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O CONCEITO DE DEMOCRACIA ORGÂNICA

"Texto adaptado do Integralismo Lusitano, José Manuel Alves Quintas, 12 de


Fevereiro de 2001"

A sociedade é um corpo vivo, e não um agregado de indivíduos. Antes de


mais, importa reter dessas afirmações que ele tinha clara consciência de que, nas
teorias contemporâneas da representação política, se defrontam duas concepções
que vão muito para além do político, tocando a própria noção de sociedade: para
uns "a sociedade é um corpo vivo"; para outros, identificando a sua origem "as
teorias do naturalismo individualista, herdado da filosofia do século XVIII" a
sociedade é "um agregado de indivíduos".

Ainda que sumariamente, creio que importa esclarecer, antes de mais,


algumas diferenças essenciais entre essas duas concepções no plano dos
fundamentos filosóficos porque, antes de se disputarem duas concepções de
representação política, disputam-se duas concepções de sociedade e, antes de se
disputarem duas concepções de sociedade, disputam-se duas concepções do
homem e da natureza.

Para o naturalismo individualista (base filosófica da concepção inorgânica


da sociedade) — de que Rousseau foi um dos máximos expoentes —, o estado
natural do homem é o estado de isolamento individualista, sendo o contrato social
um ato absolutamente voluntário e livre.

Ao contrário, para a concepção orgânica — contando com S. Tomás de


Aquino e Francisco Suárez entre os seus mais categorizados teorizadores, e com
discípulos contemporâneos como La Tour du Pin, Bonald, Joseph de Maistre,
entre outros — o homem é um ser social por natureza, concebido em sociedade e
para viver em sociedade. Enquanto o pacto ou contrato social de que falava
Rousseau é voluntário; o pacto ou contrato social de que falavam os Doutores da
Igreja, longe de ser voluntário, é um ato imperado pela natureza humana.

Partindo de tão distintas concepções da natureza do homem e das


sociedades, é natural que ao abordar o problema das formas de representação
política, bem como o da própria origem e da legitimidade do poder, se acentue a
oposição entre as duas teorias. Não sendo aqui o lugar para um aprofundamento
dos problemas da origem e da legitimidade do poder, vale a pena notar que, na
concepção inorgânica, o poder é considerado disperso nos indivíduos e expressa-
se como vontade no momento da eleição. Como a soberania popular só se exerce
quando se somam esses poderes, também uma só condição é suficiente para
atribuir ou retirar legitimidade: a vontade do povo.

Para uma concepção orgânica, de forma bem diferente, o poder político não
se encontra atomizado, disperso pelos vários indivíduos de que se compõe a
comunidade. O poder apenas se constitui no agregado social quando este se
constitui em pessoa moral autônoma. E, ao constituir-se, o poder não é um
simples somatório de pequenas parcelas, sendo antes uma espécie de
propriedade — é uma realidade moral. Isto é, existe uma realidade moral no todo,
e que não resulta da simples soma das partes. Um exemplo clássico muito
referido, retirado do mundo físico, ajuda a explicar essa “espécie de propriedade”
que define a realidade moral de todo o poder político (ou soberania): a água,
resultado da junção de oxigênio e hidrogênio, tem uma natureza que a define e
que é diversa do simples somatório das propriedades dos elementos que a
constituem. De modo análogo, também a soberania não é apenas a soma das
vontades dispersas pelos membros da comunidade. A soberania é algo que só
existe na comunidade enquanto sociedade política constituída.

A concepção inorgânica do poder político, além de lhe negar a sua


realidade moral — abrindo a via pela qual a ditadura das maiorias se pode impor
sem qualquer constrangimento; e, até hoje, sem olhar à cor política, sabemos
como praticamente todos os regimes totalitários buscaram e obtiveram legalidade
por via do sufrágio... —, nega também, de forma mais ou menos mitigada,
consoante os autores, que a sociedade antecede o Direito e o Estado.

Ora, segundo a teoria orgânica — é o que importa aqui sublinhar e destacar


quanto ao problema da representação política —, as personalidades de direito
natural das entidades anteriores ao Estado (como a família, a freguesia, o
município) são consideradas como realidades sociais concretas que o Estado
deve respeitar na suas autonomias e funções próprias. Ao Estado compete servir
a sociedade, e não é à sociedade que compete servir o Estado. Henrique Barrilaro
Ruas, doutrinador integralista, afirmou este conceito de forma clara ("Integralismo
como Doutrina Política"): "Para servir o homem, importa que o Estado respeite
tudo quanto é humano. É humana a família. É humana a corporação. É humano o
município. É humana a comunidade de sangue e história a que se chama Nação.
Um Estado que não sirva a Nação portuguesa, não serve o homem."

Para uma concepção orgânica, é imoral tentar suprimir as personalidades


de direito natural, bem como as de formação histórica, no plano da representação
política. É imoral no plano político, mas vale acrescentar que é inútil no plano
sociológico - os exemplos históricos de populações durante séculos sujeitas a
domínio estrangeiro, e que raramente modificaram os usos e costumes a nível
familiar, local, e mesmo nacional, são por demais abundantes e frisantes.

Para o presente propósito, note-se apenas com singeleza que, segundo a


teoria orgânica, ninguém escolhe a família e o local onde nasce, e que essa é uma
situação com que a maioria se conforma, nascendo dela a submissão voluntária,
feita de respeito e de simpatia, para com a autoridade natural dos progenitores. E,
como a força dos fatores sociológicos é mais eficaz do que o oportunismo de
qualquer decisão estranha, a verdade é que com a vida natural da família nasce
também a submissão voluntária àqueles que, por delegação dos progenitores,
regem as comunidades naturais sucessivas como a freguesia ou o município. O
mesmo se passa com a comunidade de sangue e história a que chamamos
Nação.

Mas, para que fique bem claro, importa responder à seguinte questão:
porque é que, para um defensor da concepção orgânica, existe sofisma ou
embuste no sufrágio exclusivamente individualista (inorgânico)?
Porque nesse tipo de sufrágio, — além de não se respeitar a pluralidade dos
grupos que compõem a sociedade, e as diversas aspirações dos seus membros
com seus direitos e interesses — apenas contam os indivíduos agregados em
torno de projetos ideológicos acerca dos quais a grande maioria é incapaz de
formular opiniões fundadas.

Salta de imediato à vista o lado negro e oculto da representação inorgânica:


o de não permitir a expressão de todos os interesses e opiniões fundadas.
O voto inorgânico universal exclusivista contém como que um fundo monstruoso: o
de forçar os cidadãos a opinar sobre assuntos e problemas que desconhecem.

Ao contrário, o voto orgânico lançado na urna por um eleitor membro de um


Corpo Social, sabe o que vota porque vota em vista ao interesse social do Corpo a
que pertence, que faz parte do seu próprio interesse. O neo-integralista Mário
Saraiva, exprime com muita clareza a vantagem da representação orgânica:
"Cada pessoa cria os seus interesses, integra-se no seu meio, e sente
espontaneamente os hábitos comuns dos grupos em que se integra. Aí traça os
projetos dos seus desejos, levanta as esperanças do seu futuro. Pode não possuir
preparação suficiente para votar um projeto ideológico, mas tem consciência das
pessoas e das coisas do meio em que se move e com as quais está diretamente
relacionado. Está, por exemplo, apto a escolher como seu representante um
vizinho na sua freguesia, um camarada de trabalho para o sindicato, um consócio
para uma sociedade, um agremiado para uma associação agrícola, comercial,
industrial, etc." («Outra Democracia»).

Em síntese, segundo a concepção orgânica, nas formas inorgânicas de


representação há simultaneamente um sofisma e um déficit de representação. E o
que defendem os partidários da democracia orgânica, é que seja permitida a
expressão ou representação das pessoas através dos órgãos naturais a que
pertencem no seio da sociedade — através das freguesias ou paróquias, dos
municípios, das regiões, mas também por intermédio dos diversos esteios ou
grupos sociais (de profissão, de atividade econômica, de cultura, de
espiritualidade, etc.) no seio dos quais contribuem, pela sua atividade e esforço,
para o bem comum da sociedade.

Anauê! Pelo Bem do Brasil!