Você está na página 1de 15

A memória das favelas e a trajetória das políticas púbicas de preservação do patrimônio em Belo Horizonte 1

Josemeire Alves Pereira 2

A memória das favelas e a trajetória das políticas púbicas de preservação do patrimônio em Belo

Barragem Santa Lúcia Belo Horizonte Fonte: Arquivo pessoal de Sílvia Regina Lorenso Castro [2008?]

Em 1984, as terras da Fazenda do Cercadinho, pertencentes, à época, a José Cleto da Silva Diniz e localizadas no antigo Arraial do Curral Del Rei, foram desapropriadas, por ocasião da construção da nova capital administrativa do Estado de Minas Gerais 3 :

na região foi instalada, entre os anos de 1899 e 1928, a Colônia Agrícola Afonso Pena que, inserida no projeto de modernização agrícola do Estado, abastecia principalmente de gêneros alimentícios e madeira a cidade em construção. Após a extinção da Afonso

1 Uma primeira versão deste texto foi apresentada no VII Seminário Nacional do Centro de Memória da

Unicamp CMU (13, 14 e 15 de Fevereiro de 2012). 2 Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp. Ex-bolsista do Programa Internacional de Bolsas da Fundação Ford. 3 A Nova Capital, inicialmente nomeada “Cidade de Minas” e em 1891, Belo Horizonte, foi inaugurada a 12 de Dezembro de 1897. Desenvolvida a partir do Plano elaborado pelo engenheiro Aarão Reis, a nova cidade contemplava os interesses de modernização econômica defendidos pelas elites políticas e econômicas da época. (Cf. a respeito, dentre outros: GUIMARÃES, Berenice. A concepção e o projeto de Belo Horizonte: a utopia de Aarão Reis. In: RIBEIRO, Luiz César de Queiroz; PECHMAN, Robert (Orgs). Cidade, povo e nação Gênese do urbanismo moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996; MELLO, Ciro Flávio Bandeira de. A noiva do trabalho uma capital para a República. In: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. BH Horizontes Históricos. Belo Horizonte: Ed. C/Arte, 1996; SALGUEIRO, Heliana Angotti. Engenheiro Aarão Reis: O Progresso Como Missão. Belo Horizonte: Ed. Fundação João Pinheiro. Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1997. (Col. Centenário)).

Pena, suas terras foram parceladas pelo governo (AGUIAR, 2006: 252-343), dando origem à formação de bairros, muitos dos quais podem ser caracterizados como de classe média e média alta. É o caso do Santo Antônio, Luxemburgo, Santa Lúcia, Cidade Jardim e São Bento. Contudo, aos olhares de qualquer transeunte que passe, nos dias atuais, pelo alto da Avenida Prudente de Morais, que corta a região sul da cidade, um daqueles bairros difere-se da paisagem geral conformada pela arquitetura característica dos demais: o Aglomerado Santa Lúcia. Trata-se de um conjunto formado por cinco núcleos de favela, cuja ocupação teve início em momentos distintos, ao longo do século XX, sendo o mais antigo deles datado de aproximadamente cem anos. Aos pés de um desses núcleos, a Barragem Santa Lúcia, com um pouco de atenção, é possível avistar um casarão antigo em ruínas, rodeado por casas de alvenaria coroadas por antenas parabólicas, que se erguem a partir do complexo esportivo Parque Jornalista Eduardo Couri.

O “Casarão da Barragem”, conhecido pelos moradores do Aglomerado como “Casa da Fazendinha” ou “Fazenda Velha”, recebeu a primeira dessas denominações

por ocasião de seu tombamento, pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte CDPCM-BH 4 , em 22 de outubro de 1992. O tombamento, que ocorreu em meio aos esforços para a consolidação da política de preservação do patrimônio em Belo Horizonte, constituiu um caso singular e, até então, inédito na cidade: a decisão do Conselho atendia a uma solicitação encaminhada pelos moradores de uma favela, representados pela União Comunitária da Barragem Santa Lúcia UCBSL 5 , reivindicando, além do tombamento, a instalação de um “Centro Cultural com biblioteca, oficinas, cursos de formação cultural, como prevê a lei orgânica do municipio (sic) de Belo Horizonte” 6 . A despeito do tombamento, entretanto, o espaço segue relativamente ignorado pela cidade. Embora o Casarão da Barragem seja datado de meados do século XIX, de acordo com estudos realizados pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de

  • 4 A partir daqui, “Conselho do Patrimônio”.

  • 5 A partir daqui, “União Comunitária”.

Minas Gerais 7 , ele não figura como referência oficial à história da cidade. Em contrapartida, uma construção contemporânea a ele, o Casarão do Museu Histórico Abílio Barreto, situado na Avenida Prudente de Morais, no Bairro Cidade Jardim, é

geralmente enunciado como “a única edificação remanescente do Arraial do Curral Del

Rei” ou “único exemplar de uma época apagada no tempo.8 A invisibilidade do Casarão da Barragem também pôde ser constatada em 2006, quando integrantes do Projeto Memória uma iniciativa que abordava a memória do Aglomerado 9 , registraram em vídeo depoimentos de freqüentadores do Parque sobre o Casarão. Os entrevistados, moradores e não moradores da favela apresentavam

percepções variadas, quando arguídos sobre o tombamento. Os locais crianças e mulheres, em sua maioria –, remetiam a “Fazenda Velha” ao “tempo dos escravos”, alguns conheciam Dona Izabel, a proprietária, mas não sabiam muito mais a respeito da história do lugar. Dentre os não moradores, era comum a surpresa ao identificar, na paisagem típica do morro, uma construção que evoca, por sua arquitetura, outros tempos e espaços. Nenhum deles sabia que aquele casarão, cujas ruínas se enunciam como que sobrevivendo ao esquecimento, foi objeto de uma ação de Tombamento, por meio da

qual deveria ser reconhecido como patrimônio da cidade. “Olha que novidade, hein!!

[Olhando para o Casarão] Impressionante isso aí! [

...

]

É bem antiga mesmo! [Pausa]

Que legal! [Pausa] Aí – vivendo e aprendendo!!! [Risos]”. As nuances de expressão contidas na reação de um dos entrevistados denotam o impacto que lhe causou a

descoberta 10 .

  • 7 Levantamento Planialtimétrico e Dossiê intitulado “Casarão da Barragem Santa Lúcia” do qual constam:

levantamento fotográfico, levantamento histórico, diagnóstico da situação do casarão à época. (Cf. Processo 01 004 713 9649 op cit.).

  • 8 As citações referem-se, respectivamente, aos registros do então Prefeito em exercício Fernando Damata Pimentel e da Secretária Municipal de Cultura Celina Albano no catálogo da exposição comemorativa dos 60 anos do Museu Histórico Abílio Barreto, em 2003. Cf. BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. MHAB: 60 anos de história. Belo Horizonte, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte / Museu Histórico Abílio Barreto, 2003 (Caderno I).

  • 9 O Projeto Memória foi um dos eixos do Programa Conexões de Saberes na UFMG, uma proposição do Ministério da Educação MEC, em parceria com universidades federais, que tinha por objetivo promover formas de interlocução entre saberes acadêmico e aqueles denominados populares. O Projeto Memória foi desenvolvido no Aglomerado Santa Lúcia, entre 2005 e 2007, a partir de parceria com dois grupos locais o Grupo do Beco (Teatro) e a Associação dos Universitários do Morro (AUM) e a Universidade Federal de Minas Gerais UFMG. Informações sobre o Programa podem ser encontradas na página do MEC

  • 10 Depoimento de um frequentador do Parque Eduardo Couri. Cf. vídeo “Casa da Fazendinha”, produzido pelo Projeto Memória. Não foi registrado o nome do entrevistado, mas nota-se, no vídeo, que ele não se identifica como morador do Aglomerado. O vídeo consta do acervo de material coletado e produzido pela equipe do projeto, entre 2005 e 2007 e disponibilizado ao público, por meio do “Kit Memória”, que contém a “Revista da Laje” e um CD-Room com vídeos e fotos sobre o Aglomerado.

Podemos inferir que o caráter de invisibilidade do Casarão, deve-se, em grande medida, ao não atendimento à solicitação dos moradores pela restauração e transformação do bem tombado em um espaço cultural público. Vinte anos após o tombamento, o estado de degradação do imóvel, já constatado em 1992, acentuou-se, não tendo sido objeto de uma política efetiva de preservação. Apesar do notável empenho de alguns técnicos da Gerência de Patrimônio 11 , conforme informam os registros contidos no Processo de Tombamento do imóvel, obstáculos diversos impediram a realização dos projetos de restauro e agenciamento do espaço. Os principais desafios foram de ordem técnica, relacionados à gestão da política de patrimônio, no início dos anos 1990. Em decorrência disso, houve também uma dificuldade de diálogo ante a resistência da proprietária em deixar o casarão, para a realização das reformas ela alegava sentir-se ameaçada pelo órgão público e temia ser definitivamente removida de sua casa, pela Prefeitura! Notamos também que houve um arrefecimento do envolvimento da União Comunitária, devido às mudanças de gestão da associação e também à complexidade das tensões que passaram a permear a relação entre a proprietária e os órgãos a Prefeitura. O episódio é emblemático para a compreensão das políticas públicas urbanas locais, por expor uma questão desafiadora aos gestores públicos, em especial, tendo em vista que as políticas direcionadas para as favelas na cidade são marcadas pelo predomínio da tendência à erradicação deste tipo de assentamento: qual seria o sentido de tombar um bem ressignificado pelos moradores como símbolo de um espaço e marco de uma identidade e de uma memória social que não se deseja consagrar para a cidade? Partindo destas considerações, analisamos, por meio do caso do Casarão da Barragem, as apropriações da política de patrimônio em Belo Horizonte. Articulamos esta análise à das ações adotadas pelo poder público municipal no trato com o fenômeno de produção das favelas na cidade, entre meados dos anos de 1950 e 1990, focalizando, por meio da história do Casarão, a produção do espaço do Aglomerado Santa Lúcia. Trata-se de investigar a maneira como se constituem as disputas no campo do poder simbólico pela instituição e legitimação de representações sociais sobre a favela, e de que maneira estas disputas participam da configuração das relações políticas e sociais na cidade.

O Casarão da Barragem e as transformações do espaço urbano

À época da transferência da Fazenda do Cercadinho para o Estado, a Comissão Construtora da Nova Capital registrou, dentre as benfeitorias ali existentes, “duas casas de habitação”, uma das quais denominada “Fazenda Nova”. 12 Segundo o historiador Abílio Barreto (1995:247), a primeira delas, datada da primeira metade do século XIX, havia sido demolida antes da transferência da fazenda à família de José Cleto, pela dos Cândido da Silveira, proprietários originais. De acordo com a documentação que integra o Processo de Tombamento, o Casarão da Barragem foi a antiga sede da Fazenda do Cercadinho. Provavelmente trata-se da segunda construção mencionada pelos técnicos da Comissão Construtora, quando da elaboração do inventário da Fazenda. A historiadora Regina Persechinni Côrtes, que produziu um breve histórico do Casarão como subsídio anexado à solicitação do tombamento, em 1992, afirma que em 1894, as terras do Cercadinho divisavam com as Fazendas do Bom Sucesso e do Cercado,

“primitiva posse de João Leite da Silva Ortiz, terras estas que originaram Belo Horizonte.” 13

Estes são os principais registros que nos informam sobre as origens do Casarão da Barragem, que até o tombamento eram completamente desconhecidas, mesmo pelos moradores do Aglomerado Santa Lúcia. O que se sabia a respeito é que o casarão havia sido habitado pela família de Augusta Gonçalves Nogueira e seu marido, antes de ser vendida para um morador da Barragem, nos anos 1950. É o que afirma, em diversos momentos, em função dos desdobramentos do tombamento, Maria Izabel Rocha de Magalhães, 14 a última proprietária. Um recibo de compra e venda da casa em questão, datado de 05 de Agosto de 1972, foi apresentado à Prefeitura, como comprovante de propriedade do casarão 15 , em 1993. Nele, o proprietário imediatamente anterior, um certo Clarimundo Ribeiro, informa ter residido na referida casa, “situada na Fazenda

  • 12 Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte. Processo de tombamento da casa e terreno do viúvo e herdeiros de Luiza M. Carvalho Fazenda do Cercadinho.

  • 13 Processo 01 004 713 9649 Casarão da Barragem Santa Lúcia

...

, op. cit.

  • 14 Doravante “Dona Izabel”, como era conhecida a proprietária do Casarão. Ela faleceu em Dezembro de 2010.

  • 15 A condição de propriedade, no caso, é bastante singular. Por se tratar de terreno situado em uma favela, Dona

Izabel não possuía comprovantes oficiais de propriedade, como a escritura do imóvel. A identificação da situação jurídica das terras que integram o Aglomerado Santa Lúcia somente foi feita recentemente, por ocasião do desenvolvimento de um Plano Global Específico, com vistas a subsidiar políticas específicas de habitação para a região. Cf. BELO HORIZONTE. Plano Global Específico PGE / Levantamento de Dados Aglomerado Santa Lúcia. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2003.

velha, Barragem Santa Lúcia, ex-Colônia Afonso Pena”, desde 1953. 16 Não foi possível identificar a relação entre o Sr. Clarimundo e a Sra. Augusta Gonçalves Nogueira, assim como não foi possível saber ao certo qual teria sido a destinação da sede da Fazenda do Cercadinho, durante os anos de vigência da Colônia Afonso Pena. De todo modo, as informações de Dona Izabel, registradas no vídeo do Projeto Memória, remetem a elementos comuns às narrativas dos moradores mais antigos da Barragem, sobre as origens da ocupação do lugar: a Cerâmica Santa Maria. De acordo com ela, à frente do casarão, onde hoje existe o complexo esportivo do Parque, havia a olaria, onde trabalhavam muitos migrantes oriundos do interior de Minas Gerais. O casarão teria pertencido aos proprietários dessa Cerâmica, para onde afluíram muitos dos primeiros moradores da Barragem, entre os anos 1950 e 1960, aproximadamente.

Desativada a Cerâmica nos conta José Pedro Moreira (2010), que chegou à Barragem em 1947, também criança , alguns descendentes destes funcionários passaram a ocupar o lugar. Ele lembra que a região era praticamente desabitada, avistando-se algumas fazendas que divisavam com a do Cercadinho. A ocupação por um número cada vez maior de pessoas pobres e, em sua maioria negras, oriundas de diversas regiões do Estado de Minas Gerais, principalmente em busca de trabalho e/ou de acesso a serviços de saúde, foi duramente reprimida pela Prefeitura.

O Sr. José Pedro lembrava-se de dois acontecimentos que marcam a relação do poder público municipal com os moradores da Barragem. O primeiro deles foi a

construção do Conjunto Santa Maria, entre 1953 e 1963, quando parte dos ocupantes

daquela que era conhecida pela Prefeitura, à época, como “Favela da Cerâmica” foram

para lá transferidos, juntamente com pessoas removidas de outras favelas. Tratava-se da principal iniciativa do governo municipal para resolver aquilo que era compreendido como o maior problema urbano da época o crescimento incontrolável das favelas na cidade.

Nos anos 1950, em especial, as favelas eram consideradas pelos administradores da cidade que utilizavam, frequentemente, metáforas do repertório léxico médico- higienista para a elas se referirem , organismos nocivos à sociedade, devendo ser “extirpadas” do tecido urbano. Nas palavras do Prefeito Celso de Mello Azevedo, além

  • 16 Processo 01 004 713 9649 Casarão da Barragem Santa Lúcia

...

, op. cit.

disso, não bastava “extinguir, por métodos enérgicos os humildes e doentios

agrupamentos humanos.” “Era preciso dar-lhes remédio adequado, imbuído do sentimento cristão e de larga visão social.” 17 Assim, o projeto do Conjunto Santa Maria, além dos prédios que abrigariam os removidos das favelas, contava com obras complementares destinadas à criação de meios de correção e fixação dos novos moradores, tais como escola, igreja, posto médico-dentário e social, campo de esportes, recanto infantil, rede elétrica e de abastecimento de água, dentre outras obras 18 . Por meio desses recursos, envidavam-se esforços para disciplinar aquelas populações

“estrangeiras”, por meio de medidas “curativas” destinadas a evitar o ressurgimento dos “quistos de promiscuidade e miséria”, 19 extirpando suas raízes.

A repressão policial, que também caracterizou a política de desfavelamento empregada pela Prefeitura, foi vivenciada já pelos primeiros habitantes da Barragem e ainda permanecia muito presente na memória do Sr. José Pedro. Segundo ele, a ocupação da parte mais alta da antiga fazenda foi mais difícil,

(

...

)

porque existia na época uma tal de CHISBEL 20 .

Era

um

órgão da

Prefeitura que não deixava construir neste alto. Eles ficavam aqui nesse alto. Chegavam aqui às sete horas da manhã e saia às seis horas da tarde; os funcionários da Prefeitura, juntamente com o pessoal da Cavalaria, para não deixar ninguém construir aqui. (MOREIRA, 2010)

A existência da Cerâmica Santa Maria e a repressão da CHISBEL caracterizam as origens da ocupação da Barragem Santa Lúcia. Outros núcleos, pouco mais distantes do Casarão, estavam também se formando, nas regiões hoje denominadas como Vila Santa Rita de Cássia, cujo limite é a Av. Nossa Senhora do Carmo e o início da BR-040; e a Vila Estrela, próximo aos bairros Santo Antônio e São Pedro. 21 Foi esta última região que abrigou, aliás, ainda nos tempos da Colônia Afonso Pena, os primeiros moradores do Aglomerado. Tratava-se da família do Sr. Antônio Pedro da Silva e Dona Maria Eulália dos Santos, pai e mãe do primeiro marido de Dona Izabel, o Sr. Milton

  • 17 Relatório de 1958 apresentado à egrégia Câmara Municipal pelo prefeito Celso de Mello Azevedo. Janeiro de
    1958.

  • 18 Ibidem.

  • 19 Relatório Annual de 1956 (Celso de Mello Azevedo).

  • 20 Coordenação de Habitação de Interesse Social de Belo Horizonte.

  • 21 Os dois outros núcleos que compõem o Aglomerado Santa Lúcia o Bicão (ou Vila Esperança) e a Vila São Bento se formaram depois, a partir dos anos 1990 e 2000, respectivamente.

Neves e de mais cinco filhos, todos nascidos na Vila Estrela, dentre os quais algumas das moradoras mais antigas, carinhosamente apelidadas como “Tia Neném”, “Dona Santa”, “Tia Nicinha” 22 e “Tia Bárbara”. O Sr. Antônio Pedro e Dona Maria Eulália haviam migrado para Belo Horizonte, em 1910 e se empregado na antiga fazenda. A família instalou-se em parte das terras, que segundo relatos das filhas do casal, foram herdadas pelo Sr. Antônio Pedro, do patrão, um certo fazendeiro Sr. Mário (FERREIRA, 2007). Essas terras, ainda habitadas pelos descendentes desta família, localizam-se a poucos metros do Casarão da Barragem, que segundo Tia Neném, pertenceu ao irmão Milton Neves, e são alvo de tentativa de desapropriação por parte da Prefeitura Municipal para a construção de um parque ecológico. 23

Do mutirão à memória: lutas pelo direito à cidade

Diante da repressão dos órgãos públicos, a produção do espaço do Aglomerado Santa Lúcia foi possível, em grande medida, em função da organização dos moradores que não tinham alternativa de habitação na cidade. Esta organização foi inicialmente baseada em comportamentos de auxílio mútuo. Segundo o Sr. José Pedro:

Quando o pessoal descobriu que de dia eles não deixavam construir, e se

começasse construir, no outro dia, assim que eles chegavam derrubavam; então o que o pessoal fazia? Ajuntava e ficava lá embaixo. Assim que o pessoal da Cavalaria e da Prefeitura saía, eles já subia com o material de

mudança e ia construir de pneu, e tudo e fogueira

...

Construía e já entrava. E

quando eles chegavam no outro dia, os moradores já estavam dentro das

casas. [

...

]

Aí eles não podiam mais

...

mais dirrubar. 24

Foi a partir desta experiência de mutirões que se formaram as primeiras lideranças, dentre as quais o próprio Sr. José Pedro e, em especial, mulheres como Dona Miltes Maria de Jesus e Dona Lourdes de Souza Lopes. A partir dos anos 1950 e 1960 25

  • 22 Todas já falecidas. As duas primeiras em 2011.

  • 23 FERREIRA, op. cit.

  • 24 MOREIRA, op. cit.

  • 25 Cf. a respeito das associações comunitárias no Aglomerado Santa Lúcia: GOMES, Juvenal Lima. Condições de

vida do passado, conquistas do presente: a luta das associações comunitárias do Aglomerado Santa Lúcia por

cidadania. 2011. 94 p. Dissertação (Mestrado em Sociologia). Universidade de Coimbra. 2011.

Disponível em:

omes.pdf>. Consultado em: 15 jan. 2012.

criaram-se associações de moradores que atuavam prestando assistência local em questões ligadas, especialmente, à alimentação, moradia e saúde. Algumas delas se articulavam em parceria com a Sociedade São Vicente de Paula e outras ordens religiosas da Igreja Católica, partidos políticos diversos, e lideranças de outras favelas da cidade. Passaram também a reivindicar dos órgãos públicos melhorias urbanas, como abertura e pavimentação de ruas, instalação de equipamentos públicos de saúde e educação, instalação de rede elétrica e de esgoto, dentre outras. A partir dos anos 1980, essas melhorias começaram a ser atendidas, por meio de dois projetos de urbanização: o Programa Municipal de Regularização de Favelas em Belo Horizonte PROFAVELA,

e, posteriormente, o Programa de Desenvolvimento de Comunidades PRODECOM. 26 Mesmo com as melhorias, em 1995, o Aglomerado Santa Lúcia foi classificado como “o pior lugar para se morar, em Belo Horizonte”, de acordo com o Índice de Qualidade de Vida Urbana I.Q.V.U., devido à precariedade da urbanização e à escassez de equipamentos públicos e serviços. A partir dos anos 1990, observamos a emergência do debate sobre direitos humanos, associado às atividades de mobilização social no Aglomerado 27 . Entre 1995 foi criada a Comissão de Direitos Humanos do Aglomerado Santa Lúcia, por iniciativa de jovens lideranças, que formaram, em torno da Comissão, um fórum permanente integrado pelos diversos grupos sociais, culturais, políticos e/ou religiosos locais. Os seminários, palestras, gincanas e projetos culturais promovidos pela Comissão constituíam espaços fecundos de debate sobre a especificidade da condição dos moradores da favela. Os participantes compreendiam que era necessário construir formas de enfrentamento da discriminação racial e social sofrida pelos favelados. A

própria reafirmação dos termos “favela” e “favelado”, historicamente associados a

representações negativamente estereotipadas, passou integrar a perspectiva de valorização dos moradores enquanto cidadãos, aos quais não podia ser negado o direito à cidade.

  • 26 Cf. a respeito, BELO HORIZONTE, Prefeitura Municipal. Profavela: o morro já tem vez. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 1988; GUIMARÃES, Berenice. Favelas em Belo Horizonte: tendências e desafios. Análise & Conjuntura, Belo Horizonte, v.7, n.2 e 3, maio/dez. 1992.

  • 27 Cf. a respeito da Comissão de Direitos Humanos: CASTRO, Sílvia Regina Lorenso. Narrativas da Memória:

Juventude Negra e Direitos Humanos em Belo Horizonte/MG. Estudos Universitários Revista de Cultura da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, v. 26 n. 7, p. 65-72, Dez. 2010.

Além da Comissão de Direitos Humanos, foram desenvolvidas, nesse período, diversas iniciativas locais, em especial as de caráter cultural, tais como o “Reveillon da Barragem”, e os projetos do Grupo do Beco e da Associação dos Universitários do Morro. Tinham em comum a preocupação de projetar socialmente, outras imagens sobre a favela.

A solicitação de tombamento da Casa da Fazendinha foi uma das primeiras iniciativas que marcaram essa fase de atuação política no Aglomerado. Paulo Luís dos Santos, Presidente da União Comunitária, em 1992, afirma que foi importante mobilizar os moradores que assinaram o ofício encaminhado ao Conselho do Patrimônio, em 1992, porque não bastava solicitar a construção de um centro cultural. A “Fazenda

Velha” era o lugar ideal por agregar a possibilidade de articular, por meio do

tombamento, a perpetuação de um espaço coletivo:

[

]

quando você fala “tombar” é porque uma coisa [é] antiga, né! Uma coisa

velha, né, que tá lá há muito tempo [

].

E tombar significa que ela vai ser

preservada pra vida toda, né. E passa a ser um patrimônio, né. Nunca vai ser

vendido [

].Porque

ela vai ser um patrimônio ali do local, né. Ninguém

pessoas vão morrendo e a casa vai ficando, né. Vai sendo cuidada por outras

comunidades, outros grupos que vierem, né. [ comunidade, né. Eu penso assim. (SANTOS, 2010)

...

]

Seria um patrimônio da

Para conseguir o tombamento, vinculado claramente a uma finalidade cultural, as lideranças da União Comunitária cercaram-se de parcerias locais e de fora da comunidade, e, pelo que percebemos do relato de Paulo, estavam bem informadas sobre o que se passava na cidade:

Outra coisa, na questão da cultura, né, que a gente tentou muito importante ... (sic) A gente fazia muito festival lá, de música, entendeu? Pra própria comunidade. Então, teve uma época aí, que eu não sei quando, é que saiu

uma proposta de a gente

...

Eles tavam tombando os patrimônios aqui da

cidade ...

“Uai, vão tombar também aqui a fazenda, a Fazenda Velha, né”.

Então, a gente fez o projeto é

...

aprovado. Foi tombado. 28

Mandou pra Secretaria de Cultura. Ele foi

28 Ibidem.

O “projeto” foi composto pelo ofício a que já fizemos referência e que foi

assinado pelo Presidente e Vice-Presidente da União Comunitária respectivamente Paulo Luiz da Silva e Antônio dos Santos (Sr. Antônio Taú) e por mais sessenta pessoas, representantes de diversos grupos, dentre os quais, o Grupo Jovens Unidos da Barragem JUBA; a Administração da Paróquia Nossa Senhora do Morro; equipes da Gincana promovida anualmente pelo JUBA; a Rádio Popular e o Conselho Local de Saúde. Estes representantes contabilizavam quarenta pessoas e, além deles, foram registradas as assinaturas de outros vinte moradores. Nota-se uma participação significativa da juventude, por meio do Grupo de Jovens JUBA, com vinte assinaturas, e uma diversidade de grupos envolvidos.

A época dos tombamentos a que se refere o ex-Presidente da associação, marcava uma mudança significativa no que diz respeito às políticas de proteção do patrimônio na cidade, com a implantação do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte. Até então, poucas haviam sido as iniciativas que denotavam preocupação do poder público municipal com a memória da cidade.

Considerada muito “jovem”, somente a partir dos anos 1940 Belo Horizonte passou a ser objeto de ações de preservação da memória, e ainda, assim, por meio de iniciativas isoladas. Dentre estas, a obra do historiador Abílio Barreto, Belo Horizonte: memória histórica e descritiva, organizada em dois volumes, publicados em 1928 e 1936, respectivamente. Além dela, houve, em 1943 a criação do Museu Histórico da cidade, também fruto do empenho de Barreto, “um funcionário público dedicado”, “amigo

pessoal de Juscelino Kubitscheck, capaz de convencer o então prefeito (

)

... empreender a tarefa de criar o que já estava esboçado” (BELO HORIZONTE, 2003:

a

12). Entre este período e o da criação do Conselho do Patrimônio, as únicas referências às questões de memória da cidade, nos Relatórios Anuais da Prefeitura, são breves menções às atividades do Museu, que recebera, em 1967, a denominação de Museu Histórico Abílio Barreto, em homenagem ao seu primeiro diretor, que fora também seu idealizador.

A partir dos anos 1970, um importante debate sobre a necessidade de que o poder público interviesse na crescente destruição dos imóveis antigos da cidade, por meio da criação de políticas específicas de preservação do patrimônio, resultou na criação da Lei

Municipal 3802/84, de 06 de julho de 1984, que regula a proteção do patrimônio cultural da cidade. O Conselho fora instituído por esta Lei, mas apenas a partir da década de 1990 passou a atuar efetivamente, interferindo, especialmente por meio do instrumento do tombamento, no acelerado processo de destruição de prédios que remetiam à história da capital.

Talvez devido ao caráter de urgência das demandas, as primeiras ações do poder público municipal em favor da proteção do patrimônio padeceram, em alguns casos, do aprimoramento dos procedimentos técnicos pertinentes aos processos de tombamento. Assim, pela análise da Ata 29 da reunião em que o Conselho decidiu pelo tombamento do Casarão da Barragem, percebemos que a decisão não foi precedida dos procedimentos técnicos usuais de avaliação dos valores que orientam, atualmente, a política de tombamento na cidade. Nas palavras da Conselheira Lídia Avelar Estanislau, por exemplo, ainda que a casa não tivesse valor arquitetônico o que não havia sido mensurado, até então a edificação da Barragem possuía “valor histórico e afetivo”. O fato de se tratar de uma solicitação dos moradores, foi o argumento que se destacou, orientando a decisão unânime pelo tombamento.

Além disso, somos informados, pela mesma Ata, sobre aspectos gerais dos enfrentamentos que o Conselho e a Prefeitura travavam à época, contra as violações ou intervenções dos proprietários dos imóveis tombados ou em processo de tombamento; bem como sobre os conflitos de competência entre órgãos da própria Prefeitura, quanto

à aplicação da Lei Municipal 3802/84 e da Lei de Uso e Ocupação do Solo, explicitando a necessidade da articulação entre as duas para aperfeiçoar os mecanismos de proteção do Patrimônio e da Paisagem. Para a Conselheira Ruth Villamarin Soares, “quando o Conselho, agindo dentro de sua competência, define uma área tombada e o entorno, ele automaticamente altera a Lei de Uso e Ocupação do Solo; já que cria novas posturas para aquela área, instalando aí, um conflito de competências.” No debate, a Conselheira Lídia Avelar Estanislau argumentou em favor da necessidade de “o Executivo encaminhar à Câmara Municipal, um projeto de alteração da Lei de Uso e Ocupação do

Solo.”

29 Processo 01 004 713 9649 Casarão da Barragem Santa Lúcia

...

, op. cit.

As ações do Conselho direcionavam-se predominantemente, à época, ao tombamento de bens imóveis, como podemos concluir da análise do Guia de Bens Tombados de Belo Horizonte (CASTRO, 2006). Ademais, se atentarmos para as características arquitetônicas desses bens e dos discursos que justificam a sua inserção no rol dos bens tombados da cidade, percebemos que eles são inseridos em uma narrativa de memória da cidade que privilegia a legitimação da participação de determinados sujeitos, dentre os quais não figuram os moradores de favela, as mulheres, os negros, dentre outros 30 . Consagram-se, especialmente, por meio da patrimonialização dos estilos eclético, art déco, protomoderno e moderno (CASALARDE apud CASTRO, 2006: 15), as referências culturais dos imigrantes europeus 31 , os principais construtores; e também os valores de quem utilizou tais construções com fins habitacionais, políticos e ou econômicos, ou seja, prioritariamente as diversas gerações das elites locais.

De todo modo, o novo contexto propiciou a transformação do Casarão da Barragem em ícone da memória, não apenas de um tempo passado ligado exclusivamente aos tempos do Arraial do Curral Del Rei, mas como “testemunho” da ação de grupos sociais distintos no tempo e no espaço. Com efeito, enquanto signo arquitetônico, ele remete à sociabilidade e aos modos de vida das elites mineiras que, consentindo com o projeto da Nova Capital, disponibilizaram as terras da Fazenda do Cercadinho ao novo empreendimento. Entretanto, não fosse a ressignificação daquele espaço pelos moradores do Aglomerado Santa Lúcia considerado um dos símbolos da “negação” daquele projeto de modernidade –, as ruínas ainda habitadas da Casa da Fazendinha continuariam ignoradas pela cidade. O tombamento nos provoca a entendê- las, ainda, como registro da história de produção do espaço e da articulação política dos moradores do Aglomerado.

Não obstante, o estado atual de degradação da “Fazendinha” contraposto ao desejo original dos moradores de que ela se transformasse em um espaço cultural

30 No mesmo Guia, a Diretora de Patrimônio da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Michelle Abreu Arroyo, nos lembra de que, desde os anos 1990, vigora na cidade “uma concepção plural de bem cultural, baseada na diversidade das formas de viver na cidade que foi incorporada à política de proteção do patrimônio histórico municipal” (ARROYO apud CASTRO, 2006:9). Contudo, analisando a relação de bens tombados da cidade, é notável a escassez ou mesmo ausência de referências a esses grupos, ainda que alguns bens culturais como o Terreiro de Candomblé Ilê Wopô Olojukan, e o próprio Casarão da Barragem tenham sido objeto de tombamento

isolado, tendo reconhecida “sua importância dentro do contexto histórico da cidade como fortes referências para a

comunidade.” (Ibidem, p. 10). 31 Idem, p. 19. Cf. especialmente o item 3. “Indicações para leitura do Guia”, onde são relacionadas, dentre as demais, as influências europeias dos estilos arquitetônicos das construções tombadas em Belo Horizonte.

dinâmico e público, evidencia as questões em torno da memória das favelas como um desafio ainda a ser enfrentado pela cidade. Afinal, os embates pelo reconhecimento da favela por meio da promoção de referências à memória social deste espaço, como observamos pela análise do tombamento do Casarão da Barragem, configuram disputas no campo das representações sociais. E, como nos lembrou Pierre Bourdieu (2008), estas são lutas simbólicas, que podem legitimar, mas também destituir e/ou transformar determinada ordem social.

Referências Bibliográficas

AGUIAR, Tito Flávio Rodrigues de. Vastos Subúrbios da Nova Capital: formação do espaço urbano na primeira periferia de Belo Horizonte. 2006. Tese (Doutorado em História). Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2006.

BARRETO, Abílio. Belo Horizonte: memória histórica e descritiva. ed. atual. rev. e anotada. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1995. 2v. (Coleção Mineiriana. Série Clássicos).

BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Linguísticas: o que Falar Quer Dizer. (Prefácio Sérgio Miceli). 2 ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008 (Clássicos 4).

CASTRO, Maria Angela Reis. Guia de Bens Tombados de Belo Horizonte. Prefeitura Municipal de Belo Horizonte/Gerência de Patrimônio: Belo Horizonte, 2006.

FERREIRA, Isaltina da Silva (Tia Neném). Entrevista ao Projeto Memória em 28 de Novembro de 2007.

GUIMARÃES, Berenice. As vilas e favelas em Belo Horizonte: o desafio dos números. In: RIBEIRO, L. C. Q.; PECHMAN, R. (Orgs.). Cidade, povo e nação: Gênese do urbanismo moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

GUNN, Philip; CORREIA, Telma de Barros. O urbanismo: a medicina e a biologia nas palavras e imagens da cidade. In: BRESCIANI, Maria Stella Martins (Org.). Palavras da Cidade. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001.

MOREIRA, José Pedro. Movimentos Sociais no Aglomerado Santa Lúcia. Belo Horizonte. Arquivo Digital (85 min.). Entrevista concedida à pesquisadora em

29.jan.2010.

SILVA, Paulo Luiz da. Movimentos Sociais no Aglomerado Santa Lúcia. Belo Horizonte. Arquivo Digital (83min.) Entrevista concedida à pesquisadora em

01.mar.2010.

Sobre o Aglomerado Santa Lúcia

CASTRO, Sílvia Regina Lorenso. Narrativas da Memória: Juventude Negra e Direitos Humanos em Belo Horizonte/MG. Estudos Universitários Revista de Cultura da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, v. 26 n. 7, p. 65-72, Dez. 2010.

CRUZ, Márcia Maria da. Morro do Papagaio. Belo Horizonte: Conceito, 2009 (Coleção BH. A cidade de cada um).

GOMES, Juvenal Lima. Condições de vida do passado, conquistas do presente: a luta das associações comunitárias do Aglomerado Santa Lúcia por cidadania. 2011. Dissertação (Mestrado em Sociologia). Universidade de Coimbra. Coimbra/Portugal,

2011.

PEREIRA, Josemeire Alves. As histórias de vida das mulheres do Aglomerado Santa Lúcia: representações sociais e identidade coletiva. In: LIBÂNIO, Clarice de Assis (Org.). Pensando as favelas de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Favela é Isso Aí, 2007 (Coleção Prosa e Poesia no Morro Vol. 4 Ensaios).