Você está na página 1de 95

IMAGENS DO VELHO CHICO NA CULTURA DO VALE DO SÃO FRANCISCO Jayro Luna

Edupe
2009

SUMÁRIO Apresentação. – Benedito Gomes Bezerra – 3 Introdução - 6 O Rio Como Símbolo – 8 O Rio São Francisco como tema da MPB – 13 O Ciúme, de Caetano Veloso – 29 Do São Francisco ao Mississipi –35 Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira – 42 Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco – 53 A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco – 58 Algumas Considerações Acerca das Representações Pictóricas do Rio São Francisco – 63 Mamulengo Revisitado – 77 A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira – 79 Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico – 91

2

APRESENTAÇÃO O Rio São Francisco representa um dos elementos de maior peso simbólico na cultura e imaginário nordestino, fato que se reflete na música, na literatura, na pintura e nas artes em geral. Ultimamente, o Velho Chico tem sido objeto de acalorada e polêmica discussão, em virtude do projeto de transposição de águas idealizado pelo governo federal. É lamentável, contudo, que o foco das reflexões sobre o Rio tenha se concentrado de modo quase exclusivo nos aspectos políticos e ideológicos da questão. O livro do professor Jayro Luna, a propósito, vem preencher essa lacuna, trazendo para a comunidade acadêmica e o público em geral um amplo e variado conjunto de textos debruçados sobre a riqueza cultural constituída em torno do São Francisco. O propósito do autor é, como ele mesmo afirma, “levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região”, bebendo para isso nas inúmeras fontes disponíveis. Duas particularidades devem ser ressaltadas no trabalho do autor. A primeira é que não se trata, de forma alguma, de pesquisa meramente bibliográfica, fruto de observação distanciada. Em muitos textos, o leitor perceberá a argúcia do observador integrado ao objeto de sua investigação, examinando de perto aquilo de que fala, não sem trair a paixão do autor pelos aspectos culturais em questão. A segunda particularidade é o ponto de vista do autor, construído a partir da região do Agreste Meridional, onde se situa a Universidade de Pernambuco, Campus de Garanhuns, de modo que relações muito pertinentes e interessantes são demonstradas entre a riqueza cultural dessa região e o imaginário do Rio, próprio do sertão cujas terras suas águas percorrem. Daí a presença, por exemplo, de um capítulo que trata do santuário de Santa Quitéria em Frexeiras, localidade próxima a Garanhuns. O livro se organiza em onze capítulos que tratam do imaginário e da cultura do Velho Chico sob variados ângulos. A maioria dos capítulos enfoca as diferentes maneiras como o Rio São Francisco é representado em diversas expressões artísticas, como a MPB, a poesia, a arte popular das carrancas, a pintura e a escultura. Outros tratam de manifestações culturais direta ou indiretamente ligadas ao Rio. O primeiro capítulo, intitulado “O rio como símbolo”, estabelece as bases para muito do que será dito nos demais, demonstrando a centralidade da simbologia do rio em diversas culturas do mundo e de outras regiões brasileiras. O segundo capítulo explora o Rio São Francisco como tema privilegiado da Música Popular Brasileira, abrangendo desde a chamada música de raiz, passando pelos temas de escola de samba e por Luiz Gonzaga até a música engajada de Sá e Guarabira, lembrando de forma crítica a profecia de Antonio Conselheiro: “O sertão vai virar mar/ dá no coração/ o medo que algum dia/ o mar também vire sertão”. No terceiro capítulo, o autor analisa especificamente a letra da música “O ciúme”, de Caetano Veloso, cujo tema, comum a outras composições da MPB, é a relação entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, separadas pelo São Francisco, mas unidas pela ponte ali construída na década de 1950. O quarto capítulo traça um interessante paralelo entre o imaginário do Rio São Francisco e do Rio Mississipi (nos Estados Unidos) conforme representado pela música em ambos os contextos. Conforme demonstra o autor, as imagens de ambos os rios são 3

intitulado “Algumas considerações acerca de algumas representações pictóricas do São Francisco”. na poesia brasileira. Já o capítulo décimo brinda o leitor com um alentado estudo da simbologia do rei. Sobressai. com um oportuno destaque para o “Castelo de João Capão”. “rei da juventude” etc) até uma apresentação dos principais castelos existentes em terras brasileiras. dessa forma. cuja função parecer ser sobretudo intimidar as crianças. O capítulo nono. constituindo um rico painel de representação pela pintura. acossados pelas constantes cheias do rio e abandonados pelos representantes do poder. o Rio também tem sido representado na arte pictórica. não cristã. o autor se volta para as imagens do Velho Chico na obra dos poetas brasileiros. tema do capítulo oitavo. evitando que se arrisquem demasiadamente nas águas do Rio. por fazer parte de uma cultura comum. O autor ressalta as peculiaridades das carrancas como objeto artístico para o qual convergem elementos da herança indígena e negra. começando por Castro Alves e sua obra A cachoeira de Paulo Afonso e culminando com João Cabral de Melo Neto e o “sertão sem rio”. Os últimos três capítulos abrangem temáticas não ligadas diretamente ao Velho Chico. capaz de reunir num mesmo espaço santas. deusas greco-romanas e super-heróis de origem estrangeira. como um complemento bastante interessante dessa mostra da cultura nordestina que é o livro de Jayro Luna. com estilos variados e diferentes posturas de engajamento em relação ao Rio. “Por uma mitologia das carrancas do Vale do São Francisco”. no caso do São Francisco. pintores estrangeiros e nacionais têm oferecido suas visões do Velho Chico. negros geralmente. predominam as imagens poéticas inspiradas numa cultura medieval transportada para o sertão nordestino. Como não podia deixar de ser. bem como as influências próprias do colonizador europeu e cristão. No sétimo capítulo. cujo valor monetário se define pelo talento e renome do mestre escultor. O estudo inclui desde o pitoresco uso do termo “rei” para praticamente qualquer atividade desenvolvida pelas pessoas (“rei do samba” “rei do futebol”. mostra como as carrancas sofreram um desvio em sua função original de proteger as embarcações “contra perigos concretos e imaginários”. operando uma espécie de recriação eventualmente sujeita a polêmica. especificando tipologias e resgatando o nome de artistas situados no Agreste Meridional. O sexto capítulo. predomina a crítica social retratando os dramas dos ribeirinhos pobres. Já no quinto capítulo. do castelo e do palácio na cultura brasileira. o capítulo décimo primeiro apresenta o santuário popular de Frexeiras como uma curiosa representação do sincretismo religioso e cultural brasileiro. o retrato dos dramas sociais desde a colonização até a transposição. Se. Uma preocupação central do autor é traçar um paralelo entre o imaginário popular e a representação artística do Nego dá água. o autor apresenta a lenda do Nego d´água como parte do imaginário do povo ribeirinho. transformando-se em objetos artesanais destinados ao comércio. que no caso do artista Ledo-Ivo Gomes de Oliveira. Fechando o volume. criador de uma colossal estátua do personagem.construídas de maneira bastante diferente. tendo como palco e pivô o grande rio do povo nordestino. no caso americano do Mississipi. substitui os traços populares por traços inspirados na simetria da arte clássica. A cultura popular nordestina se mostra aí como uma cultura de resistência 4 . mas incluídas na obra. ponto turístico da cidade de Garanhuns em Pernambuco. A partir do século XVII. creio eu. traz uma breve abordagem sobre a arte do mamulengo.

Será uma experiência significativa para quem já conhece e ama essa cultura. sem dúvida será uma descoberta apaixonante. Para quem não a conhece. Com certeza. o livro será de grande utilidade para pesquisadores. Está de parabéns a Universidade de Pernambuco. notadamente seu campus de Garanhuns. evidenciando a capacidade do povo de moldar e cultivar seus próprios santos e santuários. a leitura de Imagens do Velho Chico na cultura do Vale do São Francisco proporcionará ao leitor uma rica e profunda imersão na herança cultural do Nordeste.inclusive contra a dominação religiosa. com especial destaque para os elementos culturais construídos em torno do Rio São Francisco. por trazer essa obra ao público brasileiro. alunos e demais pessoas interessadas na arte popular e na cultura nordestina de modo geral. 5 . Em suma. além de oferecer a todo o povo brasileiro uma nova e abrangente visão acerca do Rio São Francisco.

que o projeto incluiu uma parte de estudos acerca do Agreste Meridional. possivelmente interferindo na paisagem sertaneja semiárida do Ceará. a dimensão cultural e social que envolve a bacia do Rio São Francisco tem aspectos de influência não apenas climática e de geografia física sobre a região. abordando a produção literária (prosa e poesia) bem como as manifestações de literatura popular (cordel. a do Vale do São Francisco e a do Agreste Meridional. todos esses aspectos de localização geográfica. que receberá pelo projeto de transposição uma adutora para regularização do fornecimento de água à região. contos. tendo em vista que essa micro-região está próxima da bacia do São Francisco. tendo em vista a proximidade da implantação do projeto de transposição do Rio São Francisco. iconográfico e artístico da cultura da região do Vale do São Francisco. pois. distante fisicamente 223 km do rio São Francisco (município de Paulo Afonso). arte popular) procurando nas diversas manifestações levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região. tendo como subtema as modificações que o projeto de transposição do rio São Francisco potencialmente poderá causar nessa mesma cultura. pareceu-nos pertinente fazer estudos comparativos e de influências entre as duas regiões. O projeto visava pesquisar as imagens na cultura do Vale do Rio São Francisco. tendo em vista. Completou-se o projeto com a formação de um acervo bibliográfico. a construção do imaginário acerca do arquétipo que o Rio São Francisco preenche na região do Polígono das Secas. Pernambuco e Rio Grande do Norte. contígua do sertão. Paraíba. A obra de transposição do leito do Rio São Francisco implica em profundas alterações nessa situação em todo o interior do 6 . com apoio do CNPq. Ainda.Introdução Este livro é resultado de um projeto de pesquisa realizado na UPE/FACETEG durante o período 2007-2009. próxima também do litoral (Zona da Mata). mitos e lendas. com destaque na micro-região para a cidade de Garanhuns. isto é. Acresce ainda. buscamos observar as primeiras e possíveis alterações nesse significado em função de uma nova dimensão regional do vale do Rio São Francisco. Embora Garanhuns esteja situada no Agreste. mas também no âmbito cultural. na região do baixo São Francisco.

...... mas também àquelas que a esse imaginário se dirigem........ a previsão de que esse imaginário tende a modificações estruturais significativas de acordo com os resultados da transposição do leito do rio... Neste livro acreditamos que abordamos sob um novo aspecto a questão da cultura do Vale do São Francisco......... analisando tópicos referente às artes plásticas..... E. espero que o leitor desse livro possa tomar contato com os resultados de nossa pesquisa.... Assim......estado........ à música popular brasileira............ . tendo ainda por horizonte........ Prof.... nosso trabalho já aponta para uma atitude de ponta na abrangência que a UPE/Faceteg se coloca nas questões não apenas de sua microrregião. fazendo com que a distinção típica entre as micro-regiões do estado possam mesmo ser revistas......... numa interrelação dessa microrregião com fatores externos que possam alterar e modificar de modo decisivo seu caráter microrregional. Nossa pesquisa justificou-se na medida mesma em que tem por princípio um estudo das imagens do Rio São Francisco na representação do imaginário não apenas nas manifestações próprias das cidades do vale. à tradição regional do vale de um ângulo que ainda não encontramos em outras publicações... mas sim... Jayro Luna 7 .

o acesso ao Nirvana.Schuon). pode-se considerar: a descida da corrente em direção ao oceano. o Ganges. a imagem da “travessia” e por conseguinte. o da possibilidade universal e o da fluidez das formas (F. A descida para o oceano é o ajuntamento das águas. é um dos símbolos de nossa independência. o remontar das águas significa. o retorno à Nascente 8 . à navegação é à pesca. ‘remontar corrente’. comentando o trabalho de Ananda K. Os rios Tigre e Eufrates na civilização babilônica. o Tejo. por exemplo. Acerca da primeira imagem. Na Cabala hebraica esse ‘rio da vida’ encontra sua correspondência nos ‘canais’ da árvore sefirótica. o Tamisa. esta se liga à simbologia da ponte.O Rio Como Símbolo O rio tem marcado a presença como um dos lugares mais importantes da história do homem. o rio Nilo do Egito são exemplos marcantes dessa importância do rio na história da civilização. modesto afluente do Tietê.” (GUÉNON: 1989. p. alguns rios são sagrados para determinados povos. não mais para pelo remontar da corrente. a primeira. e não pensemos apenas nos grandes rios. O curso das águas é a corrente da vida e da morte. banhar-se nas águas do Ganges. da morte e da renovação. o Níger. que é em suma o equivalente da Shakti. Em relação ao rio. desde o princípio da civilização o rio se destaca. No caso do Brasil. outros de extensão consideravelmente menor tornaramse simbólicos por suas posições geográficas estratégicas fundamentais para a vida de vários povos: o Reno. Guénon comenta: “O primeiro caso. hoje praticamente coberto pela cidade. o retorno à indiferenciação. A simbologia esotérica e mística desde tempos antigos tem trabalhado a imagem do rio. mas pela inversão de direção da própria corrente. basta lembrarmos que o rio Ipiranga. à defesa de território. No Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant. o Mississipi. que são exatamente os nomes de certos aspectos da Shakti. ou a travessia de uma margem à outra. o Tibre. é um ritual de purificação na Índia. Não menos importantes para o desenvolvimento de nações foram o Rio Amarelo. o remontar do curso das águas. No Cristianismo. ao mesmo tempo. é designado por nomes tais como Gangâ [Ganges] e Saraswatí. 300-301) Assim. e que têm também relação direta com a Shekinah [Presença divina]. O rio como símbolo tem forte presença no desenvolvimento cultural dos mais variados povos. René Guénon observa essa aspecto. na tradição hindu. No sentido de que seja um lugar propício à agricultura. Na Cabala também se fala das águas que ‘correm para o alto’. é talvez o mais notável sob certos aspectos. A história do Egito antigo é a história da civilização do rio Nilo. o que ele chama de “remontar corrente” e a segunda. o símbolo do rio é apresentando de modo a destacar o simbolismo das margens e da água corrente: “O simbolismo do rio e do fluir de suas águas é. evidentemente. expressão do retorno à fonte celeste representado então. destacando duas imagens ligadas ao rio. pelos quais as influências do ‘mundo em cima’ são transmitidas ‘ao mundo de baixo’. pois deve-se então conceber o rio como identificado ao ‘Eixo do Mundo’: trata-se do ‘rio celeste’ que desce para a terra. o Jordão são alguns exemplos. Jesus foi batizado por João Batista no Jordão. o da fertilidade. Coomaraswamy. e que.

como entrada dos bandeirantes. que por sua vez. Maleita (1935). Raul Bopp em Cobra Norato. de eldorados. dois estados: o mundo fenomenal e o estado incondicionado. e é o estado que existe para além do ser e do não-ser. no caso brasileiro. a análise da própria evolução cultural da humanidade. o rio da energia elétrica. Mário de Andrade escreve suas “Enfibraturas do Ipiranga” em Paulicéia Desvairada (1922). Desde a expedição de Vicente Pinzón à foz do Amazonas. Assim. trazendo mais do que luz. de Raul Pompéia. o mundo dos sentidos e o estado de não-vinculação. Riacho Doce (1939). Antes. porém. Castro Alves narra em verso o drama Cachoeira de Paulo Afonso. caminhos para a conquista do paraíso selvático. de José Lins do Rego ou ainda. Essas são só algumas poucas lembranças imediatas de obras poéticas. temos esse processo de busca de compreensão da enorme extensão de terra desconhecida em que se suspeitava a existência de tesouros perdidos. a China e o Rio Amarelo. ainda hoje. a poesia e a música não têm deixado de tratar do tema do rio. lembremos de Uma Tragédia no Amazonas (1880). que a partir da Chesf e da usina de Paulo Afonso.divina. A margem oposta. A cultura Hindu e o Ganges. 780-781) Por esses aspectos a análise da cultura que se desenvolve ao longo do percurso de um rio é também. para além do qual ficavam os bárbaros. em boa medida. o rio como imagem do caminho da colonização do sertão. a possibilidade do progresso para as cidades com a instalação de indústrias de beneficiamento da produção agro-pecuária. em quase sua totalidade em razão da proximidade navegável com o grande rio. O Egito dos faraós e o Nilo. que julgou tratar-se dum mar. o papel dos rios no desenvolvimento de nosso país foi de suma importância. a Babilônia e o Tigre e Eufrates. No romance. O Rio São Francisco marcou boa parte da cultura sertaneja do Nordeste Brasileiro. ensina o Patriarca zen Hueineng. p. Rio do processo de colonização do sertão. até as de Francisco Orellana e Pedro Teixeira. Os limites europeus do Império romano incluíam as margens do Reno e do Danúbio. A simbologia indígena que destaca o papel do rio no processo mitológico de criação do mundo. surgiram. os rios foram muito mais encarados como caminhos do que como fronteiras. A Literatura brasileira. é a paramita. como signo representativo de um interior que lança grandes 9 . como também pela água corrente sem espuma. Porém. com exemplo do rio Amazonas. Aliás. desde as primeiras entradas e bandeiras que definiam grande parte de seu trajeto em função dos rios que penetravam a floresta ainda inexplorada. antes deles.” (CHEVALIER & GHEERBRANT. e a travessia é a de um obstáculo que separa dois domínios. em cujas margens surgiram algumas das principais cidades da região do polígono das secas. No caso específico do Brasil. eletrificou praticamente toda a região do sertão. país de grandes bacias fluviais. no caso do Brasil. ao Princípio. Assim. cria um mundo mítico e mágico na floresta do Rio Amazonas. uma com água e outra sem o precioso líquido. Caminhos para a descoberta dos territórios inexplorados. só mais recentemente as possibilidades de irrigação que o rio poderia oferecer foram exploradas. de Lúcio Cardoso. a principal via de comunicação entre as cidades. Rio que determinava a existência de duas possibilidades de sertão. notadamente na região de Petrolina e Juazeiro. esse estado é simbolizado não só pela outra margem. O Rio Amazonas na região Norte. são apenas alguns dos exemplos que envolvem essa interligação entre o rio e a cultura. Mar Dulce.

10 . como caminho é uma estrada fluídica. Muito sucesso fez o poema “A barca bela” de Almeida Garrett: BARCA BELA Pescador da barca bela. Rios são de água pouca. Que é tão bela. A canoa. Ó pescador! Pescador da barca bela. que necessita dum suporte para que o homem possa seguir por seu curso. cujo passado é memória. Que perdido é remo e vela Só de vê-la.. a totalidade. mas da vida por viver. o barco são os meios utilizados para tal. Ó pescador! No Brasil. favorece a alegoria de ver o rio como símbolo da vida. O rio como estrada. Onde vais pescar com ela. Mas cautela. Num sentido alegórico. Ó pescador! Deita o lanço com cautela. a canoa que levará ao encontro com o mar. Foge dela. Este como morada da alma. o rio como metáfora da estrada da vida tem como suporte material para sua alegórica navegação o corpo humano. em que a água sempre está por um fio.quantidades de água ao mar. Inda é tempo.. foge dela. na acepção cristã. é o barco. da vida que corre do presente para o futuro. Que a sereia canta bela. Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela. lembremos dum poema de João Cabral de Melo Neto: Os rios Os rios que eu encontro vão seguindo comigo. Ó pescador! Não se enrede a rede nela.

o rio — pondo perpétuo. Vinícius de Moraes.” 11 . outros com nome de bicho. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios. para ser sim. Os rios têm afigurado no imaginário brasileiro como caminhos. numa das estrofes. deixa de ser um aspecto corroborador do rio como obstáculo. apenas Ouço a água ponteando no peito da tua canoa. o ponto em que o homem pode. Conhecido é o conto de Guimarães Rosa. Passa uma formosa ponte. é no seu ápice. ponto de admiração e de contemplação do rio. Uns com nome de gente. da Marília de Dirceu.Cortados no verão que faz secar todos os rios. como signo da união das duas margens. como signo de passagem no sentido alegórico. Seguindo o sentido dessa visão do rio como caminho. De que era que eu tinha tanta. onde vais pescar esta noitada: Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? Está tão perto que eu não te vejo pescador. Passa a segunda e a terceira Tem um palácio defronte. muitos só com apelido. lemos a descrição do caminho que se deve fazer para se chegar à casa de Marília : Entra nesta grande terra. em que a alegorização do rio como símbolo atinge um de seus mais altos graus na literatura brasileira: “Sou homem de tristes palavras.. Na primeira estrofe de “O Pescador”. os rios brasileiros têm sido muito mais caminho que interrupções ou obstáculos do caminho.. cita como um dos locais propícios à pesca o estar sobre a ponte: Pescador Pescador. “A Terceira Margem do Rio”. uns com nome de santo. Rios todos com nome e que abraço como a amigos. sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio. A ponte. tanta culpa? Se o meu pai. de Tomás Antonio Gonzaga. Na lira XXXVII. A ponte. portanto. contemplar como observador o curso contínuo das águas que vêm de distantes paragens e seguem em direção ao mar ou a rio maior.

Heráclito de Éfeso apresenta o argumento de que não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. Jean & GHEERBRANT. Tal concepção parte da premissa de que o tempo a tudo modifica e que a correnteza do rio é a alegoria do tempo. 2004. Haroldo de. Referências Bibliográficas CAMPOS. GONZAGA. e como tal. Vinícius de. Almeida. Poesia Completa e Prosa. Nacional. apresenta-nos a idéia dum contínuo aventuroso da linguagem poética como a correnteza do rio. 2005. Ex Libris. Rio de Janeiro. a evolução. a idéia é de uma sincronização de acontecimentos. ROSA. entender na sua fluidez a modificação. Nova Aguillar. São Paulo. o rio é um dos símbolos mais fortes da nossa cultura. Seja como for. Poesia e Teatro. Lisboa.Haroldo de Campos. 1944. Primeiras Histórias. Figueirinhas. Mas em Haroldo de Campos. São Paulo. Galáxias. Os Símbolos da Ciência Sagrada. Marília de Dirceu. de momentos diversos desse rio. Sergipe 12 . Rio de Janeiro. Obra Completa. 1984. Martin Claret. Dicionário de Símbolos. Alain. Rio de Janeiro. Tomás Antônio. João Cabral de. 1989. Pensamento. José Olympio. nas suas Galáxias. GARRETT. São Paulo. René. Nova Aguillar. Própria. Guimarães. 2005. MORAES. MELO NETO. a passagem do tempo e da vida acaba por ser uma das mais ricas imagens poéticas. São Paulo. 2008. 1994. GUÉNON. CHEVALIER.

ou as lágrimas numa aplicação de hipérbole. Na segunda estrofe. é flora. tentaremos perceber qual é imagem do Velho Chico que está presente nessas canções. flora São Francisco é santo. A música. assim não mais se navega “no”. 13 . como protetor dos animais e da Natureza se mostra aqui como o santo católico mais adequado a emprestar o nome ao rio. mas “com” São Francisco. tal comparação se faz jus mediante o papel integrador que ambos os rios desempenharam. em Minas Gerais. Depois.O Rio São Francisco Como Tema da MPB Neste breve artigo comentaremos acerca de algumas letras de música popular brasileira que colocaram como tema o Rio São Francisco. como busca da eternidade. lemos: “São Francisco é fauna. ou se. por meio desses comentários. Guardadas as devidas proporções. O rio pode ser um símbolo conquanto represente a vida. sinta voltar A criança que está em você” A estrofe cita o local de nascimento do rio. a cidade que está próxima à nascente do rio. O santo. é assim o lugar de alegria para o eu lírico. pode ainda. A seguir. logo colocando o nome “Nilo” como qualificativo do São Francisco. tem como um de seus sucessos a música Nilo Brasileiro. estas com seu aspecto assustador vão trazer nos adultos a lembrança dos medos que as crianças têm de caras feias. apresenta já no título a comparação entre o rio São Francisco e o Nilo. a canção passa a adotar o nome do rio acrescido de outras qualidades: é fauna. a passagem do tempo ou a inevitabilidade do fluir dos acontecimentos. nome milenar Filho do solo brasileiro Margeando o seu leito As carrancas vão assustar Nas lembranças. deixando de lado o qualificativo de “Nilo”. O infinito aqui redimensiona a figura do rio como metáfora da vida. uma vez que a Natureza rica em fauna e flora se apresenta como obra santificada. as mágoas. criada em 1981. é em referência ao nome dado ao rio. ambos da Banda Moxotó. O tema do rio na música é antigo e tem suas metáforas características. faz referência às carrancas. um dístico que se desenvolve na canção como um refrão: “Navegarei no infinito / Navegarei com São Francisco”. mas a terceira qualidade. na serra da Canastra e também do longo percurso (“um grande aventureiro). obra divina. Na primeira estrofe da canção lemos: “Nas entranhas da ‘Canastra’ Nasce um grande aventureiro ’Nilo’. por sua vez. a de santo. As duas primeiras se referem à riqueza natural que envolve a bacia do São Francisco. são várias as imagens. é santo. Pirapora. em ritmo nordestino de baião. representar a tristeza. rio São Francisco em Pirapora Soltarei o meu sorriso” Agora. Lailton Araújo e Wanderley Araújo.

entre os indígenas na luta de preservação de sua nação e cultua e a do europeu em busca da imaginada cidade de ouro no meio da mata: “Um grande rio as formou Pelas lágrimas de Iaty Na consagração do sol e da lua Homem branco veio invadir 14 . Iaty). de fornecer água para irrigação é nesse aspecto um “Nilo”. Pão de Açúcar Petrolândia e Petrolina Ibiraba. trazendo energia para toda a região.Para os Olhos do Mundo um Símbolo de Integração Nacional: Rio São Francisco". Na primeira estrofe a canção faz referências aos elementos da mitologia indígena (Jaci. presenciando o processo de desenvolvimento da região com a chegada das hidrelétricas: “As bandeiras da fortuna Velhos sonhos coloridos Esmeraldas. ecoará pela caatinga. os compositores falam de lembranças da infância em volta do rio. e que tem a capacidade de sustentar hidrelétricas. e também uma visão “mágica” aos olhos de uma criança. as cores das bandeiras nas festas populares das cidades ribeirinhas se tornam imagens metonímicas da riqueza que vem com as hidrelétricas. O eu lírico aqui se apresenta relembrando as imagens que estavam na consciência do eu enquanto criança.Na estrofe seguinte. do Imaginário Indígena a Saga de Opara. Brejo Grande Águas tão nordestinas” Porém. a escola de samba Mocidade Alegre desfilou sob o samba-enredo “Das Lágrimas de Iaty surge o Rio. bem à lenda do colonizador acerca do Eldorado. O título num tom quase barroco já se propõe a utilizar os aspectos lendários e do imaginário da colonização da região do São Francisco. Todo o processo aos olhos do menino é um processo mágico. hidrelétricas O menino viu passar Na pureza da magia Nas cidades que nasciam Em Minas Gerais. Bahia De Januária à Curuçá” Assim. a cantiga em homenagem ao rio que corta o sertão semi-árido. O dístico final da composição: “No toque da minha cantiga / Irrigarão a caatinga”. Alagoas e Bahia que ficam às margens do rio. terminando com o verso que designa a localização regional dessas cidades: “São Romão. o que são “Águas tão nordestinas”? O rio que corre uma região semiárida. de ser navegável. A penúltima estrofe se compõe de nomes de cidades em Pernambuco. Assim instaura-se o conflito. No carnaval paulista de 2006. a criança que está ainda vida nos compositores e que se expressa por meio do verso e da canção. O a que se desdobra e que ecoa pela caatinga como eco da canção do rio.

conquistando essa identidade que ora se apresenta multifacetada e em mosaico. de modo a criar atmosfera da comunhão entre a religiosidade do Pajé e a do pescador cristão.. as romarias. a referência ao ritual do Toré e a citação à Iara. as carrancas. De Iara” Agora dois personagens estão aí colocados. mito indígena das águas: “Na dança do Pajé Um ritual de fé. africanos e indígenas está presente na maioria das festividades folclóricas da região. o epíteto de “Rio da Integração Nacional” se apresenta como resultado histórico do processo de colonização. pode-se planejar um futuro mais promissor. O Toré Se o pescador o Velho Chico encara Se encanta nas águas. De fato. já extinta. O sertanejo... a festa do Divino. E assim. mistérios no ar Lá vai sertanejo.E despertou das profundezas maus espíritos Jacy a grande noite provocou Ao proteger o paraíso do invasor Visando o Eldorado a procura de riquezas A cobiça prevaleceu Batalhas e guerras sangrentas No coração da mata o índio defendeu o que era seu” Na segunda estrofe. A tribo indígena. fornece com seu sacrifício os elementos de uma sublimação do espaço e do tempo conquistados. de Gonçalves de Magalhães ou nos poemas indígenas de Gonçalves Dias. Processo semelhante ao que o Romantismo do século XIX adotou para compor a história poética do Brasil em poemas como A Confederação dos Tamoios. Na estrofe seguinte um caleidoscópio em que imagens se misturam para contar do processo de miscigenação e de colonização da região do vale do São Francisco. pede proteção Resgata a "Tribo Brasil" O futuro está em nossas mãos” Ainda nesta estrofe. estórias contar Miscigenação. A estrofe sugere que é preciso resgatar o passado – notadamente os valores do passado pré-colonial – para se unir à “Terra Mãe” como forma de afirmação da identidade da cultura brasileira.. O ritual profano do Toré é apresentado como ritual de fé. o sincretismo religioso e a mistura de elementos europeus. 15 .. não mais em sentido explícito de conflito.. mas em conjunção para compor a cena: o pajé e o pescador. “Vapor encantado. Tudo é resumido na idéia de uma “Tribo Brasil”. Romaria abençoou Vai a carranca todo mal espantar Vem repentista canta esse santuário Um rio de integração nacional Terra Mãe . Rica cultura o tempo ultrapassou Festa do Divino.

mas depois por Elba Ramalho. Aqui a ponte se apresenta como o elo de ligação entre os dois lugares que fizeram parte das lembranças da infância do compositor. mas sim sujeito do segundo verso (“Ela – a beleza – conservou a natureza”).Na estrofe final. as lágrimas de Iaty é que vão compor as águas que correm no Rio São Francisco. / vou voltar pra Petrolina”. teve como um de seus primeiros sucessos “Petrolina Juazeiro”. Se entendemos que o pronome “ela” se refere à beleza. compositor popular. A seguir lemos os versos: “Do outro lado do rio tem uma cidade / que em minha mocidade eu visitava todo dia. A elipse aí colocada entre esse dístico e os versos antecedentes é que o compositor quer voltar à Petrolina para ver a beleza da ponte. por ser tão bela. com ambigüidades características. apresentando explicitamente suas memórias de criança. então se diz que a construção humana se harmonizou com a Natureza. sendo esta uma obra abençoada. a referência ao nome indígena do rio (“Opará”). Outra música que trata do tema é “Ciúme” de Caetano Veloso (esta canção analisamos em outro artigo). se lemos que “ela” não é objeto direto de “natureza”. Retomando a idéia do título do samba-enredo. então se diz que a Natureza incorporou a construção da ponte. Como na composição de Laílton e Wanderley Araújo. pelo processo de urbanização e de desmatamento. formando o curso do rio São Francisco. Numa linguagem bem popular. A seguir se repete duas vezes os versos: “Pra não morrer de saudade. Em que se pese o tom ufanista da letra do samba-enredo. diante do ritmo avassalador do processo de colonização. notadamente indígena. composição gravada pelo Trio Nordestino primeiramente.” O compositor então se coloca como morador de Petrolina e que costumava visitar a cidade do outro lado do rio. nasceu a beleza / E a natureza ela conservou”. A música tem como tema o cenário da ponte que liga as duas cidades. a carranca incutia medo na 16 . Jorge de Altinho. Jorge de Altinho começa a canção dizendo: “Na margem do São Francisco. é o resultado direto no poema dessa busca de identidade que se supõe esteja no imaginário do índio transposto para a cultura do colonizador: “Corre nas veias do sertão "Opará" a salvação Vamos preservar Vem a Morada do Samba. hoje substituído. O terceiro verso diz: “Jesus abençoou com sua mão divina”. como se o desfile da escola fosse a metáfora da correnteza do rio.. fazendo da ponte parte da própria Natureza – o que seria uma interessante construção poética. A seguir. Navegar” Numa imagem poética de alegorização o rio é transposto para a avenida onde se apresenta a escola de samba. chorou tanto que suas lágrimas formaram a cachoeira de casca Dantas. a composição apresenta os elementos centrais da discussão acerca da preservação cultural. Por outro lado. o compositor escreve: “Hoje eu me lembro que nos tempos de criança / Esquisito era a carranca e o apito do trem”. Geraldo Azevedo e Alceu Valença. Iaty era o nome de linda índia que chorou a morte do amado em uma guerra. e as águas seguiram os passos dos guerreiros desaparecidos. o que se entende que a construção da ponte conseguiu tal relação com a Natureza devido à bênção de Jesus. Segundo lenda indígena. incorporando ao discurso poético a referência à forte religiosidade do povo nordestino..

região do Agreste Pernambucano. a de Geraldo Azevedo. A barcarola tem como aspecto definidor o de tratar do tema da água. o de amar exageradamente. vela a bailar Barcarola de São Francisco Me leve para o mar Era um domingo de lua Quando deixei Jatobá Era quem sabe a esperança Indo à outro lugar Barcarola de São Francisco 17 .criança pelo seu aspecto assustador. O dístico final: “Todas as duas eu acho uma coisa linda / Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina”. Geraldo Azevedo. ao estranho. beira de rio Vento. gravou também a música de Jorge de Altinho. mas em Altinho. também pode significar amar. causava na criança esse estranhamento. O título da canção é “Petrolina Juazeiro” e no verso final temos a ordem Juazeiro – Petrolina. A expressão “gostoso vai e vem”. confere um sentido rítmico ao movimento da ponte e do trem. notadamente de um rio ou corrente de água e ter um tom sentimental romântico. o compositor vai criando a metáfora rítmica do barco a navegar sob águas calmas: É a luz do sol que encandeia Sereia de além mar Clara como o clarão do dia Mareja o meu olhar Olho d'água. criando um aspecto metalingüístico com a música. num ritmo híbrido com versos octassílabos e hexassílabos. Já o apito do trem era para a criança um outro motivo ligado ao adjetivo esquisito. demonstrando como a engenhosidade humana pode se harmonizar com a beleza da Natureza. Se primeiro “esquisito” se refere à carranca como feio. no caso do apito do trem. grande e barulhento. Jorge de Altinho escreve: “Mas achava lindo quando a ponte levantava / E o vapor passava num gostoso vai e vem”. A ponte enfim faz esse elo de união entre os dois lugares que compõem as lembranças do compositor (em que se pese o fato de que biograficamente Jorge de Altinho não viveu em Petrolina ou Juazeiro. sugere que a ponte criou essa união entre as duas cidades e que o menino – recuperado pelas memórias do compositor – se eterniza na visão que o compositor tem ao rever a ponte. como se tal ação significasse a harmonia entre o barco e a ponte. No caso. Jorge de Altinho cria uma atmosfera de ingenuidade e de encantamento diante da ponte que liga as duas cidades. compôs sob o tema a música Barcarola do São Francisco. Na sua simplicidade de compositor popular. uma vez que gostar. se refere ao exótico. Nos dois versos seguintes. pois o trem que vinha apitando. como que simbolizando a volta depois da ida. que como já dissemos. o menino via beleza na engenhosidade da ponte pênsil se levantar. bucólico ou infantil. município próximo de Caruaru. mas adorar tem além do sentido de prestar culto. Os verbos gostar e adorar tem aqui uma função sinonímica. mas pode também sugerir uma graduação. mas aqui é o compositor que se transfigura liricamente na imaginação duma criança que tenha vivido entre as duas cidades). em grandiosidade para que o barco à vapor passasse. Opondo-se ao estranhamento do apito do trem e á feiúra da carranca.

como destino. No presente o eu lírico agora tem a esperança de voltar a ver o brilho do sol no horizonte sobre o corpo da sereia. ponte de chegada. Geraldo Azevedo. o segundo.. Porém. entre a esperança e o alcançado: “Era quem sabe a esperança / Indo a outro lugar”. na busca da sereia. a junção da luz do sol com a silhueta da sereia encanta o eu lírico que se lança a navegar em busca de alcançar a sereia. sem tesouro de prata ou de luar. mítico e bucólico do cenário das águas do São Francisco. ponto de partida. “Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Se eu fosse um peixe Ao contrário do rio Nadava contra as águas E nesse desafio Saía lá do mar pro Riacho do Navio Saía lá do mar pro 18 . rio e mar.Velejo agora no mar Sem leme. Luiz Gonzaga. mapa ou tesouro De prata ou luar Eu. como passado. a canção faz do rio São Francisco o espaço mágico dessa busca. o brilho do sol ilumina o corpo da sereia de além mar. esta se mostra inatingível. Os dois lugares. No início da canção. Por sua vez. O conflito entre o querer e a realidade. em “Serra do Navio”.. solitário no mar. realização. o primeiro como início. como momento inicial dessa busca esperançosa se contrapõe ao presente. apresenta sua barcarola recuperando o sentido lírico. O domingo de luar de prata. colocado na “Noite longe que ficou em mim”. menestrel reciclado do sertão e do mundo moderno. nos apresenta um outro cenário acerca do rio São Francisco. a sua oposição como espaço de águas com o sertão seco. em sonho um beija-flor Rasgando tardes vou buscar Em outro céu Noite longe que ficou em mim Noite longe que ficou em mim Quero lembrar Era um domingo. Metáfora da busca da felicidade. caminho. como musa perfeita distante da realidade.

19 . que por sua vez é afluente do São Francisco. Voltar para o sertão para ver sua terra natal. daí sua necessidade de voltar e de esquecer o lugar em que fora forçado a ir: “Sem rádio e sem notícia das terras civilizada”. Bacia hidrográfica da região do semi-árido. apresenta a estrofe em que demonstra o desejo do sertanejo longe de sua terra de voltar ao seu torrão: “Se eu fosse um peixe / ao contrário do rio / nadava contra as águas”. aqui. ao passo que a cidade. O lugar agradável. reviver as caçadas. As águas. Porém a relação entre Lócus amenus e lócus horrendus aqui é ambígua. após o refrão. Nesse outro lugar o sertanejo se sente deslocado. essa agitação típica da cidade. o caminho inverso. Luiz Gonzaga propõe a volta. se mostrando insatisfeito com a situação de degredo forçado. A terra civilizada é o espaço da comunicação – o rádio aqui representa essa comunicação. sem reconhecimento. que vive nas águas. Rios de caráter temporário. Essa saudade do sertanejo se opõe à condição da vida na cidade grande. metáfora da condição do imigrante do polígono das secas que procura as capitais do litoral ou do sudeste como forma de escapar da condição de flagelado da seca. arrisca-se ao fazer o caminho inverso das águas. como o flagelado da seca deixar sua terra. O eu lírico busca a si mesmo esquecendo o mundo urbano – Fugere Urbem reinventado nas circunstâncias do sertão. a vida de vaqueiro enfim. Riacho do Navio. A música tem como refrão uma descrição do caminho das águas do Riacho do Navio até a foz do São Francisco. como forma de recuperar sua identidade. Tando lá não sinto frio”. Porém.Riacho do Navio Pra ver o meu brejinho Fazer umas caçada Ver as "pegás" de boi Andar nas vaquejada Dormir ao som do chocalho E acordar com a passarada Sem rádio e nem notícia Das terra civilizada Sem rádio e nem notícia Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Riacho do Navio. Luiz Gonzaga. o sertão. De fato. tanto é natural ás águas irem para o mar. o riacho do Navio é um dos principais afluentes do rio Pajeú. o do Navio e o Pajeú passam meses sem água. bem ritmado no baião. as vaquejadas. é inóspito pela condição social em que o sertanejo se encontra. da qual pretende fugir. Assim. Metamorfoseado em peixe. de fato é inóspito pelas condições climáticas. que só sobrevive nelas.

Carlos Pita em 1979 lançou um disco constituído de músicas que formam uma espécie de narrativa tendo como tema uma transposição do universo das novelas de cavalaria para o sertão.(Carlos Pita) 3.Gereba) 10.(Carlos Pita) 4. O príncipe das Verdejanças e o amor do Verdejar . de fato ambos os rios correm no sentido do Nordeste para o Sudoeste.(Fernando Lona .Carlos Pita) 11.Carlos Pita) 12.(Carlos Pita) Tendo como pano de fundo as raízes medievais do canto repentista e da literatura de cordel. A história da princesa das Candeias de amor com o cego do Alumiar . o rei. Princesa sertaneja .Kapenga) 8. A princesa do Agreste e o cantador do elo ao mar . ao inverso do São Francisco. o cavaleiro.(Carlos Pita) 5.(Fernando Lona . As canções 2. é um sertão medieval. que entre outros. Por essa época Carlos Pita estava envolvido com o grupo de artistas liderados por Elomar.(Fernando Lona . O arco-íris trovejou . daí sua armadura de couro e corda e sua dama ser uma certa “dama dos Rasos de Seca”. Carlos Pita vai compondo um panorama caleidoscópico de personagens característicos como a princesa. o príncipe. A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear . flora. O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor .(Carlos Pita) 2. O romance do rei do Ensolarar com a bela das Rendas de Lua . se afastam do mar. acerca das guerras de cavalaria.A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar . que ao pegar as águas desses rios dá à elas o sentido esperado de seguir em direção ao mar. A primeira canção (“O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor”) é no ritmo do repente.Carlos Pita) 7. 3 e 4 formam uma trilogia centrada na imagem das novelas de cavalaria: "Cavaleiro enluarado.(Patinhas . com destaque para o cenário do Rio São Francisco. estavam presentes. ou seja. No 20 . a donzela.(Carlos Pita) 6.O caminho do rio Pajeú e do riacho do Navio é a metáfora desse desejo do sertanejo.(Carlos Pita) 9. geografia e folclore da região. em que a letra vai se formando com referências à fauna. costumes. A história dos quatro reinos desaparecidos e os guerreiros do Mal Viver . Compõese versos acerca da arte do amor. Xangai. com violas na afinação característica. Dércio Marques e Fábio Paes. A rainha do Trançar e o violeiro dos Esqueces . As faixas que compõem o disco Águas do São Francisco (1979) de Carlos Pita são: 1. A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca . enfim. De onde vens que não se chega? De que terra traz partida Coração sujo de estradas?" (“A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar”) A terceira canção (“A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca”) busca metaforizar o vaqueiro do sertão com a figura do cavaleiro medieval.(Patinhas . a rainha.

defendiam a monarquia. como outras que até aqui vimos. já no título. princesas.. Esse rio é um verdadeiro mar. A letra da composição. E eu sentado na proa. em que reis de reinos imaginários dum sertão lendário se aventuram em guerras e conquistas de amores. Pedro Sampaio canta a navegação no Rio São Francisco: 21 . tem como argumento as lembranças de criança numa infância em torno do rio: “Lembro das pescarias. uma monarquia messiânica. te vendo passar.) Você é o espelho da pura bondade”. tem a música “Rio São Francisco”. uma homenagem ao cantador Elomar. talvez desses imaginários que é natural da infância. Fazendo a república jus a essa imagem pela forma violenta com que tratou essas manifestações sertanejas de beatos. com fortes elementos do sebastianismo português e que viam na jovem república a antropomorfização de elementos demoníacos e apocalípticos. em que o cavaleiro sertanejo é um vaqueiro: “Cavaleiro que passas Que vais pro Sertão Qual o destino que levas? Que queres correndo o chão? Conta os caminhos que segues. Bahia. presta. E farei a luz do Amor Clarear teu coração. Molhado à garoa. que se qualifica pela bondade e pela pureza: “Sei que és meu amigo. Quando meu pai me dizia. compositor natural de Xique-xique. tem também suas bases no sincretismo religioso que vai buscar essas figuras na religiosidade medieval vinda com o colonizador português. O tema do sertão medieval é constante nas obras teatrais de Ariano Suassuna. que de certa forma. tu podes provar (. A canção “A Princesa do Agreste e o Cantador do Elo ao Mar”. Conta as guerras que te atreves. mas já se encontra latente na obra de Guimarães Rosa. Em outra composição. Fundada num imaginário que vê reis.mesmo tom vai a canção seguinte (“A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear”). cavaleiros e cantadores espalhados pelos confins do sertão.. as canções do disco seguem um tom de narrativas de aventuras palacianas. Pedro Sampaio. na música de Elomar Figueira de Melo.” A seguir. transposta para a pregação de beatos como Antônio Conselheiro e José Lourenço. na poesia épica de Marcus Accioly. “Assobio do Vapor”.” O Rio São Francisco é personificado por Pedro Sampaio num amigo.

Uma das maiores enchentes ocorreu em 1979 em que cidades como Barra (BA). O tema parte da cena das enchentes do rio. e o aspecto rústico da embarcação (“não tem camas. Gino e Geno criam uma composição em que a enchente do São Francisco não é apresentada como destrutiva. época em que aumentam as chuvas nas cabeceiras. nesse sentido. O compositor. cerca de 450 mil pessoas sofreram com as enchentes neste ano. ainda por cima. assim como o do compositor. aumentava o amor da gente E eu pedindo ao São Pedro. como menestrel. a presentificação do rio da vida. eu tomava café quente Muitos beijos e abraços. faz do rio o caminho que cruza pelo sertão e pela vida para mostrar suas composições. de tal maneira que o dormir à rede. Com velocidade de águas raramente superior a 7 quilômetros por hora. fui obrigado a voltar Pra casa do meu amor e passei a noite por lá Fiquei a noite inteirinha Ao lado da moreninha esperando as águas baixar Enquanto as águas baixava. mas em outubro. ocorrem as enchentes. servindo assim como álibi ou desculpa para que ele retorne aos braços de sua amada: As águas do São Francisco estava por cima da ponte Este é o grande motivo que eu não pude atravessar Mas isso eu achei foi bom. cujo nome tem. o rio parece muito calmo. que aumentasse a enchente: São Pedro eu estou gostando As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente Falado: " É meus amigos. mas apenas como força que impede o personagem de atravessar a ponte. tem como ajudante ou escudeiro. O São Francisco é. Destacando o porto fluvial de Pirapora (MG). E como um Dom Quixote ou um cavaleiro menestrel. origens medievais. as águas do São Francisco me impediram de atravessar a ponte e eu voltei pra casa do meu amor. e isto eu achei bom demais" 22 . A dupla de música caipira Gino e Geno criaram a música “As Águas do São Francisco”.“Quem ouviu o assobio do vapor Quem vai partir Que arrume as trouxas por favor Vai subir o rio afora Vai chegar em Pirapora Não tem camas nem retratos na parede (do vapor) Só o balanço que embalança A minha rede (de tricô) Vou levando minha viola E as cantigas com o parceiro Loiola” O assobio do vapor serve de motivação inicial para descrever a navegação pelo rio. nem retratos na parede”) e o hábito sertanejo de dormir em redes (“Só balanço que embalança / a minha rede”). O balanço da rede assim se harmoniza com o ritmo das águas do rio. Pedro Sampaio. sonhar. é parte desse rio alegórico que representa o caminho da vida. Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) sofreram com vários bairros alagados e segundo estimativas. o parceiro Loiola.

O “lá pra cima da Bahia” se refere ao mapa da Bahia. constituído de uma locução verbal. e os verbos finais mudam o ritmo dos pés (vai \ mu \ dar). porém. Os dois versos seguintes vão agora contextualizar a região da construção da represa (“O São Francisco lá pra cima da Bahia. A profecia que tem cunho apocalíptico e sebastianista pode ser encontrada no discurso de cantadores. de tal forma que o pedido e o agradecimento a São Pedro: “São Pedro eu estou gostando / As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente”. A canção se inicia com um verso que pode ser considerado um lema da defesa do meio ambiente: “O homem chega e já desfaz a natureza”. não é outro o motivo que faz Carlos Pita criar composições de caráter romanesco medieval. se os compositores fazem da enchente do São Francisco motivo para um affair amoroso ao contrário de citar a destruição que a força das águas provoca. A seguir. O rio São Francisco está envolto assim num imaginário que faz do ritmo mais constante de suas águas. beatos e poetas anteriores e posteriores a Antônio Conselheiro. com alguns “erros” de concordância. represas e barcos. dizer) nos pés de três sílabas dão um ritmo de grande velocidade à ação humana. pontes. Os três verbos com sujeito oculto (tirar. O verso seguinte contextualiza a questão da construção de represas: “Tira gente. sendo a enchente o artifício que permite ao eu lírico a continuação de seu encontro amoroso.Numa linguagem bem popular. a 40 km de Juazeiro (BA) e que deslocou pequenas cidades da região para fora do alcance do lago a ser formado. a fronteira com Pernambuco que é constituída pelo próprio rio São Francisco. Poderíamos falar em alienação. mas não nos parece esse o tópico principal. música que é quase um hino em questão ambiental. O próprio nome de “O Velho Chico” reforça essa imagem. segundo a Chesf. / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar”). vinda desde o processo de colonização do sertão. De fato. Este pé. de um rio tranqüilo. A expressão “dia menos dia” coloca o acontecimento como um tempo indefinido. de um rio “aparentemente” cercado pela civilização de cidades. assim como períodos de seca. de modo que em Paulo Afonso e em Xingo a água pudesse chegar com uma vazão constante. a letra da canção fala desse espaço lírico em que o amor é o motivo principal. era de regularizar a vazão do rio compreendido o trecho entre aquela região e o delta. põe represa. sua porção norte. pôr. de águas constantes. a imagem de um cenário pastoril. suas origens são mais antigas. O refrão da música em versos de redondilha menor e maior faz um jogo de palavras com a profecia do beato: “O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão” 23 . O tema da música é acerca da construção da barragem de Sobradinho. O objetivo principal da represa. latente e próximo. surge a referência à profecia popular de que o sertão vai virar mar. “Sobradinho” de Sá e Guarabira talvez seja das mais conhecidas músicas acerca da questão das represas do Vale do São Francisco. diz que tudo vai mudar”. bucólico cercado pelo sertão quente e inóspito. Lembremos que a grande enchente de 1979 pode ser controlada no referido trecho. as águas calmas de não mais que 7 quilômetros por hora em seu maior trecho. coloca a ação num futuro improvável. porém. tal se deve ao imaginário que envolve a cultura do vale do São Francisco. A profecia é atribuída ao beato Antônio Conselheiro.

De fato. De fato o lago artificial ali formado é o segundo maior lago artificial do mundo. conforme se lê no primeiro verso. Assim. mas é também. no contexto da construção da represa e dos benefícios que ela trouxe. esclarece o motivo da destruição das cidades locais. do aumento das águas. o de Sobradinho. A desordem na vida local causada pelo progresso. As incertezas causadas pela modificação do cotidiano. Junto à orla da represa surgiu o bairro conhecido como “Chico Periquito” com bares e restaurantes à beira do lago. E por sua vez. 24 . o aumento das águas vem provocar a destruição da tranqüilidade local. a construção da barragem deu origem a uma nova cidade. Sento Sé Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir” O nome das cidades tem um significado maior do que simplesmente toponímico: “Remanso” (se originalmente o significado é uma enseada tranqüila. “Pilão Arcado”. “Sento Sé” se refere ao lugar em que a Sé (igreja principal de uma diocese) se localiza. desaparecida pelo aumento das águas: “Adeus Remanso. e passaram a utilizá-lo para pilar o sal que salgava o peixe. em uma das margens do rio São Francisco. o que nos dá uma idéia de localização duradoura. O verso “Debaixo d’água lá se vai a vida inteira” faz referência à perda das raízes. messiânico. Os dois versos seguintes: “Vai ter barragem no salto do Sobradinho \ E o povo vai se embora com medo de se afogar”. e aí ela tem um sentido apocalíptico religioso. início de uma vida nova e feliz. com autonomia de município em 1989. antes originalmente era apenas a vila dos trabalhadores empregados na construção da barragem. a quebra do que parecia imóvel. sob esses aspectos. A seguir uma quadra em versos dodecassílabos. com formato de uma curva em arco. permanente. O homem é o sujeito da ação na canção de Sá e Guarabira. Desse modo. Porém. pela destruição do antigo em face do novo. esta por sua vez. permanente. do cumprimento da profecia do beato: a construção da barragem de Sobradinho. percebemos que a voz da letra da canção é a do povo local às vésperas da construção da represa. Este medo do progresso é que dá força ao discurso. o dia do juízo final. o sentido da canção é poeticamente ambíguo.A inversão da profecia (“o medo que algum dia / o mar também vire sertão”) tem um sentido apocalíptico. no sentido figurado é também descanso. o medo diante do novo. A poluição das águas e a conseqüente destruição da Natureza pelo homem mesmo e não por uma ação castigadora de Deus. relendo a letra de Sá e Guarabira. em Sá e Guarabira o sentido é ecológico. Assim. de tal forma que ao mesmo tempo é crítica mordaz e bem fundada à destruição da Natureza pelo homem. da identidade. Convém ressaltar que os municípios citados foram reconstruídos em local mais seguro e que com o tempo obtiveram progresso econômico e social com a barragem de Sobradinho. “Casa Nova” nos dá a idéia de casa recentemente construída. Conta a tradição local que a denominação está ligada a uma lenda de pescadores que encontraram um pilão. da tradição. tranqüilidade). cita o nome das localidades atingidas pela subidas águas e compõe a cena do gaiola – tradicional embarcação do rio – navegado por onde antes era uma cachoeira. na profecia se diz que o mar virará sertão quando o sertão virar mar. Casa Nova.

esta musica foi composta logo após uma viagem minha ao nordeste no mês de novembro de 2004.umavidapelavida. E apresenta como solução para o problema a revitalização do rio. Sílvio Brito escreveu ao frei: “Querido irmão. sejam as próprias populações ribeirinhas. Conte com este amigo no que puder te servir neste bom combate. O que se entende por revitalização é o controle das causas do assoreamento e a devida política de controle dos agentes poluidores locais.” 1 A canção de Sílvio Brito tem como refrão os versos distribuídos em duas quadras de rimas cruzadas ABAB e tendo em cada quadra.” Sílvio Brito faz referência ao processo de assoreamento do rio e à poluição. daí na canção Sílvio Brito diz: “Mas é preciso mais boa vontade Mais ação e decisão Para fazer de verdade A revitalização Pois então vamos reciclar o lixo 1 Silvio Brito em: http://www. De fato.com. Esta é minha contribuição ao movimento e eu a estou colocando à disposição para ser utilizada na sua campanha ‘Uma vida pela vida’. O engajamento é na defesa que comunidades locais do São Francisco fizeram contra o projeto federal de transposição das águas do rio. tem se mostrado que o curso do rio São Francisco vem sofrendo continuamente com isso.html. e o outro indo até a Paraíba. os agrotóxicos e o desmatamento da vegetação ciliada. na bacia do mesmo nome. inclusive pelo episódio de uma greve de fome contra o projeto. tendo sua vazão prejudicada ano a ano.Já a canção de Sílvio Brito. três versos octassílabos e um quarto heptassílabo: “O Velho Chico tá morrendo Já nem tem mais navegação E ainda tem gente querendo Essa tal transposição O Velho Chico tá sumindo Ta suplicando salvação Mas em seu leito tá pedindo A revitalização. Tais ações envolvem políticas concretas. “O Velho Chico” é literalmente uma canção engajada. 25 . O frei Luiz Cappio se notabilizou pela campanha contra a transposição.br/musica_silvio. criando dois grandes canais que serviriam água para o sertão de Pernambuco e Ceará. quando vi o rio São Francisco e fiquei muito triste ao saber que aquele rio que fornece vida para todos os seres que vivem em suas margens poderia vir a morrer. até a bacia dos rios Piranhas e Jaguaribe. sejam – principalmente – as indústrias.

Chega de poluição Vamos transformar o Chico No oásis do sertão”. Outro aspecto da canção de Sílvio Brito é o jogo que faz entre o nome do rio e do santo: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza.” Assim, o compositor mineiro, natural de Três Pontas, famoso por sucessos como “Farofa-fa”, “Pare o Mundo que eu quero descer” e “Tá todo mundo louco”, apresenta também um argumento messiânico, da ação divina em defesa da Natureza. Mas tal argumento é apenas simplório e se perde no contexto geral da canção de repúdio ao projeto de transposição, de tal modo que a expressão “Tem gente” no verso “E ainda tem gente querendo”, logo seguido pelo verso “Essa tal transposição”, em que a expressão “Essa tal” tem um sentido pejorativo, na linguagem popular, dá um sentido de que o projeto está fundamento em razões equivocadas e de desconhecimento do verdadeiro problema do rio. Porém, é de se ressaltar que de fato existe a necessidade da revitalização, mas que ambos os projetos, o de revitalização e o de transposição não são excludentes, sendo no máximo dependentes, ou seja, a transposição teria como pré-requisito para seu sucesso a revitalização da bacia do rio. Morares Moreira compôs a música São Francisco, num ritmo agalopado, com predomínio de versos em redondilha maior. A canção sintetiza aspectos culturais do Vale do São Francisco. Partindo de uma comparação entre o compositor e o rio, Moraes Moreira começa a apresentar as características comuns a ambos, num processo de personificação do rio: “O meu caminho eu escolho Tirando o cisco do olho Enxergo longe, me arrisco Sou como o Rio São Francisco Faço no tempo viagens No espaço da noite e do dia, Indo, fluindo às margens De Pernambuco e Bahia Andando por todos os lados Sincretizando os Estados Arrematando as costuras Na integração das culturas” Ora fazendo quadras com rimas emparelhadas, ora com rimas cruzadas, vai tornando o ritmo alucinante das imagens apresentadas. O ofício de compositor popular é 26

assim emparelhado com o caminho do rio: “Andando por todos os lados / Sincretizando os Estados”. Percebamos o verbo aí colocado: Sincretizar, ou seja, integrar elementos diferentes numa síntese. Nas duas quadras seguintes, Moraes Moreira diz que está em busca do que é mais novo, ou seja, do progresso e se apresenta como ponte que unifica, comparando o papel da ponte que liga Petrolina a Juazeiro: “Assim como o rio promovo O abraço que a gente precisa Em busca do que é mais novo Sim ultrapasso a divisa Fazendo a ponte, sem medo Antonio sou brasileiro João, Geraldo Azevedo Petrolina e Juazeiro” Cita nomes populares como Antonio e João, e presta homenagem a Geraldo Azevedo. O verso “Sim, ultrapasso a divisa” é mais do que o sentido de ultrapassar fronteiras regionais ou estaduais, mas no sentido da avant-garde, do ir além do comum, do previsível. Neste sentido, se pensamos não na obra de Moraes Moreira, mas no rio com que se identifica, temos que o rio São Francisco sempre foi palco de discussões acerca do progresso, tido como rio da integração nacional. Na quadra seguinte, Moraes Moreira nos fala da imensidão do Brasil, e que o trabalho de compositor é tão grande quanto o percurso do rio: “Por essas águas tão boas Sou navegante feliz Sergipes e Alagoas Minas, imensos brasis” Sergipe e Alagoas são os pequenos estados que estão na foz do São Francisco. O fato de colocar o nome dos estados no plural é uma forma de torná-los substantivos comuns, fazendo referência que na bacia do Vale do São Francisco, que se inicia em Minas Gerais, cabem várias vezes o tamanho desses dois estados. O verso “sou navegante feliz”, tem um sentido metafórico, é mais do que a referência às navegações no rio, mas sim no sentido de que a história da sua carreira de compositor é uma navegação. A parte final da canção compreende os seguintes versos: “Quem pode parar a planície, Os rios e os oceanos? Ah meu amor, acredite Também assim sem limite É o sonho dos seres humanos Quem pode parar o planeta? E o movimento que há? 27

Ah meu amor, com certeza As forças da natureza O vento quem pode parar? Lavam na beira do rio As lavadeiras de Deus A alma dos pecadores E o coração dos ateus” Aqui duas quintilhas precedem a última quadra. A primeira quintilha começa com uma indagação: “Quem pode parar a planície / Os rios e os oceanos?” Argumentando assim que a força da natureza, especialmente a que se expressa no rio São Francisco é ainda mais forte do que a engenhosidade do homem, e que é o sonho humano dominar o rio, um sonho “sem limite”. Referência indireta às represas, barragens e o projeto de transposição. Por outro lado, na quadra que se segue, o compositor responde que a Natureza pode parar a rotação do planeta, superando assim a força humana. Por fim, mais um questionamento acerca da força da Natureza: “O vento quem pode parar?” A resposta implícita é de que o homem não pode. A quadra final, fecha a canção com a imagem das tradicionais lavadeiras de roupa às margens do rio. Porém, num sentido figurado, a lavagem da roupa suja é também a lavagem dos pecados e da arrogância do homem para com a Natureza. Daí lavar a “alma dos pescadores e o coração dos ateus”. Buscamos apresentar aqui algumas composições populares que tratam do tema do rio São Francisco, é possível que tenhamos esquecidos algumas até mais significativas que estas, mas acreditamos que conseguimos aqui apresentar o panorama da imagem do rio São Francisco na música popular brasileira.

28

em companhia do amigo Benedito Bezerra. 1. “O Ciúme” de Caetano Veloso. Certa feita num bar à beira do Rio São Francisco. a que melhor representa essa nossa necessidade: O Ciúme Dorme o sol a flor do Chico meio dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte. eu Juazeiro nem te lembras desta tarde Petrolina nem chegaste a perceber Mais na voz que canta tudo ainda arde Tudo é perda. em Pernambuco. na USP. Neste breve texto pretendo fazer uma análise da letra desta canção. cadê Tanta gente canta. tanta gente cala 29 . Canção de Caetano Veloso Uma das canções mais bonitas que fazem referência ao Rio São Francisco é. tomávamos uma cerveja e ouvimos o cantor que ali se apresentava. eu só. nem triste. sendo as duas primeiras e as duas últimas transcritas como quartetos. não me ensinas E eu sou só.br). próximo à ponte que une a cidade baiana à Petrolina. o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Que nem alegre. ocorrido na UNIVASF.com.caetanoveloso. em 2007. menos dramática que a dos dois tropicalistas. A Forma e o Ciúme A letra da canção foi por nós consultada em diferentes sites. e a estrofe central com 5 versos. do outro lado do rio. nossa análise já foi parcialmente apresentada no congresso regional da SBPC. em 2008. Buscamos encontrar a forma de transcrição da letra que mais correspondesse às necessidades poéticas de uma composição versificada. Já ouvi essa música na voz de Geraldo Azevedo que dá uma interpretação um pouco mais ligeira e ao mesmo tempo. assim como também falamos um pouco acerca disso no 11.br\site) e o site (www.caetanoveloso. nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens de Minas De onde o oculto do mistério se escondeu Sei que o levas todo em ti. Pernambuco. Bahia Só vigia um ponto negro. fazer uma interpretação também bem intimista da música.1.Acerca de “O Ciúme”. sem dúvida. inclusive os sites que se apresentam como oficiais de Caetano Veloso (www. Cremos que aquela que divide a canção em 5 estrofes.° Congresso Internacional da Abralic. do lado de Juazeiro da Bahia. Rio. Assisti a um vídeo no Youtube com Gal Costa e o próprio compositor baiano em belíssimo dueto interpretando a música.com. com seu violão. tudo quer buscar.

ª. Podemos contar os quartetos como formados por endecassílabos. na numerologia é um número de avatar. não sendo divisível além de por ele mesmo e pelo número 1. não permite uma escansão tão simétrica e regular quanto a que propomos para as demais./ eu 30 . A estrofe central do poema. mas a engenhosidade de sua metrificação híbrida e o fato de estar colocada ao centro do poema dá um sentido simbólico à forma: Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas De on/ de o/ o/ cul/ to/ do/ mis/ té/ rio/ se es/ con/ deu Sei/ que/ o /le/ vas/ to/ do em/ ti./ tu/do/ quer/ bus/car./ não/ me/ en/ si/nas E/ eu/ sou/ só./ so/ bre/ to/ da/ sa/la (11) Pai/ ra. sobre toda sala Paira. monstruosa sombra do ciúme. em termos numéricos./ tan/ ta/ gen/ te/ ca/la (11) Tan/ tas/ al/ mas/ es/ ti/ ca/ das/ no/ cur/ tu/me (11) So/ bre/ to/ da a es/ tra/ da. e acentos predominantes na 3. é também um símbolo da igualdade e da identificação (1=1). A ponte funciona nos dois sentidos. o aspecto de que o número 11 é primo. com rimas cruzadas. o número 11 é formado pela repetição do algarismo primeiro./ Rio.Tantas almas esticadas no curtume Sobre toda a estrada./ Per/ nam/ bu/ co. as duas cidades. E ainda. quanto para o reconhecimento do outro./ eu/ só. Como. Petrolina e Juazeiro estão. esse processo de divisão assume o caráter psico-simbólico de que a separação entre o eu e o outro é ao mesmo tempo um elo para a auto-identificação./ nem/ tris/ te. existe./ nem/ po/ e/ta (11) En /tre/ Pe/ tro/ li/ na e/ Ju / a/ zei/ ro/ can/ta (11) Ju/ a/ zei/ ro/ nem/ te/ lem/bras/ des/ta/ tar/de (11) Pe/ tro/ li/ na/ nem/ che/gas/te a/ per/ce/ber (11) Mais/ na/ voz/ que/ can/ ta/ tu/ do/ ain/ da / ar/de (11) Tu/do é/ per/da. porém./ mons/ tru/ o/ sa/ som/ bra/ do/ ci/ ú/me. Assim. isto é. indo e vindo. assim como o palindrômico número 11. em constante processo de autoidentificação e espelhamento. uma diante da outra./ Ba/ hi/a (11) Só/ vi/ gia / um/ pon/ to/ ne/ gro./ ca/dê (11) Tan/ ta /gen/ te/ can/ ta. de espiritualidade e de intuição. 7ª e 11ª sílabas: Dor/ me o/ sol/ a/ flor/ do/ Chi/ co/ mei/ o/ di/a (11) Tu/ do es/ bar/ ra em/ bri/ a/ ga/ do/ de/ seu/ lu/me (11) Dor /me/ pon/ te. (11) O número 11 é do tipo palindrômico. o/ meu/ ci/ ú/me (11) O/ ci / ú/ me/ lan/ çou/ su/ a/ fle/ cha/ pre/ta (E) (11) E/ se/ viu/ fe/ ri/ do/ jus/ to/ na/ gar/ gan/ta (11) Que/ nem/ a/ le/ gre. pode ser lido de trás para frente que não modifica o seu valor.

Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá. o elemento causador do ciúme projetado. ao que se enciúma e ao que sofre o efeito da ação enciumada do outro. É preciso reconhecer no outro aquilo que reflete de nós mesmos e saber trabalhar isso. não obstante. O terceiro verso é um alexandrino com elisão na 7. especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio. deriva-se. evitando o ciúme. ou seja exatamente ao meio do poema. por analogia. em Freud. p. de Memórias. Já que esta 7. na verdade. temos uma distinção de três tipos de ciúmes: o competitivo ou normal. O ser “só eu”. 31 . sonhos.ª sílaba é a última do primeiro hemistíquio do alexandrino e a primeira do hemistíquio seguinte. Se os juntamos. de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. (FREUD: 1976. o número 11. notadamente dos aspectos egoístas do ser. temos na forma. sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. para Freud. O ciúme é doloroso. Para C. tanto nos homens quanto nas mulheres. do poema. Nesse sentido. na paranóia e no homossexualismo. só se mantém em face de tentações contínuas. Os dois heptassílabos seriam num sentido significativo da forma da estrofe.e. o ciúme projetado. o “Ciúme é a falta de Amor” 2 .se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade”. implica na quebra da solidão também. é preciso que o segundo hemistíquio modifique sua característica de acentuação. Desde a antiguidade mais remota. o projetado e o delirante. eu” Porém. 3. eu/ só. temos a possibilidade de formar um verso dodecassílabo: “Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas /E eu/ sou/ só. 8ª e 12ª sílabas. Os dois versos centrais da estrofe e. o que implica em dizer. e o par é a união. daquele filho 2 Carl Gustav Jung. um dos quais. 271) Ver no outro. O segundo verso da estrofe é um dodecassílabo com acentos na 4. reflexões. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade. para que tal união seja prazerosa a ambos. Jung. aquilo que temos medo em reconhecer que existe em nós mesmos. Pode obter esse alívio . levam a cabo o que nos hemistíquios se apresenta como possibilidade.ª sílaba. Os nomes Petrolina (gênero feminino) e Juazeiro (gênero masculino) formam. alexandrino. a absolvição de sua consciência . O ciúme é o processo inverso da autoidentificação na relação de união. é um sentimento que causa dor a ambos. dois hemistíquios separados.ª pessoa do plural. do verso endecassílabo dá a analogia numerológica do que seja essa projeção. A origem desse sentimento parece ter causas diferentes. Do-em (doem). a analogia com a ponte que une (/do–em/). para que isso ocorra.A estrofe pode ser escandida em dois versos heptássilabos e dois dodecassílabos. do verbo doer. 1993. no âmbito da relação amorosa ou de amizade é. por conseguinte. As razões estão na questão do herdeiro. que também no processo de união de dois seres. no texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme.ª. para o homem tornou-se evidente a garantia da paternidade. Freud acerca da projeção do ciúme escreve: “O ciúme da segunda camada. Aqui começamos a falar do ciúme.G. a união masculino-feminino da relação amorosa. presente do indicativo. é preciso que se modifique algumas características da individualidade. Sílabas pares.

a infidelidade sexual tem diferentes conotações para homens e mulheres. o causador do ciúme entre ambos. econômicas e morais. Na simbologia esotérica. isto faz com que se imagine que a infidelidade sexual feminina esteja associada com o envolvimento emocional com outro parceiro (De Steno & Salovey. no lar. esse sentimento é exteriorizado pelo eu lírico. no caso da Lua. A estrofe central. pelo menos na cultura ocidental. fazendo com que seja superada a dificuldade causada pela passagem do rio.G. A descoberta de uma falsa paternidade. Todavia. para satisfação sexual. Na primeira estrofe da canção. Como o amor geralmente é um pré-requisito para o envolvimento de uma mulher em um relacionamento sexual. essa luz vem de sua interioridade. Jung. Como observa Thiago de Almeida: Ainda. A luz que se reflete.que continuará a obra do pai. o Sol representa os sentimentos do coração. orientador Ailton Amélio da Silva. pois o viajante segue seu curso. O homem. -. A ponte que se constrói. Manter o marido significava a garantia de poder criá-los a bom termo perante as exigências sociais. que se interpõe entre as duas cidades: “Entre Petrolina e Juazeiro canta”. O material reprimido forma um self negativo. Não havendo a possibilidade do terceiro.São Paulo. a Sombra do Ego. O brilho do sol refletido nas águas do São Francisco em oposição ao “ponto negro”. ao se discorrer sobre a temática do ciúme é necessário lembrar que para alguns teóricos. O rio é o viajante que vem de longe e se coloca entre Juazeiro e Petrolina. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações / Thiago de Almeida. se tomamos o gênero das palavras “Petrolina” e “Juazeiro” para compor a analogia de um casal masculino-feminino. Para C. apenas. ao passo que a luz que vem de dentro é a da sabedoria. 1996). Não são poucas as obras literárias que tratam da questão da descoberta da paternidade como elemento definidor da trama. Este terceiro é o rio São Francisco. esse ciúme logo é superado. os sentimentos que buscamos negar em nós mesmos formam uma sombra. 1996 e Harris & Christenfeld. de modo que o ciúme pode ocultar o brilho do Sol. implica na perda do que foi feito para outro. sentia-se em condição de se dedicar à mulher e arrumar uma ou mais amantes. Uma vez que possui luz própria. o investimento na geração de filhos. 2007. monstruosa sombra do ciúme”. unifica ambos. é preciso que identifiquemos um terceiro. Área de Concentração: Psicologia Experimental) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. maior necessidade de envolvimento emocional para a prática do sexo. por seu turno. como De Steno & Salovey. é a luz do conhecimento que é preciso adquirir exteriormente. 3 32 . Porém. 234 p. tinha sentido diverso. Na última estrofe. temos rima lume/ciúme. sentia. (ALMEIDA: 2007 3 ) Na letra de O Ciúme. consoante Sheets e Wolfe (2001). a admiração que causa a um e o outro a beleza do rio. como em O Arco de Sant’Anna de Almeida Garrett. em geral. a infidelidade masculina não tem tal implicação porque os homens têm mais condições de praticar sexo sem amor. A mulher. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. começa por tratar diretamente do rio: “Velho Chico vens de Minas”. intrínseco do sentimento de ciúme. logo é compreendida pelo outro. como tal. Para a mulher. 1996(a e b). que ao contrário da lua que a reflete. A canção termina nesses termos: “Paira. admiração. não existiria razão causadora do ciúme.

dominada pelo ciúme pode. Freud. Movido por esse sentimento. orientador Ailton Amélio da Silva. que de Juazeiro vieram João Gilberto. endurecendo-se aos sentimentos como se fossem peles “esticadas no curtume”. na impossibilidade de modificar esse estado de impotência de apreensão da verdadeira percepção da Natureza. reduz o valor do canto à expressão de um sentimento que não é de tristeza (drama. Busca incessante de apreensão do belo que resulta no moto contínuo da própria arte. é sua tênue possibilidade de vitória. 1. Rio de Janeiro. quando na verdade é artificial. que se sente diminuído pela impossibilidade de posse da beleza da Natureza. Referências Bibliografias: ALMEIDA. 33 . A tentativa de captar essa beleza vista ali da ponte entre Petrolina e Juazeiro. In: S. 234 p. nem poética (lírica). seu canto. Vol. substitui o bem que não se pode ter. restando a solidão. eu só. é também o maior trunfo do artista. a dor causada pelo ciúme tira a aura da canção. mas o simulacro: “Mais na voz que canta tudo ainda arde /Tudo é perda. 2. lhe parece fugidia como as águas do rio passando por sob a ponte e seus pés: “Sei que o levas todo em ti. São Paulo. tanta gente cala”). Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações Dissertação de Mestrado. Porém. A obra humana que se apresenta bela por desafiar a Natureza e conjugar-se no cenário. 18. pois a obra produzida. É o reconhecimento da mimesis como um processo de imitação. se reduz. não é a verdade. Thiago de. o reconhecimento dessa impossibilidade (“Sei que o levas”). Sigmund. é na canção. mas apenas a indiferença do distanciamento causada pela modificação da memória (épica).2. leva o poeta a opor seu “ponto negro” de ciúme ao brilho do Sol sobre as águas do rio. transforma-se em canto isolado: “O ciúme lançou sua flecha preta / E se viu ferido justo na garganta”. tudo quer buscar.4). o da auto-identificação do eu lírico. se dedica a tentar aprender um modo de controlar o que não consegue conquistar. encontra artifícios para superar a dor da perda iminente pela alegria da descoberta da nova sensação. Agora o ciúme é o do artista diante da Natureza. eu”. alegria (comédia). Essa obra que substitui o que se perde. unindo-se à própria Natureza. O artista teme perder o que não tem. não me ensinas / E eu sou só. e a obra de arte a expressão desse ciúme. mas tal tarefa é fadada ao fracasso do simulacro. O mistério oculto a que se refere a canção é. 2007. pois. Ferindo a garganta. pois.A sombra do self negativo. na paranóia e no homossexualismo”. Lembremos. numa visão trágica. quanto são os que os ouvem (“Tanta gente canta. mas enquanto tal. Imago. cadê”. A impossibilidade de posse da Natureza causa esse sentimento. tragédia). transgredindo-a. eis o mistério. musa da música bahiana contemporânea. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. O Canto do Ciúme e os sentidos da percepção O ciúme se transforma também no canto do eu lírico: “o meu ciúme” (v. a propósito. a obra materializada expondo-se aos seus sentidos. O cantar poético também se modifica. FREUD. pois que a beleza da Natureza. 1976. o criador da Bossa-Nova e Ivete Sangalo. eclipsar essa luz do Sol interior. representada pela ponte. Tantos são os cantadores da beleza. ao corpo e à alma. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. A vida sob o Sol. como aparente parte da cena. Nessa atitude inicial de consolação.

34 .Do São Francisco ao Mississipi: O Rio e o Homem na Música Popular.

do polêmico projeto de transposição das águas do rio (“O Velho Chico”. a tripulação fantasma do barco sai pela cidade de 35 . p. O Rio São Francisco na música popular brasileira tem sido representado como rio que em sua bacia guarda uma rica cultura regional. tendo como nome atual. a construção de represas (“Sobradinho”. o autor se imagina um homem que tendo deixado a região. é uma das mais movimentadas do país. se o leitor considerar que já tem alguma noção acerca das músicas que aqui serão citadas.Neste capítulo tecemos algumas considerações acerca das representações do rio na música popular brasileira e norte-americana. Outro aspecto constante nas músicas que tratam do tema do rio São Francisco são as lembranças de infância. para tanto tomamos como base o São Francisco no caso da geografia cultural brasileira e a bacia do Mississipi-Missouri no caso da norte-americana. num processo de formação da voz lírica da letra da canção. A ponte construída em 1950. p. O primeiro vapor a navegar as águas do rio São Francisco veio dos EUA. povoando o sertão dum imaginário de reis. A de que em noites de lua cheia. Ponte Presidente Dutra. transpondo para o sertão aspectos do sebastianismo messiânico. Cultura essa. que este texto tem de certo modo um pré-requisito de leitura que o que se intitula “O Rio São Francisco como tema de MPB”. O rio como cenário bucólico do idílio amoroso não é um tema muito significativo. das novelas de cavalaria e poesia palaciana. inclusive. de Moraes Moreira. da fórmula e composição na medida velha. Em várias canções a ponte é citada geralmente como signo de união. “As Águas do São Francisco”). Cabe lembrar. Rebatizado no Brasil com o nome de “Saldanha Marinho” o vapor navegou de 1871 a 1970. p. de certo modo. qual sejam as raízes da poesia de cordel e do trovar dos repentistas. Esse sertão medieval tem raízes históricas no processo de colonização portuguesa.). que por vezes. Como memórias dessa voz lírica imigrada. é relativamente comum no caso da cultura brasileira e um tanto quanto um pouco mais raro no caso da cultura norte-americana. o que não é difícil para boa parte dos leitores que têm o hábito de escutar música brasileira e música norte-americana.ex. O “vaporzinho” como é chamado navegou antes nas águas do Mississipi e hoje é aberto à visitação na cidade de Juazeiro (BA). traz na memória lembranças da infância vividas à beira rio. como na música de Gino e Geno. princesas e encantamentos. uma lenda acerca do vapor. de Sílvio Brito.ex. Mesmo que o compositor não tenha passado a infância na região do propriamente dita do vale do rio. música incluída em disco produzido com Elomar.) e da força da natureza em resposta às interferências (“São Francisco”. O que convenhamos. ocorrendo ocasionalmente. Criou-se. Outro elemento constante nas músicas acerca do rio São Francisco é a referência à ponte que une Petrolina e Juazeiro. das carrancas – estas geralmente trazendo o medo na memória da criança – e a vida ribeirinha. porém. 1979). Xangai e Vital Farias). é possível ler este sem ler aquele. tem uma raiz de caráter medieval. São Paulo e Rio de Janeiro principalmente. cavaleiros. em Geraldo Azevedo (“Barcarola do São Francisco”. Essas raízes medievais aparecem em composição de Carlos Pita (no disco Águas do São Francisco. de Sá e Guarabira.ex). a infância que fala é feita de lembranças compostas pelas imagens dos barcos (gaiolas). de ligação. atualmente recuperado pela prefeitura de Juazeiro é um dos pontos turísticos da cidade. Tal processo tem suas bases na corrente de imigração sertaneja-nordestina para as capitais litorâneas ou para o sudeste do país. Em algumas canções se trata da questão da interferência do homem no curso da rio.

Em sua memória está ecoando as canções norte-americanas e brasileiras acerca desses rios. Espécie de recriação da lenda do Holandês Voador. Thinkin bout me baby and my happy home. Após a independência das treze colônias britânicas em 1776. podemos dizer que simbolicamente este barco conheceu os dois rios e pode. o percurso Mississipi-Missouri tem 6700 quilômetros. A bacia do Mississipi-Missouri corta a região central dos Estados Unidos e tem a foz no sudeste no estado de Louisiana. só superada pela cheia de 1993. recriada pelo Led Zeppelin. “If it keeps on rainin. não terei onde ficar”) O desespero dos desabrigados. A bacia do Mississipi-Missouri era assim uma espécie de fronteira era o Nordeste dos Estados Unidos. considerando no conjunto. When the levee breaks Ill have no place to stay.” 36 . daqueles que perdem tudo por causa das inundações é retratado de forma direta nos versos dessa canção: “All last night sat on the levee and moaned. selvagens. comparando. civilizado. várias guerras e disputas com a França. sempre que possível com composições brasileiras relativas ao rio São Francisco. ainda. inúmeras são as canções que tratam direta ou indiretamente do rio. If it keeps on rainin. saber das semelhanças e das diferenças entre os dois rios.” (“Se continuar chovendo. tendo inclusive uma extensão maior que a do próprio Mississipi. eternizada em ópera de Wagner. O Missouri é o maior afluente do Mississipi. as barragens irão romper Se continuar chovendo. A letra é direta e crítica sobre os danos que causam as enchentes do rio e mostra a incapacidade do homem de dominar a Natureza.Juazeiro a seqüestrar pessoas – principalmente moças – para uma viagem pelo rio. a Inglaterra e a Espanha acabaram por deixar os Estados Unidos com um imenso território. Em 1927 houve uma grande cheia do rio Mississipi que desabrigou centenas de milhares de pessoas. All last night sat on the levee and moaned. O rio está ligado sob vários aspectos ao processo de expansão territorial dos Estados Unidos. A guerra civil americana bem demonstrou essa dicotomia cultural. como ninguém. rudes. no mais das vezes. Mas se o vapor navegou nas águas do Mississipi e nas águas do São Francisco. No âmbito da música popular. social e política. levees goin to break. urbanizado e livre com as terras d’além do rio e do sul. Trataremos brevemente de algumas. as barragens irão romper Quando a barragem romper. Obras de contenção e de regularização do fluxo de águas foram construídas no intuito de estabilizar a vazão das águas durante o período anual de cheias. Uma das composições mais impressionantes sobre as enchentes do Mississipi é “When the levee breaks”. mas que originalmente é um blues de Menphis Minnie e Joe Maccoy. levees goin to break. terminando por conseguir do México a Califórnia. A navegação a vapor e as obras de construção de canais e represas estiveram ligadas à história da ocupação daquela região.

fazendo referência histórica a uma das maiores enchentes da foz do Mississipi. então presidente dos EUA: “President Coolidge came down in a railroad train With a little fat man with a note-pad in his hand The President say.”) Calvin Coolidge era vice de Warren Harding. em 1927 a segregação racial era forte nos Estados Unidos e na fala atribuída ao presidente. sem dinheiro). Lembremos aqui da canção gravada por Gino e Geno. "Little fat man isn't it a shame what the river has done to this poor crackers land. assumindo a presidência com a morte deste. Águas do São Francisco. vindo de trem com um “little fat man” e seu bloco de notas. como eram chamados os brancos pobres (literalmente “os quebrados” – sem grana. Vemos aqui que o idílio amoroso. se vê a preocupação com os “crackers”. A ironia também se apresenta no modo como se apresenta o presidente. A canção começa com a apresentação do quadro da tempestade e da enchente: “What has happened down here is the wind have changed Clouds roll in from the north and it started to rain Rained real hard and rained for a real long time Six feet of water in the streets of Evangeline” (“O que aconteceu aqui é que o vento tudo mudou Nuvens vieram do norte e começou a chover Choveu de verdade muito e choveu por muito tempo mesmo Seis pés de água nas ruas de Evangeline”) Numa estrofe final. “Homenzinho gordo é uma vergonha O que o rio fez com os brancos pobres dessa terra.(“Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Pensando no meu bem e no meu lar feliz”) Randy Newman compôs Louisiana 1927. Randy Newman contextualiza historicamente a cena ao citar o presidente Coolidge." (“O Presidente Coolidge veio num trem da ferrovia Com um homenzinho gordo com um bloco de nota nas mãos O Presidente disse. sendo Louisiana uma cidade cuja população era em maior parte negra. pela pouca ação nos problemas sociais e pelo abandono ou veto de projetos que ajudassem o campo e regiões menos favorecidas. numa espécie de ultra-romantismo acrônico serve de motivo para que não se veja os danos que a enchente traz às populações 37 . o que sugere algumas soluções paliativas e de gabinete. afinal não se diz que ele veio com o exército ou uma equipe de salvamento. em que se pede para que São Pedro aumente a enchente para que o personagem lírico da canção possa continuar com um álibi para continuar nos braços de sua amada e não ter que atravessar a ponte. Sua política era marcada pelo conservadorismo. No verso final. a ironia.

mas sim. sugerindo que a obra favorece a elite e despreza de fato a ajuda ao povo que sofre com a seca: “O que será de todos nós sem o Velho Chico As suas águas já sem forças pra seguir E vem um bando aventureiro cabotino Dar ao rio outro destino. fazendo duras críticas às práticas de favorecimento. O grupo Creedence Clearwater Revival compôs Proudy Mary. rollin on the river. Dércio Marques apresenta um engajamento com versos mais refenhos em defesa de seu ponto de vista. rollin. desviar onde ele ir Mas que delírio de poder. porém.ribeirinhas. um desatino Sertão divino é convivência seu porvir Povo vizinho ao rio não tem acesso à água Como pode dar a água se o filho não tem para si? É ilusão a redenção fartura d´água.” (A grande roda girando. não Orós e Castanhão Têm volume abissal Esbanja a elite água de irrigação Enquanto mata de sede o irmão em seu quintal” Assim. No contexto social. o fato é que os projetos não são excludentes. não falta água. Proud mary keep on burnin. Vão cobrar o olho da cara. Rancho Eterno Chico. 38 . melhor se dá Sílvio Brito que em O Velho Chico sugere um projeto de revitalização em oposição ao de transposição das águas. o que falta é vontade política de fazer a correta distribuição das águas dos açudes: “Deixa não vingar transposição Pra criar camarão Em nome do vil metal A nação se ufana em exportação Enquanto o povo do rio tem fome em seu quintal No Ceará. Bombar água pra subir” Em outras duas estrofes. de apadrinhamento e de elitização da política. Rollin. música na qual se coloca o cenário dos vapores que navegavam no Mississipi: “Big wheel keep on turnin. complementares. em ritmo de rancho carnavalesco. Dércio Marques alude ao fato de que as águas servirão para criação de camarão como produto de exportação e que nas regiões que mais sofrem com a seca. com letra que critica a política governamental. Dércio Marques em canção mais ousada.

Huckleberry Finn. Rolando. teve uma brilhante versão pelo Jeff Beck Group. O título é uma referência a um dos “apelidos” do rio Mississipi. Na canção Moon River lemos: “Two drifters Off to see the world There's such A lot of world to see We're after The same rainbow's end 39 .”) O percurso de Memphis. are soon forgotten. chamamos o São Francisco de “Velho Chico”. até a foz. além das aventuras do rapaz que mora num barraco às margens do rio. Life on the Missisipi. Rolando pelo rio. médio Mississipi.” Comenta-se da vida dura dos trabalhadores. New Orleans. Blues da autoria de Kern e Hammerstein. assim como aqui. he just keeps rolling along.”) Louis Armstrong gravou Moon River. Pumped a lot of pain down in New Orleans. Sondando muita dor em New Orleans. Até que eu desci o rio de barco. de como seus momentos de lazer se faziam quando navegavam nos vapores em direção à New Orleans: “Cleaned a lot of plates in Memphis. é isso aí. Que o Rio Velho. ele apenas guarda rolando por aí. Outro livro de Mark Twain. John Murrell. til I hitched a ride on a river boat queen. oh yes he does.Altiva Mary vá queimando. and we all know he don't pick cotton. de Mark Twain. e tem um capítulo dedicado a um dos maiores ladrões que viveram às suas margens. Rolando. that Old man river. “He don't plant tater's. com Rod Stewart cantando. Ol’ Man River é uma das canções que tratam da vida dos trabalhadores nas fazendas de algodão na bacia do Mississipi. estado de Louisiana era o trecho mais navegado do rio pelos vapores. música que faz referência a um dos personagens da literatura americana mais característicos do rio Mississipi.” (“Limpando muitos pratos em Memphis. conta a história do rio. Mas eu nunca vi o lado bom da cidade. Nessa obra. But them that plant 'em. Mas então o que ele planta são filhos esquecidos. sim. e nós sabemos que ele não colhe algodão. estado do Tennesse. But I never saw the good side of the city.” (“Ele não planta batatas.

Por outro lado.” Na cultura do Rio São Francisco. em Geraldo Azevedo. o segundo homem 40 . a idéia de que a vida em torno do rio é dura. eivado de reis. os beatos têm um papel fundamental no imaginário cultural da região para mediação e solução dos conflitos. O primeiro homem é o que sofre a força da natureza ou de outro homem. o sofrimento do polígono das secas e as enchentes do rio. E há um bocado De coisas no mundo para ver! Nós. princesas. Deus. Meu amigo Huckleberry. Tal visão parece ter suas raízes no processo de colonização português. cheia de lamentos e dor. em Moraes Moreira. que trouxe uma cultura de caráter medieval. em que se pese a pobreza de suas populações ribeirinhas. Veremos o fim do arco-íris. instalada após a guerra civil americana. nas constantes enchentes do rio e na situação de pobreza que boa parte da população ribeirinha viveu em contraposição à riqueza e à fartura das grandes cidades americanas. Esperando-nos na curva do rio. O Rio-lua E eu. o que domina o imaginário de muitas das canções acerca do rio da integração nacional é um cenário imaginário dum sertão medieval. na segregação racial. No caso da cultura do Mississipi os conflitos se regem pela tríade homem x natureza x homem. o sofrimento dos trabalhadores. no Nordeste brasileiro. num procedimento típico do imaginário medieval.Waitin' 'round the bend My huckleberry friend Moon river And me. Assim. o Rio São Francisco. a navegação dos vapores como diversão e em geral. os conflitos sociais. são temas constantes de várias músicas que giram em torno do cenário do Rio Mississipi. cavaleiros e natureza mágica. os santos católicos. Não é por acaso que em New Orleans e Memphis temos o berço do blues e do jazz. depois. econômicos e políticos são apresentados como entre o destino do homem e os desígnios dos céus.” (Dois vagabundos livres para ver o mundo. e mesmo numa canção engajada como a de Silvio Brito lemos versos como: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza.”) Assim. uma religiosidade católica exacerbada e mitos messiânicos de feição sebastianista. Tal visão tem fundamento no trabalho escravo durante os séculos XVIII e XIX. com suas raízes musicais negras. Assim temos exemplo nas composições de Carlos Pita em Águas do São Francisco.

Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira Nesse capítulo buscamos apresentar interpretações acerca do modo como o Rio São Francisco é colocado na poesia brasileira num panorama que vai do Romantismo até a Literatura Contemporânea. you got to move. prayin’ won’t do you no good. o modo de tratar o imaginário em relação ao rio. você terá que se mudar”) São. No caso do rio São Francisco. parece ser bem mais pragmático. cryin won’t help you. When the levee breaks. O panorama foi montado de forma a não ser apenas 41 .” (“Chorar não irá te ajudar. européia. pois. fundado no conflito entre a cultura negra. por exemplo nos versos da canção When the Levee Breaks: “Cryin won’t help you. rezar não adiantará muito Quando a barragem romper. ocultado pelo espelho da introspecção criativa que busca no imaginário medieval razões para acreditar na concretização de profecias acerca dum futuro melhor ou na ação providencial da mão divina. No caso do rio Mississipi. duas diferenças fulcrais no modo de encarar a realidade circundante. mama. Nega. prayin’ won’t do you no good. escrava e a branca.é o que se beneficia desse conflito. o conflito é velado. rezar não adiantará muito Não! Chorar agora não irá te ajudar. É o que vemos. Now.

em belíssimo contraste com a brancura das espumas da cachoeira” (LAJOLO & CAMPEDELLI. Maria conta que o autor trata-se de seu meio-irmão. considerada inútil diante da opressão que a condição de escravos os condena. p. já em voga no Romantismo desde a primeira geração: “Onde Vais à tardezinha / Mucama tão bonitinha / Morena flor do sertão? / A grama um beijo te furta / Por baixo da saia curta. que fazem seu lar.. querendo vingar-se indaga da amada o autor da sua desonra. “O Baile na Flor” apresenta a descrição de uma natureza rica. passando pela preocupação com o registro e a preservação de uma cultura local.. Descobre que Maria fora violentada. o prenúncio do fim do dia acompanha o ato final dos amantes. de onde se precipitam na canoa num ato delirante que simbolicamente representaria suas núpcias. Maria. e.... Marisa Lajolo e Samira Campedelli assim comentam o aumento da tensão dramática na obra: “Como que acompanhando o aumento da tensão dramática do primeiro para o último poema.. resolvem navegar até a Cachoeira de Paulo Afonso. entre outros. 1.. tanto no nível semântico. filho do senhor. Procurando por ela. intocada. “Tarde” tem versos como “Hora meiga da Tarde! Como és bela / Quando surges do azul da zona ardente! / . cheia de vida: “Ali das bromélias nas flores doiradas / Há silfos e fadas.” Este poema é também uma das mais ousadas experiências formais de 42 . inclusive do século XVIII.. no poema homônimo seguinte. depois de algumas negativas. João Cabral de Melo Neto. / Que se banha nas termas do oriente.. que o primeiro poema. mas não encontra sua amada. Composto de 33 poemas A Cachoeira de Paulo Afonso forma uma espécie de narrativa dramática. 1980. é apresentada de modo bem ao estilo da verve cabocla e sertaneja. Passando por Castro Alves.historiográfico e exaustivo. de forma que o cenário da morte coincide com a escuridão noturna. Embora possa se encontrar citações eventuais em outras obras poéticas de autores anteriores. Assim. em lindos cardumes. apresenta um entardecer em que os sons da natureza parecem pressentir o desenlace fatal: “Contemplando o infinito. Castro Alves e as Imagens Clássicas e Românticas O primeiro grande texto de poesia brasileira a tratar do Rio São Francisco foi o livro A Cachoeira de Paulo Afonso de Castro Alves (1876). / Sutis vaga-lumes / Acendem os lumes / Pra o baile na flor. a poesia brasileira quando se propôs ao tema soube mesclar na linguagem poética diversos aspectos dessas imagens e preocupações. paisagem vai progressivamente escurecendo.” Mais adiante o mesmo poema. Desde uma imagem romantizada da Natureza intocada até às preocupações com os danos que a civilização urbanizada causa ao meio ambiente. quanto estético e formal. 77) Não é por acaso.Tu és do céu a pálida donzela.. exuberante. Os personagens do drama são o escravo Lucas e sua noiva Maria. pois.” O terceiro poema. o poeta nos mostra Lucas voltando para sua cabana. mas antes compor um painel cuja amostra deva esboçar as diferentes visões ecológicas e sócio-culturais que moldaram a imagem do Rio São Francisco em diferentes épocas.. / Que a perna te esconde em vão. Após ser convencido por Maria a evitar a vingança. Dantas Motta. / E. acaba encontrando-a vagando numa canoa como que buscando a morte. é com Castro Alves que este cenário brasileiro ganha uma dimensão lírica que ainda não havia tido na poesia brasileira. na floresta / Rolar o som da funeral orquestra!!!”. Após a apresentação do cenário da tarde.

.... feroz.. 43 . que tombam sobre o rio....... Na última estrofe a destruição causada pelo fogo é apresentada de forma apocalíptica: “Então passa-se ali um drama augusto. tamanho. sabemos que Maria está a vagar perdida em sua canoa: “Lá no meio do rio. Mas rubro é o céu...Castro Alves.. O quarto e quinto poemas compõem a metáfora da violação tanto de Maria quanto da Natureza.... ... Recresce o fogo em mares.. / As asas foscas o gavião recurva. “Tirana” e “Senzala” apresentam a chegada de Lucas e a descoberta da ausência de Maria..) Houve pois um braço estranho / Robusto.. A canoa é comparada com um ninho que caiu sobre as águas calmas e desconhecendo o perigo... pobre criança / Que fazes tu sobre a terra? // E o eco responde? – Erra! (. o que cria uma contradição entre calmaria e ataque iminente.. que cintila.tombam as selvas seculares.... O rio é metaforizado na imagem de um crocodilo. / Que pode esmagar-te assim?........... Como o dorso de enorme crocodilo.. seguido de reticências e uma linha pontilhada compõe o ritmo que insinua o perigo.” Os três poemas seguintes – “Lucas”...... assim vista ao sol poente.. // E o eco responde: . E tudo se acabou!.... O quinto poema é “A Queimada”.... “Mãe Penitente” e “O Segredo” vão revelar o laço sanguíneo entre Lucas e o agressor de sua amada.” A estrofe é brilhante na conjugação da cena dramática e dos recursos poéticos.. O ponto de exclamação do verso final da estrofe. a natureza é violentada pela ação do homem: “A floresta rugindo as comas curva... uma vez que a mancha do texto na folha busca sugerir a forma de uma flor. E após. Em “A Queimada” (quarto poema). até o momento em que a noiva se vê convencida a contar o nome do agressor............ Esses ninhos. O próximo poema “Diálogo dos Ecos” compõe uma cena em que Lucas parece conversar com o eco num verso solitário que se segue à cada estrofe: “Maria.. E onde em meio das flores vão chilrando -Alegres sobre o abismo – os passarinhos!.. Segue-se o poema “Crepúsculo Sertanejo” que inicia com o verso “A Tarde morria! Nas águas barrentas” e os poemas “O Bandolim da Desgraça” e “A Canoa Fantástica” que vão preparar a entrada do cenário em que os dois amantes resolvem ir em direção do abismo.... Parecia. Já manso e manso escoa-se a canoa... / Espantado a gritar”.. N’último ramo do pau-d’arco adusto O jaguar se abrigou. Os quatro poemas seguintes – “História de um Crime”.. vai de encontro ao abismo. “Último Abraço”...... nele.....Sim!” A partir daqui os 11 poemas seguintes vão apresentar um crescendo do drama em que Lucas encontra Maria vagando na canoa e busca compreender o que lhe acontecera.

. / A canoa rolava!..” Os quatro últimos poemas retomam a narrativa dramática dos dois amantes e vão num crescendo preparando o momento em que a canoa se atira pela cachoeira: “...... Assim se abre o poema: “Mas súbito da noite no arrepio / Um mugido soturno rompe as trevas. o futuro autor de Catimbó entregou os pontos.. Abriu-se a um tempo / O precipício!.. Castro Alves busca concluir as contradições entre vida / morte.” “A Cachoeira” constrói uma imagem metafórica de grande tensão... o rio é denominado de “Nilo brasileiro”.. A Revisão Modernista do Drama Romântico: Ascenso Ferreira Ascenso Ferreira (1895-1965) foi um dos nomes mais importantes da divulgação das idéias modernistas em Recife..O poema “O São Francisco” apresenta a visão de Castro Alves do rio. assim como a extensão do rio (“Do São Francisco a soberana vaga / Léguas e léguas triunfante alaga!”).. Envolvido que estava com a causa abolicionista.. natureza / homem.. / E as serpentes de Tênedos em sanha!.” Nesse verso final de coloração fundada num oxímoro. Manuel Bandeira em prefácio escreve: “Não sei quando o movimento modernista se propagou ao Recife. luz / trevas... / Nas verdes canas o gemente rogo / Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva” (est. / Como filhos – chorando-lhe – os penedos!!!....... Ascenso a princípio não quis saber da novidade. e o céu!. água / terra.. o rio é metamorfoseado numa serpente e as rochas que formam a queda d’água são vistas como o corpo de um touro: “Então doido de dor. quanto a função colonizadora que as populações caboclas tiveram no povoamento do Vale do São Francisco. numa forma de comentar poeticamente a função irrigatória que o rio exerce sobre vasta região do sertão nordestino.”. / .... 2. babando. Mas quando Guilherme de Almeida passou em Pernambuco e declamou o seu poema ‘Raça’ no Teatro Santa Isabel...Um beijo infindo suspirou nos ares. / Por hidra – um rio! Por augure – um monte! / Por aras de Minerva – uma montanha! / E em torno ao pedestal laçados. / De grinaldas em flor tecendo a arcada / São arcos triunfais de tua estrada!... II).. bem longe../ Titubantes – no álveo do rio – tremem as lapas dos titães coevas!.” 44 . de lamber demente / As rijas formas da cabocla linda”(est...... Mais ao final do poema evoca-se o mito de Laocoonte para efeito de comparação: “Grupo enorme do fero Laocoonte / Viva a Grécia acolá e a luta estranha!. Castro Alves soube colocar nesse conjunto de poemas tanto a questão da opressão sobre o escravo. que permearam todo o poema. sânie...)/ Viramno aos beijos... / Do sacerdote o punho e a roxa fronte.... A luta entre a serpente-rio e o penhasco-touro ganha contornos de grandiosidade mitológica: “A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo! / A briga colossal dos elementos! / As garras do Centauro em paroxismo / Raspando os flancos dos parcéis sangrentos”. Os coqueiros e cipós são vistos poeticamente como arcos a ladear todo o curso do rio: “Como pontes aéreas – do coqueiro / Os cipós escarlates se atirando.. dos cantões bravios”). Lembra-me que Joaquim Inojosa foi o agente de ligação com os rapazes de São Paulo.. / Co’a serpente no dorso parte o touro. Na última estrofe do poema.. tredos. “Vem – à busca talvez de desafogo / Bater à porta da Baiana altiva. Destaca-se na primeira estrofe a distância que o rio corre pelos sertões (“Longe...... III). vingança / perdão.. O percurso do rio pelas então províncias de Minas Gerais e Bahia é trabalhado de forma a personificar as regiões como mulheres cortejadas e amantes do rio: “-Linfa Amorosa – co’a nitente espuma / Orlava o seio da Mineira linda (.” O poema seguinte. “A Cachoeira” busca apresentar o cenário do clímax dramático do poema...

(FERREIRA, 1981, p.11). Sérgio Milliet, comentando a obra de Ascenso, observa como o grupo de modernistas do Recife conseguiu uma certa autonomia estética em relação ao modelo de São Paulo: “Na renovação poética do Brasil, já observou Manuel Bandeira, o grupo do Recife escapou à influência imediata e imperialista dos modelos europeus. Da revolução que se iniciou em São Paulo só lhe interessou a liberdade conquistada.”(FERREIRA, 1981, p. 14). Em Xenhenhém, conjunto de 25 poemas publicados em 1951, encontramos um intitulado “O Meu Poema do São Francisco”. O poema começa com quatro versos anafóricos: “É Cabrobó! / É Orocó! / É o Ibó / É Curaçá!...” São nomes de cidades na divisa entre Pernambuco e Bahia. Do lado de Pernambuco (Cabrobó, Orocó e Ibó) ficam na região do rio e da serra de Ouricuri, do outro lado do São Francisco está Curaçá, na Bahia. A sonoridade dos nomes das cidades é explorada poeticamente. Em outro poema, “Sertão”, do livro Catimbó, também o poeta utiliza o efeito de explorar a sonoridade dos nomes das cidades, só que cria um itinerário diverso, partindo de Cabrobó em direção do sertão, até Exu, nome já evocativo das dificuldades e agruras do semi-árido: “Sertão! – Jatobá! / Sertão! Cabrobó! / -Cabrobó! / - Ouricuri! / -Exu! / -Exu!”. No poema do São Francisco, Ascenso Ferreira após a apresentação dos nomes das cidades, coloca um dístico que é o estribilho do poema: “Meu Deus, ela veio das bandas de lá! / Meu Deus, ela veio das bandas de lá!”. O viajante pede ao barqueiro que siga a voz encantada de mulher que segue pelo curso do rio: “Barqueiro, me traga o meu reco-reco, que eu quero chamá-la para um xenhenhém... Que nada! Ela é sempre para mim como um eco Que longe responde, porém nunca vem... Barqueiro, desçamos pelo rio abaixo... Vamos ver, barqueiro, aonde ela está.” A seguir, utilizando a mesma estratégia inicial, Ascenso apresenta o nome de quatro localidades baianas, tirando novamente o efeito estético de suas sonoridades: “Chorrochó / Cocorobó / Patamuté / UAUÁ!”. Este último nome de cidade é grafado com maiúsculas, chamando a atenção para o som do nome que se assemelha ao do choro, evocando o sentimento melancólico do eu-lírico em busca da voz de mulher. Após a repetição do estribilho e de novo pedido ao barqueiro que continue seguindo rio abaixo, segue-se novamente o nome de quatro cidades às margens do rio São Francisco, porém, agora elas não rimam nem supõem uma harmonia sonora com a mesma intensidade musical das anteriores: “E é Floresta / Itacuruba / Santo Antônio, / Jatobá!” Essa quebra de ritmo funciona no poema como aviso de que as águas tranqüilas do rio serão interrompidas, assim avisa o barqueiro: “-Passageiro, volte que lá é a cachoeira. É morte na certa, não teime, não vá!” O verso solitário a seguir é acompanhado por reticências e uma linha pontilhada – recurso que já notamos em Castro Alves – e o nome da cidade que evoca o choro: 45

“-Barqueiro, ela chama é mesmo de lá... ............................................................... -UAUÁ!!!” Em Ascenso Ferreira, como em Castro Alves, o percurso do rio cria um crescendo dramático até a cachoeira de Paulo Afonso. Em ambos, a busca da morte parece o objetivo dos navegantes como forma de fuga das desilusões da vida, a morte na cachoeira como representação também de um ritual de passagem para uma dimensão mágica da existência. 3. Dantas Motta e a Transposição do São Francisco para um Imaginário Sincrético de caráter cristão. Elegias do País das Gerais (1958), livro de poemas de Dantas Mota (1913-1974) apresenta um grande conjunto de poemas divididos em “livros” como se articulassem a estrutura de um grande livro sibilino. Referências bíblicas se misturam às figuras históricas do Brasil. Paisagens das terras bíblicas são metáforas constantes das paisagens visitadas por Dantas Mota em Minas Gerais e no Nordeste. Mário de Andrade numa das cartas que escreveu ao autor diz: “Suas Elegias das Gerais estão prontérrimas, lindas e re-relidas e anotadas.”(MOTA, 1988, p. 330). Uma das partes da obra Elegias do País das Gerais intitula-se “Quarto Livro: Epístola de São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, o Vale”. O título já nos apresenta uma sobreposição entre a figura do santo e do rio. No poema, o rio é a voz lírica que narra acerca de seu próprio curso e sua história de colonização. Acerca desse “Quarto Livro”, o próprio poeta em carta a João Condé escrevia: “Fui assim, à pasta a buscar os petrechos necessários à tosa, encontrando-os embrulhados numa página do suplemento ‘Sintra’ e, dentro dela, vista de cara, a seguinte notícia: ‘Em Aracaju, reuniram-se, na semana passada, os Bispos da Bacia do São Francisco para estudar os problemas advindos de sua transformação.’ Mais ou menos isso. Dessa notícia nasceu a idéia do poema, informe, imprecisa e vaga, com a visão de Jerusalém carregada de bispos, tetrarcas e ametistas, postados todos em Aracaju, a qual depois, era transunta do sergipano país para este, o das Gerais, e que tantos males tem infligido a este Brasil, por força de sua intemperança no juro, na política e nos juizados da paz.” (MOTA, 1988, p. 339) O discurso do rio é marcado pela dor, pela angústia de ser o rio que atravessa a região mais árida do país, estigmatizada pela pobreza, pelo abandono: “Ora, toda unidade é estéril e todo mistério, terrível. E me fizestes uno, misterioso e triste, Não segundo minha paisagem interior, de pobreza, Que estava certa, mas conforme vossa jurisdição, Que ia desde Paracatu do Príncipe, No País das Gerais, Até Olinda e Recife, no País de Pernambuco!” 46

Em determinado momento, buscando apresentar a nascente do rio, Dantas Mota nos mostra o rio comparando sua nascente na Serra da Canastra com um caixão e os peixes com o corpo do morto “Ora, tudo o que se verificar aquém e além dele (o caixão) / é um mistério de unidade estéril (...)// De vez que todo caixão é aquário, / e, como tal, é ele o invólucro; / e o corpo, que dentro dele navega, / sob um céu de morim barato, / o peixe facilmente deteriorável”. Personagens e cenários bíblicos aparecem em constância para compor a imagem desse rio triste e angustiado que é o São Francisco de Dantas Mota: Cristo, Melquisedeque, José, Jerusalém, Eufrates, Cativeiro na Babilônia, etc... A população ribeirinha é apresentada como a descendência de Agar: “Em verdade, subindo vou o Setentrião, / enquanto meus habitantes o Setentrião descendo vão / -Felás de um tempo redivivo, / tormentados com Hórus /(...)/Porque, apesar das secas e dos desertos / (gente proscrita da progênie de Agar) / há uma paisagem de riacho e rugas / nas faces chicoteadas de sol e peixe”. Em contrapartida Lampião, Canudos, e outros personagens e cenários do Nordeste são evocados misturados aos bíblicos: “E, provando a procedência deste razoado, / Uns homens sem respeito para a minha vergonha. / E a república, que triunfou de Canudos, / Batendo, depois, além dele, meu rei Lampião, / No qual, com o ser o meu renovo, me comprazo, / Aqui, empós alguns lustros e sóis passados, / Se sublimou em tetrarquias com os Cunegundes, / os Pantaleões, os Batista e os Santa Bárbara. / Afinal morri. Primeiro em vós. Depois em mim”. Desse modo, as revoltas populares, tanto a do cangaço (Lampião), quanto à mística-beata de Antônio Conselheiro são apresentadas como representativas do povo do São Francisco, ao passo que a República é – retomando uma colocação do próprio Antônio Conselheiro – como a Babilônia. Dantas Mota buscava desse modo fazer a crítica do abandono e do flagelo que a região do semi-árido se encontrava. O episódio do velho testamento referente ao cativeiro na Babilônia (Jeremias) é amalgamado poeticamente à vitória violenta e sangrenta da república sobre Canudos e sobre Lampião. O coronelismo que dominou a política regional se apresenta como o período de cativeiro propriamente dito, neste sentido o povo nordestino da região do sertão estaria em condição semelhante aos hebreus no cativeiro da Babilônia. A seguir, em “Recuperação do Paraíso”, o rio no seu discurso nos diz que deixou sua condição de rio natural para ser uma autarquia. A ironia se refere à construção da hidrelétrica de Paulo Afonso, a primeira grande hidrelétrica construída no seu curso. Delmiro Gouveia que em 1913 iniciou o processo de aproveitamento energético do rio São Francisco construindo a usina de Angiquinhos que aproveitava a força da cachoeira de modo parcial, mas cujo efeito posterior foi incentivar projetos maiores. Em 1948, Getúlio Vargas procede à criação da Chesf e se inicia a construção da Usina de Paulo Afonso, terminada em 1954, até então a maior usina hidrelétrica do país. “Morri eu afinal, que de Francisco mais não sou, Porquanto, hidrelétrico, em autarquia transformado fui.” O discurso do rio ironiza o processo de eletrificação, que de princípio atendeu aos interesses políticos dos coronéis, pois de fato, pequenas propriedades e até mesmo algumas cidades ficaram sem a energia de Paulo Afonso: “Uma lâmpada de mil velas brilha no fundo do inferno”. O trecho final, “As Alegorias em Trânsito”, nos apresenta um anjo 47

a devoção religiosa é apresentada como um delírio coletivo.metamorfoseado em ave pousando sobre um comutador de energia no meio do sertão: “Um anjo. Os capitães-de-mato deram caça aos negros. / mas tem cuidado 48 . a convite da corte imperial. / Ou autarquias que o fero Estado cria. o poema fala da religião e da escravidão como partes do processo de colonização: “E depois os que foram alçar a cruz para curar as chagas / que o ouro fez.” Assim. enquanto eu. mostrando que na intensidade do delírio não tinham diferença. Jorge de Lima e a História do Rio São Francisco Revisitada Jorge de Lima escreve o poema “Rio de São Francisco” para o livro Poemas. / Sua dejecção de pássaro. O garimpeiro deflorou a terra. O povo submisso (“turba genuflexa / beijando a terra”) seguia esses homens como se fossem santos. porém. / cemitérios. / de tarrafa. logo a seguir. a terra. / Todo o norte se ilumina. ali. à beira do abismo”. escreveram e pintaram acerca da flora e fauna brasileiras: Henderson (Vem pintar. as almas formariam o sentido simbólico do rio Opara (São Francisco) como elementos que sofreram opressão. Os missionários conquistaram as almas”. com desprezo. / Esquecidos de que eu também posso ser / A curva de Dniéper / O cotovelo do Don. é também continuação do próprio rio. Henderson uma pescaria de jereré. de certa forma. esquecidos. Jorge de Lima passa a evocar os nomes de pintores naturalistas e exploradores estrangeiros que no século XIX.” A cobiça é destacada como o motivo principal da conquista da região. indica também o início da decadência do III Reich: “Se organizaram em quadrilhas de sociedade anônima. é o único que cita o nome indígena do rio: “E primeiro desceram pelo rio Opara / os homens que foram ferir a terra à procura de ouro. A conquista do rio é mostrada como a defloração violenta da natureza: “E todos eles defloraram o rio.” O rio compara sua nova face transfigurada com as batalhas que marcaram o início da reação russa contra a invasão nazista que. desenharam. irmanados assim ao próprio rio. deixa. Dentre os poetas que analisamos. o fero estado a que se refere o poema são comparados ao procedimento nazista. Por extensão. / Vindo dos portões em ruínas do Paraíso. / E eram antônios conselheiros e jesuítas / e eram missões / e era a turba genuflexa / beijando a terra por onde os santos iam. O cangaceiro saqueou as vilas. No final. agora transformado / transfigurado: “Também ilumino e não sou sol. / de poita / de groseira. o rio se consola com o fato de que a energia que ilumina terras distantes. os escravos fugidos. as vilas. / Amém”. a sociedade anônima. As autarquias. O surgimento das primeiras povoações se dá no contexto desse processo: “Então o povo crente ergue cruzes nas margens / e capelas / e igrejas. com as asas cheias de poeira. beatos como Antônio Conselheiro e os jesuítas são postos lado a lado. estudaram. 4. / Depois desceram feras à procura de escravos”. ave sagrada. sob certo aspecto. 1928. portanto antecedendo a Dantas Motta em mais de duas décadas. / Pousa num comutador e. violência. Dura crítica de caráter marxista ao governo de Getúlio Vargas.

O flagelo da fome é destacado: “-Senhor! dai-me que comer! Senhor”. tenho aqui algum peixe. à maior notoriedade que sua obra alcançou (“Passam engenhos pitorescos. que o sino de Piranhas geme como gente no dia de finados. Halfeld e Saint-Hilaire (“Nisso tudo passaram Halfeld e Saint-Hilaire com as bandeiras / da sabedoria / e viram na Igreja Santa do Rosário / a baita coroa do Imperador do Divino”.” O poema continua citando casos lendários entre descrições da navegação no rio: “E o rio desce. Debret”). e ruge. cegos cantando. Jorge de Lima faz menção da cultura folclórica acerca das lendas que envolvem o rio São Francisco: “Vinde caçadores de lendas. ovelhas descendo das encostas. suspende-se esse ritmo descritivo-narrativo tênue para anunciar a chegada da estação da seca: “Mas um dia. O rio então surge como único refúgio: “Tenho água fresca. Delmiro que recusou vender sua empresa aos ingleses. / o canoeiro pachola tocador de violão”. devido ao que parece. gado pastando nos cercados bodes pulando pelos morros. / as nuvens. um dia enfim / deixa de chover no Piauí / não chove no Ceará”. / tenho para os vossos bichos um restinho de ervas no surrão”. / Frei Doroteu renasce. ver o pitoresco do rio. vai compondo os seus versos seguindo metaforicamente o curso do rio. “E são bonitos. há florestas de mastros pelos cais. / os outros rios vêm visitar o rio Opara”. potros correndo danados. / e espuma. Debret (“Vem. / as torrentes. meu Debret. guardando assim a cachoeira de Paulo Afonso para o clímax narrativo: “E o rio. feiras. Citase que as almas dos holandeses enterraram tesouros. Numa parte relativamente grande do poema. / E um dia os riachos. Cita então Jorge de Lima. Como nos poetas anteriormente aqui citados. vem. o grande rio como a alma do sertão / desce de Paulo Afonso com sete ataques de doido. / e o povo volta de novo / a tomar bênção ao Padre Cícero”. meus irmãos. / que o rio desce e as lendas descem com esse rio”. A seguir cita-se num verso o empreendimento pioneiro de Delmiro Gouveia: “E o cearense desceu com uma turbina na mão”. enfrentava práticas de 49 . / bandeirantes de todos os feitios. Este é também um dos raros momentos em que o rio se personifica e assume a voz no poema. / o Conselheiro renasce. que um certo galo preto depenado canta à meia-noite “Salvador! Salvador!” Toda a vida das cidadezinhas é sintetizada em imagens instantâneas como flashes do cotidiano: “e quando o dia nasce. Debret é o mais citado no poema.”. e bate e dorme lá embaixo / como um gigante que sofre de ataques de convulsão”. O fim da estação da seca e conseqüente volta das chuvas marca um intenso renascimento que no poema atinge âmbitos lendários e místicos: “e o homem delira outra vez a nevrose dos Sertões. meu Debret”. Então. Jorge de Lima.que as piranhas podem comer os teus pincéis. a briga que a companhia de linhas de algodão implantada por Delmiro Gouveia na região travava com a Machine Cotton (Linhas Corrente) da Inglaterra.

estanque no poço dela mesma. em poços de água. Porém. faz alto à beira daquele leito tumba. corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. intratável e agressiva. e mais: porque assim estancada. Quando João Cabral trata do sertão é um cenário sem água. Em 1926. em água paralítica. o presidente Artur Bernardes para proibir a prática desleal de concorrência inglesa no mercado de linhas. iluminaram os capões. é porque assim estanque. de areia múmia” (“Na Morte dos Rios”) Em “Rios sem Discurso”. o rio Capibaribe contém todos os elementos. o rio São Francisco não é o cenário fluvial constante nos seus poemas. de rios intermitentes numa linguagem seca que lembra a de Graciliano Ramos na prosa: “Desde que no Alto Sertão um rio seca. estancada. João Cabral trata dessa condição dos rios intermitentes que mal terminando a época das chuvas desaparecem: “Quando um rio corta. a vegetação em volta. 5. 50 . é o rio Capibaribe o seu rio preferido na poesia. Delmiro foi assassinado em circunstâncias não esclarecidas em 1917: “E os braços edificaram a caatinga. do agreste e do litoral de Pernambuco. em parte. Faz alto à agressão nata: jamais ocupa o rio de ossos areia. a água se quebra em pedaços. o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. e quando o mestiço inspirado pelo santo ia fazer o milagre da multiplicação e salvar o Nordeste e remir o sertão. a fábrica de Delmiro foi finalmente vendida e logo depois desmontada. antes. muda. cortado. João Cabral e o Sertão sem o Rio João Cabral de Melo Neto tem uma produção poética que tem como uma das marcas o cenário sertanejo. embora de unhas. Em situação de poço. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada. embora sabres. pela constante oposição que o poeta trata entre o cenário do sertão. Essa ausência significativa do São Francisco na poesia de João Cabral pode ser explicada. já no governo de Washington Luís. taxou o produto importado.dumping na disputa do mercado nacional. nesse aspecto. e muda porque com nenhuma comunica. Dois anos depois. por pressão de banqueiros ingleses a lei foi revogada.

Castro Alves e Ascenso Ferreira. justificando que o rio busca correr toda sua vazão num só dia como se tivesse medo de morrer em poços.ex. porém. trata metaforicamente duma quebra de narratividade. Se o projeto der certo. Se em Dantas Mota. pondo como ponto alto de dramaticidade a cachoeira de Paulo Afonso. pois prevendo cedo Que lhe imobilizarão a técnica e o tacto. para a opressão do estado sobre o indivíduo. fio de água por que ele discorria”. Jorge de Lima. a dureza da própria sociedade e do estado: “Durante as secas do Sertão. marcando bem as injustiças sociais ali cometidas (escravidão em Castro Alves). podemos supor que poetas cantarão a grandiosidade e a beleza da obra como desde tempos imemoriais temos narrativas sobre o modo como os egípcios e babilônicos enfrentaram o deserto. rústica é também o local de uma população sofrida. por outro lado. mas ainda com zelos de novato: Aviando com eutanásia o morto incerto. João Cabral ao tratar dos rios intermitentes. E vai acolitar os empreiteiros da seca. Que o enquadrariam num melhor salário. que no civil quer o morto claro. se os receios de grupos mobilizados da sociedade contra a obra se justificarem. cuja natureza que lhe é agressiva. teremos. em Dantas Mota e em Jorge de Lima) se encontra espaço para a usurpação de direitos.. de urubu livre. quase como um deserto. não raras vezes. da nascente à foz. por certo. passa a funcionário. o urubu. de modo que a natureza dura.porque cortou-se a sintaxe desse rio. Ele. muitos deles. O urubu não retira.” (“O Urubu Imobilizado”) Podemos colocar a poesia dos poetas que tratarão do rio São Francisco e que foram aqui comentados como autores de textos que destacaram a grandiosidade natural do grande rio do Nordeste e que mostraram em diferentes aspectos o modo como a povoação da região se deu. Cala os serviços prestados e diplomas. esfacelado: “esses rios do Sertão falam tão claro / que induz ao suicídio a pressa deles: / para fugir na morte da vida em poças / que pega quem devagar por tanta sede”. e outro para seguir pela Paraíba – devemos supor que um novo cenário não apenas hidrográfico e econômico se propõe. Nesse âmbito. quando presentemente se justifica e se apronta o início das obras de transposição do rio São Francisco em dois canais que cortarão o sertão de Pernambuco – um para atingir o Ceará e ligando-se à bacia hidrográfica daquele estado. A poesia de João Cabral quando trata do sertão pernambucano faz destacar a questão da seca. João Cabral retorna à imagem dos rios intermitentes. Em “Os Rios de Um Dia”. mas uma transformação também cultural. na sua sucessão de versos. afluentes temporãos do São Francisco. que esperar que a poesia do rio São Francisco continue 51 . fazem com que a forma do poema. p. não supera. para o cerceamento da liberdade. da quebra de discurso que o conjunto de poços e cacimbas representa. sob a divisa do progresso (construção da usina de Paulo Afonso. imite o percurso do rio. ao tratarem do grande rio do Nordeste. mostrando como. Veterano.

Dantas. como de autoria deste ou daquele mestre artesão mais reconhecido. Xenhenhém. Algumas carrancas. Rio de Janeiro.sendo a poesia do drama. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro / Brasília. José Olympio / INL. Nova Aguilar. MELO NETO. do cativeiro na Babilônia e a conseqüente travessia do deserto e. estudo e notas de Marisa Lajolo e Samira Campedelli. 1981. Poemas de Ascenso Ferreira: Catimbó. dos erros. Literatura Comentada. do passageiro de Ascenso Ferreira. João Cabral. MOTA. da tensão. vol. Rio de Janeiro. para ficarmos efetivamente com o sertão de João Cabral. como disse Jorge de Lima “o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. Rio de Janeiro. Recife. Seleção. Castro. MELO NETO. João Cabral. sem rio São Francisco. quando apresentadas pelo marchand. Ática. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. Ascenso. Castro. 1988. BIBLIOGRAFIA ALVES. Elegias do País das Gerais – Poesia Completa. José Olympio. ainda. 1997. LIMA. José Olympio. 1980. 1979. do sofrimento enfim. alcançam no 52 . Antologia Poética. Poesia Completa. Obra Completa. FERREIRA. 1. Cana Caiana. Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco As carrancas dos barcos do Vale do São Francisco hoje perderam sua função inicial de proteção das embarcações contra perigos concretos e imaginados do percurso do rio por uma função de peça de comércio artesanal. ALVES. São Paulo. Nordestal. 1980. Jorge de. 1980. Nova Fronteira. tanto quanto o suicídio de Lucas e Maria em Castro Alves.

ou simplesmente “Guarany”. jesuíta espanhol. que no livro Os Vikings no Brasil argumenta que existem vários indícios dessa passagem. hoje. refugiado do Convento da Bahia que amasiou-se com uma negra africana de Moçambique. Assim. bem como a adaptabilidade da carranca ao barco tornou-se um aspecto mais secundário. filha de artesã e agricultor. mas que peca pela ausência de dados comprováveis de qualquer uso de carrancas anterior ao período de colonização do Vale do São Francisco. filho de Guarany. 2006) Alguns estudiosos mais ligados ao âmbito das teorias menos comprováveis cientificamente e de caráter mais polêmico. 33). Tese ousada. Um dos primeiros cronistas a mencioná-la foi Durval Vieira de Aguiar em 1882: ''Na proa vê-se uma carranca ou grifo de gigantescas formas. Figura. sustentam que esse seria um indício da passagem dos Vikings pelo Brasil em época muito anterior ao descobrimento. Mestre Davi tornou-se internacionalmente conhecido quando Jacques Cousteau levou uma carranca a todos os cantos do mundo pelo barco "Calypso". os primeiros registros de existência das carrancas aparecem na segunda metade do século XIX. indo morar na cidade de Curacá. quanto à origem das carrancas. figura de proa e leão de barca são os termos ou expressões que os remeiros e outros ribeirinhos utilizavam para se referirem às carrancas. Ana das Carrancas é Ana Leopoldina Santos. de modo que a flutuabilidade. como inscrições na Amazônia. na Pedra da Gávea (RJ) e as carrancas que seria um costume transmitido pelos Vikings. que avisariam com três gemidos a proximidade destes. de modelos sem dúvida transmitidos pelos exploradores dos tempos coloniais'' (1979. estéticos e culturais das carrancas do São Francisco e as carrancas das galeras vikings. Pernambuco. com o decréscimo e quase desaparecimento da navegação ribeirinha assim como o fim dos gaiolas. onde passou a trabalhar como professor e constituiu sua família. Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987). Ana das Carrancas é um dos nomes mais conhecidos quando se fala em carrancas do rio São Francisco Ubaldino. Alguns artesãos se destacaram na produção de carrancas. Um dos defensores dessa tese é Jacques Mahieu. mais comumente têm sido utilizadas como peças decorativas de cantos de salas e escritórios. através da arte de talhar a madeira. destacou-se como o maior artista de carrancas. um famoso carranqueiro de Pirapora perpetua. que começou sua produção em 1972 é outro importante artesão de carrancas.”(Zanoni. Guarany é bisneto de José Dy Lafuente. Mestre Davi (Davi José Miranda Filho). 53 . próximo a cidade de Juazeiro. hoje conhecida como carranca. os barqueiros adotaram a figura. a utilização das carrancas ganhou uma função de artefato artístico artesanal. no lugar de servirem como elemento protetor contra maus espíritos e perigos do rio. p. De qualquer forma é inegável a possibilidade de comparações entre aspectos funcionais. De fato. em Santa Filomena. segundo Zanoni Neves: “Na segunda metade do século XIX.comércio de peças de artesanato internacional valores consideráveis. as carrancas. seu aparecimento perde-se um pouco no tempo. nasceu em 1923. às margens do São Francisco. distrito de Ouricuri. bem como com suas feições agressivas afugentariam outros espíritos. a história e a cultura dos povos ribeirinhos.

Com a utilização de instrumentos para o corte e o talhe da peça de madeira (facão. de cabeça do barco personificado ou metamorfoseado num vivente. Não se tem o hábito de se fazer um esboço ou desenho. As carrancas. Expedito Viana. são feitas de madeira. na Praça do Posto Três Palmeiras. potes. assim como os barcos a que se destinavam. Nosso intento maior é uma observação acerca do modo de produção das carrancas e um comentário acerca da natureza estética dessas figuras. machado e formão) o artesão vai moldando a peça de maneira intuitiva. Listamos aqui apenas alguns dos nomes mais conhecidos no universo do artesanato de carrancas. madeira ou barro. que ao cabo. em geral. usa o barro extraído do próprio rio São Francisco para composição de suas figuras de carranca.Dona Lurdes Barroso. Ao se fazer a carranca de barro. metamorfoseado em animal aquático que desliza pelas águas do rio. Nesse sentido. colocada na ponta da proa. Sendo originalmente artesã ceramista. por sua parte. uma vez que as ferramentas para composição já não serão as mesmas. não é um painel dos artistas. navegadores virtuosos. tementes a Deus. havendo. com 3. que navegam atendendo as necessidades das populações ribeirinhas seriam protegidos. também de madeira. representa o próprio corpo do animal formado pelo conjunto barco-carranca. a popa. mas com o próprio rio sua identificação. Nas galeras vikings era essa a conotação que a estrutura do barco buscava. em geral. feroz na ação de proteção da embarcação. como que garante à cabeça de carranca. é fato. Tal boca e dentes têm a intenção de conotar a agressividade da figura. que se encontra na Avenida Salmeron. nem tampouco a busca da explicação da origem das carrancas. boi-zebus. notadamente as de Ana das Carrancas têm uma função mais de peça decorativa artística de colecionadores e admiradores da arte popular do que propriamente a função de carrancas de embarcações. Porém. machado e formão. astutos pela descoberta de riquezas teriam contra si o espírito do rio. sua boa e seus dentes 54 . a carranca de barro como que se distancia da função de protetora do barco para ser a representação do espírito do rio que pode proteger ou não a embarcação em função da intenção do navegador ser aceita pelo rio ou não. pois. como no outro extremo. ainda de Pirapora (MG) é outro importante artesão carranqueiro que preserva a arte de entalhar a madeira. bem como o forno para cozimento. Simbolicamente o material usado. Assim. uma vez que o barro vindo do leito do próprio rio agora mantém não com o barco. mas diretamente na madeira o artista vai compondo a cabeça da figura. é uma artista que demonstra habilidade no manuseio de instrumentos como facão. A de madeira tem com o barco. As carrancas. por vezes. porém. Ana compunha antes panelas. agora quando ela passa a produzir carrancas também de barro o que ocorre é a transposição de uma técnica para outra. Assim. Essa identificação. cavalinhos e santos de barro. Expedito ficou conhecido quando confeccionou a majestosa estátua de São Francisco de Assis. dentes caninos proeminentes. O que buscamos destacar nesse nosso breve texto.5 metros de altura. Ana das Carrancas. que a produção de carrancas de barro. se colocava uma estrutura semelhante à calda do animal. de outra forma. quebra-se essa harmonia de material. dá a dimensão da própria modificação da função de uso da carranca. navegantes gananciosos. cuja cabeça é a carranca e o corpo o próprio barco. contendo algumas não só a cabeça de carranca (em geral a cabeça de um dragão). brinquedos. destaque nesse caso para as próprias mãos no ato de moldar o barro e o torno de oleiro. carranqueira também de Pirapora. uma identificação harmoniosa do material. a condição de vigia. de Ouricuri. são apresentadas como figuras com bocas enormes abertas mostrando.

boca e dentes. As cores formam outro aspecto importante da carranca. o espiritual e mágico. descolorindo depois de algumas estações. quando é colocada na figura. formando um conjunto de aspecto monstruoso. Segue-se assim também as sobrancelhas. não acessível aos olhos do mundo físico. Os remeiros ou barqueiros eram predominantemente de característica negra. abrigadas que estão dos efeitos nocivos do sol e da água do rio. se caracterizam por uma imagem amistosa ou de bem-aventurança. do viajante Sir Richard Burton (1867). Os aspectos africanos da carranca aparecem mais ainda quando observamos as que têm cores fortes (como o vermelho e o tom negro) com o fato das formas desproporcionais ou bem proeminentes como é característico das peças em madeira do artesanato antropomórfico africano banto. As orelhas. ou em alguns casos. de Saint-Hilaire (séc. fruto da característica do pigmento. Os olhos da carranca. pouco resistente às intempéries. Santa Bárbara. estas mantêm por mais tempo o vigor de suas cores. nos escritórios. entre outras). o mundo dos espíritos. A língua. o nariz e o queixo. devido ao fato de seu marido. numa espécie de homenagem incorporada ao seu imaginário. como atestam relatos do Padre Martinho Nantes (séc. por sua vez. sendo até o período anterior à abolição da escravidão. de aspecto protetor. marcante no caso das de Guarany. Outras têm a coloração dourada também. iourubá e/ou de nação de angola. Signo. Santo Olavo. são destacadas em tamanho assim como a boca. Sabemos que as primeiras populações ribeirinhas do Rio São Francisco a partir do período da colonização eram de característica negra ou índia. De forma geral. que costumeiramente vazava os olhos de suas carrancas de barro. No caso específico de Ana das Carrancas. agressivas. São as cores mais usadas. assim como o negro e o branco reforçam as idéias expostas pelos olhos. a carranca típica do São Francisco interpõe-se como o artefato que usa da força diabólica para uma missão de proteção ao navegante cristão. Desse modo. quando são de aspecto humanóide. a proteção declarada que a carranca oferece também apresenta um sentido invertido das figuras de proteção religiosa usadas na náutica. ser cego. conotam a noção de que tudo a carranca vê. algo diabólico. Numa espécie de simbiose ou sincretismo. a imagem de algum santo ou santa (Nossa Senhora dos Navegantes. entre outros. O mal a serviço do bem. A cruz. os olhos e os dentes. O vermelho usado em muitas figuras. as cabeças das carrancas têm aspectos antropomórficos híbridos. XIX). ao passo que a carranca se contrapõe pela agressividade nas suas formas monstruosas. ao sol forte da região. como se fosse uma juba caindo pelos lados do pescoço da figura. tal característica dos olhos das carrancas de Ana mostra ainda mais esse aspecto de visão de um mundo invisível. talvez. XVII). um canto de aviso aos espíritos malignos da chegada da embarcação. por vezes. também têm o mesmo padrão de desproporcionalidade. não apenas o mundo concreto. físico. mas principalmente o invisível. admiradores e turistas e que as colocam nas salas. demonstra a força vital e guerreira da carranca. Nesse sentido. bem como da força que a protege. cabelos. escravos que 55 . grandes também. supõe-se um rugido. no mais das vezes. ou ainda. A cabeleira da carranca. ou descascada. são de leão ou cachorro. Abrindo a boca. algumas carrancas mais antigas têm a coloração desbotada. o conjunto da figura impressiona pela aglutinação de elementos desproporcionais que disputam o espaço da cabeça. Bom Jesus Protetor dos Navegantes. José Vicente.formam o primeiro aspecto dessa força animal e vital. Já as carrancas que são adquiridas por colecionadores. de uma associação entre a simbologia imagética característica de mitologia africana ou mesmo ameríndia com a religiosidade cristã.

porém. Prancha de Figuras – As Carrancas 56 . coleção Raízes. Companhia das Letras. NANTES.1. Teodoro Sampaio traz informações mais detalhadas acerca da natureza étnica dos remeiros. Paulo. A. Os cabelos das carrancas. vol 46. os elementos afro e ameríndio os aspectos estéticos e formais da carranca. O cristianismo deu o sentido de proteção. grandes. Cia. Trad. 2006. Itatiaia/Edusp.scielo. Carrancas do São Francisco. NEVES. como concretizações de figuras de espíritos malignos dominados pelo sentido cristão e postos a serviço da exploração das águas do rio. 1979 Relação de uma missão no rio São Francisco. mas também com predominância da cor negra e lisos ajustam-se mais ao tipo étnico indígena sulamericano do que africano. 1975a Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais.br/scielo. São Paulo. Jacques. Francisco Alves. Editora Nacional/MEC/INL. n. Rio de Janeiro. que a cultura cabocla também incorporou elementos da cultura indígena. Belo Horizonte/São Paulo. T. 2002 O rio São Francisco e a Chapada Diamantina. Não se deve esquecer. 1976. 2003. Os Vikings no Brasil.php?script=sci_arttext&pid=S003477012003000100004. “Os Remeiros do São Francisco na Literatura” em: Revista de Antropologia. de modo que a idéia de espíritos do rio e espíritos da mata possam ajudar ou prejudicar uma travessia é também natural do imaginário ameríndio. SAINT-HILAIRE. São Paulo. Martins Fontes. fonte:Fonte:http://www.faziam o serviço de travessia e ligação entre as diferentes cidades. As carrancas são o resultado. Referências Bibliográficas: MAHIEU. Vivaldi Moreira. notadamente do âmbito dos navegadores e exploradores transposto para o cenário da colonização do sertão. de um cruzamento de influências do imaginário cristão português. PARDAL. SAMPAIO. São Paulo/Brasília. São Paulo. Zanoni. misturados sobremaneira com fortes doses do imaginário africano e ameríndio. em geral. Padre M. a nosso ver.

Lembro do poema de Cláudio Manoel da Costa. O rio São Francisco também tem suas lendas. Ana das Carrancas e algumas de suas carrancas de barro Três carrancas de madeira do mestre Guarany A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco Os rios.Carrancas típicas em escala industrial. recriando a lenda em águas do ribeirão do Carmo. muitas vezes. Mãe d’água. Com origem na mitologia indígena temos a Iara. espíritos maus. Minas Gerais. As ninfas do Tibre. do Tejo são cantadas desde a poesia barroca. preto. vapores assombrados. se eles recusarem dar-lhe um peixe. Polifemo e Galatéia. Uma das lendas mais curiosas do folclore do rio São Francisco é a “A Lenda do Nego D’Água”. 57 . envolvendo carrancas. Personagem de destaque no Macunaíma de Mário de Andrade. Aparecendo dás águas com suas gargalhadas. se analisamos o processo de povoação dessas regiões. são repositórios de lendas. o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores. além do imaginário palaciano e de cavalaria. careca e mãos e pés de pato. Pareceme que aqui é o caso de uma migração da lenda do São Francisco para o Tocantins. Esta lenda também é encontrada com referência ao rio Tocantins. este modelo é reproduzido aos milhares.

valedoriosaofrancisco. tange-os para longe da rede de pesca. agradando assim o Negro D’Água. outros dizem que são muitos. ele nunca se afasta muito da beira do rio. (Fonte: www. furando redes e dando sustos em pessoas a barco.valedoriosaofrancisco. os beiradeiros jogam nesse ponto cacos de vidro. o que sossega os corações das mães. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio. Quando não gosta de um pescador. ele seria a fusão de homem negro alto e forte. costuma aparecer nas casas de farinha das ilhas ou dos barrancos e noite de farinhada. Remou apressadamente em direção ao animal. levar uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio. Segundo a Lenda do Negro D'Água. muito difundida entre os pescadores. espécie de versão afro-masculina da sereia. passeando entre os que estão adormecidos.Alguns pescadores guardam o hábito supersticioso de. Nesse instante lembrou-se o pescador que trazia um pequeno pedaço de fumo. percebendo ao se aproximar que se tratava de um cavalo. principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil e no Rio São Francisco. corpo coberto de escamas mistas com pele.br) 58 . que amedrontam o caboclo d’água.com. sua função seria a de amedrontar as pessoas que por ali passam. Para afugentá-lo desses locais que terminava alargando o rio. o que provoca tombamento do mesmo.com. Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas. dos quais muitos dizem já ter o visto.etc. povoa a imaginação de todo menino beiradeiro. e aí tentou encostar a canoa para verificar a marca ou ferro. Não há evidências de como surgiu a Lenda. com um anfíbio. para roubar-lhes fumo ou beiju”. pois a noite os pequenos só se aproximavam da água acompanhados por adultos”. percebendo o pescador que um nego d’água agarrado à borda da embarcação tentava virá-la. Conta-se o caso de que certa feita no Rio São Francisco deu-se o seguinte acontecimento: “Um pescador contou que pescava a noite quando percebeu um vulto de um animal morto boiando na correnteza. (Fonte: www. afugenta os peixes. que habita nos locais dos rochedos do meio do rio. partindo anzóis de pesca. Alguns dizem que existe apenas um nego d'água em todo o rio. comumente depois que os trabalhadores se acomodam para dormir. adora fumo. quando o animal afundou e logo em seguida. Suas características são muito peculiares. O fato é que o nego d'água. o ‘nego d’água’. ao sair para pescar. Como a caipora. o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele. Apesar de viver também fora da água. ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio. que imediatamente atirou para o neguinho que dando cambalhotas.br) Outro fato narrado no São Francisco e que envolve a figura do Negro D’Água é a seguinte: “Há quem afirme de viva voz que já viu aquela figurinha atarracada de cabeça grande e olho no meio da testa. desapareceu no fundo das águas. costume que faz com que os pescadores atirem fumo a água para cair nas graças do negrinho que gosta desse agrado. para que não tenham sua embarcação virada. para avisar ao dono. a canoa foi sacudida. como também escava suas covas na base do barranco da beira do rio.

Os homens que não ouvem seus apelos.Segundo o site da prefeitura de Juazeiro. Eles três tavam numa canoa e. causa uma surpresa na paisagem das águas ao olhar do observador. acerca de um ataque do Negro D’Água. A referida obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira é de grande beleza plástica. Muitos desconhecendo a lenda ou o motivo da obra se perguntam como ela foi parar lá no meio do rio? Ao aproximar de barco ou de canoa da estátua ela começa a impressionar pelo tamanho. de uns dezoito janeiros de idade. aqui chamado de Caboclo D’Água: “O senhô pode me creiá. mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: "Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai". com doze metros de altura. sentada sobre uma pedra. A estátua do Negro D’Água. nas águas do São Francisco. ele arrasta as mulheres bonitas que encontra nas margens do rio e leva para o seu reino. se diz a respeito da lenda que: “O Nego D’ Água vive no fundo do rio São Francisco. segundo ribeirinhos. o bicho rolar pra dentro d'água. p. o artista plástico Ledo-ivo Gomes de Oliveira criou uma de suas principais obras plásticas. 1956) Edilberto Trigueiros no livro A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco esclarece a respeito da lenda do Negro D’Água a sua origem: “Também chamado moleque d’água. Existe uma versão narrada por J. Eu e meus dois menino. nas informações turísticas da cidade. embaraiando o sem-vergonha. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos. recriando a linguagem do caboclo. apresenta-se como materialização do imaginário das lendas. no escuro que fazia. numa pescaria. até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede.” (TRIGUEIROS.124) Na cidade de Juazeiro. Encantado como eles ficou. maretando o rio. O Nego D’Água gosta de batuque nas proas das embarcações e tem o poder de naufragá-las”. Nisso.A. donde nós tava.” (J. tudo leva a crer tratar-se de um símbolo transplantado do mito hidrolático da Mãe D’Água (a Iemanjá dos negros iorubas do litoral). noutra. algumas vezes subindo pelas suas costas até seus ombros. 59 . num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. Macedo. Conhecido também como compadre das águas. nós escutou os menino gritando demais. turistas ou crianças descem à pedra e rodeiam à estátua. 1977. E nós viu. pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar. Macedo. Nós remou depressa pra lá. eu mais o fio mais novo. ele leva-os para o seu reino como escravos. oferecendo-lhe fumo. Dizem que ele é meio homem e meio lontra. A estátua que se vê como que emergindo das águas. colocada sobre uma pedra. A. adaptado às condições mesológicas do São Francisco. Eventualmente. o caçula.

no sentido das características típicas do moderno. Dr. Segundo o próprio artista sua arte tem a característica de buscar a: “ . ele. o artista plástico se preocupou em apresentar uma versão do Negro D’Água de belas feições e com harmonia das partes. como a utilização do grotesco. o que se poderia classificar como uma obra plástica moderna. funcionando a sua Obra como uma espécie de Marco-humanizador. do disforme. Spock. existem relatos de ribeirinhos que alegam ter visto o Negro D’Água como sendo de baixa estatura e atarracado. nas bibliotecas e ateliês da vida . quanto de sua pose. de tal forma que não nos causa medo. denotando assim. seguindo o preceito clássico horaciano e aristotélico. Semiologia. o medo pela agradabilidade.à Verdadeira Expressão desta Arte. quando se faz necessário. liturgicamente. mas de imediato nos impressiona a sua beleza harmoniosa. a certa altura lemos: “Estudante Autodidata. continuou seus estudos de Historia. Essa versão apresentada por Ledo-ivo tem de certo implicações com uma tentativa – consciente ou inconsciente – de harmonização com preceitos clássicos de estrutura das partes da obra e de aparência segundo dados de uma anatomia fundamentadas no número de ouro e na divina proporção.. De anfíbio o que temos na estátua é uma espinha dorsal externa escamada que parte do alto da cabeça até o cócix. repugnação ou receio a figura da estátua. A figura se posiciona como quem observa ao longe. Geopolítica. 60 .” No caso da estátua do Negro D’Água encontramos na versão classicizante do personagem folclórico a intenção de buscar esse “significado existencial”. esticado. apoiando a perna direita dobrada com o auxílio da mão direita. como quem quer ver ao longe completa os tênues traços anfíbios. entalha e esculpi. Na página da Internet que apresenta dados do artista. modificando assim a descrição geral do Negro D’Água que costuma referir as suas partes baixas como as de um anfíbio. Sociologia. como um Michelangelo à Davi: ‘ Parla !!!’ ” Está claro aí a presença de influências clássicas e renascentistas na obra do artista. sentado sobre a pedra. A pedra utilizada. pois. em meio a Brutal interferência do Homem com o Meio-ambiente.. com que. Não é. de cor escura é que dá o sentido de se tratar da imagem de um caboclo negro. Historia da Arte (Antiga e Contemporânea). tanto de sua aparência. cuja relação primordial é com a própria Arquitetura e. mas é clássica no sentido de buscar a harmonia da figura com a anatomia e as proporções da figura humana. numa posição de observador tranqüilo mas atento. a reportar a esse mesmo Homem o seu próprio Significado Existencial e às suas Origens. mais agradável. O personagem é assim redimensionado a um sentido mais humano. de cabeça achatada. a sua Origem Espiritual. embora os traços pouco lembrem a aparência dos afro-descendentes. com o Urbanismo. lapidando assim seu “ Formão da Vida ”.A estátua tem uma aparência bela. essencialmente. descritas no renascimento pelo homem vitruviano. O rosto delgado tem sobrancelhas bem definidas e salientes e o pescoço longo. As orelhas são pontudas que lembram as do personagem de Jornada nas Estrelas. Aliás. Filosofia e Comunicação. A figura tem pés e pernas humanas. Substitui-se desse modo na lenda.

Edilberto.br/revista/galeria/ca84011f. A.asp 61 .Três fotografias do Negro D’Água.jangadabrasil. Referências: MACEDO. J. Internet: JANGADA BRASIL. http://www. 1977. Folha de Minas. A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco. "O caboclo-d'água". FUNARTE. Belo Horizonte. obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira.com. Rio de Janeiro. 2 de dezembro de 1956 TRIGUEIROS.

histórico-pictórico a levantar todas ou as principais telas. telas com temas ao rio São Francisco ligado. poder contribuir para o entendimento do processo do imaginário que formou na consciência nacional uma representação do rio. das festas populares das populações ribeirinhas ao Velho Chico. Pinturas Holandesas 62 .Algumas Considerações Acerca de Algumas Representações Pictóricas do São Francisco Neste capítulo pretendemos comentar acerca de algumas telas de pintura cujo tema é o Rio São Francisco. Sabemos que não são poucas as telas que foram pintadas com o tema do rio São Francisco. como acerca das lendas. antes o que pudemos fazer é tratar das telas as quais tivemos acesso mais imediato. das carrancas. ou ainda. Com essas considerações. 1. acreditamos. Não poderíamos aqui fazer um verdadeiro livro de arte panorâmico.

podemos observar com destaque às margens. temos na possibilidade da perspectiva aplicada pelo pintor. Pouco à frente do xique-xique. Ao fundo na outra margem. formado por gomos. percebe-se o forte holandês. um barco atracado à margem. e com o tronco acinzentado. Franz Post que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644. tranqüilamente ali. Os artistas holandeses a serviço de Maurício de Nassau puderam pintar vários aspectos da vida e da paisagem colonial daquela parte do Brasil. calmamente. de avaliar a 63 . A paca ali pintada é com o objetivo de fornecer dados sobre a fauna local. tais estranhezas não alteram o significado geral da planta cactácea ali pintada. um xique-xique. esta parece dominada por vegetação rasteira ou arbustiva. Um de seus quadros. Natural de vegetação do semi-árido. Franz Post.Começamos por falar das pinturas holandesas do século XVII. 10 das quais ainda desaparecidas. é plausível encontrá-la com freqüência próximo ao rio. uma estrada de terra que leva até o forte. Acresce a isso. Post pinta uma paisagem das margens do São Francisco. Rio São Francisco Primeiro. principalmente em Pernambuco. de modo que nela vemos informações sobre a vegetação e a fauna da região. Seguindo. ao que me parece. Demonstrando a firmeza da ocupação holandesa na região. Se pensamos no tempo real que o pintor levaria para a pintura. vemos uma paca de pelo marrom escuro. mas em floração. o preceito de que o pintor deve escolher o cenário ou o momento mais significativo de um propósito geral para que possa ter nesse momento os elementos que realmente possam expressar o que se deseja ou se busca. Pelo tamanho da paca e do xique-xique e o tamanho com que aparece o barco e o forte ao fundo. sobre umas pedras. o fato de que em toda tela não se destaca nenhuma árvore. acredita-se que tenha pintado pelo menos 18 telas. é pouco provável que a paca se dispusesse a servir de modelo. com isso Post informa sobre a natureza climática da região. trouxe algumas contribuições para a formação cultural da região. mesmo na distante outra margem que aparece ao fundo. A ocupação holandesa. bem como da passividade com que as pacas se portavam diante da presença humana na terra ainda pouco desbravada. como que querendo beber água. pinta o rio São Francisco. bem como sobre as condições de povoamento. Ligeiramente retorcido.

inclusive existem dúvidas sobre sua nacionalidade. Cachoeira de Paulo Afonso A pintura de Post. Podemos comparar esse quadro de Post com um pintado posteriormente por E. Á época em que pintou ela ainda não tinha esse nome. já após a queda ela se reconforma para seguir seu caminho e no modo como os rochedos parecem resistir à força brutal da cachoeira. agora. porém. chamada antes pelos portugueses de “Sumidouro” ou “Forquilha”. Não nos dão os elementos da tela (pedras. Todavia. não dá ao observador a dimensão do tamanho da queda d’água. Ainda as águas calmas. Noutra tela. dá dados da facilidade de navegação. 64 . praticamente sem ondas. Franz Post pinta a cachoeira de Paulo Afonso. no modo como dá o efeito de queda d’água. vegetação) nada que sirva de parâmetro para uma aproximada medida da cachoeira. se austríaco. suíço ou alemão.Schute – pouco se sabe acerca desse pintor. mostrando aos olhos de que observa o quadro quão largo é naquele trecho o rio. Franz Post.F. Colocando-se o pintor num ângulo de relativa distância para que pudesse pintar um plano geral de frente da queda d’água. a beleza da pintura paisagística de Post esta lá ainda presente.distância duma margem à outra. de como depois. Post fez por pintar a cachoeira de tal maneira que parecesse pouco mais do que as que são comuns há muitos outros rios de vazão menor que o São Francisco.

Cachoeira de Paulo Afonso. Vingboons. caso se dispusessem a fazer. Schute se coloca no alto dos rochedos.E. e as água vem de pelo menos três direções diferentes. como se buscassem demonstrar a altura da queda. Jan Vingboons. As figuras estão de costas para o observador. deixando-nos a impressão de que as figuras humanas ali paradas estão não só admirando a paisagem. numa posição que permita ver o alto da queda. O quadro é de metade do século XIX. Aqui em Schute a pintura paisagística é nitidamente romântica. Escolhendo um ângulo diferente de Post. vai baixando para um tom próximo do rosicler ao fundo. Penedo 65 . no primeiro plano temos o domínio dos tons escuros. Reforçando essa impressão da hora.Schute. em que algumas árvores pairam à beirada. que pintou a região de Penedo. A névoa que se levanta da cachoeira também tem um efeito plástico belo. O quadro do rio São Francisco de Post pode ser comparado com a ilustração de um compatriota seu. como se estivessem convidando o observador do quadro a olhar o cenário e admirá-lo também.F. 1850 possivelmente. mas também percebendo qual dura será a travessia. mais ao fundo duas figuras humanas servem de parâmetro para que se possa ter noção do volume e da extensão de águas ali. como que anunciando um final de tarde. para alcançar o outro lado dos rochedos. O céu de várias tonalidades de azul no alto. Em primeiro plano vemos uma palmeira pendendo em direção à queda d’água.

focalizando mais nitidamente as casas e construções da outra margem. porém seu plano é mais próximo. 66 . Artista de caráter primitivista. mas de uma vegetação verde rasteira. Adotando as idéias de composição e cores apreendidas com Rubens Fortes Bustamante. natural do Recife. surdo. as plantações de hortaliças bem verdes. Um exemplo é o pintor Militão dos Santos. assim como o vôo dos pássaros. em proposição de complementaridade. principalmente os oriundos da região do vale e do Nordeste em geral. Não se vê figura humana. Vemos muitos barcos menores. um barco vai à esquerda. uma vez que não temos sinal do xique-xique. sugerindo a descrição do ataque das forças baianas na reconquista de Penedo. O movimento também é sincrônico e complementar. Os vários barcos pequenos colocados próximos às vilas dão a idéia de um lugar de muita movimentação. o rio São Francisco tem sido tema recorrente de vários pintores. Vingboons coloca-se num ângulo muito parecido ao de Post. os agrupamentos de pessoas. A vegetação presente na margem de primeiro plano é diferente da que se apresenta em Post. as cores das roupas e as cores das casas. nas margens ou na vila. Os barcos. e a vila aparenta calma. Uma de suas telas intitula-se “Rio São Francisco”. o marrom avermelhado e o negro da terra. alguns com aspectos de barcos de pesca. seja nos barcos. 2. Pinturas Contemporâneas No âmbito das pinturas contemporâneas e modernas. A bandeira das caravelas parece ser de tropas coloniais portuguesas. o verde e o vermelho dos barcos. assim as duas caravelas portuguesas que ali aparecem passam a idéia de que seja a ação de um agressor que vem quebrar a ordem e o progresso do lugar. as casas. o que vemos é uma riqueza de cores contrastantes. casas e estradas é que sugerem que em cena existam muitas pessoas em ação. outro vem à direita. o azul vivo das águas. um deles inclusive atirando de seus canhões.Na pintura de Vingboons vemos uma frota de barcos.

num amarelo ocre. por vezes numa riqueza de contrastes. e outra superior. Por outro lado. rica em húmus. bandeiras. a sugerir o domínio do Sol. na sua disposição radial de folhas. Sua pintura de caráter primitivista é bem colorida e com bastante movimento. Rio São Francisco A copa das árvores de João Militão. a compor o espaço das nuvens. pintadas como se lembrassem fogos de artifício explodindo ou enormes lírios dos campos coloridos. Parte da terra da plantação é pintada em cor negra. por sua vez. O céu dividido em três faixas. Seus quadros são repletos de figuras humanas. tem 67 . árvores. uma intermediária. Mais ao fundo a campina verde se faz presente em duas tonalidades de verde. que se confunde com o horizonte. Josinaldo Ferreira nasceu em Remanso (BA) em 1951. casas. de pintar movimento e variedade de personagens encontramos também em outro pintor da região. e a riqueza de movimentos e personagens passam essa idéia de dia cheio de luz. fortes. O Sol. Essa característica primitivista de utilizar cores vivas. branca. sugerindo a idéia duma terra adubada.João Militão. Josinaldo Ferreira . não está pintado no cenário do quadro. para sugerir o espaço ocupado por duas colinas. lembrando um bocado das pinturas modernistas da década de 20. fortes. tudo delimitado quase que geometricamente. mas as cores vivas. uma azul.

todas com listras horizontais. podemos notar o barco passando pelo rio São Francisco. a perspectiva e a disposição de seus elementos criam essa sensação. mais paisagística. perpendicularmente ao olhar do observador. Assim. Josinaldo Ferreira. coqueiros. confluindo nas matas ciliares que acompanham o rio. passa a impressão da circularidade. o céu azulado e um astro avermelhado que tanto pode ser o Sol em rosicler. 68 . no que concerne à forma e ao uso da perspectiva. Essa forma festiva de apreensão pictórica da realidade local é uma característica advinda da simpatia e da amabilidade da população ribeirinha que apesar das dificuldades cotidianas sem mantém assim por natureza mesmo de sua gente. o rio é colocado em perspectiva.também uma certa similaridade com as xilogravuras nordestinas. O céu azul e branco pintado como parte de uma abóbada. para o longínquo. pessoas lavando-se ou lavando roupas. Rio São Francisco No quadro que apresentamos nesse artigo. demonstrando assim um certo aspecto de isolamento do lugar. mais lenta como o fluir das águas serenas do rio São Francisco. quanto à Lua aparecendo e recebendo ainda os raios do Sol que se encontra ao poente. reconfigurada para o momento contemporâneo. No quadro “O Velho Chico”. Joel Dantas. A terra vermelha e a cor bronzeada da pele das pessoas dão outra similaridade ao quadro. O uso das cores. nascido em Pilão Arcado (BA) em 1950. Sua técnica. Ao fundo. nessa tela. na outra margem. atualizada. uma vela dum pequeno barco. carregado de pessoas e bandeirolas. Notemos as camisetas listradas das pessoas. Augusto Muller ou Fachinetti. como se essa paisagem se mantive repetitivamente sendo reencenada. como se as águas do rio dirigem-se nosso olhar para o infinito. o tempo é circular. também se notabiliza por uma pintura com temas locais – do rio São Francisco e do sertão – mas sua técnica é diferente do primitivismo de Josinaldo Ferreira. pessoas fazem acenos para o barco. Na margem do rio. Porém. tudo numa configuração de movimento mais calma. criando uma relação de similaridade com o rio. lembra a dos românticos paisagistas como Benedito Calixto. Na margem umas canoas.

A moldura em pvc cria um contraste de tal densidade com a tela que é difícil pensar numa unidade artística entre ambas. O distanciamento do olhar do observador faz que vejamos um panorama de pessoas nadando. fechando numa torneira. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira Aqui a contradição é absoluta. O título provocativo se justifica pela moldura. exceto por conter uma maior movimentação das figuras e uma vida mais alegre. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira”. tela e moldura. Um barco com carranca aportado à margem. não só de conteúdos: a água do rio e a água encanada que nunca chega. Joel Dantas. promovida pela ONG Sociedade Semear. entre março e maio de 2007. mulheres e homens ali numa conjunção prazerosa com o rio. O cenário apresentando em pouco difere da técnica comentada do quadro anterior. ao centro da parte inferior da moldura. se divertindo ás margens. Se o propósito foi a crítica ao modo como as questões do rio São Francisco são tratadas. também de pvc. a contradição de estilos. O Velho Chico. Rio São Francisco Joel Dantas tem outra tela. Crianças. uma vez que artisticamente talvez fosse merecedora a tela também de uma pintura 69 .Joel Dantas. o objetivo é justificado. feita de canos de pvc. mas tem outra mais latente ao meu modo de ver. apresentada na exposição “Águas de Março”. “O Velho Chico. mas apenas nesse sentido.

Paul Berenson. Carranca O barqueiro. Aqui a idéia de uma viagem de solidão se contrapõe à alegria festiva do barco de Josinaldo Ferreira. o que nos passa é a idéia do distanciamento. num predomínio dum plano mais próximo. numa técnica mais abstrata ou concreta. Márcia Berenguer Cabral nasceu em 1948. assim a carranca se situa num canto superior da tela. Sua pintura.que se ajustasse melhor ao quadro. desafiadora e envolventemente neobarroca. Nesse ponto. Num certo sentido. rica de contradições históricas. a floresta Amazônica. costuma pintar quadros dos locais por onde viaja. Salvador (BA). as praias do litoral nordestino são seus temas preferidos. estivesse o artista olhando pela janela do avião a paisagem e se inspirou por retratá-la. meio místico. O Brasil é um dos seus destinos preferidos. O barco com a carranca surge assim. Um de seus quadros intitula-se “Mouth of São Francisco River” e nesse caso. mais geométrica. mas diferente de Josinaldo Ferreira. ouve o choque entre a linha de pintura do autor e a ousadia da mensagem provocativa. emprega uma técnica de suspensão ou indefinição do fundo e de valorização da figura de primeiro plano. atualmente vive em Portugal. a margem virtual que aponta para o espaço real em que se encontra o observador do quadro. esta mesma. sem camisa. Desde 1971 este pintor vem construindo um conjunto de obras com mais de duas mil telas. O que se vê é uma abstração pictórica da visão área que se tem da boca do rio. vindo de outras eras para o presente do observador. é rica de cores. mas por outro lado. sociais. de caráter modernista. sobre usa contemporaneidade. pintor norte-americano. culturais e por isso mesmo. sinalizando que este se aproxima da margem. é de se teorizar sobre a técnica. Suponho. Márcia Berenguer Cabral. parece ter que fazer uso de força para empurrar com o remo o barco. O fundo todo azulado mistura-se com as águas do rio. mas apresentado na sua crueza. sugerindo quase que uma névoa. meio fantasmático. deve-se também observar esse distanciamento como significativo mesmo da 70 . penso eu. choque que não foi resolvido. como que querendo assustar a quem a vê. O Rio de Janeiro. São formas diferentes de apreender a realidade pictórica do vale do São Francisco. a perspectiva é colocada de modo que o observador como que estivesse numa posição inferior ao barco. No quadro “Carranca do São Francisco”.

se constitui de três bagas bem rombudas. como se fosse também pelo peso da água acumulada. dando a entender que caem pelo excesso de calor e aridez da paisagem. também vermelho. revela-nos apenas o óbvio. portanto. “Êta Transposição”. Uma baga superior se empina firme em direção ao Sol. porém. modernas e artísticas acerca da pintura. 1942). enfim. Locais turísticos. Duas delas. Pelo contrário. No quadro de Mallet vemos uma espécie de cacto que. No caso particular dessa tela. compondo uma forma indefinida que só ganha sentido concreto quando olhamos seu título. O fundo é todo de tons vermelhos e o Sol. esse é seu olhar. da gente e da terra que retrata em suas telas. se mistura com o fundo. o de um pintor turista. o olhar de turista encantado com a Natureza local. Paul Berenson. O verde e o azul. faltam os espinhos. caindo pelos lados. A tela lembra um pouco um estilo de pintura de Tarsila do Amaral (“Abaporu”. “Antropofagia”). Êta Transposição 71 . o distanciamento revela-nos quase um quadro abstrativista.compreensão do lugar. mas pela robustez delas. São Francisco Mouth Na já cita exposição “Águas de Março”notamos o quadro de Alfredo Mallet (Rio de Janeiro. O título. Alfredo Mallet. Penso eu. que seria mais interessante se não tivesse o título e poderíamos aventar hipóteses mais estruturalistas. “O Ovo”.

1956) destaca-se como artista pelo trabalho de escultor. A luta do homem para o domínio da Natureza de modo a torná-la sujeita as necessidades humanas. Antônio da Cruz apresenta uma máscara em cobre. como se fossem as lágrimas num choro contínuo. Recuperando o nome indígena do rio São Francisco. A lembrança com o estilo de Tarsila do Amaral não é uma característica constante da obra de Alfredo Mallet. na maioria das vezes. Antônio da Cruz (Maruim. sendo vencido aos poucos pela incongruência da paisagem. por outro lado. seja pelo desequilíbrio ecológico. SE. A interpretação do quadro é. aludindo assim a provável falta de planejamento que os críticos do projeto buscam demonstrar. Assim. caem pela sua frente e continuam pelo chão. O cacto na tela de Mallet é. de cujos olhos escorrem dois filetes derretidos de aço inoxidável. o processo se deu. a necessidade desse processo. mas é de se destacar nesse quadro. algo ambígua.A terra num tom ocre oleoso sugere a aridez do terreno. Lágrimas de Opará 72 . e sua comparação com as citadas obras de Tarsila. Na exposição “Águas de Março” apresentou a obra “Lágrimas de Opará”. Ainda se pode interpretar que o estranho cacto ali no cenário semi-árido seja simbolicamente o próprio projeto de transposição. representativo desse processo. Os filetes derretidos caem sobre um bloco. no mais das vezes. a aridez. nos remetem a um novo tópico. ou. Antônio da Cruz. nesse sentido. tem resultados insatisfatórios. porém tal luta. seja pelo modo consumista e destrutivo com que. de modo que sua aparente robustez logo se desvanecerá. uma vez que apresenta o calor. qual seja a questão do modo como os modernistas de São Paulo e Rio de Janeiro viam o processo de interiorização. entendemos que a transposição viria a solucionar o problema da seca. pois. cerca de 70 anos após o advento do Modernismo. ou melhor. o aspecto ecológico entra como componente crítico de avaliação do processo de interiorização. Ou entendemos que a obra é contrária à transposição.

uma de suas obras mais conhecidas é justamente uma intitulada “Mandala”. o equilíbrio em que a obra de arte continue sendo obra de arte e o engajamento sócio-político.br/noticias/19820081283251459) Porém. lemos: “Os trabalhos são inspirados em temas que vão desde a mitologia greco-romana à cultura popular do Nordeste. Numa notícia chamando a atenção para a última semana desta exposição. como ele mesmo intitula uma de suas exposições. É uma coisa muito universal. ao bom estilo modernista. porém. denuncia um processo apressado de engajamento. Ícone do neo-regionalista. Assim é como Ismael Pereira define a exposição. que passa. Lá estão a fênix. aqui é o próprio quem chora agora e suas lágrimas são de aço derretido. O vocábulo portmanteau. Um fundo cinza. peca pelo excesso de intenção engajada. no caso. 73 . transforma o produto artístico em panfleto. os jarros com flores. ele enveredou pelo abstracionismo porque possui qualidades para dominar.. os galos de briga. vemos uma tarja preta com a frase: “. Crítica ao progresso desmedido que não se preocupa com a preservação ambiental. “Eu acho que o abstrato tem como pátria a humanidade e como bandeira. o sol.. a primeira palavra é que melhor se adequa à obra. se faz submergir diante do sentido extra-artístico. No caso da obra em questão.com. Os materiais usados. perpendicularmente à tarja. chorando a ausência de seu amado guerreiro. uma vez que a mensagem artística. o rio que na mitologia indígena se forma pelas lágrimas da linda Iati. do “Neo-regionalismo para o Abstracionismo Informal”.Era uma Vez um Rio São Francisco”. sem perspectiva e uma mandala se coloca ali como o Sol – signo artístico de Ismael Pereira. declara o sergipano de Capela. um desenho de uma placa vermelha com o dizer “TransImposição”. ao invés de ser dominado por esta escola. É difícil conseguir a alquimia adequada. que se realiza no próprio meio.A obra num estilo bem contemporâneo. o político-social.” (fonte: http://www. inclusive. o quadro “Era uma vez um Rio São Francisco”. ressignifica o mito de Opará. num processo em que tal transformação resulta numa diminuição de suas qualidades estéticas. temos a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” de Ismael Pereira. Nem sempre a primeira impressão. o antigo Farol da Atalaia e. E eu gosto muito dessa liberdade”. “Ousadia sexagenária”. Na mesma exposição. Não raras vezes o desejo de engajamento numa causa política ou social. A máscara se apresenta como o mito antigo diante das contradições do mundo moderno. ao meu modo de ver. Assim. uma homenagem ao gênio Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). aço inoxidável e cobre dão uma concretude contemporânea.cinform.

As cores de Gonçalo Ivo. e. uma delas subintitulada. mas nesse caso. o suplantem. branco e negro combinam-se e alternam-se nas faixas horizontais dando a dimensão plástica das águas do rio. A pintura de Gonçalo Ivo é de uma geometrização que confere ao pictórico uma dimensão lúdica numa interface com a realidade física que abre o jogo entre a abstração. enquanto mundo das idéias das formas. 1958). por exemplo. da poesia visual. redimensionam o espaço pictórico num jogo criativo e encantador aos sentidos visual e táctil. As cores formam o espectro do cenário: o verde das matas. um cartaz. pelo modo metalingüístico e poético com que se apropria de lemas da revolução russa. com domínio das linhas horizontais. temos o domínio dessas linhas horizontais. tem um conjunto de três telas acerca do Rio São Francisco. Em “Aurora” as cores são mais quentes.. assim. numa delas os tons de azul. um poema assim.Ismael Pereira. Gonçalo Ivo (Rio de Janeiro. justificadas por um contexto da fluvialidade das águas. filho do poeta Ledo Ivo. Nas três telas acerca do Rio São Francisco. seria mais de se considerar a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” uma variante dos poemas postais. o branco de nuvens. os cartazes poéticos dum Maiakóvsky. e a realidade concreta.Era uma Vez Um Rio São Francisco O verbal aqui suplanta o pictórico.. o azul das águas. Assim. abstraídas de suas formas. Pintor cuja influência abstracionista e concreta se faz notar. Ou de outro modo. a obra acaba se realizar como um panfleto. 74 . Aurora. assim como também as faixas horizontais se dividem em grupos retangulares e um circular (referência ao Sol). Rico de combinações de cores. ainda. . mundo da realização das formas em matéria plástica. o vermelho do calor e do Sol. uma poesia visual cuja visualidade se encontra subordinada ao verbal. duma fase pré-concretista.

sociedadesemear. 1967. O que busquei comentar nesse capítulo foi. Referências CIA. bem pode ser subdenominada de “Entardecer”. VALE DO SÃO FRANCISCO. LEITE.org. DESENVOLV. José Roberto Teixeira. me suma. É o reflexo do rosicler solar sobre as águas turvas do rio. na sua morosidade do ritmo de entardecer sertanejo.br 75 . Internet: CINFORM: “Última Semana Para Ver a Ousadia Sexagenária de Ismael Pereira” Postado em 19/08/2008. GRD.br/noticias/19820081283251459 SEMEAR: “Exposição Águas de Março”. dentro do conjunto. em que o fluídico se encontra disfarçado pelos tons mais densos. São Francisco: O Rio da Unidade. As cores dominantes são os tons de vermelho e marrom. me parece o pintor que melhor soube apreender a natureza pictórica do Velho Chico. Assim. embora tenha o título apenas de “Rio São Francisco”. Mercedez-Benz do Brasil. sendo que muito provavelmente esqueci ou deixei passar telas significativas da história pictórica do tema em questão.com. http://www. Gonçalo Ivo.Telas de Gonçalo Ivo com o tema do Rio São Francisco Uma terceira tela. em termos de técnica abstracionista. 1978. A Pintura no Brasil Holandês. Rio de Janeiro. SP. mas me ative as telas que tive maior familiaridade e contato.cinform. http://www. Não é esse panorama completo nem extenso. A matização da tela assim substancia o rio como um rio sólido. São ás águas calmas do rio São Francisco refletindo a luz. São Bernardo do Campo. um breve panorama quase crítico das representações pictóricas do Rio São Francisco.

sendo apoiado pela Igreja.Mamulengo Revisitado: A Arte das Mãos na Ligeireza dos Bonecos A origem do teatro de bonecos chamado de “mamulengo” perde-se um pouco no próprio processo de aquisição de cultura durante a colonização. O mamulengo é 76 . Era comum um espetáculo de bonecos denominado de “Presépio” de característica de difusão do imaginário cristão. A chegada do teatro de bonecos está associada também à chegada da arte circense. incluindo-se aí um longo espectro de adaptações e modificações. à transposição de lendas européias para a cultura brasileira. inclusive em Portugal. O teatro de bonecos era comum na idade média na Europa.

Os personagens típicos do mamulengo são definidos por uma tradição que representa papéis sociais que se cristalizaram na formação da sociedade nordestina: o coronel. a onça. diferindo do Presépio medieval com caráter mais religioso e mesmo de desenvolvimentos mais acadêmicos ou eruditos como o teatro simbolista de marionetes de um Maeterlinck. a técnica dos bonecos suspensos por cordões ou cordas. 77 . etc. a comédia tornou-se o gênero característico. dos seguintes tipos: a) de luva (ou também “guignol”) . o galo. podendo também ter fios para os braços e as pernas. cordões ou cordas que sustentam o boneco. o valente. Nesse aspecto. Há também os bichos. o Cabo Setenta. Catirina. o padre. principalmente em Pernambuco. dispensava a necessidade de uma caixa para palco. existem os personagens que representam alegoricamente determinados valores de conduta. temos nesse caso o bondoso. hoje se considera que os bonecos de mamulengo podem ser.boneco de madeira ou outro material. como a raposa. Assim. de massa ou papelão. no entanto. num certo sentido. A tipologia das personagens demonstra. por exemplo. o briguento. o teatro do mamulengo já tem como padrão a utilização do palco de bonecos e da separação visual entre o bonequeiro e o boneco. Rio Grande do Norte. de uma cortina que separasse visualmente o bonequeiro do boneco. Mané Pacaru e João Redondo. partindo da cabeça para a mão do manipulador. que chega ao teatro de bonecos como forma de diminuir a possibilidade de participação do ator na construção do texto teatral. feito de madeira. a nosso ver. c) de haste . articulado e movimentado por varetas. A origem do mamulengo em Pernambuco está associada ao período da invasão holandesa. daí espalhando-se para estados como Alagoas. tendo o mamulengo incorporado. por vezes. o cachorro. o policial (a volante). Papafigo. d) de fio . o molenga. Simão. como o teatro de bonecos mamulengo conseguiu absorver um procedimento crítico da sociedade fundado na técnica da alegoria e da ironia. b) de vareta . em alguns casos.característico do Nordeste. Além destes.boneco com cabeça de madeira. Quitéria. algumas vezes. Tal habilidade. Piauí. ou ainda. Modernamente a distinção entre o teatro de bonecos e o teatro de fantoches tornouse muito tênue. uma vez que por aquela época era uma arte comum na Holanda.os bonecos são ligados por fios a um controle. conforme a técnica utilizada. Nesse sentido. da boca e até dos olhos. Diferia o mamulengo do teatro de fantoches ou de marionetes pelo fato de que no teatro de fantoches a ação dos bonecos era mediada por linhas. vestindo um camisolão de pano. o Moleque Benedito. conhecida como “Jan Pickel Herringe”. Essa tipificação característica de personagens se eleva um pouco mais quando notamos a ocorrência de personagens com nomes próprios mais delimitados como o Professor Tiridá.os bonecos são suspensos por uma haste de metal. o papagaio e o jacaré. definiu aspectos do mamulengo como um teatro de bonecos que. etc. cujo movimento é produzido pela mão (dedo indicador colocado na cabeça e o polegar e o médio nos braços). A origem do termo parece estar implicada com a corruptela da expressão “mão molenga” com que se definia a habilidade do bonequeiro em movimentar o boneco. Hoje. ao passo que no mamulengo era a mão do bonequeiro que dava sustentação e a forma definida ao corpo do boneco ao ser introduzida por debaixo do boneco em orifícios próprios para a ação dos braços. o mamulengo se aproximava visualmente da performance do ventríloquo. que permite ao manipulador movimentá-los.

em que o poeta se veste da pele de cobra e sai em busca da princesa do sem fim. p. mas também de configuração maia e egípcia. Simão é a prefiguração do dizer euclidiano-pós-positivista de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”. antecedido pelo período da permanência da família real portuguesa (1808-1815).). se liga ao mito de Orfeu e sua descida aos infernos e num contexto cristão à aventura de Jonas no vente da baleia. acrescido dos interregnos da regência (1831-1840) e do reino unido (1815-1822). terminando o século pela proclamação e instalação da república nos governos de Marechal Deodoro e Floriano Peixoto (1889-1894). assume a condição de sátira. muitas vezes. De certo modo. denotando sua universalidade enquanto arquétipo (a serpente emplumada. em que o boi depois de aprender a dançar é engolido por uma cobra. O Nordestino materializa sua fé na persistência. Sabendo revisitar os personagens criados por outros mestres mamulengueiros. O nosso século XIX foi marcado nesse âmbito pelos dois reinados (1822-1889). O resgate do boi nos faz lembrar do poema “Cobra Norato” de Raul Bopp. Uma de suas peças mais conhecidas é “Simão e o Boi Pintadinho”. misturando ainda elementos de personagens folclóricos diversos. personagem sincrético entre elementos do imaginário cristão. uma vez que a própria família real portuguesa mantinha laços estreitos por meio de casamentos e outras 78 . o que temos é uma outra mensagem simbólica: a persistência.A comédia no mamulengo. Waldeck de Garanhuns é um artista do mamulengo que tem se destacado por um trabalho de revisão e reinvenção dessa arte. Do mesmo modo. no lugar da conquista do amor ou da validação do poder da fé. A figura simbólica do boi nas histórias populares do Nordeste. porém. As ligações com as famílias nobres européias superavam os limites do domínio da metrópole. a mulher fofoqueira. não poucas vezes. na constância de busca de superação dos limites impostos pela maquiavélica exploração social das agruras das intempéries. vai também acrescentando os seus. associada historicamente como parte do aparelho de institucionalização do coronelismo. Aqui. desprovidos de estrutura logística. aqui é articulado com a figura da cobra grande (originária do imaginário indígena). de pessoal treinado e de recursos os mais variados para seu trabalho. mas também.ex. não é tanto pela sua inabilidade de polícia e pelas trapalhadas pelas quais passa e provoca. Introdução: O Rei e seu Castelo O Brasil foi o único país da América do Sul a ter um período monárquico ligado às tradições e às famílias nobres européias. entre outros. o que temos é um processo de carnavalização (bakhtiniana) na formulação e apresentação do espetáculo do mamulengo. mas principalmente por que a personagem alegoriza-se sob a visão popular acerca do policiamento nas pequenas cidades do Nordeste. o padre. personificam a visão da sociedade por um viés que na sua forma satírica e estereotípica faz por desnudar as contradições dessa mesma sociedade. Se o Cabo Setenta nos faz rir. e em outros casos. tanto mais que os personagens característicos costumeiramente acabam por se construírem sobre estereótipos de papéis sociais enraizados na estrutura da sociedade nordestina. indígena e africano. o rapaz Simão tenta então resgatar o boi do ventre da cobra e acaba por entrar no ventre em busca de seu animal. a namoradeira. A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira 1.

em Minas Gerais. rei da França. Fez sondagens com a ajuda de sua irmã. da França. casou-se com a Princesa Imperial D. conde d'Eu. 28 de Dezembro de 1889). Aos seis anos. a figura do rei-santo que voltará a restabelecer o seu reino. Sintomático e exemplar disso é o episódio de Canudos. Seu nome original em italiano: Dona Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias. Luís Maria Filipe e de D. filha única do general e duque Fernando Jorge Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. Augusto de Saxe. com quem casara por procuração. Há quem afirme que. duque de Némours. duquesa de Saxe. com Leopoldina e Isabel. Alguns cronistas relatam que o casamento só teria se consumado um ano depois e que o imperador só não remeteu a esposa de volta à sua terra natal graças à intervenção de D. A propósito de Dom Sebastião. é obrigado a fugir do país com a família. Francisca. Mariana Carlota de Verna Magalhães. a prova direta dessas ramificações para além da família real portuguesa. no qual Antônio Conselheiro em suas prédicas denunciava a república como a grande inimiga da fé e preconizava a volta de um mitológico Dom Sebastião que viria restaurar não a monarquia ou o reino de Portugal. Pai de D. imperatriz Teresa Cristina e D. D. Isabel e D. Família Imperial . dado por seu avô. manca e feia. se casassem com chefes doutras dinastias para dar continuidade à linhagem. neto de Luís Filipe. 5 4 Dona Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltazar Melquior Januária Rosália Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bondosa André d'Avelino Rita Leodegária Gertrudes Venância Tadéia Espiridião Roca Matilda de Bourbon-Sicílias e Bragança (Nápoles. com quem casou-se em 4 de setembro de 1842.da esquerda para a direita: Conde d'Eu. o rei da França. Antônio Gastão. É claro que tal simbologia do rei e do castelo não se deve exclusivamente à ligação com a monarquia em Portugal e no Brasil. de D. ao conhecer a esposa. aos príncipes Gastão de Orléans e seu primo. Isabel Leopoldina. Se contarmos ainda o longo período colonial de ligação com o governo monárquico absolutista e centralizador português. e de Vitória Francisca Antonieta Juliana Luísa. Pedro II do Brasil queria que suas filhas. No Maranhão. (fonte: Wikipédia). 79 . Filha do rei Francisco I do Reino das Duas Sicílias. Jesus Cristo é apresentado como o “rei dos reis”. 14 de Março de 1822 — Porto. Gastão de Orléans. Estes chegaram ao Brasil em 1864 para se casarem. terceira e última Imperatriz do Brasil. devido à Revolução de 1848. Assim. Mas as princesas tomaram a liberdade de escolher seus noivos. princesa de Saxe-Coburgo-Gota. temos então as razões históricas para o desenvolvimento e a permanência no imaginário brasileiro da figura do rei e do castelo. No imaginário cristão. foi a esposa do imperador Pedro II. Condessa de Belmonte e ama do jovem monarca. a D. princesa de Joinville. Ganhou o título de conde D'Eu ao nascer. seu enlace foi motivo de decepção para o marido. em Goiás. No Brasil o Cond’Eu 4 e a imperatriz Teresa Cristina 5 eram. de origem portuguesa. em Pernambuco entre Era filho primogênito de Luís Carlos Filipe Rafael de Orléans. refugiando-se na Inglaterra junto ao ex-rei da França. Isabel Leopoldina Cristina de Bragança e Duas-Sicílias no Rio de Janeiro. encontra no Brasil várias adaptações no imaginário popular. D. entre outras pessoas. Pedro teria cogitado em pedir a anulação do matrimônio por conta de seus minguados atributos físicos: era baixa. mas sim o reino de Cristo. É lá que passa a maior parte da infância e da adolescência. respectivamente. D. Se cruzamos a influência histórica da coroa portuguesa e da monarquia brasileira com a simbologia cristã temos o amálgama completo que dá razão à existência desse apego do imaginário na cultura brasileira à figura do rei e de seu castelo. Pedro de Alcântara. aos 15 de outubro de 1864 (fonte: Wikipédia). temos sim que levar em conta o imaginário cristão católico de que Portugal foi um grande difusor. Pedro II. Leopoldina.alianças familiares com as famílias da Áustria. da Espanha e da Inglaterra inclusive. D.

o Rei Momo. vez por outra é utilizada para qualificação de um elemento arquetípico que represente perigo. col.Pedro I. a pilhéria. o único rei admitido sem restrições no imaginário WASP (White. substituindo o imaginário do rei luso pelo sentimento A esse respeito indicamos o trabalho de Marcio Honório Godoy. assim é caso do King Kong. sequer podemos falar numa efetiva guerra da independência em que se pese os confrontos na Bahia em 1823 transformados num desconhecido épico de Ladislau dos Santos Titara. “the magic”. Al Capone foi cognominado o rei do crime em livro de Nate Hendley. década de 70) e Didi (príncipe etíope). O carnaval. A palavra “king” como adjetivo. Reginaldo Rossi é por muitos considerado o “Rei do Brega”. Basta alguém se destacar numa arte. No caso do Brasil. ofício ou função que logo recebe a denominação de rei. tendo porém a ausência de um período monárquico na fase independente. Sinhô foi o “Rei do Samba” ao passo que Moreira da Silva. Dom Sebastião no Brasil. Parece que o processo de adjetivação nos USA prefere ao “the king” outras qualificações como “the best”. São Paulo. 6 80 . em que já se pese mais de um século de período republicano. Tendo como marca a basófia. também. Para fins comparativos. mas tão somente um estado de exílio. ameaça e que se caracterize como algo do exterior. Ayrton Senna foi o “Rei das Pistas”. se constituiu uma hierarquia monárquica com o príncipe do futebol (Dirceu Lopes. Perspectiva. Satan é o “Prince of Darkness” uma vez que não pode existir o reino das trevas que se oponha o reino de Deus. 25. “the star”. Pelé é o rei do futebol. se apresenta como o desfile da corte e dos súditos para um rei. ainda é possível encontrar festas populares cujas representações estão direta ou indiretamente ligadas ao sebastianismo. “the big”. de Sidney Northcote é um filme que se nos afigura como representativo dessa simbologia. mas a rainha da jovem guarda (Wanderléia) e o príncipe (Ronnie Von). já um pouco passado na idade e no estilo musical. vol. Na cultura norteamericana a idéia do rei como adjetivo mais comum para alguém que se destaque nalguma profissão. políticos e sóciopsicolingüísticos com o passado monárquico. 7 O movimento musical denominado de Jovem Guarda tinha não apenas o rei. uma das principais manifestações populares do Brasil.João VI e o reinado de D. Mesmo expressões como “the king of rock” parece ter sua origem na Inglaterra e não nos Estados Unidos. Khronos. The King of Crime (1914). Este de deus da mitologia grega passa a rei do carnaval num longo processo de transformação do festejo. Por outro lado. Jesus Christ é o “King of the Kings”. No futebol. arte ou função parece não ser a mais usual. uma breve observação sobre alguns índices encontráveis na linguagem cotidiana já é um suficiente para a constatação dessa simbologia no imaginário do povo brasileiro. 6 De fato. 2005. também.outros estados. Podemos pegar como exemplo os Estados Unidos. o “Rei do Samba de breque”. basta atentarmos para um outro país cuja colonização tivesse sido marcada pela sujeição à uma metrópole monárquica e a religiosidade. Havendo uma continuidade entre o governo de D. que desde o seu início muito têm feito pela eliminação de vínculos culturais. dominada pelo imaginário cristão. ainda que nosso romantismo inicial tenha se esmerado em se apresentar como antilusitano. AngloSaxonic and Protestant). A guerra da Independência americana e o domínio do protestantismo parecem que são fatores a diminuir o sentido que a figura do rei poderia ter no imaginário norteamericano. Roberto Carlos. foi por décadas conhecido como o “Rei da Juventude” 7 e hoje. a crítica sarcástica e a alegria desmesurada. ainda apresentado simplesmente como “o Rei”.

Desse modo a expressão ganha sentido ambíguo. Por sua vez. em primeiro lugar. O Dicionário Houaiss define castelo no seu significado primeiro como “residência real ou senhorial dotada de fortificações” e palácio como “vasta e suntuosa residência de um monarca. de um chefe de estado etc. por exemplo. com muralhas.” Sobre sua origem. próximo a vias de comunicação. sem portanto. de um alto dignitário do poder eclesiástico. dependendo de seu contexto.” E para palácio o Aurélio define como “Residência de um monarca. por exemplo. Uma torre. como faz Houaiss. ao passo que a palavra “palácio” parece se referir mais especificamente às construções nobres do renascimento para diante. cercada por torre e um fosso. Por sua vez. o que facilitava o avistamento das tropas inimigas e as comunicações a grandes distâncias. a necessidade do fosso e das muralhas. inclusive reis. seu âmbito natural. da qual a revolução francesa logo sucumbiu ao império ditatorial napoleônico tão exaltado num Domingos José Gonçalves de Magalhães. Fortificação de tipo permanente. para realmente ser admirada e vista de longa distância. Dez anos depois a expressão foi utilizada no âmbito esportivo para ser referir à disputa entre três grandes jogadores no campeonato carioca de 1995 (Renato Gaúcho. confiando sua defesa aos quartéis e fortificações militares que circundariam e protegeriam os palácios. quanto positivo. ou quando não. Romário e Túlio). de um chefe de governo”. fosso. ao passo que os palácios são mais característicos do período em que a realeza efetivamente superou os receios de eventuais ataques de hordas inimigas. tanto no âmbito culto e erudito.. além de permitir a observação de vasto terreno tendo em vista sua localização sempre ao alto de uma colina ou montanha. a idéia de que o Rei é a qualificação natural para aquele que se destaque num grupo social. fontes e espelhos d’água. isolando-se assim do contexto 81 . no palácio a arquitetura de uma torre tem função mais para ostentação. era geralmente erguido em posição dominante no terreno. no castelo por vezes tem sobreposto a função defensiva ou de vigilância. de “castellum” (latim). o palácio a Wikipédia define exatamente como os dicionários Houaiss e Aurélio. uma vez que o castelo é uma construção típica da arquitetura medieval. Ainda convém lembrar que o castelo está associado à idéia de um local afastado do urbano. quanto no popular e folclórico. Nesse âmbito é que os castelos são de característica mais própria ao contexto político e social da Idade Média. ao passo que no castelo sua função é a de efetivamente. embora isso ficasse implícito pela designação de “residência de um monarca”. A enciclopédia on line Wikipédia. A suntuosidade do palácio é que o distingue do castelo. Lembremos do filme O Rei do Rio (1985). substituindo-se. define castelo como “Um castelo (diminutivo de castro) é uma estrutura arquitectónica fortificada. barbacã. que se destaca da paisagem citadina por estar colocado no alto de uma colina. como morada preferível tendo em vista a sua condição de fornecer proteção contra ataques. permitir aos acastelados olhar à longa distância. Na Idade Média é que os castelos evoluíram para morada dos senhores feudais e nobres. com Nuno Leal Maia e Nelson Xavier. uma vez que o que seria apenas suntuosidade e pompa no palácio. de um alto dignitário eclesiástico. tanto podendo ter um sentido pejorativo. O Dicionário tem o significado primeiro semelhante ao Houaiss. com funções defensiva e residencial. destacar a suntuosidade. fortaleza. etc.francófono. que conta a disputa entre dois bicheiros pelo domínio da contravenção. típica da Idade Média. O aspecto defensivo do palácio é diminuído. No imaginário da cultura brasileira a idéia de castelo apresenta já um anacronismo histórico. acrescido de que o castelo é “Praça forte. se referia a uma torre de vigilância.”. por amplos jardins. o Castelo é o lugar do rei. No Brasil. de Fábio Barreto.

entre outras. conhecido pela representação exuberante da natureza brasileira. de Dom Dinis e de Dom Sebastião. podemos nos deparar aqui e ali com construções que embora contemporâneas. Já o palácio está cercado pelo ambiente urbano. a inexistência do período medieval e nossa ligação colonial com a Europa a partir do barroco e do iluminismo fez com que os palácios se tornassem as moradas dos governadores. nos lembram algo de um certo modelo arquetípico dos castelos medievais. Seria isso um anacronismo? Um processo de kitschização? Possivelmente encontraremos esses aspectos na análise de construções que pareçam castelos na arquitetura brasileira. 82 . se dispôs no quadro a imaginar um cenário tipicamente medieval europeu. mas como que se coloca numa situação central entre os caminhos da cidade. O fato de não termos idade média e a absorção ao imaginário popular de lendas e histórias medievais como as do ciclo do rei Arthur. além da popularização da imagem de castelos mal-assombrados na Europa (em especial na Escócia). no mais das vezes. No entanto. Durante o período imperial é que a construção de palácios nobres se destacou. de Frankenstein. No caso do Brasil. Na pintura romântica brasileira. bem como das figuras de Drácula. além do Rio de Janeiro se notabilizaram por seus palácios. Grota. não está de tal forma elevado que o acesso a ele se faz de forma dificultosa. Teresópolis. entre outras personagens similares. podemos ver isso no quadro “Grota” em que o pintor. de Carlos Magno. criou-se no imaginário popular a necessidade de castelos supratemporais e supraespaciais que poderiam compor a paisagem local materializando a idéia arquetípica do lugar misterioso e de passado glorioso ou histórico. eventualmente.urbano ao redor. Cidades como Petrópolis. Não é por acaso também que um dos quadros mais conhecidos de Manuel de Araújo Porto-Alegre seja a coroação de Dom Pedro II em que a figura do rei/imperador se materializa no ritual de coroação dentro do ambiente do palácio. Manuel de Araújo Porto Alegre. em geral.

condes. Ou seja. viscondes e duques. alguns construídos com material (pedras. como se fosse 83 . o título dessa secção deveria ser “Os Palácios do Brasil”. embora não tivéssemos idade média temos castelos de caráter medieval. madeira) trazido da Europa para dar à construção maior legitimidade. da cana-de-açúcar. seguindo a definição que propomos na introdução desse texto. tanto pela família real. quanto pela nobreza de barões. não pertencendo a qualquer momento real desse passado. Como se a união do castelo ao cenário brasileiro fosse a recuperação de um ideal de civilização que se acredita perdido. se transforma em ambiente imaginário da sublimação do desejo de realeza e nobreza diante do cenário exuberante da natureza tropical brasileira. do tabaco. ao contrário do palácio imperial pós-renascentista tem. o título está correto.Manuel de Araújo Porto Alegre. do algodão e de outras monoculturas que renderam a alguns o prestígio e a riqueza suficientes para a ostentação materializada em suntuosas moradias. de fato. tendo em vista os palácios construídos durante o período monárquico no Brasil. estando de fato presente apenas como espaço arquetípico que necessita de preenchimento. de fato. escrevemos apenas sobre os castelos. os palácios e palacetes da aristocracia do café. Os Castelos do Brasil Para o menos avisado e ao mesmo tempo mais crítico do sentido etimológico das palavras. com base na etimologia e nos dicionários pesquisados. 2. Porém. porém. Ainda se acresce a eles. Coroação de Dom Pedro II O que comentamos a seguir é como o castelo medieval que não tem raízes históricas no Brasil.

como determinadas portas. Smith de Vasconcelos. o maior castelo medieval do Brasil. terminado em 1920. Castelo das Pedras Altas (Pedras Altas – RS). escadas. Castelo Lacave (Caxias do Sul)e o Castelo de João Capão (Garanhuns – PE). ferragens inglesas. foram feitos em jacarandá. Não comentaremos de todos os castelos. madeira natural do Brasil.1. colunas e forros que foram talhados na Europa. Castelo do Barão de Itaipava. mas nos prenderemos a quatro castelos em especial. Rio de Janeiro. 7 banheiros. 2. tendo assim direito a que uma estação de trem ficasse dentro dos domínios do seu castelo. Castelo Itaipava. dependências para hóspedes. Para a construção do castelo o material foi trazido todo da Europa (blocos de pedra portuguesa. Aberto à visitação pública e sendo uma das mais curiosas e interessantes atrações turísticas da cidade fluminense. halls. terraços. descendente de família nobre inglesa e portuguesa. a construção deu aos arquitetos o prêmio de da grande medalha de prata do salão de Belas Artes de 1924. diversos salões. o Castelo do Barão de Itaipava foi construído pelo barão J. Para o transporte do material. eles parecem preencher as nuanças do fenômeno em questão. telhas de ardósia francesa. o barão colaborou no custeio da construção da estrada de ferro Leopoldina. vitrais austríacos e pisos de mármore italiano). tendo em vista. duas torres. Tendo a intenção de reproduzir nos trópicos uma cópia fiel dos castelos medievais europeus o barão solicitou aos arquitetos Lúcio Costa e Fernando Valentim a elaboração do projeto. Itaipava RJ. curiosamente alguns elementos. que para nosso propósito. bibliotecas. ala dos serviçais e 84 . O castelo tem 42 cômodos distribuídos em 19 quartos. são eles: Castelo do Barão de Itaipava (Itaipava – RJ). sala de música.possível transplantar o tempo por meio da materialização da construção com materiais do lugar de origem dos castelos.

aliada à beleza natural da serra fluminense a sua volta.” Contendo 44 cômodos. de seus aposentos e salões. argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes" Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. o castelo de Pedras Altas busca justificar uma das frases preferidas do revolucionário gaúcho que estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (SP) e foi adepto do movimento republicano: “Em certas ocasiões mais vale um dia de ver do que um dia de ler” . A medida foi uma das cláusulas do acordo de paz. Smith de Vasconcelos soube investir na construção dessa obra arquitetônica que transcende a linha diacrônica da história. que acomodaram políticos. Um enorme relógio.galerias. 2. com móveis. 85 . lembrando sob certos aspectos o personagem queirosiano de A Cidade e as Serras. mas que tenham uma eficiente dose de magia e ostentação. assinado no próprio castelo. Assis Brasil determinou o afastamento de Borges de Medeiros do posto de governador do Estado. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça. o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845). com a diferença que este último é para fins de catarse coletiva e obtenção de lucro com o mundo do entretenimento. talvez. mas principalmente para satisfação coletiva de um imaginário popular que busca preencher sua história fragmentada com retratos. A beleza de sua estrutura. não muito diferente do desejo que faz surgir castelos mágicos na Disneylândia. mesmo que montados e/ou anacrônicos. Acreditando que era possível viver no ambiente rural sem necessariamente abdicar do conforto da civilização urbana. o qual havia exercido por mais de 30 anos. revolucionários e intelectuais. cria um sentimento de êxtase estético no visitante como se um processo mágico no tempo pudesse transportar-nos ao cenário dos reis e cavaleiros medievais. A construção centenária foi cenário para importantes decisões políticas das primeiras décadas do século passado. Fruto. importados de Nova York. Á entrada do castelo lê-se os seguintes versos: “Bem-vindo à mansão que encerra / Dura lida e doce calma: / O arado que educa a terra. ao passo que o castelo do Barão de Itaipava era para satisfação pessoal. Cada objeto conta alguma história. de um desejo de sublimação da realeza perdida com a república (1889). porém. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. transformando-se atualmente em atração turística não apenas pela beleza e riqueza de materiais. O Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas Construído por Joaquim Francisco de Assis Brasil em 1904. criando um espaço mágico. que pertenceu a Bento Gonçalves. estilo colonial. É considerado o único castelo em estilo normando nas Américas e também o maior do Brasil. Chefe da Revolução de 1923. / O livro que amanha a alma. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. o barão J.2.

Antes. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular. nos corredores. Aos poucos a revolução de 1923 vai se apresentando na biblioteca. mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. ao adentrar e visitar o castelo essa impressão inicial vai sendo substituída pela sensação de que esse castelo não poderia estar em outro lugar a não ser ali. Ao viajante. na janela quebrada. 25-11-2003 página 54. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893. Porto Alegre. a surpresa da construção medieval na paisagem cria o antagonismo. o transplante do castelo medieval para o cenário gaúcho foi se efetivando de tal forma que não se encontra hoje diretamente anacrônico ou anódino. a preocupação em todo o país. é um castelo que se apresenta impregnado de história política do Rio Grande do Sul. por isso.” (ZAVASCHI. pois. o que se apresenta emoldurando o castelo de Pedras Altas é a própria história do município e daquela região. Assim visitar o castelo é também conhecer um pouco da história e das contradições inerentes a essa história. Homem de cultura e de experiência política e diplomática num período conturbado da solidificação da república no Brasil. bem como seja a concretização de ideais estéticos e filosóficos de seu construtor. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses.Este. 86 . tomando conta como o fantasma escocês esperado de um castelo medieval: “A paz de Pedras Altas. entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. de imediato. Porém. nesse sentido. menos consciente desses aspectos históricos.) Desse modo. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou. que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. Zero Hora. o conflito de harmonia causado pelas impressões iniciais das diferenças históricas sedimentadas nos estudos de História do ensino fundamental. o castelo de aparência medieval vai se reciclando e se amalgamando a um substrato histórico não característico de sua arquitetura. Olyr.

Para dar o clima de realismo. Os novos proprietários tiveram extremo cuidado ao decorar e ambientar seu interior com móveis e estilo da época. escolhidas com cuidado para não repetir de nenhum reino verdadeiro. Demorou dez anos a construção do castelo. ocorrendo inclusive um acidente com morte de operário após a queda de uma das paredes. Descendente de uma família nobre espanhola. como desfile de cavaleiros trajados em armaduras e brasões característicos da Idade Média. Salão das Bandeiras. As recepcionistas que acompanham a visita vestem trajes medievais e seus salões e corredores exibem tapeçarias. Castelo Lacave. e tendo uma planta original de um castelo que pertenceu a sua família no século XI. seria a sede da vinícola Chateau Lacave.Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. tornando-se uma das principais atrações turísticas de Caxias do Sul. resolveu reconstruí-lo na região vinícola de Caxias do Sul. Construção sofrida e demorada em razão da falta de experiência acerca da construção de castelos. o castelo do vinho. Em 2001 a vinícola mudou de dono. O visitante lá conhece não apenas o castelo. Além da visita histórica. Sala dos Barris de Carvalho. os visitantes são recepcionados na Sala dos Tronos. a taberna e varejo. segundo o padrão característico da construção de castelos. objetos. Ao entrar. O Castelo Lacave foi resultado do sonho de um empresário espanhol que residia no Uruguai. as caves de armazenamento de vinhos. há até armaduras. e depois de uma reforma e recuperação. com ambientação pré-renascentista. os visitantes aprendem os processos de produção de vinhos para apreciar ainda mais esta bebida milenar. em pedra. 2. passando à família Basso.3. Terminado em 1968. O castelo ganhou um brasão e as cores próprias para sua bandeira. passando para a Sala das Cruzadas. Assis Brasil de Pedras Altas. mas também fica informado acerca da produção de vinho além de ver espetáculos inspirados na idade média. armaduras e pinturas semelhantes às da época. o local de recepção de uva. móveis. foi reaberto à visitação em 2004. 87 .

Castelo Lacave. iniciada há 17 anos. o Castelo de João Capão. conta com a doação de visitantes que por curiosidade comparecem ao local. 88 . o espetáculo que é uma visita ao castelo Lacave se transforma numa experiência estética de tal complexidade e amplitude que a realidade se vê subvertida pelo objeto artificial. o que confirma o índice de mais de 70 mil visitas desde que foi reaberto. Fruto do sonho de um eletricista. que decidiu construir um castelo depois de assistir filmes no cinema da cidade em que via castelos e reis da idade média. Tendo ainda como elo fulcral a descendência de seu construtor e associando-se à simbologia do vinho. daí o apelido de “capão”. além da taberna para degustação de vinhos. ou quando do Festival de Inverno da Cidade. De fato. A imitação como base da mimesis fornece aqui o elemento de catarse para o visitante desejoso de vivenciar um pouco de tradição. se destaca na paisagem modesta do subúrbio em que se localiza. O construtor foi apelidado de Capão. como empreendimento é um sucesso. um espetáculo que encena a história medieval européia. 2. porque além de eletricista foi goleiro de um time amador e era considerado por alguns como “frangueiro”. sem posses. para se transformar num restaurante temático. Caxias do Sul (RS) Possuindo um restaurante.4. ou seja. Assim. É assim. a suntuosidade não existe nesse castelo. confirmado a necessidade inconsciente do imaginário popular brasileiro de preenchimento de um arquétipo vago na nossa cultura opacamente marcado pelo substrato histórico do período colonial e monárquico. não mais que 40 anos. um pedaço reconstruído da Idade Média transplantado no tempo e no espaço para o Brasil. ainda que apenas como espetáculo ou como representação. quase nos esquecemos que o castelo foi construído em 1968. de história e de mistério antigo. O Castelo de João Capão em Garanhuns (PE) O Castelo de João Capão no Agreste Meridional Pernambucano. em que o local é alugado por modestos 200 reais. somando-se à reprodução de espetáculos de cavalaria medieval. Incluído já no roteiro turístico da cidade. Aqui a história é uma representação. a festa mais importante de Garanhuns. o Castelo Lacave faz o inverso do processo histórico que determina a característica do Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. Ainda em construção. no município de Garanhuns é o menos imponente e suntuoso dos castelos aqui mencionados. à beira da Br-423.

em termos estruturais e estéticos. O castelo. tem janelas e torres em estilo pós-renascentista italiano. com paredes de lajota de cerâmica esmaltada e com aspecto de um banheiro típico de uma casa de classe média. porém. Ao assistir as fitas de cinema. em parte pelos aspectos próprios de nossa história que teve quase um século de monarquia. O Palácio justifica o epíteto de palácio pela forma arquitetural. esta impressão vai se desfazendo. porém. ainda em processo de acomodação. construído em 1943 pelo interventor Agamenon Magalhães e inaugurado na gestão do prefeito que lhe dá o nome. em parte pela forte simbologia religiosa dada por um Portugal barroco e medievalista. 89 . e o acúmulo de símbolos desconexos. Misto de imagem de casa de classe média alta com elementos de castelo medieval é no máximo uma casa temática de aspecto kitsch. Se um Policarpo Quaresma teria convulsões diante de tal construção é apenas porque veria ali a contradição mais forte e característica de nossa formação como nação e cultura. O banheiro. na Avenida Santo Antônio. é simbolicamente a imagem do processo de domínio da burguesia na estrutura social ocidental. entre lojas e bancos. é na verdade. além de algumas paredes rebocadas. localizado na área mais comercial da cidade. assim como temos casas com colunas jônicas ou dóricas. o que não ocorrera com os castelos anteriormente aqui comentados. pelo contrário. assim como centro político da cidade. desejoso de viver num castelo medieval como um rei arturiano após assistir filmes no cinema é o melhor exemplo do que busco apresentar aqui como hipótese. Esta vontade que fundamentou o sonho do pobre construtor. uma caricatura quase kitsch de um castelo. vão nos mostrando que o castelo de João Capão é antes um conjunto contraditório de impressões do que seja um castelo para seu construtor. Essa desconstrução do castelo no castelo de João Capão. carecendo de conhecimentos arquitetônicos e históricos. Garanhuns (PE) O modesto castelo se apresenta dotado de uma força incomum para quem o visita quando sabe da história de seu construtor. Lembra também. é essa obra a perfeita consubstanciação dessa falta histórica que só é falta pela imposição em nossa história cultural de um ideal de passado e glória vinda da Europa e que impregnou nosso imaginário. Lembra um pouco palácios de Florença ou Veneza. misturadas com janelas modernas em bairros de classe média de várias cidades. E o castelo de João Capão se mostra ainda mais característico quando o comparamos com outra construção do município de Garanhuns que é o Palácio Celso Galvão. João Capão teve despertado aquilo que já subjazia no seu inconsciente advindo de um inconsciente coletivo e arquetípico. Se por fora as torres em estilo medieval e a estrutura de tijolos imitando pedras dá ar de construção medieval. alguns templos de igrejas evangélicas que se apresentam com torres medievais no lugar do campanário. situado no centro da cidade. como os ramos cruzados à entrada do castelo. não o desmistifica. por exemplo. a de que a imagem do rei e de seu castelo se apresenta no imaginário popular brasileiro de tal forma que nos distinguimos nesse aspecto em comparação com as outras nações da América. ou o salão central com suas paredes pintadas em tom ocre de tinta à cal. por dentro. ameríndia e africana.Castelo de João Capão. O conflito entre nossa herança européia.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro. Na História a Fé tem sido um instrumento não só de caráter relativo à espiritualidade. que acreditava. Márcio Honório. 1978. Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico A Fé é decididamente o grande instrumento do homem para a realização de suas conquistas históricas e espirituais. Carl. do caos simbólico entre realidade e sonho. acaba morrendo martirizado. HOUAISS. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HOLANDA. sua alma não é reta nele. 2004. Buenos Aires. e um justo (que) em sua fé viverá". Vozes. SPERBER. JUNG. Lembremos. que só existe como passado como resultado de um conflito histórico de nossa herança cultural. Psicologia e Religião. Dom Sebastião no Brasil. 1978. Objetiva. São Paulo. Rio de Janeiro. Paidos. Arquétipos e Inconsciente Coletivo. O castelo não é propriamente mais visto como a sede do poder. possuiria o poder da conversão instantânea pelo poder imagético e matemático de sua linguagem. O Simbolismo em Geral. G. Aurélio B. sede da prefeitura de Garanhuns (PE) Assim. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.Palácio Celso Galvão. Nos Hebreus (11:1) encontramos a seguinte definição de fé: “Ora. 2004. Nova Fronteira. 1970. Quando Raimundo Lúlio tenta converter os Sarracenos munido apenas de sua Ars Combinatória. ao passo que o palácio é associado ao poder pela fundamentação real que nossa histórica tem com essa arquitetura. 2006. Khronos. a fé é a certeza de coisas que se esperam. “emuná” e é traduzida pela primeira com o sentido que usamos no livro de Habakuk (2:4): "Eis aqui um soberbo. mas como aquele lugar que é dotado de um passado inexistente. para exemplificar com a literatura. São Paulo. São Paulo. Cultrix. Antonio. de como lá a torre do castelo é o lugar da loucura. que só se resolve pela compreensão do que seja nossa herança cultural. quando contrapomos o Palácio Celso Galvão ao Castelo de João Capão. temos a possibilidade de ver a diferença entre castelo e palácio na cultura brasileira. Perspectiva. Na colonização da 90 . col. do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna. Dan. Etimologicamente a palavra vem do hebraico. a convicção de fatos que se não vêem”. GODOY. ________. mas também um instrumento de dominação.

mas concretamente antropológica. dentro das igrejas cristãs. em Braga. Assim. país cuja miscigenação tornou-se característica fundamental de sua população. já no município de São João. Genebra. Ante a recusa da filha. Quitéria estava com 15 anos de idade. na região do Minho. Sabemos que uma língua não é apenas um conjunto de regras normativas gramaticais e um vocabulário da qual se o falante faz uso indiferente. Crenças. por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Líbio Severo em viagem pela Península Ibérica. A história da santa é dramática e dotada de acontecimentos misteriosos que beiram o macabro. A data de um santo é geralmente colocada como a data de sua morte. uma forma particular de construir a realidade. No povoado existe o culto à Santa Quitéria. deixaram na língua dominante marcas inconfundíveis. de crendices. tendo se assustado com o fato de ter dado a luz a nove meninas. Frei Damião – religiosos. Segundo consta do hagiológio português e na história de Braga. rituais. Quitéria. a Fé foi o instrumento de conversão ideológica mais eficaz que os europeus puderam apresentar aos gentios americanos. instruiu a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. Gema. A história de Frexeiras é a história da fé popular. Os beatos. uma ideologia. governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano. afogando-as num rio. tudo a suas expensas. de profecias. da fé tomada pelo povo em oposição à fé. superstições indígenas e africanas povoaram os espaços vagos das contradições cristãs. Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia. feiticeiros malignos e benignos. Marinha. é no dia 7 de setembro que existe a maior comemoração em Frexeiras. Quitéria nasceu no ano de 462. que as batizou as meninas (Eufemia. Naquela época predominavam as superstições.América. homem de procedimento muito rígido. cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de Maio do ano de 477. Próximo a Garanhuns. agreste meridional de Pernambuco. tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano. No Brasil. dominadas pelo português europeu. que no entender católico é o dia em que a alma do santo deixou a terra e se elevou aos céus. Basilissa e Vitória) e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs. Otílio condenou-a à morte. deixaram sua marca neste imaginário. Santo Ovídio. desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. isto é. Liberata. Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga. Anos mais tarde. Antes. o povoado de Frexeiras é um retrato emblemático desse sincretismo e dessa fé algo abstrata de definir apenas na conceituação religiosa. que com medo de represália do marido. Mas. O sertão Nordestino é um espaço histórico rico de sincretismos. movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo. o sincretismo religioso se instaura diante. mulher de Lúcio Caio Otílio. No calendário cristão católico. no século V da nossa era. José Lourenço – beatos. as culturas indígenas e africana. porém. cada língua tem inscrita na sua estrutura uma visão de mundo. no sentido de compreensão da relação contextual do homem com a sociedade que constrói. 91 . os padres povoaram o imaginário sertanejo de personagens mágicos. ao redor e por vezes. Marciana. enquanto instrumento da Igreja para conversão dos fiéis e garantia de sua dominação. a ponto de a mãe. Padre Cícero. Antônio Conselheiro. o dia 22 de maio é dia de Santa Quitéria.

no Ceará. novas. Fotos antigas. inclusive pagãs. sob o domínio do imperador Adriano. de velas. o culto à Santa Quitéria seguiu um caminho dominado pelo imaginário popular. a casa. Quitéria tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada. essa imagem que está aqui de 44 cm e que era a imagem de devoção da família. e os escravos foram espalhando para os escravos de outras propriedades e os donos de outras fazendas.” 8 O fato atual é que o povoado de Santa Quitéria transformou num local de peregrinação. Com as freqüentes novenas realizadas aqui na casa (a família era muito católica). em p&b. A casa grande original foi se atulhando de ex-votos. que entre outras características. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada. Existe uma disputa entre a família Guilherme da Rocha e a Igreja. os índios também. Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos. que veio de Portugal em 1695. existe uma versão de que teriam tais fotos ocorridos no século II. de santinhos. Tendo nascido Quitéria no ano 120 e morrido em 135. além dos vendedores de bugigangas. em carro de boi até a modernidade de hoje em que elas vêm de ônibus. Assim. porém a Igreja não tem qualquer domínio ou intervenção na localidade. e no final do século XVII. que foi para abrigar uma família.br/atualidades/santuario-no-interior-e-causa-de-briga-juridica-entre-aigreja-catolica-e-familia-proprietaria-de-imagem/ . eis como começou o culto à Santa Quitéria: “Tudo começou quando minha família veio de Portugal tomar posse de terras que foram concedidas pelo governo de Portugal em 1695. Cada uma. As paredes povoadas de fotografias transformam-se num grande mural do tempo.artigo de André Raboni. criando no expectador de imediato uma desorientação. Assim. A família não permite a entrada de religiosos. Santa Quitéria. carregando objetos. Tal se deve ao receio de que a Igreja tome posse do culto sem auferir à família algum acerto financeiro ou de uso. Conforme conta um dos herdeiros. vem muita gente a pé. de caminhões pau de arara. já trouxeram os escravos e quando chegaram aqui na região construíram a casa para morar e foram preparando a terra para a cultura de subsistência e quando eles vieram de Portugal trouxeram na bagagem a imagem de Santa Quitéria. foi transformada nesse espaço para receber as constantes visitas que vinham montadas em lombo de burro. e Santa Quitéria no Maranhão. 92 . ao entrar no local o que se nos mostra de imediato é um grande painel neobarroco. que existia uma santa milagrosa e aí começou a peregrinação. 8 Fonte: http://acertodecontas. de estatuetas as mais variadas. de fotografias de diversos tamanhos das pessoas que se dizem agraciadas. o culto de Santa Quitéria é bem difundido. acumulativo. coloridas.As datas aqui colocadas não são de todo confiáveis. no Nordeste existem dois municípios com essa denominação. é um dos maiores depósitos naturais de urânio do país.blog. As terras onde se encontra o povoado de Santa Quitéria pertencem à família Guilherme da Rocha. de informações contraditórias que se dirigem aos nossos olhos. pessoas em variadas poses e lugares. apresentando aqueles inúmeros rostos. os escravos começaram essa devoção à Santa Quitéria. No Brasil. Assoma-se a movimentação das pessoas que entram e saem dos aposentos acendendo velas.

notas e moedas antigas. que fica numa outra casa. de madeira. a fé se exercita. dia da Independência é aqui transmutado no dia de Santa Quitéria. mas o imaginário popular tratou de fazer o seu próprio processo de santificação. reciclando continuamente as crenças individuais num caldeirão de mitos. de uma época irreal. fez o sinal da cruz e foi-se embora. doces. No comércio das bodegas. que no imaginário popular foi a época em que santos e santas andavam pelo mundo. são carros dos mascates. ele que o imediato concreto. presenciei um fato interessante e ilustrativo. sem o concurso da Igreja. braços. o 7 de setembro. cuja imagem encontra-se adornada de inúmeros colares dourados. busca na fé mais do que a elevação espiritual ou a ascese. Homem Aranha. Na única rua do povoado. ao dirigir-se ao altar de Santa Quitéria. são as irmãs de Santa Quitéria: Santa Gemma. outros tomam cachaça. mas também desordenadamente pós-moderna. braços. do abandono. A elevação da alma da Santa aos céus é também o signo de sua morte corpórea na terra. já velhos. dezenas de barracas de mascates vendem santinhos. Assim. Assim. estátuas de santas que pela denominação. Cria-se assim um mundo místico. o sincrético e o místico. formava-se uma fila de pessoas. naquele povoado. Uma velha senhora. meio mágico. de curiosos ou de pessoas movidas pela fé que têm a condição de ter um automóvel mais novo. mãos. o dia da independência 93 . passando por debaixo do oratório. diante de nossos sentidos. cabeças. Imediatamente uma outra senhora vendo isso. é sua cruz inseparável. no entanto. No estacionamento. desde de rádios de válvula. O imaginário necessita do sobrenatural. muitos deles. pilhas. O homem sertanejo que vive a dureza das condições sócioeconômicas. em pouco tempo. cabeças colocadas em sob tábuas de madeira ou penduradas nas paredes também criam um novo panorama que se acumula ao das fotos. ônibus de diversas procedências. e colocadas em alguns nichos. Quando de uma das minhas visitas. Se a data de Santa Quitéria é 22 de Maio e em Frexeiras o dia mais comemorado é o de 7 de Setembro. brinquedos de plástico. Lá fora uma barraca vendendo super-heróis de plástico: Wolverine. Hulk. As irmãs de Santa Quitéria não foram santificadas pela igreja. onde se paga um real para entrar. mãos dos que estavam nas fotos se materializassem ali. em geral mais velhas. com a diferença que agora se presentificam enquanto objetos tridimensionais. até estatuetas de Jesus. Os ex-votos. alguns almoçam o prato feito. o culto à Santa Quitéria de Frexeiras segue seu caminho numa trilha entre o folclórico. individual. capas para celular. três vezes. joga-se o bilhar. duas. querendo ser provas irrefutáveis dos milagres. automóveis. Os mais novos. Ali. que. Lá encontramos uma variedade de objetos velhos. povoado de santas vindas de ilusórias terras também santas. balas. o que temos é a inversão dum significado.signo de uma história particular. da historicidade de agruras e desmandos. Numa das estantes velhas de madeira. esta senhora resolveu passar por debaixo da mesinha que sustenta parte do oratório. disso a uma outra: -“Vamos também passar por três vezes aí embaixo que dá sorte e proteção!” E. na coletividade de imagens. assim como ocorreu no Ceará com o Padre Cícero. passou uma. Próximo a casa grande. uma estatueta em gesso de Vênus/Afrodite. E a morte é o grande medo do homem. Santa Liberata. Como se os pés. se presencia ali. pessoal. ou de parafina: pés. a realidade concreta é muito dura. existe um museu. Santa Vitória.

da alma sertaneja diante dos grilhões históricos de sua condição. Símbolo da regeneração das forças para continuar sua luta diária e cotidiana. Prancha de Figuras – Frexeiras 94 .

Os retratos na parede compondo um painel sincrônico de promessas e pedidos Parede e prateleira repleta de ex-votos. Imagem de Santa Quitéria de Frexeiras. 95 . PE.