Teoria Geral do Estado

João Alberto Padoveze

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“Pois o homem, relativamente falando, é o mais corrompido e doentio de todos os animais, o mais perigosamente desviado de seus instintos – apesar disso tudo, com certeza, continua a ser o mais interessante!” (Nietsche) 1

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Índice 1) Introdução 1.1) Definições de Estado

2) A sociedade 2.1) A família 2.2) O clã 2.3) As tribos 2.3.1) Tribos de âmbito local 2.3.2) Tribos de âmbito regional ou mundial 2.3.3) Por quê tribos? 2.4) A cidade 2.5) Massa e identidade 3) O nascimento do Estado 3.1) Teorias da evolução natural 3.2) Teorias contratualistas 3.3) Teorias do uso da força 3.4) Teoria constitucionalista 3.5) Teoria histórica 3.6) Teoria dos três elementos 3.7) Teoria das causas econômicas ou patrimoniais 3.8) Análise das teorias de formação do Estado 3.9) Modos de nascimento do Estado

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3.9.1) Originário 3.9.2) Secundário 3.9.3) Derivado 3.10) A nação 3.11) A cidade-estado 3.12) O reino 3.13) O império 3.14) A república 4) Estados idealizados 4.1) Anarquia, de Bakunin 4.2) A República, de Platão 4.3) A Utopia, de Thomas More 4.4) Projeto Venus, Movimento Zeitgeist 4.5) A cidade do sol, de Tommazo Campanella 4.6) Oceana, de James Harrington 4.7) Daqui a cem anos, de Edward Bellamy 4.8) Walden II, de B.F.Skinner 4.9) As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift 4.10) A Cidade de Deus, de Santo Agostinho 4.11) Análise de alguns pontos das sociedades idealizadas 4.12) Distopias 5) Componentes do Estado 5.1) Povo 5.1.1) População

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5.2) Território 5.2.1) Componentes do território 5.2.2) Espaço geográfico 5.2.3) Espaço virtual 5.2.4) Espaço econômico 5.2.5) A mutabilidade do território 5.3) Governo 5.3.1) Formas ou regimes de governo 5.3.1.1) República 5.3.1.2) Monarquia 5.3.1.3) Diferenças entre república e monarquia 5.3.2) Sistemas de governo 5.3.2.1) Parlamentarismo 5.3.2.2) Presidencialismo 5.3.2.3) Constitucionalismo 5.3.2.4) Absolutismo 5.3.2.5) Anarquismo 5.4) Complexidade 5.4.1) Instituições 5.5) Soberania 5.5.1) Definições

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5.5.2) Titularidade do direito da soberania 5.5.3) Soberania e Estado 5.5.4) Soberania e sua composição 5.5.5) Soberania e sua manutenção 5.4.6) A soberania como um direito do Estado 5.5.7) Soberania e os tratados internacionais 5.5.8) Soberania e as empresas mundiais 5.5.9) Soberania, Moral, Ética e Estado 5.5.10) Soberania e poderes paralelos 5.5.11) Soberania e tecnologia 5.5.12) Soberania e saúde 5.5.13) Soberania e espaço 5.5.14) Soberania e informática 5.5.15) Soberania e nacionalismo 5.5.16) Soberania e cultura 5.5.17) Soberania e os blocos econômicos 5.5.18) A nova soberania 6) A educação e o Estado Democrático de Direito 6.1) Educação e seus conceitos 6.2) Educação e sua história no Brasil 6.3) A co-responsabilidade do Estado e da família 6.4) Educação e política 6.5) Educação informal 6.6) Educação e a criança 6.7) A educação e as velhas gerações 6.8) A educação e os educandos 6.9) A educação como fonte de soberania

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7) Poder 7.1) As forças do Estado sobre o indivíduo 7.2) Teoria da separação dos poderes 7.3) Poder executivo 7.4) Poder legislativo 7.5) Poder judiciário 7.6) Sistema de freios e contrapesos 7.7) Poder social sobre o Estado 8) Divisões do Estado 8.1) Por território 8.2) Por tipo de poder 8.3) Por área de interesse 9) A tirania 9.1) Introdução 9.2) Conceito 9.3) Absolutismo clássico 9.4) Fascismo 9.5) Nazismo 9.6) Teocracia 9.7) Stalinismo 9.8) Maoísmo 9.9) Castrismo 9.10) Varguismo 9.11) Repúblicas de bananas 9.12) Tecnocracia 10) A democracia

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10.1) Introdução 10.2) Conceito 10.3) História da democracia 10.4) Fundamentos da democracia 10.5) Tipos de democracia 10.6) A conquista do voto no Brasil 10.7) A regra da maioria 10.8) Tipos de voto 10.9) Qualidade do voto 11) Constituição 11.1) O Estado e a constituição 11.2) Tipos de constituição 11.3) Requisitos mínimos para uma constituição 12) O Estado como pessoa jurídica 13) Finalidade e funções do Estado 13.1) Finalidade do Estado 13.1.1) Teoria organicista 13.1.2) Teoria mecanicista 13.1.3) Teoria dos fins particulares objetivos 13.1.4) Teoria dos fins subjetivos 13.1.5) Teoria dos fins limitados 13.2) Funções do Estado 13.2.1) Governo

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13.2.2) Controle 13.2.3) Regulamentação 13.2.4) Auto-regulamentação 13.2.5) Manutenção da soberania 13.2.6) Único bem não disponível ao Estado 14) Objetivos da República Federal do Brasil 14.1) Construir uma sociedade livre, justa e solidaria 14.2) Garantir o desenvolvimento nacional 14.3) Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais 14.4) Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, cor, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação 15) Estado democrático de direito 15.1) Responsabilidade do representante 15.2) Responsabilidade do representado 15.3) Nível de gerenciamento do Estado 16) Fundamentos do Estado Democrático de Direito brasileiro 16.1) Características do povo brasileiro 16.2) Cidadania 16.3) Dignidade da pessoa humana 16.4) Valores sociais do trabalho e da livre iniciativa

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16.5) Pluralismo político 17) Etapas da destruição do Estado Democrático de Direito 18) Como manter o Estado Democrático de Direito 18.1) Corrupção 18.2) Nepotismo 18.3) Paternalismo 18.3) Pequenos crimes 18.4) Laicismo 18.5) Neutralidade 18.6) O conforto obtido em detrimento da vontade de evoluir 18.7) Consciência política 18.8) A tecnologia e a possibilidade de participação 18.9) O Estado internacionalizado 19) Bibliografia 20) Notas

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Introdução
“Quem me recusa a proteção da lei empurra-me para os ermos em que habitam os selvagens, coloca nas minhas mãos a arma que irá me proteger.” (Heinrich Von Kleist, no seu livro Michael Koolhaas) O Estado parece-nos algo tão natural que quase não prestamos atenção a ele. Parece-nos até insípido o seu estudo, pois nossas relações de direitos e deveres para com ele são ensinadas ou são absorvidas desde nosso nascimento e por isso acreditamos que se trata de algo ligado a nós de forma congênita. Este pensamento logo se desfaz quando percebemos que estaremos a vida inteira sob suas condições. Grande parte do que somos deriva de seus ditames e regras. Nosso comportamento, parte de nossos sentimentos e crenças e até nossa consciência estão intimamente ligados aos seus preceitos e normas.

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ou seja. reinados e países se dissiparam no tempo e outros tomaram seus lugares. visto que. como animal social. são transitórias e mudam ao longo da história. Sempre existiu e. Provavelmente. Estado e sociedade estão intimamente ligados. por si só. Impérios. O ser humano. tem um ciclo de nascimento. Este ciclo. a busca de um bem comum. A abrangência do Estado também não é eterna. já confere a necessidade de seu estudo. sempre existirá. outros foram mais além. Alguns se preocuparam apenas com o Estado em si e sua governabilidade. estas sim. Junto com eles desapareceram seus povos e suas identidades. jamais teríamos evoluído até nossa presente forma se não existisse uma organização que amalgamasse seres com pensamentos tão distintos. caius_c 12 . Muitos pensadores se dedicaram ao estudo desta entidade buscando soluções para os problemas que permearam sua época. vida e morte. As formas de que se revestem os Estados. como qualquer criatura. Para mantê-lo e aprimorá-lo tem que se conhecer sua estrutura e sua adequação à sociedade que ele serve ou que deveria servir. provavelmente. entendendo que esta entidade deveria ter um fim maior. tem necessidade de uma escala hierárquica que consiga estabelecer padrões de convivência comuns a todos. buscando uma forma idealizada para a relação Estado-cidadão.A entidade Estado é perene.

”2 caius_c 13 .Uma das grandes preocupações de NIETSCHE foi com a inexistência de um governo central que desse uma identidade ao povo alemão. com que obstinada fé. podemos entender que o atual significado da palavra Estado é bastante recente ou. Tome. É a idéia de país baseada em territorialidade. povo e governo central. a fim de que. pelo menos. depois de tanto tempo. deixar passar esta ocasião. NICOLÓ MACHIAVELLI. deteve as mesmas preocupações em reunir cidadesestados dominadas por príncipes ou oligarquias sob um poder central. portanto. Quais portas se lhe fechariam? Quais povos lhe negariam obediência? Qual inveja se lhe oporia? Qual italiano lhe negaria o seu favor? A todos repugna este bárbaro domínio. o qual. a vossa ilustre casa esta incumbência com aquele ânimo e com aquela esperança com que se abraçam as causas justas. estava dividido em cidades-estados. com que piedade. ele acreditava que Lorenzo de Médici seria a pessoa ideal para isso – “Não se deve. assim como Nietsche. ou seja. Nem posso exprimir com que amor ele seria recebido em todas aquelas províncias que têm sofrido por essas invasões estrangeiras. pois. sob sua insígnia. esta pátria seja nobilitada. na sua época. um seu redentor. Se considerarmos que a Alemanha foi unificada entre 1862 e 1890 por Otto Von Bismarck. Em sua exortação para procurar tomar a Itália e libertá-la das mãos dos bárbaros. com que lágrimas. sua realização como tal. os princípios básicos do Estado. a fim de que a Itália conheça. com que sede de vingança.

no auge de sua expansão. o termo civitas ou polis equivaliam a Estado. A busca por este equilíbrio se faz até hoje. do próprio Estado. O fim da Idade Média marcou o início do conceito de país e. A reunião de feudos sob um governo central determinou o surgimento de uma mentalidade diferente.Machiavelli não conseguiu ver a realização de seu sonho pois morreu em 1527 e a unificação da Itália ocorreu somente entre 1815 e 1870. buscaram expor formas nas quais o Estado deveria se estabelecer. No Império romano. no chamado Risorgimento. como Rosseau e Montesquieu. Outros. Dessa nova disposição surgiu o conceito atual de Estado. Definições de Estado Para os gregos. o termo Laender traduz a idéia de país e território. objetivando diminuir seu poder frente ao indivíduo e darlhe proteção.3 Os povos germânicos adotaram o termo reich e staat. Na Idade Média. igual a res publica dos romanos. O sentimento de pertencer a uma cidade ou a um determinado local foi sendo suplantado por um mais abrangente que envolvia o país. por conseqüência. que fez com que o cidadão passasse a ter novos sentimentos em relação à sua situação geográfica. os vocábulos Imperium e Regnum passaram a exprimir a idéia de Estado. caius_c 14 .

É dirigido por um governo soberano reconhecido interna e externamente. O desuso do segundo termo fez com que os escritores da Idade Média empregassem apenas o termo Status. 67 ARISTÓTELES diz que o Estado é uma associação de homens com capacidade para suprir sua existência. que era usado para designar a ordem permanente da coisa pública e dos negócios de Estado na Roma antiga.Estado é uma palavra polissêmica e seu significado atual surgiu por volta do século XVI. social e juridicamente. pois detém o monopólio legítimo do uso da força e da coerção. DE CICCO e GONZAGA ensinam que a palavra Estado vem do verbo stare. na maioria das vezes. Definem Estado com uma instituição organizada política.8 caius_c 15 . visto que deriva de status reipublicae. que significa “estar firme”. Para eles.4 Explicação possível para o desuso da segunda palavra é que a forma republicana de governo praticamente inexistiu durante o período medieval. sendo responsável pela organização e controle social. sua lei maior é uma Constituição escrita. que significa “situação” para o próprio conceito de Estado. ocupa um território definido e. está relacionado etimologicamente com a palavra “estabilidade”. Podemos transpor o significado usual de estado. 5 A palavra tornou-se de uso corrente através dos escritos de Maquiavel. que permanece até hoje.

12 Para DARCY AZAMBUJA. 9 OPPENHEIMER define o Estado como uma instituição social. com o único fim de organizar o domínio do primeiro sobre o segundo e resguardar-se contra rebeliões internas e agressões externas. 10 DALLARI conceitua Estado como a ordem jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território. o Estado é uma sociedade. dotada das atribuições de regulamentar a quase-totalidade dos interesses gerais de uma coletividade política institucionalmente organizada e fixada sobre um território determinado. e cujos governantes dispõem da competência maior. E se denomina sociedade política. pois se constitui essencialmente de um grupo de indivíduos unidos e organizados permanentemente para realizar um objetivo comum. tal como o direito internacional estabelece. porque. tendo sua organização determinada por normas do Direito Positivo. que um grupo vitorioso impôs a um grupo vencido. é hierarquizada na forma de governantes e governados e tem uma finalidade própria: o bem público.11 GEORGES SCELLE ensina que o Estado é uma ordem jurídica imediatamente subordinada à ordem jurídica internacional.MARX afirma que o Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes. 13 caius_c 16 .

16 JELLINEK apresenta o Estado.14 HEGEL define o Estado como totalidade ética: a realidade da idéia ética. na sua manifesta qualidade do poder soberano. substancial.18 CARRÉ DE MALBERG diz que o Estado é uma comunidade de homens fixada sobre um território próprio e dotada de uma organização que emana para certo grupo estabelecido na relação com os seus membros um poder superior de mando. que pensa e conhece a si mesma. ação e coerção. o espírito ético enquanto vontade patente. evidente por si mesma. 17 KELSEN sintetiza o conceito de Estado como norma coativa normativa da conduta humana. que sucede a outras formas de organização política. juridicamente. peculiar às sociedades civilizadas. que cumpre o que sabe e como sabe. assente em um determinado território e dotada de um poder originário de mando.19 caius_c 17 .QUINTÃO SOARES diz que o Estado apresentase com forma histórica de organização jurídica de poder. 15 KANT define o Estado apenas pelo seu ângulo jurídico ao concebê-lo como a reunião de uma multidão de homens vivendo sob as leis do Direito. como a corporação de um povo.

num determinado território. o Estado é uma institucionalização do poder e GURVITCH afirma que é o monopólio do poder. ocupando um território definido. onde os fortes monopolizam a força. o Estado é um povo fixado num território e organizado sob um poder supremo originário de império.23 Segundo RANELLETTI. 21 HELLER explica que o Estado é uma unidade de dominação. 20 Ele considera o Estado como uma coletividade que se caracteriza apenas por assinalada e duradoura diferenciação entre os fortes e fracos. limitada apenas pelo direito.22 Para BURDEAU. que atua de modo contínuo com meios de poder próprio. independente no interior e no exterior. social e juridicamente. sendo delimitado no pessoal e territorial. executa e aplica seu ordenamento jurídico. 25 Estado é uma instituição organizada política. de um modo concentrado e organizado. para atua com ação unitária os seus próprios fins coletivos. visando o bem comum. onde cria. dirigida por um governo que possui soberania caius_c 18 .DUGUIT conceitua o Estado como uma força material irresistível.24 PEDRO SALVETTI NETO afirma que o Estado é a sociedade necessária em que se observa o exercício de um governo dotado de soberania a exercer seu poder sobre uma população.

Em princípio. O Estado é a expressão máxima do desejo natural do homem de viver em uma sociedade organizada. não é necessário que exista a busca de um bem comum. pode se dizer que sua mais forte característica é o domínio que tem sobre si mesmo. um povo e um território. ou seja. dando-se a impressão de que o objetivo de cada Estado se resume apenas em conseguir a supremacia sobre os demais. dá-se a impressão de que o Estado tem menos domínio sobre seu território e sua população. O que define um Estado? Em primeiro plano. Sua existência pode estar atrelada a interesses pessoais ou oligárquicos. Essa é a mais difundida concepção de Estado.reconhecida interna e externamente. podemos dizer que sempre existiram em maior ou menor grau em todos os pontos da História. Embora estes efeitos inter-países sejam mais presentes atualmente. É o controle dos seus próprios elementos que o define. quando não de si próprio. caius_c 19 . O Estado é a organização dos padrões de liderança e comportamento dentro de determinado território. Ela está pontuada de povos dominadores e dominados. Um Estado soberano é aquele que tem um governo. Pode parecer uma forte assertiva visto que o fenômeno conhecido como globalização tende a aproximar os povos em torno de parâmetros comuns que nem sempre são condizentes com sua vontade.

que o bater de asas de uma borboleta na Oceania provoca um furacão em New York. Uma crise econômica em algum país gera reflexos rápidos sobre outros. quase instantâneos. Ele pode manter seus cidadãos insulados dentro de seu território e cortar grande parte da comunicação com outros caius_c 20 . se ele é constantemente afetado por situações que não lhes são exatamente próprias? Com certeza. O “efeito borboleta” está cada vez mais presente no dia a dia. A poluição gerada por um país torna-se global e afeta todos. Atualmente. produzem conseqüências que podem tornarem-se catastróficas para todos. como se pode falar de um Estado com domínio sobre si mesmo. Com tal interação. Praticamente inexistem fatos locais que não se estendam a outros países. o que é impossível.Chegamos em um estágio de interação tão grande que qualquer isolamento se torna praticamente impossível. existe dependência ou submissão entre países. realmente. mesmo em locais remotos. Guerras. O isolacionismo esbarra na falta de capacidade de qualquer Estado poder suprir todas as suas necessidades com seus próprios recursos. pode se dizer. A rapidez das comunicações faz com que os efeitos das atividades humanas sejam sentidos por todos de forma mais rápida e abrupta. Dizer que um Estado é totalmente soberano é acreditar que existe alguma capacidade de se manter isolado dos demais.

território e governo.países mas. O Estado deixará de ser estático e às suas características que são povo. o Estado propriamente dito. caius_c 21 . o próximo grande passo para a existência de um Estado. Estes recursos englobam. além dos materiais. que façamos um estudo sobre a sociedade. com formato diferente daquele que conhecemos até agora. Para se entender o Estado é necessário. será acrescentada uma outra: a soberania virtual. Na realidade. antes. necessita de recursos externos para manter-se como tal. Isto é o que definirá o Estado do futuro. será a capacidade de rápida adaptação às mudanças sem perder suas características básicas. aqueles derivados da tecnologia e alinhamento político.

O significado de sociedade está intimamente relacionado com aquilo que é social. é ser social que determina consciência” (Karl Marx) dos seu seu sua A origem da palavra sociedade vem do latim societas. seguindo normas comuns e que são unidas pelo sentimento de consciência do grupo. ao contrário. que significa "companheiro".A sociedade “Não é a consciência homens que determina o ser mas. grupo de indivíduos que vivem por vontade própria sob normas comuns. De acordo com o dicionário de AURÉLIO BUARQUE DE HOLLANDA. sociedade é o agrupamento de pessoas que vivem em estado gregário. 26 DALMO DALLARI define sociedade como o produto da conjugação de um simples impulso caius_c 22 . Societas é derivado de socius. conjunto de pessoas que vivem em certa faixa de tempo e de espaço. que pode ser traduzida como uma "associação amistosa com outros".

29 PARSONS considera sociedade. cada um deles contributivo para o funcionamento dela. 27 GIDDINGS diz que sociedade é uma coletividade de indivíduos reunidos e organizados par alcançar uma finalidade comum. que contribuem para o câmbio social.31 QUINTÃO SOARES expõe duas interpretações: a organicista e a mecanicista.associativo natural e da cooperação da vontade humana. 28 JOLIVET caracteriza sociedade como uma união moral de seres racionais e livres. organizados de maneira estável e eficaz para realizar um fim comum e conhecido de todos. na condição de complexo de relações do homem com seus semelhantes. um tipo de sistema social contendo em si mesmo todos os pré-requisitos essenciais para a sua manutenção como sistema auto-sustentado. 30 CHRISTIANO FRAGOSO expõe duas teorias: a funcionalista e a do conflito social. A teoria do conflito social se funda na idéia de que a sociedade é formada por elementos contraditórios em si e explosivos. a sociedade pode ser compreendida como o conjunto de relações por intermédio das quais vários caius_c 23 . A funcionalista trata a sociedade como um sistema estável e equilibrado de elementos. Na interpretação organicista. e que é mantida graças ao consenso acerca de valores comuns. sendo a sociedade mantida em virtude da coação que alguns de seus membros exercem sobre outros.

35 Para BONAVIDES. a sociedade é algo interposto entre o indivíduo e o Estado. é hierarquizada na forma de governantes e governados e tem uma finalidade própria. mais larga e caius_c 24 . de membros que buscam. E se denomina sociedade política. Seus principais teóricos são Aristóteles. mediante o vínculo associativo. Na interpretação mecanicista. Savigny e Del Vecchio. porque. Platão Comte. tendo sua organização determinada por normas do Direito positivo. 33 TOENNIES diz que sociedade é um grupo derivado de um acordo de vontades. visando estabelecer entidade nova e superior.indivíduos vivem e atuam solidariamente. 34 DEL VECCHIO entende que sociedade é o conjunto de relações mediante as quais vários indivíduos vivem e atuam solidariamente em ordem a formar uma entidade nova e superior. 32 DARCY AZAMBUJA enquadra o Estado como uma sociedade. o bem público. pois se constitui essencialmente de indivíduos unidos e organizados permanentemente para realizar um objetivo comum. de forma ordenada. entrelaçados em vínculo associativos e imbuídos do mesmo interesse comum. um interesse comum impossível de obter-se pelos esforços isolados dos indivíduos. sendo uma realidade intermediária. como medida de valor. a sociedade é um grupo derivado de um acordo de vontades formalizado por seus próprios membros. que apenas será obtido pelo esforço de todos.

Essa associação permite maiores possibilidades de sobrevivência individual. pode produzir doenças psíquicas e. A solidão ou o isolamento social pode provocar doenças. de acordo com Freud. 36 CELSO RIBEIRO BASTOS afirma que somente existem sociedades humanas. porém inferior ainda ao indivíduo. tecnologia e uma associação que extrapolaram os limites do mundo natural. por sua própria iniciativa. Essa capacidade de viver em grupo permitiu que desenvolvêssemos morfologia própria. algumas vezes. Ele necessita dela para sua sobrevivência em todas as formas. decide caius_c 25 . extensivas ao próprio físico. Ele define sociedade com forma de coordenação das atividades humanas objetivando um determinado fim e regulada por um conjunto de normas. 37 Um animal social é aquele que vive em conjunto com os de sua espécie e onde existe um alto grau de interação entre seus membros. Aquele que. O homem é um animal social. Os outros animais que vivem de forma gregária não se enquadram nesta definição. mesmo que detenham certa organização. Viver em sociedade é natural ao homem.externa. tanto física como psicológica. juntamente com a do grupo. superior ao Estado. A sociedade é resultante da atuação própria e exclusiva do homem. Nossa necessidade de interação social é tão grande que a sua falta.

40 NIETSCHE fala do horror que os homens sentem a respeito dos solitários – “O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. a espécie humana não nasceu para o isolamento e para a vida errante.39 SÃO TOMÁS DE AQUINO afirma que o homem vive de forma solitária em três situações: excellentia naturae. dentro de uma escala que varia da demência à santidade. ao ouvi-las perguntam assim como de noite. E. quando se trata de homens virtuosos que buscam a perfeição espiritual. CÍCERO diz que “a primeira causa dessa agregação de uns homens a outros é menos a sua debilidade do que certo instinto de sociabilidade em todos inato. mesmo na abundância de todos os bens. os seres humanos que vivem distantes da sociedade são anormais. quando alguém é obrigado a viver de forma solitária por fato acidental. somente o faz por questões próprias ou altruísticas. mas com uma disposição que. coruptio naturae. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar. caius_c 26 . quando se trata de homens que tem deficiências mentais e mala fortuna. As nossas passadas soam solitariamente demais nas ruas. a leva a procurar o apoio comum.” 38 Como ARISTÓTELES sustenta.viver só.

ao mesmo tempo em que renegamos aqueles que vivem fora ou à margem da sociedade. deitados nas suas camas. é sempre solitária. ouvem passar um homem muito antes do alvorecer: Aonde irá o ladrão?” 41 Estamos tão imbuídos da idéia de que somos um ser social que não conseguimos nos imaginar sobrevivendo fora deste âmbito. desejando mudá-la de alguma forma ou simplesmente por acreditar que a sua forma de ser e pensar deve ser imposta a todos. é inegável que suas idéias podem atravessar séculos. pelo simples fato de que ela busca uma acomodação pois os conflitos podem desagregá-la. Ele se torna herói porque quebra paradigmas sociais. podemos exaltá-los como heróis. a sociedade tende a ser estática ou propensa a mudanças lentas. ele luta contra a sociedade na qual vive. Curiosamente. Este é um dos grandes paradoxos da sociedade: apesar de ela ser essencial para a sobrevivência do indivíduo. Em si. a maioria das mudanças que nela ocorre são frutos de um ou poucos indivíduos. ela contraria a sua própria natureza social. Pode se dizer que o herói não é sua figura física mas as idéias caius_c 27 . Essa figura. O indivíduo quebra o pensamento hegemônico do grupo e altera seus pensamentos. influenciar comportamento de gerações e provocarem mudanças no planeta. Sua solidão caracteriza-se por não conseguir enquadrar-se dentro dos parâmetros comuns a todos. ou seja. Apesar da situação da maioria dos heróis nãomíticos ser desfavorável ao próprio indivíduo. a princípio.quando.

que. Os adeptos de seu pensamento podem entrar em choque com os demais e. Não existe sociedade que seja homogênea. no geral amenizados. caius_c 28 . tendem a formar grupos divergentes daquele ao qual pertenciam. Esta fusão. pois esta condição indica estaticidade. Dependendo do alcance de suas idéias. embora não se torne grande em seu conjunto. em outros grupos humanos. suas idéias podem provocar a união de indivíduos dispersos em uma sociedade única ou unificar e uniformizar uma coletividade quando existe uma diversidade muito grande de pensamentos. criação e dissolução de grupos. das dificuldades existentes em vivenciá-las ou por estar conforme apenas para determinados tipos de pessoas. tem poder suficiente para incutir alguns dos seus conceitos. que conduz ao seu desaparecimento. criam ou eliminam determinados comportamentos ou formas de pensar. Um herói é o produtor de idéias que se alastram pelas camadas da população. que alteram. Ele pode ser um grande produtor de cismas. Quando aceitas paulatinamente ou se forem a expressão do sentimento geral. São suas idéias que fracionam a sociedade e a subdividem. faz parte da dinâmica complexa de uma sociedade. Ele catalisa as pessoas ou as divide por conta de seu pensamento. quando não aceitos. pode ocorrer o nascimento de um grupo ou tribo.que partem dele.

termo criado na Roma Antiga para designar um novo grupo social que surgiu entre as tribos latinas. Esta forma também é chamada de conjugal.Por mais complexa que seja. pois considera apenas a família isolada da sociedade. Fundamentalmente a família tradicional é um grupo de pessoas ligadas por descendência a um ancestral comum. Esse conceito pode ser chamado de nuclear. cada qual com um papel atribuído. 42 O primeiro conceito de família é o clássico. No entanto. e. abandono de lar ou outros fatores que reduzem a família conjugal. A família ampliada é aquela estruturada dentro de uma família nuclear à qual se acrescenta os caius_c 29 . mãe e filhos. no entanto. consubstanciam o funcionamento do sistema como um todo. toda sociedade é composta por núcleos chamados família. A monoparental é aquela formada de pais únicos devido a fenômenos divórcio. que engloba pai. a família é um sistema social uno. A família O termo “família” é derivado do latim “famulus”. ao serem introduzidas à agricultura e também escravidão legalizada. embora diferenciados. óbito. que. Segundo ATKINSON e MURRAY. composto por um grupo de indivíduos. outras formas são consideradas como famílias. que significa “escravo doméstico”.

O ser humano é o animal que tem o maior período neotênico. filhos. O crânio do nascituro é feito de ossos moles e abertos para que possam dar espaço a um crescimento futuro de nosso cérebro. Isso caius_c 30 . não nos especializamos para um determinado estilo de vida. As pequenas tribos são exemplos típicos de famílias comunitárias onde todos procuram zelar pelo bem estar do próximo para que o mesmo lhe de reciprocidade. Nosso cérebro nasce pequeno e expande-se à medida que crescemos. ou seja. geralmente um par. A família comunitária é aquela que se rege pelo princípio comunal onde existe uma relação muito forte entre os membros e onde existe a responsabilização de todos por todos. Um dos fatores físicos é a neotenia. Retemos características infantis que nos mantém anatomicamente generalistas. avós.ascendentes e descendentes. vez ou outra pode incluir crianças adotadas ou filhos biológicos dos parceiros. Neotenia é a retenção de características juvenis na forma adulta. netos e parentes com grande afinidade. Alguns fatores nos impelem naturalmente à formação da família. e que. formando-se por pais. Existem outras formas de famílias denominadas alternativas que são as famílias comunitárias e as famílias homossexuais. Podem ser físicos ou psicológicos. As famílias homossexuais são formadas por indivíduos do mesmo sexo.

estarem aptos a formar uma nova família. No Brasil. considera crianças os caius_c 31 . exceto quando sofremos restrições de ordem física. teoricamente. a partir dos dezoito somos considerados capazes de agir com responsabilidade própria. por lei somos capazes legalmente de certos atos aos dezesseis e.significa que não nos adaptamos a uma situação única ou determinada. O nosso Estatuto da Criança e do Adolescente. Para os pais. é normal que o período se estenda por mais anos até estarem completamente amadurecidos para poderem enfrentarem o ambiente que os cerca. esse processo significa despender grande quantidade de energia e tempo no processo de criação dos filhos. uma dependência por grande período dos nossos pais mas podemos manter um padrão de conhecimento acima dos outros seres por causa dessa característica. No entanto. Damos gradação a essa separação. mental ou social. Temos o maior período de amadurecimento conhecido entre os animais. É comum as leis estipularem idades-limite para vínculo jurídico dos filhos com seus pais. Este processo nos confere maleabilidade para enfrentarmos ambientes distintos ou diferentes. Embora os seres humanos estejam aptos à reprodução por volta dos doze ou catorze anos e. nossa capacidade de aprender não se reduz ao longo do tempo. Os seres humanos amadurecem sexualmente por volta dos doze anos de idade e nossos ossos do crânio se fundem aos dezesseis.

derivam da monogamia. Estes vínculos afetivos que temos. ainda existem os psicológicos. Essa longa relação entre pais e filhos promove uma base social que chamamos de família.indivíduos com idade limite de doze anos incompletos. A neotenia não deve ser encarada apenas como um período prolongado no qual temos um espaço para um maior aprendizado. Ela também pode ser considerada com um fator de aglutinação social visto que. ela nos favorece com uma capacidade maior de socialização. que é a forma mais aceita pelas populações no mundo. visto que o número de mulheres é ligeiramente superior ao dos homens. Como seres sociais. A família é a primeira célula de uma sociedade. Variam desde a necessidade biológica de procriação. fatores culturais e sociais até os imperativos oriundos de nosso subconsciente. provavelmente. os adolescentes estão na faixa acima dos doze completos e abaixo dos 18 anos. Embora não se possa caius_c 32 . por ter um período maior. Acreditamos que a poliandria e a poligamia são padrões mais culturais do que genéticos. que são inúmeros. A própria taxa de nascimento reflete isso. Além dos fatores materiais. precisamos ter relacionamentos que perdurem através de determinado tempo e a família é a estrutura que mais adequada para isto.

por mais primitivas que possam nos parecer. podemos excluir a consideração dos mesmos. Estudos comprovam que existem mecanismos naturais que fazem com que os parceiros evitem consangüinidade. BACHOFEN declarou que no início da família os seres humanos viviam em promiscuidade e que não existia nenhuma relação duradoura entre homem e mulher. Percepções sensoriais inconscientes como cheiro e diagrama do rosto diminuem consideravelmente a probabilidade de incesto ou consangüinidade. é obvio que sua manifestação é bem mais ampla. É certo que algumas sociedades não estabeleceram ou não estabelecem uma distinção familiar da maneira como os europeizados vêem. No entanto. sendo que a descendência contava-se unicamente através da linha materna.afirmar que a monogamia esteja em nosso DNA. caius_c 33 . obrigatoriamente. existem regras de conduta que são de comum acordo a todos. Alguns pensadores discordam que esta forma de casamento ou acasalamento esteve presente em toda nossa história.43 Se levarmos em conta que todas as sociedades. Para que exista uma sociedade. Se este estado animal existiu foi muito antes do homem estabelecer-se como ser pensante. estabelecem regras para que exista uma convivência pacífica e que a reprodução é sempre compatibilizada através de determinadas normas. tem que existirem regras. Essa teoria também esbarra no horror que temos do incesto. mesmo assim.

BERTAND RUSSELL considera a família como o mais forte e mais instintivamente obrigatório dos grupos sociais. a superior começa com a fundição do minério de ferro. O pai caius_c 34 . a fase média é aquela em que. O desenvolvimento da família realiza-se paralelamente ao histórico. existiam três fases bem distintas: estado selvagem. mas ele não oferece critérios tão conclusivos para a delimitação dos períodos. MORGAN44 sobre o surgimento da família e da sociedade eram as mais corretas.ENGELS acredita que as teorias de LEWIS H. barbárie e civilização. em três etapas: inferior. no Leste. O estado selvagem consistia. na qual os homens ainda viviam em árvores e começa a desenvolver uma linguagem articulada. Para ele a formação da família está relacionada com o longo período de lactância dos seres humanos e a dificuldade de obtenção de alimentos pela mãe. Para ele. média. A fase inferior da barbárie tem início com a introdução da cerâmica. os homens iniciam a domesticação dos animais e no Oeste com a produção irrigada de hortaliças e emprego de tijolo cru nas construções. quando os homens introduziram o peixe em sua alimentação e aprenderam a usar o fogo e a fase superior que começa com a invenção do arco e flecha. segundo ele. e passe à fase da civilização com a invenção da escrita alfabética e seu emprego para registros literários.

produziria um amontoado de seres com características inferiores àquelas que a natureza dita como essenciais para manutenção e evolução das espécies. A família é um dos resultados da própria evolução do homem como animal pensante e consciente. tenha sido base de uma sociedade. uma sociedade é composta por um número de seres que não permitam ou diminuam consideravelmente o perigo da endogamia. caius_c 35 .seria o elemento provedor sobrevivência do grupo. É quase inconcebível que uma única família. o que implica em dizer que ela deva ser composta de várias famílias. Portanto. o fantasma da endogamia ainda rondaria os seres e transformaria a espécie em algo não condizente com o que a realidade natural necessita. mesmo aquelas no sentido ampliado. Embora a família seja base da sociedade. O horror à endogamia faz parte de todas as espécies. 45 necessário para a Podemos dizer que a família é um componente natural do homem face à sua necessidade física e social e que sua constituição pode ser datada dos tempos em que o homem se tornou um animal gregário. ao embarcar apenas um casal de cada espécie em sua arca. Noé. isso não quer dizer que a sociedade derivou única e exclusivamente de uma família. Mesmo que fossem dois casais.

ainda. A característica básica do clã é o sentimento grupal reunido em torno de um ancestral considerado como comum. o brasão ou cota de armas é o elemento que liga as famílias em si. a identificação dos seus membros se dá através do sobrenome. uma matriarca ou patriarca. o homem cria laços com outros agrupamentos familiares formando um clã. podendo ser. A maioria dos clãs são exógamos. mesmo que seus membros não tenham parentescos. tal como um chefe. de acordo com a sua vinculação masculina ou feminina. A união dos clãs forma a tribo. é a reunião de várias famílias através de casamentos de alguns de seus membros. Ao fazer isso. quando consiste de todos os descendentes de um ancestral maior. Em algumas sociedades como a escocesa e a irlandesa. Algumas associações informais definem-se como clãs dentro de uma esfera econômica ou política. Em alguns lugares. Os clãs podem ser classificados como patrilineares ou matrilineares. Não implica necessariamente em uma vinculação genética ou consangüínea. o que significa que não podem casar-se entre si e possui um líder oficial. caius_c 36 . A grosso modo.O clã O horror que representa a endogamia impele o homem à procura de uma miscigenação para fora de sua família. bilaterais.

mais recentemente. provavelmente. existe uma cultura que lhe é própria. embora aquela seja composta por estas.Para FUSTEL DE COULANGES. Conceitualmente. A sociedade está dentro de seus genes. Ela é o desenvolvimento social natural do homem na sua busca para a satisfação de seu instinto mais básico: viver em sociedade.46 As tribos O termo tribo é usado para definir agrupamentos sociais antes da formação do Estado. para designar grupos indígenas ou. poderíamos dizer que uma tribo é um conjunto de pessoas que expressam uma mesma opinião e ou que agem e interagem dentro de uma cultura que lhes é própria. para designar. também. Conceitualmente. O homem é um animal social e não pode fugir das características que esse fato impõe. caius_c 37 . grupos dentro de uma sociedade ampla que tenham certos valores culturais diferentes dos demais. Ela é a primeira forma efetivamente social porque permite que seja expandida através da reprodução exógama ou da agregação de indivíduos de outras tribos. Na sua forma mais primitiva. poderíamos dizer que uma tribo é um conjunto de pessoas que expressam uma mesma opinião e que agem e interagem com essa base. o Estado originou-se desses grupos. O início da sociedade está na tribo e não na família. A forma expandida da tribo é a nação.

advinda do conceito de aldeia global. Durante o período de dominação colonial.Atualmente as tribos ou nações se embutem em países e seguem suas regras. Como disse Franklin Delano Roosevelt . A cultura e os conceitos dessas sociedades são transmitidos continuamente para outras com o intuito de uma dominação cultural e social que favorece a dominação econômica. As tribos ricas usam desse conceito para manter os demais sob seu jugo. Um país é uma criação artificial do homem enquanto que uma nação se formou naturalmente ao longo da existência do homem. é de natureza mais econômica do que social. surgiu a teoria de que o mundo se encaminharia para uma fase tribal onde todas as pessoas se conheceriam e se comunicariam entre si. Com o avanço das comunicações e da possibilidade de se ter notícias ou de se conectar instantaneamente a qualquer parte do mundo. A dita globalização. O conceito de tribo ressurgiu de uma forma mais ampla quando os povos mais avançados tecnologicamente criaram o conceito de aldeia global ou globalização. É uma nova forma de colonização que não necessita da utilização de exércitos como no período colonial.“A verdade é que onde nossos filmes caius_c 38 . os países da Europa repartiram o território africano entre si sem levar em consideração a miscelânea étnica e cultural existente entre os povos africanos. Exemplos clássicos de nações embutidas em países são as existentes na África.

Esse processo pode esfacelar países. mesmo que a língua. os mesmos explodiram e geraram países distintos. Acreditando que as tribos foram assimilando ou conquistando outras até formarem países. crença e costume sejam iguais. Com o enfraquecimento da dominação militar. podemos ver que. Primeiro se vendem idéias e depois se vende o produto. ao vencedor.47 Na fase dourado do cinema como arte. existem tribos que se formam dentro dessas. Como dizia Machado de Assis.48 Pensando no conceito de nações ou tribos dentro de países. “Ao vencido.chegam. podemos dizer que se chega um ponto em que o próprio tamanho do país não permite que o pensamento seja único ou uniforme. embora estejam vinculados entre si pelo caius_c 39 . O Norte e o Sul ainda são antagônicos em seus pensamentos e procederes. as batatas”. essa afirmação enfatizou o poder de mídia para o consumo através da inserção cultural alienígena em outra cultura. Caso clássico são os impérios macedônico e romano. vendemos nossos produtos”. mídia e aliciamento de membros da mesma. gerando outras tribos cuja principal característica é a forma de pensamento. Puro mercantilismo. ódio ou compaixão. Talvez possamos comparar um país a uma planária que se agiganta a tal ponto que é obrigada a se romper e nesse processo origina outro ser. cujas marcas iniciais eram as nações. A Guerra Civil Americana é outro exemplo de esfacelamento a que está sujeito um país devido às suas diferenças culturais e sociais. A dominação de outra tribo considerada inferior é feita através de conceitos.

somos levados a acreditar que a diversidade atual. pode suplantá-lo e fazê-lo retornar ao que deveria ser naturalmente. que desapareceu em 1991. A antiga TchecoEslovaquia é outro exemplo onde podemos afiançar que o poder das tribos pode explodir uma aliança artificial que é um país. Outro exemplo é a antiga União Soviética. Por ser múltiplo por natureza e por tender a uma associação com aqueles que têm um pensamento similar. Podemos dizer que o país tem sua força presente em todas as instâncias mas que o poder das nações ou tribos. após surgirem conceitos como a Perestroika e a Glasnost. com a dominância russa. até nos mais avançados. Todas as guerras civis são exemplos do tribalismo existente em países. podem fazê-los derrogar às suas antigas origens. Acreditando que o poder das nações existe e pode fracionar países. Mesmo com o regime do comunismo. torná-los um emaranhado de tribos ou nações. a União Soviética não conseguiu sobreviver às diferenças culturais que regiam os povos. a república se dividiu em dois países: a República Tcheca e a República Eslovaca. os homens tendem a concentrar-se em grupos pequenos que podemos afiançar que se tratam de modernas versões das tribos. caius_c 40 . Em 1993. existente em todos eles. ou seja.processo que forma um país. a longo prazo. composta de vários países.

radicais ou caius_c 41 . 49 Nessa categoria podemos enquadrar as tribos voltadas para algumas formas de arte. mesmo que o país não se esfacele. surf. Se considerarmos o mundo com uma “aldeia global”. se identificaram uns com os outros em seu ego. as tribos podem provocar dissensões internas e o conseqüente enfraquecimento de um poder central. No entanto. Algo desse tipo pode acontecer quando as diferenças são grandes o suficiente para provocarem essa divisão.Isso não quer dizer que o surgimento de tribos esfacelaria naturalmente um país. esportes ou formas alternativas de vida. consequentemente. Algumas que se dedicam a esportes como skate. banda. Elas conseguem afetar o poder do próprio Estado. Fãs de determinado cantor. conjunto musical ou tipo de música são as que mais representam esse tipo de tribo. Algumas tribos têm poder suficiente para provocar mudanças ou alterar equilíbrios dentro do cenário mundial. então podemos extrapolar o poder das tribos para o conjunto mundial. Podemos classificar as tribos em dois tipos: a) As de âmbito local b) As de âmbito regional ou mundial Tribos de âmbito local FREUD define grupos como certo número de indivíduos que colocaram um só e mesmo objeto no lugar de seu ideal de ego e.

cujo pensamento inicial era a formação de uma nova sociedade sustentada pela igualdade. Mesmo as idéias que sobreviveram ficaram restritas ao plano teórico ou de nenhuma ação. este movimento foi reprimido e abafado. foi perseguido. preso e torturado pelo DOPS2 por essas idéias. pois era visto como opositor do regime. Suas idéias sobre a Sociedade Alternativa ainda existem e são cultuadas mas representam um pensamento que não afeta o restante da sociedade pois são idéias. e terminaram conseguindo muito pouco daquilo que propunham ou que pretendiam transformar. Foi combatido pelo 1 2 1964-1985 Departamento de Ordem Social e Política. Seu mentor.qualquer outro tipo também pertencem a esse tipo de tribo. Seu maior lema “Paz e Amor”. buscava um retorno à vida natural e adoção de filosofias orientais. crenças e um tipo de comportamento local. liberdade e crenças esotéricas baseadas em pensamentos de Aleister Crowley. Promovido pela juventude americana rica e escolarizada que recusava as injustiças e desigualdades da sociedade. principalmente nos Estados Unidos. Raul Seixas. que se 50 autodenominava a Grande Besta 666. Durante a ditadura militar1. Movimentos como os da contra-cultura hippie tiveram seu apogeu durante a década de 60. Raul Seixas lançou o movimento chamado Sociedade Alternativa em 1971. acabou sendo apenas um propagador do uso de drogas na sociedade. terminando por exilar-se nos Estados Unidos. caius_c 42 .

Geralmente se espalha pela camada urbana mais pobre até atingir um tamanho em que a mídia o considera como algo a ser noticiado. não sofreu repressões por parte do Estado. Provocou a criminalização das drogas que até então podiam ser vendidas e consumidas livremente. denunciando fatos e tomando atitudes contra aquilo que consideram atentatórios à sua pessoa. gangsta rappers. se rompeu e gerou outras tribos como o anarcopunk. o capitalismo e o consumismo desenfreado. Hip hop significa balançar os quadris no sentido de dançar. rapidamente. O funk é derivado do hip hop. sua principal intenção era promover uma igualdade social ou chamar a atenção dos governos para a situação caótica das periferias. Essa tribo. Buscando uma forma de viver sem o Estado. Outro movimento foi o hip hop. Na década de 70 surgiram os punks. Nascido nas ruas. Punk significa algo como madeira podre ou coisa ruim. subúrbios e favelas. de maneira fraterna e libertária. Uma parte desses movimentos surge nas periferias como forma de chamar a atenção sobre sua situação social. Dividiu-se em outras tribos como os rappers. Restrito às periferias e com poucos adeptos na classe média. breakers e outros mais.governo americano porque era contra o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Quando caem no gosto da classe média ocorre sua adaptação e tendem a ser caius_c 43 . a proposta inicial do movimento era de ser um anteparo contra a burguesia.

O grau de comprometimento de seus adeptos com sua filosofia é mais voltado para o exterior do que para a sua fixação e propagação. o que determina um ciclo rápido em sua evolução e desaparecimento. esse tipo de tribo procura promover reforma pessoal ou em determinados setores da sociedade. sua base é incipiente e vagamente filosófica.menos agressivos. não afetam a sociedade em si. Praticamente. principalmente a juventude. sua proposta de mudanças deixa de ter valores e passa a ser apenas um elemento comercial. geralmente. São marcados por uma música e roupas típicas mas dificilmente vão alem disso. Frequentemente esses movimentos tribais fazem parte apenas de um estágio de vida da pessoa. caius_c 44 . Geralmente esses movimentos tribais são ruidosos e podem até marcar uma época. pouco influindo na relação sociedade-Estado. Adotou-se o nome de “tribos urbanas” para esse tipo de movimento. São expressões bem localizadas. Nesse ponto. No entanto. e se esvai com o tempo. embora sejam marcadas com símbolos e exteriorizações. Muito localizado. No geral restam apenas breves conceitos que não determinam nenhum modo de vida a ser adotado pela geração seguinte. A grosso modo poderia se dizer que representa mais um gosto pessoal do que uma forma precisa de pensamento que induza a um comportamento.

é sempre gradativa por conta de sua aceitação social. Tribos de âmbito mundial ou regional As tribos de âmbito mundial ou regional. Tribos como o Greenpeace podem provocar mudanças no comportamento de vários países e até em suas leis. Quebrando uma promessa feita em 1999. De qualquer forma. devido à sua ostentação e idéias contrárias ou além de sua época. Sua atuação faz com que governos e empresas adequem suas atividades de forma a produzir o menor dano possível ao meio ambiente. no entanto. gramas e cultura farmacêutica. Possíveis mudanças dentro do Estado podem ocorrer se existir uma alteração efetiva de pensamento e comportamento social. Um exemplo disso é a poderosa Monsanto. Essa tecnologia produz plantas geneticamente modificadas que produzirão sementes estéreis. a empresa está desenvolvendo a tecnologia Terminator para culturas não alimentícias como o algodão. esta possibilidade pode acontecer quando esta geração estiver dentro dos âmbitos do poder. são vistos como perturbadores da ordem social e política. podem ter o poder de influir na sociedade e no Estado. principalmente em Estados totalitários. Outro tipo de cultura caius_c 45 . Como estas tribos geralmente se compõem de jovens.No entanto. tabaco. No conceito de tribos podemos incluir também as grandes empresas que dominam uma fatia considerável de um determinado mercado.

51 Essas tecnologias podem tornar a agricultura mundial dependente de empresas como a Monsanto. podemos imaginar que ainda estamos na Idade Média e que os cruzados foram substituídos pelos caius_c 46 . Uma tribo conseguiria dominar governos. é possível criar combinações nunca imaginadas como animais com plantas e bactérias.modificada produzida pela mesma empresa são os transgênicos. Outro tipo de tribo de âmbito mundial são as que têm crenças como elemento de ligação entre seus membros. países e nações com apenas alguns elementos. mudando a forma do organismo e manipulando sua estrutura natural a fim de obter características específicas. Não há limite para esta técnica. o islamismo é uma das religiões com mais adeptos no planeta. Transgênicos são plantas criadas em laboratório com técnicas da engenharia genética que permitem "cortar e colar" genes de um organismo para outro. Atualmente. O controle mundial de alimentos poderia estão nas mãos de apenas uma empresa. Embora a maior parte de seus seguidores se encontrem nos países árabes do Oriente Médio e do norte da África. podemos dizer que a religião muçulmana é a que provoca mais reflexões sobre o poder das crenças dentro do cenário mundial. Se levarmos em conta alguns conceitos como a Jihad. por exemplo.

Com tendências ao gigantismo. Este conceito é usado para validar ataques terroristas ou ações contra pessoas ou países considerados inimigos. existem duas grandes correntes. que produzem distorções na forma de expressão da fé e competem entre si para a tomada do poder central em alguns países. manutenção e ampliação de seu poder.mujahid3. Geralmente elas acreditam que o gigantismo é a forma mais simples de sustentação. Essas tribos têm o poder e a vontade de arrebanhar para si o maior número possível de integrantes. essas tribos incorrem no mesmo problema das grandes tribos. a sunita e a xiita. 3 Aquele que faz o jihad caius_c 47 . que utilizam a fé de seus membros para benefício de alguns membros apenas.52 No caso do islamismo. Esta religião de paz é usada para promover ações que ferem seus próprios princípios. principalmente as chamadas “eletrônicas”. Algumas adquirem a forma de empresa. Outras tribos se formam dentro delas e disputam entre si o poder central. Crenças como o evangelicismo fundamentalista tendem a fazer com que seus adeptos neguem verdades científicas ou deixem de utilizar determinadas formas de tecnologia para somente manter seus membros sob controle.

devido à cisão provocada por essa disputa. o patriarca de Constantinopla. a excomunhão de Miguel Cerulário e a Reforma. Anterior à Martinho Lutero. No momento que certa parcela dessa população aceita a nova idéia uma nova tribo se cria e se destaca da tribo inicial. A Igreja Católica dividiu-se em duas partes depois que Martinho Lutero divulgou suas idéias. beneficiada com a ajuda de europeus. Antes da tomada da cidade pelos turcos.Exemplo de fracionamento de uma grande tribo é a Reforma. tendo como base uma disputa teológica acerca da Santíssima Trindade. em 1054. já tinha ocorrido um fracionamento na Igreja. sua primeira intenção e sim a de reformar a Igreja como um todo. podemos afirmar que uma grande tribo teve processos de rupturas que originaram outras tribos. Uma idéia diversa é apresentada. Levando em conta o Concilio de Nicéia. sob o comando de Maomé II. podendo até se tornarem antagônicas. provavelmente. quando Miguel Cerulário. entre dissidentes seguidores de Miguel Cerulário e a instituição oficial. a excomunhão de Henrique VIII. foi excomungado pelo Papa Leão IX. aceita e disseminada entre seus integrantes. embora isso não fosse. Um reflexo histórico dessa cisão foi a tomada de Constantinopla pelos turcos. promovida por Lutero. Constantinopla já tinha sido saqueada pelos cruzados em 1203. caius_c 48 . Esse mesmo processo parece ser comum a toda grande tribo.

com forte presença húngara e do Kosovo. essas tribos conviveram entre si com o mínimo de contato social e com prevalência da tribo dos brancos sobre a dos negros. Tentou-se inclusive dividir o país para que a segregação fosse maior.Podemos considerar como tribos as etnias ou nações dentro de um país.com 80% da população albanesa. Na África do Sul duas tribos se destacaram: os brancos e negros. Embora sejam controladas pelo poder estatal. A maior parte das terras (87%) foi destinada aos brancos e 13% aos negros. na forma de republiquetas. A sérvia administra as regiões da Volvodina . sendo o primeiro presidente negro da África do Sul. século XX. apoiada por tropas da Otan. A República da Iugoslávia é formada por duas repúblicas: a Sérvia e Montenegro. algumas vezes as diferenças são tantas que elas podem provocar mudanças ou rompimentos da ordem vigente. Kosovo reinvindica autonomia e a retirada das forças sérvias da região. Na década de 90. Slobodan caius_c 49 . acesso a alguns empregos e sua localização dentro das cidades ou do país era definida para evitar o menor contato possível com os brancos. Com uma constituição adotada em 1948 que promovia a separação racial (apartheid). uma província do sul . Muito direitos civis eram negados aos negros como o voto. Montenegro assegura ao país acesso ao mar Adriático. Nelson Mandela. foi libertado e ganhou as eleições seguintes. Em 1990 essa lei foi abolida e seu principal adversário.

por isso. seja diretamente ou através de artifícios. Por quê tribos? As mudanças sociais na tribo. Se não estão atreladas à governança. não aceita a presença de tropas estrangeiras em Kosovo. praticamente inexistem porque a coesão produz uma coerção social tão forte que impede que novos padrões sejam aceitos. social e política produzem efeitos dentro da estrutura estatal de tal ordem que provocam grandes alterações dentro da mesma. Estas tribos têm grande influência no Estado. Sua capacidade econômica. ela a transforma em coerção. os indivíduos buscam o ajustamento completo ao seu quadro. mesmo que gradativas. Intimidados socialmente. e uma guerra é deflagrada. em seu conceito clássico.Milosevic. A tribo precisa da coesão para sobreviver e. A lei. Elas ocorrem somente quando certo gigantismo apossa-se da tribo e a coerção torna-se fraca ou maleável a ponto de tornarem possíveis algumas mudanças. O resto é história. Países cuja miscelânea tribal é extremamente antagônica entre si correm riscos de esfacelamento. provavelmente é mais dura do que em outro agrupamento social maior. caius_c 50 . elas buscam tomar o poder. o berço do nacionalismo sérvio. dentro de uma tribo.

As grandes tribos têm uma tendência à anomia. Podemos fazer a analogia com um filho que carrega características de seus pais mas se torna um ser diferente deles. porque as grandes tribos se fracionam? Se o normal seria a associação de pessoas dentro de um ideal ou de uma forma de vida. existe uma ruptura entre seus membros. Para que essa ruptura não dê origem a um conflito. quando ela se agiganta.Se o ideal é um grande grupo que possa fazer frente a todo e qualquer outro grupo. Nossa capacidade social parece estar restrita à capacidade social de uma tribo. é fato que os que estão na escala inferior tentarão subir. quando essa escala é interrompida. Quando a sociedade começa a ficar de um tamanho que escapa à nossa compressão e capacidade associativa. a gerência do grupo somente é possível com a queda daqueles que estão acima ou com a formação de novo grupo. podemos citar a Igreja Anglicana que surgiu com o corte de relações com a Igreja caius_c 51 . Como a escala se afina à medida que sobe. por que existe essa constante separação de membros para a formação de outras tribos? A causa maior e mais provável é a ânsia de poder de alguns membros da tribo. a tribo recém formada contém elementos parciais da tribo da qual se originou somados aos elementos que a distinguem da mesma. Como exemplo. Como os aglomerados humanos dispõem de uma seqüência de comando e dentro dessa seqüência existem privilégios.

Desejoso de um filho e com relações amorosas com Ana Bolena. da qual se declarou líder. Henrique VIII rompeu relações com a Igreja Católica e fundou a Igreja Anglicana. cada um com uma ideologia e comando próprio. pressionado pelo Imperador Carlos V. Imediatamente as tribos da Arena e MDB se dissolveram e se transformaram em uma série de outros partidos. Em 1965 foi abolido o pluripartidarismo no Brasil. sua incapacidade de ir além do conceito tribal de convivência ou simplesmente pela ânsia de poder de alguns de seus membros formarem outras facções onde possam ser os líderes. da oposição. o rei ignorou a proibição canônica que o impedia de se casar com ela. da situação e MDB. Como dizia Julio César: “Prefiro ser o primeiro em uma aldeia do que o segundo em Roma”. seja por conta da variedade de pensamento do ser humano. Essa atitude valeu a ele a excomunhão em 1533.53 Em 1979 o pluripartidarismo é instituído novamente. negou a dissolução do casamento do rei Henrique VIII com Catarina de Aragão. criando-se apenas dois partidos: Arena. O então papa Clemente VII.54 Isso foi visto por críticos como uma manobra do governo para impedir que a oposição obtivesse grandes vitórias eleitorais. como a que tinha ocorrido em 1974. caius_c 52 .Católica com o rei Henrique VIII. O gigantismo parece ser o ponto inicial para o fracionamento e a criação de novos grupos.

mesmo dentro daquilo que se entende por legalidade.Pode-se argumentar que a multiplicidade faz parte do ser humano e é isso que faz com que os grandes grupos se fracionem e se transformem em novos grupos. não legitima atos que ferem o princípio básico que é a busca do bem comum. costuma se aproximar de pessoas com o mesmo pensamento e formar um novo grupo. Esta possibilidade existe em um Estado democrático por conta de uma possível aceitação destes ideais pelo fato de seus governantes terem sido empossados através de sufrágio. É um ponto a considerar e sempre válido. O uso do poder. ele deveria ter condições de conviver adequadamente com outros grupos. A cidade A agricultura fixou o homem a terra e foi o primeiro passo para a criação das cidades. pois se o ser humano é múltiplo. o ser humano é múltiplo por natureza e quando não encontra um pensamento adequado ao seu. essa multiplicidade é contraditória em si. Democracia deve ser entendida como um equilíbrio entre os diversos segmentos da sociedade. mesmo que fossem divergentes de seus pensamentos. No entanto. Realmente. o que daria legitimidade para seus atos. pela própria faina diária e pelo relativo distanciamento caius_c 53 . No entanto. Para o Estado existe o risco de que uma tribo se aposse do poder e o utilize como fonte apenas de suas prerrogativas.

Essas povoações. os clãs tentaram apossar-se de seu controle. 4 caius_c 54 . Quando isso ocorreu. isso não seria suficiente para que ela se criasse por si. essas povoações surgiram embasadas em alguma atividade econômica. do agrupamento das tribos. Ela nasceu. Por não terem ainda uma estrutura de comando. baseada em uma religião comum. Fratria é um termo antropológico para uma divisão de parentesco constituída por dois ou mais clãs distintos na Grécia pré-clássica. sendo chamadas de cidades. A cidade era uma confederação. sendo que algumas surgiram como ponto de parada ou apoio para comerciantes e exploradores. FUSTEL DE COULANGES sustenta que a cidade não cresceu como um círculo que se estende. sendo obrigada a respeitar a independência religiosa e civil das tribos. de forma planejada. é que as cidades foram surgindo a partir de entrepostos comerciais ou pontos de trocas de mercadorias. podemos chamar esses agrupamentos de povoações. Cada tribo era constituída por várias fratrias. na qual os elementos familiares não subsistiam e nem os da tribo.social e territorial em que vive o agricultor.55 O mais provável. De qualquer forma. se expandiram e tornaram-se centros econômicos. das fratrias4 e das famílias. Outros podem ter surgido debaixo de uma propriedade patriarcal que admitiu a convivência de outras pessoas que não eram de seu círculo familiar. Para isso se valeram da sua já estabelecida hierarquia patriarcal.

56 MC ANDREW. Sendo um centro econômico. o costume e a forma direta de autoridade eram suficientes para manterem as regras sociais. o homem passou a ter sentimentos de posse sobre o mesmo. Cada cidade circunscreveu um território por onde estendia seu domínio. pois. devido a sua maior complexidade. A base psicológica para os sentimentos de nacionalidade e soberania nada mais é que o da territorialidade. nestes casos. as cidades passaram a ser vítimas de assédio por parte de outros povos. passaram a ser regidas por leis diversas daquelas que atendiam os clãs ou tribos. Estabelecido em um local. Desse fato nasceram as fronteiras. Essas normas derivativas do poder patriarcal foram o prenúncio remoto do estabelecimento do Estado.57 As cidades. Alem do controle econômico. caius_c 55 .baseada em cultos religiosos. citando Sack. isso implicava em controle das normas e regras a vigorarem na cidade. o que formou sentimentos como nacionalidade e soberania. Isso originou o aparecimento das fortificações e do enclausuramento da população dentro de limites geográficos. define este conceito como sendo a tentativa de influenciar e controlar as ações alheias através de reforço sobre uma área geográfica e sobre os objetos nela contidos.

porque produz submissão e induz ao cumprimento de determinações sem qualquer questionamento.Nelas o mando direto não era mais suficiente. Para que ela se estendesse a todos foi necessário criar as instituições. Esta homogeneidade visa atender interesses da classe dominante. parte por causa da diversidade de culturas da população e parte por sua maior quantidade de pessoas. É composta de êxtase face às demonstrações coletivas do Estado e subserviência aos caius_c 56 . onde a expressão da individualidade é considerada como afronta direta à sua estabilidade. A massa assume uma identidade única. cuja função principal era fazer com que essa autoridade fosse disseminada de forma eficaz entre todos. O seu tamanho já não permitia a aplicação direta da autoridade. Massa e identidade Dentro da sociedade podemos considerar para efeito de estudo do Estado dois fenômenos: massa e identidade. A produção de um pensamento e comportamento único faz parte do controle que o Estado exerce sobre o indivíduo. onde todos aqueles que a compõem pensam e comportam-se de maneira homogênea. A massa ocorre porque não existem elementos de comparação. Massa é uma sociedade que age de forma padronizada.

passa a fazer parte do indivíduo. O elemento repressor que se acredita que deveria ser de exclusiva atribuição do Estado. quando se trata de perda de identidade social. enquanto que os segundos valem-se de formas mais avançadas de controle de pensamento. quase divino e que seus integrantes são a expressão dessa divindade. Ela acredita que o Estado é um ente superior. pois ele passa a entender que seu uso lhe foi delegado pela classe governante. pode ser transformado em mal e inútil. Os objetos da crença podem ser mudados facilmente. Os ditos democráticos também utilizam esta forma de controle. O que antes era considerado bom e necessário. A diferença principal entre os dois é que os métodos dos primeiros são mais diretos. A identidade registra uma coesão social parecida com a da massa. Suas ações podem ser direcionadas de acordo com as pretensões do Estado. pois o indivíduo assume-se como caius_c 57 . A massa se vigia e se policia. notadamente através da mídia. mesmo que sejam opostos entre si. Ela não admite quebra de identidade e os infratores são punidos pelas distorções que apresente face a ela. A massa é facilmente controlável.seus ditames. Não são apenas os regimes totalitários que se beneficiam da massificação social. pois a memória é sobreposta por novos conceitos que fazem perder o sentido dos antigos.

Nestes casos.parte do grupo. podendo provocar cisão permanente. A repressão existe apenas quando a discordância de um foge da lógica racional do grupo. A identidade é a meta de um Estado democrático. A principal diferença é que ele pode ser uma voz ativa interferente no comportamento ou pensamento dos demais. A busca da homogeneidade é feita com base em acordos ou entendimentos. É um controle que parte da premissa de que o sistema está racionalizado de forma construtiva e que seu entendimento é comum ao grupo. Ela estabelece uma efetiva relação de direito-dever entre governantes e governados. O controle da identidade é feito através da aceitação pelo indivíduo daquilo que ele entende como adequado para si e para os demais. é o próprio grupo que usa sua força contra o indivíduo. Ela é considerada apenas como último recurso. Ela promove uma interação entre os mesmos de forma a atender os objetivos que lhes são comuns. A identidade parte do princípio de que o indivíduo é construtor de seu meio social e que suas ações estão pautadas na busca de um bem social coesivo. inexistindo um confronto pessoal e sim de idéias. caius_c 58 . sendo impingida através do raciocínio lógico e sentimentalização.

As principais teorias são: a) b) c) d) e) f) g) Evolução natural Contratualista Uso da força Constitucionalista Histórica Dos três elementos Das causas econômicas ou patrimoniais caius_c 59 .O nascimento do Estado “É inútil confiar-se na virtude de alguns indivíduos ou de grupos de indivíduos.” (Bertrand Russel) 58 Existem muitas teorias sobre o aparecimento do Estado ou sua constituição. Diversos pensadores e filósofos tentaram descrever como teria sido sua formação.

Para ARISTÓTELES houve uma evolução natural para constituição do Estado partindo da família. visto que o todo deve. sua lei inicial e elemento comum a todos. no qual um patriarca ou pai de família comanda os demais.61 Na ordem natural. Fustel afirmava que o princípio constitutivo da família foi a religião e que esse elemento foi a primeira amálgama das cidades. obrigatoriamente. o Estado sobrepõe-se à família e a cada indivíduo. 63 5 6 Literalmente. No entanto.62 FUSTEL DE COULANGES diz que a família foi o primeiro embrião do Estado. Sua forma expandida é o clã.59 A primeira sociedade constituída de muitas famílias foi o burgo. ser posto antes da parte. porém não diária.Teorias da evolução natural Alguns pensadores acreditaram ou acreditam que o Estado surgiu de maneira natural em função da reunião de famílias em torno de um objetivo comum. que visava a utilidade comum. tirando o pão da mesma arca Literalmente. cuja função seria a de atender as necessidades diárias do indivíduo – os homo pyens5 ou homo capiens6. que comem da mesma majedoura caius_c 60 .60 A sociedade formada por inúmeros burgos constituiu-se uma cidade completa. A união dos clãs gerou a cidade. com todos os meios para se prover a si mesma.

as quais.”66 caius_c 61 .64 ROBERT LOWIE diz que o Estado é um germe. O máximo elemento controlador dessa estrutura seria uma assembléia ou um homem – “A única maneira de instituir um tal poder comum. mediante seu próprio labor e graças aos frutos da terra. em seu livro Leviatã. Quando atingem certo grau de complexidade. afirma que os homens deram-se conta do estado de anarquia em que viviam e abdicaram de parte de sua individualidade para a formação de uma hierarquia que pudesse instaurar a ordem. prescindem dele quando se mantém na forma simples e pouco desenvolvida. é conferir toda sua força e poder a um homem. garantindolhes assim uma segurança suficiente para que. todavia. possam alimentar-se e viver satisfeitos. que possa reduzir suas diversas vontades. 65 Teorias contratualistas As teorias contratualistas partem do princípio de que existiu em alguma época remota um pacto entre os homens para formarem os Estados. a uma só vontade. por pluralidade de votos. cada família primitiva se ampliou dando origem ao Estado. o Estado se constitui de forma espontânea.Para ROBERT FILMER. uma potencialidade. ou a uma assembléia de homens. THOMAS HOBBES. capaz de defendê-los das invasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros. em todas as sociedades humanas.

civitas caius_c 62 . 7 Em latim. e a guerra civil é a morte. o Estado era um monstro artificial. juntas artificiais. GROTIUS acredita que foi por simpatia recíproca. Por último. para cuja proteção e defesa foi projetado. ligados ao trono da soberania. Salus Populi (a segurança do povo) é seu objetivo. a justiça e as leis. os magistrados e outros funcionários judiciais ou executivos. embora de maior estatura e força do que o homem natural. através dos quais todas as coisas que necessita saber lhe são sugeridas. ou Cidade7. falar e escrever. são a memória. abdicando de todos os direitos.”67 SPINOSA forma opinião de que os homens foram forçados a pôr termo ao estado de natureza em que viviam e fizeram um pacto entre si. a recompensa e o castigo (pelos quais. os conselheiros. que fazem o mesmo no corpo natural. a sedição é a doença. exceto os de pensar. E no qual a soberania é uma alma artificial. uma razão e uma vontade artificiais. todas as juntas e membros são levados a cumprir seu dever) são os nervos. os pactos e convenções mediante os quais as partes deste Corpo Político foram criadas. que não é senão um homem artificial. a riqueza e prosperidade de todos os membros individuais são a força. a concórdia é a saúde. reunidas e unificadas assemelham-se àquele Fiat. descrito assim: “Porque pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado. ao Façamos o homem proferido por Deus na Criação.Para ele. pois dá vida e movimento ao corpo inteiro.

uma soma de forças que possa arrastá-los sobre a resistência. senão formando. inicialmente.” 69 Teorias do uso da força As teorias do uso da força como criadora do Estado dizem que ele somente nasce com a anexação de grupos por outros e que esse conjunto que se forma passa a denominar-se Estado. também. sobre as forças que podem ser empregadas por cada indivíduo a fim de se manter em tal estado. e o gênero humano pereceria se não mudasse sua maneira de ser.PUFFENDORF afirma que o Estado se estabeleceu por conta do receio dos homens maus pelos homens bons.68 JEAN JACQUES ROUSSEAU afirma. O Estado. por sua resistência. Então esse estado primitivo não mais tem condições desubsistir. de um contrato social. mas apenas unir e dirigir as existentes. como é impossível aos homens engendrar novas forças. com caius_c 63 . GRUMPLOWICZ diz que o Estado é produto da subjugação de um grupo social pelo outro. por agregação. prejudiciais à sua conservação no estado natural. Ora. – “Eu imagino os homens chegados ao ponto em que os obstáculos. para se conservarem. pô-los em movimento por um único móbil e fazê-los agir de comum acordo. que os homens uniram-se para formar o Estado através de um pacto. foi uma forma de defesa constituída para que pudesse estabelecer uma paz social entre os indivíduos. não lhes resta outro meio. os arrastam.

baseandose na idéia de que a coação seria necessária para que o homem tivesse uma atitude socialmente correta.72 Para PIOTR KROPOTKIN. o Estado passa a existir quando constitui lei que seja para todos. Para CARRÉ DE MALBERG.estabelecimento de uma organização que permita essa dominação. Para eles.73 Teoria constitucionalista Alguns autores têm uma visão essencialmente jurídica sobre a criação do Estado.71 Outros como LESTER WARD e CORNEJO aderem à essa idéia de que os Estados foram formados pela violência e dominação de um grupo sobre outro. O que determina a existência do Estado é o momento em que caius_c 64 .70 OPPENHEIMER expressa-se da mesma forma que Grumplovicz. o Estado somente passa a existir quando se estabelece uma constituição ou lei maior que o rege. Para ele o estado foi criado para regular as relações entre vencidos e vencedores. o Estado só apareceu quando as relações de propriedade dividiram a sociedade em classes reciprocamente hostis. reafirmando que nenhum Estado nasceu senão pela força. com conseqüente exploração econômica deste sobre o outro. O Estado impediria a hostilidade fazendo as classes pobres obedecerem as mais ricas. Para ele pouco importa o modo como o poder se formou ou como são designadas as pessoas que o exercem.

BLUNTSCHI afirma que a origem dos Estados pode ser estudada de duas maneiras: a primeira é através da sua história e a segunda é através da especulação sobre sua formação. 3) Modo derivado é aquele em que a criação do Estado se dá pela influência externa ou de outros. exercendo o poder através de órgãos especializados.75 Segundo ele. Teoria dos três elementos Essa teoria parte do princípio de que o Estado surgiu somente quando os povos se tornaram caius_c 65 . nascendo da população e do país. do ponto de visto histórico: 1) Modo originário é aquele em que a formação é totalmente nova. 74 Teoria histórica A teoria histórica não busca uma explicação geral para a formação do Estado. sem a preexistência de um Estado 2) Modo secundário é a formação do Estado pela união de outros Estados para a formação de um novo ou seu fracionamento para formar outros.a coletividade estatal se organiza. três são os modos pelos quais os Estados se formam. de forma bastante particular. a origem de cada um deles. Ela procura detectar.

portanto. é a criação de uma "ordem" que legalize e caius_c 66 . Segundo HAURIOU.77 Para HELLER. seria impossível que qualquer sociedade nômade estabelecesse uma organização que fosse além da família ou do clã. 79 Para MARX. um órgão de submisso de uma classe por outra. Visto desta forma.sedentários. Sendo o Estado composto de povo. assim como as instituições. No instante em que todos os seus componentes estivessem presentes.O estabelecimento de famílias ou clãs dentro de um território permitiu que as relações se firmassem e que uma organização comum fosse criada. a origem do Estado seria sua própria definição. integrando-se as diferentes atividades profissionais.78 PREUSS sustenta que a característica do Estado é a soberania territorial. patrimonial. a posse gerou o poder e a propriedade gerou o Estado. território e governo. 76 Teoria das causas econômicas ou patrimoniais PLATÃO supõe que o Estado tenha sido formado para que os homens aproveitassem os benefícios da divisão do trabalho. o Estado é um órgão de dominação de classe. a civilização começou com a fixação do homem na terra. sua constituição seria automática.

é o Estado”.81 Análise das teorias de formação do Estado As teorias contratualistas parecem mais convidativas porque evocam sentimentos que julgamos comuns a todos. que sai da sociedade. não se entre devorassem e não devorassem a sociedade numa luta estéril. porém. para não viverem mais em seu estado natural.80 ENGELS diz que o Estado é um produto da sociedade numa certa fase do seu desenvolvimento. por cima dela e dela se afastando cada vez mais. sentiu-se a necessidade de uma força que se colocasse aparentemente acima da sociedade. com o fim de atenuar o conflito nos limites da "ordem". ao contrário. É a confissão de que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna. ficando. resolveram estabelecer um acordo entre si onde restringiram suas liberdades e concederam poderes sobre si para alguém que deveria cuidar do bem comum. se dividiu em antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se. amortecendo a colisão das classes. a ordem é precisamente a conciliação das classes e não a submissão de uma classe por outra. e não arrancar às classes oprimidas os meios e processos de luta contra os opressores a cuja derrocada elas aspiram. Essa força. atenuar a colisão significa conciliar. Para os políticos da pequena burguesia. com interesses econômicos contrários. caius_c 67 . Mas.consolide essa submissão. para que essas classes antagônicas. Os homens.

por natureza. Por conta dessa natural tendência em nos associarmos. ao tempo em que uma enorme massa foi ficando na indigência. tem muitos elementos 8 1743-1793 caius_c 68 . essa agregação social ainda está numa fase animal onde a reunião é feita apenas com propósitos de poder. Podemos dizer que o Homus sapiens. acreditamos que. Aristóteles afirma que é um animal político e que. um animal social.” 82 O homem é. no Homus sapiens. também. a falta de todo freio ao aumento das fortunas fez com que uns enriquecessem a custa de outros e que um pequeno número de famílias acumulasse riquezas. dominação ou pura sobrevivência. aquele que não vive com outros homens é um ser superior ou vil. vivendo em terra ocupada por outros e sem poder apropriar-se de nada. embora seja um animal social. “admitia a tese contratualista afirmando que os homens se reuniram em sociedade para garantir-se seu direito. seria natural que os homens se reunissem sobre o comando de um só ou de uma assembléia. mas observava que através das gerações.JEAN PAUL-MARAT8. Um dos fatores de sobrevivência do Homus sapiens foi usar a agregação social como forma de sobrepujar outros animais. O atual sentimento de grupo pode ser comparado aos das manadas: um animal social usa a manada para seu exclusivo beneficio. Porém. ensinado por Zaffaroni.

a sociedade funciona à base da coerção e não da coesão. pela coerção social. sua sobrevivência física depende da manada e ele a usa para seus fins. O seu comportamento passou a ser direcionado e dirigido pelas normas de conduta criadas para conter a natural agressividade do homem. esse contrato social que determinaria posições de cada indivíduo dentro de uma sociedade na qual poucos levam todas as vantagens. em grande parte. parece até pueril. Ao fazer isso.sociopatas9. A partir do momento em que as tribos se expandiram. Para o Homus sapiens. ou seja. Posto isso. a coesão social foi substituída. O sentimento gregário existe como forma de defesa individual e não como elemento de agregação social. O conceito de viver em sociedade passou a ser definido como forma de dominação e isso deixou no inconsciente humano um paradoxo: para viver bem é preciso seguir as regras mas seguindo as regras ele se deixa subjugar pelas classes dominantes. As teorias de evolução natural de um núcleo básico – a família – para formas expandidas como o clã 9 Este termo não é reconhecido oficialmente pelas ciências do comportamento caius_c 69 . as classes dominantes se apropriaram das fórmulas do convívio social e as modificaram com o propósito de manterem as camadas sociais sob seu comando.

As teorias da evolução natural esbarram em outros pontos que as tornam quase impraticáveis. depois. Apesar da família ser considerada como núcleo da sociedade. ao acreditarmos que essa geração foi fruto de uniões de clãs em comum acordo. A maioria das cidades nasceu como ponto de abastecimento para exploradores. É certo que as cidades nasceram como núcleos de necessidade social. caímos no mesmo problema que envolve os contratos sociais: a idealização de uma união através de acordos espontâneos entre os homens. tornando-se. agrupamentos sociais efetivos. sua afinidade com a cidade-mãe as tornavam aliadas naturais. mas. quando se mostraram seguras. principalmente de comércio. militares ou comerciantes. isso era altamente significativo. o que ampliava o poder político e territorial de suas criadoras. visando apenas seu bem comum. No Brasil. Apesar de serem independentes.e a associação destes para formar a cidade ou o Estado encerram as mesmas questões das teorias do contrato social. visto que era uma forma de avançar lentamente e com segurança através do interior de um país que desconheciam. Fustel de Coulanges sustenta que as cidades gregas e romanas foram criadas a partir da necessidade de outra cidade ou de um grupo. os bandeirantes utilizaram esse método com freqüência. Em um mundo de cidades-estado. sendo chamadas colônias. ela não é um agrupamento social visto que não pode se expandir alem dos limites de procriação do caius_c 70 .

sendo vedada qualquer aproximação entre os seus. A diferença de população entre um e outro obrigou a extrema militarização de Esparta onde cada cidadão era um soldado e vivia sobre as regras rígidas do Estado. A questão é qual do patriarca desses clãs abdicaria de seus poderes totais até então.casal. O horror natural que temos do incesto impede que exista essa expansão. para converter-se em subordinado de outro. apesar se fazerem parte do território de Esparta. junto com toda sua gente. mas não a existência do Estado em si. As teorias da força agradam aqueles que acreditam que o ser humano é um predador selvagem e que utiliza seus semelhantes para fins próprios. Essas teorias explicam a formação de impérios. Um exemplo histórico muito claro é a subjugação dos messênios pelos espartanos que. O clã se depara com o mesmo problema porque. A alternativa é que sejam buscados pares em outras famílias ou clãs distantes. para que exista reprodução saudável. A anexação de tribos ou clãs por outras através do uso da força implica em submissão ou escravidão da vencida e não sua integração ao meio social. Há de se convir que uma guerra de anexação exige uma liderança que esteja embasada em um agrupamento social que tenha caius_c 71 . tinham como única função prover o sustento da mesma. é necessário que as partes não tenham consangüinidade. Isso poderia ser um elemento que geraria fusão entre eles e que poderia ampliar-se em uma forma mais ampla de sociedade.

limitando seus poderes e concedendo direitos aos seus nobres. todos os Estados totalitários cuja linha mestra legal é a vontade de seu ditador. somente tiveram seu início. As que assumem o Estado como concepção jurídica. segundo alguns autores.os requisitos básicos que admitimos como essenciais à existência do Estado como povo. da Inglaterra. Descartar-se-ia também. em 1215. As teorias históricas são condizentes para aqueles que desejam estudar a formação de determinado país ou Estado e que deseja ter um ponto qualitativo de transformação dessa sociedade. como as entendemos. Elas não explicam a formação de modo geral do Estado em si Magna Carta Libertatum seu Concordiam inter regem Johannen at barones pro concessione libertatum ecclesiae et regni angliae (Grande carta das liberdades ou concórdia entre o Rei João e os Barões para a outorga das liberdades da Igreja e do rei inglês) . Esta carta foi a primeira força coercitiva do poder absoluto. visto que todos os agrupamentos sociais dispõem de códigos de conduta e coerção. com a assinatura da Magna Carta. qualquer tribo é merecedora do título de Estado. Se entendermos constituição como um conjunto de leis. 10 caius_c 72 . admitem que ele somente é criado a partir do estabelecimento de uma constituição ou leis que gerenciem o território e o povo. As constituições. território e governo.10 por João Sem Terra. mesmo que não sejam escritas. nessa idealização jurídica.

utilizado pelas classes economicamente dominantes para submeter o resto da população. Supor que todo e qualquer Estado surgiu por conta da dominação de um grupo sobre o outro impediria qualquer tentativa de democracia. dispõem dessas qualidades. Todas essas teorias. social e juridicamente. dirigida por um governo que possui soberania reconhecida interna e externamente. pois elas. de sentimentos classistas. ocupando um território definido.Estado é uma instituição organizada política. É mais uma regra para estudo do que uma teoria. exceto as nômades. nos remetem ao começo desse livro e procura na definição de Estado a busca pelos seus primórdios . sugerem que o Estado subsiste apenas como elemento controlador da população. Mesmo as que não estão. na maioria. A teoria dos três elementos é bastante limitativa pois confere apenas as três qualidades essenciais do Estado que são povo.mas apenas a de determinado país. caius_c 73 . os indivíduos da classe dirigente são escolhidos pelo povo. As que invocam a economia e a patrimonialidade como origem do Estado estão eivadas. visto que nesta forma de governo. Isto pode explicar a atuação do Estado mas não sua origem. território e governo. que não explicam satisfatoriamente a formação do Estado. Isso também nos remete ao problema de considerarmos uma tribo como um Estado.

Nas sociedades com baixa densidade populacional o mando é direto e imediato.Provavelmente. a formação dos Estados ocorreu por diversas maneiras. visto que não poderia estender seus poderes à população de forma efetiva. vida e morte dentro da história. esse mando tem que ser exercido através de instituições prédefinidas. a soberania e sua complexidade. Talvez os elementos mais importantes que definam. A soberania é o elemento que mantém coeso o conjunto do Estado face às pressões internas e externas. Modos de nascimento do Estado Os Estados têm um ciclo de nascimento. o Estado seja. além dos seus três elementos básicos. não existindo necessidade de nenhuma outra forma para que o poder seja exercido. É o sentimento materializado que amalgama todas as suas instituições para que trabalhem em torno de objetivos comuns ao mesmo tempo em que faz com que haja pouca ou nenhuma interferência de elementos estranhos a ele. A complexidade social é determinante para estabelecimento de instituições. cuja função é compartimentalizar o Estado e distribuir suas funções. de forma atual. Entende-se que eles podem caius_c 74 . Nas sociedades mais densas. cuja função é fazer com que ele flua até o comum cidadão. Um Estado moderno não sobreviveria sem elas. sendo inútil buscar uma única teoria para explicá-la.

Modo originário O Estado nasce da própria sociedade. etc. Modo secundário Modo secundário é aquele em que o Estado nasce da união ou divisão de outros Estados. guerras. 83 caius_c 75 . secundário e derivado. normalmente. A extinção do Estado pode ocorrer através das variadas causas como desastres naturais. conquista. é um líder carismático que consegue obter o poder através da confiança ou sujeição. como conseqüência da evolução natural da mesma. absorção por outro Estado. concessão dos direitos de soberania.surgir dos seguintes modos: originário. O catalisador destes elementos. Modo derivado É aquele que ocorre por força de movimentos exteriores tais como colonização. etc. Existem elementos aglutinadores provenientes da população que se amoldam para formar o Estado.

nação é um grupo de indivíduos que se sentem unidos pela origem comum. muitas vezes. no entanto. por um passado comum ou pela crença num comum destino.Nação Cumpre falar de nação. o conceito de nação como a manifestação de um povo através da História. por ideais e aspirações comuns. pois. mas não possui o elemento soberania. costumes e origem racial. Povo é entidade jurídica: nação é uma entidade moral no sentido rigoroso da palavra. Segundo definição de DARCY AZAMBUJA. uma nação pode ocupar ou não um território definido. esse termo é utilizado como sinônimo de povo ou país. 85 EDWARD MACNALL BURNS diz que nação é um conceito étnico. principalmente. em palavras simples. caius_c 76 . língua e a comunhão de vida criaram a consciência social. origem costumes.84 MANCINI define nação como uma sociedade natural de homens. pelos interesses comuns e. Pode até ser usando metafórica ou comparativamente. usado para designar um povo unido por laços de língua. 86 GONZAGA e DE CICCO traduzem. seu significado é bastante diferente.87 HAURIOU define nação como um grupo humano no qual os indivíduos se sentem mutuamente unidos. na qual a unidade de território.

Uma identidade própria é sua principal característica. A convivência de uma nação dentro de um Estado que não lhe seja próprio nem sempre foi pacífica. biológicos e outros. mantendo. os judeus espalharam-se por quase todos os países. e que desejam preservar suas características. sua religião e parte de seus costumes. Para ele. Por conta disso. O fracasso da revolta de Bar Kokhba contra o império romano determinou a expulsão dos habitantes da região em 132 a. que pode ser histórico. o conceito de nação está relacionado com a organização política do povo e sua personalidade jurídica. iniciado na metade do século XIX. O neocolonialismo. que foram elementos primordiais para manutenção de sua identidade como nação.c. no entanto. fundado em 14 de maio de 1948. 88 CELSO RIBEIRO BASTOS ensina que nação é um conjunto de seres humanos. bem como conscientes daquilo que os distingue dos indivíduos componentes de outros grupos nacionais. reunidos por conta de um aglutinante. cultural. 89 Talvez o exemplo mais claro de nação seja a dos judeus antes da formação do Estado de Israel. mão de obra barata caius_c 77 . pelas nações industrializadas e que buscavam fontes de matéria-prima.por laços tanto materiais como espirituais. A nação pode estar embutida no Estado mesmo que não identifique-se com outros grupos existentes dentro dele.

e mercado para seus produtos. que eram a etnia predominante em Ruanda.41% do território brasileiro. durante a Conferência de Berlim de 1885. dados pelos hutus. então sob o governo de Saddam Hussein. distribuindo territórios e população entre si. facões importados da China. tribos e nações. além de estupros generalizados contra as mulheres tutsis. lançado no final de caius_c 78 . por serem juridicamente consideradas como parcialmente incapazes. Seu povo está dividido entre a Turquia. Em 1988. Síria. historicamente antagônicas entre si. que representavam 12. em 2005. Algumas nações. outras 123 ainda estavam em processo de identificação e demarcação. produziu a divisão da África. No Brasil. Extermínios e chacinas foram a tônica predominante desde então. como as indígenas. Iraque. Segundo o relatório Povos Indígenas no Brasil. Azerbaijão. acredita-se que a nação curda é a etnia mais numerosa do planeta sem um Estado próprio. são protegidas pelo Estado que as englobou. matou cerca de cinco mil curdos. com armas químicas. Atualmente. existiam 488 terras indígenas demarcadas. Isso produziu revoltas contra essas nações dominantes ou contra governos estabelecidos por elas. Um dos mais tristemente célebres foi massacre dos tutsis pelos hutus. um ataque do exército do Iraque. Estima-se que morreram quase um milhão de tutsis com golpes de machetes. em 1994. Irã e Armênia. Etnias. Nesse período. foram juntadas em países artificiais.

As contínuas guerras entre elas e as mudanças de alianças que se permitiam. existiam 225 etnias no país. As cidades-estado gregas são o exemplo mais claro. embora sempre esteja submissa ao mesmo. Historicamente não precisamos ir tão longe para encontrarmos cidades-estado. Mesmo habitadas por povos que falassem a mesma língua e tivessem os mesmos costumes. território. Seria a forma mais básica de um Estado. A cidade-estado A cidade-estado foi a primeira forma efetiva de Estado como o conhecemos. a Itália estava pontilhada delas e a Alemanha foi palco dessa forma de governo até sua unificação. Fatos que podem ter contribuído para a criação das cidades-estado foram a distância entre elas e seu caius_c 79 .2006 pelo Instituto Socioambiental (ISA). soberania e complexidade estrutural. sua autonomia era evidente. Seus costumes devem se encaixarem dentro da legislação para que tenham algum valor jurídico. governo. Na Renascença. Cabe uma ação por parte do Estado se o seu modus vivendi afronta o direito. Seus limites podem estar dentro do Estado como extrapolá-los. indicam o grau de governo próprio que cada uma dispunha.90 O fenômeno da nação deve ser entendido dentro de uma definição sociológica. Dispunha de povo.

o declínio das cidades começou com a queda do Império Romano. abdicou do trono. o último imperador romano. As cidades decaíram e voltaram a ser postos de trocas ou de pequeno comércio. Isso contribuiu para que o feudalismo fosse a caius_c 80 . os vândalos saquearam Roma. No oeste. Esses dois fatores impediriam que houvesse uma unificação natural entre elas e um único governo. A conquista ou unificação sobre uma mesma liderança originou os reinos. Em 476 d.C. parte da Europa retraiu-se para uma vida agrícola em volta dos castelos feudais. Com o fim do poder central. de onde obtinham proteção em troca de servidão. estudos comprovam que o clima contribuiu para manter os alimentos escassos e população reduzida. Na Europa. Além da baixa tecnologia empregada na agricultura. mas continuou no leste até o século XV. O reino Por reino devemos entender o Estado que abrange diversas cidades.C. Em 455 d.domínio por oligarquias. Podemos considerá-lo como evolução das cidades-estado para a qualidade de país. Para que isso ocorresse deveria existir uma liderança que fosse comum a elas ou que houvesse conquista de uma pela outra. o império romano chegou ao fim... e que tenha um povo e governo comum. Romulus Augustulus.

1435. Essa situação vigorou até início da Idade Moderna. 860. 913. 1150. Estas cidades independentes. tal fato repetiu-se. Outros eventos. 1423. 1460. que estabeleciam tributos. agora chamadas comunas. Uma piora climática provocou períodos de fome. 1443. em 764. tiveram invernos frios e prolongados. libertaram-se do jugo do senhor feudal através da luta armada ou pagamento. elaboravam leis e mantinham a cidade defendida. 1205. passando a ser controlada pela burguesia florescente. começaram a planejar uma forma de governo. fizeram a vida florescente das cidades retroceder. 1299. Muitas das cidades. 1481 e 1491. com direito a prefeito e magistrados.92 Foi o retorno do velho conceito de cidadeestado grega. 1264. o gelo do inverno perdurou por toda a primavera e em 871. 1282. O período de 1257-1258 caracterizou-se por chuvas abundantes em toda a Europa. como em 1315-1317. que prejudicou as plantações. Os anos de 671. 1225. 1306. 764. quando as cidades ressurgiram e assumiram seu papel de centro controlador da sociedade. deu-se o que convencionou chamar-se de Renascimento desse período. 1074. com a fase conhecida como Renascença. 1408.forma padrão de governo. como a peste negra e guerras prolongadas. Um dos efeitos foi a renovação das cidades. que eram chamadas de burgos. Na Inglaterra.provocando fome geral. 1458.93 caius_c 81 . 1465.91 No século XII.

com anexações de territórios e povos correlatos 11 12 668-741 d. em 1066.C. como a Reconquista. com a morte de seu irmão Carlomano. caius_c 82 . no entanto. Nêustria e Borgonha. no entanto. Este último reunificou novamente o reino mas. durante o qual as terras invadidas pelos muçulmanos foram retomadas pelos cristãos. que governou entre 871 e 899. nome pelo qual é conhecido o período que vai do século VIII a 1492. o conceito de país começou a existir. esse período terminou em 1253. m. principalmente através de alguns fatos. Carlos Magno. o Breve. A unificação da França sob um único rei. o Grande. Carlos Martel11 expandiu seus domínios ao conquistar os reinos francos de Austrásia. O primeiro rei da Inglaterra considerado como tal foi Egbert de Wessex12. considerado por alguns como o primeiro rei da Inglaterra. embora seu título fosse de Bretwalda. Em Portugal.C. Em 732 d. impediu o avanço dos muçulmanos sobre a Europa ao vencer a batalha de Poitiers. Depois de sua morte. O título de rei surgiu com Alfredo.Nesse período.C. seu reino foi dividido entre seus filhos Carlomano e Pepino. o Conquistador. que pode ser traduzido como Sobressenhor da Bretanha. dividiu-o entre Carlomano e Carlos Magno.. Essa infraestrutura e padrão sobreviveram mesmo com a conquista da Inglaterra por Guilherme. ocorreu em 771. Esses países que se formaram ao longo do tempo. 839 d.

Mesmo tendo um comando único. através da organização ETA. Croácia. Como exemplo. as tentativas para que essa região se torne independente. A renúncia ao movimento armado. o reino precisa de identificação entre seus habitantes para se firmar como entidade própria. continua. Em 2006. Macedônia e BósniaHerzegovina. e que terminou em esfacelamento do Estado inicial. No entanto. Um reino é a consolidação de uma cultura sobre um território debaixo de um mesmo governo. ocorreu em 2006. carregando dentro de um mesmo reino povos distintos. obtiveram sua independência. que luta por sua independência desde o século XIX. com a aglutinação de povos com a mesma identidade sob um mesmo comando. O império A diferença maior entre império e reino é que este procura manter uma territorialidade baseada em povos caius_c 83 . Aqueles que assim não procederam. foram se fracionando ou então acabam enfrentando problemas para manutenção da unidade. a Eslovênia.sob o mesmo domínio são exemplos típicos de reinos. A antiga Iugoslávia é exemplo de reino estabelecido com diferentes povos e diferentes culturas. podemos citar o país basco. A formação da Europa deu-se quase nessa forma. de forma pacífica. sob domínio da Espanha.

Não busca integração entre povos mas sua submissão. foi unificada no ano 221 a. Fundada em 753 a. medida. Embora tenha diversas dominações de acordo com o seu período histórico. Alguns deles situam-se em posição intermediária entre reino e império. com registros que datam do século XVI a. pelos mitológicos Rômulo e caius_c 84 . a padronização dos sistemas de pesos.. que gera um sentimento de unidade.C.95 Essa unificação produziu um Estado central controlador de um povo cuja cultura era bastante homogênea. criação de províncias subordinadas ao Imperador.. Ele conquista para poder obter todas as vantagens para si. abolição dos sistemas legais próprios. A China. sistema legal e até largura de carroças. O império é voraz. produziu semelhanças entre a população e não diferenças. Sua unificação no século IV pelo clã Yamato transformou uma série de pequenos estados feudais espalhados pelas suas mais de três mil ilhas em um império nos moldes da China. Isso termina por produzir um tratamento isonômico a todos. Com o Japão não foi diferente.94 Embora composta por etnias diferentes.C.. Sua força reside na violência física ou econômica. etc. que tomou para si o título de Primeiro Imperador da China. o Império Romano é o exemplo mais antigo e conhecido de dominação.com identidade semelhante.C. que era composta de cidades-estado. moeda. por Qin Shi Huang Di.

com o intuito de buscar matériaprima e revender seus produtos industrializados.C. teve uma expansão acelerada nos séculos III e II a. HITLER expressa bem essa idéia de conquista em seu livro “Minha luta” – “Não tolereis jamais a formação de duas potências continentais na Europa. África e Ásia. não só um direito. Divisai em toda tentativa de formar. Espanha. que era a Europa. como um dever. tentaram dominar militarmente aquilo que haviam repartido teoricamente entre si. caso ele já se tenha formado. sob a égide do neocolonialismo. mesmo com o emprego de força armada. Itália e Japão. Japão e outros. a Inglaterra detinha sob seu jugo quase um quinto das terras do planeta. um dos impérios mais recentes é o inglês. As nações do chamado Eixo.Remo. e vede nisso. Durante o período vitoriano13. evitar a formação de um tal Estado. por todos os meios.. nas fronteiras alemãs. África e Oriente Médio. Estados Unidos. mesmo que se trate de um Estado apenas capaz de se transformar em potência militar. Podemos considerar a Segunda Guerra como o ápice do neocolonialismo. através de conquistas que iniciaram-se na Itália. Portugal. esparramando-se pela Europa. partiram em busca de territórios para si. Juntamente com ela. França. Nos moldes de dominação física. ou destruílo. de. Diligenciai para que a 13 1837-1901 caius_c 85 . uma segunda potência militar como um ataque contra a Alemanha. Alemanha.

retornou na forma greco-romana em alguns países. existiu uma experiência republicana na Inglaterra sob o comando de Oliver 14 URSS caius_c 86 . de forma oligarquizada. sim. em sua maior parte. Foi composta pelos países pertencentes ao Antigo Império Russo e perdurou de 1922 a 1991. reinado ou império. A antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas14 é o exemplo mais recente. visto que surgiu uma forma melhor de subjugar os povos: pela econômica. a dominação militar deixou de ter grande importância. visto que floresceu na antiguidade. No século XVII. como a Itália e Holanda. na Grécia e Roma antiga. em território na Europa. quando o comum era a forma tirânica. após a Idade Média. Disfarçado de inúmeras formas.”96 O império pode existir na forma de dominação militar-ideológica. Depois da Segunda Guerra Mundial.força de nosso povo não se baseie em colônias e. sempre como cidadeestado. A República Podemos considerar a república como um sistema de governo anômalo. Na Europa. o neocolonialismo sobrevive através desse novo meio.

com a coroação de Napoleão Bonaparte como rei da Itália. Em 1880 o regime monárquico foi definitivamente abolido e a forma republicana de governo foi confirmada. A Itália teve um breve período republicano entre 1802 e 1805. O alvorecer da República. não teve o apoio necessário da população e pereceu. iniciado em 1792 e findada com a tomada do poder por Napoleão em 1799. tendo como presidente Napoleão Bonaparte. A Terceira República foi proclamada em 1871. Deixou de existir em 26 de maio de 1805. na forma como a conhecemos. A monarquia foi abolida e o país teve uma experiência republicana entre 1649 e 1653. no calendário gregoriano caius_c 87 . quando transformou-se no Reino de Itália (1805-1814). A Segunda República.Cromwell15. 15 16 1599-1658 09 de novembro. deu-se com a Independência Americana em 1783 e com a Revolução Francesa em 1789-1799. Neste ano. ao qual se atribui a condenação à morte do rei Carlos I e sua decapitação em janeiro de 1649. entre 1848 e 1851. quando foi instituído o consulado. depois da derrota da França na Guerra Francoprussiana. A França viveu três períodos republicanos distintos: a Primeira República. Tornou-se novamente república após a queda de Benito Mussolini em 1945. Cromwell dissolveu o parlamento e tomou o poder como um ditador. com o chamado “Golpe 18 de Brumário”16.

restou sua constituição que serviu de base ou exemplo para as de outros países. Da República de Weimar. Nas Américas do Sul e Central. Esta primeira fase republicana durou pouco devido à instabilidade provocada pela falta de um governo que fosse consensual e que pudesse articularse entre a panacéia idealista que fervia na época. no entanto. dividida em Alemanha Ocidental e Oriental. assumiu a forma republicana naquela e comunista nesta. caius_c 88 . pelo Marechal Deodoro da Fonseca. Ela retornou em 28 de maio de 1926. na Alemanha. Após inúmeros combates contra as forças monarquistas. A quantidade de revoltas. Sobreviveu até 1933. produziu o termo pejorativo “república de bananas”. foi instaurada logo após a Primeira Guerra Mundial. foram instaladas algumas repúblicas após as guerras de independência. Com a reunificação das Alemanhas em 1990. com a subida de Hitler ao poder. que designou a maioria deles. Muitas delas serviram apenas para disfarçar o regime oligárquico ou tirânico imposto aos povos. após a Queda do Muro de Berlim. No Brasil. Portugal pôs fim à monarquia em 05 de outubro de 1910. as tropas republicanas conseguiram tomar o poder. a república foi instituída em 15 de novembro de 1899. Outras eram apenas fachadas para a dominação neocolonialista.A República de Weimar. quarteladas e mudanças de governos. ela adotou integralmente o regime republicano.97 Depois da Segunda Guerra. em 1918.

No dia seguinte. podemos destacar Diderot. retornou ao Rio. caius_c 89 . o major Frederico Sólon Sampaio Ribeiro entregou a D. Na França. na Idade Média. Afonso Celso de Assis Figueiredo. em Roma. Pedro II. na Grécia antiga. Podemos considerar a forma republicana como uma conquista de idéias iniciadas por teóricos como Platão. Pedro II uma comunicação. Deodoro iniciou o movimento que pôs fim ao regime imperial. o imperador tentou ainda organizar outro. cientificando-o da proclamação do novo regime e solicitando sua partida para a Europa. sob a presidência do conselheiro José Antônio Saraiva. que estava em Petrópolis. teve de ser antecipado. No dia 14. defendiam alguns de seus princípios. a fim de evitar conturbações políticas. na madrugada do dia 15 de novembro. D. O golpe militar. Pensando que o objetivo dos revolucionários era apenas substituir o Ministério. Visconde de Ouro Preto. foi solenemente proclamada a República. que estava previsto para 20 de novembro de 1889.que se tornou o primeiro presidente do país. na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Na tarde do mesmo dia 15. assim como por Cícero. Por isso. divulgou-se a notícia (que posteriormente se revelou falsa) de que era iminente a prisão de Benjamin Constant Botelho de Magalhães e Deodoro da Fonseca. Os revoltosos ocuparam o quartel-general do Rio de Janeiro e depois o Ministério da Guerra. Mesmo alguns absolutistas como Jean Bodin. Aristóteles e outros. Depuseram o Ministério e prenderam seu presidente.

dentro de uma sociedade que seja efetivamente voltada para o bem comum. disseminadas aos poucos através de uma sociedade que acreditava que os reis existiam por vontade divina. Estas idéias. No entanto. de certa forma. visto que não existe na maioria dos países.Condorcet. caius_c 90 . Auguste Blanc e Augusto Comte. Lamartine. vieram apenas no encalço de um dos sentimentos mais básicos do ser humano que é viver em liberdade. ainda pode ser considerada como um regime incomum. Podemos considerar que ela ainda está na sua infância. Rousseau. a República é fato recente na História humana e. Blanqui.

cujos alicerces serão as nossas necessidades. seu estudo nos fornece parâmetros para avaliarmos a necessidade humana de regulamentação social e.Estados idealizados “Construamos. que foi relativamente difundida no final do século XIX e início do século XX. também. como uma forma de vida ou pensamento. Nenhum deles se impôs por serem altamente idealizados. Anarquia Anarquia também é considerada como uma forma de governo.” – (Platão)98 Os Estados idealizados foram criados pela imaginação de autores que buscavam uma solução ou alternativa para os governos de sua época. também. No entanto. ou melhor. pois. vistos no contrapostos. dão uma boa visão dos governos das épocas em que viveram seus autores. uma cidade. uma forma de não-governo. ZÉLIA GATTAI caius_c 91 . Pode ser considerada. em pensamento.

dirijo-me a este ou àquele cientista.“Decorre daí que rejeito toda autoridade? Longe de mim este pensamento. de um canal ou de uma ferrovia. seu caráter. apelo para a autoridade dos sapateiros. nem o arquiteto. 17 1814-1876 caius_c 92 . contra os interesses da imensa maioria subjugada”. Eu os aceito livremente e com todo o respeito que me merecem sua inteligência. graças a Deus”. se se trata de uma casa. Mas não deixo que me Imponham nem o sapateiro. seu saber. nem o cientista. Essas leis. mesmo emanada do sufrágio universal. Por tal ciência especial. seria a aceitação pelo indivíduo de leis que ele denomina como naturais. MIKHAIL BAKUNIN17 entende que o Estado é apenas uma forma de dominação imposta por uma classe sobre outra – “Numa palavra. reservando todavia meu direito incontestável de crítica e de controle. titulada. segundo ele. visto que acredita que a liberdade individual é mais importante para os homens .99 Seu maior expoente foi Bakunin. seriam inerentes a todos.expôs de maneira singela esse pensamento em seu livro “Anarquistas. oficial e legal. esses princípios. toda autoridade e toda influência privilegiada.” O controle social. consulto a do arquiteto ou a do engenheiro. convencido de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora. Quando se trata de botas. Ele rejeita a idéia de um governo central. rejeitamos toda legislação.

cujo personagem central é Sócrates. caius_c 93 . Estes últimos seriam escolhidos entre os guerreiros mais sábios. Todas elas seriam necessárias aos magistrados.Essa forma de viver sem um governo central é denominada anarquia. comerciantes e lavradores. Por tratar-se de uma filosofia atentatória ao poder dos governos. coragem e moderação. Ele acredita que três virtudes são necessárias para a cidade: sabedoria. o que aumentou a repressão contra os anarquistas. talvez. produzindo atentados e alguns assassinatos. uma república. a anarquia proposta por Bakunin e outros teóricos seja uma expressão de revolta do homem que quer libertar-se dos seus jugos e caminhar por suas próprias razões. Alguns de seus adeptos voltaram-se para a tomada dos governos baseados na premissa da violência. o tema central de seu livro é a justiça. foi reprimida e detratada por estes. constrói-se hipoteticamente uma cidade.C. de Platão100 Escrita no século IV a.. Como filosofia. a dos guerreiros e a dos magistrados. A República. Na forma de diálogo. coragem e moderação para os guardiães e moderação para o povo. Platão divide sua República em três classes: a dos artesãos.

na arquitetura ou em qualquer outra arte?” De certa forma. A primeira seria para que eles tivessem corpos saudáveis e a segunda para que pudessem ser pacíficos entre os seus. faria parte da cidade como um todo. Eles não deveriam possuir nada que não fossem objetos próprios. Platão propõe controle sobre as obras escritas e faladas. Essa mentalidade se avança para o plano moral quando ele recomenda que os que têm alma perversa e sejam incorrigíveis sejam condenados à morte pelos juízes. Para ele. a incontinência.“Mas bastará velar sobre os poetas e obrigá-los a não introduzirem nas suas criações senão a imagem do bom caráter? Não devemos vigiar também os outros artesãos e impedi-los de introduzirem o vício. elas deveriam servir como fonte de exaltação e exemplo das virtudes para os cidadãos. principalmente os jovens. . Os que têm corpo enfermiço ele recomenda que se deixe morrer. ele propõe controle sobre a vitalidade da população através da eugenia. Platão propõe que existam casamentos coletivos entre os guardiães e as melhores mulheres de sua República – “Todas as mulheres dos nossos guerreiros caius_c 94 . Suas necessidades deveriam ser supridas pela cidade. a justiça.Uma quarta virtude. a baixeza e a feiúra na pintura dos seres vivos. Para os guardiães seria necessário dar uma educação que englobasse ginástica e música.

pertencerão a todos: nenhuma delas habitará em particular com nenhum deles. pois seria a única maneira de propiciar tratamento justo para os cidadãos e satisfazer suas necessidades. Da mesma maneira. ele menciona que a Filosofia e as habilidades políticas deveriam convergir para aqueles que estivessem no poder. Com o passar dos anos adquiriu o significado de algo extremamente idealizado e fantástico ou algo que desejamos e não poderemos alcançar. da sua República. Assim sendo. de Thomas More101 Thomas More ou Thomas Morus. os filhos serão comuns e os pais não conhecerão os seus filhos nem estes os seus pais. na sua forma latinizada. publicou sua mais famosa obra em 1516. caius_c 95 . A palavra utopia significa “lugar que não existe.” A educação dos filhos dos guardiães será de responsabilidade de amas especiais e viverão dentro de um bairro específico. por extensão. ela deve ser ministrada desde a infância para meninos e meninas. Ele acredita que ela definirá o caráter do cidadão e. Aqueles que forem julgados falhos de corpo ou caráter serão levados a paradeiro desconhecido e secreto. Por fim. Essa educação a ser ministrada é umas das grandes preocupações de Platão. Utopia.

independente do cargo. no livro homônimo de Thomas More. Suas leis eram poucas e inexistiam advogados. dividia seus bens e tinham o mesmo padrão de vida. Seus governantes eram escolhidos por votação e ficavam por tempo determinado no cargo. de trabalhar na agricultura por determinado período. Não existiam guerras e. era uma comunidade que vivia em paz. visto que eram grandes conhecedores das leis. eles preferiam contratar mercenários ao invés de enviar seus cidadãos para a luta. caius_c 96 .Originalmente. Todos tinham a obrigação. Se a população de uma excedia o limite estabelecido. As cidades eram planificadas e tinham as mesmas dimensões. quando elas aconteciam. pois os próprios cidadãos se defendiam nos tribunais. por pessoas de confiança. era uma sociedade que permitia a escravidão e a eutanásia. O adultério era punido com a escravidão e a simples solicitação de qualquer favor sexual era considerada como estupro. No entanto. pois se pretendia que o casamento fosse isento de qualquer engano. para aprovação recíproca. O primeiro passo para o casamento era mostrar a noiva nua para o noivo e vice-versa. seus habitantes mudavam-se para outras que pudessem comportá-los ou criavam uma nova.

Para os adeptos. As crenças seriam outro impedimento para que o ser humano prospere. liderada por um grupo de indivíduos que gerenciam as grandes empresas e que controlam a mídia e os políticos. embora a maioria adotasse a crença em um deus único. para eles. é apenas um “negócio”. nenhum deles valia. caius_c 97 . com economia baseada em recursos e não no sistema monetário. A religião era livre e cada um adorava seu deus particular. independente do impacto social e ambiental. O lema principal destes corporatocratas é a maximização dos lucros. Projeto Venus 102 O Projeto Venus é a mudança de padrões da sociedade atual para uma de alta tecnologia. que propaga suas idéias através de CDs e pela internet.Os utopianos não assinavam tratados com nenhum outro país pois acreditavam que os príncipes pouco os respeitavam e. O mundo. que é um termo alemão que significa espírito da época ou espírito do tempo. a quem denominavam pai. o mundo atual não está sendo gerido por governos e sim por uma corporatocracia. portanto. A mudança do atual sistema financeiro é o principal alvo do movimento. visto que ele acredita que qualquer evolução humana seria impossível dentro de suas premissas. Faz parte do Movimento Zeitgeist.

visto que a mídia transmite somente aquilo que os corporatocratas desejam. Uso de energia limpa como eólica. um sistema opressivo comandado pelas empresas. na realidade. o ser humano não cometeria mais crimes e. o movimento propõe que: 1) Sejam boicotadas todas as grandes instituições financeiras. 2) Usar a internet como principal fonte de notícias. fazendo com que ele voltasse todo seu potencial para a criação de melhorias para o bem comum. caius_c 98 . 5) Rejeição ao atual sistema político. Para alcançar essa nova sociedade. e 6) Juntar-se ao Movimento Zeitgeist. etc. a lei poderia ser extinta. Com o uso da tecnologia para solucionar os problemas humanos. a divisão equitativa dos recursos e com a sobrevivência garantida. 3) Boicote a toda instituição militar e nãoalistamento. portanto. por acreditar que a democracia que conhecemos é. geotérmica. permitiria que o homem se libertasse das atividades perigosas ou destrutivas do intelecto. 4) Boicote as companhias e formas de energia poluidoras. solar.O uso intensivo de alta tecnologia e seu acesso por todas as pessoas.

uma ilha do mar das Índias. tanto no plano espiritual como temporal. o que lhe valeu ter ficado preso por 26 anos. hoje Ceilão. perto de Taprobana. chamados Pon. nomes que equivalem a Potência. O Amor é o responsável pela organização da reprodução. buscando a excelência da prole. A Sapiência tem o governo de tudo que se relaciona com a paz e guerra.”103 A cidade do sol. Durante sua vida foi perseguido. Sua cidade do sol era dividida em sete círculos circundados por muralhas. Ele é auxiliado por outros três. A cidade é governada por um sacerdote supremo. Tommazo Campanella é considerado um dos mártires do livre pensamento. de Tommazo Campanella104 Nascido em 05 de setembro de 1568 e falecido em 1639. é comparada às de Platão e Thomas More. o Estado não faz nada. Hoh. Situava-se em uma planície sob a linha do equador. com autoridade absoluta. Sin e Mor. caius_c 99 . pois não há Estado. A Cidade do Sol. Sua obra.Uma sociedade justa e produtiva não precisaria de governos e o Estado seria extinto naturalmente – “Erradicado do mundo. A Potência preside os mestres da guerra e comanda os atletas. também chamado de Metafísico. Sapiência e Amor.

embora existam mecanismos que atenuam o castigo. pois.” (p. pelo tempo que o magistrado julgar necessário.Os cidadãos vivem sobre o regime da comunhão de bens e das mulheres. Os crimes cometidos são julgados pela lei do talião. certo que. punem também com a morte. em praça pública. Os primeiros artífices são todos juízes e punem com o exílio. A pena mais comum é a privação da mesa comum e proibição de acesso às mulheres e outras honras. cada um diz-se filho. todas as coisas são comuns. 18 "0 direito natural é aquele que a natureza ensina a todos os animais. a privação da mesa comum. sendo que nos homens os joelhos são descobertos e nas mulheres as togas os encobrem. Os crimes de injúria são punidos de forma discreta ou aquele que se julga imerecedor pode prová-lo na guerra pública. a proibição das mulheres. por direito natural. Tanto os homens como as mulheres usam roupas iguais. presididos por magistrados que impedem que um tenha mais que outro – “jus naturale est id quod natura omnia animalia docuit. a pancada. Antes dessa idade. A execução do condenado é feita pelo próprio povo. E.18 É. adquirindo o nome de pais depois da idade de vinte e dois anos. a desonra. próprias para a guerra. a interdição ao templo.51) Os habitantes chamam-se entre si de irmãos." caius_c 100 . quando os excessos são muito graves.

Tommazo lança um vitupério – “Estamos tão certos de que um sábio pode ter aptidões para o bom governo de uma república quanto vós. É uma modalidade de concúbito. de acordo com a astrologia e a idade de cada um. A masturbação é vista como falha grave e para evitá-la permite-se relações sexuais com mulheres grávidas. em épocas próprias para geração. 12) O trabalho. A ginástica é feita nos moldes da antiga Esparta e os atletas. desde que aprovadas pelo Grande Doutor da medicina. Os homens e mulheres unem-se de acordo com suas capacidades físicas. matronas e velhos mais idosos. pecuária e da guerra. Os mais aptos nos estudos são escolhidos para fazerem parte do corpo de magistrados. mentais e espirituais. Os homossexuais. Os magistrados aproveitam essa oportunidade para definirem os casais que deverão procriar entre si. que são escolhidos através de votação. Todos devem conhecer as técnicas de agricultura. que são determinadas pelos magistrados. estéreis. que preferis homens ignorantes.A educação é dada para os dois sexos de forma igual. julgados hábeis somente porque descendem de príncipes ou são eleitos pela prepotência de um partido. A reprodução é controlada.” (p. quando surpreendidos. no entanto. tanto homens como mulheres. a fazem nus. na qual só geram os melhores. é dividido de acordo com a capacidade física de cada sexo. Em um mundo governado por monarcas hereditários. são obrigados a conduzirem seus sapatos na cabeça caius_c 101 . embora possa ser comum.

Admitem a metempsicose da alma apenas uma vez ou outra. um sacerdote chamado Forense. e quem se mostrou desobediente é encerrado num recinto para ser devorado pelas feras. ao sair do corpo é acompanhada pelos espíritos bons ou maus. servos. Os chefes militares solares que foram vencidos em batalha são infamados e o soldado que primeiro fugiu é condenado à morte. conforme sua vida na terra. eles próprios das tarefas. por especial justiça de Deus. pondo-se-lhe nas mãos um bastão. Combatem aqueles que atentem contra a república.24) As leis do direito natural caius_c 102 . os solares fazem a guerra. Os reincidentes podem ser condenados à pena capital. a libertação dos aliados ou cessação da tirania. A astrologia é vista como forma de estabelecer ligação temporal e espiritual entre homem e céu. Acreditam na imortalidade da alma que. Não concedidos. Dessa forma. se vencer os ursos e os leões que o guardam. Os solares são guerreiros. para que peça a eles a restituição da presa. de forma que. – “É batido com vergas quem não socorre o amigo.durante dois dias. Os solares não costumam possuir encarregando-se. a religião e a humanidade. o que é quase impossível. eles se tornam os defensores do direito natural e da religião. primeiro.” (p. será novamente admitido na sociedade. como castigo. enviando. Ajudam seus vizinhos a livrarem-se de seus inimigos.

fomos criados com preciência e ordem. Tomazzo acrescenta em sua Cidade do Sol alguma tecnologia inexistente como carroças com velas e mecanismos nas rodas que facilitam sua locomoção. tendo nascido e estando vivendo por acaso. do sol e da terra. destinando-nos a um grande fim. em relação a Deus. mas. A luta de classes foi resolvida com a criação de um monopólio único que controla toda a indústria e comércio. a sociedade trabalha de forma justa. vai dormir no ano de 1887 e acorda em Boston no ano de 2000. do qual as coisas são instrumentos. e. entendidas para outro escopo. três meses e onze dias depois. em relação a estas. porque. mas somente à de Deus. de Edward Bellamy 105 O personagem central do livro de Bellamy. vivendo nós no seu ventre como os vermes no nosso. cento e treze anos. Juliano West. a mãe-terra. por isso. Não existindo mais a guerra de capitais e exploração do empregado. não pertencemos à providência própria das estrelas. caius_c 103 .são impostas às cidades subjugadas e seus filhos são educados na Cidade do Sol. mostra-se partidário da teoria de Gaia. Também.” (p. sob administração do povo. somos apenas uma sua amplificação.36) Daqui a cem anos. considerando o planeta como um organismo vivo – “Acreditam ser o mundo um grande animal.

Os governos não têm mais poderes bélicos. A nação é o único patrão. onde se adquire o produto e um armazém central remete o mesmo através de dutos pneumáticos. sendo que cada cidadão pode retirar nos armazéns aquilo que necessita. Aqueles que estão desclassificados para atuar no exército industrial e não tem habilitações especiais caius_c 104 . Os artigos. A nação assumiu todas as responsabilidades pelo capital. tecnologia. não sendo vendáveis. sendo esse contingente chamado de exército industrial. As lojas foram substituídas por armazéns de amostra. porém. As pessoas executam serviços de acordo com suas aptidões naturais. O general de cada corporação é eleito por sufrágio. As pessoas têm que prestar serviços nas indústrias ou serviços intelectuais durante certo período da vida. O merecimento do salário é feito com base moral. Os salários são pagos em forma de crédito. tendo. através de corporações. impedem a acumulação de bens pelo cidadão. teatro e instrução liberal. As escolas de medicina. A produção é controlada pelo governo calculando-se as necessidades de consumo. música. arte. o direito de nomear pessoas para os postos abaixo dele. nem partidos ou políticos. Os que não podem trabalhar como os deficientes físicos ou velhos recebem o mesmo quinhão dos produtos. são abertas ao ingresso de todos.

não existe a necessidade de dinheiro. Os monopólios foram extintos. visto que o motivo maior. não existe mais porque todos têm as mesmas oportunidades e comodidades. estando sujeitas a uma disciplina diversa daquela que rege os homens no exército industrial. do que qualquer das causas caius_c 105 . No entanto. a cobiça. talvez. A competição profissional entre homens e mulheres inexiste. elas não dependem dos maridos para sua manutenção. Os advogados não existem neste mundo de Bellamy e as leis são poucas. Bellamy. sendo que o preço é único em todos os países. o que resultou em uma produção isenta de valores adicionais. acreditando que as mulheres são inferiores em força e inteligência aos homens. tendo ganho próprio.trabalham como atendentes ou em serviços que não exijam habilidades. As nações trocam seus produtos através de secretarias. O desperdício de materiais e mão de obra foram eliminados. não existindo dívidas ou juros. Existem ranços de eugenia na obra de Bellamy – “Mais importante. Não existindo mais compra e venda. Cada uma define sua necessidade à outra. O sistema financeiro foi abolido. sendo que cada sexo compete somente entre si. reservalhes trabalhos que julga de acordo com sua capacidade. Os crimes são considerados atavismo.

de James Harrington107 James Harrington19 editou Oceana em 1656. cada uma com dois mil membros. Oceana era dirigida por uma aristocracia com poderes limitados. Esse país imaginário era composto de 50 tribos. Os representantes de Oceana eram escolhidos por voto. sendo que somente os chamados homens livres ou proprietários poderiam votar. O governo era composto de duas câmaras. Suponho que quando fizer um estudo mais completo de nosso povo. sem embaraços. as 19 (1611-1677) caius_c 106 . sobre a qualidade de duas ou três gerações sucessivas. chamada de Tribo Prerrogativa votava nos mesmos. são baseados em desempenho físico e intelectual do casal. encontrará nele não só melhoramento físico. apesar de serem escolhas individuais. como tendentes a purificar a raça. foi o efeito da seleção sexual. As eleições eram anuais. mas mental e moral. Os celibatários são aqueles considerados como inaptos para reprodução. sendo que o voto era secreto. Oceana. A educação era gratuita e compulsória para os homens. Uma delas era o senado composto por 300 proprietários que debatiam os temas e outra. Cada tribo era dividida em paróquias.” 106 Os casamentos.que eu mencionei então.

adota algumas das soluções de Thoreau e acrescenta outras.F.eleições eram indiretas e os mandatos por tempo limitados. O trabalho físico é obrigatório mesmo para aqueles cujas funções são de caráter administrativas e mantido num nível mínimo por razões psicológicas. Skinner. A sociedade idealizada por Skinner está baseada. Todos na comunidade devem envolver-se em trabalhos. segundo ele. Walden II. no que ele chama de engenharia comportamental. O número de horas trabalhadas é regulado pelo próprio indivíduo. social ou cultural. Walden II é uma fazenda coletivizada. enquanto que sua proposta era para “todos. a obra de Thoreau era para “um”. A riqueza pessoal inexiste. independente da idade. A população passa a maior parte de seu tempo em barracões climatizados onde suas necessidades são supridas pela própria comunidade.Skinner108 Seu livro foi baseado na obra de Henry David Thoreau intitulada Walden ou A Vida nos Bosques. sua proposta para padrões aceitáveis caius_c 107 . que propunha soluções individuais e o afastamento da sociedade para a realização pessoal. visto que. principalmente. na sua obra. de B. O contato com o exterior é limitado e o dinheiro foi substituído por créditos ganhos por horas trabalhadas. Grande teórico do behaviorismo.

social e psicológica. As crianças são mantidas sob supervisão contínua dos adultos até os treze anos. A vida cultural na comunidade é intensa. À medida que vão se ajustando.sociais deriva do condicionamento dado às pessoas desde seu nascimento. A pesquisa científica pura é relegada a segundo plano ao dar-se preferência para soluções advindas dos próprios usuários ou realizadores dos serviços. as dificuldades vão sendo aumentadas de acordo com sua capacidade. mas procura-se limitar o número de filhos. A comunidade fornece os meios para sustento do casal e para a educação das crianças. logo o mesmo não tem impedimentos para contrair matrimônio na adolescência. caius_c 108 . Neste período elas são ensinadas a controlarem emoções negativas através de um sistema de aborrecimentos e frustrações ao qual a criança é exposta. desprovida de modismos. Procura-se suprimri a família como unidade econômica. A educação ética é completada aos seis anos de idade e aos treze termina a supervisão contínua dos adultos e o controle de sua vida é transferido das autoridades para a própria criança e para outros membros da comunidade. A automação de atividades e uso de máquinas é considerada essencial para o bem estar do indivíduo. A procriação é incentivada logo após o surgimento da puberdade.

criaturas semelhantes aos homens. que cuidam da política. Não existem punições para os transgressores. são cavalos dotados de inteligência superior. não se conseguirá usá-lo com mais sapiência que seus predecessores. Os Hyhnhnm. sujos e indóceis. desconhecem caius_c 109 . É o retrato de seu tempo. principalmente em Lilipute. peludos. Os Hyhnhnm não possuem vocábulos para as palavras verdade ou mentira. revisam o trabalho dos Administradores e tem algumas funções judiciais. as demais são relatos onde a crítica de seu tempo se faz presente. visto que sempre falam a verdade. Seu contraposto são os Yahoos. onde a falta de qualidade das pessoas e suas intrigas políticas as fazem pequenas. o trecho mais conhecido. que executam o trabalho destinado aos animais. grosseiros. Em todas as sociedades que percorreu.Mesmo que se consiga ganhar o poder. apenas sanções. habitantes de uma ilha. três homens e três mulheres. exceto a Terra dos Hyhnhnm. Ele acredita que as ações políticas não são eficazes . de Jonathan Swift 109 Jonathan Swift traz algumas distopias em seu livro. Possuidores de poucas paixões.A comunidade é gerida por seis Planejadores. As viagens de Gulliver.

Apreciam poesia e gostam de declamar poemas. sem dar a ela uma conotação trágica.o significado de outras tantas palavras que os humanos tão usualmente usam. Encaram a morte como um fato de vida. tradição e cultura são transmitidas de geração em geração de forma oral. Pressentindo a morte. Embora envelheçam não têm doenças. Existe um sistema natural de casta onde os alazões brancos e cinzentos ficam em estado de servidão pois são considerados como inferiores aos baios castanhos. costumam despedir-se de seus amigos e parentes. Vivem em média setenta e cinco anos. Não existem livros no país. caius_c 110 . cinzentos ruços e pretos. O divórcio e a separação são permitidos porém não são colocados em praticados. visto que seus habitantes não sabem ler. À mulher compete cuidar do corpo e da saúde enquanto que o pai deve atende ao espírito e razão. A história. Os casais costumam ser fiéis por toda a vida. Os casamentos são regulados de acordo com as cores da pelagem e a conformação física dos pares. A castidade pré-nupcial é vista como fruto da razão e não de preconceito ou receio. A educação dos filhos é feita pelo casal. O mesmo tipo de educação é dado aos dois sexos.

evitando contato com seus semelhantes. para onde convergem deputados dos diferentes cantões. o segundo. Estas dualidades estendem-se à cidade de Roma. após a morte. A convivência com seres de elevado grau de racionalidade. de Santo Agostinho 110 A Cidade de Deus. por conta dessa fé. A Cidade de Deus contrapõe à Cidade dos Homens. ao retornar à Europa. que também tem dois planos: o primeiro compõe-se dos pagãos. o segundo é daqueles que. visto que entendem que seria impossível a um ser racional desobedecê-lo. torna-se quase um misantropo. situa-se me dois planos: o primeiro é a libertação interior do homem através da fé e da crença em Deus. caius_c 111 . é sua própria elevação aos céus. de Santo Agostinho.O governo do país é feito através de um sistema parecido com o parlamentarismo. os que renegam a fé cristã. Os decretos da assembléia geral são chamados de exortação. A Cidade de Deus. embora cristãos. não a vivenciam plenamente. Justifica-se sob o ponto de vista histórico o poder político-religioso dos papados. ética e moral produz tal repugnância aos homens que Gulliver. onde se compara a que vivia sob a égide dos deuses greco-romanos e que a vive agora sob a do deus cristão.

É uma forma. Alem dos filósofos. Constitui crença básica nestes autores que não se pode construir uma sociedade “perfeita” sem caius_c 112 .Ele busca aproximar alguns filósofos antigos com as verdades de seu tempo. A solução não se encontra nos padrões no qual vive o autor mas fora deles. de não contaminar o novo padrão com o antigo. também. Análise de idealizadas alguns pontos das sociedades Inexistem soluções para grandes comunidades. no caso de Skinner. ele acrescenta todos aqueles que viveram uma vida virtuosa. A Cidade de Deus situa-se mais no interior dos homens do que em outro lugar. a forma de encarar sua própria sociedade e buscar alternativas para seus males ou suas deficiências é o que determina a criação das imaginárias cidades ou coletividades afastadas. Estabelece-se uma ponte entre aqueles que acreditavam em um Deus único e criador supremo. com a religião cristã. Provavelmente. Ponto constantemente repetido nelas é a educação precoce das crianças ou condicionamento. Existe uma justificativa para o poder temporal desde que ele seja usado para incremento desta fé. No caso do Projeto Vênus o que se busca é a instituição de um novo comportamento social dentro da própria sociedade que consiga alterar a atual estrutura. ao isolar a sociedade que julga perfeita.

meu amigo. ainda que em todas seja mais fraca do que o homem. as responsabilidades e a responsabilização das classes dirigentes são sempre maiores do que as das demais. participe em todas as atividades. Ele acredita que deve ser ministrada a mesma educação para os dois sexos e que não se pode negar responsabilidades às mulheres. Sempre existe um sistema de castas onde algumas predominam. ao contrário. não há nenhuma atividade que conceme à administração da cidade que seja própria da mulher enquanto mulher ou do homem enquanto homem.” caius_c 113 . independentemente se eleitas ou não. Em todas elas existe detalhamentos de como esta educação deve ser conduzida para que o indivíduo sem torne um ente produtivo para a sociedade. mesmo as da magistratura. no entanto. As diferenças de classes parecem não ser possíveis de serem resolvidas em qualquer obra.que seus elementos sejam educados para isso. o controle das dirigentes pelas dirigidas. – “Conseqüentemente. Existe. assim como o homem. de Platão. Há sempre um prenúncio de um Estado Democrático de Direito em todas elas. Um prelúdio para a emancipação da mulher encontra-se na República. embora as considere inferiores. De maneira geral. as aptidões naturais estão igualmente distribuídas pelos dois sexos e é próprio da natureza que a mulher.

no caso de Thomas Morus. A eugenia visa criar uma casta ou nova espécie humana que sobrepuje ou.No entanto. sugerem que deva existir alguma forma de eugenia e controle da procriação e que isto é uma atribuição do governo. ou seja. O Projeto Vênus vai mais além e acredita que a tecnologia possa substituir a própria lei pois todos os dispositivos devem ser programados para impedir infrações. mesmo a de Skinner. parece óbvio que uma lei deva estar vigente para que todos os aparatos tecnológicos estejam dotados dessa capacidade. Algumas dessas sociedades “perfeitas”. com mínimas iniciativas. No Projeto Vênus. a condição das mulheres varia do servilismo ao igualitarismo subserviente. dando ao homem condições e tempo para poder prosperar intelectualmente. Os autores crêem que esta é uma forma de minimizar o trabalho braçal ou bruto. caius_c 114 . O controle da prole está ligado ao uso dos recursos existentes na sociedade. quase desprovidas de autoridade. Neste caso. No Walden II elas compõem o quadro dirigente mas ainda são vistas da mesma forma que na época do autor. talvez por ser mais recente. Nenhum autor conseguiu vislumbrar a igualdade sexual em suas obras de forma efetivamente completa. fazer com que o padrão físico e mental de cada par seja compatível com o do outro. não existe nenhuma referência que estabeleça alguma diferença entres os sexos. Ponto comum é o uso ou a busca de alta tecnologia dentro das sociedades.

Este Estado poderoso pode controlar a população através da formação de castas biológicas. o elemento controlador da sociedade é uma empresa ou algumas empresas. o isolamento. O uso da força e da propaganda maciça fazem parte deste controle.Distopias Distopia significa “lugar mau”. mental. espiritual e socialmente. as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. Uma distopia é o pensamento. Assim. e a sociedade mostra-se corruptível. a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utópica ou promove a vivência em uma "utopia negativa". a ideologia e a força são os recursos usados pelo Estado para manter seu domínio 20 1932 caius_c 115 . O gigantismo do Estado e seu total controle sobre o indivíduo é tema dominante nestas obras. ou seja. a tecnologia é usada como ferramenta de controle. caem-se as cortinas. uso de drogas e condicionamento intenso. Em algumas. seja do Estado. São geralmente caracterizadas pelo totalitarismo. de Aldous Huxley. de instituições ou mesmo de corporações. temor este representado nas assertivas do Projeto Vênus contra a corporatocracia. O homem é controlado em todas as suas formas. A propaganda maciça. física. Elas representam ou mostram o lado sombrio do Estado. como o “Admirável mundo novo”20. autoritarismo bem como um opressivo controle da sociedade. Nelas.

que evoluíram a partir das classes mais favorecidas e vivem na superfície.Wells. mostra a opressão de um Estado totalitário. Na obra de H. obrigadas a viverem em subterrâneos. contra o qual não existe possibilidade de luta e o uso de uma máquina oculta de repressão. enquanto que o resto da população tenta sobreviver com o pouco que resta. que se conflitam. e “A máquina do tempo”25. de onde emergem raças distintas. de George Orwell. de Pierre Boulle. pacíficos e amáveis. os escassos recursos são utilizados para manter a elite em um ambiente controlado e seguro.G.Wells. sujeita à violência do Estado. mostram mundos destruídos pelas guerras.G. de H. 21 22 1945 1948 23 1962 24 1963 25 1895 26 1974 27 1981 caius_c 116 . No romance “Não verás país nenhum”27. de Chico Buarque de Hollanda. de Ignácio de Loyola Brandão. como “O planeta dos macacos”24. e que tornam-se predadores dos elóis. os morlocks evoluíram a partir das classes trabalhadores. Algumas delas. é o tema dominante da “Laranja mecânica”23 de Anthony Burgess. Na de Pierre Boulle.na “Revolução dos bichos”21 e “1984”22. A união da violência do indivíduo e do Estado. os macacos evoluem em inteligência e os homens degradam-se na escala evolutiva. extrapolada através do uso de drogas. A “Fazenda modelo”26.

a um novo degrau de civilização. regido por governos totalitários e sem a possibilidade de qualquer direito humano. as distopias representam o medo do homem que acredita que a sociedade em que ele vive irá se deteriorar a tal ponto que o conduzirá a um mundo sem liberdade.Enquanto que as utopias buscam a sociedade perfeita. caius_c 117 . geralmente através da moral e da criação de uma nova sociedade. aquela que irá tirar o homem de um estado de necessidade e o conduzirá.

virando os olhos. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. Goethe!" "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!". anunciava-os: "Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo. com voz estentórica.Componentes do Estado “Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. dizia: "L'Anglaterre! Ah. Cervantes!" O porteiro: "Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo: "L'Allemagne! Ah. Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah. pareceu vacilar. com a mesma convicção. Efetivamente. Um porteiro. Victor Hugo. respondeu à homenagem do rotundo caius_c 118 . com o mesmo tom patético. com voz de dramático trêmulo. que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo.

notadamente quando se trata de assemelhá-lo com país. 113 caius_c 119 . Seus significados muitas vezes se confundem e se sobrepõe. DUGUIT entende que o elemento formal é o poder político da sociedade. os componentes do Estado são povo. sendo que o material é o elemento humano. BONAVIDES traz três conceitos diferentes de povo: político. A estes decidimos acrescentar soberania e complexidade. jurídico e sociológico. Vem do latim populu e do etrusco pupluna. que surge do domínio dos mais fortes sobre os mais fracos.senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah. território e governo. nação ou Estado. Soberania porque não tem sentido um Estado não ser autônomo ou ter capacidade para gerenciar seus elementos e complexidade porque ele tem necessidade de instituições para distribuir sua autoridade por entre a população. sendo que o elemento formal é o governo. 112 Outros autores admitem que os componentes materiais são povo e território. Povo Povo é uma palavra polissêmica. L'Humanité!"”111 Tradicionalmente.

são os súditos.No conceito político. dentro de um sistema variável de limitações. Do ponto de vista sociológico. é o grupo humano de indivíduos sujeitos às mesmas leis. existe uma equivalência do conceito de povo com o de nação. Ele também conceitua povo como sendo o conjunto unido por um sentimento de nacionalidade. os cidadãos de um mesmo Estado. sendo que o que determina quem dele faz parte é o direito. O povo é compreendido como toa a continuidade do elemento humano. considerada sob o aspecto puramente jurídico. povo é o conjunto de pessoas que fazem parte do Estado. povo é a população do Estado. 115 FILOMENO define povo como a parcela da população de determinado Estado que com ele mantém caius_c 120 . do processo democrático. Na definição de DARCY AZAMBUJA. É aquela parte da população capaz de participar. povo é a expressão do conjunto de pessoas vinculadas de forma constitucional e estável a um determinado ordenamento jurídico. através de eleições. Juridicamente. projetado historicamente no decurso de várias gerações e dotado de valores e aspirações comuns. segundo Bonavides. povo é o quadro humano sufragante.114 Para CELSO RIBEIRO BASTOS. que depende de cada país e época. que se politizou. gerada por alguma forma de identidade.

119 CANOTILHO assinala que. caius_c 121 . inclusive. não pode ser confundido com o todo.”118 DALLARI conceitua povo como o conjunto de indivíduos que. que compõem a sociedade. interesses e representações de natureza política. Ele também o define como o conjunto de cidadãos. Na realidade. sua nacionalidade naquele Estado. isto é. e sujeitos. grupos de pessoas que agem segundo idéias. povo é um dos componentes do Estado e. cabendo-lhe a designação particular de cidadãos quando participam da atividade soberana. quando submetidos às leis do Estado. nas democracias atuais. através de um momento jurídico.vínculos de natureza política. definida. além dos de natureza jurídica. recebem coletivamente o nome de povo. estabelecendo com este um vínculo jurídico de caráter permanente. 116 Para DE CICCO e GONZAGA. e o Estado. se unem para constituir o Estado. participando da formação da vontade do Estado e do exercício do poder soberano. o povo deve ser entendido em sentido político. dá-se à palavra povo o mesmo sentido de nação. Estado ou país. 117 ROUSSEAU diz que os “associados. povo é o conjunto de cidadãos que mantém necessariamente vínculos políticos e jurídicos. 120 Erroneamente. sendo parte.

O CARDEAL RICHELIEU28.121 Para ele. equipamentos e instalações de sua propriedade 29 28 caius_c 122 . estragam-se por um longo repouso muito mais do que com o trabalho”. comparou o povo aos animais de carga – “É preciso compará-los às mulas que. estando acostumadas à carga. banalidades31 e capitação32. praticamente só existiam duas classes: a nobreza e os servos. Além 1585-1642 Trabalho gratuito ao senhor feudal durante três ou mais dias da semana 30 Tributo pago ao senhor feudal para custeio da defesa do feudo 31 Tributo pago ao senhor feudal para uso dos bens. talha30. ARISTÓTELES define como cidadão aquele que tem capacidade para chegar à magistratura. Estes senhores feudais detinham o poder de cobrança de impostos e taxas que podiam ser de várias formas como a corvéia29.122 Na Idade Média. em seu testamento político. Os demais estão excluídos desta prerrogativa. aqueles que são obrigados a trabalhar para alguém são os servos e aqueles que trabalham para o público são mercenários e artesãos. sendo que estes eram totalmente destituídos de vontade própria e obrigados a trabalharem para seus senhores.Esse termo ainda tem certa conotação pejorativa quando figura como termo que define parte da população como aquela que não está vinculada ao poder ou que tem baixa capacidade econômica e ou cultural.

promulgando uma constituição em 1791. ou seja. passou a deter o poder econômico. com poucas armas mas com muitos ideais. existiu um forte combate a essa nova forma de governo na Europa. baseada nos ideais revolucionários. que permitia que continuassem a trabalhar nas mesmas terras. e apropriou-se do poder. principalmente por conta das novas tecnologias que começaram a surgir. que as classes sociais mais baixas tivessem o poder de destronar reis e. os que não eram nobres. A ascensão do povo ao poder. em 1793. A Revolução Francesa salvou-se na Batalha de Valmy. sob o jugo do mesmo senhor feudal. quando um exército esfarrapado. A burguesia que tinha sido povo. além de proclamar os ideais de liberdade. cantando a 32 Imposto pago por “cabeça” ao senhor feudal caius_c 123 . que culminou com a Revolução Francesa.dessas. No entanto. mal nutrido. existia o pagamento de taxa da mão morta pelos filhos de um pai falecido. fraternidade e igualdade. na época. ocorrida entre 05 de maio de 1789 e 09 de novembro de 1799. principalmente decapitá-los. deu-se por conta do crescimento econômico da burguesia. abolindo a servidão e os direitos feudais. como ocorreu com Luís XVI e sua esposa Maria Antonieta. Não se podia admitir.

conseguiu derrotar uma coalizão antifrancesa em Verdun. Embutido. que tinha sido o grande algoz dos monarquistas europeus. em 1804. Junto com eles seguiram os do Iluminismo. em 1763: a Industrial. a liberdade e a propriedade. 33 Hino nacional da França caius_c 124 . Os ideais democráticos quase pereceram quando Napoleão. agora vago. os exércitos de Napoleão levaram consigo os ideais da Revolução Francesa. foi exilado para a Ilha de Santa Helena. espalhandoos pela Europa. na Bélgica. em 1792. O trono francês. No entanto. na Batalha de Waterloo. no mesmo ano dessa derrota. seguia a idéia de que o Estado deveria ser a garantia dos direitos humanos básicos como a vida. com seus princípios racionais e progressistas. onde morreu seis anos depois. agora eles estavam passando para as mãos da burguesia porque estes possuíam capital e iniciativa e não dependiam da posse de terra. no Atlântico sul.Marselhesa33. Se antes os meios de produção estavam restritos à existência de grandes propriedades nas mãos dos nobres. foi preenchido por Luís XVIII. Derrotado em 1815. proclamou-se imperador. alavancada pela invenção da máquina a vapor por James Watt. que defendiam novas interpretações da economia e governos. Outra revolução estava em franca ascensão.

Os aglomerados humanos. eram pequenos. caius_c 125 . que detinham os meios de produção. Nas cidades. A Revolução Industrial marcou o início de nova luta entre estes burgueses. permitindo controle maior sobre as pessoas. Antes não se questionava. no caso a burguesia. ou muito pouco. e o operariado. que foi a nova denominação dada ao povo. No campo podia existir miséria mas dificilmente a fome. os direitos humanos passaram a ser encarados como naturais ao homem e passiveis de serem exigidos daqueles que detinham os poderes. Nas cidades as duas passaram a coexistir por conta dos baixos salários pagos aos trabalhadores. Na cidade. As tensões entre as classes sociais tornaram-se mais amplas.Necessitando de espaço suficiente apenas para montar fábricas. com maquinários que podiam produzir quantidades nunca antes vistas. os privilégios e a riqueza dos nobres ou a pobreza dos seus vassalos. as cidades viram-se entulhadas de pessoas que mantinham-se em um nível de pobreza maior do que as do campo. os burgueses tornaramse os novos detentores do poder econômico. De repente. sem a repressão direta e com possibilidades de organizarem-se. Ocorreu um fenômeno inédito na História humana: uma urbanização crescente por conta da mão de obra que se necessitava para estas novas indústrias. até então. tudo se produzia mas tudo se tinha que comprar.

principalmente os meios de produção. O que se permitiu na Revolução Industrial. em tese. cuja pretensão era propiciar efetiva participação do povo no seu próprio gerenciamento. existe o que se convencionou chamar de corporatocracia. como o comunismo e socialismo. A aplicação dessas teorias em alguns países como a Rússia e Cuba terminaram por gerar uma nova classe social advinda desse povo e que passou a governar de forma oligárquica. em outra forma. No entanto. que é o exercício do poder através de empresas possuidoras do poder econômico. caius_c 126 . por não ter capacidade econômica ou cultural. ao mesmo tempo em que delegava ao Estado total poder sobre tudo que ele continha. a possibilidade de escolha e alternância no poder daria ao povo a capacidade de gerir-se através de seus representantes. com as novas idéias. o povo. Nos chamados países democráticos. Resumindo. um avanço para a aquisição dos direitos humanos e participação nos governos. parece estar sendo usado como ferramentas para um retorno do ser humano à escravidão. continua a ser apenas o elemento basal da sociedade que sustenta uma parcela privilegiada da população. a urbanização e a tecnologia.Essa luta desencadeada por uma nova forma de opressão originou novas teorias.

Território A palavra território refere-se a uma área delimitada sob a posse de um animal. mas todos compartilham da idéia de apropriação de uma parcela geográfica por um indivíduo ou uma coletividade. DARCY AZAMBUJA afirma que território é o país propriamente dito. O termo é empregado na política. num dado tempo. na biologia e na psicologia. Em Sociologia define-se como um conjunto de pessoas adscritas a um determinado espaço. Em Estatística chama-se população ao conjunto de todos os valores que descrevem o fenômeno que interessa ao investigador.População População é um conceito demográfico e estatístico. e portanto país não se confunde com caius_c 127 . É o número que determina as pessoas presentes dentro de um determinado local. de uma pessoa ou grupo de pessoas. em um momento específico. A população não tem vínculo com o Estado através da nacionalidade ou cidadania. Há vários sentidos figurados para a palavra território. de uma organização ou de uma instituição. População é uma massa de dados enquanto que povo é um dos elementos que constituem o Estado.

muros ou designação outra que vise as caraterísticas das posses materiais. homem ou entidade social" 125 MILTON SANTOS diz que a utilização do território pelo povo cria o espaço. 128 caius_c 128 . isto é. Tudo tem limites. 124 CASTILHOS GOUCOCHEA diz que “"a primeira divisa foi riscada no terreno pelo primeiro ser que compreendeu sua posição em face do semelhante mais próximo. lindes. Da propriedade individual passou à soberania coletiva. do qual constitui apenas um elemento. de espaço aéreo e de uma estipulada extensão marítima. 126 CLAUDE RAFFESTIN diz o contrário . raias.É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. 127 PAULO HENRIQUE FARIA NUNES afirma que território é todo e qualquer espaço caracterizado pela presença de um poder. cercas. 123 Segundo STRECK e MORAIS. além do solo no qual a população vive e produz. é resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático em qualquer nível. o território de um Estado é composto. à casa. É nessa delimitação que será exercido o poder estatal. da cidade à província e desta ao país. à cidade. de alguém. O território se forma a partir do espaço.povo ou nação e não é sinônimo de Estado. de subsolo.

130 KELSEN considera a delimitação territorial uma necessidade.132 É o quadro natural dentro do qual os governantes exercem suas funções. mas condição de sua existência. não um direito em sentido subjetivo.131 BURDEAU diz que se trata de um direito real institucional. ocupado com exclusividade.133 JELLINEK expressa que o direito do Estado ao território é apenas um reflexo da dominação sobre as pessoas.135 RANELLETTI propõe a posição de que o território é o espaço dentro do qual o Estado exerce seu poder de império.136 caius_c 129 . apenas partes da superfície terrestre. mas que o território não chega a ser um componente do Estado mas apenas o espaço em que circunscreve a validade da ordem jurídica estatal. por simples razão lógica evidente. pois esta depende de um espaço certo. e seu conteúdo é determinado pelo que exige a instituição estatal.134 O território só possui sentido jurídico quando permeado por uma organização política. sendo um direito reflexo.FILOMENO entende ser o território parte imprescindível para a existência do próprio Estado.129 Para DONATO DONATTI. exercido diretamente sobre o solo. pois sem indivíduos humanos não há território. o território não seria um elemento constitutivo do Estado.

tanto quanto a população e o governo. No entanto. marítimo. nos limites definidos pela lei.138 QUINTÃO SOARES conceitua território estatal como a base espacial do poder jurisdicional do Estado.137 DE CICCO e GONZAGA definem território como a área compreendida nos espaços geográficos terrestre. O principio da extra-territorialidade ocorre por conta de situação onde existe influência do direito internacional. fluvial. É o chamado principio da territorialidade. virtual e econômico. Dentro deste conceito cabe o poder jurisdicional que o Estado tem sobre ele.QUEIROZ LIMA e SAHID MALUF asseveram que o território. são condições sine qua non para a existência do Estado. em que o ordenamento jurídico tem coercitividade.139 Podemos definir território como espaço controlado por indivíduo ou entidade. aéreo e diplomático. isto. Componentes do território. Adotamos três formas de componentes do território: geográfico. o locus onde se exerce o poder coercitivo estatal sobre os indivíduos humanos. A primeira impressão quando se fala de território é de que se trata somente da geografia ocupada por um Estado. onde o Estado submete ao seu direito sobre todos aqueles que se encontram em sua área de controle. algumas partes do território não são caius_c 130 .

como mísseis intercontinentais. essa convenção foi abandonada. lagos. litoral e mares. cuja extensão controlada é particular de cada país. aeronaves e satélites. Obviamente. o Estado exerce seu poder sobre elas. Embora tenha que seguir as regras do país onde se instalam. entendia-se que a delimitação do mar envolvia possibilidades de sua defesa. O espaço virtual traz como sua mais forte característica a nova mídia que se instaurou depois da invenção da internet e outros meios de comunicação. que correspondia a três milhas. com a invenção de artefatos de guerra que extrapolam essa distância. todavia. os grupos econômicos estão sujeitos ao poder jurisdicional de seu Estado original. a extensão de suas águas territoriais é.geográficas como navios. ilhas e outros acidentes geográficos. Antigamente. sendo que existe o poder jurisdicional sobre eles. por isso convencionou-se que a distância era a de um tiro de canhão. caius_c 131 . Nela estão inclusas a superfície terrestre. Outros territórios como embaixadas situam-se dentro de outros países e. No caso do Brasil. Espaço geográfico Um dos componentes do território é a geografia do Estado. rios. O componente econômico do território é espaço em que o Estado mantém domínio sobre a circulação e produção de bens e que pode estar bem distante geograficamente do país ao qual pertence efetivamente. Quando é o caso.

portanto. Em 1975. geografia delimitante o espaço aéreo. O. cuja principal função é servir como esteio para expedições científicas brasileiras neste continente. ela tem um alto grau de autonomia. No entanto. entre os meridianos 28o. instalando a Base Antártica Ferraz de Vasconcelos. em 01 de julho de 1997. foi transferida para a China em caius_c 132 . o Brasil aderiu ao Tratado da Antártida. podendo chegar a 100 durante o verão. Colônias e países subjugados também são territórios daquele que exerce a soberania. continuando a ser um porto livre e um centro financeiro internacional. Colônia portuguesa na Ásia desde o século XVI. sintetizada pela máxima “um país. a ilha. S. Pontos destacados da geografia de um país que são regidos pelas leis deste fazem parte de seu governo e. A fórmula administrativa de Hong Kong. como desfruta do status de Região Administrativa Especial. voltou a fazer parte da China continental. também é aplicada a Macau.atualmente. exceto na área de defesa e política externa. dois sistemas”. também são territórios. de duzentas milhas. situado abaixo do paralelo 60o. Depois de passar cento e cinqüenta e seis anos sob o domínio britânico. Sua população é de 48 pessoas no inverno. Inclui-se nessa Exceção a ser considerada é o território controlado pelo Brasil na Antártida. O e 53o. Um exemplo que foge um pouco a esta regra é o caso de Hong Kong.

Macau manterá o mesmo grau de autonomia de Hong Kong até 2049. que vasculham todas as regiões do planeta. que pode ter certa mobilidade física. navios. Outros pontos também são considerados territórios como as embaixadas. em 1957 e consagrada pela chega do homem na lua em 1969. parecia ser. Outro exemplo de satélite militar. etc. no início. uma conquista que se estabeleceria apenas com bases científicas. que é muito utilizado hoje em dia pela sociedade civil. A corrida espacial iniciada com o lançamento do satélite russo Sputnik. Uma estação orbital tripulada é um bom exemplo de território móvel. aeronaves. Consta que 75% dos satélites lançados a partir de 1957 foram com essa finalidade. isso não impede que exista um domínio do país sobre eles. Uma nave espacial ou um satélite giram ao redor da Terra e ainda são territórios do país ao qual pertencem. Isto nos leva a pensar que o território pode não ser fixo. Existindo o argumento que são apenas artefatos ou que as naves são transitórias. a maioria com objetivos militares. Uma discussão que poderia ser levada adiante é sobre a quebra de soberania dos países através do uso de satélites por outros. Com 34 Global Positioning System –GPS caius_c 133 . são os satélites de posicionamento global. ou para o comum das pessoas.20 de dezembro de 1999. que fornecem coordenadas acuradas de localização geográfica aos portadores de terminais manuais com antenas para captar o sinal dos mesmos34.

grande potencial econômico e militar dos satélites. que diz – “Os Estados Partes neste Tratado comprometem-se a não colocar em órbita à volta da Terra quaisquer objetos transportando armas nucleares ou quaisquer outras espécies de armas de destruição maciça. Bush. as armas no espaço exterior. sob quaisquer formas. concebido em 1983 pelo então presidente Ronald Reagan. não poderá ser objeto de apropriação nacional por reivindicação de soberania. onde se veda. o chamado IDE (Iniciativa de Defesa Estratégica). ou continua sendo. a não instalar tais armas nos corpos celestes e a não manter. contra o lançamento de mísseis balísticos intercontinentais.” caius_c 134 . O sonho das pretensões militares espaciais foi. Continuado pelo presidente Bill Clinton e George W. Por se tratar de um sistema de detecção e informação. dissolvida oficialmente em 26 de dezembro de 1991. em seu artigo II.” Essa preocupação com o uso do espaço exterior como base para dominação de países está expressa no mesmo tratado. sua utilização mais comum é dentro destas duas áreas. uso. ocupação ou qualquer outro processo. esse projeto não contraria o artigo IV do chamado Tratado do Espaço Exterior. batizado de “Guerras nas Estrelas” pela mídia. a apropriação de qualquer corpo celeste – “O espaço exterior. perdeu suas pretensões com o término da chamada “Guerra Fria” e o fim da União Soviética. incluindo a Lua e outros corpos celestes. em tese. cujo objetivo inicial era fornecer um “escudo de proteção” para os Estados Unidos.

É um território que depende de tecnologia mas ultrapassa fronteiras. estão sob a jurisdição do país que o lançou. transformando-os em promessas de bens. Sua versão mais popular é a internet. o território virtual está tornando-se substituto de bens. fazendo com que a administração de possíveis bases instaladas em corpos celestes esteja sob orientação internacional. À primeira vista pode-se acreditar que trata-se apenas de veiculação de mídia e interação entre pessoas. são territórios do mesmo. caius_c 135 . Espaço virtual Outro componente atual do território é o chamado espaço virtual que poderia ser definido como o mundo onde as pessoas interagem através da rede mundial de computadores. os conceitos territoriais deverão ser revistos. Os artefatos lançados. inexiste. No entanto.Provavelmente. esse tratado impede a expansão territorial dos países para o espaço exterior. portanto. Exemplo típico são as contas bancárias onde as transações são eletrônicas e o papel-moeda.Desde que cumprido. tripulados ou não. O espaço sideral não é território específico de nenhum país. o “dinheiro vivo”. em um futuro não muito distante. Antigas instituições como cheques estão desaparecendo ou tendo uso restrito devido a este tipo de transação. que é o nome genérico para essa ligação entre computadores.

O Movimento Zeitgeist afirma que 3% do suprimento monetário existe em moeda física. Os outros 97% existem somente nos computadores.140 É certo que se todos fossem sacar suas reservas ao mesmo tempo, nenhum banco teria o lastro suficiente para transformar a promessa de bens em bem efetivo. Os governos tentam controlar o conteúdo da internet através de bloqueios a sites que consideram como inadequados ou restringindo a captação de sinais. Os países islâmicos, ditatoriais, Cuba, China e outros, mantém controle quase que absoluto dessas informações virtuais. Este controle é desafiado por especialistas denominado hackers35, que conseguem acesso quase ilimitado dentro da rede. O lado negro dessa tribo, especialistas denominados crackers36, é a invasão em sistemas financeiros e disseminação de vírus. Neste território, a perda de privacidade do indivíduo está tornando-se um fator de preocupação. Além das informações espontâneas deixadas pelos usuários em blogs, sites, comunidades e formulários, aventa-se a possibilidade de que informações possam ser obtidas pelos governos através de programas de rastreio de informações. Dizem que um programa chamado Echelon pode capturar e analisar qualquer chamada telefônica, e-mail ou transmissão de fax e telex em qualquer parte do planeta, não importando o meio de transmissão utilizado. As mensagens podem ser
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Literalmente, decifradores Literalmente, quebradores

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minuciosamente examinadas à procura de palavraschave. Qualquer mensagem que contenha uma dessas palavras é automaticamente gravada e transcrita para posterior exame.141 O cruzamento de informações eletrônicas obtidas de forma legal pelos governos e instituições produz um perfil do indivíduo que pode ser usado para fins diversos. Tornou-se comum a venda de listas com informações pessoais ou empresarias. Estas informações legais aliadas às que são obtidas de forma ilícita podem produzir um controle do indivíduo pelo Estado ou por instituições igual ao retratado nas distopias. Por outro lado, a expressão individual nunca esteve tão presente em outra mídia, além da diversidade de informações. O rápido acesso a elas está dando um novo impulso ao intercâmbio cultural e as pessoas estão se comunicando mais. Isto pode produzir uma aproximação entre indivíduos e a quebra das barreiras culturais, sociais e políticas, aproximando efetivamente as populações do conceito de globalização social. O controle desse território virtual, tão volátil, está mais em mãos de empresas do que de governos propriamente dito. Na área de comunicações, estabeleceu-se uma verdadeira corporatocracia, onde as empresas do ramo, todas gigantes, estabeleceram seu domínio. Este, segundo SÉRGIO MATTOS, é concedido pelo Estado aos meios de comunicação como forma de pressão e controle. A ajuda oficial pode ser a

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concessão de rádios ou televisões, isenção de impostos e empréstimos obtidos junto aos bancos oficiais.142 Na digressão acima existe uma pergunta: por quê um espaço que não é físico, com controle dividido, pode ser chamado de território? A resposta é simples: é uma região habitada por pessoas ou, pelo menos, por suas projeções eletrônicas. Nas regiões mais cosmopolitas e onde existem facilidades para obtenção de tecnologia, o uso da rede de comunicações é uma necessidade. Esse mundo virtual que era apenas uma diversão ou brinquedo quando foi disseminada, por volta de 1990, ganhou importância fenomenal ao se transformar em um meio de transmissão de bens pelo comum cidadão. Sua importância econômica está se tornando tamanha que não estar presente neste mundo virtual é transformar-se naquelas criaturas superiores ou inferiores que São Thomas de Aquino e Aristóteles dizem poderem se transformar aqueles que vivem em completa solidão ou fora de uma sociedade. Espaço econômico JOHN ADAMS dizia – “Existem dois modos de conquistar e escravizar uma nação: uma é pela espada e a outra é pelas dívidas”.143 Os países projetam seu domínio sobre outros territórios através de suas empresas. A dependência econômica de um país faz com que sua soberania inexista ou seja tão tênue que impeça que existam medidas que lhes seja apenas de proveito próprio. Isso

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faz com que seu espaço físico ou sua geografia não lhe pertença mais. Não tendo mais poderes sobre seu espaço físico, seu território controlado passa a pertencer àquele que o domina. A expressão mais comum desse poderio é através do neocolonialismo, ou seja, desovar produtos industrializados em troca de matéria-prima e/ou mão de obra barata. Nessa transação, os países industrializados pagam pouco e vendem caro, gerando grandes dívidas aos não ou pouco industrializados países, geralmente os fornecedores de seus materiais básicos. Um produto, hoje em dia, é composto de partes que são produzidas em países diversos. Essas partes, a maioria, são feitas em países que fornecem mão de obra barata, com matéria-prima de outros países que as vendem barato. A montagem do produto final pode ser feita no país de origem ou em outro. A vantagem, além da econômica, é que ninguém, exceto a matriz, tem tecnologia suficiente para produzir o produto por inteiro, que termina por ser vendido a outros países, incluindo aqueles que produziram suas partes ou forneceram sua matéria-prima. A vantagem para o país que produz as partes é aparente porque cria empregos e aumenta sua exportação. No entanto, a compra do produto acabado provoca uma diferença na balança comercial entre os dois países, obrigando o produtor a contrair dívidas.

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O exemplo acima é a mais clássica e disseminada das formas econômicas para dominação de um país pelo outro e conseqüente controle de seu território. Outra prática é a eliminação das indústrias locais para fornecimento dos produtos que elas fabricavam. Um exemplo recente é o que se convencionou chamar de “salaula”, que, em uma língua nativa africana, significa algo como “roupa do homem branco morto”. 144 O processo da salaula começa com doação de roupas usadas, principalmente nos Estados Unidos e Europa, aos templos religiosos ou instituições de caridade. Essas doações são vendidas para intermediários que as estocam até formarem um lote. Esses lotes são comprados, geralmente por hindus, nos Estados Unidos, e embarcados em navios até a Europa onde se completa a carga. Depois, o navio parte para países africanos como Zâmbia, onde a carga é vendida para atacadistas locais. Esses atacadistas dividem a carga em fardos, revendendo-os para atacadistas menores que, por fim, vendem os fardos para varejistas locais. Essa prática, a salaula, extinguiu as indústrias têxteis de vários países africanos, visto que a competição tornou-se impossível. Uma roupa usada nos Estados Unidos ou Europa é quase nova e seu custo aos primeiros adquirentes, no caso templos religiosos e instituições de caridade, é zero, continuando baixo em todas as etapas da comercialização, inclusive para o

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consumidor final, que, por causa de seu baixo poder aquisitivo, não se importa muito com o fato de serem roupas usadas. Outra prática econômica de dominação é a transformação do mercado de determinado produto em feudo empresarial. De Beers é uma empresa de origem sul-africana sediada em Antuérpia, na Bélgica, que controla grande parte do comércio mundial de diamantes. Os diamantes formam-se em algum lugar no interior da terra e são expelidos, através de vulcões, dentro de rochas chamadas kimberlitos. Quando estas alcançam a superfície sofrem processos de erosão e liberam os diamantes. Alguns deles são carregados por águas correntes e terminam em riachos ou rios, onde são encontrados. Outros são minerados dentro da própria camada de kimberlito. Descobrindo onde existem vulcões extintos e kimberlitos, é possível determinar com relativa precisão, através de satélites, as regiões onde possam existir diamantes. Isso implica em dizer que não é uma pedra preciosa tão rara que justifique seu preço final. Se o preço está relacionado com demanda e procura, deverse-ia acreditar que seria um produto barato. Empresas como a De Beers, principalmente, mantém a raridade do produto através da compra de toda e qualquer oferta de pedra bruta do mercado, liberando a venda da pedra em formato de jóia de acordo com a demanda do mercado. Na realidade, essas empresas produzem a escassez no mercado,

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apesar de estarem com estoques altíssimos do produto. É um dos grandes monopólios do mundo. A lógica é simples: se eu não comprar outros comprarão e eu perco meu negócio. Esse poderio econômico estendeu-se às regiões conflituosas onde os diamantes foram, e ainda são em alguns casos, elementos chaves para manutenção de exércitos. A África foi o continente mais sacrificado por essa política de monopólio. Ela possui minas de diamante espalhadas por quinze de seus 53 países. Ela é responsável pela produção de 50% das pedras consumidas no mundo, um mercado que movimenta cerca de 50 bilhões de dólares por ano. Em doze desses países produtores, como nos casos da África do Sul, Namíbia e Botsuana, os diamantes são um produto de exportação como outro qualquer. Não exercem nenhum efeito negativo sobre a sociedade. Em três países, no entanto, pode-se afirmar que a pedra já matou, indiretamente, mais de 1 milhão de pessoas nas últimas duas décadas. Angola, Congo e Serra Leoa foram os países cujas guerras foram financiadas pelos diamantes, que foram chamados de “diamantes sujos” ou “diamantes de sangue”. Nestes lugares, companhias mineradoras ou seus intermediários estimulam o prosseguimento dos combates fornecendo armas e mercenários. Em alguns casos apóiam governos; em outros dão suporte a grupos guerrilheiros. A recompensa é o acesso fácil aos garimpos de diamante. Apenas como forma de ilustrar o interesse das grandes empresas, observe-se o seguinte

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cálculo: um garimpeiro africano ganha em torno de 800 dólares por um diamante de boa qualidade, pesando 2 quilates. Se bem lapidado, ele pode ser vendido por 10.000 dólares em uma joalheria de Nova York, com um lucro de 1.150%.145 Dominação econômica implica em controle de território, seja efetuado diretamente através de governos ou os dissimulados através de empresas. Quando todos os recursos indiretos falham, recorre-se aos diretos. A invasão do Iraque constitui-se exemplo clássico e recente do que o poderio militar pode substituir o poder econômico quando esse falhar. Calcula-se que suas reservas de petróleo podem chegar a 200 bilhões de barris. Este potencial pode tornar esse país o segundo maior produtor do mundo, atrás da Arábia Saudita e na frente do Irã. Estas reservas tornam o país essencial para a manutenção da economia. 146 Uma das desculpas para sua invasão foram os ataques de 11 de setembro de 2001, quando quatro aviões comerciais foram seqüestrados, sendo que dois deles colidiram com as torres do World Trade Center, em Manhattan, Nova York. O terceiro avião foi lançado contra o Pentágono, no Condado de Arlington, Vírginia. Os destroços do quarto avião foram encontrados em Shanksville, Pensilvânia, o que fez supor que os tripulantes e passageiros entraram em luta contra os seqüestradores.

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Os ataques foram atribuídos á organização terrorista Al-Qaeda. Alegou-se que Saddam Hussein, então presidente, teria financiado ou colaborado com os ataques, além de fabricar e estocar armas químicas. Sua malfadada invasão ao Kuwait em 1990 transformouo em vilão mundial e sua recusa em aceitar tutela dos países dependentes de seu petróleo fez dele o principal objetivo na Operação Iraque Livre em 2003, quando exércitos de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos invadiram o Iraque, depuseram o governo e enforcaram Saddam Hussein. Como de vê pelo exposto acima, o poder econômico, na maioria dos casos, é uma das principais formas de manter domínio sobre determinado território. As grandes empresas e seus governos são aliados e valem-se um do outro para desempenhar o papel de dominador de outras nações. A mutabilidade do território HERÁCLITO DE ÉFESO37 dizia que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao entrarmos pela segunda vez, não serão as mesmas águas que estarão lá, e a mesma pessoa já será diferente. CÍCERO diz que "Nenhum povo teria pátria se tivesse de devolver o que usurpou” 147

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540 a.C. - 470 a.C (datas aproximadas)

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O princípio da mutabilidade também se aplica ao território. Por mais que a geografia permaneça, o poder dentro dela se transfere para diversos povos de acordo com o caminhar da História. Algumas vezes, a própria geografia se altera, produzindo extinção de povos ou mudança de identidade para aqueles que sobreviveram. Conquistas, acordos, vendas, desaparecimento de povos por motivos diversos e toda uma gama de acontecimentos, às vezes até naturais, fazem com que o poder exercido dentro de um determinado território se modifique. Existe uma máxima – utis possidetis – que diz que a terra é de quem a ocupa, sendo assim, não restam dúvidas que o território, na sua variável controle, se modifica ao longo da linha do tempo. No Brasil, podemos citar o estado do Acre como exemplo dessa mutabilidade. Ele pertenceu ao governo boliviano até início do século XX. Porém, sua população era predominantemente brasileira e constituía-se em território quase independente. Em 1899, a Bolívia tentou reafirmar sua soberania sobre o território, provocando revoltas dos brasileiros e confrontos na região fronteiriça, gerando o episódio que ficou conhecido com “A Questão do Acre”. Em 1903, com a assinatura do Tratado de Petrópolis, o Brasil incorporou-o definitivamente. O território passou para o domínio brasileiro em troca do pagamento de dois milhões de libras esterlinas, de terras de Mato Grosso e do acordo de construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré. Este tema foi retratado de forma deliciosa e folhetinesca

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por Márcio de Souza, em seu livro “Galvez, o imperador do Acre.” 148 Governo Governo vem do grego kubernao, parte superior do leme de um navio que serve para dirigi-lo. Em português, cana de leme ou timão. Para ARISTÓTELES, governo é a autoridade suprema do Estado. Ele entendia que as palavras Constituição e Governo queriam dizer a mesma coisa.
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ROUSSEAU diz que governo é um corpo intermediário estabelecido entre os súditos e o soberano para sua mútua correspondência, encarregado da execução das leis e da manutenção da liberdade, tanto civil como política. Acrescenta que é o exercício legítimo do poder executivo, príncipe ou magistrado, o homem ou o corpo incumbido desta administração. 150 Para FILOMENO, governo nada mais é do que o conjunto dos órgãos do Estado que colocam em prática as deliberações dos órgãos legislativos. É a face visível do Estado, e expressão de sua própria soberania, enquanto poder supremo existente nos limites de seu território. Ele ainda o conceitua como a organização necessária para o exercício do poder político do Estado.
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ressalvando que “existe uma segunda acepção do termo governo. o governo constitui um aspecto do Estado”.155 Governo pode ser entendido como o conjunto de instituições.152 Para GERALDO DE MESQUITA JUNIOR. governo é o conjunto de órgãos responsáveis pela realização da administração pública. organizações e lideranças responsáveis pela administração pública e pela direção dos Estados. mas o complexo dos órgãos que. Neste sentido. mais própria da realidade do Estado moderno. O conceito de governo pouco varia no entendimento de diversos autores. governo. em seu sentido mais amplo. sendo que alguns deles nem o conceituam. através de poderes delegados pelo povo. é todo mecanismo de direção e controle das mais diversas instituições e organizações. 154 De acordo com cartilha da Receita Federal. a qual não indica apenas o conjunto de pessoas que detêm o poder de governar. institucionalmente.DE CICCO e GONZAGA entendem o governo como sendo o conjunto ordenado das funções do Estado que deve garantir a ordem jurídica. Podemos definir governo como a forma institucionalizada do poder de autoridade de caius_c 147 .153 LÚCIO LEVI define governo como o “conjunto de pessoas que exercem o poder político e que determinam a orientação política de uma determinada sociedade”. têm o exercício do poder.

e o Estado se torna monárquico.” 156 Para ARISTÓTELES. a forma de governo foi estabelecida em função de um momento histórico: “As diversas formas de governo tiram a sua origem das diferenças mais ou menos grandes que se encontraram entre os particulares no momento da instituição. Independente do regime caius_c 148 . e formaram uma democracia. Genericamente. a oligarquia apenas aos ricos e nobres e a demagogia apenas aos pobres. aristocracia e república. Aqueles cuja fortuna ou talentos eram menos desproporcionados. segundo ele. é o gerenciamento das coisas e pessoas. A degeneração desses três regimes é a tirania. e que menos se tinham afastado do estado de natureza. superavam todos os outros. seria aquela que combinasse as três formas legítimas de governo. existem três formas de monarquia. em nome de um bem comum. Formas ou regimes de governo Para ROUSSEAU. e se teve uma aristocracia. guardaram em comum a administração suprema. ou seja. só ele foi eleito magistrado. A tirania aproveitaria apenas ao monarca. de modo que assegurassem os direitos e deveres. monarquia. aristocracia e república.uma sociedade. em crédito. A melhor forma de governo. Se muitos. cuja característica principal seria o descompromisso com o bem público ou coletivo. mais ou menos iguais entre si. em riqueza. Um homem era eminente em poder. a oligarquia e a demagogia. em virtude. eram eleitos conjuntamente.

157 BLUNTSCHLI acrescenta à classificação de Aristóteles a teocracia ou ideocracia. de um único homem. que é a redução dos poderes da monarquia.adotado. que é a forma de governo cujo poder emana de Deus. 160 MONTESQUIEU definia os governos pelo que ele chamava de natureza . A república. de várias pessoas. pois todos eram considerados como iguais perante a lei. ou melhor. 159 MAQUIAVEL acreditava que somente existiria dois tipos de Estado: repúblicas e principados. todos os governos que tiveram e têm autoridade sobre os homens. – “Todos os Estados. foram e são ou repúblicas ou principados. abrangeria a aristocracia e a democracia. Para descobrir sua natureza. os governantes deveriam prestar contas aos governados. sendo a veneração de Deus substituída pela de ídolos. três fatos: "o governo republicano caius_c 149 . enquanto que a república é um poder plural. segundo ele.Existem três espécies de governo: o republicano. o monárquico e o despótico. basta a idéia que os homens menos instruídos têm deles. o que ele chama de forma mista. 158 CICERO acrescenta às formas de governo enumeradas por Aristóteles. em que o clero governa no interesse próprio. A forma corrupta seria a clerocracia ou idolocracia. Suponho três definições. da aristocracia e da democracia através de instituições como o senado aristocrático ou câmara democrática.” Os principados é o poder singular.

161 DALLARI adota a corrente mais nova que entende que somente existem dois tipos de governos: república e monarquia.163 KELSEN define duas formas de governo: a autocracia e a democracia. os governos seriam democráticos ou de dominação. A democracia implica sujeitos politicamente livres.é aquele no qual o povo em seu conjunto. um só. Na autocracia. no despótico. mas através de leis fixas e estabelecidas. aquele onde um só governa. o monárquico. estando subordinados a uma ordem jurídica que devem obedecer sem restrições. o indivíduo não participa das decisões do governo. ou apenas uma parte do povo. Quanto às origens. os governos seriam de fato ou de direito e quanto ao exercício seriam absolutos ou constitucionais. A monarquia. possui o poder soberano. organização e ao exercício. impõe tudo por força de sua vontade e de seus caprichos". quanto à organização. ao passo que. sendo substituída gradativamente pela forma 162 republicana. AZAMBUJA adota a mesma corrente de Dallari acrescentando a análise de RODOLPHE LAUN das formas de governo de acordo com origem.164 caius_c 150 . cidadãos que participam da criação e concordam com a ordem jurídica vigente. depois da Segunda Guerra Mundial estaria sendo extinta ou subsistindo de forma constitucionalista e com limitações. sem lei e sem regra.

que são suas vontades. sendo. pelo partido dominante ou pela cúpula do partido. na democracia. O poder. vitalícia e/ou hereditária. tanto na forma direta como indireta. trata-se de uma democracia. existe vitaliciedade no cargo mas não hereditariedade. cujo significado literal é “coisa pública”. A vontade caius_c 151 . na república. é súdito. Nesta categoria. Para MONTESQUIEU república e democracia são sinônimos. pode ser transmitido por vontade do antigo líder. Só pode ser monarca com seus sufrágios. também. na maioria das vezes.“Quando. geralmente. A representativa é aquela em que o poder máximo do Estado é eleito através de votos pelo povo. O povo. sob outros. o povo em conjunto possui o poder soberano. República República vem do latim “Res publica”. sob certos aspectos. Ele considera a expressão do povo através do voto como qualidade fundamental deste tipo de governo . A não-representativa é aquela em que não existe anuência expressa do povo através do voto. o monarca. é. A principal característica é a necessidade da renovação do poder concedido ou dos elementos que exercem o poder pelo voto do povo. Dentro da categoria das não-representativas estão aquelas em que as eleições para a escolha do líder supremo são realizadas por único partido político.Preferimos o entendimento de que existem duas formas de governo: a representativa e a nãorepresentativa.

embasado em leis e com objetivos comuns a todos – “É pois. considerando isso como uma possibilidade. considerando tal. acrescenta que o Estado deve ser governado pelo povo. 169 caius_c 152 .”167 Para RUI BARBOSA.”165 CÍCERO.” 166 DALLARI também afirma que república e democracia são sinônimos. em seu livro “Da República”. uma vez que indica a possibilidade de participação no povo no governo.“A república. as leis que estabelecem o direito de sufrágio são fundamentais neste governo. tem um sentido muito próximo do significado de democracia. executivo e judiciário. república é a forma de governo onde existem três poderes constitucionais: legislativo. não todos os homens de qualquer modo congregados. estabelece que nem sempre o povo participaria do governo. começou o Africano. Destarte. Os dois primeiros derivariam de eleição popular. mas a reunião que tem seu fundamento no consentimento jurídico e na utilidade comum. . . que é a forma de governo que se opõe à monarquia.a República coisa do povo.do soberano é o próprio soberano. Logo. eletividade e responsabilidade política do chefe de governo.168 QUINTÃO SOARES adota a qualificação de república como regime de governo que tem as seguintes características: temporiariedade.

Monarquia A palavra monarca vem do grego monarkhia. refere-se a uma divisão administrativa da Grécia. como a ditadura. exceções. a palavra foi sendo utilizada para designar outras formas de governo.171 O conceito que melhor define a república é aquele que constitui como sua característica principal a transitoriedade da permanência no poder de indivíduo ou grupo. uma palavra parônima a "monarquia" é nomarquia.DE CICCO e GONZAGA adotam o conceito da temporariedade do exercício das funções executivas. nominalmente absoluto. Segundo o Dicionário Houaiss. sendo que monarquias eletivas são consideradas. também. O uso moderno da palavra monarca é geralmente usada para se referir a um sistema hereditário tradicional de governo. tanto da chefia do governo como do Estado. a eletividade e temporariedade do chefe de Estado como as principais características da república. que pode ser traduzida como “um líder ou chefe” e. referindo-se a um soberano único.170 AZAMBUJA adota. no geral. através de eleição com respaldo popular. referindo-se ao território governado pelo monarca.172 caius_c 153 . posteriormente do latim monarchìa. Em seu uso moderno. Com o tempo. que vem do grego nomarkhía ("nome" e "governo").

173 FILOMENO conceitua como governo de apenas uma pessoa. O monarca governa durante sua vida ou enquanto tiver condições de fazê-lo e sua escolha se faz simplesmente pela linha caius_c 154 . uma diarquia. seria uma oligarquia ou. Diferenças entre república e monarquia Nas monarquias o cargo de chefe do Estado é hereditário e vitalício. no sentido de esta ter o mando sobre determinado grupo de outras pessoas perante as quais se impõe. monarquia é a forma de governo em que o poder está nas mãos de um indivíduo. Segundo DALLARI. Ele acrescenta que é o regime onde se tem a figura de um monarca a exercitar funções executadas. vitaliciedade e unicidade como as principais características da monarquia.174 Podemos adotar hereditariedade. nas repúblicas é eletivo e temporário. no mínimo. de forma limitada ou não. não se aplicaria aos estados modernos. hereditariedade e irresponsabilidade.Na definição clássica. Essa definição. de uma pessoa física. A unicidade se deve ao fato que somente uma pessoa pode ser considerada como monarca. Se assim não fosse. as características fundamentais da monarquia são: vitaliciedade. uma vez que o órgão supremo de poder não é mais o indivíduo só. segundo AZAMBUJA.

fruto da dignidade da casa real. que o poder dos reis era concedido por Deus e. a irresponsabilização do monarca somente caberia em uma monarquia absolutista. as características da república são opostas às da monarquia. eletividade e responsabilidade. a terceira seria a obediência natural dos súditos. intransferível. JACQUES-BÉNIGNE BOSSUET apresentou três razoes para justificar o direito divino dos reis. pois são a temporariedade.de sucessão. devendo dar explicações sobre elas ao povo e às instituições. O caráter da irresponsabilidade conferelhe a faculdade de não ter que explicar seus atos a ninguém.) Nada havendo de maior sobre a terra. Em nosso entendimento. A primeira razão é considerar que a monarquia seria a forma mais natural de governo e que se perpetua por si própria. Os cargos são temporários e preenchidos através de votação e o chefe de Estado responde por suas ações. 175 Ainda de acordo com DALLARI.177 JEAN BODIN assim escreveu “(. depois de Deus. ou ainda alguns dizem. Dizia-se.. que os príncipes caius_c 155 . a segunda é que existiria uma relação entre o tratamento dispensado ao Estado e ao seu filho e sucessor. portanto.176 Deve-se acrescentar à monarquia mais uma característica que historicamente lhe conferiu legalidade: sua constituição divina. O trono do rei seria o trono do próprio Deus..

a fim de sentir e falar deles com toda a honra. Prenunciava-o a República — pecado mortal de um povo — heresia suprema indicadora do triunfo efêmero do anticristo. principalmente contra o governo. pois quem despreza seu príncipe soberano despreza a Deus. considerada como um foco de insurgência restaurativa da monarquia. caius_c 156 . e sendo por Ele estabelecidos como seus representantes para governarem outros homens. onde existiam ou existem impossibilidade de ascensão social ou mudanças no estilo de vida. “O rebelado arremetia com a ordem constituída porque se lhe afigurava iminente o reino de delícias prometido.”179 Esta forma de enxergar a monarquia como um atributo de Deus é um conceito cármico. a fim de respeitar-lhes e reverenciar-lhes a majestade com toda obediência. esse pensamento que predominou no Brasil após a proclamação da república e que determinou a extirpação de Canudos. O sistema republicano contém um ingrediente que estremece as relações Estado-cidadão periodicamente: a mudança de governo e das diretrizes.”178 EUCLIDES DA CUNHA mostra em seu livro “Os sertões”. é necessário lembrar-se de sua qualidade. Em outras eras ou mesmo hoje em alguns países.soberanos. a forma mais prática de atribuir essas limitações ao ser humano para poder controlá-lo é estigmatizar de que tudo não passa de vontade divina e contra a qual não se deve rebelar. de Quem ele é a imagem na terra.

Uma república é um perpétuo renovar de intenções e ações. Em uma monarquia clássica. Este eterno fruir é o que torna a república um sistema de governo passível de evolução. Ele tem que escolher e posicionar-se dentro das opções que lhes são oferecidas ou criar outras quando julgar que estas não lhes satisfazem. Além disso. Esta necessidade de adaptar-se a cada nova mudança de governo parece assustar aqueles que defendem a monarquia. No Brasil. o que implica em confrontar as do governo anterior e fazer mudanças que julga necessário. caius_c 157 . participação popular restringese a um eterno aceitar o que lhe é imposto. ele tem o dever e o direito de participar da governança. A rebelião é a única forma de impor-se ao seu governante. O povo manteve o regime republicano e o sistema presidencialista. Não basta ele apenas se administrar. o indivíduo tem que adquirir uma consciência social e tornar-se cidadão por conta de suas próprias afirmações. exige um esforço maior da população ao exigir-se dela que promova as mudanças de governo no tempo exigido pela lei.Cada novo governante está imbuído de predisposições pessoais e das do seu partido. Na república. As hipóteses aventadas foram a monarquia parlamentar e a república e os sistemas parlamentarista e presidencialista. A república exige politização do indivíduo. em 21 de abril de 1993 foi feito um plebiscito sobre o regime e o sistema de governo.

em 1211. existindo. que significa falar. Parlamentarismo Seu nome deriva da palavra francesa parler. na prática. Considera-se as Cortes em Portugal como tendo sido as antecessoras de um verdadeiro parlamento. ao contrário do que ocorre no presidencialismo. neste sistema de governo. uma separação nítida entre os poderes Executivo e Legislativo. QUINTÂO SOARES conceitua-o como forma de regime representativo dentro do qual a direção dos negócios públicos pertence ao parlamento e ao chefe de caius_c 158 . e do povo. em que participaram representantes da nobreza. do clero.Sistemas de governo Entende-se como sistema de governo a tipificação das relações entre as instituições políticas enquanto que a forma de governo se refere aos seus aspectos macros de organização. As primeiras Cortes realizadas em Portugal foram as Cortes de Coimbra. todas as variações possíveis. Não há. Este apoio costuma ser expresso por meio de um voto de confiança. Estes sistemas de governo tanto cabem no regime republicano como no monárquico. O sistema parlamentarista ou parlamentarismo é um sistema de governo no qual o poder Executivo depende do apoio direto ou indireto do parlamento para ser constituído e para governar.

182 ADERSON DE MENEZES define parlamentarismo como o tipo de governo representativo que. chefia do governo com responsabilidade política e possibilidade de dissolução do parlamento para realização de novas eleições. onde o rei é o chefe de Estado e o primeiro-ministro é o chefe do governo. o Parlamento e o Governo. coloca o executivo sob confiança do legislativo e conduz a vida estatal equilibrada. por intermédio de um gabinete responsável perante a representação nacional.181 DALLARI expõe como principais características a distinção entre Chefe de Estado e Chefe de Governo. mediante as técnicas da responsabilidade política do gabinete e da dissolução parlamentar.Estado. 183 Para DUGUIT. sua íntima colaboração em toda atividade do Estado e na ação que exercem um sobre o outro para se limitarem reciprocamente”. com base nas relações estreitas de dois poderes. 180 DE CICCO e GONZAGA caracterizam este sistema como aquele em que a figura do Chefe de Estado se diferencia da figura do Chefe do Governo. o regime parlamentar “repousa essencialmente sobre a igualdade dos dois órgãos do Estado. Isto permite sua utilização nos regimes monárquicos.184 caius_c 159 .

Esta possibilidade permite que ele seja removido rapidamente do cargo ou permaneça nele pelo tempo que durar a confiança que se deposita nele. quando o primeiro-ministro julgar oportuno que uma nova eleição lhe dê maioria. O Brasil teve duas experiências parlamentaristas. portanto. outorgada por Dom Pedro I. A segunda experiência foi entre 1961 a 1963. Foi mais um 38 Também conhecido por Jango caius_c 160 .Este sistema tem três princípios básicos: a igualdade entre o executivo e o legislativo. Este parlamento podia ser dissolvido pelo Imperador a qualquer momento. O cargo do primeiro-ministro pode ser ocupado enquanto ele tiver a confiança do parlamento. carecendo. Dois partidos. Existe a possibilidade de dissolução do parlamento. o liberal e o conservador. o da colaboração entre os dois poderes. alternavam-se no poder. de efetiva representatividade. quando ficou estabelecido que os legítimos detentores da soberania nacional eram o imperador e o parlamento. considerada como solução para o vácuo de poder deixado pela renúncia de Jânio Quadros e a investidura de seu vice-presidente João Goulart38. do chefe de Estado e da população. A primeira foi implantada pela Constituição de 1824. denominado Assembléia Geral. Este sistema de governo perdurou até o final do Segundo Império. e a reciprocidade de ação de cada um desses poderes sobre o outro.

AZAMBUJA caracteriza o presidencialismo pela independência dos poderes.185 DALLARI indica as seguintes características do presidencialismo: o presidente da república é chefe do Estado e chefe do governo. O Poder Executivo é exercido de maneira autônoma pelo Presidente da República. que atua como chefe do Estado e do Executivo. sua colaboração entre si e sua limitação recíproca. ordinariamente. Presidencialismo O presidencialismo reúne em uma só pessoa o chefe de Estado e o chefe do governo. O Presidente da República é eleito para mandato determinado. perante o Poder Legislativo. não respondendo. pois dividiu as funções do Executivo entre os membros do Conselho de Ministros. b) caius_c 161 .sistema semi-presidencialista do que parlamentarista.186 DE CICCO e GONZAGA enumeram as seguintes características do presidencialismo:187 a) A chefia de governo e a chefia de Estado ficam concentradas nas mãos de uma única pessoa: o Presidente da República. a chefia é unipessoal. sendo que o presidente tem poder de veto. a escolha é através de voto e por prazo determinado.

BONAVIDES assinala que a responsabilidade do presidente é penal e não política. ele responde por crime de responsabilidade no exercício da competência constitucional. através de ministérios e serviços públicos federais. os encargos presidenciais abrangem sumariamente:189 a) A chefia da administração. entregues a pessoas da confiança do presidente. Para ele. O Parlamento. de igual forma. responsáveis perante este. não pode ser dissolvido por convocação de eleições gerais pelo Poder Executivo. O exercício do comando supremo das forças armadas. A direção e orientação da política exterior com atribuições de celebrar b) c) caius_c 162 . 188 QUINTÃO SOARES conceitua presidencialismo como o sistema político representativo no qual a direção dos negócios públicos se concentra no órgão unipessoal do Presidente da República. que livremente os escolhe e demite.c) d) e) O Presidente da República possui ampla liberdade para formação de seu ministério. A chefia de governo deve ter poder de veto e ser legitimada por vontade popular. e É compatível apenas com República. sendo inviável em uma monarquia. ao enfeixar as funções de chefe de Estado e de governo.

assim. a necessidade de limitação de poder dos governantes e a crença na racionalização do poder. 191 Não se considera o constitucionalismo como uma forma de governo e sim o uso de leis de cunho geral. nos termos estatuídos pela Constituição."190 DALLARI afirma que três grandes objetivos resultaram no constitucionalismo: a afirmação da supremacia do indivíduo. "constitucionalismo é a teoria que ergue o princípio do governo limitado indispensável à garantia dos direitos em dimensão estruturante da organização político-social de uma comunidade. Neste sentido. O conceito de constitucionalismo transporta. tal como a teoria da democracia ou a teoria do liberalismo. o constitucionalismo moderno representará uma técnica específica de limitação do poder com fins garantísticos. um claro juízo de valor. Constitucionalismo Segundo definição de CANOTILHO. seus poderes e suas limitações. debaixo das ressalvas do controle exercido pelo poder legislativo. no fundo. É. geralmente uma constituição. ninguém deve estar acima das leis. declarar guerra e fazer paz. uma teoria normativa da política.tratados e convenções. Por princípio. caius_c 163 . que define a estrutura governamental.

Pode-se dizer que ele foi o regime predominante em toda a História humana . O absolutismo é uma teoria política que defende que uma pessoa (em geral. isto é.A simples presença de uma Constituição ou leis formalizadas equivalentes em determinado Estado não conduz necessariamente à sua classificação como constitucionalista. O absolutismo compreende ou compreendeu muitas formas. o culto à personalidade foi 39 40 O Estado sou eu 1638-1715 caius_c 164 . que tipifica a concentração de poderes no Estado absolutista e o pensamento daquele que o detém. religioso ou eleitoral. independente de outro órgão. legislativo. no apogeu do Estado absolutista. L`Etat c`est moi39 é uma célebre frase atribuída ao rei Luis XIV40 da França. Absolutismo Absolutismo é a concentração de todos os poderes do Estado em uma só pessoa. Em outros.Em muitos casos ele assumiu a identidade do seu máximo governante. um monarca) deve deter um poder absoluto. O que o consagra nesta classificação é a efetiva subordinação do indivíduo e do Estado às leis. seja ele judicial.

Para os anarquistas. considerado o maior expoente do anarquismo. anarquia significa ausência de coerção. anarquistas são contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita. Existe em torno desta questão um debate acerca da necessidade ou não de uma moral anarquista. De um modo geral. Uma das visões do senso comum sobre o tema é o que se denomina por "anomia". é uma filosofia política que engloba teorias e ações que visem a eliminação de todas as formas de governo compulsório. Anarquismo Anarquismo vem do grego anarkhos. BAKUNIN. defendendo tipos de organizações horizontais e libertárias. organizações sociais ou indivíduos que a compõem – só serão satisfeitos quando os Estados não mais existirem.instalado e a identificação do regime derivou-se do nome do próprio governante. ausência de leis. que significa "sem governantes". não são nada mais que a caius_c 165 . vocifera contra a opressão do Estado face aos seus cidadãos: “É óbvio que a liberdade não será restituída à humanidade. na realidade. Estes interesses. ou se a natureza humana bastaria por si só na manutenção pacífica das relações. uma mentira. e que os verdadeiros interesses da sociedade – quaisquer que sejam os grupos. e não ausência de ordem. Está claro que todos os chamados interesses gerais que o Estado deveria representar são de fato uma abstração. uma ficção. ou seja.

as partes entre si. . sob a sombra e o pretexto de abstração. Por isso. Complexidade Para EDGAR MORIN complexus significa o que foi tecido junto. a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade.negação total e contínua dos interesses reais das regiões. As greves de 1917. interático e interretroativo entre o objeto do conhecimento e seu contexto. associações e da grande maioria dos indivíduos submetidos ao Estado. No município de Palmeiras. Entre 1909 e 1919 são criadas escolas para trabalhadores nos moldes da doutrina. de fato. Em 1906 é organizado o Congresso Operário.”192 No Brasil. no Paraná. as partes e o todo. que define práticas de ação anarquista. chegou a ser estabelecida a Colônia Cecília por imigrantes italianos. um vasto cemitério no qual. regida pelos princípios anarquistas. Com a fundação do Partido Comunista. o movimento perdeu força e deixou de ter alguma representatividade política. 193 caius_c 166 . 1918 e 1919 foram comandadas por eles. o anarquismo chegou por volta de 1850. o todo e as partes. todas as reais aspirações e forças ativas de um país deixaram-se enterrar generosa e pacificamente. comunas. entre 1890 e 1893. no Rio de Janeiro. há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo e há um tecido interdependente. trazido pelos imigrantes europeus. em 1922. O Estado é um enorme matadouro.

Dentro da evolução de uma sociedade simples para uma mais complexa. são rápidas e facilmente assimiláveis. Neste momento é que deve surgir o Estado para nortear a vida dentro da sociedade. novas necessidades vão surgindo e algumas terminam por se tornarem básicas. Com mando direito e fácil recepção da autoridade pelo indivíduo. um sistema mais complexo seria incoerente e até inaceitável. emerge uma ruptura e inicia-se um processo anômico. as linhas de comunicação entre os que governam e os que são governados tornam-se frágeis e quase inaudíveis.Complexidade é uma das características do Estado. As necessidades básicas do indivíduo são as mesmas dentro de uma sociedade simples ou complexa mas apresentam formas distintas para sua satisfação. O que pode ser totalmente dispensável em uma sociedade pode ser de vital premência em outra. via de regra. As necessidades do indivíduo e da própria comunidade são prontamente apresentadas e as soluções. Sem uma linha mestra para alinhavar os pensamentos do indivíduo e os da comunidade. Esta complexidade é proporcional ao número de cidadãos. a sociedade seria apenas uma tribo. Se mantivéssemos outras e excluíssemos esta. apenas a figura de um dirigente ou um conselho. Com o crescimento demográfico. que implica necessariamente em um território maior para sua acomodação. Nas sociedades simples não existe a necessidade da figura do Estado. caius_c 167 .

Apesar do poder do Estado ser uno e indivisível. contingente de pessoas. Inclui-se nesta categoria a estrutura de poder. Podem ser escritas ou não. etc. Instituições Instituições são as estruturas do Estado criadas para disseminação do seu poder. Formais são aquelas que induzem comportamentos como leis. Elas podem ser de dois tipos: materiais e formais. costumes. Sua principal característica é a observação de preceitos pela comunidade que os considera como forma de conduta pessoal e coletiva. No entanto. Sua composição varia de acordo com o regime ou sistema político. edifícios. caius_c 168 . existe a necessidade de que ele flua através de órgãos ou instituições para que surta efeito até o comum cidadão. ideologias e outras.O Estado é complexo por sua própria natureza. As materiais são compostas pela estrutura física onde o poder do Estado é centralizado tais como prédios. A não aderência aos seus pressupostos pode provocar sanções sociais ou estatais. três delas são consideradas como principais: legislativo. executivo e judiciário. Esta complexidade proveniente da natureza da própria sociedade obriga que o mando não consiga ser direto.

Estado e sociedade. aquilo ou aquele que está acima de outros. Como República leia-se Estado. exclusivo e auto-determinante de dar ordens incontrastáveis. o executivo governa e a judiciário regula o equilíbrio entre os poderes. foi a conciliação desses mesmos interesses que a tornou caius_c 169 . 194 SAMPAIO DORIA define soberania como o poder supremo. segundo o fim de sua instituição. nunca internacional. o bem comum. isto é. a soberania advém do poder que se origina do povo – “somente a vontade geral tem possibilidade de dirigir as forças do Estado. Bodin acreditava que o poder soberano dos príncipes e reis era delegado diretamente por Deus a eles. se a oposição dos interesses particulares tomou necessário o estabelecimento das sociedades. sancionadas pela força. na sua forma mais abrangente. Soberania A palavra soberania vem do latim medieval superanus e era aplicada a todos que estavam no alto de uma ordem qualquer. Estas três instituições dispõem de ramificações suficientes para que seu poder atinja todos os segmentos sociais.Cada uma delas tem uma função: o legislativo faz as leis. chegando a dizer que soberania é só interna. pois. Significa. O primeiro a estabelecer uma definição para soberania foi JEAN BODIN que diz que “soberania é o poder perpétuo de uma República”.195 Para JEAN-JACQUES ROUSSEAU.

ou não o é.”197 Para JEAN BODIN. chamado “Teologia Política” define: “É soberano aquele que decide sobre situação excepcional”. Para ele a soberania era inalienável e indivisível – “Digo. indelegável. dirigido pela vontade geral. a soberania é uma.possível”.” – “Pela mesma razão que a torna alienável. soberania é poder que emana da nação ou da sociedade representada por aqueles que atuam em seu nome. a soberania é indivisível.196 O pacto social dá ao corpo político um poder absoluto sobre todos os seus membros. e que o soberano.” 200 caius_c 170 . pois. porque a vontade é geral. perpétua e poder supremo. não pode ser representado a não ser por si mesmo. no máximo. se chama soberania. 198 Para EMMANUEL J. é a vontade do corpo do povo. não passa de uma vontade particular ou um ato de magistratura: é. que nada mais é senão um ser coletivo. No primeiro caso. irrevogável. a fonte de todo direito e de toda lei. e esse poder é aquele que. um decreto. no segundo. não porém a vontade. 199 CARL SCHMITT. o que equivale a propor para o Estado. indivisível. que outra coisa não sendo a soberania senão o exercício da vontade geral. é perfeitamente possível transmitir o poder. essa vontade declarada constitui um ato de soberania e faz lei. ou apenas de uma de suas partes. jamais se pode alienar. SIÉYÈS. em texto de 1922.

que a organização estatal poderá ostentar ou deixar de ostentar. é ela. Aparece então o Estado como portador de uma vontade suprema e soberania . um conjunto autônomo de princípios jurídicos. em si mesma. ainda que considerado como elemento essencial do Estado conforme Jellinek que se preocupa com a soberania sob prisma do direito internacional como um dado essencial constitutivo do Estado.a suprema potestas. 202 Podemos definir soberania como a capacidade gerencial de cada país.Para GISELE LEITE. A primeira dita que os caius_c 171 . soberania é declarada como princípio ou fundamento necessariamente vinculado ao Estado. quando. de regras e institutos sociais e políticos justificadores do poder nacional. As teocráticas estabeleceram três princípios. Titularidade do direito da soberania As tentativas de legitimação da soberania originaram doutrinas teocráticas e democráticas. todos baseados na origem divina. A soberania interna fixa a noção de predomínio que o ordenamento estatal exerce em certo território e numa determinada população sobre os demais ordenamentos sociais. 201 De acordo com ROSEMIRO PEREIRA LEAL. a soberania é apenas qualidade do poder. a soberania é conceito histórico e relativo. a rigor. É a exteriorização da sua vontade de comandar seu próprio destino. Externamente.

A doutrina da soberania popular funda-se sobre a igualdade política dos cidadãos. admite que apenas a origem do poder é divina. povo e Nação formam uma só entidade. pois isto significa blasfêmia ou sacrilégio. compreendida como um ser abstrato e personificado. ocorre uma investidura de poder por um elemento superior aos homens. o governante é o próprio deusvivo. caius_c 172 . dotado de vontade própria. não cabendo. Soberania e Estado A soberania nasce da necessidade humana de definir limites de posses para si ou para um grupo. não existe possibilidade de contestação ou insubmissão a ele. o que seria uma heresia. a condição de governante é dada por Deus. nenhuma insubmissão contra ele. permitindo eventual participação dos governados na escolha dos governantes. superior às vontades individuais. a da investidura providencial. A doutrina da soberania nacional estabelece que a Nação é a depositária única e exclusiva da autoridade soberana. A soberania nasce como um sentimento inicial derivado da posse de um território ou de alguma coisa. mas o investido nele mantém sua condição humana. Em todas elas reside a vinculação do poder dos homens com o poder divino. Soberania. Neste caso. As democráticas estabelecem que o titular do direito da soberania é o povo e o Estado. onde cada fração de soberania individual é componente do todo. A segunda. também. A terceira.governantes são seres divinos e o seu poder foi dado diretamente por Deus.

quer seja para sua própria sobrevivência ou como forma de situar-se dentro de um espaço que julgue seu. Ao sentimento de soberania soma-se o espaço que se determina como pertencente ao grupo em todas as suas formas. toma para si e se julga apto a cuidar. O espaço soberano não é imutável pois. como indivíduo ou como grupo.na sua fase inicial. Indo um pouco mais além. tanto físicos como ideais. a soberania fica apenas no plano das idéias. A soberania se transforma na capacidade de administração de um espaço sem a interferência de elementos estranhos. Partindo desse sentimento inicial. nas suas caius_c 173 . Não se deve confundir limites territoriais com limites geográficos pois aqueles vão muito alem desses. é tudo aquilo que o ser humano. Como limites territoriais podemos estabelecer a definição clara de todos os componentes da soberania em si. a soberania toma outra forma mais abrangente: soma-se ao sentimento de posse a capacidade de mantê-lo sob seu domínio. novos componentes são agregados ou modificados. a soberania se transforma na forma ideal de ter sob uma jurisdição todos os elementos que compõe esse espaço soberano que considera como essencial para a sobrevivência do grupo. a cada dia. Sem essa capacidade de domínio. de acordo com a evolução das relações entre os países. O espaço soberano é composto de um limite territorial e de todos os elementos dentro dele.

um de seus componentes é sua própria reafirmação constante. É igual aos sentimentos familiares ou de amizade que precisamos renovar constantemente. Não tendo apoio do povo. A soberania tem duas formas: a) a do Estado b) a do indivíduo. por isso. perde-a rapidamente. As pretensões que temos com relação a ela não são inertes. O espaço soberano é aquele que se toma como idéia a partir do sentimento de soberania e os limites territoriais são a definição desse espaço. essa tarefa pode se transformar em sua exclusiva competência. Quando o Estado é desvinculado de seu povo.mais diversas formas. Sempre ela se vê ameaçada por diversos fatores e. o Estado precisa ter forças suficientes para manter a jurisdição sobre o espaço soberano. Um Estado que se mantenha apenas pela repressão não terá apoio efetivo de seu povo. Quem não reafirma sua soberania. o Estado terá que se valer de seus elementos para manter o domínio sobre o espaço caius_c 174 . Sendo um sentimento. Para poder existir. como podemos reafirmá-la constantemente? A resposta vem das condições dos sentimentos que julgamos necessário manter. A soberania tem que ser reafirmada constantemente. dando demonstrações efetivas para que não se solapem ou desapareçam.

as mesmas. ocorre uma transformação nesse último: o indivíduo toma a forma de cidadão. Como regra geral. na esperança que aqueles que o derrubaram façam com que sua vida seja melhor. Tomando a forma de cidadão. Nesse ponto. a) A soberania própria restringe-se aos elementos que compõe seu universo individual e sobre o qual tem domínio. até preferirá que o Estado que o oprime seja deposto. o próprio indivíduo encarrega-se da manutenção da soberania juntamente com o Estado. Um indivíduo tem dois tipos de soberania: a própria e a coletiva. Um povo sem o sentimento de soberania é um povo que tenderá a desaparecer através de sua pura e simples extinção ou através de sua assimilação por um povo invasor. Em um Estado sintonizado com as necessidades de seu povo. praticamente. os conflitos entre Estado e cidadão tornam-se menores e as necessidades de um e de outro passam a ser. algumas vezes. um povo reprimido pelo seu próprio Estado não se importará quando sua soberania estiver ameaçada por outros povos e. b) A coletiva é aquela em que o indivíduo adere ao conceito estatal de soberania. Existindo uma reciprocidade de cuidados entre o Estado e o indivíduo. A soberania parte de um sentimento individual e se completa quando atinge a maioria dos elementos do povo que o tem na mesma forma. o Estado torna maior sua função de cuidar dos cidadãos e os caius_c 175 .soberano.

O Estado não é de ninguém. ela transforma-se na formadora dos limites territoriais que deseja para a sua soberania e do seu cidadão. Preservando a soberania do Estado e do cidadão.a soberania cultural caius_c 176 . Para que seja completa existe a necessidade dela se manter igualmente nas três formas abaixo: . O Estado não é um objeto. O cidadão deve ao Estado na mesma proporção em que o Estado deve para o cidadão. Podemos até dizer que um Estado nesse estágio se transforma em um “grupo familiar ideal” onde cada um cuida de outro para que todos ganhem mais com o esforço coletivo. O Estado deve servir e não superar-se em forma além daquilo que o cidadão deseja para si e para a sociedade.cidadãos cuidam para que o coletivo que o Estado administre seja mais ameno. O Estado é humano.a soberania econômica . estabelece-se a preservação dos próprios direitos e deveres formalizados pela Constituição. Sendo a formalização da Constituição a positivação dos ideais de uma sociedade. Soberania e sua composição A soberania é composta de vários elementos. Nenhum Estado tem sentido se não foi estabelecido com base em uma reciprocidade.a soberania militar .

Historicamente estamos em um período em que as invasões militares são relativamente pequenas em relação ao passado. Pontos de conflitos interferem na economia e estabilidade política mundial. Mesmo que alguns países não a detenham por si próprio. A necessidade da manutenção da paz vai alem dela própria. Os pontos de conflitos existentes são aqueles que existem desde tempos remotos e os que surgem são prontamente reprimidos pelos órgãos internacionais. podendo alastrar-se para outros países. podemos dizer que a soberania militar é a mais fácil de ser mantida. embora nesse caso esteja mais vinculado a uma dominação militar do que manutenção da soberania propriamente dita. Assim sendo. essa soberania militar pode ser delegada a outros governos ou órgãos mundiais. Por vezes. essa soberania militar pode ser ampliada através de tratados como os da Otan ou do antigo Pacto de Varsóvia.Por princípio. como o Japão. a probabilidade da extinção da espécie humana por ela própria torna-se maior quando explode um conflito. É certo que alguns países como os Estados Unidos e Inglaterra mantêm entre si uma cooperação nesse sentido. os demais países procuram abafar esses focos para que eles não se transformem em algo que os atinja. Com o potencial de destruição em massa que dispomos. caius_c 177 . Outros países se preservam através da neutralidade como a Suíça ou com pactos de não agressão.

Os grupos econômicos estão dominando o planeta e se imiscuindo na administração dos Estados. está bastante vinculada à dita “globalização”. Esse fenômeno surgiu a partir da intensa inovação tecnológica. independente ou autosuficiente.A soberania econômica. Por soberania cultural devemos entender a forma de comportamentos. A soberania economia estará vinculada à capacidade que o país tem de se manter economicamente viável. atualmente. O país que não conseguir manter sua soberania econômica estará fadado ao insucesso como nação e terminará por ser administrado por essas companhias ou pelos seus países de origem. e poderá. idéias e ideais sob os quais um grupo se une e se identifica. principalmente nas informações. Nafta. Torna-se mais difícil a cada dia uma empresa manter-se sem essa união com outras. Apesar desses grupos econômicos formados por países. A cultura é o primeiro dos caius_c 178 . Outro ponto foi a criação de grupos econômicos como a União Européia. determinar a forma econômica como o mundo deverá se comportar. O nível de compra de empresas ou formação de grupos econômicos está em seu nível mais alto e isso determinará a economia mundial e a soberania de cada país. podemos dizer que o maior fator de dominação econômica partirá das empresas gigantescas que estão se formando. a longo prazo. Mercosul e outros. A rede mundial de computadores foi um dos pontos mais fortes dessa nova fórmula de convivência mundial.

Para se vender é necessário que o produto seja aceito e para que isso aconteça é necessário que o povo o tome como necessário ou fundamental para sua sobrevivência ou apenas para sentir-se conjugado com o coletivo. o país se tornará apenas uma extensão daquele que o aculturou. frontalmente contra os interesses dos seus próprios povos. Perdendo sua identidade cultural. A soberania cultural é o primeiro ponto a ser atacado pelos grupos econômicos. caius_c 179 . visto que os laços existentes são comuns a todos e todos os entendem como necessários para sua própria existência. conduzidas pelas idéias do “Destino Manifesto”. Aculturando-se o povo. podemos citar a teoria americana que considera a América do Sul como seu “quintal” e os países árabes como “fornecedores de petróleo”. Essas teorias propiciaram invasões em países árabes e a colocação de governos subordinados aos seus interesses nos países sul-americanos. o Estado deixa de ter as funções precípuas das quais deveria se compor e transforma-se apenas em um elemento da dominação externa que deveria combater. fazem parte desses ideais ou idéias que procuram manter a dominação econômica e cultural de outros povos em benefício de outro. A famosa “Doutrina Monroe” e o “Plano Marshall”.elementos que define um povo como Nação. Como exemplo. Um povo que descarta sua cultura em função de uma cultura externa sentir-se-á mais identificado com a cultura invasora do que com sua própria.

diz: “O princípio de toda soberania reside essencialmente na Nação. Sendo adequado. o Estado se transforma no pólo positivo que se conjuga com o cidadão para manter a energia vital dos quais os dois se nutrem. nenhum indivíduo. Nenhuma corporação.A não manutenção da soberania gera uma subcultura voltada aos interesses daqueles que impingem a própria sobre outros povos e conseqüente dependência econômica. A capacidade de um Estado em manter sua soberania é o que determina sua duração. no seu artigo XXI. de 1948. pode exercer autoridade que aquela não emane expressamente. Soberania e sua manutenção A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. no seu parágrafo 3º. o Estado se perderá e ao seu povo. da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948 caius_c 180 . de 1789. O elemento – soberania territorial – é conseqüência da manutenção das três soberanias citadas acima.. através da relação democrática entre eles: 41 Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III). expõe a necessidade da soberania do indivíduo e do Estado. Sendo fraco.” A Declaração Universal dos Direitos Humanos41.

sendo uma Declaração Universal dos Direitos Humanos e não atingindo determinados países. A vontade do povo será a base da autoridade do governo.º . Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país. especificamente distinto dos poderes dos Estados nacionais. diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos. por sufrágio universal.” 203 A preocupação com a soberania do Estado e do indivíduo encontra-se expressa em muitas constituições. baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade caius_c 181 . em seus princípios fundamentais. onde diz que “O poder internacional é autônomo e soberano. 493. Em tese. Essa declaração exclui os governos autocráticos pois estes não têm sua legitimidade baseada na vontade do cidadão. A própria Organização das Nações Unidas reflete a preocupação com seu poder soberano sobre as nações no seu art. 3. define o seguinte:204 Artigo 1. A de Portugal. pode se entender que não existe o reconhecimento daqueles que tem este tipo de governo como um Estado efetivo. por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto.Portugal é uma República soberana.1. esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas.

A soberania. derechos y garantías que enumera la Constitución.Las declaraciones.popular e empenhada na construção de uma sociedade livre.º .A República Portuguesa é um Estado de direito democrático. El sufragio es universal. visando a realização da democracia econômica. una e indivisível. secreto y obligatorio. social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa. reside no povo. con arreglo al principio de la soberanía popular y de las leyes que se dicten en consecuencia.. Artigo 2. no pluralismo de expressão e organização política democráticas. no respeito e na garantia de efetivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes.º . no serán entendidos como negación de otros derechos y garantías no enumerados. pero que nacen del principio de la soberanía del pueblo y de la forma republicana de gobierno. Artículo 37. caius_c 182 . que a exerce segundo as formas previstas na Constituição. justa e solidária.Esta Constitución garantiza el pleno ejercicio de los derechos políticos. Artigo 3. Na Constituição argentina declara-se também sua capacidade soberana e a origem da mesma:205 Artículo 33. igual. baseado na soberania popular..1.

la integridad territorial y la autodeterminacion nacional.En la República del Paraguay y la soberanía reside en el pueblo. Titulo I. conforme con lo dispuesto en esta Constitución.En la República de Cuba la soberanía reside en el pueblo. en la doctrina de Simón Bolívar. Son derechos irrenunciables de la Nación la independeicia. caius_c 183 . assim diz. igualdad.. Título I. del cual dimana todo el poder del Estado. justicia y paz internacional. Sociais e Econômicos do Estado: Artículo 3. diz:206 Artículo 1. em suas declarações fundamentais. Princípios Fundamentales. Fundamentos Políticos. dos deveres e das garantias. na sua parte I.De la Soberania . A Constituição do Paraguai de 1992. La República Bolivariana de Venezuela es irrevocablemente libre e independiente y fundamenta su patrimonio moral y sus valores de libertad. assim define: Artículo 2 . atualizada em 2002. en la forma y según las normas fijadas por la Constitución y las leyes. dos direitos. la inmunidad. no seu Capítulo I. Ese poder es ejercido directamente o por medio de las Asambleas del Poder Popular y demás órganos del Estado que de ellas se derivan. la libertad. que la ejerce. el Libertador.A Constituição de Cuba. la soberania. A Constitución de la República Bolivariana de Venezuela.

Todo o poder emana do povo. II . V .a cidadania. Su ejercicio se realiza por el pueblo a través del plebiscito y de elecciones periódicas y. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. nos termos desta Constituição.o pluralismo político. caius_c 184 .A Constituição do Chile estabelece suas bases soberanas::207 Artículo 5º . Ningún sector del pueblo ni indivíduo alguno puede atribuirse su ejercicio.a dignidade da pessoa humana. que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. IV . constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I . también. por las autoridades que esta Constitución establece. A Constituição do Brasil de 1988. no seu Título I.-La soberanía reside esencialmente en la Nación.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. 1º A República Federativa do Brasil. Parágrafo único.a soberania. dos princípios fundamentais. III . diz: Art.

o Estado fundamenta-se sobre a soberania. Portugal. conforme disposto em suas constituições. ou seja. Neste caso. e ao povo cabe a sua expressão apenas através do voto. na Constituição. o conceito de soberania do povo. sendo que a sua competência é do Congresso Nacional e da União. conforme disposto na Constituição Federal de 1988. Argentina e Paraguai. sem ela o Estado não existiria como tal. Essa preocupação expressa pelos países nas suas constituições em manter sua soberania é a forma de situar-se como elemento controlador de seu espaço através do Estado e tendo como base o seu próprio povo. o conceito de soberania está vinculado a uma forma democrática de Estado pois assegura que nenhum indivíduo pode exercer-la por si só em conformidade com o disposto na Declaração dos Direitos Humanos e do Cidadão de 1789. a soberania é de responsabilidade do povo que a exerce através dos governos.Entre as constituições de Cuba. fere o próprio conceito da soberania em si. No entanto. O Estado mantém o cidadão e o cidadão promove o Estado. Na do Chile existe o conceito de que a soberania está na Nação e é exercida pelo povo através de plebiscitos e eleições. No Brasil. pois lhe permite a participação apenas na escolha de seus representantes e não lhe dá nenhum poder para retirá-los da administração do Estado quando a confiança do voto que lhe deu for abalada por infrações caius_c 185 .

É uma separação de corpos que inviabiliza os principais conceitos da própria democracia. visto que outorga apenas parte de poderes ao cidadão enquanto que lhe dá plenos poderes quando o mesmo passa a fazer parte da máquina estatal. ou seja. ele passa a ter prerrogativas que não teria se fosse um comum. por isso. ambas estão claramente definidas e situadas dentro de um espaço em que não se completam. pois não lhe confere nenhum poder alem desse. Quando o cidadão passa a fazer parte do Estado. nós a deixamos de ter. mas complementares e justapostas. Existe uma limitação da soberania do indivíduo em contraposição à soberania do Estado. É como se essa transmigração lhe desse poderes que não pudessem ser tirados ou lhe dessem privilégios além daquilo que a lei permite. Essa aparente soberania do indivíduo em relação à eleição de seus representantes. partem do próprio Estado e. como as CPIs. A soberania do indivíduo é limitada pelo próprio Estado e existe uma separação forte entre as duas partes: de um lado o indivíduo e de outro o Estado. como se fossem dois quadros transparentes que ao serem colocados um sobre o outro determinassem a real imagem. O correto seria que a soberania do Estado e do cidadão não fossem separadas.da lei. Não se pode outorgar sua própria soberania a outro e isso a elimina naturalmente. A partir do momento em que a damos para outro. podem se tornam ineficazes no controle dos representantes do caius_c 186 . Os mecanismos que existem. na verdade tolhe a própria.

visto que sua composição é feita pelos próprios parlamentares. alínea III. É algo um tanto vago visto que o povo não tem poderes e nem força. quando esses não tiverem a atuação conveniente. essa forma de soberania se torna inócua.povo. Para que a soberania do povo seja mantida é necessário a criação de canais judiciais para interpelação dos políticos pelo indivíduo. nos termos da lei. Seria a forma de cobrar os políticos pela sua atuação. Essa interpelação do cidadão frente ao seu eleito reforçaria os laços que os ligaram durante as eleições. A única abertura que existe é no artigo 14. caius_c 187 . onde. pois os delega ao Estado para que o exerça em nome dele. podemos dizer que a mesma pode existir de três formas: a) A soberania exercida pelo povo b) A soberania exercida pelo Estado c) A soberania exercida em conjunto pelo Estado e pelo povo A soberania exercida pelo povo restringe-se apenas àquela em que o mesmo protege-se e aos seus direitos frente ao seu próprio governo. pode ser posta em votação na Câmara dos Deputados alguma lei vinda diretamente do povo. Partindo dessas duas responsabilidades sobre a soberania: a do povo e do Estado. Como as exigências são grandes para se firmar como iniciativa popular.

é certo que somente o mesmo teria condições de manter a própria soberania. o conceito de soberania atende apenas à manutenção de uma classe no poder dentro de um território. Um Estado totalitário é um desperdício e um retrocesso. pois somente ele dispõe de órgãos especializados para isso. existe uma distância entre povo e Estado na maioria dos países. pois sua concepção de governo o afasta da população e a oprime para que não ocorram revoltas ou a própria derrubada dos governantes. O argumento de que a composição do Estado é feito a partir do povo é acadêmico. o Estado torna-se apenas a propriedade de alguns. ele deixa de ser Estado. pois passam a considerar esses como uma posse sua e se dão ao direito de usá-los como lhes caius_c 188 . Ao usar energia e capacidade para manter-se. O Estado precisa se manter soberano para que as oligarquias regentes continuem a ter as vantagens do poder. efetivamente. Não beneficiando a Nação. Esse mesmo pensamento pode ser usado com os Estados que desrespeitam a soberania de outros Estados. Nos países totalitários somente existe essa condição.A soberania exercida pelo Estado é a mais comum. pois. Tornando-se uma propriedade privada. ele sujeita-se os ditames comerciais pelos quais se regem as propriedades privadas. Como o Estado dispõe de aparelhagem própria. Deixando de ser Estado. ele não a usa para o benefício da Nação. Com a opressão do próprio povo.

A soberania exercida em conjunto pelo Estado e pelo povo seria a ideal. deixando de atuar para aqueles a quem realmente deveria. o Estado atinge sua real dimensão que é a de cuidar do povo que representa. visto que sua implantação favorecerá politicamente a este. Um Estado que admite outro como sua propriedade perde o direito de ser Estado e passa a ter a mesma condição deste. Cuidando do povo que o representa. Um Estado democrático de direito ainda é um ideal distante. divergindo totalmente daqueles que existem atualmente. Exemplos típicos são a concessão de orçamentos especiais para determinados setores da sociedade ou para determinadas regiões onde se espera um resultado político. Podemos até dizer que o Estado se tornar em um Status Magnus. Um Estado somente se torna soberano quando está sintonizado com seu povo e a ele se dedica. Mesmo nos países dito democráticos existe um distanciamento entre o Estado e o povo.convém. Nesse estágio. o conceito de Estado passa a ser outro. o cidadão passa a utilizar o Estado em benefício próprio e do grupo que está representando. Uma idéia que parta de um oposicionista jamais vingará por melhor que seja. A partir do momento em que é eleito. existe a reciprocidade: o cidadão passa a encarar o Estado como seu benfeitor e usa das formas que lhe cabe para solidarizar-se com esse Estado. onde a sua existência está totalmente vinculada a caius_c 189 . Neste estágio.

Em países totalitários ou imperialistas. não existindo um Estado sem uma soberania e não existindo a soberania se o Estado e/ou povo não a exercer. Embora o Estado tenha inicialmente nascido a partir de um sentimento de soberania. sua função básica de proteger direitos e distribuir deveres é inexistente. a existência do Estado está ligada diretamente ao seu exercício. ele se mantém graças a ela e sua contínua reafirmação. na sua forma de Justiça. somente existe quando as condições lhes são favoráveis. Alem dessa reciprocidade entre Estado-cidadão. Sendo assim. Enquanto direito. Dependendo da forma política na qual o Estado situa-se. Países com economias fracas ou pobres terão dificuldades na manutenção de sua soberania. seu uso restringe-se à manutenção do Estado e não lhe confere o grau que deve ter. são concorrentes e a existência de um determina a de outro. O próprio Direito. A soberania como um direito do Estado Exercer a soberania é dever do Estado e é também seu pleno direito. ela é exercida pelo povo e/ou pelo Estado. a soberania está diretamente ligada à economia e seu reflexo sobre o bem estar do cidadão.satisfação das necessidades do cidadão em conjunto com as suas próprias. Sendo um dever. caius_c 190 .

Costuma-se dar o nome de imperialismo a essa negação do direito à soberania às nações.Retirando o direito à soberania de um Estado. Em caius_c 191 . dividiram continentes. no conceito que conhecemos. ele torna-se apenas um território onde a vontade de outros prevalece. podemos ver mais claramente isso. onde as nações européias e os Estados Unidos. mesmo que os motivos alegados para isso tenham sido de “ordem humanitária”. vendo-as apenas como elos fracos e tomando-as sob sua jurisdição. Quando não constituída na forma de Estado. Sem o direito à soberania. o Estado deixa de ter jurisdição sobre seus limites e conseqüentemente deixa de ter as qualidades necessárias para ser um Estado. os povos organizados em forma de Estado sempre negaram esse direito às Nações. Os Estados Unidos. “defesa da democracia” ou “pela paz mundial”. a Nação. XIX e XX. Perdendo a autonomia. dizimou-as e lhes tomou seus territórios. No século XVIII. negou totalmente esses direito às nações Indígenas que habitavam o seu atual território e em cima dessa negação à sua soberania. Se a vontade de outros prevalece sobre o Estado. entre si e consideraram as Nações como parte de seu próprio Estado. durante a época de sua formação como o país que conhecemos. Historicamente. não tem esse direito. Podemos considerar a Invasão do Iraque em 2003 como negação de sua soberania. então ele deixa de ser autônomo. o Estado não teria o próprio direito de se afirmar como tal. como a África.

favoreceria um Irã atômico que aumentaria sua influência na região e um Curdistão que poderia querer tomar parte do território turco onde vive uma parcela da população curda. sua divisão em três Estados.2006 iniciou um debate a respeito da balcanização do Iraque. Em tese. então. cujos desejos de autonomia geraram a formação de grupos ditos terroristas que lutam ou lutaram pela sua própria soberania. Inglaterra e Rússia. de acordo com a etnia curda e as divisões muçulmanas xiitas e sunitas. Como se vê. que deve ter um primado sobre a ordem nacional. segundo Bonavides. pois existe uma necessidade de criar uma ordem internacional. a formação de um Estado xiita. Já separados naturalmente dentro do território iraquiano. que conseguiu recuperar sua soberania antes nas mãos dos Estados Unidos. como muito já aconteceu na história das Nações. sua divisão em países. no entanto. ou. um Estado que perde sua soberania tende a desaparecer como Estado. com a maior parte do petróleo iraquiano em seu território. segundo alguns especialistas. essa separação trouxe alguma paz à região. Soberania e os tratados internacionais Os conceitos de soberania são vistos com suspeição. isso deveria ocorrer em outras regiões como o país Basco e Irlanda do Norte. ou seja. Nos Bálcãs. 208 caius_c 192 . transformaria em governáveis as regiões. o contrário com a reunificação das Coréias como já aconteceu com a Alemanha.

Os tratados internacionais. tornam-se parte integrante da lei. Embora a legislação de cada país reflita os valores de sua cultura. Em um mundo ideal. passam a valer na sua própria forma. Melhor analisados. visto que se pode atuar através deles nos mesmos. não existe ingerência de outros Estados na soberania visto que os tratados internacionais. os tratados internacionais teriam o poder de nivelar as legislações vigentes em todos os países e poderiam gerar uma efetiva aldeia global. representam uma extensão da própria soberania aos países signatários. Alguns tratados internacionais. os tratados internacionais são o consenso do que todo país considera como valores primordiais. na realidade. Se existisse uma mentalidade mundial progressista e futurista. como o Protocolo de Kyoto42. Embora a recíproca seja verdadeira. Sendo lei. longe de serem uma intromissão ou uma forma de ingerência na soberania. unificando-os em forma de lei. procuram estender responsabilidades e 42 1997 caius_c 193 . as leis teriam o poder de unificar os Estados dentro de uma mesma ordem onde existiria um equilíbrio das relações e onde as necessidades humanas fossem supridas. esses valores primordiais são aqueles derivados da própria essência do ser humano. quando aprovados pelo Congresso Nacional.

onde as conseqüências serão de todos e não apenas de um. em dois turnos. procurando uma solução de um problema que afeta a todos. cada país pode ter certeza de que sua soberania. no seu artigo 5º.Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. § 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. Se apenas um país. em cada Casa do Congresso Nacional. As soberanias se amoldam em defesa de um bem comum à comunidade internacional. em suas muitas formas. Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos 43 caius_c 194 . Estendendo a necessidade para todos. Título II. onde diz que: § 2º . a recepção dos tratados internacionais está inserida dentro da Constituição Federal de 1988. Dos Direitos e Garantias Fundamentais. isoladamente. por três quintos dos votos dos respectivos membros. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. serão equivalentes às emendas constitucionais. No Brasil. tentasse tomar uma medida que julgasse necessária para o mundo todo. será adaptada conjuntamente com a de outros. essa por si teria pouco ou nenhum efeito. alínea LXXVIII43.obrigações para a comunidade internacional de necessidades mundiais que refletem as de cada país. Capítulo I.

afastou a argumentação.§ 4º O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão. Da mesma forma. No entanto. ministra Rosa Maria Weber. levando-a a entrar com agravo de instrumento. além de condenar a ONG ao pagamento de diversas verbas trabalhistas. A Vara do Trabalho reconheceu a existência de vínculo de emprego e determinou a anotação do contrato de trabalho na carteira da trabalhadora. Esta recorreu ao Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região44 mas não obteve sucesso. a soberania nacional deve prevalecer quando não existe um tratado internacional sobre determinado assunto. A ONG alegava a incompetência da Justiça do Trabalho para julgar a matéria. em 24 de outubro de 2006. A ministra Rosa Maria Weber observou em seu voto que a Partners of the Americas insistiu na tese da incompetência da Justiça do Trabalho. o recurso de revista para o TST foi “trancado” pelo TRT. Uma notícia veiculada pelo Tribunal Superior do Trabalho. diz que “a Sexta Turma do Tribunal Superior do Trabalho negou provimento ao agravo de instrumento da organização não-governamental norte-americana Partners of the Americas contra decisão que reconheceu o vínculo de emprego de uma ex-diretora. ao argumento 44 Distrito Federal e Tocantis caius_c 195 . mas a relatora do agravo.

a competência da Justiça Trabalhista brasileira. a controvérsia deve ser resolvida com base na ‘lex loci executionis’. “ao contrário do sustentado pela Partners of Americas.de que “não existe fundamento e condição legal que lhe atribua competência sob essa jurisdição”. porém. Ressaltou. 45 Soberania e as empresas mundiais Alem dos países ou blocos econômicos. De acordo com o TRT e a Vara do Trabalho. que. no caso. razão pela qual a legislação nacional a ele se aplica. “o contrato sob exame foi firmado em território nacional e nele executado. ou seja. caius_c 196 . conforme o artigo 114 da Constituição Federal e o artigo 651 da CLT. ainda. havendo conflito de leis trabalhistas no espaço. que o TST já firmou entendimento ”no sentido de que. A relatora destacou. conforme prevê a Súmula 270 do TST”. a relação jurídica trabalhista é regida pelas leis vigentes no país da prestação de serviços. já que as partes não ajustaram cláusula em sentido contrário”. o domicílio do empregador não é importante para fins de fixação da competência nacional.4. não havendo ressalvas. é inafastável” porque. podemos dizer que parte da economia mundial é dirigida por 45 AIRR 306/2003-010-10-40.

No ano de 2005 foram realizados 49% a mais de transações em relação a 2004. deixando apenas os espaços alternativos para as pequenas empresas. sendo 203 aquisições e controle. a formação de redes de empresas dentro de um mesmo ramo. a compra do Banespa pelo Santander. como as de supermercados. Foram realizadas 286 transações. a tomada do controle acionário. A compra de empresa por outras. indica que a pequena empresa solitária ficará restrita aos limiares da economia onde não exista interesse das grandes empresas. a união de pequenas empresas para compra unificada de produtos visando barateamento. O levantamento mostrou que. a do BankBoston pelo Itaú ou a compra da canadense Inco pela 46 PwC caius_c 197 . 43% foram lideradas por estrangeiros.grandes empresas que se estendem alem nacionalidades e regem os destinos do mundo. das 264 transações envolvendo aquisição de controle ou compra de participação minoritária.209 A formação de conglomerados não é um fenômeno brasileiro e sim mundial. segundo relatório da consultoria PricewaterhouseCoopers46. Como casos típicos podemos citar a Ambev brasileira que controla grande parte do mercado brasileiro de cerveja. O número de fusões e aquisições no Brasil cresceu 46% de janeiro a setembro de 2006 em relação ao mesmo período de 2005. das Existe uma tendência para a criação de conglomerados através de fusões e aquisições de empresas. conforme a mesma fonte.

comunicações e financeiro são dominados por gigantes do setor que não dão espaço para outras empresas. o que justificaria o domínio estatal sobre os meios de produção. existiria apenas uma empresa. poderíamos concluir que o controle dos meios de produção deveria ter um órgão regulador mundial visto que ele extrapola o próprio Estado. Em parte. Em parte. O que ele não deve ter imaginado é que as empresas sairiam dos limites dos seus próprios países. ficará caius_c 198 . Essa necessidade econômica de gigantismo das empresas extrapola os limites territoriais dos seus países de origem e visa estabelecer padrões políticos e legais para sua sustentabilidade e hegemonia.Companhia Vale do Rio Doce. isso se explica pela necessidade de um enorme capital que somente essas empresas detêm. se eleito. no final. Esse favorecimento. Se levarmos em conta sua teoria. essa necessidade de gigantismo e açambarcamento dos mercados deriva da necessidade de eliminação ou diminuição da concorrência. Marx dizia que as empresas assumiriam o controle umas das outras e que. nos países democráticos. O gigantismo das empresas sempre gera uma necessidade de favorecimento político para os setores que domina. se traduz através dos lobbys existentes no Congresso Nacional e no financiamento de campanhas políticas onde o candidato. Setores cruciais como os de energia. que a transformou na segunda maior empresa do ramo em 2006.

muitas vezes em contradição com as necessidades do país e de seu próprio povo. tem por fim assegurar a todos existência digna. A ordem econômica. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. a legislação brasileira procura manter sua soberania econômica através da Constituição Federal de 1988.sob a tutela das empresas e de seus interesses. estão próximos aos objetivos de hegemonia de seus países de origem. A partir desse instante. o que amplia os seus domínios. Dos Princípios Gerais da Atividade Econômica: Art. Capítulo I. Favorece-se uma empresa em detrimento de uma sociedade. Para contrapor essa forma de domínio. Há de se convir que as empresas. A única vantagem na legalização e na demonstração de gastos encontrase na transparência e na informação dada. conforme os ditames da justiça social. Embora seja legal o financiamento de candidatos pelas empresas. é difícil imaginar que eles não irão trabalhar apenas em função delas. Isso pode gerar a criação de leis que favoreçam apenas essas empresas. a soberania do país fica ameaçada pelos interesses dessas empresas cujos objetivos. Uma parte da política e da legislação acaba se transformando em favorecimento de empresas. alem dos econômicos. Menos mal. Da Ordem Econômica e Financeira. 170. independente de ser legal ou não. observados os seguintes princípios: caius_c 199 . sempre financiaram candidatos ás eleições. Título VII.

defesa do meio ambiente. III .função social da propriedade.defesa do consumidor.livre concorrência. Parágrafo único. II .I . orientada pelos ditames constitucionais de liberdade de iniciativa. Capítulo I .Da Finalidade: Art. VIII . no seu Título I .redução das desigualdades regionais e sociais. 8884. 1º Esta lei dispõe sobre a prevenção e a repressão às infrações contra a ordem econômica. V . A lei no. caius_c 200 . defesa dos consumidores e repressão ao abuso do poder econômico.soberania nacional. função social da propriedade. IX . inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação. IV . É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica. de 11 de junho de 1994.propriedade privada. salvo nos casos previstos em lei.tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País.Das Disposições Gerais. livre concorrência. VII .busca do pleno emprego. independentemente de autorização de órgãos públicos. VI . define os crimes contra a economia e estabelece responsabilidades.

a consciência do consumo de produtos de determinada empresa devem estar ligados à própria caius_c 201 . As empresas devem estar enquadradas dentro da lei e não lhes serem superiores. negando-lhes o domínio econômico sobre o mercado que atuam. uma forma pluralista de defesa contra os poderes econômicos que interferem na soberania. antes da lei. a empresa não existe. mais conhecido como Cade. A coletividade é a titular dos bens jurídicos protegidos por esta lei. Devemos notar bem esse parágrafo único que confere às empresas um cunho social e considera suas funções como bens jurídicos da comunidade. como órgãos competentes para regularem as relações que as empresas devem ter perante a sociedade. estabelece o Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Em uma sociedade determinada a fazer prevalecer sua soberania. Para que exista um produto é obrigatório que exista seu consumo. Cabe. onde os diversos setores da sociedade se obrigariam a conter os excessos ditados por essas empresas. No entanto. o produto não existe e. A lei sem aplicação efetiva é apenas uma nulidade. sem produto. Sem consumo. junto com a Secretária de Desenvolvimento Econômico. As leis são uma forma de manutenção da soberania ao evitar que grupos econômicos estabeleçam poderes alem daquilo que lhes são próprios. somente a lei não consegue conter os abusos econômicos nos quais o Estado perde parte de sua soberania. O Capítulo III.Parágrafo único.

Um cidadão que adquire algo dessas empresas contribuirá para que inexista uma vontade da empresa em submeter-se à soberania do povo e do Estado. a Moral e o Direito também são elementos componentes da soberania visto que elas fornecem padrões que vão alem da lei e que se constituem formas de pensamento e comportamento da sociedade. tudo se confundia: a Moral. Soberania. determinantes de sua composição e atuação. modificação nociva ou destruição do meio ambiente ou contrário àquilo que se entende como dentro da legalidade. dentro do conceito de qualidade do produto. Nas pequenas comunidades. Os povos de caius_c 202 . o produto torna-se nocivo à própria sociedade que o consome. a forma e as condições em que ele é produzido. Ética e Direito A Ética. A Moral surgiu antes do Direito. Podemos afirmar que um novo elemento deveria ser acrescentado aos produtos ou serviços que uma empresa oferece: a ética. deveriam ser excluídos do próprio mercado através de leis.ética da empresa. Uma empresa sem ética produz falta de ética. Moral. É certo supor que as pequenas tribos ou comunidades não precisassem de leis ordenadas visto que a pequena complexidade de suas relações não necessitasse nada alem daquilo que o costume ditava. o Direito e o Costume. Sem ela. Aqueles que são produzidos com condições de trabalho aviltantes. Essa ética deveria se compor.

Sendo animais sociais temos que ter parâmetros que regulem nossa convivência. a Moral não é repressora. Como exemplos típicos. Nesse instante. Nesse instante de seu nascimento. no entanto. Diria que nesse instante é uma maneira de ver formas de se caius_c 203 . A Moral é própria e cada um a tem como entende. A Moral é individual mas o Costume é coletivo. A Moral é o primeiro olhar crítico para essa convivência social onde o indivíduo julga a forma como deseja que sua parte que lhe cabe dentro daquela sociedade lhe seja dada. a Moral de cada um amalgama-se com a de outros e transforma-se no primeiro estágio da lei que é o Costume. podemos citar os povos da Amazônia e os Aborígines da Austrália. Pode-se dizer que o Direito passa a ter necessidade de existir no momento em que as relações sociais tornam-se complexas e onde a Moral e o Costume já não têm a mesma força coercitiva e coesiva. é apenas uma forma de situar-se dentro de um contexto social. para se chegar ao Costume é necessário que a de cada um molde-se junto com as de outros em uma única forma para que se transforme em algo de uso coletivo. onde prevalece a lei da Moral e do Costume.agora que têm poucos integrantes ainda não tem a necessidade de focarem-se no que costumamos chamar de Direito. A Moral por si só é egoísta visto que parte da premissa central do indivíduo. A Moral é um passo precioso para que o indivíduo integre-se na comunidade.

Quando a Moral inicial do indivíduo entra em choque com a Moral de outro. a coletividade evita transformá-lo para que a paz social não seja danificada. o mesmo pode ser utilizado até sua exaustão para evitar esse desmoronamento social. o Costume passa a exercer força sobre o próprio indivíduo. passa a existir um meio termo ou uma miscelânea de ambas de onde se origina o Costume. Solidificando-se. Esse processo ocorre nas pequenas comunidades onde todos se conhecem e cada um depende de outro para sua sobrevivência. nos estágios iniciais da civilização como a entendemos. Essa nova moral ao entrar em conflito com outras. passa a exigir um novo Costume. Sendo o Costume uma forma de coesão social porque antecipa ou resolve conflitos. A Moral Média da Coletividade passa a influenciar a própria moral de cada um.obter alguma vantagem ou nivelamento para si dentro do grupo social. Costume é a média coletiva da Moral dos indivíduos. caius_c 204 . Mesmo que o Costume passe a confrontar-se com uma nova Moral. Esse processo pode durar longos períodos em uma coletividade visto que o Costume arraiga-se na mesma. Sendo uma média é de supor que ela não atenda todos os requisitos da Moral Inicial e o indivíduo passe a mesclar a Moral Inicial com a Moral Média Coletiva e extrair dela uma nova Moral. Por analogia. podemos dizer que a Moral faz parte da nossa própria sobrevivência como espécie.

Quando a Moral do indivíduo passa a conflitar com a Moral Média da Coletividade e conseqüentemente com o Costume. Até esse momento. Pode-se dizer que a Informação hoje em dia é um grande transformador da sociedade visto que ela circula com mais rapidez e as comparações entre as relações sociais entre os povos são mais imediatas. o Costume ainda tem essa função. Essa ruptura pode advir de uma população maior. as forças coesivas caius_c 205 . O distanciamento dos indivíduos dentro de uma comunidade tem que produzir uma nova força que torne branda as relações sociais e onde os choques entre indivíduos possam ser solucionados através de regras.A partir do momento em que a comunidade começa a crescer e seus membros tornam-se mais distantes ou naquele momento em que a divisão do trabalho faz com que cada um passe a exercer funções diferentes de outros e onde necessite do produto do trabalho de outros. de uma ocorrência natural ou humana que provoque alterações sociais ou então da própria informação advinda de um mundo globalizado onde as interações sociais são rápidas. O Direito nasce de uma ruptura da ordem social. o Costume arraiga-se com mais firmeza e passa a ter uma maior força social coercitiva e coesiva. O Direito e o Costume de um povo são colocados em frente à de outro e isso conduz a pensamentos que podem gerar um novo conceito na Moral Inicial do indivíduo o que provoca o inevitável choque com a Moral Média Coletiva e a necessidade de alterações no Costume e no Direito.

De certa forma podemos dizer que Moral. o sentimento inicial de negação do Direito é contrabalançado com o sentimento de que seu uso parte de um elemento que todos julgam aptos a aplicá-lo o que supera a inconformidade do cidadão com relação a ele. encaixa-se a Ética que poderíamos classificar como um Costume Ordenado. A Ética é a transformação positiva da moral que atende as necessidades de determinado grupo.e coercitivas caem e começa a existir a necessidade de uma melhor forma para solução dos conflitos. Sendo média é de supor que não atenda todos os requisitos individuais e possa gerar sentimentos que conduzam à negação de sua importância. Entre a Moral e o Direito. Sendo um órgão que paira acima do cidadão. Essa melhor forma toma emprestadas as noções que a Moral e o Costume impõem e conjuga um novo quadro de relações e obrigações entre os indivíduos. O crescimento do Direito como forma reguladora das relações sociais tem relação direta com a caius_c 206 . Enquanto a Moral e o Costume são mais frágeis na sua aplicação. sua aplicabilidade é de responsabilidade do Estado. O Direito é a melhor média da aplicação dos reguladores das relações sociais. Costume e Direito estão ligados ao número de pessoas de uma comunidade e sua complexidade nas relações sociais. o Direito isenta-se da individualidade e firma-se como uma força coercitiva onde a visão pessoal deixa de ter a importância que tem na Moral e Costume. No entanto.

dentro de um Estado voltado às aspirações de seu povo. é dever do Estado antecipar um resultado e fazer com que a sociedade se conduza para a realização dele. as leis podem parecer ao cidadão apenas elementos de controle ou de impedimento para uma boa convivência social. Na outra forma. Embora o cidadão não sinta a necessidade de cuidar dessa área. caius_c 207 . as leis são vistas pelo cidadão como realmente elas deveriam ser. Existindo descrença. Alem de seu poder regulador. Nesse caso. podemos citar as normas reguladoras do meio ambiente. O Direito na sua forma de Justiça somente existe nessa situação. o cidadão volta-se para o Costume ou a Moral onde as relações são mais brandas e de comum acordo. ou seja. Uma norma que atenda às necessidades de um ideal gera comportamentos voltados para esse ideal e conduz o cidadão e a Nação a ele. o Direito transforma o cidadão em um refém do Estado. apenas. O Direito. Quando o Estado é forte e voltado para as aspirações sociais. Como exemplo. Um Estado desvinculado das aspirações coletivas é um estado fraco ou tirânico. gerando descrença em relação às leis que ele aplica.credibilidade do Estado. apenas formas reguladoras da sociedade. é a forma mais concreta e prática dos elementos reguladores e transformadores da sociedade. o Direito ainda pode ser visto como um elemento transformador da sociedade.

210 Existem quatro etapas do controle do Estado por grupos de narcotraficantes: 211 a) A primeira é quando os traficantes demonstram seu poder através da capacidade de gerar pânico. Em São Paulo destaca-se o PCC (Primeiro Comando da Capital) e sua onda de atentados em 2006. caius_c 208 . que transpõe barreiras nacionais e pode até estender-se aos governos dos povos ou. onde as quadrilhas tomam tal vulto que chegam a estender seus poderes junto à população. O Rio de Janeiro também é um exemplo de poderes paralelos ao governo. que poderia caminhar junto ou não com a primeira. sendo que um deles é o que se convenciona chamar de crime organizado. seria a capacidade dos traficantes de corromper autoridades e não apenas policiais ou seguranças das prisões. mesmo que seja por algumas horas b) A segunda etapa. competir com eles na administração de um país como é o caso da Colômbia e das FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) ou do Cartel de Medellín que teve seu apogeu com Pablo Escobar. que mostrou a fragilidade do governo de então. terror e deixar as autoridades sem ação.Soberania e poderes paralelos Existem alguns poderes paralelos que podem afetar a soberania de um povo. então. onde um de seus maiores exemplos é o narcotráfico.

d) A quarta etapa seria a dúvida da sociedade em relação ao Estado e sua capacidade de resolver o problema. em La Paz. Se à primeira vista parece apenas um problema policial. visando combater a pobreza existente na região de Yungas. tentam assumir o controle dessa modalidade de crime. Nesse caso existe um contra-senso porque o destino final desse cultivo é invariavelmente a produção de cocaína e seu uso como droga. quando o presidente Evo Morales. aumentou de 12 para 15 mil de hectares a superfície do cultivo legal de coca. a soberania se enfraquece na mesma proporção dessa incapacidade. existindo incapacidade do Estado em gerenciar as atividades de seu território e incapacidade em reprimir ações que agridem a sociedade como um todo. Alguns países como a Bolívia. Ao mesmo tempo em que o Estado procura manter sua soberania ao anunciar o controle sobre a caius_c 209 . dando a ele uma forma legal como a anunciada em 22 de setembro de 2006. Se o Estado não se torna capaz de jurisdicionar seu território de acordo com as suas propostas. ele deixa de ser soberano e passa a ser apenas um mau administrador. uma análise mais detalhada revela que.c) A terceira etapa seria a divisão da sociedade em relação à forma de combate a esses grupos.

Podemos citar. ele aumenta a força do narcotráfico. ao lhe dar condições legais de cultivo. o terrorismo como um poder paralelo. deriva da guerra de caius_c 210 . Alguns elementos que julgamos indignos em nossa sociedade como o consumo de drogas em todas as suas formas. com certeza. e a prostituição. o Estado passa a ser mais eficiente. também. o que asseguraria uma nova forma de paz social. fere suscetibilidades em muitos setores da sociedade que acreditam que o Estado deva combater esse tipo de coisa. milenarmente. podendo obter para si recursos oriundos da produção e comércio dos mesmos. como impostos.produção de narcóticos. Em muitos aspectos de nossa sociedade. é necessário que o Estado acabe com sua própria hipocrisia. derivam da própria condição humana e. Provavelmente. nas quais se incluem o álcool e o tabaco. os poderes paralelos diminuiriam e a soberania do Estado seria mais acentuada. No entanto. ao assumir o controle. existiu em todas as sociedades. o Estado retira o poder dos narcotraficantes e os enquadram dentro da lei. seu controle deveria ser feito pelo Estado. O controle oficial dos usuários daria a eles um tratamento mais digno á sua condição de doentes. Isso. Uma forma do Estado manter sua soberania é tomar para si todo o controle da produção e do uso de narcóticos. Enquadrando-os dentro da lei. A partir do momento em que Estado determinasse a legalidade nas formas da lei. Sendo parte da sociedade.

os distúrbios provocados pelos moradores dos bairros carentes. no início da Guerra da Independência. Sua função atualmente é demonstrar a incapacidade dos governos e lhes tirar o domínio sobre seu território através do descrédito que suas ações conferem aos mesmos. como um poder paralelo ao Estado quando se conseguem organizar ou quando provocam distúrbios na sociedade. A França e a Iugoslávia. o Estado começa a se inviabilizar como tal. onde um grupo menor tenta obter vantagens através do uso de táticas de surpresas e não confrontação direta. Muitos países conseguiram sua independência através do uso da guerrilha como Israel e Estados Unidos. principalmente em Clichy-sous-Bois. em suas várias formas. Na Guerra do Vietnã. o que lhes confere absoluta ilegalidade e repulsa. Cuba talvez seja o exemplo mais clássico da derrubada de um governo por guerrilheiros e Che Guevara tornou-se símbolo da luta armada de pequenos grupos contra governos totalitários. o terrorismo assumiu uma nova forma. conseguiram ajudar as forças de libertação no que se convencionou chamar de Resistência. em 2006. Na França. Podemos considerar os excluídos. onde o desemprego tem taxas de 40%.guerrilhas. predominantemente urbana e ligada a alvos civis. ao deixar de tê-la. Como a soberania é um sentimento que confere poderes práticos ao Estado. durante a II Guerra Mundial. na maioria muçulmanos e netos de imigrantes vindos do norte da África. quando a caius_c 211 . grande parte da vitória conseguida contra os Estados Unidos foi através da Guerra de Resistência ou Guerrilha. No entanto.

Essa desatenção com o cidadão e suas necessidades. e a caius_c 212 . sem perspectiva de um futuro. Esses movimentos. com as ruas de seus bairros povoadas de desempregados. na desatenção. No Brasil. PCC. embora tenham base na discriminação. Sem terem nenhuma representação na Assembléia Nacional. sua reação contra ele se faz e o Estado passa a debater-se em uma luta interna que não deveria existir se existisse atenção por parte. suas alternativas se tornam muito poucas. ou outras formas de como se sentem atingidos. provoca o surgimento de movimentos imbuídos de algum ideal e que congrega uma parcela da população identificada com esses movimentos. Considerando-se como deserdados da atenção do Estado. os movimentos agigantam-se e podem gerar tal antagonismo contra o Estado que passam a se valer de meios não lícitos para se firmarem ou para obterem aquilo que desejam. produzem um poder paralelo ao próprio Estado e podem acabar em puro banditismo. Desses movimentos surgem lideranças que usam a confrontação com o Estado como forma de obter aquilo que propuseram como suas necessidades.média nacional é de 10%. às vezes na ilegalidade da atuação do Estado. pequenos criminosos e traficantes. a desatenção no que se refere à Reforma Agrária e a vagarosidade com que a conduz propicia movimentos como o MST (Movimento dos SemTerra). são exemplos típicos do que a discriminação pode provocar em termos de confrontação entre cidadão e Estado. Muitas organizações criminosas. Partindo de uma necessidade ou ideal. como a Máfia.

surgiram a partir das necessidades não atendidas pelo Estado ou na discriminação deste com relação a determinadas partes da população. A inserção de alguns de seus membros ou simpatizantes na estrutura do Estado lhes confere poderes que o próprio Estado não tem. O Estado deveria se ver sempre como solução e nunca como causador de problemas. Nesses casos ocorre um fenômeno estranho pois o Estado se alia à criminalidade e lhe confere proteção quando não lhe dá maiores vantagens.Yakuza. Suas prerrogativas de pacificação social deveriam ir alem do fato acontecido ou acontecendo e estabelecer suas bases antes que elas lhe sejam exigidas de forma contestatória à sua legitimidade. caius_c 213 . visto que o Estado pode esperar mas o cidadão não pode. Algumas dessas organizações ainda têm o agravante de usarem o próprio Estado como forma de se manterem. Um Estado que tenha uma boa solução mas que demore em apresentá-la de forma concreta no tempo adequado. é ele quem determina ou não sua legalidade. transforma a solução em um problema. Um Estado que queira manter sua soberania através da paz interna precisa constantemente avaliar as necessidades dos cidadãos e procurar atendê-las na forma mais adequada e no tempo mais correto. Sendo o cidadão detentor da soberania que legitima o Estado.

Sendo a soberania um conjunto que existe somente através de um vínculo entre cidadão e Estado. ou seja. o Estado nunca pode desacreditar do cidadão. caius_c 214 . Em uma democracia. quando não se organiza de forma a mudar sua estrutura. torna-os conflitantes e confrontantes. Às vezes. O esfacelamento da União Soviética e sua entrada no capitalismo também é exemplo do não atendimento das necessidades do cidadão pelo Estado. Quando o cidadão se desacredita do Estado. devido a esse confronto. A Revolução Francesa. Não tendo um Estado que satisfaça suas necessidades. na sua forma. ela de deteriora ou desaparece quando um dos dois ou ambos não a reafirmam ou não a determinam constantemente.O próprio Estado se nega a soberania quando não atende as necessidades dos cidadãos ou não os capacita para que eles atendam por si próprios suas necessidades. Esse descrédito do cidadão em relação ao Estado. a Revolução Cubana e a Revolução Russa são exemplos claros de que uma forma de governo pode ser mudada por causa da insatisfação do cidadão em relação ao tratamento que o Estado lhe dispensa. o inverso nunca pode ocorrer. o cidadão passa a valer de todas as maneiras possíveis para ludibriá-lo. a própria existência do Estado se torna ameaçada. ele passa. pela própria natureza humana a acreditar em outras coisas que nem sempre são as mais adequadas para o conjunto Estado-cidadão.

são mais eficazes e caius_c 215 . conseguindo uma adesão quase que total da população para a mudança a que se propõe. essas mudanças de formas de governo oriundas da insatisfação popular sempre tem um ponto em comum: o uso dela em função de alguma ideologia. Geralmente.Embora raras. geralmente sem avaliar os riscos que isso conduz. Geralmente. as revoluções paulatinas. Essa oposição total é a forma de tentar se desvincular totalmente da situação com a promessa de outra completamente diferente. onde se abandona aquilo que não presta para aquilo que nos convém. Uma ruptura da forma de governo é a negação do que existia antes e dada como totalmente inválida para o cidadão e a validação de que o novo será sempre melhor do que o antigo simplesmente pelo fato de ser algo a ser experimentado. colocando uma mudança radical como forma de superação dos problemas existentes. os problemas advindos de uma revolução total são superados mais pela esperança de uma melhor vida do que pela própria revolução em si. Geralmente essa ideologia é oposta à forma daquela que compõe o Estado naquele momento. Determinado grupo canaliza essa insatisfação para determinados ideais. Toda revolução é boa e a promessa de uma nova vida também mas uma mudança radical sempre gera problemas que não existiam antes ou se pode esquecer de que algumas formas de sustentação social podem ainda ser válidas mesmo em frente a uma nova situação. O totalmente diferente é a maneira que se acredita como solução e isso conduz à transformação da forma do Estado em outra.

dizem. O mais comum nessas situações é que o Estado se feche e se transforme em uma comunidade isolada das influências de outros países.500 exilados cubanos organizados e armados pela CIA47 e. para ser bom. O que mais assusta outros países com essas rupturas bruscas de forma de governo é a possibilidade 47 Agência de Inteligência Americana caius_c 216 .produtivas pois não criam vácuos entre o Estado e o cidadão mas apenas complementam o seu indissolúvel binômio pois promove adaptações mais facilmente absorvidas do que aquelas detonadas por uma ruptura brusca da forma de governo. Normalmente é um período tenso pois a comunidade internacional ainda não tem os parâmetros pelos quais o país irá se reger e nem sabe como será o relacionamento com essa nova forma de governo. apoiados pela Máfia. como ocorreu na madrugada de 17 de abril de 1961. na tentativa de derrubar o governo de Fidel Castro. Esse período é necessário para a soberania se reafirme nos moldes da nova forma de governo. desembarcaram na Baía dos Porcos. em Cuba. precisa se basear no velho e nem tudo que é velho é ruim. O novo. Esse período pode ser confundido como um desgoverno e pode propiciar tentativas de derrubar essa nova forma de governo através de sanções econômicas ou pela pura e simples invasão militar. As bruscas mudanças de forma de governo provocam um período em que o Estado encontra-se desorganizado e sujeito a possíveis ameaças à sua soberania. quando 1. recém-implantado.

mesmo que sejam totalitárias. Por que a comunidade internacional ratifica algumas rupturas de governo enquanto que em outras ela parte para uma retaliação militar ou econômica? A resposta. e. foram de caráter totalitário como as ocorridas na década de 70 na Argentina e Brasil. são as que a comunidade europeuamericana trata como bem vindas. com a instalação de governos militares. os países se definiam como democráticos ou comunistas. a princípio. está na ideologia com a qual a nova forma de governo se identifica. Até o esfacelamento da União Soviética. Aqueles que fecham sua economia ou tentam se tornar independentes economicamente são os que sofrerão retaliações.de que essa nova forma de governo não esteja em sintonia com aquilo que a comunidade internacional julgue boa para si. a aceitação ou não da nova forma de governo está vinculada à atuação de sua economia em relação a outros países. Novas formas de governo que se dizem democráticas. principalmente na América Latina e África. Nisso existe um contra-senso pois muitas dessas mudanças que aconteceram. caius_c 217 . No entanto. elas foram saudadas pela comunidade internacional europeu-americana como adequadas. no entanto. independente de serem totalitários ou não. Isso definia o critério de aceitação da nova forma de governo pelos pólos opostos liderados pela Rússia e pelos Estados Unidos.

Onde existem possibilidades de mudanças de uma classe para a outra através do esforço próprio do cidadão existe a esperança de mudanças de seu padrão de vida. Sociedades onde existe uma pequena parcela rica e a imensa maioria pobre ou com graduações acentuadas entre uma classe e outra. Nos estados totalitários geralmente existem apenas duas classes: a dos governantes e governados. essa discrepância leva ao isolamento de parcelas da sociedade do seu próprio governo. o Estado deixa de atender um requisito básico para sua existência e não pode ser considerado como tal. onde existissem muitas outras entre a pobreza e a riqueza pois isso daria a população uma maior mobilidade social. são os que têm aceitação imediata. Onde existe apenas duas classes: pobres e ricos existe naturalmente uma confrontação entre elas. Essa distância econômica e social gera acomodação ou ódio. eximindo-se das suas responsabilidades face à maioria da população. O próprio governo se dificulta em função do atendimento insuficiente necessário àqueles que pouco possuem quando não os ignoram totalmente.Aqueles que cuja nova forma de governo é apenas uma troca de oligarquias governantes e que não tem qualquer pretensão de liberação econômica. As grandes distâncias entre as classes sociais geram problemas. Nos caius_c 218 . visto que rege apenas a riqueza. não se confraternizam. Não existindo essa interação. O ideal seria a pulverização dos tipos de classe dentro da sociedade. Por si só.

Não existe soberania sem capital. comida e abrigo. Alguns povos ainda vivem em estado quase natural e outros estão em tal estado de pobreza que seria ridículo tentar dar a eles tecnologia se lhes faltam água. Podemos dizer que essa camada tecnológica divide-se de duas formas: a primeira no relacionamento entre países e a segunda com a formação de classes dominantes dentro do próprio país. Sem uma caius_c 219 . Uma forma de dominação de classes pôde ser vista na Arábia Saudita onde o uso das antenas parabólicas foi proibido após a Guerra do Golfo.Estados claramente democráticos. Aliás. Essa camada domina as demais que não tem essa possibilidade. essas se completam através da existência de inúmeras classes econômicas e sociais intermediárias. Hoje existe aquilo que se chama de excluídos eletrônicos. Esses foram proibidos de recebê-las ou mantê-las em sua posse. Soberania e tecnologia A tecnologia não está presente em todos os lugares. e esse deve estar distribuído da melhor forma para a população. Esses ainda se encontram no mesmo estado que nossos ancestrais que moravam em cavernas com o agravante de saberem que outros povos vivem em melhor situação do que eles. uma das grandes preocupações dos dominantes sauditas eram as revistas levadas pelos soldados americanos ao seu país. Existe uma camada mundial da população que se encontra em estado privilegiado devido as prerrogativas reais de uso de tecnologia.

Comum é a invasão de outros países com pretextos estranhos quando se sabe que o mesmo não dispõe de poderio militar para uma defesa eficaz. Paquistão. França. No entanto podemos salientar que a tecnologia por si só não garante domínio militar. deu aos Estados Unidos a primazia militar sobre outros povos. Outros países como a Rússia. Inglaterra. Embora o centro de fabricação e pesquisas esteja disseminado em outras partes do planeta. Israel e outros conseguiram domínio sobre essa tecnologia e também produziram esse tipo de arma. Índia. Exemplos clássicos são o Vietnã. Um ponto a mais para o espírito humano. o Afeganistão e o Iraque onde a resistência humana suplantou o domínio pela tecnologia. Atualmente somos reféns dos países que detém tecnologia nuclear. como os chamados tigres asiáticos. Países como Estados Unidos usam e abusam do poder da tecnologia para manterem sua dominação em face ao resto do mundo. A quantidade existente de armas nucleares poderia destruir o planeta diversas vezes. É inegável que qualquer um deles as usará em caso de invasão. Se imaginarmos um conflito entre árabes e israelenses onde esses últimos estejam sendo invadidos e a ponto caius_c 220 . Desenvolvida e usada como arma nuclear durante a Segunda Guerra Mundial. a manutenção de poderio militar com base em uma tecnologia pelos Estados Unidos gera um domínio sobre os demais.integração com outras culturas fica mais fácil um governo manter seu poder através dos valores de uma cultura que não se pode questionar.

Os países pobres que não dispõe de recursos tecnológicos cada dia se vêem mais endividados por causa desse desnível tecnológico. a 400 quilômetros do litoral. Exemplo clássico é o de Delmiro Gouveia.de perder a guerra. o impedimento de uso de tecnologia por alguns povos é descaradamente aberto. no extremo oeste de Alagoas. O empreendimento organizado pelo cearense Delmiro Gouveia. para a construção da primeira hidrelétrica brasileira. com certeza haverá uso dessas armas para evitar uma derrota ou para destruir o inimigo conjuntamente. imagine uma com o uso de armas nucleares. Em 1909 ou 1910. Se a guerra por si só já afeta outros povos que não fazem parte dela. Seria uma catástrofe total. no Brasil. Pior que a dominação militar produzida pela tecnologia é a dominação econômica ditada pela própria tecnologia. que compreendia em explorar a cachoeira de Paulo Afonso para gerar energia elétrica caius_c 221 . município de Água Branca. Algumas vezes. Países com alto nível de tecnologia conseguem produzir bens a um preço mais baixo e de forma mais rápida. A questão no caso dessas armas é que seus efeitos não se limitam ao local de ação pois nuvens radioativas se espalharão sobre outras partes do planeta e povos que nada teriam a ver com esse conflito sofrerão os efeitos desse uso. Delmiro reuniu especialistas de diversas áreas no distrito de Pedras. Isso obviamente gera um desequilíbrio em balanças comerciais em países que precisam importar esses produtos.

Em 1929 a Machine Cotton comprou as Linhas Estrela e em 1930 providenciou para que todo equipamento da empresa fosse desmontado e jogado na cachoeira de Paulo Afonso. a Machine Cotton dava aos comerciantes um bônus semestral no valor de 5% das vendas totais. Depois de sua morte. A Machine Cotton propôs a compra total ou parcial da empresa de Delmiro Gouveia e foi recusada. Delmiro Gouveia foi assassinado em circunstâncias nunca esclarecidas. que era a marca das linhas produzidas por Delmiro Gouveia. A Machine Cotton. Alem de uma comissão. Como o projeto não foi aprovado. Depois de forçar sua desvalorização. A Machine Cotton passou a retirar esse bônus dos brasileiros que compravam as linhas Estrelas clandestinamente. visto que eles detinham o quase monopólio de exportação de produtos têxteis para o Brasil. Dois anos depois a lei foi revogada. de São Paulo. os comerciantes passaram a ser chantageados para não venderem as linhas da marca Estrela. Apesar de ter caius_c 222 . Em 1917. o que forçou o produto brasileiro a ter seus rótulos trocados. a Machine Cotton comprou as ações das Linhas Estrela.para abastecer o Recife. O empreendimento passou a conflitar com os interesses dos ingleses. que se tornou sua subsidiária. inglesa. a construção da hidrelétrica teve início apenas para abastecer uma fábrica de linhas. registrou no Chile e Argentina a marca Estrela. Em 1926 foi aprovada uma lei que defendia o produto nacional quintuplicando o valor da taxa de importação sobre linhas de coser. O que definiu a falência das Linhas Estrelas foi o dumping praticado pela Machine Cotton que passou a vender seu produto pela metade do preço que alcançavam na Inglaterra.

que vive em conflito com as comunidades internacionais. Desenvolver tecnologia é um processo caro e ter acesso a uma tecnologia tira o poder de quem a desenvolveu. devido à estatização das instalações da Petrobras na Bolívia. De certa forma podemos fazer uma comparação entre Delmiro Gouveia e o atual programa nuclear brasileiro. fato esse impedido pela própria Constituição Brasileira. parece bem atual. mesmo aqueles que julgamos mais fracos economicamente. procurando reduzir a dependência causada pela crise do gás em 2006. Essa crise foi superada através de um acordo entre a Petrobras e a Bolívia em outubro do mesmo ano mas deixou marcas no que concerne à dependência do Brasil em relação aos outros países.ocorrido à quase um século. caius_c 223 . que gerou uma crise na produção de energia elétrica através das usinas termoelétricas que utilizam o gás como combustível. Esse acesso total permitiria o conhecimento de toda a tecnologia brasileira para construção de usinas atômicas. A Agência Internacional de Energia Atômica tentou repetidas vezes ter acesso total às dependências da fábrica de Resende. alegando uma necessidade de controle sobre o urânio enriquecido para evitar seu desvio para fabricação de armas nucleares. embora as táticas contemporâneas sejam mais discretas e mais eficazes. O programa nuclear brasileiro prevê a construção de mais sete usinas nucleares até 2025.

depois a usamos para nos defendermos de outras tribos. reafirma a soberania do país em todos os campos. estará restrita ao domínio da tecnologia. econômica ou cultural. Importando produtos. Muito provavelmente. em todas as áreas. seus danos ambientais são maiores do que essas últimas. Não se trata de estar dentro do chamado “clube atômico”. caius_c 224 . provavelmente. Usada para dominação de diferentes formas. Aqueles que não a possuem viverão como sempre viveram ou serão obrigados a importar produtos que não conseguem produzir. Em nosso estado primitivo a usamos para nos defender de outros animais. no curto prazo. na realidade. sua balança comercial terá déficits o que pode ser traduzido como dependência econômica e conseqüente perda de soberania. existirá uma bipolaridade entre os países: os que possuem alta tecnologia e os que não a possuem. depois para a dominação militar e agora a usamos para todas as formas de dominação seja militar. a tecnologia parece estar fadada a mau uso. A multipolaridade econômica que se acredita viver com a formação de blocos econômicos. mas sim de desenvolver e usar uma energia que se mostra necessária no mundo inteiro.Atualmente. as hidrelétricas são mais caras que as usinas atômicas e. O domínio das diferentes tecnologias.

enfatizava essa necessidade ao ser mostrado como um ser sem vontade criado pelas más condições sanitárias em que vivia. o Estado precisa cuidar para que as necessidades básicas da saúde sejam atendidas e satisfeitas. A saúde da população está diretamente ligada à sua produtividade. ele está assim”. afirma ele. Um cidadão saudável produz melhor e muito mais do que um cidadão não saudável. O Direito somente existe se não contraria as aspirações e necessidades de um povo. a afirmação está clara no que caius_c 225 . o então ministro da saúde José Serra.Soberania e saúde Em 22 de agosto de 2001. “Jeca Tatu não é assim. Essa medida possibilitou o surgimento de outras quebras de patente. À primeira vista parece uma agressão às pesquisas desenvolvidas pelas empresas e seus direitos de patente. Sendo retrato de uma população de sua época. Sendo assim. No entanto. Contrariando essas aspirações e necessidades. Trata-se da democratização de uma tecnologia que ficava apenas nas mãos de algumas empresas sendo que a necessidade de seu uso por outras é devida à própria natureza do produto. anunciou a quebra de patente do remédio Nelfivanir que fazia parte de um coquetel antiaids. o Direito deixa de ser o próprio e passa a ser apenas um estorvo e sendo estorvo deve ser encarado como tal. criado por Monteiro Lobato. O personagem Jeca Tatu212. trata-se de um exercício de soberania ao afirmar que a saúde dos cidadãos deve ser distribuída não em função de suas rendas mas sim de suas necessidades.

É competência comum da União. a proteção à maternidade e à infância. Sendo um direito social e de competência comum. o seu direito supera o direito das empresas. a segurança. No Capítulo II. o trabalho. no art. a moradia. dos Direitos Sociais.cuidar da saúde e assistência pública. a Constituição dá as competências na área da saúde: Art. a assistência aos desamparados. Art. confere como direito a saúde no seu artigo 6º. da União. 6o São direitos sociais a educação. Não existindo uma compreensão dessas caius_c 226 . do Distrito Federal e dos Municípios: II . a previdência social. da proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência. a saúde. Sendo a saúde uma prioridade do cidadão.concerne ao seu estado. na forma desta Constituição. 23. mesmo que isso contrarie algumas proteções dadas a produtos farmacêuticos oriundos de outros países mas cuja necessidade seja maior do que a prevalência dos direitos da empresa sobre eles. o Estado deve zelar para que a saúde seja uma forma de manutenção e aquisição de sua soberania. dos Estados. o lazer. 23º. visto que não é irreversível mas sim totalmente solucionável. no seu Capitulo II. A própria Constituição de 1988..

Conforme publicado no site www. em 19 de outubro de 2006. também. diz o texto. economia e tudo o que afeta a vida dos cidadãos e do Estado. Satélites significam informação e informação é o elemento essencial que define e definirá o estabelecimento da soberania de cada país. uma forma ainda restrita mas que futuramente será de grande importância na definição de soberania: satélites e conquista do espaço. 13:35 18/10: ”As provisões fazem parte da primeira revisão da política espacial americana em quase dez anos. A nova política foi assinada por Bush há mais de um mês. o Estado deve fazer prevalecer sua soberania. partes desclassificadas da decisão foram publicadas na página da Agência de Políticas Científica e Tecnológica na internet. os Estados Unidos precisam dispor de caius_c 227 . mas a notícia veio à tona recentemente em reportagem publicada pelo Washington Post.com. Agência Estado. "A liberdade de ação no espaço é importante para os Estados Unidos como potência aérea e marítima". seu uso e o poder de gerenciá-la definirá o próprio Estado e sua soberania. Informação significa tecnologia.br. descoberta e prosperidade econômica e de reforçar a segurança nacional. Afetando a vida e forma. "Com o objetivo de proporcionar conhecimento. Apesar de não ter sido anunciada ao público.empresas com relação à facilitação do uso desses medicamentos pela população. Soberania e o espaço Como poder paralelo podemos citar.ig.

defendeu a nova política.capacidades especiais robustas. da Constituição Federal de 1988. os EUA reivindicam direito à autodefesa e à proteção de seus interesses e bens no espaço. capacidades e liberdade de ação no espaço. 20. alegando que os desafios e as ameaças aos EUA mudaram ao longo da última década e que a política espacial estava desatualizada. afirma o texto. porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos. dissuadir ou impedir outros países de interferir nesses direitos ou de desenvolver a capacidade de fazê-lo. e negar. A Casa Branca esclareceu que a nova política determinada por Bush em nenhum momento fala sobre o desenvolvimento ou envio de armas para uso no espaço sideral. A nova política defende que os EUA tenham direito de trânsito sem interferência pelo espaço e afirma que Washington considerará qualquer interferência deliberada como um "desrespeito a seus direitos". "Em conformidade com essa política. adotar as medidas necessárias para proteger sua capacidade espacial. da União. funcionais e eficazes". os Estados Unidos irão: preservar seus direitos. No Capitulo II. se necessário.” Esse pensamento sintetiza a importância que o espaço tem para a manutenção da soberania. Segundo o governo americano. os bens definidos pela União não explicitam o espaço como algo seu e as leis internacionais que regem o assunto são claras ao estabelecer que o caius_c 228 . Frederick Jones. responder a interferências. prossegue Bush na ordem. que adversários façam uso de capacidades especiais hostis aos interesses nacionais dos Estados Unidos". art.

visando conquistar e manter os Objetivos Nacionais”. inciso XXVIII. onde se define que: "Poder Aeroespacial é a capacidade resultante da integração dos recursos de que dispõe a nação para a utilização do espaço aéreo e do espaço exterior.espaço não pode constituir território de nenhum país. confere competência ao Comando da Aeronáutica para pesquisa e desenvolvimento aeroespacial Art. 32. 32 . quer como instrumento de ação política e militar. no seu art. IX . 48 O Decreto 3080 de 10 de junho de 1999. de no seu Capítulo II. Na Constituição de 1988. artigo 22. 48 Escola Superior de Guerra caius_c 229 . através do decreto 3080.estimular a indústria aeroespacial. estabelece-se a competência privativa da União sobre legislação aeroespacial.Compete ao Comando da Aeronáutica VII . quer como fator de desenvolvimento econômico e social.incentivar e realizar atividades de pesquisas e desenvolvimento relacionadas com as atividades aeroespaciais. Esta essa competência é atribuída ao Comando da Aeronáutica.

visto que é praticamente impossível viver sem seu uso. sem definições claras quanto ao uso da informática. com base no interesse de cada país? Quem dominar o espaço. afinal? O Espaço é de quem o conquista ou pode ser dividido como a Antártida o foi. demonstrando a preocupação do Estado em oferecer uma base de informática para o cidadão em geral. Soberania e informática Um Estado. ao disseminar seu uso e fazer com que ele seja natural na sociedade. Embora essa preocupação seja de âmbito mais profissional e social. que as podem usar contra o próprio país? A criação de estações espaciais não expande a soberania dos países ao próprio espaço? O seu uso se restringirá somente para fins científicos e pacíficos? As estações espaciais não são o primeiro passo para uma conquista do próprio espaço? O espaço é de quem. dentro dessa base. não poderá ser soberano sem uma base tecnológica e. 522. dominará o planeta? Deixo as questões em aberto para que se pense sobre elas a respeito de sua influência sobre os direitos de soberania de um Estado. criou o Programa Nacional de Informática na Educação. A Portaria MEC n.Pergunte-se: um satélite militar em órbita não é uma ameaça à soberania de um país? Um satélite que colhe informações sobre um país e não as transmite para ele próprio. de 09 de abril de 1997. ela confere condições caius_c 230 . atualmente. não dá informações privilegiadas para outros.

a lei 11871. ela garante. observado o disposto nesta Lei. na ausência desta. Em contraposição. desde que o país de origem do programa conceda.maiores para o Estado exercer sua soberania sobre esse ponto. do Rio Grande do Sul. no seu artigo 2º. sua comercialização no país. 2º O regime de proteção à propriedade intelectual de programa de computador é o conferido às obras literárias pela legislação de direitos autorais e conexos vigentes no País. da sua criação. aos brasileiros e estrangeiros domiciliados no Brasil. de 19 de fevereiro de 1998. e parágrafo 2º. direitos equivalentes. expressa a preocupação na utilização de softwares livres de restrição: caius_c 231 . § 2º Fica assegurada a tutela dos direitos relativos a programa de computador pelo prazo de cinqüenta anos. A proteção dos direitos do autor: Art. § 4º Os direitos atribuídos por esta Lei ficam assegurados aos estrangeiros domiciliados no exterior. de 19 de dezembro de 2002. e dá outras providências. No seu capítulo II. A lei 9609. dispõe sobre a proteção da propriedade intelectual de programa de computador. contados a partir de 1º de janeiro do ano subseqüente ao da sua publicação ou.

utilização ou alteração de suas características originais.Art.sejam específicas para determinado produto impossibilitando que programas derivados deste tenham caius_c 232 . II . alteração e distribuição. expressamente. indireta.Não poderão ser utilizados programas cujas licenças: I . Art. livres de restrições proprietárias quanto a sua cessão. § 1º . assegurando ao usuário acesso irrestrito e sem custos adicionais ao seu código fonte. autárquica e fundacional do Estado do Rio Grande do Sul. 1º .A administração pública direta. distribuição. permitindo a alteração parcial ou total do programa para seu aperfeiçoamento ou adequação.As licenças de programas abertos a serem utilizados pelo Estado deverão.impliquem em qualquer forma de discriminação a pessoas ou grupos. assim como a livre distribuição destes nos mesmos termos da licença do programa original. Parágrafo único . 2º . permitir modificações e trabalhos derivados. assim como os órgãos autônomos e empresas sob o controle do Estado utilizarão preferencialmente em seus sistemas e equipamentos de informática programas abertos.Entende-se por programa aberto aquele cuja licença de propriedade industrial ou intelectual não restrinja sob nenhum aspecto a sua cessão.

a mesma garantia de utilização, alteração e distribuição; e III - restrinjam outros programas distribuídos conjuntamente. A informática se baseia em dois elementos: equipamento e programa. Sem este último, o equipamento é inútil. A preocupação do governo do Rio Grande do Sul é afirmar sua independência em relação às empresas elaboradoras de programas, principalmente os operacionais como o Windows. Algumas empresas gigantes do setor procuram se tornar mais gigantes. A IBM comprou a Palisades Technology Partners, para incluir na sua linha de produtos softwares usados por credores hipotecários – empresas especializadas em financiamento imobiliário. A lista de clientes da Palisades inclui as dez maiores empresas do setor.213 Outras como a Microsoft detém grande parte do mercado dos programas operacionais, mesmo que sofram a concorrência de programas abertos como o Linux. A criação do próprio Linux é uma tentativa de dar, às pessoas em geral e ao Estado, liberdade no que se refere às necessidades do uso de sistemas operacionais. Tendo a liberdade de escolha, teremos soberania. O uso da rede mundial de computadores está transformando as sociedades e as formas como elas se conduzem. Alem de um instrumento, a informática é um elemento modificador de comportamentos devido a

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gama de informações instantâneas que ela contém e às facilidades que ela traz às pessoas. Em 23 de novembro de 2001, trinta países assinaram a Convenção de Budapeste, cujo objetivo é o de combater a criminalidade na Internet. O acordo se tornou um pouco controvertido devido à possibilidade de uma eventual utilização abusiva de dados pessoais. Esse acordo foi um dos passos para regular as atividades da Internet e seu controle pelos países signatários, através da filtragem de conteúdo, e criação de legislação específica para combater esses crimes que alguns denominam como cibercrimes. Essas duas preocupações, a de conter o cibercrime e a independência com relação aos produtores de programas operacionais ou de sistemas, mostram claramente que o uso da informática extrapola os limites territoriais dos países e afetam sua soberania através do uso virtual das comunicações, ao mesmo tempo em que insere seu uso como forma de soberania de Estado. Soberania e nacionalismo O nacionalismo nasceu da identificação de um povo em relação a outro. Sua origem remonta à Grécia Clássica, onde as cidades-estado impunham a si própria uma identificação. Seria a imposição de uma personalidade estatal em face à outra.

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Depois da queda do Império Romano, começou o processo de formação de países e isso gerou uma nova onda de nacionalismo como forma demonstrativa da soberania exercida por determinado povo sobre determinada região. Durante os séculos XVII e XVIII, ocorreu uma redefinição de fronteiras na Europa e a acentuação do conceito de nacionalismo. No século XIX e XX, o nacionalismo extremou-se a tal ponto que justificou a pretensão colonizadora de muitos países e algumas guerras como a Segunda em que a Alemanha procurou manter sobre seu domínio o que ela chamava de “espaço vital” , ou seja, as regiões da Europa que continham os produtos, minerais ou qualquer outra coisa que julgasse necessária para sua manutenção. O curioso nessa época é que Alemanha, Itália e Japão “fatiaram” o mundo de acordo com suas pretensões hegemônicas e a base para justificá-la foi o nacionalismo, onde as qualidades auto-atribuídas de seus povos eram superiores às de qualquer outro povo o que justificava a partilha em função de suas necessidades como nações. Durante a Guerra Fria, o nacionalismo fundiu-se e formou dois grandes adversários como pólos reguladores do mundo: os Estados Unidos e a União Soviética. O nacionalismo exacerbado ficou definido em duas ideologias: a democracia e o comunismo. As justificavas para qualquer intervenção ou ingerência na soberania de outros povos eram a “salvação do mundo livre” ou a “luta contra o imperialismo capitalista”.

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Após a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, símbolo mais claro da falência do sistema comunista, o nacionalismo voltou na sua antiga forma, com cada povo tentando ser ele próprio como a Alemanha assim o fizera com sua reunificação. Restando apenas os Estados Unidos como hegemon, o nacionalismo americano se transformou na mesma justificativa dada pelos países do Eixo, na Segunda Guerra Mundial, para ter sob seu domínio o “espaço vital” que necessitaria para sobreviver como nação, com o agravante de que esse espaço vital é o mundo inteiro. As demais nações, segundo esse pensamento, têm que orbitar em torno desse país. Mas o tempo dos impérios parece estar fadado a ter um fim. Uma única nação não consegue mais controlar todas as demais. O custo dessa dominação é alto demais, embora os lucros pareçam, à primeira vista, extremamente vultosos. A criação dos blocos econômicos, substituindo o antigo nacionalismo e modificando a soberania dos países, foi a melhor resposta européia contra essa hegemonia americana. Não se trata mais de um confronto em dois ou mais países mas de um confronto entre um país e um bloco econômico fortalecido e dono do mesmo poder de fogo. Embora, atualmente exista um equilíbrio, os sinais da balança comercial americana parecem estar dando mostras que sua economia já não tem a mesma força que em outros tempos e da União Européia, desde que consiga manter-se unida, tem uma estabilidade maior que a americana.

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Se partirmos do princípio que o mundo se dividirá em blocos econômicos, pergunta-se qual a necessidade de um nacionalismo, sendo que o seu entendimento sempre parece ser o da xenofobia e o da justificativa para exercer domínios? A resposta é simples: embora existam blocos econômicos, cada país mantém suas próprias afirmações e não as nega em função desses blocos. A personalidade de cada país se mantém mesmo que esteja aliado a outros por causa de um objetivo. Nacionalismo vem de nacionalidade e é a identificação do ser humano com o país ou Nação ao qual pertence. Esse sentimento sempre foi usado como forma de sustentação de governos ou para suas pretensões hegemônicas e ainda o é. No entanto, como tudo o mais, o sentimento do nacionalismo tem seu lado bom quando usado de forma correta pois é ele que traduz as formas como a população se comportará diante de afirmações de outros países em sua soberania. As poucas tentativas, no Brasil, para firmar-se uma nacionalidade própria e compatível com o país foram infrutíferas ou estavam imbuídas de idéias fascistas como o Movimento Integralista49. As movimentações culturais como as promovidas por Monteiro Lobato, Mario de Andrade e Oswald de Andrade tornaram-se mais curiosidades do que uma forma de mostrar a necessidade de um nacionalismo.
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1932-1937

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Heróis ou anti-heróis, como Macunaíma e Jeca Tatu, ao invés de se firmarem como símbolos do que não deveríamos ser, tornaram-se espelhos do que deveríamos ser: pobres, raquíticos, sem futuro e sobrevivendo apenas devido às malícias naturais que possuímos. Quando Macunaíma214 foi definido como um “herói sem caráter”, provavelmente, Mário de Andrade quis fazer referência não só às suas habilidades de resolver problemas sem levar em conta alguma ética ou moral mas também como um espelho do povo brasileiro com relação à sua identidade, ou seja, uma pessoa sem características definidas, pois o herói nasce índio negro, em uma tribo distante, vai para a cidade grande, vira branco e se metamorfoseia em inseto, peixe e pato, de acordo com as circunstâncias. Se levarmos mais a fundo, a própria composição do povo brasileiro de sua época, cheia de imigrantes que ainda mantinham seus traços e ligações sentimentais com seu país de origem, mais os naturais da terra perdidos em distantes regiões e com culturas próprias, se daria a impressão de uma não-uniformidade do povo brasileiro como uma Nação. Sendo heterogêneo, a sua capacidade de ter um pensamento único como Nação estaria comprometida. A Semana da Arte Moderna, em 1922, foi uma forma de tentar dar um rosto a uma Nação que ainda não o tinha. A esse rosto podemos dar o nome de nacionalismo. Nos chamados “anos de chumbo” fomentou-se uma campanha nacionalista cuja finalidade era a repressão de movimentos contrários ao próprio governo.

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A famosa campanha “Brasil: ame-o ou deixe-o” é seu maior exemplo. Nessa fase de nossa história ocorreu o inverso que o governo pretendia pois a campanha nacionalista identificou-se com o regime militar e como uma forma de repressão aos grupos que atuavam em prol de um regime democrático. Até então existia uma mentalidade nacionalista onde as pessoas, independentemente do lado em que estavam, acreditavam que estavam fazendo algo em prol do país. A partir desse momento, a identificação nacionalista passou a traduzir uma identificação com o regime militar e passou a ser renegada pela população em geral. O governo militar proibiu as manifestações nacionalistas assim como os desfiles de 07 de setembro usando a epidemia de meningite de 1972 a 1975 como desculpa para evitar as aglomerações. Na realidade, embora parecesse de cunho sanitário, foi uma forma de evitar que existissem passeatas ou outras formas públicas de manifestação contra o governo. Após o período militar, restou pouco do nacionalismo em si. Os planos econômicos como Bresser, Verão I, Verão II, Cruzado, etc, falharam nas suas tentativas de conseguir uma estabilidade econômica e produziram apenas uma necessidade de sobrevivência na população, que a afastaram da vida política. Mesmo a campanha de impedimento de Collor, em 1992, não conseguiu introduzir novamente o sentimento nacionalista no povo, embora existisse uma relativa participação popular. Saindo de um regime militar e de uma relativa estabilidade econômica, mesmo

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que forçada, a população viu-se novamente com carência de produtos e empregos e isso gerou um retrocesso político no país, com o desinteresse cada mais acentuado da população. Os períodos econômicos conturbados que seguiram-se até uma estabilização da economia no governo de Fernando Henrique Cardoso, através do chamado Plano real, iniciado em 1993 quando ainda era Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, produziram uma amorfia e um desinteresse pela política em si e pela condução do Estado. O Estado voltou a ser uma entidade desligada do povo e tornou-se algo distante de uma realidade. Esse desinteresse já vinha sendo fomentado pelos regimes militares e manifestou-se mais abruptamente com as crises econômicas. A importação de crenças arrivistas, vindas principalmente dos Estados Unidos, também contribuiu para esse distanciamento político, visto que pregavam uma nova visão baseada na obtenção de vantagens apenas através da fé individual e não através de atos voltados para a coletividade. Com esse quadro, o próprio governo deixou de fomentar sentimentos nacionalistas, temendo que os mesmos conduzissem a população a atitudes como as registradas no governo de Fernando Collor, que o conduziram à retirada da presidência. Historicamente, podemos dizer que o nacionalismo começou a deixar de existir em 1970, com as campanhas promovidas pelo governo militar, reforçou-se com a crise econômica de 1973, causada pelo petróleo, e com os planos

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econômicos dos governos Sarney, Collor, sendo gradativamente sendo eliminado até os dias de hoje. Como crédito, podemos dizer que a ditadura de Vargas foi o único período em que se tentou concretizar uma mentalidade nacional através da criação de empresas nacionais, como a Petrobras, para a exploração de recursos naturais e com a fomentação de idéias nacionalistas. Sem ter uma mentalidade nacionalista própria que fomenta e mantém a soberania, o Brasil ainda vive das idéias de outros e seu povo e economia sempre orbitam em torno de algum ideal não próprio. Não se trata daquele nacionalismo exagerado que cheira a xenofobia mas sim de se ter um sentimento que traduza nossa herança cultural e se reproduza na nossa independência. Soberania e cultura Dois grandes elementos fazem com que a soberania decaia de sua forma primitiva e assuma outras: a formação de blocos econômicos e a invasão cultural. A invasão cultural é um problema mais subcutâneo e está ligado à mentalidade colonizada que ainda temos. Historicamente, nossa mentalidade esteve ligada às metrópoles que nos dominaram. Até a fase da independência éramos portugueses, no I Império

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éramos franceses, no II Império éramos ingleses e atualmente somos americanos. Esta invasão é um passo primordial para a submissão dos países aos outros. Existindo submissão, inexiste a soberania. Conforme frase de Daniel Azevedo Marques “Povo sem cultura é povo sem liberdade”.215 Acrescente a esta o dito de Fidel Castro: “¿Cómo puede haber democracia si no hay cultura, si no hay educación?”. 216 Cultura não é apenas o uso das tradições legadas ou da produção de material próprio mas um estilo de vida. A cultura é a forma na qual os povos se encaixam como nações e da qual depende sua forma de pensar. Sem uma forma própria de pensamento, os povos tendem a adotar outros que lhes são alienígenas e essa adoção termina em submissão àqueles a quem ela pertence. Essa preocupação na Constituição de 1988 estende-se aos demais países da América Latina, no seu art. 4º. Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações. No art. 5º., a Constituição estabelece direitos ao cidadão quanto à dilapidação do patrimônio cultural

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promovida pelo próprio Estado, dando a ele possibilidade de impedir qualquer degradação.

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LXXIII - qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência; A preservação da cultura é de competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, conforme art. 23. Sendo de competência do Estado e sendo dado ao cidadão o direito de propor ação contra o próprio Estado quando este se descuida desse dever, é certo que deveria existir uma abrangência maior no que concerne à proteção da cultura, que é dada no Capítulo III , Da Educação, da Cultura e do Desporto, Seção II: Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. A própria língua é fator cultural determinante. Temos que ser poliglotas mas não podemos esquecer nossa forma mais comum de expressão. A apropriação de palavras e expressões sem o devido aportuguesamento ou sem antes a verificação de um

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livros. Como na física básica existe o conceito de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.correlato em nossa língua contribui para que ela seja desvalorizada e por extensão nossa própria cultura. Objetos culturais alienígenas como filmes. o próprio Estado tem que fazer com que ela não exista. A colocação de nomes estrangeiros em empresas é indício claro de que essa tendência à desculturização é extremamente forte e por que acaba gerando um aculturamento de um país dominador. Uma cultura própria absorve aquilo que julga adequada para si. ocupam o espaço destinado àqueles que deveriam ser dos nacionais. Ter cultura própria não significa renegar aquilo que outros países produzem de bom. Soberania e os blocos econômicos A formação de grupos econômicos surgiu a partir da dissolução do bloco soviético e o estabelecimento de uma economia americana mundial. podendo ou não dar-lhe uma nova faceta que a transforme em um produto próprio. O primeiro passo para a perda da soberania de um Estado é sua submissão cultural e. é certo supor que uma cultura sobrepõe-se à outra e lhe tira as formas que deveria produzir em um modo de vida própria. idéias e outros. sabedor disso. Duas políticas: a caius_c 244 .

A Glasnost tinha como meta uma política de liberdade de expressão. 50 51 Literalmente. a União Soviética desmantelou-se como um bloco político e econômico. A Perestroika tinha conotação de reestruturação econômica. essa política ajudou a provocar uma onda de nacionalismo nos diversos países e etnias componentes do bloco soviético e promoveu a separação política do grupo soviético. a indisposição dos membros do Partido Comunista em aceitar reformas e outros. No entanto.glasnost50 e a perestroika51 foram as que detonaram a antiga União Soviética. principalmente na execução de reformas na economia e indústria soviética. No entanto. transparência Literalmente. devido a motivos diversos como o insucesso na promoção da criação de empresas privadas e semi-privadas. Depois da adoção dessas políticas. Um dos pontos chaves da política era a contenção de gastos na defesa nacional com a desocupação do Afeganistão. as reticências com relação a uma reforma na agricultura. reconstrução caius_c 245 . a União Soviética deixou de ser o principal oponente dos Estados Unidos e cedeu a primazia mundial para esse país. a redução de armamentos em conjunto com os Estados Unidos e a não interferência em países comunistas. visto que a economia e o sistema comunista da União Soviética estavam apresentando sintomas de falência.

Argentina. a Europa estabeleceu-se como o principal oponente econômico dos Estados Unidos.A União Européia. Ao contrário dos países europeus cuja forte economia propicia uma união efetiva e a utilização de uma moeda única. Bolívia e Chile. Ao estabelecer uma moeda única. nasceu a partir da Comunidade Econômica Européia e Comunidade Européia. o Mercosul cambaleia devido às diferenças ainda não resolvidas e a falta de apoio às economias em crise como a da Argentina em 2002. rompendo antigas barreiras tarifárias e políticas conjuntas no setor pesqueiro. em 01 de maio de 2006. entrando em vigor em 01 de novembro de 1993. A crise brasileiro-boliviana relacionada à nacionalização do gasoduto construído pela Petrobras. comercial e de transporte. O Mercosul não se firmou como um bloco econômico. como bloco econômico. Venezuela. O euro foi uma de suas principais criações. o euro. Outros blocos surgiram como o Mercosul e o Nafta. O Mercosul nasceu em 01 de 1995 com a união aduaneira dos países membros: Brasil. Paraguai. uma política aduaneira válida para seus membros. Uruguai. a União Européia passou a comportar-se como um imenso país. reflete bem as diferenças que impedem o crescimento do Mercosul como um bloco econômico caius_c 246 . a partir de janeiro de 2002. embora tenha facilitado o comércio e as relações entre os países. Com uma base econômica firmada. O principal objetivo da União Européia foi formar um bloco econômico através de uma moeda única.

A diferença primordial entre a União Européia é a adoção de uma moeda única e a união de seus países componentes como um todo enquanto que os demais blocos ainda estão limitados à eliminação das barreiras alfandegárias e poucas formas de união. Suas portas estão abertas para os países sul-americanos que quisessem aderir a ele. O Nafta ou Tratado Norte-Americano de Livre Comércio. Podemos dizer que cada país passou a contar com duas formas de soberania: a) A própria b) A do bloco econômico A soberania própria foi modificada e tornou-se mais tênue em função das necessidades do bloco caius_c 247 . A união do Canadá. México e Estados Unidos da América como bloco econômico foi firmado em 01 de 1994. A soberania inicial que existia nos limites de cada país. foi ampliada para os limites do bloco econômico. Os países da União Européia deixaram de lado alguns antigos conceitos de soberania e adotaram outros como forma de se manterem enquanto que os demais blocos ainda se prendem aos antigos conceitos. Contribuem para seu lento desenvolvimento o próprio tratado que o rege. também surgiu como forma de enfrentar a União Européia. visando eliminar as barreiras alfandegárias entre os três países. pois dificulta a aprovação e aplicação de leis.capaz de enfrentar a União Européia e o Nafta.

criando-se assim um Pacto Social. Em contrapartida. a soberania do bloco econômico passa a ter uma necessidade de maior força. onde o indivíduo. Uma torna-se tênue para que a outra se fortaleça. a soberania do bloco econômico tornou-se mais rígida devido à necessidade de coesão entre os distintos países e suas diferentes culturas.econômico mas nem por isso deixa de existir. Um país como a França ou a Inglaterra continua com os mesmo princípios que existiam como países únicos mas adaptaram sua forma de controle soberano aos padrões do bloco econômico. A soma das soberanias próprias é bem menor do que a soberania do bloco econômico. se priva de alguns direitos e assume outros deveres em função de sua organização social através do Estado. O Estado deixa de ser opressor e passa a ser o elemento chave da agregação social e da promoção do homem como indivíduo e ser social. Se esse princípio é tão claro e fácil. Isso explica em grande parte o motivo pelo qual um país atenua os conceitos de soberania e assume uma nova forma de manutenção de sua individualidade. Podemos dizer que a União Européia aderiu ao conceito do Contrato Social de Rousseau. podemos dizer que antes de um Contrato de Submissão é necessário um Contrato de Associação. por que não o adotamos em nosso Mercosul? A resposta é complexa mas pode ser parcialmente respondida com a própria caius_c 248 . Para manter essa coesão. Citando o próprio. no caso países.

sem o mando das metrópoles da época.história mundial e da América Latina. ainda perdura na “mente nacional”. baseada nas teses colonialistas dos países europeus e Estados Unidos. em 1826. Um dos motivos históricos é a própria formação da América Latina em si nos seus primórdios onde ela era vista apenas como uma fonte de recursos para os países europeus. A separação da América Latina em dois blocos também contribui para essa dificuldade de adoção de uma mentalidade voltada para as nações que a compõe. Até o final da Segunda Guerra Mundial. No Brasil. Os nacionais ainda mantêm os mesmos pensamentos de seus colonizadores onde o principal era o enriquecimento rápido e fácil e conseqüente retorno ao seu país de origem. O Brasil não compareceu à conferência. Guatemala. a influência da Inglaterra perdurou até a entrada de caius_c 249 . a política e economia dos países sul-americanos eram direcionadas pelos países europeus. A idéia de exploração desenfreada. Simon Bolívar. No entanto. México. a independência política e econômica dos países latinos e a união dos povos como objetivos de formar blocos para a discussão de problemas políticos e econômicos. conhecido como El Libertador. foi um idealista que propôs uma integração continental com as Conferências Pan-americanas. Seu objetivo era promover liberdade para as nações. notadamente Espanha e Portugal. somente compareceram os governos da Colômbia. tanto na esfera latina como na mundial. Peru e Estados Unidos.

criou uma série de empresas estatais visando preservar e explorar as riquezas nacionais como o petróleo e ferro e tentou firmou um conceito de Nação que ainda não existe no país. Nesse período. Cuba em 1961. Panamá em 1989. Guatemala em 1954. passaram a adotar a política do “Big Stick” ou “grande porrete” no Brasil. na realidade. século XX. são muitos: em 1921 invadiram a Republica Dominicana e novamente em 1963.Getulio Vargas no poder e o início da guerra. Afeganistão em 2001. essa política é uma forma de manter as portas abertas dos países para sua economia. Iraque em 2003. os Estados Unidos. política essa que já vinha sendo utilizada desde há muito tempo em outros países. El Salvador em 1921. com o fornecimento de armas para os “contras”. em 1846. Granada em 1983. suprimindo soberanias ou simplesmente anexando territórios como o Texas. fortalecidos pela destruição da Europa e pela sua indústria crescente e não atingida pela guerra. O Haiti foi invadido em 1914. No Brasil. ajudada pelo crescimento econômico promovido por Getulio. afrontando as normas do Direito Internacional. Os exemplos dessa afronta às soberanias. A partir da queda de Getúlio e do fim da guerra. onde caius_c 250 . intervenção no Chile em 1973 e assassinato de Salvador Allende. Nicarágua em 1926 e na década de 80. Honduras em 1924. e a Califórnia do mesmo México. destaca-se a revolução de 1964. durante a Guerra da Anexação. uma onda nacionalista. embora sem êxito. Vietnã em 1964. Embora sua aparente filosofia fosse a de promover a paz mundial. através dessa política.

a Itália. que teve seu auge durante a época vitoriana no que concerne ao uso de outros países para fins próprios. a França. não podemos descartar esse tipo de intervenção visto que o Brasil dispõe de dois elementos essenciais para a vida futura: o maior volume de água doce do planeta e a maior reserva de nióbio do planeta.existiu uma nítida participação americana no evento através do embaixador de então Lincoln Gordon. na sua melhor fase. caius_c 251 . a Holanda e outros. A perda da soberania não é militar mas econômica e cultural. A resposta basicamente encontra-se no alinhamento de nossos sucessivos governos com a política desses países e a submissão econômica a eles. pela americana. Com esse histórico de invasões americanas e européias. alguns países como a Inglaterra. praticamente o Brasil se viu dominado por políticas Européias e. No entanto. podemos perguntar por que o Brasil ainda não sofreu uma intervenção militar desses países. Embora os Estados Unidos seja o exemplo mais atual que temos na supressão pura e simples das soberanias. Excetuando o breve período de Getulio Vargas. quando não usaram de recursos militares para isso. depois. metal essencial para novas tecnologias. O domínio é feito através de outras formas mais sutis mas muito mais eficientes. praticamente dominaram os demais países ou continentes com suas políticas. a Bélgica.

resolvida com a compra da área pelo Brasil. Embora a invasão holandesa se tenha dado em um período em que inexistia um país chamado Brasil. com invasão da província do Mato Grosso em 1864. na Bahia e Pernambuco b) A Guerra do Paraguai. podemos citar as seguintes ameaças internas: caius_c 252 . sua invasão constituiu uma ameaça à sua soberania como território português. o Brasil passou por inúmeros períodos tumultuados onde se poderia fracionar a federação e onde sempre existiu uma possibilidade real de esquartejamento do país.Historicamente. Alem das ameaças externas. A soberania sempre esteve ameaçada em mais de um momento histórico. Assim sendo. com a questão Christie. a sua existência como território português ou como uma colônia o fazia parte integrante de uma nacionalidade. imortalizada no livro do Visconde Taunay “A retirada da Laguna”. com a Bolívia.Apesar de acreditarmos que nossa história seja feita apenas de bons momentos pois não a estudamos a fundo. devido a movimentos militaristas. c) O conflito Brasil-Inglaterra no II Império. em 1861 d) A crise do Acre em 1902. existiram quatro ameaças militares à soberania brasileira: a) A Invasão Holandesa em 1621 e 1630. pelas tropas paraguaias.

com seu caráter separatista Também podemos acrescentar como forma de dissolução da soberania nacional os movimentos separatistas atuais dos estados do sul. Movimento como “O Sul é o meu país” ganharam sua força durante certo período mas foram contidos através de uma repressão contra seus membros. de 1835 a 1845. Embora sejam sufocados. do ponto de vista econômico. diverge da de outros estados. a Sabinada (1837 a 1838. como a Cabanagem (1835 a 1840). essas idéias vieram da Revolução Farroupilha. eles existem como idéia. e mantiveramse como idéia distorcida entre a população. aliadas ao fato de que a origem da população. a Balaiada (1831 a 1841). Suas premissas principais são as de que o Brasil é um país que “não deu certo” e que as riquezas do sul e sudeste são usadas para a manutenção dos estados mais pobres da região norte e nordeste. caius_c 253 . Essa idéia torna-se vaga e transfere o desenvolvimento de cada região para a esfera da “vontade política”. de predominância européia.a) As revoltas durante II Império. No entanto. Provavelmente. a Farroupilha (1835-1845) b) A Revolução de 1932. invalidam a premissa de que o sul e sudeste sustentariam economicamente outras regiões em prejuízo das próprias. podemos dizer que algumas regiões como o Centro-Oeste que teve um impulso nas décadas de 80 e 90 do século XX e o desenvolvimento de algumas regiões do nordeste através do plantio irrigado.

visto que se trata da luta de um país contra blocos econômicos fortes que tradicionalmente sempre dominaram a América do Sul. podemos considerar os seguintes obstáculos à manutenção da soberania nacional: a) Dependência econômica de outros países b) Invasão cultural Se o Mercosul fosse algo mais concreto e as economias que o compõe conseguissem equiparar-se para o seu funcionamento. Atualmente. A fórmula mais simples para um enfrentamento econômico é o desenvolvimento de uma tecnologia superior em todos os aspectos e a insubmissão cultural. cai por terra a teoria separatista sobre a sustentação econômica de outras regiões pelo sul e sudeste. Como existe muita discrepância entre as economias. Aliando-se isso a uma exploração da região de forma sustentável de sua biodiversidade. nascido através do Protocolo de Kyoto em 1997. Se algo desse tipo ocorrer. existe uma forte tendência a não concretização do Mercosul como um elemento igual à União Européia. caius_c 254 . visto que a manutenção de florestas começa a se tornar um bom negócio. a dependência econômica com relação a outros blocos econômicos seria menor.O mercado de crédito de carbono. pode ser uma fonte de renda para os estados amazônicos ou para outros. Sendo assim. e sua administração pelo Banco Mundial. a dependência econômica pode acentuarse mais. será em um futuro bem distante.

A nova soberania Podemos dizer que a soberania como a conhecemos está se extinguindo. estão produzindo um desafio no que concerne à manutenção da soberania pelos países. A soberania está se tornando virtual e cada vez mais retornando ao seu antigo modo como sentimento. internet. formação de blocos econômicos. Os pontos citados como a globalização. Não adianta fechar-se às tendências mundiais ou ignorá-las pois nenhum país consegue isolar-se em um mundo globalizado. formação de tribos. a partir dele. Como primeiro passo. como a China. Sendo um sentimento. passaram a sentir as necessidades de estarem participando desse evento e abriram suas portas para outros países. invasão cultural. podemos dizer que a educação será parte integrante desse sentimento de soberania. surja uma forma concreta de estabelecimento dessa soberania. ele deve ser trabalhado para que. O Estado tem que retornar aos seus primórdios e dar aos cidadãos o sentimento de Nação que é caius_c 255 . tecnologia. Essa abertura de portas significa que existe uma troca onde se pode perder ou ganhar. Aqueles que o faziam. A necessidade do uso da educação para firmar esse sentimento e lhe dar contornos reais é básica e deve ser fomentada primordialmente pelo Estado. dependendo da forma como os países se conduzem.

superior ao Estado visto que esse é apenas a organização das formas como a Nação deve se conduzir enquanto que esta é a expressão máxima da forma como o cidadão sente-se integrado em uma sociedade que lhe é própria. caius_c 256 .

nada mais leva consigo a não ser a instrução e a educação. É uma linha quase invisível. caius_c 257 .A educação e o Estado Democrático de Direito “Independência é uma prioridade absoluta na vida de uma nação. De volta a estaca ZERO. Mas. a gente deveria tentar entender o que “independência” significa. antes de mais nada. em seu livro Fédon. a autoestima. se ela tocar nas raízes da ignorância ou alguém lucrar com ela. diz que a alma não leva outra coisa para o Hades alem de sua educação e seu modo de vida – “Ao chegar ao Hades. a alta auto-estima de uma nação. a proliferação de uma cultura. nada feito. E. o orgulho de um povo. Como aquela que o bandeirinha indica que o cara estava no impedimento depois que a torcida berrava GOOOOOOLLLLLLL !” (Gerald 217 Thomas) Educação e seus conceitos PLATÃO.

na sua Filosofia da Educação – Construindo a Cidadania. A Teologia da Libertação está inserida na última fase do pensamento ocidental onde se valoriza a história.221 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO. ao que se diz. diz que educação é uma prática social e também política cujas ferramentas são constituídas pelos elementos simbólicos produzidos pela subjetividade e mediados pelos instrumentos culturais.219 Sua Pedagogia da Libertação tem conotações políticas iguais às de LEONARDO BOFF e sua Teologia da Libertação.218 justamente. sempre. o que mais favorece ou prejudica o morto desde o início de sua viagem para lá. a cultura e a diversidade de formas de manifestação do encontro do homem com Deus. Na sua Pedagogia de Autonomia. 220 PAULO FREIRE adota o sistema socrático onde a pergunta promove a própria resposta e valoriza o pensamento crítico. Como tal. existem propostas de práticas pedagógicas necessárias à educação como forma de construir a autonomia de ser do educando. Uma de suas bases é a alfabetização e conscientização política de jovens e adultos. valorizando e respeitando sua cultura e seu acervo de conhecimentos empíricos junto à individualidade. a educação nunca é neutra e sim.” De acordo com PAULO FREIRE. política. sua ação se dará caius_c 258 . onde se justificam mudanças radicais a partir de situações radicais de opressão.

”. No artigo 2º reafirma que é dever do Estado e da família. no trabalho. restringem-se apenas à formação profissional do cidadão e não da formação do cidadão em si. a escola é uma instituição burguesa. O termo educação deveria ser ampliado para “formação de cidadãos”. no que tange à sua abrangência: “A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar.223 No caput do artigo 1º. O seu parágrafo 2º diz que deve “se vincular à prática do trabalho e à prática social. Para ele. existe a seguinte definição de educação. Da Lei 9394.mais diretamente sobre os aspectos simbólicos da existência humana. de 29 de dezembro de 1996. na convivência humana. no que concerne à educação. pois não basta apenas um desenvolvimento profissional para que um indivíduo se torne um membro adequado para uma sociedade. nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”. Os conceitos definidos como responsabilidade do Estado. 222 Para KARL MARX. a escola como parte integrante de uma sociedade burguesa seria incapaz de se transformar em uma instituição antagônica à dinâmica social à qual está vinculada. caius_c 259 . nas instituições de ensino e pesquisa . pois advém da sociedade capital.

Um país é um resumo de seus próprios cidadãos. é imprescindível que tenhamos dentro de nós as várias formas de se ver o mesmo objeto. da relação entre indivíduos. nunca estará no real local que o vemos. devido à refração. como uma via privilegiada de construção da própria pessoa. grupos e nações. Vivemos de interpretações e elas nunca são o reflexo real de um objeto mas apenas como uma forma que imaginamos. “as políticas educativas são um processo de enriquecimento dos conhecimentos. Isso é comum e normal. qualquer texto ou palavra será entendido de forma diversa por várias pessoas. mas também e talvez em primeiro lugar. Qualquer objeto nunca é visto como real.De acordo com o Relatório da Unesco da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI. do saber-fazer. Para que isso ocorra é necessário que tenhamos uma educação que nos permita isso. A interpretação. uma história será sentida em algum ponto e transmitida no seu total em relação a esse ponto. A dimensão que queremos dar a um país é a dimensão que damos aos elementos humanos que o compõe. na realidade é a construção de um novo objeto a partir do próprio. Um peixe dentro da água. É próprio do ser humano dar interpretações a algo que vê. no entanto.” 224 Um país é a dimensão do seu próprio povo. Uma educação baseada somente na formação profissional cria apenas operadores de máquinas. ouve ou sente. caius_c 260 .

Espírito Santo e São Paulo de Piratininga. alem de se dedicarem à alfabetização e ao ensino religioso. a educação. Os jesuítas. junto com o governador Tomé de Souza e comandados pelo Padre Manoel da Nóbrega. sendo autor da Arte da Gramática das línguas mais usadas na costa brasileira. Um dos primeiros educadores foi José de Anchieta. Essa educação estava mais vinculada à formação de profissionais que a indústria exigia. onde a necessidade de mão de obra especializada gerou a educação pública. mantinham cursos de Letras e Filosofia. Os jesuítas fundaram a primeira escola elementar em Salvador no mesmo ano. Ela passou a ser estendida às outras classes a partir da Revolução Industrial. os jesuítas. alem de três colégios no Rio de Janeiro.Educação e sua história no Brasil Historicamente. ela sempre esteve restrita a alguns poucos privilegiados. Para afastar os índios dos interesses dos colonizadores. Embora tenham existido núcleos de escolarização em todas as fases da história. esteve nas mãos da Companhia de Jesus. a educação formal sempre se restringiu às classes dominantes da sociedade. Pernambuco e Bahia. Ilhéus. Em 1570. os jesuítas fundaram as missões. onde se estudava Teologia e Ciências Sagradas. São Vicente. No Brasil. que chegaram aqui em março de 1549. existiam cinco escolas de instrução elementar em Porto Seguro. onde eram catequizados e orientados ao trabalho agrícola. caius_c 261 . inicialmente.

os que pretendiam seguir profissões liberais iam estudar. seguiu-se o que se convencionou chamar de Período Pombalino. Grego e Retórica. em contraposição ao Período Jesuítico. Humanidades. Os jesuítas permanecerem como mentores da educação brasileira. Através do Alvará de 1750. Metafísica. Entre 1760 e 1808. um projeto de lei propõe a criação de pedagogias em todas as cidades e vilas. alem da Diretoria de Estudos. com a educação direcionada para servir aos interesses do Estado.Gramática Latina. geralmente. propondo uma seleção para professores e a abertura das escolas para as meninas. Lógica. Moral. na Europa. Em 1834. a primeira constituição brasileira é outorgada e no seu artigo 179. Retórica. onde suprimia as escolas jesuíticas. declara-se como gratuita para todos os cidadãos a escola primária. até serem expulsos pelo Marques de Pombal. Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Em 1824. Em 1827. na França. em Coimbra. Nesse período. Portugal ou na Universidade de Montpellier. um Ato Adicional à Constituição dispõe que as províncias passariam a ser responsáveis pela caius_c 262 . em 1759. onde a escola servia os interesses da Fé. criou as aulas régias de Latim.

surge a primeira escola normal do país em Niterói. .administração do ensino primário e secundário. retomou a orientação positivista.A reforma de Benjamin Constant. transferindo os exames de admissão ao ensino superior para as faculdades. o governo organiza o ensino secundário e as universidades brasileiras caius_c 263 . com o Brasil saindo da agrariedade e procurando uma industrialização.Em 1930 foi criado o Ministério da Educação .A Reforma João Luiz Alves introduz a cadeira de Moral e Cívica com a intenção de conter os protestos contra o então presidente Arthur Bernardes. reoficiliza o ensino no Brasil.A Reforma Rivadávia Correa. . Em 1835. em 1915.A Reforma de Carlos Maximiliano. existiram quatro reformas do sistema escolar brasileiro:225 . a liberdade e laicidade do ensino. . ocorreram outras reformas:226 . de 1911. que tinha como princípios a gratuidade. Entre 1889 e 1929. pregando a liberdade de ensino.Em 1931. Entre 1930 e 1936. a abolição do diploma em troca de um certificado de assistência e aproveitamento.

dispõe sobre a organização do ensino secundário.O Decreto 19. .850. devendo ser ministrada pela família e pelos Poderes Públicos. de 18 de abril.241. . de 11 de abril. .Em 1932 é lançado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. redigido por Fernando de Azevedo. de 14 de abril. organiza o ensino comercial. que a educação é direito de todos.O Decreto 19.. de 30 de julho.852. pela primeira vez. .O Decreto 19.O Decreto 20.O Decreto 21. .851. de 11 de abril. e regulamenta a profissão de contador.158.890. cria o Conselho Nacional de Educação e os Conselhos Estaduais de Educação . .Em 1934 é criada a Universidade de São Paulo.Em 1934 a nova Constituição dispõe. dispõe sobre a organização da Universidade do Rio de Janeiro. consolida as disposições sobre o ensino secundário. de 11 de abril. caius_c 264 .O Decreto 19. . institui o Estatuto das Universidades Brasileiras que dispõe sobre a organização do ensino superior no Brasil.

dando preferência às atividades manuais em detrimento às intelectuais.244.O Decreto-lei 4.Em 1935 é criada a Universidade do Distrito Federal . .048. período em que Getulio Vargas permaneceu como ditador. são reformados alguns ramos do ensino.É outorgada uma nova Constituição em 10 de novembro de 1937. caius_c 265 . cria o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SENAI. em uma época em que a Alemanha tentava o domínio militar da Europa. Em 1942. .O Decreto-lei 4. Entre 1937 e 1945 ocorrem novas mudanças devidas ao Estado Novo. de 22 de janeiro. regulamenta o ensino industrial. que prevê uma preparação de uma maior especialização da mão de obra em função das novas predisposições industriais do país.073.A gratuidade e obrigatoriedade do ensino são mantidas. regulamenta o ensino secundário. através das Leis Orgânicas de Ensino: . . .O Decreto-lei 4. e a constituição enfatiza o ensino prévocacional e profissional.. de 30 de janeiro. de 9 de abril.

de 16 de julho.O Decreto-lei 4. . por conta própria. dispõe sobre a obrigatoriedade dos estabelecimentos industriais empregarem um total de 8% correspondente ao número de operários e matriculá-los nas escolas do SENAI.O Decreto-lei 4. No período de 1946 a 1963.436. das comunicações e da pesca. regulamenta o ensino comercial (SENAC). adota-se uma nova constituição mais liberal e democrática que determina a obrigatoriedade de se cumprir o ensino primário e dá competência à União para legislar sobre as diretrizes e bases da educação. quatro de curso ginasial e três de colegial. compele que as empresas oficiais com mais de cem empregados a manter. atingindo também o setor de transportes.141. uma escola de aprendizagem destinada à formação profissional de seus aprendizes. de 21 de novembro.481. .Em 1946 o então Ministro Raul Leitão da Cunha regulamenta o Ensino Primário e o Ensino Normal caius_c 266 .O Decreto-lei 6.O Decreto-lei 4.984. O ensino ficou composto por cinco anos de curso primário.. amplia o âmbito do SENAI. . de 28 de dezembro de 1943. . de 7 de novembro.

no Estado da Bahia. em Fortaleza.Em 1961 a Prefeitura Municipal de Natal. . logo depois.. e. caius_c 267 . em 20 de dezembro de 1961. o educador Lauro de Oliveira Lima inicia uma didática baseada nas teorias científicas de Jean Piaget.Em 1962 é criado o Conselho Federal de Educação. A experiência teve início na cidade de Angicos. no Estado do Rio Grande do Norte. Estado do Ceará.Em 1950. . A técnica didática.Em 1953 é criado o Ministério da Educação e Cultura. inicia uma campanha de alfabetização ("De Pé no Chão Também se Aprende a Ler"). propunha-se a alfabetizar em 40 horas adultos analfabetos.Foi promulgada a Lei 4. é inaugurado o Centro Popular de Educação (Centro Educacional Carneiro Ribeiro). criada pelo pernambucano Paulo Freire. São criados também os Conselhos Estaduais de Educação.024.Em 1952. que elimina o monopólio estatal sobre a educação. dando início a idéia de escola-classe e escola-parque. em Salvador. na cidade de Tiriri. . . no Estado de Pernambuco. Este substitui o Conselho Nacional de Educação. no Rio Grande do Norte. .

. Em 1996 é aprovada a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação.024. Em 1964. um golpe militar aborta todas as iniciativas de se revolucionar a educação brasileira. valendo. inclusive. permitiu vislumbrar uma nova proposta universitária.Foi criado o Movimento Brasileiro de Alfabetização – Mobral.. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.A criação da Universidade de Brasília. No período da abertura política entre 1986 e 2001. A característica mais marcante desta Lei era tentar dar a formação educacional um cunho profissionalizante. extinto depois por denúncias de corrupção.Ainda em 1962 é criado o Plano Nacional de Educação e o Programa Nacional de Alfabetização. dando uma ênfase política à Educação e um sentido mais amplo. . sob o pretexto de que as propostas eram "comunizantes e subversivas". com o planejamento. para o ingresso na Universidade. do fim do exame vestibular. o rendimento do aluno durante o curso de 2o grau. em 1961. pelo Ministério da Educação e Cultura. Em 1971 é instituída a Lei 4. caius_c 268 . as discussões sobre uma forma democrática e aberta de ensino voltaram à tona.

etc. visto que não existia a necessidade de caius_c 269 . Programa de Avaliação Institucional (PAIUB). um se molda ao outro. Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). ela deságua no modo de condução do país que é a política.CIACs. a escola preocupou-se apenas em dar os rudimentos aos seus alunos. Um não existe sem o outro. a Educação sempre se moldou por dois fatores: a) Políticos b) Econômicos Os dois motivos são concorrentes e correlatos. em todo o Brasil. Quando se escolhe uma forma política para um país.Em 1990 é lançado o projeto de construção de Centros Integrados de Apoio à Criança . foram criados muitos programas de ensino como Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF). Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB). Como não podia deixar de ser. Todos os passos dados pela Educação originaram-se da forma como o país situava-se política e economicamente no momento. Durante o período essencialmente agrário do país que vai até 1930. Depois da queda do regime militar. se escolhe a forma econômica pela qual ele pretende se conduzir e quando se escolhe a forma econômica.

em nenhum momento ela se preocupou com a formação de cidadãos efetivamente. caius_c 270 . Uma nova classe social expande-se: a classe burguesa. Os exemplos mais típicos são o Senai e o Senac cujos objetivos são a formação de profissionais para a indústria e comércio. passou a existir uma necessidade maior de profissionais voltados para a indústria. formada pelos industriais e comerciantes.uma mão de obra especializada. ela sempre esteve voltada para a manutenção dos governos. O período pós 1960 transforma a escola em um centro de formação voltado não só para a indústria mas também para outras áreas como a financeira. Embora tenha evoluído bastante. Entre 1930 e 1945 inicia-se um processo de industrialização promovida principalmente pelo governo Getulio Vargas. ou seja. a partir de 1958/1960 e instalação de multinacionais enfocadas no novo capitalismo que surgiu no período pós-guerra nos EUA. respectivamente. ampliando as necessidades da Educação para a formação de profissionais adequados à industrialização. a Educação ainda tem as bases capitalistas desse período. substituindo as antigas oligarquias monoculturistas no governo. a Educação acompanhou a economia e a política adotada pelos governos. Mesmo que tenha existido alguma formação política nas escolas. o que perdura até agora. voltou-se apenas para a formação de profissionais. No entanto. Com a entrada de capitais estrangeiros no país. Em todos esses períodos.

A Constituição define a educação como um “direito de todos” e atribui ao Estado e à família o dever de efetivá-la junto à população. Isso não teria nenhum problema se a educação não caius_c 271 . ela sempre foi influenciada pela política da época e considerada como forma de manutenção dos grupos no poder. da Cultura e do Desporto. Da Educação. junto com a família: Art. o Estado se estabelecer como detentor da educação. Educação e política Como se vê na história da educação brasileira. vigiar e proteger a educação e à família cabe o dever de fazer com que seus membros a tenham.A co-responsabilidade do Estado e da Família na Educação No Capítulo III. direito de todos e dever do Estado e da família. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. Seção I. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. quaisquer que sejam. 205. além de fornecer parâmetros adequados para que a criança possa conviver adequadamente no meio social. da Educação. dar os elementos necessários. Ao Estado cabe estabelecer as formas. A formação do indivíduo está vinculada às pretensões políticas do Estado. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. A educação.

para dar ao indivíduo a dimensão que o Estado quer ter de si próprio. Partindo do princípio de que o cidadão é a base do Estado e que sua educação é o reflexo da própria condição do Estado. O objetivo é moldar a pessoa às características do Estado e não o de lhe dar bases para promover o próprio Estado através do uso do contraditório. Um cidadão está imbuído da caius_c 272 . A Educação é ponto inicial para a formação do cidadão e conseqüente fôrma na qual Estado irá se moldar. podemos transpor essa idéia para os ditos Estados democráticos pois ainda não se chegou a uma plenitude no que se refere à participação do cidadão dentro do Estado. como ainda é. onde se desvirtua sua fase inicial democrática e onde existe uma transformação para a oligarquia. da crítica e da participação efetiva. Mesmo que ainda assim o fosse. na composição do Estado. Embora o exemplo mais claro disso esteja nos Estados totalitários. exceto após sua eleição para cargos. não se irá querer que outros grupos ou tribos lhe retirem o poder. a Educação ainda seria usada como instrumento político e assim deve ser. como sempre.fosse usada. por que não dar ao cidadão uma educação compatível com um Status Magnus? Por que não dar a educação adequada para que se formem as bases para um Estado diferenciado onde as relações entre as partes sejam adequadas a uma forma mais efetiva de convivência entre cidadão e poder? A resposta está. diferente daquilo que o cidadão almeja como ideal para si próprio. Se grupos ou tribos se apossam de sua gerência.

por força de si próprio. o cidadão deixa de ter poderes ao entregá-los para aqueles que foram eleitos. A soberania popular se restringe ao voto e conseqüente eleição de seus representantes. deveria dar ao cidadão o conhecimento e a prática necessária caius_c 273 . apesar de ter uma base democrática. da condução do próprio Estado. no seu componente político. No entanto. a representação dada pelo cidadão se desvirtua após a eleição e os ideais que se perseguia através de uma representação. Teoricamente. Após seu estabelecimento na administração do Estado. reconfiguram-se nos ideais que o partido assume como seus ou dos quais precisa para sobreviver ou agigantarse dentro do Estado. Nesse instante. em tese. onde ele detém poderes sobre si próprio e sobre os elementos que o compõe. Embora representado. se transforma e assume a forma oligárquica. das circunstâncias ou daqueles que o rodeiam. A Educação. o que a alija.democracia até sua eleição para algum cargo governamental. sua mentalidade. A própria Constituição Brasileira confere fundamento ao Estado na soberania. o Estado assume o papel de pequenos grupos comandarem outros para benefício de si próprios ou dos seus. isso seria uma forma prática de condução da democracia visto que se todos participassem da administração do Estado o mesmo implodiria por causa do excesso de mando. É o momento em que a representação popular deixa de existir e consequentemente a soberania do cidadão.

o indivíduo sofre outras influências na sua educação. Como somos animais visuais. No entanto.para que ele pudesse exercer com seriedade sua atual soberania que consiste no voto e eleição de seus representantes. Em um país democrático. Estatisticamente. a maioria da população tem na televisão seu principal veículo de informação. Educação informal Alem da educação formal. ao mesmo tempo em que lhe deveria dar todas as formas possíveis de condução para a manutenção de sua soberania e por conseqüência a do próprio Estado. é justo que se tenha liberdade de expressão e que as diferentes visões das diferentes situações devam ser de acesso a todos. lazer e cultura. devem existir alguns parâmetros básicos para a condução dessas idéias. cujo dever é da família e do Estado. A democracia se faz com a diversidade. que deveria ser a forma de como o cidadão atua dentro da sociedade e na relação sua com o Estado. Essa forma de soberania é o que se costuma chamar de exercício da cidadania. Os costumes do grupo influem fortemente na educação do cidadão e a mídia veicula idéias que nem sempre estão de acordo com as pretensões de um Estado Democrático de Direito. Não se trata de auto-censura ou da censura propriamente dita mas de concepções maiores das quais outras devem derivar. através do grupo e da mídia. a televisão se caius_c 274 .

227 Todos os veículos de informação podem ser considerados como educadores ou maus educadores. ela pode transmitir formas de pensamentos e comportamentos que. garante que a família brasileira passou a ter menos integrantes a partir da popularidade das telenovelas que retratam a vida em famílias pequenas. podem ser considerados como corretos. Os pesquisadores afirmaram que o planejamento familiar brasileira formou-se a partir desse hábito de assistir telenovelas e sua identificação com os personagens e que essa tendência ocorreu sem nenhuma intervenção governamental. com certeza. Isso não nega aos veículos o princípio do contraditório que faz parte do próprio conceito de democracia. A principal. Sua influência é tão grande que um estudo publicado na revista científica The Lancet. Alem dos veículos de comunicação em massa ainda existem outras formas de educação informal. em 31 de outubro de 2006. Como forma melhor de comunicação.mostra como a fonte mais adequada para uma interação social na sociedade em que o indivíduo vive. se não analisados adequadamente. Tendo essa potencialidade. mesmo que não o sejam. Os próprios produtores deveriam estar imbuídos de princípios que estivessem de acordo com aqueles que a sociedade precisa ter e procurassem se manter dentro deles. visto que é dela que caius_c 275 . é a família. é certo que deveriam se dotarem de parâmetros que produzissem efeitos sociais benéficos.

Famílias mal formadas ou estremecidas. base de todo Direito. os núcleos familiares foram as bases dos primeiros Estados na sua formação. O grupo restrito da família deixa de ter a importância que tinha e passa a se constituir apenas como base para novas relações. produzem formas distorcidas de se ver a realidade que nos cerca. Famílias estruturadas transmitem a solidez da qual se constituiu aos seus membros. geralmente. Saindo do âmbito familiar. A família é o primeiro elo na socialização do cidadão e sua integração vivencial. A família é a primeira formadora dos costumes. independente de seu conteúdo.obtemos os primeiros conceitos sobre nossa condução como indivíduos. ela sustentará os indivíduos durante sua vida inteira. servindo de comparação para as novas interações que ele passa a sofrer. historicamente. e de que a sociedade é composta desses núcleos. Sendo uma base forte. A Constituição se preocupa com esse fato ao transmitir o dever da Educação à família. caius_c 276 . o indivíduo se confronta com as diversas realidades que outros indivíduos ou grupos lhes apresentam. as novas interações. Sendo fraca ou distorcida. podemos afirmar que uma família é uma réplica em miniatura do próprio Estado e que o Estado deveria assumir isso como parte integrante de sua própria existência ao encarar os seus componentes como próximos e se basear nas relações que tomamos como ideais para o convívio. passarão a dominar o comportamento e as idéias do indivíduo. Se considerarmos que.

reforçando condutas e modo de vida. produzidas a partir das necessidades dos países colonizadores de afirmarem sua superioridade como povos. As mais comuns são: a) b) c) d) Teoria da tropicalidade Teoria da mentalidade colonizada Teoria da multiplicidade de raças Teoria da docilidade do povo brasileiro A teoria da tropicalidade reza que os povos tropicais são naturalmente preguiçosos porque a natureza tropical lhes dá tudo que necessitam e por isso. as estações definidas do clima europeu teriam dado a eles um estilo de vida e uma compleição física e mental necessária que os fariam trabalharem de acordo com elas e que sem esse trabalho eles não conseguiriam sobreviver. eles não necessitam de grandes esforços para obterem o necessário para sua sobrevivência. São como lendas urbanas transmitidas através das gerações e cujas origens se perderam no tempo. favorece a natureza e a abundancia está sempre presente o que elimina a necessidade de planejamento ou trabalho para caius_c 277 . também fazem parte dessa educação informal. os exterminaria. com estações menos definidas ou apenas com duas estações: a das águas e das secas. ao contrário dos povos europeus. De acordo com essa teoria. Um inverno rigoroso cujas provisões não tivessem sido previamente administradas nas outras estações. Elas induzem a um pensamento pré-fabricado por outros povos e assumidas como próprias. Nos países tropicais.Teorias estranhas.

atirou-se ao rio e afogou-se. dificilmente o fazem pois se adaptam ao país onde estão. que é a da miscigenação fácil e sua adaptabilidade aos países para os quais migram. O povo português tem outras características. De acordo com essa teoria. Presumo que essa teoria foi inspirada. Dizem que o saudosismo está presente em todas as almas lusitanas e que a sua pátria é seu único lar.sobreviver. Ao mesmo tempo em que desejam voltar à sua terra. capturado e sendo levado para o cativeiro em uma canoa. Dizem que as águas do Rio Negro não se misturam às do Solimões como protesto pela sua morte. em parte. A teoria da mentalidade colonizada deve ter tido origem nas esperanças dos portugueses de virem ao Brasil para enriquecerem e depois voltarem para seu país de origem. onde uma pesquisa caius_c 278 . Essa necessidade de liberdade foi assumida como má índole para o trabalho pelos seus conquistadores. Essa visão de um Brasil colônia de enriquecimento fácil ainda podia ser notada nas décadas de 30 e 40 do século XX. Essa teoria também engloba o conceito de que as altas temperaturas dos trópicos favoreceriam uma natural preguiça no ser humano. Uma das lendas do Amazonas conta a história de Ajuricaba. preferindo a morte à prisão. mais históricas. A escravidão negra começou a partir do pressuposto de que os da terra não serviam para o trabalho braçal forçado. pela natural rebeldia de nossos indígenas em relação ao trabalho escravo imposto a eles pelos europeus. o homem tropical precisa apenas estender a mão para tirar seu sustento da natureza. um chefe indígena que.

A teoria da multiplicidade de raças diz que no Brasil a heterogeneidade da sua população devido às diferentes etnias. O exemplo mais típico que usam nessa argumentação é a caius_c 279 . nos períodos que seguiram até a era de Getulio Vargas eram submissos aos ingleses e depois da Segunda Guerra aos americanos.mostrou que. considerando-se a si mesmos como elementos dominadores e dando ao resto da população a pecha de simples explorados. Essa teoria foi reforçada com o atrelamento da economia do Brasil Imperial à Inglaterra e depois com dominância americana após a Segunda Guerra Mundial. No Brasil colônia os governantes eram portugueses. por mais estabelecidos que estivessem aqui. não produz um pensamento único e isso acarreta distorções nas formas como a população age face às necessidades nacionais. ainda existia a perspectiva de um retorno ao seu país de origem. principalmente. A visão colonizadora dos antigos portugueses ou dos novos impérios transferiu-se para os governantes e transformou-se junto à população em uma individualidade que impede a união para fins voltados para a sociedade. à falta de incentivo e proteção à indústria nacional. Essa teoria produziu outra: a da exploração dos governantes em cima dos governados. Essa oligarquia vinculada à outra Nação assumiu como prática própria aquela ditada pelos seus dominadores. quando os produtos brasileiros eram inferiores aos importados devido. O produto nacional indicava a qualidade do país em relação aos outros.

Dizem que o Japão do pós-guerra somente conseguiu se reerguer devido à aparente unicidade étnica o que lhes deu a vantagem de um pensamento único voltado para a recuperação de seu país. onde ele se relacionaria econômica ou politicamente com aqueles com quem tivesse um envolvimento emocional. Isso transforma o brasileiro em um ser cortês. Essa característica é passada pelas gerações através dessas caius_c 280 . A teoria da docilidade do povo brasileiro vem da sua natural diversidade e de sua capacidade de aceitação e convivência com outros povos. social e camarada. Essas teorias esdrúxulas e sem sentido são usadas como argumentos como explicação para a aparente inércia da população em relação à atuação de seus governos e são transmitidas informalmente. ao mesmo tempo em que ele não se considera como parte de sua sociedade e termine por usá-la apenas como forma de ascensão social. Presumo que parte dessa teoria se deva ao fato do brasileiro ser naturalmente cortês e nas premissas de Sergio Buarque de Holanda. que definiu a identidade brasileira resultante da colonização portuguesa voltada para a afetividade em suas relações sociais do Brasil Colônia. produzindo um fenômeno que é a individualidade e a incapacidade de acreditar nas camadas que governam o país. Isso originou a assertiva de que o “brasileiro é um povo fácil de se governar”.homogeneidade da população japonesa e seu pensamento único.

onde existiram poucos conflitos e a maioria foi resolvida de forma quase pacífica. no seu livro “Os sertões” e que despende sua energia apenas nos momentos de luta. O brasileiro não é um soldado: ele é um guerrilheiro solitário. com ideais apenas dele. O que lhe mostram é a imagem de um país com história serena. Com pouca tecnologia e descrente de um poder estatal. sua vítima passar. A Educação formal faz da inverdade histórica um motivo para que a população seja indiferente aos seus governos e acentuem sua individualidade. Mas a história brasileira está recheada de eventos que contradizem frontalmente essa afirmativa sobre sua passividade e que não lhe é mostrada na educação formal. Nos países onde a educação formal é fraca. Ainda subsiste em sua mente a forma comportamental da colônia onde os da terra eram obrigados a reverenciar seus governantes alienígenas para não perecer ao mesmo tempo em que procurava tirar para si o melhor proveito.teorias estranhas à sua própria índole e o transforma em um ser individualista. Ele evita confrontos diretos mas que não se esquiva de uma luta onde seu rosto não apareça. A educação informal é arraigada nos caius_c 281 . atrás de uma rocha. deficiente ou inexistente. conforme tão bem descrito por Euclides da Cunha. que espera na mira dormida. Essa aparente aceitação do poder que recai sobre si lhe vale a fama de ser passivo frente aos seus governantes. ele se faz valer por si mesmo e procura atingir apenas os objetivos que se atribuiu. as mudanças de pensamento são quase nulas.

regionalização da produção cultural. No entanto. apesar de não poder existir censura. artísticas. Se não existe um interesse governamental em fazer com que ela se torne uma forma de educação voltada para os interesses da comunidade. . artística e jornalística.costumes e se transmite antes da formal através da família. culturais e informativas. da Comunicação Social. conforme percentuais estabelecidos em lei. Os interesses da mídia são predominantemente econômicos e políticos.preferência a finalidades educativas. o Estado tem o poder de regular o conteúdo através do § 3º do mesmo artigo e no artigo 221. O Estado é responsável pelo que circula na mídia simplesmente porque a concessão desses serviços é dada pelo próprio Estado. . embora a censura seja vedada. no seu Capítulo V.promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação. Os princípios das programações das emissoras serão os seguintes: . quando uma não está aliada à outra. caius_c 282 . ela atuará como elemento amortizador de mentalidades e produtora de individualidades. Essa educação aliada ao bombardeio contínuo de uma mídia faz com que ela tenha tamanha força que nem sempre é superada pela educação formal. conforme disposto na Constituição de 1988.

A segunda é o surgimento de líderes que estejam voltados para a totalidade do Brasil e não apenas para seus grupos. o Estado se outorga o direito de regular suas programações e conceder concessões.respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família. Essa visão somente pode ser inserida através da Educação. já que é naturalmente disposto a isso. Os demais. diferente de todos os outros. tanto formal como informal.. mas o primeiro líder seria especial. O que falta. Realmente é difícil. já imbuídos de uma mentalidade social. Isso faz que seja de sua responsabilidade o conteúdo transmitido por esses meios. de tal forma que desmistifique essa índole atribuída errônea e historicamente a ele. então. Sua aparente individualidade é a forma que encontrou para se proteger física e mentalmente de seus governos. ao brasileiro para se afirmar como uma única Nação? A primeira. Esse líder teria que ter necessariamente um governante cujos anseios fossem derivados diretamente do povo. O brasileiro precisa passar a se ver como realmente é e essa visão de si próprio lhe dará espaço para uma visão social. Essa identificação seria caius_c 283 . com certeza. surgiriam naturalmente da comunidade. Embora os meios de comunicação sejam de propriedade privada. Parece difícil que surja um líder com uma mentalidade social dentro de uma sociedade individualista. é visão de sua essencialidade social.

em casos extremos. se deixada à solta. principalmente através da educação que recebe formalmente e cuja competência é do Estado. uma criança passa a sofrer influência de uma educação formal a partir dos seus três anos quando ingressa no Jardim da Infância. Com um período histórico de crença em seus líderes. as afirmativas da Nação passariam a ser do próprio cidadão. Com o desligamento sucessivo da influência da família. A educação consiste em três partes: caius_c 284 . Seria o exercício da soberania do cidadão em conjunto com a soberania do Estado. Nessa fase. Educação e a criança O desligamento da criança de seu núcleo familiar é cada vez mais precoce. ainda existe uma forte ligação com os elos fabricados dentro de si pela família. Idealmente. Toda criança tem um tendência natural ao egoísmo que precisa ser modificada através da Educação. o que o transformaria em um Status Magnus. Essa naturalidade. A terceira fase e definitiva seria a formação de uma mentalidade única voltada para o social. o indivíduo passa a ter outras.a primeira base para o crédito a lhe ser dado ao mesmo tempo em que lhe concederia a legalidade para sua atuação. a sociopatia. gera a extrema individualidade e. pela própria estrutura do ser humano.

A primeira fase da educação é nos fornecer sociabilidade e retirar de nós o natural egoísmo com o qual nascemos. Se a deixarmos por conta sem a necessária educação. ela tomará como adequado o conceito de manada. A criança é naturalmente egoísta e o mundo gira em torno de si própria. ou seja. visto que por si só o indivíduo não a adquiriria. Apesar de sermos animais sociais. onde o grupo existe apenas para que o indivíduo possa dele se aproveitar e usa-lo apenas em benefício próprio. a educação é caius_c 285 . sem nos dar a consciência real do que deveria ser viver em sociedade. isso não nos dá o conceito natural de vivência social. Essa naturalidade apenas nos agrupa e nos mantém juntos. quando necessário. Existe a necessidade da imposição da educação por parte de uma instituição que esteja acima do indivíduo.a) A socialização do indivíduo b) A manutenção do modus vivendi da sociedade c) Fornecimento de parâmetros para que o indivíduo se modifique e a própria sociedade. Sendo dever do Estado e da família e sendo essas instituições as mais adequadas para essa imposição. depois procura formar sua própria. estaríamos juntos apenas como forma de proteção e não como forma de uma mútua convivência ideal. Seriamos o equivalente a um peixe dentro de um cardume ou um gnu dentro de sua manada. Sendo a família uma entidade natural na qual o indivíduo nasce e cresce e. nada mais natural que assim o façam.

geralmente através da família. Uma sociedade é a extensão de um acordo coletivo aprendido. A segunda fase é de responsabilidade maior do Estado que deve formalizar a condução da educação e dar a ela uma simultaneidade na qual todos se identifiquem naquele tempo e espaço como parte de um grupo estável ao mesmo tempo em que uniformiza o conjunto de conhecimentos e comportamentos que todos deveriam ter. sua condução e sua aplicação. Ao Estado compete uniformizar as formas da educação. A segunda base da educação é a de manter as formas pelas quais nós nos identificamos e pelas quais nos conduzimos. e nos quais nos baseamos para nossos comportamentos. Uma sociedade precisa ter padrões próprios e de conhecimento de todos. As gerações se sucedem dentro desse núcleo e transmitem-na como uma herança.transmitida da mesma base natural da qual ela se constitui. Essa uniformização da educação pode esconder duas formas de manutenção de Estados totalitários: caius_c 286 . teríamos uma pane no sistema social pois a cada momento teríamos que fazer acordos com nossos semelhantes e isso tiraria a capacidade de sabermos antecipadamente como deveríamos nos comportar ou agir em relação a outrem. A educação familiar não tem esse poder de uniformizar a educação visto que uma diverge da outra em muitos pontos. Se pensarmos em uma sociedade onde cada um tem suas próprias formas de se conduzir.

podendo provocar a negação do Estado como seu condutor e. Ao escusar-se do direito de defender o Estado como se fosse sua extensão. na forma de comportarse ou nas oportunidades que possa ou queira vir a ter. nega-se o dever de protegê-lo como algo que não seja seu. A soberania do cidadão caius_c 287 . Sendo a educação um conjunto de conhecimentos que dá condições sociais para o cidadão. os Estados totalitários com base marxista desvirtuada valeram-se da educação para sua afirmação como Estado. gerará distorções do modo de pensar. b) Modernamente. ao ser diferente de um para outro. uniformizando e dando uma base ideológica única. No máximo. o Estado nega a educação completa ou apenas dá parte dela no que se refere ao profissionalismo. por conseqüência.a) A não-educação como forma dos Estados totalitários se manterem. O desnível gera indiferenças ou revoltas no indivíduo. a soberania do próprio Estado pode ser ameaçada pois ela parte primeiramente do sentimento do cidadão em relação à Nação. O desnível da educação afeta a própria soberania do Estado ao dar bases distintas para o cidadão situarse dentro da sociedade. Partindo da premissa básica de que quanto mais o cidadão é desinformado mais ele deixa se conduzir ou aceita as pretensões dos grupos que compõe o governo. a sua intenção é a formação de mão de obra especializada.

A terceira base é aquela em que a educação fornece condições para que o indivíduo use daquilo que aprendeu. os dois devem estar preparados para usar caius_c 288 . compare com as atuais necessidades e tente promover mudanças próprias ou da sociedade em que vive. È o conceito de tese-antítesesíntese de Marx aplicado à forma de condução da sociedade. A complementaridade também cabe nessa base. Essas duas bases da educação são inerentes a toda sociedade: primeiro socializamos o indivíduo e depois damos a ele as bases sociais de comportamento. Com a sociedade também é assim: a sociedade que não sabe adaptar-se desaparece como tal. buscando formas que darão um melhor contorno à sociedade em que vive. onde uma situação concreta é analisada e conduzida de forma abstrata até se chegar a um novo conceito que passa a ser adotado. onde novos conceitos vão sendo trazidos para dentro do conjunto pelo qual o indivíduo e a sociedade se regem. O ensino das formas de se conduzir ao contraditório ou à complementaridade é básico para que existam mudanças ou adaptações. Uma das máximas das teorias de evolução é aquela em que diz que perece aquele que não se adapta.dentro do Estado é a base e o reforço da soberania do próprio Estado no que concerne às ameaças a ela. Esse novo conceito é válido até o instante em que é novamente analisado gerando um novo conceito e assim sucessivamente. Sendo a sociedade um reflexo do indivíduo e sendo o indivíduo o próprio reflexo da sociedade.

o que a transforma na própria essência da sociedade. Se o Estado quer progredir como tal deve fazer com que o cidadão tenha a capacidade de avaliação da situação e tenha habilidade em fazer com que ela perdure ou se transforme de acordo com as necessidades. Qualquer mudança que ocorra na sua forma. visto que essas mudanças são válidas apenas para as novas gerações. é certo dizer que a educação dita o contexto sobre o qual a sociedade age e o Estado atua. necessárias para progredirem Sendo o Estado o regulador das ações sociais. ela tem início apenas nos cidadãos que estão na idade adequada. Hoje em dia. qualquer reforma que temos na Educação somente terá reflexos. Um Estado com cidadãos inertes terá a mesma qualidade. A educação e as velhas gerações Um dos grandes problemas da educação é a perda de gerações. daqui a 20 anos. ou seja. A educação é a essência do indivíduo e da sua transformação para o estágio de cidadão. A velocidade com que o mundo se conduz exige que os caius_c 289 .das formas conjuntamente. no mínimo. um Estado que espera vinte anos para que novas idéias comecem a surtir efeitos é um Estado que está fadado a perder sua soberania ou a perecer simplesmente visto que o tempo espera cada vez menos os retardatários.

sob quaisquer das formas. Por educadores podemos entender aquele que transmite o seu conhecimento a outros. o educador na forma ideal sempre tem que estar um passo adiante de seus educandos. quando aquilo que lhe é apresentado não lhe convém. No entanto. Educação não se resume aos bancos escolares mas sim sobre uma gama vasta de informações que produzem uma forma de agir e pensar em cada cidadão. O eterno aprendizado faz parte da arte de ser um educador. A educação e os educadores Não existiria a educação se não existissem os educadores. conferindo a ele o conhecimento e a aptidão necessária para que possa construir-se e aos que o cercam. caius_c 290 . Não se trata de um retorno aos bancos escolares de todo e qualquer cidadão em uma reforma educacional completa mas da veiculação através de outras fontes da síntese de como ela se conduz e que de ao cidadão as informações necessárias para que todas as gerações possam se integrar no mesmo movimento.Estados tenham uma maior capacidade de adaptação às formas como se faz presente. Uma Educação Reformadora precisa incutir capacidade de raciocínio e discernimento no cidadão de modo que ele tenha condições de avaliar e agir. quando necessário.

a cultura exerce papel primacial para delimitar as diversas personalidades. diz que o conjunto de produtos de representações simbólicas e de procedimentos apresentados pelos homens que não são decorrentes da atuação direta das caius_c 291 . onde não deixará nenhum legado e da qual se lembrará apenas nos seus momentos amargos de derrota.A educação formal e informal tem uma influência preponderante sobre a atuação do cidadão sobre sua vida futura. por onde a criança passará. Nem sempre as atitudes que temos para com uma pessoa podem ser consideradas “boas” mas os reflexos dessa atitude geram coisas boas. os padrões de conduta e ainda as características próprias de cada grupo humano. será uma escola vã. Na percepção individual ou coletiva da identidade. Existe uma diferença muito grande em parecer bom e ser bom efetivamente. onde se lamentará por não ter tido a instrução necessária para poder sobreviver por si própria. Uma escola que não dá as condições necessárias para que a criança se desenvolva e faça com que ela tenha um desenvolvimento. Não dispensar um treinamento duro e exaustivo para um soldado. sabendo que ele terá que suportar muito alem disso. Por menos que se queira “traumatizar” uma criança ou queira que ela tenha um começo de vida “feliz e alegre”. na sua Filosofia da Educação – Construindo a Cidadania. é negar a ele o direito da própria sobrevivência. isso pode levar a vida dela para uma espécie de buraco negro de onde ela não escapará. ANTONIO JOAQUIM SEVERINO.

229 A inserção de padrões errados no comportamento ou na mente das pessoas e seu uso generalizado fazem com que se tome como certo aquilo que é errado. onde o conhecimento distorcido se transforma em algo negativo para a sociedade. 228 Para o teórico MILTON SANTOS. ainda.230 Como cultura não devemos apenas ver as diferentes manifestações da sociedade ou sua forma de conduzir. A cultura é a forma primeva na qual a sociedade se acorda e sobre a qual os pensamentos caius_c 292 . em seu livro “As viagens de Gulliver” descreve bem essa situação quando aporta em Lapúcia e Balnibarbo. primeiro das coletividades. Para ele. a globalização que se verificava já em fins do século XX tenderia a uniformizar os grupos culturais. podendo ir até ao plano individual. O mundo é feito de idéias. o conhecimento e saber se renovam do choque de culturas. Idéias erradas promovem comportamentos errados. e logicamente uma das conseqüências seria o fim da produção cultural. Idéias corretas dão o melhor nível sobre o qual se baseiam as relações sociais. São elas que determinam o comportamento. enquanto gerador de novas técnicas e sua geração original. Jonathan Swift. Isto refletiria. na perda de identidade.forças mecânicas da natureza constitui o que se chama de cultura. sendo a produção de novos conhecimentos e técnicas produto direto da interposição de culturas diferenciadas com o somatório daquilo que anteriormente existia.

pode parecer que a educação deveria ser dada apenas como forma de se alfabetizar e dar condições de ganho à população através de uma profissão. em função dos analfabetos e desprofissionalizados. A Educação não deve buscar apenas a formação profissional ou tentar moldar cidadãos anuentes com a formação política do Estado. Apesar de ser um dever do Estado. A Educação como fonte de soberania À primeira vista. toda educação é política. se transforma em comportamento e isso determina a cultura de cada país. a Educação deveria estar desvinculada da política vigente do Estado. É certo que toda educação influi na economia do cidadão e do Estado. buscando que ele faça o melhor para si e para a sociedade da qual participa. A cultura deve ser vista como a introspecção das formas de condução da sociedade. no entanto. A Educação não conseguirá resolver todos os problemas do cidadão e também não é sua função precípua. Sua função principal é dar aos cidadãos as melhores ferramentas possíveis para estimular sua participação dentro de uma sociedade. A educação. A Educação deveria ser usada para moldar o próprio Estado e não ser usada para conformar a população dentro dos parâmetros que o Estado estabeleceu para si.dos indivíduos gravitam. em suas diferentes formas. caius_c 293 .

A Educação forma a soberania do cidadão e. onde o cidadão sinta-se como parte do Estado e o Estado se reconheça como espelho da Nação que ele administra. estudos sobre Moral. por extensão. a do próprio Estado. b) Princípios de cidadania.A Educação deveria basear-se em dois princípios: a) Princípios econômicos ou de mercado. onde se fornece ao indivíduo todas as possibilidades para que ele se torne um cidadão ao mesmo tempo em que lhe imbui a capacidade crítica tão necessária à manutenção ou transformação da sociedade. Como ser cidadão de um país se eu não conheço as linhas mestras de sua condução? Esse estudo seria a base dos conceitos a serem adquiridos sobre soberania e cidadania. Moral e Ética deveriam ser matérias constantes no mesmo currículo pois são bases do Direito e por conseqüência caius_c 294 . direitos e deveres na mente do cidadão. Esse estudo paulatino seria a forma mais adequada de fixação das convenções do país. Ética e História. Algumas matérias deveriam ser introduzidas no currículo escolar como Constituição. Para se ter soberania é necessário que a Educação seja vista como um todo. onde se ensina e se dá condições para o cidadão de ter uma profissão condizente com as necessidades de mercado. A Constituição deveria ser dada em doses homeopáticas em todos os anos até o colegial.

Não reprovar alunos pelo simples fato que isso se torna oneroso para o Estado ou apenas para cumprir metas estabelecidas pelo Estado ou pela comunidade internacional. Para que não existam perdas de gerações. Por último. gera apenas uma mentalidade subdesenvolvida nas duas partes onde uma se exime de se dar da melhor forma como educador e a outra parte se escusa de receber conhecimentos que serão essenciais para sua sobrevivência como profissional ou cidadão. de onde viemos e para onde queremos ir. ou. porque algumas teorias esdrúxulas sobre educação afirmam que não se deve exigir muito dos educandos. então. deveria existir uma mudança na matéria História.das obrigações e deveres do cidadão não somente sob as penas da lei mas na forma de transferir para o íntimo de cada um a necessidade de pensar e se comportar tendo como referência um padrão aceitável por todos. Não devemos esquecer que uma educação somente existe quando se tem o empenho dos educandos e educadores. dando ênfase ao seu lado crítico e formando-a de modo que saibamos o que somos. o ensino formal dessas deveria ser configurado de modo a ser veiculado pela mídia nas suas diferentes formas para que atinjam a todos. Não se trata de campanhas de marketing mas sim de um ensino informal ministrado de forma que aja compreensão e aceitação. Acreditar que o mínimo de esforço pode produzir bons resultados é negar que o ser humano necessita do árduo trabalho para poder se promover e confundir as mentes com caius_c 295 .

Quem quer governar um país precisa saber como fazê-lo. O Estado precisa de pessoas preparadas para ocupar os cargos que detém e esses devem estar preenchidos com o que temos de melhor em material humano. Não se trata apenas da defesa de um território mas sim da defesa de idéias. ideais e de um modo de vida que julgamos necessário à nossa própria pessoa. deveria existir uma Escola para Políticos. Não existe uma fragilização da soberania por causa das mudanças que ocorrem no mundo e que nos atingem nas suas mais diferentes formas. A Política deveria ser uma carreira como as demais. Sendo um sentimento e tendo suas qualidades. ela seria etérea se não fosse uma necessidade como caius_c 296 . Ao se reprovar uma criança em determinada matéria. o Estado está dando a ela mais uma chance de aprender aquilo que ela não conseguiu da primeira vez. O que existe é a necessidade de conceituação de uma nova soberania. onde se deve ter o conhecimento para poder exercê-la. com reprovação e aprovação igual a todas as demais. Pelo contrário. Por último. A soberania estará cada dia mais virtual e com mais parâmetros do que tinha até hoje. o Estado não está agredindo-a ou lhe negando qualquer direito.noções de que fazer pouco lhe trará algum benefício pessoal. Os políticos seriam mais produtivos e mais voltados à sua própria Nação se a entendessem como parte de si mesmo e se vissem como substrato da cidadania e da soberania.

Com a educação adequada. aquele tem a força necessária para padronizar a educação e dar os contornos necessários a ela. o sentimento de soberania torna-se referência para todos os nossos atos. Com o devido processo educativo. O Estado se torna o promotor e o mentor desse sentimento e repassa à família através de seus próprios membros. que são o espelho de suas próprias como cidadão. se reforça nas suas pretensões. a responsabilidade do Estado no que se refere à Educação passa a ser total e o dever que a família tem com relação à educação passa a ser o compromisso de vigiar seus membros no que concerne à aquisição dessa Educação. ela deve ser imbuída dentro de nós desde as primeiras idades para que permaneça como elemento chave da composição de um cidadão. O único processo que pode incutir esse sentimento de soberania é a Educação. o cidadão passa a ter consciência das pretensões do Estado. caius_c 297 . o Estado influi na Educação que a família dará aos seus membros. O sentimento de soberania define nossas pretensões sobre a forma na qual queremos nos moldar. Mesmo que a educação seja um dever do Estado e da família. Dessa forma. Se for incutida desde nossos primeiros momentos. Sendo um sentimento. sim. Ao padronizar a educação. O Estado fornece a Educação e a família assegura que seus membros a terão.fundamento no modo de nos conduzir. a soberania não se fragiliza e.

qual o lucro da soberania? Se necessitamos tanto dela. caius_c 298 . qual seria a sua maior premissa? A principal premissa da soberania é a liberdade. Sem ela. Com ela podemos ser o que quisermos. deixamos de ser humanos. Há de se seguir adiante como nunca se seguiu antes.Afinal.

coesa e solidária. O homem é que corrompe o poder. Ele entende que a força e a competência se entrelaçam. unidade caius_c 299 .231 AZAMBUJA adota a posição de Duguit ao explicitar o poder e a autoridade como expressões de ordem que reina no mundo físico e moral. conservando-a unida. A força é o poder de fato enquanto que a competência é o poder de direito.Poder "Não é o poder que corrompe o homem. natureza integrativa do poder estatal." (Ulisses Guimarães) SALVETTI NETO define poder como a imposição real e unilateral de uma vontade. Deriva da própria natureza das coisas e não poderia ter sua causa primária senão na inteligência e vontade suprema de Deus. Suas características principais são a imperatividade.232 BONAVIDES diz que o poder representa sumariamente aquela energia básica que anima a existência de uma comunidade humana num determinado território.capacidade de auto-organização.

é total. ele próprio pode regulamentar sua ingerência sobre os cidadãos. Entende-se que a individualidade em grupos de animais herbívoros é maior do que em carnívoros. É um fenômeno social e bilateral porque decorre da união de duas ou mais vontades. Entende-se que em um estado primitivo de racionalidade. princípio da legalidade e legitimidade e a soberania. Isto explica-se pelo simples fato que existe a necessidade. a princípio. exercendo funções de coordenação e coesão. O Estado detém todas as prerrogativas sobre o cidadão e o submete de acordo com seu regime e forma de governo. Essa força. No entanto. o poder somente existe através de uma única liderança que se mantém pela força bruta. 234 Para CELSO RIBEIRO BASTOS. 233 AFONSO ARINOS define poder como a faculdade de tomar decisões em nome da coletividade. Tudo pertence ao Estado.e indivisibilidade do poder. Esta forma de liderança surgiu quando os homens se tornaram predadores de grandes animais. o poder é intrínseco a toda forma de organização. Nestes primórdios. O poder político nasceu junto com os grupos humanos. 235 Poder é a força pela qual o Estado afirma-se sobre o indivíduo. os grupos eram pequenos e familiares. para se caius_c 300 .

Neste caso. A sobrevivência pela caça e o medo da morte deram início ao poder político. Quando o homem passou a ter consciência de si e. principalmente. Mesmo que as respostas não fossem exatas ou claras. o grupo serve como suporte para sua sobrevivência. não necessitam da cooperação do grupo. o homem passou a aceitar naturalmente o poder político. elas se tornaram explicações para muitos dos problemas que afligiam o homem primitivo. Predadores que abatem pequenas presas. Ambos passaram a regrar a vida social e individual do homem. por sentir que deveria existir um ente que regulasse as relações humanas e por acreditar que existia algo superior ao próprio homem nesta condição. A servidão natural foi reforçada através da criação de castas pelos indivíduos dominantes. produziu uma natural servidão no homem comum. caius_c 301 . Por não mais poder viver de outra forma que não fosse em social. Sem poder explicar os fenômenos naturais e com medo de sua temporalidade. Esta convivência histórica e biológica com estas formas de liderança. mesmo que sejam sociais. surgiu uma segunda forma de liderança: o xamanismo.abater grandes presas. de uma cooperação ligada através de uma forte liderança. Ao poder temporal do líder do grupo juntou-se o poder espiritual do xamã. A liderança que era algo adquirido através de atributos pessoais foi substituída pelo estamento. da morte. buscou-se no espiritual o conforto necessário para sua mente.

A relação que era essencial para a sobrevivência de ambos desaprumou-se na balança. Isto permitiu que os equipamentos se barateassem e pudessem ser adquiridos por pessoas que não estavam ligados diretamente a esta oligarquia. que eram controlados por elementos que também detinham o poder político. ela formou novos grupos que passaram a disputar. Os dominados passaram a ter que desempenhar as funções para a própria sobrevivência ao mesmo tempo em que tinham que manter a classe dominante no poder. quase sempre. através da força associada com a submissão cultivada através dos estamentos. A associação direta do controle dos meios de produção e do poder político por uma elite foi amenizada quando passou a existir a produção em massa. permitindo mobilidade social. A partir deste ponto o poder formou-se pelo domínio dos meios de produção. Até a Revolução Industrial.o caius_c 302 .Este congelamento da posição social do indivíduo promoveu uma distância muito grande entre os dominados e dominadores. favorecendo a classe dominante. Com a industrialização os liames estamentais foram se afrouxando. Ocorreu uma democratização dos meios de produção e isto permitiu que eles se expandissem. o uso do poder político deu-se. No entanto. Esta expansão quebrou a hegemonia econômica e política destes poucos grupos. também.

No Estado Democrático de Direito. a submissão ao poder político se faz pela racionalidade e pela lógica do direito. tem que se entender que ele muda de mãos constantemente. Seus paradigmas são revistos para que seu uso retorne a uma de suas condições mais primevas: o bem comum. O cidadão tem a exata compreensão das forças que controlam a sociedade e direciona-as para obtenção dos melhores resultados para si próprio e aqueles que o rodeiam. As forças do Estado sobre o indivíduo O Estado exerce duas forças sobre o indivíduo: a) Opressiva caius_c 303 . atualmente.poder. O poder. por conta da própria democratização dos meios de produção. dentro de um sistema regulador de seu uso. Assim. de acordo com a capacidade ou rapacidade das empresas ou grupos financeiros. A efetiva democracia e o Estado Democrático de Direito tiveram seu início quando a mobilidade social passou a integrar o cotidiano do indivíduo. O poder controla ao mesmo tempo em que é controlado. o poder político passou a ser algo que poderia ser partilhado. passa a ser controlado e suas atribuições mudam. Quando se fala de poder econômico. dentro desta forma de governo. nunca pela coerção. O poder deixou de ser objeto exclusivo de alguns para se tornar algo acessível a todos.

permitindo algumas para o indivíduo apenas quando ele pode auferir maiores ganhos. a diferença entre as forças liberativa e opressiva determinará em qual ponto o Estado situa-se entre estes dois pólos. o Estado é o único detentor legal do uso da força. Um Estado autoritário entende que todas as vantagens têm que ser para si. Em tese.237 A força liberativa é aquela em que o Estado estabelece padrões de vivência para o indivíduo de forma aceitável pela sociedade. Isso também estabelece o grau de controle que o próprio Estado exerce sobre si. concede direitos para o cidadão que pode. Estas duas forças atuam sobre a liberdade do indivíduo. É o poder ilimitado sobre o indivíduo. usá-los contra o próprio Estado. Para ele. Quando ele faz isso.b) Liberativa A força opressiva é aquela cujo domínio sobre o cidadão é total. MAX WEBER afirma que o Estado é uma associação política institucionalizada e especializada em dominação. a democracia estaria no meio dos dois.236 Esta força opressiva determina apenas deveres ao indivíduo e as sanções para quem não os observa. Se considerarmos que o mais alto grau de falta de liberdade é o autoritarismo estatal e o mais alto grau de liberdade do cidadão é a anomia. inclusive. caius_c 304 . Um Estado democrático estabelece um padrão para que as partes se beneficiem da convivência mútua.

PLATÃO faz uma assertiva temerária ao dizer que “nenhum governante.” 238 Se considerarmos que uma das funções primordiais do Estado é o benefício do cidadão e que o equilíbrio das forças opressiva e liberativa é forma pela qual ele a exerce. o que pode incluir a violência. cujo objetivo é manter os diversos poderes em igualdade para que nenhum possa sobrepor-se ao outro e para que um exerça poder de polícia sobre o outro. o poder exercido é o da opressão. Em um país autocrático.239 O poder que o Estado exerce sobre o indivíduo pode ser de várias formas. ele usa de todos os seus meios para se fazer obedecido.O poder atua de duas maneiras: a primeira é a própria força do Estado sobre o indivíduo. Qualquer vantagem que o governante possa ter seria seu pagamento pelos serviços que estaria prestando aos governados. esta assertiva estaria correta. onde se entende que existem vantagens dentro dessa obediência. ou seja. existe um equilíbrio entre as várias formas. mas a do indivíduo que governa e para quem exerce a sua arte. é com vista ao que é vantajoso e conveniente para esse indivíduo que diz tudo o que diz e faz tudo o que faz. não objetiva e não ordena a sua própria vantagem. seja qual for a natureza da sua autoridade. a segunda é a própria disposição do indivíduo em submeter-se a ele. que engloba todas as formas de policiamento e repressão. na medida em que é governante. Em um país democrático. caius_c 305 .

que não pode ser considerada como um ideal de democracia. aprovar ou rejeitar leis. A Assembléia Curial era composta de cidadãos agrupados em cúrias. o corpo de magistrados e o corpo judiciário. temia o que se chamava de tirania. Seus membros eram soldados em condições de servir o exército. Esta forma de governo chama-se diarquia52. vindo de duas famílias distintas. O rei era juiz. O senado era um conselho formado por cidadãos idosos. No desempenho de usas funções. Ágidas e Euripôntidas. Seus motivos eram simples: suprimir o poder absoluto de uma só pessoa e ter um governo contínuo. que possuíam iguais poderes. A Assembléia tinha como principais funções: eleger altos funcionários. chefe militar e religioso. dois reis eram eleitos para governarem a cidade. 52 Governo de duas pessoas. aclamar o rei. As principais funções do Senado eram: propor novas leis e fiscalizar as ações dos reis. Roma foi governada por rei. A idéia de separação dos poderes é antiga. Para evitá-la. 240 Durante a monarquia. senado e Assembléia Curial. responsáveis pela chefia das grandes famílias. caso um dos reis viesse a faltar. ARISTOTELES distinguiu a assembléia-geral. caius_c 306 .Teoria da separação dos poderes Mesmo Esparta. submetia-se a fiscalização da Assembléia Curial e do Senado.

O poder federativo teria a competência para fazer a guerra e a paz. e ela teria interesses distintos daqueles do resto da comunidade. tanto no momento de fazêla quanto no ato de sua execução. Para evitar que esse poder se tornasse absoluto. pois elas poderiam se isentar da obediência às leis que fizeram. não poderia exercer outras funções . e adequar a lei a sua vontade. A ele competia prescrever as leis de modo a serem utilizadas como poder coercitivo da comunidade civil para sua preservação e de seus membros. ou o mesmo corpo dos principais. Seus representantes reunir-se-iam periodicamente e apenas quando necessário. o legislativo teria a máxima prerrogativa.JOHN LOCKE estipulou que deveriam existir três poderes: legislativo.”241 O poder executivo seria permanente e exercido pelo rei.”242 caius_c 307 .“não convém que as mesmas pessoas que detêm o poder de legislar tenham também em suas mãos o poder de executar as leis. ou do povo exercesse os três poderes: o de fazer as leis. contrários à finalidade da sociedade e do governo. executivo e federativo. executivo e judiciário. Foi MONTESQUIEU quem definiu a separação clássica entre legislativo. ou dos nobres. ligas e alianças. sendo auxiliado pelos outros. Ele diz que “tudo estaria perdido se o mesmo homem. o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as querelas entre os particulares. Ele garantiria a execução das leis à medida que fossem feitas e durante sua validade. No seu conceito. e todas as transações com todas as pessoas e comunidades que estão fora da comunidade civil.

em todas as suas nuances.“Toda sociedade na qual a garantia dos direitos não está assegurada. de 1789: . nem a separação de poderes estabelecida não tem constituição.” 243 Em alguns países. de modo geral. e harmonia dos Poderes Políticos é o princípio conservador dos Direitos dos Cidadãos. A idéia de separação de poderes tem origem nos ideais democráticos. 16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. onde se diz: Art.Ensina ALEXANDRE DE MORAES que a separação de poderes é essencial. o poder judiciário está subordinado ao Executivo. o conceito da separação de poderes já está imbuído na Constituição Outorgada de 1824. 9. embora tenha autonomia. e o mais seguro meio de fazer effectivas as garantias. Os Poderes Políticos reconhecidos pela Constituição do Império do Brazil são quatro: o Poder caius_c 308 . A separação dos poderes é a garantia técnica e jurídica do Estado liberal. de autoritarismo. A concentração de poderes em uma só pessoa ou em uma só instituição gera aquilo que chamamos. No Brasil. A Divisão. Art. tornando-se princípio fundamental da organização política liberal. sendo transformada em dogma pelo art. 10. que a constituição offerece.

outorgada por Getúlio Vargas silencia-se sobre o assunto. seria destinado a estabelecer o equilíbrio entre os demais poderes e exercido pelo Imperador. 1946. teorizado por Benjamin Constant. a cúpula do governo. uma necessária interação para que o Estado possa exercer suas funções. o Poder Executivo e o Poder Judicial. ou. o Executivo e o Judiciário”. em seu artigo 2o.Legislativo. 1934. pois considera o Presidente da República como autoridade máxima do país. O Poder Moderador. caius_c 309 . o Legislativo. A distribuição de poderes diversos entre entidades ou pessoas distintas. desde que sejam autônomos. Cabe ressaltar que ela define o Ministério Público como órgão autônomo face aos três poderes. seria a chave de toda organização política. Esta tripartição dos poderes mantém-se na Constituição Federal de 1988 onde se estabelece. promove. ainda. independentes e harmônicos entre si. o Poder Moderador. que “são Poderes da União. A de 1937. 244 As Constituições de 1889.. onde cada força equilibra a outra. além da redução de atuação absoluta de cada deles. ou melhor. Este sistema é o que convencionou chamar-se de freios e contrapesos. 1967 e 1969 consagram o princípio da tripartição dos poderes. o fecho da abóbada.

etc. governo. cada um deles detém as mesmas características. não podem pertencer a nenhum dos poderes tradicionais para exercer com eficiência sua função fiscalizadora. simbólica e fiscalização. todos carregam em seu bojo as forças opressivas e liberativas que. jurisdicional. O Ministério Público não pode estar vinculado a nenhum dos poderes tradicionais. transformam em termo médio as vontades de cada um. entendem que existem outras modalidades de poderes. ou jurisdição. os poderes deveriam ser divididos em funções: legislativa. aliadas à necessária interação. no Brasil. O termo médio pretende ser a melhor resposta para os problemas sociais ou estatais e busca evitar as soluções extremadas. visto que. que lhe permite proteger. Sendo subdivisões do poder total. o patrimônio publico. especialmente porque sua função preponderante é a de fiscalização e proteção da democracia e dos direitos fundamentais e não de legislação. que embora necessitem nova forma de escolha de seus membros para que assumam este novo status. e logo. o respeito aos direitos humanos. 245 caius_c 310 . administrativa. Alguns autores. governo. alguns órgãos não estão subordinados a nenhum deles. constitucional. histórico. os direitos fundamentais da pessoa. como o Ministério Público e os Tribunais de Contas O Ministério Público tem uma autonomia especial. como MAGALHÃES. fiscalizar o respeito à lei e à Constituição. Para ele.Estas subdivisões é a forma atual mais adequada para um Estado democrático. O mesmo ocorre com os Tribunais de Contas. ou seja. o meio ambiente. administração.

poder executivo é o poder do Estado que. No caso da União. às vezes. sem o que ele seria logo despojado de suas prerrogativas. caius_c 311 . Se o monarca 53 Artigo 76. nos moldes da constituição de um país.53 Esse conceito é estendido aos estados e municípios. Montesquieu já previra isso em seu Espírito das Leis. o poder executivo é exercido pelo Presidente da República. Constituição Federal de 1988. os poderes podem exercer funções de outros. cumprindo fielmente as ordenações legais. nas pessoas do governador e prefeito. É o que cumpre ou faz cumprir aquilo que foi determinado como sendo de alguma vantagem para a sociedade e/ou Estado. inserindo o poder de veto ao Executivo como forma de participação no processo legislativo. Apesar de serem separados. além de seus secretários.246 Poder executivo é aquele onde se concentra a função administrativa do Estado. possui a atribuição de governar o povo e administrar os interesses públicos.Poder executivo De acordo com a Enciclopédia Pastoralis. auxiliado pelos seus Ministros de Estado. deve participar da legislação com sua faculdade de impedir.O poder executivo. Mas se o poder legislativo participar da execução o poder executivo estará igualmente perdido. como já dissemos. Ao poder legislativo não caberia nenhuma atuação sobre o Executivo .

Contudo. que participe da legislação para se defender. Não sendo convertidas em lei dentro de sessenta dias poderão ser prorrogados.247 No Brasil. sua força de lei permanece durante o tempo em que esteve vigente. Eterna fonte de debates. Mas. o Executivo obtém o poder de legislar através das medidas provisórias. as medidas provisórias podem ser adotadas pelo executivo. mediante votação secreta. Poder legislativo As principais funções do poder legislativo são: elaboração das leis e fiscalização dos atos da União. além do poder de veto e sanção. As leis têm uma hierarquia onde a Constituição caius_c 312 .participasse da legislação com poder de decidir. como é necessário. O poder de veto é uma prerrogativa do sistema de controle mútuo entre os Poderes: quando o Presidente considerar um Projeto de Lei aprovado pelo Congresso Nacional como inconstitucional ou contrário ao interesse público. em geral. poderá vetá-lo total ou parcialmente. no entanto. com força de lei. não haveria mais liberdade. Mesmo não sendo aprovada após esse período. embora deva submetê-las de imediato ao Congresso Nacional. o veto presidencial poderá ser derrubado pelo voto da maioria absoluta dos Deputados e Senadores reunidos em sessão conjunta. é preciso que tome parte nela com a faculdade de impedir.

harmônicos e independentes entre si. a expressão máxima deste poder constitui-se da Câmara dos Deputados e Senado. a instalação de processo contra o Presidente e o Vice-Presidente da República e os Ministros de Estado. encontram-se entre suas atribuições privativas as de processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República . podemos citar as seguintes: autorizar. estaduais e municipais. ProcuradorGeral da República e Advogado-Geral da União nos casos de crime de responsabilidade. Já no Senado Federal. Entre as atribuições privativas da Câmara dos Deputados referentes à função de fiscalização exercida pelo Poder Legislativo em relação ao Poder Executivo. Os demais dele derivariam e estariam a ele subordinado.predomina. Entende-se hoje que os poderes são iguais. quando não apresentadas ao Congresso Nacional dentro de sessenta dias após a abertura da sessão legislativa. o poder principal era o legislativo. Os segmentos do poder legislativos são federais. Essa organização é denominada bicameralismo. Ministros do Supremo Tribunal Federal.248 No Brasil. proceder à tomada de contas do Presidente da República. que formam o Congresso Nacional. aprovar operações caius_c 313 . Para LOCKE. Comandantes das Forças Armadas. por dois terços de seus membros. Ministros de Estado.

Poder judiciário Ao poder judiciário compete julgar os conflitos de acordo com as leis elaboradas pelo poder legislativo. contudo. genérica e impessoal – a um caso específico. o da inércia. Cabe ao poder judiciário aplicar a lei – que é abstrata. Outra característica básica do judiciário é a jurisdicionalidade. ou seja. ne procedat iudex ex officio. Distrito Federal e Municípios.de empréstimo externo da União. nas suas mais variadas formas. Esta também deriva do conceito de imparcialidade. O que distingue um de outro. ou seja. ou seja. o judiciário somente pode atuar quando provocado. ou seja. dos atos da Administração e das políticas públicas. Desse princípio deriva outro. Ao Judiciário cabe a defesa da Constituição e das instituições democráticas. o juiz não procede de ofício. Um dos princípios básicos do poder judiciário é sua imparcialidade. ele não pode favorecer nenhuma das partes do conflito. é que a Câmara dos Deputados cuida dos interesses do cidadão. ele somente pode atuar dentro de determinado território e função. A função de controle da constitucionalidade das leis. a superioridade do Judiciário sobre o Legislativo ou caius_c 314 . Estados. dentre outras. enquanto que o Senado atua em favor dos estados. basicamente. não reflete.

é regra que o STF defina sua conformidade com a Constituição Federal. Neste controle. Cabendo ao Judiciário apenas o julgamento. Entende-se que as leis devem estar coadunadas com um suporte fático e quando se extrapola o entendimento além do constitucional. ainda ele tem alguns poderes que alguns classificam como legislativos. sobre as leis e atos administrativos.Executivo. A própria criação das leis ou ela em si podem ser confrontadas com estes princípios. Trata-se mais de um entendimento que busca desafogar o Judiciário de casos repetitivos cujas sentenças já estão sacramentadas. outros poderes e o próprio Judiciário podem ser partes de um litígio. este entendimento padrão pode ser questionado se existir uma nova visão jurisprudencial sobre o assunto. 54 Checks and balances caius_c 315 . nas suas mais variadas formas. porém. Isso pode gerar um engessamento nas decisões monocráticas. O Superior Tribunal Federal é o órgão que busca a manutenção das leis dentro dos princípios constitucionais. mas a supremacia da Constituição. como a promulgação de súmulas vinculantes. que definem julgamentos para casos padrões. Sistema de freios e contrapesos54 O sistema de freios e contrapesos nada mais é do que o controle que os poderes exercem sobre si.

aqui entendido é tanto o exercício como o resultado de funções específicas que destinam-se a realizar a contenção do poder do Estado. de fiscalização e de correção. Pela fiscalização. submetendo-o a um crivo de legitimidade e de legalidade. de consentimento. O controle de fiscalização é o que se exerce pelo desempenho de funções de vigilância. exame e sindicância dos atos de um poder por outro. o poder interferente tem a possibilidade de intervir no desempenho de uma função típica do poder interferido. o poder interferente satisfaz a uma condição constitucional de eficácia ou de exequibilidade de ato do poder interferido. o poder interferente tem a atribuição constitucional de acompanhar e de formar conhecimento caius_c 316 . Pelo consentimento. 249 O controle de cooperação é o que se perfaz pela co-participação obrigatória de um poder no exercício de função de outro. DIOGO DE FIGUEIREDO MOREIRA NETO entende que existem os seguintes controles: de cooperação. dentro do quadro constitucional que lhe for adscrito.A idéia de controle. seja qual for sua manifestação. Pela cooperação. O controle de consentimento é o que se realiza pelo desempenho de funções atributivas de eficácia ou de exeqüibilidade a atos de outro poder. com a finalidade de assegurar-lhe a legalidade ou a legitimidade do resultado por ambos visado.

no momento em que o controle passa a afetá-lo. O controle de correção é o que se exerce pelo desempenho de funções atribuídas a um poder de sustar ou desfazer atos praticados por outro. caius_c 317 . é imprescindível a normatividade em lei. atos do poder interferido que venham a ser considerados carentes de legalidade ou de legitimidade. ou de desfazer. Entende-se que a separação de poderes não pode ser encarada como uma divisão do poder estatal. devendo ser compreendida como funções do mesmo.da prática funcional do poder interferido. Quando afeta a efetividade ou eficácia torna-se lesivo ao próprio produto. A ingerência de um poder sobre o outro deve ser o suficiente para que cada um deles esteja sob a supervisão de outro ao mesmo tempo em que não provoque engessamento na atuação de cada um deles. com a finalidade de verificar a ocorrência de ilegalidade ou ilegitimidade em sua atuação. Um controle somente é efetivo quando propicia garantia de qualidade. Esta inserção na lei deve atribuir explicitamente a competência de cada poder sobre o outro e quais as formas em que ela pode se manifestar. eliminando desvios. Como o produto dos poderes é o bem comum. Pela correção pode-se suspender a execução. Para que existam estes controles de um poder sobre o outro. é necessário que seja revisto.

a falta de credibilidade do governo atual e o aparecimento de líderes carismáticos que possuem uma base ideológica fundamentalista. Devemos desconsiderar desta definição aquele que é exercido pelos grupos de pressão sem apoio popular. não refletem necessariamente a vontade popular. distribuíssem comida para caius_c 318 . Esta forma de poder emerge. Provavelmente. Ocorre um antagonismo crescente entre a massa popular. como fome e perspectiva zero. geralmente. onde o povo foi fator fundamental para o sucesso das mesmas e onde ocorreram mudanças de regime. podendo até alterar a forma de governo do Estado. estabilidade ou alterar a forma de governo. e um governo fraco e repressivo. se o rei Luiz XVI e o czar Nicolau II cedessem em alguns pontos. Ele pode produzir modificações. Exemplos claros são a Revolução Russa de 1917 e a Revolução Francesa de 1789. guiada por seus líderes carismáticos. Embora emanem de setores da sociedade. por conta das vicissitudes que o povo está passando.Poder social sobre o Estado Poder social sobre o Estado é aquele que emana da sociedade e que tem a capacidade de influenciar sua conduta. Sua forma mais radical é a revolução com apoio popular. Este entende que precisa demonstrar força para manter-se e provoca confrontos e conflitos que aumentam a resistência contra si.

atinge um clímax onde o Estado não encontra outra alternativa a não ser aceitar mudanças em sua estrutura. num crescendo. A independência da Índia. as Revoluções Francesa e Russa não teriam acontecido. O poder social pode se manifestar de forma a manter o sistema de regime. Ela deriva de uma insatisfação política que espraia-se entre a população de forma quase subcutânea até provocar atos que demonstram o repúdio social ao regime. ele conseguiu unir temporariamente as diversas facções políticas e religiosas para obter a independência de seu país. é um forte exemplo do poder social sobre o Estado. pois qualquer mudança pode diminuir as expectativas do indivíduo. Menos espetacular mas com os mesmo resultados é a força social que se manifesta aos poucos e.1948 caius_c 319 .o povo e lhe desse alguma perspectiva. 55 1869 . promovida por Mahatma Gandhi55. Sua ocorrência é mais manifesta onde a sociedade é politizada e existe um alto padrão de vida. A ditadura militar imposta no Brasil em 1964 foi sendo derrotada aos poucos através de uma campanha sistemática que formou uma opinião popular contrária até chegar a um ponto onde a mudança de regime se fez necessária. Nestes casos. Através da desobediência civil e de uma ideologia fundamentalista pacifista. Ele existe em países onde cujos governos mantêm a confiança dos cidadãos. a vontade popular é que a estrutura do Estado não se altere.

caius_c 320 .As mudanças de costumes podem ser consideradas como poder social. porque influem na legislação do país. na interpretação da lei vigente ou no tratamento que se dá a inúmeras situações que envolvem a relação cidadão-Estado.

” (Rousseau) 250 Partindo do princípio que o Estado tem como uma de suas características a complexidade. Estas divisões. se lembrou de dizer: Isto é meu. são feitas com base no território. onde existe uma centralização de poder. existe a necessidade de fazer com que o poder emanado do ponto máximo flua para todas as camadas da população. caius_c 321 . geralmente. Mesmo em Estados absolutistas e tirânicos. foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. tendo cercado um terreno. e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar. é comum que ele subdivida-se para poder melhor administrar.Divisões do Estado “O primeiro que. no tipo de poder e na área de interesse.

Geralmente. Foi recebida na língua portuguesa através do Frances fédération. necessitando de uma organização permanente. O estado é uma unidade funcional políticoadministrativa que detém relativa independência em face ao Estado. JELLINEK definiu confederação com a união permanente e contratual de Estados independentes que se unem com o objetivo de defender a território da confederação e assegurar a paz inter.251 caius_c 322 . elas partem do princípio da administração por região. além de outras finalidades que podem ser pactuadas. sem ferir a soberania dos estados. territórios e províncias. que se obrigam a exercer em comum certas funções ou exercê-las em casos determinados. Esta independência face ao Estado ou Poder Federal pode ser inserida nas duas formas mais comuns: a federação e a confederação. no caso o Poder Federal. Traduzem-se como divisões ou subdivisões do Poder Executivo. As mais extensas são os estados. A palavra federação vem do latim foederatione que significa aliança ou união.Divisão por território As divisões por território são as mais comuns.

embora detenham autonomia na sua administração. que perdem a soberania em favor da União Federal. com os poderes exclusivamente concentrados na União. Por sua vez. Nas federações o Estado detém o poder supremo. 253 IVO COSER ensina que “a definição contemporânea de federalismo o apresenta como um sistema de governo no qual o poder é dividido entre o governo central e os governos regionais. O federalismo é definido. na primeira. estando os demais sujeitos ao poder central. A diferença essencial entre federação e confederação é que. sendo que o centro não pode mudar a divisão de poderes entre o governo central e os subsidiários. sendo marcado processualmente pela regra da unanimidade e pela existência de veto de cada estado.JOSÉ ADELINO MALTEZ entende que a confederação é uma mera associação de governos que instituem um órgão central que é encarregado da política de segurança e da política externa. e uma confederação. em sua acepção positiva. na qual o poder central seria nulo ou fraco. o governo central possui poder sobre os cidadãos dos Estados ou províncias que compõem a caius_c 323 . 252 AZAMBUJA define federação com um Estado formado pela união de vários estados. que seriam. em última instância. a confederação é caracterizada como uma aliança entre Estados independentes. como um meiotermo entre um governo unitário. O governo central não poderia aplicar as leis sobre os cidadãos sem a aprovação dos Estados. a fonte da soberania.

os estados-membros participam dos processos que regem as políticas válidas para toda a organização federal. no segundo. Cabe assinalar que os estados federados ou confederados não dispõem de soberania externa. Isso confere maior rapidez e benefícios para o cidadão.União sem que essa ação tenha de ser acordada pelos Estados”. principalmente nas confederações. No primeiro. os estados-membros podem ter algum poder para celebrar tratados internacionais. pois existe um contato direto entre estes dois entes. os municípios. Na confederação pode existir o direito de secessão dos estados-membros enquanto que na federação a união é perpétua. por maior que seja a sua autonomia interna. GEORGES SCELLE dispõe dois princípios capitais do sistema federativo: a lei da participação e a lei da autonomia. desde que em observância à constituição federal. Somente o Estado dispõe desta prerrogativa. eles podem estabelecer uma ordem constitucional própria. 254 As diferenças mais marcantes entre Federação e Confederação são as derivadas do domínio que o poder central exerce sobre os estados membros. 255 Em um Estado Democrático de Direito entende-se que a solução dos problemas deve partir das unidades básicas. desde que não contrariem a política federal. Eventualmente. Quando o problema extrapola a caius_c 324 .

usada habitualmente como uma divisão administrativa. são da alçada da entidade que o controla. Os estados. território e província. que significa respectivamente “em nome de” e “controlar ou dominar”. a Irlanda e o Reino Unido. legislativo e judiciário estão presentes. caius_c 325 . Estando além de sua jurisdição. Estão subordinados diretamente ao poder central ou a algum estado. na Inglaterra shire.municipalidade. territórios e províncias são macros divisões do espaço geográfico cujo objetivo é melhor controle da administração central para disseminação do poder que se origina do Estado. Territórios são unidades administrativas sem poder de decisão. Sua autonomia é relativamente baixa. o Estado é a entidade que deve se colocar em ação. A palavra tem origem provável no latim pro vicere. 56 Abaixo do estado. Os poderes executivo. como os Estados Unidos. Entre os antigos romanos. As províncias seguem o mesmo padrão do território com a ressalva de que sua vinculação com o poder central é direta. Em alguns países ainda existe a subdivisão em condados. county. cabe ao Estado-membro a autoridade para resolvê-lo. podendo ser considerada apenas como uma jurisdição. vem a divisão em municípios. porém. era a 56 Nos EUA. concentrando-se mais nos municípios e não dispõe de constituição própria.

Também pode ser denominado concelho. Esta presença é que consolida a autonomia dos mesmos dentro de parâmetros estabelecidos. No Brasil. caius_c 326 .cidade que tinha o privilégio de se governar segundo suas próprias leis. Esta característica dá-lhe jurisdição ou poder sobre a matéria do conflito e não sobre a população em si. como em Portugal. suas vilas e uma extensão geográfica limitada por outros. sua divisão pode extrapolar a territorialidade e adotar critérios próprios para sua atuação. Divisão por tipo de poder O Estado pode ser dividido por tipo de poder. o órgão administrativo máximo é a prefeitura e o legislativo é a câmara municipal. Sendo assim. Os estados são as divisões dos Poderes Executivo e Legislativo. Explica-se isto pelo fato de que os mesmos estão obrigatoriamente presentes em todos eles e nas cidades que os compõe. tendo certa autonomia administrativa e órgãos políticoadministrativos próprios. No Brasil. O município engloba uma cidade. comarca é uma divisão judiciária que designa um território específico que delimita a competência de juiz ou Juízo de primeira instância. Uma das características do Poder Judiciário é a sua inércia. O município é dotado de personalidade jurídica. ou seja. diferente dos demais poderes. ele tem que ser provocado para atuar face a um conflito.

podendo ultrapassar os limites de um município e englobar outros. criminal. os especializados na Justiça Militar e na Justiça Eleitoral. Dentro das comarcas e dos juízos existem as varas que são o território de competência da prestação jurisdicional por tipo. de família. ainda existem os Tribunais Regionais do Trabalho. os Tribunais de Justiça são aqueles que detém poder jurisdicional sobre os Juízos. Dentro do sistema judiciário. juizados especiais. A divisão do Poder Judiciário é feita por matéria. O Superior Tribunal Federal é responsável pelo julgamento das matérias constitucionais. Além destes. O agrupamento de comarcas é a circunscrição e sua divisão é o distrito judiciário. cível. podendo manter ou criar uma territorialidade própria. Os Tribunais de Justiça são órgãos colegiados constituídos de juízes de segunda instância. etc. Sua função precípua é zelar pela uniformidade de interpretações da legislação federal brasileira. O Superior Tribunal de Justiça é um dos órgãos máximos do Poder Judiciário no Brasil. Como exemplo. podemos citar varas de infância. denominados desembargadores. É onde se pode recorrer das sentenças proferidas por juízes de primeira instância. caius_c 327 .

que pode englobar apenas parcela distribuída da população dentro de uma faixa pré-concebida. Usualmente são órgãos criados para o fim que distribuem a competência de seu território. devido às disparidades econômicas entre eles. estas áreas podem extrapolar a comum divisão executiva e legislativa dos Estados. como no caso de rios e bacias hidrográficas. Igual ao Poder Judiciário. Agência de Desenvolvimento do Nordeste caius_c 328 . as condições geográficas. quando criada em 1969 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. sudeste. norte e centro-oeste. A divisão em regiões econômicas do Brasil é um exemplo desta divisão por área de interesse: sul. porque abrangem extensões delimitadas por objeto. No entanto. tentou-se fomentar a igualdade através da atuação de órgãos como a nascida SUDENE57 e recriada com o nome de ADENE58 em 2002.Divisão por área de interesse O Estado também pode ser dividido por áreas de interesse econômicas ou tributárias. nordeste. principalmente. Esta divisão. levou em conta. Dentro destas áreas de interesse pode existir uma união de vários municípios ou Estados para administração de um bem comum. cuja função principal deveria ser a de promover o desenvolvimento econômico da Região Nordeste. 57 58 Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste.

com este não se confunde por ser um órgão predominantemente fiscalizador. de 19 de dezembro de 1973. as reservas e terras indígenas. que são territórios tutelados pela União. conforme § 2o.Cabe. não estando vinculado a nenhum órgão. visto que sua competência é nacional e sua autonomia é própria. no conceito de divisão por área de interesse. também. caius_c 329 . Podemos acrescentar o Ministério Público como divisão do poder do Estado por área de interesse. do capítulo II da Lei 6001. onde se permite que as tribos mantenham suas tradições. Embora tenha fortes vínculos com o Poder Judiciário. suas leis e seu modo de vida desde que não ofensivos à Constituição.

caius_c 330 . ó Poder. o cidadão é refém do Estado. Geralmente. A tirania engloba muitas facetas mas o que predomina é a concentração de poder em uma única pessoa e negação de direitos aos que estão abaixo dela.A tirania “Tu serás sempre. existindo um forte estado policial. Não há garantias de direito e as leis são ditadas como forma de proteção ao Estado. Toda e qualquer instituição estatal foi criada para controle do Estado sobre o mesmo. existe uma minoria privilegiada agregada ao tirano que o auxilia no exercício do poder. sendo que a liberdade de expressão é reprimida. e capaz de tudo!” (Ésquilo)256 Introdução Na tirania. não cabendo quase nenhuma proteção para aqueles que não se submetem aos seus ditames. destituído de piedade. as formas democráticas são a exceção. A tirania e suas diferentes facetas é regra na condução do Estado.

aquele que quer ser temido e busca os interesses pessoais.Estabelecemos a tirania como gênero de governo onde não existe o poder de escolha dos governantes pelos governados. aquele que edificou uma torre que o Senhor detestou.259 59 1275/1280 . o tirano é o fugitivo da face do Senhor. o uso deste por uma só pessoa configurava uma aberração. que entendia que a democracia e a oligarquia eram as formas mais corretas para o exercício do poder. 258 Para ALVARO PAIS59. aquele que não possui justamente o poder.1349 caius_c 331 . necessariamente. Perante Deus. aquele que não governou segundo a vontade do Senhor. tirano é aquele que é o dono da força. aquele que domina com a paixão da ambição e aquele que rouba os bens dos súditos. na época. como uma instituição abusiva ao povo. o que não rege pela justiça. aquele que fez opressões e mortes e o apóstata daquilo que devia fazer a seus irmãos.257 Este conceito. Conceito ARISTÓTELES considera a tirania como uma forma degenerada de governo. o que oprime. aquele que transgrediu a lei da natureza. onde o poder é controlado por uma só pessoa. cabendo definições próprias para cada uma pois tem formas específicas onde se instala. ainda não tinha conotação pejorativa atual. As espécies são múltiplas. Este controle do poder por uma só pessoa não era visto. Para Aristóteles. mas o usurpa.

o escritor peruano Mario Vargas Llosa. seria a forma mais prática para estabelecimento do poder. Em 1990. Esta maioria entende que não cabem direitos ou formas de proteção para aqueles que não pertencem ao seu grupo.MAQUIAVEL não questiona sobre a ilicitude da tirania. quando os interesses das minorias são relevados por uma maioria eleitoral. Para ele. que governou o país de forma ininterrupta de 1929 a 2000. chamou o México de “a ditadura perfeita”. Este soberano ascende ao trono por conta de hereditariedade ou direito consangüíneo. que visa exclusivamente o interesse do governante em prejuízo dos interesses dos governados. 60 1806-1873 caius_c 332 .262 Absolutismo clássico O absolutismo clássico é aquele em que um soberano único engloba todos os poderes. Como exemplo podemos citar o Partido Revolucionário Institucional (PRI). 261 Para AZAMBUJA. desejoso de ter uma Itália unificada.260 JOHN STUART MILL60 entende que pode existir tirania dentro da democracia. que ele chamou de “tirania da maioria”. do México. a tirania é um mau governo.

que é tão grave e abominável crime. estruturado sobre princípios segundo os quais quod regi placuit lex est61. As próprias aves levar-te-iam o sentido deles.Segundo MERKL. A história conta que. após o enforcamento de Tiradentes. 64 Não atraiçoes teu rei nem em pensamento. 63 O rei não pode estar errado. o que o torna imune a qualquer crítica ou interferência de outras pessoas. o direito pública esgota-se num único preceito jurídico. le roi ne peut mal faire63. pois seus atos se colocam acima de qualquer ordenamento jurídico.64 Esse pensamento traduz a aceitação tácita da palavra do rei como forma de lei. Este conceito de divinização da realeza está disseminado. e 61 62 O que agrada ao rei tem força de lei O rei não pode estar errado. Ele denominou esta forma de governo de Estado de Polícia. the king can do no wrong62. que estabelece um direito ilimitado para administrar. no sentido de que o rei nunca erra. um dos religiosos falou. tomando um tema do Eclesiastes264 – in cogitatione tua regi ne detrahas. O absolutismo clássico está imbuído da premissa de que a realeza deriva da vontade de Deus.263 O rei não pode ser submetido aos tribunais. no sentido de que o rei nunca erra. ou seu Real Estado. caius_c 333 . As Ordenações Afonsinas comparam os crimes de lesa-majestade com a hanseníase : -“Lesa-majestade quer dizer traição cometida contra a pessoa do Rei. quias aves coeli portabunt vocem tuam. inclusive. pela população.

Popularmente. A supremacia de um sobre outros deriva de um poder superior que exerce sua escolha pró um indivíduo. que o comparavam à lepra. o conceito estendeu-se a qualquer forma de governo ou liderança totalitária. a princípio. As literaturas. sem nunca mais se poder curar. estabelecendo um padrão de divinização para todas gerações. sempre trazem a figura do “escolhido” que é aquele que regerá determinado povo ou Estado.”265 Basicamente. e aos que ele conversam. profanas ou as consideradas sagradas.que os antigos Sabedores tanto estranharam. dirigido por um único indivíduo. que vislumbra nele as qualidades necessárias para exercer liderança. costuma designar caius_c 334 . posto que não tenham culpa. porque assim como esta enfermidade enche todo o corpo. Posteriormente. pelo que é apartado da comunicação da gente: assim o erro de traição condena o que a comete. entende-se que a realeza é divina porque a escolha do governante via hereditariedade somente é possível por graça de Deus. Fascismo O conceito de fascismo. e empece ainda aos descendentes de quem a tem. Estas qualidades são transmitidas aos descendentes via hereditariedade. Esta “escolha” é sempre feita por entidade superior ao “escolhido”. é o de um Estado controlado por corporações regidas pelo Estado. e empece e infama os que de sua linha descendem.

tenta impor-se somente através de Para BENITO MUSSOLINI o Estado deveria ser dirigido por um ditador. As corporações são definidas como instrumentos que. Um caius_c 335 . três condições eram necessárias: a) Um partido único b) Um Estado totalitário c) Um período de altíssima tensão ideal Por período de altíssima tensão ideal deve-se entender a repressão interna aos dissidentes e conquistas territoriais externas.pessoa que autoridade. controlada. realiza a disciplina integral. O partido único é derivado da necessidade existente em todo Estado totalitário de manter sua supremacia sem oposição. pois não se pode pensar em uma disciplina sem o devido controle. Sua idéia de Estado Corporativista englobava três instituições: O Grande Conselho e as Milícias que atuariam no plano político. além das Corporações que seriam instituições estatais para controle da economia – “O corporativismo é uma economia disciplinada e portanto. da força política e do bem estar do povo. orgânica e unitária das forças produtoras. O número delas pode variar em conformidade com as necessidades do Estado. em vista do desenvolvimento da riqueza. sob a égide do Estado.”266 Para que o corporativismo fosse aplicado.

Nazismo O nazismo foi um regime político instaurado em 1934 na Alemanha por Adolfo Hitler e que se inspirava no fascismo italiano de Mussolini mas levado a um grau mais extremo. culto da personalidade e repressão violenta). No plano político. que em alemão significa o "condutor". "guia". "líder" ou "chefe" e que deriva do verbo führen “para conduzir”. no fascismo. supremo comandante das forças armadas. o Führer do povo e do Reich alemão. O Estado. imperialismo. o termo nazismo é utilizado para designar todos os ideais racistas e nacionalistas violentos. Além das características fascistas (totalitarismo. principalmente a econômica. militarismo. e de que estarei pronto como um corajoso soldado a arriscar minha vida a qualquer momento por este juramento." 267 caius_c 336 . é intervencionista em todas as áreas.Conselho Nacional de Corporações substitui as casas legislativas como fonte de leis. nacionalismo. como superior a todas as outras). Sua característica mais marcante foi a submissão total à personalidade do Führer. o nazismo defendia também o anti-semitismo e o racismo (considerava a raça ariana. Atualmente. de que os alemães seriam os melhores representantes. não se discute a autoridade do governo. Todo e qualquer integrante das forças armadas era obrigado a fazer o seguinte juramento: “Faço perante Deus este sagrado juramento de que renderei incondicional obediência a Adolf Hitler.

Gibur. considerado como amuleto de sorte e sucesso. e teorizou que a suástica era um "significativo símbolo religioso de nossos remotos ancestrais". No começo do século XX era largamente utilizado em muitas partes do mundo.grupos originários do norte europeu. aparecendo em artefatos de culturas européias pré-cristãs. Entre os nórdicos. quando descobriu esta imagem no antigo sítio em que localizara a cidade de Tróia. 269 Para referendar este regime foram utilizados elementos filosóficos. A própria suástica. adotando a suástica como símbolo a "identidade ariana" .conceito este referendado por teóricos como Alfred Rosenberg. principalmente os de Niestche. seu símbolo mais visível e lembrado. desde os primórdios dos movimentos chamados "völkisch". a suástica está associada a uma Runa.Componentes místicos também foram acrescentados a este regime. Ela reapareceu num reconhecido trabalho arqueológico de Heinrich Schliemann. unindo os antigos germânicos às culturas gregas e védicas. sendo então associada com as migrações ancestrais dos povos "proto-indo-europeus" dos Arianos. tem uma história bastante antiga na Europa.268 Os nazistas utilizaram-se destas idéias. ou Gebo. Convém destacar que muito de suas idéias foram adaptadas ou reescritas de maneira a servirem como caius_c 337 . associando-a às raças nórdicas . Ele fez uma conexão entre estes achados e antigos vasos germânicos.

A lei maior na teocracia são os ditames contidos em algum livro. caius_c 338 . Teocracia Pode parecer estranho incluir a teocracia nos regimes totalitários mas isso tem razões de ser. portanto. já confere a ela seu caráter nãodemocrático. por si só. Dizem que uma de suas filhas foi a principal modificadora de seus escritos. O racismo e o anti-semitismo foram responsáveis pelo chamado Holocausto.base para o mesmo. inquestionáveis. onde se buscou estabelecer um padrão de raça. e todas as leis que derivam dela tem que ser adequadas à religiosidade contida na mesma. considerado sagrado. cuja função seria a de governar os demais povos. a idéia da eugenia. dita ariana. onde milhões de judeus e integrantes de grupos considerados como inferiores foram sistematicamente eliminados. tentando captar as atenções dos dirigentes nazistas para si. Isso. Prevaleceu. A teocracia não permite liberdade de escolha no quesito religião. com biótipos elencados. também. As crenças incluem dogmas que não costumam ser alterados pois são considerados como advindos de entidades superiores ao homem e. Isso imputa a estas leis um caráter nãoadaptativo às modificações que ocorrem na sociedade.

cor. idade e outros. como exemplo. Cabe. e sua configuração não lhes confere a atualidade que exige-se nas leis. principalmente os relativos aos direitos humanos. Muitas crenças e religiões estabelecem castas ou hierarquias com base em sexo. sejam protegidos pelo Estado.Essa rigidez impede que novos conceitos sobre direitos ou deveres. desde o físico até o espiritual. onde as pessoas estão fadadas a um destino previamente traçado por conta de caius_c 339 . em alguns casos. Naquelas em que se estabelecem castas. justificando uma natural submissão ao homem através de elementos contidos em livros sagrados. a imobilidade social é determinada pelo nascimento. Em outras. A liberdade feminina. é tolhida por muitas delas. Grande parte desses livros. foi escrita em épocas remotas. Comum nessa forma de governo é o estabelecimento de oligarquias surgidas entre aqueles que são detentores do direito de serem intermediários entre o homem e seu deus. Esse determinismo social. que regem a lei e a religiosidade. Algumas não fornecem suporte para aqueles que adentraram demais na idade. o estabelecimento de um governante supremo que tem o poder de comandar todos os aspectos do homem. Não existe a possibilidade de questionamento dos governantes pelo simples fato de que sua palavra é derivada de uma ordem divina que se estende a todos. os elementos jovens da sociedade não são capazes de decidirem seus destinos.

nascimento ou outro qualquer. denominados gulags66. ao contrário. para “Administração Geral dos Campos de Trabalho Correcional e Colônias” caius_c 340 . não existia possibilidades de retratação ou reincorporação aos quadros do governo ou do partido. Stalin apossou-se do poder. Existe maior adaptabilidade dos meios para se conseguir os fins. a busca pelo bem comum supera todas as barreiras criadas pelas crenças ou religiões. isenta o Estado de qualquer tratamento igualitário. fazia parte do staff comunista russo subordinado à Lênin. não privilegia nenhuma instituição que possa tomar seu controle. Seu fautor. Após a morte deste. Sua regra básica era o envio dos dissidentes aos campos de concentração localizados na Sibéria. que também serviam para punição de crimes comuns. Stalin65. em 1924. Isso exclui a possibilidade de que suas determinações sejam baseadas em situações que não sejam de fato. Diferentemente do modelo maoísta. expurgando os membros do partido que pudessem fazer-lhe qualquer oposição. cuja prevalência se deu pela violência e opressão. No Estado Democrático de Direito. em russo. 65 66 1878-1953 Abreviatura. Stalinismo O stalinismo surgiu adaptando as teses de Lênin para um Estado totalitário. O Estado laico.

com estabelecimento de fábricas de armas e munições onde as principais características dos produtos eram a resistência. O avanço do stalinismo deu-se durante a Segunda Guerra Mundial. em grande parte. tornaram-se a arma de fogo mais usada em combates no mundo inteiro e símbolo de povos em luta.O comunismo. a simplicidade e o baixo custo. produzidos a partir de 1947. Essa forma ideológica de comunismo deu-se inicialmente nos meios industriais de produção. Tornaramse famosos seus tanques T-34 produzido a partir de 1940 que foram responsáveis. onde somente os membros do partido poderiam ter acesso às estruturas governamentais onde qualquer ascensão ou promoção somente poder-se-ia dar através do consentimento político. Uma hierarquia rígida estabeleceu-se. Parte deste impulso industrial surgiu para impedir a tomada da Rússia pelos nazistas. serviu de apoio ao totalitarismo. para o avanço sobre a Alemanha nazista e para a manutenção dos estados controlados pela União Soviética. dando subsídios para implantação de um estado policial. aliadas a formas rápidas de produção. Uma burocracia centralizada foi implantada com duas finalidades: controle dos cidadãos e emperramento de qualquer atividade que pudesse se voltar contra o Estado. após a derrocada nazista na Batalha de Stalingrado que permitiu o avanço das tropas caius_c 341 . inspirado nas teorias de Marx e implantado por Lênin. estendendo-se depois para os campos com a coletivização das propriedades. Os fuzis AK-47.

Este período foi magistralmente retratado por George Orwell em seu livro “A Revolução dos Bichos”270 e o terror existente nos gulags por Alexander Soljenítsin. entre comunismo e capitalismo. cuja dedicatória já evoca o sofrimento contido em suas páginas . como a Polônia e Ucrânia. A União Soviética foi uma barreira de países criados para a proteção da Rússia contra seus inimigos representados pelos Estados Unidos e pela democracia européia. instalou-se o que se chamou de Guerra Fria. em seu livro “Arquipélago Gulag”271. foram anexados como parte da então chamada União Soviética e tiveram que assumir uma posição subserviente ao poder emanado por Moscou. O pós-guerra trouxe uma nova divisão do mundo. embora a realidade tenha mostrado que era apenas uma nova forma de domínio colonialista. Por força do equilíbrio de armas. Nikita Serguêievitch Khrushchov67 abrandou o regime mas manteve o estado de Guerra Fria e a divisão política do mundo. não me ter apercebido de tudo. onde as disputas eram travadas em países do terceiro mundo. Que eles me perdoem não ter visto tudo.russas até Berlim." Seu sucessor. não ter recordado tudo. entre 1928 e 1953. 67 1894-1971 caius_c 342 ."Dedico este livro a todos quantos a vida não chegou para o relatar. O stalinismo durou enquanto Stalin se manteve no poder. que entendia-se como ideológica. principalmente atômicas. Alguns Estados liberados.

Maoismo No pensamento de Lênin a tomada do poder deveria dar-se pela violência através de uma guerra civil. Depois de estabelecido. A China isolou-se tanto política como ideologicamente de outros países. Esta coletivização provocou uma grande fome e mortandade por conta da desorganização de seu implemento. o governo poderia implantar uma política comunista. caius_c 343 . sem pretensões hegemônicas. Seu governo embasado em uma nova ideologia. agora denominada marxismo-leninismo-maoismo. estava distante da praticada pela Rússia e sua fraca produção industrial neste período não representava ameaça aos países capitalistas. Desde princípio surgiu o principal foco do comunismo chinês que era o controle absoluto dos campos através da coletivização supervisionada pelo governo. O maoísmo partiu do princípio que o primeiro passo seria a tomada do poder nos campos. O fechamento de suas fronteiras contribuiu para que fosse encarada apenas como um gigante inerte. O esvaziamento das cidades impediu que um número suficiente de pessoas pudesse ser reunido para promover grandes manifestações ou possíveis revoltas. Este modelo serviu para outros países asiáticos em suas lutas. estrangulando as cidades e forçando sua rendição.

coletivizaram o campo. durante a Segunda Guerra Mundial. levou milhares de jovens a iniciar um movimento cujo objetivo era manter o fervor revolucionário e um estado constante de luta e superação. Os dissidentes eram reeducados em campos especiais e poderiam retornar ao partido desde que fossem considerados como efetivamente adeptos do sistema. Mao Tse Tung68 iniciou o que se chamou de Revolução Cultural. ocorrida entre 1966 e 1967. estes jovens. A Revolução Cultural da China69. Um dos resultados da Revolução Cultural foi a quase extinção dos cursos superiores na China. expurgaram membros do partido considerados como reacionários ao mesmo tempo em que eliminaram toda e qualquer resistência ao sistema de governo. Acreditando que a pureza ideológica era essencial para que o regime implantado fosse consolidado. Tendo em mãos o Livro Vermelho que sintetizava os pensamentos do seu líder Mao Tse Tung. basicamente da Guarda Vermelha. ao contrário da União Soviética. tomaram fábricas. primouse por tentar manter a pureza ideológica de seu regime. 68 69 1893-1976 Também chamada Grande Revolução Proletária ou Desabrochar das Cem Flores caius_c 344 . Puh Yuh foi conivente ou aliado dos japoneses quando de sua invasão da Manchúria.A China. O caso mais célebre é o do imperador Puh Yuh que foi “reeducado” e terminou seus dias como jardineiro.

a China entrou em um processo de industrialização que a tornou uma das maiores potência econômicas da atualidade. derrotado pela guerrilha que se iniciara no final de 1956. após a fuga de Batista de Cuba. um ditador aliado. e o segundo foi a mitificação da Revolução Cubana através da morte de um de seus líderes: Che Guevara. Fidel Castro tornou-se ditador cubano em 01 de janeiro de 1959. tornou-se um pólo exportador de produtos cuja concorrência afetou os países de primeiro mundo. Sua missão de propagar a revolução pelo continente sul-americano foi frustrada pela sua morte nas selvas bolivianas. Mais flexível e menos isolada. Che Guevara70 tornou-se símbolo de rebeldia e sua figura ainda é estampada em camisetas de grupos que se consideram inovadores ou rebeldes. Com as reformas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978.Após a morte de Mao Tse Tung. a ideologia maoísmo abrandou-se e pode-se dizer que se tornou meramente decorativa dentro do governo chinês. 70 1928-1967 caius_c 345 . Castrismo Ousamos dizer que o castrismo somente existiu por conta de dois fatores: o primeiro foi a recusa americana em apoiar um governo comunista que acabara de depor Fulgêncio Batista.

Embargada economicamente pelos países capitalistas. não se pode dizer que ocorreram mortes por fome como na Rússia ou China. a Revolução Cubana lastreou-se pela produção de açúcar. Muitos conseguiram mas muitos pereceram. extração de cobre e um controlado turismo. como a medicina. Cuba chegou a tornar-se ponto de referência. Sua pequena população e território foram essenciais para manter o controle estatal sobre os mesmos. A educação técnica dos cidadãos foi uma das grandes preocupações do governo.Por conta de seu pequeno território e indústria incipiente. Os cidadãos que desejavam alguma forma de liberdade e um padrão de vida maior puseram-se em barcos e tentaram cobrir a distância que os separavam de Miami. Em algumas áreas. caius_c 346 . de quem se tornou aliada. junto com desenvolvimento de esportes. A volta. era considerada como impossível pois poderiam contaminar o sistema com idéias adquiridas em outros países. As olimpíadas sempre foram a principal vitrine para a propaganda do regime castrista. por conta de suas pesquisas. sua maior fonte de divisas. Carente de muitos recursos. seu capital passou a vir de Moscou. para eles. Politicamente existiu forte repressão contra os dissidentes.

foi outro foco de resistência rapidamente debelado. foram liberados e tentativas de aproximação com seu principal inimigo. liderada por São Paulo. como o petróleo e o aço. como a insurreição integralista.Depois da saída de Fidel Castro do poder. Sua ascensão ao poder deu-se através de um golpe de estado em 1930. Assim como a China e a Rússia. A Consolidação das Leis do Trabalho surgiu neste período mais como forma de manter o operariado ao lado do governo do que para proteção do trabalhador propriamente dito. As poucas tentativas. e a ascensão de seu irmão Raul Castro. A Revolução Constitucionalista de 1932. Cuba parece estar destinada a ingressar no mundo capitalista. em 31 de julho de 2006. Neste período foram criadas empresas estatais para controlar a produção de matéria prima de base. estão sendo feitas. e tentou confirmar-se legalmente com a edição da Constituição outorgada de 1937. os Estados Unidos. os salários controlados pelo governo. A permanência de Getúlio Vargas71 no poder deveu-se em grande parte ao populismo. embora sirva 71 1882-1954 caius_c 347 . Por conta disto. Varguismo O varguismo nasceu em um período em que as ditaduras eram comuns na America do Sul e mundo em geral. foram prontamente abafadas. existiu pequena resistência à sua permanência no poder. na maioria exíguos.

stalinismo e varguismo primaram-se pela forma como o Estado apoderou-se da economia. dando um impulso rápido à industrialização. Temeroso que o Brasil juntasse forças com o Eixo – Alemanha. O posicionamento do Brasil ao lado dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial foi mais uma forma de obter recursos financeiros do que ideológica propriamente dita. Graciliano Ramos. que serviram para alavancar a indústria em um país que era essencialmente agrário. O varguismo buscou dar impulso. criando um sistema escolar onde predominava o estudo técnico. Foi um período de repressão aos opositores do regime. ampliando o poder executivo. O regime durou até o final da Segunda Grande Guerra. Itália e Japão -. Ao mesmo tempo em que as leis favoreciam o crescimento da indústria e a proteção do trabalhador.para isto. o que lhes valeu apoio caius_c 348 . sintetiza as agruras pelas quais passaram os dissidentes neste período. que visava produzir mão de obra para a indústria que florescia. subitamente. à educação. nazismo. também. dotados de fábricas e empregos. em seu livro “Memórias do cárcere”. Países com fraca economia viram-se. os Estados Unidos despejou dólares no país. com a deposição de Getulio Vargas. O fascismo. outras buscavam restringir o poder legislativo ao máximo.

da população. O nível de brutalidade contra a população variou em cada regime mas existiu em todos eles. O fascismo. o que caius_c 349 . no entanto. primou-se mais pela brutalidade aos opositores do regime do que pela conversão aos seus princípios. O castrismo e maoísmo buscaram na produção agrícola e coletivização das propriedades o elemento chave para sua manutenção como regime por conta da necessidade de suprir-se de alimentos em virtude de seu isolacionismo. O nazismo buscou em mitos antigos e simbologia extensa a confirmação da superioridade da raça ariana e seu destino como dominadora de outros povos. O stalinismo. Todos eles. Marca registrada de todos eles foi a repressão política e a supressão das liberdades individuais e coletivas. Repúblicas de bananas Repúblicas de bananas é o termo genérico que designou países da América do Sul e Central assolados por contínuas quarteladas e golpes militares. forjou-se pela dominação pura e simples dos países satélites. O termo bananas foi usado como forma pejorativa para designar um único produto que estes países exportavam. ditador e ideologia se fundiram em um só elemento. menos ideológico. imprimiram aos regimes as imagens de seus ditadores. enquanto que o castrismo e o maoísmo tentaram instilar um novo pensamento político à população. Governo. embora embasado nas teorias marxista-leninistas.

A United Fruit Company. em 1910. pseudônimo de William Sidney Porter72. onde o termo apareceu devido à forte presença das empresas United Fruit Company e Standard Fruit. Seu alinhamento com os Estados Unidos. 272 A rapidez da mudança de governos em função destes golpes militares e a brutalidade contínua contra a população foi elemento comum nestas republiquetas. nunca escondeu que queria se meter na política . juntamente com sua insignificância econômica e política não lhes valiam qualquer intervenção ou interferência por conta de outros países. humorista e cronista americano. 72 1862-1910 caius_c 350 .mesmo através do uso da força. neste caso. A expressão foi criada por O. porque todas se arvoravam como democracias embora fossem manifestadamente tiranias. é também pejorativo. Henry.qualificava a incipiente economia destes países. por exemplo. O termo república. A "República das Bananas" original era Honduras. O novo presidente empossado permitiu que a empresa ficasse livre de pagar impostos durante 25 anos. um barco partiu de New Orleans rumo a Honduras com o objetivo de instalar um novo presidente pela força. que dominavam o importante setor da exportação de bananas. Exemplo disso foi quando. pois o governo daquele país não cortara nos impostos em favor da companhia. em seu livro de contos Cabbages and Kings. de 1904.

tendem a superar o poder político ao invés de apoiar suas atividades. diminuindo à medida que os governos foram se tornando mais democráticos e mais estáveis. eram contratados mercenários. Embora menos visíveis. liderados por algum político ou militar do próprio país. geralmente por multinacionais que tinham interesse em controlar alguma riqueza local. que. pelo controle dos meios de produção. em 1808. Ele propôs. literalmente. Vez ou outra. o 73 de 1760-1825 caius_c 351 . por volta do início do século XIX. A primeira manifestação da tecnocracia é atribuída ao sociólogo francês Claude-Henri de Rouvroy. após a invasão napoleônica da península ibérica. Esta independência propiciou o aparecimento de elementos que tentaram apossar-se e manter-se no poder através do uso indiscriminado da violência. Tecnocracia Tecnocracia significa. de 1814. em Réorganisation de la Société Européenne. governo dos técnicos.A ascensão ao poder se dava com o uso do próprio exército regular do país. Estas repúblicas tiveram seu início com a libertação dos países da América do Sul e Central da tutela espanhola. estas formas “repúblicas” ainda persistem por todo o planeta. conde de Saint-Simon73. Seu apogeu deu-se nos períodos da Guerra Fria. a substituição da política pela ciência da produção. insuflado ou utilizado por alguns dos seus graduados.

"governo dos homens" pela "administração das coisas". Como tal. A tecnocracia é aplicada de forma subcutânea nos governos. seja totalitário ou democrático. Sua atuação se dá através de grupos inseridos em outros. éticos e sociais. buscava-se um modelo científico que aliviaria o homem de sua carga de trabalho. existindo uma insensibilidade com relação a prejuízos que possam acontecer dentro da sociedade. e que todos teriam um padrão de vida elevado. Reveste-se da aplicação de teorias científicas para justificar seus atos. ela pode facilmente se embutir em qualquer forma de governo. o que justifica qualquer dano colateral que possa ocorrer. Claude-Henri acreditava que uma pessoa trabalharia duas horas por dia. Atualmente ela pode ser entendida como um governo de técnicos que busca soluções sem considerar aspectos morais. no máximo. Uma de suas características é sua invisibilidade dentro do sistema. 273 Em sua proposição original. Leva-se em conta a obtenção dos resultados. 274 Este modelo que buscava o bem estar do homem através da ciência foi desvirtuado. caius_c 352 . ela não existe como um regime. que ficaria a cargo de máquinas.

não precisa transcender ou aparecer. Existe insídia na tecnocracia. brilhantes cientistas e excelentes pesquisadores. suas verdades são quase inquestionáveis pois não existem elementos para comparação. quer apenas firmar suas vontades. Geralmente. caius_c 353 . Sua proposição final não é a busca do poder em si. Por conta disso.Ela é formada por uma elite intelectualizada que goza de respeito em seu meio. essas pessoas são reconhecidas como parte da vanguarda em sua especialidade. embora seja quase desconhecida do grande público. Compõem-se de grandes técnicos. apenas quer espaço livre para sua atividade. Ela se apresenta em múltiplas formas ou se mascara sob outras.

recebi duas dúzias de feridas. que chamam simplesmente de povo. os vossos votos.Eis outros votos que nos chegam. pequenas. cena III caius_c 354 .A democracia “Que votos agradáveis! Antes morrer de fome. velei por vossos votos. Como logo vestido. Este 74 Coriolano. umas. outras. alarvemente. por vossos votos. Vossos votos. Foi por vossos votos que eu combati..” (Shakespeare)74 Introdução Coriolano. assim. que faço — grande bobo! — pedindo a Pedro e a João o voto estulto? . grandes. do que ter de pedir a tanta gente quanto já nos pertence. só pelos vossos votos fiz muitas coisas. é a expressão do desprezo que as classes dominantes têm pelas outras. Bem. Desejara ser cônsul. ou mais. o herói oligárquico de Shakespeare. Vi batalhas e ouvi três vezes seis. de William Shakespeare.. senhores. como se a palavra tivesse cunho pejorativo.

Uma das bases que define a supremacia de uma classe sobre a outra é a organização. As dominantes sempre são organizadas. dispondo de estruturas que mantém as demais sob seu jugo. na forma física ou baseada nas espertezas. de forma organizada e legal e dispondo de recursos para tal. que significa governo. Os conceitos absolutistas ou não-democráticos provêm do que se pode chamar de “razão animal”. Esta razão impõe a supremacia do mais forte sobre o mais fraco. mesmo naqueles que existiu ou existe alguma pecha democrática. Implica sempre em desproporção no gozo de resultados. De forma ampla.pensamento foi predominante. As dominadas. significa governo do povo. que significa povo e kracia. Conceito O termo democracia vem do grego demo. O que difere a democracia de outros regimes é a capacidade que existe dentro do povo de poder manifestar-se contra aqueles que possam oprimi-lo. possuem líderes esparsos que sempre são suprimidos se mostram algum poder de reunir os demais sob um objetivo comum. BENJAMIN CONSTANT escreve que o sistema representativo outra coisa não é senão uma caius_c 355 . na maioria de todos os governos. e talvez continue. quando muito.

ela deve ser suprimida para garantir a salvação pública. a idéia moderna de um Estado democrático implica na afirmação de certos valores fundamentais da pessoa humana. Nos períodos de guerra ou revolução. a democracia é sobretudo um caminho: o da progressão para a liberdade. localizada na soberania popular. a democracia é um equilíbrio entre os direitos da pessoa e os direitos da sociedade. 278 Para GUY-GRAND.organização. mediante a qual a nação incumbe alguns indivíduos de fazerem aquilo que ela não pode ou não quer fazer por si mesma. em distintos momentos históricos. Para ele é uma procuração dada a certo número de pessoas pela massa do povo. pois contempla uma estrutura de poder construída de baixo para cima. que deseja que seus interesses sejam defendidos e que nem sempre tem tempo de defendê-los por si mesma. um conceito histórico. no entanto.279 AZAMBUJA a define como o regime em que o povo se governa a si mesmo. bem como a exigência de organização e funcionamento do Estado tendo em vista a proteção destes valores. 275 Para KELSEN. quer por meio de funcionários eleitos por ele para administrar os caius_c 356 . 276 De acordo com QUINTÃO SOARES. também. entre a liberdade e a soberania. é.277 Para DALLARI. quer diretamente.

até o momento. em um governo comunista. o conceito de democracia seria o de igualdade entre as classes ou sua ausência e não sua forma de governo. Se assim não fosse. usando seu poder para estender a democracia para outras instituições. o Estado é pré-requisito necessário à emancipação humana para ganhar e ampliar direitos políticos dentro do Estado e através dele. LENIN e ENGELS. não existiria a caius_c 357 . no entanto. 281 BOBBIO afirma que a democracia é um produto da luta da classe trabalhadora pelo poder.negócios públicos e fazer as leis de acordo com a opinião geral. Para ele. Sopesar as diferenças individuais e grupais. Ainda tem que se medir a governabilidade em face dessa intervenção. O quanto de poder do povo sobre seu governo ainda não se definiu completamente. dando-lhes tratamento adequado para que se nivelem social e politicamente é tarefa contínua que conduzirá ao Estado Democrático de Direito. 280 Para MARX. 282 Deve-se entender. pois se existe a necessidade de controle deve também existir um espaço para atuação dos representantes sem interferência direta. que o conceito de democracia é utópico e não se aplica totalmente aos governos. O próprio conceito de igualdade entre os cidadãos ainda não se firmou na prática. Existem acessos e possibilidades de intervenção mas existem burocracias e outras barreiras que os impedem.

passaram a fazer parte da estrutura governamental de algumas cidades. no que concerne à mística. jônios. É neste período que vários modelos de polis vão se constituindo. na crença de que descendiam do deus Heleno. eólios. Entre 800 a 500 a. que se estabeleceram na Grécia no chamado período pré-homérico75. pois somente parte da população tinha o direito de ser 75 76 Entre 1900 e 1100 a. os princípios da democracia. a democracia surgiu como forma de limitação de poder entre as oligarquias. No período Arcaico76. dórios.necessidade de eleição dos mesmos. 77 Cidade caius_c 358 . Estas populações invasoras são em geral conhecidas como "helênicas".C. filho de Deucalião e Pirra. com a expansão da divisão do trabalho. História da democracia Provavelmente.283 Neste período. pois sua organização de clãs fundamentava-se. iniciou-se a formação da polis77. como aqueus. na sua forma antiga. advinda de costumes dos povos indo-arianos. Esta forma de governo era oligarquizada. da indústria e do processo de urbanização. O quanto das ações dos representantes face às aspirações de seus representados também é assunto que deveria estar melhor normatizado. definindo a estrutura interna de cada cidade-estado. do comércio.C.

neste período – “Vede como se passa a vida de um ateniense. ou uma lei que deve ser modificada. onde deve deliberar a respeito dos interesses religiosos ou financeiros dessa pequena associação. ora se trata de nomear chefes políticos ou militares. Três vezes por mês. ora é um imposto que deve ser criado. a reunião é longa e ele não vai apenas para votar: chegando pela manhã) tem de ficar até uma hora avançada do dia para ouvir os oradores. FUSTEL DE COULANGES assim descreve a vida de um cidadão ateniense. sabe que logo sofrerá as conseqüências. deve assistir à assembléia geral do povo. Os interesses individuais estão unidos inseparavelmente ao interesse do Estado. e se não ouviu todos os discursos. e que em cada voto arrisca a fortuna e a vida. Este direito. No dia em que se decidiu a malograda expedição da Sicília. Se se engana. ou o de seus filhos. ou de promulgar decretos. ou de examinar as despesas. Não pode votar se não chegou no princípio da reunião. e não tem direito de faltar. geralmente. era derivado da família e dos bens que possuía. Esse voto é para ele um negócio dos mais sérios. ou de nomear chefes ou juízes. sabendo que terá de dar seu sangue. e que devia aplicar toda sua atenção para caius_c 359 . isto é. O homem não pode ser nem indiferente. Outro dia é convocado para a assembléia da tribo: trata-se de regulamentar uma festa religiosa.cidadão. Um dia é chamado à assembléia de seu demo. nem leviano. ora deve votar sobre a guerra. aqueles a quem seu interesse e sua vida vão ser confiados por um ano. regularmente. não havia cidadão que não soubesse que um dos seus participaria da mesma. Ora.

O dever do cidadão limitava-se ao voto. Vê-se que era trabalhoso ser cidadão de um Estado democrático. respondendo aos embaixadores estrangeiros.avaliar todas as vantagens e perigos que semelhante guerra poderia trazer. estratego. ele podia ser magistrado da cidade. Não era livre de deixar de lado os negócios públicos para se dedicar com mais caius_c 360 . arconte. redigindo as instruções dos embaixadores atenienses. com muita justiça. que o homem que tinha necessidade de trabalhar para viver não podia ser cidadão. isto é. se a sorte ou o sufrágio o designasse para esses cargos. astínomo. porque um desastre para a pátria representava para cada cidadão diminuição de sua dignidade pessoal. juiz. Por isso Aristóteles dizia. Talvez não houvesse cidadão que não fosse chamado duas vezes na vida para fazer parte do Senado dos Quinhentos. recebendo os depoimentos dos magistrados. então. fazendo-os prestar contas. de sua segurança. ele se tornava magistrado do demo ou da tribo. era o mesmo que ocupar quase toda uma existência. seu tempo na paz. Enfim. O cidadão. de sua riqueza. Havia absoluta necessidade de reflexão e de esclarecimento. deixando muito pouco tempo para os trabalhos pessoais e a vida doméstica. examinando todos os casos que deviam ser submetidos ao povo. e preparando todos os decretos. ocupado em ouvir os advogados e em aplicar as leis. como o funcionário público de nossos dias. Cada dois anos. pertencia inteiramente ao Estado. sentava-se todos os dias. Quando chegava sua vez. durante um ano. era heliasta. da manhã à noite. Dava-lhe seu sangue na guerra. Tais eram as exigências da democracia. e passava todo esse ano nos tribunais. em média.

284 Um dos grandes problemas da democracia clássica grega foi a impossibilidade de formação de grandes líderes. 78 79 480 a. Por pouco que o zelo se afrouxasse. Os homens passavam a vida a se governar. Este termo. Isto propiciava o aparecimento de líderes fugazes que combatiam aqueles que se destacavam ou queriam apenas seu próprio benefício. é usada no contexto de condução do povo a uma falsa situação. Esta punição implicava em exílio por dez anos. Um exemplo clássico é o de Temístocles. Ele terminou por encontrar refúgio entre os persas. Antes. devia negligenciar a estes para trabalhar em proveito da cidade. atualmente. a quem havia vencido. onde o cidadão buscava alcançar seus objetivos através do convencimento de outros.cuidado aos negócios particulares. a arte de conduzir o povo caius_c 361 . vencedor da Batalha de Salamina78.C. que foi condenado ao ostracismo e depois acusado de alta traição. fez com que fosse comum a demagogia79. A democracia não podia durar senão sob a condição do trabalho incessante de todos os cidadãos. ela devia ou perecer ou se corromper”. A admiração dos gregos pela oratória. os que se destacavam eram alijados do poder. Literalmente. sendo que os bens daquele que era expulso ficavam para a cidade. Temendo a tirania. quando não condenados ao ostracismo.

na forma de república. e a aristocracia. que equivalia em grego a "tirano". o Orgulhoso. Segundo a lenda.C. e extinguiu-se com a tomada de Atenas por Felipe II. que se apaixonou pela bela e casta Lucrécia. Tarquínio. filha de um influente aristocrata e já casada com um 80 431 a 404 a.C. na célebre Batalha de Queronéia. no governo. Ela nasceu de um conflito entre o último rei romano. Foi deposto por uma revolta patrícia em 509 a. O conceito de democracia foi absorvido pelos romanos. caius_c 362 . Tarquínio. ou seja. era ainda copiado pelo filho Sexto Tarquínio.C. recebendo o título pelo qual ficou conhecido na história: "o Soberbo". o orgulhoso Tarquínio eliminou ou desterrou todos os que eram partidários de Sérvio Túlio e confiscou os bens de famílias poderosas.C. tinha o mesmo formato da democracia ateniense. era oligarquizada. colocou seus aliados no poder. em 338 a. quando Esparta. perdurando durante o período de 509 a. Conta o historiador romano Tito Lívio que. A república romana. sendo que somente os primeiros tinham direitos de gerenciamento de Roma. vitoriosa. da Macedônia. embora calcada nos ideais democráticos. isto é.C até 27 a.A democracia grega clássica teve seu mais forte abalo durante a Guerra do Peloponeso80. muito odiado entre os romanos. A população era dividida entre patrícios e plebeus. sob um despotismo indisfarçável.

por conta da exploração que esta última sofria e da quase inexistência de direitos para ela. pois uma nova repressão aristocrática pôs fim às idéias reformistas. destronando Tarquínio e instalando a República. Neste período.C. não foi muito diferente do de seu irmão. depois de se inteirarem dos fatos.C caius_c 363 . em resposta suicidou-se. As disputas pelo poder político em Roma tiveram início com as propostas de reforma apresentadas pelos irmãos Tibério e Caio Graco. na costa da Grécia. levando seus familiares e. eleitos tribunos da plebe em 133 e 123 a. à rebelião. respectivamente. Lucrécia. obrigando-a ao adultério. procurou transferir as decisões políticas da esfera exclusiva do senado para a Assembléia popular. Em 27 a. Seu destino. depois que derrotou seu rival Marco Antonio na batalha naval de Àccio81. Tibério apresentou uma proposta de reforma agrária. recebeu o título de imperador. causando uma forte reação por parte da aristocracia patrícia. encerrando o ciclo da república romana.C. no entanto. que mandou assassiná-lo juntamente com muitos de seus seguidores. a população de Roma.notável patrício. em seguida.. existiram conflitos entre as classes patrícia e plebéia. inspirado na concepção de democracia ateniense. levando-o a cometer suicídio. Seu fim deu-se com a ascensão de Otávio Augusto ao poder. Caio Graco. 81 31 a.

Os plebeus responderam prontamente através de uma nova revolta. Este conflito entre classes promoveu a primeira greve registrada da história.expressava a intensificação das lutas políticas. acusando-o de tentar um golpe de estado e transformando-o em inimigo de Roma. cargo exercido exclusivamente por plebeus para defender os interesses de classe. quando os plebeus retiraram-se para o Monte Sagrado e ameaçaram formar ali uma nova república. por conta de sua total falta de direitos. Após a morte dos irmãos Graco. No entanto. a medida que o ditador limitava o poder dos tribunos da plebe. a disputa entre Mário . em 494 a. senador de grande prestígio popular. Os patrícios foram obrigados a ceder. criando-se então os Tribuno da Plebe. predominava a força da elite conservadora e Sila tornou-se ditador da República. na história da política republicana. Durante o governo de Sila. desta feita liderada por Catilina. o qual representava os interesses desta camada social. o cônsul Cícero denunciou a conspiração de Catilina. chefe do partido popular .285 caius_c 364 . deixando a cidade totalmente desprotegida e à mercê de possíveis invasores.O conflito entre os anseios da camada popular e dos membros da aristocracia prossegue.cônsul da República. a aristocracia consolidava seu poder. Mais uma vez.e Sila representante do senado .C.

Os conceitos de república e democracia foram relegados ao esquecimento até a Renascença. liderada por Spartacus ou Espártaco. não existiriam ideais suficientes para que prosperassem. que mandou crucificar os sobreviventes.No período republicano ocorreu a famosa Revolta dos Escravos82.. Estas revoltas populares ou de escravos somente existiram porque o conceito de república estava permeado por outros como liberdade. Elas somente se dariam quando a sobrevivência física e coletiva estivesse sob séria ameaça. no lado oriental. fechado e de castas definidas. gladiador de origem trácia. Embora a democracia seja o “governo do povo”. que conduziu um exército de rebeldes que chegou a ter quase 100. ao longo de toda a Via Apia. entremeada de guerras civis e lutas de classes. Foi derrotado pelo cônsul Crasso. A República Romana.C. caius_c 365 . refloresceu a classe dos burgueses.C a 70 a.000 ex-escravos.000. no lado ocidental e até 1453. Dentro de um governo autoritário. que passaram a ter poder econômico e nenhum poder político. representatividade e possibilidade de ascensão social. deu lugar ao Império Romano. por volta de 6. Neste período. caminho que conduzia a Roma.C. podemos dizer que ela começou a existir a partir do 82 73 a. que perdurou até 476 d.

à política e à moral. Segundo ele. os detentores do poder político eram os aqueles que tinham o poder econômico. visto que eram responsáveis pela logística e distribuição dos saques. caso não mostrassem 83 O gancho invisível: a organização econômica desconhecida dos piratas caius_c 366 . PETER LEESON.momento em que começou a formação de um poder econômico advindo de uma classe que não pertencia à nobreza e que não tinha privilégios de sangue. que buscava uma progressiva autonomia da economia frente à religião. os capitães piratas eram eleitos pela tripulação. e que passou a exigir direitos de gerência na administração do Estado por conta de seus próprios interesses. os burgueses. Na democracia grega clássica e na República Romana. vinda do povo. professor da Universidade George Mason. A Renascença propiciou o aparecimento dessa nova classe. no caso. que os primeiros sintomas da moderna democracia surgiram nos navios piratas que tiveram sua época áurea no Caribe entre 1670 a 1730. Embora fosse patrocinado pelo Estado e subordinado a ele. que contribuíam para evitar a concentração dos poderes em uma só pessoa. diz em seu The Invisible Hook: The Hidden Economics of Pirates83. ocorrido entre o século XV e XVIII. A prosperidade da burguesia firmou-se com o advento do Mercantilismo. essa forma de economia exigia investimentos que se buscava junto aos detentores de capital. juntamente com os imediatos. Qualquer um deles podia ser deposto e substituído.

concluindo que precisavam estabelecer parâmetros que igualassem as classes sociais para se resguardarem em seus tronos. 286 Dois grandes fatores contribuíram para firmar um novo conceito de democracia: a Revolução Francesa em 1789 e a Independência dos Estados Unidos em 1783. Ambas foram frutos de uma burguesia crescente aliada aos novos ideais que surgiram com o Iluminismo. As cabeças coroadas da Europa passaram a temer aqueles a quem mais desprezavam. a insignificância política dos Estados Unidos. Os navios chegavam a ter até um quarto de tripulantes negros e eram indiferentes a homossexuais. aliada ao fato de estar do outro lado do oceano. A Independência Americana cometeu a maior heresia que se achava possível: a instalação de um governo que não fosse hereditário ou sucessório e cujos governantes eram eleitos pelo povo. na época. que também previa como os butins seriam repartidos. Provavelmente.serviço. As regras que regeriam a tripulação eram acertadas antes do embarque e os infratores eram punidos de acordo com este código. Todos recebiam tratamento de igual para igual . Também se fixava prêmios por bravura e indenizações para os feridos. quebrando os paradigmas existentes até então. A Revolução Francesa afrontou diretamente os princípios dos regimes monárquicos. levaram os governos monárquicos a considerarem que essa caius_c 367 .com direito a um quinhão do butim e um voto nas enquetes. o povo.

onde a busca do lucro a qualquer preço foi o tom maior. ainda perdura na maioria das democracias até hoje. onde o poder econômico das empresas junta-se ao poder político do Estado. Estes processos criaram uma nova classe burguesa: a dos empresários que. A parceria entre empresas e Estado produziu um lucro excessivo concentrado nas mãos de poucos ao mesmo tempo em que relegava a classe produtora a uma miséria construída na base da exploração e no pagamento de ínfimos salários. o Estado deixou de ser patrocinador das empreitadas para tornar-se captador de lucros e interventor nas situações que desfavorecessem as atividades econômicas. As grandes empresas deixaram de ser subordinadas ao Estado e passaram a ser parceiras do mesmo. A descoberta de ouro na Califórnia deu início a um deslocamento maciço da população. Esta parceria. Essa prosperidade burguesa foi acentuada com a Revolução Industrial e com a introdução dos conceitos capitalistas. com capital próprio e sem vínculos com o governo. para os territórios a oeste. a livre iniciativa foi incentivada a ponto de estabelecer uma nova forma econômica: o capitalismo. Buscando a conquista de novos territórios a oeste.democracia que nascia não lhes era adversária ou conflitante com seus interesses. Nesta fase. Deu início a uma luta caius_c 368 . amealharam grandes fortunas. que antes se concentrava na costa leste ou nas treze colônias iniciais.

os conceitos democráticos foram confrontados com os autoritários que surgiam. o conceito de democracia foi confrontado com o do comunismo.pelos direitos. iniciado pela Revolução Russa de 1917. cujas economias tinham sido arrasadas. com seu parque industrial intacto por não ter tido ataques durante a guerra. como Bakunin. levou-o a tornar-se mentor econômico e político dos países europeus. como o nazismo. criado em julho de 1947. forneceu subsídios aos países europeus para sua reconstrução. A prosperidade dos Estados Unidos. Após a Segunda Guerra Mundial. Alguns extremistas. levou a crer que os ideais democráticos dos governos nada mais eram do que uma nova forma de tirania onde uma classe privilegiada economicamente detinha o poder de exploração sobre as demais. A luta de classes. fascismo e o comunismo. onde a população empregada vivia em condições quase que de pura sobrevivência. O Plano Marshall. onde os governos se propunham a cuidar das camadas da população da mesma forma. dando início à novos pensamentos que criticavam os regimes dos governos e propunha novas formas sociais como o comunismo e o socialismo. O contraposto para os ideais democráticos eram os do autoritarismo. buscando um nivelamento econômico entre elas. pregavam a autotutela do cidadão e seu desvinculo com o Estado. caius_c 369 . que convencionou-se chamar de Luta de Classes. Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

onde o paralelo 38 tornou-se a fronteira entre duas diferentes formas de governo. Por estarem em condições de se destruírem mutuamente. como a Coréia. dando ao vulgo a impressão que eram apenas um. um campo de batalha político que estendeu-se a todos os países. cada um acreditando que o outro queria ou poderia ter um poder que se tornasse mundial. ao norte. caius_c 370 . no sul patrocinada pelos Estados Unidos. e a União Soviética. tornaram-se desconfiados uns em relação a outros. não permitiu que nenhum dos países sob seu controle aderisse ao plano. que propagava a sua revolução comunista ao mundo como forma mais aceitável de governo. governante supremo da União Soviética. então. Laos. etc.Josef Stalin. pela União Soviética. Alguns deles foram divididos por conta dessas ideologias. Neste período. Afeganistão. pois considerava-o como uma forma expansionista americana que poderia redundar em destruição do sistema de governo soviético. o conceito de democracia e capitalismo estiveram estreitamente ligados. os campos de batalha foram transferidos para outros países como Vietnã. Antes. conhecida como Guerra Fria. detentores dos ideais democráticos e capitalistas. Esta fase. aliados pelo inimigo comum que era a Alemanha nazista. e. por conta do arsenal nuclear de cada um. foi um confronto entre os Estados Unidos. Criou-se. gerando conflitos em inúmeros deles.

de onde poderiam atingir facilmente os Estados Unidos. 84 1962 caius_c 371 . durante treze dias. e o então primeiro-ministro Nikita Kruchev. onde ela poderia se tornar direta. deu-se com a instalação de mísseis intercontinentais em Cuba. o mundo esteve à beira de possível holocausto mundial. O sistema estatal de controle econômico do comunismo não teve condições de suportar sozinho o enorme investimento que era necessário para que se produzissem bens que pudessem competir nesse novo mercado. em geral. além da retirada dos mísseis da Turquia. Taiwan e dos países europeus. chegaram a um acordo onde os mísseis em Cuba seriam retirados pela União Soviética e os mísseis instalados na Turquia seriam desativados pelos Estados Unidos. John Kennedy. O confronto ideológico democracia-comunismo terminou com a dissolução da União Soviética e a reunificação dos lados ocidental e oriental da Alemanha. O então presidente dos Estados Unidos. conseguir benesses econômicas para a União Soviética. O episódio. Pode se dizer que parte desse confronto foi vencida pela produção de avançadas tecnologias que permitiu o restabelecimento de economias como a do Japão. desencadeou ameaças de guerra nuclear e. conhecido como Crise dos Mísseis de Cuba84 ou Crise Caribenha. Alguns historiadores acreditam que foi uma jogada política de Kruchev para. Coréia.O ápice de confrontação.

caius_c 372 . começou a inverter a esfera de influência econômica dos países.Os conceitos de globalização foram o golpe final neste confronto ideológico-econômico. em 1992. hoje em dia. que agora não tem mais restrições ideológicas. Os exércitos parecem ter-se tornados obsoletos nesta nova forma de dominação econômica. foi uma forma de estabelecer um equilíbrio entre as economias européias e as demais. Essa corrida econômica. A criação da União Européia. sem a necessidade de dominação territorial. Fica mais barato dominar um país economicamente pelas empresas do que militarmente por um governo. O enfraquecimento da disputa entre capitalismocomunismo e democracia-autoritarismo trouxe novos concorrentes aos mercados mundiais. principalmente a dos Estados Unidos. ao novo processo. Os conceitos de globalização criados inicialmente para popularizar a idéia de uma economia mundial sob o domínio de empresas. As rivalidades ideológicas parecem estar resumidas. A busca de matérias-primas se dá onde ela é mais barata. criaram dois paradoxos: o primeiro foi o agigantamento das companhias com conseqüente influência sob os governos locais e o outro foi a adesão de países considerados fechados. apenas à tomada de mercados pelas empresas. como a China. O desenvolvimento das comunicações e o crescimento desmedido de algumas empresas. ainda não terminada. permitem que as partes de um produto ou o próprio produto sejam feitas em qualquer país onde o custo é menor.

Uma reflexão filosófica. baseada na ciência. livre da metafísica e da religião.Fundamentos da democracia Para ARISTÓTELES. seria então. identifica duas situações adversas à democracia: uma visão tecnocrática de um lado e uma postura indiferente do outro. por conta de seu maior número. A democracia justifica-se por ser a forma de governo mais funcionalmente ajustada a realizar os valores liberdade e igualdade. A primeira reduz-a a um ritual mecânico de caius_c 373 . é incapaz de reconhecer um valor social qualquer à exclusão de outro. em tal regime. o exame da base filosófica da democracia não deve objetivar constituir-se em uma justificação absoluta da democracia. 287 Para KELSEN. é uma justificação funcional. A única justificação da democracia que se pode permitir uma filosofia relativista. A democracia encontra seu fundamento apenas na hipótese de se entender que a liberdade e a igualdade são os valores que devem ser postos em prática. os pobres seriam mais poderosos que os ricos. um governo dos pobres e a eles dirigido. A opinião da maioria deve ser o objetivo a ser perseguido. apud Voltaire Schilling. A democracia. Para ele.288 BOBBIO. a democracia consiste na igualdade segundo os números e não de acordo com o mérito. A decisão sobre o valor social a ser posto em prática deve ficar a cargo dos indivíduos atuantes na realidade política.

e se move através de leis caius_c 374 . enquanto que no despotismo predomina a estática. a desqualificava. Ela somente se desenvolve onde os direitos de liberdade têm sido reconhecidos por uma constituição. enquanto que a outra. .Baseia-se na regra de que a democracia é o regime da maioria e que o Estado Liberal é o suposto histórico-jurídico do Estado Democrático. .Estar sempre em transformação. 289 Para ele.Trata-se de um conjunto de regras que estabelece quem está autorizado a tomar decisões coletivas e quais são os seus procedimentos. e só ao direito cabe limitar o poder. ao dizer que podia ser eleito qualquer um.sucessivas eleições.O direito e o poder são duas faces da mesma moeda. Somente o poder cria o direito. O seu estado natural é a dinâmica. . . sempre igual a sim mesmo.É um regime que define o bom governo como aquele age em função do bem comum e não do seu exclusivo interesse. . a democracia tem como fundamentos: .O centro da atenção da democracia repousa numa concepção individualista da sociedade.

O fundamento básico da democracia é o voto. a representatividade política da maioria.estabelecidas. enquanto pessoa. Aqueles que não estiverem dentro das relações de mercado não são capazes de exercício da plena cidadania.Considera um governo excessivamente paternal como negativo. de acordo com critérios estabelecidos e de conhecimento geral. É poder dado ao povo de renovar seus governantes. representa um valor importante na massificação da democracia econômica. O mercado é uma rede que estabelece uma conexão tensão entre o princípio da justiça e da cidadania. a democracia moderna se propõe a proteger a liberdade do indivíduo. insistindo que a democracia é um governo de leis por excelência BRENO RODRIGO DE MESSIAS LEITE diz que os fundamentos da moderna democracia são justiça. . O cidadão pode acessar o mercado e estabelecer transações econômicas elementares ou complexas. O mercado. claras para todas. mesmo dentro de uma sociedade desigual.290 Para QUINTÃO SOARES. estabelecendo os mecanismos da 291 representação política e limites ao poder estatal. o que certificaria a universalidade de oportunidades. Impor caius_c 375 . para ele. cidadania e mercado. e não por determinações arbitrárias. Os dois primeiros se justificam como direitos do homem a estarem presentes em qualquer democracia.

Emenda. presume-se que os representantes eleitos pelo povo terão capacidade maior para elegerem aqueles que preencherão os cargos mais elevados. o presidente é eleito por um Colégio Eleitoral formado por 538 delegados.limites ao poder do Estado é decorrente dessa própria capacidade de eleição. permite que o presidente seja escolhido pela caius_c 376 . existem dois tipos de democracia: a direta e a indireta. Tipos de democracia De forma geral. portanto. Sendo o povo o objeto primordial do Estado. existirá uma gama maior de opiniões a favor dos candidatos. deve-se buscar satisfazer as necessidades da população de acordo com a capacidade do mesmo. Democracia direta é aquela em os cidadãos elegem diretamente os representantes do legislativo e executivo. A Constituição Americana. No Brasil. existe a pressuposição de que a representatividade será maior devido ao fato de que os eleitores serão em maior número e. o presidente da República é eleito diretamente pelo povo. Nos Estados Unidos. Na direta. Democracia indireta é aquela onde o povo escolhe alguns representantes que irão eleger outros para os cargos mais elevados. também chamada de representativa. Estes delegados é que são eleitos pela população. na sua 12a. Na indireta. O hiato existente entre Estado e povo diminui consideravelmente visto que um tem poder sobre o outro.

salvo se servirem Officios publicos. que estiverem na companhia de seus pais. Os criados de servir.Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. e primeiros caixeiros das casas de caius_c 377 . nos quaes se não comprehendem os casados. I. os quais elegiam os representantes da nação. Os filhos familias. 292 A Constituição Outorgada de 1824. que forem maiores de vinte e um annos. sufrágio é o poder que se reconhece a certo número de pessoas de participar direta ou indiretamente na soberania. Os menores de vinte e cinco annos. pelo Senado dos Estados Unidos da America. São excluidos de votar nas Assembléas Parochiaes. previa participação popular restrita à votação dos “eleitores de província”. O vice é escolhido. então. e Clerigos de Ordens Sacras. A conquista do voto no Brasil Conforme definição de BONAVIDES. os Bachares Formados. III. II. na gerência da vida pública. caso nenhum candidato obtenha mais de 270 votos. em cuja classe não entram os Guardalivros. em “assembléias paroquiais”. e Officiaes Militares. Estes eleitores tinham que ser qualificados e não ter os impedimentos constantes em seus artigos 92 e 94: Art. 92. isto é.

não podem ser Membros. Art. que vivam em Communidade claustral. Art. e votar na eleição dos Deputados. commercio. os Criados da Casa Imperial.commercio. ou Empregos. e os administradores das fazendas ruraes. Art. e Membros dos Conselhos de Provincia todos. Exceptuam-se I. II. Os que não podem votar nas Assembléas Primarias de Parochia. abeis para serem nomeados Deputados. commercio. 95. 94. Os que não tiverem de renda liquida annual cem mil réis por bens de raiz. industria. Os criminosos pronunciados em queréla. ou local. ou devassa. Os Libertos. e quaesquer. 93. ou emprego. III. que não forem de galão branco. Exceptuam-se caius_c 378 . os que podem votar na Assembléa Parochial. industria. Os que não tiverem de renda liquida annual duzentos mil réis por bens de raiz. Senadores. IV. Podem ser Eleitores. nem votar na nomeação de alguma Autoridade electiva Nacional. Os Religiosos. e fabricas. Todos os que podem ser Eleitores. V.

Quanto às regras eleitorais. caius_c 379 . exclusivo do imperador. Por "universal" entenda-se o fim do voto censitário.293 A Constituição de 1891. II.I. A Constituição de 1824 previa a existência do “poder moderador”. Os Estrangeiros naturalisados. em seu artigo 47. já republicana. Os que não tiverem quatrocentos mil réis de renda liquida. que lhe dava poderes sobre os partidos e permitia ingerências no legislativo e judiciário. previa a eleição do presidente e vice-presidente da república através de voto direto. pois ainda se mantiveram excluídos do direito ao voto os analfabetos. as mulheres. 92 e 94. na fórma dos Arts. que definia o eleitor por sua renda. os religiosos sujeitos à obediência eclesiástica e os mendigos. III. os praças-de-pré. determinou-se que o voto no Brasil continuaria "a descoberto" (não-secreto) – a assinatura da cédula pelo eleitor tornou-se obrigatória – e universal. Os que não professarem a Religião do Estado. A Constituição de 1934 estendeu o voto às mulheres e tornou-o obrigatório aos maiores de 18 anos.

João Cabral e Mário Pinto Leiva. concentrou os Decreto nº 21. em sessão.88 A Constituição de 1967. e altera seu mandato de quatro para seis anos Outorgada pelo então presidente Getulio Vargas.85 A Constituição de 1937 restabelece a eleição indireta para presidente através de um Colégio Eleitoral86. pública e mediante votação nominal. direto e secreto. 87 Excluiu como eleitores os analfabetos. abolindo o voto secreto para tal. Ela. transforma-se em mantenedora de sua posição como ditador. Constituição Federal de 1937 87 Artigo 134 – Constituição Federal de 1946 88 Artigo 132 – Constituição Federal de 1946 89 Art 76 . estabelece eleições indiretas para presidente e vice-presidente.90 A Constituição de 1969 manteve o sistema eleitoral da de 1967.076.O Presidente será eleito pelo sufrágio de um Colégio Eleitoral. Este Código adotou o voto feminino e o sufrágio universal. 86 Artigo 84.89 Mantém a eleição de governadores e vices pelo sufrágio universal. direto e secreto. os que não sabiam exprimir-se na língua nacional. obra conjunta de Assis Brasil. 90 Artigo 13 – Constituição Federal de 1967 85 caius_c 380 . confirmando o Código Eleitoral de 1932. os privados de direitos políticos e os praças de pré.O voto passou a ser secreto. de 24 de fevereiro de 1932. A Constituição de 1946 prevê universalidade do voto e o restabelece como direta e confirma seu caráter secreto. no entanto. novamente.

este último teve lugar nos períodos em que o poder esteve concentrado nas mãos de poucos ou de um. Somente aqueles que prestam serviço militar obrigatório e os estrangeiros.91 A Constituição de 1988. tornando o voto obrigatório para os maiores de dezoito anos e facultativo para os maiores de setenta anos. A regra da maioria O dramaturgo Nelson Rodrigues dizia. na época Costa e Silva. retomou o voto direto para as eleições presidenciais. podemos concluir que o voto direto torna-se arma contra instituições autoritárias ou elitistas. Supõe-se que a decisão a ser tomada. Seu uso. Ampliando o pensamento. face a uma votação. de forma universal e obrigatório. também conhecida como “Constituição cidadã”. caracteriza uma democracia. 12. analfabetos e para aqueles com idade entre dezesseis e dezoito anos. Constituição Federal de 1988 caius_c 381 . de 01 de setembro de 1969 Artigo 14.poderes no Executivo e permitiu que o presidente. Entendese que no processo democrático ela não possa existir por conta das muitas opiniões existentes entre os votantes. deva ser aquela que a maioria apoiou. apesar de existir um vice-presidente. fosse substituído por uma junta militar. muito apropriadamente que “a unanimidade é burra”.92 Como se pode perceber pelas idas e vindas do voto direto e indireto. 91 92 Ato Institucional no.

então. cujo número varia. presume-se que o assunto seja de tal relevância que. para que a implementação da vontade tenha sucesso. ou seja. os ganhadores. portanto. obrigatoriamente. Os votos vencidos devem apoiar. que é a metade mais um do universo eleitoral. que é a maior entre as minorias 5) Dentro de um universo ideal democrático. Maioria absoluta. ele deva ter o apoio da maior parte dos votantes. existem cinco tipos definidos: 1) 2) 3) 4) Maioria simples não qualificada. Qualquer maioria. De forma geral. Para aquelas em que há exigência de número maior de votos vencedores. deve ser obedecida.Como as regras devem ser claras no processo democrático. entre dois terços ou três quartos. A definição da forma majoritária da eleição tem estreita relação com a importância do objeto votado. Maioria qualificada. geralmente. Maioria relativa. deve-se estabelecer o conceito do que seja maioria. deve se entender que a maioria traduz a vontade geral e. metade mais um dos votantes. caius_c 382 . que se resume na metade dos votos mais um.

Na maioria do processo democrático eletivo. considera-se que o voto secreto seja a forma mais adequada para a escolha dos representantes pois evita que existam represálias contra o eleitor. o candidato que tivesse a melhor campanha ou dispusesse de recursos maiores seria o naturalmente eleito. Esta modalidade é utilizada de forma bastante restrita e apenas em alguns casos especiais. quanto á sua disposição legal. sendo que existem penalizações para quem não o faça. somente as pessoas que desejam participar do processo político e identificam-se como tal tem direito ao voto. ou seja. Quanto à forma. os votos podem ser secretos ou abertos. este foi o caius_c 383 . acreditando-se que grande parcela da população não teria condições de escolher seus mais altos governantes ou representantes por questões como baixa escolaridade ou falhas culturais. Por obrigatório entendese aquele em que toda a população é obrigada a votar nos seus representantes. por conta dessa influência. Em alguns países.Tipos de voto Os votos. o voto é facultativo. A forma aberta somente é utilizada em casos onde presume-se que possa existir responsabilização pessoal do eleitor face à sua posição. podem ser obrigatórios ou facultativos. ou seja. Qualidade do voto Discute-se muito sobre a qualidade do voto obrigatório. o que os sujeitaria às propagandas da mídia. Durante os anos de chumbo.

Ela transforma o cidadão em ente político e o responsabiliza pela governabilidade do país. aos eleitores. As experiências brasileiras com democracia indireta. seja através da propaganda ou de notícias. revelaram que existe maior facilidade para os governantes conseguirem apoio para os seus candidatos através dos órgãos do Estado.argumento mais disseminado contra esta forma de eleição. a oposição esteve alijada do poder por conta desta pressão. Neste período. Pressupõe-se que na eleição direta exista menor possibilidade de manipulação. ao contrário. visto que o número maior de eleitores impede que exista forma direta e individual de pressão sobre os mesmos. A forma conhecida como “curral eleitoral”. A crescente urbanização e o barateamento das telecomunicações. estaria restrita à eleição de representantes determinados que teriam opinião formada sobre o assunto e de conhecimento dos eleitores. onde os coronéis do interior mantinham disciplina férrea sobre os eleitores. A indireta. Mesmo que pareça que o voto obrigatório pareça caius_c 384 . o que inclui favorecimentos ou ameaças aos dissidentes. propiciou um maior acompanhamento dos candidatos. A obrigatoriedade do voto induz o eleitor a ficar atento sobre seus direitos de ter uma representatividade adequada ao seu caso. principalmente televisão e internet. praticamente desapareceu por conta dessa maior divulgação. nos anos de chumbo.

como vimos. A democracia. pois parece estar contra o direito de liberdade de cada cidadão.inconstitucional à primeira vista. de forma direta ou indireta. na realidade é a forma legal mais adequada para induzi-lo a cuidar de si e de sua comunidade através da escolha adequada de seus representantes. o apogeu da democracia somente existe quando ela começa a tomar a forma de um Estado Democrático de Direito. No entanto. é a forma de governo onde os representantes são eleitos pelo povo. caius_c 385 .

estabelecer. o estabelecimento de seus órgãos e os limites de sua ação. a Constituição é o conjunto de normas que organiza os elementos constitutivos do Estado". dar forma. o modo de aquisição e o exercício do poder. mas todos acreditam no futuro da nação. organizar. escritas ou costumeiras. que regula a forma do Estado. Em síntese. concernente à forma do poder. seria a organização dos seus elementos essenciais: um sistema de normas jurídicas.295 ANTONIO PAULO CACHAPUZ DE MEDEIROS define como o conjunto de normas. ao estabelecimento de caius_c 386 . a Constituição do Estado. também. Que país é esse?” (Renato Russo) 294 A palavra constituição é o ato de constituir. modo de ser.Constituição “Ninguém respeita a Constituição. a forma de seu governo. Significa. reunidas numa lei. Para JOSE AFONSO DA SILVA. considerada sua lei fundamental.

em nosso entendimento. A primeira referência que se tem dessa restrição é a Magna Carta. proclamando e garantindo os direitos individuais e sociais.296 Esta forma de Estado. a de número 61. afirmam que os Estados Constitucionais nasceram no Mediterrâneo Oriental. capaz de traçar as linhas-mestras de um dado ordenamento jurídico. Grécia Antiga ou entre os hebreus. vale dizer. A cláusula 39 determinava que nenhum homem livre poderia ser preso ou privado de sua propriedade senão através de um julgamento legal por seus pares ou pela caius_c 387 . aos limites de sua atuação. obrigado a isto pelos seus barões.seus órgãos. tinha uma cláusula. Na sua primeira versão. CELSO BASTOS ensina que é um complexo de normas jurídicas fundamentais. assim como a democracia como a conhecemos. nesta acepção. a partir do assunto tratado por suas disposições normativas. quando se deu início à unificação de países sob um governo central. efetivamente surgiu após o Período Medieval. que dizia que um comitê de vinte e cinco barões poderia reformar qualquer decisão real. As constituições nasceram com o objetivo de limitar este poder central que tornou-se absoluto. escritas ou não. Constituição. é definida a partir do objeto de suas normas. como Loewenstein e Hauriou. em 1215. Alguns historiadores. assinada pelo em então rei da Inglaterra João Sem Terra.

respectivamente. estabelecendo direitos e deveres para governantes e governados. os teocráticos. Um Estado totalitário não necessitaria. em tese. Tanto não é que ela pode ser considerada um fenômeno recente na história humana. Não é condição sine quae nom para sua existência. não se recusará ou se atrasará direito ou justiça. Depois de sua morte. Com o passar do tempo ela sofreu algumas alterações mas não perdeu sua intenção inicial.lei da terra. de 1787 e 1791. visto que seus livros sagrados dariam o suporte para o Estado. enquanto que o Estado parece estar acompanhando o homem desde que se tornou gregário. A quadragésima diz que não se venderá. em 1216. Esta carta foi repudiada por João Sem Terra depois que os barões deixaram Londres. caius_c 388 . As constituições modernas foram lastreadas pelas constituições americana e francesa. visto que as prerrogativas de um poder absoluto tornam-se a própria lei. que era a de limitar o poder central. O Estado e a constituição O Estado pode existir sem uma constituição. seu filho Henrique III confirmou sua validade. de um código maior que o definisse. também não precisariam. sob a alegação de que tinha sido assinada sob coerção. Aqueles que são regidos por preceitos religiosos.

podem causar conflitos que ensejam confrontos. quiçá. A função desta legalidade é propiciar o cumprimento dos padrões da relação entre Estado e cidadão. Nos regimes teocráticos as pré-disposições contra o regime podem ser abafadas pela visão de que o governo estabelecido tem sua legitimidade caius_c 389 . qualquer forma de pensamento que contrarie esta conformação não é aceita. porém deve se entender que uma Constituição é gerada pela entidade denominada Estado. Constituições não cumpridas têm o dom de provocar caos e revoluções. Quando não formam elos entre os segmentos da sociedade. Não se admitindo controvérsia sobre sua posição de dominância total. Se os seus pressupostos distanciam governantes dos governados. Na prática pouca coisa se altera.Independente da forma pela qual se reveste o Estado. Estas regras podem firmar uma paz social. acirram os ânimos daqueles que se sentem injustiçados e promovem disputas pelo poder. Nos regimes totalitários. a lei maior pode ser substituída pelas diretrizes do partido político. enquanto que diretrizes são determinadas por um grupo de pessoas ou. a interpretação dos pressupostos constitucionais é do Estado. Nesta forma de governo. no caso um governante supremo. apenas por uma pessoa. O mais comum nestes casos é a pura e simples repressão. uma constituição escrita e cumprida garante sua legalidade.

o que retiraria a legalidade dos atuais governantes. propiciando poucas possibilidades de avanço social. Já os governos democráticos precisam ser dinâmicos por conta de sua própria condição. As constituições outorgadas nascem da necessidade de compartilhamento do poder entre um governo totalitário e determinadas camadas da caius_c 390 . devendo-se partir do princípio que a lei deve garantir segurança para os atos praticados. porém. As formas de governo totalitária e teocrática tendem a serem estáticas. pois mudanças podem provocar a queda do próprio regime. Tipos de Constituição Existem várias classificações de constituições. em relação ao Estado interessa as que são outorgadas e a originárias. Estes ajustes devem ser ratificados através repetições constantes em julgados de casos idênticos. dentro de determinado período de tempo. Esta dinâmica exige que sejam dadas novas interpretações às normas contidas em suas constituições. Isto se faz necessário para evitar que mudanças ocorram por questões ligadas a puro modismo. Possíveis revoltas podem ocorrer por força de nova interpretação de seus livros sagrados. Podemos considerar isto como ajuste face às novas realidades sociais.assegurada pelas entidades divinas.

sendo uma outorga do governante. Existindo um abismo ideológico entre o sistema anterior e o atual. existe a possibilidade de que a mesma possa ser modificada pelo próprio. pela demonstração de boa vontade do governante em relação aos governados. ela não precisa ser necessariamente democrática. do status quo. Sua característica mais marcante é a inovação. É uma forma de restringir o poder. caius_c 391 . Isto significa que o aparato repressivo do regime não tem poderes suficientes para manter o total controle sobre os governados ou existe um crescendo opositivo ao regime. As constituições originárias surgem depois de uma ruptura política ou social. Sendo fruto das inquietações e receios do governante. faz-se premente uma atualização da lei para que ela enquadre as novas premissas e bases. através da outorga de uma lei maior que estaria acima do mesmo. A princípio é uma limitação de um poder que pode se tornar abusivo. o segundo é que.população. Seus atributos dependem exclusivamente da nova forma instalada de governo ou regime. Revela o medo do poder estabelecido de insurgências dessas camadas da população. atende dois princípios básicos: o primeiro é a manutenção do poder. Sendo fruto de quebra de paradigmas.

b) Um mecanismo planejado. resolva o embaraço sobrepondo-se aos demais. uma limitação e uma distribuição do exercício do poder. a fim de evitar que qualquer deles. estando capacitado para manter. numa hipótese de conflito. significando ao mesmo tempo. alterar ou criar as novas regras do Estado. para evitar a concentração do poder nas mãos de um só individuo. ou seja. c) Um mecanismo planejado com antecipações de parcelas autônomas do poder. d) Um mecanismo planejado para adaptação pacífica da ordem fundamental às mutáveis condições sociais e políticas. O poder constituinte não subordina-se a nenhuma condição e não sofre qualquer limite. caius_c 392 . um método racional de reforma constitucional para evitar o recurso à ilegalidade. que estabeleça a cooperação dos diversos detentores do poder. Requisitos mínimos para uma constituição LOEWENSTEIN enumera os requisitos mínimos para uma Constituição autêntica: 297 a) Diferenciação das diversas tarefas estatais e sua atribuição a diferentes órgãos ou detentores do poder. à força ou à revolução.Esta forma de constituição não deriva de nenhuma outra.

É referendar ou programar a vontade presente em situações futuras que se deseja alcançar. chamada de abstrata ou teórica. seriam os costumes estabelecidos e a noção de justiça do povo. A base sólida implica em referendar algo imediatamente palpável e material.e) Reconhecimento expresso de certas esferas de autodeterminação individual. É expressão da necessidade de segurança jurídica da sociedade. KELSEN parte do princípio que uma constituição compõe-se de uma norma fundamental hipotética. Com base nesta norma. caius_c 393 . dos direitos individuais e das liberdades fundamentais. Os requisitos mínimos. estas normas são expressas como regras jurídicas fundamentais. tornando-se uma Constituição positiva. 298 Uma constituição deve expressar dois sentimentos: o primeiro é o estabelecimento de bases sólidas para que o Estado seja administrado e o segundo é traçar seus rumos. Através de uma representação legal. isto é. Dar rumos ao Estado implica em estabelecer a legalidade dos esforços em direção ao que se julga mais adequado para ele e para a sociedade. os membros do povo selecionam as normas de comportamento social que consideram fundamentais. neste caso. que se convertem em uma lei maior. prevendo sua proteção contra a interferência de um ou de todos os detentores do poder. Estas formam a primeira Constituição.

pois admitia que apenas os sujeitos do direito eram os indivíduos. a justiça política. se se quiser.300 Para Savigny. únicos dotados de consciência e vontade. à medida que essa ação se torne vantajosa ou necessária ao estado social. ou. “o conceito primitivo de pessoa. deve coincidir com o conceito de homem. Só se pode determinar bem a natureza dessa justiça examinando com atenção as relações complicadas das inconstantes combinações que governam os homens. e esta primitiva identidade dos dois conceitos pode ser expressa com a seguinte fórmula: caius_c 394 . ou seja. de sujeito de direito. que o considerava como uma ficção. também pode variar.O Estado como pessoa jurídica “A justiça humana. não sendo mais do que uma relação estabelecida entre uma ação e o estado variável da sociedade.” (Cesare Beccaria) 299 O conceito de Estado como pessoa jurídica aparece com SAVIGNY.

entende que o Estado tem personalidade jurídica. tal como o território e a soberania. em que os mais fortes impõem sua vontade aos mais fracos”. O Estado é “um grupo humano fixado em um território determinado. o Estado não é uma pessoa. Para ele. mas uma capacidade criada mediante a vontade da ordem jurídica. condição negada à nação. não tem pensamento nem vontade. A vontade dos governantes é a vontade do Estado.qualquer ser humano.304 A teoria do Estado-orgão admite unicamente o Estado como pessoa jurídica. Interesse do Estado. tem capacidade de direito”. O Estado seria uma pessoa em si. O homem caius_c 395 . através de sua concepção normativista do direito e do Estado.303 CARRÉ DE MALBERG afirma que a nação se torna uma pessoa jurídica no momento em que organiza-se em Estado. na qual a nação intervém como elemento estrutural. pois Vontade do Estado. são meras abstrações. o Estado é a personificação da pessoa jurídica. JELLINEK concebe a teoria da personalidade jurídica do Estado ao explicitar que sujeito.301 KELSEN. mas é um sujeito artificial. O Estado é um fato e não uma pessoa.302 Para DUGUIT. cuja personalidade jurídica consistiria no produto ou expressão de uma organização real. não é uma essência. em sentido jurídico. e que o Estado é a nação juridicamente organizada. e apenas o ser humano.

c) Capacidade jurídica reconhecida por norma. caius_c 396 . que se manifesta pelo exercício de direitos de caráter patrimonial através dos atos de gestão.306 Como conceito civil de pessoa jurídica podemos dizer que é a unidade de pessoas naturais ou de patrimônio. Portanto. Uma pessoa jurídica é a transposição da pessoa física para uma realização social. que se manifesta no exercício do poder público através de atos de imperium. submetendo-se assim á sua vontade onde o objetivo que propõe é maior do que si próprio.305 Para GROPALLI. vez que todo direito é uma relação entre seres humanos. b) Licitude de seus propósitos ou fins. a personalidade jurídica do Estado contempla. É a fórmula que busca a divisão do indivíduo para identificá-lo como pessoa comum e pessoa social.deve ser compreendido como pressuposto da capacidade jurídica do Estado. Para ele. são três os seus requisitos: a) Organização de pessoas ou de bens. mais a capacidade de Direito Privado. reconhecida pela ordem jurídica como sujeito de direitos e obrigações. que visa à consecução de certos fins. Tornando-se pessoa social. não só a capacidade de Direito Público. a personalidade jurídica não é um conceito metafísico mas técnico. o indivíduo predispõe-se a fazer com que ela extrapole sua própria existência.

Mesmo nas diversas formas. Ele não precisa mais de determinadas pessoas. o Estado ainda mantém-se como sujeito de direitos e deveres. quanto mais se aproxima da forma ideal do Estado Democrático de Direito. inclusive. Sem ele. Cabem dúvidas quanto à licitude de seus propósitos ou fins. ele necessita de indivíduos que tenham determinadas funções. a balança entre direitos e obrigações pende mais para estas últimas. Entendendo que o objetivo final seja o bem público na sua forma mais ampliada. Logicamente. pode-se crer caius_c 397 . Quanto mais se aproxima das formas tirânicas. visto que essa definição provém de seus integrantes.uma pessoa jurídica é um objetivo da pessoa natural. regimes ou sistemas de governo. que adquire tal força que se mostra maior que a própria e pode. não existiriam parâmetros que promovessem uma convivência pacífica entre os cidadãos. não necessitar mais de seu criador. O Estado é uma estrutura na qual os homens se encaixam para manter a função para a qual ele foi destinado. torna-se mais detentor de direitos. O Estado é uma realização social porque é constituído de pessoas imbuídas da vontade de gerenciamento das questões da sociedade. Não restam dúvidas que o Estado organiza as formas sociais. visto que adquire uma identidade própria.

Este poder é freado por ele próprio. esse poder pode beirar ao supremo. a capacidade jurídica do Estado é inquestionável. nos Estados democráticos. Isto lhe confere o poder máximo. caius_c 398 .que sejam justos. Nos Estados totalitários. Resta ainda a capacidade de imperium do Estado. por não poder ir além dos direitos dados aos seus cidadãos. visto que os direitos dos cidadãos são poucos ou inexistem. caracterizando-se ilicitude. Nada pode abalar sua autoridade e tudo e todos estão sujeitos aos seus ditames. Sua capacidade de regulamentação e auto-regulamentação o torna produtor e cumpridor de leis e administrador dos indivíduos sob sua tutela. Sendo detentor dos poderes. com a conseqüente exigência de obediência aos seus atos reguladores. podemos dizer que não se trata de uma pessoa jurídica mas apenas uma reunião da malta. Entendendo que o objetivo final seja apenas favorecer determinado grupo em prejuízo de outros.

como isso só poderia ser feito se o povo e o soberano fossem a mesma pessoa. a princípio.”(Rousseau)307 Finalidade do Estado Uma vida em sociedade implica em benefício para o indivíduo. a fim de que todos os movimentos da máquina tendessem sempre unicamente à felicidade comum. a proposição de que ele seria o principal fautor deste benefício para o indivíduo. caius_c 399 . e que nem sempre implica em benefícios para aquele que não se encontra dentro da estrutura de poder. configura. sabiamente moderado.Finalidade e funções do Estado “Eu quisera nascer num país em que o soberano e o povo só pudessem ter um único e mesmo interesse. Sendo o Estado o elemento organizador da sociedade. resulta que eu quisera nascer sob um governo democrático. tem que se entender que a relação Estado-cidadão não é a mesma sociedade-indivíduo. No entanto.

Diversas teorias tentam explicar a precípua finalidade do Estado. É o Estado quem cria o papel do indivíduo. não sendo passíveis de serem dirigidas pelo Estado. dotado de funções e finalidades próprias. pois lhe concede direitos e deveres. Teoria dos fins particulares objetivos O Estado tem objetivo próprio que variam de acordo com suas particularidades. As mais comuns são: organicista. O detentor de todo e qualquer poder é o Estado e este prevalece sobre o indivíduo. fins particulares objetivos. O Estado está a serviço dos interesses individuais e não tem qualquer finalidade e que a vida em sociedade é uma mera sucessão de fatos. Ele atende uma de suas várias atividades dependendo do momento histórico. Teoria mecanicista Para os mecanicistas a sociedade significa apenas a mera soma dos indivíduos e não um corpo de indivíduos. fins subjetivos e dos fins limitados. mecanicista. caius_c 400 . Teoria organicista O Estado é considerado como um organismo vivo.

ESPINOZA afirma que o fim do Estado consiste na manutenção da liberdade espiritual. regulamentação e auto-regulamentação. enquanto KANT diz que é o mesmo é mantenedor da ordem jurídica. O Estado é formado pela união de interesses individuais. portanto. Busca-se a menor interferência estatal possível dentro da sociedade. Dentro desta teoria. Por ser uma necessidade social do ser humano. 308 Funções do Estado As principais funções do Estado são: governo. um Estado que não se manifestasse de alguma maneira estaria indo de forma contrária à ela e. controle. caius_c 401 . sem preocupações de outra natureza. Essa existência não teria sentido se não extrapolasse a sua existência para os cidadãos.Teoria dos fins subjetivos Fins subjetivos é o produto da inter-relação entre Estado e interesses individuais. não teria razão de existir. Teoria dos fins limitados A finalidade principal do Estado é a guarda das instituições e a manutenção das relações sociais. Como função devemos entender não a necessidade de sua existência mas a forma de manifestá-la aos seus tutelados.

em nosso entendimento. 310 É o conjunto de instituições. É o conjunto de pessoas que dirigem um país." "o poder de regrar uma sociedade política. que é a autoridade governante de uma unidade política. o Estado tem poder sobre tudo e todos. Controle Como já dissemos anteriormente. Esse poder controla todos os caius_c 402 . é a forma mais ampla de manifestação do Estado." e o aparato pelo qual o corpo governante funciona e exerce 309 autoridade.Governo Existem inúmeras definições para governo. 311 b) c) Governo. Traduz-se na criação e aplicação de normas que regem o sistema sobre o qual serão edificados todos os seus atos. O conceito de governo abrange as possibilidades de participação no poder. As mais comuns são as seguintes: a) É "a organização. organizações e lideranças responsáveis pela administração pública e pela direção dos Estados.

aquele que vá ao caius_c 403 . sem ter um elemento formal. embora ela não seja dele procedente. diante do caso concreto. na qual as partes. obter dados de todas as formas e tipos. nas lacunas da lei. que é a forma habitual de interação. A necessidade do controle se faz presente visto que sem ele não pode existir base para o Estado afirmar-se como tal. O costume é aceito formalmente. procedem de acordo com aquilo que está estabelecido em seu universo de convívio.atos do cidadão e todos os bens existentes em seu território. a lei não for satisfatória. mantêlos de forma acessível aos interessados. Em parte. é válida como se fosse. registrar e toda a gama possível dessa modalidade. como fonte reguladora da sociedade. Regulamentação Como gerenciador da sociedade. a sociedade se regula através dos costumes. processá-los. o Estado precisa regular suas múltiplas formas de interação. O nosso ordenamento jurídico consagra o acolhimento de tais regras não-escritas quando. de modo a proporcionar um julgamento justo. o Estado assume que. escriturar. Controle implica em contabilizar. ou seja.

os costumes e os princípios gerais de direito”. No entanto. emanando de uma autoridade competente reconhecida. Segundo CLÓVIS BEVILÁQUA. Com a auto-regulamentação.encontro do bem-estar social. 4º. diz o art. ficando o indivíduo sujeito aos ditames naturais onde prevalece a força bruta ou a razão da estupidez. Auto-regulamentação O nível de auto-regulamentação é a linha que define os Estados totalitários dos representativos. é imposta coativamente à obediência geral". o Estado pretende manter-se como entidade efetivamente representativa caius_c 404 . Auto-regulamentação é o estabelecimento de limites de poderes dos Estados. a forma mais comum de regulamentação que emana do Estado é a lei. da harmonia. da Lei de Introdução ao Código Civil: "Quando a lei for omissa. o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia. a sociedade não existiria ou se esfacelaria.312 Sem lei ou alguma forma de regulamentação social. da paz. seus deveres para com o cidadão e as formas de acesso ao poder por aqueles que assim o desejem e estejam capacitados para isso. lei é "a ordem geral obrigatória que. A propósito. ditada por um comando que todos julguem que é o mais adequado.

do indivíduo. ela tem que ter o poder de mudar conceitos. tornando-se um guardião das melhoras normas de convivência. caius_c 405 . desacatada ou sem a sua proteção. atuação e todas as formas que julgue que afetem o bem público e impeçam que os objetivos do Estado relacionados com o cidadão sejam atingidos. existe um bem do qual ele jamais possa dispor: a vida de seus cidadãos. parâmetros. estrutura. quando a sociedade se julga oprimida. Uma de suas funções é cuidar de sua própria existência. Manutenção da soberania Sem dispor de soberania. Por conceder poderes ao Estado para que a regulamente. A auto-regulamentação se dá por ações sociais contra o Estado. dando garantias nas variadas formas para o cidadão. estabelecendo padrões que levem a promover o bem público. Esta manutenção de soberania implica em ditar normas de conduta em relação a outros Estados e situações advindas destes. o Estado não pode cumprir as suas precípuas funções ou extingue-se. Único bem não disponível ao Estado Apesar de tudo pertencer ao Estado e do controle que ele exerce sobre a vida dos cidadãos desde seu nascimento. forma de condução.

Pode-se argumentar que ao tirar a vida de determinados cidadãos existe o resguardo pelo Estado de todo o resto da sociedade, visto que a presença destes no meio pode provocar danos à mesma. Apesar do Estado ser um fato permanente na vida das pessoas, seu regime e sistema de governo oscila na sua historicidade. As pessoas que compõe sua estrutura não são eternas e mudam continuamente. Sendo assim, o que cabe em determinada situação, torna-se repreensiva ou inimaginável em outra. Alguns casos exemplificam bem essa situação como o de Nelson Mandela, preso entre 1962 e 1990 por sua atividades políticas e, depois da queda do apartheid na África do Sul, eleito presidente para o exercício de 1994 a 1999. Lech Walesa foi presidente do sindicato polonês Solidariedade, sendo preso varias vezes quando o mesmo foi posto fora da lei entre 1980 e 1989. Com a mudança de regime, foi eleito presidente da Polônia para o exercício de 1990 até 1995. Se os Estados pudessem ter poder sobre a vida desses cidadãos, a história seria completamente diferente. O Estado não deixou de existir, apenas mudou de forma. É obvio que existem exemplos em que o Estado e a sociedade perderam ao invés de ganhar com a manutenção da vida do indivíduo. Hitler foi preso em 1924 por conta de sua malfadada tentativa de tomada do poder conhecida como putsch da cervejaria.

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Sentenciado a cinco anos de prisão, foi anistiado após cumprir seis meses. Esse risco, no entanto, o Estado, na sua mais ampla definição, precisa correr, visto que a previsão do futuro ainda não é uma ciência exata. Estes casos pressupõem que ele deixou de cumprir suas obrigações principais que são promover a justiça face á sociedade, tentar reintegrar o infrator aos padrões sociais existentes e, acima de tudo, tentar prevenir a infração. Essas obrigações estão mais relacionadas ao infrator comum, aquele que exaspera o dia a dia dos cidadãos, mas devem estender-se a todos, pelos seguintes motivos: a) Se existe insatisfação política que se traduz em manifestações, principalmente de forma violenta, significa que o regime ou a forma de governo do Estado não está condizente com as aspirações ou necessidades daqueles a quem governa. As mudanças se fazem necessário para que não ocorram anomias ou mudanças violentas de governo. Se existe alta taxa de infração, significa que o Estado está deixando de cumprir sua obrigação em manter o bem público e a saúde social da comunidade. Cabe,

b)

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portanto, redefinição de seus objetivos e formas de alcançá-los. Ao tirar a vida de seus cidadãos, o Estado tira a oportunidade de possíveis mudanças e sonega à sociedade a visão de que algo precisa ser mudado. Isso também pode criar instabilidade ao governo, pois mortes podem causar revoltas ou mártires de causas. Por mais horrenda que tenha sido a infração, nenhuma condenação à morte obteve apoio de todos os setores da sociedade.

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Objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil
“É um processo longo e lento: dar a alguém uma consciência social. É difícil ver a nossa própria vida em relação ao mundo todo. Nós aprendemos sobre as duas coisas de maneiras diferentes”. (Skinner)313 O artigo 3o., da Constituição Federal de 1988, estabelece os objetivos da República Federativa do Brasil, que são: 1) Construir uma sociedade livre, justa e solidária; 2) Garantir o desenvolvimento nacional; 3) Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; 4) Promover o bem de todos,sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação

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Sociedade livre, justa e solidária O Estado brasileiro propõe-se a construir uma sociedade livre, justa e solidária. Ele é o mentor dessa transformação social. Sendo assim, supõe-se que ele e sua estrutura governamental estão imbuídos de todos os componentes necessários para isso, o que implica em dizer que qualquer ato atentatório contra esse objetivo, da parte do Estado, implica em inconstitucionalidade e até em imoralidade, pela transcendência. Uma sociedade livre é aquela que escolhe seus próprios caminhos e usa dos mecanismos estatais para produzir líderes que realizem seus desejos. Neste caso, sociedade livre não pode ser sinônimo de democracia, visto que esta última é apenas o instrumento que se considera mais válido para atingir seu ideal de liberdade. Ser livre compreende ter a medida certa de direitos e deveres, na forma suficiente para poder agir dentro de determinados parâmetros, cuja existência se faz necessária para que os circundantes tenham as mesmas oportunidades. Ser livre é ter poder de escolha sobre as opções comuns a todos. Estas prerrogativas individuais são estendidas a todos, na sua melhor forma. Uma sociedade justa é aquela em que todos estão sob a proteção do Estado. Esta justiça está distribuída em todas as suas formas e é exercida de maneira igual para todos.

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Essa justiça tem que equilibrar a heterogeneidade dos indivíduos através de dispositivos que possam nivelar todos ao mesmo nível de oportunidade e atenção. Cabe aqui reforços para os que estão em patamares diferentes daquilo que se convencionou chamar de homem médio, ao mesmo tempo que cabe medidas restritivas para aqueles que lhes são superiores. Estas medidas produzem uma homogeneização social, onde todos que a compõem podem usufruir da melhor maneira das estruturas que formam a sociedade e a dirigem, sem entraves provocados por diferenças individuais. Apesar dessa homogeneização social, não cabe na justiça social a transformação de todos em uma massa uniforme e sem distinção. Justiça social implica em fornecer, também, suporte extra para os que superam o homem médio na sua capacidade física e intelectual. O contra-senso neste primeiro objetivo é a construção de uma sociedade solidária. A solidariedade é muito subjetiva para que o Estado possa atuar sobre o cidadão e induzi-lo a praticar atos que tenham cunhos sociais ou sejam direcionados para outros sem objeto de lucro. Solidariedade não se impõe ou se aprende; solidariedade é um sentimento mais próprio de uns do que de outros.

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A resposta para transformar este ideal em algo concreto parte principalmente das leis que equilibram a heterogeneidade individual. Embora não se possa ensinar alguém a ser solidário ou forçá-lo a ser, pode-se regulamentar ações que provoque um estado no qual todos tenham que reproduzi-las da mesma forma e no mesmo nível. Os melhores exemplos são as leis que protegem os idosos, a criança e o adolescente, os deficientes físicos, etc. Estas leis podem, em algum futuro, produzir o sentimento solidário que se espera de todos, baseado na compreensão natural das diferenças existentes entre os cidadãos. Garantir o desenvolvimento nacional O primeiro objetivo da República é extenso o suficiente para englobar todos os demais. Pode parecer redundante a colocação dos demais em nossa Constituição mas é a forma de tornar o mais claro possível os passos para se construir uma sociedade justa, livre e solidária. O sentido amplo para desenvolvimento nacional é a produção e distribuição equitativa dos recursos existentes para todos os cidadãos ao mesmo tempo em que se evita dependência externa para a produção dos mesmos. Uma sociedade livre somente pode existir quando não depende ou depende pouco de recursos externos.

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Dependência externa produz servidão. Soberania, autonomia, independência e liberdade somente existem quando se pode gerenciar de forma livre e igualitária os recursos, que devem ser próprios ou obtidos de forma que não exista submissão a poderes externos ou paralelos ao Estado. Desenvolvimento implica na obtenção de novas tecnologias e distribuição das existentes para que os cidadãos façam o melhor uso dela. Essa capacidade, hoje em dia, está diretamente ligada à própria governabilidade do Estado. Um Estado sem tecnologia está fadado à submissão ou extinção. A criação de meios de produção e o controle dos mesmos produz desenvolvimento. O Estado deve abster-e de transformar-se em empresa e produzir bens, exceto em casos que se façam necessários. O controle desses meios, no entanto, além de prerrogativa do Estado, é uma necessidade. Esse controle produz impostos para que ele possa manter sua estrutura e fornece proteção aos cidadãos e às empresas. A proteção aos cidadãos estende-se do produto ás relações de emprego. A qualidade de todo o processo que envolve capital e trabalho deve ser monitorada pelo Estado através de regulamentação e fiscalização. Não compete ao Estado imiscuir-se diretamente a não ser em caso de infração ou mais que evidente interesse nacional.

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A proteção às empresas engloba o descrito acima, acrescentando os inerentes à sua condição de pessoa jurídica e objetivo social. Compete ao Estado equilibrar o necessário desenvolvimento com a proteção dos recursos naturais e a qualidade de vida dos cidadãos. O patrimônio do Estado é o cidadão. Tudo o que torna necessário para que o ser humano atinja esta condição torna-se responsabilidade do Estado. A proteção que se faz necessário ao cidadão torna-se mais abrangente ao se dar a mesma condição para tudo aquilo que o cerca. Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais De acordo com ANTÔNIO PEDRO ALBERNAZ e ELAINE GUROVITZ, a percepção da pobreza como conceito relativo é uma abordagem de cunho macroeconômico, assim como o conceito de pobreza absoluta. A pobreza relativa tem relação direta com a desigualdade na distribuição de renda. É explicitada segundo o padrão de vida vigente na sociedade que define como pobres as pessoas situadas na camada inferior da distribuição de renda, quando comparadas àquelas melhor posicionadas. O conceito de pobreza relativa é descrito como aquela situação em que o indivíduo, quando comparado a outros, tem menos de algum atributo desejado, seja renda, sejam condições favoráveis de emprego ou poder. Essa conceituação, por outro lado, torna-se incompleta ao não deixar

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margem para uma noção de destituição absoluta, requisito básico para a conceituação de pobreza. Também acaba gerando ambigüidade no uso indiferente dos termos pobreza e desigualdade que, na verdade, não são sinônimos.314 O legislador ao referir-se à pobreza não pode darlhe um cunho mais preciso. No entanto, devemos entender que trata-se da incapacidade do indivíduo de obter ou ter recursos que confiram-lhe a sobrevivência física e social. A falta de recursos primários como comida, água e habitação já traduzem a situação extrema de pobreza, implicando diretamente em sua sobrevivência física. Em plano superior, cabe falta de recursos secundários como condições sanitárias, energia e outros elementos que tornaram-se necessários por conta da própria evolução da sociedade. Neste plano convivem as necessidades físicas com as sociais. Indo além, em plano terciário, cabe falta de recursos que sejam necessários para dar ao cidadão as oportunidades que a sociedade oferece e dar ao cidadão um padrão adequado de vida. Aqui faltase cultura, educação, disponibilização de recursos tecnológicos e outros mais. A evolução social transfere o patamar da pobreza para níveis mais elevados. O termo “excluído digital”, criado pelo Professor Jorge Nogueira, já aponta para um nível de pobreza que está mais além daquele que conhecemos. A pobreza já se transfere para a falta ou impossibilidade de uso rotineiro das tecnologias necessárias para a sobrevivência em uma sociedade caius_c 415

que está cada vez mais se tornando mecânica, automatizada e digital.315 Marginalização vem de margem, que significa aquilo que não está no fluxo de determinada coisa ou está ao redor do principal ou afastado dele. Significa discriminação também. Marginal, dentro de um contexto social, é aquele que vive afastado ou discriminado. Tem conotação de bandido, pária ou desocupado. Em suma, marginal é o indivíduo ou coisa que não está integrada à sociedade, vivendo em condições ou normas diferentes da maioria. Quando se pretende erradicar a marginalização, não se trata apenas de reduzir criminalidade ou fazer com que o indivíduo passe a viver sob as regras da maioria. Significa acolher e dar condições aos elementos afastados do fluxo social. Esta condição extrapola ao conceito de que o aparato policial é o único recurso para por fim à esta situação. Parte da marginalidade, em seu amplo sentido, deriva da condição de pobreza. É ela que produz, em muitas situações a condição marginal do indivíduo. Sem recursos, o indivíduo torna-se absolutamente incapaz de adequar-se à uma sociedade que está cada dia mais exigente em relação à preparação do cidadão. Esta preparação inclui alto nível de escolaridade e uso de elementos tecnológicos em seu dia a dia. Outra parte provém de determinadas características dos indivíduos que impelem-no, por força própria ou de acima dele, a participar de forma caius_c

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Grupos homossexuais são os exemplos mais claros desta situação. acreditamos que as antigas definições de pobreza caius_c 417 . a marginalidade assume uma forma que somente pode ser combatida através da reeducação ou educação. Ela pode transmitir-se de geração em geração ou espalhar-se dentro grupos que contenham as mesmas condições. estão em situação desfavorável.alternativa e nem sempre em seu benefício. Vez ou outra. não é individual. exceto raros casos. ainda existam diferenças significativas entre as regiões geografias do país. A marginalização. ela torna-se fruto de subculturas que. como é caso de favelas ao lado de condomínios de luxo. Sendo um país extenso. Embora. o Brasil. em termos macros. possui zonas econômicas que variam da extrema riqueza a mais pérfida pobreza. por vezes. estão próximas geograficamente de si. Estas zonas. sem acesso às condições consideradas como normais. com realidades políticas e históricas desiguais. onde estes últimos. geralmente. Outras vezes estende-se dentro do conjunto cidade-campo. Quando enraizada nessa premissa. de grupos que são discriminados pela sociedade. de climas e geografias diferentes. exaltam a própria marginalidade e transformam-na em sua própria forma de vida. embora não seja o único. Ela é característica de grupos.

sexo. raça. que sua diminuição a um grau efetivamente baixo representa atuação efetiva de um verdadeiro Estado Democrático de Direito. O bem de todos que se promove deve atingir todos os grupos sociais existentes. sem qualquer discriminação por conta de sua dessemelhança. cor.sem preconceitos de origem. Há de se convir. idade e quaisquer outras formas de discriminação Talvez fosse mais correto. caius_c 418 . dentro de um Estado Democrático de Direito. visto que sempre foram e são componentes de qualquer grupo social. Promover o bem de todos. já induz que aquela sociedade caminha efetivamente para aquilo que deve ser seu ideal: o ser humano. marginalização e desigualdades parece ser um ideal utópico difícil de ser atingido.baseadas na comparação entre sul-sudeste e nortenordeste estão desaparecendo. porém. trocar o termo “promover” pelo “garantir”. Bolhas de crescimento econômico que propiciam o acesso dos elementos desfavorecidos aos padrões ditados pelo conceito de cidadania foram se formando e estão se espalhando de forma a trazerem para seu bojo aqueles que estão em situação de pobreza ou marginalização. Este último objetivo traduz a forma igualitária pela qual todos os cidadãos devam ser tratados. tendo como parâmetro os altos padrões. Erradicar pobreza. Erradicar significa eliminar completamente. Minimizar as diferenças.

sexo. existem diferenças econômicas ou sociais que podem permitir que determinado indivíduo ou grupo sempre obtenha vantagens em função dessas diferenças. porém. não existe redundância ao acrescentar os elementos que mais comumente são caius_c 419 . Precisamos entender que o princípio da isonomia busca a igualdade através do equilíbrio entre as partes. O legislador. quando se dá tratamento diferenciado para determinados grupos por conta de sua incapacidade de atuação frente aos dominantes. cor e idade.” Este princípio é o que convencionou chamar-se de isonomia. Esta diferença deve produzir o necessário equilíbrio entre as partes para que possam concorrer de forma igual às oportunidades sociais. O termo “bem de todos” é amplo o bastante para englobar todos os cidadãos. no entanto. O princípio isonômico deve estabelecer restrições para aqueles que tenham vantagens excessivas ao mesmo tempo em que melhora as condições daqueles que estão em patamar inferior. É o famoso lema "tratar de forma igual os iguais e de forma desigual os desiguais na medida em que se desigualam. na maioria das vezes. raça. ao proferir o princípio da isonomia como um dos objetivos da República Federativa do Brasil. teve o cuidado de acrescentar os que nos parecem mais comuns como motivos de discriminação que são a origem. Todos podem ser iguais perante a lei.Esta promoção pode estender-se aos ditames da lei.

Reafirma-se. o princípio da isonomia ao enunciá-los. apenas.discriminados. caius_c 420 .

ó Adão. Coloquei-te no centro do mundo. para que teu rosto. que não conheces qualquer limite.Estado Democrático de Direito "Não te dei. teu lugar e teus dons. tal como um bom pintor ou um hábil escultor. A tirania usa o medo dos homens para governar. dês acabamento à forma que te é própria". nem qualquer dom particular. em cujas mãos te coloquei.Encerra a natureza outras espécies em leis por mim estabelecidas. para que tu. (Pico de la Mirandola). nem rosto. os conquistes e sejas tu mesmo a possui-los. caius_c 421 . o Estado Democrático de Direito utiliza seus melhores desejos. só mercê do teu arbítrio. livremente. O Estado de Direito é um paradigma alicerçado no princípio da soberania popular. Não te fiz nem celeste nem terrestre. os desejes. nem um lugar que te seja próprio. para que melhor possas contemplar o que o mundo contém. nem mortal nem imortal. te defines a ti próprio. Mas tu.

consolidada pela Revolução Francesa.Para MORTATI. b) A ampliação do voto de forma universal e igualitária. o titular da soberania tornou-se Estado. c) Na terceira. o que não ocorre com a Nação. a soberania popular contempla três fases históricas:316 a) Na primeira. c) A estruturação dos direitos de colaboração política na forma de partidos. somente tem sentido quando emanada do povo. no Estado Democrático de Direito. a titularidade do poder era atribuída à nação considerada como povo concebido numa ordem integrante. de forma periódica. Este Estado busca assegurar condições reais de igualdade e liberdade para todos. pois se a soberania é um direito. Para que isso se estabeleça são necessárias as seguintes medidas: a) A inserção constitucional da cláusula social. b) Na segunda. Este consentimento dado aos que detém o poder é feito através do voto direto ou indireto. A titularidade do Estado do poder soberano. fora do Estado. d) Desenvolvimento dos programas ideológicos dos partidos políticos com propostas de políticas públicas e. o povo era considerado como massa amorfa. caius_c 422 . seu titular só pode ser uma pessoa jurídica.

e) A criação de novos mecanismos de formação de opinião pública nas complexas sociedades de massas. Argumenta-se que a obrigatoriedade contrariaria o próprio principio da caius_c 423 . Esta ruptura pode ser de inúmeras formas que variam desde a criada através de atos violentos até aquela acordada pela sociedade. Este estabelecimento somente pode ocorrer na existência de uma ruptura da ordem social que se manifesta em esquematização das novas condições de governo. Existem controvérsias a respeito da obrigatoriedade do voto imposta pelas leis brasileiras pois outros países reconhecidamente democráticos consideram que a participação política do cidadão deve ser espontânea e de livre escolha. Uma democracia necessariamente implica em escolha dos representantes da sociedade através de voto secreto. O estabelecimento do Estado Democrático de Direito na Constituição implica em direcionar todas as suas disposições para que se formulem leis que sirvam de lastro para se cumprir os objetivos propostos por este Estado. O segredo sempre será necessário porque o anonimato do eleitor previne futuras retaliações por qualquer elemento que se torne hostil por conta de sua escolha. A inserção da cláusula social na Constituição garante a legitimidade do regime e da forma de governo.

tornaria o princípio da diversidade política.. ao mesmo tempo em caius_c 424 . Alguns países. os ideais individualizados tornariam inepta a vida política. podem. Ao tornar o valor de cada voto igual para todos cria-se a forma mais adequada para definir uma maioria que espelha os anseios de grande parte da sociedade. tão cara a um Estado Democrático de Direito. recusarem eleitores por conta de sua manifesta tendência política. A quantidade de partidos deve ser adequada de modo que não produza excesso. Busca-se com a criação de partidos políticos uma aglutinação de pessoas com os mesmos ideais. Sem essa concentração. Possibilitar que grupos diversos tenham porta-vozes de sua causa dentro da estrutura política pode garantir um equilíbrio nas decisões governamentais e evitam a formação de oligarquias ou a tomada de poder por grupos que almejam apenas seus objetivos.democracia. inclusive. simplesmente inútil. se fossem uniformes a todos. A universalização do voto busca abranger todos os seguimentos sociais e configurar o processo de escolha como o de maior representatividade possível. como o Estados Unidos. Cada partido deve ser reflexo de formas democráticas de governo que. visto que torna uma imposição a participação do cidadão no processo político de escolha.

enquanto que o outro deve encarregar-se de ser seu eterno adversário. Torna-se quase impossível que um só partido governe nesta forma de representação política. Considerar que deva apenas existir duas formas de representação política como oposição e situação. O pluripartidarismo. Uma democracia efetiva somente pode existir se existe a responsabilidade do representante face ao representado e vice-versa. O representado tem que ter tino e poderes suficientes para excluir aqueles que não correspondem ás suas expectativas ou às do próprio Estado. portanto. Essa impossibilidade implica em adoção de métodos de governabilidade que satisfaçam os setores que cada um representa e. implica em divisão do governo entre os partidos. o cidadão que elegeu seus líderes. Em um Estado Democrático de Direito não basta apenas a participação dos cidadãos. Essa atuação regula as atividades de seus representantes porque fiscaliza suas ações. em última análise. além de constituir maior diversidade social. configura estreiteza de pensamento porque leva a confusão permanente de que apenas o partido que detém o poder deva governar.que não configure falta de representatividade dos diversos setores sociais. é necessário que estes tenham condições de ter um pensamento crítico em relação à sua atuação como eleitor. caius_c 425 .

julgamos até que ele é algo sobrenatural e que foge de nossa compreensão. o alcance de suas ações é bem maior do que aquela praticada por outros. Tendo mais responsabilidades sociais é justo supor que essas pessoas devam ter um ganho maior. Vemos o Estado como uma entidade sem corpo e vagamente indefinível. Deixando de ser um Estado de Direito. o Estado é algo sólido e composto por pessoas. Alguém caius_c 426 . ele não favorece mais a sociedade. estamos atribuindo responsabilidades à pessoas que acreditamos que tenham mais capacidade de gerenciar partes da sociedade. No entanto. ele deixa de ser legítimo e. Quando atribuimos responsabilidades ao Estado. Sendo maior o alcance. deixando de ser legítimo. No entanto. as conseqüências também serão. a responsabilidade de quem promove coesão na sociedade é muito maior do que aquele que limita essa capacidade aos grupos dos quais participa. Sem um Estado responsável não existe uma sociedade responsável. Nada mais correto que as penas sejam também duplicadas nesses casos. O crime seria duplo: a quebra da confiança dos que o elegeram e a extensão do dano social.Responsabilidade do representante A partir do momento em que o Estado se preocupa apenas consigo ele deixa de ser um Estado de Direito. na verdade. Em primeira instância. Não favorecendo mais a sociedade. deve ser substituído de imediato. a partir do momento em que essa confiança é quebrada por algo provocado por um ente que faz parte do conjunto do Estado. Logo.

torna-se elemento de descrédito da instituição e do Estado. Um desvio ou malversação de verbas públicas infere um dano social extensível ao que se pretendia caius_c 427 . Tornando-se pessoa pública. Seria um crime social e não restrito a alguns grupos ou indivíduos. a extensão de seus atos extrapola sua pessoa física e produz efeitos dentro da sociedade.que participa do Estado e comete um dolo deveria responder por isso com mais severidade do que outro qualquer. o crime alastra-se por toda a sociedade ou parte dela. Um roubo ou furto atinge número limitado de pessoas. O dano produzido não se restringe apenas ao material. Assim sendo. o grau de responsabilização é maior do que o é o do cidadão comum. Por conseguinte. as infrações tornamse mais graves e as penas devem se ajustar ao tanto de dano que produziu. deixa de ser crime comum e enseja uma punição maior. no geral. Em um crime comum. contrários à lei e ao interesse público. A responsabilidade do representante tem que estar expressa em lei. os atingidos são poucos e. Quando cometido por um representante. O crime deixa de ser comum quando o representante o comete. restringe-se a uma situação particular em determinado momento. Com um número maior de atingidos. O representante que envereda-se por caminhos escusos.

A mídia é elemento comum de manipulação e caius_c 428 . Cabe-lhe. diferencia-se pelo uso do próprio objeto. visto que tem um cunho social. buscando a idoneidade e a eficiência do mesmo. Logo. a função de fiscal da atuação do representante. cada qual querendo apenas vantagens ou buscando soluções que afastam gradativamente a sociedade do conjunto de regras que ela mesma estatuiu para que tornasse harmônica a convivência. Instalando-se a desconfiança entre governantes e governados. O Estado sobrevive e vive por conta da confiança que lhe deposita o comum cidadão.fazer com ela. a regra que impera é a de prevalência de um sobre o outro. A forma mais comum e menos eficiente para evitar que o representante produza danos é a sua exclusão do quadro governante através de sua não eleição. o objeto do roubo ou furto. no entanto. embora seja o mesmo. O dano à credibilidade da Administração Pública e do próprio Estado pode tomar níveis alarmantes quando os crimes são contínuos e impunes. Responsabilidade do representado A responsabilidade do representado face ao representante não tem como ser titulado em lei pelo próprio anonimato que a escolha por voto confere. Essa prática torna-se difícil por conta da lealdade de eleitores que não levam em conta a atuação do representante mas apenas o carisma que dele emana.

quando não aumenta. Para que se faça ouvir. a Constituição Federal estabeleceu dois meios de controle da moralidade administrativa. etc. É possível ao comum cidadão entrar com processo contra aquele que julga falto de idoneidade. o que não lhes conferem tanta credibilidade. Para aqueles que têm pouco de seu tempo. a saber: caius_c 429 . que prefere abster-se de tal prática. um quadro eleitoral que permite a permanência desses elementos no poder. quando não precisa criar uma própria. No entanto.mantém. Em razão da possibilidade de o Judiciário controlar a moralidade dos atos administrativos. partidários. O sistema tenta corrigir essas falhas ou faltas através de mecanismos acionados pelos próprios representantes. visto que estão imbuídos de interesses próprios. e ante a necessidade de observância do princípio da inércia da jurisdição. oligárquicos. usado para sua sobrevivência e de sua família na sua maior parte. causador de danos ou infrator. essas aberrações dentro do sistema são de difícil acerto. essa possibilidade é pouco divulgada e muito onerosa para o indivíduo. o cidadão precisa associar-se a entidades governamentais ou nãogovernamentais. A grande falha da atual democracia é a quase impossibilidade de ações populares que regulem as atividades de seus representantes.

LXXIII Prevista na Lei n. em seu art. violador de direitos metaindividuais. Derivada de uma situação anterior. dentro de um Estado Democrático de Direito.1) A ação popular93 é utilizada para desconstituir atos lesivos à moralidade administrativa. às vezes. dono de poder de decisão. inc. Sua própria situação de representante. mediante prova da cidadania.º. onde prevalecia perseguição aos opositores do regime. 5. é usada. precisa ser preservada para momentos em que deva tomar medidas benéficas mas que não sejam de agrado popular ou de todos.7. com título de eleitor e comprovante de votação de apresentação obrigatórios. a Constituição Federal de 1988 outorgou uma série de medidas protetoras baseando-se na premissa de que o próprio Estado poderia voltar-se contra alguns que fossem contrários contra o grupo dominante. 2) Ação Civil Pública94. devendo ser subscrita por um cidadão. cujo objetivo é a proteção de interesses transindividuais.347/85 caius_c 430 . a ação civil pública é o instrumento correto para controle da moralidade. É certo que os representantes devam ter uma proteção extra para que não lhes sejam tolhidos todos os movimentos. Essa proteção. podendo dela surgir as sanções descritas no tópico a seguir. para tornar impunes aqueles que 93 94 Prevista na Constituição Federal/88. Em sendo o ato imoral.

Essa proteção atinge o ápice quando denega aos poderes constituídos para tal fim o necessário julgamento dos atos infracionários. todos os seus caius_c 431 . a pena deve ser ampliada de acordo com o malefício provocado. O afastamento do possível infrator do âmbito político não implica em cassação de mandato até a sentença final. de acordo com a lei. a justiça ordinária é totalmente capaz de dar o tratamento adequado a cada caso. Sendo tribunal de si própria. Para evitar tirania e manter controle sobre a situação. principalmente. na situação política de cada um. Para que sejam julgados adequadamente. Nos casos de crime comum de tais representantes. a pena deve ser comum. pois existem facilidades para obtenção de acordos baseados. a representação deve ser retirada e todos os poderes concernentes a ela. irredutível.usam do sistema em próprio proveito ou dos seus. a classe representante adotou poderes para julgar aqueles que dela fazem parte. A História tem nos ensinado que os maiores merecedores do opróbrio social terminam seus dias montados no poder que os sustenta. No entanto. Para crimes de lesa-sociedade. desprezando o cidadão que o colocou naquele lugar. Reduzido a cidadão comum. a representação corre o risco de tornar-se espúria e corrupta.

sabedores que teriam seus privilégios retirados. em direcionamento das atividades governamentais para suas funções principais que são as de administrar e legislar. A existência de mecanismos fáceis para o cidadão poder fazer valer seus direitos frente ao representante. Suas apreensões ou denúncias seriam encaminhadas para um setor competente que tivesse autonomia suficiente para levá-las a bom termo. também. Essa forma de tratamento reduziria a possibilidade de cometimento de crimes por conta de representantes.poderes políticos deveriam ser retirados a partir do momento em que a denúncia fosse aceita pelos tribunais. mantendo o cidadão informado dos passos do processo. acrescentar maior credibilidade ao representante. pois caius_c 432 . constituiria uma vitória democrática. também. ao mesmo tempo em que confere ao Poder Judiciário a sua função que é a de julgar. Implicaria. o cidadão teria maior confiança nos seus representantes. ao mesmo tempo em que estes invitariam maiores esforços para manterem-se dignos como tal. Com a investigação. pode-se. ele poderia acioná-los de forma cômoda e eficaz. Sem precisar dispor muito de seu tempo e energia. Sabendo que suas apreensões e denúncias seriam devidamente investigadas.

O Estado reduz seu papel de executor ou prestador direito de serviços. fazendo ou judicando os conflitos. o Estado continuará a subsidiá-los. Nível de gerenciamento do Estado Entende-se que um Estado Democrático de Direito deve atender as necessidades sociais. buscando. mantendo-se entretanto no papel de regulador e provedor ou promotor destes. para que não se rompa a teia da lei que equilibra as relações. que o mercado é incapaz de garantir. Mal entendidos poderiam ser resolvidos e o eleitor poderia ter uma maior confiança naquele em quem depositou seu voto. principalmente dos serviços sociais como educação e saúde. caius_c 433 . na medida em que promovem cidadãos. dada a oferta muito superior à demanda de mão de obra especializada. o controle social direto e a participação da sociedade. Ele o faz através de seus poderes. deixando para a iniciativa privada as formas de produção e distribuição de produtos e serviços. que são essenciais para o desenvolvimento. Como promotor desses serviços. ora legislando. A fiscalização faz parte de seus atributos. e para uma distribuição de renda mais justa. Cabe ao Estado todo e qualquer controle que afete as relações econômicas e sociais.esta não termina necessariamente em condenação. ao mesmo tempo.

Itens como saúde e educação não podem ser deixados de forma total para a iniciativa privada. A sociedade deteriora-se nas crises de saúde e transforma o Estado em governante sem governados. não lhe dar prioridade ou deixar a cargo exclusivo da iniciativa privada. o controle estatal quando delegado a entidades particulares. Neste caso. procurando dar à população o máximo possível de recursos e facilidades para que possa manter-se saudável. quando necessário ou ser oneroso demais para a estrutura estatal. transforma a população em uma massa inerte.Este controle pode ser feito através de seus próprios meios ou delegado a entidades. Não se rompe. não torna o Estado nenhum mentor da saúde pública. A atuação do Estado deve ser ampla e irrestrita neste setor. Mantê-los também é sua caius_c 434 . A saúde física e política da população é responsabilidade do Estado. Que o Estado deva cuidar das necessidades sociais não resta dúvida. A saúde do cidadão é a saúde do Estado. Produzir ambientes que evitem a deterioração da saúde faz parte dessa atuação. porém. Relegá-la a segundo plano. improdutiva e corroída por enfermidades. Ela deve ir desde a prevenção até a recuperação. Tornar-se ativo apenas em calamidades que exijam uma estrutura que a iniciativa privada não tem. o Estado deve tornar-se concorrente da iniciativa privada.

Não implica apenas em capacitação técnica mas a formação completa do ser humano. Outro ponto em que o Estado deve ser concorrente da iniciativa privada. As interferências no campo econômico devem limitar-se a controle e regulamentação. um espírito crítico e saudável buscando dar a cada um a capacidade de visualizar o bem público como seu próprio e lutar por ele quando houver alguma degradação. cuidando para que ele tenha condições e capacidade de viver em uma sociedade cada dia mais complexa. é na educação.obrigação. pela educação. tanto no macro como no microcosmo ambiental. de forma harmônica com seus semelhantes. A educação pode transformar o homem em um ser realmente social. A educação é básica para a constituição de cidadãos. Deve ser acrescentado. Saber criticar é bom mas o cidadão também deve ser educado de tal forma que saiba buscar seus direitos e tenha os instrumentos adequados para tal. O conceito de ambiente deve ser amplo. As exceções caius_c 435 . englobando tanto aquele em que o homem vive como aquele do qual depende. Esse cidadão participativo politicamente é um objetivo a ser almejado pelo Estado Democrático de Direito. quando não superior.

quando não se tornam concorrentes. através dos mecanismos da concorrência. Um Estado que toma para si o máximo de atribuições possíveis nos setores de produção e distribuição descumpre sua finalidade de ater-se aos elementos essenciais ao mesmo tempo em que enseja o surgimento de um totalitarismo baseado na economia do país.cabem em setores onde a iniciativa privada não quer ou não pode atuar. Uma economia saudável pressupõe que exista espaço suficiente para que empresas de diversos calibres disputem o mercado de forma saudável. O ideal seria que não existissem possibilidades de formação destes entres econômicos. quando tratar-se de produto ou serviço essencial. para que possa existir a concorrência. deixando pouco espaço para a iniciativa privada. cabe ao Estado controlar estes entes e mantê-los sob sua fiscalização. Em último caso. o Estado pode atribuir-se as funções de produzir e distribuir. Os cartéis e monopólios configuram poder paralelo. Uma das características dos Estados totalitários é colocar sobre sua tutela direta os meios de produção e distribuição. Em penúltimo caso. caius_c 436 . Essa limitação do Estado não implica em deixar que as empresas tornem-se gigantescas a ponto de interferir na atuação dele próprio ou dominando setores econômicos. não existindo número suficiente de empresas e nem a possibilidade de instalação de outras.

Esta indissolubilidade expressa na Constituição Federal não permite que existam movimentos separatistas ou que leis possam ser criadas com manifesto desejo de que o país seja dividido ou desmembrado. caius_c 437 . formado pela união indissolúvel dos Estados. A própria vida é vontade de potência. ao seu potencial. da Constituição Federal de 1988 estabeleceu os fundamentos do Estado Brasileiro consagrando-o como um Estado Democrático de Direito.” (Nietzche)317 O artigo 1o.Fundamentos do Estado Democrático de Direito Brasileiro “O ser vivo necessita e deseja antes de mais nada e acima de todas as coisas dar liberdade de ação à sua força. Municípios e Distrito Federal.

Algumas figuras históricas como Tiradentes mostram que a rebeldia armada fez parte da história brasileira. Abaixo segue uma lista que desmente nosso passado pacifico: Período colonial Século XVI • • • • França Antártica . talvez. Rio de Janeiro (1556-1567) Guerra dos Aimorés .índios contra lusobrasileiros.revolta indígena. é outro exemplo clássico de insurgência do povo contra governos. Paraíba e Rio Grande do Norte (15861599) caius_c 438 . no qual sempre se acreditou que fosse pacífico. A Guerrilha no Araguaia. A História desmente esse tão propalado passado sem guerras ou do caráter do homem médio brasileiro. Rio de Janeiro (1555-1567) Confederação dos Tamoios . no temperamento do brasileiro.índios contra lusobrasileiros. nos anos 70. Bahia (1555-1673) Guerra dos Potiguares . inspirada.invasão francesa.Existe a crença geral de que o Brasil seja um país que teve uma historia relativamente tranqüila e isenta de luta.

Paraíba e Ceará (1686-1692) Século XVIII • Guerrilha dos Muras . Presença neerlandesa no Brasil.Século XVII • • • • • • • • • Bandeirantes. Espírito Santo e Bahia (1617-1621) Invasão holandesa. Nordeste (principalmente Pernambuco e Paraíba) (14 de fevereiro de 1630 a 26 de janeiro de 1654) Revolta de Amador Bueno .insurreição popular. entradas e bandeiras expedições civis-militares de exploração e captura de indígenas (séculos XVI e XVII) Quilombos e Guerra dos Palmares . São Paulo (1641) Motim do Nosso Pai .índios contra lusobrasileiros.conflito entre luso-brasileiros e holandeses.Pernambuco (1666) Revolução de Beckman revolta de comerciantes. Guerra Luso-Neerlandesa e Insurreição Pernambucana (Guerra da Luz Divina) .redutos de escravos africanos fugidos.índios contra lusobrasileiros. Nordeste (séculos XVII e XVIII) França Equinocial . Maranhão (25 de fevereiro 16841685) Confederação dos Cariris .invasão francesa. bugreiros. Maranhão (1612) Levante dos Tupinambás .índios contra lusobrasileiros (século XVIII) caius_c 439 .

• • • • • • • • • • Guerra dos Emboabas . Amazonas (1723-1728) Resistência Guaicuru . Revolução dos Alfaiates revolta independentista e abolicionista.conspiração abortada independentista e republicana. Região Sul (1751-1757) Inconfidência Mineira .confronto entre comerciantes e canavieiros. Rio de Janeiro (1794-1795) Conjuração Baiana. Mato Grosso (1725-1744) Guerra Guaranítica . Minas Gerais (1789) Conjuração Carioca .índios contra lusobrasileiros.Santos (1710) Guerra dos Mascates .conspiração abortada independentista. São Paulo e Minas Gerais (início de 1700) Revolta do Sal .índios contra lusobrasileiros.revolta de mineradores contra política fiscal.confronto entre bandeirantes e mineiros. Pernambuco (17101711) Revolta de Felipe dos Santos .conspiração abortada independentista.Portugal e Espanha contra jesuítas e guaranis catequizados. Bahia (1798) Século XIX • Conspiração dos Suassunas . Minas Gerais (1720) Guerra dos Manaus . Pernambuco (1801) caius_c 440 .

insurreição popular.invasão e ocupação da Guiana Francesa ao Brasil (18091817) Incorporação da Cisplatina . Pernambuco (1817) Revolução Liberal de 1821 revolta independentista.Brasil contra Argentina e rebeldes uruguaios (1825-1828) o Revolta dos Mercenários . Piauí. Maranhão.revolta separatista.brasileiros contra militares legalistas portugueses. Bahia. Rio de Janeiro (abril de 1831) Cabanada .invasão e anexação do Uruguai ao Brasil (1816) Revolução Pernambucana revolta independentista e republicana. Bahia e Pará (1821) Independência da Bahia revolta independentista. Rio de Janeiro (1828) Noite das Garrafadas . Bahia (1821-1823) Guerra da independência do Brasil . Pernambuco e Alagoas (1832-1835) caius_c 441 . Nordeste (1823-1824) Guerra da Cisplatina .mercenários contra Império do Brasil.insurreição popular e confronto entre brasileiros e portugueses. Pará e Uruguai (1822-1823) Império Século XIX • • • • Confederação do Equador .• • • • • • Invasão da Guiana Francesa .

revolta liberal.Brasil e rebeldes uruguaios e argentinos contra Uruguai e Argentina (1850-1852) Revolta do Ronco de Abelha . Pernambuco (1848-1850) Guerra contra Oribe e Rosas .Pernambuco (1852) Revolta da Fazenda Ibicaba . Bahia (7 de novembro de 1837-1838) Balaiada .Pernambuco (1847-1848) Insurreição Praieira revolta socialista. São Paulo e Minas Gerais (1842) o Revolta dos Lisos .insurreição popular. Maranhão (18381841) Revoltas Liberais .• • • • • • • • • • • • • • • • Federação do Guanais . Mato Grosso (1834) Cabanagem .revolta separatista e republicana.revolta separatista e republicana.insurreição popular.revolta entre conservadores (queriam manter o império) e republicanos. Rio Grande do Sul (1835-1845) Sabinada .insurreição religiosa.insurreição popular. Bahia (1858) caius_c 442 . Alagoas (1844) Motim do Fecha-Fecha .revoltal liberal.insurreição popular.São Paulo (1857) Motim da Carne sem Osso .Pernambuco (1844) Motim do Mata-Mata . Pará (18341840) Revolta dos Malês . Bahia (1832) A Rusga .Nordeste (18511854) Levante dos Marimbondos . Bahia (1835) Revolução Farroupilha .

guerra civil. Nordeste (1875-1876) Revolta do Vintém .insurreição popular.insurreição separatista. Rio de Janeiro (1880) Golpe de 15 de novembro . Acre (1900-1903) popular- caius_c 443 .insurreição popularseparatista.insurreição popularmessiânica. Nordeste (1874-1875) Guerra das Mulheres .Brasil.golpe militar. Argentina e Uruguai contra Paraguai (1865-1870) Revolta dos Muckers .• • • • • • • Guerra contra Aguirre .insurreição popular. Rio de Janeiro (1889) República Século XIX • • • • Revolução Federalista .insurreição popularmessiânica. Rio de Janeiro. Rio Grande do Sul (1868-1874) Revolta do Quebra-Quilos . Amapá (1895-1900) Guerra de Canudos . (1894) República de Cunani . Bahia (1896-1897) Século XX • Revolução Acreana .revolta militar conservadora.Brasil e rebeldes uruguaios contra Uruguai (1864-1865) Guerra do Paraguai .insurreição popular. Rio Grande do Sul (1893-1894) Revolta da Armada .

Itália (1943-1945) Revolução de 1964.insurreição militar (1923-1925) Revolução de 1930 .golpe de Estado político-militar (1964) Luta armada . Rio de Janeiro (1903) Revolta da Chibata . Golpe militar de 1964 .golpe de Estado civil-militar (1930) Revolta de Princesa . Rio de Janeiro (1938) Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial . Revolução Constitucionalista de 1932 .insurreição comunista.insurreição política local/coronelista. Rio de Janeiro (1922) Coluna Prestes .guerrilha urbana e rural (19651972) Podemos apontar duas características básicas na maioria das lutas descritas acima: a revolta popular face caius_c 444 . Paraíba (1930) Revolução de 1932.insurreição popular. São Paulo (1932) Intentona Comunista . Pernambuco e Rio Grande do Norte (1935) Intentona Integralista .insurreição integralista. guerra civil.insurreição popularmessiânica.• • • • • • • • • • • • • Revolta da Vacina . Rio de Janeiro.revolta militar.primeira revolta do movimento tenentista. Santa Catarina e Paraná (19121916) Revolta dos 18 do Forte . Rio de Janeiro (1910) Guerra do Contestado .revolta político-militar.

criam suas famílias. constroem suas casas. de onde sempre surgiram as idéias separatistas. Por conta deste histórico e para reafirmar a territorialidade do país. economizam seu dinheiro. As revoltas populares brasileiras existiram por dois motivos: o distanciamento dos governos da população. Empregados que ganham baixos salários tem casa própria. onde a relação sempre foi de dominadordominado e a idéia de que o governo central não dispunha de vontade ou recursos para atender todo o território. Como eles conseguem comprar esses bens? A minha afirmação é a de que eles trabalham em horas extras. a Constituição Federal de 1988 deixou expressa a impossibilidade de qualquer atitude separatista. depois de estabelecidos. eletrônicos.a algum governo ou governante e a idéia do separatismo que permeou muitas delas. fazem bicos. Geralmente o povo brasileiro é visto como indolente e preguiçoso. Mas é justamente o contrário. caius_c 445 . etc. É necessário entende-las para que o Estado possa prover melhor a sua população. Mesmo alguns migrantes com fama de indolentes. carro. fazem mutirões. Características do povo brasileiro Consideramos que o povo brasileiro tem algumas características que diferem da mentalidade popular acerca delas.

O brasileiro aproveita seu fim de semana para arrumar seu carro. os que trabalham para suas igrejas ou religiões. Por não demonstrar o caius_c 446 . na realidade. Como exemplo. sua casa ou para ganhar um pouco de dinheiro com seus bicos. quando motivado. Então. Ao contrário do que costumam dizer. podemos citar os que fazem mutirões de construções. o brasileiro tem poucos dias durante o ano. conseguem obter um padrão de vida muito mais alto do que conseguiriam ter em seu país de origem. os pais que ajudam as escolas a manterem-se através de suas associações. que exaltaram ao máximo essa vida tranqüila que. Porém. que limita-se a concordar ou discordar levemente de algo em reuniões sociais ou abertamente. muitas vezes. Ele sente-se distanciado ao extremo e procura se resguardar na indiferença. de onde surgir essa noção de que não estamos nem aí para o trabalho? Tentando acertar. ele trabalha arduamente e com devoção. É um povo cortês. com muita cerveja e carnaval. criado pela mídia e por artistas e congêneres. é de nosso entendimento que o povo brasileiro é basicamente violento.Os brasileiros que trabalham no exterior são bem vistos pela população local e. eu diria que essa idéia firmou-se em grande parte na década de 60 e 70 em função de um estilo de vida sempre à beira da praia. etc. embora não costume exprimir abertamente emoções e sentimentos. Outro motivo é que o brasileiro sempre foi oprimido e raramente se mexe para fazer algo em prol de um governo ou de sua empresa.

desprezando seu serviço ou tentando obter vantagens de forma escusa. sendo honestas e queridas em seu bairro. Podemos sentir a violência com que ele se expressa apenas olhando os jornais. ele procura não ser atingido através de ações encobertas e que não sejam imputadas a ele. costuma demonstrar seu descontentamento com ações furtivas. família e um círculo de amizades. costuma ser muito difícil atingi-lo em seu âmago quando se trata de motivá-lo. O brasileiro não é um soldado que batalha em campo aberto. Ela é fruto de uma opressão diária e subcutânea que se expande diante de algum evento externo. Esta violência é momentânea e deriva-se mais do instante do que do indivíduo em si. atira e foge. saques e linchamentos ocorrem durante o dia? Muitos dos que participam deles são pessoas que tem casa. mas age quando a oportunidade se apresenta. é um guerrilheiro que esconde.que pensa. Quantos quebraquebras. Ele não costumar falar abertamente. O germe está dentro dele mas somente se mostra dentro de uma multidão. Devemos ficar atentos aos menores detalhes para tentarmos descobrirmos quais as caius_c 447 . Como sempre foi oprimido e sabendo que as ações abertas causam repressão direta. não dando oportunidade para ser pego ou morto. O brasileiro não exprime seus verdadeiros sentimentos a não ser em ocasiões especiais e dentro de determinado círculo. No entanto.

o que acabou gerando um temperamento aparentemente distante em relação a qualquer assunto que não seja de interesse direto. como parte do governo. ou o “grande líder” que o povo procura. pois imagina que. Historicamente. assessor.suas opiniões sobre determinado assunto. Como não são pessoas diretas. passa a comportar-se como se fizesse parte de uma elite intocável e deixa de lado qualquer ação que possa ajudar aqueles que votaram caius_c 448 . ou tipos assim. A própria América Latina sempre foi vítima de governos opressores. Exceto alguns casos. Todo brasileiro quer fazer parte do governo de alguma forma. Pode-se explicar facilmente essa tese pelas raízes históricas do povo brasileiro sempre oprimido pelos seus governos. secretários. estará garantida sua sobrevivência. após conseguir seu objetivo. costuma proclamar seus ideais para que todos vejam nele um possível “salvador da pátria”. temos que fazer com que formulem suas idéias e pensamentos em clima de certa intimidade e jamais junto com outras pessoas. seja como vereador. Imediatamente. Quando ele necessita de votos para alcançar esse objetivo. o brasileiro teve poucos líderes que o levaram a reunir-se em torno de um ideal comum. Sempre tivemos governos e partidos oligárquicos. com grupos procurando prevalecerem-se em seus interesses específicos. os governos sempre foram totalmente dissociados do povo com o intuito declarado de mantê-lo afastado e apenas explorado. que também acabou nos transformando em seres que não demonstram aquilo que são ou pensam.

Mesmo que seja aparentemente contraditório. acreditamos que o povo brasileiro tem líderes em profusão. em certas entidades ou religiões nas quais o brasileiro acredita. Boa parte dos líderes que mudaram nossa história atuaram nos bastidores. ele costuma tomar as iniciativas. embora eles estejam sempre agindo em surdina ou utilizando alguém como escudo. os Golberys atrás de uma lista de presidentes e os PCs Farias. procura ir à frente e tenta conseguir o máximo possível para aquele grupo ao qual pertence. Podemos notar que.nele. o brasileiro deixou de ver-se como um ser social ou alguém que precisa atuar dentro de um grupo e passou a cuidar de suas próprias necessidades ou daqueles que o cercam. Essa falta de grandes líderes provocou um ajustamento à situação como indivíduo. Essa liderança não mostrada dentro da empresa ou caius_c 449 . De certa forma. Cito o caso de escravos cuja maior ambição era a de ser o feitor de seus semelhantes. Todo político sofre dessa “síndrome de feitor”. Os vínculos sociais ficaram restritos a pequenos grupos com o qual ele se identifica. se isso prejudicar seus interesses imediatos. as lojas maçônicas. utilizando fachadas para encobrirem suas ações. Na posição de feitor ele teria privilégios e não seria tratado como os outros escravos. alguns deles agindo apenas em função de seus interesses. Como exemplo cito os irmãos Andrada. para poder atuar da melhor maneira.

exerce seus máximos direitos sobre o protegido. Getúlio Vargas. tais como: Tancredo Neves e Ulisses Guimarães na campanha das eleições diretas. Esta figura estende-se aos campos políticos e econômicos. Ayrton Senna com a sua marca registrada de erguer a bandeira brasileira a cada vitória. a campanha a favor da destituição de Collor e outras do gênero. a seleção brasileira de futebol. 318 Por não poder contar com a ajuda de qualquer tipo de governo e sempre oprimido por este. Mas ninguém até hoje. Esta identidade está vinculada à figura do paternalismo ou coronelismo. logrou unir o povo permanentemente em torno de um ideal nacional. ou seja.dentro de ambientes repressivos aflora quando a pessoa se sente segura ou quando atinge as suas crenças. Alguns poucos motivos ou líderes conseguiram fazer com que o brasileiro deixasse de ser individualista ou bairrista. SERGIO BUARQUE DE HOLLANDA definiu a identidade brasileira através da figura do que ele chamou de Homem Cordial. perdendo o sentido do conjunto. onde se busca proteção sob o domínio de alguém que. O brasileiro defende com unhas e dentes seu time. o povo brasileiro adotou uma postura individualista ou bairrista. aquele que constrói suas relações sociais por meio da afetividade. O máximo que caius_c 450 . dos motivos do coração em detrimento dos da razão. mas não levanta um dedo quando o assunto é defender seus país ou colaborar com qualquer forma de governo. em troca. seu grupo.

ideologias ou idéias próximas de seus interesses.conseguiram foi unir o povo em função de algum objetivo de determinada classe do país. a tendência do brasileiro é seguir seus líderes locais com fervor e admiração. como foi explicada acima. Essa perda da noção de conjunto é histórica. Por ser carente de grandes líderes e voltado para seus interesses pessoais. atletas que se destacam. Alguns bons exemplos históricos de como os brasileiros seguem seus líderes com fervor esteve presente em certos fatos durante a Guerra do Paraguai. de seus estados e cidades. Nossos políticos sempre falam de seus partidos. Líderes que tenham um pouco de carisma. Uma das maneiras de quebrar o ânimo dos brasileiros foi o de colocar franco-atiradores caius_c 451 . Exemplos típicos são os líderes sindicalistas. Seguidores de místicos e gurus existem por aí aos milhões e são categóricos em defender esses valores que lhes pesam muito mais que interesses a níveis nacionais. influenciava a tropa e eles deixavam sua coragem de lado. em que os paraguaios perceberam que havia uma característica nas tropas brasileiras que era a de seguir sempre atrás de seus oficiais enquanto estes demonstrassem coragem. figuras religiosas. dos sem-terra. Por terem a mesma característica bairrista do povo. durante um período limitado de tempo. acabam reunindo um grande séqüito. Qualquer vacilo por parte destes. mas dificilmente falarem do país em seus discursos. aumentam ainda mais essa distância que o povo tem sobre o país como um todo.

os seguintes fundamentos foram elencados na Constituição Federal de 1988: I) II) III) IV) V) A soberania. O estrago estava tão grande que os oficiais passaram a se vestirem como soldados. Mais célebre foi a resistência em Canudos. Para torná-lo possível. Podemos considerar a Constituição Federal de 1988 como um marco na integração brasileira. tanto no sentido de povo como territorial. pela FEB. que evitou a derrota na batalha fluvial de Riachuelo. pois buscou aproximar o governo da população. foi feita graças à coragem de oficiais e soldados. Esse pensamento somente adquiriu a possibilidade de concretizar-se com o estabelecimento do Estado Democrático de Direito de forma constitucional. aonde os defensores lutaram até a morte.que abatiam oficiais brasileiros. Nessa mesma guerra. Na Segunda guerra. Um general americano registrou-a em seu diário. A cidadania. num exemplo grandioso e trágico da força que um líder carismático tem sobre seus comandados. foi proferida a famosa frase “Quem for brasileiro que me siga” por Tamandaré. a tomada de Monte Castelo. A dignidade da pessoa humana Os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa O pluralismo político. caius_c 452 .

capaz de influenciar concretamente na transformação da sociedade e apto a fazer suas reivindicações perante os governantes. a cidadania consiste no conteúdo de pertencer de forma igualitária a uma determinada comunidade política. é o direito de ter direitos. pressupõe um cidadão político. do qual derivam todos os outros direitos.322 caius_c 453 . devendo ser medida pelas instituições e pelos direitos e deveres que a configuram. o primeiro direito.A soberania já foi descrita em capítulo à parte.320 Para ele. logo. sociais e culturais. nenhum país pode ser considerado como tal. Tais direitos somente podem ser exigidos através do total acesso à ordem jurídica que apenas a cidadania oferece.319 Conforme QUINTÃO SOARES. ao contemplar o gozo de direitos políticos e civis. acompanhados de direitos econômicos.321 Para MARSHALL. mediante política deliberativa. a cidadania ativa no Estado Democrático de Direito. Sem auto-determinação. e produto das histórias sociais diferenciadas protagonizadas por distintos grupos sociais. Cidadania Para HANNAH ARENDT. a cidadania é monolítica. a cidadania deve ser compreendida como participação política do indivíduo no Estado. constituída por diferentes tipos de direitos e instituições.

São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. e deveres relativos a uma coletividade política.Para LUIZ FLÁVIO BORGES D´URSO. De forma ampla. é a busca pela evolução social através do indivíduo.323 CELSO RIBEIRO BASTOS ensina que cidadania é a manifestação das prerrogativas políticas de um cidadão dentro de um Estado democrático. cidadania é um status jurídico e político mediante o qual o cidadão adquire direitos civis. Metafisicamente. diz em seu artigo 1o. é a capacidade de ter e exercer direitos/deveres. Juridicamente.” caius_c 454 . buscando benefícios recíprocos através da legalidade. É um estatuto jurídico que contém os direitos e deveres do cidadão em relação ao Estado. Esta possibilidade surge do princípio democrático da soberania popular. – “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. assinada em 1948 pelos países qe compõem a ONU. políticos e sociais. A dignidade da pessoa humana A Declaração dos Direitos Humanos. é a interação da comunidade com o Estado. além da possibilidade de participar na vida coletiva do Estado. onde se busca o bem comum. 324 Cidadania é o direito/dever do cidadão participar das atividades do Estado.

qualquer outra coisa como equivalente. a dignidade é o valor de que se reveste tudo aquilo que não tem preço. A dignidade humana é uma composição de sentimentos e situações fáticas que definem o ser humano como passível de uma vivência social e caius_c 455 . passível de ser avaliado. Quando uma coisa tem um preço. então ela tem dignidade" 325 A dignidade não é um valor subjetivo. os seres humanos constroem distintas personalidades humanas. não é passível de ser substituído por um equivalente. Dessa forma. a dignidade é totalmente inseparável da autonomia para o exercício da razão prática.Para KANT. embora ela seja fática. cada uma delas absolutamente individual e insubstituível. tudo tem um preço ou uma dignidade."No reino dos fins. Não existe um conceito que determine com precisão o que é dignidade humana. ou seja. em vez dela. Conseqüentemente. mas quando uma coisa está acima de todo o preço. e é por esse motivo que apenas os seres humanos revestem-se de dignidade . a dignidade é uma qualidade inerente aos seres humanos enquanto entes morais: na medida em que exercem de forma autônoma a sua razão prática. Trata-se de algo além de um simples direito do homem ou de um dever do Estado para com o cidadão. e portanto não permite equivalente. pode pôr-se. ela faz parte da natureza do próprio ser humano. Está mais para um sentimento do que uma situação.

a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. Os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa O artigo XXIII. da Declaração Universal dos Direitos Humanos.individual. também. da saúde física e mental dos trabalhadores e suas famílias. diz que toda pessoa tem direito ao trabalho.Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória. dar a necessária proteção aos empregados e suas famílias de forma ampla. dando-lhes a segurança caius_c 456 . que lhe assegure. preservados e vividos. Ao Estado compete ampliar esta proteção. outros meios de proteção social. cuidando de sua saúde física e mental enquanto eles estiverem sob seu abrigo. assim como à sua família. uma existência compatível com a dignidade humana. sua existência transcende essa expectativa. Embora tenha o lucro por objetivo. existindo a possibilidade se evoluírem para um estágio mais avançado. cuidando. e a que se acrescentarão. devendo ter igual remuneração por igual trabalho. Uma de suas funções é redistribuí-lo na sociedade através de salários dignos a serem pagos para os trabalhadores. também. Cabe a elas. se necessário. à livre escolha de emprego. Entende-se que as empresas devam cumprir seu papel social produzindo e distribuindo aquilo que os cidadãos necessitam. na qual ele sinta-se inserido dentro de um contexto onde seus direitos estão estabelecidos.

o poder do Estado foi o de grupos econômicos que assumiram sua forma como garantia para seus próprios negócios. o trabalho torna-se um valor social a ser preservado. Estado e empresas sempre foram parceiros e detentores de grande parcela do poder econômico. promovida caius_c 457 . em 1636. também. de forma conjunta. Dentro da História do Brasil podemos citar a Invasão Holandesa no nordeste. Como o Estado tende a cuidar apenas dos assuntos que lhes devem ser concernentes. Outras vezes. Os recursos para qualquer empreitada advém de particulares. cumpre que ele proteja aqueles que pretendem ou estão promovendo estas atividades. Muitas vezes se confundiram ou somaram forças. cujo objetivo é formar uma empresa para obtenção de lucro. que o trabalho é a forma mais equilibrada de obtenção de recursos para o cidadão e sua família. Por definição. Aos que trabalham para o Estado existe a mesma assertiva.necessária quando os rumos das empresas ou da economia lhes forem desfavoráveis. Historicamente. visto que nem todos dispõem de capital. recursos ou disposição para atuarem como livres empreendedores. Entende-se. deixando de lado atividades produtivas ou de distribuição. Por conta disso. iniciativa privada é aquela em que não existe a participação do Estado.

500 florins. O espaço para a iniciativa privada. foi convidado para administrar os domínios por ela conquistados. produzindo o que se poderia chamar de democratização da economia. Corriam ainda por conta da Companhia suas despesas de mesa e criadagem. como exemplo desse sincretismo. Detentores de capital próprio e:ou com idéias novas que podiam produzir lucros. os salários do predicante Francisco Plante. Mauricio de Nassau.pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. além de uma participação de 2% sobre os lucros. caius_c 458 . Almirante e Capitão-General dos domínios conquistados e por conquistar pela Companhia das Índias Ocidentais no Brasil. visto que as poucas e grandes empresas que existiam não tinham capacidade para assenhorear-se de todos os nichos de mercado que se formavam. Essa confusão entre Estado e empresa ainda existe. de seu médico Guilherme van Milaenen. junto com a Revolução Industrial. percebendo uma ajuda de custo de 6. lançaram-se no mercado. Nassau prestou juramento em 4 de agosto de 1636 comprometendo-se pelo prazo de cinco anos a ser o Governador. As mais notórias são as de países árabes onde a exploração de recursos é exclusividade do Estado. o qual encontra-se sob domínio de famílias ou grupos.000 florins e salário mensal de 1. Um dos personagens mais marcantes dessa invasão. começou no final do século XIX e início do século XX. o soldo de Coronel do Exército. efetivamente. e de seu secretário Tolner.

onde ruíram os conceitos comunistas de que os meios de produção e distribuição seriam prerrogativas estatais. A diversidade de pensamentos da sociedade precisa ser representada por grupos dentro do governo. deve ser entendido como forma de controle do Estado sobre os meios de produção e distribuição. o Estado e a população devem obter. cada um.A luta entre iniciativa privada e o Estado estendeu-se até o fim da Guerra Fria. caius_c 459 . o seu lucro e que ele seja suficiente para a sobrevivência e existência de todos. Economia saudável é aquela em que todos se beneficiam. Sem um controle estatal efetivo. embora perdure em alguns países. voltado para o bem comum. O protecionismo estatal às empresas privadas e que extrapola a cobertura que se deve dar a elas por causa de sua função social. O pluralismo político Pluralismo político é condição sine qua non para a existência de uma democracia. onde o lucro precisa ser obtido de forma máxima e sem levar em consideração a dignidade humana. A simples e pura aplicação do neo-liberalismo também não deve ser entendido como saudável à população. essa política pode nos remeter de volta ao chamado capitalismo selvagem. as empresas. da forma mais harmoniosa possível.

o número de partidos não pode ser ad infinitum. O correto é estipular uma quantidade que seja representativa e expresse a busca efetiva do bem comum. Aqueles que ainda estão em uma fase primitiva democrática podem ainda ser considerados como tirânicos. podem ser chamados de posição e oposição. quando não é repressor e coibidor de qualquer ato que seja contra a instituição governamental. Na realidade. O pluralismo político é a forma mais eficiente de fazer com que haja um rodízio de governantes nos postos chaves da administração. No entanto. Essa forma somente tem validade quando existe uma tradição democrática extremamente forte. embora sejam designados por outros nomes dependendo do país. a grosso modo. caius_c 460 . Este rodízio impede que se cristalize uma situação em que os atos governamentais não sejam fiscalizados por outros partidos ou pela população. porque uma grande massa de divergências pode produzir desgoverno ou perda dos objetivos sociais. visto que é comum que o Estado apenas favorece aqueles que lhes são fiéis. Em muitos países existem apenas dois partidos que.Os governos tirânicos admitem somente um partido político que não pode ser chamado por esse nome. trata-se de um órgão controlador da sociedade.

de fato. Para que as pessoas tenham a firmeza necessária para que exista a vontade de estar sob os caius_c 461 . Podemos dizer que essa forma de Estado deriva diretamente da disposição da população em mantê-lo.Etapas da destruição do Estado Democrático de Direito Mas. Um estado totalitário pode ser imposto e controlado por um pequeno grupo que disponha de meios para isso. Um Estado Democrático de Direito somente subsiste por força moral de seus cidadãos. Esta é uma diferença primordial sobre ambos. o vosso raciocínio é um verdadeiro raciocínio? Não será antes um talento com que a natureza vos dotou para aperfeiçoar todos os vossos vícios ? (Jonathan Swift) 326 O Estado Democrático de Direito pode ser uma entidade frágil pois depende de muitos fatores para sua instalação e manutenção.

precisam verem-se recompensados por isso. Nestas formas de governo estão explícitos os contrapontos de individualidade e coletividade. No Estado Democrático de Direito tem que existir a consciência da coletividade e disposição de luta para manter o bem comum. Nos regimes totalitários exacerba-se a individualidade. com certeza. no entanto. Um indivíduo que viva debaixo de um regime totalitário tem somente duas opções: sobreviver ou aproveitar-se dele.auspícios de um Estado Democrático de Direito. da mesma maneira. Se caius_c 462 . mesmo que dele não se aproveite diretamente. Seus direitos de cidadão prevalecem independentes de sua capacidade econômica. enquanto que no Democrático de Direito há que se cuidar de si e dos outros. Trata-se de dar mínimos recursos de sobrevivência para aqueles que estão em situação econômica desfavorecida. Um dos pontos fortes do Estado Democrático de Direito é uma economia que busca distribuir a renda da melhor forma possível entre os cidadãos. os que carecem de oportunidades ou talentos não podem ser deixados à margem ou sem opções. Aqueles que se esforçam mais. Essa medida visa diminuir conflitos ou confrontos entre as diversas classes sociais. é necessário que elas tenham todas as suas vantagens. Não se trata de caridade ou de suportar um fardo. não só através de capacitação mas dentro de um conceito social de igualdade.

Como o Estado Democrático de Direito parte da pressuposição coletiva da necessidade de sua existência. Seu principal objetivo é formar cidadãos capacitados que determinem o presente e o futuro do Estado. é o lançamento de uma idéia. disposto a cuidar somente de si. essa parcela de população carente deve tornar-se mínima com o passar dos tempos. A primeira medida dessa transformação. filosofia ou crença. Estes dois sustentáculos são alvos principais para aqueles que querem transformar essa forma de Estado em outro tipo. Essa nova idéia. na sua forma mais ampla. Deve-se transformar o homem em um ser solitário. È uma guerra de idéias. nos intelectuais que tenham poder sobre a caius_c 463 . onde prevalece aquela que se mostra mais demagógica. crença ou filosofia é incutida. A educação contínua. Usa-se o inconsciente coletivo para firmar uma nova ordem mental que estabelece desvantagens para o sistema atual. primeiro.entendermos que um Estado Democrático de Direito deve primar-se pela educação dos seus cidadãos. o primeiro passo é transformar a consciência global em individual. embora paradoxal. é outro fator de sustentação do Estado Democrático de Direito. que pareça valer para todos e que confronte a atual situação do Estado Democrático de Direito.

ela. passa-se ao aliciamento dos detentores de poder econômico que vêem vantagens no estabelecimento daquele pensamento. transforma-se em xenofobia. Quando exacerbado. Deve-se frisar que o setor mais resistente a estas novas idéias é a classe média. O nacionalismo é um bom sentimento quando enquadrado dentro do conceito de defesa e proteção daquilo que é de todos. caius_c 464 . Essas novas idéias trazem em seu bojo um sentimento que mantém a unidade do povo: o nacionalismo. ela termina por chegar de forma amena. Não tendo muito a ganhar mas tendo algo para perder. Depois dessa etapa. O mau faz com que todas as atenções se voltem para fora de si e de seu próprio país. O nacionalismo bom faz com que o cidadão olhe para si e seu país e busque as melhores soluções para ambos. é refratária a qualquer idéia que a tire do conforto. através de diversas formas de divulgação. ao mesmo tempo que os tem para levar uma vida confortável.opinião pública. essa parcela da população teme as mudanças pois seu equilíbrio econômico é frágil. Não tendo recursos suficientes para ter uma padrão maior de vida. simples e inteligível ao resto da população. geralmente. Depois que forma-se um bloco atraente o suficiente para outras pessoas.

O conteúdo destes projetos pode variar de leis anti-fumo até eutanásia. O importante é que o motivo seja suficientemente polêmico para distrair a população das leis efetivamente caius_c 465 . entre Argentina e Inglaterra. Neste período. Este atiçamento provoca um aumento do sentimento nacionalista a ponto de fazer com que os cidadãos vejam apenas o lado mostrado pelo governo e mídia. foi lançada a idéia de recuperação das Ilhas Malvinas ou Falklands. empobrecimento da classe média. eles foram julgados por crimes como tortura e assassinato. A guerra resultou em derrota para a Argentina e deposição dos governantes. é conveniente que projetos de leis estranhas sejam lançados através da mídia para provocar celeuma entre a população.327 Traduzindo em um português mais claro.BENITO MUSSOLINI dizia que para formação do estado que pretendia era necessário “um período de altíssima tensão ideal”. sendo condenados. Em 1980. recessão profunda. Exemplo claro dessa situação foi a Guerra das Malvinas. ocorrida em 1982. Mais tarde. endividamento externo e outras mais. quando o modelo econômico da Junta Militar que governava o país esgotou-se. para desviar a tensão social resultante da incapacidade governante da junta e recuperar seu crédito junto à população. significa provocar tensões internacionais ou regionais que aticem os sentimentos pátrios. Com medo de serem depostos. as tensões sociais se fizeram presentes: noventa por cento de inflação anual.

até que se lhe oponha uma outra força que. baseia-se no problema de sua pureza de sangue. principalmente daquele que se tornou alvo do nacionalismo. caius_c 466 . Nesta fase são comuns as nacionalizações e expropriações de bens estrangeiros. Ou ele será repelido por forças exteriores para outro caminho ou o seu desejo de domínio universal só desaparecerá com a extinção da raça. Podemos chamar isso de técnica de prestidigitação. o governo passa a utilizar-se da lei para restringir os cidadãos. atire o invasor do céu nos braços de Lúcifer”. é provável que seja feita alguma lei que efetivamente altere a estrutura do Estado ou forneça brechas para que se instale alguma condição adversa à democracia. Outras vezes busca-se um inimigo interno que pareça comum a todos. Assim segue ele o seu caminho nefasto. em luta gigantesca. onde a atenção do espectador é afastada do evento onde o fato se desenrola.328 Com a justificativa de ataques externos ou internos. Neste período de celeuma. Hitler adotou esta tática quando passou a culpar os judeus por todos os problemas da Alemanha advindos de sua derrota na Primeira Guerra Mundial – “assim também o judeu não renuncia espontaneamente a sua aspiração de uma ditadura mundial. E essa pureza o judeu guarda melhor que qualquer povo da terra. nem reprime o seu eterno desejo nesse sentido. A impotência dos povos.necessárias. sua própria morte pela idade.

peronismo. Este chamamento busca relacionar os governantes atuais com estes ancestrais. caius_c 467 . franquismo. Esta aproximação visa estabelecer o que se convencionou chamar de culto à personalidade. Os personagens heróicos são deixados para a História e o mandante supremo transforma-se em um mito vivo a ser venerado. tentando imprimir-lhes o mesmo caráter e dando às idéias que regem as atuais atitudes a mesma tonalidade daquelas que serviram no passado. marcaram a forma de governo ou movimento político sob o nome de quem os conduziu.Estas expropriações e nacionalizações reforçam o sentimento de nacionalismo. No século XX foi muito comum o aparecimento de ditaduras ou movimentos políticos que foram identificados com o nome de seus criadores: salazarismo. Estes elementos imprimiram a si a imagem do próprio Estado. stalinismo. Comum nesta fase é evocar personalidades históricas que defenderam o país em guerras externas ou de unificação. maoísmo e outros nomes. Quando se atinge determinado estágio. Tornaram-se o próprio Estado. permite uma entrada rápida de dinheiro no caixa do governo e cria a imagem de que os governantes são pessoas de caráter forte e aguerrido. associando-os com ícones heróicos. esta identificação assume a forma de endeusamento do governante maior.

Os dezesseis nazistas mortos no putsch da cervejaria em caius_c 468 . Fundem-se na pessoa a imagem da doutrina e do Estado.Essas pessoas. Importa ressaltar que esse poder somente tem efeito. no caso de mudança de regime do estado. Somente a figura de um chefe supremo. Passam a servir de exemplo para que outros tenham o mesmo comportamento de sacrifício em prol do novo estado. Os líderes carismáticos possuem o dom natural da liderança e conseguem reunir seguidores devotados que. São venerados rotineiramente pelo estado e cultos são promovidos em seu nome. cheio de virtudes e isento de vícios não traz abnegação. quando existe crise de confiança da população em relação a este. via de regra. atraem outros. O poder destas pessoas explica-se ao sabermos que somos animais sociais que vivem dentro de uma hierarquia bastante complexa. Alguns chegam a fazer parte da literatura ou arte patrocinada pelo estado. Junto com o culto á personalidade vem a louvação dos heróis que tombaram em defesa do estado que se transforma. são extremamente carismáticas e catalisam as necessidades das pessoas. fazendo-as acreditar que são capazes de supri-las. Estes semi-deuses foram mortos por conta de seus ideais e de sua lealdade ao mandante supremo. São os elementos chaves que tornam possível a imposição de uma doutrina crível para a maioria das pessoas. por sua vez.

O controle da circulação de pessoas. MACHIAVEL diz que “as ofensas devem ser feitas todas de uma só vez. Os meios de comunicação são os primeiros pontos a serem controlados. A mídia transformou-os em heróis da causa socialnacionalista. eles passam a produzir e veicular somente o ponto de vista governamental. de forma subreptícia no começo. foram exaustivamente citados como exemplos de abnegação durante a época do nazismo. ao passo que os benefícios devem ser feitos aos poucos. na Alemanha. pouco degustadas. esta tese não pode ser usada quando tenta se transformar um Estado Democrático de Direito em tirania. ofendam menos. a fim de que. Por se tratar de uma entidade afeita à liberdade. assim caius_c 469 . Os militares deixam seus quartéis e tornam-se ostensivos frente à população. é deixado a seu cargo. Depois de dominar os meios de comunicação. tornando-se brutal quando os meios de comunicação passam a dominar a opinião pública. Através da repressão ou aliciamento.1923. É um período de censura e perseguição contra aqueles que destoam da forma de governo que se instala. 329 No entanto. existe a fase da militarização do país. As forças armadas viram símbolo das forças que defendem o país contra invasores externos e da pacificação dos conflitos internos. geralmente. para que sejam melhor apreciados”. o dano é feito aos poucos.

para lhes dar maior brilho. François Duvalier. No Haiti. não existe retorno ao Estado Democrático de Direito.como de locais considerados estratégicos. As novas gerações que não conheceram a forma anterior de governo desconfiam daqueles que a 95 Traduz-se como “bichos-papões” caius_c 470 . conhecida como tontons macoutes95 e na exploração do vodu. Nesta fase. Os mais desejosos de atenção empunham medalhas em seus uniformes. A ignorância semeada pela mídia e a repressão ditada pelo estado tornam o povo amorfo e a resistência restringe-se a alguns idealistas. Mais que os militares. tirania que se prolongou depois de sua morte. conhecido como Papa Doc. e vista-se de maneira a evocar sua dominância sobre essa entidade. Estas forças distinguem-se dos militares por ter uma atuação subcutânea e quase secreta dentro da população. com a ascensão de seu filho Baby Doc ao poder. que estabeleceu os padrões necessários para que as novas gerações não o questionem. depois de se instalar no poder. Quando se chega nesta fase. em 1971. Não existe mais oposição porque a educação foi tomada pelo estado. Junto com a militarização vem o estabelecimento de forças policiais de repressão. instaurou feroz ditadura baseada no terror policial de sua guarda pessoal. elas são a base da violência contra os opositores do regime. mesmo que seja civil. em 1964. é comum que o mandante supremo assuma alguma identidade militar.

331 caius_c 471 . Ao resto da população. NIETSCHE diz que . os dominados. Sem condição ou oportunidade para manifestar-se contra o regime. sem mais “bom” como idêntico a útil e agradável”. cria-se uma plebe quase homogênea cuja função principal é prover a classe dominante e o estado de produtos e serviços. dá-se o suficiente para que viva. ela passa a buscar apenas a sua sobrevivência. a plebe só encara as más conseqüências e. no íntimo. Com baixa cultura e nenhuma oportunidade. Essas benesses são distribuídas de acordo com sua posição ou influência dentro dessa oligarquia. acha que é estúpido agir mal. Elas são ensinadas a confrontarem os padrões dos mais velhos com os seus.vivenciaram. Mas admite. tornando-se fiscais da pureza ideológica e obediência total ao novo estado.330 Este padrão de comportamento citado mostra no que se transformam os dominados – apenas uma massa humana de escravos. e nenhuma permissão para manifestar-se contra a situação. quando possível. alguns pontos lhes são comuns: pertencer ao partido único e poder usufruir de benefícios vedados ao resto da população. Estabelecem-se duas classes sociais: dominantes e dominados.“No agir mal. Embora exista hierarquia entre os dominantes.

de seus bens. pode dedicar-se ao exercício da cidadania. A classe média extingue-se e a intelectualidade desaparece ou transforma-se em aliada do regime. e pode exigir seu uso.HOBBES explica bem esta relação entre dominador-dominado – “Senhor do servo é também senhor de tudo quanto este tem. portanto. de seu trabalho. recusando-o. Os que pertencem ao poder são detentores da grande massa de benefícios. Em parte deriva do desinteresse estatal com as condições da população. E se acaso o senhor. caius_c 472 . serve como controle da mesma. Em uma tirania existem poucas pessoas excepcionalmente ricas e muitas pessoas extremamente pobres. isto é. e não pode acusá-lo de injúria”. visto que o instinto de sobrevivência fala mais alto do que ideais políticos. É mais fácil controlar indivíduos que estão em estado de necessidade constante do que uma população que tem recursos e.332 A economia fende-se em duas classes bem distintas. ele próprio será o autor dessas ações. Por outro lado. ou de outra maneira o castigar por sua desobediência. Porque ele recebeu a vida de seu senhor. tantas vezes quantas lhe aprouver. o reconhecimento e autorização de tudo o que o senhor vier a fazer. Isto é. enquanto os demais têm que enfrentar as vicissitudes daqueles que tem poucos recursos. Desabastecimentos são constantes em regimes totalitários. mediante o pacto de obediência. o matar ou o puser a ferros. de seus servos e seus filhos.

A Revolução Russa de 1917 teve o mesmo elemento detonante. O início da Revolução Francesa foi provocado pela fome que grassava pela população. Pode ser um inimigo concreto ou fictício. como a repressão militar. como água e comida. que comam brioches” – ampliou o grau de revolta no qual os franceses se encontravam. a fome sempre fala mais alto e os famintos buscam a primeira tábua de salvação que se apresenta. A população. pode revoltar-se face ao desespero em que se vê.Apesar do constante desabastecimento. policial e política. Para a tirania sempre existe a necessidade de alguém ou algo a se perseguir e destruir como inimigo do estado. Ideologias à parte. Uma população privada do mínimo e do essencial. quando a população disse que não tinha pão para comer – “se eles não têm pão. passa a acreditar que esse aparato estatal de repressão é valido. quando não o apóia. É importante distinguir ataques a um Estado Democrático de Direito das quarteladas ou tomadas de caius_c 473 . O importante é que a população viva com medos constantes advindos de grupos internos ou externos. então. os regimes totalitários não deixam que todos os recursos faltem. vivendo aterrorizada com a possibilidade de ter que enfrentar uma situação pior advinda de um inimigo invisível e poderoso. Esse medo oficializa as medidas que o estado tem que tomar. A famosa frase atribuída a Maria Antonieta.

trata-se apenas de uma troca de governo e não de uma mudança de regime político. O povo. o mais comum é a tomada do poder através de ataques diretos com efetivos militares ou paramilitares. principalmente as que estão na zona limítrofe entre os grupos. A mudança de governo não afeta a população de modo geral. é necessário que seja esteja totalmente inserido nas regras da nova caius_c 474 . Acontece com mais freqüência em países cuja população tem baixo poder aquisitivo e nenhum vínculo com o Estado. Não basta a colaboração. geralmente. O sofrimento do povo acontece quando os grupos não conseguem tomar o poder e o país fica dividido em faixas de dominação. A mudança de um regime político para outro que está embasado em alguma ideologia totalmente contrária a do governo atual costuma encadear uma série de violências contra a população. Neste caso não existe neutralidade pois os que acreditam nesta ideologia irão fazer com que os demais demonstrem a mesma fé. como simpatizantes ou ativistas do adversário. apenas troca de dono. a população sofre violências de todos os lados. Neste caso. As perseguições e matanças. Nestas trocas de governo.poder em países onde a população já vive sob o jugo de uma tirania. alijado do poder. Nestes casos. O governo não consegue deter o grupo que almeja sua derrubada e este não consegue expulsá-lo. ocorrem dentro dos grupos que desejam o poder. Ambos passam a considerar a população.

Nestes casos. um novo produto deve começar a faltar. Quando o homem chega a este nível. Deve-se montar estruturas burocráticas que acrescentem perdas enormes de tempo para o indivíduo e que produzam expectativas ligadas apenas à sobrevivência. disposta a cuidar de si apenas. ela aprofunda-se no inconsciente do indivíduo. Crises de abastecimento de determinados produtos são essenciais nesta fase. caius_c 475 . Quando isto ocorrer. para que a preocupação se mantenha. O governo deve se “esforçar” para fazer com que o mesmo retorne às prateleiras. não deixando-o prosseguir para patamares acima. de modo que tenha nenhuma disposição para cuidar de assuntos que não estejam diretamente ligados a ele. O primeiro estágio é a manutenção ou provocação de atribulações que envolvem completamente o cidadão em sua faina diária. a violência não é apenas física. Outra maneira que pode provocar a destruição do Estado Democrático de Direito também parte do pressuposto da transformação do cidadão em uma figura solitária. Uma falta geral produziria uma reação violenta enquanto que as parciais induzem a procura pelo mesmo ou por substituições. automaticamente sua mente se fixa nestes pontos.ordem que se pretende instalar. Torna-se comum a instalação de campos de reeducação e a matança dos elementos mais destacados ou mais velhos das comunidades.

Se elas tornarem-se mais constantes e mais ameaçadoras. O pensamento popular deve se tornar único e favorável a qualquer medida que deva ser tomada.o cidadão deixa-se conduzir pelo governo sem preocuparse em ter qualquer envolvimento. com expectativas financeiras e isento de objetivos políticos. passa a existir predisposição para violação ou criação de leis que extrapolem o nível democrático. Alguns planos econômicos podem ser criados para provocar confiança no governo.Com o clamor popular. A massificação das idéias torna-se essencial. A forma mais subreceptícia é a derivada do binômio pão e circo. Existe um ponto em comum nas diversas formas de destruição do Estado Democrático de Direito: a transformação do indivíduo em alguém solitário e disposto a cuidar de si apenas. Esta forma somente é possível em países com economia pujante ou em ascensão. Faz-se com que ele se concentre em seu universo particular e se aliene de caius_c 476 . alteração de regimes ou imposição de leis não-democráticas. Pode ocorrer sob o disfarce de um Estado constitucional e democrático. Acreditando-se com o necessário para sua sobrevivência. É o tempo ideal para deposição de governos. Substitui-se a liberdade por comodidades e distrações para o povo. A divulgação de soluções e suas justificativas são veiculadas pela continuamente pela mídia. o governo começa a tomar medidas mais duras contra os “fautores” de tais crises.

caius_c 477 . É a política da transformação do povo em uma manada.qualquer participação de cunho social.

Sozinhos. qualquer grão de poeira nos faz sombra. juntos. visto que sua instituição e permanência dependem do crédito que a população lhe concede. onde a soma das partes é exponencial e não aritmética. respeito aos direitos humanos e a submissão dos poderes constituídos à busca do bem comum. podemos ser uma humanidade” (caius_c) O Estado Democrático de Direito é frágil e forte ao mesmo tempo. Suas principais características são: acatamento à hierarquia das leis. Suas bases estão na mente e coração das pessoas. A lei dada pelo Estado com objetivo de regular a caius_c 478 .Como manter o Estado Democrático de Direito “Ninguém vive só. Ele pode ser considerado como resultado de uma inteligência social. A subordinação do Estado e do cidadão às leis torna ambos capazes de serem mentores um do outro.

O respeito aos direitos humanos traduz a necessidade de tratamento aos homens de forma igual. intelectual. sob os auspícios de condições particulares entre os elementos que a compõe. a relação entre cidadão e Estado é racional e está baseada na reciprocidade de direitos e deveres. O Estado não é um simples mentor da sociedade ou seu controlador. buscando sua condução ao vivenciamento pleno de sua capacidade social. Este favorecimento é feito com base emocional. as relações entre os cidadãos e entre este e o Estado. O compromisso para com o bem comum do Estado Democrático de Direito deve estender-se à comunidade internacional. física e política. Ele deve buscar as condições que transforme cada indivíduo em efetivo cidadão e dar a cada um as oportunidades necessárias para que possa usar seus atributos individuais em benefício dos seus e da própria sociedade. Contrário a isso. também a mola que impulsiona toda a sociedade. Paternalismo é uma condição na qual se dá sem receber. Exclui-se o paternalismo dessa condição. Toda e qualquer atividade do Estado tem que estar direcionada à promoção do bem estar social e dela deriva. o esteio e. somente torna-se válida se aplicada e obedecida. Tudo o que vise resguardar caius_c 479 .estrutura estatal. ele é promotor das condições que elevam o cidadão para o patamar pleno da sua cidadania. Ela é a base.

Solução pacífica dos conflitos Repúdio ao terrorismo e ao racismo Cooperação entre os povos para o progresso da humanidade Concessão de asilo político Podemos condensar estes princípios em quatro: caius_c 480 .. O artigo 4o. I) II) III) IV) V) VI) VII) VIII) IX) X) Independência nacional. Ele tem que ter autonomia para tomar as decisões mais acertadas para a população. Esta capacidade se chama soberania. independente de pressões que possam vir da comunidade internacional. da qualidade de vida do ser humano. de forma global. da Constituição Federal de 1988. O relacionamento do Estado Democrático de Direito com outros países não pode tirar sua capacidade de auto-gerenciamento. dentro da lei. Prevalência dos direitos humanos Autodeterminação dos povos Não-intervenção Igualdade entre os Estados Defesa da paz. Precisamos entender que somos parte de um contexto e que as partes devem se ampliar para que o todo aumente. Não se trata de ingerência em outros Estados mas a promoção. deve fazer parte de suas atenções.ou ampliar os direitos humanos. enumera os princípios pelos quais o Brasil deve reger-se nas relações internacionais.

a não-intervenção e a igualdade entre os Estados. excluindo a possibilidade de ingerência de outros Estados. autodeterminação dos povos. São eles que determinam a capacidade de cada Estado de autogerenciamento. 3) Convivência pacífica: repúdio ao terrorismo. os conflitos deixaram de ser exclusivos de uma localidade. A meta principal do Estado Democrático de Direito é fazer com que ser humano tenha possibilidade de vivenciar seus mais amplos direitos ao lado de seus deveres. Uma convivência pacífica implica em solucionar estes conflitos de modo a produzirem os menores danos para os envolvidos e para a comunidade internacional. Eles atingem de forma direta ou indireta os demais países. 2) Direitos humanos: prevalência dos direitos humanos. 4) Tecnologia: cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. repúdio ao racismo e concessão de asilo político. Como já dissemos. Parte caius_c 481 .1) Soberania: os princípios da independência nacional. defesa da paz e solução pacífica para os conflitos.

ainda mais que este uso faz parte. Argumenta-se que deixa de existir o terrorismo quando os que o praticam assumem o poder. atualmente. No Brasil.333 De maneira geral. A partir deste instante. Outro exemplo é o plano para seqüestrar o então ministro da fazenda Delfim Neto por um grupo. É praticamente impossível conceber um Estado que não esteja empenhado em usar e disponibilizar as facilidades tecnológicas para seus cidadãos. depois de anistiado. onde um de seus integrantes era a ministra-chefe da casa civil do governo de Luis Inácio da Silva. reingressou na vida política do país. Para alguns. O seqüestro do embaixador Charles Elbrick é exemplo clássico. apregoados por caius_c 482 . trata-se de uma forma de combate a um regime que não seja adequado a determinado povo. ele torna-se exemplo de libertação nacional ou algo parecido.das necessidades humanas está sendo suprida pelo uso de alta tecnologia. foram comuns ataques terroristas contra o governo. Dilma Roussef. Com relação ao terrorismo é válido ressaltar que não existe uma definição legal sobre o mesmo. nos anos chamados de chumbo. Um de seus fautores foi Fernando Gabeira que. podemos dizer que o Estado Democrático de Direito caminha para os ideais propostos de autotutela do cidadão. dos elementos básicos para que se possa efetivamente vivenciar o pleno Direito.

Diríamos que uma economia forte consegue atenuar. O bem comum tem um sentido bastante amplo e engloba a possibilidade de ascensão social e econômica do cidadão. Independência econômica faz parte da soberania dos países. Ele impulsiona o homem a ter tendência natural de obediência às leis ao mesmo tempo em que sua preocupação com o cidadão torna-se irrestrita. Para aqueles que possuem uma maior visão. A confiança do cidadão para com o Estado não restringe-se apenas às atividades políticas. os efeitos dessas crises mundiais. Esta possibilidade somente existe em situações em que a Economia beneficia a todos.Bakunin e Marx. Uma crise em qualquer país que tenha forte poder econômico afeta todos os demais. pode ser uma oportunidade de estabelecimento de novos horizontes ou da ocupação de espaços vagos deixados pela crise. não existiriam oligarquias em seu controle e os interesses dos seus governantes seriam apenas aqueles voltados efetivamente para o bem comum. Podem existir questionamentos sobre a impossibilidade dos países serem independentes economicamente pelo fato da interação mundial da Economia. Estados que tenham fraca economia ou sejam dependentes de outros não conseguem subsistirem por si próprio. em seu território. Na sua forma mais idealizada. caius_c 483 .

dissolvida em 26 de dezembro de 1991. sua maior fonte de riqueza. A educação é o pilar que estabelece os princípios da soberania e. desde a mais tenra idade. as noções de direitos e deveres e produz um pensamento crítico saudável junto com ações produtivas para o meio social. para alguns classificado como guerra econômica. Nestes tempos de Guerra Fria. O Estado Democrático de Direito é um estado de confiança entre governo e cidadão. as bases para o Estado Democrático de Direito. O desenvolvimento econômico do país foi duramente afetado e. portanto. Assim sendo. Neste período. os laços entre os dois países começaram a ser reatados. que adquiria toda a produção de açúcar da ilha. obviamente. Com o início do governo de Barack Obama e o afastamento de Fidel Castro do poder central. Esta.O isolamento econômico traz em seu bojo o social e o político. iniciado em 07 de fevereiro de 1962334. incute no cidadão. Exemplo claro dessa afirmação é o bloqueio imposto pelos Estados Unidos a Cuba. Aquele fornece mão de obra adequada para sustentação e desenvolvimento de padrões adequados para a população. a dependência econômica de Cuba forçou-a a tornar-se coadjuvante em guerras entre outros países e aliado ideológico a troco de benesses econômicas. sua população. Deve ser vista de maneira ampla. o país foi sustentado pela então União Soviética. todo e qualquer ato ou motivo que der margem ao abalo da caius_c 484 . onde se alia ao conhecimento técnico as mais diversas formas para o exercício da cidadania.

Acrescente-se que isso também favorece a corrupção. Isto implica em desconsiderar o princípio constitucional do tratamento igualitário a todos os cidadãos. se for o caso. inexistem ou são inadequadas. O brocardo que diz que a liberdade de um termina onde começa a de outro é perfeitamente caius_c 485 . Pluripartidarismo não implica em formação de oligarquias para valer-se da posição política para favorecimento de grupos.mesma deve ser investigado e normatizado. Essa atenção para determinado setor social tem que ter uma compensação para toda a sociedade. Se as regras são dúbias. A liberdade que o Estado Democrático de Direito dá aos cidadãos não implica em não-responsabilização por atos lesivos. O segundo indica que as oportunidades que devem ser oferecidas a todos não estão sendo dadas. visto que inexistirá qualquer crítica aos atos praticados entre eles. solapando o princípio de freios e contrapesos que deve existir neste tipo de Estado. geralmente em prejuízo dos demais. Fatos como corrupção ou nepotismo devem ser combatidos duramente. elas devem ser transformadas de forma tal que satisfaça ou restabeleça a confiança. Deve existir atenção para os diversos segmentos sociais representados por seus partidos contanto que o benefício estenda-se a todos. O bem comum sempre deve ser o objetivo a ser alcançado. A primeira denota que a estrutura estatal está sendo desvirtuada de seu objetivo principal que é o bem comum e que está sendo usada em benefício de poucos.

mesmo que seja a mesma coisa. A pena não é em função do desbarate da coisa mas da impossibilidade de seu aproveitamento pela coletividade.válido em um regime democrático. numa primeira acepção. sendo que a pena deve ser proporcional à extensão do dano cometido e à responsabilidade social da pessoa. Quanto mais elevada for a função da pessoa por conta de sua atuação social. caius_c 486 . Responsabilidade social da pessoa é o atributo que se dá à forma como o indivíduo pratica seus atos perante a coletividade. independente se sob a alçada do Estado ou do cidadão. As penas para aqueles que atingem o bem público deve ser maior do que aquelas que atingem o bem particular. Os deveres são maiores para aqueles que fazem parte da estrutura governamental ou tomam decisões de cunho social. apodrecido. A gravidade do ato deve ser medida pelo que se atinge e por quem o pratica. representa mais do que aquela cujo uso está restrito a poucos. Corrupção A palavra corrupção deriva do latim corruptus que. Uma coisa que seja de bem comum. Os atos lesivos podem partir de indivíduos ou do próprio Estado. maior deve ser a pena pelas ilicitudes. significa quebrado em pedaços e numa segunda acepção. A função de cada uma é o que torna o delito mais ou menos grave. pútrido.

direta ou indiretamente. Nosso Código Penal entende duas formas de corrupção: a ativa e a passiva. Isso equivale a dizer que uma população que tenha um patamar elevado de vida tem menor propensão a gerar uma classe governante com tendência a ser corrupta.Por conseguinte. o verbo corromper significa tornar pútrido. De acordo com a Transparency International335. organização não governamental. Isso pode ser explicado pela educação formal e informal que propicia uma capacidade laborativa que gera maiores ganhos e que promove uma cultura pessoal e geral que abomina ilegalidades. Um cidadão educado para ser íntegro levará consigo esta qualidade caso torne-se um governante. vantagem indevida. para si ou para outrem. menor o índice de corrupção.solicitar ou receber. A passiva é a praticada por agentes públicos. A ativa é a praticada por particular oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário 96 Artigo 317. existe uma relação entre a renda per capita e o nível de corrupção: quanto maior a renda. ainda que fora da função ou antes de assumi-la. cuja definição é . Código Penal caius_c 487 . mas em razão dela.336 A corrupção política é o uso das prerrogativas do poder em benefício próprio ou de outrem. podre. ou aceitar promessa de tal vantagem96.

para se manter imune à lei e dentro do poder. Ela não atinge uma ou poucas pessoas. o que amplia os danos que ela provoca no sistema. Mais ainda. Para que exista corrupção é necessário que exista anuência. sua capacidade de contaminação é extremamente alta. Sendo assim. podendo estabelecer-se de maneira generalizada dentro do Estado. Código Penal caius_c 488 . É necessário mais de uma pessoa para praticá-la. acreditamos que se trata apenas dos chamados “crimes de colarinho branco”. subornos. omitir ou retardar ato de ofício.público. o que inclui assassinatos. servindo apenas como fonte de espólio. o que significa que sua extensão vai além do simples ato. o corrupto pode valer-se de meios agressivos e violentos. A corrupção política nunca é individual. e outros. desvios de dinheiro público. cumplicidade ou condescendência. para determiná-lo a praticar. A primeira vista. 97 Artigo 333. Ela atinge o bem público. elas não esclarecem as conseqüências da mesma. 97 Embora simples as definições penais de corrupção. ela engloba o conceito de que o Estado é algo amorfo e sem dono. a corrupção é a fonte da maioria dos crimes que ocorrem no gerenciamento do Estado. Em nosso entendimento. No entanto.

Somente uma convicção interior impede uma pessoa de praticar determinados atos. em grande parte. A corrupção contraria as bases de um Estado Democrático de Direito. Esta qualidade. é o termo utilizado para designar o favorecimento de parentes em detrimento de pessoas mais qualificadas. Para o segundo. A corrupção dissocia governo e povo. Não existiriam crimes se ela tivesse tal poder. especialmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos. que significa neto ou descendente. seus governantes.A corrupção afronta toda e qualquer constituição. somente a lei não consegue frear os atos dos seres humanos. Ela empresta seu verbo ao Estado e o transforma em propriedade privada. Nepotismo Nepotismo vem do latim nepos. Atualmente. a lei maior torna-se a da sobrevivência natural. dando ao primeiro todos os sinônimos possíveis para grupos de pessoas que vivem parasitariamente. As leis são necessárias para punir e evitar que a corrupção se torne comum e ostensiva. No entanto. o que inclui. O único freio do ser humano é ele próprio. onde o mais forte prevalece sempre sobre o mais fraco. A Carta de Pero Vaz de Caminha é lembrada como o primeiro caso de tentativa de nepotismo caius_c 489 . naturalmente. é obtida através da educação. Ela é responsável pela sua invalidação como lei extensível a toda população.

presidido por José Sarney. Sânzia Maia. Ao final da carta. O mesmo boletim que nomeou Nathalie promoveu a mulher do então diretor-geral Agaciel Maia. muito empregada no Brasil. muitas das cartas endereçadas a Filinto Muller revelam a prática de pedidos de cargos. Por exemplo. Ela é filha do ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau. 339 O nepotismo alimenta-se e é alimentado pela corrupção. a secretária do Órgão de Coordenação e Execução.documentada no Brasil. embora não seja de sangue. nomeações e outros favores.338 Em 2009. ocorreu um escândalo no Senado. afilhado político de Sarney. por conta de sua condição de chefe de polícia do Estado Novo.337 Podemos considerar o “apadrinhamento” como uma forma de nepotismo. A palavra "pistolão". Caminha pede ao rei um emprego ao seu genro. podemos citar a nomeação de Nathalie Rondeau em 26 de agosto de 2005 para o Conselho Editorial do Senado. prática iniciada com a Carta de Pero Vaz de Caminha. Durante o governo ditatorial de Getúlio Vargas. vem de epístola. visto que existe uma relação que está vinculada ao conceito de família ampliada. onde decisões da Casa não foram publicadas. Sua derivação decorre do fato que para que caius_c 490 . Ele não só deriva desta como a promove também. devido à carta de apresentação. por conta dos chamados “atos secretos”. principalmente as relativas a nomeações de parentes.

que significa território ou jurisdição governada por um patriarca. Cremos não ser necessário acrescentar que nem tudo que é legal é correto. Neste caso. Sendo assim. Esta oligarquia toma conta do poder de forma velada. A corrupção e o nepotismo são formas veladas de oligarquia. que poderíamos chamar de familiar. que passa a controlar ou ter acesso a canais que possibilitam o uso indevido dos recursos do Estado. donos de extensas propriedades distantes dos poucos centros urbanos caius_c 491 . A promoção da corrupção pelo nepotismo ocorre pelo estabelecimento de uma oligarquia. visto que este tem por fim unicamente o bem comum. buscando apenas o próprio benefício. o termo seria originário do grego helenístico para denominar um líder de comunidade. tanto ilegalmente como legalmente. criam-se leis que o justifiquem. SÉRGIO BUARQUE DE HOLLANDA afiança que o paternalismo brasileiro está intimamente ligado à cultura por conta do processo de colonização do país. onde os senhores de engenho.ele exista é necessário que alguém burle o sistema de alguma forma. O uso do termo no sentido de orientação masculina da organização social aparece pela primeira vez entre os hebreus no século IV para qualificar o líder de uma sociedade judaica. não podem ser admitidas em um Estado Democrático de Direito. Paternalismo Paternalismo vem do latim pater.

Ele pode estender-se alem dessa relação imediata. podemos definir paternalismo como um sistema de autoridade e favorecimento entre um líder político e determinado grupo. é fonte primária de corrupção.então existentes. O paternalismo é o irmão caçula do nepotismo. O Estado pode assumir situações em que julgue que sua tutela deva existir por conta da incapacidade dos cidadãos. 340 Dentro do Estado. a segunda é a suposição de que aqueles que estão sob seu comando são carentes de uma percepção maior que possa produzir neles alguma vontade ou opinião própria. Implica em uso do poder para determinado grupo. onde o tutor tem amplos poderes e o tutelado não tem capacidade de discernimento para comandar sua própria vida. baseada em uma relação emocional. Como exemplo caius_c 492 . Ele pode conceder benesses sem a respectiva contrapartida de uma relação direito-dever entre Estado e cidadão ou atribuirse poderes que não sejam aqueles que apenas deveriam regular a mesma relação. escravos e aqueles de quem dele dependiam. Existe uma situação de tutela entre os dois. Igual a este. estabeleceram um vínculo misto de autoridade e favorecimento com seus empregados. Esta relação emocional pressupõe duas coisas: a primeira é que a autoridade do líder é inquestionável e que os parâmetros estabelecidos para o seu poder são ilimitados.

O padrão dos detalhes constrói o padrão do conjunto. era que o “povo ainda não estava preparado para votar para presidente”. Pequenos crimes A qualidade de uma grande obra está estreitamente ligada ao gabarito de seus componentes.o segundo é a ingerência na vida do cidadão além do que a lei deve estabelecer. O paternalismo rompe ou desconsidera barreiras legais. Para se conseguir um grande todo devemos nos concentrar em obter os melhores elementos. Um dos motivos alegados então. Nos países democráticos é uma forma de demagogia. pois favorece parte da população.deste último. “pai da nação”. É comum que líderes paternalistas se autodenominem como “pai do povo”. podemos citar o período histórico compreendido entre 1964 e 1985. “padrinho”. A distribuição de benesses está mais vinculada ao populismo. onde se busca a simpatia de camadas da população. O paternalismo fere dois princípios do Estado Democrático de Direito: o primeiro é a isonomia. etc. onde se procura angariar votos. onde a escolha dos presidentes do Brasil se deu por voto indireto. nos países autoritários tenta-se estabelecer sua legitimidade por conta de favorecimentos. geralmente as mais carentes. caius_c 493 . éticas e morais.

como aqueles em que ocorre desfavorecimento de alguém por conta de ação ou omissão de outrem. demonstrativo de prognostico do progresso. nada disso (. os que são punidos por lei ou não. Nestes pequenos crimes. não é nos grandes acontecimentos que devemos procurar o signo rememorativo. Embora os englobe. Não. o que era grande entre os homens se tornou pequeno. “a cola” estudantil. é em acontecimentos muito menos grandiosos. São infrações às normas ou costumes em que existe aceitação ou não-reprovação social.).. Como exemplo podemos citar o “furar fila”. não se trata da mesma coisa. também pode existir benefícios próprios ou vantagens. pequenas infrações de trânsito. Se pareceu risível ao leitor é porque acredita que pequenos atos não traduzem uma cultura e que pessoas que não se governam formam um povo administrável... ou o que era pequeno se tornou grande (.. Podemos definir pequenos crimes. Estes pequenos crimes traduzem o sentimento ou pensamento da população e abrem espaço para que caius_c 494 . muito menos perceptíveis.Citando KANT – “Não esperem que este acontecimento consista em grandes gestos ou crimes importantes cometidos pelos homens.” 341 Ao se falar aqui de pequenos crimes não devemos nos ater àqueles que a jurisprudência penal chama de pequeno potencial ofensivo.). etc. após o que. Prestem atenção.

que deveria ocorrer à primeira vista. deduzse que o indivíduo reflete a sociedade ao mesmo tempo em que a promove. A simultaneidade da mudança. WUNDT e DURKHEIM ensinam que a cultura. estão na consciência do indivíduo ao mesmo tempo em que situam-se fora dele. etc. Não existe a possibilidade de alterações em qualquer um desses elementos sem que a mesma esteja presente nos outros. A representação coletiva é responsável pela reposição da realidade social.343 Este conceito estende-se ao Estado. crenças. corrupção e nepotismo ou sejam aceitos como naturais ou inevitáveis. costumes. e que neste sentido o indivíduo sempre está vinculado a outra pessoa.342 SIGMUND FREUD escreve que o indivíduo é um ser constituído a partir de sua relação com outros indivíduos. acumulação de sabedoria e ciência no decorrer do tempo. Um Estado Democrático de Direito somente pode ser construído lastreado por uma população que entenda seu sentido e veja nele a necessidade de evoluir como ser humano. Esta interação é o que produz o coletivo. seria fato raro ou inexistente. Qualquer mudança tem que passar pela sociedade e pelo indivíduo. caius_c 495 . entendendo a necessidade. Partindo deste princípio. Cada um dos elementos.delitos de “colarinho branco”.

Não se restringe. depois de firmada. acrescenta-se outros valores para obter uma nova média. O cidadão ético está ciente de seus direitos e luta por eles. depois de obtida. apenas dá maiores forças às leis através de outros elementos.promoveria em si a própria mudança que. Frise-se novamente que não trata-se de condicionamento destinado a produzir um comportamento amorfo. O combate ao que denominamos de pequenos crimes não pode ser confundido com tolerância zero ou repressão policial. aqui. onde o respeito pelas instituições e pessoas seja predominante. a liberdade. A tecnologia pode ajudar na formação de uma sociedade que não aceite estes pequenos crimes. seja pela obstaculização ou pela possibilidade de detecção de infratores. Trata-se de fazer com que o cidadão seja educado e viva dentro de uma ética extensiva ao social. A própria relação entre eles produziria um nivelamento entre todos. seria transmitida aos outros. O respeito às regras institucionais está diretamente ligado ao acatamento das regras não abrangidas pela lei. Aquilo que não é permitido pode ser facilmente impedido de ser executado. caius_c 496 . É média aritmética de vários elementos que. São vasos comunicantes onde se acrescenta em um deles uma porção a mais. A base de um povo começa pelo autodomínio de seus cidadãos e pela consideração que tem para com os outros em seus pensamentos e atos. quando sente que os mesmos estão ameaçados.

as entidades religiosas são tantas que não caberia o partilhamento do poder com algumas delas. o Estado deve andar separado destas crenças? Em primeiro lugar. o laicismo foi introduzido com a Constituição de 1891. Ele traduz a necessidade de sobrepor o Direito às crenças. O laicismo é essencial para que se possa chegar a um Estado Democrático de Direito.Laicismo DE PLÁCIDO E SILVA ensina que laico vem do latim laicus. em terceiro. em oposição ao do de bispo. por último. ou religioso. Temos uma herança judaico-cristã que está embutida em nossas mentes. que é o mesmo que leigo. por quê. cabe dizer que a maioria delas está mais voltada a ritos e cultos do que propriamente da moral e ética. o Estado separou-se de qualquer entidade religiosa a que tenha que submeterse. 344 No Brasil. ele não separou da moral e ética. Sua moral e ética fazem parte integrante de nossas leis. caius_c 497 . em segundo lugar. quando o Estado separou-se da Igreja. então. Se estamos tão impregnados desta moral e ética. A civilização ocidental cresceu sob seus auspícios e progrediu por conta delas. equivalendo ao sentido de secular. as crenças são estáticas e seus dogmas não são passiveis de serem mudados.

Assuntos tabus como pena de morte. Muitas delas esbarrariam em conceitos que as crenças consideram imutáveis ou contrárias ao seu doutrinamento.O Estado precisa acompanhar a evolução social e suas necessidades. não são passíveis de serem discutidos por afrontarem dogmas religiosos. ao exercerem suas crenças. pregam a submissão feminina ou buscam conter o avanço da ciência em determinados setores. formam opiniões e geram comportamentos. aborto e outros. A possibilidade de uma delas poder atuar junto com o Estado. Não podemos esquecer que o homem ainda não consegue pensar além do âmbito da tribo a qual pertence e ainda não consegue pensar dentro do contexto da humanidade. As instituições religiosas arrecadam tributos. esqueçam-se de praticarem o Direito. Muitas crenças consideram como aversivas algumas formas de sexualidade. Isto faz com que os homens. As crenças induzem à exclusão de outros grupos ou pessoas com pensamento diverso. produziria discriminações. de forma associativa. eutanásia. principalmente daqueles que buscam soluções através de pesquisas com elementos humanos. caius_c 498 . Poder espiritual se traduz em poder temporal. Estas resistências podem dificultar o avanço do Direito e da forma igualitária com que o Estado Democrático deve tratar seus cidadãos.

Neutralidade J. os partidos políticos tem em comum com estes grupos o fato de serem categorias interpostas entre o cidadão e o Estado.É certo afirmar que as crenças não convivem pacificamente entre si. Por mais que preguem as mesmas assertivas. nos quais um interesse se incorporou e se tornou politicamente relevante. conceitua grupos de pressão como organizações da esfera intermediária entre o indivíduo e o Estado. A fidelização de seus membros é obtida através da divinização de seus preceitos e a busca por novos conversos é uma constante. com qualquer grupo religioso. na forma de compartilhamento de poder. Para BONAVIDES. Segundo ele. seja por conta de seus interesses ou por determinada categoria social. Por conta desta própria atribuição torna-se impossível sua associação. o grupo de pressão se define pelo exercício de influência sobre o poder político para obtenção eventual de uma determinada medida de governo que lhe favoreça os interesses. costumam se confrontar e tentar diminuir a influência de outros grupos. H. Assegurar a liberdade de crença e consciência é atribuição do Estado. caius_c 499 . KAISER. Esta associação já delimitaria a própria liberdade de crença e consciência daqueles que não estão conjugados com o poder.

pode ser um fato em que deve existir um tratamento desigual para contrabalançar alguma hipossuficiência. há de se buscar nas suas reivindicações a qualidade acima. O conforto obtido em detrimento da vontade de evoluir Um Estado Democrático de Direito. como os de setores de produção. quase sempre. Os conceitos do laicismo estendem-se aos demais grupos cuja representatividade não seja legitimamente popular. Se ele estender-se de forma benéfica para a população em geral. aliada a uma proteção individual e social efetiva. divergem do pensamento que deve orientar ações para que se alcance o bem comum.Entende-se que os grupos de pressão são lastreados por interesses próprios que. caius_c 500 . Neste ultimo caso. é indício de que ela está sendo aplicada. Não existem distâncias entre governo e povo. Não se pode confundir benesses solicitadas para satisfação de grupos empresariais ou empresas gigantescas com as necessárias adaptações da lei para ajustes de mercadoempresa em determinadas situações. Toda e qualquer proposta de grupos deve ser avaliada tomando-se o todo como medida. quando bem sucedido. sendo que um cuida de outro. Em alguns casos. Este conforto provém da estabilidade econômica que lhe deve ser natural. proporciona conforto ao cidadão. A questão básica para se manter a neutralidade é o resultado final.

Acreditando nisto. Contrapõe-se que não se trata da sobrevivência de governos e sim do Estado. este sim. Estar confortável não implica em estar seguro. Nesta condição ele precisa de elementos vitais para sobreviver e cuidados contra seus possíveis inimigos. isto é uma inverdade. deve permanecer. se encontrar ameaçado. o cidadão pode imaginar que existe um fluxo natural que conduz a esta situação. mormente os mais insidiosos que buscam dentro de suas próprias bases as armas ou artimanhas para sua destruição. Somente cabem medidas restritivas de direito quando este. Estes cuidados não implicam em desconsiderar as bases do Estado em situações que se julguem anômalas e nas quais se julgue que é necessário abdicar de direitos para sobrevivência do próprio Estado. O Estado. Para restringir a idéia de estabilidade que o conforto pode proporcionar. como invasões ou guerras. efetivamente. cada cidadão deve estar cônscio da necessidade de sua atuação dentro da caius_c 501 . Os governos de um Estado Democrático de Direito devem suceder-se naturalmente.Este conforto pode induzir ao pensamento de que tudo é estável e que inexiste perigo ou perecimento desta situação. Podemos considerar o Estado Democrático de Direito como um organismo vivo que depende de cuidados para que se mantenha saudável. Com certeza. visto que é uma de suas premissas básicas.

o que é consciência política? Para conseguir uma definição adequada é necessário primeiro separar as palavras e dar-lhes sua dimensão isolada. por conta de sua interação com o próprio Estado.sociedade. como às vezes acontecia. ao contrário. 98 Pessoas do povo. é necessário que grande parte da população a tenha. Consciência política Escreveu George Orwell.” 345 Este pequeno trecho do livro expressa. Mas. caius_c 502 . em seu livro 1984. não pertencentes ao partido político. “Não era desejável que os proles98 tivessem sentimentos políticos definidos. que a falta de uma consciência política somente pode ter lugar em um Estado totalitário. só podiam focalizar a animosidade em ridículas reivindicações específicas. afinal de contas. o descontentamento não os conduzia a parte alguma porque. E mesmo quando ficavam descontentes. Nos Estados Democráticos de Direito. não tendo idéias gerais. de maneira veemente. O propelente de tais atos é que chamamos de consciência política. Tudo que se lhes exigia era uma espécie de patriotismo primitivo ao qual se podia apelar sempre que fosse necessário levá-los a aceitar rações menores ou maior expediente de trabalho. Os males maiores geralmente lhes fugiam à observação.

os direitos trabalhistas. Quanto maior seja o ajuste com que qualquer reflexo interno provoque uma nova série em outros sistemas. as ações voltadas à cidadania. O pensar a política está ligada a condição antropológica do homem. não é possível entender a sociedade humana sem as dimensões da política. 346 Para LUIZ ETEVALDO DA SILVA. As maneiras como as pessoas se organizam para definir o que produzir materialmente. política pode ser entendida por pensamentos e/ou ações que visam construir ou reconstruir formas de vida social. o controle social. Podemos resumir consciência política como um estado onde. o papel das instituições (Estado. fixá-las nas palavras etc). as reflexões éticas. mais capazes seremos de prestarnos contas de nossas sensações. igreja. escola. todos eles são exemplos de política. consciente ou inconsciente. todas as ações dos indivíduos são orientadas por ela. a administração da coisa pública ou privada. Este entendimento necessariamente deve nos conduzir a uma ação ou caius_c 503 . 347 Para ele. Pois. etc). a própria consciência ou a tomada de consciência dos nossos atos e estados deve ser interpretada como sistema de transmissores de uns reflexos a outros que funcionam corretamente em cada momento consciente. comunicá-las aos demais e vivê-las (senti-las. naturalmente. temos condições de entender as conseqüências dos atos próprios.Para VYGOTSKI. da sociedade e do Estado. as formas de apropriação e divisão da riqueza.

Para se obter uma representação legislativa da população existente no país é necessário criar mecanismos eletivos para que exista uma grande caius_c 504 . ela pode ser reforçada por estes dois elementos. A capacidade de discernimento é nata. ela pode ser distorcida pela cultura ou pelo próprio indivíduo. onde o objetivo a ser alcançado é o bem comum. É capacidade de indignar-se com fatos que não são de direito e agir para que o mesmo não se repita e que seus responsáveis sejam punidos de acordo com a lei. poderá acrescentar seus valores junto àqueles que permeiam a sociedade. A tecnologia e a possibilidade de participação A máquina estatal é grande. Da mesma forma. A forma mais adequada para se adquirir uma consciência política é o estudo das pretensões sociais desde a infância. traduz-se em efetivação da vontade pessoal e social. A distorção ocorre quando não existe clareza nos padrões sociais a serem adotados. O reforço ocorre quando estes padrões estão inseridos na cultura. ela consome recursos inestimáveis. Uma pessoa que esteja consciente de seu momento histórico e conheça as eficácias e deficiências do sistema político que rege sua vida. Ter consciência política não implica apenas em conhecimento. No entanto.omissão.

quantidade de representantes. A estes representantes são acrescidos outros elementos para servirem de apoio aos processos que eles desencadeiam. Entende-se isto como necessário para que exista uma representatividade de fato. O próprio processo eletivo é custoso. Por conta disso, pergunta-se se a representatividade deve estar ligada à capacidade financeira, pois é certo que aqueles que não dispõem desta capacidade não poderão se fazerem presentes em cargos que possam decidir a estrutura social e estatal. Para se ganhar uma eleição é necessário um bom suporte financeiro. É certo, também, que nem sempre o representante corresponde aos interesses e ideais do representado. Existe uma grande possibilidade de que ele esteja mais ligado a grupos de pressão do que ao eleitor propriamente dito. Isto retira sua própria representatividade. É quase impossível que toda a população esteja totalmente politizada. O mais provável é que apenas certa porcentagem queira, efetivamente, participar da vida política, com todas as suas atribuições. Sem ter um suporte financeiro adequado e com seus representantes ligados a grupos, deixa-se de obter a representatividade necessária que pode se tornar uma inteligência social. Talvez fosse menos custoso e mais adequado que se iniciasse uma possibilidade de participação do

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povo no processo legislativo sem a necessidade de eleições. Com a tecnologia disponível, qualquer pessoa consegue estabelecer relações com diversas partes do mundo. Não existe a necessidade de sua presença física; basta se ter um computador ligado a uma rede. O corpo legislativo eleito poderia ser diminuído e suas funções remodeladas. Os projetos de lei poderiam partir de um cidadão comum, considerado como capacitado e devidamente cadastrado, analisados por um órgão adequado e votados através de uma rede. Aqueles que fossem aprovados por estas pessoas, seguiriam o processo normal das votações. Os projetos de lei do corpo legislativo eleito também deveriam passar por esta pré-aprovação antes de seguirem seu curso. Isto garantiria a efetiva representatividade, pois se reduziria o alcance dos grupos de pressão e diretrizes de partidos, visto que os votantes estariam menos suscetíveis a estas influências por serem comuns cidadãos. No atual sistema eletivo, assume funções aqueles que dispõem de simpatia junto ao público e tem capacidade midiática. Não caberia nenhuma forma eletiva para este corpo de interessados. Eles seriam a forma mais direta da representatividade democrática, um retorno aos seus primórdios. As exceções à sua participação seriam aquelas em que os projetos de lei fossem de jurisdição exclusiva do governo, como é o caso daqueles que envolvem impostos.

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Pode-se argumentar que não existiria um preparo para que estas pessoas pudessem exercer suas funções. Esta possibilidade existe naqueles que são eleitos, pois a maioria não está capacitada para exercer suas funções, estando dependente de técnicos que compõem seu gabinete. Estas pessoas teriam que ser devidamente capacitadas através um sistema que as deixasse em condições de ter uma correta conduta jurídica, fundamentada na ética e voltada para o bem comum. Outro possível argumento é aquele que diz que a pessoa não estaria disponível em tempo integral para esta função, com é o caso de um corpo legislativo eleito, pois não teria nenhuma ajuda financeira para exercê-la. Entende-se que o próprio interesse na participação seria o elemento motivador que conduziria a pessoa a exercer o cargo por sua própria vontade política. Mesmo que o processo legislativo seja moroso atualmente, não há como argumentar que esta nova forma aumentaria os prazos de aprovação. Com regras bem definidas e um sistema adequado, há de se crer que poderia ocorrer uma maior produtividade dentro do próprio corpo legislativo. Pode ser uma maneira, também, de fugir da tecnocracia, pois esta forma de governo é produzida por burocratas instalados dentro do sistema, formadores de opinião pública ou elementos voltados unicamente para interesses de empresas ou grupos de pressão. Com a

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democratização efetiva do processo legislativo, os lobistas teriam que despender um esforço excepcional para aprovação de leis de seu exclusivo interesse. Com um corpo legislativo mais espalhado e com maior representatividade, existiriam menores possibilidades de captação de votos para seus interesses. Esta representatividade direita poderia se dar nos três níveis: municipal, estadual e federal. Cada pessoa poderia se capacitar apenas para um deles, dentro de determinado espaço de tempo, após o que poderia ocorrer uma renovação, desde que observados determinados critérios, que incluiriam a produtividade e participação do indivíduo. Este aumento da capacidade representativa poderia ser uma maneira de diminuir distorções, aumentar a transparência e dar uma maior efetividade ao processo democrático. Se provado que este sistema fosse mais adequado e democrático, em um futuro distante, o atual quadro legislativo, devidamente reduzido, poderia ser transformado em um órgão regulador desta nova forma de democracia. O Estado internacionalizado O Estado que pretende sobreviver como autônomo e independente não pode viver isolado. Existe a necessidade de interação. No entanto, suas relações com outros Estados devem se pautar pela prioridade que confere ao seu próprio povo.

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O Estado internacionalizado não busca uma nova identidade, prefere assimilar o que existe de bom em outros países, acrescentando-o ao seu dote natural. Seus paradigmas são atualizados de acordo com suas necessidades, com os menores danos sociais possíveis. Todo corpo provoca uma curvatura no espaçotempo. Essa curvatura forma uma energia que atrai outros corpos para si. Imagine um lençol preso pelas quatro pontas com uma bola no centro. Essa bola formará uma depressão. Solte outra bola em uma das pontas do lençol. Ela procurará caminhos para chegar até aquela que está no centro. Nós também provocamos essa curvatura. Nós também atraímos outros corpos e somos atraídos por eles. A diferença entre atrair e ser atraído reside apenas em quem provoca a maior curvatura, ou seja, aquele que tem mais energia trará até si aqueles que tem menos. No nosso caso, talvez devamos dar um nome a essa energia de atração. Talvez devamos chamá-la de BEM COMUM ou simplesmente CIDADANIA. Talvez devamos nos unir para formar uma massa cósmica maior que produza uma grande atração. Talvez a CIDADANIA seja apenas uma questão de física que podemos resolver com uma simples união de energias.

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