Você está na página 1de 95

IMAGENS DO VELHO CHICO NA CULTURA DO VALE DO SÃO FRANCISCO Jayro Luna

Edupe
2009

SUMÁRIO Apresentação. – Benedito Gomes Bezerra – 3 Introdução - 6 O Rio Como Símbolo – 8 O Rio São Francisco como tema da MPB – 13 O Ciúme, de Caetano Veloso – 29 Do São Francisco ao Mississipi –35 Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira – 42 Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco – 53 A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco – 58 Algumas Considerações Acerca das Representações Pictóricas do Rio São Francisco – 63 Mamulengo Revisitado – 77 A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira – 79 Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico – 91

2

APRESENTAÇÃO O Rio São Francisco representa um dos elementos de maior peso simbólico na cultura e imaginário nordestino, fato que se reflete na música, na literatura, na pintura e nas artes em geral. Ultimamente, o Velho Chico tem sido objeto de acalorada e polêmica discussão, em virtude do projeto de transposição de águas idealizado pelo governo federal. É lamentável, contudo, que o foco das reflexões sobre o Rio tenha se concentrado de modo quase exclusivo nos aspectos políticos e ideológicos da questão. O livro do professor Jayro Luna, a propósito, vem preencher essa lacuna, trazendo para a comunidade acadêmica e o público em geral um amplo e variado conjunto de textos debruçados sobre a riqueza cultural constituída em torno do São Francisco. O propósito do autor é, como ele mesmo afirma, “levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região”, bebendo para isso nas inúmeras fontes disponíveis. Duas particularidades devem ser ressaltadas no trabalho do autor. A primeira é que não se trata, de forma alguma, de pesquisa meramente bibliográfica, fruto de observação distanciada. Em muitos textos, o leitor perceberá a argúcia do observador integrado ao objeto de sua investigação, examinando de perto aquilo de que fala, não sem trair a paixão do autor pelos aspectos culturais em questão. A segunda particularidade é o ponto de vista do autor, construído a partir da região do Agreste Meridional, onde se situa a Universidade de Pernambuco, Campus de Garanhuns, de modo que relações muito pertinentes e interessantes são demonstradas entre a riqueza cultural dessa região e o imaginário do Rio, próprio do sertão cujas terras suas águas percorrem. Daí a presença, por exemplo, de um capítulo que trata do santuário de Santa Quitéria em Frexeiras, localidade próxima a Garanhuns. O livro se organiza em onze capítulos que tratam do imaginário e da cultura do Velho Chico sob variados ângulos. A maioria dos capítulos enfoca as diferentes maneiras como o Rio São Francisco é representado em diversas expressões artísticas, como a MPB, a poesia, a arte popular das carrancas, a pintura e a escultura. Outros tratam de manifestações culturais direta ou indiretamente ligadas ao Rio. O primeiro capítulo, intitulado “O rio como símbolo”, estabelece as bases para muito do que será dito nos demais, demonstrando a centralidade da simbologia do rio em diversas culturas do mundo e de outras regiões brasileiras. O segundo capítulo explora o Rio São Francisco como tema privilegiado da Música Popular Brasileira, abrangendo desde a chamada música de raiz, passando pelos temas de escola de samba e por Luiz Gonzaga até a música engajada de Sá e Guarabira, lembrando de forma crítica a profecia de Antonio Conselheiro: “O sertão vai virar mar/ dá no coração/ o medo que algum dia/ o mar também vire sertão”. No terceiro capítulo, o autor analisa especificamente a letra da música “O ciúme”, de Caetano Veloso, cujo tema, comum a outras composições da MPB, é a relação entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, separadas pelo São Francisco, mas unidas pela ponte ali construída na década de 1950. O quarto capítulo traça um interessante paralelo entre o imaginário do Rio São Francisco e do Rio Mississipi (nos Estados Unidos) conforme representado pela música em ambos os contextos. Conforme demonstra o autor, as imagens de ambos os rios são 3

intitulado “Algumas considerações acerca de algumas representações pictóricas do São Francisco”. “rei da juventude” etc) até uma apresentação dos principais castelos existentes em terras brasileiras. operando uma espécie de recriação eventualmente sujeita a polêmica. tendo como palco e pivô o grande rio do povo nordestino. negros geralmente. no caso americano do Mississipi. capaz de reunir num mesmo espaço santas. mostra como as carrancas sofreram um desvio em sua função original de proteger as embarcações “contra perigos concretos e imaginários”. dessa forma. predomina a crítica social retratando os dramas dos ribeirinhos pobres. com estilos variados e diferentes posturas de engajamento em relação ao Rio. traz uma breve abordagem sobre a arte do mamulengo. por fazer parte de uma cultura comum. na poesia brasileira. creio eu. deusas greco-romanas e super-heróis de origem estrangeira. criador de uma colossal estátua do personagem. cuja função parecer ser sobretudo intimidar as crianças. Uma preocupação central do autor é traçar um paralelo entre o imaginário popular e a representação artística do Nego dá água. tema do capítulo oitavo. O sexto capítulo. No sétimo capítulo. o Rio também tem sido representado na arte pictórica. começando por Castro Alves e sua obra A cachoeira de Paulo Afonso e culminando com João Cabral de Melo Neto e o “sertão sem rio”. O autor ressalta as peculiaridades das carrancas como objeto artístico para o qual convergem elementos da herança indígena e negra. evitando que se arrisquem demasiadamente nas águas do Rio. Já no quinto capítulo. o autor apresenta a lenda do Nego d´água como parte do imaginário do povo ribeirinho. pintores estrangeiros e nacionais têm oferecido suas visões do Velho Chico. do castelo e do palácio na cultura brasileira. Já o capítulo décimo brinda o leitor com um alentado estudo da simbologia do rei. bem como as influências próprias do colonizador europeu e cristão. com um oportuno destaque para o “Castelo de João Capão”. não cristã. cujo valor monetário se define pelo talento e renome do mestre escultor. constituindo um rico painel de representação pela pintura. A cultura popular nordestina se mostra aí como uma cultura de resistência 4 . especificando tipologias e resgatando o nome de artistas situados no Agreste Meridional. o retrato dos dramas sociais desde a colonização até a transposição. transformando-se em objetos artesanais destinados ao comércio. Como não podia deixar de ser. Se. “Por uma mitologia das carrancas do Vale do São Francisco”. A partir do século XVII. o capítulo décimo primeiro apresenta o santuário popular de Frexeiras como uma curiosa representação do sincretismo religioso e cultural brasileiro. Fechando o volume.construídas de maneira bastante diferente. substitui os traços populares por traços inspirados na simetria da arte clássica. O capítulo nono. como um complemento bastante interessante dessa mostra da cultura nordestina que é o livro de Jayro Luna. predominam as imagens poéticas inspiradas numa cultura medieval transportada para o sertão nordestino. ponto turístico da cidade de Garanhuns em Pernambuco. mas incluídas na obra. no caso do São Francisco. Sobressai. que no caso do artista Ledo-Ivo Gomes de Oliveira. o autor se volta para as imagens do Velho Chico na obra dos poetas brasileiros. O estudo inclui desde o pitoresco uso do termo “rei” para praticamente qualquer atividade desenvolvida pelas pessoas (“rei do samba” “rei do futebol”. Os últimos três capítulos abrangem temáticas não ligadas diretamente ao Velho Chico. acossados pelas constantes cheias do rio e abandonados pelos representantes do poder.

Em suma. notadamente seu campus de Garanhuns. Será uma experiência significativa para quem já conhece e ama essa cultura. com especial destaque para os elementos culturais construídos em torno do Rio São Francisco. por trazer essa obra ao público brasileiro. Está de parabéns a Universidade de Pernambuco. alunos e demais pessoas interessadas na arte popular e na cultura nordestina de modo geral.inclusive contra a dominação religiosa. o livro será de grande utilidade para pesquisadores. além de oferecer a todo o povo brasileiro uma nova e abrangente visão acerca do Rio São Francisco. evidenciando a capacidade do povo de moldar e cultivar seus próprios santos e santuários. a leitura de Imagens do Velho Chico na cultura do Vale do São Francisco proporcionará ao leitor uma rica e profunda imersão na herança cultural do Nordeste. Com certeza. Para quem não a conhece. 5 . sem dúvida será uma descoberta apaixonante.

na região do baixo São Francisco. que o projeto incluiu uma parte de estudos acerca do Agreste Meridional. com apoio do CNPq. Acresce ainda. tendo em vista. próxima também do litoral (Zona da Mata). arte popular) procurando nas diversas manifestações levantar aspectos que ajudem a montar um painel interpretativo do significado do Rio São Francisco na cultura da região. tendo em vista a proximidade da implantação do projeto de transposição do Rio São Francisco. O projeto visava pesquisar as imagens na cultura do Vale do Rio São Francisco. com destaque na micro-região para a cidade de Garanhuns. Embora Garanhuns esteja situada no Agreste. Paraíba. que receberá pelo projeto de transposição uma adutora para regularização do fornecimento de água à região. Completou-se o projeto com a formação de um acervo bibliográfico. a construção do imaginário acerca do arquétipo que o Rio São Francisco preenche na região do Polígono das Secas. pareceu-nos pertinente fazer estudos comparativos e de influências entre as duas regiões. distante fisicamente 223 km do rio São Francisco (município de Paulo Afonso). Ainda. mas também no âmbito cultural.Introdução Este livro é resultado de um projeto de pesquisa realizado na UPE/FACETEG durante o período 2007-2009. A obra de transposição do leito do Rio São Francisco implica em profundas alterações nessa situação em todo o interior do 6 . todos esses aspectos de localização geográfica. possivelmente interferindo na paisagem sertaneja semiárida do Ceará. mitos e lendas. a do Vale do São Francisco e a do Agreste Meridional. tendo como subtema as modificações que o projeto de transposição do rio São Francisco potencialmente poderá causar nessa mesma cultura. Pernambuco e Rio Grande do Norte. isto é. pois. abordando a produção literária (prosa e poesia) bem como as manifestações de literatura popular (cordel. contos. buscamos observar as primeiras e possíveis alterações nesse significado em função de uma nova dimensão regional do vale do Rio São Francisco. contígua do sertão. a dimensão cultural e social que envolve a bacia do Rio São Francisco tem aspectos de influência não apenas climática e de geografia física sobre a região. iconográfico e artístico da cultura da região do Vale do São Francisco. tendo em vista que essa micro-região está próxima da bacia do São Francisco.

a previsão de que esse imaginário tende a modificações estruturais significativas de acordo com os resultados da transposição do leito do rio..... nosso trabalho já aponta para uma atitude de ponta na abrangência que a UPE/Faceteg se coloca nas questões não apenas de sua microrregião....... fazendo com que a distinção típica entre as micro-regiões do estado possam mesmo ser revistas...... à música popular brasileira.... numa interrelação dessa microrregião com fatores externos que possam alterar e modificar de modo decisivo seu caráter microrregional...... Jayro Luna 7 ......... mas também àquelas que a esse imaginário se dirigem........ Prof. .. à tradição regional do vale de um ângulo que ainda não encontramos em outras publicações... Neste livro acreditamos que abordamos sob um novo aspecto a questão da cultura do Vale do São Francisco....... E........... analisando tópicos referente às artes plásticas........ Assim.. Nossa pesquisa justificou-se na medida mesma em que tem por princípio um estudo das imagens do Rio São Francisco na representação do imaginário não apenas nas manifestações próprias das cidades do vale......... espero que o leitor desse livro possa tomar contato com os resultados de nossa pesquisa.. tendo ainda por horizonte.estado. mas sim..

O rio como símbolo tem forte presença no desenvolvimento cultural dos mais variados povos. não mais para pelo remontar da corrente. a imagem da “travessia” e por conseguinte. é um ritual de purificação na Índia. No Cristianismo. o da fertilidade. alguns rios são sagrados para determinados povos. A descida para o oceano é o ajuntamento das águas.” (GUÉNON: 1989. René Guénon observa essa aspecto. Guénon comenta: “O primeiro caso. banhar-se nas águas do Ganges. o Mississipi. outros de extensão consideravelmente menor tornaramse simbólicos por suas posições geográficas estratégicas fundamentais para a vida de vários povos: o Reno. que é em suma o equivalente da Shakti. o retorno à indiferenciação. No Dicionário de Símbolos de Chevalier e Gheerbrant. ou a travessia de uma margem à outra. e que têm também relação direta com a Shekinah [Presença divina]. pois deve-se então conceber o rio como identificado ao ‘Eixo do Mundo’: trata-se do ‘rio celeste’ que desce para a terra. Acerca da primeira imagem. é designado por nomes tais como Gangâ [Ganges] e Saraswatí. hoje praticamente coberto pela cidade. o remontar do curso das águas. A história do Egito antigo é a história da civilização do rio Nilo. Na Cabala hebraica esse ‘rio da vida’ encontra sua correspondência nos ‘canais’ da árvore sefirótica. destacando duas imagens ligadas ao rio. o Tamisa. o Ganges. da morte e da renovação. a primeira. modesto afluente do Tietê. o retorno à Nascente 8 . o que ele chama de “remontar corrente” e a segunda. A simbologia esotérica e mística desde tempos antigos tem trabalhado a imagem do rio. o Níger. o Tejo. evidentemente. No sentido de que seja um lugar propício à agricultura. é talvez o mais notável sob certos aspectos. ‘remontar corrente’. e que. na tradição hindu. Em relação ao rio. o remontar das águas significa. é um dos símbolos de nossa independência. que são exatamente os nomes de certos aspectos da Shakti. Na Cabala também se fala das águas que ‘correm para o alto’. O curso das águas é a corrente da vida e da morte. e não pensemos apenas nos grandes rios. Coomaraswamy. desde o princípio da civilização o rio se destaca. o Jordão são alguns exemplos. Os rios Tigre e Eufrates na civilização babilônica.O Rio Como Símbolo O rio tem marcado a presença como um dos lugares mais importantes da história do homem. p. Não menos importantes para o desenvolvimento de nações foram o Rio Amarelo. o Tibre.Schuon). expressão do retorno à fonte celeste representado então. à navegação é à pesca. mas pela inversão de direção da própria corrente. 300-301) Assim. comentando o trabalho de Ananda K. o símbolo do rio é apresentando de modo a destacar o simbolismo das margens e da água corrente: “O simbolismo do rio e do fluir de suas águas é. à defesa de território. por exemplo. pelos quais as influências do ‘mundo em cima’ são transmitidas ‘ao mundo de baixo’. Jesus foi batizado por João Batista no Jordão. pode-se considerar: a descida da corrente em direção ao oceano. o rio Nilo do Egito são exemplos marcantes dessa importância do rio na história da civilização. No caso do Brasil. o acesso ao Nirvana. ao mesmo tempo. esta se liga à simbologia da ponte. basta lembrarmos que o rio Ipiranga. o da possibilidade universal e o da fluidez das formas (F.

ao Princípio. esse estado é simbolizado não só pela outra margem. o rio como imagem do caminho da colonização do sertão. a Babilônia e o Tigre e Eufrates. lembremos de Uma Tragédia no Amazonas (1880). Os limites europeus do Império romano incluíam as margens do Reno e do Danúbio. que julgou tratar-se dum mar. Raul Bopp em Cobra Norato. eletrificou praticamente toda a região do sertão. Riacho Doce (1939). A simbologia indígena que destaca o papel do rio no processo mitológico de criação do mundo. até as de Francisco Orellana e Pedro Teixeira. O Rio Amazonas na região Norte. só mais recentemente as possibilidades de irrigação que o rio poderia oferecer foram exploradas. que por sua vez. porém. país de grandes bacias fluviais. a possibilidade do progresso para as cidades com a instalação de indústrias de beneficiamento da produção agro-pecuária. Caminhos para a descoberta dos territórios inexplorados. ainda hoje. o mundo dos sentidos e o estado de não-vinculação. O Egito dos faraós e o Nilo. A margem oposta. notadamente na região de Petrolina e Juazeiro. no caso brasileiro. Desde a expedição de Vicente Pinzón à foz do Amazonas. como entrada dos bandeirantes. Castro Alves narra em verso o drama Cachoeira de Paulo Afonso. Porém. a análise da própria evolução cultural da humanidade. a poesia e a música não têm deixado de tratar do tema do rio. caminhos para a conquista do paraíso selvático. No romance. em cujas margens surgiram algumas das principais cidades da região do polígono das secas. Assim. Aliás. de José Lins do Rego ou ainda. em quase sua totalidade em razão da proximidade navegável com o grande rio. uma com água e outra sem o precioso líquido. Essas são só algumas poucas lembranças imediatas de obras poéticas. O Rio São Francisco marcou boa parte da cultura sertaneja do Nordeste Brasileiro. e é o estado que existe para além do ser e do não-ser. Mar Dulce. é a paramita. A cultura Hindu e o Ganges. a China e o Rio Amarelo. A Literatura brasileira. ensina o Patriarca zen Hueineng. desde as primeiras entradas e bandeiras que definiam grande parte de seu trajeto em função dos rios que penetravam a floresta ainda inexplorada. Rio do processo de colonização do sertão. no caso do Brasil. como também pela água corrente sem espuma. de Lúcio Cardoso. surgiram. Mário de Andrade escreve suas “Enfibraturas do Ipiranga” em Paulicéia Desvairada (1922). Assim. p. antes deles. temos esse processo de busca de compreensão da enorme extensão de terra desconhecida em que se suspeitava a existência de tesouros perdidos.divina. Antes. são apenas alguns dos exemplos que envolvem essa interligação entre o rio e a cultura. o rio da energia elétrica. No caso específico do Brasil. para além do qual ficavam os bárbaros. de Raul Pompéia.” (CHEVALIER & GHEERBRANT. com exemplo do rio Amazonas. de eldorados. a principal via de comunicação entre as cidades. Rio que determinava a existência de duas possibilidades de sertão. que a partir da Chesf e da usina de Paulo Afonso. trazendo mais do que luz. os rios foram muito mais encarados como caminhos do que como fronteiras. em boa medida. 780-781) Por esses aspectos a análise da cultura que se desenvolve ao longo do percurso de um rio é também. como signo representativo de um interior que lança grandes 9 . o papel dos rios no desenvolvimento de nosso país foi de suma importância. cria um mundo mítico e mágico na floresta do Rio Amazonas. dois estados: o mundo fenomenal e o estado incondicionado. Maleita (1935). e a travessia é a de um obstáculo que separa dois domínios.

Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela. Rios são de água pouca. lembremos dum poema de João Cabral de Melo Neto: Os rios Os rios que eu encontro vão seguindo comigo. Mas cautela. Que perdido é remo e vela Só de vê-la. Ó pescador! No Brasil. é o barco. Onde vais pescar com ela. Ó pescador! Deita o lanço com cautela. o barco são os meios utilizados para tal. Inda é tempo. Ó pescador! Pescador da barca bela. cujo passado é memória. da vida que corre do presente para o futuro. 10 . a canoa que levará ao encontro com o mar. como caminho é uma estrada fluídica. na acepção cristã. O rio como estrada. Foge dela. o rio como metáfora da estrada da vida tem como suporte material para sua alegórica navegação o corpo humano.. Ó pescador! Não se enrede a rede nela.. Num sentido alegórico. em que a água sempre está por um fio. Este como morada da alma. foge dela. Que é tão bela. A canoa.quantidades de água ao mar. mas da vida por viver. Que a sereia canta bela. favorece a alegoria de ver o rio como símbolo da vida. Muito sucesso fez o poema “A barca bela” de Almeida Garrett: BARCA BELA Pescador da barca bela. a totalidade. que necessita dum suporte para que o homem possa seguir por seu curso.

uns com nome de santo.Cortados no verão que faz secar todos os rios. Passa uma formosa ponte. Passa a segunda e a terceira Tem um palácio defronte. A ponte. é no seu ápice. De que era que eu tinha tanta.” 11 . o rio — pondo perpétuo.. em que a alegorização do rio como símbolo atinge um de seus mais altos graus na literatura brasileira: “Sou homem de tristes palavras. onde vais pescar esta noitada: Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? Está tão perto que eu não te vejo pescador. Na primeira estrofe de “O Pescador”. “A Terceira Margem do Rio”. os rios brasileiros têm sido muito mais caminho que interrupções ou obstáculos do caminho. tanta culpa? Se o meu pai. da Marília de Dirceu. Na lira XXXVII. contemplar como observador o curso contínuo das águas que vêm de distantes paragens e seguem em direção ao mar ou a rio maior. Rios todos com nome e que abraço como a amigos. cita como um dos locais propícios à pesca o estar sobre a ponte: Pescador Pescador. Conhecido é o conto de Guimarães Rosa. de Tomás Antonio Gonzaga.. o ponto em que o homem pode. para ser sim. ponto de admiração e de contemplação do rio. Uns com nome de gente. outros com nome de bicho. deixa de ser um aspecto corroborador do rio como obstáculo. como signo da união das duas margens. portanto. Seguindo o sentido dessa visão do rio como caminho. Mas todos como a gente que por aqui tenho visto: a gente cuja vida se interrompe quando os rios. muitos só com apelido. sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio. A ponte. Os rios têm afigurado no imaginário brasileiro como caminhos. apenas Ouço a água ponteando no peito da tua canoa. Vinícius de Moraes. lemos a descrição do caminho que se deve fazer para se chegar à casa de Marília : Entra nesta grande terra. como signo de passagem no sentido alegórico. numa das estrofes.

Tal concepção parte da premissa de que o tempo a tudo modifica e que a correnteza do rio é a alegoria do tempo. Rio de Janeiro. Haroldo de. 1994. Nova Aguillar. Seja como for. Galáxias. MORAES. Vinícius de. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Alain. entender na sua fluidez a modificação. 2008. Figueirinhas. nas suas Galáxias. 2005. Mas em Haroldo de Campos. Almeida. Referências Bibliográficas CAMPOS. Martin Claret. São Paulo. Primeiras Histórias. 2005. Tomás Antônio. 2004. Nacional. a evolução. João Cabral de. Marília de Dirceu. Lisboa. São Paulo. 1989. Própria. Guimarães. Ex Libris. CHEVALIER. GARRETT. GONZAGA. de momentos diversos desse rio. São Paulo.Haroldo de Campos. René. Poesia Completa e Prosa. e como tal. São Paulo. Dicionário de Símbolos. 1984. Pensamento. GUÉNON. Nova Aguillar. José Olympio. MELO NETO. a idéia é de uma sincronização de acontecimentos. o rio é um dos símbolos mais fortes da nossa cultura. Jean & GHEERBRANT. 1944. apresenta-nos a idéia dum contínuo aventuroso da linguagem poética como a correnteza do rio. Poesia e Teatro. Sergipe 12 . Os Símbolos da Ciência Sagrada. a passagem do tempo e da vida acaba por ser uma das mais ricas imagens poéticas. Obra Completa. ROSA. Heráclito de Éfeso apresenta o argumento de que não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes.

assim não mais se navega “no”. são várias as imagens. representar a tristeza. Depois. a canção passa a adotar o nome do rio acrescido de outras qualidades: é fauna. as mágoas. O infinito aqui redimensiona a figura do rio como metáfora da vida. como protetor dos animais e da Natureza se mostra aqui como o santo católico mais adequado a emprestar o nome ao rio. uma vez que a Natureza rica em fauna e flora se apresenta como obra santificada. ambos da Banda Moxotó. mas “com” São Francisco. apresenta já no título a comparação entre o rio São Francisco e o Nilo. pode ainda. sinta voltar A criança que está em você” A estrofe cita o local de nascimento do rio. tem como um de seus sucessos a música Nilo Brasileiro. 13 . tal comparação se faz jus mediante o papel integrador que ambos os rios desempenharam. rio São Francisco em Pirapora Soltarei o meu sorriso” Agora. Na segunda estrofe. a de santo. ou as lágrimas numa aplicação de hipérbole. O rio pode ser um símbolo conquanto represente a vida. um dístico que se desenvolve na canção como um refrão: “Navegarei no infinito / Navegarei com São Francisco”. O santo. é assim o lugar de alegria para o eu lírico. A seguir. estas com seu aspecto assustador vão trazer nos adultos a lembrança dos medos que as crianças têm de caras feias. O tema do rio na música é antigo e tem suas metáforas características. deixando de lado o qualificativo de “Nilo”. criada em 1981. Na primeira estrofe da canção lemos: “Nas entranhas da ‘Canastra’ Nasce um grande aventureiro ’Nilo’. As duas primeiras se referem à riqueza natural que envolve a bacia do São Francisco. Guardadas as devidas proporções. A música. tentaremos perceber qual é imagem do Velho Chico que está presente nessas canções. por sua vez. é em referência ao nome dado ao rio. a cidade que está próxima à nascente do rio. faz referência às carrancas. Pirapora. em Minas Gerais. logo colocando o nome “Nilo” como qualificativo do São Francisco. lemos: “São Francisco é fauna. Lailton Araújo e Wanderley Araújo. é santo. ou se. em ritmo nordestino de baião. obra divina. como busca da eternidade. a passagem do tempo ou a inevitabilidade do fluir dos acontecimentos. mas a terceira qualidade. nome milenar Filho do solo brasileiro Margeando o seu leito As carrancas vão assustar Nas lembranças. é flora. por meio desses comentários. na serra da Canastra e também do longo percurso (“um grande aventureiro). flora São Francisco é santo.O Rio São Francisco Como Tema da MPB Neste breve artigo comentaremos acerca de algumas letras de música popular brasileira que colocaram como tema o Rio São Francisco.

Iaty). de fornecer água para irrigação é nesse aspecto um “Nilo”. O dístico final da composição: “No toque da minha cantiga / Irrigarão a caatinga”. a criança que está ainda vida nos compositores e que se expressa por meio do verso e da canção. Pão de Açúcar Petrolândia e Petrolina Ibiraba. e que tem a capacidade de sustentar hidrelétricas. bem à lenda do colonizador acerca do Eldorado. Alagoas e Bahia que ficam às margens do rio. ecoará pela caatinga. e também uma visão “mágica” aos olhos de uma criança. Assim instaura-se o conflito. a escola de samba Mocidade Alegre desfilou sob o samba-enredo “Das Lágrimas de Iaty surge o Rio. Todo o processo aos olhos do menino é um processo mágico. presenciando o processo de desenvolvimento da região com a chegada das hidrelétricas: “As bandeiras da fortuna Velhos sonhos coloridos Esmeraldas. a cantiga em homenagem ao rio que corta o sertão semi-árido. No carnaval paulista de 2006. terminando com o verso que designa a localização regional dessas cidades: “São Romão. entre os indígenas na luta de preservação de sua nação e cultua e a do europeu em busca da imaginada cidade de ouro no meio da mata: “Um grande rio as formou Pelas lágrimas de Iaty Na consagração do sol e da lua Homem branco veio invadir 14 . trazendo energia para toda a região. hidrelétricas O menino viu passar Na pureza da magia Nas cidades que nasciam Em Minas Gerais. Brejo Grande Águas tão nordestinas” Porém. as cores das bandeiras nas festas populares das cidades ribeirinhas se tornam imagens metonímicas da riqueza que vem com as hidrelétricas.Na estrofe seguinte. A penúltima estrofe se compõe de nomes de cidades em Pernambuco.Para os Olhos do Mundo um Símbolo de Integração Nacional: Rio São Francisco". o que são “Águas tão nordestinas”? O rio que corre uma região semiárida. Na primeira estrofe a canção faz referências aos elementos da mitologia indígena (Jaci. do Imaginário Indígena a Saga de Opara. de ser navegável. O título num tom quase barroco já se propõe a utilizar os aspectos lendários e do imaginário da colonização da região do São Francisco. O a que se desdobra e que ecoa pela caatinga como eco da canção do rio. Bahia De Januária à Curuçá” Assim. os compositores falam de lembranças da infância em volta do rio. O eu lírico aqui se apresenta relembrando as imagens que estavam na consciência do eu enquanto criança.

De fato. de modo a criar atmosfera da comunhão entre a religiosidade do Pajé e a do pescador cristão. as carrancas. o sincretismo religioso e a mistura de elementos europeus.. a referência ao ritual do Toré e a citação à Iara. “Vapor encantado. A tribo indígena... O ritual profano do Toré é apresentado como ritual de fé. pede proteção Resgata a "Tribo Brasil" O futuro está em nossas mãos” Ainda nesta estrofe. mistérios no ar Lá vai sertanejo. o epíteto de “Rio da Integração Nacional” se apresenta como resultado histórico do processo de colonização.E despertou das profundezas maus espíritos Jacy a grande noite provocou Ao proteger o paraíso do invasor Visando o Eldorado a procura de riquezas A cobiça prevaleceu Batalhas e guerras sangrentas No coração da mata o índio defendeu o que era seu” Na segunda estrofe. estórias contar Miscigenação. as romarias. conquistando essa identidade que ora se apresenta multifacetada e em mosaico. A estrofe sugere que é preciso resgatar o passado – notadamente os valores do passado pré-colonial – para se unir à “Terra Mãe” como forma de afirmação da identidade da cultura brasileira. Processo semelhante ao que o Romantismo do século XIX adotou para compor a história poética do Brasil em poemas como A Confederação dos Tamoios. pode-se planejar um futuro mais promissor. a festa do Divino. Na estrofe seguinte um caleidoscópio em que imagens se misturam para contar do processo de miscigenação e de colonização da região do vale do São Francisco. E assim.. não mais em sentido explícito de conflito. O sertanejo. Romaria abençoou Vai a carranca todo mal espantar Vem repentista canta esse santuário Um rio de integração nacional Terra Mãe .. fornece com seu sacrifício os elementos de uma sublimação do espaço e do tempo conquistados. De Iara” Agora dois personagens estão aí colocados. Rica cultura o tempo ultrapassou Festa do Divino. de Gonçalves de Magalhães ou nos poemas indígenas de Gonçalves Dias. africanos e indígenas está presente na maioria das festividades folclóricas da região. já extinta. mito indígena das águas: “Na dança do Pajé Um ritual de fé. Tudo é resumido na idéia de uma “Tribo Brasil”. 15 . O Toré Se o pescador o Velho Chico encara Se encanta nas águas. mas em conjunção para compor a cena: o pajé e o pescador..

Numa linguagem bem popular. Jorge de Altinho começa a canção dizendo: “Na margem do São Francisco.Na estrofe final. e as águas seguiram os passos dos guerreiros desaparecidos. mas sim sujeito do segundo verso (“Ela – a beleza – conservou a natureza”). A música tem como tema o cenário da ponte que liga as duas cidades. incorporando ao discurso poético a referência à forte religiosidade do povo nordestino. A seguir. com ambigüidades características. Iaty era o nome de linda índia que chorou a morte do amado em uma guerra. O terceiro verso diz: “Jesus abençoou com sua mão divina”. é o resultado direto no poema dessa busca de identidade que se supõe esteja no imaginário do índio transposto para a cultura do colonizador: “Corre nas veias do sertão "Opará" a salvação Vamos preservar Vem a Morada do Samba. o compositor escreve: “Hoje eu me lembro que nos tempos de criança / Esquisito era a carranca e o apito do trem”. o que se entende que a construção da ponte conseguiu tal relação com a Natureza devido à bênção de Jesus. hoje substituído. fazendo da ponte parte da própria Natureza – o que seria uma interessante construção poética. Segundo lenda indígena. Outra música que trata do tema é “Ciúme” de Caetano Veloso (esta canção analisamos em outro artigo). A elipse aí colocada entre esse dístico e os versos antecedentes é que o compositor quer voltar à Petrolina para ver a beleza da ponte. Navegar” Numa imagem poética de alegorização o rio é transposto para a avenida onde se apresenta a escola de samba. mas depois por Elba Ramalho. Por outro lado. diante do ritmo avassalador do processo de colonização. formando o curso do rio São Francisco. Em que se pese o tom ufanista da letra do samba-enredo. Se entendemos que o pronome “ela” se refere à beleza. as lágrimas de Iaty é que vão compor as águas que correm no Rio São Francisco. se lemos que “ela” não é objeto direto de “natureza”. Geraldo Azevedo e Alceu Valença. então se diz que a construção humana se harmonizou com a Natureza. Como na composição de Laílton e Wanderley Araújo. por ser tão bela. sendo esta uma obra abençoada. como se o desfile da escola fosse a metáfora da correnteza do rio. então se diz que a Natureza incorporou a construção da ponte.. Retomando a idéia do título do samba-enredo.. chorou tanto que suas lágrimas formaram a cachoeira de casca Dantas. apresentando explicitamente suas memórias de criança.” O compositor então se coloca como morador de Petrolina e que costumava visitar a cidade do outro lado do rio. A seguir se repete duas vezes os versos: “Pra não morrer de saudade. pelo processo de urbanização e de desmatamento. A seguir lemos os versos: “Do outro lado do rio tem uma cidade / que em minha mocidade eu visitava todo dia. / vou voltar pra Petrolina”. teve como um de seus primeiros sucessos “Petrolina Juazeiro”. nasceu a beleza / E a natureza ela conservou”. composição gravada pelo Trio Nordestino primeiramente. a carranca incutia medo na 16 . Aqui a ponte se apresenta como o elo de ligação entre os dois lugares que fizeram parte das lembranças da infância do compositor. a referência ao nome indígena do rio (“Opará”). a composição apresenta os elementos centrais da discussão acerca da preservação cultural. notadamente indígena. Jorge de Altinho. compositor popular.

Na sua simplicidade de compositor popular. grande e barulhento. compôs sob o tema a música Barcarola do São Francisco. confere um sentido rítmico ao movimento da ponte e do trem. Jorge de Altinho cria uma atmosfera de ingenuidade e de encantamento diante da ponte que liga as duas cidades. notadamente de um rio ou corrente de água e ter um tom sentimental romântico. A barcarola tem como aspecto definidor o de tratar do tema da água. gravou também a música de Jorge de Altinho. a de Geraldo Azevedo. o menino via beleza na engenhosidade da ponte pênsil se levantar. causava na criança esse estranhamento. mas aqui é o compositor que se transfigura liricamente na imaginação duma criança que tenha vivido entre as duas cidades). mas pode também sugerir uma graduação. Se primeiro “esquisito” se refere à carranca como feio. ao estranho. em grandiosidade para que o barco à vapor passasse. Jorge de Altinho escreve: “Mas achava lindo quando a ponte levantava / E o vapor passava num gostoso vai e vem”. sugere que a ponte criou essa união entre as duas cidades e que o menino – recuperado pelas memórias do compositor – se eterniza na visão que o compositor tem ao rever a ponte. também pode significar amar. se refere ao exótico. como se tal ação significasse a harmonia entre o barco e a ponte. Geraldo Azevedo. Opondo-se ao estranhamento do apito do trem e á feiúra da carranca. No caso. demonstrando como a engenhosidade humana pode se harmonizar com a beleza da Natureza. o compositor vai criando a metáfora rítmica do barco a navegar sob águas calmas: É a luz do sol que encandeia Sereia de além mar Clara como o clarão do dia Mareja o meu olhar Olho d'água. criando um aspecto metalingüístico com a música. que como já dissemos. mas em Altinho. A ponte enfim faz esse elo de união entre os dois lugares que compõem as lembranças do compositor (em que se pese o fato de que biograficamente Jorge de Altinho não viveu em Petrolina ou Juazeiro. município próximo de Caruaru. beira de rio Vento. Nos dois versos seguintes. Já o apito do trem era para a criança um outro motivo ligado ao adjetivo esquisito.criança pelo seu aspecto assustador. o de amar exageradamente. como que simbolizando a volta depois da ida. bucólico ou infantil. uma vez que gostar. A expressão “gostoso vai e vem”. Os verbos gostar e adorar tem aqui uma função sinonímica. mas adorar tem além do sentido de prestar culto. vela a bailar Barcarola de São Francisco Me leve para o mar Era um domingo de lua Quando deixei Jatobá Era quem sabe a esperança Indo à outro lugar Barcarola de São Francisco 17 . O título da canção é “Petrolina Juazeiro” e no verso final temos a ordem Juazeiro – Petrolina. no caso do apito do trem. pois o trem que vinha apitando. num ritmo híbrido com versos octassílabos e hexassílabos. O dístico final: “Todas as duas eu acho uma coisa linda / Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina”. região do Agreste Pernambucano.

ponto de partida. o primeiro como início. como momento inicial dessa busca esperançosa se contrapõe ao presente. como musa perfeita distante da realidade... menestrel reciclado do sertão e do mundo moderno. entre a esperança e o alcançado: “Era quem sabe a esperança / Indo a outro lugar”. a canção faz do rio São Francisco o espaço mágico dessa busca. como destino. em sonho um beija-flor Rasgando tardes vou buscar Em outro céu Noite longe que ficou em mim Noite longe que ficou em mim Quero lembrar Era um domingo. Os dois lugares. mítico e bucólico do cenário das águas do São Francisco. O domingo de luar de prata. o brilho do sol ilumina o corpo da sereia de além mar. caminho. mapa ou tesouro De prata ou luar Eu. como passado. o segundo. sem tesouro de prata ou de luar. O conflito entre o querer e a realidade. apresenta sua barcarola recuperando o sentido lírico. esta se mostra inatingível. solitário no mar. em “Serra do Navio”.Velejo agora no mar Sem leme. a junção da luz do sol com a silhueta da sereia encanta o eu lírico que se lança a navegar em busca de alcançar a sereia. a sua oposição como espaço de águas com o sertão seco. No início da canção. No presente o eu lírico agora tem a esperança de voltar a ver o brilho do sol no horizonte sobre o corpo da sereia. Geraldo Azevedo. Porém. Metáfora da busca da felicidade. realização. “Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Se eu fosse um peixe Ao contrário do rio Nadava contra as águas E nesse desafio Saía lá do mar pro Riacho do Navio Saía lá do mar pro 18 . nos apresenta um outro cenário acerca do rio São Francisco. colocado na “Noite longe que ficou em mim”. rio e mar. Por sua vez. na busca da sereia. Luiz Gonzaga. ponte de chegada.

Rios de caráter temporário. Metamorfoseado em peixe. aqui. Assim. daí sua necessidade de voltar e de esquecer o lugar em que fora forçado a ir: “Sem rádio e sem notícia das terras civilizada”. O lugar agradável. Porém. a vida de vaqueiro enfim.Riacho do Navio Pra ver o meu brejinho Fazer umas caçada Ver as "pegás" de boi Andar nas vaquejada Dormir ao som do chocalho E acordar com a passarada Sem rádio e nem notícia Das terra civilizada Sem rádio e nem notícia Riacho do Navio Corre pro Pajeú O rio Pajeú vai despejar No São Francisco O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar O rio São Francisco Vai bater no mei' do mar Riacho do Navio. Bacia hidrográfica da região do semi-árido. como o flagelado da seca deixar sua terra. sem reconhecimento. após o refrão. que vive nas águas. as vaquejadas. o caminho inverso. ao passo que a cidade. o do Navio e o Pajeú passam meses sem água. o riacho do Navio é um dos principais afluentes do rio Pajeú. arrisca-se ao fazer o caminho inverso das águas. Voltar para o sertão para ver sua terra natal. Luiz Gonzaga. é inóspito pela condição social em que o sertanejo se encontra. Nesse outro lugar o sertanejo se sente deslocado. tanto é natural ás águas irem para o mar. essa agitação típica da cidade. que por sua vez é afluente do São Francisco. como forma de recuperar sua identidade. Luiz Gonzaga propõe a volta. reviver as caçadas. metáfora da condição do imigrante do polígono das secas que procura as capitais do litoral ou do sudeste como forma de escapar da condição de flagelado da seca. o sertão. De fato. Tando lá não sinto frio”. da qual pretende fugir. bem ritmado no baião. Porém a relação entre Lócus amenus e lócus horrendus aqui é ambígua. As águas. apresenta a estrofe em que demonstra o desejo do sertanejo longe de sua terra de voltar ao seu torrão: “Se eu fosse um peixe / ao contrário do rio / nadava contra as águas”. se mostrando insatisfeito com a situação de degredo forçado. Riacho do Navio. O eu lírico busca a si mesmo esquecendo o mundo urbano – Fugere Urbem reinventado nas circunstâncias do sertão. Essa saudade do sertanejo se opõe à condição da vida na cidade grande. de fato é inóspito pelas condições climáticas. A música tem como refrão uma descrição do caminho das águas do Riacho do Navio até a foz do São Francisco. A terra civilizada é o espaço da comunicação – o rádio aqui representa essa comunicação. que só sobrevive nelas. 19 .

A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca .(Carlos Pita) 4. com destaque para o cenário do Rio São Francisco.Carlos Pita) 7. o príncipe. a rainha. A rainha do Trançar e o violeiro dos Esqueces . ou seja. com violas na afinação característica. enfim.Carlos Pita) 12. A princesa do Agreste e o cantador do elo ao mar . de fato ambos os rios correm no sentido do Nordeste para o Sudoeste.O caminho do rio Pajeú e do riacho do Navio é a metáfora desse desejo do sertanejo.(Carlos Pita) 3. No 20 . se afastam do mar. estavam presentes. é um sertão medieval. a donzela. A primeira canção (“O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor”) é no ritmo do repente. Dércio Marques e Fábio Paes.A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar . daí sua armadura de couro e corda e sua dama ser uma certa “dama dos Rasos de Seca”. o rei.(Carlos Pita) 9. geografia e folclore da região. O arco-íris trovejou .Kapenga) 8. costumes. 3 e 4 formam uma trilogia centrada na imagem das novelas de cavalaria: "Cavaleiro enluarado. acerca das guerras de cavalaria. Carlos Pita em 1979 lançou um disco constituído de músicas que formam uma espécie de narrativa tendo como tema uma transposição do universo das novelas de cavalaria para o sertão. Carlos Pita vai compondo um panorama caleidoscópico de personagens característicos como a princesa.(Carlos Pita) Tendo como pano de fundo as raízes medievais do canto repentista e da literatura de cordel. Princesa sertaneja . ao inverso do São Francisco. flora.(Carlos Pita) 5.(Fernando Lona . O príncipe das Verdejanças e o amor do Verdejar .(Patinhas .Carlos Pita) 11. De onde vens que não se chega? De que terra traz partida Coração sujo de estradas?" (“A história do cavaleiro enluarado com a donzela do Bem Amar”) A terceira canção (“A história do cavaleiro de couro e corda com a dama dos Rasos de Seca”) busca metaforizar o vaqueiro do sertão com a figura do cavaleiro medieval. A história dos quatro reinos desaparecidos e os guerreiros do Mal Viver . A história da princesa das Candeias de amor com o cego do Alumiar . O romance do rei do Ensolarar com a bela das Rendas de Lua .(Patinhas . As canções 2. que entre outros. As faixas que compõem o disco Águas do São Francisco (1979) de Carlos Pita são: 1. A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear .(Fernando Lona . Por essa época Carlos Pita estava envolvido com o grupo de artistas liderados por Elomar. Compõese versos acerca da arte do amor.Gereba) 10.(Fernando Lona . Xangai. o cavaleiro.(Carlos Pita) 6. que ao pegar as águas desses rios dá à elas o sentido esperado de seguir em direção ao mar. em que a letra vai se formando com referências à fauna.(Carlos Pita) 2. O reino das Águas Barrentas e os desafios do amor .

Molhado à garoa. tu podes provar (. Conta as guerras que te atreves. Bahia. como outras que até aqui vimos. mas já se encontra latente na obra de Guimarães Rosa. A letra da composição. cavaleiros e cantadores espalhados pelos confins do sertão. uma monarquia messiânica. princesas.” A seguir.. que de certa forma. presta. Esse rio é um verdadeiro mar. uma homenagem ao cantador Elomar. com fortes elementos do sebastianismo português e que viam na jovem república a antropomorfização de elementos demoníacos e apocalípticos.) Você é o espelho da pura bondade”. Pedro Sampaio canta a navegação no Rio São Francisco: 21 . na poesia épica de Marcus Accioly. tem como argumento as lembranças de criança numa infância em torno do rio: “Lembro das pescarias. tem também suas bases no sincretismo religioso que vai buscar essas figuras na religiosidade medieval vinda com o colonizador português. tem a música “Rio São Francisco”. já no título. talvez desses imaginários que é natural da infância. Fazendo a república jus a essa imagem pela forma violenta com que tratou essas manifestações sertanejas de beatos. defendiam a monarquia. na música de Elomar Figueira de Melo. E farei a luz do Amor Clarear teu coração. compositor natural de Xique-xique.mesmo tom vai a canção seguinte (“A história do cavaleiro sertanejo com a princesa do Clarear”).. A canção “A Princesa do Agreste e o Cantador do Elo ao Mar”. E eu sentado na proa. Em outra composição. te vendo passar.” O Rio São Francisco é personificado por Pedro Sampaio num amigo. transposta para a pregação de beatos como Antônio Conselheiro e José Lourenço. Fundada num imaginário que vê reis. que se qualifica pela bondade e pela pureza: “Sei que és meu amigo. em que o cavaleiro sertanejo é um vaqueiro: “Cavaleiro que passas Que vais pro Sertão Qual o destino que levas? Que queres correndo o chão? Conta os caminhos que segues. Pedro Sampaio. “Assobio do Vapor”. as canções do disco seguem um tom de narrativas de aventuras palacianas. O tema do sertão medieval é constante nas obras teatrais de Ariano Suassuna. Quando meu pai me dizia. em que reis de reinos imaginários dum sertão lendário se aventuram em guerras e conquistas de amores.

O balanço da rede assim se harmoniza com o ritmo das águas do rio. nem retratos na parede”) e o hábito sertanejo de dormir em redes (“Só balanço que embalança / a minha rede”). época em que aumentam as chuvas nas cabeceiras. A dupla de música caipira Gino e Geno criaram a música “As Águas do São Francisco”. faz do rio o caminho que cruza pelo sertão e pela vida para mostrar suas composições. o parceiro Loiola. Uma das maiores enchentes ocorreu em 1979 em que cidades como Barra (BA). Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) sofreram com vários bairros alagados e segundo estimativas. servindo assim como álibi ou desculpa para que ele retorne aos braços de sua amada: As águas do São Francisco estava por cima da ponte Este é o grande motivo que eu não pude atravessar Mas isso eu achei foi bom. de tal maneira que o dormir à rede. O tema parte da cena das enchentes do rio. E como um Dom Quixote ou um cavaleiro menestrel. Gino e Geno criam uma composição em que a enchente do São Francisco não é apresentada como destrutiva. O São Francisco é. ocorrem as enchentes. o rio parece muito calmo. nesse sentido.“Quem ouviu o assobio do vapor Quem vai partir Que arrume as trouxas por favor Vai subir o rio afora Vai chegar em Pirapora Não tem camas nem retratos na parede (do vapor) Só o balanço que embalança A minha rede (de tricô) Vou levando minha viola E as cantigas com o parceiro Loiola” O assobio do vapor serve de motivação inicial para descrever a navegação pelo rio. é parte desse rio alegórico que representa o caminho da vida. sonhar. aumentava o amor da gente E eu pedindo ao São Pedro. como menestrel. mas apenas como força que impede o personagem de atravessar a ponte. as águas do São Francisco me impediram de atravessar a ponte e eu voltei pra casa do meu amor. a presentificação do rio da vida. que aumentasse a enchente: São Pedro eu estou gostando As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente Falado: " É meus amigos. O compositor. fui obrigado a voltar Pra casa do meu amor e passei a noite por lá Fiquei a noite inteirinha Ao lado da moreninha esperando as águas baixar Enquanto as águas baixava. tem como ajudante ou escudeiro. Pedro Sampaio. cujo nome tem. cerca de 450 mil pessoas sofreram com as enchentes neste ano. e o aspecto rústico da embarcação (“não tem camas. assim como o do compositor. eu tomava café quente Muitos beijos e abraços. Com velocidade de águas raramente superior a 7 quilômetros por hora. ainda por cima. e isto eu achei bom demais" 22 . Destacando o porto fluvial de Pirapora (MG). mas em outubro. origens medievais.

constituído de uma locução verbal. a letra da canção fala desse espaço lírico em que o amor é o motivo principal. com alguns “erros” de concordância. sendo a enchente o artifício que permite ao eu lírico a continuação de seu encontro amoroso. diz que tudo vai mudar”. não é outro o motivo que faz Carlos Pita criar composições de caráter romanesco medieval. A expressão “dia menos dia” coloca o acontecimento como um tempo indefinido. A profecia que tem cunho apocalíptico e sebastianista pode ser encontrada no discurso de cantadores. pôr. segundo a Chesf. Os três verbos com sujeito oculto (tirar. suas origens são mais antigas. de um rio tranqüilo. tal se deve ao imaginário que envolve a cultura do vale do São Francisco. A profecia é atribuída ao beato Antônio Conselheiro. O verso seguinte contextualiza a questão da construção de represas: “Tira gente. represas e barcos. surge a referência à profecia popular de que o sertão vai virar mar. O objetivo principal da represa. bucólico cercado pelo sertão quente e inóspito. e os verbos finais mudam o ritmo dos pés (vai \ mu \ dar). O refrão da música em versos de redondilha menor e maior faz um jogo de palavras com a profecia do beato: “O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão” 23 . Este pé. De fato. Poderíamos falar em alienação. se os compositores fazem da enchente do São Francisco motivo para um affair amoroso ao contrário de citar a destruição que a força das águas provoca. O “lá pra cima da Bahia” se refere ao mapa da Bahia. de tal forma que o pedido e o agradecimento a São Pedro: “São Pedro eu estou gostando / As águas pode ir aumentando e meu amor fica contente”. O próprio nome de “O Velho Chico” reforça essa imagem. sua porção norte. música que é quase um hino em questão ambiental. de modo que em Paulo Afonso e em Xingo a água pudesse chegar com uma vazão constante. de águas constantes. era de regularizar a vazão do rio compreendido o trecho entre aquela região e o delta. de um rio “aparentemente” cercado pela civilização de cidades. vinda desde o processo de colonização do sertão. Lembremos que a grande enchente de 1979 pode ser controlada no referido trecho. porém. A seguir. a fronteira com Pernambuco que é constituída pelo próprio rio São Francisco. O tema da música é acerca da construção da barragem de Sobradinho. O rio São Francisco está envolto assim num imaginário que faz do ritmo mais constante de suas águas. / Diz que dia menos dia vai subir bem devagar”). as águas calmas de não mais que 7 quilômetros por hora em seu maior trecho. “Sobradinho” de Sá e Guarabira talvez seja das mais conhecidas músicas acerca da questão das represas do Vale do São Francisco. coloca a ação num futuro improvável.Numa linguagem bem popular. a 40 km de Juazeiro (BA) e que deslocou pequenas cidades da região para fora do alcance do lago a ser formado. a imagem de um cenário pastoril. mas não nos parece esse o tópico principal. pontes. assim como períodos de seca. dizer) nos pés de três sílabas dão um ritmo de grande velocidade à ação humana. A canção se inicia com um verso que pode ser considerado um lema da defesa do meio ambiente: “O homem chega e já desfaz a natureza”. Os dois versos seguintes vão agora contextualizar a região da construção da represa (“O São Francisco lá pra cima da Bahia. beatos e poetas anteriores e posteriores a Antônio Conselheiro. porém. latente e próximo. põe represa.

o sentido da canção é poeticamente ambíguo. do aumento das águas. Assim. A seguir uma quadra em versos dodecassílabos. messiânico. O homem é o sujeito da ação na canção de Sá e Guarabira. relendo a letra de Sá e Guarabira. Este medo do progresso é que dá força ao discurso. da identidade. A desordem na vida local causada pelo progresso. tranqüilidade). mas é também. “Sento Sé” se refere ao lugar em que a Sé (igreja principal de uma diocese) se localiza. “Pilão Arcado”. a construção da barragem deu origem a uma nova cidade. no sentido figurado é também descanso. Junto à orla da represa surgiu o bairro conhecido como “Chico Periquito” com bares e restaurantes à beira do lago. As incertezas causadas pela modificação do cotidiano. desaparecida pelo aumento das águas: “Adeus Remanso. pela destruição do antigo em face do novo. sob esses aspectos. o aumento das águas vem provocar a destruição da tranqüilidade local. início de uma vida nova e feliz. e aí ela tem um sentido apocalíptico religioso. De fato.A inversão da profecia (“o medo que algum dia / o mar também vire sertão”) tem um sentido apocalíptico. com autonomia de município em 1989. E por sua vez. na profecia se diz que o mar virará sertão quando o sertão virar mar. A poluição das águas e a conseqüente destruição da Natureza pelo homem mesmo e não por uma ação castigadora de Deus. com formato de uma curva em arco. Sento Sé Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir” O nome das cidades tem um significado maior do que simplesmente toponímico: “Remanso” (se originalmente o significado é uma enseada tranqüila. esta por sua vez. permanente. o que nos dá uma idéia de localização duradoura. Convém ressaltar que os municípios citados foram reconstruídos em local mais seguro e que com o tempo obtiveram progresso econômico e social com a barragem de Sobradinho. O verso “Debaixo d’água lá se vai a vida inteira” faz referência à perda das raízes. antes originalmente era apenas a vila dos trabalhadores empregados na construção da barragem. o de Sobradinho. De fato o lago artificial ali formado é o segundo maior lago artificial do mundo. percebemos que a voz da letra da canção é a do povo local às vésperas da construção da represa. em Sá e Guarabira o sentido é ecológico. esclarece o motivo da destruição das cidades locais. cita o nome das localidades atingidas pela subidas águas e compõe a cena do gaiola – tradicional embarcação do rio – navegado por onde antes era uma cachoeira. conforme se lê no primeiro verso. Porém. “Casa Nova” nos dá a idéia de casa recentemente construída. no contexto da construção da represa e dos benefícios que ela trouxe. de tal forma que ao mesmo tempo é crítica mordaz e bem fundada à destruição da Natureza pelo homem. Assim. Os dois versos seguintes: “Vai ter barragem no salto do Sobradinho \ E o povo vai se embora com medo de se afogar”. Conta a tradição local que a denominação está ligada a uma lenda de pescadores que encontraram um pilão. da tradição. o medo diante do novo. Casa Nova. do cumprimento da profecia do beato: a construção da barragem de Sobradinho. Desse modo. 24 . o dia do juízo final. a quebra do que parecia imóvel. permanente. em uma das margens do rio São Francisco. e passaram a utilizá-lo para pilar o sal que salgava o peixe.

três versos octassílabos e um quarto heptassílabo: “O Velho Chico tá morrendo Já nem tem mais navegação E ainda tem gente querendo Essa tal transposição O Velho Chico tá sumindo Ta suplicando salvação Mas em seu leito tá pedindo A revitalização. De fato. 25 . na bacia do mesmo nome. inclusive pelo episódio de uma greve de fome contra o projeto. Sílvio Brito escreveu ao frei: “Querido irmão. criando dois grandes canais que serviriam água para o sertão de Pernambuco e Ceará. daí na canção Sílvio Brito diz: “Mas é preciso mais boa vontade Mais ação e decisão Para fazer de verdade A revitalização Pois então vamos reciclar o lixo 1 Silvio Brito em: http://www. Conte com este amigo no que puder te servir neste bom combate. até a bacia dos rios Piranhas e Jaguaribe. tendo sua vazão prejudicada ano a ano. O que se entende por revitalização é o controle das causas do assoreamento e a devida política de controle dos agentes poluidores locais. “O Velho Chico” é literalmente uma canção engajada.html.com.umavidapelavida.br/musica_silvio. E apresenta como solução para o problema a revitalização do rio. O frei Luiz Cappio se notabilizou pela campanha contra a transposição. e o outro indo até a Paraíba. os agrotóxicos e o desmatamento da vegetação ciliada.” 1 A canção de Sílvio Brito tem como refrão os versos distribuídos em duas quadras de rimas cruzadas ABAB e tendo em cada quadra.Já a canção de Sílvio Brito. sejam – principalmente – as indústrias. Tais ações envolvem políticas concretas.” Sílvio Brito faz referência ao processo de assoreamento do rio e à poluição. O engajamento é na defesa que comunidades locais do São Francisco fizeram contra o projeto federal de transposição das águas do rio. quando vi o rio São Francisco e fiquei muito triste ao saber que aquele rio que fornece vida para todos os seres que vivem em suas margens poderia vir a morrer. esta musica foi composta logo após uma viagem minha ao nordeste no mês de novembro de 2004. tem se mostrado que o curso do rio São Francisco vem sofrendo continuamente com isso. Esta é minha contribuição ao movimento e eu a estou colocando à disposição para ser utilizada na sua campanha ‘Uma vida pela vida’. sejam as próprias populações ribeirinhas.

Chega de poluição Vamos transformar o Chico No oásis do sertão”. Outro aspecto da canção de Sílvio Brito é o jogo que faz entre o nome do rio e do santo: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza.” Assim, o compositor mineiro, natural de Três Pontas, famoso por sucessos como “Farofa-fa”, “Pare o Mundo que eu quero descer” e “Tá todo mundo louco”, apresenta também um argumento messiânico, da ação divina em defesa da Natureza. Mas tal argumento é apenas simplório e se perde no contexto geral da canção de repúdio ao projeto de transposição, de tal modo que a expressão “Tem gente” no verso “E ainda tem gente querendo”, logo seguido pelo verso “Essa tal transposição”, em que a expressão “Essa tal” tem um sentido pejorativo, na linguagem popular, dá um sentido de que o projeto está fundamento em razões equivocadas e de desconhecimento do verdadeiro problema do rio. Porém, é de se ressaltar que de fato existe a necessidade da revitalização, mas que ambos os projetos, o de revitalização e o de transposição não são excludentes, sendo no máximo dependentes, ou seja, a transposição teria como pré-requisito para seu sucesso a revitalização da bacia do rio. Morares Moreira compôs a música São Francisco, num ritmo agalopado, com predomínio de versos em redondilha maior. A canção sintetiza aspectos culturais do Vale do São Francisco. Partindo de uma comparação entre o compositor e o rio, Moraes Moreira começa a apresentar as características comuns a ambos, num processo de personificação do rio: “O meu caminho eu escolho Tirando o cisco do olho Enxergo longe, me arrisco Sou como o Rio São Francisco Faço no tempo viagens No espaço da noite e do dia, Indo, fluindo às margens De Pernambuco e Bahia Andando por todos os lados Sincretizando os Estados Arrematando as costuras Na integração das culturas” Ora fazendo quadras com rimas emparelhadas, ora com rimas cruzadas, vai tornando o ritmo alucinante das imagens apresentadas. O ofício de compositor popular é 26

assim emparelhado com o caminho do rio: “Andando por todos os lados / Sincretizando os Estados”. Percebamos o verbo aí colocado: Sincretizar, ou seja, integrar elementos diferentes numa síntese. Nas duas quadras seguintes, Moraes Moreira diz que está em busca do que é mais novo, ou seja, do progresso e se apresenta como ponte que unifica, comparando o papel da ponte que liga Petrolina a Juazeiro: “Assim como o rio promovo O abraço que a gente precisa Em busca do que é mais novo Sim ultrapasso a divisa Fazendo a ponte, sem medo Antonio sou brasileiro João, Geraldo Azevedo Petrolina e Juazeiro” Cita nomes populares como Antonio e João, e presta homenagem a Geraldo Azevedo. O verso “Sim, ultrapasso a divisa” é mais do que o sentido de ultrapassar fronteiras regionais ou estaduais, mas no sentido da avant-garde, do ir além do comum, do previsível. Neste sentido, se pensamos não na obra de Moraes Moreira, mas no rio com que se identifica, temos que o rio São Francisco sempre foi palco de discussões acerca do progresso, tido como rio da integração nacional. Na quadra seguinte, Moraes Moreira nos fala da imensidão do Brasil, e que o trabalho de compositor é tão grande quanto o percurso do rio: “Por essas águas tão boas Sou navegante feliz Sergipes e Alagoas Minas, imensos brasis” Sergipe e Alagoas são os pequenos estados que estão na foz do São Francisco. O fato de colocar o nome dos estados no plural é uma forma de torná-los substantivos comuns, fazendo referência que na bacia do Vale do São Francisco, que se inicia em Minas Gerais, cabem várias vezes o tamanho desses dois estados. O verso “sou navegante feliz”, tem um sentido metafórico, é mais do que a referência às navegações no rio, mas sim no sentido de que a história da sua carreira de compositor é uma navegação. A parte final da canção compreende os seguintes versos: “Quem pode parar a planície, Os rios e os oceanos? Ah meu amor, acredite Também assim sem limite É o sonho dos seres humanos Quem pode parar o planeta? E o movimento que há? 27

Ah meu amor, com certeza As forças da natureza O vento quem pode parar? Lavam na beira do rio As lavadeiras de Deus A alma dos pecadores E o coração dos ateus” Aqui duas quintilhas precedem a última quadra. A primeira quintilha começa com uma indagação: “Quem pode parar a planície / Os rios e os oceanos?” Argumentando assim que a força da natureza, especialmente a que se expressa no rio São Francisco é ainda mais forte do que a engenhosidade do homem, e que é o sonho humano dominar o rio, um sonho “sem limite”. Referência indireta às represas, barragens e o projeto de transposição. Por outro lado, na quadra que se segue, o compositor responde que a Natureza pode parar a rotação do planeta, superando assim a força humana. Por fim, mais um questionamento acerca da força da Natureza: “O vento quem pode parar?” A resposta implícita é de que o homem não pode. A quadra final, fecha a canção com a imagem das tradicionais lavadeiras de roupa às margens do rio. Porém, num sentido figurado, a lavagem da roupa suja é também a lavagem dos pecados e da arrogância do homem para com a Natureza. Daí lavar a “alma dos pescadores e o coração dos ateus”. Buscamos apresentar aqui algumas composições populares que tratam do tema do rio São Francisco, é possível que tenhamos esquecidos algumas até mais significativas que estas, mas acreditamos que conseguimos aqui apresentar o panorama da imagem do rio São Francisco na música popular brasileira.

28

sendo as duas primeiras e as duas últimas transcritas como quartetos. em Pernambuco. o meu ciúme O ciúme lançou sua flecha preta E se viu ferido justo na garganta Que nem alegre. em 2007. com seu violão. em companhia do amigo Benedito Bezerra. eu Juazeiro nem te lembras desta tarde Petrolina nem chegaste a perceber Mais na voz que canta tudo ainda arde Tudo é perda. próximo à ponte que une a cidade baiana à Petrolina. Buscamos encontrar a forma de transcrição da letra que mais correspondesse às necessidades poéticas de uma composição versificada. Neste breve texto pretendo fazer uma análise da letra desta canção. A Forma e o Ciúme A letra da canção foi por nós consultada em diferentes sites. 1.1. Pernambuco.com. nem poeta Entre Petrolina e Juazeiro canta Velho Chico vens de Minas De onde o oculto do mistério se escondeu Sei que o levas todo em ti.caetanoveloso.° Congresso Internacional da Abralic. ocorrido na UNIVASF. nem triste. sem dúvida. Certa feita num bar à beira do Rio São Francisco. assim como também falamos um pouco acerca disso no 11. tudo quer buscar. inclusive os sites que se apresentam como oficiais de Caetano Veloso (www. a que melhor representa essa nossa necessidade: O Ciúme Dorme o sol a flor do Chico meio dia Tudo esbarra embriagado de seu lume Dorme ponte. nossa análise já foi parcialmente apresentada no congresso regional da SBPC. em 2008. menos dramática que a dos dois tropicalistas. não me ensinas E eu sou só.caetanoveloso. “O Ciúme” de Caetano Veloso. e a estrofe central com 5 versos. fazer uma interpretação também bem intimista da música. Bahia Só vigia um ponto negro. cadê Tanta gente canta.br).com. Rio. eu só. na USP. tanta gente cala 29 . Canção de Caetano Veloso Uma das canções mais bonitas que fazem referência ao Rio São Francisco é.br\site) e o site (www. tomávamos uma cerveja e ouvimos o cantor que ali se apresentava. do outro lado do rio.Acerca de “O Ciúme”. Assisti a um vídeo no Youtube com Gal Costa e o próprio compositor baiano em belíssimo dueto interpretando a música. do lado de Juazeiro da Bahia. Já ouvi essa música na voz de Geraldo Azevedo que dá uma interpretação um pouco mais ligeira e ao mesmo tempo. Cremos que aquela que divide a canção em 5 estrofes.

é também um símbolo da igualdade e da identificação (1=1)./ Rio. monstruosa sombra do ciúme. (11) O número 11 é do tipo palindrômico./ nem/ tris/ te. as duas cidades./ eu 30 . Assim. o número 11 é formado pela repetição do algarismo primeiro. em termos numéricos. e acentos predominantes na 3./ Ba/ hi/a (11) Só/ vi/ gia / um/ pon/ to/ ne/ gro. existe. mas a engenhosidade de sua metrificação híbrida e o fato de estar colocada ao centro do poema dá um sentido simbólico à forma: Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas De on/ de o/ o/ cul/ to/ do/ mis/ té/ rio/ se es/ con/ deu Sei/ que/ o /le/ vas/ to/ do em/ ti. de espiritualidade e de intuição. indo e vindo. em constante processo de autoidentificação e espelhamento. E ainda. sobre toda sala Paira./ so/ bre/ to/ da/ sa/la (11) Pai/ ra. esse processo de divisão assume o caráter psico-simbólico de que a separação entre o eu e o outro é ao mesmo tempo um elo para a auto-identificação./ nem/ po/ e/ta (11) En /tre/ Pe/ tro/ li/ na e/ Ju / a/ zei/ ro/ can/ta (11) Ju/ a/ zei/ ro/ nem/ te/ lem/bras/ des/ta/ tar/de (11) Pe/ tro/ li/ na/ nem/ che/gas/te a/ per/ce/ber (11) Mais/ na/ voz/ que/ can/ ta/ tu/ do/ ain/ da / ar/de (11) Tu/do é/ per/da./ ca/dê (11) Tan/ ta /gen/ te/ can/ ta. quanto para o reconhecimento do outro.ª.Tantas almas esticadas no curtume Sobre toda a estrada. pode ser lido de trás para frente que não modifica o seu valor./ não/ me/ en/ si/nas E/ eu/ sou/ só. 7ª e 11ª sílabas: Dor/ me o/ sol/ a/ flor/ do/ Chi/ co/ mei/ o/ di/a (11) Tu/ do es/ bar/ ra em/ bri/ a/ ga/ do/ de/ seu/ lu/me (11) Dor /me/ pon/ te./ tu/do/ quer/ bus/car. o/ meu/ ci/ ú/me (11) O/ ci / ú/ me/ lan/ çou/ su/ a/ fle/ cha/ pre/ta (E) (11) E/ se/ viu/ fe/ ri/ do/ jus/ to/ na/ gar/ gan/ta (11) Que/ nem/ a/ le/ gre. isto é. não permite uma escansão tão simétrica e regular quanto a que propomos para as demais./ tan/ ta/ gen/ te/ ca/la (11) Tan/ tas/ al/ mas/ es/ ti/ ca/ das/ no/ cur/ tu/me (11) So/ bre/ to/ da a es/ tra/ da. na numerologia é um número de avatar. com rimas cruzadas./ mons/ tru/ o/ sa/ som/ bra/ do/ ci/ ú/me./ eu/ só. Podemos contar os quartetos como formados por endecassílabos. não sendo divisível além de por ele mesmo e pelo número 1. porém. Petrolina e Juazeiro estão. A ponte funciona nos dois sentidos. assim como o palindrômico número 11. Como./ Per/ nam/ bu/ co. A estrofe central do poema. o aspecto de que o número 11 é primo. uma diante da outra.

alexandrino. eu/ só. Freud acerca da projeção do ciúme escreve: “O ciúme da segunda camada. Jung. Desde a antiguidade mais remota.ª. por conseguinte. Qualquer pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá.ª sílaba. 31 . um dos quais. especialmente aquele seu grau exigido pelo matrimônio. O terceiro verso é um alexandrino com elisão na 7. É preciso reconhecer no outro aquilo que reflete de nós mesmos e saber trabalhar isso. 8ª e 12ª sílabas. a absolvição de sua consciência . O ciúme é o processo inverso da autoidentificação na relação de união. sonhos.A estrofe pode ser escandida em dois versos heptássilabos e dois dodecassílabos. só se mantém em face de tentações contínuas. deriva-se. em Freud. temos uma distinção de três tipos de ciúmes: o competitivo ou normal. Sílabas pares. ou seja exatamente ao meio do poema. 3. é preciso que o segundo hemistíquio modifique sua característica de acentuação. a união masculino-feminino da relação amorosa. eu” Porém. o número 11. aquilo que temos medo em reconhecer que existe em nós mesmos. para que tal união seja prazerosa a ambos. implica na quebra da solidão também. para o homem tornou-se evidente a garantia da paternidade. o que implica em dizer.ª sílaba é a última do primeiro hemistíquio do alexandrino e a primeira do hemistíquio seguinte. na paranóia e no homossexualismo. no texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. é preciso que se modifique algumas características da individualidade. Se os juntamos. o ciúme projetado. levam a cabo o que nos hemistíquios se apresenta como possibilidade. A origem desse sentimento parece ter causas diferentes. a analogia com a ponte que une (/do–em/). Do-em (doem). Pode obter esse alívio .G. As razões estão na questão do herdeiro. sua pressão tão fortemente que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação. o projetado e o delirante. o elemento causador do ciúme projetado. evitando o ciúme. do verso endecassílabo dá a analogia numerológica do que seja essa projeção. 271) Ver no outro. (FREUD: 1976.ª pessoa do plural. ao que se enciúma e ao que sofre o efeito da ação enciumada do outro.e. O ser “só eu”. na verdade. Já que esta 7. Aqui começamos a falar do ciúme. temos a possibilidade de formar um verso dodecassílabo: “Vê/ lho /Chi/ co /vens/ de/ Mi/nas /E eu/ sou/ só. O segundo verso da estrofe é um dodecassílabo com acentos na 4. e o par é a união. Os dois versos centrais da estrofe e. 1993. que também no processo de união de dois seres. de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. do verbo doer. no âmbito da relação amorosa ou de amizade é. Os dois heptassílabos seriam num sentido significativo da forma da estrofe. por analogia. notadamente dos aspectos egoístas do ser. do poema. tanto nos homens quanto nas mulheres. Para C. Nesse sentido. p. o “Ciúme é a falta de Amor” 2 . não obstante. para Freud. temos na forma. é um sentimento que causa dor a ambos. presente do indicativo. É fato da experiência cotidiana que a fidelidade. de Memórias. para que isso ocorra.se projetar seus próprios impulsos à infidelidade no companheiro a quem deve fidelidade”. Os nomes Petrolina (gênero feminino) e Juazeiro (gênero masculino) formam. reflexões. daquele filho 2 Carl Gustav Jung. dois hemistíquios separados. O ciúme é doloroso.

Área de Concentração: Psicologia Experimental) – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. implica na perda do que foi feito para outro. A canção termina nesses termos: “Paira. o investimento na geração de filhos. monstruosa sombra do ciúme”. Porém. é preciso que identifiquemos um terceiro. o Sol representa os sentimentos do coração. Para a mulher.G. -. essa luz vem de sua interioridade. no caso da Lua. A estrofe central. maior necessidade de envolvimento emocional para a prática do sexo. orientador Ailton Amélio da Silva. Não havendo a possibilidade do terceiro. Manter o marido significava a garantia de poder criá-los a bom termo perante as exigências sociais. como De Steno & Salovey. fazendo com que seja superada a dificuldade causada pela passagem do rio. é a luz do conhecimento que é preciso adquirir exteriormente. isto faz com que se imagine que a infidelidade sexual feminina esteja associada com o envolvimento emocional com outro parceiro (De Steno & Salovey. A luz que se reflete. 234 p. O homem. admiração. pois o viajante segue seu curso. A mulher. não existiria razão causadora do ciúme. Na simbologia esotérica. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações / Thiago de Almeida. como tal. consoante Sheets e Wolfe (2001). econômicas e morais. pelo menos na cultura ocidental. O rio é o viajante que vem de longe e se coloca entre Juazeiro e Petrolina. a infidelidade sexual tem diferentes conotações para homens e mulheres. 2007. Uma vez que possui luz própria. (ALMEIDA: 2007 3 ) Na letra de O Ciúme. Jung. Todavia. tinha sentido diverso. a infidelidade masculina não tem tal implicação porque os homens têm mais condições de praticar sexo sem amor. 1996 e Harris & Christenfeld. para satisfação sexual. começa por tratar diretamente do rio: “Velho Chico vens de Minas”. 1996). sentia-se em condição de se dedicar à mulher e arrumar uma ou mais amantes. apenas. unifica ambos. 1996(a e b). A ponte que se constrói. esse ciúme logo é superado. os sentimentos que buscamos negar em nós mesmos formam uma sombra. 3 32 . sentia. que ao contrário da lua que a reflete. Como o amor geralmente é um pré-requisito para o envolvimento de uma mulher em um relacionamento sexual. por seu turno. como em O Arco de Sant’Anna de Almeida Garrett. Na última estrofe. se tomamos o gênero das palavras “Petrolina” e “Juazeiro” para compor a analogia de um casal masculino-feminino. Para C. temos rima lume/ciúme. que se interpõe entre as duas cidades: “Entre Petrolina e Juazeiro canta”. O material reprimido forma um self negativo. em geral. o causador do ciúme entre ambos. A descoberta de uma falsa paternidade. ao passo que a luz que vem de dentro é a da sabedoria. Como observa Thiago de Almeida: Ainda. Não são poucas as obras literárias que tratam da questão da descoberta da paternidade como elemento definidor da trama. esse sentimento é exteriorizado pelo eu lírico. ao se discorrer sobre a temática do ciúme é necessário lembrar que para alguns teóricos. a admiração que causa a um e o outro a beleza do rio. no lar.São Paulo. Este terceiro é o rio São Francisco. Na primeira estrofe da canção. intrínseco do sentimento de ciúme. O brilho do sol refletido nas águas do São Francisco em oposição ao “ponto negro”.que continuará a obra do pai. a Sombra do Ego. de modo que o ciúme pode ocultar o brilho do Sol. logo é compreendida pelo outro. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia.

mas apenas a indiferença do distanciamento causada pela modificação da memória (épica). na paranóia e no homossexualismo”.4). encontra artifícios para superar a dor da perda iminente pela alegria da descoberta da nova sensação. Freud. cadê”. 234 p.A sombra do self negativo. reduz o valor do canto à expressão de um sentimento que não é de tristeza (drama. orientador Ailton Amélio da Silva. endurecendo-se aos sentimentos como se fossem peles “esticadas no curtume”. Lembremos. a propósito. Vol. o reconhecimento dessa impossibilidade (“Sei que o levas”). A tentativa de captar essa beleza vista ali da ponte entre Petrolina e Juazeiro. não é a verdade. é sua tênue possibilidade de vitória. 33 . A impossibilidade de posse da Natureza causa esse sentimento. eu só. Tantos são os cantadores da beleza. e a obra de arte a expressão desse ciúme. se dedica a tentar aprender um modo de controlar o que não consegue conquistar. restando a solidão. Imago. Referências Bibliografias: ALMEIDA. São Paulo. FREUD. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. O mistério oculto a que se refere a canção é. 2007. representada pela ponte. Thiago de. 1976. Agora o ciúme é o do artista diante da Natureza. pois que a beleza da Natureza. pois. transgredindo-a. quanto são os que os ouvem (“Tanta gente canta. É o reconhecimento da mimesis como um processo de imitação. se reduz. mas tal tarefa é fadada ao fracasso do simulacro. Porém. A vida sob o Sol. O Canto do Ciúme e os sentidos da percepção O ciúme se transforma também no canto do eu lírico: “o meu ciúme” (v. a dor causada pelo ciúme tira a aura da canção. O cantar poético também se modifica. lhe parece fugidia como as águas do rio passando por sob a ponte e seus pés: “Sei que o levas todo em ti. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. substitui o bem que não se pode ter. In: S. Sigmund. o criador da Bossa-Nova e Ivete Sangalo. seu canto. Movido por esse sentimento. numa visão trágica. Rio de Janeiro. tragédia). musa da música bahiana contemporânea. pois a obra produzida. Essa obra que substitui o que se perde. quando na verdade é artificial. mas enquanto tal. Busca incessante de apreensão do belo que resulta no moto contínuo da própria arte. que de Juazeiro vieram João Gilberto. eis o mistério. “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme. Ciúme romântico e infidelidade amorosa entre paulistanos: incidências e relações Dissertação de Mestrado. é na canção. mas o simulacro: “Mais na voz que canta tudo ainda arde /Tudo é perda. Ferindo a garganta. A obra humana que se apresenta bela por desafiar a Natureza e conjugar-se no cenário. nem poética (lírica). tudo quer buscar. tanta gente cala”). a obra materializada expondo-se aos seus sentidos. como aparente parte da cena. dominada pelo ciúme pode. eu”. 18. 2. 1.2. ao corpo e à alma. na impossibilidade de modificar esse estado de impotência de apreensão da verdadeira percepção da Natureza. o da auto-identificação do eu lírico. unindo-se à própria Natureza. alegria (comédia). leva o poeta a opor seu “ponto negro” de ciúme ao brilho do Sol sobre as águas do rio. Nessa atitude inicial de consolação. O artista teme perder o que não tem. não me ensinas / E eu sou só. é também o maior trunfo do artista. pois. eclipsar essa luz do Sol interior. transforma-se em canto isolado: “O ciúme lançou sua flecha preta / E se viu ferido justo na garganta”. que se sente diminuído pela impossibilidade de posse da beleza da Natureza.

34 .Do São Francisco ao Mississipi: O Rio e o Homem na Música Popular.

porém. O que convenhamos. a infância que fala é feita de lembranças compostas pelas imagens dos barcos (gaiolas). o que não é difícil para boa parte dos leitores que têm o hábito de escutar música brasileira e música norte-americana. música incluída em disco produzido com Elomar. em Geraldo Azevedo (“Barcarola do São Francisco”. para tanto tomamos como base o São Francisco no caso da geografia cultural brasileira e a bacia do Mississipi-Missouri no caso da norte-americana. Essas raízes medievais aparecem em composição de Carlos Pita (no disco Águas do São Francisco.ex. Cultura essa. ocorrendo ocasionalmente. 1979).ex). O “vaporzinho” como é chamado navegou antes nas águas do Mississipi e hoje é aberto à visitação na cidade de Juazeiro (BA). é possível ler este sem ler aquele. a construção de represas (“Sobradinho”. atualmente recuperado pela prefeitura de Juazeiro é um dos pontos turísticos da cidade. p. povoando o sertão dum imaginário de reis. O rio como cenário bucólico do idílio amoroso não é um tema muito significativo. Mesmo que o compositor não tenha passado a infância na região do propriamente dita do vale do rio. A de que em noites de lua cheia. “As Águas do São Francisco”). O primeiro vapor a navegar as águas do rio São Francisco veio dos EUA. transpondo para o sertão aspectos do sebastianismo messiânico. das novelas de cavalaria e poesia palaciana. Outro aspecto constante nas músicas que tratam do tema do rio São Francisco são as lembranças de infância. Em algumas canções se trata da questão da interferência do homem no curso da rio. a tripulação fantasma do barco sai pela cidade de 35 . como na música de Gino e Geno. de Sá e Guarabira. das carrancas – estas geralmente trazendo o medo na memória da criança – e a vida ribeirinha. que por vezes. de Sílvio Brito. p. de Moraes Moreira. o autor se imagina um homem que tendo deixado a região. Tal processo tem suas bases na corrente de imigração sertaneja-nordestina para as capitais litorâneas ou para o sudeste do país. São Paulo e Rio de Janeiro principalmente.Neste capítulo tecemos algumas considerações acerca das representações do rio na música popular brasileira e norte-americana. num processo de formação da voz lírica da letra da canção. que este texto tem de certo modo um pré-requisito de leitura que o que se intitula “O Rio São Francisco como tema de MPB”. traz na memória lembranças da infância vividas à beira rio. qual sejam as raízes da poesia de cordel e do trovar dos repentistas. Como memórias dessa voz lírica imigrada. p. O Rio São Francisco na música popular brasileira tem sido representado como rio que em sua bacia guarda uma rica cultura regional. tem uma raiz de caráter medieval. de ligação. Criou-se. uma lenda acerca do vapor. A ponte construída em 1950.). de certo modo. da fórmula e composição na medida velha. Ponte Presidente Dutra. Outro elemento constante nas músicas acerca do rio São Francisco é a referência à ponte que une Petrolina e Juazeiro. inclusive. Esse sertão medieval tem raízes históricas no processo de colonização portuguesa. Em várias canções a ponte é citada geralmente como signo de união.) e da força da natureza em resposta às interferências (“São Francisco”. é relativamente comum no caso da cultura brasileira e um tanto quanto um pouco mais raro no caso da cultura norte-americana.ex. do polêmico projeto de transposição das águas do rio (“O Velho Chico”. tendo como nome atual. Cabe lembrar. Rebatizado no Brasil com o nome de “Saldanha Marinho” o vapor navegou de 1871 a 1970. cavaleiros. é uma das mais movimentadas do país. se o leitor considerar que já tem alguma noção acerca das músicas que aqui serão citadas. princesas e encantamentos. Xangai e Vital Farias).

Juazeiro a seqüestrar pessoas – principalmente moças – para uma viagem pelo rio. social e política. O Missouri é o maior afluente do Mississipi. A bacia do Mississipi-Missouri era assim uma espécie de fronteira era o Nordeste dos Estados Unidos. podemos dizer que simbolicamente este barco conheceu os dois rios e pode. Uma das composições mais impressionantes sobre as enchentes do Mississipi é “When the levee breaks”. O rio está ligado sob vários aspectos ao processo de expansão territorial dos Estados Unidos.” (“Se continuar chovendo. Mas se o vapor navegou nas águas do Mississipi e nas águas do São Francisco. comparando. If it keeps on rainin. como ninguém. Em 1927 houve uma grande cheia do rio Mississipi que desabrigou centenas de milhares de pessoas. as barragens irão romper Quando a barragem romper. Após a independência das treze colônias britânicas em 1776. no mais das vezes. só superada pela cheia de 1993. recriada pelo Led Zeppelin. Thinkin bout me baby and my happy home. Obras de contenção e de regularização do fluxo de águas foram construídas no intuito de estabilizar a vazão das águas durante o período anual de cheias. rudes. levees goin to break. civilizado. o percurso Mississipi-Missouri tem 6700 quilômetros. eternizada em ópera de Wagner. A navegação a vapor e as obras de construção de canais e represas estiveram ligadas à história da ocupação daquela região. “If it keeps on rainin. as barragens irão romper Se continuar chovendo. All last night sat on the levee and moaned. a Inglaterra e a Espanha acabaram por deixar os Estados Unidos com um imenso território. Espécie de recriação da lenda do Holandês Voador. sempre que possível com composições brasileiras relativas ao rio São Francisco. mas que originalmente é um blues de Menphis Minnie e Joe Maccoy. urbanizado e livre com as terras d’além do rio e do sul. inúmeras são as canções que tratam direta ou indiretamente do rio.” 36 . When the levee breaks Ill have no place to stay. ainda. selvagens. tendo inclusive uma extensão maior que a do próprio Mississipi. terminando por conseguir do México a Califórnia. não terei onde ficar”) O desespero dos desabrigados. No âmbito da música popular. considerando no conjunto. levees goin to break. A bacia do Mississipi-Missouri corta a região central dos Estados Unidos e tem a foz no sudeste no estado de Louisiana. daqueles que perdem tudo por causa das inundações é retratado de forma direta nos versos dessa canção: “All last night sat on the levee and moaned. A guerra civil americana bem demonstrou essa dicotomia cultural. A letra é direta e crítica sobre os danos que causam as enchentes do rio e mostra a incapacidade do homem de dominar a Natureza. Em sua memória está ecoando as canções norte-americanas e brasileiras acerca desses rios. várias guerras e disputas com a França. Trataremos brevemente de algumas. saber das semelhanças e das diferenças entre os dois rios.

como eram chamados os brancos pobres (literalmente “os quebrados” – sem grana. vindo de trem com um “little fat man” e seu bloco de notas. o que sugere algumas soluções paliativas e de gabinete. em que se pede para que São Pedro aumente a enchente para que o personagem lírico da canção possa continuar com um álibi para continuar nos braços de sua amada e não ter que atravessar a ponte. pela pouca ação nos problemas sociais e pelo abandono ou veto de projetos que ajudassem o campo e regiões menos favorecidas. sem dinheiro)." (“O Presidente Coolidge veio num trem da ferrovia Com um homenzinho gordo com um bloco de nota nas mãos O Presidente disse. fazendo referência histórica a uma das maiores enchentes da foz do Mississipi. em 1927 a segregação racial era forte nos Estados Unidos e na fala atribuída ao presidente. Randy Newman contextualiza historicamente a cena ao citar o presidente Coolidge. assumindo a presidência com a morte deste. sendo Louisiana uma cidade cuja população era em maior parte negra. Águas do São Francisco.”) Calvin Coolidge era vice de Warren Harding. Sua política era marcada pelo conservadorismo. então presidente dos EUA: “President Coolidge came down in a railroad train With a little fat man with a note-pad in his hand The President say.(“Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Ontem por toda à noite sentei na barragem e chorei Pensando no meu bem e no meu lar feliz”) Randy Newman compôs Louisiana 1927. se vê a preocupação com os “crackers”. “Homenzinho gordo é uma vergonha O que o rio fez com os brancos pobres dessa terra. numa espécie de ultra-romantismo acrônico serve de motivo para que não se veja os danos que a enchente traz às populações 37 . a ironia. "Little fat man isn't it a shame what the river has done to this poor crackers land. Lembremos aqui da canção gravada por Gino e Geno. Vemos aqui que o idílio amoroso. No verso final. A ironia também se apresenta no modo como se apresenta o presidente. afinal não se diz que ele veio com o exército ou uma equipe de salvamento. A canção começa com a apresentação do quadro da tempestade e da enchente: “What has happened down here is the wind have changed Clouds roll in from the north and it started to rain Rained real hard and rained for a real long time Six feet of water in the streets of Evangeline” (“O que aconteceu aqui é que o vento tudo mudou Nuvens vieram do norte e começou a chover Choveu de verdade muito e choveu por muito tempo mesmo Seis pés de água nas ruas de Evangeline”) Numa estrofe final.

complementares. O grupo Creedence Clearwater Revival compôs Proudy Mary. fazendo duras críticas às práticas de favorecimento. 38 . de apadrinhamento e de elitização da política. não falta água. rollin. Rancho Eterno Chico. Rollin. desviar onde ele ir Mas que delírio de poder. Dércio Marques alude ao fato de que as águas servirão para criação de camarão como produto de exportação e que nas regiões que mais sofrem com a seca. Bombar água pra subir” Em outras duas estrofes. Proud mary keep on burnin. rollin on the river. música na qual se coloca o cenário dos vapores que navegavam no Mississipi: “Big wheel keep on turnin. não Orós e Castanhão Têm volume abissal Esbanja a elite água de irrigação Enquanto mata de sede o irmão em seu quintal” Assim. porém. melhor se dá Sílvio Brito que em O Velho Chico sugere um projeto de revitalização em oposição ao de transposição das águas. o fato é que os projetos não são excludentes. um desatino Sertão divino é convivência seu porvir Povo vizinho ao rio não tem acesso à água Como pode dar a água se o filho não tem para si? É ilusão a redenção fartura d´água. Dércio Marques apresenta um engajamento com versos mais refenhos em defesa de seu ponto de vista. Dércio Marques em canção mais ousada. o que falta é vontade política de fazer a correta distribuição das águas dos açudes: “Deixa não vingar transposição Pra criar camarão Em nome do vil metal A nação se ufana em exportação Enquanto o povo do rio tem fome em seu quintal No Ceará. Vão cobrar o olho da cara.” (A grande roda girando. No contexto social. com letra que critica a política governamental. em ritmo de rancho carnavalesco.ribeirinhas. sugerindo que a obra favorece a elite e despreza de fato a ajuda ao povo que sofre com a seca: “O que será de todos nós sem o Velho Chico As suas águas já sem forças pra seguir E vem um bando aventureiro cabotino Dar ao rio outro destino. mas sim.

” Comenta-se da vida dura dos trabalhadores. that Old man river. Life on the Missisipi.”) O percurso de Memphis. teve uma brilhante versão pelo Jeff Beck Group. Rolando. ele apenas guarda rolando por aí. Outro livro de Mark Twain. além das aventuras do rapaz que mora num barraco às margens do rio. Mas então o que ele planta são filhos esquecidos.Altiva Mary vá queimando. and we all know he don't pick cotton. sim. Ol’ Man River é uma das canções que tratam da vida dos trabalhadores nas fazendas de algodão na bacia do Mississipi. de Mark Twain. e nós sabemos que ele não colhe algodão. conta a história do rio. até a foz. e tem um capítulo dedicado a um dos maiores ladrões que viveram às suas margens. Rolando.”) Louis Armstrong gravou Moon River. But I never saw the good side of the city. Que o Rio Velho. médio Mississipi. chamamos o São Francisco de “Velho Chico”. New Orleans. Até que eu desci o rio de barco. Pumped a lot of pain down in New Orleans. estado do Tennesse. are soon forgotten. John Murrell. assim como aqui. til I hitched a ride on a river boat queen. he just keeps rolling along. Na canção Moon River lemos: “Two drifters Off to see the world There's such A lot of world to see We're after The same rainbow's end 39 . Rolando pelo rio. estado de Louisiana era o trecho mais navegado do rio pelos vapores. O título é uma referência a um dos “apelidos” do rio Mississipi.” (“Ele não planta batatas. com Rod Stewart cantando. é isso aí. de como seus momentos de lazer se faziam quando navegavam nos vapores em direção à New Orleans: “Cleaned a lot of plates in Memphis. Mas eu nunca vi o lado bom da cidade. Huckleberry Finn. Blues da autoria de Kern e Hammerstein. oh yes he does. Nessa obra. “He don't plant tater's. música que faz referência a um dos personagens da literatura americana mais característicos do rio Mississipi. But them that plant 'em. Sondando muita dor em New Orleans.” (“Limpando muitos pratos em Memphis.

E há um bocado De coisas no mundo para ver! Nós. econômicos e políticos são apresentados como entre o destino do homem e os desígnios dos céus.”) Assim. a navegação dos vapores como diversão e em geral. em Geraldo Azevedo. o que domina o imaginário de muitas das canções acerca do rio da integração nacional é um cenário imaginário dum sertão medieval. Tal visão tem fundamento no trabalho escravo durante os séculos XVIII e XIX. os beatos têm um papel fundamental no imaginário cultural da região para mediação e solução dos conflitos.” (Dois vagabundos livres para ver o mundo. No caso da cultura do Mississipi os conflitos se regem pela tríade homem x natureza x homem. os conflitos sociais. Assim temos exemplo nas composições de Carlos Pita em Águas do São Francisco. Veremos o fim do arco-íris. e mesmo numa canção engajada como a de Silvio Brito lemos versos como: “Mas São Francisco poderoso protetor da Natureza vai transformar em caudaloso O Velho Chico com certeza. a idéia de que a vida em torno do rio é dura. Por outro lado. o segundo homem 40 .” Na cultura do Rio São Francisco. que trouxe uma cultura de caráter medieval. O primeiro homem é o que sofre a força da natureza ou de outro homem. são temas constantes de várias músicas que giram em torno do cenário do Rio Mississipi. o sofrimento dos trabalhadores. os santos católicos. em Moraes Moreira. Assim. uma religiosidade católica exacerbada e mitos messiânicos de feição sebastianista. Deus. nas constantes enchentes do rio e na situação de pobreza que boa parte da população ribeirinha viveu em contraposição à riqueza e à fartura das grandes cidades americanas. princesas. em que se pese a pobreza de suas populações ribeirinhas. Não é por acaso que em New Orleans e Memphis temos o berço do blues e do jazz. instalada após a guerra civil americana. Meu amigo Huckleberry. no Nordeste brasileiro. num procedimento típico do imaginário medieval. na segregação racial. Esperando-nos na curva do rio. depois. cavaleiros e natureza mágica. com suas raízes musicais negras. o sofrimento do polígono das secas e as enchentes do rio. O Rio-lua E eu. eivado de reis. o Rio São Francisco.Waitin' 'round the bend My huckleberry friend Moon river And me. Tal visão parece ter suas raízes no processo de colonização português. cheia de lamentos e dor.

você terá que se mudar”) São. you got to move. No caso do rio Mississipi. When the levee breaks. rezar não adiantará muito Não! Chorar agora não irá te ajudar. por exemplo nos versos da canção When the Levee Breaks: “Cryin won’t help you. Nega. parece ser bem mais pragmático. cryin won’t help you.é o que se beneficia desse conflito. mama.” (“Chorar não irá te ajudar. prayin’ won’t do you no good. No caso do rio São Francisco. o conflito é velado. ocultado pelo espelho da introspecção criativa que busca no imaginário medieval razões para acreditar na concretização de profecias acerca dum futuro melhor ou na ação providencial da mão divina. É o que vemos. pois. rezar não adiantará muito Quando a barragem romper. escrava e a branca. duas diferenças fulcrais no modo de encarar a realidade circundante. Now. prayin’ won’t do you no good. fundado no conflito entre a cultura negra. o modo de tratar o imaginário em relação ao rio. Imagens do Velho Chico na Poesia Brasileira Nesse capítulo buscamos apresentar interpretações acerca do modo como o Rio São Francisco é colocado na poesia brasileira num panorama que vai do Romantismo até a Literatura Contemporânea. O panorama foi montado de forma a não ser apenas 41 . européia.

mas não encontra sua amada. filho do senhor. que fazem seu lar.historiográfico e exaustivo. Os personagens do drama são o escravo Lucas e sua noiva Maria. inclusive do século XVIII. Castro Alves e as Imagens Clássicas e Românticas O primeiro grande texto de poesia brasileira a tratar do Rio São Francisco foi o livro A Cachoeira de Paulo Afonso de Castro Alves (1876).. paisagem vai progressivamente escurecendo. Assim. / Que se banha nas termas do oriente. Desde uma imagem romantizada da Natureza intocada até às preocupações com os danos que a civilização urbanizada causa ao meio ambiente. resolvem navegar até a Cachoeira de Paulo Afonso.” Mais adiante o mesmo poema. 1. Maria conta que o autor trata-se de seu meio-irmão.. Procurando por ela. depois de algumas negativas. pois.. Descobre que Maria fora violentada.. Maria.. já em voga no Romantismo desde a primeira geração: “Onde Vais à tardezinha / Mucama tão bonitinha / Morena flor do sertão? / A grama um beijo te furta / Por baixo da saia curta. Após a apresentação do cenário da tarde. Marisa Lajolo e Samira Campedelli assim comentam o aumento da tensão dramática na obra: “Como que acompanhando o aumento da tensão dramática do primeiro para o último poema. / E. e. “O Baile na Flor” apresenta a descrição de uma natureza rica. Dantas Motta.. Embora possa se encontrar citações eventuais em outras obras poéticas de autores anteriores. / Que a perna te esconde em vão. cheia de vida: “Ali das bromélias nas flores doiradas / Há silfos e fadas. tanto no nível semântico. mas antes compor um painel cuja amostra deva esboçar as diferentes visões ecológicas e sócio-culturais que moldaram a imagem do Rio São Francisco em diferentes épocas.” Este poema é também uma das mais ousadas experiências formais de 42 .. 77) Não é por acaso. 1980. de onde se precipitam na canoa num ato delirante que simbolicamente representaria suas núpcias.. o poeta nos mostra Lucas voltando para sua cabana.. que o primeiro poema. intocada.Tu és do céu a pálida donzela. em lindos cardumes. apresenta um entardecer em que os sons da natureza parecem pressentir o desenlace fatal: “Contemplando o infinito. a poesia brasileira quando se propôs ao tema soube mesclar na linguagem poética diversos aspectos dessas imagens e preocupações. exuberante. considerada inútil diante da opressão que a condição de escravos os condena. Composto de 33 poemas A Cachoeira de Paulo Afonso forma uma espécie de narrativa dramática. na floresta / Rolar o som da funeral orquestra!!!”. de forma que o cenário da morte coincide com a escuridão noturna. “Tarde” tem versos como “Hora meiga da Tarde! Como és bela / Quando surges do azul da zona ardente! / . no poema homônimo seguinte. passando pela preocupação com o registro e a preservação de uma cultura local. Após ser convencido por Maria a evitar a vingança. entre outros. é apresentada de modo bem ao estilo da verve cabocla e sertaneja.” O terceiro poema. p. / Sutis vaga-lumes / Acendem os lumes / Pra o baile na flor. acaba encontrando-a vagando numa canoa como que buscando a morte. quanto estético e formal. Passando por Castro Alves. querendo vingar-se indaga da amada o autor da sua desonra. é com Castro Alves que este cenário brasileiro ganha uma dimensão lírica que ainda não havia tido na poesia brasileira. em belíssimo contraste com a brancura das espumas da cachoeira” (LAJOLO & CAMPEDELLI. João Cabral de Melo Neto.. o prenúncio do fim do dia acompanha o ato final dos amantes..

.” A estrofe é brilhante na conjugação da cena dramática e dos recursos poéticos. pobre criança / Que fazes tu sobre a terra? // E o eco responde? – Erra! (... / As asas foscas o gavião recurva.Castro Alves..... E tudo se acabou!.. o que cria uma contradição entre calmaria e ataque iminente.... O ponto de exclamação do verso final da estrofe..... a natureza é violentada pela ação do homem: “A floresta rugindo as comas curva.. // E o eco responde: . Mas rubro é o céu.. que cintila. feroz. vai de encontro ao abismo.” Os três poemas seguintes – “Lucas”. Os quatro poemas seguintes – “História de um Crime”.... / Espantado a gritar”........ O quarto e quinto poemas compõem a metáfora da violação tanto de Maria quanto da Natureza. E após........ tamanho........ / Que pode esmagar-te assim?.......Sim!” A partir daqui os 11 poemas seguintes vão apresentar um crescendo do drama em que Lucas encontra Maria vagando na canoa e busca compreender o que lhe acontecera. A canoa é comparada com um ninho que caiu sobre as águas calmas e desconhecendo o perigo. Parecia...... “Mãe Penitente” e “O Segredo” vão revelar o laço sanguíneo entre Lucas e o agressor de sua amada....... “Último Abraço”.. . Como o dorso de enorme crocodilo. O rio é metaforizado na imagem de um crocodilo. seguido de reticências e uma linha pontilhada compõe o ritmo que insinua o perigo..... E onde em meio das flores vão chilrando -Alegres sobre o abismo – os passarinhos!.... 43 ... Segue-se o poema “Crepúsculo Sertanejo” que inicia com o verso “A Tarde morria! Nas águas barrentas” e os poemas “O Bandolim da Desgraça” e “A Canoa Fantástica” que vão preparar a entrada do cenário em que os dois amantes resolvem ir em direção do abismo. nele. N’último ramo do pau-d’arco adusto O jaguar se abrigou. Recresce o fogo em mares. Esses ninhos. sabemos que Maria está a vagar perdida em sua canoa: “Lá no meio do rio..tombam as selvas seculares......... O quinto poema é “A Queimada”.. que tombam sobre o rio.. “Tirana” e “Senzala” apresentam a chegada de Lucas e a descoberta da ausência de Maria. Na última estrofe a destruição causada pelo fogo é apresentada de forma apocalíptica: “Então passa-se ali um drama augusto. até o momento em que a noiva se vê convencida a contar o nome do agressor. assim vista ao sol poente. Já manso e manso escoa-se a canoa.. Em “A Queimada” (quarto poema).. O próximo poema “Diálogo dos Ecos” compõe uma cena em que Lucas parece conversar com o eco num verso solitário que se segue à cada estrofe: “Maria... uma vez que a mancha do texto na folha busca sugerir a forma de uma flor.) Houve pois um braço estranho / Robusto.

babando.” 44 ... / .....”. o rio é metamorfoseado numa serpente e as rochas que formam a queda d’água são vistas como o corpo de um touro: “Então doido de dor. Ascenso a princípio não quis saber da novidade... bem longe.O poema “O São Francisco” apresenta a visão de Castro Alves do rio. Na última estrofe do poema. “A Cachoeira” busca apresentar o cenário do clímax dramático do poema. Castro Alves busca concluir as contradições entre vida / morte. de lamber demente / As rijas formas da cabocla linda”(est...... Abriu-se a um tempo / O precipício!..... Destaca-se na primeira estrofe a distância que o rio corre pelos sertões (“Longe.... / De grinaldas em flor tecendo a arcada / São arcos triunfais de tua estrada!..” Os quatro últimos poemas retomam a narrativa dramática dos dois amantes e vão num crescendo preparando o momento em que a canoa se atira pela cachoeira: “. quanto a função colonizadora que as populações caboclas tiveram no povoamento do Vale do São Francisco... numa forma de comentar poeticamente a função irrigatória que o rio exerce sobre vasta região do sertão nordestino. que permearam todo o poema.” “A Cachoeira” constrói uma imagem metafórica de grande tensão.. Manuel Bandeira em prefácio escreve: “Não sei quando o movimento modernista se propagou ao Recife. III).. O percurso do rio pelas então províncias de Minas Gerais e Bahia é trabalhado de forma a personificar as regiões como mulheres cortejadas e amantes do rio: “-Linfa Amorosa – co’a nitente espuma / Orlava o seio da Mineira linda (.... II)... o futuro autor de Catimbó entregou os pontos..... / Co’a serpente no dorso parte o touro./ Titubantes – no álveo do rio – tremem as lapas dos titães coevas!.... / E as serpentes de Tênedos em sanha!. assim como a extensão do rio (“Do São Francisco a soberana vaga / Léguas e léguas triunfante alaga!”). Lembra-me que Joaquim Inojosa foi o agente de ligação com os rapazes de São Paulo. e o céu!.Um beijo infindo suspirou nos ares.. vingança / perdão. o rio é denominado de “Nilo brasileiro”.. Os coqueiros e cipós são vistos poeticamente como arcos a ladear todo o curso do rio: “Como pontes aéreas – do coqueiro / Os cipós escarlates se atirando. natureza / homem. / A canoa rolava!. Envolvido que estava com a causa abolicionista. Assim se abre o poema: “Mas súbito da noite no arrepio / Um mugido soturno rompe as trevas. água / terra. A luta entre a serpente-rio e o penhasco-touro ganha contornos de grandiosidade mitológica: “A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo! / A briga colossal dos elementos! / As garras do Centauro em paroxismo / Raspando os flancos dos parcéis sangrentos”..” Nesse verso final de coloração fundada num oxímoro... tredos. Mais ao final do poema evoca-se o mito de Laocoonte para efeito de comparação: “Grupo enorme do fero Laocoonte / Viva a Grécia acolá e a luta estranha!.. Mas quando Guilherme de Almeida passou em Pernambuco e declamou o seu poema ‘Raça’ no Teatro Santa Isabel. / Do sacerdote o punho e a roxa fronte. / Como filhos – chorando-lhe – os penedos!!!. “Vem – à busca talvez de desafogo / Bater à porta da Baiana altiva. A Revisão Modernista do Drama Romântico: Ascenso Ferreira Ascenso Ferreira (1895-1965) foi um dos nomes mais importantes da divulgação das idéias modernistas em Recife. / Por hidra – um rio! Por augure – um monte! / Por aras de Minerva – uma montanha! / E em torno ao pedestal laçados....)/ Viramno aos beijos. sânie...” O poema seguinte... 2... luz / trevas... / Nas verdes canas o gemente rogo / Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva” (est.. dos cantões bravios”). Castro Alves soube colocar nesse conjunto de poemas tanto a questão da opressão sobre o escravo...

(FERREIRA, 1981, p.11). Sérgio Milliet, comentando a obra de Ascenso, observa como o grupo de modernistas do Recife conseguiu uma certa autonomia estética em relação ao modelo de São Paulo: “Na renovação poética do Brasil, já observou Manuel Bandeira, o grupo do Recife escapou à influência imediata e imperialista dos modelos europeus. Da revolução que se iniciou em São Paulo só lhe interessou a liberdade conquistada.”(FERREIRA, 1981, p. 14). Em Xenhenhém, conjunto de 25 poemas publicados em 1951, encontramos um intitulado “O Meu Poema do São Francisco”. O poema começa com quatro versos anafóricos: “É Cabrobó! / É Orocó! / É o Ibó / É Curaçá!...” São nomes de cidades na divisa entre Pernambuco e Bahia. Do lado de Pernambuco (Cabrobó, Orocó e Ibó) ficam na região do rio e da serra de Ouricuri, do outro lado do São Francisco está Curaçá, na Bahia. A sonoridade dos nomes das cidades é explorada poeticamente. Em outro poema, “Sertão”, do livro Catimbó, também o poeta utiliza o efeito de explorar a sonoridade dos nomes das cidades, só que cria um itinerário diverso, partindo de Cabrobó em direção do sertão, até Exu, nome já evocativo das dificuldades e agruras do semi-árido: “Sertão! – Jatobá! / Sertão! Cabrobó! / -Cabrobó! / - Ouricuri! / -Exu! / -Exu!”. No poema do São Francisco, Ascenso Ferreira após a apresentação dos nomes das cidades, coloca um dístico que é o estribilho do poema: “Meu Deus, ela veio das bandas de lá! / Meu Deus, ela veio das bandas de lá!”. O viajante pede ao barqueiro que siga a voz encantada de mulher que segue pelo curso do rio: “Barqueiro, me traga o meu reco-reco, que eu quero chamá-la para um xenhenhém... Que nada! Ela é sempre para mim como um eco Que longe responde, porém nunca vem... Barqueiro, desçamos pelo rio abaixo... Vamos ver, barqueiro, aonde ela está.” A seguir, utilizando a mesma estratégia inicial, Ascenso apresenta o nome de quatro localidades baianas, tirando novamente o efeito estético de suas sonoridades: “Chorrochó / Cocorobó / Patamuté / UAUÁ!”. Este último nome de cidade é grafado com maiúsculas, chamando a atenção para o som do nome que se assemelha ao do choro, evocando o sentimento melancólico do eu-lírico em busca da voz de mulher. Após a repetição do estribilho e de novo pedido ao barqueiro que continue seguindo rio abaixo, segue-se novamente o nome de quatro cidades às margens do rio São Francisco, porém, agora elas não rimam nem supõem uma harmonia sonora com a mesma intensidade musical das anteriores: “E é Floresta / Itacuruba / Santo Antônio, / Jatobá!” Essa quebra de ritmo funciona no poema como aviso de que as águas tranqüilas do rio serão interrompidas, assim avisa o barqueiro: “-Passageiro, volte que lá é a cachoeira. É morte na certa, não teime, não vá!” O verso solitário a seguir é acompanhado por reticências e uma linha pontilhada – recurso que já notamos em Castro Alves – e o nome da cidade que evoca o choro: 45

“-Barqueiro, ela chama é mesmo de lá... ............................................................... -UAUÁ!!!” Em Ascenso Ferreira, como em Castro Alves, o percurso do rio cria um crescendo dramático até a cachoeira de Paulo Afonso. Em ambos, a busca da morte parece o objetivo dos navegantes como forma de fuga das desilusões da vida, a morte na cachoeira como representação também de um ritual de passagem para uma dimensão mágica da existência. 3. Dantas Motta e a Transposição do São Francisco para um Imaginário Sincrético de caráter cristão. Elegias do País das Gerais (1958), livro de poemas de Dantas Mota (1913-1974) apresenta um grande conjunto de poemas divididos em “livros” como se articulassem a estrutura de um grande livro sibilino. Referências bíblicas se misturam às figuras históricas do Brasil. Paisagens das terras bíblicas são metáforas constantes das paisagens visitadas por Dantas Mota em Minas Gerais e no Nordeste. Mário de Andrade numa das cartas que escreveu ao autor diz: “Suas Elegias das Gerais estão prontérrimas, lindas e re-relidas e anotadas.”(MOTA, 1988, p. 330). Uma das partes da obra Elegias do País das Gerais intitula-se “Quarto Livro: Epístola de São Francisco aos que vivem sob sua jurisdição, o Vale”. O título já nos apresenta uma sobreposição entre a figura do santo e do rio. No poema, o rio é a voz lírica que narra acerca de seu próprio curso e sua história de colonização. Acerca desse “Quarto Livro”, o próprio poeta em carta a João Condé escrevia: “Fui assim, à pasta a buscar os petrechos necessários à tosa, encontrando-os embrulhados numa página do suplemento ‘Sintra’ e, dentro dela, vista de cara, a seguinte notícia: ‘Em Aracaju, reuniram-se, na semana passada, os Bispos da Bacia do São Francisco para estudar os problemas advindos de sua transformação.’ Mais ou menos isso. Dessa notícia nasceu a idéia do poema, informe, imprecisa e vaga, com a visão de Jerusalém carregada de bispos, tetrarcas e ametistas, postados todos em Aracaju, a qual depois, era transunta do sergipano país para este, o das Gerais, e que tantos males tem infligido a este Brasil, por força de sua intemperança no juro, na política e nos juizados da paz.” (MOTA, 1988, p. 339) O discurso do rio é marcado pela dor, pela angústia de ser o rio que atravessa a região mais árida do país, estigmatizada pela pobreza, pelo abandono: “Ora, toda unidade é estéril e todo mistério, terrível. E me fizestes uno, misterioso e triste, Não segundo minha paisagem interior, de pobreza, Que estava certa, mas conforme vossa jurisdição, Que ia desde Paracatu do Príncipe, No País das Gerais, Até Olinda e Recife, no País de Pernambuco!” 46

Em determinado momento, buscando apresentar a nascente do rio, Dantas Mota nos mostra o rio comparando sua nascente na Serra da Canastra com um caixão e os peixes com o corpo do morto “Ora, tudo o que se verificar aquém e além dele (o caixão) / é um mistério de unidade estéril (...)// De vez que todo caixão é aquário, / e, como tal, é ele o invólucro; / e o corpo, que dentro dele navega, / sob um céu de morim barato, / o peixe facilmente deteriorável”. Personagens e cenários bíblicos aparecem em constância para compor a imagem desse rio triste e angustiado que é o São Francisco de Dantas Mota: Cristo, Melquisedeque, José, Jerusalém, Eufrates, Cativeiro na Babilônia, etc... A população ribeirinha é apresentada como a descendência de Agar: “Em verdade, subindo vou o Setentrião, / enquanto meus habitantes o Setentrião descendo vão / -Felás de um tempo redivivo, / tormentados com Hórus /(...)/Porque, apesar das secas e dos desertos / (gente proscrita da progênie de Agar) / há uma paisagem de riacho e rugas / nas faces chicoteadas de sol e peixe”. Em contrapartida Lampião, Canudos, e outros personagens e cenários do Nordeste são evocados misturados aos bíblicos: “E, provando a procedência deste razoado, / Uns homens sem respeito para a minha vergonha. / E a república, que triunfou de Canudos, / Batendo, depois, além dele, meu rei Lampião, / No qual, com o ser o meu renovo, me comprazo, / Aqui, empós alguns lustros e sóis passados, / Se sublimou em tetrarquias com os Cunegundes, / os Pantaleões, os Batista e os Santa Bárbara. / Afinal morri. Primeiro em vós. Depois em mim”. Desse modo, as revoltas populares, tanto a do cangaço (Lampião), quanto à mística-beata de Antônio Conselheiro são apresentadas como representativas do povo do São Francisco, ao passo que a República é – retomando uma colocação do próprio Antônio Conselheiro – como a Babilônia. Dantas Mota buscava desse modo fazer a crítica do abandono e do flagelo que a região do semi-árido se encontrava. O episódio do velho testamento referente ao cativeiro na Babilônia (Jeremias) é amalgamado poeticamente à vitória violenta e sangrenta da república sobre Canudos e sobre Lampião. O coronelismo que dominou a política regional se apresenta como o período de cativeiro propriamente dito, neste sentido o povo nordestino da região do sertão estaria em condição semelhante aos hebreus no cativeiro da Babilônia. A seguir, em “Recuperação do Paraíso”, o rio no seu discurso nos diz que deixou sua condição de rio natural para ser uma autarquia. A ironia se refere à construção da hidrelétrica de Paulo Afonso, a primeira grande hidrelétrica construída no seu curso. Delmiro Gouveia que em 1913 iniciou o processo de aproveitamento energético do rio São Francisco construindo a usina de Angiquinhos que aproveitava a força da cachoeira de modo parcial, mas cujo efeito posterior foi incentivar projetos maiores. Em 1948, Getúlio Vargas procede à criação da Chesf e se inicia a construção da Usina de Paulo Afonso, terminada em 1954, até então a maior usina hidrelétrica do país. “Morri eu afinal, que de Francisco mais não sou, Porquanto, hidrelétrico, em autarquia transformado fui.” O discurso do rio ironiza o processo de eletrificação, que de princípio atendeu aos interesses políticos dos coronéis, pois de fato, pequenas propriedades e até mesmo algumas cidades ficaram sem a energia de Paulo Afonso: “Uma lâmpada de mil velas brilha no fundo do inferno”. O trecho final, “As Alegorias em Trânsito”, nos apresenta um anjo 47

Os missionários conquistaram as almas”. / Esquecidos de que eu também posso ser / A curva de Dniéper / O cotovelo do Don. porém. esquecidos. de certa forma. Henderson uma pescaria de jereré. / mas tem cuidado 48 . logo a seguir. 4. Por extensão. O surgimento das primeiras povoações se dá no contexto desse processo: “Então o povo crente ergue cruzes nas margens / e capelas / e igrejas. / Vindo dos portões em ruínas do Paraíso. portanto antecedendo a Dantas Motta em mais de duas décadas. violência. com desprezo. / cemitérios. o fero estado a que se refere o poema são comparados ao procedimento nazista. agora transformado / transfigurado: “Também ilumino e não sou sol. estudaram. / Amém”. enquanto eu. Dura crítica de caráter marxista ao governo de Getúlio Vargas. a convite da corte imperial. beatos como Antônio Conselheiro e os jesuítas são postos lado a lado. Os capitães-de-mato deram caça aos negros.metamorfoseado em ave pousando sobre um comutador de energia no meio do sertão: “Um anjo. mostrando que na intensidade do delírio não tinham diferença. deixa. as vilas. ali. / Ou autarquias que o fero Estado cria. Jorge de Lima passa a evocar os nomes de pintores naturalistas e exploradores estrangeiros que no século XIX. / de tarrafa. 1928.” A cobiça é destacada como o motivo principal da conquista da região. As autarquias. No final. / Todo o norte se ilumina. a terra. é também continuação do próprio rio. escreveram e pintaram acerca da flora e fauna brasileiras: Henderson (Vem pintar. sob certo aspecto. / E eram antônios conselheiros e jesuítas / e eram missões / e era a turba genuflexa / beijando a terra por onde os santos iam. as almas formariam o sentido simbólico do rio Opara (São Francisco) como elementos que sofreram opressão.” Assim. indica também o início da decadência do III Reich: “Se organizaram em quadrilhas de sociedade anônima. o rio se consola com o fato de que a energia que ilumina terras distantes. O povo submisso (“turba genuflexa / beijando a terra”) seguia esses homens como se fossem santos. com as asas cheias de poeira. / Sua dejecção de pássaro. é o único que cita o nome indígena do rio: “E primeiro desceram pelo rio Opara / os homens que foram ferir a terra à procura de ouro. à beira do abismo”. o poema fala da religião e da escravidão como partes do processo de colonização: “E depois os que foram alçar a cruz para curar as chagas / que o ouro fez. irmanados assim ao próprio rio. Jorge de Lima e a História do Rio São Francisco Revisitada Jorge de Lima escreve o poema “Rio de São Francisco” para o livro Poemas. a sociedade anônima. os escravos fugidos. A conquista do rio é mostrada como a defloração violenta da natureza: “E todos eles defloraram o rio. / de poita / de groseira. / Depois desceram feras à procura de escravos”. a devoção religiosa é apresentada como um delírio coletivo. / Pousa num comutador e. desenharam. Dentre os poetas que analisamos. O cangaceiro saqueou as vilas. O garimpeiro deflorou a terra. ave sagrada.” O rio compara sua nova face transfigurada com as batalhas que marcaram o início da reação russa contra a invasão nazista que.

/ que o rio desce e as lendas descem com esse rio”. Debret (“Vem. / o Conselheiro renasce. Debret é o mais citado no poema. / as nuvens. O flagelo da fome é destacado: “-Senhor! dai-me que comer! Senhor”. / e o povo volta de novo / a tomar bênção ao Padre Cícero”. feiras. Halfeld e Saint-Hilaire (“Nisso tudo passaram Halfeld e Saint-Hilaire com as bandeiras / da sabedoria / e viram na Igreja Santa do Rosário / a baita coroa do Imperador do Divino”. / tenho para os vossos bichos um restinho de ervas no surrão”. / bandeirantes de todos os feitios. suspende-se esse ritmo descritivo-narrativo tênue para anunciar a chegada da estação da seca: “Mas um dia.que as piranhas podem comer os teus pincéis. e bate e dorme lá embaixo / como um gigante que sofre de ataques de convulsão”. ver o pitoresco do rio. / o canoeiro pachola tocador de violão”. Cita então Jorge de Lima. Debret”). vem. potros correndo danados. um dia enfim / deixa de chover no Piauí / não chove no Ceará”. O rio então surge como único refúgio: “Tenho água fresca.”. o grande rio como a alma do sertão / desce de Paulo Afonso com sete ataques de doido. / E um dia os riachos. à maior notoriedade que sua obra alcançou (“Passam engenhos pitorescos. Jorge de Lima faz menção da cultura folclórica acerca das lendas que envolvem o rio São Francisco: “Vinde caçadores de lendas. A seguir cita-se num verso o empreendimento pioneiro de Delmiro Gouveia: “E o cearense desceu com uma turbina na mão”. Então. devido ao que parece. O fim da estação da seca e conseqüente volta das chuvas marca um intenso renascimento que no poema atinge âmbitos lendários e místicos: “e o homem delira outra vez a nevrose dos Sertões. enfrentava práticas de 49 . Este é também um dos raros momentos em que o rio se personifica e assume a voz no poema. há florestas de mastros pelos cais. / as torrentes. meu Debret. / os outros rios vêm visitar o rio Opara”. / Frei Doroteu renasce. “E são bonitos. Numa parte relativamente grande do poema. vai compondo os seus versos seguindo metaforicamente o curso do rio. Delmiro que recusou vender sua empresa aos ingleses. Como nos poetas anteriormente aqui citados. tenho aqui algum peixe. Jorge de Lima. meu Debret”. Citase que as almas dos holandeses enterraram tesouros. cegos cantando. guardando assim a cachoeira de Paulo Afonso para o clímax narrativo: “E o rio. meus irmãos. a briga que a companhia de linhas de algodão implantada por Delmiro Gouveia na região travava com a Machine Cotton (Linhas Corrente) da Inglaterra. gado pastando nos cercados bodes pulando pelos morros. ovelhas descendo das encostas. que um certo galo preto depenado canta à meia-noite “Salvador! Salvador!” Toda a vida das cidadezinhas é sintetizada em imagens instantâneas como flashes do cotidiano: “e quando o dia nasce. e ruge. que o sino de Piranhas geme como gente no dia de finados.” O poema continua citando casos lendários entre descrições da navegação no rio: “E o rio desce. / e espuma.

de areia múmia” (“Na Morte dos Rios”) Em “Rios sem Discurso”. a água se quebra em pedaços. Quando João Cabral trata do sertão é um cenário sem água. e quando o mestiço inspirado pelo santo ia fazer o milagre da multiplicação e salvar o Nordeste e remir o sertão. antes. por pressão de banqueiros ingleses a lei foi revogada. Dois anos depois. a vegetação em volta. o rio São Francisco não é o cenário fluvial constante nos seus poemas. corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia. estancada. embora sabres. Essa ausência significativa do São Francisco na poesia de João Cabral pode ser explicada. embora de unhas. é porque assim estanque. intratável e agressiva. Porém. o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. taxou o produto importado. Delmiro foi assassinado em circunstâncias não esclarecidas em 1917: “E os braços edificaram a caatinga. o rio Capibaribe contém todos os elementos. João Cabral e o Sertão sem o Rio João Cabral de Melo Neto tem uma produção poética que tem como uma das marcas o cenário sertanejo. já no governo de Washington Luís. João Cabral trata dessa condição dos rios intermitentes que mal terminando a época das chuvas desaparecem: “Quando um rio corta. pela constante oposição que o poeta trata entre o cenário do sertão. iluminaram os capões. do agreste e do litoral de Pernambuco. 5. e muda porque com nenhuma comunica. faz alto à beira daquele leito tumba. de rios intermitentes numa linguagem seca que lembra a de Graciliano Ramos na prosa: “Desde que no Alto Sertão um rio seca. em poços de água. cortado. a fábrica de Delmiro foi finalmente vendida e logo depois desmontada. e mais: porque assim estancada. muda. nesse aspecto. o presidente Artur Bernardes para proibir a prática desleal de concorrência inglesa no mercado de linhas. estanque no poço dela mesma.dumping na disputa do mercado nacional. em parte. em água paralítica. Faz alto à agressão nata: jamais ocupa o rio de ossos areia. Em 1926. 50 . é o rio Capibaribe o seu rio preferido na poesia. Em situação de poço. a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada.

cuja natureza que lhe é agressiva. Se em Dantas Mota. para a opressão do estado sobre o indivíduo.” (“O Urubu Imobilizado”) Podemos colocar a poesia dos poetas que tratarão do rio São Francisco e que foram aqui comentados como autores de textos que destacaram a grandiosidade natural do grande rio do Nordeste e que mostraram em diferentes aspectos o modo como a povoação da região se deu. imite o percurso do rio.. João Cabral ao tratar dos rios intermitentes. justificando que o rio busca correr toda sua vazão num só dia como se tivesse medo de morrer em poços. de modo que a natureza dura. Se o projeto der certo. rústica é também o local de uma população sofrida. da nascente à foz. não raras vezes. por outro lado. Veterano. Jorge de Lima. e outro para seguir pela Paraíba – devemos supor que um novo cenário não apenas hidrográfico e econômico se propõe. quando presentemente se justifica e se apronta o início das obras de transposição do rio São Francisco em dois canais que cortarão o sertão de Pernambuco – um para atingir o Ceará e ligando-se à bacia hidrográfica daquele estado. passa a funcionário. esfacelado: “esses rios do Sertão falam tão claro / que induz ao suicídio a pressa deles: / para fugir na morte da vida em poças / que pega quem devagar por tanta sede”. quase como um deserto. Castro Alves e Ascenso Ferreira. Que o enquadrariam num melhor salário. Cala os serviços prestados e diplomas. trata metaforicamente duma quebra de narratividade. não supera. que esperar que a poesia do rio São Francisco continue 51 . em Dantas Mota e em Jorge de Lima) se encontra espaço para a usurpação de direitos. mas uma transformação também cultural. fazem com que a forma do poema. Nesse âmbito. Ele. João Cabral retorna à imagem dos rios intermitentes.ex. da quebra de discurso que o conjunto de poços e cacimbas representa. mostrando como. podemos supor que poetas cantarão a grandiosidade e a beleza da obra como desde tempos imemoriais temos narrativas sobre o modo como os egípcios e babilônicos enfrentaram o deserto.porque cortou-se a sintaxe desse rio. fio de água por que ele discorria”. O urubu não retira. na sua sucessão de versos. ao tratarem do grande rio do Nordeste. se os receios de grupos mobilizados da sociedade contra a obra se justificarem. muitos deles. para o cerceamento da liberdade. A poesia de João Cabral quando trata do sertão pernambucano faz destacar a questão da seca. que no civil quer o morto claro. porém. Em “Os Rios de Um Dia”. marcando bem as injustiças sociais ali cometidas (escravidão em Castro Alves). teremos. E vai acolitar os empreiteiros da seca. de urubu livre. pois prevendo cedo Que lhe imobilizarão a técnica e o tacto. mas ainda com zelos de novato: Aviando com eutanásia o morto incerto. a dureza da própria sociedade e do estado: “Durante as secas do Sertão. p. sob a divisa do progresso (construção da usina de Paulo Afonso. por certo. pondo como ponto alto de dramaticidade a cachoeira de Paulo Afonso. o urubu. afluentes temporãos do São Francisco.

dos erros. Poemas de Ascenso Ferreira: Catimbó. Algumas carrancas. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. ALVES. FERREIRA. José Olympio. Rio de Janeiro. João Cabral. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta. Elegias do País das Gerais – Poesia Completa. Castro. Rio de Janeiro / Brasília. do passageiro de Ascenso Ferreira. do cativeiro na Babilônia e a conseqüente travessia do deserto e. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. vol. 1997. 1980. sem rio São Francisco. Antologia Poética. Cana Caiana. Seleção. Nordestal. Nova Aguilar. MELO NETO. Obra Completa. José Olympio. alcançam no 52 . Dantas. MOTA. João Cabral. como de autoria deste ou daquele mestre artesão mais reconhecido. para ficarmos efetivamente com o sertão de João Cabral. MELO NETO. São Paulo. 1981. Ática. Castro. tanto quanto o suicídio de Lucas e Maria em Castro Alves. ainda. 1980. 1980. Poesia Completa. do sofrimento enfim. da tensão. Xenhenhém. quando apresentadas pelo marchand. Literatura Comentada. Por Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco As carrancas dos barcos do Vale do São Francisco hoje perderam sua função inicial de proteção das embarcações contra perigos concretos e imaginados do percurso do rio por uma função de peça de comércio artesanal. Jorge de. 1988. Ascenso.sendo a poesia do drama. como disse Jorge de Lima “o trabuco do irmão lobo calou o grito da raça”. José Olympio / INL. estudo e notas de Marisa Lajolo e Samira Campedelli. 1979. 1. BIBLIOGRAFIA ALVES. LIMA. Recife.

Ana das Carrancas é um dos nomes mais conhecidos quando se fala em carrancas do rio São Francisco Ubaldino. Um dos primeiros cronistas a mencioná-la foi Durval Vieira de Aguiar em 1882: ''Na proa vê-se uma carranca ou grifo de gigantescas formas. indo morar na cidade de Curacá. próximo a cidade de Juazeiro. sustentam que esse seria um indício da passagem dos Vikings pelo Brasil em época muito anterior ao descobrimento. através da arte de talhar a madeira. Mestre Davi tornou-se internacionalmente conhecido quando Jacques Cousteau levou uma carranca a todos os cantos do mundo pelo barco "Calypso".”(Zanoni. 2006) Alguns estudiosos mais ligados ao âmbito das teorias menos comprováveis cientificamente e de caráter mais polêmico. bem como a adaptabilidade da carranca ao barco tornou-se um aspecto mais secundário. nasceu em 1923. bem como com suas feições agressivas afugentariam outros espíritos. com o decréscimo e quase desaparecimento da navegação ribeirinha assim como o fim dos gaiolas. destacou-se como o maior artista de carrancas. figura de proa e leão de barca são os termos ou expressões que os remeiros e outros ribeirinhos utilizavam para se referirem às carrancas. mas que peca pela ausência de dados comprováveis de qualquer uso de carrancas anterior ao período de colonização do Vale do São Francisco. que começou sua produção em 1972 é outro importante artesão de carrancas. jesuíta espanhol. em Santa Filomena. hoje. 33). que avisariam com três gemidos a proximidade destes. como inscrições na Amazônia. Figura. Um dos defensores dessa tese é Jacques Mahieu. mais comumente têm sido utilizadas como peças decorativas de cantos de salas e escritórios. segundo Zanoni Neves: “Na segunda metade do século XIX. De fato. Assim. filho de Guarany. às margens do São Francisco. Ana das Carrancas é Ana Leopoldina Santos.comércio de peças de artesanato internacional valores consideráveis. distrito de Ouricuri. De qualquer forma é inegável a possibilidade de comparações entre aspectos funcionais. as carrancas. na Pedra da Gávea (RJ) e as carrancas que seria um costume transmitido pelos Vikings. filha de artesã e agricultor. seu aparecimento perde-se um pouco no tempo. Alguns artesãos se destacaram na produção de carrancas. quanto à origem das carrancas. um famoso carranqueiro de Pirapora perpetua. Pernambuco. onde passou a trabalhar como professor e constituiu sua família. ou simplesmente “Guarany”. a utilização das carrancas ganhou uma função de artefato artístico artesanal. de modelos sem dúvida transmitidos pelos exploradores dos tempos coloniais'' (1979. 53 . refugiado do Convento da Bahia que amasiou-se com uma negra africana de Moçambique. no lugar de servirem como elemento protetor contra maus espíritos e perigos do rio. de modo que a flutuabilidade. que no livro Os Vikings no Brasil argumenta que existem vários indícios dessa passagem. a história e a cultura dos povos ribeirinhos. Guarany é bisneto de José Dy Lafuente. os barqueiros adotaram a figura. estéticos e culturais das carrancas do São Francisco e as carrancas das galeras vikings. p. hoje conhecida como carranca. Mestre Davi (Davi José Miranda Filho). Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987). Tese ousada. os primeiros registros de existência das carrancas aparecem na segunda metade do século XIX.

Sendo originalmente artesã ceramista. ainda de Pirapora (MG) é outro importante artesão carranqueiro que preserva a arte de entalhar a madeira. porém. com 3. tementes a Deus. Porém. havendo. Tal boca e dentes têm a intenção de conotar a agressividade da figura. uma vez que as ferramentas para composição já não serão as mesmas. que a produção de carrancas de barro. Essa identificação. por vezes. nem tampouco a busca da explicação da origem das carrancas. que ao cabo. são apresentadas como figuras com bocas enormes abertas mostrando. mas com o próprio rio sua identificação. a popa. é fato. Com a utilização de instrumentos para o corte e o talhe da peça de madeira (facão. potes. Expedito ficou conhecido quando confeccionou a majestosa estátua de São Francisco de Assis. mas diretamente na madeira o artista vai compondo a cabeça da figura. carranqueira também de Pirapora. agora quando ela passa a produzir carrancas também de barro o que ocorre é a transposição de uma técnica para outra. cavalinhos e santos de barro. sua boa e seus dentes 54 . são feitas de madeira. As carrancas. Ana compunha antes panelas. usa o barro extraído do próprio rio São Francisco para composição de suas figuras de carranca. que se encontra na Avenida Salmeron. machado e formão. em geral. dá a dimensão da própria modificação da função de uso da carranca. Expedito Viana. astutos pela descoberta de riquezas teriam contra si o espírito do rio. madeira ou barro. na Praça do Posto Três Palmeiras. boi-zebus. feroz na ação de proteção da embarcação. é uma artista que demonstra habilidade no manuseio de instrumentos como facão. notadamente as de Ana das Carrancas têm uma função mais de peça decorativa artística de colecionadores e admiradores da arte popular do que propriamente a função de carrancas de embarcações. Assim. metamorfoseado em animal aquático que desliza pelas águas do rio. que navegam atendendo as necessidades das populações ribeirinhas seriam protegidos. Nas galeras vikings era essa a conotação que a estrutura do barco buscava. navegadores virtuosos. a carranca de barro como que se distancia da função de protetora do barco para ser a representação do espírito do rio que pode proteger ou não a embarcação em função da intenção do navegador ser aceita pelo rio ou não. não é um painel dos artistas.Dona Lurdes Barroso. O que buscamos destacar nesse nosso breve texto. representa o próprio corpo do animal formado pelo conjunto barco-carranca. de outra forma. como no outro extremo. Simbolicamente o material usado. em geral. dentes caninos proeminentes. Nosso intento maior é uma observação acerca do modo de produção das carrancas e um comentário acerca da natureza estética dessas figuras. quebra-se essa harmonia de material. cuja cabeça é a carranca e o corpo o próprio barco. destaque nesse caso para as próprias mãos no ato de moldar o barro e o torno de oleiro. se colocava uma estrutura semelhante à calda do animal. bem como o forno para cozimento. por sua parte. As carrancas. machado e formão) o artesão vai moldando a peça de maneira intuitiva. Listamos aqui apenas alguns dos nomes mais conhecidos no universo do artesanato de carrancas. A de madeira tem com o barco. contendo algumas não só a cabeça de carranca (em geral a cabeça de um dragão). colocada na ponta da proa. assim como os barcos a que se destinavam. de cabeça do barco personificado ou metamorfoseado num vivente. também de madeira. navegantes gananciosos. a condição de vigia. pois. Ao se fazer a carranca de barro. uma identificação harmoniosa do material. brinquedos. como que garante à cabeça de carranca. de Ouricuri. Ana das Carrancas. Nesse sentido. uma vez que o barro vindo do leito do próprio rio agora mantém não com o barco.5 metros de altura. Não se tem o hábito de se fazer um esboço ou desenho. Assim.

algumas carrancas mais antigas têm a coloração desbotada. A cruz. ao sol forte da região. No caso específico de Ana das Carrancas. o mundo dos espíritos. Sabemos que as primeiras populações ribeirinhas do Rio São Francisco a partir do período da colonização eram de característica negra ou índia. XVII). de Saint-Hilaire (séc. nos escritórios. iourubá e/ou de nação de angola. sendo até o período anterior à abolição da escravidão. admiradores e turistas e que as colocam nas salas. tal característica dos olhos das carrancas de Ana mostra ainda mais esse aspecto de visão de um mundo invisível. agressivas. devido ao fato de seu marido. o conjunto da figura impressiona pela aglutinação de elementos desproporcionais que disputam o espaço da cabeça. Bom Jesus Protetor dos Navegantes. Signo. de aspecto protetor. As orelhas. escravos que 55 . A cabeleira da carranca. não acessível aos olhos do mundo físico. os olhos e os dentes. quando são de aspecto humanóide. São as cores mais usadas. bem como da força que a protege. Numa espécie de simbiose ou sincretismo. talvez. por sua vez. Outras têm a coloração dourada também. José Vicente. estas mantêm por mais tempo o vigor de suas cores. mas principalmente o invisível. abrigadas que estão dos efeitos nocivos do sol e da água do rio. Abrindo a boca.formam o primeiro aspecto dessa força animal e vital. que costumeiramente vazava os olhos de suas carrancas de barro. são destacadas em tamanho assim como a boca. O vermelho usado em muitas figuras. a proteção declarada que a carranca oferece também apresenta um sentido invertido das figuras de proteção religiosa usadas na náutica. formando um conjunto de aspecto monstruoso. fruto da característica do pigmento. Santo Olavo. supõe-se um rugido. como se fosse uma juba caindo pelos lados do pescoço da figura. por vezes. quando é colocada na figura. entre outros. O mal a serviço do bem. as cabeças das carrancas têm aspectos antropomórficos híbridos. demonstra a força vital e guerreira da carranca. um canto de aviso aos espíritos malignos da chegada da embarcação. algo diabólico. também têm o mesmo padrão de desproporcionalidade. o nariz e o queixo. ou ainda. boca e dentes. conotam a noção de que tudo a carranca vê. Desse modo. XIX). cabelos. As cores formam outro aspecto importante da carranca. Já as carrancas que são adquiridas por colecionadores. descolorindo depois de algumas estações. Segue-se assim também as sobrancelhas. A língua. a imagem de algum santo ou santa (Nossa Senhora dos Navegantes. De forma geral. se caracterizam por uma imagem amistosa ou de bem-aventurança. ao passo que a carranca se contrapõe pela agressividade nas suas formas monstruosas. são de leão ou cachorro. numa espécie de homenagem incorporada ao seu imaginário. assim como o negro e o branco reforçam as idéias expostas pelos olhos. entre outras). ser cego. não apenas o mundo concreto. o espiritual e mágico. de uma associação entre a simbologia imagética característica de mitologia africana ou mesmo ameríndia com a religiosidade cristã. Nesse sentido. a carranca típica do São Francisco interpõe-se como o artefato que usa da força diabólica para uma missão de proteção ao navegante cristão. ou em alguns casos. pouco resistente às intempéries. marcante no caso das de Guarany. no mais das vezes. como atestam relatos do Padre Martinho Nantes (séc. físico. Os remeiros ou barqueiros eram predominantemente de característica negra. Os aspectos africanos da carranca aparecem mais ainda quando observamos as que têm cores fortes (como o vermelho e o tom negro) com o fato das formas desproporcionais ou bem proeminentes como é característico das peças em madeira do artesanato antropomórfico africano banto. grandes também. ou descascada. Santa Bárbara. Os olhos da carranca. do viajante Sir Richard Burton (1867).

scielo. Belo Horizonte/São Paulo. Prancha de Figuras – As Carrancas 56 . 1975a Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. de um cruzamento de influências do imaginário cristão português. 1976. Teodoro Sampaio traz informações mais detalhadas acerca da natureza étnica dos remeiros. Padre M. PARDAL. São Paulo/Brasília. Os cabelos das carrancas.br/scielo. SAINT-HILAIRE. Zanoni. Carrancas do São Francisco. fonte:Fonte:http://www. Jacques. Editora Nacional/MEC/INL. grandes. mas também com predominância da cor negra e lisos ajustam-se mais ao tipo étnico indígena sulamericano do que africano. n. Não se deve esquecer.1. As carrancas são o resultado.faziam o serviço de travessia e ligação entre as diferentes cidades. coleção Raízes. “Os Remeiros do São Francisco na Literatura” em: Revista de Antropologia. Martins Fontes. Rio de Janeiro. Francisco Alves. Paulo. em geral. NEVES. Referências Bibliográficas: MAHIEU. de modo que a idéia de espíritos do rio e espíritos da mata possam ajudar ou prejudicar uma travessia é também natural do imaginário ameríndio. 2006. 2003. São Paulo. São Paulo. Trad. O cristianismo deu o sentido de proteção. a nosso ver. os elementos afro e ameríndio os aspectos estéticos e formais da carranca. SAMPAIO. Vivaldi Moreira. São Paulo. porém. misturados sobremaneira com fortes doses do imaginário africano e ameríndio. 2002 O rio São Francisco e a Chapada Diamantina. como concretizações de figuras de espíritos malignos dominados pelo sentido cristão e postos a serviço da exploração das águas do rio. Companhia das Letras. Os Vikings no Brasil. vol 46.php?script=sci_arttext&pid=S003477012003000100004. que a cultura cabocla também incorporou elementos da cultura indígena. T. NANTES. A. Cia. 1979 Relação de uma missão no rio São Francisco. Itatiaia/Edusp. notadamente do âmbito dos navegadores e exploradores transposto para o cenário da colonização do sertão.

Personagem de destaque no Macunaíma de Mário de Andrade. Minas Gerais. Mãe d’água. se analisamos o processo de povoação dessas regiões. O rio São Francisco também tem suas lendas. Polifemo e Galatéia. Pareceme que aqui é o caso de uma migração da lenda do São Francisco para o Tocantins. muitas vezes. Ana das Carrancas e algumas de suas carrancas de barro Três carrancas de madeira do mestre Guarany A Lenda do Nego D’Água e o Rio São Francisco Os rios. este modelo é reproduzido aos milhares. Esta lenda também é encontrada com referência ao rio Tocantins. Aparecendo dás águas com suas gargalhadas. As ninfas do Tibre. espíritos maus. Lembro do poema de Cláudio Manoel da Costa. vapores assombrados. se eles recusarem dar-lhe um peixe. careca e mãos e pés de pato. são repositórios de lendas.Carrancas típicas em escala industrial. 57 . envolvendo carrancas. o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores. recriando a lenda em águas do ribeirão do Carmo. Com origem na mitologia indígena temos a Iara. Uma das lendas mais curiosas do folclore do rio São Francisco é a “A Lenda do Nego D’Água”. além do imaginário palaciano e de cavalaria. do Tejo são cantadas desde a poesia barroca. preto.

para que não tenham sua embarcação virada. tange-os para longe da rede de pesca. que imediatamente atirou para o neguinho que dando cambalhotas.com.etc. o que provoca tombamento do mesmo. percebendo ao se aproximar que se tratava de um cavalo. ao sair para pescar.valedoriosaofrancisco.br) Outro fato narrado no São Francisco e que envolve a figura do Negro D’Água é a seguinte: “Há quem afirme de viva voz que já viu aquela figurinha atarracada de cabeça grande e olho no meio da testa. pois a noite os pequenos só se aproximavam da água acompanhados por adultos”. como também escava suas covas na base do barranco da beira do rio. ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio. Conta-se o caso de que certa feita no Rio São Francisco deu-se o seguinte acontecimento: “Um pescador contou que pescava a noite quando percebeu um vulto de um animal morto boiando na correnteza. ele seria a fusão de homem negro alto e forte. levar uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio.com. adora fumo. sua função seria a de amedrontar as pessoas que por ali passam. desapareceu no fundo das águas. Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas. Suas características são muito peculiares. partindo anzóis de pesca. principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil e no Rio São Francisco. para roubar-lhes fumo ou beiju”. espécie de versão afro-masculina da sereia. ele nunca se afasta muito da beira do rio. (Fonte: www. o ‘nego d’água’. para avisar ao dono. (Fonte: www. Remou apressadamente em direção ao animal.Alguns pescadores guardam o hábito supersticioso de. costume que faz com que os pescadores atirem fumo a água para cair nas graças do negrinho que gosta desse agrado. outros dizem que são muitos.valedoriosaofrancisco. Como a caipora. que amedrontam o caboclo d’água. a canoa foi sacudida. percebendo o pescador que um nego d’água agarrado à borda da embarcação tentava virá-la. Quando não gosta de um pescador. Segundo a Lenda do Negro D'Água. O fato é que o nego d'água. quando o animal afundou e logo em seguida. Não há evidências de como surgiu a Lenda. costuma aparecer nas casas de farinha das ilhas ou dos barrancos e noite de farinhada. afugenta os peixes. furando redes e dando sustos em pessoas a barco. o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele. Nesse instante lembrou-se o pescador que trazia um pequeno pedaço de fumo. dos quais muitos dizem já ter o visto. o que sossega os corações das mães.br) 58 . Alguns dizem que existe apenas um nego d'água em todo o rio. com um anfíbio. que habita nos locais dos rochedos do meio do rio. corpo coberto de escamas mistas com pele. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio. Apesar de viver também fora da água. os beiradeiros jogam nesse ponto cacos de vidro. muito difundida entre os pescadores. e aí tentou encostar a canoa para verificar a marca ou ferro. comumente depois que os trabalhadores se acomodam para dormir. agradando assim o Negro D’Água. passeando entre os que estão adormecidos. Para afugentá-lo desses locais que terminava alargando o rio. povoa a imaginação de todo menino beiradeiro.

nas águas do São Francisco.” (J. 59 . nas informações turísticas da cidade.A. o caçula. causa uma surpresa na paisagem das águas ao olhar do observador. no escuro que fazia. de uns dezoito janeiros de idade. ele leva-os para o seu reino como escravos. oferecendo-lhe fumo. A estátua que se vê como que emergindo das águas. Encantado como eles ficou. 1977. A. eu mais o fio mais novo. 1956) Edilberto Trigueiros no livro A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco esclarece a respeito da lenda do Negro D’Água a sua origem: “Também chamado moleque d’água. com doze metros de altura. Macedo. sentada sobre uma pedra. maretando o rio. embaraiando o sem-vergonha.Segundo o site da prefeitura de Juazeiro. turistas ou crianças descem à pedra e rodeiam à estátua.124) Na cidade de Juazeiro. Eu e meus dois menino. nós escutou os menino gritando demais. segundo ribeirinhos. E nós viu. donde nós tava. Os homens que não ouvem seus apelos. aqui chamado de Caboclo D’Água: “O senhô pode me creiá. colocada sobre uma pedra. numa pescaria. Nisso. adaptado às condições mesológicas do São Francisco. Eles três tavam numa canoa e. tudo leva a crer tratar-se de um símbolo transplantado do mito hidrolático da Mãe D’Água (a Iemanjá dos negros iorubas do litoral). se diz a respeito da lenda que: “O Nego D’ Água vive no fundo do rio São Francisco. A referida obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira é de grande beleza plástica. o bicho rolar pra dentro d'água. O Nego D’Água gosta de batuque nas proas das embarcações e tem o poder de naufragá-las”. Nós remou depressa pra lá. p. pensaro que o bicho era eu e gritaram pra soltar. Existe uma versão narrada por J. recriando a linguagem do caboclo. Macedo. A estátua do Negro D’Água. noutra. Pois num foi que os bobos dos meninos deixaro se encantá a ponto de confundi eu com o danado? Vendo a quereca dele lumiá na luz dos fachos. algumas vezes subindo pelas suas costas até seus ombros. o artista plástico Ledo-ivo Gomes de Oliveira criou uma de suas principais obras plásticas. até esquecero que eu num era nenhum bocó pra ficar sem gritar com aquela amarração que tinham fazido a rede. Dizem que ele é meio homem e meio lontra. Muitos desconhecendo a lenda ou o motivo da obra se perguntam como ela foi parar lá no meio do rio? Ao aproximar de barco ou de canoa da estátua ela começa a impressionar pelo tamanho.” (TRIGUEIROS. mas quando já tava pertinho de chegá nós ouviu eles gritá: "Sorta! Sorta! que é o velho nosso pai". Eventualmente. acerca de um ataque do Negro D’Água. num pegamo um caboclo pro causa desta minha careca. apresenta-se como materialização do imaginário das lendas. Conhecido também como compadre das águas. ele arrasta as mulheres bonitas que encontra nas margens do rio e leva para o seu reino.

apoiando a perna direita dobrada com o auxílio da mão direita. repugnação ou receio a figura da estátua. seguindo o preceito clássico horaciano e aristotélico. 60 . modificando assim a descrição geral do Negro D’Água que costuma referir as suas partes baixas como as de um anfíbio. Não é. de cabeça achatada. Segundo o próprio artista sua arte tem a característica de buscar a: “ .A estátua tem uma aparência bela. essencialmente. nas bibliotecas e ateliês da vida . do disforme. sentado sobre a pedra. Historia da Arte (Antiga e Contemporânea). de tal forma que não nos causa medo. numa posição de observador tranqüilo mas atento. com que. como quem quer ver ao longe completa os tênues traços anfíbios. quanto de sua pose. Aliás.. quando se faz necessário. cuja relação primordial é com a própria Arquitetura e. A figura se posiciona como quem observa ao longe. Filosofia e Comunicação.. a certa altura lemos: “Estudante Autodidata. como um Michelangelo à Davi: ‘ Parla !!!’ ” Está claro aí a presença de influências clássicas e renascentistas na obra do artista. a reportar a esse mesmo Homem o seu próprio Significado Existencial e às suas Origens. esticado. continuou seus estudos de Historia. o que se poderia classificar como uma obra plástica moderna. com o Urbanismo. existem relatos de ribeirinhos que alegam ter visto o Negro D’Água como sendo de baixa estatura e atarracado. liturgicamente. mais agradável. ele. de cor escura é que dá o sentido de se tratar da imagem de um caboclo negro.” No caso da estátua do Negro D’Água encontramos na versão classicizante do personagem folclórico a intenção de buscar esse “significado existencial”. o medo pela agradabilidade. lapidando assim seu “ Formão da Vida ”. As orelhas são pontudas que lembram as do personagem de Jornada nas Estrelas. no sentido das características típicas do moderno. mas de imediato nos impressiona a sua beleza harmoniosa. a sua Origem Espiritual. em meio a Brutal interferência do Homem com o Meio-ambiente. A pedra utilizada. Semiologia. funcionando a sua Obra como uma espécie de Marco-humanizador. Dr. O personagem é assim redimensionado a um sentido mais humano. Geopolítica. descritas no renascimento pelo homem vitruviano. mas é clássica no sentido de buscar a harmonia da figura com a anatomia e as proporções da figura humana. A figura tem pés e pernas humanas. entalha e esculpi. Essa versão apresentada por Ledo-ivo tem de certo implicações com uma tentativa – consciente ou inconsciente – de harmonização com preceitos clássicos de estrutura das partes da obra e de aparência segundo dados de uma anatomia fundamentadas no número de ouro e na divina proporção. Spock. Sociologia. embora os traços pouco lembrem a aparência dos afro-descendentes. Na página da Internet que apresenta dados do artista.à Verdadeira Expressão desta Arte. pois. tanto de sua aparência. Substitui-se desse modo na lenda. como a utilização do grotesco. o artista plástico se preocupou em apresentar uma versão do Negro D’Água de belas feições e com harmonia das partes. denotando assim. O rosto delgado tem sobrancelhas bem definidas e salientes e o pescoço longo. De anfíbio o que temos na estátua é uma espinha dorsal externa escamada que parte do alto da cabeça até o cócix.

jangadabrasil. FUNARTE.asp 61 . "O caboclo-d'água".Três fotografias do Negro D’Água. J. A. Referências: MACEDO.com. 1977. 2 de dezembro de 1956 TRIGUEIROS. Edilberto. Belo Horizonte.br/revista/galeria/ca84011f. A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco. Folha de Minas. http://www. Internet: JANGADA BRASIL. Rio de Janeiro. obra de Ledo-ivo Gomes de Oliveira.

telas com temas ao rio São Francisco ligado. acreditamos. ou ainda. Pinturas Holandesas 62 .Algumas Considerações Acerca de Algumas Representações Pictóricas do São Francisco Neste capítulo pretendemos comentar acerca de algumas telas de pintura cujo tema é o Rio São Francisco. 1. das festas populares das populações ribeirinhas ao Velho Chico. poder contribuir para o entendimento do processo do imaginário que formou na consciência nacional uma representação do rio. antes o que pudemos fazer é tratar das telas as quais tivemos acesso mais imediato. Não poderíamos aqui fazer um verdadeiro livro de arte panorâmico. Com essas considerações. Sabemos que não são poucas as telas que foram pintadas com o tema do rio São Francisco. histórico-pictórico a levantar todas ou as principais telas. das carrancas. como acerca das lendas.

percebe-se o forte holandês. calmamente. e com o tronco acinzentado. Ao fundo na outra margem. tais estranhezas não alteram o significado geral da planta cactácea ali pintada. principalmente em Pernambuco. Um de seus quadros. é pouco provável que a paca se dispusesse a servir de modelo. pinta o rio São Francisco. mas em floração. de avaliar a 63 . o fato de que em toda tela não se destaca nenhuma árvore. tranqüilamente ali. Franz Post. de modo que nela vemos informações sobre a vegetação e a fauna da região. Rio São Francisco Primeiro. Pelo tamanho da paca e do xique-xique e o tamanho com que aparece o barco e o forte ao fundo. um barco atracado à margem. trouxe algumas contribuições para a formação cultural da região. vemos uma paca de pelo marrom escuro. ao que me parece. 10 das quais ainda desaparecidas. Seguindo. Franz Post que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644. Demonstrando a firmeza da ocupação holandesa na região. Acresce a isso.Começamos por falar das pinturas holandesas do século XVII. um xique-xique. A ocupação holandesa. Pouco à frente do xique-xique. com isso Post informa sobre a natureza climática da região. acredita-se que tenha pintado pelo menos 18 telas. mesmo na distante outra margem que aparece ao fundo. Se pensamos no tempo real que o pintor levaria para a pintura. Os artistas holandeses a serviço de Maurício de Nassau puderam pintar vários aspectos da vida e da paisagem colonial daquela parte do Brasil. uma estrada de terra que leva até o forte. formado por gomos. sobre umas pedras. o preceito de que o pintor deve escolher o cenário ou o momento mais significativo de um propósito geral para que possa ter nesse momento os elementos que realmente possam expressar o que se deseja ou se busca. Natural de vegetação do semi-árido. como que querendo beber água. bem como sobre as condições de povoamento. podemos observar com destaque às margens. é plausível encontrá-la com freqüência próximo ao rio. A paca ali pintada é com o objetivo de fornecer dados sobre a fauna local. Post pinta uma paisagem das margens do São Francisco. Ligeiramente retorcido. temos na possibilidade da perspectiva aplicada pelo pintor. bem como da passividade com que as pacas se portavam diante da presença humana na terra ainda pouco desbravada. esta parece dominada por vegetação rasteira ou arbustiva.

a beleza da pintura paisagística de Post esta lá ainda presente. mostrando aos olhos de que observa o quadro quão largo é naquele trecho o rio. Post fez por pintar a cachoeira de tal maneira que parecesse pouco mais do que as que são comuns há muitos outros rios de vazão menor que o São Francisco. Franz Post pinta a cachoeira de Paulo Afonso. Ainda as águas calmas. inclusive existem dúvidas sobre sua nacionalidade. porém.F. praticamente sem ondas. Não nos dão os elementos da tela (pedras. dá dados da facilidade de navegação. 64 .distância duma margem à outra. se austríaco. vegetação) nada que sirva de parâmetro para uma aproximada medida da cachoeira.Schute – pouco se sabe acerca desse pintor. Noutra tela. Colocando-se o pintor num ângulo de relativa distância para que pudesse pintar um plano geral de frente da queda d’água. Á época em que pintou ela ainda não tinha esse nome. Todavia. de como depois. agora. chamada antes pelos portugueses de “Sumidouro” ou “Forquilha”. Franz Post. não dá ao observador a dimensão do tamanho da queda d’água. suíço ou alemão. Cachoeira de Paulo Afonso A pintura de Post. Podemos comparar esse quadro de Post com um pintado posteriormente por E. já após a queda ela se reconforma para seguir seu caminho e no modo como os rochedos parecem resistir à força brutal da cachoeira. no modo como dá o efeito de queda d’água.

Aqui em Schute a pintura paisagística é nitidamente romântica. Em primeiro plano vemos uma palmeira pendendo em direção à queda d’água. Schute se coloca no alto dos rochedos. mais ao fundo duas figuras humanas servem de parâmetro para que se possa ter noção do volume e da extensão de águas ali. vai baixando para um tom próximo do rosicler ao fundo. A névoa que se levanta da cachoeira também tem um efeito plástico belo. Escolhendo um ângulo diferente de Post.Schute. como se estivessem convidando o observador do quadro a olhar o cenário e admirá-lo também. deixando-nos a impressão de que as figuras humanas ali paradas estão não só admirando a paisagem.E. como se buscassem demonstrar a altura da queda. Vingboons. As figuras estão de costas para o observador. em que algumas árvores pairam à beirada. Cachoeira de Paulo Afonso. no primeiro plano temos o domínio dos tons escuros. Penedo 65 . para alcançar o outro lado dos rochedos. 1850 possivelmente. numa posição que permita ver o alto da queda. Reforçando essa impressão da hora. caso se dispusessem a fazer. O céu de várias tonalidades de azul no alto. O quadro do rio São Francisco de Post pode ser comparado com a ilustração de um compatriota seu. O quadro é de metade do século XIX. como que anunciando um final de tarde. e as água vem de pelo menos três direções diferentes. que pintou a região de Penedo. mas também percebendo qual dura será a travessia.F. Jan Vingboons.

Na pintura de Vingboons vemos uma frota de barcos. mas de uma vegetação verde rasteira. assim as duas caravelas portuguesas que ali aparecem passam a idéia de que seja a ação de um agressor que vem quebrar a ordem e o progresso do lugar. 2. as cores das roupas e as cores das casas. Artista de caráter primitivista. as casas. as plantações de hortaliças bem verdes. nas margens ou na vila. focalizando mais nitidamente as casas e construções da outra margem. o verde e o vermelho dos barcos. sugerindo a descrição do ataque das forças baianas na reconquista de Penedo. e a vila aparenta calma. um deles inclusive atirando de seus canhões. os agrupamentos de pessoas. o azul vivo das águas. Pinturas Contemporâneas No âmbito das pinturas contemporâneas e modernas. A bandeira das caravelas parece ser de tropas coloniais portuguesas. Os vários barcos pequenos colocados próximos às vilas dão a idéia de um lugar de muita movimentação. O movimento também é sincrônico e complementar. Os barcos. um barco vai à esquerda. Uma de suas telas intitula-se “Rio São Francisco”. o que vemos é uma riqueza de cores contrastantes. o rio São Francisco tem sido tema recorrente de vários pintores. porém seu plano é mais próximo. casas e estradas é que sugerem que em cena existam muitas pessoas em ação. assim como o vôo dos pássaros. natural do Recife. Um exemplo é o pintor Militão dos Santos. uma vez que não temos sinal do xique-xique. Não se vê figura humana. seja nos barcos. 66 . outro vem à direita. surdo. o marrom avermelhado e o negro da terra. Adotando as idéias de composição e cores apreendidas com Rubens Fortes Bustamante. A vegetação presente na margem de primeiro plano é diferente da que se apresenta em Post. Vingboons coloca-se num ângulo muito parecido ao de Post. Vemos muitos barcos menores. em proposição de complementaridade. alguns com aspectos de barcos de pesca. principalmente os oriundos da região do vale e do Nordeste em geral.

Josinaldo Ferreira . mas as cores vivas. O céu dividido em três faixas. Essa característica primitivista de utilizar cores vivas. Mais ao fundo a campina verde se faz presente em duas tonalidades de verde. Por outro lado. por sua vez. que se confunde com o horizonte. bandeiras. tudo delimitado quase que geometricamente. por vezes numa riqueza de contrastes. fortes. para sugerir o espaço ocupado por duas colinas. O Sol. pintadas como se lembrassem fogos de artifício explodindo ou enormes lírios dos campos coloridos. Seus quadros são repletos de figuras humanas. árvores.João Militão. e outra superior. branca. fortes. tem 67 . a sugerir o domínio do Sol. Rio São Francisco A copa das árvores de João Militão. rica em húmus. Josinaldo Ferreira nasceu em Remanso (BA) em 1951. lembrando um bocado das pinturas modernistas da década de 20. e a riqueza de movimentos e personagens passam essa idéia de dia cheio de luz. não está pintado no cenário do quadro. sugerindo a idéia duma terra adubada. a compor o espaço das nuvens. Parte da terra da plantação é pintada em cor negra. num amarelo ocre. de pintar movimento e variedade de personagens encontramos também em outro pintor da região. Sua pintura de caráter primitivista é bem colorida e com bastante movimento. casas. uma intermediária. na sua disposição radial de folhas. uma azul.

Josinaldo Ferreira. tudo numa configuração de movimento mais calma. lembra a dos românticos paisagistas como Benedito Calixto. todas com listras horizontais. Na margem do rio. o tempo é circular. nessa tela. pessoas fazem acenos para o barco. pessoas lavando-se ou lavando roupas. criando uma relação de similaridade com o rio.também uma certa similaridade com as xilogravuras nordestinas. mais paisagística. demonstrando assim um certo aspecto de isolamento do lugar. Joel Dantas. carregado de pessoas e bandeirolas. a perspectiva e a disposição de seus elementos criam essa sensação. uma vela dum pequeno barco. No quadro “O Velho Chico”. Sua técnica. 68 . quanto à Lua aparecendo e recebendo ainda os raios do Sol que se encontra ao poente. Rio São Francisco No quadro que apresentamos nesse artigo. também se notabiliza por uma pintura com temas locais – do rio São Francisco e do sertão – mas sua técnica é diferente do primitivismo de Josinaldo Ferreira. mais lenta como o fluir das águas serenas do rio São Francisco. perpendicularmente ao olhar do observador. reconfigurada para o momento contemporâneo. como se as águas do rio dirigem-se nosso olhar para o infinito. Augusto Muller ou Fachinetti. A terra vermelha e a cor bronzeada da pele das pessoas dão outra similaridade ao quadro. o rio é colocado em perspectiva. passa a impressão da circularidade. na outra margem. confluindo nas matas ciliares que acompanham o rio. o céu azulado e um astro avermelhado que tanto pode ser o Sol em rosicler. podemos notar o barco passando pelo rio São Francisco. no que concerne à forma e ao uso da perspectiva. Ao fundo. Porém. como se essa paisagem se mantive repetitivamente sendo reencenada. coqueiros. atualizada. para o longínquo. O uso das cores. Na margem umas canoas. Notemos as camisetas listradas das pessoas. Essa forma festiva de apreensão pictórica da realidade local é uma característica advinda da simpatia e da amabilidade da população ribeirinha que apesar das dificuldades cotidianas sem mantém assim por natureza mesmo de sua gente. nascido em Pilão Arcado (BA) em 1950. O céu azul e branco pintado como parte de uma abóbada. Assim.

também de pvc. mulheres e homens ali numa conjunção prazerosa com o rio. promovida pela ONG Sociedade Semear. Um barco com carranca aportado à margem. feita de canos de pvc. apresentada na exposição “Águas de Março”. O distanciamento do olhar do observador faz que vejamos um panorama de pessoas nadando. se divertindo ás margens. entre março e maio de 2007. O cenário apresentando em pouco difere da técnica comentada do quadro anterior. O título provocativo se justifica pela moldura. Joel Dantas. a contradição de estilos. mas tem outra mais latente ao meu modo de ver. Se o propósito foi a crítica ao modo como as questões do rio São Francisco são tratadas. ao centro da parte inferior da moldura. O Velho Chico. tela e moldura. Crianças. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira”. não só de conteúdos: a água do rio e a água encanada que nunca chega. mas apenas nesse sentido. Rio São Francisco Joel Dantas tem outra tela. fechando numa torneira. uma vez que artisticamente talvez fosse merecedora a tela também de uma pintura 69 . A moldura em pvc cria um contraste de tal densidade com a tela que é difícil pensar numa unidade artística entre ambas.Joel Dantas. “O Velho Chico. o objetivo é justificado. A Encenação e a Água Que Nunca Chega na Torneira Aqui a contradição é absoluta. exceto por conter uma maior movimentação das figuras e uma vida mais alegre.

mas diferente de Josinaldo Ferreira. No quadro “Carranca do São Francisco”. O Rio de Janeiro. Carranca O barqueiro. atualmente vive em Portugal. a perspectiva é colocada de modo que o observador como que estivesse numa posição inferior ao barco. de caráter modernista. Um de seus quadros intitula-se “Mouth of São Francisco River” e nesse caso. como que querendo assustar a quem a vê. emprega uma técnica de suspensão ou indefinição do fundo e de valorização da figura de primeiro plano. sobre usa contemporaneidade. sinalizando que este se aproxima da margem. numa técnica mais abstrata ou concreta. O que se vê é uma abstração pictórica da visão área que se tem da boca do rio. esta mesma. parece ter que fazer uso de força para empurrar com o remo o barco. Márcia Berenguer Cabral nasceu em 1948. Aqui a idéia de uma viagem de solidão se contrapõe à alegria festiva do barco de Josinaldo Ferreira. é de se teorizar sobre a técnica. num predomínio dum plano mais próximo. estivesse o artista olhando pela janela do avião a paisagem e se inspirou por retratá-la. sem camisa. as praias do litoral nordestino são seus temas preferidos.que se ajustasse melhor ao quadro. a margem virtual que aponta para o espaço real em que se encontra o observador do quadro. é rica de cores. ouve o choque entre a linha de pintura do autor e a ousadia da mensagem provocativa. Márcia Berenguer Cabral. O Brasil é um dos seus destinos preferidos. pintor norte-americano. assim a carranca se situa num canto superior da tela. Paul Berenson. choque que não foi resolvido. Sua pintura. São formas diferentes de apreender a realidade pictórica do vale do São Francisco. O barco com a carranca surge assim. penso eu. O fundo todo azulado mistura-se com as águas do rio. mas por outro lado. deve-se também observar esse distanciamento como significativo mesmo da 70 . Desde 1971 este pintor vem construindo um conjunto de obras com mais de duas mil telas. sugerindo quase que uma névoa. Nesse ponto. sociais. mas apresentado na sua crueza. costuma pintar quadros dos locais por onde viaja. a floresta Amazônica. Salvador (BA). Suponho. o que nos passa é a idéia do distanciamento. meio místico. vindo de outras eras para o presente do observador. mais geométrica. meio fantasmático. rica de contradições históricas. culturais e por isso mesmo. Num certo sentido. desafiadora e envolventemente neobarroca.

porém. A tela lembra um pouco um estilo de pintura de Tarsila do Amaral (“Abaporu”. “Antropofagia”). que seria mais interessante se não tivesse o título e poderíamos aventar hipóteses mais estruturalistas. “O Ovo”. modernas e artísticas acerca da pintura. o distanciamento revela-nos quase um quadro abstrativista. Penso eu. Paul Berenson. caindo pelos lados. O fundo é todo de tons vermelhos e o Sol. faltam os espinhos. Duas delas. No caso particular dessa tela. se mistura com o fundo. revela-nos apenas o óbvio. Êta Transposição 71 . o olhar de turista encantado com a Natureza local. 1942). O título. No quadro de Mallet vemos uma espécie de cacto que. Pelo contrário.compreensão do lugar. compondo uma forma indefinida que só ganha sentido concreto quando olhamos seu título. esse é seu olhar. como se fosse também pelo peso da água acumulada. enfim. portanto. o de um pintor turista. da gente e da terra que retrata em suas telas. São Francisco Mouth Na já cita exposição “Águas de Março”notamos o quadro de Alfredo Mallet (Rio de Janeiro. também vermelho. dando a entender que caem pelo excesso de calor e aridez da paisagem. Alfredo Mallet. Uma baga superior se empina firme em direção ao Sol. “Êta Transposição”. mas pela robustez delas. se constitui de três bagas bem rombudas. Locais turísticos. O verde e o azul.

seja pelo desequilíbrio ecológico. tem resultados insatisfatórios. caem pela sua frente e continuam pelo chão. SE. a necessidade desse processo. porém tal luta. nesse sentido. de modo que sua aparente robustez logo se desvanecerá. como se fossem as lágrimas num choro contínuo. O cacto na tela de Mallet é. Ainda se pode interpretar que o estranho cacto ali no cenário semi-árido seja simbolicamente o próprio projeto de transposição. ou melhor. algo ambígua. 1956) destaca-se como artista pelo trabalho de escultor.A terra num tom ocre oleoso sugere a aridez do terreno. Antônio da Cruz apresenta uma máscara em cobre. o processo se deu. Os filetes derretidos caem sobre um bloco. por outro lado. nos remetem a um novo tópico. qual seja a questão do modo como os modernistas de São Paulo e Rio de Janeiro viam o processo de interiorização. pois. de cujos olhos escorrem dois filetes derretidos de aço inoxidável. A lembrança com o estilo de Tarsila do Amaral não é uma característica constante da obra de Alfredo Mallet. ou. cerca de 70 anos após o advento do Modernismo. entendemos que a transposição viria a solucionar o problema da seca. Na exposição “Águas de Março” apresentou a obra “Lágrimas de Opará”. na maioria das vezes. Antônio da Cruz (Maruim. seja pelo modo consumista e destrutivo com que. no mais das vezes. Ou entendemos que a obra é contrária à transposição. uma vez que apresenta o calor. A luta do homem para o domínio da Natureza de modo a torná-la sujeita as necessidades humanas. A interpretação do quadro é. aludindo assim a provável falta de planejamento que os críticos do projeto buscam demonstrar. e sua comparação com as citadas obras de Tarsila. Assim. mas é de se destacar nesse quadro. sendo vencido aos poucos pela incongruência da paisagem. Recuperando o nome indígena do rio São Francisco. Antônio da Cruz. a aridez. o aspecto ecológico entra como componente crítico de avaliação do processo de interiorização. representativo desse processo. Lágrimas de Opará 72 .

aqui é o próprio quem chora agora e suas lágrimas são de aço derretido. declara o sergipano de Capela. perpendicularmente à tarja. como ele mesmo intitula uma de suas exposições.Era uma Vez um Rio São Francisco”. o rio que na mitologia indígena se forma pelas lágrimas da linda Iati. o sol. o antigo Farol da Atalaia e. sem perspectiva e uma mandala se coloca ali como o Sol – signo artístico de Ismael Pereira. ele enveredou pelo abstracionismo porque possui qualidades para dominar. Assim é como Ismael Pereira define a exposição. ao invés de ser dominado por esta escola. “Ousadia sexagenária”. uma de suas obras mais conhecidas é justamente uma intitulada “Mandala”. um desenho de uma placa vermelha com o dizer “TransImposição”. inclusive. uma homenagem ao gênio Arthur Bispo do Rosário (1909-1989). os jarros com flores. o político-social. temos a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” de Ismael Pereira. Na mesma exposição.A obra num estilo bem contemporâneo.br/noticias/19820081283251459) Porém.cinform. Nem sempre a primeira impressão. Lá estão a fênix. chorando a ausência de seu amado guerreiro. ao meu modo de ver. O vocábulo portmanteau. peca pelo excesso de intenção engajada.. Um fundo cinza. A máscara se apresenta como o mito antigo diante das contradições do mundo moderno. Ícone do neo-regionalista. o equilíbrio em que a obra de arte continue sendo obra de arte e o engajamento sócio-político. Assim. 73 . Numa notícia chamando a atenção para a última semana desta exposição. do “Neo-regionalismo para o Abstracionismo Informal”. que se realiza no próprio meio. No caso da obra em questão. lemos: “Os trabalhos são inspirados em temas que vão desde a mitologia greco-romana à cultura popular do Nordeste.com.. transforma o produto artístico em panfleto. o quadro “Era uma vez um Rio São Francisco”. denuncia um processo apressado de engajamento. Crítica ao progresso desmedido que não se preocupa com a preservação ambiental. E eu gosto muito dessa liberdade”. se faz submergir diante do sentido extra-artístico. É uma coisa muito universal. Os materiais usados. num processo em que tal transformação resulta numa diminuição de suas qualidades estéticas. porém. a primeira palavra é que melhor se adequa à obra. que passa. os galos de briga. uma vez que a mensagem artística. “Eu acho que o abstrato tem como pátria a humanidade e como bandeira. vemos uma tarja preta com a frase: “. ao bom estilo modernista. É difícil conseguir a alquimia adequada. aço inoxidável e cobre dão uma concretude contemporânea. Não raras vezes o desejo de engajamento numa causa política ou social. no caso. ressignifica o mito de Opará.” (fonte: http://www.

redimensionam o espaço pictórico num jogo criativo e encantador aos sentidos visual e táctil. os cartazes poéticos dum Maiakóvsky. Ou de outro modo. o azul das águas. ainda. uma delas subintitulada. e a realidade concreta. o branco de nuvens. Gonçalo Ivo (Rio de Janeiro. assim como também as faixas horizontais se dividem em grupos retangulares e um circular (referência ao Sol). abstraídas de suas formas. As cores formam o espectro do cenário: o verde das matas. Rico de combinações de cores. Assim. justificadas por um contexto da fluvialidade das águas. assim. uma poesia visual cuja visualidade se encontra subordinada ao verbal. o vermelho do calor e do Sol.Era uma Vez Um Rio São Francisco O verbal aqui suplanta o pictórico. filho do poeta Ledo Ivo.. tem um conjunto de três telas acerca do Rio São Francisco. enquanto mundo das idéias das formas. um cartaz. seria mais de se considerar a obra “Era uma vez um Rio São Francisco” uma variante dos poemas postais. . duma fase pré-concretista. 1958). a obra acaba se realizar como um panfleto. As cores de Gonçalo Ivo. Pintor cuja influência abstracionista e concreta se faz notar. temos o domínio dessas linhas horizontais. com domínio das linhas horizontais. A pintura de Gonçalo Ivo é de uma geometrização que confere ao pictórico uma dimensão lúdica numa interface com a realidade física que abre o jogo entre a abstração. o suplantem. Nas três telas acerca do Rio São Francisco. pelo modo metalingüístico e poético com que se apropria de lemas da revolução russa. e. branco e negro combinam-se e alternam-se nas faixas horizontais dando a dimensão plástica das águas do rio.. numa delas os tons de azul. por exemplo. da poesia visual. um poema assim. mundo da realização das formas em matéria plástica. 74 . Em “Aurora” as cores são mais quentes. Aurora.Ismael Pereira. mas nesse caso.

Mercedez-Benz do Brasil. LEITE. bem pode ser subdenominada de “Entardecer”. Internet: CINFORM: “Última Semana Para Ver a Ousadia Sexagenária de Ismael Pereira” Postado em 19/08/2008. na sua morosidade do ritmo de entardecer sertanejo.Telas de Gonçalo Ivo com o tema do Rio São Francisco Uma terceira tela. É o reflexo do rosicler solar sobre as águas turvas do rio. Não é esse panorama completo nem extenso.org. As cores dominantes são os tons de vermelho e marrom. em termos de técnica abstracionista. A matização da tela assim substancia o rio como um rio sólido. São ás águas calmas do rio São Francisco refletindo a luz. um breve panorama quase crítico das representações pictóricas do Rio São Francisco. José Roberto Teixeira. VALE DO SÃO FRANCISCO. me parece o pintor que melhor soube apreender a natureza pictórica do Velho Chico.br 75 . SP. 1978. 1967. São Francisco: O Rio da Unidade. A Pintura no Brasil Holandês.br/noticias/19820081283251459 SEMEAR: “Exposição Águas de Março”. http://www. em que o fluídico se encontra disfarçado pelos tons mais densos.com. DESENVOLV. O que busquei comentar nesse capítulo foi. Gonçalo Ivo. sendo que muito provavelmente esqueci ou deixei passar telas significativas da história pictórica do tema em questão. Assim. dentro do conjunto. São Bernardo do Campo. embora tenha o título apenas de “Rio São Francisco”. mas me ative as telas que tive maior familiaridade e contato. me suma. Referências CIA.cinform. Rio de Janeiro. GRD. http://www.sociedadesemear.

Era comum um espetáculo de bonecos denominado de “Presépio” de característica de difusão do imaginário cristão. O mamulengo é 76 . incluindo-se aí um longo espectro de adaptações e modificações. O teatro de bonecos era comum na idade média na Europa. à transposição de lendas européias para a cultura brasileira. A chegada do teatro de bonecos está associada também à chegada da arte circense. sendo apoiado pela Igreja.Mamulengo Revisitado: A Arte das Mãos na Ligeireza dos Bonecos A origem do teatro de bonecos chamado de “mamulengo” perde-se um pouco no próprio processo de aquisição de cultura durante a colonização. inclusive em Portugal.

Papafigo. diferindo do Presépio medieval com caráter mais religioso e mesmo de desenvolvimentos mais acadêmicos ou eruditos como o teatro simbolista de marionetes de um Maeterlinck. Catirina. da boca e até dos olhos. em alguns casos. dispensava a necessidade de uma caixa para palco. como a raposa. Nesse aspecto. o Cabo Setenta. podendo também ter fios para os braços e as pernas. hoje se considera que os bonecos de mamulengo podem ser. existem os personagens que representam alegoricamente determinados valores de conduta. o cachorro. d) de fio . Além destes. Modernamente a distinção entre o teatro de bonecos e o teatro de fantoches tornouse muito tênue. Nesse sentido. de uma cortina que separasse visualmente o bonequeiro do boneco. o Moleque Benedito. Mané Pacaru e João Redondo. algumas vezes. que chega ao teatro de bonecos como forma de diminuir a possibilidade de participação do ator na construção do texto teatral. Essa tipificação característica de personagens se eleva um pouco mais quando notamos a ocorrência de personagens com nomes próprios mais delimitados como o Professor Tiridá. uma vez que por aquela época era uma arte comum na Holanda. de massa ou papelão. o padre. Piauí. A origem do termo parece estar implicada com a corruptela da expressão “mão molenga” com que se definia a habilidade do bonequeiro em movimentar o boneco. 77 . o briguento. dos seguintes tipos: a) de luva (ou também “guignol”) . temos nesse caso o bondoso. A tipologia das personagens demonstra. vestindo um camisolão de pano. a onça. Assim. etc.os bonecos são ligados por fios a um controle. Tal habilidade. c) de haste . o teatro do mamulengo já tem como padrão a utilização do palco de bonecos e da separação visual entre o bonequeiro e o boneco. por exemplo. etc. o galo. Quitéria. a comédia tornou-se o gênero característico. Simão. ou ainda. o molenga. conforme a técnica utilizada. tendo o mamulengo incorporado. a nosso ver. Hoje.característico do Nordeste. principalmente em Pernambuco. ao passo que no mamulengo era a mão do bonequeiro que dava sustentação e a forma definida ao corpo do boneco ao ser introduzida por debaixo do boneco em orifícios próprios para a ação dos braços. daí espalhando-se para estados como Alagoas. a técnica dos bonecos suspensos por cordões ou cordas.os bonecos são suspensos por uma haste de metal. cujo movimento é produzido pela mão (dedo indicador colocado na cabeça e o polegar e o médio nos braços). num certo sentido. por vezes. partindo da cabeça para a mão do manipulador. Há também os bichos. Rio Grande do Norte. feito de madeira. o mamulengo se aproximava visualmente da performance do ventríloquo. definiu aspectos do mamulengo como um teatro de bonecos que. conhecida como “Jan Pickel Herringe”. no entanto. articulado e movimentado por varetas. b) de vareta . o valente. Os personagens típicos do mamulengo são definidos por uma tradição que representa papéis sociais que se cristalizaram na formação da sociedade nordestina: o coronel. o policial (a volante).boneco com cabeça de madeira.boneco de madeira ou outro material. Diferia o mamulengo do teatro de fantoches ou de marionetes pelo fato de que no teatro de fantoches a ação dos bonecos era mediada por linhas. A origem do mamulengo em Pernambuco está associada ao período da invasão holandesa. o papagaio e o jacaré. como o teatro de bonecos mamulengo conseguiu absorver um procedimento crítico da sociedade fundado na técnica da alegoria e da ironia. cordões ou cordas que sustentam o boneco. que permite ao manipulador movimentá-los.

acrescido dos interregnos da regência (1831-1840) e do reino unido (1815-1822). desprovidos de estrutura logística. O Nordestino materializa sua fé na persistência. denotando sua universalidade enquanto arquétipo (a serpente emplumada. Introdução: O Rei e seu Castelo O Brasil foi o único país da América do Sul a ter um período monárquico ligado às tradições e às famílias nobres européias. indígena e africano. personagem sincrético entre elementos do imaginário cristão. não é tanto pela sua inabilidade de polícia e pelas trapalhadas pelas quais passa e provoca. porém. e em outros casos.A comédia no mamulengo. de pessoal treinado e de recursos os mais variados para seu trabalho. muitas vezes. associada historicamente como parte do aparelho de institucionalização do coronelismo. mas também. A Simbologia do Rei e do Castelo na Cultura Brasileira 1. em que o poeta se veste da pele de cobra e sai em busca da princesa do sem fim. uma vez que a própria família real portuguesa mantinha laços estreitos por meio de casamentos e outras 78 . mas também de configuração maia e egípcia. na constância de busca de superação dos limites impostos pela maquiavélica exploração social das agruras das intempéries. O nosso século XIX foi marcado nesse âmbito pelos dois reinados (1822-1889). Se o Cabo Setenta nos faz rir. não poucas vezes. As ligações com as famílias nobres européias superavam os limites do domínio da metrópole. a namoradeira. antecedido pelo período da permanência da família real portuguesa (1808-1815). a mulher fofoqueira.ex. o rapaz Simão tenta então resgatar o boi do ventre da cobra e acaba por entrar no ventre em busca de seu animal. Uma de suas peças mais conhecidas é “Simão e o Boi Pintadinho”. terminando o século pela proclamação e instalação da república nos governos de Marechal Deodoro e Floriano Peixoto (1889-1894). Waldeck de Garanhuns é um artista do mamulengo que tem se destacado por um trabalho de revisão e reinvenção dessa arte. entre outros. O resgate do boi nos faz lembrar do poema “Cobra Norato” de Raul Bopp.). misturando ainda elementos de personagens folclóricos diversos. A figura simbólica do boi nas histórias populares do Nordeste. no lugar da conquista do amor ou da validação do poder da fé. Do mesmo modo. mas principalmente por que a personagem alegoriza-se sob a visão popular acerca do policiamento nas pequenas cidades do Nordeste. se liga ao mito de Orfeu e sua descida aos infernos e num contexto cristão à aventura de Jonas no vente da baleia. vai também acrescentando os seus. p. De certo modo. o que temos é uma outra mensagem simbólica: a persistência. Aqui. o padre. Sabendo revisitar os personagens criados por outros mestres mamulengueiros. assume a condição de sátira. em que o boi depois de aprender a dançar é engolido por uma cobra. Simão é a prefiguração do dizer euclidiano-pós-positivista de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”. personificam a visão da sociedade por um viés que na sua forma satírica e estereotípica faz por desnudar as contradições dessa mesma sociedade. o que temos é um processo de carnavalização (bakhtiniana) na formulação e apresentação do espetáculo do mamulengo. tanto mais que os personagens característicos costumeiramente acabam por se construírem sobre estereótipos de papéis sociais enraizados na estrutura da sociedade nordestina. aqui é articulado com a figura da cobra grande (originária do imaginário indígena).

É claro que tal simbologia do rei e do castelo não se deve exclusivamente à ligação com a monarquia em Portugal e no Brasil. É lá que passa a maior parte da infância e da adolescência. manca e feia. Luís Maria Filipe e de D. em Minas Gerais. a figura do rei-santo que voltará a restabelecer o seu reino. D. com Leopoldina e Isabel. Alguns cronistas relatam que o casamento só teria se consumado um ano depois e que o imperador só não remeteu a esposa de volta à sua terra natal graças à intervenção de D. em Pernambuco entre Era filho primogênito de Luís Carlos Filipe Rafael de Orléans. imperatriz Teresa Cristina e D. aos 15 de outubro de 1864 (fonte: Wikipédia). Se contarmos ainda o longo período colonial de ligação com o governo monárquico absolutista e centralizador português. e de Vitória Francisca Antonieta Juliana Luísa. Estes chegaram ao Brasil em 1864 para se casarem. com quem casou-se em 4 de setembro de 1842. devido à Revolução de 1848. de origem portuguesa. 28 de Dezembro de 1889). Francisca. D. Assim. No Maranhão. é obrigado a fugir do país com a família. Sintomático e exemplar disso é o episódio de Canudos. de D. duque de Némours. Filha do rei Francisco I do Reino das Duas Sicílias. ao conhecer a esposa. No Brasil o Cond’Eu 4 e a imperatriz Teresa Cristina 5 eram. princesa de Saxe-Coburgo-Gota. Isabel e D. foi a esposa do imperador Pedro II. No imaginário cristão. da França. D. mas sim o reino de Cristo. Antônio Gastão. em Goiás.da esquerda para a direita: Conde d'Eu. temos sim que levar em conta o imaginário cristão católico de que Portugal foi um grande difusor. dado por seu avô. neto de Luís Filipe. no qual Antônio Conselheiro em suas prédicas denunciava a república como a grande inimiga da fé e preconizava a volta de um mitológico Dom Sebastião que viria restaurar não a monarquia ou o reino de Portugal. temos então as razões históricas para o desenvolvimento e a permanência no imaginário brasileiro da figura do rei e do castelo. conde d'Eu. 14 de Março de 1822 — Porto. se casassem com chefes doutras dinastias para dar continuidade à linhagem. filha única do general e duque Fernando Jorge Augusto de Saxe-Coburgo-Gota. Pai de D. Isabel Leopoldina Cristina de Bragança e Duas-Sicílias no Rio de Janeiro. com quem casara por procuração. 5 4 Dona Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltazar Melquior Januária Rosália Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bondosa André d'Avelino Rita Leodegária Gertrudes Venância Tadéia Espiridião Roca Matilda de Bourbon-Sicílias e Bragança (Nápoles. Se cruzamos a influência histórica da coroa portuguesa e da monarquia brasileira com a simbologia cristã temos o amálgama completo que dá razão à existência desse apego do imaginário na cultura brasileira à figura do rei e de seu castelo. a prova direta dessas ramificações para além da família real portuguesa. Isabel Leopoldina. Há quem afirme que. Fez sondagens com a ajuda de sua irmã. (fonte: Wikipédia).alianças familiares com as famílias da Áustria. Aos seis anos. terceira e última Imperatriz do Brasil. o rei da França. A propósito de Dom Sebastião. 79 . Pedro II. Família Imperial . entre outras pessoas. da Espanha e da Inglaterra inclusive. aos príncipes Gastão de Orléans e seu primo. refugiando-se na Inglaterra junto ao ex-rei da França. Mas as princesas tomaram a liberdade de escolher seus noivos. a D. duquesa de Saxe. encontra no Brasil várias adaptações no imaginário popular. rei da França. seu enlace foi motivo de decepção para o marido. Condessa de Belmonte e ama do jovem monarca. Ganhou o título de conde D'Eu ao nascer. Jesus Cristo é apresentado como o “rei dos reis”. Gastão de Orléans. Pedro de Alcântara. Mariana Carlota de Verna Magalhães. Pedro teria cogitado em pedir a anulação do matrimônio por conta de seus minguados atributos físicos: era baixa. D. respectivamente. casou-se com a Princesa Imperial D. Seu nome original em italiano: Dona Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias. Augusto de Saxe. Pedro II do Brasil queria que suas filhas. Leopoldina. princesa de Joinville.

Jesus Christ é o “King of the Kings”. Tendo como marca a basófia. vol. ainda apresentado simplesmente como “o Rei”. se constituiu uma hierarquia monárquica com o príncipe do futebol (Dirceu Lopes. arte ou função parece não ser a mais usual. Podemos pegar como exemplo os Estados Unidos. basta atentarmos para um outro país cuja colonização tivesse sido marcada pela sujeição à uma metrópole monárquica e a religiosidade. A palavra “king” como adjetivo. Por outro lado. 2005. de Sidney Northcote é um filme que se nos afigura como representativo dessa simbologia. 6 80 . o Rei Momo. a pilhéria. Mesmo expressões como “the king of rock” parece ter sua origem na Inglaterra e não nos Estados Unidos. Sinhô foi o “Rei do Samba” ao passo que Moreira da Silva. também. A guerra da Independência americana e o domínio do protestantismo parecem que são fatores a diminuir o sentido que a figura do rei poderia ter no imaginário norteamericano. ainda que nosso romantismo inicial tenha se esmerado em se apresentar como antilusitano. vez por outra é utilizada para qualificação de um elemento arquetípico que represente perigo. mas tão somente um estado de exílio. No futebol. The King of Crime (1914). dominada pelo imaginário cristão.Pedro I. No caso do Brasil. O carnaval. Este de deus da mitologia grega passa a rei do carnaval num longo processo de transformação do festejo. ainda é possível encontrar festas populares cujas representações estão direta ou indiretamente ligadas ao sebastianismo. São Paulo. assim é caso do King Kong. mas a rainha da jovem guarda (Wanderléia) e o príncipe (Ronnie Von). o “Rei do Samba de breque”. se apresenta como o desfile da corte e dos súditos para um rei. Na cultura norteamericana a idéia do rei como adjetivo mais comum para alguém que se destaque nalguma profissão. Al Capone foi cognominado o rei do crime em livro de Nate Hendley. Pelé é o rei do futebol.João VI e o reinado de D. sequer podemos falar numa efetiva guerra da independência em que se pese os confrontos na Bahia em 1823 transformados num desconhecido épico de Ladislau dos Santos Titara. uma breve observação sobre alguns índices encontráveis na linguagem cotidiana já é um suficiente para a constatação dessa simbologia no imaginário do povo brasileiro. em que já se pese mais de um século de período republicano. 6 De fato. Dom Sebastião no Brasil. Reginaldo Rossi é por muitos considerado o “Rei do Brega”. políticos e sóciopsicolingüísticos com o passado monárquico. Roberto Carlos. já um pouco passado na idade e no estilo musical. Havendo uma continuidade entre o governo de D. que desde o seu início muito têm feito pela eliminação de vínculos culturais. década de 70) e Didi (príncipe etíope). a crítica sarcástica e a alegria desmesurada. Basta alguém se destacar numa arte. foi por décadas conhecido como o “Rei da Juventude” 7 e hoje. “the star”. tendo porém a ausência de um período monárquico na fase independente. Khronos. “the magic”. 7 O movimento musical denominado de Jovem Guarda tinha não apenas o rei. ofício ou função que logo recebe a denominação de rei. Parece que o processo de adjetivação nos USA prefere ao “the king” outras qualificações como “the best”. substituindo o imaginário do rei luso pelo sentimento A esse respeito indicamos o trabalho de Marcio Honório Godoy. col. 25.outros estados. Satan é o “Prince of Darkness” uma vez que não pode existir o reino das trevas que se oponha o reino de Deus. “the big”. também. Para fins comparativos. o único rei admitido sem restrições no imaginário WASP (White. uma das principais manifestações populares do Brasil. Ayrton Senna foi o “Rei das Pistas”. AngloSaxonic and Protestant). Perspectiva. ameaça e que se caracterize como algo do exterior.

se referia a uma torre de vigilância. O aspecto defensivo do palácio é diminuído. seu âmbito natural. uma vez que o que seria apenas suntuosidade e pompa no palácio. com muralhas. de um chefe de estado etc. para realmente ser admirada e vista de longa distância. típica da Idade Média. como faz Houaiss. substituindo-se. cercada por torre e um fosso. o palácio a Wikipédia define exatamente como os dicionários Houaiss e Aurélio. que conta a disputa entre dois bicheiros pelo domínio da contravenção. isolando-se assim do contexto 81 . que se destaca da paisagem citadina por estar colocado no alto de uma colina. embora isso ficasse implícito pela designação de “residência de um monarca”. tanto podendo ter um sentido pejorativo. como morada preferível tendo em vista a sua condição de fornecer proteção contra ataques. fontes e espelhos d’água. além de permitir a observação de vasto terreno tendo em vista sua localização sempre ao alto de uma colina ou montanha. uma vez que o castelo é uma construção típica da arquitetura medieval. O Dicionário tem o significado primeiro semelhante ao Houaiss. com funções defensiva e residencial. a idéia de que o Rei é a qualificação natural para aquele que se destaque num grupo social. Nesse âmbito é que os castelos são de característica mais própria ao contexto político e social da Idade Média. Na Idade Média é que os castelos evoluíram para morada dos senhores feudais e nobres. etc. de um alto dignitário do poder eclesiástico. confiando sua defesa aos quartéis e fortificações militares que circundariam e protegeriam os palácios. No Brasil. Ainda convém lembrar que o castelo está associado à idéia de um local afastado do urbano. por amplos jardins.” Sobre sua origem. o Castelo é o lugar do rei. era geralmente erguido em posição dominante no terreno. no palácio a arquitetura de uma torre tem função mais para ostentação. ao passo que os palácios são mais característicos do período em que a realeza efetivamente superou os receios de eventuais ataques de hordas inimigas. destacar a suntuosidade. por exemplo. No imaginário da cultura brasileira a idéia de castelo apresenta já um anacronismo histórico. no castelo por vezes tem sobreposto a função defensiva ou de vigilância. de um chefe de governo”. O Dicionário Houaiss define castelo no seu significado primeiro como “residência real ou senhorial dotada de fortificações” e palácio como “vasta e suntuosa residência de um monarca. acrescido de que o castelo é “Praça forte. sem portanto. Por sua vez. próximo a vias de comunicação. Dez anos depois a expressão foi utilizada no âmbito esportivo para ser referir à disputa entre três grandes jogadores no campeonato carioca de 1995 (Renato Gaúcho. permitir aos acastelados olhar à longa distância.”. fosso. de Fábio Barreto. o que facilitava o avistamento das tropas inimigas e as comunicações a grandes distâncias.francófono. com Nuno Leal Maia e Nelson Xavier. Desse modo a expressão ganha sentido ambíguo. A enciclopédia on line Wikipédia. de um alto dignitário eclesiástico. quanto positivo. em primeiro lugar. dependendo de seu contexto. a necessidade do fosso e das muralhas. Lembremos do filme O Rei do Rio (1985). ao passo que no castelo sua função é a de efetivamente. por exemplo.. fortaleza. inclusive reis. Romário e Túlio). define castelo como “Um castelo (diminutivo de castro) é uma estrutura arquitectónica fortificada. quanto no popular e folclórico. tanto no âmbito culto e erudito. da qual a revolução francesa logo sucumbiu ao império ditatorial napoleônico tão exaltado num Domingos José Gonçalves de Magalhães. barbacã. A suntuosidade do palácio é que o distingue do castelo. de “castellum” (latim). Uma torre. ao passo que a palavra “palácio” parece se referir mais especificamente às construções nobres do renascimento para diante. Fortificação de tipo permanente. Por sua vez. ou quando não.” E para palácio o Aurélio define como “Residência de um monarca.

Grota. nos lembram algo de um certo modelo arquetípico dos castelos medievais. No entanto. se dispôs no quadro a imaginar um cenário tipicamente medieval europeu. criou-se no imaginário popular a necessidade de castelos supratemporais e supraespaciais que poderiam compor a paisagem local materializando a idéia arquetípica do lugar misterioso e de passado glorioso ou histórico. Durante o período imperial é que a construção de palácios nobres se destacou. além do Rio de Janeiro se notabilizaram por seus palácios. Já o palácio está cercado pelo ambiente urbano.urbano ao redor. não está de tal forma elevado que o acesso a ele se faz de forma dificultosa. eventualmente. entre outras personagens similares. podemos nos deparar aqui e ali com construções que embora contemporâneas. entre outras. podemos ver isso no quadro “Grota” em que o pintor. a inexistência do período medieval e nossa ligação colonial com a Europa a partir do barroco e do iluminismo fez com que os palácios se tornassem as moradas dos governadores. de Dom Dinis e de Dom Sebastião. No caso do Brasil. bem como das figuras de Drácula. Manuel de Araújo Porto Alegre. em geral. 82 . O fato de não termos idade média e a absorção ao imaginário popular de lendas e histórias medievais como as do ciclo do rei Arthur. conhecido pela representação exuberante da natureza brasileira. no mais das vezes. mas como que se coloca numa situação central entre os caminhos da cidade. Cidades como Petrópolis. além da popularização da imagem de castelos mal-assombrados na Europa (em especial na Escócia). Não é por acaso também que um dos quadros mais conhecidos de Manuel de Araújo Porto-Alegre seja a coroação de Dom Pedro II em que a figura do rei/imperador se materializa no ritual de coroação dentro do ambiente do palácio. Na pintura romântica brasileira. Teresópolis. de Carlos Magno. de Frankenstein. Seria isso um anacronismo? Um processo de kitschização? Possivelmente encontraremos esses aspectos na análise de construções que pareçam castelos na arquitetura brasileira.

Como se a união do castelo ao cenário brasileiro fosse a recuperação de um ideal de civilização que se acredita perdido. se transforma em ambiente imaginário da sublimação do desejo de realeza e nobreza diante do cenário exuberante da natureza tropical brasileira. estando de fato presente apenas como espaço arquetípico que necessita de preenchimento. Ainda se acresce a eles. embora não tivéssemos idade média temos castelos de caráter medieval. Porém. os palácios e palacetes da aristocracia do café. ao contrário do palácio imperial pós-renascentista tem. tanto pela família real. como se fosse 83 . o título dessa secção deveria ser “Os Palácios do Brasil”. da cana-de-açúcar. seguindo a definição que propomos na introdução desse texto. condes. quanto pela nobreza de barões. viscondes e duques. Coroação de Dom Pedro II O que comentamos a seguir é como o castelo medieval que não tem raízes históricas no Brasil. tendo em vista os palácios construídos durante o período monárquico no Brasil. Os Castelos do Brasil Para o menos avisado e ao mesmo tempo mais crítico do sentido etimológico das palavras. porém. o título está correto. do tabaco. madeira) trazido da Europa para dar à construção maior legitimidade. de fato.Manuel de Araújo Porto Alegre. 2. com base na etimologia e nos dicionários pesquisados. alguns construídos com material (pedras. Ou seja. do algodão e de outras monoculturas que renderam a alguns o prestígio e a riqueza suficientes para a ostentação materializada em suntuosas moradias. não pertencendo a qualquer momento real desse passado. escrevemos apenas sobre os castelos. de fato.

tendo em vista. como determinadas portas. vitrais austríacos e pisos de mármore italiano). são eles: Castelo do Barão de Itaipava (Itaipava – RJ). escadas. duas torres. o Castelo do Barão de Itaipava foi construído pelo barão J. dependências para hóspedes. ala dos serviçais e 84 . bibliotecas. Não comentaremos de todos os castelos. 2. sala de música. Smith de Vasconcelos. telhas de ardósia francesa. descendente de família nobre inglesa e portuguesa. Castelo Itaipava. o barão colaborou no custeio da construção da estrada de ferro Leopoldina. Aberto à visitação pública e sendo uma das mais curiosas e interessantes atrações turísticas da cidade fluminense. Castelo das Pedras Altas (Pedras Altas – RS). que para nosso propósito. Para a construção do castelo o material foi trazido todo da Europa (blocos de pedra portuguesa. Rio de Janeiro.1. Castelo do Barão de Itaipava. Castelo Lacave (Caxias do Sul)e o Castelo de João Capão (Garanhuns – PE).possível transplantar o tempo por meio da materialização da construção com materiais do lugar de origem dos castelos. ferragens inglesas. foram feitos em jacarandá. O castelo tem 42 cômodos distribuídos em 19 quartos. 7 banheiros. mas nos prenderemos a quatro castelos em especial. tendo assim direito a que uma estação de trem ficasse dentro dos domínios do seu castelo. o maior castelo medieval do Brasil. Itaipava RJ. madeira natural do Brasil. terminado em 1920. Tendo a intenção de reproduzir nos trópicos uma cópia fiel dos castelos medievais europeus o barão solicitou aos arquitetos Lúcio Costa e Fernando Valentim a elaboração do projeto. eles parecem preencher as nuanças do fenômeno em questão. Para o transporte do material. curiosamente alguns elementos. halls. a construção deu aos arquitetos o prêmio de da grande medalha de prata do salão de Belas Artes de 1924. terraços. diversos salões. colunas e forros que foram talhados na Europa.

de um desejo de sublimação da realeza perdida com a república (1889). Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes" Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas.” Contendo 44 cômodos. / O livro que amanha a alma. importados de Nova York. estilo colonial. o barão J. mas que tenham uma eficiente dose de magia e ostentação. É considerado o único castelo em estilo normando nas Américas e também o maior do Brasil. mesmo que montados e/ou anacrônicos. A construção centenária foi cenário para importantes decisões políticas das primeiras décadas do século passado. Fruto. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. ao passo que o castelo do Barão de Itaipava era para satisfação pessoal. que pertenceu a Bento Gonçalves. Um enorme relógio.2. Cada objeto conta alguma história. A medida foi uma das cláusulas do acordo de paz. Á entrada do castelo lê-se os seguintes versos: “Bem-vindo à mansão que encerra / Dura lida e doce calma: / O arado que educa a terra. com a diferença que este último é para fins de catarse coletiva e obtenção de lucro com o mundo do entretenimento. 2.galerias. assinado no próprio castelo. Chefe da Revolução de 1923. que acomodaram políticos. mas principalmente para satisfação coletiva de um imaginário popular que busca preencher sua história fragmentada com retratos. 85 . não muito diferente do desejo que faz surgir castelos mágicos na Disneylândia. aliada à beleza natural da serra fluminense a sua volta. o castelo de Pedras Altas busca justificar uma das frases preferidas do revolucionário gaúcho que estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (SP) e foi adepto do movimento republicano: “Em certas ocasiões mais vale um dia de ver do que um dia de ler” . o qual havia exercido por mais de 30 anos. porém. de seus aposentos e salões. O Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas Construído por Joaquim Francisco de Assis Brasil em 1904. criando um espaço mágico. Assis Brasil determinou o afastamento de Borges de Medeiros do posto de governador do Estado. A beleza de sua estrutura. Smith de Vasconcelos soube investir na construção dessa obra arquitetônica que transcende a linha diacrônica da história. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça. lembrando sob certos aspectos o personagem queirosiano de A Cidade e as Serras. revolucionários e intelectuais. o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845). com móveis. transformando-se atualmente em atração turística não apenas pela beleza e riqueza de materiais. talvez. cria um sentimento de êxtase estético no visitante como se um processo mágico no tempo pudesse transportar-nos ao cenário dos reis e cavaleiros medievais. Acreditando que era possível viver no ambiente rural sem necessariamente abdicar do conforto da civilização urbana.

Antes. Homem de cultura e de experiência política e diplomática num período conturbado da solidificação da república no Brasil. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou. de imediato. Porto Alegre. Aos poucos a revolução de 1923 vai se apresentando na biblioteca. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular. menos consciente desses aspectos históricos. bem como seja a concretização de ideais estéticos e filosóficos de seu construtor. 86 . na janela quebrada. a preocupação em todo o país. o que se apresenta emoldurando o castelo de Pedras Altas é a própria história do município e daquela região.Este. mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. por isso. o castelo de aparência medieval vai se reciclando e se amalgamando a um substrato histórico não característico de sua arquitetura.) Desse modo. Ao viajante. pois. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893. tomando conta como o fantasma escocês esperado de um castelo medieval: “A paz de Pedras Altas. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses. Assim visitar o castelo é também conhecer um pouco da história e das contradições inerentes a essa história. ao adentrar e visitar o castelo essa impressão inicial vai sendo substituída pela sensação de que esse castelo não poderia estar em outro lugar a não ser ali. que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. 25-11-2003 página 54. Zero Hora. entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. a surpresa da construção medieval na paisagem cria o antagonismo. o conflito de harmonia causado pelas impressões iniciais das diferenças históricas sedimentadas nos estudos de História do ensino fundamental.” (ZAVASCHI. Olyr. o transplante do castelo medieval para o cenário gaúcho foi se efetivando de tal forma que não se encontra hoje diretamente anacrônico ou anódino. é um castelo que se apresenta impregnado de história política do Rio Grande do Sul. nesse sentido. nos corredores. Porém.

como desfile de cavaleiros trajados em armaduras e brasões característicos da Idade Média.Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. 2. com ambientação pré-renascentista. há até armaduras. tornando-se uma das principais atrações turísticas de Caxias do Sul. Salão das Bandeiras. móveis. passando à família Basso. Além da visita histórica. Construção sofrida e demorada em razão da falta de experiência acerca da construção de castelos. e depois de uma reforma e recuperação. ocorrendo inclusive um acidente com morte de operário após a queda de uma das paredes. Descendente de uma família nobre espanhola. O castelo ganhou um brasão e as cores próprias para sua bandeira. As recepcionistas que acompanham a visita vestem trajes medievais e seus salões e corredores exibem tapeçarias. o local de recepção de uva. objetos. Em 2001 a vinícola mudou de dono. Terminado em 1968. a taberna e varejo. 87 . Ao entrar. Castelo Lacave. seria a sede da vinícola Chateau Lacave. resolveu reconstruí-lo na região vinícola de Caxias do Sul. segundo o padrão característico da construção de castelos. Demorou dez anos a construção do castelo. O visitante lá conhece não apenas o castelo. o castelo do vinho. foi reaberto à visitação em 2004. Assis Brasil de Pedras Altas. as caves de armazenamento de vinhos. Os novos proprietários tiveram extremo cuidado ao decorar e ambientar seu interior com móveis e estilo da época. Sala dos Barris de Carvalho. passando para a Sala das Cruzadas. mas também fica informado acerca da produção de vinho além de ver espetáculos inspirados na idade média.3. O Castelo Lacave foi resultado do sonho de um empresário espanhol que residia no Uruguai. Para dar o clima de realismo. os visitantes aprendem os processos de produção de vinhos para apreciar ainda mais esta bebida milenar. escolhidas com cuidado para não repetir de nenhum reino verdadeiro. os visitantes são recepcionados na Sala dos Tronos. em pedra. e tendo uma planta original de um castelo que pertenceu a sua família no século XI. armaduras e pinturas semelhantes às da época.

ainda que apenas como espetáculo ou como representação. para se transformar num restaurante temático. como empreendimento é um sucesso. Tendo ainda como elo fulcral a descendência de seu construtor e associando-se à simbologia do vinho. Aqui a história é uma representação. confirmado a necessidade inconsciente do imaginário popular brasileiro de preenchimento de um arquétipo vago na nossa cultura opacamente marcado pelo substrato histórico do período colonial e monárquico. conta com a doação de visitantes que por curiosidade comparecem ao local. Caxias do Sul (RS) Possuindo um restaurante. O construtor foi apelidado de Capão. no município de Garanhuns é o menos imponente e suntuoso dos castelos aqui mencionados.Castelo Lacave. Assim. à beira da Br-423. sem posses. Ainda em construção. Incluído já no roteiro turístico da cidade. É assim. 88 . em que o local é alugado por modestos 200 reais. quase nos esquecemos que o castelo foi construído em 1968. somando-se à reprodução de espetáculos de cavalaria medieval. O Castelo de João Capão em Garanhuns (PE) O Castelo de João Capão no Agreste Meridional Pernambucano. não mais que 40 anos. um espetáculo que encena a história medieval européia. Fruto do sonho de um eletricista. o Castelo de João Capão.4. ou seja. A imitação como base da mimesis fornece aqui o elemento de catarse para o visitante desejoso de vivenciar um pouco de tradição. daí o apelido de “capão”. de história e de mistério antigo. se destaca na paisagem modesta do subúrbio em que se localiza. ou quando do Festival de Inverno da Cidade. De fato. porque além de eletricista foi goleiro de um time amador e era considerado por alguns como “frangueiro”. um pedaço reconstruído da Idade Média transplantado no tempo e no espaço para o Brasil. o Castelo Lacave faz o inverso do processo histórico que determina a característica do Castelo de Assis Brasil em Pedras Altas. iniciada há 17 anos. além da taberna para degustação de vinhos. 2. a festa mais importante de Garanhuns. que decidiu construir um castelo depois de assistir filmes no cinema da cidade em que via castelos e reis da idade média. o espetáculo que é uma visita ao castelo Lacave se transforma numa experiência estética de tal complexidade e amplitude que a realidade se vê subvertida pelo objeto artificial. a suntuosidade não existe nesse castelo. o que confirma o índice de mais de 70 mil visitas desde que foi reaberto.

pelo contrário. Garanhuns (PE) O modesto castelo se apresenta dotado de uma força incomum para quem o visita quando sabe da história de seu construtor. é na verdade. carecendo de conhecimentos arquitetônicos e históricos. O castelo. porém. como os ramos cruzados à entrada do castelo. com paredes de lajota de cerâmica esmaltada e com aspecto de um banheiro típico de uma casa de classe média. por dentro. vão nos mostrando que o castelo de João Capão é antes um conjunto contraditório de impressões do que seja um castelo para seu construtor. localizado na área mais comercial da cidade. ainda em processo de acomodação. entre lojas e bancos. situado no centro da cidade. Ao assistir as fitas de cinema. construído em 1943 pelo interventor Agamenon Magalhães e inaugurado na gestão do prefeito que lhe dá o nome. em termos estruturais e estéticos. ou o salão central com suas paredes pintadas em tom ocre de tinta à cal. por exemplo. porém.Castelo de João Capão. Esta vontade que fundamentou o sonho do pobre construtor. é simbolicamente a imagem do processo de domínio da burguesia na estrutura social ocidental. em parte pelos aspectos próprios de nossa história que teve quase um século de monarquia. tem janelas e torres em estilo pós-renascentista italiano. esta impressão vai se desfazendo. 89 . Lembra um pouco palácios de Florença ou Veneza. João Capão teve despertado aquilo que já subjazia no seu inconsciente advindo de um inconsciente coletivo e arquetípico. em parte pela forte simbologia religiosa dada por um Portugal barroco e medievalista. o que não ocorrera com os castelos anteriormente aqui comentados. O conflito entre nossa herança européia. a de que a imagem do rei e de seu castelo se apresenta no imaginário popular brasileiro de tal forma que nos distinguimos nesse aspecto em comparação com as outras nações da América. desejoso de viver num castelo medieval como um rei arturiano após assistir filmes no cinema é o melhor exemplo do que busco apresentar aqui como hipótese. O banheiro. E o castelo de João Capão se mostra ainda mais característico quando o comparamos com outra construção do município de Garanhuns que é o Palácio Celso Galvão. O Palácio justifica o epíteto de palácio pela forma arquitetural. assim como centro político da cidade. uma caricatura quase kitsch de um castelo. e o acúmulo de símbolos desconexos. é essa obra a perfeita consubstanciação dessa falta histórica que só é falta pela imposição em nossa história cultural de um ideal de passado e glória vinda da Europa e que impregnou nosso imaginário. Essa desconstrução do castelo no castelo de João Capão. misturadas com janelas modernas em bairros de classe média de várias cidades. alguns templos de igrejas evangélicas que se apresentam com torres medievais no lugar do campanário. além de algumas paredes rebocadas. assim como temos casas com colunas jônicas ou dóricas. ameríndia e africana. Se por fora as torres em estilo medieval e a estrutura de tijolos imitando pedras dá ar de construção medieval. Misto de imagem de casa de classe média alta com elementos de castelo medieval é no máximo uma casa temática de aspecto kitsch. não o desmistifica. na Avenida Santo Antônio. Se um Policarpo Quaresma teria convulsões diante de tal construção é apenas porque veria ali a contradição mais forte e característica de nossa formação como nação e cultura. Lembra também.

Etimologicamente a palavra vem do hebraico. 2006. mas também um instrumento de dominação. O Simbolismo em Geral. 1970. Arquétipos e Inconsciente Coletivo. que acreditava. do caos simbólico entre realidade e sonho. O castelo não é propriamente mais visto como a sede do poder. Objetiva. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Nova Fronteira. Khronos. Lembremos. Vozes. 2004. a convicção de fatos que se não vêem”. 1978. “emuná” e é traduzida pela primeira com o sentido que usamos no livro de Habakuk (2:4): "Eis aqui um soberbo. Na História a Fé tem sido um instrumento não só de caráter relativo à espiritualidade. Dan. São Paulo. GODOY. que só existe como passado como resultado de um conflito histórico de nossa herança cultural. Cultrix. Quando Raimundo Lúlio tenta converter os Sarracenos munido apenas de sua Ars Combinatória. Rio de Janeiro. JUNG. a fé é a certeza de coisas que se esperam. 1978. Carl. e um justo (que) em sua fé viverá". São Paulo. ________. Rio de Janeiro. de como lá a torre do castelo é o lugar da loucura. Buenos Aires.Palácio Celso Galvão. G. ao passo que o palácio é associado ao poder pela fundamentação real que nossa histórica tem com essa arquitetura. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HOLANDA. sua alma não é reta nele. sede da prefeitura de Garanhuns (PE) Assim. 2004. Nos Hebreus (11:1) encontramos a seguinte definição de fé: “Ora. Perspectiva. mas como aquele lugar que é dotado de um passado inexistente. que só se resolve pela compreensão do que seja nossa herança cultural. col. temos a possibilidade de ver a diferença entre castelo e palácio na cultura brasileira. do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna. Na colonização da 90 . SPERBER. Aurélio B. HOUAISS. São Paulo. Frexeiras: A Fé e a Invenção do Mundo Mágico A Fé é decididamente o grande instrumento do homem para a realização de suas conquistas históricas e espirituais. Dom Sebastião no Brasil. Paidos. acaba morrendo martirizado. Márcio Honório. quando contrapomos o Palácio Celso Galvão ao Castelo de João Capão. Psicologia e Religião. para exemplificar com a literatura. possuiria o poder da conversão instantânea pelo poder imagético e matemático de sua linguagem. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Antonio.

Quitéria nasceu no ano de 462. Naquela época predominavam as superstições. Gema. Quitéria foi uma das nove filhas nascidas de parto único de Cálsia Lúcia. cuja execução foi perpetrada pelo próprio Germano no dia 22 de Maio do ano de 477. isto é. Próximo a Garanhuns. A data de um santo é geralmente colocada como a data de sua morte. na região do Minho. rituais. Santo Ovídio.América. dentro das igrejas cristãs. desejou que a filha Quitéria com ele se casasse. a ponto de a mãe. 91 . No calendário cristão católico. feiticeiros malignos e benignos. em Braga. Antes. No Brasil. Antônio Conselheiro. No povoado existe o culto à Santa Quitéria. no sentido de compreensão da relação contextual do homem com a sociedade que constrói. Padre Cícero. que as batizou as meninas (Eufemia. da fé tomada pelo povo em oposição à fé. homem de procedimento muito rígido. Genebra. dominadas pelo português europeu. uma forma particular de construir a realidade. Os beatos. A história de Frexeiras é a história da fé popular. já no município de São João. uma ideologia. agreste meridional de Pernambuco. afogando-as num rio. José Lourenço – beatos. Quitéria estava com 15 anos de idade. Anos mais tarde. mas concretamente antropológica. no século V da nossa era. mulher de Lúcio Caio Otílio. tomando conhecimento da existência das suas filhas e estando comprometido com um cortesão de nome Germano. Crenças. Segundo consta do hagiológio português e na história de Braga. Liberata. a Fé foi o instrumento de conversão ideológica mais eficaz que os europeus puderam apresentar aos gentios americanos. instruiu a parteira de nome Cília que matasse as nove crianças. por ocasião em que seu pai acompanhava o imperador romano Líbio Severo em viagem pela Península Ibérica. o povoado de Frexeiras é um retrato emblemático desse sincretismo e dessa fé algo abstrata de definir apenas na conceituação religiosa. cada língua tem inscrita na sua estrutura uma visão de mundo. tudo a suas expensas. Basilissa e Vitória) e encomendou o seu cuidado e educação a diversas famílias cristãs. ao redor e por vezes. de crendices. Ante a recusa da filha. Otílio condenou-a à morte. país cuja miscigenação tornou-se característica fundamental de sua população. de profecias. deixaram sua marca neste imaginário. Marciana. Mas. o dia 22 de maio é dia de Santa Quitéria. Marinha. deixaram na língua dominante marcas inconfundíveis. Sabemos que uma língua não é apenas um conjunto de regras normativas gramaticais e um vocabulário da qual se o falante faz uso indiferente. que com medo de represália do marido. tendo se assustado com o fato de ter dado a luz a nove meninas. enquanto instrumento da Igreja para conversão dos fiéis e garantia de sua dominação. os padres povoaram o imaginário sertanejo de personagens mágicos. A história da santa é dramática e dotada de acontecimentos misteriosos que beiram o macabro. que no entender católico é o dia em que a alma do santo deixou a terra e se elevou aos céus. as culturas indígenas e africana. O sertão Nordestino é um espaço histórico rico de sincretismos. Assim. superstições indígenas e africanas povoaram os espaços vagos das contradições cristãs. Quitéria. movida pelos sentimentos cristãos de piedade e amor ao próximo. porém. o sincretismo religioso se instaura diante. Cília desobedeceu à patroa entregando as meninas ao arcebispo de Braga. é no dia 7 de setembro que existe a maior comemoração em Frexeiras. Frei Damião – religiosos. governador de Portugal e Galiza sob o Império Romano.

em carro de boi até a modernidade de hoje em que elas vêm de ônibus. Diz ainda a tradição que após ter a cabeça decepada. Assoma-se a movimentação das pessoas que entram e saem dos aposentos acendendo velas. já trouxeram os escravos e quando chegaram aqui na região construíram a casa para morar e foram preparando a terra para a cultura de subsistência e quando eles vieram de Portugal trouxeram na bagagem a imagem de Santa Quitéria. é um dos maiores depósitos naturais de urânio do país. em p&b. de fotografias de diversos tamanhos das pessoas que se dizem agraciadas. foi transformada nesse espaço para receber as constantes visitas que vinham montadas em lombo de burro. e no final do século XVII. 92 . que entre outras características. Com as freqüentes novenas realizadas aqui na casa (a família era muito católica). Quitéria tomou em suas mãos e caminhou até a cidade vizinha onde caiu e foi sepultada. Cada uma. 8 Fonte: http://acertodecontas.blog. criando no expectador de imediato uma desorientação. apresentando aqueles inúmeros rostos. carregando objetos. de informações contraditórias que se dirigem aos nossos olhos. coloridas.As datas aqui colocadas não são de todo confiáveis. Tal se deve ao receio de que a Igreja tome posse do culto sem auferir à família algum acerto financeiro ou de uso. eis como começou o culto à Santa Quitéria: “Tudo começou quando minha família veio de Portugal tomar posse de terras que foram concedidas pelo governo de Portugal em 1695. Conforme conta um dos herdeiros. Fotos antigas. vem muita gente a pé. Tendo nascido Quitéria no ano 120 e morrido em 135. de caminhões pau de arara. No Brasil. A família não permite a entrada de religiosos. existe uma versão de que teriam tais fotos ocorridos no século II. o culto de Santa Quitéria é bem difundido. Assim. o culto à Santa Quitéria seguiu um caminho dominado pelo imaginário popular. que foi para abrigar uma família. inclusive pagãs. Conta-se que os soldados que a prenderam ficaram cegos. porém a Igreja não tem qualquer domínio ou intervenção na localidade. além dos vendedores de bugigangas. e os escravos foram espalhando para os escravos de outras propriedades e os donos de outras fazendas. e Santa Quitéria no Maranhão. As paredes povoadas de fotografias transformam-se num grande mural do tempo. de velas.artigo de André Raboni. que veio de Portugal em 1695. sob o domínio do imperador Adriano. Existe uma disputa entre a família Guilherme da Rocha e a Igreja.br/atualidades/santuario-no-interior-e-causa-de-briga-juridica-entre-aigreja-catolica-e-familia-proprietaria-de-imagem/ . de estatuetas as mais variadas. os escravos começaram essa devoção à Santa Quitéria. As terras onde se encontra o povoado de Santa Quitéria pertencem à família Guilherme da Rocha. ao entrar no local o que se nos mostra de imediato é um grande painel neobarroco. Santa Quitéria. de santinhos.” 8 O fato atual é que o povoado de Santa Quitéria transformou num local de peregrinação. os índios também. a casa. que existia uma santa milagrosa e aí começou a peregrinação. acumulativo. A casa grande original foi se atulhando de ex-votos. pessoas em variadas poses e lugares. Assim. no Ceará. essa imagem que está aqui de 44 cm e que era a imagem de devoção da família. novas. no Nordeste existem dois municípios com essa denominação.

muitos deles. ou de parafina: pés. balas. mãos dos que estavam nas fotos se materializassem ali. mãos. assim como ocorreu no Ceará com o Padre Cícero. reciclando continuamente as crenças individuais num caldeirão de mitos. que fica numa outra casa. braços. brinquedos de plástico. outros tomam cachaça. Os ex-votos. se presencia ali. povoado de santas vindas de ilusórias terras também santas. Hulk. cabeças. é sua cruz inseparável. formava-se uma fila de pessoas. No comércio das bodegas. Cria-se assim um mundo místico. doces. desde de rádios de válvula. duas. que. braços. são carros dos mascates. que no imaginário popular foi a época em que santos e santas andavam pelo mundo. a fé se exercita. Santa Liberata. Quando de uma das minhas visitas. cuja imagem encontra-se adornada de inúmeros colares dourados. no entanto. Assim. já velhos. até estatuetas de Jesus. joga-se o bilhar. do abandono. onde se paga um real para entrar. capas para celular. uma estatueta em gesso de Vênus/Afrodite. Uma velha senhora. Numa das estantes velhas de madeira. meio mágico. pilhas. busca na fé mais do que a elevação espiritual ou a ascese. Na única rua do povoado. ônibus de diversas procedências. Imediatamente uma outra senhora vendo isso. Próximo a casa grande. o 7 de setembro. No estacionamento. pessoal. notas e moedas antigas. estátuas de santas que pela denominação. Ali. sem o concurso da Igreja. e colocadas em alguns nichos. da historicidade de agruras e desmandos. o sincrético e o místico. ao dirigir-se ao altar de Santa Quitéria. cabeças colocadas em sob tábuas de madeira ou penduradas nas paredes também criam um novo panorama que se acumula ao das fotos. querendo ser provas irrefutáveis dos milagres. disso a uma outra: -“Vamos também passar por três vezes aí embaixo que dá sorte e proteção!” E. três vezes. em pouco tempo. existe um museu. Como se os pés. o culto à Santa Quitéria de Frexeiras segue seu caminho numa trilha entre o folclórico. com a diferença que agora se presentificam enquanto objetos tridimensionais. mas também desordenadamente pós-moderna. dezenas de barracas de mascates vendem santinhos. automóveis. individual. de madeira. Assim. a realidade concreta é muito dura. Se a data de Santa Quitéria é 22 de Maio e em Frexeiras o dia mais comemorado é o de 7 de Setembro. Lá encontramos uma variedade de objetos velhos. Homem Aranha. o dia da independência 93 . o que temos é a inversão dum significado. Os mais novos. esta senhora resolveu passar por debaixo da mesinha que sustenta parte do oratório. na coletividade de imagens. ele que o imediato concreto. E a morte é o grande medo do homem. A elevação da alma da Santa aos céus é também o signo de sua morte corpórea na terra. de curiosos ou de pessoas movidas pela fé que têm a condição de ter um automóvel mais novo. em geral mais velhas. diante de nossos sentidos. dia da Independência é aqui transmutado no dia de Santa Quitéria. são as irmãs de Santa Quitéria: Santa Gemma. O homem sertanejo que vive a dureza das condições sócioeconômicas. presenciei um fato interessante e ilustrativo. Santa Vitória. alguns almoçam o prato feito. As irmãs de Santa Quitéria não foram santificadas pela igreja. naquele povoado. fez o sinal da cruz e foi-se embora. passou uma.signo de uma história particular. mas o imaginário popular tratou de fazer o seu próprio processo de santificação. passando por debaixo do oratório. Lá fora uma barraca vendendo super-heróis de plástico: Wolverine. de uma época irreal. O imaginário necessita do sobrenatural.

Prancha de Figuras – Frexeiras 94 . Símbolo da regeneração das forças para continuar sua luta diária e cotidiana.da alma sertaneja diante dos grilhões históricos de sua condição.

95 . PE. Imagem de Santa Quitéria de Frexeiras.Os retratos na parede compondo um painel sincrônico de promessas e pedidos Parede e prateleira repleta de ex-votos.