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APONTAMENTOS DE RESPONSABILIDADE CIVIL
I CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1.1 Conceito de responsabilidade civil; 1.2 Decomposição do vínculo jurídico: distinção entre dever jurídico originário e sucessivo; 1.3 Evolução da responsabilidade civil; 1.4 Responsabilidade penal e civil; 1.5 Espécies e pressupostos da responsabilidade civil.

1.1 Conceito de responsabilidade civil O Direito conjuga o humano e o social, porquanto ele existe em razão das pessoas que se interagem na convivência em sociedade (ubi homo, ibi societas). Sociedade e Direito são realidades conatas e se pressupõem: onde está a sociedade, está o Direito (ubi societas, ibi ius), sendo a recíproca verdadeira, onde está o Direito, está a sociedade (ubi ius, ibi societas), logo onde o homem está, está o Direito (ubi homo, ibi ius). Consequentemente, toda regra jurídica tem por referência a convivência das pessoas na sociedade. Magistral a ensinança de Ihering: Vida humana e vida social significam o mesmo. Isto já os velhos filósofos gregos reconheciam perfeitamente: não há aforismo que exprima de modo mais conciso e cabal a vocação do homem do que a denominação dele como zoon põlitikòn, ser social.1 O Direito tem o propósito de viabilizar a coexistência na liberdade de cada um e de todos no interesse do bem comum, motivado pelos valores da ordem e da justiça, que devem ser estabelecidos na solidariedade, de modo que, no auxílio mútuo, sejam superadas as desigualdades discriminatórias, consoante os objetivos fundamentais estampados no art. 3º, da Constituição Federal. É a busca criteriosa e interrupta do consenso sobre o justo e o injusto o justo e o injusto, o lícito e o ilícito, garantindo a segurança nas relações entre os homens, e ao mesmo tempo permite a cada pessoa encontrar-se e definir-se dentro do seu contexto existencial. Nessa busca incessante cabe à Moral fecundar o Direito, para que ele encontre maior grau de adesão e obediência cívica.

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IHERING, Rudolf von. A finalidade do direito. Tradução de José Antônio Correa. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1979, vol. I, p. 48.

2 A ordem jurídica, leciona San Tiago Dantas, apresenta duplo sentido: “proteger o lícito e reprimir o ilícito. Quer dizer, proteger a atividade do homem que se explica de acordo com o direito; reprimir a atividade do homem que se explica contrariamente ao direito.”2 Sendo assim, a noção de Direito vincula-se à noção de composição dos conflitos de interesses, tendo por escopo o atendimento dos valores da ordem e da justiça, com igualdade e liberdade, essenciais à dignidade humana. A regra jurídica, por conseguinte, além de operar como regra de conduta, também opera como dissipadora de conflitos, valendo como paradigma para o comportamento futuro. Particularmente, o Direito Civil objetiva as relações jurídicas em que pode envolver-se todo cidadão, isto é, refere-se a todos indistintamente na regulação das atividades intersubjetivas em geral, tanto das pessoas naturais como das pessoas jurídicas. Mota Pinto assegura que é o ramo do Direito dirigido à tutela da personalidade humana, visando “facilitar ou melhorar a convivência com outras pessoas humanas – é essa a zona central da vida em sociedade e é ela o campo próprio da incidência do Direito Civil.”3 Miguel Reale pondera que, em um País, a Constituição e o Código Civil são as duas leis fundamentais. A Constituição “estabelece a estrutura e as atribuições do Estado em função do ser humano e da sociedade civil”, enquanto o Código Civil refere-se “à pessoa humana e à sociedade como tais, abrangendo suas atividades essenciais.”4 O Direito Civil é, pois, o direito comum, incidente nas relações humanas partilhadas na vida diária, disciplinando os direitos da personalidade, os interesses familiares e os patrimoniais pertinentes à propriedade dos bens, às obrigações e à responsabilidade civil. Desponta daí, que o modo de composição patrimonial dos conflitos de maneira a reparar o dano (an debeatur) a favor de quem o sofre, pela representação pecuniária equivalente (quantum debeatur), ilustra ao longo do tempo a trajetória da responsabilidade civil, pois ela se assenta no elementar princípio ético de que o dano causado pelo descumprimento de um dever jurídico contratual ou extracontratual deve ser reparado. A regra é primum non nocet (em primeiro lugar não fazer o dano); feito o dano, porque ofende o dever jurídico sintetizado no adágio alterum non laedere (não lesar a outrem), cumpre a obrigação de indenizar. Essa é uma das facetas mais almejadas da concreção do Direito: a busca perene e renovada do justo e do equânime. Ou por outra, a tendência humana, cara ao
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DANTAS, San Tiago. Programa de direito civil. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1979, vol. I, Parte Geral, p. 341. PINTO, Carlos Alberto da Mota. Teoria geral do Direito Civil. Coimbra: Coimbra Editora Ltda., 1976, p. 10. 4 REALE, Miguel. O projeto do Código Civil: situação após a aprovação pelo Senado Federal, 2ª ed. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 2 e 3 .

3 jusnaturalismo, sintetizada na arcaica e simplificada regra sustentáculo da vida honesta, desde a Jura Praecepta do Direito Romano: honeste vivere, neminem laedere, suum cuinque tribuere (viver honestamente, não lesar a ninguém, dar a cada um o que é seu). Nesse contexto, mostra-se atual o sinótico conceito de René Savatier: “Responsabilidade civil é a obrigação que incumbe uma pessoa de reparar o prejuízo causado a outra, pelo fato próprio, ou pelo fato de pessoa e coisas que dela dependam.”5 Detalhando Savatier. a) Dever jurídico que obriga uma pessoa, devedor, a reparar o dano causado à outra pessoa, credor; b) Em razão de ato próprio: confundam-se na mesma pessoa quem causa o dano e quem terá a obrigação de repará-lo; c) Pode o dano ter sido causado por uma pessoa e a obrigação de indenizar recair sobre outra pessoa, no caso o seu responsável; d) Pode ainda o dano ter sido causado por animais ou coisas inanimadas e a indenização ficar por conta de quem tem a sua guarda ou propriedade. Consiste, destarte, na obrigação de o agente causador de um ato lesivo indenizar a vítima, ajustando-se perfeitamente ao conceito genérico de obrigação, que é o direito do credor de exigir certa prestação do devedor. Por conseguinte, o instituto da responsabilidade civil é parte integrante do Direito das Obrigações, aplicando-se a ele o princípio obrigacional de quem deve atender a indenização é o devedor e o seu patrimônio responde pelo débito, como providencia o Código Civil no artigo 391 (Título IV, do Inadimplemento das Obrigações, Capítulo I, das Disposições Gerais) e o artigo 942 (Título IX, Da Responsabilidade Civil, Capitulo I, Da Obrigação de Indenizar). Senão nota-se: a) É fonte de obrigação: do dano nasce a obrigação de indenizá-lo. b) É uma obrigação de dar pecuniária: essa indenização é o equivalente do dano em moeda corrente. c) É a tutela genérica das obrigações de dar, fazer ou não fazer: se impossível restabelecer o stato quo ante pela tutela específica, resolve-se pela tutela genérica das perdas e danos.

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SAVATIER, René. Traité de la responsabilité civile, tome I : Le sources e la responsabilité civile . Paris : Libraire Génerale de Droit et de Jurisprudence, 1939, Introduction, p. 1 : “La reponsabilité civile est l’obligation qui peut incomber à une personne de réparer le dommage causé à autri par son fait, ou par le fait des personnes ou des choses dépendante d’elle. »

4 Assim, a responsabilidade civil é o instituto jurídico de fundamental importância para a resolução dos conflitos de interesses com tríplice função: a de garantia, a de sanção civil e a de prevenção. A função-garantia outorga à vítima do dano o direito de se ver ressarcida. A funçãosanção imputa ao agente causador do dano o dever de compor esse ressarcimento. A funçãopreventiva atua em duas facetas distintas. A uma, opera como coação psicológica, prevenindo a coletividade de novas violações que poderiam eventualmente ser realizadas, pelo próprio causador do ilícito, ou por qualquer outra pessoa. A duas, o desafio de aperfeiçoar o sistema para evitar situações de perigo, o quanto possível, pois afastá-las de todo é impossível. Nota-se, essa terceira função é decorrência natural das duas funções precedentes. Há de se entender, na vida social a pessoa humana tem liberdade para o exercício de seu direito, como tem responsabilidade no exercitá-lo. Jean Paul Satre pontifica que o ser humano ontologicamente não possui liberdade, ele é liberdade em sua essência; “assim, minha liberdade está perpetuamente em questão em meu ser; não se trata de uma qualidade sobreposta ou uma propriedade de minha natureza; é precipuamente a textura de meu ser.”6 Essa liberdade como atributo caracterizador do ser do homem não pode, por parte da lei, sofrer restrições, mas o seu exercício impõe limites, pois sempre coexistem boas e más intenções, sendo fortes e fracos bondosos e maldosos, por isso que a nobreza do exercício da liberdade é medida pelo do fim a que se destina. Nada mais lúcido, portanto, que ao lado da liberdade, como parelha inseparável, está a responsabilidade. José de Aguiar Dias inaugura sua clássica obra, com esta frase: “Toda manifestação da atividade humana traz em si o problema da responsabilidade”, para depois em referência a Marton, completar: “A responsabilidade não é fenômeno exclusivo da vida jurídica, antes se liga a todos os domínios da vida social.”7 Daí a pertinente pergunta de Viktor Emil Frankl: “Quando se resolverão a levantar na costa ocidental [de Nova Iorque] uma estátua da Responsabilidade, a fazer pendant com a estátua da Liberdade, da costa oriental?”8

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SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada. DIAS, José de Aguiar. Da responsabilidade civil, 10 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1995, p. 1-2. 8 FRANKL, Viktor Emil. Psicoterapia e sentido de vida. Fundamentos da logoterapia e análise existencial. Tradução de Alípio Maia de Castro. São Paulo: Quadrante [s.d.], p. 106.

cumpre a prestação de serviços profissionais na defesa dos direitos de “B”. o liame que liga os polos passivo e ativo de uma obrigação.5 1. o objetivo e o espiritual ou vínculo jurídico. por intermédio de Alois Brinz. Reside aqui o débito: “A”. é o pagamento espontâneo pela realização da prestação. entretanto. O objetivo é o componente material. O subjetivo é o pessoal. 389 distingue obrigação e responsabilidade: não cumprida a obrigação. primário. seu cliente. Para ele o débito. e no polo ativo o credor.2 Decompondo o vínculo jurídico: distinção entre dever jurídico originário e sucessivo A estrutura da obrigação apresenta três elementos: o subjetivo. reside aqui a responsabilidade. o dever jurídico originário e o dever jurídico sucessivo. que depende com exclusividade de uma ação ou omissão do devedor. fazer ou não fazer o quê? A resposta é o bem da vida perseguido pelo credor. Revela a jurisdicidade da relação obrigacional. cujo objeto imediato é uma prestação de dar. Já a responsabilidade. possibilitando a este exigir daquele o adimplemento da prestação. outro dever jurídico. reúne no polo passivo o devedor. O dever jurídico sucessivo (responsabilidade) toma o lugar do dever jurídico originário (débito). independe da vontade das partes. o Código Civil no art. o devedor responde por perdas e danos. secundário. Essa distinção deve-se ao Direito alemão. portanto sucessivo. Como clarifica a seguinte passagem: “A”. dever jurídico sucessivo. devedor. dever jurídico originário. aquele que é obrigado a cumprir a prestação. o primeiro a separar esses dois momentos da relação obrigacional. é o direito do credor de investir contra o patrimônio do devedor. O espiritual é o vínculo jurídico. credor. e o objeto mediato ou objeto da prestação é desvendado na resposta à seguinte pergunta: dar. que o chama de schuld. “A”. ao contrário. viola o dever jurídico que voluntariamente assumiu. é a resposta do ordenamento jurídico ante o inadimplemento de um negócio jurídico bilateral ou unilateral. não cumpre a sua obrigação. fazer ou não fazer. Surge. ao qual se obriga o devedor. contrata com “B”. defendê-lo em determinada ação. enquanto o dever jurídico sucessivo de ressarcimento do prejuízo. e obter a devida indenização pelos prejuízos ante o . qual seja compor o prejuízo experimentado por “B”. aquele que tem o direito de receber a prestação. Essa obrigação de fazer é dever jurídico originário. Não a gosto dos unitaristas que resumem os dois momentos em um único. então. Desdobra-se em dois momentos. advogado. que a chama de haftung. O dever jurídico originário nasce pela vontade das partes.

263 e 264 : « porquais as-tu manqué à ton devoir en faisant (ou omittant) tel ou tel acte. abrolha a responsabilidade. no entanto. Logo.9 9 MARTON. No caso da fiança. quando não há um contrato celebrado entre devedor e credor. Demais disso. os autores alemães demonstram a existência de débito sem responsabilidade. Falece do momento sucessivo da responsabilidade. É o mecanismo da responsabilidade elaborado na figura criada por Marton. antes de se obter o momento da responsabilidade decorre o momento da infração de um dever jurídico próprio de uma obrigação preexistente. apenas no seu primeiro momento: o débito que é o pagamento espontâneo. se insatisfatória será ele condenado. é o garante do devedor. praticando (ou omitindo) tal ato? Se a pergunta for satisfatoriamente respondida. Se este não paga a prestação. Se alguém pratica um ato ilícito. Não apenas. a relação obrigacional apresenta dois momentos bem distintos: se o devedor não pagar a prestação espontaneamente. O fiador não é devedor. prestação e vínculo jurídico. isto é. o fiador tem apenas a responsabilidade e não o débito. desprovida do momento sucessivo da responsabilidade. 1938. Paris: Sirey. só então surge a responsabilidade daquele. quando o credor promove ação sobre os bens do devedor. É o caso das dívidas de jogo proibido. G. assim inexigível.6 inadimplemento voluntário da obrigação. É o pagamento forçado com o socorro do Poder Judiciário. obrigações prescritas etc. surge. forçar o pagamento. Les fundaments de la responsabilitè civile: révision de la doctrine essai d’un système unitaire. » . via Poder Judiciário. a responsabilidade. na qual o órgão mantenedor da norma interroga do violador: “por que faltaste a teu dever. mas não o débito. descumprindo uma obrigação legal. tanto contratual como legal ou extracontratual. Há devedor e credor. A obrigação é imperfeita ou natural. Para se saber quem é responsável. na responsabilidade civil extracontratual. o credor não pode. Destarte. p. ou seja. O mesmo acontece na prática do ato ilícito. Aqui se encontra a responsabilidade civil contratual. há a responsabilidade. a fim de receber seu crédito com o constrangimento do patrimônio do devedor. indaga-se quem é obrigado. 2. que é o dever de indenizar o dano causado. se pagar é pagamento com direito de retenção. em razão desse inadimplemento. este.1 Figura criada por Marton Sendo assim. o interrogado estará desobrigado.

decidir. Necessário. considerada na sua inteireza. a qual deve ser entendida na sua mais ampla concepção. As dimensões somática e psíquica correspondem à esfera da facticidade: impulsos. para usar a expressão tão comum em Santo Tomás de Aquino. A pessoa humana aparece centrada em torno de uma realidade pessoal. que a responsabilidade civil proteja. entretanto. muitas outras vezes. necessidades biológicas. descobrir e realizar valores. portanto compreende a faculdade de reagrupar os elementos que compõem a facticidade. indiscriminadamente. como a capacidade de amar. constitucionalmente. vê-se sob a iminência de risco a todo momento. impulsionado. pois a sociedade atual. abrir-lhe um horizonte de valores e de sentido. Nesse núcleo pessoal noético pertencem os fenômenos que lhes são mais exclusivos. conceitua-se a pessoa humana. mas é um ser livre e responsável. psique e noéses – que se revelam inevitavelmente na análise fenomenológica do ser humano. instintos. então. reprimida pela violência branca que a sociedade liberal manobra explicita ou implicitamente. Essa é a teologia própria do ser humano. a sua conduta no meio social. como uma unitas multiplex. é o que se procura nessa oportunidade. . Educar a pessoa humana. pouco. enquanto que a dimensão noética corresponde à esfera da existência: liberdade e responsabilidade. significa. o direito à liberdade de professar credo religioso. 10 Muito se fala em proteção à pessoa humana. Pois bem. essa pessoa humana. a responsabilidade civil açambarca a proteção integral da pessoa humana. Cai a fiveleta o conceito de Victor Emil Frankl. embora laica. que apresenta um projeto no qual considera salvaguardada a unidade antropológica sem minimizar as diferenças ontológicas – corpo. aqui compreendido o anseio transcendental. os seus interesses e direitos patrimoniais e da personalidade em todas as suas dimensões. apelar para esse núcleo noético. fonte de todas as atividades efetivamente humanas. Nessa dimensão a pessoa humana não é um ser guiado. apenas por viver em uma sociedade de massa. que aponta para a realização de si através da transcendência. sobretudo. adormecida algumas vezes por limitações de ordem pessoal e. reconhece.7 Proteção integral da pessoa humana10 Pelo exposto. com capacidade e possibilidade de resistir e superar os impulsos tendentes a determinar e condicionar o seu comportamento.

acompanha o homem desde os mais priscos tempos. talio esto (se alguém fere outrem. feitio de reação espontânea e natural ou a vingança pura e simples.3 Evolução da responsabilidade civil A evolução da responsabilidade civil realça ainda mais a proteção integral da pessoa humana. Ademais. Essa vingança coletiva foi sucedida pela reação privada. p. dente por dente. 27. 1991. em breves pinceladas enfocar o seu escorço histórico que. não se cogitava a culpa como seu fundamento. Era a fase da reparação do mal pelo mal. encontram-se vestígios da vingança privada. No mesmo sentido: PEREIRA. Culpa e risco. Na Lei das XII Tábuas. tida por diligente porque vocacionada a bafejar todos os ramos do Direito com a eficácia de seus valores e princípios. por tendência natural. Presta-se também para a boa compreensão do fundamento. assim. 1998. 1. sem arredar a possibilidade de as partes transacionarem. Cuida-se. Estava-se sob a égide da Lei de Talião (talio) sistematizada na fórmula: olho por olho.1 Reparação do mal pelo mal Nos primórdios da civilização predominava a vindicta. São Paulo: RT. que sofra a pena de talião.. infringindo no ofensor dano idêntico ao sofrido. é o critério inserido na tábua VIII. pois a pessoa. é vocacionada a ser proprietário. 6. declarando quando e como a vítima poderia ser recompensada pelo seu direito retaliado. Caio Mário da Silva. . p. 1. sem desprezar os direitos patrimoniais. em verdade. evolução. Rio de Janeiro: Forense. É a vingança individual. 2 ed.C.2 Reparação patrimonial 11 LIMA. o grupo reagia contra o agressor pela ofensa de um de seus membros.8 Nesse desiderato. salvo se existir acordo). Revista e atualizada por Ovídio Rocha Barros Sandoval. estágio atual e perspectivas futuras desse instituto. Alvino. lei 2ª: si membrum rupsit.3. ni cume eo pacit. a responsabilidade era objetiva. Ao poder público somente cabia intervir para coibir os abusos. Responsabilidade penal e civil não se distinguiam. a Constituição Federal. o patrimônio mínimo é da essência na precaução de uma vida digna. ganha novo vigor com a sua carga axiológica na defesa da dignidade humana e dos direitos da personalidade. 450 a. Responsabilidade civil.11 1. selvagem talvez porque se fazia justiça pelas próprias mãos. a vingança coletiva.3.

proposta pelo tribuno romano Aquilio em 286 a. . à luz da moral cristã.. o damnum iniuria datum: o dano causado a bem alheio. É a noção de pecado como consciente violação a dever de ordem divina. Deu-se. à la réparer » (Qualquer fato humano que cause a outrem um dano. Os canonistas elaboraram. coube desvendar novos horizontes. plantando suas raízes no Direito Romano. do CC francês: “Tout fait quelconque de l’homme qui cause à autrui un domange. a separação da responsabilidade civil e penal pela Lex Poetela Papiria. Na Idade Média.C. que a ela se prende a denominação de aquiliana para a responsabilidade extracontratual em oposição à contratual. Foi por meio da teoria subjetiva. o princípio clássico segundo o qual cada um deveria responder pelos seus atos culposos. tendo como principais elaboradores dois exponenciais civilistas franceses Domat e Pothier e como tenazes defensores André Tunc e os irmãos Mazeaud.9 O período dessa equivalência da punição do mal pelo mal. ademais. À Lex Aquilia de Damno. Ela esboçou a ideia de culpa como fundamento da responsabilidade civil. seguiu-se a estruturação da ideia de dolo e culpa como a mais importante contribuição. Essa lei introduziu.C. O Senado teria se sensibilizado com os ritos corporais macabros. esboçando a perspectiva de uma composição entre a vítima e o agente causador do dano inserida na solução transacional. O seu fundamento é a culpa efetiva e provada. O sossego e a tranqüilidade transmudaram-se em excitação. empobrecendo a vítima sem enriquecer o ofensor. oblige celui par la faute duquel Il est arrivé. 1. banindo-os. inspirou o art. tanto que Josserand forjou a frase: “vivemos mais intensamente (Roosevelt) e mais perigosamente (Nietzsche)”. dessa sorte o causador do dano que tivesse laborado sem culpa seria isento de qualquer responsabilidade. editada 326 a. então. Introduziu também a ideia da reparação pecuniária do prejuízo.382. obriga o culpado a repará-lo). nesse entretanto. A concepção de pena foi substituída pela ideia de reparação do dano sofrido. Grande a contribuição. é sucedido na contenção da responsabilidade civil à responsabilidade patrimonial. ligados à ideia do livre-arbítrio e de sua indevida utilização pelos fieis. A culpa ganhou fortes contornos éticos e morais. Tão grande é a evolução trazida pela Lex Aquilia. à luz do jusnaturalismo.12 Com a revolução industrial a sociedade transformou-se rapidamente. A teoria da culpa tornou-se insuficiente para atender os mais variados casos de danos 12 O pensamento de Domat. que a responsabilidade civil ingressou no Direito moderno. que produzissem dano injusto a outrem. do Direito Romano. a segurança no seu antônimo a insegurança.

a iniciativa. Do 13 14 JOSSERAND. Clama mais. p. uma nova evolução da responsabilidade subjetiva para a responsabilidade objetiva. princípio protetor dos fracos: a força. a ação devem ser por si mesmas geradoras de responsabilidades. que traz em seu âmago a teoria do risco proveito. independentemente de culpa. o berço foi a França com Saleilles e Josserand. encontram-se em crise.10 produzidos pelas novas atividades perigosas. p. Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka sugere o que chama responsabilidade pressuposta. E Lembra logo no pórtico de seu trabalho: Há um novo sistema a ser construído. ou. Louis.”13 É a responsabilidade civil objetiva que.14 A ensinança dessa mestra coloca no cerne das preocupações contemporâneas a pessoa humana. Uma verdadeira revolução. Belo Horizonte: Del Rey. e ao longo de toda a história da humanidade. a comuna ou o explorador da aeronave em seu próprio segurador por motivo dos riscos que criou. apresentada na Faculdade de Direito da USP. a máxima: ubi emolumentum. a idéia de mérito ou de demérito nada tem a ver no caso. Passou-se a pensar. há um sistema já existente que reclama transformação. erigindo o patrão. Responsabilidade pressuposta. responde pelos danos sofridos pelo empregado em consequência e por ocasião da jornada de trabalho. que clama pela reparação dos danos sofridos. 548. pelo menos. com sua visão profética. que se adote uma política preventiva ao dano dentro da teoria da responsabilidade civil. terminando por introduzir na legislação. embora socialmente úteis. Do segundo extrai-se a ideia de revolução a permear a história da responsabilidade civil. ainda mais desenvolvida. O primeiro. dispensando qualquer consideração a respeito da culpa. ai está o encargo). pois as soluções teóricas e jurisprudências até aqui desenvolvidas. em sua tese de livre docente. Nos dias atuais. ibi onus (onde está o ganho. 86. HIRONAKA. elegeu o risco criado nas atividades perigosas como motivação determinante do ressarcimento ante o prejuízo de vítimas inocentes. Giselda Maria Fernandes Novaes. Revista Forense vol. reforçando as ideias objetivas. . exigindo a revisão em prol da mantença do justo. Mais uma vez. desenvolveu a teoria sobre o acidente do trabalho em que o empregador. dissociando completamente a responsabilidade da culpa. princípio valioso para uma sociedade laboriosa. 2005. a lei impõe o princípio justo e salutar “a cada um segundo seus atos e segundo suas iniciativas”. 3. para que não fique irressarcível.

foram introduzidas em seu texto importantes temas de responsabilidade civil. que deverá. d) A transmissibilidade aos herdeiros de reparação do dano. g) Responsabilidade civil das pessoas naturais e jurídicas. muito tendo que crescer nesse campo dos seguros em geral. § 5º).11 que é exemplo. e) Cúmulo das indenizações por acidente do trabalho e de direito comum. de sorte as normas constitucionais estão na cumeada do ordenamento jurídico. mediante conduta culposa ou dolosa do empregador. em 5 de outubro de 1988. 5º. ceder lugar à de amanhã”. a saber: a) A reparação do dano material ou moral. É a mudança do ponto de vista sistemático. 5º. X). LX). b) A previsão de indenização por dano material ou moral pela violação à intimidade. à honra e à imagem das pessoas (art. 173. . Presente.4 A responsabilidade civil na Constituição Federal Com a promulgação Constituição Federal. 548. o seguro obrigatório de veículos. mesmo já afastadas no tempo ainda proveitosas: “nessa matéria [responsabilidade civil] a verdade de ontem não é mais a de hoje. c) Responsabilidade do Estado pela indenização ao condenado por erro judicial e por ficar preso além do tempo fixado na sentença (art. A leitura da responsabilidade civil à luz da Constituição Federal não se resume apenas por estas previsões legais. Vai-se além. as palavras de Josserand. 5º. ainda mais ressaltando a integral proteção à pessoa humana. por publicação ofensiva a terceiro ou à imagem (art. inc. § 3º). como também é exemplo a doutrina da seguridade social. que imputa a responsabilidade ao Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS) por simples política de proteção ao trabalhador. inc. logo os seus princípios e valores – repita-se – tornam-se 15 JOSSERAND. por sua vez. 5º. inc. p. ibide. até o limite da força da herança recebida (art. inc. Louis. à vida privada. V). f) A responsabilidade civil da empresa nos casos de atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. LXXV).15 1. ainda que acanhado. sem prejuízo da responsabilidade individual de seus dirigentes (art. pela reparação de danos causados ao meio ambiente (art. 225. assim.

Qualquer que seja o seu grau de culpa terá que suportar o dever indenizatório.” Com a regra constitucional a responsabilidade civil do empregador caiu no regime do Código Civil. portanto. penal e civil A responsabilidade moral é uma natura debere. os valores através dos quais aquela comunidade se organizou e se organiza. ambas as indenizações cumulam-se. são. são elas a previsão do dano moral e o empregador responder por simples culpa nos casos de acidente do trabalho. a que se constitui em mero dever de honra e consciência. preservando a primeira parte da Súmula. no lúcido dizer de Maria Celina Bodin de Moraes. que devem informar todo o sistema. informando. a exemplo de cumprir ato de última vontade não expresso em testamento. Assim. que não eram contempladas pela legislação ordinária do direito anterior. Ou seja. no officium. do ideal ético. passaram a contemplá-lo.5 Responsabilidade moral. p. in Princípios do direito civil contemporâneo. Grande a resistência na aceitação do dano moral.) 1. obrigatoriamente. Seu cumprimento é questão de princípios. hoje revogada no que se refere à culpabilidade: “A indenização acidentária não exclui a do direito comum. em caso de dolo ou culpa grave do empregador. 16 MORAES. Tanto que o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula 229. ou no seu relacionamento com Deus para quem professa credo religioso. ou normas-guia. (ver verbas p. 3. Maria Celina Bodin de. . logicamente.”16 Destacam-se duas novidades. Sem essa previsão não era possível a proteção integral da pessoa humana. sem compensar a indenização paga. O princípio da dignidade humana. Rio de Janeiro: Renovar. mormente pelo Supremo Tribunal Federal que arguia a falta de legislação que previsse a sua reparação. Doutra feita. da noção de justiça presentes na sociedade. porque esses princípios e valores são retirados. no íntimo da pessoa humana para quem nenhuma crença lhe ilumine a alma. 2006. Assim é. a Carta Magna foi o seu batismo de fogo. “da consciência social. pois a partir da sua previsão as legislações infraconstitucionais. na fides. São relações fundadas na pietas.12 normas diretivas. na seara da responsabilidade civil o empregador respondia apenas por culpa grave ou dolo. por meio de seguro obrigatório pelo Instituo Nacional da Seguridade Social (INSS). por se tratar de genuína liberalidade. o Direito Privado. até o advento da Constituição.

comissiva ou omissiva. a norma violada é de Direito Privado e essa violação cria um desequilíbrio no patrimônio ou em outro interesse da vítima juridicamente protegido. Porém. Pouco importa se a vítima do delito experimentou ou não algum prejuízo. na outra hipótese resignando-se com o prejuízo sofrido. o dano é de natureza social. isto é. Se uma conduta. Vige o apotegma: cuius per errorem dati retitio est. Vale pela clareza e objetividade. ferir norma jurídica de Direito Penal. no mais das vezes. ato contínuo. O ordenamento jurídico confere-lhe a soluti retentio (direito de retenção). repetir Clóvis Beviláqua: . c) movimenta a máquina judiciária. não individualizada. pois o seu ato provoca quebra da paz e da ordem social de maneira indiscriminada. ou recompensar a vítima pelo interesse extrapatrimonial transgredido (dano moral). provocando. nulla poena sine praevia lege (não há crime. independentemente da vontade da vítima. Concluindo. na consideração do vínculo jurídico que dá juridicidade à obrigação. de sorte quem deposita um óbolo diante da mão tremula que se lhe estende. a prestação intencional de um indevido absoluto não pode ser repetida. não permanece alheia de efeitos jurídicos quando do seu espontâneo cumprimento. que pode ou não movimentar a máquina judiciária. b) visa à necessidade de ressarcimento do patrimônio depreciado ou do interesse não patrimonial ofendido. constituindo uma liberalidade. Seu objetivo é o restabelecimento do patrimônio ofendido no status quo ante (dano patrimonial). o Direito Civil: a) focaliza o dano causado. essa espécie não tem nem débito nem responsabilidade. sempre considerando a apotegma do Direito Penal Liberal: nullum crimen. o Direito Penal: a) focaliza a pessoa do delinqüente. c) é matéria apenas do interesse do prejudicado. Quanto à responsabilidade penal e a civil separam-nas nítidas dessemelhanças. Enquanto no Direito Civil. o agente da conduta típica tem que responder por ela.13 Sob a ótica do direito. b) objetiva o resguardo do interesse social. Em suma. não tem direito a repetitio indebiti (repetição do indébito). no primeiro caso exigindo a respectiva reparação. eius consulto dati danatio. tendo como causa a conduta também comissiva ou omissiva do agente. Ao infringir norma de Direito Público. o delinqüente com a sua conduta perturba a ordem social. uma reação do ordenamento jurídico que não se compadece com esse comportamento e a reação é representada pela pena. que é de Direito Público. ensejando a responsabilidade penal. tipifica um delito: crime ou contravenção. nem pena sem prévia previsão legal).

o direito civil vê. procura compensá-lo. satisfazendo o dano causado. do Código Penal. e no campo civil poderá ser condenado nas despesas de tratamento e dos lucros cessantes até o fim da convalescença da vítima. p. a fim de. em outras no regime da simples reparação de dano. por trás do crime. nesta oportunidade. o ofensor estará sujeito à pena expendida no art. que a sociedade se propõe realizar.. não simplesmente o agente. e contra ele reage no intuito de restabelecer esse equilíbrio necessário à vida do organismo social. Clóvis. pois o ilícito. mas.18 No caso de lesões corporais ou outra ofensa à saúde. o direito civil vê.p. Curso de direito civil. José Serpa Santa Maria. e o considera um ente anti-social. cit. 949. tanto em um como no outro âmbito. não mais um ataque à organização da vida em sociedade. além de pagar a importância da multa no grau médio da pena criminal correspondente. 161-162. e. o criminoso. 935: “A responsabilidade civil é independente da criminal. 272-273. e vem em socorro dela. SERPA LOPES. a causa determinante da ilicitude incidir na responsabilidade civil ou penal.17 Na eleição do pensamento de Peirano Facio. como providencia o art. revista atualizada pelo prof. p. assim. em dado momento. V. que é um interesse do indivíduo assegurado pela lei. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. por trás do ato ilícito. o que poderíamos chamar a eurritmia social refletida no equilíbrio dos patrimônios e das relações pessoais. ou sobre quem seja o seu autor. 129. mas uma ofensa ao direito privado.14 O direito penal vê. Serpa Lopes discorre que é de natureza política e não técnica. restaurar o seu direito violado. 935. O direito penal vê. a regra do art. a incriminar algumas condutas impondo pena ao delinqüente. não mais se poderá questionar sobre a existência do fato ou sobre quem seja o seu autor se estas questões se acharem 17 18 BEVILAQUA. um elemento perturbador do equilíbrio social. vol. aprovado na I Jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal: “No caso do art. São razões de ordem político-legislativa que conduzem o legislador. tanto quanto lhe for permitido. do Código Civil. ob. no ato ilícito. principalmente.” É a letra do Enunciado 45. no crime. não se podendo questionar mais sobre a existência do fato. é ontologicamente o mesmo. que é preciso adaptar-se às condições de vida coletiva ou pô-lo em condições de não mais desenvolver a sua energia perversa em detrimento dos fins humanos. 4ª ed. conseguindo. a vítima. . e ainda a dispor para umas terceiras a acumulação dos dois efeitos jurídicos. quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. não podendo restaurá-lo. Miguel Maria. que se formam no círculo do direito privado. Importante notar.

15 categoricamente decididas no juízo criminal”. pelo fato animal ou de coisa inanimada de sua propriedade ou sob a sua guarda (indireta). moral ou estético.6 Espécies e pressupostos da responsabilidade civil A responsabilidade civil é o dever jurídico derivado diretamente da lei (extracontratual) ou da inexecução de uma obrigação adrede celebrada (contratual). conforme segue abaixo. ou o dano é causado por animal ou coisa inanimada sob sua guarda ou de sua propriedade. a pessoa que produz o dano é a responsável pela indenização. . em razão de ato próprio (direta). c) Quanto ao agente: Responsabilidade civil direta oriunda de ato próprio. b) O dano a interesses ou direitos alheios. ou porque prevista em lei ou na justificativa da teoria do risco. seja por simples imposição legal. matéria a ser desenvolvida de maneira pormenorizada ao tratar das causas de irresponsabilidade. que obriga uma pessoa (devedor). a responsabilidade civil apresenta os seus pressupostos: a) A conduta que é sempre uma ação ou omissão humana. Por outro lado. seja por culpa (subjetiva). p. b) Quanto ao fundamento: Responsabilidade civil subjetiva implica na conduta lesiva dolosa ou culposa. 1. 129. c) O nexo de causa e efeito que é a relação entre a conduta como causa e o dano como efeito. Responsabilidade civil extracontratual decorre da violação de um dever jurídico geral exposto na lei. Assim considerando. Responsabilidade civil indireta o causador do dano é um terceiro vinculado ao responsável pela indenização. Responsabilidade civil objetiva a conduta lesiva prescinde de culpa ou dolo. a reparar o dano patrimonial. ou pela exploração de atividade de risco (objetiva). moral ou estético causado a outra (credor). de ato de pessoa por quem responde. patrimonial. apropositada a classificação de Maria Helena Diniz. a) Quanto ao fato gerador: Responsabilidade civil contratual deriva do inadimplemento de um negócio jurídico bilateral ou unilateral.

Não difere quando o inadimplemento é relativo.]. uma vez que a obrigação deve ser cumprida no tempo. no caso de mora. uma vez obrigada gera efeitos jurídicos: a conduta passa a ser pautada pela obrigação contratada... fundada na autonomia privada. responde o devedor por perdas e danos [.. conforme providencia a última parte do art. atualização monetária e honorários de advogado. lugar e forma que a lei ou a convenção estabelecer. 395 dispõe: “Reponde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der causa [. 2.. do Código Civil. convola-se na indenização das perdas e danos sofridos pelo credor. Para que ocorra essa espécie de responsabilidade civil é indispensável que preexista um contrato válido entre devedor e credor.3 extracontratual civil quanto ao fato Responsabilidade civil Responsabilidade civil 2. acrescida das perdas e danos e dos consectários da mora e da sucumbência: juros.16 II: DAS ESPÉCIES DE RESPONSABILIDADE CIVIL Responsabilidade gerador. do Código Civil. promana da transgressão de uma obrigação adrede celebrada pelas partes. por isso se diz que o contrato é lei entre as partes. Válido porque o contrato não produzirá efeitos jurídicos se eivado de nulidade contemporânea à sua formação. 394. a responsabilidade civil contratual. A vontade é livre até que se obriga. porque inadimplido pelo devedor. O dever jurídico originário convencionado pela vontade das partes. por isso perseguida pela tutela específica tal qual convencionada. Pelo princípio da obrigatoriedade. as partes vinculam-se ao contexto do contrato de forma irresistível.” A prestação ainda é possível ou útil ao credor.]” Há o inadimplemento absoluto da obrigação.1 Responsabilidade civil contratual Celebrado o compromisso de compra e venda. porque se perdeu por sua conduta desidiosa. 389.2 contratual. Há o inadimplemento absoluto ou relativo. a prestação não é mais possível ou útil ao credor. o promitente vendedor deixa de entregar o bem objeto mediato da prestação ao promitente comprador. dever jurídico sucessivo imposto pela lei. . preceitua: “Não cumprida a obrigação. dado que o art. 2. Via de consequência. O art.

no caso o encontro e a restituição do animal. rel.08. Rio de Janeiro: Aide Ed. j. Walter Moraes. in Humberto Theodoro Junior. Pode ainda a responsabilidade civil contratual resultar do descumprimento de obrigação gerada por um ato jurídico unilateral. mais os consectários comuns da sucumbência e da mora (TJMJ.17 Compromisso de compra e venda – Impossibilidade de transcrição do título no registro imobiliário – Cessão do mesmo lote a outra pessoa – Direito a indenização por perdas e danos – Valor da indenização.028. a qual. Responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. Indenização. podendo acrescentar entre outros o testamento. Recurso provido. visto que ela se destina à pessoa indeterminada. 3 ed. Verba devida. Considerando que essa espécie de responsabilidade diz respeito ao contrato e ao ato jurídico unilateral. Verbia gratia. A oferta de prêmios mediante sorteio configura promessa de recompensa. 04. Des. Não diferente a promessa de recompensa mediante sorteio. da Comarca de Belo Horizonte. efetuada publicamente. vincula o promitente (TJSP – 2ª Câm. j. Responsabilidade civil. a gestão de negócios. tem esta de responder pela reparação dos prejuízos do promissário comprador. colimando um determinado objetivo. de Férias – rel. restituindo-o. 1993. Alguém que encontrasse o cão. o enriquecimento sem causa (CC. o cheque ao portador. A declaração de vontade obriga o declarante desde o momento em que se torna pública.83. Inadimplemento de premiação obtida em sorteio. como bastas vezes anuncia o comércio varejista em suas propagandas ou publicidades de vendas promocionais. 62. nasce o direito de reclamá-la perante o Poder Judiciário. aquele em que há manifestação de vontade de uma só parte em uma única direção. Fernando Noronha e José Jairo Gomes preferem chamá-la responsabilidade . cujo montante será o valor atual do imóvel negociado. 20. ap.08. artigos 854 a 860). a ser apurado em liquidação. Humberto Theodoro.93. Curioso painel fixado em pontos estratégicos da cidade trazia este anúncio: “volta Peteleco”. 337). in JTJ Lex 150/83). e oferecia recompensa para quem encontrasse o cão errante. A determinação dá-se no momento em que se preencherem as condições de exigibilidade da prestação. Des. Se o contrato tornou-se inexeqüível por culpa da promitente vendedora. o pagamento indevido. vinculado o promitente. a renúncia. Hipótese de promessa de recompensa. tornar-se-ia credor da recompensa. a promessa de recompensa.. Se não paga. p.

protesta duplicata já paga. 125/176. 297 do STJ – Dano moral não demonstrado – Juros moratórios da citação.18 civil negocial. § 2º. j. 297. Também aborda o abuso de direito. Repertório IOB de Jurisprudência 3/12. Fernando. ou de ato ou omissão com culpa. c) o nexo de causa e efeito entre um e outro. STJ: O CDC é aplicável às instituições financeiras. 187.” – A cláusula de não indenizar será oportunamente dissertada. 12ª Câm. 2006. logo há contrato celebrado entre as partes. sem que tenha havido culpa concorrente da vítima. GOMES. do CC/1916 [atual art. 7ª Câm.20 O credor que. arts. 2003. Por enquanto ficam as observações: não é admitida no CDC. em sentido largo (STF. RT 813/268). São Paulo: Saraiva. j. Juiz Paulo Eduardo Razuk. 432. rel. A tradição. faz surgir o dever de indenizar que. em obediência às regras do Código de Defesa do Consumidor – Súm. Belo Horizonte: Del Rey. JTJ-Lex 172/9. 29. Direito das obrigações: fundamentos do direito das obrigações: introdução à responsabilidade civil.10. 749/267. 25 e 51. b) o dano daí decorrente. 1º. e nos contratos de depósito contraria a essência do contrato (ver RT 670/73.2002.22 19 NORONHA. passando a espécie a nomear o gênero.19 São seus pressupostos: a) a conduta que descumpre um negócio jurídico bilateral ou unilateral (ato ilícito contratual). 2.21 O advogado somente será civilmente responsável pelos danos causados a seus clientes ou a terceiros.2 Jurisprudência Tratando-se de contrato de locação de cofre. José Jairo.11. 20 “Súm. 14 a 20. 24. . deve ser arbitrado de forma moderada. Juiz Ariovaldo Santini Teodoro. por tratar-se de obrigação contratual – Art. 06. RDA 234/360).2002. segundo o princípio do sistema aberto e de acordo com o prudente arbítrio do juiz (1º TACivSP. RJTJSP 68/45.06.536. sendo considerada nula a cláusula de não indenizar. p. consagrou a denominação responsabilidade civil contratual. Tribunal Pleno. se decorrentes de erro grave. do CC. art. inescusável. 405] – Sucumbência recíproca mantida – Recursos improvidos (1º TACivSP. 616/31). p.892. todavia. todavia. Só tem cabimento quando estabelecida com caráter de transação (RT 563/146). 1. 772/362. rel. 21 O acórdão refere-se a credor.2004. O dano moral é presumido. no abuso de seu direito.2002. RT 832/239).10. o banco depositário é responsável pelos danos materiais decorrentes de assalto.. 496. Direito civil: introdução e parte geral.. Boletim da AASP 613. j. 22 Sobre responsabilidade civil do advogado consultar: RT 787/143. responde civilmente pelos danos morais e materiais decorrentes de sua atitude.I. devendo as coisas ser restituídas ao stato quo ante. razão pela qual a ocorrência do fato.

RT 818/199). porquanto estampado na lei. pois. ao sossego e à saúde dos que o habitam. RT 830/259). que perturba os vizinhos. . 2. do CC)..3 Natureza do dever jurídico violado 23 Nos serviços prestados por profissionais liberais firma-se um contrato. por abuso de direito. b) o dano daí decorrente. art.3 Responsabilidade civil extracontratual Determinado estabelecimento comercial passa a promover música eletrônica e o som estridente escapa do local.2004. Rodrigues de Carvalho. Dir.” Há o inadimplemento de um dever jurídico legal. Ap. Comete ato ilícito. perturbando os moradores vicinais com decibéis acima da regulamentação permitida. rel. 187. c) o nexo de causa e efeito entre uma e outra. j. Dessa forma. São seus pressupostos: a) a conduta que descumpre um dever legal (ato ilícito extracontratual).277. j. Da inobservância do dever legal.2003. do CC). Des. enseja a indenização por dano material.. 5ª Câm. realizada por profissional imperito. 593 e segtes. Tocar música em estabelecimento comercial é exercício de direito. 836061-0/7. rel. 653 e segtes. Emenda Oficial: o desassossego e o desconforto causados pelas turbações acústicas são capazes de gerar prejuízos ensejadores de danos morais (2º TACivSP.08. Direito de vizinhança – Poluição sonora – Dano moral – Indenização – Verba devida em razão do desassossego e desconforto causados pelas turbações acústicas. bem como o novo tratamento protético que foi realizado por outro dentista especializado (TJSP. arts. do Código Civil. ainda que seja verbal (contrato de prestação de serviço. os valores despendidos no serviço inadequado devem ser reembolsados. ato ilícito. porém o som excessivo. 11ª Câm.19 A incorreção de tratamento odontológico. como previsto no art. Conclui-se. 1. uma vez que remonta a Lex Aquilia deDamno. do mesmo diploma: “O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança. 05. É o enunciado do art. É também chamada de aquiliana. é abuso desse mesmo direito. Juiz Egidio Giacoia. derivado da vontade do Estado. Privado.23 2. em 23. Se com advogado é o contrato de mandato (CC. provocadas pela utilização de propriedade vizinha. que a responsabilidade civil extracontratual procede da ofensa à norma jurídica reguladora da vida das pessoas em sociedade. abrolha a obrigação indenizatória.06.

voluntariamente. dimana do próprio inadimplemento. por exemplo. 275: “Na responsabilidade civil contratual [. Sergio. p. existe. 8 ed. Na lição de José de Aguiar Dias. está in re ipsa. ora do delito (vel ex contractu nascitur vel ex delicto). a conduta qualifica-se pelo descumprimento de um dever jurídico precedente. Programa de responsabilidade civil. A responsabilidade extracontratual. importa violação de um dever estabelecido pela lei. Rio de Janeiro: Forense. Enquanto que na responsabilidade civil extracontratual. Em ambas sempre existe um dever jurídico preexistente. além da obrigação contratual. que a responsabilidade extracontratual se configure na ausência de obrigação anterior. cumprir a palavra empenhada. pois a declaração da vontade e a lei vinculam à observância.” . 34: “O fato de não existir contrato entre a vítima e o responsável não estabelece. como aquele ponto de vista faz crer. o que as distingue é a natureza do dever jurídico transgredido. a obrigação de não violar a norma jurídica e. tomando a roupagem contratual ou extracontratual. ou na ordem jurídica. O dever jurídico é negativo o de não prejudicar (neminem laedere). São eles que criam... José Aguiar.20 Decorrente do exposto. afinal. Os adeptos da teoria monista ou unitária não aceitam a distinção. todavia forçoso reconhecer que se distinguem especialmente quanto às exigências probatórias. Na contratual o dever jurídico dimana da vontade das partes – negocio jurídico bilateral ou unilateral – a declaração de vontade é fonte de direito. Na extracontratual o dever jurídico decorre da vontade do Estado – a lei – imperativo geral e abstrato relativo à conduta humana dirigido a todos indistintamente. embasada na dicotomia que separa as duas espécies de responsabilidade civil. O dever jurídico é positivo.24 Essa é a teoria dualista eleita pelo Código Civil. para si. quanto ao fato gerador a responsabilidade civil ora nasce do contrato. 4 ed.” CAVALIERI FILHO. E aqui sobeja importância. certos deveres jurídicos. Cláusula de não-indenizar: chamada cláusula de irresponsabilidade. a obrigação ampla de não lesar. porque. neminem laedere. como. a culpa deve ser provada por aquele que assimilou o 24 DIAS. o dever geral de não causar dano a ninguém. o seu inadimplemento impõe a responsabilidade. por sua vez. Para eles as duas espécies conduzem para os mesmos efeitos jurídicos e requerem os mesmos pressupostos a começar pela conduta lesiva timbrada pelo ato ilícito: contratual ou extracontratual.] o dever jurídico violado pelo devedor tem por fonte a própria vontade dos indivíduos. No mesmo sentido apregoa Sergio Cavalieri Filho dentre outros. Na responsabilidade civil contratual. p. provada a ofensa à norma e o dano evidencia-se a responsabilidade. em uma ou em outra. a culpa da parte contratante que não cumpre o negócio jurídico celebrado é presumida. quando não se queira descer a especificações. São Paulo: Atlas. De efeito. 1980. a responsabilidade civil contratual e a extracontratual confundam-se ontologicamente e nos efeitos.

é a denominada mora ex re. Outras diferenças contingenciais podem ser articuladas. 398. como no caso de prefixação das perdas e danos que pode ocorrer apenas na responsabilidade civil contratual (cláusula penal compensatória). aqueles deveres secundários à prestação. porquanto deixa de proceder conforme as normas de assepsia. relata o art. A sua conduta descumpre o dever de parada obrigatória. Esta é a regra geral. portanto. pois violada a cláusula tácita de proceder no sentido de tomar os cuidados profissionais devidos no desempenho de uma obrigação de fazer. A principal consequência dessa distinção. a lei foi transgredida (extracontratual) e o contrato não foi cumprido (contratual). o que não deixa de ser. conforme será visto no item relativo à presunção de culpa. dá-se no momento em que se inicia a fluência dos juros moratórios. 397. e a mora somente decorre após interpelação extrajudicial ou judicial. 2. por vez ou outra. expressão forjada por Orlando Gomes. assim ainda a eleição do foro para a ação de reparação de dano. um crucial procedimento. Toma-se como exemplo o motorista de ônibus que ocasiona acidente por transpor sinal vermelho.21 dano. Nas obrigações contratuais nem sempre há termo para o adimplemento.5 Tutela externa do crédito Na tutela externa do crédito. a dessemelhança entre ambas situa-se em uma zona cinzenta de difícil equação. que admite exceção. 2. Em tais situações. . na doutrina e na jurisprudência. cuida-se atentar também para a distinção entre as duas espécies de responsabilidade civil. Entendese inadimplido o contrato. exposto na lei de trânsito. causando lesões nos passageiros. daí o paciente adquire uma infecção. a vítima. por vezes. Nessa hipótese há concurso entre as duas espécies de responsabilidade. própria do contrato de prestação de serviço. embora a transgressão à lei pela conduta negligente. Outra distinção é quanto à mora. ou seja. prevalece o entendimento de que a responsabilidade civil é contratual. Nas obrigações provenientes do ato ilícito. a do médico contratado para certa cirurgia.4 Uma distinção nem sempre fácil Não há como negar. mormente nos deveres acessórios de conduta. consoante disposição expressa do parágrafo único do art. Outro exemplo. desde que o praticou. que age negligentemente. do Código Civil. considera-se o devedor em mora. é a chamada mora ex persona.

e os terceiros não podem comportar-se como se ele não existisse. art. garantindo a necessária . Hipótese contrária a Súm. como no caso de cumplicidade na violação do contrato [.1991.] A responsabilidade civil extracontratual (delitual ou quase delitual) pode coexistir com a responsabilidade civil contratual. não pode ter eficácia em relação a terceiros e seu patrimônio.22 Pelo princípio da relatividade dos efeitos jurídicos (res inter alios acta). o contrato passou a ter a prerrogativa de oponibilidade contra terceiros. aqueles que dele não participam. considerando-o também como de interesse da coletividade. portanto por alguém estranho à convenção.. Des. 130 do STJ. honrando o que ela prometera. Mais do que antes. O atual Código Civil.]” (TJPR. forçoso convir.. Hão de respeitar o contrato firmado pelas partes. 2ª parte). rel. se o contrato decorre do acordo de vontade das partes. ninguém se submete a uma relação contratual a não ser que a lei o obrigue ou se a própria pessoa o queira. 2. Por lógico raciocínio. art. de modo que não aproveita e nem prejudica terceiros. RT 680/167). quer impedindo-a de cumpri-lo. No primeiro caso. porque o contrato não foi executado por fato exclusivo de terceiro. pela introdução de outro princípio: o da função social do contrato (CC.6 Jurisprudência Ação ordinária indenizatória. No caso do sistema de vaga certa. vinculando-se ao seu conteúdo. destacado com o fim de ordenar o espaço público. quanto ao terceiro a responsabilidade é extracontratual. em um mesmo fato convivem as duas espécies. de uso comum do povo. o pagamento só confere ao usuário a utilização do local da via pública. o contrato somente produz efeitos jurídicos entre as partes. Ou seja. incidindo a solidariedade.. quando as duas condutas contribuem para o prejuízo da outra parte inocente (CC. j. Eduardo Luz.. 942. Para aquele que é parte a responsabilidade é contratual. quer incitando uma das partes a descumpri-lo. 421). 2ª Câm. aqueles que nele manifestaram a sua vontade. tem-se a responsabilidade civil extracontratual. Logo. 10. deixou de considerar o contrato apenas como instrumento de satisfação de interesses pessoais das partes contratantes. não interferindo de maneira a prejudicá-lo..9. isto é. Estacionamento rotativo de carro em logradouro público. Eis decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná: “[. No segundo caso. o inadimplemento dá-se em razão da cumplicidade de terceiro. dada a importância que ele desempenha para a coletividade. Subtração de veículos.

A indenização a título de dano moral deve ser fixada em termos razoáveis. pode ser cedido para exploração econômica. nem em 25 A hipótese aparta-se dos estacionamentos ofertados por casas comerciais.2005. à vida privada e à intimidade.88. garante a inviolabilidade do direito à imagem.11. sem a sua anuência. Ementa Oficial: Havendo morte de presidiário que se encontra sob a guarda da Administração Pública. não descaracteriza a ofensa ao direito do autor.05. sua imagem não pode ser utilizada. Revista Justitia. in BIANCO. rel. 12ª Câm. realizada no estado da Paraíba durante a “Semana Santa”. fazendo alarde de um leilão de roupa íntima que teria sido usada pelo ator em tradicional peça teatral “Paixão de Cristo”.26 Dano Moral – Indenização – Morte de detento que se encontrava sob a guarda da Administração Pública – Negligência do Estado em zelar pela integridade do presidiário caracterizada – Hipótese em que a verba indenizatória deve ser fixada em termos razoáveis. Sendo um profissional de atividade artística. obrigação deste de indenizar: RT 832/228. consagrado na mídia. 189-192. RT 841/333). Sousa Lima. A regulamentação do poder de polícia nos logradouros públicos. “Os shopping centers que oferecem estacionamentos gratuitos a seus clientes não se isentam de responsabilidade por furto de veículos colocados sob sua guarda. Des. a passagem de Álvaro Antônio: “Minha imagem pertence a todo mundo.23 rotatividade nos grandes centros urbanos. RT 639/60). porque ela representa um homem e é presente de Deus”. vol. conhecido programa dominical de televisão utiliza a imagem de consagrado galã de novelas. 7ª Câm. João Carlos. Na espécie. mas sempre com o consentimento da pessoa. Se. órgão do Ministério Público do Estado de São Paulo. pois é certo que a retribuição pelos serviços está devidamente incluída no preço do custo das mercadorias. 206. O fato de ser dito que o produto obtido seria destinado a instituição de caridade.. shopping center. supermercados. j. mas eu não quero que a profanem. Poética. 9ª Câm. o direito à imagem. Des. j. tanto ao sol quanto ao regato. Des. rel. mas como prestação de serviço que podem ser definidos como de segurança” (TJSP. X. sendo impossível que a reparação venha a constituir-se em enriquecimento indevido. sendo descabido seu pagamento via precatório em virtude da pequena monta. Furto de veículo em estacionamento de supermercado. 26 O direito à imagem. no art. com intuito de angariar maior audiência. . 04. não há contrato de depósito. sendo essa objetiva. 5º. p. j. 02. têm responsabilidade civil pelo furto ou avaria nos veículos. de guarda do bem sob prometida vigilância e proteção. Gamaliel Quinto de Souza. em estacionamento aberto. A CF. que por usufruírem benefícios. A obra fotográfica. RT 836/301).25 É personalíssimo o direito à imagem e à intimidade.. 14. sem obter previamente a indispensável autorização para essa exposição pública. como exceção aos direitos da personalidade.2004. De igual teor: RJTJSP 137/388. Laerson Mauro. como atração para aumentar a perfomance de empresa com a qual não mantém vínculo contratual (TJRJ. não pode acarretar ao ente público a ampliação de sua responsabilidade para responder pela guarda e depósito do bem (TJRJ. contratado de emissora concorrente.06. a responsabilidade em indenizar a família da vítima é do Estado. O relacionamento existente entre o cliente usuários do estacionamento e a administração do shopping não se caracteriza como contrato de depósito típico. rel. respondem concorrentemente o apresentador do programa e a emissora pelo efeito lesivo daí decorrente. 135/150. nem por isso menos jurídica.

28 Para reflexão Em cada jurisprudência transcrita.27 O veículo automotor. Câm. CF. 1. impondo grande risco às pessoas que se encontram nas vias públicas. 37. Demonstração do dano e do nexo causal. 7 ed. Ora. em face da embriaguez. CC.. Des.2006. art. 5ª Câm. Des. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. atingem a cidade: “Evidenciada a força maior em razão de situação excepcional de fortes chuvas que assolaram a cidade. Civ. Municípios e suas autarquias etc. São Paulo: Atlas. ainda antes da metade do século passado. (TJRO. p. Responsabilidade civil. 28 Nélson Hungria assinala. rel.2004. 15. Atenção: a responsabilidade civil do Estado – União.12. rel. cada vez mais sofisticado e veloz. Silva Pinto. Recurso necessário conhecido e desprovido (TJRN. § 6º. j. art. Especial. 12. Sergio. a matar mais que a própria peste branca ou a peste céltica”. 7 ed. Rowilson Teixeira. Danos morais e materiais. j. assumem pelo menos o risco de produzi-lo (TJSP. – é objetiva.94. tão maléfica e nociva quanto a peste que se convencionou chamar de “AIDS”. passa a constituir uma arma perigosa. RT 832/351). 43. São Paulo: RT. Omissão das autoridades do Município. Estados Membros. rel. 218 e seguintes. quando entregue nas mãos de motoristas menos preparados. o acidente de trânsito é responsabilidade civil extracontratual e subjetiva. 3ª Câm. qual a espécie da obrigação inadimplida? E qual conduta do agente causador do dano que implica na sua responsabilidade? Quais os casos de negócio jurídico bilateral e unilateral? Quais são os denominados “consectários comuns da sucumbência e da mora”? A partir de quando os juros da mora são contados na obrigação contratual e no ato ilícito? Em que artigos estão previstos? O que é abuso de direito? Há previsão legal no Código Civil? Se positiva a resposta. que o automóvel se transformara “num verdadeiro flagelo. Inundação em subsolo de hotel. Inexistência de excludentes de responsabilidade.24 valor ínfimo. Ver na doutrina: CAVALIERI FILHO. João Rebouças. As exceções é quando da prestação de serviços. como neste caso. Des. e Castro Veiga faz a seguinte imagem: “surgiu um tipo novo de doença a que se deu o nome de cronopatia. j. 2007. se não querem o resultado lesivo. 2007. afasta-se a responsabilidade civil do Município em reparar os danos causados a munícipe por enchentes se inexistem provas de que a Administração municipal tenha agido com culpa. quanto à aprovação do loteamento em que foi construída a casa atingida pela inundação” (RT 843/240).06. Bueiros e galerias pluviais entupidos.420). RT 852/350). tanto no que ser refere a eventuais entulhos que dificultaram a vazão de águas do rio ou entupiam bocas de lobo. Responsabilidade civil subjetiva.02. p. Fora do contrato de transporte. in Rui Stoco. Programa de responsabilidade civil. 18. Incabível o pagamento da obrigação por precatório quando o seu valor for de pequena monta. . em que artigo? 27 Diferentemente quando fortes chuvas. imprevisíveis e inevitáveis. Criminal.

sobre a morte de detento e a inundação em razão da chuva. Será que essa conduta não está dentro da interferência tolerável? Se cada um tem o direito de ouvir música. portanto. diante da aplicação do princípio da coexistência dos direitos? O que é esse princípio? Como resolver a questão? É personalíssimo o direito à imagem e à intimidade. não se está. Além do contrato escrito. Qual o conceito de um e de outro? Direito personalíssimo é sinonímia de direito da personalidade de que tratam os artigos 11 a 21. os acórdãos referem-se às mesmas espécies de responsabilidade do Estado e do Município? As decisões são consentâneas ou contraditórias? Distinga a responsabilidade civil contratual da extracontratual. . considerando os usos e costumes atuais. Responsabilidade civil quanto ao fundamento: 2. especialmente após o avanço da tecnologia nos aparelhos de reprodução de sons? Qual o conceito jurídico de vizinhança? Pesquise. segundo o princípio do sistema aberto e de acordo com o prudente arbítrio do juiz”? Advogado e dentista que prestam serviços a seus pacientes celebram contrato? Se positiva a resposta. 2. podem existir contratos verbal e tácito? Pesquise.8 Responsabilidade civil subjetiva. deve ser arbitrado de forma moderada. uma responsabilidade civil contratual e outra extracontratual. tomando por exemplos fatos de sua vida. Por que na responsabilidade contratual é mais fácil a prova da responsabilidade do agente causador do dano? Formule.9 Responsabilidade civil objetiva. do Código Civil? Por que o Estado responde pela morte de detento? Por que o Município responde por enchentes. como é direito de cada um fazer cessar as interferências prejudiciais ao sossego. qual a modalidade de obrigação que anima esse contrato? Quais os artigos do CC que prevêem a responsabilidade de cada um? É justo que se recrimine o vizinho por ouvir música em som estridente. todavia. cujo motivo é o entupimento de bueiros e galerias pluviais? Nas duas jurisprudências acima transcritas. valendo-se da sua capacidade inventiva.25 O que significa a expressão: “faz surgir o dever de indenizar que.

. É também denominada teoria clássica ou teoria tradicional da culpa. Na culpa. para adquirir relevância jurídica deve integrar a conduta. 21. Trata-se de responsabilidade civil subjetiva. e atual. Juiz Negreiros Penteado. admitida a incidência da correção monetária (1º TACivSP. 30 Atualmente com o avanço da mecânica que proporciona a substituição de peças. o qual implica na ideia de conduta culposa. abrangendo o dolo (pleno conhecimento do mal e direta intenção de o praticar) e a culpa (strito sensu). São Paulo: Atlas. pois assim a circunstância o exigia. mas não quer o dano. 449). 7 ed.26 2. não respeita o sinal de transito de parada obrigatória. JTACSP 70/75).31 29 Eis a lição de Washington de Barros Monteiro: “Teoria da responsabilidade civil subjetiva – Esta é a teoria clássica e tradicional da culpa. ver. pode ser considerada em sentido restrito. violação de um dever que o agente podia conhecer e acatar. pela impossibilidade de sua recuperação total. invade a pista preferencial e ocasiona acidente com dano a outrem. por Carlos Alberto Dabus Maluf e Regina Beatriz Tavares da Silva. Sergio. rel.10. ou em sentido amplo que açambarca o dolo.8 Responsabilidade civil subjetiva Um motorista transita pela via tributária. sem deixar vestígio da colisão. quer tanto a conduta como o dano. Exceto nos casos em que a evidência da colisão fica marcante no veículo. Programa de responsabilidade civil. essa espécie de responsabilidade civil inspira-se no ato ilícito. o agente causador do dano quer a conduta.” (Curso de direito civil: direito das obrigações. A culpa. Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Inobservância da placa de “Pare”. mas que descumpre por negligência. também chamada de teoria da responsabilidade civil subjetiva. volume 5º: 2ª parte. que conforta a sua justificativa na conduta culposa. isto porque a culpa considerada isoladamente tem relevância apenas conceitual. 31 CAVALIERI FILHO. por sua vez. 23. São Paulo: Saraiva. 8ª Câm. que se opõe ao dolo. deve ressarcir as perdas e danos decorrentes. imprudência ou imperícia. 34 ed. age com imprudência e o efeito jurídico é contrário à sua vontade. Estudo mais pormenorizado de culpa será abordado no pressuposto da conduta. p. no dolo. a vontade dirigida para o evento. . quer também quanto à desvalorização do veículo.30 Reforçando. embora o seu entendimento ético-jurídico fosse no sentido de portar-se com cuidado objetivo. avançando por cruzamento de via preferencial – Indenizatória procedente. imprudência ou imperícia. Entretanto. 2003.1980. o motorista labora com culpa ao contravir o sinal regulamentar de trânsito. que pressupõe sempre a existência de culpa (lato sensu). p. não mais se admite a desvalorização do veículo. j. quando se manifesta pela negligência.29 No exemplo. parando o veículo ante a advertência de normatização do tráfego e neste sentido devesse ser a sua determinação volitiva. 2007.

A pessoa é culpada quando poderia e deveria ter agido em consonância com a prescrição da lei. a partir dele é que se justifica a atuação normativa. Responde à indagação sobre a razão pela qual é atribuído a alguém o dever indenizatório. a culpabilidade. fica obrigado a reparálo. do que pode ser imputado ao agente causador do dano a título de dolo ou culpa. Só pode ser atribuída à pessoa capaz por ter discernimento e vontade. como já assinalado. Compõe o aspecto objetivo da ilicitude. a responsabilidade civil subjetiva esteia-se no art. comete ato ilícito.” São seus pressupostos: a) uma conduta culposa ou dolosa (culpa lato senso). no fato de ser fonte das obrigações.” Ato ilícito de que trata este artigo é todo ato contrário as normas de Direito Público ou de Direito Privado. é todo prejuízo sofrido por uma pessoa. A imputabilidade é a atribuição da conduta danosa a determinada pessoa capaz. 186 e 187). A importância do ato ilícito reside. por ato ilícito (arts. patrimonial. em qualquer bem ou interesse juridicamente tutelado. A antijuridicidade é toda ação ou omissão humana adversa ao ordenamento jurídico. 186: “Aquele que. isto é. negligência ou imprudência. causar dano a outrem. Já a culpabilidade é o estado do culpável. que ofende direitos alheios. moral ou estético. Sem dano não há responsabilidade. ainda que exclusivamente moral. pois. É o elemento unificador da responsabilidade civil. mas não o faz. independentemente de qualquer juízo de censura. o dano e a imputabilidade. Na Parte Especial do Código Civil. violar direito e causar dano a outrem. Ordenamento jurídico que é constituído por comandos dirigidos às pessoas para que ajam de determinados modos. O dano. Compõe o aspecto subjetivo da ilicitude. por ação ou omissão voluntária. Há uma contrariedade entre a conduta humana e a norma jurídica. a responsabilidade civil subjetiva está prevista no artigo 927: “Aquele que.27 Na Parte Geral do Código Civil. ou se abstenham de certas ações. sendo que seus elementos estruturais a antijuridicidade. b) o dano daí decorrente. pois o incapaz é inimputável. dando ao advento uma relação jurídica cujo objetivo é o ressarcimento do dano. . o agente há de ter liberdade para determinar-se.

10. 2ª Câm.03. Inteligência dos arts. j. in RJ 317/139). o fato da coisa animada ou inanimada (CC 16. 2ª Câm. entre outros poucos. o que o patrão oferece ao empregado na ida e volta do trabalho. os direitos de vizinhança (CC 16. art. Civ. do corretor que leva cliente ao imóvel que está a venda etc..681.28 c) o nexo de causa e efeito entre um e outro. Civ. Dano moral 32 A responsabilidade civil nos transportes onerosos de pessoas e mercadorias é contratual e objetiva. art. existente uma terceira categoria. rel. como se verá logo em seguida.2005.2004. Tem legitimidade para cobrar o reembolso do que gastou na reforma do imóvel danificado por culpa do vizinho o locatário que. A violação da honra. 3ª Câm. 554). Indenização – Dano moral – Cheque pós-datado – Apresentação antecipada – Devolução – Inscrição de nome – Cadastro de emitentes de cheques sem fundos (.03. ad exemplum. imputando falsamente a prática de fato definido como crime. implica o dever de reparação por danos morais [. 2ª Câm.). RT 580/162). no acidente de transito a responsabilidade é extracontratual e subjetiva.2004. quando em curso o Código Civil de Bevilaqua. j. Acidente rodoviário. Desa. 734). Veículo de transporte pesado que invade pista em sentido contrário vindo a causar sinistro.1912). o transporte aparentemente gratuito ou interessado. publ. Além do transporte gratuito ou de cortesia e o oneroso. assim entendendo. o incorporou a essa universidade de bens que é seu fundo de comércio (1º TACivSP. havendo ali instalado seu estabelecimento comercial.. Sendo o cheque emitido para pagamento em data posterior. enseja dano moral (TAMG. 1. DAMG 04.03. o contrato de transporte (Lei 2. sua apresentação antecipada. publ. Como regra geral. dando ensejo a sua devolução por insuficiência de fundos e inscrição do emitente no cadastro de emitentes de cheques sem fundos.529). rel. respondendo o transportador pelos danos que causar ao carona em razão de culpa grave na condução do veículo. Juiz Roberto Borges de Oliveira. 20. por exemplo. Juiz Rangel Dinamarco. (TJMA.. de 7. art. . RT 845/327). Cleonice Silva Freire.. DJMG 03. Juiz Alberto Aluízio Pacheco de Andrade. Civ.12. 186 e 927 do CC.83.32 Responsabilidade civil – danos a prédio vizinho – Indenização pleiteada pelo locatário – Possibilidade – Titular de fundo de comércio. No sistema anterior. quando diretamente prevista em lei. Rel. em virtude de envio de mensagem eletrônica.... A exceção é o contrato de transporte (CC. Civil e processual civil. 2. in RJ 317/139).] (TAMG. com raras exceções à teoria objetiva. o centro da responsabilidade civil era a culpa.10 Jurisprudência Indenização – Dano moral – Envio de mensagem eletrônica – Calúnia. A responsabilidade civil no transporte puramente gratuito é aquiliana e não contratual. rel.527 a 1. 24.

j. Responsabilidade civil – Indenização – Transporte rodoviário de passageiros – Extravio de bagagem – Passageira que não indicou o que levava em sua mala – Irrelevância – Transportador que assume responsabilidade de resultado atinente à chegada ao destino contratado não só do passageiro. Por isso. Ementa da Redação: Tratando-se de extravio de bagagem em transporte ferroviário... não fazendo por isso prova absoluta. é devida indenização à passageira.11. Des. RT 858/328). mas também dos seus pertences ao destino contratado (1º TACivSP. por conter uma obrigação de resultado. de pronto. a empresa transportadora responde pelo prejuízo causado ao passageiro sem indagação do pressuposto subjetivo da culpa. vez que o policial registra o fato de acordo com o que lhe é narrado. na qual o devedor somente cumpre a prestação se alcançar o fim colimado pelo credor. que não cogita da conduta culposa ou dolosa do agente causador do dano. Civ. 10. é também chamada de obrigação de fim. impõese o dever de indenizar. III – Recurso não provido (TJMA. Ausência. uma vez que em contrato de transporte. Estampa o art. Antônio Guerreiro Júnior. Por isso. 17. I – Demonstrada a culpa do motorista que. mas também de seus pertences – Verba devida. a obrigação de indenizar. Boletim de ocorrência. 2ª Câm. A responsabilidade civil objetiva. Cabimento. 2ª Câm. j.10. ainda que não indicado o que levava em sua mala. do Código Civil: “O transportador responde pelos danos causados às pessoas transportadas e suas . assume o transportador a responsabilidade de resultado atinente à chegada não só do passageiro. no caso em testilha.29 e material.2004. RT 835/250). rel. se inadimplida. 734. 2. Presunção juris tantum. II – O boletim de ocorrência não goza de presunção juris tantum dos fatos articulados. é prevista na lei.2006. Trata-se da responsabilidade civil objetiva. Estabelecida esta causalidade abrolha.11 Responsabilidade civil objetiva Outro caso de responsabilidade civil quanto ao fundamento pode ser reproduzido no contrato de transporte. rel. Celebra uma obrigação de fazer. basta a relação de causa e efeito entre o dano experimentado pela vítima e a ação ou omissão do agente. Alguém adquire passagem de uma cidade para outra com determinada empresa. Juiz Borelli Thomaz. Nessa espécie de contrato vige a denominada cláusula de incolumidade. causou grave acidente de trânsito. ao invadir a pista de rolamento em sentido contrário. é também denominada responsabilidade civil sem culpa.

a solução a ser dada pelo juiz é aquela adrede prevista na norma. Não se investiga nem sequer a antijuridicidade do fato danoso.”33 É o que dispõe a primeira parte do art. das preferências e privilégios creditórios. Rio de Janeiro: Forense. Carlos Alberto Menezes e outro. elegendo uma previsão genérica em cláusula geral34.. 146. nos casos previstos em lei [. Responsabilidade civil. A primeira é toda atividade organizada. p.]”. difere do ato avulso. pelo acidente com o passageiro. também o ato lícito pode ensejar a responsabilização do agente que ao praticá-lo ocasione dano... permitindo ao juiz preenchê-las com valores a serem encontrados no julgamento de cada caso concreto. As cláusulas gerais. Comentários ao novo Código Civil. não 33 Súmula 187 – STF: A responsabilidade contratual do transportador. . i. Desde há tempos. 2004. 927: “[. p.35 E modernamente. Distinguem-se. Outra faceta dessa espécie de responsabilidade civil está prevista na parte final do citado parágrafo único do art. se ocorreu o evento e se dele emanou o dano. não eventual ou casual. protegendo de forma mais ampla a vítima inocente de dano. Não precisa ser uma atividade empresarial. parágrafo único: “Haverá obrigação de reparar o dano. A norma não prevê a conseqüência. não. manifestando franca tendência pela doutrina objetiva. independentemente de culpa. Dá mobilidade ao sistema do CC. 24 e 29. 141 e seguintes). porque neste a norma já prevê a conseqüência.” É a grande novidade do Código Civil de Reale. não praticado com assiduidade. São Paulo: RT. assim por meio de uma profissão ou mesmo de uma associação que. não é elidida por culpa de terceiro. Rio de Janeiro: Forense. reclamavam contra a ausência de disposição genérica a permitir a sua afirmação no Direito pátrio. 34 Cláusulas gerais e os conceitos legais indeterminados apresentam conceitos cujos vocábulos empregados pelo legislador têm densidade semântica intencionalmente vagas e abertas.] ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar.30 bagagens. Nelson e Rosa. Carlos Alberto Menezes Direito e Sérgio Cavalieri Filho prestam merecida homenagem: “de uma coisa não se tem dúvida: aqui foi adotada a teoria do risco criado cujo maior defensor é o mestre Caio Mário”. 927. dando ao juiz a oportunidade de criar solução (vide Nery. A exclusão da culpa traz maior abrangência à responsabilidade civil. definir atividade normalmente desenvolvida e risco. Equivale afirmar. sim. CC anotado e legislação extravagante. pp. sendo nula qualquer cláusula excludente de responsabilidade. considera-se. acrescendo que juristas e tribunais. 35 PEREIRA. deixando-o vivo e atualizado. é. salvo motivo de força maior. volume XIII: da responsabilidade civil. mas que seja habitualmente exercida. 2 ed. 36 DIREITO. porém a vítima.. como se sabe. Abrange todo um domínio de casos. 1991. por sua natureza. as cláusulas gerais e os conceitos legais indeterminados. risco para os direitos de outrem. Caio Mário da Silva Pereira pontificava que o Direito moderno já não visava o autor do ato. contra a qual cabe ação regressiva. 2003. Caio Mário da Silva.36 Duas questões são apresentadas.

art. Rio de Janeiro: Renovar. não apresentar risco. que risco é perigo. Rio de Janeiro: Renovar.” 39 TEPEDINO. adota o termo perigo. vol.050. que significa a potencialidade da atividade normalmente desenvolvida produzir dano a outrem. 2. o art. já é um risco. É o fator quantitativo. embora as estatísticas demonstrem ser mais seguro dar a volta ao mundo voando do que fazer uma longa viagem de automóvel. do Código Civil italiano38. aparentemente. 871: “Uma atividade é uma série contínua e coordenada de atos e não se confunde com um ato único ou com atos isolados. sem o caráter da habitualidade. b) a gravidade de tais danos. são atividades que a experiência tem demonstrado proporcionar elevado número de acidente. Risco. 2008. solidariedade e responsabilidade objetiva. Pioneiramente. por si só. Para exemplificar toma-se o digitador. é obrigado a repará-los. As pessoas confiam muito mais no transporte rodoviário do que no aéreo. pois considera o ponto de vista estatístico. que sempre se revela provável. No senso comum notam-se dissonâncias cognitivas que geram impropriedades. mesmo sendo essa atividade lícita e de utilidade social. 2. cf. Gustavo e outros. 809 e MORAES. que permanecem sob o âmbito de incidência da culpa. Proveitoso para assim demonstrar é o transporte. apesar de a atividade. Na parafernália do mundo moderno. O que não se mostra razoável é deixar o conceito de risco ao arbítrio do senso comum. obra coletiva coordenada por Gustavo Tepedino e Luiz Edson Fachin. obra coletiva coordenada por Gustavo Tepedino e Luiz Edson Fachin. que contém norma análoga. ficará obrigado à indenizar se não provar ter adotado todas as medidas idôneas para evitar o prejuízo. DORT: Distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho). viver. A doutrina italiana elege dois critérios para definir atividade perigosa: a) a quantidade de danos habitualmente causados pela atividade em questão. cabe indagar o que não causa risco? Em Grande Sertão Veredas. II. Podese dizer. perigosa por sua própria natureza ou pela natureza dos meios utilizados.” Norma idêntica é a do art. cf. p. Traduz-se na circunstância concreta que prenuncia a ocorrência de dano. solidariedade e responsabilidade objetiva. do CC português: “Quem causar danos a outrem no exercício de actividade. é grande a ocorrência de dano físico. Código Civil interpretado conforme a Constituição da República.39 37 MORAES.050: “Aquele que ocasionar prejuízo a outrem no exercício de uma atividade perigosa pela sua natureza ou pela natureza dos meios adotados. contudo. o que é agravado pela constante imprudência dos motoristas. excepto se mostrar que empregou todas as providências exigidas pelas circunstâncias com o fim de os previnir. p. De destacado valor é o primeiro critério. Qualquer atividade isolada. in O direito e o tempo: embates jurídicos e utopias contemporâneas – Estudos em homenagem ao Professor Ricardo Pereira Lima. registra Guimarães Rosa. Maria Celina Bodin de. mormente nas estradas brasileiras que não se coadunam com as normas de segurança. a chamada LER/DORT. Risco.” 38 CC da Itália. Rio de Janeiro: Renovar. in concreto. ou seja. pois não se chegará a critério aceitável. inerente aos movimentos repetitivos (LER: lesão por esforços repetitivos. Maria Celina Bodin de. 493º.31 tem finalidade lucrativa. 2006. permanece sob o manto da incidência da culpa. O direito e o tempo: embates jurídicos e utopias contemporâneas – Estudos em homenagem ao Professor Ricardo Pereira Lima. .37 A segunda é o risco.

Ambos. porquanto ocorrendo. ao emprego de raios-x. armas de fogo. ante a caracterização do risco nele previsto. 927. também importante porque técnico. mediante seguro conhecimento dos conceitos aplicados à realidade decorrente. 2. explosivos. porém não deixa de servir de parâmetro no sentido de que o risco precisa ser diferenciado. a corrida automobilística etc.40 Embora improvável. a prudente tarefa de selecionar os casos de incidência da teoria do risco. àquelas ligadas a gás. o magistrado deve consider também a legislação e a jurisprudência trabalhista e previdenciária. do art. De grande valia a jurisprudência que está sendo construída. pois nesse âmbito o direito tem trabalhado afanosamente determinadas atividades como sendo perigosas para efeitos da concessão do respectivo adicional. A 40 Revista Veja. como exemplo. . os Juízes Federais concluíram pelo Enunciado 38 que a responsabilidade fundada no risco da atividade "configura-se quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano causar a pessoa determinada um ônus maior do que aos demais membros da coletividade. com mais ênfase à energia nuclear. Enfim. saliente. raros são os sobreviventes. Ademais. do Código Civil. inclusive algumas atividades desportivas como a luta de boxe. de regra. 873. o desastre aéreo é assaz danoso. o fator quantitativo e o fator gravidade. material radioativo. Vale. certas construções edilícias. à distribuição de combustíveis. o mesmo transporte aéreo. de 8 de julho de 2009. Atividades costumeiramente apontadas como de risco relacionam-se ao fornecimento de energia elétrica. Embora não vinculado.12 Teorias sobre as atividades de risco 2008.120. como controle de recursos hídricos. à mineração. ou pelo emprego de método de alto potencial lesivo.32 Outro critério é o que considera o fator gravidade. p. Na I Jornada de Direito Civil.” O enunciado não é muito esclarecedor. É uma figura em construção. essas atividades serão desvendadas na análise cada vez mais constante dos casos concretos. edição 2. não é qualquer risco. por repetir o preceito legal sem outro esclarecimento mais amplo. a recomendação do direito comparado é no sentido de que ao juiz cabe identificar o risco da atividade mediante análise tópica e na realidade local. à fabricação de medicamentos. cuja probabilidade de acidente é inferior a um em um milhão. É que cabe aos juízes. prestam-se à responsabilidade objetiva do parágrafo único. como soe acontecer com as cláusulas gerais e os conceitos legais indeterminados. entrevista páginas amarelas. veneno.

o que é proveito? É proveito econômico. É a previsão do art. Aplica-se o princípio constitucional da solidariedade social. Pela desigualdade econômica. Para explicar a teoria do risco criado ninguém melhor que o seu paladino Caio Mário da Silva Pereira que a resume na seguinte fórmula: “todo prejuízo deve ser atribuído ao seu autor e reparado por quem o causou”. sem qualquer indagação ao pressuposto subjetivo da culpa. indistintamente. § 6º. conduz a mais perfeita justiça distributiva. ou qualquer outro? A duas. da Constituição Federal. quer pelo seu estado de exaustão. que por partilhar encargos. sobreleva a dificuldade do empregado em produzir prova mormente nos casos de acidentes em razão das suas próprias condições físicas. A teoria do risco proveito imputa a responsabilidade a quem tira vantagem da atividade danosa. coadunando com a Ética.] o conceito de risco que melhor se adapta às condições de vida social é o que se fixa no fato de que. é justo e equânime. O Estado responde pelo risco criado e inerente à sua atividade administrativa. 43. e completa: [. Se a atuação do ente ou agente do Estado é para o bem de todos. Repartem-se os ônus e encargos sociais resultantes da atuação estatal na perseguição do interesse da coletividade. Desenvolvida especialmente para os casos de acidentes do trabalho ou por ocasião dele. com fundamento no princípio de que onde está o ganho. A vítima teria que provar a obtenção de proveito por parte do agente do ato danoso. A teoria do risco administrativo foi concebida para respaldo da responsabilidade civil do Estado. responde pelos eventos danosos que esta atividade gera para os indivíduos. aí está o encargo (ubi emolumentum. Também restringir a incidência da teoria do risco.. 37. retorna ao angustiante problema do ônus da prova. ibi onus). cuja redação é deficiente por não se referir às pessoas de direito privado prestadoras de serviços públicos. que o Código Civil repete no art. se alguém põe em funcionamento uma qualquer atividade. Essa teoria afasta grande número de acidentes do trabalho.. quer pela atividade repetitiva que se torna monótona. O dano só seria reparado por aquele que colhesse algum proveito do fato lesivo. que o dano sofrido. independentemente de determinar se em cada . A uma. seja distribuído a todos.33 A construção das atividades de risco encontra suporte nas várias teorias elaboradas ao longo de tempo. A teoria do risco profissional enfatiza que o dever de indenizar cabe somente quando o fato lesivo decorre da atividade ou profissão da vítima. lucro. por um ou alguns. Abrolham dificuldades. Acanha a incidência da teoria do risco. O risco e a solidariedade social são os suportes dessa teoria.

Ao invés de a responsabilidade assentar numa relação causal entre a culpa e o dano. simplifica-se nesta outra. alguns autores usam a expressão responsabilidade automática. Os autores modernos. Não poucos são os defensores do 41 PEREIRA. Acórdão proferido pelo 6ª Câmara. nem que tenha revertido em proveito de qualquer espécie ao agente do dano. como os danos nas atividades nucleares. vol. Droit civil. desvestida das restrições de ordem técnica. que a doutrina do risco apresenta uma feição extremada. assentado que o dever de reparação funda-se num fato. afastadas todas as causas de irresponsabilidade. n. a doutrina do risco. Justifica-se o dever de indenizar mesmo em certos eventos em que não é possível estabelecer o nexo de causalidade. Responsabilidade civil. como Jean Carbonnier.41 A obrigação de reparar o dano surge da atividade normalmente exercida pelo agente. o caso fortuito ou força maior. Posição extremada que o ordenamento jurídico reserva tão-só para casos excepcionais. o que seria caso do risco proveito. e assim se configura a teoria do risco criado.34 caso. Fica. isoladamente. IV. atividade esta que cria risco diferenciado a interesses ou direitos de outrem. entre o fato e o dano (entre le fait et le dommage). nesta forma: ‘todo prejuízo deve ser atribuído ao seu autor e reparado por quem o causou’. de causalidade. 292). Fica. Destaca-se de seu corpo: Com a propriedade de sempre. n. porque todo aquele que exerce uma atividade deve-lhe assumir os riscos’ (Jean Carbonnier. 1991. pp. La Règle Morale. 24 e 288. pois. Rio de Janeiro: Forense. Obligations. 115). 86. ‘Todo fato do homem obriga aquele que causou um prejuízo a outrem a repará-lo’ (Georges Ripert. II. à negligência. A obrigação de indenizar faz-se presente apenas em face do dano. 2 ed. Marty et Raynaud (Droit civil. p. Há de se considerar também. julgado em 17 de fevereiro de 2004. o que seria o caso do risco profissional. o dano é devido à imprudência. Caio Mário da Silva Pereira esclarece: “Resume. Não sem razão. . assentada no ‘risco criado’. Não se cogita nessa teoria. pela relatoria do então Juiz Marciano da Fonseca. se a atividade se organize de forma empresarial. bem define o risco criado. mesmo o fato exclusivo da vítima ou de terceiro. t. vol. explicam: a responsabilidade objetiva ‘não importa em nenhum julgamento de valor sobre os atos do responsável. Caio Mário da Silva. do extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo. é a teoria do risco integral. Basta que o dano se relacione materialmente com esses atos. Do mesmo modo não interessa a profissão exercida pela vítima. a um erro de conduta. então. I) colocam a questão em termos de causalidade material: ‘responsável é aquele que materialmente causou o dano’ (in RT 826/234-235). assim. portanto. O problema será.

p. isto é. SILVA. Direito ambiental: doutrina e jurisprudência – glosário. p. 43) etc. 2004. b) quando a sua fonte é a natureza da atividade habitualmente desenvolvida. Edis. 2. revista do Ministério Público do Estado de São Paulo.35 risco integral nas atividades relativas ao dano no meio ambiente. Responsabilidade civil por dano ecológico e a ação civil pública. Se os dois motoristas envolvidos em um acidente respondessem objetivamente. art. em apertada síntese a responsabilidade civil objetiva contempla duas situações bem distintas: a) quando tem sua fonte diretamente na lei. essa triste e violenta realidade enseja responsabilidade civil. 4 ed. 764.14 Confronto de situações de risco São desastrosas as estatísticas de acidentes de trânsito. art. b) o dano daí decorrente. Extrai-se daí que os seus pressupostos são: a) a conduta prevista em lei ou que desenvolve habitualmente uma atividade de risco. ambos seriam condenados à indenização. São Paulo: RT. arts. 3 ed. a solução que resta é a da responsabilidade civil subjetiva. 313. Dirigir automotor é situação de risco. .. José Afonso da. conforme as peculiaridades do caso em julgamento. Até porque sob a ótica jurídica outra solução seria inexeqüível no sistema atual da responsabilidade civil. A par da premente necessidade de melhor capacitação dos motoristas. São Paulo: Malheiros. Nos acidentes envolvendo dois veículos. 172. 12 e 14).42 Ver RT 625/251 e 623/31 Ver responsabilidade civil objetiva pura. MILARÉ. Nelson. In Justitia. Direito ambiental constitucional. p. 126. que coloca em risco os membros da sociedade. incontestavelmente. situações em que as duas posições causam risco para os direitos de outrem..13 Fontes objetivas Pois bem. a responsabilidade do Estado e das pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços públicos (CF. maior rigor na fiscalização do trânsito e efetiva melhora nas condições das vias públicas. as relações de consumo (CDC. É frequente encontrar na jurisprudência referência a uma e a outra dessas teorias. Pergunta-se: como seria atribuído o dever 42 NERY JÚNIOR. c) o nexo de causa e efeito entre uma e outro. 2002. 2. a exemplo dos artigos 936 a 940. CC. apurando qual dos motoristas laborou eficazmente para a eclosão do fato lesivo com a sua conduta culposa. § 6º. 37. vol.

consideradas lícitas porquanto proveitosas à vida social. que a responsabilidade objetiva veio para complementar a responsabilidade subjetiva. Inaugura-se um novo pensamento político. Trata-se menos do declínio da primeira e mais o surgimento de outro mecanismo para atender novas demandas sociais. De um lado. Mas também não há como contestar. Na verdade. ambas firmam um espaço próprio de coexistência funcional. por não distinguir entre o lícito e o ilícito. facilitando a todos indistintamente. pela qual se repartam equitativamente os riscos inerentes à sociedade. É a socialização ou humanização do Direito. com a previsão ampla da objetivação está encerrada a fase do individualismo inerente à culpa. 2. porque somente dessa maneira todos os casos de dano poderão ser indenizados. o lícito seria equipado ao ilícito. Sendo assim. a sua abolição total daria em um resultado anti-social e amoral. Decorrente. a sempre falada justiça distributiva. nem entre a boa e a má conduta. diante de uma atividade habitual de risco? Não seria justo. Se a meta ideal é sempre reintegrar no estado anterior o patrimônio alterado pelo evento danoso. . a fim de atender aquelas demandas em que a exigência da culpa provada representa pesado ônus para quem é lesado na sua pessoa ou no seu patrimônio.36 de cada um indenizar o outro? Se um dirigisse conforme as normas de trânsito e o outro na sua contrariedade ambos responderiam. a Equidade recomenda a teoria do risco. tal como na responsabilidade do ente e dos agentes do Estado os riscos devem ser partilhados entre todos. As atividades de risco são conquistas da tecnologia. insuscetível de abarcar toda a construção da responsabilidade civil. Uma não suplanta e nem derroga a outra. somente se atinge a sã justiça reparadora se a responsabilidade subjetiva for complementada pela responsabilidade objetiva. social e jurídico. Não se contesta. a Moral mantém a teoria da culpa. que ela se revela. igualmente. para que se não atribua ônus apenas à vítima inocente de dano. pois estariam.15 Um sentido de complementaridade Observa-se que a responsabilidade subjetiva convive harmoniosamente com a objetiva. do outro lado. de sorte a todos beneficiam. a culpa subjetiva é noção útil e dela não se pode prescindir. sem que uma afaste a outra. não mais o seu autor. a pouco e pouco. É de justiça social. destarte. cuja preocupação maior é a vítima inocente de dano.

que adota o valor constitucional da solidariedade. clamando verdadeira revolução de comportamento. cabendo a ela o direito de regresso – Proteção à vítima e risco da atividade – Omissão da vigilância que é exercida (. estabelece o dano animal como responsabilidade civil objetiva. 1ª Câm.12. lembrado o Evangelho de Mateus: “Tudo o que quereis que os homens vos façam.44 A casa de shows deve zelar pela segurança do público que recebe.43 Responsabilidade civil – Indenização por dano patrimonial – Abrupta sobrecarga de energia elétrica. 2.j. que. aliadas a subjetiva e a objetiva. RT 836/201). consciente. 936 ao prever como causas de irresponsabilidade a culpa da vítima ou a força maior..12). sendo objetiva a sua responsabilidade. fazei-o vós a eles” (6.09. o dever de indenizar dependerá apenas da prova do nexo de causalidade entre ao evento e o dano causado à parte. O vetusto preceito romano neminem laedere torna-se mais renovado do que antes. § 6º. pois fala da responsabilidade objetiva do Estado e das pessoas jurídicas prestadoras de serviço público. probo.. nos termos do Código de Defesa do Consumidor.. Recurso de ofício e apelo da ré improvidos (TJSP. da CF. 44 O acórdão no seu corpo refere-se ao artigo 14 do CDC. s. 1ª Câm.2006. não no artigo 37. evitando a sua queda. j.) (1º TACivSP. rel.. 27ª Câm. 07. a expansão da responsabilidade civil. Juiz Reinaldo Miluzzi. RT 860/276).m. como o caso da distribuição de energia elétrica. Juiz Antônio Ribeiro. Em ocorrendo acidente deste tipo. é mais específico para a espécie.. 1º. Luiz Antônio Alves Torrano. que brada por reciprocidade. pois somente resta espaço no meio social para o cidadão diligente. se o consumidor é agredido injustamente por segurança 43 O art. está a exigir de todos e de cada um rigoroso dever de cuidado objetivo na interação que caracteriza a vida em sociedade. Des.2004.2003. seguida de interrupção do forneciamento de energia – Queima de aparelhos elétricos – Defeito na prestação do serviço – Responsabilidade objetiva da concessionária do serviço público – Obrigação de indenizar caracterizada – Recurso não provido (1º TACivSP. RT 824/244).12. hipóteses de interrupção do nexo causal. rel.. 20. . j. Responsabilidade civil – Acidente de veículo – Colisão com animal em estrada privatizada – Procedimento sumário – Validade – Legitimação passiva da empresa que administra a rodovia e recebe pedágio – Responsabilidade do dono do animal que não afasta a possibilidade do usuário de exigir a indenização da empresa. rel. j.16 Jurisprudência Queda de árvore sobre veículo – Responsabilidade civil do Município – Teoria do risco administrativo – Dever de indenizar reconhecido – Cabe à Municipalidade zelar pela manutenção das árvores existentes em área pública.37 Cuida-se concluir.

rel. rel. em sede de responsabilidade civil. 1ª Câm. Juiz Antônio Ribeiro. RT 855/370). Distinga antijuridicidade de culpabilidade.2006. Des.05. cabendo. A terceirização do serviço de segurança não exime a casa de shows de indenizar danos sofridos pelo seu cliente. qual o valor probatório do boletim de ocorrência? Qual a responsabilidade civil no transporte gratuito? E no oneroso? Em que ponto reside a principal diferença da responsabilidade civil quanto ao fundamento? E quanto ao fato gerador? Basta ao motorista.2004. Caracteriza a responsabilidade civil objetiva do banco por dano moral o fato de ter ocorrido roubo de talonários quando estes estavam em poder do estabelecimento bancário. j. 10ª Câm.38 contratado. 07. Pode atribuir ao incapaz conduta antijurídica? E conduta culposa? Para recordar: quando se adquire a capacidade jurídica para a prática dos atos da vida civil? .. ocasionando prejuízo moral a seus clientes que tiveram desequilíbrio em suas contas correntes com a devolução indevida de cheques. direito de regresso contra a empresa contratada (TJMG. respeitar os sinais que regulamentam o trânsito? Ou dever tomar outros cuidados? Nos acidentes de trânsito. 09. Ademais. ainda que não seja funcionário do estabelecimento comercial. uma vez que se trata de atividade de risco. RT 830/245). Procure imaginar exemplos próprios. j.06. bem como com os constrangimentos e ameaças dos portadores de títulos. mormente ser ficou evidenciada a ausência da necessária segurança no transporte de malote (1º TACivSP. lado outro. qual a espécie de responsabilidade civil quanto ao fato gerador? E quanto ao fundamento? Quais as outras denominações da responsabilidade civil subjetiva? E da objetiva? Dê um exemplo de cada espécie de responsabilidade civil até aqui estudada. Para reflexão O que é honra subjetiva e objetiva? É possível violar a honra alheia sem que a vítima esteja presente? Dê um exemplo.. Pereira da Silva. pensando na sua experiência de vida. incabível é falar em caso fortuito ou força maior para afastar a responsabilidade. Qual a consequência da apresentação de cheque pós-datado antes do seu vencimento? Ao credor assiste o direito de cobrar dívida antes de vencido o prazo estipulado no contrato? Em que dispositivo legal pode ser embasada esta questão? Em termos de responsabilidade civil.

O denominado carona assume os riscos da viagem. que agiu culposamente. É a regra geral. ou por ato próprio. da Constituição Federal. RT 845/327). Naquele. garante a gratuidade dos transportes coletivos urbanos aos maiores de sessenta e cinco anos de idade. a conduta lesiva e a obrigação de indenizar confundam-se na mesma pessoa. O motorista.17 Responsabilidade civil direta Na responsabilidade civil direta. Esse exemplo presta-se para outra lição.39 Espécies de responsabilidade civil Responsabilidade civil quanto ao agente: 2.17 direta. De efeito. Inteligência dos arts. 2. autor do dano. e por culpa lesione a outrem ou deteriore o seu patrimônio. ele próprio responde por esse ilícito extracontratual. Um é mediante remuneração. o que não pode ser considerado como transporte gratuito. e não contratual. O art. sem o cuidado objetivo. Se uma pessoa atua na vida social. A responsabilidade civil no transporte puramente gratuito é aquiliana. ou simplesmente o agente responde por ato próprio. como visto.. 3ª Câm. . É dizer. 230. 186 e 927 do CC/2002 (TJMG.10.18 indireta. Desa. rela. outro é ato de liberalidade ou cortesia. o ato danoso é imputado a quem o pratica.2005. j. o seu custo está embutido no valor global da tarifa e repassado aos demais usuários do serviço. Não contempla a equidade o tratamento paritário dessas duas espécies de transporte. responde por ato próprio perante o carona. vítima do dano. respondendo o transportador pelos danos que causar ao carona em razão de culpa grave na condução do veículo. Cleonice Silva Freire. 20. ao passo que neste é extracontratual e subjetiva. § 2º. 2. a responsabilidade é contratual e objetiva. sem qualquer contraprestação. ressalta a distinção entre o transporte oneroso e gratuito. Por motivos óbvios.

. é ela responsável pela indenização ao noivo. O credor que. Ruptura sem motivo justificado.284/610. Rui.. vítima no episódio. expedição de convites e outros preparativos. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. protesta duplicata já paga. responde civilmente pelos danos morais e materiais decorrentes de sua atitude [. 313. Rio de Janeiro: Forense. 2007.02. a sua ruptura desmotivada surte como efeito jurídico a obrigação de indenizar. com aquisição de móveis. subjetiva e direta). referindo-se às JTJLex 180/113. 779/377. como o caso de compra de móveis e outros utensílios larários. utensílios. São Paulo: RT. devidamente comprovados. a conduta da noiva foi a causa do ato lesivo. 902). Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. Rompimento de noivado. Ver neste sentido: Boletim da AASP 2. Caio Mário da Silva. Dever de indenizar o noivo. se a dívida nele representada já havia sido paga. Responsabilidade civil. Houve desfalque no patrimônio dele com a aquisição de móveis e utensílios para guarnecerem o futuro lar. Da mesma maneira. a contratação para realização da festa e outras despesas do gênero. j. no mesmo sentido: RT 741/255. O namoro não é compromisso sério para ensejar dano. 2006. 46 Confira outro julgado RT 567/174. 6ª Câm.2000. Rui. 215/93. São Paulo: RT. 228 e ss. também do corretor que leva o cliente ao imóvel que está à venda. apenas aparentemente gratuito. 03.. Verbia gratia. CAVALIERI FILHO. a ensejar o dano moral (responsabilidade civil extracontratual. 902. Em sentido contrário: Stoco. Casamento já agendado. de 07 a 13. p. de pessoas que trocam condução em dias alternados. 7 ed. Danos morais e materiais. Sergio. pelo rompimento de noivado e desfazimento da cerimônia de casamento já programada. 2009.2002.10. . pois no caso do acórdão. responde o credor que protesta título de crédito.45 Outro exemplo de responsabilidade civil direta é extraído de interessante caso: Indenização. sem qualquer motivo justo (TJSP. Testa Marchi. p.40 Pode-se acrescentar o transporte interessado. 2 ed. p.] 45 PEREIRA. vigendo a cláusula de incolumidade. 1991. no abuso de direito. Prevalece a tese de que o rompimento em si não gera responsabilidade. ainda que indireto. p. in Scoto. para se dirigirem ao trabalho ou outros afazeres. Casos equiparados ao contrato de transporte.46 A promessa de casamento é compromisso preliminar. além da evidente situação de constrangimento. 8 ed. rel. somente gera responsabilidade quando ocorrem danos. Cabe indenização por dano moral e material. quando se dá algum interesse patrimonial ao transporte. com a expedição de convites. Programa de responsabilidade civil. o transporte que o empregador concede ao empregado para conduzi-lo ao trabalho. 7 ed. Des. São Paulo: Atlas. a expedição de convites. tratando-se de responsabilidade civil direta.

j. apesar de o contrato já extinto pela desocupação e entrega do imóvel. 28. conforme as condições familiares.10. 10ª Câm. cabe a estes zelaro e administrar os bens dos filhos. É a responsabilidade civil indireta. dá-se a responsabilidade civil direta sempre que ao próprio causador do dano cumpre a obrigação de compor a indenização.41 (1º TACSP. do Código Civil. ou da coisa inanimada. Responsabilidade do inquilino pelos alugueres durante o tempo necessário para reparar o imóvel. protegêlos e educá-los como preconiza o art. ou do fato animal. RT 827/308). proporcionando-lhes condições favoráveis para a formação do caráter. Juiz Ariovaldo Santini Teodoro.. ou quem desfrute de seu trabalho. I. Outra passagem pode ser colhida no contrato de locação. Em conclusão. do Código Civil. que Serpa Lopes chama de complexa. Juiz Emanuel Oliveira. 29.2004. pois ao mesmo tempo em que os filhos são submetidos à autoridade dos pais. RT 813/268). com liberdade e responsabilidade. 936 a 938. tudo conforme a letra do art. j.2002. Pode-se afirmar com absoluta .18 Responsabilidade civil indireta Há situações em que o agente do dano não responde pela indenização. rel. orientando-os nas regras da moral e dos bons costumes. rel. É contratual porque o dano decorre de um ilícito contratual. da personalidade e do desenvolvimento intelectual.. assim dispondo os arts. como na sua formação. Ementa Oficial: É de responsabilidade do inquilino os alugueres que os autores deixaram de perceber desde o dia seguinte à desocupação do imóvel até o tempo necessário à reparação dos danos (TACSP. do mesmo codex. É muito dessa formação familiar que se forja o cidadão honesto e útil para a convivência social.634. 2. bem ainda pelo fato da coisa animada ou inanimada. uma conduta pautada ainda na vigência da locação. promana de ato de terceiro. 7ª Câm. Em outros termos. inc. Pode acontecer que o agente do dano seja uma pessoa e a obrigação de indenizar recaia sobre quem é o seu responsável por tê-la sob sua autoridade e em sua companhia. 1. é encargo dos pais a condução da criação e da educação dos filhos não só no sustento. Locação – Reparação de danos – Entrega do imóvel sem condições que possibilitem novo contrato locatício.4. modernamente denominada de transindividual. 932. O exercício do poder familiar é um poder-dever.

produz o seguinte textos citando Washington de Barros Monteiro e Sílvio Rodrigues: “Incumbe aos pais velar não só pelo sustento dos filhos. j. objetiva. Rio Janeiro: Freitas Bastos. 2005. 182: “O empregado é apenas o instrumento. São Paulo: Atlas. Agora. p. do art. O empregador é responsável pelos atos lesivos decorrentes da conduta culposa de seus empregados. 2007. o ato do substituto. em regra. 49 CAVALIERI FILHO. Na égide do Código Civil de Bevilaqua. I. a regra inserida no art. de acordo com a sua idade (TJSP. 7 ed. rel. assim a sua responsabilidade deve ser verificada com mais cuidado e prudência. Além disso. uma vez que ao Estado cabe fixar normas para o seu exercício. responsabilizando os pais pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia.48 Sempre foi mais adequada a teoria da substituição. também o moral.49 Não outra a ratio legis do inciso II. volume VI: direito de família. p. XX. Portanto. Ora. Sergio. São Paulo: Saraiva. para que.42 exatidão: o poder familiar é munus publico.66. O encargo envolve. 363. por meio da educação. forme seu espírito e seu caráter. Programa de responsabilidade civil. não tem os meios necessários para indenizar. o empregado é um longa manus do empregador. Des. por lhes caber precipuamente os deveres de disciplina e vigilância. consequentemente. Carlos Roberto. é o ato do próprio substituído.. à família e à sociedade. principalmente do ponto de vista prático. ao recorrer aos serviços do empregado. por lhe ser impossível desincumbir-se pessoalmente delas.” . em 14. 47 GONÇALVES. João Manuel de Carvalho. uma longa manus do patrão. como pela sua formação. Não se pode descurar que tutor e curador têm maior limitação no seu poder de direção. p. RT 389/223). 932. alguém que o substitui no exercício das múltiplas funções empresariais. 12 ed. faz o que competia a este fazer. 227.11. 932: o empregador é responsável por seus empregados no exercício do trabalho que lhe competir durante a jornada de trabalho. Carvalho Santos condicionava a responsabilização na prova da culpa in eligendo e in vigilando do patrão: a má escolha do empregado ou a falta de vigilância quando no desempenho do contrato de trabalho.” 48 SANTOS. a fim de torná-los úteis a si. sendo de seu interesse o bom desempenho. além do zelo material. durante e em razão da jornada de trabalho. 47 Bem posta. Código civil brasileiro interpretado. o patrão ou preponente assume a posição de garante da indenização perante o terceiro lesado. no exercício de suas funções. Não difere aqui a razão ontológica: incapacidade do ofensor conjugada ao respectivo dever de vigilância. porém. O tutor e o curador são responsáveis pelos danos causados pelos seus pupilos e curatelados. São responsáveis os pais pela reparação dos danos causados pelos filhos menores sob sua guarda. pois. vol. por sua conta e risco. dado que o preposto. para que o filho fisicamente sobreviva. está prolongando a sua própria atividade de tal modo que a culpa do empregado recai objetivamente sobre ele. segundo a qual o empregador. 3ª Câm. Direito civil brasileiro. porque pratica no desempenho da tarefa que a ele interessa e aproveita – pelo que a culpa do preposto é como conseqüência da culpa do comitente. 199º.

a responsabilidade do patrão pelos atos do preposto só pode ser elidida quando o fato danoso por este praticado não guardar relação alguma com sua condição de empregado (1º TACivSP. Essa responsabilidade. j. embora mais atenuada que no contrato de trabalho. ainda. Ver RJTJSP 120/178). Assim.. Cumpre.90. RT 731/243).. É o sentido do enunciado 191. segundo a dicção do citado artigo. porquanto visa assegurar à vítima de dano injusto a efetivação de seu direito ao ressarcimento. rel. atualmente. j. 932.. na forma do art. 2ª Câm. rel.05. o comitente ou preponente é responsável pelos atos do preposto. a responsabilidade civil objetiva indireta do proprietário ou guardião da coisa animada ou inanimada.. Aldo Magalhães. Des. compensará o dano com o melhor de seu campo e de sua vinha”. do Conselho de Estudos Judiciários dos Juízes Federais: “A instituição hospitalar privada responde. 09.43 Aquele que se faz substituir no exercício das múltiplas funções da empresa responde pelos atos dos que exercem a substituição precisamente porque seu pessoal se considera extensão da pessoa ou órgão principal. que é objetiva.] deixar seus animais pastarem no campo de outro. Também. art. A jurisprudência tem reconhecido que o médico que integra o quadro clínico de um hospital e a pessoa física ou jurídica que mantém o estabelecimento de saúde são respectivamente preposto e preponente. na maioria dos casos. O tratamento legal acerca da responsabilidade civil por fato de animal. pelos atos culposos praticados pelos médicos integrantes de seu corpo clínico.” Infere-se que a responsabilidade civil objetiva impura e indireta pelo fato de outrem se funda na ideia de garantia. O dono ou guardião do animal responde pelo dano que este der ensejo.96.05. Assim é porque o dono ou guardião do animal somente se livra da responsabilidade se comprovar a culpa da vítima ou a força maior. do Código Civil. pois entre ambos existe uma situação de subordinação e de dependência. direito que estaria. E as duas excludentes referem-se à responsabilidade objetiva. independentemente de vínculo empregatício (TJSP. 22. encontra os seus primórdios no Livro do Êxodo (225): “se um homem [. Na verdade o Código Civil de 2002 trouxe em . Juiz Barreto de Moura. III. seriamente comprometido se dependesse unicamente da solvabilidade do agente da conduta lesiva. 8ª Câm. do CC. RT 667/107). 936. O fundamento é o mesmo do patrão. não mais apenas prega a presunção de culpa em desfavor do dano ou detentor do animal.

descabe qualquer discussão em torno da culpa e sues efeitos. 2ª Câm. Des. Desde o Código Civil de Bevilaqua. lançam ou deixam cair coisas que possam causar danos à pessoa ou ao patrimônio alheio. a jurisprudência tende a responsabilizar o conjunto. pelo que todos respondem indiscriminadamente. p. que independe de culpa. responsabilizando aqueles que. daí emana o seu dever de cuidado para com essa mesma coisa de sua propriedade (CC. 7 ed. pois o condomínio forma um conjunto indivisível. Pretende a lei dar segurança aos logradouros públicos e particulares. É a vindicação de que cada qual cuide do que lhe pertence e lhe favoreça.2005. 2007. 1. O proprietário ou possuidor de uma coisa inanimada responde pelo dano derivado de seu uso ou utilização. art. com fundamento no dever de segurança afeito ao dono. O proprietário tem a faculdade de usar. a responsabilidade civil com relação à coisa inanimada é objetiva. Por se tratar de responsabilidade objetiva.. Responsabilidade civil pelo fato da coisa – Letreiro de propaganda instalado na fachada de prédio – Queda sobre transeunte – Dever de indenizar do ocupante do prédio. bastando a prova do fato e o dano dele decorrente (TJRJ. 217). j. nos termos do art. mediante conduta censurável. Sendo coisas lançadas ou caídas de prédios em condomínio. Des. in Programa de responsabilidade civil. em que não se pode precisar o apartamento pelo qual o objeto foi lançado. 70022138721. devendo o quantum reparatório amoldar-se harmoniosamente à sua função educativa e compensatória (TJRJ. 938 do CC/2002. Mario Guimarães Neto.228). Tratando-se de queda de vaso em condomínio edilício.. restando afastada apenas quando comprovada culpa da vítima ou força maior (AP. Sergio Cavalieri. Como no caso animal. 29. impende prestigiar a solução que já vinha sob a égide do Código revogado. resta caracterizada a responsabilidade subsidiária do condomínio.44 seu bojo o entendimento de que se trata de responsabilidade objetiva. .. RJTJERS 272/280).11. Civ. rel. A lei aponta o ocupante do prédio como responsável pelo dano proveniente de coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido. gozar e dispor da coisa. arts. pelos danos causados. rel. a responsabilidade civil sem culpa. que também é coisa para o direito. não podendo haver exasperação da verba indenizatória por imputar encargos financeiros a pessoas que não concorreram diretamente com o dano. a fim de que o uso e gozo não impliquem em prejuízo alheio. 937 e 938. RT 848/323). 1ª Câm.

da responsabilidade em relação aos atos praticados pelos menores. 14 da Lei 8. 4ª T. Alegada exoneração de responsabilidade consistente em que o clube cedeu as dependências aquáticas a título de comodato. à sucessão ou à reparação por dano material ou moral.2005. pelos danos por este causados a terceiro no uso do carro locado.11. 286).19 Jurisprudência Indenização pelo direito comum. 1º. 2007. j.. DJ 19. Des. Inadmissibilidade. 2007. seja com relação à personalidade. Dir. Juiz Adail Moreira)50 A mera separação dos pais não isenta o cônjuge. 2º do CC dispõe que “a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida. que fixa a responsabilidade indireta da locadora de veículo por ato do locatário: “A empresa locadora de veículos responde civil e solidariamente com o locatário. Direito assegurado a nascituro. 7ª ed.45 Outro exemplo é a Súmula nº 492. Professor. do Supremo Tribunal Federal. desde que venha a nascer com vida nos termos do art. 3ª Câm. in Rui Stoco. Privado. em razão de ato de imperícia de seu funcionário que aplicou medicação intramuscular na região glútea de paciente. vitimado em acidente do trabalho por culpa da empregadora (2º TACivSP. É devida indenização por hospital. rel. ainda que autônomo. RT 846/269). p. 920. São Paulo: RT. rel.078/90 e 932.10. direito a indenização por danos materiais e morais em decorrência da perda do genitor. Esses direitos são gerais. Danos causados a aluno em aula de natação. com o qual os filhos não residem.2009. Clube esportivo. 691). in CC Theotonio Negrão. 10ª Câm. 4º do CC [atual art. os direitos do nascituro”.97. desde a concepção. Ruy Camilo. Apelação cível. rel. Responsabilidade civil do Estado. p. atingindo-lhe o nervo ciático e causando-lhe incapacidade permanente. III. 08. 29 ed. São Paulo: RT. Responsabilidade solidária (TJSP. 16..” Tratado de responsabilidade civil: dotrina e jurisprudência. especialmente se o poder familiar é exercido conjuntamente (STJ. Responsabilidade civil. do CC/2002. mas a lei põe a salvo. submete-se às regras do clube..” 2. 7 ed. j.041996.10.10. Luis Felipe. Des. em razão de óbito do genitor em acidente de trabalho por culpa da empregadora – Ao nascituro se asseguram direitos relativos à personalidade desde o momento da concepção. Aluno menor impúbere ferido por colega de escola quando se encontrava do lado de fora da 50 Rui Scoto esclarece: “O art. j. 29. pois permanece o dever de criação e orientação. com atrofia do membro inferior esquerdo (TJSP. Donegá Morandini. rel. . por danos material e moral. p. j. Min. 2º]. Assiste-lhe. pois. com base nos arts. 10ª Câm.2009. p. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência.

Inexistência do nexo de causalidade entre o evento e a atuação do Poder Público ou de falta ou falha do serviço. 2ª Câm. seja qual for a sua natureza. Fora das dependências da escola. Indenização. Direito Privado.. rel. 7ª ed.10. Ação julgada improcendente. respondendo os responsáveis pela empresa privada ou o Poder Público. com direito de ser resguardado em sua incolumidade física. destruição e apossamento de objetos. Danos materiais e morais. Descabimento da discussão relativa à culpa. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. Pedido de indenização por dano material. ainda que causada por terceiro. “Sindicato responde pelos danos materiais ocasionados por bloqueio que representantes e prepostos seus impuseram a garagem de veículos de transporte coletivo” (TJSP. Dir. no entanto. 740). em horário anterior ao inicio das aulas. Des. Trabalhadores acampados na empresa. em razão de ter comandado o estabelecimento e a realização da assembléia nas dependências da empresa. Mantida a improcedência em relação a um dos co-réus. Imputação objetiva da responsabilidade com base no Código de Defesa do Consumidor. inexiste qualquer possibilidade de se manter essa obrigação de resguardo” (TJSP. 3ª Câm. 3ª Cãm. p. ao fundamento e ao agente. em horário incompatível. in Rui Stoco. nos casos de escola pública. rel.. Responsabilidade civil. por qualquer lesão que o aluno venha a sofrer. j.5. j.. Recurso parcialmente provido para se julgar a ação parcialmente procedente ante a comprovação de responsabilidade do Sindicato e de seus representantes. Caracterização do acidente de consumo. Dano e nexo de causalidade demonstrado. Pedido formulado por empresa metalúrgica frente a Sindicato e seus dirigentes.1997. 2002.Lex 203/95). moral e estético. enquanto estiver nas dependências da escola. j. 13. Reparação por danos morais e materiais até a idade em que a vítima completaria sessenta e cinco anos de idade. Direito Privado. Responsabilidade do Sindicato e de seus representantes por danos derivados de depredação. Vasconcelos Pereira. Morte de menor em parque de diversões. Para reflexão Analise todas as jurisprudências até aqui transcritas e as classifique quanto ao fato gerador. Rui Stoco. cuja responsabilidade não restou evidenciada. aos danos materiais. Des. São Paulo: RT. Recurso não provido. alheia à disciplina normativa incidente. JTJ-Lex 254/150). Ação procedente. rel. 5. .3. 2007. Distribuição proporcional ao ônus da sucumbência. Carlos Roberto Gonçalves. Indenização restrita. 12. Des. JTJ.1999. “O aluno fica sob a guarda e vigilância do estabelecimento de ensino. junto ao portão de entrada. Recurso não provido (TJSP. Sentença mantida. público ou privado.46 escola. comunicando o malogro da negociação com terceira empresa para que esta voltasse a comprar os produtos da primeira. Público.

por que. 20 e ss. março de 2007. cabe ação de perdas e danos? Contra quem? Classifique tal responsabilidade. na jurisprudência transcrita. 3. Pais que perdem filhos em acidente. ano 55. por sobrecarga de energia elétrica. Responsabilidade civil. em um parque infantil municipal. nº 353. defende direito próprio? Todo rompimento de noivado motiva responsabilidade civil? E de namoro? Qual o dever jurídico derivado da propriedade de coisa? E de pessoa sob sua guarda e companhia? Distinga responsabilidade civil direta da indireta. deriva da lei ou do desenvolvimento de atividade de risco? Indique os artigos de lei aplicáveis em cada caso. justificando. Álvaro Villaça. distinguindo a responsabilidade civil objetiva em pura e impura. Revista Jurídica. por exemplo. III – De retorno à objetividade Responsabilidade civil objetiva: 3. tem ele personalidade jurídica? Qual a diferença entre empregado e preposto? Se o direito de greve é constitucionalmente assegurado. em razão de óbito do genitor.47 A responsabilidade objetiva dos pais. o sindicato foi condenado a ressarcir dano decorrente de movimento grevista? Por que o estabelecimento de ensino é responsabilizado por lesões sofridas por um aluno em razão de agressão de autoria de outro aluno? E se pessoa estranha a escola? De quem é a responsabilidade por acidente de trânsito motivado pela invasão de pista de rolamento por animal? Se aparelhos elétricos são danificados. pura. A responsabilidade decorrente da coisa. dentro de casa. direta e indireta.1 Responsabilidade civil objetiva pura 51 AZEVEDO.51 3. fica mais fácil a compreensão da proficiente sistematização de Álvaro Villaça Azevedo.1.2 impura Já expostas as responsabilidade subjetiva e objetiva. p. é subjetivo ou objetivo? Por que? O entendimento é pacifico ou há interpretações dissonantes? Se ao nascituro é assegurado o direito de indenização. . e requerer ação de perdas e danos. animada ou inanimada. por extensão dos tutores e curadores.

todas as demais atividades consumeristas são objetivas.. nacional ou estrangeiro. 1º. E pelo art. art. contaminando o mar por vários quilômetros.347.453. 14.”52 Suponha-se ainda. independentemente da existência de culpa. devidamente autorizada. Também assim responde o fornecedor de serviços. é o poluidor obrigado.]”. que disciplina a ação civil pública. 12 desse diploma: “O fabricante.” E conclui: “O Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal. Excetuada a responsabilidade pessoal dos profissionais liberais. que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente. A Lei 6. de 17 de outubro de 1977. responderá ela pelos danos. se por motivo absolutamente estranho.07.85. de 6 de junho de 1990.274. ainda que isenta de qualquer culpa. Suponha-se. da Lei 6. Essa atividade exercida pela Petrobrás é lícita. 13. O Código de Defesa do Consumidor é um microssistema que disciplina a responsabilidade pelo fato do produto e do serviço. independentemente da existência de culpa. independentemente da existência de culpa.938. ocorresse o vazamento de uma usina nuclear. de 31 de agosto de 1981. § 4º). Seria grave desastre ao meio ambiente. afetados por sua atividade. Dispõe o art. estabelece no artigo 4º: “Será exclusiva do operador da instalação nuclear. o produtor. 12 a 14. A Lei 6. As relações de consumo também caracterizam a responsabilidade civil objetiva pura. nos termos desta Lei. da Lei 7. nas hipóteses referidas. I. fendesse oleoduto da Petrobrás. a responsabilidade civil pela reparação de dano nuclear causado por acidente nuclear”. prevê no artigo 14. por danos causados ao meio ambiente. e o importador respondem. No entanto. De nada lhe aproveita a prova de estar imune de culpa. pela redação do art. Indeniza-se por mero fato jurídico ou até por ato lícito. pela reparação de danos causados aos consumidores [. regulamentada pelo Decreto 99. § 1º: “Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo. Em ambos os casos vige a teoria do risco integral. o construtor.938. . que dispõe sobre a responsabilidade civil por danos nucleares. 14: 52 Ver arts. que em razão de um tremor de terra (fato jurídico em sentido estrito extraordinário). que será apurada mediante a verificação de culpa (CDC.. o comerciante é igualmente responsável.48 A responsabilidade civil objetiva pura implica indenização mesmo que inexista culpa de qualquer dos envolvidos no evento danoso. a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros. nos seus arts. porquanto a lei assim o determina. de 24. a Petrobrás teria o dever de indenizar.

especialmente desta Corte. o proprietário do veículo responde objetiva e solidariamente pelos atos culposos de terceiro que o conduz e que provoca o acidente. é responsável por qualquer dano que venha a causa em razão de sua imprudência [. é extracontratual e objetiva impura. Analisa-se a seguinte jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais: Acidente de trânsito – Aquaplanagem – Condutor que. perde o controle do veículo e invade a pista contrária. por exemplo. que está vinculado à atividade do indenizador. não podendo arguir em sua defesa a sua não culpa. independentemente da existência de culpa. por força do artigo 933. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. em razão da previsibilidade do evento. verificando as condições climáticas desfavoráveis. do empregado. Toma-se o artigo 932. não reduz a velocidade em asfalto molhado.2 Responsabilidade civil impura A responsabilidade civil impura encontra. provada esta culpa. para que no consequente o empregador responda pela indenização na forma objetiva.. perquire-se a culpa do empregado.] – Em matéria de acidente automobilístico. a responsabilidade civil indireta prevista no artigo 932. pouco importando que o motorista seja .]. incisos I a IV. tem entendido que a ocorrência de chuva forte e a existência de poças de água em rodovia tornam previsível a ocorrência de aquaplanagem..] A jurisprudência. como substrato... continuando a movimento normalmente o veículo. invariavelmente. o empregador responde objetivamente. a culpa de terceiro. isto é. mesmo diante de tais sinais. Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Reparação de danos – Proprietário do veiculo solidariamente responsável pelo evento dano causado pelo condutor a terceiros. deixa de parar o carro ou tomar outra medida de segurança. Em síntese. E prossegue. Corresponde à responsabilidade civil indireta quando há subjetividade no antecedente e objetividade no conseqüente. abalroando automóvel que trafega em sentido contrário – Culpa caracterizada.. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação de serviços.” 3. do Código Civil.. mais adiante: [. de modo que o motorista. Destaca-se do corpo do acórdão: [.49 “O fornecedor de serviços responde. No antecedente há um ato culposo.

a vítima dirige a execução apenas contra o proprietário do veículo. in fine: “[. do art. sua responsabilidade é objetiva impura. Cív. todos responderão solidariamente pela reparação. portanto. 932. no mesmo sentido RT 868/214 e 877/313). 934: “Aquele que ressarcir o dano causado por outrem pode reaver o que houve pago daquele por quem pagou [. assim o viciado em bebida.] se a ofensa tiver mais de um autor. do Código Civil. . 198. rela. que as duas condutas concorreram para o dano.. cit. p.]”. que paga integralmente a indenização. salvo nas hipóteses dos incisos I a III. com anotações comprometedoras no seu prontuário. transfere-lhe juridicamente a guarda e por ele passa a responder.2008. o credor tem direito a exigir e receber apenas de um devedor solidário (CC. do Código Civil. O condutor do veículo responde por ato próprio culposo. uma vez que sendo o automóvel um veículo perigoso. buscando fundamento mais técnico dentro da sistemática da responsabilidade civil.. o que o transporte seja gratuito ou oneroso.. 53 CAVALIERI FILHO.” Sergio Cavalieri Filho tem entendimento menos lato. Terá. Sergio. pois a actio in rem verso. ninguém responde por fato de terceiro.50 seu empregado ou preposto.6. está normatizado no art. pois nesse sentido foi cristalizada a jurisprudência pelo Superior Tribunal de Justiça (RSTJ 127/269-271 ver a revista e refazer resumo da jurisprudência) 3. 53 O que restringe a responsabilidade do dono do carro. então.. Recorda-se.3 Direito de regresso: a actio in rem verso Suponha-se agora. Dá-se. Prevalece a tese do colegiado mineiro. 24..] (TJMG. somente se o empréstimo fosse para pessoa não qualificada. Esse direito regressivo na responsabilidade por fato de terceiro. Desa. RT 876/299 e segtes. j. como o motorista notoriamente imprudente ou negligente. É a letra do artigo 942. pois entendeu o acórdão. art. 2ª T. Já o proprietário do veículo responde independentemente de culpa por ato de terceiro. Houve. op.. o proprietário do veículo fica solidariamente responsável pela reparação do dano.. como criador do risco para os seus semelhantes [. o proprietário o direito de regresso em desfavor do condutor. Para ele o empréstimo de veículo a parente ou amigo. Isso porque. Provada a responsabilidade do condutor. condenação pela reparação do dano de ambos solidariamente. 275). o seu mau uso cria a responsabilidade pelos danos causados a terceiros. Tânia Garcia de Freitas Borges.

parágrafo único (legítima defesa). a base mais segura em que repousa toda a organização da sociedade. absoluta ou relativamente incapaz.” A ratio legis dessa exceção inspira-se em valor maior. ver. aí começou a decadência geral. A encíclica CastiConnubii. pp. Eis a oportuna lição de Washington de Barros Monteiro: Cícero apelidou-a [a família] de seminarium reipublicae. o empregador e o comitente somente poderão agir regressivamente contra o empregado ou preposto se estes tiverem causado dano com dolo ou culpa.. admitiria o enriquecimento sem causa (CC. que é a preservação do princípio de ordem moral e econômica que preside as relações familiares. . onde e quando se revelou frágil. preconiza “que o pai. todos do Código Civil. por Regina Beatriz Tavares da Silva. Pontes de Miranda. se não fosse assegurado o direito de regresso. mesmo agindo com culpa. sem que o relacionamento. art. 934. prevista nos artigos 346 e seguintes. aí floresceu o Estado. Desse mesmo sentimento se impregna a encíclica Casti Connubii. que trazem a íntima aproximação afetiva. procurando reintegrá-lo no plano divino. 2. sofresse grave abalo. ao afirmar que a salvação do Estado e a prosperidade da vida temporal dos cidadãos não podem permanecer em segurança onde quer que vacile a base sobre a qual se apóiam e de onde procede a sociedade. Bem por isso. 2004. ficaria à margem de qualquer dever ressarcitório. A responsabilidade indireta por fato de outrem que age com culpa. 679 (contrato de mandato). 934.54 Diante de tal concepção seria incongruente o direito de regresso dos ascendentes perante os descendentes incapazes. assim entendendo pela interpretação 54 MONTEIRO. citado por José de Aguiar Dias. de sorte o agente direto do dano. onde e quando a família se mostrou forte. vol. pode. 930. “na hiportese do art. Incide em outras hipóteses. com ofensa à justiça e à equidade. Ascendentes e descendentes são ligados por estreitos laços de solidariedade. 1 e 2. representando o núcleo fundamental. objetivou enfocar os erros e atentados contra o casamento. São Paulo: Saraiva.51 O direito de regresso tem a sua mais clássica forma de exercício garantida na sub-rogação..: direito de família.] salvo se o causador do dano for descendente seu. 786 (contrato de seguro de dano). Efetivamente. o que conduz considerar a família – que deve ser estável.” Prossegue art. do Conselho de Estudos Judiciários dos Juízes Federais. ir à colação”. Washington de Barros. entretanto. 930 (estado de necessidade). educativa e produtiva – dentre todas as instituições públicas e privadas. como asseguram os artigos 735 (contrato de transporte). 884). nada podendo reaver do filho. afetiva. expedida por Pio XI a 30 de dezembro de 1930. excetuando a regra: “[. a família. 37 ed. a de maior importância. Todavia. o enunciado 44. isto é. Curso de direito civil. que deve uni-los. e atual. sendo uma inversão da ordem natural das coisas.

exposto na imaturidade daqueles com idade até 16 anos. rev. exatamente na consideração do grau de discernimento. Pelo menos não mais. dos exemplos do texto. do atual Código Civil. . 55 DIAS. a dessemelhança entre essas faixas etárias.. É a pertinente distinção de tratamento preconizada no artigo 4º.010. e atual. tanto aqueles atinentes à personalidade quanto ao patrimônio.524 e 1. em evidente contrariedade à justa expectativa de toda sociedade. se a criança causa algum dano nada lhe pode ser imputado.52 conjugada dos artigos 1. hipótese em que a vigilância dos pais é amenizada ante o grau de discernimento do filho.. Rio de Janeiro: Renovar. do Código Civil revogado. não cabe tratamento semelhante quanto à colação. É válida somente quanto ao menor relativamente incapaz. em que o menor impúbere é representado e o menor púbere.793. que equivalem aos artigos 934 e 2. na observação diária da vida. Aqui pode incidir a colação. Mesmo nesta atualidade cujo arsenal de informações vai da via escrita e oral à televisiva e virtual. fugindo. Por coerência. assistido. trazendo precoce aptidão de entender as coisas do cotidiano da vida. para que os demais concorrentes à herança não sejam prejudicados pela conduta de quem sabe distinguir o que pode e o que não pode fazer no respeito aos direitos alheios. do Código Civil. de acordo com o Código Civil de 2002 e aumentada por Rui Belford Dias. de maneira irretorquível. O direito deve adequar-se a tão significativa mudança na vida social. pois. p. 751. Representação e assistência não se confundem e o legislador assim distinguiu para patentear. quando pela tenra idade o dever jurídico dos pais de guarda e educação é mais exigido. os tempos são outros de quando ensinou Pontes de Miranda. 2006. José de Aguiar. Ver CDC – artigo específico sobre a matéria Para reflexão Distinga a responsabilidade civil objetiva pura da impura. Trazer à colação a indenização atendida pelos pais não contempla a ética e a equidade. Da responsabilidade civil. 11 ed. Imagine exemplos de uma e de outra.55 Ousa-se afirmar que essa lição pode ser recepcionada em termos mais restritos. pois apequenada a sua capacidade de discernimento. É uma responsabilidade exclusiva dos pais pelo negligente exercício do poder familiar. no que tange ao menor absolutamente incapaz. Não dessa forma.

378. Educo. São Paulo: Saraiva. De efeito. o dano e o nexo de causa e efeito. Trata-se de exceção à regra do artigo 265. o que é específico do homem. p. 4.1 conduta.3 nexo de causalidade Os pressupostos expressam as condições ou as exigências imprescindíveis para a configuração de determinada figura jurídica. assentou duas parêmias que continuam a fazer fortuna: todo homem é pessoa e só o homem é pessoa. do Código Civil? Na responsabilidade indireta impura considera-se a culpa? De quem? E na responsabilidade indireta pura? Na responsabilidade indireta. Ao lado do jurista. A conduta é inerente à pessoa. não teria título para transferir ou transmitir valores a outrem. Filosofia do direito. Constatado o dano. Miguel. porque sou capaz de conduzir-me. quia duco.53 A responsabilidade objetiva impura equivale à responsabilidade objetiva indireta. IV – Pressupostos da responsabilidade civil 4. . ou há dispositivo expresso nesse sentido no Título IX. 1983. justificando. Mas o 56 REALE. Se eu fosse meramente conduzido. o escritor Rudolf von Ihering assombrou-se diante da casa do joão-de-barro. é algo dirigido para um fim. A responsabilidade civil conjuga três pressupostos: a conduta. Capítulo I. também chamada complexa ou transindividual? Diz a jurisprudência que o proprietário de um veículo é responsável solidário com o motorista. somente ela é capaz de conduzir-se. encerra valor.”56 Apenas por metáfora pode-se dizer que outro ser tem conduta. do Código Civil. Classifique as espécies de responsabilidade civil previstas nos artigos 936 a 940 e 949 a 953 do Código Civil. quem tem direito de regresso contra o causador direto do dano? E quem não tem? Justifique.2 dano. conduzir-se implica possibilidade de escolha. para o qual ele emprestou seu carro. na explicação desse apotegma Miguel Reale aduz: “Educo.1 Conduta A modernidade. 4. 4. há de se provar a conduta eficiente à sua produção e a quem essa conduta pode ser imputada. ao conceber os conceitos abstratos. sem consciência dos motivos determinantes de meu agir. 10 ed. um pássaro arquiteto. aperfeiçoamento do modo de ser e agir.

As manifestações de valores religiosos. Massimo Punzo pergunta se as flores secam tanto quando o jardineiro não as rega. É ato comissivo dar ou fazer alguma coisa. mesmo sem conhecimento do que seja lícito ou ilícito. 1º volume. ou a omissão: deixar de regá-las. 119. produz o efeito jurídico de transmissão da propriedade. não ensina. sendo necessário que produza efeito jurídico. sem poder distinguir o que era e o que é o caminho. São Paulo: Saraiva. os atos do sonâmbulo.54 joão-de-barro apenas repete uma atividade instintiva. hipnose. O físico ou material é perceptível no mundo exterior. científicos ou meramente estéticos são indiferentes ao mundo jurídico. vol. na responsabilidade civil 57 PUNZO. Não outra a lição de Pontes de Miranda: Tem-se dito que a omissão não pode ser causa de efeito. Direito Penal. Campinas: Brookseller. razão por que não se precisa de explicação para se admitir que a omissão se tenha. Em outros termos. não escolhido por ele. Interessa ao mundo jurídico a conduta humana que cria. pp. a conduta é um comportamento humano que se exterioriza por meio de uma ação ou omissão. não são conduta uma vez faltos do elemento anímico. 2ª edição. 227 e 228). Quaisquer movimentos espontâneos produzidos pelo susto. 1963. estando na estrada. sob a ótica naturalista. porque a inação não muda o mundo exterior. não transmite como fazer a sua casa. a conduta exige voluntariedade. ou outro veículo. A vontade está ausente. 2003. o comportamento comissivo ou omissivo é o movimento interior da vontade que produz resultado no mundo exterior. em certos momentos. A conduta é mais do que um comportamento humano que se exterioriza em uma ação ou omissão voluntária. por ilícita. ou transeunte que se aproxima. que é a consciência daquilo que se está fazendo. Tal raciocínio desatende a que o ordenamento causal do mundo social conta com atos que em determinadas circunstâncias tem de ser praticados. Na seara do direito não é suficiente o conceito naturalístico da conduta. Sendo assim. O direito apenas torna-os possíveis. A aquisição de um bem por meio da compra e venda é conduta. mero tropeção. O aspecto físico não é acompanhado do psicológico. Massimo. . 22. ou omissivo não fazer. Edgar Magalhães. ataque epilético. garantindo-os. p. não adverte o automóvel. modifica ou extingue direitos. É algo causado em seu ser. Quem assistiu ao desabamento da ponte e. comente omissão ilícita” (Tratado de direito privado. Portanto. inerente à sua espécie. artísticos. como quando as rega com uma solução de sublimado? 5 7 O psicológico ou subjetivo é a vontade que instrui a ação: regar as flores com uma solução de sublimado. delírio febril. Porém. apud NORONHA. Apresenta dois aspectos: o físico ou material e o psicológico ou subjetivo.

de modo a se constituir no elemento que indica o responsável. acrescentou no art. que percebe no embrião as características de individualidade e singularidade próprias de cada 58 FRANÇA. ou seja. Mais ainda. A Psicologia. Esse direito deve ser protegido pela lei e. após aprovação legislativa. não é mais do que uma fase desse desenvolvimento. RSTJ 161/395 A Emenda Constitucional número 45. 4º: “Direito à vida. o § 3º.2 A vítima A responsabilidade civil deve inquietar-se com a vítima. Apoiado na etimologia do vocábulo. Portanto.” Embora esse Pacto não se atenha apenas a regular o domínio civil. o nascituro. 1. deve ir além. do Código Civil. deve ser atribuída a uma determinada pessoa. Rubens Limongi. São Paulo: RT. p. O Pacto de São José da Costa Rica estipula no seu art. 126. biologicamente. como o comportamento voluntário. Nada mais acertado. Demais disso. . Daí conceituar-se a conduta. de per si ou em grupo. já concebida no ventre materno. Toda pessoa tem direito de que se respeite sua vida. Manual de direito civil. serão equivalentes às emendas constitucionais. RT 793/280. o art.” 5 8 Embora aninhado no claustro da mãe.55 pouco importa a simples produção de efeito jurídico. Rubens Limongi França conceitua nascituro como a “pessoa que está por nascer. em geral. imputável a uma pessoa natural ou jurídica. por isso a Biociência situa o início da vida na concepção. determina que a personalidade inicia-se com a concepção. comissivo ou omissivo. essa conduta danosa deve ser acompanhada do nexo de imputação. que é toda pessoa natural ou jurídica que sofre dano. de 8 de dezembro de 2004. sinete do começo da gravidez. não constitui parte de seu corpo. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente. estabelecendo a sua ligação com o dano. Esse efeito deve ser lesivo à personalidade ou ao patrimônio de outrem. 2º. 3 ed. desde o momento da concepção. 4. no âmbito da responsabilidade civil. que produza dano a outrem. 1968. I. A nidação. incluído nesse rol o nascituro. que os tratados e convenções internacionais. foi modificado na parte que preveja o início da personalidade a partir do nascimento com vida. 5º. vol. Pessoa natural capaz ou incapaz.

defendendo seu direito. É caso de dano coletivo. 100. da Lei 7. a liquidação e a execução poderão ser promovidas coletivamente. por lógico raciocínio o de cujus não possui nenhum direito à indenização. penetra na incoerência. Cabe. Nesse caso. como no caso dos interesses coletivos. 167-168. que também suscita problema quanto à vítima na responsabilidade civil. ano 2000.347. 18. Silmara J.56 ser humano. conforme também dispõe o art. p. as vítimas podem deduzir sua pretensão em juízo. como no caso de vilipêndio de cadáver. 119. que integram um grupo. a exigibilidade da reparação do dano moral. Bioética e dignidade da pessoa humana: rumo à construção do Biodireito. È como afirma Botella Llusia. Chinelato e. distinto do pai e da mãe. tendo apenas traços de um e de outro. Tutela civil do nascituro.306. São vitimados os seus sucessores. atuando na defesa de direito próprio. quando mais de uma pessoa é vitimada pelo evento lesivo. negar personalidade jurídica ao nascituro beira a aberração. No mesmo sentido: MARTINS-COSTA. São Paulo: Saraiva. desde a concepção existe um novo ser. . 2000. de 9 de novembro de 1994. Com a morte extingue-se a personalidade jurídica. parágrafo único. 5 9 Assim. As vítimas podem estar ligadas por interesses difusos. No outro extremo a morte. vol. de 24 de julho de 1985 (Lei da Ação Civil Pública). A. pela ofensa de um direito da personalidade. com a destinação da indenização ao fundo criado pelo art. não sendo as vítimas identificadas. de sorte. classe ou categoria. do Código de Defesa do Consumidor. p. 60 Fundo regulamentado pelo Decreto 1. assegura que o desenvolvimento do psiquismo humano tem início ainda no ambiente intra-uterino. Judith. Outras situações podem ser enfrentadas. escrita ou televisiva. ou pela colocação no mercado de produtos com alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança dos consumidores. de forma isolada ou em conjunto por meio de litisconsórcio. já tem capacidade de se desenvolver. Revista da Faculdade de Direito da UFRGS. como as vítimas de publicidade enganosa ou abusiva por meio da imprensa falada. em que os sujeitos. são determináveis e ligados entre si por uma relação jurídica base. 13. aqueles cujos sujeitos são indeterminados e ligados por circunstâncias do fato. como qualquer outra vida. 6 0 59 Apud ALMEIDA. Cita-se como exemplo o condomínio.

” Todas essas pessoas jurídicas respondem pelos atos danos praticados em prejuízo alheio. 12. tendo que ressarci-lo.57 4. quando demandadas.1. do Conselho dos Juízes Federais. nos termos do art.150). Tal qual a vítima.” Não afasta. Se o absoluta ou relativamente incapaz for o autor do dano.50. 933). ressalvadas as hipóteses de registros efetuados de boa-fé. Assim entende o enunciado 209. conforme o teor do enunciado 40. art. art. irregular e de fato. art. 986 deve ser interpretado em sintonia com os arts. independentemente de culpa (CC. mesmo nesse caso. 1. art. 986). ao relativamente incapaz pode recair a condição de devedor principal. 985 e 1. Tanto pode ser a pessoa natural como a jurídica. A pessoa jurídica pode ser regular. Regular é a que tem o seu ato de constituição inscrito no Registro Público. § 2º). 116 do Estatuto da Criança e do Adolescente. no âmbito das medidas sócio-educativas ali previstas. 116. se associação o seu estatuo no Cartório de Registro de Imóveis e Anexos (CC. na hipótese do ressarcimento devido pelos adolescentes que praticarem atos infracionais. dado que as sociedades sem personalidade jurídica. do Conselho dos Juízes Federais: “o art. compõem a categoria de sociedade em comum (CC. De fato é a que não possui nem mesmo contrato social ou estatuto escrito. interpretando o art. do Estatuto da Criança e do Adolescente: “o incapaz responde pelos prejuízos que causar de maneira subsidiária ou excepcionalmente como devedor principal. Se sociedade o seu contrato social na Junta Comercial. se houver . de modo a ser considerada em comum a sociedade que não tenha seu ato constitutivo inscrito no registro próprio ou em desacordo com as normas legais previstas para esse registro (art. a irregular e a de fato. art. Entretanto. responde o seu representante legal (CC. Embora excepcional a penetração no âmago da pessoa jurídica. não poderão opor exceções quanto à irregularidade de sua constituição (CPC. Irregular é aquela cujo ato constitutivo não está inscrito no Registro Público. As duas. 985). ou está de forma inadequada. 932). a responsabilidade solidária de seu representante legal (ver responsabilidade do incapaz).3 O autor Autor é o responsável pelo evento danoso.

Na outra. o dano pode ser provocado: a) pela conduta isolada de uma só pessoa. pode ser imputada a autoria a pessoa diversa daquela que. integrante de um grupo. produziu o dano. d) pela conduta de várias pessoas. a autoria é imputada diretamente ao agente da conduta responsável pela eclosão do dano. Fica claro ante essas hipóteses. 4. Assim. Em regra. que nem sempre os casos são de singelo equacionamento sobre quem deverá compor o prejuízo.58 abuso da personalidade jurídica. uma só pessoa é responsável pelo dano. Nada obstante. é o caso da co-autoria e participação. de sorte qualquer uma delas poderia ser a autora do ato lesivo. Responde. Na primeira hipótese. matéria que será detalhada no enfoque do nexo de causa e efeito. É a responsabilidade civil direta. 50. sem unidade de desígnios. É a responsabilidade civil indireta. com a finalidade de lesão a bens ou direitos de outrem. conforme a letra do art. com sua conduta. quando duas ou mais pessoas são responsáveis pelo dano. em regra. dá-se o concurso de agentes. b) pelo concurso das condutas de duas ou mais pessoas todas cooperando entre si no desígnio de produzi-lo. tornando-se impossível a sua identificação. do Código Civil. c) pela conduta de varias pessoas. incide a responsabilidade civil solidária. pelo inadimplemento contratual ou por ofensa à lei. ou seja. sem unidade de desígnios. pelo dano os bens particulares de seus administradores ou sócios. a autoria pode ser simples ou plúrima. mas as suas condutas isoladas não bastariam para a produção do evento lesivo. pode ocorrer a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade (disregard doctrine). a quem cabe imputar a ação ou omissão lesiva. Em ambos os casos. Aqui a responsabilidade civil pode ser subsidiária ou solidária. então.4 De retorno à subjetividade: conduta culposa . sendo a conduta isolada de cada suficiente para a produção do evento lesivo. e) pela conduta de uma única pessoa. Ademais.

a conduta culposa bifurca-se em termos subjetivos e objetivos. completar o seu estudo na apreciação do elemento psicológico. na prestação de serviço gratuito a entidade filantrópica etc. o doador apenas responde por dolo. que desencadeia a incidência da cabeça do art. 392. De fundamental importância a distinção entre dolo e culpa. Para reflexão O que é conduta? . Ante tal situação. precavida. o que envolve a ideia de capacidade de discernimento. preceitua que nos contratos benéficos. a expressão conduta culposa designa a culpa em sentido amplo. 186. tendo condição de cumpri-lo. em outros responde por simples culpa. como visto. que é a forma inadequada de atuar. da sua Parte Especial. Em termos subjetivos é a possibilidade de o agente conhecer previamente o dever jurídico. o agente pode decidir praticar ou não a conduta que transgride o dever jurídico. Compete ainda estar presente o nexo de imputação.59 A responsabilidade civil subjetiva esteia-se. Por sua vez. por exemplo. o que implica na conduta culposa do agente causador do dano. respectivamente doloso ou culposo. 927. cautelosa. a culpa é a transgressão do dever jurídico preexistente imposto pela lei ou pelo contrato. Na teoria subjetiva da responsabilidade civil há casos em que só o dolo suscita a obrigação de indenizar. então. Não se observando esse dever de cuidado objetivo ocorre erro de conduta. além do que exige a imputação. que é a transgressão de um dever jurídico previsto ou previsível. por consequência a imputabilidade torna-se elemento intrínseco da culpa. imputável a alguém em decorrência de fato intencional ou não intencional. Na doação simples. do Código Civil. da Parte Geral do Código Civil. que infrinja bem jurídico alheio. o homem tem de pautar o que se convencionou chamar dever de cuidado objetivo: a conduta deve ser diligente. no ato ilícito previsto no art. A vontade assim considerada adquire relevância jurídica ao se exteriorizar no mundo físico por meio de uma ação ou omissão. Somente o ato imputável a alguém qualifica o ato ilícito. Cumpre. de maneira que o agente incide na denominada conduta culposa. assim no comodato com relação ao comodante e comodatário. e por dolo aquele a quem não aproveita. Não basta. de modo a não causar dano a ninguém. Portanto. o contratante a quem o contrato aproveita responde por simples culpa. enquanto que o donatário por culpa. Em termos objetivos. Na convivência social. O art.

4. Se alguém toma de uma pedra e atira contra a vidraça. 2º. provável (RT 795/567). Ente sem personalidade jurídica pode ser titular de direito? 4. No iudicium accusationis. O Superior Tribunal de Justiça ensina: Não se pode generalizar a exclusão do dolo eventual em delitos praticados no trânsito. em se tratando de pronúncia. isto sim. Já os romanistas chamavam-no de dolus malus. O Código Civil não o conceituou. na pratica. quer a conduta e quer o dano. em confronto com a Convenção de São José da Costa Rica. inclusive. a desclassificação da modalidade dolosa de homicídio para culposa deve ser calcada em prova por demais sólida. antevê pelas circunstâncias que pode ocorrer acidente grave.60 Qual a conduta que interessa à responsabilidade civil? Todo indivíduo tem conduta? Explique. Nele. a eventual dúvida não favorece os acusados. o fez Código Penal no art. Na hipótese de “racha”. ambos são queridos. o que significa . não se exige que o resultado seja aceito como tal. a regra exposta na velha parêmia in dubio pro societate. De efeito. É o chamado dolo direto. mesmo assim não se detém. mas das circunstâncias. pretende vivenciar a emoção do evento. é o dolo indireto que possui duas formas: dolo eventual e alternativo. tendo por consecução o ato ilícito. o que seria adequado do dolo direto. quem se dispõe a essa direção perigosa na disputa de um “racha”.1 O dolo Dolo é a vontade livre e consciente de transgredir direito. embora não seja este o motivo de sua conduta. do Código Civil. quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. incidindo. aí. que a aceitação se mostre no plano do possível. prevê a possibilidade de produzi-lo. mas. O dolo eventual. não quer o dano.” Conceito recepcionado no âmbito civil. Há no dolo a consciência da conduta e do resultado. primeira parte do artigo em questão: o evento danoso corresponde à vontade do agente. não é extraído da mente do autor. Todavia. A segunda parte do artigo refere-se à conduta de quem assume o risco de produzir o resultado. Quem pode ser vítima na responsabilidade civil? E autor do dano? Quando inicia a personalidade jurídica? Faça uma leitura do art. Diz eventual quando o agente preveja o resultado e admite o risco de produzi-lo. 18: “Diz-se o crime: I – doloso.

sem justificativa plausível. 61 62 Apud. p.4. mentalmente antecipado. dê no que der. p. vamos sempre encontrar a falta de cautela. por que o agente não o evitou? Se era pelo menos previsível.] II – culposo.61 Extremam-se o dolo direto e o eventual. 2ª ed. mas não o resultado danoso. Programa de responsabilidade civil. Direito Penal. quando o agente deu causa ao resultado por imprudência. mas lhe cumpria ter agido diversamente. São Paulo: Atlas. CARAVALIERI FILHO.. Previsível é o resultado que pode ser previsto. 1º vol. Alguém que atira contra o desafeto para ferir ou matar. no segundo é a vontade apesar do resultado. de sorte o seu erro é inescusável. 1963. dizendo-se que no primeiro é a vontade por causa do resultado. que na culpa a atuação do agente merece reprovação. o evitou? A resposta é simples: porque faltou com a cautela devida. E. É a fórmula de Frank: “seja como for. É previsível aquilo que tem certo grau de possibilidade. de violar direito. O dolo alternativo dá-se quando a vontade do agente dirige-se a um ou outro resultado. Esclarece Sergio Cavalieri Filho: Nesse ponto cabe uma indagação: se o resultado foi previsto. evitado. pois em face das circunstancias concretas podia e devia ter agido de outro modo. Sem isso não se pode imputar o fato ao agente a título de culpa. consequentemente. 7ª ed. 2 A culpa em sentido estrito Na culpa a pessoa pauta conduta equivocada. Quer a conduta.61 dizer que tolera a ocorrência do dano. assim. 4. sob pena de se consagrar a responsabilidade objetiva.62 Logo. Afirma-se com razão.. . atenção. São Paulo: Saraiva. Por isso. 2007. Desde o Direito Romano afirmase: culpa est non praevidere quod facile potest evenire (é culpa não prever o que facilmente pode acontecer). que pode advir de sua conduta. 172. diligência ou cuidado como razão ou substrato final da culpa. antecipado e.” Implica na previsão ou previsibilidade do evento lesivo. violou aquele dever de cuidado que é a própria essência da culpa. negligência ou imperícia. na culpa o resultado não querido pode ser previsto ou previsível. É o conceito dado pelo Código Penal. por que o agente não o previu e. acolhido na seara civil: “Artigo 18: Diz-se o crime: [. Magalhães. em qualquer caso não deixo de agir”. penetra-se no âmbito do caso fortuito ou força maior que será estudado no momento oportuno. NORONHA. Sergio. 36. Previsto é o resultado representado.. segundo as regras da experiência. Além da previsibilidade não há culpa. conquanto desacompanhada da intenção de lesar.

o menos letrado e mesmo o marginalizado que nunca teve acesso aos bancos escolares. em horário de encerramento das aulas. não reduzir a velocidade do veículo nas proximidades de escola. o idealizado homem médio. como a reação das crianças é imprevisível. 18ª Câm. RT 848/225-226). deve redobrar a sua atenção e diligência. em horário de término das aulas. Tratase da previsibilidade específica.9. Atropelamento de menor de oito anos de idade. revelando insensibilidade social. É chamada culpa em abstrato. rel. Hipótese em que restou comprovada a velocidade incompatível para o local.. considerada no momento da conduta. Todos são tratados paritariamente: o que se exige de um. conforme orientação pacífica jurisprudencial. ainda que brincando na calçada. frequente e involuntariamente. juntamente com outras crianças.. que se encontrava próximo à escola. Des. Rubens Cury. Para Orlando Gomes a imagem da perfeição domestica projetada na sociedade civil. hipótese que ofende o desígnio da solidariedade (CF. transgridem um dever legal. da prudência e da diligência. Considera-se como agiria em tais condições o homem razoável. Assim. art. ao avistá-la. reduzindo a velocidade ou até parando o seu veículo (TJSP.2005. que é um dos valores condicionantes do Estado Democrático de Direito. O corpo do acórdão ensina: Não obstante.].. aquele que reúne as virtudes da probidade e da retidão. pontificando que os homens diligentes e avisados. Esse critério iguala todos os homens. Corresponde ao reasonable man da common law.62 Não se trata a toda evidência da previsibilidade genérica: quem nasce há de morrer. É que. O erudito. Para aferição da previsibilidade dois são os critérios: o objetivo ou culpa em abstrato e o subjetivo ou culpa em concreto. 3º. exige-se do outro. por laudo oficial [. por exemplo. contratual e . 8. j. a culpa do motorista da apelada está de fato caracterizada. nasce para o motorista a previsibilidade de possível acidente. O critério objetivo toma por modelo o bonus pater familias. Responsabilidade civil. I. última figura). Não são levadas em consideração as condições subjetivas das pessoas. René Savatier opõe-se ao padrão do bonus pater familias. Morte. inc. É coerente concluir. Obrigatoriedade de redução da velocidade. O agente é indiferente à sorte alheia. A imprevisibilidade do comportamento de uma criança gera a previsibilidade do acidente. a ausência de previsão ou de previsibilidade do resultado lesivo denuncia falta de zelo no agir.

analisa o coeficiente pessoal. o resultado é previsto ou previsível. mas. Orlando. o que era exigível do agente nas circunstâncias em que se viu envolvido. que leva ao erro de conduta. sem que dissimulem. é preciso levar em conta. A crise do direito.63 Já o critério subjetivo. sobretudo seu complexo individual. o ato que para determinada pessoa pode ser culposo. apreciar a culpa in concreto. » 64 GOMES. Le roué qui séduit une fille. Considera o fato em si. o homem de finanças que promove negócio duvidoso. o seu grau de cultura. considera o coeficiente pessoal do agente causador do dano. b) embora involuntário. O canalha. ou a chamada culpa em concreto. 1951 : « Car des hommes diligents et avisés manquent trop souvent à un devoir légal. p. Et l’on se croit parfois très habile d’éluder volontairemente une obligation. 182. Daí a necessidade de. A culpa deles reside em dirigir essa habilidade à vontade de violação de um dever. Traité de la responsabilité civile en droit français. não terá este caráter para outrem. o seu sexo. 7. na culpa em sentido estrito são conjugados os seguintes elementos: a) uma conduta voluntária que leva a um resultado involuntário. Não se indaga. Em resumo. . porque probos. 1955. Ora. são pessoas hábeis e precavidas. a sua idade e até o ambiente em que convive. de modo geral. 63 SAVATIER. O juiz na apreciação da conduta culposa.3 Manifestações da culpa em sentido estrito A falta de cuidado objetivo. o comerciante que deslealmente desvia a clientela do concorrente. São Paulo: Max Limonad. a imprudência e a imperícia. isto sim. exemplifica ele. le financer qui lance une affaire douteuse. p. suscita três formas de manifestação da culpa: a negligência. Leur faute est d’avoir consacré cette habilité à violer un devoir. René. qual seria o cuidado ordinário a exigir do homem médio. sont généralement habiles et diligents.4. t. contractuel ou moral. em virtude das diferenças pessoais. Não é possível ignorá-las. objetivando afastar as diferenças que inferiorizam e as equiparações que descaracterizam. Lúcida a lição de Orlando Gomes: Se alguém somente pode ser considerado responsável quando o ato que praticou lhe pode ser moralmente imputável. as suas circunstâncias. as suas potencialidades. que seduz uma moça. Já o patife pode ser bastante prudente em esquivar-se voluntariamente de uma obrigação. em boa lógica. le commerçant qui détourne déloyalement la clientèle d’un autre. o que o homem médio deveria fazer naquele momento. 4. c) há uma falta de cuidado objetivo no dever de agir d) essa falta de cuidado é analisada tanto no sentido abstrato como no concreto.63 moral. sopesar a culpa apenas no aspecto subjetivo é um critério manco. 1. Un coquin peut être très prudent. necessariamente.64 De fato. nesse passo. Em seguida. A pessoa é considerada consoante as suas aptidões. Paris : LGDJ. prestigia os dois critérios.

a amputação do dedo da vítima. A conduta de quem se omite no socorro devido a outrem quando poderia fazê-lo sem risco à sua pessoa. Se tivesse sido atendido pelo vascular já no primeiro momento as conseqüências poderiam não ter sido tão drásticas (TJSP. rel. 6. Não se usam os poderes da atividade. in RT 807/235-236). é a inanição. O agente deveria agir. por meio de uso de documentos falsos. Do corpo do acórdão seleciona-se o seguinte trecho: O raciocínio desenvolvido pela r. j. Maia da Cunha. usando documento de terceiro inocente. diante da gravidade da lesão. consistente no não encaminhamento do paciente a outro hospital com mais recurso diante da gravidade da lesão. . tal como se fez somente no terceiro dia. em razão do negligente atendimento que dispensou. 2ª Câm. Des. Nada impede que um mesmo fato conjugue a negligência de duas pessoas. é perfeito. a conduta do profissional que. Deixou de fazer o que deveria ter feito. é um exemplo. Extrai-se da jurisprudência: Caracteriza erro médico. ap. por isso comete ato ilícito. mas deixa de agir. É a omissão indevida. quando a própria coloração do dedo já indicava a necrose e a necessidade de amputação.2002. sem tomar as mínimas precauções a fim de verificar a autenticidade da documentação entregue (extinto 1º TACivSP. Nota-se. não encaminha o paciente para um especialista nem a um outro hospital para tratamento adequado. a inércia. O menor foi atendido com corte profundo e de gravidade não discutida. rel. Privado.3. A conduta correta teria sido encaminhá-lo a um especialista. Caso típico de negligência e a abertura de conta bancária por estelionatário.990-4/9. in RT 807/263). 5ª Câm.. de Dir. censura a omissão de não encaminhar o paciente para o tratamento especializado por médico vascular em hospital com mais recurso. a passividade. o acórdão não disserta sobre falta de assistência médico-hospitalar. o que traz como conseqüência.64 A negligência tem forma negativa (in omittendo). É devida a indenização por danos morais decorrente da negligência atribuída a instituição bancária que procede a abertura de conta corrente realizada por estelionatário. 123. sentença quanto à negligência do médico. passível de indenização. Todavia. Juiz Torres Júnior. Havia grande possibilidade de terem sido atingidas artérias importantes. Ai reside a culpa na manifestação da negligência.

a ação inadequada ou desacompanhada das cautelas necessárias. ocasionando a colisão.84. não respeitar via preferencial. demonstrando a desacautela do Município em ampliar a capacidade de vazão e em promover a contento a captação das águas pluviais. transbordamento reiterado de riacho na zona urbana. Desa. rel. 29. Ao passageiro que desce do automóvel parado cabe a cautela de verificar se pode abrir a porta sem perigo de colisão com outro veículo que a sue lato transite (1º TACivSP. j. 7ª Câm.1. 6. A atenção no trânsito vale também em outros procedimentos mais simples. o som muito alto que impeça o motorista ouvir os sinais sonoros de trânsito como o apito do agente público. Cív. j.65 Se as complicações pós-parto sofridas por parturiente decorreram da falta de limpeza uterina para remover possíveis fragmentos de placenta existentes após o parto. falta de limpeza de terreno baldio por inércia do proprietário. trata-se de um agir sem o zelo recomendado pelas circunstâncias do fato. RT 824/203). É o movimento corpóreo positivo. 4ª Câm.9. 1ª Câm. 11. Outros exemplos frequentes de negligência: não sinalizar buracos ou obstáculos nas ruas e estradas. Fartos são os exemplos no cotidiano do trânsito: pedestre que desrespeita a faixa de segurança. Responsabilidade civil – Ação de indenização por danos causados em abalroamento de veículos – Abertura de porta quando se aproximava um ônibus – Culpa do motorista do automóvel. RT 868/323). j.2007. . D. José Geraldo de Jacobina Rabello. Maria das Neves do Egito de A. Des. A imprudência tem forma positiva (in comittendo). rel.. avançar sinal vermelho. efetua a transposição de pista asfáltica e acaba por obstruir a trajetória de motocicleta... ensejadora de reparação dos danos morais sofridos em decorrência da falta de atendimento médico correto (TJSP. resta caracterizada a negligência do hospital e do médico responsáveis pelo procedimento obstétrico. Eventual excesso de velocidade empreendida pelo condutor desta última é irrelevante em face da preponderância da culpa decorrente da manobra imprudente […] (TJPB. no entanto realizados sem a devida cautela de momento. rel. falar ao telefone celular. Municipalidade que permite construções em área de risco à segurança dos moradores etc. […] Age com manifesta imprudência o motorista que.2004. RT 595/142). sem cercar-se das cautelas devidas. Juiz Regis de Oliveira.12. Ferreira. ou a buzina de alerta de outro veículo que reparte o trâfego.

não consigna a imperícia. entretanto. cujo direito não autoriza comportamento negligente. tampouco se constitui em permissivo de irresponsabilidade civil (TJRO.4. dirigi-lo nessa condição é imprudência (conduta positiva) Imprudente se mostra o motorista que.2. j. esse agir culposo é nitidamente distinguido e descrito em todos os seus contornos tanto pela doutrina como pela jurisprudência. 159. do atual Código Civil. j. 29. 2ª Câm. na situação. por não consertá-lo (conduta negativa). 65 66 Vide CTB. por falta de conhecimento técnico-profissional. Outra pessoa. que o art. se propõe com ele a trafegar. se assim procede é imprudente. Juiz Camargo Sampaio). que a negligência e a imprudência concorram em um mesmo evento danoso. porque perfeitamente previsível. como o correspondente art. no fato de o agente deixar arma ao alcance de uma criança. Igualmente. para a qual o agente encontra-se formalmente habilitado. não se pode dizer que não agiu. 18. não exclui o dever de cautela e segurança em prol da coletividade. Especial.66 A imperícia pressupõe arte ou ofício. situação que. Des. do Código revogado. se põe a reparar a rede elétrica de determinado prédio e provoca um curto circuito. segundo o qual os veículos oficiais em estado de emergência. quando caracteriza conduta irregular nos termos do Código Nacional de Trânsito. 5ª Câm. inc. a possibilidade de acidente (Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo. rel. VII. a imperícia manifesta-se na falta de capacidade para no exercício de uma determinada atividade profissional. RT 864/376. . A conduta negligente e imprudente de policial militar condutor de veículo público gera a obrigação de indenização em danos ao Estado. Rowilson Teixeira. não eletricista. Um eletricista é imperito.66 Nada obsta. possuem direito de preferência. ofício ou emprego. 24. Daí a incensurável observação do penalista Basileu Garcia. Cuida-se observar. 186. a falta de conhecimento ou habilidade para o exercício de determinada profissão.65 Movimentar no trânsito veículo em precário estado de conservação é negligência. rel.. Contudo.74. Portanto. acatada por Damásio Evangelista de Jesus. não desconhecendo a precariedade do veículo. de que a rigor a palavra negligência seria suficiente para ministrar todo o substrato da culpa.2007. art. no mesmo sentido RT 871/216). letra “d”. incluindo a imprudência e a imperícia. nada mais é do que a inaptidão.

67 Além disso, basta lançar mão da analogia, pois o Código Penal no seu artigo 18, inciso II, a ela faz referência. É devida indenização por hospital, por danos material e moral, com base nos arts. 14 da Lei 8.078/79 e 932, III, do CC/02, em razão de ato de imperícia de seu funcionário que aplicou medicação intramuscular na região glútea de paciente, atingindo-lhe o nervo ciático e causando-lhe incapacidade permanente, com atrofia do membro inferior esquerdo (TJSP, 3ª Câm. Dir. Privado, j. 08.11.2005, rel. Des. Donegá Morandini, in RT 846/269). STJ, REsp. 228.199-RJ, rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, j. 28. 5.2002, publ. 8.2002 Alguém pode ser perito, reunir as condições para determinado ofício, profissão ou arte, deixando de aplicá-las no caso concreto, é quando o agente labora com negligência. Renomado cirurgião que, no pós-operatório, por negligência deixa gaze no abdome do paciente. Ou sem embargo de possuir a devida perícia, procede temerariamente, com imprudência, o cirurgião que abandona o método tradicional e eficiente para certa cirurgia e faz experimento de nova técnica ainda não comprovada. 4.4.4 Presunção de culpa RT 564/217

A presunção de culpa constitui uma atenuação a teoria clássica da culpa. Em determinados casos a vítima fica em posição desconfortável ante a dificuldade de provar a culpa do agente causador do dano, quedando-se privada da possibilidade de ressarcir-se em face de um dano injusto. Diante dessa censurável situação, surgiram ideias apregoando a necessidade de se adotar a responsabilidade sem culpa. Em reação, os autores clássicos elaboraram a teoria da presunção de culpa, tendo em vista melhorar a posição da vítima, alargando o domínio de incidência da responsabilidade subjetiva. Pode decorrer da própria lei. O artigo 389, do Código Civil, diz que não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e danos, regra repetida pelo artigo 475, do mesmo codex; trata-se de responsabilidade civil contratual subjetiva com presunção de culpa, pois na sistemática do Código no ilícito contratual a culpa está in re ipsa, dimana do próprio fato. É, pois, presumida, sendo que na responsabilidade aquiliana, como regra geral, a culpa deve ser provada pela vítima, como ficou exposto.

68 Excetuando a regra geral, porém, a responsabilidade aquiliana também admite a presunção da culpa, isto acontece somente quando o dano resulta de conduta anormal que, por si só, faz presumir o ato ilícito. Cesare Massimo Bianca afirma que o dano normalmente evitado por uma conduta diligente comporta a presunção da culpa67, por conseguinte é a experiência que demonstra as hipóteses em que cabe essa teoria atenuante da prova da culpa. Não difere a jurisprudência. [...] A culpa do agente não precisa ser cumpridamente demonstrada, quando o dano resulta de conduta anormal, que, por si só, faz presumir a censurabilidade do procedimento. Sendo virtual a falta do causador do dano, a ele é que incumbe o ônus da prova da culpa da vítima, para eximirse do dever de indenizar (TJMG, apelação nº 19.876, da Comarca de Belo Horizonte, rel. Des. Umberto Theodoro, in THEODORO JUNIOR, Humberto. Responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência, 3 ed. Rio de Janeiro: Aide Ed., 1993, p. 85). Não se trata, a toda evidencia, de desarrimar o pressuposto da culpa, mas propiciar à vítima uma posição de vantagem, o que significa dizer, a presunção de culpa é matéria de prova. O Código de Processo Civil dispõe no art. 333 que o ônus da prova incube ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito (actori incumbit probatio). Pela presunção de culpa inverte-se o ônus. Ao devedor incumbe a prova de que não laborou com culpa no descumprimento do avençado. A presunção é relativa (juris tantum), admite prova em contrário, até porque se fosse absoluta (juri et de juris), não admitindo prova em contrário, seria mero jogo de palavras; dar-se-ia a responsabilidade civil objetiva. Tal expediente técnico-probatório reflete no deslinde da questão, a vítima sai em sensível vantagem, porquanto a prova da culpa mostra-se crucial em não raras circunstâncias, tanto que alguns autores chegam a chamá-la de probatio diabolica. De efeito, a exigência de que a vítima demonstre a culpa, impõe ao juiz tarefa extremamente árdua, verdadeira apreciação psicológica que chega a extravasar o alcance das atividades judiciais, o que levou na literatura francesa Tourneau e Cadiet a forjarem as seguintes perguntas: “que juiz poderia sondar os rins e os corações? Seria isto verdadeiramente justiça? Por seu turno, Josserand assim questiona:

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BIANCA, Cesare Massimo. Danno inguisto: a proposito del risarcimento da lesione di interessi. Rivista de Diretto Civile, v. 5, 2000, p. 581: “Il danno normalmente evitato da una condotta diligente comporta quindi la presunzione di colpa.”

69 Como um operário que se feriu durante o seu trabalho, pode demonstrar a culpa do patrão? Como o pedestre, colhido por um automóvel, num lugar solitário, à noite, na ausência de testemunhas, pode provar – supondo-se que tenha sobrevivido ao acidente – que o carro não estava iluminado ou que corria a uma velocidade excessiva? Como o viajante que, no curso de um trajeto efetuado em estrada de ferro, cai sobre a via, pode provar que os empregados tinham negligenciado no fechamento da porta, logo depois da partida da última estação? 68 Para melhor entendimento do que segue adiante é imperioso esclarecer que na égide do Código Civil revogado (art. 1.521), os casos elencados no art. 932, do atual Código Civil, eram resolvidos pela presunção de culpa, portanto harmonizados na responsabilidade civil subjetiva, com inversão do ônus probante. Hoje os mesmos casos são considerados responsabilidade civil objetiva. É a denominada responsabilidade objetiva impura na sistematização de Álvaro Villaça Azevedo. Apegados a discussão travada desde o Código de Bevilaqua, renomados civilistas entendem que a presunção de culpa é uma responsabilidade civil objetiva, por dispensar a vítima da prova da culpa, cumprindo-lhe provar apenas a conduta e o dano. Não é a melhor exegese. Reforça-se, a teoria de presunção de culpa foi esculpida, em Franca, pelos subjetivistas na elaboração de argumentos contrários às ideias nascentes da responsabilidade civil objetiva. Especificamente, para rebater as ideias objetivas de Saileilles e Josserand na interpretação do art. 1.384, do Código Civil de Napoleão, pontificou Leon Mazeaud: A jurisprudência, ao contrário, não vê no art. 1.384, § 1º, senão uma consagração da idéia de culpa. Se o guarda é responsável pelo dano causado por sua coisa, é porque se presume a sua culpa, ou mais exatamente, porque é culpado de ter deixado esta coisa escapar-se de sua guarda e cometer um dano. Culpa ou presunção de culpa, tal continua a ser o fundamento da responsabilidade do fato das coisas, como o fundamento de toda a responsabilidade civil. Assim, permanecendo-se inteiramente fiel à regra tradicional da culpa, pode-se dar satisfação às vítimas do maquinismo moderno, dispensando-se de provar a culpa da guarda da coisa. O resultado procurado foi atingido sem tocar nos princípios.69
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TOURNEAU, Philippe le. CADIET, Loïc. Droit de la responsabilité. Paris: Dalloz, 1998, p. 754: Quel juge pourrait sonder les reins et les coerus? Serait-ce vraiment justice? JOSSERAND, Lois. Evolução da responsabilidade civil, in RF 86/551. 69 MAZEAUD, Leon. Henri Capitant e a elaboração da teoria francesa da responsabilidade civil. Revista Forense, junho de 1940, vol. LXXXIII, p. 398 e segtes. Conferência proferida em 21 de dezembro de 1937, na Faculdade de Direito da Universidade Imperial de Tóquio, em homenagem à memória de Henri Capitant.

70 No mesmo diapasão o proficiente ensino de Almino Lima: “tratando-se, contudo, de presunções juris tantum, não nos afastamos do conceito de culpa da teoria clássica, mas apenas derrogamos um princípio dominante em matéria de prova”.70 Lapidário Caio Mário da Silva Pereira ao lembrar que a teoria da presunção de culpa é “uma espécie de solução transacional ou escala intermediária, em que se considera não perder a culpa a condição de suporte da responsabilidade civil, embora já se deparem indícios de sua degradação como elemento etiológico fundamental da reparação”. Mais adiante detalha: [...] na tese da presunção de culpa subsiste o conceito genérico de culpa como fundamento da responsabilidade civil. Onde se distancia da concepção subjetiva tradicional é no que se concerne ao ônus da prova. Dentro da teoria clássica da culpa, a vitima tem de demonstrar a existência dos elementos fundamentais de sua pretensão, sobressaindo o comportamento culposo do demandado. Ao se encaminhar para a especialização da culpa presumida, ocorre uma inversão do onus probandi. Em certas circunstâncias, presume-se o comportamento culposo do causador do dano, cabendo-lhe demonstrar a ausência de culpa, para se eximir do dever de indenizar. Foi um modo de afirmar a responsabilidade civil, sem a necessidade de provar o lesado a conduta culposa do agente, mas sem repelir o pressuposto subjetivo da doutrina tradicional.71 Na mesma linha segue Sergio Cavalieri Filho: A culpa presumida foi um dos estágios na longa evolução do sistema da responsabilidade subjetiva ao da responsabilidade objetiva. Em face da dificuldade de se provar a culpa em determinadas situações e da resistência dos autores subjetivistas em aceitar a responsabilidade objetiva, a culpa presumida foi o mecanismo encontrado para favorecer a posição da vítima. O fundamento da responsabilidade civil, entretanto, continuou o mesmo – a culpa; a diferença reside num aspecto meramente processual de distribuição do ônus da prova. Enquanto no sistema clássico (da culpa provada) cabe à vítima provar a culpa do causador do dano, no de inversão do ônus da probatório atribui-se ao demandado o ônus de provar que não agiu com culpa.72

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LIMA, Almino. Culpa e risco. 2 ed. São Paulo: RT, 1998, p. 72. PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade civil, 2 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991, pp. 280, 281 e 283. 72 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade civil, 8 ed. São Paulo: Atlas, 2009, p. 39.
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uma vez que o agente não é responsável se provar a sua não culpa. categoricamente. a responsabilidade civil dimana da mera infração da norma. p.521. a presunção de culpa demonstra uma tendência à objetivação. do Código Civil de 1916. afastada está a eximente. essa prova elide a presunção de culpa. que lhe imputa o árduo ônus da prova em contrário. a culpa do agente causador do dano. ao destaca os sistemas de responsabilidade analisados sob o prisma da culpa: “responsabilidade subjetiva. volume 2: obrigações e responsabilidade civil. 1. o passado do Código de Bevilaqua e o presente do Código de Reale. responsabilidade subjetiva com presunção de culpa e responsabilidade sem culpa (objetiva. . art.71 A distinção é feita com propriedade por Roberto Senise Lisboa. 2009.5 Culpa contra a legalidade Foi esculpida pela doutrina a teoria da culpa contra a legalidade. conforme disposição do art. de regulamento ou mesmo de determinadas regras técnicas do trabalho. Se o empregador provasse que havia adotado toda prudência e zelo para com a atividade de seu empregado. Agora. criando para o agente uma presunção relativa de culpa. a presunção de culpa é própria da responsabilidade subjetiva. a responsabilidade objetiva não admite tal discussão. Ora. Nada favorece ao agente a prova de que não atuou com dolo ou culpa. São Paulo: Saraiva. na responsabilidade objetiva o que se presume é a própria responsabilidade.. A responsabilidade do empregador era fundada na culpa presumida. do Código Civil de 2002. ao dirigir o veículo do empregador durante e em razão a jornada de trabalho. justamente por abstrair da culpa para imputar o an debeatur. Roberto Senise. III.”73 Dentro dessa ótica. assim entendida se o dever transgredido resulta de texto expresso de lei.4. 4 ed. em nada lhe aproveita a prova de sua diligência e zelo. 932. mas não é menos verdade redizer. III. inc. ocasiona acidente de trânsito. 225. 4.). porque a sua responsabilidade promana da lei como objetiva. pois. Manual de direito civil. É verdade dizer. eximiase da reparação. inc. Essa modalidade de responsabilidade civil prescinde da culpa. No entanto. não a culpa. por completo. Discute-se. Nesse caso. Eis a questão chave: na responsabilidade objetiva o agente que provar ausência de culpa elide a sua responsabilidade? A resposta é não. ofício ou profissão. 73 LISBOA. VER RT 597/136 Retomam-se os dois sistemas. Um empregado.

es necesario. Rio de Janeiro: Jurídica Universitária. Pratica de responsabilidade civil.75 A estatística tem demonstrado. e de sua prudência. O menor descuido.” E aduz: “a teoria da culpa contra a legalidade tem tido sua mais constante aplicação exatamente no campo da responsabilidade civil automobilística.A. a mínima desatenção. Há aqui uma complementação. p. naquele instante. face à imprudência alheia. 341. não exime o motorista de pautar cautelas suplementares. pois essa conduta indispensável não exclui as regras de direito comum modeladoras no dever de não lesar (neminen laedere). uma diminuição da atenção ou de vigilância quando ao que lhe ia em redor. mesmo assim. Que se acautele sempre. que os acidentes de trânsito crescem de modo assustador. que su conducta prevea y evite la imprudência y el descuido de los demás” (Responsabilidad extracontractual. Por isso. . Martinho. p. ainda mesmo que esteja a trafegar na sua devida mão e com o seu carro em perfeitas condições técnicas. atuando com toda diligência a ponto de prever e evitar a imprudência alheia. pelo menos em parte. B. Não é uma posição isolada.74 Na expressão de Wilson Melo da Silva “o só fato da transgressão de uma norma regulamentar materializa.72 Martinho Garcez Neto resume que essa modalidade de culpa opera-se “quando a simples infração de norma regulamentar é fato determinante da responsabilidade civil”. Da responsabilidade civil automobilística. y Ramos S. ocasionando acidente.” Dá. mormente se criança 74 GARCEZ NETO. levando-o a indenizar pelo eventus damni. 48. 75 SILVA. São Paulo: Saraiva. Wilson Melo da. afrouxou sua cautela ou se deixou engolfar em pensamentos ou recordações que determinaram nele. aquele que. 1970. Ônibus escolar estacionado em parada de embarque e desembarque de alunos exige do motorista que o ultrapassa o exercício da previsão: um aluno. continua responsável pelos danos que poderiam prever e evitar. 49 e 53. 1954. uma culpa. 2 ed. 1975. daí decorrente. quem dirige de conformidade com o Código de Trânsito e o seu regulamento. um acidente pelo qual teria concorrido. p. 58 e 125. Nesse sentido Jorge Peirano Facio: “no es suficiente que una persona actúe con toda la diligencia de su parte para evitar la culpa. poderia acarretar. O direito de ultrapassagem. assim. em seguida. Oportuna a severa advertência desse civilista das Alterosas: Quem tem às mãos um volante. Já é a principal causa da morte dos jovens até 25 anos de idade. Montevidéu: Ed. además. abroquelado numa preferência que lhe sabia assegurada pelo Código de Trânsito.. por exemplo. o exemplo de o motorista abusar da velocidade além dos limites estabelecidos em determinados locais. Que não se descure jamais de sua atenção. que não se tranqüilize por se saber um profundo conhecedor das normas de trânsito. Só pelo fato dessa transgressão normativa incide em culpa. tout court.

as duas teorias entendem que a culpa está in re ipsa.1975. não há como presumir a participação culposa da vítima no evento apenas com base em tal assertiva (STJ RDPR 30/334). um ilícito. daí a sua culpa pelo evento e sua obrigação de reparar o dano. Ainda assim o fato de dirigir com a carteira de habilitação vencida: Não é possível reconhecer a existência de culpa concorrente da vítima pelo simples fato de que esta dirigia com a carteira de habilitação vencida. De efeito. 1996. in Wilson Bussada. Montenegro e Carlos Roberto Gonçalves76 criticam essa teoria. j. 1985. Cível. Filho do autor que dirigia sem estar habilitado para tal. por si. a culpa contra a legalidade deve ser recepciona com reservas. Infração administrativa que não se confunde com a culpa civil. a sua prova.. 9. 7 ed. 4ª Câm. 135. É o que modernamente chama-se direção defensiva. 3. São Paulo: Saraiva. Antônio Lindbergh. [. Pode alguém dirigir sem habilitação legal. No mesmo sentido decidiu o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Indenização – Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Culpa – Não a configura o estacionamento em local proibido. sem que se torne necessário a sua demonstração.5.. p. Culpa configurada.] A causa preponderante do acidente foi a invasão da via preferencial pelo veículo do apelante. jurisprudência. Carlos Roberto. São Paulo: Jurídica Brasileira. sem qualquer consideração a respeito da teoria da “culpa contra a legalidade” aqui não aplicável (TAPA. 825. Responsabilidade civil. está estampada no próprio fato. imprudentemente. item 1. GONÇALVES. Antônio Lindbergh C. Juiz Ulysses Lopes Mendes Silva. Danos e indenizações interpretados pelos tribunais.962. Responsabilidade civil: doutrina. Não obstante. isto é.73 poderá. têmna como inclusa na culpa presumida. Nem sempre a infração de disposição regulamentar mostra-se como causa eficiente do dano. p. rel. Anaconda Cultural.546). V. contudo não dar ensejo ao acidente: Acidente de trânsito – Invasão de via preferencial pelo veículo do réu. Irrelevância. Procedência. 2002. 76 MONTENEGRO. a justificar apenas a aplicação de penalidade administrativa (RJTJSP 44/89). invadir o leito carroçável. Muito embora tal fato seja. Outro campo fértil à teoria da culpa contra a legalidade situa-se nos acidentes do trabalho: Culpa contra a legalidade. . p. vol. conforme jurisprudência transcrita.

sem intenção. o agente comete a ação ou omissão causadora do dano. 553. in vigilando e in custodiendo. entretanto. 4. causando prejuízo à outra”. comitentes. como se tivesse pretendido o resultado. da irreflexão injustificável à pessoa normal. injustificadamente. em idênticas condições.4. É gênero. sendo. frontalmente contra o valor constitucional da solidariedade. quando uma das partes. . a culpa grave é sinetada pela negligência rematada. Rio de Janeiro: Renovar. como no inadimplemento relativo ou absoluto do contrato. pois. pode atingir a 77 Direito civil: introdução. in contraendo A culpa diz-se também in eligendo se resulta da má escolha de representante ou preposto. por isso é chamada culpa consciente. açambarca situações gerais. leve e levíssima A graduação da culpa em grave. “que se verifica no processo de formação de um contrato. pela imperícia grassa ou pela imprudência grosseira. in vigilando se decorre da ausência de fiscalização de pessoas sob a guarda e responsabilidade. A culpa grave é a atuação informada pela inescusável falta de cautela. Arts.74 A rigor. 2003. a in contraendo. leve e levíssima deve ser procurada na comparação da conduta do causador do dano com aquela que teria revelado. 932 a 934 e 936 a 938). É o clássico exemplo do caçador. uma dessemelha da outra. indo. não o conclui. perderam significado com o atual Código Civil. ofício ou profissão.77 É o caso da responsabilidade civil pré-contratual. é fruto da incúria.7 Graus da culpa: grave. que preveja a responsabilidade objetiva dos empregadores. que se depara com a caça perto de seu companheiro. 4. Francisco Amaral destaca a importância de outra forma de manifestação de culpa. in custodiendo pela falha no guardar a coisa inanimada ou o animal com o cuidado objetivo. todavia. demonstrando adentrada insensibilidade social. o já mencionado homem médio.4. p. pais e proprietários ou possuidores de coisas animadas e inanimadas (CC. a culpa contra a legalidade espécie. desde que amplamente previsível o resultado. É quando.6 Culpa in eligendo. Essas espécies. Percebe que atirando no animal. a ser vista oportunamente. não se limita como a culpa contra a legalidade às hipóteses de contravir a lei. vicinal ao dolo eventual. assim. 5ª ed. Dessa forma. a pessoa de inteligência e prudência normais. o regulamento ou dever de obediência a determinadas regras técnicas do trabalho. A presunção de culpa é mais ampla. por ser mais restrita.

Às de 5.79 O tema. Coimbra: Almedina. Ato contínuo. daí estimulou a parêmia: Culpa lata dolus equiparatur. que no mais das vezes é difícil distingui-los. que coloca em serio risco o bem maior. mas não executaram o fato de imediato. por Rui Belford Dias. São Paulo: Editora CD. Debalde fundamentado parecer do penalista Damásio Evangelista de Jesus no sentido da conduta dolosa78. porém. que não aceita a equiparação do dolo à culpa grave. Esconderam o veículo que ocupavam.] pode este actuar com dolo e o juízo de reprovação ser menos severo do que se actuasse com mera culpa. Quatro jovens. como é mais censurável a atitude do médico que se esqueceu de visitar um doente grave. Prática das ações de indenizatórias: justiça civil. atravessaram a rua e derramaram o líquido em Galdino Jesus dos Santos. riscaram fósforos e incendiaram o desprotegido homem. Da responsabilidade civil. Polêmico debate foi travado no julgamento da causa. índio Pataxó. Por volta das 3. fica mais complexo na bem posta lição do lusitano Fernando Pessoa Jorge: [. quando sabia que o estado do enfermo não reclamava a sua presença. 295 e segtes.00 horas da manhã. compraram dois litros de álcool acondicionados em vasilhames plásticos.. p. do que o dolo de quem causou propositadamente um dano ligeiro em bem alheio. Por isso conclui. retornaram ao fatídico lugar. contudo confia em sua pontaria. .. rev. cumpre lembrar a oposição de José de Aguiar Dias. p. Ou seja. 1999. encontra-se a íntegra do parecer citado. José de Aguiar. p.00 horas da madrugada. Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil. ao avistarem suposto mendigo que dormia no banco que guarnecia determinado ponto de ônibus. com interessante enfoque sobre a diferenciação da culpa consciente e do dolo eventual. 11 ed. no interior de um automóvel passeavam pelas avenidas de Brasília. ajustaram fazer uma brincadeira. Fernando Pessoa. Para ele. que culpa é culpa e dolo é dolo. e atual.80 78 VARELLA. Nesse entretanto. confundir atos praticados de boa fé com os realizados de má fé fere a equidade. 80 JORGE. que a culpa consciente e o dolo eventual tanto se avizinham. a intenção que a preside.75 pessoa. a imprudência é tão grave. não se confundem. Luiz Salem e outra. 112-115. produzindo-lhe a morte. Continuaram o passeio. 2006. 79 DIAS. do que aquele que conscientemente faltou à visita prometida. tidos de boa família. Momentoso homicídio concentrou a atenção dos estudiosos do direito. Dirigiram-se a um posto de combustíveis. 359. peremptoriamente. o Tribunal Há de se ver. Rio de Janeiro: Renovar. criminal e do trabalho. É mais grave a negligência daquele que não apagou a fogueira que ascendeu na floresta. 2001. relegando um dos critérios mais justos da ação humana.

Direito Romano. apenas na extracontratual. III. 357. É dizer. E a culpa levíssima. diversamente do Direito Penal. de regra. a gravidade da culpa não exercia qualquer influência na reparação do dano. Juiz Guido Döbeli. Rio de Janeiro: Forense. 2003. porquanto inerente ao cuidado meticuloso. Jessuíno Rissato. do Código de Trânsito Brasileiro). portanto a falta que pode ser evitada com a atenção ordinária. b. a preferência é do veículo que por ela estiver circulando (art.10. 1. 2ª T. aquele Código. p. pois os textos romanos aludem. vinda a interceptar a trajetória de veículo que por ela trafegava. RT 869/276). p. j. 10ª Câm. Em se tratando de cruzamento com rotatória (ou “balão”). ingressa em rotatória sem atentar para o direito de preferência. apenas. do CPP. uma vez que a esfera penal não vincula a esfera cível. à culpa lata e à culpa leuis. 23. 82 ALVES. 9. 1999. Fernando Pessoa. José Carlos Moreira. Nota-se. sem tomar as devidas cautelas. desprezada pelo Direito Penal.2003. ofertando-se à colisão em sua lateral esquerda traseira (TJDF. Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil.2007. . Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais. em que o juízo de reprovação é menos rigoroso e até mesmo a culpa levíssima enseja a obrigação de indenizar ( extintoTAPR. rel.76 A culpa leve é a ausência de diligência média comum a qualquer pessoa. Coimbra: Almedina. Des.81 dai adágio lex aquilia et levissima culpa venit. 386. é a falta evitável só por uma atenção muito diligente ou especial habilidade e conhecimento singular.. Age com culpa o motorista que. forjado pelos juristas medievais na interpretação da Lex Aquilia de Damno. rel. 37. 2. vol. 29.82 O fato de o fogo ateado pelos réus em parte do pasto de sua propriedade ter sido propagado a propriedade vizinha causando danos a ela implica responsabilidade civil deles. II.10. não importando que tenham sido absolvidos no âmbito criminal com base no art. VI. fixava-se a sua reparação pela sua 81 JORGE. a culpa leve e a culpa levíssima implicam em um erro de conduta no qual qualquer pessoa está sujeita a cometê-lo. RT 822/379). Para o lusitano Fernando Pessoa Jorge o devedor não responde por culpa levíssima na responsabilidade civil contratual. equiparava a culpa ao dolo para fins de reparação do dano e nada se importava com os graus da culpa. pois. j. própria do homem médio. por ser uma falta de atenção ou insuficiente reflexão comum no cotidiano da vida. Na vigência do Código Civil de Bevilaqua era de somenos importância a intensidade da culpa.

2ª ed. sem dano. vol. p. p. leve e levíssima é mais engenhosa que útil na prática. p.” 84 PERREIRA. 85 Na sempre repetida lição de José de Aguiar Dias: “é verdadeiro truísmo sustentar o princípio. 5 Dano O dano (damnum) é o útero que gera a responsabilidade civil. 1895. Daí decorrente. trovasi abbandonata dal Codice francese e dall italiano. está superado o princípio da ideologia liberal. José de Aguiar. que sentenciava nenhuma responsabilidade sem culpa. Giovani. Pontes. parágrafo único. Não basta o ato ilícito. 969. 1991. mas nada responde na área civil pela ausência de dano. ou como assegura Caio Mário: “o dano é elemento ou requisito essencial na etiologia da responsabilidade civil”. piu ingegnosa che utili nella pratica. o que será visto oportunamente. 43. Tratado de direito privado. a assertiva é outra nenhuma responsabilidade sem dano.77 extensão e não pelo grau da culpa. que criou a indenização por equidade na consideração dos graus da culpa. revista e atualizada de acordo com o CC de 2002. que dirige veículo em alta velocidade pelas ruas da cidade. dano é a consequência da conduta humana capaz de produzir lesão a direitos ou a interesses alheios juridicamente protegidos. Instituizioni di diritto civile italiano. Responsabilidade civil. desde sempre. foi munificente na sua aversão a essa figura que reverbera o injustificado empobrecimento de alguém.1 Modalidades de reparação 83 LOMONACO. porque. e aumentada por Rui Belford Dias. responde na área penal por colocar em risco a incolumidade pública. 2006. ou melhor. 5. Da responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Renovar. o que levou Lomonaco a afirmar que a distinção em culpa grave. logicamente não pode concretizar-se onde nada há que reparar”.86 Dessa forma. e no âmbito administrativo por violar as normas regulamentares de trânsito.. 85 MIRANDA. em face do disposto no artigo 944. vol..83 Não acontece no atual Código Civil. Caio Mário da Silva. Rio de Janeiro: Forense. 179: “La tripartizioni delle cope. Napoli: Presso Nicola Jovene & Cº LibraiEditori. e o direito brasileiro. 5º. porquanto responsabilidade civil sem dano é enriquecimento sem causa para quem recebe a indevida reparação. Um motorista. p. ato ilícito. 85. 53. e pois sem que se possa reclamar a reparação”. chiamata dal Bigot-Préameneu. . Pode haver delito.84 Na lucidez de Pontes de Miranda “não se identifiquem o delito (ato ilícito) e a reparabilidade. 11ª ed. resultando a responsabilidade civil em obrigação de ressarcir. 86 DIAS.

a distinção a fazer é uma só: se o dano é ou não certo. São três as modalidades de reparação: pela convenção das partes.78 Constatado o dano. De fato. o ordenamento jurídico dota a vítima do direito de pedir a sua reparação frente ao agente causador. que é a reparação em dinheiro e por equivalente.307. quando a prestação não oferece mais utilidade ao credor. deveria ser mais difundida a jurisdição privada. mesmo sem qualquer intervenção de terceiro. Toma-se a lesão causada a uma pessoa.2 Dano indenizável O dano indenizável deve ser o certo ou efetivo. quando ainda lhe é útil e possível o seu cumprimento. arts. chamada de Lei Marco Maciel. Posto nestes termos. pois em se tratando de direito disponível as partes podem acordar o que lhe seja mais conveniente. O dano atual é o contemporâneo à realização do ato lesivo. na obrigação de fazer conforme o art. 9. que consiste num prejuízo temido. Pela tutela específica em que o credor persegue a prestação tal qual convencionada. e na obrigação de não fazer na forma do art. o que infelizmente no Brasil ainda se mostra de maneira tímida. RT 682/119). ainda não consolidada. . Ou pela utilização da mediação e da arbitragem. sendo indeterminado quanto à sua quantificação. não se compadece com o dever de indenizar o dano hipotético ou conjetural. meramente eventual porquanto incerto. que lhe poderá produzir incapacidade laboral só verificável por meio de futura perícia. a Lei n. É futuro se suscetível de constatação por colocar-se na sequência normal de um fato atual. apesar da boa legislação sobre a matéria. 249. A reparação pela convenção das partes é sempre provável. pela tutela específica e pela tutela genérica. motivo do presente estudo. 251. São exemplos. Para tanto. na obrigação de dar pela busca e apreensão de bens móveis. que quantificará o grau se parcial ou total. imaginários ou fantásticos (1º TACivSP. aquele fundado em um fato preciso e não sobre simples hipótese. Pela tutela genérica das perdas e danos. de 23 de setembro de 1996. Lucros cessantes – Pretensão que deve ser fundada em bases plausíveis ou verossímeis de modo não compreender os proventos hipotéticos. ainda se temporária ou permanente. como no caso da dação em pagamento (CC. 5. ambos do Código Civil. 356 a 359). assim os estragos na lataria de um carro por ocasião do acidente.

Chance é possibilidade real e séria. o cavalo poderia ou não vencer o páreo. . Outros exemplos. j. Ou ainda. mas por sua exclusiva culpa não chega a tempo de participar do páreo. a pintura poderia ou não ser premiada. 403 afasta é o dano meramente hipotético. Um dos exemplos mais citados é a negligência do advogado que deixa de impetrar o recurso cabível. Nas três situações há uma incerteza: o recurso poderia ou não ser provido. Por estes motivos não vemos óbice à aplicação. rel. privando o seu constituinte do julgamento pelo superior grau de jurisdição. porém a perda da chance. O que o art. a perda da chance pode ser certa. 2007.96. Des. a chance perdida não é mera expectativa da vítima. simples casualidade. certa é a pert d’une chance que cada um deles inexoravelmente se viu privado. o pintor que envia seu quadro para participar de uma exposição com premiação e o correio. Pelo critério da seriedade e da realidade da chance perdida é que se distingue o dano conjectural ou hipotético. eventual ou conjuntural. 203. Rafael Peteffi da. Privado. criteriosa. São Paulo: Atlas.87 Ensina a respeito Judith Martins-Costa: Embora a realização da chance nunca seja certa. Portanto. Dir. mormente aquelas que se apresentam distantes. cuja reparação cabe arredar pela sua eventualidade. mas se a vítima provar a adequação do nexo causal entre a ação culposa e ilícita do 87 SILVA. que não se colocam na sequência ordinária dos fatos. 3ª Câm. não o entrega em tempo hábil.79 Persevera nesse entendimento o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Ênio Zuliani. da Teoria. isto é. Não é qualquer chance. Dá-se quando a realização da chance perdida nunca seja certa.3 A perda de uma chance A perda de uma chance relativiza a assertiva de que somente o dano certo é indenizável. o caso do jóquei que deveria montar o cavalo de corrida que lhe foi entregue pelo proprietário. não alcançada por fato exclusivo de outrem. esta sim. JTJ Lex 182/79). é certa. Indeniza-se pela supressão de uma situação favorável que poderia verificar-se. p. 5. mas aquela que se esteia em uma possibilidade fidedigna de alguém obter lucro ou evitar prejuízo diante de situação concreta. que poderia acolher a sua pretensão.06. 11. Responsabilidade civil pela perda de uma chance: uma análise do direito comparado e brasileiro. É excluído de reparação o dano meramente hipotético. negligentemente. aquele que pode não vir a concretizar-se (TJSP.

o fato ilícito e culposo deve contribuir. Rio de Janeiro: Forense. para que outrem perca uma chance de conseguir um lucro ou obter uma vantagem ou de evitar um prejuízo. que o animal. Responsabilidade civil por perda de uma chance. a pessoa a quem a sua custodia foi transferida. em sua clássica obra. Rio de Janeiro – São Paulo: Ed. em um acidente evitável. não o prêmio. um ano de sua vida escolar: Responsabilidade civil – Ensino particular – Dano moral e material – Reprovação de aluna. É dizer.80 lesante e o dano sofrido (a perda da possibilidade séria e real). perdendo. Sérgio. 2006. diante da probabilidade real e séria de vencer. 90 TJRJ. Deve ter em conta. aborda a hipótese de alguém que concorrerá a um certame. Uma estudante ficou em recuperação por não ter obtido nota suficiente para aprovação direta em português. Contudo é necessário que a chance perdue seja real e séria. o que deve ser objeto de indenização é a perda de uma chance. o que teria retirado a chance de a aluna ser aprovada. O mestre refuta a possibilidade de o dono demandar o prejuízo do prêmio.2003. de forma direta. 89 Considera-se ainda. onde apresentará um animal havido como raridade. Agostinho. contudo. quanto à prova. 40-41. Maldonado de Carvalho. cujo valor pode ser apurado por perícia. A escola ministrou de maneira deficiente o processo de recuperação... Judith. Entretanto. 17. Jurídica e Universitária Ltda. de modo a candidatar-se a um grande prêmio. 89 ALVIM. também. . não apenas a existência do fator álea. 3 ed. 190-191. Des. p. o caráter atual ou iminente da chance de que o autor alega ter sido privado.9. Comentários ao novo Código Civil. distancia-se do mero dano hipotético e penetra na seara do dano efetivo. Comprovada a irregularidade na reprovação da aluna. tinha o seu valor acrescido. podendo ser negociado por preço maior. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. tendo-se em conta. 1965. Ver: SEVI. São Paulo: Atlas. j. p. maior a indenização. 362. O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. pela relatoria do Desembargador Maldonado de Carvalho lucidamente sintetiza a questão na parte final do acórdão: [. em consequência. de modo que esse mais. deixa o animal perecer. na avaliação dos danos. não o grande prêmio oferecido no certame.. leva-se em consideração. 2003. assim.88 Agostinho Alvim. Essa valorização entra no patrimônio do proprietário. com perda de chance de ser aprovada e rompimento de seu equilíbrio 88 MARTINS-COSTA. ou seja. que quanto mais real e séria a chance perdida.] Na pert d’une chance. à qual não foi oportunizada adequada recuperação terapêutica. volume V. Aceita. a álea susceptível de comprometer tal chance. configurados estarão os pressupostos do dever de indenizar. 6ª Câm. p.. rel. mas também o grau dessa álea.90 Outro interessante julgado vem do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. tomo II: do inadimplemento das obrigações.

mas o direito próprio que se originou de sofrimento personalíssimo. dano moral. é o prejuízo que atinge terceiro. 27. Apelo provido em parte (TJRS. nas circunstâncias. Assim também se ocorrer o perecimento ou deterioração de um bem. j. é aquele em que a vítima sofre os efeitos do dano causado diretamente a outrem.2003. o que originou sofrimento à mãe. Leo Lima). reflexo ou por ricochete e indireto Primordialmente. com as lesões e danos sofridos pela filha (1º TACivSP. sentença. o ofensor indenizará o ofendido integralmente de todas as despesas até ao fim de sua convalescença. sentença que extinguiu o processo. 3ª Câm. Direito próprio. 5ª Câm. Responsabilidade civil.. A filha foi a vítima direta do dano ao se envolver em acidente de trânsito. danos morais e materiais sofridos pela filha. os efeitos jurídicos do dano – além de atingir diretamente a vítima – podem repercutir na esfera de interesses de outras pessoas. do Código Civil. Cível. Extinção do processo. a própria vítima é quem sofre o prejuízo. em que ocorrendo lesão ou outra ofensa à saúde. Apelo provido. Des. rel.2004.03.11. a mãe. Em outras palavras. rel. j. Afastado os efeitos da r. 5. A genitora é titular de direito próprio e não alheio. quando transportada por ônibus. o agente do ato lesivo ficará obrigado a indenizar o proprietário. Juiz Salles Vieira. Do corpo do acórdão extrai-se: Depreende-se da inicial que a apelante não está pleiteando direito próprio da filha. o ofensor obrigar-se-á a ressarcir o ofendido etc. Ademais. impõe-se seja indenizado o dano moral sofrido. RT 827/267). a filha.4 Dano direto. É o dano direto. em ação de indenização. não constitui dor passível de reparação.81 psicológico. trazendo consequências práticas que devem ser consideradas. Dano material afastado. que não a vítima direta da conduta danosa. por assim dizer. Ainda ocorrendo ofensa moral. A frustração dos pais. porém. Toma-se o art. É o chamado dano por ricochete ou reflexo. . Indeferimento. autora da ação. ao postular. ou seja. no interior de coletivo. 949. A escola foi condenada a pagar trinta salários mínimos a título de dano moral. conforme sustentou a r. 02. Petição inicial.

se não provada a dependência econômica. Todos eles são legitimados à proposição da ação ressarcitória. 2 ed. E há de se demonstrar o pressuposto da dependência econômica. não tem legitimidade para pleitear pensão por morte decorrente de acidente 91 92 Apud PEREIRA.92 Da mesma forma. ascendentes e colaterais. Não havendo demonstração de contribuírem as vítimas para o sustento de seus pais. É o caso de o filho menor.. do art.82 É a lição de Sourdat ao afirmar que o marido é legitimado a impetrar ação em seu próprio nome. O sobrinho do falecido. perdura a presunção de dependência econômica. rel. Quanto aos parentes legitimados a receber alimentos. sendo devida a verba (1º TACivSP. Reconhecida a paternidade.2004. que seria certa em face da vítima morta. Juiz Ribeiro Souza. 2ª Câm. abrangendo os descendentes. j. Na mesma situação encontra-se o nascituro. 1991. não reconhecido. não uma das vítimas. A relação de dependência econômica entre os familiares é essencial para a fixação da pensão. RT 826/236). abrange também cônjuges e companheiros. de sorte somente se deferem os alimentos àqueles a quem o de cujus os devia.02. o ato lesivo retira-lhe a possibilidade idônea de obter uma situação futura mais confortável pela pensão que passaria a lhe ser devida. uma vez que sofre dano certo e atual pela perda de credito alimentar que recebia. considerando a ofensa feita à sua mulher. 18. não pode ser presumida a relação de dependência. mas que ainda não os recebem. Não se contesta o direito do alimentando pela morte do alimentante. . com o ônus da prova decorrente da equação binômia prevista no § 1º. a primeira cogitação a fazer é a da perda de uma chance. instituído herdeiro universal por testamento. p. moradores em Estados diferentes. Contudo. Rio de Janeiro: Forense. quanto à pensão da filha de uma das vítimas absolutamente incapaz.694: necessidade do alimentando e possibilidade econômica do alimentante. 50. Caio Mário da Silva. Responsabilidade civil. A redação é da ementa e pode trazer interpretação equivocada. perde uma probabilidade real e séria de acolhimento de sua pretensão alimentar. não tem direito o herdeiro universal. tanto pelo vínculo natural da consangüinidade como pelo vínculo civil da adoção. O direito subjetivo de pedir alimentos resulta da relação de parentesco. 1. por atingi-lo diretamente em razão dos laços íntimos que os unem. pois a privação dos alimentos é consequência do dano por afetar a pessoa cuja subsistência ficou prejudicada.91 No caso de alimentos outros exemplos podem ser suscitados. Absolutamente incapaz é a filha.

1º. se encontrava no local para se candidatar a emprego oferecido. quando. 1561226MG. 1. por sua vez. Pais da vítima. sendo a razão central estabelecer o liame entre o primeiro como causa dos demais. gera o dever de indenizar por danos morais os familiares. sem prejuízo de outras reparações. de dano reflexo ou por ricochete é o que se relaciona ao vilipêndio da imagem de pessoa morta.. RT 814/321). é insuficiente para justificar o pedido indenizatório. 948. 18ª Câm. j. j. não paga seu credor que.537. A fotografia de pessoa morta. rel. prevê indenização pelo pagamento de despesas com o tratamento da vítima. sendo o primeiro a causa do segundo.1998. De um evento inicial abrolha uma cadeia de danos. pois o rol é meramente exemplificativo. mais a prestação alimentícia às pessoas a quem o morto os devia. não auferindo renda. Recurso não provido. II. RT 827/268. se tratando. Dano moral. Cível. A única previsão legal de dano reflexo ou por ricochete encontra-se no caso de homicídio. na realidade. apenas. Min. A máquina não lhe é entregue por culpa do vendedor. Ruy Rosado de Aguiar (STJ. da vítima do evento (TJRJ. 948. O fazendeiro. corpo do acórdão). vende bens a preço vil. este do terceiro e assim sucessivamente. dentre tantos. O dano indireto é a possibilidade de advir sucessivos danos. .2002. 4ª T. Nascimento Povoas Vaz. 05. rel. em tentativa de assalto a empresa de ônibus. não excluindo a compensação por dano moral.83 com base no art. Outro exemplo. Ruy Rosado de Aguiar.02. É o exemplo do fazendeiro que compra um trator de determinado comerciante. Implica no nexo de causa e efeito. A conduta ilícita do comerciante não pode ser causa do não cultivo das terras e nem da venda de bens a preço vil. um decorrente do outro. Para tanto. Des. Tal reportagem atingiu a imagem do falecido ao apontá-lo como perigoso marginal. Relator Min. deixa de cultivar as suas terras e. Os pais da vítima sofrem o dano moral resultante da morte do filho e tem direito próprio à indenização. II] (a indenização no caso de homicídio consiste na prestação de alimentos às pessoas a quem o defunto os devia). indispensável o pressuposto da econômica dependência daquele que reclama prestação de alimentos de terceiro (RT 675/134). por essa causa.10. não podendo ser acolhida a tese de que a indenização pelo dano moral somente pode ser deferida à vítima do acidente. vez que o simples vínculo sangüíneo com a vítima. O art. REsp. Responsabilidade civil. do CC [atual art. funeral e luto da família. do Código Civil. apresentada no noticiário de jornal que a apontou como perigoso marginal.

84 Poderia o fazendeiro arar suas terras com trator alugado. A morte. Direitos das obrigações. o tratamento indicado como corretivo. patrimônio é o complexo das relações jurídicas de uma pessoa natural ou jurídica. a dar um concerto. Entendem-se os bens. Por vezes. que tenha valor econômico. ou mesmo arrendá-las para outro produtor. Inexecução das obrigações e suas conseqüências. compromete-se para com B. direitos e obrigações redutíveis em dinheiro. chamado outro médico. seja civil. os pessoais entre cônjuges. ALVIM. recorre-se a Agostinho Alvim para analise de outro exemplo: Suponha-se que certo doente não tenha sido operado com observância das regras de assepsia. resultando impossibilitado de cumprir o contrato. 528. p. injuriado ou caluniado perde clientes. o dano moral por ele sofrido tem consequência também patrimonial.5 Dano material: dano emergente e lucro cessante Dano material ou patrimonial atinge o patrimônio da pessoa. Coimbra: Almedina.. é ofertado por Mário Júlio de Almeida Costa: A. Um profissional liberal difamado. acarretando sua depreciação. Assas vezes. no caso. A imprudência do primeiro e a imperícia do segundo contribuíram de forma eficiente para o evento morte. 93 94 COSTA. Suponha-se mais que. em determinada casa de espetáculos.93 Mais uma vez. no dia X. O comerciante responde pelo inadimplemento contratual. Há um liame entre as suas condutas. nem por isso este fica obrigado a indenizar o empresário B. causado pela violação a bens materiais corpóreos ou a direitos incorpóreos que compõem o acervo de uma pessoa. Pode-se chamar de dano misto. pianista famoso. empresário. 95 No sentido jurídico. que exclui os danos considerados remotos. seja contraproducente. pressupõe pluralidade de causas. os direitos do poder familiar e os políticos. Agosrtinho. 329. o vocábulo patrimônio é empregado em sentido não consentâneo com o conceito jurídico. na hipótese de A sofrer uma agressão de C. 1965.ex. patrimônio moral. Nele não se incluem os direitos da personalidade de modo geral. ..95 É o prejuízo de feitio econômico. e o doente venha a falecer. 3 ed. 5. p. complicando o seu estado de saúde. constituindo uma universalidade. 1998. os dois médicos respondem. 7ª ed. comercial ou no Direito Público.94 Não há como excluir nenhum e nem o outro. mas apenas A. Outro exemplo de limitação do dano indireto. Rio de Janeiro – São Paulo: Jurídica e Universitária Ltda. mas sua conduta é muito distante para ser causa dos demais prejuízos: não arar as terras e a venda de bens por preço vil. a ofensa a determinado direito da personalidade pode acarretar dano patrimonial. que passou a ser causa remota. Mário Júlio de Almeida. Não se argumente que a segunda conduta inadequada eliminou o nexo causal com relação à primeira. p.

ou seja.. Refere-se à situação futuro. pois se o for. tendo a indenização por objeto reparar o dano. o dano emergente é representado pelas despesas de tratamento (o que efetivamente perdeu).85 O dano material quando atinge o patrimônio presente enseja o dano emergente (damnum emergens) e se o patrimônio futuro enseja o lucro cessante (lucrum cessans).] as perdas e danos devidas ao credor abrangem. 2 ed. trata-se de uma diminuição patente de seu patrimônio. referindo-se os dois valores ao momento em que se apura a diferença. É a teoria da diferença: confronta-se a situação em que o patrimônio foi posto pela conduta lesiva (situação real). deixou de trabalhar (o que razoavelmente deixou de lucrar). É a regra do artigo 944: “A indenização mede-se pela extensão do dano. Vige o princípio da restitutio in integrum. e o lucro cessante. em atenção ao princípio segundo o qual a reparação há de ser integral.1 Critério para fixação do dano emergente A mensuração do dano emergente é mais simples. Responsabilidade civil.. Rio de Janeiro: Forense.] o montante da indenização não pode ser inferior ao prejuízo..” Pontifica Caio Mário da Silva Pereira: [. Refere-se à situação presente.97 5. 332. 1991. além do que efetivamente perdeu. Mário Júlio de Almeida Costa ensina que o dano emergente compreende a perda ou diminuição de valores já existentes no patrimônio do lesado e o lucro cessante diz respeito aos benefícios que ele deixou de obter em consequência da lesão. . Sobre essa diferença expressa em dinheiro incidirá a atualização monetária até o 96 97 Op. 518. p. Há de atentar para a gravidade da falta e as suas conseqüências.. PEREIRA. por ser um desfalque no patrimônio presente do credor. o que afronta o princípio da equivalência. cit.. É a letra do artigo 402: “[.” Dano emergente é o que a vítima efetivamente perdeu. recuperando-se. Ao passo que o lucro cessante é o que a vítima razoavelmente deixou de ganhar. pelos dias em que. trata-se da diminuição potencial de seu patrimônio. o acréscimo patrimonial frustrado. as perdas e danos convertem-se em fonte de enriquecimento (de lucro capiendo). Por outro lado.96 Suponha-se um dentista lesionado na mão por ato ilícito de outrem. p. Caio Mário da Silva. de modo a não se dar menos do que o efetivo prejuízo sofrido e também não se dar mais do que se deve reparar. com a situação em que se encontraria se a mesma conduta não houvesse ocorrido (situação hipotética). rompendo o binômio dano-indenização. Sinteticamente. o que razoavelmente deixou de lucrar.5. o montante da indenização não pode ser superior ao prejuízo. bem como para a natureza do dano.

deve-se comprovar haver. entretanto. de una prueba razonable acerca de lo que podria ser el verdadero lucro dejado de percibir. Para que ocorra o lucro cessante. lo que reclama. dado que apenas se perde o que se deixa de ganhar. com certeza. 975-976: Si intuye que el daño emergens tiene una base firme y el lucro cesante participa de todas las vaguedades y incertidumbres de los conceptos imaginarios.Barcelona: Bosch Casa Editorial. Luís Pascual Estevill professora com clareza: Se intuí que o dano emergente tem uma base firme e o lucro cessante participa de todas as variedades e incertezas dos conceitos imaginários. o que reclama para sua apuração.6 Restitutio in integrum Pelo exposto. Nem mais. É o escólio de Pontes de Miranda: 98 ESTEVILL. uma prova razoável acerca do que poderia ser o verdadeiro lucro desejado de perceber. a indenização é o que se deve prestar para repor a vítima na mesma situação patrimonial em que estaria se não se houvesse produzido o dano. Portanto. nem menos.98 5. Cada caso concreto deve ser analisado nos seus contornos. art. . Se. segunda edición. Se um agricultor é esbulhado no inverno quando a terra descansa. 389). a indenização mede-se pela extensão do dano. esperável. frente o que seriam meros sonhos e ganâncias. para que não haja enriquecimento ou empobrecimento indevido. dependendo das circunstâncias. algo a ganhar. Derecho de daños: principios generales. 5.5.2 Critério para fixação do lucro cessante Já o lucro cessante enseja maiores dificuldades. o lucro cessante pode significar a colheita de todo o ano agrícola. Luis Pascual. Isto é. Entretanto. responsabilidad contractual. existem nuanças a serem consideradas. além dos juros moratórios e honorários de advogado (CC. a título de perdas e danos. na primavera quando a terra é preparada para receber a semeadura. para su apreciación. Sem a prova precisa de ganho. por parte del que los exige. não há de se falar em lucro cessante. de sorte se relaciona a um dano futuro. o lucro cessante é quase nenhum. extracontractual y responsabilidad precontractual. p. pois um mesmo fato. as circunstâncias de cada caso concreto devem ser consideradas no estabelecimento do quantum debeatur em tema de lucro cessante. por parte daqueles que o exige. frente a lo que sólo serian meros sueños de ganancias.86 efetivo pagamento por tratar-se de dívida de valor. poderá surtir efeitos danosos diferentes. rejeitando-se um critério invariável. tomo II.

Pontes. o que foi prejudicado já havia vendido a coisa a preço acima do comum. de 25 de novembro de 1998. 215. Tratado de direito privado. Campinas: Bookseller. tomo 22. 45.7 Verbas compensáveis O Superior Tribunal de Justiça na diuturnidade de seus arestos afirma que o seguro obrigatório de veículos. Por isso mesmo. que pode ser acima do comum. adquirível no mercado ou com facilidade.” Por lógico raciocínio. pago à vítima ou à sua família.99 Aqui assim. com a redação dada pela Lei 9. O art. . por exemplo. A perda de um livro integrante de uma coleção deprecia a coleção como um todo. § 1º. mas o que valia o livro ou a tela na coleção. Se.8 Verba não compensável 99 MIRANDA.714. do Código Penal.87 A indenização não é segundo o valor comum. mas pelo valor que em verdade tem para ao lesado o bem que se destruiu. ou a perda que sofreu. § 3º. sendo que a vítima não possuía os demais volumes da coleção. e não o pretium commune. é o pretium singulare que se há de prestar. salvo se é possível a prestação na mesma coisa. repete a norma. também o seguro facultativo em favor da vítima ou de seus sucessores. p. Essa indenização também merece abatimento. é a letra da lei. O que se indeniza é o que sofreu a pessoa ou seu patrimônio. A indenização há de ser balizada pelo efetivo prejuízo. Tanto que estabeleceu a súmula 246: “O valor do seguro obrigatório deve ser deduzido da indenização judicialmente fixada. não mais. dispõe sobre prestação pecuniária à vítima ou aos seus sucessores. o Código de Trânsito art. quando se manda avaliar o dano causado ao que colecionava livros de determinada matéria. quando vingar contrato neste sentido entre o agente do dano e a seguradora. não se avalia só o que foi destruído. 2003. se outro não pode ser reposto em seu lugar. a depreciação de seu patrimônio equivale ao valor do livro. do contrário não é integral. uma particularidade. A perda do mesmo livro. o pretium singulare. deve ser deduzido da reparação do dano a eles devida. 5. 5. 297. Os dois estatutos demonstram oportuna preocupação com a vítima do dano injusto. É o que se denomina compensatio lucri cum damno. ou telas de determinada época.

Min.2002.. 5. com relação aos profissionais da saúde (art.846. 951). Rio de Janeiro: Freitas Bastos. DJ 4. Para mais desse critério geral. 2. Não é compensável. pois.2006. para o ofendido que não puder provar prejuízo material sofrido (art. 100 LOPES.2006. 1ª T. 954). no caso de ter a vítima ou seus herdeiros uma pensão de aposentadoria. 953. as perdas efetivamente sofridas e os lucros razoavelmente não auferidos estabelecem a regra geral da cabeça do art. de lesão ou outra ofensa à saúde (art.100 5. Miguel Maria de Serpa. No mesmo sentido REsp. 948). Obrigações em geral. Serpa Lopes dá a seguinte explicação: Se para que se dê a compensatio lucri cum damno se torna necessário que o lucro e o prejuízo decorram ambos do ato ilícito. RT 559/81.12. Castro Filho. por José Serpa Santa Maria. de modo definitivo: “É possível a cumulação de pensão mensal em razão de ato ilícito com o benefício pago pelo instituto previdenciário (pensão por morte do segurado).11. parágrafo único). j. rel. vol. e finalmente a indenização por ofensa à liberdade pessoal (art. p. pela usurpação ou esbulho da coisa (art.11. Recente decisão do Superior Tribunal de Justiça reafirma posição anterior.2003. A idéia de que a vítima irá lucrar com essa cumulação se esboroa ante esta: transferir o lucro de um lado para colocá-lo a serviço do causador do dano. 950). de ofensa à capacidade de trabalho (art. 6 ed.88 A pensão previdenciária tem causa diversa da reparação do dano. Aplicação da Súmula 229/STF. o Código Civil prevê indenização específica para os casos de homicídio (art. abrindo-se uma exceção. Denise Arruda. 949). 14. Depois de alertar que na compensatio lucri cum damno cumpre que haja um nexo causal. 5. 403.11 Exceções ao critério geral Duas exceções são previstas à regra geral da restitutio in integrum. Min. .. II. 952).10 Critério geral Como expendido. 3ª T.9 Dano agravado pela vítima A reiterada jurisprudência dos tribunais é no sentido que o dano agravado pela conduta da vítima não é indenizável. DJ 7. 944: a quantificação do valor indenizatório pelo dano patrimonial é a extensão desse mesmo dano (restitutio in integrum). j. não há como escapar desse requisito. 416. RJTJSP 44/140). e atual.4. rev. rel. 1995.” (STJ.

188. que se desprende e mata um pai de família que transitava pela rua. 2002. vol. a despeito do grau insignificante da culpa. Para se obter a indenização integral da vítima. a situação econômica das partes envolvidas no dano. visa corrigir situações em que a culpa mínima possa acarretar indenização acerbada. dispondo que entre outras circunstâncias devem ser levados em conta o grau de culpabilidade do agente. eqüitativamente. Direito Civil. é possível que se venha arruinar o agente causador do dano. A muitos pode parecer injusta tal solução. Sílvio. A culpa passa a ter influência. o Código Civil de Reale introduz substancial modificação. 944 põe a regra geral: “A indenização mede-se pela extensão do dano”. poderá o juiz reduzir. Na cabeça do art. 19 ed.102 Desproporção da gravidade da culpa e o dano Bem por isso. 12ª ed. Assim. fala sobre a transferência da ruína de um para outro: A indenização pode ser imensa. . É o abandono a ideia do formalismo técnicojurídico. 494º. corre-se o risco de arruinar outro. No caso da responsabilidade civil. IV. Ante o preceito pátrio utilizar-se do verbo poder surge questão prática: pode ou deve o juiz aplicar a regra do parágrafo único? É mera discricionariedade ou é norma cogente? A resposta está diretamente vinculada a um dos princípios fundantes – expressão forjada por Miguel Reale – do Código Civil de 2002. elemento axiológico muito precioso ao Código. que entende que tudo deve ser resolvido técnica e cientificamente 101 102 RODRIGUES. São Paulo: Saraiva. não mais acreditando na plenitude hermética do direito positivo.101 Ilustra. medindo-se a indenização pela extensão do dano. na dosagem da reprimenda legal. 2. Mais específico é o Código Civil de Portugal. Direito Civil. RODRIGUES. que oferece parâmetros no seu art. apenas transmitir-se-á a desgraça das vítimas reflexamente atingidas com o falecimento. para se remediar a situação de um. como no Direito Penal. De modo que. próprio do individualismo da metade do século XIX. a indenização”. no vigésimo andar de um edifício. O princípio da eticidade.. em virtude de sua extrema severidade. p. Uma inadvertência mínima – culpa levíssima – pode trazer a ruína do ofensor. distraidamente encostar-se à vidraça. vol. Abre-se a possibilidade de se utilizar da eqüidade para reduzir a reparação quando houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano. 1981-1982. em edição passada de sua obra. 4: Responsabilidade civil. com a hipótese de alguém. São Paulo: Saraiva. O parágrafo único tempera: “Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano. p. em edição atualizada de sua obra.89 Sílvio Rodrigues. Sílvio.

com a supressão da parte final: não se aplicando às hipóteses de responsabilidade civil objetiva. assim. 944 do novo Código Civil. Código civil interpretado.” A partir de então. Propender-se. 2002. o Código de Processo Civil. 897. a doutrina propendeu acatar essa interpretação enunciativa. 2010. Novo curso de direito civil: volume III: responsabilidade civil. Claudio Luiz Bueno de Godoy preconiza nesse sentido e. que não está obrigado a redução da indenização. Aqui um caso de expressa autorização legal para o 103 Para Sílvio de Salvo Venosa é simples discricionariedade concedida ao juiz. não se aplicando às hipóteses de responsabilidade objetiva. deve ser tida como cogente. por prescindir da culpa. caindo a fiveleta a pergunta de Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho: “Como explicar que. por representar uma exceção ao princípio da reparação integral do dano. É o caso da norma em comento que. deve ser interpretada restritivamente. p. p. para o reconhecimento da responsabilidade seja dispensada a indagação da culpa. 944: a possibilidade de redução do montante da indenização em face do grau de culpa do agente. São Paulo: Atlas. onde e quando previsto. Sílvio de Salvo. de conformidade com os valores éticos. 790. que conferem ao juiz o poder de suprir lacunas e também solucionar. estampa a permissão de o juiz decidir por equidade. . São Paulo: Atlas.104 Todavia. Cezar Peluzo (coord. na IV Jornada introduziu modificação: “Enunciado 380 – Atribui-se nova redação ao Enunciado n. e para a fixação do valor indenizatório ela seja invocada para beneficiar o réu?105 Observe-se. 105 GAGLIANO. estabelecida no parágrafo único do art. SP: Manole.” Abrem-se as portas para a incidência da reparação equitativa na responsabilidade objetiva. Assume-se um sentido mais aberto na previsão de cláusulas gerais e princípios legais indeterminados. Código civil interpretado. quando autorizado por lei. dessa maneira. 143. Na I Jornada de Direito Civil promovida Conselho de Juízes Federais. Nesse sentido considerando. se a norma jurídica evidenciar-se deficiente ou inajustável à especificação do caso concreto. certos parâmetros legais obrigam-no e deles não pode afastar-se. com fulcro nos termos do enunciado. no artigo 127. 4 ed. 104 Código Civil Comentado. foi aprovado o Enunciado 46: “Art. exatamente. São Paulo: Saraiva. Pablo Stolze. No mesmo sentido: VENOSA. para a busca do que é mais justo e equitativo. 2007.). 897.103 Atualmente agita controvérsia a sua possível aplicação na responsabilidade objetiva. sem apelo a princípios considerados metajurídicos. p. 2010. embora ao juiz devam ser conferidos amplos poderes para definição da forma e da extensão da reparação. 46 da I Jornada de Direito Civil.90 por meio de normas expressas. p. Barueri.

Fernando Pessoa.. É mais grave a negligência daquele que não apagou a fogueira que ascendeu na floresta. não podendo privar o incapaz. . O juiz está devidamente autorizado. É uma responsabilidade subsidiária. Cumpre aguardar a tendência dos tribunais nessa que é mais uma das tantas questões controvertidas em sede de responsabilidade civil. não é perquirido para reconhecimento do an debeatur. A equidade não tem outro nome. E o parágrafo único assegura que a indenização deverá ser equitativa. se as pessoas por ele responsáveis não tiverem a obrigação de fazê-lo. Responsabilidade do incapaz A outra exceção está prevista no artigo 928. afastada as hipóteses em que o causador do dano milita com culpa grave e dolo. ou não dispuserem de meios suficientes.. um incapaz exposto com curadoria especial para localização de seus 106 JORGE.91 julgamento por equidade. Preconiza. pois levará em consideração o grau da culpa do agente causador do dano o que. ou as pessoas dele dependentes. com muita felicidade. ao tratar da responsabilidade do incapaz. Fernando Pessoa Jorge: [. do que aquele que conscientemente faltou à visita prometida. 359. 1999. Resta aguardar como fazê-la. do que o dolo de quem causou propositadamente um dano ligeiro em bem alheio. Raros os casos. quando sabia que o estado do enfermo não reclamava a sua presença. supõe-se. não poucos entendem que essa mitigação incide apenas na culpa leve e levíssima. dispondo que ele responde pelos prejuízos que causar. do Código Civil. a rigor. p. De efeito.] pode este actuar com dolo e o juízo de reprovação ser menos severo do que se actuasse com mera culpa. 944. será de ingente dificuldade conciliar a sua aplicação. Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil.106 De fato. no entanto. se na responsabilidade objetiva prescinde-se da culpa. Coimbra: Almedina. critério prévio de seleção excludente poderá mostrar-se inadequado em determinadas circunstâncias. De outro lado. De logo cumpre reconhecer. como é mais censurável a atitude do médico que se esqueceu de visitar um doente grave. Subsidiária. porque o incapaz somente será compelido a reparar o dano no caso de seus responsáveis não estarem obrigados a fazê-lo. é o caso concreto que preconizará se cabe ou não a incidência do parágrafo único o art. senão o de justiça no caso concreto. do necessário para uma subsistência digna. nada impede essa aplicação. tarefa não pouco emaranhada.

d) que haja entre o facto e o dano o 107 A eqüidade conjuga princípios imutáveis de justiça. ainda por força do parágrafo único do artigo em comento. do Código Civil. àquela estampada no artigo 1. nem dos meios indispensáveis para cumprir os seus deveres legais de alimentos. adesão ao princípio constitucional da proteção à dignidade da pessoa humana. todavia. A indemnização será. do necessário à subsistência digna. Ad exemplum: incapaz rico que causasse dano a um pai de família pobre. levando-o à miséria. ser condenada a repará-los. também deve ser equitativa. “de modo que a passagem ao patrimônio do incapaz se dará não quando esgotados todos os recursos do responsável. isto é. em Brasília). cuja proteção volta-se à vítima inocente de dano injusto. na verdade. mas se reduzidos estes ao montante necessário à manutenção de sua dignidade” (Enunciado 39. até com certo afastamento do direito objetivo. Equidade que permite ao julgador considerar o que se apresenta como justo no caso singular. que autorizam o julgador a se valer de um critério de moderação e equilíbrio na fixação de um dever. desde que não seja possível obter a devida reparação das pessoas a quem incumbe a sua vigilância.” O lusitano Antunes Varela. b) que esse facto tenha causado danos a alguém. c) que o facto tenha sido praticado em condições de ser considerado culposo. No atual estágio da responsabilidade civil. da I Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal.92 parentes. de 11 a 13 de setembro. 2. o julgador lançará mão de um critério fundado na moderação e equilíbrio para a fixação da obrigação indenizatória. é mitigada. tutelado ou curatelado. Se o acto causador dos danos tiver sido praticado por pessoa não imputável.692. Entretanto essa indenização. pode esta. como na hipótese antecedente. A outra hipótese é de o filho. preservando o incapaz e seus dependentes. no comento a este artigo do Código Civil de seu país.107 A indenização equitativa traduz. seria inaceitável não indenizar. apresenta os seguintes requisitos: a) que haja um facto ilícito. Deflui daí. caso os tenha. calculada por forma a não privar a pessoa não imputável dos alimentos necessários. que os pais. se nas mesmas condições tivesse sido praticado por pessoa imputável. reprovável. possuir patrimônio e o seu respectivo responsável não. O Código Civil português tem disposição equivalente: “Artigo 489º: Indemnização por pessoa não imputável 1. por analogia. Assemelha-se. por motivo de equidade. . Esse curador especial não é obrigado a ressarcir prejuízo causado pelo incapaz. Para tanto. não integral. tutores e curadores são também beneficiados por esse limite humanitário. total ou parcialmente. conforme o seu estado e condição.

pois se insurgia contra a existência de direitos 108 ANTUNES VARELA. Direito das Obrigações. João de Matos. – volume I – Coimbra: Livraria Almedina. a honorabilidade de uma pessoa são inestimáveis economicamente. Chega a ter laivos de irrisório a pretensão do embargado (Arquivo do Judiciário 111/1954. É a corrente dos negativistas fundamentados no pensamento de Savigny. 7 ed. e) que a reparação do dano não possa ser obtida dos vigilantes do inimputável. o que se procura é a maior proteção da vítima de dano injusto. 566. Em um primeiro momento os julgados apegavam-se à tese da sua impossibilidade. achou de se declarar moralmente ferido. Sergio. Como se o dinheiro fosse bálsamo ou anestésico de aplicações da alma. p. que seria tratado com maior rigor. anos depois. o sofrimento. assegura que a responsabilidade civil do incapaz funda e mede em um plano de direito equitativo. 10 ed.110 Melhor fundamento é que. porque o Código Civil estabelece a culpa como regra geral da responsabilidade civil e se assim o fosse as causas de irresponsabilidade que eximem o plenamente capaz pelo afastamento da culpa. 1998. que não se trata de responsabilidade nem objetiva e nem subjetiva. 2007. Mário Júlio de. E concluía mordaz: Trata-se de um cidadão que deixa abandonado o túmulo de sua esposa e. porque a Municipalidade andou tocando na sepultura. no estágio atual da responsabilidade civil. embora depois a recompusesse. 2000. f) que a equidade justifique a responsabilidade total ou parcial do autor. p. Das obrigações em geral.93 necessário nexo de causalidade. 110 CAVALIERI FILHO. em face das circunstâncias concretas do caso. .108 Nessa esteira conclui-se. Não é subjetiva. exigindo dinheiro para o seu consolo. ardoroso adversário da responsabilidade por dano moral. Daí a reiterada orientação do Supremo Tribunal Federal nesse sentido (RF 45/521). como a legítima defesa e o estado de necessidade. Coimbra: Livraria Almedina. não alcançariam o incapaz. 27. Programa de responsabilidade civil. p. O então Ministro Nélson Hungria sempre se alinhou entre aqueles que negavam formalmente a reparação do dano moral. Mário Júlio Almeida Costa. arguindo que a dor. 6 Dano Moral A jurisprudência foi lenta na aceitação do dano moral. São Paulo: Atlas. para ele o fundamento dessa responsabilidade é encontrado nos princípios de garantia e assistência social. 109 ALMEIDA COSTA. Não é objetiva. o que não se concebe. 7 ed.109 Sergio Cavalieri Filho pensa diferente. 548. porque ao incapaz não se lhe pode imputar culpa. 283 e 284). Outro jurista português. p.

Dano Moral. Os bens sobre a honra. a vida privada. não podendo ser indenizáveis. p. De dano moral somente o nome.94 originários ao considerar falso o princípio de um direito do homem sobre sua pessoa. inciso V: “é assegurado o direito de resposta. ao descrever uma assembléia de deuses. além de indenização por dano material. um código de leis civis e religiosas enquadrado num grande discurso do Profeta Moisés. Min. a legitimar o suicídio. de forma ampla e pelo mesmo fato. De efeito. 1983. proporcional ao agravo. no tocante à doutrina. j. 2ª Turma. 111 SILVA. sem que o cumulasse com o dano patrimonial: “Responsabilidade civil. moral e à imagem”. rel. 13-19 e 28-29). a admitir a ressarcibilidade do dano moral. É uma fase de transição entre a oposição e a aceitação. Para eles era inadmissível que os sofrimentos morais dessem lugar à reparação pecuniária. o legislador constitucional nada mais fez do que reconhecer o que vêm de anosas eras. À Constituição Federal coube desmoronar a resistência à sua indenização sob o argumento da ausência de um princípio geral. Assim agindo. julgando caso de indenização motivado por um adultério. Rio de Janeiro: Forense.111 Já começava. ao dispor no artigo 5º. 398. assegurado o direito de indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. 26. na oitava rapsódia (versos 266-267). RT 599/263). a vida. Essa pálida aceitação sinalizou uma evolução no espírito dos negativistas. quando trata dos atentados à reputação de uma jovem e dos casos de adultério e fornicação (22. de sorte conduziria. o dano material” (STF. na expressão de Wilson Melo da Silva. Wilson de Melo da. entretanto. propugnando pela aceitação do dano moral apenas quando repercutisse no patrimônio do lesado. O dano moral e sua reparação. a liberdade em suas várias manifestações não estariam no âmbito jurídico da ordem privada. se deles não decorresse qualquer dano material (RT 660/116). Está na Bíblia. o dano moral deita origem em documentos dos mais antigos. a honra e a imagem das pessoas. o que se indenizava era o dano patrimonial. entre outras consequências. especialmente no Deuteronômio.84. . originário de dano moral. O passo seguinte foi dado pelos intermediários. O dano moral não é de ser indenizado quando o foi. Também na Odisséia de Homero. Na verdade. Décio Miranda. própria dos misoneístas. 3 ed.06. e no inciso X: “são invioláveis a intimidade.

Artur Oscar de Oliveira.112 Para Orlando Gomes leva-se em consideração a natureza dos direitos subjetivos violados: “é.113 De efeito. 12 ed. Orlando. Ambos. A reparação dos danos morais: (doutrina e jurisprudência). e estimulando investigações de mestrandos e doutorandos. ilicitamente produzida por outrem”. o que lhe é inato. 5º. no campo mais amplo do direito civil constitucional. Rio de Janeiro: Forense. Para ele dano moral é a dor resultante da violação de direitos estranhos ao patrimônio. todavia. embora afanosamente trabalhado. 6. 2000. A responsabilidade opera-se unicamente pelo fato violador: é o damnum in re ispsa. 271. Reconhece. ostentam a mesma natureza extrapatrimonial. o constrangimento que alguém experimenta em conseqüência de lesão de direito personalíssimo. . Nos últimos anos. que essa compreensão não é a predominante na doutrina e na jurisprudência. tanto que a Constituição Federal tratou-os em conjunto no art. 113 GOMES. p. V e X. como visto. por Humberto Theodoro Júnior. no programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Pernambuco. portanto. e atual. Seja a dor física (dor-sensação). incs. Conjugados a lesão a qualquer direito da personalidade e o nexo de causalidade com o dano moral é o quanto basta para surgir o direito à reparação. direitos da personalidade e dano moral. rev. que se chega a indagar da possibilidade do dano moral fora do âmbito dos direitos da personalidade. sem repercussão patrimonial. Artur Oscar de Oliveira Deda considera os efeitos da lesão jurídica. São Paulo: Saraiva. ambos têm por objeto bens interiores da pessoa. Direito das obrigações. 112 DEDA. Pesquisador da matéria.95 Conforme o estágio atual admite-se a sua cumulação com o dano material nos termos da Súmula 37 do Superior Tribunal de Justiça: “São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato”. tenho trabalhado esse tema. Paulo Luiz Netto Lôbo observa: Não há outras hipóteses de danos morais além das violações aos direitos da personalidade. p. 3 a 8. que fortalecem a tese. 1998.1 Dano moral: conceito Não é unívoco o conceito de dano moral. os direitos da personalidade oferecem um leque de oportunidades definidas no sistema jurídico cuja lesão faz incorrer a pretensão de dano moral de modo objetivo. sem nenhuma necessidade de recurso à existência da dor ou do prejuízo. É tão íntima a interação entre eles. Várias correntes disputam a melhor forma de conceituá-lo. seja a dor moral (dor-sentimento) de causa imaterial.

como também violados em diferentes níveis. em sentido amplo. ainda que sua dignidade não seja arranhada”. nº 284. A dor é uma conseqüência. suas afeições. Desse ponto de partida. Enumera a imagem. aspirações. filosóficas. Daí conceitua o dano moral. Paulo Luiz Netto. gostos. . a essência de todos os direitos da personalidade. sofrimento. da integridade psíquica ou outros direitos da personalidade. 2001.. 16 e 17. correspondem à dos aspectos essenciais da honra. O dano moral remete à violação do dever de abstenção a direitos absolutos de natureza não-patrimonial. sofrimento e humilhação podem ser conseqüências. Fora dos direitos da personalidade são apenas cogitáveis os danos materiais. Afirma que a Constituição Federal erigiu. como aquele que “envolve esses graus de violação dos direitos da personalidade. o bom nome. p. o dano moral não está necessariamente vinculado a alguma reação psíquica da vítima. em sentido estrito. assim como pode haver dor. e não causas. E direitos absolutos de natureza não-patrimonial. da reputação. Acrescenta que os direitos da personalidade podem ser realizados em diferentes dimensões. vexame. E completa a sua lição: Nessa perspectiva. conceitua o dano moral. religiosas. que dá uma nova feição ao dano moral e maior dimensão à dignidade humana. como “a violação do direito da dignidade”. convicções políticas. Assim como a febre 114 LÔBO. hábitos. Dor. Revista Jurídica. considerada esta em suas dimensões individual e social. não diretamente vinculados à dignidade. abrange todas as ofensas à pessoa.. no artigo 1º. vexame e sofrimento sem violação da dignidade. direitos autorais. no âmbito civil. Nenhum dos casos deixa de enquadrar-se em um ou mais de um tipo. podendo falar hoje em direito subjetivo constitucional. não é o direito violado. Pode haver ofensa à dignidade da pessoa humana sem dor. para fins dos danos morais. gerando pretensão à obrigação passiva universal. são exclusivamente os direitos da personalidade. inciso III. O que concerne à esfera psíquica ou intima da pessoa. Danos morais e direitos da personalidade. sentimentos. o que ele denomina de novos direitos da personalidade.114 Sergio Cavalieri Filho caminha nessa direção. a qual passa a ser a base de todos os valores morais. Direito absoluto significa aquele que é oponível a todos. jan. relações afetivas. sua consciência. seus sentimentos. constatando que os direitos da personalidade açambarcam outros aspectos da pessoa humana. sua dor. A referência freqüente à dor moral ou psicológica não é adequada e deixa o julgador sem parâmetros seguros de verificação da ocorrência de dano moral.96 A rica casuística que tem desembocado nos tribunais permite o reenvio de todos os casos de danos morais aos tipos de direitos da personalidade. a dignidade humana como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. Prossegue. a reputação. vexame.

Esses direitos são transmitidos por sucessão mortis causa.115 Maria Helena Diniz. ao caráter de sua repercussão sobre o ofendido. é aquele que provoca prejuízo a qualquer interesse não patrimonial. referenciada em Wilson Melo da Silva. Programa de responsabilidade civil. a liberdade. que produz um menoscabo a um bem extrapatrimonial. Abrange. Assim fica explicito. P. a reação psíquica da vítima só pode ser considerada dano moral quando tiver por causa uma agressão à sua dignidade. 7 ed. 76 e 77. Maria Helena Diniz distingue dano moral direto e dano moral indireto: O dano moral direto consiste na lesão a um interesse que visa a satisfação ou gozo de um bem extrapatrimonial contido nos direitos da personalidade (como a vida. a própria imagem). 52. o decoro. Sergio. 2007. a capacidade. ainda. provocada pelo fato lesivo”. oferece o seguinte conceito: “o dano moral vem a ser a lesão de interesses não patrimoniais de pessoa física ou jurídica (CC. a integridade corporal e psíquica. ou a ofensa a um interesse moral que reflita em dano material. art. sobre o qual subsistem os chamados direitos post mortem. do fato lesivo a um interesse patrimonial.97 é o efeito de uma agressão orgânica. a honra. Joeirando a jurisprudência encontram-se exemplos dessas duas espécies de dano moral: A remoção de restos mortais de sepultura perpétua para ossuário geral do cemitério por parte da Administração Pública sem ciência e consentimento da família constitui ato inexplicável e absurdo. Para essa professora da PUC-SP. os sentimentos afetivos. 1º. III). tal não ocorre com o direito ao corpo. art. explica o prejuízo causado a um interesse patrimonial que resulte também em dano moral. ou a ambos. ex. Súmula 277 do STJ). São Paulo: Atlas. Deriva. a ensejar obrigação de indenizar por dano moral. portanto. o critério de distinção entre o dano patrimonial e o moral não poderá ater-se à natureza do direito subjetivo atingido. ou seja. o estado de família). devido a uma lesão de um bem patrimonial da vítima. cabendo aos herdeiros ou ao cônjuge. Dessa forma. mas ao interesse. que é pressuposto desse direito ou ao efeito da lesão jurídica. ou nos atributos da pessoa (como o nome. a intimidade. . Apesar de os direitos da personalidade terminar com a morte. ainda que ausentes o dolo ou a intenção de causar prejuízo (RT 639/155). p. a lesão à dignidade da pessoa humana (CF/88. ou melhor. de um anel de noivado. ou seja. a promoção de sua 115 CAVALIERI FILHO.: a perda de coisa de valor afetivo. O dano moral indireto consiste na lesão a um interesse tendente à satisfação ou gozo de bens jurídicos patrimoniais.

A família sofreu. Os crimes contra honra são campo fértil em que vicejam violações aos direitos da personalidade. E foi exatamente esse gesto o escolhido na mensagem televisiva. o devido ressarcimento será a conseqüência de direito” (RT 464/226 e 227). fundada em retratação posterior. de mensagem congratulatória ao povo brasileiro pela conquista definitiva da Coupe Jules Rimet. dessa forma.338). As Mercearias Nacionais S/A. Calúnia na divulgação de fatos pela imprensa. constitui ilícito indenizável (STF. Entre os jogadores distinguia-se o capitão da equipe Carlos Alberto Torres. no caso. pois o contrato acertado entre as duas empresas continha cláusula para fins publicitários e de propaganda. que impõe a reparação do dano. por meio da televisão. Retira-se outro exemplo de interessante episódio. mas o direito à imagem que decorre dos direitos essenciais da personalidade. com envio. há locupletamento ilícito. por direito próprio. Se a imagem é reproduzida sem autorização do retratado. que buliu com a emoção do povo brasileiro. Eis a ementa do acórdão: “A ninguém é dado. afetados que foram os seus sentimentos afetivos. no caso vertente. para promoção de revista com a qual não contratou. Obrigação . sem autorização. organização mercantil que explora o negócio de supermercados. que teve a honra de levantar o precioso troféu. RTJ 125/1. Embora não se cuide de publicidade estritamente comercial. O povo foi despertado no seu sentimento de nacionalidade. como já explicitado. televisar imagem alheia em propaganda lucrativa. Trata-se de dano por ricochete. mas também a exploração comercial com finalidade lucrativa.98 defesa contra terceiros. Absolvição criminal. a Seleção Brasileira disputou e venceu a Copa do Mundo disputada no México. Fazendo-o. agindo. No mesmo sentido: A reprodução de fotografia não autorizada pelo modelo não ofende apenas o direito do autor da obra fotográfica. Em 1990. contratou a locação dos serviços da empresa HAPP – Haroldo de Andrade Publicidades e Promoções. Entendeu o Tribunal que não houve apenas o intuito de solidarizar-se com o povo brasileiro. que não elide a responsabilidade do jornal pela publicação de notícia colhida sem cautelas e que atinge a incolumidade moral de uma pessoa. Inarredável o dano moral direto. mediante trabalhos e anúncios. para fins publicitários e de propaganda. configurando o dano moral direto: Responsabilidade civil. séria lesão nos direitos da personalidade.

49. em local ermo e à noite. 02. 3ª Seção. uma vez que tais jóias normalmente se destinam a retratar um vínculo afetivo (p. Ora.09. Revisa Jurídica 335/138). pela ofensa a bem patrimonial. Enfim. Fagundes de Deus. j. A existência. Juiz Luiz Burza. da Lei 5.). Caracterizada a injúria. uma obrigação de fazer que a seguradora deixou de fazer. rel. se perfeitamente identificada a pessoa visado (RT 748/323).. entre os bens empenhados.99 de reparação dos danos morais (art. O desaparecimento de jóias de família empenhadas à Caixa Econômica Federal dá ensejo à caracterização do dano moral indenizável.04. 12. pelo fato do produto. etc. quando solicitada deixou o cliente desamparado. no caso o dano moral deriva dos efeitos jurídicos – grande aflição e pavor – ocasionados pelo inadimplemento de cláusula contratual que respalda um interesse econômico. O dano moral indireto. que enseja a reparabilidade do dano moral indireto. por ter deixado honrar o contrato que incluía serviço de guincho. incendiado em decorrência de autocombustão do motor.250/67).: casamento. É a perda de um bem patrimonial de valor afetivo. noivado. Faz jus à indenização por danos morais. que não conseguiu demonstrar a inexistência do defeito causador do sinistro ou que ouve culpa exclusiva da vítima. ex. o consumidor que teve seu veículo novo. Do corpo do acórdão consta: . 1. em face de ofensas dirigidas a pessoa em programa radiofônico. Sentença mantida (RJTSP 32/141).2005.2002. 3. 2.308-1. 1ª Região. as alianças. causando-lhe grande aflição e pavor (1º TACSP – 8ª Câm. de alianças de ouro amassadas e sem qualquer adorno faz presumir terem eles valor sentimental para a parte autora. §§ 1º e 3º do CDC.I. ap. rel. Des. pois se trata de responsabilidade civil objetiva da empresa fabricante. Embargos infringentes improvidos (TRF. j. recém adquirido. 17. RT 807/278 e 279). É devida pela seguradora indenização por danos morais. nos termos do art. não afasta a responsabilidade indenizatória do ofendido por alcunha ou apelido.051. ou seja. e que. também é encontrado na jurisprudência: Responsabilidade civil – Penhor de jóias – Caixa Econômica Federal – Desaparecimento – Indenização – Dano moral – Cabimento – 1.

o conceito familiar e social são contrariados de forma ilícita. na desconsideração social. advindo do fato naturais dissabores e contratempos. É que muitas vezes não se assume o próprio erro.100 A experiência dolorosa do sinistro. certamente incutiu fundado temor e verdadeira perplexidade na pessoa do autor. a partir da experiência traumática do incêndio do veículo por autocombustão. As circunstâncias do fato indicam que o autor experimentou um verdadeiro constrangimento.2 Configuração do dano moral Não sem motivo denuncia-se a indústria do dano moral. Analisando a índole dos direitos violados na configuração do dano moral. na . não há como enumerá-los exaustivamente. A auto-estima. no sofrimento. em linha de princípio. até mesmo. ART. a respeitabilidade da pessoa. 231/1. no descrédito à reputação. nota-se que essa espécie de dano é reservada para eventos que inspiram seriedade. circunstâncias ou fatos. São considerados os efeitos derivados do fato: fundado temor. VOLUME 257/74. no desequilíbrio da normalidade psíquica. porquanto malferem direitos existenciais. por vezes. multifacetário o ser anímico. no desprestígio. mesmo que isso não seja ético e. objeto de comentários jocosos até no seu ambiente social. Lúcida síntese da pena de Yussef Said Cahali: Na realidade. Receios e temores certamente acometeram o autor e seus familiares. erigir meros transtornos da vida cotidiana em ofensas aos direitos da personalidade. na angústia. prefere-se transmiti-lo a outras pessoas. Outras vezes procura-se prevalecer de uma situação. tudo aquilo que molesta gravemente a alma humana. com repercussões na saúde psicológica e. nos traumatismos emocionais. evidenciando-se na dor. na humilhação pública. trazendo consequências de difícil e até impossível superação. verdadeira perplexidade. nas circunstâncias em que se verificou. CC. como dano moral. dissabores. qualifica-se. mas algo excepcional. ferindo-lhe gravemente os valores fundamentais inerentes à sua personalidade ou reconhecidos pela sociedade em que está integrado. na tristeza pela ausência de um ente querido falecido. física da vítima. contratempos decorrentes da deterioração de um bem patrimonial. O episódio não foi um fato corriqueiro da sua vida de relação. no devassamento da privacidade.566 6. VER REVISTA JURÍDICA SÍNTESE. Não se está diante de mero ou corriqueiro fato indesejável do cotidiano. verdadeiro constrangimento.

30. A multa de trânsito aplicada equivocadamente deve ser considerada nula. p. é dizer. No entanto. 2005.. as irritações e os dissabores provocados pelo ordinário da vida apartam-se do dano moral. nem o estóico. RT 809/265) Outro interessante caso decidiu o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Há no consenso feminino um aguçado instinto de autodefesa para conter investidas dos cortejadores elegantes e ou descortês. Juiz Nelson Fonseca. 3ª ed. Des.07. no sentido da pessoa de aguçada sensibilidade que a tudo se ofende. Dessa maneira. não gera indenização por danos morais. de perplexidade.116 Nota-se. RT 818/195). Outro parâmetro está na assertiva de Cahali: “multifacetário o ser anímico”. os percalços e os aborrecimentos. Cai. de sensibilidade mediana. Dano moral. 27. uma vez que o simples aborrecimento experimentado é insuficiente para abalar o psiquismo da pessoa natural (1º TACiv. Ênio Santarelli Zuliani. De plano. portanto violados esses direitos o dano moral configura-se. 116 CAHALI. 7ª Câm. nem muito sensível nem apático às ofensas. o homem impassível perante as adversidades porque falto de sentimento.05. cada pessoa humana é distinta pelos predicados que lhe são inerentes. uma realidade social que faz supérflua a indenização por dano moral. não raro. j.2002.101 depressão ou no desgaste psicológico. novamente. as contrariedades e as desilusões. j. 3ª Câm. pois. é conveniente perceber que o dano moral é ofensa a interesses relacionados à dignidade humana ou aos direitos da personalidade. como luvas nas mãos a construção engenhosa dos romanos. Sao Paulo: RT. . rel. nas situações de constrangimento moral. de Direito Privado. rel. diante de determinados eventos o julgador coloca-se numa situação de hesitação. representado pelo bonus pater familias. Aquela pessoa comum. para compensação de ofensa ao direito da personalidade (TJSP. Não bastam para interceder de modo intenso a ponto de provocar o desequilíbrio psicológico daquele que é levemente ofendido. Yussef Said.. sendo que o aborrecimento em fase de uma “cantada bisonha” termina consumido pelo natural ridículo da cena repudiada. Não se pode tomar como referência nem o alfenim. a inexistência de critérios objetivos.2003. o que. o homo medius.

na hipótese. Samoel Evangelista). afigura-se como lesiva ao patrimônio moral e jurídico do representado. Para que se efetive a ofensa à honra. referindo-se apenas à existência de uma “gangue” (TJDF. inexiste. 2ª Câmara. tendo como relator o então Juiz Caetano Levi Lopes: Indenização – Notitia criminis – Dano moral – Má-fé – É direito de qualquer cidadão levar ao conhecimento da autoridade policial a ocorrência de um fato tipificado como crime.05.. Des. obrigação de indenizar dano moral (RT 818/273). Câm. Também não constitui dano moral a notitia criminis levada – de boa-fé – à autoridade policial para a apuração de fato típico diante da ocorrência de evidências.2002. de evento danoso. II – Ocorrência. a ofensa à honra deve ser dirigida contra pessoa certa e determinada. Des. I – A representação criminal fundada na alegação de “crime de ameaça”. Responsabilidade civil – Ação ordinária de reparação por danos morais. mesmo se nomeada pessoa certa e determinada. se destituída de má-fé. se destituída de má-fé. No corpo deste acórdão várias outras decisões são citadas. Em outras palavras. proferidas em assembléias. RT 816/310). A notitia criminis. não nominaram o apelante. rel. não gera lesão ao patrimônio moral da pessoa que foi convidada a prestar esclarecimentos sobre os fatos. 4ª T. Ofensas genéricas e impessoais são afastadas do dano moral. não gera lesão no patrimônio moral da pessoa indicada. destacando-se esta do extinto Tribunal de Alçada de Minas Gerais. não existe dano moral quando as expressões tidas como injuriosas. 12. 14. na unidade policial (TJAC. Levar ao conhecimento da autoridade policial a ocorrência de fato tipificado como crime é direito de qualquer cidadão. culpa e nexo de causalidade entre a conduta do agente e a ofensa à esfera jurídica e moral da pessoa . permitindo-se identificação do destinatário. dolo ou má-fé. devendo ser pessoal e direta. rel. esta deverá ser direta e pessoal. por parte do noticiador do fato. 0254507. quando intentada com temeridade. Cível. Lecir Manoel da Luz. por tratar-se de exercício regular de direito. Ap.2003.10. j. somente tipifica denunciação caluniosa quando o denunciante tem a certeza moral da inocência do denunciado. A notitia criminis. assim como desprovida de pressupostos legais e fáticos. posteriormente arquivado por sentença. Desse modo. ao constranger o representado a responder por inquérito policial. j. Em conseqüência.102 De outro lado.

surge a necessidade da reparação. No caso em apreço dá-se a emulação. a teor do exposto no art. por meio de testemunhos.11. a chamada dor-sentimento. a ensejar. que é o ato praticado com o firme propósito de causar dano a outrem.103 representada. provado está o dano moral. como prestadores de serviços aos seus clientes – consumidores finais – estão submetidos às disposições do Código de Defesa do Consumidor. A concepção atual da doutrina orienta-se no sentido de que a responsabilização do agente causador do dano moral opera-se por força do simples fato violador (damnum in re ipsa).1999. Sergio. prescindindo da análise da culpa. . Bem por isso. Enquanto o primeiro deixa vestígios evidentes que podem seguir os meios tradicionais de prova. seu nome ou seu conceito social afrontados. o dano moral existe in re ipsa. a humilhação etc. também nada lhe será exigido provar nem sequer eventual prejuízo. está demonstrado o dano moral à guisa de uma presunção natural. o segundo. documentos ou perícias. Seria um plus inaceitável impor à vítima o ônus de comprovar o seu sentimento. se presentes os pressupostos legais para que haja a responsabilidade civil (nexo de causalidade e culpa) (RSTJ 98/270 e RT 746/183). Casos tópicos exemplificam: Os bancos. Revista Jurídica 268/116). o dano moral decorre diretamente da gravidade da afronta. provada a ofensa. respondendo objetivamente pelos danos que causarem a terceiros.. Cível. rel. Da mesma forma. p. 6. Des. São Paulo: Atlas. j.3 A prova do dano moral Evidente que danos tão distintos como o patrimonial e o moral não podem exigir o mesmo tratamento probatório.. não havendo que se cogitar da prova do prejuízo. presunção hominis ou facti.] (TJCE. o dever de indenizar [. 7 ed. por conseguinte.117 A perda de qualquer parente próximo implica inexoravelmente em sofrimento. não. 2ª Câm.. algo que passa no seu íntimo: a dor. Provado o fato. 14 do 117 CAVALIERI FILHO. José Mauri Moura Rocha. E o sofrimento reside no próprio acontecimento funesto. se a vítima teve sua imagem.. 2007. Programa de responsabilidade civil. 83. Verificado o evento danoso. 10. de modo que. o vexame. que decorre das normas da experiência comum. O fato assim o demonstra. dispensada qualquer prova.

para quem é ônus da vítima a comprovação da dor-sentimento derivada da ação ou omissão danosa: Os juízes devem ser muito prudentes ao decidir pelo cabimento da indenização. 247. Ato antijurídico e responsabilidade civil aquiliana – crítica à luz do novo código civil. que a dor da mãe ou do pai pela perda do filho independe de prova. 16. mais fácil será fingir o sofrimento. na espécie.119 118 119 COELHO. Francisco Vieira. Francisco Vieira Lima Neto responde: Discordamos de Coelho.2003. 417. neste mesmo sentido 817/360 e 807/278). 2ª Câm. A conduta da prestadora de serviços telefônicos caracterizada pela veiculação não autorizada e equivocada de anúncio comercial na seção de serviços de massagem viola a intimidade da pessoa humana ao publicar telefone e endereço residenciais.09. não se cogita da prova acerca da existência de dano decorrente da violação aos direitos da personalidade. 14. já que. Diferente é a posição adotada por Fábio Ulhoa Coelho. pessoa em coma pode ter seu nome difamado e sua imagem indevidamente utilizada e nunca chegar a ter consciência dessa situação. Fernando Gonçalves. é uma ingenuidade imperdoável do magistrado..104 referido diploma legal. Fábio Ulhoa.02. 2006. rel. 2005. Rio de Janeiro: Forense. rela. RT 817/360). Curso de direito civil. j. j. . honra e reputação. LIMA NETO. RT 824/180. p. por ser evidente. independentemente de prova objetiva do prejuízo sofrido (TJRN. pois nos parece ultrapassada a doutrina que identifica o dano moral ao preço da dor (pretium dolis). Lucas Abreu Barroso (organizador). p. ainda assim haverá dano moral. 4ª T. por exemplo. Não cabem presunções. pois uma criança de l ano sofre dano moral quando perde seu pai em virtude de ato ilícito de alguém. imagem. configura o dano moral. privando-a de efetuar suas compras. embora com essa idade nem consiga perceber o verdadeiro sentido da morte. Min. São Paulo: Saraiva.. o dano é presumido pela simples violação ao bem jurídico tutelado (STJ. Essa posição isolada encontra pouco espaço na ordem jurídica. para que não se deixem enganar pela simulação da dor. in Introdução crítica ao Código Civil. No sistema jurídico atual. Quanto menos doloroso tiver sido o evento danoso para a vítima.2003.118 No arremate do trecho esse nomeado autor assegura que a única função do dano moral é compensar a pungente dor que algumas vítimas sofrem. Da mesma forma. Afirmar. pode ser aceita apenas como exceção em casos muito especiais. volume 2. Desa. Nesse passo. Célia Smith. 2 ed. dentre eles a intimidade. quando comprovadamente existente provisão de fundos em conta corrente. a ordem de apreensão do cartão de débito da cliente.

tratando-se de sistema próprio das instituições financeiras. em seu art. contudo. 3º. observando o princípio da razoabilidade. inclui expressamente a atividade bancária no conceito de serviço. Exceções existem. Apelação da CEF improvida. relatando que seu companheiro havia sido atropelado e morto por volta de 18. necessária se torna .00 horas e ela foi ao baile de forró na mesma noite. Para que a pessoa jurídica faça jus a indenização por dano material ou por dano moral. Eis um caso paradigmático: uma senhora procurou a Promotoria de Justiça. caracterizar enriquecimento sem causa da vítima. Evidente a ausência de dor-sofrimento pela perda do companheiro. O dano moral não presumível do só fato da ocorrência de saque indevido de valores em conta de titularidade do autor. quantificar a indenização. pelo protesto indevido de título de crédito. no percurso de retorno do trabalho. sendo que na quarta-feira seguinte o leito conjugal já era aquecido por novo ocupante. O Código de Defesa do Consumidor. No caso em que o dano moral recai sobre pessoa jurídica. § 2º. 5. Compete ao juiz. pelo que. Vencido. no ponto o relator. É dever da CEF prestar o serviço aos seus clientes dentro de condições normais de segurança. como assim dispõe o seu artigo 14 (Súmula 297 do STJ). 2. Reconhecida a possibilidade de violação do sistema eletrônico e. de modo que represente reparação ao ofendido pelo dano. comprovadamente feitas por pessoa que lhe é estranha. cuja raiz comum é a Ética. O inquérito policial colheu prova irrefutável de que o sepultamento deu-se no sábado por volta de 13. somente passível de ser ilidida nas hipóteses do § 3º do art.00 horas de uma sexta-feira. pelo se conclui que a responsabilidade da instituição bancária é objetiva. Conceder dano moral nessa hipótese atenta contra a equidade e a justa causa. quando o debate da matéria ensejou divergência: Responsabilidade civil – Indenização – Aplicação do Código de Defesa do Consumidor – Saques Fraudulentos – Danos Materiais e Morais – Cabimento – 1. sem. Recurso adesivo do autor improvido (RJ 357/164. fixando-a com moderação. 14 do CDC. Vilipendia o binômio Direito e Moral. não tendo o autor comprovado que em virtude da falta do numerário sofreu algum dano moral relevante. o entendimento tem sido no sentido da comprovação da ofensa. impõe-se o reconhecimento da responsabilidade objetiva do fornecimento do serviço. Assim. grifo nosso).105 Das posições colocadas resta a certeza de que a regra geral – damnum in re ipsa – não pode ser levada ao extremo. não resta configurado o direito à indenização. o acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região. ocorrendo saques na conta poupança do cliente.

p. mas. o que é impossível no dano moral. haja vista que a noção de indenização está intimamente relacionada a ressarcimento de prejuízo causado a uma pessoa por outra ao inadimplir obrigação contratual (CC.2002. rel. impõe-se a condenação. Provado assim o fato. 4ª Turma.2001. ou não. A prova do fato que gerou lesão à reputação da pessoa jurídica é suficiente para a indenização do dano moral. sim.8. O tema apresenta controvérsia na doutrina e na jurisprudência.4 Critérios de fixação Tormentoso é o critério para fixação do dano moral na falta de disposições legais expressas. Precedentes. 2. nada importando que daí tenha resultado. ou mesmo do . nem que seja compensado com quantia vil. rel. in DJ 12. DJ de 05. Carlos Alberto Menezes Direito. Sálvio de Figueiredo Teixeira. objetivos que não se descortinam no caso. O tão-só fato da interrupção dos serviços telefônicos não é o bastante para automaticamente inferir-se a ocorrência do alegado dano moral à pessoa jurídica. Está assentado na jurisprudência da Corte que “não há falar em prova do dano moral. Prova. p. 3ª Turma do STJ. 347).106 a demonstração do efetivo prejuízo econômico sofrido (RT 731/286. 389). Min. Recurso especial conhecido e provido (REsp. 186). 3. art. 6. 112). p/ acórdão Min. Ari Pargendler. A equidade não permite se constitua motivo de enriquecimento sem causa.2002. rel. Cabimento. 347). rel. Dano moral. STJ. Necessidade de prova específica a respeito (STJ. art. Protesto indevido de duplicatas. Min. ou praticar ato ilícito (CC. A palavra ajustada é compensação ou satisfação.08. Responsabilidade civil – Danos morais – Pessoa jurídica – Interrupção dos serviços telefônicos – Prova dos prejuízos – Acórdão – Nulidade – Inexistência. no mesmo sentido 754/423). na prova do fato que gerou a dor. Dano moral. prejuízo patrimonial (REsp 169. Não significa a eliminação de um prejuízo. a jurisprudência está consolidada no sentido de admitir o dano moral à pessoa jurídica. p.030/RJ. 3ª Turma. Ressalvado o convencimento do Relator. pois o chamado preço da dor. o sofrimento. sob pena de violação ao artigo 344 do Código de Processo Civil”. 299282/RJ. Barros Monteiro. sentimentos íntimos que o ensejam. 1.02. 204786/SP. DJ 5. REsp. Os embargos de declaração visam à integração e correção do julgado. Min.

cuja lesão desencadeia um dano moral.107 sangue. É uma imoralidade. p. . 1 2 0 Na mesma sintonia é a lição do Direito português. são infungíveis. GIOVANNI ETTORE. É que os interesses. impondo ao ofensor a obrigação de pagamento de uma certa quantia de dinheiro em favor do ofendido. compensá-los. apenas podem ser compensados. em que na fixação do quantum 120 121 Op. sim. já que indenização significa eliminação do prejuízo e das suas conseqüências. Rabindranath Capelo de Souza preleciona: Dado que a personalidade humana do lesado não integra propriamente o seu patrimônio. em certa medida. não patrimonial. a sanção do dano moral não se resolve numa indenização propriamente dita. e também não podem ser reintegrados por equivalente. isto é. cit. o que não é possível quando se trata de dano extrapatrimonial. e não de um ressarcimento. com a obrigação pecuniária imposta ao agente. 344. prejuízos de interesses de ordem biológica. de proporcionar uma satisfação em virtude da aptidão do dinheiro para propiciar a realização de vasta sucessão de interesses. A reparação nesses casos reside no pagamento de uma soma em dinheiro.. 1 2 1 Dentro desta ótica de pensamento. A toda evidência. ao mesmo tempo que agrava o patrimônio daquele. a sua reparação se faz através de uma compensação. Apud NANI. não existe. na qual se podem incluir interesses de refinada ordem ideal. sendo insusceptíveis de avaliação pecuniária. arbitrada judicialmente. Porque infungíveis são impossíveis de reposição in natura. Yussef Said Cahali ensina: Diversamente. que. p. que não exactamente indemnizados. 42. 2004. São Paulo: Saraiva. Enriquecimento sem causa. trata-se. que não desempenha função de equivalência. sendo possível. proporciona a este uma reparação satisfativa. espiritual. acontece que da violação de sua personalidade emergem directa e principalmente danos não patrimoniais ou morais. ideal ou moral. ganhou espaço na doutrina e na jurisprudência a eleição de um critério eclético.

em importância compatível com o vulto dos interesses em conflito. depois que tenha cometido o ato ilícito. segundo. CASILLO. ou o evento lesivo advindo. e argumenta. Consubstancia-se. no caso dos danos não patrimoniais. eis o texto: O importante. efetivamente. também com intuito de fazer com que o causador sinta uma verdadeira pena. que adotam o espírito da punitive ou exemplary damages. 1 2 3 Esse valor de desestímulo na reparação do dano moral é também preconizado por Carlos Alberto Bittar: Em consonância com essa diretriz.108 debeatur são considerados dois aspectos distintos: primeiro. portanto.. porém. 608. mais do que indemnizar. de modo expressivo. entretanto.. a conduta do agente. esse posicionamento constitui sólida barreira jurídica a atitudes ou a condutas incondizentes com os padrões éticos médios da sociedade. a resposta da ordem jurídica aos efeitos do resultado lesivo produzido. é sublinhar que a função primordial é satisfazer a vítima pelo dano que lhe foi infligido. refletindo-se. a indenização por danos morais deve traduzir-se em montante que represente advertência ao lesante e à sociedade de que não se aceita o comportamento assumido. é uma recompensa à vítima. a exacerbação da sanção pecuniária é formula que atende às 122 123 VARELA. v. I. no plano civilístico e com os meios próprios do direito privado. em seguida: Ora. os danos sofridos pela pessoa lesada. 1 2 2 João Casillo entende que a função primordial é satisfazer a vítima pelo dano sofrido. uma natureza acentuadamente mista: por um lado. Fundamenta-se este autor no exemplo da jurisprudência dos países da common law. em momento em que crises de valores e de perspectivas assolam a humanidade. De fato.” . op cit. por outro lado. fazendo recrudescer as diferentes formas de violência. p. conforme leciona outro civilista português Antunes Varela: A indemnização reveste. é uma punição ao agente do ato lesivo. cit. a fim de que sinta. não lhe é estranha a idéia de reprovar ou castigar. funciona como intimidatória para evitar repetição da conduta ilícita do agente produtor do dano. op. p. no patrimônio do lesante. 83. visa reparar de algum modo. funcionando mais com caráter intimidatório para evitar o dano. mas a idéia de sanção. A idéia de sanção é secundária. embora secundária.

isto é. no Direito inglês. ao que parece. p.109 graves conseqüências que de atentados à moralidade individual ou social podem advir. ocorre a mesma discriminação. para quem: “Em presença dos danos extrapatrimoniais. e a 124 Ibide. quando possível a restituição das coisas ao status quo. ou das conseqüências exteriores da injúria o da calúnia etc. de uma indenização tão elevada que possa servir de exemplo aos outros membros da sociedade. 220 e 221. a idéia de dissuasão (teory of deterrence) muito freqüente no Direito inglês da responsabilidade civil. e conseguindo alteração do sentimento e da vontade. Mister se faz que imperem o respeito humano e consideração social. observada na atualidade como posição dominante na doutrina nacional. uma característica dos direitos da família na Common law. fora de dúvida. A responsabilidade civil e a responsabilidade penal encontram-se de alguma forma confundidas graças a este paralelismo de funções. Uma forte influência deve ser tributada a Aguiar Dias. 1 2 4 Nesse trote segue Sérgio Severo. Finalmente Sérgio Severo conclui: No Brasil tem prevalecido a teoria da dupla natureza reparatóriapreventiva. Encontra-se aqui. como nos exemplos da lesão corporal curável. proporcionando-lhe o solatium. A distinção entre a função reparadora da responsabilidade civil e preventiva da responsabilidade penal não é. porque também esta pode empregar-se na satisfação do prejudicado. como elementos necessários para a vida em comunidade. E cita o seguinte texto de Sérgio José Porto: A condenação a perdas e danos “exemplares” (exemplary damages) é. Trata-se. em face da possibilidade da reparação natural. da responsabilidade civil. Essa função oferece satisfação à consciência de justiça e à personalidade do lesado. para quem a dupla natureza da satisfação do dano moral arrima-se numa tendência de feedback entre a responsabilidade civil e a penal. apaziguamento. . avultam os pontos de contato entre a indenização e a pena. como o seu próprio nome indica. tão clara quanto nos Direitos romanistas. no sentido de que o comportamento do autor do dano é a tal ponto condenável que ele merece uma sanção complementar Eis porque as perdas e danos “exemplares” (exemplary damages) são também denominados punitve damages. Mas se a reparação se tem de fazer em dinheiro.

Não deve ser fonte de enriquecimento.”125 O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo decidiu: Hoje em dia. A intensidade da culpa. tanto punitivo do agente. v. as circunstâncias em que ocorreu o evento danoso poderão informar o critério a ser adotado em tal arbitramento. – Ap.n. tendo como relator o Desembargador Paulo Pinto: No arbitramento do valor do dano moral é preciso ter em conta o grau em que o prejuízo causado terá influído no ânimo. 186-187. art. está na inovação dos Tribunais quanto ao grau de culpa do agressor. Na esteira desta jurisprudência. . in RT 602/180). A união dos dois elementos propostos: rompimento com a cultura não punitiva dos danos extrapatrimoniais e apreciação do grau de culpa do ofensor. no sentimento daquele que pleiteia a reparação. 186-189 (grifo do texto transcrito). quanto compensatório. Paulo Pinto. por meio de sua 8ª Câmara. 1996. PEREIRA. 1998. 36. Na ausência de critério objetivo de liquidação do dano.). arbitrar o quantum. p. a vítima de lesão a direitos de natureza não patrimonial (CR. rel. g. de satisfação e de equivalência. socorrendo-se da teoria já evoluída do Direito Penal acerca do tema para. a boa doutrina inclina-se no sentido de conferir à indenização do dano moral caráter dúplice. p. e arbitrada segundo as circunstâncias. V e X) deve receber uma soma que lhe compense a dor e a humilhação sofridas. Paulo Roberto Ribeiro Nalin dispensa especial ênfase ao grau de culpa do agente produtor do dano moral e argumenta: A base eqüitativa para que o prejuízo extra-patrimonial não seja compensado com montante vil. incs.110 indenização pode desempenhar um papel múltiplo. São Paulo: Saraiva. de pena. criará ambiente favorável para indenizações mais 125 Os danos extrapatimoniais. árduo e delicado. Assim. por certo. Des. nem ser inexpressiva (RJTJESP. então. porque entranhado de subjetividade (TJRJ – 8ª C. 67). 137. a violência. p. cabe ao juiz investigar a intensidade da culpa. A expressão segundo as circunstâncias foi interpretada pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.062. 5º. em relação à vítima (cf.

dano material e reparação. 1993. alcançando-lhe a oportunidade de obter meios de amenizar a dor experimentada em função da agressão moral. duas finalidades a reparação dos danos morais: 1ª) indenizar pecuniariamente o ofendido. dall’altro lato. FABRÍCIO ZAMPROGNA MATIELO comunga da mesma opinião: Tem entre nós. 559). dell’autore dell’ilectio nonché delle modalitá di questo. hoje. Di Majo ressalta este caráter duplo: de satisfação ao ofendido e sanção ao ofensor.) o pagamento de uma soma a título de satisfação ocupa um lugar intermediário entre a indenização e a pena. da un lato. nel senso di assicurare ad essa un beneficio economico . ao passo que a indenização tem no ato ilícito apenas uma das diversas causas de que pode surgir. que o enfoque de pena privada na fixação do dano moral merece reservas. c) a pena é. na mesma obra citada por Sérgio Severo. Dano moral. 236: “E stato cosi osservato che. embora inexeqüível. Sua história é a história do seu progressivo desaparecimento. A primeira não se preocupa com a existência do prejuízo.e. 2ª) punir o causador do dano moral.” (MATIELO. Responsabilidade civil: descumprimento do contrato e dano extrapatrimonial. 1 2 6 Na verdade. No terreno patrimonial esses conceitos se extremam em face das seguintes observações: a) a pena tem em vista a culpa do delinqüente. acrescentando a consideração ao grau de culpa do causador do ato ilícito. vol. Milano: Giuffrè. p. que a pena privada. se o delinqüente não a pode satisfazer. inibindo novos episódios lesivos. ao nível do prejuízo suportado. 1997. la riparzioni del danno non patrimoniale ha una funzione compósita. nefastos ao convício social. não obstante. isto é. p. Adolfo. si tende ad offrire una qualche forma di soddisfazione e/o di gratificazione alla vittima vittima dell’illecito. in tale caso. a indenização não seria transmissível aos herdeiros do lesado. Fabrício Zamprogna. 63.” . não se aplica por força do dano. b) a pena é sempre uma conseqüência do delito. sofre a sorte fatal da própria pena. p. pois cogita de impor o mal ao causador do mal. d) se tivesse caráter penal. mas a indenização não é. Con essa.. e) o irresponsável não está sujeito a pena. Porto Alegre: Sagra Luzzatto. Paulo Roberto Ribeiro. La tutela civile di diritti. essa orientação é própria da doutrina italiana. 126 NALIN. como assegura Shering. 127 DI MAJO. enquanto a indenização atende à preocupação de reparar o dano. f) a pena pode ser convertida em outro castigo. Com a quest’ultimo aspectto si dovrà tenere conto della gravità della colpa.. porque se mede em função dele. não obstante a magistral defesa de Stark. a obrigação de indenizar subsiste. 1996. portanto.dacché è innegalileche il danaro possa anche servire a tale scopo . mas está sujeito a indenização. Não se pode olvidar a lição do próprio José de Aguiar Dias.1 2 7 Cuida-se ressaltar. Curitiba: Juruá. A segunda não se compreende sem o dano. anche a sanzionare il comportamento del responsabile della violazione.111 justas. 3. Com a primeira. E finaliza o texto: Assim (. em um misto de compensação e satisfação. inseparável da pessoa do delinqüente. logo acima do texto por este transcrito: Devemos e podemos concluir.

com o fito de desestimular a prática de tais ilícitos. e não a culpa do autor. o quantum da reparação apenas sofre essa variação de conformidade com a maior ou menor extensão do dano. basta a simples infringência da ampla regra do neminem laedere.128 Ora. E se é certo que. O dano moral e sua reparação. no dano. exacerbada. a pessoa do ofendido e não a do ofensor. mister se torna. se tenha a obrigação de reparar. p. 2. 736. ou seja. p. 2002. com esta tem de comum o implicar em mal para o indenizante. 3ª ed. nullum crimen sine lege. Nulla poena sine lege. por isso mesmo. p. E o que. Rio de Janeiro: Forense. . nem sempre se torna necessária a culpa do agente ou da pessoa por ele responsável. porém. para mais ou para menos. pelo juiz. deve ser uma indenização alta. da reparação do dano. em cada caso. de que estaria albergando também ‘enriquecimentos indevidos’130 128 129 Op. uma pena privada. donde estar certo Fischer ao afirmar que “da indenização à pena via senão um passo.” Consideradas. Arruda Alvim: Quanto à natureza do dano moral. a extensão do prejuízo. verdadeiramente. admite conversão. pode oferecer uma relativa confusão. um texto legal expresso que a comine e um delito que a justifique. A pena não passa jamais da pessoa do delinqüente. 1983. se busca ressarcir é apenas a conseqüência. Vide mesmo autor: Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. quando encarada pela primeira vez. a simples tentativa. é apenas o seu fato gerador. para imposição da pena. A simples indenização. 181. do contrario se capacitará forçosamente. não. Mira-se. do delito e não o delito mesmo. a circunstância determinante dele. Com efeito: Para que haja pena. alguns chegam a falar em pena. no cível. na responsabilidade civil. E se o volume da pena varia. patrimonial ou não-patrimonial. para que se determine a obrigação de reparar. 130 Direito privado. A questão. para José Aguiar Dias a satisfação do dano moral não deve ser pena. na reparação dos danos morais não seja. para graduação do quantum reparador. de conformidade com a culpa do agente. 572-574: “O delito sempre pressupõe a culpa do agente. cit. cremos não se pode duvidar. o ônus.112 compartilha o fim essencial de representar uma prestação imposta a favor e em consideração do lesado. Para a existência do dano. não. no juízo cível. basta às vezes. São Paulo: Revista dos Tribunais. necessário se faz que o dano se tenha tornado efetivo. O delito. 3ª ed. e que. Para que. 92. com esquecimento. O dano. 1965. vol. Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Jurídica Universitária. nós o reconhecemos. A multa penal. bem as coisas. Wilson Melo da Silva: Que a indenização mandada pagar. todavia.129 Opinião acompanhada por outro clássico. Tal linha de pensamento carregaria consigo uma “missão didática”. em castigo. p. de tal maneira a que se contenha em seu bojo uma punição. em tese.. no entanto. Esse é o entendimento de outro destacado clássico. patrimonial ou extrapatrimonial. porém. se transmite aos herdeiros do ofensor.

Elementos de responsabilidade civil. bem como o conteúdo e os limites dos poderes de que se acham investidos os seus juízes e ainda o sistema de seguros dos Estados Unidos da América do Norte. Luiz Rodão de Freitas. A crítica que se tem feito à aplicação.131 Basta o cotejo da seguinte situação hipotética: uma mesma pessoa que sofresse dano moral. daí decorrerá fatalmente o enriquecimento sem causa. Comentários ao Código Civil: parte especial: direito das obrigações.” . São Paulo: Saraiva. E aduz. Importância considerável seria inatendida pelo pobre. Essa dupla face na fixação do dano moral. atuará como fator de desestímulo ao ofensor). indenizar-se-á o ofendido mais do que lhe cumpriria receber. São Paulo: Saraiva. Evidente. mas funcionaria como pena para o rico. da mesma natureza. inspirando-se nas punitive demages do direito norte-americano. entre nós. das punitive damages do critério norte-americano. 927 a 965). como pretendem alguns. revertendo a indenização em proveito do lesado. Demais disso. Enriquecimento sem causa. e em outra um pobre. Carlos Roberto. indireta e automaticamente. 2003. Logo. não é assimilado pela ordem jurídica. p. 353. p. que o julgador. pois. de uma soma que ultrapassa o que representou de agravo para o ofendido. mais adiante: É sabido que o quantum indenizatório não pode ir além da extensão do dano. Se este é moderado. raízes históricas e de costume. vol. por vezes. depois de arbitrar o montante suficiente para compensar o dano moral sofrido pela vítima (e que. adicione-lhe um plus a título de pena civil. Rio de Janeiro: Renovar. Giovani Ettore. Esse locupletamento indevido. 2004. com o qual não se compadece o nosso ordenamento. Esse critério aplica-se também no arbitramento do dano moral. Uma importância pequena seria atendida pelo pobre. que a pena não poderia ser idêntica. preciosa a lição de Carlos Roberto Gonçalves: Não se justifica. 365: “Ademais. p. a indenização não pode ser elevada apenas para punir o lesante. mas não seria pena para o rico. este acabará experimentando um enriquecimento ilícito. 101. 2002. Sendo assim. a indenização revestir-se-á de um plus. inspira-se o nosso sistema jurídico na supremacia do direito legislado. Diversamente do direito norteamericano. É preciso considerar as diferenças decorrentes das condições econômicas. expressa no preceito constitucional de que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei.113 Sem dúvida. sendo lesante em uma oportunidade um rico. E decorrerá o enriquecimento indevido porque tal sanção não é prevista em lei. é que elas podem conduzir ao 131 NANNI. 11 (arts. caso se acate a faceta punitiva. pode fazer com que a reparação do dano moral tenha valor superior ao próprio dano. GONÇALVES. No mesmo sentido GOMES. seria inconciliável. além de violar o princípio da legalidade. por ser princípio norteador do direito obrigacional e moderador dessa prática ilegal.

HERCULANO NAMORA Por esta razão cumpre esclarecer em alto e bom tom. XXXIX. se o empregado não tem patrimônio para responder. seja também aquele que demandar por dívida já paga (art. REL. 621 e 645). para que o ofensor seja punido. pode fazer com que a reparação do dano moral tenha valor superior ao próprio dano. as sanções pecuniárias ao litigante de má-fé. nem sempre o responsável pela indenização é o culpado pelo dano. Dessa maneira. Se a vítima já estará compensada com determinado valor. o que receber a mais. a multa diária do direito pátrio (arts. 363-365. Melhor exemplo. a lei material civil prevê formas típicas de pena privada pecuniária. pois tal viola o princípio constitucional da legalidade. expressamente. estabelecido no art.132 De efeito. além de não encontrar amparo no sistema jurídico-constitucional da legalidade das penas. daí não há motivo para sustentar a legitimidade de uma pena sem prévia previsão legal. é o caso do culpado ser coberto por apólice de seguro. nem sempre o culpado será punido. como a cláusula penal em caso de inexecução completa da obrigação ou de alguma cláusula especial ou simplesmente em razão da mora (art.992). ou no caso dos sonegados em sede de inventário (art. no entanto. este acabará experimentando um enriquecimento ilícito. com o qual não se compadece o nosso ordenamento. Embora seu direito de regresso. Ademais. inc. uma compensação ao lesado. . sem dúvida. do mesmo modo o direito processual civil no caso das astreintes do direito francês. VER REVISTA STJ 77 ou 78/99. a exemplo das penas penais. seja ainda pelo credor que demanda o devedor antes de vencida a obrigação (art. cit. jamais a aplicação de uma pena 132 Comentários. É o caso do empregador que paga a indenização por ato ilícito do empregado. logo. 940). 409). nem pena sem prévia cominação legal. previstas na legislação. representará. Sendo assim.114 arbitramento de indenizações milionárias. as penalidades civis estão. 1. 18). 939). revertendo a indenização em proveito do lesado. as quais poderão ser impostas a requerimento da outra parte ou mesmo de ofício pelo juiz ou tribunal (art. p. na responsabilidade civil. um enriquecimento ilícito. 5º. da Lei Magna: “Não há crime sem lei anterior que o defina. este pode não ocorrer. já mencionado. na fixação do dano moral o que deve nortear o julgador é uma satisfação.” Outro argumento de grande peso e calado é que.

Só não sou alienado quanto à condição humana. necessariamente. Ou ainda.” Para tanto com a palavra os legisladores. É chato elogiar a Camen Mayrink Veiga. Nessas hipóteses. que a consciência social quer que lhe atribua caráter de exemplaridade.133 O caso foi motivado pela entrevista concedida à revista Playboy. em relação à sociedade de um modo geral. na edição de julho de 1997: Playboy – Em mais de uma ocasião você se definiu como um “alienado”.. Este é o sistema brasileiro. Nessa toada. Cony – Gosto muito de me considerar alienado. de 24 de julho de 1985. Ap. a fim de se observar o milenar preceito da anterioridade da lei ao estabelecer pena. Assim como é na Lei nº 7. . e no juízo civil busca-se ressarcir os efeitos patrimoniais ou extrapatrimoniais do delito. ao dispor no seu art. o delito é o seu fato gerador. o juízo civil é de reparação. o IX Encontro de Tribunais de Alçada do Brasil. que se estabeleça um valor maior ao da indenização. No dano. o qual deverá.922. Civil 9. Rel. sendo destinado a contemplar o número maior de pessoas. 13: “Havendo condenação em dinheiro. “Esse deu desfalque na Suíça. Estive na casa dela.800. Nagib Slaib Filho. Há pouco tempo fiz um artigo elogiando Camen Mayrink Veiga. chegou a seguinte conclusão: “À indenização por danos morais deve dar-se caráter exclusivamente compensatório. o 133 TJRJ. Não há como negar. aquelas condutas teimosamente reiteradas que reflitam lesão ao bem comum.347. sendo seus recursos destinados à reconstituição dos bens lesados. diverso. realizado em São Paulo nos dias 29 e 30 de agosto de 1997. jornalista Carlos Heitor Cony. aí não.114. Des. de 9.3. aviltantes. Outro critério surgiu em acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. do sistema inglês e norte-americano que não poderá servir-lhe de modelo. Uma perua. que não pode passar despercebido pelo quanto inovador. que disciplina a ação civil pública. a indenização pelo dano causado reverterá a um fundo gerido por um Conselho Federal ou por Conselhos Estaduais de que participarão necessariamente o Ministério Público e representantes da comunidade. 3ª C.115 ao lesante. ser atribuído em beneficio de fundos especificados. um luxo de um mau gosto desgraçado. É uma tristeza. destarte. mas elogiei. por conhecido escritor. Mostrou os álbuns de fotografia. um valor a título de punição. não punir o delito em si.” Todavia. e todos os amigos estão na cadeia. em geral. não de punição. Ou seja.1999. há casos tipificados de gravidade. São aquelas condutas especialmente afrontosas. impondo-lhe dano punitivo. que faz o seguinte comentário sobre a famosa socialite Carmen Mayrink Veiga.

116 coitadinho. Esse deu desfalque (rindo) na Inglaterra, está preso, todo dia rezo para ele sair da cadeia...” O mundo de Carmen Mayrink Veiga é terrível! E todo mundo está chutando esse cachorro atropelado. Ela está doente, tem um problema chato na perna, sente dores, vive à base de cortisona, está enorme, monstruosa de feia. Mas, na hora de fotografia, bota todo aquele sorriso e ainda é uma perua. Arrivista social, alpinista social – tudo o que você quiser você joga em cima dela. Mas no momento em que Carmen Mayrink Veiga está na desgraça, virou saco de pancada, eu me recuso a linchar. Nunca linchei um Judas. Agora ela conseguiu dar a volta por cima? Aí vou em cima dela, entendeu? Talvez eu tenha herdado isso do meu pai: adoro causas perdidas...

Pelo desencontro que ainda causa as ações de dano moral, o juiz de primeira instância julgou improcedente o pedido de reparação, argumentando que a notoriedade da autora (Camen Mayrink Veiga), enseja a possibilidade de padecer críticas menos favoráveis à sua pessoa. Assim sustentou: A liberdade de expressão sobreleva em dias atuais à categoria de preceito constitucional, implica a possibilidade de pessoas manifestarem-se livremente sem a vigilância ditatorial recém abolida. É certo que existem limitações obtemperando tal ideário, mas não chegam a delinear os contornos do embate em tela. Os elogios fervorosos proferidos pelo entrevistado em dado momento, acatados na íntegra pela autora, conferem a ele, na verdade, autoridade bastante de suplantá-los, desconsiderá-los ou, sabe-se lá, reafirmá-los em futuro próximo. Assim, ao brindar a autora com a narrativa de sua aparição na sociedade, demonstrava o entrevistado conhecimento de sua história, para o bem ou para o mal. Quanto às preocupações da autora em relação às suas atividades de consultora de moda, vale ressaltar, trata-se de ofício extremamente vinculado às intempéries da aceitação geral. Dano nenhum à credibilidade da autora foi provocado pelas opiniões do jornalista entrevistado, e nem poderia, porquanto ele mesmo não detém o poder de estabelecer a ordem do bom gosto. Na elaboração de seu voto, o Desembargador Nagib Slaib Filho contraria a fundamentação desta sentença, no que se refere à interpretação dos acontecimentos: É fato público e notório, a dispensar a produção de prova (CPC, art. 334,I), o domínio lingüístico exercido por Carlos Heitor Cony, que se destaca na nacionalidade como autor e jornalista, circunstância, aliás, que não só conduziu à publicação da entrevista – com chamada de capa da revista pela expressão “Na entrevista Carlos Heitor Cony: ‘fui preso cinco vezes e nunca encontrei um comunista na cadeia” – como também agravou o ataque à honra pessoal da autora que, por sua vez, é pessoa

117 conhecida em âmbito nacional, merecedora até mesmo de capa de revista de circulação nacional. Neste contexto, e conduzida pela notoriedade das pessoas envolvidas, a publicação do malsinado trecho da reportagem pela recorrida teve evidente intenção de destacar situação da autora que, naquela perspectiva, representaria contradição de seu passado, a indicar quadro de degradação social e pessoal. É facilmente perceptível ao leitor, que compõe o público-alvo da revista, como até mesmo àqueles que não se destacam pelo grau de intelectualidade, a intensa carga injuriosa de expressões que, em seu conjunto, intentam evidenciar a referida degradação. Ainda que se colha separadamente o significado das expressões utilizadas na entrevista – e o domínio lingüístico exercido pelo entrevistado, e o desejado grau de percepção do editor de revista de tal porte, excluem a utilização culposa – vê-se a carga intensa de vulneração da honra subjetiva da autora: (...) estive na casa dela. É uma tristeza, um luxo de um mau gosto desgraçado (...) (...) uma perua (...) (...) mostrou os álbuns de fotografia, e todos os amigos estão na cadeia (...) (...) o mundo de Carmen Mayrink Veiga é terrível! (...) (...) está enorme, monstruosa de feia (...) (...) nas, na hora da fotografia, bota aquele sorriso e ainda é uma perua (...) (...) arrivista social, alpinista social – tudo o que você quiser você joga em cima dela (...) Não pode esperar a editora que elogios anteriores do entrevistado à demandante pudessem constituir bill of indenity para assaques posteriores, mesmo porque a honra é valor indisponível nas sociedades de fundo liberal. Rejeita-se, também, o argumento da recorrida de que nenhum dano à apelante foi provocado pelas opiniões do entrevistado pela alegada incoincidência entre o público-alvo da revista com o público da autora em sua atividade no mundo da moda. Impossível dissociar a pessoa humana de seus papéis na sociedade quando a ela se faz referência a qualidades negativas que não se resumem ao seu mundo profissional, mas a sua personalidade. Tanto é assim que a revista publicou o malsinado trecho da entrevista, a despeito de agora alegar que seu público é diferente... Segue o acórdão a expor os fundamentos jurídicos, apoiados na Constituição Federal, de modo especial na tutela da dignidade da pessoa humana: Contudo, ao tratar da comunicação social, o art. 220 da Constituição ressalva os valores pela Carta Magna também protegidos, conduzindo o julgador a sopesar os valores em conflito para que nenhum deles reste abandonado.

118 No conflito entre os valores constitucionais de proteção ao direito de informação da imprensa e ao direito à honra, alternativa não resta senão a este dar maior relevância, posto que a Constituição da República erige o valor da dignidade humana como princípio fundamental do Estado Democrático de Direito (art. 1º). Exorbita do poder de informação da imprensa o ataque à honra subjetiva – por apontada degradação pessoal e social – de quem quer que seja – pessoa pública ou não – pois todo ser humano tem impostergável direito à dignidade, bastando lembrar, por adequada, a célebre afirmação de Molière de que colomniez, colomniez, qu’il en reste toujours quelque chose. A ordem jurídica protege a honra não como concessão que o Direito faz à pessoa, mas como reconhecimento da individualidade do ser humano, sujeito do universo da História. Guardando grande mérito, o julgado discrimina cada parcela que compõe a verba indenizatória: Partindo-se da verba de cem salários mínimos – que é o paradigma para a reparação do dano moral decorrente da injusta anotação do nome do consumidor nos cadastros de inadimplentes –, é a mesma majorada em face dos seguintes elementos colhidos nos autos: - mais cem salários mínimos pela relevância de ser o entrevistado pessoa de reconhecido destaque social como Carlos Heitor Cony; - outros cem salários mínimos, porque a pessoa atingida é pessoa de notoriedade pública, no caso, Carmen Mayrink Veiga; outros cem salários mínimos pela utilização de expressões como “perua”, “feia” e “monstruosa”, de maior densidade de dano quando dirigida a pessoa do sexo feminino e da faixa etária da ofendida; e outros cem salários mínimos pela importância que tem a revista “Playboy”, editada pela recorrida, no contexto atual da comunicação social do País. Acolheu-se, ainda, o pedido de publicação de notícia desta condenação, cujo texto não exceda a extensão do trecho da entrevista em comento, a ser apreciado em liquidação do julgado pelo Juízo originário, que também arbitrará o veículo e o modo da divulgação, bem como a cominação pelo eventual descumprimento da obrigação de fazer.134 Percebe-se, o próprio Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro não mais seguiu as circunstâncias acima mencionadas no acórdão proferido pela 8ª Câmara, pois aqui o desembargador relator não se referiu à idéia de punição, ou de compensação, nem considerou as
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Maria Celina Boldin de Moraes, op. cit., p. 312-317.

119 condições econômicas das partes envolvidas; também não abordou o grau em que o prejuízo causado teria influído o ânimo da vítima; e ainda não levou em conta a intensidade da culpa ou a violência. Apenas considerou a gravidade do dano e as condições especiais da vítima. Nada mais. Concorda-se, ou não, com estes parâmetros, o certo é que o mérito de explicitação das verbas, que compõem o quantum debeatur, item por item, constitui-se em base racional, conhecida por todos, a partir das quais será possível edificar os princípios da reparação do dano moral, dentro de critérios apropriados para uma unificação que traga mais segurança e uniformidade às decisões. Relevante, outrossim, que o Código Civil assenta-se no princípio fundante da eticidade. Ensina este mestre que a eticidade é o abandono ao espírito dogmático-formalista sinete da legislação revogada, para conferir ao juiz não só suprir lacunas, mas ainda resolver de acordo com valores éticos, quando assim previsto, ou se a regra jurídica for deficiente ou inajustável à especificidade do caso concreto.135 É a busca da justa causa, a aproximação do Direito à Ética, aproximação que torna o Direito mais aceito perante a consciência média da comunidade em geral e dessa forma mais forte e justo. O princípio da eticidade deve ser o norte da conduta de todas as pessoas, natural e jurídica, submetidas a alguma matéria disciplinada pelo Código Civil. Mas se direciona igualmente ao aplicador da lei. Este princípio desdobra-se em três vertentes: protetor do princípio da confiança, indicador da equidade e do dever de proporcionalidade e razoabilidade. Na última vertente deve o juiz fundamentar-se no estabelecer o quantum debeatur do dano moral. Ser razoável é agir conforme a razão, com moderação e cometimento, ponderação e sensatez. 6.5 Dano moral à pessoa jurídica De início, o dano moral à pessoa jurídica era refutado. A honra era entendida como bem personalíssimo, reservada somente à pessoa natural. A pessoa jurídica não pode ser sujeito passivo de dano moral. O elemento característico do dano moral e a dor em sentido mais amplo, abrangendo todos os sofrimentos físicos ou morais, só possível de ser verificado nas pessoas físicas. O ataque injusto ao conceito da pessoa
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REALE, Mikguel. O projeto do código civil, 2 ed., São Paulo: Saraiva, 1999, p. 8.

que apenas admitia-se o dano moral à pessoa jurídica caso houvesse efetivo prejuízo patrimonial. verbia gratia. Convenha-se. pois. resguardados por legislação específica. ao sigilo de correspondência e outros bens incorpóreos imanentes à atividade empresarial. na ordenamento jurídico ao lado da pessoa humana coexiste a pessoa jurídica com capacidade para o exercício de direitos. Exceção a esses. mas pode quanto à difamação (RT 733/589). os demais direitos são conferidos com o registro da pessoa jurídica como atributos intrínsecos à sua essencialidade. à invenção. todavia. a integridade física e psíquica. houve uma fase intermediária. direitos da personalidade existem. Não tem existência física e nem vontade. ao nome comercial. a Lei 9. É dizer. de 14 de março de 1996. a educação etc. cujas características se vinculam apenas aos atributos do ser humano. Cuida-se reconhecer. no que couber. não. com existência distinta das pessoas naturais que a compõem. por conseqüência. Incluídas está. inerentes à pessoa natural. Para que a pessoa jurídica faça jus a indenização por dano material ou por dano moral. aos símbolos. que a pessoa jurídica é titular de outros direitos da personalidade.120 jurídica só é de ser reparado na medida em que ocasiona prejuízo de ordem patrimonial (RT 716/258). Em seguida. É nesse limite a extensão dos direitos da personalidade que são atribuídos à pessoa jurídica. por decorrência prejudicada no desempenho do papel social a que se destina. caso atingida na sua credibilidade. . aplica-se a proteção dos direitos da personalidade. pelo protesto indevido de título de crédito. do Código Civil.279.” Daí. aqueles que se amoldam à sua maneira de ser dentro do ordenamento jurídico. do Superior Tribunal de Justiça: “A pessoa jurídica pode sofrer dano moral. necessária se torna a demonstração do efetivo prejuízo econômico sofrido (RT 731/286). Também não pode ser sujeito passivo de crime de injuria. a pessoa jurídica sem finalidade lucrativa. É a textualização legal da Súmula 227. Outros. como determina o artigo 52. a saúde. à pessoa jurídica não podem ser conferidos direitos da personalidade que contemplem situações existenciais. À pessoa jurídica. Essa pessoa ideal ou moral evidentemente que não tem os mesmos direitos da personalidade da pessoa natural. assim as questões concernentes à marca. mas pela vontade de seus órgãos diretivos atua no mundo do direito.

exclusiva do ser humano. Responsabilidade civil – Indenização – Lucros cessantes – Atos ilícitos praticados com claro e evidente intuito de afugentar a freguesia de estabelecimento comercial. açambarca a reputação. o bom nome e a imagem perante a sociedade. A pessoa jurídica. os espanhóis de hacienda. de caráter privado e individual. de capital importância para a pessoa jurídica. depreende-se sua abrangência a toda violação à imagem ou nome da pessoa natural e jurídica com o propósito de conferir-lhes credibilidade e respeitabilidade. . deve ser entendida como o valor social da pessoa perante o meio em que exerce sua atividade. decoro e auto-estima. caracteriza-se pela dignidade. que se vulgarizou chamá-la de honra profissional. A honra objetiva.121 A honra. a honra objetiva. é o que se chama de fundo de comércio. da Carta Magna. embora não seja titular de honra subjetiva que se caracteriza pela dignidade. abrangendo também qualquer ataque ao nome ou imagem de pessoa. é detentora de honra objetiva. Não se confunde com o local onde o comerciante exerce a atividade. sem dúvida. A empresa tem de zelar pelo seu conceito social. É uma universalidade patrimonial de fato. obrigando o fechamento temporário do mesmo – Dano moral – Abalo do crédito e da reputação da proprietária no meio comercial – Cumulação deste com dano material – Admissibilidade – Inteligência da Súmula 37 do STJ (RT 723/456). conceito social). É. O primeiro. o crédito que desfruta. ou busines dos ingleses. 136 Ganha credibilidade. mais ainda nesta atualidade de acirrada concorrência. a noção do dano moral não mais se restringe ao pretium doloris. após a Constituição Federal de 1988. da leitura do artigo 5º. reputação ou imagem forem atingidos no meio comercial por algum ato ilícito. inciso X. que reflete na sua saúde econômico-financeira. De efeito. a honra subjetiva. Ademais. são as possibilidades de fazer negócios – atos jurídicos comerciais. física ou jurídica. 136 Fundo de comércio é o conjunto de bens corpóreos e incorpóreos. com vistas a resguardar a sua credibilidade e responsabilidade (RT 725/336). por exemplo. fazendo jus à indenização por dano moral sempre que o seu bom nome. o seu bom nome comercial. pertence com exclusividade à pessoa natural (sentimento-estima da própria pessoa). A segunda. Os italianos chamam de azienda. é comum à pessoa natural e à jurídica (respeito-estima que a sociedade tem da pessoa natural e jurídica. apresenta dois aspectos: o subjetivo ou interno e o objetivo ou externo. dessa forma também o comerciante ambulante tem estabelecimento comercial. decoro e auto-estima.

tendo como relator o Ministro Fontes de Alencar: Responsabilidade civil. no caso de a cirurgia reparadora corrigir a cicatriz. O Superior Tribunal de Justiça em um primeiro momento entendia o dano estético contido no dano moral. Decidiu o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: O dano moral pressupõe dor física ou moral. Queda de trem. no mesmo sentido 47/316. ou não. quanto àquela a jurisprudência vacila. Se o dano moral à pessoa natural prescinde de prova.122 A prova do dano moral à pessoa jurídica apresenta peculiaridades. mormente se é. Nesse mesmo sentido concluiu IX Encontro dos Tribunais de Alçada do Brasil “o dano moral e o dano estético não se cumulam. como tal. por vezes. um dano autônomo. e se configura sempre que alguém aflige outrem injustamente. sem com isso causar prejuízo patrimonial. o dano estético está contido no dano moral e. por participar de aspectos de um e de outro (RT 683/79). porque ou o dano estético importa em dano material ou está compreendido no dano moral”. como já exposto. consoante decisão proferida pela Quarta Turma. e a título de dano material. O dano estético. as quais causam dano estético em grau mínimo. Bem por isso. 7. ou não. Esse é uma espécie do gênero dano moral. de produzir a prova do dano moral perpetrado contra a pessoa jurídica. RJTJESP 137/182. que se inscreve na categoria de dano moral.137 Assim. RT 502/51. pode gerar a título de dano moral. no dano material. e produzir efeitos morais. O dano estético Também o dano estético vem suscitando divergências ao longo do tempo. a indenização do dano estético é ora puramente patrimonial. deve ser 137 138 RTJ 39/320. . Conforme esta corrente. Para certa parcela. Danos físicos. diante de cada caso concreto deve-se analisar a necessidade. como a queda da auto-estima. e dano moral decorrente do dano estético. cabendo ao agente do ato ilícito o reembolso das respectivas despesas. o dano estético vai se convertendo em dano patrimonial diante do crescente progresso da cirurgia plástica reparadora e da clínica de reparação. E. 138 ora puramente moral. por sua vez. A vítima sofre danos físicos que resultaram em cicatrizes cirúrgicas. ficando a escolha do médico e do hospital por conta do ofendido. é in re ipsa. se o dano estético não for passível de correção.

com causas inconfundíveis. e constrangimento (TACMG.2003. decorrente da incapacidade parcial permanente. não só com o dano material. Resta caracterizado o dano moral sofrido pela paciente. . derivados do mesmo fato quando passível sua apuração em separado (REsp 540.10. a recíproca não é verdadeira. para fundamentar o pedido cumulativo. quando forem passíveis de apuração em separado. derivados do mesmo fato. janeiro de 1996. traduzindo circunstâncias hábeis a causar tristeza. do dano material que decorre do aleijão ou deformidade (RSTJ.. in RT 826/189 a191).021-ES. com precedentes citados neste acórdão. máxime porque essa cicatriz ocorreria. 77/247 e 248). 1ª Câm. Juiz Nepomuceno Silva. acrescenta: Por isso. pela relatoria do Ministro César Asfor Rocha: Permite-se a cumulação de valores autônomos. toda dano estético redunda em dano moral.031-6-1. em face das constantes internações para realização de cirurgias reparadoras. ainda que feita uma só cirurgia. um fixado a título de dano moral e outro de dano estético. por si. ou seja. No entanto. do aumento de consumo de remédios. como se fossem coisas diversas. das dores físicas e psíquicas sofridas e da agravação do quadro clínico psicoterápico – depreção –. rel. Depois de citar aresto precedente da Terceira Turma. Se é verdade que nem todo dano moral resulta do dano estético. Ap. Posteriormente entendeu o dano estético como autônomo e passível de cumulação. 24.. desânimo. do distanciamento dos familiares e da sociedade naqueles períodos. 339. Foi o que decidiu a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça. assim como com o dano moral. j. com a relatoria do Ministro Dias Trindade.) a jurisprudência do STJ é firme no sentido de que é possível cumular danos morais com danos estéticos. Tal não ocorre se a cicatriz resultante de intervenção cirúrgica revela-se insuficiente. há certa cautela com respeito a esta cumulação: Somente em casos extremamente graves admite-se a cumulação de indenizações por danos moral e estético.123 indenizado. independentemente do dano material. Além. evidentemente.2001. Destaca-se do corpo do acórdão: (. trauma. não cabe a dupla indenização pelo dano estético e pelo dano moral. j. vol. RT 802/377). 23. publicado no Diário da Justiça de 19 de agosto de 1991. pois não representa desfiguração da paciente nem importa na sua rejeição social..10.

soam mais intensas nas mulheres do que nos homens. e não pode mais fazê-lo senão com movimentos irregulares ou claudicantes. embora em ambas o sinete seja a cicatriz. cinema e televisão. 127.139 Entretanto esta resistência à aludida cumulação não pode afetar o conceito de dano estético. De fato. Todavia. não tem mais do que uma voz estridente. como aquela que impede a pessoa de freqüentar praia. o grau do atentado estético. até menos. RT. 2 ed. que o atentado à estética será mais grave quanto mais as ofensas tomarem as partes do corpo que ficam normalmente desnudas. capaz de causar impressão vexatória ou. portanto tem requisito na aparência. ou artista de teatro. É preciso analisar cada caso em particular a exemplo de certas atividades laborais: se a vítima for uma dançarina. Isto é. deformado. 1999. cogita-se de algo menos exigente ou mais singelo. de desagrado ao seu portador. todavia. para merecer indenização basta uma deformidade mínima. o Direito Civil considera a cicatriz mesmo quando não enfeie as partes trivialmente expostas do corpo humano. como afirma Hélio Gomes: “nas alcovas conjugais. Wilson Melo da. Para os efeitos civis. assim no caso de deformações ou desfigurações que acarretem constrangimento para a vítima e sua infeliz rejeição no meio social. pelo menos. O dano moral e sua reparação. em conseqüência das lesões. p. suficiente para prejudicar levemente a aparência pessoal ou conduzir a complexos inferiorizantes. p. Rio de Janeiro: Forense. piscina. somente entendendo possível a cumulação dos danos moral e estético em situações graves. ou o manequim. O dano estético: responsabilidade civil. ele não está. é visível. É o caso da pessoa qualificada por uma voz quente e sedutora que. seu nariz é mutilado. não coincidente nas áreas penal e civil. Teresa Ancova. é vítima de um acidente. . a despeito de todas as maravilhas da cirurgia plástica. não está contente: seus clientes que ele visitou depois 139 140 LOPES. 500. São Paulo: Ed.124 Teresa Ancova Lopes ensina nesta mesma direção.”140 Há de se considerar. Jean Corrad assevera que pode resultar inclusive de atentado à voz ou à faculdade de se locomover. Há de se considerar. tudo que o cirurgião pode fazer é um nariz grego. não há legal nem habitualmente. Também em consideração às pessoas. Na opinião de muitas pessoas o viajante tem melhor fisionomia com o nariz grego. 1983. E cita intrigante hipótese pela transformação da fisionomia: Um viajante do comércio. outrora possuidor de um nariz aquilino. praticar esportes de trajes mais sumários e. não é possível restabelecer seu nariz aquilino. SILVA. regiões interditas à contemplação amorosa. ou a vítima que se movia graciosamente. pois. também. Para os penalistas o dano estético caracteriza-se na deformidade.

c). exemplificativamente ao conferir proteção ao meio ambiente equilibrado (art. é o prejuízo experimentado por uma comunidade. sendo improvável a identificação individual de todos aqueles que são atingidos. II: direito coletivo em sentido estrito. 8 Dano Coletivo ou transindividuais O dano coletivo. Açambarca uma comunhão de pessoas. que consista em prejudicar a aparência da pessoa. . 225).141 De tudo. b) se possível a remoção da cicatriz. foram acrescidas as relações jurídicas coletivas autônomas. III: direito individual homogêneo. Pela leitura do artigo 81. Jean. em virtude da transformação de seu nariz. de modo que sua ofensa a todos atinge. XXIII. assim sua observância a todos aproveita. e talvez um dano moral. As instituições jurídicas evoluíram. e se respeita a todas as pessoas e a cada uma delas em particular. ainda chamado de difuso. O direito difuso é transindividual ou metaindividual. Às concepções da relação jurídica como expressão do liame entre sujeitos identificados ou identificáveis. o direito coletivo em sentido amplo triparte-se. 21. as quais transcendem àquelas.125 de longos anos. não o reconheciam mais. A Constituição Federal preveja determinadas situações que identificam os direitos e interesses coletivos. No café. c) o conceito civil de dano estético é relativo a qualquer cicatriz mesmo pequena. sem deixar vestígio. genericamente. uma ofensa ao seu futuro econômico. nos casos extremos bem assinalados nas lições da melhor doutrina e jurisprudência. RF 83/401. mas alguns não querem se deixar persuadir e o tomam por um impostor. 141 CARRARD. passa hoje despercebido. e ele teve que dar longas explicações para os convencer de que era sempre o mesmo homem. prevalece o dano material e se a cirurgia for penosa. caracterizando-se por não apresentar titular determinado ou determinável. do Código de Defesa do Consumidor. à responsabilização objetiva por danos nucleares (art. conforme discriminados nos seus três incisos: I: direito difuso. restam três conclusões inarredáveis: a) é provável a cumulação do dano estético e moral. onde era figura conhecida e popular. Este viajante do comercio sofre. onde era saudado por todo mundo. daí esparge-se para toda a ordem jurídica. cujo objeto da relação jurídica obrigacional ou legal é indivisível. também o moral.

Curso Preparatório para Concurso. e na maioria das vezes pela exagerada ganância do lucro. Em decorrência. No pálio do meio ambiente vige a responsabilidade civil objetiva. um direito difuso por tratar-se de um direito transindividual. formados por rochas: no primeiro deles. sem qualquer forma de exploração. cuja titularidade é identificada ou identificável. Com efeito. enquanto o proprietário do outro morro. independentemente da obrigação de reparar os danos causados (§ 3º). mas apresenta como titular um grupo ou classe de pessoas. um sobre cada morro. 1998.126 O direito coletivo strito sensu é transindividual e de objeto indivisível. no entanto. de ambos desprendem-se blocos de rocha. pessoa natural ou jurídica. Vezes há.142 142 SOUZA. excluindo a ação ou omissão humana. em que a força maior ou o caso fortuito incidem no dano. Princípios de direito ambiental. entidade constitucionaladministrativa. São Paulo: CPC. Motauri Ciocchetti. 23 e 24. não. é individual. dado que. que é personificado pelo Estado como pessoa jurídica de direito público. Estes direitos não se confundem com o interesse coletivo em sentido lato. O direito individual homogêneo é coletivo apenas na aparência. Temos ai típica hipótese de força maior. p. do consumidor. Pois bem: caem dois raios. no entanto. no segundo. de improbidade administrativa e do patrimônio cultural. encontrando-se entre si ligados por uma mesma situação fática. Destacam-se dois exemplos de dano coletivo: o atômico e o meio ambiente. que é exercida segundo os mais rígidos padrões ambientais e de segurança traçados pelos órgãos técnicos. . por conseqüência. a empresa que explora a atividade de extração mineral possui responsabilidade civil na esfera ambiental. perante a relevância da matéria na atualidade. não jurídica. o proprietário da gleba o mantém em estado natural. e seus titulares são indetermináveis. inexplorado. a sanções penais e administrativas. em que a natureza recebe agressões não raramente gratuitas pela deseducação geral sobre o assunto. na essência. que é a própria realidade do meio ambiente. O meio ambiente é. que vêm a causar danos ambientais. isto porque apesar de apresentar origem comum – homogênea – seu objeto é divisível e seus titulares identificados ou indentificáveis. Motauri Ciocchetti de Souza articula o seguinte exemplo: Podemos supor dois morros. A Constituição Federal dispõe que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (artigo 225) e que as condutas consideradas lesivas ao meio ambiente submeterão seus agentes. com efeitos distintos. há atividade de exploração de minérios (pedreira).

167/118). Verifica-se. Art. de 31 de agosto de 1981. Orlando Pistoresi – J. A questão ambiental. esse dano repercute erga omnis. Lex. e no caso de sofrer dano. – Rel. mas a titularidade repousa na coletividade como um todo. 13. da Lei 6. o Cacique Seattle assegurou ao presidente dos Estados Unidos. § 1º. é questão de vida e morte. cuidando-se ao titular da atividade a assunção dos riscos dela decorrentes. 14 da Lei 6. é coisa de todos e indivisível. de modo que ninguém é isoladamente seu titular.10. Des. – Ap. em 1855. Despejos industriais e domésticos lançados in natura em córrego. 126/172. ainda que tomadas todas as precauções por parte da empresa exploradora para evitar acidentes danosos ao meio ambiente. Poluição comprovada. 49-50/35. 6. não apenas para os animais e plantas. pois na oportuna expressão de Sergio Ferraz o meio ambiente é res omnium. Nelson. transindividual. afasta qualquer mitigação à responsabilidade do poluidor. § 1º. e seu sentido teleológico vai além. Obrigação de indenizar. em que a responsabilidade civil é devida independentemente de culpa e. Revista Jutitia. do que deriva os legitimados extraordinários.938/81” (TJSP – 4ª C. 1984. trazendo em seu bojo a objetividade. Justifica-se a adoção do risco integral. caso explode reator controlador da emissão de agentes químicos poluidores – caso fortutito – ou se um fato da natureza propicie o derramamento de substância tóxica existente no depósito da empresa – força maior – subsiste o dever de indenizar. ocasionada pelos despejos. pela simples razão de existir a atividade da qual sucedeu o dano.1994 – JTJ. Meio ambiente. Revista de Direito Público. dispensa a culpa.127 É a teoria do risco integral. Responsabilidade civil por dano ecológico e a ação civil pública.143 Responsabilidade civil. Morte de peixes causada pela elevação do PH da água. que o artigo 14. . não há dúvida. ao afirmar que não se operam o caso fortuito e a força maior como causas excludentes de responsabilidade. mesmo a incidência das dirimentes de responsabilidade.938/81 – “Independe da existência de culpa o dever de indenizar decorrente de responsabilidade objetiva firmada no § 1º do art. Franklin Pierre: 143 NERY JUNIOR. 1979. Responsabilidade civil por dano ecológico. portanto um direito difuso. propriedade de toda coletividade144.938. é como. que eliminam o nexo de causalidade: o caso fortuito e a força maior. 144 FERRAZ. mas da própria pessoa humana e do planeta que a abriga. Nelson Nery Junior segue a mesma toada. da Lei n. Sergio. Danos. São Paulo. Não há um conjunto de propriedades individuais. Responsabilidade objetiva. de plano. 14. mais ainda. Por conseguinte. atinge a todos indistintamente. contemplando a responsabilidade civil objetiva.

2002. Todas as coisas estão interligadas. como o sangue que une uma família. de uma situação de fato (quaestio facti) a ser avaliada no caso concreto. configura-se. São Paulo: RT. como novo direito fundamental da pessoa humana ao lado o rol dos demais direitos e deveres individuais e coletivos. na verdade. 146 Edis Milaré assevera: “O reconhecimento do direito do meio ambiente sadio. a conduta não foi causa 145 RODRIGUEIRO. é o homem que pertence à terra. como extensão do direito à vida. Se a resposta for negativa.128 De uma coisa sabemos: A terra não pertence ao homem. Daniela. 2000. a Constituição Federal dedicou ao meio ambiente um capítulo singular.145 Bem por isso. que faz com que valha a pena viver”. 363 e 364. Se a resposta for positiva. o nexo de causalidade é o liame existente entre a conduta humana (causa) e o dano (efeito). coordenadora Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka. Essa lei é própria de toda ciência. a si próprio fará. na análise de cada caso verifica-se se entre a conduta e o dano existe uma relação certa e direta. p. in Direito do ambiente. Responsabilidade objetiva pura em face da integral reparação do dano ambiental como pressuposto da dignidade da pessoa humana. afastando do agente as condições que não sejam hábeis à produção do resultado danoso. É um vínculo de relação entre duas coisas. por meio do qual é determinada a responsabilização daquele em face deste. 95. Belo Horizonte: Del Rey. não foi o homem quem teceu a trama da vida. quer nos casos de relação obrigacional originada em contrato ou pelo negócio jurídico unilateral (responsabilidade civil objetiva). quer quanto ao aspecto da dignidade desta existência – a qualidade de vida –. agride os filhos da terra. Tudo está relacionado entre si. Faz-se o seguinte questionamento: se não houvesse a conduta. cujo elenco consta no rol do artigo 5º. ou na sua letra: “ecologicamente equilibrado”. ou se torne possível. . in Direito e responsabilidade. Tudo quanto agride a terra. Ele é meramente um fio da mesma. disso temos certeza.146 8 Nexo de causa e efeito A lei da causalidade é um dos axiomas do pensamento: todo fenômeno tem uma causa. quer sob o enfoque da própria existência física e saúde dos seres humanos. quer em razão da ofensa direta à lei (responsabilidade civil subjetiva). dessa maneira. Em significado ordinário a causa expressa o motivo de algo. Cabe afirmar. Trata-se. aconteça. reconhecendo o meio ambiente saudável. O efeito é consequência da causa. p. a conduta foi a causa determinante do dano. uma originária e a outra resultante. o que faz com que uma coisa exista. Tudo que fizer à terra. Também chamado de nexo etiológico é a vinculação que une a conduta positiva ou negativa do agente ao dano produzido em desfavor da vítima. Em sentido jurídico. exclui-se o nexo causal. o dano assim mesmo existiria? Na resposta firma-se o nexo causal.

tanto que progride. admitindo-se até a sua presunção. da Constituição Federal respectivamente – busca a reparação mais ampla possível. IV. que em certas situações o liame casual seja até presumido. p. com vistas a dar maior proteção à vítima do dano injusto. o processo de objetivação da responsabilidade civil. cabendo à vítima do dano a sua prova. pois a responsabilidade não se define pelo erro de conduta. a prova absoluta da relação de causalidade. . Diante desses princípios. existe a dificuldade em sua prova. Assim. é preciso que sem esta contravenção. Todavia.”148 Não difere a ensinança de Sílvio Salvo Venosa: Na identificação do nexo causal. 66.129 do dano. exige-se. mesmo porque se está em presença da matéria mais controvertida da responsabilidade civil. n.”147 Conclui-se: o nexo de causalidade é pressuposto cogente a qualquer espécie de responsabilidade civil. há duas questões a serem analisadas. é necessário o estabelecimento de um nexo etiológico em que envolva a injuridicidade da ação ou omissão como causa e o dano como efeito. Primeiramente. CRUZ. de acordo com os artigos 1°. o dano não teria acontecido. não basta que o agente tenha laborado contra jus. não é mais de boa ponderação exigir da vítima inocente de dano injusto. sem este fato. III e 3º. a seguir apresenta-se a problemática da identificação do fato que constitui a verdadeira causa do 147 148 DEMOGUE. não poucas vez de dificílima comprovação. dano e nexo de causalidade). A nova realidade social – que tem por princípios fundamentais a dignidade da pessoa humana e a solidariedade social. vol. Rio de Janeiro: Renovar. que diante de certas circunstâncias não tem como prová-lo de modo cabal e absoluto. I. Traité des oblegations en général. E essa flexibilidade dá-se diante de embasamentos constitucionais. o conceito de nexo causal mereceu flexibilização. sempre mais. em certas circunstâncias. cujo dano foi o efeito (conduta humana. mormente com a previsão do risco. não é suficiente que uma pessoa tenha contravindo a certas regras. com fundamento na nova ordem constitucional. tal qual o dano. o dano não ocorreria. É a sempre lembrada lição de Demogue: “é preciso que esteja certo que. Tão-só diante da resposta negativa é que se caracteriza a responsabilidade civil na conjugação de seus três pressupostos: a causa foi a conduta. Gisela Sampaio da. Assim. embora o nexo causal constitua. 2005. 17 e 18. um dos elementos da responsabilidade civil. O problema do nexo causal na responsabilidade civil. Ou como acertadamente pontua Gisela Sampaio da Cruz: “Assim.

o agressor responde nos termos do artigo 948. Para melhor explicitar essa censura. sua causa eficiente. No homicídio. 48. RT 609/112). se a vítima. no terreno civil. São Paulo: Saraiva. todos os eventos são apreciados. Consideram-se todos os antecedentes do resultado danoso. no qual o Direito Civil abeberou-se. aliás. como concausas. 6ª Câm. 8. no caso concreto. Vide MORONHA. Dessa forma. Muitos autores refutam esta teoria. seu incremento coube à jurisprudência belga. René Demogue lembra que o 149 150 VENOSA. Juiz Ernani de Paiva.. 1963. Formam uma unidade infragmentável. não elidem a responsabilidade. para explicar o fenômeno da causalidade várias doutrinas foram elaboradas ao longo de tempo. nem sempre é de fácil constatação o nexo causal. recebe um golpe. principalmente quando decorre de causas múltiplas.03.149 De efeito. porquanto conduz ao regressus ad infinitum nas pesquisas dos elementos causais. e vem a falecer. . portanto tudo que concorre para o resultado é causa. Magalhães. desenvolvida no âmbito penal por von Buri.83. matéria. 2 ed. 1º vol. ou mesmo a falta de tratamento adequado.130 dano. Direito Penal. por exemplo. mormente nas causas simultâneas ou sucessivas. Nem sempre há condições de estabelecer a causa direta do fato. devido à fraqueza anormal do osso da caixa craniana. j. Sívio de Salvo. p. em 25.150 Neste sentido: A idade avançada da vítima e a debilidade de sua constituição física. pois se equivalem na causalidade. o nexo de causa e efeito entre a conduta do autor e o resultado morte subsiste ainda que para esse resultado haja contribuído a particular condição fisiológica da vítima. 2008. de sorte que o nexo causal entre a ação ou omissão e o evento danoso não é interrompido pela interferência de outras causas concorrentes.1 Teoria da equivalência das condições Denominada ainda de conditio sine qua non. E. muito trabalhada no Direito Penal. a partir dos ensinamentos filosóficos de Stuart Mill. Ou seja. é o que De Page reputa de o causador do prejuízo ser obrigado a suportar os riscos da receptividade pessoal da vítima. Por isso. pois o causador do prejuízo é obrigado a suportar os riscos da receptividade pessoal da mesma (1º TACSP. rel. 149. que são isto sim cooperantes. São Paulo: Atlas. isolada ou conjuntamente. 8ª ed.. Direito Civil: responsabilidade civil. p.

Eduardo Ribeiro. 1923. como indica a experiência baseada no curso normal das coisas. 12. ANTOLISEI. conforme se parta de uma ou outra teoria. com a extensão indefinida da cadeia causal (STJ.2 Teoria da causalidade adequada Para os adeptos desta teoria causa é a condição que se revela mais adequada a produzir o dano. 1960. Traité des obligationes en général. vol. a condição mais adequada à sua produção. Esta. tradução de Juan del Rosal e Angel Tório. de modo a levar a resultados inconciliáveis com as exigências do direito e com o próprio sentimento de justiça. Dentre as condições antecedentes ao evento lesivo. consoante o que geralmente sucede. Min.. é uma condição sine qua non do evento 151 152 DEMOGUE. o resultado não teria ocorrido tal como ocorreu. Francesco. em matéria civil. 17. Em síntese: entre as causas condicionantes da ocorrência do resultado. É a lição expendida na jurisprudência: Ainda que se admita. René. para excluir as condições que. Bueno Ayres: Uteha. rel. embora possa ser havido como uma conditio sine qua non. destaca-se aquela que seja mais idônea.151 Neste diapasão é a observação de Francesco Antolisei: “supone una extensión excessiva del concepto de causa. eliminadas as menos relevantes ou indiferentes ao efeito danoso. a teoria da equivalência das causas. . j. RSTJ 82/195). 8. essa teoria conjectura uma extensão excessiva do conceito de causa. 4. Paris. mais apta. p. isso não se haverá de fazer em sua absoluta pureza. 86. assim. deve ser considerada a causa determinante do efeito lesivo. pois se excluída a venda. Utiliza-se o critério da experiência humana. extrema-se aquela mais idônea a produzir o dano. Resta. Manual de derecho penal. extensión que conduce a resultados contrarios a las exigencias del Derecho y al sentimiento de justicia. p. não produziriam o resultado. o fato será reputado ou não causa da morte. pena de se conduzir a absurdos. por ter o autor que suportar as fraquezas pessoais da vítima. No exemplo da pancada na cabeça da vítima.10. o vendedor da arma também seria responsável. Segundo a teoria da equivalência das condições.131 nascimento de uma pessoa não pode ser causa de acidente de que foi vítima.95. De efeito. diante de certa situação danosa. 2ª T. a produzi-lo.”152 Imagina-se a seguinte situação muito difundida pela doutrina: se alguém lesiona outrem com um tiro de revólver. então.

Coimbra: Livraria Almedina. Argumenta-se.153 A teoria da causa adequada é seletiva. o agressor não responderá. cumpre precisar qual entre as circunstâncias fáticas é a causa eficiente do prejuízo. causa adequada à sua produção. com pequeno acréscimo. as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato [. de modo absoluto. em favor da chamada ‘equivalência das condições’. mas não causa adequada. em abstrato. p. art. pelo qual o autor responderá. Já pela teoria da causa adequada. 1998.04. p. esta teoria também merece reparo. ap. o critério da experiência humana. para ser devolvido no domicílio do primeiro. Ou seja. rel. como o golpe não é causa idônea para produzir o resultado morte.154 Outra situação hipotética pode esclarecer nitidamente a dessemelhança entre estas duas teorias do nexo causal. O meio-termo ilustrado pelo exame de cada caso concreto é a melhor solução (TRF. Se é certo que não se pode eleger arbitrariamente o fato gerador da responsabilidade. é necessário não apenas que o fato tenha sido. condição do dano. 8. Contudo.060. 2000. Num prognóstico a posteriore do fato o descumprimento da obrigação na restituição do livro não é causa adequada com relação à lesão sofrida. havendo ‘causalidade múltipla’. que o caráter adequado da causalidade implica em determinado grau de probabilidade. 153 154 Vide GONÇALVES. no caminho passa defronte de uma agência bancária que está sendo roubada. Mário Júlio Brito de Almeida. segundo as normas da experiência ou pelo curso normal das coisas.04. j. e probabilidade não é certeza.004115-1. Carlos Alberto. Vide no Direito português COSTA.01. em concreto. Há troca de tiros e um projétil o atinge. não sem razão. 4ª Região. 7 ed. Teori Albino Zavascki). 403 do CC O Código Penal no art.. entre as várias condições (conditiones sine quibus). Min. Reza o artigo 403: “Ainda que a inexecução resulte em dolo do devedor. 2002. Findo o prazo não se dá a restituição. o Código Civil não. Direito das obrigações. Suponha-se que alguém empreste um livro a outrem.. mas também que constitua. A mora na restituição do livro foi conditio sine qua non da lesão.]”. Na verdade. à visada do Código Civil de Bevilaqua. adotando a teoria da conditio sine qua non. 27.132 causado. 520/521. o atual artigo 403 repete o revogado artigo 1. também não é adequado optar.13 tem regra expressa sobre o nexo causal.2000.3.. Responsabilidade civil. Teoria dos danos diretos e imediatos. 672 e ss e . Em matéria de responsabilidade civil. 7 ed. O dono vai buscá-lo. isto é. segundo o curso normal das coisas.

ambas reforçam a idéia de necessidade. Agostinho. porquanto somente quando o dano sofrido pela vítima se ligue diretamente à conduta do agente. foi a que o ensejou. em regra são indenizáveis. mas a que necessariamente foi a sua causa. há quem desconsidera a força da natureza como interruptiva do nexo de causalidade. e tal relação não seja interrompida. estabelecer premissas. os danos indiretos e mediatos não são excluídos. Primeiro. . sim. pode ser a culpa da vítima. no magistério de Wilson Melo da Silva. o aparecimento de outra causa. nada a indenizar.133 Apesar de este dispositivo referir-se a inexecução das obrigações.155 Segundo. 1965. neste entretanto. Interrompe-se o nexo causal sempre que um determinado resultado – que se coloca no curso normal das coisas – não ocorre pelo surgimento de uma causa estranha. apenas são excluídos ante o surgimento de uma concausa. as expressões danos imediatos e danos diretos são sinônimas. Na lição de Arturo Alessandri Rodrigues: Es indiferente que la relación sea mediata o immediata. que acabasse por responder por esse mesmo resultado esperado. serve também. Bem por isso. 3 ed. vale afirmar. É a ponderação de Agostinho Alvim: “a expressão direto e imediato significa o nexo causal necessário”. que se dá o nome de concausa. Lo esencial es que el daño sea la consecuencia necesaria y directa del hecho ilicito. perfaz-se a responsabilidade civil. não existindo concausa. Rio de Janeiro – São Paulo: Ed. Jurídica e Universitária. portanto à responsabilidade civil contratual. que interrompe o nexo causal. é o desejável meio termo. por si só. Isto porque. éste no se 155 ALVIM. p. Se a culpa for de terceiro. a este cabe o dever de indenizar. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. o concurso de outra causa. ou uma força da natureza. A causa direta e imediata nem sempre é a mais próxima do dano. Terceiro. por analogia. Ou seja. Mas se a interrupção acontece pela força da natureza a vítima fica ao desamparo. o que rompe o nexo causal não é a distância no tempo entre a inexecução e o dano. a culpa de terceiro. que en cualquiera forma o condiciones en que el daño se presente. de sorte na própria vítima confundam-se as condições de causador e vítima do dano. Essa causa estranha. Neste ponto merece consideração a força da natureza. se a causa estranha for a culpa da vítima. a causa mesmo indireta e remota motiva a indenização. 341. A teoria dos chamados danos diretos e imediatos ou teoria da interrupção do nexo causal. à responsabilidade civil extracontratual. absorve o prejuízo sem qualquer reparação. Oportuno.

por ser matéria de fato. nº 159. fls 26). pois ela não tem força ilimitada. derivados de outras causas. Evaristo Santos. Des. mesmo que seja ela desencadeante das demais. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. esa relación desaparece: el daño ya no tendría por cuasa el hecho ilicito. resolvendo cada caso concreto segundo sua livre convicção. j. se não tivesse a causa primeira. 1943. como quiera que aun si el se habria producido. De lo contrario. ou ter um fundo de verdade. É a responsabilidade civil direta. no mesmo sentido RT 536/117) 156 RODRÍGUES. Santiago do Chile. já não é possível obrigar o devedor a responder por outros danos.134 hubria producido sin el hecho doloso o culpable.157 Finalmente é bom que se afirme. todas as teorias devem ser consideradas. o bom senso. 8. ap. limita-se os efeitos da causa inicial. mas nunca uma das diversas teorias pode ser guias seguros. 3 ed. ainda que estas não pudessem surgir e produzir o efeito. rompendo o nexo causal da primeira conduta. a) Pela conduta isolada de uma só pessoa. adote-se outra teoria. 13. 3ª C. Ora. o que Recaséns denomina de lógica do razoável ou do humano. Não apresenta dificuldade. o nexo de causalidade pode não encontrar solução em uma ou em outra teoria. RT 552/64. Daí o juiz deve procurar a equidade. Agostinho. rel. ficando o causador dessa injustiça inicial eximido de responsabilidade. p. la relación cuasal existe por mediato o alejado que sea el daño. 157 ALVIM. De la responsabilidad extra-contratual en el derecho civil chileno.10. quem se conduziu de forma ilícita responde pelos danos daí emergentes. a injustiça inicial. 353.4 Analise de situações hipotéticas Na abordagem do pressuposto da conduta foram aventadas várias hipóteses (1 Conduta.. É como amestra Agostinho Alvim: Se se preferir outra solução. pois uma ou outra pode ser verdadeira.80.156 Sendo dessa forma e dessa forma é. Rio de Janeiro – São Paulo: Ed. Concorriendo esta circunstancia. Há a interrupção do nexo causal advindo uma concausa que conduza ao resultado lesivo. Arturo Alessandri. ilustra o caso os danos sofridos por veículos em estacionamento: O dono do estacionamento pago de automóveis responde pelos danos ao veículo e furtos de seus acessórios (TJSP. p. 1965. 247. porque suporta a obrigação de indenizar somente o dano direto e imediato. Por isso. ponderando todas as circunstâncias que envolvem o fato lesivo. Jurídica e Universitário. que serão analisadas nesta oportunidade. a causa natural pode ter essa força. .

mais adiante ou tempo depois. a ambulância sofre violento acidente. e verifica vício oculto.. Não importa que o dano seja indireto em relação à pessoa. Não responde o alienante da coisa pelo atropelamento. no qual todos os ocupantes do veículo falecem. que faz a seguinte proposição: uma pessoa recebe a coisa. responsável pelo dano que. atira contra outra. é o caso de co-autoria e participação. Uma pessoa. apresentado por Mário Moacyr Porto: (. pois se traduz num ato ilícito a culpa pelo não guarda adequada do veículo. Alguns casos esclarecem dúvidas. in Revista dos Tribunais. d) Pela conduta de várias pessoas. ocasiona o veículo roubado. Ao ser conduzida para o hospital. A solução é idêntica: todos são solidariamente responsáveis. Mais uma vez.) o dono do automóvel que concorreu com a sua culpa provada para o roubo do seu veículo não é.” c) Pela conduta de várias pessoas. que é gravemente ferida. nesta hipótese. 13. a solução poderia ser pela responsabilização da também da conduta primeira. As condutas são simultâneas.158 Pelas teorias da conditio sine qua non e da causa adequada. Mário Moacyr. entretanto. É o palpitante exemplo para os dias atuais. não ocorre uma relação de causa e efeito entre a culpa do dono do veículo e o dano causado. Quando pretende devolvê-la. sem unidade de desígnios. É suficiente que a condutas de duas ou mais pessoas. Responsabilidade civil decorrente da guarda da coisa. Pode ocorrer em tal situação hipótese de condutas sucessivas. 932. mesmo se ausentes qualquer desígnio prévio na produção do dano. que interrompeu o nexo causal. sem unidade de desígnios. pois. sendo a conduta isolada de cada um bastaria para a produção do evento lesivo. mas as suas condutas isoladas não bastariam para a produção do evento lesivo. as condutas são simultâneas. todos responderão solidariamente pela reparação”. Há de se notar que o artigo 942 e seu parágrafo único não se referem à co-autoria e nem à participação. Aplicada a teoria dos danos diretos e imediatos houve uma concausa sucessiva. Mário Moacyr Porto deve ter se inspirado em Agostinho Alvim. armada com revólver. o que torna mais difícil cotejar o nexo causal.. embora não dissipam todas. o que importa é que seja direto em relação à causa. logo o atirador não responde.135 b) Pelo concurso das condutas de duas ou mais pessoas todas cooperando entre si no desígnio de produzi-lo. volume 573. podendo cogitar também o parágrafo único deste artigo: “São solidariamente responsáveis com os autores os co-autores e as pessoas consignadas no art. resolve pelo artigo 942: “[. .] se a ofensa tiver mais de um autor. Não porque a causa 158 PORTO. p. é atropelado no caminho...

em desacordo com os preceitos da arte. por não se colocar na sequência normal do desenrolar 159 ALVIM. a saber. o tratamento indicado como corretivo. Suponha mais que chamado outro médico. p.136 primeira colocar-se distante e. Pode a culpa residir na conduta da vítima ou do motorista que a atropelou. 3 ed. rompendo com o nexo de causalidade entre a causa primeira e o dano. responderá o inadimplente ou o fazendeiro? Também não. A solução encontra-se na possibilidade real de outras causas.159 É tradicional TRANSPORTE CUMULATIVO E SUCESSIVO. Temos. o saque deu como conseqüência a perda de uma elevada soma. STOCO 290 Outros dois casos sugeridos pelo mesmo autor: “Suponha-se que um prédio desaba por culpa do engenheiro que foi inábil. aparenta como solução mais razoável aquela em que o engenheiro responde pelo desabamento. E se pelo não cultivo. no que se refere à causa próxima tomar o lugar da remota. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. e a imperícia do medico chamado a corrigir o primeiro erro. mas não pelo fato de as terras não terem sido cultivadas. aqui. Pela inexecução da obrigação de dar – entrega do bem – responde o alienante. não na distância da causa primeira. Na cadeia dos fatos. hipóteses de concausas sucessivas. Agostinho. complicando o seu estado de saúde. gerou a falência do proprietário. Rio de Janeiro-São Paulo: Ed.”160 Os dois casos abordam as denominadas concausas sucessivas. p. 160 ALVIM. A venda dos bens. Inexecução das obrigações e suas conseqüências. A morte. a inexecução da obrigação fica como causa muito remota do não cultivo. sim. não pelo saque. nenhum e nem outro. São Paulo: Jurídica Universitária. e o doente venha a falecer. impedindo-lhe o cultivo de suas terras. uma causa após a outra. o desabamento proporcionou o saque. Atualizando outra situação proposta por este último autor. por sua vez. isto é. supõe pluralidade de causas. Arruda. o que. embora influenciada pela inexecução da obrigação. levando-os a vender bens por preço vil. e abrolha a questão: quem responde? No caso do prédio. 3ª ed. 1965. pois era possível ao fazendeiro buscar outros meios. Reforça-se. a operação menos feliz. O engenheiro responde por esta falência?” “Suponha-se que certo doente não tenha sido operado com observância das regras da assepsia. pois. com base em Pothier. . seja contraproducente. a distância da causa – causa remota – não se exclui por si só. que não lhe entregue. que estava guardada em casa. 342 e 345. 328. Certo fazendeiro adquire um trator. poderá ter outras causas. Jurídica Universitária. o fazendeiro deixasse de pagar seus credores. porque se dá a interferência de outra causa.

tornando-se impossível a sua identificação.526 do CC [atual art. Havendo no edifício conjuntos ou apartamentos de onde são impossíveis os arremessos. A concausa ulterior coloca-se no desdobramento ordinário do primeiro fato. ao tratamento corretivo. caso identificada.101994. se possível. em desacordo com os preceitos da assepsia. Impossível essa identificação. A reparação de dano causado pelo arremesso de coisa de edifício sujeito a condomínio sobre a cobertura do prédio vizinho deve ser exigida de quem o causou. e) Pela conduta de uma pessoa. 338/78 – rel. Não obstante. aplica-se a teoria da exclusão. Juiz Sílvio Romero. RT 530/212-213). ou a habitação de onde partiu a coisa. RT 714/153). – Ap. provada ou presumivelmente. rel. 938]) e quem a representa é o Condomínio (TJSP. Respondem os moradores do lado norte.10. É uma concausa sucessiva autônoma: nem todo desabamento leva a saque. A morte supõe pluralidade de causas. inexoravelmente. do lado norte. a quem cabe a responsabilidade? A melhor solução é identificar. o autor do dano. não sendo plausível simplesmente que o condomínio responda. vez que toda a massa condominial é responsável pelo dano proveniente das coisas que caírem ou forem lançados do prédio em que habitam (art. integrante de um grupo. Carvalho Viana. a operação menos feliz. 1. A cirurgia mal sucedida conduz. de sorte que qualquer uma delas poderia ser a autora do ato lesivo.137 dos fatos. Des. há julgados díspares: Não é razoável que aquele que teve o seu imóvel danificado por objetos lançados de prédio de apartamento vizinho ao seu imóvel. j. a saber. Excluem-se os moradores do lado sul.1978. tem sua propriedade danificada pelo arremesso de objetos líquidos ou sólidos. indistintamente (TAPR. Se o vizinho desse prédio. todavia: . Pela proliferação de prédios de apartamentos passou a ser corriqueiro e recorrente o dano ao proprietário vicinal proveniente dos objetos caídos ou arremessados em lugar indevido. – Ap. O Superior Tribunal de Justiça decidiu. 3ª C. 25. pois daí impossível o arremesso ou queda. manifesta se torna a ilegitimidade dos proprietários dessas partes para responderem pelo prejuízo e do síndico do condomínio para responder por todos. O condomínio edilício suscita hipóteses que tais. Diferentemente na morte do paciente. 1ª C. j. Pelo saque responde a turba de saqueadores. haja de investigar de qual unidade partiu a agressão. 4. e a imperícia do médico chamado para corrigir o primeiro erro.

1 INTRODUÇÃO Estampa o art. 1. 9. não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo.11.68222 – rel. 188. 2. cuida-se articular algumas situações fáticas. 64. que dirigia em alta velocidade e colheu o automóvel de Miriam estacionado. Se Saulo produz em Miriam pequena lesão corporal. ou a lesão a pessoa.161 IX CAPÍTULO IV: AS CAUSAS DE IRRESPONSABILIDADE 1. 2.2 Exercício regular de um direito reconhecido.138 A impossibilidade de identificação do autor do dano decorrente de lançamento ou queda de objeto.1 Ilicito civil e ilícito penal. . Parágrafo único. situada em edifício de apartamentos.4 Estado de necessidade. a fim de remover perigo iminente. antes de aquele produzir os seus efeitos. Bueno Souza. Para analise. 1. II – a deterioração ou destruição da coisa alheia. No caso do inciso II. verificada em resultado de uma doença epidêmica que contraiu no hospital? E se a morte de Miriam foi devida a anestesia que o ferimento tornou necessária? E se Miriam morreu por sofrer de hemofilia. 2 As exculpantes: 2.3 Estrito cumprimento do dever legal.958] (STJ. a partir de janela de unidade condominial. é destruído numa colisão com o veículo de Ambrósio. Por sua vez providencia o art. Intodução. do Código Civil: “Não constituem atos ilícitos: I – os praticados em legítima defesa ou no exercício de um direito reconhecido. Min.2 Antijuridicidade. 526. j. 2. conforme interpretação do art. cit. que atingiu transeunte nas proximidades do local. op. 929: 161 Exemplos retirados e adaptados da lição de Mário Júlio de Almeida Costa. o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário. doença que Saulo ignorava? E se Saulo conhecia a doença? Ou ainda: Saulo coloca um engenho explosivo no automóvel de Miriam que. impõe ao condomínio a responsabilidade reparatória pelos prejuízos causados a terceiro. 4ª T. RT 767/194).1 Legítima defesa. 1. REsp.1998. responderá pela morte.529 do CC [atual art. 10.

sem prejuízo do ressarcimento devido. 12 9. com efeitos jurídicos nem sempre coincidentes. ou restituição da posse. E prossegue. se o perigo ocorrer por culpa de terceiro. São elas: legítima defesa. independentemente de autorização judicial. tornando-a lícita. inciso I). Ademais. nº 4. preceitua: O possuidor turbado. dispõe o art. Nestes dispositivos o Código Civil preveja as causas de irresponsabilidade que arredam a culpa da conduta. contanto que o faça logo. Por fim. 188. São figuras comuns ao Direito Penal. independentemente de autorização judicial. não podem ir além do indispensável à manutenção. p. poderá o credor desfazer ou mandar desfazer. 188. executar ou mandar executar o fato. Ao abordar a obrigação de fazer. assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram. os atos de defesa. ou de desforro. sendo depois ressarcido. 1.2 Efeitos da sentença penal transitada em julgado . criando duas figuras de autotutela. o atual Código Civil inovou. 251. 249. 188. exercício regular de um direito reconhecido. no caso do inciso II do art. 930 completa: No caso do inciso II do art. E o art. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art. poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força. pode o credor. parágrafo único: Em caso de urgência. parágrafo único: Em caso de urgência. podendo acrescentar o estrito cumprimento do dever legal (de lege ferenda). ou esbulhado. no art.139 Se a pessoa lesada.210. A distinção entre ilícito penal e civil já foi exposta no Capitulo I. no art. Parágrafo único. ou o dono da coisa. quanto à obrigação de não fazer. assim antes de dissertá-las convém repercutir as consequências da sentença penal transitada em julgado em sede de responsabilidade civil. contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado. estado de necessidade e a autotutela (de lege lata). § 1º. não forem culpados do perigo.

nem poderia ser a conclusão do Enunciado 45 do Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal: “no caso do art.. Des. 935.] a absolvição do apelado deu-se por negativa de autoria. Dessa maneira. Outra não é. rel. 935 do CC (de 2002).525. É assunto que não mais se discutirá e especialmente em sede de juízo cível (art. ao prescrever que. embora dividida em órgãos. apenas houve pequena mudança redacional. em legítima defesa. por disposição do art. do Código de Processo Penal. do antigo CC. Silveira Netto). A mitigação vem exposta no próprio art. não absoluta. visa apenas à melhor solução das diferentes espécies de demandas. 21. sem que se possa voltar a discutir a responsabilidade penal com base no art. lhe dá o direito de recebimento de indenização por danos morais. 935. a ser paga pelo referido empregador.140 O atual Código Civil não alterou o sistema do Código Civil revogado (art. A independência proclamada é.2003. a boa justiça realiza-se impondo que a verdade sobre ele seja uma. do vigente). do Código Civil. j. vigora o princípio da independência da jurisdição civil em relação à penal. no âmbito civil. entretanto.” Tratando-se de indivíduo condenado pela prática de delito que teve álibi recusado porque seu empregador prestou informação incorreta. 65. A norma é motivada pela concepção unitária de jurisdição. (TJSP. quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. 5ª Câm. não se pode mais questionar sobre a existência do fato ou sobre quem seja o seu autor. relativa ou mitigada. porque materialmente idêntico. meramente técnica. a sua posterior absolvição por negativa de autoria em sede de revisão criminal transitada em julgado. Do corpo do acórdão consta: [. de Direito Privado. 935. se um mesmo fato penalmente típico (crime ou contravenção) gera responsabilidade civil. em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito. que subsiste una. 935. Também faz coisa julgada civil a sentença penal que reconhecer ter sido o fato praticado em estado de necessidade. . pois essa divisão.. Por força do art. art. 1. ).8. não mais se poderá questionar sobre a existência do fato ou sobre quem seja o seu autor se essas questões se acharem categoricamente decididas no juízo criminal. e.

também é distinta apreciação de sua prova. O art. 64.2. nada impede a sua apreciação na esfera da responsabilidade civil. 68.2 Efeitos da sentença absolutória Na sentença penal absolutória abre-se um leque. uma presunção de inocência. embora não substancial. 32. é dizer. b) a autoria.2. Cria-se. à autoria ou à culpa. 9. 475-N. seus herdeiros ou representantes legais contra o autor do crime ou seu responsável civil. que a ação de execução seja dirigida contra o autor do ato ilícito. do Código de Processo Penal. a autoria não seria atribuída ao réu no crime. Nem poderia ser diverso. ou da autoria. A absolvição estreando na inexistência de prova da materialidade do crime. a eficácia de coisa julgada projeta-se no cível. do Código Civil. mas seria atribuída no cível. O fato não existiria no crime e existiria no cível. e se no âmbito penal foi decidido por sua inexistência ou excluída a autoria do réu. 935. não existir Defensoria Pública. portanto não abrange eventuais terceiros responsáveis. p. que deverá ser superada por novas provas a serem produzidas pelo autor da ação civil. dar-se-ia verdadeira contradição.1 Efeitos da sentença penal condenatória A sentença penal condenatória transitada em julgado constitui título executivo na jurisdição civil. essas questões não mais poderão ser debatidas no cível. como o empregador ou do comitente com relação ao empregado ou preposto. do Código de Processo Penal preveja a hipótese do titular do direito a ser reparado for pobre (CPP. 63. bem assim o art. II. se a sentença penal absolutória basear-se na falta de prova quanto à materialidade. caso contrário. do Código de Processo Civil. a ação de responsabilidade civil ou a execução da sentença penal condenatória poderá ser promovida pelo Ministério Público. a sentença penal transitada em julgado faz coisa julgada no cível quanto: a) a materialidade. nº 4. §§ 1º e 2º). pois no crime vige . conforme disposto no art. Ante a distinção. 9. se na comarca competente para conhecer a lide. pois estes não foram parte no processo penal em que se formou o título. São legitimados na proposição da ação executiva a vítima. sim. A ratio legis é a seguinte: se o ato ilícito é o mesmo.141 Uma primeira conclusão. Por outro lado. É o que estampa o art. a prova penal é mais severa. art. do Código de Processo Civil. o que levaria a perda a regra do art. c) e as excludentes de ilicitude. autorizando. inc. 12). porém. entre lícito civil e penal (Capítulo I.

mas não é. A actividade do agente é secundum jus. Apesar do caráter conforme ao Direito da actuação do sujeito.3 Sentença absolutória que reconhece excludente de ilicitude A sentença penal absolutória que reconhece uma das causas de irresponsabilidade que afasta a ilicitude da conduta. Pretende-se em tais casos compensar o sacrifício de um interesse menos valorado na composição de um conflito teleológico. conduzindo à interpretação restritiva. 162 PINTO. prima facie. pois. . Cai a fiveleta a lição do lusitano Mota Pinto: Poderá parecer. 3 ed. Quanto à consideração da culpa. Se determinado fato deixa de ser ilícito no crime por incidir a legítima defesa. p. 122.162 Daí. Coimbra: Coimbra Editora. do Código de Processo Penal.2. pois os efeitos jurídicos não são os mesmos. relembrando: in lege aquilea et levissima culpa venit. o exercício regular de um direito ou o estrito cumprimento do dever legal. Carlos Alberto da. deixa. da mesma forma. em casos especiais. de sorte que a culpa levíssima conduz ao decreto absolutório no crime e à procedência da ação no cível. mas nada impede.142 plenamente a tipicidade. Tal situação é. de forma alguma contraditória. por força do art. pareceu excessivo não dar à pessoa sacrificada uma reparação. 65. ao contrário do que sucede no acto ilícito. Nesse particular. 9. isto é. como adiante será visto. que a lei eleja o ato lícito como supedâneo do dever ressarcitório. mesmo incidindo uma dessas causas o dever de ressarcimento se impõe. mais saliente mostra-se a dessemelhança nas duas áreas. a matéria torna-se muito importante no estudo das excludentes de ilicitude citadas. em que um comportamento rebelde do agente lesa o interesse que o Direito quer fazer prevalecer. porque uma prevalência absoluta e total do interesse oposto seria injusta. Teoria geral do direito civil. sendo o mais comum que a responsabilidade civil abrolhe como efeito jurídico do ato ilícito. 1996. indeniza-se por ato lícito. Os danos – nestas hipóteses expressamente reconhecidas pela lei da responsabilidade por actos lícitos – não são causados por uma actividade contrária ao sentido em que o Direito resolveu o conflito de interesses. vez ou outra. sem dúvida excepcional. portanto o juiz cível não está adstrito à exegese dada pelo juiz criminal. de ser ilícito na esfera cível. Uma e outra podem dar azo à indenização. o estado de necessidade. além do mais outras provas podem ser acrescentadas. no direito brasileiro a licitude ou ilicitude do ato não é determinante na exclusão ou imputação do dever de indenizar. faz coisa julgada no cível. Como será demonstrado. paradoxal que o Direito considere um acto lícito e imponha ao seu autor a obrigação de indenizar outrem.

. para se defender. antes da de outrem.64. Influenciados nessa ideia. pelo bem comum da família ou da própria sociedade. seda nata lex. Só se quer o primeiro.7. cabe ao particular a defesa do bem jurídico que está sendo agredido.] se alguém. Os filósofos da antiguidade clássica falavam dela como um direito sagrado. Suma teológica. usar de violência mais do que o necessário. Na falta da ação estatal. E pode não ser somente um direito. que caracteriza o homicídio voluntário. p. Santo Tomás. Pontes. Ou como quer Carrara. apareceu depois da exclusiva defesa individual. De toda forma.163 Para Hegel a agressão é a negação do direito.143 10 – LEGÍTIMA DEFESA A legítima defesa sempre se fez presente nas mais remotas legislações. será lícito [. vol. o outro. porque. Diz Santo Tomás de Aquino que “a ação de defender-se pode acarretar um duplo sentido: um é a conservação da própria vida. . e a reação é a negação dessa agressão. 300-302. não. na defesa do direito. na sustentação da defesa pública subsidiária. a defesa do direito. como imperativo da lei natural. mas um dever grave. os jurisconsultos romanos afirmavam que repelir a violência pela violência é permitido em todas as leis. 4 ed. na ausência momentânea da autoridade do Estado. Mas se a violência for repelida com medida. é natural a toda pessoa retomar essa faculdade originária de defesa. ou a inadequação da polícia para o evitamento”.” O amor a si mesmo permanece princípio fundamental da moralidade. a cargo do Estado. Assim. sendo. se está obrigado a cuidar da própria vida. por constituir uma atitude de proteção ao direito e sendo socialmente útil não pode comportar punição. Não é ela exceção à proibição de matar o inocente. o seu ato será ilícito. I.. a afirmação do direito.]. Historicamente. emanada do fato em si. o particular concorre. mas a falta de presta intervenção da polícia. pondera Pontes de Miranda. De retorno ao Doutor da Igreja: [.165 163 164 AQUINO. portanto. porquanto corresponde à necessidade cogente de se resguardar o direito. São Paulo: Max Limonad [s. 2-2..164 “O que justifica (de iure condendo) a legítima defesa não é a falta de proteção judicial.. mormente para quem é responsável pela vida de outros.. 165 MIRANDA.. para evitar matar o outro. GARCIA. a legítima defesa envolve o aspecto da licitude objetiva. t.] E não é necessário para a salvação omitir este ato de cometida proteção. ao lado do Estado.d]. Instituições de direito penal. Cícero traduziu-a na célebre frase: est haec non scripta. o outro é a morte do agressor [. Basileu. I.

o que exige a presença de certos requisitos. atual ou iminente.166 Ou como quer Clóvis Bevilaqua referenciando Köhler. reconhece certas situações nas quais o indivíduo pode usar meios necessários a fim de repelir agressão injusta. os quais são: 1 Ameaça ou agressão injusta da vítima. prestes a acontecer. 1977. ou contra terceiros. p. porém. ou de outrem. atual. quem pratica um ato em defesa própria. 3 Que a repulsa seja moderada. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. Por isso. de ampla incidência no âmbito do Direito Privado. “Isto é como um complemento dos direitos da personalidade. A toda pessoa é deferida. Clóvis. isto é.. a segunda.167 O Código Civil dispensa-se de conceituá-la. A agressão é a conduta humana que lesa ou ameaça um bem jurídico. Comete agressão o carcereiro que. impostos na letra do Código Penal. .. como emanação de sua personalidade. atual ou iminente. cumprindo um de seus comandos. confessa que. pois disciplinada é a reação social contra o delito. 2 Que a agressão seja inevitável e impossível a intervenção oportuna da autoridade. autorizar ao homem certas atividades conservatórias”. ou iminente. os quais são direitos vivazes e que devem. p. Por isso mesmo deve reagir de forma disciplinada. ou contra bens. ao mesmo tempo. o direito de praticar atos que preservem a sua vida e os seus bens. deixa de cumprir o alvará de soltura. a liberdade. como ensina San Tiago Dantas. KOHLER. é uma faculdade que emana diretamente da personalidade. apud BEVILAQUA. 166 167 DANTAS. Esta somente acontece quando o agressor esteja obrigado a atuar. acontecendo. usando moderadamente dos meios necessários. atua conforme a lei. 365. isto é. negando-se a liberar o recluso. Edição histórica. op. cit. repele injusta agressão. não excedendo o necessário à efetiva defesa de um direito próprio ou de outro. 25: “Entende-se em legítima defesa quem. A primeira não oferece dificuldade. o Código Penal o fez no art. contra si. não é possível a sua ação protetora evitar todas as violações ao direito. 428. Rio de Janeiro: Editora Rio. sim. A sua conduta é agressão injusta a um direito fundamental da vítima.144 O Estado de Direito não admite a justiça pelas próprias mãos. San Tiago. de seus bens. por conseguinte. 2 v. a direito seu ou de outrem. embora organizado satisfatoriamente. Pode ser comissiva ou omissiva.” Dessa forma. por vingança.

o sacrifício da vida humana na defesa de um bem patrimonial. de sorte a injustiça exige racionalidade e o animal age por extinto. De efeito. dado que ultrapassa os limites da moderação. pois no caso a agressão humana é perpetrada pelo fato animal. Se tardia não encontra albergue na legítima defesa. Se. Contudo. o animal é mero instrumento nas mãos do agressor. a defesa não se mostra legítima. portanto contrária ao direito que a condena e a sanciona. mormente de pequena monta. É uma conduta humana. mesmo porque não se pode dizer que a agressão é injusta. em parte de sua conduta subsiste a ilicitude. Deve ser necessária e proporcional à gravidade da agressão. como exigência de humanidade e de interesse social. que a ideia de justiça impõe ao direito de defesa. não exige rigor absoluto. por exemplo. há de ser verificada objetivamente em cada caso concreto. Não é preciso que seja culpável. a proporcionalidade que deve existir entre a agressão e a defesa é relativa. Se alguém. mesmo que haja excesso.145 A agressão injusta deve ser ainda contra o que é lícito e permitido. Essa medida. caso o excesso resulte de perturbação ou medo não culposo do agente. entretanto. o defendente atua de acordo com o direito. Providencia o seu . responde pelo ilícito. o agente é responsável pelo excesso na legítima defesa. é suficiente que a conduta represente objetivamente uma ameaça ou agressão. A defesa ou a repulsa deve ser concomitante à agressão injusta. É dizer. mesmo assim contra ataca o agressor e o fere ou mata. quando muito o ataque repelido servirá de atenuante do dever de reparar pela concorrência de culpas. nem que tipifique figura delituosa. O Código Civil português preveja a perseverança da legítima defesa. todavia. o defendente posta-se em legítima defesa ao reagir. por outro lado deve-se atentar para a situação em que se encontra o defendente. O ataque de animal feroz não enseja a legítima defesa. quem reage à prisão decretada pela autoridade judicial – o que não deixa de ser uma agressão. Ainda que o direito de defesa seja amplo. completa e limita o critério de necessidade. opõe-se ao lícito. se de um lado a legítima defesa é moderamen inculpae tutelae. exatamente pela sua irracionalidade. de modo que evite. Ponderar as circunstâncias que o envolve. mas o estado de necessidade. Opondo-se ao ilícito. não se pode desprezar certa proporcionalidade entre o meio empregado e o valor do bem a defender. pois podendo o defendente obter o concurso estatal. açula um animal raivoso contra a vítima. porém justa – não se coloca na situação dessa causa de irresponsabilidade. Assim. É correto concluir.

j. que arreda definitivamente o dever ressarcitório. 168 169 GONÇALVES. Cunha.1999. para incidir a responsabilidade.169 Sem dúvida. repele injusta agressão. 2.168 No direito pátrio outra não é a ensinança de Pontes de Miranda para quem o temor. É a denominada legítima defesa real. o medo e outro distúrbio ocasional podem ser articulados pelo defendente. a saber: a) que haja uma agressão atual ou iminente. é circunstancial. usando moderadamente dos meios necessários. A ausência de quaisquer desses requisitos exclui a legítima defesa (STJ.. atual ou iminente. MIRANDA. 4ª T. quem age diante do rápido desenrolar de um fato que lhe apresenta manifesto perigo. . 16. dirige-se contra outra franzina. com o que faz cessar a agressão injusta. desde que não seja possível fazê-lo pelos meios normais e o prejuízo causado pelo acto não seja manifestamente superior ao que pode resultar a agressão. Nos termos do art. cada caso merece apreciação particular nesse aspecto predominantemente subjetivo.146 art. Pontes.3. rel. se o excesso for devido a perturbação ou medo não culposo do agente. b) que ela seja injusta.1 Legítima defesa real: dano causado ao próprio agressor A legítima defesa. 25 do Código Penal. O acto considera-se igualmente justificado. lesionando-o. a direito seu ou de outrem”. 337: “Considera-se justificado o acto destinado a afastar qualquer agressão actual e contrária à lei contra a pessoa ou patrimônio do agente ou de terceiro. porém na área civil basta que tenha havido excesso por negligência ou imprudência. do que a pessoa sente e vive quando comete o ato. 2. mas não dominar os nervos excitados de quem está em risco de ser morto.” É o escólio de Cunha Gonçalves ao advertir ser muito mais fácil escrever em um código sábias e prudentes restrições. como qualquer e toda obra humana. O direito. Enfim. “entende-se em legítima defesa quem. para a caracterização dessa excludente de ilicitude mister a presença dos seguintes requisitos. c) que os meios empregados sejam proporcionais à agressão. opera de pleno direito como causa de irresponsabilidade. é aquela cujo dano foi causado ao próprio agressor. Portanto. esta toma de um pedaço de madeira e lhe aplica golpe certeiro. pois está sob o domínio de violenta emoção. com nítida intenção de agredir. Tratado de direito civil. Suponha-se uma pessoa fisicamente avantajada. ainda que haja excesso de legítima defesa. justo é admitir que não tenha a reflexão precisa para estimar a extensão de sua repulsa. com seus sentidos um tanto embutidos. depende das circunstâncias ou condições de momento.

Jurisprudênica Agindo de acordo com os parâmetros preconizados nos requisitos supramencionados. mas terceiro estranho à agressão injusta.1995. publ.. j. Quando o dano é suportado por terceiro inocente. o erro de execução (aberratio ictus) é caso de dirimente no crime. Irrelevância nas circunstâncias do caso. subsiste a responsabilidade civil pelos danos causados a terceiro. 2.2001. No caso de legítima defesa própria. pressupõe que o dano atinja o próprio agressor injusto. o Tribunal Federal de Recursos. Por conseguinte.10. DJ 10. rel. Des.2 Dano causado a terceiro: legítima defesa por erro de execução e legítima defesa putativa Foi dito que as causas dirimentes de ilicitude não produzem os mesmos efeitos jurídicos no Direito Penal e no Direito Civil.8. mas na área civil persiste o direito de indenização à vítima inocente. que arreda o dever reparatório.2. Não outra a solução se o agente atua em legítima defesa de terceiro. . Min. da 4ª Região decidiu: Mesmo que o agente tenha praticado o ato em legítima defesa. Teori Albino Zavascki). de ter sido o servidor absolvido por legítima defesa de terceiro. a conduta é lícita. rel. 2. mas a outrem. O Supremo Tribunal Federal proferiu o seguinte acórdão: Responsabilidade civil do Estado – Caracterização – Morte causada a particular por agente da Polícia Rodoviária em serviço.147 Portanto. por erro de pontaria (aberratio ictus) lesione não o agressor. persiste-lhe o direito de se ver indenizado. Os casos a seguir assim demonstram. agindo em legítima defesa própria ou de outrem.1 Legítima defesa por erro de execução (aberratio ictus) Pode acontecer que alguém. não é culposa e nem sequer antijurídica. que lhe faculte o direito de se ver indenizado pelo dano sofrido. não atingido (STF. se a agressão a esse não foi atribuída à vítima. isto é. A legítima defesa. ao agente da agressão injusta não há qualquer amparo legal. conduzindo à absolvição. Sepúlveda Pertence). 5. que nada contribuiu para a ocorrência do evento (TFR. 4ª T.

. uma vez que se tal situação existisse de fato tornaria sua ação legítima. No corpo do acórdão outro julgado é referenciado: Constitucional.148 2. a direito próprio ou de outrem. atual ou iminente.. A alegação de legítima defesa putativa não exclui a responsabilidade civil. Responsabilidade civil – Homicídio – Legítima defesa putativa – Prova. Essa causa de irresponsabilidade ocorre na hipótese de alguém. rel. Luiz Felipe Silveira Difini. julgarse diante de uma agressão injusta. em 14. mediante equivoco. inc.] (TJRS. A legítima defesa putativa não guarda similitude com a legítima defesa real.2 Legítima defesa putativa Se a aberratio ictus não ilide o dever de indenizar. supõe encontrarse em face de agressão injusta. 1. j. Des.. RT 840/380). antijurídica. não excluindo a ilicitude do fato. da CF) [. objetivamente. mas a conduta do agente é. Deduz-se que o art.2005.] Ocorre a legítima defesa putativa quando o agente... Legítima defesa putativa. que isenta de pena o réu na esfera do Direito Criminal. Responsabilidade civil do Estado. a assertiva segunda a qual quem age em legítima defesa está isento de reparar o dano. ao referir à legítima defesa como causa de irresponsabilidade.. rel. [. indemonstrada a culpa exclusiva da vítima (art. É obrigação do Estado reparar o dano causado por seu servidor. não exclui a responsabilidade civil de reparar danos causados sem ter havido agressão do ofendido (RF 200/151).] (TJRS.2. ilícita. I. j.8. Des. 188. vale dizer. 5ª Câm. % 6º. do Código Civil. ambas as soluções distanciam daquelas dadas pelo Direito Penal. Umberto Guaspari Sudbrack. primeira figura.7. mas a culpabilidade do agente.1999). estando legalmente autorizado à reação. porque esta exclui a culpabilidade e a antijuridicidade. em 25. 37. 1ª Câm.. Em outras palavras. é verdadeira desde que o agressor seja a . esta exclui a culpabilidade e a antijuridicidade. enquanto aquela arreda a culpa. O reconhecimento do erro de fato ou legítima defesa putativa. 2. o que possibilita seja pleiteada a reparação de danos no juízo cível [. por erro de tipo ou de proibição justificado plenamente pelas circunstâncias. Civil. da mesma forma acontece com a denominada legítima defesa putativa.. atual ou iminente. restringe-se apenas à legítima defesa real.

Cumprirá a “C” indenizar a “D”. “A” beneficiou-se da conduta de “C”.3 O art. o direito de regresso contra o beneficiado pelo ato. mas é antijurídica. Se aquele que se defende ou defende terceiro causa dano a outrem. 81. I. em defesa de quem causou o dano. . mesmo agindo em legítima defesa. Para evitar que a afronta prossiga. Doutra feita. exceto quando a vítima do prejuízo não tenha dado causa ao ato. Sendo antijurídica terá que indenizar a vítima do dano. prejudicou direito ou interesse de terceiro inocente não é culposa. protagonizado por Luiza Menard que subtraiu um pão para saciar a fome de seu filho. Jurisprudência 3 Estado de necessidade O estado de necessidade. somente muito depois passou a ser enfocado como um ato incluso nas causas de irresponsabilidade. “C” toma de um bem de “D”. embora este se refira ao estado de necessidade. aquele que foi defendido. o direito de ação regressiva contra a defesa de quem se causou o dano. não há como interpretar o parágrafo único sem atentar para a cabeça do artigo. cabe a mesma ação regressiva.149 pessoa que o sofre. Não pode aquele que com a agressão injusta propiciou a legítima defesa ficar isento de responsabilidade. danificando-o ao golpear “B”. em compensação. ou seja. A ratio legis é a seguinte: a conduta de quem. 2. Neste caso. Afinal. pois foi ele quem diretamente a lesionou. inc. A lei reserva-lhe. responde pela indenização. do Código Civil. que não o agressor. por raciocínio lógico. O seu reconhecimento encontrou severo percalço e traz como caso paradigmático certo furto famélico. ainda criança. 930. parágrafo único A legítima defesa. em Franca. Suponha-se que “A” está sendo agredido injustamente por “B”. Seria incongruente. do Código Civil. por força do art. com posterior direito de regresso contra “A”. Também contra ele. afasta a reparação do dano. como visto.2. reservando-lhe o parágrafo único do art. 930. que desde remota antiguidade é preocupação dos penalistas. o defendente ressarcirá a vítima.

da valorização da mulher e sua igualdade em relação ao homem. a desditosa mãe foi absolvida. Outras vozes. faltasse pão por motivo que não lhe podia ser imputado. provocando reações daqueles que supunham perigosa a conduta do furtador famélico. A sentença destacou como lastimável que em uma sociedade organizada.. Analisou a sua intenção dolosa. Judicou por vários anos no Tribunal de Paris. a fim de se reportar à responsabilidade civil contratual. para concluir pela absolvição. mas apenas para a vida dos próprios cônjuges. Evaristo de. Paul Magnaud imortalizou-se como le bon juge. dentro de circunstâncias muito especiais. p. não sendo nem sequer presidente de sua Câmara. o cargo de presidente dá ao juiz um destaque maior que a seus pares.150 Submetida a julgamento perante o Tribunal de Chateau-Thierry. que não conseguia emprego. além do natural desejo de evitar igual sofrimento ao filho menor impúbere. mormente a uma mãe de família. desde que não exceda os limites do indispensável. debalde os seus esforços. pratica ato danoso à pessoa ou ao patrimônio alheio. Rio. Demonstrou que por ocasião da subtração. Serviu a França na 1ª Guerra Mundial e como oficial superior recebeu a comenda da Legião de Honra pela sua conduta corajosa. Privou da amizade de grandes intelectuais como Clemenceau e Émile Zola.170 No cotidiano da vida dentro das relações sociais. arremessa o seu veículo contra um muro causando dano a terceiro. 1920 e MARQUES. Paul Magnaud foi um juiz polêmico. . uma situação de colisão de interesses – e pontifica que. a autora não tinha dinheiro e os gêneros alimentícios de que dispunha estavam esgotados há 36 horas. sendo absolutamente necessário para a salvaguarda de um deles. de segurança no trabalho. Leme –SP. 170 MORAIS. não conseguia trabalho e sempre gozou de reputação ilibada na sua comunidade. . poderá danificar o outro. fundamentando a sua sentença no entendimento de que não havia prejuízo público. Para as páginas da história. mitigada pelas torturas da fome. o titular do mais valioso do ponto de vista social. impelido pela força dos fatos.Editora de Direito Ltda. tanto que o Ministro da Justiça foi forçado a declarar que o juiz Magnaud não exprimia a opinião geral da Magistratura. No sistema judiciário francês. impediu-lhe que galgasse postos na carreira da Magistratura. 92-93. A justiça da França: um modelo em questão. proclamaram que tal decisão ameaçava a segurança dos bens e fortunas amealhadas durante um século de pacífica exploração. acusado de vadiagem. para evitar o atropelamento de uma criança distraída ao atravessar a rua. Ou o capitão de um navio. presidido pelo juiz Paul Magnaud. Nota-se que o estado de necessidade conjectura dois direitos em conflito – ou como querem outros. para exemplificar caso de responsabilidade civil extracontratual. A sua posição progressista. em 1898. Ponderou que. avançou no sentido do direito de greve. A sentença foi recebida com inusitada reprovação. Problemas de direito penal e psicologia criminal. Luiz Guilherme. visando evitar o naufrágio iminente e para salvar os passageiros. uma mulher acusada de adultério. É o motorista que. mais radicais. em outro julgamento absolveu um rapaz. 2001. bota fora as bagagens. casos existem em que alguém.

sendo que as obras concebidas pelos de juristas da época merecem grande atenção ante a inegável autoridade de seus textos. II. 188. de ato praticado em situações especialíssimas. “a deterioração ou destruição da coisa alheia.151 Destarte. 23. Aliás. Diferente o Código Penal no art. nas circunstâncias. assim. A existência de perigo iminente ou atual. II. não era razoável exigir-se. inc. inc.1 Requisitos Tratando-se. Na verdade. na Parte Geral do Código Civil. isto é.” o que foi repetido por Ünger: “a necessidade não conhece lei.” Trata-se de excludente de antijuridicidade. direito próprio ou alheio. I. 2. É outra categoria jurídica comum ao Direito Penal. o Código Civil de Bevilaqua representa inestimável fonte de pesquisa e estudos. acrescendo a expressão “lesão a pessoa”. a doutrina e a jurisprudência forjadas sob a égide do Código de 1916 devem ser consideradas. “a lei é poderosa. como se trata. criando. que não provocou por sua vontade. cujo sacrifício. do mesmo Codex: “Não há crime quando o agente pratica o fato em estado de necessidade”. mais poderosa. afasta a culpa. ou a lesão a pessoa. 24: “Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual. o Código Civil não conceituou o estado de necessidade. a necessidade. Se o sistema é o mesmo. o mesmo acréscimo repara-se no art. age premido por uma situação extraordinária e se sente na necessidade de salvaguardar um bem mais valioso. nem podia de outro meio evitar. no estado de necessidade – como na legítima defesa – o agente não quer o mal. a doutrina da dirimente do estado de necessidade. É como assevera Goethe. cuja característica fundamental consiste na inexigibilidade de outra conduta. A exemplo da legítima defesa.” O atual Código manteve o mesmo sistema do Código revogado. dessa forma relevante para o mundo jurídico.” Nesses casos arguidos e em tantos outros análogos. porém. inc. os danos são causados em circunstâncias excepcionais que não poderiam passar despercebidos no âmbito da responsabilidade civil. que deve ser inevitável. cuida-se assentar os seus requisitos: 1. ao preceituar que não constitui ato ilícito. a fim de remover o perigo iminente. pois assim a jurisprudência já vinha reconhecendo. no que é secundado pelo Código Civil no art. pois dispõe o art. . 188.

o Estado responderá pelo dano. que deve ser inevitável. repita-se. deixando de prender delinquente perigoso. Atenta-se ainda.152 2. não meramente provável ou hipotético. Não ter o agente concorrido para a criação desse perigo. que apenas a conduta lesiva a pessoa ou a coisa alheia é capaz de dirimi-lo. aquele que atua acobertado por essa causa de irresponsabilidade não pode ter sido o causador do perigo. 3. Que o bem sacrificado seja de valor socialmente inferior. Cumpre. Por isso. sendo o dano o único meio de que dispõe para se livrar da situação extraordinária que se encontra. 2001. Da exclusão de ilicitude. 4. Atual é o perigo que se verifica no momento e iminente é o que está prestes a acontecer. e nessa apreciação comparativa dos interesses ou direitos envolvidos. assim. alem de real e efetivo. que é impossível ser evitado. o agente que tem o dever jurídico de enfrentar o perigo.171 171 IENELLAS. Não haja excesso do estritamente necessário para o afastamento do perigo. p. Gabriel Cesar Zaccaria. e se tal omissão da atuação oficial vir a causar prejuízo a outrem. Logo. Apreciação que contempla. se ele próprio deu causa fica excluído o estado de necessidade. Quem age por necessidade não quer o mal. A inevitabilidade significa que a situação de perigo é de tal monta. 5. não conforta sua conduta nessa dirimente. inevitabilidade de outra conduta. O requisito inicial exige perigo iminente ou atual. Ademais. aquele que atua em estado de necessidade deve se portar conforme o princípio constitucional da razoabilidade. 7. . certa proporcionalidade acerca do valor do bem ameaçado e o direito alheio lesado. se o perigo já ocorreu ou se é esperado no futuro descaracteriza o estado de necessidade. Que o perigo seja de tal natureza. as circunstâncias e o estado psicológico do agente no momento preciso em que age. É o que a doutrina denomina. ensina Gabriel Cesar Zaccaria de Inellas. Não basta. portanto se não agir de pronto o socorro virá a destempo. há de considerar o valor subjetivo deles. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. senão diante a danificação de bem alheio. nem estaria em condições de evitá-lo mediante maior atenção ou prudência. É a hipótese de um policial acovardar-se.

não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo.. de modo que o dano produzido não ultrapasse o estritamente necessário.1 Arts. tal como acontece na legítima defesa putativa ou por erro de execução. Nos seus comentários ao Código Civil de Bevilaqua. A divergência tem foros de atualidade. do art. 160.” Se o titular de um interesse ou direito deteriorado ou destruído criou a situação de perigo.] o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornem absolutamente necessário. [atual 929] contradiz com o art. determina que a pessoa. Justifica a sua posição ao alegar que a solução do art. A solução eleita reparte os doutos desde o Código Civil de Bevilaqua. cause o dano. do Código Civil: “[. de sorte que o atual Código manteve o mesmo sistema adotado pelo revogado. em boa hora. O ordinário é que o ato ilícito seja o fundamento da responsabilidade civil. o que está estampado no inc. criando o estado de perigo e o dano recaiu sobre o seu próprio bem. II]: . A preferência recaiu na maior proteção à vítima. apenas com oportuno acréscimo “a lesão a pessoa”. II [atual 180. do Código Civil. do Código Civil: restrições ao estado de necessidade O art. para salvar uma criança. indenize o terceiro prejudicado que não deu causa ao estado de perigo. 929 e 930. II. contrario sensu. para evitar um mal maior. a excludente opera plenamente. mesmo agindo em estado de necessidade. do Código Civil. do art. todavia nada impede que se impute o dever ressarcitório como consequência do ato lícito. Cria-se a figura da indenização por ato lícito. 2. não mais se reduzindo a deterioração ou destruição “da coisa alheia”. A vítima do dano laborou com culpa. arromba a porta da casa de propriedade da pessoa que negligentemente ocasionou o incêndio. O Código Civil de Reale. que deixou de incidir apenas nas relações patrimoniais..519. 929. como já havia reconhecido a jurisprudência. É o chamado estado de necessidade defensivo. verdadeira responsabilidade objetiva. É a interpretação que se faz. pois o sistema manteve-se inalterado. o que alarga o estado de necessidade. entendendo que a solução deveria ser diferente. acresceu a expressão “lesão a pessoa”. Continua atual.153 Daí decorre que a dirimente em questão está a exigir moderação. inc. do Código revogado. O legislador deparou-se com um dilema. Suponha-se que alguém. Nada cumpre indenizar. foi ela quem deu causa ao acidente. 1. João Luiz Alves dissente. ao lado da lesão a “coisa alheia”. cabia-lhe optar a imputação do prejuízo à vítima inocente do dano ou àquele que. 188. 929.

quando o ponto de partida do Código é o do dano.. dentro dos limites indispensáveis à sua remoção. São Paulo: RT.519 está em contradição com o art. portanto. o art. Código civil dos Estados Unidos do Brasil. Essa defesa do critério da indenização é repetida por este autor no comento do art. Logo. vol. Clóvis Bevilaqua. 175 STOCO. pois. II. 1. 7 ed.519 com o art. 160. 1977. 7 ed. por vontade exclusiva da lei.154 Pensamos que o art. de responsabilidade objetiva. desde quando preceito similar constava de seu Código: Se o eminente senador João Luiz Alves nele descobriu contradição. pois enquanto este considera lícito o ato. a indenizar o dano. 431. GONÇALVES.175 172 173 ALVES. mesmo que tenha sido absolvido na esfera criminal. II. 2002. Clóvis. Rio de Janeiro: Ed. o ato lícito no sistema geral só promana – ou da inexecução de obrigação ou de delito ou quase delito. aos dispositivos intenção diversa da que eles. tinham. e emprestou. ao qualificar esse preceito de irrecusável equidade.Porque este declara que não constitui ato ilícito. expressamente prevista na lei civil. p. embora a deterioração ou destruição da coisa alheia. 1. A 1935. Rui. vol. II: 1º . assim. nos termos do art. Edição histórica. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. para remover perigo iminente”. 188. 160. João Luiz. São Paulo: Saraiva. 174 BEVILAQUA. Ora. . I. p. isto é. Contradiz.. É uma hipótese de responsabilidade sem culpa e. 2007. não constitua ato ilícito. 1. transcrição com linguagem atualizada. Isto porque. 557. de seu Código. naturalmente. p. Rio. 665. o dano causado em estado de necessidade não isenta o seu causador. a remoção de perigo iminente. a fim de remover perigo iminente.519. p. defende a atual solução do Código Civil. é porque se colocou no ponto de vista da culpa. 709.].172 Abraça o mesmo entendimento Carlos Roberto Gonçalves: “A solução dos arts. 929 e 930 não deixa de estar em contradição com o art. não pode obrigar a quem a executa.174 Está acordado nesse sentido Rui Stoco: Em resumo. 188. do CC. 929 do mesmo Código concede ao dono da coisa ou à pessoa lesada – desde que não tenha sido o causador do perigo – o direito de ser indenizado pelo prejuízo que sofreu. II. ainda assim o art. p. aqueles obrigam o agente a indenizar a deterioração da coisa alheia para remover o perigo iminente. porque torna obrigatória a indenização [. II. “a deterioração de coisa alheia.”173 Por seu turno. Carlos Roberto. como ato lícito. segundo nosso entendimento. E mais: responsabilidade pela pratica de ato lícito. 180. Responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. constitui ato lícito.

voltar contra o causador do dano. 176 DIAS. no estado de necessidade se a vítima lesada não ensejou a situação de perigo. 4ª T. tanto mais que o ato necessário.. não era necessário dispor. . Sálvio de Figueiredo). 675. todavia. não sendo elisiva da obrigação de indenizatória a circunstância de ter agido em estado de necessidade. o terceiro inocente. Nem se diga que pelo Código de Processo Penal o ato praticado em estado de necessidade só isente o agente em face de quem é culpado pelo perigo. Da responsabilidade civil. do Código Civil Por seu turno. 930. Min. responde perante o proprietário deste pelos danos causados. o citado civilista reverbera: Somos de opinião que o sistema do Código de Processo Penal aberra a tradição de nosso direito.155 José Aguiar Dias suscita à dissensão outro ingrediente.176 Não comunga com essa interpretação Em síntese. Não há argumento capaz de convencer-nos de que o direito que temos de lesar a outrem em estado de necessidade seja mais forte e mais merecedor de proteção do que o que assiste ao prejudicado de se ver reposto na situação anterior ao dano. O motorista que. do Código Civil. rel. vem a colidir com automóvel que se encontra regularmente estacionado. vol. 930. Em casos tais. expõe: “Faz coisa julgada no cível a sentença no juízo criminal que reconhece ter sido o ato praticado em estado de necessidade [. à luz desse Código. Assim. afastado como motivo de isenção do dever de indenizar. 2.2 O art. Isso estabelece uma doutrina que não pode merecer os aplausos dos juristas informados dos princípios atualmente observados em relação à responsabilidade civil. José de Aguiar. ao agente causador do dano assiste tão-somente direito de regresso contra o terceiro que deu causa à situação de perigo (STJ. além de fugir ao critério moderno de reparação do dano.. 22..1994. reserva ao agente do dano o direito de regresso contra aquele que. causou a situação de perigo. culposamente. atingido pelo ato necessário. j. Para isso. a lei outorga-lhe o direito à indenização. 1995. ao desviar de “fechada” provocada por terceiro. do Código Penal. 10 ed.]”.02. mas somente recorrer à talvez problemática responsabilidade de quem criou a situação de necessidade. em qualquer das correntes de opinião. Rio de Janeiro: Forense. II. Nossa convicção é que o Código de Processo Penal isentou de qualquer caso de reparação o prejuízo causado em estado de necessidade. 65. admitido como escusa do crime. Com fulcro neste dispositivo. É o que se pode ver de um sumário estudo do assunto. sempre foi. não pode. o art. p. O art.

responde civilmente pela sua reparação. 345: “Fazer justiça pelas próprias mãos. 5.6. com fundamento na doutrina italiana. 4ª T. 188. Wilson Melo da. sob a rubrica de exercício arbitrário das próprias razões. Min. não arredando. Há casos. causando danos. II. salvo quando a lei o permite. II] (STJ. Aldir Passarinho). contudo. 1. que impõem exceções.156 A empresa cujo preposto. 160.2000. 86. 10 Autodefesa No atual estágio da civilização não se permite que a pessoa seja juiz e parte ao mesmo tempo.520 [atual art. a ninguém é permitido fazer justiça pelas próprias mãos. para satisfazer pretensão. Da responsabilidade civil automobilística. ao tratar das obrigações de fazer e de não fazer. nos termos do art. Direito de regresso assegurado contra o terceiro culpado pelo sinistro. por vez ou outra. .” Se alguém tem pretensão que lhe reserva o direito objetivo. dispõe o Código Civil atual que havendo excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano.. Com muito mais razão tal disposição da lei incide no estado de necessidade. rel. pressupondo na sua conceituação substancial a ausência de culpa de quem o leva a termo. o juiz poderá reduzir. 2 ed. Ora. mas na autotutela também chamada de autodefesa. deve invocar o Estado-Juiz para satisfazê-la. equitativamente. Dispõe o seu art. praticado em estado de necessidade. embora legítima. 177 SILVA. do Código Civil. É a regra geral. que a indenização deveria ser equitativa. do qual o juiz não pode se furtar. São Paulo: Saraiva. ainda que não se configure na espécie a ilicitude do ato. querendo exercitá-la conforme lhe permite o direito subjetivo. a indenização. j. p. 944. De efeito. que não se encaixam na legítima defesa nem no estado de necessidade. Como consequência. 930] c/c o art. que é imputável por ser um ato consciente e voluntário.177 o que coaduna com a regra do art. procede a manobra evasiva que culmina no abalroamento de outro veículo. figura típica no Código Penal. parágrafo único. O vigente Código Civil acrescenta dois dispositivos inéditos no sistema revogado. a indenização equitativa é imperativo inarredável. de há muito Wilson Melo da Silva propugnou. 1975. buscando evitar atropelamento. o ressarcimento. do CC [atual art. Com alusão ao quantum debeatur. dispositivo sem similar no Código revogado.

o fato que lhe é danoso. não o faria em tempo hábil e o credor experimentaria prejuízo injusto. Dá-se.157 O art. O seu parágrafo único dispõe: “Em caso de urgência. sendo depois ressarcido. que execute o ato à custa deste. que lhe proporciona irrigação natural. poderá o credor desfazer ou mandar desfazer. 251 refere-se à obrigação de não fazer. que o batatal exige mais de uma irrigação diária. poderá o credor. localizados na parte baixa de um riacho. em um final de semana. retornando um terço das águas do riacho ao seu leito normal. sem prejuízo do ressarcimento devido. independentemente de autorização judicial. é o quanto basta para a sua lavoura.” Já o art. Seu vizinho constrói uma represa na divisa das propriedades e para enchê-la desvia provisoriamente o leito de água. que devia atender à incidência da regra jurídica. enquadra-se na autodefesa. A análise desses exemplos lembra a lição de Pontes de Miranda: A justiça de mão própria é a aplicação da regra jurídica pelo próprio interessado.” Os dois exemplos legais demonstram que a autodefesa é caracterizada pela urgência e pela reposição da situação ao estado primitivo a manu propria do credor. torne imperiosa a execução de pronto. A ação moderada. de sorte a não impedir o direito do vizinho de abastecer a represa. o fazendeiro. que presente evita. de pronto e moderadamente. É possível imaginar outras situações em que a urgência no cumprimento da obrigação. Certo fazendeiro cultiva 12 hectares de terra em batata. que procura impedir o ingresso da corporação no combate ao fogo. O interessado põe-se no lugar que. à custa deste e da mesma forma sendo depois ressarcido. permitindo ao credor. porém. que consome o imóvel com risco de se alastrar para os prédios vizinhos. havendo recusa ou mora do devedor. a ela não atendeu. independentemente de autorização judicial. independentemente de autorização judicial. Outro exemplo pode ser suposto no caso de locação: o locatário. 249 aborda a obrigação de fazer fungível. Ou o corpo de bombeiro no uso moderado de força para vencer a resistência do proprietário da casa. isto porque se a justiça fosse chamada a intervir. autorizando o credor a desfazer o ato. sem prejuízo da indenização devida. pretenda retirar coisas de propriedade do locador. O seu parágrafo único reza: “Em caso de urgência. depois que . que ao desocupar o prédio. Procurando o Poder Judiciário. Decide e o faz a manu propria. cuja abstenção comprometera-se o devedor. executar ou mandar executar o fato. até obter a medida corretiva. sofreria sensível prejuízo pela quebra de produção. quando aquele.

pela impossibilidade de recorrer em tempo útil aos meios coercivos normais. destruição ou deterioração de uma coisa. não estaria justificada a conduta nessa causa de irresponsabilidade. quando a acção directa for indispensável. que procura realizar ou assegurar. Miranda. quando sacrifique interesses superiores aos que o agente visa realizar ou assegurar. 1.. É lícito o recurso à força com o fim de realizar ou assegurar o próprio direito. Tratado de direito privado – Parte geral. 313. d’après les circunstances. O Code des Obrigations da Suíça também contempla a autotutela nestes termos:180 No direito argentino. raros são os casos de autotutela.] 3 Celui qui recourt à la force pour protéger ses droits ne doit aucune réparation. 180 Art. II.A ação direta não é lícita. no caso particular. Ele substitui o juiz.. 554. 2000.179 Dentro dessa perspectiva. 52 [. p. favoreceria aquele que atuou dentro limites de seus requisitos. Rio de Janeiro: Borsói. 336. VARELA. p. ou noutro acto análogo. I. 2 Necessidade: o recurso à força terá de ser indispensável. 4 Valor relativo dos interesses em jogo: não pode o agente sacrificar interesses superiores aos que visa realizar ou assegurar. e para caracterizá-la só se decisão judicial.178 O Código Civil português estampa didático dispositivo a respeito. a esse. Coimbra: Almedina.158 a justiça se tornou monopólio do Estado. Das obrigações em geral. para evitar o prejuízo. pela impossibilidade de recorrer em tempo útil ao meios coercivos normais. vol. para evitar a inutilização prática desse direito. si. t. 3 Adequação: o agente não pode exceder o estritamente necessário para evitar o prejuízo. ensina Jorge Bustamante Alsina: 178 179 PONTES. João de Matos Antunes. 1954. l’intervention de l’autorité ne pouvait étre obetenue en temps utile et s’il n’existait pas d’autre moyen d’empêcher que ces droits ne fussent perdus ou que l’exercice n’en fût rendu beaucoup plus difficile. contanto que o agente não exceda o que for necessário para evitar o prejuízo.” O lusitano Antunes Varela lista os seguintes requisitos: 1 Fundamento real: é necessário que o agente seja titular de um direito. Em contrário. 2. na eliminação da resistência irregularmente oposta ao exercício do direito. A acção direta pode consistir na apropriação. e não a particulares caberia. 3. . com o subtítulo acção directa: “Art.

norma de comportamento a que toda pessoa deve submeter-se. no sentido de obter determinado efeito jurídico. o direito admite a autotuela em termos bem restritos. inspirando a sua atuação consigo próprio e ao interagir em sociedade. Teoria general de la responsabilidad civil. O direito subjetivo são as prerrogativas de que uma pessoa é titular. Exercer direitos é a movimentação desse poder juridicamente reconhecido. [s. É a expressão juridicamente regulada de fazer justiça com a própria mão. En principio está prohibido hacerse justicia por si mismo. Em certas circunstâncias a autodefesa não é senão o exercício do direito de proteger uma pretensão legítima que pode ver-se frustrada irreparavelmente ou dificultada manifestamente sua efetividade pela impossibilidade de requerer e esperar o auxílio ou a intervenção do Estado. 118-119. En ciertas circunstancias la autoayuda no se sino el ejercicio del derecho de proteger una pretensión legitima que puede verse frustrada irreparablemente o dificultada manifiestamente su efectividad por la imposibilidad de requerir y esperar el auxilio o la intervención del Estado. Designa uma faculdade reconhecida à pessoa. Designa o direito enquanto regra: jus est norma agendi.]. ou em condições muito apertadas. mas com eles não se identifica. No original :“Esta figura tiene un parentesco próximo con el estado de necesidad y la legitima defensa: tiene con ellas en común la fuerza de la circunstancia externa que autoriza a actuar aunque con ello se dañe a otro. 181 ALSINA. vive fora do titular da faculdade. Es la expresión jurídicamente controlada de hacerse justicia por mano propia. exatamente por se restringir a direito próprio tão-somente. é poder.” . É imposto mediante sanção. Aquele é mandamento. p. porquanto não deixa de ser uma forma primária e grosseira de realização da justiça.159 Esta figura tem um parentesco próximo com o estado de necessidade e a legítima defesa: tem em comum com eles a força da circunstância externa que autoriza agir embora com isso se prejudique outro. que se realiza na pessoa do titular. constitui uma regra elementar da convivência para impedir que reine o caos e a violência. Buenos Ayres: Abeledo-Perrot. Jorge Bustamante. 11 Exercício regular de um direito reconhecido Mais outra figura comum ao Direito Civil e Penal. contra o mais fraco. 188. O direito objetivo é a regra imposta ao procedimento humano.d. este. fazendo com que o mais forte se conduza a excessos – que devem ser indenizados – com dano à paz pública. e 23. Para cabo e fecho. 2 ed.181 Figura próxima da legítima defesa e do estado de necessidade. I. a faculdade derivada da norma: jus est facultas agendi. constituye una regla elemental de la convivencia para impedir que reine el caos y la violencia. que fique bem saliente. conforme dispõem respectivamente os arts. Em princípio está proibido fazer justiça por si mesmo.

sentido mais amplo. art. um se posta no polo oposto do outro. mesmo se terceiro venha a sofrer dano. . instrumentos práticos elaborados e constituídos pelos homens. sancionado e protegido pelo legislador. De fato. o exercício dos direitos. Exerce o direito quem. São. gozar e dispor da coisa que lhe pertence (CC. relaciona categorias de situações nas quais se percebe o exercício dos direitos. 2ª parte) e no Direito Civil (CC. art. como titular de dada situação. produzam na realidade social os seus efeitos. III. 23. 5º. Mas também o exerce quem. 2ª parte) vige o princípio de que ninguém poderá ser responsabilizado pelo exercício regular de um direito reconhecido. confere as seguintes regras inerentes ao exercício do direito: O fundamento dessa causa de irresponsabilidade encontra-se no enunciado neminem laedit qui suo jure utitur (não causa dano a outrem quem utiliza um seu direito). como por exemplo. garante a todos. por se consubstanciar na contravenção a uma norma de conduta preexistente. II. o ato ilícito e o exercício regular de um direito reconhecido são conceitos antagônicos. sem nenhuma ressalva. há de se considerar. podendo exercê-los. visto que previsto no direito objetivo. as normas do direito objetivo não são meros enunciados de ideias com validade intrínseca. aqui o fato material corresponde ao abstrato conteúdo de um direito. mediante seu manejo. para que. de maneira que inexiste ato ilícito quando se exercita um direito regularmente reconhecido.2 Dirimente de responsabilidade civil No Direito Penal (CP.160 O exercício do direito comporta. como visto. Serpa Lopes. referenciando Cuviello. o proprietário exerce o seu direito de propriedade quando pratica atos correspondente às faculdades de usar. nem são somente descrição de fatos. A Constituição Federal. tem um direito reconhecido. que assim passam a ser sujeitos de direitos. O Código Civil outorga direitos e impõe deveres a todas as pessoas naturais e jurídicas. que são exatamente o cumprimento dos seus propósitos concebidos.228). e ao estabelecer que o homem e a mulher são iguais em direitos e deveres. nos incisos do art. insere-se o pressuposto do procedimento culposo e antijurídico. isto sim. Lá a ordem jurídica é expressa. enquanto se mantiver dentro da ordem jurídica. 1. Logo. merece desde logo a proteção jurídica. assim considerado o possuidor sem título. nem sequer aos condenados ou aos vis. art. Em tema de ato ilícito. 11. como titular. 188.

Com esta listagem de danos permitidos. como princípio legal. administrativo etc. No Direito Penal. ou ao reivindicar que toda propaganda e publicidade integrem o contrato. dos romanos: fiz. o direito subjetivo que a ordem jurídica assegura a toda pessoa de querer e realizar ou de agir e reagir até onde o seu direito não atinja o de outrem. o possuidor que retém benfeitorias necessárias e úteis até se ver ressarcido como lhe cabe. preenchidas as condições legais. O consumidor exercita seu direito ao exigir a troca do produto com vício de fabricação. não pode acarretar indenização o exercício regular de um direito reconhecido. É o fecit. consumidor. tributário. Pontes de Miranda ensina: “Não é contrário a direito todo exercício de direito que lese. o dono que constrói em seu terreno. mas fiz com direito. uma vez que encerra todas as espécies de direitos subjetivos. requer a insolvência civil do devedor inadimplente. No âmbito do Direito Civil. ou seja. ou o prestador de serviços relativos a bens móveis alheios beneficiados ou consertados. a prisão em flagrante delito realizada pelo cidadão comum. ou o refazimento do serviço mal feito. Mais exemplos de danos permitidos são encontrados em outros ramos do direito. objetivando a abertura de via pública. não se poderia tirar ao direito o poder ser exercido. seja civil ou extracivil: penal. que corresponde ao princípio da facultas agendi. comercial. faz e faz com direito. sed jure fecit. também se pretende demonstrar a que o direito não exclui. apesar de os agentes causarem danos a outrem estão desobrigados de indenizar. enquanto não lhe é pago o serviço. se o exercício for regular. Por outro lado. com débitos superiores ao patrimônio. a contrariedade a direito alheio no exercício regular de um direito reconhecido. porque lesaria o outro: seria preferir . Nessas hipóteses. pois agem no exercício regular do direito. pode-se articular o fato de os pais exercitarem o poder familiar ao corrigir os filhos. embora tolhendo uma vista monumental de seu vizinho.161 Por conseguinte. pretende-se demonstrar que a palavra direito é empregada em sentido lato. No Direito Comercial o caso de um comerciante requerer a falência de outro. No Direito Administrativo a autoridade pública decretar determinado imóvel de utilidade pública para fim de desapropriação. em casos extremos até com o moderado castigo corporal hoje cada vez mais em desuso. o credor que. No Direito do Consumidor os exemplos são férteis.

terá que se submeter a critérios aceitáveis do ponto de vista racional.2. Direito civil: Parte geral.2 Princípio da razoabilidade e o abuso de direito À visada da legítima defesa e do estado de necessidade. segundo o espírito da instituição. Pontes. O excesso deixa de ser exercício regular de direito. como diz este jurista.”183 Resta certo. pela boa-fé ou pelos bons costumes. especificamente. obedecendo à sua finalidade. mas também aplicável o art. causando mal desnecessário ou injusto. 3º. entretanto se o exercício for anormal. devendo o interesse de quem o exerce acomodar-se ao interesse coletivo. Exige-se. a possibilidade. . os direitos são conferidos ao homem para serrem usados de uma forma que se acomode ao interesse coletivo. do pleno exercício do direito está condicionada em uma regra de ouro: o exercício de um direito reconhecido não pode afastar-se da finalidade para a qual o direito foi concebido. art. I. por exceder manifestamente os limites impostos pelo fim social ou econômico. o dever de conter-se nos limites da razoabilidade. última figura). ob. destarte. incorre no dever indenizatório. t.162 um direito ao outro. É dizer. sua conduta equipara-se ao ato ilícito e. predicados que presidem o ato lícito (CC. enuncia-se com este princípio que quem atua no regular exercício de direito. pois. II. em sintonia com o senso normal das pessoas cuidadosas e diligentes que respeitam as finalidades que presidem a outorga dessa causa de irresponsabilidade. daquele que usa de seu direito.2. 11. escudado em Josserand: Acredito que a teoria atingiu seu pleno desenvolvimento com a concepção de Josserand. das pessoas solidárias na convivência social (CF. debalde exercitando o direito. 33 ed. São Paulo: Saraiva. 321. A irregularidade do exercício é que estabelece a preferência pelo direito lesado. p 339 – Brookseller. convola-se em ato de agressão. incide no abuso de direito. A construção é simples: é lícito o exercício regular de direito. 187. 2003. É a peroração de Sílvio Rodrigues.”182 11. art. 5º. cit. p. e ganha foros de ilicitude. Se se excede. Sílvio. ou não. da Lei de Introdução ao Código Civil). RODRIGUES.3 Consentimento do lesado 182 183 MIRANDA. segundo a qual há abuso de direito quando ele não é exercido de acordo com a finalidade social para a qual foi conferido. ao invés de excludente de responsabilidade. que implica em moderação.

163 O consentimento do lesado (volent non fit injuria) apresenta aspectos que devem ser considerados, apesar da ausência de previsão legal. O Código Civil de Portugal preveja de forma muito didática, aproveitável ao direito pátrio: “Art. 340º - Consentimento do legado. 1. O acto lesivo dos direitos de outrem é lícito, desde que este tenha consentido na lesão. 2. O consentimento do lesado não exclui, porém, a ilicitude do acto, quando este for contrário a uma proibição legal ou aos bons costumes. 3. Tem-se por consentida a lesão, quando esta se deu no interesse do lesado e de acordo com sua vontade presumível.” O direito protege bens e interesses atingidos pelo ato ilícito, se o lesado consente no dano é porque lhe convém, o que torna a conduta lesiva lícita, desde que o direito lesado seja disponível. Direitos há, entretanto, para cuja lesão é inoperante o consentimento do lesado; são aqueles indisponíveis, como os da personalidade. Não podem ser danificados ou destruídos outros bens, mesmo que privados e disponíveis, a exemplo dos livros didáticos se não mais úteis ao dono, o é para a coletividade, assim a lesão fere o princípio da solidariedade social alentado na Carta Magna, que torna o bem irrenunciável. Considera-se, que a responsabilidade civil tutela também direitos privados disponíveis, aí a eficácia do consentimento opera, desde que esse consentimento seja prévio, pois se posterior à lesão só é possível a renúncia à indenização. O consentimento, ato jurídico unilateral, opera como causa de exclusão do ilícito na conjugação dos seguintes requisitos: 1 Só pode consentir o titular do direito ou interesse afetado e que seja capaz, por exigir capacidade de exercício de direito; 2 Recai sobre direitos e interesses disponíveis; 3 A vontade deve ser real, por ato voluntário, não maculado por violência, erro essencial ou qualquer outro vício; 4 A manifestação pode ser expressa ou tácita. Cabem na órbita do consentimento expresso as práticas esportivas perigosas. E na presumida, as intervenções cirúrgicas urgentes quando o paciente não pode manifestar a sua vontade. O fundamento não repousa no fato de o lesado, consentindo, torna-se participe na causa do dano, e sim que a ingerência permitida de atos que interferem na sua esfera jurídica, mesmo causando dano, trata-se, a toda evidência, de uma interferência lícita.

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Vice-Presidente da República por duas vezes, José Alencar consentiu submeter-se, nos Estados Unidos, a tratamento experimental de combate ao câncer. Teve gastos com viagens internacionais entre outros. A terapia foi baldada. No entanto, seu consentimento operou como causa de irresponsabilidade, não lhe outorgando qualquer reembolso. Não se trata de obrigação de meio como é o caso da atividade médica, porque ninguém pode ser submetido a cobaia, sem prévio consentimento. 4.1.2.1 Consentimento nas atividades médicas O Estado reserva o monopólio profissional da medicina aos médicos, por tal razão reconhece e regulamenta, organiza e estimula, além de fiscalizar a profissão, impondo para o seu exercício condições de preparação técnica a nível universitário, ante a sua exigência de habilitação especial. Tem, pois, que admitir legítimos os atos que a sua prática regulamentar comporta, com os riscos a ela inerentes. Não comente ato ilícito o médico no exercício de seu ofício, ao contrário, a sua conduta é legítima, está escudada pelo exercício regular de um direito (exceto as hipóteses de irregularidades dolosas ou culposas), mesmo se não consegue a cura do paciente, porquanto a medicina é uma obrigação de meio, não de resultado. Se uma pessoa, em estado de inconsciência, necessita de urgente intervenção cirúrgica, é compatível com a teleologia e dogmática da gestão de negócios (CC, art. 861), que o parente mais próximo autorize. E quando impossível tal anuência, o que não coaduna com o espírito do exercício da medicina é deixar de proceder a intervenção, pois aqui se presume o consentimento do paciente. Deixá-lo à míngua de atendimento tipifica a omissão de socorro, que é ato ilícito. Uma situação hipotética clarifica a questão. Um casal sofre grave acidente e é levado à mesa de operação. Um cônjuge morre no transcurso da cirurgia e o sobrevivente necessita de imediato transplante de órgão. Nesta configuração especialíssima, ao médico impõe o dever funcional de agir sem prévia autorização. Caso a rigor a opção tivesse violado o direito dos familiares do consorte morto, é ela plenamente justificada, de sorte o transplante era o único meio de salvar a vida do outro.184

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MARMITT, Arnaldo. Perdas e danos, 2 ed. Rio de Janeiro: Aide, 1992, p. 417.

165 O médico exerce um direito que lhe é reconhecido pela sua formação profissional. A violação do direito alheio encontra conforto na inadiável e imperiosa necessidade de arredar o sobrevivente de perigo atual, isto é, o transplante opera como o meio mais provável de evitar a morte do paciente. Não sobrevém, contudo, a irresponsabilidade do médico que prática a eutanásia ou o chamado homicídio piedoso, mesmo se o doente nele tenha consentido, visto estar em um direito, o direito à vida, que é de si indisponível. De efeito, o direito à vida não importa protegê-lo só do ponto de vista individual, tem importância para a coletividade, por isso o desinteresse pela própria vida não a exclui da tutela estatal ante as exigências ético-sociais. 11.2.3.1 Consentimento nas práticas esportivas

No despertar do mês de maio de 1994, milhões de telespectadores do mundo inteiro assistiram a morte do carismático piloto de fórmula 1, Ayrton Senna, provocando comoção geral. Quase não se acreditava no que a televisão estampava, aconteceu aos olhos de todos, foi uma fatalidade como inúmeras outras precedentes nesta disputa de velocidade. Tal acontecimento refere-se às práticas esportivas, que traz, em algumas atividades, risco ou perigo para aqueles que a elas aderem. Nas práticas esportivas de atividades perigosas, como corrida automobilística, rodeio, páraquedismo, boxe, ou mesmo o futebol, o consentimento é expresso, pela simples participação dos atletas, excluído, é lógico, os casos de culpa e de inobservância das regras da competição ou jogo. Há efetiva formação e manifestação da vontade, ao invés do que sucede com o consentimento presumido, que é ficcionado em função das circunstâncias concretas e da vontade hipotética, no quadro de idênticas circunstâncias.185 Jorge Bustamante Alsina oferece esclarecedor texto: 313.2. Participação numa disputa perigosa. Por exemplo, se uma pessoa aceita acompanhar um automobilista numa disputa, ou toma parte numa luta de boxe, ou numa partida de futebol ou de rúgbi, e fica lesionada em consequência desta participação, tem direito a reclamar indenização mesmo havendo participado voluntariamente e desse modo assumido os riscos próprios dessa atividade? Pode-se entender que consentiu tacitamente em dispensar toda culpa alheia? Pode-se dar a resposta
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COSTA, Mário Júlio de Almeida. Direito das obrigações, 7 ed. Coimbra: Almedina, p. 502. Diferente o entendimento de Antunes Varela: “No caso de certas práticas esportivas mais violentas [...], tem-se entendido que há uma aceitação tácita e recíproca dos riscos de acidentes que esses jogos envolvem desde que sejam observadas as regras do jogo (ob. cit., p. 562).

166 distinguindo-se entre os riscos que são próprios da atividade da qual a vítima comparte, daqueles extraordinários, e que não fazem parte inerente à atividade de que se trata. 314. No primeiro caso poder-se-á dizer que a vítima aceitou tais riscos e que, portanto, nenhuma responsabilidade cabe ao outro: aquele suportará todo dano. Mais ainda, poder-se-á dizer que não cabe culpa nenhuma à vítima que participa duma competição mais ou menos perigosa, porém normal e regulamentada, nem do agente causador do dano que desenvolveu uma atividade normal dentro do risco próprio dela mesma. Outra será a solução se o risco foi extraordinário por ter o agente do dano excedido os limites estabelecidos pela regra do jogo. Neste caso, provada a culpa do agente, a vítima terá direito a ser indenizada. Não há responsabilidade do boxeador que lesa seu adversário com um golpe violento e decisivo, mas lícito segundo a respectiva regulamentação. Em contrapartida deverá responder se intencionalmente ou com reiterada torpeza, aplica golpes baixos, proibidos e causa uma lesão grave interna no seu rival.186 Realmente, em luta de boxe pela disputa do título mundial dos pesos pesados, Make Tayson enfrentou Evander Hollifilder, sendo que este impunha severo castigo àquele, com uma sucessão de golpes dentro das regras da luta (exercício de um direito). Numa atitude desesperada Tayson desferiu feroz mordida na orelha de Hollifilder, decepando-lhe uma parte (abuso de direito). Aqui exemplo didático do que pode e do que não pode segundo as regras da competição. 4.2.2.3 Princípio da razoabilidade No exercício regular de um direito reconhecido o princípio constitucional da razoabilidade invoca o princípio da socialidade, tão alentado por Miguel Reale ao lado dos princípios da eticidade e da operabilidade, que para ele constituem nos três princípios “fundantes do Código Civil.” Cumpre moderação no exercício do direito, lembrando a máxima de que o direito de cada um termina, onde começa o do outro. Há de se coadunar o interesse privado ao interesse público, de modo que a solidariedade social seja norte a orientar a conduta de todos indistintamente, jamais descurando dos direitos fundamentais tão caro ao Estado Democrático de Direito. A ideia de direito absoluto, egoísta por natureza, cede para o moderno princípio da função social, mais altruístico e mais afinado com as aspirações e necessidades impostas pelo tempo presente. O Estado passa a intervir diretamente nas relações intersubjetivas no resguardo do interesse coletivo. Ad exemplum, as obrigações negativas de não fazer classicamente impostas aos
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ALSINA, Jorge Bustamante. Teoria general de la responsabilidad civil, 2 ed. Buenos Ayres: Abeledo-Perrot, [s.d.], p.122-123.

501. Mário Júlio de Almeida. do Código Civil. ou a 187 188 GOMES. administrativa. pela boa-fé ou pelos bons costumes. dá-se o ato ilícito conforme a regra do art. apenas pode verificar-se a renúncia aos efeitos da ilicitude da lesão. de modo a não prejudicar o vizinho – ganha outros foros. 1998. como acontece com a retroatividade do negócio jurídico. 84. p.2. De efeito. Enquanto a conduta no cumprimento do dever legal é impositiva. o abuso de direito é instrumento de opressão nas mãos de seu titular. 7 ed. pois não mencionado no enunciado do art. Belo Horizonte: Del Rey. no exercício regular de um direito é facultativa. 4.188 Em doutrina. 188. inc. que se consubstancia na destinação adequada da propriedade aos fins sociais. III. Direito das obrigações. 2006.167 proprietários – como o uso nocivo da propriedade. 182. 5 Estrito cumprimento do dever legal O estrito cumprimento do dever legal é causa de irresponsabilidade de lege ferenda. Tomam-se os exemplos repetidos do soldado que mata em combate de guerra. do Código Civil. III e 142. Coimbra: Almedina. antecedendo o ato lesivo. p. outros civilistas propugnam pelo consentimento posterior. à lei descabe punir aquele que cumpre dever por ela imposto.2. Não parece ser a melhor solução. comercial. tributária etc. mas não se confundem. e assim a define. se o direito for exercido de modo a exceder manifestamente os limites impostos pelo seu fim social ou econômico. 187. Porém a revogabilidade também deve ser prévia. § 2º e 186). Isto porque. o que o torna categoria pura. de sorte quem atua no exercício regular de um direito reconhecido pratica ato no estrito cumprimento do dever legal e. que deve ser prévio à lesão. no sentido de sua função social (arts. 23.187 Via de consequência. ao seu lado o Estado impõe obrigações positivas de fazer. ambos promanam tanto da lei penal como da civil. Tanto que a Constituição Federal chega a exigir da propriedade.. é revogável. tornando-a útil. divorciada do tempo e do espaço. O Código Penal faz sua previsão nos arts. inc. Direito civil: introdução e parte geral.4 Revogabilidade do consentimento O consentimento. José Jairo. quem não cumpre o dever que a lei lhe impõe. Não poucos acham supérflua a sua inclusão. é responsabilizado por sua omissão. pois ao depois da prática deste. COSTA. ademais. Trai a sua teleologia e o seu anormal uso enseja a responsabilidade civil do agente. produtiva. Não poucos os seus pressupostos comuns. .

1 Atividades privada e pública Esta causa de irresponsabilidade.189 Conclui-se. Entendeu a direção da sociedade devesse excluí-lo do quadro societário. 17 ed. Apresenta-se sob duplo aspecto: 1) atos executados no cumprimento de um dever decorrente de função pública. que se distingue das outras normas reguladoras da conduta social. sob a alegação de ter promovido o descrédito da instituição perante os órgãos públicos com os quais possuía convênios. vol. o comando da lei é injunção da qual o soldado e o agente público não podem escusar-se. Os funcionários e agentes públicos têm o dever de executar e de fazer executar a lei. p. 5. a menos que não ultrapassem em excessos. precisamente pela coerção física das suas sanções pessoais ou patrimoniais.168 aplicação da injeção letal ao condenado. denunciou a entidade pela prática de atos ilícitos. vida etc.) são secundum jus e. Pertinente a lição de Ferri. . transcrita pelo penalista pátrio Edgar Magalhães Noronha: A execução da lei é uma necessidade imprescindível da organização jurídica. cabe tanto na atividade pública como na privada. nos casos previstos em lei – muito embora danificando ou suprimindo interesses e direitos individuais (propriedade. que o soldado e o funcionário do Estado respondessem pela indenização diante dos familiares dos mortos. 1979. Seria ilógico. por meio de petição dirigida às autoridades competentes. que o estrito cumprimento do dever legal é excludente de ilicitude. pelos quais o funcionário público abusa do seu poder. por conseguinte. São Paulo: Saraiva. Um sócio. que elimina a culpa. 189 NORONHA. depois de se demitir do cargo de direção de uma sociedade civil. os atos por eles realizados no cumprimento deste dever – mesmo com o uso de armas. Direito Penal. determinados pelos motivos anti-sociais. Pelo que. portanto. usando das faculdades a eles reconhecidas pela própria lei. 211. Na esfera privada o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo julgou interessante caso. porquanto quem assim atua não lhe pode ser imputada culpa. 1. 2) atos executados no cumprimento de um dever imposto a particulares. sendo que nos dois casos não cabe qualquer faculdade de escolha. sem caráter criminoso. liberdade pessoal.

§ 3º. que são distintos e ambos eram previstas na CF revogada. 153. São Paulo: Saraiva. Comentários à Constituição brasileira. cúmplice. O direito de petição é o pedido junto à autoridade competente. daí sua denúncia foi em benefício dos sócios em geral e da própria sociedade. 188. Direito de representação é o instrumento pelo qual se manifesta o protesto contra abusos praticados por autoridades. diz respeito às autoridades e seus agentes que praticam ações na execução de suas atribuições. . em diligência oficial. 138). Portanto. competente para apreciar a legalidade do ato – Imposição com base no estatuto social sob alegação de promoção do descrédito da instituição junto às entidades com as quais mantém convênios – Hipótese. I. inc. Se na parma do direito privado a atuação do cumprimento do estrito dever legal refere-se à pessoa natural ou jurídica de direito privado. mas dever jurídico imposto..169 O Colendo Colegiado paulista entendeu que o sócio denunciante exerceu direito de petição constitucionalmente assegurado (art. Eis a ementa do acórdão: Sociedade civil – Exclusão de sócio – Abuso de direito no exercício do poder disciplinar reconhecido pelo Poder Judiciário. Carlos Ortiz.190 certo que as irregularidades por ele apontadas efetivamente existiram. Ainda que verídicas as assertivas no sentido de que a radiopatrulha dirigiase a um determinado local para ajudar no cerco a bandidos que fugiam a pé. denunciando fatos verídicos consistentes em irregularidades praticadas em detrimento da coletividade – Reintegração determinada – Inteligência do art. no Direito Público. I) do CC e aplicação do art. 1º vol. porquanto se assim não agisse. 5º. seria. atual art. confundindo os conceitos de petição e representação. em velocidade que pudesse ser comparada àqueles outros que. 188. distinguem-se os dois conceitos. Não é. decorrentes dos direitos inerentes aos seus cargos. Tão-só essa circunstância já afasta a alegação de velocidade incompatível. j. a sua punição constituiu em abuso de direitos. XXXIV). da CF [atual art. rel. faculdade. XXXIV. 5ª 190 O atual art. Tal circunstância exigia velocidade mais enérgica. assegurado constitucionalmente. . § 3º. fala apenas em direito de petição. pela linha de trem. RT 626/81). p. Mesmo que causem danos a direitos ou interesses alheios. I] (TJSP. a trabalho ou a passeio. 160. 5º. tendo por finalidade promover a defesa de um direito próprio ou de interesse coletivo (in Pinto Ferreira. de modo geral. 12º Câm. porém. Era ela perfeitamente compatível com a realidade do que ocorria (1º TACSP. na da pública. como parte da sociedade infratora. De fato. Des. in fine [atual art. no mínimo. circulam pelas vias públicas. em que o associado agiu no exercício do direito de petição e representação. 1989. pois. ficam dispensados de repará-los. É estrito cumprimento do dever legal a denúncia da irregularidade e não exercício regular de um direito. 153. requerendo a sua punição. Civil. é evidente que não poderia seu motorista conduzir a viatura.

pois o art. 187). Se exceder e causa um mal injusto porque desnecessário. j. o que implica em isentar-se do abuso de direito (CC.2 Princípio da razoabilidade Convém atentar. 37. Juiz Pinheiro Franco. 189). em diligência oficial. entretanto. é evidente que não poderia seu motorista conduzir a viatura. Ainda que verídicas as assertivas no sentido de que a radiopatrulha dirigiase a um determinado local para ajudar no cerco a bandidos que fugiam a pé.. Tratado de responsabilidade civil. JB 170/172). a trabalho ou a passeio.1. por sua vez. Tratado de responsabilidade civil. em velocidade que pudesse ser comparada àqueles outros que. deve conter-se dentro dos limites da razoabilidade.1989.1989. então. § 6º. permite-lhe pleitear o ressarcimento do Estado. 5. Não cabe ao Estado. 189). 5. p. cujo correspondente é o art. assim porque pela regra dos artigos em questão. Dá-se. in Rui Stoco. circulam pelas vias públicas.. Pai dos autores morto a tiros por policiais militares – Reação à prisão – Irrelevância dos policiais não saberem da prisão preventiva decretada contra a vítima – Conduta suspeita da mesma que provocou a atuação da polícia – Exercício regular de direito e estrito cumprimento do dever legal – Improcedência da pretensão indenizatória (PJPR.170 Câm. p. 5ª Câm. 7 ed. que quem atua no estrito cumprimento do dever legal. que responde pelos danos causados pelos seus agentes independentemente de culpa. Tão-só essa circunstância já afasta a alegação de velocidade incompatível. j. 2007. objetivamente. pelo menos na parte que . nivela o seu comportamento ao ato ilícito. Era ela perfeitamente compatível com a realidade do que ocorria (1º TACSP. 5. a presente causa de exculpação opera de pleno direito como excludente do dever de indenizar. ou seja.1. pela linha de trem. in Rui Stoco. o direito de regresso. 2007. Afasta-se da excludente e incide no dever de indenizar. tutela e curatela 5. rel. 7 ed. 43. art. Juiz Pinheiro Franco. Outras vezes. o direito de regresso opera somente quando os agentes atuarem por dolo ou culpa. também aqui. rel.2 Poder familiar. A vítima inocente do dano.. Tal circunstância exigia velocidade mais enérgica. do Código Civil. uma vez que não pode imputar culpa aos seus agentes. não padece do direito de se ver indenizada. a socialização do prejuízo. o que não acontece nesse caso específico..

in fine).] se tiver mais de um autor a ofensa. terá que se negar.. Em sendo manifestamente ilegal a ordem. estadual ou municipal – em que o superior emite uma ordem ao subalterno. prendendo alguém.171 excedeu. contudo justo. como para repelir a resistência extravasada em injusta agressão. na execução da ordem. como acontece com a legítima defesa. 5. Quando a ordem é legal não há repercussão. deve indenizar em caso de dano à vítima. ao subordinado impende recusar a obediência. sobre fato abrangido pelo seu dever de segredo. o subordinado exceda-se. responderá pelo prejuízo a que der causa ausente qualquer responsabilidade ao superior hierárquico. Assim o advogado que tem o dever legal de guardar segredo profissional. Se processado pelo delito de desobediência. mas distingue o estrito cumprimento do dever legal da obediência legal à ordem de superior hierárquico e de autoridade legítima. Outra vez a prisão em flagrante serve de exemplo: o oficial de justiça. Na hipótese de um policial militar lesionar aquele que é pego em flagrante delito. art. em cumprimento a mandado de prisão expedido pelo juiz. 942. Pode ainda essa diligente conviver com o exercício regular de um direito reconhecido.3 Convivência com outras causas excludentes de responsabilidade Uma vez ou outra. executa a ordem legal. A primeira envolve servidores de uma das três esferas dos entes estatais – federal. legitimamente. desde que milita. convivem em uma mesma conduta duas causas escusativas de responsabilidade: a legítima defesa e o estrito cumprimento do dever legal. na presunção de que ela será executada conforme a lei. o exercício regular de um direito e o estado de necessidade. 5. ponderando respeitosamente suas razões e não poderá ser punido. se chamado em juízo para depor. . invocará a excludente de responsabilidade em exame: estrito cumprimento do dever legal. portanto lhe causando um dano. que responde apenas pela ordem. no sentido de realizar uma conduta positiva (facere) ou uma conduta negativa (non facere). todos responderão solidariamente pela reparação” (CC..4 Figuras correlatas: obediência legal à ordem de superior hierárquico e à ordem de autoridade legítima O direito não fica indiferente. Se ascender comete ilícito civil. Pode acontecer que. não apenas para efetivar um mandado de prisão. O ato é lícito tanto do juiz como do oficial de justiça. juntamente com o superior: “[.

nem sequer. 3 Fato de terceiro. ou apenas endereçada a particular. 652/262 CAPÍTULO V 1 Causas excludentes da responsabilidade civil objetiva : 2 Caso fortuito ou força maior. O ato é lícito. determinar a terceiros civis a demolição de casa vicinal ao fogo. uma vez que se está perante a inexigibilidade de outra conduta. o ente público responderá solidariamente por força da disposição constitucional contida no art. A expressão autoridade legítima pressupõe servidor público. que não seja superior hierárquico. VER RT 783/266. com o fito de impedir a sua propagação. 4 Fato da vítima Causas excludentes da responsabilidade civil objetiva . 678/348. diante de um incêndio. Mesmo assim enseja indenização. Jurisprudência Vítima morta a tiros por policiais militares – Absolvição dos agentes na esfera penal. ou a quem não é subordinado. Certos danos podem surgir por ordem de autoridade legítima. reconhecendo o estrito cumprimento do dever legal – Circunstância que repercute na área cível. timbrado pelo estado de necessidade.172 Em ambas as hipóteses de ressarcimento. por ser este o único meio de evitar uma tragédia de maiores proporções. 37. mas sim o Estado que. cuja ordenação dá-se no exercício de sua atividade pública. e sempre com direito de regresso em desfavor de seu servidor. terá direito de regresso contra o corpo de bombeiro. § 6º. Uma situação hipotética pode ser proposta no caso do corpo de bombeiro. excluindo o ilícito e a possibilidade indenizatória – Improcedência (TJSP. Não caberá os civis que atenderam a ordem de demolição do prédio vizinho. pois este atuou com culpa. JB 170/233).

porquanto surge como consequência do que vai além de suas forças. porque não há como evitar ou impedir. pessoa ou coisa sob a sua guarda. também operam na subjetiva. A inevitabilidade é a impossibilidade de o devedor impedir que o . Os tempos são outros. objetivamente responsável. o que possibilitou de melhor forma a reparação dos danos. tonando-a impossível. o homem não é mais resignado. sem culpa do devedor. São chamadas eximentes gerais o caso fortuito ou força maior. O avanço tecnológico passou a desvendar as causas de muitos eventos. As tempestades. Dá-se o dano por um fato ou ato alheio e exterior. Os prejuízos decorrentes de causas até então desconhecidas eram atribuídas ao damnum fatale dos romanos. Diante dessas eximentes o dano decorre não da conduta do indigitado agente. eram o caso fortuito e a força maior e as vítimas padeciam os danos advindos. os incêndios. mas de uma causa estranha. cujos efeitos não era possível evitar ou impedir. afastando o ressarcimento. 393: “O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário. Estão sob seu manto apenas os acontecimentos decorrentes de causas insuperáveis. tais causas porque cindem sobre o nexo de causalidade. 2 O caso fortuito ou a força maior Em um tempo passado. tanto natural como voluntário. pois a ilicitude da conduta não é pressuposto dessa espécie de responsabilidade civil. que repercute diretamente sobre o liame de causa e efeito. É o parágrafo único. as inundações. A subsunção de situações ao caso fortuito e a força maior reduziu consideravelmente.” A necessidade caracteriza-se pela capacidade do evento causar o dano. o que escapa ao seu poder. é dizer. o fato de terceiro e o fato da vítima. greves e distúrbios populares. sem que o devedor tenha contribuído para isso. atribuindo parte deles a um agente. a causa eficiente do dano não é a sua atividade. dentre outros acontecimentos. De efeito. as doenças.173 As causas de irresponsabilidade vistas até aqui ilidem a ilicitude do ato praticado pelo agente causador do dano. o act of Good do direito anglo-saxonico. Causas que impossibilitam o cumprimento da prestação. que é pressuposto das duas espécies de responsabilidade civil. por obra humana ou da própria natureza. guerras e revoluções. Já as causas de irresponsabilidade na seara da responsabilidade civil objetiva atuam no nexo causal entre a conduta e o dano. o homem era resignado. por isso dizem respeito diretamente à responsabilidade civil subjetiva. do art.

como fato do príncipe. c’est le fait d’un tiers. se foi um evento estranho que causou o dano. VII. o temporal que tudo inunda. La force majeure. n. muito tem debatido a sinonímia.174 evento seja a causa do dano. dans des conditions qui ne pouvaient être prévues par les parties. 393. entretanto. vis major. advindo da força da natureza ou do fato das coisas. outro a rechaçar a sinonímia. devendo ser apreciadas as condições do devedor. o tempo e o lugar em que as consequências se dão. Dessemelhança meramente acadêmica. não essencialmente imprevisível. adotando a correspondência dos dois termos. vis major. como o furto ou o roubo que desapossa o devedor da coisa objeto da tradição. em condições que não podiam ser previstas pelas partes”. ao atribuir-lhes um único efeito jurídico. que vem a ser a irresistibilidade do evento. vol. a desapropriação. Commentaire théorique et pratique du Code Civil. do Código Civil. observa-se a distinção que qualifica o caso fortuito como o acontecimento natural. que criou para a inexecução da obrigação. a greve que retarda a entrega do bem prometido. Vale dizer. 1894. 201: « Le cas fortuit c’est le fait d’un force physique inintelligent. afastando-o da conduta do devedor. que se aproxima da concatenada pelo francês Thépphile Huc. o caso fortuito e de força maior relaciona-se ao nexo de causalidade. casual. caso fortuito e de força maior são distintos. qui a créé. de nenhum efeito prático. que decorre tanto de serem previstos em conjunto. como do caráter comum de ambos.1 Sinonímia entre caso fortuito e de força maior A cabeça do art. um obstáculo. enquanto a força maior 191 HUC. A palavra fortuito significa imprevisto. e a força maior como “o fato de terceiro. A doutrina. Thépphile. que a boa vontade do devedor não pode vencer. o nexo de causa e efeito não pode ser imputado à conduta do devedor. 2. Ora. . sinaliza que o devedor não responde pelos prejuízos resultantes do caso fortuito ou de força maior. inesperado. pela conjugação da necessidade e da inevitabilidade o evento estranho à conduta do devedor. Portanto. pois conceitua o caso fortuito como “o fato de força física ininteligível. não pode ser resistida pelo particular. « . pondera o português Cunha Gonçalves. a seca que devassa plantação. assim o raio que cai e produz incêndio. inevitabilidade relativa.”191 Ontologicamente. Paris : Librairie Cotillon. 143. à l’exécution de l’oligation un obstacle que la bonne volonté du débiteur n’a pu surmonter. passa a ser irresistível. Em pura doutrina. Na força maior entra na composição do acontecimento o fato humano. p. que causa o dano.

É dirimente apenas da responsabilidade civil subjetiva. p. uma revolução. o motim popular como o denominado “arrastão” etc. afasta a culpa. .192 Modernamente a doutrina alcandora a distinção que enseja efeitos práticos. O primeiro tem como caráter a inevitabilidade do evento. É dirimente da responsabilidade civil subjetiva e objetiva. ao passo que o caso de força maior é o fato previsto ou previsível. O fortuito interno consiste no fato estranho inevitável. e caso fortuito para quem não o possui. São seus exemplos a explosão de uma caldeira de usina.2 Elementos objetivo e subjetivo Na prestigiosa doutrina de Arnoldo Medeiros da Fonseca a noção de caso fortuito e de força maior decorre de dois elementos: o objetivo e o subjetivo. Assim. uma revolução. eminentes civilistas procuram a distinção entre o que chamam de fortuito interno e de fortuito externo. o fortuito interno. já o fortuito externo consiste no fato estranho inevitável não relacionado ao agente ou à sua empresa. as ordens da autoridade. por estar ligado à própria atividade do agente. Explica com duas passagens: uma tempestade é força maior para quem possui um barômetro. e igualmente superior às forças humanas. um cabo elétrico aéreo que rompe e cai sobre coisas causando incêndio. e o segundo a ausência de culpa na produção do acidente. que está intrinsecamente relacionado ao próprio agente ou à sua empresa.. Cunha. cit. à força maior. pois é o fato estranho ao agente ou à sua empresa. insere-se entre os riscos que ele deve responder. a greve não anunciada. a quebra de peças de uma máquina devidamente revisada. o segundo. cujos riscos não são suportados por ele ou sua empresa. Daí insiste na clássica distinção: caso fortuito é todo fato imprevisto ou imprevisível e superior às forças humanas. porque pode ser prevista. De acordo com tal distinção. é força maior. os fenômenos naturais como o raio. Adota-se um critério misto e alerta: 192 GONÇALVES. Já o fortuito externo não guarda esse nexo de causalidade. o chamado fato do príncipe (fait du Prince). normalmente imprevisível. São seus exemplos o fato exclusivo da vítima. gerando situações potencialmente danosas à coletividade. O primeiro corresponde ao caso fortuito. que se sabe estar na forja.175 não é fortuita. anunciada na mídia. 2. a tempestade etc. 728-729. Op.

Não basta a ausência de culpa. 2009. para serem consideradas causas gerais de irresponsabilidade o caso fortuito e de força maior devem interromper o nexo de causalidade. uma vez que onde a culpa manifesta-se sob alguma forma. pelo pressuposto da inevitabilidade e da ausência de culpa do agente. Desaparecido o nexo causal. 195 DIAS. Arnoldo da Fonseca. Isso para nós. a ausência de culpa – que é gênero – integra o elemento subjetivo do caso 193 FONSECA.176 Não há acontecimentos que possam. Em termos mais precisos. O que é hoje caso fortuito. tudo depende das condições de fato em que se verifique o evento. p. a supressão da reação de causalidade. p.194 Completa a lição Aguiar Dias: [.116-117. 1995. não é mais possível falar em obrigação de reparar. ou não. conforme se possa. ser classificado como de força maior.] um fato poderá.193 Não destoa Maria Helena Diniz. Com efeito. José de Aguiar. ou não. mesmo na simples desatenção até na negligência ou imprudência. que é pressuposto comum tanto da responsabilidade objetivo como da subjetiva.. e isentará. ao ponderar que em um e no outro há sempre um acidente que produz o dano e ambos se caracterizam pela presença de dois requisitos: o objetivo que é a inevitabilidade ou a irresistibilidade do evento e o subjetivo que é a ausência de culpa na produção do acontecimento. Esta noção atende melhor ao que se procura expressar com a noção de caso fortuito ou de força maior e prova. ser sempre considerados casos fortuitos. 1943. de responsabilidade. ou não.. 111-112.195 De fato. Rio de Janeiro: Forense. ao mesmo passo que a ausência de culpa não satisfaz como critério capaz de caracterizar essas causas de isenção. Maria Helena. 10 ed. 687.3 Ausência de culpa Evidente. que só pressupõe esta última espécie. p. a ausência de culpa compõe o conceito de caso fortuito ou de força maior. pode ser simplificado ainda mais radicalmente: o que anima as causas de isenção no seu papel de dirimente é. Caso fortuito e teoria da imprevisão. amanhã deixará de sê-lo. São Paulo: Saraiva. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial. 2. a priori. em face do critério misto de Arnoldo Medeiros. 23 ed. a ausência de culpa distingue-se do caso fortuito ou de força maior. em última análise. Da responsabilidade civil. Curso de direito civil. lugar não sobra para a dirimente em consideração. . em virtude do progresso da ciência ou da maior providência humana. 194 DINIZ. volume 7: responsabilidade civil.

ou então. Não houve entrega. poderá ele provar ausência de culpa. Pode não ter existido culpa do contratante-adquirente. Pois bem. irresistível. tomando o cuidado objetiva. por motivos justificados. pois seu filho sofreu acidente e estava sendo atendido em hospital. de sorte que. por si só. no exemplo. Nota-se: para o vendedor inexistiu caso fortuito ou força maior (um acontecimento inevitável. que não pode ser imputado a ele. O vendeu foi cauteloso. diligente. Passagem esclarecedora é colhida na leitura de Valdeci Mendes de Oliveira: João vende determinado equipamento. por descumprimento do contrato. natural ou não) que impedisse o cumprimento da obrigação. pode ele arguir o fortuito externo. Estipulou-se no contrato o dia “D” para a efetiva entrega. poderá articular em defesa a ausência de culpa. A espécie – caso fortuito ou de força maior – não ocorre sem o gênero: ausência de culpa. mas o vendedor foi diligente e pontual. basta. não houve a entrega porque o comprador não se encontrava no lugar combinado para recebimento. que o comprador havia se ausentado inesperadamente. com entrega acordada no futuro. não estar presente para receber a prestação. demonstrando que foi diligente e pontual. procurou cumprir a sua prestação. Porém. Todavia. inteirou-se por telefone. Na data aprazada o vendedor não entregou a coisa. que o adquirente demonstre justa causa para a sua viagem. Em seu favor não há qualquer fato estranho natural ou não inevitável. por inadimplemento contratual. Imagina-se a celebração de contrato de compra e venda (dar de coisa certa). viajou e não deixou pessoa encarregada para o recebimento (um filho do adquirente foi hospitalizado em virtude de grave acidente). Logo. Logo. mas o adquirente foi quem incidiu em falta – justificável ou não – que impossibilitou o cumprimento da obrigação. O vendedor. a ausência de culpa é uma excludente autônoma de responsabilidade contratual. motivada num grave acidente sofrido pelo filho. ou obteve previamente informações da falta do comprador ou do preparo do local para recebimento do equipamento. que precisa permanecer ou ser instalado em lugar apropriado. Se o vendedor for acionado em juízo. Nesse dia o adquirente esqueceu de preparar o local adequado para recebimento do equipamento. Mas o gênero – ausência de culpa – poderá ocorrer sem a espécie. um fato estranho inevitável.177 fortuito e de força maior – que são espécies. ele não obrou com culpa ao não fazer a entrega do equipamento. foi ao local designado pelo adquirente. Pouco importa. no exemplo dado. como causa autônoma de irresponsabilidade. . Se acionado em juízo. É sabido que o credor cai em mora independentemente de culpa.

em seu depoimento pessoal. p. Rio de Janeiro: Forense. 1991. a imprevisibilidade que caracteriza essa dirimente. na hipótese. 2. pois o evento.4 Irresistibilidade ou inevitabilidade do evento Na cômoda companhia de Caio Mário importa esclarecer que a imprevisibilidade não é requisito necessário do caso fortuito e de força maior.196 Exemplo repisado é o da forte chuva que a tudo inunda. reconheceu-se que os pneus estavam precariamente conservados (Revista dos Tribunais. no caso. Fato previsível. . assim. verificadas nos veículos neles envolvidos. podem constituir ou não caso fortuito ou de força maior. que estava em bom estado de conservação – Hipótese de caso fortuito – Indenizatória improcedente. Do corpo do acórdão extrai-se o seguinte trecho: Já se decidiu que o estouro do pneu pode caracterizar a culpa civil. cumprindo verificar as circunstâncias de cada caso. especialmente quanto a este. os pneus estavam em bom estado de conservação. Os defeitos mecânicos nos veículos servem de observação. Nos acidentes de trânsito as alegadas falhas mecânicas. Não é. Um acontecimento pode ser previsível. 457/72). Responsabilidade civil. vol. Entretanto. que bem assina duas circunstâncias dessemelhantes entre si: Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Evento conseqüente de estouro de pneu. diversamente. o requisito necessário é a irresistibilidade ou inevitabilidade: algo que não se possa vencer. Mas o morador ribeirinho não poderá conjugar condições de evitar os seus efeitos. ainda que absolvido o motorista na esfera penal. mas não haverá de parte a parte indenização por perdas e danos. Paradigmático o acórdão proferido pelo extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo. fala em 196 PEREIRA. o esvaziamento foi tão rápido que o réu. 324. É verdade que estouro de pneu não se confunde com simples furo de pneu.178 As partes podem. dispara como força indomável e irresistível. de conformidade com a autonomia privada. Entretanto. entretanto o agente do dano não ter como resistir os seus efeitos. ainda que previsível. até rescindir ou resolver o contrato. Na espécie sub judice. Caio Mário da Silva. Se o evento for possível resistir ou evitar não se caracteriza como caso fortuito ou de força maior.

em condições objetivas análogas. É a visão de Arnoldo Medeiros da Fonseca: Exigir-se-á. em idênticas circunstâncias de tempo. Neste ínterim.1981. Dever-se-á considerar apenas os elementos exteriores ao obrigado e ao seu raio de atividade econômica.2. Outras vezes. qualquer falha mecânica não é suficiente. assim. Juiz Pereira da Silva). é de caso fortuito e a improcedência foi bem decretada (TACSP.].. lugar e meio. verificadas em veículos motorizados” (RF 161/249). será a razão determinante de sua inevitabilidade. rel. em relação a qualquer homem prudente. pois ninguém se acautela contra o imprevisível. pois só assim poderá afirmar a sua inevitabilidade. de modo que a ninguém fosse possível precaver-se ou resistir quanto ao ocorrido.197 De maneira. Verifica-se. .179 pneu estourado [. que a inevitabilidade deve ser tomada dentro das circunstâncias gerais em que haja ocorrido o evento.. Prossegue o mesmo civilista: “Desse requisito decorre naturalmente que só pode constituir caso fortuito um fato cuja origem seja conhecida.” Em seguida conclui: Às vezes. mas não inteiramente abstrato. j. tendo em vista a possível conduta de outros indivíduos. mas entendida esta expressão em termos. o modo súbito e inesperado pelo qual se verifique. portanto. 197 FONSECA. Arnoldo Medeiros da. e a testemunha [. 24.. sendo assim a inevitabilidade a condição objetiva fundamental exigida para caracterização do caso fortuito. pela natureza dos fatos. como impossibilidade que ocorreria. Caso fortuito e teoria da imprevisão. se deixa de conjugar os requisitos descritos: “Como casos fortuitos ou força maior não podem ser consideradas quaisquer anormalidades mecânicas. objetivo..] teve a impressão de “que havia estourado um dos pneus”. 1943. a imprevisibilidade do acontecimento. uma impossibilidade de evitar objetiva ou absoluta. a própria irresistibilidade do evento é que o torna inevitável. tendo em vista o objeto da prestação. tais como a quebra ou ruptura de peças. pois. cuida-se enfocar situações comuns de incidência dessa causa de irresponsabilidade. pois. 8ª Câm. O caso.. O critério de apreciação permanece. Mas haverá sempre impossibilidade de impedi-lo. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial. 145. p.

180 1. e entendeu que o fato da natureza (fortuito externo) foi decisivo na eclosão do dano. todavia. RT 564/73). Outras vezes. que as administrações nas três esferas – municipal. fixando o quantum debeatur pela metade. Mas esses fenômenos permitem. Entretanto. quando particulares reclamam indenização pelos prejuízos sofridos em razão de enchentes. a culpa do agente causador do dano afasta a dirimente do caso fortuito ou da força maior. são as empresas privadas que se justificam pelo descumprimento de contratos Interessante a decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Como os danos provocados resultaram não só da violência das chuvas mas. Reconheceu a culpa dos prepostos da CESP. Sydney Sanches. de culpa dos prepostos da CESP. mormente à classe hipossuficiente. assim não conclui o acórdão. a empresa só deve ser condenada a pagar a metade da indenização devida. . As fortes chuvas aparecem muito na defesa do Poder Público. também. estadual e federal – descuidam das obras preventivas que poderiam evitar danos e tragédias. Há mais de cinco lustros. Diferente o trato jurisprudencial no que tange a morte produzida por raio. julgados condenam o Poder Público pela falta do serviço ante a omissão em providências contra danos produzidos pelas fortes chuvas. pelo menos. rel. com o mesmo embasamento. não condiz com as causas de irresponsabilidade ora estudas. Em pura doutrina.2 Fenômeno da natureza Frequente a arguição dos fenômenos naturais como fundamento do fortuitus ou da vis major. bastas vezes. imputável aquém quer que seja (TJSP. para arredar a responsabilidade civil do causador do dano. que não deram ao problema do excesso de afluxo de águas às barragens da Usina de Barra Bonita o tratamento técnico compatível com as circunstâncias do momento. pois sua culpa concorreu com fato da natureza. Des. A conduta oficial. prevê-los e preveni-los na adoção na adoção de medidas acautelatórias dentro das possibilidades humanas. como visto. É comum verificar.

com a desapropriação. que repercute em autentica impossibilidade de execução da obrigação. se é um cardíaco. por si só. necessariamente. sobretudo quando se trata de uma obrigação de fazer intuito persona. 1. muito se debate sobre o mal súbito. já não configura. imprudência. se não reúne os pressupostos do fortuito. levando-o a perder o controle do veículo. excluindo a responsabilidade. constituir-se em dirimente. que lhe prejudique a voz. ou limita construções em áreas do perímetro urbano. 1. pois ele mesmo dá motivo ao movimento. Aliás. que reivindica melhores condições de trabalho. Por si mesma não caracteriza. RT 431/174 Ao contrário. ou não. o denominado fato do príncipe. como sucede. que perseverar durante todo prazo de que o devedor dispõe para cumprimento da prestação obrigacional. 1. como por não cumprir uma convenção trabalhista e acontece apenas na sua empresa.6 Extinção do objeto mediato da prestação . Equipara-se ao caso fortuito.5 Greve O movimento grevista pode. verbia gratia. que exige cuidados incompatíveis com a obrigação.181 1. Não será se por culpa do empregador. Caso típico de um cantor contratado para uma apresentação se lhe sobrevier uma faringite.3 Ato da autoridade pública Toda medida ou ato da Administração Pública. quando acomete motorista de saúde hígida. Será fortuito se a greve eclode em toda categoria.4 Enfermidade do devedor Pode surgir como caso fortuito ou de força maior a doença do solvens. pois o fato de dirigir veículo nesse estado de saúde é. Tais proibições para eclodir em caso fortuito ou de força maior terão. ou mesmo a edição de lei nova que impeça a comercialização de determinado produto.

Se. probidade administrativa e do patrimônio cultural. com efeitos distintos. simplesmente. um em cada morro. dessa forma a colheita de café da Fazenda Santana cuja safra foi perdida na totalidade por prolongada seca. arts. um explorado como pedreira.182 Na obrigação de dar coisa certa. porém. 246). Motauri Ciocchetti. o proprietário do outro morro. dentro dos mais rígidos padrões ambientais e de segurança traçados pelos órgãos competentes. evento da natureza como causa. não cabe contestar que se colocam no raio do risco integral. Por isso o casus não milita em prol do agente causador do dano. liberando-se o devedor de qualquer ressarcimento. pois se trata de responsabilidade civil objetiva. art. A exploração de gasoduto. Trata-se de fortuito externo. resolve-se. por justiça e equidade. Na obrigação de dar coisa incerta abre-se um leque. oleoduto e similares. sem qualquer forma de exploração. 234. ante a relevância da matéria em que a natureza recebe agressões gratuitas. fato estranho à empresa exploradora das atividades de extração. segundo a doutrina e a jurisprudência dominantes. resolve-se a obrigação e não cabe indenização (CC. no caso determinada obra de famoso escultor. seja pela exagerada ganância de lucro – como soe acontecer – seja por outro motivo qualquer. p. mas os fatos naturais não podem e não devem. O outro continua no estado de preservação natural. ter tratamento assemelhado. que se perde ou deteriora pela incidência de circunstância irresistível e sem culpa o devedor.198 A matéria não deixa de ser controvertida. porque inexplorado. Princípios de direito ambiental. Dá-se a força maior. São Paulo: CPC. a coisa pertence a gênero limitado. sob pena de ressarcimento se assim não o fizer. Caem dois raios. Mautari Ciocchetti de Souza concebeu a hipótese de dois morros. causando danos ambientais. 198 SOUZA. Se a coisa pertence a gênero ilimitado o devedor deverá buscá-la onde ela exista e adimplir a prestação (CC. E o autor conclui: a empresa que explora a atividade extrativa terá responsabilidade civil no âmbito ambiental. Em pura doutrina é caso de exclusão de responsabilidade. assim reator de usina nuclear são atividades inerentes à empresa. 23-24. em que não incide nenhuma causa de irresponsabilidade. a obrigação. 1ª parte e 235). fortuito interno.7 Em sentido ambiental A culpa não é pressuposto da responsabilidade civil quando no pálio do direito ambiental. 1998. do consumidor. 1. É a teoria do risco integral. .

O Estado. mantendo viveiros para tanto. mas não um estado de fobismo. além de aproveitarem as margens das estradas e os trevos para arborização. tão exigente quanto ao privado. ficando esses locais relegados ao abandono. ao tratar da responsabilidade do devedor moroso. do Código Civil. em uma demonstração inequívoca que sabem muito exigir e nada cumprir da parte que lhe toca na empreitada de recuperação ambiental. escudado em lição de Giorgi. em matéria do meio ambiente a solução mais justa é admitir as excludentes em apreço. por lei. Digno de nota são os municípios que. devem reservar certo percentual de áreas verdes.10 Exclusão convencional O art. do mesmo diploma legal. preveja a exclusão convencional do caso fortuito ou de força maior. Concluindo. para urbanizá-las em jardins e praças. se o devedor expressamente responsabilizar-se por eles. Isto é. Os extremos. o que ocorre minimamente. 335. não fica ele afastado da responsabilização. João Franzen de. Não diferentes os governos estadual e federal que poderiam recuperar as reservas florestais em suas não poucas propriedades rústicas. consoante sinaliza João Franzen de Lima. 393.183 Vive-se tempo de graves ultrajes ao meio ambiente. A moderação. Lógico o 199 LIMA. preceito herdado da sabedoria romana. mas pouco se importam com a fauna. a prudência. o devedor. p. Rio de Janeiro – São Paulo: Forense. Curso de direito civil brasileiro. 1961.199 Outra exceção é prevista no art. pode assumir a responsabilidade por caso fortuito ou de força maior. o que denuncia a invasão dos pássaros no perímetro urbano. A legislação obriga os Estados a fornecerem mudas. Assim. por cláusula expressa. invadidos pelo mato. quando o fato estranho constitui o fortuito externo. 2. . não admiti-las se o fato estranho é um fortuito interno. por um de seus poderes. parágrafo único. 399. denunciava na vetusta Antiguidade Aristóteles. frágil na sua política ambiental. mas relegam ao absoluto desprezo as medidas de implantação. se o fortuitus ou a vis major suceder durante o atraso do devedor no cumprimento da obrigação. Sem contar que seus técnicos consideram com maior ênfase a flora. são incompatíveis com a Justiça. não se arredando dos seus princípios e valores fundamentais. o bom senso indicam a senda que o Direito deve seguir. urge uma política de efetiva proteção.

nem sequer agiu. por sua vez. Suponha-se que um veículo pare diante do sinal vermelho. repete Van Wetter que. teria resguardado a coisa da incidência do acontecimento danoso. pois o fato não apresenta um dos requisitos da responsabilidade civil. para que ocorresse a perda da coisa devida. com todos os móveis e utensílios. em velocidade imoderada. não pacificada nos tribunais. o fato de terceiro não é de se confundir com a responsabilidade de terceiro. 2 Fato de terceiro De plano adverte-se. Foi o segundo automóvel. na ultima situação a culpa do devedor em razão da mora não seria de nenhuma eficácia. nem nada aconteceria à coisa devida. nada acontecendo à casa do credor. Os autores são unânimes em afirmar que o fato de terceiro constitui-se em questão tormentosa. o raio destrói as duas casas. podendo importar em causa de responsabilidade e de irresponsabilidade. o nexo de causalidade entre a conduta culposa e o dano. tanto que dá azo a uma justificativa. Se. Incide. falta. outro que o segue logo após também para. sendo essa conduta de tal monta que o agente direto é mero instrumento em suas mãos. nem indireta. pois o fato do terceiro motorista foi de tal intensidade que lhe excluiu a liberdade de ação. Aqui a verdadeira causa é a culpa do devedor consistente na mora. na hipótese. pelo contrário. são repetidos por Maria Helena Diniz no seguinte hipótese: se o objeto da prestação perde-se porque um raio destrói a casa do devedor. pois se o devedor tivesse cumprido a obrigação no tempo certo. Dá-se o fato de terceiro quando o dano é causado não pelo agente direto e nem pela vítima. opera-se um acréscimo. o dano teria de qualquer forma sobrevindo à coisa. verdadeiro fortuito externo. se tivesse sido entregue no prazo. Não é caso de indenização.184 dispositivo. Washington de Barros Monteiro. mas o responsável pelo acidente foi o terceiro que não parou diante do comando semafórico que assim determinava. causa-lhe diretamente o dano. Nota-se. mas pela conduta de terceira pessoa. abalroa a traseira do segundo que é atirado contra o primeiro. então a responsabilidade seria eliminada. entretanto. por isso. que embatendo contra o primeiro. em que não se opera exclusão de responsabilidade. O motorista do segundo veículo foi mero instrumento arremessado contra o outro. Nesse caso desaparece o nexo de causa e efeito entre a ação ou omissão do agente direto e o . mais do que no acontecimento. como sucede nos casos elencados no art. 932. e terceiro veículo.

senão única. II – No caso em tela.] I – Não há de atribuir-se responsabilidade civil ao condutor de veículo que. p. para haver dele a quantia paga na indenização do proprietário do bem danificado. sendo imprevisível e inevitável200. causada pelo fato de terceiro. . ao tentar desviar-se de abalroamento. ou seja. Carlos Roberto Gonçalves. vem a colidir com coisa alheia. desgovernado.. provocando-lhe dano. sendo tal situação diversa daquela em que o condutor do veículo. do evento (RJTJSP 21/50). A matéria vem regulada indiretamente pelos arts.. afasta-se a teoria risco e firma-se a responsabilidade do terceiro como causador único evento (RT 651/99) do tal do do Fora dessas condições. essa Colenda Corte. pois. foi de tamanha força e intensidade que excluiu a liberdade de ação do causador direto do dano. assim. quando é de intensidade que exclui a liberdade deste. 200 GONÇALVES. torna-se. cujo veículo restou envolvido no acidente como mero instrumento da ação culposa de terceiro. 7 ed. eximida a sua culpa. de modo positivo. só se caracteriza como excludente quando. que a primeira culpa. atingindo outro. São Paulo: Saraiva. (RSTJ 67/514). 929 e 930.185 dano. o prejuízo experimentado pelo dano da coisa danificada não guarda relação de causalidade com qualquer atitude volitiva do referido condutor. acaba por causa prejuízo a outrem. Bem por isso. o fato de terceiro não afasta o dever de ressarcimento por parte do causador direto do dano.. 722. reserva-lhe. O fato do terceiro motorista revestiu-se de imprevisibilidade. no entanto. constituindo força estranha. É que o fato de terceiro. o direito de regresso contra o terceiro. mas principalmente em inevitabilidade. Entendeu. reafirmando a relação de causalidade. 2002. pois a regra é que o dever de indenizar recaia sobre o causador direto do dano. [. preceituando este último dispositivo que cabe ação regressiva contra o terceiro que com sua conduta criou a situação de perigo. E coerentemente como juiz decidiu na qualidade de relator ainda ao integrar o extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo: O fato de terceiro exclui a responsabilidade civil do causador direto dano quando equiparável ao caso fortuito.. na condição de doutrinador. Nesse caso. afirma que o fato de terceiro somente dirime a responsabilidade civil quando se reveste das características análogas às do caso fortuito. a causa predominante. que teve. Responsabilidade civil: doutrina/jurisprudência. Carlos Roberto.

Se o causador direto do dano. o devedor e do outro lado o polo ativo. vem a colidir com automóvel que se encontrava regularmente estacionado. esta é a diferença dos julgados supracitados: em um o carro do agente direto do dano desgovernou-se. Deve ser de tal intensidade e irresistibilidade. rel. 22.2. É o mesmo tratamento que se dispensa à legítima defesa por erro de execução e ao estado de necessidade. o fato de terceiro que se constitui em causa de irresponsabilidade deve identificar-se à força maior. o credor. de alguma forma. repita-se. Ou como ensina Serpa Lopes. resguardando-lhe o direito de propor demanda regressiva em desfavor do verdadeiro culpado. Lá o nexo de causalidade tem uma única causa: a conduta do terceiro. 4 ed.201 201 LOPES. De efeito. ao agente causador do dano assiste tãosomente direito de regresso contra o terceiro que deu causa à situação de perigo (STJ. de mero instrumento passivo da ação de outrem. . Em casos tais. 639/117. No mesmo sentido: T 523/101. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. p. 563/123. atuar ou realizar atos voluntários para salvar bem alheio. prejudicando vítima inocente. 86. vol. 211. pagará a indenização.1996. responde perante o proprietário deste pelos causados. 3. Sendo assim. procurou desviar de “fechada” provocada por terceiro. 44/89). considera-se terceiro qualquer outra pessoa equidistante desse binômio que. de 30. não sendo elisiva da obrigação indenizatória a circunstância de ter agido em estado de necessidade. agir. trazendo coerência à ordem jurídica como um todo harmonioso. influi na produção do dano. RJTJSP 42/103. logicamente não podendo ser nem o ofensor nem o ofendido. Aqui tem duas causas: a atividade do terceiro e a do causador direto do dano. Min.1994. 4ª T. não. não houve qualquer conduta voluntária do motorista. 591/237. 1995. que o causador direito do dano não passa. Sálvio de Figueiredo. São duas hipóteses dessemelhantes com efeitos jurídicos diversos.1 Conceito de terceiro Entende-se por terceiro a pessoa estranha ao agente e à vítima do dano.10 a 5.11. O motorista agiu de maneira voluntária..186 O motorista que. Miguel Maria de Serpa. ou é mero agente físico involuntário. ao desviar de “fechada” provocada por terceiro. e atingiu outro veículo. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. mesmo por culpa de terceiro. in Boletim da AASP nº 1975. No segundo. terceiro é aquela pessoa que forma a terceira peça do triângulo. j. p. Curso de direito civil. Imagina-se a estrutura da obrigação no seu elemento subjetivo: de um lado o polo passivo.

“A responsabilidade contratual do transportador.2002. j. p. O arremesso de objeto. 4ª T.3 Uma questão tormentosa Joeirando a jurisprudência notam-se nitidamente julgados contraditórios. 187 do STF.7. Juiz Thiago de Siqueira. A exoneração da responsabilidade civil por ato de terceiro somente terá lugar se for identificada a pessoa causadora do dano e. é necessário haver prova de que o comportamento deste seja a determinante exclusiva do resultado danoso e que a sua participação no evento tenha-se dado de maneira total. rel. de fora para dentro do veículo. não se admitindo a participação de forma parcial (RT 736/241) 11. 5ª Câm.6. os empregados e prepostos com relação aos empregadores e comitentes. enfim quando ocorre liame de responsabilidade indireta entre o causador do dano e o responsável pela indenização. 15. não é elidida por culpa de terceiro. j. REsp. 232. comprovadas a atenção e cautela a que está obrigada no cumprimento do contrato de transporte a empresa.2002. pelo acidente com passageiro. Pela Súmula 187 do Supremo Tribunal Federal. Barros Monteiro. ainda.” Assim vinha a orientação dos tribunais A responsabilidade civil da empresa de transporte coletivo pela condução de passageiros é de caráter objetivo. DJ 30. O terceiro há de ser identificado ou identificável.. os pupilos e curatelados com relação aos tutores e curadores.187 Não poderão ser terceiros os filhos menores com relação aos seus pais. mormente no contrato de transporte.8. Outro fato relacionado à pessoa do terceiro é a sua identificação.31. Destarte. Sendo ato de . a alegação de que o evento que resultou na morte da transportada. contra o qual tem ação regressiva. não guarda conexidade com a atividade normal do transportador. Tendência que não se consolidou.2003). ocorreu por culpa de terceiro não exclui sua obrigação de indenizar (1º TACSP. pois o Superior Tribunal de Justiça julgou em sentido contrário: A presunção de culpa da transportadora pode ser ilidida pela prova de ocorrência de fato de terceiro.649. Min. rel. no mesmo sentido STJ. RT 810/264. consoante dispõe a Súm..

p. Essa posição de mitigação da responsabilidade do transportador em casos especiais não relacionados com o fato do transporte em si. jurisprudência. do Código Civil. 29. somente o fortuito externo. CAVALIERI FILHO. Daí a razão pela qual alguns autores os têm por equivalentes. 722-723. é adotada por Carlos Roberto Gonçalves e Sílvio de Salvo Venosa. vol. . o fato de terceiro é imprevisível e irresistível. É verdade. isto é. rel. 164-165. 4. Programa de responsabilidade civil. os demais aspectos abrolham naturalmente. que pondera para se chegar ao fato de terceiro é necessário estabelecer com precisão: 1º) quem é o terceiro em matéria de responsabilidade civil. Argumentam que. 292. São Paulo: Atlas. No mesmo trote avulta Sergio Cavalieri Filho. exclui a responsabilidade do transportador pelo dano causado ao passageiro (STJ.202 É a tese acordada na regra do art. deixa de ser causa dirimente.188 terceiro. O exemplo reportado por ambos é o disparo de arma de fogo efetuado por alguém do lado de fora do ônibus. 2009. Direito Civil: responsabilidade civil. Assentados estes dois pontos fundamentais. porquanto desempenham a mesma função: a exoneração da responsabilidade. Carlos Roberto. porém entre essas figuras não é possível ver identidade absoluta. para quem a presunção da responsabilidade do transportador é tão forte. pois fato imprevisível e inevitável. São Paulo: Atlas. São Paulo: Saraiva. 7 ed. Castro Filho. 7 ed. VENOSA. salvo motivo de força maior. que corresponde ao fortuito externo. sem qualquer ligação com a organização do negócio. 2º) qual a natureza e extensão do comportamento desse terceiro em relação ao evento danoso.5 Distinção do caso fortuito e da força maior O fato de terceiro assemelha-se à força maior e ao caso fortuito quanto aos seus efeitos. mas não é menos verdade que o fato de 202 GONÇALVES.2003. há equiparação ao caso fortuito. 11. que atinge passageiro. Min.4 Dois conceitos básicos Apropositado o ensinamento de Caio Mário. que o fortuito interno não a exclui.. 9 ed. pois se puder ser previsto e vencido desnatura-se. j.10. 2002. 2007. 743. Sergio. p. até com relativa facilidade. RT 823/158). 11. o fato estranho à empresa. se caracterizar um fortuito externo exime a responsabilidade do transportador. Sílvio de Salvo. p. Tem prevalecido as circunstâncias concretas de cada caso. 3ª T. Responsabilidade civil: doutrina. ao dispor que o transportador responde pelos danos causados às pessoas e bagagens transportadas. no caso.

pois. do contrário. sendo que os prejuízos a serem ressarcidos decorrem do risco do próprio negócio (1º TACivSP. se for invocada a escusativa do caso fortuito e da força maior. cabe a ele ação regressiva contra o causador do dano.. 26.2002. j. rel. tendo de suportar os feitos da condenação. não se pode afastar a culpa da transportadora por caso fortuito ou força maior. RT 806/209). 6ª Câm. não reúne o condão de excluir o agente direto. No entanto. Dessa forma. não havendo tal culpa. não é caso de isenção o roubo de motomensageiro. 1995.. a sua responsabilidade deve ser excluída pelo caso fortuito consubstanciado na culpa de terceiro (1º TACivSP. Sentencia Serpa Lopes: “o fato de terceiro deve ser atribuído a um indivíduo determinado. não há falar em 203 LOPES. como a ocorrência de força maior. uma vez que na conjuntura urbana e hodierna estes casos já são previsíveis. apesar de reconhecida. rel. 4 ed. se o evento foi causado por ato exclusivo de terceiro que invadiu a contramão de direção abalroando o veículo da transportadora. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. 30. 212. na modalidade negligência. não pode a transportadora se eximir de tal responsabilidade por restar caracterizada a culpa. o que não sucede na hipótese do fortuitus e da vis major. Dessa forma. e não reconhecida. sendo que decorre de existência de culpa por inadimplemento contratual.5 Chamamento à autoria Jurisprudência Inexiste responsabilidade por parte da transportadora em acidente de trânsito com vítima fatal. No entanto. o transportador só se exime de sua responsabilidade em casos excepcionais. Sendo a ação intentada em face do agente direto do dano e a responsabilização de terceiro. Miguel Maria de Serpa. o agente direto do dano não disporá de tal actio in rem verso. 3. quando era previsível tal evento naquela região.2002. Curso de direito civil. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. Tratando-se de roubo de carga. j. é impossível de ser resistido. Embora seja objetiva a responsabilidade da empresa.7. ela não é automática. Juiz Massami Uyeda. 9ª Câm. RT 807/292). Tratando-se a prestação de serviços de transporte de um contrato de resultado.”203 Mais ainda. embora previsível. vol. p. Destarte.189 terceiro cumpre ser imputado a pessoa certa. Ementa do voto vencido do revisor Juiz Carlos Alberto Bondioli: Caracteriza-se a força maior em caso de roubo de carga quando. .3. Juiz José Luiz Gavião de Almeida. apareceria como sendo um caso de força maior.

já tornou previsível o evento. para incidir na hipótese de indenização por responsabilidade civil. 2. Juiz Rubens Cury. RT 822/383). j. RT 814/227)204 Tratando-se de contrato de transportes. 28. Juiz Cerqueira Leite. Des. No entanto. (1º TACivSP.3. deve-se nomear perito que faça a avaliação das jóias de forma devida. o que demandaria previsão do risco e sua integração no preço do serviço. j. 22. A reiteração de assaltos no curso da viagem. a responsabilidade civil do transportador é objetiva. RT 827/271). rel. que já se caracteriza como fortuito interno..2003. rel.. ocorrendo um assalto à agência. é preciso uma ação ou omissão culposa do agente causador do dano. inclusive por atos de terceiros. 6ª Turma. José Carlos Varanda. pois caracterizado o fato de terceiro capaz de eliminar a relação de causalidade entre o dano e o desempenho do causador direto do ilícito (1º TACivSP. j. 12. 21.1999. acarretando o dever de indenizar (TJRJ..9. fica caracterizado caso fortuito ou força maior. 2ª Câm. RT 816/232). se o objeto do contrato de mútuo com garantia pignoratícia não é a guarda e a segurança das jóias.2002. para reduzir os riscos a que estão expostos os passageiros. j. Não se pode dizer que. 8ª Câm. Ementa do voto vencido da Des.1.10. rel.2004. rel.. Juiz Gonçalves Rostey. uma vez que no contrato de mútuo com garantia pignoratícia leva-se em conta apenas o pesa das pedras e do metal (TFR da 1ª Região.2203. de forma a excluir a responsabilidade da empresa transportadora (1º TACivSP. sem qualquer providência das transportadoras.9.205 Se o atropelamento foi ocasionado em razão de o automóvel ter sido interceptado por outro veículo que cruzou de inopino trevo em rodovia. j. 204 205 Pela divergência sobre a matéria esse acórdão merece ser lido na íntegra. 186. 10ª Câm. Há de se estabelecer o nexo de causa e efeito entre essa ação ou omissão e o evento danoso que atente contra direito da personalidade ou o patrimônio da vítima. ocorrendo o roubo de carga a mão armada. rel. a instituição bancária deva indenizar o cliente por danos morais. 2ª Câm. Des.190 culpa do transportador. do Código Civil. . Maria Isabel Gallotti Rodrigues. Maria do Carmo Cardoso: Em caso de roubo. tem-se afastada a responsabilidade do motorista que atropelou as vítimas. in Boletim AASP 2195/351). 12 Culpa exclusiva da vítima Pela letra do art.

neste episódio. resolve-se pela aplicação da regra do art. É o vetusto preceito do Digesto: quod quis ex culpa sua damnun sentit. por fato da vítima quando o prejuízo por ela suportado devirá não da conduta do agente direto do dano. não se presume. na tentativa de suicidar-se. pois se a sua conduta é o único fato gerador do evento lesivo. extingue-se a obrigação.191 Por isso. Entende-se. b) ou são diversos. equiparável até ao caso fortuito. A culpa exclusiva da vítima na eclosão do evento danoso tem que ser cabalmente demonstrada. recai a causa do acontecimento apenas sobre a conduta da vítima. Diferente não poderia ser. pela inevitabilidade.2 Requisitos Para caracterizar o fato da vítima cuida-se a conjugação dos requisitos que lhe são inerentes. o nexo de causalidade fica eliminado em relação ao indigitado agente. do Código Civil. de sorte que. Demonstrada a imprudência da vítima ao atravessar a via pública e comprovado que o motorista do ônibus. além de não agir com culpa. por culpa sua. entretanto. que se traduz na causa exclusiva do dano. portanto. No segundo caso. improcede a ação de indenização (RT 263/146). a vítima absorve as consequências do dano. 12. não se entende que sofra dano). quem sofreu as consequências do fato. como assente no acórdão transcrito. vale dizer. utilizou-se dos meios necessários para evitar o atropelamento. 381. mas de sua exclusiva conduta. a solução é encontrada na velha parêmia romanística: res perit domino (a coisa se perde para o dono). que pressupõe causar prejuízo a outrem. em que entra problema de responsabilidade civil. ele não é senão mero instrumento do acidente. no intellegitur damnun sentire (quando alguém experimenta dano. No primeiro caso. pelo próprio conceito jurídico de dano. . é motivo escusativo de responsabilidade civil o fato ou ato da própria vítima. ou seja. Responsabilidade civil – atropelamento e morte por ônibus – Culpa do motorista – Inexistência – Imprudência da vítima – Ação ajuizada pela viúva e filhos menores – Improcedência. que ela mesma deu causa. arreda-se qualquer questão de responsabilidade civil. Duas situações dessemelhantes podem ocorrer: a) agente direto do dano e vítima confundem-se na mesma pessoa. O motorista fica isento de compor o prejuízo se uma pessoa atira-se sob as rodas do veículo em movimento.

em conduta culposa da vítima. que o indigitado agente não labore com culpa. se o suicida é um louco. para quem o terceiro requisito não vinga. para Aguar Dias. ao mesmo tempo. Rio de Janeiro: Renovar. Miguel Maria de Serpa. Caio Mário da Silva. 208 PEREIRA. Rio de Janeiro: Forense. 11 ed. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. porque é o seu comportamento a causa do dano. precipuamente. para Serpa Lopes o inimputável está incluso no fortuito. Se de alguma forma contribui. sem desenvolvimento mental completo (CC. 320-321. Segundo. III) sugere o caso fortuito. Para ele a chamada culpa exclusiva da vítima corresponde ao ato ou fato exclusivo da vítima. Montenegro. também. o fato de terceiro influi na etiologia da responsabilidade civil. que poderá acionar ou o próprio suicida ou o seu curador (CC. Se inimputável a causa de irresponsabilidade é outra. 1995. 3º. e aumentada por Rui Berford Dias. Com isso amplia a incidência dessa causa de irresponsabilidade e. p. 206-207.206 Diferente José de Aguiar Dias. no fato de terceiro.209 206 LOPES. revista. art. imputável. 944. 4 ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. 4º. à culpa da vítima Antonio Lindbergh C. articula que uma empresa de transporte urbano não responde pela morte do indivíduo que se joga intencionalmente sob as rodas do ônibus. art. A ele não se pode cogitar de culpa. p. 928. 2006. Aqui reside uma das diferenças entre o fortuito e o fato de terceiro como será exposto logo em seguida. e ser. Carlos Roberto Gonçalves. se quem causa o dano é um enfermo ou deficiente mental. p. Caio Mário não fala. Responsabilidade civil. Assim é a lição de Serpa Lopes. José de Aguiar. II) ou excepcional. vol. Tem que para caracterizar o fato de terceiro dois aspectos são relevantes: a) definir quem é o terceiro. b) e que a conduta desse terceiro é ativa. atualizada de acordo com o CC 2002.207 Portanto. 2 ed. 932. é inimputável. a vítima deve agir com culpa. isto é. para exemplificar. . De efeito. lado senso. que o fato da vítima seja ilícito e culpável.208 Não aludem. sem o necessário discernimento (CC. revista e atualizada por José Serpa Santa Maria. II). Terceiro. em quaisquer de suas modalidades. Rui Stoco. pois desloca da vítima para si o nexo causal. uma relação de causa e efeito entre o fato da vítima e o dano e que esse fato constitua a causa única e determinante do prejuízo. 207 DIAS.192 Primeiro. arts. portanto sua conduta deve ser sinetada pela licitude. Dessa forma. o que se traduz em maior cobertura à vítima inocente. Curso de direito civil. que elimina o nexo de causalidade. também. a culpa deixa de ser exclusiva da vítima. Da responsabilidade civil. é necessário. 1991.

em 1925. – Escusa de cansar-se em me procurar os miolhos. Veio o cirurgião curá-lo. Selecta nacional: curso prático de literatura portuguesa. e começou por examinar se lhe tinha ofendido o cérebro. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. p. j. 19.d. XII. 191 e segtes.210 Esta historieta de bom humor retrata fato senão corriqueiro pelo menos não pouco freqüente protagonizado por pessoas anônimas que. rel. p. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural Edições. quebrou-lhe um deles a cabeça.. 21 ed. vol.193 12.5. Dir. Des. Tratava-se de um operário que operava máquina de prensar ferro e perdeu quatro dedos. para livrar a si própria ou a outrem de perigo iminente. II. como frequentemente sucede nos incêndios: mas. São Paulo: RT.211 Este entendimento que coaduna com a ratio juris dessa causa de irresponsabilidade. Surge a questão: em caso de experimentarem dano cabe-lhes indenização? Fica a resposta por conta de outro português. Antônio Lindbergh C. Colhe-se interessante passagem colhida.]. ap. 210 AULETE. 1984. Cunha Gonçalves: Deve notar-se que não constitui culpa o fato de uma pessoa se expor voluntariamente ao perigo. Júlio Caldas. também. 14.2002. op. STOCO. Cunha. . concluindo: “era intuitiva a proibição do emprego das mãos durante o sistema automático de prensagem” (TJSP. Entendeu a Corte que ocorreu a culpa exclusiva da vítima. cit. porque quando me fui meter na bulha já os não tinha. por Caldas Aulete: Um homem pacato indo apartar uma desordem entre dois vizinhos. F. 209 MONTENEGRO. em caso de calamidade pública. Do ressarcimento de danos pessoais e materiais. 284-285. atalhou o ferido. 759. Ênio Santarelli Zuliani). Privado. inibe atos de solidariedade. 211 Gonçalves. 3ª Câm. t. Lisboa: Livraria Editoral [s. p. não pode atribuir a terceiro o seu dano. p. 2007. expondo-se espontaneamente a situação de risco ou perigo. portam-se com certo grau de heroísmo empenhados na ajuda ao próximo vitimado.643-4/1. quem se fere ou queima em tão benemérito esforço. 7 ed. Rui. diante da ausência de defeito da máquina e ter sido a falha humana da vítima o motivo do acidente.3 Vítima que se expõe em perigo Outro fato que pode acontecer é a espontânea exposição da vítima a situação de perigo. Passagem interessante foi julgada pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. 121.

aceitou por antecipação grave risco que não afastava a perspectiva de redundar em evento lesivo. Ambos são co-participes de conduta ilícita.194 Hipótese mais complicada pode ser sugerida. da mesma Corte. que serviu de parâmetro: Direito Civil. a sua indenização será fixada levando-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do ofensor. em 16 de fevereiro de 1998. por inobservância do dever legal de conservar muros e tapumes na linha férrea. motores roncando. Até pode achar maior grau do motorista. da empresa que explora a ferrovia. aqui. Mal conservado o muro que cerca a via férrea. e o jovem “caronista” é vítima de ferimentos graves. Um jovem sabidamente arrojado aos perigos da direção dispõe-se a participar de “racha”. compensando-se. Atropelamento por trem. Culpa concorrente. o atropelamento deste resulta de concorrência de culpa: do pedestre. que a cada um a sua própria culpa. O exemplo acima abre ensanchas para o estudo da culpa concorrente. que se a vítima concorreu culposamente para que acontecesse o dano. relatado pelo Ministro Cláudio Santos.4 Culpa concorrente Pode a vítima conduzir-se com culpa concorrente à do ofensor. Parece que. A certa altura da tresloucada competição um acidente. enquanto o outro saiu ileso. Mas se sabe. às desoras da noite. por imprudência ao trafegar em passagens clandestinas. Não se ignora que é proibido transacionar com aleijões e ainda mais com a morte. viabilizando a passagem de pedestre. 945. Responsabilidade civil. Responsabilidade civil. por imprudência. Sem dúvida. Recurso especial conhecido e provido. quanto à ferrovia. Abalroamento de veículo em linha férrea. a vítima se propôs ao perigo. o que não se aceita – porque malfere a equidade – é um tratamento desigual apenas pelo fato de um ter sofrido lesão. 12. as culpas concorrem em igual grau. Forois ligados. em plena via pública. por negligência. até convencê-lo a permitir sua “carona”. dão início ao desatino. Sendo a culpa pelo acidente ferroviário imputável tanto à vítima. Partem para a aventura e se juntam a animado grupo contraventor da lei. Anuncia o art. Do corpo do acórdão destaca-se outra recurso. do Código Civil. No caso as duas partes contribuem na eclosão do evento danoso. também. impende reconhecer o dever de . e outro insiste em lhe fazer companhia.

os dois fatos concorreram decisivamente para o evento.195 indenizar proprocionalmente (STJ. fato que possibilitou a ocorrência de sucessivas colisões. pois a densa fumaça provocada pelo fogo impedia a visibilidade dos motoristas. pela relatoria do Desembargador Nelson Schiavi. também. Des. Magno Araújo. é responsável pelo evento. rel. sofre acidente mortal em elevador de hospedagem. Em lugar de se apurar quem teve a última oportunidade. Ari Pargendler. RT 852/193-194). RT 824/205). redobrada cautela destes. Resta.5. j. também menor. rel. a exigir. obstruindo a passagem de outros veículos. ingressou nessa cortina de fumaça e parou a sua condução sobre a pista de rolamento. de quem foi o ato que decisivamente influiu para o dano. o vulgarmente denominado “engavetamento”. Tampouco . igualmente.. máxime quando o local não oferece visibilidade. quem estava em melhores condições de evitar o dano. à espera do equipamento. o direito norte-americano elaborou a teoria da causa próxima: the last clear chance. assim interpretou esta teoria: Essa doutrina pode ser aperfeiçoada mediante sua transposição do tempo para o espaço.2. Em casos tais. por sua vez. permitindo que o menor ficasse na companhia do irmão. 3ª T.2006. isto é. De resto. acidentalmente. 5. pela reparação dos danos ocasionados aos hospedes nas dependências do estabelecimento. 6ª Câm. causando fumaça que invadiu a estrada. Julgando apelação da Comarca de Santa Rita do Passa Quatro. segundo a qual a parte que teve por último a oportunidade de evitar o dano.2004. Do corpo do acórdão segue a seguinte conclusão: Na verdade. é temerária a produção de fogo ao longo da rodovia e. Min. O co-réu. o que se deve verificar é quem teve a melhor ou a mais eficiente. razão pela qual tem o dever de indenizar os pais de menor que. j. 16. caracterizada a culpa concorrente dos pais se estes falharam no dever de vigilância para com seus filhos. Julgava-se acidente de trânsito em que os pressupostos do réu atearam fogo no capim existente à margem da rodovia divisa com a sua propriedade. apesar da imprudência ou negligência da outra parte. momento em que ocorreu o trágico infortúnio (TJSP.. a 7ª Câmara do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. independentemente de culpa. o hotel é responsável. a imobilização de veículo sobre a pista. Outro caso ilustrativo foi julgado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Na prestação de serviços de hotelaria. no entanto.

e aumentada por Rui Berford Dias. de si só. ambos foram condenados na composição da reparação. torna o fato do outro protagonista irrelevante para sua produção. 149) Dessa forma. a causa direta e eficiente do evento foi a existência da densa fumaça. ainda que imprudente. não se deve falar em concorrência de culpa. ou culpas.4 Critério para fixação da indenização À vítima impõe o dever de evitar o aumento do dano. O julgado induz a discutir situações em que. É quando uma delas é tão decisiva na intervenção do evento danoso. uma exclui a outra.212 Há casos em que não se pode afastar a concorrência de culpas. atualizada de acordo com CC de 2002. qual dos fatos. 4. vol. 946. foi decisivo para o evento danoso. determinasse. José de Aguiar. também. que inspira o acórdão acima transcrito. se não tivesse intervindo outro ato imprudente. aceita a culpa concorrente. revista. Noutras palavras: a culpa grave necessária e suficiente para o dano exclui a concorrência de culpa. p. deixa de ser relevante. Pensamos que sempre que seja possível estabelecer inocuidade de um ato. Isso é exatamente uma consagração da causalidade adequada. pois. Na abordagem dessas situações. 2006. Da responsabilidade civil. e. Esta preliminar não pode ser olvidada. com que o outro. leciona: Consideramos em culpa quem teve não a last chance. o acidente. já que essa não foi a causa do evento. porque se alguém tem a melhor oportunidade de evitar o evento e não a aproveita. 212 DIAS. Rio de Janeiro: Renovar. embora culposa e porventura interveniente. Para concluir: O que se deve indagar é. José de Aguiar Dias. que não tinha conseqüências. a culpa sem a qual o dano não se teria produzido. e aí adbrolha o problema da fixação do quantum debeatur. isto é. completado por ele. p. por vezes. isto é.196 procede a alegação de que um dos acidentes ocorreu em razão de não ter o preposto da autora guardado distância de segurança em relação ao veículo que lhe seguia à frente. quer por atos positivos ou por omissões. ou mesmo de minorar o já consumado. 11ª ed. qual dos atos imprudentes fez. que a outra. a circunstância de ter sido estacionado o veículo sobre a pista (RJTJESP. Na realidade. 99. embora haja culpa das duas partes. provocada pelo fogo ateado à margem da rodovia. mas a melhor oportunidade e não a utilizou. .

197 Posto o dever da vítima. O princípio básico desse critério é que as culpas se compensam reciprocamente. as duas responsabilidades se neutralizam e se compensam. em 1882.” Porém. na falta de um destes pressupostos. não sobrando margem para qualquer condenação por perdas e danos. cada um responde como incurso em uma condenação por perdas e danos na proporção e na medida da culpa que lhe for imputável. b) que os danos também sejam iguais. porque imputáveis tanto ao agente do fato como à vítima. as duas obrigações extinguem-se. Diferente se as responsabilidades forem desiguais. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. desenvolvido magnificamente por Demolombe ao comentar o Code Napoléon. como se as culpas forem díspares. cumpre relatar os dois critérios encontrados na doutrina. Critério talvez mais técnico com certeza mais completo. 209-210. no caso das duas mães. São seus pressupostos: a) uma lesão para a qual contribuíram a culpa da vítima e a do causador direto do dano. Ao juiz a difícil tarefa de determinar a medida e a proporção da contribuição de cada uma das culpas na eclosão do dano. p. Curso de direito civil. é o da partilha proporcional dos prejuízos. não há lugar para compensação. que pode ser ilustrado pela sentença bíblica proferida por Salomão que. Aliás. o que faz surgir o outro critério. Do Direito Romano vem o critério da compensação. 4 ed. Se as duas partes estiverem em posição de igualdade quanto as suas respectivas culpas. . do Código Civil: “Se duas pessoas forem ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra. Miguel Maria de Serpa. 1995. Aqui. até onde se compensarem. ensina Serpa Lopes. logo esta carece de legitimidade para pedir a cobertura dos danos experimentados. por existir maior gravidade de uma das culpas. sustentando que ambas suportariam os mesmos encargos. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. A primeira contemplação não difere. b) que as culpas de ambas as partes sejam do mesmo grau.213 213 LOPES. tendo em vista as circunstâncias. variadas e complicadas. revista e atualizada por José Serpa Santa Maria. 368. vol. a compensação é meio de pagamento indireto como consta da letra do art. e muitas vezes obscuras em cada caso concreto. pendia pela divisão igualitária.

no entanto. mesmo se o causador direto do dano tenha sido condenação no crime. Se a vítima não age com a cautela necessária para atravessar a rua em local apropriado. como matéria de defesa. A idade avençada da vítima e a debilidade de sua constituição física.525 do CC (de 1916) [atual art. j. 44: Le juge peut réduire les dommages-intérêts. Quando um facto culposo do lesado tiver concorrido para a produção ou agravamento dos danos. 935]. cabe ao tribunal determinar. a culpa concorrente da vítima. como concausas. 44. do Código das Obrigações da Suíça. vindo a ser atropelada.. quando demonstrada a imprudência da vítima (RT 439/112). se a indemnização deve ser totalmente concedida. Ementa Oficial: Se o juízo criminal reconheceu categoricamente que a morte da vítima decorreu de suicídio. em razão da culpa concorrente. os prejuízos devem ser somados e o total repartido entre elas na proporção à gravidade de suas respectivas culpas. em face do já exposto princípio da independência entre as duas instâncias de justiça: cível e criminal: “A condenação de motorista na justiça criminal não impede que na ação cível de indenização seja declarada a concorrência de culpa. RT 609/112). pois o causador do prejuízo é obrigado a suportar os riscos da receptividade pessoal da mesma (1º TACivSP.” 12. reconhecida – Redução proporcional do valor indenizatório.525 do CC. » . 23. lorsque la partie lésée a consenti à la lesion ou lorsque des faits dont elle est responsable ont contribué à créer le domange. na hipótese em que as vítimas agiram culposamente. sendo. Responsabilidade civil do Estado – Indenização – Morte em virtude de suicídio – Comprovação no juízo criminal – Aplicação do art.214 Assim também o Código Civil português: “Art. 214 Sob a rubica « Réduction de l’indemnite » o Código das Obrigaçoes suiço tem a seguinte regra : “Art.5 Condenação criminal Não fica arredada a possibilidade de se articular. impõe-se a aplicação do disposto no art. 570º.31986. 1. justificável a redução proporcional do valor indenizatório. reduzida ou mesmo excluída.198 É a solução encontrada no art. 1. Jurisprudência Responsabilidade civil – Atropelamento – Vítima de idade avançada e de constituição física débil – Falta de cautela para atravessar a rua – Fato que não elide a responsabilidade – Culpa concorrente. 1. à l’augmenter. Responsabilidade civil do Estado – Indenização – Evento danoso causado pela própria vítima – Inexistência de ato do Poder Público passível de causar dano. com base na gravidade das culpas de ambas as partes e nas circunstâncias que delas resultaram. portanto. concorre para o evento. ou même n’en pont allouer. 6ª Câm. não elidem a responsabilidade. ou qu’ils ont aggravé la situation du débiteur.

já que esse não podia desviar o trem das linhas de sua locomoção (1º TACivSP. Ementa da Redação: Não há de falar em dever de indenizar se o acidente ferroviário ocorreu por culpa exclusiva da vítima que. j. sentada na linha de trem. que o acidente ocorreu por culpa exclusiva da vítima. Juiz Barreto de Moura. da CF. 14. rel. 1ª Região. se o evento danoso foi provocado exclusivamente pela própria vítima. Acidente de Trânsito – Indenização – Queda de passageiro ao descer do veículo – Alegação de que este foi posto em movimento durante o desembarque – Inadmissibilidade – Provas que demonstram que o veículo estava parado quando da queda – Fato atribuível unicamente à demandante..2002. RT 808/429). Juiz Evandro Reimão dos Reis. rel.. 2ª Câm. consistente no dano sofrido pela vítima. Ementa Oficial: Apelação cível. Juiz Rubens Cury. na culpa do agente e no nexo de causalidade. II. § 6º. 37. RT 812/233). 24. 5. a despeito da aproximação da locomotiva cujo maquinista efetuou vários sinais sonoros antes de atropelá-la. acarretando o dever de indenizar os danos morais e materiais decorrentes. j.199 Ementa Oficial: É incabível indenização com fundamento no art.. Antonio Guerreiro Júnior. sentada na linha de trem. Acidente de trânsito.2001. 17. 2. do Dec. Responsabilidade civil. recusou-se a dali sair. Des. RT 810/260).10. Ementa da Redação: O atropelamento fatal de transeunte que atravessa a linha férrea enseja a responsabilidade civil objetiva. 3ª T. Acidente ferroviário – Responsabilidade civil – Ação Indenizatória – Sinistro que resultou na morte da vítima – Fato que não enseja o dever de indenizar em razão do evento ter ocorrido por culpa exclusiva da vítima que. rel.681/12. Acidente ferroviário – Responsabilidade civil – Ação indenizatória – Danos materiais e morais – Atropelamento fatal de transeunte que atravessa linha férrea – Inexistência de culpa exclusiva ou preponderante da vítima – Fato que enseja a responsabilidade objetiva ao dever de indenizar. Estando comprovado nos autos.2004. j.. 8ª Câm. uma vez que não demonstrada a culpa exclusiva ou preponderante da vítima (1º TACivSP.6. recusou-se a dali sair. 30. RT 834/339). Indenização.7. j. a despeito da aproximação do locomotiva cujo maquinismo efetuou vários sinais sonoros antes de atropelá-la – Inteligência do art. . Ementa Oficial: A ação de indenização com fundamento na responsabilidade civil a certeza há de vir na tríplice realidade. 2002. daí inexiste ato do Poder Público passível de causar dano (TRF. 7ª Câm. Ação indenizatória – Responsabilidade civil – Acidente do trabalho – Culpa exclusiva da vítima – Ausência de comprovação do nexo de causalidade entre o dano sofrido pelo empregado e a conduta do empregador – Verba devida.12. por falta de atenção – Verba indevida. rel. é de se manter a sentença que julgou improcedente a ação de indenização (TJMA.

RT 854/332). por exemplo. 72 1 Autonomia privada O princípio da autonomia privada oferece aos contratantes o poder de livre escolha das estipulações contratuais como melhor lhes convier. 12ª Câm. 4 Obrigação principal e acessória. 185. 12 Cláusula limitativa do dever de indenizar. 2 Ordem pública e bons costumes. Ausência de nexo de causalidade entre os danos e a conduta do preposto da empresa ou as condições do veículo. rel. por meio de acordo de vontade a disciplinar os seus interesses. 3. está na premissa de que o contrato é um acordo de vontade e o indivíduo somente contrata com quem quiser. A liberdade de com quem contratar. Fato absolutamente afastado pela prova. que é a escolha do outro contratante. Autonomia privada. Sumário da exposição. Alegação de que este foi posto em movimento durante a descida da demandante. j. R. Des. nos serviços públicos ou privados concedidos sob regime de monopólio. por falta de atenção (TJRS. suscitando efeitos jurídicos reconhecidos e tutelados pela ordem jurídica. 10. P. 750 LIMONGI FRANÇA P.8. 5. Cív. 10 Limites legais. como no caso do seguro obrigatório. Mas a abstenção de contratar padece temperamento imposto pela lei. VER RT 543/100 Cláusula de não indenizar 1. Fato atribuível unicamente à demandante. Cláudio Baldino Maciel. c) liberdade de fixar o conteúdo do contrato. Distinção entre normas cogentes e dispositivas. mas também importa exceção. 6 Conceito.. que demonstra que o veículo estava parado quando da queda. 9 Outros limites. 8 Incidência na responsabilidade civil contratual. 7 Denominação. ou não. VER STOCO P. e em que tempo sempre no interesse do contratante. A liberdade de contratar implica na escolha de contratar.2006. 732 C. . 11 Conclusão. GONÇALVES. a saber: a) liberdade de contratar: b) liberdade de com quem contratar.200 Queda de passageira ao descer do veículo.

isto são as regras da justiça donde necessariamente resultará. a que se refere à Constituição Federal no art. se encontrará por sua vez reconduzida a uma ordem sã e bem equilibrada. 9 A função social do contrato A função social do contrato. o interesse coletivo poderá ser afrontado. a cláusula de não indenizar. . XXIII. que essa liberdade contratual encontra limites na função social do contrato (CC. na Encíclica Quardagesimo Anno: Enfim as públicas instituições adaptarão a sociedade inteira às exigências do bem comum. o Código de Defesa do Consumidor preveja a tutela coletiva dos interesses difusos. encontra limites na supremacia da ordem pública e dos bons costumes. O contrato. debalde a sua natureza privada. dando origem. 421). e mesmo adotando novos tipos contratuais. que é a escolha de uma das modalidades de contrato reguladas pela lei. pois ambos poderão produzir efeito cascata sobre toda a economia. art. os contratantes podem escolher um contrato nominado ou típico. em outras palavras. aos denominados contratos inominados ou atípicos. não fáceis de serem estabelecidos com precisão e nitidez. 10 Ordem pública e bons costumes Conceitos abertos. Sendo assim. Vale lembrar importante lição do Papa Pio XI. em que todas as pessoas estão expostas a sua oferta ou publicidade. os contratos. contendo cláusula abusiva. A cada contratação por adesão. diga-se preliminarmente. que essa função tão importante da vida social. Urge considerar. são os relativos à ordem pública e aos bons costumes. dessa forma. coletivos e individuais homogêneos. por força da função social do contrato. resulta efeito de interesse coletivo. qual é a atividade econômica. justo ou injusto. ampliando ou restringindo os efeitos jurídicos do vínculo contratual. Toma-se o contrato de adesão. próprias da natureza jurídica do negócio jurídico que celebram. por identidade dialética guarda correlação com o princípio social da propriedade. 5º. Bem por isso. é lícito aos contratantes introduzirem no contrato alterações ou cláusulas que melhor se coadunarem com os seus interesses. repercutem socialmente. A uma. inc. distintos daqueles previstos em lei.201 A liberdade de fixar o conteúdo do contrato manifesta-se sob duas vertentes. A duas.

inferidos dos preceitos morais. Clovis. todas as normas de ordem pública. mas deriva dela. . As leis que tutelam a ordem pública e os bons costumes são normas de direito objetivo que se impõem como preceitos rigorosos. da natureza das relações contempladas e das razões sociais determinantes de cada norma. o ordenamento jurídico determina-lhes efeitos. os quais timbram a conduta das pessoas na vida familiar e social. 2 ed. denominadas de dispositivas ou facultativas. Sobre elas dizem os romanos: privatorum conventio iuri publico non derogat (a convenção dos particulares não derroga o direito público). que. contudo. por via de definição ou conceito geral.215 11 Distinção entre normas cogentes e dispositivas Sobre a distinção entre as normas cogentes e dispositivas. mas permite que a iniciativa das partes altere esse tipo de relação de modo diverso. p. para que se relacionem em consonância às elevas finalidades que caracterizam o ideal da própria vida humana. inderrogavelmente. uma vez que se referem ao recato das pessoas. 18 e segtes. É da natureza de cada disposição. 1980. são as normas supletivas de direito objetivo. princípios condizentes com a moral e a ética social. exercida pelo poder soberano do Estado e aceita pela comunidade ante o fato de criar condições essenciais a uma vida social conveniente. por Caio Mário da Silva Pereira. Assim. o legislador tende a imprimir esse maior grau de eficácia à disciplina de um número sempre crescente de relações. submetendo ao seu comando a vontade dos particulares. é espécie. 215 BEVILAQUA. atual. que. no direito moderno. Vicente Ráo escreve: Não é possível indicar a priori. à honestidade das famílias e à dignidade ou decoro social. Ao lado delas existem outras. a vontade geral. São chamadas de cogentes ou imperativas. Já os bons costumes são princípios reconhecidos e tutelados pelo direito. eram regidas pelas normas meramente dispositivas do direito privado. Seu campo de ação é o reservado à autonomia privada. pois apenas são aplicadas quando a vontade individual deixa de se manifestar.202 Por ordem pública entende-se a situação de legalidade normal. Possuem uma obrigatoriedade incondicionada. insuscetível de alteração ou de inaplicação pela vontade dos que lhes estão subordinados. destarte. Teoria geral do direito civil. Certo é. Não se confunde com a ordem jurídica. Rio de Janeiro: Rio. São. através das quais à vontade individual sobreleva-se. que esse caráter resulta. outrora. assegurando tranquilidade e segurança aos cidadãos e aos seus bens.

203 Por exemplo, a maior parte das relações de família é hoje regulada por normas de ordem pública, em especial as que, neste sentido, também se vem operando no direito obrigacional, em especial nos contratos de trabalho, de mútuo, de seguros, mesmo na compra e venda, na locação e em outros contratos mais; e igualmente sensível é a transformação, em curso, dos direitos reais e sucessórios, que sofrem, todos, inúmeras restrições, impostas à vontade das partes em benefício da comunhão social.216 Enfim, não há critério absoluto de distinção, contudo as normas cogentes, via de regra, são as constitucionais, as que se referem às bases econômicas ou políticas da vida social, como ainda as de organização da propriedade; outras vezes, são protetoras da pessoa na vida social, como as de capacidade; outras sancionam os direitos individuais e sociais, como as penais e processuais; ainda outras têm feição de polícia judiciária, sempre que rejeitam as ofensas aos bons costumes; por fim há uma classe que assume a feição de ordem pública, em razão de derivar, necessariamente, da essência de um instituto jurídico estabelecido, como aquela que impõe o dever de convivência dos consortes, consectários imediato do casamento.217 12 Obrigações principais e acessórias Dentro desse quadro é que se formam as obrigações e se pode afirmar que, ordinariamente, elas são autônomas, providas de existência própria, são as principais. Excepcionalmente, porém, há obrigações que dependem de outras, são as acessórias, aquelas cuja existência pressupõe a das principais. 13 Sumário da exposição Na aplicação dos conceitos expostos, reiteram-se as premissas da cláusula de não indenizar: a) É eleita pelas partes contratantes dentro do princípio da autonomia privada, por isso própria da responsabilidade civil contratual; b) Não pode contrariar a ordem pública e os bons costumes; c) Não pode modificar as normas cogentes ou imperativas, portanto seu âmbito de incidência são as normas dispositivas ou facultativas;
216

RÁO, Vicente. O direito e a vida dos direitos, 4 ed., anotada e atualizada por Ovídio Rocha Barros Sandoval. São Paulo: RT, 1997, p. 213. 217 BEVILAQUA, Clovis. Teoria geral do direito civil, 2 ed. atual. por Caio Mário da Silva Pereira. Rio de Janeiro: Rio, 1980, p. 19.

204 d) É uma obrigação acessória que adere à principal. 14 Conceito Praticado o ato ilícito, decorre como consequência natural das regras morais e da ordem jurídica, o dever de indenizar o dano dele originado, mas ao agente é permitido, eventualmente, invocar a cláusula de não indenizar para, dessa forma, eximir-se do ressarcimento. A cláusula de não indenizar pode assim ser conceituada como a convenção acessória à principal celebrada entre as partes contratantes, que estabelece a isenção da reparação de eventual dano, futuro e involuntário, por inexecução relativa ou absoluta de uma obrigação. É dizer, ficam arredadas as consequências ordinárias procedentes da inexecução ou da execução imperfeita de um contrato; logo, o devedor alforria-se da reparação do dano que, no futuro, vier a ocasionar involuntariamente no âmbito das relações contratuais. Cita-se, por exemplo, o recurso especial 13.027-RJ, da 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, relatado pelo Ministro Waldemar Zveiter: Danos causados a veículos, em estacionamento de condomínio, cuja convenção contém cláusula de não indenizar, não são ressarcíveis. Isto proque, tratando-se de direito disponível, a cláusula de irresponsabilidade é emanação da liberdade de contratar; todavia, sujeita-se às restrições impostas pela ordem pública. Só pode ser estipulada quando a regra legal aplicável, meramente supletiva da vontade das partes, admite livre manifestação destas (no mesmo sentido REsp. 168.346, rel. Min. Waldemar Zveiter, DJ 6.9.1999). 8 Denominação Cuida-se relembrar a distinção entre obrigação e responsabilidade. Aquela é o dever originário que tem por fonte a lei ou o contrato; esta é um dever sucessivo, decorrente da violação do dever originário. Só há responsabilidade quando do descumprimento de uma obrigação. Sendo assim, a cláusula de não indenizar não afasta a responsabilidade, apenas prevê, pela convenção das partes, a não reparação do dano pela violação da obrigação. Não se cogita de cláusula de irresponsabilidade, mas de cláusula de não indenizar. Não cabe confundir, destarte, as causas de irresponsabilidade com a cláusula de não indenizar. Nas primeiras afasta-se a própria responsabilidade, não há ato ilícito. Entre a ação ou omissão do agente e o dano experimentado pela vítima inexiste nexo de causalidade. Na segunda afasta-se, tão somente, a indenização do dano, fica presente o ato ilícito. Por outro ângulo, as

205 causas de irresponsabilidade fundam-se na lei; enquanto que a cláusula de não indenizar, no princípio da autonomia privada e na liberdade de contratar. 9 A incidência na responsabilidade contratual A cláusula de não indenizar não incide em matéria delitual, isto é, na responsabilidade civil extracontratual, pois as partes nada contratam. Aliás, admiti-la nesta seara, é enfraquecer o dever objetivo de conduta que a lei impõe na vida em sociedade. Seria como que convencionar, de modo geral, que a culpa não é culpa, e o mais grave, que o dolo não é dolo. A questão é, entretanto, controvertida. O mais insigne doutrinador pátrio de responsabilidade civil, José de Aguiar Dias, aceita a cláusula em matéria delitual, ao citar o exemplo dos irmãos Mazeaud, na qual o titular do direito de caça tem como prováveis certos danos às culturas ou plantações do respectivo terreno. O proprietário concedendo-lhe, porém, o direito de caçar, estará a lhe propor estipulação de não indenizar. Louva-se ainda de outra passagem, esta da pena de Josserand, que observa nada impedir que os vizinhos renunciem, por convenção, a demandarem por danos que nos seus respectivos terrenos causem animais de criação ou de caça. E acrescenta que a ordem pública não é transgredida por esse modus vivendi que, ao contrário, visa assegurar a harmonia da vizinhança.218 Já posteriormente, é peremptório: “Não se admite cláusula de exoneração de responsabilidade em matéria delitual. Seu domínio se restringe à responsabilidade contratual e nele mesmo sofre restrições.”219 Mais conveniente, assim a opinião dominante, que essa cláusula é própria da responsabilidade civil contratual.220 Não sendo prevista no Código Civil revogado, nem no atual, a doutrina e a jurisprudência buscam subsídios no direito comparado.
218

DIAS, José de Aguiar. Cláusula de não-indenizar: chamada cláusula de irresponsabilidade, 4 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 242. 219 DIAS, José de Aguiar. Da responsabilidade civil, 10 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1995, vol. II, p. 671. Esta obra revista, atualizada de acordo com o CC de 2002, e aumentada por Rui Berford Dias, 11 ed., Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 906, acresce a expressão: “em princípio”, o que leva a entender que ameniza a afirmação original. 220 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade civil, 2 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991, p. 325 e ss. GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade civil: doutrina, jurisprudência, 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 744 e ss. CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade civil, 7 ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 497 e ss. VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil, 9 ed. São Paulo: Atlas, 2009, vol. 4, p. 61. GAGLIANO, Pablo Stolze e outro. Novo curso de direito civil, vol. III: responsabilidade civil, 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 118.

206 O Código Civil italiano estampa previsão expressa no art. 1.229, inserido que está em matéria contratual, por conseguinte refere-se ao devedor, dispondo sua nulidade em caso de dolo ou culpa grave. Nesse norte, é a jurisprudência francesa. Admiti-la na culpa grave e no dolo seria como que assegurar a impunidade às ações e omissões danosas de maior gravidade, o que malfere a própria ideia de ordem pública.221 Se o dolo é a intenção de causar o dano, admiti-la seria o mesmo que aceitar, da parte isentada, a contratação com a prévia intenção de não cumprir a prestação obrigacional; seria incentivar a má-fé. Se a culpa grave é a incivil ausência de vigilância, ou a correspondente falta extraordinária de atenção que se identificaria no caso de que qualquer pessoa pudesse prever o resultado, seria permitir que se atuasse na vida social sem a mínima solicitude, sem o mínimo desvelo ou cuidado de não produzir dano a outrem. E o neminem laedere é uma regra fundamental de toda sociedade civilizada, ou a “regra moral elementar”, no dizer de Georges Ripert.222 Demais disso, vem desde o Direito Romano a sentença: culpa lata dolus equiparatur. Acerca da culpa grave, Aguar Dias, arrimado em Cassvan, criva categoricamente: Admitir que, salvo prova do dolo, a culpa seja afastada pela cláusula parece-nos contradizer a própria ideia da ordem pública. Não é tanto em virtude da responsabilidade delitual, mas da necessidade de impedir o devedor de praticar negligencias por demais grosseiras – o que seria imoral – que se deve deduzir a proibição da cláusula.223 Sílvio Rodrigues é peremptório quanto ao dolo: Seria da maior imoralidade admitir-se a ideia de alguém fugir à responsabilidade pelo inadimplemento da avença, por sua deliberada e exclusiva decisão. Aliás, na hipótese a cláusula seria ineficaz em virtude do disposto no art. 115 do Código Civil [atual art. 122], que veda as condições potestativas. E arremata quanto a culpa grave: [...] parece imoral admitir-se a isenção de uma responsabilidade, quando o inadimplemento foi gerado em falta inescusável do contratante. Daí a razão

221 222

CAVALIERI NETO, Sergio. RIPERT, Georges. A regra moral nas obrigações civis. Campinas: Bookseller, 2000, p. 205. 223 DIAS, José de Aguiar. Cláusula de não-indenizar: chamada cláusula de irresponsabilidade, 4 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 100-101.

2000. vol. É da jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: O dever de indenizar decorrente da simples guarda da coisa. p.. t. Se alguém escolhe guardar o seu carro em um estabelecimento aberto ao público. São Paulo: Saraiva. Voz discordante SALVAT. Seria como assumir uma obrigação e se furtar a cumpri-la. no respeitante a seus efeitos pode-se dizer que a falta grave ao dolo se assimila.207 por que. ao invés de deixá-lo exposto no meio fio da rua. p.225 15 Outros limites A cláusula em testilha revela-se inoperante se afastar obrigações essenciais do contrato. 224 225 RODRIGUES. Sílvio. Bueno Aires: Editorial BS Aires. Tratado de derecho civil argentino. III. Raymundo M. assim inoperante a cláusula de não indenizar em caso de furto ou roubo. pois contraria à essência e ao próprio objeto da convenção (RT 670/73). [s/d]. I. 4. 80. Direito civil. A cláusula contratual que exclua a responsabilidade do estacionamento por danos eventualmente ocorridos no bem ali depositado não pode prevalecer. é porque pretende que seja guardado com segurança. 181-182.224 Em ambos os casos há uma concordância da moral e da ordem pública na imposição de uma censura à pertinência dessa cláusula exonerativa da indenização. . mostrando-se aplicáveis à espécie as mesmas regras disciplinadoras do contrato de depósito. vol.

208 .

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