Você está na página 1de 95

IMAGENS DO VELHO CHICO NA CULTURA DO VALE DO SÃO FRANCISCO Jayro Luna

Edupe
2009

SUMÁRIO Apresentação. – Benedito Gomes Bezerra – 3 Introdução - 6 O Rio Como Símbolo – 8 O Rio São Francisco como tema da MPB – 13 O Ciúme, de Caetano Veloso – 29 Do São Francisco ao Mississipi –35 Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira – 42 Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco – 53 A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco – 58 Algumas Considerações Acerca das Representações Pictóricas do Rio São Francisco – 63 Mamulengo Revisitado – 77 A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira – 79 Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico – 91

2

APRESENTAÇÃO O Rio São Francisco representa um dos elementos de maior peso simbólico na cultura e imaginário nordestino, fato que se reflete na música, na literatura, na pintura e nas artes em geral. Ultimamente, o Velho Chico tem sido objeto de acalorada e polêmica discussão, em virtude do projeto de transposição de águas idealizado pelo governo federal. É lamentável, contudo, que o foco das reflexões sobre o Rio tenha se concentrado de modo quase exclusivo nos aspectos políticos e ideológicos da questão. O livro do professor Jayro Luna, a propósito, vem preencher essa lacuna, trazendo para a comunidade acadêmica e o público em geral um amplo e variado conjunto de textos debruçados sobre a riqueza cultural constituída em torno do São Francisco. O propósito do autor é, como ele mesmo afirma, “levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região”, bebendo para isso nas inúmeras fontes disponíveis. Duas particularidades devem ser ressaltadas no trabalho do autor. A primeira é que não se trata, de forma alguma, de pesquisa meramente bibliográfica, fruto de observação distanciada. Em muitos textos, o leitor perceberá a argúcia do observador integrado ao objeto de sua investigação, examinando de perto aquilo de que fala, não sem trair a paixão do autor pelos aspectos culturais em questão. A segunda particularidade é o ponto de vista do autor, construído a partir da região do Agreste Meridional, onde se situa a Universidade de Pernambuco, Campus de Garanhuns, de modo que relações muito pertinentes e interessantes são demonstradas entre a riqueza cultural dessa região e o imaginário do Rio, próprio do sertão cujas terras suas águas percorrem. Daí a presença, por exemplo, de um capítulo que trata do santuário de Santa Quitéria em Frexeiras, localidade próxima a Garanhuns. O livro se organiza em onze capítulos que tratam do imaginário e da cultura do Velho Chico sob variados ângulos. A maioria dos capítulos enfoca as diferentes maneiras como o Rio São Francisco é representado em diversas expressões artísticas, como a MPB, a poesia, a arte popular das carrancas, a pintura e a escultura. Outros tratam de manifestações culturais direta ou indiretamente ligadas ao Rio. O primeiro capítulo, intitulado “O rio como símbolo”, estabelece as bases para muito do que será dito nos demais, demonstrando a centralidade da simbologia do rio em diversas culturas do mundo e de outras regiões brasileiras. O segundo capítulo explora o Rio São Francisco como tema privilegiado da Música Popular Brasileira, abrangendo desde a chamada música de raiz, passando pelos temas de escola de samba e por Luiz Gonzaga até a música engajada de Sá e Guarabira, lembrando de forma crítica a profecia de Antonio Conselheiro: “O sertão vai virar mar/ dá no coração/ o medo que algum dia/ o mar também vire sertão”. No terceiro capítulo, o autor analisa especificamente a letra da música “O ciúme”, de Caetano Veloso, cujo tema, comum a outras composições da MPB, é a relação entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, separadas pelo São Francisco, mas unidas pela ponte ali construída na década de 1950. O quarto capítulo traça um interessante paralelo entre o imaginário do Rio São Francisco e do Rio Mississipi (nos Estados Unidos) conforme representado pela música em ambos os contextos. Conforme demonstra o autor, as imagens de ambos os rios são 3

acossados pelas constantes cheias do rio e abandonados pelos representantes do poder. predomina a crítica social retratando os dramas dos ribeirinhos pobres. mas incluídas na obra. Já no quinto capítulo. traz uma breve abordagem sobre a arte do mamulengo. como um complemento bastante interessante dessa mostra da cultura nordestina que é o livro de Jayro Luna. O capítulo nono. Uma preocupação central do autor é traçar um paralelo entre o imaginário popular e a representação artística do Nego dá água. que no caso do artista Ledo-Ivo Gomes de Oliveira.construídas de maneira bastante diferente. tendo como palco e pivô o grande rio do povo nordestino. bem como as influências próprias do colonizador europeu e cristão. intitulado “Algumas considerações acerca de algumas representações pictóricas do São Francisco”. dessa forma. na poesia brasileira. Se. negros geralmente. criador de uma colossal estátua do personagem. capaz de reunir num mesmo espaço santas. transformando-se em objetos artesanais destinados ao comércio. não cristã. creio eu. constituindo um rico painel de representação pela pintura. mostra como as carrancas sofreram um desvio em sua função original de proteger as embarcações “contra perigos concretos e imaginários”. no caso americano do Mississipi. o Rio também tem sido representado na arte pictórica. no caso do São Francisco. O autor ressalta as peculiaridades das carrancas como objeto artístico para o qual convergem elementos da herança indígena e negra. com estilos variados e diferentes posturas de engajamento em relação ao Rio. do castelo e do palácio na cultura brasileira. operando uma espécie de recriação eventualmente sujeita a polêmica. o capítulo décimo primeiro apresenta o santuário popular de Frexeiras como uma curiosa representação do sincretismo religioso e cultural brasileiro. O estudo inclui desde o pitoresco uso do termo “rei” para praticamente qualquer atividade desenvolvida pelas pessoas (“rei do samba” “rei do futebol”. Sobressai. pintores estrangeiros e nacionais têm oferecido suas visões do Velho Chico. evitando que se arrisquem demasiadamente nas águas do Rio. Os últimos três capítulos abrangem temáticas não ligadas diretamente ao Velho Chico. tema do capítulo oitavo. com um oportuno destaque para o “Castelo de João Capão”. começando por Castro Alves e sua obra A cachoeira de Paulo Afonso e culminando com João Cabral de Melo Neto e o “sertão sem rio”. o autor apresenta a lenda do Nego d´água como parte do imaginário do povo ribeirinho. predominam as imagens poéticas inspiradas numa cultura medieval transportada para o sertão nordestino. “rei da juventude” etc) até uma apresentação dos principais castelos existentes em terras brasileiras. A cultura popular nordestina se mostra aí como uma cultura de resistência 4 . Como não podia deixar de ser. No sétimo capítulo. O sexto capítulo. cujo valor monetário se define pelo talento e renome do mestre escultor. o autor se volta para as imagens do Velho Chico na obra dos poetas brasileiros. por fazer parte de uma cultura comum. substitui os traços populares por traços inspirados na simetria da arte clássica. ponto turístico da cidade de Garanhuns em Pernambuco. especificando tipologias e resgatando o nome de artistas situados no Agreste Meridional. “Por uma mitologia das carrancas do Vale do São Francisco”. Já o capítulo décimo brinda o leitor com um alentado estudo da simbologia do rei. cuja função parecer ser sobretudo intimidar as crianças. deusas greco-romanas e super-heróis de origem estrangeira. o retrato dos dramas sociais desde a colonização até a transposição. Fechando o volume. A partir do século XVII.

além de oferecer a todo o povo brasileiro uma nova e abrangente visão acerca do Rio São Francisco. Para quem não a conhece. alunos e demais pessoas interessadas na arte popular e na cultura nordestina de modo geral. Está de parabéns a Universidade de Pernambuco. 5 . o livro será de grande utilidade para pesquisadores. evidenciando a capacidade do povo de moldar e cultivar seus próprios santos e santuários. por trazer essa obra ao público brasileiro.inclusive contra a dominação religiosa. com especial destaque para os elementos culturais construídos em torno do Rio São Francisco. sem dúvida será uma descoberta apaixonante. Será uma experiência significativa para quem já conhece e ama essa cultura. a leitura de Imagens do Velho Chico na cultura do Vale do São Francisco proporcionará ao leitor uma rica e profunda imersão na herança cultural do Nordeste. Com certeza. Em suma. notadamente seu campus de Garanhuns.

A obra de transposição do leito do Rio São Francisco implica em profundas alterações nessa situação em todo o interior do 6 . abordando a produção literária (prosa e poesia) bem como as manifestações de literatura popular (cordel. a do Vale do São Francisco e a do Agreste Meridional. buscamos observar as primeiras e possíveis alterações nesse significado em função de uma nova dimensão regional do vale do Rio São Francisco. pareceu-nos pertinente fazer estudos comparativos e de influências entre as duas regiões. a dimensão cultural e social que envolve a bacia do Rio São Francisco tem aspectos de influência não apenas climática e de geografia física sobre a região. tendo em vista que essa micro-região está próxima da bacia do São Francisco. arte popular) procurando nas diversas manifestações levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região. Paraíba. Completou-se o projeto com a formação de um acervo bibliográfico. Embora Garanhuns esteja situada no Agreste. tendo como subtema as modificações que o projeto de transposição do rio São Francisco potencialmente poderá causar nessa mesma cultura. que o projeto incluiu uma parte de estudos acerca do Agreste Meridional. possivelmente interferindo na paisagem sertaneja semiárida do Ceará. iconográfico e artístico da cultura da região do Vale do São Francisco. com destaque na micro-região para a cidade de Garanhuns. Pernambuco e Rio Grande do Norte. com apoio do CNPq. a construção do imaginário acerca do arquétipo que o Rio São Francisco preenche na região do Polígono das Secas. próxima também do litoral (Zona da Mata). O projeto visava pesquisar as imagens na cultura do Vale do Rio São Francisco. na região do baixo São Francisco. tendo em vista. Acresce ainda. tendo em vista a proximidade da implantação do projeto de transposição do Rio São Francisco. mitos e lendas. mas também no âmbito cultural. pois. distante fisicamente 223 km do rio São Francisco (município de Paulo Afonso). contos.Introdução Este livro é resultado de um projeto de pesquisa realizado na UPE/FACETEG durante o período 2007-2009. isto é. contígua do sertão. todos esses aspectos de localização geográfica. que receberá pelo projeto de transposição uma adutora para regularização do fornecimento de água à região. Ainda.

............... espero que o leitor desse livro possa tomar contato com os resultados de nossa pesquisa.......... à música popular brasileira..... a previsão de que esse imaginário tende a modificações estruturais significativas de acordo com os resultados da transposição do leito do rio.estado.. à tradição regional do vale de um ângulo que ainda não encontramos em outras publicações.. Neste livro acreditamos que abordamos sob um novo aspecto a questão da cultura do Vale do São Francisco........ E.. nosso trabalho já aponta para uma atitude de ponta na abrangência que a UPE/Faceteg se coloca nas questões não apenas de sua microrregião.. .... mas também àquelas que a esse imaginário se dirigem. Assim........ Nossa pesquisa justificou-se na medida mesma em que tem por princípio um estudo das imagens do Rio São Francisco na representação do imaginário não apenas nas manifestações próprias das cidades do vale.... tendo ainda por horizonte.. analisando tópicos referente às artes plásticas. Prof. numa interrelação dessa microrregião com fatores externos que possam alterar e modificar de modo decisivo seu caráter microrregional............... mas sim.. Jayro Luna 7 ..... fazendo com que a distinção típica entre as micro-regiões do estado possam mesmo ser revistas....

o remontar das águas significa. e que. Não menos importantes para o desenvolvimento de nações foram o Rio Amarelo. modesto afluente do Tietê. A história do Egito antigo é a história da civilização do rio Nilo. é designado por nomes tais como Gangâ [Ganges] e Saraswatí. No caso do Brasil. à defesa de território.O Rio Como Símbolo O rio tem marcado a presença como um dos lugares mais importantes da história do homem. o Tejo. à navegação é à pesca. No Cristianismo. René Guénon observa essa aspecto. 300-301) Assim. mas pela inversão de direção da própria corrente. a imagem da “travessia” e por conseguinte. outros de extensão consideravelmente menor tornaramse simbólicos por suas posições geográficas estratégicas fundamentais para a vida de vários povos: o Reno. o da fertilidade. hoje praticamente coberto pela cidade. e que têm também relação direta com a Shekinah [Presença divina]. é talvez o mais notável sob certos aspectos. pois deve-se então conceber o rio como identificado ao ‘Eixo do Mundo’: trata-se do ‘rio celeste’ que desce para a terra. que são exatamente os nomes de certos aspectos da Shakti. é um dos símbolos de nossa independência. destacando duas imagens ligadas ao rio. é um ritual de purificação na Índia. p.” (GUÉNON: 1989. alguns rios são sagrados para determinados povos. basta lembrarmos que o rio Ipiranga. o remontar do curso das águas. No Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant. o da possibilidade universal e o da fluidez das formas (F. Coomaraswamy. expressão do retorno à fonte celeste representado então. esta se liga à simbologia da ponte. Guénon comenta: “O primeiro caso. na tradição hindu. Acerca da primeira imagem. evidentemente. No sentido de que seja um lugar propício à agricultura. o Mississipi. pelos quais as influências do ‘mundo em cima’ são transmitidas ‘ao mundo de baixo’. Os rios Tigre e Eufrates na civilização babilônica. ou a travessia de uma margem à outra. ao mesmo tempo.Schuon). o acesso ao Nirvana. A simbologia esotérica e mística desde tempos antigos tem trabalhado a imagem do rio. o rio Nilo do Egito são exemplos marcantes dessa importância do rio na história da civilização. o Jordão são alguns exemplos. por exemplo. o que ele chama de “remontar corrente” e a segunda. ‘remontar corrente’. desde o princípio da civilização o rio se destaca. e não pensemos apenas nos grandes rios. Na Cabala hebraica esse ‘rio da vida’ encontra sua correspondência nos ‘canais’ da árvore sefirótica. o Tibre. a primeira. pode-se considerar: a descida da corrente em direção ao oceano. o Tamisa. que é em suma o equivalente da Shakti. O curso das águas é a corrente da vida e da morte. comentando o trabalho de Ananda K. da morte e da renovação. o símbolo do rio é apresentando de modo a destacar o simbolismo das margens e da água corrente: “O simbolismo do rio e do fluir de suas águas é. Em relação ao rio. não mais para pelo remontar da corrente. o Níger. A descida para o oceano é o ajuntamento das águas. o retorno à indiferenciação. o retorno à Nascente 8 . O rio como símbolo tem forte presença no desenvolvimento cultural dos mais variados povos. banhar-se nas águas do Ganges. o Ganges. Jesus foi batizado por João Batista no Jordão. Na Cabala também se fala das águas que ‘correm para o alto’.

ensina o Patriarca zen Hueineng. cria um mundo mítico e mágico na floresta do Rio Amazonas. o mundo dos sentidos e o estado de não-vinculação. o papel dos rios no desenvolvimento de nosso país foi de suma importância. de José Lins do Rego ou ainda. e a travessia é a de um obstáculo que separa dois domínios. Mar Dulce. O Rio Amazonas na região Norte. Antes. Castro Alves narra em verso o drama Cachoeira de Paulo Afonso. de Lúcio Cardoso. O Rio São Francisco marcou boa parte da cultura sertaneja do Nordeste Brasileiro. eletrificou praticamente toda a região do sertão. são apenas alguns dos exemplos que envolvem essa interligação entre o rio e a cultura. Aliás. A cultura Hindu e o Ganges. caminhos para a conquista do paraíso selvático. para além do qual ficavam os bárbaros. 780-781) Por esses aspectos a análise da cultura que se desenvolve ao longo do percurso de um rio é também. lembremos de Uma Tragédia no Amazonas (1880). O Egito dos faraós e o Nilo. os rios foram muito mais encarados como caminhos do que como fronteiras. trazendo mais do que luz.” (CHEVALIER & GHEERBRANT. e é o estado que existe para além do ser e do não-ser. em boa medida. Os limites europeus do Império romano incluíam as margens do Reno e do Danúbio. esse estado é simbolizado não só pela outra margem.divina. dois estados: o mundo fenomenal e o estado incondicionado. só mais recentemente as possibilidades de irrigação que o rio poderia oferecer foram exploradas. como também pela água corrente sem espuma. A Literatura brasileira. No romance. ainda hoje. A margem oposta. antes deles. o rio da energia elétrica. que a partir da Chesf e da usina de Paulo Afonso. a análise da própria evolução cultural da humanidade. A simbologia indígena que destaca o papel do rio no processo mitológico de criação do mundo. a principal via de comunicação entre as cidades. Mário de Andrade escreve suas “Enfibraturas do Ipiranga” em Paulicéia Desvairada (1922). ao Princípio. a China e o Rio Amarelo. de Raul Pompéia. Essas são só algumas poucas lembranças imediatas de obras poéticas. a possibilidade do progresso para as cidades com a instalação de indústrias de beneficiamento da produção agro-pecuária. como entrada dos bandeirantes. que por sua vez. como signo representativo de um interior que lança grandes 9 . país de grandes bacias fluviais. surgiram. em cujas margens surgiram algumas das principais cidades da região do polígono das secas. No caso específico do Brasil. é a paramita. de eldorados. com exemplo do rio Amazonas. a poesia e a música não têm deixado de tratar do tema do rio. notadamente na região de Petrolina e Juazeiro. a Babilônia e o Tigre e Eufrates. Assim. desde as primeiras entradas e bandeiras que definiam grande parte de seu trajeto em função dos rios que penetravam a floresta ainda inexplorada. Caminhos para a descoberta dos territórios inexplorados. temos esse processo de busca de compreensão da enorme extensão de terra desconhecida em que se suspeitava a existência de tesouros perdidos. Porém. p. Desde a expedição de Vicente Pinzón à foz do Amazonas. que julgou tratar-se dum mar. Raul Bopp em Cobra Norato. Maleita (1935). no caso do Brasil. Rio que determinava a existência de duas possibilidades de sertão. no caso brasileiro. o rio como imagem do caminho da colonização do sertão. Assim. em quase sua totalidade em razão da proximidade navegável com o grande rio. uma com água e outra sem o precioso líquido. até as de Francisco Orellana e Pedro Teixeira. porém. Riacho Doce (1939). Rio do processo de colonização do sertão.

em que a água sempre está por um fio. O rio como estrada. Muito sucesso fez o poema “A barca bela” de Almeida Garrett: BARCA BELA Pescador da barca bela. lembremos dum poema de João Cabral de Melo Neto: Os rios Os rios que eu encontro vão seguindo comigo. A canoa. Ó pescador! Não se enrede a rede nela. Que a sereia canta bela. como caminho é uma estrada fluídica. 10 . a totalidade. é o barco.. o rio como metáfora da estrada da vida tem como suporte material para sua alegórica navegação o corpo humano. o barco são os meios utilizados para tal. Este como morada da alma. a canoa que levará ao encontro com o mar. Ó pescador! Pescador da barca bela. Onde vais pescar com ela. Ó pescador! No Brasil. cujo passado é memória. Num sentido alegórico. Foge dela. que necessita dum suporte para que o homem possa seguir por seu curso. foge dela. Rios são de água pouca. da vida que corre do presente para o futuro. Inda é tempo. Ó pescador! Deita o lanço com cautela. Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela. na acepção cristã. mas da vida por viver.. favorece a alegoria de ver o rio como símbolo da vida.quantidades de água ao mar. Que perdido é remo e vela Só de vê-la. Mas cautela. Que é tão bela.

é no seu ápice. cita como um dos locais propícios à pesca o estar sobre a ponte: Pescador Pescador. tanta culpa? Se o meu pai. A ponte.Cortados no verão que faz secar todos os rios. Na lira XXXVII. outros com nome de bicho.” 11 . A ponte. ponto de admiração e de contemplação do rio. Vinícius de Moraes. De que era que eu tinha tanta. uns com nome de santo. contemplar como observador o curso contínuo das águas que vêm de distantes paragens e seguem em direção ao mar ou a rio maior. sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio. em que a alegorização do rio como símbolo atinge um de seus mais altos graus na literatura brasileira: “Sou homem de tristes palavras. Seguindo o sentido dessa visão do rio como caminho. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios. Na primeira estrofe de “O Pescador”. portanto. da Marília de Dirceu. Uns com nome de gente. “A Terceira Margem do Rio”. os rios brasileiros têm sido muito mais caminho que interrupções ou obstáculos do caminho. como signo da união das duas margens. o rio — pondo perpétuo. Conhecido é o conto de Guimarães Rosa. lemos a descrição do caminho que se deve fazer para se chegar à casa de Marília : Entra nesta grande terra. o ponto em que o homem pode. Rios todos com nome e que abraço como a amigos. numa das estrofes.. Os rios têm afigurado no imaginário brasileiro como caminhos. deixa de ser um aspecto corroborador do rio como obstáculo.. como signo de passagem no sentido alegórico. onde vais pescar esta noitada: Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? Está tão perto que eu não te vejo pescador. de Tomás Antonio Gonzaga. Passa uma formosa ponte. Passa a segunda e a terceira Tem um palácio defronte. para ser sim. apenas Ouço a água ponteando no peito da tua canoa. muitos só com apelido.

de momentos diversos desse rio. João Cabral de. 2008. 1944. 2005. 1994. Mas em Haroldo de Campos. Marília de Dirceu. Vinícius de. MELO NETO. o rio é um dos símbolos mais fortes da nossa cultura. Rio de Janeiro. Dicionário de Símbolos. Nova Aguillar. Guimarães. Poesia e Teatro. Martin Claret. GARRETT. René. Própria. Os Símbolos da Ciência Sagrada. São Paulo. Alain. 1984. 2005.Haroldo de Campos. Nacional. Rio de Janeiro. 2004. Rio de Janeiro. São Paulo. Nova Aguillar. Primeiras Histórias. nas suas Galáxias. e como tal. GONZAGA. Obra Completa. Referências Bibliográficas CAMPOS. Tomás Antônio. a evolução. entender na sua fluidez a modificação. Seja como for. ROSA. apresenta-nos a idéia dum contínuo aventuroso da linguagem poética como a correnteza do rio. Almeida. Haroldo de. Sergipe 12 . Ex Libris. Lisboa. MORAES. Pensamento. Poesia Completa e Prosa. 1989. São Paulo. GUÉNON. Tal concepção parte da premissa de que o tempo a tudo modifica e que a correnteza do rio é a alegoria do tempo. José Olympio. a idéia é de uma sincronização de acontecimentos. Heráclito de Éfeso apresenta o argumento de que não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. Galáxias. Jean & GHEERBRANT. São Paulo. Figueirinhas. CHEVALIER. a passagem do tempo e da vida acaba por ser uma das mais ricas imagens poéticas.

ou as lágrimas numa aplicação de hipérbole. mas a terceira qualidade. em Minas Gerais. assim não mais se navega “no”. tem como um de seus sucessos a música Nilo Brasileiro. A seguir. criada em 1981. ambos da Banda Moxotó. sinta voltar A criança que está em você” A estrofe cita o local de nascimento do rio. Lailton Araújo e Wanderley Araújo. uma vez que a Natureza rica em fauna e flora se apresenta como obra santificada. são várias as imagens. é em referência ao nome dado ao rio. rio São Francisco em Pirapora Soltarei o meu sorriso” Agora.O Rio São Francisco Como Tema da MPB Neste breve artigo comentaremos acerca de algumas letras de música popular brasileira que colocaram como tema o Rio São Francisco. 13 . estas com seu aspecto assustador vão trazer nos adultos a lembrança dos medos que as crianças têm de caras feias. Pirapora. O infinito aqui redimensiona a figura do rio como metáfora da vida. ou se. Guardadas as devidas proporções. as mágoas. As duas primeiras se referem à riqueza natural que envolve a bacia do São Francisco. como protetor dos animais e da Natureza se mostra aqui como o santo católico mais adequado a emprestar o nome ao rio. logo colocando o nome “Nilo” como qualificativo do São Francisco. Depois. Na segunda estrofe. O tema do rio na música é antigo e tem suas metáforas características. apresenta já no título a comparação entre o rio São Francisco e o Nilo. representar a tristeza. tentaremos perceber qual é imagem do Velho Chico que está presente nessas canções. flora São Francisco é santo. lemos: “São Francisco é fauna. é assim o lugar de alegria para o eu lírico. a passagem do tempo ou a inevitabilidade do fluir dos acontecimentos. Na primeira estrofe da canção lemos: “Nas entranhas da ‘Canastra’ Nasce um grande aventureiro ’Nilo’. na serra da Canastra e também do longo percurso (“um grande aventureiro). nome milenar Filho do solo brasileiro Margeando o seu leito As carrancas vão assustar Nas lembranças. a canção passa a adotar o nome do rio acrescido de outras qualidades: é fauna. é flora. deixando de lado o qualificativo de “Nilo”. O santo. por meio desses comentários. como busca da eternidade. a de santo. em ritmo nordestino de baião. A música. um dístico que se desenvolve na canção como um refrão: “Navegarei no infinito / Navegarei com São Francisco”. por sua vez. O rio pode ser um símbolo conquanto represente a vida. faz referência às carrancas. a cidade que está próxima à nascente do rio. pode ainda. mas “com” São Francisco. obra divina. é santo. tal comparação se faz jus mediante o papel integrador que ambos os rios desempenharam.

Na estrofe seguinte. entre os indígenas na luta de preservação de sua nação e cultua e a do europeu em busca da imaginada cidade de ouro no meio da mata: “Um grande rio as formou Pelas lágrimas de Iaty Na consagração do sol e da lua Homem branco veio invadir 14 . Alagoas e Bahia que ficam às margens do rio. e também uma visão “mágica” aos olhos de uma criança. de ser navegável. No carnaval paulista de 2006. bem à lenda do colonizador acerca do Eldorado. e que tem a capacidade de sustentar hidrelétricas. Na primeira estrofe a canção faz referências aos elementos da mitologia indígena (Jaci. hidrelétricas O menino viu passar Na pureza da magia Nas cidades que nasciam Em Minas Gerais. Bahia De Januária à Curuçá” Assim. Brejo Grande Águas tão nordestinas” Porém. a cantiga em homenagem ao rio que corta o sertão semi-árido. os compositores falam de lembranças da infância em volta do rio. Iaty). Pão de Açúcar Petrolândia e Petrolina Ibiraba. A penúltima estrofe se compõe de nomes de cidades em Pernambuco. O a que se desdobra e que ecoa pela caatinga como eco da canção do rio. do Imaginário Indígena a Saga de Opara.Para os Olhos do Mundo um Símbolo de Integração Nacional: Rio São Francisco". O título num tom quase barroco já se propõe a utilizar os aspectos lendários e do imaginário da colonização da região do São Francisco. trazendo energia para toda a região. a escola de samba Mocidade Alegre desfilou sob o samba-enredo “Das Lágrimas de Iaty surge o Rio. O dístico final da composição: “No toque da minha cantiga / Irrigarão a caatinga”. O eu lírico aqui se apresenta relembrando as imagens que estavam na consciência do eu enquanto criança. terminando com o verso que designa a localização regional dessas cidades: “São Romão. as cores das bandeiras nas festas populares das cidades ribeirinhas se tornam imagens metonímicas da riqueza que vem com as hidrelétricas. o que são “Águas tão nordestinas”? O rio que corre uma região semiárida. presenciando o processo de desenvolvimento da região com a chegada das hidrelétricas: “As bandeiras da fortuna Velhos sonhos coloridos Esmeraldas. Assim instaura-se o conflito. ecoará pela caatinga. de fornecer água para irrigação é nesse aspecto um “Nilo”. a criança que está ainda vida nos compositores e que se expressa por meio do verso e da canção. Todo o processo aos olhos do menino é um processo mágico.

conquistando essa identidade que ora se apresenta multifacetada e em mosaico. A tribo indígena. mito indígena das águas: “Na dança do Pajé Um ritual de fé. a festa do Divino.. mistérios no ar Lá vai sertanejo. Tudo é resumido na idéia de uma “Tribo Brasil”. 15 . pede proteção Resgata a "Tribo Brasil" O futuro está em nossas mãos” Ainda nesta estrofe. não mais em sentido explícito de conflito. de Gonçalves de Magalhães ou nos poemas indígenas de Gonçalves Dias. fornece com seu sacrifício os elementos de uma sublimação do espaço e do tempo conquistados.. Na estrofe seguinte um caleidoscópio em que imagens se misturam para contar do processo de miscigenação e de colonização da região do vale do São Francisco. Rica cultura o tempo ultrapassou Festa do Divino. o sincretismo religioso e a mistura de elementos europeus. mas em conjunção para compor a cena: o pajé e o pescador. as carrancas... de modo a criar atmosfera da comunhão entre a religiosidade do Pajé e a do pescador cristão.. A estrofe sugere que é preciso resgatar o passado – notadamente os valores do passado pré-colonial – para se unir à “Terra Mãe” como forma de afirmação da identidade da cultura brasileira. a referência ao ritual do Toré e a citação à Iara. o epíteto de “Rio da Integração Nacional” se apresenta como resultado histórico do processo de colonização. De fato. De Iara” Agora dois personagens estão aí colocados. estórias contar Miscigenação. O Toré Se o pescador o Velho Chico encara Se encanta nas águas. já extinta. O sertanejo. O ritual profano do Toré é apresentado como ritual de fé. “Vapor encantado. E assim. Romaria abençoou Vai a carranca todo mal espantar Vem repentista canta esse santuário Um rio de integração nacional Terra Mãe .. pode-se planejar um futuro mais promissor. Processo semelhante ao que o Romantismo do século XIX adotou para compor a história poética do Brasil em poemas como A Confederação dos Tamoios. as romarias.E despertou das profundezas maus espíritos Jacy a grande noite provocou Ao proteger o paraíso do invasor Visando o Eldorado a procura de riquezas A cobiça prevaleceu Batalhas e guerras sangrentas No coração da mata o índio defendeu o que era seu” Na segunda estrofe. africanos e indígenas está presente na maioria das festividades folclóricas da região.

a composição apresenta os elementos centrais da discussão acerca da preservação cultural. então se diz que a construção humana se harmonizou com a Natureza.. Numa linguagem bem popular. se lemos que “ela” não é objeto direto de “natureza”. Retomando a idéia do título do samba-enredo. A seguir. mas depois por Elba Ramalho. Por outro lado. nasceu a beleza / E a natureza ela conservou”. A elipse aí colocada entre esse dístico e os versos antecedentes é que o compositor quer voltar à Petrolina para ver a beleza da ponte. fazendo da ponte parte da própria Natureza – o que seria uma interessante construção poética. composição gravada pelo Trio Nordestino primeiramente. é o resultado direto no poema dessa busca de identidade que se supõe esteja no imaginário do índio transposto para a cultura do colonizador: “Corre nas veias do sertão "Opará" a salvação Vamos preservar Vem a Morada do Samba. por ser tão bela. Aqui a ponte se apresenta como o elo de ligação entre os dois lugares que fizeram parte das lembranças da infância do compositor. pelo processo de urbanização e de desmatamento. O terceiro verso diz: “Jesus abençoou com sua mão divina”. então se diz que a Natureza incorporou a construção da ponte. o compositor escreve: “Hoje eu me lembro que nos tempos de criança / Esquisito era a carranca e o apito do trem”. formando o curso do rio São Francisco. Iaty era o nome de linda índia que chorou a morte do amado em uma guerra. e as águas seguiram os passos dos guerreiros desaparecidos.” O compositor então se coloca como morador de Petrolina e que costumava visitar a cidade do outro lado do rio. Navegar” Numa imagem poética de alegorização o rio é transposto para a avenida onde se apresenta a escola de samba. Jorge de Altinho. teve como um de seus primeiros sucessos “Petrolina Juazeiro”.Na estrofe final. chorou tanto que suas lágrimas formaram a cachoeira de casca Dantas. Como na composição de Laílton e Wanderley Araújo. como se o desfile da escola fosse a metáfora da correnteza do rio. a carranca incutia medo na 16 . compositor popular. Em que se pese o tom ufanista da letra do samba-enredo. A seguir lemos os versos: “Do outro lado do rio tem uma cidade / que em minha mocidade eu visitava todo dia. A música tem como tema o cenário da ponte que liga as duas cidades. as lágrimas de Iaty é que vão compor as águas que correm no Rio São Francisco. / vou voltar pra Petrolina”. incorporando ao discurso poético a referência à forte religiosidade do povo nordestino. apresentando explicitamente suas memórias de criança. diante do ritmo avassalador do processo de colonização. notadamente indígena.. hoje substituído. mas sim sujeito do segundo verso (“Ela – a beleza – conservou a natureza”). Jorge de Altinho começa a canção dizendo: “Na margem do São Francisco. Outra música que trata do tema é “Ciúme” de Caetano Veloso (esta canção analisamos em outro artigo). Segundo lenda indígena. Se entendemos que o pronome “ela” se refere à beleza. A seguir se repete duas vezes os versos: “Pra não morrer de saudade. sendo esta uma obra abençoada. Geraldo Azevedo e Alceu Valença. o que se entende que a construção da ponte conseguiu tal relação com a Natureza devido à bênção de Jesus. com ambigüidades características. a referência ao nome indígena do rio (“Opará”).

sugere que a ponte criou essa união entre as duas cidades e que o menino – recuperado pelas memórias do compositor – se eterniza na visão que o compositor tem ao rever a ponte. Jorge de Altinho escreve: “Mas achava lindo quando a ponte levantava / E o vapor passava num gostoso vai e vem”. mas em Altinho. beira de rio Vento. num ritmo híbrido com versos octassílabos e hexassílabos. confere um sentido rítmico ao movimento da ponte e do trem. Na sua simplicidade de compositor popular. causava na criança esse estranhamento. No caso. Se primeiro “esquisito” se refere à carranca como feio. o de amar exageradamente. uma vez que gostar. se refere ao exótico. o compositor vai criando a metáfora rítmica do barco a navegar sob águas calmas: É a luz do sol que encandeia Sereia de além mar Clara como o clarão do dia Mareja o meu olhar Olho d'água. mas aqui é o compositor que se transfigura liricamente na imaginação duma criança que tenha vivido entre as duas cidades). demonstrando como a engenhosidade humana pode se harmonizar com a beleza da Natureza. Jorge de Altinho cria uma atmosfera de ingenuidade e de encantamento diante da ponte que liga as duas cidades. também pode significar amar. A ponte enfim faz esse elo de união entre os dois lugares que compõem as lembranças do compositor (em que se pese o fato de que biograficamente Jorge de Altinho não viveu em Petrolina ou Juazeiro. O título da canção é “Petrolina Juazeiro” e no verso final temos a ordem Juazeiro – Petrolina. mas adorar tem além do sentido de prestar culto. Os verbos gostar e adorar tem aqui uma função sinonímica. vela a bailar Barcarola de São Francisco Me leve para o mar Era um domingo de lua Quando deixei Jatobá Era quem sabe a esperança Indo à outro lugar Barcarola de São Francisco 17 . Opondo-se ao estranhamento do apito do trem e á feiúra da carranca. a de Geraldo Azevedo. o menino via beleza na engenhosidade da ponte pênsil se levantar. em grandiosidade para que o barco à vapor passasse. grande e barulhento. ao estranho.criança pelo seu aspecto assustador. que como já dissemos. criando um aspecto metalingüístico com a música. A expressão “gostoso vai e vem”. município próximo de Caruaru. compôs sob o tema a música Barcarola do São Francisco. como se tal ação significasse a harmonia entre o barco e a ponte. Nos dois versos seguintes. notadamente de um rio ou corrente de água e ter um tom sentimental romântico. A barcarola tem como aspecto definidor o de tratar do tema da água. O dístico final: “Todas as duas eu acho uma coisa linda / Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina”. pois o trem que vinha apitando. mas pode também sugerir uma graduação. região do Agreste Pernambucano. no caso do apito do trem. Geraldo Azevedo. Já o apito do trem era para a criança um outro motivo ligado ao adjetivo esquisito. bucólico ou infantil. gravou também a música de Jorge de Altinho. como que simbolizando a volta depois da ida.

o brilho do sol ilumina o corpo da sereia de além mar. a junção da luz do sol com a silhueta da sereia encanta o eu lírico que se lança a navegar em busca de alcançar a sereia. O conflito entre o querer e a realidade. No presente o eu lírico agora tem a esperança de voltar a ver o brilho do sol no horizonte sobre o corpo da sereia. o segundo. Por sua vez. ponte de chegada. como passado. como momento inicial dessa busca esperançosa se contrapõe ao presente. mítico e bucólico do cenário das águas do São Francisco. ponto de partida. sem tesouro de prata ou de luar. apresenta sua barcarola recuperando o sentido lírico. em sonho um beija-flor Rasgando tardes vou buscar Em outro céu Noite longe que ficou em mim Noite longe que ficou em mim Quero lembrar Era um domingo. menestrel reciclado do sertão e do mundo moderno. esta se mostra inatingível. “Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Se eu fosse um peixe Ao contrário do rio Nadava contra as águas E nesse desafio Saía lá do mar pro Riacho do Navio Saía lá do mar pro 18 .. Os dois lugares. o primeiro como início. mapa ou tesouro De prata ou luar Eu.. em “Serra do Navio”. O domingo de luar de prata. Porém. a canção faz do rio São Francisco o espaço mágico dessa busca. caminho. a sua oposição como espaço de águas com o sertão seco. rio e mar.Velejo agora no mar Sem leme. Metáfora da busca da felicidade. solitário no mar. No início da canção. como destino. na busca da sereia. colocado na “Noite longe que ficou em mim”. Geraldo Azevedo. como musa perfeita distante da realidade. nos apresenta um outro cenário acerca do rio São Francisco. realização. Luiz Gonzaga. entre a esperança e o alcançado: “Era quem sabe a esperança / Indo a outro lugar”.

Riacho do Navio Pra ver o meu brejinho Fazer umas caçada Ver as "pegás" de boi Andar nas vaquejada Dormir ao som do chocalho E acordar com a passarada Sem rádio e nem notícia Das terra civilizada Sem rádio e nem notícia Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Riacho do Navio. o caminho inverso. o riacho do Navio é um dos principais afluentes do rio Pajeú. 19 . Luiz Gonzaga propõe a volta. de fato é inóspito pelas condições climáticas. A terra civilizada é o espaço da comunicação – o rádio aqui representa essa comunicação. Rios de caráter temporário. O eu lírico busca a si mesmo esquecendo o mundo urbano – Fugere Urbem reinventado nas circunstâncias do sertão. As águas. Luiz Gonzaga. como o flagelado da seca deixar sua terra. se mostrando insatisfeito com a situação de degredo forçado. sem reconhecimento. a vida de vaqueiro enfim. Porém. De fato. que só sobrevive nelas. Voltar para o sertão para ver sua terra natal. essa agitação típica da cidade. daí sua necessidade de voltar e de esquecer o lugar em que fora forçado a ir: “Sem rádio e sem notícia das terras civilizada”. arrisca-se ao fazer o caminho inverso das águas. tanto é natural ás águas irem para o mar. da qual pretende fugir. como forma de recuperar sua identidade. Essa saudade do sertanejo se opõe à condição da vida na cidade grande. Nesse outro lugar o sertanejo se sente deslocado. aqui. O lugar agradável. que vive nas águas. que por sua vez é afluente do São Francisco. o sertão. Tando lá não sinto frio”. Porém a relação entre Lócus amenus e lócus horrendus aqui é ambígua. apresenta a estrofe em que demonstra o desejo do sertanejo longe de sua terra de voltar ao seu torrão: “Se eu fosse um peixe / ao contrário do rio / nadava contra as águas”. reviver as caçadas. as vaquejadas. é inóspito pela condição social em que o sertanejo se encontra. metáfora da condição do imigrante do polígono das secas que procura as capitais do litoral ou do sudeste como forma de escapar da condição de flagelado da seca. Riacho do Navio. o do Navio e o Pajeú passam meses sem água. ao passo que a cidade. A música tem como refrão uma descrição do caminho das águas do Riacho do Navio até a foz do São Francisco. bem ritmado no baião. Assim. Bacia hidrográfica da região do semi-árido. Metamorfoseado em peixe. após o refrão.

(Carlos Pita) Tendo como pano de fundo as raízes medievais do canto repentista e da literatura de cordel. Carlos Pita em 1979 lançou um disco constituído de músicas que formam uma espécie de narrativa tendo como tema uma transposição do universo das novelas de cavalaria para o sertão. daí sua armadura de couro e corda e sua dama ser uma certa “dama dos Rasos de Seca”. se afastam do mar. O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor .A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar . A história da princesa das Candeias de amor com o cego do Alumiar . A princesa do Agreste e o cantador do elo ao mar .Kapenga) 8.(Patinhas . geografia e folclore da região. estavam presentes.(Carlos Pita) 6. que ao pegar as águas desses rios dá à elas o sentido esperado de seguir em direção ao mar. a rainha. 3 e 4 formam uma trilogia centrada na imagem das novelas de cavalaria: "Cavaleiro enluarado. o cavaleiro.(Carlos Pita) 2.(Carlos Pita) 3. o príncipe. A primeira canção (“O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor”) é no ritmo do repente. Por essa época Carlos Pita estava envolvido com o grupo de artistas liderados por Elomar.(Carlos Pita) 5.Carlos Pita) 11. Princesa sertaneja .(Fernando Lona . com destaque para o cenário do Rio São Francisco. O arco-íris trovejou . Dércio Marques e Fábio Paes.O caminho do rio Pajeú e do riacho do Navio é a metáfora desse desejo do sertanejo. que entre outros. Carlos Pita vai compondo um panorama caleidoscópico de personagens característicos como a princesa.(Carlos Pita) 9.(Carlos Pita) 4.(Patinhas . A história dos quatro reinos desaparecidos e os guerreiros do Mal Viver . costumes.(Fernando Lona . em que a letra vai se formando com referências à fauna. De onde vens que não se chega? De que terra traz partida Coração sujo de estradas?" (“A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar”) A terceira canção (“A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca”) busca metaforizar o vaqueiro do sertão com a figura do cavaleiro medieval. acerca das guerras de cavalaria. o rei. ou seja.(Fernando Lona .Carlos Pita) 7. a donzela. Compõese versos acerca da arte do amor. enfim.Carlos Pita) 12. A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca . de fato ambos os rios correm no sentido do Nordeste para o Sudoeste. As faixas que compõem o disco Águas do São Francisco (1979) de Carlos Pita são: 1. A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear . ao inverso do São Francisco. O príncipe das Verdejanças e o amor do Verdejar . O romance do rei do Ensolarar com a bela das Rendas de Lua . Xangai.Gereba) 10. No 20 . flora. com violas na afinação característica. As canções 2. é um sertão medieval. A rainha do Trançar e o violeiro dos Esqueces .

Conta as guerras que te atreves. Quando meu pai me dizia. mas já se encontra latente na obra de Guimarães Rosa. na música de Elomar Figueira de Melo. tem como argumento as lembranças de criança numa infância em torno do rio: “Lembro das pescarias.” O Rio São Francisco é personificado por Pedro Sampaio num amigo. já no título. cavaleiros e cantadores espalhados pelos confins do sertão. as canções do disco seguem um tom de narrativas de aventuras palacianas. Pedro Sampaio canta a navegação no Rio São Francisco: 21 . em que reis de reinos imaginários dum sertão lendário se aventuram em guerras e conquistas de amores.) Você é o espelho da pura bondade”. Pedro Sampaio. na poesia épica de Marcus Accioly. talvez desses imaginários que é natural da infância.” A seguir. compositor natural de Xique-xique. Fundada num imaginário que vê reis.. Fazendo a república jus a essa imagem pela forma violenta com que tratou essas manifestações sertanejas de beatos. tem também suas bases no sincretismo religioso que vai buscar essas figuras na religiosidade medieval vinda com o colonizador português. E eu sentado na proa.mesmo tom vai a canção seguinte (“A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear”). que de certa forma. Esse rio é um verdadeiro mar. uma homenagem ao cantador Elomar. que se qualifica pela bondade e pela pureza: “Sei que és meu amigo. princesas. transposta para a pregação de beatos como Antônio Conselheiro e José Lourenço. com fortes elementos do sebastianismo português e que viam na jovem república a antropomorfização de elementos demoníacos e apocalípticos. uma monarquia messiânica. O tema do sertão medieval é constante nas obras teatrais de Ariano Suassuna. presta. te vendo passar.. E farei a luz do Amor Clarear teu coração. defendiam a monarquia. A letra da composição. A canção “A Princesa do Agreste e o Cantador do Elo ao Mar”. tu podes provar (. Bahia. Molhado à garoa. como outras que até aqui vimos. tem a música “Rio São Francisco”. Em outra composição. em que o cavaleiro sertanejo é um vaqueiro: “Cavaleiro que passas Que vais pro Sertão Qual o destino que levas? Que queres correndo o chão? Conta os caminhos que segues. “Assobio do Vapor”.

eu tomava café quente Muitos beijos e abraços. a presentificação do rio da vida. tem como ajudante ou escudeiro. de tal maneira que o dormir à rede. e o aspecto rústico da embarcação (“não tem camas. que aumentasse a enchente: São Pedro eu estou gostando As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente Falado: " É meus amigos. o rio parece muito calmo. cujo nome tem. como menestrel. fui obrigado a voltar Pra casa do meu amor e passei a noite por lá Fiquei a noite inteirinha Ao lado da moreninha esperando as águas baixar Enquanto as águas baixava. mas apenas como força que impede o personagem de atravessar a ponte. aumentava o amor da gente E eu pedindo ao São Pedro. faz do rio o caminho que cruza pelo sertão e pela vida para mostrar suas composições. nesse sentido. O compositor. servindo assim como álibi ou desculpa para que ele retorne aos braços de sua amada: As águas do São Francisco estava por cima da ponte Este é o grande motivo que eu não pude atravessar Mas isso eu achei foi bom. é parte desse rio alegórico que representa o caminho da vida. Destacando o porto fluvial de Pirapora (MG). Gino e Geno criam uma composição em que a enchente do São Francisco não é apresentada como destrutiva. o parceiro Loiola. sonhar. origens medievais. E como um Dom Quixote ou um cavaleiro menestrel. O balanço da rede assim se harmoniza com o ritmo das águas do rio. O tema parte da cena das enchentes do rio. Pedro Sampaio. ainda por cima.“Quem ouviu o assobio do vapor Quem vai partir Que arrume as trouxas por favor Vai subir o rio afora Vai chegar em Pirapora Não tem camas nem retratos na parede (do vapor) Só o balanço que embalança A minha rede (de tricô) Vou levando minha viola E as cantigas com o parceiro Loiola” O assobio do vapor serve de motivação inicial para descrever a navegação pelo rio. mas em outubro. e isto eu achei bom demais" 22 . ocorrem as enchentes. A dupla de música caipira Gino e Geno criaram a música “As Águas do São Francisco”. cerca de 450 mil pessoas sofreram com as enchentes neste ano. época em que aumentam as chuvas nas cabeceiras. assim como o do compositor. Uma das maiores enchentes ocorreu em 1979 em que cidades como Barra (BA). Com velocidade de águas raramente superior a 7 quilômetros por hora. Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) sofreram com vários bairros alagados e segundo estimativas. O São Francisco é. as águas do São Francisco me impediram de atravessar a ponte e eu voltei pra casa do meu amor. nem retratos na parede”) e o hábito sertanejo de dormir em redes (“Só balanço que embalança / a minha rede”).

latente e próximo. segundo a Chesf. A seguir. a imagem de um cenário pastoril. de águas constantes. tal se deve ao imaginário que envolve a cultura do vale do São Francisco. não é outro o motivo que faz Carlos Pita criar composições de caráter romanesco medieval. porém. põe represa. com alguns “erros” de concordância. dizer) nos pés de três sílabas dão um ritmo de grande velocidade à ação humana. A canção se inicia com um verso que pode ser considerado um lema da defesa do meio ambiente: “O homem chega e já desfaz a natureza”. de tal forma que o pedido e o agradecimento a São Pedro: “São Pedro eu estou gostando / As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente”. Este pé. de modo que em Paulo Afonso e em Xingo a água pudesse chegar com uma vazão constante. pontes.Numa linguagem bem popular. Poderíamos falar em alienação. assim como períodos de seca. de um rio “aparentemente” cercado pela civilização de cidades. represas e barcos. O tema da música é acerca da construção da barragem de Sobradinho. O “lá pra cima da Bahia” se refere ao mapa da Bahia. Lembremos que a grande enchente de 1979 pode ser controlada no referido trecho. A expressão “dia menos dia” coloca o acontecimento como um tempo indefinido. O próprio nome de “O Velho Chico” reforça essa imagem. Os três verbos com sujeito oculto (tirar. “Sobradinho” de Sá e Guarabira talvez seja das mais conhecidas músicas acerca da questão das represas do Vale do São Francisco. suas origens são mais antigas. porém. bucólico cercado pelo sertão quente e inóspito. se os compositores fazem da enchente do São Francisco motivo para um affair amoroso ao contrário de citar a destruição que a força das águas provoca. O verso seguinte contextualiza a questão da construção de represas: “Tira gente. beatos e poetas anteriores e posteriores a Antônio Conselheiro. diz que tudo vai mudar”. sendo a enchente o artifício que permite ao eu lírico a continuação de seu encontro amoroso. Os dois versos seguintes vão agora contextualizar a região da construção da represa (“O São Francisco lá pra cima da Bahia. O rio São Francisco está envolto assim num imaginário que faz do ritmo mais constante de suas águas. e os verbos finais mudam o ritmo dos pés (vai \ mu \ dar). música que é quase um hino em questão ambiental. / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar”). mas não nos parece esse o tópico principal. A profecia que tem cunho apocalíptico e sebastianista pode ser encontrada no discurso de cantadores. pôr. constituído de uma locução verbal. as águas calmas de não mais que 7 quilômetros por hora em seu maior trecho. De fato. era de regularizar a vazão do rio compreendido o trecho entre aquela região e o delta. a 40 km de Juazeiro (BA) e que deslocou pequenas cidades da região para fora do alcance do lago a ser formado. sua porção norte. a fronteira com Pernambuco que é constituída pelo próprio rio São Francisco. A profecia é atribuída ao beato Antônio Conselheiro. vinda desde o processo de colonização do sertão. O refrão da música em versos de redondilha menor e maior faz um jogo de palavras com a profecia do beato: “O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão” 23 . surge a referência à profecia popular de que o sertão vai virar mar. coloca a ação num futuro improvável. O objetivo principal da represa. de um rio tranqüilo. a letra da canção fala desse espaço lírico em que o amor é o motivo principal.

O homem é o sujeito da ação na canção de Sá e Guarabira. e passaram a utilizá-lo para pilar o sal que salgava o peixe. mas é também. Os dois versos seguintes: “Vai ter barragem no salto do Sobradinho \ E o povo vai se embora com medo de se afogar”. sob esses aspectos. Convém ressaltar que os municípios citados foram reconstruídos em local mais seguro e que com o tempo obtiveram progresso econômico e social com a barragem de Sobradinho. início de uma vida nova e feliz. Conta a tradição local que a denominação está ligada a uma lenda de pescadores que encontraram um pilão. Desse modo. A seguir uma quadra em versos dodecassílabos. o dia do juízo final. “Pilão Arcado”. do cumprimento da profecia do beato: a construção da barragem de Sobradinho. e aí ela tem um sentido apocalíptico religioso. com autonomia de município em 1989. na profecia se diz que o mar virará sertão quando o sertão virar mar. E por sua vez. o aumento das águas vem provocar a destruição da tranqüilidade local. o que nos dá uma idéia de localização duradoura. Junto à orla da represa surgiu o bairro conhecido como “Chico Periquito” com bares e restaurantes à beira do lago. no contexto da construção da represa e dos benefícios que ela trouxe. A desordem na vida local causada pelo progresso. esta por sua vez. percebemos que a voz da letra da canção é a do povo local às vésperas da construção da represa. O verso “Debaixo d’água lá se vai a vida inteira” faz referência à perda das raízes. “Casa Nova” nos dá a idéia de casa recentemente construída. tranqüilidade).A inversão da profecia (“o medo que algum dia / o mar também vire sertão”) tem um sentido apocalíptico. de tal forma que ao mesmo tempo é crítica mordaz e bem fundada à destruição da Natureza pelo homem. relendo a letra de Sá e Guarabira. o medo diante do novo. a quebra do que parecia imóvel. permanente. desaparecida pelo aumento das águas: “Adeus Remanso. antes originalmente era apenas a vila dos trabalhadores empregados na construção da barragem. permanente. cita o nome das localidades atingidas pela subidas águas e compõe a cena do gaiola – tradicional embarcação do rio – navegado por onde antes era uma cachoeira. Assim. em uma das margens do rio São Francisco. Sento Sé Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir” O nome das cidades tem um significado maior do que simplesmente toponímico: “Remanso” (se originalmente o significado é uma enseada tranqüila. a construção da barragem deu origem a uma nova cidade. As incertezas causadas pela modificação do cotidiano. pela destruição do antigo em face do novo. “Sento Sé” se refere ao lugar em que a Sé (igreja principal de uma diocese) se localiza. do aumento das águas. conforme se lê no primeiro verso. Porém. 24 . messiânico. da tradição. De fato o lago artificial ali formado é o segundo maior lago artificial do mundo. De fato. o sentido da canção é poeticamente ambíguo. A poluição das águas e a conseqüente destruição da Natureza pelo homem mesmo e não por uma ação castigadora de Deus. com formato de uma curva em arco. Este medo do progresso é que dá força ao discurso. esclarece o motivo da destruição das cidades locais. em Sá e Guarabira o sentido é ecológico. no sentido figurado é também descanso. da identidade. Casa Nova. Assim. o de Sobradinho.

umavidapelavida. E apresenta como solução para o problema a revitalização do rio. sejam as próprias populações ribeirinhas. 25 .com. Conte com este amigo no que puder te servir neste bom combate.html. O que se entende por revitalização é o controle das causas do assoreamento e a devida política de controle dos agentes poluidores locais.” 1 A canção de Sílvio Brito tem como refrão os versos distribuídos em duas quadras de rimas cruzadas ABAB e tendo em cada quadra.” Sílvio Brito faz referência ao processo de assoreamento do rio e à poluição.br/musica_silvio. e o outro indo até a Paraíba. os agrotóxicos e o desmatamento da vegetação ciliada. daí na canção Sílvio Brito diz: “Mas é preciso mais boa vontade Mais ação e decisão Para fazer de verdade A revitalização Pois então vamos reciclar o lixo 1 Silvio Brito em: http://www. esta musica foi composta logo após uma viagem minha ao nordeste no mês de novembro de 2004. quando vi o rio São Francisco e fiquei muito triste ao saber que aquele rio que fornece vida para todos os seres que vivem em suas margens poderia vir a morrer. três versos octassílabos e um quarto heptassílabo: “O Velho Chico tá morrendo Já nem tem mais navegação E ainda tem gente querendo Essa tal transposição O Velho Chico tá sumindo Ta suplicando salvação Mas em seu leito tá pedindo A revitalização. sejam – principalmente – as indústrias.Já a canção de Sílvio Brito. O frei Luiz Cappio se notabilizou pela campanha contra a transposição. criando dois grandes canais que serviriam água para o sertão de Pernambuco e Ceará. Esta é minha contribuição ao movimento e eu a estou colocando à disposição para ser utilizada na sua campanha ‘Uma vida pela vida’. tendo sua vazão prejudicada ano a ano. “O Velho Chico” é literalmente uma canção engajada. na bacia do mesmo nome. até a bacia dos rios Piranhas e Jaguaribe. inclusive pelo episódio de uma greve de fome contra o projeto. O engajamento é na defesa que comunidades locais do São Francisco fizeram contra o projeto federal de transposição das águas do rio. Tais ações envolvem políticas concretas. tem se mostrado que o curso do rio São Francisco vem sofrendo continuamente com isso. De fato. Sílvio Brito escreveu ao frei: “Querido irmão.

Chega de poluição Vamos transformar o Chico No oásis do sertão”. Outro aspecto da canção de Sílvio Brito é o jogo que faz entre o nome do rio e do santo: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza.” Assim, o compositor mineiro, natural de Três Pontas, famoso por sucessos como “Farofa-fa”, “Pare o Mundo que eu quero descer” e “Tá todo mundo louco”, apresenta também um argumento messiânico, da ação divina em defesa da Natureza. Mas tal argumento é apenas simplório e se perde no contexto geral da canção de repúdio ao projeto de transposição, de tal modo que a expressão “Tem gente” no verso “E ainda tem gente querendo”, logo seguido pelo verso “Essa tal transposição”, em que a expressão “Essa tal” tem um sentido pejorativo, na linguagem popular, dá um sentido de que o projeto está fundamento em razões equivocadas e de desconhecimento do verdadeiro problema do rio. Porém, é de se ressaltar que de fato existe a necessidade da revitalização, mas que ambos os projetos, o de revitalização e o de transposição não são excludentes, sendo no máximo dependentes, ou seja, a transposição teria como pré-requisito para seu sucesso a revitalização da bacia do rio. Morares Moreira compôs a música São Francisco, num ritmo agalopado, com predomínio de versos em redondilha maior. A canção sintetiza aspectos culturais do Vale do São Francisco. Partindo de uma comparação entre o compositor e o rio, Moraes Moreira começa a apresentar as características comuns a ambos, num processo de personificação do rio: “O meu caminho eu escolho Tirando o cisco do olho Enxergo longe, me arrisco Sou como o Rio São Francisco Faço no tempo viagens No espaço da noite e do dia, Indo, fluindo às margens De Pernambuco e Bahia Andando por todos os lados Sincretizando os Estados Arrematando as costuras Na integração das culturas” Ora fazendo quadras com rimas emparelhadas, ora com rimas cruzadas, vai tornando o ritmo alucinante das imagens apresentadas. O ofício de compositor popular é 26

assim emparelhado com o caminho do rio: “Andando por todos os lados / Sincretizando os Estados”. Percebamos o verbo aí colocado: Sincretizar, ou seja, integrar elementos diferentes numa síntese. Nas duas quadras seguintes, Moraes Moreira diz que está em busca do que é mais novo, ou seja, do progresso e se apresenta como ponte que unifica, comparando o papel da ponte que liga Petrolina a Juazeiro: “Assim como o rio promovo O abraço que a gente precisa Em busca do que é mais novo Sim ultrapasso a divisa Fazendo a ponte, sem medo Antonio sou brasileiro João, Geraldo Azevedo Petrolina e Juazeiro” Cita nomes populares como Antonio e João, e presta homenagem a Geraldo Azevedo. O verso “Sim, ultrapasso a divisa” é mais do que o sentido de ultrapassar fronteiras regionais ou estaduais, mas no sentido da avant-garde, do ir além do comum, do previsível. Neste sentido, se pensamos não na obra de Moraes Moreira, mas no rio com que se identifica, temos que o rio São Francisco sempre foi palco de discussões acerca do progresso, tido como rio da integração nacional. Na quadra seguinte, Moraes Moreira nos fala da imensidão do Brasil, e que o trabalho de compositor é tão grande quanto o percurso do rio: “Por essas águas tão boas Sou navegante feliz Sergipes e Alagoas Minas, imensos brasis” Sergipe e Alagoas são os pequenos estados que estão na foz do São Francisco. O fato de colocar o nome dos estados no plural é uma forma de torná-los substantivos comuns, fazendo referência que na bacia do Vale do São Francisco, que se inicia em Minas Gerais, cabem várias vezes o tamanho desses dois estados. O verso “sou navegante feliz”, tem um sentido metafórico, é mais do que a referência às navegações no rio, mas sim no sentido de que a história da sua carreira de compositor é uma navegação. A parte final da canção compreende os seguintes versos: “Quem pode parar a planície, Os rios e os oceanos? Ah meu amor, acredite Também assim sem limite É o sonho dos seres humanos Quem pode parar o planeta? E o movimento que há? 27

Ah meu amor, com certeza As forças da natureza O vento quem pode parar? Lavam na beira do rio As lavadeiras de Deus A alma dos pecadores E o coração dos ateus” Aqui duas quintilhas precedem a última quadra. A primeira quintilha começa com uma indagação: “Quem pode parar a planície / Os rios e os oceanos?” Argumentando assim que a força da natureza, especialmente a que se expressa no rio São Francisco é ainda mais forte do que a engenhosidade do homem, e que é o sonho humano dominar o rio, um sonho “sem limite”. Referência indireta às represas, barragens e o projeto de transposição. Por outro lado, na quadra que se segue, o compositor responde que a Natureza pode parar a rotação do planeta, superando assim a força humana. Por fim, mais um questionamento acerca da força da Natureza: “O vento quem pode parar?” A resposta implícita é de que o homem não pode. A quadra final, fecha a canção com a imagem das tradicionais lavadeiras de roupa às margens do rio. Porém, num sentido figurado, a lavagem da roupa suja é também a lavagem dos pecados e da arrogância do homem para com a Natureza. Daí lavar a “alma dos pescadores e o coração dos ateus”. Buscamos apresentar aqui algumas composições populares que tratam do tema do rio São Francisco, é possível que tenhamos esquecidos algumas até mais significativas que estas, mas acreditamos que conseguimos aqui apresentar o panorama da imagem do rio São Francisco na música popular brasileira.

28

tudo quer buscar. 1. fazer uma interpretação também bem intimista da música. nem triste.1.com. o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Que nem alegre.br). Rio.caetanoveloso. com seu violão.Acerca de “O Ciúme”. em 2007. Já ouvi essa música na voz de Geraldo Azevedo que dá uma interpretação um pouco mais ligeira e ao mesmo tempo. “O Ciúme” de Caetano Veloso. Pernambuco. não me ensinas E eu sou só. em Pernambuco.° Congresso Internacional da Abralic.br\site) e o site (www.caetanoveloso. tomávamos uma cerveja e ouvimos o cantor que ali se apresentava.com. cadê Tanta gente canta. Buscamos encontrar a forma de transcrição da letra que mais correspondesse às necessidades poéticas de uma composição versificada. do outro lado do rio. eu Juazeiro nem te lembras desta tarde Petrolina nem chegaste a perceber Mais na voz que canta tudo ainda arde Tudo é perda. eu só. a que melhor representa essa nossa necessidade: O Ciúme Dorme o sol a flor do Chico meio dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte. nossa análise já foi parcialmente apresentada no congresso regional da SBPC. Cremos que aquela que divide a canção em 5 estrofes. próximo à ponte que une a cidade baiana à Petrolina. Bahia Só vigia um ponto negro. sendo as duas primeiras e as duas últimas transcritas como quartetos. nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens de Minas De onde o oculto do mistério se escondeu Sei que o levas todo em ti. Neste breve texto pretendo fazer uma análise da letra desta canção. Canção de Caetano Veloso Uma das canções mais bonitas que fazem referência ao Rio São Francisco é. menos dramática que a dos dois tropicalistas. em 2008. sem dúvida. ocorrido na UNIVASF. na USP. em companhia do amigo Benedito Bezerra. inclusive os sites que se apresentam como oficiais de Caetano Veloso (www. tanta gente cala 29 . do lado de Juazeiro da Bahia. e a estrofe central com 5 versos. assim como também falamos um pouco acerca disso no 11. Assisti a um vídeo no Youtube com Gal Costa e o próprio compositor baiano em belíssimo dueto interpretando a música. A Forma e o Ciúme A letra da canção foi por nós consultada em diferentes sites. Certa feita num bar à beira do Rio São Francisco.

em constante processo de autoidentificação e espelhamento. quanto para o reconhecimento do outro. de espiritualidade e de intuição. existe. isto é. não permite uma escansão tão simétrica e regular quanto a que propomos para as demais. pode ser lido de trás para frente que não modifica o seu valor. o/ meu/ ci/ ú/me (11) O/ ci / ú/ me/ lan/ çou/ su/ a/ fle/ cha/ pre/ta (E) (11) E/ se/ viu/ fe/ ri/ do/ jus/ to/ na/ gar/ gan/ta (11) Que/ nem/ a/ le/ gre. na numerologia é um número de avatar. A ponte funciona nos dois sentidos. as duas cidades. (11) O número 11 é do tipo palindrômico. sobre toda sala Paira./ eu 30 . assim como o palindrômico número 11. 7ª e 11ª sílabas: Dor/ me o/ sol/ a/ flor/ do/ Chi/ co/ mei/ o/ di/a (11) Tu/ do es/ bar/ ra em/ bri/ a/ ga/ do/ de/ seu/ lu/me (11) Dor /me/ pon/ te./ ca/dê (11) Tan/ ta /gen/ te/ can/ ta. esse processo de divisão assume o caráter psico-simbólico de que a separação entre o eu e o outro é ao mesmo tempo um elo para a auto-identificação./ Per/ nam/ bu/ co. em termos numéricos./ Ba/ hi/a (11) Só/ vi/ gia / um/ pon/ to/ ne/ gro. Como./ nem/ tris/ te.ª./ não/ me/ en/ si/nas E/ eu/ sou/ só. uma diante da outra. A estrofe central do poema. E ainda.Tantas almas esticadas no curtume Sobre toda a estrada. com rimas cruzadas./ so/ bre/ to/ da/ sa/la (11) Pai/ ra. Podemos contar os quartetos como formados por endecassílabos./ eu/ só./ Rio. mas a engenhosidade de sua metrificação híbrida e o fato de estar colocada ao centro do poema dá um sentido simbólico à forma: Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas De on/ de o/ o/ cul/ to/ do/ mis/ té/ rio/ se es/ con/ deu Sei/ que/ o /le/ vas/ to/ do em/ ti./ nem/ po/ e/ta (11) En /tre/ Pe/ tro/ li/ na e/ Ju / a/ zei/ ro/ can/ta (11) Ju/ a/ zei/ ro/ nem/ te/ lem/bras/ des/ta/ tar/de (11) Pe/ tro/ li/ na/ nem/ che/gas/te a/ per/ce/ber (11) Mais/ na/ voz/ que/ can/ ta/ tu/ do/ ain/ da / ar/de (11) Tu/do é/ per/da. indo e vindo. Petrolina e Juazeiro estão. é também um símbolo da igualdade e da identificação (1=1). Assim./ tan/ ta/ gen/ te/ ca/la (11) Tan/ tas/ al/ mas/ es/ ti/ ca/ das/ no/ cur/ tu/me (11) So/ bre/ to/ da a es/ tra/ da. o aspecto de que o número 11 é primo. e acentos predominantes na 3./ tu/do/ quer/ bus/car. porém./ mons/ tru/ o/ sa/ som/ bra/ do/ ci/ ú/me. monstruosa sombra do ciúme. não sendo divisível além de por ele mesmo e pelo número 1. o número 11 é formado pela repetição do algarismo primeiro.

no texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. para o homem tornou-se evidente a garantia da paternidade. Aqui começamos a falar do ciúme. dois hemistíquios separados. por analogia. alexandrino. O ser “só eu”. 271) Ver no outro. a analogia com a ponte que une (/do–em/). As razões estão na questão do herdeiro.e. Sílabas pares. por conseguinte. O segundo verso da estrofe é um dodecassílabo com acentos na 4. 31 . o elemento causador do ciúme projetado.G. Os dois versos centrais da estrofe e.ª pessoa do plural. Os dois heptassílabos seriam num sentido significativo da forma da estrofe. no âmbito da relação amorosa ou de amizade é. Desde a antiguidade mais remota. levam a cabo o que nos hemistíquios se apresenta como possibilidade. presente do indicativo. a união masculino-feminino da relação amorosa. sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá. o projetado e o delirante. 1993. Se os juntamos. não obstante.ª.ª sílaba é a última do primeiro hemistíquio do alexandrino e a primeira do hemistíquio seguinte. é preciso que o segundo hemistíquio modifique sua característica de acentuação. temos a possibilidade de formar um verso dodecassílabo: “Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas /E eu/ sou/ só. reflexões. para Freud. Os nomes Petrolina (gênero feminino) e Juazeiro (gênero masculino) formam. daquele filho 2 Carl Gustav Jung. em Freud.se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade”. O ciúme é o processo inverso da autoidentificação na relação de união. Jung. Freud acerca da projeção do ciúme escreve: “O ciúme da segunda camada. para que isso ocorra. é preciso que se modifique algumas características da individualidade. 3. notadamente dos aspectos egoístas do ser. do verbo doer. temos uma distinção de três tipos de ciúmes: o competitivo ou normal. na paranóia e no homossexualismo. sonhos. o número 11. o ciúme projetado. Para C. É preciso reconhecer no outro aquilo que reflete de nós mesmos e saber trabalhar isso. deriva-se. p. e o par é a união. temos na forma. só se mantém em face de tentações contínuas. o que implica em dizer. eu/ só. na verdade. a absolvição de sua consciência . tanto nos homens quanto nas mulheres. o “Ciúme é a falta de Amor” 2 . Já que esta 7. é um sentimento que causa dor a ambos. A origem desse sentimento parece ter causas diferentes. do verso endecassílabo dá a analogia numerológica do que seja essa projeção. Nesse sentido. para que tal união seja prazerosa a ambos. Pode obter esse alívio . que também no processo de união de dois seres. evitando o ciúme. do poema. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade. O terceiro verso é um alexandrino com elisão na 7. ao que se enciúma e ao que sofre o efeito da ação enciumada do outro.ª sílaba. (FREUD: 1976. aquilo que temos medo em reconhecer que existe em nós mesmos. especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio. 8ª e 12ª sílabas. um dos quais. Do-em (doem). implica na quebra da solidão também. O ciúme é doloroso. de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. eu” Porém. ou seja exatamente ao meio do poema.A estrofe pode ser escandida em dois versos heptássilabos e dois dodecassílabos. de Memórias.

Como o amor geralmente é um pré-requisito para o envolvimento de uma mulher em um relacionamento sexual. sentia-se em condição de se dedicar à mulher e arrumar uma ou mais amantes. que se interpõe entre as duas cidades: “Entre Petrolina e Juazeiro canta”. A canção termina nesses termos: “Paira. os sentimentos que buscamos negar em nós mesmos formam uma sombra. Área de Concentração: Psicologia Experimental) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. O brilho do sol refletido nas águas do São Francisco em oposição ao “ponto negro”. como De Steno & Salovey. Uma vez que possui luz própria.G. temos rima lume/ciúme. O homem. implica na perda do que foi feito para outro. admiração. ao se discorrer sobre a temática do ciúme é necessário lembrar que para alguns teóricos.que continuará a obra do pai. no lar. A luz que se reflete. que ao contrário da lua que a reflete. Manter o marido significava a garantia de poder criá-los a bom termo perante as exigências sociais. 2007. pelo menos na cultura ocidental. como em O Arco de Sant’Anna de Almeida Garrett. A ponte que se constrói. Não são poucas as obras literárias que tratam da questão da descoberta da paternidade como elemento definidor da trama. consoante Sheets e Wolfe (2001). no caso da Lua. Não havendo a possibilidade do terceiro. intrínseco do sentimento de ciúme. esse sentimento é exteriorizado pelo eu lírico. maior necessidade de envolvimento emocional para a prática do sexo. unifica ambos. a infidelidade masculina não tem tal implicação porque os homens têm mais condições de praticar sexo sem amor. -. ao passo que a luz que vem de dentro é a da sabedoria. econômicas e morais. Na primeira estrofe da canção. se tomamos o gênero das palavras “Petrolina” e “Juazeiro” para compor a analogia de um casal masculino-feminino. isto faz com que se imagine que a infidelidade sexual feminina esteja associada com o envolvimento emocional com outro parceiro (De Steno & Salovey. O rio é o viajante que vem de longe e se coloca entre Juazeiro e Petrolina. a infidelidade sexual tem diferentes conotações para homens e mulheres. o causador do ciúme entre ambos. fazendo com que seja superada a dificuldade causada pela passagem do rio. Para a mulher. pois o viajante segue seu curso. não existiria razão causadora do ciúme. (ALMEIDA: 2007 3 ) Na letra de O Ciúme. Todavia. tinha sentido diverso. logo é compreendida pelo outro. para satisfação sexual. 1996). orientador Ailton Amélio da Silva. o Sol representa os sentimentos do coração. 234 p. a Sombra do Ego. 1996(a e b). Jung. a admiração que causa a um e o outro a beleza do rio. esse ciúme logo é superado. Na simbologia esotérica. essa luz vem de sua interioridade. é a luz do conhecimento que é preciso adquirir exteriormente. 1996 e Harris & Christenfeld. o investimento na geração de filhos. Para C. Este terceiro é o rio São Francisco. O material reprimido forma um self negativo. por seu turno. de modo que o ciúme pode ocultar o brilho do Sol. A mulher. Como observa Thiago de Almeida: Ainda. A descoberta de uma falsa paternidade. 3 32 . começa por tratar diretamente do rio: “Velho Chico vens de Minas”. Na última estrofe. A estrofe central. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. como tal. Porém. em geral.São Paulo. é preciso que identifiquemos um terceiro. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações / Thiago de Almeida. monstruosa sombra do ciúme”. apenas. sentia.

encontra artifícios para superar a dor da perda iminente pela alegria da descoberta da nova sensação. reduz o valor do canto à expressão de um sentimento que não é de tristeza (drama. dominada pelo ciúme pode. mas o simulacro: “Mais na voz que canta tudo ainda arde /Tudo é perda. que de Juazeiro vieram João Gilberto. restando a solidão. Sigmund. FREUD. Movido por esse sentimento. A tentativa de captar essa beleza vista ali da ponte entre Petrolina e Juazeiro. não me ensinas / E eu sou só. O artista teme perder o que não tem. lhe parece fugidia como as águas do rio passando por sob a ponte e seus pés: “Sei que o levas todo em ti. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações Dissertação de Mestrado.2. na paranóia e no homossexualismo”. Lembremos. eclipsar essa luz do Sol interior.A sombra do self negativo. o criador da Bossa-Nova e Ivete Sangalo. 18. orientador Ailton Amélio da Silva. o reconhecimento dessa impossibilidade (“Sei que o levas”). “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme.4). tudo quer buscar. a obra materializada expondo-se aos seus sentidos. São Paulo. alegria (comédia). 1. é sua tênue possibilidade de vitória. transforma-se em canto isolado: “O ciúme lançou sua flecha preta / E se viu ferido justo na garganta”. quanto são os que os ouvem (“Tanta gente canta. é na canção. 1976. O mistério oculto a que se refere a canção é. unindo-se à própria Natureza. É o reconhecimento da mimesis como um processo de imitação. como aparente parte da cena. na impossibilidade de modificar esse estado de impotência de apreensão da verdadeira percepção da Natureza. pois a obra produzida. O cantar poético também se modifica. A impossibilidade de posse da Natureza causa esse sentimento. 33 . tragédia). o da auto-identificação do eu lírico. Freud. seu canto. pois. que se sente diminuído pela impossibilidade de posse da beleza da Natureza. Porém. ao corpo e à alma. a propósito. pois que a beleza da Natureza. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. leva o poeta a opor seu “ponto negro” de ciúme ao brilho do Sol sobre as águas do rio. Essa obra que substitui o que se perde. nem poética (lírica). O Canto do Ciúme e os sentidos da percepção O ciúme se transforma também no canto do eu lírico: “o meu ciúme” (v. mas enquanto tal. Thiago de. substitui o bem que não se pode ter. Busca incessante de apreensão do belo que resulta no moto contínuo da própria arte. A obra humana que se apresenta bela por desafiar a Natureza e conjugar-se no cenário. pois. Imago. musa da música bahiana contemporânea. quando na verdade é artificial. Agora o ciúme é o do artista diante da Natureza. eu”. In: S. Referências Bibliografias: ALMEIDA. e a obra de arte a expressão desse ciúme. numa visão trágica. A vida sob o Sol. não é a verdade. Rio de Janeiro. transgredindo-a. Ferindo a garganta. endurecendo-se aos sentimentos como se fossem peles “esticadas no curtume”. mas apenas a indiferença do distanciamento causada pela modificação da memória (épica). é também o maior trunfo do artista. Nessa atitude inicial de consolação. 2007. se reduz. representada pela ponte. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. tanta gente cala”). Tantos são os cantadores da beleza. eu só. Vol. cadê”. 2. se dedica a tentar aprender um modo de controlar o que não consegue conquistar. a dor causada pelo ciúme tira a aura da canção. mas tal tarefa é fadada ao fracasso do simulacro. 234 p. eis o mistério.

Do São Francisco ao Mississipi: O Rio e o Homem na Música Popular. 34 .

Essas raízes medievais aparecem em composição de Carlos Pita (no disco Águas do São Francisco.Neste capítulo tecemos algumas considerações acerca das representações do rio na música popular brasileira e norte-americana.ex. ocorrendo ocasionalmente. Xangai e Vital Farias). de Moraes Moreira. O rio como cenário bucólico do idílio amoroso não é um tema muito significativo. tendo como nome atual. que por vezes. atualmente recuperado pela prefeitura de Juazeiro é um dos pontos turísticos da cidade. qual sejam as raízes da poesia de cordel e do trovar dos repentistas. transpondo para o sertão aspectos do sebastianismo messiânico. é possível ler este sem ler aquele. Rebatizado no Brasil com o nome de “Saldanha Marinho” o vapor navegou de 1871 a 1970. Outro elemento constante nas músicas acerca do rio São Francisco é a referência à ponte que une Petrolina e Juazeiro. Criou-se.ex). de certo modo. que este texto tem de certo modo um pré-requisito de leitura que o que se intitula “O Rio São Francisco como tema de MPB”. inclusive. é uma das mais movimentadas do país. em Geraldo Azevedo (“Barcarola do São Francisco”. se o leitor considerar que já tem alguma noção acerca das músicas que aqui serão citadas. O primeiro vapor a navegar as águas do rio São Francisco veio dos EUA. é relativamente comum no caso da cultura brasileira e um tanto quanto um pouco mais raro no caso da cultura norte-americana. Esse sertão medieval tem raízes históricas no processo de colonização portuguesa. como na música de Gino e Geno. para tanto tomamos como base o São Francisco no caso da geografia cultural brasileira e a bacia do Mississipi-Missouri no caso da norte-americana. de Sá e Guarabira. da fórmula e composição na medida velha. A de que em noites de lua cheia. São Paulo e Rio de Janeiro principalmente. princesas e encantamentos. cavaleiros. traz na memória lembranças da infância vividas à beira rio. a construção de represas (“Sobradinho”. porém. povoando o sertão dum imaginário de reis. Como memórias dessa voz lírica imigrada. das novelas de cavalaria e poesia palaciana. p.ex. A ponte construída em 1950. música incluída em disco produzido com Elomar. a infância que fala é feita de lembranças compostas pelas imagens dos barcos (gaiolas).). num processo de formação da voz lírica da letra da canção. do polêmico projeto de transposição das águas do rio (“O Velho Chico”. Outro aspecto constante nas músicas que tratam do tema do rio São Francisco são as lembranças de infância. tem uma raiz de caráter medieval. Em várias canções a ponte é citada geralmente como signo de união. O “vaporzinho” como é chamado navegou antes nas águas do Mississipi e hoje é aberto à visitação na cidade de Juazeiro (BA). de ligação. o autor se imagina um homem que tendo deixado a região. uma lenda acerca do vapor. de Sílvio Brito. “As Águas do São Francisco”). p. Cultura essa. p. Cabe lembrar. Ponte Presidente Dutra. O que convenhamos. Em algumas canções se trata da questão da interferência do homem no curso da rio. Mesmo que o compositor não tenha passado a infância na região do propriamente dita do vale do rio. O Rio São Francisco na música popular brasileira tem sido representado como rio que em sua bacia guarda uma rica cultura regional. Tal processo tem suas bases na corrente de imigração sertaneja-nordestina para as capitais litorâneas ou para o sudeste do país.) e da força da natureza em resposta às interferências (“São Francisco”. das carrancas – estas geralmente trazendo o medo na memória da criança – e a vida ribeirinha. 1979). a tripulação fantasma do barco sai pela cidade de 35 . o que não é difícil para boa parte dos leitores que têm o hábito de escutar música brasileira e música norte-americana.

Espécie de recriação da lenda do Holandês Voador. selvagens. No âmbito da música popular. O rio está ligado sob vários aspectos ao processo de expansão territorial dos Estados Unidos. levees goin to break. eternizada em ópera de Wagner. All last night sat on the levee and moaned. rudes. ainda. levees goin to break. A bacia do Mississipi-Missouri era assim uma espécie de fronteira era o Nordeste dos Estados Unidos. A bacia do Mississipi-Missouri corta a região central dos Estados Unidos e tem a foz no sudeste no estado de Louisiana. Em 1927 houve uma grande cheia do rio Mississipi que desabrigou centenas de milhares de pessoas. urbanizado e livre com as terras d’além do rio e do sul. podemos dizer que simbolicamente este barco conheceu os dois rios e pode. o percurso Mississipi-Missouri tem 6700 quilômetros. saber das semelhanças e das diferenças entre os dois rios. Mas se o vapor navegou nas águas do Mississipi e nas águas do São Francisco. comparando. civilizado. não terei onde ficar”) O desespero dos desabrigados. Trataremos brevemente de algumas. mas que originalmente é um blues de Menphis Minnie e Joe Maccoy. inúmeras são as canções que tratam direta ou indiretamente do rio. O Missouri é o maior afluente do Mississipi. social e política. como ninguém. tendo inclusive uma extensão maior que a do próprio Mississipi. a Inglaterra e a Espanha acabaram por deixar os Estados Unidos com um imenso território. sempre que possível com composições brasileiras relativas ao rio São Francisco. Em sua memória está ecoando as canções norte-americanas e brasileiras acerca desses rios. A navegação a vapor e as obras de construção de canais e represas estiveram ligadas à história da ocupação daquela região. considerando no conjunto.Juazeiro a seqüestrar pessoas – principalmente moças – para uma viagem pelo rio.” 36 . Uma das composições mais impressionantes sobre as enchentes do Mississipi é “When the levee breaks”. as barragens irão romper Quando a barragem romper. terminando por conseguir do México a Califórnia. Obras de contenção e de regularização do fluxo de águas foram construídas no intuito de estabilizar a vazão das águas durante o período anual de cheias. A guerra civil americana bem demonstrou essa dicotomia cultural. If it keeps on rainin. recriada pelo Led Zeppelin. Thinkin bout me baby and my happy home. daqueles que perdem tudo por causa das inundações é retratado de forma direta nos versos dessa canção: “All last night sat on the levee and moaned. várias guerras e disputas com a França. A letra é direta e crítica sobre os danos que causam as enchentes do rio e mostra a incapacidade do homem de dominar a Natureza.” (“Se continuar chovendo. When the levee breaks Ill have no place to stay. Após a independência das treze colônias britânicas em 1776. só superada pela cheia de 1993. no mais das vezes. as barragens irão romper Se continuar chovendo. “If it keeps on rainin.

A ironia também se apresenta no modo como se apresenta o presidente. pela pouca ação nos problemas sociais e pelo abandono ou veto de projetos que ajudassem o campo e regiões menos favorecidas. No verso final. Lembremos aqui da canção gravada por Gino e Geno." (“O Presidente Coolidge veio num trem da ferrovia Com um homenzinho gordo com um bloco de nota nas mãos O Presidente disse. então presidente dos EUA: “President Coolidge came down in a railroad train With a little fat man with a note-pad in his hand The President say. se vê a preocupação com os “crackers”. "Little fat man isn't it a shame what the river has done to this poor crackers land. o que sugere algumas soluções paliativas e de gabinete. A canção começa com a apresentação do quadro da tempestade e da enchente: “What has happened down here is the wind have changed Clouds roll in from the north and it started to rain Rained real hard and rained for a real long time Six feet of water in the streets of Evangeline” (“O que aconteceu aqui é que o vento tudo mudou Nuvens vieram do norte e começou a chover Choveu de verdade muito e choveu por muito tempo mesmo Seis pés de água nas ruas de Evangeline”) Numa estrofe final. como eram chamados os brancos pobres (literalmente “os quebrados” – sem grana.(“Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Pensando no meu bem e no meu lar feliz”) Randy Newman compôs Louisiana 1927. Vemos aqui que o idílio amoroso. afinal não se diz que ele veio com o exército ou uma equipe de salvamento. vindo de trem com um “little fat man” e seu bloco de notas. Sua política era marcada pelo conservadorismo. numa espécie de ultra-romantismo acrônico serve de motivo para que não se veja os danos que a enchente traz às populações 37 . em 1927 a segregação racial era forte nos Estados Unidos e na fala atribuída ao presidente.”) Calvin Coolidge era vice de Warren Harding. a ironia. sem dinheiro). “Homenzinho gordo é uma vergonha O que o rio fez com os brancos pobres dessa terra. fazendo referência histórica a uma das maiores enchentes da foz do Mississipi. assumindo a presidência com a morte deste. Randy Newman contextualiza historicamente a cena ao citar o presidente Coolidge. sendo Louisiana uma cidade cuja população era em maior parte negra. em que se pede para que São Pedro aumente a enchente para que o personagem lírico da canção possa continuar com um álibi para continuar nos braços de sua amada e não ter que atravessar a ponte. Águas do São Francisco.

38 . Bombar água pra subir” Em outras duas estrofes. Proud mary keep on burnin. complementares. rollin on the river. de apadrinhamento e de elitização da política. rollin. não Orós e Castanhão Têm volume abissal Esbanja a elite água de irrigação Enquanto mata de sede o irmão em seu quintal” Assim. não falta água. porém. música na qual se coloca o cenário dos vapores que navegavam no Mississipi: “Big wheel keep on turnin.ribeirinhas. Vão cobrar o olho da cara. com letra que critica a política governamental. No contexto social. sugerindo que a obra favorece a elite e despreza de fato a ajuda ao povo que sofre com a seca: “O que será de todos nós sem o Velho Chico As suas águas já sem forças pra seguir E vem um bando aventureiro cabotino Dar ao rio outro destino. Dércio Marques em canção mais ousada. o fato é que os projetos não são excludentes. em ritmo de rancho carnavalesco. Dércio Marques apresenta um engajamento com versos mais refenhos em defesa de seu ponto de vista. o que falta é vontade política de fazer a correta distribuição das águas dos açudes: “Deixa não vingar transposição Pra criar camarão Em nome do vil metal A nação se ufana em exportação Enquanto o povo do rio tem fome em seu quintal No Ceará. um desatino Sertão divino é convivência seu porvir Povo vizinho ao rio não tem acesso à água Como pode dar a água se o filho não tem para si? É ilusão a redenção fartura d´água. mas sim. melhor se dá Sílvio Brito que em O Velho Chico sugere um projeto de revitalização em oposição ao de transposição das águas. Rollin. Dércio Marques alude ao fato de que as águas servirão para criação de camarão como produto de exportação e que nas regiões que mais sofrem com a seca. Rancho Eterno Chico. fazendo duras críticas às práticas de favorecimento.” (A grande roda girando. desviar onde ele ir Mas que delírio de poder. O grupo Creedence Clearwater Revival compôs Proudy Mary.

além das aventuras do rapaz que mora num barraco às margens do rio. Mas eu nunca vi o lado bom da cidade. Blues da autoria de Kern e Hammerstein.” (“Ele não planta batatas. he just keeps rolling along. Pumped a lot of pain down in New Orleans. Outro livro de Mark Twain. música que faz referência a um dos personagens da literatura americana mais característicos do rio Mississipi. Mas então o que ele planta são filhos esquecidos. médio Mississipi. de como seus momentos de lazer se faziam quando navegavam nos vapores em direção à New Orleans: “Cleaned a lot of plates in Memphis.”) Louis Armstrong gravou Moon River. But them that plant 'em. Que o Rio Velho. and we all know he don't pick cotton. O título é uma referência a um dos “apelidos” do rio Mississipi. Rolando. até a foz. ele apenas guarda rolando por aí. de Mark Twain. oh yes he does.”) O percurso de Memphis. com Rod Stewart cantando. Sondando muita dor em New Orleans. that Old man river.” Comenta-se da vida dura dos trabalhadores. til I hitched a ride on a river boat queen. sim. e tem um capítulo dedicado a um dos maiores ladrões que viveram às suas margens. Nessa obra. estado do Tennesse. teve uma brilhante versão pelo Jeff Beck Group. Rolando pelo rio. John Murrell. Life on the Missisipi. Rolando. Até que eu desci o rio de barco. are soon forgotten. Ol’ Man River é uma das canções que tratam da vida dos trabalhadores nas fazendas de algodão na bacia do Mississipi. New Orleans. Huckleberry Finn. é isso aí.Altiva Mary vá queimando. chamamos o São Francisco de “Velho Chico”. “He don't plant tater's. Na canção Moon River lemos: “Two drifters Off to see the world There's such A lot of world to see We're after The same rainbow's end 39 . e nós sabemos que ele não colhe algodão. But I never saw the good side of the city. assim como aqui. conta a história do rio. estado de Louisiana era o trecho mais navegado do rio pelos vapores.” (“Limpando muitos pratos em Memphis.

Não é por acaso que em New Orleans e Memphis temos o berço do blues e do jazz. no Nordeste brasileiro. são temas constantes de várias músicas que giram em torno do cenário do Rio Mississipi. a navegação dos vapores como diversão e em geral. Tal visão parece ter suas raízes no processo de colonização português. O primeiro homem é o que sofre a força da natureza ou de outro homem. No caso da cultura do Mississipi os conflitos se regem pela tríade homem x natureza x homem. Veremos o fim do arco-íris.Waitin' 'round the bend My huckleberry friend Moon river And me. em Moraes Moreira. eivado de reis. Esperando-nos na curva do rio. num procedimento típico do imaginário medieval. O Rio-lua E eu. o sofrimento do polígono das secas e as enchentes do rio. o segundo homem 40 . Por outro lado. cavaleiros e natureza mágica. o Rio São Francisco. em Geraldo Azevedo. a idéia de que a vida em torno do rio é dura.” Na cultura do Rio São Francisco. com suas raízes musicais negras.”) Assim. e mesmo numa canção engajada como a de Silvio Brito lemos versos como: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza. princesas. E há um bocado De coisas no mundo para ver! Nós.” (Dois vagabundos livres para ver o mundo. nas constantes enchentes do rio e na situação de pobreza que boa parte da população ribeirinha viveu em contraposição à riqueza e à fartura das grandes cidades americanas. Deus. uma religiosidade católica exacerbada e mitos messiânicos de feição sebastianista. em que se pese a pobreza de suas populações ribeirinhas. instalada após a guerra civil americana. o sofrimento dos trabalhadores. Assim. que trouxe uma cultura de caráter medieval. econômicos e políticos são apresentados como entre o destino do homem e os desígnios dos céus. o que domina o imaginário de muitas das canções acerca do rio da integração nacional é um cenário imaginário dum sertão medieval. depois. Assim temos exemplo nas composições de Carlos Pita em Águas do São Francisco. os beatos têm um papel fundamental no imaginário cultural da região para mediação e solução dos conflitos. na segregação racial. Tal visão tem fundamento no trabalho escravo durante os séculos XVIII e XIX. Meu amigo Huckleberry. os conflitos sociais. os santos católicos. cheia de lamentos e dor.

rezar não adiantará muito Não! Chorar agora não irá te ajudar. fundado no conflito entre a cultura negra. cryin won’t help you. escrava e a branca. européia. mama. When the levee breaks. parece ser bem mais pragmático. você terá que se mudar”) São. Nega. you got to move. Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira Nesse capítulo buscamos apresentar interpretações acerca do modo como o Rio São Francisco é colocado na poesia brasileira num panorama que vai do Romantismo até a Literatura Contemporânea. ocultado pelo espelho da introspecção criativa que busca no imaginário medieval razões para acreditar na concretização de profecias acerca dum futuro melhor ou na ação providencial da mão divina. duas diferenças fulcrais no modo de encarar a realidade circundante. o conflito é velado. O panorama foi montado de forma a não ser apenas 41 . por exemplo nos versos da canção When the Levee Breaks: “Cryin won’t help you. No caso do rio Mississipi.” (“Chorar não irá te ajudar. prayin’ won’t do you no good. o modo de tratar o imaginário em relação ao rio.é o que se beneficia desse conflito. É o que vemos. pois. prayin’ won’t do you no good. Now. No caso do rio São Francisco. rezar não adiantará muito Quando a barragem romper.

Após a apresentação do cenário da tarde. intocada. / Que a perna te esconde em vão. Após ser convencido por Maria a evitar a vingança. inclusive do século XVIII..” Mais adiante o mesmo poema. pois. tanto no nível semântico.. p. Desde uma imagem romantizada da Natureza intocada até às preocupações com os danos que a civilização urbanizada causa ao meio ambiente.. paisagem vai progressivamente escurecendo. / Sutis vaga-lumes / Acendem os lumes / Pra o baile na flor. / Que se banha nas termas do oriente. “Tarde” tem versos como “Hora meiga da Tarde! Como és bela / Quando surges do azul da zona ardente! / . mas não encontra sua amada.. Os personagens do drama são o escravo Lucas e sua noiva Maria. 77) Não é por acaso. resolvem navegar até a Cachoeira de Paulo Afonso. que fazem seu lar. cheia de vida: “Ali das bromélias nas flores doiradas / Há silfos e fadas. acaba encontrando-a vagando numa canoa como que buscando a morte.Tu és do céu a pálida donzela. Passando por Castro Alves. Castro Alves e as Imagens Clássicas e Românticas O primeiro grande texto de poesia brasileira a tratar do Rio São Francisco foi o livro A Cachoeira de Paulo Afonso de Castro Alves (1876). Procurando por ela. já em voga no Romantismo desde a primeira geração: “Onde Vais à tardezinha / Mucama tão bonitinha / Morena flor do sertão? / A grama um beijo te furta / Por baixo da saia curta. em lindos cardumes. Assim.. 1980. Marisa Lajolo e Samira Campedelli assim comentam o aumento da tensão dramática na obra: “Como que acompanhando o aumento da tensão dramática do primeiro para o último poema. no poema homônimo seguinte. na floresta / Rolar o som da funeral orquestra!!!”. quanto estético e formal. considerada inútil diante da opressão que a condição de escravos os condena.” O terceiro poema. a poesia brasileira quando se propôs ao tema soube mesclar na linguagem poética diversos aspectos dessas imagens e preocupações. de forma que o cenário da morte coincide com a escuridão noturna. 1. Descobre que Maria fora violentada.historiográfico e exaustivo. “O Baile na Flor” apresenta a descrição de uma natureza rica. entre outros. Composto de 33 poemas A Cachoeira de Paulo Afonso forma uma espécie de narrativa dramática.. depois de algumas negativas. / E. querendo vingar-se indaga da amada o autor da sua desonra. de onde se precipitam na canoa num ato delirante que simbolicamente representaria suas núpcias. o poeta nos mostra Lucas voltando para sua cabana. exuberante. Dantas Motta. apresenta um entardecer em que os sons da natureza parecem pressentir o desenlace fatal: “Contemplando o infinito.” Este poema é também uma das mais ousadas experiências formais de 42 .. João Cabral de Melo Neto. Maria conta que o autor trata-se de seu meio-irmão. é com Castro Alves que este cenário brasileiro ganha uma dimensão lírica que ainda não havia tido na poesia brasileira. em belíssimo contraste com a brancura das espumas da cachoeira” (LAJOLO & CAMPEDELLI. mas antes compor um painel cuja amostra deva esboçar as diferentes visões ecológicas e sócio-culturais que moldaram a imagem do Rio São Francisco em diferentes épocas.. o prenúncio do fim do dia acompanha o ato final dos amantes. passando pela preocupação com o registro e a preservação de uma cultura local. Maria. que o primeiro poema.. e.. filho do senhor.. é apresentada de modo bem ao estilo da verve cabocla e sertaneja. Embora possa se encontrar citações eventuais em outras obras poéticas de autores anteriores.

.......) Houve pois um braço estranho / Robusto.... o que cria uma contradição entre calmaria e ataque iminente..... / Espantado a gritar”.. Mas rubro é o céu... O quarto e quinto poemas compõem a metáfora da violação tanto de Maria quanto da Natureza... uma vez que a mancha do texto na folha busca sugerir a forma de uma flor... “Mãe Penitente” e “O Segredo” vão revelar o laço sanguíneo entre Lucas e o agressor de sua amada.. O próximo poema “Diálogo dos Ecos” compõe uma cena em que Lucas parece conversar com o eco num verso solitário que se segue à cada estrofe: “Maria. nele.... tamanho. vai de encontro ao abismo.. O ponto de exclamação do verso final da estrofe... feroz... que tombam sobre o rio.... seguido de reticências e uma linha pontilhada compõe o ritmo que insinua o perigo. que cintila... Segue-se o poema “Crepúsculo Sertanejo” que inicia com o verso “A Tarde morria! Nas águas barrentas” e os poemas “O Bandolim da Desgraça” e “A Canoa Fantástica” que vão preparar a entrada do cenário em que os dois amantes resolvem ir em direção do abismo..tombam as selvas seculares.. / Que pode esmagar-te assim?.. Recresce o fogo em mares... sabemos que Maria está a vagar perdida em sua canoa: “Lá no meio do rio.. “Tirana” e “Senzala” apresentam a chegada de Lucas e a descoberta da ausência de Maria..Castro Alves. // E o eco responde: .... Esses ninhos. E tudo se acabou!..... Como o dorso de enorme crocodilo.. .. E onde em meio das flores vão chilrando -Alegres sobre o abismo – os passarinhos!. a natureza é violentada pela ação do homem: “A floresta rugindo as comas curva. 43 ... Na última estrofe a destruição causada pelo fogo é apresentada de forma apocalíptica: “Então passa-se ali um drama augusto..Sim!” A partir daqui os 11 poemas seguintes vão apresentar um crescendo do drama em que Lucas encontra Maria vagando na canoa e busca compreender o que lhe acontecera.. A canoa é comparada com um ninho que caiu sobre as águas calmas e desconhecendo o perigo.. / As asas foscas o gavião recurva. O rio é metaforizado na imagem de um crocodilo...” A estrofe é brilhante na conjugação da cena dramática e dos recursos poéticos.......... N’último ramo do pau-d’arco adusto O jaguar se abrigou.” Os três poemas seguintes – “Lucas”... Os quatro poemas seguintes – “História de um Crime”.. Já manso e manso escoa-se a canoa. E após. pobre criança / Que fazes tu sobre a terra? // E o eco responde? – Erra! (.. O quinto poema é “A Queimada”........... Parecia.. “Último Abraço”.. Em “A Queimada” (quarto poema). até o momento em que a noiva se vê convencida a contar o nome do agressor. assim vista ao sol poente.

/ . Lembra-me que Joaquim Inojosa foi o agente de ligação com os rapazes de São Paulo..... / De grinaldas em flor tecendo a arcada / São arcos triunfais de tua estrada!. “Vem – à busca talvez de desafogo / Bater à porta da Baiana altiva.... e o céu!. o futuro autor de Catimbó entregou os pontos.. Envolvido que estava com a causa abolicionista. quanto a função colonizadora que as populações caboclas tiveram no povoamento do Vale do São Francisco. Mais ao final do poema evoca-se o mito de Laocoonte para efeito de comparação: “Grupo enorme do fero Laocoonte / Viva a Grécia acolá e a luta estranha!. dos cantões bravios”). / A canoa rolava!. bem longe..” “A Cachoeira” constrói uma imagem metafórica de grande tensão... o rio é denominado de “Nilo brasileiro”.... II). 2.... / Nas verdes canas o gemente rogo / Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva” (est... Destaca-se na primeira estrofe a distância que o rio corre pelos sertões (“Longe.. / Do sacerdote o punho e a roxa fronte... de lamber demente / As rijas formas da cabocla linda”(est.” Nesse verso final de coloração fundada num oxímoro.. assim como a extensão do rio (“Do São Francisco a soberana vaga / Léguas e léguas triunfante alaga!”). vingança / perdão... luz / trevas.... Manuel Bandeira em prefácio escreve: “Não sei quando o movimento modernista se propagou ao Recife.. Os coqueiros e cipós são vistos poeticamente como arcos a ladear todo o curso do rio: “Como pontes aéreas – do coqueiro / Os cipós escarlates se atirando..”... que permearam todo o poema.... sânie..)/ Viramno aos beijos. Abriu-se a um tempo / O precipício!. O percurso do rio pelas então províncias de Minas Gerais e Bahia é trabalhado de forma a personificar as regiões como mulheres cortejadas e amantes do rio: “-Linfa Amorosa – co’a nitente espuma / Orlava o seio da Mineira linda (... água / terra..... / Co’a serpente no dorso parte o touro... A Revisão Modernista do Drama Romântico: Ascenso Ferreira Ascenso Ferreira (1895-1965) foi um dos nomes mais importantes da divulgação das idéias modernistas em Recife. / E as serpentes de Tênedos em sanha!.... tredos.O poema “O São Francisco” apresenta a visão de Castro Alves do rio../ Titubantes – no álveo do rio – tremem as lapas dos titães coevas!.. Castro Alves busca concluir as contradições entre vida / morte.. Assim se abre o poema: “Mas súbito da noite no arrepio / Um mugido soturno rompe as trevas.Um beijo infindo suspirou nos ares. / Como filhos – chorando-lhe – os penedos!!!. Castro Alves soube colocar nesse conjunto de poemas tanto a questão da opressão sobre o escravo.. babando.” Os quatro últimos poemas retomam a narrativa dramática dos dois amantes e vão num crescendo preparando o momento em que a canoa se atira pela cachoeira: “. Ascenso a princípio não quis saber da novidade. A luta entre a serpente-rio e o penhasco-touro ganha contornos de grandiosidade mitológica: “A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo! / A briga colossal dos elementos! / As garras do Centauro em paroxismo / Raspando os flancos dos parcéis sangrentos”. numa forma de comentar poeticamente a função irrigatória que o rio exerce sobre vasta região do sertão nordestino.” 44 . / Por hidra – um rio! Por augure – um monte! / Por aras de Minerva – uma montanha! / E em torno ao pedestal laçados. III). o rio é metamorfoseado numa serpente e as rochas que formam a queda d’água são vistas como o corpo de um touro: “Então doido de dor.” O poema seguinte. “A Cachoeira” busca apresentar o cenário do clímax dramático do poema... Mas quando Guilherme de Almeida passou em Pernambuco e declamou o seu poema ‘Raça’ no Teatro Santa Isabel.... Na última estrofe do poema.. natureza / homem.

(FERREIRA, 1981, p.11). Sérgio Milliet, comentando a obra de Ascenso, observa como o grupo de modernistas do Recife conseguiu uma certa autonomia estética em relação ao modelo de São Paulo: “Na renovação poética do Brasil, já observou Manuel Bandeira, o grupo do Recife escapou à influência imediata e imperialista dos modelos europeus. Da revolução que se iniciou em São Paulo só lhe interessou a liberdade conquistada.”(FERREIRA, 1981, p. 14). Em Xenhenhém, conjunto de 25 poemas publicados em 1951, encontramos um intitulado “O Meu Poema do São Francisco”. O poema começa com quatro versos anafóricos: “É Cabrobó! / É Orocó! / É o Ibó / É Curaçá!...” São nomes de cidades na divisa entre Pernambuco e Bahia. Do lado de Pernambuco (Cabrobó, Orocó e Ibó) ficam na região do rio e da serra de Ouricuri, do outro lado do São Francisco está Curaçá, na Bahia. A sonoridade dos nomes das cidades é explorada poeticamente. Em outro poema, “Sertão”, do livro Catimbó, também o poeta utiliza o efeito de explorar a sonoridade dos nomes das cidades, só que cria um itinerário diverso, partindo de Cabrobó em direção do sertão, até Exu, nome já evocativo das dificuldades e agruras do semi-árido: “Sertão! – Jatobá! / Sertão! Cabrobó! / -Cabrobó! / - Ouricuri! / -Exu! / -Exu!”. No poema do São Francisco, Ascenso Ferreira após a apresentação dos nomes das cidades, coloca um dístico que é o estribilho do poema: “Meu Deus, ela veio das bandas de lá! / Meu Deus, ela veio das bandas de lá!”. O viajante pede ao barqueiro que siga a voz encantada de mulher que segue pelo curso do rio: “Barqueiro, me traga o meu reco-reco, que eu quero chamá-la para um xenhenhém... Que nada! Ela é sempre para mim como um eco Que longe responde, porém nunca vem... Barqueiro, desçamos pelo rio abaixo... Vamos ver, barqueiro, aonde ela está.” A seguir, utilizando a mesma estratégia inicial, Ascenso apresenta o nome de quatro localidades baianas, tirando novamente o efeito estético de suas sonoridades: “Chorrochó / Cocorobó / Patamuté / UAUÁ!”. Este último nome de cidade é grafado com maiúsculas, chamando a atenção para o som do nome que se assemelha ao do choro, evocando o sentimento melancólico do eu-lírico em busca da voz de mulher. Após a repetição do estribilho e de novo pedido ao barqueiro que continue seguindo rio abaixo, segue-se novamente o nome de quatro cidades às margens do rio São Francisco, porém, agora elas não rimam nem supõem uma harmonia sonora com a mesma intensidade musical das anteriores: “E é Floresta / Itacuruba / Santo Antônio, / Jatobá!” Essa quebra de ritmo funciona no poema como aviso de que as águas tranqüilas do rio serão interrompidas, assim avisa o barqueiro: “-Passageiro, volte que lá é a cachoeira. É morte na certa, não teime, não vá!” O verso solitário a seguir é acompanhado por reticências e uma linha pontilhada – recurso que já notamos em Castro Alves – e o nome da cidade que evoca o choro: 45

“-Barqueiro, ela chama é mesmo de lá... ............................................................... -UAUÁ!!!” Em Ascenso Ferreira, como em Castro Alves, o percurso do rio cria um crescendo dramático até a cachoeira de Paulo Afonso. Em ambos, a busca da morte parece o objetivo dos navegantes como forma de fuga das desilusões da vida, a morte na cachoeira como representação também de um ritual de passagem para uma dimensão mágica da existência. 3. Dantas Motta e a Transposição do São Francisco para um Imaginário Sincrético de caráter cristão. Elegias do País das Gerais (1958), livro de poemas de Dantas Mota (1913-1974) apresenta um grande conjunto de poemas divididos em “livros” como se articulassem a estrutura de um grande livro sibilino. Referências bíblicas se misturam às figuras históricas do Brasil. Paisagens das terras bíblicas são metáforas constantes das paisagens visitadas por Dantas Mota em Minas Gerais e no Nordeste. Mário de Andrade numa das cartas que escreveu ao autor diz: “Suas Elegias das Gerais estão prontérrimas, lindas e re-relidas e anotadas.”(MOTA, 1988, p. 330). Uma das partes da obra Elegias do País das Gerais intitula-se “Quarto Livro: Epístola de São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, o Vale”. O título já nos apresenta uma sobreposição entre a figura do santo e do rio. No poema, o rio é a voz lírica que narra acerca de seu próprio curso e sua história de colonização. Acerca desse “Quarto Livro”, o próprio poeta em carta a João Condé escrevia: “Fui assim, à pasta a buscar os petrechos necessários à tosa, encontrando-os embrulhados numa página do suplemento ‘Sintra’ e, dentro dela, vista de cara, a seguinte notícia: ‘Em Aracaju, reuniram-se, na semana passada, os Bispos da Bacia do São Francisco para estudar os problemas advindos de sua transformação.’ Mais ou menos isso. Dessa notícia nasceu a idéia do poema, informe, imprecisa e vaga, com a visão de Jerusalém carregada de bispos, tetrarcas e ametistas, postados todos em Aracaju, a qual depois, era transunta do sergipano país para este, o das Gerais, e que tantos males tem infligido a este Brasil, por força de sua intemperança no juro, na política e nos juizados da paz.” (MOTA, 1988, p. 339) O discurso do rio é marcado pela dor, pela angústia de ser o rio que atravessa a região mais árida do país, estigmatizada pela pobreza, pelo abandono: “Ora, toda unidade é estéril e todo mistério, terrível. E me fizestes uno, misterioso e triste, Não segundo minha paisagem interior, de pobreza, Que estava certa, mas conforme vossa jurisdição, Que ia desde Paracatu do Príncipe, No País das Gerais, Até Olinda e Recife, no País de Pernambuco!” 46

Em determinado momento, buscando apresentar a nascente do rio, Dantas Mota nos mostra o rio comparando sua nascente na Serra da Canastra com um caixão e os peixes com o corpo do morto “Ora, tudo o que se verificar aquém e além dele (o caixão) / é um mistério de unidade estéril (...)// De vez que todo caixão é aquário, / e, como tal, é ele o invólucro; / e o corpo, que dentro dele navega, / sob um céu de morim barato, / o peixe facilmente deteriorável”. Personagens e cenários bíblicos aparecem em constância para compor a imagem desse rio triste e angustiado que é o São Francisco de Dantas Mota: Cristo, Melquisedeque, José, Jerusalém, Eufrates, Cativeiro na Babilônia, etc... A população ribeirinha é apresentada como a descendência de Agar: “Em verdade, subindo vou o Setentrião, / enquanto meus habitantes o Setentrião descendo vão / -Felás de um tempo redivivo, / tormentados com Hórus /(...)/Porque, apesar das secas e dos desertos / (gente proscrita da progênie de Agar) / há uma paisagem de riacho e rugas / nas faces chicoteadas de sol e peixe”. Em contrapartida Lampião, Canudos, e outros personagens e cenários do Nordeste são evocados misturados aos bíblicos: “E, provando a procedência deste razoado, / Uns homens sem respeito para a minha vergonha. / E a república, que triunfou de Canudos, / Batendo, depois, além dele, meu rei Lampião, / No qual, com o ser o meu renovo, me comprazo, / Aqui, empós alguns lustros e sóis passados, / Se sublimou em tetrarquias com os Cunegundes, / os Pantaleões, os Batista e os Santa Bárbara. / Afinal morri. Primeiro em vós. Depois em mim”. Desse modo, as revoltas populares, tanto a do cangaço (Lampião), quanto à mística-beata de Antônio Conselheiro são apresentadas como representativas do povo do São Francisco, ao passo que a República é – retomando uma colocação do próprio Antônio Conselheiro – como a Babilônia. Dantas Mota buscava desse modo fazer a crítica do abandono e do flagelo que a região do semi-árido se encontrava. O episódio do velho testamento referente ao cativeiro na Babilônia (Jeremias) é amalgamado poeticamente à vitória violenta e sangrenta da república sobre Canudos e sobre Lampião. O coronelismo que dominou a política regional se apresenta como o período de cativeiro propriamente dito, neste sentido o povo nordestino da região do sertão estaria em condição semelhante aos hebreus no cativeiro da Babilônia. A seguir, em “Recuperação do Paraíso”, o rio no seu discurso nos diz que deixou sua condição de rio natural para ser uma autarquia. A ironia se refere à construção da hidrelétrica de Paulo Afonso, a primeira grande hidrelétrica construída no seu curso. Delmiro Gouveia que em 1913 iniciou o processo de aproveitamento energético do rio São Francisco construindo a usina de Angiquinhos que aproveitava a força da cachoeira de modo parcial, mas cujo efeito posterior foi incentivar projetos maiores. Em 1948, Getúlio Vargas procede à criação da Chesf e se inicia a construção da Usina de Paulo Afonso, terminada em 1954, até então a maior usina hidrelétrica do país. “Morri eu afinal, que de Francisco mais não sou, Porquanto, hidrelétrico, em autarquia transformado fui.” O discurso do rio ironiza o processo de eletrificação, que de princípio atendeu aos interesses políticos dos coronéis, pois de fato, pequenas propriedades e até mesmo algumas cidades ficaram sem a energia de Paulo Afonso: “Uma lâmpada de mil velas brilha no fundo do inferno”. O trecho final, “As Alegorias em Trânsito”, nos apresenta um anjo 47

os escravos fugidos. escreveram e pintaram acerca da flora e fauna brasileiras: Henderson (Vem pintar. Os missionários conquistaram as almas”. porém. ali. a sociedade anônima. / de tarrafa. / Ou autarquias que o fero Estado cria.” O rio compara sua nova face transfigurada com as batalhas que marcaram o início da reação russa contra a invasão nazista que. a convite da corte imperial. / Esquecidos de que eu também posso ser / A curva de Dniéper / O cotovelo do Don. deixa. O garimpeiro deflorou a terra. estudaram. A conquista do rio é mostrada como a defloração violenta da natureza: “E todos eles defloraram o rio. beatos como Antônio Conselheiro e os jesuítas são postos lado a lado. mostrando que na intensidade do delírio não tinham diferença. / E eram antônios conselheiros e jesuítas / e eram missões / e era a turba genuflexa / beijando a terra por onde os santos iam. O povo submisso (“turba genuflexa / beijando a terra”) seguia esses homens como se fossem santos. / Pousa num comutador e. de certa forma. 4.” Assim. as vilas. Dura crítica de caráter marxista ao governo de Getúlio Vargas. O surgimento das primeiras povoações se dá no contexto desse processo: “Então o povo crente ergue cruzes nas margens / e capelas / e igrejas. Os capitães-de-mato deram caça aos negros. as almas formariam o sentido simbólico do rio Opara (São Francisco) como elementos que sofreram opressão. o fero estado a que se refere o poema são comparados ao procedimento nazista. O cangaceiro saqueou as vilas. / Depois desceram feras à procura de escravos”. é também continuação do próprio rio. indica também o início da decadência do III Reich: “Se organizaram em quadrilhas de sociedade anônima. Jorge de Lima e a História do Rio São Francisco Revisitada Jorge de Lima escreve o poema “Rio de São Francisco” para o livro Poemas. é o único que cita o nome indígena do rio: “E primeiro desceram pelo rio Opara / os homens que foram ferir a terra à procura de ouro. portanto antecedendo a Dantas Motta em mais de duas décadas. Henderson uma pescaria de jereré. sob certo aspecto. ave sagrada. à beira do abismo”. No final. o poema fala da religião e da escravidão como partes do processo de colonização: “E depois os que foram alçar a cruz para curar as chagas / que o ouro fez. / Sua dejecção de pássaro.” A cobiça é destacada como o motivo principal da conquista da região. Por extensão. agora transformado / transfigurado: “Também ilumino e não sou sol. / Amém”. / cemitérios. Dentre os poetas que analisamos. / de poita / de groseira. a terra. As autarquias.metamorfoseado em ave pousando sobre um comutador de energia no meio do sertão: “Um anjo. com desprezo. / Vindo dos portões em ruínas do Paraíso. o rio se consola com o fato de que a energia que ilumina terras distantes. / Todo o norte se ilumina. Jorge de Lima passa a evocar os nomes de pintores naturalistas e exploradores estrangeiros que no século XIX. enquanto eu. 1928. esquecidos. / mas tem cuidado 48 . irmanados assim ao próprio rio. com as asas cheias de poeira. desenharam. a devoção religiosa é apresentada como um delírio coletivo. logo a seguir. violência.

o grande rio como a alma do sertão / desce de Paulo Afonso com sete ataques de doido. / tenho para os vossos bichos um restinho de ervas no surrão”. / Frei Doroteu renasce. suspende-se esse ritmo descritivo-narrativo tênue para anunciar a chegada da estação da seca: “Mas um dia. guardando assim a cachoeira de Paulo Afonso para o clímax narrativo: “E o rio. cegos cantando. Jorge de Lima faz menção da cultura folclórica acerca das lendas que envolvem o rio São Francisco: “Vinde caçadores de lendas. Halfeld e Saint-Hilaire (“Nisso tudo passaram Halfeld e Saint-Hilaire com as bandeiras / da sabedoria / e viram na Igreja Santa do Rosário / a baita coroa do Imperador do Divino”. tenho aqui algum peixe. Numa parte relativamente grande do poema. gado pastando nos cercados bodes pulando pelos morros. / o canoeiro pachola tocador de violão”. meus irmãos. / as torrentes. Debret”). que um certo galo preto depenado canta à meia-noite “Salvador! Salvador!” Toda a vida das cidadezinhas é sintetizada em imagens instantâneas como flashes do cotidiano: “e quando o dia nasce. O rio então surge como único refúgio: “Tenho água fresca.que as piranhas podem comer os teus pincéis. um dia enfim / deixa de chover no Piauí / não chove no Ceará”. / que o rio desce e as lendas descem com esse rio”. / o Conselheiro renasce. e bate e dorme lá embaixo / como um gigante que sofre de ataques de convulsão”. vai compondo os seus versos seguindo metaforicamente o curso do rio. / e espuma. / E um dia os riachos. potros correndo danados. devido ao que parece. Debret é o mais citado no poema. e ruge. / bandeirantes de todos os feitios. ovelhas descendo das encostas. meu Debret. A seguir cita-se num verso o empreendimento pioneiro de Delmiro Gouveia: “E o cearense desceu com uma turbina na mão”. Delmiro que recusou vender sua empresa aos ingleses. enfrentava práticas de 49 . feiras. Como nos poetas anteriormente aqui citados. Debret (“Vem. Cita então Jorge de Lima. a briga que a companhia de linhas de algodão implantada por Delmiro Gouveia na região travava com a Machine Cotton (Linhas Corrente) da Inglaterra. meu Debret”. / os outros rios vêm visitar o rio Opara”. à maior notoriedade que sua obra alcançou (“Passam engenhos pitorescos. O flagelo da fome é destacado: “-Senhor! dai-me que comer! Senhor”. vem. Então.” O poema continua citando casos lendários entre descrições da navegação no rio: “E o rio desce. / as nuvens.”. ver o pitoresco do rio. há florestas de mastros pelos cais. O fim da estação da seca e conseqüente volta das chuvas marca um intenso renascimento que no poema atinge âmbitos lendários e místicos: “e o homem delira outra vez a nevrose dos Sertões. Este é também um dos raros momentos em que o rio se personifica e assume a voz no poema. Citase que as almas dos holandeses enterraram tesouros. que o sino de Piranhas geme como gente no dia de finados. / e o povo volta de novo / a tomar bênção ao Padre Cícero”. “E são bonitos. Jorge de Lima.

Faz alto à agressão nata: jamais ocupa o rio de ossos areia. a vegetação em volta. faz alto à beira daquele leito tumba. muda. de rios intermitentes numa linguagem seca que lembra a de Graciliano Ramos na prosa: “Desde que no Alto Sertão um rio seca. Dois anos depois.dumping na disputa do mercado nacional. o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. 5. em parte. estancada. a água se quebra em pedaços. João Cabral trata dessa condição dos rios intermitentes que mal terminando a época das chuvas desaparecem: “Quando um rio corta. do agreste e do litoral de Pernambuco. o rio São Francisco não é o cenário fluvial constante nos seus poemas. Em 1926. intratável e agressiva. e muda porque com nenhuma comunica. Essa ausência significativa do São Francisco na poesia de João Cabral pode ser explicada. em poços de água. embora sabres. e quando o mestiço inspirado pelo santo ia fazer o milagre da multiplicação e salvar o Nordeste e remir o sertão. é o rio Capibaribe o seu rio preferido na poesia. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada. o presidente Artur Bernardes para proibir a prática desleal de concorrência inglesa no mercado de linhas. Quando João Cabral trata do sertão é um cenário sem água. é porque assim estanque. Delmiro foi assassinado em circunstâncias não esclarecidas em 1917: “E os braços edificaram a caatinga. já no governo de Washington Luís. nesse aspecto. estanque no poço dela mesma. Porém. embora de unhas. taxou o produto importado. cortado. em água paralítica. Em situação de poço. por pressão de banqueiros ingleses a lei foi revogada. o rio Capibaribe contém todos os elementos. e mais: porque assim estancada. corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. antes. a fábrica de Delmiro foi finalmente vendida e logo depois desmontada. iluminaram os capões. pela constante oposição que o poeta trata entre o cenário do sertão. 50 . de areia múmia” (“Na Morte dos Rios”) Em “Rios sem Discurso”. João Cabral e o Sertão sem o Rio João Cabral de Melo Neto tem uma produção poética que tem como uma das marcas o cenário sertanejo.

não supera. Se em Dantas Mota. trata metaforicamente duma quebra de narratividade. rústica é também o local de uma população sofrida.. que no civil quer o morto claro. A poesia de João Cabral quando trata do sertão pernambucano faz destacar a questão da seca.porque cortou-se a sintaxe desse rio. imite o percurso do rio. podemos supor que poetas cantarão a grandiosidade e a beleza da obra como desde tempos imemoriais temos narrativas sobre o modo como os egípcios e babilônicos enfrentaram o deserto. para a opressão do estado sobre o indivíduo. quando presentemente se justifica e se apronta o início das obras de transposição do rio São Francisco em dois canais que cortarão o sertão de Pernambuco – um para atingir o Ceará e ligando-se à bacia hidrográfica daquele estado. pondo como ponto alto de dramaticidade a cachoeira de Paulo Afonso. se os receios de grupos mobilizados da sociedade contra a obra se justificarem. cuja natureza que lhe é agressiva. teremos. por outro lado. não raras vezes. E vai acolitar os empreiteiros da seca. sob a divisa do progresso (construção da usina de Paulo Afonso. e outro para seguir pela Paraíba – devemos supor que um novo cenário não apenas hidrográfico e econômico se propõe. afluentes temporãos do São Francisco. na sua sucessão de versos. o urubu. em Dantas Mota e em Jorge de Lima) se encontra espaço para a usurpação de direitos. mas uma transformação também cultural. Que o enquadrariam num melhor salário. Veterano. João Cabral ao tratar dos rios intermitentes.ex. Nesse âmbito. p. Cala os serviços prestados e diplomas. fio de água por que ele discorria”.” (“O Urubu Imobilizado”) Podemos colocar a poesia dos poetas que tratarão do rio São Francisco e que foram aqui comentados como autores de textos que destacaram a grandiosidade natural do grande rio do Nordeste e que mostraram em diferentes aspectos o modo como a povoação da região se deu. marcando bem as injustiças sociais ali cometidas (escravidão em Castro Alves). Castro Alves e Ascenso Ferreira. muitos deles. Ele. mostrando como. por certo. justificando que o rio busca correr toda sua vazão num só dia como se tivesse medo de morrer em poços. Se o projeto der certo. a dureza da própria sociedade e do estado: “Durante as secas do Sertão. pois prevendo cedo Que lhe imobilizarão a técnica e o tacto. da nascente à foz. mas ainda com zelos de novato: Aviando com eutanásia o morto incerto. que esperar que a poesia do rio São Francisco continue 51 . fazem com que a forma do poema. Em “Os Rios de Um Dia”. ao tratarem do grande rio do Nordeste. Jorge de Lima. quase como um deserto. João Cabral retorna à imagem dos rios intermitentes. da quebra de discurso que o conjunto de poços e cacimbas representa. esfacelado: “esses rios do Sertão falam tão claro / que induz ao suicídio a pressa deles: / para fugir na morte da vida em poças / que pega quem devagar por tanta sede”. de urubu livre. passa a funcionário. O urubu não retira. porém. para o cerceamento da liberdade. de modo que a natureza dura.

ALVES. como de autoria deste ou daquele mestre artesão mais reconhecido. Algumas carrancas. Nova Aguilar. Nordestal. MELO NETO. para ficarmos efetivamente com o sertão de João Cabral. Cana Caiana. tanto quanto o suicídio de Lucas e Maria em Castro Alves. vol. 1981. ainda. José Olympio. Nova Fronteira. 1988. FERREIRA. Rio de Janeiro. 1980. do cativeiro na Babilônia e a conseqüente travessia do deserto e. LIMA. do sofrimento enfim. José Olympio / INL. Castro. Dantas. MELO NETO. da tensão. estudo e notas de Marisa Lajolo e Samira Campedelli. Antologia Poética. Recife. Obra Completa. José Olympio. BIBLIOGRAFIA ALVES. 1980. Ática. 1980. MOTA. Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco As carrancas dos barcos do Vale do São Francisco hoje perderam sua função inicial de proteção das embarcações contra perigos concretos e imaginados do percurso do rio por uma função de peça de comércio artesanal. do passageiro de Ascenso Ferreira. Rio de Janeiro. sem rio São Francisco. Jorge de. Rio de Janeiro. João Cabral. como disse Jorge de Lima “o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. Literatura Comentada. Poesia Completa.sendo a poesia do drama. dos erros. Poemas de Ascenso Ferreira: Catimbó. Rio de Janeiro / Brasília. Xenhenhém. alcançam no 52 . Castro. Rio de Janeiro. quando apresentadas pelo marchand. Ascenso. Seleção. São Paulo. Elegias do País das Gerais – Poesia Completa. João Cabral. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. 1997. 1979. 1.

filha de artesã e agricultor. com o decréscimo e quase desaparecimento da navegação ribeirinha assim como o fim dos gaiolas. indo morar na cidade de Curacá. ou simplesmente “Guarany”. de modo que a flutuabilidade. mais comumente têm sido utilizadas como peças decorativas de cantos de salas e escritórios.”(Zanoni. distrito de Ouricuri. Guarany é bisneto de José Dy Lafuente. 33). sustentam que esse seria um indício da passagem dos Vikings pelo Brasil em época muito anterior ao descobrimento. filho de Guarany. destacou-se como o maior artista de carrancas. 2006) Alguns estudiosos mais ligados ao âmbito das teorias menos comprováveis cientificamente e de caráter mais polêmico. quanto à origem das carrancas. a utilização das carrancas ganhou uma função de artefato artístico artesanal. bem como a adaptabilidade da carranca ao barco tornou-se um aspecto mais secundário. De qualquer forma é inegável a possibilidade de comparações entre aspectos funcionais. Ana das Carrancas é Ana Leopoldina Santos. no lugar de servirem como elemento protetor contra maus espíritos e perigos do rio. próximo a cidade de Juazeiro. os barqueiros adotaram a figura. Figura. na Pedra da Gávea (RJ) e as carrancas que seria um costume transmitido pelos Vikings. figura de proa e leão de barca são os termos ou expressões que os remeiros e outros ribeirinhos utilizavam para se referirem às carrancas. hoje conhecida como carranca. às margens do São Francisco. Ana das Carrancas é um dos nomes mais conhecidos quando se fala em carrancas do rio São Francisco Ubaldino. que no livro Os Vikings no Brasil argumenta que existem vários indícios dessa passagem. onde passou a trabalhar como professor e constituiu sua família. Mestre Davi (Davi José Miranda Filho). Alguns artesãos se destacaram na produção de carrancas. hoje. seu aparecimento perde-se um pouco no tempo. em Santa Filomena. estéticos e culturais das carrancas do São Francisco e as carrancas das galeras vikings. segundo Zanoni Neves: “Na segunda metade do século XIX. nasceu em 1923. jesuíta espanhol. Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987). que começou sua produção em 1972 é outro importante artesão de carrancas. como inscrições na Amazônia. através da arte de talhar a madeira. um famoso carranqueiro de Pirapora perpetua. que avisariam com três gemidos a proximidade destes. 53 . Assim. Um dos primeiros cronistas a mencioná-la foi Durval Vieira de Aguiar em 1882: ''Na proa vê-se uma carranca ou grifo de gigantescas formas. os primeiros registros de existência das carrancas aparecem na segunda metade do século XIX. Um dos defensores dessa tese é Jacques Mahieu. as carrancas. Pernambuco. de modelos sem dúvida transmitidos pelos exploradores dos tempos coloniais'' (1979. Mestre Davi tornou-se internacionalmente conhecido quando Jacques Cousteau levou uma carranca a todos os cantos do mundo pelo barco "Calypso". refugiado do Convento da Bahia que amasiou-se com uma negra africana de Moçambique.comércio de peças de artesanato internacional valores consideráveis. bem como com suas feições agressivas afugentariam outros espíritos. mas que peca pela ausência de dados comprováveis de qualquer uso de carrancas anterior ao período de colonização do Vale do São Francisco. Tese ousada. a história e a cultura dos povos ribeirinhos. p. De fato.

cuja cabeça é a carranca e o corpo o próprio barco. bem como o forno para cozimento. Sendo originalmente artesã ceramista. Expedito Viana. de Ouricuri. se colocava uma estrutura semelhante à calda do animal. navegadores virtuosos. Essa identificação. nem tampouco a busca da explicação da origem das carrancas. são feitas de madeira. como que garante à cabeça de carranca. com 3. Simbolicamente o material usado. brinquedos. como no outro extremo. mas com o próprio rio sua identificação. Assim. Ao se fazer a carranca de barro. representa o próprio corpo do animal formado pelo conjunto barco-carranca. quebra-se essa harmonia de material. havendo. potes. usa o barro extraído do próprio rio São Francisco para composição de suas figuras de carranca. notadamente as de Ana das Carrancas têm uma função mais de peça decorativa artística de colecionadores e admiradores da arte popular do que propriamente a função de carrancas de embarcações. sua boa e seus dentes 54 .5 metros de altura. Expedito ficou conhecido quando confeccionou a majestosa estátua de São Francisco de Assis. de outra forma. na Praça do Posto Três Palmeiras. Nesse sentido. que a produção de carrancas de barro. Assim. colocada na ponta da proa. são apresentadas como figuras com bocas enormes abertas mostrando. O que buscamos destacar nesse nosso breve texto. uma vez que o barro vindo do leito do próprio rio agora mantém não com o barco. em geral. uma vez que as ferramentas para composição já não serão as mesmas. As carrancas. madeira ou barro. porém. astutos pela descoberta de riquezas teriam contra si o espírito do rio. carranqueira também de Pirapora. Porém. A de madeira tem com o barco. destaque nesse caso para as próprias mãos no ato de moldar o barro e o torno de oleiro. em geral. dá a dimensão da própria modificação da função de uso da carranca. As carrancas. boi-zebus. também de madeira. por sua parte. dentes caninos proeminentes. assim como os barcos a que se destinavam. machado e formão) o artesão vai moldando a peça de maneira intuitiva. Ana das Carrancas. uma identificação harmoniosa do material. ainda de Pirapora (MG) é outro importante artesão carranqueiro que preserva a arte de entalhar a madeira. não é um painel dos artistas. que navegam atendendo as necessidades das populações ribeirinhas seriam protegidos. metamorfoseado em animal aquático que desliza pelas águas do rio. por vezes. a popa. Listamos aqui apenas alguns dos nomes mais conhecidos no universo do artesanato de carrancas. feroz na ação de proteção da embarcação. pois. Nosso intento maior é uma observação acerca do modo de produção das carrancas e um comentário acerca da natureza estética dessas figuras. agora quando ela passa a produzir carrancas também de barro o que ocorre é a transposição de uma técnica para outra. contendo algumas não só a cabeça de carranca (em geral a cabeça de um dragão).Dona Lurdes Barroso. é fato. Tal boca e dentes têm a intenção de conotar a agressividade da figura. a carranca de barro como que se distancia da função de protetora do barco para ser a representação do espírito do rio que pode proteger ou não a embarcação em função da intenção do navegador ser aceita pelo rio ou não. é uma artista que demonstra habilidade no manuseio de instrumentos como facão. navegantes gananciosos. a condição de vigia. Ana compunha antes panelas. Não se tem o hábito de se fazer um esboço ou desenho. Com a utilização de instrumentos para o corte e o talhe da peça de madeira (facão. machado e formão. Nas galeras vikings era essa a conotação que a estrutura do barco buscava. tementes a Deus. mas diretamente na madeira o artista vai compondo a cabeça da figura. de cabeça do barco personificado ou metamorfoseado num vivente. cavalinhos e santos de barro. que se encontra na Avenida Salmeron. que ao cabo.

nos escritórios. De forma geral. A cruz. Sabemos que as primeiras populações ribeirinhas do Rio São Francisco a partir do período da colonização eram de característica negra ou índia. são de leão ou cachorro. que costumeiramente vazava os olhos de suas carrancas de barro. agressivas. O mal a serviço do bem. ao passo que a carranca se contrapõe pela agressividade nas suas formas monstruosas. supõe-se um rugido. XIX). escravos que 55 . Os olhos da carranca. a carranca típica do São Francisco interpõe-se como o artefato que usa da força diabólica para uma missão de proteção ao navegante cristão. de aspecto protetor. Santa Bárbara. abrigadas que estão dos efeitos nocivos do sol e da água do rio. não apenas o mundo concreto. demonstra a força vital e guerreira da carranca. não acessível aos olhos do mundo físico. as cabeças das carrancas têm aspectos antropomórficos híbridos. no mais das vezes. talvez.formam o primeiro aspecto dessa força animal e vital. o espiritual e mágico. Outras têm a coloração dourada também. entre outras). a imagem de algum santo ou santa (Nossa Senhora dos Navegantes. As cores formam outro aspecto importante da carranca. Segue-se assim também as sobrancelhas. mas principalmente o invisível. quando são de aspecto humanóide. Nesse sentido. pouco resistente às intempéries. são destacadas em tamanho assim como a boca. Santo Olavo. Os remeiros ou barqueiros eram predominantemente de característica negra. formando um conjunto de aspecto monstruoso. conotam a noção de que tudo a carranca vê. José Vicente. a proteção declarada que a carranca oferece também apresenta um sentido invertido das figuras de proteção religiosa usadas na náutica. A língua. Desse modo. entre outros. boca e dentes. Abrindo a boca. O vermelho usado em muitas figuras. XVII). No caso específico de Ana das Carrancas. descolorindo depois de algumas estações. cabelos. quando é colocada na figura. o nariz e o queixo. o conjunto da figura impressiona pela aglutinação de elementos desproporcionais que disputam o espaço da cabeça. tal característica dos olhos das carrancas de Ana mostra ainda mais esse aspecto de visão de um mundo invisível. de Saint-Hilaire (séc. Numa espécie de simbiose ou sincretismo. Os aspectos africanos da carranca aparecem mais ainda quando observamos as que têm cores fortes (como o vermelho e o tom negro) com o fato das formas desproporcionais ou bem proeminentes como é característico das peças em madeira do artesanato antropomórfico africano banto. assim como o negro e o branco reforçam as idéias expostas pelos olhos. se caracterizam por uma imagem amistosa ou de bem-aventurança. bem como da força que a protege. Bom Jesus Protetor dos Navegantes. algumas carrancas mais antigas têm a coloração desbotada. físico. estas mantêm por mais tempo o vigor de suas cores. A cabeleira da carranca. o mundo dos espíritos. admiradores e turistas e que as colocam nas salas. Já as carrancas que são adquiridas por colecionadores. Signo. grandes também. ao sol forte da região. sendo até o período anterior à abolição da escravidão. São as cores mais usadas. ou descascada. também têm o mesmo padrão de desproporcionalidade. de uma associação entre a simbologia imagética característica de mitologia africana ou mesmo ameríndia com a religiosidade cristã. devido ao fato de seu marido. ser cego. algo diabólico. ou ainda. um canto de aviso aos espíritos malignos da chegada da embarcação. por vezes. marcante no caso das de Guarany. por sua vez. como atestam relatos do Padre Martinho Nantes (séc. como se fosse uma juba caindo pelos lados do pescoço da figura. As orelhas. numa espécie de homenagem incorporada ao seu imaginário. fruto da característica do pigmento. ou em alguns casos. os olhos e os dentes. do viajante Sir Richard Burton (1867). iourubá e/ou de nação de angola.

2006. T. Prancha de Figuras – As Carrancas 56 . notadamente do âmbito dos navegadores e exploradores transposto para o cenário da colonização do sertão. 1976. porém. mas também com predominância da cor negra e lisos ajustam-se mais ao tipo étnico indígena sulamericano do que africano. Zanoni. São Paulo.faziam o serviço de travessia e ligação entre as diferentes cidades. Trad. fonte:Fonte:http://www. O cristianismo deu o sentido de proteção. os elementos afro e ameríndio os aspectos estéticos e formais da carranca. n. a nosso ver.1. como concretizações de figuras de espíritos malignos dominados pelo sentido cristão e postos a serviço da exploração das águas do rio. em geral. Jacques. Referências Bibliográficas: MAHIEU. PARDAL. São Paulo. 1979 Relação de uma missão no rio São Francisco. Não se deve esquecer. A. que a cultura cabocla também incorporou elementos da cultura indígena.scielo. Carrancas do São Francisco. As carrancas são o resultado. São Paulo. de um cruzamento de influências do imaginário cristão português. NEVES. Itatiaia/Edusp. Editora Nacional/MEC/INL. NANTES.php?script=sci_arttext&pid=S003477012003000100004. Rio de Janeiro. SAINT-HILAIRE. de modo que a idéia de espíritos do rio e espíritos da mata possam ajudar ou prejudicar uma travessia é também natural do imaginário ameríndio. Os Vikings no Brasil. “Os Remeiros do São Francisco na Literatura” em: Revista de Antropologia. Martins Fontes. Teodoro Sampaio traz informações mais detalhadas acerca da natureza étnica dos remeiros. 2002 O rio São Francisco e a Chapada Diamantina. Vivaldi Moreira. Belo Horizonte/São Paulo. São Paulo/Brasília. Os cabelos das carrancas. Paulo.br/scielo. Companhia das Letras. grandes. 1975a Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. 2003. Francisco Alves. SAMPAIO. Padre M. misturados sobremaneira com fortes doses do imaginário africano e ameríndio. coleção Raízes. Cia. vol 46.

recriando a lenda em águas do ribeirão do Carmo. careca e mãos e pés de pato. além do imaginário palaciano e de cavalaria.Carrancas típicas em escala industrial. são repositórios de lendas. Polifemo e Galatéia. o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores. Uma das lendas mais curiosas do folclore do rio São Francisco é a “A Lenda do Nego D’Água”. Lembro do poema de Cláudio Manoel da Costa. se analisamos o processo de povoação dessas regiões. Mãe d’água. Ana das Carrancas e algumas de suas carrancas de barro Três carrancas de madeira do mestre Guarany A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco Os rios. muitas vezes. se eles recusarem dar-lhe um peixe. espíritos maus. As ninfas do Tibre. Minas Gerais. envolvendo carrancas. este modelo é reproduzido aos milhares. O rio São Francisco também tem suas lendas. preto. vapores assombrados. Aparecendo dás águas com suas gargalhadas. 57 . Personagem de destaque no Macunaíma de Mário de Andrade. Esta lenda também é encontrada com referência ao rio Tocantins. Pareceme que aqui é o caso de uma migração da lenda do São Francisco para o Tocantins. Com origem na mitologia indígena temos a Iara. do Tejo são cantadas desde a poesia barroca.

valedoriosaofrancisco. costume que faz com que os pescadores atirem fumo a água para cair nas graças do negrinho que gosta desse agrado. sua função seria a de amedrontar as pessoas que por ali passam. passeando entre os que estão adormecidos. desapareceu no fundo das águas. Apesar de viver também fora da água. partindo anzóis de pesca. pois a noite os pequenos só se aproximavam da água acompanhados por adultos”. agradando assim o Negro D’Água. que amedrontam o caboclo d’água. Segundo a Lenda do Negro D'Água. Nesse instante lembrou-se o pescador que trazia um pequeno pedaço de fumo. Suas características são muito peculiares. para avisar ao dono. para que não tenham sua embarcação virada. povoa a imaginação de todo menino beiradeiro. costuma aparecer nas casas de farinha das ilhas ou dos barrancos e noite de farinhada. Alguns dizem que existe apenas um nego d'água em todo o rio. muito difundida entre os pescadores. Quando não gosta de um pescador. Para afugentá-lo desses locais que terminava alargando o rio.etc.br) Outro fato narrado no São Francisco e que envolve a figura do Negro D’Água é a seguinte: “Há quem afirme de viva voz que já viu aquela figurinha atarracada de cabeça grande e olho no meio da testa. percebendo ao se aproximar que se tratava de um cavalo. dos quais muitos dizem já ter o visto. ao sair para pescar. adora fumo. os beiradeiros jogam nesse ponto cacos de vidro. (Fonte: www.com. Não há evidências de como surgiu a Lenda. principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil e no Rio São Francisco. com um anfíbio.com. Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas. Conta-se o caso de que certa feita no Rio São Francisco deu-se o seguinte acontecimento: “Um pescador contou que pescava a noite quando percebeu um vulto de um animal morto boiando na correnteza. comumente depois que os trabalhadores se acomodam para dormir. Remou apressadamente em direção ao animal. ele seria a fusão de homem negro alto e forte. afugenta os peixes. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio.br) 58 . ele nunca se afasta muito da beira do rio. que habita nos locais dos rochedos do meio do rio. o que sossega os corações das mães. o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele. o ‘nego d’água’. O fato é que o nego d'água. quando o animal afundou e logo em seguida. Como a caipora. que imediatamente atirou para o neguinho que dando cambalhotas. como também escava suas covas na base do barranco da beira do rio. tange-os para longe da rede de pesca. (Fonte: www. corpo coberto de escamas mistas com pele.valedoriosaofrancisco. e aí tentou encostar a canoa para verificar a marca ou ferro. ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio. percebendo o pescador que um nego d’água agarrado à borda da embarcação tentava virá-la.Alguns pescadores guardam o hábito supersticioso de. levar uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio. o que provoca tombamento do mesmo. furando redes e dando sustos em pessoas a barco. espécie de versão afro-masculina da sereia. outros dizem que são muitos. a canoa foi sacudida. para roubar-lhes fumo ou beiju”.

aqui chamado de Caboclo D’Água: “O senhô pode me creiá. se diz a respeito da lenda que: “O Nego D’ Água vive no fundo do rio São Francisco. maretando o rio. num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. turistas ou crianças descem à pedra e rodeiam à estátua. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos.124) Na cidade de Juazeiro. ele arrasta as mulheres bonitas que encontra nas margens do rio e leva para o seu reino. numa pescaria. nas informações turísticas da cidade. Eles três tavam numa canoa e. A referida obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira é de grande beleza plástica. nas águas do São Francisco. Macedo. noutra. até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede. Muitos desconhecendo a lenda ou o motivo da obra se perguntam como ela foi parar lá no meio do rio? Ao aproximar de barco ou de canoa da estátua ela começa a impressionar pelo tamanho. com doze metros de altura. o artista plástico Ledo-ivo Gomes de Oliveira criou uma de suas principais obras plásticas.” (J. A. Conhecido também como compadre das águas. ele leva-os para o seu reino como escravos. A estátua do Negro D’Água. apresenta-se como materialização do imaginário das lendas. E nós viu. algumas vezes subindo pelas suas costas até seus ombros. Nós remou depressa pra lá. recriando a linguagem do caboclo. o bicho rolar pra dentro d'água. tudo leva a crer tratar-se de um símbolo transplantado do mito hidrolático da Mãe D’Água (a Iemanjá dos negros iorubas do litoral). acerca de um ataque do Negro D’Água. donde nós tava. de uns dezoito janeiros de idade. adaptado às condições mesológicas do São Francisco. Eventualmente. O Nego D’Água gosta de batuque nas proas das embarcações e tem o poder de naufragá-las”. pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar.Segundo o site da prefeitura de Juazeiro. colocada sobre uma pedra. no escuro que fazia. causa uma surpresa na paisagem das águas ao olhar do observador. 1977.” (TRIGUEIROS. embaraiando o sem-vergonha. Encantado como eles ficou. 1956) Edilberto Trigueiros no livro A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco esclarece a respeito da lenda do Negro D’Água a sua origem: “Também chamado moleque d’água. oferecendo-lhe fumo. Existe uma versão narrada por J. Macedo. mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: "Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai". Os homens que não ouvem seus apelos. sentada sobre uma pedra. nós escutou os menino gritando demais. Nisso.A. Dizem que ele é meio homem e meio lontra. A estátua que se vê como que emergindo das águas. o caçula. p. eu mais o fio mais novo. segundo ribeirinhos. Eu e meus dois menino. 59 .

” No caso da estátua do Negro D’Água encontramos na versão classicizante do personagem folclórico a intenção de buscar esse “significado existencial”. Historia da Arte (Antiga e Contemporânea). pois. Na página da Internet que apresenta dados do artista. esticado. no sentido das características típicas do moderno. com o Urbanismo. Substitui-se desse modo na lenda. entalha e esculpi. o medo pela agradabilidade. de cabeça achatada. Semiologia. em meio a Brutal interferência do Homem com o Meio-ambiente. como um Michelangelo à Davi: ‘ Parla !!!’ ” Está claro aí a presença de influências clássicas e renascentistas na obra do artista.à Verdadeira Expressão desta Arte. do disforme. tanto de sua aparência. a reportar a esse mesmo Homem o seu próprio Significado Existencial e às suas Origens. quanto de sua pose. cuja relação primordial é com a própria Arquitetura e. O personagem é assim redimensionado a um sentido mais humano. repugnação ou receio a figura da estátua.. O rosto delgado tem sobrancelhas bem definidas e salientes e o pescoço longo. como quem quer ver ao longe completa os tênues traços anfíbios. sentado sobre a pedra. Aliás. modificando assim a descrição geral do Negro D’Água que costuma referir as suas partes baixas como as de um anfíbio. continuou seus estudos de Historia. Spock. As orelhas são pontudas que lembram as do personagem de Jornada nas Estrelas. a sua Origem Espiritual. funcionando a sua Obra como uma espécie de Marco-humanizador. denotando assim. De anfíbio o que temos na estátua é uma espinha dorsal externa escamada que parte do alto da cabeça até o cócix. seguindo o preceito clássico horaciano e aristotélico. A figura se posiciona como quem observa ao longe. numa posição de observador tranqüilo mas atento. Não é. Geopolítica. quando se faz necessário. a certa altura lemos: “Estudante Autodidata. existem relatos de ribeirinhos que alegam ter visto o Negro D’Água como sendo de baixa estatura e atarracado. o que se poderia classificar como uma obra plástica moderna. de cor escura é que dá o sentido de se tratar da imagem de um caboclo negro. A figura tem pés e pernas humanas. Filosofia e Comunicação. Essa versão apresentada por Ledo-ivo tem de certo implicações com uma tentativa – consciente ou inconsciente – de harmonização com preceitos clássicos de estrutura das partes da obra e de aparência segundo dados de uma anatomia fundamentadas no número de ouro e na divina proporção. com que. mas de imediato nos impressiona a sua beleza harmoniosa. nas bibliotecas e ateliês da vida . como a utilização do grotesco. de tal forma que não nos causa medo. ele. Segundo o próprio artista sua arte tem a característica de buscar a: “ .. o artista plástico se preocupou em apresentar uma versão do Negro D’Água de belas feições e com harmonia das partes. embora os traços pouco lembrem a aparência dos afro-descendentes. mas é clássica no sentido de buscar a harmonia da figura com a anatomia e as proporções da figura humana. liturgicamente.A estátua tem uma aparência bela. apoiando a perna direita dobrada com o auxílio da mão direita. A pedra utilizada. 60 . Sociologia. Dr. descritas no renascimento pelo homem vitruviano. lapidando assim seu “ Formão da Vida ”. mais agradável. essencialmente.

Belo Horizonte. J.jangadabrasil. 1977. Rio de Janeiro. 2 de dezembro de 1956 TRIGUEIROS. Edilberto.com. Internet: JANGADA BRASIL. "O caboclo-d'água". A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco.br/revista/galeria/ca84011f. obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira. Referências: MACEDO. A.asp 61 . http://www.Três fotografias do Negro D’Água. FUNARTE. Folha de Minas.

acreditamos. telas com temas ao rio São Francisco ligado. poder contribuir para o entendimento do processo do imaginário que formou na consciência nacional uma representação do rio. 1. das festas populares das populações ribeirinhas ao Velho Chico.Algumas Considerações Acerca de Algumas Representações Pictóricas do São Francisco Neste capítulo pretendemos comentar acerca de algumas telas de pintura cujo tema é o Rio São Francisco. das carrancas. ou ainda. Com essas considerações. Pinturas Holandesas 62 . Sabemos que não são poucas as telas que foram pintadas com o tema do rio São Francisco. Não poderíamos aqui fazer um verdadeiro livro de arte panorâmico. histórico-pictórico a levantar todas ou as principais telas. antes o que pudemos fazer é tratar das telas as quais tivemos acesso mais imediato. como acerca das lendas.

Ligeiramente retorcido. com isso Post informa sobre a natureza climática da região. é pouco provável que a paca se dispusesse a servir de modelo. Os artistas holandeses a serviço de Maurício de Nassau puderam pintar vários aspectos da vida e da paisagem colonial daquela parte do Brasil. Se pensamos no tempo real que o pintor levaria para a pintura. mas em floração. de avaliar a 63 . principalmente em Pernambuco.Começamos por falar das pinturas holandesas do século XVII. Post pinta uma paisagem das margens do São Francisco. 10 das quais ainda desaparecidas. formado por gomos. como que querendo beber água. o fato de que em toda tela não se destaca nenhuma árvore. podemos observar com destaque às margens. A ocupação holandesa. Ao fundo na outra margem. Franz Post que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644. mesmo na distante outra margem que aparece ao fundo. de modo que nela vemos informações sobre a vegetação e a fauna da região. tranqüilamente ali. Pelo tamanho da paca e do xique-xique e o tamanho com que aparece o barco e o forte ao fundo. Franz Post. vemos uma paca de pelo marrom escuro. ao que me parece. calmamente. temos na possibilidade da perspectiva aplicada pelo pintor. Natural de vegetação do semi-árido. Pouco à frente do xique-xique. uma estrada de terra que leva até o forte. o preceito de que o pintor deve escolher o cenário ou o momento mais significativo de um propósito geral para que possa ter nesse momento os elementos que realmente possam expressar o que se deseja ou se busca. bem como sobre as condições de povoamento. tais estranhezas não alteram o significado geral da planta cactácea ali pintada. percebe-se o forte holandês. pinta o rio São Francisco. acredita-se que tenha pintado pelo menos 18 telas. Demonstrando a firmeza da ocupação holandesa na região. Um de seus quadros. Rio São Francisco Primeiro. um xique-xique. esta parece dominada por vegetação rasteira ou arbustiva. A paca ali pintada é com o objetivo de fornecer dados sobre a fauna local. um barco atracado à margem. trouxe algumas contribuições para a formação cultural da região. Seguindo. Acresce a isso. sobre umas pedras. bem como da passividade com que as pacas se portavam diante da presença humana na terra ainda pouco desbravada. e com o tronco acinzentado. é plausível encontrá-la com freqüência próximo ao rio.

mostrando aos olhos de que observa o quadro quão largo é naquele trecho o rio. Colocando-se o pintor num ângulo de relativa distância para que pudesse pintar um plano geral de frente da queda d’água. a beleza da pintura paisagística de Post esta lá ainda presente.F. Cachoeira de Paulo Afonso A pintura de Post. agora. Noutra tela. porém. no modo como dá o efeito de queda d’água. 64 .distância duma margem à outra. Á época em que pintou ela ainda não tinha esse nome. Todavia. de como depois. vegetação) nada que sirva de parâmetro para uma aproximada medida da cachoeira. suíço ou alemão. Podemos comparar esse quadro de Post com um pintado posteriormente por E. dá dados da facilidade de navegação. chamada antes pelos portugueses de “Sumidouro” ou “Forquilha”. Não nos dão os elementos da tela (pedras. já após a queda ela se reconforma para seguir seu caminho e no modo como os rochedos parecem resistir à força brutal da cachoeira. Franz Post. não dá ao observador a dimensão do tamanho da queda d’água.Schute – pouco se sabe acerca desse pintor. Franz Post pinta a cachoeira de Paulo Afonso. Post fez por pintar a cachoeira de tal maneira que parecesse pouco mais do que as que são comuns há muitos outros rios de vazão menor que o São Francisco. se austríaco. Ainda as águas calmas. praticamente sem ondas. inclusive existem dúvidas sobre sua nacionalidade.

como se estivessem convidando o observador do quadro a olhar o cenário e admirá-lo também. no primeiro plano temos o domínio dos tons escuros. como se buscassem demonstrar a altura da queda. mas também percebendo qual dura será a travessia. Schute se coloca no alto dos rochedos. como que anunciando um final de tarde. mais ao fundo duas figuras humanas servem de parâmetro para que se possa ter noção do volume e da extensão de águas ali. A névoa que se levanta da cachoeira também tem um efeito plástico belo.E. deixando-nos a impressão de que as figuras humanas ali paradas estão não só admirando a paisagem. e as água vem de pelo menos três direções diferentes. O quadro é de metade do século XIX. Escolhendo um ângulo diferente de Post. 1850 possivelmente. caso se dispusessem a fazer. Vingboons. As figuras estão de costas para o observador. para alcançar o outro lado dos rochedos. Penedo 65 . vai baixando para um tom próximo do rosicler ao fundo. que pintou a região de Penedo.Schute. numa posição que permita ver o alto da queda. Cachoeira de Paulo Afonso. Aqui em Schute a pintura paisagística é nitidamente romântica. O quadro do rio São Francisco de Post pode ser comparado com a ilustração de um compatriota seu. Reforçando essa impressão da hora. em que algumas árvores pairam à beirada. Em primeiro plano vemos uma palmeira pendendo em direção à queda d’água. Jan Vingboons. O céu de várias tonalidades de azul no alto.F.

outro vem à direita. o azul vivo das águas. porém seu plano é mais próximo. focalizando mais nitidamente as casas e construções da outra margem. 66 . A vegetação presente na margem de primeiro plano é diferente da que se apresenta em Post. o rio São Francisco tem sido tema recorrente de vários pintores. as casas. uma vez que não temos sinal do xique-xique. um barco vai à esquerda. A bandeira das caravelas parece ser de tropas coloniais portuguesas. mas de uma vegetação verde rasteira. um deles inclusive atirando de seus canhões. Os barcos. Vingboons coloca-se num ângulo muito parecido ao de Post. o que vemos é uma riqueza de cores contrastantes. Adotando as idéias de composição e cores apreendidas com Rubens Fortes Bustamante. Uma de suas telas intitula-se “Rio São Francisco”. 2. Um exemplo é o pintor Militão dos Santos. casas e estradas é que sugerem que em cena existam muitas pessoas em ação. alguns com aspectos de barcos de pesca. em proposição de complementaridade. principalmente os oriundos da região do vale e do Nordeste em geral. as plantações de hortaliças bem verdes. natural do Recife. seja nos barcos. o verde e o vermelho dos barcos. nas margens ou na vila. o marrom avermelhado e o negro da terra.Na pintura de Vingboons vemos uma frota de barcos. e a vila aparenta calma. Vemos muitos barcos menores. Pinturas Contemporâneas No âmbito das pinturas contemporâneas e modernas. Não se vê figura humana. assim como o vôo dos pássaros. surdo. Artista de caráter primitivista. sugerindo a descrição do ataque das forças baianas na reconquista de Penedo. Os vários barcos pequenos colocados próximos às vilas dão a idéia de um lugar de muita movimentação. as cores das roupas e as cores das casas. O movimento também é sincrônico e complementar. assim as duas caravelas portuguesas que ali aparecem passam a idéia de que seja a ação de um agressor que vem quebrar a ordem e o progresso do lugar. os agrupamentos de pessoas.

Parte da terra da plantação é pintada em cor negra. uma azul. Rio São Francisco A copa das árvores de João Militão. sugerindo a idéia duma terra adubada. por sua vez. O céu dividido em três faixas. Mais ao fundo a campina verde se faz presente em duas tonalidades de verde. árvores. bandeiras. para sugerir o espaço ocupado por duas colinas. de pintar movimento e variedade de personagens encontramos também em outro pintor da região. fortes. tudo delimitado quase que geometricamente. branca. a compor o espaço das nuvens. Por outro lado. casas. num amarelo ocre. Josinaldo Ferreira . O Sol. uma intermediária. e outra superior. tem 67 . Sua pintura de caráter primitivista é bem colorida e com bastante movimento. por vezes numa riqueza de contrastes. na sua disposição radial de folhas. lembrando um bocado das pinturas modernistas da década de 20.João Militão. Essa característica primitivista de utilizar cores vivas. que se confunde com o horizonte. mas as cores vivas. Josinaldo Ferreira nasceu em Remanso (BA) em 1951. rica em húmus. e a riqueza de movimentos e personagens passam essa idéia de dia cheio de luz. pintadas como se lembrassem fogos de artifício explodindo ou enormes lírios dos campos coloridos. Seus quadros são repletos de figuras humanas. não está pintado no cenário do quadro. fortes. a sugerir o domínio do Sol.

atualizada. Ao fundo. Augusto Muller ou Fachinetti. todas com listras horizontais. pessoas lavando-se ou lavando roupas. O uso das cores. no que concerne à forma e ao uso da perspectiva. coqueiros. Joel Dantas. lembra a dos românticos paisagistas como Benedito Calixto.também uma certa similaridade com as xilogravuras nordestinas. o tempo é circular. mais lenta como o fluir das águas serenas do rio São Francisco. também se notabiliza por uma pintura com temas locais – do rio São Francisco e do sertão – mas sua técnica é diferente do primitivismo de Josinaldo Ferreira. nessa tela. A terra vermelha e a cor bronzeada da pele das pessoas dão outra similaridade ao quadro. demonstrando assim um certo aspecto de isolamento do lugar. 68 . pessoas fazem acenos para o barco. perpendicularmente ao olhar do observador. carregado de pessoas e bandeirolas. quanto à Lua aparecendo e recebendo ainda os raios do Sol que se encontra ao poente. uma vela dum pequeno barco. criando uma relação de similaridade com o rio. podemos notar o barco passando pelo rio São Francisco. nascido em Pilão Arcado (BA) em 1950. a perspectiva e a disposição de seus elementos criam essa sensação. para o longínquo. o rio é colocado em perspectiva. Na margem umas canoas. Porém. reconfigurada para o momento contemporâneo. na outra margem. confluindo nas matas ciliares que acompanham o rio. Rio São Francisco No quadro que apresentamos nesse artigo. tudo numa configuração de movimento mais calma. Notemos as camisetas listradas das pessoas. O céu azul e branco pintado como parte de uma abóbada. Na margem do rio. No quadro “O Velho Chico”. Josinaldo Ferreira. Assim. como se as águas do rio dirigem-se nosso olhar para o infinito. mais paisagística. Sua técnica. Essa forma festiva de apreensão pictórica da realidade local é uma característica advinda da simpatia e da amabilidade da população ribeirinha que apesar das dificuldades cotidianas sem mantém assim por natureza mesmo de sua gente. passa a impressão da circularidade. o céu azulado e um astro avermelhado que tanto pode ser o Sol em rosicler. como se essa paisagem se mantive repetitivamente sendo reencenada.

fechando numa torneira.Joel Dantas. uma vez que artisticamente talvez fosse merecedora a tela também de uma pintura 69 . mas apenas nesse sentido. o objetivo é justificado. Joel Dantas. feita de canos de pvc. tela e moldura. O título provocativo se justifica pela moldura. se divertindo ás margens. mas tem outra mais latente ao meu modo de ver. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira Aqui a contradição é absoluta. O Velho Chico. Rio São Francisco Joel Dantas tem outra tela. A moldura em pvc cria um contraste de tal densidade com a tela que é difícil pensar numa unidade artística entre ambas. O distanciamento do olhar do observador faz que vejamos um panorama de pessoas nadando. ao centro da parte inferior da moldura. mulheres e homens ali numa conjunção prazerosa com o rio. Um barco com carranca aportado à margem. Crianças. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira”. promovida pela ONG Sociedade Semear. apresentada na exposição “Águas de Março”. exceto por conter uma maior movimentação das figuras e uma vida mais alegre. Se o propósito foi a crítica ao modo como as questões do rio São Francisco são tratadas. a contradição de estilos. “O Velho Chico. O cenário apresentando em pouco difere da técnica comentada do quadro anterior. não só de conteúdos: a água do rio e a água encanada que nunca chega. entre março e maio de 2007. também de pvc.

O Brasil é um dos seus destinos preferidos. Sua pintura. Márcia Berenguer Cabral. meio místico. a perspectiva é colocada de modo que o observador como que estivesse numa posição inferior ao barco. é rica de cores. costuma pintar quadros dos locais por onde viaja. mais geométrica. Salvador (BA). vindo de outras eras para o presente do observador. Desde 1971 este pintor vem construindo um conjunto de obras com mais de duas mil telas. parece ter que fazer uso de força para empurrar com o remo o barco. desafiadora e envolventemente neobarroca. choque que não foi resolvido. mas apresentado na sua crueza. de caráter modernista. Paul Berenson. a margem virtual que aponta para o espaço real em que se encontra o observador do quadro. como que querendo assustar a quem a vê. Num certo sentido. O que se vê é uma abstração pictórica da visão área que se tem da boca do rio. meio fantasmático. O Rio de Janeiro. Suponho. sociais. as praias do litoral nordestino são seus temas preferidos. mas diferente de Josinaldo Ferreira. Carranca O barqueiro. O fundo todo azulado mistura-se com as águas do rio. deve-se também observar esse distanciamento como significativo mesmo da 70 . ouve o choque entre a linha de pintura do autor e a ousadia da mensagem provocativa. Nesse ponto. O barco com a carranca surge assim. numa técnica mais abstrata ou concreta. culturais e por isso mesmo. emprega uma técnica de suspensão ou indefinição do fundo e de valorização da figura de primeiro plano. o que nos passa é a idéia do distanciamento. penso eu. a floresta Amazônica. esta mesma. num predomínio dum plano mais próximo. estivesse o artista olhando pela janela do avião a paisagem e se inspirou por retratá-la. Márcia Berenguer Cabral nasceu em 1948. sinalizando que este se aproxima da margem. rica de contradições históricas. é de se teorizar sobre a técnica. assim a carranca se situa num canto superior da tela. Aqui a idéia de uma viagem de solidão se contrapõe à alegria festiva do barco de Josinaldo Ferreira. Um de seus quadros intitula-se “Mouth of São Francisco River” e nesse caso. sem camisa. São formas diferentes de apreender a realidade pictórica do vale do São Francisco. sobre usa contemporaneidade. No quadro “Carranca do São Francisco”. pintor norte-americano.que se ajustasse melhor ao quadro. atualmente vive em Portugal. sugerindo quase que uma névoa. mas por outro lado.

como se fosse também pelo peso da água acumulada. se constitui de três bagas bem rombudas. mas pela robustez delas. compondo uma forma indefinida que só ganha sentido concreto quando olhamos seu título. No quadro de Mallet vemos uma espécie de cacto que. São Francisco Mouth Na já cita exposição “Águas de Março”notamos o quadro de Alfredo Mallet (Rio de Janeiro.compreensão do lugar. O verde e o azul. “Êta Transposição”. da gente e da terra que retrata em suas telas. modernas e artísticas acerca da pintura. o olhar de turista encantado com a Natureza local. “O Ovo”. Êta Transposição 71 . revela-nos apenas o óbvio. faltam os espinhos. No caso particular dessa tela. esse é seu olhar. Pelo contrário. Uma baga superior se empina firme em direção ao Sol. O fundo é todo de tons vermelhos e o Sol. portanto. Alfredo Mallet. A tela lembra um pouco um estilo de pintura de Tarsila do Amaral (“Abaporu”. caindo pelos lados. porém. que seria mais interessante se não tivesse o título e poderíamos aventar hipóteses mais estruturalistas. Paul Berenson. 1942). dando a entender que caem pelo excesso de calor e aridez da paisagem. se mistura com o fundo. o de um pintor turista. o distanciamento revela-nos quase um quadro abstrativista. Duas delas. Penso eu. Locais turísticos. enfim. também vermelho. O título. “Antropofagia”).

Na exposição “Águas de Março” apresentou a obra “Lágrimas de Opará”.A terra num tom ocre oleoso sugere a aridez do terreno. por outro lado. Ou entendemos que a obra é contrária à transposição. de cujos olhos escorrem dois filetes derretidos de aço inoxidável. ou melhor. 1956) destaca-se como artista pelo trabalho de escultor. uma vez que apresenta o calor. caem pela sua frente e continuam pelo chão. aludindo assim a provável falta de planejamento que os críticos do projeto buscam demonstrar. Ainda se pode interpretar que o estranho cacto ali no cenário semi-árido seja simbolicamente o próprio projeto de transposição. a necessidade desse processo. a aridez. nesse sentido. SE. entendemos que a transposição viria a solucionar o problema da seca. o processo se deu. Recuperando o nome indígena do rio São Francisco. tem resultados insatisfatórios. cerca de 70 anos após o advento do Modernismo. nos remetem a um novo tópico. A luta do homem para o domínio da Natureza de modo a torná-la sujeita as necessidades humanas. Lágrimas de Opará 72 . Assim. no mais das vezes. A interpretação do quadro é. ou. O cacto na tela de Mallet é. qual seja a questão do modo como os modernistas de São Paulo e Rio de Janeiro viam o processo de interiorização. o aspecto ecológico entra como componente crítico de avaliação do processo de interiorização. algo ambígua. seja pelo desequilíbrio ecológico. sendo vencido aos poucos pela incongruência da paisagem. pois. Antônio da Cruz apresenta uma máscara em cobre. representativo desse processo. Antônio da Cruz. como se fossem as lágrimas num choro contínuo. mas é de se destacar nesse quadro. Os filetes derretidos caem sobre um bloco. porém tal luta. seja pelo modo consumista e destrutivo com que. A lembrança com o estilo de Tarsila do Amaral não é uma característica constante da obra de Alfredo Mallet. na maioria das vezes. de modo que sua aparente robustez logo se desvanecerá. Antônio da Cruz (Maruim. e sua comparação com as citadas obras de Tarsila.

Os materiais usados. a primeira palavra é que melhor se adequa à obra. A máscara se apresenta como o mito antigo diante das contradições do mundo moderno.A obra num estilo bem contemporâneo. ao meu modo de ver. no caso. chorando a ausência de seu amado guerreiro. Crítica ao progresso desmedido que não se preocupa com a preservação ambiental. uma homenagem ao gênio Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). os jarros com flores. o antigo Farol da Atalaia e. “Eu acho que o abstrato tem como pátria a humanidade e como bandeira. como ele mesmo intitula uma de suas exposições. se faz submergir diante do sentido extra-artístico. No caso da obra em questão. ao bom estilo modernista. declara o sergipano de Capela. que se realiza no próprio meio. do “Neo-regionalismo para o Abstracionismo Informal”. Assim é como Ismael Pereira define a exposição. um desenho de uma placa vermelha com o dizer “TransImposição”. O vocábulo portmanteau. transforma o produto artístico em panfleto.” (fonte: http://www. É difícil conseguir a alquimia adequada. denuncia um processo apressado de engajamento. Ícone do neo-regionalista. peca pelo excesso de intenção engajada.Era uma Vez um Rio São Francisco”. ao invés de ser dominado por esta escola. perpendicularmente à tarja. Numa notícia chamando a atenção para a última semana desta exposição. o quadro “Era uma vez um Rio São Francisco”.com. inclusive. aqui é o próprio quem chora agora e suas lágrimas são de aço derretido. É uma coisa muito universal. porém. uma de suas obras mais conhecidas é justamente uma intitulada “Mandala”. lemos: “Os trabalhos são inspirados em temas que vão desde a mitologia greco-romana à cultura popular do Nordeste. num processo em que tal transformação resulta numa diminuição de suas qualidades estéticas. o político-social. Um fundo cinza. que passa. temos a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” de Ismael Pereira. os galos de briga. ele enveredou pelo abstracionismo porque possui qualidades para dominar. “Ousadia sexagenária”. Lá estão a fênix. ressignifica o mito de Opará. Assim. E eu gosto muito dessa liberdade”.br/noticias/19820081283251459) Porém. uma vez que a mensagem artística. o sol.. Na mesma exposição. aço inoxidável e cobre dão uma concretude contemporânea. Nem sempre a primeira impressão. o rio que na mitologia indígena se forma pelas lágrimas da linda Iati.. sem perspectiva e uma mandala se coloca ali como o Sol – signo artístico de Ismael Pereira.cinform. o equilíbrio em que a obra de arte continue sendo obra de arte e o engajamento sócio-político. vemos uma tarja preta com a frase: “. 73 . Não raras vezes o desejo de engajamento numa causa política ou social.

abstraídas de suas formas. enquanto mundo das idéias das formas. os cartazes poéticos dum Maiakóvsky. uma poesia visual cuja visualidade se encontra subordinada ao verbal. A pintura de Gonçalo Ivo é de uma geometrização que confere ao pictórico uma dimensão lúdica numa interface com a realidade física que abre o jogo entre a abstração.. da poesia visual. 1958). branco e negro combinam-se e alternam-se nas faixas horizontais dando a dimensão plástica das águas do rio. com domínio das linhas horizontais. o suplantem. ainda. Nas três telas acerca do Rio São Francisco. Aurora. e a realidade concreta. Assim. Rico de combinações de cores. mundo da realização das formas em matéria plástica. . e. o branco de nuvens.Era uma Vez Um Rio São Francisco O verbal aqui suplanta o pictórico. um poema assim. seria mais de se considerar a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” uma variante dos poemas postais. redimensionam o espaço pictórico num jogo criativo e encantador aos sentidos visual e táctil. As cores formam o espectro do cenário: o verde das matas. filho do poeta Ledo Ivo. Gonçalo Ivo (Rio de Janeiro. As cores de Gonçalo Ivo. um cartaz. pelo modo metalingüístico e poético com que se apropria de lemas da revolução russa. temos o domínio dessas linhas horizontais. justificadas por um contexto da fluvialidade das águas. tem um conjunto de três telas acerca do Rio São Francisco. Pintor cuja influência abstracionista e concreta se faz notar..Ismael Pereira. a obra acaba se realizar como um panfleto. o azul das águas. Em “Aurora” as cores são mais quentes. 74 . duma fase pré-concretista. por exemplo. mas nesse caso. assim. numa delas os tons de azul. uma delas subintitulada. assim como também as faixas horizontais se dividem em grupos retangulares e um circular (referência ao Sol). o vermelho do calor e do Sol. Ou de outro modo.

org. O que busquei comentar nesse capítulo foi. mas me ative as telas que tive maior familiaridade e contato. A Pintura no Brasil Holandês. José Roberto Teixeira. na sua morosidade do ritmo de entardecer sertanejo. A matização da tela assim substancia o rio como um rio sólido. 1978. em termos de técnica abstracionista. Rio de Janeiro. Gonçalo Ivo. sendo que muito provavelmente esqueci ou deixei passar telas significativas da história pictórica do tema em questão. dentro do conjunto. São Bernardo do Campo. As cores dominantes são os tons de vermelho e marrom. GRD.sociedadesemear. SP. bem pode ser subdenominada de “Entardecer”.br/noticias/19820081283251459 SEMEAR: “Exposição Águas de Março”. me suma.cinform. http://www. em que o fluídico se encontra disfarçado pelos tons mais densos. me parece o pintor que melhor soube apreender a natureza pictórica do Velho Chico. Internet: CINFORM: “Última Semana Para Ver a Ousadia Sexagenária de Ismael Pereira” Postado em 19/08/2008.Telas de Gonçalo Ivo com o tema do Rio São Francisco Uma terceira tela. 1967. http://www. um breve panorama quase crítico das representações pictóricas do Rio São Francisco. embora tenha o título apenas de “Rio São Francisco”.br 75 . Não é esse panorama completo nem extenso. São ás águas calmas do rio São Francisco refletindo a luz. Referências CIA. DESENVOLV. Mercedez-Benz do Brasil. São Francisco: O Rio da Unidade. VALE DO SÃO FRANCISCO. Assim. É o reflexo do rosicler solar sobre as águas turvas do rio.com. LEITE.

Era comum um espetáculo de bonecos denominado de “Presépio” de característica de difusão do imaginário cristão. A chegada do teatro de bonecos está associada também à chegada da arte circense. inclusive em Portugal. sendo apoiado pela Igreja. incluindo-se aí um longo espectro de adaptações e modificações. O teatro de bonecos era comum na idade média na Europa.Mamulengo Revisitado: A Arte das Mãos na Ligeireza dos Bonecos A origem do teatro de bonecos chamado de “mamulengo” perde-se um pouco no próprio processo de aquisição de cultura durante a colonização. à transposição de lendas européias para a cultura brasileira. O mamulengo é 76 .

o policial (a volante). Tal habilidade. Além destes. em alguns casos.os bonecos são suspensos por uma haste de metal. o cachorro. algumas vezes. existem os personagens que representam alegoricamente determinados valores de conduta. como a raposa. A tipologia das personagens demonstra. a nosso ver. hoje se considera que os bonecos de mamulengo podem ser. o teatro do mamulengo já tem como padrão a utilização do palco de bonecos e da separação visual entre o bonequeiro e o boneco. da boca e até dos olhos. no entanto.os bonecos são ligados por fios a um controle. Quitéria. podendo também ter fios para os braços e as pernas. o papagaio e o jacaré. b) de vareta . articulado e movimentado por varetas. Mané Pacaru e João Redondo. que permite ao manipulador movimentá-los. por vezes. o Moleque Benedito. ao passo que no mamulengo era a mão do bonequeiro que dava sustentação e a forma definida ao corpo do boneco ao ser introduzida por debaixo do boneco em orifícios próprios para a ação dos braços. Diferia o mamulengo do teatro de fantoches ou de marionetes pelo fato de que no teatro de fantoches a ação dos bonecos era mediada por linhas. o briguento. Os personagens típicos do mamulengo são definidos por uma tradição que representa papéis sociais que se cristalizaram na formação da sociedade nordestina: o coronel. o Cabo Setenta. a comédia tornou-se o gênero característico. o galo. cordões ou cordas que sustentam o boneco. num certo sentido. de massa ou papelão. d) de fio . Piauí. tendo o mamulengo incorporado. o valente. c) de haste . etc. a onça. daí espalhando-se para estados como Alagoas. A origem do mamulengo em Pernambuco está associada ao período da invasão holandesa. definiu aspectos do mamulengo como um teatro de bonecos que. Catirina. 77 . Essa tipificação característica de personagens se eleva um pouco mais quando notamos a ocorrência de personagens com nomes próprios mais delimitados como o Professor Tiridá. que chega ao teatro de bonecos como forma de diminuir a possibilidade de participação do ator na construção do texto teatral. temos nesse caso o bondoso. Nesse sentido. dispensava a necessidade de uma caixa para palco. o padre. conhecida como “Jan Pickel Herringe”. conforme a técnica utilizada. Simão. cujo movimento é produzido pela mão (dedo indicador colocado na cabeça e o polegar e o médio nos braços). Rio Grande do Norte. Assim. diferindo do Presépio medieval com caráter mais religioso e mesmo de desenvolvimentos mais acadêmicos ou eruditos como o teatro simbolista de marionetes de um Maeterlinck. a técnica dos bonecos suspensos por cordões ou cordas. uma vez que por aquela época era uma arte comum na Holanda.característico do Nordeste. o molenga. dos seguintes tipos: a) de luva (ou também “guignol”) . Modernamente a distinção entre o teatro de bonecos e o teatro de fantoches tornouse muito tênue.boneco de madeira ou outro material. etc. Hoje. de uma cortina que separasse visualmente o bonequeiro do boneco. Papafigo. Há também os bichos. A origem do termo parece estar implicada com a corruptela da expressão “mão molenga” com que se definia a habilidade do bonequeiro em movimentar o boneco. ou ainda. feito de madeira. vestindo um camisolão de pano. principalmente em Pernambuco. partindo da cabeça para a mão do manipulador. por exemplo.boneco com cabeça de madeira. como o teatro de bonecos mamulengo conseguiu absorver um procedimento crítico da sociedade fundado na técnica da alegoria e da ironia. o mamulengo se aproximava visualmente da performance do ventríloquo. Nesse aspecto.

antecedido pelo período da permanência da família real portuguesa (1808-1815). desprovidos de estrutura logística. o rapaz Simão tenta então resgatar o boi do ventre da cobra e acaba por entrar no ventre em busca de seu animal. mas principalmente por que a personagem alegoriza-se sob a visão popular acerca do policiamento nas pequenas cidades do Nordeste. personificam a visão da sociedade por um viés que na sua forma satírica e estereotípica faz por desnudar as contradições dessa mesma sociedade. Se o Cabo Setenta nos faz rir. misturando ainda elementos de personagens folclóricos diversos. a namoradeira. personagem sincrético entre elementos do imaginário cristão. mas também de configuração maia e egípcia. A figura simbólica do boi nas histórias populares do Nordeste.).A comédia no mamulengo. entre outros. Do mesmo modo. vai também acrescentando os seus. Uma de suas peças mais conhecidas é “Simão e o Boi Pintadinho”. uma vez que a própria família real portuguesa mantinha laços estreitos por meio de casamentos e outras 78 . De certo modo. p. não é tanto pela sua inabilidade de polícia e pelas trapalhadas pelas quais passa e provoca. A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira 1. associada historicamente como parte do aparelho de institucionalização do coronelismo. assume a condição de sátira. em que o boi depois de aprender a dançar é engolido por uma cobra. o que temos é uma outra mensagem simbólica: a persistência. acrescido dos interregnos da regência (1831-1840) e do reino unido (1815-1822).ex. Aqui. tanto mais que os personagens característicos costumeiramente acabam por se construírem sobre estereótipos de papéis sociais enraizados na estrutura da sociedade nordestina. e em outros casos. Waldeck de Garanhuns é um artista do mamulengo que tem se destacado por um trabalho de revisão e reinvenção dessa arte. em que o poeta se veste da pele de cobra e sai em busca da princesa do sem fim. de pessoal treinado e de recursos os mais variados para seu trabalho. porém. denotando sua universalidade enquanto arquétipo (a serpente emplumada. se liga ao mito de Orfeu e sua descida aos infernos e num contexto cristão à aventura de Jonas no vente da baleia. não poucas vezes. no lugar da conquista do amor ou da validação do poder da fé. Introdução: O Rei e seu Castelo O Brasil foi o único país da América do Sul a ter um período monárquico ligado às tradições e às famílias nobres européias. O resgate do boi nos faz lembrar do poema “Cobra Norato” de Raul Bopp. terminando o século pela proclamação e instalação da república nos governos de Marechal Deodoro e Floriano Peixoto (1889-1894). indígena e africano. Simão é a prefiguração do dizer euclidiano-pós-positivista de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”. o padre. As ligações com as famílias nobres européias superavam os limites do domínio da metrópole. aqui é articulado com a figura da cobra grande (originária do imaginário indígena). muitas vezes. na constância de busca de superação dos limites impostos pela maquiavélica exploração social das agruras das intempéries. a mulher fofoqueira. mas também. O nosso século XIX foi marcado nesse âmbito pelos dois reinados (1822-1889). Sabendo revisitar os personagens criados por outros mestres mamulengueiros. o que temos é um processo de carnavalização (bakhtiniana) na formulação e apresentação do espetáculo do mamulengo. O Nordestino materializa sua fé na persistência.

da França. Luís Maria Filipe e de D. temos sim que levar em conta o imaginário cristão católico de que Portugal foi um grande difusor. neto de Luís Filipe. é obrigado a fugir do país com a família. aos príncipes Gastão de Orléans e seu primo. a figura do rei-santo que voltará a restabelecer o seu reino. princesa de Saxe-Coburgo-Gota. Condessa de Belmonte e ama do jovem monarca. Se cruzamos a influência histórica da coroa portuguesa e da monarquia brasileira com a simbologia cristã temos o amálgama completo que dá razão à existência desse apego do imaginário na cultura brasileira à figura do rei e de seu castelo. Ganhou o título de conde D'Eu ao nascer. Pedro teria cogitado em pedir a anulação do matrimônio por conta de seus minguados atributos físicos: era baixa. Seu nome original em italiano: Dona Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias. Leopoldina. duquesa de Saxe. 28 de Dezembro de 1889). No imaginário cristão. Pai de D. temos então as razões históricas para o desenvolvimento e a permanência no imaginário brasileiro da figura do rei e do castelo. com quem casara por procuração. (fonte: Wikipédia). se casassem com chefes doutras dinastias para dar continuidade à linhagem. 14 de Março de 1822 — Porto. Estes chegaram ao Brasil em 1864 para se casarem. terceira e última Imperatriz do Brasil. Antônio Gastão. e de Vitória Francisca Antonieta Juliana Luísa. A propósito de Dom Sebastião. de D. encontra no Brasil várias adaptações no imaginário popular. 5 4 Dona Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltazar Melquior Januária Rosália Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bondosa André d'Avelino Rita Leodegária Gertrudes Venância Tadéia Espiridião Roca Matilda de Bourbon-Sicílias e Bragança (Nápoles. Francisca. conde d'Eu. Jesus Cristo é apresentado como o “rei dos reis”. Isabel e D. Sintomático e exemplar disso é o episódio de Canudos. D. ao conhecer a esposa. princesa de Joinville. no qual Antônio Conselheiro em suas prédicas denunciava a república como a grande inimiga da fé e preconizava a volta de um mitológico Dom Sebastião que viria restaurar não a monarquia ou o reino de Portugal. D. imperatriz Teresa Cristina e D.alianças familiares com as famílias da Áustria. Fez sondagens com a ajuda de sua irmã. foi a esposa do imperador Pedro II. Mas as princesas tomaram a liberdade de escolher seus noivos. devido à Revolução de 1848. filha única do general e duque Fernando Jorge Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. da Espanha e da Inglaterra inclusive. o rei da França. dado por seu avô. Pedro II do Brasil queria que suas filhas. Se contarmos ainda o longo período colonial de ligação com o governo monárquico absolutista e centralizador português. No Maranhão. a prova direta dessas ramificações para além da família real portuguesa. Augusto de Saxe. D. Alguns cronistas relatam que o casamento só teria se consumado um ano depois e que o imperador só não remeteu a esposa de volta à sua terra natal graças à intervenção de D. com quem casou-se em 4 de setembro de 1842. Há quem afirme que. Aos seis anos. refugiando-se na Inglaterra junto ao ex-rei da França. Isabel Leopoldina Cristina de Bragança e Duas-Sicílias no Rio de Janeiro. No Brasil o Cond’Eu 4 e a imperatriz Teresa Cristina 5 eram. em Minas Gerais. Família Imperial . 79 . em Goiás. seu enlace foi motivo de decepção para o marido. casou-se com a Princesa Imperial D. D. com Leopoldina e Isabel. de origem portuguesa. em Pernambuco entre Era filho primogênito de Luís Carlos Filipe Rafael de Orléans. Pedro de Alcântara. Assim. mas sim o reino de Cristo.da esquerda para a direita: Conde d'Eu. Pedro II. a D. duque de Némours. Mariana Carlota de Verna Magalhães. Gastão de Orléans. rei da França. É claro que tal simbologia do rei e do castelo não se deve exclusivamente à ligação com a monarquia em Portugal e no Brasil. entre outras pessoas. respectivamente. Filha do rei Francisco I do Reino das Duas Sicílias. Isabel Leopoldina. É lá que passa a maior parte da infância e da adolescência. aos 15 de outubro de 1864 (fonte: Wikipédia). manca e feia.

se apresenta como o desfile da corte e dos súditos para um rei. 6 80 . Al Capone foi cognominado o rei do crime em livro de Nate Hendley. em que já se pese mais de um século de período republicano. Havendo uma continuidade entre o governo de D. col. o “Rei do Samba de breque”. Satan é o “Prince of Darkness” uma vez que não pode existir o reino das trevas que se oponha o reino de Deus. O carnaval. The King of Crime (1914). uma breve observação sobre alguns índices encontráveis na linguagem cotidiana já é um suficiente para a constatação dessa simbologia no imaginário do povo brasileiro. a crítica sarcástica e a alegria desmesurada. a pilhéria. sequer podemos falar numa efetiva guerra da independência em que se pese os confrontos na Bahia em 1823 transformados num desconhecido épico de Ladislau dos Santos Titara. Pelé é o rei do futebol. de Sidney Northcote é um filme que se nos afigura como representativo dessa simbologia. basta atentarmos para um outro país cuja colonização tivesse sido marcada pela sujeição à uma metrópole monárquica e a religiosidade. já um pouco passado na idade e no estilo musical. Reginaldo Rossi é por muitos considerado o “Rei do Brega”. ameaça e que se caracterize como algo do exterior. políticos e sóciopsicolingüísticos com o passado monárquico.Pedro I. No caso do Brasil. uma das principais manifestações populares do Brasil. assim é caso do King Kong. Tendo como marca a basófia. o Rei Momo. 6 De fato. ainda apresentado simplesmente como “o Rei”. vez por outra é utilizada para qualificação de um elemento arquetípico que represente perigo. o único rei admitido sem restrições no imaginário WASP (White. No futebol. Este de deus da mitologia grega passa a rei do carnaval num longo processo de transformação do festejo. 25. também. que desde o seu início muito têm feito pela eliminação de vínculos culturais. tendo porém a ausência de um período monárquico na fase independente. A guerra da Independência americana e o domínio do protestantismo parecem que são fatores a diminuir o sentido que a figura do rei poderia ter no imaginário norteamericano. Roberto Carlos. Para fins comparativos. dominada pelo imaginário cristão. ainda que nosso romantismo inicial tenha se esmerado em se apresentar como antilusitano. também. Mesmo expressões como “the king of rock” parece ter sua origem na Inglaterra e não nos Estados Unidos. “the magic”. “the big”. se constituiu uma hierarquia monárquica com o príncipe do futebol (Dirceu Lopes. Sinhô foi o “Rei do Samba” ao passo que Moreira da Silva.outros estados. Jesus Christ é o “King of the Kings”. Parece que o processo de adjetivação nos USA prefere ao “the king” outras qualificações como “the best”. vol. “the star”. Podemos pegar como exemplo os Estados Unidos. substituindo o imaginário do rei luso pelo sentimento A esse respeito indicamos o trabalho de Marcio Honório Godoy. mas tão somente um estado de exílio. A palavra “king” como adjetivo. Khronos. Na cultura norteamericana a idéia do rei como adjetivo mais comum para alguém que se destaque nalguma profissão. ofício ou função que logo recebe a denominação de rei. mas a rainha da jovem guarda (Wanderléia) e o príncipe (Ronnie Von). foi por décadas conhecido como o “Rei da Juventude” 7 e hoje. Por outro lado. Dom Sebastião no Brasil.João VI e o reinado de D. ainda é possível encontrar festas populares cujas representações estão direta ou indiretamente ligadas ao sebastianismo. arte ou função parece não ser a mais usual. 2005. Perspectiva. Ayrton Senna foi o “Rei das Pistas”. AngloSaxonic and Protestant). São Paulo. década de 70) e Didi (príncipe etíope). Basta alguém se destacar numa arte. 7 O movimento musical denominado de Jovem Guarda tinha não apenas o rei.

no palácio a arquitetura de uma torre tem função mais para ostentação. A suntuosidade do palácio é que o distingue do castelo. a necessidade do fosso e das muralhas. sem portanto. O Dicionário Houaiss define castelo no seu significado primeiro como “residência real ou senhorial dotada de fortificações” e palácio como “vasta e suntuosa residência de um monarca. além de permitir a observação de vasto terreno tendo em vista sua localização sempre ao alto de uma colina ou montanha. Ainda convém lembrar que o castelo está associado à idéia de um local afastado do urbano. quanto no popular e folclórico. destacar a suntuosidade. em primeiro lugar. barbacã. permitir aos acastelados olhar à longa distância. Fortificação de tipo permanente. de um alto dignitário do poder eclesiástico. como morada preferível tendo em vista a sua condição de fornecer proteção contra ataques. o palácio a Wikipédia define exatamente como os dicionários Houaiss e Aurélio. confiando sua defesa aos quartéis e fortificações militares que circundariam e protegeriam os palácios. fosso.” Sobre sua origem. tanto no âmbito culto e erudito..”. fontes e espelhos d’água. Na Idade Média é que os castelos evoluíram para morada dos senhores feudais e nobres. O Dicionário tem o significado primeiro semelhante ao Houaiss. dependendo de seu contexto. ao passo que no castelo sua função é a de efetivamente. uma vez que o que seria apenas suntuosidade e pompa no palácio.” E para palácio o Aurélio define como “Residência de um monarca. a idéia de que o Rei é a qualificação natural para aquele que se destaque num grupo social. por exemplo. embora isso ficasse implícito pela designação de “residência de um monarca”. o Castelo é o lugar do rei. quanto positivo. tanto podendo ter um sentido pejorativo. era geralmente erguido em posição dominante no terreno. acrescido de que o castelo é “Praça forte. A enciclopédia on line Wikipédia. de “castellum” (latim). de Fábio Barreto. Lembremos do filme O Rei do Rio (1985). de um alto dignitário eclesiástico. No Brasil. com funções defensiva e residencial. O aspecto defensivo do palácio é diminuído. ao passo que os palácios são mais característicos do período em que a realeza efetivamente superou os receios de eventuais ataques de hordas inimigas. Romário e Túlio). típica da Idade Média. Nesse âmbito é que os castelos são de característica mais própria ao contexto político e social da Idade Média. por amplos jardins. ou quando não. etc. substituindo-se. no castelo por vezes tem sobreposto a função defensiva ou de vigilância. fortaleza. isolando-se assim do contexto 81 . próximo a vias de comunicação. de um chefe de governo”.francófono. da qual a revolução francesa logo sucumbiu ao império ditatorial napoleônico tão exaltado num Domingos José Gonçalves de Magalhães. que conta a disputa entre dois bicheiros pelo domínio da contravenção. Uma torre. Desse modo a expressão ganha sentido ambíguo. o que facilitava o avistamento das tropas inimigas e as comunicações a grandes distâncias. se referia a uma torre de vigilância. Por sua vez. Dez anos depois a expressão foi utilizada no âmbito esportivo para ser referir à disputa entre três grandes jogadores no campeonato carioca de 1995 (Renato Gaúcho. inclusive reis. seu âmbito natural. com Nuno Leal Maia e Nelson Xavier. como faz Houaiss. No imaginário da cultura brasileira a idéia de castelo apresenta já um anacronismo histórico. uma vez que o castelo é uma construção típica da arquitetura medieval. define castelo como “Um castelo (diminutivo de castro) é uma estrutura arquitectónica fortificada. que se destaca da paisagem citadina por estar colocado no alto de uma colina. para realmente ser admirada e vista de longa distância. por exemplo. com muralhas. ao passo que a palavra “palácio” parece se referir mais especificamente às construções nobres do renascimento para diante. Por sua vez. cercada por torre e um fosso. de um chefe de estado etc.

bem como das figuras de Drácula. além da popularização da imagem de castelos mal-assombrados na Europa (em especial na Escócia). Não é por acaso também que um dos quadros mais conhecidos de Manuel de Araújo Porto-Alegre seja a coroação de Dom Pedro II em que a figura do rei/imperador se materializa no ritual de coroação dentro do ambiente do palácio. Seria isso um anacronismo? Um processo de kitschização? Possivelmente encontraremos esses aspectos na análise de construções que pareçam castelos na arquitetura brasileira. eventualmente. de Dom Dinis e de Dom Sebastião. a inexistência do período medieval e nossa ligação colonial com a Europa a partir do barroco e do iluminismo fez com que os palácios se tornassem as moradas dos governadores. entre outras. Cidades como Petrópolis. Durante o período imperial é que a construção de palácios nobres se destacou. Teresópolis. conhecido pela representação exuberante da natureza brasileira. podemos nos deparar aqui e ali com construções que embora contemporâneas. além do Rio de Janeiro se notabilizaram por seus palácios. 82 . entre outras personagens similares. não está de tal forma elevado que o acesso a ele se faz de forma dificultosa. Manuel de Araújo Porto Alegre. Na pintura romântica brasileira. em geral. Já o palácio está cercado pelo ambiente urbano. podemos ver isso no quadro “Grota” em que o pintor. criou-se no imaginário popular a necessidade de castelos supratemporais e supraespaciais que poderiam compor a paisagem local materializando a idéia arquetípica do lugar misterioso e de passado glorioso ou histórico. de Frankenstein. de Carlos Magno. O fato de não termos idade média e a absorção ao imaginário popular de lendas e histórias medievais como as do ciclo do rei Arthur. se dispôs no quadro a imaginar um cenário tipicamente medieval europeu. mas como que se coloca numa situação central entre os caminhos da cidade. no mais das vezes. No caso do Brasil. Grota. No entanto.urbano ao redor. nos lembram algo de um certo modelo arquetípico dos castelos medievais.

condes. Os Castelos do Brasil Para o menos avisado e ao mesmo tempo mais crítico do sentido etimológico das palavras. da cana-de-açúcar. embora não tivéssemos idade média temos castelos de caráter medieval.Manuel de Araújo Porto Alegre. Coroação de Dom Pedro II O que comentamos a seguir é como o castelo medieval que não tem raízes históricas no Brasil. quanto pela nobreza de barões. com base na etimologia e nos dicionários pesquisados. tanto pela família real. se transforma em ambiente imaginário da sublimação do desejo de realeza e nobreza diante do cenário exuberante da natureza tropical brasileira. Como se a união do castelo ao cenário brasileiro fosse a recuperação de um ideal de civilização que se acredita perdido. do algodão e de outras monoculturas que renderam a alguns o prestígio e a riqueza suficientes para a ostentação materializada em suntuosas moradias. ao contrário do palácio imperial pós-renascentista tem. do tabaco. estando de fato presente apenas como espaço arquetípico que necessita de preenchimento. 2. seguindo a definição que propomos na introdução desse texto. tendo em vista os palácios construídos durante o período monárquico no Brasil. viscondes e duques. madeira) trazido da Europa para dar à construção maior legitimidade. escrevemos apenas sobre os castelos. alguns construídos com material (pedras. o título dessa secção deveria ser “Os Palácios do Brasil”. não pertencendo a qualquer momento real desse passado. Ainda se acresce a eles. os palácios e palacetes da aristocracia do café. como se fosse 83 . de fato. o título está correto. porém. Porém. de fato. Ou seja.

Castelo Lacave (Caxias do Sul)e o Castelo de João Capão (Garanhuns – PE). Smith de Vasconcelos. como determinadas portas. escadas. terminado em 1920. telhas de ardósia francesa. Castelo Itaipava. bibliotecas. colunas e forros que foram talhados na Europa. Castelo das Pedras Altas (Pedras Altas – RS). o maior castelo medieval do Brasil. 7 banheiros. Não comentaremos de todos os castelos. tendo assim direito a que uma estação de trem ficasse dentro dos domínios do seu castelo. terraços. descendente de família nobre inglesa e portuguesa. curiosamente alguns elementos.possível transplantar o tempo por meio da materialização da construção com materiais do lugar de origem dos castelos. ferragens inglesas. tendo em vista. halls. diversos salões. vitrais austríacos e pisos de mármore italiano). foram feitos em jacarandá. que para nosso propósito. duas torres. dependências para hóspedes. eles parecem preencher as nuanças do fenômeno em questão. Itaipava RJ. a construção deu aos arquitetos o prêmio de da grande medalha de prata do salão de Belas Artes de 1924. Castelo do Barão de Itaipava. o Castelo do Barão de Itaipava foi construído pelo barão J. 2. O castelo tem 42 cômodos distribuídos em 19 quartos. Aberto à visitação pública e sendo uma das mais curiosas e interessantes atrações turísticas da cidade fluminense. Para o transporte do material. sala de música.1. Tendo a intenção de reproduzir nos trópicos uma cópia fiel dos castelos medievais europeus o barão solicitou aos arquitetos Lúcio Costa e Fernando Valentim a elaboração do projeto. Rio de Janeiro. o barão colaborou no custeio da construção da estrada de ferro Leopoldina. mas nos prenderemos a quatro castelos em especial. são eles: Castelo do Barão de Itaipava (Itaipava – RJ). madeira natural do Brasil. ala dos serviçais e 84 . Para a construção do castelo o material foi trazido todo da Europa (blocos de pedra portuguesa.

Chefe da Revolução de 1923. o barão J. com móveis. talvez. que acomodaram políticos.2. argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes" Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. A beleza de sua estrutura. ao passo que o castelo do Barão de Itaipava era para satisfação pessoal. 85 . / O livro que amanha a alma. Um enorme relógio. mesmo que montados e/ou anacrônicos. que pertenceu a Bento Gonçalves. Á entrada do castelo lê-se os seguintes versos: “Bem-vindo à mansão que encerra / Dura lida e doce calma: / O arado que educa a terra. Cada objeto conta alguma história. com a diferença que este último é para fins de catarse coletiva e obtenção de lucro com o mundo do entretenimento. A medida foi uma das cláusulas do acordo de paz. Smith de Vasconcelos soube investir na construção dessa obra arquitetônica que transcende a linha diacrônica da história. Fruto. Assis Brasil determinou o afastamento de Borges de Medeiros do posto de governador do Estado. 2. A construção centenária foi cenário para importantes decisões políticas das primeiras décadas do século passado. assinado no próprio castelo. transformando-se atualmente em atração turística não apenas pela beleza e riqueza de materiais. É considerado o único castelo em estilo normando nas Américas e também o maior do Brasil. porém. revolucionários e intelectuais. Acreditando que era possível viver no ambiente rural sem necessariamente abdicar do conforto da civilização urbana. cria um sentimento de êxtase estético no visitante como se um processo mágico no tempo pudesse transportar-nos ao cenário dos reis e cavaleiros medievais. o castelo de Pedras Altas busca justificar uma das frases preferidas do revolucionário gaúcho que estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (SP) e foi adepto do movimento republicano: “Em certas ocasiões mais vale um dia de ver do que um dia de ler” . O Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas Construído por Joaquim Francisco de Assis Brasil em 1904. mas que tenham uma eficiente dose de magia e ostentação. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça. estilo colonial. o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845). de seus aposentos e salões. o qual havia exercido por mais de 30 anos.galerias. de um desejo de sublimação da realeza perdida com a república (1889). aliada à beleza natural da serra fluminense a sua volta.” Contendo 44 cômodos. mas principalmente para satisfação coletiva de um imaginário popular que busca preencher sua história fragmentada com retratos. lembrando sob certos aspectos o personagem queirosiano de A Cidade e as Serras. não muito diferente do desejo que faz surgir castelos mágicos na Disneylândia. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. criando um espaço mágico. importados de Nova York.

86 . nos corredores.Este. Porém. o conflito de harmonia causado pelas impressões iniciais das diferenças históricas sedimentadas nos estudos de História do ensino fundamental. que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. Assim visitar o castelo é também conhecer um pouco da história e das contradições inerentes a essa história. menos consciente desses aspectos históricos. o que se apresenta emoldurando o castelo de Pedras Altas é a própria história do município e daquela região. o transplante do castelo medieval para o cenário gaúcho foi se efetivando de tal forma que não se encontra hoje diretamente anacrônico ou anódino. mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. de imediato.” (ZAVASCHI. Homem de cultura e de experiência política e diplomática num período conturbado da solidificação da república no Brasil. Ao viajante. pois. nesse sentido. tomando conta como o fantasma escocês esperado de um castelo medieval: “A paz de Pedras Altas. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893. Aos poucos a revolução de 1923 vai se apresentando na biblioteca. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular. 25-11-2003 página 54. Antes. entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses. por isso.) Desse modo. o castelo de aparência medieval vai se reciclando e se amalgamando a um substrato histórico não característico de sua arquitetura. é um castelo que se apresenta impregnado de história política do Rio Grande do Sul. Zero Hora. na janela quebrada. a preocupação em todo o país. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou. a surpresa da construção medieval na paisagem cria o antagonismo. ao adentrar e visitar o castelo essa impressão inicial vai sendo substituída pela sensação de que esse castelo não poderia estar em outro lugar a não ser ali. Olyr. bem como seja a concretização de ideais estéticos e filosóficos de seu construtor. Porto Alegre.

Os novos proprietários tiveram extremo cuidado ao decorar e ambientar seu interior com móveis e estilo da época. As recepcionistas que acompanham a visita vestem trajes medievais e seus salões e corredores exibem tapeçarias. os visitantes são recepcionados na Sala dos Tronos. seria a sede da vinícola Chateau Lacave. com ambientação pré-renascentista. Sala dos Barris de Carvalho. armaduras e pinturas semelhantes às da época. ocorrendo inclusive um acidente com morte de operário após a queda de uma das paredes. Salão das Bandeiras. 2. foi reaberto à visitação em 2004. Demorou dez anos a construção do castelo. Ao entrar. segundo o padrão característico da construção de castelos. passando à família Basso. O castelo ganhou um brasão e as cores próprias para sua bandeira. objetos. há até armaduras. passando para a Sala das Cruzadas. Para dar o clima de realismo. móveis. como desfile de cavaleiros trajados em armaduras e brasões característicos da Idade Média. e tendo uma planta original de um castelo que pertenceu a sua família no século XI. em pedra. Castelo Lacave. tornando-se uma das principais atrações turísticas de Caxias do Sul. a taberna e varejo. Em 2001 a vinícola mudou de dono. O Castelo Lacave foi resultado do sonho de um empresário espanhol que residia no Uruguai. resolveu reconstruí-lo na região vinícola de Caxias do Sul. Descendente de uma família nobre espanhola. o local de recepção de uva. 87 .Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. mas também fica informado acerca da produção de vinho além de ver espetáculos inspirados na idade média. Terminado em 1968. e depois de uma reforma e recuperação. os visitantes aprendem os processos de produção de vinhos para apreciar ainda mais esta bebida milenar. Além da visita histórica. Assis Brasil de Pedras Altas. Construção sofrida e demorada em razão da falta de experiência acerca da construção de castelos. as caves de armazenamento de vinhos. escolhidas com cuidado para não repetir de nenhum reino verdadeiro. O visitante lá conhece não apenas o castelo. o castelo do vinho.3.

de história e de mistério antigo. porque além de eletricista foi goleiro de um time amador e era considerado por alguns como “frangueiro”. 2. Incluído já no roteiro turístico da cidade.Castelo Lacave. em que o local é alugado por modestos 200 reais. Aqui a história é uma representação. sem posses. se destaca na paisagem modesta do subúrbio em que se localiza. Assim. confirmado a necessidade inconsciente do imaginário popular brasileiro de preenchimento de um arquétipo vago na nossa cultura opacamente marcado pelo substrato histórico do período colonial e monárquico. Caxias do Sul (RS) Possuindo um restaurante.4. quase nos esquecemos que o castelo foi construído em 1968. ainda que apenas como espetáculo ou como representação. um pedaço reconstruído da Idade Média transplantado no tempo e no espaço para o Brasil. iniciada há 17 anos. o que confirma o índice de mais de 70 mil visitas desde que foi reaberto. um espetáculo que encena a história medieval européia. a festa mais importante de Garanhuns. à beira da Br-423. O construtor foi apelidado de Capão. ou seja. De fato. o Castelo de João Capão. Tendo ainda como elo fulcral a descendência de seu construtor e associando-se à simbologia do vinho. somando-se à reprodução de espetáculos de cavalaria medieval. para se transformar num restaurante temático. Ainda em construção. conta com a doação de visitantes que por curiosidade comparecem ao local. no município de Garanhuns é o menos imponente e suntuoso dos castelos aqui mencionados. O Castelo de João Capão em Garanhuns (PE) O Castelo de João Capão no Agreste Meridional Pernambucano. 88 . a suntuosidade não existe nesse castelo. não mais que 40 anos. além da taberna para degustação de vinhos. como empreendimento é um sucesso. o espetáculo que é uma visita ao castelo Lacave se transforma numa experiência estética de tal complexidade e amplitude que a realidade se vê subvertida pelo objeto artificial. o Castelo Lacave faz o inverso do processo histórico que determina a característica do Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. Fruto do sonho de um eletricista. A imitação como base da mimesis fornece aqui o elemento de catarse para o visitante desejoso de vivenciar um pouco de tradição. que decidiu construir um castelo depois de assistir filmes no cinema da cidade em que via castelos e reis da idade média. daí o apelido de “capão”. ou quando do Festival de Inverno da Cidade. É assim.

entre lojas e bancos. uma caricatura quase kitsch de um castelo. Lembra um pouco palácios de Florença ou Veneza. ou o salão central com suas paredes pintadas em tom ocre de tinta à cal. Garanhuns (PE) O modesto castelo se apresenta dotado de uma força incomum para quem o visita quando sabe da história de seu construtor. por dentro. com paredes de lajota de cerâmica esmaltada e com aspecto de um banheiro típico de uma casa de classe média. desejoso de viver num castelo medieval como um rei arturiano após assistir filmes no cinema é o melhor exemplo do que busco apresentar aqui como hipótese. assim como temos casas com colunas jônicas ou dóricas.Castelo de João Capão. em parte pelos aspectos próprios de nossa história que teve quase um século de monarquia. O Palácio justifica o epíteto de palácio pela forma arquitetural. O banheiro. não o desmistifica. Se por fora as torres em estilo medieval e a estrutura de tijolos imitando pedras dá ar de construção medieval. tem janelas e torres em estilo pós-renascentista italiano. como os ramos cruzados à entrada do castelo. alguns templos de igrejas evangélicas que se apresentam com torres medievais no lugar do campanário. Misto de imagem de casa de classe média alta com elementos de castelo medieval é no máximo uma casa temática de aspecto kitsch. O conflito entre nossa herança européia. Se um Policarpo Quaresma teria convulsões diante de tal construção é apenas porque veria ali a contradição mais forte e característica de nossa formação como nação e cultura. situado no centro da cidade. e o acúmulo de símbolos desconexos. João Capão teve despertado aquilo que já subjazia no seu inconsciente advindo de um inconsciente coletivo e arquetípico. localizado na área mais comercial da cidade. ainda em processo de acomodação. em parte pela forte simbologia religiosa dada por um Portugal barroco e medievalista. por exemplo. a de que a imagem do rei e de seu castelo se apresenta no imaginário popular brasileiro de tal forma que nos distinguimos nesse aspecto em comparação com as outras nações da América. porém. é essa obra a perfeita consubstanciação dessa falta histórica que só é falta pela imposição em nossa história cultural de um ideal de passado e glória vinda da Europa e que impregnou nosso imaginário. O castelo. ameríndia e africana. é na verdade. além de algumas paredes rebocadas. E o castelo de João Capão se mostra ainda mais característico quando o comparamos com outra construção do município de Garanhuns que é o Palácio Celso Galvão. misturadas com janelas modernas em bairros de classe média de várias cidades. assim como centro político da cidade. Lembra também. porém. construído em 1943 pelo interventor Agamenon Magalhães e inaugurado na gestão do prefeito que lhe dá o nome. 89 . esta impressão vai se desfazendo. o que não ocorrera com os castelos anteriormente aqui comentados. carecendo de conhecimentos arquitetônicos e históricos. Essa desconstrução do castelo no castelo de João Capão. vão nos mostrando que o castelo de João Capão é antes um conjunto contraditório de impressões do que seja um castelo para seu construtor. Esta vontade que fundamentou o sonho do pobre construtor. na Avenida Santo Antônio. em termos estruturais e estéticos. Ao assistir as fitas de cinema. pelo contrário. é simbolicamente a imagem do processo de domínio da burguesia na estrutura social ocidental.

e um justo (que) em sua fé viverá". Khronos. sede da prefeitura de Garanhuns (PE) Assim. possuiria o poder da conversão instantânea pelo poder imagético e matemático de sua linguagem. 2006. São Paulo. Quando Raimundo Lúlio tenta converter os Sarracenos munido apenas de sua Ars Combinatória. 2004. Nos Hebreus (11:1) encontramos a seguinte definição de fé: “Ora. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 2004. 1970. Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico A Fé é decididamente o grande instrumento do homem para a realização de suas conquistas históricas e espirituais. Lembremos. temos a possibilidade de ver a diferença entre castelo e palácio na cultura brasileira. a fé é a certeza de coisas que se esperam. col. Dom Sebastião no Brasil. Perspectiva. Márcio Honório. do caos simbólico entre realidade e sonho. quando contrapomos o Palácio Celso Galvão ao Castelo de João Capão. acaba morrendo martirizado. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Vozes. Rio de Janeiro. Aurélio B. a convicção de fatos que se não vêem”.Palácio Celso Galvão. “emuná” e é traduzida pela primeira com o sentido que usamos no livro de Habakuk (2:4): "Eis aqui um soberbo. sua alma não é reta nele. Na História a Fé tem sido um instrumento não só de caráter relativo à espiritualidade. Dan. 1978. O Simbolismo em Geral. para exemplificar com a literatura. Nova Fronteira. mas também um instrumento de dominação. Arquétipos e Inconsciente Coletivo. G. mas como aquele lugar que é dotado de um passado inexistente. ao passo que o palácio é associado ao poder pela fundamentação real que nossa histórica tem com essa arquitetura. que acreditava. São Paulo. Etimologicamente a palavra vem do hebraico. GODOY. que só se resolve pela compreensão do que seja nossa herança cultural. O castelo não é propriamente mais visto como a sede do poder. que só existe como passado como resultado de um conflito histórico de nossa herança cultural. Psicologia e Religião. do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna. Cultrix. HOUAISS. 1978. São Paulo. de como lá a torre do castelo é o lugar da loucura. JUNG. Na colonização da 90 . Buenos Aires. Objetiva. ________. Carl. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HOLANDA. SPERBER. Paidos. Antonio. Rio de Janeiro.

desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. Quitéria. A história de Frexeiras é a história da fé popular. tudo a suas expensas. A história da santa é dramática e dotada de acontecimentos misteriosos que beiram o macabro. que no entender católico é o dia em que a alma do santo deixou a terra e se elevou aos céus. superstições indígenas e africanas povoaram os espaços vagos das contradições cristãs. uma ideologia. Anos mais tarde. Mas. é no dia 7 de setembro que existe a maior comemoração em Frexeiras. mas concretamente antropológica. afogando-as num rio. feiticeiros malignos e benignos. Sabemos que uma língua não é apenas um conjunto de regras normativas gramaticais e um vocabulário da qual se o falante faz uso indiferente. as culturas indígenas e africana. a ponto de a mãe. cada língua tem inscrita na sua estrutura uma visão de mundo. mulher de Lúcio Caio Otílio. José Lourenço – beatos. movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo. de crendices. o dia 22 de maio é dia de Santa Quitéria. cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de Maio do ano de 477. Frei Damião – religiosos. Quitéria nasceu no ano de 462. Liberata. Antes. dominadas pelo português europeu. agreste meridional de Pernambuco. tendo se assustado com o fato de ter dado a luz a nove meninas. país cuja miscigenação tornou-se característica fundamental de sua população. rituais. Santo Ovídio. ao redor e por vezes. governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano. da fé tomada pelo povo em oposição à fé. enquanto instrumento da Igreja para conversão dos fiéis e garantia de sua dominação. homem de procedimento muito rígido. por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Líbio Severo em viagem pela Península Ibérica. Naquela época predominavam as superstições. a Fé foi o instrumento de conversão ideológica mais eficaz que os europeus puderam apresentar aos gentios americanos. No calendário cristão católico. Os beatos. Próximo a Garanhuns. dentro das igrejas cristãs. isto é. tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano. Assim. já no município de São João. no século V da nossa era.América. na região do Minho. que as batizou as meninas (Eufemia. Genebra. os padres povoaram o imaginário sertanejo de personagens mágicos. que com medo de represália do marido. Padre Cícero. uma forma particular de construir a realidade. Marinha. Crenças. instruiu a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. O sertão Nordestino é um espaço histórico rico de sincretismos. porém. No povoado existe o culto à Santa Quitéria. Gema. em Braga. 91 . deixaram sua marca neste imaginário. de profecias. Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia. No Brasil. Quitéria estava com 15 anos de idade. Ante a recusa da filha. Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga. Otílio condenou-a à morte. Antônio Conselheiro. Basilissa e Vitória) e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs. no sentido de compreensão da relação contextual do homem com a sociedade que constrói. Marciana. deixaram na língua dominante marcas inconfundíveis. o sincretismo religioso se instaura diante. Segundo consta do hagiológio português e na história de Braga. o povoado de Frexeiras é um retrato emblemático desse sincretismo e dessa fé algo abstrata de definir apenas na conceituação religiosa. A data de um santo é geralmente colocada como a data de sua morte.

que entre outras características. e Santa Quitéria no Maranhão. As terras onde se encontra o povoado de Santa Quitéria pertencem à família Guilherme da Rocha. de santinhos. As paredes povoadas de fotografias transformam-se num grande mural do tempo. de fotografias de diversos tamanhos das pessoas que se dizem agraciadas. A família não permite a entrada de religiosos. Com as freqüentes novenas realizadas aqui na casa (a família era muito católica). de informações contraditórias que se dirigem aos nossos olhos. Conforme conta um dos herdeiros. Tendo nascido Quitéria no ano 120 e morrido em 135. a casa. Cada uma. é um dos maiores depósitos naturais de urânio do país. Existe uma disputa entre a família Guilherme da Rocha e a Igreja.blog. inclusive pagãs.artigo de André Raboni. acumulativo. Assoma-se a movimentação das pessoas que entram e saem dos aposentos acendendo velas. e os escravos foram espalhando para os escravos de outras propriedades e os donos de outras fazendas. Assim. 8 Fonte: http://acertodecontas. ao entrar no local o que se nos mostra de imediato é um grande painel neobarroco. Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos. os índios também. já trouxeram os escravos e quando chegaram aqui na região construíram a casa para morar e foram preparando a terra para a cultura de subsistência e quando eles vieram de Portugal trouxeram na bagagem a imagem de Santa Quitéria. vem muita gente a pé. A casa grande original foi se atulhando de ex-votos. carregando objetos. Santa Quitéria. existe uma versão de que teriam tais fotos ocorridos no século II. Fotos antigas. Quitéria tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada. coloridas. que existia uma santa milagrosa e aí começou a peregrinação. porém a Igreja não tem qualquer domínio ou intervenção na localidade. essa imagem que está aqui de 44 cm e que era a imagem de devoção da família. que foi para abrigar uma família. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada. de estatuetas as mais variadas. 92 . Tal se deve ao receio de que a Igreja tome posse do culto sem auferir à família algum acerto financeiro ou de uso. no Ceará.” 8 O fato atual é que o povoado de Santa Quitéria transformou num local de peregrinação. de velas. no Nordeste existem dois municípios com essa denominação. os escravos começaram essa devoção à Santa Quitéria. além dos vendedores de bugigangas. em carro de boi até a modernidade de hoje em que elas vêm de ônibus. apresentando aqueles inúmeros rostos. eis como começou o culto à Santa Quitéria: “Tudo começou quando minha família veio de Portugal tomar posse de terras que foram concedidas pelo governo de Portugal em 1695. de caminhões pau de arara. criando no expectador de imediato uma desorientação. o culto de Santa Quitéria é bem difundido. e no final do século XVII. Assim. sob o domínio do imperador Adriano.br/atualidades/santuario-no-interior-e-causa-de-briga-juridica-entre-aigreja-catolica-e-familia-proprietaria-de-imagem/ . pessoas em variadas poses e lugares. foi transformada nesse espaço para receber as constantes visitas que vinham montadas em lombo de burro. que veio de Portugal em 1695. em p&b. novas. No Brasil.As datas aqui colocadas não são de todo confiáveis. o culto à Santa Quitéria seguiu um caminho dominado pelo imaginário popular.

presenciei um fato interessante e ilustrativo. joga-se o bilhar. passando por debaixo do oratório. As irmãs de Santa Quitéria não foram santificadas pela igreja. onde se paga um real para entrar. desde de rádios de válvula. o sincrético e o místico. Quando de uma das minhas visitas. é sua cruz inseparável. querendo ser provas irrefutáveis dos milagres. Ali. mas o imaginário popular tratou de fazer o seu próprio processo de santificação. busca na fé mais do que a elevação espiritual ou a ascese. são carros dos mascates. Assim. disso a uma outra: -“Vamos também passar por três vezes aí embaixo que dá sorte e proteção!” E. esta senhora resolveu passar por debaixo da mesinha que sustenta parte do oratório. sem o concurso da Igreja. Como se os pés. O imaginário necessita do sobrenatural. se presencia ali. cabeças colocadas em sob tábuas de madeira ou penduradas nas paredes também criam um novo panorama que se acumula ao das fotos. ao dirigir-se ao altar de Santa Quitéria. capas para celular. do abandono. ou de parafina: pés. naquele povoado. Santa Liberata. povoado de santas vindas de ilusórias terras também santas. Hulk. Imediatamente uma outra senhora vendo isso. automóveis. de madeira. Na única rua do povoado. com a diferença que agora se presentificam enquanto objetos tridimensionais. brinquedos de plástico. no entanto. notas e moedas antigas. a fé se exercita. braços. mãos. No estacionamento. que fica numa outra casa. o culto à Santa Quitéria de Frexeiras segue seu caminho numa trilha entre o folclórico. estátuas de santas que pela denominação. em pouco tempo. Santa Vitória. meio mágico. da historicidade de agruras e desmandos. Assim. duas. braços. cabeças. alguns almoçam o prato feito. formava-se uma fila de pessoas. o dia da independência 93 . mas também desordenadamente pós-moderna. No comércio das bodegas. uma estatueta em gesso de Vênus/Afrodite. existe um museu. ele que o imediato concreto. que no imaginário popular foi a época em que santos e santas andavam pelo mundo. diante de nossos sentidos. dia da Independência é aqui transmutado no dia de Santa Quitéria. reciclando continuamente as crenças individuais num caldeirão de mitos. dezenas de barracas de mascates vendem santinhos. cuja imagem encontra-se adornada de inúmeros colares dourados. já velhos. O homem sertanejo que vive a dureza das condições sócioeconômicas. assim como ocorreu no Ceará com o Padre Cícero. três vezes. outros tomam cachaça. são as irmãs de Santa Quitéria: Santa Gemma. Se a data de Santa Quitéria é 22 de Maio e em Frexeiras o dia mais comemorado é o de 7 de Setembro. mãos dos que estavam nas fotos se materializassem ali. em geral mais velhas. balas. Homem Aranha. passou uma. Cria-se assim um mundo místico. Uma velha senhora. na coletividade de imagens. que. Os ex-votos. pilhas. Lá fora uma barraca vendendo super-heróis de plástico: Wolverine. pessoal.signo de uma história particular. individual. de curiosos ou de pessoas movidas pela fé que têm a condição de ter um automóvel mais novo. a realidade concreta é muito dura. e colocadas em alguns nichos. ônibus de diversas procedências. Próximo a casa grande. fez o sinal da cruz e foi-se embora. Lá encontramos uma variedade de objetos velhos. muitos deles. E a morte é o grande medo do homem. doces. de uma época irreal. A elevação da alma da Santa aos céus é também o signo de sua morte corpórea na terra. Os mais novos. o que temos é a inversão dum significado. até estatuetas de Jesus. Numa das estantes velhas de madeira. o 7 de setembro.

Prancha de Figuras – Frexeiras 94 .da alma sertaneja diante dos grilhões históricos de sua condição. Símbolo da regeneração das forças para continuar sua luta diária e cotidiana.

95 . Imagem de Santa Quitéria de Frexeiras.Os retratos na parede compondo um painel sincrônico de promessas e pedidos Parede e prateleira repleta de ex-votos. PE.