IMAGENS DO VELHO CHICO NA CULTURA DO VALE DO SÃO FRANCISCO Jayro Luna

Edupe
2009

SUMÁRIO Apresentação. – Benedito Gomes Bezerra – 3 Introdução - 6 O Rio Como Símbolo – 8 O Rio São Francisco como tema da MPB – 13 O Ciúme, de Caetano Veloso – 29 Do São Francisco ao Mississipi –35 Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira – 42 Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco – 53 A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco – 58 Algumas Considerações Acerca das Representações Pictóricas do Rio São Francisco – 63 Mamulengo Revisitado – 77 A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira – 79 Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico – 91

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APRESENTAÇÃO O Rio São Francisco representa um dos elementos de maior peso simbólico na cultura e imaginário nordestino, fato que se reflete na música, na literatura, na pintura e nas artes em geral. Ultimamente, o Velho Chico tem sido objeto de acalorada e polêmica discussão, em virtude do projeto de transposição de águas idealizado pelo governo federal. É lamentável, contudo, que o foco das reflexões sobre o Rio tenha se concentrado de modo quase exclusivo nos aspectos políticos e ideológicos da questão. O livro do professor Jayro Luna, a propósito, vem preencher essa lacuna, trazendo para a comunidade acadêmica e o público em geral um amplo e variado conjunto de textos debruçados sobre a riqueza cultural constituída em torno do São Francisco. O propósito do autor é, como ele mesmo afirma, “levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região”, bebendo para isso nas inúmeras fontes disponíveis. Duas particularidades devem ser ressaltadas no trabalho do autor. A primeira é que não se trata, de forma alguma, de pesquisa meramente bibliográfica, fruto de observação distanciada. Em muitos textos, o leitor perceberá a argúcia do observador integrado ao objeto de sua investigação, examinando de perto aquilo de que fala, não sem trair a paixão do autor pelos aspectos culturais em questão. A segunda particularidade é o ponto de vista do autor, construído a partir da região do Agreste Meridional, onde se situa a Universidade de Pernambuco, Campus de Garanhuns, de modo que relações muito pertinentes e interessantes são demonstradas entre a riqueza cultural dessa região e o imaginário do Rio, próprio do sertão cujas terras suas águas percorrem. Daí a presença, por exemplo, de um capítulo que trata do santuário de Santa Quitéria em Frexeiras, localidade próxima a Garanhuns. O livro se organiza em onze capítulos que tratam do imaginário e da cultura do Velho Chico sob variados ângulos. A maioria dos capítulos enfoca as diferentes maneiras como o Rio São Francisco é representado em diversas expressões artísticas, como a MPB, a poesia, a arte popular das carrancas, a pintura e a escultura. Outros tratam de manifestações culturais direta ou indiretamente ligadas ao Rio. O primeiro capítulo, intitulado “O rio como símbolo”, estabelece as bases para muito do que será dito nos demais, demonstrando a centralidade da simbologia do rio em diversas culturas do mundo e de outras regiões brasileiras. O segundo capítulo explora o Rio São Francisco como tema privilegiado da Música Popular Brasileira, abrangendo desde a chamada música de raiz, passando pelos temas de escola de samba e por Luiz Gonzaga até a música engajada de Sá e Guarabira, lembrando de forma crítica a profecia de Antonio Conselheiro: “O sertão vai virar mar/ dá no coração/ o medo que algum dia/ o mar também vire sertão”. No terceiro capítulo, o autor analisa especificamente a letra da música “O ciúme”, de Caetano Veloso, cujo tema, comum a outras composições da MPB, é a relação entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, separadas pelo São Francisco, mas unidas pela ponte ali construída na década de 1950. O quarto capítulo traça um interessante paralelo entre o imaginário do Rio São Francisco e do Rio Mississipi (nos Estados Unidos) conforme representado pela música em ambos os contextos. Conforme demonstra o autor, as imagens de ambos os rios são 3

não cristã. Já o capítulo décimo brinda o leitor com um alentado estudo da simbologia do rei. traz uma breve abordagem sobre a arte do mamulengo. especificando tipologias e resgatando o nome de artistas situados no Agreste Meridional. começando por Castro Alves e sua obra A cachoeira de Paulo Afonso e culminando com João Cabral de Melo Neto e o “sertão sem rio”. O capítulo nono. mas incluídas na obra. evitando que se arrisquem demasiadamente nas águas do Rio.construídas de maneira bastante diferente. Já no quinto capítulo. tendo como palco e pivô o grande rio do povo nordestino. O estudo inclui desde o pitoresco uso do termo “rei” para praticamente qualquer atividade desenvolvida pelas pessoas (“rei do samba” “rei do futebol”. creio eu. na poesia brasileira. bem como as influências próprias do colonizador europeu e cristão. o capítulo décimo primeiro apresenta o santuário popular de Frexeiras como uma curiosa representação do sincretismo religioso e cultural brasileiro. transformando-se em objetos artesanais destinados ao comércio. negros geralmente. dessa forma. o autor se volta para as imagens do Velho Chico na obra dos poetas brasileiros. no caso americano do Mississipi. predominam as imagens poéticas inspiradas numa cultura medieval transportada para o sertão nordestino. Uma preocupação central do autor é traçar um paralelo entre o imaginário popular e a representação artística do Nego dá água. predomina a crítica social retratando os dramas dos ribeirinhos pobres. O autor ressalta as peculiaridades das carrancas como objeto artístico para o qual convergem elementos da herança indígena e negra. com estilos variados e diferentes posturas de engajamento em relação ao Rio. pintores estrangeiros e nacionais têm oferecido suas visões do Velho Chico. do castelo e do palácio na cultura brasileira. A cultura popular nordestina se mostra aí como uma cultura de resistência 4 . cuja função parecer ser sobretudo intimidar as crianças. deusas greco-romanas e super-heróis de origem estrangeira. por fazer parte de uma cultura comum. o Rio também tem sido representado na arte pictórica. tema do capítulo oitavo. cujo valor monetário se define pelo talento e renome do mestre escultor. “Por uma mitologia das carrancas do Vale do São Francisco”. com um oportuno destaque para o “Castelo de João Capão”. Sobressai. o retrato dos dramas sociais desde a colonização até a transposição. Fechando o volume. O sexto capítulo. criador de uma colossal estátua do personagem. capaz de reunir num mesmo espaço santas. substitui os traços populares por traços inspirados na simetria da arte clássica. constituindo um rico painel de representação pela pintura. ponto turístico da cidade de Garanhuns em Pernambuco. No sétimo capítulo. no caso do São Francisco. operando uma espécie de recriação eventualmente sujeita a polêmica. Os últimos três capítulos abrangem temáticas não ligadas diretamente ao Velho Chico. “rei da juventude” etc) até uma apresentação dos principais castelos existentes em terras brasileiras. Se. mostra como as carrancas sofreram um desvio em sua função original de proteger as embarcações “contra perigos concretos e imaginários”. que no caso do artista Ledo-Ivo Gomes de Oliveira. Como não podia deixar de ser. intitulado “Algumas considerações acerca de algumas representações pictóricas do São Francisco”. como um complemento bastante interessante dessa mostra da cultura nordestina que é o livro de Jayro Luna. acossados pelas constantes cheias do rio e abandonados pelos representantes do poder. o autor apresenta a lenda do Nego d´água como parte do imaginário do povo ribeirinho. A partir do século XVII.

Com certeza. Está de parabéns a Universidade de Pernambuco. com especial destaque para os elementos culturais construídos em torno do Rio São Francisco. Em suma. por trazer essa obra ao público brasileiro. além de oferecer a todo o povo brasileiro uma nova e abrangente visão acerca do Rio São Francisco. notadamente seu campus de Garanhuns. a leitura de Imagens do Velho Chico na cultura do Vale do São Francisco proporcionará ao leitor uma rica e profunda imersão na herança cultural do Nordeste. Para quem não a conhece. alunos e demais pessoas interessadas na arte popular e na cultura nordestina de modo geral. Será uma experiência significativa para quem já conhece e ama essa cultura.inclusive contra a dominação religiosa. 5 . sem dúvida será uma descoberta apaixonante. o livro será de grande utilidade para pesquisadores. evidenciando a capacidade do povo de moldar e cultivar seus próprios santos e santuários.

na região do baixo São Francisco. a construção do imaginário acerca do arquétipo que o Rio São Francisco preenche na região do Polígono das Secas. próxima também do litoral (Zona da Mata). a do Vale do São Francisco e a do Agreste Meridional. Ainda. O projeto visava pesquisar as imagens na cultura do Vale do Rio São Francisco. Acresce ainda. iconográfico e artístico da cultura da região do Vale do São Francisco. tendo em vista. pois. buscamos observar as primeiras e possíveis alterações nesse significado em função de uma nova dimensão regional do vale do Rio São Francisco. contos. tendo em vista a proximidade da implantação do projeto de transposição do Rio São Francisco. tendo como subtema as modificações que o projeto de transposição do rio São Francisco potencialmente poderá causar nessa mesma cultura. que receberá pelo projeto de transposição uma adutora para regularização do fornecimento de água à região. mitos e lendas. pareceu-nos pertinente fazer estudos comparativos e de influências entre as duas regiões. tendo em vista que essa micro-região está próxima da bacia do São Francisco. com apoio do CNPq. Embora Garanhuns esteja situada no Agreste. Completou-se o projeto com a formação de um acervo bibliográfico. A obra de transposição do leito do Rio São Francisco implica em profundas alterações nessa situação em todo o interior do 6 . mas também no âmbito cultural. Pernambuco e Rio Grande do Norte. a dimensão cultural e social que envolve a bacia do Rio São Francisco tem aspectos de influência não apenas climática e de geografia física sobre a região. abordando a produção literária (prosa e poesia) bem como as manifestações de literatura popular (cordel. arte popular) procurando nas diversas manifestações levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região. com destaque na micro-região para a cidade de Garanhuns. possivelmente interferindo na paisagem sertaneja semiárida do Ceará. todos esses aspectos de localização geográfica. contígua do sertão. distante fisicamente 223 km do rio São Francisco (município de Paulo Afonso).Introdução Este livro é resultado de um projeto de pesquisa realizado na UPE/FACETEG durante o período 2007-2009. Paraíba. isto é. que o projeto incluiu uma parte de estudos acerca do Agreste Meridional.

estado.. a previsão de que esse imaginário tende a modificações estruturais significativas de acordo com os resultados da transposição do leito do rio. analisando tópicos referente às artes plásticas.. Prof.......... mas sim.. numa interrelação dessa microrregião com fatores externos que possam alterar e modificar de modo decisivo seu caráter microrregional. Neste livro acreditamos que abordamos sob um novo aspecto a questão da cultura do Vale do São Francisco. nosso trabalho já aponta para uma atitude de ponta na abrangência que a UPE/Faceteg se coloca nas questões não apenas de sua microrregião...... tendo ainda por horizonte...... Nossa pesquisa justificou-se na medida mesma em que tem por princípio um estudo das imagens do Rio São Francisco na representação do imaginário não apenas nas manifestações próprias das cidades do vale....... à música popular brasileira... E... mas também àquelas que a esse imaginário se dirigem................... espero que o leitor desse livro possa tomar contato com os resultados de nossa pesquisa...... fazendo com que a distinção típica entre as micro-regiões do estado possam mesmo ser revistas... Assim. à tradição regional do vale de um ângulo que ainda não encontramos em outras publicações. Jayro Luna 7 ......... ...........

é um dos símbolos de nossa independência. Em relação ao rio. o símbolo do rio é apresentando de modo a destacar o simbolismo das margens e da água corrente: “O simbolismo do rio e do fluir de suas águas é. esta se liga à simbologia da ponte. pode-se considerar: a descida da corrente em direção ao oceano. o Mississipi. evidentemente. A história do Egito antigo é a história da civilização do rio Nilo. banhar-se nas águas do Ganges.O Rio Como Símbolo O rio tem marcado a presença como um dos lugares mais importantes da história do homem. René Guénon observa essa aspecto.” (GUÉNON: 1989. o Níger. Não menos importantes para o desenvolvimento de nações foram o Rio Amarelo. que são exatamente os nomes de certos aspectos da Shakti. o da fertilidade. a primeira. da morte e da renovação. é um ritual de purificação na Índia. desde o princípio da civilização o rio se destaca. A simbologia esotérica e mística desde tempos antigos tem trabalhado a imagem do rio. na tradição hindu. pelos quais as influências do ‘mundo em cima’ são transmitidas ‘ao mundo de baixo’. o Tibre. 300-301) Assim. mas pela inversão de direção da própria corrente. é talvez o mais notável sob certos aspectos. No caso do Brasil. A descida para o oceano é o ajuntamento das águas. o remontar do curso das águas. basta lembrarmos que o rio Ipiranga. o retorno à indiferenciação. ‘remontar corrente’. o retorno à Nascente 8 . outros de extensão consideravelmente menor tornaramse simbólicos por suas posições geográficas estratégicas fundamentais para a vida de vários povos: o Reno. o Tejo. e não pensemos apenas nos grandes rios. No Cristianismo. destacando duas imagens ligadas ao rio. o da possibilidade universal e o da fluidez das formas (F. que é em suma o equivalente da Shakti. No sentido de que seja um lugar propício à agricultura. O rio como símbolo tem forte presença no desenvolvimento cultural dos mais variados povos. o Tamisa. à navegação é à pesca. pois deve-se então conceber o rio como identificado ao ‘Eixo do Mundo’: trata-se do ‘rio celeste’ que desce para a terra. o que ele chama de “remontar corrente” e a segunda. à defesa de território. Coomaraswamy. não mais para pelo remontar da corrente. p. Na Cabala hebraica esse ‘rio da vida’ encontra sua correspondência nos ‘canais’ da árvore sefirótica. hoje praticamente coberto pela cidade. e que têm também relação direta com a Shekinah [Presença divina]. o Ganges. e que. ou a travessia de uma margem à outra. Guénon comenta: “O primeiro caso. o remontar das águas significa. por exemplo. O curso das águas é a corrente da vida e da morte. No Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant.Schuon). modesto afluente do Tietê. a imagem da “travessia” e por conseguinte. Na Cabala também se fala das águas que ‘correm para o alto’. o acesso ao Nirvana. comentando o trabalho de Ananda K. ao mesmo tempo. o rio Nilo do Egito são exemplos marcantes dessa importância do rio na história da civilização. expressão do retorno à fonte celeste representado então. Os rios Tigre e Eufrates na civilização babilônica. é designado por nomes tais como Gangâ [Ganges] e Saraswatí. alguns rios são sagrados para determinados povos. Acerca da primeira imagem. o Jordão são alguns exemplos. Jesus foi batizado por João Batista no Jordão.

Rio que determinava a existência de duas possibilidades de sertão. lembremos de Uma Tragédia no Amazonas (1880). no caso brasileiro. de José Lins do Rego ou ainda.divina. que a partir da Chesf e da usina de Paulo Afonso. e a travessia é a de um obstáculo que separa dois domínios. de Raul Pompéia.” (CHEVALIER & GHEERBRANT. como signo representativo de um interior que lança grandes 9 . No caso específico do Brasil. como entrada dos bandeirantes. o mundo dos sentidos e o estado de não-vinculação. em boa medida. ainda hoje. surgiram. o papel dos rios no desenvolvimento de nosso país foi de suma importância. o rio como imagem do caminho da colonização do sertão. país de grandes bacias fluviais. ao Princípio. a China e o Rio Amarelo. esse estado é simbolizado não só pela outra margem. uma com água e outra sem o precioso líquido. antes deles. A margem oposta. em cujas margens surgiram algumas das principais cidades da região do polígono das secas. caminhos para a conquista do paraíso selvático. A cultura Hindu e o Ganges. com exemplo do rio Amazonas. Rio do processo de colonização do sertão. notadamente na região de Petrolina e Juazeiro. ensina o Patriarca zen Hueineng. Caminhos para a descoberta dos territórios inexplorados. é a paramita. a poesia e a música não têm deixado de tratar do tema do rio. o rio da energia elétrica. para além do qual ficavam os bárbaros. Antes. que por sua vez. Assim. trazendo mais do que luz. cria um mundo mítico e mágico na floresta do Rio Amazonas. p. são apenas alguns dos exemplos que envolvem essa interligação entre o rio e a cultura. Mário de Andrade escreve suas “Enfibraturas do Ipiranga” em Paulicéia Desvairada (1922). 780-781) Por esses aspectos a análise da cultura que se desenvolve ao longo do percurso de um rio é também. até as de Francisco Orellana e Pedro Teixeira. eletrificou praticamente toda a região do sertão. de eldorados. temos esse processo de busca de compreensão da enorme extensão de terra desconhecida em que se suspeitava a existência de tesouros perdidos. a possibilidade do progresso para as cidades com a instalação de indústrias de beneficiamento da produção agro-pecuária. Desde a expedição de Vicente Pinzón à foz do Amazonas. desde as primeiras entradas e bandeiras que definiam grande parte de seu trajeto em função dos rios que penetravam a floresta ainda inexplorada. O Egito dos faraós e o Nilo. Riacho Doce (1939). como também pela água corrente sem espuma. A Literatura brasileira. Mar Dulce. Os limites europeus do Império romano incluíam as margens do Reno e do Danúbio. Porém. Maleita (1935). dois estados: o mundo fenomenal e o estado incondicionado. No romance. Essas são só algumas poucas lembranças imediatas de obras poéticas. e é o estado que existe para além do ser e do não-ser. os rios foram muito mais encarados como caminhos do que como fronteiras. O Rio São Francisco marcou boa parte da cultura sertaneja do Nordeste Brasileiro. a principal via de comunicação entre as cidades. porém. Aliás. só mais recentemente as possibilidades de irrigação que o rio poderia oferecer foram exploradas. a análise da própria evolução cultural da humanidade. O Rio Amazonas na região Norte. em quase sua totalidade em razão da proximidade navegável com o grande rio. A simbologia indígena que destaca o papel do rio no processo mitológico de criação do mundo. de Lúcio Cardoso. Castro Alves narra em verso o drama Cachoeira de Paulo Afonso. Raul Bopp em Cobra Norato. Assim. que julgou tratar-se dum mar. no caso do Brasil. a Babilônia e o Tigre e Eufrates.

Mas cautela. Ó pescador! Pescador da barca bela. Onde vais pescar com ela. o rio como metáfora da estrada da vida tem como suporte material para sua alegórica navegação o corpo humano. é o barco. Que a sereia canta bela. na acepção cristã. Inda é tempo. a canoa que levará ao encontro com o mar.. que necessita dum suporte para que o homem possa seguir por seu curso. lembremos dum poema de João Cabral de Melo Neto: Os rios Os rios que eu encontro vão seguindo comigo.quantidades de água ao mar. favorece a alegoria de ver o rio como símbolo da vida. Este como morada da alma. cujo passado é memória. foge dela. 10 . mas da vida por viver. Foge dela. Ó pescador! No Brasil. Num sentido alegórico. Que é tão bela. da vida que corre do presente para o futuro. Ó pescador! Não se enrede a rede nela. como caminho é uma estrada fluídica. a totalidade. Muito sucesso fez o poema “A barca bela” de Almeida Garrett: BARCA BELA Pescador da barca bela.. Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela. A canoa. Rios são de água pouca. Ó pescador! Deita o lanço com cautela. o barco são os meios utilizados para tal. em que a água sempre está por um fio. O rio como estrada. Que perdido é remo e vela Só de vê-la.

A ponte. Na primeira estrofe de “O Pescador”. contemplar como observador o curso contínuo das águas que vêm de distantes paragens e seguem em direção ao mar ou a rio maior. Conhecido é o conto de Guimarães Rosa. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios. uns com nome de santo. da Marília de Dirceu. como signo da união das duas margens. Vinícius de Moraes. deixa de ser um aspecto corroborador do rio como obstáculo. apenas Ouço a água ponteando no peito da tua canoa. “A Terceira Margem do Rio”. de Tomás Antonio Gonzaga.. Os rios têm afigurado no imaginário brasileiro como caminhos.” 11 ..Cortados no verão que faz secar todos os rios. muitos só com apelido. numa das estrofes. De que era que eu tinha tanta. para ser sim. cita como um dos locais propícios à pesca o estar sobre a ponte: Pescador Pescador. Passa a segunda e a terceira Tem um palácio defronte. tanta culpa? Se o meu pai. como signo de passagem no sentido alegórico. em que a alegorização do rio como símbolo atinge um de seus mais altos graus na literatura brasileira: “Sou homem de tristes palavras. ponto de admiração e de contemplação do rio. Uns com nome de gente. A ponte. os rios brasileiros têm sido muito mais caminho que interrupções ou obstáculos do caminho. Passa uma formosa ponte. Rios todos com nome e que abraço como a amigos. onde vais pescar esta noitada: Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? Está tão perto que eu não te vejo pescador. é no seu ápice. lemos a descrição do caminho que se deve fazer para se chegar à casa de Marília : Entra nesta grande terra. outros com nome de bicho. o rio — pondo perpétuo. Na lira XXXVII. o ponto em que o homem pode. Seguindo o sentido dessa visão do rio como caminho. sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio. portanto.

René. Os Símbolos da Ciência Sagrada. Rio de Janeiro. Vinícius de. 2005. Almeida. Rio de Janeiro. de momentos diversos desse rio. Galáxias. José Olympio. GARRETT. São Paulo. o rio é um dos símbolos mais fortes da nossa cultura. Jean & GHEERBRANT. 2005. Obra Completa. Tomás Antônio. Lisboa. GONZAGA. Nacional. São Paulo. Dicionário de Símbolos. Primeiras Histórias. João Cabral de. São Paulo. Haroldo de. Nova Aguillar. 1944. a passagem do tempo e da vida acaba por ser uma das mais ricas imagens poéticas. apresenta-nos a idéia dum contínuo aventuroso da linguagem poética como a correnteza do rio. MELO NETO. Martin Claret. Alain. 2004. Heráclito de Éfeso apresenta o argumento de que não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. CHEVALIER. Tal concepção parte da premissa de que o tempo a tudo modifica e que a correnteza do rio é a alegoria do tempo. e como tal. Nova Aguillar. ROSA. Sergipe 12 . Poesia Completa e Prosa. Pensamento. Ex Libris. a idéia é de uma sincronização de acontecimentos. Referências Bibliográficas CAMPOS. Guimarães. Marília de Dirceu. nas suas Galáxias. Mas em Haroldo de Campos. Própria. GUÉNON. 2008. entender na sua fluidez a modificação. São Paulo. 1994. 1984. Poesia e Teatro. Seja como for. Rio de Janeiro. a evolução.Haroldo de Campos. 1989. Figueirinhas. MORAES.

em ritmo nordestino de baião. Guardadas as devidas proporções. é santo. A seguir. flora São Francisco é santo. logo colocando o nome “Nilo” como qualificativo do São Francisco. A música. rio São Francisco em Pirapora Soltarei o meu sorriso” Agora. mas a terceira qualidade. a de santo. Depois. um dístico que se desenvolve na canção como um refrão: “Navegarei no infinito / Navegarei com São Francisco”. As duas primeiras se referem à riqueza natural que envolve a bacia do São Francisco. por meio desses comentários. O santo. faz referência às carrancas. Na segunda estrofe. pode ainda. como busca da eternidade. O tema do rio na música é antigo e tem suas metáforas características. nome milenar Filho do solo brasileiro Margeando o seu leito As carrancas vão assustar Nas lembranças. como protetor dos animais e da Natureza se mostra aqui como o santo católico mais adequado a emprestar o nome ao rio. é assim o lugar de alegria para o eu lírico. a cidade que está próxima à nascente do rio. é em referência ao nome dado ao rio. representar a tristeza. 13 . lemos: “São Francisco é fauna. Pirapora. Lailton Araújo e Wanderley Araújo. na serra da Canastra e também do longo percurso (“um grande aventureiro). estas com seu aspecto assustador vão trazer nos adultos a lembrança dos medos que as crianças têm de caras feias. deixando de lado o qualificativo de “Nilo”. criada em 1981. as mágoas. por sua vez. tal comparação se faz jus mediante o papel integrador que ambos os rios desempenharam. em Minas Gerais. ou as lágrimas numa aplicação de hipérbole. O infinito aqui redimensiona a figura do rio como metáfora da vida. ambos da Banda Moxotó. uma vez que a Natureza rica em fauna e flora se apresenta como obra santificada. sinta voltar A criança que está em você” A estrofe cita o local de nascimento do rio. a canção passa a adotar o nome do rio acrescido de outras qualidades: é fauna. Na primeira estrofe da canção lemos: “Nas entranhas da ‘Canastra’ Nasce um grande aventureiro ’Nilo’. tentaremos perceber qual é imagem do Velho Chico que está presente nessas canções. obra divina. mas “com” São Francisco.O Rio São Francisco Como Tema da MPB Neste breve artigo comentaremos acerca de algumas letras de música popular brasileira que colocaram como tema o Rio São Francisco. assim não mais se navega “no”. O rio pode ser um símbolo conquanto represente a vida. apresenta já no título a comparação entre o rio São Francisco e o Nilo. é flora. a passagem do tempo ou a inevitabilidade do fluir dos acontecimentos. são várias as imagens. tem como um de seus sucessos a música Nilo Brasileiro. ou se.

Todo o processo aos olhos do menino é um processo mágico. Bahia De Januária à Curuçá” Assim. hidrelétricas O menino viu passar Na pureza da magia Nas cidades que nasciam Em Minas Gerais. O título num tom quase barroco já se propõe a utilizar os aspectos lendários e do imaginário da colonização da região do São Francisco. Pão de Açúcar Petrolândia e Petrolina Ibiraba. de ser navegável. a criança que está ainda vida nos compositores e que se expressa por meio do verso e da canção. e que tem a capacidade de sustentar hidrelétricas. A penúltima estrofe se compõe de nomes de cidades em Pernambuco. Alagoas e Bahia que ficam às margens do rio. as cores das bandeiras nas festas populares das cidades ribeirinhas se tornam imagens metonímicas da riqueza que vem com as hidrelétricas. o que são “Águas tão nordestinas”? O rio que corre uma região semiárida.Na estrofe seguinte. Iaty). terminando com o verso que designa a localização regional dessas cidades: “São Romão. O a que se desdobra e que ecoa pela caatinga como eco da canção do rio. O dístico final da composição: “No toque da minha cantiga / Irrigarão a caatinga”. a escola de samba Mocidade Alegre desfilou sob o samba-enredo “Das Lágrimas de Iaty surge o Rio. do Imaginário Indígena a Saga de Opara. os compositores falam de lembranças da infância em volta do rio. trazendo energia para toda a região. bem à lenda do colonizador acerca do Eldorado. Na primeira estrofe a canção faz referências aos elementos da mitologia indígena (Jaci. Brejo Grande Águas tão nordestinas” Porém. de fornecer água para irrigação é nesse aspecto um “Nilo”. O eu lírico aqui se apresenta relembrando as imagens que estavam na consciência do eu enquanto criança. entre os indígenas na luta de preservação de sua nação e cultua e a do europeu em busca da imaginada cidade de ouro no meio da mata: “Um grande rio as formou Pelas lágrimas de Iaty Na consagração do sol e da lua Homem branco veio invadir 14 . ecoará pela caatinga.Para os Olhos do Mundo um Símbolo de Integração Nacional: Rio São Francisco". No carnaval paulista de 2006. presenciando o processo de desenvolvimento da região com a chegada das hidrelétricas: “As bandeiras da fortuna Velhos sonhos coloridos Esmeraldas. a cantiga em homenagem ao rio que corta o sertão semi-árido. Assim instaura-se o conflito. e também uma visão “mágica” aos olhos de uma criança.

E assim. Na estrofe seguinte um caleidoscópio em que imagens se misturam para contar do processo de miscigenação e de colonização da região do vale do São Francisco. não mais em sentido explícito de conflito.. De Iara” Agora dois personagens estão aí colocados. de Gonçalves de Magalhães ou nos poemas indígenas de Gonçalves Dias. a festa do Divino. O ritual profano do Toré é apresentado como ritual de fé. estórias contar Miscigenação. Rica cultura o tempo ultrapassou Festa do Divino. de modo a criar atmosfera da comunhão entre a religiosidade do Pajé e a do pescador cristão. mito indígena das águas: “Na dança do Pajé Um ritual de fé. Romaria abençoou Vai a carranca todo mal espantar Vem repentista canta esse santuário Um rio de integração nacional Terra Mãe . as carrancas. mistérios no ar Lá vai sertanejo. pede proteção Resgata a "Tribo Brasil" O futuro está em nossas mãos” Ainda nesta estrofe. Tudo é resumido na idéia de uma “Tribo Brasil”. as romarias. O sertanejo. fornece com seu sacrifício os elementos de uma sublimação do espaço e do tempo conquistados. “Vapor encantado. o epíteto de “Rio da Integração Nacional” se apresenta como resultado histórico do processo de colonização. 15 . mas em conjunção para compor a cena: o pajé e o pescador.. conquistando essa identidade que ora se apresenta multifacetada e em mosaico.. A tribo indígena. a referência ao ritual do Toré e a citação à Iara. africanos e indígenas está presente na maioria das festividades folclóricas da região.. Processo semelhante ao que o Romantismo do século XIX adotou para compor a história poética do Brasil em poemas como A Confederação dos Tamoios.E despertou das profundezas maus espíritos Jacy a grande noite provocou Ao proteger o paraíso do invasor Visando o Eldorado a procura de riquezas A cobiça prevaleceu Batalhas e guerras sangrentas No coração da mata o índio defendeu o que era seu” Na segunda estrofe. o sincretismo religioso e a mistura de elementos europeus. De fato. O Toré Se o pescador o Velho Chico encara Se encanta nas águas. A estrofe sugere que é preciso resgatar o passado – notadamente os valores do passado pré-colonial – para se unir à “Terra Mãe” como forma de afirmação da identidade da cultura brasileira.. já extinta. pode-se planejar um futuro mais promissor..

é o resultado direto no poema dessa busca de identidade que se supõe esteja no imaginário do índio transposto para a cultura do colonizador: “Corre nas veias do sertão "Opará" a salvação Vamos preservar Vem a Morada do Samba. diante do ritmo avassalador do processo de colonização. A seguir. A seguir lemos os versos: “Do outro lado do rio tem uma cidade / que em minha mocidade eu visitava todo dia. sendo esta uma obra abençoada. chorou tanto que suas lágrimas formaram a cachoeira de casca Dantas.. Aqui a ponte se apresenta como o elo de ligação entre os dois lugares que fizeram parte das lembranças da infância do compositor. a composição apresenta os elementos centrais da discussão acerca da preservação cultural.. então se diz que a construção humana se harmonizou com a Natureza. Segundo lenda indígena. mas sim sujeito do segundo verso (“Ela – a beleza – conservou a natureza”). teve como um de seus primeiros sucessos “Petrolina Juazeiro”.” O compositor então se coloca como morador de Petrolina e que costumava visitar a cidade do outro lado do rio. fazendo da ponte parte da própria Natureza – o que seria uma interessante construção poética. pelo processo de urbanização e de desmatamento. A música tem como tema o cenário da ponte que liga as duas cidades. o compositor escreve: “Hoje eu me lembro que nos tempos de criança / Esquisito era a carranca e o apito do trem”. nasceu a beleza / E a natureza ela conservou”.Na estrofe final. mas depois por Elba Ramalho. composição gravada pelo Trio Nordestino primeiramente. Retomando a idéia do título do samba-enredo. as lágrimas de Iaty é que vão compor as águas que correm no Rio São Francisco. Navegar” Numa imagem poética de alegorização o rio é transposto para a avenida onde se apresenta a escola de samba. e as águas seguiram os passos dos guerreiros desaparecidos. se lemos que “ela” não é objeto direto de “natureza”. Geraldo Azevedo e Alceu Valença. então se diz que a Natureza incorporou a construção da ponte. / vou voltar pra Petrolina”. O terceiro verso diz: “Jesus abençoou com sua mão divina”. o que se entende que a construção da ponte conseguiu tal relação com a Natureza devido à bênção de Jesus. com ambigüidades características. Como na composição de Laílton e Wanderley Araújo. hoje substituído. Jorge de Altinho. compositor popular. como se o desfile da escola fosse a metáfora da correnteza do rio. apresentando explicitamente suas memórias de criança. A seguir se repete duas vezes os versos: “Pra não morrer de saudade. a carranca incutia medo na 16 . Por outro lado. incorporando ao discurso poético a referência à forte religiosidade do povo nordestino. Jorge de Altinho começa a canção dizendo: “Na margem do São Francisco. Outra música que trata do tema é “Ciúme” de Caetano Veloso (esta canção analisamos em outro artigo). por ser tão bela. Em que se pese o tom ufanista da letra do samba-enredo. formando o curso do rio São Francisco. Se entendemos que o pronome “ela” se refere à beleza. a referência ao nome indígena do rio (“Opará”). Iaty era o nome de linda índia que chorou a morte do amado em uma guerra. Numa linguagem bem popular. notadamente indígena. A elipse aí colocada entre esse dístico e os versos antecedentes é que o compositor quer voltar à Petrolina para ver a beleza da ponte.

Nos dois versos seguintes. se refere ao exótico. gravou também a música de Jorge de Altinho. notadamente de um rio ou corrente de água e ter um tom sentimental romântico. mas em Altinho. A ponte enfim faz esse elo de união entre os dois lugares que compõem as lembranças do compositor (em que se pese o fato de que biograficamente Jorge de Altinho não viveu em Petrolina ou Juazeiro. Os verbos gostar e adorar tem aqui uma função sinonímica. sugere que a ponte criou essa união entre as duas cidades e que o menino – recuperado pelas memórias do compositor – se eterniza na visão que o compositor tem ao rever a ponte. bucólico ou infantil. A barcarola tem como aspecto definidor o de tratar do tema da água. mas adorar tem além do sentido de prestar culto. o de amar exageradamente. Opondo-se ao estranhamento do apito do trem e á feiúra da carranca. a de Geraldo Azevedo.criança pelo seu aspecto assustador. Geraldo Azevedo. município próximo de Caruaru. Na sua simplicidade de compositor popular. demonstrando como a engenhosidade humana pode se harmonizar com a beleza da Natureza. vela a bailar Barcarola de São Francisco Me leve para o mar Era um domingo de lua Quando deixei Jatobá Era quem sabe a esperança Indo à outro lugar Barcarola de São Francisco 17 . Jorge de Altinho escreve: “Mas achava lindo quando a ponte levantava / E o vapor passava num gostoso vai e vem”. grande e barulhento. num ritmo híbrido com versos octassílabos e hexassílabos. No caso. o compositor vai criando a metáfora rítmica do barco a navegar sob águas calmas: É a luz do sol que encandeia Sereia de além mar Clara como o clarão do dia Mareja o meu olhar Olho d'água. como se tal ação significasse a harmonia entre o barco e a ponte. criando um aspecto metalingüístico com a música. também pode significar amar. compôs sob o tema a música Barcarola do São Francisco. como que simbolizando a volta depois da ida. Se primeiro “esquisito” se refere à carranca como feio. Já o apito do trem era para a criança um outro motivo ligado ao adjetivo esquisito. causava na criança esse estranhamento. ao estranho. mas pode também sugerir uma graduação. Jorge de Altinho cria uma atmosfera de ingenuidade e de encantamento diante da ponte que liga as duas cidades. O dístico final: “Todas as duas eu acho uma coisa linda / Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina”. que como já dissemos. beira de rio Vento. no caso do apito do trem. O título da canção é “Petrolina Juazeiro” e no verso final temos a ordem Juazeiro – Petrolina. uma vez que gostar. em grandiosidade para que o barco à vapor passasse. região do Agreste Pernambucano. A expressão “gostoso vai e vem”. mas aqui é o compositor que se transfigura liricamente na imaginação duma criança que tenha vivido entre as duas cidades). pois o trem que vinha apitando. o menino via beleza na engenhosidade da ponte pênsil se levantar. confere um sentido rítmico ao movimento da ponte e do trem.

mítico e bucólico do cenário das águas do São Francisco. esta se mostra inatingível. Por sua vez. em sonho um beija-flor Rasgando tardes vou buscar Em outro céu Noite longe que ficou em mim Noite longe que ficou em mim Quero lembrar Era um domingo. Metáfora da busca da felicidade. como destino. rio e mar. o segundo. ponte de chegada.Velejo agora no mar Sem leme. O conflito entre o querer e a realidade. solitário no mar. menestrel reciclado do sertão e do mundo moderno. apresenta sua barcarola recuperando o sentido lírico. sem tesouro de prata ou de luar. caminho. a canção faz do rio São Francisco o espaço mágico dessa busca. mapa ou tesouro De prata ou luar Eu. nos apresenta um outro cenário acerca do rio São Francisco. Porém.. entre a esperança e o alcançado: “Era quem sabe a esperança / Indo a outro lugar”. Geraldo Azevedo. “Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Se eu fosse um peixe Ao contrário do rio Nadava contra as águas E nesse desafio Saía lá do mar pro Riacho do Navio Saía lá do mar pro 18 .. em “Serra do Navio”. O domingo de luar de prata. Os dois lugares. como musa perfeita distante da realidade. o primeiro como início. a sua oposição como espaço de águas com o sertão seco. No início da canção. colocado na “Noite longe que ficou em mim”. Luiz Gonzaga. realização. como passado. No presente o eu lírico agora tem a esperança de voltar a ver o brilho do sol no horizonte sobre o corpo da sereia. na busca da sereia. o brilho do sol ilumina o corpo da sereia de além mar. a junção da luz do sol com a silhueta da sereia encanta o eu lírico que se lança a navegar em busca de alcançar a sereia. como momento inicial dessa busca esperançosa se contrapõe ao presente. ponto de partida.

o caminho inverso. da qual pretende fugir.Riacho do Navio Pra ver o meu brejinho Fazer umas caçada Ver as "pegás" de boi Andar nas vaquejada Dormir ao som do chocalho E acordar com a passarada Sem rádio e nem notícia Das terra civilizada Sem rádio e nem notícia Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Riacho do Navio. A terra civilizada é o espaço da comunicação – o rádio aqui representa essa comunicação. após o refrão. Rios de caráter temporário. o riacho do Navio é um dos principais afluentes do rio Pajeú. De fato. O lugar agradável. Luiz Gonzaga propõe a volta. o do Navio e o Pajeú passam meses sem água. aqui. a vida de vaqueiro enfim. Riacho do Navio. tanto é natural ás águas irem para o mar. A música tem como refrão uma descrição do caminho das águas do Riacho do Navio até a foz do São Francisco. arrisca-se ao fazer o caminho inverso das águas. sem reconhecimento. Bacia hidrográfica da região do semi-árido. Assim. de fato é inóspito pelas condições climáticas. como o flagelado da seca deixar sua terra. O eu lírico busca a si mesmo esquecendo o mundo urbano – Fugere Urbem reinventado nas circunstâncias do sertão. bem ritmado no baião. Tando lá não sinto frio”. As águas. se mostrando insatisfeito com a situação de degredo forçado. daí sua necessidade de voltar e de esquecer o lugar em que fora forçado a ir: “Sem rádio e sem notícia das terras civilizada”. Voltar para o sertão para ver sua terra natal. que só sobrevive nelas. 19 . como forma de recuperar sua identidade. que por sua vez é afluente do São Francisco. Metamorfoseado em peixe. as vaquejadas. ao passo que a cidade. é inóspito pela condição social em que o sertanejo se encontra. o sertão. que vive nas águas. reviver as caçadas. Porém. Nesse outro lugar o sertanejo se sente deslocado. metáfora da condição do imigrante do polígono das secas que procura as capitais do litoral ou do sudeste como forma de escapar da condição de flagelado da seca. essa agitação típica da cidade. Essa saudade do sertanejo se opõe à condição da vida na cidade grande. apresenta a estrofe em que demonstra o desejo do sertanejo longe de sua terra de voltar ao seu torrão: “Se eu fosse um peixe / ao contrário do rio / nadava contra as águas”. Luiz Gonzaga. Porém a relação entre Lócus amenus e lócus horrendus aqui é ambígua.

(Carlos Pita) 2. Princesa sertaneja .(Carlos Pita) 4.(Patinhas . de fato ambos os rios correm no sentido do Nordeste para o Sudoeste.Carlos Pita) 7.(Carlos Pita) 9. Carlos Pita em 1979 lançou um disco constituído de músicas que formam uma espécie de narrativa tendo como tema uma transposição do universo das novelas de cavalaria para o sertão. O romance do rei do Ensolarar com a bela das Rendas de Lua . que ao pegar as águas desses rios dá à elas o sentido esperado de seguir em direção ao mar.A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar . A história da princesa das Candeias de amor com o cego do Alumiar .(Carlos Pita) 3.(Carlos Pita) 5. No 20 . o príncipe.(Patinhas .O caminho do rio Pajeú e do riacho do Navio é a metáfora desse desejo do sertanejo. Dércio Marques e Fábio Paes. acerca das guerras de cavalaria. Carlos Pita vai compondo um panorama caleidoscópico de personagens característicos como a princesa. O arco-íris trovejou . estavam presentes. As faixas que compõem o disco Águas do São Francisco (1979) de Carlos Pita são: 1. com violas na afinação característica.(Carlos Pita) Tendo como pano de fundo as raízes medievais do canto repentista e da literatura de cordel.Carlos Pita) 11. A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca . a donzela.(Fernando Lona .(Fernando Lona . A rainha do Trançar e o violeiro dos Esqueces . ou seja. A história dos quatro reinos desaparecidos e os guerreiros do Mal Viver . daí sua armadura de couro e corda e sua dama ser uma certa “dama dos Rasos de Seca”. enfim. O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor .Gereba) 10. se afastam do mar. ao inverso do São Francisco. O príncipe das Verdejanças e o amor do Verdejar . o rei.Kapenga) 8. é um sertão medieval. geografia e folclore da região. em que a letra vai se formando com referências à fauna.(Carlos Pita) 6. A princesa do Agreste e o cantador do elo ao mar . Por essa época Carlos Pita estava envolvido com o grupo de artistas liderados por Elomar. flora. Compõese versos acerca da arte do amor.Carlos Pita) 12. que entre outros. As canções 2. A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear . De onde vens que não se chega? De que terra traz partida Coração sujo de estradas?" (“A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar”) A terceira canção (“A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca”) busca metaforizar o vaqueiro do sertão com a figura do cavaleiro medieval. Xangai. a rainha. o cavaleiro. A primeira canção (“O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor”) é no ritmo do repente.(Fernando Lona . com destaque para o cenário do Rio São Francisco. costumes. 3 e 4 formam uma trilogia centrada na imagem das novelas de cavalaria: "Cavaleiro enluarado.

Quando meu pai me dizia. tem a música “Rio São Francisco”. mas já se encontra latente na obra de Guimarães Rosa. te vendo passar.” O Rio São Francisco é personificado por Pedro Sampaio num amigo. com fortes elementos do sebastianismo português e que viam na jovem república a antropomorfização de elementos demoníacos e apocalípticos. Conta as guerras que te atreves.mesmo tom vai a canção seguinte (“A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear”).. já no título. em que o cavaleiro sertanejo é um vaqueiro: “Cavaleiro que passas Que vais pro Sertão Qual o destino que levas? Que queres correndo o chão? Conta os caminhos que segues. tem como argumento as lembranças de criança numa infância em torno do rio: “Lembro das pescarias. Fazendo a república jus a essa imagem pela forma violenta com que tratou essas manifestações sertanejas de beatos. que se qualifica pela bondade e pela pureza: “Sei que és meu amigo. na poesia épica de Marcus Accioly. Pedro Sampaio canta a navegação no Rio São Francisco: 21 . E eu sentado na proa. compositor natural de Xique-xique. uma homenagem ao cantador Elomar. uma monarquia messiânica. em que reis de reinos imaginários dum sertão lendário se aventuram em guerras e conquistas de amores. transposta para a pregação de beatos como Antônio Conselheiro e José Lourenço.) Você é o espelho da pura bondade”. defendiam a monarquia. que de certa forma. Esse rio é um verdadeiro mar. E farei a luz do Amor Clarear teu coração. A canção “A Princesa do Agreste e o Cantador do Elo ao Mar”. princesas. A letra da composição. Bahia. talvez desses imaginários que é natural da infância. Pedro Sampaio. O tema do sertão medieval é constante nas obras teatrais de Ariano Suassuna. presta. tem também suas bases no sincretismo religioso que vai buscar essas figuras na religiosidade medieval vinda com o colonizador português. “Assobio do Vapor”. na música de Elomar Figueira de Melo. Em outra composição. as canções do disco seguem um tom de narrativas de aventuras palacianas. cavaleiros e cantadores espalhados pelos confins do sertão. Molhado à garoa..” A seguir. Fundada num imaginário que vê reis. como outras que até aqui vimos. tu podes provar (.

A dupla de música caipira Gino e Geno criaram a música “As Águas do São Francisco”. O compositor. O balanço da rede assim se harmoniza com o ritmo das águas do rio. e o aspecto rústico da embarcação (“não tem camas. e isto eu achei bom demais" 22 . ainda por cima. O São Francisco é. sonhar. nem retratos na parede”) e o hábito sertanejo de dormir em redes (“Só balanço que embalança / a minha rede”). o parceiro Loiola. Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) sofreram com vários bairros alagados e segundo estimativas. que aumentasse a enchente: São Pedro eu estou gostando As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente Falado: " É meus amigos. origens medievais. ocorrem as enchentes. Gino e Geno criam uma composição em que a enchente do São Francisco não é apresentada como destrutiva. Uma das maiores enchentes ocorreu em 1979 em que cidades como Barra (BA). Com velocidade de águas raramente superior a 7 quilômetros por hora.“Quem ouviu o assobio do vapor Quem vai partir Que arrume as trouxas por favor Vai subir o rio afora Vai chegar em Pirapora Não tem camas nem retratos na parede (do vapor) Só o balanço que embalança A minha rede (de tricô) Vou levando minha viola E as cantigas com o parceiro Loiola” O assobio do vapor serve de motivação inicial para descrever a navegação pelo rio. E como um Dom Quixote ou um cavaleiro menestrel. nesse sentido. faz do rio o caminho que cruza pelo sertão e pela vida para mostrar suas composições. de tal maneira que o dormir à rede. cerca de 450 mil pessoas sofreram com as enchentes neste ano. fui obrigado a voltar Pra casa do meu amor e passei a noite por lá Fiquei a noite inteirinha Ao lado da moreninha esperando as águas baixar Enquanto as águas baixava. é parte desse rio alegórico que representa o caminho da vida. cujo nome tem. aumentava o amor da gente E eu pedindo ao São Pedro. tem como ajudante ou escudeiro. mas em outubro. as águas do São Francisco me impediram de atravessar a ponte e eu voltei pra casa do meu amor. como menestrel. Pedro Sampaio. Destacando o porto fluvial de Pirapora (MG). o rio parece muito calmo. a presentificação do rio da vida. servindo assim como álibi ou desculpa para que ele retorne aos braços de sua amada: As águas do São Francisco estava por cima da ponte Este é o grande motivo que eu não pude atravessar Mas isso eu achei foi bom. O tema parte da cena das enchentes do rio. mas apenas como força que impede o personagem de atravessar a ponte. época em que aumentam as chuvas nas cabeceiras. eu tomava café quente Muitos beijos e abraços. assim como o do compositor.

porém. A profecia é atribuída ao beato Antônio Conselheiro. segundo a Chesf. e os verbos finais mudam o ritmo dos pés (vai \ mu \ dar). de modo que em Paulo Afonso e em Xingo a água pudesse chegar com uma vazão constante. mas não nos parece esse o tópico principal. Os dois versos seguintes vão agora contextualizar a região da construção da represa (“O São Francisco lá pra cima da Bahia. era de regularizar a vazão do rio compreendido o trecho entre aquela região e o delta. a imagem de um cenário pastoril. surge a referência à profecia popular de que o sertão vai virar mar. O verso seguinte contextualiza a questão da construção de represas: “Tira gente. dizer) nos pés de três sílabas dão um ritmo de grande velocidade à ação humana. De fato. constituído de uma locução verbal. assim como períodos de seca. porém.Numa linguagem bem popular. O objetivo principal da represa. O tema da música é acerca da construção da barragem de Sobradinho. O “lá pra cima da Bahia” se refere ao mapa da Bahia. não é outro o motivo que faz Carlos Pita criar composições de caráter romanesco medieval. pôr. tal se deve ao imaginário que envolve a cultura do vale do São Francisco. a 40 km de Juazeiro (BA) e que deslocou pequenas cidades da região para fora do alcance do lago a ser formado. de um rio “aparentemente” cercado pela civilização de cidades. a letra da canção fala desse espaço lírico em que o amor é o motivo principal. O próprio nome de “O Velho Chico” reforça essa imagem. vinda desde o processo de colonização do sertão. com alguns “erros” de concordância. as águas calmas de não mais que 7 quilômetros por hora em seu maior trecho. / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar”). “Sobradinho” de Sá e Guarabira talvez seja das mais conhecidas músicas acerca da questão das represas do Vale do São Francisco. A expressão “dia menos dia” coloca o acontecimento como um tempo indefinido. A canção se inicia com um verso que pode ser considerado um lema da defesa do meio ambiente: “O homem chega e já desfaz a natureza”. A seguir. beatos e poetas anteriores e posteriores a Antônio Conselheiro. coloca a ação num futuro improvável. música que é quase um hino em questão ambiental. sua porção norte. latente e próximo. suas origens são mais antigas. de tal forma que o pedido e o agradecimento a São Pedro: “São Pedro eu estou gostando / As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente”. Poderíamos falar em alienação. bucólico cercado pelo sertão quente e inóspito. se os compositores fazem da enchente do São Francisco motivo para um affair amoroso ao contrário de citar a destruição que a força das águas provoca. a fronteira com Pernambuco que é constituída pelo próprio rio São Francisco. Lembremos que a grande enchente de 1979 pode ser controlada no referido trecho. pontes. represas e barcos. O rio São Francisco está envolto assim num imaginário que faz do ritmo mais constante de suas águas. de um rio tranqüilo. A profecia que tem cunho apocalíptico e sebastianista pode ser encontrada no discurso de cantadores. Este pé. põe represa. Os três verbos com sujeito oculto (tirar. sendo a enchente o artifício que permite ao eu lírico a continuação de seu encontro amoroso. O refrão da música em versos de redondilha menor e maior faz um jogo de palavras com a profecia do beato: “O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão” 23 . de águas constantes. diz que tudo vai mudar”.

Casa Nova. pela destruição do antigo em face do novo. E por sua vez. O homem é o sujeito da ação na canção de Sá e Guarabira. Assim. em Sá e Guarabira o sentido é ecológico. “Sento Sé” se refere ao lugar em que a Sé (igreja principal de uma diocese) se localiza. A seguir uma quadra em versos dodecassílabos. Sento Sé Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir” O nome das cidades tem um significado maior do que simplesmente toponímico: “Remanso” (se originalmente o significado é uma enseada tranqüila. Junto à orla da represa surgiu o bairro conhecido como “Chico Periquito” com bares e restaurantes à beira do lago. de tal forma que ao mesmo tempo é crítica mordaz e bem fundada à destruição da Natureza pelo homem. De fato o lago artificial ali formado é o segundo maior lago artificial do mundo. do cumprimento da profecia do beato: a construção da barragem de Sobradinho. conforme se lê no primeiro verso. a quebra do que parecia imóvel. A poluição das águas e a conseqüente destruição da Natureza pelo homem mesmo e não por uma ação castigadora de Deus. com autonomia de município em 1989. 24 . percebemos que a voz da letra da canção é a do povo local às vésperas da construção da represa. em uma das margens do rio São Francisco. da identidade. da tradição. Este medo do progresso é que dá força ao discurso. o sentido da canção é poeticamente ambíguo. do aumento das águas. Assim. a construção da barragem deu origem a uma nova cidade. início de uma vida nova e feliz. no contexto da construção da represa e dos benefícios que ela trouxe. permanente. o aumento das águas vem provocar a destruição da tranqüilidade local. tranqüilidade). com formato de uma curva em arco. desaparecida pelo aumento das águas: “Adeus Remanso. Porém. cita o nome das localidades atingidas pela subidas águas e compõe a cena do gaiola – tradicional embarcação do rio – navegado por onde antes era uma cachoeira. o dia do juízo final. De fato. e aí ela tem um sentido apocalíptico religioso. “Casa Nova” nos dá a idéia de casa recentemente construída. esta por sua vez. e passaram a utilizá-lo para pilar o sal que salgava o peixe. Conta a tradição local que a denominação está ligada a uma lenda de pescadores que encontraram um pilão. no sentido figurado é também descanso. “Pilão Arcado”. permanente. As incertezas causadas pela modificação do cotidiano. sob esses aspectos. o que nos dá uma idéia de localização duradoura. A desordem na vida local causada pelo progresso. antes originalmente era apenas a vila dos trabalhadores empregados na construção da barragem. esclarece o motivo da destruição das cidades locais.A inversão da profecia (“o medo que algum dia / o mar também vire sertão”) tem um sentido apocalíptico. na profecia se diz que o mar virará sertão quando o sertão virar mar. messiânico. o medo diante do novo. Os dois versos seguintes: “Vai ter barragem no salto do Sobradinho \ E o povo vai se embora com medo de se afogar”. Convém ressaltar que os municípios citados foram reconstruídos em local mais seguro e que com o tempo obtiveram progresso econômico e social com a barragem de Sobradinho. o de Sobradinho. mas é também. Desse modo. relendo a letra de Sá e Guarabira. O verso “Debaixo d’água lá se vai a vida inteira” faz referência à perda das raízes.

três versos octassílabos e um quarto heptassílabo: “O Velho Chico tá morrendo Já nem tem mais navegação E ainda tem gente querendo Essa tal transposição O Velho Chico tá sumindo Ta suplicando salvação Mas em seu leito tá pedindo A revitalização. 25 . e o outro indo até a Paraíba. Conte com este amigo no que puder te servir neste bom combate. E apresenta como solução para o problema a revitalização do rio. quando vi o rio São Francisco e fiquei muito triste ao saber que aquele rio que fornece vida para todos os seres que vivem em suas margens poderia vir a morrer. “O Velho Chico” é literalmente uma canção engajada. na bacia do mesmo nome.html. criando dois grandes canais que serviriam água para o sertão de Pernambuco e Ceará. sejam – principalmente – as indústrias. esta musica foi composta logo após uma viagem minha ao nordeste no mês de novembro de 2004.Já a canção de Sílvio Brito.” Sílvio Brito faz referência ao processo de assoreamento do rio e à poluição. O frei Luiz Cappio se notabilizou pela campanha contra a transposição.br/musica_silvio.umavidapelavida. tendo sua vazão prejudicada ano a ano. daí na canção Sílvio Brito diz: “Mas é preciso mais boa vontade Mais ação e decisão Para fazer de verdade A revitalização Pois então vamos reciclar o lixo 1 Silvio Brito em: http://www. sejam as próprias populações ribeirinhas. Sílvio Brito escreveu ao frei: “Querido irmão. O que se entende por revitalização é o controle das causas do assoreamento e a devida política de controle dos agentes poluidores locais. inclusive pelo episódio de uma greve de fome contra o projeto. tem se mostrado que o curso do rio São Francisco vem sofrendo continuamente com isso.” 1 A canção de Sílvio Brito tem como refrão os versos distribuídos em duas quadras de rimas cruzadas ABAB e tendo em cada quadra. Esta é minha contribuição ao movimento e eu a estou colocando à disposição para ser utilizada na sua campanha ‘Uma vida pela vida’.com. até a bacia dos rios Piranhas e Jaguaribe. De fato. os agrotóxicos e o desmatamento da vegetação ciliada. O engajamento é na defesa que comunidades locais do São Francisco fizeram contra o projeto federal de transposição das águas do rio. Tais ações envolvem políticas concretas.

Chega de poluição Vamos transformar o Chico No oásis do sertão”. Outro aspecto da canção de Sílvio Brito é o jogo que faz entre o nome do rio e do santo: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza.” Assim, o compositor mineiro, natural de Três Pontas, famoso por sucessos como “Farofa-fa”, “Pare o Mundo que eu quero descer” e “Tá todo mundo louco”, apresenta também um argumento messiânico, da ação divina em defesa da Natureza. Mas tal argumento é apenas simplório e se perde no contexto geral da canção de repúdio ao projeto de transposição, de tal modo que a expressão “Tem gente” no verso “E ainda tem gente querendo”, logo seguido pelo verso “Essa tal transposição”, em que a expressão “Essa tal” tem um sentido pejorativo, na linguagem popular, dá um sentido de que o projeto está fundamento em razões equivocadas e de desconhecimento do verdadeiro problema do rio. Porém, é de se ressaltar que de fato existe a necessidade da revitalização, mas que ambos os projetos, o de revitalização e o de transposição não são excludentes, sendo no máximo dependentes, ou seja, a transposição teria como pré-requisito para seu sucesso a revitalização da bacia do rio. Morares Moreira compôs a música São Francisco, num ritmo agalopado, com predomínio de versos em redondilha maior. A canção sintetiza aspectos culturais do Vale do São Francisco. Partindo de uma comparação entre o compositor e o rio, Moraes Moreira começa a apresentar as características comuns a ambos, num processo de personificação do rio: “O meu caminho eu escolho Tirando o cisco do olho Enxergo longe, me arrisco Sou como o Rio São Francisco Faço no tempo viagens No espaço da noite e do dia, Indo, fluindo às margens De Pernambuco e Bahia Andando por todos os lados Sincretizando os Estados Arrematando as costuras Na integração das culturas” Ora fazendo quadras com rimas emparelhadas, ora com rimas cruzadas, vai tornando o ritmo alucinante das imagens apresentadas. O ofício de compositor popular é 26

assim emparelhado com o caminho do rio: “Andando por todos os lados / Sincretizando os Estados”. Percebamos o verbo aí colocado: Sincretizar, ou seja, integrar elementos diferentes numa síntese. Nas duas quadras seguintes, Moraes Moreira diz que está em busca do que é mais novo, ou seja, do progresso e se apresenta como ponte que unifica, comparando o papel da ponte que liga Petrolina a Juazeiro: “Assim como o rio promovo O abraço que a gente precisa Em busca do que é mais novo Sim ultrapasso a divisa Fazendo a ponte, sem medo Antonio sou brasileiro João, Geraldo Azevedo Petrolina e Juazeiro” Cita nomes populares como Antonio e João, e presta homenagem a Geraldo Azevedo. O verso “Sim, ultrapasso a divisa” é mais do que o sentido de ultrapassar fronteiras regionais ou estaduais, mas no sentido da avant-garde, do ir além do comum, do previsível. Neste sentido, se pensamos não na obra de Moraes Moreira, mas no rio com que se identifica, temos que o rio São Francisco sempre foi palco de discussões acerca do progresso, tido como rio da integração nacional. Na quadra seguinte, Moraes Moreira nos fala da imensidão do Brasil, e que o trabalho de compositor é tão grande quanto o percurso do rio: “Por essas águas tão boas Sou navegante feliz Sergipes e Alagoas Minas, imensos brasis” Sergipe e Alagoas são os pequenos estados que estão na foz do São Francisco. O fato de colocar o nome dos estados no plural é uma forma de torná-los substantivos comuns, fazendo referência que na bacia do Vale do São Francisco, que se inicia em Minas Gerais, cabem várias vezes o tamanho desses dois estados. O verso “sou navegante feliz”, tem um sentido metafórico, é mais do que a referência às navegações no rio, mas sim no sentido de que a história da sua carreira de compositor é uma navegação. A parte final da canção compreende os seguintes versos: “Quem pode parar a planície, Os rios e os oceanos? Ah meu amor, acredite Também assim sem limite É o sonho dos seres humanos Quem pode parar o planeta? E o movimento que há? 27

Ah meu amor, com certeza As forças da natureza O vento quem pode parar? Lavam na beira do rio As lavadeiras de Deus A alma dos pecadores E o coração dos ateus” Aqui duas quintilhas precedem a última quadra. A primeira quintilha começa com uma indagação: “Quem pode parar a planície / Os rios e os oceanos?” Argumentando assim que a força da natureza, especialmente a que se expressa no rio São Francisco é ainda mais forte do que a engenhosidade do homem, e que é o sonho humano dominar o rio, um sonho “sem limite”. Referência indireta às represas, barragens e o projeto de transposição. Por outro lado, na quadra que se segue, o compositor responde que a Natureza pode parar a rotação do planeta, superando assim a força humana. Por fim, mais um questionamento acerca da força da Natureza: “O vento quem pode parar?” A resposta implícita é de que o homem não pode. A quadra final, fecha a canção com a imagem das tradicionais lavadeiras de roupa às margens do rio. Porém, num sentido figurado, a lavagem da roupa suja é também a lavagem dos pecados e da arrogância do homem para com a Natureza. Daí lavar a “alma dos pescadores e o coração dos ateus”. Buscamos apresentar aqui algumas composições populares que tratam do tema do rio São Francisco, é possível que tenhamos esquecidos algumas até mais significativas que estas, mas acreditamos que conseguimos aqui apresentar o panorama da imagem do rio São Francisco na música popular brasileira.

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cadê Tanta gente canta. em Pernambuco. Pernambuco. em 2008. A Forma e o Ciúme A letra da canção foi por nós consultada em diferentes sites. do outro lado do rio. o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Que nem alegre. Já ouvi essa música na voz de Geraldo Azevedo que dá uma interpretação um pouco mais ligeira e ao mesmo tempo. na USP. assim como também falamos um pouco acerca disso no 11. “O Ciúme” de Caetano Veloso.br\site) e o site (www. tanta gente cala 29 .caetanoveloso. Cremos que aquela que divide a canção em 5 estrofes. nossa análise já foi parcialmente apresentada no congresso regional da SBPC. nem triste. fazer uma interpretação também bem intimista da música.br). do lado de Juazeiro da Bahia. Neste breve texto pretendo fazer uma análise da letra desta canção. Certa feita num bar à beira do Rio São Francisco. com seu violão. Rio.Acerca de “O Ciúme”.com. sem dúvida. Buscamos encontrar a forma de transcrição da letra que mais correspondesse às necessidades poéticas de uma composição versificada. menos dramática que a dos dois tropicalistas. e a estrofe central com 5 versos. tudo quer buscar. tomávamos uma cerveja e ouvimos o cantor que ali se apresentava. não me ensinas E eu sou só. próximo à ponte que une a cidade baiana à Petrolina. Bahia Só vigia um ponto negro. Assisti a um vídeo no Youtube com Gal Costa e o próprio compositor baiano em belíssimo dueto interpretando a música. a que melhor representa essa nossa necessidade: O Ciúme Dorme o sol a flor do Chico meio dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte. inclusive os sites que se apresentam como oficiais de Caetano Veloso (www. eu só.1.caetanoveloso. eu Juazeiro nem te lembras desta tarde Petrolina nem chegaste a perceber Mais na voz que canta tudo ainda arde Tudo é perda. 1. ocorrido na UNIVASF. sendo as duas primeiras e as duas últimas transcritas como quartetos. nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens de Minas De onde o oculto do mistério se escondeu Sei que o levas todo em ti.com. em 2007. Canção de Caetano Veloso Uma das canções mais bonitas que fazem referência ao Rio São Francisco é.° Congresso Internacional da Abralic. em companhia do amigo Benedito Bezerra.

isto é. sobre toda sala Paira. (11) O número 11 é do tipo palindrômico. porém./ Per/ nam/ bu/ co. A ponte funciona nos dois sentidos. em termos numéricos./ mons/ tru/ o/ sa/ som/ bra/ do/ ci/ ú/me. pode ser lido de trás para frente que não modifica o seu valor. Assim./ eu/ só.Tantas almas esticadas no curtume Sobre toda a estrada. assim como o palindrômico número 11. esse processo de divisão assume o caráter psico-simbólico de que a separação entre o eu e o outro é ao mesmo tempo um elo para a auto-identificação. o aspecto de que o número 11 é primo. com rimas cruzadas. o/ meu/ ci/ ú/me (11) O/ ci / ú/ me/ lan/ çou/ su/ a/ fle/ cha/ pre/ta (E) (11) E/ se/ viu/ fe/ ri/ do/ jus/ to/ na/ gar/ gan/ta (11) Que/ nem/ a/ le/ gre./ Rio. existe. Podemos contar os quartetos como formados por endecassílabos./ tu/do/ quer/ bus/car. o número 11 é formado pela repetição do algarismo primeiro. indo e vindo. mas a engenhosidade de sua metrificação híbrida e o fato de estar colocada ao centro do poema dá um sentido simbólico à forma: Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas De on/ de o/ o/ cul/ to/ do/ mis/ té/ rio/ se es/ con/ deu Sei/ que/ o /le/ vas/ to/ do em/ ti./ so/ bre/ to/ da/ sa/la (11) Pai/ ra. E ainda. não sendo divisível além de por ele mesmo e pelo número 1. 7ª e 11ª sílabas: Dor/ me o/ sol/ a/ flor/ do/ Chi/ co/ mei/ o/ di/a (11) Tu/ do es/ bar/ ra em/ bri/ a/ ga/ do/ de/ seu/ lu/me (11) Dor /me/ pon/ te. Como. é também um símbolo da igualdade e da identificação (1=1). em constante processo de autoidentificação e espelhamento./ ca/dê (11) Tan/ ta /gen/ te/ can/ ta. de espiritualidade e de intuição. monstruosa sombra do ciúme. as duas cidades.ª./ Ba/ hi/a (11) Só/ vi/ gia / um/ pon/ to/ ne/ gro./ eu 30 . uma diante da outra. na numerologia é um número de avatar./ nem/ po/ e/ta (11) En /tre/ Pe/ tro/ li/ na e/ Ju / a/ zei/ ro/ can/ta (11) Ju/ a/ zei/ ro/ nem/ te/ lem/bras/ des/ta/ tar/de (11) Pe/ tro/ li/ na/ nem/ che/gas/te a/ per/ce/ber (11) Mais/ na/ voz/ que/ can/ ta/ tu/ do/ ain/ da / ar/de (11) Tu/do é/ per/da. e acentos predominantes na 3. quanto para o reconhecimento do outro. A estrofe central do poema./ não/ me/ en/ si/nas E/ eu/ sou/ só./ tan/ ta/ gen/ te/ ca/la (11) Tan/ tas/ al/ mas/ es/ ti/ ca/ das/ no/ cur/ tu/me (11) So/ bre/ to/ da a es/ tra/ da./ nem/ tris/ te. Petrolina e Juazeiro estão. não permite uma escansão tão simétrica e regular quanto a que propomos para as demais.

Sílabas pares. só se mantém em face de tentações contínuas. temos uma distinção de três tipos de ciúmes: o competitivo ou normal. temos a possibilidade de formar um verso dodecassílabo: “Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas /E eu/ sou/ só. para que tal união seja prazerosa a ambos. para Freud. para que isso ocorra. reflexões.ª pessoa do plural. 271) Ver no outro. O terceiro verso é um alexandrino com elisão na 7. Freud acerca da projeção do ciúme escreve: “O ciúme da segunda camada. no âmbito da relação amorosa ou de amizade é. do verso endecassílabo dá a analogia numerológica do que seja essa projeção.ª sílaba é a última do primeiro hemistíquio do alexandrino e a primeira do hemistíquio seguinte. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá. presente do indicativo. Pode obter esse alívio . do poema. que também no processo de união de dois seres. Aqui começamos a falar do ciúme. ao que se enciúma e ao que sofre o efeito da ação enciumada do outro. na paranóia e no homossexualismo. Para C. dois hemistíquios separados. A origem desse sentimento parece ter causas diferentes. O ser “só eu”. um dos quais. O ciúme é doloroso. o “Ciúme é a falta de Amor” 2 . É preciso reconhecer no outro aquilo que reflete de nós mesmos e saber trabalhar isso. levam a cabo o que nos hemistíquios se apresenta como possibilidade.se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade”. no texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. na verdade. e o par é a união. a união masculino-feminino da relação amorosa. sonhos. Do-em (doem). ou seja exatamente ao meio do poema. aquilo que temos medo em reconhecer que existe em nós mesmos. Desde a antiguidade mais remota. daquele filho 2 Carl Gustav Jung. não obstante. Jung.ª. Nesse sentido. o projetado e o delirante. é um sentimento que causa dor a ambos. o número 11. de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão.A estrofe pode ser escandida em dois versos heptássilabos e dois dodecassílabos. eu” Porém. é preciso que o segundo hemistíquio modifique sua característica de acentuação. temos na forma.ª sílaba. O ciúme é o processo inverso da autoidentificação na relação de união. As razões estão na questão do herdeiro. evitando o ciúme. do verbo doer. em Freud. Os dois versos centrais da estrofe e. 3. o ciúme projetado. tanto nos homens quanto nas mulheres. 1993. de Memórias. notadamente dos aspectos egoístas do ser. implica na quebra da solidão também. o elemento causador do ciúme projetado. 31 . Já que esta 7. especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio. deriva-se. alexandrino. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade. a absolvição de sua consciência . o que implica em dizer.e. por conseguinte. (FREUD: 1976. p. a analogia com a ponte que une (/do–em/). O segundo verso da estrofe é um dodecassílabo com acentos na 4. sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. por analogia. Se os juntamos.G. é preciso que se modifique algumas características da individualidade. para o homem tornou-se evidente a garantia da paternidade. eu/ só. 8ª e 12ª sílabas. Os nomes Petrolina (gênero feminino) e Juazeiro (gênero masculino) formam. Os dois heptassílabos seriam num sentido significativo da forma da estrofe.

é preciso que identifiquemos um terceiro. esse sentimento é exteriorizado pelo eu lírico. que ao contrário da lua que a reflete. pelo menos na cultura ocidental. -. Na simbologia esotérica. A estrofe central. sentia-se em condição de se dedicar à mulher e arrumar uma ou mais amantes. O rio é o viajante que vem de longe e se coloca entre Juazeiro e Petrolina. Uma vez que possui luz própria. Não são poucas as obras literárias que tratam da questão da descoberta da paternidade como elemento definidor da trama. de modo que o ciúme pode ocultar o brilho do Sol. Todavia. temos rima lume/ciúme. Para C. monstruosa sombra do ciúme”. intrínseco do sentimento de ciúme. isto faz com que se imagine que a infidelidade sexual feminina esteja associada com o envolvimento emocional com outro parceiro (De Steno & Salovey. A descoberta de uma falsa paternidade. apenas. fazendo com que seja superada a dificuldade causada pela passagem do rio. 1996 e Harris & Christenfeld. implica na perda do que foi feito para outro. orientador Ailton Amélio da Silva. começa por tratar diretamente do rio: “Velho Chico vens de Minas”. é a luz do conhecimento que é preciso adquirir exteriormente. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. a admiração que causa a um e o outro a beleza do rio. O homem. se tomamos o gênero das palavras “Petrolina” e “Juazeiro” para compor a analogia de um casal masculino-feminino. os sentimentos que buscamos negar em nós mesmos formam uma sombra. O material reprimido forma um self negativo. Na última estrofe. O brilho do sol refletido nas águas do São Francisco em oposição ao “ponto negro”. A luz que se reflete. 3 32 . Manter o marido significava a garantia de poder criá-los a bom termo perante as exigências sociais. esse ciúme logo é superado. o Sol representa os sentimentos do coração. econômicas e morais. ao se discorrer sobre a temática do ciúme é necessário lembrar que para alguns teóricos. a Sombra do Ego. maior necessidade de envolvimento emocional para a prática do sexo. no caso da Lua. pois o viajante segue seu curso. tinha sentido diverso. Não havendo a possibilidade do terceiro.São Paulo. que se interpõe entre as duas cidades: “Entre Petrolina e Juazeiro canta”. a infidelidade masculina não tem tal implicação porque os homens têm mais condições de praticar sexo sem amor. 2007. 1996). unifica ambos. Na primeira estrofe da canção. logo é compreendida pelo outro. como tal. a infidelidade sexual tem diferentes conotações para homens e mulheres. (ALMEIDA: 2007 3 ) Na letra de O Ciúme. A mulher.G. Área de Concentração: Psicologia Experimental) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. A ponte que se constrói. o investimento na geração de filhos. 1996(a e b). no lar. admiração. Este terceiro é o rio São Francisco. Para a mulher. o causador do ciúme entre ambos. 234 p. não existiria razão causadora do ciúme. Jung. essa luz vem de sua interioridade. sentia. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações / Thiago de Almeida. por seu turno. ao passo que a luz que vem de dentro é a da sabedoria.que continuará a obra do pai. A canção termina nesses termos: “Paira. consoante Sheets e Wolfe (2001). Como observa Thiago de Almeida: Ainda. em geral. Como o amor geralmente é um pré-requisito para o envolvimento de uma mulher em um relacionamento sexual. como em O Arco de Sant’Anna de Almeida Garrett. como De Steno & Salovey. Porém. para satisfação sexual.

São Paulo. mas o simulacro: “Mais na voz que canta tudo ainda arde /Tudo é perda. o da auto-identificação do eu lírico. o reconhecimento dessa impossibilidade (“Sei que o levas”). dominada pelo ciúme pode. Busca incessante de apreensão do belo que resulta no moto contínuo da própria arte. transgredindo-a. Thiago de. unindo-se à própria Natureza. Movido por esse sentimento.2. ao corpo e à alma. e a obra de arte a expressão desse ciúme. Tantos são os cantadores da beleza. representada pela ponte. 2. o criador da Bossa-Nova e Ivete Sangalo. que se sente diminuído pela impossibilidade de posse da beleza da Natureza. cadê”. eu só. numa visão trágica. leva o poeta a opor seu “ponto negro” de ciúme ao brilho do Sol sobre as águas do rio. pois. tanta gente cala”). é sua tênue possibilidade de vitória. tragédia). A vida sob o Sol. como aparente parte da cena. 1. não é a verdade. Porém. pois. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações Dissertação de Mestrado. 1976. O artista teme perder o que não tem. alegria (comédia).4). eclipsar essa luz do Sol interior. Freud. A impossibilidade de posse da Natureza causa esse sentimento.A sombra do self negativo. eis o mistério. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. nem poética (lírica). A tentativa de captar essa beleza vista ali da ponte entre Petrolina e Juazeiro. seu canto. a dor causada pelo ciúme tira a aura da canção. se dedica a tentar aprender um modo de controlar o que não consegue conquistar. lhe parece fugidia como as águas do rio passando por sob a ponte e seus pés: “Sei que o levas todo em ti. tudo quer buscar. Vol. Referências Bibliografias: ALMEIDA. endurecendo-se aos sentimentos como se fossem peles “esticadas no curtume”. mas tal tarefa é fadada ao fracasso do simulacro. Nessa atitude inicial de consolação. 2007. Sigmund. É o reconhecimento da mimesis como um processo de imitação. 33 . substitui o bem que não se pode ter. não me ensinas / E eu sou só. Essa obra que substitui o que se perde. na impossibilidade de modificar esse estado de impotência de apreensão da verdadeira percepção da Natureza. na paranóia e no homossexualismo”. transforma-se em canto isolado: “O ciúme lançou sua flecha preta / E se viu ferido justo na garganta”. A obra humana que se apresenta bela por desafiar a Natureza e conjugar-se no cenário. reduz o valor do canto à expressão de um sentimento que não é de tristeza (drama. O mistério oculto a que se refere a canção é. Rio de Janeiro. Lembremos. quanto são os que os ouvem (“Tanta gente canta. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. pois a obra produzida. eu”. a obra materializada expondo-se aos seus sentidos. In: S. quando na verdade é artificial. O Canto do Ciúme e os sentidos da percepção O ciúme se transforma também no canto do eu lírico: “o meu ciúme” (v. encontra artifícios para superar a dor da perda iminente pela alegria da descoberta da nova sensação. “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. mas enquanto tal. 18. se reduz. O cantar poético também se modifica. a propósito. Imago. é na canção. mas apenas a indiferença do distanciamento causada pela modificação da memória (épica). Ferindo a garganta. musa da música bahiana contemporânea. é também o maior trunfo do artista. Agora o ciúme é o do artista diante da Natureza. FREUD. 234 p. que de Juazeiro vieram João Gilberto. pois que a beleza da Natureza. restando a solidão. orientador Ailton Amélio da Silva.

34 .Do São Francisco ao Mississipi: O Rio e o Homem na Música Popular.

de Sílvio Brito.ex. p. música incluída em disco produzido com Elomar. inclusive. Ponte Presidente Dutra. cavaleiros. “As Águas do São Francisco”). ocorrendo ocasionalmente. p. se o leitor considerar que já tem alguma noção acerca das músicas que aqui serão citadas. uma lenda acerca do vapor. O Rio São Francisco na música popular brasileira tem sido representado como rio que em sua bacia guarda uma rica cultura regional. transpondo para o sertão aspectos do sebastianismo messiânico.) e da força da natureza em resposta às interferências (“São Francisco”. tendo como nome atual. O primeiro vapor a navegar as águas do rio São Francisco veio dos EUA. de Sá e Guarabira. São Paulo e Rio de Janeiro principalmente. que este texto tem de certo modo um pré-requisito de leitura que o que se intitula “O Rio São Francisco como tema de MPB”.). Essas raízes medievais aparecem em composição de Carlos Pita (no disco Águas do São Francisco. Rebatizado no Brasil com o nome de “Saldanha Marinho” o vapor navegou de 1871 a 1970. a construção de represas (“Sobradinho”. que por vezes. o que não é difícil para boa parte dos leitores que têm o hábito de escutar música brasileira e música norte-americana. Em algumas canções se trata da questão da interferência do homem no curso da rio. porém. Cabe lembrar. de Moraes Moreira. traz na memória lembranças da infância vividas à beira rio. Em várias canções a ponte é citada geralmente como signo de união. Esse sertão medieval tem raízes históricas no processo de colonização portuguesa. O que convenhamos. princesas e encantamentos. Cultura essa. tem uma raiz de caráter medieval. é uma das mais movimentadas do país. das novelas de cavalaria e poesia palaciana. em Geraldo Azevedo (“Barcarola do São Francisco”. povoando o sertão dum imaginário de reis. O “vaporzinho” como é chamado navegou antes nas águas do Mississipi e hoje é aberto à visitação na cidade de Juazeiro (BA). Xangai e Vital Farias). de certo modo. para tanto tomamos como base o São Francisco no caso da geografia cultural brasileira e a bacia do Mississipi-Missouri no caso da norte-americana.ex. é possível ler este sem ler aquele. a tripulação fantasma do barco sai pela cidade de 35 . a infância que fala é feita de lembranças compostas pelas imagens dos barcos (gaiolas). da fórmula e composição na medida velha. A de que em noites de lua cheia. de ligação. das carrancas – estas geralmente trazendo o medo na memória da criança – e a vida ribeirinha.ex). Outro aspecto constante nas músicas que tratam do tema do rio São Francisco são as lembranças de infância. qual sejam as raízes da poesia de cordel e do trovar dos repentistas. Criou-se. 1979). Como memórias dessa voz lírica imigrada. é relativamente comum no caso da cultura brasileira e um tanto quanto um pouco mais raro no caso da cultura norte-americana.Neste capítulo tecemos algumas considerações acerca das representações do rio na música popular brasileira e norte-americana. o autor se imagina um homem que tendo deixado a região. Tal processo tem suas bases na corrente de imigração sertaneja-nordestina para as capitais litorâneas ou para o sudeste do país. Outro elemento constante nas músicas acerca do rio São Francisco é a referência à ponte que une Petrolina e Juazeiro. atualmente recuperado pela prefeitura de Juazeiro é um dos pontos turísticos da cidade. num processo de formação da voz lírica da letra da canção. O rio como cenário bucólico do idílio amoroso não é um tema muito significativo. Mesmo que o compositor não tenha passado a infância na região do propriamente dita do vale do rio. A ponte construída em 1950. p. do polêmico projeto de transposição das águas do rio (“O Velho Chico”. como na música de Gino e Geno.

Após a independência das treze colônias britânicas em 1776. levees goin to break. When the levee breaks Ill have no place to stay. mas que originalmente é um blues de Menphis Minnie e Joe Maccoy.” (“Se continuar chovendo. as barragens irão romper Quando a barragem romper. No âmbito da música popular. as barragens irão romper Se continuar chovendo. no mais das vezes.” 36 . A letra é direta e crítica sobre os danos que causam as enchentes do rio e mostra a incapacidade do homem de dominar a Natureza. Em 1927 houve uma grande cheia do rio Mississipi que desabrigou centenas de milhares de pessoas. inúmeras são as canções que tratam direta ou indiretamente do rio. Trataremos brevemente de algumas. A navegação a vapor e as obras de construção de canais e represas estiveram ligadas à história da ocupação daquela região. tendo inclusive uma extensão maior que a do próprio Mississipi. comparando. Espécie de recriação da lenda do Holandês Voador. ainda. considerando no conjunto. daqueles que perdem tudo por causa das inundações é retratado de forma direta nos versos dessa canção: “All last night sat on the levee and moaned. Mas se o vapor navegou nas águas do Mississipi e nas águas do São Francisco. como ninguém. levees goin to break.Juazeiro a seqüestrar pessoas – principalmente moças – para uma viagem pelo rio. terminando por conseguir do México a Califórnia. não terei onde ficar”) O desespero dos desabrigados. O rio está ligado sob vários aspectos ao processo de expansão territorial dos Estados Unidos. o percurso Mississipi-Missouri tem 6700 quilômetros. sempre que possível com composições brasileiras relativas ao rio São Francisco. podemos dizer que simbolicamente este barco conheceu os dois rios e pode. O Missouri é o maior afluente do Mississipi. rudes. A bacia do Mississipi-Missouri era assim uma espécie de fronteira era o Nordeste dos Estados Unidos. Obras de contenção e de regularização do fluxo de águas foram construídas no intuito de estabilizar a vazão das águas durante o período anual de cheias. saber das semelhanças e das diferenças entre os dois rios. If it keeps on rainin. Thinkin bout me baby and my happy home. só superada pela cheia de 1993. A bacia do Mississipi-Missouri corta a região central dos Estados Unidos e tem a foz no sudeste no estado de Louisiana. “If it keeps on rainin. a Inglaterra e a Espanha acabaram por deixar os Estados Unidos com um imenso território. Em sua memória está ecoando as canções norte-americanas e brasileiras acerca desses rios. Uma das composições mais impressionantes sobre as enchentes do Mississipi é “When the levee breaks”. selvagens. civilizado. várias guerras e disputas com a França. All last night sat on the levee and moaned. A guerra civil americana bem demonstrou essa dicotomia cultural. recriada pelo Led Zeppelin. eternizada em ópera de Wagner. urbanizado e livre com as terras d’além do rio e do sul. social e política.

Vemos aqui que o idílio amoroso. como eram chamados os brancos pobres (literalmente “os quebrados” – sem grana. sendo Louisiana uma cidade cuja população era em maior parte negra. No verso final. a ironia. então presidente dos EUA: “President Coolidge came down in a railroad train With a little fat man with a note-pad in his hand The President say. Randy Newman contextualiza historicamente a cena ao citar o presidente Coolidge. A ironia também se apresenta no modo como se apresenta o presidente." (“O Presidente Coolidge veio num trem da ferrovia Com um homenzinho gordo com um bloco de nota nas mãos O Presidente disse. fazendo referência histórica a uma das maiores enchentes da foz do Mississipi.”) Calvin Coolidge era vice de Warren Harding. numa espécie de ultra-romantismo acrônico serve de motivo para que não se veja os danos que a enchente traz às populações 37 . sem dinheiro). Águas do São Francisco. "Little fat man isn't it a shame what the river has done to this poor crackers land. se vê a preocupação com os “crackers”. vindo de trem com um “little fat man” e seu bloco de notas. afinal não se diz que ele veio com o exército ou uma equipe de salvamento. em que se pede para que São Pedro aumente a enchente para que o personagem lírico da canção possa continuar com um álibi para continuar nos braços de sua amada e não ter que atravessar a ponte. Lembremos aqui da canção gravada por Gino e Geno. pela pouca ação nos problemas sociais e pelo abandono ou veto de projetos que ajudassem o campo e regiões menos favorecidas. “Homenzinho gordo é uma vergonha O que o rio fez com os brancos pobres dessa terra. A canção começa com a apresentação do quadro da tempestade e da enchente: “What has happened down here is the wind have changed Clouds roll in from the north and it started to rain Rained real hard and rained for a real long time Six feet of water in the streets of Evangeline” (“O que aconteceu aqui é que o vento tudo mudou Nuvens vieram do norte e começou a chover Choveu de verdade muito e choveu por muito tempo mesmo Seis pés de água nas ruas de Evangeline”) Numa estrofe final. Sua política era marcada pelo conservadorismo. assumindo a presidência com a morte deste.(“Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Pensando no meu bem e no meu lar feliz”) Randy Newman compôs Louisiana 1927. o que sugere algumas soluções paliativas e de gabinete. em 1927 a segregação racial era forte nos Estados Unidos e na fala atribuída ao presidente.

Rollin. música na qual se coloca o cenário dos vapores que navegavam no Mississipi: “Big wheel keep on turnin. de apadrinhamento e de elitização da política. porém. não falta água.” (A grande roda girando. em ritmo de rancho carnavalesco. complementares. mas sim. Vão cobrar o olho da cara. No contexto social. O grupo Creedence Clearwater Revival compôs Proudy Mary. Dércio Marques apresenta um engajamento com versos mais refenhos em defesa de seu ponto de vista. fazendo duras críticas às práticas de favorecimento. Dércio Marques em canção mais ousada. rollin on the river. Dércio Marques alude ao fato de que as águas servirão para criação de camarão como produto de exportação e que nas regiões que mais sofrem com a seca. Rancho Eterno Chico. Bombar água pra subir” Em outras duas estrofes. melhor se dá Sílvio Brito que em O Velho Chico sugere um projeto de revitalização em oposição ao de transposição das águas. sugerindo que a obra favorece a elite e despreza de fato a ajuda ao povo que sofre com a seca: “O que será de todos nós sem o Velho Chico As suas águas já sem forças pra seguir E vem um bando aventureiro cabotino Dar ao rio outro destino.ribeirinhas. o fato é que os projetos não são excludentes. com letra que critica a política governamental. não Orós e Castanhão Têm volume abissal Esbanja a elite água de irrigação Enquanto mata de sede o irmão em seu quintal” Assim. um desatino Sertão divino é convivência seu porvir Povo vizinho ao rio não tem acesso à água Como pode dar a água se o filho não tem para si? É ilusão a redenção fartura d´água. rollin. desviar onde ele ir Mas que delírio de poder. Proud mary keep on burnin. o que falta é vontade política de fazer a correta distribuição das águas dos açudes: “Deixa não vingar transposição Pra criar camarão Em nome do vil metal A nação se ufana em exportação Enquanto o povo do rio tem fome em seu quintal No Ceará. 38 .

that Old man river. Outro livro de Mark Twain. are soon forgotten. estado do Tennesse.” Comenta-se da vida dura dos trabalhadores. Life on the Missisipi. Rolando. Rolando.” (“Limpando muitos pratos em Memphis. and we all know he don't pick cotton. John Murrell. But them that plant 'em. de como seus momentos de lazer se faziam quando navegavam nos vapores em direção à New Orleans: “Cleaned a lot of plates in Memphis. O título é uma referência a um dos “apelidos” do rio Mississipi. música que faz referência a um dos personagens da literatura americana mais característicos do rio Mississipi. é isso aí. Até que eu desci o rio de barco. he just keeps rolling along.”) O percurso de Memphis. com Rod Stewart cantando. “He don't plant tater's. New Orleans. teve uma brilhante versão pelo Jeff Beck Group. Mas então o que ele planta são filhos esquecidos. Que o Rio Velho. Huckleberry Finn. Sondando muita dor em New Orleans. além das aventuras do rapaz que mora num barraco às margens do rio. e tem um capítulo dedicado a um dos maiores ladrões que viveram às suas margens. Mas eu nunca vi o lado bom da cidade. estado de Louisiana era o trecho mais navegado do rio pelos vapores. médio Mississipi. e nós sabemos que ele não colhe algodão. Na canção Moon River lemos: “Two drifters Off to see the world There's such A lot of world to see We're after The same rainbow's end 39 . But I never saw the good side of the city.” (“Ele não planta batatas. até a foz. ele apenas guarda rolando por aí. chamamos o São Francisco de “Velho Chico”. conta a história do rio. oh yes he does. Rolando pelo rio. til I hitched a ride on a river boat queen.Altiva Mary vá queimando. de Mark Twain. sim. Nessa obra.”) Louis Armstrong gravou Moon River. assim como aqui. Pumped a lot of pain down in New Orleans. Ol’ Man River é uma das canções que tratam da vida dos trabalhadores nas fazendas de algodão na bacia do Mississipi. Blues da autoria de Kern e Hammerstein.

que trouxe uma cultura de caráter medieval.” Na cultura do Rio São Francisco. Veremos o fim do arco-íris. Não é por acaso que em New Orleans e Memphis temos o berço do blues e do jazz.”) Assim. com suas raízes musicais negras.Waitin' 'round the bend My huckleberry friend Moon river And me. Tal visão parece ter suas raízes no processo de colonização português. em Geraldo Azevedo. o segundo homem 40 .” (Dois vagabundos livres para ver o mundo. Meu amigo Huckleberry. uma religiosidade católica exacerbada e mitos messiânicos de feição sebastianista. Por outro lado. Tal visão tem fundamento no trabalho escravo durante os séculos XVIII e XIX. eivado de reis. econômicos e políticos são apresentados como entre o destino do homem e os desígnios dos céus. os beatos têm um papel fundamental no imaginário cultural da região para mediação e solução dos conflitos. Esperando-nos na curva do rio. princesas. O Rio-lua E eu. o Rio São Francisco. e mesmo numa canção engajada como a de Silvio Brito lemos versos como: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza. Assim. os santos católicos. os conflitos sociais. em que se pese a pobreza de suas populações ribeirinhas. a navegação dos vapores como diversão e em geral. Deus. No caso da cultura do Mississipi os conflitos se regem pela tríade homem x natureza x homem. cavaleiros e natureza mágica. O primeiro homem é o que sofre a força da natureza ou de outro homem. E há um bocado De coisas no mundo para ver! Nós. instalada após a guerra civil americana. depois. no Nordeste brasileiro. a idéia de que a vida em torno do rio é dura. na segregação racial. Assim temos exemplo nas composições de Carlos Pita em Águas do São Francisco. o sofrimento dos trabalhadores. o que domina o imaginário de muitas das canções acerca do rio da integração nacional é um cenário imaginário dum sertão medieval. nas constantes enchentes do rio e na situação de pobreza que boa parte da população ribeirinha viveu em contraposição à riqueza e à fartura das grandes cidades americanas. cheia de lamentos e dor. são temas constantes de várias músicas que giram em torno do cenário do Rio Mississipi. o sofrimento do polígono das secas e as enchentes do rio. em Moraes Moreira. num procedimento típico do imaginário medieval.

fundado no conflito entre a cultura negra. o conflito é velado. cryin won’t help you. parece ser bem mais pragmático. ocultado pelo espelho da introspecção criativa que busca no imaginário medieval razões para acreditar na concretização de profecias acerca dum futuro melhor ou na ação providencial da mão divina. escrava e a branca. européia. Nega. you got to move.” (“Chorar não irá te ajudar. O panorama foi montado de forma a não ser apenas 41 . rezar não adiantará muito Não! Chorar agora não irá te ajudar. pois. prayin’ won’t do you no good. É o que vemos. rezar não adiantará muito Quando a barragem romper. No caso do rio Mississipi. Now. When the levee breaks. o modo de tratar o imaginário em relação ao rio. prayin’ won’t do you no good. Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira Nesse capítulo buscamos apresentar interpretações acerca do modo como o Rio São Francisco é colocado na poesia brasileira num panorama que vai do Romantismo até a Literatura Contemporânea. mama. No caso do rio São Francisco.é o que se beneficia desse conflito. duas diferenças fulcrais no modo de encarar a realidade circundante. você terá que se mudar”) São. por exemplo nos versos da canção When the Levee Breaks: “Cryin won’t help you.

” Mais adiante o mesmo poema. Descobre que Maria fora violentada. Os personagens do drama são o escravo Lucas e sua noiva Maria.. quanto estético e formal. resolvem navegar até a Cachoeira de Paulo Afonso.historiográfico e exaustivo. exuberante. Marisa Lajolo e Samira Campedelli assim comentam o aumento da tensão dramática na obra: “Como que acompanhando o aumento da tensão dramática do primeiro para o último poema... que fazem seu lar. considerada inútil diante da opressão que a condição de escravos os condena. querendo vingar-se indaga da amada o autor da sua desonra. passando pela preocupação com o registro e a preservação de uma cultura local. inclusive do século XVIII... o poeta nos mostra Lucas voltando para sua cabana. mas antes compor um painel cuja amostra deva esboçar as diferentes visões ecológicas e sócio-culturais que moldaram a imagem do Rio São Francisco em diferentes épocas. de onde se precipitam na canoa num ato delirante que simbolicamente representaria suas núpcias. / Que a perna te esconde em vão. entre outros. apresenta um entardecer em que os sons da natureza parecem pressentir o desenlace fatal: “Contemplando o infinito. de forma que o cenário da morte coincide com a escuridão noturna. “O Baile na Flor” apresenta a descrição de uma natureza rica. acaba encontrando-a vagando numa canoa como que buscando a morte. Castro Alves e as Imagens Clássicas e Românticas O primeiro grande texto de poesia brasileira a tratar do Rio São Francisco foi o livro A Cachoeira de Paulo Afonso de Castro Alves (1876). intocada.. Procurando por ela.. mas não encontra sua amada. / Sutis vaga-lumes / Acendem os lumes / Pra o baile na flor.. João Cabral de Melo Neto. pois. Maria conta que o autor trata-se de seu meio-irmão. Embora possa se encontrar citações eventuais em outras obras poéticas de autores anteriores.Tu és do céu a pálida donzela.” O terceiro poema. “Tarde” tem versos como “Hora meiga da Tarde! Como és bela / Quando surges do azul da zona ardente! / . tanto no nível semântico. Dantas Motta. filho do senhor. na floresta / Rolar o som da funeral orquestra!!!”. paisagem vai progressivamente escurecendo. a poesia brasileira quando se propôs ao tema soube mesclar na linguagem poética diversos aspectos dessas imagens e preocupações. em lindos cardumes. 77) Não é por acaso. e. / Que se banha nas termas do oriente.” Este poema é também uma das mais ousadas experiências formais de 42 . no poema homônimo seguinte. já em voga no Romantismo desde a primeira geração: “Onde Vais à tardezinha / Mucama tão bonitinha / Morena flor do sertão? / A grama um beijo te furta / Por baixo da saia curta. Após a apresentação do cenário da tarde. Passando por Castro Alves. 1980.. é com Castro Alves que este cenário brasileiro ganha uma dimensão lírica que ainda não havia tido na poesia brasileira. cheia de vida: “Ali das bromélias nas flores doiradas / Há silfos e fadas. p. que o primeiro poema. / E. Desde uma imagem romantizada da Natureza intocada até às preocupações com os danos que a civilização urbanizada causa ao meio ambiente. Composto de 33 poemas A Cachoeira de Paulo Afonso forma uma espécie de narrativa dramática.. 1. o prenúncio do fim do dia acompanha o ato final dos amantes. Assim. depois de algumas negativas. é apresentada de modo bem ao estilo da verve cabocla e sertaneja. Após ser convencido por Maria a evitar a vingança. Maria. em belíssimo contraste com a brancura das espumas da cachoeira” (LAJOLO & CAMPEDELLI..

Recresce o fogo em mares. Na última estrofe a destruição causada pelo fogo é apresentada de forma apocalíptica: “Então passa-se ali um drama augusto... o que cria uma contradição entre calmaria e ataque iminente. que tombam sobre o rio..” A estrofe é brilhante na conjugação da cena dramática e dos recursos poéticos. a natureza é violentada pela ação do homem: “A floresta rugindo as comas curva.... O ponto de exclamação do verso final da estrofe.. N’último ramo do pau-d’arco adusto O jaguar se abrigou.. / Que pode esmagar-te assim?. E tudo se acabou!.. seguido de reticências e uma linha pontilhada compõe o ritmo que insinua o perigo. Já manso e manso escoa-se a canoa.. Como o dorso de enorme crocodilo. Mas rubro é o céu. Parecia.... Em “A Queimada” (quarto poema).... O próximo poema “Diálogo dos Ecos” compõe uma cena em que Lucas parece conversar com o eco num verso solitário que se segue à cada estrofe: “Maria. “Tirana” e “Senzala” apresentam a chegada de Lucas e a descoberta da ausência de Maria...... “Último Abraço”.. / As asas foscas o gavião recurva. Os quatro poemas seguintes – “História de um Crime”... nele...... // E o eco responde: ...Sim!” A partir daqui os 11 poemas seguintes vão apresentar um crescendo do drama em que Lucas encontra Maria vagando na canoa e busca compreender o que lhe acontecera... até o momento em que a noiva se vê convencida a contar o nome do agressor.... E após.. feroz. A canoa é comparada com um ninho que caiu sobre as águas calmas e desconhecendo o perigo... assim vista ao sol poente... ........... / Espantado a gritar”... “Mãe Penitente” e “O Segredo” vão revelar o laço sanguíneo entre Lucas e o agressor de sua amada... sabemos que Maria está a vagar perdida em sua canoa: “Lá no meio do rio...... O quarto e quinto poemas compõem a metáfora da violação tanto de Maria quanto da Natureza. O rio é metaforizado na imagem de um crocodilo.. vai de encontro ao abismo... que cintila.... E onde em meio das flores vão chilrando -Alegres sobre o abismo – os passarinhos!......) Houve pois um braço estranho / Robusto.Castro Alves..” Os três poemas seguintes – “Lucas”. O quinto poema é “A Queimada”.. 43 . Segue-se o poema “Crepúsculo Sertanejo” que inicia com o verso “A Tarde morria! Nas águas barrentas” e os poemas “O Bandolim da Desgraça” e “A Canoa Fantástica” que vão preparar a entrada do cenário em que os dois amantes resolvem ir em direção do abismo. Esses ninhos.... uma vez que a mancha do texto na folha busca sugerir a forma de uma flor.... pobre criança / Que fazes tu sobre a terra? // E o eco responde? – Erra! (.. tamanho.tombam as selvas seculares....

sânie... tredos.”. Abriu-se a um tempo / O precipício!... numa forma de comentar poeticamente a função irrigatória que o rio exerce sobre vasta região do sertão nordestino.... Mais ao final do poema evoca-se o mito de Laocoonte para efeito de comparação: “Grupo enorme do fero Laocoonte / Viva a Grécia acolá e a luta estranha!... Ascenso a princípio não quis saber da novidade. A Revisão Modernista do Drama Romântico: Ascenso Ferreira Ascenso Ferreira (1895-1965) foi um dos nomes mais importantes da divulgação das idéias modernistas em Recife... “Vem – à busca talvez de desafogo / Bater à porta da Baiana altiva... o rio é denominado de “Nilo brasileiro”..... bem longe.. “A Cachoeira” busca apresentar o cenário do clímax dramático do poema. Na última estrofe do poema. Castro Alves soube colocar nesse conjunto de poemas tanto a questão da opressão sobre o escravo. Mas quando Guilherme de Almeida passou em Pernambuco e declamou o seu poema ‘Raça’ no Teatro Santa Isabel... / De grinaldas em flor tecendo a arcada / São arcos triunfais de tua estrada!.. / ...... / Como filhos – chorando-lhe – os penedos!!!.” “A Cachoeira” constrói uma imagem metafórica de grande tensão.” Nesse verso final de coloração fundada num oxímoro.... dos cantões bravios”). natureza / homem... babando. / Nas verdes canas o gemente rogo / Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva” (est. II).. / Por hidra – um rio! Por augure – um monte! / Por aras de Minerva – uma montanha! / E em torno ao pedestal laçados..)/ Viramno aos beijos. Destaca-se na primeira estrofe a distância que o rio corre pelos sertões (“Longe.. Envolvido que estava com a causa abolicionista. de lamber demente / As rijas formas da cabocla linda”(est. / E as serpentes de Tênedos em sanha!.. O percurso do rio pelas então províncias de Minas Gerais e Bahia é trabalhado de forma a personificar as regiões como mulheres cortejadas e amantes do rio: “-Linfa Amorosa – co’a nitente espuma / Orlava o seio da Mineira linda (.... assim como a extensão do rio (“Do São Francisco a soberana vaga / Léguas e léguas triunfante alaga!”)..” Os quatro últimos poemas retomam a narrativa dramática dos dois amantes e vão num crescendo preparando o momento em que a canoa se atira pela cachoeira: “.. o futuro autor de Catimbó entregou os pontos... Os coqueiros e cipós são vistos poeticamente como arcos a ladear todo o curso do rio: “Como pontes aéreas – do coqueiro / Os cipós escarlates se atirando. / A canoa rolava!. / Co’a serpente no dorso parte o touro. e o céu!..” O poema seguinte. / Do sacerdote o punho e a roxa fronte... Manuel Bandeira em prefácio escreve: “Não sei quando o movimento modernista se propagou ao Recife... Castro Alves busca concluir as contradições entre vida / morte. quanto a função colonizadora que as populações caboclas tiveram no povoamento do Vale do São Francisco... Assim se abre o poema: “Mas súbito da noite no arrepio / Um mugido soturno rompe as trevas.Um beijo infindo suspirou nos ares. 2. luz / trevas. III)../ Titubantes – no álveo do rio – tremem as lapas dos titães coevas!.. vingança / perdão.O poema “O São Francisco” apresenta a visão de Castro Alves do rio. que permearam todo o poema.. o rio é metamorfoseado numa serpente e as rochas que formam a queda d’água são vistas como o corpo de um touro: “Então doido de dor.” 44 . Lembra-me que Joaquim Inojosa foi o agente de ligação com os rapazes de São Paulo.... água / terra.. A luta entre a serpente-rio e o penhasco-touro ganha contornos de grandiosidade mitológica: “A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo! / A briga colossal dos elementos! / As garras do Centauro em paroxismo / Raspando os flancos dos parcéis sangrentos”..

(FERREIRA, 1981, p.11). Sérgio Milliet, comentando a obra de Ascenso, observa como o grupo de modernistas do Recife conseguiu uma certa autonomia estética em relação ao modelo de São Paulo: “Na renovação poética do Brasil, já observou Manuel Bandeira, o grupo do Recife escapou à influência imediata e imperialista dos modelos europeus. Da revolução que se iniciou em São Paulo só lhe interessou a liberdade conquistada.”(FERREIRA, 1981, p. 14). Em Xenhenhém, conjunto de 25 poemas publicados em 1951, encontramos um intitulado “O Meu Poema do São Francisco”. O poema começa com quatro versos anafóricos: “É Cabrobó! / É Orocó! / É o Ibó / É Curaçá!...” São nomes de cidades na divisa entre Pernambuco e Bahia. Do lado de Pernambuco (Cabrobó, Orocó e Ibó) ficam na região do rio e da serra de Ouricuri, do outro lado do São Francisco está Curaçá, na Bahia. A sonoridade dos nomes das cidades é explorada poeticamente. Em outro poema, “Sertão”, do livro Catimbó, também o poeta utiliza o efeito de explorar a sonoridade dos nomes das cidades, só que cria um itinerário diverso, partindo de Cabrobó em direção do sertão, até Exu, nome já evocativo das dificuldades e agruras do semi-árido: “Sertão! – Jatobá! / Sertão! Cabrobó! / -Cabrobó! / - Ouricuri! / -Exu! / -Exu!”. No poema do São Francisco, Ascenso Ferreira após a apresentação dos nomes das cidades, coloca um dístico que é o estribilho do poema: “Meu Deus, ela veio das bandas de lá! / Meu Deus, ela veio das bandas de lá!”. O viajante pede ao barqueiro que siga a voz encantada de mulher que segue pelo curso do rio: “Barqueiro, me traga o meu reco-reco, que eu quero chamá-la para um xenhenhém... Que nada! Ela é sempre para mim como um eco Que longe responde, porém nunca vem... Barqueiro, desçamos pelo rio abaixo... Vamos ver, barqueiro, aonde ela está.” A seguir, utilizando a mesma estratégia inicial, Ascenso apresenta o nome de quatro localidades baianas, tirando novamente o efeito estético de suas sonoridades: “Chorrochó / Cocorobó / Patamuté / UAUÁ!”. Este último nome de cidade é grafado com maiúsculas, chamando a atenção para o som do nome que se assemelha ao do choro, evocando o sentimento melancólico do eu-lírico em busca da voz de mulher. Após a repetição do estribilho e de novo pedido ao barqueiro que continue seguindo rio abaixo, segue-se novamente o nome de quatro cidades às margens do rio São Francisco, porém, agora elas não rimam nem supõem uma harmonia sonora com a mesma intensidade musical das anteriores: “E é Floresta / Itacuruba / Santo Antônio, / Jatobá!” Essa quebra de ritmo funciona no poema como aviso de que as águas tranqüilas do rio serão interrompidas, assim avisa o barqueiro: “-Passageiro, volte que lá é a cachoeira. É morte na certa, não teime, não vá!” O verso solitário a seguir é acompanhado por reticências e uma linha pontilhada – recurso que já notamos em Castro Alves – e o nome da cidade que evoca o choro: 45

“-Barqueiro, ela chama é mesmo de lá... ............................................................... -UAUÁ!!!” Em Ascenso Ferreira, como em Castro Alves, o percurso do rio cria um crescendo dramático até a cachoeira de Paulo Afonso. Em ambos, a busca da morte parece o objetivo dos navegantes como forma de fuga das desilusões da vida, a morte na cachoeira como representação também de um ritual de passagem para uma dimensão mágica da existência. 3. Dantas Motta e a Transposição do São Francisco para um Imaginário Sincrético de caráter cristão. Elegias do País das Gerais (1958), livro de poemas de Dantas Mota (1913-1974) apresenta um grande conjunto de poemas divididos em “livros” como se articulassem a estrutura de um grande livro sibilino. Referências bíblicas se misturam às figuras históricas do Brasil. Paisagens das terras bíblicas são metáforas constantes das paisagens visitadas por Dantas Mota em Minas Gerais e no Nordeste. Mário de Andrade numa das cartas que escreveu ao autor diz: “Suas Elegias das Gerais estão prontérrimas, lindas e re-relidas e anotadas.”(MOTA, 1988, p. 330). Uma das partes da obra Elegias do País das Gerais intitula-se “Quarto Livro: Epístola de São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, o Vale”. O título já nos apresenta uma sobreposição entre a figura do santo e do rio. No poema, o rio é a voz lírica que narra acerca de seu próprio curso e sua história de colonização. Acerca desse “Quarto Livro”, o próprio poeta em carta a João Condé escrevia: “Fui assim, à pasta a buscar os petrechos necessários à tosa, encontrando-os embrulhados numa página do suplemento ‘Sintra’ e, dentro dela, vista de cara, a seguinte notícia: ‘Em Aracaju, reuniram-se, na semana passada, os Bispos da Bacia do São Francisco para estudar os problemas advindos de sua transformação.’ Mais ou menos isso. Dessa notícia nasceu a idéia do poema, informe, imprecisa e vaga, com a visão de Jerusalém carregada de bispos, tetrarcas e ametistas, postados todos em Aracaju, a qual depois, era transunta do sergipano país para este, o das Gerais, e que tantos males tem infligido a este Brasil, por força de sua intemperança no juro, na política e nos juizados da paz.” (MOTA, 1988, p. 339) O discurso do rio é marcado pela dor, pela angústia de ser o rio que atravessa a região mais árida do país, estigmatizada pela pobreza, pelo abandono: “Ora, toda unidade é estéril e todo mistério, terrível. E me fizestes uno, misterioso e triste, Não segundo minha paisagem interior, de pobreza, Que estava certa, mas conforme vossa jurisdição, Que ia desde Paracatu do Príncipe, No País das Gerais, Até Olinda e Recife, no País de Pernambuco!” 46

Em determinado momento, buscando apresentar a nascente do rio, Dantas Mota nos mostra o rio comparando sua nascente na Serra da Canastra com um caixão e os peixes com o corpo do morto “Ora, tudo o que se verificar aquém e além dele (o caixão) / é um mistério de unidade estéril (...)// De vez que todo caixão é aquário, / e, como tal, é ele o invólucro; / e o corpo, que dentro dele navega, / sob um céu de morim barato, / o peixe facilmente deteriorável”. Personagens e cenários bíblicos aparecem em constância para compor a imagem desse rio triste e angustiado que é o São Francisco de Dantas Mota: Cristo, Melquisedeque, José, Jerusalém, Eufrates, Cativeiro na Babilônia, etc... A população ribeirinha é apresentada como a descendência de Agar: “Em verdade, subindo vou o Setentrião, / enquanto meus habitantes o Setentrião descendo vão / -Felás de um tempo redivivo, / tormentados com Hórus /(...)/Porque, apesar das secas e dos desertos / (gente proscrita da progênie de Agar) / há uma paisagem de riacho e rugas / nas faces chicoteadas de sol e peixe”. Em contrapartida Lampião, Canudos, e outros personagens e cenários do Nordeste são evocados misturados aos bíblicos: “E, provando a procedência deste razoado, / Uns homens sem respeito para a minha vergonha. / E a república, que triunfou de Canudos, / Batendo, depois, além dele, meu rei Lampião, / No qual, com o ser o meu renovo, me comprazo, / Aqui, empós alguns lustros e sóis passados, / Se sublimou em tetrarquias com os Cunegundes, / os Pantaleões, os Batista e os Santa Bárbara. / Afinal morri. Primeiro em vós. Depois em mim”. Desse modo, as revoltas populares, tanto a do cangaço (Lampião), quanto à mística-beata de Antônio Conselheiro são apresentadas como representativas do povo do São Francisco, ao passo que a República é – retomando uma colocação do próprio Antônio Conselheiro – como a Babilônia. Dantas Mota buscava desse modo fazer a crítica do abandono e do flagelo que a região do semi-árido se encontrava. O episódio do velho testamento referente ao cativeiro na Babilônia (Jeremias) é amalgamado poeticamente à vitória violenta e sangrenta da república sobre Canudos e sobre Lampião. O coronelismo que dominou a política regional se apresenta como o período de cativeiro propriamente dito, neste sentido o povo nordestino da região do sertão estaria em condição semelhante aos hebreus no cativeiro da Babilônia. A seguir, em “Recuperação do Paraíso”, o rio no seu discurso nos diz que deixou sua condição de rio natural para ser uma autarquia. A ironia se refere à construção da hidrelétrica de Paulo Afonso, a primeira grande hidrelétrica construída no seu curso. Delmiro Gouveia que em 1913 iniciou o processo de aproveitamento energético do rio São Francisco construindo a usina de Angiquinhos que aproveitava a força da cachoeira de modo parcial, mas cujo efeito posterior foi incentivar projetos maiores. Em 1948, Getúlio Vargas procede à criação da Chesf e se inicia a construção da Usina de Paulo Afonso, terminada em 1954, até então a maior usina hidrelétrica do país. “Morri eu afinal, que de Francisco mais não sou, Porquanto, hidrelétrico, em autarquia transformado fui.” O discurso do rio ironiza o processo de eletrificação, que de princípio atendeu aos interesses políticos dos coronéis, pois de fato, pequenas propriedades e até mesmo algumas cidades ficaram sem a energia de Paulo Afonso: “Uma lâmpada de mil velas brilha no fundo do inferno”. O trecho final, “As Alegorias em Trânsito”, nos apresenta um anjo 47

/ de poita / de groseira.” A cobiça é destacada como o motivo principal da conquista da região. deixa. / cemitérios. as almas formariam o sentido simbólico do rio Opara (São Francisco) como elementos que sofreram opressão. O cangaceiro saqueou as vilas. logo a seguir. O povo submisso (“turba genuflexa / beijando a terra”) seguia esses homens como se fossem santos. a devoção religiosa é apresentada como um delírio coletivo. as vilas. agora transformado / transfigurado: “Também ilumino e não sou sol. / Amém”. / Vindo dos portões em ruínas do Paraíso. Henderson uma pescaria de jereré. os escravos fugidos. de certa forma. com as asas cheias de poeira. Dura crítica de caráter marxista ao governo de Getúlio Vargas. desenharam.metamorfoseado em ave pousando sobre um comutador de energia no meio do sertão: “Um anjo. sob certo aspecto. Os missionários conquistaram as almas”. A conquista do rio é mostrada como a defloração violenta da natureza: “E todos eles defloraram o rio. mostrando que na intensidade do delírio não tinham diferença. / Todo o norte se ilumina. Os capitães-de-mato deram caça aos negros. o poema fala da religião e da escravidão como partes do processo de colonização: “E depois os que foram alçar a cruz para curar as chagas / que o ouro fez. porém. a convite da corte imperial. Jorge de Lima e a História do Rio São Francisco Revisitada Jorge de Lima escreve o poema “Rio de São Francisco” para o livro Poemas. com desprezo. 4. esquecidos. violência. / Depois desceram feras à procura de escravos”. As autarquias. estudaram. / Ou autarquias que o fero Estado cria. 1928. portanto antecedendo a Dantas Motta em mais de duas décadas. / E eram antônios conselheiros e jesuítas / e eram missões / e era a turba genuflexa / beijando a terra por onde os santos iam. é também continuação do próprio rio. o fero estado a que se refere o poema são comparados ao procedimento nazista.” Assim. indica também o início da decadência do III Reich: “Se organizaram em quadrilhas de sociedade anônima. irmanados assim ao próprio rio. Dentre os poetas que analisamos. Jorge de Lima passa a evocar os nomes de pintores naturalistas e exploradores estrangeiros que no século XIX. a terra. O surgimento das primeiras povoações se dá no contexto desse processo: “Então o povo crente ergue cruzes nas margens / e capelas / e igrejas. a sociedade anônima. / Pousa num comutador e. beatos como Antônio Conselheiro e os jesuítas são postos lado a lado. O garimpeiro deflorou a terra. Por extensão. é o único que cita o nome indígena do rio: “E primeiro desceram pelo rio Opara / os homens que foram ferir a terra à procura de ouro. No final. ali. / mas tem cuidado 48 . ave sagrada. escreveram e pintaram acerca da flora e fauna brasileiras: Henderson (Vem pintar. / Esquecidos de que eu também posso ser / A curva de Dniéper / O cotovelo do Don. / Sua dejecção de pássaro. / de tarrafa. o rio se consola com o fato de que a energia que ilumina terras distantes.” O rio compara sua nova face transfigurada com as batalhas que marcaram o início da reação russa contra a invasão nazista que. enquanto eu. à beira do abismo”.

/ as torrentes. Debret”). feiras. vai compondo os seus versos seguindo metaforicamente o curso do rio. meu Debret. enfrentava práticas de 49 . / as nuvens. um dia enfim / deixa de chover no Piauí / não chove no Ceará”. e ruge. potros correndo danados. A seguir cita-se num verso o empreendimento pioneiro de Delmiro Gouveia: “E o cearense desceu com uma turbina na mão”. / o canoeiro pachola tocador de violão”. devido ao que parece. Cita então Jorge de Lima. / tenho para os vossos bichos um restinho de ervas no surrão”. O flagelo da fome é destacado: “-Senhor! dai-me que comer! Senhor”. meus irmãos. Citase que as almas dos holandeses enterraram tesouros. Então. que um certo galo preto depenado canta à meia-noite “Salvador! Salvador!” Toda a vida das cidadezinhas é sintetizada em imagens instantâneas como flashes do cotidiano: “e quando o dia nasce. / que o rio desce e as lendas descem com esse rio”.que as piranhas podem comer os teus pincéis. Como nos poetas anteriormente aqui citados. / o Conselheiro renasce. O fim da estação da seca e conseqüente volta das chuvas marca um intenso renascimento que no poema atinge âmbitos lendários e místicos: “e o homem delira outra vez a nevrose dos Sertões. / Frei Doroteu renasce. / bandeirantes de todos os feitios. há florestas de mastros pelos cais. vem. que o sino de Piranhas geme como gente no dia de finados. Jorge de Lima. a briga que a companhia de linhas de algodão implantada por Delmiro Gouveia na região travava com a Machine Cotton (Linhas Corrente) da Inglaterra. suspende-se esse ritmo descritivo-narrativo tênue para anunciar a chegada da estação da seca: “Mas um dia. gado pastando nos cercados bodes pulando pelos morros. cegos cantando. o grande rio como a alma do sertão / desce de Paulo Afonso com sete ataques de doido. e bate e dorme lá embaixo / como um gigante que sofre de ataques de convulsão”. Halfeld e Saint-Hilaire (“Nisso tudo passaram Halfeld e Saint-Hilaire com as bandeiras / da sabedoria / e viram na Igreja Santa do Rosário / a baita coroa do Imperador do Divino”. / E um dia os riachos. Delmiro que recusou vender sua empresa aos ingleses. / e o povo volta de novo / a tomar bênção ao Padre Cícero”. / os outros rios vêm visitar o rio Opara”. guardando assim a cachoeira de Paulo Afonso para o clímax narrativo: “E o rio. / e espuma. Debret (“Vem. Debret é o mais citado no poema. ovelhas descendo das encostas.” O poema continua citando casos lendários entre descrições da navegação no rio: “E o rio desce. meu Debret”. “E são bonitos. O rio então surge como único refúgio: “Tenho água fresca. Jorge de Lima faz menção da cultura folclórica acerca das lendas que envolvem o rio São Francisco: “Vinde caçadores de lendas. Numa parte relativamente grande do poema. Este é também um dos raros momentos em que o rio se personifica e assume a voz no poema.”. ver o pitoresco do rio. tenho aqui algum peixe. à maior notoriedade que sua obra alcançou (“Passam engenhos pitorescos.

antes. de rios intermitentes numa linguagem seca que lembra a de Graciliano Ramos na prosa: “Desde que no Alto Sertão um rio seca. Delmiro foi assassinado em circunstâncias não esclarecidas em 1917: “E os braços edificaram a caatinga. embora sabres. em água paralítica. Essa ausência significativa do São Francisco na poesia de João Cabral pode ser explicada. 50 . e mais: porque assim estancada. Porém. pela constante oposição que o poeta trata entre o cenário do sertão. a vegetação em volta. a fábrica de Delmiro foi finalmente vendida e logo depois desmontada. 5. corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. João Cabral trata dessa condição dos rios intermitentes que mal terminando a época das chuvas desaparecem: “Quando um rio corta. o rio São Francisco não é o cenário fluvial constante nos seus poemas. Dois anos depois. em poços de água. de areia múmia” (“Na Morte dos Rios”) Em “Rios sem Discurso”. Quando João Cabral trata do sertão é um cenário sem água. nesse aspecto. Em situação de poço. estancada. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada. o rio Capibaribe contém todos os elementos. e quando o mestiço inspirado pelo santo ia fazer o milagre da multiplicação e salvar o Nordeste e remir o sertão. Faz alto à agressão nata: jamais ocupa o rio de ossos areia.dumping na disputa do mercado nacional. o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. em parte. já no governo de Washington Luís. taxou o produto importado. muda. e muda porque com nenhuma comunica. do agreste e do litoral de Pernambuco. iluminaram os capões. João Cabral e o Sertão sem o Rio João Cabral de Melo Neto tem uma produção poética que tem como uma das marcas o cenário sertanejo. faz alto à beira daquele leito tumba. é porque assim estanque. intratável e agressiva. é o rio Capibaribe o seu rio preferido na poesia. por pressão de banqueiros ingleses a lei foi revogada. a água se quebra em pedaços. estanque no poço dela mesma. embora de unhas. o presidente Artur Bernardes para proibir a prática desleal de concorrência inglesa no mercado de linhas. Em 1926. cortado.

que esperar que a poesia do rio São Francisco continue 51 . para o cerceamento da liberdade. sob a divisa do progresso (construção da usina de Paulo Afonso. pondo como ponto alto de dramaticidade a cachoeira de Paulo Afonso. pois prevendo cedo Que lhe imobilizarão a técnica e o tacto. Se o projeto der certo. quase como um deserto. mas ainda com zelos de novato: Aviando com eutanásia o morto incerto. Veterano. E vai acolitar os empreiteiros da seca. afluentes temporãos do São Francisco. mas uma transformação também cultural. para a opressão do estado sobre o indivíduo. ao tratarem do grande rio do Nordeste. de urubu livre. rústica é também o local de uma população sofrida. por outro lado. João Cabral retorna à imagem dos rios intermitentes. porém. Castro Alves e Ascenso Ferreira. João Cabral ao tratar dos rios intermitentes.. quando presentemente se justifica e se apronta o início das obras de transposição do rio São Francisco em dois canais que cortarão o sertão de Pernambuco – um para atingir o Ceará e ligando-se à bacia hidrográfica daquele estado. A poesia de João Cabral quando trata do sertão pernambucano faz destacar a questão da seca. passa a funcionário. a dureza da própria sociedade e do estado: “Durante as secas do Sertão. Em “Os Rios de Um Dia”. fio de água por que ele discorria”. que no civil quer o morto claro. por certo. não supera.ex.porque cortou-se a sintaxe desse rio. imite o percurso do rio. muitos deles. se os receios de grupos mobilizados da sociedade contra a obra se justificarem. p. teremos. Que o enquadrariam num melhor salário. podemos supor que poetas cantarão a grandiosidade e a beleza da obra como desde tempos imemoriais temos narrativas sobre o modo como os egípcios e babilônicos enfrentaram o deserto. Se em Dantas Mota. esfacelado: “esses rios do Sertão falam tão claro / que induz ao suicídio a pressa deles: / para fugir na morte da vida em poças / que pega quem devagar por tanta sede”. Nesse âmbito. o urubu. marcando bem as injustiças sociais ali cometidas (escravidão em Castro Alves). e outro para seguir pela Paraíba – devemos supor que um novo cenário não apenas hidrográfico e econômico se propõe. trata metaforicamente duma quebra de narratividade. fazem com que a forma do poema. não raras vezes. na sua sucessão de versos. Cala os serviços prestados e diplomas. mostrando como.” (“O Urubu Imobilizado”) Podemos colocar a poesia dos poetas que tratarão do rio São Francisco e que foram aqui comentados como autores de textos que destacaram a grandiosidade natural do grande rio do Nordeste e que mostraram em diferentes aspectos o modo como a povoação da região se deu. da quebra de discurso que o conjunto de poços e cacimbas representa. Ele. O urubu não retira. em Dantas Mota e em Jorge de Lima) se encontra espaço para a usurpação de direitos. cuja natureza que lhe é agressiva. da nascente à foz. Jorge de Lima. de modo que a natureza dura. justificando que o rio busca correr toda sua vazão num só dia como se tivesse medo de morrer em poços.

São Paulo. do sofrimento enfim. MELO NETO. MOTA. Rio de Janeiro. Algumas carrancas. 1980.sendo a poesia do drama. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro / Brasília. tanto quanto o suicídio de Lucas e Maria em Castro Alves. Xenhenhém. sem rio São Francisco. Nova Aguilar. estudo e notas de Marisa Lajolo e Samira Campedelli. Castro. dos erros. 1981. Nordestal. vol. Seleção. Literatura Comentada. Obra Completa. Elegias do País das Gerais – Poesia Completa. 1997. Castro. Nova Fronteira. 1980. João Cabral. alcançam no 52 . 1988. quando apresentadas pelo marchand. Dantas. Cana Caiana. FERREIRA. Poemas de Ascenso Ferreira: Catimbó. LIMA. José Olympio / INL. da tensão. como de autoria deste ou daquele mestre artesão mais reconhecido. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. Ática. João Cabral. Antologia Poética. José Olympio. José Olympio. Poesia Completa. 1979. BIBLIOGRAFIA ALVES. ALVES. Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco As carrancas dos barcos do Vale do São Francisco hoje perderam sua função inicial de proteção das embarcações contra perigos concretos e imaginados do percurso do rio por uma função de peça de comércio artesanal. Rio de Janeiro. 1980. do passageiro de Ascenso Ferreira. Rio de Janeiro. Ascenso. do cativeiro na Babilônia e a conseqüente travessia do deserto e. MELO NETO. como disse Jorge de Lima “o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. 1. Recife. para ficarmos efetivamente com o sertão de João Cabral. Jorge de. ainda.

Pernambuco. De qualquer forma é inegável a possibilidade de comparações entre aspectos funcionais. Assim. ou simplesmente “Guarany”. Mestre Davi tornou-se internacionalmente conhecido quando Jacques Cousteau levou uma carranca a todos os cantos do mundo pelo barco "Calypso". que no livro Os Vikings no Brasil argumenta que existem vários indícios dessa passagem. as carrancas. figura de proa e leão de barca são os termos ou expressões que os remeiros e outros ribeirinhos utilizavam para se referirem às carrancas. Tese ousada. quanto à origem das carrancas. Ana das Carrancas é Ana Leopoldina Santos. 2006) Alguns estudiosos mais ligados ao âmbito das teorias menos comprováveis cientificamente e de caráter mais polêmico. nasceu em 1923. próximo a cidade de Juazeiro. que começou sua produção em 1972 é outro importante artesão de carrancas. que avisariam com três gemidos a proximidade destes. jesuíta espanhol. Alguns artesãos se destacaram na produção de carrancas. em Santa Filomena. p. mais comumente têm sido utilizadas como peças decorativas de cantos de salas e escritórios. filho de Guarany. Guarany é bisneto de José Dy Lafuente. Figura. hoje. de modelos sem dúvida transmitidos pelos exploradores dos tempos coloniais'' (1979. Mestre Davi (Davi José Miranda Filho). onde passou a trabalhar como professor e constituiu sua família. Um dos primeiros cronistas a mencioná-la foi Durval Vieira de Aguiar em 1882: ''Na proa vê-se uma carranca ou grifo de gigantescas formas. segundo Zanoni Neves: “Na segunda metade do século XIX. na Pedra da Gávea (RJ) e as carrancas que seria um costume transmitido pelos Vikings.comércio de peças de artesanato internacional valores consideráveis. refugiado do Convento da Bahia que amasiou-se com uma negra africana de Moçambique. bem como com suas feições agressivas afugentariam outros espíritos. às margens do São Francisco. bem como a adaptabilidade da carranca ao barco tornou-se um aspecto mais secundário. filha de artesã e agricultor. no lugar de servirem como elemento protetor contra maus espíritos e perigos do rio. os barqueiros adotaram a figura. sustentam que esse seria um indício da passagem dos Vikings pelo Brasil em época muito anterior ao descobrimento. mas que peca pela ausência de dados comprováveis de qualquer uso de carrancas anterior ao período de colonização do Vale do São Francisco. distrito de Ouricuri. Um dos defensores dessa tese é Jacques Mahieu. seu aparecimento perde-se um pouco no tempo. a utilização das carrancas ganhou uma função de artefato artístico artesanal. através da arte de talhar a madeira.”(Zanoni. De fato. destacou-se como o maior artista de carrancas. Ana das Carrancas é um dos nomes mais conhecidos quando se fala em carrancas do rio São Francisco Ubaldino. hoje conhecida como carranca. de modo que a flutuabilidade. 33). estéticos e culturais das carrancas do São Francisco e as carrancas das galeras vikings. com o decréscimo e quase desaparecimento da navegação ribeirinha assim como o fim dos gaiolas. a história e a cultura dos povos ribeirinhos. os primeiros registros de existência das carrancas aparecem na segunda metade do século XIX. Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987). 53 . um famoso carranqueiro de Pirapora perpetua. indo morar na cidade de Curacá. como inscrições na Amazônia.

que ao cabo. Expedito ficou conhecido quando confeccionou a majestosa estátua de São Francisco de Assis. são apresentadas como figuras com bocas enormes abertas mostrando. Tal boca e dentes têm a intenção de conotar a agressividade da figura. pois. brinquedos. machado e formão) o artesão vai moldando a peça de maneira intuitiva. Ana compunha antes panelas. Sendo originalmente artesã ceramista. carranqueira também de Pirapora. Simbolicamente o material usado. tementes a Deus. Ao se fazer a carranca de barro.5 metros de altura. boi-zebus. dá a dimensão da própria modificação da função de uso da carranca. feroz na ação de proteção da embarcação. notadamente as de Ana das Carrancas têm uma função mais de peça decorativa artística de colecionadores e admiradores da arte popular do que propriamente a função de carrancas de embarcações. uma vez que as ferramentas para composição já não serão as mesmas. bem como o forno para cozimento. Com a utilização de instrumentos para o corte e o talhe da peça de madeira (facão. cuja cabeça é a carranca e o corpo o próprio barco. agora quando ela passa a produzir carrancas também de barro o que ocorre é a transposição de uma técnica para outra. como no outro extremo. é uma artista que demonstra habilidade no manuseio de instrumentos como facão. porém. Assim. que a produção de carrancas de barro. uma vez que o barro vindo do leito do próprio rio agora mantém não com o barco. por vezes. representa o próprio corpo do animal formado pelo conjunto barco-carranca. de cabeça do barco personificado ou metamorfoseado num vivente. em geral. Essa identificação. As carrancas. A de madeira tem com o barco. havendo. nem tampouco a busca da explicação da origem das carrancas. assim como os barcos a que se destinavam. a carranca de barro como que se distancia da função de protetora do barco para ser a representação do espírito do rio que pode proteger ou não a embarcação em função da intenção do navegador ser aceita pelo rio ou não. quebra-se essa harmonia de material. contendo algumas não só a cabeça de carranca (em geral a cabeça de um dragão). uma identificação harmoniosa do material. astutos pela descoberta de riquezas teriam contra si o espírito do rio. são feitas de madeira. de Ouricuri. em geral. Nosso intento maior é uma observação acerca do modo de produção das carrancas e um comentário acerca da natureza estética dessas figuras. na Praça do Posto Três Palmeiras. sua boa e seus dentes 54 . potes. como que garante à cabeça de carranca. é fato. Nas galeras vikings era essa a conotação que a estrutura do barco buscava. dentes caninos proeminentes. com 3. de outra forma. usa o barro extraído do próprio rio São Francisco para composição de suas figuras de carranca. cavalinhos e santos de barro.Dona Lurdes Barroso. Expedito Viana. navegadores virtuosos. machado e formão. metamorfoseado em animal aquático que desliza pelas águas do rio. se colocava uma estrutura semelhante à calda do animal. madeira ou barro. mas diretamente na madeira o artista vai compondo a cabeça da figura. navegantes gananciosos. As carrancas. O que buscamos destacar nesse nosso breve texto. que se encontra na Avenida Salmeron. destaque nesse caso para as próprias mãos no ato de moldar o barro e o torno de oleiro. a popa. por sua parte. também de madeira. Nesse sentido. Assim. Ana das Carrancas. a condição de vigia. não é um painel dos artistas. Não se tem o hábito de se fazer um esboço ou desenho. ainda de Pirapora (MG) é outro importante artesão carranqueiro que preserva a arte de entalhar a madeira. Porém. Listamos aqui apenas alguns dos nomes mais conhecidos no universo do artesanato de carrancas. mas com o próprio rio sua identificação. colocada na ponta da proa. que navegam atendendo as necessidades das populações ribeirinhas seriam protegidos.

estas mantêm por mais tempo o vigor de suas cores. pouco resistente às intempéries. de aspecto protetor. de uma associação entre a simbologia imagética característica de mitologia africana ou mesmo ameríndia com a religiosidade cristã. Abrindo a boca. XIX). agressivas. quando são de aspecto humanóide. A cabeleira da carranca. abrigadas que estão dos efeitos nocivos do sol e da água do rio. a imagem de algum santo ou santa (Nossa Senhora dos Navegantes. no mais das vezes. talvez. a carranca típica do São Francisco interpõe-se como o artefato que usa da força diabólica para uma missão de proteção ao navegante cristão. um canto de aviso aos espíritos malignos da chegada da embarcação. não apenas o mundo concreto. ou descascada. No caso específico de Ana das Carrancas. cabelos. ser cego. são de leão ou cachorro. assim como o negro e o branco reforçam as idéias expostas pelos olhos. Já as carrancas que são adquiridas por colecionadores. bem como da força que a protege. por sua vez. os olhos e os dentes. são destacadas em tamanho assim como a boca. se caracterizam por uma imagem amistosa ou de bem-aventurança. sendo até o período anterior à abolição da escravidão. entre outros. O vermelho usado em muitas figuras. ao sol forte da região. Sabemos que as primeiras populações ribeirinhas do Rio São Francisco a partir do período da colonização eram de característica negra ou índia. A cruz. boca e dentes. José Vicente. entre outras). fruto da característica do pigmento. quando é colocada na figura. a proteção declarada que a carranca oferece também apresenta um sentido invertido das figuras de proteção religiosa usadas na náutica. Santo Olavo. As cores formam outro aspecto importante da carranca. admiradores e turistas e que as colocam nas salas. grandes também. também têm o mesmo padrão de desproporcionalidade. Os olhos da carranca. O mal a serviço do bem. escravos que 55 . descolorindo depois de algumas estações. marcante no caso das de Guarany. o espiritual e mágico. A língua. por vezes. Segue-se assim também as sobrancelhas. as cabeças das carrancas têm aspectos antropomórficos híbridos. como se fosse uma juba caindo pelos lados do pescoço da figura. devido ao fato de seu marido. como atestam relatos do Padre Martinho Nantes (séc. De forma geral. XVII). o conjunto da figura impressiona pela aglutinação de elementos desproporcionais que disputam o espaço da cabeça. iourubá e/ou de nação de angola. numa espécie de homenagem incorporada ao seu imaginário. Signo. ou ainda. do viajante Sir Richard Burton (1867). mas principalmente o invisível. Bom Jesus Protetor dos Navegantes. supõe-se um rugido.formam o primeiro aspecto dessa força animal e vital. ao passo que a carranca se contrapõe pela agressividade nas suas formas monstruosas. formando um conjunto de aspecto monstruoso. As orelhas. Outras têm a coloração dourada também. nos escritórios. Santa Bárbara. demonstra a força vital e guerreira da carranca. tal característica dos olhos das carrancas de Ana mostra ainda mais esse aspecto de visão de um mundo invisível. ou em alguns casos. o nariz e o queixo. conotam a noção de que tudo a carranca vê. Nesse sentido. o mundo dos espíritos. de Saint-Hilaire (séc. físico. algumas carrancas mais antigas têm a coloração desbotada. Desse modo. não acessível aos olhos do mundo físico. que costumeiramente vazava os olhos de suas carrancas de barro. Numa espécie de simbiose ou sincretismo. Os aspectos africanos da carranca aparecem mais ainda quando observamos as que têm cores fortes (como o vermelho e o tom negro) com o fato das formas desproporcionais ou bem proeminentes como é característico das peças em madeira do artesanato antropomórfico africano banto. algo diabólico. São as cores mais usadas. Os remeiros ou barqueiros eram predominantemente de característica negra.

Rio de Janeiro. São Paulo. 1979 Relação de uma missão no rio São Francisco. São Paulo. os elementos afro e ameríndio os aspectos estéticos e formais da carranca. Jacques.br/scielo. n.1. “Os Remeiros do São Francisco na Literatura” em: Revista de Antropologia. Os Vikings no Brasil. a nosso ver. fonte:Fonte:http://www. 2006. 2003. como concretizações de figuras de espíritos malignos dominados pelo sentido cristão e postos a serviço da exploração das águas do rio. Não se deve esquecer. SAINT-HILAIRE. 2002 O rio São Francisco e a Chapada Diamantina. PARDAL. O cristianismo deu o sentido de proteção. mas também com predominância da cor negra e lisos ajustam-se mais ao tipo étnico indígena sulamericano do que africano. Teodoro Sampaio traz informações mais detalhadas acerca da natureza étnica dos remeiros. Francisco Alves. São Paulo/Brasília. que a cultura cabocla também incorporou elementos da cultura indígena. NEVES. São Paulo. 1976. SAMPAIO. Trad. notadamente do âmbito dos navegadores e exploradores transposto para o cenário da colonização do sertão.php?script=sci_arttext&pid=S003477012003000100004. misturados sobremaneira com fortes doses do imaginário africano e ameríndio. vol 46. NANTES. coleção Raízes. Zanoni. Itatiaia/Edusp. Os cabelos das carrancas. grandes. Cia. de modo que a idéia de espíritos do rio e espíritos da mata possam ajudar ou prejudicar uma travessia é também natural do imaginário ameríndio. Companhia das Letras.scielo. Carrancas do São Francisco. Prancha de Figuras – As Carrancas 56 . As carrancas são o resultado. Belo Horizonte/São Paulo. de um cruzamento de influências do imaginário cristão português. Paulo. Editora Nacional/MEC/INL.faziam o serviço de travessia e ligação entre as diferentes cidades. Vivaldi Moreira. 1975a Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A. porém. T. Martins Fontes. Referências Bibliográficas: MAHIEU. em geral. Padre M.

As ninfas do Tibre. Uma das lendas mais curiosas do folclore do rio São Francisco é a “A Lenda do Nego D’Água”. o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores.Carrancas típicas em escala industrial. Ana das Carrancas e algumas de suas carrancas de barro Três carrancas de madeira do mestre Guarany A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco Os rios. espíritos maus. se eles recusarem dar-lhe um peixe. Lembro do poema de Cláudio Manoel da Costa. envolvendo carrancas. preto. Mãe d’água. Personagem de destaque no Macunaíma de Mário de Andrade. careca e mãos e pés de pato. muitas vezes. além do imaginário palaciano e de cavalaria. Esta lenda também é encontrada com referência ao rio Tocantins. 57 . O rio São Francisco também tem suas lendas. se analisamos o processo de povoação dessas regiões. vapores assombrados. Pareceme que aqui é o caso de uma migração da lenda do São Francisco para o Tocantins. Polifemo e Galatéia. recriando a lenda em águas do ribeirão do Carmo. Com origem na mitologia indígena temos a Iara. do Tejo são cantadas desde a poesia barroca. este modelo é reproduzido aos milhares. são repositórios de lendas. Minas Gerais. Aparecendo dás águas com suas gargalhadas.

Alguns dizem que existe apenas um nego d'água em todo o rio. Apesar de viver também fora da água. povoa a imaginação de todo menino beiradeiro. Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas. como também escava suas covas na base do barranco da beira do rio. que habita nos locais dos rochedos do meio do rio. agradando assim o Negro D’Água. Suas características são muito peculiares.com. outros dizem que são muitos. ele nunca se afasta muito da beira do rio. costuma aparecer nas casas de farinha das ilhas ou dos barrancos e noite de farinhada.valedoriosaofrancisco. (Fonte: www. espécie de versão afro-masculina da sereia.br) Outro fato narrado no São Francisco e que envolve a figura do Negro D’Água é a seguinte: “Há quem afirme de viva voz que já viu aquela figurinha atarracada de cabeça grande e olho no meio da testa. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio. corpo coberto de escamas mistas com pele. adora fumo. costume que faz com que os pescadores atirem fumo a água para cair nas graças do negrinho que gosta desse agrado. o ‘nego d’água’. para roubar-lhes fumo ou beiju”. com um anfíbio. O fato é que o nego d'água. afugenta os peixes. o que sossega os corações das mães. Quando não gosta de um pescador. o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele. os beiradeiros jogam nesse ponto cacos de vidro. principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil e no Rio São Francisco.com. que amedrontam o caboclo d’água. partindo anzóis de pesca. Não há evidências de como surgiu a Lenda. Segundo a Lenda do Negro D'Água. Como a caipora. o que provoca tombamento do mesmo. para que não tenham sua embarcação virada. Remou apressadamente em direção ao animal. percebendo o pescador que um nego d’água agarrado à borda da embarcação tentava virá-la. ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio. (Fonte: www. percebendo ao se aproximar que se tratava de um cavalo. ao sair para pescar. pois a noite os pequenos só se aproximavam da água acompanhados por adultos”. tange-os para longe da rede de pesca.etc. muito difundida entre os pescadores. passeando entre os que estão adormecidos. que imediatamente atirou para o neguinho que dando cambalhotas. furando redes e dando sustos em pessoas a barco. comumente depois que os trabalhadores se acomodam para dormir. e aí tentou encostar a canoa para verificar a marca ou ferro.valedoriosaofrancisco. Nesse instante lembrou-se o pescador que trazia um pequeno pedaço de fumo. para avisar ao dono. Conta-se o caso de que certa feita no Rio São Francisco deu-se o seguinte acontecimento: “Um pescador contou que pescava a noite quando percebeu um vulto de um animal morto boiando na correnteza.br) 58 . a canoa foi sacudida. dos quais muitos dizem já ter o visto. sua função seria a de amedrontar as pessoas que por ali passam. levar uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio.Alguns pescadores guardam o hábito supersticioso de. quando o animal afundou e logo em seguida. desapareceu no fundo das águas. ele seria a fusão de homem negro alto e forte. Para afugentá-lo desses locais que terminava alargando o rio.

com doze metros de altura. nas águas do São Francisco. segundo ribeirinhos. E nós viu. oferecendo-lhe fumo. ele leva-os para o seu reino como escravos. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos. se diz a respeito da lenda que: “O Nego D’ Água vive no fundo do rio São Francisco. colocada sobre uma pedra. A estátua do Negro D’Água. causa uma surpresa na paisagem das águas ao olhar do observador. donde nós tava. Eu e meus dois menino. acerca de um ataque do Negro D’Água. A.” (J. embaraiando o sem-vergonha. aqui chamado de Caboclo D’Água: “O senhô pode me creiá. o artista plástico Ledo-ivo Gomes de Oliveira criou uma de suas principais obras plásticas. nós escutou os menino gritando demais. noutra. maretando o rio. algumas vezes subindo pelas suas costas até seus ombros. recriando a linguagem do caboclo. Macedo. numa pescaria. ele arrasta as mulheres bonitas que encontra nas margens do rio e leva para o seu reino. apresenta-se como materialização do imaginário das lendas. 59 . Eles três tavam numa canoa e. Os homens que não ouvem seus apelos. adaptado às condições mesológicas do São Francisco. O Nego D’Água gosta de batuque nas proas das embarcações e tem o poder de naufragá-las”. turistas ou crianças descem à pedra e rodeiam à estátua. o bicho rolar pra dentro d'água. Macedo. pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar. Nisso. Muitos desconhecendo a lenda ou o motivo da obra se perguntam como ela foi parar lá no meio do rio? Ao aproximar de barco ou de canoa da estátua ela começa a impressionar pelo tamanho. num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. sentada sobre uma pedra. Nós remou depressa pra lá. eu mais o fio mais novo. Conhecido também como compadre das águas. A estátua que se vê como que emergindo das águas.” (TRIGUEIROS. de uns dezoito janeiros de idade. mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: "Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai". Eventualmente.124) Na cidade de Juazeiro.A. 1956) Edilberto Trigueiros no livro A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco esclarece a respeito da lenda do Negro D’Água a sua origem: “Também chamado moleque d’água. Existe uma versão narrada por J.Segundo o site da prefeitura de Juazeiro. tudo leva a crer tratar-se de um símbolo transplantado do mito hidrolático da Mãe D’Água (a Iemanjá dos negros iorubas do litoral). Encantado como eles ficou. no escuro que fazia. 1977. p. nas informações turísticas da cidade. até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede. Dizem que ele é meio homem e meio lontra. A referida obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira é de grande beleza plástica. o caçula.

existem relatos de ribeirinhos que alegam ter visto o Negro D’Água como sendo de baixa estatura e atarracado. o que se poderia classificar como uma obra plástica moderna. Segundo o próprio artista sua arte tem a característica de buscar a: “ . funcionando a sua Obra como uma espécie de Marco-humanizador. numa posição de observador tranqüilo mas atento. Filosofia e Comunicação. Sociologia. com que. como quem quer ver ao longe completa os tênues traços anfíbios. de tal forma que não nos causa medo. mais agradável. nas bibliotecas e ateliês da vida . denotando assim.. Historia da Arte (Antiga e Contemporânea). continuou seus estudos de Historia. repugnação ou receio a figura da estátua. esticado. quanto de sua pose. A pedra utilizada. embora os traços pouco lembrem a aparência dos afro-descendentes. a sua Origem Espiritual. Na página da Internet que apresenta dados do artista. de cabeça achatada. do disforme. Semiologia. Aliás. As orelhas são pontudas que lembram as do personagem de Jornada nas Estrelas. A figura tem pés e pernas humanas. Substitui-se desse modo na lenda. em meio a Brutal interferência do Homem com o Meio-ambiente.. como a utilização do grotesco. quando se faz necessário. Spock. o artista plástico se preocupou em apresentar uma versão do Negro D’Água de belas feições e com harmonia das partes. essencialmente. seguindo o preceito clássico horaciano e aristotélico. descritas no renascimento pelo homem vitruviano. cuja relação primordial é com a própria Arquitetura e. ele.A estátua tem uma aparência bela. no sentido das características típicas do moderno. Essa versão apresentada por Ledo-ivo tem de certo implicações com uma tentativa – consciente ou inconsciente – de harmonização com preceitos clássicos de estrutura das partes da obra e de aparência segundo dados de uma anatomia fundamentadas no número de ouro e na divina proporção. tanto de sua aparência. O rosto delgado tem sobrancelhas bem definidas e salientes e o pescoço longo.” No caso da estátua do Negro D’Água encontramos na versão classicizante do personagem folclórico a intenção de buscar esse “significado existencial”. pois. 60 . a certa altura lemos: “Estudante Autodidata. Dr. apoiando a perna direita dobrada com o auxílio da mão direita. modificando assim a descrição geral do Negro D’Água que costuma referir as suas partes baixas como as de um anfíbio. mas é clássica no sentido de buscar a harmonia da figura com a anatomia e as proporções da figura humana.à Verdadeira Expressão desta Arte. entalha e esculpi. liturgicamente. Geopolítica. de cor escura é que dá o sentido de se tratar da imagem de um caboclo negro. Não é. O personagem é assim redimensionado a um sentido mais humano. como um Michelangelo à Davi: ‘ Parla !!!’ ” Está claro aí a presença de influências clássicas e renascentistas na obra do artista. De anfíbio o que temos na estátua é uma espinha dorsal externa escamada que parte do alto da cabeça até o cócix. a reportar a esse mesmo Homem o seu próprio Significado Existencial e às suas Origens. mas de imediato nos impressiona a sua beleza harmoniosa. sentado sobre a pedra. com o Urbanismo. o medo pela agradabilidade. A figura se posiciona como quem observa ao longe. lapidando assim seu “ Formão da Vida ”.

Referências: MACEDO.asp 61 . J. A. Internet: JANGADA BRASIL. FUNARTE. obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira. 1977.com. A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco. http://www. Folha de Minas. Edilberto. 2 de dezembro de 1956 TRIGUEIROS. "O caboclo-d'água". Rio de Janeiro.br/revista/galeria/ca84011f.Três fotografias do Negro D’Água.jangadabrasil. Belo Horizonte.

antes o que pudemos fazer é tratar das telas as quais tivemos acesso mais imediato. poder contribuir para o entendimento do processo do imaginário que formou na consciência nacional uma representação do rio. Pinturas Holandesas 62 . telas com temas ao rio São Francisco ligado. das carrancas. Sabemos que não são poucas as telas que foram pintadas com o tema do rio São Francisco. Com essas considerações. das festas populares das populações ribeirinhas ao Velho Chico. Não poderíamos aqui fazer um verdadeiro livro de arte panorâmico. 1. ou ainda.Algumas Considerações Acerca de Algumas Representações Pictóricas do São Francisco Neste capítulo pretendemos comentar acerca de algumas telas de pintura cujo tema é o Rio São Francisco. histórico-pictórico a levantar todas ou as principais telas. acreditamos. como acerca das lendas.

formado por gomos. podemos observar com destaque às margens. mesmo na distante outra margem que aparece ao fundo. sobre umas pedras. vemos uma paca de pelo marrom escuro. mas em floração. de modo que nela vemos informações sobre a vegetação e a fauna da região. Pouco à frente do xique-xique. é plausível encontrá-la com freqüência próximo ao rio.Começamos por falar das pinturas holandesas do século XVII. principalmente em Pernambuco. um xique-xique. A ocupação holandesa. Ligeiramente retorcido. Franz Post. percebe-se o forte holandês. o fato de que em toda tela não se destaca nenhuma árvore. Natural de vegetação do semi-árido. de avaliar a 63 . Acresce a isso. Franz Post que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644. Pelo tamanho da paca e do xique-xique e o tamanho com que aparece o barco e o forte ao fundo. ao que me parece. bem como da passividade com que as pacas se portavam diante da presença humana na terra ainda pouco desbravada. Ao fundo na outra margem. com isso Post informa sobre a natureza climática da região. trouxe algumas contribuições para a formação cultural da região. Se pensamos no tempo real que o pintor levaria para a pintura. pinta o rio São Francisco. Os artistas holandeses a serviço de Maurício de Nassau puderam pintar vários aspectos da vida e da paisagem colonial daquela parte do Brasil. o preceito de que o pintor deve escolher o cenário ou o momento mais significativo de um propósito geral para que possa ter nesse momento os elementos que realmente possam expressar o que se deseja ou se busca. Rio São Francisco Primeiro. é pouco provável que a paca se dispusesse a servir de modelo. esta parece dominada por vegetação rasteira ou arbustiva. A paca ali pintada é com o objetivo de fornecer dados sobre a fauna local. Post pinta uma paisagem das margens do São Francisco. uma estrada de terra que leva até o forte. Seguindo. como que querendo beber água. tais estranhezas não alteram o significado geral da planta cactácea ali pintada. e com o tronco acinzentado. tranqüilamente ali. Um de seus quadros. calmamente. bem como sobre as condições de povoamento. 10 das quais ainda desaparecidas. Demonstrando a firmeza da ocupação holandesa na região. temos na possibilidade da perspectiva aplicada pelo pintor. um barco atracado à margem. acredita-se que tenha pintado pelo menos 18 telas.

porém. suíço ou alemão.distância duma margem à outra. a beleza da pintura paisagística de Post esta lá ainda presente. chamada antes pelos portugueses de “Sumidouro” ou “Forquilha”. Ainda as águas calmas. inclusive existem dúvidas sobre sua nacionalidade. já após a queda ela se reconforma para seguir seu caminho e no modo como os rochedos parecem resistir à força brutal da cachoeira. Franz Post pinta a cachoeira de Paulo Afonso. se austríaco. praticamente sem ondas. vegetação) nada que sirva de parâmetro para uma aproximada medida da cachoeira. 64 . Todavia. mostrando aos olhos de que observa o quadro quão largo é naquele trecho o rio. Franz Post.Schute – pouco se sabe acerca desse pintor. Noutra tela. no modo como dá o efeito de queda d’água. Cachoeira de Paulo Afonso A pintura de Post. Podemos comparar esse quadro de Post com um pintado posteriormente por E. não dá ao observador a dimensão do tamanho da queda d’água. Não nos dão os elementos da tela (pedras. agora. Post fez por pintar a cachoeira de tal maneira que parecesse pouco mais do que as que são comuns há muitos outros rios de vazão menor que o São Francisco. Colocando-se o pintor num ângulo de relativa distância para que pudesse pintar um plano geral de frente da queda d’água. de como depois. dá dados da facilidade de navegação. Á época em que pintou ela ainda não tinha esse nome.F.

Schute se coloca no alto dos rochedos. mas também percebendo qual dura será a travessia. Reforçando essa impressão da hora. Cachoeira de Paulo Afonso.Schute. em que algumas árvores pairam à beirada. numa posição que permita ver o alto da queda. vai baixando para um tom próximo do rosicler ao fundo.E. Vingboons. O quadro do rio São Francisco de Post pode ser comparado com a ilustração de um compatriota seu. para alcançar o outro lado dos rochedos. que pintou a região de Penedo.F. Aqui em Schute a pintura paisagística é nitidamente romântica. Penedo 65 . como que anunciando um final de tarde. como se estivessem convidando o observador do quadro a olhar o cenário e admirá-lo também. Escolhendo um ângulo diferente de Post. deixando-nos a impressão de que as figuras humanas ali paradas estão não só admirando a paisagem. no primeiro plano temos o domínio dos tons escuros. Em primeiro plano vemos uma palmeira pendendo em direção à queda d’água. Jan Vingboons. O céu de várias tonalidades de azul no alto. 1850 possivelmente. caso se dispusessem a fazer. A névoa que se levanta da cachoeira também tem um efeito plástico belo. mais ao fundo duas figuras humanas servem de parâmetro para que se possa ter noção do volume e da extensão de águas ali. e as água vem de pelo menos três direções diferentes. como se buscassem demonstrar a altura da queda. O quadro é de metade do século XIX. As figuras estão de costas para o observador.

assim as duas caravelas portuguesas que ali aparecem passam a idéia de que seja a ação de um agressor que vem quebrar a ordem e o progresso do lugar. Artista de caráter primitivista. 66 . Vemos muitos barcos menores. natural do Recife. Adotando as idéias de composição e cores apreendidas com Rubens Fortes Bustamante. 2. Uma de suas telas intitula-se “Rio São Francisco”.Na pintura de Vingboons vemos uma frota de barcos. os agrupamentos de pessoas. Um exemplo é o pintor Militão dos Santos. um deles inclusive atirando de seus canhões. Vingboons coloca-se num ângulo muito parecido ao de Post. porém seu plano é mais próximo. outro vem à direita. Os vários barcos pequenos colocados próximos às vilas dão a idéia de um lugar de muita movimentação. um barco vai à esquerda. focalizando mais nitidamente as casas e construções da outra margem. as casas. as plantações de hortaliças bem verdes. surdo. A vegetação presente na margem de primeiro plano é diferente da que se apresenta em Post. sugerindo a descrição do ataque das forças baianas na reconquista de Penedo. Não se vê figura humana. o verde e o vermelho dos barcos. o rio São Francisco tem sido tema recorrente de vários pintores. nas margens ou na vila. assim como o vôo dos pássaros. e a vila aparenta calma. O movimento também é sincrônico e complementar. casas e estradas é que sugerem que em cena existam muitas pessoas em ação. as cores das roupas e as cores das casas. Os barcos. em proposição de complementaridade. seja nos barcos. A bandeira das caravelas parece ser de tropas coloniais portuguesas. principalmente os oriundos da região do vale e do Nordeste em geral. o azul vivo das águas. alguns com aspectos de barcos de pesca. Pinturas Contemporâneas No âmbito das pinturas contemporâneas e modernas. o que vemos é uma riqueza de cores contrastantes. uma vez que não temos sinal do xique-xique. mas de uma vegetação verde rasteira. o marrom avermelhado e o negro da terra.

mas as cores vivas. tudo delimitado quase que geometricamente. Essa característica primitivista de utilizar cores vivas. Seus quadros são repletos de figuras humanas. que se confunde com o horizonte. branca. sugerindo a idéia duma terra adubada. não está pintado no cenário do quadro. num amarelo ocre. bandeiras. tem 67 . O Sol. lembrando um bocado das pinturas modernistas da década de 20. Parte da terra da plantação é pintada em cor negra. Mais ao fundo a campina verde se faz presente em duas tonalidades de verde. de pintar movimento e variedade de personagens encontramos também em outro pintor da região. e outra superior. por vezes numa riqueza de contrastes. Por outro lado. casas. fortes. por sua vez. fortes. na sua disposição radial de folhas. e a riqueza de movimentos e personagens passam essa idéia de dia cheio de luz.João Militão. árvores. Josinaldo Ferreira . a compor o espaço das nuvens. Rio São Francisco A copa das árvores de João Militão. rica em húmus. O céu dividido em três faixas. para sugerir o espaço ocupado por duas colinas. Sua pintura de caráter primitivista é bem colorida e com bastante movimento. a sugerir o domínio do Sol. Josinaldo Ferreira nasceu em Remanso (BA) em 1951. uma azul. pintadas como se lembrassem fogos de artifício explodindo ou enormes lírios dos campos coloridos. uma intermediária.

no que concerne à forma e ao uso da perspectiva. todas com listras horizontais. nessa tela. Sua técnica. uma vela dum pequeno barco. como se essa paisagem se mantive repetitivamente sendo reencenada. A terra vermelha e a cor bronzeada da pele das pessoas dão outra similaridade ao quadro. também se notabiliza por uma pintura com temas locais – do rio São Francisco e do sertão – mas sua técnica é diferente do primitivismo de Josinaldo Ferreira. como se as águas do rio dirigem-se nosso olhar para o infinito. No quadro “O Velho Chico”. para o longínquo. tudo numa configuração de movimento mais calma. lembra a dos românticos paisagistas como Benedito Calixto. Porém. quanto à Lua aparecendo e recebendo ainda os raios do Sol que se encontra ao poente. mais paisagística. O céu azul e branco pintado como parte de uma abóbada. Josinaldo Ferreira. passa a impressão da circularidade. mais lenta como o fluir das águas serenas do rio São Francisco. o rio é colocado em perspectiva. Augusto Muller ou Fachinetti. criando uma relação de similaridade com o rio. perpendicularmente ao olhar do observador. Assim. a perspectiva e a disposição de seus elementos criam essa sensação. Joel Dantas. pessoas lavando-se ou lavando roupas. o céu azulado e um astro avermelhado que tanto pode ser o Sol em rosicler. atualizada. Rio São Francisco No quadro que apresentamos nesse artigo. nascido em Pilão Arcado (BA) em 1950. Na margem umas canoas. o tempo é circular. 68 . Na margem do rio. reconfigurada para o momento contemporâneo. confluindo nas matas ciliares que acompanham o rio. podemos notar o barco passando pelo rio São Francisco. coqueiros. Essa forma festiva de apreensão pictórica da realidade local é uma característica advinda da simpatia e da amabilidade da população ribeirinha que apesar das dificuldades cotidianas sem mantém assim por natureza mesmo de sua gente. na outra margem. Notemos as camisetas listradas das pessoas. demonstrando assim um certo aspecto de isolamento do lugar. pessoas fazem acenos para o barco. carregado de pessoas e bandeirolas. Ao fundo. O uso das cores.também uma certa similaridade com as xilogravuras nordestinas.

promovida pela ONG Sociedade Semear. tela e moldura. “O Velho Chico. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira”. não só de conteúdos: a água do rio e a água encanada que nunca chega. exceto por conter uma maior movimentação das figuras e uma vida mais alegre. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira Aqui a contradição é absoluta. Joel Dantas. o objetivo é justificado. feita de canos de pvc. mulheres e homens ali numa conjunção prazerosa com o rio. apresentada na exposição “Águas de Março”. O Velho Chico. O cenário apresentando em pouco difere da técnica comentada do quadro anterior. entre março e maio de 2007. Crianças. Um barco com carranca aportado à margem. O título provocativo se justifica pela moldura. Se o propósito foi a crítica ao modo como as questões do rio São Francisco são tratadas. a contradição de estilos. mas apenas nesse sentido.Joel Dantas. uma vez que artisticamente talvez fosse merecedora a tela também de uma pintura 69 . se divertindo ás margens. O distanciamento do olhar do observador faz que vejamos um panorama de pessoas nadando. mas tem outra mais latente ao meu modo de ver. ao centro da parte inferior da moldura. A moldura em pvc cria um contraste de tal densidade com a tela que é difícil pensar numa unidade artística entre ambas. fechando numa torneira. também de pvc. Rio São Francisco Joel Dantas tem outra tela.

a floresta Amazônica. as praias do litoral nordestino são seus temas preferidos. choque que não foi resolvido. num predomínio dum plano mais próximo. sobre usa contemporaneidade. ouve o choque entre a linha de pintura do autor e a ousadia da mensagem provocativa. sem camisa. parece ter que fazer uso de força para empurrar com o remo o barco. O Brasil é um dos seus destinos preferidos. mas apresentado na sua crueza. desafiadora e envolventemente neobarroca. esta mesma. No quadro “Carranca do São Francisco”. São formas diferentes de apreender a realidade pictórica do vale do São Francisco. costuma pintar quadros dos locais por onde viaja. o que nos passa é a idéia do distanciamento. rica de contradições históricas. a margem virtual que aponta para o espaço real em que se encontra o observador do quadro. sugerindo quase que uma névoa. vindo de outras eras para o presente do observador. mas diferente de Josinaldo Ferreira. é rica de cores. Aqui a idéia de uma viagem de solidão se contrapõe à alegria festiva do barco de Josinaldo Ferreira. sociais. emprega uma técnica de suspensão ou indefinição do fundo e de valorização da figura de primeiro plano. atualmente vive em Portugal. culturais e por isso mesmo. assim a carranca se situa num canto superior da tela. O Rio de Janeiro. deve-se também observar esse distanciamento como significativo mesmo da 70 . é de se teorizar sobre a técnica. como que querendo assustar a quem a vê. meio místico. O barco com a carranca surge assim. penso eu. estivesse o artista olhando pela janela do avião a paisagem e se inspirou por retratá-la. Sua pintura. Salvador (BA). sinalizando que este se aproxima da margem. Desde 1971 este pintor vem construindo um conjunto de obras com mais de duas mil telas. Num certo sentido.que se ajustasse melhor ao quadro. Márcia Berenguer Cabral. meio fantasmático. Suponho. O fundo todo azulado mistura-se com as águas do rio. Um de seus quadros intitula-se “Mouth of São Francisco River” e nesse caso. pintor norte-americano. numa técnica mais abstrata ou concreta. Nesse ponto. Carranca O barqueiro. Paul Berenson. O que se vê é uma abstração pictórica da visão área que se tem da boca do rio. de caráter modernista. a perspectiva é colocada de modo que o observador como que estivesse numa posição inferior ao barco. Márcia Berenguer Cabral nasceu em 1948. mais geométrica. mas por outro lado.

o olhar de turista encantado com a Natureza local. mas pela robustez delas. enfim. O título. O fundo é todo de tons vermelhos e o Sol. São Francisco Mouth Na já cita exposição “Águas de Março”notamos o quadro de Alfredo Mallet (Rio de Janeiro. revela-nos apenas o óbvio. “O Ovo”. Paul Berenson. No quadro de Mallet vemos uma espécie de cacto que. dando a entender que caem pelo excesso de calor e aridez da paisagem. caindo pelos lados. Duas delas. o distanciamento revela-nos quase um quadro abstrativista. se mistura com o fundo. compondo uma forma indefinida que só ganha sentido concreto quando olhamos seu título. Penso eu. faltam os espinhos. modernas e artísticas acerca da pintura. Êta Transposição 71 . portanto. Uma baga superior se empina firme em direção ao Sol. Alfredo Mallet. No caso particular dessa tela. se constitui de três bagas bem rombudas. o de um pintor turista. da gente e da terra que retrata em suas telas. 1942). O verde e o azul. “Antropofagia”). A tela lembra um pouco um estilo de pintura de Tarsila do Amaral (“Abaporu”. esse é seu olhar.compreensão do lugar. Pelo contrário. também vermelho. como se fosse também pelo peso da água acumulada. Locais turísticos. que seria mais interessante se não tivesse o título e poderíamos aventar hipóteses mais estruturalistas. porém. “Êta Transposição”.

tem resultados insatisfatórios. na maioria das vezes. qual seja a questão do modo como os modernistas de São Paulo e Rio de Janeiro viam o processo de interiorização. a necessidade desse processo. A luta do homem para o domínio da Natureza de modo a torná-la sujeita as necessidades humanas. como se fossem as lágrimas num choro contínuo. porém tal luta. de cujos olhos escorrem dois filetes derretidos de aço inoxidável. Lágrimas de Opará 72 . cerca de 70 anos após o advento do Modernismo. entendemos que a transposição viria a solucionar o problema da seca. SE. representativo desse processo. Os filetes derretidos caem sobre um bloco. a aridez. nesse sentido. o processo se deu. sendo vencido aos poucos pela incongruência da paisagem. aludindo assim a provável falta de planejamento que os críticos do projeto buscam demonstrar. pois. o aspecto ecológico entra como componente crítico de avaliação do processo de interiorização. Recuperando o nome indígena do rio São Francisco. algo ambígua. e sua comparação com as citadas obras de Tarsila.A terra num tom ocre oleoso sugere a aridez do terreno. por outro lado. 1956) destaca-se como artista pelo trabalho de escultor. seja pelo modo consumista e destrutivo com que. Na exposição “Águas de Março” apresentou a obra “Lágrimas de Opará”. Antônio da Cruz apresenta uma máscara em cobre. seja pelo desequilíbrio ecológico. uma vez que apresenta o calor. Ou entendemos que a obra é contrária à transposição. nos remetem a um novo tópico. Assim. de modo que sua aparente robustez logo se desvanecerá. caem pela sua frente e continuam pelo chão. ou melhor. ou. A lembrança com o estilo de Tarsila do Amaral não é uma característica constante da obra de Alfredo Mallet. mas é de se destacar nesse quadro. Ainda se pode interpretar que o estranho cacto ali no cenário semi-árido seja simbolicamente o próprio projeto de transposição. Antônio da Cruz (Maruim. no mais das vezes. O cacto na tela de Mallet é. A interpretação do quadro é. Antônio da Cruz.

. uma vez que a mensagem artística. o político-social. O vocábulo portmanteau. Ícone do neo-regionalista. aço inoxidável e cobre dão uma concretude contemporânea. “Eu acho que o abstrato tem como pátria a humanidade e como bandeira.br/noticias/19820081283251459) Porém. a primeira palavra é que melhor se adequa à obra. ao bom estilo modernista. um desenho de uma placa vermelha com o dizer “TransImposição”. denuncia um processo apressado de engajamento. Assim. sem perspectiva e uma mandala se coloca ali como o Sol – signo artístico de Ismael Pereira. no caso. 73 . o equilíbrio em que a obra de arte continue sendo obra de arte e o engajamento sócio-político. Um fundo cinza.com. aqui é o próprio quem chora agora e suas lágrimas são de aço derretido. ressignifica o mito de Opará. o quadro “Era uma vez um Rio São Francisco”. temos a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” de Ismael Pereira. Os materiais usados. os galos de briga. Assim é como Ismael Pereira define a exposição. o antigo Farol da Atalaia e. se faz submergir diante do sentido extra-artístico.Era uma Vez um Rio São Francisco”. inclusive. A máscara se apresenta como o mito antigo diante das contradições do mundo moderno. como ele mesmo intitula uma de suas exposições. ele enveredou pelo abstracionismo porque possui qualidades para dominar. porém.” (fonte: http://www.A obra num estilo bem contemporâneo. num processo em que tal transformação resulta numa diminuição de suas qualidades estéticas. transforma o produto artístico em panfleto. Não raras vezes o desejo de engajamento numa causa política ou social. Numa notícia chamando a atenção para a última semana desta exposição. do “Neo-regionalismo para o Abstracionismo Informal”. lemos: “Os trabalhos são inspirados em temas que vão desde a mitologia greco-romana à cultura popular do Nordeste. declara o sergipano de Capela. perpendicularmente à tarja. É uma coisa muito universal. ao invés de ser dominado por esta escola. uma homenagem ao gênio Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). os jarros com flores. o sol. que se realiza no próprio meio. ao meu modo de ver. No caso da obra em questão. Lá estão a fênix.cinform. Crítica ao progresso desmedido que não se preocupa com a preservação ambiental. Na mesma exposição. o rio que na mitologia indígena se forma pelas lágrimas da linda Iati. É difícil conseguir a alquimia adequada. E eu gosto muito dessa liberdade”. peca pelo excesso de intenção engajada. chorando a ausência de seu amado guerreiro. uma de suas obras mais conhecidas é justamente uma intitulada “Mandala”. que passa. “Ousadia sexagenária”. vemos uma tarja preta com a frase: “. Nem sempre a primeira impressão..

filho do poeta Ledo Ivo. duma fase pré-concretista. uma delas subintitulada. 74 .Ismael Pereira. seria mais de se considerar a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” uma variante dos poemas postais. . justificadas por um contexto da fluvialidade das águas. Aurora. mundo da realização das formas em matéria plástica. assim como também as faixas horizontais se dividem em grupos retangulares e um circular (referência ao Sol). temos o domínio dessas linhas horizontais. tem um conjunto de três telas acerca do Rio São Francisco. Nas três telas acerca do Rio São Francisco. A pintura de Gonçalo Ivo é de uma geometrização que confere ao pictórico uma dimensão lúdica numa interface com a realidade física que abre o jogo entre a abstração. ainda. redimensionam o espaço pictórico num jogo criativo e encantador aos sentidos visual e táctil. pelo modo metalingüístico e poético com que se apropria de lemas da revolução russa. um poema assim. branco e negro combinam-se e alternam-se nas faixas horizontais dando a dimensão plástica das águas do rio. com domínio das linhas horizontais. a obra acaba se realizar como um panfleto. Assim.. o azul das águas. Pintor cuja influência abstracionista e concreta se faz notar. o branco de nuvens. os cartazes poéticos dum Maiakóvsky. mas nesse caso. numa delas os tons de azul. o suplantem. Rico de combinações de cores. As cores de Gonçalo Ivo. um cartaz. Gonçalo Ivo (Rio de Janeiro. As cores formam o espectro do cenário: o verde das matas. abstraídas de suas formas. assim. Ou de outro modo. por exemplo. e a realidade concreta. Em “Aurora” as cores são mais quentes.. enquanto mundo das idéias das formas. uma poesia visual cuja visualidade se encontra subordinada ao verbal. e. o vermelho do calor e do Sol.Era uma Vez Um Rio São Francisco O verbal aqui suplanta o pictórico. da poesia visual. 1958).

me parece o pintor que melhor soube apreender a natureza pictórica do Velho Chico. SP.cinform. 1967. Rio de Janeiro. Gonçalo Ivo. http://www. Não é esse panorama completo nem extenso. José Roberto Teixeira. O que busquei comentar nesse capítulo foi.org. Referências CIA. em que o fluídico se encontra disfarçado pelos tons mais densos. São ás águas calmas do rio São Francisco refletindo a luz.br 75 . A matização da tela assim substancia o rio como um rio sólido. bem pode ser subdenominada de “Entardecer”. um breve panorama quase crítico das representações pictóricas do Rio São Francisco. na sua morosidade do ritmo de entardecer sertanejo.br/noticias/19820081283251459 SEMEAR: “Exposição Águas de Março”. 1978. São Francisco: O Rio da Unidade. embora tenha o título apenas de “Rio São Francisco”. http://www. VALE DO SÃO FRANCISCO. As cores dominantes são os tons de vermelho e marrom.sociedadesemear. sendo que muito provavelmente esqueci ou deixei passar telas significativas da história pictórica do tema em questão. Assim.com. A Pintura no Brasil Holandês. Mercedez-Benz do Brasil. dentro do conjunto. DESENVOLV. Internet: CINFORM: “Última Semana Para Ver a Ousadia Sexagenária de Ismael Pereira” Postado em 19/08/2008. LEITE. me suma. GRD. mas me ative as telas que tive maior familiaridade e contato. São Bernardo do Campo. É o reflexo do rosicler solar sobre as águas turvas do rio. em termos de técnica abstracionista.Telas de Gonçalo Ivo com o tema do Rio São Francisco Uma terceira tela.

O mamulengo é 76 . à transposição de lendas européias para a cultura brasileira. Era comum um espetáculo de bonecos denominado de “Presépio” de característica de difusão do imaginário cristão. O teatro de bonecos era comum na idade média na Europa. inclusive em Portugal.Mamulengo Revisitado: A Arte das Mãos na Ligeireza dos Bonecos A origem do teatro de bonecos chamado de “mamulengo” perde-se um pouco no próprio processo de aquisição de cultura durante a colonização. incluindo-se aí um longo espectro de adaptações e modificações. sendo apoiado pela Igreja. A chegada do teatro de bonecos está associada também à chegada da arte circense.

o policial (a volante). Essa tipificação característica de personagens se eleva um pouco mais quando notamos a ocorrência de personagens com nomes próprios mais delimitados como o Professor Tiridá. Assim. principalmente em Pernambuco. Modernamente a distinção entre o teatro de bonecos e o teatro de fantoches tornouse muito tênue.os bonecos são ligados por fios a um controle. d) de fio . dispensava a necessidade de uma caixa para palco. A origem do termo parece estar implicada com a corruptela da expressão “mão molenga” com que se definia a habilidade do bonequeiro em movimentar o boneco. articulado e movimentado por varetas. no entanto.boneco de madeira ou outro material. Hoje. o Moleque Benedito. por vezes. partindo da cabeça para a mão do manipulador. Nesse sentido. o galo. hoje se considera que os bonecos de mamulengo podem ser. tendo o mamulengo incorporado. dos seguintes tipos: a) de luva (ou também “guignol”) . da boca e até dos olhos. Os personagens típicos do mamulengo são definidos por uma tradição que representa papéis sociais que se cristalizaram na formação da sociedade nordestina: o coronel. feito de madeira. em alguns casos. temos nesse caso o bondoso. Quitéria.boneco com cabeça de madeira. daí espalhando-se para estados como Alagoas. Mané Pacaru e João Redondo. o Cabo Setenta. algumas vezes. a nosso ver. diferindo do Presépio medieval com caráter mais religioso e mesmo de desenvolvimentos mais acadêmicos ou eruditos como o teatro simbolista de marionetes de um Maeterlinck. A tipologia das personagens demonstra. a onça. Papafigo. por exemplo. o papagaio e o jacaré. que chega ao teatro de bonecos como forma de diminuir a possibilidade de participação do ator na construção do texto teatral. b) de vareta . cujo movimento é produzido pela mão (dedo indicador colocado na cabeça e o polegar e o médio nos braços). Piauí. de massa ou papelão. Rio Grande do Norte. ou ainda. cordões ou cordas que sustentam o boneco. conhecida como “Jan Pickel Herringe”. etc. vestindo um camisolão de pano. a comédia tornou-se o gênero característico. c) de haste . Diferia o mamulengo do teatro de fantoches ou de marionetes pelo fato de que no teatro de fantoches a ação dos bonecos era mediada por linhas. existem os personagens que representam alegoricamente determinados valores de conduta. como a raposa. podendo também ter fios para os braços e as pernas. a técnica dos bonecos suspensos por cordões ou cordas. como o teatro de bonecos mamulengo conseguiu absorver um procedimento crítico da sociedade fundado na técnica da alegoria e da ironia. de uma cortina que separasse visualmente o bonequeiro do boneco. o molenga. o padre. Tal habilidade. uma vez que por aquela época era uma arte comum na Holanda. num certo sentido. o briguento. que permite ao manipulador movimentá-los.os bonecos são suspensos por uma haste de metal. Nesse aspecto. Simão. 77 . definiu aspectos do mamulengo como um teatro de bonecos que. etc. Há também os bichos. o mamulengo se aproximava visualmente da performance do ventríloquo. o valente. o cachorro. A origem do mamulengo em Pernambuco está associada ao período da invasão holandesa. o teatro do mamulengo já tem como padrão a utilização do palco de bonecos e da separação visual entre o bonequeiro e o boneco. Catirina.característico do Nordeste. ao passo que no mamulengo era a mão do bonequeiro que dava sustentação e a forma definida ao corpo do boneco ao ser introduzida por debaixo do boneco em orifícios próprios para a ação dos braços. Além destes. conforme a técnica utilizada.

denotando sua universalidade enquanto arquétipo (a serpente emplumada. Uma de suas peças mais conhecidas é “Simão e o Boi Pintadinho”. entre outros. aqui é articulado com a figura da cobra grande (originária do imaginário indígena). uma vez que a própria família real portuguesa mantinha laços estreitos por meio de casamentos e outras 78 . Waldeck de Garanhuns é um artista do mamulengo que tem se destacado por um trabalho de revisão e reinvenção dessa arte. O Nordestino materializa sua fé na persistência. associada historicamente como parte do aparelho de institucionalização do coronelismo. O nosso século XIX foi marcado nesse âmbito pelos dois reinados (1822-1889). Aqui. Sabendo revisitar os personagens criados por outros mestres mamulengueiros. o que temos é um processo de carnavalização (bakhtiniana) na formulação e apresentação do espetáculo do mamulengo. muitas vezes. em que o boi depois de aprender a dançar é engolido por uma cobra. terminando o século pela proclamação e instalação da república nos governos de Marechal Deodoro e Floriano Peixoto (1889-1894). em que o poeta se veste da pele de cobra e sai em busca da princesa do sem fim. no lugar da conquista do amor ou da validação do poder da fé. na constância de busca de superação dos limites impostos pela maquiavélica exploração social das agruras das intempéries.). o rapaz Simão tenta então resgatar o boi do ventre da cobra e acaba por entrar no ventre em busca de seu animal. mas também. o padre. As ligações com as famílias nobres européias superavam os limites do domínio da metrópole. personificam a visão da sociedade por um viés que na sua forma satírica e estereotípica faz por desnudar as contradições dessa mesma sociedade.ex. se liga ao mito de Orfeu e sua descida aos infernos e num contexto cristão à aventura de Jonas no vente da baleia. acrescido dos interregnos da regência (1831-1840) e do reino unido (1815-1822). A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira 1. porém. o que temos é uma outra mensagem simbólica: a persistência. Se o Cabo Setenta nos faz rir. de pessoal treinado e de recursos os mais variados para seu trabalho. não é tanto pela sua inabilidade de polícia e pelas trapalhadas pelas quais passa e provoca. mas principalmente por que a personagem alegoriza-se sob a visão popular acerca do policiamento nas pequenas cidades do Nordeste. De certo modo. a namoradeira. p.A comédia no mamulengo. desprovidos de estrutura logística. mas também de configuração maia e egípcia. Do mesmo modo. assume a condição de sátira. O resgate do boi nos faz lembrar do poema “Cobra Norato” de Raul Bopp. vai também acrescentando os seus. misturando ainda elementos de personagens folclóricos diversos. tanto mais que os personagens característicos costumeiramente acabam por se construírem sobre estereótipos de papéis sociais enraizados na estrutura da sociedade nordestina. antecedido pelo período da permanência da família real portuguesa (1808-1815). A figura simbólica do boi nas histórias populares do Nordeste. a mulher fofoqueira. e em outros casos. Introdução: O Rei e seu Castelo O Brasil foi o único país da América do Sul a ter um período monárquico ligado às tradições e às famílias nobres européias. não poucas vezes. indígena e africano. personagem sincrético entre elementos do imaginário cristão. Simão é a prefiguração do dizer euclidiano-pós-positivista de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”.

Alguns cronistas relatam que o casamento só teria se consumado um ano depois e que o imperador só não remeteu a esposa de volta à sua terra natal graças à intervenção de D. 14 de Março de 1822 — Porto. Jesus Cristo é apresentado como o “rei dos reis”. Estes chegaram ao Brasil em 1864 para se casarem. a D. Isabel e D. No imaginário cristão. terceira e última Imperatriz do Brasil. Pedro de Alcântara. casou-se com a Princesa Imperial D. A propósito de Dom Sebastião. imperatriz Teresa Cristina e D.alianças familiares com as famílias da Áustria. filha única do general e duque Fernando Jorge Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. Luís Maria Filipe e de D. seu enlace foi motivo de decepção para o marido. encontra no Brasil várias adaptações no imaginário popular. Se cruzamos a influência histórica da coroa portuguesa e da monarquia brasileira com a simbologia cristã temos o amálgama completo que dá razão à existência desse apego do imaginário na cultura brasileira à figura do rei e de seu castelo. de D. Assim. em Pernambuco entre Era filho primogênito de Luís Carlos Filipe Rafael de Orléans. em Minas Gerais. refugiando-se na Inglaterra junto ao ex-rei da França. Ganhou o título de conde D'Eu ao nascer. a prova direta dessas ramificações para além da família real portuguesa. Antônio Gastão. 79 . Condessa de Belmonte e ama do jovem monarca. o rei da França. temos sim que levar em conta o imaginário cristão católico de que Portugal foi um grande difusor. D. D. aos príncipes Gastão de Orléans e seu primo.da esquerda para a direita: Conde d'Eu. Augusto de Saxe. 28 de Dezembro de 1889). a figura do rei-santo que voltará a restabelecer o seu reino. devido à Revolução de 1848. É claro que tal simbologia do rei e do castelo não se deve exclusivamente à ligação com a monarquia em Portugal e no Brasil. (fonte: Wikipédia). Há quem afirme que. com Leopoldina e Isabel. dado por seu avô. Mas as princesas tomaram a liberdade de escolher seus noivos. Mariana Carlota de Verna Magalhães. Sintomático e exemplar disso é o episódio de Canudos. da França. Pedro II. No Maranhão. em Goiás. com quem casara por procuração. ao conhecer a esposa. 5 4 Dona Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltazar Melquior Januária Rosália Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bondosa André d'Avelino Rita Leodegária Gertrudes Venância Tadéia Espiridião Roca Matilda de Bourbon-Sicílias e Bragança (Nápoles. aos 15 de outubro de 1864 (fonte: Wikipédia). Isabel Leopoldina. No Brasil o Cond’Eu 4 e a imperatriz Teresa Cristina 5 eram. Família Imperial . Pedro teria cogitado em pedir a anulação do matrimônio por conta de seus minguados atributos físicos: era baixa. D. Isabel Leopoldina Cristina de Bragança e Duas-Sicílias no Rio de Janeiro. é obrigado a fugir do país com a família. É lá que passa a maior parte da infância e da adolescência. mas sim o reino de Cristo. respectivamente. neto de Luís Filipe. rei da França. foi a esposa do imperador Pedro II. Se contarmos ainda o longo período colonial de ligação com o governo monárquico absolutista e centralizador português. e de Vitória Francisca Antonieta Juliana Luísa. Aos seis anos. Fez sondagens com a ajuda de sua irmã. Pedro II do Brasil queria que suas filhas. se casassem com chefes doutras dinastias para dar continuidade à linhagem. entre outras pessoas. princesa de Saxe-Coburgo-Gota. duquesa de Saxe. de origem portuguesa. no qual Antônio Conselheiro em suas prédicas denunciava a república como a grande inimiga da fé e preconizava a volta de um mitológico Dom Sebastião que viria restaurar não a monarquia ou o reino de Portugal. da Espanha e da Inglaterra inclusive. D. Leopoldina. Filha do rei Francisco I do Reino das Duas Sicílias. Seu nome original em italiano: Dona Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias. manca e feia. princesa de Joinville. Gastão de Orléans. temos então as razões históricas para o desenvolvimento e a permanência no imaginário brasileiro da figura do rei e do castelo. duque de Némours. conde d'Eu. Francisca. com quem casou-se em 4 de setembro de 1842. Pai de D.

ainda apresentado simplesmente como “o Rei”. 6 De fato. Parece que o processo de adjetivação nos USA prefere ao “the king” outras qualificações como “the best”.outros estados. em que já se pese mais de um século de período republicano.Pedro I. “the magic”. Perspectiva. AngloSaxonic and Protestant). Por outro lado. também. ofício ou função que logo recebe a denominação de rei. “the star”. Satan é o “Prince of Darkness” uma vez que não pode existir o reino das trevas que se oponha o reino de Deus. 25. basta atentarmos para um outro país cuja colonização tivesse sido marcada pela sujeição à uma metrópole monárquica e a religiosidade. foi por décadas conhecido como o “Rei da Juventude” 7 e hoje. Podemos pegar como exemplo os Estados Unidos. assim é caso do King Kong. ainda é possível encontrar festas populares cujas representações estão direta ou indiretamente ligadas ao sebastianismo. ameaça e que se caracterize como algo do exterior. 2005. também. vez por outra é utilizada para qualificação de um elemento arquetípico que represente perigo. Pelé é o rei do futebol. Al Capone foi cognominado o rei do crime em livro de Nate Hendley. Khronos.João VI e o reinado de D. arte ou função parece não ser a mais usual. Para fins comparativos. de Sidney Northcote é um filme que se nos afigura como representativo dessa simbologia. mas a rainha da jovem guarda (Wanderléia) e o príncipe (Ronnie Von). A palavra “king” como adjetivo. 6 80 . No caso do Brasil. 7 O movimento musical denominado de Jovem Guarda tinha não apenas o rei. o “Rei do Samba de breque”. década de 70) e Didi (príncipe etíope). A guerra da Independência americana e o domínio do protestantismo parecem que são fatores a diminuir o sentido que a figura do rei poderia ter no imaginário norteamericano. já um pouco passado na idade e no estilo musical. Reginaldo Rossi é por muitos considerado o “Rei do Brega”. Havendo uma continuidade entre o governo de D. tendo porém a ausência de um período monárquico na fase independente. col. políticos e sóciopsicolingüísticos com o passado monárquico. o Rei Momo. o único rei admitido sem restrições no imaginário WASP (White. vol. Jesus Christ é o “King of the Kings”. uma das principais manifestações populares do Brasil. Tendo como marca a basófia. Basta alguém se destacar numa arte. uma breve observação sobre alguns índices encontráveis na linguagem cotidiana já é um suficiente para a constatação dessa simbologia no imaginário do povo brasileiro. Ayrton Senna foi o “Rei das Pistas”. O carnaval. Este de deus da mitologia grega passa a rei do carnaval num longo processo de transformação do festejo. dominada pelo imaginário cristão. substituindo o imaginário do rei luso pelo sentimento A esse respeito indicamos o trabalho de Marcio Honório Godoy. Mesmo expressões como “the king of rock” parece ter sua origem na Inglaterra e não nos Estados Unidos. a crítica sarcástica e a alegria desmesurada. São Paulo. se apresenta como o desfile da corte e dos súditos para um rei. a pilhéria. Na cultura norteamericana a idéia do rei como adjetivo mais comum para alguém que se destaque nalguma profissão. The King of Crime (1914). que desde o seu início muito têm feito pela eliminação de vínculos culturais. Dom Sebastião no Brasil. “the big”. Roberto Carlos. No futebol. Sinhô foi o “Rei do Samba” ao passo que Moreira da Silva. mas tão somente um estado de exílio. sequer podemos falar numa efetiva guerra da independência em que se pese os confrontos na Bahia em 1823 transformados num desconhecido épico de Ladislau dos Santos Titara. ainda que nosso romantismo inicial tenha se esmerado em se apresentar como antilusitano. se constituiu uma hierarquia monárquica com o príncipe do futebol (Dirceu Lopes.

a necessidade do fosso e das muralhas. Lembremos do filme O Rei do Rio (1985). que se destaca da paisagem citadina por estar colocado no alto de uma colina.”. uma vez que o castelo é uma construção típica da arquitetura medieval. Desse modo a expressão ganha sentido ambíguo. típica da Idade Média. como faz Houaiss. ao passo que a palavra “palácio” parece se referir mais especificamente às construções nobres do renascimento para diante. de um alto dignitário eclesiástico. O Dicionário tem o significado primeiro semelhante ao Houaiss. Uma torre. próximo a vias de comunicação. a idéia de que o Rei é a qualificação natural para aquele que se destaque num grupo social.” Sobre sua origem. destacar a suntuosidade. ao passo que no castelo sua função é a de efetivamente. Ainda convém lembrar que o castelo está associado à idéia de um local afastado do urbano. permitir aos acastelados olhar à longa distância. o Castelo é o lugar do rei. por amplos jardins. quanto positivo. o que facilitava o avistamento das tropas inimigas e as comunicações a grandes distâncias. Fortificação de tipo permanente. que conta a disputa entre dois bicheiros pelo domínio da contravenção. confiando sua defesa aos quartéis e fortificações militares que circundariam e protegeriam os palácios. O aspecto defensivo do palácio é diminuído. etc.francófono. seu âmbito natural. para realmente ser admirada e vista de longa distância. ao passo que os palácios são mais característicos do período em que a realeza efetivamente superou os receios de eventuais ataques de hordas inimigas. por exemplo. em primeiro lugar. tanto no âmbito culto e erudito. Romário e Túlio). de um chefe de estado etc. se referia a uma torre de vigilância. fontes e espelhos d’água. inclusive reis. fortaleza. tanto podendo ter um sentido pejorativo. Na Idade Média é que os castelos evoluíram para morada dos senhores feudais e nobres. era geralmente erguido em posição dominante no terreno. embora isso ficasse implícito pela designação de “residência de um monarca”. O Dicionário Houaiss define castelo no seu significado primeiro como “residência real ou senhorial dotada de fortificações” e palácio como “vasta e suntuosa residência de um monarca. ou quando não. No Brasil. com funções defensiva e residencial. quanto no popular e folclórico. isolando-se assim do contexto 81 . de um alto dignitário do poder eclesiástico. com Nuno Leal Maia e Nelson Xavier. substituindo-se. como morada preferível tendo em vista a sua condição de fornecer proteção contra ataques. sem portanto.” E para palácio o Aurélio define como “Residência de um monarca. No imaginário da cultura brasileira a idéia de castelo apresenta já um anacronismo histórico. no palácio a arquitetura de uma torre tem função mais para ostentação. de Fábio Barreto. Por sua vez. Por sua vez. no castelo por vezes tem sobreposto a função defensiva ou de vigilância. além de permitir a observação de vasto terreno tendo em vista sua localização sempre ao alto de uma colina ou montanha. com muralhas. fosso. A suntuosidade do palácio é que o distingue do castelo. de um chefe de governo”. barbacã. da qual a revolução francesa logo sucumbiu ao império ditatorial napoleônico tão exaltado num Domingos José Gonçalves de Magalhães. cercada por torre e um fosso. dependendo de seu contexto. uma vez que o que seria apenas suntuosidade e pompa no palácio. define castelo como “Um castelo (diminutivo de castro) é uma estrutura arquitectónica fortificada. acrescido de que o castelo é “Praça forte. Dez anos depois a expressão foi utilizada no âmbito esportivo para ser referir à disputa entre três grandes jogadores no campeonato carioca de 1995 (Renato Gaúcho. por exemplo. Nesse âmbito é que os castelos são de característica mais própria ao contexto político e social da Idade Média. de “castellum” (latim).. A enciclopédia on line Wikipédia. o palácio a Wikipédia define exatamente como os dicionários Houaiss e Aurélio.

No entanto. entre outras. Seria isso um anacronismo? Um processo de kitschização? Possivelmente encontraremos esses aspectos na análise de construções que pareçam castelos na arquitetura brasileira. eventualmente. não está de tal forma elevado que o acesso a ele se faz de forma dificultosa. se dispôs no quadro a imaginar um cenário tipicamente medieval europeu. Na pintura romântica brasileira. 82 . além do Rio de Janeiro se notabilizaram por seus palácios. O fato de não termos idade média e a absorção ao imaginário popular de lendas e histórias medievais como as do ciclo do rei Arthur. Manuel de Araújo Porto Alegre. além da popularização da imagem de castelos mal-assombrados na Europa (em especial na Escócia). conhecido pela representação exuberante da natureza brasileira. entre outras personagens similares. de Carlos Magno. Teresópolis. mas como que se coloca numa situação central entre os caminhos da cidade. Cidades como Petrópolis. no mais das vezes. criou-se no imaginário popular a necessidade de castelos supratemporais e supraespaciais que poderiam compor a paisagem local materializando a idéia arquetípica do lugar misterioso e de passado glorioso ou histórico. Não é por acaso também que um dos quadros mais conhecidos de Manuel de Araújo Porto-Alegre seja a coroação de Dom Pedro II em que a figura do rei/imperador se materializa no ritual de coroação dentro do ambiente do palácio. nos lembram algo de um certo modelo arquetípico dos castelos medievais. Durante o período imperial é que a construção de palácios nobres se destacou. a inexistência do período medieval e nossa ligação colonial com a Europa a partir do barroco e do iluminismo fez com que os palácios se tornassem as moradas dos governadores. Grota. de Frankenstein. bem como das figuras de Drácula. de Dom Dinis e de Dom Sebastião. No caso do Brasil. Já o palácio está cercado pelo ambiente urbano.urbano ao redor. podemos ver isso no quadro “Grota” em que o pintor. podemos nos deparar aqui e ali com construções que embora contemporâneas. em geral.

tanto pela família real. quanto pela nobreza de barões. condes. ao contrário do palácio imperial pós-renascentista tem. não pertencendo a qualquer momento real desse passado. como se fosse 83 . Ou seja. de fato. seguindo a definição que propomos na introdução desse texto. do tabaco. Coroação de Dom Pedro II O que comentamos a seguir é como o castelo medieval que não tem raízes históricas no Brasil. Os Castelos do Brasil Para o menos avisado e ao mesmo tempo mais crítico do sentido etimológico das palavras. escrevemos apenas sobre os castelos. porém. embora não tivéssemos idade média temos castelos de caráter medieval. o título está correto. Porém. alguns construídos com material (pedras. Como se a união do castelo ao cenário brasileiro fosse a recuperação de um ideal de civilização que se acredita perdido. com base na etimologia e nos dicionários pesquisados. da cana-de-açúcar. se transforma em ambiente imaginário da sublimação do desejo de realeza e nobreza diante do cenário exuberante da natureza tropical brasileira.Manuel de Araújo Porto Alegre. os palácios e palacetes da aristocracia do café. do algodão e de outras monoculturas que renderam a alguns o prestígio e a riqueza suficientes para a ostentação materializada em suntuosas moradias. de fato. madeira) trazido da Europa para dar à construção maior legitimidade. 2. estando de fato presente apenas como espaço arquetípico que necessita de preenchimento. viscondes e duques. tendo em vista os palácios construídos durante o período monárquico no Brasil. o título dessa secção deveria ser “Os Palácios do Brasil”. Ainda se acresce a eles.

o Castelo do Barão de Itaipava foi construído pelo barão J. Para o transporte do material. telhas de ardósia francesa. 2. Castelo do Barão de Itaipava.possível transplantar o tempo por meio da materialização da construção com materiais do lugar de origem dos castelos. terminado em 1920. como determinadas portas. Castelo das Pedras Altas (Pedras Altas – RS). mas nos prenderemos a quatro castelos em especial. ala dos serviçais e 84 . o maior castelo medieval do Brasil. são eles: Castelo do Barão de Itaipava (Itaipava – RJ). colunas e forros que foram talhados na Europa. 7 banheiros. tendo em vista. Para a construção do castelo o material foi trazido todo da Europa (blocos de pedra portuguesa.1. ferragens inglesas. diversos salões. dependências para hóspedes. Castelo Lacave (Caxias do Sul)e o Castelo de João Capão (Garanhuns – PE). Aberto à visitação pública e sendo uma das mais curiosas e interessantes atrações turísticas da cidade fluminense. halls. terraços. escadas. O castelo tem 42 cômodos distribuídos em 19 quartos. o barão colaborou no custeio da construção da estrada de ferro Leopoldina. Castelo Itaipava. sala de música. curiosamente alguns elementos. vitrais austríacos e pisos de mármore italiano). a construção deu aos arquitetos o prêmio de da grande medalha de prata do salão de Belas Artes de 1924. Itaipava RJ. tendo assim direito a que uma estação de trem ficasse dentro dos domínios do seu castelo. Não comentaremos de todos os castelos. Rio de Janeiro. duas torres. madeira natural do Brasil. que para nosso propósito. bibliotecas. descendente de família nobre inglesa e portuguesa. Smith de Vasconcelos. Tendo a intenção de reproduzir nos trópicos uma cópia fiel dos castelos medievais europeus o barão solicitou aos arquitetos Lúcio Costa e Fernando Valentim a elaboração do projeto. eles parecem preencher as nuanças do fenômeno em questão. foram feitos em jacarandá.

galerias.2. assinado no próprio castelo. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. que acomodaram políticos. revolucionários e intelectuais. A beleza de sua estrutura. O Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas Construído por Joaquim Francisco de Assis Brasil em 1904. o qual havia exercido por mais de 30 anos. Cada objeto conta alguma história. lembrando sob certos aspectos o personagem queirosiano de A Cidade e as Serras. mas principalmente para satisfação coletiva de um imaginário popular que busca preencher sua história fragmentada com retratos. o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845). Smith de Vasconcelos soube investir na construção dessa obra arquitetônica que transcende a linha diacrônica da história. Fruto. A medida foi uma das cláusulas do acordo de paz. aliada à beleza natural da serra fluminense a sua volta. que pertenceu a Bento Gonçalves. com a diferença que este último é para fins de catarse coletiva e obtenção de lucro com o mundo do entretenimento. 85 . com móveis. transformando-se atualmente em atração turística não apenas pela beleza e riqueza de materiais. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. A construção centenária foi cenário para importantes decisões políticas das primeiras décadas do século passado. de um desejo de sublimação da realeza perdida com a república (1889). porém. 2. Um enorme relógio. talvez. ao passo que o castelo do Barão de Itaipava era para satisfação pessoal. / O livro que amanha a alma. o castelo de Pedras Altas busca justificar uma das frases preferidas do revolucionário gaúcho que estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (SP) e foi adepto do movimento republicano: “Em certas ocasiões mais vale um dia de ver do que um dia de ler” . mesmo que montados e/ou anacrônicos. criando um espaço mágico. Chefe da Revolução de 1923. Acreditando que era possível viver no ambiente rural sem necessariamente abdicar do conforto da civilização urbana. cria um sentimento de êxtase estético no visitante como se um processo mágico no tempo pudesse transportar-nos ao cenário dos reis e cavaleiros medievais. importados de Nova York. não muito diferente do desejo que faz surgir castelos mágicos na Disneylândia. É considerado o único castelo em estilo normando nas Américas e também o maior do Brasil. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça. Á entrada do castelo lê-se os seguintes versos: “Bem-vindo à mansão que encerra / Dura lida e doce calma: / O arado que educa a terra. o barão J. Assis Brasil determinou o afastamento de Borges de Medeiros do posto de governador do Estado.” Contendo 44 cômodos. mas que tenham uma eficiente dose de magia e ostentação. estilo colonial. argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes" Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. de seus aposentos e salões.

a surpresa da construção medieval na paisagem cria o antagonismo. Porém. de imediato. a preocupação em todo o país. na janela quebrada.” (ZAVASCHI. mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. nesse sentido. 86 . ao adentrar e visitar o castelo essa impressão inicial vai sendo substituída pela sensação de que esse castelo não poderia estar em outro lugar a não ser ali. é um castelo que se apresenta impregnado de história política do Rio Grande do Sul.Este. o transplante do castelo medieval para o cenário gaúcho foi se efetivando de tal forma que não se encontra hoje diretamente anacrônico ou anódino. tomando conta como o fantasma escocês esperado de um castelo medieval: “A paz de Pedras Altas. Antes. nos corredores. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893. Zero Hora. bem como seja a concretização de ideais estéticos e filosóficos de seu construtor. menos consciente desses aspectos históricos. Porto Alegre. pois. Olyr. Aos poucos a revolução de 1923 vai se apresentando na biblioteca. o que se apresenta emoldurando o castelo de Pedras Altas é a própria história do município e daquela região. 25-11-2003 página 54. entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. Ao viajante. o conflito de harmonia causado pelas impressões iniciais das diferenças históricas sedimentadas nos estudos de História do ensino fundamental. o castelo de aparência medieval vai se reciclando e se amalgamando a um substrato histórico não característico de sua arquitetura. que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. Assim visitar o castelo é também conhecer um pouco da história e das contradições inerentes a essa história. por isso.) Desse modo. Homem de cultura e de experiência política e diplomática num período conturbado da solidificação da república no Brasil. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou.

Demorou dez anos a construção do castelo. Construção sofrida e demorada em razão da falta de experiência acerca da construção de castelos. O Castelo Lacave foi resultado do sonho de um empresário espanhol que residia no Uruguai. Assis Brasil de Pedras Altas. o local de recepção de uva. Além da visita histórica. Os novos proprietários tiveram extremo cuidado ao decorar e ambientar seu interior com móveis e estilo da época. a taberna e varejo.Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. As recepcionistas que acompanham a visita vestem trajes medievais e seus salões e corredores exibem tapeçarias. em pedra. e tendo uma planta original de um castelo que pertenceu a sua família no século XI. O visitante lá conhece não apenas o castelo. 2. Salão das Bandeiras. ocorrendo inclusive um acidente com morte de operário após a queda de uma das paredes. tornando-se uma das principais atrações turísticas de Caxias do Sul. Ao entrar. Em 2001 a vinícola mudou de dono. Castelo Lacave. passando à família Basso. O castelo ganhou um brasão e as cores próprias para sua bandeira. com ambientação pré-renascentista. e depois de uma reforma e recuperação. armaduras e pinturas semelhantes às da época. as caves de armazenamento de vinhos. móveis. Terminado em 1968. há até armaduras. como desfile de cavaleiros trajados em armaduras e brasões característicos da Idade Média. seria a sede da vinícola Chateau Lacave. Descendente de uma família nobre espanhola. os visitantes são recepcionados na Sala dos Tronos. escolhidas com cuidado para não repetir de nenhum reino verdadeiro. Para dar o clima de realismo. resolveu reconstruí-lo na região vinícola de Caxias do Sul.3. os visitantes aprendem os processos de produção de vinhos para apreciar ainda mais esta bebida milenar. 87 . Sala dos Barris de Carvalho. mas também fica informado acerca da produção de vinho além de ver espetáculos inspirados na idade média. foi reaberto à visitação em 2004. o castelo do vinho. passando para a Sala das Cruzadas. objetos. segundo o padrão característico da construção de castelos.

Tendo ainda como elo fulcral a descendência de seu construtor e associando-se à simbologia do vinho. somando-se à reprodução de espetáculos de cavalaria medieval. conta com a doação de visitantes que por curiosidade comparecem ao local. Caxias do Sul (RS) Possuindo um restaurante. O construtor foi apelidado de Capão. o Castelo de João Capão. o Castelo Lacave faz o inverso do processo histórico que determina a característica do Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. o espetáculo que é uma visita ao castelo Lacave se transforma numa experiência estética de tal complexidade e amplitude que a realidade se vê subvertida pelo objeto artificial. O Castelo de João Capão em Garanhuns (PE) O Castelo de João Capão no Agreste Meridional Pernambucano. a festa mais importante de Garanhuns. se destaca na paisagem modesta do subúrbio em que se localiza. quase nos esquecemos que o castelo foi construído em 1968. à beira da Br-423. confirmado a necessidade inconsciente do imaginário popular brasileiro de preenchimento de um arquétipo vago na nossa cultura opacamente marcado pelo substrato histórico do período colonial e monárquico. daí o apelido de “capão”. o que confirma o índice de mais de 70 mil visitas desde que foi reaberto. Aqui a história é uma representação. Ainda em construção. Fruto do sonho de um eletricista. sem posses. um espetáculo que encena a história medieval européia. 2. ou quando do Festival de Inverno da Cidade. ainda que apenas como espetáculo ou como representação. como empreendimento é um sucesso. 88 . em que o local é alugado por modestos 200 reais. no município de Garanhuns é o menos imponente e suntuoso dos castelos aqui mencionados.Castelo Lacave. A imitação como base da mimesis fornece aqui o elemento de catarse para o visitante desejoso de vivenciar um pouco de tradição. ou seja. um pedaço reconstruído da Idade Média transplantado no tempo e no espaço para o Brasil. Assim. de história e de mistério antigo. iniciada há 17 anos. De fato. a suntuosidade não existe nesse castelo. Incluído já no roteiro turístico da cidade. que decidiu construir um castelo depois de assistir filmes no cinema da cidade em que via castelos e reis da idade média.4. É assim. para se transformar num restaurante temático. além da taberna para degustação de vinhos. não mais que 40 anos. porque além de eletricista foi goleiro de um time amador e era considerado por alguns como “frangueiro”.

ou o salão central com suas paredes pintadas em tom ocre de tinta à cal. por dentro. esta impressão vai se desfazendo. ameríndia e africana. O conflito entre nossa herança européia. o que não ocorrera com os castelos anteriormente aqui comentados. é simbolicamente a imagem do processo de domínio da burguesia na estrutura social ocidental. desejoso de viver num castelo medieval como um rei arturiano após assistir filmes no cinema é o melhor exemplo do que busco apresentar aqui como hipótese. misturadas com janelas modernas em bairros de classe média de várias cidades. em parte pela forte simbologia religiosa dada por um Portugal barroco e medievalista. uma caricatura quase kitsch de um castelo. assim como centro político da cidade. em parte pelos aspectos próprios de nossa história que teve quase um século de monarquia. com paredes de lajota de cerâmica esmaltada e com aspecto de um banheiro típico de uma casa de classe média. alguns templos de igrejas evangélicas que se apresentam com torres medievais no lugar do campanário. a de que a imagem do rei e de seu castelo se apresenta no imaginário popular brasileiro de tal forma que nos distinguimos nesse aspecto em comparação com as outras nações da América. localizado na área mais comercial da cidade. porém. e o acúmulo de símbolos desconexos. 89 . E o castelo de João Capão se mostra ainda mais característico quando o comparamos com outra construção do município de Garanhuns que é o Palácio Celso Galvão. não o desmistifica. O Palácio justifica o epíteto de palácio pela forma arquitetural. João Capão teve despertado aquilo que já subjazia no seu inconsciente advindo de um inconsciente coletivo e arquetípico.Castelo de João Capão. como os ramos cruzados à entrada do castelo. carecendo de conhecimentos arquitetônicos e históricos. em termos estruturais e estéticos. Lembra também. Se um Policarpo Quaresma teria convulsões diante de tal construção é apenas porque veria ali a contradição mais forte e característica de nossa formação como nação e cultura. Ao assistir as fitas de cinema. assim como temos casas com colunas jônicas ou dóricas. é essa obra a perfeita consubstanciação dessa falta histórica que só é falta pela imposição em nossa história cultural de um ideal de passado e glória vinda da Europa e que impregnou nosso imaginário. por exemplo. Misto de imagem de casa de classe média alta com elementos de castelo medieval é no máximo uma casa temática de aspecto kitsch. vão nos mostrando que o castelo de João Capão é antes um conjunto contraditório de impressões do que seja um castelo para seu construtor. pelo contrário. Esta vontade que fundamentou o sonho do pobre construtor. O banheiro. tem janelas e torres em estilo pós-renascentista italiano. ainda em processo de acomodação. entre lojas e bancos. Lembra um pouco palácios de Florença ou Veneza. construído em 1943 pelo interventor Agamenon Magalhães e inaugurado na gestão do prefeito que lhe dá o nome. Garanhuns (PE) O modesto castelo se apresenta dotado de uma força incomum para quem o visita quando sabe da história de seu construtor. Essa desconstrução do castelo no castelo de João Capão. O castelo. Se por fora as torres em estilo medieval e a estrutura de tijolos imitando pedras dá ar de construção medieval. é na verdade. porém. além de algumas paredes rebocadas. na Avenida Santo Antônio. situado no centro da cidade.

1970. Perspectiva.Palácio Celso Galvão. ao passo que o palácio é associado ao poder pela fundamentação real que nossa histórica tem com essa arquitetura. Na colonização da 90 . sede da prefeitura de Garanhuns (PE) Assim. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 2004. Márcio Honório. sua alma não é reta nele. mas como aquele lugar que é dotado de um passado inexistente. para exemplificar com a literatura. São Paulo. Nos Hebreus (11:1) encontramos a seguinte definição de fé: “Ora. do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna. O Simbolismo em Geral. Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico A Fé é decididamente o grande instrumento do homem para a realização de suas conquistas históricas e espirituais. Dom Sebastião no Brasil. col. que só existe como passado como resultado de um conflito histórico de nossa herança cultural. Cultrix. 1978. a convicção de fatos que se não vêem”. Rio de Janeiro. mas também um instrumento de dominação. que só se resolve pela compreensão do que seja nossa herança cultural. São Paulo. Khronos. Nova Fronteira. e um justo (que) em sua fé viverá". Lembremos. 2004. Antonio. Paidos. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. G. possuiria o poder da conversão instantânea pelo poder imagético e matemático de sua linguagem. temos a possibilidade de ver a diferença entre castelo e palácio na cultura brasileira. GODOY. que acreditava. quando contrapomos o Palácio Celso Galvão ao Castelo de João Capão. 1978. O castelo não é propriamente mais visto como a sede do poder. Psicologia e Religião. de como lá a torre do castelo é o lugar da loucura. Rio de Janeiro. SPERBER. Carl. a fé é a certeza de coisas que se esperam. Vozes. HOUAISS. Arquétipos e Inconsciente Coletivo. Aurélio B. “emuná” e é traduzida pela primeira com o sentido que usamos no livro de Habakuk (2:4): "Eis aqui um soberbo. acaba morrendo martirizado. 2006. Dan. Objetiva. Quando Raimundo Lúlio tenta converter os Sarracenos munido apenas de sua Ars Combinatória. Etimologicamente a palavra vem do hebraico. JUNG. ________. São Paulo. do caos simbólico entre realidade e sonho. Buenos Aires. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HOLANDA. Na História a Fé tem sido um instrumento não só de caráter relativo à espiritualidade.

no sentido de compreensão da relação contextual do homem com a sociedade que constrói. Naquela época predominavam as superstições. mulher de Lúcio Caio Otílio. cada língua tem inscrita na sua estrutura uma visão de mundo. A história de Frexeiras é a história da fé popular. Basilissa e Vitória) e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs. os padres povoaram o imaginário sertanejo de personagens mágicos. desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. o dia 22 de maio é dia de Santa Quitéria. enquanto instrumento da Igreja para conversão dos fiéis e garantia de sua dominação. superstições indígenas e africanas povoaram os espaços vagos das contradições cristãs. uma ideologia. homem de procedimento muito rígido. isto é. No povoado existe o culto à Santa Quitéria. No calendário cristão católico. mas concretamente antropológica. porém. o povoado de Frexeiras é um retrato emblemático desse sincretismo e dessa fé algo abstrata de definir apenas na conceituação religiosa. deixaram sua marca neste imaginário. Mas. Santo Ovídio. de profecias. rituais. A história da santa é dramática e dotada de acontecimentos misteriosos que beiram o macabro. movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo. de crendices. na região do Minho. país cuja miscigenação tornou-se característica fundamental de sua população. Genebra. Os beatos. José Lourenço – beatos. o sincretismo religioso se instaura diante. Liberata. agreste meridional de Pernambuco. Próximo a Garanhuns. Quitéria nasceu no ano de 462. Gema. cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de Maio do ano de 477. tudo a suas expensas. em Braga. Marinha. por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Líbio Severo em viagem pela Península Ibérica. Ante a recusa da filha. Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga. já no município de São João. Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia. é no dia 7 de setembro que existe a maior comemoração em Frexeiras. dominadas pelo português europeu. a Fé foi o instrumento de conversão ideológica mais eficaz que os europeus puderam apresentar aos gentios americanos. Padre Cícero. que as batizou as meninas (Eufemia. que com medo de represália do marido. no século V da nossa era. A data de um santo é geralmente colocada como a data de sua morte. Assim. Quitéria. dentro das igrejas cristãs. Sabemos que uma língua não é apenas um conjunto de regras normativas gramaticais e um vocabulário da qual se o falante faz uso indiferente. 91 . a ponto de a mãe. No Brasil.América. ao redor e por vezes. Segundo consta do hagiológio português e na história de Braga. Quitéria estava com 15 anos de idade. tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano. Anos mais tarde. governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano. Antônio Conselheiro. tendo se assustado com o fato de ter dado a luz a nove meninas. instruiu a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. Antes. afogando-as num rio. Marciana. O sertão Nordestino é um espaço histórico rico de sincretismos. Frei Damião – religiosos. as culturas indígenas e africana. feiticeiros malignos e benignos. que no entender católico é o dia em que a alma do santo deixou a terra e se elevou aos céus. deixaram na língua dominante marcas inconfundíveis. Crenças. da fé tomada pelo povo em oposição à fé. uma forma particular de construir a realidade. Otílio condenou-a à morte.

de santinhos. foi transformada nesse espaço para receber as constantes visitas que vinham montadas em lombo de burro. é um dos maiores depósitos naturais de urânio do país. inclusive pagãs. eis como começou o culto à Santa Quitéria: “Tudo começou quando minha família veio de Portugal tomar posse de terras que foram concedidas pelo governo de Portugal em 1695. essa imagem que está aqui de 44 cm e que era a imagem de devoção da família. que existia uma santa milagrosa e aí começou a peregrinação. de informações contraditórias que se dirigem aos nossos olhos. carregando objetos. em carro de boi até a modernidade de hoje em que elas vêm de ônibus. Quitéria tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada. Tendo nascido Quitéria no ano 120 e morrido em 135.As datas aqui colocadas não são de todo confiáveis. No Brasil. vem muita gente a pé. de caminhões pau de arara. Com as freqüentes novenas realizadas aqui na casa (a família era muito católica). e Santa Quitéria no Maranhão. criando no expectador de imediato uma desorientação. Assim. Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos. os escravos começaram essa devoção à Santa Quitéria. Assim. além dos vendedores de bugigangas. ao entrar no local o que se nos mostra de imediato é um grande painel neobarroco. pessoas em variadas poses e lugares. a casa.artigo de André Raboni. o culto à Santa Quitéria seguiu um caminho dominado pelo imaginário popular. novas. no Ceará. apresentando aqueles inúmeros rostos. Existe uma disputa entre a família Guilherme da Rocha e a Igreja. As terras onde se encontra o povoado de Santa Quitéria pertencem à família Guilherme da Rocha. de fotografias de diversos tamanhos das pessoas que se dizem agraciadas. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada. 92 . de estatuetas as mais variadas. acumulativo. que foi para abrigar uma família. e os escravos foram espalhando para os escravos de outras propriedades e os donos de outras fazendas. Assoma-se a movimentação das pessoas que entram e saem dos aposentos acendendo velas.br/atualidades/santuario-no-interior-e-causa-de-briga-juridica-entre-aigreja-catolica-e-familia-proprietaria-de-imagem/ . Santa Quitéria. 8 Fonte: http://acertodecontas. coloridas. já trouxeram os escravos e quando chegaram aqui na região construíram a casa para morar e foram preparando a terra para a cultura de subsistência e quando eles vieram de Portugal trouxeram na bagagem a imagem de Santa Quitéria. As paredes povoadas de fotografias transformam-se num grande mural do tempo. e no final do século XVII. Fotos antigas. que entre outras características. Cada uma. no Nordeste existem dois municípios com essa denominação.” 8 O fato atual é que o povoado de Santa Quitéria transformou num local de peregrinação. de velas. em p&b. porém a Igreja não tem qualquer domínio ou intervenção na localidade. sob o domínio do imperador Adriano. Tal se deve ao receio de que a Igreja tome posse do culto sem auferir à família algum acerto financeiro ou de uso. Conforme conta um dos herdeiros. A família não permite a entrada de religiosos. que veio de Portugal em 1695.blog. existe uma versão de que teriam tais fotos ocorridos no século II. os índios também. o culto de Santa Quitéria é bem difundido. A casa grande original foi se atulhando de ex-votos.

que no imaginário popular foi a época em que santos e santas andavam pelo mundo. na coletividade de imagens. cuja imagem encontra-se adornada de inúmeros colares dourados. até estatuetas de Jesus. Lá encontramos uma variedade de objetos velhos. formava-se uma fila de pessoas. braços. ônibus de diversas procedências. sem o concurso da Igreja. muitos deles. naquele povoado. o 7 de setembro. No estacionamento. existe um museu. de madeira. alguns almoçam o prato feito. mas o imaginário popular tratou de fazer o seu próprio processo de santificação. mas também desordenadamente pós-moderna. joga-se o bilhar. Assim. em geral mais velhas. Lá fora uma barraca vendendo super-heróis de plástico: Wolverine. automóveis. A elevação da alma da Santa aos céus é também o signo de sua morte corpórea na terra. Quando de uma das minhas visitas. pilhas. diante de nossos sentidos. ele que o imediato concreto. já velhos. a realidade concreta é muito dura. mãos. individual. a fé se exercita. em pouco tempo. ou de parafina: pés. com a diferença que agora se presentificam enquanto objetos tridimensionais. Santa Liberata. ao dirigir-se ao altar de Santa Quitéria. doces. Imediatamente uma outra senhora vendo isso. Os mais novos. O imaginário necessita do sobrenatural. Ali. três vezes. povoado de santas vindas de ilusórias terras também santas. presenciei um fato interessante e ilustrativo. No comércio das bodegas. reciclando continuamente as crenças individuais num caldeirão de mitos. querendo ser provas irrefutáveis dos milagres. As irmãs de Santa Quitéria não foram santificadas pela igreja. disso a uma outra: -“Vamos também passar por três vezes aí embaixo que dá sorte e proteção!” E. esta senhora resolveu passar por debaixo da mesinha que sustenta parte do oratório. O homem sertanejo que vive a dureza das condições sócioeconômicas. o dia da independência 93 . Se a data de Santa Quitéria é 22 de Maio e em Frexeiras o dia mais comemorado é o de 7 de Setembro. Os ex-votos. onde se paga um real para entrar. cabeças. outros tomam cachaça. Próximo a casa grande. do abandono. estátuas de santas que pela denominação. busca na fé mais do que a elevação espiritual ou a ascese. braços. Cria-se assim um mundo místico. que fica numa outra casa. duas. notas e moedas antigas. Como se os pés. o que temos é a inversão dum significado. cabeças colocadas em sob tábuas de madeira ou penduradas nas paredes também criam um novo panorama que se acumula ao das fotos. de curiosos ou de pessoas movidas pela fé que têm a condição de ter um automóvel mais novo. uma estatueta em gesso de Vênus/Afrodite. Assim. balas. meio mágico. o culto à Santa Quitéria de Frexeiras segue seu caminho numa trilha entre o folclórico. se presencia ali. Santa Vitória. passando por debaixo do oratório. da historicidade de agruras e desmandos. desde de rádios de válvula. mãos dos que estavam nas fotos se materializassem ali. dia da Independência é aqui transmutado no dia de Santa Quitéria. assim como ocorreu no Ceará com o Padre Cícero. e colocadas em alguns nichos. Na única rua do povoado. no entanto. de uma época irreal. o sincrético e o místico. passou uma. capas para celular. Numa das estantes velhas de madeira. que. E a morte é o grande medo do homem. Uma velha senhora. pessoal.signo de uma história particular. fez o sinal da cruz e foi-se embora. dezenas de barracas de mascates vendem santinhos. é sua cruz inseparável. Homem Aranha. são carros dos mascates. brinquedos de plástico. Hulk. são as irmãs de Santa Quitéria: Santa Gemma.

da alma sertaneja diante dos grilhões históricos de sua condição. Prancha de Figuras – Frexeiras 94 . Símbolo da regeneração das forças para continuar sua luta diária e cotidiana.

PE. Imagem de Santa Quitéria de Frexeiras.Os retratos na parede compondo um painel sincrônico de promessas e pedidos Parede e prateleira repleta de ex-votos. 95 .