabeça de madeira. daí espalhando-se para estados como Alagoas. o cachorro. o padre. podendo também ter fios para os braços e as pernas. a onça. que permite ao manipulador movimentá-los. diferindo do Presépio medieval com caráter mais religioso e mesmo de desenvolvimentos mais acadêmicos ou eruditos como o teatro simbolista de marionetes de um Maeterlinck. Tal habilidade. partindo da cabeça para a mão do manipulador. Piauí. a nosso ver. a técnica dos bonecos suspensos por cordões ou cordas. vestindo um camisolão de pano. cujo movimento é produzido pela mão (dedo indicador colocado na cabeça e o polegar e o médio nos braços). num certo sentido. ao passo que no mamulengo era a mão do bonequeiro que dava sustentação e a forma definida ao corpo do boneco ao ser introduzida por debaixo do boneco em orifícios próprios para a ação dos braços. o Cabo Setenta.os bonecos são suspensos por uma haste de metal. Simão. Modernamente a distinção entre o teatro de bonecos e o teatro de fantoches tornouse muito tênue. de massa ou papelão. conhecida como “Jan Pickel Herringe”. tendo o mamulengo incorporado. ou ainda. o papagaio e o jacaré. Rio Grande do Norte. definiu aspectos do mamulengo como um teatro de bonecos que. o briguento. principalmente em Pernambuco. o galo. etc. dos seguintes tipos: a) de luva (ou também “guignol”) . existem os personagens que representam alegoricamente determinados valores de conduta. Há também os bichos. o teatro do mamulengo já tem como padrão a utilização do palco de bonecos e da separação visual entre o bonequeiro e o boneco. c) de haste . Mané Pacaru e João Redondo. o molenga.boneco de madeira ou outro material. como a raposa. de uma cortina que separasse visualmente o bonequeiro do boneco. o mamulengo se aproximava visualmente da performance do ventríloquo. por vezes. etc. d) de fio . A origem do mamulengo em Pernambuco está associada ao período da invasão holandesa. uma vez que por aquela época era uma arte comum na Holanda. o Moleque Benedito. Hoje. Nesse aspecto. hoje se considera que os bonecos de mamulengo podem ser. o valente. Quitéria.característico do Nordeste. cordões ou cordas que sustentam o boneco. 77 . dispensava a necessidade de uma caixa para palco. A tipologia das personagens demonstra. Essa tipificação característica de personagens se eleva um pouco mais quando notamos a ocorrência de personagens com nomes próprios mais delimitados como o Professor Tiridá. como o teatro de bonecos mamulengo conseguiu absorver um procedimento crítico da sociedade fundado na técnica da alegoria e da ironia. b) de vareta . feito de madeira. Diferia o mamulengo do teatro de fantoches ou de marionetes pelo fato de que no teatro de fantoches a ação dos bonecos era mediada por linhas. temos nesse caso o bondoso.

Se o Cabo Setenta nos faz rir. se liga ao mito de Orfeu e sua descida aos infernos e num contexto cristão à aventura de Jonas no vente da baleia. p. o rapaz Simão tenta então resgatar o boi do ventre da cobra e acaba por entrar no ventre em busca de seu animal.ex. mas também de configuração maia e egípcia. Introdução: O Rei e seu Castelo O Brasil foi o único país da América do Sul a ter um período monárquico ligado às tradições e às famílias nobres européias. Simão é a prefiguração do dizer euclidiano-pós-positivista de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”. Aqui. associada historicamente como parte do aparelho de institucionalização do coronelismo. O resgate do boi nos faz lembrar do poema “Cobra Norato” de Raul Bopp. e em outros casos. tanto mais que os personagens característicos costumeiramente acabam por se construírem sobre estereótipos de papéis sociais enraizados na estrutura da sociedade nordestina. A figura simbólica do boi nas histórias populares do Nordeste. no lugar da conquista do amor ou da validação do poder da fé. O nosso século XIX foi marcado nesse âmbito pelos dois reinados (1822-1889). De certo modo. Do mesmo modo. em que o boi depois de aprender a dançar é engolido por uma cobra. o que temos é um processo de carnavalização (bakhtiniana) na formulação e apresentação do espetáculo do mamulengo. não poucas vezes. personagem sincrético entre elementos do imaginário cristão. entre outros. terminando o século pela proclamação e instalação da república nos governos de Marechal Deodoro e Floriano Peixoto (1889-1894). A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira 1. o que temos é uma outra mensagem simbólica: a persistência. Sabendo revisitar os personagens criados por outros mestres mamulengueiros. aqui é articulado com a figura da cobra grande (originária do imaginário indígena). personificam a visão da sociedade por um viés que na sua forma satírica e estereotípica faz por desnudar as contradições dessa mesma sociedade. O Nordestino materializa sua fé na persistência. As ligações com as famílias nobres européias superavam os limites do domínio da metrópole. o padre. indígena e africano. misturando ainda elementos de personagens folclóricos diversos. antecedido pelo período da permanência da família real portuguesa (1808-1815). desprovidos de estrutura logística. a mulher fofoqueira. a namoradeira.A comédia no mamulengo. denotando sua universalidade enquanto arquétipo (a serpente emplumada. uma vez que a própria família real portuguesa mantinha laços estreitos por meio de casamentos e outras 78 . em que o poeta se veste da pele de cobra e sai em busca da princesa do sem fim. Waldeck de Garanhuns é um artista do mamulengo que tem se destacado por um trabalho de revisão e reinvenção dessa arte. mas também. mas principalmente por que a personagem alegoriza-se sob a visão popular acerca do policiamento nas pequenas cidades do Nordeste.). Uma de suas peças mais conhecidas é “Simão e o Boi Pintadinho”. assume a condição de sátira. porém. muitas vezes. vai também acrescentando os seus. não é tanto pela sua inabilidade de polícia e pelas trapalhadas pelas quais passa e provoca. de pessoal treinado e de recursos os mais variados para seu trabalho. na constância de busca de superação dos limites impostos pela maquiavélica exploração social das agruras das intempéries. acrescido dos interregnos da regência (1831-1840) e do reino unido (1815-1822).

em Goiás.alianças familiares com as famílias da Áustria. com quem casara por procuração. Assim. Gastão de Orléans. devido à Revolução de 1848. Francisca. Sintomático e exemplar disso é o episódio de Canudos. temos sim que levar em conta o imaginário cristão católico de que Portugal foi um grande difusor. Se cruzamos a influência histórica da coroa portuguesa e da monarquia brasileira com a simbologia cristã temos o amálgama completo que dá razão à existência desse apego do imaginário na cultura brasileira à figura do rei e de seu castelo. em Pernambuco entre Era filho primogênito de Luís Carlos Filipe Rafael de Orléans. 28 de Dezembro de 1889). No Brasil o Cond’Eu 4 e a imperatriz Teresa Cristina 5 eram. Leopoldina. Alguns cronistas relatam que o casamento só teria se consumado um ano depois e que o imperador só não remeteu a esposa de volta à sua terra natal graças à intervenção de D. Se contarmos ainda o longo período colonial de ligação com o governo monárquico absolutista e centralizador português. aos 15 de outubro de 1864 (fonte: Wikipédia). e de Vitória Francisca Antonieta Juliana Luísa. D. princesa de Saxe-Coburgo-Gota. dado por seu avô. Mas as princesas tomaram a liberdade de escolher seus noivos. Pedro II. 5 4 Dona Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltazar Melquior Januária Rosália Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bondosa André d'Avelino Rita Leodegária Gertrudes Venância Tadéia Espiridião Roca Matilda de Bourbon-Sicílias e Bragança (Nápoles. da Espanha e da Inglaterra inclusive. (fonte: Wikipédia). mas sim o reino de Cristo. duquesa de Saxe. filha única do general e duque Fernando Jorge Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. rei da França. da França. aos príncipes Gastão de Orléans e seu primo. Augusto de Saxe. Família Imperial . Isabel Leopoldina Cristina de Bragança e Duas-Sicílias no Rio de Janeiro. imperatriz Teresa Cristina e D. Isabel Leopoldina. ao conhecer a esposa. Pedro teria cogitado em pedir a anulação do matrimônio por conta de seus minguados atributos físicos: era baixa. No Maranhão. É lá que passa a maior parte da infância e da adolescência. Seu nome original em italiano: Dona Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias. com quem casou-se em 4 de setembro de 1842. entre outras pessoas. de D. 79 . em Minas Gerais. Pedro de Alcântara. a figura do rei-santo que voltará a restabelecer o seu reino. Jesus Cristo é apresentado como o “rei dos reis”. foi a esposa do imperador Pedro II. D. encontra no Brasil várias adaptações no imaginário popular. conde d'Eu. Condessa de Belmonte e ama do jovem monarca. Fez sondagens com a ajuda de sua irmã. de origem portuguesa. casou-se com a Princesa Imperial D. a prova direta dessas ramificações para além da família real portuguesa. terceira e última Imperatriz do Brasil. manca e feia. Estes chegaram ao Brasil em 1864 para se casarem. Luís Maria Filipe e de D. é obrigado a fugir do país com a família. Filha do rei Francisco I do Reino das Duas Sicílias. D. Aos seis anos. Mariana Carlota de Verna Magalhães. Pai de D. o rei da França. princesa de Joinville. A propósito de Dom Sebastião. refugiando-se na Inglaterra junto ao ex-rei da França. Antônio Gastão. Pedro II do Brasil queria que suas filhas. É claro que tal simbologia do rei e do castelo não se deve exclusivamente à ligação com a monarquia em Portugal e no Brasil. com Leopoldina e Isabel. no qual Antônio Conselheiro em suas prédicas denunciava a república como a grande inimiga da fé e preconizava a volta de um mitológico Dom Sebastião que viria restaurar não a monarquia ou o reino de Portugal. seu enlace foi motivo de decepção para o marido. respectivamente. temos então as razões históricas para o desenvolvimento e a permanência no imaginário brasileiro da figura do rei e do castelo. neto de Luís Filipe. Há quem afirme que.da esquerda para a direita: Conde d'Eu. a D. No imaginário cristão. D. Ganhou o título de conde D'Eu ao nascer. Isabel e D. 14 de Março de 1822 — Porto. duque de Némours. se casassem com chefes doutras dinastias para dar continuidade à linhagem.

Dom Sebastião no Brasil. ofício ou função que logo recebe a denominação de rei. The King of Crime (1914). Havendo uma continuidade entre o governo de D. Sinhô foi o “Rei do Samba” ao passo que Moreira da Silva. tendo porém a ausência de um período monárquico na fase independente. Para fins comparativos. ameaça e que se caracterize como algo do exterior. A guerra da Independência americana e o domínio do protestantismo parecem que são fatores a diminuir o sentido que a figura do rei poderia ter no imaginário norteamericano. foi por décadas conhecido como o “Rei da Juventude” 7 e hoje. Roberto Carlos. Este de deus da mitologia grega passa a rei do carnaval num longo processo de transformação do festejo. Perspectiva.outros estados. Reginaldo Rossi é por muitos considerado o “Rei do Brega”. uma das principais manifestações populares do Brasil. Podemos pegar como exemplo os Estados Unidos. basta atentarmos para um outro país cuja colonização tivesse sido marcada pela sujeição à uma metrópole monárquica e a religiosidade. a pilhéria. 2005. mas tão somente um estado de exílio. 6 De fato. Al Capone foi cognominado o rei do crime em livro de Nate Hendley. São Paulo. vez por outra é utilizada para qualificação de um elemento arquetípico que represente perigo. o único rei admitido sem restrições no imaginário WASP (White. o Rei Momo. ainda apresentado simplesmente como “o Rei”. uma breve observação sobre alguns índices encontráveis na linguagem cotidiana já é um suficiente para a constatação dessa simbologia no imaginário do povo brasileiro. se apresenta como o desfile da corte e dos súditos para um rei. col. 25. Pelé é o rei do futebol. Tendo como marca a basófia. década de 70) e Didi (príncipe etíope). já um pouco passado na idade e no estilo musical.João VI e o reinado de D. 6 80 . Ayrton Senna foi o “Rei das Pistas”. Na cultura norteamericana a idéia do rei como adjetivo mais comum para alguém que se destaque nalguma profissão. Khronos. O carnaval. 7 O movimento musical denominado de Jovem Guarda tinha não apenas o rei. se constituiu uma hierarquia monárquica com o príncipe do futebol (Dirceu Lopes. AngloSaxonic and Protestant). em que já se pese mais de um século de período republicano. Mesmo expressões como “the king of rock” parece ter sua origem na Inglaterra e não nos Estados Unidos. “the big”. a crítica sarcástica e a alegria desmesurada. Satan é o “Prince of Darkness” uma vez que não pode existir o reino das trevas que se oponha o reino de Deus. substituindo o imaginário do rei luso pelo sentimento A esse respeito indicamos o trabalho de Marcio Honório Godoy. dominada pelo imaginário cristão. Por outro lado. “the magic”. ainda é possível encontrar festas populares cujas representações estão direta ou indiretamente ligadas ao sebastianismo. de Sidney Northcote é um filme que se nos afigura como representativo dessa simbologia. mas a rainha da jovem guarda (Wanderléia) e o príncipe (Ronnie Von). No caso do Brasil. No futebol. que desde o seu início muito têm feito pela eliminação de vínculos culturais. ainda que nosso romantismo inicial tenha se esmerado em se apresentar como antilusitano. sequer podemos falar numa efetiva guerra da independência em que se pese os confrontos na Bahia em 1823 transformados num desconhecido épico de Ladislau dos Santos Titara. A palavra “king” como adjetivo. Jesus Christ é o “King of the Kings”. Parece que o processo de adjetivação nos USA prefere ao “the king” outras qualificações como “the best”. “the star”. assim é caso do King Kong.Pedro I. também. também. políticos e sóciopsicolingüísticos com o passado monárquico. Basta alguém se destacar numa arte. vol. o “Rei do Samba de breque”. arte ou função parece não ser a mais usual.

O aspecto defensivo do palácio é diminuído. Fortificação de tipo permanente. no castelo por vezes tem sobreposto a função defensiva ou de vigilância. Na Idade Média é que os castelos evoluíram para morada dos senhores feudais e nobres. ao passo que no castelo sua função é a de efetivamente. substituindo-se. Ainda convém lembrar que o castelo está associado à idéia de um local afastado do urbano. A suntuosidade do palácio é que o distingue do castelo. ao passo que os palácios são mais característicos do período em que a realeza efetivamente superou os receios de eventuais ataques de hordas inimigas.” Sobre sua origem.francófono. ou quando não. de Fábio Barreto. Lembremos do filme O Rei do Rio (1985). etc. de um chefe de estado etc. barbacã. que conta a disputa entre dois bicheiros pelo domínio da contravenção.” E para palácio o Aurélio define como “Residência de um monarca. acrescido de que o castelo é “Praça forte. a idéia de que o Rei é a qualificação natural para aquele que se destaque num grupo social. fosso. quanto positivo. por amplos jardins. confiando sua defesa aos quartéis e fortificações militares que circundariam e protegeriam os palácios. Uma torre. uma vez que o que seria apenas suntuosidade e pompa no palácio. O Dicionário Houaiss define castelo no seu significado primeiro como “residência real ou senhorial dotada de fortificações” e palácio como “vasta e suntuosa residência de um monarca. No imaginário da cultura brasileira a idéia de castelo apresenta já um anacronismo histórico. o palácio a Wikipédia define exatamente como os dicionários Houaiss e Aurélio. típica da Idade Média. tanto podendo ter um sentido pejorativo. quanto no popular e folclórico. com muralhas. próximo a vias de comunicação. com funções defensiva e residencial. sem portanto. o que facilitava o avistamento das tropas inimigas e as comunicações a grandes distâncias. para realmente ser admirada e vista de longa distância. embora isso ficasse implícito pela designação de “residência de um monarca”. se referia a uma torre de vigilância. além de permitir a observação de vasto terreno tendo em vista sua localização sempre ao alto de uma colina ou montanha. seu âmbito natural. inclusive reis. o Castelo é o lugar do rei. destacar a suntuosidade. Por sua vez. permitir aos acastelados olhar à longa distância.”. Por sua vez. de “castellum” (latim). com Nuno Leal Maia e Nelson Xavier. uma vez que o castelo é uma construção típica da arquitetura medieval. como faz Houaiss. A enciclopédia on line Wikipédia. era geralmente erguido em posição dominante no terreno. fontes e espelhos d’água. de um alto dignitário do poder eclesiástico. de um chefe de governo”. Desse modo a expressão ganha sentido ambíguo. de um alto dignitário eclesiástico. ao passo que a palavra “palácio” parece se referir mais especificamente às construções nobres do renascimento para diante. Romário e Túlio). tanto no âmbito culto e erudito. O Dicionário tem o significado primeiro semelhante ao Houaiss. fortaleza. dependendo de seu contexto. define castelo como “Um castelo (diminutivo de castro) é uma estrutura arquitectónica fortificada.. que se destaca da paisagem citadina por estar colocado no alto de uma colina. como morada preferível tendo em vista a sua condição de fornecer proteção contra ataques. Nesse âmbito é que os castelos são de característica mais própria ao contexto político e social da Idade Média. isolando-se assim do contexto 81 . cercada por torre e um fosso. por exemplo. em primeiro lugar. Dez anos depois a expressão foi utilizada no âmbito esportivo para ser referir à disputa entre três grandes jogadores no campeonato carioca de 1995 (Renato Gaúcho. por exemplo. a necessidade do fosso e das muralhas. no palácio a arquitetura de uma torre tem função mais para ostentação. da qual a revolução francesa logo sucumbiu ao império ditatorial napoleônico tão exaltado num Domingos José Gonçalves de Magalhães. No Brasil.

Teresópolis. eventualmente. além do Rio de Janeiro se notabilizaram por seus palácios. Manuel de Araújo Porto Alegre. Cidades como Petrópolis. de Dom Dinis e de Dom Sebastião. bem como das figuras de Drácula. se dispôs no quadro a imaginar um cenário tipicamente medieval europeu. Grota. Seria isso um anacronismo? Um processo de kitschização? Possivelmente encontraremos esses aspectos na análise de construções que pareçam castelos na arquitetura brasileira. de Carlos Magno. no mais das vezes. O fato de não termos idade média e a absorção ao imaginário popular de lendas e histórias medievais como as do ciclo do rei Arthur. 82 . não está de tal forma elevado que o acesso a ele se faz de forma dificultosa. além da popularização da imagem de castelos mal-assombrados na Europa (em especial na Escócia). Já o palácio está cercado pelo ambiente urbano. a inexistência do período medieval e nossa ligação colonial com a Europa a partir do barroco e do iluminismo fez com que os palácios se tornassem as moradas dos governadores. conhecido pela representação exuberante da natureza brasileira. Na pintura romântica brasileira. entre outras personagens similares.urbano ao redor. podemos nos deparar aqui e ali com construções que embora contemporâneas. de Frankenstein. em geral. Durante o período imperial é que a construção de palácios nobres se destacou. mas como que se coloca numa situação central entre os caminhos da cidade. No caso do Brasil. nos lembram algo de um certo modelo arquetípico dos castelos medievais. No entanto. podemos ver isso no quadro “Grota” em que o pintor. Não é por acaso também que um dos quadros mais conhecidos de Manuel de Araújo Porto-Alegre seja a coroação de Dom Pedro II em que a figura do rei/imperador se materializa no ritual de coroação dentro do ambiente do palácio. criou-se no imaginário popular a necessidade de castelos supratemporais e supraespaciais que poderiam compor a paisagem local materializando a idéia arquetípica do lugar misterioso e de passado glorioso ou histórico. entre outras.

embora não tivéssemos idade média temos castelos de caráter medieval. de fato. estando de fato presente apenas como espaço arquetípico que necessita de preenchimento. não pertencendo a qualquer momento real desse passado. escrevemos apenas sobre os castelos. os palácios e palacetes da aristocracia do café. Coroação de Dom Pedro II O que comentamos a seguir é como o castelo medieval que não tem raízes históricas no Brasil. 2. alguns construídos com material (pedras. Os Castelos do Brasil Para o menos avisado e ao mesmo tempo mais crítico do sentido etimológico das palavras. do tabaco. ao contrário do palácio imperial pós-renascentista tem. o título está correto. Ou seja. Porém. Como se a união do castelo ao cenário brasileiro fosse a recuperação de um ideal de civilização que se acredita perdido. se transforma em ambiente imaginário da sublimação do desejo de realeza e nobreza diante do cenário exuberante da natureza tropical brasileira. o título dessa secção deveria ser “Os Palácios do Brasil”. seguindo a definição que propomos na introdução desse texto.Manuel de Araújo Porto Alegre. com base na etimologia e nos dicionários pesquisados. porém. Ainda se acresce a eles. tendo em vista os palácios construídos durante o período monárquico no Brasil. como se fosse 83 . da cana-de-açúcar. tanto pela família real. do algodão e de outras monoculturas que renderam a alguns o prestígio e a riqueza suficientes para a ostentação materializada em suntuosas moradias. viscondes e duques. de fato. madeira) trazido da Europa para dar à construção maior legitimidade. condes. quanto pela nobreza de barões.

Itaipava RJ. colunas e forros que foram talhados na Europa. o maior castelo medieval do Brasil. terminado em 1920. O castelo tem 42 cômodos distribuídos em 19 quartos. Castelo das Pedras Altas (Pedras Altas – RS). Aberto à visitação pública e sendo uma das mais curiosas e interessantes atrações turísticas da cidade fluminense. halls. que para nosso propósito. mas nos prenderemos a quatro castelos em especial. curiosamente alguns elementos. sala de música. telhas de ardósia francesa. Não comentaremos de todos os castelos. madeira natural do Brasil.1. 7 banheiros. a construção deu aos arquitetos o prêmio de da grande medalha de prata do salão de Belas Artes de 1924. ferragens inglesas. são eles: Castelo do Barão de Itaipava (Itaipava – RJ). vitrais austríacos e pisos de mármore italiano). diversos salões. o barão colaborou no custeio da construção da estrada de ferro Leopoldina.possível transplantar o tempo por meio da materialização da construção com materiais do lugar de origem dos castelos. Castelo do Barão de Itaipava. Para a construção do castelo o material foi trazido todo da Europa (blocos de pedra portuguesa. Castelo Lacave (Caxias do Sul)e o Castelo de João Capão (Garanhuns – PE). eles parecem preencher as nuanças do fenômeno em questão. descendente de família nobre inglesa e portuguesa. Tendo a intenção de reproduzir nos trópicos uma cópia fiel dos castelos medievais europeus o barão solicitou aos arquitetos Lúcio Costa e Fernando Valentim a elaboração do projeto. 2. terraços. escadas. Para o transporte do material. Smith de Vasconcelos. tendo em vista. ala dos serviçais e 84 . foram feitos em jacarandá. o Castelo do Barão de Itaipava foi construído pelo barão J. duas torres. tendo assim direito a que uma estação de trem ficasse dentro dos domínios do seu castelo. como determinadas portas. Castelo Itaipava. Rio de Janeiro. dependências para hóspedes. bibliotecas.

revolucionários e intelectuais. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. cria um sentimento de êxtase estético no visitante como se um processo mágico no tempo pudesse transportar-nos ao cenário dos reis e cavaleiros medievais. o castelo de Pedras Altas busca justificar uma das frases preferidas do revolucionário gaúcho que estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (SP) e foi adepto do movimento republicano: “Em certas ocasiões mais vale um dia de ver do que um dia de ler” . de um desejo de sublimação da realeza perdida com a república (1889). com a diferença que este último é para fins de catarse coletiva e obtenção de lucro com o mundo do entretenimento. importados de Nova York. transformando-se atualmente em atração turística não apenas pela beleza e riqueza de materiais. Um enorme relógio. A medida foi uma das cláusulas do acordo de paz. Chefe da Revolução de 1923. É considerado o único castelo em estilo normando nas Américas e também o maior do Brasil. Á entrada do castelo lê-se os seguintes versos: “Bem-vindo à mansão que encerra / Dura lida e doce calma: / O arado que educa a terra. Cada objeto conta alguma história. Smith de Vasconcelos soube investir na construção dessa obra arquitetônica que transcende a linha diacrônica da história. de seus aposentos e salões. 2. que pertenceu a Bento Gonçalves. assinado no próprio castelo. A beleza de sua estrutura. o barão J.galerias. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça. estilo colonial.” Contendo 44 cômodos. não muito diferente do desejo que faz surgir castelos mágicos na Disneylândia. A construção centenária foi cenário para importantes decisões políticas das primeiras décadas do século passado. O Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas Construído por Joaquim Francisco de Assis Brasil em 1904. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. mas principalmente para satisfação coletiva de um imaginário popular que busca preencher sua história fragmentada com retratos. com móveis. mesmo que montados e/ou anacrônicos. que acomodaram políticos. porém. lembrando sob certos aspectos o personagem queirosiano de A Cidade e as Serras. ao passo que o castelo do Barão de Itaipava era para satisfação pessoal.2. o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845). Assis Brasil determinou o afastamento de Borges de Medeiros do posto de governador do Estado. criando um espaço mágico. mas que tenham uma eficiente dose de magia e ostentação. talvez. aliada à beleza natural da serra fluminense a sua volta. / O livro que amanha a alma. Acreditando que era possível viver no ambiente rural sem necessariamente abdicar do conforto da civilização urbana. o qual havia exercido por mais de 30 anos. argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes" Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. 85 . Fruto.

o transplante do castelo medieval para o cenário gaúcho foi se efetivando de tal forma que não se encontra hoje diretamente anacrônico ou anódino. de imediato. Aos poucos a revolução de 1923 vai se apresentando na biblioteca. 25-11-2003 página 54. Porto Alegre. Antes. pois. Assim visitar o castelo é também conhecer um pouco da história e das contradições inerentes a essa história. a preocupação em todo o país. a surpresa da construção medieval na paisagem cria o antagonismo. nos corredores. que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893. o castelo de aparência medieval vai se reciclando e se amalgamando a um substrato histórico não característico de sua arquitetura. é um castelo que se apresenta impregnado de história política do Rio Grande do Sul. mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. menos consciente desses aspectos históricos. Zero Hora. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou. tomando conta como o fantasma escocês esperado de um castelo medieval: “A paz de Pedras Altas. 86 . Homem de cultura e de experiência política e diplomática num período conturbado da solidificação da república no Brasil. ao adentrar e visitar o castelo essa impressão inicial vai sendo substituída pela sensação de que esse castelo não poderia estar em outro lugar a não ser ali. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular.” (ZAVASCHI. na janela quebrada. Ao viajante.) Desse modo. por isso.Este. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses. o que se apresenta emoldurando o castelo de Pedras Altas é a própria história do município e daquela região. Porém. Olyr. nesse sentido. entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. o conflito de harmonia causado pelas impressões iniciais das diferenças históricas sedimentadas nos estudos de História do ensino fundamental. bem como seja a concretização de ideais estéticos e filosóficos de seu construtor.

As recepcionistas que acompanham a visita vestem trajes medievais e seus salões e corredores exibem tapeçarias. o castelo do vinho. foi reaberto à visitação em 2004. escolhidas com cuidado para não repetir de nenhum reino verdadeiro. ocorrendo inclusive um acidente com morte de operário após a queda de uma das paredes. móveis. Para dar o clima de realismo. passando à família Basso. segundo o padrão característico da construção de castelos. Castelo Lacave. Sala dos Barris de Carvalho. as caves de armazenamento de vinhos. o local de recepção de uva. O castelo ganhou um brasão e as cores próprias para sua bandeira. em pedra. O Castelo Lacave foi resultado do sonho de um empresário espanhol que residia no Uruguai. há até armaduras. como desfile de cavaleiros trajados em armaduras e brasões característicos da Idade Média. Os novos proprietários tiveram extremo cuidado ao decorar e ambientar seu interior com móveis e estilo da época. 2. Salão das Bandeiras. Demorou dez anos a construção do castelo. Terminado em 1968. mas também fica informado acerca da produção de vinho além de ver espetáculos inspirados na idade média. O visitante lá conhece não apenas o castelo. armaduras e pinturas semelhantes às da época. Em 2001 a vinícola mudou de dono. resolveu reconstruí-lo na região vinícola de Caxias do Sul. tornando-se uma das principais atrações turísticas de Caxias do Sul. Descendente de uma família nobre espanhola.3. com ambientação pré-renascentista. os visitantes são recepcionados na Sala dos Tronos. 87 . Além da visita histórica. seria a sede da vinícola Chateau Lacave. objetos. passando para a Sala das Cruzadas. Construção sofrida e demorada em razão da falta de experiência acerca da construção de castelos. Assis Brasil de Pedras Altas. e depois de uma reforma e recuperação. Ao entrar. os visitantes aprendem os processos de produção de vinhos para apreciar ainda mais esta bebida milenar.Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. a taberna e varejo. e tendo uma planta original de um castelo que pertenceu a sua família no século XI.

a suntuosidade não existe nesse castelo. O Castelo de João Capão em Garanhuns (PE) O Castelo de João Capão no Agreste Meridional Pernambucano. além da taberna para degustação de vinhos. à beira da Br-423. Tendo ainda como elo fulcral a descendência de seu construtor e associando-se à simbologia do vinho. quase nos esquecemos que o castelo foi construído em 1968. Incluído já no roteiro turístico da cidade. 88 . ou seja. sem posses. para se transformar num restaurante temático.Castelo Lacave. um espetáculo que encena a história medieval européia. A imitação como base da mimesis fornece aqui o elemento de catarse para o visitante desejoso de vivenciar um pouco de tradição.4. que decidiu construir um castelo depois de assistir filmes no cinema da cidade em que via castelos e reis da idade média. Caxias do Sul (RS) Possuindo um restaurante. se destaca na paisagem modesta do subúrbio em que se localiza. como empreendimento é um sucesso. ainda que apenas como espetáculo ou como representação. a festa mais importante de Garanhuns. É assim. O construtor foi apelidado de Capão. um pedaço reconstruído da Idade Média transplantado no tempo e no espaço para o Brasil. confirmado a necessidade inconsciente do imaginário popular brasileiro de preenchimento de um arquétipo vago na nossa cultura opacamente marcado pelo substrato histórico do período colonial e monárquico. o espetáculo que é uma visita ao castelo Lacave se transforma numa experiência estética de tal complexidade e amplitude que a realidade se vê subvertida pelo objeto artificial. não mais que 40 anos. conta com a doação de visitantes que por curiosidade comparecem ao local. porque além de eletricista foi goleiro de um time amador e era considerado por alguns como “frangueiro”. 2. o que confirma o índice de mais de 70 mil visitas desde que foi reaberto. em que o local é alugado por modestos 200 reais. o Castelo de João Capão. no município de Garanhuns é o menos imponente e suntuoso dos castelos aqui mencionados. Fruto do sonho de um eletricista. Ainda em construção. Assim. ou quando do Festival de Inverno da Cidade. De fato. de história e de mistério antigo. Aqui a história é uma representação. iniciada há 17 anos. daí o apelido de “capão”. o Castelo Lacave faz o inverso do processo histórico que determina a característica do Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. somando-se à reprodução de espetáculos de cavalaria medieval.

tem janelas e torres em estilo pós-renascentista italiano. ainda em processo de acomodação. O Palácio justifica o epíteto de palácio pela forma arquitetural. por dentro. João Capão teve despertado aquilo que já subjazia no seu inconsciente advindo de um inconsciente coletivo e arquetípico. porém. não o desmistifica. uma caricatura quase kitsch de um castelo. Se um Policarpo Quaresma teria convulsões diante de tal construção é apenas porque veria ali a contradição mais forte e característica de nossa formação como nação e cultura. assim como temos casas com colunas jônicas ou dóricas. O castelo. carecendo de conhecimentos arquitetônicos e históricos. esta impressão vai se desfazendo. alguns templos de igrejas evangélicas que se apresentam com torres medievais no lugar do campanário.Castelo de João Capão. Essa desconstrução do castelo no castelo de João Capão. o que não ocorrera com os castelos anteriormente aqui comentados. O banheiro. porém. entre lojas e bancos. situado no centro da cidade. em termos estruturais e estéticos. misturadas com janelas modernas em bairros de classe média de várias cidades. na Avenida Santo Antônio. ou o salão central com suas paredes pintadas em tom ocre de tinta à cal. ameríndia e africana. pelo contrário. em parte pelos aspectos próprios de nossa história que teve quase um século de monarquia. Lembra um pouco palácios de Florença ou Veneza. por exemplo. assim como centro político da cidade. desejoso de viver num castelo medieval como um rei arturiano após assistir filmes no cinema é o melhor exemplo do que busco apresentar aqui como hipótese. construído em 1943 pelo interventor Agamenon Magalhães e inaugurado na gestão do prefeito que lhe dá o nome. é na verdade. a de que a imagem do rei e de seu castelo se apresenta no imaginário popular brasileiro de tal forma que nos distinguimos nesse aspecto em comparação com as outras nações da América. Se por fora as torres em estilo medieval e a estrutura de tijolos imitando pedras dá ar de construção medieval. localizado na área mais comercial da cidade. Garanhuns (PE) O modesto castelo se apresenta dotado de uma força incomum para quem o visita quando sabe da história de seu construtor. Ao assistir as fitas de cinema. Misto de imagem de casa de classe média alta com elementos de castelo medieval é no máximo uma casa temática de aspecto kitsch. Lembra também. vão nos mostrando que o castelo de João Capão é antes um conjunto contraditório de impressões do que seja um castelo para seu construtor. E o castelo de João Capão se mostra ainda mais característico quando o comparamos com outra construção do município de Garanhuns que é o Palácio Celso Galvão. como os ramos cruzados à entrada do castelo. com paredes de lajota de cerâmica esmaltada e com aspecto de um banheiro típico de uma casa de classe média. e o acúmulo de símbolos desconexos. O conflito entre nossa herança européia. é essa obra a perfeita consubstanciação dessa falta histórica que só é falta pela imposição em nossa história cultural de um ideal de passado e glória vinda da Europa e que impregnou nosso imaginário. é simbolicamente a imagem do processo de domínio da burguesia na estrutura social ocidental. em parte pela forte simbologia religiosa dada por um Portugal barroco e medievalista. 89 . Esta vontade que fundamentou o sonho do pobre construtor. além de algumas paredes rebocadas.

Perspectiva. Arquétipos e Inconsciente Coletivo. que só se resolve pela compreensão do que seja nossa herança cultural. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. “emuná” e é traduzida pela primeira com o sentido que usamos no livro de Habakuk (2:4): "Eis aqui um soberbo. Dom Sebastião no Brasil. para exemplificar com a literatura. Na colonização da 90 . Etimologicamente a palavra vem do hebraico. Paidos. de como lá a torre do castelo é o lugar da loucura. possuiria o poder da conversão instantânea pelo poder imagético e matemático de sua linguagem. ao passo que o palácio é associado ao poder pela fundamentação real que nossa histórica tem com essa arquitetura. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HOLANDA. O castelo não é propriamente mais visto como a sede do poder. mas também um instrumento de dominação. que acreditava. do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna. e um justo (que) em sua fé viverá". do caos simbólico entre realidade e sonho. Nos Hebreus (11:1) encontramos a seguinte definição de fé: “Ora. Cultrix. Antonio. Carl. Lembremos. Psicologia e Religião. Márcio Honório. Quando Raimundo Lúlio tenta converter os Sarracenos munido apenas de sua Ars Combinatória. Rio de Janeiro. GODOY. Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico A Fé é decididamente o grande instrumento do homem para a realização de suas conquistas históricas e espirituais. São Paulo. 2006. temos a possibilidade de ver a diferença entre castelo e palácio na cultura brasileira. JUNG. Nova Fronteira. São Paulo. Na História a Fé tem sido um instrumento não só de caráter relativo à espiritualidade. HOUAISS.Palácio Celso Galvão. mas como aquele lugar que é dotado de um passado inexistente. ________. Dan. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 2004. Rio de Janeiro. sua alma não é reta nele. col. que só existe como passado como resultado de um conflito histórico de nossa herança cultural. quando contrapomos o Palácio Celso Galvão ao Castelo de João Capão. 1970. G. Aurélio B. Buenos Aires. 1978. São Paulo. sede da prefeitura de Garanhuns (PE) Assim. a convicção de fatos que se não vêem”. a fé é a certeza de coisas que se esperam. 1978. Vozes. Objetiva. acaba morrendo martirizado. SPERBER. 2004. Khronos. O Simbolismo em Geral.

Quitéria estava com 15 anos de idade. Ante a recusa da filha. Quitéria nasceu no ano de 462. dominadas pelo português europeu. Quitéria. os padres povoaram o imaginário sertanejo de personagens mágicos. Anos mais tarde. 91 . No calendário cristão católico. na região do Minho. Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga. em Braga. A história de Frexeiras é a história da fé popular. Liberata. isto é. é no dia 7 de setembro que existe a maior comemoração em Frexeiras. governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano. Os beatos. rituais. Próximo a Garanhuns. as culturas indígenas e africana. Otílio condenou-a à morte. instruiu a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. no sentido de compreensão da relação contextual do homem com a sociedade que constrói. Marciana. Antes. deixaram na língua dominante marcas inconfundíveis. no século V da nossa era. Mas. O sertão Nordestino é um espaço histórico rico de sincretismos. tudo a suas expensas. mas concretamente antropológica. homem de procedimento muito rígido. desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. superstições indígenas e africanas povoaram os espaços vagos das contradições cristãs. porém. Naquela época predominavam as superstições. dentro das igrejas cristãs. a Fé foi o instrumento de conversão ideológica mais eficaz que os europeus puderam apresentar aos gentios americanos. uma ideologia. que no entender católico é o dia em que a alma do santo deixou a terra e se elevou aos céus. ao redor e por vezes. A história da santa é dramática e dotada de acontecimentos misteriosos que beiram o macabro. Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia. uma forma particular de construir a realidade. por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Líbio Severo em viagem pela Península Ibérica. mulher de Lúcio Caio Otílio. o povoado de Frexeiras é um retrato emblemático desse sincretismo e dessa fé algo abstrata de definir apenas na conceituação religiosa. enquanto instrumento da Igreja para conversão dos fiéis e garantia de sua dominação. Marinha. Antônio Conselheiro. agreste meridional de Pernambuco. que com medo de represália do marido. Sabemos que uma língua não é apenas um conjunto de regras normativas gramaticais e um vocabulário da qual se o falante faz uso indiferente. afogando-as num rio. No Brasil. Padre Cícero. Basilissa e Vitória) e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs. Genebra. o dia 22 de maio é dia de Santa Quitéria. de profecias. José Lourenço – beatos. cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de Maio do ano de 477. que as batizou as meninas (Eufemia. Frei Damião – religiosos. já no município de São João. país cuja miscigenação tornou-se característica fundamental de sua população. Crenças. de crendices.América. deixaram sua marca neste imaginário. Santo Ovídio. movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo. tendo se assustado com o fato de ter dado a luz a nove meninas. tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano. cada língua tem inscrita na sua estrutura uma visão de mundo. da fé tomada pelo povo em oposição à fé. Gema. a ponto de a mãe. A data de um santo é geralmente colocada como a data de sua morte. o sincretismo religioso se instaura diante. No povoado existe o culto à Santa Quitéria. Segundo consta do hagiológio português e na história de Braga. Assim. feiticeiros malignos e benignos.

essa imagem que está aqui de 44 cm e que era a imagem de devoção da família. o culto à Santa Quitéria seguiu um caminho dominado pelo imaginário popular. que foi para abrigar uma família. No Brasil. que entre outras características.blog. foi transformada nesse espaço para receber as constantes visitas que vinham montadas em lombo de burro. é um dos maiores depósitos naturais de urânio do país. eis como começou o culto à Santa Quitéria: “Tudo começou quando minha família veio de Portugal tomar posse de terras que foram concedidas pelo governo de Portugal em 1695. e no final do século XVII. o culto de Santa Quitéria é bem difundido. criando no expectador de imediato uma desorientação. no Ceará. existe uma versão de que teriam tais fotos ocorridos no século II. no Nordeste existem dois municípios com essa denominação. As terras onde se encontra o povoado de Santa Quitéria pertencem à família Guilherme da Rocha. 92 . porém a Igreja não tem qualquer domínio ou intervenção na localidade.As datas aqui colocadas não são de todo confiáveis. 8 Fonte: http://acertodecontas.artigo de André Raboni. Assim. já trouxeram os escravos e quando chegaram aqui na região construíram a casa para morar e foram preparando a terra para a cultura de subsistência e quando eles vieram de Portugal trouxeram na bagagem a imagem de Santa Quitéria. inclusive pagãs. de estatuetas as mais variadas. Tendo nascido Quitéria no ano 120 e morrido em 135. de fotografias de diversos tamanhos das pessoas que se dizem agraciadas. a casa. Conforme conta um dos herdeiros. em p&b. que veio de Portugal em 1695. de velas. A família não permite a entrada de religiosos. de caminhões pau de arara. carregando objetos. Assoma-se a movimentação das pessoas que entram e saem dos aposentos acendendo velas. os índios também. As paredes povoadas de fotografias transformam-se num grande mural do tempo. novas. Existe uma disputa entre a família Guilherme da Rocha e a Igreja. acumulativo. além dos vendedores de bugigangas. Santa Quitéria. Fotos antigas. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada. Quitéria tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada. apresentando aqueles inúmeros rostos. que existia uma santa milagrosa e aí começou a peregrinação. sob o domínio do imperador Adriano. Tal se deve ao receio de que a Igreja tome posse do culto sem auferir à família algum acerto financeiro ou de uso. vem muita gente a pé. de informações contraditórias que se dirigem aos nossos olhos.” 8 O fato atual é que o povoado de Santa Quitéria transformou num local de peregrinação. Cada uma. em carro de boi até a modernidade de hoje em que elas vêm de ônibus. de santinhos. os escravos começaram essa devoção à Santa Quitéria. A casa grande original foi se atulhando de ex-votos. coloridas. ao entrar no local o que se nos mostra de imediato é um grande painel neobarroco. Assim. Com as freqüentes novenas realizadas aqui na casa (a família era muito católica). e Santa Quitéria no Maranhão. e os escravos foram espalhando para os escravos de outras propriedades e os donos de outras fazendas.br/atualidades/santuario-no-interior-e-causa-de-briga-juridica-entre-aigreja-catolica-e-familia-proprietaria-de-imagem/ . pessoas em variadas poses e lugares. Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos.

capas para celular. a realidade concreta é muito dura. o que temos é a inversão dum significado. o culto à Santa Quitéria de Frexeiras segue seu caminho numa trilha entre o folclórico. braços. uma estatueta em gesso de Vênus/Afrodite. em pouco tempo. O imaginário necessita do sobrenatural. Santa Vitória. é sua cruz inseparável. estátuas de santas que pela denominação. ele que o imediato concreto. Na única rua do povoado. pilhas. cuja imagem encontra-se adornada de inúmeros colares dourados. presenciei um fato interessante e ilustrativo. existe um museu. E a morte é o grande medo do homem. Hulk. No estacionamento. Imediatamente uma outra senhora vendo isso. balas. diante de nossos sentidos. com a diferença que agora se presentificam enquanto objetos tridimensionais. Lá encontramos uma variedade de objetos velhos. querendo ser provas irrefutáveis dos milagres. mãos. ou de parafina: pés. três vezes. Lá fora uma barraca vendendo super-heróis de plástico: Wolverine. meio mágico. busca na fé mais do que a elevação espiritual ou a ascese. Uma velha senhora. de curiosos ou de pessoas movidas pela fé que têm a condição de ter um automóvel mais novo. joga-se o bilhar. esta senhora resolveu passar por debaixo da mesinha que sustenta parte do oratório. No comércio das bodegas. Se a data de Santa Quitéria é 22 de Maio e em Frexeiras o dia mais comemorado é o de 7 de Setembro. Ali. Santa Liberata. fez o sinal da cruz e foi-se embora. mãos dos que estavam nas fotos se materializassem ali. automóveis. até estatuetas de Jesus. alguns almoçam o prato feito. dia da Independência é aqui transmutado no dia de Santa Quitéria. ônibus de diversas procedências. dezenas de barracas de mascates vendem santinhos. povoado de santas vindas de ilusórias terras também santas. ao dirigir-se ao altar de Santa Quitéria. braços. notas e moedas antigas. de uma época irreal. pessoal. e colocadas em alguns nichos. são as irmãs de Santa Quitéria: Santa Gemma. formava-se uma fila de pessoas. A elevação da alma da Santa aos céus é também o signo de sua morte corpórea na terra. o 7 de setembro. Assim. já velhos. naquele povoado. Como se os pés. passou uma. onde se paga um real para entrar. se presencia ali. mas o imaginário popular tratou de fazer o seu próprio processo de santificação. mas também desordenadamente pós-moderna. na coletividade de imagens. que. no entanto. são carros dos mascates. muitos deles. o dia da independência 93 . cabeças. que no imaginário popular foi a época em que santos e santas andavam pelo mundo. duas. Assim. As irmãs de Santa Quitéria não foram santificadas pela igreja. Próximo a casa grande. Os mais novos. passando por debaixo do oratório. Homem Aranha. sem o concurso da Igreja. que fica numa outra casa.signo de uma história particular. brinquedos de plástico. doces. o sincrético e o místico. cabeças colocadas em sob tábuas de madeira ou penduradas nas paredes também criam um novo panorama que se acumula ao das fotos. Numa das estantes velhas de madeira. da historicidade de agruras e desmandos. disso a uma outra: -“Vamos também passar por três vezes aí embaixo que dá sorte e proteção!” E. individual. em geral mais velhas. O homem sertanejo que vive a dureza das condições sócioeconômicas. Os ex-votos. a fé se exercita. outros tomam cachaça. de madeira. Quando de uma das minhas visitas. assim como ocorreu no Ceará com o Padre Cícero. Cria-se assim um mundo místico. desde de rádios de válvula. do abandono. reciclando continuamente as crenças individuais num caldeirão de mitos.

da alma sertaneja diante dos grilhões históricos de sua condição. Prancha de Figuras – Frexeiras 94 . Símbolo da regeneração das forças para continuar sua luta diária e cotidiana.

Imagem de Santa Quitéria de Frexeiras. PE. 95 .Os retratos na parede compondo um painel sincrônico de promessas e pedidos Parede e prateleira repleta de ex-votos.