SUBSÍDIO PARA O CANCIONEIRO POPULAR

DO BAIXO ALENTEJO
Comentário, recolha e notas de Manuel Joaquim Delgado

Instituto Nacional de Investigação Científica

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

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Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

DO BAIXO ALENTEJO
Comentário, recolha e notas do autor 2.ª Edição

SUBSÍDIO PARA O CANCIONEIRO POPULAR

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OUTRAS OBRAS DO AUTOR Sisenando Mártir e Beja sua Pátria (de Frei Manuel do Cenáculo Viuas-Boas. - Comentário e notas. Pubjicado no «Arquivo de Beja», - III, 352; IV. 1ó8 e 352: V. 211; VI, 229 e 42ó (em 194ó. 1947. 1948 e 1949). (Esgotada). As Rezas e Benzeduras do nosso povo. - Publicado no «Arquivo de Beja»,-VIII, 75; IX, 48, em 1951 e 1952. (Esgotada) Linguagem Popular do Baixo Alentejo, - Beja. 1951 (Esgotada). Gentílicos e Apodos Toponímicos Alentejanos e Algarvios, Opúsculo, Lisboa, 1953. (Esgotada) O que o nosso povo reza... e o que reza ... Orações e Ensalmos. Publicado no «Mensário das Casas do Povo» - N.ºs 91, 92, 94, 95 e 9ó, em 1954. (Esgotada). Crendices, superstições e adágios do nosso povo. As «maias» e o «enterro do bacalhau» em Beja. - Publicado no «Mensário das Casas do Povo» - Nºs 103, 104, 105 e 10ó, em 1955. (Esgotada). Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. - Vols. I e 1I (Edição de Álvaro Pinto – «Revista de Portugal» - Lisboa, 1955. (Esgotada). A Etnografia e o Fofclore no Baixo Alenlejo - (Separata da Revista; «Ocidente» - Vols. LIV e LV) - Lisboa, 1957/58. (Esgotada). O Fruto da Vida (Poemas), Lisbca, 19ó7. Estudos Linguísticos - O Idioma Português, Lisboa, 19ó8. Ensaio Monográfico (Histórico, Biográfico, Linguístico e Crítico) acerca de Beja e dos bejenses mais ilustres, Lisboa, 1973. Pendor Etemo (Poemas), Beja, 197ó. O Pão da Culpa (Poemas). Lisboa, 1979.

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SUBSÍDIO PARA O CANCIONEIRO POPULAR

DO BAIXO ALENTEJO
Comentário, recolha e notas de Manuel Joaquim Delgado

2.ª edição

Instituto Nacional de Investigação Científica LISBOA 1980

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Reprodução interdita - Direitos reservados

Capa de Vasco Grácio

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Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

CURRICULUM VITAE - ALGUNS ELEMENTOS BIOGRAFICOS DO AUTOR Manuel Joaquim Delgado, nasceu em Beja a 2 de Janeiro de 1910. Filho de Pedro Jose Delgado e de Carolina das Dores Engana Delgado, o autor de «Pendor Etemo» (Poemas) era o 4.°, em ordem decrescente de idades, de 12 irmãos dos quais 3 já faleceram. Todos naturais de Beja. Seu pai era lavrador alentejano e sua mãe, doméstica - e não se diga que sua mãe não tivesse tido sempre que fazer!... criar e educar tantos filhos! Como provincianismo alentejano, o vocábulo lavrador significa, não já «0 que trabalha a terra, o que a lavra e cultiva», mas o próprio proprietário, o dono dela, no caso presente, não de grandes latifúndios, mas tão somente de alguns olivais e ferragiais, algumas courelas, - terras de semeadura - e duma bela quinta denominada Fonte Figueira a cerca de 2 quilómetros da cidade, junto à linha férrea de Lisboa - a linha do Sul e Sueste - que, com tanto esmero, seu pai cultivou e tratou, com o melhor esforço e a mais viva inteligência, durante os últimos anos de sua vida. Possuía ainda algumas modestas moradias na cidade. Tudo poquenas propriedades rústicas e urbanas, fruto do seu trabalho e esfoços persistentes. É casado com Isabel da Conceição Ramos Piteira, professora oficial aposentada. Tem três filhas, a mais velha das quais Maria Manuela é Professora no Liceu de Camões e licenciada em Filologia Românica; a do meio em ordem decrescente de idades, Maria Isabel, é licenciada em Ciências Biológicas e presentemente Assistente na Faculdade de Medicina, em Lisboa; e a Maria Gabriela a mais nova e educadora de infância, mas presentemente é Técnica dos Serviços Sociais de Assistência. Sem grau académico, pois suas habilitações oficiais resumem-se ao curso de professor primário e ao 7.0 ano de Letras do Liceu – o autor de «Pendor Etemo» é-o também de uma série de obras de carácter dialectal, linguístico, filológico, etnográfico, folclórico, monográfico, literário (poético), etc., as quais menciona no começo desta obra e de outras, tais como: «Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo», «A Etnografia e o Folclore no Baixo Alentejo», «Gentílicos e ápodos toponímicos alentejanos e algarvios», «0 Fruto da Vida» (Poemas), «Estudos Linguísticos», «Ensaio Monográfico (histórico, biográfico, linguístico e crítico) acerca de Beja e dos bejenses mais ilustres», «Pendor Etemo», (Poemas) e «O Pão da Culpa» (Poemas).

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O leitor curioso e interessado poderá, querendo, ler, no final das últimas obras publicadas, as críticas e os comentários que, oportunamente, foram feitos às mesmas. Como professor primário exerceu funções docentes cerca de 18 anos e, durante mais de 20, desempenhou funções administrativas de direcção e inspecção do distrito escolar de Beja. Cumulativamente com as de adjunto desempenhou, ainda, por três períodos, durante cerca de 4 anos e meio, as funções de director da distrito escolar de Beja. A sua primeira actividade literária foi a de colaborador assíduo nos jomais que se publicam em Beia «Diário do Ajentejo», «Notícias de Beja» e «A Planície», que se publicou em Moura. As crónicas e arligos que neles inseriu e publicou, durante vários anos tratam, quase todos, de assuntos histórico-literários, linguísticos, biográficos e críticos. Depois, dedicou-se à etnografia, ao folclore, à linguística e começou de publicar os seus trabalhos, como colaborador assíduo, nas revistas «Arquivo de Beja», «Mensário das Casas do Povo», «A Planície», «Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa», «Boletim da Casa do Alentejo», «Revista de Portugal Língua Portuguesa», revista «Ocidente», «Revista Portuguesa de Filologia», «Anales del Instituto de Linguistica» de la Universidad Nacional de Cuyo, Mendoza (Argentina), etc. Sua maneira de ser é genuinamente alentejana. Sem subserviências de espécie alguma para com os seus semelhantes, por idiossincrasia, sempre se mostrou contrário à sem-razão, ao falso espírito crítico, ao comentário injusto. Teve sempre manifesta tendência a sentir, de modo especial e muito seu, a influência de diversos agentes, quer do meio ambiente, quer do meio social e humano em que tem vivido. Isso mesmo bem o mostra nas suas obras, com especial relevo no «Pendor Etemo». Teve sempre réplica pronta ou comentário adequado à contestação do juízo crítico de quem quer que seja quando a sua crítica não é séria e peca por falsa ou injusta. Por outra parte, sempre aceitou por bem o reparo oportuno, leal e justo, a correção do erro quando na verdade ele existe e se verifica. O AUTOR

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ACERCA DESTE CANCIONEIRO
A ideia da organização de um Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo representou-se em minha mente, depois que, no «Arquivo de Beja», em que tenho vindo colaborando de há cinco anos a esta parte, publiquei alguns artigos acerca das cantigas populares desta Província. E, movido por uma tendência ou interesse especial, dediquei-me então com entusiasmo à recolha de «cantigas», «modas» e outras composições poéticas do nosso Povo. Mas, não me contentei com recolher materiais de natureza folclórica, senão também variadas produções etnográficas: provérbios, contos, lendas, adivinhas, orações, romances, factos ou fenómenos da linguagem popular (vocábulos e e sua pronúncia especial e regional, expressões próprias do falar alentejano, modos de dizer, frases feitas, alterações semânticas de algumas palavras, etc.). Mui particular interesse me mereceram, desde logo, as coisas da linguagem e, tal como sucede às cantigas, tenho vindo publicando no referido «Arquivo» alguns artigos de linguagem popular do Baixo Alentejo. Com paciente devoção e tenaz persistência continuei na recolha de «modas» e «cantigas». De tal modo elas se avolumaram que reconheci a necessidade: de organizar uma colectânea que formasse um cancioneiro (sob pena de perder-se todo o material recolhido). Ela será, assim o cremos, subsídio valioso para mais completo cancioneiro popular desta Província se. Porventura, um dia houver de organizar-se: o qual, por sua vez, será boa achega para futuro Cancioneiro Nacional que há-de formar-se de cancioneiros regionals. Mais de dois terços das poesias aqui coligidas foram por mim próprio recolhidas directamente da boca do povo, não só em Beja, senão também noutras localidades Baixo Alentejo. As restantes foram-me enviadas por pessoas amigas de vários pontos da Província. Julgo oportuno abrir neste lugar um parágrafo para fazer uma referência particular. A essas pessoas que, de boamente, se prontificaram a fomecerme materiais para este cancioneiro, e a todas quantas de igual modo mostraram sua boa vontade, ditando ou cantando as cantigas que sabiam, a fim de eu as escrever, vai meu agradecimento par sua valiosa colaboração, que me foi prestada, sem a qual não seria passivel a organização do presente cancioneiro.

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Apesar do número considerável de quadras populares e «modas» coligidas foi nosso propósito intitularmo-lo de SUBSÍDIO PARA O CANCIONEIRO POPULAR DO BAIXO ALENTEJO (aliás, como saiu na 1ª edição, mau-grado contra-vontade do editor, o Senhor Álvaro Pinto, já falecido), e não de Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo,para não fazermos crer, ainda que aos menos avisados, que se trata de trabalho completo em tal matéria. Não, não o é, pois muito há que recolher e registar, e seria estultícia ou vã lisonja se desse modo procedessemos, porquanto sabemos por experiência própria e directo conhecimento quão vasto é o campo a explorar e investigar, tanto em matéria folclórica como na etnográfica. É nossa Provincia uma das mais ricas e características por sua fonte inesgotável de materiais folclóricos. Como manifestação espiritual e artística da vida e do sentir de um povo, a poesia e o canto sempre, em todos os tempos, tiveram papel de relevo. Demais, tão ligada à vida ela está que não é senão manifestação extema da própria vida, forma de expressão dos sentimentos e pensamentos do povo que a cria, reflexos da alma que sente, pensa e quer. E possível em dado momento inquirir do ror de produções que o povo há criado. Criações, que serão recentes, umas; outras, antigas, e que pela força da tradição chegaram até nossos dias por via oral, transmitidas de pais a filhos, de avós a netos, de geração em geração no decurso dos tempos. Passado, porém, esse momento, surgem novas criações, outras se perdem, tudo isto numa evolução contínua, que não cessa, e de que se não pode precisar bem nem o começo nem o fim. Esse poder de criação contínuo, tão ligado ele está à vida que, integrando-a em si próprio, outra coisa não é senão aquilo a que Bergson chamaria com justificada razão «L'evolution creatrice». O Povo Alentejano canta e sabe can tar em todos os momentos da sua vida, quer nos dias festivos, alegres e de regozijo, quer nas horas amargas e tristes da existência. Atente-se na quadra a seguir, os sentimentos de tristeza e desconsolo que sente a alma daquele que, abandonado e sozinho no mundo, sem ninguém de família, se lamenta, quando diz:
Já não tenho pai nem mãe Nem nesta terra parentes, Sou filho das águas turvas, Neto das águas correntes. Variante: Já não tenho pai nem mãe Nem nesta terra parentes, Sou filho das tristes ervas, Neto das águas correntes.

Note-se a linguagem figurada nestes versos:
Sou filho das águas turvas, Neto das águas correntes. Ou Sou filho das tristes ervas,

A ideia e os sentimentos expressos em ambas as cantigas são os mesmos – o de um abandonado, um enjeitado ou órfão de pai e mãe.

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Tentaríamos ainda a seguinte interpretação:

A metáfora aqui empregada faz comparar, por certa, e ainda que apagada semelhança, os pais já falecidos às águas turvas. Turvo é o contrário de limpido, claro e sinónimo de escuro, negro. A vida é a luz, a verdade. A morte é antítese da vida, é falta de luz, negridão, turvação. Turvos são os semimentos de tristeza e amargura que provocam em quem os sente a conturbação ou perturbação da alma. Águas correntes dão-nos o sentido de movimento contínuo, que não pára. É a sucessão contínua de umas gerações a outras. Portanto, águas correntes também aqui significam, em relação ao passado, águas que já correram, já passaram. E os avós distante vai o tempo que faleceram. Aí está outro a lamentar-se, desgostoso da vida, da perda irreparável de sua mãe amada:
Ó minha mãe, minha mãe, Ó minha mãe, minha amada, Já perdi a minha mãe Já não faço gosto em nada. Variante Ó minha mãe, minha mãe, Ó minha mãe, minha amada Quem tem uma mãe, tem tudo, Quem não tem mãe, não tem nada.

Sim, ter mãe é a suprema ventura, é ser feliz. Não a ter é não ter nada, porque nada no mundo iguala a amor matemo. Esse amor é graça divina, é sentimento sagrado por excelência. Acerca do plano e trabalho de ordenação diremos que este Cancioneiro está dividido em três partes. A primeira, a mais extensa, trata de quadras populares, ou como o povo lhes chama - cantigas, naturalmente porque se cantam; a segunda, São «modas», isto é, canções regionais alentejanas; e a terceira parte é formada de variadas composições poéticas do nosso Povo. Tanto umas como outras foram ordenadas alfabelicamente. Por sua vez as primeiras destas composições formam grupos au séries. cujos capítulos são fontes ou motivos gerais de inspiração de seus criadores. Deste modo, as quadras que se referem às povoações ou lugares do Baixo Alentejo serão ordenadas num grupo; as que falam de objectos de adomo ou peças de vestuário farão parte doutro; as que se referem aos sentimentos - a paixão do amor, o ódio, o ciúme, a tristeza, a alegria, a saudade, etc., irão noutro. Esta ordenação alfabetada por partes e o agrupamento em séries, formando capítulos é meramente arbitrária. Entendêmo-lo assim, crendo numa maior facilidade de consula. Todavia, o critério adoptado no plano deste trabalho julgamolo acertado no que respeita à ordenação alfabetada das quadras, posta que se assim não procedessemos (e tivemos disso a experiência) sucedia repetirem-se, por vezes, as mesmas cantigas. E, para obstar a tal inconveniente eis a razão por que assim fizemos. A ordenação e o agrupamento deste modo feito não é nem absoluto, nem rigoroso e nem mesmo tem carácter de classificação, porquanto se há cantigas que falam de amor, paixão e fazem parte de um capítulo

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outras há que, falando numa e noutra coisa e referindo-se a localidades, a astros, etc., terão de fazer parte de algum desses grupos. Então, surge a pergunta: em que grupo incluiremos essas? Já esclareci que nãoé rigorosa esta ordenarção por partes. E o facto de uma cantiga se referir a certa localidade ou a algum dos sentimentos humanos, não significa que aí esteja a ideia ou os sentimentos que se querem exprimir, pois o objecto principal poderá ser outro. Para ordenar alfabeticamente todas as «cantigas» e «modas» recolhidas, houve que registá-las primeiro em verbetes. Trabalho um tanto exaustivo e demorado. Nesses registos respeitei, tanto quanto possivel, a pronuncia característica das localidades estudadas, o que, de certo modo, contribuirá para valorizar este trabalho. Cada cantiga leva registada a localidade ou localidades onde foi colhida. A verdadeira procedência ou origem de muitas delas, nem sempre é fácil sabe-lo, pois há cantigas com oito, nove e dez registos. E ainda naquelas que levam apenas um registro, pode, em certos casos, ser igualmente duvidosa a verdadeira origem, porquanto nem todas as freguesias foram estudadas. O que se não pode duvidaré que elas não sejam alentejanas (salvo raríssimas excepções) e muito portuguesas. Algumas das cantigas regitadas são originais de conhecidos poetas. Nem por isso deixei de as incluir, pois de tal modo se identificam com as populares que a próprio povo as toma como criações suas. Outras há, porém, que, sendo essencialmente as mesmas apresentam, contudo, ligeiras variantes, quer nas formas vocabulares empregadas, quer apenas na pronúncia. Tudo isto é necessario registar-se para conhecimento do seu meio geográfico, e para que um dia passa ser feito o seu estudo comparativo com as de outros cancioneiros regionais, onde igualmente são conhecidas. Farei as anotações de que houver necessidade para seu esclarecimento e compreensão e, acerca de cada capílulo, ligeiro comentário ou considerações de conjunto. Variadas são as cantigas populares. As mais delas exprimem ossenlimentos da pessoa humana. A paixão do amor tem especial relevo. Toda a gama de sentimentos que constituem a vida afectiva do indivíduo elas exprimem. O prazer e a dor, a alegria e a tristeza, o ódio, o ciuúme, a inveja, o desgosto, a resignação, a saudade, a melancolia, o orgulho, etc., tudo nelas se versa. Os próprios sentimentos - religioso, moral, intelectual e estético aí se retratam. A flora e a fauna da região, os astros, as produções agrícolas, as povoações, os diversos e variados trabalhos campestres (sementeiras, mondas, ceifas, debulhas), e as estações ou quadras do ano em que se realizam, tudoé motivo paraser cantado em verso. Há cantigas humorísticas, sarcásticas e mordazes. Há as irónicas, sentenciosas, anedóticas, de disputa ou desafio. Há outras que requerem cálculo e ainda as de carácter filosófico, pois o povo tem a seu modo uma filosofia, que é muito sua, filha da experiência.

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A finalidade deste trabalho, que se resume quase exclusivamente na recolha, ordenação e inventário de materiais folclóricos do Baixo Alentejo, pouco mais é que uma tetativa de estudo, para que melhor possa conhecer-se a alma alentejana. É certo que muito há ainda que investigar e recolher tanto no campo folclórico como no etnográfico. Mas, se não houver curiosos, investigadores interessados, a quem os outros faltos de paciência põem a ridículo e podem com ironia apelidar de «maduros» -, dizia eu, se não houver pessoas imeressadas por estas coisas, trazendo à publicidade tais cancioneiros, não será possível o conhecimento mais perfeito e pormenorizado dos valores espirituais e morais do nosso Povo. Com serem eles muito do interesse dos folcloristas e etnógrafos, nem por isso deixarão de merecer a todos a curiosidade e atenção que se Ihes deve. Cancioneiros regionais há alguns por esse País fora, e já o grande Mestre da Etnografia Portuguesa, Doutor J. Leite de Vasconcelos, dizia que não tínhamos falta de cancioneiros, o que era preciso era fazerem-se estudos comparativos, interpretativos, de investigação. Mas, num cancioneiro de seis ou sete mil cantigas, quem se abalança a tal empreendimento? Certo também de que aqueles que integrados nesta materia reconhecem quão exaustivo isso seria e o tempo que tal estudo levaria, não o farão em conjunto e no todo, senão em pequenas partes em anigos de revista. Demais, se é verdadeiro o provérbio: «nem só de pão vive o homem», a recíproca é igualmente verdadeira: «o homem não pode viver só do espírito». «Logo, primeiro, viver; depois, filosofar» ou, como diriam as latinos: «primo vivere; secundo, philosophari». E, para tenninar estas breves considerações, duas palavras são devidas ao nosso Alentejo. Desde há muito que ele foi apresentado ao mundo, logo nao carece de apresentação. De resto, nem seria eu (pobre de mim que nada valho!) o escolhido para o fazer A não ser neste ou naquele pormenor o Alentejo é de nós todos conhecido. Ainda o não conheceis bem e quereis conhece-lo, caros leitores? Empreendei, na Primavera, uma viagenzita por estas terras de além-Tejo e, então, ficareis maravilhados com o panorama que ante vossos olhos se vos depara: um mar de verdura em terreno ligeiramente ondulado e entrecortado de manchas negras, mais ou menos extensas, dos montados, acinzentadas dos olivedos e avermelhadas dos terrenos de poisio. E, a aqui ou acolá, salpicando todo esse mar de verdura, pontos brancos-os «montes». Vosso olhar se perderá extasiado nos longes dilatados do horizonte. Quereis conhecê-lo? Vinde em Julho ou Agosto, na época das ceifas e debulhas e vereis que aquele mar de verdura da Primavera se transfonnara, como por encanto, agora, no Estio, numa toalha loira de messes abençoadas, de rico pão, que, duramente, heroicamente, os pacíficos ceifeiros deitam por terra. Vereis a rija tempera dos trabalhadores nessa luta portentosa de ceifa e carregar, dificultada pelo calor abrasador e sufocante dos raios solares. E, depois, nas eiras, aquele pão, que a terra fecundíssima e uberrima gerou e produziu em tanta abundancia, ser debulhado por maquinismos modemos. A fisionomia panorâmica da Provincia é variada nas várias quadras do ano.

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Na verdade, a quem, desconhecendo a Província, passe, de comboio, em Agosto, sob um calor abrasador e tropical, através destas terras transtaganas, a caminho do Algarve, não colherá, por certo, impressão muito favorável, e toda a Província lhe parecerá estéril, profundamente monótona, desconsoladora e triste. Quão enganadora é essa aparência de esterilidade! Aqui, verá terreno de poisio avermelhado. Mais adiante, extenso sobreiral ou montado a perder-se de vista; ali, isolado, um «monte» muito alvo; mais além, num cabeço, outro de maiores proporções, a denotar assento de lavoura. E, junto dele, serras de palha para o gado; medas de lenha bem empilhada para se queimar; currais para os bois de trabalho, etc. O comboio continua a sua marcha através da planície, e não é difícil divisar, sobre as pemadas vergantes e esgalhadas das azinheiras ou dos chaparros, ou sobre algum penedo informe, isolado na terra de alqueive, negros corvos a crucitarem, cujo eco se perde ao longe nos vales pouco sinuosos e profundos. Também o viandante au turista pode ver, junto da linha férrea, por onde o comboio desliza, algum pequeno ribeiro, quase seco, onde as perdizes, em bando, quais galinhas bravas da cor da terra, molham os bicos sequiosos no charco lamacento, e, em que, agradados das frescura sob o céu cor de chumbo e ardente, se banham imundos as porcos disformes e enlameados. Quereis conhecer o Alentejo? Passai uma temporada numa desas grandes herdades e observai cuidadosamente toda a vida do «monte», e da lavoura, e da ceifa e da debulha, ou ide à feira de S. Mateus, em Elvas, à de S. João, em Évora, ou à de S. Lourenço e Santa Maria, no mês de Agosto, em Beja. Senão bastar-vosá simplesmente assistirdes a um desses mercados semanais ou mensais que se realizam em Évora e Beja. E aí vereis quanta riqueza animal (gados de toda a espécie: porcos, ovelhas, muares, burros, cabras, bois de trabalho, gada vacum, etc.) se cria por todo este Alentejo fora, e que são manancial inesgotável e fecundo, fonte de riqueza nacional. Mais adiante, o curioso verá num pequeno vale alguma verdura, a denotar fonte ou poço, qual oásis nos escaldantes desertos de África, onde pemaltas brancas e acinzentadas (as cegonhas), batendo matrácula, se deliciam nessa frescura apetecida. Atente-se um momento nessas fisionomias estranhas e tipicas dos pastores alentejanos. torrados do sol, de olhos fundos, chapéu grande de abas largas, de samarra e safões, manta ao orubro, tarro de cortiça enfiado no braço, estáticos, com o queixo apoiado sobre as mãos que seguram a volta arredondada do cajado alto, o cão deitado a seus pés, e verá que mais parecem figuras lendárias e mitológicas dos tempos patriarcais que verdadeiros homens. Neles está a expressão viva dos puros alentejanos. São manifestação eloquente da riqueza folclórica do Baixo Alentejo os concursos de cantos e trajos regionais desta Provincia que, em tão boa hora, o ilustre Govemador Civil do Distrito tem, de há três anos a esta parte, por ocasião do S. João, levado a efeito, com tanto exito,

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nesta cidade de Beja. É a prova de que no Baixo Alentejo todos cantam e bem. Direi ainda que, a ilustrar este trabalho folclórico e etnográfico, junto um mapa, que contém por concelhos todas as freguesias da Província, e que ajudará a localizar as povoações estudadas. Antes de terminar cabe fazer ligeira referenda aos escritores e poetas alentejanos. Silva Picão, no «Através dos Campos», dá-nos em linguagem simples, mas cuidada, a descrição realística e sincera da verdade alentejana; põe-nos em contacto com a alma deste povo, acolhedora e franca com estranhos, porém, desconfiada, desconfiança que se perde, quando se ultrapassa o limite do retraimento com que se defende dos desconhecidos; faz-nos sentir a epopeia heróica do trabalho agrícola, a luta do homem com a terra e sol; dá-nos a conhecer os usos e costumes e as festas tradicionais, a religiosidade de suas gentes. Fialho de Almeida, em «Os Ceifeiros», dá-nos um trecho incomparável do trabalho penoso e árduo da ceifa, a luta do homem com a terra e o calor ardente do sol. Manuel Ribeiro, em «A Planície Heróica», mostra-nos a alma dos chamequenhos, no conhecimento de sua força poderosa , nas ambições e sonhos que alimenta, e na consciência plena de seu poder genésico fecundado pelos raios criadores do sol. Mário Beirão, O Conde de Monsaraz e Fiorbela Espanca, em versos primorosos, cheios de lirismo, exaltaram, cada um de seu modo, o Alentejo e deram-nos a conhecer a verdadeira alma alentejana, não se contentando com fixar formas extemas, mas sondando o subjectivo e procurando desvendar os segredos mais íntimos da alma, dão-nos imagens, que sugerem e vislumbram um quê de mistério, o espectro das almas perante a tragédia do trabalho, a incomodante presença do génio das coisas. A alma do ermo, da solidão, do isolamento aparece-nos na visão poética de Mário Beirão, na hora em em que o silêncio estagna nos paúis em febre. Florbela Espanca, com os olhos a order em êxtase de amor, Boca a saber a sol, a fruta, a mel, no delírio ardente e sede de amor, sentindo-se a si própria, é bem a alma da planície, o espírito a casar-se com a matéria. E tantos outros poetas, escritores, pintores, cientistas, que, não sendo como aqueles estrelas de primeira grandeza, têm, no entanto, escrito sobre o Alentejo, exaltando-o no que tem de típico, de característico e de belo. Eis em síntese o plano do presente trabalho, o objectivo em vista e os comentários que me sugeriram. Que alguma coisa dele se aproveite e sirva de incitamento para mais completo e, porventura, mais perfeito conhecimento do folclore desta Província. Manuel Joaquim Delgado

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CARTA COROGRÁFICA do BAIXO ALENEJO

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PRIMEIRA PARTE

QUADRAS POPULARES

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CAPÍTULO I TOPONÍMIA - Nomes de lugares, aldeias, vilas, cidades, ruas e outros da Província do Baixo Alentejo. As «cantigas», que formam este capítulo, referem-se ao Baixo Alentejo, - às suas aldeias, às vilas, a Beja, em particular, aos nomes de certas ruas, etc. Igualmente elas falam das produções cerealíferas, da abundância de gados que se criam por toda esta Província, e ainda da riqueza do seu subsolo, isto é, dos minérios que se extraem em S. Domingos e Aljustrel. As referências a esta cidade de Beja são um tanto lisonjeiras, ampliadas pelo espírlto visionário e bairrista de seus criadores.
1.

A aldeia de Ficalho Está feita num deserto, Onde vivem meus amores Parece um céu aberto.*
*Observe-se que Ficalho, ou mais propriamente Vila Verde de Ficalho é, como seu nome indica, vila, e não aldeia

Beja

2.

A balí do Alentejo, Olhí para trás chorando. Alentejo da minh'alma, Que tã lõis me vás ficando!... A cidade de Beja Está que mete dó; Tem um regedor Com um olho só. A cidade de Lisboa Cercada de líios brancos Onde o mê' amor passeia Domingos e dias santos Adeus, aldeia de Brinches, Cercada de cravos brancos, Onde o meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus, aldeia de Quintos! Tudo à roda são quintais; Adeus, largo da igreja, Sepultura dos meus ais Adeus Beja, minha terra, Cidade do meu coração, Tenho-te, Torre de Menagem, Gravada no coração. Adés castelo de Beja, Vales mais que mil tesoiros, Tens sete séculos de idade, Conquistado pelos Moiros

Beja

3.

Beja

4.

Aldeja do Futuro

5.

Serpa

6.

Quintos

7.

Beja

8.

Beja

18

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos 9.

Adeus castelo de Moura, Pôs-se o sol, combate o vento; O meu coracão do teu Já não tem apartamento. Adés cidade de Beja, A dond' ê tô‟enzestindo, Diverte-se a mocidade Cantando, balhando e rindo. Adeus cidade de Beja, És minha terra natal, Capital do Alentejo, E celeiro de Portugal. Adeus cidade de Beja, Não é de ti que me lembro, É de que nela passeia, Que os meus olhos não estou vendo. Adeus cidade de Beja, Que tão longe me vas ficando. Em chegando à estrada nova, O vento me vai levando. Adeus cidade de Beja, Terra da minha desgraça. Eram três horas da tarde, Condo* ê assenti praça.
*Condo, por quando. Também se pronuncia – cando, forma arcaica. Dpnde em vez de onde. Nenguém (ant.) ninguém.

Moura

10.

Beja

11.

Beja

12.

Beja e Penedo Gordo

13.

Beja

14.

Beja

15.

Adés cidade de Béja, Toda à roda olivais; Adés largo da parada Onde combatem més ais. Adeus cidade de Beja, Tu és a minha desgraça. Eram quatro horas da tarde Condo ê assenti praça. Adeus, Ervidel, adeus, As costas te vou virando. Minha boca vai·se rindo, E mê‟ coração chorando Adês «monte», adês «monte», O nome nã' quer' dezer, Dond' ê' tenho o mê' «sentido» Nenguém precisa saber. Adés, ó campos de Ourique, Onde Cristo apareceu, Foi adond' Afonso Henriques Sua batalha venceu.

Beja

16.

Fomalhas, Vale de Santiago, Odemira Ervidel

17.

18.

Beringel

19.

Garvão

19

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
20.

Adeus ó castelo de Moura! Quem te vira derrubado! Por mor daquele* castelo, Meu amor foi ser soldado.
*Por mor de - por amor de (= por causa de).

Moura

21.

Adés ó monte d'àlẽi, Manda-me pro cá dezêri S'um amor que pr‟àlem tenho Ind' ô chigarei a vêri. Adés ó monte d'àlẽi, O nome é qu'ê' cá nã' digo Qu‟ê‟ na' quer' que nenguém saiba Dond‟ ê‟tenho o mê' «sentido» Adês ó Monte da Torre Próximo fica a estação. Não vejo quem aí está, É essa a minha paixão. Adeus ó Penedro Gordo, Não és vila nem cidade, Es uma capela d'oiro Onde brilha a mocidade. Adés ó Portas de Moura, À roda tudo são fitas. À porta de minha sogra Essas sã' nas mais bonitas. Adeus ó Portas de Moura, Não és vila nem cid.ade, És uma rua galante Onde brilha a mocidade. Adés ó Portas de Moura, Pra baixo, pra cima não; Pra baixo correm nas aguas, Pra cima mê' coração. Adeus ó praia de Sines, Mal de ti nunca direi. Dá o mundo tanta volta, Nã' sei se cá voltarei. Adeus, ó rua da Fonte, Que 'sta cheia de piais, * Onde o mê‟ amor se assenta, Dando suspiros e ais.
*Piais, por poiais. «Bancos fixos de pedra; lugar onde se põe ou assenta alguma coisa».

Garvão

22.

Panoias

23.

Fomalhas (Vale de Santiago), Odemira

24.

Penedo Gordo

25.

Beja

26.

Beja

27.

Beja

28.

Ervidel

29.

Ferreira do Alentejo

30.

Adeus ó Serra da Estrela Onde tive inspiração, Comparo a tua tresteza Co'a do mê‟ coração.

Colos

20

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

31.

Adês, ó sítio d'àlẽi, A des mimóira* sagrada Inda hôis adoro o chão Onde contigo falava.
*Mimóira, memória – é um dos inúmeros casos de metátese.

Vale de Santiago

32.

A des, ó vila d'àlẽi, Hê-de-te mandar calçar Com biquinhos d'alfenetes, Per*ô mê‟ bẽi lá passar.
*Pera (prep. Ant. e arc.) – para.

Panoias

33.

Adeus ó vila de Colos Feita de pedra morena; Dentro dela estão dois olhos Que me causam tanta pena. Adeus ó vila de Colos, Não és vila nem cidade; És uma capela d'ouro Onde brilha a mocidade. Adeus ó vila de Colos Tu também és um jardim Onde cresce o loiro trigo E viceja o alecrim. A des ó vila de Crasto Adond‟ o Senhor apar'ceu, Adonde D. Afonso Henriques Sua batalha venceu. Adeus ó vila de Entradas, À roda tudo são linhas: Vão-se os mços para a tropa, Ficom nas moças sozinhas. Adeus ó vila de Entradas, Cercada de cachos de uvas. Vão-se os moços para a tropa, Ficom nas moças viúvas. Adeus ó Vila de Frades, Boa terra, melhor gente, Dás de comer a quem passa, E dás bom vinho excelente. Adeus, ó vila de Moura, Ceroada de olivais És a mãe dos forasteiros, Madrasta dos naturais. Adeus ó vila de Ourique Cercada de cravos brancos

Colos, Odemira

34.

Colos, Odemira

35.

Colos, Odemira

36.

Beja

37.

Entradas, Castro Verde

38.

Entradas, Castro Verde

39.

Vidigueira

40.

Moura

41.

Ourique

21

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Onde o meu amor passeia Domingos e dias santos.
42.

Adeus ó vila de Ourique. Cercada de olivais, Acareias* os de fora, Desprezas os naturais.
*Acarear - «proteger, defender, amontoar, ajuntar, acarinhar, etc.».

Ourique

43.

Adeus ó vila de Ourique, Náo és vila nem cidade, És u ma capela d'oiro On de brilha a mocidade. Adeus ó vila de Sines Cercada de cravos brancos On de o meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus ó vila de Sines Cercada de pinheirais Com o castelo no meio Onde combatem mês ais. Adcus ó vila de Sines Samiada de pinhais, Com o castelo no meio Onde combatem meus ais. Adeus povo da Vidigueira Cercado de cravos verdes Onde o meu amor passeia, Não é sempre, mas às vezes. Adeus rabalde* da Graça Não és vila nem cidade! És uma capela d'ouro Onde brilha a mocidade.
*Rabalde – em vez de Arrabalde «subúrbio, cercanias de uma povoação». Neste vocábulo deu-se a supressão de letras no princípio da palavra (fenómeno de aférese).

Ourique

44.

Ervidel

45.

Ervidel

46.

Ervidel

47.

Vidigueira

48.

Beja

49.

Adês rua da Sardoa, Lavada do vento norte, Quem nela tever amôris, Nã‟ pode ter melhor sorte. Adês rua de Lisboa, Banhada do vento norte, Quem nela tever amores, Nã‟ pode ter melhor sorte. Adês ó ruas de Beja, Hê-de as mandar calçar

Garvão

50.

Alvito

51.

Beja

22

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Com botãozinhos de rosa, Prô mê' amor passear.
52.

Adeus sítio das Fomalhas Cercado de cravos brancos Onde 0 meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus, torre, adeus, sino. Adeus, igreja, adeus, adro, Adeus, aldeia de Quintos, Adond'* ê** fui baplizado!
*Adonde em lugar de onde. ** Ê por eu.

Fomalhas Vale de Santiago, Odemira Quintos

53.

54.

Adeus vila da Vidigueira, Nao és vila nem cidade, És uma capela de oiro Onde brilha a mocidade. Adeus vila de Alvalade Cercada de cravos brancos Onde o meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus vila de Alvalade Cercada de cravos roxos. As moças sã' mas donzelas, Os moços são uns entrouxos. Adês vila de Alvalade, És um jardim em botão; Numa rosa qu'ê' lá tenho Prendi o mê‟ coração. Adeus vila de Alvalade És um jardim em flor. Vivam os meus condiscípulos, Viva o nosso Professor. Adeus vila de Entradas, Cercada de cravos brancos Onde o meu amor passeia Domingos e dias santos. Adeus vila de Ferreira, Tens uma fonte à entrada; És uma capela d'ouro Onde brilha a minha amada. Adês vila de Garvão, Mal de ti nunca direi; O mundo dá muita volta, Não sei se pra lá irei. Adês vila de Panoias,

Vidigueira

55.

Alvalade

56.

Alvalade

57.

Alvalade

58.

Alvalade

59.

Entradas Castro Verde

60.

Ferreira do Alentejo

61.

Garvão

62.

Panoias

23

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Pra bàxo, pra cima não; Pra bàxo correm nas águas, Pra cima mê' coração.
63.

À entrada das Fomalhas Está um chafariz doirado Onde o meu bem vai chorar Lágrimas de apaixonado. À entrada de Aljustrel Tá* um chafariz doirado, Onde mora a minha sogra, A mae do mê namorado.
Tá - é forma reduzida de está, do verbo estar. Na pronúncia popular ouvem-se frequentemenle as formas reduzidas. E não só entre o povo, mas ainda nas outras classes, se ouvem, de igual modo, pronúncias destas: tava, teve, tarei, teja, tivesse, etc.

Fomalhas Vale de Santiago Odemira Aljustrel

64.

65.

À entrada de Beja está Uma pedrinha amarela Onde o mê' amor passea* Cando 'stá de sentinela.
Passêa e cando são formas antigas e arcaicas, respectivamente, do verbo pessear e conj. temporal quando.

Mina de S. Domingos

66.

À entrada d‟Elvas Achi uma agulía Com duas letrinhas Viva a D. Júlia. À entrada d'Elvas Achi um didal* Com duas letrinhas: Viva Portugal.
*Achi - achei. Didal- dedal.

Mina de S. Domingos

67.

Mina de S. Domingos

68.

A entrada d'Elvas Achi um didal Com letras que dizem: Viva Portugal. A entrada d'EIv:as Ach/ um didal Que em letras dizia: Viva Portugal. À entrada d'Elvas Achi um testão; Ó moças, já tenho Prà minha fonção.*
Fonção, por função «boda, casamento, etc.».

Beja

69.

Mértola

70.

Mina de S. Domingos

71.

À entrada d'Elvas Tã‟ duas cadêras:

Aljustrel Mina de S. Domingos

24

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Uma, é pràs casadas, Outra, é pràs soltêras.
72.

À entrada de Lisboa Tá um chafariz dourado, Onde o meu bem vai chorar Lágrimas de apaixonado. Afonso Anriques um dia Além do Tejo passou, Em S. Pedro das Cabeças Suas tropas aeampou. Albemoa é minha terra, Mal de ti nunca direi. O mundo dá muita volta, Não sei se p'ra lá irei. Albemoa é nossa terra É como a mãe co‟as filhas A Trindade é diligência, Lisboa, das maravilhas. Albemoa telefona, Entradas tamem* já tem. S. Marcos d'Ataboeira Comboio já p'ra cá não vem.
Tamém em vez de também.

Ferreira do Alentejo

73.

Beja

74.

Mina da Juliana Aljustrel

75.

Albemoa

76.

Entradas Castro Verde

77.

Aldeia da Amarleja, A que muita gente inveja, Ficou em terceiro lugar Nos cantes* que houve em Beja.
*Cantes, por cantos - subslantivo verbal (=cantares).

Amareleja

78.

Aldeia da Amareleja Não és vila nem cidade; És uma capela d'oiro Onde brilha a mocidade. Aldeia da Boavista* Hê-de-te mandar calcetar Com pedras de diamantes, Para o meu bem passear.
Boavista - aldeia de Sanla Clara de Louredo.

Amareleja e Barrancos

79.

Beja

80.

Aldeia da Bracieina, Não és vila nem cidade; És uma capela d'ouro Onde brilha a mocidade. Aldeia da Bracieira Tudo à roda cravos brancos, On de o meu amor passeia Domingos e dias santos.

Beja

81.

Beja

25

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
82.

Aldeia da Corte Gafo, Nã‟ énem cidade; É uma capela d'ouro Onde brilha a mocidade. Aldeia de Santa Bárba No meo tens um calitro,* Na folha mais delicada Tem mê nome aí escrito.
*Calitro, acalitro ou êcalitro - formas populares de eucalipto.

Beja e Enfradas

83.

Santa Bárbara de Padrões

84.

Aldeia de S. Matias Esta fêta numa cova; Quem quer ver o seu amor, Sobe acima à estrada nova. Aldeia Nova é minha, Aldeia Velha também; De Aldeia Nova sou eu, De Aldeia Velha o meu bem. Alentejo não tem sombra, Senão a que vem do céu. Abrigue-se aqui, menina, À sombra do meu chapéu. Alentejo, terra do pão, E sã' lindos os trigais; Tamanha ei a farura Que dá comer òs pardais. Algarve, Alentejo e Beira, Faro, Tavira e Olhão, Eu sou como' a dàroeira: Dobrar, sim, mas partir, não. Aljustrel é minha terra, É a terra do mê' pai; Amanhã ê' vou-me embora, Aljustrel camigo vai. Aljustrel, mimosa terra, Terra nova dos poetas, Adond'o primer'amor Desfechou doiradas setas. Alentejo vive em guerra Numa paz que se disfruta, As armas cuidam da terra, E todos vencem na luta. Amareleja és um jardim Não há p'ra mim outro igual. São belas todas as terras, Aldeias de Portugal.

Beja

85.

Serpa

86.

Beja

87.

Beja

88.

Salvada

89.

Aljustrel

90.

Aljustrel

91.

Beja

92.

Amareleja

26

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

93.

Amareleja, minha terra, Quando de ti vivo ausente, O meu coração encerra Uma saudade ardente. Amarleja nã val' nada, Santo Aleixo um bintém; E Barrancos val' tudo Pelas mocinhas que tem. A Mina de S. Domingos Não é vila nem cidade, E uma aapela d'oiro Onde brilha a mocidade. A minha praça é Beja, O meu regimento o onze; Inda espero de abrandar O teu coração de bronze.*
*Já recolhida por Tomás Pires, nos Cantos Populares Portugueses.

Amareleja

94.

Barrancos

95.

Mértola e Mina de S. Domingos

96.

Beja

97.

A minha terra é Garvão, Ê' na' no posso negar; Tamẽi ê som* um aluno Da escola elementar.
*A forma - som, usada mui particularmente nos concelhos de Odemira, Mértola e Almodôvar, é arcaica.

Garvão

98.

A minha terra é Leiria Onde o papel fêto éi; A minha sogra éi Amêla. E o mé' amor é Jeséi. A Póvoa, rei des alarves, A Granja dos machacos, * Safára, dos charôquentos, ** Amareleja dos bons moços.
*Machacocos - babosos, abananados. **Charôquentos, de charôco, corruptela de sirôco vento friorento que sopra do Sueste,.

Beja

99.

Amareleja

100.

A Porta de Moura é minha, Que me custou meu dinheiro; Quem nela tiver amores, Tem que me pedir primeiro

Beja

27

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

101.

A É É É

rua de Aldeia Nova 'ma rua empaciente; só p'ra quem mora nela, que sabe estar doente

Mina de S. Domingos

102.

A rua de Beja é minha, Hei-de-a mandar calçar Com biquinhos de alfinetes, Para o meu bem passear. A rua de S. Bento tem No meio um jardim florido; Inda qui quêra nã' posso Tirar de l´s meu «sentido». A rua de Serpa é minha, Hê'-de-a mandar calcetar Com biquinhos de alfinetes, Para o meu bem passear A rua do Rabaldinho Hê'-de-a mandar calcetar Com pedras de diamantes, Par'ô meu bem passear. As meninas de Barrancos Vão-se tornando ao antigo, Já não querem permanente No seu cabelo comprido. As meninas de Vila Nova São muitas, parecem poucas, São com'às folhas da rosa, Encobrem-se umas às outras. As meninas lá de Beja Sao bonitas, cantom bem; Em tendo uma saia nova, Já não falom a ninguém. As moças da Salvada E as da Cabeça Gorda Cudom qu'o casar Éi alguma açorda. As moças da Salvada, Essas que vós sabeis, Foram para lá dezoito E vieram trinta e seis. As moças de Serpa atiram Pedras às de Baleizão, Onde quer que as pedras caem Até fazem tremer o chão. As moças de Serpa atiram

Cuba

103.

Barrancos

104.

Mina de S. Domingos

105.

Beja

106.

Barrancos

107.

Vila Nova da Baronia

108.

Entradas Castro Verde

109.

Beja e Barrancos

110.

Quintos

111.

Beja

112.

Ervidel

28

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Pedras às de Baleizão. Onde quer que as pedras caem Eazem tremer o chão.
113.

As moças de Serpa atiram Pedras às de Baleizao; Também eu hei-de atirar Pedras ao teu corarção. As moças de Serpa atiram Pedras às de Baleizão; Vão no ar fazendo fogo, Quando lhes saem da mão. As moças de Val'-de-Vargo Treme-l‟a perna com brio. De lõis* fazem fachada. * Ao pé metem fastio.*
*Lõis – longe *Fazer fachada - «fazer vista, ter bom aspecto». *Meter fastio - meter nojo, causar repugnância».

Ervidel

114.

Serpa

115.

Beja

116.

As mocinhas de Beja Não são como as daqui; Essas vinham correndo Abrançaram·se ami'. Assente-se aqui, menina, À sombra do meu Chapéu, O Alentejo não tem sombra, Senão a que vem do Céu. Assim como em Serpa há loiça Em Pedrógão há cravão; * Em Pias, «acarladores», «Partidários», em Baleizão.
*Cravão, por carvão. É um dos muitos casos de metátese que acorrem na loquela popular.

Beja

117.

Beja

118.

Serpa

119.

Atafona, Corte Cobres, Malhada, Monte das Figueiras. Organim, Val'-de-Camelos, E as duas Amendoeiras Até à freguesia das Neves Tudo é caminho chão, Tudo são cravos e rosas Dispostos par minha mão. A vila de Colos tem Duas coisas que dão graça É o relógio da torre, E os candeeiros da praça. A vila de Garvão tem Duas coisas que dão graça: A ponte no meio da vila,

Mértola

120.

Beja

121.

Colos Odemira

122.

Garvão

29

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
E poço no meio da praça.
123.

A vila de Moura é minha, Hei-de mandá-la calçar Com pedras de diamantes Para o meu bem passear. A vila de Ourique tem Duas coisas que dão graça: É o relógio da torre, E os candeeiros da praça. A vila de Santo Tirso De pequenina tem graça; Tem um chafariz no meio, Dá de beber a quem passa. Bairro Alto anda ardendo, E a Mina a anda atiçando. Corte Pinto acartando* água, Montes Altos apagando.
*Acartando, por acarretando, do verbo acarretar (=carregar, transportar, etc.).

Moura

124.

Ourique

125.

Beja

126.

Mina de S. Domingos

127.

Bairro Alto, Bairro Alto * Bairro Alto desgraçado, Precisavas uma forca Ou senão afllzilado. *
*Bairro Alto - nome por que é conhecido certo arrabalde na Mina de S. Domingos.

Mina de S. Domingos

128.

* Afuzilado em vez de fuzilado. Há prótese do a. Beja, cidade rica, De cereais abundantes. A Cuba, que perto fica, É das vilas mais galantes. Beja com Amareleja, E Safára co'a Póvoa, Santo Aleixo com Barrancos, Brinches com Aldeia Nova.*
V. nº 155 a versão barranquenha.

Beja

129.

Amareleja

130.

Beja, terra alentejana, O teu bom nome se espalha. Munto porduto tens dado Ò senhor Dr. Mealha. Bendito Senhor da Serra Lá do alto do Padrão, Quem nao quer que o mundo fale, Não lhe de ocasião. Cada vez qu'ê vejo Beja Lembra-m'o mê batalhão. Mê' cavalo, minha espada,

Beja

131.

Beja

132.

Beja

30

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Minha lata do fêjão.
133.

Cada vez qu‟ê vejo Beja Lembra-m'o mê regimento, Mê cavalo, minha espada, E o mê' lindo fardamento. Cada vez que vejo Elvas Lembra-me o mê regimento, Mê' cavalo, minha espada, E o mê rico fardamento. Cada vez que vejo Elvas Lembra-me do mê‟ regimento, Mê cavalo, minha espada, E o me' rico fardamento. Cada vez que vejo vir Barcos a meia ladeira, Lembram-me as moças da Cuba, Rapazes da Vidigueira. Campinho, terra de bruxas, S. Marcos, das feiticeiras, Cumiada, das manhosas, Reguengos, das bonacheiras. Campo Maior, Vila tão querida, Toda aquela gente É muito atrevida. Cand'é' de Beja abali* Olhi para trás chorando. Adês Béja da minh' alma Que tã' longe me vás* ficando.
*Abali e olhí em vez de abalei e olhei. A pronúncia de tais formas e doutras dos verbos de tema em a deve obedecer à analogia pela semelhança das formas da 1ª pes. do pret. indo dos verbos de tema em e e i. * Vás, par vais, isto é conjuntivo porindicativo.

Beja

134.

Cuba

135.

Cuba

136.

Beja

137.

Amareleja

138.

Beja

139.

Beja

140.

«Castro, S. Marcos, Entradas, Albemoa e a Trindade, Cabeça Gorda e Salvada, Quinlos, Ba!eizão e cidade.»*
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V, III, 309, 1946 .

Beja

141.

«Cidade de Beja das eiras, Termos do meu andar. Já se acabou o tempo De eu por ela passear.»*
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V, III, 309, 1946 .

Beja

31

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
142.

Cidade de Beja é minha, Compri-a c'o meu dinheiro; Quem quiser lá namorar Temn que me pedir primeiro. Cidade de Beja tem Treze moinhos de vento, Quando um começa a moer, Moem todos a um tempo. Comparo Beja com Quintos, Ba'eizão com Salvadinha, Comparo-te a ti comigo, A tua mãe co' a minha Comparo Beja com Quintos, Salvada com Baleizão, A Cuba é com Alvito, Vila Nova c'o Torrão. Camparo Serpa com Beja, Brinches com Aldeia Nova, Safára com Santo Aleixo, Amareleja co'a Póvoa. Comparo Serpa com Brinches, Baleizão com Aldeia Nova, Safára com Santo Aleixo, Amareleja, Granja e Póvoa. Comparo Serpa com Brinches, Baleizão com a Salvada, Compara-te a ti comigo, Ó minha prenda adorada. Condado Vasco da Gama, Minha terra, Vidigueira, A Senhora das Relíquias, Sua nobre padroeira. Corte Pinto, Corte Pinto, Corte Pinto desgratçada, Vão os homens pró trabalho, Levom o cesto sem nada. Crasto Verde nesse tempo, Cais* que na' enzestia.** Veio aí p'ra batalhar Afonso Anriques***3 um dia.
*Cais, por quase. **Enzestia, por existia. ***Anriques, em vez de Henriques.

Beja

143.

Mértola

144.

Beja

145.

Beja

146.

Serpa

147.

Amareleja

148.

Serpa

149.

Vidigueira

150.

Mina de S. Domingos

151.

Beja

152.

«Cuidava que só em Beja É que havia gente «nência»;* Em Setúbal também há Quem lhe faça diligência.»

Beja

32

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*Nência, «néscia, ignorante, parvajola». 153.

Dá-me um beijo, eu dou-te dois, Que a minha paga é dobrada, Pois o dever dos amores É pagar não dever nada. Daqui ó Sobrá é longi, Túdu é caminhu chão, Túdu são crábu' i rosa' Dihpostuh pu minhah mão'.
*Reproduz-se esta cantiga conforme a fonética barranquenha V. Nº 129.

Salvada

154.

Barrancos

155.

Das povoações qu'eu conheço Fiz uma comparação; Vão os homens prò trabalho, E Pias com Baleizao. Das ruas que Serpa tem, P'ra mim a que tem mais graça É a da Porta de Beja. Desde o Arco até à Praça. D'Aldeia Nova de S. Bento, Raparigas e rapazes, Onde chegam dão palmada É porque eles são capazes. De Aldeia Nova, São Bento, De Pias, Santa Luzia; De Brinches, Consolação; De Serpa, Santa Maria. «De Casa Branca para Beja Vai o comboio a vapor. Muita gente tem inveja De tu seres o meu amor.»*
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», Ill, p. 309, 1946.

Amareleja

156.

Serpa

157.

Serpa

158.

Serpa

159.

160.

Desejava arrasar Beja Com um copo d'aguardente, Que ficasse o mê' amôri E umorresse toda a gente. Desejava ser de Serpa, Ou em Serpa ter alguém, Para ter a umesma dita* Que os moços de Serpa tem
*Dita - «sorte, ventura, fortuna», etc.

Alcaria Ruiva Mértola

161.

Beja

162.

De Vila Nova às Pias Já não há quem vá à missa. Que lindos olhos que tem

Beja

33

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
A Antóina «Campaniça»!*
* «Campaniça» - Designam-se por campaniços os trabalhadores que, do termo de Mértola, em especial de Campo Branco, costumam vir fazer a temporada de trabalho (mondas e ceifas) para o concelho de Beja mui particularmente. 163.

Digam lá se não é triste Ter umn amor, não o ver! Cada vez que eu penso nisto Meus olhos choram sem querer! Ditosa vila de Crasto Onde O Senhor apar‟ceu Onde o rei Afonso Henriques Sua batalha venceu. Do Algarve até ao Minho Tudo no mar se espelha. Portugal é um brinquinho Que Europa traz na orelha. É capital da Província Linda cidade de Beja. Os habitantes são crentes, E das outras nada inveja. Ê‟ ca som do Monte Branco, Freguesia Messejana, Findo os dias nas Fornalhas, Se um coração não me engana. Eu fui a Lourenço Marques Qu'ê‟ mais lõis do qu'ô Brasil. Vi terras americanas, Cidades oitenta mil. Eu hei·de ir morar p'ra Serpa, Para aprender a cantar, Já que os bons cantares de Beja Na' me querem ensinar. Em Aldeia Nova e Pias Há cantadores afamados, Mas em Serpa também há Alguns que são invejados. Em Beja está uma fonte Nunca deixa de correr; Sã' nos meus olhos chorando Com pena de te não ver. Em Brioches tenho onze amores, Nas Pias teoho só um; Mas tenho oito no Outeiro, Contigo são vinte e um.

Beja

164.

Beja

165.

Beja

166.

Beja

167.

Fornalhas Vale de Santiago, Odemira Colos Odemira

168.

169.

Beja

170.

Salvada

171.

Beja

172.

Beja

34

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos 173.

Em Ervidel já estão Dois grupinhos teatristas: Um dos grupos leva dramas, O outro leva revistas. Em Moura tudo é bonito, Em Moura tudo verdeja; Mas o sol, que brilha em Moura, Primeiro passa por Amareleja.*
* Observe·se que Amareleja fica a Nascente e mais para Norte de Moura.

Ervidel

174.

Amareleja

175.

Em Sangalhos (?), linda terra! Uma campnia vivia, Na doce paz do seu lar, Gozando pura alegria. É' nã‟ sê‟ que tenho em Beja, Que Beja me 'sta lembrando; Em chegando à Boavista O vento me vai levando. É na terra de Leiria Que se favrica o papel. A minha sogra é Maia, E o meu aumor é Manuel Entradas e Castro Verde, Albernoa e a Trindade, E S. Marcos - cinco terras Onde brilha a mocidade. És de Serpa, mas não sabes Cantas freguesias são: São Pedro, Santa Maria, São Francisco e São João. É' sô‟ das Portas de Moura, A minha pátria não nega; Encant‟ * é‟ te nã' lograr, Mé‟ «sentido» nã' sessega.
*Encanto, por enquanto. Sessega em lugar de sossega.

Mértola

176.

Beja

177.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Entradas Castro Verde

178.

179.

(Serpa

180.

Beja

181.

Esta «moda» veio de Beja, Dirigida a Baleizão, De Baleizão a Panoias, De Panoias a Garvão. Esla «moda» veio de Beja, Dirigida a Conceicão, De Conceicão a Panoias, De Panoias a Garvão. Esta «moda» veio de Beja, Dirigida aos olivais. O rapaz do chapéu preto

Beja

182.

Ervidel A ljustrel

183.

Beja

35

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Não é homem como os mais.*
*Os mais - «os outros, as restantes, a maior parte». 184.

Esta «moda» veio de Beja, Dirigida aos olivais. Quem não usa chapéu branco Não é homem como os mais. Esta «moda» veio de Beja, Dirigida aos olivais. Queria ver se te esquecia, Cada vez m'alembras* mais.
*M'alembras - do verba alembrar-se (= lembrar-se). Outro caso de prótese do a.

Mértola

185.

Beja

186.

Esta «moda» veio de Beja, Nas asas de um passarinho. Quem namora sempre alcança Um abraço e um beijinho. Esta rua cheira a sangue, Alguém nela se sangrou. Foi a mãe do meu amor Com 'ma sova que lovou. Estes moços das Fornalhas Enrolados num capacho Todos no «(bico» dum cerro, Jogados de lá abaixo. Estes sítios das Fornalhas Hê‟-de mandá-los calçar Com cabeças de alfinetes, Plara o meu bem passear. Eu cá sou do Monte Branco, Freguesia Messejana; Findo a vida nas Fornalhas, Se um coração não me engana. Eu fui a São Bento, Eu fui a São Brás; Cheguei à Boiada, Voltei-me p'ra trás. «Eu hei-de ir a Beja No tempo do Verão, Pedir às bejenses O seu coração.*
*Recolhida por Tomás Pires, nos Cantos Populares Portugueses.

Mértola

187.

Cuba

188.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Fornalhas Vale de Santiago Odemira Fornalhas Vale de Santiago Odemira Serpa

189.

190.

191.

192.

Beja

193.

Eu já fui a Vale de Vargo Fazer uma diligência. Às vezes faço·me parvo,

Serpa

36

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Par minha conveniência.
194.

Eu não sei que tenho em Beja, De Beja me estou lembrando. Em chegandoà estrada nova, O vento me vai levando. Eu não sei que tenho em Beja, Que Beja me está lembrando. Em chegandoà Gudiana.* As ondas me vão levando.
*O povo diz: a ribeira do Glldiana, e não - o rio Guadiana. *Adevinho - adivinho, (fenómeno de dissimilação).

Ferreira do Alentejo

195.

Beja

196.

Eu não sei que tenho em Serpa, Que Serpa me „stá lembrando. Em chegando à estrada nova, O vento me vai levando. Eu não sei que tenho hôis,* Que o meu cantar é tã' triste! Adevinho,* meu amor, Que Barrancos não existe.
*Hôis em vez de hoje.

Mina de S. Domingos

197.

Barrancos

198.

Eu tenho quarenta amores, Nestas quatro frequesias: Dez em Serpa, dez em Moura, Dez em Brinches, dez em Pias. Eu tenho quarenta amores, Só em quatro freguesias: Dez em Moura, dez em Serpa. Dez em Cuba, dez em Pias. Eu tenho quarenta amores, Só em quatro freguesias: Dez em Serpa, dez em Moura, Dez em Brinches, dez em Pias. Eu tenho quarenta amores, Todos os quarenta fixes; Tenho dez na Aldeia Nova, Dez em Serpa, vinte em Brinches. Ferreira do Alentejo É minha terra natal. São lindas como os amores As terras de Portugal. Fornalhas é minha terra, Ê' nã' no posso negar. Toda a gente me conhece Polo* modo de falar.

Serpa

199.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Beja

200.

201.

Serpa

202.

Ferreira do Alentejo

203.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira

37

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

*Polo em lugar de pelo. É forma antiga da prep. per e o artigo o (lo), que se ouve ainda na pronúncia popular. 204.

Fui ao jardim da Itália Apanhar linda flor; Pediste-me amor-perfeito, Aqui tens perfeito amor. Fui à Torre da Gadanha, Para ver o meu rapaz. A amizade era tão grande Que me fez voltar atrás. Tã moças bonitas Lá na Vidigueira E vinho barato Cont' a gente queira. Ja andi pela Brasil, Ja passi ò Maranhão; Tenha visto muitas terras, Com'à minhaé qu'inda não. Já Beja não vale nada, Baleizão val' um vintém Moura val' mil cruzados, Pelas mocinhas que tem. Já Beja não val' nada, Santa Vetóira um testão, Ervidel val' mil cruzados. Tem campo de aviação. Já cá tenho o teu retrato Que rôbi ô retratista; Só me falta chale e manta, Para ir à Boavista. Já em Serpa se não canta, Está o cantar poribido.* Já os cantadores de fama De certo têm morrido.
* Poribido por proibido. - São inúmeros os casos de matátese na boca do povo. Este fenómeno fonético obedece, sem dúvida, à lei do menor, esforço tendência natural que o homem tem para empregar o menor esforço na pronúncia dos fonemas.

Ervidel

205.

Cuba

206.

Beja

207.

Mértola

208.

Beja

209.

Beja Ervidel

210.

Ervidel

211.

Mértola

212.

Já me vou para Ficalho, Que o campo já me aborrece, Qu' eu em Ficalho tcoho Quem de mim nunca se esquece. Já Moura não vale nada, Safara val' um cruzado, A Póvoa é que vale tudo Tenha lá meu namorado.

Serpa

213.

Moura

38

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

214.

Já não me lembrava Beja, Nem cuidava que existia; Mas agora não me esquece Nem de noite nem de dia. Já Serpa não vale nada, Baleizão só um vintém, Aldeia Nova val' tudo Pelas moças que lá tem. Lá vai Serpa, lá vai Moura, E as Pias ficam no meio. Onde quer que Serpa chegue Não há que haver arreceio. Lá vai Serpa, lá vai Moura, As Pias ficam no meio. Quando chego a Aldeila Nova, Nao deve haver arreceio.*
* Arreceio, por receio. Outro caso de prótese

Beja

215.

Serpa

216.

Beja Mértola

217.

Serpa

218.

Linda cidade de Beja, Como tu não há igual; A todas causas inveja, Meu lindo torrão natal. Lisboa com ser Lisboa E ter navios no mar, Não é mais que a minha terra, A mais linda em Portugal. Lisboa com ser Lisboa, Tamém tem casas em vão, Tamém tem moças bonitas, Claras com'ò cravão. Lisboa, nobre cidade, Que lá se formam doutores. Para lá irão agora Os meus primeiros amores. «Lisboa, por ser Lisboa, Com braços de mar ao pé, Não é tão grande cidade Como Val' de Vargo é... *
*Já recolhida em A Tradição, nº 7 - ano 3 0, Julho de 1901, p. 110.

Beja

219.

Beja

220.

Ervidel

221.

Mértola

222.

Serpa

223.

Lisboa por ser Lisboa, Também tem terra de pão, Também tem moças bonitas, Claras como o carvão. Lisboa tamém é terra, Mas não é terra de pão;

Vidigueira

224.

Beja

39

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Tamém tem moças bonitas, Claras com' ò cravão.
225.

Mas tamém tens lindas vilas, E eu não digo asneira: Está Serpa, a seguir Moura, Prô Poente está Ferreira. *
* V. Nº 371.

Beja

226.

Meu aumor não é daqui, É da Ilha da Madeira; Lá por ele aqui nã' 'star, Canto da mesma maneira. Meninas de Vila Nova Sao muitas, parecem poucas: São como as folhas das rosas, Encobrem-se umas às outras. Mértola, quem te arrasasse Com um copo de licor! Que toda a gente morresse, Só ficasse a meu amor! Meu Alentejo, Alentejo, Terra bendita do pão! Remoço, quando te vejo, Pulsa mais meu coraição. Minha rua é estrada nova, Oode passa a deligência. É‟ nã‟ engraço contigo,* Menina, tem paciência.
*Engraçar com alguém - Simpatizar. gostar de alguém.

Colos Odemira

227.

Vila Nova da Baronia

228.

Mértola

229.

Beja

230.

Beja

231.

Moças das Portas de Moura Cuidam que sabem cantar; Pedem aos do Terreirinho Que os vão lá ensaiar. Mônti de D. Maria Tẽi binte e quatru janelah. Bai uma pombinha branca Apoisá ẽ uma delah *
*Binte e bai, por vinte e vai. Em Barrancos é usual a troca do b pelo v e vice-versa. Reproduz-se esta cantiga conforme a fonética barranquenha.

Beja

232.

Barrancos

233.

Monte do Marmeleiro é vila, Barradinha 'ma cidade, Fornalhas são cachos de ouro Onde brilha a mocidade. Moura, rainha das vilas, Que lindo mercado tem!

Fornalhas Vale de Santiago Odemira

234.

40

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Seu castelo e sua igreja Que tão lindos são também!
235.

Moura, rainha das vilas, Que lindo umercado tem! Viva Serpa e Aldeia Nova, E a Vidigueira tambem. **
**V. nº 225

Amareleja Barrancos

236.

Muito gosto eu de ver B'rcos à umeia ladeira. Lembrom-me as mças da Cuba, E os vinhos da Vidigueira. Muito linda é Lisboa, Passear pela Avenida. Quem tem dinheiro e faz gosto, É o maior gozo da vida. Na Cabeça Gorda Está um figurão; Tem na «tromba» torta D'afoçar no chão. Na Cabeça a Gorda Há um santo só De pau carunchoso Talhadoa enxó. « Na Cabeça a Gorda Não há senão prantos... Caíu a igreja, Morreram os santos!»
De A Tradição, nº 8 - ano 3º - Agosto de 1901. p. ]26.

Beja

237.

Mina da Juliana Aljustrel

238.

Beja

239.

Beja

240.

Beja

241.

Nao sei que tenho em Beja, De Beja me estou lembrando; Em chcgando àestrada nova, O vento me vai levando. Nao sei o que teoho em Beja, Que Beja me está lembrando; Em chegando à Boavista. O vento me vai levando «Não sei o que tenho em Serpa, Que Serpa me está lembrando; Em chegando à Gudiana. As ondas me van levando.» *
*Já recolhida por Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», Vol. III, p. 71. Atente-se em queo povo diz: a r‟bêra do Guadiana, por rio Guadiana.

Mina da Juliana Aljustrel

242.

Beja

243.

Serpa

244.

Não sou de Beja, mas sei Quantas freguesias são: Salvador, Santa Maria,

Beja

41

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
S. Tiago e S. João.
245.

Na rua Ancha de Beja Está um laço de algodão. Todos passam, não se prendem, Só eu fico na prisão. Na rua nova de Beja Está um laço de algodão. Todos passam, nao se prendem, Só é’ fiqui na prisão. Nestes campos em flor Alentejo é um jardim, Onde vive o meu amor, Dando suspiros por mim. No Alentejo não há sombra, Senão a que vem do céu. Abrigue-se aqui, menina, À sombra do meu chapéu. No castelo de Beja Nasceu uma rosa, Com o pé voltado P'ra Vila Viçosa. Ó aldeia da Salvada Não és vila nem cidade; És uma capela d'oiro Onde brilha a mocidade. Ó aldeia de Albernoa, Ao centro tens um pontão, Onde as moças vão cantar Na noite de S. João. Ó aldeia de Albernoa, Nao cs vila nem cidadc; Es uma capela d'oiro Oode brilha a mocidade. Ó aldeia de Albernoa, No centro tens um pontão. Por baixo, correm nas águas, Por cima, meu coração. Ó aldeia de Ervidel, Não és vila nem cidade, És uma terrinha reles, Onde brilha a mocidade. «Ó aldeia de Pedrogão, Formada numa alagoa! Valem mais as «Pedras Altas» Que a cidade de Lisboa.»
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V. V 1948, p.

Mértola

246.

Beringel

247.

Ferreira do Alentejo

248.

Beja

249.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Beja

250.

251.

Albernoa

252.

Albernoa

253.

Albernoa

254.

Ervidel Aljustrel

255.

Vidigueira

42

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos 269. 256.

Ó aldeia de Trigaxes, Ó terra da clareza, Qu'alegria pode ter Quem perdeu as seus alforjes? ...
*Cantiga de pé-quebrado.

Beja

257.

O Alentejo é alegre, Uma terra d'encantar. Eu gosto do Alentejo, Que me ensinou a amar. O Alentejo e que éi * O celeiro da Nação. Nos samos** alentejanos. Samos da terra do pão.
*Ei, por é **Samos ou semos (do verde ser) em vez de somos. Cêmu, no dialecto barranquenho.

Beja

258.

Beja

259.

O Alentejo tem sido A terra sempre do pão; Dês que* há racionamento. Já perdeu esse condão.
Dês que - desde que

Beja

260.

«(Ó amor não «vaias» À Cabeça Gorda! Que te cai em cima A Salvada toda!»*.
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V. III, 310.

261.

Ó amor se fores À Salvadaà missa, Emprega os teus olhos Numa campaniça. Ó Baleizão, Baleizão, Ele lá e eu aqui; Os anjos do céu me levem Para a terra onde eu nasci. Ó Baleizão, Baleizão, Ó Baleizão do almece. Ande lá por onde andar, Baleizão nunca me esquece. Ó Baleizão, Baleizão, Quem te atirara dois tiros, C'uma espingarda de beijos Atacada de suspiros! Ó Barcelos, ó Barcelos,

Beja

262.

Quintos

263.

Quintos

264.

Beja

265.

Ervidel

43

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
De pequenina tens graça; Passa·te um rio pelo umeio, Dás de heber a quem passa.
266.

Ó Barrancu', minha terra, Quandu de ti bibu ausênti, U mê coração encerra Uma saudádi ardenti. Ó Beja, amável Beja, Terra da minha afeição; Tenho aí ó meu amor, Ninguém me diga que não. Ó Beja, bendita sejas, Tu a mim nunca me esqueces. Éis a más linda cidade Que adorom nos Portugueses! Ó Beja, mãe dos rurais, E operários de construção, Ó Beja tu dás produtos A toda a nossa Nação. Ó Beja, Ó Beja, Quem dera lá ir, Para ver as morças Dos homens fugir. Ó Beja, ó linda Beja, É de Beja qu' é' m'envejo; És o celeiro da Nação, Capital do Bàxo-Alentejo. Ó Beja, ó linda Beja, O teu nome é imortal. Terra amada, hospitaleira, Tu não tens outra rival. Ó Beja, munta atenção, Os tés filhos vão cantar; Enconto os tés filhos cantam Ó Beja, põe-te a chorar. Ó Beja, não vales nada, Penedo Gordo um vintém, Boavista, um milhão Só pelas moças que tem. Ó Beja, se tu não fosses Dois olhos que tu lá tens, Nã‟ me vinhas ò sentido Tanta vez conforme vens. Ó Beja, terrível Beja, Terra de tão mau ladrilho! Onde uma mãe vai chorar

Barrancos

267.

Beja

268.

Beja

269.

Beja

270.

Beja

271.

Beja

272.

Beja

273.

Beja

274.

Beja

275.

Penedo Gordo

276.

Ervidel

44

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

A desgraça de seu filho.
277.

«Ó Brinches, ó linda Brinches, Tu dantes eras aldeia; Agora és nobre cidade, Onde o meu amor passeia.»*
*Já recolhida por Tomás Pires, nos Cantos Populares Portugueses, IV. 330.

Serpa

278.

Odemira, minha terra, Lá narcê' o mê' amori; Ê‟ narci* na mesma rua Ao pé daquela flôri.
*Narcí em vez de nasci. Também se pronuncia - nací, do verbo nacer (= nascer)

Vila Nova de Milfontes

279.

Ó Elvas, Ó Elvas, Badajoz à vista. Já não faz milagres S. João Baptista. Ó Ermidas, Ó Ermidas, De pequenina tens graça, Com um chafariz no meio Dás de beber a quem passa. «Ó Ficalho. Vila Verde, Cercada de olivais, Eu de ti tenho saudades, Por quem lá está solto ais.»*
*Já registada por Carlos Martins, Cancioneiro da Saudade, 1920, p. 104.

Beja

280.

Ervidel

281.

Serpa

282.

Ó linda vila de Alvito, É piquinina* e tem graça: Tem umas «bicas» no meio Dá de bober** a quem passa
*Piquinina em·lugar de pequenina. Devemos concordar que aquela pronúncia teum mais energia que esta. **Bober, por beber.

Beja

283.

Ó Mertola, quem te arrassase Com um copo de licor! Que toda a gente morresse, Só ficasse o meu amor! ÓMértola, querida Mértola, És minha terra natal. És bonita como todas As terras de Portugal. «0 meu amor é da vila, Mora lá na rua larga. Anda no caminho de Beja, Em calhando,* também lavra.»

Mértola

284.

Mértola

285.

Beja

45

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

*Em calhando - «quando se proporciona a ocasião;

quando calhar; em quadrando», etc. Já recolhida par Victor Santos. Cancioneiro Alentejano, 1938, p. 52. 286.

O meu amor é de Mértola, Mora perto da cadeia. Mais val' um aumor da vila Que quatro ou cinco d'aldeia. Ó Mina da Juliana Feita de pedra morena, Drento dela há dois olhos Que me causam tanta pena. Ò Mina de S. Domingos Cercada d' ecalitrais,* Onde o mê amor passêa Em companha**doutros mais.
Écalitrais - eucaliptais. Em companha de - na companhia de.

Mértola

287.

Mina da Juliana Aljustrel

288.

Mina de S. Domingos

289.

Ó Mina de S. Domingos, Cercada de cravos brancos, Onde o me' aumor passêa Domingos e dias Santos. Ó Mina de S. Domingos, Não é de ti que m'eu lembro, E dum amor que lá tenho Que a toda a hora stom* vendo.
*Stom ou tom - estou, do verbo estar .

Mina de S. Domingos

290.

Mina de S. Domingos

291.

Ó Mina de S. Domingos. Nao é vila nem cidade, És uma capela branca, Onde brilha a mocidade. Ó moças, arriba Serpa, Que além vem no Baleizão; Onde quer que Serpa chega, Prantam-se* as arma's no chão.
*Prantam-se - «põem-se, colocam-se, poisam·se», etc.

Mina de S. Domingos

292.

Serpa

293.

Ó moças, arriba Serpa, Que além vem no Baleizão; Vem dizendo. Ó camarada, Não sei se cante se não. «Ó moças de Beja, Quem me dera vê-las, Dizem que são lindas, Q'ria conhecê-las.»*

Alvalade

294.

Beja

46

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos *Tomás Pires. Cantos Populares Portugueses. 295.

Ó Moura, melhor das vilas, Também que muitas cidades; Quem me dera eu já lá ir Para matar saudades. Onde brilha a minha amada, Onde brilham meus amores; Adeus vila de Ferreira. És um jardim de flores. Onde quer que eu cheguí, Chegou Portugal à França; Tenho corrido, não acho Quem me dobre o fio à lança. Ó Pias, Ó Pias, Ó Pias, Piais! À roda das Pias Só vejo currais. Ó Pias, Ó Pias, Ó Pias, Piais! De roda das Pias Tudo são quintais. O povo do Alentejo É sincero, hospitaleiro, Trabalhadar e honesto Com o seu feitio guerreiro. Ó que Beja se arrasasse Com um copo de água fria! Para a vida militar Já meu aumor lá não ia! Ó que festa, linda festa! Como estanãi se gozou. A vinda do rei a Beja Foi a que mais agradou. Ó rosmano, ó rosmaninho, Das terras do Alentejo. É lá qu‟ é‟ tenho o mé‟ ninhonioho, Tudo cant'é* bom lá vejo.
*«Canto» - em vez de Quanto. «Tudo quanto é bom lá vejo.»

Moura

296.

Ferreira do Alentejo

297.

Ferreira do Alentejo

298.

Serpa

299.

Mértola

300.

Beja

301.

Mina da Juliana Aljustrel

302.

Beja

303.

Beja

304.

Ó rua da Casa Pia, Hei-de mandar-te calçar Com pedras de diamantes, Para a meu bem passear. Ó Salvada, ó doce Quintos, Ó Serpa e ó Baleizão! São essas as quatro terras

Beja

305.

Beja

47

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Muito da minha afeição.
306.

Ó Salvada, verde lima, Lá na rua da Igreja. Está o meu bemà janela Vendo passar quem deseja. «Ó Serpa, daquela banda, Dá para cá uma volta; Que eu tenho lá uma jovem. Não sei se é viva seé morta.»*
*Já recolhida por Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V. III, 1946, p. 72.

Beja

307.

Serpa

308.

Ó Serpa, daquela banda, Manda·me de lá dizer Se um amor que eu lá tenho, Inda o chegarei a ver. «Ó Serpa, melhor das vilas, Também que algumas cidades! Foi em Serpa que eu achei Amores à minha vontade.»*
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», V. III, 1946, p. 72.

Beja

309.

Serpa

310.

Ó Serpa, melhor das vilas, Tamém* dalgumas cidades. Quem me dera já lá ir, Para matar saudades.
*Tamém - também.

Quintos

311.

Ó Serpa, melhor das vilas, Também de algumas cidades! Quem me dera ir a Serpa, Para matar saudades. Ó Serpa, pois tu não ouves Esses teus filhos cantar? Emquanto as teus filhos cantam, Ó Serpa, põe-te a chorar! Ó Serpa, quem te arrasasse Com um copo de água fria! Que morresse toda a gente, Ficasse a minha Maria! Ó Serpa, ó verde lima, Salvada, verde limão, Baleizão, pé de ginja, Quintos, doce do coração. Os moços das Portas de Moura Cais* sempre 'stão a cantar; Pedem ós da estrada nova

Serpa

312.

Serpa

313.

Serpa

314.

Quintos

315.

Beja

48

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Prós irem lá ensaiar.
*Cais em lugar de quase. 316.

Os moços de Beja Sa' com'òs da Cuba, Têm muita parra, E dão pouca uva. Os moços do Bairro Alto Mataram um perdigão; Os moços da Corte Pinto Comeram-no com feijão. Ouvi dez horas em Quintos, Onze horas na cidade, Meio dia na Boavista, Uma hora na Trindade. Ouvi dez horas em Quintos, Ooze horas na Trindade, Meio-dia na Boavista, Uma hora na cidade. Ó vale, não vales nada, Santa Luzia um vintém; Colos é que val' tudo Pel as moças quelá tem. Ó velha vila de Sines, Tudo em volta sao pinhais, Tu tens uma bela praia, Onde di suspiros e ais... Ó vila de Ervidel, Não és aldeia nem cidade. És uma terrinha reles, Onde brilha a mocidade. Ó Bila Reá* alegrí. Lá ia murrend' à çêdi. Uma çécia me deu água Da raí' da salsa bêrdi.
*Vila Real - Parece referir-se a Vila Real de Santo António. Procura-se na escrita represcntar a fonétlca barranquenha. Ao leitor curioso e interessado talvez lhe inleresse conhecer (se é que não conhece já) o Barranquenho. Veja a obra A Linguagm Popular do Baixo Alentejo, 2ª edição, de que sou autor. Nela inseri um estudo sobre o dialecto Barranquenho. Mas, não basta ler o meu contributo, queira ler a obra «Filologia, Barranquenha - Apontamentos para o seu estudo», Lisboa, 1955, do Prof. Doutor José Leite de Vasconcelos.

Beja

317.

Mina de S. Domingos

318.

Beja

319.

Beja

320.

Colos Odemira

321.

Ervidel

322.

Ervidel

323.

Barrancos

324.

Pensava eu que Beja Fosse alguma aldeia; São uns casarões De cal e areia.

Entradas Castro Verde

49

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

325.

Portugal é piquinino Entremeio das mais nações; Duma nação tão piquena, Todos desejom quinhões. Portugal, és tão bonito, Da montanha até ao val'; Digom todos em conjunto; Viva o nosso Portugal. Portugal é um jardim Da Europa florida. Dou vivas a Portugal Que trago no meu «sentido». Prà Cabeça Gorda Querem me levar Algum cravoêro Têm pra me dar. Quando de Mértola abali, Olhí para trás chorando. Adeus terra da minha alma Que tã‟ lôis me vás ficando!... Quando esta «moda» foi «moda». Estava eu em Baleizão Cumprindo uma dura pena, Às grades duma prisão. Quando eu vou a Albernoa, Antes de lá chegar, Digo qual é meu amor, Se oiço os moços cantar. Quem espera, desespera. Ó amor, quem tal diria! Eu espero, nã' desespero Por meu amor d'algum dia. Quem gaba Serpa para cantes,* É remar contra a maréi. Pra cantes, Aldeia Nova, E Vale de Vargo ao péi.
*Cantes - cantos (= cantares).

Beja

326.

Beja

327.

Beja

328.

Salvada

329.

Mértola

330.

Mina de S. Domingos

331.

Albernoa

332.

Beja

333.

Beja

334.

Quem gaba Serpa p'ra cantes, É remar contra a maré. P'ra cantar a Vidigueira, Vila de Frades ao pé. Quintos e Salvada, Serpa e Baleizão Sã‟ nas quatro terras Do meu coração.

Vidigueira

335.

Serpa

50

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

336.

«Pedrógão e Marmelar, Selmes e Alcaria, Vila de Frades, Vidigueira, Concelho da alegria.»*
*Recolhida por Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», Vol. V, 1948, p. 269.

Vidigueira

337.

Raparigas das Fornalhas Cantem co'a fala só. Vão já todas dar as vivas Aos moços de Torre Vã. Rapazes do Rabaldinho Mataram um escarapão; E os das Portas de Moura Comeram-no com feijão. Rapazes, quando eu morrer, Nã' me importa quem cá fique; Quero o meu corpo enterrado Num cantinho ao pé de Ourique. Rua da estrada de Moura Onde a palma reverdece, Quem nela não tem amores, É porque os não merece. Rua da vila de Moura, Onde a palma reverdece, Quem nela não tem amores, É porque os não merece. «Santa Luzia das Pias, Santo Estevão de Lagares, São Bento de Aldeia Nova, São as minhas saudades.»*
*Recolhida por Pombinbo Junior, no «Arquivo de Beja», Vol. Ill. 1946. p. 72.

Fornalhas Vale de Santiago, Odemira Beja

338.

339.

Ourique

340.

Amareleja

341.

Amareleja

342.

Serpa

343.

Santa Luzia das Pias, Tem um moinho na mão, Para moer as mentiras, Que os moços às moças dão. Santu Alêxu, Santu Alêxu, Tu éri ũ lindu cantinhu, Ten Z almufêra* na ehtrada, I pônti nu ribêrinhu.
*Almufêra - albufeira «Tepresa de aguas, lagoa». Representa-se a pronuncia barranquenha nesta cantiga. Note nela: tu êri «tu és, do verbo cê (ser)». Do esp. eres.

Serpa

344.

Barrancos

345.

«São Bento de Aldeia Nova Mandai acender o facho!

Serpa

51

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Que eu perdi o meu amor E às escuras não o acho.»*
*Já recolhida em A Tradição, n.o 1, Janeiro de 1902, pp. 12-13. 346.

Se Albernoa fosse minha Como eu tinha na vontade, Fazia de Beja aldeia, E de Albernoa a cidade. «Se Aldeia Nova estivesse Perto da aldeia das Pias, Sempre eu estaria fazendo Minhas novas romarias.»*
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Reja», Vol. III, 1946, p. 72.

Albernoa

347.

Serpa

348.

«Se Aldeia Nova estivesse Perto de Santo Amador, Sempre eu andava fazendo Visitas ao meu amor.»*
*Já recolhida por Victor Santos, no Cancioneiro Alentejano, p. 31.

Serpa

349.

S' a Cuba fosse uma aldeia, E Moura uma cidade, Albernoa é 'ma capela Onde brilha a mocidade. Se algum dia passares Ao penedo das Pedrinhas, Deita para lá algumas, P'ra ficarem junto às minhas. Se Baleizão fosse meu, Como eu tenho na vontade, Fazia de Beja aldeia, De Baleizão a cidade. Se eu morrer na tua casa, Enterra-me em São Matias; Deixa-me a boca de fora, Para te dar os bons dias. Se forem ao Alentejo, Não bebam em Castro Verde, Que as fontes só têm rosas, E a água não mata a sede. Se fores a Baleizão Prègunta lá por Mariana. É uma moça bàxinha Que até no cantar teum fama. Se fores a Ervidel,

Beja

350.

Colos Odemira

351.

Beja

352.

Beja

353.

Beja

354.

Beja

355.

Ervidel

52

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Pergunta lá por Mariana. É uma moça baixinha, Até no cantar tem fama.
356.

Se fores ao Alentejo, Nao vevas* em Castro Verde, Que as fontes só têm rosas, E a água não mata a sede.
*Vevas em vez de bebas.

Beja Barrancos Ferreira do Alentejo

357.

Çi fôri Z áu Alenteju, Nã' bebah ẽ Castru Bêrdi, Que ah fônti só tênhẽm rosa', I a água nã mata a çêdi.*
*A propósito da troca do b pelo v, e vice-versa, peculiar do falar barranquenho, já em nota anterior fizemos referência. Reproduz-se esta quadra no dialecto barranquenho.

Barrancos e Ferreira do Alentejo

358.

Senhora da Serra tem Umas cortinas de seda, Para livrar-se da neve Que vem da Serra da Estrela. Se o mar tevesse* varanda, Ia-te ver a Lisboa; O mar varanda nã' tem, Sem asas nenguém avoa.
*Tevesse e nenguém são formas antigas e arcaica.s, respectivamete tivesse (do verbo ter) ninguém (pron. ind.). Avoa por voa. (prótese do a).Quesesse - quisesse. É também antiga.

Mértola

359.

Fornalhas Vale de Santiago, Odemira

360.

S'ê' quesesse amar bonecos, Mandav' ôs vir de Estremôris. Vergonha da minha cara S'ê' contigo tinha amôris. S'eu soubesse que morria, Mandava fazer a cova Com uma enxada de vidro Na rua da estrada nova. S'e soubesse que morria, Mandava fazer a cova Com uma enxada de vidro, No centro da rua nova. Sobe o rei ao alto trono, Desce o pastor ao val' fundo; Uns p'ra baixo, outros p'ra cima Vai-se assim movendo o mundo. Só em Beja é que se vê Um Pato ser ferrador, Uma Rocha a fazer bolos,

Fornalhas Vale de Santiago, Odemira Alcaria Ruiva Ervidel

361.

362.

Beja

363.

Ferreira do Alentejo

364.

Beja

53

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
E um Frieza a dar calor.*
*Quadra humorística. Refere·se a indivíduos de Beja.
365.

366.

Sou de Cuba natural, E não me posso negar; Toda a gente me conhece Pelo modo de falar. Sou de Serpa, sou de Serpa, Nao me quero desdizer; Sou filho duma roseira, Um cravo me há-de colher. Sou de Serpa, sou de Serpa, Sou de Serpa, sou «canteiro»; Sou de Pias, sou de Moura, Sou de Brinches, sou brincheiro. Sou do concelho de Serpa, Sou do distrito de Beja, Sou natural de Ficalho, Quem é que não tem inveja?*
*Recolhida por Pombinho Júnior, no Arquivo de Beja, Vol. III, p. 73.

Cuba

Aldeia Nova de S. Bento

367.

Serpa Aldeia Nova de S. Bento Serpa Vila Verde de Ficalho

368.

369.

Sou do distrito de Beja, Do concelho de Aljuslrel. Sou Marcelino Santana Nascido em Ervidel. Sou do Minho, sou minhoto, Filho duma «minhoteira», Pego nos «picos» às costas, Vou trabalhar para a Beira. Tá Beja e Santa Vetóira, A seguir tá Ervidel; Na' devemos esquecer Essa vila de Aljustrel.* Tenho a minha fala presa, Mas não é do vinho linto, E duma penguinha d'água Que bobi na Corte Pinto. «Tenho um aumor em Serpa, Outro em Vila Boim, Outro em Aldeia Nova, Esse não me esquece a mim.*
*Já recolhida por Victor Santos, no Cancioneiro Alentejano, p. 31. V. Nº 225.

Ervidel

370.

Beja

371.

Beja

372.

Mina de S. Domingos

373.

Serpa

374.

Tens muitas aldeias em roda, E eu te digo quais são: Cabeça Gorda e Salvada, As Neves e Baleizão.

Beja

54

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

375.

«Tens uma saia encarnada Ao uso de Santo Aleixo: És uma moça afamada, Que aproveitas o que eu deixo.*
*Pombinho Júnior no «Arquivo de Beja», Vol. 268, 1948.

Moura

376.

Venho de Penamacor, Vou para Penagarcia. Ando eu de pena em pena Por causa de ti Maria. Vêm para o Alentejo As andorinhas doiradas, Para fazereum seus ninhos Por baixo dessas sacadas. Vento norte, vento norte, Lá do lado de Reguengos, Quem nasce com pouca sorte, Toda a vida anda aos morengos.*
*Andar aos morengos - «Andar aos trambulhões da

Beja

377.

Beja

378.

Vidigueira

sorte, andar aos baldões». 379.

Vila de Entradas tem Duas coisas que dão graça: Éi* o relojo da torre, E os candeeiros da praça.
*

Entradas Castro Verde

Ei, por é. Relójo em lugar de relógio.

380.

Vila Nova de Milfontes Tens uma fonte à entrada, Para não morreres à sede, Bebes água enxovalhada. Vila Viçosa és linda, Pareces um céu aberto:* És a rainha das vilas, És palmeira num deserto.
*Parecer um céu aberto: «ser encantadora, ser linda».

Beja

381.

Beja

382.

«Viva a Póvoa! Viva a Granja! Vivom nos dois povoados! Vivom nos moços solteiros Em companha dos casados!»*
*Pombinho Júnior, no «Arquivo de Beja», Vol. V, 1948. p. 268.

Moura

383.

Viva Moura das vilas rainha, Ó que lindo mercado tem! Viva Serpa e Aldeia Nova, E a Vidigueira também.

Barrancos e Mértola

55

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
384.

Biba Póboa e Santu Alêxu I minha terra natá. Biba Beja e Balêzão, I a Nação de Portugá.*
*Reproduz-se a fonética barranquenha nesta cantiga. Note-se nela os vocábulos: natá « natal» e Portugá « Portugal».

Barrancos e Amareleja

385.

Viva Póvoa e Santo Aleixo, E a nossa lerra natal. Viva Beja e Aldeia Nova, E a Nação de Portugal. Viva Serpa, viva Moura, Vidigueira e Castro Verde, Viva a Cuba e Ferreira Onde eu vou algumas vezes. Viva Serpa, viva Ourique, Vivom todos em geral; E o nosso Baixo Alentejo, Província de Portugal. Viva Serpa, viva Ourique, Vivom todos em geral; Vivom nas nossas aldeias, E terras de Portugal.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Beja

386.

387.

Beja

388.

Beja

FIM do CAPÍTULO I TOPONÍMIA - Nomes de lugares, aldeias, vilas, cidades, ruas e outros da Província do Baixo Alentejo. As «cantigas», que formam este capítulo, referem-se ao Baixo Alentejo, - às suas aldeias, às vilas, a Beja, em particular, aos nomes de certas ruas, etc. Igualmente elas falam das produções cerealíferas, da abundância de gados que se criam por toda esta Província, e ainda da riqueza do seu subsolo, isto é, dos minérios que se extraem em S. Domingos e Aljustrel. As referências a esta cidade de Beja são um tanto lisonjeiras, ampliadas pelo espírlto visionário e bairrista de seus criadores.

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Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

CAPITULO II
FAUNA - Nome de animais existentes na região.

Neste capítulo agrupam-se as cantigas (quadras populares) que se referem a diversos animais existentes no Baixo Alentejo. Nelas se inspiraram os simples fazedores das cantigas ou os criadores naturalmente dotados de mais engenho e arte para, uns e outros, exprimirem suas ideias e seus sentimentos. Nesta série que vai seguir-se encontrará o interessado ou simples curioso nesta matéria, quadras que exprimem lamentações e anseios, umas, chistosas e humorísticas, outras, irónicas e sentenciosas e, outras ainda, que revelam ciência e filosofia populares, e as que exprimem as saudades do amor ausente: ora a amada anseando por novas do bem-amado, ora ele, igualmente desejoso de vê-la, sofrendo idênticas saudades. E, interrogando as próprias aves que voam ligeiras no espaço, pedem-lhes que, velozes, lhes levem novas ao amor distante por quem suspiram e, para que, longe, se não desvaneça de seus corações amorosos a saudade que redobra de intensidade em suas almas.
389.

A água do rio vai turva, Nela a garça vai bubêri;* Vá o nosso amor àvanti, Padeça quẽi padecêri.
*Bubêri ou bobêri são formas populares do verbo beber «ingerir (líquidos), gastar em bebidas, absorver, etc.». Usam-se nalguns concelhos, tais como: Ourique, Odemira, Aljustrel, Mértola, etc. Bober e Buber (e também boer ou buer) são formas vocabulares românicas. Cp. fr. bouvoir (arc. Bou...).

Panoias

390.

Abalí, dêxi* as cabras Às quatro da madrugada; Ia chegando ao terreiro, Ao bàlho** da esplanada...
*Dêxí e abalí por deixei e abalei. A 1ª pes. sing. do pret. perf. simples dos verbos em ar termina, nas bocas populares, em í, e não em ei, desfazendo o ditongo. Assim, alem destas: cantí, trahalhí, joguí, amí, etc., em vez de cantei, trabalhei, joguei, aumei, etc. **Bàlho, bàlhar por baile, bailar.

Ervidel

391.

Abre esta carta e virás Dois passarinhos poisados; Faz de conta que sã bêjos, Sã bêjos por mim mandados. A cobra no verde mato Foge que desaparece; Assim sã nestes mês*olhos Ò pé de quẽi mos merece.
*Mês, tês, sês, etc. em próclise, em lugar de meus, teus, seus.

Aldeia do Futuro

392.

Mombeja

393.

A desgraçada pombinha Ter asas, não avoar!...* Tamẽi é desgraça minha Ter amor, nã le falar.

Beja

57

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

*Avoar por voar. Le, li, les, etc., pron. lhe, lhes. 394.

Adeus que me vô imbora Prà terra das andorinhas; Mete carta no correio, Se queres saber novas minhas. Adêu' que me bô imbora Pró renu da Z andorinha'; Mete carta nu currêiu. Çi quêri çabê' nobah minha‟ *
*Reproduz-se esta cantiga conforme a fonética barranqucnha. Note-se: Çi quêri çabê‟ «Se queres saber».

Amare/eja, Ervidel, Ferreira do Alentejo e Panoias Barrancos

395.

396.

Adonde vas tu, passarinho, Vestido assim cor de neve? Vou prà luz como a andorinha, Mas hei-de voltar cá breve. À entrada desta rua, À esquerda, qu'à drêta não, Tá uma perdiz à porta, À'spera do perdigão. À entrada desta rua, E à saída dela, não, Tava a perdiz a cantári, À espera do perdigão. Ai! quem fosse borboleta! Voasse como ela voa! Entrava no teu «sentido»,* Que o voar dela não soa!
*«Sentido» - «pensamento, imaginação, ideia, etc.».

Beja

397.

Aldeia do Futuro

398.

Mina de S. Domingos

399.

Salvada

400.

Ai triste da minha vida, Ai triste da vida minha! Quem me dera ir contigo, Onde tu vás andorinha!*
*Vá s em lugar de vais.

Cuba

401.

À luz daquela candeia Se falou em casamento. P'ra mais prova da verdade Tenho a minha égua à porta.*
*Cantiga de pé-quebrado, assim chamada, par se quebrar a rima no quarto verso.

Fornalhas Vale de Santiago

402.

A malhada ôs coelhos, Diz·me lá quem na roubou? Se nã‟ sabe responder Pr'ô desplicar ind‟àaqui „stou.

Panoias

58

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos 403.

Amanhã me vou embora, Pra terra das andorinhas; Mete carta no corrêo, Se queres saber novas minhas. A minha gatinha parda, Que em Janeiro me fugiu, Eu não sei que é feito dela, Nunca mais ninguém na viu. A minha mãe sogra É uma tarasca (?) Foi ao bacalhau. Na' me deu 'ma lasca.*
*Lasca - «pedaço, bocado».

Santa Bárbara de Padrões Castro Verde Beja

404.

405.

Cuba

406.

A minha mãe sogra Teum nariz de «bicha»; Alevant‟ô rabo Como'à lagartixa. A minha mãe sogra Teum olhos de «bicha» Arrebita o rabo Com'a lagartixa. À minha porta passêa Um franguinho depenado. Passêa, frango passêa. Passêa desenganado. Amo tanto a minha mãe Como o Sol ama a campina; Como a doida mariposa Ama a flor da purpurina. Anda cá se queres ver Como é minha alegria: Toda carregada de penas, Como anda a cotovia. A neve branca da serra, Ta' branquinha a esvoaçar, Como brancas, ternas pombas, Fora do ninho a voar. A pena com que te escrevo Não é de nenhum pavão; A tinta sai-me dos olhos, A pena do coração. A pena com que te 'screvo Não é de nenhum pavão: Foi narcida, foi criada, Drento do mê‟ coração.

Peroguarda

407.

Fereira do Alentejo

408.

Mina de S. Domingos

409.

Cuba

410.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Ervidel

411.

412.

Conceição

413.

Beja

59

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
414.

A pena com que te 'screvo Nã' na tirí do pavão; A tinta sai·me dos olhos, A pena do coração. A pulga de si é preta, Teum dentes de marafim,* Drome à noite co'as moças, Quem ma dera ser assim!
*Marafim, por marfim, Dróme em vez de dorme (outro caso de metátese).

Beringel Peroguarda

415.

Mombeja

416.

A rola que bai buando Pur çima du malmequé, Bai rulandu i bai dizendu:* U me amôr é Manué.
*Rulanau em vez de arrulando, ou arrulhando «cantar como os pombos e as rolas». Reproduz-se esta Quadra conforme a fonética barranquehnha. Note-se nela: Manué «Manuel». Uma das características do Falar Barraquenho é a troca do v pelo b.

Barrancos

417.

Arrecade o seu vintém, O cruzado novo é meu. O corvo não tem mais penas Que aquelas que Deus lhe deu.*
* V. nº 454

Fornalhas Vale de Santiago Odemira

418.

A salsa é para o pêxe; A hortalã para a vaca; Os moços sã' para as moças, E os velhos presos a 'staca. As arves que o mundo tem Cubro-as c'o meu chapéu. Diga-me cá por cantigas Quantas 'strelas há no céu?*
*Veja a cantiga que se segue.

Beja

419.

Beja

420.

As estrelas que há no céu Só Deus o pode saber; Sou filho de gente pobre, Nã' m' ensinaram a ler. As penas dos passarinhos Não são as penas da gente. Quem me dera ter as suas, Das minhas fazer presente. As pombinhas da Catrina Andárom de mão em mão; Fôrom ter à Quinta·Nova, Ao pombal de S. João.

Beja

421.

Beja Mértola

422.

Ervidel

60

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

423.

Avezinha, quanto invejo Tua sorte venturosa! Tu cantas sem ter cuidados, Vives no mundo ditosa! A vezinha tem um gato, Tem um gato tão valente... As meninas vão ao poço, E o gato arranha a gente. A vida não corre bem, Custa muito, mas deixá-lo. Passo o dia a mastigar Cebo e osso de cavalo... A vizinha tem um gato, Mas que gato tão valente... Quando as moças vão ao poço, Logo o gato arranha a gente. Bẽ çê que te bais imbora, Que te anda Z abiandu. Quẽi fôçi pombinha branca, Para t‟ í acompanhandu! Benditas sejam nas fontes À beirinha dos caminhos, Onde vão matar a sede Os alegres passarinhos. Borboleta de asas d'oiro Sobre o meu peito apoisou.* Nas asas escrevi teu nome, E a borbolcla fugiu.
*Apoisou, por poisou. (Com prótese do a). É cantiga de pé-quebrado. Se o 4° verso rimasse, seria: «E a borbolcta voou». Mas houve a intenção de o não fazer rimar.

Ervidel

424.

Beja

425.

Beja

426.

Beja

427.

Barrancos

428.

Amareleja Moura

429.

Fornalhas Vale de Santiago

430.

Borboleta, que tanto andas, Nem à noite tens soossego. Tu chegasà luz e morres, Eu morro porque não chego. Borboleta voadora, Abre as asas, toma vento; Vai-me levar esta carta Onde eu tenho o pensamento. Canta lá ó primu ermânu, Canta qu'ê lógu tê ajúdu. Fazêmu Z ũ bêlu cante, Cêmu doih galu' d'entrúdu.* Cantando disse a pombinha De resposta ao sisão.

Fornalhas Vale de Santiago

431.

Mina Juliana Aljustrel

432.

Barrancos

433.

Quintos

61

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Quem se cativa de gosto, Nã' prègunta geração.
*Reproduzimos esta quadra seguindo a fonética barranquenha. Igualmente a nº 427. 434.

Cantando na linda rama Estão dizendo os passarinhos: M uito feliz vai a ser Quem lograr os teus carinhos. Cantando na linda rama Estão dizendo os passarinhos: Lindo prazer vai gozar Quem lograr os teus carinhos. Cantigas ô desafio, Comigo nenguém nas cânti. Eu tenho quem mas ensine, O meu amor é estudânti.*·
*V. nº 526.

Beja

435.

Salvada

436.

Colos Oddemira

437.

Cinco réje, tenh' ê‟ meus Gòrdados* há munto tempo, Para comprar as sardinhas No dia do casamento.
*Górdados em vez de guardados. Munto em lugar de muito.

Mértola

438.

Com lencença, entra o «pinto», O sê‟papo vai encher; Adonde há galos de fama Que vêm pintos cá fazer? Como cantas, passarinho, Alegre ao pé de quem chora! O teu cantar me dá pena, Não cantes mais, vai-te imbora.*
*Imbora (Do lat. In bona hora) – embora

Salvada

439.

Beja

440.

Quantos pêxes há no mar. Ê‟ já le vô' a dizer: Sã‟ metade e outros tantos * Fora os que 'stã' p'ra nascer.
V. nº 552

Ervidel

441.

Cantos pêxes tem no mar, Agora le vô dezêri: Amargulh'* até ô fundo,**· Abr' ôs olhos, vaia vêri.
*Amargulhe em lugar de mergulhe. Vaia, por vá. Em vez das formas: vá. Vás, vamos, ides e vão, do modo conj. do verbo ir, ouvem-se algumas vezes, nas nas bocas populares, as vozes: vaia, vaias, vaia. váiamos, ... e váiom.

Mértola

62

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos A 2ª pes. do plural não se usa. A razão desta pronúncia deve ser par influência espanhola. No esp. vaya. **V. nº 482 442.

C‟uh paçaritu' du câmpu Ê me quéru compará. Ãndom bêstidu dê pena' U çê alíbiu é cantá.*
*Reproduzimos esta quadra seguinda a fonética barranquenha

Barrancos (?)

443.

Coração que dois adora, Um deles tem de ser falso. É impossível caírem Duas pombinhas num laço. Da minha janela à tua É o salto duma cobra. Quem me dera já chamar À tua mãe minha sogra. Da pena dum papagaio Fiz uma chave inglesa, Para abrir esse teu peito Com toda a delicadeza. Delicado é o peixe Que faz a cama no lodo. Delicado é o amor, Cada vez mais de mim gosta.*
*Cantiga de pé-quebrado.

Amareleja Moura

444.

Beja, Ferreira do Alentejo. Amareleja, Mina do Juliana (Aljustrel), S. Teotónio (Odemira)

445.

Mina do Juliana (Aljustrel)

446.

Fornalhas (Vale de Santiago)

447.

Delicado é o peixe Que faz a cama no lodo. Delicados são teus olhos Que me encantaram de um todo. Delicado ei o pêxe Que faz a cama no lodo. Delicados são teus olhos Que me prenderam de todo. Desejava ser pastor De um rabanho de ovelhas. Destas que vestem saias. Trazeum brincos nas orelhas. Despedida, despedida, Como faz passarinho. Que se despediu cantando, Deixou as penas no ninho. Dês que vim a este mundo, Sempre lavri com três bois. Metia o do meio ao rego

Vila Nova da Baronia

448.

Beja

449.

Ervidel

450.

Ervidel

451.

Vila Nova de Mil Fontes

63

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
E, atrás, ficavam dois.
*Dês que - desde que. 452.

Diga lá ao mar que seque, E aos rios de ponta a ponta.* Diga aos peixes que se ajuntem, Qu' eu irei fazer-lhe a conta.
V. nº 515,

Beja

453.

Dizes chamarem-te pomba De candura imaculada. Ó filha, isso é 'ma tomba Numa bota arrebentada. Eu aposto cinco testões* Contra um cruzado novo, Se tu me souberes dizer Contas* penas tem um corvo.
*Contas, por quantas.

Beja

454.

Beja

*V. nº 515, 455.

É já ganhi cinco testões, E o cruzado novo é meu. O corvo nã' tem más penas Qu'àquelas que Dês le deu. *
*V. n° 459

Beja

456.

Eu já vi um gato a rir, E um burro andar à'scola; Nas asas duma formiga Formar-se um jogo de bola. Ê nã‟ quer‟ mulher com poupa. Nem em casa m'há-de entrári. Nã‟ quero que poupo fuja Atrás da poupa a cantári. *
* V. nº 491

Ervidel

457.

Mina de S. Domingos

458.

É teu altar o meu peito, Onde tu rezas sozinha. Pois não cabe mais ninguém Neste nioho de andorinha. Eu aposto um vintém Contra um cruzado novo; Menina, que sabe, diga Quantas penas tem um corvo. *
*V. nº 455.

Beja

459.

Fomalhas Vale de Santiago, Odemira

460.

Eu corri o mar à roda Nas costas de uma cegonha. Em todo o mar vi fundura, Menos na tua cara vergonha.

Alvalade

64

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

461.

Eu corri o mar em roda Nas costas duma baleia, Com o meu amor de lado. Minha sogra na algibeira.* Eu já te tive nas mãos Fechada com'à perdiz. Eu tinha a faca e o queijo, Nao cortei porque não quis. Eu já vi sair dum bosque Um carrinho de flores, Puxado por duas pombas, Guiado por dois amores. Eu quero morrer cantando, Já que chorando nasci; Quero ser como a pombinha Que, voando, levou fim. Ferros novos, ferros velhos, Aldrabas e fechaduras. Chorom* meus olhos por ti Como gato por selada.
*Chorom, por choram. Selada em vez de salada. Cantiga de pé-quebrado

Fomalhas Vale de Santiago, Odemira Fomalhas Vale de Santiago, Odemira Beja

462.

463.

464.

Mina da Juliana Aljustrel

465.

Beja

466.

Ferros velhos, ferros velhos, Aldrabas e fechaduras. Gosto tanto dos teus olhos Como os gatos de selada.
*É também cantiga de pé-quebrado.

Fomalhas Vale de Santiago, Odemira

467.

Fui à fêra comprar gado, Volti sem nada trazer; O que era do meu agrado, Não era para vender. Graças a Deus que já chove, Já correm nos barranquinhos, Já os campos „stão alegres, Já cantom nos passarinhos. Já chove, já tá chovendo, Já correm nos barranquinhos, Já os campos tã alegres, Já cantom nos passarinhos. Já corri o mar em roda Nas costas duma sardinha. Nunca vi torre tão alta De pedra tão miudinha! Já corri o mar em roda

Alvalade

468.

Beja

469.

Beja Barrancos

470.

Ervidel

471.

Amareleja

65

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Nas costas duma sardinha. Ó moços nã' m'aquerditem,* Qu'jsto são'mintiras minhas.
*Aquerditem em lugar de acreditem. Mintiras-mentiras. 472.

Moura

Já morreu minha pombinha, Já não tenho portador, Já não tenho quem me leve Cartinhas ao meu amor. Já os passarinhos chorom. Que não têm que vestir. Já ‟stragarom nos vestidos Que les dê‟ o mês de Abril. Lá no meio do alto mar Anda 'ma pombinha branca. Não é pomba, não é nada, É o mar que s'alevanta. Lá no meio do alto mar Estão duas pombinhas brancas. Nã' sã' pombas, não é nada, São ondas que o mar levanta. Lá vai uma, lá vão duas, Três pombinhas a voar; Uma é minha, outra é tua, Outra de quem a apanhar. Linda avẽ um mocha, Que de noite canta à porta. Mais val' um amor carocho Que uma açucena tã‟ torta. Lindos olhos tem na cobra, Quando olha de-repente. Mal empregada menina Não olhar p'ra mim somente. Mal vai aos dentes dos ratos, Mais à turquês das formigas. Que me roeram no saco Onde ê guardava as cantigas. Mas que lindas pombas brancas Que há aqui neste pombal. Quem me dera ser o pombo Dessa que não tem casal. Menina, que sabe ler, No seu livro ainda novo, Há-de me saber dizer Cantas penas tem num corvo.

Beja Quintos

473.

Beja

474.

Beja

475.

Beja

476.

cuba

477.

Ervidel

478.

Beja

479.

Amareleja Moura

480.

Beja

481.

Mértola

66

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos 482.

Menina, que sabe ler, Temém sabe asseletrar,* Diga-me cá por cantigas Contos pêxes há no mar?
* V. nº 521.

Beja

483.

«Mis abueluh tienen» U búrru cambitu; Áu paçá pur ũ barrancu Matárom dôzi pulhitu'. Minha avó, quando morreu, Deixou-me uma burra coxa, Fui ó poço buscar água, Partiu-me os cântros em cima.
Cantlga de pé-quebrado.

Barrancos

484.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira

485.

Minha mãe p'ra m'eu casar, Ofereceu-me quanto tinha, Depois de me ver casada Deu-m'as penas da galinha. Minha mãe p'ra m'eu casar, Ofereceu-me uma galinha; E, depois d'ê' estar casada, Deu-me as penas que ela tinha. Minha mãe p'ra m'eu casar, Prometeu-me três ovelhas: Uma cega, outra coxa, Outra mocha sem orelhas. Mônti di Dona Maria Tem binte e quatro jane'ah. Quẽi me dera ser 'ma pomba, Pra í poisá ẽi elah.
O - s - final de palavra que eu represento por – h – tem, na fonética barranquenha, um som aspirado gutural.

Ervidel

486.

Cuba

487.

Vila Nova da Baronia

488.

Barrancos

489.

Não julgues por eu cantar Que a vida alegre me corre. Eu sou como o passarinho, Tanto canta até que morre. Nao penses qu'eu que te quero, Ou por ti estrago os sapatos. Minha cara de boneco Toda a picada dos corvos.*
*Cantiga de pé-quebrado.

490.

Beja Ervidel Cuba Vila Verde de Ficalho Colos Odemira ?

491.

Não terás esse prazer, * Pois não pretendo de amar. Nem com poupa nem sem poupa Tu a há-des *apanhar.

Mina de São Domingos

67

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

Há-des, por hás-de. (outro caso de metátese). V. nº 457 492.

Nas asas dum passarinho, Linda carta vás voando; Leva novas ao meu bem, Qu'ê' por novas 'stô·‟sperando. Nas beiras do meu telhado, As andorinhas morenas Andam a fazer o ninho Às tenças das minhas penas. Nas costas da minha mão 'Ma borboleta poisou. Nas asas escrevi teu nome E a borboleta voou. Nas ondas do mar, lá fora, Anda 'ma pombinha branca; Não é pomba, não é nada, São ondas que o mar levanta. No rio apanham-se peixes, No mar se apanham taínhas. Dá-me os teus olhos inteiros, Nã' mos dês às migalhinhas. O coração de Maria É como a pomba ferida; Vai ao ar, derrama o sangue, Vem ao chão, acaba a vida. Ó coração de pombinha, Ó ábí da Primabera, Ê dêsêjába çabê A tua tenção* «cal» era.
*Tenção em vez de intenção. É forma reduzida ou sincopada, antiga e arcaica, que pode ver-se nas obras literárias de nossos primeiros escritores. Reproduz-se esta cantiga conforme a fonética barranquenha. Note·se: ábí «ave»; çabê «saber» e cal «qual».

Mértola

493.

Mértola

494.

Beja

495.

Ervidel Vila Nova da Baronia Mértola

496.

497.

Beja Ervidel Mina da Juliana (Aljustrel) Vila Nova da Baronia; Mértola

498.

Barrancos

499.

Ó galo alevanta a crista, Ó frango abáxa a penuja.* Ê' pro mim, nã' tenho medo, Quem tever medo, que fuja.
*Penuja, por penugem. Pro em vez de por (outra metátese).

Santa Bárbara de Padrões Castro Verde

500.

Olhe lá ó minha mãe, Vou fazer uma das minhas: Vô'-m'a dêtar a afogar No caquêro das galinhas.

Beja

68

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos 501.

Ó mar, abaixai as ondas, Quer' ir apanhar um pêxe; Quero-me dêxar do mundo, Entes que*o mundo me dêxe.
*Entes que, por antes que (= ainda que, embora).

Beja

502.

O mar é grande leão, Que a todos pensa comer. Não sei como os homens podem As ondas do mar vencer. O mar pediu a Deus peixe, O peixe pediu fundura, O homem pediu riqueza, E a mulher a fremosura. Ó minha pombinha branca, Vai-me levar esta carta, Vai dizer ao meu amor Que a saudade me mata. Ó moças, levem·me ao mêo Par alma de seus defuntos. Nesta casa matam porcos, É sinal de haver presuntos. Ó moças, queiram-me todas, Que o meu pai é muito rico. A riqueza, que ele tem, Leva a cegonha no bico. Ont' à noite, à meia-noite, À meia-noite seria, Duvi cantar uma pomba No coração de Maria. Ont'à notí çcunhí eu Que te ehtaba' dandu bêju‟. A candêa çe acendeu, Me pu Z a catá pêrcêbêju.*

Beja

503.

Beja Ervidel

504.

Ervidel

505.

Mina de S. Domingos

506.

Cuba

507.

Barrancos Vila Verde de Ficalho Vila Nova da Baronia Mértola Barrancos

508.

* Reproduz-se esta cantiga conforme a pronúncia barranquenha. 509.

O peixe drento do mar É voraz, devorador; Vai buscando como nós A pancada do amor. O peixe n‟água está vivo, Em saindo, já morreu. Estou em casa de meus pais, Ninguém está melhor do que eu. o peixe nas frescas ondas E as feras na solidão. Ninguém sente mais que eu

Mina da Juliana Aljustrel

510.

Ervidel

511.

Colos Odemira

69

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
A nossa separação.
512.

O peixe viver não pode Separado d'água fria. Assim como eu não posso Sem o meu bem d'algun dia.*
*Dalgum dia - de outrora, de antigamente. de tempos

Beja

idos. 513.

O pintassilgo amao bosque, A mariposa, o jardim; O triste ama a solidão. Eu amo-te so a ti. Ó que lindas pombas brancas Que estão naquele pombal! Quem me dcra ser o pombo Dessa que não tern casal! Ó rapaz, que sabes tanto, Faz favor de me dizer:* Quantos peixes tem no mar? Quantos 'stão para nascer?
* V. nº 452.

Cuba

514.

Beja

515.

Beja

516.

O rouxinol é vadio, Passeia por onde quer. É com' ô rapaz solteiro, Enquanto não tem mulher. Os alegres passarinhos Já sabem novo cantar. Aprenderam só de ouvir Sem ninguém os ensinar. Os alegres passarinhos Já têm novo cantar. Aprenderam só de ouvir Meu coração suspirar. Os alegres passarinhos Já têm novo cantar. Aprenderam só de ouvir Os dois amores a falar. Os alegres passarinhos São cientes no can tar. Aprenderam só de ouvir Sem ninguém os ensinar. Os pêxes que o mar tem Não nos vô' contar ô fundo ** Atã' diga lá vocêi Cantas árves há no mundo?*
*Atão, ou antão em vez de então. Vocei, ou vocêia (= a vossa mercê) você. Árves, por

Colos Odemira

517.

Ervidel Colos Odemira Beja

518.

519.

Beja Ervidel Messejana Aljustrel Mértola

520.

521.

Beja

70

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos árvores . **V. nº 419. 522.

Uh probe' duh çapatêru', Cômu na tênhẽ trabalhu. Páçom uh dia na ribera, A bê çi pêhcom burdálhu.*
*Burdálhu = bordalo (peixe do rio). Reproduz-se esta cantiga cvonfarme a fonética barranquenha. Note-se nela: próbe' «pobres» tênhẽ ou tẽiẽ, têm. do verbo tê, ter»; çi «se, conjunção condicional».

Barrancos

523.

Os pombinhos, quando nascem, Começam logo aos beijinhos. Assim são os narnorados, Quando se apanham sozinhos. O tempo que t'eu ami Mais valia amar um burro Andava a cavalo nele Inda nã‟ perdia tudo. O tempo que t'eu ami Mais valia amar um burro Prendia-o a uma estaca, Tinha ali amor seguro. O tê amor é studânti, Mas nã t'as sabe ensinári; Diz-me lá tu por cantigas Quantos peixes há no mári.*
V. nºs 521, 440 e 441.

Beja

524.

Beja

525.

Penedo Gordo Beja

526.

Colos Odemira

527.

Papagaio da pena verde, Empresta-me o teu vestido. O meu vestido são penas, Em penas ando eu metido. Para a boda um carneiro, Duas arrobas de vaca, E um saco de batatas, Cinco menreis* em dinheiro.
* Cinco menreis – cinco mil réis (= 5 escudos)

Beja

528.

Aldeia do Futuro

529.

Passarinho, bate as asas. Bate as asas, toma vento, Vai-me levar esta carta Onde está meu pensamento. Passarinho, quando bebe, Bate as asas na corrente, Com o seu biquinho escreve, Cartas ao amor ausente.

Mina da Juliana Aljustrel

530.

Ervidel Messejana Aljustrel

71

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

531.

Passarinho, que esvoaças, Anda cá, és meu irmão. Tu tens as penas nas asas, Eu tenho as no coração. Passarinho, cand‟ bebes, No veio da água corrente, Com o teu biquinho escreves Cartas a quem anda ausente. Passarinho, cand‟ bebe, Na veia d‟água corrente, Com o seu biquinho escreve Cartas ao amor ausente. Passarinho, quando bebe, Molha as asas na corrente; Com o seu biquinho escreve Cartas ao amor ausente. Passarinho, que esvoaças, Que gorgeias pelos teus, Quando tu cantando passas, lnveja-me o viver teu. Passarinho, que esvoaças, Volta o bico para o Norte, Vai levar esta cartinha, Onde eu trago a minha sorte. Passarinhos dos beirais, Sois mais felizes que eu. Vós passais cantando a vida, E eu a chorar quem morreu. Passarinho, vais voando, Por essas terras sem fim, Vai dizer ao meu amor Que se não esqueça de mim. Quando a pombinha abalou* Da serra com alegria, Despediu·se da madrinha, Voltando no outro dia.
*Abalar - «partir com pressa; ir-se embora; marchar».

Beja

532.

Beja

533.

Beja

534.

Beja

535.

Beja

536.

Ervidel

537.

Amareleja Moura

538.

Mina da Juliana Aljustrel

539.

Ervidel

540.

Quantos peixes há no mári, Ê já te vom a dezêri:* Som metade e outros tantos,** Fora os que estão p'ra narcêri.
*Notem-se as formas verbais “vom a dêzeri”: som (forma perifrástica) e respectivamente - vou dizer, do verbo ir dizer e são (do verbo ser). Note-se ainda a forma verbal “narcêri”, características do falar dos concelhos de Odemira, Mértola e

Colos Odemira

72

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos Almodôvar. ** V. nº 526. 541.

Quatrocentos albardeiros S'ajuntaram em campanha, Com 'ma tesoura na mão, P'ra matarem uma aranha. Que lindas pombinhas brancas Que 'stão naquele quintal! Quem me dera ser o pombo Da que não tiver casal! Quem tern ovelhas, tem lã, Quem tem lã, tem carrapiços; Quem tem cabras, tem anacos, Quem tem porcos, tem chouriços. Que passarinho é aquele Que no ar faz ameaços? Com o bico pede beijos, Com as asas pede abraços. Rouxinol canta de noite, De manhã a cotovia. Todos cantam, só eu choro Toda a noite e todo o dia. Rouxinol, que tão bem cantas, Às grades duma prisão, O teu cantar mavioso, A mim me causa paixão. Rouxinol, que tão bem cantas, Onde aprendeste a cantar? Foi na Quinta da Tapada, Onde o Rei ia caçar. Se à tarde vires passar No rebanho os carneirinhos, Repaira que todos eles Levam na boca beijinhos. S' és galo, alevanta a crista, S'és frango abaxa a penuja. Ê pro mim, nã‟ tenho medo, Quem tever medo que fuja. Se fosse galo, cantava, Em cima duma gurrita; Namorava as moças todas, Casava ca* mais bonita.
*Ca - prep. com e art. a (= com a).

Ervidel

542.

Mértola

543.

Ferreira do Alentejo

544.

Messejana Aljustrel

545.

Mina da Juliana Aljustrel

546.

Colos Odemira

547.

Beja

548.

Mina da Juliana Aljustrel

549.

Panoias

550.

Salvada

551.

Se nalgumas tardes belas Vires passar as andorinhas, Repara que todas elas,

Mina da Juliana Aljustrel

73

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Levam saudades minhas.
552.

S‟és poeta, ou cantor, Há-des-me* desplicar: Diz-me lá tu por cantigas Contos pêxes há no mar?**
*Hà-des-me por hás-de-me; desplicar em vez de explicar. **V. nº 440

Ervidel

553.

Se Se Se Se

me lavo, sou bonita, me não lavo, sou porca, eu canto, sou cigana, não canto, mosca morta.

Beja

554.

Se os passarinhos soubessem Quando é a Ascensão, Não comiam nem bebiam, Nem punham os pés no chão. Se tu visses o que eu vi, Haveras* de t'admirar: Uma cadela com pintos, E uma galinha a criar.
*haveras de - «Haverias de, havias de».

Amareleja Moura

555.

Beja Aldeia do Futuro Colos Odemira

556.

Se tu visses o que eu vi, Haveras de* te admirar: Um piolho a tocar viola. E uma pulguinha a balhar.
*haveras de - «Haverias de, havias de».

Beja

557.

Tenho dentro de meu peito Duas escamas de peixe: Uma, diz que te não ame, Outra, diz que te não deixe. Tenho dó do meu amor, Coitadinho já não canta! Comeu sardinhas salgadas, Subi‟l‟o sal à guerganta!*
*Guerganta em lugar de garganta.

Ervidel

558.

Vila Nova da Baronia

559.

Tenho grande zanga aos ratos, E às malditas das formigas, Que me roeram no saco, Ond' ê‟ trazia as cantigas. Tenho ódio às ratazanas, E grande zanga às formigas, Que me roeram o saco, Dand' ê‟ trazia as cantigas. Tens cabeça d'endorinha,

Ervidel

560.

Beringel

561.

Beja

74

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Tens bescoço* de cigonha. Tens olhos de porca russa, Cara de pouca vcrgonha.
*Bescoço por pescoço e cigonha em vez de cegonha. 562.

Tens cabeça d'endorinha, E bescoço de cigonha, Tens «tromba» de porca russa, Cara de pouca vergonha. Tens cabecinha de arvela, Tens bescoço de cigonha, Cabelo de porca russa, Cara de pouca vergonha. Tira-me dessa janela, Cara de carvão queimado, Olhos de carocha frita, Barriga de sapo enchado. Toda a mulhé que çe cázi Com um hôme piquininu, Puxa-lí pêlah orêlhah, Bênha cá mê macaquinhu.*
*Reprodu-se esta cantiga conforme a pronúncia e fonética barranquenhas. Note·se: mulhé «mulher»; çe cázi «se case, forma reflexa do verbo casar·se»; óme ou omẽ «hornem» mê «meu, em próclise».

Salvada

563.

Salvada

564.

Colos Odemira

565.

Barrancos

566.

Tu cantas com muita gana, Tens graganta de pirúm;* Mas a mim nã'm'arrefeces, Nem mi dás calor ninhum. Tu cuidas que eu por ti morro, Ou por ti rompo os sapatos, Minha cara de boneca. Toda roída dos ratos. Uma borboleta d'oiro Sobre teu peito poisou. Nas asas, gravei teu nome, E a borboleta avoou. Uma branca borboleta Sabre as minhas maos pousou. Nas asas, escrevi teu nome, E a borboleta avoou. Uma linda borboleta Sobre a minha mão pousou. Veio trazer-me novas tuas, Bateu as asas, voou. Urn rapaz que nã' namora

Alvalade

567.

Mértola

568.

Vidigueira

569.

Alvalade Messejana Aljustrel Salvada

570.

571.

Fornalhas

75

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Quatro ou cinco raparigas, Na' se chama um rapaz, É um tarrinca formigas.
572.

Vale de Santiago Odemira Alvalade Fornalhas Vale de Santiago Odemira Colos Odemira

Vai-te carta, vai-te carta, Nas asas dum passarinho, Vai levar ao meu arnor Urn abraco e um beijinho. Vá-se embora seu maroto, Nã' me venha apoquentar. Você tem pés de galinha, Nariz de cão de caçar. Vinha um dia urn caçador Todo vaidoso da caça, Trazia muitas perdizes, Algumas delas de raça.

573.

574.

Mértola

CAPÍTULO III FLORA - Referência às plantas da região (ervas, arbustos e árvores). Partes componentes da planta: Raiz, caule, folhas, fruto. Sementes, etc. Para exprimir os próprios sentimentos amorosos, os poetas sempre encontraram, no Reino Vegetal, motivos ou razões justificáveis de suas inspirações. As quadras deste capítulo referem-se às plantas e suas partes componentes. A influência psicológica das cores no evocar e sugerir as nossas lembranças e, consequentemente, na gestação de certos estados afectivos, é um facto incontestável. Assim, a cor negra lembra-nos o luto (logo a morte de alguém), a escuridão, a noite sem luar. E, os estados afectivos que em nós se geram, são de tristeza, desgosto, melancolia, etc. O vermelho sugere-nos o sangue e, com ele, as tragédias sangrentas, a guerra e a morte. Os estados afectivos, que daí resultam, são de desalento, intranquilidade, desespero e dor da alma. O azul, seja o do céu (quando não há nuvens), o do mar sereno na imensidade de suas águas salgadas, seja outro qualquer, causa-nos impressões agradáveis de bem-estar, de paz, tranquilidade, calma, doçura. O roxo é sinal de sentimento. Ele sugere-nos a Paixão e Morte de Jesus Cristo. O verde dá-nos alegria, esperança, calma. Nossos olhos agradam-se de ver o verde das plantas. Quem se não delicia, ao contemplar na Primavera um jardim muito verde e florido ou as searas no campo, com todo esse mar de verdura que é para a alma esperança de um ano de farta colheita? Não admira, pois, que os verdadeiros poetas, e não só estes, senão todos quantos criam poesia, encontrem no Reino Vegetal sobejos motivos de inspiração. Das diferentes partes duma planta completa, é a flor a mais inspirada. E é justo que o seja, porque nela se en contra o que a planta tem de mais belo. Tanto assim que, para os moços, as moças são rosas, e, para elas, eles são cravos. Não deve

76

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

julgar-se fora de jeito a metáfora que faz comparar, por certa semelhança, a rapariga à rosa. Se é possível haver entre a jovem moça e a rosa alguma relação de semelhança, por exemplo, no folheado e pregado dos vestidos, na graça, elegância e frescura de seu porte, não se pode duvidar que não na haja no vigor da sua juventude, no natural das suas faces rosadas. Com efeito, as faces da moça jovem, em especial da rapariga do campo, são da cor da rosa, quando não são pálidas. Mas, mesmo neste caso, não deixará de ser rosa. É rosa branca ou desmaiada. Talvez por razões muito justificáveis se tivessem passado para names de pessoas, nomes de flores. Todos nós sabemos que não há só Rosas. Também há Margaridas, e Perpétuas, e Dálias, e Açucenas, e Jacintos e Narcisos.

575.

A çucena*, flor cheirosa, Camélia que não tem cheiro, Entre a rosa e a violeta Qual prefere no seu canteiro?
*A 'çucena em vez de açucena (fenómeno de deglutinação).

Mombeja

576.

A çucena* é flor branca, Já meu peito foi teu vaso; Já lá tens amores novos, Já de mim nã' fazes caso.
*A 'çucena em vez de açucena (fenómeno de deglutinação).

Mina de S. Domingos

577.

A 'çucena* narce verde; Cando abre, branca fica; It nard pera ser tua, D me' arnor, llcardita,
*A 'çucena em vez de açucena (fenómeno de deglutinação).

Peroguarda

578.

A alta faia na folha Tem urn letreiro dizendo: Ausente, mas sernpre firme, Eu doutro amor não pretendo A amizade que t'é' tinha, E aquela que t'hê'-de ter, Cabe na folha dum tojo, Inda fica por encher. Abóbora menina, abbora, Ab´´obora qu'é coisa fina, Mais val' a menina abóbora Do que a abóbora menina. A boca do meu amor É uma rosa fechada; Hei-de abri-la com beijinhos,

Peroguarda

579.

Salvada

580.

Beja

581.

Amareleja

77

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Depois de aberta, cheirá-la.
582.

Abri eça carta i bêrá‟ Doih ramitu' mũ fluridu', I nu meiu encontrará' Nóçuh curaçõi Z unidu'*
*Reproduz-se esta cantiga conforme a fonética barranquenha. Note-se ramitu' «ramitos, deminutivo de ramo». O suf. Itu é de influência espanhola. Canito por cãozinho.

Barrancos

583.

Abre mé' pêto à esquerda, Virás um lindo jardim; Se l'achares algum defêto, Nã' quêras saber de mim. Abre mé' pêto à esquerda, Virás um lindo jardim. E, se me achares falsidade, Nã‟ quêras saber de mim. Abre meu peito e virás Quatro ramos floridos; E, no meio, encontrarás Nossos corações unidos. Abre-te, flor de violeta, Sombra de solidão! Dor mais profunda e secreta É a dor de coração. A cana do milho roxo Narce debàxo do chão; Os olhos do mé‟ amor Estão no mé‟ coração. A cana no verde mar É sinal de porto haver; De todos amores me aparto Só de ti nã‟ pode ser. A cana verde do mar É más alta qu'ó navio; Sustenta as tuas palavras, Qu'ê sustentarei mê brio. A cana verde no mar É mais alta que o navio; Sustenta a tua palavra, Qu' ê‟ sustentarei meu brio. A cana verde no mar É mais alta que o navio. Conserva a tua palavra, Qu'eu conservarei meu brio.

Beja Fornalhas Vale de Santiago Odemira Mina da Juliana Aljustrel

584.

585.

Amareleja

586.

Cuba

587.

Beja

588.

589.

Santa Barbára de Padrões Castro Verde
Garvão Aljustrel Mtna do Juliana (Aljusrel) Amareleja Sant Bárbara de Padrões (Castro Verde) ALvalade

590.

591.

Beja

78

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

592.

A cana verde no mato É sinal de fonte haver; S'ê' contigo nã' casar, Com outra nã' há-de ser. A capa dos estudantes É como um jardim de flores; É feita de mil remendos, Cada qual de várias cores. A capa duh ehtudânti É cômu ũ jardim dê flôri; Tẽ maih dê doihe mi remendu‟, Cada quá dê báriah côri.
Reproduz-se esta quadra conforme a fonética barranquenha. Note-se doih mi «dois mil».

Salvada

593.

Amareleja Ferreira do Alentejo

594.

Barrancos

595.

A capa dum estudante Éi um jardim de flores; Tem mais de dois mil remendos, Cada «cal» de sua cor. A capa dum estudânti Éi um jardim di flôris; Tem quatrocentos ramendos. Cada um di várias côris. A cepreste* é verde e triste, Tem alta sombra e é forte, É o rei da escuridão, E a sentinela da morte.
A cepreste em vez de – o cipreste (árvore que costuma plantar-se nos cemitérios)

Beja

596.

Santa Luzia Odemira

597.

Beja

598.

A cepreste nã' se rega, Narce-l'água da raiz. Nã' te gabes, que me dêxastes, Mas fui ê‟ que te nã' quis. Acolhendo um malmequer, Lembrou-me de ti um dia; Bem-me-quer's, mal-mequer's, Mesm' a flor me dezia.
Lembrou-me, por lembrei-me.

Vila Nova da Baronia

599.

Beja

600.

Açucena, flor sombria, Para te amar, nã' tive arte; Já lá tens outros amores, Parabéns da minha parte. Açucena, flor sombria, Quis te amar e nã' tive arte; Já lá tens amores novos, Parabéns da minha parte.

Beja

601.

Beja Ferreira do Alentejo Mértola

79

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

602.

Açucena, flor sombria, Tua ausência é o meu fim; Do teu jardim uma rosa Guarda sempre para mim. A dálida* quando nasce, Nasce a flor em canudo. Dálidos sã' nos teus olhos Que cativam todo o mundo.
Dálida - dália (flor) Dálidos, espécie de neologismo, derivado de dália. Adjectivo que faz assemelhar as olhos às ·pétalas da dália que são encanudadas.

Beja

603.

Quintos

604.

Adeus, minha terra, adeus, Cercada de cravos brancos, Onde o meu amor passeia Domingos e dias santos. Adês ó cravo encarnado, Narcidinho ô pé do tanque; Dá-l'o vento e dá-l‟a chuva. Cada vez tá mais brilhante. À entrada desta rua, E à saída além daquela Está uma roseira aberta, Nã' m'hei-d'ir sem rosas dela. À entrada desta rua, E à saída desta terra. Tá uma rosêra branca, Nã' me vou sem rosas dela. A estação da Primavera É o tempo das flores. É um regalo ir ao campo Ouvir cantar os pastores. A 'steva que tá no alto Dá-l'o vento, embana, embana. Quem me dera já chamar À tua ermã minha mana.
Ermã - irmã.

Panoias

605.

Aljustrel

606.

Ervidel Aljustrel

607.

Aljustrel; Santa Bárbara de Podrões Entradas; Caslro Verde; Vila Nova da Baronia

608.

Mina de S. Domingos

609.

Beja

610.

A flor da amendoeira É a primeira do ano. Esses teus olhos. amor, Som nos primeiros que eu amo. A flor da amendoeira É a primeira do ano. Sej' o te' coraçã' firrne, Cá no mê' nã' há engano. A flor da amendoeira

Panoias

611.

Colos Odemira

612.

Monte da Vinha

80

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

É a primeira do ano. Vejo o teu coração firme. Que no meu não há engano.
613.

Almodôvar

A flor da amendoeira É a flor que o sol não passa. Que voltas dará o mundo, P'ra que me caias em graça? A flor da branca amora Cai na água, faz·se em espuma. Aqui está quem te namora, Sem falsidade nenhuma. A flor da dália é linda, Condo tá encanudada. Sem saber o tê‟ «sentido», Nã' vivo desmaginada.*
*Desmaginada - «dissuadida, desiludida».

Colos Odemira

614.

Amareleja

615.

Beja Almodôvar

616.

A flor da dália é linda, É pouco encanudada. Sem saber do tê «sentido», Ê' nã' vivo descansada. A flor da dália é linda, Está sempre encanudada. Sem ver a tua tenção,* Nã' vivo desmaginada.
Tenção (forma reduzida ou sincopada, antiga e arcaica) - intenção.

Beja

617.

Mértola

618.

A flor da fava é branca, Ao longe faz aparência. Para amar teu coração É preciso paciência. A flor da fava é branca, Cai no chão, fica amarela; Nenguém vá pedir a «moça», Sem primeiro falar com ela. A flor da fava é branca, Lá no mêo tem sê' rigor; Quem queser ser falso, seje, Qu'ê' som firme ô mê‟ amor. A flô da,faba é branca, Nu rneiu fá Z urn rigô; Çi tu hôji me tẽi ódiu, Já me tevehti Z amô.
Reproduz-se a cantiga conforme a fonética barranquenha. Note-se: fá «faz, do verbo fazê (fazer); rigô «rigor», e amô «amor».

Vidigueira

619.

Panoias

620.

Almodôvar

621.

Barrancos

81

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
622.

A flor da oliveira, Ao longe parece renda; Enleva-te na pessoa, Nã' te enleves na fazenda.*
*Fazenda- «bens, propriedades, teres, haveres, etc.»

Amareleja

623.

A flor da urze e branca, É branca que o Sol não passa. Que voltas dará o mundo P'ra que me caias em graça? A flor do tojo é dura, É flor que o Sol não passa. Que voltas daria o mundo, P'ra tu me caíres em graça? A flor, que é cardinal, Dá rosas de três a três; Um amor que me quer bern, A bala* e volta outra vez.
Abalar- «ir-se embora; partir com pressa».

Monte da Vinha Amareleja

624.

Salvada

625.

Salvada

626.

A folha da dália é linda, Éi um pouco encanudada; S‟ê‟ soubesse o tê «sentido», Doutra maneira falava. A folha da dália é linda, E no meio tem um enleio; Quem me dera ter a dita Namorar sem arreceio. A folha da jarra é linda, Ricortada com'à renda: Envejem-se na pessoa, Na' s'envejem na fazenda. A folha da ôlibêra Ao lôngi parece renda. Namora-tê da pêçoa, Na' te leveh pu fazenda.*
*Reproduz-se a cantiga conforme a fonética barranquenha.

Panoias

627.

Quintos

628.

Beja Peroguarda

629.

Barrancos

630.

A folha da ólvêra Cai no chão, fica amarela; E não há dinheiro que pague A honra duma donzela. A folha da ôlvêra Dêtada no lume 'strala; Assim é mê coração, Condo contigo nã fala. A folha da ôlibêra Quandu cai nu lúmi, ehtrala; Acim é u mêu amô

Aldeia do Futuro

631.

Vale de Santiago; Peroguarda; Colos Fornalhas (Vale de Santiago – Odemira)

632.

Barrancos

82

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Quandu contigu não fala.*
Reproduz-se a cantiga conforme a fonética barranquenha. 633.

A folha da parra éi Recortada com‟à renda. Enleva-te na pessoa, Nã‟ te enleves na fazenda. A folha da preta amora Caiu n'água, fez-se espuma. Aqui está quem te namora Sem falsidade nenhuma. A folha do cravo é Recortada com'à renda; Enleva-te na pessoa, Nã' te enleves na fazenda. A folha do manjerico Recortada como a renda; Enleva-te na pessoa, Não te enleves na fazenda. A folha do sabugueiro É a «prima» novidade. Quem madruga, nã' alcança, Que fará quem s'ergue tarde. Agora é que eu estou ouvindo Tua delicada voz; Parece que vem saindo Da casquinha duma noz. Agora respondo eu À flor que aí cantou. Em que vaso foi disposta? E em que jardim se criou? Agora respondo eu À rosa que além cantou. Em que jardim foi nascida? Em que vaso se criou? Água leva o regadinho Na flor da pionia (?) Vou regar o peito de Ana, E o coração de Maria. Aguardente é de madronho, Licor é fêto de rosa; Tenho drento do mê‟ pêto Uma pàxão rigorosa. Ai de mim que já estou preso No jardim d'alto pinheiro; O meu crime é só amar-te, Já me dão por prisioneiro. A laranja azeda

Beja Baleizão; Mértola Mina de S. Domingos Panoias

634.

Amareleja

635.

Peroguarda

636.

Mértola

637.

Beja

638.

Ourique

639.

Mina de S. Domingos

640.

Ourique

641.

Aldeia do Futuro

642.

Aldeia do Futuro

643.

Quintos

644.

Beja

83

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Tem na casca fina. O amor dos homens É „ma pantomina.
645.

A laranja, cond' náci, Náci lógu redondinha. Tu tamẽ cand nacêhti, Nacêhti para çê minha.*
*Reproduz-se esta cantiga conforme a fonética barranquenha. Atente-se em: tamẽ cand nacêhti «também quando nasceste»,çê «ser».

Barrancos

646.

A laranja e tangerina Caem no tanque da neve: O meu amor sabe ler, Sabe ler, mas não me'screve. A laranja i tengerina Caem nu tanqui de nêbi; U ladrão du mê amôri Çabi lê i nã m'escrebi.*
*Reproduzem-se estas canligas conforme a pronuncia barranquenha. (647, 652, 653, 655)

Amareleja

647.

Barrancos

648.

A laranja nasce verde, Com o tempo amadurou; Meu coração nasceu livre, Com o teu preso ficou. A laranja nasceu verde, Com o tempo amadurou; Meu coração nasceu livre, Esse teu o cativou. A laranja nasceu verde, E o Sol a cor lhe deu; Meu coração era livre, Quem no perdeu foi o teu. A laranja nasceu verde, E o Sol a cor lhe deu; Meu coração nasceu livre, O teu é que mo prendeu. A laranaja, quandu náci, Náci lógu redondinha; Tu tamẽ quandu nacêhti, Nacêhti para çê minha.*
*Reproduzem-se estas canligas conforme a pronuncia barranquenha. (647, 652, 653, 655)

Panoias

649.

Beja

650.

Mértola

651.

Beja

652.

Barrancos

653.

Alecrim à borda d'água Dá-l o vento, tróce o péi; Assim ê‟ trocesse a língua A quem diz o que não éi.*
Reproduzem-se estas canligas conforme a pronuncia barranquenha. (647, 652, 653, 655)

Aldeia do Futuro

84

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

**Troce e trocesse em lugar de torce e tocesse (do verbo torcer). É o caso muito frequente da metátese na pronúncia popular. Note-se ainda a pronúncia péi (pé) e ei (é, do verbo ser). 654.

Alecrim, flor do mato, O meu peito foi teu vaso. Já lá tens novos amores, Já de mim não fazes caso. Alecrirn, florinha amânti, Que çe dá auh namoradu'; É a prenda mai' gostânti Com que me tẽi catibadu.*
*Reproduzem-se estas canligas conforme a pronuncia barranquenha. (647, 652, 653, 655)

Vila Nova de Mil Fontes

655.

Barrancos

656.

Alecrinêra à bêra d'água Crece prô ar, nã' faz moita; É com'ô rapaz soltêro, Quer casar, mas nã s'afoita. Alegria duma mãe É uma filha solteira. Casa a filha, vai-se embora, Vai-se a rosa da roseira. Alegria duma quinta É um verde laranjal. A tristeza duma mãe É um filho militar. Alegria duma quinta É um verde limoeiro. Alegria dos meus olhos É o meu amor primeiro. Alegria duma quinta É um verde limoeiro. Alegria duma mãe É ter um filho solteiro. Além naqueJa avenida, Entre plátanos e salgueiros, Fei que, em teus beijos primeiros, Bebi a primeira vida. Além naquela ramagem Vejo uma rosa aparecer. Lembrei-me da tua imagem, Há séculos já sem a ver. Algarve, Alentejo e Beira. Faro, Tavira e Olhão. Eu sou como a daroeira: Dobrar, sim, mas partir, não.

Aldeia do Futuro

657.

Ervidel Aljustrel Colos

658.

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Ervidel Aljustrel

659.

660.

Amareleja

661.

Ferreira do Alentejo

662.

Mina de S. Domingos

663.

Salvada

85

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

664.

Algum dia as minhas manas 'Té no cantar tinham fama; Queria ver se as igualava. Nem requer chegui à rama. Algum dia era eu Do jardirn a melhor flor; Agora só faltas tenho Na boca do meu amor. Algum dia era eu Rosa de maior empenho; Agora, na tua boca, Já todas as faltas tenho. Algum dia eu era, Agora já não, Da tua roseira O melhor botão. Algum dia eu era 'Ma rosa em botão; Agora som folha Caída no chão. Ali na rua das eiras Está urn laço d'algodao. Todos passam, nã' encalham, Só tu ficas na prisão. À luz daquela candêa Tern mil cravos no morrão. Também eu tenho mil penas Drento do mê' coração. A madressilva cheirosa Dode foi deixar o cheiro!... Nas ondas do mar lá fora, Nos lábios de urn marinheiro. A Maria do Antóino É bonita mas vaidosa; Cand' se pranta a cantar Ainda é mais formosa. A Maria é 'ma rosa, E o Entóino um cravo éi, Narcidos na mesma rama, Criados no mesmo péi. A minha rnãe é uma rosa Que meu pai arrecebeu* Inda aqui tá um batão Que aquela roseira deu.
*Arrecebeu, quer dizer «com quem casou; que tomou

Fornalhas Vale de Santiago Odemira Mombeja

665.

666.

Mombeja

667.

Beja Mina da Julliana Aljustrel Amareleja Barrancos

668.

Aldeia do Futuro

669.

Beja

670.

Mértola

671.

Garvão

672.

Beja

673.

Beja

674.

Beja Vila Nova da Baronia

86

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos par rnulher à face do registo civil au da igreja». 675.

A minha rnãe sogra, Rosinha de armar, Está criando um filho, Para me vir dar. À minha porta esta loira, À tua está urn loireiro. Quando olhares para mim, Olha para ti primeiro. Amora nasce da silva, A silva nasce do chão, A vista nasce dos olhos, E o amor do coração. Amor-perfeito não cheira, É pela vista que faz. Meu arnor não é bonito. Mas é muito born rapaz. Amor-perfeito não cheira, É mais a vista que faz. Meu arnor não é bonito, Mas é muito bom rapaz. Amor-perfeito não dura. É impossível durar. Eu tenho urn arnor perfeito Que dura até se acabar. Amor-perfêto nã' dura, Nem nunca pode durar, Em chegando a certa altura, Corneça a declinar. Amor, segue o teu caminho, Nã' no dêxes tomar erva. Quem tem amores ó lõis*, Nã' descansa nem sossega.
*Ó lõis·- ao longe.

Vila Nova da Baronia

676.

Aljustrel

677.

Almodôvar

678.

Penedo Gordo Aljustrel Salvada Aldeia do futuro

679.

680.

Alvalade

681.

Beja

682.

Aljustrel

683.

Arnor vário*, amor louco. Arnor das ervas do campo, Ê' já rn'ia admirando Amor vário durar tanto.
Vário - «que varia, inconstante, incerto»).

Aldeia do Futuro

684.

Amor vário, amor louco, Amor das ervas do campo, Ê já m'ia admirando Do nosso amor durar tanto. Amor vário, amor louco, Amor das ervas do campo,

Santa Bárbara de Padrões Castro Verde Beja

685.

87

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)
Eu já m'ia adrnirando Do meu amor durar tanto.
686.

Amor vário, amor nêncio*, Amor das ervas do campo. Já rn' a rnim admirava Do nosso amor durar tanto.
Nêncio - «que é néscio, aparvalhado, esparavante». É tomado como adjectivo neste caso.

Beja

687.

Amor vário, amor louco, Amor das ervas do campo. Já m‟eu tinha admirado Do nosso amor durar tanto. Amor vário, amor louco, Amor das ervas do campo. Já me vou admirando Do nosso amor durar tanto. A mulher que é bonita Nã' havia de narcêre; É com'a pêra madura, Todos a querem comêre. Anda agora muito em moda Colher a rama ao junquilho, Cantando, balhando mais ela, Em riba* deste ladrinho.
1 Em riba de - Em cima de (loc. prepositiva).

Berigel Vila Nova da Baronia Peroguarda

688.

Ervidel Aljustrel

689.

Beja

690.

Aldeia do Futuro

691.

Bẽi acá mê bágu dê oiru, Mê riu de água corrênti, Raminhu de falçidadi, Pera mim tẽ çidu çempri.*
*Reproduz-se conforme a pronúncia barranquenha.

Barrancos

692.

Anda cá para os rneus braços, Dromirás em brancas flores. Virás o jêto qu' ê tenho P'ra cativar os amores. Anda cá para uh mêu bráçu', Querida branca 'çucena, Me lembrom uh tempu' paçadu, Em te bendu mê dá pena.*
*Reprodu-se esta cantiga conforme a fonéica barranquenha. Note-se: Me lêmbrom «me lembram, do verbo lembrar-se». Os pronomes complemento vêm geralmente antes des verbos como no espanhol.

Baleizão

693.

Barrancos

694.

Anda cá pr‟áqui, Meu batão de rosa; lnda te não vi

Beja Ervidel

88

Primeira Parte - Quadras populares
em 8 capítulos: 1 Toponímia, 2 Fauna, 3 Flora, 4 Sentimentos, 5 Corpo, 6 Vestes, 7 Astros, 8 diversos

Tão desanimosa.
695.

Anda cá pr'áqui, Meu cravo encarnado; Inda te não vi Tão desanimado. Anda cá, verdade pura, Vai-te, mentira maldosa; Há quantos, com a mentira, Tiram o ser a uma rosa Anda lá, padece, Raminho de flores, Arrecebe a paga Que dã' nos amores. Anda, rosa, vem comigo, Deixa ficar a roseira. Esta noite chove água, Rosa molhada não cheira. Andas louca por saberi Onde eu faço a minha cama. Ê vom te já a dezêri: À sombra da verde cana. Andas morto por saberes Onde a minha cama faço. À beira do fresco rio, E à sombra de urn sargaço.

Beja Baleizão Rosário Santa Bárbara de Padrões Castro Verde Mértola

696.

697.

698.

Beja

699.

Mina de S. Domingos

700.

Amareleja

89

subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – MJDelgado (1955 – 1980)

DO BAIXO ALENTEJO
Comentário, recolha e notas de Manuel Joaquim Delgado

Instituto Nacional de Investigação Científica
Para que este precioso subsídio de MJDelgado não se perca, antes sirva para uma pesquisa permanente e enriquecedora... AQUI vão aparecendo de 100 em 100... as mais de 5000 recolhas a que se seguem as modas... do II volume... A ideia desta divulgação é a de permitir, a todos os interessados, em especial às novas gerações, uma pesquisa eficaz e proveitosa do tesouro imenso do nosso CANCIOEIRO... é possível uma pesquisa por terras, palavras ou versos... enfim... até pode permitir uma organização por locais de recolha... Qualquer inconveniente que seja considerado pelos detentores de direitos de autor ou edição, basta comunicar e estas notas serão retiradas... JRG.

joraga.net 2012 / 2013 – ano do CANTE
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