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MANUEL PACHECO NETO

PALMILHANDO O BRASIL COLONIAL: A MOTRICIDADE DE BANDEIRANTES, ÍNDIOS E JESUÍTAS NO SÉCULO XVII

Dourados, MS

– 2002 –

MANUEL PACHECO NETO

PALMILHANDO O BRASIL COLONIAL: A MOTRICIDADE DE

BANDEIRANTES, ÍNDIOS E JESUÍTAS NO SÉCULO XVII

Dissertação apresentada ao programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus de Dourados, para a obtenção do título de Mestre em História. Área de concentração: História, Região e Identidades.

Orientador: Prof. Dr. Cláudio Alves de Vasconcelos

Dourados, MS – 2002 –

MANUEL PACHECO NETO

PALMILHANDO O BRASIL COLONIAL: A MOTRICIDADE DE BANDEIRANTES, ÍNDIOS E JESUÍTAS NO SÉCULO XVII

COMISSÃO JULGADORA

DISSERTAÇÃO PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE

Presidente e orientador

2 Examinador

3 Examinador

Dourados,

de

de

DADOS CURRICULARES

MANUEL PACHECO NETO

NASCIMENTO

29/11/1965 – São Simão/SP

FILIAÇÃO

Manuel Pacheco Júnior Marilena Dorothéa Toffoli Pacheco

1987/1990

Curso de Graduação em Educação Física Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP

1996/1997

Curso de Pós-Graduação – Lato Sensu em Metodologia do Ensino Superior Faculdades Integradas de Dourados

Dedico este trabalho

à minha esposa Ana Cláudia,

companhia doce, norteadora e equilibrada ao longo de tantos anos. Aos meus filhos Diogo, Jorge, João e Manuel, dínamos de toda e qualquer luta. Aos meus pais, professores Manuel e Marilena, que na infância me propiciaram um ambiente onde o estudo se apresentava como valor fundamental.

AGRADECIMENTOS

Ao meu orientador, Prof. Dr. Cláudio Alves de Vasconcelos, pelos preciosos ensinamentos na disciplina Metodologias da História e por ter, durante a elaboração deste trabalho, sempre com paciência e atenção, me possibilitado o vislumbrar de novas veredas e trilheiros, que me levaram a abordar aspectos historiográficos então por mim desconhecidos.

Ao Prof. Dr. Paulo Roberto Cimó Queiroz, pelos ensinamentos precisos sobre as penetrações bandeirantes no oeste, abordados na disciplina Mato Grosso do Sul: história e historiografia, bem como pelas prestimosas sugestões quando fez parte da banca de qualificação que examinou este estudo.

À Profª Drª Luiza Rios Ricci Vo lpato, pela gentileza e amistosidade com que

me recebeu em Cuiabá, bem como pelos valiosos esclarecimentos sobre o

período colonial brasileiro.

À minha irmã, Profª Doutoranda Rita Pacheco Limberti, por ter me incentivado

a me inscrever no processo seletivo para o curso de Mestrado em História, fazendo a revisão gramatical de meu anteprojeto de pesquisa e dando dicas importantes em termos de construção do texto inicial.

Ao meu sogro José Marques Luiz, advogado e professor aposentado da UFMS, pela revisão gramatical deste trabalho.

À minha esposa Ana Cláudia, pelo incentivo, pela compreensão em minhas

horas de ausência, pela digitação dos textos e sobretudo pelo amor e carinho.

RESUMO

No Brasil Colonial do século XVII a vivência da motricidade corporal foi cotidiana, assumindo por vezes configurações notadamente significativas. Bandeirantes, índios e jesuítas, uns mais outros menos, deslocavam-se pelas matas, buscando atingir seus objetivos específicos.

A motilidade das bandeiras, cujos integrantes marchavam à pé, tornou-se notória pela

escravização de índios, pela descoberta de riquezas minerais e pela expansão territorial.

O presente estudo busca evidenciar as implicações referentes ao desempenho físico dos

bandeirantes, entendido como conseqüência histórica da carestia da vila de São Paulo. Distâncias muito grandes foram cumpridas por esses homens, que buscavam solucionar seus problemas econômicos. Buscamos analisar também o desempenho físico dos índios, homens naturais da terra, que demons traram no período em questão admiráveis e múltiplas habilidades corporais, que envolviam técnicas de caça e de procura de alimentos. Engajados nas bandeiras, muitos indígenas contribuíram para que pontos desconhecidos dos colonizadores fossem alcançados. Nascidos nas matas, os índios estavam portanto em seu elemento, revelando-se guias precisos, orientando as expedições por trilhas e veredas nunca antes palmilhadas pelos bandeirantes. As bandeiras de apresamento, extremamente ofensivas puseram muitos índios em fuga, especialmente na região do Guairá, onde os jesuítas haviam estabelecido diversas reduções. Em termos de performance física, buscamos evidenciar a fuga em massa dirigida pelos jesuítas guairenhos, que envolveu milhares de indígenas num avançamento rumo ao sul do Brasil, por vias fluvial e terrestre. Preocupamo-nos também em relacionar a motricidade bandeirante à mudança contextual ocorrida na colônia após a descoberta do ouro. Para tanto, em todas as partes deste estudo, pesquisamos em material bibliográfico pertencente às áreas da História e da Educação Física, com predominância na utilização de material historiográfico. As conclusões sugerem a confirmação de nossos pressupostos primevos. A motricidade humana foi uma característica importante no Br asil Colonial, envolvendo homens de grupos e motivações distintas, tendo contribuído ainda para a nova orientação sócio -econômica brasileira, que subtraiu do nordeste a hegemônica prosperidade de seu parque açucareiro, que era caracterizado pelo antônimo do movimento: o sedentarismo.

ABSTRACT

In Colonial Brazil of the century XVII the existence of the corporal motricity was daily, assuming notedly per times configurations significant. Members of the flags, indians and jesuits, some more other ones minus, they moved for forests, looking for to reach its specific objectives. The motricity of the flags, whose members advanced the on foot, became notorious for the enslavement of indians, for the discovery of mineral wealth and for the territorial expansion. The present study search to evidence the referring implications to the physical acting of the members of the flags, expert as historical consequence of the shortage of the villa os São Paulo. Very big distances were executed by these men, that looked for to solve its economic problems. We looked for to also analyze the physical acting of the indians, natural men of the earth,

that demonstrated in the period in admirable subject and multiple corporal abilities, that involved hunt techniques and of search of victuals. Engaged in the flags, many indigenous they contributed so that the settlers unknown points were reached. Bom in the forests, the indians were therefore in its element, being revealed precise guides, never guiding before the expeditions for trails and sidewalks roamed for the members of the flags. The capture flags, extremely offensives, put many indians in escape, especially in the area of Guairá, where the jesuits had established several reductions. In termsof physical performance we looked for to evidence the escape in mass driven by the jesuits guairenhos, that in involved

thousands of natives in na advancement

terrestrial. We also worried in relating the motricity member of the flags to the change of context happened in the colony after the discovery of the gold.

heading for the south of Brazil, by waterways and

For so much, everywhere of this study, we researched in bibliographical material belonging

to the areas of the History and Physical Education, with predominance in

historiographic. The conclusions suggest the confirmation of our primeval presuppositions. The human motricity was as important characteristic in Colonial Brazil,involving men of groups and different motivations, having still contributed to the new brasilian socioeconomic orientation, that subtracted the dominant prosperity of its sugar park of the northeast, that was characterized by the antonym of the movement: the affixation.

the use of material

SUMÁRIO

Resumo

vi

Abstract

vii

Lista de ilustrações

x

INTRODUÇÃO

xi

CAPÍTULO I

O BANDEIRANTE E O BANDEIRANTISMO

30

1.

Do mito ao homem comum

30

2.

A luta contra a natureza

41

CAPÍTULO II

ÍNDIOS: CICERONES E MESTRES DO SERTÃO

56

CAPÍTULO III

FUGINDO DO “TEMPESTUOSO DILÚVIO” : ÍNDIOS E JESUÍTAS NAVEGANDO E MARCHANDO NO SERTÃO

72

1.

Vivendo bandeirantemente e morrendo cristamente: a remissão dos predadores

de gente

72

2. Capelães, beatões e padres: cúmplices da violência bandeirantista

 

80

3. A fuga do Guairá: medo historicamente construído e terror supersticioso

 

determinam sôfrega motricidade humana

88

CAPÍTULO IV

BANDEIRISMO: DESEMPENHO CORPÓREO-MOTOR NO BRASIL COLONIAL

110

1. Meninos, homens e anciãos: sede, fome e cansaço na marcha sertaneja

110

2. O papel da motricidade bandeirante na mudança da configuração contextual do

Brasil Colonial

119

CONCLUSÃO

137

FONTES E BIBLIOGRAFIA

139

ANEXOS

145

LISTA DE FIGURAS

HOMENAGEM À EPOPÉIA DE 32

49

GLÓRIA AOS HERÓIS

50

SUSTENTAE O FOGO

51

BRASÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO

52

CAPA DA REVISTA SUPERINTERESSANTE

53

CAPA DA OBRA HISTÓRIA DAS BANDEIRAS PAULISTAS, DE AFFONSO

DE TAUNAY

54

CAPA DA OBRA CURSO DE BANDEROLOGIA, COLETÂNEA

DE CONFERÊNCIAS

55

INTRODUÇÃO

Desde nossos tempos de faculdade, nos anos oitenta do século passado, sentíamo - nos atraídos pelo papel exercido pela motricidade humana na história. Por aquela época, freqüentávamos com assiduidade a biblioteca da Universidade Metodista de Piracicaba, buscando genericamente nos livros de história episódios onde as atividades físic as se mostravam aparentes, apresentando-se como relevantes em diversos contextos interdependentes. Por conta desta pesquisa de caráter informal, logramos com o tempo acumular uma considerável compilação de textos, dentre os quais extraímos diversas configurações contextuais onde o papel das atividades corporais nos parecia ressaltado. Torna -se válido mencionar a obviedade de que nossa pesquisa era aleatória, posto que carente das diretrizes científicas formais da academia. Ainda na graduação, aquela pesquisa bibliográfica acabou por nos nortear em termos mais específicos, no sentido de que desenvolvêssemos nossa monografia de final de curso abordando o papel do desporto como elemento alienante, auxiliador nas ações ditatoriais impostas pelo governo militar, no contexto histórico brasileiro de 1970. Julgamos ser oportuno mencionar, que comumente as monografias de graduação em Educação Física enfocam diversas modalidades desporto- recreativas, levando em conta seus aspectos técnicos, táticos, competitivos, pedagógicos ou didáticos. A pesquisa histórica não aparece com freqüência entre os graduandos em Educação Física, que predominantemente abordam os desportos e as atividades corporais entendidos como metodologia de trabalho, seja ela ligada à docência ou ao treinamento. Esta observação visa esclarecer que nosso entendimento acerca do movimento humano transcende a concepção de que as práticas corporais encerram-se em si mesmas, circunscritas aos dogmatismos doutrinários de suas atribuições clássicas, como a promoção da saúde, a sociabilização e a alta performance. As atividades corporais estão inseridas num universo incomensurável, que oferta possibilidades inesgotáveis de análise. Desde que o homem existe sobre a Terra, configura-se sua situação motriz. Desassomb rados, expressamos nossa convicção de que a história é uma extensa crônica de corpos em movimento, destacando a obviedade da não negação do psiquismo, uma vez que entendemos o homem como ser uno, indivisível, na esteira das teorias de Santim, Morais, Rizzo e Medina, que promovem desde os anos oitenta uma discussão filosófica humanista, dialetizando o

pensamento de Descartes e Platão, que divide o homem ao meio, fragmentando-o dicotomicamente. Já na nossa monografia de Pós-Graduação Lato Sensu (Metodologia do Ensino Superior), que cursamos em 1997, revisitamos o mesmo tema desenvolvido oito anos antes, agora sob a orientação da Profª Drª Marina Evaristo Wenceslau, que contribuiu muito para que melhorássemos nossa pesquisa, revestindo-a de uma conotação científica mais acentuada. Dessa monografia, extraímos alguns elementos e os inserimos em nosso anteprojeto de pesquisa, apresentado em 1999 à comissão de seleção do programa de Mestrado em História da UFMS, Câmpus de Dourados. Nesse anteprojeto, aberto e abrangente, constava a jornada a pé do bandeirante Domingos Jorge Velho, visando dar fim ao Quilombo de Palmares. Há muito, em nossas leituras informais, havíamos nos dado conta da possibilidade de abordagem do bandeirismo sob a ótica do desempenho corporal, mercê das grandes distâncias cumpridas em marcha sob condições não raro adversas. Com o estudo da bibliografia para a prova seletiva do Mestrado, vislumbramos essa possibilidade de forma mais nítida, sobretudo por conta de Holanda e Monteiro, que descrevem incursões bandeirantistas onde o desempenho corpóreo motriz se fez verdadeiramente intenso. Com leituras posteriores – já cursando o Mestrado – de Nemésio, Vasconcelos, Ellis, Volpato, Haubert, Ricardo e Taunay, definimos as bandeiras como objeto de estudo em nossa dissertação de mestrado, que ora apresentamos. Nossa pesquisa, em seus primeiros escritos, apresentou uma conotação um tanto quanto desconectada da história. Alertados pelo Prof. Dr. Cláudio Alves de Vasconcelos, nosso orientador, passamo s a entender de forma menos unilateral as incursões dos bandeirantes, que foram empreendidas em conseqüência da penúria verificada na Vila de Piratininga, configurando-se portanto como frutos de uma contingência histórica. Reorientamos nossa redação neste sentido, buscando o entendimento das atividades físicas dos bandeirantes como desdobramentos desta contingência histórica, observada no contexto do Brasil Colonial. Outra orientação relevante do Prof. Vasconcelos foi no sentido de que abordássemos o papel do índio nas bandeiras. Vale dizer que essa orientação específica ensejou maior respaldo teórico ao nosso estudo, pois possibilitou novos prismas de análise e observação, que ressaltam naturalmente a contribuição indígena – inclusive em termos de desempenho corporal – para que as bandeiras alcançassem pontos longínquos do continente. No trabalho que ora se apresenta buscamos enfocar prioritariamente o bandeirismo do século XVII, por ser o recorte temporal onde despontam inúmeras incursões que percorreram grandes distâncias, configurando as situações de maior desempenho físico-motor dos sertanistas de São Paulo. No entanto, visando não causar detrimento na explicitação dos

resultados primários de nossa pesquisa, não pretendemos omitir algumas expedições de grande percurso, observadas fora dos seiscentos. Para tanto, servimo-nos dos esteios de Braudel no que respeita ao tempo das mentalidades, que aborda as permanências atitudinais e comportamentais, transcendendo a cronologia. Alicerçamo-nos também em Bloch, que postula o tempo histórico como a possibilidade de entendimento dos fenômenos, pautando a temporalidade como algo flexível, que possa assegurar, num sentido mais amplo, a inteligibilidade da produção historiográfica. A postura destes dois historiadores encontramos em Prieto, que por sua vez

buscou resolver essa questão com maestria, enfatizando que “ el tiempo histórico, hemos señalado antes, no es el tiempo cronológico.” Prosseguindo com seu arrazoado contundente, o historiador

la estructuración positivista de la historia aprisionó el pasado de los

hombres y mujeres en las mallas de la cronologia y prescindió – no podia ser de outra maneira –

de los ritmos próprios de cada formación social histórica, de sus latidos” (PRIETO, 1995, p. 105-

6). Considerando o tempo cronológico como sendo “

positivistas;” o mesmo autor observa que “tiempo vivido y tiempo cronológico son dos aspectos diferentes.” As incursões dos bandeirantes no século XVII configuraram um tiempo vivido que teve sua gênese nos primeiros anos de fundação da Vila de São Paulo, tendo por outro lado a predecessão de outras expedições posteriores ao recorte temporal da décima sétima centúria. Nosso recorte temporal portanto não é estanque, posto que imprescinde de algumas abordagens que tangem incursões sertanistas já no século XVIII, principalmente aquelas que devassaram o sertão oeste, culminando com a descoberta do ouro cuiabano em 1718. Entendemos as expedições do século XVII como elementos de um histórico fenômeno caminheiro, que iniciou-se quando os primeiros homens do altiplano paulista penetraram as matas à caça de índios, estendendo-se até princípios do século XVIII, quando as expedições fluviais Araritaguaba-Cuiabá tornaram-se a principal via de acesso rumo às jazidas auríferas do oeste. Centramos portanto o foco de nosso estudo nas bandeiras do século XVII, tendo esta centúria como recorte temporal, cuidando no entanto para que algumas indispensáveis conexões com a cronologia anterior não fossem lançadas no limbo, em detrimento da compreensão da atividade corporal como elemento relevante na história do bandeirismo e no contexto do Brasil Colonial. Doravante trataremos das considerações sobre o teor de cada um dos capítulos deste trabalho, buscando explicar as motivações e intencionalidades que lhes ensejaram.

espanhol escreveu: “

el único tiempo de los historiadores

O Capítulo I, intitulado O Bandeirante e o Bandeirantismo, divide-se em duas partes,

que são: Do mito ao homem comum e A luta contra a natureza. No primeiro destes texto s, dedicamo -nos à tentativa de desconstruir a imagem apologética dos sertanistas de São Paulo, tangendo a gênese da representação histórico-ideológica que acabou por elevar o andrajoso piratiningano, paupérrimo e carente, à condição de destemido herói épic o, portador de inúmeras adjetivações enaltecedoras. O marchador das matas da América do Sul, ricamente paramentado e profundamente religioso, foi uma representação histórica forjada com fins políticos, visando garantir a manutenção do poder conquistado pelos paulistas no prorromper da proclamação da República. Líderes natos de perigosas incursões sertanejas, responsáveis pela miscigenação racial democrática, alargadores das fronteiras do Brasil e patriotas por excelência, os bandeirantes haviam palmilhado boa parte do continente com suas botas de cano alto, povoando paragens remotas e gestando cidades. Donos do poder nos primórdios da República, os cafeicultores paulistas foram os mentores da empreitada de alçar os bandeirantes à condição sobranceira de líderes ancestrais, cujos descendentes deviam continuar sua saga de chefiar a nação. A obra de Cassiano Ricardo, uma de nossas fontes principais neste capítulo, apresenta-se como um expoente em termos de representação épico-heroística dos bandeirantes que, envergando escupis e portando arcabuzes, arrostaram os perigos indisíveis das solidões e dos desertos sul-americanos. Não apenas nos textos produzidos pela historiografia ufanista, mas também na iconografia que os acompanha, os bandeirantes posam altivos para a posteridade. De suas faces barbadas, sombreadas por grandes chapéus de feltro, emanam inquestionáveis liderança e irredutibilidade. O sertanista paulista concebido imageticamente é também sempre branco, erguendo- se racialmente incólume de uma população profundamente miscigenada. Nesta urdidura ideológica não o mameluco era sugerido como chefe apto a governar o Brasil, mas o branco de ancestralidade portuguesa, o descendente puro do europeu. Eficazmente arraigada no imaginário brasileiro, sobretudo no paulista, a figura do herói bandeirante paira como um paradigma histórico, passível de ser revista, revisitada e analisada sob outros ângulos. Grande parte da obra de Sérgio Buarque de Holanda é dedicada à isso. A contribuição deste historiador é sobremaneira digna de nota, pois foi iniciada nos anos 30 do século XX, uma época em que o convencionalismo apontava predominantemente para o sentido de pujança e desassombro ao tratar dos bandeirantes, que eram por sua vez apresentados como

membros da raça de gigantes. Holanda mobilizou a abordagem do bandeirismo efetivamente ligando-a ao fator econômico de São Paulo, onde imperava a adversidade diária da miserabilidade, de onde certamente não haviam saído sertanistas faustosamente vestidos, mas homens trajando modestas indumentárias, buscando amainar a situação periclitante de suas vidas. O caminhante de Sérgio Buarque foi o contraponto do bandeirante de Cassiano Ricardo. Ao furor épico deste último, contrapunha -se a pesquisa histórica detetivesca do primeiro. A produção historiográfica destes dois autores foi contemporânea, tendo gerado posturas ferreamente defendidas por ambas as partes. A famosa controvérsia em torno da noção de homem cordial foi suscitada por Ricardo na obra Marcha para Oeste, onde discorda enfaticamente das afirmações de Holanda em Raízes do Brasil. Esta celeuma foi iniciada em 1940, com diversas argumentações divergentes entre os dois interlocutores, estendendo-se até o ano de 1959, quando Ricardo, ainda de forma pertinaz, explicita sua discordância ante Holanda, que já tinha escrito em 1948 sobre o seu receio de que “que já tenha gasto muita cera com esse pobre defunto” (Holanda apud Robert Wegner, 2000, p. 54), mesmo tendo mudado a estruturação de suas assertivas na edição de Raízes do Brasil do mencionado ano. Este acirrado antagonismo foi aqui evocado para que possamos avaliar melhor a reação provocada pela metodologia historiográfica de Holanda. Vale lembrar que Cassiano Ricardo era, antes de historiador, literato reconhecido. Entendemos ser esta observação aqui necessária, para que se evidencie que este autor era, em primeira instância, mais passível de enveredar-se pela inobservância das intrincadas minúcias da pesquisa histórica, quedando-se perante sua inclinação de imaginativo e hábil romanceador, que muitos dilemas resolvia apenas com o bico da pena, passando à larga das contingências e determinismos históricos. Já Holanda, seu desafeto e contendor intelectual, dedicara sua vida ao labor historiográfico, fazendo disso sua principal atividade e sendo reconhecido por muitos de seus pares como um pesquisador equilibrado e incansável. A trajetória das obras de Holanda foi acompanhada por historiadores como Affonso Taunay (que publicou o undécimo último volume de História Geral das Bandeiras Paulistas em 1950, cinco anos após a primeira edição de Monções, de Holanda) e Alfredo Ellis Júnior, que não demonstraram oponência ante o então novo viés historiográfico proposto pelo autor, que apresentava os sertanistas paulistas como homens impelidos ao sertão pela carestia da vida cotidiana na vila de Piratininga. A obra de Holanda, aqui mencionada, embora não tendo sido utilizada na elaboração do texto que no momento enfocamos, sedimentou de forma efetiva o nosso

entendimento, em termos mais ordinários, sobre a dimensão humana, não mítica, dos componentes das bandeiras. Utilizamo -nos dos escritos de Holanda em outra parte de nossa pesquisa, como ficará exposto adiante. Encontramos na obra Entradas e Bandeiras, de

Luiza Rios Ricci Volpato, uma elaboração textual clara e precisa sobre o bandeirismo. Essa obra foi por nós utilizada como fonte na redação do texto que ora anunciamos, sobretudo por abordar

a situação embrionária que gestou a construção da representação mítico-épica do bandeirante na

historiografia, que remonta ao século XIX, quando do advento da proclamação da república do Brasil. A recém instaurada república abrigava em suas cúpulas os representantes da cafeicultura paulista, elite agrária que pretendia permanecer no poder. O mando no Br asil emanava portanto dos homens de São Paulo, dos homens que então lideravam as terras ancestrais dos bandeirantes e também toda a nação. A figura do bandeirante neste contexto foi então utilizada como

instrumento ideológico, como elemento de afirmação política. Neste sentido, o sertanista paulista, herói e chefe magno, figurou como uma referência, uma alusão histórica que sugeria de onde deveria emanar o poder não apenas naquele momento, como também no futuro. São Paulo era o berço dos bandeirantes, abrigando em seu seio os descendentes destes comandantes natos. Nesta ordem de argumentações, estava presente a idéia – ora implícita, ora explícita – de que os paulistas eram herdeiros de aptidões naturais de comando. Além de tanger aspectos significativos da construção da figura do bandeirante, Volpato faz afirmações que podem ser entendidas como antíteses das assertivas constantes na historiografia apologética, sobretudo a produzida por Cassiano Ricardo, a qual a autora evoca criticamente mais de uma vez. O homem e

a mulher nativos do Brasil, que na obra de Ricardo figuram como elementos secundários de uma

guerra de conquista encetada pelos bandeirantes, são enunciados por Volpato como atores históricos, presentes inclusive nas expedições (neste caso os homens), mas passíveis dos mais torpes aviltamentos e violências advindos dos paulistas. A idéia da bandeira como instituição democrática, que perpassa a obra de Ricardo, foi antagonizada consistentemente por Volpato em Entradas e Bandeiras, onde a presença de índios, mamelucos e até mesmo brancos de menor prestígio – nas expedições – é explicada remetendo ao entendimento de que estes integrantes estavam submetidos à ascendência dos mestres de campo e seus auxiliares, que não raro agiam arbitrariamente, cometend o desmandos desbragados. Ressaltemos que muitas expedições apresentavam características militares, organizadas sob rígida concepção hierárquica, onde certamente não reinavam os prncípios democráticos, como pretendeu difundir Ricardo. Ainda na primeira parte do primeiro capítulo, ocupamo-nos da procura de demonstrar

como o mito do bandeirante – gestado com fins político- ideológicos no final do século XIX –, foi novamente evocado com intenções parecidas na terceira década da centúria seguinte, quando do deflagrar da Revolução Constitucionalista de 1932, oportunidade em que o estado de São Paulo, tendo à testa seus dirigentes, pretendeu, sob o pretexto da reinstauração dos princípios democráticos, mudar os rumos do poder nacional, então excercido ditatorialme nte por Getúlio Vargas. Na iminência da luta armada, bem como em seu trasncurso, a ancestralidade bandeirante figurou massivamente na propaganda feita pelos representantes do poder paulista. O passado de glória dos bravos piratininganos foi revivescido em hinos, jornais, panfletos e através da imprensa falada. Mandatários do progresso no passado, os habitantes de São Paulo precisavam demonstrar sua força novamente, agora não com mosquetes ou arcabuzes, mas com baionetas e fuzis calibre 44, configurando-se como os vanguardistas, os iniciadores de um novo tempo para o Brasil. O povo que já desbravara os sertões da colônia agora devassaria as brenhas fechadas da ditadura getulista. Para buscar demonstrar esse ressurgir do mito bandeirantista com finalidades políticas, pesquisamos em livros impressos no estado de São Paulo, cujos autores foram homens que se envolveram pessoalmente na Epopéia Constitucionalista de 1932. Exploramos também o valioso arquivo pessoal do Sr. Pedro Toffoli, único combatente vivo dos 66 integrantes do Batalhão XX de Agosto, hoje com 92 anos de vida. Desse arquivo, extraímos

alguns jornais antigos e material propagandístico da Revolução, contendo representação iconográficas e textos de conteúdo claramente ufanista, que visavam inspirar sentimentos épicos de coragem e altivez nos componentes do Exército Bandeirante. Também na primeira parte do capítulo que ora enunciamos, fizemos algumas considerações sobre como a figura do sertanista herói está alojada no imaginário do senso comum, mercê principalmente da forma de abordagem do tema bandeirismo no ensino fundamental. Nossa intenção primordial, no primeiro texto deste estudo, foi a de procurar encontrar o homem comum atrás do pesado e arraigado aparato heroístico que reveste o bandeirante, uma vez que o objeto de nosso estudo situa-se na perspectiva de uma construção historiográfica onde será mostrado o desempenho físico acentuado do habitante piratiningano, que atormentado pela carestia que campeava em São Paulo, tornou-se o maior viajor caminhante das matas coloniais. Na segunda parte do primeiro capítulo, nomeada A luta contra a natureza, procuramos abordar um aspecto pouco lembrado na historiografia do bandeirantismo, que foi a

dificultosa transposição da Serra do Mar pelos primeiros homens que alcançaram os campos de Piratininga. A subida deste grande acidente geográfico é mencionada por vários historiadores, mas de forma fugaz, sem o devido detimento que parece merecer. Autores tanto da historiografia crítica, quanto da apologética, são convergentes sobre as grandes dificuldades enfrentadas pelos escaladores dos hostis rochedos, que quase perpendiculares, empertigavam-se como obstáculos que por muito tempo haviam impedido o avanço dos habitantes da orla oceância para o interior da

colônia.

Os ascencionistas da Serra do Mar foram

submetidos a esforços físicos extremos. O desempenho corporal deles exigido pela montanha

impassível foi brutal. No livro A economia paulista no século XVIII, Alfredo Ellis Júnior, ao tratar da incipiência dos assentamentos dos vicentinos em Piratininga, afirma que existe uma lacuna na historiografia que trata do passado paulista, pois esta o descreve como se a Serra do Mar não existisse. Nesta obra de Ellis, que usamos como fonte para a elaboração do texto que estamos anunciando, a Serra do Mar é entendida como um imponente elemento da natureza, que somente foi vencido pelos homens mais aptos fisicamente. O autor se preocupa em deixar expressa a sua percepção de que a montanha, silencio sa e inerte, desencadeou uma triagem seletiva natural, de onde saíram vitoriosos os escaladores com maiores predicados de motricidade e força, ou seja: os mais ágeis e os mais fortes. Foram três as motivações que nos levaram a escrever um texto específico sobre a Serra do Mar: a primeira delas é a evidente performance corpóreo-motora ensejada na transposição deste acidente topográfico, já que o desempenho físico é nosso objeto de estudo; a segunda está ligada ao nosso entendimento de que a situação germinal do bandeirismo estava ali sendo gestada,

já que num primeiro momento era preciso transpor a montanha, e noutro era necessário caminhar à

caça de índios; a terceira motivação foi a tentativa de demonstrar a condição de isolamento imposta pela serra aos habitantes do planalto de São Paulo, que após transpô-la arduamente romperam ligações com a região praiana, iniciando a história das bandeiras propriamente dita, mercê da miséria econômica de Piratininga. Trataremos agora do Capítulo II, intitulado Índios: cicerones e mestres do sertão. Neste texto, procuramos mostrar o importante papel desempenhado pelo índio nas bandeiras. Na historiografia apologética, a figura do homem natural da terra é ensombrecida pelo vultoso protagonismo do bandeirante, que a tudo ordena e dá fluxo. O índio

literalmente ensinou ao sertanista paulista os segredos da sobrevivência no meio natural, garantindo

o cumprimento de grandes marchas pelo interior do continente. No entanto, a despeito disso, seu

notável papel apresenta-se ora esmaecido, ora quase apagado ou até mesmo ausente ou omitido na produção historiográfica mais convencional. Na caça, na coleta de alimentos, na procura de água e sobretudo no guiar os paulistas por trilhas desconhecidas, o índio descortinou um novo modo de vida àqueles homens ignorantes das técnicas nativas da América. Em termos de desempenho físico, o indígena ensinou aos primeiros sertanistas, singularidades importantes para atenuar o desgaste das marchas, revelando- lhes novas formas de pisadur a, que não concentravam esforços excessivos em poucas junturas ósseas, propiciando um trabalho mais generalizado das articualções dos pés, diminuindo assim as possibilidades de surgimento de lesões tendíneo- ligamentosas, bem como das dores que as acompanha m, o que por fim favorecia o aumento das distâncias percorridas. As adaptações corporais dos sertanistas às técnicas indígenas não se restringiram à forma de pisar, requereram aprendizados significativamente mais

complexos, que envolveram remodelações e substituições importantes em seus padrões de coordenação motora. Nas práticas de caça, os sertanistas aprenderam a usar o arco e a flecha, instrumentos que até então não haviam utilizado. Para que se tornassem arqueiros ou flecheiros eficientes, precisaram reordenar, reorientar seus padrões corpóreo- motrizes, ajustando- os à arma indígena. Especificamente sobre este aprendizado, fizemos uma lacônica análise cinesiológica no

texto que ora enunciamos.

contribuição dos índios nas bandeiras era sobremaneira aparente nas paragens carentes de caça. Nessas oportunidades o índio assumia inteiramente o protagonismo, se assim pode ser dito. Famintos, os paulistas dependiam inteiramente da perícia nativa em encontrar mel. Muitos índios eram extremamente hábeis nesta tarefa, que consistia em avistar a abelha e correr atrás dela pela mata, portando machados e cabaças, até que o vôo do inseto finalmente se finasse nos favos. Essa destreza indígena, que impressionou muita gente no Brasil Colonial, envolvia dispêndio energético acentuado, denotando apurado desempenho físico global, uma vez que exigia capacitações múltiplas: relativas à resistência aeróbica, à coordenação motriz e à percepção espaço-temporal, além da óbvia acuidade visual. Nos sertões pobres de caça, a habilidade de prospecção melífera dos índios amainou a fome de muitos bandeirantes, não apenas permitindo que continuassem seus avanços, como também salvando muitos deles da morte por inanição. Os índios foram importantes atores históricos da época bandeirantista, sobretudo no século XVII, quando, segundo Monteiro, tornaram-se bem mais numerosos nas expedições. A destreza em encontrar água foi outra grande contribuição dos indígenas engajados nas bandeiras.

A

Tal perícia, que envolvia técnicas diversas, favoreceu o caminhar das expedições pelos sertões sem água. Para a elaboração desse Capítulo II servimo-nos da produção de dois autores da historiografia crítica, Luiza Volpato e Sérgio Buarque de Holanda, utilizando respctivamente como fontes suas obras Entradas e Bandeiras e Caminhos e Fronteiras.

O Capítulo III, que no momento passamos a comentar, intitula- se Fugindo do

tempestuoso dilúvio: índios e jesuítas navegando e marchando no sertão. O texto subdivide-

se em três partes: Vivendo bandeirantemente e morrendo cristamente: a remissão dos predadores de gente (parte 1); Capelães, beatões e padres: cúmplices da violência bandeirantista (parte 2) e A fuga do Guairá: medo historicamente construído e terror supersticioso determinam sôfrega motricidade humana (parte 3). Utilizamos como fontes bibliográficas as obras Índios e jesuítas nos tempos das missões – de Maxime Haubert; Marcha para o Oeste – de Cassiano Ricardo e sobretudo A conquista espiritual – de Antônio Ruiz de Montoya. Além destas obras, qualificadas como fontes, outras duas também foram utilizadas de forma significativa: Negros da terra – de John Monteiro e

História das bandeiras paulistas – de Affonso Taunay.

Na primeira parte do texto, já nomeada, tratamos da questão da violência dos ataques

bandeirantes às reduções inacianas. Extremamente ofensivas, as expedições apresadoras promoveram a matança de muitos índios reduzidos no Guairá, revelando uma situação de agressividade repetitiva e contumaz, já que os ataques foram ocorrendo ao longo do te mpo, na primeira metade do século XVII, até que onze povoações fossem destruídas. A ofensividade intensa dos sertanistas de São Paulo, com todas as suas implicações predatórias, ressaltou-se como técnica militar nas bandeiras do século XVII. Matava -se parte do contingente inimigo para capturar sua outra fração, que nem sempre era pequena. Chacinas para obter a escravização, esta era a essência dos objetivos dos bandeirantes, que se organizavam como regimentos de combate, caminhando pelas matarias à procura de índios. Desta forma, muitos sertanistas atravessavam a vida, promovendo a violência e a devastação, derramando farto sangue indígena no Brasil Colonial, principalmente no século XVII, quando o apresamento adensou-se nitidamente. A despeito disso, a religiosidade fez-se presente entre os componentes das bandeiras. Não aquela religiosidade estritamente cumpridora dos ditames católicos, mas uma religiosidade profundamente temerosa, consciente de suas abominávies faltas e preocupada com o perdão

formal dos homens do clero. É recorrente na historiografia a singular mudança de maneiras observada em muitos bandeirantes idosos. Já se aproximando do fenecimento, o violento caçador de índios buscava redimir - se perante Deus, deixando bens em espólio para confrarias religiosas, comungando freqüentemente, solicitando a visita do padre quando doente e finalmente reconhecendo filhos bastardos, frutos de cópulas (muitas vezes forçadas) com índias. Procuramos portanto demonstrar essa devoção peculiar, que não sofreava a agressividade desabrida, mas que atormentava os sertanistas por toda a vida, tornando-os na velhice obsecados com a salvação eterna. Na segunda parte do texto, cujo título também já mencionamos, buscamos o entendimento acerca da função dos capelães que acompanhavam as bandeiras. Estes homens receberam do padre Montoya o depreciativo epíteto de beatões, dadas as particularidade de suas maneiras condescendentes ao presenciar os assassinatos e os apresamentos dos indígenas. Essa condescendência não era explí cita, mas sim atitudinal, uma vez que esses capelães buscavam conversar sobre a devoção a Deus com os jesuítas das reduções no próprio momento do apresamento, com a barbárie campeando à sua volta. Levar padres nas expedições fazia parte das necessidades dos bandeirantes, especificamente visando obter perdão por seus atos. Ainda nesta segunda parte do Capítulo III, julgamos também importante buscar informações adicionais sobre a conduta dos

clérigos coloniais antes e depois do século XVII, visando sobretudo apurar se os falsos devotos – como os adjetivou Haubert –, se fizeram presentes apenas nas expedições bandeirantistas. Nessa procura, encontramos na obra A Companhia de Jesus e o plano português do Brasil, de Vitorino Nemésio, importantes menções sobre a chegada do padre Manuel da Nóbrega ao Brasil, na metade do século XVI, quando este sacerdote ficou estupefato com o desregramento e a licenciosidade dos padres da Bahia e de São Vicente, que mantinham relações sexuais com índias, sendo que alguns deles dispunham de seis delas para tal prática. Foram muitos os filhos naturais advindos destas relações, valendo observar que vários padres se tornaram pais seis ou sete vezes. Já na obra História Geral das Bandeiras Paulistas, de Affonso Taunay, encontramos valiosas informações sobre as iniqüidades do clero no início do século XVIII, após a descoberta das minas auríficas. Religiosos de diversas ordens afluíram para os locais de mineração. Estes clérigos de má vida, como os alcunhou Taunay, iam para as áreas mineiras para fugir às penas impostas pelas cúpulas católicas, ou até mesmo buscando evadirem-se das garras da justiça real. Dessa forma, é fácil entender que estes homens não tinham um passado sem máculas.

Agindo em contrariedade às ordens de seus superiores clericais, que reiterada e oficialmente os admoestavam a retornar a seus conventos e paróquias, esses padres teimavam em permanecer nas minas, onde levavam vida livre, inseridos num ambiente heterogêneo, onde pessoas de conduta suspeita não eram necessariamente raras. Buscando a síntese desse texto, esclarecemos que nosso intento primordial foi analisar a função dos capelães nas bandeiras, os quais entendemos também como elementos apresadores passivos, já que não sofreavam, em nenhum momento, as atividades destrutivas dos bandeirantes. Porém não nos furtamos de pesquisar um pouco mais amplamente sobre a conduta do clero no período colonial, pesquisa essa que nos propiciou a compreensão de que as atitudes condenáveis – aos olhos da igreja – dos capelães paulistas não foram isoladas, não estando portanto circunscritas apenas ao bandeirismo. Se os beatões de Montoya – que são os mesmos falsos devotos de Haubert – faziam vista grossa à chacina e à escravização de índios no século XVII, os padres que indignaram Nóbrega na centúria anterior já se regalavam sexualmente com mulheres indígenas, sendo que também no começo dos oitocentos os clérigos de má vida, abordados por Taunay, viviam em notório desregramento ao redor das minas de ouro. Revela -se, portanto, a notável incidência de religiosos que contrariavam os dogmas da Igreja no Brasil dos séculos XVI, XVII e XVIII, avultando-se os capelães bandeirantistas, pelos atos bárbaros que presenciaram sem nada fazer. Na terceira parte do Capítulo III, cujo título já teve sua enunciação, tratamos da abordagem de alguns aspectos significativos da retirada dos doze mil índios de San Ignácio e Loreto, as duas últimas reduções dentre as treze anteriormente existentes no Guairá. Dirigida pelo padre Ruiz de Montoya, essa fuga em massa para o extremo sul teve implicações singulares. Antes da partida, onze povoados haviam sido devastados pelos bandeirantes. A face mais fria da vilania havia se revelado portanto inúmeras vezes. Destarte, os índios de Loreto e San Igná cio experimentavam uma profunda sensação de perigo iminente, presas do medo historicamente construído. Entre os missionários, além do medo de homens, iniciou-se um processo de exacerbação mística, onde as inquietações advindas de especulações sobrenaturais associavam os bandeirantes ao diabo. Essas aflições religiosas forma naturalmente passadas para os índios, já que estes estavam ali sendo doutrinados pelos jesuítas. Indícios malígnos eram entrevistos pelos missionários, como estátuas suando ou chorando, aparições do diabo disfarçado de mameluco ou até mesmo ardilosamente sob a forma da Rainha do Céu. Estava presente no Guairá, de forma evidente, todo o arcabouço dogmático espiritual da Idade Média européia, especialmente respeitante à Espanha, ber ço da

Companhia de Jesus. A permanência da mentalidade religiosa medieval, com todo o seu fatalismo e sobrenaturalidade, delineou-se detalhadamente em Loreto e San Ignácio. Os escritos de Montoya deixam isso muito claro, pois anunciam a proximidade do final dos tempos, associando-a ao determinismo da passagem de um cometa. Em recente obra, intitulada Ano 1000, ano 2000:

na pista de nossos medos, Georges Duby aborda esta questão dos sinais da natureza, que eram entendidos no medievo como anunciadores do juízo final. O historiador francês inclusive cita as aparições de cometas entendidas como presságios, prelúdios do fim do mundo. Montoya, em certo trecho de A conquista espiritual, na iminência da partida para fugir dos bandeirantes, expressa- se como alguém que teme a proximidade inadiável do juízo final, exteriorizando, pelo teor ou conotação de suas palavras, sua convicção acerca do avizinhamento deste evento. Os bandeirantes chegariam espalhando a devastação. Estátuas haviam suado ou chorado. Aparições

sob a forma de mamelucos haviam sido observadas

do gênero humano 2 irromperiam em breve das matas, abatendo-se implacavelmente sobre as duas derradeiras povoações guairenhas. Os índios, doutrinandos dos missionários, absorveram todo esse denso imaginário apocalíptico, experimentando portanto não apenas o medo do bandeirante cruel e palpável, mas também do sertanista avatar do mal, impregnado de malevolência satânica. Para as intenções primordiais de nossa pesquisa, que centram-se na análise do desempenho corporal humano, a abordagem dessa situação de medo profundo e coletivo foi fundamental, pois abriu perspectivas coerentes, em termos estritamente científicos, de entendimento sobre a fuga dos doze mil índios do Guairá, liderada pelo padre Montoya. A fisiologia humana, ciência que trata do funcionamento e das funções orgânicas, possibilitou-nos o respaldo necessário para escrever com segurança sobre a intensa motricidade evidenciada pelos retirantes. O temor é uma sensação que desencadeia uma grande gama de modificações fisiológicas no corpo humano. Tendo sido os habitantes guairenhos submetidos ao medo historicamente construído (onze reduções haviam sido devastadas), bem como ao terror supersticioso (disseminado pelo s jesuítas), torna - se evidente que em seus corpos operou- se uma importante mudança de padrões fisiológicos, cujas especificidades determinaram uma situação de motricidade intensa. Em outros termos, pode ser dito sem reservas, que o desempenho corporal durante a fuga foi intensificado pelo medo. Um desempenho corporal sôfrego e obviamente

As hordas anticristãs 1 , os destruidores

1 Maxime Haubert, aludindo ao misticismo reinante no Guairá, escreveu que os mamelucos “ fariam parte das hordas do anticristo” (Haubert, 1990, p. 170).

notável, que fez com que os fugitivos alcançassem os limites do sul brasileiro, depois do padecimento da fome, da epidemia de disenteria e da exaustão física advinda da marcha e da navegação. As implicações fisiológicas advindas do medo são muitas. Pesquisamos na literatura específica da fisiologia do medo, buscando informações precisas sobre a relação medo- motricidade humana, visando sobretudo entender mais esmiuçadamente acerca do desempenho

motor dos retirantes do Guairá. Dessa pesquisa resultou um rol de informações indispensável para as intenções desta dissertação. Dessa forma, muitas explicações de ordem fisiológica estão inseridas no próprio texto que ora introduzimos, mas outras, necessariamente detalhadas, forma introduzidas ao final do trabalho, em forma de anexo. As explicações fisiológicas contidas no próprio texto, em nosso entendimento não reompem seu fluxo em termos historiográficos. Porém as outras, que estão em anexo, se inseridas no texto causariam um hiato na sucessão dos eventos analisados. Fazemos aqui estas considerações para justificar a presença das laudas em anexo, que não obstante saibamos não ser procedimento ordinário em trabalhos científicos, foram apensas motivadas precisamente por duas razões que emanam puramente do cientificismo. A primeira dessas razões é a preservação do entendimento histórico, que como já dissemos seria prejudicado por explicações fisiológicas detalhadas no próprio texto, uma vez que tais informações são compactas e extensas. A segunda razão reside na imprescindibilidade, na indispensabilidade de constar nesta dissertação todas as implicações fisiológicas do sentimento de medo, pois este assunto está relacionado, de forma indissociável, ao desempenho físico dos retirantes do Guairá,

que é o que buscamos evidenciar no texto.

caminhada para contornar as grandes quedas do rio Paraná, bem como a navegação em cachoeiras e correntes pedregosas, exigiu dos guairenhos um dispêndio energético muito grande, que exauriu seus corpos inopinadamente. Além da marcha e da navegação, mostrou-se também, de forma evidente, a grande habilidade de nado dos índios, quando algumas embarcações soçobraram. Muitos retirantes morreram pelo caminho, obstados pelas adversidades da disenteria, da falta de alimentos e do esgotamento corporal advindo do caminhar e do navegar. Os que alcançaram o sul do Brasil, alquebrados e esfalfados, ainda se puseram a reconstruir San Ignácio e Loreto, edificando prédios e templos, amainando e lavrando a terra. O êxodo dos índios e missionários do Guairá foi, em nosso entendimento, um episódio histórico onde a atividade corpóreo-motora se fez

A

intensa, ensejada pelo medo de sertanistas agressivos e escravocratas, que humanos ou inumanos, por sua vez também se movimentaram muito pelo Brasil Colonial, buscando aplacar a carestia de suas vidas. Comentemos agora o Capítulo IV: Bandeirismo: desempenho corpóreo-motor no Brasil Colonial. Este capítulo, o último de nossa pesquisa, divide-se em duas partes. Na primeira delas, intitulada Meninos, homens e anciãos: sede, fome e cansaço na marcha sertaneja, abordamos as implicações de notáveis adversidades verificadas nas caminhadas das bandeiras, buscando demonstrar que nessas oportunidades a performance física revelou-se de forma intensa, sobretudo pelos grandes percursos levados a termo. Milhares de quilômetros foram vencidos em situações distintas, onde a exaustão, a fome e a sede não raro se fizeram presentes. Nessas expedições, a presença de meninos ainda púberes, bem como a de homens idosos, foi por nós entendida como passível de mais detida análise, já que em extremos opostos da vida, em termos de idade, tais expedicionários denotaram ainda mais a performance física intensa, devido às características anátomo -fisiológicas próprias dessas faixas etárias, comprovadas cientificamente como limitantes em atividades que reivindicam esforços acentuados e constantes. Visando propiciar melhor entendimento sobre a inclusão de meninos e anciãos nas bandeiras, em termos de desempenho físico, lançamos mão de explicações fisiológicas e anatômicas, que esclarecem, em termos precisos, as particularidades das limitações impostas ao corpo pela meninice e pela velhice. Tais explicações, para não romper o fluxo do texto, foram colocadas em forma de notas de rodapé.

No mesmo texto, tecemos também algumas considerações sobre a motivação primeva de nosso estudo, que busca o entendimento acerca da atividade física do bandeirante não concebido como herói, mas enfocado sob o prisma da historiografia crítica. Nesse sentido, julgamos ser necessário dizer que a construção da figura do bandeirante herói, ao invés de ressaltar as evidentes performances corpóreo-motrizes levadas a cabo nas marchas, acabou por ocultá-las, já que as diluíram em partículas infinitesimais, inseridas em textos pomposos e empolados, onde profusos adjetivos eruditos concorrem para alçar o viandante planáltico à categoria de personagem epopéico. As marchas dos heróis, nesta representação apologética repleta de interfaces, padecem sob o domínio das motivações ideológicas, calcadas predominantemente na sugestão de liderança nata dos paulistas. Em outras palavras, o mito bandeirante, de certa forma e curiosamente, não se detém na particularidade mais espantosa de seu pretenso protagonista: o desempenho corporal evidentemente acentuado. A historiografia ufanista não se detém nisto pelo perigo daí decorrente

em evidenciar demais a pobreza de São Paulo, fator econômico que ensejou as grandes jornadas. Se percebidos como miseráveis, os paulistas iniciariam a ser entendidos como homens comuns, começariam a ser despidos de suas vestes de heróis, perdendo sua aura mítica. O homem

ordinário seria então vislumbrado

precisaria portanto de um paulista para governá - la. Poderia ser um mineiro, um pernambucano ou um matogrossense, já que o paulista nada tinha de diferente. Estaria assim desconstruída a representação heroística do bandeirante, caso a historiografia apologética o apresentasse como homem envergado e condicionado pelos determinismos históricos de seu tempo. Para nós, que procuramos visualizar o bandeirante sob o viés da historiografia crítica, evidencia -se ainda ma is a faceta do paulista viandante, que buscando se safar da carestia denotou notável rendimento motriz, percorrendo áreas grandes não apenas no interior da colônia portuguesa, como também na

América espanhola. Entendemos que qualquer outra característica construída do bandeirante não consegue, mesmo que tantas vezes reiterada na historiografia apologética, sobrepujar a faceta mais significativa do homem piratiningano, que foi a de cumpridor de extensas e extenuantes jornadas a pé, oprimido pela carestia do planalto paulista. Na segunda parte do último capítulo, intitulada O papel da motricidade bandeirante na mudança da configuração contextual do Brasil Colonial, procuramos mostrar como a motilidade dos paulistas causou modificações significativas na

sociedade colonial. Nessa tarefa, a obra ¿ Y que és la História ?, de Saturnino Sanches Prieto, de imediato descortinou importantes possibilidades de aplicação objetiva em nosso estudo, apresentando- se como satisfatório respaldo teórico- metodológico. Utilizamos também os conceitos de Romein citados na obra de Prieto sobre “ El Progreso”, ao abordar a prosperidade dos engenhos nordestinos, em contraposição à penúria vivenciada em Piratininga, berço do bandeirismo. Prieto, citando Romein, escreveu que a “ atmosféra de la autosatisfaccion es suscetible de actuar como un freno a nuevos progresos”, observando ainda que “ el progreso

viene muchas veces de otros pueblos atrasados

condiciones, es una vantaja que espole hacia nuevos esfuerzos” . O atraso de São Paulo em relação ao Nordeste no século XVII era evidente. Nos sólidos engenhos nordestinos, alicerçados no poder dos grandes senhores de terras, a “ atmosféra de autosatisfaccion” se fazia presente. Na

Vila de Piratininga, cujo cotidiano se fazia repleto de privações e adversidades, tal “atmosféra” não era experimentada, ensejando condições onde a população buscou soluções práticas para

mas o Brasil está cheio de homens ordinários. A nação não

” , e ainda que “

el retraso, en ciertas

seus problemas, configurando os “ nuevos esfuerzos” de um “ pueblo atrasado”, que devassou as brenhas à cata de índios e minerais de valor. A leitura da obra de Prieto, além de ter sido útil em termos de aplicação prática em nossa pesquisa, facilitou, através das teorias do historiador J. Romein, um entendimento mais específico do que é entendido como progresso em termos historiográficos, contribuindo sobretudo para que pautássemos, de forma mais embasada, a situação econômica díspar verificada entre o planalto de São Paulo e as capitanias do nordeste. Após feitas as considerações sobre os fatores que determinaram as marchas dos bandeirantes, fatores esses entendidos como contingências históricas, partimos para a análise de algumas expedições bandeirantistas do século XVII, que por suas peculiaridades variadas configuraram-se como situações onde a faina física avultou-se de forma perceptível. Abordamos a expedição de Domingos Jorge Velho, que cumpriu seis mil quilômetros de percurso antes de assaltar o Quilombo dos Palmares. Enfocamos também a bandeira de Antônio Raposo Tavares, que caminhou de dez a doze mil quilômetros pela América Colonial. Nessas duas oportunidades as dificuldades foram extremas,com muitas baixas registradas em seus respectivos contingentes. Agruras significativas foram também vivenciadas pelas expedições do início do século XVIII, que trouxeram à luz o ouro de Cuiabá, no Centro-Oeste brasileiro, afastado aproximadamente dois mil quilômetros de São Paulo. Pululam na historiografia – tanto crítica quanto apologética – os revezes enfrentados pela prospecção aurífica no oeste, à época em muitos pontos intocado por homens não naturais daquela extensa área. A bandeira de Pascoal Moreira Cabral jornadeou por caminhos incógnitos, antes de encontrar incrustações de ouro nas barrancas do Coxipó-Mirim. Não menores adversidades enfrentou Miguel Sutil, que graças a dois indígenas coletores de mel, encontrou o ouro de aluvião, no lugar onde germinaria a vila de Cuiabá. Contemporaneamente, em terras goianas, a expedição de Bartolomeu Bueno da Silva Filho perdeu quatro dezenas de integrantes, mercê do esgotamento corporal imposto pela fome. Depois desse infortúnio, em nova arremetida, o próprio Bueno da Silva acabou por liderar outra expedição, desta feita encontrando os jazigos auríferos de Goiás. Essa expedição, para Synésio

Sampaio Góes Filho – que publicou em 1999 a obra Navegantes, bandeirantes, diplomatas – foi a última bandeira típica de que se tem notícia. Não faz parte de nossas intenções embasar demoradamente nossa concordância ou discordância em relação às palavras deste autor, já que o foco central de nosso estudo não procura tanger essa questão. Contudo, expressamos nosso entendimento de que a passagem da época bandeirantista para a monçoeira não se deu de forma

compartimentada, abrupta ou estanque. As monções foram gestadas no bojo do bandeiriamo, cujo princípio primário era a locomoção, que entre estes dois períodos utilizou-se de vias de penetração distintas: as veredas das matas e a rede hidrográfica. A descoberta do ouro no Centro-Oeste deu-se no ocaso do bandeirismo. As últimas expedições a pé propiciaram então, pelo sucesso de suas prospecções minerais, um afluxo de grande contingente para a proximidade das minas. Essa migração envolveu não apenas os

moradores da colônia, como também os de alé m-oceano. Em face disso, foi aberto um caminho pedestre para Goiás, ao mesmo tempo em que as expedições fluviais Porto Feliz-Cuiabá foram se tornando a preponderante via de acesso para as paragens do ouro de aluvião. Esmaecia o bandeirismo propriamente dito, que em primeira instância causara essa nova dinâmica na colônia,

uma nova época, no dizer de Alfredo Ellis Júnior. A transmigração

que envolveu milhares de pessoas, acabou por deslocar as populações do nordeste para o sudeste, ponto de partida para alcançar as minas recém-descobertas. Dessa forma, a prosperidade que antes se associava ao cultivo canavieiro nordestino, passou a ser relacionada à mineração. O rush do ouro no século XVIII acabou por adensar demograficamente outras áreas do Brasil, que atraíram – com o correr do tempo – para si, até mesmo o poder político central, que transladou-se da Bahia para o Rio de Janeiro em 1763. As monções partiam de São Paulo,

pelo rio Tietê, atraindo aventureiros provindos de diversos lugares. A capitania de São Vicente aumentou drasticamente sua demografia, tornando-se paulatinamente a mais populosa da colônia, característica que – guardadas as devidas proporções – ainda é observada no estado de São Paulo do Brasil atual. Estas últimas observações, quase um exercício parafraseático de alguns trechos da última parte do Capítulo IV, foram ensejadas para que evidenciemos nosso entendimento de que a motricidade corporal dos integrantes das bandeiras, tendo como fator desencadeante a pobreza paulista, contribuiu, de forma importante, para a mudança da configuração contextual do Brasil Colonial. O ouro estava no interior do continente, no hinterland, distante e escondido. Os bandeirantes o encontraram, após uma miríade de expedições desvestidas de êxito. Marcharam não raro exaustos, ultrapassando os limites de seus próprios corpos, acossados pela sede, pela fome e pelo sentido de alerta ante as matas desconhecidas. O desempenho físico desses andejos possibilitou o encontro do almejado metal, que por sua vez determinou as significativas mudanças ocorridas no Brasil Colonial, já aludidas preliminarmente.

acentuada,

CAPÍTULO I

O BANDEIRANTE E O BANDEIRANTISMO

1. Do mito ao homem comum

A análise do movimento bandeirantista, fora da ótica do herói, a partir do estudo das condições sociais de vida, evidencia o alto nível de violências perpetradas contra os silvícolas

Luiza Volpato

O marco inicial da colonização efetiva do Brasil foi a fundação da Vila de São Vicente, por

volta de 1532. Situado em estreita faixa litorânea, o núcleo populacional nascente, instituído por

Martim Afonso de Souza, voltava - se para a Metrópole de além-mar. Já no princípio do

povoamento, foi construído o primeiro engenho de açúcar da Colônia, sob o nome de São Jorge

dos Erasmos, tendo o segundo surgido quase simultaneamente, denominado Madre de Deus.

Distante duas léguas, nascia também a Vila de Santos, erigida por Brás Cubas.

O cultivo canavieiro em São Vicente logrou êxito, com produção suficientemente

satisfatória para que o porto de Santos sustentasse movimentado comércio. A navegação regular

que paulatinamente se estabeleceu, propiciou aos vicentinos um cotidiano sem graves carências,

permitindo-lhes inclusive a obtenção de produtos provenientes da Metrópole.

A Serra do Mar foi transposta duas décadas depois da fundação de São Vicente, a 08 de

setembro de 1553, ensejando a ocupação do planalto paulista. Estava lançada a semente de uma

sociedade que viria a se distinguir daquela que vivia na orla marítima. No lugar onde era a aldeia

Inhapuambuçú, do líder indígena Tibiriçá, os jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta

fizeram germinar a Vila de Piratininga, a 25 de janeiro de 1554, referência decisiva para o

engrossamento da ocupação planaltina.

Do povoado que então se formou surgiria a figura do sertanista, do andejo que viria a

adentrar as matas visando apresar índios para, num primeiro momento, escravizá -los no labor

assistencial e, posteriormente, com a demanda de mão-de-obra dos engenhos, comercializá-los.

Essa relevante faceta do bandeirante, caçador e traficante de indígenas, é minimizada

sobremaneira na obra de Ricardo, que engendra uma concepção identitária do homem planáltico

representado predominantemente como um desbravador heróico e cristão, em busca de ouro e

pedras de valor.

Confessa-se o chefe da bandeira antes de sair. Logo depois parte o grupo heróico e aguerrido. Rezarão por ele os poucos que ficaram. Também ele o

fará, já nos confins do mundo

(RICARDO, 1942, p. 211).

O autor de Marcha para Oeste ainda confere aos bandeirantes as qualidades de arautos

da democracia, de opositores do capitalismo mercantilista europeu e de promotores da

miscigenação racial.

agregações

democráticas, caracterizando-se por uma rígida estratificação hierárquica, onde o mando do cabo-

de-tropa ou mestre-de-campo era proeminente. A participação indígena nas expedições

desenvolvia -se sob o espectro do autoritarismo, sendo que os trabalhos executados por não

índios, situados nos patamares hierárquicos inferiores, também ocorriam sob a mesma égide.

Evidenciou-se

em

VOLPATO

(1985)

que

as

bandeiras

não

eram

Ressaltemos que muitos aborígenes engajados nas bandeiras de caça ao índio, eram eles

mesmos provenientes de apresamentos anteriores.

Essa prática remonta aos primórdios do bandeirismo, quando os primeiros índios foram

amansados pelos paulistas.

Na obra A questão indígena na província de Mato Grosso escreveu Vasconcelos:

Marcante, contudo, foi a formação de bandeiras com a presença de índios

Desde o século XVI os

portugueses

indígenas na busca de cativos

para combater e capturar outros índios. (

)

usaram

intermediários

(VASCONCELOS, 1999, p. 105).

Tecendo considerações sobre os subterfúgios apologéticos de Ricardo, observou o

mesmo autor:

Na obra Marcha para oeste, Cassiano Ricardo tentou eximir o bandeirante da responsabilidade sobre a chamada fase da ‘bandeira de prea’, dando um significado mais complexo ao bandeirantismo (VASCONCELOS, 1999, p. 104).

Essas pala vras de Vasconcelos são lapidares, uma vez que propiciam um entendimento

mais crítico acerca do tergiversar de Ricardo, que busca evasivas para ocultar a característica do

bandeirante como caçador de indígenas. Evidenciando não apenas o apresamento, como também

o engajamento do próprio índio nas expedições apresadoras, Vasconcelos contribui notadamente

para protrairmos a intencionalidade presente no discurso de Ricardo, que simplesmente

fundamenta a mobilidade bandeirantista na perspectiva de obtenção de minérios valiosos, lançando

mão de um vocabulário exageradamente épico, evocando até mesmo seres mitológicos, guardiães

de riquezas naturais ignoradas pelos paulistas. Vejamos as palavras de Ricardo sobre as

motivações das marchas bandeirantistas:

Atrás daqueles mataréos trágicos que pareciam querer contar-lhes o segredo de uma fortuna escondida por dragões exclusivistas e odiosos. Esses mitos, sim – arrastaram os grupos terra adentro. Naquela mobilidade dramática e estrepitosa que ainda nos enche de espanto (RICARDO, 1942, p. 46).

Panegirista do bandeirismo, Ricardo afirma, na mesma obra, que o objetivo principal das

expedições era a busca de pedras preciosas, chegando a mencionar que “uma esmeralda valia

mais que um latifúndio” (RICARDO, 1942, p. 51). Nota-se claramente a tendência antagônica de

suas assertivas, posto que na mesma obra o autor atribui aos bandeirantes a característica de

opositores do capitalismo mercantilista europeu. Parece-nos que quem parte para os mataréos

trágicos em busca de algo de grande valor, está em verdade raciocinando sob a lógica capitalista,

ansiando por lucro pecuniário. Expedições que buscavam unicamente riquezas minerais realmente

existiram, porém a maioria das bandeiras tinha como objetivo principal o apresamento de índios,

visando o labor escravo assistencial e o tráfico escravista para os engenhos canavieiros, o que

também era uma atividade mercantil do capitalismo, em sua fase de acumulação primitiva. Algumas

dessas expedições, ao mesmo tempo que apresavam aborígenes, não se furtavam de promover

também a prospecção de jazidas minerais, com as atenções de seus integrantes também voltadas

para este fim.

MONTEIRO (1994) explica que o ciclo bandeirantista de apresamento de índios só

findou-se no final do século XVII, quando a busca de jazidas auríferas robusteceu-se

notadamente.

No que tange à miscigenação, a representação mítica do bandeirismo engendrou a idéia de

igualdade e democracia racial. A igualdade inter-racial inexistiu nas bandeiras. Exemplo modelar é

o de Fernão Dias Pais, que para seus dois filhos dispensava atenções díspares. Um deles, Garcia,

“legítimo branco”, recebia atenções paternais convencionais; o outro, José, “mestiço-bastardo”,

experimentou o detrimento imposto por sua hibridez.

A última expedição de Fernão Dias partiu do planalto paulista em 1674. Já no sertão

houve um motim, que foi debelado com a execução dos amotinados. Entre os assassinados estava

José, o filho mestiço do chefe bandeirante.

Domingos Jorge Velho extinguiu definitivamente o Quilombo de Palmares em 1695,

quando matou o líder negro Zumbi. Tempos depois, instalado na propriedade que recebeu como

recompensa pelo feito, foi visitado pelo Bispo Dom Francisco de Lima. O religioso horrorizou-se,

quando Jorge Velho apresentou-se com suas sete concubinas índias.

Ao Bispo horrorizavam particularmente as ‘barbaridades, costumes e vícios’ do paulista, que andava ‘metido pelas matas à caça de índios e índias, estas para o exercício de suas torpezas e aqueles para o granjeio de seus interesses.’ (GRYZINSKI, 1995, p. 74)

A democratização biológica mitificada por Ricardo, parece em primeira instância,

esbarrar na poligamia. As relações sexuais entre bandeirantes e índias eram principalmente

pautadas por motivações unilaterais, com o sertanista subjugando a mulher, não se importanto com

sua disposição para o ato.

Observemos o que escreveu Volpato:

Era comum ao homem do sertão o uso de índias como concubinas. Esse concubinato era ao nível da exploração, numa relação na qual a índia era aviltada, tanto em sua condição de mulher, como em sua condição de raça dominada (VOLPATO, 1985, p. 73).

O abuso sexual de mulheres autóctones era na verdade um costume claramente recorrente

entre os bandeirantes. Muitas vezes, as índias nem mesmo eram tomadas como concubinas, já que

o concubinato é entendido como convivência e conjunção carnal cotidianas. O uso de índias

como concubinas, como escreveu Volpato, talvez fosse uma prática menos ultrajante – se

podemos assim dizer – que a curra ou o estrupo propriamente ditos, verificados principalmente

nos ataques às reduções jesuíticas. Quando do assalto dos paulistas à redução de Jesus Maria,

observemos o que escreveu o Padre Ruiz de Montoya:

Às mulheres deste povo e de outros destruídos, quando de boa aparência, fossem elas casadas, solteiras ou pagãs, encerrava-as o dono consigo num aposento, passando com elas as noites como o faz um bode num curral de cabras (MONTOYA, 1985, p. 246).

Relações sexuais forçadas, onde a aquiescência das índias era obtida através da violência.

Estas são as situações mais recorrentes na história do sertanismo, sendo bem mais esporádicas as

ocasiões onde a cópula era precedida por cortejos, ou após o consentimento do autóctone

progenitor da mulher desejada.

Neste sentido, a democratização biológica que Ricardo atribuiu aos bandeirantes não

parece ter sido construída em bases essencialmente democráticas. Contudo, vejamos as palavras

desse autor: “

anti-democrática” (RICARDO, 1942, p. 63, Vol. 2).

A mestiçagem é uma reação bio -democrática da raça contra uma condição social

Conforme ficou claro em Gryzinski, Volpato e Montoya, o uso sexual das mulheres

naturais da terra era encetado pela vontade inflexível dos sertanistas. Em outras palavras,

parafraseando Ricardo, pode ser dito que a mestiçagem é uma reação bio-ditatorial contra

uma condição social democrática. Arriscamos essa paráfrase entendendo que em qualquer

condição social democrática a mulher é livre para escolher seu parceiro sexual, situação essa que

não era comum na conjunção física entre bandeirantes e índias. Parece-nos até que Ricardo

comete um anacronismo, ao perspectivar a análise da mestiçagem sob o prisma da democratização

racial, uma vez que aos atos cotidianos do Brasil Colonial não parece ser adequada a evocação

dos valores da democracia, como ela era entendida nos anos quarenta do século XX, quando foi publicada sua obra Marcha para Oeste, onde reiteradas vezes ele tange a miscigenação como elemento fomentador da democracia racial.

A quintescência da antítese da democracia racial foi protagonizada por João Leme. Tal

sertanista mantinha uma índia como concubina, vindo a descobrir que ela era amante de um índio. Aviltado em seus brios, João Leme mandou prender os dois, torturou-os, providenciou a

castração do rival e finalmente consumou a dupla execução. João Leme era um dos legendários irmãos Leme, que mesmo inseridos no universo violento do bandeirismo, lograram granjear fama de facínoras temíveis. Os diversos crimes desses homens façanhudos 3 acabaram por levar suas cabeças a prêmio. Tais criminosos foram mortos, tendo sido o juiz Godinho Manso quem instituiu a recompensa. Panegirista proeminente do bandeirismo, Taunay apelidou Godinho Manso como

abutre forense (Taunay apud Ricardo, 1942, p. 238).

A história do bandeirismo é sobretudo impregnada do derramamento de sangue indígena,

do despovoamento das matas e da exploração do homem pelo homem. Os núcleos populacionais ensejados pelas expedições, em suas características iniciais, configuravam-se como pequenas agregações humanas, próximas ou mesmo insinuadas nos perímetros então esvaziados, onde antes aldeias inteiras existiram, povoando desde há muito o interior do continente. Arrancado de sua vida tribal, o homem natural da terra tornou-se trabalhador escravo nos engenhos e nas lavouras de cana, sendo também utilizado sobretudo como flecheiro, em novas expedições de apresamento. Teríamos muitos exemplos para corroborar as mazelas impostas aos índios no Brasil Colonial. No entanto, basta evocar dentre tantos outros, o caso da bandeira de Domingos Jorge Velho, que promoveu o assassinato em massa de aproximadamente 300 tapuios no Nordeste, devastando suas principais aldeias. Em 1638, o rei Felipe IV nomeou uma comissão de espanhóis e portugueses, visando a apuração das denúncias feitas pelos jesuítas contra os bandeirantes. Tal comissão acusou os andejos paulistas do apresamento ou morte de 300 000 (trezentos mil) índios. Volpato, contudo, esclarece que não se sabe ao certo a quantidade de silvícolas arrancados das matas e missões jesuíticas: “ Grande parte deste contingente se perdia nas longas caminhadas a pé desde o local de apresamento até São Paulo” (VOLPATO, 1985, p. 14). Levando-se em conta o que escreveu Monteiro, no que diz respeito ao fechamento

3 Adjetivo aplicado aos irmãos Leme por RICARDO, C., Marcha para Oeste, p. 237.

do ciclo de caça ao índio no final do século XVII, conclui-se que após a apuração da comissão

mista em 1638, as muitas outras expedições de apresamento promoveram escravização e morte

de um número não estimado de indígenas, que elevou a estimativa calculada pelos portugueses e

espanhóis nomeados por Felipe IV. O próprio bandeirismo de contrato de Domingos Jorge Velho,

que devastou os tapuios no Nordeste, passando à larga do apresamento e praticando o assassinato

em larga escala, ocorreu já no último decênio dos seiscentos.

Com as bandeiras de busca ao ouro a

utilização de mão-de- obra indígena não se extinguiu, mas orientou-se de outras formas. O índio

continuou a servir os sertanistas em labores diversos, embora já não mais fossem objeto de tráfico

intensivo. Nas roças, na coleta de alimentos, na caça de subsistência, o homem natural da terra

continuava vivendo sob o despotismo de seus mandantes. O mel era alimento particularmente

apreciado pelos expedicionários paulistas, que para obtê - lo se serviam dos silvícolas, hábeis em

encontrar colméias seguindo as abelhas com os olhos. Em outubro de 1722, o sertanista Miguel

Sutil dirigiu-se do Arraial de Coxipó até a localidade onde hoje se ergue a cidade de Cuiabá,

visando observar uma roça já iniciada. Lá chegando, ordenou que dois índios saíssem à cata de

mel, munidos de machados e cabaças. Os índios demoraram a retornar, só o fazendo já noite

avançada, tendo Sutil os recebido com rispidez. Os meleiros haviam falhado na procura de

colméias, mas apresentaram ao irritado paulista um embrulho feito com folhas, contendo vinte e

três granitos de ouro, que pesavam cento e vinte oitavas. Assim, ao acaso, foi descoberto o ouro

em Cuiabá, por dois indígenas destros nos rastreamento melífico. Ocupamo-nos, até o

presente momento, em evidenciar alguns aspectos básicos do universo bandeirantista, emanados

das páginas da historiografia. Fez parte deste intuito divisar os bandeirantes como homens comuns,

que premidos pelas circunstâncias contextuais de seu tempo, buscaram alternativas práticas para a

solução de seus problemas diários. A conotação heróica do sertanista paulista foi iniciada pela

historiografia produzida no final do século XIX, tornando- se alentada no início do século XX.

Nos estertores do Governo Imperial, os cafeicultores de São Paulo prosperavam

pronunciadamente. Observemos o que escreveu Volpato:

Esse é o período em que os cafeicultores paulistas, impulsionados por um surto de desenvolvimento que o governo imperial não tinha como atender e premidos por exigências, ascenderam ao poder através da Proclamação da República (VOLPATO, 1985, p. 19).

Já encarapitados no poder, os dirigentes cafeeiros iniciaram a urdir a legitimação popular

de suas aptidões hereditárias de mando. Nessa urdidura, tais aptidões eram sugeridas como

provindas da ancestralidade bandeirante.

Gerações extemporâneas de uma mesma e

gloriosa linhagem, com habilidades já há muito comprovadas no exercício do poder.

Posteriormente, já nos anos 20 do século XX, o governo do estado de São Paulo investiu

significativamente em projetos de pesquisa sobre o bandeirismo, através de incentivos e

financiamentos. Essa iniciativa fez proliferar o número de trabalhos sobre o tema, com vários

livros sendo publicados. Surgiu deste rol a mais extensa obra sobre o assunto, História Geral das

Bandeiras Paulistas , de Afonso d’E. Taunay.

Heroicizado, o planaltino comum das origens de São Paulo, que outrora marchara para

oeste, foi identificado com a expansão dos cafezais, que então avançavam na mesma direção.

Herdeiros de um legado ancestral de liderança, instrumentalizado na representação mítico/política

do bandeirante, os cafeicultores paulistas buscaram a afirmação de seus dirigentes, catapultando-

os ao suposto nicho social que alojava os homens mais aptos para governar. Quanto a isso

explica Volpato:

Assim, os paulistas, descendentes dos bandeirantes, deveriam assumir o destino que lhes estava reservado e, a exemplo de seus ancestrais, tomar a liderança do país. Aos paulistas os brasileiros deviam as conquistas e as riquezas do passado; aos paulistas os brasileiros deviam o desenvolvimento do presente. Sua liderança não deveria ser questionada, porque lhes era própria. (VOLPATO, 1985, p. 19)

Sertanistas paulistas, cafeicultores paulistas

Confundindo os interesses de alguns com os de todos, ou seja, os interesses dos grupos

cafeeiros com os da Nação, a historiografia de então não apenas configurou-se como elemento

político-ideológico, mas também contribuiu sobremaneira na transmutação do sertanista planaltino

em figur a mítico/legendária, herói épico de um contexto rústico, que lhe reivindicava características

excepcionais para a solução das portentosas adversidades que se multiplicavam. Como

corroboração, observemos as virtudes do bandeirante apresentado por Ricardo, após a queda

da República Velha, revestido como detentor das qualidades de chefe da ditadura nacionalista do

Estado Novo:

O costume de só vermos o herói no chefe de bandeira nos leva a esquecer, ainda, outros aspectos de sua figura - entre os quais o governador

investido de todos os poderes, o chefe de um executivo que tudo ordena, o

legislador que decreta as leis

o juiz que dá remédio às desavenças e

queixas

tropa, o generalíssimo: é o próprio poder público, o ditador, o chefe de estado. (RICARDO, 1942, p. 27)

provê todos os atos da vida civil. Ele não é apenas o cabo de

Essas palavras de Ricardo são emblemáticas tanto no que diz respeito à instrumentalização

política do bandeirante, como no que tange à sua representação heroicizante. Para o autor, o

” -, mas também possuidor

de características administrativas que o qualificam a gerir expedições sertanistas ou nações:

“Ninguém como o chefe da bandeira encarna tão bem a concepção de governo forte.”

(RICARDO apud VOLPATO, 1985, p. 20)

As características de comando e capacidade administrativa são aqui atribuídas ao

bandeirante em adição à sua condição de herói. Ao mencionar que o sertanista paulista possui

outros atributos, em adendo à sua probidade heroística, Ricardo conota como inalienável esta sua

última faceta. Destarte, torna-se clara a insinuação do bandeirante como detentor de óbvio,

legítimo e irrefutável heroísmo. Ora, se o costume nos leva a só ver o herói em alguém, é porque

este alguém é supostamente herói em primeira instância. Se acaso este alguém possui ainda outras

qualidades, as possui além de sua condição primordial de herói. Em Ricardo, a historiografia do

bandeirismo engendrou um indivíduo que detém não apenas heroicidade, mas ainda inúmeras

outras qualificações em apêndice.

A própria hibridez racial do bandeirante, anteriormente desprezada e lançada no limbo das

etnias, passou a ser exaltada pelos panegiristas do bandeirismo, considerada como a forjadora de

um homem com características especiais. Um homem que reunia a inteligência do branco e as

habilidades físicas do índio. Este homem novo, apontado como privilegiado, era o mameluco, o

bandeirante mestiço. Em síntese, a mestiçagem, antes considerada degenerescente, passou a ser

apresentada como fator de aprimoramento racial, que propiciou o surgimento de um ser humano

excepcional, o mameluco, membro da raça de gigantes.

O interesse pelo estudo do bandeirismo, ensejado no fim do século XIX pelos próceres da

bandeirante não é apenas herói - “O costume de só vermos o herói

cafeicultura, e robustecido pelo governo paulista nos anos 20 do século XX, propiciou uma vasta

bibliografia sobre o tema. Autores como Taunay, Ricardo e Alcântara Machado tornaram-se

referências, em conseqüência de suas alentadas obras no que tange o assunto.

Bem antes dessas publicações, ainda no século XVIII, Pedro Taques de Almeida Paes

Leme escrevia sua Nobiliarquia Paulistana, Histórica e Genealógica. Essa obra, publicada

juntamente com outros trabalhos na década de 20 do século XX, já enaltecia os feitos

bandeirantes, porém não em proporções tão desbragadas quanto à produção bibliográfica que foi

estimulada primeiramente pelas cúpulas da cultura cafeeira, e posteriormente pelo governo do

estado de São Paulo.

Desde então, intermitentemente, o mito do bandeirantismo ressurgiu como insuflador de

sentimentos de varonilidade e tenacidade entre o povo paulista. Ressalta-se como exemplo

modelar a Revolução Constitucionalista de 1932 4 , quando São Paulo insurgiu-se ante a ditadura

de Getúlio Vargas, empunhando armas sob o argumento da reinstauração da democracia. O

Governo Federal apontou tal movimento como separatista. São Paulo contava inicialmente com o

apoio de Minas Gerais e Mato Grosso. Em dado momento, com o confronto bélico já deflagrado,

Minas Gerais inusitadamente aderiu às tropas governistas. A contribuição matogrossense foi um

batalhão de menos de uma centena de homens, comandado por Bertholdo Klinger. Nosso

objetivo, ao abordar essa luta armada, não é o de penetrar no âmago de suas implicações, mas tão

somente o de evidenciar a evocação da ancestralidade bandeirante 5 , num momento que

particularmente reivindicava a afirmação de sentimentos altaneiros e desassombrados. Atentemo-

nos para a letra do Hino da Revolução Constitucionalista, de autoria de Octávio Médice:

Marchai Paulistas

Bandeirantes da nova cruzada! Paulistas da terra de glória! Erguei-vos pela Pátria sagrada, Que o Brasil quer a nossa victória!

As falanges valentes, guerreiras, De entusiasmo e ardor varonil, Formarão destemidas Bandeiras Para honra do nosso Brasil!

No horizonte brilha o sol

O

sol da Lei e da Verdade;

E

de São Paulo é o arrebol

De toda a nossa liberdade!

Piratininga! A tradição!

Dos nossos filhos corajosos

E a desejada salvação

4 Tal movimento é também conhecido como Guerra Cívica de 1932 ou Epopéia Constitucionalista de 1932.

5 Às páginas 49, 50 e 51 estão apensas representações imagéticas identificando os combatentes paulistas de 1932 com seus ancestrais naturais, os bandeirantes. Trata-se de material comemorativo da Epopéia Paulista.

Dos brasileiros bravos e gloriosos!

Marchai, Paulistas! Fortes soldados da lei! Marchai, altivos!; Nosso Brasil defendei!

Bandeirantes de valor! Vede o nosso céu de anil! Vossos peitos e a altivez do nosso amor, São trincheiras da vitória do Brasil!

Bandeirantes! Para a guerra! Em defesa da nação!

A coragem que São Paulo encerra,

É de toda a nossa gente redenção! 6

Evocando os laivos épicos emanados da historiografia do bandeirismo, Médice construiu

versos incitadores.

A letra desse Hino Marcial denota a postulação do legado ancestral de liderança dos

paulistas, herdado dos sertanistas de Piratininga, revelando também a intenção de mesclar e

confundir interesses grupais (no caso os de São Paulo) com interesses gerais (os da Nação 7 ). A

liderança hereditária por merecimento, bem como a generalização de interesses, segundo Volpato,

foram as tônicas da instrumentalização política do bandeirante, efetivada no último decênio do

século XIX pelos dirigentes cafeeiros, e robustecida, com incentivos financeiros, pelo governo

paulista, nos anos vinte do século XX, como já vimos anteriormente. Mencionamos novamente

essa manobra político/ideológica, pretendendo verificar sua eficácia no que diz respeito ao

espraiamento da mitificação bandeirantista junto aos paulistas. A letra do hino Marchai Paulistas

foi escrita em julho de 1932, época em que a obra de Taunay se avultava como a mais alentada

dentre as produzidas na década anterior, quando dos incentivos pecuniários governamentais.

A historiografia do bandeirismo, unilateral e desbragadamente elogiosa no que tange ao

sertanista piratiningano, parece ter logrado êxito nos seus intuitos, disseminando eficazmente nas

instituições de ensino a construção mítico/heróico/épica dos habitantes das origens de São Paulo.

A letra desse Hino Marcial Paulista, foi composta, portanto, num contexto em que inexistiam

trabalhos ou obras que contrapunham a representação mítica da figura do bandeirante. Atentemo-

6 OLIVEIRA, F., Elementos para a história de São Simão, p. 339 e 340.

nos para o fato de que o autor da letra de Marchai Paulistas era um professor, um educador, que no transcurso de sua própria formação escolar assimilara (e até muito bem, pelo conteúdo das quadras escritas) a conotação heroicizante do bandeirante.

Até mesmo a concepção imagética dos livros didáticos atuais apresenta o sertanista paulista como um homem alto, forte e viril, paramentado com chapéu de abas largas, botas altas, gibão acolchoado e mosquetão. A expansão territorial lhe é atribuída em primeira instância, qualificando-o como responsável pelas dimensões geográficas do Brasil. O corajoso desbravador das matas é a figura primordial que se aloja no universo cognitivo dos educandos do ensino fundamental, desdobrando-se no senso comum, onde se reproduz em dimensões consideráveis. A reportagem publicada pela Revista Superinteressante (Abril/ 2000), aborda as bandeiras sob a ótica acadêmica atual. O texto publicado apresenta como referências John Manuel Monteiro e Sérgio Buarque de Holanda, enfocando os massacres de índios e missões jesuíticas, bem como o apresamento e tráfico dos negros da terra. A capa da revista exibe mestiç os maltrapilhos, encardidos e descalços, empunhando rústicas armas de fogo, encimados pelos dizeres:

Bandeirantes, a verdadeira cara dos conquistadores 8 . Parece-nos óbvio que tal chamada de capa não seria necessária, caso o grande público tivesse conhecimento dessa configuração dos bandeirantes. Em outras palavras, a concepção dos bandeirantes como heróis agrestes e bem paramentados parece estar bem disseminada na sociedade brasileira 9 .

Até o momento, nossas considerações visaram abordar o processo que la nçou os bandeirantes à linha limítrofe que separa mitologia e história, transformando numa representação construída o homem comum de Piratininga. Na historiografia do bandeirantismo, a tênue linha que divide história e mito foi notadamente ultrapassada, causando ação deletéria nas intenções de compreensão do período colonial brasileiro. Oportuniza-se aqui observar o que escreveu Vilar:

“ não negligenciemos o mito, porém certifiquemo-nos de que ele seja inserido numa evolução

histórica mais concreta, que deve ser reconstituída.” (VILAR apud D’ALESSIO, 1998, p. 43)

Entendemos que negligenciar a aura mitológica que envolve o bandeirismo seria uma omissão de nossa parte, embora não seja necessariamente o fulcro de nosso objeto de estudo. Por esse motivo, detivemo-nos neste assunto até agora. Nossa intenção essencial foi desalojar o bandeirante de seu nicho de glória, onde se torna difícil lobrigar o ser humano convencional.

7 À página 52, se encontra o brasão do estado de São Paulo, que à época da Revolução Constitucionalista sofreu uma interessante modificação.

8 À página 53, capa da revista Superinteressante, edição de abril de 2000.

Fomos movidos pelo cientificismo, uma vez que nossa postulação centra-se na atividade física proeminente do bandeirante - homem, não do bandeirante extra- humano, situado num patamar onde seus feitos são exaltados e glorificados, em detrimento de sua condição não extraordinária.

2. A luta contra a natureza

As duas décadas que separam as fundações das vilas de São Vicente e Piratininga, são fundamentais para que possamos entender claramente o surgimento do bandeirismo. Em São Vicente, como já vimos no início deste trabalho, a navegação mercantil, estabelecida com a Metrópole, supria a população de suas necessidades mais prementes. A cultura canavieira propiciava poder de barganha aos vicentinos, ensejando uma rotina livre de carências profundas. O açúcar garantia aos litorâneos mais abastados, proprietários de engenhos, a obtenção de artigos importados e de escravos africanos. Já a comunidade que se estabeleceu no planalto, experimentou desde o início um viver adverso, que apresentava dificuldades novas, inexistentes na orla oceânica. Assim, os paulistas de Piratininga praticavam a lavoura trigal de subsistência, produziam seu próprio vinho, manufaturavam seu próprio tecido e apresavam índios para o trabalho escravo. As características antagônicas dos povoados praiano e planáltico geraram sociedades díspares. Os habitantes de São Vicente, em virtude da ausência de necessidades básicas, vocacionaram-se para a afixação, para o sedentarismo; enquanto os planaltinos foram instados ao movimento. Na obra Caminhos e Fronteiras, Holanda aborda em minúcias o viver cotidiano na Capitania de Martim Afonso, resgatando detalhes que revelam as adversidades enfrentadas pelos paulistas, bem como as adaptações de costumes que ensejaram um universo misto, onde hábitos indígenas e europeus se interpenetraram. Na sociedade que se formou em Piratininga, nasceu o movimento bandeirantista, que iniciou a adentrar as matas apresando índios. Nestas incursões iniciais, os caminhantes exploravam

as florestas relativamente próximas ao povoado, uma vez que seu objeto de caça, o indígena, era

suficientemente fácil de ser encontrado. Esta é a gênese oficialmente veiculada e aceita no que diz

respeito ao bandeirismo, com a qual somos cordatos, considerando que bandeiras foram

expedições organizadas com objetivos específicos. Por outro lado, no que tange ao movimento

humano, lançando vistas para os tempos da ocupação do planalto, percebe-se que os homens

que galgaram a Serra do Mar já haviam empreendido intensa atividade corporal. A região serrana,

durante vinte anos, fora obstáculo considerado quase intransponível, impedindo aos vicentinos o

avanço para o interior do continente. Vários autores já escreveram sobre a grande montanha, que

por duas décadas manteve completa inacessibilidade. No que diz respeito a este acidente

orográfico, os escritos transcritos abaixo parecem ser convergentes:

Íngreme (a Serra do Mar), cheia de despenhadeiros, de acesso tão difícil que os caminhantes tinham de marchar agarrando-se aos arbustos, a montanha impunha-se quase como uma ‘muralha’ a impedir a penetração pelo interior. (VOLPATO, 1985, p. 27)

Subia o pessoal agarrando em raiz de árvore, machucando os joelhos em pedra e correndo o risco de rolar pela ribanceira. (RICARDO, 1942, p.

72)

Em concordância com Volpato e Ricardo, apresenta-se

caminho do mar:

Taunay, comentando sobre o

este caminho primitivo que na Serra de

Paranapiacaba tantos rumos tomou, vindo a ser chamado, no século XVI,

caminho do Padre José, começou como de esperar por ser o peior dos que

tinha o mundo

cooperação dos braços e até dos cotovelos

era freqüentemente vencido pelos ascencionistas com a

O caminho do mar

(TAUNAY, 1946, p.14)

Também em conformidade com Volpato, Ricardo e Taunay apresenta-se Holanda:

Vencida porém a escabrosidade da Serra do Mar

15)

(HOLANDA, 1990, p.

Aqui, a adjetivação da montanha aponta incisivamente para a hostilidade natural de sua

configuração topográfica. Segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa,

escabrosidade significa: 1. Qualidade de escabroso; ingremidade, aspereza. 2. Dificuldade. Ainda

segundo o mesmo dicionário, escabroso significa: 1. Pedregoso, escarpado, áspero. 2. Difícil,

árduo. 3. Oposto às conveniências.

Suspeitamos estar claro que a transposição da Serra do Mar exigiu intenso desempenho corpóreo-motor dos homens que se estabeleceram no altiplano paulista. O aclive acentuado e pedregoso, semi-coberto de vegetação e rochas soltas, ofereceu uma situação onde a atividade física se fez plena 10 . Esses caminhantes que alcançaram o planalto formaram o núcleo humano de onde surgiriam os bandeirantes. Muitos destes homens que transpuseram a montanha, posteriormente compuseram bandeiras, tornando-se portanto bandeirantes. Quando da transposição da montanha, esses homens denotaram resistência suficientemente satisfatória aos esforços corporais da empreitada. Para nós, a relação bandeirante-desempenho corporal teve início nos paredões da Serra do Mar, com os extenuantes esforços dos homens que avançavam rumo ao planalto.

Considerando que dentre eles houve integrantes de bandeiras, conclui-se obviamente que o já bandeirante de um tempo posterior deixara seu rastro na montanha abrupta, explicitando as primícias, os primórdios da principal característica bandeirantista, o movimento. As bandeiras, expedições sertanistas organizadas, foram embrionariamente gestadas na Vila de Piratininga. Isto é consenso. No entanto, a mobilidade dos paulistas do altiplano foi trazida pelos caminhantes que

venceram a Serra do Mar

Estas considerações pretendem buscar o entendimento de que o movimento é algo inerente ao ser humano, não propriamente exclusivo de grupos específicos. É verdade que certas configurações contextuais impelem o homem à atividades físicas mais intensas, como aconteceu na Vila de Piratinin ga. Faz-se necessário, no entanto, divisar o rendimento corpóreo como elemento presente em momentos assaz diversificados na história, permeando homens e grupos com objetivos diametralmente opostos. O desempenho físico dos bandeirantes não lhes era inato em exclusividade. Em termos anátomo - fisiológicos, os corpos dos caminhantes que compuseram as expedições paulistas não eram excepcionais. Ali estavam homens comuns, que premidos pelas circunstâncias, realizaram feitos físicos de envergadura verdadeiramente impressionante, como teremos oportunidade de verificar adiante.

ou a própria mobilidade os trouxe, como queiramos.

10 A escalada das escarpas da Serra do Mar envolveu quase a totalidade dos segmentos musculares dos corpos dos caminhantes. Braços e pernas em movimentos díspares, mãos que agarravam tenazmente nos galhos, com a força imposta pelo medo da morte. Pés que tateavam o solo, buscando o apoio mais seguro, evitando os elementos soltos. Cabeças que se voltavam para cima e para os lados, esquadrinhando o ambiente, procurando o caminho menos perigoso. Alta secreção de adrenalina, exacerbada sudorese, elevada freqüência cardíaca, grande ventilação pulmonar, fortes contrações miológicas, acentuadas vascularização e oxigenação muscular, pronunc iado dispêndio energético. Todos estes mecanismos fisiológicos levaram os homens que galgavam a serra a atingir seu objetivo, chegar ao altiplano.

Estamos abordando a transposição da Serra do Mar para evidenciar que o movimento físico, foi na oportunidade realizado por indivíduos que ainda não eram considerados bandeirantes, portanto homens desprovidos da aura épica do bandeirismo. Destarte, parece aclarar-se a concepção de que o rendimento físico, presente nas bandeiras, foi um desdobramento natural de dois espaços de tempo diferentes: num deles era preciso transpor a montanha, no outro era necessário caminhar em busca de índios. Curioso é observar que os escaladores da grande serra

não são considerados pela historiografia ufanista do bandeirismo como membros da raça de gigantes, mesmo tendo sido muitos deles bandeirantes posteriormente. A historiografia aponta o movimento corporal como vocação específica do homem já instalado no planalto, atribuindo notadamente tal peculiaridade ao bandeirantismo, desconsiderando a escalada da região serrana, com todas as suas adversidades naturais. Corroborando estas reflexões, numa só frase explicitamos nosso entendimento de que a mobilidade não é atributo apenas dos sertanistas do planalto paulista. A história não é carente de exemplos que respaldam esta asserção. Em diversos contextos históricos o desempenho corpóreo- motriz se fez proeminente, envolvendo homens de tempos e etnias diferentes. O movimento bandeirantista no Brasil Colonial insere-se como mais um elemento neste extenso rol, que abarca uma vasta gama de etnias e motivações variadas. Os homens que

venceram a escabrosidade da Serra do Mar, na iminência do prorrompimento da ocupação planáltica, não premeditavam a organização de bandeiras. Eram migrantes vicentinos, não heróis, não bandeirantes, eram indivíduos que deixavam para trás o caranguejar no litoral – no conhecido dizer de frei Vicente de Salvador –, buscando os cumes da penedia imponente. Inusitados alpinistas coloniais, desprovidos de acessórios que lhes conferisse maior segurança na escalada, confiando unicamente na força e destreza de seus braços e pernas. Pretendemos com estas considerações, alhear os bandeirantes já assentados no Planalto da condição de detentores de características físicas especiais. Vejamos o que escreveu Volpato: “A grande mobilidade das bandeiras não pode ser explicada a partir de condições físicas especiais dos paulistas.” (VOLPATO, 1985, p. 21) Por bandeiras entende-se expedições organizadas visando o apresamento de índios e a procura de minérios valiosos. Nestas expedições a intensa azáfama corpórea fez-se notória, porém sem que isso possa facultar-nos a possibilidade de alçar o bandeirismo ao zênite da escala das proezas físicas constantes na historiografia.

A gloriosa pujança da raça de gigantes provém em parte dos vicentinos que arranhavam

a costa como caranguejos, mas que acabaram por subir a Serra do Mar, usando suas frágeis

quelíceras 11 na admirável escalada.

Entendemos que a Serra do Mar foi um obstáculo extremamente difícil de ser transposto,

arriscando-nos ainda a refletir que talvez muito poucas vezes as bandeiras propriamente ditas

tenham enfrentado formações orográficas tão ásperas. Neste sentido, parece-nos razoável dizer

que os esforços físicos necessários para a ascenção em local tão abrupto e fragoso foram dos

mais notáveis do período colonial brasileiro, em face da diversificada performance motora que

envolveu a estrutura corporal dos ascensionistas, em termos literalmente globais. Não-bandeirantes

que lograram realizar uma tarefa que muitos bandeirantes jamais viriam a realizar, posto que em

tempos posteriores as expedições piratininganas já partiam do Planalto rumo ao interior do

continente, de costas para a Serra do Mar, uma grande muralha natural já vencida.

Na obra A economia paulista do século XVIII, Alfredo Ellis Júnior dedica o segundo

capítulo inteiramente ao propósito de ressaltar a existência de um lapso na historiografia que trata

dos primórdios de Piratininga, onde a Serra do Mar não é levada em conta, mesmo tendo sido um

elemento da natureza que influiu de forma suficientemente perceptível no contexto da Capitania de

São Vicente. Nesse texto, o autor faz observações enfáticas e extensas sobre a ausência de uma

abordagem que denote a relevância da Serra do Mar, enquanto elemento dificultador do acesso

ao Planalto.Inexiste na historiografia um trabalho que trate dessa questão a fundo, conferindo a ela

a significação devida. Citemos as palavras de Ellis:

Infelizmente, ao se estudar o passado paulista, não tem sido atribuída à Serra do Mar a importantíssima função por este arestoso acidente geográfico exercida na evolução do agregado humano localizado em Piratininga. O estudo do passado da nossa terra vem sendo feito, como se essa muralha orográfica não existisse (ELLIS, 1979, p. 65).

Embora a muralha orográfica tenha imposto esforços físicos acentuados aos primeiros

povoadores da Vila de São Paulo, a historiografia faz menções vagas sobre isso. A confragosa

cordilheira, que por vinte anos vedou o acesso dos litorâneos para o interior do continente,

aparece quase que obliterada na hist ória. Para isso contribuíram muito as enormes marchas

sertanejas, realizadas pelas bandeiras após a fundação de Piratininga. Tais empreendimentos, pela

característica recorrente de grandes distâncias percorridas a pé, ensombreceram a notável faina

11 Nome dado às patas dianteiras dos caranguejos, que são usadas para capturar suas presas.

física levada a cabo quando da transposição da montanha. Ao ascender à crista da grande serra,

os vanguardistas dos assentamentos planálticos venceram uma adversidade natural implacável, que

no entendimento de Ellis funcionou como elemento selecionador, que só permitiu aos homens mais

vigorosos chegar ao término da tarefa bruta:

Constrangidos a grimpar pelas arestosidade da serra, os vicentinos, é evidente, não puderam todos atingir o objetivo. Muitos ficaram pelo caminho! Outros desanimaram! Outros pereceram na difícil empreitada!

Não os ajudava o físico ou o moral. De fato, só venceram o páreo os mais bem dotados de músculos e de agilidade. A Serra do Mar foi um

(ELLIS,

verdadeiro filtro seletivo, eliminando os indivíduos menos fortes 1979, p. 66) (o grifo é nosso)

Ellis aponta, de forma nítida e incisiva, para o importante papel desenvolvido pela

performance corporal na escalada das escarpas inclementes. O grande desempenho físico exigido

pelos paredões abruptos extrapolou os limites de não poucos homens, que se abateram pelo

desânimo, desistindo em algum ponto do traiçoeiro trajeto. Também não raros foram os que

despencaram das ravinas alcantiladas, encontrando a morte ao final da queda. Não aquinhoados

com elevadas qualidades corpóreo-motrizes, indispensáveis para o cumprimento completo do

escalamento, esses homens foram retidos pelo agigantado filtro seletivo da natureza. Ao escrever

que só saíram vencedores os mais bem dotados de músculos e de agilidade, Ellis tange uma

nota crua, incomum na historiografia , posto que as passagens históricas onde o corpo se ressalta,

via de regra padecem sob o dogmatismo acadêmico das explicações derivativas, que deslocam a

estrutura física humana para a orla dos fatos, como se ela não atuasse como fator significativo para

a mudança dos contextos sociais, que por sua vez são partes integrantes das contingências ou dos

processos históricos. Cabe aqui esclarecer nosso entendimento de que a historiografia necessita,

obviamente, dos elementos contingenciais, para alcançar a compreensão dos processos históricos

ou das conformações contextuais. Contudo, isso não se eleva como concepção antagônica ao

nosso viés de percepção dos fatos ou episódios históricos, onde vislumbramos o trabalho corporal

atuando como fator de relevante importância. A subida da Serra do Mar, abordada por Ellis de

forma minuciosa, promove o entendimento insofismável de que o rendimento dos corpos dos

escaladores foi fator determinante, para que o intento de chegar ao planalto fosse atingido. Mais

ainda, não apenas o rendimento dos corpos, como também suas particularidades individuais, de

caráter não apenas anatômico, mas também motriz.

Corpos ágeis e corpos fortes, arrostando a impassibilidade inerte dos vultosos penedos,

das enganosas anfratuosidades dos paredões retos, correndo o risco da queda, da precipitação no

vazio. Corpos inábeis e corpos débeis, drenados pelo suor profuso, extenuados pelas contrações

musculares sequenciais

desistindo.

Dadas as particularidades da áspera escalada, os homens que chegaram ao topo da serra

corpos que não chegaram ao fim da ascenção, perdendo a vida ou

certamente sofreram escoriações corporais diversas. Trabalhando simultaneamente com braços e

pernas, arrastando o abdômen e tórax nas encostas, avançando como quadrúpedes no aclive

rochoso, os escaladores da montanha não escaparam de esfoladuras nos joelhos e cotovelos,

arranhaduras na parte frontal do tronco, cortes e luxações, devido a situações de contrações

musculares em posições anti-anatômicas.

As grandes escarpas, depois de vencidas, voltaram a obstar o caminho dos homens que as

haviam transposto, agora em sentido contrário. Vejamos as palavras de Ellis:

Dificultando pela sua aspereza o livre trânsito entre o planalto e o litoral, fez com que a vila de Piratininga se voltasse inteiramente para o sertão, onde o paulista ia buscar ‘o remédio para a sua pobreza’: o índio. Ou

pesquisar tesouros naturais de pedras e metais preciosos

(ELLIS, 1989,

p.277).

Desta forma, praticamente isolados da orla oceância e carentes economicamente, o

habitantes de São Paulo iniciaram a adentrar sistematicamente o sertão, iniciando a história das

bandeiras propriamente dita, que fora gestada, primariamente, na vanguarda da escalada da Serra

do Mar.

56

CAPÍTULO II

ÍNDIOS: CICERONES E MESTRES DO SERTÃO

Bandeira quer dizer movimento, e o movimento é o índio. Cassiano Ricardo

As marchas realizadas pelas bandeiras cobriram amplas distâncias, palmilhando

regiões até então infreqüentadas pelos europeus. Áreas ignotas, com densas massas

arbóreas, luxuriâncias verdes cujas copas ensombreciam troncos de diâmetros diversos,

irmanados e engastados pela trama do cipoal tropical. À primeira vista, não muito longe

das habitações perimetrais de Piratininga, a mataria parecia quase impenetrável. No

entanto, a inacessibilidade aparente das brenhas guardava trilhas toscas, que se espraiavam

para dentro do espesso emaranhado vegetal, avançando e entrecruzando-se rumo ao sertão

e à orla oceânica. À estreiteza dessas sendas somava -se ainda a profusão da galharia mais

baixa, obstando o avanço dos sertanistas do Planalto Paulista.

Na maioria das vezes os bandeirantes não devassaram florestas intocadas, mas

serviram-se dessas rústicas veredas ancestrais, que já existiam no continente.

Observemos o que escreveu Holanda: “Da existência efetiva destas vias já com

caráter mais ou menos permanente, antes de iniciar-se a colonização, nada autoriza a

duvidar” (HOLANDA, 1957, p. 23).

A origem de muitas dessas trilhas antigas, por vezes conferida aos índios, é também

atribuída às alimárias da fauna nativa. Quanto a isso, vejamos as palavras de Holanda:

E assim como o branco e o mameluco se aproveitaram não raro das

veredas dos índios, há motivo para pensar que estes, por sua vez, foram,

em muitos casos, simples sucessores dos animais selvagens, do tapir especialmente, cujos carreiros ao longo de rios e riachos, ou em direção

à nascentes d’água, se adaptavam perfeitamente às necessidades e hábitos daquelas populações. Hábitos a que os europeus e seus

descendentes tiveram de acomodar -se com freqüência nas viagens

terrestres

(HOLANDA, 1957, p. 35).

Parece estar claro que os sertanistas paulistas predominantemente não

incursionaram por regiões nunca antes palmilhadas, mas sim percorriam as matas servindo-

se de uma rede rudimentar de trilhas exiguamente estreitas, desde há muito utilizadas pelos

57

indígenas. Dessa forma, em primeira instância, a expansão das bandeiras foi auxiliada

pelas atividades caminheiras anteriores dos homens naturais da terra. Essas vias, por vezes

meros arremedos de acesso, serviam aos índios não apenas para sua locomoção em busca

de água, caça ou coleta de frutos, mas ainda para alcançar outras aldeias que pontilhavam a

mata. As andanças pelo continente começaram, portanto, muito tempo antes que as

embarcações dos portugueses atingissem as praias do Brasil. Não apenas os cascos do tapir

ou as patas da onça, mas muitos pés descalços já haviam pisado o húmus da floresta ou a

fragosidade dos campos, bem antes que a frota de Cabral zarpasse da Europa.

Especificamente sobre os Guarulhos, andejos do Planalto Paulista, observou Holanda:

Desses índios sabemos, por mais de uma referência, principalmente das atas da Câmara paulistana, que eram andantes e sem pouso certo. Muito caminho pisado mais tarde pelas bandeiras foi aberto e trilhado inicialmente por eles, e assim terão contribuído para marcar de modo definitivo a fisionomia da terra onde vagaram (HOLANDA, 1957, p.

33).

Furtiva e vigilante, mas sobretudo cons tante, a intensa movimentação do homem

natural da terra era indispensável para a manutenção da vida no ambiente selvagem.

Destarte, por serem então imprescindíveis à sobrevivência, o movimento e a atividade

física dos índios abriram picadas nas matas ínvia s da América, formando uma rede de

galerias rudimentares sob as copas das árvores. O cotidiano indígena, então ainda intocado

pelo europeu, configurava o antípoda do sedentarismo.

Vivendo em regime tribal, os nativos do continente não conheciam o

individualismo, partilhando comunitariamente com os de seu grupo os produtos advindos

da caça e da coleta. Por força deste hábito de partilha, que incluía informações sobre

veredas que conduziam a áreas de interesse comunitário, o fluxo intensificava -se a tal

ponto, que alguns caminhos se tornavam vias de trânsito regular, alargando-se mais do que

os outros, que eram predominantemente estreitos. Circunscritos ao meio agreste desde o

nascimento, os silvícolas naturalmente aprendiam, desenvolviam e apuravam, ao longo da

vida, uma vasta gama de técnicas que lhes assegurava a sobrevivência. Dentre esta miríade

de técnicas, que incluía práticas venatórias e de obtenção de alimentos, figuravam também

procedimentos que amenizavam o cansaço corporal advindo das grandes viagens a pé.

Viandantes de muitas jornadas, os indígenas granjearam experiência suficiente para

desenvolver uma pisadura singular, que diminuía os efeitos provenientes da exaustão

muscular e dos excessos causados às articulações dos pés. Quanto a isso, observemos o que

escreveu Volpato:

58

Caminhando com as pontas dos pés voltadas para frente e com os dedos dos pés voltados para baixo, os índios conseguiam uma distribuição mais uniforme do peso do corpo sobre as juntas dos pés e, com isso conseguiam evitar o cansaço precoce e alongar mais as caminhadas diárias. Estas transcorriam entre a madrugada e o entardecer (VOLPATO, 1985, p. 66).

Também sobre a maneira indígena de caminhar, bem como sua eficácia ante a

exaustão, observou Holanda:

Com seu sistema peculiar, os índios não só economizam trabalho, pois a ponta do pé encontra naturalmente menos superfície de resistência nos galhos e macegas, mas também devido à distribuição mais proporcional do peso do corpo, nenhuma junta desenvolve mais trabalho do que as outras, nenhuma parte sofre maior cansaço, e assim – viribus unitis – tornam-se possíveis percursos mais extensos (HOLANDA, 1957, p. 35).

Comparativamente aos primeiros bandeirantes, o cumprimento de grandes

distâncias por parte da população indígena se fez com menor sofrimento corporal, uma vez

que as particularidades de seus deslocamentos, mercê principalmente da singularidade do

pisar, propiciou uma situação anátomo-fisiológica que coibia em parte o desgaste na

estrutura articular dos pés. O deslocamento e o rendimento físico-motriz era elemento

fundamental para os povos indígenas do Brasil, sobretudo nos primeiros tempos da

colonização. As necessidades do regime tribal impunham o aprendizado de diversas

habilidades corporais, tornando os homens naturais da terra destros em múltiplas atividades

físicas, das quais trataremos mais adiante. Detenhamo-nos por ora nas marchas indígenas,

que contribuíram enormemente para o avanço dos bandeirantes mato adentro. Sem o saber,

subjugados pela postura senhorial dos cabos- de-tropa piratininganos, os índios foram os

verdadeiros mestres sertanistas dos bandeirantes, ciceroneando-os e iniciando-os nos

segredos do viver cotidiano, num universo que reivindicava habilidades específicas.

Guiando os expedicionários paulistas por trilhas incultas, os índios possibilitaram o

descortinamento de áreas remotas, nunca antes percorridas por homens oriundos de além-

mar. Desta forma, o alcance destas paragens longínquas foi em grande parte devido à

colaboração indígena. Vejamos o que escreveu Monteiro:

No decorrer do século XVII, a participação ativa de índios nas expedições tornava-se cada vez mais essencial, à medida que se buscavam cativos em locais desconhecidos pelos brancos (MONTEIRO, 1998, p. 111).

59

Pela metade do século XVII, profusa mataria cobria a região do atual estado de

Minas Gerais. Essa área, na época considerada sertão fechado e distante do Planalto

Paulista, apresentava, à semelhança dos arredores de Piratininga, significativo

entrelaçamento de veredas antigas, trilhadas pelos índios em tempos primevos. Respeitante

a isso, escreveu Barreiros:

Povoada por dezenas de tribos indígenas, essa área, que integra hoje o Estado de Minas Gerais, era certamente cortada por trilhas infindáveis, palmilhadas por ‘nações’ nômades de Tapuias, Pataxós, Tupimaés, e do famoso Cataguá, além de tantos outros, em suas constantes andanças. Sem a cooperação do chamado gentio manso, conhecedor desse intrincado emaranhado de caminhos incipientes, teria sido difícil a penetração do civilizado por aqueles sertões (BARREIROS, 1979, p.

05).

Destarte, suspeitamos estar claro que o avanço dos bandeirantes pelo sertão

incógnito contou com a importante colaboração dos indígenas, que familiarizados com as

tortuosidades, bifurcações e paralelismos das sendas , guiaram as expedições pelas brenhas

ínvias, por muitas vezes evitando que as marchas perdessem o norte. Por ignorar a

localização das sendas mais facilmente transitáveis, não raro as bandeiras enveredaram por

trilhas quase fechadas, nas quais perdiam tempo desbastando a galharia que obstava o

avanço, diminuindo o ritmo da marcha. No desbaste destes caminhos arremedados, o

trabalho físico era considerável. Usando facões e machados, os sertanistas, especialmente

os vanguardistas da expedição, empreendiam de sgastante atividade braçal, que aumentava

consideravelmente o cansaço corporal até ali advindo do caminhar. Para as muitas

bandeiras que contavam com índios conhecedores da trama formada pelas trilhas, o

avançamento era mais regular, uma vez que os caminhos menos incultos eram escolhidos,

sendo preteridos os menos batidos ou semi-abandonados.

A conformação das matas era familiar aos silvícolas, que sabiam onde estavam pela

observação das espécies vegetais e outros elementos. Sendo assim, se por vezes ocorria

adentrarem trilhas intransitáveis no ciceronear expedições, os índios, via de regra, não

tardavam muito em conduzir as tropas para uma via menos rústica. Uma determinada

árvore, uma pedra mais avultada, um toco à beira do carreiro ou um cipoal mais espesso; o

avistar de qualquer destes elementos comumente orientava os indígenas, não raro

indicando a proximidade de um trilheiro de melhor fluxo. Nessas oportunidades, os índios

guiavam as expedições no ato de abandonar a vereda, adentrando o mato fechado, onde

60

depois de caminhar desbastando certo trecho, apresentava -se uma trilha mais espaçosa do que a anterior, possibilitando a marcha regular, sem interrupções 12 . Em carta ao rei de Portugal, em 26 de outubro de 1725, já quando os sertões haviam sido pa lmilhados nas mais diversificadas direções, escrevia Rodrigo César de Menezes: “É

certo senhor, que sem o gentio não podem os paulistas talhar os sertões” (NDIHR/Documentos Ibéricos – Mfcha 15 – Doc. 750 – Anexo 02). Cumpre observar que essa missiva ao rei foi escrita já no fim do primeiro quartel do século XVIII, mais de um

século e meio após as primeiras entradas. Servindo-se da submissa assistência dos índios, os bandeirantes obtiveram preciosas facilitações em seus deslocamentos pelos sertões. Destit uídas desta assistência calcada na experiência agreste, as jornadas das bandeiras muito provavelmente sofreriam importantes ações deletérias em seus avanços, ao revelar inabilidade em situações díspares. Muito mais numerosos teriam sido os desnorteios na trama das matas, mercê da ausência do conhecimento necessário para avançar, utilizando os referenciais naturais do meio agreste.

A colaboração indígena nas expedições paulistas foi de fundamental importância. No entanto, faz-se necessário salientar que muitos grupos nativos do Brasil empreendiam suas andanças circunscritos à satisfação de suas necessidades, ou seja, locomoviam-se por sendas específicas, que os conduziam à caça, à água e aos frutos nativos, essenciais à sobrevivência. Em outras palavras, es tes grupos indígenas caminhavam por áreas restritas, prescindindo de avanços maiores, uma vez que nenhuma necessidade os impelia. Quando escrevemos áreas restritas não queremos dizer necessariamente áreas pequenas, mas

procuramos promover o entendimento de que as andanças de muitos grupos indígenas ligavam-se diretamente ao abastecimento de víveres, restringindo-se a paragens específicas, onde a obtenção era certa. Dissociadas das bandeiras, as caminhadas indígenas eram reguladas pelo senso tribal, obedecendo a fundamentos que visavam o sustento coletivo, que por sua vez era configurado como nítida linha limítrofe em termos de distância. Nesse sentido, parece-nos razoável observar que as marchas dos índios apresentavam padrões de finitude. Obtendo

água e alimento, encerrava -se o estímulo para a continuidade da locomoção. Já as expedições bandeirantistas, especialmente as que buscavam riquezas minerais,

12 Apenas para avançar caminhando, excetuando-se outras situações de esforço físico, os bandeirantes, guiados pelos ínidios, empreendiam atividade física que envolvia trabalho de membros superiores e inferiores, ora simultâneo, ora alternado.

61

movimentavam-se muitas vezes sem padrões de finitude , uma vez que o objeto de sua

procura jazia desconhecido em algum lugar do sertão. Diferentemente dos indígenas - que

sabiam onde estava o regato para coletar água, onde era o carreiro do veado para caçá-lo -,

os bandeirantes concebiam previamente a possibilidade de percorrer extensões incertas,

ignorando a área onde seus objetivos poderiam ser eventualmente atingidos. Destarte, a

finitude do caminhar só se dava quando do encontro dos sertanistas com seu objeto de

busca. As expedições, portanto,

longas jornadas a pé, empreendidas pelas bandeiras, de certa forma fizeram com que os

silvícolas nelas inseridos cobrissem distâncias maiores do que costumavam cobrir, quando

anteriormente palmilhavam determinadas áreas do sertão, buscando os elementos que sua

sobrevivência reivindicava. Ao trilhar distâncias mais amplas com as bandeiras, os índios

ultrapassavam os limites de seu primitivo território de ação, quando então os carreiros e

trilhas não mais lhes eram conhecidos. Nessa situação ulterior, onde sua faceta de

cicerones quase desaparecia, os indígenas continuavam contribuindo com o avanço das

expedições, especialmente com suas habilidades de encontrar água e alimento no ambiente

florestal.

A possibilidade de ficar sem água em suas incursões era uma das grandes

preocupações dos bandeirantes. Valendo-se da habilidade indígena, muitos paulistas foram

poupados de morrer de sede, mormente em regiões que não apresentavam minas ou

ribeirões. Os habitantes naturais da terra propiciavam aos expedicionários piratininganos a

presencialidade de situações inusitadas, onde técnicas aparentemente rústicas denotavam

grande eficácia. Como aprendizes ante doutos mestres, ainda que não o demonstrando em

termos atitudinais, os bandeirantes assimilaram ensinamentos valiosíssimos provindos dos

índios. No que diz respeito às maneiras utilizadas pelos indígenas para obter água,

escreveu Volpato:

operavam com a noção de distâncias desmedidas. As

habilidades

mesmo

córregos e algumas vertentes. Desde cedo os silvícolas aprendiam a descobrir a existência da água pela configuração e coloração do terreno, pela temperatura do vento e por outros sinais só perceptíveis

desenvolvidas

foi

de

valor

extraordinário

índios

em

para

os

sertanistas

olhos

as

pelos

descobrir

d’água

ou

àqueles que tinham uma vida toda passada no sertão 1985, p. 69).

(VOLPATO,

A perícia indígena em encontrar água potável não se restringia apenas a minas que

afloravam da terra ou de rochas, bem como a riachos ou ribeirões. Outras possibilidades,

perceptíveis apenas aos sentidos apurados dos nativos, se revelavam em meio aos profusos

62

elementos silvestres. Determinadas espécies vegetais (como a árvore -fonte ou samaritana

do sertão, o umbuzeiro, o taquaruçu, o caraguatá e algumas espécies de cipó)

apresentavam-se como dádivas aos viajores das bandeiras, aplacando-lhes a tortura

imposta pela sede. Desconhecidos dos primeiros sertanistas piratininganos, tais vegetais

foram a eles revelados pelos índios. Com o decurso dos anos, após sucessivas incursões,

muitos bandeirantes tornaram-se tão destros quanto os índios, em suas técnicas de

prospecção hídrica. Holanda escreveu sobre a destreza de índios e bandeirantes no que diz

respeito a estas lidas, pautando em corroboração a argúcia no observar a natureza à sua

volta, abordando ainda como determinada árvore-fonte (samaritana do sertão) tornou-se

importante para as bandeiras que seguiam a rota para Goiás:

Os verdadeiros meios de que dispunham, tanto índios como sertanistas, quando procuravam algum veio d’água em lugar onde nada indicava sua presença, escapavam, todavia, a uma análise precisa e objetiva. Em

de

observação da natureza, peculiar a estes homens e inatingível para o civilizado. A longa prática do sertão ensinava-lhes que o remédio pronto para a sede poderia bem estar sob uma laje, ou um rochedo, ou mesmo disfarçado por um tronco de árvore, onde não o alcançariam viajantes descuidados ou inexperientes. Um dêsses verdadeiros tesouros ocultos existiu muito tempo no Campo dos Parecis, que atravessava a estrada para Vila Boa de Goiás. Num pau de cinco palmos de espessura e no ponto exato onde começava a ramar, havia um buraco sempre cheio

d’água. Ali, por meio de canudos de taquara, costumavam refrescar-se os sequiosos. Consumida a água, em pouco tempo voltava-se a encher o buraco. Não fosse isso, o viajante poderia percorrer em todos os sentidos

a vasta planície sem ter onde beber, pelo menos numa extensão de quatro léguas ( HOLANDA, 1957, p. 39).

regra,

esses

meios,

decorrem

de

extraordinária

capacidade

Também sobre isso escreveu Volpato:

O contínuo andar pelo sertão, a observação da mata e o exemplo dos

silvícolas fizeram com que os bandeirantes fossem adquirindo mais

habilidade

encontrados para livrar o sertanista da tortura da falta d’água destaca-

se a árvore-fonte, árvore-rio, samaritana do sertão. Estes eram os nomes

que recebia uma árvore natural dos sertões goianos e baianos que, muito grande e copada, tinha nos ramos buracos cheios d’água, Estas árvores davam exatamente nos terrenos secos, onde, num raio de quatro léguas, dificilmente se encontraria água. Os viajantes, utilizando-se de pequenas varas de taquara matavam sua sede, Consumida a água, pouco tempo depois o buraco voltava a se encher, permitindo que outro sedento se saciasse (VOLPATO, 1985, p. 69).

em

encontrar

água

e

aplacar

a

sede.

Entre

os

meios

63

É notável a convergência de Volpato e Holanda no que respeita às informações

sobre a prospecção hídrica entre índios e bandeirantes. Igualmente, tais autores mencionam

ainda a utilização de vários tipos de cipó para amainar a sede. De tais espécies vegetais

serviam-se os membros das expedições, cortando-as e posicionando-as verticalmente,

donde vertia de sua extremidade um líquido fresco, apropriado para dessedentar

parcialmente as gargantas ressequidas. Esses cipós medravam em densas florestas, não

ocorrendo em terrenos fragosos. Ao palmilhar regiões rochosas, as bandeiras utilizavam-se

do caraguatá, que pela conformação de suas folhas configura um rústico vaso natural, onde

fica contida certa quantidade de água pluvial. Nas áreas relvosas, outra alternativa era o

taquaruçu, cujas hastes, entre seus nós, forneciam líquido semelhante ao obtido nos cipós

mencionados. Também em paragens ásperas, semi-áridas, era encontrado o umbuzeiro,

árvore leguminosa, fornecedora de tubérculos, que postos na boca, desmanchavam-se

fac ilmente, debelando a sede. Entranhados vários palmos sob a terra, os tubérculos do

umbuzeiro não eram fáceis de achar, exigindo peculiar procedimento da parte de quem os

procurava. Quanto a isso, observemos as palavras de Holanda:

Como esses turbérculos se achavam algumas vezes afastados cinqüenta e sessenta passos da árvore, os índios costumavam bater no solo com um cajado; pelo som das pancadas podiam saber onde lhes convinha cavar (HOLANDA, 1957, p. 41).

Vale aqui ressaltar a agudeza e a sutileza desta técnica nativa, que pela

reverberação do impacto no chão, captava através da percepção tátil, no empunhar o

cajado, a exata localização da raiz do umbuzeiro.

Em síntese, no que tange à obtenção de água e líquidos de efeito fisiológico

congênere, os homens naturais da terra foram de relevante importância para as bandeiras.

Não fossem os índios, muitos sertanistas, em especial os precursores, teriam cambaleado

nas matas ou pradarias do Brasil, antes de fenecerem vitimados pela sede.

Quanto à alimentação, a contribuição indígena para o avanço das expedições não

terá sido de menor monta. Falemos a princípio do mel, gênero que teve singular

importância para a manutenção da energia física dos sertanistas, mormente quando da

carestia de outros víveres. Muitos índios eram pronunciadamente experimentados nos

métodos de obter mel, sendo conveniente ressaltar que tal destreza não era generalizada.

Aqueles que demonstravam habilidade em localizar colméias eram denominados meleiros.

O rastreamento melífero era uma atividade notável, sobretudo aos olhos dos europeus.

Vejamos as palavras de Holanda:

64

Acompanhando com os olhos atentos a pequenina abelha silvestre, tão pequena às vezes como um pequeno mosquito, o índio encontra muitas vezes os favos cobiçados, depois de buscá -los pelos atalhos da floresta. Tal importância chegou a assumir esse trabalho para a vida do selvagem que alguns, interpelados sobre o motivo que os levaria a arrancarem sobrancelhas e pestanas, prontamente respondiam que assim o faziam para melhor acompanharem as abelhas em vôo (HOLANDA, 1957, p.

47).

O olhar indígena, direcionado inarredavelmente para o pequeno inseto – que em

verdade tornava-se minúsculo ante a configuração imponente da floresta que lhe fazia

fundo – impressionou sobremaneira o pa dre Cardiael, jesuíta das Missões do Paraguai. O

religioso espanhol, espantado com a agudeza de visão dos meleiros, comparou-os ao lince,

animal de extraordinária acuidade visual, felino dotado de olhos tão poderosos, que figura

em diversas narrativas folc lóricas como sendo capaz de enxergar através das paredes. Em

Caminhos e Fronteiras, Holanda cita as palavras do padre Cardiael sobre a vista dos

índios: “

seus olhos, seja, o que é mais natural, pelo exercício constante

Comparações acaloradas à parte, evoquemos a racionalidade objetiva, que nos

direciona para a constatação de que a acuidade visual de alguns índios meleiros era

notável. Vale salientar, em corroboração, que a destreza no encontrar colméias não era

atributo generalizado entre todos os nativos do Brasil, porém também não eram poucos os

que se destacavam nessa lida. Uma quantidade considerável de silvícolas aprimorou-se

tanto na procura de mel, que durante as expedições eram incumbidos quase que apenas

disso. Lembremo-nos que foi, inclusive, a dois índios meleiros que o sorocabano Miguel

Sutil deveu o descobrimento do ouro cuiabano. Os indígenas saíram à cata de mel,

encontrando ao acaso o precioso metal de alu vião. Analisando de forma holística a

atividade corporal de rastreamento melífero, julgamos ser de fácil entendimento que não

apenas a acuidade visual levava o meleiro à colméia. Não apenas a agudeza ocular ou a

vista de lince , mas uma série de outras habilidades corpóreo-motrizes o conduzia aos favos

cobiçados. Ao avistar a abelha, ensejava -se a perseguição, que era desencadeada pelo

movimento global do corpo. Correndo pela mata, sem desfocar o olhar do inseto, o meleiro

revelava espantosa percepção espaço-temporal, desviando com rapidez dos obstáculos

naturais, que não eram poucos. O percurso da abelha não obedece a trilhas ou carreiros,

mudando de direção imprevisivelmente, adentrando o emaranhado arbóreo, por vezes

entrançado por cipoal e galharias. As mudanças constantes no curso da corrida, o desvio ou

muitos a tem tão perspicaz como um lince, seja pela disposição particular de

65

transposição dos elementos florestais, o aumento da velocidade quando da iminência de

perder de vista o inseto; tudo isso exigia do índio coordenação corpóreo-motora no mínimo

satisfatória. Pernas este ndendo-se em largas passadas na desabalada carreira, braços

movimentando-se intensamente, propiciando impulso adicional para a rapidez exigida pela

perseguição.

Com o foco do olhar centrado na abelha, o índio servia -se da visão periférica para

aperceber-se dos troncos ou galhos maiores, dos quais desviava-se com notável destreza.

As ramarias mais finas eram ignoradas, sendo vencidas pelo próprio corpo em

deslocamento. A entomologia nos ensina que uma abelha pode se afastar vários

quilômetros de sua colônia, buscando o pólen para a feitura do mel. Considerando esta

asserção científica, faz-se razoável concluir que o meleiro por vezes empreendia corridas

de proporções significantes pela mata, ou seja, carreiras de proporções quilométricas.

Vale

mencionar,

sem

contudo

pretender

inferir

que

isso

configurasse

grande

estorvo, que os meleiros levavam consigo machados e cabaças, instrumentos utilizados na

coleta do mel. Concernente a isso, escreveu Holanda:

Quando, após a caminhada matinal, uma tropa de paulistas se arranchava em sertão pobre de caça ou de palmito, o trabalho maior competia talvez aos índios meleiros, armados de necessários apetrechos, que eram machados e cabaças (HOLANDA, 1957, p. 58).

Embora tais apetrechos não sejam necessariamente pesados,cumpre observar que o

volume por eles representado certamente contribuía para o aumento da dificuldade da

corrida, uma vez que a trama das matas não raro oferecia exíguos espaços úteis à passagem

do meleiro. Em síntese, corroboremos nosso entendimento de que a procura do mel era

uma atividade corporal notável, que exigia do índio destreza e agilidade. Entre o lobrigar a

abelha e o achado da colméia, desenvolvia-se uma situação de considerável desempenho

físico, singular percepção espaço-temporal e espantosa coordenação motora. Retornando

do âmago da mata, os meleiros entregavam aos paulistas não apenas o mel encontrado, mas

também um pouco de seu suor. Ao saciar-se com o precioso alimento produzido pelos

apídeos, os bandeirantes sorviam também uma parcela do suor dos índios, cujas mãos

molhadas haviam, a golpes de machado, retirado os favos dos ocos de pau.

Nos lugares ermos de caça, raízes comestíveis ou frutos, o mel manteve muitos

paulistas de pé, viabilizando a continuidade das marchas sertanejas. Sobre as áreas

desprovidas de outras opções alimentares, vejamos as palavras de Holanda: “Nesses casos,

66

o mel tornava -se o único remédio para a fome e a sua ausência significou muitas vezes a

última penúria” (HOLANDA, 1957, p. 58).

Os índios meleiros salvaram muitos bandeirantes da última penúria. Livraram

muitos paulistas da mais atroz das fomes, quando até mesmo sapos eram ingeridos sem

repúdio.

grande

diversidade de gêneros vegetais e animais. Insetos, vermes e raízes faziam parte dessa

dieta, esdrúxula aos olhos dos europeus. Para sobreviver no sertão, os paulistas foram se

ajustando aos hábitos alimentares indígenas. Sobre isso observemos o que escreveu

Holanda:

a acomodação à dieta alimentar dos primitivos moradores do país, que constitui certamente resultado de um longo esforço de adaptação ao seu clima e às suas condições materiais, terá favorecido qualidades de energia e resistência, as mesmas qualidades que assinalariam os antigos paulistas, por exemplo, em todos os recantos do Brasil (HOLANDA, 1957, p. 63). (o gifo é nosso)

Além

do

mel,

os

índios

ensinaram

os

bandeirantes

a

consumir

uma

As palavras de Holanda, além de abordarem a adaptação das bandeiras concernente

à ingestão de víveres, ressaltam sobremaneira características de aptidão física advindas

desses hábitos de ingestão. Essa frase do autor de Caminhos e Fronteiras atribui

qualidades de energia e resistência aos antigos paulistas , qualidades estas que teriam sido

ainda aprimoradas pela dieta aprendida com os índios. Não terá sido essa a única vez que

Holanda teceu comentários claros no que diz respeito ao desempenho corporal dos

bandeirantes. Outra obra do autor, Monções, apresenta diversas observações sobre a

capacidade física dos expedicionários de Piratininga. Vejamos algumas: “sóbrios, tenazes,

afeitos à fadiga

” (HOLANDA, 1990, p. 18-

energia física necessária a muitos desses empreendimentos

9).

Essas observações, no entanto, são entendidas, via de regra, como ensejadas pela

vida carente em Piratininga. Holanda, conscienciosamente, associa a notável locomoção

das bandeiras à escassez de recursos vivenciada na Vila de São Paulo. Senão vejamos:

a capacidade de resistir longamente à fome, à sede, ao cansaço

a

A grande mobilidade dos paulistas estava condicionada em grande

eles foram

constantemente impelidos, mesmo nas grandes entradas, por exigências

de um triste viver cotidiano e caseiro: teimosamente pelejaram contra a

pobreza, para repará-la não hesitavam em des locar-se por espaços cada

parte, a certa insuficiência do meio em que viviam

vez maiores

(HOLANDA, 1990, p. 16 e 26).

67

Entendemos terem sido as marchas bandeirantes motivadas pela situação de penúria vigente no planalto piratiningano. Esta pobreza proeminente, que privava os paulistas de confortos primários, configurou-se como uma contingência histórica, que alavancou as marchas sertão adentro. Destarte, as bandeiras que vararam as matas, sobretudo as

primeiras, eram formadas por homens em busca de soluções práticas para suas problemáticas particulares, que eram principalmente causadas por carências cotidianas múltiplas. Tal entendimento, sobretudo, não antagoniza nossa concepção de que as

bandeiras foram agregações de homens comuns, que demonstraram desempenho físico notável. Os habitantes de São Paulo foram para o sertão à caça de índios ou à procura de

riquezas minerais, visando amenizar a miséria material de suas vidas. Para tanto, lograram cumprir marchas incomensuráveis, onde muitas vezes os limites da extenuação corporal foram notadamente ultrapassados. As distâncias desmedidas percorridas pelos bandeirantes, constam abundantemente na historiografia. Sobre essas grandes extensões

cumpridas a pé, escreveu Volpato: “

para o interior

1985, p. 46). Ao escrever distâncias inacreditáveis, a autora de Entradas e Bandeiras, normalmente comedida em suas palavras - posto que em suas obras desmistifica a aura épica do bandeirismo –, expressa-se revelando distâncias tão grandes, que o fato de terem sido cumpridas a pé não é crível. Essa interpretação intencionalmente literal das palavras de Volpato é, contudo, forçosamente equivocada. Esse nosso equívoco ensejado tem, no entanto, o objetivo de elucidar que é impossível que tais percursos não tenham sido

cumpridos em marcha, já que constam profusamente na historiografia, seja ela ufanista ou anti-épica. Na verdade, entendemos claramente que Volpato, ao mencionar distâncias inacreditáveis, não pretendeu evocar o antônimo literal de distâncias acreditáveis, mas sim enfatizar as grandes dimensões das andanças sertanejas. Para que essas andanças se concretizassem, parece-nos óbvia a imprescindibilidade de significativo dispêndio energético, que por sua vez só poderia ser subtraído de corpos não necessariamente débeis. Impelidos pela contingência histórica da miséria piratiningana, os bandeirantes foram a

configuração da antítese do sedentarismo. Foram os baluartes (e isso não nos parece épico) da locomoção, foram dos corpos que mais se movimentaram no Brasil Colonial, foram os signos vivos do deslocamento humano. Não prescindindo dos índios, que os auxiliaram significativamente, os bandeirantes foram os maiores caminheiros da América de então. Homens ordinários, nada extraordinários, mas que impelidos ao sertão por adversidades

os paulistas organizaram uma infinidade de marchas

percorreram distâncias inacreditáveis, devassaram o sertão” (VOLPATO,

68

contextuais, empreenderam enormes jornadas de pés descalços. Viajores de motricidade

não mensurável, os expedicionários de São Paulo tornaram-se os maiores sertanistas

daquele Brasil recortado de Capitanias, atingindo as mais longínquas delas, bem como

transcendendo os limites da colônia portuguesa, avançando a oeste e adentrando a América

Espanhola, contribuindo para o fracasso do Tratado de Tordesilhas.

Tendo absorvido dos indígenas as técnicas de sobrevivência agreste, os

bandeirantes – que já denotavam extrema mobilidade – puderam alongar a abrangência de

suas marchas. Já tendo abordado as habilidades dos silvícolas em encontrar água e mel,

gêneros preciosíssimos par a o êxito das expedições, mencionemos os métodos nativos de

caça, assimilados pelos bandeirantes. As práticas venatórias dos índios diferiam muito das

dos europeus, sendo mais furtivas, menos perceptíveis à presa. Vejamos as palavras de

Volpato:

Os índios orientavam os sertanistas na arte da caça, a partir de suas técnicas específicas. Eram utilizadas as armadilhas, como tocaia, juçana, jirau, juquiá, arapuca, etc. e também as armas indígenas. Estas ofereciam a vantagem de poderem ser fabricadas quase que a qualquer momento e não necessitavam de munição, elemento dispendioso no armamento de uma bandeira. Além disso, as armas brancas ofereciam a vantagem de não espantar a presa, uma vez que não fazem barulho. Com o tempo, os próprios bandeirantes se tornaram destros no uso do arco e flecha (VOLPATO, 1985, p. 67).

Acostumados aos mosquetes, os bandeirantes acabaram compreendendo o prejuízo

causado por essa arma às práticas de caça, devido ao estampido forte, que espantava todos

os animais das adjacências. Mais profícuo se configurava o andar cauteloso pela mata,

quase silencioso, acentuadamente vigilante. Atentos aos movimentos mais ínfimos, os

sertanistas paulistas aprenderam com os índios a grande importância de agir furtivamente

nas atividades venatórias.

Tornando-se hábeis no manejo do arco e da flecha, os bandeirantes assimilaram

novos padrões de coordenação motriz, no que respeita aos membros superiores.

Analisemos sucintamente, em termos cinesiológicos 13 , o uso do arco e flecha. De

diferente empunhadura em relação às armas de fogo, o arco requer maior precisão e justeza

de movimentos para fazer-se frutífero. Empunhando o arco verticalmente com uma mão, o

arqueiro executa a ação simultânea de puxar o cordel para trás com a outra mão, ao mesmo

tempo em que faz arrimo para a ponta de flecha e retém entre os dedos sua porção

posterior. Ao tensionar o cordel para trás, o arqueiro faz um movimento antagônico à força

69

estática de seu outro braço, que retém o arco à frente. Este antagonismo de movimentos, propiciado por contrações musculares díspares, requer coordenação motora específica, que só é adquirida com a prática constante. A assimilação deste trabalho motriz é fundamental para que a flecha seja lançada certeiramente. O alvo na verdade só será atingido quando da

automatização destes movimentos opostos. Fazer pontaria, mirar a presa, torna-se improfícuo se a oposição dos movimentos não se harmonizar, propiciando estabilidade à arma nativa.

A harmonização do antagonismo miológico 14 somente é obtida após a repetição sucessiva, ou seja, é resultado de treinamento. Um arqueiro não treinado, ao fazer pontaria, não sustém a arma com estabilidade, comprometendo a direção da flecha. A coordenação motora dos membros superiores deverá estar destra, para que no ato de mirar, a flecha parta com destino certo. Esta concisa análise cinesiológica sobre o uso do arco e flecha ensejou-se, devido à evidente situação de aprendizado corpóreo-motor vivenciada pelos bandeirantes. Buscando a eficácia venatória, os bandeirantes, até então acostumados ao uso das armas européias, submeteram seus corpos a novos padrões motrizes, adaptando-os ao manuseio do arco e da flecha.

Pode-se dizer dos métodos indígenas de caça, que além de serem mais eficientes do que os europeus, contribuíram para que pontos distantes do sertão fossem alcançados. Expressemo-nos melhor: os bandeirantes conduziam a pólvora – necessária para municiar armas de fogo – em caixas encouradas. Quando do esgotamento dessas reservas, ou mesmo da deterioração decorrente da umidade, o uso dos métodos venatórios indígenas, já

largamente utilizados, tornavam-se a única opção no predar animais para a alimentação. Se dependessem exclusivamente de mosquetes ou mosquetões, as expedições bandeirantistas não teriam atingido paragens tão remotas. Muitas bandeiras permaneciam meses e até anos no sertão, sendo que nessas oportunidades não raro os artigos de munição acabavam, quando então, em exclusividade, as armadilhas e armas indígenas obtinham a caça, alimentando os expedicionários e propiciando a continuidade da caminhada.

Suspeitamos que as linhas escritas acima denotem certa redundância de nossa parte, apesar das diferenças vocabulares. No entanto, nossa intenção foi a de corroborar em

70

ressalto a significativa contribuição dos métodos de caça nativos, fundamental para que as

mais extensas marchas fossem cumpridas.

Se nas práticas de caça os índios foram de fundamental importância, o mesmo não

pode ser dito quanto à pesca. Os estratagemas nativos incluíam espinhos e plantas tóxicas.

Ambos os procedimentos foram suplantados pelo anzol e pela rede, mais eficientes,

trazidos do Velho Mundo. Dos espinhos curvos os peixes escapavam com relativa

facilidade, sendo que a intoxicação ictiológica com tirigui e timbó foi restringida, pelo fato

de matar um número de peixes muito maior do que o necessário para o consumo.

Na alimentação frugívora, os nativos da terra ensinaram aos paulistas a utilização

do palmito, do pinhão, do araçá, do ananás, da guabiroba, do araticum, da jabuticaba, do

jataí,etc. Impelidos para o viver agreste, os bandeirantes foram viandantes de significativa

performance corpóreo-motora, vencendo distâncias espantosas. O desempenho físico dos

sertanistas de São Paulo, ainda que considerado o contexto em que estava inserida a Vila

de Piratininga, parece-nos ter sido no mínimo notável. Quanto à regularidade cotidiana das

marchas bandeirantistas, escreveu Taunay: “Descontadas as falhas, a bandeira poderia

facilmente caminhar 40 quilômetros diários” (TAUNAY, 1950, p. 61).

John Manuel Monteiro comenta, na obra Negros da Terra, a expedição de Raposo

Tavares, que cumpriu dez mil quilômetros, saindo de São Paulo, atravessando o Mato

Grosso e o Paraguai, adentrando novamente o Brasil pela Amazônia e alcançando

finalmente Belém do Pará, nas extremidades do norte do país. Domingos Jorge Velho,

antes de atacar Palmares, deslocou-se seis mil quilômetros do Piauí a São Paulo (visando

recrutar homens), e de lá retornando ao Nordeste, onde após dizimar aldeias tapuias iniciou

as investidas contra o quilombo liderado por Zumbi.

Fernão Dias Paes, passou os últimos oito anos de sua vida no sertão, morrendo na

barranca do Rio das Velhas, já longevo, aos 73 anos.

Incontáveis outros exemplos de ingentes esforços corporais constam na

historiogra fia do bandeirismo. A história do bandeirismo é sobretudo uma extensa crônica

de corpos em movimento. Nessa cena de intensa motricidade são escassos os corpos

estáticos. O movimento era a regra dos paulistas, sendo o sedentarismo a exceção.

De finitude imprevisível, as marchas bandeirantistas encontraram nos silvícolas

inestimáveis orientadores. Observemos as palavras de Holanda:

Em São Paulo, cuja população, particularmente a população masculina, se distinguiu durante todo o período por uma excessiva mobi lidade, a mistura étnica e também a aculturação, resultante do convívio assíduo e obrigatório, seja durante as entradas, seja nos sítios de roça, deram ao

71

indígena um papel que será impossível disfarçar (HOLANDA, 1957, p.

68).

Os índios, mesmo tendo sido importantes agentes históricos do Brasil Colonial,

foram removidos estrategicamente do foco central do cotidiano da época, servindo de

títeres nas mãos dos historiadores apologéticos, que via de regra os mencionam

pejorativamente, sob o prisma comumente etnocêntrico do colonialismo europeu.

Para nós, os índios foram os verdadeiros mestres sertanistas dos bandeirantes.

Mestres obscuros, ensombrecidos pelos heróis épicos forjados nas páginas da

historiografia, sobretudo aquela produzida no fim do século XIX e primeiras décadas do

século XX, notadamente elaborada ideologicamente, visando ressaltar os paulistas como os

homens mais aptos a governar o Brasil.

John Manuel Monteiro entende que a função dos indígenas como elementos

históricos foi suprimida na histor iografia tradicional. Vejamos suas palavras:

De

fato, a história dos índios apresenta um claro exemplo da omissão de

um

ator significativo nos livros de história mais convencionais, pois com

construção da figura do bandeirante, entre outros mitos da colonização, o papel histórico do índio foi completamente apagado (MONTEIRO, 1994, p. 119).

a

Sem os índios, as bandeiras não teriam realizado marchas tão notáveis. Sem os

índios, as bandeiras não teriam concretizado feitos de grande envergadura, tão decantados

na historiografia ufanista. Mais ainda, entendemos que em situações diversas os índios

foram os protagonistas de muitos devassamentos, colocando os paulistas como

coadjuvantes ou meros expectadores, ante a argúcia e a prática de quem sempre viveu nos

sertões.

72

CAPÍTULO III

FUGINDO DO TEMPESTUOSO DILÚVIO: ÍNDIOS E JESUÍTAS NAVEGANDO E MARCHANDO NO SERTÃO

A história das nossas relações com os índios é, em grande parte uma crônica de chacinas Darcy Ribeiro

1. Vivendo bandeirantemente e morrendo cristamente: a remissão dos predadores de gente

A extrema violência dos ataques dos bandeirantes às missões jesuíticas semeou

profundo temor entre indígenas e clérigos. Quando dos assaltos, o pânico generalizado

tomava conta das reduções, enquanto a destruição e o massacre reinavam imperiosamente,

em meio a corpos desmembrados e igrejas e edificações incendiadas. Uma babel de sons

instituía-se caoticamente, quebrando o funcionamento da ordem estabelecida pelos padres.

O alto crepitar das grandes labaredas que devoravam os edifícios, as vozes ríspidas

dos cabos - de-tropa ordenando a matança, os estampidos dos mosquetes, o choro das

crianças, os gritos das mães desesperadas, os lamentos de agonia dos moribundos, os

clamores de clemência dos missionários. Em termos simplistas, as expedições de

apresamento eram agregações de andejos se deslocando pela mata à caça de seres

humanos. Nesse sentido, passando à larga das implicações contextuais, os bandeirantes

eram caçadores de gente. Levando em conta ainda o morticínio quando do abrupto início

dos ataques – morticínio este que visava coibir qualquer forma de resistência, através do

pavor generalizado –, podemos adjetivar os bandeirantes não apenas como caçadores , mas

também como predadores de gente. Afirmamos isto embasados pela lexicologia, pois a

ascepção literal da palavra predador significa: o ser que destrói outro violentamente. 15

Os aprestos para a organização de uma bandeira de apresamento incluíam

instrumentos diversos, sendo que muitos deles tinham como objetivo o combate e a

aniquilação da vida. Entre esses gêneros constavam o mosquete, o mosquetão, o alfange, o

15 Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa.

73

punhal e o machete. Para os sertanistas mais proeminentes acrescentava-se ainda a espada,

que não tinha seu uso generalizado entre os expedicionários.

Os flecheiros, predominantemente indígenas engajados nas bandeiras, ofertavam

também a opção das mortíferas setas envenenadas, bem como das incendiárias. Vale ainda

registrar que o facão e o machado, que em primeira instância tinham como fim o desbaste

dos caminhos e trilheiros, eram também utilizados contra os índios nos ataques às reduções

jesuíticas, como teremos oportunidade de observar adiante. Cumpre também afirmar que

mosquetes, mosquetões e flechas eram amplamente utilizados para as práticas venatórias

de subsistência, bem como para a defesa ante animais selvagens, especialmente os felinos

de grande porte 16 , significativamente profusos nas matas do Brasil Colonial.

Como usurpadores da cobiçada mão- de- obra indígena, os bandeirantes das

expedições apresadoras de certo modo eram impelidos ao emprego da força e da

agressividade, já que muitos grupos indígenas – especialmente os já cristianizados – não

eram conquistados pelas artimanhas da oratória, artimanhas estas propaladas pela

historiografia apologética como pacificação dos índios, ou ainda como conquista pacífica

dos mesmos.

O braço do silvícola era necessário como lenitivo para a miséria do planalto de São

Paulo. Esse lenitivo era via de regra obtido através de métodos inumanos, porém práticos.

A eficiência das bandeiras de apresamento, muitas vezes, tinha ligação direta com o teor de

selvageria empregado nos ataques aos grupos indígenas. Não por acaso, os assaltos às

reduções jesuíticas constam na historiografia como dentre os que mais capturaram índios.

O elemento surpresa e o prorrompimento abrupto da agressividade extrema arrefeciam as

intenções de resistência, prostrando submissa a grande maioria da população da redução

invadida. A estupefação e o aturdimento ante a determinação destruidora do ataque,

normalmente sufocavam o ânimo guerreiro dos indígenas, num primeiro momento

fazendo-os expectadores da exterminação de diversos integrantes de sua comunidade, em

seguida tornando-os fugitivos amedrontados, em busca de salvação in dividual. Com o

pavor semeado, extinguia -se as possibilidades de oponência coletiva, emergindo o

comportamento de fuga, que naturalmente sucede o medo profundo.

No que tange à entrada dos paulistas na redução de Jesus Maria, observemos o que

escreveu Mont oya:

Foi assim, e a som de caixa, de banderia desfraldada e em ordem militar, que os paulistas entraram pelo povoado já disparando armas e,

16 Onças pintadas, onças negras e suçuaranas (onças pardas).

74

sem aguardarem parlamentação, atacando a igreja com a detonação de

seus mosquetes. Havia se acolhido a ela a gente do povo 17

cheio de cansaço protegeu-se um dos religiosos atrás de um tronco de

madeira.

Malferido e

Com

(MONTOYA,1985, p. 243).

isso

todos

assestaram a ele sua pontaria

Essas palavras, escritas na terceira década do século XVII, expõem de forma clara

que os assaltos dos sertanistas de Piratininga se caracterizavam predominantemente pelo

viés da aniquilação inicial de índios e padres, num furor predatório que imolava

considerável número de pessoas, antes que o apresamento propriamente dito se

consumasse. Sobre isso, na obra Capítulos de História Colonial, escreveu Capistrano de

Abreu:

À primeira investida morrem muitos dos assaltados e logo desmaia - lhes a coragem;os restantes, amarrados, são conduzidos ao povoado e distribuídos segundo as condições em que se organizou a bandeira (ABREU, 1982, p. 114).

Privilegiando o entendimento sobre o aspecto militar dessa e de outras expedições

que devastaram as reduções jesuíticas do Guairá e Tape, observemos o que escreveu

Monteiro:

No sul, particularmente em São Paulo, os colonos desenvolveram formas específicas de apresamento, inicialmente privilegiando a composição de expedições de grande porte, com organização e disciplina militares.

estas as expedições que assolaram as missões jesuíticas do

Guairá (atual estado do Paraná) e Tape (atual Rio Grande do Sul), transferindo dezenas de milhares de índios guarani para os sítios e fazendas dos paulistas (MONTEIRO,1998, p. 108 e 109).

Foram

Esta citação de Monteiro aqui é feita tão somente visando a elucidação das

características fortemente tendentes ao militarismo, presentes nas bandeiras de

apresamento até aproximadamente 1640. Milícias armadas e estratificadas

hierarquicamente invadiam as reduções, observando o cumprimento de estratégias

previamente elaboradas, empunhando bandeiras 18 e tocando caixas de guerra. Eram

regimentos de combate em primeira instância, que chacinavam primeiramente um

determinado contingente do inimigo, incutindo pavor nos sobreviventes, que eram o

objetivo principal do ataque. Na obra Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens

de São Paulo, Monteiro escreveu sobre o triste destino de alguns índios no trajeto entre o

17 A gente do povo são os índios da redução em questão. 18 Aqui o termo tem seu significado mais usual.

75

local de apresamento e o planalto paulista. Quanto a isso faremos menção adiante. Ainda

sobre o ataque dos bandeirante s à redução de Jesus Maria, vejamos a continuidade da

por três vezes atiraram

setas inflamadas

(MONTOYA,1985, p. 244).

o fogo fez, na quarta tentativa, a presa irremediável na palha da igreja”

narrativa de Montoya: “Resolveram os inimigos queimar a igreja

Lembremo-nos que a igreja estava apinhada, acolhendo a gente do povo em seu

interior, que para lá havia confluído quando do início da sanha assassina dos

expedicionários de São Paulo. O ato de incendiar o edifício propiciaria sua evacuação

forçada ou mesmo queimaria vivas as não poucas pessoas que lá se abrigavam do caos

exterior. Acuados pela fumaça e pelo calor que se adensavam, religiosos e índios foram

tomados pelo mais paroxístico desespero. No desnorteio coletivo, um impasse implacável

se apresentava: lá fora estavam à espera o chumbo, o aço ou na melhor das hipóteses o

apresamento; cá dentro as labaredas se avultavam rapidamente, cascatas de palhas

chamejantes caíam do teto, onde as vigas eram já de um vermelho vivo e incandescente.

As toras das paredes em pouco seriam grossos cilindros em brasa, que tombariam ao chão.

A morte por incineração seria uma amarga escolha, uma escolha praticamente impossível

de ser feita, dado seu caráter indizivelmente doloroso. A opção pelo abandono da igreja se

deu causada pela fuga do fogo. A porta principal do templo estava em chamas, restando

aos apavorados índios e jesuítas a saída por um baixo portão secundário. Destramelando-o

e passando em fila pela estreita abertura, muitos indígenas encontraram um hediondo fim

do lado de fora. Vejamos as palavras de Montoya:

Abriram então um portãozinho, pelo qual saíram os índios

acudiram ao mesmo portãozinho, como possessos pelo demônio, aqueles tigres ferozes 19 e começaram, com espadas, facões e alfanges, a derrubar cabeças, matando com a maior brutalidade ou barbaridade já vista no mundo (MONTOYA, 1985, p. 244 e 245).

Com isso

Fugindo do fogo, saindo em fila pela exígua passagem que conduzia para o exterior

da igreja, os índios foram trucidados pelos bandeirantes. A cena descrita pelo autor de A

conquista espiritual não nos sugere nenhuma espécie de confronto, nenhuma espécie de

refrega ou batalha. Aponta sim para um episódio onde vários assassinatos foram cometidos

por homens armados, cujas vítimas – adultos 20 e crianças – saíam desnorteados de um

19 Aqui MONTOYA (1985) se refere aos bandeirantes como tigres ferozes, numa alusão alegórica a predação e violência presenciada por ele na redução de Jesus Maria. 20 Sendo os índios adultos de ambos os sexos mercadorias valiosas no planalto paulista, é provável que fossem muitos deles poupados da morte, sem que isso possa conferir segurança para que afirmemos que não foram muitos os assassinados.

76

prédio enfumaçado e incandescente, prestes a desabar. Nada de peleja, nada de contenda,

mas sim um grupo de sertanistas, deliberadamente esquartejando toda uma fila de índios.

Uma aberrante horda de carrascos, uma inconcebível turba de verdugos em ação, tangendo

a concretude bestial de um inimaginável festival sanguinário, surrealista e orgíaco, onde

pedaços de corpos caíam sucessivamente ao chão. O paroxismo da algidez humana

configurou-se quando os pequenos párvulos indígenas foram mortos. Recém-nascidos, que

há pouco tempo repousavam no calor do ventre materno, agora experimentavam a

frialdade cortante das lâminas afiadas. Como corolário de sua obra nefasta, os bandeirantes

cometeram sucessivos infanticídios na redução de Jesus Maria. Quanto a isso, escreveu

Montoya:

Digo sem exageros que aqui se viu a crueldade de Herodes, e se viu em muito acrescida, porque aquele, ao perdoar às mães, contentou-se com o

sangue

se fartaram nem com uma nem com outra coisa, não bastando à sua

inocente

brotavam. Provavam eles o fio de aço dos seus sabres em cortarem os meninos em duas partes, em lhes abrirem as cabezas e despedaçarem os seus membros fracos. Importavam numa confusão horrenda os gritos, o berreiro e os uivos destes lobos, de mistura com as vozes chorosas das mães, que ficavam atravessadas pela espada bárbara e também pela dor de verem despedaçados os seus filhinhos ( MONTOYA, 1985, p. 245).

não

de seus filhinhos delicados. Mas estes (novos “Herodes”)

insaciável

sequer

os

arroios

que

do

sangue

ferocidade

Este nefando morticínio junto ao templo fumegante, condenado pelas labaredas,

engendrou uma visão ultrajante aos olhos do jesuíta. Faz-se oportuno observar, à guisa de

ênfase, que na mentalidade sertanista o desencadear da mortandade obedecia a princípios

que visavam um propósito: o apresamento dos autóctones (que como já observaram vários

autores – citando trechos de escritos bandeirantistas – era o remédio para a pobreza do

povoado do planalto).

Analisar as investidas bandeirantes à luz dos conceitos que regem a sociedade do

Brasil atual, seria por demais pueril. O olhar do homem do século XXI, se dissociado de

todos os determinismos sociais do século XVII, seria desfocado, perdendo-se em algum

ponto entre duas palavras de significados diametralmente opostos: civilização e barbárie. É

certo que o significado de ambos os vocábulos, em termos conceituais (não literais ou

lexicológicos), encerram conotações digamos modificadas, decorridos quase quatrocentos

anos. Em outras pala vras, o que hoje se entende por barbárie não é exatamente o mesmo

que se entendia na décima sétima centúria, podendo ser dito o mesmo em relação ao termo

civilização. As temporalidades diferentes, bem como o considerável espaço cronológico

77

que medeia entre os setecentos e o início do século XXI, requerem uma postura científica cautelosa quanto à essa questão da terminologia e suas concepções, que se flexibilizam no decurso dos anos, apesar de, via de regra, as acepções literais das palavras serem mantidas. Fazemos estas reflexões tão somente para evidenciar nossa preocupação no que

concerne ao cuidado em não lançarmos insinuações atemporais, desprovidas das indispensáveis implicações históricas que envolveram as bandeiras, neste caso as específicas de caça ao índio. Imiscuir qualquer conceito ou juízo de valor contemporâneo

ao abordar o Brasil Colonial, certamente resultaria num desmonte de qualquer arremedo de compreensão do período em pauta. Nesta tarefa, a inserção desavisada de qualquer código de conduta hoje concebido coletiva e tacitamente, ainda que não expresso na formalidade das leis, evocaria, mesmo que involuntariamente, o anacronismo. Neste caso, o embuste historiográfico se consumaria, ao limitar os atos dos homens do passado entre as raias que balizam o comportamento dos homens de hoje. A mentalidade – mesmo levadas em conta as permanências – é outra, os padrões sociais não são iguais, e o mais importante: os contextos hitóricos não são similares, com toda a sua carga multifacetada de contingências e fatores determinantes. Os bandeirantes eram homens de sua própria época, regidos por peculiaridades históricas específicas, onde o fator econômico desempenhou um papel preponderante. Os maltrapilhos que habitavam a vila de São Paulo, logrando superar a carestia profunda de suas vidas, lançaram-se ao sertão, tornando-se caminhantes de inusitadas longitudes. A mentalidade dos bandeirantes também apresentava traços singulares, produto do antagonismo entre a violência desenfreada e o catolicismo dogmático. Tementes a Deus,

mas descumpridores dos principais ditames do cristianismo, escoavam suas vidas de forma mundana, escravizando, torturando, estuprando e matando. Escreveu Montoya: “Não há dúvida que tenham fé em Deus, mas são do diabo as suas obras” (MONTOYA, 1985, p.

244).

Essa dialética traduzia -se na presença de capelães nas expedições. Estes não se apresentavam trajados para confrontos, mas sim envergando hábitos religiosos, com alentados terços e cruzes pendentes a cingirem-lhes as cinturas. Abordaremos adiante, em

maiores comentários, a função desses clérigos nas bandeiras. Em Entradas e Bandeiras , Volpato faz comentários interessantes sobre a relação dos sertanistas paulistas com a espiritualidade cristã. A síntese das palavras dessa autora aponta os paulistas como homens que pareciam buscar a reconciliação com Deus já à beira da morte. Exauridos da juventude, rememorando as vilezas cometidas ao longo dos anos, os bandeirantes

78

acovardavam-se ante a perspectiva da danação eterna no fogo do inferno. Ao avizinhar-se a implacabilidade da justiça divina, não poucos cabos- de- tropa ou mestres- de- campo transformavam-se em anciãos temerosos, configurando a antítese de si mesmos quando moços. Não mais a impetuosidade agressiva e avassalador a; não mais a busca de soluções

práticas para os problemas imediatos; não mais a mortandade de índios indefesos ou guerreiros; não mais a vazão da concupiscência com índias subjugadas à força; não mais crianças despedaçadas; não mais missionários aviltados com injúrias; não mais igrejas e

altares destruídos! No crepúsculo da vida, no ocaso da existência terrena, muitos bandeirantes adquiriam modos brandos, afáveis. Nos testamentos da época, constam o reconhecimento de inúmeros filhos bastardos por parte de sertanistas longevos. Filhos rejeitados ao longo da vida, repentinamente aquinhoados na partilha dos bens do pai sertanista, o qual por vezes jamais vira. O bandeirante idoso, antípoda esvanecente de si próprio, buscava redimir -se de todas as formas, observando todas as convenções religiosas afoitamente, dada a exiguidade do tempo que lhe restava. À procura da salvação, encenava -se a paródia do velho sertanista sorvendo o sangue de Cristo na hóstia sagrada, ao invés de banhar o sabre no sangue indígena. Os que se acamavam devido a moléstias longas, pediam a visita regular do padre

à beira do leito, ansiando por conforto espiritual. A boca que outrora, em voz tonitruante, proferira impropérios aos inacianos, era a mesma que agora, murcha e ressequida, murmurava para o missionário, confessando pecados ignóbeis, antes de abrir -se flacidamente para receber a comunhão. Quando já em seus estertores, na iminência imediata da expiração, o vetusto bandeirante recebia a extrema -unção, consumando sua

vida em sentido inverso ao que escreveu Cassiano Ricardo em Marcha para o Oeste :

“Cristãmente e bandeirantemente” (RICARDO, 1942, p. 210). Na verdade, os paulistas agiam bandeirantemente por quase toda a vida, procurando apenas morrer cristãmente, para expiar suas faltas. A obra de Ricardo é um inexaurível manancial de frases que intentam conciliar os bandeirantes com a cristandade, apresentando-os como prestadores de relevantes serviços ao catolicismo incipiente do Brasil Colonial. Vejamos esta: “Uma coisa porém é c erta: a bandeira prestou maior serviço ao cristianismo do que o cristianismo

à bandeira” (RICARDO, 1942, p.231). Sabedores que somos da sanha sanguinária das

expedições apresadoras, vejamos agora esta: “Cristãmente se realizavam, dentro da bandeira, todos os atos da vida quotidiana” (RICARDO, 1942, p. 211). Pretendendo arrazoar favoravelmente a respeito de João Leme, homicida considerado bandido até mesmo pelos piratininganos e a quem Holanda adjetivou como facinoroso , Ricardo saiu-se

79

assim: “O próprio João Leme da Silva (um dos irmãos Leme) não morreu no cadafalso mas

cristãmente?” (RICARDO, 1942, p. 211). Sobre Jorge Velho, o homem que chefiou a

matança e a degola de quase três centenas de tapuios, além de literalmente reduzir a

pedaços o corpo de Zumbi, dizimando ainda nas refregas de Palmares mais de duzentos

negros, escreveu Ricardo:

o próprio Domingos Jorge doando, em testamento, trinta das suas fazendas de criar em favor dos jesuítas do Colégio da Baía, com o ônus, verdadeiramente cristão, de que as rendas se destinassem, também, ao amparo das viúvas indigentes (RICARDO, 1942, p. 220).

Para nós, a doação de Jorge Velho, que aquinhoou os jesuítas generosamente em

seu rol testamentário, exemplifica de forma clara o modus vivendi do bandeirante ancião,

que como já abordamos, caracteriza-se pelo pendor para a redenção, temendo a

sobrenaturalidade vindoura após o fenecimento. Vale lembrar que, o assaz considerável

patrimônio de Jorge Velho, foi em grande parte obtido com a exterminação dos tapuios e

dos palmarinos. Essas duas chacinas, que foram encomendadas pelo Governo Geral do

Brasil e ratificadas em contrato pela coroa portuguesa, previam o cedimento de muitas

terras para o bandeirante, além da posse de todos os negros sobreviventes das pelejas em

Palmares. Destarte, Domingos Jorge transformou-se num senhor de terras, com uma

escravatura farta, composta de braços indígenas e negros. Um mestre de campo, um andejo

que matara sob contrato para ser pago com terras

contempla os seguidores de Inácio de Loyola com uma grande área de três dezenas de

um mestre de campo envelhecido, que

fazendas, granjeada à custa de farto derramamento de sangue. Em sentido figurado, pode

ser dito que Jorge Velho construiu seu patrimônio sob uma alentada pilha de corpos

humanos, desmembrados diga-se de passagem. A despeito disso Ricardo logra atribuir-lhe

o adjetivo piedoso , quando o enfoca em um de seus escritos. Jorge Velho, esclareça-se, era

dos raríssimos sertanistas que sabiam escrever, sendo apontado por Holanda em Raízes do

Brasil como detentor de certo atilamento intelectual. John Monteiro, na obra Negros da

terra escreveu: “Domingos Jorge não apenas falava como também escrevia em português,

algo inusitado

Ao procurar ressaltar a religiosidade do mestre de campo, quando este se ressentia

da morte de três de seus homens em certa campanha, escreveu Ricardo:

(MONTEIRO, 1994, p. 164).

a respeito de Domingos Jorge Velho, que é piedoso e diz: meu capelão saiu para fóra, estando eu a sair para a campanha; mandei-o buscar;

morreram-me três homens brancos sem confissão – coisa

que mais tenho sentido nesta vida (RICARDO, 1942, p. 230 e 231).

não quis vir

80

Segundo o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, o adjetivo piedoso

significa: que tem piedade. Na mesma obra o substantivo piedade significa: amor às coisas

religiosas; religiosidade; devoção; compaixão; dó; pena. Percebe-se aqui a complexa

problemática suscitada por Ricardo, que em seu discurso incursiona por labirintos

completamente inesperados, selecionando vocábulos que são verdadeiros primores de

representação apologética. A religiosidade bandeirantista, com suas especificidades todas,

é de fato apontada por muitos autores, como Holanda, Volpato, Taunay, Haubert, Azevedo,

Ellis, Monteiro, Vasconcelos e Montoya, sendo estes dois últimos missionários inacianos.

Neste sentido, o temor a Deus e a consciência de sua existência fazem-se claros na

mentalidade bandeirante, sendo recorrentes na historiografia. Por outro lado, as acepções

compaixão, dó e pena - que são mais diretamente associadas à idéia de piedade – são aqui

não apropriadas, uma vez que um sertanista como Jorge Velho não era movido pelos

parâmetros desses sentimentos sinônimos. Sua lógica era a da ação, que no momento de

sua prática esta va completamente dissociada de qualquer conotação convencional

castradora. A ação propriamente dita redundaria em obtenção, em grangeamento de bens.

Para Jorge Velho, como também para grande parte dos sertanistas de São Paulo, as coisas

de Deus e dos sentimentos humanos estavam apartadas de seus atos durante suas

empreitadas. Obter sesmarias através da guerra, ou apropriar-se da força de trabalho

indígena, eram objetivos que propiciavam benesses palpáveis, concretas.

2. Capelães, beatões e padres: cúmplices da violência bandeirantista

Como já tivemos oportunidade de mencionar, as expedições de apresamento

incluíam capelães em suas fileiras, que receberam de Montoya a jocosa alcunha de

beatões. Cumpre aqui observar que esses homens representavam a presença cristã nas

bandeiras, porém sem limitar ou refrear os atos dos bandeirantes. Sobre isso, vejamos o

que escreveu Montoya:

Levam eles (os bandeirantes) consigo uns lobos vestidos de peles de ovelhas, os quais não passam de uns verdadeiros hipócritas. Tem por ofício o de, enquanto os demais andam roubando e despojando igrejas, bem como atando índios adultos e despedaçando crianças, mostrarem eles mesmos grande rosários pendurados ao pescoço. Além disso se

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aproximam dos padres, pedem-lhes confessar e se metem a falar sobre a oração e o recolhimento (MONTOYA, 1985, p. 127).

Pelas palavras do inaciano, percebe-se que a figura do capelão no bandeirismo

escravizador não denotava qualquer arremedo de indício repressivo, no que diz respeito

aos crimes ou pecados praticados pelos paulistas. Para que possamos aquilatar melhor essa

situação contumaz, vejamos o relato deixado pelo jesuíta, quando do assalto dos

bandeirantes à redução de São Francisco Xavier:

Enquanto os demais arrebatavam tudo que viam, um ‘beatão’ daqueles que atrás descrevi, pôs-se sem pressa a falar com um padre sobre coisas muito espirituais, a confissão e as diferenças e graus existentes na

oração

rezava, ia passando com grande pressa as contas. Reparamos depois que

ele contava, sem dúvida, os cativos que eles levavam, para calcular o seu

quinhão

tinha ele

o rosário muito comprido nas mãos. Fingindo que

( MONTOYA, 1985, p. 130).

Aqui, o autor de A conquista espiritual, afirma que o capelão procede não apenas

de forma alheada ao que ocorre à sua volta. O saque após a abordagem hostil é feito pelos

bandeirantes, ao mesmo tempo em que o beatão se aproxima de um padre da redução,

iniciando um colóquio sobre as coisas de Deus. A vilania do assalto dos paulistas, em

pleno curso, parece não lhe dizer respeito. A ação que se desenrola em sua presença, com

todas as suas implicações anti-cristãs, não tolhe sua iniciativa de conversar com o padre da

redução sobre práticas religiosas e espirituais, que em seus propósitos doutrinários

promovem a asce nção do homem. Abstraído do ataque promovido por seus companheiros

de

marcha sertaneja, o capelão age com placidez em meio ao apresamento que se consuma.

O

germe da escravização está sendo gestado em concomitância com a palestra sobre os

ditames divinos, iniciada pelo capelão ante o desconfiado e estupefato jesuíta da redução

invadida. Além desta postura nada clerical, que aparentemente ignora atos condenáveis –

aos olhos da Igreja – acontecendo ao derredor, o beatão mencionado por Montoya ainda

finge que reza o terço, quando na verdade está contando os índios que estão sendo

aprisionados, para então calcular quantos escravos terá para si na hora da partilha. Vale

observar, portanto, que Montoya imputa ao capelão o desonroso procedimento de religioso

que anseia pela mão- de-obra indígena. Um homem com o rosário nas mãos, passando as

cada conta um índio, cada conta um escravo. Quanto mais

contas com os dedos ávidos

peças aprisionadas, maior sua fração quando da distribuição delas entre os membros da

expedição.

Não sendo propriamente um agente ativo do apresamento, o capelão bandeirantista,

82

com seu procedimento conveniente, apresenta -se como um elemento apresador passivo, uma vez que não denota, de forma alguma, estar em discordância com os objet ivos elementares dos bandeirantes. Isto num primeiro momento, pois ao receber sua cota de presas após os ataques, o beatão demonstra de forma explícita sua concordância ou

anuência em relação à captura e escravização dos silvícolas. Analisando por outro pr isma, considerando sua participação como membro efetivo da expedição, que tendo partido de São Paulo, marchou pelas matas e deu caça aos índios, julgamos razoável o entendimento

de que ele – o beatão ou capelão – era também um expedicionário apresador, posto que figurava nas fileiras de uma corporação organizada, que tinha como único fim o apresamento dos autóctones. Em qualquer das duas proposituras, percebe-se às escâncaras, que a presença formal da figura do religioso não inibia a atitude comumente atroz, verificada no bandeirismo apresador. A inclusão do capelão nas bandeiras foi concebida em estreita relação com a necessidade de conciliar os sertanistas com Deus, a despeito de seus atos reprováveis perante a doutrina da Igreja Católica. Destarte, torna -se compreensível – lembrando que aqui nosso propósito não se alicerça no julgamento – a postura do beatão, quando demonstra em suas maneiras aparentemente não notar os crimes perpetrados em sua presença. Sua função não era sofrear a ação dos paulistas através de palavras ou ações. Na verdade, em termos práticos, qualquer cerceamento ao comportamento dos expedicionários implicaria em procedimento antagônico ao objetivo primordial da empresa. Os bandeirantes embrenhavam-se pelas matarias para capturar índios, considerando previamente todos os aspectos concretamente tangíveis da jornada. Não estava inclusa nas

deliberações dos paulistas todo o sentido abstrato da fé cristã, quando da organização de uma bandeira escravizante. O que precisasse ser feito seria feito, desde que a mão de obra silvícola fosse trazida do sertão. Nenhuma outra implicação sobrepujava esta ordem de idéias, bastando para isso constatar na historiografia as abundantes chacinas que vitimaram os indígenas à época das bandeiras, sobretudo no século XVII. Conhecedores dos principais preceitos do cristianismo, mas também sabedores de que esses preceitos limitariam suas práticas homicidas e escravocratas, os paulistas encontraram uma saída

singular, um escape pelo viés do perdão posterior , formalmente concedido por um homem de Deus. A presença do capelão nas expedições foi engendrada desta forma, onde ficou estabelecido entre os homens de armas e o representante de Deus o entendimento tácito de que os primeiros eram caçadores de gente, sendo o último responsável pelo ato da reconciliação dos primeiros com Deus. Pacificar as mentes atormentadas por muitas e

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implacáveis culpas, esse era o trabalho do capelão nas bandeiras. Isso fica muito claro em

Ricardo, onde o apologismo aos bandeirantes mescla -se indissoluvelmente à uma

desvelada hostilidade ante a religiosidade propalada pelos jesuítas, carregada de

conotações limitantes à violência. É nítida a aversão desse autor, no que concerne ao

balisamento da liberdade de ação apregoado pelas convenções cristãs.

Nada de rédeas, nada de freios dos beatões , capelães ou padres. Interessava aos

paulistas apenas o arrefecimento de seus tumultuosos conflitos interiores, gerados por uma

vida contumazmente sanguinária. Quanto a isso, observemos os escritos de Ricardo:

Precisava o bandeirante de alguém que lhe passasse esponjas na alma e recorria ao capelão como quem recorre àquele que nascera pra esse fim:

perdoar em nome de Cristo. Si o padre não tivesse essa função misericordiosa de perdoar, então que fosse às urtigas. Sua função obrigatória era ‘descarregar a consciência’ ao sertanista atormentado. Fizesse isso e teria cumprido o seu dever (RICARDO, 1942, p. 222) (o grifo é nosso).

Estas palavras explicitam, de forma clara e enfática, que os sertanistas queriam de

seus capelães nada mais que o perdão. Findadas as tormentas da consciência, reiniciada a

bonança dos pensamentos apacentados, os sertanistas estavam prontos para cometer novos

pecados e obter novos perdões.

Curiosas são as incursões labirínticas no discurso de Ricardo, quando busca

justificativas estéreis para explicar os crimes dantescos cometidos pelos expedicionários

paulistas. Em diversos trechos de Marcha para Oeste, os bandeirantes são qualificados

como sentinelas vanguardistas da gênese da pátria brasileira. São os formadores da nação,

são patriotas emblemáticos, que levam padres em seus deslocamentos sertanejos. De

mentalidade simplista e rude, os homens andrajosos do planalto paulista são sugeridos

como semeadores de atitudes indispensáveis à formação inicial e ao fortalecimento da

pátria. Sabemos que esses homens, ao encetar distantes caminhadas pelas matas da

Colônia, estavam sendo movidos por motivos particulares, restritos. Volvidos para a

solução de sua indigência, os andejos do planalto de Piratininga não estavam preocupados

com a pátria, não estavam ocupados com elocubrações requintadas e coletivistas, uma vez

que nem mesmo possuíam agudeza intelectual para isso. Caçadores de mão de obra

escrava, os bandeirantes capturavam os nativos da terra para aplacar a miserabilidade de

suas vidas no altiplano de São Paulo. Para que este objetivo fosse concretizado era

necessário o emprego da violência, que não raro atingia matizes assustadores, cabendo aos

capelães o concedimento do perdão aos autores dos assaltos. Desta forma, percebe-se que a

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agressividade das empreitadas apresadoras era motivada por implicações históricas

específicas, não sendo gestada no bojo de sentimentos de patriotismo. Não obstante estas

considerações, observemos as distorções contextuais envolvendo a pátria, escritas por

Ricardo:

Fossem suprimidos os crimes, que explicam a origem de todas as pátrias e estas só existiram no reino do céo. As pátrias não se formam sem dor, sem ação, sem sangue. Daí a razão pela qual bandeirante nunca dispensou padre. Este seria obrigado, por bem ou por mal, a descarregar a consciência daquele, já que Cristo era bandeirante. Pois não é Cristo o pai dos bons e a esperança dos maus? Estes e aqueles não lhe pertencem, segundo a linguagem da própria bíblia? A técnica do perdão não é a grande arma do crinstianismo diante do irremediável? (RICARDO, 1942, p. 223).

Estas palavras disparatadas de Ricardo atingem culminâncias burlescas,

qualificando o próprio Cristo como bandeirante e afirmando ser obrigação – por bem ou

por mal – do padre aplacar os dramas das consciências homicídas. Entendendo o perdão

como técnica ou arma do cristianismo perante o irremediável , o autor acaba caindo na

armadilha engendrada por suas próprias palavras, pois vale lembrar que para ser perdoado

– segundo os cânones católicos – o pecador precisa demonstrar arrependimento. Ricardo

não menciona isso, mas analisando seu tom ou viés discursivo, não parece ser inidôneo

conjecturar que ele passa à larga de tanger o arrependimento, por tentar ressaltar que o

derramamento de sangue é instrínseco ao nascimento das pátrias, já que elas não se

formam sem dor, sem ação, sem sangue. Essa intenção trasparece nas frases de Ricardo. A

gênese das pátrias obedece em Ricardo à lógica do genocídio, sendo algo natural. Isso nos

parece muito claro. E já que a aniquilação de seres humanos formam pátrias, existe

heroísmo e patriotismo no ato de aniquilar. Em desdobramento, de forma implícita ou

subliminar, está presente nesse pensamento a idé ia de que não há nada do que se

arrepender, já que atitudes heróicas ou patrióticas são merecedoras de honra e admiração,

e não de irrompimentos individuais ou externações pias de acabrunhamentos ou remorsos.

Assassinatos e perdões, sem passar necessariamente pelo arrependimento exteriorizado. O

remédio serial para o irremediável serial. O perdão serial para assassinatos seriais.

Apresadores e capelães, respectivamente matadores reincidentes e promovedores de

perdões sequenciais. Para os sertanistas, o ajuste de contas ou a reconciliação com Deus

era algo posterior ao apresamento e ao morticínio. A necessidade de abastecimento e

reposição de mão-de-obra indígena era constante, sendo, portanto, constante a violência e o

perdão concedido pelos capelães em nome de Deus.

85

Sobre a sanha dos bandeirantes quando dos ataques às reduções de Santo Antônio e

são Miguel, deixou escrito o padre Montoya:

Entraram

a som de caixa e em ordem militar nas duas reduções de

Santo Antônio e são Miguel, destroçando índios a machadadas. Os pobres dos índios com isso se refugiaram na igreja, onde os matavam – como no matadouro se matam vacas - , tomaram por despojo as modestas alfaias litúrgicas e chegaram mesmo a derramar os santos óleos pelo chão (MONTOYA, 1985, p. 126).

Tratando desta mesma investida bandeirante, na obra Índios e Jesuítas no tempo

das Missões, escreveu Maxime Haubert:

Os assaltantes apoderam-se dos bebês para obterem as mães, depois

quebram-lhes a cabeça contra as árvores; matam os neófitos até nos braços dos missionários e incendeiam as cabanas que abrigam os inválidos. Alguns falsos devotos tem por tarefa neutralizar os jesuítas.

Com um grande rosário em volta do pescoço

dissertam sobre a felicidade de servir a Deus, investigam o estado

espiritual da redução

oram de várias formas,

(HAUBERT, 1990, p. 157).

Aqui, encontramos novamente a figura do capelão-beatão já mencionada por

Montoya. Enquanto crânios de crianças indígenas são esmagados de encontro às árvores, o

religioso expedicionário ora e parla menta sobre as virtudes da devoção. Esse ataque

paulista ocorreu em setembro de 1628, sob o comando de Antônio Raposo Tavares. Para

fornecer algumas informações adicionais sobre a qualidade dos padres no Brasil Colônia,

entendemos ser de utilidade refletir sobre a obra A Companhia de Jesus e o Plano

Português do Brasil, de Vitorino Nemésio. No capítulo XXI do citado trabalho, o autor

trata da chegada do padre Manoel da Nóbrega à Bahia, em 29 de março de 1549, na

incipiência da instalação inaciana na colônia . Nóbrega encontrou na Bahia sacerdotes que

contrariavam o rígido código disciplinar da Companhia de Jesus. Tais homens eram

impenitentes, levando vida libertária e desregrada, em dissonância gritante com os cânones

católicos. Sobre isso, vejamos o que escreveu Nóbrega:

Os clérigos que havia no Brasil eram por enquanto ‘a escória que de lá vem’, quando eram precisos sacerdotes ‘de vida aprovada’ (NÓBREGA apud NEMÉSIO, 1971, p. 203)

Se o modo de vida dos padres da Bahia já não era muito aprovado por Nóbrega em

1549, menos ainda dignificante era o modus vivendi dos religiosos afixados em São

Vicente, como teve oportunidade de constatar o mesmo e iminente Nóbrega em 1553,

86

portanto cinco anos depois de seu estarrecimento ante os padres do Nordeste. Observemos

o que escreveu Nóbrega:

Dos dez padres de missa que lá havia, ‘só dois ou três não tem sete ou oito filhos como os outros’, e esses mesmos dispunham de serralhos de ‘cinco índias ou seis índias de má vida’. Havia dez anos que um deles não subia ao altar; outro, idem, há coisa de três ou quatro, e aos outros mais lhe valia não celebrar (NÓBREGA apud NEMÉSIO, 1971, p. 271)

Maculando, conspurcando os preceitos da Igreja Católica, esses padres causavam

estupefação nos clérigos inflexíveis, que guardavam as regras do sacerdócio com estrita

observância. Parece-nos fácil a compreensão das críticas de Nóbrega no que diz respeito a

estes homens de batina e vida libertina, que enodoavam a reputação do clero através da

concupiscência poligâmica. A causa da indignação de Nóbrega foi nesse caso a vazão de

desejos lúbricos com índias, que é válido lembrar, andavam semi-nuas na capitania de São

Vicente, com suas vergonhas à mostra.

Já em Montoya, as críticas são dirigidas à hipocrisia e à omissão dos padres

capelães das bandeiras, que oravam enquanto índios eram esquartejados perante seus

olhos. Cumpre aqui ressaltar que o puritanismo presente no discurso de Nóbrega e

Montoya é um desdobramento natural das convenções cristãs, que expresso através da

oralidade ou da pena, busca corroborar a imposição dogmática da fé, repudiando a prática

sexual livre e a violência, mas não prescindindo da evangelização etnocêntrica, calcada no

desmanche de todo o rico universo religioso indígena, depauperando o poder dos Xamãs e

Pagés e promovendo a destribalização. Esse processo incipiente de aculturação, visava

abrir espaço mítico-religioso-social para que a cruz cristã reinasse altaneira, onde outrora o

diabo havia obrado, através das práticas ritualísticas nativas.

Essas considerações sobre clérigos cumpridores e não cumpridores da doutrina

católica, bem como sobre os contundentes arrazoados de Nóbrega e Montoya,

submeteram-se, sobretudo, à nossa intenção de buscar entender – em termos contextuais –

as ações do clero no Brasil Colônia. Os homens naturais da América foram desrespeitados

tanto pelos padres lúbricos, quanto pelos evangelizadores. Uns faziam sexo com índias,

enquanto outros disseminavam que os líderes religiosos tribais obravam sob inspiração

demoníaca. Nesse sentido, faz-se necessário isentar Montoya da prerrogativa de protetor

dos índios. Essa asserção é fundamental para que possamos entender esse jesuíta como um

homem, que pela sua formação, entendia como execráveis as ações dos bandeirantes –

sendo elas escravistas ou homicidas –, mas que obviamente não estava ocupado em

87

preservar as tradições mitológicas e comunitárias dos índios. Muito pelo contrário,

Montoya era um sacerdote proeminente, respeitado por seus pares de devoção, encarnando

a figura emblemática do evangelizador católico, que à toda espiritualidade não cristã

procura aniquilar. Adiante teremos a oportunidade de abordar uma ação concreta desse

padre, que procurou salvar doze mil índios da ferocidade dos bandeirantes

índios, doze mil ovelhas de seu rebanho, já usurpadas de suas tradições, em pleno processo

doze

mil almas de Jesus Cristo, salvas da barbárie pela piedade da Companhia de Jesus. Esse

episódio, de fuga em massa pela mata, foi dirigido por Montoya quando da aproximação de

uma expedição de apresamento. Nessa empresa, o missionário e milhares de índios

cumpriram a pé um percurso significativo, enfrentando toda a sorte de fatores adversos,

quer geográficos, alimentares ou patológicos. A atividade corporal empreendida foi

intensa, propiciada por singularidades anátomo-fisiológicas particulares à situação de medo

ou pavor. Como dissemos, adiante trataremos desse êxodo com mais detalhamento. Por ora

julgamos ser elucidativo, em termos historiográficos, incursionar ainda um pouco acerca

do modo de vida dos padres no Brasil Colonial, visando sobretudo mostrar que as

iniqüidades do clero não ficaram cinrcunscritas apenas aos beatões das bandeiras.

Pontilham na historiografia, de forma facilmente perceptível, as menções sobre os

religiosos de conduta duvidosa no período colonial brasileiro. Em História Geral das

Bandeiras Paulistas, Taunay aborda a imigração de padres e frades para os arredores dos

jazigos auríferos de Minas Gerais, desvencilhando-se por conta própria de seus afazeres e

obrigações eclesiásticos, a despeito das determinações de seus superiores. Vejamos o que

doze mil

de aculturação, em pleno curso de aceitação dos padrões místico-culturais europeus

escreveu Taunay:

Pelo território aurífero avultavam frades que pelo emprego de bons modos e paciência jamais se conformariam a se recolherem a seus conventos, pois na clausura não lhes seria possível continuar a vida licenciosa das minas (TAUNAY, 1936, p. 282).

Agindo desabridamente à revelia da hierarquia da Igreja, esses religiosos afluíam

para as áreas de mineração, onde se revelavam renitentes aos chamados de seus

responsáveis. Sobre isso deixou escrito Taunay:

Os bispos e os prelados de várias ordens viviam amargurados ao verificar que se não fazia conta alguma das suas censuras. Não conseguaim fazer voltar aos seus bispados e conventos os não poucos clérigos e religiosos, que escandalosamente andavam nas terras auríferas, onde havia muitos apóstatas, egressos e giróvagos (TAUNAY, 1936, p. 278).

88

Refletindo sobre a inquietação da própria coroa perante essa situação, escreveu o

mesmo historiador:

Desde vários anos aliás preocupava-se o governo do reino com a presença e permanência destes clérigos de má vida, emigrados para o

longínquo Brasil para fugirem às penas impostas pelos seus prelados, ou

às justiças reais (TAUNAY, 1936. p. 278).

Observa -se aqui que tais clérigos tinham débitos anteriores não apenas com a

Igreja, mas também com a justiça majestática. Esses homens de sotaina aportavam no

Brasil em número cada vez maior. Para verificarmos isso, observemos ainda estes escritos

de Taunay:

A imigração de clérigos maus chegou a tomar tais proporções que em

1709 motivaria uma carta régia de Dom João V proibindo a passagem

e

pertubação por eles causados nas minas para onde logo passavam’. Uma vez lá zombavam das ordens de despejo que lhes eram intimadas pelos governadores do Rio de Janeiro. Assim se exigiria de todos os mestres de embarcações partidas do reino e das ilhas a decalração formal de que não transportavam religioso clandestino, sob pena de multa de dois mil cruzados (TAUNAY, 1936 p. 279).

ao

Brasil

desses

homens

sem

licença

real

‘pelo

grande

dano

Enfatizemos que esse deslocamento de religiosos para as minas de ouro ocorreu na

primeira década do século XVIII, sendo esses imigrantes apontados como de conduta

reprovável. Montoya deixou escrito no século XVII sobre os beatões das bandeiras, que

em suas ações contrariavam os dogmas católicos, sendo que no século XVI Manuel da

Nóbrega adjetivou como escória os clérigos do Brasil. Destarte, em síntese, torna-se clara

a recorrência de considerações desabonadoras ao clero, tecidas ao longo de dois séculos de

escrita da história colonial brasileira, lembrando que muitas vezes as acusações partiram

de homens servidores da Igreja.

3.

A fuga do Guairá: medo historicamente construído e terror supersticioso

determinam sôfrega motricidade humana

O bandeirismo apresador espalhou a morte, o terror e o trabalho forçado entre os

homens naturais do Brasil, principalmente aqueles que já se encontravam reduzidos pelos

jesuítas.O motivo desta predileção era óbvio, pois nas reduções os índios estavam

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concentrados em termos demográficos, configurando um manancial considerável e

populoso, donde se extraía grande número de presas a cada investida. A desmedida

agressividade também pode explicar-se – além da necessidade da imposição do medo

como fator intimidador – pela grande quantidade de índios presentes, que acaso

oferecessem resistência podiam causar estragos consideráveis à tropa sertanista, com

ferimentos e baixas no contingente invasor. Sob esta concepção, torna -se também não

descabido o raciocínio de que os bandeirantes agiam assim também por cautela, atacando

fulminantemente uma agregação de índios que, pela vultosidade numérica, podia se

transfor mar num importante fator antagonista, em termos de confronto aberto. É fácil

observar que a costumeira tática paulista pretendia impedir deflagrações de batalhas,

priorizando sobretudo o controle inicial e imediato da situação. Sobre a invasão dos

paulista s na região do Guairá escreveu Montoya:

Entrou essa gente em nossas reduções: cativando,matando e despojando altares. Fomo-nos com pressa três padres rumo a seus ranchos e alojamento, onde já retinham muita gente presa. Pedimo-lhes que nos devolvessem os que haviam cativado, pois não eram poucos os que possuíam acorrentados. Como loucos frenéticos gritaram de imediato, dizendo: prendam-nos! Prendam-nos, pois são traidores! Juntamente dispararam alguns arcabuzes, ferindo oito ou dez dos índios que nos acompanhavam. Morreu um deles, ali mesmo, devido a um balaço, que lhe deram numa das coxas. O padre Cristovão de Mendoza saiu ferido de um flechaço (MONTOYA, 1985, p. 125).

Acreditamos ser facilmente perceptível que nossa exposição desce às minudências

das características ominosas dos assaltos paulistas às reduções. Cabe portanto explicar, que

disto depende em grande parte, tanto em termos históricos quanto em termos de motilidade

física, qualquer intenção de entendimento deste deslocamento coletivo comunitário

encetado pelos sertões da colônia, que atravessou todas as capitanias do sul do Brasil. Para

tanto, observemos as ações dos bandeirantes, quando já consumado o apresamento e a

contagem dos cativos, na iminência da partida de retorno à Piratininga, após a devastação

das reduções de Santo Antônio e São Miguel. Sobre isso escreveu Montoya:

Soubemos que já pretendiam ir-se embora e que pensavam em queimar os enfermos e impedidos de viajar. Mandei que fosse ter com eles o Padre Cristóvão de Mendoza, para que lhes pedisse a permissão de antes os batizar ou ao menos a sua não-matança. Responderam, com suas astúcias costumeiras, dizendo que nos avisariam, mas, retirando-se daquele posto, que é uma espeçie de curral maior que a praça de Madrid, puseram fogo às choças, que todas de palha, onde queimaram muitíssima gente com inumanidade de feras (MONTOYA, 1985, p. 127).

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Deixando atrás de si um sulco de morte, incineração e ruínas, os bandeirantes

iniciavam a longa marcha de volta a São Paulo, conduzindo os indígenas capturados, que

seriam escravizados no trabalho de lavrar, plantar e colher. Na verdade, a partir do

momento do apresamento, os índios já eram escravos consumados. Acorrentados uns aos

outros, – para coibir movimentos individuais mais amplos, que lhes permitisse a fuga, – os

índios caminhavam pela mata, guiados por seus captores. Nesta viagem a pé, já totalmente

subjugados pelos bandeirantes, as presas sofriam toda a sorte de compungimentos.

Vejamos as palavras de Haubert:

Forma-se em direção a São Paulo o cortejo dos cativos, que geme sob as sevícias, gritam de fome, urram de dor com a separação. Todos aqueles que não podem segui-lo são mortos ou abandonados à sua agonia (HAUBERT, 1990, p. 157).

No que diz respeito aos ataques paulistas e à condução dos cativos ao planalto

vicentino, escreveu o mesmo autor: “

incendiadas e pelos cadáveres que juncam a floresta” (HAUBERT, 1990, p.157).

seu rastro sendo reconhecido pelas aldeias

Montoya escreveu sobre os padres Simão Masseta e Justo Mansilla, que em janeiro

de 1629 acompanharam os bandeirantes e os índios apresados em Santo Antônio e São

Miguel, quando da marcha rumo a São Paulo. Observemos suas palavras:

Aos mortos que ficavam pelos caminhos, não era possível enterrá-los.

Tendo percorrido quase trezentas léguas a pé, chegaram à Vila de São

Paulo

(MONTOYA, 1985, p. 127).

Sobre o retorno desta mesma bandeira ao planalto paulista, acompanhada pelos dois

jesuítas já mencionados escreveu Volpato: “

prisioneiros pelo caminho” (VOLPATO, 1985, p. 82).

As expedições de apresamento, quando de retorno ao planalto e bem sucedidas em

termos de quantidade de apresados, deixavam nas matas uma trilha onde pontilhavam

não restam dúvidas sobre a grande perda de

homens mortos. Isso fica claro em Montoya, Volpato e Haubert. Uma trilha fúnebre,

lúgubre. Uma trilha de defuntos, um caminho de cadáveres.

Também sobre a triste marcha dos índios escravizados, citando partes do relato de

um jesuíta de nome não mencionado, escreveu Monteiro:

A longa caminhada até São Paulo prometia horrores adicionais, ‘como matar os enfermos, os velhos, aleijados e ainda crianças que impedem os pais ou parentes a seguirem viagem com a pressa e expediência que eles pretendem e procuram às vezes com tanto excesso que chegaram a cortar braços a uns para com eles açoitarem os outros’. Outro padre denunciou que os paulistas se comportavam com tanta crueldade que

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não me pareceu ser cristãos, matando as crianças e os velhos que não conseguem caminhar, dando-os de comer a seus cachorros (MONTEIRO, 1994, p.73).

Todos estes horrores até aqui abordados – desde as chacinas dos ataques, passando

pela omissão dos beatães e culminando com a jornada até São Paulo –, incutiram um

sentimento de medo profundo nos silvícolas das missões, como também em muitos dos

missionários inacianos. A expectativa e tensão, ante a iminência ou irrompimento

inesperado de uma investida paulista era um sofrimento diário. A qualquer momento podia

acontecer o pior. Uma sombra de pressaga aflição pairava sobre as reduções do Guairá. De

uma hora para outra podia ser desencadeada a desolação completa, trazendo a morte e a

escravidão. Vejamos sobre isso as palavras de Haubert:

Durante muitos anos, a vida cotidiana das famílias reunidas pelos jesuítas é dominada pelo medo dos mamelucos, pelo terror das pilhagens, pelo horror das aldeias incendiadas. A vida cotidiana se resume em neófitos fugindo precipitadamente para a floresta e que, para evitar ser capturados, amarram o focinho dos animais domésticos e cortam a língua dos galos. A vida cotidiana é aquela velha que ficou sazinha em sua aldeia e se enforca de desespero (HAUBERT, 1990,

p.158).

Esse denso suspense, além de pôr os índios em sobressaltos, serviu para alimentar

as tendências místicas de não poucos jesuítas, que passaram a conotar os bandeirantes

como asseclas de Satã. No que concerne a essa questão, escreveu Haubert:

Alguns missionários contam que, à aproximaçao dos mamelucos, viram lágrimas ou suor aflorarem nos quadros e estátuas da igreja. Por vezes, o próprio diabo se encarrega de trazer o presságio funesto, aparecendo, por exemplo, sob a aparência de um mameluco. É verdade que, por outro lado, ele assume o aspecto da Rainha do Céu para impedir o êxodo! (HAUBERT, 1990, p.158).

Essas palavras evocam não apenas o clima de misticismo reinante entre os

missionários, como evidenciam ainda suas intenções de fuga, que por sua vez eram

coibidas pelo estratagema do diabo disfarçado de Rainha do Céu , visando ludibriá-los,

persuadindo-os a permanecer nas reduções, esperando pela chegada dos paulistas sem o

saber. Esse exercício contemplativo de agouros e pressentimentos espirituais, assumiu, sob

certo sentido, propensões escatológicas. Sobre isso, verifiquemos o que escreveu Haubert:

Se realmente é o apocalipse que está começando, os mamelucos fariam parte das hordas do Anticristo: em San Miguel, o dragão derrubado pelo

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arcanjo é transformado em estátua com os traços de um paulista (HAUBERT, 1990, p.170).

Aqui é mencionado o apocalipse, o início do fim dos tempos, como também a

transfiguração do dragão sob os pés de São Miguel Arcanjo, metamorfoseado em

bandeirante. Uma imagem foi talhada em madeira na redução de São Miguel,

representando um paulista onde deveria estar o dragão, abatido e encimado pelo arcanjo

guardião do céu, que brandiu sua espada contra Lúcifer e suas legiões, expulsando-os do

paraíso. Nas estátuas convencionais, o dragão é a representação imagética do demônio. Na

estátua de madeira da redução já aludida, não existe o dragão – representando o mal –, mas

sim um sertanista de São Paulo, com chifres na cabeça, representando também o mal, até

mesmo de forma mais direta, menos alegórica que o dragão. Nesse sentido, o bandeirante

nessa escultura foi conotado como o próprio Satanás. Deixada de lado essa especificidade

da escultura em madeira, notamos que os paulistas em geral são mitologicamente

considerados como sequazes do malígno, as hordas do Anticristo.

O pendor para as reflexões apocalípticas ou fantasias religiosas macabras, parece

ter sido bastante pronunciado no Guairá. Em diversas situações eram vislumbrados

prelúdios trevosos. Sinais sobrenaturais eram detectados sem muita dificuldade. Os escritos