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DOMESTICAÇÃO DOS ANIMAIS

1 – INTRODUÇÃO

Uma vez que a domesticação é considerada a operação de tornar domésticos animais selvagens, a análise etimológica simples da expressão (latim, domus = casa) nos leva a imaginar que domésticos são animais que convivem com o homem na sua casa ou sob dependência, o que nem sempre corresponde à realidade. Convém chamar a atenção com destaque que, o fato de conviver ou mesmo depender do homem, não cria condições de dar a este ou àquele animal a posição de doméstico. Alguns animais que “moram” com o homem jamais adquiriram a domesticidade, como aves cantoras e outros de caráter adornativo. Sem dúvida, os ratos que vivem nas habitações humanas, causando, inclusive, consideráveis prejuízos econômicos e constituindo perigo sanitário, e em tempo algum poderiam ser levados em conta como domésticos, sobretudo pela a não prestação de utilidades e serviços ao homem. Por outro lado, bois, carneiros e búfalos, criados extensivamente, sem que nunca tenham penetração em habitação humana, são considerados domésticos. Os animais para serem propostos como domésticos, antes de tudo, devem manter com o homem uma perfeita simbiose, através de gerações; o homem proporciona aos animais, ditos domésticos, cuidados e alimentação, recebendo em troca utilidades ou serviços.

2 – CONCEITO DE ANIMAL DOMÉSTICO

É o animal que, criado e reproduzido pelo homem, perpetua tais condições através de gerações por hereditariedade, oferecendo utilidades e prestando serviços em mansidão. Frequentemente faz-se confusão entre uma espécie doméstica e um simples animal amansado ou adestrado, vivendo sob o domínio do homem. A característica, pois, do animal doméstico, ou diferença entre este e o animal não doméstico “é a perpetuidade de sua condição, através de gerações, hereditariamente”.

2.1 – Surgimento dos animais domésticos

Desde os tempos pré-históricos, os animais domésticos acompanham o homem, na sua vida e no estabelecimento de sua civilização. A domesticação foi uma conseqüência da própria criação dos animais, realizada pelo homem primitivo, para satisfazer uma necessidade religiosa ou de companhia, de alimento ou de agasalho. O homem primitivo, agindo mais por instinto do que por experiência (resultado do desenvolvimento da inteligência), estava mais próximo dos animais e por isso foi muito fácil conviver com eles, e amansá-los, introduzindo-os na domesticidade. Data da época da “pedra polida” a vida em comum do homem com o cão, depois com a cabra, carneiro, boi, e, a seguir, com o porco. E da “idade do bronze”, com o cavalo. É o que ensinaram os estudiosos paleontológicos. Aqui e ali foram encontrados fósseis humanos ao lado de fósseis desses animais. Além disso, os fósseis animais apresentavam, sempre, íntima relação, mais ou menos, fácil de ser verificada entre os animais atuais e aqueles.

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O homem domesticou essas espécies, na verdade, quando deixou de ser nômade.

Nas habitações lacustres da Suíça, foi onde encontraram vestígios mais numerosos dos animais primitivos. Segundo a hipótese de Duerst (1886), a domesticação das espécies animais deve ter ocorrido 7.000 anos antes da era cristã. Os babilônios há 5.000 anos a.C. possuíam animais já vivendo em domesticidade. Pode-se dizer, portanto, que eles vivem e sempre hão vivido em simbiose com o homem. Sem este, as espécies domesticáveis estariam já extintas, com algumas exceções talvez, em certos e determinados casos de ambiente ideal para algumas delas. A prova disso é que enquanto cresce a população dos animais domésticos, cada vez mais numerosos, decresce a dos selvagens. E as próprias espécies selvagens, que originaram as domésticas, desapareceram em sua quase totalidade, por

haverem sido eliminadas quando as circunstâncias do ambiente, em que viviam, se tornaram impróprias para elas; ou foram destruídas pelo homem caçador.

3 – A IMPORTÂNCIA DO ANIMAL DOMÉSTICO

Isto tudo demonstra que o homem não pode prescindir do concurso do animal doméstico, qualquer que seja o seu grau de civilização ou progresso. “Em nenhuma

época - escreveu Sanson – conceber-se ia a possibilidade de um estado social, fundada no trabalho e na previdência, sem animais domésticos.” “Muitas vezes chega-se a dizer – escreve o prof. Anderson – que seria duvidoso

o homem ter saído da barbaria, se não tivesse animais em servidão.” Pode-se afirmar, escreveu Guilherme Ferrero, “que a intervenção da máquina a vapor não foi, na história dos povos civilizados, um acontecimento tão importante quanto a domesticação dos animais, na vida dos povos primitivos; pois, graças a ela, foi possível ao homem triplicar a velocidade de seus movimentos e a resistência de seus músculos nos trabalhos; de ter produtores de matérias nutritivas; de se auxiliar de colaboradores inteligentes e adestrados para duas principais ocupações – a caça e a guerra.” “A obtenção do fogo, a aquisição das plantas cultivadas e a dos animais domésticos – disse Kronacher – são os três pilares fundamentais, sobre que repousa a civilização humana e seu progresso.” E, para citar autores modernos, ouçamos V. A. Rice: “não há exemplo de uma raça ou tribo humana, que tenha alcançado um grau elevado de civilização, sem a ajuda de animais domésticos; e as nações dianteiras e vitoriosas sempre foram mais acentuadamente adiantadas na arte de criá-los”. E. F. H. Shoosmith: “a domesticação dos animais levou ao aumento da população e ao fortalecimento dos hábitos tribais, e provocou a divisão do trabalho, sem a qual a vida civilizada seria impossível”.

É com o animal doméstico que o homem mata sua fome. É ainda com ele que se

transportam suas mercadorias e lavra a sua terra. Dele o homem obtém os meios para agasalhar-se. Além disso, é ele motivo de afetividade e divertimento.

4 – ATRIBUTOS DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS

Não é possível deixar de aceitar-se como verdade existirem certas qualidades, nos animais, que facilitaram e permitiram a domesticação de algumas espécies animais,

e outras não, e sem as quais ela teria, forçosamente, falhado. São o que chamamos, em

Zootecnia, os atributos do animal que se tornou doméstico, isto é, que pôde ou pode ser

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domesticado. Logo, para que haja domesticidade, exige-se que os animais transmitam hereditariamente seus atributos, enquanto vivem sob a custódia do homem. Está fora de dúvida, porém, que estes atributos não surgiram no processo de domesticação, como pode parecer à primeira vista, mas foram atributos pré-existentes nos animais quando ainda em estado selvagem e salientados na domesticidade. Se assim não fosse, poderíamos afirmar que todas as espécies potencialmente poderiam se tornar domésticas, não havendo, então, um número tão limitado delas.

4.1 – Sociabilidade

É a conduta associativa nata que leva os animais a procurarem viver em

conjunto. Praticamente todas as espécies domésticas vivem em grupos e são sociáveis, sendo este comportamento uma condição que permitiu sua aproximação ao homem e seu amansamento (exceto o gato). Os animais de hábitos isolacionistas dificilmente deixam-se amansar, tornando problemática a sua domesticação.

4.2 – Mansidão

A mansidão, ou dizendo melhor, a tendência à mansidão, é atributo, também,

que essas espécies apresentam, mas quando hereditárias, pois há animais que se tornam individualmente mansos, mas não transmitem essa qualidade à descendência; isto é, sua descendência não mostra essa tendência, por isso não são inteiramente domesticáveis. Tal é o caso da galinhola, búfalo, etc, que são consideradas espécies semi domésticas. Aliás, a mansidão, sendo resultado dessa tendência hereditária, é um atributo que participa da condição de ser, em parte, “adquirido”, no processo de criação do animal, e que pode, por isso, deixar de se manifestar em certas circunstâncias. Temos que considerar ainda o caso da Abelha que, sendo considerada espécie doméstica, no entanto lhe falta mansidão, visto como é capaz de ferroar os que dela se aproximam. Finalmente, é preciso dizer que a mansidão é o regulador do grau de

domesticidade da espécie.

4.3 – Fertilidade em cativeiro

A fertilidade nem sempre se conserva nos animais amansados, quando em

cativeiro. Para êxito da domesticação foi preciso que as espécies domésticas conservassem sua qualidade reprodutiva. Sem isso, é óbvio, não teria havido nem haveria o aumento da população dos animais em domesticidade (perpetuação da espécie).

4.4 – Funções especializadas

Caso os animais não oferecessem funções mais ou menos especializadas, mesmo quando em estado selvagem, não haveria motivação para sua domesticação. Tal afirmativa pode ser bem observada, como exemplo, pelo fato da abelha e do bicho da seda serem considerados domésticos. Sendo a domesticação um processo que implica no aproveitamento dos produtos e trabalhos dos animais em função do homem, houve, portanto, tal pré-condição neles para alcançar a domesticidade.

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4.5 – Facilidade de adaptação ambiental

A necessidade de fácil adaptação tem sido ultimamente uma questão levantada

com muita importância entre os atributos dos animais domésticos. Vale salientar que os

animais de origem múltipla geralmente apresentam melhor poder de adaptação do que aqueles de origem monofilética.

5 – PROCESSOS DE DOMESTICAÇÃO

Os animais, para atingirem a domesticidade, estágio final do processo de domesticação, passam por três fases distintas, sob o domínio do homem.

5.1 – Cativeiro

É a fase inicial da domesticação, quando o homem mantém o animal preso,

eventualmente utilizando-o para abate. Todavia, em princípio, não aferindo dele lucro ou serviço, com aquelas vantagens que só a terceira fase (domesticidade) pode oferecer. É o caso dos animais selvagens mantidos engaiolados como material de estudo ou de embelezamento: aves e mamíferos dos parques e jardins zoológicos.

5.2 – Amansamento

Esta segunda fase é a de amansamento, mansidão ou domação, em que o animal convive pacificamente com o homem, prestando utilidade ou alguma forma de serviço. Podemos exemplificar aqui alguns animais em pré-domesticação, como a grande maioria dos animais de laboratório, animais produtores de pele, peixes, moluscos e crustáceos produtivos.

5.3 – Domesticidade propriamente dita

Última e definitiva fase, que constituindo o estado pleno de domesticidade, vem a ser o estado de simbiose na qual se acham os animais domésticos e o homem. E domesticação é o ato de tornar domésticos os animais selvagens. No estado de domesticação os animais vivem voluntariamente presos ou quase, são naturalmente mansos e prestam serviços de tal modo que sem eles, impossível seria a vida do homem civilizado.

6 – MOTIVOS DA DOMESTICAÇÃO

Vários motivos contribuíram para a necessidade de domesticação dos animais, além do evidente interrelacionamento. Todos surgiram da necessidade de sobrevivência do homem.

6.1 – Alimentação

A domesticação, por necessidade de utilizar os animais na alimentação, está

perfeitamente indicada como um passo determinado pela forma de manter reserva de alimentos nos períodos de escassez. O primeiro passo foi a captura de espécimes vivos

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que se tornou possível com a utilização do laço e pela invenção de armadilhas, quando alguns animais apreendidos foram mantidos vivos para serem abatidos quando fosse necessário. O parto de fêmeas em cativeiro, muito provavelmente, foi o primeiro grande avanço para a domesticação. Nesta mesma oportunidade, é muito provável que uma “cria humana”, carente de aleitamento, tivesse no leite de uma fêmea aprisionada seu substituto, e aí o início do aproveitamento do leite produzido pelos animais.

6.2 – Sobrevivência ambiental

Uma das afirmações mais substanciais sobre a imperatividade da presença dos animais dá-se em função das difíceis condições de sobrevivência que o homem enfrentou na época glacial, quando, por necessidade de adaptação ambiental, passou a utilizar como agasalhos as peles e os pêlos dos animais caçados ou criados. Além desta proteção contra as intempéries e auxílio à própria arte de caçar como camuflagem, não existe dúvida que cultos religiosos tiveram bastante influência no seu uso, bem como para demonstração de gradação hierárquica dentro da comunidade humana tribal.

6.3 – Aproveitamento da força motriz

A utilização da força motriz dos animais foi “descoberta” quando foram colocadas cargas sobre o dorso de alguns mais dóceis, ou foi tentada sua ajuda na remoção de objetos pesados. Só posteriormente a força motriz foi utilizada na tração de carros e na montaria. A tração se desenvolveu com a evolução da roda e do eixo móvel, enquanto que a montaria só posteriormente foi aperfeiçoada com o advento dos arreios e da sela. Os animais de aproveitamento da força motriz são tipicamente o jumento, o cavalo, o boi e o búfalo.

6.4 – Inspiração religiosa

Alguns autores crêem que a companhia de animais cativos junto ao homem poderia ter sido também motivada por motivos religiosos ou até mesmo por lazer. A presença de animais sem utilidade aparente foi sempre constatada em sociedades humanas atrasadas, como foi verificado pelos europeus quando, ao chegarem às Américas, encontraram animais selvagens em cativeiro, simplesmente por companhia; são os xerimbabos, até hoje comuns entre os nossos indígenas. O próprio homem civilizado ainda mantém este hábito quando cria animais ornamentais sem maior finalidade econômica (aparente). Em todas as partes do mundo, as culturas mais primitivas praticavam o toteísmo, baseado no culto aos animais. Mamíferos, aves, peixes e répteis e insetos têm sido divinizados ou a eles atribuída o origem do próprio homem. Sacrifícios e a oferenda de animais a deuses ainda são comuns nas sociedades humanas contemporâneas. É muito provável que o culto a animais tenha sua própria origem nos cerimoniais preparatórios para a caça. Atualmente, na Índia, o zebu continua a ser divinizado, sendo proibido, o consumo de sua carne. Partindo dessas premissas, provavelmente, pode ter o homem sentido a necessidade de manter animais em sua companhia como representante dos deuses.

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7 – MÉTODOS EMPREGADOS DURANTE A DOMESTICAÇÃO

Inúmeras têm sido as teorias levantadas sobre os métodos empregados para alcançar a domesticidade, partindo dos animais que se encontravam em estado selvagem. Os estudiosos têm levado em conta que deveriam ter sido os seguintes métodos: violentos, pacíficos e intermediários.

7.1 – Violentos

No método em que se emprega a violência, a força e a fome têm sido responsabilizadas pelo uso em maior escala, seguindo-se a prisão, paralelamente aos castigos corporais. Fora de dúvida, estes foram os métodos mais largamente empregados, sobretudo em animais como o cavalo e o jumento.

7.2 – Pacíficos

Pelo método pacífico, no qual não teria sido utilizada a força, os próprios animais, por instinto de sociabilidade, ofereceram condições de conviver junto ao homem. Em favor desta hipótese, são relatados episódios de animais selvagens que se aproximam do homem em busca de alimentação e proteção contra intempéries ou outras situações de dificuldade. Atualmente, coiotes solitários e famintos por falta de caça têm sido encontrados na periferia de cidades norte americanas à procura de alimentos. Este método muito provavelmente teria ocorrido com o cão, o gato e o porco.

7.3 – Intermediários

De forma intermediária, a maioria das espécies foi domesticada, quando a prisão era efetuada em animais que mais facilmente teriam permitido a aproximação do homem. Os animais que tinham por hábito viver em rebanhos teriam facilitado o aprisionamento em lotes, os quais poderiam ter sido manejados e removidos de acordo com a vontade do homem. A grande maioria dos animais domésticos como o boi, a cabra, o carneiro, o zebu, o búfalo e, sobretudo as aves, fora, assim submetidas à domesticação.

8 – MODIFICAÇÕES APRESENTADAS PELOS ANIMAIS EM DOMESTICIDADE

As modificações que os animais em domesticidade têm apresentado, se comparadas aos seus congêneres selvagens, são bastante significativas. Essas modificações são conseqüências de processos evolutivos dinâmicos que tendem, inclusive, a acelerar-se cada vez mais em virtude da ampliação dos conhecimentos da genética e das inesgotáveis possibilidades da Biotecnologia. São bastante evidentes tais modificações, atingindo as formas, as funções e o comportamento dos animais.

8.1 – Morfológicas

Atingem a estrutura do organismo dos animais com conseqüências sobre suas atividades fisiológicas.

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a) Qualidade dos pêlos: nos animais silvestres, em regra geral, são grosseiros, mal

distribuídos e às vezes apresentando uma maior concentração em torno da cintura escapular, enquanto nos animais de criação são geralmente mais finos e sedosos, distribuídos uniformemente sobre o corpo, às vezes com características próprias, como nos carneiros e algumas raças de caprinos e coelhos, formando a lã.

b) Coloração da pelagem: nos animais selvagens, é geralmente uniforme, discreta, parda

e curta, podendo mudar com a estação do ano, ou mesmo apresentar fenômenos de mimetismo. Nos animais mantidos em domesticidade, ela apresenta combinações das mais variadas, formando pelagens compostas e conjugadas, facilitando, muitas vezes, a identificação das raças pelas suas colorações características; raramente pode ocorrer

muda sazonal e, quando isto ocorre, é pouco acentuada.

c) Tamanho e dimensões corporais: são mais ou menos uniformes nos animais que

vivem em liberdade, ocorrendo muitas vezes o maior desenvolvimento da cintura escapular. Nos animais domésticos, o tamanho varia com a raça, havendo um equilíbrio entre a cintura pélvica e a cintura escapular, podendo ser a primeira, desenvolvida nos animais produtores de leite.

d) Defesas: presentes nos animais selvagens e bastante desenvolvidas devido ao processo seletivo natural. Assim, há necessidade de chifres, garras e dentes fortes em posição contrária aos animais domésticos que os têm de menor tamanho ou mesmo estão ausentes, como os chifres em algumas raças de bois, zebus e carneiros.

8.2 – Fisiológicas

Estas modificações são, sem dúvida, as mais notáveis, exatamente pelo fato da exploração animal depender de maior intensidade fisiológica.

a) Fertilidade: não é muito acentuada nos animais selvagens, pois estes tendem a

apresentar cios estacionais, inclusive com anestro, o que não ocorre com os animais de criação, que são mais férteis e repetem sucessivamente seus ciclos estrais.

b) Prolificidade: ocorre da mesma forma, pois os animais que vivem em liberdade, pela

necessidade de proteger os seus filhos, os têm um número limitado, posicionando-se os animais domésticos como mais prolíferos, contando com a ajuda do homem para atender as suas crias; devido ao incentivo da seleção, apresentam uma atividade gonadal bastante aumentada, como a postura nas galinhas, codornas e marrecos.

c) Lactação: nos mamíferos selvagens, está restrita às necessidades das crias, tendo sido bastante aumentada nos animais de criação, quer na sua quantidade diária, quer no número de dias de atividade das glândulas mamárias.

d) Velocidade de crescimento: é muito lenta ou mesmo retardada nos animais que

vivem em condições de liberdade, enquanto é bastante acelerada nos animais criados pelo homem, sobretudo os destinados à produção de carne, que apresentam altos índices de conversão alimentar.

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8.3 - Etológicas

Diz

respeito

ao

comportamento

individual

e

social

dos

conseqüência nas condições sob estudo.

animais

e

sua

a) Instinto de defesa: nos animais selvagens, é bastante aguçado; audição, visão e olfato muito evoluídos e adaptados, por necessidade de auto-proteção. O inverso acontece nos animais domésticos que reduziram bastante seus instintos de defesa, sendo que algumas espécies ou raças são totalmente incapazes de sobreviverem em ambientes selvagens.

b) Comportamento sexual: ao contrário dos domésticos, nos animais de hábitos selvagens a monogamia ocorre na grande maioria das espécies, mantendo o instinto reprodutivo limitado à temporada da reprodução, quando as fêmeas entram em estro coletivamente e os machos passam a competir acirradamente pela posse das mesmas, o que se dá, portanto, por liberdade de iniciativa. Nos animais criados sob a orientação do homem, este orienta, por mais empírico que sejam os seus métodos de criação, a forma da população e, conseqüentemente, sua composição étnica. Nos animais domésticos a hierarquia social nem sempre é bem estabelecida o que decorre, muito provavelmente, da ausência de predadores.

9 – FATORES RESPONSÁVEIS PELAS MODIFICAÇÕES APRESENTADAS PELOS ANIMAIS EM DOMESTICIDADE

Quase todos os animais, ao sofrerem as mais diversas modificações durante o processo de domesticação, tiveram como responsáveis a seleção, o regime de criação e a alimentação.

9.1 – Seleção

Alterando a atividade da seleção natural, substituindo-a pela seleção artificial, o trabalho do homem foi no sentido de fazer reproduzir, em separado, formas com características próprias. Em conseqüência, muitas espécies hoje em domesticidade não apresentam nenhuma ou quase nenhuma semelhança com seus ancestrais selagens. Convém salientar que no processo seletivo inicial, muito provavelmente, o homem deve ter separado para a reprodução indivíduos mais mansos e dóceis, tendo só posteriormente enveredado pelo processo de escolha daqueles que mais vantagens produtivas apresentavam para exploração, devido à presença de atributos especiais mais destacáveis. Com exceção, algumas espécies ainda mantêm semelhanças notáveis com seus similares selvagens, como búfalo, jumento, que conserva a faixa escura, que desce da cernelha às espáduas, herdada da forma primitiva, selvagem, originária da África Oriental.

9.2 – Regime de Criação

As transformações radicais surgidas pelas modificações introduzidas nos regimes de criação, quando os animais se afastaram do seu meio ecológico original e se disseminaram pelas várias partes do mundo (com exceção de algumas espécies), contribuíram, por um princípio de adaptação ambiental, para que aparecessem novas

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formas de vida que, por sua vez, apresentaram condições adaptativas aos ambientes novos a que foram levadas.

9.3 – Alimentação

Sem sombra de dúvida, a alimentação que o homem direcionou aos seus animais em domesticidade constituiu um dos mais fortes fatores responsáveis pelas modificações que hoje estes animais apresentam comparativamente aos seus semelhantes que continuaram em vida silvestre. São exemplos as pastagens artificiais perenes e abundantes, bem como as

grandes aguadas distribuídas racionalmente, oferecidas aos herbívoros domésticos.

As criações em confinamento de suínos e aves representam exemplos de como a

tecnologia humana passou a referendar as necessidades mínimas exigidas, ao tempo em que foram descobertas novas opções de fontes de alimento, cuja presença, ou não, era aproveitada, ou era inacessível em outras épocas e circunstâncias.

10 – CONSEQUÊNCIAS GENÉTICAS DA DOMESTICAÇÃO

Em condições naturais de vida (selvagem), a população animal reproduz ao acaso, sem direcionamento e sem escolha dos pares. Ao considerarmos as populações nessas condições, deduzimos que as suas freqüências gênicas permanecerão inalteradas e, portanto, constantes. Esta afirmativa é comprovada pelo teorema das populações ou de Hardy-Weimberg. A domesticação dos animais não modificou em nada o conteúdo das leis da genética. Os princípios da hereditariedade são os mesmos, tanto para os animais selvagens como para os domésticos. A domesticação promoveu, em muitos casos, a troca do meio ambiente em que viviam na natureza para outros de interesse do homem. Estas modificações permitiram que muitas alterações genéticas nesses animais se manifestassem mais claramente do que nas condições de origem. A seleção artificial facilitou, na verdade, o direcionamento de exteriorizações genéticas, como, por exemplo, o aparecimento de vacas de maior produtividade leiteira em rebanhos em que essa era a intenção da seleção imposta pelo homem. Que seja evidente que as melhores condições de trato, alimentação, saúde, meio, não criaram novos genes, mas possibilitaram rearrumação gênica na estrutura cromossômica dos indivíduos e conseqüentes manifestações quando existiam em potencial.

Do ponto de vista puramente genético, a domesticação dos animais deu lugar às

seguintes conseqüências.

10.1 – Intensificação da endogamia (consangüinidade)

A endogamia, ou melhor ainda, a consangüinidade, é o resultado do

acasalamento de indivíduos parentes entre si e é utilizada quando se acha necessário conservar uma característica desejável. Durante o processo de domesticação, os animais foram forçados a permanecerem juntos e, em conseqüência, a reproduzirem-se dentro dos rebanhos. Em pouco tempo, os animais de uma comunidade, tribo ou povoado passaram a ser aparentados. É até relativamente provável que nos primórdios da domesticação o homem tivesse evitado a consangüinidade, porém em pouco tempo notou-se que a abstenção do seu uso tornava bastante lento o processo de fixação das características

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desejáveis, sobretudo pelo fato de que a busca pela uniformidade dos rebanhos foi sempre procurada pelo homem entre seus animais de criação. Independente do fato dos homens das civilizações mais antigas desejarem manter seus animais “em família” sempre houve a possibilidade de introdução de novos

indivíduos no rebanho, em conseqüência de guerras ou mesmo trocas, sendo, entretanto, essas possibilidades muito mais prováveis de terem ocorrido entre vizinhos, cujos animais, por sua vez, devido a intercâmbios anteriores, já eram aparentados.

A diminuição da variabilidade, como conseqüência dessa consangüinidade,

gerou problemas de falta de adaptação, pelo fato do homem conseguir algumas variantes que normalmente não conseguiram sobreviver em condições plenamente naturais de criação. As situações de isolamento geográfico que deram margem ao surgimento de grupos e subgrupos diferenciados nas condições de selvagens são da mesma ordem do isolamento biológico, aqui, entretanto determinado pelo homem nos primórdios da domesticação, ao evitar que seus “bons animais” passassem às mãos dos inimigos potenciais. Em conseqüência, apareceram tipos cada vez mais assemelhados entre si pelo uso de endogamia, daí a multiplicidade de raças domésticas. O êxito da consangüinidade fluiu, no entanto, da sanidade dos genótipos.

10.2 – Predomínio da seleção artificial

A seleção natural, em virtude da domesticação, não foi substituída pela artificial

nem muito menos desapareceu. O que teve lugar foi a supremacia da seleção efetuada pelo homem, pois sendo muito exigente nas características que pretendia selecionar, eliminou a possibilidade de procriar os animais indesejáveis, ou seja, favoreceu, para fins de reprodução os indivíduos que considerou mais desejáveis, resultando na proliferação e acúmulo da freqüência dos genes desses favorecidos. Por esses fatos, observa-se que a seleção artificial é mais intensa e direcionada do que a seleção natural. Enquanto no processo natural de seleção os mais fracos (ou indesejáveis pelo meio) são impedidos de reproduzir plenamente, sendo substituídos pelos mais aptos, a seleção praticada pelo homem afasta definitivamente os indesejáveis da reprodução

(pelo menos os machos) pela prática de castração.

A castração é de uso muito antigo, sendo uma das práticas cirúrgicas mais

remotas. Os eunucos são citados na Bíblia, assim como no código de Hamurabi. Em bovinos, a citação mais antiga está a cargo da civilização Hindu, sendo relatada nos Purunas como existente a mais de 2.000 anos a.C., prática comum em cavalos nas civilizações dos hititas e dos assírios. Nos animais domésticos, pelo predomínio da seleção artificial, há uma diminuição das ações da seleção natural, assim substituída pelo que hoje e se costumou chamar de seleção natural em cativeiro. Esta age primordialmente, eliminando os indivíduos que apresentam características biológicas de incapacidade para a reprodução. Esta ação pode ser muito bem sentida pela diminuição da eficiência reprodutiva de certos rebanhos, ou mesmo mais genericamente em populações, pelo aumento da freqüência dos casos de infecundidade.

10.3 – Maior possibilidade de exogamia

Trata-se de conseqüência inversa à da consangüinidade. Esta possibilidade foi aumentada a partir da época em que os animais puderam ser transportados mais facilmente para pontos mais distantes daqueles em que nasceram. Então passaram a ser

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acasalados com tipos diferentes daqueles que normalmente teriam oportunidade, caso continuassem permanecido em estado selvagem. Estas possibilidades ampliaram-se de forma expressiva com os mercadores fenícios que comercializavam animais em toda a bacia do Mediterrâneo, continuando com as conquistas dos macedônios de Alexandre Magno, dos persas e dos romanos. O intercâmbio de animais por comercialização ou saque, tornou-se mais comum a partir da época das Cruzadas, quando bovinos oriundos das mais variadas partes da Europa foram levados para todo o Oriente Médio, enquanto para a Europa foram trazidos cavalos árabes das melhores procedências. Com a descoberta dos caminhos e com a expansão do colonialismo europeu, a introdução dos animais domésticos em novas fronteiras torna-se uma atividade rotineira. As raças bovinas inglesas de corte invadiram as pastagens de clima temperado da América, Austrália e Sul da África, enquanto os zebus, originários da Índia, penetravam nas terras tropicais do Brasil, ocupando toda a faixa intertropical das Américas, encontrando-se e misturando-se com os bovinos de proveniência européia. Carneiros ingleses e espanhóis foram distribuídos por toda a Terra. Cabras do Ocidente foram levadas ao Oriente e vice-versa. Os cavalos ibéricos originados dos árabes retornaram às Américas onde tinham sido extintos na sua forma primitiva. Entretanto, quem viria a aumentar as possibilidades da exogamia foram as técnicas instrumentais de reprodução pelo congelamento de sêmen. Material fecundante tem sido transportado de todas as partes do mundo, facilitando os trabalhos de seleção, tendo culminado com a aplicação da técnica de transferência de embriões. Todos estes resultados tiveram como mérito intensificar surpreendentemente o processo evolutivo dos animais domésticos, comparativamente aos seus similares selvagens, sem que tenham sido esgotadas as possibilidades de maior aceleração quando se objetiva ultrapassar recordes de produção hoje existentes entre os animais de criação.

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