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APONTAMENTOS DE RESPONSABILIDADE CIVIL
I CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1.1 Conceito de responsabilidade civil; 1.2 Decomposição do vínculo jurídico: distinção entre dever jurídico originário e sucessivo; 1.3 Evolução da responsabilidade civil; 1.4 Responsabilidade penal e civil; 1.5 Espécies e pressupostos da responsabilidade civil.

1.1 Conceito de responsabilidade civil O Direito conjuga o humano e o social, porquanto ele existe em razão das pessoas que se interagem na convivência em sociedade (ubi homo, ibi societas). Sociedade e Direito são realidades conatas e se pressupõem: onde está a sociedade, está o Direito (ubi societas, ibi ius), sendo a recíproca verdadeira, onde está o Direito, está a sociedade (ubi ius, ibi societas), logo onde o homem está, está o Direito (ubi homo, ibi ius). Consequentemente, toda regra jurídica tem por referência a convivência das pessoas na sociedade. Magistral a ensinança de Ihering: Vida humana e vida social significam o mesmo. Isto já os velhos filósofos gregos reconheciam perfeitamente: não há aforismo que exprima de modo mais conciso e cabal a vocação do homem do que a denominação dele como zoon põlitikòn, ser social.1 O Direito tem o propósito de viabilizar a coexistência na liberdade de cada um e de todos no interesse do bem comum, motivado pelos valores da ordem e da justiça, que devem ser estabelecidos na solidariedade, de modo que, no auxílio mútuo, sejam superadas as desigualdades discriminatórias, consoante os objetivos fundamentais estampados no art. 3º, da Constituição Federal. É a busca criteriosa e interrupta do consenso sobre o justo e o injusto o justo e o injusto, o lícito e o ilícito, garantindo a segurança nas relações entre os homens, e ao mesmo tempo permite a cada pessoa encontrar-se e definir-se dentro do seu contexto existencial. Nessa busca incessante cabe à Moral fecundar o Direito, para que ele encontre maior grau de adesão e obediência cívica.

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IHERING, Rudolf von. A finalidade do direito. Tradução de José Antônio Correa. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1979, vol. I, p. 48.

2 A ordem jurídica, leciona San Tiago Dantas, apresenta duplo sentido: “proteger o lícito e reprimir o ilícito. Quer dizer, proteger a atividade do homem que se explica de acordo com o direito; reprimir a atividade do homem que se explica contrariamente ao direito.”2 Sendo assim, a noção de Direito vincula-se à noção de composição dos conflitos de interesses, tendo por escopo o atendimento dos valores da ordem e da justiça, com igualdade e liberdade, essenciais à dignidade humana. A regra jurídica, por conseguinte, além de operar como regra de conduta, também opera como dissipadora de conflitos, valendo como paradigma para o comportamento futuro. Particularmente, o Direito Civil objetiva as relações jurídicas em que pode envolver-se todo cidadão, isto é, refere-se a todos indistintamente na regulação das atividades intersubjetivas em geral, tanto das pessoas naturais como das pessoas jurídicas. Mota Pinto assegura que é o ramo do Direito dirigido à tutela da personalidade humana, visando “facilitar ou melhorar a convivência com outras pessoas humanas – é essa a zona central da vida em sociedade e é ela o campo próprio da incidência do Direito Civil.”3 Miguel Reale pondera que, em um País, a Constituição e o Código Civil são as duas leis fundamentais. A Constituição “estabelece a estrutura e as atribuições do Estado em função do ser humano e da sociedade civil”, enquanto o Código Civil refere-se “à pessoa humana e à sociedade como tais, abrangendo suas atividades essenciais.”4 O Direito Civil é, pois, o direito comum, incidente nas relações humanas partilhadas na vida diária, disciplinando os direitos da personalidade, os interesses familiares e os patrimoniais pertinentes à propriedade dos bens, às obrigações e à responsabilidade civil. Desponta daí, que o modo de composição patrimonial dos conflitos de maneira a reparar o dano (an debeatur) a favor de quem o sofre, pela representação pecuniária equivalente (quantum debeatur), ilustra ao longo do tempo a trajetória da responsabilidade civil, pois ela se assenta no elementar princípio ético de que o dano causado pelo descumprimento de um dever jurídico contratual ou extracontratual deve ser reparado. A regra é primum non nocet (em primeiro lugar não fazer o dano); feito o dano, porque ofende o dever jurídico sintetizado no adágio alterum non laedere (não lesar a outrem), cumpre a obrigação de indenizar. Essa é uma das facetas mais almejadas da concreção do Direito: a busca perene e renovada do justo e do equânime. Ou por outra, a tendência humana, cara ao
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DANTAS, San Tiago. Programa de direito civil. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1979, vol. I, Parte Geral, p. 341. PINTO, Carlos Alberto da Mota. Teoria geral do Direito Civil. Coimbra: Coimbra Editora Ltda., 1976, p. 10. 4 REALE, Miguel. O projeto do Código Civil: situação após a aprovação pelo Senado Federal, 2ª ed. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 2 e 3 .

3 jusnaturalismo, sintetizada na arcaica e simplificada regra sustentáculo da vida honesta, desde a Jura Praecepta do Direito Romano: honeste vivere, neminem laedere, suum cuinque tribuere (viver honestamente, não lesar a ninguém, dar a cada um o que é seu). Nesse contexto, mostra-se atual o sinótico conceito de René Savatier: “Responsabilidade civil é a obrigação que incumbe uma pessoa de reparar o prejuízo causado a outra, pelo fato próprio, ou pelo fato de pessoa e coisas que dela dependam.”5 Detalhando Savatier. a) Dever jurídico que obriga uma pessoa, devedor, a reparar o dano causado à outra pessoa, credor; b) Em razão de ato próprio: confundam-se na mesma pessoa quem causa o dano e quem terá a obrigação de repará-lo; c) Pode o dano ter sido causado por uma pessoa e a obrigação de indenizar recair sobre outra pessoa, no caso o seu responsável; d) Pode ainda o dano ter sido causado por animais ou coisas inanimadas e a indenização ficar por conta de quem tem a sua guarda ou propriedade. Consiste, destarte, na obrigação de o agente causador de um ato lesivo indenizar a vítima, ajustando-se perfeitamente ao conceito genérico de obrigação, que é o direito do credor de exigir certa prestação do devedor. Por conseguinte, o instituto da responsabilidade civil é parte integrante do Direito das Obrigações, aplicando-se a ele o princípio obrigacional de quem deve atender a indenização é o devedor e o seu patrimônio responde pelo débito, como providencia o Código Civil no artigo 391 (Título IV, do Inadimplemento das Obrigações, Capítulo I, das Disposições Gerais) e o artigo 942 (Título IX, Da Responsabilidade Civil, Capitulo I, Da Obrigação de Indenizar). Senão nota-se: a) É fonte de obrigação: do dano nasce a obrigação de indenizá-lo. b) É uma obrigação de dar pecuniária: essa indenização é o equivalente do dano em moeda corrente. c) É a tutela genérica das obrigações de dar, fazer ou não fazer: se impossível restabelecer o stato quo ante pela tutela específica, resolve-se pela tutela genérica das perdas e danos.

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SAVATIER, René. Traité de la responsabilité civile, tome I : Le sources e la responsabilité civile . Paris : Libraire Génerale de Droit et de Jurisprudence, 1939, Introduction, p. 1 : “La reponsabilité civile est l’obligation qui peut incomber à une personne de réparer le dommage causé à autri par son fait, ou par le fait des personnes ou des choses dépendante d’elle. »

4 Assim, a responsabilidade civil é o instituto jurídico de fundamental importância para a resolução dos conflitos de interesses com tríplice função: a de garantia, a de sanção civil e a de prevenção. A função-garantia outorga à vítima do dano o direito de se ver ressarcida. A funçãosanção imputa ao agente causador do dano o dever de compor esse ressarcimento. A funçãopreventiva atua em duas facetas distintas. A uma, opera como coação psicológica, prevenindo a coletividade de novas violações que poderiam eventualmente ser realizadas, pelo próprio causador do ilícito, ou por qualquer outra pessoa. A duas, o desafio de aperfeiçoar o sistema para evitar situações de perigo, o quanto possível, pois afastá-las de todo é impossível. Nota-se, essa terceira função é decorrência natural das duas funções precedentes. Há de se entender, na vida social a pessoa humana tem liberdade para o exercício de seu direito, como tem responsabilidade no exercitá-lo. Jean Paul Satre pontifica que o ser humano ontologicamente não possui liberdade, ele é liberdade em sua essência; “assim, minha liberdade está perpetuamente em questão em meu ser; não se trata de uma qualidade sobreposta ou uma propriedade de minha natureza; é precipuamente a textura de meu ser.”6 Essa liberdade como atributo caracterizador do ser do homem não pode, por parte da lei, sofrer restrições, mas o seu exercício impõe limites, pois sempre coexistem boas e más intenções, sendo fortes e fracos bondosos e maldosos, por isso que a nobreza do exercício da liberdade é medida pelo do fim a que se destina. Nada mais lúcido, portanto, que ao lado da liberdade, como parelha inseparável, está a responsabilidade. José de Aguiar Dias inaugura sua clássica obra, com esta frase: “Toda manifestação da atividade humana traz em si o problema da responsabilidade”, para depois em referência a Marton, completar: “A responsabilidade não é fenômeno exclusivo da vida jurídica, antes se liga a todos os domínios da vida social.”7 Daí a pertinente pergunta de Viktor Emil Frankl: “Quando se resolverão a levantar na costa ocidental [de Nova Iorque] uma estátua da Responsabilidade, a fazer pendant com a estátua da Liberdade, da costa oriental?”8

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SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada. DIAS, José de Aguiar. Da responsabilidade civil, 10 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1995, p. 1-2. 8 FRANKL, Viktor Emil. Psicoterapia e sentido de vida. Fundamentos da logoterapia e análise existencial. Tradução de Alípio Maia de Castro. São Paulo: Quadrante [s.d.], p. 106.

reside aqui a responsabilidade. é o direito do credor de investir contra o patrimônio do devedor. cumpre a prestação de serviços profissionais na defesa dos direitos de “B”. Para ele o débito. então. o objetivo e o espiritual ou vínculo jurídico. primário. viola o dever jurídico que voluntariamente assumiu. outro dever jurídico. ao qual se obriga o devedor.2 Decompondo o vínculo jurídico: distinção entre dever jurídico originário e sucessivo A estrutura da obrigação apresenta três elementos: o subjetivo. ao contrário. O subjetivo é o pessoal. o Código Civil no art. e obter a devida indenização pelos prejuízos ante o . e o objeto mediato ou objeto da prestação é desvendado na resposta à seguinte pergunta: dar. Já a responsabilidade. Desdobra-se em dois momentos. qual seja compor o prejuízo experimentado por “B”. Revela a jurisdicidade da relação obrigacional. cujo objeto imediato é uma prestação de dar. portanto sucessivo. Surge. devedor. não cumpre a sua obrigação. Reside aqui o débito: “A”. que a chama de haftung. O espiritual é o vínculo jurídico. “A”. aquele que tem o direito de receber a prestação. O objetivo é o componente material. entretanto. aquele que é obrigado a cumprir a prestação. Não a gosto dos unitaristas que resumem os dois momentos em um único. o dever jurídico originário e o dever jurídico sucessivo. dever jurídico originário. fazer ou não fazer. reúne no polo passivo o devedor. e no polo ativo o credor. contrata com “B”. que o chama de schuld. secundário. que depende com exclusividade de uma ação ou omissão do devedor. advogado. Essa obrigação de fazer é dever jurídico originário. por intermédio de Alois Brinz. o devedor responde por perdas e danos.5 1. Essa distinção deve-se ao Direito alemão. Como clarifica a seguinte passagem: “A”. é a resposta do ordenamento jurídico ante o inadimplemento de um negócio jurídico bilateral ou unilateral. possibilitando a este exigir daquele o adimplemento da prestação. 389 distingue obrigação e responsabilidade: não cumprida a obrigação. enquanto o dever jurídico sucessivo de ressarcimento do prejuízo. defendê-lo em determinada ação. o liame que liga os polos passivo e ativo de uma obrigação. credor. independe da vontade das partes. O dever jurídico sucessivo (responsabilidade) toma o lugar do dever jurídico originário (débito). fazer ou não fazer o quê? A resposta é o bem da vida perseguido pelo credor. seu cliente. dever jurídico sucessivo. O dever jurídico originário nasce pela vontade das partes. é o pagamento espontâneo pela realização da prestação. o primeiro a separar esses dois momentos da relação obrigacional.

se pagar é pagamento com direito de retenção. antes de se obter o momento da responsabilidade decorre o momento da infração de um dever jurídico próprio de uma obrigação preexistente. p. quando não há um contrato celebrado entre devedor e credor. Falece do momento sucessivo da responsabilidade. a fim de receber seu crédito com o constrangimento do patrimônio do devedor. a responsabilidade. » . Para se saber quem é responsável. O fiador não é devedor. tanto contratual como legal ou extracontratual. Aqui se encontra a responsabilidade civil contratual. desprovida do momento sucessivo da responsabilidade. no entanto. quando o credor promove ação sobre os bens do devedor. apenas no seu primeiro momento: o débito que é o pagamento espontâneo. surge. praticando (ou omitindo) tal ato? Se a pergunta for satisfatoriamente respondida. mas não o débito. ou seja. se insatisfatória será ele condenado. há a responsabilidade. O mesmo acontece na prática do ato ilícito. obrigações prescritas etc. No caso da fiança. é o garante do devedor. os autores alemães demonstram a existência de débito sem responsabilidade. Destarte. É o caso das dívidas de jogo proibido. em razão desse inadimplemento.1 Figura criada por Marton Sendo assim. A obrigação é imperfeita ou natural. 2. o interrogado estará desobrigado. isto é. na qual o órgão mantenedor da norma interroga do violador: “por que faltaste a teu dever. este. Les fundaments de la responsabilitè civile: révision de la doctrine essai d’un système unitaire. Não apenas. Se alguém pratica um ato ilícito. na responsabilidade civil extracontratual. Demais disso. abrolha a responsabilidade. Há devedor e credor. o fiador tem apenas a responsabilidade e não o débito. assim inexigível. 1938. prestação e vínculo jurídico. Se este não paga a prestação. É o mecanismo da responsabilidade elaborado na figura criada por Marton.6 inadimplemento voluntário da obrigação. o credor não pode. É o pagamento forçado com o socorro do Poder Judiciário. indaga-se quem é obrigado. Paris: Sirey. Logo. descumprindo uma obrigação legal.9 9 MARTON. forçar o pagamento. só então surge a responsabilidade daquele. que é o dever de indenizar o dano causado. via Poder Judiciário. a relação obrigacional apresenta dois momentos bem distintos: se o devedor não pagar a prestação espontaneamente. 263 e 264 : « porquais as-tu manqué à ton devoir en faisant (ou omittant) tel ou tel acte. G.

portanto compreende a faculdade de reagrupar os elementos que compõem a facticidade. entretanto. sobretudo. significa. Nesse núcleo pessoal noético pertencem os fenômenos que lhes são mais exclusivos. fonte de todas as atividades efetivamente humanas. essa pessoa humana. decidir. o direito à liberdade de professar credo religioso. a responsabilidade civil açambarca a proteção integral da pessoa humana. conceitua-se a pessoa humana. As dimensões somática e psíquica correspondem à esfera da facticidade: impulsos. necessidades biológicas. reconhece. impulsionado. como uma unitas multiplex. muitas outras vezes. vê-se sob a iminência de risco a todo momento. então. Essa é a teologia própria do ser humano. Pois bem. embora laica. apenas por viver em uma sociedade de massa. que aponta para a realização de si através da transcendência. apelar para esse núcleo noético. abrir-lhe um horizonte de valores e de sentido. enquanto que a dimensão noética corresponde à esfera da existência: liberdade e responsabilidade. Nessa dimensão a pessoa humana não é um ser guiado. pouco. mas é um ser livre e responsável. reprimida pela violência branca que a sociedade liberal manobra explicita ou implicitamente. que a responsabilidade civil proteja. . 10 Muito se fala em proteção à pessoa humana. como a capacidade de amar. para usar a expressão tão comum em Santo Tomás de Aquino. Educar a pessoa humana. descobrir e realizar valores. a sua conduta no meio social. com capacidade e possibilidade de resistir e superar os impulsos tendentes a determinar e condicionar o seu comportamento. aqui compreendido o anseio transcendental. pois a sociedade atual. a qual deve ser entendida na sua mais ampla concepção. indiscriminadamente. Necessário. que apresenta um projeto no qual considera salvaguardada a unidade antropológica sem minimizar as diferenças ontológicas – corpo. é o que se procura nessa oportunidade. adormecida algumas vezes por limitações de ordem pessoal e. os seus interesses e direitos patrimoniais e da personalidade em todas as suas dimensões. instintos. A pessoa humana aparece centrada em torno de uma realidade pessoal. considerada na sua inteireza. psique e noéses – que se revelam inevitavelmente na análise fenomenológica do ser humano. constitucionalmente.7 Proteção integral da pessoa humana10 Pelo exposto. Cai a fiveleta o conceito de Victor Emil Frankl.

2 Reparação patrimonial 11 LIMA. por tendência natural. tida por diligente porque vocacionada a bafejar todos os ramos do Direito com a eficácia de seus valores e princípios. Revista e atualizada por Ovídio Rocha Barros Sandoval. pois a pessoa. Culpa e risco. evolução. em breves pinceladas enfocar o seu escorço histórico que. dente por dente. Era a fase da reparação do mal pelo mal.3.C. Cuida-se. No mesmo sentido: PEREIRA.11 1. sem desprezar os direitos patrimoniais. Responsabilidade penal e civil não se distinguiam. que sofra a pena de talião. Rio de Janeiro: Forense. a vingança coletiva. Alvino. ganha novo vigor com a sua carga axiológica na defesa da dignidade humana e dos direitos da personalidade.8 Nesse desiderato. a Constituição Federal. é vocacionada a ser proprietário. Essa vingança coletiva foi sucedida pela reação privada. infringindo no ofensor dano idêntico ao sofrido. assim. lei 2ª: si membrum rupsit. 27. estágio atual e perspectivas futuras desse instituto. 6. p. o grupo reagia contra o agressor pela ofensa de um de seus membros. Na Lei das XII Tábuas. 1991. em verdade. feitio de reação espontânea e natural ou a vingança pura e simples. encontram-se vestígios da vingança privada. ni cume eo pacit. é o critério inserido na tábua VIII. São Paulo: RT. sem arredar a possibilidade de as partes transacionarem. o patrimônio mínimo é da essência na precaução de uma vida digna. Estava-se sob a égide da Lei de Talião (talio) sistematizada na fórmula: olho por olho. 1. Ademais. salvo se existir acordo).3. 1998. Responsabilidade civil. 2 ed. a responsabilidade era objetiva. Ao poder público somente cabia intervir para coibir os abusos. 1.. 450 a. . Caio Mário da Silva. declarando quando e como a vítima poderia ser recompensada pelo seu direito retaliado. selvagem talvez porque se fazia justiça pelas próprias mãos.1 Reparação do mal pelo mal Nos primórdios da civilização predominava a vindicta.3 Evolução da responsabilidade civil A evolução da responsabilidade civil realça ainda mais a proteção integral da pessoa humana. Presta-se também para a boa compreensão do fundamento. p. acompanha o homem desde os mais priscos tempos. É a vingança individual. talio esto (se alguém fere outrem. não se cogitava a culpa como seu fundamento.

. É a noção de pecado como consciente violação a dever de ordem divina. do CC francês: “Tout fait quelconque de l’homme qui cause à autrui un domange. .382. O Senado teria se sensibilizado com os ritos corporais macabros.12 Com a revolução industrial a sociedade transformou-se rapidamente. A teoria da culpa tornou-se insuficiente para atender os mais variados casos de danos 12 O pensamento de Domat. ademais. banindo-os. nesse entretanto. que produzissem dano injusto a outrem. é sucedido na contenção da responsabilidade civil à responsabilidade patrimonial. plantando suas raízes no Direito Romano. a segurança no seu antônimo a insegurança. que a ela se prende a denominação de aquiliana para a responsabilidade extracontratual em oposição à contratual. Deu-se. Os canonistas elaboraram. o damnum iniuria datum: o dano causado a bem alheio. editada 326 a. à la réparer » (Qualquer fato humano que cause a outrem um dano. Na Idade Média. obriga o culpado a repará-lo). A concepção de pena foi substituída pela ideia de reparação do dano sofrido. esboçando a perspectiva de uma composição entre a vítima e o agente causador do dano inserida na solução transacional. tendo como principais elaboradores dois exponenciais civilistas franceses Domat e Pothier e como tenazes defensores André Tunc e os irmãos Mazeaud. A culpa ganhou fortes contornos éticos e morais. Ela esboçou a ideia de culpa como fundamento da responsabilidade civil. à luz da moral cristã. tanto que Josserand forjou a frase: “vivemos mais intensamente (Roosevelt) e mais perigosamente (Nietzsche)”. inspirou o art. seguiu-se a estruturação da ideia de dolo e culpa como a mais importante contribuição. dessa sorte o causador do dano que tivesse laborado sem culpa seria isento de qualquer responsabilidade. Introduziu também a ideia da reparação pecuniária do prejuízo. 1. que a responsabilidade civil ingressou no Direito moderno. Tão grande é a evolução trazida pela Lex Aquilia. O sossego e a tranqüilidade transmudaram-se em excitação. oblige celui par la faute duquel Il est arrivé. proposta pelo tribuno romano Aquilio em 286 a. a separação da responsabilidade civil e penal pela Lex Poetela Papiria. Essa lei introduziu. ligados à ideia do livre-arbítrio e de sua indevida utilização pelos fieis.C. do Direito Romano.C. À Lex Aquilia de Damno. Foi por meio da teoria subjetiva. coube desvendar novos horizontes. então. empobrecendo a vítima sem enriquecer o ofensor. O seu fundamento é a culpa efetiva e provada.9 O período dessa equivalência da punição do mal pelo mal. à luz do jusnaturalismo. Grande a contribuição. o princípio clássico segundo o qual cada um deveria responder pelos seus atos culposos.

o berço foi a França com Saleilles e Josserand. a comuna ou o explorador da aeronave em seu próprio segurador por motivo dos riscos que criou. 3. embora socialmente úteis. princípio valioso para uma sociedade laboriosa. para que não fique irressarcível. ou. ai está o encargo). exigindo a revisão em prol da mantença do justo.”13 É a responsabilidade civil objetiva que. pois as soluções teóricas e jurisprudências até aqui desenvolvidas. p. 2005. independentemente de culpa. e ao longo de toda a história da humanidade. responde pelos danos sofridos pelo empregado em consequência e por ocasião da jornada de trabalho. elegeu o risco criado nas atividades perigosas como motivação determinante do ressarcimento ante o prejuízo de vítimas inocentes. que traz em seu âmago a teoria do risco proveito. Mais uma vez. em sua tese de livre docente. Uma verdadeira revolução. dispensando qualquer consideração a respeito da culpa. que se adote uma política preventiva ao dano dentro da teoria da responsabilidade civil. Clama mais. Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka sugere o que chama responsabilidade pressuposta. com sua visão profética. a máxima: ubi emolumentum. ainda mais desenvolvida. pelo menos. ibi onus (onde está o ganho. há um sistema já existente que reclama transformação. Responsabilidade pressuposta. a idéia de mérito ou de demérito nada tem a ver no caso. E Lembra logo no pórtico de seu trabalho: Há um novo sistema a ser construído. desenvolveu a teoria sobre o acidente do trabalho em que o empregador. apresentada na Faculdade de Direito da USP. a iniciativa. . O primeiro. reforçando as ideias objetivas. a ação devem ser por si mesmas geradoras de responsabilidades. Nos dias atuais. Do 13 14 JOSSERAND. 548. 86. a lei impõe o princípio justo e salutar “a cada um segundo seus atos e segundo suas iniciativas”. que clama pela reparação dos danos sofridos. Giselda Maria Fernandes Novaes.14 A ensinança dessa mestra coloca no cerne das preocupações contemporâneas a pessoa humana.10 produzidos pelas novas atividades perigosas. encontram-se em crise. Revista Forense vol. dissociando completamente a responsabilidade da culpa. Louis. Passou-se a pensar. p. Belo Horizonte: Del Rey. uma nova evolução da responsabilidade subjetiva para a responsabilidade objetiva. erigindo o patrão. terminando por introduzir na legislação. HIRONAKA. Do segundo extrai-se a ideia de revolução a permear a história da responsabilidade civil. princípio protetor dos fracos: a força.

11 que é exemplo. . muito tendo que crescer nesse campo dos seguros em geral. ibide. b) A previsão de indenização por dano material ou moral pela violação à intimidade. logo os seus princípios e valores – repita-se – tornam-se 15 JOSSERAND. 548. que deverá. a saber: a) A reparação do dano material ou moral. inc. as palavras de Josserand. ainda que acanhado. por publicação ofensiva a terceiro ou à imagem (art. Vai-se além.4 A responsabilidade civil na Constituição Federal Com a promulgação Constituição Federal. que imputa a responsabilidade ao Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS) por simples política de proteção ao trabalhador. 5º. o seguro obrigatório de veículos. A leitura da responsabilidade civil à luz da Constituição Federal não se resume apenas por estas previsões legais. inc. à honra e à imagem das pessoas (art. em 5 de outubro de 1988. sem prejuízo da responsabilidade individual de seus dirigentes (art. de sorte as normas constitucionais estão na cumeada do ordenamento jurídico. Louis. Presente. inc. f) A responsabilidade civil da empresa nos casos de atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. 5º. LX). ainda mais ressaltando a integral proteção à pessoa humana. LXXV). § 5º). g) Responsabilidade civil das pessoas naturais e jurídicas. inc. d) A transmissibilidade aos herdeiros de reparação do dano. como também é exemplo a doutrina da seguridade social. É a mudança do ponto de vista sistemático. mediante conduta culposa ou dolosa do empregador. V). § 3º). 225. pela reparação de danos causados ao meio ambiente (art. 5º. até o limite da força da herança recebida (art. por sua vez. foram introduzidas em seu texto importantes temas de responsabilidade civil. e) Cúmulo das indenizações por acidente do trabalho e de direito comum. p. c) Responsabilidade do Estado pela indenização ao condenado por erro judicial e por ficar preso além do tempo fixado na sentença (art. X).15 1. mesmo já afastadas no tempo ainda proveitosas: “nessa matéria [responsabilidade civil] a verdade de ontem não é mais a de hoje. 5º. à vida privada. ceder lugar à de amanhã”. assim. 173.

Maria Celina Bodin de. Assim. São relações fundadas na pietas. logicamente. pois a partir da sua previsão as legislações infraconstitucionais. Seu cumprimento é questão de princípios. O princípio da dignidade humana. são. por meio de seguro obrigatório pelo Instituo Nacional da Seguridade Social (INSS). obrigatoriamente. ambas as indenizações cumulam-se. no íntimo da pessoa humana para quem nenhuma crença lhe ilumine a alma. 3. 2006. portanto. Rio de Janeiro: Renovar.”16 Destacam-se duas novidades. penal e civil A responsabilidade moral é uma natura debere. o Direito Privado. no lúcido dizer de Maria Celina Bodin de Moraes. ou normas-guia. até o advento da Constituição. que devem informar todo o sistema. Doutra feita. sem compensar a indenização paga. informando. a exemplo de cumprir ato de última vontade não expresso em testamento.5 Responsabilidade moral. que não eram contempladas pela legislação ordinária do direito anterior. Ou seja. mormente pelo Supremo Tribunal Federal que arguia a falta de legislação que previsse a sua reparação. passaram a contemplá-lo. são elas a previsão do dano moral e o empregador responder por simples culpa nos casos de acidente do trabalho. . Tanto que o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula 229. na seara da responsabilidade civil o empregador respondia apenas por culpa grave ou dolo. hoje revogada no que se refere à culpabilidade: “A indenização acidentária não exclui a do direito comum. p. (ver verbas p.12 normas diretivas. Sem essa previsão não era possível a proteção integral da pessoa humana. em caso de dolo ou culpa grave do empregador. a Carta Magna foi o seu batismo de fogo. “da consciência social. 16 MORAES. na fides. Qualquer que seja o seu grau de culpa terá que suportar o dever indenizatório. por se tratar de genuína liberalidade. preservando a primeira parte da Súmula. a que se constitui em mero dever de honra e consciência. Assim é. da noção de justiça presentes na sociedade. ou no seu relacionamento com Deus para quem professa credo religioso. Grande a resistência na aceitação do dano moral.” Com a regra constitucional a responsabilidade civil do empregador caiu no regime do Código Civil. in Princípios do direito civil contemporâneo. porque esses princípios e valores são retirados. no officium. do ideal ético. os valores através dos quais aquela comunidade se organizou e se organiza.) 1.

constituindo uma liberalidade. ato contínuo. b) visa à necessidade de ressarcimento do patrimônio depreciado ou do interesse não patrimonial ofendido. Concluindo. repetir Clóvis Beviláqua: . c) é matéria apenas do interesse do prejudicado. de sorte quem deposita um óbolo diante da mão tremula que se lhe estende. Ao infringir norma de Direito Público. nem pena sem prévia previsão legal). Se uma conduta. tipifica um delito: crime ou contravenção. Enquanto no Direito Civil. independentemente da vontade da vítima. ou recompensar a vítima pelo interesse extrapatrimonial transgredido (dano moral). na consideração do vínculo jurídico que dá juridicidade à obrigação. Seu objetivo é o restabelecimento do patrimônio ofendido no status quo ante (dano patrimonial). o dano é de natureza social. uma reação do ordenamento jurídico que não se compadece com esse comportamento e a reação é representada pela pena. provocando. Pouco importa se a vítima do delito experimentou ou não algum prejuízo. que pode ou não movimentar a máquina judiciária. a prestação intencional de um indevido absoluto não pode ser repetida. o Direito Penal: a) focaliza a pessoa do delinqüente.13 Sob a ótica do direito. o Direito Civil: a) focaliza o dano causado. na outra hipótese resignando-se com o prejuízo sofrido. b) objetiva o resguardo do interesse social. não permanece alheia de efeitos jurídicos quando do seu espontâneo cumprimento. Vige o apotegma: cuius per errorem dati retitio est. eius consulto dati danatio. c) movimenta a máquina judiciária. sempre considerando a apotegma do Direito Penal Liberal: nullum crimen. Porém. não tem direito a repetitio indebiti (repetição do indébito). O ordenamento jurídico confere-lhe a soluti retentio (direito de retenção). a norma violada é de Direito Privado e essa violação cria um desequilíbrio no patrimônio ou em outro interesse da vítima juridicamente protegido. no primeiro caso exigindo a respectiva reparação. ensejando a responsabilidade penal. Vale pela clareza e objetividade. tendo como causa a conduta também comissiva ou omissiva do agente. o agente da conduta típica tem que responder por ela. nulla poena sine praevia lege (não há crime. o delinqüente com a sua conduta perturba a ordem social. ferir norma jurídica de Direito Penal. pois o seu ato provoca quebra da paz e da ordem social de maneira indiscriminada. que é de Direito Público. Em suma. Quanto à responsabilidade penal e a civil separam-nas nítidas dessemelhanças. essa espécie não tem nem débito nem responsabilidade. não individualizada. comissiva ou omissiva. no mais das vezes. isto é.

p. por trás do crime. que é um interesse do indivíduo assegurado pela lei.14 O direito penal vê. tanto quanto lhe for permitido. o criminoso. como providencia o art. a vítima. que a sociedade se propõe realizar. é ontologicamente o mesmo. Miguel Maria. satisfazendo o dano causado. e o considera um ente anti-social. .. 129. p. 161-162. principalmente. 949. 935: “A responsabilidade civil é independente da criminal. José Serpa Santa Maria. além de pagar a importância da multa no grau médio da pena criminal correspondente. que é preciso adaptar-se às condições de vida coletiva ou pô-lo em condições de não mais desenvolver a sua energia perversa em detrimento dos fins humanos. SERPA LOPES. ob.18 No caso de lesões corporais ou outra ofensa à saúde. aprovado na I Jornada de Direito Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal: “No caso do art. 935. procura compensá-lo. no ato ilícito. não mais se poderá questionar sobre a existência do fato ou sobre quem seja o seu autor se estas questões se acharem 17 18 BEVILAQUA. e no campo civil poderá ser condenado nas despesas de tratamento e dos lucros cessantes até o fim da convalescença da vítima. quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. o direito civil vê. mas uma ofensa ao direito privado. a fim de. o ofensor estará sujeito à pena expendida no art. a incriminar algumas condutas impondo pena ao delinqüente. no crime. o que poderíamos chamar a eurritmia social refletida no equilíbrio dos patrimônios e das relações pessoais. ou sobre quem seja o seu autor. Importante notar. que se formam no círculo do direito privado. 4ª ed. tanto em um como no outro âmbito. restaurar o seu direito violado. 272-273. V. a causa determinante da ilicitude incidir na responsabilidade civil ou penal. e ainda a dispor para umas terceiras a acumulação dos dois efeitos jurídicos. O direito penal vê. e vem em socorro dela. não se podendo questionar mais sobre a existência do fato.17 Na eleição do pensamento de Peirano Facio. nesta oportunidade. São razões de ordem político-legislativa que conduzem o legislador. cit.p. vol. do Código Civil. pois o ilícito. revista atualizada pelo prof. Serpa Lopes discorre que é de natureza política e não técnica. assim. e contra ele reage no intuito de restabelecer esse equilíbrio necessário à vida do organismo social. e.” É a letra do Enunciado 45. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. um elemento perturbador do equilíbrio social. a regra do art. não simplesmente o agente. Clóvis. mas. em dado momento. em outras no regime da simples reparação de dano. do Código Penal. não mais um ataque à organização da vida em sociedade. conseguindo. não podendo restaurá-lo. o direito civil vê. por trás do ato ilícito. Curso de direito civil.

em razão de ato próprio (direta). conforme segue abaixo. Assim considerando. seja por simples imposição legal. ou o dano é causado por animal ou coisa inanimada sob sua guarda ou de sua propriedade. Responsabilidade civil objetiva a conduta lesiva prescinde de culpa ou dolo. b) O dano a interesses ou direitos alheios. c) O nexo de causa e efeito que é a relação entre a conduta como causa e o dano como efeito. a responsabilidade civil apresenta os seus pressupostos: a) A conduta que é sempre uma ação ou omissão humana. a reparar o dano patrimonial. p. que obriga uma pessoa (devedor). a pessoa que produz o dano é a responsável pela indenização. patrimonial. ou porque prevista em lei ou na justificativa da teoria do risco. ou pela exploração de atividade de risco (objetiva). c) Quanto ao agente: Responsabilidade civil direta oriunda de ato próprio. . 129. Responsabilidade civil extracontratual decorre da violação de um dever jurídico geral exposto na lei. moral ou estético causado a outra (credor). de ato de pessoa por quem responde. apropositada a classificação de Maria Helena Diniz. seja por culpa (subjetiva).15 categoricamente decididas no juízo criminal”. pelo fato animal ou de coisa inanimada de sua propriedade ou sob a sua guarda (indireta). b) Quanto ao fundamento: Responsabilidade civil subjetiva implica na conduta lesiva dolosa ou culposa. 1. matéria a ser desenvolvida de maneira pormenorizada ao tratar das causas de irresponsabilidade. Responsabilidade civil indireta o causador do dano é um terceiro vinculado ao responsável pela indenização.6 Espécies e pressupostos da responsabilidade civil A responsabilidade civil é o dever jurídico derivado diretamente da lei (extracontratual) ou da inexecução de uma obrigação adrede celebrada (contratual). a) Quanto ao fato gerador: Responsabilidade civil contratual deriva do inadimplemento de um negócio jurídico bilateral ou unilateral. moral ou estético. Por outro lado.

Não difere quando o inadimplemento é relativo. do Código Civil.16 II: DAS ESPÉCIES DE RESPONSABILIDADE CIVIL Responsabilidade gerador. Para que ocorra essa espécie de responsabilidade civil é indispensável que preexista um contrato válido entre devedor e credor.3 extracontratual civil quanto ao fato Responsabilidade civil Responsabilidade civil 2. responde o devedor por perdas e danos [. fundada na autonomia privada. . Pelo princípio da obrigatoriedade. dever jurídico sucessivo imposto pela lei. promana da transgressão de uma obrigação adrede celebrada pelas partes. do Código Civil.]” Há o inadimplemento absoluto da obrigação. O dever jurídico originário convencionado pela vontade das partes. lugar e forma que a lei ou a convenção estabelecer. por isso perseguida pela tutela específica tal qual convencionada. a responsabilidade civil contratual. convola-se na indenização das perdas e danos sofridos pelo credor.” A prestação ainda é possível ou útil ao credor. 2. acrescida das perdas e danos e dos consectários da mora e da sucumbência: juros. porque se perdeu por sua conduta desidiosa. 2. por isso se diz que o contrato é lei entre as partes. atualização monetária e honorários de advogado.. porque inadimplido pelo devedor. conforme providencia a última parte do art.. Há o inadimplemento absoluto ou relativo. Via de consequência. O art. uma vez obrigada gera efeitos jurídicos: a conduta passa a ser pautada pela obrigação contratada. dado que o art. no caso de mora. uma vez que a obrigação deve ser cumprida no tempo. as partes vinculam-se ao contexto do contrato de forma irresistível.1 Responsabilidade civil contratual Celebrado o compromisso de compra e venda. 389. 394.]. o promitente vendedor deixa de entregar o bem objeto mediato da prestação ao promitente comprador. a prestação não é mais possível ou útil ao credor. A vontade é livre até que se obriga.. Válido porque o contrato não produzirá efeitos jurídicos se eivado de nulidade contemporânea à sua formação. preceitua: “Não cumprida a obrigação.2 contratual. 395 dispõe: “Reponde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der causa [..

de Férias – rel. Verbia gratia. a promessa de recompensa. Des. p. podendo acrescentar entre outros o testamento. o pagamento indevido. Verba devida. o enriquecimento sem causa (CC.028. Inadimplemento de premiação obtida em sorteio.08. visto que ela se destina à pessoa indeterminada. da Comarca de Belo Horizonte. Walter Moraes. j. 3 ed. como bastas vezes anuncia o comércio varejista em suas propagandas ou publicidades de vendas promocionais. Fernando Noronha e José Jairo Gomes preferem chamá-la responsabilidade . efetuada publicamente. Se o contrato tornou-se inexeqüível por culpa da promitente vendedora. a gestão de negócios. in Humberto Theodoro Junior. 20.93. vinculado o promitente. Alguém que encontrasse o cão. 04. a qual. A determinação dá-se no momento em que se preencherem as condições de exigibilidade da prestação. Responsabilidade civil. Hipótese de promessa de recompensa. Considerando que essa espécie de responsabilidade diz respeito ao contrato e ao ato jurídico unilateral. tem esta de responder pela reparação dos prejuízos do promissário comprador. 337). nasce o direito de reclamá-la perante o Poder Judiciário. Se não paga. Rio de Janeiro: Aide Ed. mais os consectários comuns da sucumbência e da mora (TJMJ.. ap. colimando um determinado objetivo. o cheque ao portador. tornar-se-ia credor da recompensa. cujo montante será o valor atual do imóvel negociado. A oferta de prêmios mediante sorteio configura promessa de recompensa. aquele em que há manifestação de vontade de uma só parte em uma única direção. restituindo-o. 1993. artigos 854 a 860).17 Compromisso de compra e venda – Impossibilidade de transcrição do título no registro imobiliário – Cessão do mesmo lote a outra pessoa – Direito a indenização por perdas e danos – Valor da indenização. Indenização. e oferecia recompensa para quem encontrasse o cão errante. no caso o encontro e a restituição do animal. Des. vincula o promitente (TJSP – 2ª Câm. Responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. Recurso provido. 62. j. a renúncia. Pode ainda a responsabilidade civil contratual resultar do descumprimento de obrigação gerada por um ato jurídico unilateral. A declaração de vontade obriga o declarante desde o momento em que se torna pública. Curioso painel fixado em pontos estratégicos da cidade trazia este anúncio: “volta Peteleco”.08.83. Humberto Theodoro. rel. a ser apurado em liquidação. in JTJ Lex 150/83). Não diferente a promessa de recompensa mediante sorteio.

Também aborda o abuso de direito.06. STJ: O CDC é aplicável às instituições financeiras.10.2 Jurisprudência Tratando-se de contrato de locação de cofre. arts. por tratar-se de obrigação contratual – Art. 22 Sobre responsabilidade civil do advogado consultar: RT 787/143. se decorrentes de erro grave.11. art. Só tem cabimento quando estabelecida com caráter de transação (RT 563/146). GOMES. responde civilmente pelos danos morais e materiais decorrentes de sua atitude. 2.18 civil negocial.19 São seus pressupostos: a) a conduta que descumpre um negócio jurídico bilateral ou unilateral (ato ilícito contratual). protesta duplicata já paga. 405] – Sucumbência recíproca mantida – Recursos improvidos (1º TACivSP. RT 813/268). 496. do CC. 7ª Câm. RJTJSP 68/45. 1. 20 “Súm. ou de ato ou omissão com culpa. Belo Horizonte: Del Rey.2002. São Paulo: Saraiva. segundo o princípio do sistema aberto e de acordo com o prudente arbítrio do juiz (1º TACivSP. Juiz Ariovaldo Santini Teodoro. Juiz Paulo Eduardo Razuk. RDA 234/360). 25 e 51. o banco depositário é responsável pelos danos materiais decorrentes de assalto. em sentido largo (STF. 749/267. em obediência às regras do Código de Defesa do Consumidor – Súm. sem que tenha havido culpa concorrente da vítima. 2003. no abuso de seu direito. Por enquanto ficam as observações: não é admitida no CDC. Tribunal Pleno.892. p. Repertório IOB de Jurisprudência 3/12. logo há contrato celebrado entre as partes.10. 12ª Câm. consagrou a denominação responsabilidade civil contratual. 24.21 O advogado somente será civilmente responsável pelos danos causados a seus clientes ou a terceiros. Boletim da AASP 613. Fernando. sendo considerada nula a cláusula de não indenizar.2002.536. j.2004. c) o nexo de causa e efeito entre um e outro.2002. 616/31). RT 832/239). 297. 125/176. O dano moral é presumido. 187. 06. e nos contratos de depósito contraria a essência do contrato (ver RT 670/73. JTJ-Lex 172/9. devendo as coisas ser restituídas ao stato quo ante.. 772/362. 14 a 20. do CC/1916 [atual art. passando a espécie a nomear o gênero.I. Direito das obrigações: fundamentos do direito das obrigações: introdução à responsabilidade civil.” – A cláusula de não indenizar será oportunamente dissertada. inescusável. 21 O acórdão refere-se a credor. razão pela qual a ocorrência do fato. 432. § 2º. 29. j. 297 do STJ – Dano moral não demonstrado – Juros moratórios da citação. deve ser arbitrado de forma moderada. A tradição. 2006. rel. 1º. rel. b) o dano daí decorrente. faz surgir o dever de indenizar que. todavia. Direito civil: introdução e parte geral. j.. todavia. p.22 19 NORONHA.20 O credor que. . José Jairo.

j. os valores despendidos no serviço inadequado devem ser reembolsados. Juiz Egidio Giacoia. Dessa forma. 653 e segtes. bem como o novo tratamento protético que foi realizado por outro dentista especializado (TJSP. enseja a indenização por dano material. ato ilícito. Conclui-se. uma vez que remonta a Lex Aquilia deDamno.2003. em 23. Direito de vizinhança – Poluição sonora – Dano moral – Indenização – Verba devida em razão do desassossego e desconforto causados pelas turbações acústicas. 11ª Câm. do mesmo diploma: “O proprietário ou o possuidor de um prédio tem o direito de fazer cessar as interferências prejudiciais à segurança. que perturba os vizinhos. do CC).277. É também chamada de aquiliana. c) o nexo de causa e efeito entre uma e outra. Se com advogado é o contrato de mandato (CC. 1. ainda que seja verbal (contrato de prestação de serviço. derivado da vontade do Estado. porquanto estampado na lei. . São seus pressupostos: a) a conduta que descumpre um dever legal (ato ilícito extracontratual). Rodrigues de Carvalho.3 Natureza do dever jurídico violado 23 Nos serviços prestados por profissionais liberais firma-se um contrato.3 Responsabilidade civil extracontratual Determinado estabelecimento comercial passa a promover música eletrônica e o som estridente escapa do local. Tocar música em estabelecimento comercial é exercício de direito. que a responsabilidade civil extracontratual procede da ofensa à norma jurídica reguladora da vida das pessoas em sociedade.” Há o inadimplemento de um dever jurídico legal.2004. porém o som excessivo. É o enunciado do art. 05. provocadas pela utilização de propriedade vizinha. 593 e segtes. rel. ao sossego e à saúde dos que o habitam. 836061-0/7. do CC).. Emenda Oficial: o desassossego e o desconforto causados pelas turbações acústicas são capazes de gerar prejuízos ensejadores de danos morais (2º TACivSP. Dir. RT 818/199). art. pois. Des. rel.. 5ª Câm. arts. abrolha a obrigação indenizatória. j. perturbando os moradores vicinais com decibéis acima da regulamentação permitida.08. RT 830/259). do Código Civil. como previsto no art.23 2. b) o dano daí decorrente.19 A incorreção de tratamento odontológico.06. 2. Ap. é abuso desse mesmo direito. 187. por abuso de direito. Comete ato ilícito. realizada por profissional imperito. Privado. Da inobservância do dever legal.

por sua vez. tomando a roupagem contratual ou extracontratual. Na extracontratual o dever jurídico decorre da vontade do Estado – a lei – imperativo geral e abstrato relativo à conduta humana dirigido a todos indistintamente. voluntariamente. 1980. todavia forçoso reconhecer que se distinguem especialmente quanto às exigências probatórias. Rio de Janeiro: Forense. São Paulo: Atlas. ou na ordem jurídica. que a responsabilidade extracontratual se configure na ausência de obrigação anterior. p. Em ambas sempre existe um dever jurídico preexistente. E aqui sobeja importância. para si. como. certos deveres jurídicos. a conduta qualifica-se pelo descumprimento de um dever jurídico precedente. o que as distingue é a natureza do dever jurídico transgredido. porque. existe. De efeito.. Para eles as duas espécies conduzem para os mesmos efeitos jurídicos e requerem os mesmos pressupostos a começar pela conduta lesiva timbrada pelo ato ilícito: contratual ou extracontratual. em uma ou em outra. José Aguiar. Sergio. ora do delito (vel ex contractu nascitur vel ex delicto). 8 ed. importa violação de um dever estabelecido pela lei. Enquanto que na responsabilidade civil extracontratual. Programa de responsabilidade civil. 4 ed. está in re ipsa. dimana do próprio inadimplemento. Na contratual o dever jurídico dimana da vontade das partes – negocio jurídico bilateral ou unilateral – a declaração de vontade é fonte de direito. Cláusula de não-indenizar: chamada cláusula de irresponsabilidade. por exemplo. p.” CAVALIERI FILHO. a responsabilidade civil contratual e a extracontratual confundam-se ontologicamente e nos efeitos.24 Essa é a teoria dualista eleita pelo Código Civil.20 Decorrente do exposto. afinal. cumprir a palavra empenhada.] o dever jurídico violado pelo devedor tem por fonte a própria vontade dos indivíduos. A responsabilidade extracontratual. além da obrigação contratual. como aquele ponto de vista faz crer. 275: “Na responsabilidade civil contratual [. a culpa deve ser provada por aquele que assimilou o 24 DIAS. pois a declaração da vontade e a lei vinculam à observância. Os adeptos da teoria monista ou unitária não aceitam a distinção. neminem laedere. embasada na dicotomia que separa as duas espécies de responsabilidade civil. a obrigação ampla de não lesar. São eles que criam. quando não se queira descer a especificações.. Na responsabilidade civil contratual. O dever jurídico é negativo o de não prejudicar (neminem laedere). o dever geral de não causar dano a ninguém. O dever jurídico é positivo. No mesmo sentido apregoa Sergio Cavalieri Filho dentre outros. a culpa da parte contratante que não cumpre o negócio jurídico celebrado é presumida.” . quanto ao fato gerador a responsabilidade civil ora nasce do contrato. a obrigação de não violar a norma jurídica e. o seu inadimplemento impõe a responsabilidade. provada a ofensa à norma e o dano evidencia-se a responsabilidade. Na lição de José de Aguiar Dias. 34: “O fato de não existir contrato entre a vítima e o responsável não estabelece.

é a chamada mora ex persona. um crucial procedimento. consoante disposição expressa do parágrafo único do art.4 Uma distinção nem sempre fácil Não há como negar. por vezes. Nas obrigações provenientes do ato ilícito. 2. expressão forjada por Orlando Gomes. portanto. conforme será visto no item relativo à presunção de culpa. cuida-se atentar também para a distinção entre as duas espécies de responsabilidade civil. ou seja. Outra distinção é quanto à mora. considera-se o devedor em mora. como no caso de prefixação das perdas e danos que pode ocorrer apenas na responsabilidade civil contratual (cláusula penal compensatória). exposto na lei de trânsito. a do médico contratado para certa cirurgia. Em tais situações. por vez ou outra. Nessa hipótese há concurso entre as duas espécies de responsabilidade. e a mora somente decorre após interpelação extrajudicial ou judicial. dá-se no momento em que se inicia a fluência dos juros moratórios. Nas obrigações contratuais nem sempre há termo para o adimplemento. A principal consequência dessa distinção. 398. a lei foi transgredida (extracontratual) e o contrato não foi cumprido (contratual). Outras diferenças contingenciais podem ser articuladas. é a denominada mora ex re.5 Tutela externa do crédito Na tutela externa do crédito.21 dano. mormente nos deveres acessórios de conduta. desde que o praticou. a dessemelhança entre ambas situa-se em uma zona cinzenta de difícil equação. daí o paciente adquire uma infecção. pois violada a cláusula tácita de proceder no sentido de tomar os cuidados profissionais devidos no desempenho de uma obrigação de fazer. na doutrina e na jurisprudência. do Código Civil. prevalece o entendimento de que a responsabilidade civil é contratual. aqueles deveres secundários à prestação. Entendese inadimplido o contrato. 397. própria do contrato de prestação de serviço. o que não deixa de ser. Toma-se como exemplo o motorista de ônibus que ocasiona acidente por transpor sinal vermelho. que age negligentemente. relata o art. Esta é a regra geral. Outro exemplo. assim ainda a eleição do foro para a ação de reparação de dano. porquanto deixa de proceder conforme as normas de assepsia. embora a transgressão à lei pela conduta negligente. . que admite exceção. causando lesões nos passageiros. 2. A sua conduta descumpre o dever de parada obrigatória. a vítima.

. Eis decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná: “[. garantindo a necessária . se o contrato decorre do acordo de vontade das partes. Logo. destacado com o fim de ordenar o espaço público. Subtração de veículos. RT 680/167). No segundo caso. 130 do STJ.22 Pelo princípio da relatividade dos efeitos jurídicos (res inter alios acta). dada a importância que ele desempenha para a coletividade.1991. art.] A responsabilidade civil extracontratual (delitual ou quase delitual) pode coexistir com a responsabilidade civil contratual. isto é. aqueles que nele manifestaram a sua vontade. Para aquele que é parte a responsabilidade é contratual. porque o contrato não foi executado por fato exclusivo de terceiro. O atual Código Civil. 2ª Câm. de uso comum do povo.]” (TJPR.. Por lógico raciocínio. de modo que não aproveita e nem prejudica terceiros. 2. incidindo a solidariedade. 942. não pode ter eficácia em relação a terceiros e seu patrimônio. 421). Mais do que antes. quanto ao terceiro a responsabilidade é extracontratual. j. não interferindo de maneira a prejudicá-lo. Eduardo Luz. ninguém se submete a uma relação contratual a não ser que a lei o obrigue ou se a própria pessoa o queira. No primeiro caso. o inadimplemento dá-se em razão da cumplicidade de terceiro. Ou seja. honrando o que ela prometera. quer incitando uma das partes a descumpri-lo.. em um mesmo fato convivem as duas espécies. Des. portanto por alguém estranho à convenção. Hipótese contrária a Súm. Estacionamento rotativo de carro em logradouro público. vinculando-se ao seu conteúdo. rel. Hão de respeitar o contrato firmado pelas partes.. quando as duas condutas contribuem para o prejuízo da outra parte inocente (CC. o pagamento só confere ao usuário a utilização do local da via pública. 2ª parte). quer impedindo-a de cumpri-lo. e os terceiros não podem comportar-se como se ele não existisse. forçoso convir. art. o contrato passou a ter a prerrogativa de oponibilidade contra terceiros. pela introdução de outro princípio: o da função social do contrato (CC.6 Jurisprudência Ação ordinária indenizatória. deixou de considerar o contrato apenas como instrumento de satisfação de interesses pessoais das partes contratantes. tem-se a responsabilidade civil extracontratual. No caso do sistema de vaga certa. 10.9. como no caso de cumplicidade na violação do contrato [.. o contrato somente produz efeitos jurídicos entre as partes. aqueles que dele não participam. considerando-o também como de interesse da coletividade.

135/150.11. De igual teor: RJTJSP 137/388. garante a inviolabilidade do direito à imagem. como atração para aumentar a perfomance de empresa com a qual não mantém vínculo contratual (TJRJ. no art.26 Dano Moral – Indenização – Morte de detento que se encontrava sob a guarda da Administração Pública – Negligência do Estado em zelar pela integridade do presidiário caracterizada – Hipótese em que a verba indenizatória deve ser fixada em termos razoáveis. RT 836/301). sem a sua anuência. 206. RT 841/333). O relacionamento existente entre o cliente usuários do estacionamento e a administração do shopping não se caracteriza como contrato de depósito típico. supermercados. j. que por usufruírem benefícios. Furto de veículo em estacionamento de supermercado.88. sua imagem não pode ser utilizada. 04.06. João Carlos. porque ela representa um homem e é presente de Deus”. mas eu não quero que a profanem. RT 639/60). 14. nem em 25 A hipótese aparta-se dos estacionamentos ofertados por casas comerciais. Gamaliel Quinto de Souza. obrigação deste de indenizar: RT 832/228. não há contrato de depósito. à vida privada e à intimidade. contratado de emissora concorrente. Sousa Lima. Sendo um profissional de atividade artística. fazendo alarde de um leilão de roupa íntima que teria sido usada pelo ator em tradicional peça teatral “Paixão de Cristo”. Poética. consagrado na mídia. conhecido programa dominical de televisão utiliza a imagem de consagrado galã de novelas. A regulamentação do poder de polícia nos logradouros públicos. Ementa Oficial: Havendo morte de presidiário que se encontra sob a guarda da Administração Pública.23 rotatividade nos grandes centros urbanos. rel. Laerson Mauro.2005. A CF. pode ser cedido para exploração econômica. rel. vol. realizada no estado da Paraíba durante a “Semana Santa”. o direito à imagem. Revista Justitia. . 189-192. Des. mas como prestação de serviço que podem ser definidos como de segurança” (TJSP. têm responsabilidade civil pelo furto ou avaria nos veículos. Des. p. como exceção aos direitos da personalidade. sendo essa objetiva. sendo impossível que a reparação venha a constituir-se em enriquecimento indevido. Des. O fato de ser dito que o produto obtido seria destinado a instituição de caridade. A obra fotográfica.2004. não descaracteriza a ofensa ao direito do autor. órgão do Ministério Público do Estado de São Paulo. respondem concorrentemente o apresentador do programa e a emissora pelo efeito lesivo daí decorrente. 5º. nem por isso menos jurídica.25 É personalíssimo o direito à imagem e à intimidade. mas sempre com o consentimento da pessoa. pois é certo que a retribuição pelos serviços está devidamente incluída no preço do custo das mercadorias. não pode acarretar ao ente público a ampliação de sua responsabilidade para responder pela guarda e depósito do bem (TJRJ. a passagem de Álvaro Antônio: “Minha imagem pertence a todo mundo. “Os shopping centers que oferecem estacionamentos gratuitos a seus clientes não se isentam de responsabilidade por furto de veículos colocados sob sua guarda. shopping center. sem obter previamente a indispensável autorização para essa exposição pública. 9ª Câm. Se. Na espécie. 7ª Câm. 02. j. tanto ao sol quanto ao regato.. rel. 26 O direito à imagem.05. A indenização a título de dano moral deve ser fixada em termos razoáveis. com intuito de angariar maior audiência. X. j. de guarda do bem sob prometida vigilância e proteção. sendo descabido seu pagamento via precatório em virtude da pequena monta. em estacionamento aberto.. in BIANCO. 12ª Câm. a responsabilidade em indenizar a família da vítima é do Estado.

Danos morais e materiais. art. como neste caso. CF. Estados Membros. . – é objetiva. j. Criminal. Des. p. qual a espécie da obrigação inadimplida? E qual conduta do agente causador do dano que implica na sua responsabilidade? Quais os casos de negócio jurídico bilateral e unilateral? Quais são os denominados “consectários comuns da sucumbência e da mora”? A partir de quando os juros da mora são contados na obrigação contratual e no ato ilícito? Em que artigos estão previstos? O que é abuso de direito? Há previsão legal no Código Civil? Se positiva a resposta. RT 832/351). o acidente de trânsito é responsabilidade civil extracontratual e subjetiva. rel. 15.02.28 Para reflexão Em cada jurisprudência transcrita. Silva Pinto. 5ª Câm. j.24 valor ínfimo. Des. que o automóvel se transformara “num verdadeiro flagelo. Atenção: a responsabilidade civil do Estado – União. impondo grande risco às pessoas que se encontram nas vias públicas. 43. Programa de responsabilidade civil. § 6º. 12.94.420).2006. art.06. cada vez mais sofisticado e veloz. rel. Recurso necessário conhecido e desprovido (TJRN.27 O veículo automotor.. As exceções é quando da prestação de serviços. Fora do contrato de transporte. Omissão das autoridades do Município. Ora. em face da embriaguez. atingem a cidade: “Evidenciada a força maior em razão de situação excepcional de fortes chuvas que assolaram a cidade. passa a constituir uma arma perigosa. 1. imprevisíveis e inevitáveis. 18. 7 ed. Demonstração do dano e do nexo causal. quanto à aprovação do loteamento em que foi construída a casa atingida pela inundação” (RT 843/240). Câm. Municípios e suas autarquias etc. rel. Incabível o pagamento da obrigação por precatório quando o seu valor for de pequena monta. quando entregue nas mãos de motoristas menos preparados. a matar mais que a própria peste branca ou a peste céltica”. Inexistência de excludentes de responsabilidade. afasta-se a responsabilidade civil do Município em reparar os danos causados a munícipe por enchentes se inexistem provas de que a Administração municipal tenha agido com culpa. Especial. Responsabilidade civil. in Rui Stoco. São Paulo: Atlas. e Castro Veiga faz a seguinte imagem: “surgiu um tipo novo de doença a que se deu o nome de cronopatia. 28 Nélson Hungria assinala. (TJRO. ainda antes da metade do século passado.2004. assumem pelo menos o risco de produzi-lo (TJSP. 218 e seguintes. p. RT 852/350). 3ª Câm. 7 ed. tanto no que ser refere a eventuais entulhos que dificultaram a vazão de águas do rio ou entupiam bocas de lobo. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. em que artigo? 27 Diferentemente quando fortes chuvas. Ver na doutrina: CAVALIERI FILHO. se não querem o resultado lesivo. j. tão maléfica e nociva quanto a peste que se convencionou chamar de “AIDS”. Rowilson Teixeira. 2007. João Rebouças. São Paulo: RT. Responsabilidade civil subjetiva. Bueiros e galerias pluviais entupidos. Sergio. Inundação em subsolo de hotel. Civ.12. Des. 37. CC. 2007.

todavia. cujo motivo é o entupimento de bueiros e galerias pluviais? Nas duas jurisprudências acima transcritas. uma responsabilidade civil contratual e outra extracontratual. Responsabilidade civil quanto ao fundamento: 2. Por que na responsabilidade contratual é mais fácil a prova da responsabilidade do agente causador do dano? Formule. não se está. do Código Civil? Por que o Estado responde pela morte de detento? Por que o Município responde por enchentes.8 Responsabilidade civil subjetiva.9 Responsabilidade civil objetiva. especialmente após o avanço da tecnologia nos aparelhos de reprodução de sons? Qual o conceito jurídico de vizinhança? Pesquise. . considerando os usos e costumes atuais. como é direito de cada um fazer cessar as interferências prejudiciais ao sossego. qual a modalidade de obrigação que anima esse contrato? Quais os artigos do CC que prevêem a responsabilidade de cada um? É justo que se recrimine o vizinho por ouvir música em som estridente. tomando por exemplos fatos de sua vida.25 O que significa a expressão: “faz surgir o dever de indenizar que. sobre a morte de detento e a inundação em razão da chuva. 2. portanto. segundo o princípio do sistema aberto e de acordo com o prudente arbítrio do juiz”? Advogado e dentista que prestam serviços a seus pacientes celebram contrato? Se positiva a resposta. os acórdãos referem-se às mesmas espécies de responsabilidade do Estado e do Município? As decisões são consentâneas ou contraditórias? Distinga a responsabilidade civil contratual da extracontratual. valendo-se da sua capacidade inventiva. deve ser arbitrado de forma moderada. Qual o conceito de um e de outro? Direito personalíssimo é sinonímia de direito da personalidade de que tratam os artigos 11 a 21. podem existir contratos verbal e tácito? Pesquise. diante da aplicação do princípio da coexistência dos direitos? O que é esse princípio? Como resolver a questão? É personalíssimo o direito à imagem e à intimidade. Será que essa conduta não está dentro da interferência tolerável? Se cada um tem o direito de ouvir música. Além do contrato escrito.

quer também quanto à desvalorização do veículo. 21. avançando por cruzamento de via preferencial – Indenizatória procedente. quando se manifesta pela negligência. volume 5º: 2ª parte. Juiz Negreiros Penteado. ou em sentido amplo que açambarca o dolo. pela impossibilidade de sua recuperação total. e atual. age com imprudência e o efeito jurídico é contrário à sua vontade. É também denominada teoria clássica ou teoria tradicional da culpa.26 2. Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Inobservância da placa de “Pare”. também chamada de teoria da responsabilidade civil subjetiva. pode ser considerada em sentido restrito. Estudo mais pormenorizado de culpa será abordado no pressuposto da conduta. ver. p. 2007. 2003. . p. j. A culpa. imprudência ou imperícia.10. o motorista labora com culpa ao contravir o sinal regulamentar de trânsito. que se opõe ao dolo. o qual implica na ideia de conduta culposa. Programa de responsabilidade civil. sem deixar vestígio da colisão. Trata-se de responsabilidade civil subjetiva.29 No exemplo. que conforta a sua justificativa na conduta culposa. por sua vez. quer tanto a conduta como o dano.” (Curso de direito civil: direito das obrigações. por Carlos Alberto Dabus Maluf e Regina Beatriz Tavares da Silva. imprudência ou imperícia. 7 ed. para adquirir relevância jurídica deve integrar a conduta. São Paulo: Saraiva. Entretanto. que pressupõe sempre a existência de culpa (lato sensu). 8ª Câm. não mais se admite a desvalorização do veículo. JTACSP 70/75).31 29 Eis a lição de Washington de Barros Monteiro: “Teoria da responsabilidade civil subjetiva – Esta é a teoria clássica e tradicional da culpa. admitida a incidência da correção monetária (1º TACivSP. abrangendo o dolo (pleno conhecimento do mal e direta intenção de o praticar) e a culpa (strito sensu). isto porque a culpa considerada isoladamente tem relevância apenas conceitual. 23.1980. no dolo. o agente causador do dano quer a conduta. parando o veículo ante a advertência de normatização do tráfego e neste sentido devesse ser a sua determinação volitiva. invade a pista preferencial e ocasiona acidente com dano a outrem. mas que descumpre por negligência.. a vontade dirigida para o evento.30 Reforçando. rel. deve ressarcir as perdas e danos decorrentes. violação de um dever que o agente podia conhecer e acatar. Exceto nos casos em que a evidência da colisão fica marcante no veículo. mas não quer o dano. não respeita o sinal de transito de parada obrigatória. 449). 34 ed.8 Responsabilidade civil subjetiva Um motorista transita pela via tributária. Sergio. Na culpa. São Paulo: Atlas. essa espécie de responsabilidade civil inspira-se no ato ilícito. 31 CAVALIERI FILHO. 30 Atualmente com o avanço da mecânica que proporciona a substituição de peças. embora o seu entendimento ético-jurídico fosse no sentido de portar-se com cuidado objetivo. pois assim a circunstância o exigia.

a responsabilidade civil subjetiva está prevista no artigo 927: “Aquele que. causar dano a outrem. violar direito e causar dano a outrem. Sem dano não há responsabilidade. patrimonial.” Ato ilícito de que trata este artigo é todo ato contrário as normas de Direito Público ou de Direito Privado. 186 e 187). . o dano e a imputabilidade. em qualquer bem ou interesse juridicamente tutelado. b) o dano daí decorrente. Ordenamento jurídico que é constituído por comandos dirigidos às pessoas para que ajam de determinados modos. por ação ou omissão voluntária. A imputabilidade é a atribuição da conduta danosa a determinada pessoa capaz. por ato ilícito (arts. no fato de ser fonte das obrigações. negligência ou imprudência. isto é. a responsabilidade civil subjetiva esteia-se no art. mas não o faz. Responde à indagação sobre a razão pela qual é atribuído a alguém o dever indenizatório. moral ou estético. dando ao advento uma relação jurídica cujo objetivo é o ressarcimento do dano. do que pode ser imputado ao agente causador do dano a título de dolo ou culpa. A importância do ato ilícito reside. ou se abstenham de certas ações. fica obrigado a reparálo. Já a culpabilidade é o estado do culpável. a partir dele é que se justifica a atuação normativa. pois.” São seus pressupostos: a) uma conduta culposa ou dolosa (culpa lato senso). pois o incapaz é inimputável. Compõe o aspecto subjetivo da ilicitude. que ofende direitos alheios. Só pode ser atribuída à pessoa capaz por ter discernimento e vontade. É o elemento unificador da responsabilidade civil. O dano. o agente há de ter liberdade para determinar-se. comete ato ilícito. a culpabilidade. A pessoa é culpada quando poderia e deveria ter agido em consonância com a prescrição da lei. como já assinalado. Há uma contrariedade entre a conduta humana e a norma jurídica. é todo prejuízo sofrido por uma pessoa. sendo que seus elementos estruturais a antijuridicidade. Na Parte Especial do Código Civil. independentemente de qualquer juízo de censura.27 Na Parte Geral do Código Civil. Compõe o aspecto objetivo da ilicitude. A antijuridicidade é toda ação ou omissão humana adversa ao ordenamento jurídico. 186: “Aquele que. ainda que exclusivamente moral.

10 Jurisprudência Indenização – Dano moral – Envio de mensagem eletrônica – Calúnia. enseja dano moral (TAMG. 2. dando ensejo a sua devolução por insuficiência de fundos e inscrição do emitente no cadastro de emitentes de cheques sem fundos. 24.12. 20. RT 580/162). 3ª Câm.83. Civ. de 7.. DJMG 03. 1. 2ª Câm. implica o dever de reparação por danos morais [.2004. do corretor que leva cliente ao imóvel que está a venda etc.529).. . 186 e 927 do CC. publ. os direitos de vizinhança (CC 16.03. art. o centro da responsabilidade civil era a culpa.. A exceção é o contrato de transporte (CC. existente uma terceira categoria. art.). rel. Desa. sua apresentação antecipada..2005. Rel. o incorporou a essa universidade de bens que é seu fundo de comércio (1º TACivSP. assim entendendo. 2ª Câm. Civil e processual civil. Veículo de transporte pesado que invade pista em sentido contrário vindo a causar sinistro.32 Responsabilidade civil – danos a prédio vizinho – Indenização pleiteada pelo locatário – Possibilidade – Titular de fundo de comércio. Como regra geral. DAMG 04.03. art. respondendo o transportador pelos danos que causar ao carona em razão de culpa grave na condução do veículo. o fato da coisa animada ou inanimada (CC 16.. (TJMA. Dano moral 32 A responsabilidade civil nos transportes onerosos de pessoas e mercadorias é contratual e objetiva.03. RT 845/327). ad exemplum. Inteligência dos arts. publ. j.681.1912). No sistema anterior. Tem legitimidade para cobrar o reembolso do que gastou na reforma do imóvel danificado por culpa do vizinho o locatário que. no acidente de transito a responsabilidade é extracontratual e subjetiva. em virtude de envio de mensagem eletrônica. Juiz Roberto Borges de Oliveira. Juiz Alberto Aluízio Pacheco de Andrade. o contrato de transporte (Lei 2. 2ª Câm. quando diretamente prevista em lei. in RJ 317/139). A violação da honra.527 a 1.10. 734).. Juiz Rangel Dinamarco. como se verá logo em seguida. Indenização – Dano moral – Cheque pós-datado – Apresentação antecipada – Devolução – Inscrição de nome – Cadastro de emitentes de cheques sem fundos (. o transporte aparentemente gratuito ou interessado. Civ. com raras exceções à teoria objetiva. A responsabilidade civil no transporte puramente gratuito é aquiliana e não contratual. Sendo o cheque emitido para pagamento em data posterior.2004. 554). por exemplo. havendo ali instalado seu estabelecimento comercial.. Cleonice Silva Freire.28 c) o nexo de causa e efeito entre um e outro. Além do transporte gratuito ou de cortesia e o oneroso. imputando falsamente a prática de fato definido como crime. Acidente rodoviário. rel. o que o patrão oferece ao empregado na ida e volta do trabalho. j.] (TAMG. Civ. entre outros poucos. in RJ 317/139). quando em curso o Código Civil de Bevilaqua. rel.

é prevista na lei. Ementa da Redação: Tratando-se de extravio de bagagem em transporte ferroviário. rel. assume o transportador a responsabilidade de resultado atinente à chegada não só do passageiro. é também denominada responsabilidade civil sem culpa. Antônio Guerreiro Júnior.10. 2ª Câm. Alguém adquire passagem de uma cidade para outra com determinada empresa. III – Recurso não provido (TJMA. 2ª Câm. Cabimento. no caso em testilha. Estampa o art. é também chamada de obrigação de fim.2006. que não cogita da conduta culposa ou dolosa do agente causador do dano. 734. 17. Nessa espécie de contrato vige a denominada cláusula de incolumidade. é devida indenização à passageira.11 Responsabilidade civil objetiva Outro caso de responsabilidade civil quanto ao fundamento pode ser reproduzido no contrato de transporte. 2. Responsabilidade civil – Indenização – Transporte rodoviário de passageiros – Extravio de bagagem – Passageira que não indicou o que levava em sua mala – Irrelevância – Transportador que assume responsabilidade de resultado atinente à chegada ao destino contratado não só do passageiro. Presunção juris tantum. j. impõese o dever de indenizar. Ausência. ao invadir a pista de rolamento em sentido contrário. Juiz Borelli Thomaz. Civ. I – Demonstrada a culpa do motorista que. mas também dos seus pertences ao destino contratado (1º TACivSP. vez que o policial registra o fato de acordo com o que lhe é narrado. na qual o devedor somente cumpre a prestação se alcançar o fim colimado pelo credor.2004. mas também de seus pertences – Verba devida. A responsabilidade civil objetiva. ainda que não indicado o que levava em sua mala. Boletim de ocorrência. basta a relação de causa e efeito entre o dano experimentado pela vítima e a ação ou omissão do agente.29 e material. a obrigação de indenizar. a empresa transportadora responde pelo prejuízo causado ao passageiro sem indagação do pressuposto subjetivo da culpa. se inadimplida. Por isso. II – O boletim de ocorrência não goza de presunção juris tantum dos fatos articulados. por conter uma obrigação de resultado.. Trata-se da responsabilidade civil objetiva.11. RT 835/250). do Código Civil: “O transportador responde pelos danos causados às pessoas transportadas e suas . Celebra uma obrigação de fazer. de pronto. Des. 10. RT 858/328). uma vez que em contrato de transporte. Por isso. j. causou grave acidente de trânsito. rel.. Estabelecida esta causalidade abrolha. não fazendo por isso prova absoluta.

assim por meio de uma profissão ou mesmo de uma associação que. risco para os direitos de outrem.] ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. Caio Mário da Silva Pereira pontificava que o Direito moderno já não visava o autor do ato. 2 ed. das preferências e privilégios creditórios. não eventual ou casual. definir atividade normalmente desenvolvida e risco. também o ato lícito pode ensejar a responsabilização do agente que ao praticá-lo ocasione dano. não praticado com assiduidade. volume XIII: da responsabilidade civil. 927. por sua natureza. Carlos Alberto Menezes e outro. São Paulo: RT. dando ao juiz a oportunidade de criar solução (vide Nery. a solução a ser dada pelo juiz é aquela adrede prevista na norma. Equivale afirmar. 34 Cláusulas gerais e os conceitos legais indeterminados apresentam conceitos cujos vocábulos empregados pelo legislador têm densidade semântica intencionalmente vagas e abertas. Dá mobilidade ao sistema do CC. 35 PEREIRA. . Carlos Alberto Menezes Direito e Sérgio Cavalieri Filho prestam merecida homenagem: “de uma coisa não se tem dúvida: aqui foi adotada a teoria do risco criado cujo maior defensor é o mestre Caio Mário”. manifestando franca tendência pela doutrina objetiva. 36 DIREITO. Nelson e Rosa.]”. Rio de Janeiro: Forense.. Não se investiga nem sequer a antijuridicidade do fato danoso. pelo acidente com o passageiro. as cláusulas gerais e os conceitos legais indeterminados. mas que seja habitualmente exercida. como se sabe. Outra faceta dessa espécie de responsabilidade civil está prevista na parte final do citado parágrafo único do art. Responsabilidade civil. contra a qual cabe ação regressiva.. Comentários ao novo Código Civil. i. Desde há tempos. 2003. deixando-o vivo e atualizado.. protegendo de forma mais ampla a vítima inocente de dano.30 bagagens. p.”33 É o que dispõe a primeira parte do art. porque neste a norma já prevê a conseqüência. é. salvo motivo de força maior. 141 e seguintes). Não precisa ser uma atividade empresarial. não 33 Súmula 187 – STF: A responsabilidade contratual do transportador. CC anotado e legislação extravagante. 24 e 29. Caio Mário da Silva. 146. independentemente de culpa. se ocorreu o evento e se dele emanou o dano. Abrange todo um domínio de casos. As cláusulas gerais. nos casos previstos em lei [. sim. reclamavam contra a ausência de disposição genérica a permitir a sua afirmação no Direito pátrio. 927: “[. A exclusão da culpa traz maior abrangência à responsabilidade civil. Distinguem-se. 2004. porém a vítima.. considera-se. A primeira é toda atividade organizada.35 E modernamente. parágrafo único: “Haverá obrigação de reparar o dano. elegendo uma previsão genérica em cláusula geral34.” É a grande novidade do Código Civil de Reale.36 Duas questões são apresentadas. sendo nula qualquer cláusula excludente de responsabilidade. A norma não prevê a conseqüência. 1991. não é elidida por culpa de terceiro. pp. p. não. acrescendo que juristas e tribunais. Rio de Janeiro: Forense. difere do ato avulso. permitindo ao juiz preenchê-las com valores a serem encontrados no julgamento de cada caso concreto.

Rio de Janeiro: Renovar. DORT: Distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho). apesar de a atividade. do CC português: “Quem causar danos a outrem no exercício de actividade. pois não se chegará a critério aceitável. registra Guimarães Rosa. que risco é perigo. cabe indagar o que não causa risco? Em Grande Sertão Veredas.” 39 TEPEDINO. Traduz-se na circunstância concreta que prenuncia a ocorrência de dano. solidariedade e responsabilidade objetiva. é obrigado a repará-los. Pioneiramente. adota o termo perigo. Maria Celina Bodin de. As pessoas confiam muito mais no transporte rodoviário do que no aéreo. p. Para exemplificar toma-se o digitador. aparentemente. obra coletiva coordenada por Gustavo Tepedino e Luiz Edson Fachin. Rio de Janeiro: Renovar. Qualquer atividade isolada. a chamada LER/DORT. viver. por si só. é grande a ocorrência de dano físico. embora as estatísticas demonstrem ser mais seguro dar a volta ao mundo voando do que fazer uma longa viagem de automóvel. 809 e MORAES. De destacado valor é o primeiro critério. obra coletiva coordenada por Gustavo Tepedino e Luiz Edson Fachin. mesmo sendo essa atividade lícita e de utilidade social. que sempre se revela provável. II. Maria Celina Bodin de. sem o caráter da habitualidade. Proveitoso para assim demonstrar é o transporte. 2. Na parafernália do mundo moderno. são atividades que a experiência tem demonstrado proporcionar elevado número de acidente. pois considera o ponto de vista estatístico. excepto se mostrar que empregou todas as providências exigidas pelas circunstâncias com o fim de os previnir. o que é agravado pela constante imprudência dos motoristas. permanece sob o manto da incidência da culpa. in concreto. Risco. Podese dizer. o art. não apresentar risco. ou seja. O que não se mostra razoável é deixar o conceito de risco ao arbítrio do senso comum. mormente nas estradas brasileiras que não se coadunam com as normas de segurança.” 38 CC da Itália. inerente aos movimentos repetitivos (LER: lesão por esforços repetitivos. 2. cf.39 37 MORAES. 2006. b) a gravidade de tais danos. solidariedade e responsabilidade objetiva. 871: “Uma atividade é uma série contínua e coordenada de atos e não se confunde com um ato único ou com atos isolados. É o fator quantitativo. Risco. contudo. Gustavo e outros. que permanecem sob o âmbito de incidência da culpa. ficará obrigado à indenizar se não provar ter adotado todas as medidas idôneas para evitar o prejuízo. perigosa por sua própria natureza ou pela natureza dos meios utilizados.31 tem finalidade lucrativa.050. A doutrina italiana elege dois critérios para definir atividade perigosa: a) a quantidade de danos habitualmente causados pela atividade em questão. do Código Civil italiano38. Rio de Janeiro: Renovar. cf. 493º. No senso comum notam-se dissonâncias cognitivas que geram impropriedades.” Norma idêntica é a do art. . que contém norma análoga. 2008. in O direito e o tempo: embates jurídicos e utopias contemporâneas – Estudos em homenagem ao Professor Ricardo Pereira Lima. que significa a potencialidade da atividade normalmente desenvolvida produzir dano a outrem. já é um risco. vol. p. art. Código Civil interpretado conforme a Constituição da República.37 A segunda é o risco. O direito e o tempo: embates jurídicos e utopias contemporâneas – Estudos em homenagem ao Professor Ricardo Pereira Lima.050: “Aquele que ocasionar prejuízo a outrem no exercício de uma atividade perigosa pela sua natureza ou pela natureza dos meios adotados.

de regra.32 Outro critério é o que considera o fator gravidade. porém não deixa de servir de parâmetro no sentido de que o risco precisa ser diferenciado. edição 2. a prudente tarefa de selecionar os casos de incidência da teoria do risco. armas de fogo. explosivos.40 Embora improvável. 873. Ademais. porquanto ocorrendo. De grande valia a jurisprudência que está sendo construída. os Juízes Federais concluíram pelo Enunciado 38 que a responsabilidade fundada no risco da atividade "configura-se quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano causar a pessoa determinada um ônus maior do que aos demais membros da coletividade.” O enunciado não é muito esclarecedor. É uma figura em construção. veneno. o magistrado deve consider também a legislação e a jurisprudência trabalhista e previdenciária.12 Teorias sobre as atividades de risco 2008. entrevista páginas amarelas. prestam-se à responsabilidade objetiva do parágrafo único. certas construções edilícias. do art.120. a recomendação do direito comparado é no sentido de que ao juiz cabe identificar o risco da atividade mediante análise tópica e na realidade local. como exemplo. . raros são os sobreviventes. saliente. ante a caracterização do risco nele previsto. Vale. mediante seguro conhecimento dos conceitos aplicados à realidade decorrente. pois nesse âmbito o direito tem trabalhado afanosamente determinadas atividades como sendo perigosas para efeitos da concessão do respectivo adicional. Atividades costumeiramente apontadas como de risco relacionam-se ao fornecimento de energia elétrica. o desastre aéreo é assaz danoso. Embora não vinculado. por repetir o preceito legal sem outro esclarecimento mais amplo. inclusive algumas atividades desportivas como a luta de boxe. àquelas ligadas a gás. material radioativo. É que cabe aos juízes. como controle de recursos hídricos. à mineração. 927. 2. A 40 Revista Veja. ou pelo emprego de método de alto potencial lesivo. p. como soe acontecer com as cláusulas gerais e os conceitos legais indeterminados. cuja probabilidade de acidente é inferior a um em um milhão. Enfim. não é qualquer risco. a corrida automobilística etc. à distribuição de combustíveis. à fabricação de medicamentos. essas atividades serão desvendadas na análise cada vez mais constante dos casos concretos. com mais ênfase à energia nuclear. Ambos. o mesmo transporte aéreo. ao emprego de raios-x. também importante porque técnico. o fator quantitativo e o fator gravidade. do Código Civil. Na I Jornada de Direito Civil. de 8 de julho de 2009.

responde pelos eventos danosos que esta atividade gera para os indivíduos. Aplica-se o princípio constitucional da solidariedade social. Repartem-se os ônus e encargos sociais resultantes da atuação estatal na perseguição do interesse da coletividade. Acanha a incidência da teoria do risco. A teoria do risco profissional enfatiza que o dever de indenizar cabe somente quando o fato lesivo decorre da atividade ou profissão da vítima. Para explicar a teoria do risco criado ninguém melhor que o seu paladino Caio Mário da Silva Pereira que a resume na seguinte fórmula: “todo prejuízo deve ser atribuído ao seu autor e reparado por quem o causou”. O risco e a solidariedade social são os suportes dessa teoria. O Estado responde pelo risco criado e inerente à sua atividade administrativa. A teoria do risco administrativo foi concebida para respaldo da responsabilidade civil do Estado.. Desenvolvida especialmente para os casos de acidentes do trabalho ou por ocasião dele. cuja redação é deficiente por não se referir às pessoas de direito privado prestadoras de serviços públicos. da Constituição Federal. Se a atuação do ente ou agente do Estado é para o bem de todos. e completa: [. Pela desigualdade econômica. com fundamento no princípio de que onde está o ganho. aí está o encargo (ubi emolumentum. § 6º. ou qualquer outro? A duas. ibi onus). coadunando com a Ética. se alguém põe em funcionamento uma qualquer atividade. sobreleva a dificuldade do empregado em produzir prova mormente nos casos de acidentes em razão das suas próprias condições físicas. que o dano sofrido. A uma. Também restringir a incidência da teoria do risco. A vítima teria que provar a obtenção de proveito por parte do agente do ato danoso. independentemente de determinar se em cada . É a previsão do art. O dano só seria reparado por aquele que colhesse algum proveito do fato lesivo. indistintamente. 43. o que é proveito? É proveito econômico. conduz a mais perfeita justiça distributiva. 37. que o Código Civil repete no art. por um ou alguns. A teoria do risco proveito imputa a responsabilidade a quem tira vantagem da atividade danosa. quer pela atividade repetitiva que se torna monótona.] o conceito de risco que melhor se adapta às condições de vida social é o que se fixa no fato de que. seja distribuído a todos. é justo e equânime. lucro.33 A construção das atividades de risco encontra suporte nas várias teorias elaboradas ao longo de tempo.. retorna ao angustiante problema do ônus da prova. que por partilhar encargos. Essa teoria afasta grande número de acidentes do trabalho. Abrolham dificuldades. sem qualquer indagação ao pressuposto subjetivo da culpa. quer pelo seu estado de exaustão.

1991. Fica. o caso fortuito ou força maior. Destaca-se de seu corpo: Com a propriedade de sempre. La Règle Morale. 292). assim. pela relatoria do então Juiz Marciano da Fonseca. explicam: a responsabilidade objetiva ‘não importa em nenhum julgamento de valor sobre os atos do responsável. n. p. Marty et Raynaud (Droit civil. Responsabilidade civil. julgado em 17 de fevereiro de 2004. pois. Não poucos são os defensores do 41 PEREIRA. Justifica-se o dever de indenizar mesmo em certos eventos em que não é possível estabelecer o nexo de causalidade. o que seria caso do risco proveito. 2 ed. à negligência. I) colocam a questão em termos de causalidade material: ‘responsável é aquele que materialmente causou o dano’ (in RT 826/234-235). IV. é a teoria do risco integral. portanto. Droit civil. . nesta forma: ‘todo prejuízo deve ser atribuído ao seu autor e reparado por quem o causou’. afastadas todas as causas de irresponsabilidade.41 A obrigação de reparar o dano surge da atividade normalmente exercida pelo agente. como Jean Carbonnier. assentada no ‘risco criado’. vol. Acórdão proferido pelo 6ª Câmara. Há de se considerar também. 86. a doutrina do risco. alguns autores usam a expressão responsabilidade automática. pp. se a atividade se organize de forma empresarial.34 caso. o dano é devido à imprudência. Basta que o dano se relacione materialmente com esses atos. então. II. t. desvestida das restrições de ordem técnica. e assim se configura a teoria do risco criado. atividade esta que cria risco diferenciado a interesses ou direitos de outrem. Caio Mário da Silva Pereira esclarece: “Resume. ‘Todo fato do homem obriga aquele que causou um prejuízo a outrem a repará-lo’ (Georges Ripert. entre o fato e o dano (entre le fait et le dommage). Caio Mário da Silva. porque todo aquele que exerce uma atividade deve-lhe assumir os riscos’ (Jean Carbonnier. vol. O problema será. Ao invés de a responsabilidade assentar numa relação causal entre a culpa e o dano. como os danos nas atividades nucleares. Não se cogita nessa teoria. o que seria o caso do risco profissional. Os autores modernos. bem define o risco criado. de causalidade. nem que tenha revertido em proveito de qualquer espécie ao agente do dano. Do mesmo modo não interessa a profissão exercida pela vítima. assentado que o dever de reparação funda-se num fato. Posição extremada que o ordenamento jurídico reserva tão-só para casos excepcionais. Obligations. Não sem razão. isoladamente. n. Fica. a um erro de conduta. mesmo o fato exclusivo da vítima ou de terceiro. 24 e 288. 115). que a doutrina do risco apresenta uma feição extremada. A obrigação de indenizar faz-se presente apenas em face do dano. do extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo. simplifica-se nesta outra. Rio de Janeiro: Forense.

14 Confronto de situações de risco São desastrosas as estatísticas de acidentes de trânsito. São Paulo: RT.13 Fontes objetivas Pois bem. É frequente encontrar na jurisprudência referência a uma e a outra dessas teorias. Responsabilidade civil por dano ecológico e a ação civil pública.42 Ver RT 625/251 e 623/31 Ver responsabilidade civil objetiva pura. Pergunta-se: como seria atribuído o dever 42 NERY JÚNIOR. MILARÉ. b) quando a sua fonte é a natureza da atividade habitualmente desenvolvida. b) o dano daí decorrente. Até porque sob a ótica jurídica outra solução seria inexeqüível no sistema atual da responsabilidade civil. a solução que resta é a da responsabilidade civil subjetiva. art. SILVA. incontestavelmente. 2. p. In Justitia. José Afonso da. 37. Se os dois motoristas envolvidos em um acidente respondessem objetivamente. conforme as peculiaridades do caso em julgamento. maior rigor na fiscalização do trânsito e efetiva melhora nas condições das vias públicas. CC. essa triste e violenta realidade enseja responsabilidade civil. Direito ambiental constitucional. Extrai-se daí que os seus pressupostos são: a) a conduta prevista em lei ou que desenvolve habitualmente uma atividade de risco. as relações de consumo (CDC. 172. 4 ed. Dirigir automotor é situação de risco. 313.. apurando qual dos motoristas laborou eficazmente para a eclosão do fato lesivo com a sua conduta culposa. 12 e 14). . revista do Ministério Público do Estado de São Paulo. 2002. Nelson. a responsabilidade do Estado e das pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços públicos (CF. Nos acidentes envolvendo dois veículos. § 6º. São Paulo: Malheiros. arts. 43) etc.35 risco integral nas atividades relativas ao dano no meio ambiente. 764. que coloca em risco os membros da sociedade. A par da premente necessidade de melhor capacitação dos motoristas. Direito ambiental: doutrina e jurisprudência – glosário. em apertada síntese a responsabilidade civil objetiva contempla duas situações bem distintas: a) quando tem sua fonte diretamente na lei. 126. Edis. ambos seriam condenados à indenização. 3 ed. p. a exemplo dos artigos 936 a 940. c) o nexo de causa e efeito entre uma e outro. p. situações em que as duas posições causam risco para os direitos de outrem. isto é. 2.. vol. art. 2004.

a sua abolição total daria em um resultado anti-social e amoral. É a socialização ou humanização do Direito. pois estariam. para que se não atribua ônus apenas à vítima inocente de dano. a pouco e pouco. o lícito seria equipado ao ilícito. igualmente.36 de cada um indenizar o outro? Se um dirigisse conforme as normas de trânsito e o outro na sua contrariedade ambos responderiam. pela qual se repartam equitativamente os riscos inerentes à sociedade. sem que uma afaste a outra. De um lado. Decorrente. cuja preocupação maior é a vítima inocente de dano. facilitando a todos indistintamente. 2. Não se contesta. destarte. a Moral mantém a teoria da culpa. Uma não suplanta e nem derroga a outra. social e jurídico. a Equidade recomenda a teoria do risco. diante de uma atividade habitual de risco? Não seria justo. a sempre falada justiça distributiva. Inaugura-se um novo pensamento político. Trata-se menos do declínio da primeira e mais o surgimento de outro mecanismo para atender novas demandas sociais. porque somente dessa maneira todos os casos de dano poderão ser indenizados. nem entre a boa e a má conduta. insuscetível de abarcar toda a construção da responsabilidade civil. Se a meta ideal é sempre reintegrar no estado anterior o patrimônio alterado pelo evento danoso. somente se atinge a sã justiça reparadora se a responsabilidade subjetiva for complementada pela responsabilidade objetiva. do outro lado. ambas firmam um espaço próprio de coexistência funcional. com a previsão ampla da objetivação está encerrada a fase do individualismo inerente à culpa. que a responsabilidade objetiva veio para complementar a responsabilidade subjetiva. a fim de atender aquelas demandas em que a exigência da culpa provada representa pesado ônus para quem é lesado na sua pessoa ou no seu patrimônio. não mais o seu autor. Na verdade. . por não distinguir entre o lícito e o ilícito. Mas também não há como contestar. consideradas lícitas porquanto proveitosas à vida social. Sendo assim. que ela se revela. a culpa subjetiva é noção útil e dela não se pode prescindir. de sorte a todos beneficiam.15 Um sentido de complementaridade Observa-se que a responsabilidade subjetiva convive harmoniosamente com a objetiva. As atividades de risco são conquistas da tecnologia. tal como na responsabilidade do ente e dos agentes do Estado os riscos devem ser partilhados entre todos. É de justiça social.

a expansão da responsabilidade civil. 1ª Câm. nos termos do Código de Defesa do Consumidor. estabelece o dano animal como responsabilidade civil objetiva. 936 ao prever como causas de irresponsabilidade a culpa da vítima ou a força maior. 27ª Câm. j. que brada por reciprocidade.2003. fazei-o vós a eles” (6.2006.16 Jurisprudência Queda de árvore sobre veículo – Responsabilidade civil do Município – Teoria do risco administrativo – Dever de indenizar reconhecido – Cabe à Municipalidade zelar pela manutenção das árvores existentes em área pública. da CF. o dever de indenizar dependerá apenas da prova do nexo de causalidade entre ao evento e o dano causado à parte. probo..m. evitando a sua queda. 44 O acórdão no seu corpo refere-se ao artigo 14 do CDC. s. 1º.) (1º TACivSP. Em ocorrendo acidente deste tipo. Des. § 6º. 20. Recurso de ofício e apelo da ré improvidos (TJSP. clamando verdadeira revolução de comportamento. sendo objetiva a sua responsabilidade. rel. que adota o valor constitucional da solidariedade. RT 836/201). 1ª Câm. cabendo a ela o direito de regresso – Proteção à vítima e risco da atividade – Omissão da vigilância que é exercida (. .. 2. hipóteses de interrupção do nexo causal.2004. rel. RT 824/244). Luiz Antônio Alves Torrano.44 A casa de shows deve zelar pela segurança do público que recebe. 07.. aliadas a subjetiva e a objetiva. RT 860/276). é mais específico para a espécie. que. pois fala da responsabilidade objetiva do Estado e das pessoas jurídicas prestadoras de serviço público. pois somente resta espaço no meio social para o cidadão diligente. Juiz Antônio Ribeiro. j.12. O vetusto preceito romano neminem laedere torna-se mais renovado do que antes. consciente.37 Cuida-se concluir.j. está a exigir de todos e de cada um rigoroso dever de cuidado objetivo na interação que caracteriza a vida em sociedade. como o caso da distribuição de energia elétrica. seguida de interrupção do forneciamento de energia – Queima de aparelhos elétricos – Defeito na prestação do serviço – Responsabilidade objetiva da concessionária do serviço público – Obrigação de indenizar caracterizada – Recurso não provido (1º TACivSP. rel. Responsabilidade civil – Acidente de veículo – Colisão com animal em estrada privatizada – Procedimento sumário – Validade – Legitimação passiva da empresa que administra a rodovia e recebe pedágio – Responsabilidade do dono do animal que não afasta a possibilidade do usuário de exigir a indenização da empresa. lembrado o Evangelho de Mateus: “Tudo o que quereis que os homens vos façam. se o consumidor é agredido injustamente por segurança 43 O art.. Juiz Reinaldo Miluzzi.12).. j.43 Responsabilidade civil – Indenização por dano patrimonial – Abrupta sobrecarga de energia elétrica. não no artigo 37.09.12..

ainda que não seja funcionário do estabelecimento comercial. RT 855/370). Ademais. j. incabível é falar em caso fortuito ou força maior para afastar a responsabilidade. Para reflexão O que é honra subjetiva e objetiva? É possível violar a honra alheia sem que a vítima esteja presente? Dê um exemplo.2004. j. RT 830/245). qual o valor probatório do boletim de ocorrência? Qual a responsabilidade civil no transporte gratuito? E no oneroso? Em que ponto reside a principal diferença da responsabilidade civil quanto ao fundamento? E quanto ao fato gerador? Basta ao motorista. rel.38 contratado. Des. qual a espécie de responsabilidade civil quanto ao fato gerador? E quanto ao fundamento? Quais as outras denominações da responsabilidade civil subjetiva? E da objetiva? Dê um exemplo de cada espécie de responsabilidade civil até aqui estudada. Juiz Antônio Ribeiro. respeitar os sinais que regulamentam o trânsito? Ou dever tomar outros cuidados? Nos acidentes de trânsito. Distinga antijuridicidade de culpabilidade. Pereira da Silva. A terceirização do serviço de segurança não exime a casa de shows de indenizar danos sofridos pelo seu cliente. mormente ser ficou evidenciada a ausência da necessária segurança no transporte de malote (1º TACivSP. Procure imaginar exemplos próprios. Qual a consequência da apresentação de cheque pós-datado antes do seu vencimento? Ao credor assiste o direito de cobrar dívida antes de vencido o prazo estipulado no contrato? Em que dispositivo legal pode ser embasada esta questão? Em termos de responsabilidade civil. Caracteriza a responsabilidade civil objetiva do banco por dano moral o fato de ter ocorrido roubo de talonários quando estes estavam em poder do estabelecimento bancário. uma vez que se trata de atividade de risco. cabendo.06. 07. rel. bem como com os constrangimentos e ameaças dos portadores de títulos. Pode atribuir ao incapaz conduta antijurídica? E conduta culposa? Para recordar: quando se adquire a capacidade jurídica para a prática dos atos da vida civil? . pensando na sua experiência de vida. lado outro. direito de regresso contra a empresa contratada (TJMG.05. 09. em sede de responsabilidade civil... 10ª Câm. ocasionando prejuízo moral a seus clientes que tiveram desequilíbrio em suas contas correntes com a devolução indevida de cheques.2006. 1ª Câm.

a responsabilidade é contratual e objetiva. 186 e 927 do CC/2002 (TJMG. garante a gratuidade dos transportes coletivos urbanos aos maiores de sessenta e cinco anos de idade. De efeito. ressalta a distinção entre o transporte oneroso e gratuito. o que não pode ser considerado como transporte gratuito. Não contempla a equidade o tratamento paritário dessas duas espécies de transporte. O denominado carona assume os riscos da viagem. A responsabilidade civil no transporte puramente gratuito é aquiliana. Desa. outro é ato de liberalidade ou cortesia. O motorista. Inteligência dos arts. Um é mediante remuneração. 230. 2. e por culpa lesione a outrem ou deteriore o seu patrimônio. vítima do dano. O art..17 direta. ao passo que neste é extracontratual e subjetiva. rela. Cleonice Silva Freire. da Constituição Federal. ou simplesmente o agente responde por ato próprio. j.2005.10. ou por ato próprio. É a regra geral. RT 845/327). Por motivos óbvios. responde por ato próprio perante o carona.17 Responsabilidade civil direta Na responsabilidade civil direta. 20. 3ª Câm. o seu custo está embutido no valor global da tarifa e repassado aos demais usuários do serviço. ele próprio responde por esse ilícito extracontratual. respondendo o transportador pelos danos que causar ao carona em razão de culpa grave na condução do veículo. e não contratual. sem qualquer contraprestação. como visto.18 indireta. Se uma pessoa atua na vida social. . autor do dano. 2. Esse exemplo presta-se para outra lição. Naquele.39 Espécies de responsabilidade civil Responsabilidade civil quanto ao agente: 2. a conduta lesiva e a obrigação de indenizar confundam-se na mesma pessoa. sem o cuidado objetivo. É dizer. que agiu culposamente. § 2º. o ato danoso é imputado a quem o pratica.

a sua ruptura desmotivada surte como efeito jurídico a obrigação de indenizar. Danos morais e materiais. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. Caio Mário da Silva. 46 Confira outro julgado RT 567/174. de pessoas que trocam condução em dias alternados.40 Pode-se acrescentar o transporte interessado. sem qualquer motivo justo (TJSP. 215/93. pois no caso do acórdão. no abuso de direito. no mesmo sentido: RT 741/255. 7 ed. Rui. 228 e ss. também do corretor que leva o cliente ao imóvel que está à venda. 6ª Câm.10. ainda que indireto. O namoro não é compromisso sério para ensejar dano. p. Ver neste sentido: Boletim da AASP 2. devidamente comprovados. Rui. 7 ed. pelo rompimento de noivado e desfazimento da cerimônia de casamento já programada. Prevalece a tese de que o rompimento em si não gera responsabilidade.2000. p. vítima no episódio. referindo-se às JTJLex 180/113.45 Outro exemplo de responsabilidade civil direta é extraído de interessante caso: Indenização. utensílios. in Scoto. Responsabilidade civil. apenas aparentemente gratuito. a conduta da noiva foi a causa do ato lesivo. somente gera responsabilidade quando ocorrem danos. 902). para se dirigirem ao trabalho ou outros afazeres. São Paulo: Atlas. p. Des. 313.284/610. com aquisição de móveis. subjetiva e direta). O credor que. responde civilmente pelos danos morais e materiais decorrentes de sua atitude [. Dever de indenizar o noivo. Ruptura sem motivo justificado. 2009. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. São Paulo: RT. com a expedição de convites.2002. Casamento já agendado. vigendo a cláusula de incolumidade. Houve desfalque no patrimônio dele com a aquisição de móveis e utensílios para guarnecerem o futuro lar.02. se a dívida nele representada já havia sido paga. quando se dá algum interesse patrimonial ao transporte. rel. Em sentido contrário: Stoco. 2006. CAVALIERI FILHO. j.46 A promessa de casamento é compromisso preliminar. 8 ed. a expedição de convites. protesta duplicata já paga. como o caso de compra de móveis e outros utensílios larários. Rio de Janeiro: Forense. São Paulo: RT.. além da evidente situação de constrangimento. Programa de responsabilidade civil. tratando-se de responsabilidade civil direta. p. Verbia gratia. Sergio. 2 ed. Cabe indenização por dano moral e material. 779/377. 902.. 1991. . expedição de convites e outros preparativos. Rompimento de noivado. a contratação para realização da festa e outras despesas do gênero. responde o credor que protesta título de crédito. 03. 2007. de 07 a 13. a ensejar o dano moral (responsabilidade civil extracontratual. é ela responsável pela indenização ao noivo. Casos equiparados ao contrato de transporte.] 45 PEREIRA. Da mesma maneira. o transporte que o empregador concede ao empregado para conduzi-lo ao trabalho. Testa Marchi..

modernamente denominada de transindividual. rel. orientando-os nas regras da moral e dos bons costumes. conforme as condições familiares. uma conduta pautada ainda na vigência da locação. Em outros termos. Pode-se afirmar com absoluta . da personalidade e do desenvolvimento intelectual. tudo conforme a letra do art. Locação – Reparação de danos – Entrega do imóvel sem condições que possibilitem novo contrato locatício. 2. 28. proporcionando-lhes condições favoráveis para a formação do caráter. que Serpa Lopes chama de complexa. j. do mesmo codex. pois ao mesmo tempo em que os filhos são submetidos à autoridade dos pais. cabe a estes zelaro e administrar os bens dos filhos.. É a responsabilidade civil indireta. ou quem desfrute de seu trabalho. 10ª Câm. É muito dessa formação familiar que se forja o cidadão honesto e útil para a convivência social.4. Outra passagem pode ser colhida no contrato de locação. Juiz Emanuel Oliveira. 1. RT 813/268).2004. inc. 936 a 938.18 Responsabilidade civil indireta Há situações em que o agente do dano não responde pela indenização. 932. ou da coisa inanimada. rel. como na sua formação.. Em conclusão. Ementa Oficial: É de responsabilidade do inquilino os alugueres que os autores deixaram de perceber desde o dia seguinte à desocupação do imóvel até o tempo necessário à reparação dos danos (TACSP. apesar de o contrato já extinto pela desocupação e entrega do imóvel. protegêlos e educá-los como preconiza o art. é encargo dos pais a condução da criação e da educação dos filhos não só no sustento. 7ª Câm.10. bem ainda pelo fato da coisa animada ou inanimada. ou do fato animal. É contratual porque o dano decorre de um ilícito contratual. dá-se a responsabilidade civil direta sempre que ao próprio causador do dano cumpre a obrigação de compor a indenização. RT 827/308). do Código Civil. promana de ato de terceiro. com liberdade e responsabilidade. 29. assim dispondo os arts. Pode acontecer que o agente do dano seja uma pessoa e a obrigação de indenizar recaia sobre quem é o seu responsável por tê-la sob sua autoridade e em sua companhia. j. I. Juiz Ariovaldo Santini Teodoro.2002. do Código Civil.41 (1º TACSP. O exercício do poder familiar é um poder-dever.634. Responsabilidade do inquilino pelos alugueres durante o tempo necessário para reparar o imóvel.

2005. no exercício de suas funções. Carlos Roberto. Não difere aqui a razão ontológica: incapacidade do ofensor conjugada ao respectivo dever de vigilância. o empregado é um longa manus do empregador. I. Direito civil brasileiro. o ato do substituto. ao recorrer aos serviços do empregado. volume VI: direito de família. 7 ed. Não se pode descurar que tutor e curador têm maior limitação no seu poder de direção. Portanto. p. vol. do art. consequentemente. responsabilizando os pais pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia.48 Sempre foi mais adequada a teoria da substituição. O tutor e o curador são responsáveis pelos danos causados pelos seus pupilos e curatelados. 182: “O empregado é apenas o instrumento.66. 199º. São Paulo: Atlas. 932. por lhes caber precipuamente os deveres de disciplina e vigilância. 47 Bem posta. 12 ed. a fim de torná-los úteis a si. a regra inserida no art.. para que. para que o filho fisicamente sobreviva. principalmente do ponto de vista prático. sendo de seu interesse o bom desempenho. São responsáveis os pais pela reparação dos danos causados pelos filhos menores sob sua guarda. por lhe ser impossível desincumbir-se pessoalmente delas. João Manuel de Carvalho.” 48 SANTOS. Código civil brasileiro interpretado. faz o que competia a este fazer. Programa de responsabilidade civil.42 exatidão: o poder familiar é munus publico. j. Ora. o patrão ou preponente assume a posição de garante da indenização perante o terceiro lesado.11.” . 227. Sergio. assim a sua responsabilidade deve ser verificada com mais cuidado e prudência. como pela sua formação. 363. uma longa manus do patrão. p. também o moral. XX. 47 GONÇALVES. Carvalho Santos condicionava a responsabilização na prova da culpa in eligendo e in vigilando do patrão: a má escolha do empregado ou a falta de vigilância quando no desempenho do contrato de trabalho. RT 389/223).49 Não outra a ratio legis do inciso II. por sua conta e risco. forme seu espírito e seu caráter. Des. p. Na égide do Código Civil de Bevilaqua. em regra. 2007. porém. rel. São Paulo: Saraiva. alguém que o substitui no exercício das múltiplas funções empresariais. 932: o empregador é responsável por seus empregados no exercício do trabalho que lhe competir durante a jornada de trabalho. em 14. Agora. porque pratica no desempenho da tarefa que a ele interessa e aproveita – pelo que a culpa do preposto é como conseqüência da culpa do comitente. à família e à sociedade. não tem os meios necessários para indenizar. é o ato do próprio substituído. de acordo com a sua idade (TJSP. dado que o preposto. 3ª Câm. objetiva. segundo a qual o empregador. O encargo envolve. está prolongando a sua própria atividade de tal modo que a culpa do empregado recai objetivamente sobre ele. O empregador é responsável pelos atos lesivos decorrentes da conduta culposa de seus empregados. Rio Janeiro: Freitas Bastos. por meio da educação. produz o seguinte textos citando Washington de Barros Monteiro e Sílvio Rodrigues: “Incumbe aos pais velar não só pelo sustento dos filhos. além do zelo material. durante e em razão da jornada de trabalho. uma vez que ao Estado cabe fixar normas para o seu exercício. Além disso. pois. 49 CAVALIERI FILHO.

Assim. a responsabilidade do patrão pelos atos do preposto só pode ser elidida quando o fato danoso por este praticado não guardar relação alguma com sua condição de empregado (1º TACivSP. pelos atos culposos praticados pelos médicos integrantes de seu corpo clínico. 22. que é objetiva.05. do CC.. na forma do art. embora mais atenuada que no contrato de trabalho. pois entre ambos existe uma situação de subordinação e de dependência. Na verdade o Código Civil de 2002 trouxe em . porquanto visa assegurar à vítima de dano injusto a efetivação de seu direito ao ressarcimento.96. O tratamento legal acerca da responsabilidade civil por fato de animal.. direito que estaria. Juiz Barreto de Moura. É o sentido do enunciado 191. compensará o dano com o melhor de seu campo e de sua vinha”.] deixar seus animais pastarem no campo de outro. atualmente. 8ª Câm. a responsabilidade civil objetiva indireta do proprietário ou guardião da coisa animada ou inanimada. art.43 Aquele que se faz substituir no exercício das múltiplas funções da empresa responde pelos atos dos que exercem a substituição precisamente porque seu pessoal se considera extensão da pessoa ou órgão principal.” Infere-se que a responsabilidade civil objetiva impura e indireta pelo fato de outrem se funda na ideia de garantia. o comitente ou preponente é responsável pelos atos do preposto. independentemente de vínculo empregatício (TJSP. Essa responsabilidade. Ver RJTJSP 120/178). ainda.. O fundamento é o mesmo do patrão. j. 09. do Conselho de Estudos Judiciários dos Juízes Federais: “A instituição hospitalar privada responde. Aldo Magalhães. rel. 932. Des. Assim é porque o dono ou guardião do animal somente se livra da responsabilidade se comprovar a culpa da vítima ou a força maior. III.. A jurisprudência tem reconhecido que o médico que integra o quadro clínico de um hospital e a pessoa física ou jurídica que mantém o estabelecimento de saúde são respectivamente preposto e preponente. j. na maioria dos casos. 936. rel.05. 2ª Câm. RT 667/107). Cumpre. segundo a dicção do citado artigo.90. do Código Civil. não mais apenas prega a presunção de culpa em desfavor do dano ou detentor do animal. E as duas excludentes referem-se à responsabilidade objetiva. encontra os seus primórdios no Livro do Êxodo (225): “se um homem [. O dono ou guardião do animal responde pelo dano que este der ensejo. Também. RT 731/243). seriamente comprometido se dependesse unicamente da solvabilidade do agente da conduta lesiva.

7 ed. não podendo haver exasperação da verba indenizatória por imputar encargos financeiros a pessoas que não concorreram diretamente com o dano. Mario Guimarães Neto. que independe de culpa. pelo que todos respondem indiscriminadamente. 1ª Câm. pelos danos causados. restando afastada apenas quando comprovada culpa da vítima ou força maior (AP. Pretende a lei dar segurança aos logradouros públicos e particulares. Tratando-se de queda de vaso em condomínio edilício.44 seu bojo o entendimento de que se trata de responsabilidade objetiva. .228). Sendo coisas lançadas ou caídas de prédios em condomínio. pois o condomínio forma um conjunto indivisível. a jurisprudência tende a responsabilizar o conjunto. O proprietário ou possuidor de uma coisa inanimada responde pelo dano derivado de seu uso ou utilização. RJTJERS 272/280). RT 848/323). a fim de que o uso e gozo não impliquem em prejuízo alheio. que também é coisa para o direito. 938 do CC/2002. impende prestigiar a solução que já vinha sob a égide do Código revogado. Des.11. 70022138721. responsabilizando aqueles que. Responsabilidade civil pelo fato da coisa – Letreiro de propaganda instalado na fachada de prédio – Queda sobre transeunte – Dever de indenizar do ocupante do prédio.. O proprietário tem a faculdade de usar.2005. a responsabilidade civil com relação à coisa inanimada é objetiva. daí emana o seu dever de cuidado para com essa mesma coisa de sua propriedade (CC. com fundamento no dever de segurança afeito ao dono. rel. mediante conduta censurável. Desde o Código Civil de Bevilaqua. 217). nos termos do art. 937 e 938. Des. arts. em que não se pode precisar o apartamento pelo qual o objeto foi lançado. j. resta caracterizada a responsabilidade subsidiária do condomínio. gozar e dispor da coisa. 2ª Câm. Como no caso animal. a responsabilidade civil sem culpa. É a vindicação de que cada qual cuide do que lhe pertence e lhe favoreça. art. 1.. lançam ou deixam cair coisas que possam causar danos à pessoa ou ao patrimônio alheio. Por se tratar de responsabilidade objetiva. 2007. in Programa de responsabilidade civil. bastando a prova do fato e o dano dele decorrente (TJRJ. Civ. descabe qualquer discussão em torno da culpa e sues efeitos. devendo o quantum reparatório amoldar-se harmoniosamente à sua função educativa e compensatória (TJRJ.. p. rel. 29. Sergio Cavalieri. A lei aponta o ocupante do prédio como responsável pelo dano proveniente de coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido.

10ª Câm. 2007. 691). seja com relação à personalidade. direito a indenização por danos materiais e morais em decorrência da perda do genitor. atingindo-lhe o nervo ciático e causando-lhe incapacidade permanente. Apelação cível. 1º. p. que fixa a responsabilidade indireta da locadora de veículo por ato do locatário: “A empresa locadora de veículos responde civil e solidariamente com o locatário. Direito assegurado a nascituro. do CC/2002. com o qual os filhos não residem. rel. Professor. submete-se às regras do clube. em razão de óbito do genitor em acidente de trabalho por culpa da empregadora – Ao nascituro se asseguram direitos relativos à personalidade desde o momento da concepção. rel. j. Clube esportivo.45 Outro exemplo é a Súmula nº 492. Min. pois. 920. com base nos arts. Luis Felipe.2009.2005. Privado. j.19 Jurisprudência Indenização pelo direito comum. 29. 3ª Câm. 2007. Juiz Adail Moreira)50 A mera separação dos pais não isenta o cônjuge. 4º do CC [atual art. Assiste-lhe. 4ª T.2009. É devida indenização por hospital. Des. os direitos do nascituro”. Des.041996. vitimado em acidente do trabalho por culpa da empregadora (2º TACivSP. São Paulo: RT. 29 ed. RT 846/269). desde a concepção. Aluno menor impúbere ferido por colega de escola quando se encontrava do lado de fora da 50 Rui Scoto esclarece: “O art. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. ainda que autônomo. 10ª Câm.. 7ª ed. 2º do CC dispõe que “a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida. in Rui Stoco. da responsabilidade em relação aos atos praticados pelos menores. 08. Responsabilidade solidária (TJSP. rel. in CC Theotonio Negrão. 286). pois permanece o dever de criação e orientação. pelos danos por este causados a terceiro no uso do carro locado. p. p. 16. Alegada exoneração de responsabilidade consistente em que o clube cedeu as dependências aquáticas a título de comodato. desde que venha a nascer com vida nos termos do art. em razão de ato de imperícia de seu funcionário que aplicou medicação intramuscular na região glútea de paciente.10. mas a lei põe a salvo. especialmente se o poder familiar é exercido conjuntamente (STJ. Responsabilidade civil do Estado.10.078/90 e 932.. j. Donegá Morandini.10.11. DJ 19. Responsabilidade civil. São Paulo: RT. . j. 7 ed.” 2. por danos material e moral. Inadmissibilidade.” Tratado de responsabilidade civil: dotrina e jurisprudência. Danos causados a aluno em aula de natação. III. 14 da Lei 8. com atrofia do membro inferior esquerdo (TJSP. Esses direitos são gerais. 2º]. à sucessão ou à reparação por dano material ou moral. Dir.. do Supremo Tribunal Federal. Ruy Camilo. rel. p.97.

Mantida a improcedência em relação a um dos co-réus. 2007. Fora das dependências da escola. Indenização restrita. alheia à disciplina normativa incidente. em razão de ter comandado o estabelecimento e a realização da assembléia nas dependências da empresa. em horário incompatível. 740). JTJ. Direito Privado. respondendo os responsáveis pela empresa privada ou o Poder Público. Rui Stoco. Público. Des. comunicando o malogro da negociação com terceira empresa para que esta voltasse a comprar os produtos da primeira. nos casos de escola pública. Sentença mantida. Pedido formulado por empresa metalúrgica frente a Sindicato e seus dirigentes. j. Responsabilidade do Sindicato e de seus representantes por danos derivados de depredação. moral e estético.. Recurso parcialmente provido para se julgar a ação parcialmente procedente ante a comprovação de responsabilidade do Sindicato e de seus representantes. aos danos materiais. ao fundamento e ao agente. “Sindicato responde pelos danos materiais ocasionados por bloqueio que representantes e prepostos seus impuseram a garagem de veículos de transporte coletivo” (TJSP. Morte de menor em parque de diversões.46 escola. público ou privado. Imputação objetiva da responsabilidade com base no Código de Defesa do Consumidor. p. 5. Dir. Indenização. Responsabilidade civil. com direito de ser resguardado em sua incolumidade física. Danos materiais e morais. Inexistência do nexo de causalidade entre o evento e a atuação do Poder Público ou de falta ou falha do serviço. Trabalhadores acampados na empresa.. 2ª Câm. Pedido de indenização por dano material. por qualquer lesão que o aluno venha a sofrer. São Paulo: RT. Recurso não provido (TJSP. 2002. 13. Caracterização do acidente de consumo. 3ª Cãm. Recurso não provido. Direito Privado.1997. rel.5. Descabimento da discussão relativa à culpa. no entanto. rel. 7ª ed. Des. rel. j. in Rui Stoco. ainda que causada por terceiro. destruição e apossamento de objetos. . seja qual for a sua natureza. em horário anterior ao inicio das aulas.. 12.10. Distribuição proporcional ao ônus da sucumbência.3. Ação procedente. 3ª Câm. “O aluno fica sob a guarda e vigilância do estabelecimento de ensino. junto ao portão de entrada. cuja responsabilidade não restou evidenciada. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência.Lex 203/95). Des. enquanto estiver nas dependências da escola. JTJ-Lex 254/150). Dano e nexo de causalidade demonstrado. Para reflexão Analise todas as jurisprudências até aqui transcritas e as classifique quanto ao fato gerador. j. inexiste qualquer possibilidade de se manter essa obrigação de resguardo” (TJSP. Reparação por danos morais e materiais até a idade em que a vítima completaria sessenta e cinco anos de idade. Vasconcelos Pereira. Ação julgada improcendente. Carlos Roberto Gonçalves.1999.

por sobrecarga de energia elétrica.1 Responsabilidade civil objetiva pura 51 AZEVEDO. p. distinguindo a responsabilidade civil objetiva em pura e impura. III – De retorno à objetividade Responsabilidade civil objetiva: 3. por exemplo. defende direito próprio? Todo rompimento de noivado motiva responsabilidade civil? E de namoro? Qual o dever jurídico derivado da propriedade de coisa? E de pessoa sob sua guarda e companhia? Distinga responsabilidade civil direta da indireta. animada ou inanimada. dentro de casa. cabe ação de perdas e danos? Contra quem? Classifique tal responsabilidade. é subjetivo ou objetivo? Por que? O entendimento é pacifico ou há interpretações dissonantes? Se ao nascituro é assegurado o direito de indenização.47 A responsabilidade objetiva dos pais.2 impura Já expostas as responsabilidade subjetiva e objetiva. o sindicato foi condenado a ressarcir dano decorrente de movimento grevista? Por que o estabelecimento de ensino é responsabilizado por lesões sofridas por um aluno em razão de agressão de autoria de outro aluno? E se pessoa estranha a escola? De quem é a responsabilidade por acidente de trânsito motivado pela invasão de pista de rolamento por animal? Se aparelhos elétricos são danificados. tem ele personalidade jurídica? Qual a diferença entre empregado e preposto? Se o direito de greve é constitucionalmente assegurado. A responsabilidade decorrente da coisa. e requerer ação de perdas e danos. nº 353. direta e indireta. por extensão dos tutores e curadores. por que. deriva da lei ou do desenvolvimento de atividade de risco? Indique os artigos de lei aplicáveis em cada caso. . Álvaro Villaça. março de 2007. ano 55. na jurisprudência transcrita. pura.1. 3. Revista Jurídica.51 3. em um parque infantil municipal. Pais que perdem filhos em acidente. Responsabilidade civil. 20 e ss. fica mais fácil a compreensão da proficiente sistematização de Álvaro Villaça Azevedo. justificando. em razão de óbito do genitor.

de 17 de outubro de 1977. pela reparação de danos causados aos consumidores [.453. I. 12 desse diploma: “O fabricante.” E conclui: “O Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal. Indeniza-se por mero fato jurídico ou até por ato lícito. porquanto a lei assim o determina. 14: 52 Ver arts. da Lei 7. art.. nas hipóteses referidas.938. Seria grave desastre ao meio ambiente. que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente. da Lei 6. Excetuada a responsabilidade pessoal dos profissionais liberais. Também assim responde o fornecedor de serviços. que em razão de um tremor de terra (fato jurídico em sentido estrito extraordinário). a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros. . E pelo art. é o poluidor obrigado. O Código de Defesa do Consumidor é um microssistema que disciplina a responsabilidade pelo fato do produto e do serviço.347.]”. Essa atividade exercida pela Petrobrás é lícita. e o importador respondem. A Lei 6. prevê no artigo 14. 14. responderá ela pelos danos. o construtor. ainda que isenta de qualquer culpa. nos termos desta Lei. se por motivo absolutamente estranho. que será apurada mediante a verificação de culpa (CDC. de 6 de junho de 1990. independentemente da existência de culpa.07.85. As relações de consumo também caracterizam a responsabilidade civil objetiva pura. que dispõe sobre a responsabilidade civil por danos nucleares.274. nos seus arts. Suponha-se. estabelece no artigo 4º: “Será exclusiva do operador da instalação nuclear.”52 Suponha-se ainda. regulamentada pelo Decreto 99. independentemente da existência de culpa. pela redação do art. A Lei 6..938. nacional ou estrangeiro. por danos causados ao meio ambiente. fendesse oleoduto da Petrobrás. a responsabilidade civil pela reparação de dano nuclear causado por acidente nuclear”. ocorresse o vazamento de uma usina nuclear. No entanto. 12 a 14. o comerciante é igualmente responsável. a Petrobrás teria o dever de indenizar. Dispõe o art. o produtor. que disciplina a ação civil pública. § 4º). Em ambos os casos vige a teoria do risco integral. devidamente autorizada. todas as demais atividades consumeristas são objetivas. § 1º: “Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo. De nada lhe aproveita a prova de estar imune de culpa. contaminando o mar por vários quilômetros. 1º.48 A responsabilidade civil objetiva pura implica indenização mesmo que inexista culpa de qualquer dos envolvidos no evento danoso. independentemente da existência de culpa. de 31 de agosto de 1981. 13. de 24. afetados por sua atividade.

o empregador responde objetivamente. Analisa-se a seguinte jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais: Acidente de trânsito – Aquaplanagem – Condutor que. independentemente da existência de culpa.. a culpa de terceiro. perquire-se a culpa do empregado.]. a responsabilidade civil indireta prevista no artigo 932.” 3. perde o controle do veículo e invade a pista contrária...] – Em matéria de acidente automobilístico. o proprietário do veículo responde objetiva e solidariamente pelos atos culposos de terceiro que o conduz e que provoca o acidente. E prossegue. especialmente desta Corte.] A jurisprudência. do empregado. mais adiante: [. No antecedente há um ato culposo. por força do artigo 933. de modo que o motorista. provada esta culpa. pouco importando que o motorista seja . incisos I a IV.2 Responsabilidade civil impura A responsabilidade civil impura encontra. que está vinculado à atividade do indenizador. Toma-se o artigo 932.49 “O fornecedor de serviços responde. como substrato. em razão da previsibilidade do evento. para que no consequente o empregador responda pela indenização na forma objetiva. é extracontratual e objetiva impura. Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Reparação de danos – Proprietário do veiculo solidariamente responsável pelo evento dano causado pelo condutor a terceiros. tem entendido que a ocorrência de chuva forte e a existência de poças de água em rodovia tornam previsível a ocorrência de aquaplanagem.. Em síntese. continuando a movimento normalmente o veículo. não podendo arguir em sua defesa a sua não culpa. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. Corresponde à responsabilidade civil indireta quando há subjetividade no antecedente e objetividade no conseqüente. por exemplo. isto é. não reduz a velocidade em asfalto molhado. Destaca-se do corpo do acórdão: [.. invariavelmente. é responsável por qualquer dano que venha a causa em razão de sua imprudência [.. verificando as condições climáticas desfavoráveis. deixa de parar o carro ou tomar outra medida de segurança. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação de serviços. abalroando automóvel que trafega em sentido contrário – Culpa caracterizada. do Código Civil. mesmo diante de tais sinais.

. que paga integralmente a indenização. Recorda-se. Esse direito regressivo na responsabilidade por fato de terceiro. o credor tem direito a exigir e receber apenas de um devedor solidário (CC. 932. está normatizado no art. somente se o empréstimo fosse para pessoa não qualificada. É a letra do artigo 942. Provada a responsabilidade do condutor.50 seu empregado ou preposto. Houve. do Código Civil. j. 934: “Aquele que ressarcir o dano causado por outrem pode reaver o que houve pago daquele por quem pagou [. o seu mau uso cria a responsabilidade pelos danos causados a terceiros. a vítima dirige a execução apenas contra o proprietário do veículo.6. todos responderão solidariamente pela reparação.] (TJMG.3 Direito de regresso: a actio in rem verso Suponha-se agora. Sergio. sua responsabilidade é objetiva impura.. art. assim o viciado em bebida. pois entendeu o acórdão. 24.2008. no mesmo sentido RT 868/214 e 877/313). . Para ele o empréstimo de veículo a parente ou amigo. Desa. Isso porque. Terá.] se a ofensa tiver mais de um autor.” Sergio Cavalieri Filho tem entendimento menos lato. Cív. 53 O que restringe a responsabilidade do dono do carro. op. in fine: “[. uma vez que sendo o automóvel um veículo perigoso. condenação pela reparação do dano de ambos solidariamente.. o proprietário do veículo fica solidariamente responsável pela reparação do dano. Prevalece a tese do colegiado mineiro. ninguém responde por fato de terceiro. cit. como criador do risco para os seus semelhantes [. rela. que as duas condutas concorreram para o dano. o proprietário o direito de regresso em desfavor do condutor. p. pois a actio in rem verso. como o motorista notoriamente imprudente ou negligente. Tânia Garcia de Freitas Borges. então. 2ª T. portanto. 198.. Dá-se. salvo nas hipóteses dos incisos I a III. O condutor do veículo responde por ato próprio culposo. 53 CAVALIERI FILHO. RT 876/299 e segtes. com anotações comprometedoras no seu prontuário. transfere-lhe juridicamente a guarda e por ele passa a responder. 275). o que o transporte seja gratuito ou oneroso. buscando fundamento mais técnico dentro da sistemática da responsabilidade civil.. do art.]”. pois nesse sentido foi cristalizada a jurisprudência pelo Superior Tribunal de Justiça (RSTJ 127/269-271 ver a revista e refazer resumo da jurisprudência) 3.. Já o proprietário do veículo responde independentemente de culpa por ato de terceiro. do Código Civil..

preconiza “que o pai. a de maior importância. representando o núcleo fundamental. Eis a oportuna lição de Washington de Barros Monteiro: Cícero apelidou-a [a família] de seminarium reipublicae.] salvo se o causador do dano for descendente seu. entretanto. São Paulo: Saraiva. se não fosse assegurado o direito de regresso.. 934. que deve uni-los. onde e quando a família se mostrou forte. afetiva.” Prossegue art.51 O direito de regresso tem a sua mais clássica forma de exercício garantida na sub-rogação. sem que o relacionamento. o que conduz considerar a família – que deve ser estável. citado por José de Aguiar Dias. 884). de sorte o agente direto do dano. Desse mesmo sentimento se impregna a encíclica Casti Connubii. . 934. com ofensa à justiça e à equidade. absoluta ou relativamente incapaz. Todavia. Incide em outras hipóteses. o empregador e o comitente somente poderão agir regressivamente contra o empregado ou preposto se estes tiverem causado dano com dolo ou culpa. 2004.. pp. ficaria à margem de qualquer dever ressarcitório. e atual. pode. aí começou a decadência geral. 1 e 2. nada podendo reaver do filho. vol. expedida por Pio XI a 30 de dezembro de 1930. a base mais segura em que repousa toda a organização da sociedade. 930. 37 ed. 679 (contrato de mandato). educativa e produtiva – dentre todas as instituições públicas e privadas. o enunciado 44. procurando reintegrá-lo no plano divino. como asseguram os artigos 735 (contrato de transporte). assim entendendo pela interpretação 54 MONTEIRO. Ascendentes e descendentes são ligados por estreitos laços de solidariedade. por Regina Beatriz Tavares da Silva. “na hiportese do art. Pontes de Miranda.: direito de família.54 Diante de tal concepção seria incongruente o direito de regresso dos ascendentes perante os descendentes incapazes. 930 (estado de necessidade). art. parágrafo único (legítima defesa).” A ratio legis dessa exceção inspira-se em valor maior. 2. ver. 786 (contrato de seguro de dano). ir à colação”. aí floresceu o Estado. excetuando a regra: “[. A responsabilidade indireta por fato de outrem que age com culpa. Efetivamente. A encíclica CastiConnubii. ao afirmar que a salvação do Estado e a prosperidade da vida temporal dos cidadãos não podem permanecer em segurança onde quer que vacile a base sobre a qual se apóiam e de onde procede a sociedade. todos do Código Civil. que é a preservação do princípio de ordem moral e econômica que preside as relações familiares. prevista nos artigos 346 e seguintes. Bem por isso. onde e quando se revelou frágil. Curso de direito civil. do Conselho de Estudos Judiciários dos Juízes Federais. sendo uma inversão da ordem natural das coisas. que trazem a íntima aproximação afetiva. isto é. sofresse grave abalo. admitiria o enriquecimento sem causa (CC. mesmo agindo com culpa. Washington de Barros. objetivou enfocar os erros e atentados contra o casamento. a família.

É a pertinente distinção de tratamento preconizada no artigo 4º. O direito deve adequar-se a tão significativa mudança na vida social. rev. pois apequenada a sua capacidade de discernimento. hipótese em que a vigilância dos pais é amenizada ante o grau de discernimento do filho.. tanto aqueles atinentes à personalidade quanto ao patrimônio. no que tange ao menor absolutamente incapaz. Rio de Janeiro: Renovar. de maneira irretorquível. de acordo com o Código Civil de 2002 e aumentada por Rui Belford Dias.. e atual.52 conjugada dos artigos 1. Aqui pode incidir a colação. Pelo menos não mais. exposto na imaturidade daqueles com idade até 16 anos. 751. dos exemplos do texto. se a criança causa algum dano nada lhe pode ser imputado.010. 11 ed. . do Código Civil. quando pela tenra idade o dever jurídico dos pais de guarda e educação é mais exigido. Ver CDC – artigo específico sobre a matéria Para reflexão Distinga a responsabilidade civil objetiva pura da impura. 55 DIAS. não cabe tratamento semelhante quanto à colação. trazendo precoce aptidão de entender as coisas do cotidiano da vida.793. do atual Código Civil. os tempos são outros de quando ensinou Pontes de Miranda. exatamente na consideração do grau de discernimento. p. Imagine exemplos de uma e de outra. Representação e assistência não se confundem e o legislador assim distinguiu para patentear. José de Aguiar. a dessemelhança entre essas faixas etárias. Mesmo nesta atualidade cujo arsenal de informações vai da via escrita e oral à televisiva e virtual.55 Ousa-se afirmar que essa lição pode ser recepcionada em termos mais restritos. em que o menor impúbere é representado e o menor púbere. assistido. fugindo. Da responsabilidade civil. 2006. É válida somente quanto ao menor relativamente incapaz.524 e 1. Por coerência. Trazer à colação a indenização atendida pelos pais não contempla a ética e a equidade. do Código Civil revogado. em evidente contrariedade à justa expectativa de toda sociedade. Não dessa forma. que equivalem aos artigos 934 e 2. É uma responsabilidade exclusiva dos pais pelo negligente exercício do poder familiar. pois. na observação diária da vida. para que os demais concorrentes à herança não sejam prejudicados pela conduta de quem sabe distinguir o que pode e o que não pode fazer no respeito aos direitos alheios.

São Paulo: Saraiva. não teria título para transferir ou transmitir valores a outrem. A responsabilidade civil conjuga três pressupostos: a conduta. o que é específico do homem.53 A responsabilidade objetiva impura equivale à responsabilidade objetiva indireta. Educo. do Código Civil. o dano e o nexo de causa e efeito. 378. um pássaro arquiteto. Ao lado do jurista. assentou duas parêmias que continuam a fazer fortuna: todo homem é pessoa e só o homem é pessoa. De efeito. sem consciência dos motivos determinantes de meu agir. Capítulo I. Se eu fosse meramente conduzido. há de se provar a conduta eficiente à sua produção e a quem essa conduta pode ser imputada. porque sou capaz de conduzir-me. 4. A conduta é inerente à pessoa.1 conduta. encerra valor.2 dano. justificando. quia duco. Mas o 56 REALE. Miguel. IV – Pressupostos da responsabilidade civil 4. Trata-se de exceção à regra do artigo 265. o escritor Rudolf von Ihering assombrou-se diante da casa do joão-de-barro.1 Conduta A modernidade. para o qual ele emprestou seu carro. quem tem direito de regresso contra o causador direto do dano? E quem não tem? Justifique. somente ela é capaz de conduzir-se. 10 ed. Filosofia do direito. aperfeiçoamento do modo de ser e agir. é algo dirigido para um fim. 4. p. 1983. . conduzir-se implica possibilidade de escolha.”56 Apenas por metáfora pode-se dizer que outro ser tem conduta. 4. ao conceber os conceitos abstratos. também chamada complexa ou transindividual? Diz a jurisprudência que o proprietário de um veículo é responsável solidário com o motorista. Classifique as espécies de responsabilidade civil previstas nos artigos 936 a 940 e 949 a 953 do Código Civil. na explicação desse apotegma Miguel Reale aduz: “Educo. Constatado o dano.3 nexo de causalidade Os pressupostos expressam as condições ou as exigências imprescindíveis para a configuração de determinada figura jurídica. ou há dispositivo expresso nesse sentido no Título IX. do Código Civil? Na responsabilidade indireta impura considera-se a culpa? De quem? E na responsabilidade indireta pura? Na responsabilidade indireta.

ou omissivo não fazer. não transmite como fazer a sua casa. estando na estrada. ou transeunte que se aproxima. artísticos. Na seara do direito não é suficiente o conceito naturalístico da conduta. sendo necessário que produza efeito jurídico. A conduta é mais do que um comportamento humano que se exterioriza em uma ação ou omissão voluntária. 2003. não escolhido por ele. mero tropeção. Portanto. apud NORONHA. vol. Edgar Magalhães. não são conduta uma vez faltos do elemento anímico. os atos do sonâmbulo. que é a consciência daquilo que se está fazendo. 1º volume. O físico ou material é perceptível no mundo exterior. a conduta é um comportamento humano que se exterioriza por meio de uma ação ou omissão.54 joão-de-barro apenas repete uma atividade instintiva. o comportamento comissivo ou omissivo é o movimento interior da vontade que produz resultado no mundo exterior. sob a ótica naturalista. É algo causado em seu ser. O aspecto físico não é acompanhado do psicológico. ou a omissão: deixar de regá-las. Não outra a lição de Pontes de Miranda: Tem-se dito que a omissão não pode ser causa de efeito. As manifestações de valores religiosos. como quando as rega com uma solução de sublimado? 5 7 O psicológico ou subjetivo é a vontade que instrui a ação: regar as flores com uma solução de sublimado. comente omissão ilícita” (Tratado de direito privado. por ilícita. 227 e 228). porque a inação não muda o mundo exterior. 2ª edição. em certos momentos. garantindo-os. A aquisição de um bem por meio da compra e venda é conduta. Quem assistiu ao desabamento da ponte e. Em outros termos. Tal raciocínio desatende a que o ordenamento causal do mundo social conta com atos que em determinadas circunstâncias tem de ser praticados. científicos ou meramente estéticos são indiferentes ao mundo jurídico. modifica ou extingue direitos. 22. inerente à sua espécie. Campinas: Brookseller. Massimo Punzo pergunta se as flores secam tanto quando o jardineiro não as rega. na responsabilidade civil 57 PUNZO. É ato comissivo dar ou fazer alguma coisa. Apresenta dois aspectos: o físico ou material e o psicológico ou subjetivo. razão por que não se precisa de explicação para se admitir que a omissão se tenha. mesmo sem conhecimento do que seja lícito ou ilícito. não adverte o automóvel. Massimo. sem poder distinguir o que era e o que é o caminho. delírio febril. hipnose. ou outro veículo. Direito Penal. não ensina. Quaisquer movimentos espontâneos produzidos pelo susto. p. . a conduta exige voluntariedade. produz o efeito jurídico de transmissão da propriedade. São Paulo: Saraiva. Porém. pp. Interessa ao mundo jurídico a conduta humana que cria. O direito apenas torna-os possíveis. 1963. ataque epilético. A vontade está ausente. Sendo assim. 119.

essa conduta danosa deve ser acompanhada do nexo de imputação. Toda pessoa tem direito de que se respeite sua vida. comissivo ou omissivo. que percebe no embrião as características de individualidade e singularidade próprias de cada 58 FRANÇA. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente. já concebida no ventre materno. serão equivalentes às emendas constitucionais. o § 3º. em geral. Esse efeito deve ser lesivo à personalidade ou ao patrimônio de outrem. A Psicologia. 126. deve ir além. vol. 1. por isso a Biociência situa o início da vida na concepção. Mais ainda. I. Nada mais acertado. Esse direito deve ser protegido pela lei e. Apoiado na etimologia do vocábulo. RT 793/280. o art. A nidação. desde o momento da concepção. ou seja. no âmbito da responsabilidade civil. 4º: “Direito à vida. Rubens Limongi. deve ser atribuída a uma determinada pessoa. 1968. imputável a uma pessoa natural ou jurídica. 5º. de modo a se constituir no elemento que indica o responsável. Daí conceituar-se a conduta. de 8 de dezembro de 2004. que é toda pessoa natural ou jurídica que sofre dano. o nascituro. determina que a personalidade inicia-se com a concepção. foi modificado na parte que preveja o início da personalidade a partir do nascimento com vida. Demais disso. incluído nesse rol o nascituro. p.55 pouco importa a simples produção de efeito jurídico. 4. do Código Civil. São Paulo: RT. acrescentou no art. que produza dano a outrem. sinete do começo da gravidez. Rubens Limongi França conceitua nascituro como a “pessoa que está por nascer.” Embora esse Pacto não se atenha apenas a regular o domínio civil. . de per si ou em grupo. 2º. Manual de direito civil. RSTJ 161/395 A Emenda Constitucional número 45. não constitui parte de seu corpo. estabelecendo a sua ligação com o dano. Pessoa natural capaz ou incapaz. biologicamente. que os tratados e convenções internacionais. não é mais do que uma fase desse desenvolvimento.” 5 8 Embora aninhado no claustro da mãe. 3 ed. Portanto.2 A vítima A responsabilidade civil deve inquietar-se com a vítima. após aprovação legislativa. como o comportamento voluntário. O Pacto de São José da Costa Rica estipula no seu art.

ou pela colocação no mercado de produtos com alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança dos consumidores. assegura que o desenvolvimento do psiquismo humano tem início ainda no ambiente intra-uterino. tendo apenas traços de um e de outro. são determináveis e ligados entre si por uma relação jurídica base. em que os sujeitos. Cita-se como exemplo o condomínio. conforme também dispõe o art. A. parágrafo único. de sorte. No outro extremo a morte. escrita ou televisiva. já tem capacidade de se desenvolver. 2000. as vítimas podem deduzir sua pretensão em juízo. 18. negar personalidade jurídica ao nascituro beira a aberração. de forma isolada ou em conjunto por meio de litisconsórcio. penetra na incoerência. como as vítimas de publicidade enganosa ou abusiva por meio da imprensa falada. p. São vitimados os seus sucessores. 60 Fundo regulamentado pelo Decreto 1. Bioética e dignidade da pessoa humana: rumo à construção do Biodireito. È como afirma Botella Llusia. de 9 de novembro de 1994. Tutela civil do nascituro.347. que integram um grupo. distinto do pai e da mãe. a liquidação e a execução poderão ser promovidas coletivamente.306. . Revista da Faculdade de Direito da UFRGS. No mesmo sentido: MARTINS-COSTA. São Paulo: Saraiva. como no caso dos interesses coletivos. não sendo as vítimas identificadas. Chinelato e. Outras situações podem ser enfrentadas. como qualquer outra vida. Nesse caso. As vítimas podem estar ligadas por interesses difusos. classe ou categoria. É caso de dano coletivo. defendendo seu direito. 5 9 Assim. de 24 de julho de 1985 (Lei da Ação Civil Pública). 167-168. pela ofensa de um direito da personalidade. Judith. 100. ano 2000.56 ser humano. da Lei 7. p. 6 0 59 Apud ALMEIDA. atuando na defesa de direito próprio. a exigibilidade da reparação do dano moral. com a destinação da indenização ao fundo criado pelo art. 13. Cabe. como no caso de vilipêndio de cadáver. vol. desde a concepção existe um novo ser. quando mais de uma pessoa é vitimada pelo evento lesivo. 119. aqueles cujos sujeitos são indeterminados e ligados por circunstâncias do fato. Com a morte extingue-se a personalidade jurídica. por lógico raciocínio o de cujus não possui nenhum direito à indenização. do Código de Defesa do Consumidor. Silmara J. que também suscita problema quanto à vítima na responsabilidade civil.

art.57 4.” Todas essas pessoas jurídicas respondem pelos atos danos praticados em prejuízo alheio. não poderão opor exceções quanto à irregularidade de sua constituição (CPC. conforme o teor do enunciado 40. art. De fato é a que não possui nem mesmo contrato social ou estatuto escrito. 986 deve ser interpretado em sintonia com os arts. Tanto pode ser a pessoa natural como a jurídica.3 O autor Autor é o responsável pelo evento danoso. compõem a categoria de sociedade em comum (CC. § 2º).1. 985). As duas. ressalvadas as hipóteses de registros efetuados de boa-fé. responde o seu representante legal (CC. Entretanto. art. 12. tendo que ressarci-lo. art. 116. art. 1. interpretando o art. A pessoa jurídica pode ser regular. na hipótese do ressarcimento devido pelos adolescentes que praticarem atos infracionais. dado que as sociedades sem personalidade jurídica. nos termos do art. do Estatuto da Criança e do Adolescente: “o incapaz responde pelos prejuízos que causar de maneira subsidiária ou excepcionalmente como devedor principal.” Não afasta. Se sociedade o seu contrato social na Junta Comercial.50. a irregular e a de fato. Se o absoluta ou relativamente incapaz for o autor do dano. 932). de modo a ser considerada em comum a sociedade que não tenha seu ato constitutivo inscrito no registro próprio ou em desacordo com as normas legais previstas para esse registro (art. ou está de forma inadequada. Embora excepcional a penetração no âmago da pessoa jurídica.150). 985 e 1. do Conselho dos Juízes Federais. independentemente de culpa (CC. 116 do Estatuto da Criança e do Adolescente. no âmbito das medidas sócio-educativas ali previstas. irregular e de fato. Regular é a que tem o seu ato de constituição inscrito no Registro Público. quando demandadas. se houver . mesmo nesse caso. do Conselho dos Juízes Federais: “o art. a responsabilidade solidária de seu representante legal (ver responsabilidade do incapaz). se associação o seu estatuo no Cartório de Registro de Imóveis e Anexos (CC. 933). 986). Irregular é aquela cujo ato constitutivo não está inscrito no Registro Público. Tal qual a vítima. ao relativamente incapaz pode recair a condição de devedor principal. Assim entende o enunciado 209.

com sua conduta. Nada obstante. Responde. d) pela conduta de várias pessoas. Na outra. É a responsabilidade civil indireta. sem unidade de desígnios. a quem cabe imputar a ação ou omissão lesiva. Na primeira hipótese. conforme a letra do art. c) pela conduta de varias pessoas. Fica claro ante essas hipóteses. ou seja. em regra. produziu o dano. de sorte qualquer uma delas poderia ser a autora do ato lesivo. sendo a conduta isolada de cada suficiente para a produção do evento lesivo. que nem sempre os casos são de singelo equacionamento sobre quem deverá compor o prejuízo. do Código Civil. Em ambos os casos. 4. pode ocorrer a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade (disregard doctrine). integrante de um grupo. Em regra. b) pelo concurso das condutas de duas ou mais pessoas todas cooperando entre si no desígnio de produzi-lo. com a finalidade de lesão a bens ou direitos de outrem.4 De retorno à subjetividade: conduta culposa . quando duas ou mais pessoas são responsáveis pelo dano. então. pode ser imputada a autoria a pessoa diversa daquela que. e) pela conduta de uma única pessoa.58 abuso da personalidade jurídica. mas as suas condutas isoladas não bastariam para a produção do evento lesivo. é o caso da co-autoria e participação. Aqui a responsabilidade civil pode ser subsidiária ou solidária. o dano pode ser provocado: a) pela conduta isolada de uma só pessoa. matéria que será detalhada no enfoque do nexo de causa e efeito. uma só pessoa é responsável pelo dano. Ademais. tornando-se impossível a sua identificação. a autoria pode ser simples ou plúrima. pelo dano os bens particulares de seus administradores ou sócios. Assim. pelo inadimplemento contratual ou por ofensa à lei. sem unidade de desígnios. 50. a autoria é imputada diretamente ao agente da conduta responsável pela eclosão do dano. dá-se o concurso de agentes. É a responsabilidade civil direta. incide a responsabilidade civil solidária.

Em termos objetivos. O art. o homem tem de pautar o que se convencionou chamar dever de cuidado objetivo: a conduta deve ser diligente. por exemplo. 392. no ato ilícito previsto no art. o contratante a quem o contrato aproveita responde por simples culpa. o que envolve a ideia de capacidade de discernimento. precavida. enquanto que o donatário por culpa. Não basta. Compete ainda estar presente o nexo de imputação. por consequência a imputabilidade torna-se elemento intrínseco da culpa. assim no comodato com relação ao comodante e comodatário. a conduta culposa bifurca-se em termos subjetivos e objetivos. preceitua que nos contratos benéficos. como visto. o agente pode decidir praticar ou não a conduta que transgride o dever jurídico. de modo a não causar dano a ninguém. que infrinja bem jurídico alheio. que desencadeia a incidência da cabeça do art. em outros responde por simples culpa. Em termos subjetivos é a possibilidade de o agente conhecer previamente o dever jurídico. o que implica na conduta culposa do agente causador do dano. Na convivência social. tendo condição de cumpri-lo. Ante tal situação. cautelosa. da sua Parte Especial. Somente o ato imputável a alguém qualifica o ato ilícito. de maneira que o agente incide na denominada conduta culposa. que é a transgressão de um dever jurídico previsto ou previsível. a expressão conduta culposa designa a culpa em sentido amplo. Para reflexão O que é conduta? . além do que exige a imputação. A vontade assim considerada adquire relevância jurídica ao se exteriorizar no mundo físico por meio de uma ação ou omissão. a culpa é a transgressão do dever jurídico preexistente imposto pela lei ou pelo contrato. completar o seu estudo na apreciação do elemento psicológico. 186. Portanto. Cumpre. Na teoria subjetiva da responsabilidade civil há casos em que só o dolo suscita a obrigação de indenizar. imputável a alguém em decorrência de fato intencional ou não intencional. o doador apenas responde por dolo. da Parte Geral do Código Civil.59 A responsabilidade civil subjetiva esteia-se. e por dolo aquele a quem não aproveita. então. na prestação de serviço gratuito a entidade filantrópica etc. que é a forma inadequada de atuar. Não se observando esse dever de cuidado objetivo ocorre erro de conduta. Por sua vez. Na doação simples. De fundamental importância a distinção entre dolo e culpa. 927. do Código Civil. respectivamente doloso ou culposo.

Nele. ambos são queridos. mas das circunstâncias. a regra exposta na velha parêmia in dubio pro societate. a desclassificação da modalidade dolosa de homicídio para culposa deve ser calcada em prova por demais sólida. O Superior Tribunal de Justiça ensina: Não se pode generalizar a exclusão do dolo eventual em delitos praticados no trânsito. quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. mas.” Conceito recepcionado no âmbito civil. Todavia. não se exige que o resultado seja aceito como tal. Ente sem personalidade jurídica pode ser titular de direito? 4. De efeito. não é extraído da mente do autor. primeira parte do artigo em questão: o evento danoso corresponde à vontade do agente. embora não seja este o motivo de sua conduta. o que seria adequado do dolo direto. No iudicium accusationis. em confronto com a Convenção de São José da Costa Rica. Há no dolo a consciência da conduta e do resultado. A segunda parte do artigo refere-se à conduta de quem assume o risco de produzir o resultado. na pratica. antevê pelas circunstâncias que pode ocorrer acidente grave. quer a conduta e quer o dano. inclusive. Na hipótese de “racha”. é o dolo indireto que possui duas formas: dolo eventual e alternativo. incidindo. pretende vivenciar a emoção do evento. do Código Civil. 2º. o fez Código Penal no art. a eventual dúvida não favorece os acusados. quem se dispõe a essa direção perigosa na disputa de um “racha”. É o chamado dolo direto. O Código Civil não o conceituou. isto sim.60 Qual a conduta que interessa à responsabilidade civil? Todo indivíduo tem conduta? Explique. Diz eventual quando o agente preveja o resultado e admite o risco de produzi-lo. tendo por consecução o ato ilícito.1 O dolo Dolo é a vontade livre e consciente de transgredir direito. mesmo assim não se detém. aí. não quer o dano. 18: “Diz-se o crime: I – doloso. Se alguém toma de uma pedra e atira contra a vidraça. prevê a possibilidade de produzi-lo. Quem pode ser vítima na responsabilidade civil? E autor do dano? Quando inicia a personalidade jurídica? Faça uma leitura do art. o que significa . em se tratando de pronúncia. provável (RT 795/567). O dolo eventual.4. que a aceitação se mostre no plano do possível. Já os romanistas chamavam-no de dolus malus.

Previsto é o resultado representado. segundo as regras da experiência. São Paulo: Atlas. 2ª ed. dizendo-se que no primeiro é a vontade por causa do resultado. mas não o resultado danoso. diligência ou cuidado como razão ou substrato final da culpa. Programa de responsabilidade civil. Sem isso não se pode imputar o fato ao agente a título de culpa. na culpa o resultado não querido pode ser previsto ou previsível. O dolo alternativo dá-se quando a vontade do agente dirige-se a um ou outro resultado. Previsível é o resultado que pode ser previsto. 1963. que pode advir de sua conduta. Por isso.62 Logo. negligência ou imperícia.” Implica na previsão ou previsibilidade do evento lesivo. E. violou aquele dever de cuidado que é a própria essência da culpa. 172. Direito Penal. 2007. quando o agente deu causa ao resultado por imprudência. Desde o Direito Romano afirmase: culpa est non praevidere quod facile potest evenire (é culpa não prever o que facilmente pode acontecer). 36. 4. NORONHA. São Paulo: Saraiva. vamos sempre encontrar a falta de cautela.. É o conceito dado pelo Código Penal. É previsível aquilo que tem certo grau de possibilidade. por que o agente não o evitou? Se era pelo menos previsível. . o evitou? A resposta é simples: porque faltou com a cautela devida. evitado. mas lhe cumpria ter agido diversamente. de violar direito. Afirma-se com razão. 7ª ed. Sergio.. Alguém que atira contra o desafeto para ferir ou matar. Além da previsibilidade não há culpa.61 Extremam-se o dolo direto e o eventual. no segundo é a vontade apesar do resultado. em qualquer caso não deixo de agir”. acolhido na seara civil: “Artigo 18: Diz-se o crime: [. Magalhães. sem justificativa plausível. penetra-se no âmbito do caso fortuito ou força maior que será estudado no momento oportuno. Esclarece Sergio Cavalieri Filho: Nesse ponto cabe uma indagação: se o resultado foi previsto. É a fórmula de Frank: “seja como for.. sob pena de se consagrar a responsabilidade objetiva. Quer a conduta. 1º vol. 2 A culpa em sentido estrito Na culpa a pessoa pauta conduta equivocada. conquanto desacompanhada da intenção de lesar. assim. p. dê no que der. que na culpa a atuação do agente merece reprovação. CARAVALIERI FILHO.61 dizer que tolera a ocorrência do dano. mentalmente antecipado. p. antecipado e. consequentemente. de sorte o seu erro é inescusável.4. atenção. 61 62 Apud.] II – culposo. pois em face das circunstancias concretas podia e devia ter agido de outro modo. por que o agente não o previu e.

Atropelamento de menor de oito anos de idade. O corpo do acórdão ensina: Não obstante. 18ª Câm. René Savatier opõe-se ao padrão do bonus pater familias. contratual e . como a reação das crianças é imprevisível. hipótese que ofende o desígnio da solidariedade (CF. O critério objetivo toma por modelo o bonus pater familias. ainda que brincando na calçada. O agente é indiferente à sorte alheia. É coerente concluir..]. Rubens Cury. Assim. rel. a culpa do motorista da apelada está de fato caracterizada. por laudo oficial [. Não são levadas em consideração as condições subjetivas das pessoas.9. RT 848/225-226). conforme orientação pacífica jurisprudencial. o menos letrado e mesmo o marginalizado que nunca teve acesso aos bancos escolares. inc.2005. revelando insensibilidade social. É que. Morte. Hipótese em que restou comprovada a velocidade incompatível para o local. por exemplo. que se encontrava próximo à escola. o idealizado homem médio. que é um dos valores condicionantes do Estado Democrático de Direito. frequente e involuntariamente. juntamente com outras crianças. em horário de encerramento das aulas. Para Orlando Gomes a imagem da perfeição domestica projetada na sociedade civil.. Tratase da previsibilidade específica. 3º. O erudito. Esse critério iguala todos os homens. nasce para o motorista a previsibilidade de possível acidente. I. 8. Responsabilidade civil.. a ausência de previsão ou de previsibilidade do resultado lesivo denuncia falta de zelo no agir. aquele que reúne as virtudes da probidade e da retidão. Des. em horário de término das aulas. considerada no momento da conduta. deve redobrar a sua atenção e diligência. exige-se do outro. reduzindo a velocidade ou até parando o seu veículo (TJSP. Considera-se como agiria em tais condições o homem razoável. É chamada culpa em abstrato.62 Não se trata a toda evidência da previsibilidade genérica: quem nasce há de morrer. Corresponde ao reasonable man da common law. da prudência e da diligência. art. ao avistá-la. não reduzir a velocidade do veículo nas proximidades de escola. Obrigatoriedade de redução da velocidade. pontificando que os homens diligentes e avisados. j. transgridem um dever legal. A imprevisibilidade do comportamento de uma criança gera a previsibilidade do acidente. última figura). Todos são tratados paritariamente: o que se exige de um. Para aferição da previsibilidade dois são os critérios: o objetivo ou culpa em abstrato e o subjetivo ou culpa em concreto.

p. em virtude das diferenças pessoais. A crise do direito. 7. 63 SAVATIER. sont généralement habiles et diligents. sem que dissimulem. Não se indaga.3 Manifestações da culpa em sentido estrito A falta de cuidado objetivo. Daí a necessidade de. sobretudo seu complexo individual. sopesar a culpa apenas no aspecto subjetivo é um critério manco. o seu grau de cultura. Considera o fato em si. as suas circunstâncias. não terá este caráter para outrem. que seduz uma moça. a sua idade e até o ambiente em que convive. Traité de la responsabilité civile en droit français. isto sim. A pessoa é considerada consoante as suas aptidões. Em resumo. prestigia os dois critérios. p.4. o seu sexo. a imprudência e a imperícia. o comerciante que deslealmente desvia a clientela do concorrente. t. São Paulo: Max Limonad. objetivando afastar as diferenças que inferiorizam e as equiparações que descaracterizam. c) há uma falta de cuidado objetivo no dever de agir d) essa falta de cuidado é analisada tanto no sentido abstrato como no concreto. Un coquin peut être très prudent. é preciso levar em conta. René. Já o patife pode ser bastante prudente em esquivar-se voluntariamente de uma obrigação. b) embora involuntário. Le roué qui séduit une fille. necessariamente. contractuel ou moral. o homem de finanças que promove negócio duvidoso. exemplifica ele. na culpa em sentido estrito são conjugados os seguintes elementos: a) uma conduta voluntária que leva a um resultado involuntário. Em seguida. 1951 : « Car des hommes diligents et avisés manquent trop souvent à un devoir légal. Et l’on se croit parfois très habile d’éluder volontairemente une obligation. le financer qui lance une affaire douteuse. analisa o coeficiente pessoal. Leur faute est d’avoir consacré cette habilité à violer un devoir. 1. nesse passo. O juiz na apreciação da conduta culposa. são pessoas hábeis e precavidas. o ato que para determinada pessoa pode ser culposo. . mas. 4. em boa lógica. apreciar a culpa in concreto.63 Já o critério subjetivo. Orlando. 1955. qual seria o cuidado ordinário a exigir do homem médio.64 De fato. suscita três formas de manifestação da culpa: a negligência. Não é possível ignorá-las. considera o coeficiente pessoal do agente causador do dano. as suas potencialidades. Lúcida a lição de Orlando Gomes: Se alguém somente pode ser considerado responsável quando o ato que praticou lhe pode ser moralmente imputável. que leva ao erro de conduta. o que o homem médio deveria fazer naquele momento. porque probos. Paris : LGDJ. A culpa deles reside em dirigir essa habilidade à vontade de violação de um dever. le commerçant qui détourne déloyalement la clientèle d’un autre. o que era exigível do agente nas circunstâncias em que se viu envolvido. O canalha.63 moral. Ora. de modo geral. » 64 GOMES. 182. o resultado é previsto ou previsível. ou a chamada culpa em concreto.

censura a omissão de não encaminhar o paciente para o tratamento especializado por médico vascular em hospital com mais recurso. O menor foi atendido com corte profundo e de gravidade não discutida. Do corpo do acórdão seleciona-se o seguinte trecho: O raciocínio desenvolvido pela r. Ai reside a culpa na manifestação da negligência. a inércia. sentença quanto à negligência do médico. é perfeito. é a inanição. É a omissão indevida. 5ª Câm. Privado. Havia grande possibilidade de terem sido atingidas artérias importantes. j. Caso típico de negligência e a abertura de conta bancária por estelionatário. . por isso comete ato ilícito. 6. usando documento de terceiro inocente. consistente no não encaminhamento do paciente a outro hospital com mais recurso diante da gravidade da lesão. a conduta do profissional que. por meio de uso de documentos falsos. quando a própria coloração do dedo já indicava a necrose e a necessidade de amputação. Não se usam os poderes da atividade. passível de indenização. não encaminha o paciente para um especialista nem a um outro hospital para tratamento adequado. diante da gravidade da lesão. sem tomar as mínimas precauções a fim de verificar a autenticidade da documentação entregue (extinto 1º TACivSP. a amputação do dedo da vítima.. in RT 807/235-236). de Dir. Deixou de fazer o que deveria ter feito. rel. a passividade. O agente deveria agir. É devida a indenização por danos morais decorrente da negligência atribuída a instituição bancária que procede a abertura de conta corrente realizada por estelionatário. Des.2002. Nada impede que um mesmo fato conjugue a negligência de duas pessoas. em razão do negligente atendimento que dispensou. Se tivesse sido atendido pelo vascular já no primeiro momento as conseqüências poderiam não ter sido tão drásticas (TJSP. Maia da Cunha. 2ª Câm.3. A conduta correta teria sido encaminhá-lo a um especialista. Extrai-se da jurisprudência: Caracteriza erro médico. o acórdão não disserta sobre falta de assistência médico-hospitalar.990-4/9. in RT 807/263). é um exemplo. A conduta de quem se omite no socorro devido a outrem quando poderia fazê-lo sem risco à sua pessoa. Nota-se. Todavia. Juiz Torres Júnior. tal como se fez somente no terceiro dia. rel.64 A negligência tem forma negativa (in omittendo). 123. ap. mas deixa de agir. o que traz como conseqüência.

j. A imprudência tem forma positiva (in comittendo). ensejadora de reparação dos danos morais sofridos em decorrência da falta de atendimento médico correto (TJSP.2007. efetua a transposição de pista asfáltica e acaba por obstruir a trajetória de motocicleta. Outros exemplos frequentes de negligência: não sinalizar buracos ou obstáculos nas ruas e estradas. Responsabilidade civil – Ação de indenização por danos causados em abalroamento de veículos – Abertura de porta quando se aproximava um ônibus – Culpa do motorista do automóvel. não respeitar via preferencial. sem cercar-se das cautelas devidas. a ação inadequada ou desacompanhada das cautelas necessárias. RT 868/323). transbordamento reiterado de riacho na zona urbana.1. […] Age com manifesta imprudência o motorista que. RT 824/203). RT 595/142). rel. rel. É o movimento corpóreo positivo. trata-se de um agir sem o zelo recomendado pelas circunstâncias do fato. Desa.9. Ferreira.. falar ao telefone celular. Des.65 Se as complicações pós-parto sofridas por parturiente decorreram da falta de limpeza uterina para remover possíveis fragmentos de placenta existentes após o parto. Fartos são os exemplos no cotidiano do trânsito: pedestre que desrespeita a faixa de segurança.84. falta de limpeza de terreno baldio por inércia do proprietário. ocasionando a colisão. A atenção no trânsito vale também em outros procedimentos mais simples. . o som muito alto que impeça o motorista ouvir os sinais sonoros de trânsito como o apito do agente público.. 11. Cív. Juiz Regis de Oliveira. rel. ou a buzina de alerta de outro veículo que reparte o trâfego. 1ª Câm.. Ao passageiro que desce do automóvel parado cabe a cautela de verificar se pode abrir a porta sem perigo de colisão com outro veículo que a sue lato transite (1º TACivSP. Eventual excesso de velocidade empreendida pelo condutor desta última é irrelevante em face da preponderância da culpa decorrente da manobra imprudente […] (TJPB. j. resta caracterizada a negligência do hospital e do médico responsáveis pelo procedimento obstétrico. no entanto realizados sem a devida cautela de momento. Municipalidade que permite construções em área de risco à segurança dos moradores etc.2004. José Geraldo de Jacobina Rabello. Maria das Neves do Egito de A. 6. demonstrando a desacautela do Município em ampliar a capacidade de vazão e em promover a contento a captação das águas pluviais. 7ª Câm. 29. D. 4ª Câm.12. j. avançar sinal vermelho.

incluindo a imprudência e a imperícia. no fato de o agente deixar arma ao alcance de uma criança.2. a falta de conhecimento ou habilidade para o exercício de determinada profissão. cujo direito não autoriza comportamento negligente. não consigna a imperícia. Des. segundo o qual os veículos oficiais em estado de emergência. se propõe com ele a trafegar. Outra pessoa. do Código revogado. na situação. como o correspondente art. dirigi-lo nessa condição é imprudência (conduta positiva) Imprudente se mostra o motorista que. tampouco se constitui em permissivo de irresponsabilidade civil (TJRO. a possibilidade de acidente (Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo.65 Movimentar no trânsito veículo em precário estado de conservação é negligência. Cuida-se observar. situação que. Portanto. Um eletricista é imperito.74.4. Juiz Camargo Sampaio). a imperícia manifesta-se na falta de capacidade para no exercício de uma determinada atividade profissional. do atual Código Civil. Rowilson Teixeira. 24. quando caracteriza conduta irregular nos termos do Código Nacional de Trânsito. inc. acatada por Damásio Evangelista de Jesus. que a negligência e a imprudência concorram em um mesmo evento danoso. por falta de conhecimento técnico-profissional. de que a rigor a palavra negligência seria suficiente para ministrar todo o substrato da culpa. j. j.. ofício ou emprego. não eletricista. 5ª Câm. por não consertá-lo (conduta negativa). se assim procede é imprudente. 2ª Câm. entretanto. A conduta negligente e imprudente de policial militar condutor de veículo público gera a obrigação de indenização em danos ao Estado. no mesmo sentido RT 871/216). esse agir culposo é nitidamente distinguido e descrito em todos os seus contornos tanto pela doutrina como pela jurisprudência. 18. que o art. Igualmente. letra “d”. . 65 66 Vide CTB.2007. se põe a reparar a rede elétrica de determinado prédio e provoca um curto circuito. para a qual o agente encontra-se formalmente habilitado. não exclui o dever de cautela e segurança em prol da coletividade. Daí a incensurável observação do penalista Basileu Garcia. 159. VII.66 Nada obsta. porque perfeitamente previsível. rel. possuem direito de preferência. não se pode dizer que não agiu. art. Contudo. 186. Especial. rel. 29. RT 864/376. nada mais é do que a inaptidão.66 A imperícia pressupõe arte ou ofício. não desconhecendo a precariedade do veículo.

67 Além disso, basta lançar mão da analogia, pois o Código Penal no seu artigo 18, inciso II, a ela faz referência. É devida indenização por hospital, por danos material e moral, com base nos arts. 14 da Lei 8.078/79 e 932, III, do CC/02, em razão de ato de imperícia de seu funcionário que aplicou medicação intramuscular na região glútea de paciente, atingindo-lhe o nervo ciático e causando-lhe incapacidade permanente, com atrofia do membro inferior esquerdo (TJSP, 3ª Câm. Dir. Privado, j. 08.11.2005, rel. Des. Donegá Morandini, in RT 846/269). STJ, REsp. 228.199-RJ, rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, j. 28. 5.2002, publ. 8.2002 Alguém pode ser perito, reunir as condições para determinado ofício, profissão ou arte, deixando de aplicá-las no caso concreto, é quando o agente labora com negligência. Renomado cirurgião que, no pós-operatório, por negligência deixa gaze no abdome do paciente. Ou sem embargo de possuir a devida perícia, procede temerariamente, com imprudência, o cirurgião que abandona o método tradicional e eficiente para certa cirurgia e faz experimento de nova técnica ainda não comprovada. 4.4.4 Presunção de culpa RT 564/217

A presunção de culpa constitui uma atenuação a teoria clássica da culpa. Em determinados casos a vítima fica em posição desconfortável ante a dificuldade de provar a culpa do agente causador do dano, quedando-se privada da possibilidade de ressarcir-se em face de um dano injusto. Diante dessa censurável situação, surgiram ideias apregoando a necessidade de se adotar a responsabilidade sem culpa. Em reação, os autores clássicos elaboraram a teoria da presunção de culpa, tendo em vista melhorar a posição da vítima, alargando o domínio de incidência da responsabilidade subjetiva. Pode decorrer da própria lei. O artigo 389, do Código Civil, diz que não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e danos, regra repetida pelo artigo 475, do mesmo codex; trata-se de responsabilidade civil contratual subjetiva com presunção de culpa, pois na sistemática do Código no ilícito contratual a culpa está in re ipsa, dimana do próprio fato. É, pois, presumida, sendo que na responsabilidade aquiliana, como regra geral, a culpa deve ser provada pela vítima, como ficou exposto.

68 Excetuando a regra geral, porém, a responsabilidade aquiliana também admite a presunção da culpa, isto acontece somente quando o dano resulta de conduta anormal que, por si só, faz presumir o ato ilícito. Cesare Massimo Bianca afirma que o dano normalmente evitado por uma conduta diligente comporta a presunção da culpa67, por conseguinte é a experiência que demonstra as hipóteses em que cabe essa teoria atenuante da prova da culpa. Não difere a jurisprudência. [...] A culpa do agente não precisa ser cumpridamente demonstrada, quando o dano resulta de conduta anormal, que, por si só, faz presumir a censurabilidade do procedimento. Sendo virtual a falta do causador do dano, a ele é que incumbe o ônus da prova da culpa da vítima, para eximirse do dever de indenizar (TJMG, apelação nº 19.876, da Comarca de Belo Horizonte, rel. Des. Umberto Theodoro, in THEODORO JUNIOR, Humberto. Responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência, 3 ed. Rio de Janeiro: Aide Ed., 1993, p. 85). Não se trata, a toda evidencia, de desarrimar o pressuposto da culpa, mas propiciar à vítima uma posição de vantagem, o que significa dizer, a presunção de culpa é matéria de prova. O Código de Processo Civil dispõe no art. 333 que o ônus da prova incube ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito (actori incumbit probatio). Pela presunção de culpa inverte-se o ônus. Ao devedor incumbe a prova de que não laborou com culpa no descumprimento do avençado. A presunção é relativa (juris tantum), admite prova em contrário, até porque se fosse absoluta (juri et de juris), não admitindo prova em contrário, seria mero jogo de palavras; dar-se-ia a responsabilidade civil objetiva. Tal expediente técnico-probatório reflete no deslinde da questão, a vítima sai em sensível vantagem, porquanto a prova da culpa mostra-se crucial em não raras circunstâncias, tanto que alguns autores chegam a chamá-la de probatio diabolica. De efeito, a exigência de que a vítima demonstre a culpa, impõe ao juiz tarefa extremamente árdua, verdadeira apreciação psicológica que chega a extravasar o alcance das atividades judiciais, o que levou na literatura francesa Tourneau e Cadiet a forjarem as seguintes perguntas: “que juiz poderia sondar os rins e os corações? Seria isto verdadeiramente justiça? Por seu turno, Josserand assim questiona:

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BIANCA, Cesare Massimo. Danno inguisto: a proposito del risarcimento da lesione di interessi. Rivista de Diretto Civile, v. 5, 2000, p. 581: “Il danno normalmente evitato da una condotta diligente comporta quindi la presunzione di colpa.”

69 Como um operário que se feriu durante o seu trabalho, pode demonstrar a culpa do patrão? Como o pedestre, colhido por um automóvel, num lugar solitário, à noite, na ausência de testemunhas, pode provar – supondo-se que tenha sobrevivido ao acidente – que o carro não estava iluminado ou que corria a uma velocidade excessiva? Como o viajante que, no curso de um trajeto efetuado em estrada de ferro, cai sobre a via, pode provar que os empregados tinham negligenciado no fechamento da porta, logo depois da partida da última estação? 68 Para melhor entendimento do que segue adiante é imperioso esclarecer que na égide do Código Civil revogado (art. 1.521), os casos elencados no art. 932, do atual Código Civil, eram resolvidos pela presunção de culpa, portanto harmonizados na responsabilidade civil subjetiva, com inversão do ônus probante. Hoje os mesmos casos são considerados responsabilidade civil objetiva. É a denominada responsabilidade objetiva impura na sistematização de Álvaro Villaça Azevedo. Apegados a discussão travada desde o Código de Bevilaqua, renomados civilistas entendem que a presunção de culpa é uma responsabilidade civil objetiva, por dispensar a vítima da prova da culpa, cumprindo-lhe provar apenas a conduta e o dano. Não é a melhor exegese. Reforça-se, a teoria de presunção de culpa foi esculpida, em Franca, pelos subjetivistas na elaboração de argumentos contrários às ideias nascentes da responsabilidade civil objetiva. Especificamente, para rebater as ideias objetivas de Saileilles e Josserand na interpretação do art. 1.384, do Código Civil de Napoleão, pontificou Leon Mazeaud: A jurisprudência, ao contrário, não vê no art. 1.384, § 1º, senão uma consagração da idéia de culpa. Se o guarda é responsável pelo dano causado por sua coisa, é porque se presume a sua culpa, ou mais exatamente, porque é culpado de ter deixado esta coisa escapar-se de sua guarda e cometer um dano. Culpa ou presunção de culpa, tal continua a ser o fundamento da responsabilidade do fato das coisas, como o fundamento de toda a responsabilidade civil. Assim, permanecendo-se inteiramente fiel à regra tradicional da culpa, pode-se dar satisfação às vítimas do maquinismo moderno, dispensando-se de provar a culpa da guarda da coisa. O resultado procurado foi atingido sem tocar nos princípios.69
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TOURNEAU, Philippe le. CADIET, Loïc. Droit de la responsabilité. Paris: Dalloz, 1998, p. 754: Quel juge pourrait sonder les reins et les coerus? Serait-ce vraiment justice? JOSSERAND, Lois. Evolução da responsabilidade civil, in RF 86/551. 69 MAZEAUD, Leon. Henri Capitant e a elaboração da teoria francesa da responsabilidade civil. Revista Forense, junho de 1940, vol. LXXXIII, p. 398 e segtes. Conferência proferida em 21 de dezembro de 1937, na Faculdade de Direito da Universidade Imperial de Tóquio, em homenagem à memória de Henri Capitant.

70 No mesmo diapasão o proficiente ensino de Almino Lima: “tratando-se, contudo, de presunções juris tantum, não nos afastamos do conceito de culpa da teoria clássica, mas apenas derrogamos um princípio dominante em matéria de prova”.70 Lapidário Caio Mário da Silva Pereira ao lembrar que a teoria da presunção de culpa é “uma espécie de solução transacional ou escala intermediária, em que se considera não perder a culpa a condição de suporte da responsabilidade civil, embora já se deparem indícios de sua degradação como elemento etiológico fundamental da reparação”. Mais adiante detalha: [...] na tese da presunção de culpa subsiste o conceito genérico de culpa como fundamento da responsabilidade civil. Onde se distancia da concepção subjetiva tradicional é no que se concerne ao ônus da prova. Dentro da teoria clássica da culpa, a vitima tem de demonstrar a existência dos elementos fundamentais de sua pretensão, sobressaindo o comportamento culposo do demandado. Ao se encaminhar para a especialização da culpa presumida, ocorre uma inversão do onus probandi. Em certas circunstâncias, presume-se o comportamento culposo do causador do dano, cabendo-lhe demonstrar a ausência de culpa, para se eximir do dever de indenizar. Foi um modo de afirmar a responsabilidade civil, sem a necessidade de provar o lesado a conduta culposa do agente, mas sem repelir o pressuposto subjetivo da doutrina tradicional.71 Na mesma linha segue Sergio Cavalieri Filho: A culpa presumida foi um dos estágios na longa evolução do sistema da responsabilidade subjetiva ao da responsabilidade objetiva. Em face da dificuldade de se provar a culpa em determinadas situações e da resistência dos autores subjetivistas em aceitar a responsabilidade objetiva, a culpa presumida foi o mecanismo encontrado para favorecer a posição da vítima. O fundamento da responsabilidade civil, entretanto, continuou o mesmo – a culpa; a diferença reside num aspecto meramente processual de distribuição do ônus da prova. Enquanto no sistema clássico (da culpa provada) cabe à vítima provar a culpa do causador do dano, no de inversão do ônus da probatório atribui-se ao demandado o ônus de provar que não agiu com culpa.72

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LIMA, Almino. Culpa e risco. 2 ed. São Paulo: RT, 1998, p. 72. PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade civil, 2 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991, pp. 280, 281 e 283. 72 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade civil, 8 ed. São Paulo: Atlas, 2009, p. 39.
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criando para o agente uma presunção relativa de culpa. a presunção de culpa é própria da responsabilidade subjetiva. 1. Eis a questão chave: na responsabilidade objetiva o agente que provar ausência de culpa elide a sua responsabilidade? A resposta é não. É verdade dizer. 73 LISBOA. p. 2009. porque a sua responsabilidade promana da lei como objetiva.”73 Dentro dessa ótica. responsabilidade subjetiva com presunção de culpa e responsabilidade sem culpa (objetiva. Essa modalidade de responsabilidade civil prescinde da culpa. Nesse caso. por completo. Ora. do Código Civil de 1916. pois. volume 2: obrigações e responsabilidade civil. que lhe imputa o árduo ônus da prova em contrário. inc. justamente por abstrair da culpa para imputar o an debeatur. a responsabilidade objetiva não admite tal discussão. de regulamento ou mesmo de determinadas regras técnicas do trabalho. assim entendida se o dever transgredido resulta de texto expresso de lei. a presunção de culpa demonstra uma tendência à objetivação. A responsabilidade do empregador era fundada na culpa presumida. mas não é menos verdade redizer. Um empregado. VER RT 597/136 Retomam-se os dois sistemas. em nada lhe aproveita a prova de sua diligência e zelo. São Paulo: Saraiva. inc. ao destaca os sistemas de responsabilidade analisados sob o prisma da culpa: “responsabilidade subjetiva. a responsabilidade civil dimana da mera infração da norma.). ao dirigir o veículo do empregador durante e em razão a jornada de trabalho. Discute-se. 225. 4. afastada está a eximente. 4 ed. na responsabilidade objetiva o que se presume é a própria responsabilidade. essa prova elide a presunção de culpa.. III. Se o empregador provasse que havia adotado toda prudência e zelo para com a atividade de seu empregado. categoricamente. conforme disposição do art.4. o passado do Código de Bevilaqua e o presente do Código de Reale. art. não a culpa. eximiase da reparação.521. ofício ou profissão. No entanto. ocasiona acidente de trânsito. Nada favorece ao agente a prova de que não atuou com dolo ou culpa. uma vez que o agente não é responsável se provar a sua não culpa. Roberto Senise. . Manual de direito civil. a culpa do agente causador do dano.5 Culpa contra a legalidade Foi esculpida pela doutrina a teoria da culpa contra a legalidade. III.71 A distinção é feita com propriedade por Roberto Senise Lisboa. Agora. do Código Civil de 2002. 932.

. B. Ônibus escolar estacionado em parada de embarque e desembarque de alunos exige do motorista que o ultrapassa o exercício da previsão: um aluno. 2 ed. não exime o motorista de pautar cautelas suplementares. face à imprudência alheia.72 Martinho Garcez Neto resume que essa modalidade de culpa opera-se “quando a simples infração de norma regulamentar é fato determinante da responsabilidade civil”. O direito de ultrapassagem. O menor descuido. daí decorrente.” E aduz: “a teoria da culpa contra a legalidade tem tido sua mais constante aplicação exatamente no campo da responsabilidade civil automobilística.75 A estatística tem demonstrado. Que se acautele sempre.. Não é uma posição isolada. mesmo assim. Nesse sentido Jorge Peirano Facio: “no es suficiente que una persona actúe con toda la diligencia de su parte para evitar la culpa. y Ramos S. 1954. atuando com toda diligência a ponto de prever e evitar a imprudência alheia. que su conducta prevea y evite la imprudência y el descuido de los demás” (Responsabilidad extracontractual. 1970. abroquelado numa preferência que lhe sabia assegurada pelo Código de Trânsito. afrouxou sua cautela ou se deixou engolfar em pensamentos ou recordações que determinaram nele. Por isso. a mínima desatenção.” Dá. quem dirige de conformidade com o Código de Trânsito e o seu regulamento. ainda mesmo que esteja a trafegar na sua devida mão e com o seu carro em perfeitas condições técnicas. e de sua prudência. o exemplo de o motorista abusar da velocidade além dos limites estabelecidos em determinados locais. Martinho. 58 e 125. Há aqui uma complementação. p. tout court. Só pelo fato dessa transgressão normativa incide em culpa. 1975. es necesario. aquele que.A. p. Já é a principal causa da morte dos jovens até 25 anos de idade. poderia acarretar. pelo menos em parte. Rio de Janeiro: Jurídica Universitária. pois essa conduta indispensável não exclui as regras de direito comum modeladoras no dever de não lesar (neminen laedere). Que não se descure jamais de sua atenção. em seguida. uma diminuição da atenção ou de vigilância quando ao que lhe ia em redor. p. Pratica de responsabilidade civil. ocasionando acidente. además. levando-o a indenizar pelo eventus damni. Da responsabilidade civil automobilística. Montevidéu: Ed. um acidente pelo qual teria concorrido. uma culpa. Oportuna a severa advertência desse civilista das Alterosas: Quem tem às mãos um volante. assim. São Paulo: Saraiva. Wilson Melo da. 75 SILVA. 341. 49 e 53. 48. por exemplo. mormente se criança 74 GARCEZ NETO. que não se tranqüilize por se saber um profundo conhecedor das normas de trânsito.74 Na expressão de Wilson Melo da Silva “o só fato da transgressão de uma norma regulamentar materializa. naquele instante. continua responsável pelos danos que poderiam prever e evitar. que os acidentes de trânsito crescem de modo assustador.

Anaconda Cultural. Infração administrativa que não se confunde com a culpa civil.962.1975. Não obstante. isto é. rel. . 4ª Câm. Antônio Lindbergh C. por si. São Paulo: Jurídica Brasileira.. Filho do autor que dirigia sem estar habilitado para tal.546). É o que modernamente chama-se direção defensiva. a sua prova. invadir o leito carroçável. 9. 3. sem qualquer consideração a respeito da teoria da “culpa contra a legalidade” aqui não aplicável (TAPA. Cível.5. Responsabilidade civil. Irrelevância. No mesmo sentido decidiu o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Indenização – Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Culpa – Não a configura o estacionamento em local proibido. Procedência. a justificar apenas a aplicação de penalidade administrativa (RJTJSP 44/89). GONÇALVES. Carlos Roberto. Muito embora tal fato seja. conforme jurisprudência transcrita. j. está estampada no próprio fato. daí a sua culpa pelo evento e sua obrigação de reparar o dano. Juiz Ulysses Lopes Mendes Silva. Outro campo fértil à teoria da culpa contra a legalidade situa-se nos acidentes do trabalho: Culpa contra a legalidade. Montenegro e Carlos Roberto Gonçalves76 criticam essa teoria. p. 825. jurisprudência. 135. 7 ed.73 poderá. Danos e indenizações interpretados pelos tribunais. Pode alguém dirigir sem habilitação legal. imprudentemente. Nem sempre a infração de disposição regulamentar mostra-se como causa eficiente do dano. sem que se torne necessário a sua demonstração. item 1. Antônio Lindbergh.. as duas teorias entendem que a culpa está in re ipsa. vol.] A causa preponderante do acidente foi a invasão da via preferencial pelo veículo do apelante. 76 MONTENEGRO. in Wilson Bussada. [. p. Responsabilidade civil: doutrina. p. V. a culpa contra a legalidade deve ser recepciona com reservas. 1996. Ainda assim o fato de dirigir com a carteira de habilitação vencida: Não é possível reconhecer a existência de culpa concorrente da vítima pelo simples fato de que esta dirigia com a carteira de habilitação vencida. contudo não dar ensejo ao acidente: Acidente de trânsito – Invasão de via preferencial pelo veículo do réu. 2002. De efeito. Culpa configurada. não há como presumir a participação culposa da vítima no evento apenas com base em tal assertiva (STJ RDPR 30/334). um ilícito. São Paulo: Saraiva. 1985. têmna como inclusa na culpa presumida.

assim. a pessoa de inteligência e prudência normais. perderam significado com o atual Código Civil. em idênticas condições. é fruto da incúria. causando prejuízo à outra”. a ser vista oportunamente. uma dessemelha da outra. da irreflexão injustificável à pessoa normal. in vigilando e in custodiendo. desde que amplamente previsível o resultado. ofício ou profissão. 4. in custodiendo pela falha no guardar a coisa inanimada ou o animal com o cuidado objetivo. a culpa contra a legalidade espécie. Dessa forma. p. por ser mais restrita. Francisco Amaral destaca a importância de outra forma de manifestação de culpa. pais e proprietários ou possuidores de coisas animadas e inanimadas (CC. a in contraendo. sem intenção. 553. como no inadimplemento relativo ou absoluto do contrato. não se limita como a culpa contra a legalidade às hipóteses de contravir a lei. que se depara com a caça perto de seu companheiro. que preveja a responsabilidade objetiva dos empregadores. 5ª ed.74 A rigor. o agente comete a ação ou omissão causadora do dano. in contraendo A culpa diz-se também in eligendo se resulta da má escolha de representante ou preposto. Essas espécies. 2003. a culpa grave é sinetada pela negligência rematada. demonstrando adentrada insensibilidade social. pode atingir a 77 Direito civil: introdução. leve e levíssima deve ser procurada na comparação da conduta do causador do dano com aquela que teria revelado. sendo. Percebe que atirando no animal.7 Graus da culpa: grave. .4. A culpa grave é a atuação informada pela inescusável falta de cautela. É quando. açambarca situações gerais.77 É o caso da responsabilidade civil pré-contratual. indo. pela imperícia grassa ou pela imprudência grosseira. 932 a 934 e 936 a 938). entretanto. o já mencionado homem médio. Rio de Janeiro: Renovar. não o conclui. o regulamento ou dever de obediência a determinadas regras técnicas do trabalho. in vigilando se decorre da ausência de fiscalização de pessoas sob a guarda e responsabilidade. pois. É o clássico exemplo do caçador. “que se verifica no processo de formação de um contrato.4. por isso é chamada culpa consciente. É gênero. como se tivesse pretendido o resultado. todavia. A presunção de culpa é mais ampla.6 Culpa in eligendo. vicinal ao dolo eventual. injustificadamente. frontalmente contra o valor constitucional da solidariedade. leve e levíssima A graduação da culpa em grave. Arts. comitentes. quando uma das partes. 4.

É mais grave a negligência daquele que não apagou a fogueira que ascendeu na floresta. 112-115. Continuaram o passeio. Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil. do que o dolo de quem causou propositadamente um dano ligeiro em bem alheio. que no mais das vezes é difícil distingui-los. que culpa é culpa e dolo é dolo. Rio de Janeiro: Renovar. Quatro jovens. encontra-se a íntegra do parecer citado. índio Pataxó. compraram dois litros de álcool acondicionados em vasilhames plásticos. produzindo-lhe a morte. José de Aguiar. daí estimulou a parêmia: Culpa lata dolus equiparatur. Ato contínuo. Dirigiram-se a um posto de combustíveis. e atual. Coimbra: Almedina. 1999. Polêmico debate foi travado no julgamento da causa. contudo confia em sua pontaria.00 horas da manhã. por Rui Belford Dias.. Prática das ações de indenizatórias: justiça civil. a imprudência é tão grave. fica mais complexo na bem posta lição do lusitano Fernando Pessoa Jorge: [. 295 e segtes. 359. retornaram ao fatídico lugar. Esconderam o veículo que ocupavam. p.79 O tema. mas não executaram o fato de imediato. Fernando Pessoa. quando sabia que o estado do enfermo não reclamava a sua presença. Para ele. que não aceita a equiparação do dolo à culpa grave. Nesse entretanto. criminal e do trabalho. Ou seja.75 pessoa. p. Às de 5. com interessante enfoque sobre a diferenciação da culpa consciente e do dolo eventual. 2001. Por volta das 3. cumpre lembrar a oposição de José de Aguiar Dias. Luiz Salem e outra. São Paulo: Editora CD. rev. a intenção que a preside. não se confundem. p. tidos de boa família. que a culpa consciente e o dolo eventual tanto se avizinham.00 horas da madrugada. no interior de um automóvel passeavam pelas avenidas de Brasília. Por isso conclui. ajustaram fazer uma brincadeira. o Tribunal Há de se ver. 80 JORGE. relegando um dos critérios mais justos da ação humana. confundir atos praticados de boa fé com os realizados de má fé fere a equidade. do que aquele que conscientemente faltou à visita prometida. Debalde fundamentado parecer do penalista Damásio Evangelista de Jesus no sentido da conduta dolosa78. Momentoso homicídio concentrou a atenção dos estudiosos do direito. porém. que coloca em serio risco o bem maior. 79 DIAS. riscaram fósforos e incendiaram o desprotegido homem.] pode este actuar com dolo e o juízo de reprovação ser menos severo do que se actuasse com mera culpa. 2006.80 78 VARELLA. Da responsabilidade civil. 11 ed.. ao avistarem suposto mendigo que dormia no banco que guarnecia determinado ponto de ônibus. como é mais censurável a atitude do médico que se esqueceu de visitar um doente grave. peremptoriamente. atravessaram a rua e derramaram o líquido em Galdino Jesus dos Santos. .

1. rel.81 dai adágio lex aquilia et levissima culpa venit. Fernando Pessoa. porquanto inerente ao cuidado meticuloso. Direito Romano. é a falta evitável só por uma atenção muito diligente ou especial habilidade e conhecimento singular. 2. III. por ser uma falta de atenção ou insuficiente reflexão comum no cotidiano da vida. RT 869/276). ingressa em rotatória sem atentar para o direito de preferência. VI. Jessuíno Rissato. p. 357.10. 1999. vinda a interceptar a trajetória de veículo que por ela trafegava. pois. uma vez que a esfera penal não vincula a esfera cível. diversamente do Direito Penal. Coimbra: Almedina. Na vigência do Código Civil de Bevilaqua era de somenos importância a intensidade da culpa. apenas na extracontratual. aquele Código. não importando que tenham sido absolvidos no âmbito criminal com base no art. José Carlos Moreira. sem tomar as devidas cautelas. de regra.2003. portanto a falta que pode ser evitada com a atenção ordinária. 23. fixava-se a sua reparação pela sua 81 JORGE. 9. j. Nota-se. Em se tratando de cruzamento com rotatória (ou “balão”). à culpa lata e à culpa leuis.. 2ª T. b. pois os textos romanos aludem. p. . em que o juízo de reprovação é menos rigoroso e até mesmo a culpa levíssima enseja a obrigação de indenizar ( extintoTAPR. RT 822/379). a culpa leve e a culpa levíssima implicam em um erro de conduta no qual qualquer pessoa está sujeita a cometê-lo. a preferência é do veículo que por ela estiver circulando (art. vol. do Código de Trânsito Brasileiro). ofertando-se à colisão em sua lateral esquerda traseira (TJDF. Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil. do CPP. Juiz Guido Döbeli. forjado pelos juristas medievais na interpretação da Lex Aquilia de Damno. a gravidade da culpa não exercia qualquer influência na reparação do dano. II. Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais. apenas. 29. desprezada pelo Direito Penal.2007. E a culpa levíssima. Age com culpa o motorista que. É dizer. j. própria do homem médio. rel.76 A culpa leve é a ausência de diligência média comum a qualquer pessoa.82 O fato de o fogo ateado pelos réus em parte do pasto de sua propriedade ter sido propagado a propriedade vizinha causando danos a ela implica responsabilidade civil deles. 82 ALVES. Para o lusitano Fernando Pessoa Jorge o devedor não responde por culpa levíssima na responsabilidade civil contratual. 386. equiparava a culpa ao dolo para fins de reparação do dano e nada se importava com os graus da culpa. 10ª Câm. 37.10. 2003. Rio de Janeiro: Forense. Des.

Giovani. parágrafo único. ato ilícito. foi munificente na sua aversão a essa figura que reverbera o injustificado empobrecimento de alguém. vol. p. 11ª ed. Napoli: Presso Nicola Jovene & Cº LibraiEditori. porquanto responsabilidade civil sem dano é enriquecimento sem causa para quem recebe a indevida reparação. o que será visto oportunamente. vol. 2ª ed. sem dano.83 Não acontece no atual Código Civil. 1991. 2006.. Pode haver delito. e pois sem que se possa reclamar a reparação”. dano é a consequência da conduta humana capaz de produzir lesão a direitos ou a interesses alheios juridicamente protegidos.84 Na lucidez de Pontes de Miranda “não se identifiquem o delito (ato ilícito) e a reparabilidade. responde na área penal por colocar em risco a incolumidade pública. mas nada responde na área civil pela ausência de dano. ou como assegura Caio Mário: “o dano é elemento ou requisito essencial na etiologia da responsabilidade civil”. Caio Mário da Silva. o que levou Lomonaco a afirmar que a distinção em culpa grave. e o direito brasileiro. ou melhor. Pontes. Rio de Janeiro: Forense. José de Aguiar. Instituizioni di diritto civile italiano. leve e levíssima é mais engenhosa que útil na prática.” 84 PERREIRA. trovasi abbandonata dal Codice francese e dall italiano. Responsabilidade civil. e aumentada por Rui Belford Dias. 85 Na sempre repetida lição de José de Aguiar Dias: “é verdadeiro truísmo sustentar o princípio. que sentenciava nenhuma responsabilidade sem culpa. logicamente não pode concretizar-se onde nada há que reparar”.. piu ingegnosa che utili nella pratica. . está superado o princípio da ideologia liberal. 5 Dano O dano (damnum) é o útero que gera a responsabilidade civil. 5. 85 MIRANDA. que dirige veículo em alta velocidade pelas ruas da cidade. chiamata dal Bigot-Préameneu. p. a assertiva é outra nenhuma responsabilidade sem dano. revista e atualizada de acordo com o CC de 2002. 1895.86 Dessa forma. desde sempre. p. 5º. que criou a indenização por equidade na consideração dos graus da culpa. 43. e no âmbito administrativo por violar as normas regulamentares de trânsito. 53.1 Modalidades de reparação 83 LOMONACO. porque. Um motorista. Da responsabilidade civil.77 extensão e não pelo grau da culpa. Rio de Janeiro: Renovar. Não basta o ato ilícito. 86 DIAS. 969. Daí decorrente. 85. em face do disposto no artigo 944. 179: “La tripartizioni delle cope. Tratado de direito privado. p. resultando a responsabilidade civil em obrigação de ressarcir.

que consiste num prejuízo temido. quando a prestação não oferece mais utilidade ao credor. RT 682/119).2 Dano indenizável O dano indenizável deve ser o certo ou efetivo. Pela tutela genérica das perdas e danos. meramente eventual porquanto incerto. aquele fundado em um fato preciso e não sobre simples hipótese. São três as modalidades de reparação: pela convenção das partes. 251. 249. apesar da boa legislação sobre a matéria. que quantificará o grau se parcial ou total. De fato. ainda se temporária ou permanente. que é a reparação em dinheiro e por equivalente.78 Constatado o dano. 9. deveria ser mais difundida a jurisdição privada.307. O dano atual é o contemporâneo à realização do ato lesivo. e na obrigação de não fazer na forma do art. Toma-se a lesão causada a uma pessoa. assim os estragos na lataria de um carro por ocasião do acidente. na obrigação de dar pela busca e apreensão de bens móveis. na obrigação de fazer conforme o art. o que infelizmente no Brasil ainda se mostra de maneira tímida. arts. A reparação pela convenção das partes é sempre provável. Lucros cessantes – Pretensão que deve ser fundada em bases plausíveis ou verossímeis de modo não compreender os proventos hipotéticos. como no caso da dação em pagamento (CC. mesmo sem qualquer intervenção de terceiro. Ou pela utilização da mediação e da arbitragem. pois em se tratando de direito disponível as partes podem acordar o que lhe seja mais conveniente. a distinção a fazer é uma só: se o dano é ou não certo. chamada de Lei Marco Maciel. que lhe poderá produzir incapacidade laboral só verificável por meio de futura perícia. São exemplos. Para tanto. imaginários ou fantásticos (1º TACivSP. 5. a Lei n. Pela tutela específica em que o credor persegue a prestação tal qual convencionada. quando ainda lhe é útil e possível o seu cumprimento. pela tutela específica e pela tutela genérica. É futuro se suscetível de constatação por colocar-se na sequência normal de um fato atual. 356 a 359). o ordenamento jurídico dota a vítima do direito de pedir a sua reparação frente ao agente causador. não se compadece com o dever de indenizar o dano hipotético ou conjetural. . sendo indeterminado quanto à sua quantificação. ainda não consolidada. motivo do presente estudo. Posto nestes termos. ambos do Código Civil. de 23 de setembro de 1996.

não alcançada por fato exclusivo de outrem. .06. mormente aquelas que se apresentam distantes. porém a perda da chance. Um dos exemplos mais citados é a negligência do advogado que deixa de impetrar o recurso cabível. mas se a vítima provar a adequação do nexo causal entre a ação culposa e ilícita do 87 SILVA. Responsabilidade civil pela perda de uma chance: uma análise do direito comparado e brasileiro. 2007. o caso do jóquei que deveria montar o cavalo de corrida que lhe foi entregue pelo proprietário. Não é qualquer chance. Ênio Zuliani. j. Portanto. Des. a perda da chance pode ser certa. Dá-se quando a realização da chance perdida nunca seja certa. aquele que pode não vir a concretizar-se (TJSP. a pintura poderia ou não ser premiada. cuja reparação cabe arredar pela sua eventualidade. Indeniza-se pela supressão de uma situação favorável que poderia verificar-se. São Paulo: Atlas. mas aquela que se esteia em uma possibilidade fidedigna de alguém obter lucro ou evitar prejuízo diante de situação concreta. criteriosa. Dir. certa é a pert d’une chance que cada um deles inexoravelmente se viu privado. esta sim. a chance perdida não é mera expectativa da vítima. que poderia acolher a sua pretensão. Outros exemplos. Privado. p. o cavalo poderia ou não vencer o páreo. 11. da Teoria. negligentemente. Chance é possibilidade real e séria. rel. O que o art. 3ª Câm. É excluído de reparação o dano meramente hipotético. não o entrega em tempo hábil. Rafael Peteffi da. Pelo critério da seriedade e da realidade da chance perdida é que se distingue o dano conjectural ou hipotético. 5.79 Persevera nesse entendimento o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. eventual ou conjuntural.87 Ensina a respeito Judith Martins-Costa: Embora a realização da chance nunca seja certa. privando o seu constituinte do julgamento pelo superior grau de jurisdição. é certa. isto é.3 A perda de uma chance A perda de uma chance relativiza a assertiva de que somente o dano certo é indenizável. 203. mas por sua exclusiva culpa não chega a tempo de participar do páreo.96. Ou ainda. o pintor que envia seu quadro para participar de uma exposição com premiação e o correio. Nas três situações há uma incerteza: o recurso poderia ou não ser provido. Por estes motivos não vemos óbice à aplicação. simples casualidade. JTJ Lex 182/79). 403 afasta é o dano meramente hipotético. que não se colocam na sequência ordinária dos fatos.

Rio de Janeiro: Forense. p.] Na pert d’une chance. 89 Considera-se ainda. Comprovada a irregularidade na reprovação da aluna. o caráter atual ou iminente da chance de que o autor alega ter sido privado. a álea susceptível de comprometer tal chance. Judith. o fato ilícito e culposo deve contribuir. 2003. 17. Comentários ao novo Código Civil. mas também o grau dessa álea. diante da probabilidade real e séria de vencer. na avaliação dos danos. São Paulo: Atlas. Deve ter em conta. 90 TJRJ.. deixa o animal perecer. em consequência. 40-41. Maldonado de Carvalho. tinha o seu valor acrescido. Des. o que deve ser objeto de indenização é a perda de uma chance. Jurídica e Universitária Ltda. que o animal..88 Agostinho Alvim.. ou seja. 2006.9. assim. não apenas a existência do fator álea. que quanto mais real e séria a chance perdida. um ano de sua vida escolar: Responsabilidade civil – Ensino particular – Dano moral e material – Reprovação de aluna. quanto à prova. 1965. o que teria retirado a chance de a aluna ser aprovada. de modo a candidatar-se a um grande prêmio. p. Responsabilidade civil por perda de uma chance. em sua clássica obra. Sérgio. configurados estarão os pressupostos do dever de indenizar. 6ª Câm. 89 ALVIM. Agostinho. tendo-se em conta. cujo valor pode ser apurado por perícia.. Ver: SEVI. onde apresentará um animal havido como raridade. contudo.80 lesante e o dano sofrido (a perda da possibilidade séria e real). para que outrem perca uma chance de conseguir um lucro ou obter uma vantagem ou de evitar um prejuízo. podendo ser negociado por preço maior. não o grande prêmio oferecido no certame. aborda a hipótese de alguém que concorrerá a um certame. maior a indenização. de modo que esse mais. 362. Entretanto. A escola ministrou de maneira deficiente o processo de recuperação. à qual não foi oportunizada adequada recuperação terapêutica. j. tomo II: do inadimplemento das obrigações. não o prêmio. a pessoa a quem a sua custodia foi transferida. Rio de Janeiro – São Paulo: Ed. É dizer. Essa valorização entra no patrimônio do proprietário. 3 ed. leva-se em consideração. p. Contudo é necessário que a chance perdue seja real e séria. perdendo. de forma direta. Uma estudante ficou em recuperação por não ter obtido nota suficiente para aprovação direta em português. também. distancia-se do mero dano hipotético e penetra na seara do dano efetivo. volume V. . 190-191.2003. O mestre refuta a possibilidade de o dono demandar o prejuízo do prêmio. rel. em um acidente evitável. pela relatoria do Desembargador Maldonado de Carvalho lucidamente sintetiza a questão na parte final do acórdão: [.90 Outro interessante julgado vem do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. com perda de chance de ser aprovada e rompimento de seu equilíbrio 88 MARTINS-COSTA. O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. Aceita.

j. os efeitos jurídicos do dano – além de atingir diretamente a vítima – podem repercutir na esfera de interesses de outras pessoas. impõe-se seja indenizado o dano moral sofrido. 5. trazendo consequências práticas que devem ser consideradas.4 Dano direto.03. É o dano direto. rel. porém. o ofensor indenizará o ofendido integralmente de todas as despesas até ao fim de sua convalescença. 949. Assim também se ocorrer o perecimento ou deterioração de um bem. a filha. Des. Ademais. rel.81 psicológico. Do corpo do acórdão extrai-se: Depreende-se da inicial que a apelante não está pleiteando direito próprio da filha. Apelo provido.. em que ocorrendo lesão ou outra ofensa à saúde. Extinção do processo. 5ª Câm. Cível. A filha foi a vítima direta do dano ao se envolver em acidente de trânsito. Petição inicial. A frustração dos pais. a mãe. . autora da ação. dano moral. em ação de indenização. do Código Civil. por assim dizer. Ainda ocorrendo ofensa moral. A escola foi condenada a pagar trinta salários mínimos a título de dano moral. j. Leo Lima). é o prejuízo que atinge terceiro.2004. o agente do ato lesivo ficará obrigado a indenizar o proprietário. conforme sustentou a r. Direito próprio. 02. o que originou sofrimento à mãe. ou seja. É o chamado dano por ricochete ou reflexo. com as lesões e danos sofridos pela filha (1º TACivSP. que não a vítima direta da conduta danosa. mas o direito próprio que se originou de sofrimento personalíssimo. RT 827/267). Em outras palavras.2003. Dano material afastado.11. Juiz Salles Vieira. Toma-se o art. não constitui dor passível de reparação. a própria vítima é quem sofre o prejuízo. quando transportada por ônibus. 27. no interior de coletivo. Indeferimento. sentença. o ofensor obrigar-se-á a ressarcir o ofendido etc. reflexo ou por ricochete e indireto Primordialmente. A genitora é titular de direito próprio e não alheio. Afastado os efeitos da r. Apelo provido em parte (TJRS. ao postular. nas circunstâncias. sentença que extinguiu o processo. Responsabilidade civil. 3ª Câm. danos morais e materiais sofridos pela filha. é aquele em que a vítima sofre os efeitos do dano causado diretamente a outrem.

que seria certa em face da vítima morta. . RT 826/236). moradores em Estados diferentes. 2ª Câm. quanto à pensão da filha de uma das vítimas absolutamente incapaz. não reconhecido.82 É a lição de Sourdat ao afirmar que o marido é legitimado a impetrar ação em seu próprio nome. tanto pelo vínculo natural da consangüinidade como pelo vínculo civil da adoção. se não provada a dependência econômica. 50. É o caso de o filho menor..694: necessidade do alimentando e possibilidade econômica do alimentante. não tem legitimidade para pleitear pensão por morte decorrente de acidente 91 92 Apud PEREIRA. Não havendo demonstração de contribuírem as vítimas para o sustento de seus pais. uma vez que sofre dano certo e atual pela perda de credito alimentar que recebia. Todos eles são legitimados à proposição da ação ressarcitória. pois a privação dos alimentos é consequência do dano por afetar a pessoa cuja subsistência ficou prejudicada. Reconhecida a paternidade.02. 1991. O sobrinho do falecido. 2 ed. considerando a ofensa feita à sua mulher. E há de se demonstrar o pressuposto da dependência econômica. rel. j. Absolutamente incapaz é a filha. perde uma probabilidade real e séria de acolhimento de sua pretensão alimentar. ascendentes e colaterais. por atingi-lo diretamente em razão dos laços íntimos que os unem. do art. de sorte somente se deferem os alimentos àqueles a quem o de cujus os devia.2004. Não se contesta o direito do alimentando pela morte do alimentante. Quanto aos parentes legitimados a receber alimentos. sendo devida a verba (1º TACivSP. A relação de dependência econômica entre os familiares é essencial para a fixação da pensão. mas que ainda não os recebem. o ato lesivo retira-lhe a possibilidade idônea de obter uma situação futura mais confortável pela pensão que passaria a lhe ser devida. p. 18. A redação é da ementa e pode trazer interpretação equivocada. com o ônus da prova decorrente da equação binômia prevista no § 1º. Caio Mário da Silva. não pode ser presumida a relação de dependência. não tem direito o herdeiro universal.91 No caso de alimentos outros exemplos podem ser suscitados. abrange também cônjuges e companheiros. Responsabilidade civil. a primeira cogitação a fazer é a da perda de uma chance. Juiz Ribeiro Souza. Contudo. Na mesma situação encontra-se o nascituro. instituído herdeiro universal por testamento. não uma das vítimas. Rio de Janeiro: Forense. abrangendo os descendentes. 1. O direito subjetivo de pedir alimentos resulta da relação de parentesco.92 Da mesma forma. perdura a presunção de dependência econômica.

RT 827/268. este do terceiro e assim sucessivamente. A fotografia de pessoa morta. De um evento inicial abrolha uma cadeia de danos. Os pais da vítima sofrem o dano moral resultante da morte do filho e tem direito próprio à indenização. 4ª T. O fazendeiro. Cível. Para tanto. dentre tantos. A máquina não lhe é entregue por culpa do vendedor. Pais da vítima. vende bens a preço vil. Min. apenas. O art. Relator Min.. funeral e luto da família.83 com base no art. por essa causa.10. não paga seu credor que. É o exemplo do fazendeiro que compra um trator de determinado comerciante. de dano reflexo ou por ricochete é o que se relaciona ao vilipêndio da imagem de pessoa morta. mais a prestação alimentícia às pessoas a quem o morto os devia. apresentada no noticiário de jornal que a apontou como perigoso marginal. Ruy Rosado de Aguiar (STJ. . não podendo ser acolhida a tese de que a indenização pelo dano moral somente pode ser deferida à vítima do acidente. prevê indenização pelo pagamento de despesas com o tratamento da vítima. REsp. j. 1. deixa de cultivar as suas terras e. II] (a indenização no caso de homicídio consiste na prestação de alimentos às pessoas a quem o defunto os devia).02.2002. Responsabilidade civil. sem prejuízo de outras reparações. um decorrente do outro. 05. 18ª Câm. Ruy Rosado de Aguiar. na realidade. por sua vez. j. indispensável o pressuposto da econômica dependência daquele que reclama prestação de alimentos de terceiro (RT 675/134). A única previsão legal de dano reflexo ou por ricochete encontra-se no caso de homicídio. 1561226MG. do Código Civil. é insuficiente para justificar o pedido indenizatório. O dano indireto é a possibilidade de advir sucessivos danos. II. se encontrava no local para se candidatar a emprego oferecido. 1º. em tentativa de assalto a empresa de ônibus. gera o dever de indenizar por danos morais os familiares. Implica no nexo de causa e efeito.1998. Recurso não provido. Des. sendo o primeiro a causa do segundo. não auferindo renda. corpo do acórdão). da vítima do evento (TJRJ. quando. 948. Dano moral. do CC [atual art. vez que o simples vínculo sangüíneo com a vítima. RT 814/321).537. sendo a razão central estabelecer o liame entre o primeiro como causa dos demais. Nascimento Povoas Vaz. se tratando. A conduta ilícita do comerciante não pode ser causa do não cultivo das terras e nem da venda de bens a preço vil. não excluindo a compensação por dano moral. rel. Tal reportagem atingiu a imagem do falecido ao apontá-lo como perigoso marginal. Outro exemplo. rel. pois o rol é meramente exemplificativo. 948.

p. a ofensa a determinado direito da personalidade pode acarretar dano patrimonial. patrimônio moral. ALVIM. o tratamento indicado como corretivo. Um profissional liberal difamado. na hipótese de A sofrer uma agressão de C. mas sua conduta é muito distante para ser causa dos demais prejuízos: não arar as terras e a venda de bens por preço vil. 1998. acarretando sua depreciação. comercial ou no Direito Público. no dia X. é ofertado por Mário Júlio de Almeida Costa: A. O comerciante responde pelo inadimplemento contratual. Inexecução das obrigações e suas conseqüências. patrimônio é o complexo das relações jurídicas de uma pessoa natural ou jurídica. Por vezes. direitos e obrigações redutíveis em dinheiro. o vocábulo patrimônio é empregado em sentido não consentâneo com o conceito jurídico. os pessoais entre cônjuges. 95 No sentido jurídico. 3 ed. recorre-se a Agostinho Alvim para analise de outro exemplo: Suponha-se que certo doente não tenha sido operado com observância das regras de assepsia. que exclui os danos considerados remotos. Rio de Janeiro – São Paulo: Jurídica e Universitária Ltda. ou mesmo arrendá-las para outro produtor. Assas vezes. constituindo uma universalidade. resultando impossibilitado de cumprir o contrato. nem por isso este fica obrigado a indenizar o empresário B. seja contraproducente. pianista famoso. no caso. mas apenas A. o dano moral por ele sofrido tem consequência também patrimonial. 93 94 COSTA. A morte. Há um liame entre as suas condutas. pressupõe pluralidade de causas. injuriado ou caluniado perde clientes. 1965.84 Poderia o fazendeiro arar suas terras com trator alugado. que tenha valor econômico. Suponha-se mais que. seja civil. e o doente venha a falecer. complicando o seu estado de saúde. 7ª ed. Pode-se chamar de dano misto. Nele não se incluem os direitos da personalidade de modo geral.5 Dano material: dano emergente e lucro cessante Dano material ou patrimonial atinge o patrimônio da pessoa.93 Mais uma vez. causado pela violação a bens materiais corpóreos ou a direitos incorpóreos que compõem o acervo de uma pessoa. chamado outro médico.95 É o prejuízo de feitio econômico. Não se argumente que a segunda conduta inadequada eliminou o nexo causal com relação à primeira. Outro exemplo de limitação do dano indireto. 528. 329. Entendem-se os bens. A imprudência do primeiro e a imperícia do segundo contribuíram de forma eficiente para o evento morte. 5. a dar um concerto. os direitos do poder familiar e os políticos.94 Não há como excluir nenhum e nem o outro. compromete-se para com B. Coimbra: Almedina. p. os dois médicos respondem. Mário Júlio de Almeida. p. que passou a ser causa remota..ex. Direitos das obrigações.. em determinada casa de espetáculos. . empresário. Agosrtinho.

85 O dano material quando atinge o patrimônio presente enseja o dano emergente (damnum emergens) e se o patrimônio futuro enseja o lucro cessante (lucrum cessans). 332. recuperando-se. trata-se de uma diminuição patente de seu patrimônio. rompendo o binômio dano-indenização. Sobre essa diferença expressa em dinheiro incidirá a atualização monetária até o 96 97 Op. o que razoavelmente deixou de lucrar. bem como para a natureza do dano. o acréscimo patrimonial frustrado. É a teoria da diferença: confronta-se a situação em que o patrimônio foi posto pela conduta lesiva (situação real). por ser um desfalque no patrimônio presente do credor. referindo-se os dois valores ao momento em que se apura a diferença. Por outro lado.5.. e o lucro cessante.. 518. ou seja.. Vige o princípio da restitutio in integrum.” Pontifica Caio Mário da Silva Pereira: [. p. 1991. Responsabilidade civil. É a letra do artigo 402: “[. deixou de trabalhar (o que razoavelmente deixou de lucrar).96 Suponha-se um dentista lesionado na mão por ato ilícito de outrem. Ao passo que o lucro cessante é o que a vítima razoavelmente deixou de ganhar. Refere-se à situação presente. trata-se da diminuição potencial de seu patrimônio. em atenção ao princípio segundo o qual a reparação há de ser integral. Sinteticamente. as perdas e danos convertem-se em fonte de enriquecimento (de lucro capiendo).97 5. o dano emergente é representado pelas despesas de tratamento (o que efetivamente perdeu). Rio de Janeiro: Forense. . de modo a não se dar menos do que o efetivo prejuízo sofrido e também não se dar mais do que se deve reparar. cit. Mário Júlio de Almeida Costa ensina que o dano emergente compreende a perda ou diminuição de valores já existentes no patrimônio do lesado e o lucro cessante diz respeito aos benefícios que ele deixou de obter em consequência da lesão.] as perdas e danos devidas ao credor abrangem. Há de atentar para a gravidade da falta e as suas conseqüências. É a regra do artigo 944: “A indenização mede-se pela extensão do dano. Caio Mário da Silva. além do que efetivamente perdeu. pelos dias em que. PEREIRA. p.. com a situação em que se encontraria se a mesma conduta não houvesse ocorrido (situação hipotética). tendo a indenização por objeto reparar o dano. Refere-se à situação futuro. pois se o for.1 Critério para fixação do dano emergente A mensuração do dano emergente é mais simples.. o que afronta o princípio da equivalência. o montante da indenização não pode ser superior ao prejuízo.” Dano emergente é o que a vítima efetivamente perdeu.] o montante da indenização não pode ser inferior ao prejuízo. 2 ed.

lo que reclama.5. Se. pois um mesmo fato. Portanto. Derecho de daños: principios generales. . o lucro cessante é quase nenhum. poderá surtir efeitos danosos diferentes. para su apreciación. Para que ocorra o lucro cessante. a título de perdas e danos. o lucro cessante pode significar a colheita de todo o ano agrícola.Barcelona: Bosch Casa Editorial. entretanto. dado que apenas se perde o que se deixa de ganhar. 389). além dos juros moratórios e honorários de advogado (CC.98 5. Luis Pascual. responsabilidad contractual. 975-976: Si intuye que el daño emergens tiene una base firme y el lucro cesante participa de todas las vaguedades y incertidumbres de los conceptos imaginarios. esperável. Nem mais. dependendo das circunstâncias. a indenização é o que se deve prestar para repor a vítima na mesma situação patrimonial em que estaria se não se houvesse produzido o dano. uma prova razoável acerca do que poderia ser o verdadeiro lucro desejado de perceber. a indenização mede-se pela extensão do dano. rejeitando-se um critério invariável. Isto é. as circunstâncias de cada caso concreto devem ser consideradas no estabelecimento do quantum debeatur em tema de lucro cessante. com certeza. o que reclama para sua apuração. Luís Pascual Estevill professora com clareza: Se intuí que o dano emergente tem uma base firme e o lucro cessante participa de todas as variedades e incertezas dos conceitos imaginários. segunda edición. Sem a prova precisa de ganho. na primavera quando a terra é preparada para receber a semeadura. para que não haja enriquecimento ou empobrecimento indevido.86 efetivo pagamento por tratar-se de dívida de valor. por parte del que los exige. É o escólio de Pontes de Miranda: 98 ESTEVILL. p. frente o que seriam meros sonhos e ganâncias. 5. frente a lo que sólo serian meros sueños de ganancias. algo a ganhar.6 Restitutio in integrum Pelo exposto. nem menos. art. tomo II. Cada caso concreto deve ser analisado nos seus contornos.2 Critério para fixação do lucro cessante Já o lucro cessante enseja maiores dificuldades. por parte daqueles que o exige. deve-se comprovar haver. existem nuanças a serem consideradas. não há de se falar em lucro cessante. Entretanto. extracontractual y responsabilidad precontractual. de sorte se relaciona a um dano futuro. de una prueba razonable acerca de lo que podria ser el verdadero lucro dejado de percibir. Se um agricultor é esbulhado no inverno quando a terra descansa.

” Por lógico raciocínio. dispõe sobre prestação pecuniária à vítima ou aos seus sucessores. A indenização há de ser balizada pelo efetivo prejuízo. quando se manda avaliar o dano causado ao que colecionava livros de determinada matéria. 5. . pago à vítima ou à sua família.714. Os dois estatutos demonstram oportuna preocupação com a vítima do dano injusto. adquirível no mercado ou com facilidade. a depreciação de seu patrimônio equivale ao valor do livro. p.99 Aqui assim. não mais. é o pretium singulare que se há de prestar. que pode ser acima do comum. repete a norma. A perda do mesmo livro. Essa indenização também merece abatimento. com a redação dada pela Lei 9.8 Verba não compensável 99 MIRANDA. o que foi prejudicado já havia vendido a coisa a preço acima do comum. tomo 22. deve ser deduzido da reparação do dano a eles devida. 2003.87 A indenização não é segundo o valor comum. salvo se é possível a prestação na mesma coisa. Tratado de direito privado. Pontes. de 25 de novembro de 1998. 45. ou telas de determinada época. sendo que a vítima não possuía os demais volumes da coleção. também o seguro facultativo em favor da vítima ou de seus sucessores. O art. o Código de Trânsito art.7 Verbas compensáveis O Superior Tribunal de Justiça na diuturnidade de seus arestos afirma que o seguro obrigatório de veículos. É o que se denomina compensatio lucri cum damno. § 1º. § 3º. não se avalia só o que foi destruído. por exemplo. 297. A perda de um livro integrante de uma coleção deprecia a coleção como um todo. mas pelo valor que em verdade tem para ao lesado o bem que se destruiu. e não o pretium commune. quando vingar contrato neste sentido entre o agente do dano e a seguradora. Campinas: Bookseller. 215. Tanto que estabeleceu a súmula 246: “O valor do seguro obrigatório deve ser deduzido da indenização judicialmente fixada. uma particularidade. 5. Por isso mesmo. O que se indeniza é o que sofreu a pessoa ou seu patrimônio. do Código Penal. se outro não pode ser reposto em seu lugar. mas o que valia o livro ou a tela na coleção. o pretium singulare. é a letra da lei. Se. do contrário não é integral. ou a perda que sofreu.

Não é compensável. 14.2006. rev. 1995.846. vol. Recente decisão do Superior Tribunal de Justiça reafirma posição anterior. pois.2003. p. parágrafo único). 403. o Código Civil prevê indenização específica para os casos de homicídio (art. e finalmente a indenização por ofensa à liberdade pessoal (art. RT 559/81.4.9 Dano agravado pela vítima A reiterada jurisprudência dos tribunais é no sentido que o dano agravado pela conduta da vítima não é indenizável. j. Para mais desse critério geral. Denise Arruda. 944: a quantificação do valor indenizatório pelo dano patrimonial é a extensão desse mesmo dano (restitutio in integrum). 952).11. abrindo-se uma exceção. Min. 953. 100 LOPES. RJTJSP 44/140). A idéia de que a vítima irá lucrar com essa cumulação se esboroa ante esta: transferir o lucro de um lado para colocá-lo a serviço do causador do dano. pela usurpação ou esbulho da coisa (art. DJ 7. com relação aos profissionais da saúde (art. não há como escapar desse requisito. Castro Filho. DJ 4. para o ofendido que não puder provar prejuízo material sofrido (art. 1ª T. II. 416. de ofensa à capacidade de trabalho (art. 6 ed. Min.. 949). j. Obrigações em geral. Miguel Maria de Serpa..11 Exceções ao critério geral Duas exceções são previstas à regra geral da restitutio in integrum.12. no caso de ter a vítima ou seus herdeiros uma pensão de aposentadoria. 5. 948). Aplicação da Súmula 229/STF. 950). 5.100 5. as perdas efetivamente sofridas e os lucros razoavelmente não auferidos estabelecem a regra geral da cabeça do art. de modo definitivo: “É possível a cumulação de pensão mensal em razão de ato ilícito com o benefício pago pelo instituto previdenciário (pensão por morte do segurado). No mesmo sentido REsp. rel. 3ª T.10 Critério geral Como expendido. . Depois de alertar que na compensatio lucri cum damno cumpre que haja um nexo causal. 954).88 A pensão previdenciária tem causa diversa da reparação do dano. Serpa Lopes dá a seguinte explicação: Se para que se dê a compensatio lucri cum damno se torna necessário que o lucro e o prejuízo decorram ambos do ato ilícito.2002. e atual. 951). por José Serpa Santa Maria.2006.” (STJ.11. 2. de lesão ou outra ofensa à saúde (art. rel. Rio de Janeiro: Freitas Bastos.

que entende que tudo deve ser resolvido técnica e cientificamente 101 102 RODRIGUES. 188. em edição passada de sua obra. Direito Civil. 2. São Paulo: Saraiva. no vigésimo andar de um edifício. eqüitativamente. vol. Uma inadvertência mínima – culpa levíssima – pode trazer a ruína do ofensor. com a hipótese de alguém. Abre-se a possibilidade de se utilizar da eqüidade para reduzir a reparação quando houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano. em virtude de sua extrema severidade. A muitos pode parecer injusta tal solução. 19 ed. O parágrafo único tempera: “Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano.. Mais específico é o Código Civil de Portugal. a despeito do grau insignificante da culpa. elemento axiológico muito precioso ao Código.102 Desproporção da gravidade da culpa e o dano Bem por isso. a indenização”. IV. Na cabeça do art. Ante o preceito pátrio utilizar-se do verbo poder surge questão prática: pode ou deve o juiz aplicar a regra do parágrafo único? É mera discricionariedade ou é norma cogente? A resposta está diretamente vinculada a um dos princípios fundantes – expressão forjada por Miguel Reale – do Código Civil de 2002. 4: Responsabilidade civil.89 Sílvio Rodrigues. poderá o juiz reduzir. O princípio da eticidade. em edição atualizada de sua obra. distraidamente encostar-se à vidraça. p. corre-se o risco de arruinar outro. vol. na dosagem da reprimenda legal. São Paulo: Saraiva.101 Ilustra. medindo-se a indenização pela extensão do dano. dispondo que entre outras circunstâncias devem ser levados em conta o grau de culpabilidade do agente. RODRIGUES. É o abandono a ideia do formalismo técnicojurídico. 494º. Direito Civil. que se desprende e mata um pai de família que transitava pela rua. Sílvio. apenas transmitir-se-á a desgraça das vítimas reflexamente atingidas com o falecimento. 12ª ed. o Código Civil de Reale introduz substancial modificação. A culpa passa a ter influência. próprio do individualismo da metade do século XIX. para se remediar a situação de um. é possível que se venha arruinar o agente causador do dano. 1981-1982. Assim. fala sobre a transferência da ruína de um para outro: A indenização pode ser imensa. No caso da responsabilidade civil. De modo que. como no Direito Penal. 2002. p. Sílvio. não mais acreditando na plenitude hermética do direito positivo. 944 põe a regra geral: “A indenização mede-se pela extensão do dano”. que oferece parâmetros no seu art. Para se obter a indenização integral da vítima. a situação econômica das partes envolvidas no dano. . visa corrigir situações em que a culpa mínima possa acarretar indenização acerbada.

” A partir de então. . p.). Na I Jornada de Direito Civil promovida Conselho de Juízes Federais. Claudio Luiz Bueno de Godoy preconiza nesse sentido e. Barueri. Cezar Peluzo (coord. 2002. com a supressão da parte final: não se aplicando às hipóteses de responsabilidade civil objetiva. São Paulo: Atlas. e para a fixação do valor indenizatório ela seja invocada para beneficiar o réu?105 Observe-se. deve ser tida como cogente. de conformidade com os valores éticos. caindo a fiveleta a pergunta de Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho: “Como explicar que. a doutrina propendeu acatar essa interpretação enunciativa. se a norma jurídica evidenciar-se deficiente ou inajustável à especificação do caso concreto. embora ao juiz devam ser conferidos amplos poderes para definição da forma e da extensão da reparação. 944: a possibilidade de redução do montante da indenização em face do grau de culpa do agente. Propender-se. sem apelo a princípios considerados metajurídicos. exatamente. 897. dessa maneira. São Paulo: Atlas. com fulcro nos termos do enunciado. Novo curso de direito civil: volume III: responsabilidade civil. p. foi aprovado o Enunciado 46: “Art. estabelecida no parágrafo único do art. na IV Jornada introduziu modificação: “Enunciado 380 – Atribui-se nova redação ao Enunciado n. para o reconhecimento da responsabilidade seja dispensada a indagação da culpa. Assume-se um sentido mais aberto na previsão de cláusulas gerais e princípios legais indeterminados. deve ser interpretada restritivamente. quando autorizado por lei. 897. por prescindir da culpa. para a busca do que é mais justo e equitativo. Aqui um caso de expressa autorização legal para o 103 Para Sílvio de Salvo Venosa é simples discricionariedade concedida ao juiz. Sílvio de Salvo. 2007. 790. É o caso da norma em comento que. por representar uma exceção ao princípio da reparação integral do dano. São Paulo: Saraiva. não se aplicando às hipóteses de responsabilidade objetiva. No mesmo sentido: VENOSA. Nesse sentido considerando. que conferem ao juiz o poder de suprir lacunas e também solucionar. no artigo 127. 46 da I Jornada de Direito Civil.90 por meio de normas expressas.104 Todavia. que não está obrigado a redução da indenização. certos parâmetros legais obrigam-no e deles não pode afastar-se. p. 143. 105 GAGLIANO. 944 do novo Código Civil. 104 Código Civil Comentado. 2010. 2010. estampa a permissão de o juiz decidir por equidade. SP: Manole. onde e quando previsto. Código civil interpretado. o Código de Processo Civil. Código civil interpretado. assim. p.103 Atualmente agita controvérsia a sua possível aplicação na responsabilidade objetiva.” Abrem-se as portas para a incidência da reparação equitativa na responsabilidade objetiva. 4 ed. Pablo Stolze.

De outro lado. critério prévio de seleção excludente poderá mostrar-se inadequado em determinadas circunstâncias. do necessário para uma subsistência digna. Raros os casos. do que o dolo de quem causou propositadamente um dano ligeiro em bem alheio. com muita felicidade. Cumpre aguardar a tendência dos tribunais nessa que é mais uma das tantas questões controvertidas em sede de responsabilidade civil. A equidade não tem outro nome. se as pessoas por ele responsáveis não tiverem a obrigação de fazê-lo. senão o de justiça no caso concreto. ou não dispuserem de meios suficientes. Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil. do que aquele que conscientemente faltou à visita prometida. como é mais censurável a atitude do médico que se esqueceu de visitar um doente grave. De efeito. não podendo privar o incapaz.106 De fato. ao tratar da responsabilidade do incapaz. 1999. Subsidiária. O juiz está devidamente autorizado. 359. dispondo que ele responde pelos prejuízos que causar. Fernando Pessoa.. Coimbra: Almedina. 944. se na responsabilidade objetiva prescinde-se da culpa. Responsabilidade do incapaz A outra exceção está prevista no artigo 928. afastada as hipóteses em que o causador do dano milita com culpa grave e dolo. tarefa não pouco emaranhada. É uma responsabilidade subsidiária. nada impede essa aplicação. quando sabia que o estado do enfermo não reclamava a sua presença. será de ingente dificuldade conciliar a sua aplicação. supõe-se. do Código Civil. porque o incapaz somente será compelido a reparar o dano no caso de seus responsáveis não estarem obrigados a fazê-lo. É mais grave a negligência daquele que não apagou a fogueira que ascendeu na floresta. não poucos entendem que essa mitigação incide apenas na culpa leve e levíssima.91 julgamento por equidade. Preconiza. p. ..] pode este actuar com dolo e o juízo de reprovação ser menos severo do que se actuasse com mera culpa. um incapaz exposto com curadoria especial para localização de seus 106 JORGE. pois levará em consideração o grau da culpa do agente causador do dano o que. E o parágrafo único assegura que a indenização deverá ser equitativa. Fernando Pessoa Jorge: [. ou as pessoas dele dependentes. no entanto. é o caso concreto que preconizará se cabe ou não a incidência do parágrafo único o art. a rigor. Resta aguardar como fazê-la. De logo cumpre reconhecer. não é perquirido para reconhecimento do an debeatur.

92 parentes. b) que esse facto tenha causado danos a alguém. apresenta os seguintes requisitos: a) que haja um facto ilícito. Entretanto essa indenização. Esse curador especial não é obrigado a ressarcir prejuízo causado pelo incapaz. preservando o incapaz e seus dependentes. seria inaceitável não indenizar. total ou parcialmente. no comento a este artigo do Código Civil de seu país. “de modo que a passagem ao patrimônio do incapaz se dará não quando esgotados todos os recursos do responsável. de 11 a 13 de setembro. da I Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal. 2.692. caso os tenha. que autorizam o julgador a se valer de um critério de moderação e equilíbrio na fixação de um dever. conforme o seu estado e condição. todavia. levando-o à miséria. em Brasília). desde que não seja possível obter a devida reparação das pessoas a quem incumbe a sua vigilância. como na hipótese antecedente. tutelado ou curatelado. A outra hipótese é de o filho. Deflui daí. adesão ao princípio constitucional da proteção à dignidade da pessoa humana. nem dos meios indispensáveis para cumprir os seus deveres legais de alimentos. possuir patrimônio e o seu respectivo responsável não. A indemnização será. o julgador lançará mão de um critério fundado na moderação e equilíbrio para a fixação da obrigação indenizatória. Equidade que permite ao julgador considerar o que se apresenta como justo no caso singular. tutores e curadores são também beneficiados por esse limite humanitário. se nas mesmas condições tivesse sido praticado por pessoa imputável. Ad exemplum: incapaz rico que causasse dano a um pai de família pobre. Para tanto. . O Código Civil português tem disposição equivalente: “Artigo 489º: Indemnização por pessoa não imputável 1. por analogia. isto é. também deve ser equitativa. ainda por força do parágrafo único do artigo em comento. Se o acto causador dos danos tiver sido praticado por pessoa não imputável. Assemelha-se. reprovável. do necessário à subsistência digna. cuja proteção volta-se à vítima inocente de dano injusto. até com certo afastamento do direito objetivo. calculada por forma a não privar a pessoa não imputável dos alimentos necessários. d) que haja entre o facto e o dano o 107 A eqüidade conjuga princípios imutáveis de justiça. mas se reduzidos estes ao montante necessário à manutenção de sua dignidade” (Enunciado 39. por motivo de equidade. não integral. que os pais. é mitigada.” O lusitano Antunes Varela. No atual estágio da responsabilidade civil.107 A indenização equitativa traduz. pode esta. àquela estampada no artigo 1. na verdade. do Código Civil. c) que o facto tenha sido praticado em condições de ser considerado culposo. ser condenada a repará-los.

Não é subjetiva. exigindo dinheiro para o seu consolo. Chega a ter laivos de irrisório a pretensão do embargado (Arquivo do Judiciário 111/1954. – volume I – Coimbra: Livraria Almedina. 7 ed.108 Nessa esteira conclui-se. 10 ed.110 Melhor fundamento é que. pois se insurgia contra a existência de direitos 108 ANTUNES VARELA. embora depois a recompusesse. em face das circunstâncias concretas do caso. para ele o fundamento dessa responsabilidade é encontrado nos princípios de garantia e assistência social. p. arguindo que a dor. 1998. porque ao incapaz não se lhe pode imputar culpa. e) que a reparação do dano não possa ser obtida dos vigilantes do inimputável. E concluía mordaz: Trata-se de um cidadão que deixa abandonado o túmulo de sua esposa e. a honorabilidade de uma pessoa são inestimáveis economicamente. Em um primeiro momento os julgados apegavam-se à tese da sua impossibilidade. o sofrimento. assegura que a responsabilidade civil do incapaz funda e mede em um plano de direito equitativo. Daí a reiterada orientação do Supremo Tribunal Federal nesse sentido (RF 45/521). Direito das Obrigações. 283 e 284). 566. 109 ALMEIDA COSTA. São Paulo: Atlas. que seria tratado com maior rigor. porque o Código Civil estabelece a culpa como regra geral da responsabilidade civil e se assim o fosse as causas de irresponsabilidade que eximem o plenamente capaz pelo afastamento da culpa. Como se o dinheiro fosse bálsamo ou anestésico de aplicações da alma. 2007. Mário Júlio Almeida Costa. É a corrente dos negativistas fundamentados no pensamento de Savigny. f) que a equidade justifique a responsabilidade total ou parcial do autor. 2000. Não é objetiva. 27. 7 ed. que não se trata de responsabilidade nem objetiva e nem subjetiva. . como a legítima defesa e o estado de necessidade. o que não se concebe. Programa de responsabilidade civil. ardoroso adversário da responsabilidade por dano moral. o que se procura é a maior proteção da vítima de dano injusto. p. no estágio atual da responsabilidade civil. O então Ministro Nélson Hungria sempre se alinhou entre aqueles que negavam formalmente a reparação do dano moral. não alcançariam o incapaz. p. 548.93 necessário nexo de causalidade. Outro jurista português. Mário Júlio de. Das obrigações em geral. p. João de Matos. Coimbra: Livraria Almedina. 6 Dano Moral A jurisprudência foi lenta na aceitação do dano moral. 110 CAVALIERI FILHO. anos depois. achou de se declarar moralmente ferido. Sergio.109 Sergio Cavalieri Filho pensa diferente. porque a Municipalidade andou tocando na sepultura.

É uma fase de transição entre a oposição e a aceitação. Essa pálida aceitação sinalizou uma evolução no espírito dos negativistas. Também na Odisséia de Homero. sem que o cumulasse com o dano patrimonial: “Responsabilidade civil. e no inciso X: “são invioláveis a intimidade. o legislador constitucional nada mais fez do que reconhecer o que vêm de anosas eras. 1983. ao dispor no artigo 5º. Rio de Janeiro: Forense. 2ª Turma. j. Os bens sobre a honra. um código de leis civis e religiosas enquadrado num grande discurso do Profeta Moisés.06. quando trata dos atentados à reputação de uma jovem e dos casos de adultério e fornicação (22. Para eles era inadmissível que os sofrimentos morais dessem lugar à reparação pecuniária.84. além de indenização por dano material. de sorte conduziria. Décio Miranda. julgando caso de indenização motivado por um adultério. Wilson de Melo da. . na expressão de Wilson Melo da Silva. rel. ao descrever uma assembléia de deuses. Na verdade. a vida privada. originário de dano moral. se deles não decorresse qualquer dano material (RT 660/116). a honra e a imagem das pessoas. 3 ed. 111 SILVA. De dano moral somente o nome. 398. entretanto. na oitava rapsódia (versos 266-267). a vida. a liberdade em suas várias manifestações não estariam no âmbito jurídico da ordem privada. O passo seguinte foi dado pelos intermediários. O dano moral não é de ser indenizado quando o foi. a admitir a ressarcibilidade do dano moral. própria dos misoneístas. RT 599/263). proporcional ao agravo. De efeito. assegurado o direito de indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. no tocante à doutrina. p. especialmente no Deuteronômio. o que se indenizava era o dano patrimonial. o dano material” (STF. o dano moral deita origem em documentos dos mais antigos. 26. Assim agindo. moral e à imagem”. Min. Dano Moral. inciso V: “é assegurado o direito de resposta. propugnando pela aceitação do dano moral apenas quando repercutisse no patrimônio do lesado. entre outras consequências. de forma ampla e pelo mesmo fato. não podendo ser indenizáveis.111 Já começava. a legitimar o suicídio. 13-19 e 28-29).94 originários ao considerar falso o princípio de um direito do homem sobre sua pessoa. Está na Bíblia. À Constituição Federal coube desmoronar a resistência à sua indenização sob o argumento da ausência de um princípio geral. O dano moral e sua reparação.

como visto. Pesquisador da matéria. tanto que a Constituição Federal tratou-os em conjunto no art. Orlando.1 Dano moral: conceito Não é unívoco o conceito de dano moral. ilicitamente produzida por outrem”. 3 a 8. 5º. que se chega a indagar da possibilidade do dano moral fora do âmbito dos direitos da personalidade. p. embora afanosamente trabalhado. que fortalecem a tese. no campo mais amplo do direito civil constitucional. sem nenhuma necessidade de recurso à existência da dor ou do prejuízo. 6. todavia. A responsabilidade opera-se unicamente pelo fato violador: é o damnum in re ispsa. Reconhece. 12 ed. p. 112 DEDA. rev. Artur Oscar de Oliveira. no programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Pernambuco. Direito das obrigações. Conjugados a lesão a qualquer direito da personalidade e o nexo de causalidade com o dano moral é o quanto basta para surgir o direito à reparação. Ambos. Rio de Janeiro: Forense. ostentam a mesma natureza extrapatrimonial. 1998. o constrangimento que alguém experimenta em conseqüência de lesão de direito personalíssimo. Várias correntes disputam a melhor forma de conceituá-lo. que essa compreensão não é a predominante na doutrina e na jurisprudência. 271. direitos da personalidade e dano moral. É tão íntima a interação entre eles. e estimulando investigações de mestrandos e doutorandos. Artur Oscar de Oliveira Deda considera os efeitos da lesão jurídica. .113 De efeito. Paulo Luiz Netto Lôbo observa: Não há outras hipóteses de danos morais além das violações aos direitos da personalidade.95 Conforme o estágio atual admite-se a sua cumulação com o dano material nos termos da Súmula 37 do Superior Tribunal de Justiça: “São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato”. Para ele dano moral é a dor resultante da violação de direitos estranhos ao patrimônio. V e X. seja a dor moral (dor-sentimento) de causa imaterial. por Humberto Theodoro Júnior. e atual. portanto. A reparação dos danos morais: (doutrina e jurisprudência). São Paulo: Saraiva. ambos têm por objeto bens interiores da pessoa. o que lhe é inato. Nos últimos anos. os direitos da personalidade oferecem um leque de oportunidades definidas no sistema jurídico cuja lesão faz incorrer a pretensão de dano moral de modo objetivo. sem repercussão patrimonial.112 Para Orlando Gomes leva-se em consideração a natureza dos direitos subjetivos violados: “é. 113 GOMES. tenho trabalhado esse tema. incs. Seja a dor física (dor-sensação). 2000.

16 e 17. Desse ponto de partida. o que ele denomina de novos direitos da personalidade. Nenhum dos casos deixa de enquadrar-se em um ou mais de um tipo. Daí conceitua o dano moral. Direito absoluto significa aquele que é oponível a todos. a essência de todos os direitos da personalidade. E completa a sua lição: Nessa perspectiva. gerando pretensão à obrigação passiva universal. O que concerne à esfera psíquica ou intima da pessoa. relações afetivas. como aquele que “envolve esses graus de violação dos direitos da personalidade. podendo falar hoje em direito subjetivo constitucional. gostos. Acrescenta que os direitos da personalidade podem ser realizados em diferentes dimensões.. da integridade psíquica ou outros direitos da personalidade. 2001. seus sentimentos. p. correspondem à dos aspectos essenciais da honra. em sentido amplo. a dignidade humana como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. Prossegue. vexame. Assim como a febre 114 LÔBO. religiosas. e não causas. para fins dos danos morais. vexame. sentimentos. são exclusivamente os direitos da personalidade. não é o direito violado. Revista Jurídica. . A dor é uma conseqüência. considerada esta em suas dimensões individual e social.96 A rica casuística que tem desembocado nos tribunais permite o reenvio de todos os casos de danos morais aos tipos de direitos da personalidade. suas afeições. Fora dos direitos da personalidade são apenas cogitáveis os danos materiais. da reputação. Afirma que a Constituição Federal erigiu. o dano moral não está necessariamente vinculado a alguma reação psíquica da vítima. não diretamente vinculados à dignidade. constatando que os direitos da personalidade açambarcam outros aspectos da pessoa humana. E direitos absolutos de natureza não-patrimonial. O dano moral remete à violação do dever de abstenção a direitos absolutos de natureza não-patrimonial. abrange todas as ofensas à pessoa. sofrimento. aspirações. o bom nome. no âmbito civil. Danos morais e direitos da personalidade. hábitos. nº 284. Pode haver ofensa à dignidade da pessoa humana sem dor. sua consciência. que dá uma nova feição ao dano moral e maior dimensão à dignidade humana. no artigo 1º. inciso III. sua dor. Dor. convicções políticas.. filosóficas. Paulo Luiz Netto.114 Sergio Cavalieri Filho caminha nessa direção. vexame e sofrimento sem violação da dignidade. conceitua o dano moral. jan. ainda que sua dignidade não seja arranhada”. A referência freqüente à dor moral ou psicológica não é adequada e deixa o julgador sem parâmetros seguros de verificação da ocorrência de dano moral. Enumera a imagem. em sentido estrito. assim como pode haver dor. direitos autorais. a reputação. como “a violação do direito da dignidade”. sofrimento e humilhação podem ser conseqüências. como também violados em diferentes níveis. a qual passa a ser a base de todos os valores morais.

é aquele que provoca prejuízo a qualquer interesse não patrimonial.115 Maria Helena Diniz. ex. p. referenciada em Wilson Melo da Silva. . tal não ocorre com o direito ao corpo. provocada pelo fato lesivo”. a lesão à dignidade da pessoa humana (CF/88. portanto. P. oferece o seguinte conceito: “o dano moral vem a ser a lesão de interesses não patrimoniais de pessoa física ou jurídica (CC. do fato lesivo a um interesse patrimonial. Sergio.: a perda de coisa de valor afetivo. Deriva. 7 ed. a promoção de sua 115 CAVALIERI FILHO. 52. art. Para essa professora da PUC-SP. de um anel de noivado. III). que produz um menoscabo a um bem extrapatrimonial. explica o prejuízo causado a um interesse patrimonial que resulte também em dano moral. ou melhor. a liberdade. o critério de distinção entre o dano patrimonial e o moral não poderá ater-se à natureza do direito subjetivo atingido. ainda. a intimidade.97 é o efeito de uma agressão orgânica. O dano moral indireto consiste na lesão a um interesse tendente à satisfação ou gozo de bens jurídicos patrimoniais. art. ainda que ausentes o dolo ou a intenção de causar prejuízo (RT 639/155). Dessa forma. Maria Helena Diniz distingue dano moral direto e dano moral indireto: O dano moral direto consiste na lesão a um interesse que visa a satisfação ou gozo de um bem extrapatrimonial contido nos direitos da personalidade (como a vida. a honra. Esses direitos são transmitidos por sucessão mortis causa. sobre o qual subsistem os chamados direitos post mortem. os sentimentos afetivos. a capacidade. ou a ambos. ao caráter de sua repercussão sobre o ofendido. Programa de responsabilidade civil. ou seja. cabendo aos herdeiros ou ao cônjuge. a reação psíquica da vítima só pode ser considerada dano moral quando tiver por causa uma agressão à sua dignidade. o estado de família). Joeirando a jurisprudência encontram-se exemplos dessas duas espécies de dano moral: A remoção de restos mortais de sepultura perpétua para ossuário geral do cemitério por parte da Administração Pública sem ciência e consentimento da família constitui ato inexplicável e absurdo. a integridade corporal e psíquica. ou nos atributos da pessoa (como o nome. que é pressuposto desse direito ou ao efeito da lesão jurídica. 2007. devido a uma lesão de um bem patrimonial da vítima. Apesar de os direitos da personalidade terminar com a morte. Súmula 277 do STJ). mas ao interesse. a própria imagem). ou a ofensa a um interesse moral que reflita em dano material. 76 e 77. São Paulo: Atlas. Abrange. a ensejar obrigação de indenizar por dano moral. 1º. ou seja. Assim fica explicito. o decoro.

A família sofreu. Absolvição criminal. organização mercantil que explora o negócio de supermercados. Os crimes contra honra são campo fértil em que vicejam violações aos direitos da personalidade. televisar imagem alheia em propaganda lucrativa. afetados que foram os seus sentimentos afetivos. O povo foi despertado no seu sentimento de nacionalidade. para promoção de revista com a qual não contratou. E foi exatamente esse gesto o escolhido na mensagem televisiva. Entre os jogadores distinguia-se o capitão da equipe Carlos Alberto Torres. que buliu com a emoção do povo brasileiro. pois o contrato acertado entre as duas empresas continha cláusula para fins publicitários e de propaganda. Fazendo-o. por direito próprio. Calúnia na divulgação de fatos pela imprensa.98 defesa contra terceiros. o devido ressarcimento será a conseqüência de direito” (RT 464/226 e 227). no caso vertente. RTJ 125/1. com envio. Inarredável o dano moral direto. Se a imagem é reproduzida sem autorização do retratado. que teve a honra de levantar o precioso troféu. por meio da televisão. contratou a locação dos serviços da empresa HAPP – Haroldo de Andrade Publicidades e Promoções. mas o direito à imagem que decorre dos direitos essenciais da personalidade. há locupletamento ilícito. Embora não se cuide de publicidade estritamente comercial. sem autorização. de mensagem congratulatória ao povo brasileiro pela conquista definitiva da Coupe Jules Rimet. configurando o dano moral direto: Responsabilidade civil. que não elide a responsabilidade do jornal pela publicação de notícia colhida sem cautelas e que atinge a incolumidade moral de uma pessoa. agindo. a Seleção Brasileira disputou e venceu a Copa do Mundo disputada no México. no caso. que impõe a reparação do dano. Eis a ementa do acórdão: “A ninguém é dado.338). mas também a exploração comercial com finalidade lucrativa. Em 1990. As Mercearias Nacionais S/A. Trata-se de dano por ricochete. para fins publicitários e de propaganda. dessa forma. séria lesão nos direitos da personalidade. Retira-se outro exemplo de interessante episódio. como já explicitado. mediante trabalhos e anúncios. Obrigação . Entendeu o Tribunal que não houve apenas o intuito de solidarizar-se com o povo brasileiro. fundada em retratação posterior. No mesmo sentido: A reprodução de fotografia não autorizada pelo modelo não ofende apenas o direito do autor da obra fotográfica. constitui ilícito indenizável (STF.

entre os bens empenhados. Juiz Luiz Burza. que não conseguiu demonstrar a inexistência do defeito causador do sinistro ou que ouve culpa exclusiva da vítima.051. ex. pois se trata de responsabilidade civil objetiva da empresa fabricante. §§ 1º e 3º do CDC. também é encontrado na jurisprudência: Responsabilidade civil – Penhor de jóias – Caixa Econômica Federal – Desaparecimento – Indenização – Dano moral – Cabimento – 1.2002. Faz jus à indenização por danos morais. da Lei 5. j. que enseja a reparabilidade do dano moral indireto. rel. quando solicitada deixou o cliente desamparado. por ter deixado honrar o contrato que incluía serviço de guincho. rel. 3ª Seção. Des.. 2.99 de reparação dos danos morais (art. incendiado em decorrência de autocombustão do motor. Ora. se perfeitamente identificada a pessoa visado (RT 748/323).: casamento. Embargos infringentes improvidos (TRF. uma vez que tais jóias normalmente se destinam a retratar um vínculo afetivo (p. Caracterizada a injúria. Enfim. causando-lhe grande aflição e pavor (1º TACSP – 8ª Câm. etc. uma obrigação de fazer que a seguradora deixou de fazer.308-1. Fagundes de Deus. nos termos do art. Do corpo do acórdão consta: . em face de ofensas dirigidas a pessoa em programa radiofônico. em local ermo e à noite.2005. 1. É a perda de um bem patrimonial de valor afetivo.09. j. 1ª Região. 17. pela ofensa a bem patrimonial. noivado. ou seja. Sentença mantida (RJTSP 32/141). 3. não afasta a responsabilidade indenizatória do ofendido por alcunha ou apelido. de alianças de ouro amassadas e sem qualquer adorno faz presumir terem eles valor sentimental para a parte autora. as alianças. pelo fato do produto. e que. no caso o dano moral deriva dos efeitos jurídicos – grande aflição e pavor – ocasionados pelo inadimplemento de cláusula contratual que respalda um interesse econômico.250/67). ap. 49. 02.). Revisa Jurídica 335/138). 12. recém adquirido.04. O dano moral indireto. É devida pela seguradora indenização por danos morais. A existência.I. RT 807/278 e 279). o consumidor que teve seu veículo novo. O desaparecimento de jóias de família empenhadas à Caixa Econômica Federal dá ensejo à caracterização do dano moral indenizável.

Lúcida síntese da pena de Yussef Said Cahali: Na realidade. o conceito familiar e social são contrariados de forma ilícita. contratempos decorrentes da deterioração de um bem patrimonial. O episódio não foi um fato corriqueiro da sua vida de relação. na humilhação pública. Analisando a índole dos direitos violados na configuração do dano moral.2 Configuração do dano moral Não sem motivo denuncia-se a indústria do dano moral. trazendo consequências de difícil e até impossível superação. no sofrimento. advindo do fato naturais dissabores e contratempos. no devassamento da privacidade. no desequilíbrio da normalidade psíquica. não há como enumerá-los exaustivamente. física da vítima. na desconsideração social. São considerados os efeitos derivados do fato: fundado temor. É que muitas vezes não se assume o próprio erro. em linha de princípio. CC. A auto-estima. na . com repercussões na saúde psicológica e. ART. VER REVISTA JURÍDICA SÍNTESE. ferindo-lhe gravemente os valores fundamentais inerentes à sua personalidade ou reconhecidos pela sociedade em que está integrado. objeto de comentários jocosos até no seu ambiente social.566 6. Outras vezes procura-se prevalecer de uma situação. porquanto malferem direitos existenciais. circunstâncias ou fatos. certamente incutiu fundado temor e verdadeira perplexidade na pessoa do autor.100 A experiência dolorosa do sinistro. multifacetário o ser anímico. até mesmo. As circunstâncias do fato indicam que o autor experimentou um verdadeiro constrangimento. na tristeza pela ausência de um ente querido falecido. VOLUME 257/74. Receios e temores certamente acometeram o autor e seus familiares. verdadeiro constrangimento. evidenciando-se na dor. erigir meros transtornos da vida cotidiana em ofensas aos direitos da personalidade. tudo aquilo que molesta gravemente a alma humana. qualifica-se. mas algo excepcional. por vezes. no descrédito à reputação. na angústia. como dano moral. a partir da experiência traumática do incêndio do veículo por autocombustão. a respeitabilidade da pessoa. 231/1. verdadeira perplexidade. dissabores. Não se está diante de mero ou corriqueiro fato indesejável do cotidiano. nota-se que essa espécie de dano é reservada para eventos que inspiram seriedade. mesmo que isso não seja ético e. nos traumatismos emocionais. nas circunstâncias em que se verificou. prefere-se transmiti-lo a outras pessoas. no desprestígio.

portanto violados esses direitos o dano moral configura-se. é dizer. rel. rel. 2005. . No entanto. j. diante de determinados eventos o julgador coloca-se numa situação de hesitação. Dano moral. representado pelo bonus pater familias. a inexistência de critérios objetivos. o que. Não se pode tomar como referência nem o alfenim. como luvas nas mãos a construção engenhosa dos romanos. para compensação de ofensa ao direito da personalidade (TJSP. pois.2003. RT 809/265) Outro interessante caso decidiu o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Há no consenso feminino um aguçado instinto de autodefesa para conter investidas dos cortejadores elegantes e ou descortês. no sentido da pessoa de aguçada sensibilidade que a tudo se ofende. Juiz Nelson Fonseca. é conveniente perceber que o dano moral é ofensa a interesses relacionados à dignidade humana ou aos direitos da personalidade.05. 27. as contrariedades e as desilusões. Sao Paulo: RT. de sensibilidade mediana. de Direito Privado. Não bastam para interceder de modo intenso a ponto de provocar o desequilíbrio psicológico daquele que é levemente ofendido.101 depressão ou no desgaste psicológico. Yussef Said. A multa de trânsito aplicada equivocadamente deve ser considerada nula.. não gera indenização por danos morais. Ênio Santarelli Zuliani. nem muito sensível nem apático às ofensas. 116 CAHALI. Dessa maneira. j. 30. Outro parâmetro está na assertiva de Cahali: “multifacetário o ser anímico”. nas situações de constrangimento moral. 3ª Câm.07. RT 818/195). não raro.116 Nota-se. 7ª Câm. o homem impassível perante as adversidades porque falto de sentimento. o homo medius.2002. 3ª ed. nem o estóico. De plano. p. as irritações e os dissabores provocados pelo ordinário da vida apartam-se do dano moral.. Aquela pessoa comum. uma vez que o simples aborrecimento experimentado é insuficiente para abalar o psiquismo da pessoa natural (1º TACiv. Des. sendo que o aborrecimento em fase de uma “cantada bisonha” termina consumido pelo natural ridículo da cena repudiada. Cai. de perplexidade. novamente. cada pessoa humana é distinta pelos predicados que lhe são inerentes. os percalços e os aborrecimentos. uma realidade social que faz supérflua a indenização por dano moral.

devendo ser pessoal e direta. 0254507.102 De outro lado. somente tipifica denunciação caluniosa quando o denunciante tem a certeza moral da inocência do denunciado. mesmo se nomeada pessoa certa e determinada. por parte do noticiador do fato. j.10. No corpo deste acórdão várias outras decisões são citadas.2002. obrigação de indenizar dano moral (RT 818/273). permitindo-se identificação do destinatário. Cível. Lecir Manoel da Luz. Em conseqüência. II – Ocorrência. afigura-se como lesiva ao patrimônio moral e jurídico do representado. referindo-se apenas à existência de uma “gangue” (TJDF. Des. 4ª T. culpa e nexo de causalidade entre a conduta do agente e a ofensa à esfera jurídica e moral da pessoa . j. não gera lesão ao patrimônio moral da pessoa que foi convidada a prestar esclarecimentos sobre os fatos. A notitia criminis. posteriormente arquivado por sentença. RT 816/310). a ofensa à honra deve ser dirigida contra pessoa certa e determinada.05. Ap. tendo como relator o então Juiz Caetano Levi Lopes: Indenização – Notitia criminis – Dano moral – Má-fé – É direito de qualquer cidadão levar ao conhecimento da autoridade policial a ocorrência de um fato tipificado como crime. dolo ou má-fé. esta deverá ser direta e pessoal.. rel. Des. se destituída de má-fé. assim como desprovida de pressupostos legais e fáticos. 14. rel. A notitia criminis. não nominaram o apelante. Câm. Ofensas genéricas e impessoais são afastadas do dano moral. Para que se efetive a ofensa à honra. inexiste. não gera lesão no patrimônio moral da pessoa indicada. Desse modo.2003. na hipótese. não existe dano moral quando as expressões tidas como injuriosas. quando intentada com temeridade. proferidas em assembléias. Samoel Evangelista). ao constranger o representado a responder por inquérito policial. de evento danoso. destacando-se esta do extinto Tribunal de Alçada de Minas Gerais. por tratar-se de exercício regular de direito. 2ª Câmara. 12. se destituída de má-fé. Também não constitui dano moral a notitia criminis levada – de boa-fé – à autoridade policial para a apuração de fato típico diante da ocorrência de evidências. I – A representação criminal fundada na alegação de “crime de ameaça”. Em outras palavras. Responsabilidade civil – Ação ordinária de reparação por danos morais. Levar ao conhecimento da autoridade policial a ocorrência de fato tipificado como crime é direito de qualquer cidadão. na unidade policial (TJAC.

a chamada dor-sentimento. se a vítima teve sua imagem. surge a necessidade da reparação.. prescindindo da análise da culpa. Seria um plus inaceitável impor à vítima o ônus de comprovar o seu sentimento. não. José Mauri Moura Rocha. Provado o fato. No caso em apreço dá-se a emulação. Revista Jurídica 268/116). São Paulo: Atlas. Bem por isso. 7 ed. provada a ofensa. por meio de testemunhos. 6. o vexame. Programa de responsabilidade civil. Sergio.103 representada. algo que passa no seu íntimo: a dor.1999. 83. 2ª Câm. rel. 10. j. dispensada qualquer prova. seu nome ou seu conceito social afrontados. . presunção hominis ou facti. por conseguinte. o dano moral decorre diretamente da gravidade da afronta. não havendo que se cogitar da prova do prejuízo. o segundo. o dano moral existe in re ipsa. como prestadores de serviços aos seus clientes – consumidores finais – estão submetidos às disposições do Código de Defesa do Consumidor. E o sofrimento reside no próprio acontecimento funesto. documentos ou perícias. se presentes os pressupostos legais para que haja a responsabilidade civil (nexo de causalidade e culpa) (RSTJ 98/270 e RT 746/183). a humilhação etc. O fato assim o demonstra..11. a ensejar. Casos tópicos exemplificam: Os bancos. 2007. Da mesma forma.] (TJCE. Cível. 14 do 117 CAVALIERI FILHO.. Des. de modo que. que decorre das normas da experiência comum. Verificado o evento danoso.3 A prova do dano moral Evidente que danos tão distintos como o patrimonial e o moral não podem exigir o mesmo tratamento probatório. respondendo objetivamente pelos danos que causarem a terceiros. o dever de indenizar [. que é o ato praticado com o firme propósito de causar dano a outrem.117 A perda de qualquer parente próximo implica inexoravelmente em sofrimento. também nada lhe será exigido provar nem sequer eventual prejuízo. está demonstrado o dano moral à guisa de uma presunção natural. a teor do exposto no art.. A concepção atual da doutrina orienta-se no sentido de que a responsabilização do agente causador do dano moral opera-se por força do simples fato violador (damnum in re ipsa). Enquanto o primeiro deixa vestígios evidentes que podem seguir os meios tradicionais de prova. provado está o dano moral. p.

No sistema jurídico atual. pode ser aceita apenas como exceção em casos muito especiais. 247. não se cogita da prova acerca da existência de dano decorrente da violação aos direitos da personalidade. Afirmar. por ser evidente.09. para quem é ônus da vítima a comprovação da dor-sentimento derivada da ação ou omissão danosa: Os juízes devem ser muito prudentes ao decidir pelo cabimento da indenização. RT 817/360). Diferente é a posição adotada por Fábio Ulhoa Coelho.119 118 119 COELHO. Francisco Vieira Lima Neto responde: Discordamos de Coelho. pois nos parece ultrapassada a doutrina que identifica o dano moral ao preço da dor (pretium dolis). 2ª Câm.104 referido diploma legal. Lucas Abreu Barroso (organizador). 2006. Da mesma forma. neste mesmo sentido 817/360 e 807/278). dentre eles a intimidade. São Paulo: Saraiva. Célia Smith. Nesse passo. 417. .118 No arremate do trecho esse nomeado autor assegura que a única função do dano moral é compensar a pungente dor que algumas vítimas sofrem. j. que a dor da mãe ou do pai pela perda do filho independe de prova. Rio de Janeiro: Forense. honra e reputação.2003. na espécie. 4ª T. p. Curso de direito civil. Francisco Vieira.. Ato antijurídico e responsabilidade civil aquiliana – crítica à luz do novo código civil. imagem. Essa posição isolada encontra pouco espaço na ordem jurídica. 2 ed. Min. volume 2. privando-a de efetuar suas compras. Não cabem presunções. para que não se deixem enganar pela simulação da dor. pessoa em coma pode ter seu nome difamado e sua imagem indevidamente utilizada e nunca chegar a ter consciência dessa situação. embora com essa idade nem consiga perceber o verdadeiro sentido da morte. A conduta da prestadora de serviços telefônicos caracterizada pela veiculação não autorizada e equivocada de anúncio comercial na seção de serviços de massagem viola a intimidade da pessoa humana ao publicar telefone e endereço residenciais. ainda assim haverá dano moral. p. independentemente de prova objetiva do prejuízo sofrido (TJRN. 14. 2005.02. rela. o dano é presumido pela simples violação ao bem jurídico tutelado (STJ. Fábio Ulhoa. já que. RT 824/180.. quando comprovadamente existente provisão de fundos em conta corrente. configura o dano moral. Quanto menos doloroso tiver sido o evento danoso para a vítima. é uma ingenuidade imperdoável do magistrado. mais fácil será fingir o sofrimento. LIMA NETO. a ordem de apreensão do cartão de débito da cliente. Fernando Gonçalves. por exemplo. j. Desa. 16. pois uma criança de l ano sofre dano moral quando perde seu pai em virtude de ato ilícito de alguém. in Introdução crítica ao Código Civil. rel.2003.

O Código de Defesa do Consumidor. observando o princípio da razoabilidade. O inquérito policial colheu prova irrefutável de que o sepultamento deu-se no sábado por volta de 13. o acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Exceções existem. ocorrendo saques na conta poupança do cliente. pelo protesto indevido de título de crédito. No caso em que o dano moral recai sobre pessoa jurídica. impõe-se o reconhecimento da responsabilidade objetiva do fornecimento do serviço. 3º. Recurso adesivo do autor improvido (RJ 357/164. 5. O dano moral não presumível do só fato da ocorrência de saque indevido de valores em conta de titularidade do autor. Vilipendia o binômio Direito e Moral. caracterizar enriquecimento sem causa da vítima. contudo. quando o debate da matéria ensejou divergência: Responsabilidade civil – Indenização – Aplicação do Código de Defesa do Consumidor – Saques Fraudulentos – Danos Materiais e Morais – Cabimento – 1. Conceder dano moral nessa hipótese atenta contra a equidade e a justa causa. inclui expressamente a atividade bancária no conceito de serviço. Assim. sem.105 Das posições colocadas resta a certeza de que a regra geral – damnum in re ipsa – não pode ser levada ao extremo. de modo que represente reparação ao ofendido pelo dano. Compete ao juiz. quantificar a indenização. no percurso de retorno do trabalho. 2. não tendo o autor comprovado que em virtude da falta do numerário sofreu algum dano moral relevante. cuja raiz comum é a Ética.00 horas e ela foi ao baile de forró na mesma noite. no ponto o relator.00 horas de uma sexta-feira. fixando-a com moderação. o entendimento tem sido no sentido da comprovação da ofensa. Apelação da CEF improvida. somente passível de ser ilidida nas hipóteses do § 3º do art. Vencido. pelo se conclui que a responsabilidade da instituição bancária é objetiva. grifo nosso). não resta configurado o direito à indenização. comprovadamente feitas por pessoa que lhe é estranha. pelo que. 14 do CDC. Para que a pessoa jurídica faça jus a indenização por dano material ou por dano moral. É dever da CEF prestar o serviço aos seus clientes dentro de condições normais de segurança. Eis um caso paradigmático: uma senhora procurou a Promotoria de Justiça. em seu art. § 2º. Reconhecida a possibilidade de violação do sistema eletrônico e. sendo que na quarta-feira seguinte o leito conjugal já era aquecido por novo ocupante. tratando-se de sistema próprio das instituições financeiras. necessária se torna . relatando que seu companheiro havia sido atropelado e morto por volta de 18. Evidente a ausência de dor-sofrimento pela perda do companheiro. como assim dispõe o seu artigo 14 (Súmula 297 do STJ).

A palavra ajustada é compensação ou satisfação. Está assentado na jurisprudência da Corte que “não há falar em prova do dano moral.2002. Min. Recurso especial conhecido e provido (REsp. Os embargos de declaração visam à integração e correção do julgado. 347). 4ª Turma. Dano moral. A prova do fato que gerou lesão à reputação da pessoa jurídica é suficiente para a indenização do dano moral. impõe-se a condenação. ou mesmo do . A equidade não permite se constitua motivo de enriquecimento sem causa.2002. sentimentos íntimos que o ensejam. rel. 1. O tão-só fato da interrupção dos serviços telefônicos não é o bastante para automaticamente inferir-se a ocorrência do alegado dano moral à pessoa jurídica. rel. nem que seja compensado com quantia vil. Dano moral. o que é impossível no dano moral. rel. 2. 3. 6. Barros Monteiro.02. Ari Pargendler. na prova do fato que gerou a dor. 3ª Turma do STJ. no mesmo sentido 754/423). ou não. Precedentes. Não significa a eliminação de um prejuízo.030/RJ. 204786/SP. REsp. O tema apresenta controvérsia na doutrina e na jurisprudência. prejuízo patrimonial (REsp 169. objetivos que não se descortinam no caso. 186). p/ acórdão Min. haja vista que a noção de indenização está intimamente relacionada a ressarcimento de prejuízo causado a uma pessoa por outra ao inadimplir obrigação contratual (CC. STJ. Provado assim o fato. p.106 a demonstração do efetivo prejuízo econômico sofrido (RT 731/286. in DJ 12. sob pena de violação ao artigo 344 do Código de Processo Civil”. art. DJ 5. Cabimento.4 Critérios de fixação Tormentoso é o critério para fixação do dano moral na falta de disposições legais expressas. o sofrimento.8. Prova. Carlos Alberto Menezes Direito. sim. rel. Protesto indevido de duplicatas. DJ de 05. art. p. mas. 347). 112). nada importando que daí tenha resultado. pois o chamado preço da dor. p. 299282/RJ. Ressalvado o convencimento do Relator. Min. 389). Necessidade de prova específica a respeito (STJ. a jurisprudência está consolidada no sentido de admitir o dano moral à pessoa jurídica. 3ª Turma.08.2001. ou praticar ato ilícito (CC. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira. Responsabilidade civil – Danos morais – Pessoa jurídica – Interrupção dos serviços telefônicos – Prova dos prejuízos – Acórdão – Nulidade – Inexistência.

Porque infungíveis são impossíveis de reposição in natura. ideal ou moral. p.. São Paulo: Saraiva. 42. Rabindranath Capelo de Souza preleciona: Dado que a personalidade humana do lesado não integra propriamente o seu patrimônio. isto é. . trata-se. de proporcionar uma satisfação em virtude da aptidão do dinheiro para propiciar a realização de vasta sucessão de interesses. 1 2 1 Dentro desta ótica de pensamento. compensá-los. sim. que não exactamente indemnizados. em que na fixação do quantum 120 121 Op. em certa medida. GIOVANNI ETTORE. sendo insusceptíveis de avaliação pecuniária. são infungíveis. A reparação nesses casos reside no pagamento de uma soma em dinheiro.107 sangue. Apud NANI. cuja lesão desencadeia um dano moral. A toda evidência. acontece que da violação de sua personalidade emergem directa e principalmente danos não patrimoniais ou morais. Yussef Said Cahali ensina: Diversamente. impondo ao ofensor a obrigação de pagamento de uma certa quantia de dinheiro em favor do ofendido. Enriquecimento sem causa. apenas podem ser compensados. o que não é possível quando se trata de dano extrapatrimonial. sendo possível. É que os interesses. p. 1 2 0 Na mesma sintonia é a lição do Direito português. a sanção do dano moral não se resolve numa indenização propriamente dita. e também não podem ser reintegrados por equivalente. ao mesmo tempo que agrava o patrimônio daquele. a sua reparação se faz através de uma compensação. É uma imoralidade. com a obrigação pecuniária imposta ao agente. arbitrada judicialmente. não patrimonial. cit. 344. 2004. não existe. espiritual. e não de um ressarcimento. que. já que indenização significa eliminação do prejuízo e das suas conseqüências. ganhou espaço na doutrina e na jurisprudência a eleição de um critério eclético. proporciona a este uma reparação satisfativa. que não desempenha função de equivalência. na qual se podem incluir interesses de refinada ordem ideal. prejuízos de interesses de ordem biológica.

em seguida: Ora. a indenização por danos morais deve traduzir-se em montante que represente advertência ao lesante e à sociedade de que não se aceita o comportamento assumido. e argumenta. a fim de que sinta. op. embora secundária. em momento em que crises de valores e de perspectivas assolam a humanidade. os danos sofridos pela pessoa lesada. a conduta do agente. mais do que indemnizar. op cit. no patrimônio do lesante. por outro lado. também com intuito de fazer com que o causador sinta uma verdadeira pena. no plano civilístico e com os meios próprios do direito privado. visa reparar de algum modo. I. eis o texto: O importante. não lhe é estranha a idéia de reprovar ou castigar. a exacerbação da sanção pecuniária é formula que atende às 122 123 VARELA. fazendo recrudescer as diferentes formas de violência. 1 2 2 João Casillo entende que a função primordial é satisfazer a vítima pelo dano sofrido. ou o evento lesivo advindo. é sublinhar que a função primordial é satisfazer a vítima pelo dano que lhe foi infligido. que adotam o espírito da punitive ou exemplary damages.” . v.108 debeatur são considerados dois aspectos distintos: primeiro.. esse posicionamento constitui sólida barreira jurídica a atitudes ou a condutas incondizentes com os padrões éticos médios da sociedade. conforme leciona outro civilista português Antunes Varela: A indemnização reveste. 608. refletindo-se. portanto. 83. entretanto.. é uma recompensa à vítima. funcionando mais com caráter intimidatório para evitar o dano. depois que tenha cometido o ato ilícito. segundo. A idéia de sanção é secundária. mas a idéia de sanção. efetivamente. p. CASILLO. Fundamenta-se este autor no exemplo da jurisprudência dos países da common law. uma natureza acentuadamente mista: por um lado. 1 2 3 Esse valor de desestímulo na reparação do dano moral é também preconizado por Carlos Alberto Bittar: Em consonância com essa diretriz. p. de modo expressivo. funciona como intimidatória para evitar repetição da conduta ilícita do agente produtor do dano. porém. Consubstancia-se. cit. é uma punição ao agente do ato lesivo. a resposta da ordem jurídica aos efeitos do resultado lesivo produzido. em importância compatível com o vulto dos interesses em conflito. De fato. no caso dos danos não patrimoniais.

como o seu próprio nome indica. observada na atualidade como posição dominante na doutrina nacional. como nos exemplos da lesão corporal curável. avultam os pontos de contato entre a indenização e a pena. e a 124 Ibide. isto é. tão clara quanto nos Direitos romanistas. proporcionando-lhe o solatium. A responsabilidade civil e a responsabilidade penal encontram-se de alguma forma confundidas graças a este paralelismo de funções. porque também esta pode empregar-se na satisfação do prejudicado. como elementos necessários para a vida em comunidade. 220 e 221. Encontra-se aqui. Mas se a reparação se tem de fazer em dinheiro. ou das conseqüências exteriores da injúria o da calúnia etc. para quem a dupla natureza da satisfação do dano moral arrima-se numa tendência de feedback entre a responsabilidade civil e a penal. de uma indenização tão elevada que possa servir de exemplo aos outros membros da sociedade. 1 2 4 Nesse trote segue Sérgio Severo. da responsabilidade civil. . Trata-se. p. Finalmente Sérgio Severo conclui: No Brasil tem prevalecido a teoria da dupla natureza reparatóriapreventiva. A distinção entre a função reparadora da responsabilidade civil e preventiva da responsabilidade penal não é. apaziguamento. ocorre a mesma discriminação. E cita o seguinte texto de Sérgio José Porto: A condenação a perdas e danos “exemplares” (exemplary damages) é. para quem: “Em presença dos danos extrapatrimoniais. ao que parece. no sentido de que o comportamento do autor do dano é a tal ponto condenável que ele merece uma sanção complementar Eis porque as perdas e danos “exemplares” (exemplary damages) são também denominados punitve damages. fora de dúvida. em face da possibilidade da reparação natural. e conseguindo alteração do sentimento e da vontade. Essa função oferece satisfação à consciência de justiça e à personalidade do lesado. Uma forte influência deve ser tributada a Aguiar Dias. a idéia de dissuasão (teory of deterrence) muito freqüente no Direito inglês da responsabilidade civil.109 graves conseqüências que de atentados à moralidade individual ou social podem advir. quando possível a restituição das coisas ao status quo. Mister se faz que imperem o respeito humano e consideração social. uma característica dos direitos da família na Common law. no Direito inglês.

p. 1998. em relação à vítima (cf. socorrendo-se da teoria já evoluída do Direito Penal acerca do tema para. art.). arbitrar o quantum. no sentimento daquele que pleiteia a reparação. as circunstâncias em que ocorreu o evento danoso poderão informar o critério a ser adotado em tal arbitramento. 36. 137. cabe ao juiz investigar a intensidade da culpa. PEREIRA. 186-187. a vítima de lesão a direitos de natureza não patrimonial (CR. . rel. de pena. por meio de sua 8ª Câmara. então. árduo e delicado. Na ausência de critério objetivo de liquidação do dano. nem ser inexpressiva (RJTJESP. tendo como relator o Desembargador Paulo Pinto: No arbitramento do valor do dano moral é preciso ter em conta o grau em que o prejuízo causado terá influído no ânimo.”125 O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo decidiu: Hoje em dia. in RT 602/180). A intensidade da culpa. de satisfação e de equivalência. está na inovação dos Tribunais quanto ao grau de culpa do agressor. A união dos dois elementos propostos: rompimento com a cultura não punitiva dos danos extrapatrimoniais e apreciação do grau de culpa do ofensor.062. porque entranhado de subjetividade (TJRJ – 8ª C. a violência. p. tanto punitivo do agente. 67). Na esteira desta jurisprudência. g. São Paulo: Saraiva. Assim. A expressão segundo as circunstâncias foi interpretada pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Paulo Roberto Ribeiro Nalin dispensa especial ênfase ao grau de culpa do agente produtor do dano moral e argumenta: A base eqüitativa para que o prejuízo extra-patrimonial não seja compensado com montante vil. Não deve ser fonte de enriquecimento. por certo. v. quanto compensatório. 186-189 (grifo do texto transcrito). criará ambiente favorável para indenizações mais 125 Os danos extrapatimoniais. Des. 5º. e arbitrada segundo as circunstâncias.n. Paulo Pinto. incs. 1996. p. V e X) deve receber uma soma que lhe compense a dor e a humilhação sofridas. a boa doutrina inclina-se no sentido de conferir à indenização do dano moral caráter dúplice.110 indenização pode desempenhar um papel múltiplo. – Ap.

Não se pode olvidar a lição do próprio José de Aguiar Dias. dano material e reparação. 3. 2ª) punir o causador do dano moral. hoje. 559).111 justas. ao passo que a indenização tem no ato ilícito apenas uma das diversas causas de que pode surgir. in tale caso. portanto.. No terreno patrimonial esses conceitos se extremam em face das seguintes observações: a) a pena tem em vista a culpa do delinqüente. e) o irresponsável não está sujeito a pena. 236: “E stato cosi osservato che. p. ao nível do prejuízo suportado. 127 DI MAJO. p. enquanto a indenização atende à preocupação de reparar o dano. 1 2 6 Na verdade. mas a indenização não é. p. Milano: Giuffrè. na mesma obra citada por Sérgio Severo. duas finalidades a reparação dos danos morais: 1ª) indenizar pecuniariamente o ofendido. essa orientação é própria da doutrina italiana.e. 1997. Responsabilidade civil: descumprimento do contrato e dano extrapatrimonial. 1996. A primeira não se preocupa com a existência do prejuízo. Adolfo. Fabrício Zamprogna.1 2 7 Cuida-se ressaltar. anche a sanzionare il comportamento del responsabile della violazione. E finaliza o texto: Assim (. 1993. alcançando-lhe a oportunidade de obter meios de amenizar a dor experimentada em função da agressão moral. porque se mede em função dele. logo acima do texto por este transcrito: Devemos e podemos concluir. FABRÍCIO ZAMPROGNA MATIELO comunga da mesma opinião: Tem entre nós. La tutela civile di diritti. inseparável da pessoa do delinqüente. Porto Alegre: Sagra Luzzatto. c) a pena é.” (MATIELO. da un lato. isto é. acrescentando a consideração ao grau de culpa do causador do ato ilícito. f) a pena pode ser convertida em outro castigo. dall’altro lato.) o pagamento de uma soma a título de satisfação ocupa um lugar intermediário entre a indenização e a pena. Dano moral. em um misto de compensação e satisfação. Com a quest’ultimo aspectto si dovrà tenere conto della gravità della colpa. 126 NALIN. la riparzioni del danno non patrimoniale ha una funzione compósita. inibindo novos episódios lesivos.dacché è innegalileche il danaro possa anche servire a tale scopo . nefastos ao convício social. Curitiba: Juruá. Sua história é a história do seu progressivo desaparecimento.. não obstante. nel senso di assicurare ad essa un beneficio economico . 63. embora inexeqüível. Paulo Roberto Ribeiro. Di Majo ressalta este caráter duplo: de satisfação ao ofendido e sanção ao ofensor. que o enfoque de pena privada na fixação do dano moral merece reservas. si tende ad offrire una qualche forma di soddisfazione e/o di gratificazione alla vittima vittima dell’illecito. Con essa. b) a pena é sempre uma conseqüência do delito. vol. sofre a sorte fatal da própria pena. d) se tivesse caráter penal. mas está sujeito a indenização. dell’autore dell’ilectio nonché delle modalitá di questo. A segunda não se compreende sem o dano. como assegura Shering. não se aplica por força do dano. a indenização não seria transmissível aos herdeiros do lesado. a obrigação de indenizar subsiste. pois cogita de impor o mal ao causador do mal. que a pena privada. Com a primeira. se o delinqüente não a pode satisfazer. não obstante a magistral defesa de Stark.” .

quando encarada pela primeira vez. da reparação do dano. nullum crimen sine lege. Wilson Melo da Silva: Que a indenização mandada pagar. uma pena privada.129 Opinião acompanhada por outro clássico. deve ser uma indenização alta. O dano. o quantum da reparação apenas sofre essa variação de conformidade com a maior ou menor extensão do dano. 1983. de tal maneira a que se contenha em seu bojo uma punição. a simples tentativa. não. para imposição da pena. de conformidade com a culpa do agente. um texto legal expresso que a comine e um delito que a justifique. no dano. porém. E se é certo que. E o que. patrimonial ou não-patrimonial. Rio de Janeiro: Forense. basta às vezes. 130 Direito privado. cremos não se pode duvidar. todavia. Para a existência do dano.. basta a simples infringência da ampla regra do neminem laedere. em tese. a circunstância determinante dele. no cível. admite conversão. pelo juiz. se transmite aos herdeiros do ofensor. A questão.128 Ora. 572-574: “O delito sempre pressupõe a culpa do agente. no entanto. na responsabilidade civil. pode oferecer uma relativa confusão. Arruda Alvim: Quanto à natureza do dano moral. por isso mesmo. necessário se faz que o dano se tenha tornado efetivo. ou seja. para graduação do quantum reparador. se busca ressarcir é apenas a conseqüência. com esta tem de comum o implicar em mal para o indenizante. p. Com efeito: Para que haja pena. E se o volume da pena varia. nem sempre se torna necessária a culpa do agente ou da pessoa por ele responsável. para José Aguiar Dias a satisfação do dano moral não deve ser pena. 92. A multa penal. e que. é apenas o seu fato gerador. São Paulo: Revista dos Tribunais. Nulla poena sine lege.” Consideradas. Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Jurídica Universitária. 181. e não a culpa do autor. verdadeiramente. se tenha a obrigação de reparar. patrimonial ou extrapatrimonial. 3ª ed. mister se torna. donde estar certo Fischer ao afirmar que “da indenização à pena via senão um passo. 2. para que se determine a obrigação de reparar.112 compartilha o fim essencial de representar uma prestação imposta a favor e em consideração do lesado. com esquecimento. Vide mesmo autor: Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. não. a pessoa do ofendido e não a do ofensor. 736. do contrario se capacitará forçosamente. porém. Para que. na reparação dos danos morais não seja. O delito. cit. vol. no juízo cível. 2002. Esse é o entendimento de outro destacado clássico. do delito e não o delito mesmo. com o fito de desestimular a prática de tais ilícitos. A simples indenização. Tal linha de pensamento carregaria consigo uma “missão didática”. p. O dano moral e sua reparação. 3ª ed. p. a extensão do prejuízo. exacerbada. nós o reconhecemos. para mais ou para menos. em cada caso. o ônus. alguns chegam a falar em pena. Mira-se. de que estaria albergando também ‘enriquecimentos indevidos’130 128 129 Op. A pena não passa jamais da pessoa do delinqüente. p. . bem as coisas. em castigo. 1965.

das punitive damages do critério norte-americano. São Paulo: Saraiva.” . não é assimilado pela ordem jurídica. da mesma natureza. 2002. daí decorrerá fatalmente o enriquecimento sem causa. Sendo assim. indenizar-se-á o ofendido mais do que lhe cumpriria receber. bem como o conteúdo e os limites dos poderes de que se acham investidos os seus juízes e ainda o sistema de seguros dos Estados Unidos da América do Norte. como pretendem alguns. mas não seria pena para o rico. seria inconciliável. 365: “Ademais. por ser princípio norteador do direito obrigacional e moderador dessa prática ilegal. Logo. adicione-lhe um plus a título de pena civil. é que elas podem conduzir ao 131 NANNI. pode fazer com que a reparação do dano moral tenha valor superior ao próprio dano. pois. Comentários ao Código Civil: parte especial: direito das obrigações. Essa dupla face na fixação do dano moral. Carlos Roberto. a indenização revestir-se-á de um plus. 11 (arts. 2003. por vezes. Giovani Ettore. 353. que o julgador. p. e em outra um pobre. Demais disso. A crítica que se tem feito à aplicação. este acabará experimentando um enriquecimento ilícito. com o qual não se compadece o nosso ordenamento. mais adiante: É sabido que o quantum indenizatório não pode ir além da extensão do dano. mas funcionaria como pena para o rico. atuará como fator de desestímulo ao ofensor). Rio de Janeiro: Renovar. É preciso considerar as diferenças decorrentes das condições econômicas. revertendo a indenização em proveito do lesado. preciosa a lição de Carlos Roberto Gonçalves: Não se justifica. expressa no preceito constitucional de que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei.131 Basta o cotejo da seguinte situação hipotética: uma mesma pessoa que sofresse dano moral. E decorrerá o enriquecimento indevido porque tal sanção não é prevista em lei. inspirando-se nas punitive demages do direito norte-americano. Diversamente do direito norteamericano. indireta e automaticamente.113 Sem dúvida. vol. 927 a 965). raízes históricas e de costume. E aduz. de uma soma que ultrapassa o que representou de agravo para o ofendido. que a pena não poderia ser idêntica. No mesmo sentido GOMES. Se este é moderado. sendo lesante em uma oportunidade um rico. a indenização não pode ser elevada apenas para punir o lesante. Esse critério aplica-se também no arbitramento do dano moral. entre nós. Elementos de responsabilidade civil. 2004. Enriquecimento sem causa. p. Uma importância pequena seria atendida pelo pobre. Esse locupletamento indevido. caso se acate a faceta punitiva. inspira-se o nosso sistema jurídico na supremacia do direito legislado. além de violar o princípio da legalidade. p. São Paulo: Saraiva. 101. Luiz Rodão de Freitas. Evidente. GONÇALVES. depois de arbitrar o montante suficiente para compensar o dano moral sofrido pela vítima (e que. Importância considerável seria inatendida pelo pobre.

sem dúvida. 5º. expressamente. a exemplo das penas penais. pois tal viola o princípio constitucional da legalidade. jamais a aplicação de uma pena 132 Comentários. Sendo assim. Ademais. Embora seu direito de regresso. as penalidades civis estão. as quais poderão ser impostas a requerimento da outra parte ou mesmo de ofício pelo juiz ou tribunal (art. a multa diária do direito pátrio (arts. logo. REL. como a cláusula penal em caso de inexecução completa da obrigação ou de alguma cláusula especial ou simplesmente em razão da mora (art.” Outro argumento de grande peso e calado é que. nem pena sem prévia cominação legal. HERCULANO NAMORA Por esta razão cumpre esclarecer em alto e bom tom. na fixação do dano moral o que deve nortear o julgador é uma satisfação. 1.992). é o caso do culpado ser coberto por apólice de seguro. estabelecido no art. cit. nem sempre o culpado será punido. previstas na legislação.114 arbitramento de indenizações milionárias. daí não há motivo para sustentar a legitimidade de uma pena sem prévia previsão legal. as sanções pecuniárias ao litigante de má-fé. XXXIX. É o caso do empregador que paga a indenização por ato ilícito do empregado. 18). do mesmo modo o direito processual civil no caso das astreintes do direito francês. para que o ofensor seja punido. um enriquecimento ilícito. inc. VER REVISTA STJ 77 ou 78/99. 939). seja também aquele que demandar por dívida já paga (art. além de não encontrar amparo no sistema jurídico-constitucional da legalidade das penas. Se a vítima já estará compensada com determinado valor. ou no caso dos sonegados em sede de inventário (art. representará. 363-365. a lei material civil prevê formas típicas de pena privada pecuniária. seja ainda pelo credor que demanda o devedor antes de vencida a obrigação (art. da Lei Magna: “Não há crime sem lei anterior que o defina. na responsabilidade civil. 409). revertendo a indenização em proveito do lesado. já mencionado.132 De efeito. uma compensação ao lesado. no entanto. com o qual não se compadece o nosso ordenamento. este pode não ocorrer. p. se o empregado não tem patrimônio para responder. este acabará experimentando um enriquecimento ilícito. 940). . Dessa maneira. Melhor exemplo. o que receber a mais. 621 e 645). pode fazer com que a reparação do dano moral tenha valor superior ao próprio dano. nem sempre o responsável pela indenização é o culpado pelo dano.

não punir o delito em si.114. o 133 TJRJ. Des. realizado em São Paulo nos dias 29 e 30 de agosto de 1997. um valor a título de punição. um luxo de um mau gosto desgraçado. 13: “Havendo condenação em dinheiro. ao dispor no seu art.” Todavia. em geral.. de 9. há casos tipificados de gravidade. Uma perua. No dano. não de punição. jornalista Carlos Heitor Cony. Não há como negar. a fim de se observar o milenar preceito da anterioridade da lei ao estabelecer pena. que não pode passar despercebido pelo quanto inovador. ser atribuído em beneficio de fundos especificados. Assim como é na Lei nº 7. e no juízo civil busca-se ressarcir os efeitos patrimoniais ou extrapatrimoniais do delito. o IX Encontro de Tribunais de Alçada do Brasil. É uma tristeza. 3ª C. sendo destinado a contemplar o número maior de pessoas. o delito é o seu fato gerador. chegou a seguinte conclusão: “À indenização por danos morais deve dar-se caráter exclusivamente compensatório.1999. É chato elogiar a Camen Mayrink Veiga.” Para tanto com a palavra os legisladores. “Esse deu desfalque na Suíça. a indenização pelo dano causado reverterá a um fundo gerido por um Conselho Federal ou por Conselhos Estaduais de que participarão necessariamente o Ministério Público e representantes da comunidade. aí não. do sistema inglês e norte-americano que não poderá servir-lhe de modelo. Mostrou os álbuns de fotografia. sendo seus recursos destinados à reconstituição dos bens lesados.347. aviltantes. em relação à sociedade de um modo geral. Outro critério surgiu em acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Ou seja. que se estabeleça um valor maior ao da indenização. que a consciência social quer que lhe atribua caráter de exemplaridade. o qual deverá. Estive na casa dela. necessariamente. Civil 9.922. Ou ainda. mas elogiei. Nagib Slaib Filho. de 24 de julho de 1985. aquelas condutas teimosamente reiteradas que reflitam lesão ao bem comum.115 ao lesante. Este é o sistema brasileiro. na edição de julho de 1997: Playboy – Em mais de uma ocasião você se definiu como um “alienado”. e todos os amigos estão na cadeia. Rel. impondo-lhe dano punitivo. por conhecido escritor. Ap. que disciplina a ação civil pública. destarte. Nessa toada.133 O caso foi motivado pela entrevista concedida à revista Playboy. Cony – Gosto muito de me considerar alienado. diverso.3. Há pouco tempo fiz um artigo elogiando Camen Mayrink Veiga. Nessas hipóteses. que faz o seguinte comentário sobre a famosa socialite Carmen Mayrink Veiga. São aquelas condutas especialmente afrontosas. o juízo civil é de reparação. .800. Só não sou alienado quanto à condição humana.

116 coitadinho. Esse deu desfalque (rindo) na Inglaterra, está preso, todo dia rezo para ele sair da cadeia...” O mundo de Carmen Mayrink Veiga é terrível! E todo mundo está chutando esse cachorro atropelado. Ela está doente, tem um problema chato na perna, sente dores, vive à base de cortisona, está enorme, monstruosa de feia. Mas, na hora de fotografia, bota todo aquele sorriso e ainda é uma perua. Arrivista social, alpinista social – tudo o que você quiser você joga em cima dela. Mas no momento em que Carmen Mayrink Veiga está na desgraça, virou saco de pancada, eu me recuso a linchar. Nunca linchei um Judas. Agora ela conseguiu dar a volta por cima? Aí vou em cima dela, entendeu? Talvez eu tenha herdado isso do meu pai: adoro causas perdidas...

Pelo desencontro que ainda causa as ações de dano moral, o juiz de primeira instância julgou improcedente o pedido de reparação, argumentando que a notoriedade da autora (Camen Mayrink Veiga), enseja a possibilidade de padecer críticas menos favoráveis à sua pessoa. Assim sustentou: A liberdade de expressão sobreleva em dias atuais à categoria de preceito constitucional, implica a possibilidade de pessoas manifestarem-se livremente sem a vigilância ditatorial recém abolida. É certo que existem limitações obtemperando tal ideário, mas não chegam a delinear os contornos do embate em tela. Os elogios fervorosos proferidos pelo entrevistado em dado momento, acatados na íntegra pela autora, conferem a ele, na verdade, autoridade bastante de suplantá-los, desconsiderá-los ou, sabe-se lá, reafirmá-los em futuro próximo. Assim, ao brindar a autora com a narrativa de sua aparição na sociedade, demonstrava o entrevistado conhecimento de sua história, para o bem ou para o mal. Quanto às preocupações da autora em relação às suas atividades de consultora de moda, vale ressaltar, trata-se de ofício extremamente vinculado às intempéries da aceitação geral. Dano nenhum à credibilidade da autora foi provocado pelas opiniões do jornalista entrevistado, e nem poderia, porquanto ele mesmo não detém o poder de estabelecer a ordem do bom gosto. Na elaboração de seu voto, o Desembargador Nagib Slaib Filho contraria a fundamentação desta sentença, no que se refere à interpretação dos acontecimentos: É fato público e notório, a dispensar a produção de prova (CPC, art. 334,I), o domínio lingüístico exercido por Carlos Heitor Cony, que se destaca na nacionalidade como autor e jornalista, circunstância, aliás, que não só conduziu à publicação da entrevista – com chamada de capa da revista pela expressão “Na entrevista Carlos Heitor Cony: ‘fui preso cinco vezes e nunca encontrei um comunista na cadeia” – como também agravou o ataque à honra pessoal da autora que, por sua vez, é pessoa

117 conhecida em âmbito nacional, merecedora até mesmo de capa de revista de circulação nacional. Neste contexto, e conduzida pela notoriedade das pessoas envolvidas, a publicação do malsinado trecho da reportagem pela recorrida teve evidente intenção de destacar situação da autora que, naquela perspectiva, representaria contradição de seu passado, a indicar quadro de degradação social e pessoal. É facilmente perceptível ao leitor, que compõe o público-alvo da revista, como até mesmo àqueles que não se destacam pelo grau de intelectualidade, a intensa carga injuriosa de expressões que, em seu conjunto, intentam evidenciar a referida degradação. Ainda que se colha separadamente o significado das expressões utilizadas na entrevista – e o domínio lingüístico exercido pelo entrevistado, e o desejado grau de percepção do editor de revista de tal porte, excluem a utilização culposa – vê-se a carga intensa de vulneração da honra subjetiva da autora: (...) estive na casa dela. É uma tristeza, um luxo de um mau gosto desgraçado (...) (...) uma perua (...) (...) mostrou os álbuns de fotografia, e todos os amigos estão na cadeia (...) (...) o mundo de Carmen Mayrink Veiga é terrível! (...) (...) está enorme, monstruosa de feia (...) (...) nas, na hora da fotografia, bota aquele sorriso e ainda é uma perua (...) (...) arrivista social, alpinista social – tudo o que você quiser você joga em cima dela (...) Não pode esperar a editora que elogios anteriores do entrevistado à demandante pudessem constituir bill of indenity para assaques posteriores, mesmo porque a honra é valor indisponível nas sociedades de fundo liberal. Rejeita-se, também, o argumento da recorrida de que nenhum dano à apelante foi provocado pelas opiniões do entrevistado pela alegada incoincidência entre o público-alvo da revista com o público da autora em sua atividade no mundo da moda. Impossível dissociar a pessoa humana de seus papéis na sociedade quando a ela se faz referência a qualidades negativas que não se resumem ao seu mundo profissional, mas a sua personalidade. Tanto é assim que a revista publicou o malsinado trecho da entrevista, a despeito de agora alegar que seu público é diferente... Segue o acórdão a expor os fundamentos jurídicos, apoiados na Constituição Federal, de modo especial na tutela da dignidade da pessoa humana: Contudo, ao tratar da comunicação social, o art. 220 da Constituição ressalva os valores pela Carta Magna também protegidos, conduzindo o julgador a sopesar os valores em conflito para que nenhum deles reste abandonado.

118 No conflito entre os valores constitucionais de proteção ao direito de informação da imprensa e ao direito à honra, alternativa não resta senão a este dar maior relevância, posto que a Constituição da República erige o valor da dignidade humana como princípio fundamental do Estado Democrático de Direito (art. 1º). Exorbita do poder de informação da imprensa o ataque à honra subjetiva – por apontada degradação pessoal e social – de quem quer que seja – pessoa pública ou não – pois todo ser humano tem impostergável direito à dignidade, bastando lembrar, por adequada, a célebre afirmação de Molière de que colomniez, colomniez, qu’il en reste toujours quelque chose. A ordem jurídica protege a honra não como concessão que o Direito faz à pessoa, mas como reconhecimento da individualidade do ser humano, sujeito do universo da História. Guardando grande mérito, o julgado discrimina cada parcela que compõe a verba indenizatória: Partindo-se da verba de cem salários mínimos – que é o paradigma para a reparação do dano moral decorrente da injusta anotação do nome do consumidor nos cadastros de inadimplentes –, é a mesma majorada em face dos seguintes elementos colhidos nos autos: - mais cem salários mínimos pela relevância de ser o entrevistado pessoa de reconhecido destaque social como Carlos Heitor Cony; - outros cem salários mínimos, porque a pessoa atingida é pessoa de notoriedade pública, no caso, Carmen Mayrink Veiga; outros cem salários mínimos pela utilização de expressões como “perua”, “feia” e “monstruosa”, de maior densidade de dano quando dirigida a pessoa do sexo feminino e da faixa etária da ofendida; e outros cem salários mínimos pela importância que tem a revista “Playboy”, editada pela recorrida, no contexto atual da comunicação social do País. Acolheu-se, ainda, o pedido de publicação de notícia desta condenação, cujo texto não exceda a extensão do trecho da entrevista em comento, a ser apreciado em liquidação do julgado pelo Juízo originário, que também arbitrará o veículo e o modo da divulgação, bem como a cominação pelo eventual descumprimento da obrigação de fazer.134 Percebe-se, o próprio Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro não mais seguiu as circunstâncias acima mencionadas no acórdão proferido pela 8ª Câmara, pois aqui o desembargador relator não se referiu à idéia de punição, ou de compensação, nem considerou as
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Maria Celina Boldin de Moraes, op. cit., p. 312-317.

119 condições econômicas das partes envolvidas; também não abordou o grau em que o prejuízo causado teria influído o ânimo da vítima; e ainda não levou em conta a intensidade da culpa ou a violência. Apenas considerou a gravidade do dano e as condições especiais da vítima. Nada mais. Concorda-se, ou não, com estes parâmetros, o certo é que o mérito de explicitação das verbas, que compõem o quantum debeatur, item por item, constitui-se em base racional, conhecida por todos, a partir das quais será possível edificar os princípios da reparação do dano moral, dentro de critérios apropriados para uma unificação que traga mais segurança e uniformidade às decisões. Relevante, outrossim, que o Código Civil assenta-se no princípio fundante da eticidade. Ensina este mestre que a eticidade é o abandono ao espírito dogmático-formalista sinete da legislação revogada, para conferir ao juiz não só suprir lacunas, mas ainda resolver de acordo com valores éticos, quando assim previsto, ou se a regra jurídica for deficiente ou inajustável à especificidade do caso concreto.135 É a busca da justa causa, a aproximação do Direito à Ética, aproximação que torna o Direito mais aceito perante a consciência média da comunidade em geral e dessa forma mais forte e justo. O princípio da eticidade deve ser o norte da conduta de todas as pessoas, natural e jurídica, submetidas a alguma matéria disciplinada pelo Código Civil. Mas se direciona igualmente ao aplicador da lei. Este princípio desdobra-se em três vertentes: protetor do princípio da confiança, indicador da equidade e do dever de proporcionalidade e razoabilidade. Na última vertente deve o juiz fundamentar-se no estabelecer o quantum debeatur do dano moral. Ser razoável é agir conforme a razão, com moderação e cometimento, ponderação e sensatez. 6.5 Dano moral à pessoa jurídica De início, o dano moral à pessoa jurídica era refutado. A honra era entendida como bem personalíssimo, reservada somente à pessoa natural. A pessoa jurídica não pode ser sujeito passivo de dano moral. O elemento característico do dano moral e a dor em sentido mais amplo, abrangendo todos os sofrimentos físicos ou morais, só possível de ser verificado nas pessoas físicas. O ataque injusto ao conceito da pessoa
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REALE, Mikguel. O projeto do código civil, 2 ed., São Paulo: Saraiva, 1999, p. 8.

à pessoa jurídica não podem ser conferidos direitos da personalidade que contemplem situações existenciais. todavia. Convenha-se. É a textualização legal da Súmula 227.” Daí. à invenção. com existência distinta das pessoas naturais que a compõem. Também não pode ser sujeito passivo de crime de injuria. que apenas admitia-se o dano moral à pessoa jurídica caso houvesse efetivo prejuízo patrimonial. que a pessoa jurídica é titular de outros direitos da personalidade. aos símbolos. pois. a Lei 9. Em seguida. ao sigilo de correspondência e outros bens incorpóreos imanentes à atividade empresarial. como determina o artigo 52. a integridade física e psíquica. houve uma fase intermediária. verbia gratia. . cujas características se vinculam apenas aos atributos do ser humano. Essa pessoa ideal ou moral evidentemente que não tem os mesmos direitos da personalidade da pessoa natural.120 jurídica só é de ser reparado na medida em que ocasiona prejuízo de ordem patrimonial (RT 716/258). a pessoa jurídica sem finalidade lucrativa. no que couber. aqueles que se amoldam à sua maneira de ser dentro do ordenamento jurídico. Não tem existência física e nem vontade. direitos da personalidade existem. inerentes à pessoa natural. Exceção a esses. mas pela vontade de seus órgãos diretivos atua no mundo do direito. necessária se torna a demonstração do efetivo prejuízo econômico sofrido (RT 731/286). por conseqüência. mas pode quanto à difamação (RT 733/589). resguardados por legislação específica. Outros. de 14 de março de 1996.279. É dizer. não. Cuida-se reconhecer. os demais direitos são conferidos com o registro da pessoa jurídica como atributos intrínsecos à sua essencialidade. do Superior Tribunal de Justiça: “A pessoa jurídica pode sofrer dano moral. ao nome comercial. do Código Civil. a saúde. É nesse limite a extensão dos direitos da personalidade que são atribuídos à pessoa jurídica. assim as questões concernentes à marca. a educação etc. Incluídas está. pelo protesto indevido de título de crédito. caso atingida na sua credibilidade. aplica-se a proteção dos direitos da personalidade. À pessoa jurídica. por decorrência prejudicada no desempenho do papel social a que se destina. Para que a pessoa jurídica faça jus a indenização por dano material ou por dano moral. na ordenamento jurídico ao lado da pessoa humana coexiste a pessoa jurídica com capacidade para o exercício de direitos.

É. física ou jurídica.121 A honra. que se vulgarizou chamá-la de honra profissional. é detentora de honra objetiva. é comum à pessoa natural e à jurídica (respeito-estima que a sociedade tem da pessoa natural e jurídica. o seu bom nome comercial. . por exemplo. açambarca a reputação. Ademais. após a Constituição Federal de 1988. apresenta dois aspectos: o subjetivo ou interno e o objetivo ou externo. inciso X. de caráter privado e individual. dessa forma também o comerciante ambulante tem estabelecimento comercial. abrangendo também qualquer ataque ao nome ou imagem de pessoa. Não se confunde com o local onde o comerciante exerce a atividade. caracteriza-se pela dignidade. são as possibilidades de fazer negócios – atos jurídicos comerciais. A segunda. a noção do dano moral não mais se restringe ao pretium doloris. com vistas a resguardar a sua credibilidade e responsabilidade (RT 725/336). que reflete na sua saúde econômico-financeira. A empresa tem de zelar pelo seu conceito social. De efeito. O primeiro. fazendo jus à indenização por dano moral sempre que o seu bom nome. 136 Ganha credibilidade. deve ser entendida como o valor social da pessoa perante o meio em que exerce sua atividade. exclusiva do ser humano. A pessoa jurídica. o crédito que desfruta. os espanhóis de hacienda. obrigando o fechamento temporário do mesmo – Dano moral – Abalo do crédito e da reputação da proprietária no meio comercial – Cumulação deste com dano material – Admissibilidade – Inteligência da Súmula 37 do STJ (RT 723/456). de capital importância para a pessoa jurídica. Os italianos chamam de azienda. sem dúvida. decoro e auto-estima. pertence com exclusividade à pessoa natural (sentimento-estima da própria pessoa). depreende-se sua abrangência a toda violação à imagem ou nome da pessoa natural e jurídica com o propósito de conferir-lhes credibilidade e respeitabilidade. conceito social). o bom nome e a imagem perante a sociedade. é o que se chama de fundo de comércio. embora não seja titular de honra subjetiva que se caracteriza pela dignidade. a honra subjetiva. É uma universalidade patrimonial de fato. decoro e auto-estima. A honra objetiva. da Carta Magna. mais ainda nesta atualidade de acirrada concorrência. a honra objetiva. Responsabilidade civil – Indenização – Lucros cessantes – Atos ilícitos praticados com claro e evidente intuito de afugentar a freguesia de estabelecimento comercial. 136 Fundo de comércio é o conjunto de bens corpóreos e incorpóreos. da leitura do artigo 5º. reputação ou imagem forem atingidos no meio comercial por algum ato ilícito. ou busines dos ingleses.

de produzir a prova do dano moral perpetrado contra a pessoa jurídica. e produzir efeitos morais. 138 ora puramente moral. as quais causam dano estético em grau mínimo. como já exposto. se o dano estético não for passível de correção. um dano autônomo. Bem por isso. tendo como relator o Ministro Fontes de Alencar: Responsabilidade civil. por vezes. RT 502/51. no dano material. como a queda da auto-estima. por sua vez. ou não. Para certa parcela. e se configura sempre que alguém aflige outrem injustamente. diante de cada caso concreto deve-se analisar a necessidade.137 Assim. que se inscreve na categoria de dano moral. ficando a escolha do médico e do hospital por conta do ofendido. ou não. E. RJTJESP 137/182. Danos físicos. A vítima sofre danos físicos que resultaram em cicatrizes cirúrgicas. 7. no caso de a cirurgia reparadora corrigir a cicatriz. Decidiu o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: O dano moral pressupõe dor física ou moral. e a título de dano material. a indenização do dano estético é ora puramente patrimonial. o dano estético vai se convertendo em dano patrimonial diante do crescente progresso da cirurgia plástica reparadora e da clínica de reparação. quanto àquela a jurisprudência vacila. deve ser 137 138 RTJ 39/320. é in re ipsa. Se o dano moral à pessoa natural prescinde de prova. . O dano estético Também o dano estético vem suscitando divergências ao longo do tempo. porque ou o dano estético importa em dano material ou está compreendido no dano moral”. Esse é uma espécie do gênero dano moral. no mesmo sentido 47/316. o dano estético está contido no dano moral e. cabendo ao agente do ato ilícito o reembolso das respectivas despesas. sem com isso causar prejuízo patrimonial. e dano moral decorrente do dano estético. como tal. mormente se é. Queda de trem. O dano estético. consoante decisão proferida pela Quarta Turma. pode gerar a título de dano moral. Nesse mesmo sentido concluiu IX Encontro dos Tribunais de Alçada do Brasil “o dano moral e o dano estético não se cumulam. O Superior Tribunal de Justiça em um primeiro momento entendia o dano estético contido no dano moral. Conforme esta corrente.122 A prova do dano moral à pessoa jurídica apresenta peculiaridades. por participar de aspectos de um e de outro (RT 683/79).

. máxime porque essa cicatriz ocorreria. 23. rel. 77/247 e 248). Posteriormente entendeu o dano estético como autônomo e passível de cumulação. pela relatoria do Ministro César Asfor Rocha: Permite-se a cumulação de valores autônomos. Tal não ocorre se a cicatriz resultante de intervenção cirúrgica revela-se insuficiente. independentemente do dano material. Depois de citar aresto precedente da Terceira Turma. não só com o dano material.2001. RT 802/377). e constrangimento (TACMG. .10. ainda que feita uma só cirurgia. janeiro de 1996. acrescenta: Por isso. Juiz Nepomuceno Silva. traduzindo circunstâncias hábeis a causar tristeza. a recíproca não é verdadeira. ou seja. quando forem passíveis de apuração em separado.021-ES. Além. j. há certa cautela com respeito a esta cumulação: Somente em casos extremamente graves admite-se a cumulação de indenizações por danos moral e estético. não cabe a dupla indenização pelo dano estético e pelo dano moral.2003. Se é verdade que nem todo dano moral resulta do dano estético. toda dano estético redunda em dano moral.. assim como com o dano moral. No entanto.031-6-1.10. por si. para fundamentar o pedido cumulativo. com a relatoria do Ministro Dias Trindade. desânimo. derivados do mesmo fato. Resta caracterizado o dano moral sofrido pela paciente. derivados do mesmo fato quando passível sua apuração em separado (REsp 540.123 indenizado. das dores físicas e psíquicas sofridas e da agravação do quadro clínico psicoterápico – depreção –. publicado no Diário da Justiça de 19 de agosto de 1991. 24. Foi o que decidiu a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça.. in RT 826/189 a191). do aumento de consumo de remédios. um fixado a título de dano moral e outro de dano estético. pois não representa desfiguração da paciente nem importa na sua rejeição social. j. decorrente da incapacidade parcial permanente. 339. do distanciamento dos familiares e da sociedade naqueles períodos. com precedentes citados neste acórdão. com causas inconfundíveis. como se fossem coisas diversas. trauma.) a jurisprudência do STJ é firme no sentido de que é possível cumular danos morais com danos estéticos. 1ª Câm. vol. do dano material que decorre do aleijão ou deformidade (RSTJ. evidentemente. em face das constantes internações para realização de cirurgias reparadoras. Destaca-se do corpo do acórdão: (. Ap.

Rio de Janeiro: Forense. somente entendendo possível a cumulação dos danos moral e estético em situações graves.”140 Há de se considerar. ou artista de teatro. pois. p. é vítima de um acidente. . seu nariz é mutilado. Para os penalistas o dano estético caracteriza-se na deformidade. regiões interditas à contemplação amorosa. embora em ambas o sinete seja a cicatriz. tudo que o cirurgião pode fazer é um nariz grego. praticar esportes de trajes mais sumários e. pelo menos. Para os efeitos civis. soam mais intensas nas mulheres do que nos homens. que o atentado à estética será mais grave quanto mais as ofensas tomarem as partes do corpo que ficam normalmente desnudas. piscina. Há de se considerar. o Direito Civil considera a cicatriz mesmo quando não enfeie as partes trivialmente expostas do corpo humano. o grau do atentado estético. assim no caso de deformações ou desfigurações que acarretem constrangimento para a vítima e sua infeliz rejeição no meio social. SILVA. Isto é. É o caso da pessoa qualificada por uma voz quente e sedutora que. Também em consideração às pessoas. ele não está. ou o manequim. capaz de causar impressão vexatória ou. de desagrado ao seu portador. até menos. p. O dano estético: responsabilidade civil. é visível. também. cogita-se de algo menos exigente ou mais singelo. não está contente: seus clientes que ele visitou depois 139 140 LOPES. suficiente para prejudicar levemente a aparência pessoal ou conduzir a complexos inferiorizantes. não é possível restabelecer seu nariz aquilino. 2 ed. 1983. RT. Jean Corrad assevera que pode resultar inclusive de atentado à voz ou à faculdade de se locomover. O dano moral e sua reparação. e não pode mais fazê-lo senão com movimentos irregulares ou claudicantes. cinema e televisão. 127. Teresa Ancova. como aquela que impede a pessoa de freqüentar praia. todavia. como afirma Hélio Gomes: “nas alcovas conjugais. deformado. São Paulo: Ed. E cita intrigante hipótese pela transformação da fisionomia: Um viajante do comércio. ou a vítima que se movia graciosamente. a despeito de todas as maravilhas da cirurgia plástica. não coincidente nas áreas penal e civil. 1999. portanto tem requisito na aparência. É preciso analisar cada caso em particular a exemplo de certas atividades laborais: se a vítima for uma dançarina. não tem mais do que uma voz estridente. em conseqüência das lesões. para merecer indenização basta uma deformidade mínima. Na opinião de muitas pessoas o viajante tem melhor fisionomia com o nariz grego. De fato. não há legal nem habitualmente. Todavia.139 Entretanto esta resistência à aludida cumulação não pode afetar o conceito de dano estético. outrora possuidor de um nariz aquilino. Wilson Melo da.124 Teresa Ancova Lopes ensina nesta mesma direção. 500.

21. e se respeita a todas as pessoas e a cada uma delas em particular. assim sua observância a todos aproveita. 225). e ele teve que dar longas explicações para os convencer de que era sempre o mesmo homem. caracterizando-se por não apresentar titular determinado ou determinável. mas alguns não querem se deixar persuadir e o tomam por um impostor. A Constituição Federal preveja determinadas situações que identificam os direitos e interesses coletivos. sendo improvável a identificação individual de todos aqueles que são atingidos. Jean.141 De tudo. daí esparge-se para toda a ordem jurídica. 141 CARRARD. não o reconheciam mais. . Às concepções da relação jurídica como expressão do liame entre sujeitos identificados ou identificáveis. conforme discriminados nos seus três incisos: I: direito difuso. de modo que sua ofensa a todos atinge. cujo objeto da relação jurídica obrigacional ou legal é indivisível. restam três conclusões inarredáveis: a) é provável a cumulação do dano estético e moral. onde era figura conhecida e popular. As instituições jurídicas evoluíram. do Código de Defesa do Consumidor. foram acrescidas as relações jurídicas coletivas autônomas. c) o conceito civil de dano estético é relativo a qualquer cicatriz mesmo pequena. O direito difuso é transindividual ou metaindividual. RF 83/401. é o prejuízo experimentado por uma comunidade. à responsabilização objetiva por danos nucleares (art. 8 Dano Coletivo ou transindividuais O dano coletivo. o direito coletivo em sentido amplo triparte-se. b) se possível a remoção da cicatriz. III: direito individual homogêneo. Pela leitura do artigo 81. Açambarca uma comunhão de pessoas. que consista em prejudicar a aparência da pessoa. uma ofensa ao seu futuro econômico. exemplificativamente ao conferir proteção ao meio ambiente equilibrado (art. passa hoje despercebido. c). XXIII. também o moral. ainda chamado de difuso. em virtude da transformação de seu nariz. II: direito coletivo em sentido estrito. Este viajante do comercio sofre.125 de longos anos. nos casos extremos bem assinalados nas lições da melhor doutrina e jurisprudência. genericamente. No café. onde era saudado por todo mundo. as quais transcendem àquelas. prevalece o dano material e se a cirurgia for penosa. sem deixar vestígio. e talvez um dano moral.

126 O direito coletivo strito sensu é transindividual e de objeto indivisível. o proprietário da gleba o mantém em estado natural. em que a natureza recebe agressões não raramente gratuitas pela deseducação geral sobre o assunto. em que a força maior ou o caso fortuito incidem no dano. mas apresenta como titular um grupo ou classe de pessoas. p. com efeitos distintos. excluindo a ação ou omissão humana. e seus titulares são indetermináveis. na essência. a empresa que explora a atividade de extração mineral possui responsabilidade civil na esfera ambiental. no entanto. A Constituição Federal dispõe que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (artigo 225) e que as condutas consideradas lesivas ao meio ambiente submeterão seus agentes. do consumidor. de improbidade administrativa e do patrimônio cultural. Vezes há. enquanto o proprietário do outro morro. não. inexplorado. pessoa natural ou jurídica. Em decorrência. por conseqüência. é individual. cuja titularidade é identificada ou identificável. independentemente da obrigação de reparar os danos causados (§ 3º). dado que. O direito individual homogêneo é coletivo apenas na aparência. Destacam-se dois exemplos de dano coletivo: o atômico e o meio ambiente. que é exercida segundo os mais rígidos padrões ambientais e de segurança traçados pelos órgãos técnicos. São Paulo: CPC. sem qualquer forma de exploração. de ambos desprendem-se blocos de rocha. Motauri Ciocchetti. Temos ai típica hipótese de força maior. entidade constitucionaladministrativa. . Princípios de direito ambiental. um sobre cada morro. um direito difuso por tratar-se de um direito transindividual. não jurídica. Motauri Ciocchetti de Souza articula o seguinte exemplo: Podemos supor dois morros. Com efeito. Curso Preparatório para Concurso. a sanções penais e administrativas. Estes direitos não se confundem com o interesse coletivo em sentido lato. no segundo. encontrando-se entre si ligados por uma mesma situação fática. que é a própria realidade do meio ambiente. isto porque apesar de apresentar origem comum – homogênea – seu objeto é divisível e seus titulares identificados ou indentificáveis. e na maioria das vezes pela exagerada ganância do lucro. formados por rochas: no primeiro deles. No pálio do meio ambiente vige a responsabilidade civil objetiva. que é personificado pelo Estado como pessoa jurídica de direito público.142 142 SOUZA. O meio ambiente é. 23 e 24. 1998. no entanto. há atividade de exploração de minérios (pedreira). perante a relevância da matéria na atualidade. que vêm a causar danos ambientais. Pois bem: caem dois raios.

de 31 de agosto de 1981. Art. contemplando a responsabilidade civil objetiva. – Ap. 167/118). afasta qualquer mitigação à responsabilidade do poluidor. Orlando Pistoresi – J. mas da própria pessoa humana e do planeta que a abriga. Responsabilidade civil por dano ecológico e a ação civil pública. 14 da Lei 6. 126/172. de plano. em 1855. Des. Meio ambiente. 13. do que deriva os legitimados extraordinários. Responsabilidade objetiva. Lex. § 1º. que eliminam o nexo de causalidade: o caso fortuito e a força maior. mais ainda. é questão de vida e morte. portanto um direito difuso. transindividual. 1984. o Cacique Seattle assegurou ao presidente dos Estados Unidos. mesmo a incidência das dirimentes de responsabilidade. São Paulo. e no caso de sofrer dano.938. cuidando-se ao titular da atividade a assunção dos riscos dela decorrentes. 144 FERRAZ. Não há um conjunto de propriedades individuais. que o artigo 14. caso explode reator controlador da emissão de agentes químicos poluidores – caso fortutito – ou se um fato da natureza propicie o derramamento de substância tóxica existente no depósito da empresa – força maior – subsiste o dever de indenizar. mas a titularidade repousa na coletividade como um todo. e seu sentido teleológico vai além. Justifica-se a adoção do risco integral.143 Responsabilidade civil. em que a responsabilidade civil é devida independentemente de culpa e. Nelson Nery Junior segue a mesma toada.938/81 – “Independe da existência de culpa o dever de indenizar decorrente de responsabilidade objetiva firmada no § 1º do art. atinge a todos indistintamente. é coisa de todos e indivisível. não apenas para os animais e plantas. dispensa a culpa. Poluição comprovada.938/81” (TJSP – 4ª C. é como. de modo que ninguém é isoladamente seu titular. Revista Jutitia. propriedade de toda coletividade144.1994 – JTJ. Danos. Verifica-se. Nelson. da Lei n. pela simples razão de existir a atividade da qual sucedeu o dano. . não há dúvida. Morte de peixes causada pela elevação do PH da água. esse dano repercute erga omnis. 14. Responsabilidade civil por dano ecológico. ocasionada pelos despejos. Despejos industriais e domésticos lançados in natura em córrego. 49-50/35. trazendo em seu bojo a objetividade. Obrigação de indenizar. Sergio. § 1º. ainda que tomadas todas as precauções por parte da empresa exploradora para evitar acidentes danosos ao meio ambiente. pois na oportuna expressão de Sergio Ferraz o meio ambiente é res omnium. Revista de Direito Público. – Rel. 1979. 6. da Lei 6.127 É a teoria do risco integral. Franklin Pierre: 143 NERY JUNIOR. A questão ambiental. ao afirmar que não se operam o caso fortuito e a força maior como causas excludentes de responsabilidade. Por conseguinte.10.

128 De uma coisa sabemos: A terra não pertence ao homem. o que faz com que uma coisa exista. Ele é meramente um fio da mesma. O efeito é consequência da causa. uma originária e a outra resultante. in Direito e responsabilidade. exclui-se o nexo causal. Todas as coisas estão interligadas. 363 e 364.145 Bem por isso. configura-se. a conduta foi a causa determinante do dano. aconteça. não foi o homem quem teceu a trama da vida. São Paulo: RT. ou se torne possível. agride os filhos da terra. p. na verdade. como o sangue que une uma família. quer sob o enfoque da própria existência física e saúde dos seres humanos. de uma situação de fato (quaestio facti) a ser avaliada no caso concreto. Tudo que fizer à terra. como extensão do direito à vida. por meio do qual é determinada a responsabilização daquele em face deste. 146 Edis Milaré assevera: “O reconhecimento do direito do meio ambiente sadio. Daniela. 95. a si próprio fará. quer em razão da ofensa direta à lei (responsabilidade civil subjetiva). Em significado ordinário a causa expressa o motivo de algo. a Constituição Federal dedicou ao meio ambiente um capítulo singular. 2000. reconhecendo o meio ambiente saudável. Tudo está relacionado entre si. é o homem que pertence à terra. quer quanto ao aspecto da dignidade desta existência – a qualidade de vida –. Essa lei é própria de toda ciência. . Responsabilidade objetiva pura em face da integral reparação do dano ambiental como pressuposto da dignidade da pessoa humana. cujo elenco consta no rol do artigo 5º.146 8 Nexo de causa e efeito A lei da causalidade é um dos axiomas do pensamento: todo fenômeno tem uma causa. a conduta não foi causa 145 RODRIGUEIRO. como novo direito fundamental da pessoa humana ao lado o rol dos demais direitos e deveres individuais e coletivos. ou na sua letra: “ecologicamente equilibrado”. Se a resposta for positiva. o nexo de causalidade é o liame existente entre a conduta humana (causa) e o dano (efeito). Trata-se. É um vínculo de relação entre duas coisas. dessa maneira. p. na análise de cada caso verifica-se se entre a conduta e o dano existe uma relação certa e direta. Cabe afirmar. coordenadora Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka. Tudo quanto agride a terra. que faz com que valha a pena viver”. 2002. quer nos casos de relação obrigacional originada em contrato ou pelo negócio jurídico unilateral (responsabilidade civil objetiva). disso temos certeza. Faz-se o seguinte questionamento: se não houvesse a conduta. afastando do agente as condições que não sejam hábeis à produção do resultado danoso. Belo Horizonte: Del Rey. Também chamado de nexo etiológico é a vinculação que une a conduta positiva ou negativa do agente ao dano produzido em desfavor da vítima. Se a resposta for negativa. Em sentido jurídico. in Direito do ambiente. o dano assim mesmo existiria? Na resposta firma-se o nexo causal.

I.”147 Conclui-se: o nexo de causalidade é pressuposto cogente a qualquer espécie de responsabilidade civil. sempre mais. mormente com a previsão do risco. embora o nexo causal constitua. 66. vol. tanto que progride. de acordo com os artigos 1°. dano e nexo de causalidade). existe a dificuldade em sua prova. um dos elementos da responsabilidade civil. é preciso que sem esta contravenção. Assim. o dano não teria acontecido. Rio de Janeiro: Renovar. o conceito de nexo causal mereceu flexibilização. A nova realidade social – que tem por princípios fundamentais a dignidade da pessoa humana e a solidariedade social. Ou como acertadamente pontua Gisela Sampaio da Cruz: “Assim. a prova absoluta da relação de causalidade. Diante desses princípios. com vistas a dar maior proteção à vítima do dano injusto. Gisela Sampaio da. o dano não ocorreria. a seguir apresenta-se a problemática da identificação do fato que constitui a verdadeira causa do 147 148 DEMOGUE. é necessário o estabelecimento de um nexo etiológico em que envolva a injuridicidade da ação ou omissão como causa e o dano como efeito. tal qual o dano. em certas circunstâncias. pois a responsabilidade não se define pelo erro de conduta. Assim. p. há duas questões a serem analisadas. não basta que o agente tenha laborado contra jus. CRUZ. Primeiramente. 2005. que diante de certas circunstâncias não tem como prová-lo de modo cabal e absoluto. com fundamento na nova ordem constitucional. que em certas situações o liame casual seja até presumido. IV. Traité des oblegations en général. III e 3º. E essa flexibilidade dá-se diante de embasamentos constitucionais.”148 Não difere a ensinança de Sílvio Salvo Venosa: Na identificação do nexo causal. cujo dano foi o efeito (conduta humana. o processo de objetivação da responsabilidade civil. . O problema do nexo causal na responsabilidade civil. 17 e 18.129 do dano. exige-se. não é suficiente que uma pessoa tenha contravindo a certas regras. n. não poucas vez de dificílima comprovação. não é mais de boa ponderação exigir da vítima inocente de dano injusto. sem este fato. É a sempre lembrada lição de Demogue: “é preciso que esteja certo que. cabendo à vítima do dano a sua prova. mesmo porque se está em presença da matéria mais controvertida da responsabilidade civil. Todavia. admitindo-se até a sua presunção. Tão-só diante da resposta negativa é que se caracteriza a responsabilidade civil na conjugação de seus três pressupostos: a causa foi a conduta. da Constituição Federal respectivamente – busca a reparação mais ampla possível.

03. no terreno civil. Formam uma unidade infragmentável. portanto tudo que concorre para o resultado é causa. principalmente quando decorre de causas múltiplas. recebe um golpe. pois se equivalem na causalidade. 2008. RT 609/112). São Paulo: Saraiva. pois o causador do prejuízo é obrigado a suportar os riscos da receptividade pessoal da mesma (1º TACSP. Direito Civil: responsabilidade civil. E. é o que De Page reputa de o causador do prejuízo ser obrigado a suportar os riscos da receptividade pessoal da vítima. Ou seja. 8. Por isso. ou mesmo a falta de tratamento adequado. Nem sempre há condições de estabelecer a causa direta do fato. Muitos autores refutam esta teoria. não elidem a responsabilidade. matéria.1 Teoria da equivalência das condições Denominada ainda de conditio sine qua non. No homicídio. devido à fraqueza anormal do osso da caixa craniana. que são isto sim cooperantes. isolada ou conjuntamente. 6ª Câm. Vide MORONHA. rel. seu incremento coube à jurisprudência belga. a partir dos ensinamentos filosóficos de Stuart Mill. 8ª ed. o nexo de causa e efeito entre a conduta do autor e o resultado morte subsiste ainda que para esse resultado haja contribuído a particular condição fisiológica da vítima. no caso concreto. se a vítima. p.. . mormente nas causas simultâneas ou sucessivas. muito trabalhada no Direito Penal. 1º vol. e vem a falecer.130 dano. René Demogue lembra que o 149 150 VENOSA. j.83. o agressor responde nos termos do artigo 948. 48. nem sempre é de fácil constatação o nexo causal. sua causa eficiente. Juiz Ernani de Paiva. por exemplo. p. Sívio de Salvo. 149. São Paulo: Atlas.150 Neste sentido: A idade avançada da vítima e a debilidade de sua constituição física. para explicar o fenômeno da causalidade várias doutrinas foram elaboradas ao longo de tempo. aliás. em 25. como concausas. Para melhor explicitar essa censura. no qual o Direito Civil abeberou-se. 1963. Magalhães. desenvolvida no âmbito penal por von Buri. Dessa forma.149 De efeito. de sorte que o nexo causal entre a ação ou omissão e o evento danoso não é interrompido pela interferência de outras causas concorrentes.. 2 ed. Direito Penal. todos os eventos são apreciados. porquanto conduz ao regressus ad infinitum nas pesquisas dos elementos causais. Consideram-se todos os antecedentes do resultado danoso.

ANTOLISEI. 4. como indica a experiência baseada no curso normal das coisas. pois se excluída a venda. com a extensão indefinida da cadeia causal (STJ. p. René.. Min. 17. Eduardo Ribeiro. Paris. extrema-se aquela mais idônea a produzir o dano.”152 Imagina-se a seguinte situação muito difundida pela doutrina: se alguém lesiona outrem com um tiro de revólver. para excluir as condições que. embora possa ser havido como uma conditio sine qua non. vol. RSTJ 82/195).151 Neste diapasão é a observação de Francesco Antolisei: “supone una extensión excessiva del concepto de causa. rel. mais apta. conforme se parta de uma ou outra teoria.2 Teoria da causalidade adequada Para os adeptos desta teoria causa é a condição que se revela mais adequada a produzir o dano. pena de se conduzir a absurdos. 1960. o vendedor da arma também seria responsável. Utiliza-se o critério da experiência humana. a condição mais adequada à sua produção. . de modo a levar a resultados inconciliáveis com as exigências do direito e com o próprio sentimento de justiça. essa teoria conjectura uma extensão excessiva do conceito de causa. Dentre as condições antecedentes ao evento lesivo. extensión que conduce a resultados contrarios a las exigencias del Derecho y al sentimiento de justicia. diante de certa situação danosa. Francesco.95. por ter o autor que suportar as fraquezas pessoais da vítima. destaca-se aquela que seja mais idônea. Bueno Ayres: Uteha. deve ser considerada a causa determinante do efeito lesivo. Manual de derecho penal.10. De efeito. eliminadas as menos relevantes ou indiferentes ao efeito danoso. No exemplo da pancada na cabeça da vítima. Resta. não produziriam o resultado. Traité des obligationes en général. em matéria civil. 2ª T. p. 86.131 nascimento de uma pessoa não pode ser causa de acidente de que foi vítima. a produzi-lo. a teoria da equivalência das causas. 12. o resultado não teria ocorrido tal como ocorreu. É a lição expendida na jurisprudência: Ainda que se admita. então. é uma condição sine qua non do evento 151 152 DEMOGUE. j. consoante o que geralmente sucede. 1923. Esta. Em síntese: entre as causas condicionantes da ocorrência do resultado. isso não se haverá de fazer em sua absoluta pureza. 8. Segundo a teoria da equivalência das condições. assim. tradução de Juan del Rosal e Angel Tório. o fato será reputado ou não causa da morte.

para ser devolvido no domicílio do primeiro. Min.]”. causa adequada à sua produção. Teoria dos danos diretos e imediatos.04.01.132 causado. 672 e ss e . entre as várias condições (conditiones sine quibus). 153 154 Vide GONÇALVES. Carlos Alberto..004115-1.154 Outra situação hipotética pode esclarecer nitidamente a dessemelhança entre estas duas teorias do nexo causal. Teori Albino Zavascki). p. o atual artigo 403 repete o revogado artigo 1. como o golpe não é causa idônea para produzir o resultado morte. também não é adequado optar. Se é certo que não se pode eleger arbitrariamente o fato gerador da responsabilidade.. e probabilidade não é certeza. esta teoria também merece reparo. Ou seja. Argumenta-se. Reza o artigo 403: “Ainda que a inexecução resulte em dolo do devedor.153 A teoria da causa adequada é seletiva. O meio-termo ilustrado pelo exame de cada caso concreto é a melhor solução (TRF. Há troca de tiros e um projétil o atinge. art.. que o caráter adequado da causalidade implica em determinado grau de probabilidade. em abstrato. cumpre precisar qual entre as circunstâncias fáticas é a causa eficiente do prejuízo. é necessário não apenas que o fato tenha sido. segundo as normas da experiência ou pelo curso normal das coisas.3.13 tem regra expressa sobre o nexo causal. mas não causa adequada. não sem razão. Suponha-se que alguém empreste um livro a outrem. O dono vai buscá-lo. em favor da chamada ‘equivalência das condições’. Em matéria de responsabilidade civil.2000. 7 ed. Responsabilidade civil. rel. Vide no Direito português COSTA. pelo qual o autor responderá. isto é.060. as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato [. Já pela teoria da causa adequada. Coimbra: Livraria Almedina. Mário Júlio Brito de Almeida. o agressor não responderá. 8. ap. adotando a teoria da conditio sine qua non. o Código Civil não. Findo o prazo não se dá a restituição. 1998. Num prognóstico a posteriore do fato o descumprimento da obrigação na restituição do livro não é causa adequada com relação à lesão sofrida. segundo o curso normal das coisas. 520/521. 2000. mas também que constitua. Contudo. de modo absoluto. Na verdade. em concreto. p. Direito das obrigações. com pequeno acréscimo. à visada do Código Civil de Bevilaqua. 403 do CC O Código Penal no art. havendo ‘causalidade múltipla’. j. A mora na restituição do livro foi conditio sine qua non da lesão. 4ª Região. 7 ed. o critério da experiência humana. 27. 2002. no caminho passa defronte de uma agência bancária que está sendo roubada.04. condição do dano.

mas a que necessariamente foi a sua causa. p. Interrompe-se o nexo causal sempre que um determinado resultado – que se coloca no curso normal das coisas – não ocorre pelo surgimento de uma causa estranha. porquanto somente quando o dano sofrido pela vítima se ligue diretamente à conduta do agente. Rio de Janeiro – São Paulo: Ed. ou uma força da natureza. 341. Terceiro. se a causa estranha for a culpa da vítima. que acabasse por responder por esse mesmo resultado esperado. que se dá o nome de concausa. A teoria dos chamados danos diretos e imediatos ou teoria da interrupção do nexo causal. Lo esencial es que el daño sea la consecuencia necesaria y directa del hecho ilicito. o concurso de outra causa. 3 ed. não existindo concausa. Neste ponto merece consideração a força da natureza. foi a que o ensejou. em regra são indenizáveis. as expressões danos imediatos e danos diretos são sinônimas. Agostinho. por analogia. 1965. o que rompe o nexo causal não é a distância no tempo entre a inexecução e o dano. pode ser a culpa da vítima. portanto à responsabilidade civil contratual. a causa mesmo indireta e remota motiva a indenização. e tal relação não seja interrompida. por si só. serve também. ambas reforçam a idéia de necessidade. absorve o prejuízo sem qualquer reparação. à responsabilidade civil extracontratual. que en cualquiera forma o condiciones en que el daño se presente. Bem por isso. A causa direta e imediata nem sempre é a mais próxima do dano. Ou seja. Essa causa estranha. Se a culpa for de terceiro. Primeiro. sim. estabelecer premissas. Isto porque. . apenas são excluídos ante o surgimento de uma concausa. vale afirmar. há quem desconsidera a força da natureza como interruptiva do nexo de causalidade. os danos indiretos e mediatos não são excluídos. éste no se 155 ALVIM.155 Segundo.133 Apesar de este dispositivo referir-se a inexecução das obrigações. É a ponderação de Agostinho Alvim: “a expressão direto e imediato significa o nexo causal necessário”. que interrompe o nexo causal. Na lição de Arturo Alessandri Rodrigues: Es indiferente que la relación sea mediata o immediata. no magistério de Wilson Melo da Silva. Mas se a interrupção acontece pela força da natureza a vítima fica ao desamparo. a culpa de terceiro. o aparecimento de outra causa. é o desejável meio termo. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. Jurídica e Universitária. Oportuno. de sorte na própria vítima confundam-se as condições de causador e vítima do dano. neste entretanto. a este cabe o dever de indenizar. perfaz-se a responsabilidade civil. nada a indenizar.

3 ed. p. Arturo Alessandri. resolvendo cada caso concreto segundo sua livre convicção. o bom senso. 1965. todas as teorias devem ser consideradas. Não apresenta dificuldade. 3ª C. 8. pois ela não tem força ilimitada. . Concorriendo esta circunstancia. rompendo o nexo causal da primeira conduta. mesmo que seja ela desencadeante das demais. De lo contrario. 157 ALVIM. É a responsabilidade civil direta. no mesmo sentido RT 536/117) 156 RODRÍGUES.157 Finalmente é bom que se afirme. Des. por ser matéria de fato. como quiera que aun si el se habria producido. la relación cuasal existe por mediato o alejado que sea el daño. pois uma ou outra pode ser verdadeira. ap. ou ter um fundo de verdade.134 hubria producido sin el hecho doloso o culpable. Agostinho. p. se não tivesse a causa primeira. o nexo de causalidade pode não encontrar solução em uma ou em outra teoria. Ora. Evaristo Santos. já não é possível obrigar o devedor a responder por outros danos. De la responsabilidad extra-contratual en el derecho civil chileno.4 Analise de situações hipotéticas Na abordagem do pressuposto da conduta foram aventadas várias hipóteses (1 Conduta. o que Recaséns denomina de lógica do razoável ou do humano. Por isso. porque suporta a obrigação de indenizar somente o dano direto e imediato. nº 159. quem se conduziu de forma ilícita responde pelos danos daí emergentes.80. adote-se outra teoria.10. 1943. esa relación desaparece: el daño ya no tendría por cuasa el hecho ilicito. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. a injustiça inicial. 353.. RT 552/64. ponderando todas as circunstâncias que envolvem o fato lesivo. mas nunca uma das diversas teorias pode ser guias seguros. ficando o causador dessa injustiça inicial eximido de responsabilidade. limita-se os efeitos da causa inicial. ainda que estas não pudessem surgir e produzir o efeito. derivados de outras causas. que serão analisadas nesta oportunidade. rel. 247. Há a interrupção do nexo causal advindo uma concausa que conduza ao resultado lesivo. ilustra o caso os danos sofridos por veículos em estacionamento: O dono do estacionamento pago de automóveis responde pelos danos ao veículo e furtos de seus acessórios (TJSP. 13. Santiago do Chile. fls 26). a causa natural pode ter essa força. É como amestra Agostinho Alvim: Se se preferir outra solução. Rio de Janeiro – São Paulo: Ed. j. Daí o juiz deve procurar a equidade. Jurídica e Universitário.156 Sendo dessa forma e dessa forma é. a) Pela conduta isolada de uma só pessoa.

932. Uma pessoa. armada com revólver. ocasiona o veículo roubado. logo o atirador não responde. que interrompeu o nexo causal. as condutas são simultâneas. Mário Moacyr Porto deve ter se inspirado em Agostinho Alvim. responsável pelo dano que. Mário Moacyr.) o dono do automóvel que concorreu com a sua culpa provada para o roubo do seu veículo não é. d) Pela conduta de várias pessoas. pois. que é gravemente ferida. Há de se notar que o artigo 942 e seu parágrafo único não se referem à co-autoria e nem à participação. pois se traduz num ato ilícito a culpa pelo não guarda adequada do veículo. Não importa que o dano seja indireto em relação à pessoa. a ambulância sofre violento acidente. mais adiante ou tempo depois. no qual todos os ocupantes do veículo falecem. sem unidade de desígnios.158 Pelas teorias da conditio sine qua non e da causa adequada.. não ocorre uma relação de causa e efeito entre a culpa do dono do veículo e o dano causado. p.135 b) Pelo concurso das condutas de duas ou mais pessoas todas cooperando entre si no desígnio de produzi-lo. e verifica vício oculto. sendo a conduta isolada de cada um bastaria para a produção do evento lesivo. apresentado por Mário Moacyr Porto: (. volume 573. Responsabilidade civil decorrente da guarda da coisa. Não porque a causa 158 PORTO. podendo cogitar também o parágrafo único deste artigo: “São solidariamente responsáveis com os autores os co-autores e as pessoas consignadas no art. sem unidade de desígnios. todos responderão solidariamente pela reparação”. entretanto. é o caso de co-autoria e participação. Mais uma vez. . a solução poderia ser pela responsabilização da também da conduta primeira.. in Revista dos Tribunais. As condutas são simultâneas. nesta hipótese. atira contra outra. Pode ocorrer em tal situação hipótese de condutas sucessivas. o que torna mais difícil cotejar o nexo causal. É suficiente que a condutas de duas ou mais pessoas. Quando pretende devolvê-la. A solução é idêntica: todos são solidariamente responsáveis. mesmo se ausentes qualquer desígnio prévio na produção do dano. o que importa é que seja direto em relação à causa. É o palpitante exemplo para os dias atuais. que faz a seguinte proposição: uma pessoa recebe a coisa. Alguns casos esclarecem dúvidas.” c) Pela conduta de várias pessoas. Não responde o alienante da coisa pelo atropelamento. é atropelado no caminho. 13.. Ao ser conduzida para o hospital.. mas as suas condutas isoladas não bastariam para a produção do evento lesivo. Aplicada a teoria dos danos diretos e imediatos houve uma concausa sucessiva. embora não dissipam todas. resolve pelo artigo 942: “[.] se a ofensa tiver mais de um autor.

A solução encontra-se na possibilidade real de outras causas. supõe pluralidade de causas. isto é. Atualizando outra situação proposta por este último autor. e o doente venha a falecer. Suponha mais que chamado outro médico. Arruda. 342 e 345. . Rio de Janeiro-São Paulo: Ed. no que se refere à causa próxima tomar o lugar da remota. p. São Paulo: Jurídica Universitária. sim.”160 Os dois casos abordam as denominadas concausas sucessivas. embora influenciada pela inexecução da obrigação. hipóteses de concausas sucessivas. impedindo-lhe o cultivo de suas terras. uma causa após a outra. Na cadeia dos fatos. complicando o seu estado de saúde. não pelo saque. nenhum e nem outro. gerou a falência do proprietário. o tratamento indicado como corretivo. O engenheiro responde por esta falência?” “Suponha-se que certo doente não tenha sido operado com observância das regras da assepsia. por não se colocar na sequência normal do desenrolar 159 ALVIM. 3 ed. Reforça-se. mas não pelo fato de as terras não terem sido cultivadas. 1965. poderá ter outras causas. A venda dos bens. pois. Temos. aparenta como solução mais razoável aquela em que o engenheiro responde pelo desabamento. seja contraproducente. o saque deu como conseqüência a perda de uma elevada soma. com base em Pothier. o fazendeiro deixasse de pagar seus credores. pois era possível ao fazendeiro buscar outros meios. Agostinho. Pode a culpa residir na conduta da vítima ou do motorista que a atropelou. 3ª ed. o que. STOCO 290 Outros dois casos sugeridos pelo mesmo autor: “Suponha-se que um prédio desaba por culpa do engenheiro que foi inábil. Da inexecução das obrigações e suas conseqüências. por sua vez. 328. E se pelo não cultivo. Certo fazendeiro adquire um trator. Pela inexecução da obrigação de dar – entrega do bem – responde o alienante. não na distância da causa primeira. p. e abrolha a questão: quem responde? No caso do prédio. o desabamento proporcionou o saque. a inexecução da obrigação fica como causa muito remota do não cultivo. a distância da causa – causa remota – não se exclui por si só. em desacordo com os preceitos da arte.159 É tradicional TRANSPORTE CUMULATIVO E SUCESSIVO. Inexecução das obrigações e suas conseqüências. a operação menos feliz. Jurídica Universitária. aqui. levando-os a vender bens por preço vil. que estava guardada em casa. porque se dá a interferência de outra causa. a saber. rompendo com o nexo de causalidade entre a causa primeira e o dano. 160 ALVIM. A morte.136 primeira colocar-se distante e. responderá o inadimplente ou o fazendeiro? Também não. e a imperícia do medico chamado a corrigir o primeiro erro. que não lhe entregue.

1ª C. do lado norte. Não obstante. 3ª C. 938]) e quem a representa é o Condomínio (TJSP. rel. 4. RT 530/212-213). 338/78 – rel. Pela proliferação de prédios de apartamentos passou a ser corriqueiro e recorrente o dano ao proprietário vicinal proveniente dos objetos caídos ou arremessados em lugar indevido. A concausa ulterior coloca-se no desdobramento ordinário do primeiro fato. – Ap. É uma concausa sucessiva autônoma: nem todo desabamento leva a saque. Pelo saque responde a turba de saqueadores. O condomínio edilício suscita hipóteses que tais. manifesta se torna a ilegitimidade dos proprietários dessas partes para responderem pelo prejuízo e do síndico do condomínio para responder por todos. ao tratamento corretivo.10. vez que toda a massa condominial é responsável pelo dano proveniente das coisas que caírem ou forem lançados do prédio em que habitam (art. Juiz Sílvio Romero. A morte supõe pluralidade de causas. O Superior Tribunal de Justiça decidiu. a quem cabe a responsabilidade? A melhor solução é identificar. não sendo plausível simplesmente que o condomínio responda.526 do CC [atual art. inexoravelmente. a saber.1978. a operação menos feliz. aplica-se a teoria da exclusão. provada ou presumivelmente. de sorte que qualquer uma delas poderia ser a autora do ato lesivo. e) Pela conduta de uma pessoa. Impossível essa identificação. j. A reparação de dano causado pelo arremesso de coisa de edifício sujeito a condomínio sobre a cobertura do prédio vizinho deve ser exigida de quem o causou. Se o vizinho desse prédio. todavia: . Havendo no edifício conjuntos ou apartamentos de onde são impossíveis os arremessos. RT 714/153). o autor do dano. A cirurgia mal sucedida conduz. há julgados díspares: Não é razoável que aquele que teve o seu imóvel danificado por objetos lançados de prédio de apartamento vizinho ao seu imóvel. em desacordo com os preceitos da assepsia.137 dos fatos. 25. tornando-se impossível a sua identificação. integrante de um grupo. Respondem os moradores do lado norte. ou a habitação de onde partiu a coisa. Des. se possível.101994. tem sua propriedade danificada pelo arremesso de objetos líquidos ou sólidos. Diferentemente na morte do paciente. j. – Ap. indistintamente (TAPR. caso identificada. haja de investigar de qual unidade partiu a agressão. Excluem-se os moradores do lado sul. 1. pois daí impossível o arremesso ou queda. e a imperícia do médico chamado para corrigir o primeiro erro. Carvalho Viana.

II – a deterioração ou destruição da coisa alheia. 2 As exculpantes: 2. 4ª T. 188. a partir de janela de unidade condominial.68222 – rel. impõe ao condomínio a responsabilidade reparatória pelos prejuízos causados a terceiro. 2. doença que Saulo ignorava? E se Saulo conhecia a doença? Ou ainda: Saulo coloca um engenho explosivo no automóvel de Miriam que.161 IX CAPÍTULO IV: AS CAUSAS DE IRRESPONSABILIDADE 1. op. j. Parágrafo único. verificada em resultado de uma doença epidêmica que contraiu no hospital? E se a morte de Miriam foi devida a anestesia que o ferimento tornou necessária? E se Miriam morreu por sofrer de hemofilia. RT 767/194).2 Exercício regular de um direito reconhecido. Se Saulo produz em Miriam pequena lesão corporal. .958] (STJ. 10. 1. a fim de remover perigo iminente.1 INTRODUÇÃO Estampa o art.2 Antijuridicidade. que atingiu transeunte nas proximidades do local.138 A impossibilidade de identificação do autor do dano decorrente de lançamento ou queda de objeto.1 Ilicito civil e ilícito penal. conforme interpretação do art. 526. 1. que dirigia em alta velocidade e colheu o automóvel de Miriam estacionado. ou a lesão a pessoa.3 Estrito cumprimento do dever legal. 2. 9. não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. responderá pela morte. cit. situada em edifício de apartamentos. o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário. antes de aquele produzir os seus efeitos. 64. cuida-se articular algumas situações fáticas. Para analise. Bueno Souza.1 Legítima defesa.4 Estado de necessidade.11. REsp. 929: 161 Exemplos retirados e adaptados da lição de Mário Júlio de Almeida Costa. Min.529 do CC [atual art. é destruído numa colisão com o veículo de Ambrósio. 2. do Código Civil: “Não constituem atos ilícitos: I – os praticados em legítima defesa ou no exercício de um direito reconhecido. Intodução. Por sua vez providencia o art.1998. No caso do inciso II. 1.

São figuras comuns ao Direito Penal. Parágrafo único. E o art.210. ou esbulhado. poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força. inciso I). no art. assim antes de dissertá-las convém repercutir as consequências da sentença penal transitada em julgado em sede de responsabilidade civil. executar ou mandar executar o fato. estado de necessidade e a autotutela (de lege lata). 930 completa: No caso do inciso II do art. contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado. Por fim. Ao abordar a obrigação de fazer. se o perigo ocorrer por culpa de terceiro. 251. 1. no art.2 Efeitos da sentença penal transitada em julgado . podendo acrescentar o estrito cumprimento do dever legal (de lege ferenda). não forem culpados do perigo. independentemente de autorização judicial. os atos de defesa. nº 4.139 Se a pessoa lesada. ou o dono da coisa. p. Nestes dispositivos o Código Civil preveja as causas de irresponsabilidade que arredam a culpa da conduta. E prossegue. no caso do inciso II do art. não podem ir além do indispensável à manutenção. parágrafo único: Em caso de urgência. com efeitos jurídicos nem sempre coincidentes. o atual Código Civil inovou. A distinção entre ilícito penal e civil já foi exposta no Capitulo I. assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram. contanto que o faça logo. 188. § 1º. ou restituição da posse. dispõe o art. 249. preceitua: O possuidor turbado. exercício regular de um direito reconhecido. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art. pode o credor. 188. ou de desforro. independentemente de autorização judicial. tornando-a lícita. 188. sendo depois ressarcido. quanto à obrigação de não fazer. 12 9. sem prejuízo do ressarcimento devido. poderá o credor desfazer ou mandar desfazer. Ademais. São elas: legítima defesa. criando duas figuras de autotutela. parágrafo único: Em caso de urgência.

(TJSP.. relativa ou mitigada. vigora o princípio da independência da jurisdição civil em relação à penal. a sua posterior absolvição por negativa de autoria em sede de revisão criminal transitada em julgado. 935.] a absolvição do apelado deu-se por negativa de autoria. 935. 935. embora dividida em órgãos. não mais se poderá questionar sobre a existência do fato ou sobre quem seja o seu autor se essas questões se acharem categoricamente decididas no juízo criminal. do antigo CC.525. em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito. no âmbito civil. 935 do CC (de 2002). visa apenas à melhor solução das diferentes espécies de demandas. do vigente). se um mesmo fato penalmente típico (crime ou contravenção) gera responsabilidade civil. 65. A mitigação vem exposta no próprio art. por disposição do art. É assunto que não mais se discutirá e especialmente em sede de juízo cível (art. Des. art. e. Por força do art. . quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. a boa justiça realiza-se impondo que a verdade sobre ele seja uma.140 O atual Código Civil não alterou o sistema do Código Civil revogado (art. Outra não é. sem que se possa voltar a discutir a responsabilidade penal com base no art. 5ª Câm.2003. de Direito Privado. Silveira Netto). lhe dá o direito de recebimento de indenização por danos morais. em legítima defesa. nem poderia ser a conclusão do Enunciado 45 do Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal: “no caso do art. porque materialmente idêntico. j. a ser paga pelo referido empregador. meramente técnica. 1.8.. 935. Do corpo do acórdão consta: [. não absoluta. do Código de Processo Penal. Dessa maneira. pois essa divisão. apenas houve pequena mudança redacional. A independência proclamada é. do Código Civil. Também faz coisa julgada civil a sentença penal que reconhecer ter sido o fato praticado em estado de necessidade. A norma é motivada pela concepção unitária de jurisdição. 21. não se pode mais questionar sobre a existência do fato ou sobre quem seja o seu autor.” Tratando-se de indivíduo condenado pela prática de delito que teve álibi recusado porque seu empregador prestou informação incorreta. que subsiste una. ao prescrever que. entretanto. ). rel.

caso contrário. Por outro lado. §§ 1º e 2º). 935. c) e as excludentes de ilicitude. a ação de responsabilidade civil ou a execução da sentença penal condenatória poderá ser promovida pelo Ministério Público. à autoria ou à culpa. Cria-se. ou da autoria. p. inc. que deverá ser superada por novas provas a serem produzidas pelo autor da ação civil. 475-N. a prova penal é mais severa. pois no crime vige . É o que estampa o art. essas questões não mais poderão ser debatidas no cível. portanto não abrange eventuais terceiros responsáveis.2 Efeitos da sentença absolutória Na sentença penal absolutória abre-se um leque.141 Uma primeira conclusão. 32. dar-se-ia verdadeira contradição. nº 4. O fato não existiria no crime e existiria no cível. do Código de Processo Civil. como o empregador ou do comitente com relação ao empregado ou preposto. pois estes não foram parte no processo penal em que se formou o título. a eficácia de coisa julgada projeta-se no cível. 9. entre lícito civil e penal (Capítulo I. autorizando. II. do Código de Processo Civil. A absolvição estreando na inexistência de prova da materialidade do crime. do Código de Processo Penal preveja a hipótese do titular do direito a ser reparado for pobre (CPP. 63. São legitimados na proposição da ação executiva a vítima. e se no âmbito penal foi decidido por sua inexistência ou excluída a autoria do réu.2. que a ação de execução seja dirigida contra o autor do ato ilícito. do Código de Processo Penal. nada impede a sua apreciação na esfera da responsabilidade civil. se na comarca competente para conhecer a lide. conforme disposto no art. do Código Civil. embora não substancial. Ante a distinção. Nem poderia ser diverso. é dizer. o que levaria a perda a regra do art. também é distinta apreciação de sua prova. art. seus herdeiros ou representantes legais contra o autor do crime ou seu responsável civil. 9. a sentença penal transitada em julgado faz coisa julgada no cível quanto: a) a materialidade. não existir Defensoria Pública. bem assim o art. uma presunção de inocência.2. sim. O art. A ratio legis é a seguinte: se o ato ilícito é o mesmo. mas seria atribuída no cível. 64.1 Efeitos da sentença penal condenatória A sentença penal condenatória transitada em julgado constitui título executivo na jurisdição civil. 68. porém. a autoria não seria atribuída ao réu no crime. se a sentença penal absolutória basear-se na falta de prova quanto à materialidade. 12). b) a autoria.

a matéria torna-se muito importante no estudo das excludentes de ilicitude citadas. Cai a fiveleta a lição do lusitano Mota Pinto: Poderá parecer. mas nada impede. Teoria geral do direito civil.142 plenamente a tipicidade. vez ou outra. Se determinado fato deixa de ser ilícito no crime por incidir a legítima defesa. de sorte que a culpa levíssima conduz ao decreto absolutório no crime e à procedência da ação no cível. Tal situação é. Coimbra: Coimbra Editora. Apesar do caráter conforme ao Direito da actuação do sujeito. pois. conduzindo à interpretação restritiva. 9. A actividade do agente é secundum jus. portanto o juiz cível não está adstrito à exegese dada pelo juiz criminal. no direito brasileiro a licitude ou ilicitude do ato não é determinante na exclusão ou imputação do dever de indenizar. pois os efeitos jurídicos não são os mesmos. Os danos – nestas hipóteses expressamente reconhecidas pela lei da responsabilidade por actos lícitos – não são causados por uma actividade contrária ao sentido em que o Direito resolveu o conflito de interesses. em casos especiais. Nesse particular. de ser ilícito na esfera cível. prima facie. faz coisa julgada no cível. mesmo incidindo uma dessas causas o dever de ressarcimento se impõe. Quanto à consideração da culpa. p. . 3 ed. isto é. Carlos Alberto da. 1996. em que um comportamento rebelde do agente lesa o interesse que o Direito quer fazer prevalecer. que a lei eleja o ato lícito como supedâneo do dever ressarcitório.2. porque uma prevalência absoluta e total do interesse oposto seria injusta. mais saliente mostra-se a dessemelhança nas duas áreas.3 Sentença absolutória que reconhece excludente de ilicitude A sentença penal absolutória que reconhece uma das causas de irresponsabilidade que afasta a ilicitude da conduta.162 Daí. relembrando: in lege aquilea et levissima culpa venit. paradoxal que o Direito considere um acto lícito e imponha ao seu autor a obrigação de indenizar outrem. sendo o mais comum que a responsabilidade civil abrolhe como efeito jurídico do ato ilícito. 162 PINTO. além do mais outras provas podem ser acrescentadas. ao contrário do que sucede no acto ilícito. deixa. mas não é. 65. 122. pareceu excessivo não dar à pessoa sacrificada uma reparação. do Código de Processo Penal. o exercício regular de um direito ou o estrito cumprimento do dever legal. Pretende-se em tais casos compensar o sacrifício de um interesse menos valorado na composição de um conflito teleológico. indeniza-se por ato lícito. o estado de necessidade. Uma e outra podem dar azo à indenização. Como será demonstrado. da mesma forma. como adiante será visto. sem dúvida excepcional. por força do art. de forma alguma contraditória.

na defesa do direito. Historicamente. Na falta da ação estatal. 165 MIRANDA.. portanto. apareceu depois da exclusiva defesa individual.64. antes da de outrem. Diz Santo Tomás de Aquino que “a ação de defender-se pode acarretar um duplo sentido: um é a conservação da própria vida.. os jurisconsultos romanos afirmavam que repelir a violência pela violência é permitido em todas as leis. Basileu. será lícito [. a defesa do direito. I. pelo bem comum da família ou da própria sociedade. Ou como quer Carrara. ou a inadequação da polícia para o evitamento”. na ausência momentânea da autoridade do Estado. usar de violência mais do que o necessário. emanada do fato em si. 2-2.165 163 164 AQUINO. E pode não ser somente um direito. como imperativo da lei natural. Cícero traduziu-a na célebre frase: est haec non scripta. De retorno ao Doutor da Igreja: [. a legítima defesa envolve o aspecto da licitude objetiva. Influenciados nessa ideia. o outro.d]. mas um dever grave. é natural a toda pessoa retomar essa faculdade originária de defesa. Não é ela exceção à proibição de matar o inocente.] E não é necessário para a salvação omitir este ato de cometida proteção.. Suma teológica. Mas se a violência for repelida com medida. a afirmação do direito.164 “O que justifica (de iure condendo) a legítima defesa não é a falta de proteção judicial.. . e a reação é a negação dessa agressão. se está obrigado a cuidar da própria vida. Pontes.]. o particular concorre. a cargo do Estado. 4 ed. Instituições de direito penal. vol. cabe ao particular a defesa do bem jurídico que está sendo agredido. Assim. pondera Pontes de Miranda. GARCIA. não. que caracteriza o homicídio voluntário. São Paulo: Max Limonad [s. ao lado do Estado. para se defender. para evitar matar o outro. 300-302. mas a falta de presta intervenção da polícia. por constituir uma atitude de proteção ao direito e sendo socialmente útil não pode comportar punição. De toda forma. Santo Tomás.163 Para Hegel a agressão é a negação do direito. porque. Os filósofos da antiguidade clássica falavam dela como um direito sagrado. na sustentação da defesa pública subsidiária. t. mormente para quem é responsável pela vida de outros. o seu ato será ilícito. p.” O amor a si mesmo permanece princípio fundamental da moralidade. sendo. Só se quer o primeiro.143 10 – LEGÍTIMA DEFESA A legítima defesa sempre se fez presente nas mais remotas legislações. I. seda nata lex. porquanto corresponde à necessidade cogente de se resguardar o direito. o outro é a morte do agressor [.7..] se alguém..

isto é. cit.. sim. os quais são direitos vivazes e que devem. p. por conseguinte. deixa de cumprir o alvará de soltura. ao mesmo tempo. reconhece certas situações nas quais o indivíduo pode usar meios necessários a fim de repelir agressão injusta. quem pratica um ato em defesa própria. contra si. 428.166 Ou como quer Clóvis Bevilaqua referenciando Köhler. é uma faculdade que emana diretamente da personalidade. . A agressão é a conduta humana que lesa ou ameaça um bem jurídico. ou contra bens. A primeira não oferece dificuldade. p. não excedendo o necessário à efetiva defesa de um direito próprio ou de outro. Por isso mesmo deve reagir de forma disciplinada. pois disciplinada é a reação social contra o delito. como ensina San Tiago Dantas. o que exige a presença de certos requisitos. Edição histórica.. ou iminente. repele injusta agressão. prestes a acontecer. isto é. Comete agressão o carcereiro que. ou contra terceiros. usando moderadamente dos meios necessários. KOHLER.167 O Código Civil dispensa-se de conceituá-la. atual ou iminente. a segunda.144 O Estado de Direito não admite a justiça pelas próprias mãos. de ampla incidência no âmbito do Direito Privado. Pode ser comissiva ou omissiva. atual ou iminente. como emanação de sua personalidade. San Tiago. 166 167 DANTAS. A toda pessoa é deferida. os quais são: 1 Ameaça ou agressão injusta da vítima. acontecendo. Por isso.” Dessa forma. 3 Que a repulsa seja moderada. autorizar ao homem certas atividades conservatórias”. 365. embora organizado satisfatoriamente. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. cumprindo um de seus comandos. 25: “Entende-se em legítima defesa quem. impostos na letra do Código Penal. negando-se a liberar o recluso. atual. o Código Penal o fez no art. Rio de Janeiro: Editora Rio. a liberdade. Clóvis. a direito seu ou de outrem. A sua conduta é agressão injusta a um direito fundamental da vítima. op. “Isto é como um complemento dos direitos da personalidade. atua conforme a lei. Esta somente acontece quando o agressor esteja obrigado a atuar. de seus bens. por vingança. ou de outrem. o direito de praticar atos que preservem a sua vida e os seus bens. confessa que. 2 v. porém. não é possível a sua ação protetora evitar todas as violações ao direito. apud BEVILAQUA. 1977. 2 Que a agressão seja inevitável e impossível a intervenção oportuna da autoridade.

mesmo porque não se pode dizer que a agressão é injusta. opõe-se ao lícito. Não é preciso que seja culpável. por outro lado deve-se atentar para a situação em que se encontra o defendente. Ponderar as circunstâncias que o envolve. nem que tipifique figura delituosa. A defesa ou a repulsa deve ser concomitante à agressão injusta. açula um animal raivoso contra a vítima. pois no caso a agressão humana é perpetrada pelo fato animal. Se. é suficiente que a conduta represente objetivamente uma ameaça ou agressão. que a ideia de justiça impõe ao direito de defesa. É correto concluir. portanto contrária ao direito que a condena e a sanciona. Contudo. o defendente posta-se em legítima defesa ao reagir. se de um lado a legítima defesa é moderamen inculpae tutelae. O ataque de animal feroz não enseja a legítima defesa. quando muito o ataque repelido servirá de atenuante do dever de reparar pela concorrência de culpas. a defesa não se mostra legítima. Opondo-se ao ilícito. Ainda que o direito de defesa seja amplo. O Código Civil português preveja a perseverança da legítima defesa. como exigência de humanidade e de interesse social. por exemplo. mesmo que haja excesso. De efeito. Essa medida. responde pelo ilícito. Se alguém. mormente de pequena monta. Deve ser necessária e proporcional à gravidade da agressão. Assim. o agente é responsável pelo excesso na legítima defesa. a proporcionalidade que deve existir entre a agressão e a defesa é relativa. caso o excesso resulte de perturbação ou medo não culposo do agente. mesmo assim contra ataca o agressor e o fere ou mata. Se tardia não encontra albergue na legítima defesa. exatamente pela sua irracionalidade. não exige rigor absoluto. há de ser verificada objetivamente em cada caso concreto. todavia. em parte de sua conduta subsiste a ilicitude. quem reage à prisão decretada pela autoridade judicial – o que não deixa de ser uma agressão. porém justa – não se coloca na situação dessa causa de irresponsabilidade. Providencia o seu . É uma conduta humana. de sorte a injustiça exige racionalidade e o animal age por extinto. o defendente atua de acordo com o direito. de modo que evite. pois podendo o defendente obter o concurso estatal. o sacrifício da vida humana na defesa de um bem patrimonial. entretanto. o animal é mero instrumento nas mãos do agressor. mas o estado de necessidade. completa e limita o critério de necessidade. É dizer. dado que ultrapassa os limites da moderação. não se pode desprezar certa proporcionalidade entre o meio empregado e o valor do bem a defender.145 A agressão injusta deve ser ainda contra o que é lícito e permitido.

Portanto.1 Legítima defesa real: dano causado ao próprio agressor A legítima defesa. que arreda definitivamente o dever ressarcitório. 2. A ausência de quaisquer desses requisitos exclui a legítima defesa (STJ. com seus sentidos um tanto embutidos. usando moderadamente dos meios necessários. “entende-se em legítima defesa quem. rel. repele injusta agressão. c) que os meios empregados sejam proporcionais à agressão. Pontes. lesionando-o. porém na área civil basta que tenha havido excesso por negligência ou imprudência. atual ou iminente. O direito. O acto considera-se igualmente justificado. depende das circunstâncias ou condições de momento. ainda que haja excesso de legítima defesa. Tratado de direito civil. Enfim. como qualquer e toda obra humana. Nos termos do art. com o que faz cessar a agressão injusta. quem age diante do rápido desenrolar de um fato que lhe apresenta manifesto perigo. 25 do Código Penal. é circunstancial. do que a pessoa sente e vive quando comete o ato. j. dirige-se contra outra franzina. a direito seu ou de outrem”. Suponha-se uma pessoa fisicamente avantajada. Cunha.” É o escólio de Cunha Gonçalves ao advertir ser muito mais fácil escrever em um código sábias e prudentes restrições. b) que ela seja injusta. .169 Sem dúvida. mas não dominar os nervos excitados de quem está em risco de ser morto. se o excesso for devido a perturbação ou medo não culposo do agente. justo é admitir que não tenha a reflexão precisa para estimar a extensão de sua repulsa.. o medo e outro distúrbio ocasional podem ser articulados pelo defendente. É a denominada legítima defesa real. 337: “Considera-se justificado o acto destinado a afastar qualquer agressão actual e contrária à lei contra a pessoa ou patrimônio do agente ou de terceiro.3.168 No direito pátrio outra não é a ensinança de Pontes de Miranda para quem o temor. para incidir a responsabilidade. 168 169 GONÇALVES.146 art. 2. desde que não seja possível fazê-lo pelos meios normais e o prejuízo causado pelo acto não seja manifestamente superior ao que pode resultar a agressão. 16. MIRANDA. é aquela cujo dano foi causado ao próprio agressor. pois está sob o domínio de violenta emoção. a saber: a) que haja uma agressão atual ou iminente. para a caracterização dessa excludente de ilicitude mister a presença dos seguintes requisitos. cada caso merece apreciação particular nesse aspecto predominantemente subjetivo.1999. esta toma de um pedaço de madeira e lhe aplica golpe certeiro. opera de pleno direito como causa de irresponsabilidade. com nítida intenção de agredir. 4ª T.

agindo em legítima defesa própria ou de outrem. isto é. subsiste a responsabilidade civil pelos danos causados a terceiro. Sepúlveda Pertence). de ter sido o servidor absolvido por legítima defesa de terceiro. Por conseguinte. No caso de legítima defesa própria. j. 5.1 Legítima defesa por erro de execução (aberratio ictus) Pode acontecer que alguém. se a agressão a esse não foi atribuída à vítima. DJ 10. mas terceiro estranho à agressão injusta. ao agente da agressão injusta não há qualquer amparo legal. Jurisprudênica Agindo de acordo com os parâmetros preconizados nos requisitos supramencionados.147 Portanto. mas na área civil persiste o direito de indenização à vítima inocente. 2. Os casos a seguir assim demonstram. o erro de execução (aberratio ictus) é caso de dirimente no crime. que nada contribuiu para a ocorrência do evento (TFR. da 4ª Região decidiu: Mesmo que o agente tenha praticado o ato em legítima defesa.8. pressupõe que o dano atinja o próprio agressor injusto.2. mas a outrem. Des. o Tribunal Federal de Recursos. Teori Albino Zavascki). . não atingido (STF. conduzindo à absolvição.1995. Min. 2. que lhe faculte o direito de se ver indenizado pelo dano sofrido. a conduta é lícita. publ. não é culposa e nem sequer antijurídica. Não outra a solução se o agente atua em legítima defesa de terceiro. Irrelevância nas circunstâncias do caso.10. rel.2001.2 Dano causado a terceiro: legítima defesa por erro de execução e legítima defesa putativa Foi dito que as causas dirimentes de ilicitude não produzem os mesmos efeitos jurídicos no Direito Penal e no Direito Civil. rel. 4ª T. A legítima defesa. por erro de pontaria (aberratio ictus) lesione não o agressor.. persiste-lhe o direito de se ver indenizado. O Supremo Tribunal Federal proferiu o seguinte acórdão: Responsabilidade civil do Estado – Caracterização – Morte causada a particular por agente da Polícia Rodoviária em serviço. que arreda o dever reparatório. Quando o dano é suportado por terceiro inocente.

objetivamente.. esta exclui a culpabilidade e a antijuridicidade. Essa causa de irresponsabilidade ocorre na hipótese de alguém. da mesma forma acontece com a denominada legítima defesa putativa. por erro de tipo ou de proibição justificado plenamente pelas circunstâncias. Responsabilidade civil – Homicídio – Legítima defesa putativa – Prova. ilícita... julgarse diante de uma agressão injusta.] (TJRS. mediante equivoco. Des.2005. % 6º.2. RT 840/380). não excluindo a ilicitude do fato. enquanto aquela arreda a culpa. Luiz Felipe Silveira Difini. j. atual ou iminente. A alegação de legítima defesa putativa não exclui a responsabilidade civil. ao referir à legítima defesa como causa de irresponsabilidade. 2. 1ª Câm. antijurídica. do Código Civil. No corpo do acórdão outro julgado é referenciado: Constitucional. o que possibilita seja pleiteada a reparação de danos no juízo cível [. 188. Em outras palavras. uma vez que se tal situação existisse de fato tornaria sua ação legítima. 1.. não exclui a responsabilidade civil de reparar danos causados sem ter havido agressão do ofendido (RF 200/151). é verdadeira desde que o agressor seja a . porque esta exclui a culpabilidade e a antijuridicidade. em 14. indemonstrada a culpa exclusiva da vítima (art. Civil. A legítima defesa putativa não guarda similitude com a legítima defesa real. vale dizer.] (TJRS.. 5ª Câm. Umberto Guaspari Sudbrack. mas a culpabilidade do agente. primeira figura. rel. I. 37. Responsabilidade civil do Estado. Deduz-se que o art. [. rel. em 25. supõe encontrarse em face de agressão injusta. atual ou iminente. Des. O reconhecimento do erro de fato ou legítima defesa putativa. estando legalmente autorizado à reação. mas a conduta do agente é.148 2. da CF) [. restringe-se apenas à legítima defesa real. inc. a assertiva segunda a qual quem age em legítima defesa está isento de reparar o dano... Legítima defesa putativa. É obrigação do Estado reparar o dano causado por seu servidor. j.1999). a direito próprio ou de outrem. ambas as soluções distanciam daquelas dadas pelo Direito Penal. que isenta de pena o réu na esfera do Direito Criminal.] Ocorre a legítima defesa putativa quando o agente.8..2 Legítima defesa putativa Se a aberratio ictus não ilide o dever de indenizar.7.

afasta a reparação do dano. Cumprirá a “C” indenizar a “D”. Para evitar que a afronta prossiga. pois foi ele quem diretamente a lesionou. do Código Civil. do Código Civil. . o direito de regresso contra o beneficiado pelo ato. reservando-lhe o parágrafo único do art. exceto quando a vítima do prejuízo não tenha dado causa ao ato. por raciocínio lógico. O seu reconhecimento encontrou severo percalço e traz como caso paradigmático certo furto famélico. em compensação. 81. em Franca. aquele que foi defendido. danificando-o ao golpear “B”. mas é antijurídica. somente muito depois passou a ser enfocado como um ato incluso nas causas de irresponsabilidade. que não o agressor. embora este se refira ao estado de necessidade. em defesa de quem causou o dano.2. Também contra ele. protagonizado por Luiza Menard que subtraiu um pão para saciar a fome de seu filho. mesmo agindo em legítima defesa. Suponha-se que “A” está sendo agredido injustamente por “B”. Não pode aquele que com a agressão injusta propiciou a legítima defesa ficar isento de responsabilidade. “A” beneficiou-se da conduta de “C”. 2. com posterior direito de regresso contra “A”. I.3 O art. 930. responde pela indenização. que desde remota antiguidade é preocupação dos penalistas. ainda criança. Jurisprudência 3 Estado de necessidade O estado de necessidade. o direito de ação regressiva contra a defesa de quem se causou o dano. por força do art. Sendo antijurídica terá que indenizar a vítima do dano. ou seja. 930. inc. prejudicou direito ou interesse de terceiro inocente não é culposa. A ratio legis é a seguinte: a conduta de quem. como visto. Neste caso. Doutra feita. cabe a mesma ação regressiva. Seria incongruente. parágrafo único A legítima defesa. Afinal. Se aquele que se defende ou defende terceiro causa dano a outrem.149 pessoa que o sofre. o defendente ressarcirá a vítima. “C” toma de um bem de “D”. A lei reserva-lhe. não há como interpretar o parágrafo único sem atentar para a cabeça do artigo.

Outras vozes. dentro de circunstâncias muito especiais. Analisou a sua intenção dolosa. A sentença foi recebida com inusitada reprovação. para exemplificar caso de responsabilidade civil extracontratual. debalde os seus esforços. Judicou por vários anos no Tribunal de Paris. para evitar o atropelamento de uma criança distraída ao atravessar a rua. mas apenas para a vida dos próprios cônjuges. A justiça da França: um modelo em questão. para concluir pela absolvição. Rio. não conseguia trabalho e sempre gozou de reputação ilibada na sua comunidade. casos existem em que alguém. mormente a uma mãe de família. . o cargo de presidente dá ao juiz um destaque maior que a seus pares. sendo absolutamente necessário para a salvaguarda de um deles. Paul Magnaud foi um juiz polêmico. É o motorista que.150 Submetida a julgamento perante o Tribunal de Chateau-Thierry. não sendo nem sequer presidente de sua Câmara. o titular do mais valioso do ponto de vista social. . fundamentando a sua sentença no entendimento de que não havia prejuízo público. da valorização da mulher e sua igualdade em relação ao homem. A sua posição progressista. Demonstrou que por ocasião da subtração. a desditosa mãe foi absolvida. faltasse pão por motivo que não lhe podia ser imputado. arremessa o seu veículo contra um muro causando dano a terceiro.Editora de Direito Ltda. pratica ato danoso à pessoa ou ao patrimônio alheio. presidido pelo juiz Paul Magnaud. poderá danificar o outro. Para as páginas da história. impelido pela força dos fatos. em outro julgamento absolveu um rapaz. impediu-lhe que galgasse postos na carreira da Magistratura. mitigada pelas torturas da fome. 92-93. Luiz Guilherme.170 No cotidiano da vida dentro das relações sociais.. proclamaram que tal decisão ameaçava a segurança dos bens e fortunas amealhadas durante um século de pacífica exploração. 170 MORAIS. A sentença destacou como lastimável que em uma sociedade organizada. uma situação de colisão de interesses – e pontifica que. Paul Magnaud imortalizou-se como le bon juge. visando evitar o naufrágio iminente e para salvar os passageiros. que não conseguia emprego. Leme –SP. Privou da amizade de grandes intelectuais como Clemenceau e Émile Zola. Nota-se que o estado de necessidade conjectura dois direitos em conflito – ou como querem outros. provocando reações daqueles que supunham perigosa a conduta do furtador famélico. Ou o capitão de um navio. a fim de se reportar à responsabilidade civil contratual. avançou no sentido do direito de greve. No sistema judiciário francês. acusado de vadiagem. em 1898. bota fora as bagagens. Evaristo de. a autora não tinha dinheiro e os gêneros alimentícios de que dispunha estavam esgotados há 36 horas. Ponderou que. p. uma mulher acusada de adultério. 2001. mais radicais. desde que não exceda os limites do indispensável. de segurança no trabalho. Problemas de direito penal e psicologia criminal. Serviu a França na 1ª Guerra Mundial e como oficial superior recebeu a comenda da Legião de Honra pela sua conduta corajosa. além do natural desejo de evitar igual sofrimento ao filho menor impúbere. 1920 e MARQUES. tanto que o Ministro da Justiça foi forçado a declarar que o juiz Magnaud não exprimia a opinião geral da Magistratura.

Aliás. que deve ser inevitável. não era razoável exigir-se. direito próprio ou alheio. inc. isto é. Diferente o Código Penal no art. mais poderosa. assim. os danos são causados em circunstâncias excepcionais que não poderiam passar despercebidos no âmbito da responsabilidade civil. o mesmo acréscimo repara-se no art.1 Requisitos Tratando-se. I. do mesmo Codex: “Não há crime quando o agente pratica o fato em estado de necessidade”. Se o sistema é o mesmo. a necessidade. Na verdade. É como assevera Goethe. 24: “Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual. cujo sacrifício. no estado de necessidade – como na legítima defesa – o agente não quer o mal. É outra categoria jurídica comum ao Direito Penal. cuida-se assentar os seus requisitos: 1. a fim de remover o perigo iminente. ao preceituar que não constitui ato ilícito. a doutrina e a jurisprudência forjadas sob a égide do Código de 1916 devem ser consideradas. pois dispõe o art. “a deterioração ou destruição da coisa alheia. ou a lesão a pessoa. II. o Código Civil não conceituou o estado de necessidade. acrescendo a expressão “lesão a pessoa”. como se trata. age premido por uma situação extraordinária e se sente na necessidade de salvaguardar um bem mais valioso. na Parte Geral do Código Civil. que não provocou por sua vontade. pois assim a jurisprudência já vinha reconhecendo. nem podia de outro meio evitar. II. A exemplo da legítima defesa. 23.” Trata-se de excludente de antijuridicidade. 2. de ato praticado em situações especialíssimas. inc. criando. “a lei é poderosa. porém.” o que foi repetido por Ünger: “a necessidade não conhece lei. dessa forma relevante para o mundo jurídico. . A existência de perigo iminente ou atual.151 Destarte. a doutrina da dirimente do estado de necessidade. o Código Civil de Bevilaqua representa inestimável fonte de pesquisa e estudos. afasta a culpa. no que é secundado pelo Código Civil no art. 188. inc. 188.” O atual Código manteve o mesmo sistema do Código revogado. cuja característica fundamental consiste na inexigibilidade de outra conduta. nas circunstâncias. sendo que as obras concebidas pelos de juristas da época merecem grande atenção ante a inegável autoridade de seus textos.” Nesses casos arguidos e em tantos outros análogos.

Que o bem sacrificado seja de valor socialmente inferior. Não haja excesso do estritamente necessário para o afastamento do perigo. A inevitabilidade significa que a situação de perigo é de tal monta. É a hipótese de um policial acovardar-se. É o que a doutrina denomina. p. que apenas a conduta lesiva a pessoa ou a coisa alheia é capaz de dirimi-lo. sendo o dano o único meio de que dispõe para se livrar da situação extraordinária que se encontra. portanto se não agir de pronto o socorro virá a destempo. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira. 4. alem de real e efetivo. Cumpre. Logo. nem estaria em condições de evitá-lo mediante maior atenção ou prudência. Não ter o agente concorrido para a criação desse perigo. o agente que tem o dever jurídico de enfrentar o perigo. Gabriel Cesar Zaccaria. senão diante a danificação de bem alheio. Apreciação que contempla. Quem age por necessidade não quer o mal. 3. se o perigo já ocorreu ou se é esperado no futuro descaracteriza o estado de necessidade. e nessa apreciação comparativa dos interesses ou direitos envolvidos. Por isso. que é impossível ser evitado. 5. Da exclusão de ilicitude. Atenta-se ainda. certa proporcionalidade acerca do valor do bem ameaçado e o direito alheio lesado. deixando de prender delinquente perigoso. repita-se. ensina Gabriel Cesar Zaccaria de Inellas. há de considerar o valor subjetivo deles. se ele próprio deu causa fica excluído o estado de necessidade. inevitabilidade de outra conduta. 2001. Atual é o perigo que se verifica no momento e iminente é o que está prestes a acontecer. e se tal omissão da atuação oficial vir a causar prejuízo a outrem. 7. aquele que atua em estado de necessidade deve se portar conforme o princípio constitucional da razoabilidade. O requisito inicial exige perigo iminente ou atual.152 2. assim. não conforta sua conduta nessa dirimente. aquele que atua acobertado por essa causa de irresponsabilidade não pode ter sido o causador do perigo. as circunstâncias e o estado psicológico do agente no momento preciso em que age.171 171 IENELLAS. . Não basta. não meramente provável ou hipotético. que deve ser inevitável. o Estado responderá pelo dano. Que o perigo seja de tal natureza. Ademais.

tal como acontece na legítima defesa putativa ou por erro de execução. O ordinário é que o ato ilícito seja o fundamento da responsabilidade civil. Justifica a sua posição ao alegar que a solução do art. O Código Civil de Reale. que deixou de incidir apenas nas relações patrimoniais. João Luiz Alves dissente. cause o dano. acresceu a expressão “lesão a pessoa”. Cria-se a figura da indenização por ato lícito. pois o sistema manteve-se inalterado.. arromba a porta da casa de propriedade da pessoa que negligentemente ocasionou o incêndio. como já havia reconhecido a jurisprudência. entendendo que a solução deveria ser diferente. 160. 929. Nos seus comentários ao Código Civil de Bevilaqua. do art. não mais se reduzindo a deterioração ou destruição “da coisa alheia”. do Código Civil: restrições ao estado de necessidade O art. não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. 929 e 930.” Se o titular de um interesse ou direito deteriorado ou destruído criou a situação de perigo. de modo que o dano produzido não ultrapasse o estritamente necessário. Nada cumpre indenizar. A solução eleita reparte os doutos desde o Código Civil de Bevilaqua. todavia nada impede que se impute o dever ressarcitório como consequência do ato lícito. o que alarga o estado de necessidade. [atual 929] contradiz com o art. contrario sensu. Suponha-se que alguém. É a interpretação que se faz. Continua atual. indenize o terceiro prejudicado que não deu causa ao estado de perigo. de sorte que o atual Código manteve o mesmo sistema adotado pelo revogado. do Código Civil. mesmo agindo em estado de necessidade. inc. criando o estado de perigo e o dano recaiu sobre o seu próprio bem. para salvar uma criança. II [atual 180. foi ela quem deu causa ao acidente. do Código revogado. A preferência recaiu na maior proteção à vítima. determina que a pessoa.1 Arts. II]: . em boa hora. A vítima do dano laborou com culpa.153 Daí decorre que a dirimente em questão está a exigir moderação. para evitar um mal maior. ao lado da lesão a “coisa alheia”.519. do art.. 1. II. do Código Civil: “[. do Código Civil. a excludente opera plenamente. cabia-lhe optar a imputação do prejuízo à vítima inocente do dano ou àquele que. verdadeira responsabilidade objetiva.] o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornem absolutamente necessário. 188. o que está estampado no inc. apenas com oportuno acréscimo “a lesão a pessoa”. É o chamado estado de necessidade defensivo. A divergência tem foros de atualidade. 2. O legislador deparou-se com um dilema. 929.

A 1935. constitui ato lícito. Edição histórica. I. nos termos do art. defende a atual solução do Código Civil. Responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 929 e 930 não deixa de estar em contradição com o art. dentro dos limites indispensáveis à sua remoção. Clóvis. porque torna obrigatória a indenização [.519. Carlos Roberto. a remoção de perigo iminente. 1977. quando o ponto de partida do Código é o do dano. aos dispositivos intenção diversa da que eles. e emprestou. II. do CC. . 7 ed. Rui. portanto. naturalmente. É uma hipótese de responsabilidade sem culpa e. o ato lícito no sistema geral só promana – ou da inexecução de obrigação ou de delito ou quase delito. pois. desde quando preceito similar constava de seu Código: Se o eminente senador João Luiz Alves nele descobriu contradição. 1. 7 ed. Rio de Janeiro: Ed. 1. “a deterioração de coisa alheia. 160. II. como ato lícito.154 Pensamos que o art. São Paulo: Saraiva. pois enquanto este considera lícito o ato. ainda assim o art. 2007. 431. Logo. a fim de remover perigo iminente. p. transcrição com linguagem atualizada. p. a indenizar o dano. o dano causado em estado de necessidade não isenta o seu causador. isto é. Isto porque. de responsabilidade objetiva.519 com o art.”173 Por seu turno. assim.. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. II. 709. o art. vol. II. por vontade exclusiva da lei.]. Clóvis Bevilaqua. mesmo que tenha sido absolvido na esfera criminal. Código civil dos Estados Unidos do Brasil. para remover perigo iminente”. 188. p. 665. p. embora a deterioração ou destruição da coisa alheia. tinham. 175 STOCO. 160. Ora. 1. Contradiz. II: 1º . 180.Porque este declara que não constitui ato ilícito. aqueles obrigam o agente a indenizar a deterioração da coisa alheia para remover o perigo iminente. 174 BEVILAQUA. Essa defesa do critério da indenização é repetida por este autor no comento do art. 188.. p. não constitua ato ilícito.519 está em contradição com o art. vol. não pode obrigar a quem a executa. E mais: responsabilidade pela pratica de ato lícito.174 Está acordado nesse sentido Rui Stoco: Em resumo. GONÇALVES. 557. 2002.175 172 173 ALVES. Rio. São Paulo: RT. 929 do mesmo Código concede ao dono da coisa ou à pessoa lesada – desde que não tenha sido o causador do perigo – o direito de ser indenizado pelo prejuízo que sofreu.172 Abraça o mesmo entendimento Carlos Roberto Gonçalves: “A solução dos arts. João Luiz. ao qualificar esse preceito de irrecusável equidade. é porque se colocou no ponto de vista da culpa. expressamente prevista na lei civil. segundo nosso entendimento. de seu Código.

vol.02. Rio de Janeiro: Forense. p. Para isso. 930. do Código Penal.. 176 DIAS. O motorista que. ao agente causador do dano assiste tão-somente direito de regresso contra o terceiro que deu causa à situação de perigo (STJ. 2. j. atingido pelo ato necessário. 1995. Isso estabelece uma doutrina que não pode merecer os aplausos dos juristas informados dos princípios atualmente observados em relação à responsabilidade civil. Com fulcro neste dispositivo. 675.. todavia. o terceiro inocente.176 Não comunga com essa interpretação Em síntese.155 José Aguiar Dias suscita à dissensão outro ingrediente. 10 ed. responde perante o proprietário deste pelos danos causados. o citado civilista reverbera: Somos de opinião que o sistema do Código de Processo Penal aberra a tradição de nosso direito. do Código Civil Por seu turno. 65. Min. voltar contra o causador do dano. . 4ª T. afastado como motivo de isenção do dever de indenizar. Não há argumento capaz de convencer-nos de que o direito que temos de lesar a outrem em estado de necessidade seja mais forte e mais merecedor de proteção do que o que assiste ao prejudicado de se ver reposto na situação anterior ao dano. Nem se diga que pelo Código de Processo Penal o ato praticado em estado de necessidade só isente o agente em face de quem é culpado pelo perigo. no estado de necessidade se a vítima lesada não ensejou a situação de perigo. 930. É o que se pode ver de um sumário estudo do assunto. Da responsabilidade civil. admitido como escusa do crime. vem a colidir com automóvel que se encontra regularmente estacionado. à luz desse Código. II. rel. causou a situação de perigo. não sendo elisiva da obrigação de indenizatória a circunstância de ter agido em estado de necessidade. tanto mais que o ato necessário.1994. a lei outorga-lhe o direito à indenização. Assim. não era necessário dispor. não pode. expõe: “Faz coisa julgada no cível a sentença no juízo criminal que reconhece ter sido o ato praticado em estado de necessidade [. em qualquer das correntes de opinião.. reserva ao agente do dano o direito de regresso contra aquele que. sempre foi. José de Aguiar. ao desviar de “fechada” provocada por terceiro. O art. o art. Em casos tais. Sálvio de Figueiredo). 22. culposamente. do Código Civil.2 O art.]”. além de fugir ao critério moderno de reparação do dano. mas somente recorrer à talvez problemática responsabilidade de quem criou a situação de necessidade. Nossa convicção é que o Código de Processo Penal isentou de qualquer caso de reparação o prejuízo causado em estado de necessidade.

o ressarcimento. 5. II] (STJ. querendo exercitá-la conforme lhe permite o direito subjetivo. 177 SILVA. j. São Paulo: Saraiva. 944. figura típica no Código Penal.” Se alguém tem pretensão que lhe reserva o direito objetivo. contudo. salvo quando a lei o permite. praticado em estado de necessidade. 345: “Fazer justiça pelas próprias mãos. que impõem exceções. por vez ou outra. Como consequência. não arredando. embora legítima. o juiz poderá reduzir. procede a manobra evasiva que culmina no abalroamento de outro veículo. rel. sob a rubrica de exercício arbitrário das próprias razões. equitativamente. que a indenização deveria ser equitativa.2000. a indenização equitativa é imperativo inarredável. Com muito mais razão tal disposição da lei incide no estado de necessidade. de há muito Wilson Melo da Silva propugnou. O vigente Código Civil acrescenta dois dispositivos inéditos no sistema revogado. Ora. De efeito.520 [atual art. 188.. . a indenização. Aldir Passarinho). 4ª T. 930] c/c o art. Da responsabilidade civil automobilística. Wilson Melo da. responde civilmente pela sua reparação. que não se encaixam na legítima defesa nem no estado de necessidade. pressupondo na sua conceituação substancial a ausência de culpa de quem o leva a termo.6. dispõe o Código Civil atual que havendo excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano. É a regra geral. 10 Autodefesa No atual estágio da civilização não se permite que a pessoa seja juiz e parte ao mesmo tempo. Com alusão ao quantum debeatur. ainda que não se configure na espécie a ilicitude do ato. dispositivo sem similar no Código revogado. buscando evitar atropelamento.156 A empresa cujo preposto. a ninguém é permitido fazer justiça pelas próprias mãos. causando danos. 1. deve invocar o Estado-Juiz para satisfazê-la. nos termos do art.177 o que coaduna com a regra do art. do qual o juiz não pode se furtar. que é imputável por ser um ato consciente e voluntário. Dispõe o seu art. 86. com fundamento na doutrina italiana. p. mas na autotutela também chamada de autodefesa. ao tratar das obrigações de fazer e de não fazer. Há casos. parágrafo único. 1975. Direito de regresso assegurado contra o terceiro culpado pelo sinistro. para satisfazer pretensão. II. Min. 2 ed. do CC [atual art. do Código Civil. 160.

O interessado põe-se no lugar que. o fazendeiro. não o faria em tempo hábil e o credor experimentaria prejuízo injusto. O seu parágrafo único dispõe: “Em caso de urgência.157 O art.” Os dois exemplos legais demonstram que a autodefesa é caracterizada pela urgência e pela reposição da situação ao estado primitivo a manu propria do credor. que devia atender à incidência da regra jurídica. A ação moderada. quando aquele. que procura impedir o ingresso da corporação no combate ao fogo. à custa deste e da mesma forma sendo depois ressarcido. independentemente de autorização judicial. A análise desses exemplos lembra a lição de Pontes de Miranda: A justiça de mão própria é a aplicação da regra jurídica pelo próprio interessado. Seu vizinho constrói uma represa na divisa das propriedades e para enchê-la desvia provisoriamente o leito de água. É possível imaginar outras situações em que a urgência no cumprimento da obrigação. permitindo ao credor. 249 aborda a obrigação de fazer fungível. Decide e o faz a manu propria. a ela não atendeu. poderá o credor desfazer ou mandar desfazer. Certo fazendeiro cultiva 12 hectares de terra em batata. sem prejuízo da indenização devida. enquadra-se na autodefesa. depois que . 251 refere-se à obrigação de não fazer.” Já o art. sofreria sensível prejuízo pela quebra de produção. Ou o corpo de bombeiro no uso moderado de força para vencer a resistência do proprietário da casa. Dá-se. porém. Procurando o Poder Judiciário. que o batatal exige mais de uma irrigação diária. isto porque se a justiça fosse chamada a intervir. sendo depois ressarcido. sem prejuízo do ressarcimento devido. independentemente de autorização judicial. de pronto e moderadamente. até obter a medida corretiva. que lhe proporciona irrigação natural. que ao desocupar o prédio. que presente evita. em um final de semana. é o quanto basta para a sua lavoura. localizados na parte baixa de um riacho. independentemente de autorização judicial. torne imperiosa a execução de pronto. que consome o imóvel com risco de se alastrar para os prédios vizinhos. cuja abstenção comprometera-se o devedor. autorizando o credor a desfazer o ato. pretenda retirar coisas de propriedade do locador. Outro exemplo pode ser suposto no caso de locação: o locatário. retornando um terço das águas do riacho ao seu leito normal. de sorte a não impedir o direito do vizinho de abastecer a represa. executar ou mandar executar o fato. O seu parágrafo único reza: “Em caso de urgência. que execute o ato à custa deste. o fato que lhe é danoso. poderá o credor. havendo recusa ou mora do devedor.

2000. e para caracterizá-la só se decisão judicial. pela impossibilidade de recorrer em tempo útil ao meios coercivos normais. Ele substitui o juiz. Das obrigações em geral. quando a acção directa for indispensável. p. Rio de Janeiro: Borsói. É lícito o recurso à força com o fim de realizar ou assegurar o próprio direito. Miranda. d’après les circunstances. 554. 2. a esse. 4 Valor relativo dos interesses em jogo: não pode o agente sacrificar interesses superiores aos que visa realizar ou assegurar. quando sacrifique interesses superiores aos que o agente visa realizar ou assegurar. na eliminação da resistência irregularmente oposta ao exercício do direito. no caso particular. .A ação direta não é lícita.158 a justiça se tornou monopólio do Estado. 336. O Code des Obrigations da Suíça também contempla a autotutela nestes termos:180 No direito argentino. para evitar o prejuízo. não estaria justificada a conduta nessa causa de irresponsabilidade. 313. 180 Art. raros são os casos de autotutela. destruição ou deterioração de uma coisa. para evitar a inutilização prática desse direito. ou noutro acto análogo.178 O Código Civil português estampa didático dispositivo a respeito. pela impossibilidade de recorrer em tempo útil aos meios coercivos normais. t. contanto que o agente não exceda o que for necessário para evitar o prejuízo.] 3 Celui qui recourt à la force pour protéger ses droits ne doit aucune réparation. 1954.. vol.” O lusitano Antunes Varela lista os seguintes requisitos: 1 Fundamento real: é necessário que o agente seja titular de um direito. 3. 52 [. e não a particulares caberia. 3 Adequação: o agente não pode exceder o estritamente necessário para evitar o prejuízo. A acção direta pode consistir na apropriação. Em contrário. si. II. com o subtítulo acção directa: “Art. ensina Jorge Bustamante Alsina: 178 179 PONTES. l’intervention de l’autorité ne pouvait étre obetenue en temps utile et s’il n’existait pas d’autre moyen d’empêcher que ces droits ne fussent perdus ou que l’exercice n’en fût rendu beaucoup plus difficile. João de Matos Antunes. 1. I. que procura realizar ou assegurar.179 Dentro dessa perspectiva.. Tratado de direito privado – Parte geral. favoreceria aquele que atuou dentro limites de seus requisitos. p. Coimbra: Almedina. VARELA. 2 Necessidade: o recurso à força terá de ser indispensável.

En principio está prohibido hacerse justicia por si mismo. No original :“Esta figura tiene un parentesco próximo con el estado de necesidad y la legitima defensa: tiene con ellas en común la fuerza de la circunstancia externa que autoriza a actuar aunque con ello se dañe a otro. no sentido de obter determinado efeito jurídico. 11 Exercício regular de um direito reconhecido Mais outra figura comum ao Direito Civil e Penal. É imposto mediante sanção. fazendo com que o mais forte se conduza a excessos – que devem ser indenizados – com dano à paz pública.” . Aquele é mandamento. Buenos Ayres: Abeledo-Perrot. 181 ALSINA. En ciertas circunstancias la autoayuda no se sino el ejercicio del derecho de proteger una pretensión legitima que puede verse frustrada irreparablemente o dificultada manifiestamente su efectividad por la imposibilidad de requerir y esperar el auxilio o la intervención del Estado. o direito admite a autotuela em termos bem restritos.d. constitui uma regra elementar da convivência para impedir que reine o caos e a violência. porquanto não deixa de ser uma forma primária e grosseira de realização da justiça. e 23. mas com eles não se identifica. Teoria general de la responsabilidad civil. I. Em certas circunstâncias a autodefesa não é senão o exercício do direito de proteger uma pretensão legítima que pode ver-se frustrada irreparavelmente ou dificultada manifestamente sua efetividade pela impossibilidade de requerer e esperar o auxílio ou a intervenção do Estado. 188. Para cabo e fecho. vive fora do titular da faculdade. O direito subjetivo são as prerrogativas de que uma pessoa é titular. p. conforme dispõem respectivamente os arts. O direito objetivo é a regra imposta ao procedimento humano. Exercer direitos é a movimentação desse poder juridicamente reconhecido. constituye una regla elemental de la convivencia para impedir que reine el caos y la violencia. que se realiza na pessoa do titular. que fique bem saliente. contra o mais fraco. ou em condições muito apertadas. Designa uma faculdade reconhecida à pessoa. exatamente por se restringir a direito próprio tão-somente. 2 ed. é poder. Es la expresión jurídicamente controlada de hacerse justicia por mano propia.]. [s. 118-119. Em princípio está proibido fazer justiça por si mesmo. Jorge Bustamante. inspirando a sua atuação consigo próprio e ao interagir em sociedade. a faculdade derivada da norma: jus est facultas agendi. Designa o direito enquanto regra: jus est norma agendi.181 Figura próxima da legítima defesa e do estado de necessidade. É a expressão juridicamente regulada de fazer justiça com a própria mão.159 Esta figura tem um parentesco próximo com o estado de necessidade e a legítima defesa: tem em comum com eles a força da circunstância externa que autoriza agir embora com isso se prejudique outro. norma de comportamento a que toda pessoa deve submeter-se. este.

assim considerado o possuidor sem título. . visto que previsto no direito objetivo. há de se considerar. que são exatamente o cumprimento dos seus propósitos concebidos. nem sequer aos condenados ou aos vis. como titular. art. como visto. 11. confere as seguintes regras inerentes ao exercício do direito: O fundamento dessa causa de irresponsabilidade encontra-se no enunciado neminem laedit qui suo jure utitur (não causa dano a outrem quem utiliza um seu direito). mesmo se terceiro venha a sofrer dano. Lá a ordem jurídica é expressa.160 O exercício do direito comporta. instrumentos práticos elaborados e constituídos pelos homens. tem um direito reconhecido.2 Dirimente de responsabilidade civil No Direito Penal (CP. 188. A Constituição Federal. Serpa Lopes. isto sim. sentido mais amplo. gozar e dispor da coisa que lhe pertence (CC. enquanto se mantiver dentro da ordem jurídica.228). para que. 1. Mas também o exerce quem. garante a todos. Logo. o proprietário exerce o seu direito de propriedade quando pratica atos correspondente às faculdades de usar. sem nenhuma ressalva. aqui o fato material corresponde ao abstrato conteúdo de um direito. 23. merece desde logo a proteção jurídica. O Código Civil outorga direitos e impõe deveres a todas as pessoas naturais e jurídicas. sancionado e protegido pelo legislador. art. como por exemplo. as normas do direito objetivo não são meros enunciados de ideias com validade intrínseca. o exercício dos direitos. Em tema de ato ilícito. 2ª parte) vige o princípio de que ninguém poderá ser responsabilizado pelo exercício regular de um direito reconhecido. II. mediante seu manejo. e ao estabelecer que o homem e a mulher são iguais em direitos e deveres. insere-se o pressuposto do procedimento culposo e antijurídico. 5º. De fato. art. 2ª parte) e no Direito Civil (CC. produzam na realidade social os seus efeitos. podendo exercê-los. III. como titular de dada situação. nem são somente descrição de fatos. o ato ilícito e o exercício regular de um direito reconhecido são conceitos antagônicos. Exerce o direito quem. que assim passam a ser sujeitos de direitos. de maneira que inexiste ato ilícito quando se exercita um direito regularmente reconhecido. nos incisos do art. um se posta no polo oposto do outro. São. relaciona categorias de situações nas quais se percebe o exercício dos direitos. referenciando Cuviello. por se consubstanciar na contravenção a uma norma de conduta preexistente.

dos romanos: fiz. ou o refazimento do serviço mal feito. não se poderia tirar ao direito o poder ser exercido. Por outro lado. não pode acarretar indenização o exercício regular de um direito reconhecido. como princípio legal. sed jure fecit. que corresponde ao princípio da facultas agendi. a prisão em flagrante delito realizada pelo cidadão comum. No Direito Administrativo a autoridade pública decretar determinado imóvel de utilidade pública para fim de desapropriação. consumidor. preenchidas as condições legais. O consumidor exercita seu direito ao exigir a troca do produto com vício de fabricação. No Direito do Consumidor os exemplos são férteis. ou o prestador de serviços relativos a bens móveis alheios beneficiados ou consertados. pois agem no exercício regular do direito. objetivando a abertura de via pública. com débitos superiores ao patrimônio. administrativo etc. ou seja. Nessas hipóteses. No Direito Penal. seja civil ou extracivil: penal. apesar de os agentes causarem danos a outrem estão desobrigados de indenizar. mas fiz com direito. o possuidor que retém benfeitorias necessárias e úteis até se ver ressarcido como lhe cabe. a contrariedade a direito alheio no exercício regular de um direito reconhecido. Pontes de Miranda ensina: “Não é contrário a direito todo exercício de direito que lese.161 Por conseguinte. No Direito Comercial o caso de um comerciante requerer a falência de outro. embora tolhendo uma vista monumental de seu vizinho. comercial. o dono que constrói em seu terreno. Mais exemplos de danos permitidos são encontrados em outros ramos do direito. se o exercício for regular. uma vez que encerra todas as espécies de direitos subjetivos. No âmbito do Direito Civil. requer a insolvência civil do devedor inadimplente. Com esta listagem de danos permitidos. porque lesaria o outro: seria preferir . pretende-se demonstrar que a palavra direito é empregada em sentido lato. enquanto não lhe é pago o serviço. em casos extremos até com o moderado castigo corporal hoje cada vez mais em desuso. É o fecit. faz e faz com direito. ou ao reivindicar que toda propaganda e publicidade integrem o contrato. tributário. o credor que. pode-se articular o fato de os pais exercitarem o poder familiar ao corrigir os filhos. também se pretende demonstrar a que o direito não exclui. o direito subjetivo que a ordem jurídica assegura a toda pessoa de querer e realizar ou de agir e reagir até onde o seu direito não atinja o de outrem.

incorre no dever indenizatório. causando mal desnecessário ou injusto. predicados que presidem o ato lícito (CC. última figura).3 Consentimento do lesado 182 183 MIRANDA. especificamente. entretanto se o exercício for anormal. da Lei de Introdução ao Código Civil). segundo o espírito da instituição. p 339 – Brookseller. A construção é simples: é lícito o exercício regular de direito. por exceder manifestamente os limites impostos pelo fim social ou econômico. 3º. como diz este jurista. art. pois. A irregularidade do exercício é que estabelece a preferência pelo direito lesado. pela boa-fé ou pelos bons costumes. devendo o interesse de quem o exerce acomodar-se ao interesse coletivo. Pontes.2 Princípio da razoabilidade e o abuso de direito À visada da legítima defesa e do estado de necessidade. Se se excede. art. Sílvio. sua conduta equipara-se ao ato ilícito e. em sintonia com o senso normal das pessoas cuidadosas e diligentes que respeitam as finalidades que presidem a outorga dessa causa de irresponsabilidade. das pessoas solidárias na convivência social (CF. 187. É a peroração de Sílvio Rodrigues. cit. I. Direito civil: Parte geral.162 um direito ao outro. 33 ed. do pleno exercício do direito está condicionada em uma regra de ouro: o exercício de um direito reconhecido não pode afastar-se da finalidade para a qual o direito foi concebido. O excesso deixa de ser exercício regular de direito.”183 Resta certo. ao invés de excludente de responsabilidade. . enuncia-se com este princípio que quem atua no regular exercício de direito. 321. p. ou não. obedecendo à sua finalidade. Exige-se. ob. mas também aplicável o art. escudado em Josserand: Acredito que a teoria atingiu seu pleno desenvolvimento com a concepção de Josserand. que implica em moderação. t. destarte. daquele que usa de seu direito.”182 11. É dizer. São Paulo: Saraiva. II.2.2. 2003. incide no abuso de direito. e ganha foros de ilicitude. 11. debalde exercitando o direito. RODRIGUES. a possibilidade. convola-se em ato de agressão. o dever de conter-se nos limites da razoabilidade. os direitos são conferidos ao homem para serrem usados de uma forma que se acomode ao interesse coletivo. 5º. terá que se submeter a critérios aceitáveis do ponto de vista racional. segundo a qual há abuso de direito quando ele não é exercido de acordo com a finalidade social para a qual foi conferido.

163 O consentimento do lesado (volent non fit injuria) apresenta aspectos que devem ser considerados, apesar da ausência de previsão legal. O Código Civil de Portugal preveja de forma muito didática, aproveitável ao direito pátrio: “Art. 340º - Consentimento do legado. 1. O acto lesivo dos direitos de outrem é lícito, desde que este tenha consentido na lesão. 2. O consentimento do lesado não exclui, porém, a ilicitude do acto, quando este for contrário a uma proibição legal ou aos bons costumes. 3. Tem-se por consentida a lesão, quando esta se deu no interesse do lesado e de acordo com sua vontade presumível.” O direito protege bens e interesses atingidos pelo ato ilícito, se o lesado consente no dano é porque lhe convém, o que torna a conduta lesiva lícita, desde que o direito lesado seja disponível. Direitos há, entretanto, para cuja lesão é inoperante o consentimento do lesado; são aqueles indisponíveis, como os da personalidade. Não podem ser danificados ou destruídos outros bens, mesmo que privados e disponíveis, a exemplo dos livros didáticos se não mais úteis ao dono, o é para a coletividade, assim a lesão fere o princípio da solidariedade social alentado na Carta Magna, que torna o bem irrenunciável. Considera-se, que a responsabilidade civil tutela também direitos privados disponíveis, aí a eficácia do consentimento opera, desde que esse consentimento seja prévio, pois se posterior à lesão só é possível a renúncia à indenização. O consentimento, ato jurídico unilateral, opera como causa de exclusão do ilícito na conjugação dos seguintes requisitos: 1 Só pode consentir o titular do direito ou interesse afetado e que seja capaz, por exigir capacidade de exercício de direito; 2 Recai sobre direitos e interesses disponíveis; 3 A vontade deve ser real, por ato voluntário, não maculado por violência, erro essencial ou qualquer outro vício; 4 A manifestação pode ser expressa ou tácita. Cabem na órbita do consentimento expresso as práticas esportivas perigosas. E na presumida, as intervenções cirúrgicas urgentes quando o paciente não pode manifestar a sua vontade. O fundamento não repousa no fato de o lesado, consentindo, torna-se participe na causa do dano, e sim que a ingerência permitida de atos que interferem na sua esfera jurídica, mesmo causando dano, trata-se, a toda evidência, de uma interferência lícita.

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Vice-Presidente da República por duas vezes, José Alencar consentiu submeter-se, nos Estados Unidos, a tratamento experimental de combate ao câncer. Teve gastos com viagens internacionais entre outros. A terapia foi baldada. No entanto, seu consentimento operou como causa de irresponsabilidade, não lhe outorgando qualquer reembolso. Não se trata de obrigação de meio como é o caso da atividade médica, porque ninguém pode ser submetido a cobaia, sem prévio consentimento. 4.1.2.1 Consentimento nas atividades médicas O Estado reserva o monopólio profissional da medicina aos médicos, por tal razão reconhece e regulamenta, organiza e estimula, além de fiscalizar a profissão, impondo para o seu exercício condições de preparação técnica a nível universitário, ante a sua exigência de habilitação especial. Tem, pois, que admitir legítimos os atos que a sua prática regulamentar comporta, com os riscos a ela inerentes. Não comente ato ilícito o médico no exercício de seu ofício, ao contrário, a sua conduta é legítima, está escudada pelo exercício regular de um direito (exceto as hipóteses de irregularidades dolosas ou culposas), mesmo se não consegue a cura do paciente, porquanto a medicina é uma obrigação de meio, não de resultado. Se uma pessoa, em estado de inconsciência, necessita de urgente intervenção cirúrgica, é compatível com a teleologia e dogmática da gestão de negócios (CC, art. 861), que o parente mais próximo autorize. E quando impossível tal anuência, o que não coaduna com o espírito do exercício da medicina é deixar de proceder a intervenção, pois aqui se presume o consentimento do paciente. Deixá-lo à míngua de atendimento tipifica a omissão de socorro, que é ato ilícito. Uma situação hipotética clarifica a questão. Um casal sofre grave acidente e é levado à mesa de operação. Um cônjuge morre no transcurso da cirurgia e o sobrevivente necessita de imediato transplante de órgão. Nesta configuração especialíssima, ao médico impõe o dever funcional de agir sem prévia autorização. Caso a rigor a opção tivesse violado o direito dos familiares do consorte morto, é ela plenamente justificada, de sorte o transplante era o único meio de salvar a vida do outro.184

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MARMITT, Arnaldo. Perdas e danos, 2 ed. Rio de Janeiro: Aide, 1992, p. 417.

165 O médico exerce um direito que lhe é reconhecido pela sua formação profissional. A violação do direito alheio encontra conforto na inadiável e imperiosa necessidade de arredar o sobrevivente de perigo atual, isto é, o transplante opera como o meio mais provável de evitar a morte do paciente. Não sobrevém, contudo, a irresponsabilidade do médico que prática a eutanásia ou o chamado homicídio piedoso, mesmo se o doente nele tenha consentido, visto estar em um direito, o direito à vida, que é de si indisponível. De efeito, o direito à vida não importa protegê-lo só do ponto de vista individual, tem importância para a coletividade, por isso o desinteresse pela própria vida não a exclui da tutela estatal ante as exigências ético-sociais. 11.2.3.1 Consentimento nas práticas esportivas

No despertar do mês de maio de 1994, milhões de telespectadores do mundo inteiro assistiram a morte do carismático piloto de fórmula 1, Ayrton Senna, provocando comoção geral. Quase não se acreditava no que a televisão estampava, aconteceu aos olhos de todos, foi uma fatalidade como inúmeras outras precedentes nesta disputa de velocidade. Tal acontecimento refere-se às práticas esportivas, que traz, em algumas atividades, risco ou perigo para aqueles que a elas aderem. Nas práticas esportivas de atividades perigosas, como corrida automobilística, rodeio, páraquedismo, boxe, ou mesmo o futebol, o consentimento é expresso, pela simples participação dos atletas, excluído, é lógico, os casos de culpa e de inobservância das regras da competição ou jogo. Há efetiva formação e manifestação da vontade, ao invés do que sucede com o consentimento presumido, que é ficcionado em função das circunstâncias concretas e da vontade hipotética, no quadro de idênticas circunstâncias.185 Jorge Bustamante Alsina oferece esclarecedor texto: 313.2. Participação numa disputa perigosa. Por exemplo, se uma pessoa aceita acompanhar um automobilista numa disputa, ou toma parte numa luta de boxe, ou numa partida de futebol ou de rúgbi, e fica lesionada em consequência desta participação, tem direito a reclamar indenização mesmo havendo participado voluntariamente e desse modo assumido os riscos próprios dessa atividade? Pode-se entender que consentiu tacitamente em dispensar toda culpa alheia? Pode-se dar a resposta
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COSTA, Mário Júlio de Almeida. Direito das obrigações, 7 ed. Coimbra: Almedina, p. 502. Diferente o entendimento de Antunes Varela: “No caso de certas práticas esportivas mais violentas [...], tem-se entendido que há uma aceitação tácita e recíproca dos riscos de acidentes que esses jogos envolvem desde que sejam observadas as regras do jogo (ob. cit., p. 562).

166 distinguindo-se entre os riscos que são próprios da atividade da qual a vítima comparte, daqueles extraordinários, e que não fazem parte inerente à atividade de que se trata. 314. No primeiro caso poder-se-á dizer que a vítima aceitou tais riscos e que, portanto, nenhuma responsabilidade cabe ao outro: aquele suportará todo dano. Mais ainda, poder-se-á dizer que não cabe culpa nenhuma à vítima que participa duma competição mais ou menos perigosa, porém normal e regulamentada, nem do agente causador do dano que desenvolveu uma atividade normal dentro do risco próprio dela mesma. Outra será a solução se o risco foi extraordinário por ter o agente do dano excedido os limites estabelecidos pela regra do jogo. Neste caso, provada a culpa do agente, a vítima terá direito a ser indenizada. Não há responsabilidade do boxeador que lesa seu adversário com um golpe violento e decisivo, mas lícito segundo a respectiva regulamentação. Em contrapartida deverá responder se intencionalmente ou com reiterada torpeza, aplica golpes baixos, proibidos e causa uma lesão grave interna no seu rival.186 Realmente, em luta de boxe pela disputa do título mundial dos pesos pesados, Make Tayson enfrentou Evander Hollifilder, sendo que este impunha severo castigo àquele, com uma sucessão de golpes dentro das regras da luta (exercício de um direito). Numa atitude desesperada Tayson desferiu feroz mordida na orelha de Hollifilder, decepando-lhe uma parte (abuso de direito). Aqui exemplo didático do que pode e do que não pode segundo as regras da competição. 4.2.2.3 Princípio da razoabilidade No exercício regular de um direito reconhecido o princípio constitucional da razoabilidade invoca o princípio da socialidade, tão alentado por Miguel Reale ao lado dos princípios da eticidade e da operabilidade, que para ele constituem nos três princípios “fundantes do Código Civil.” Cumpre moderação no exercício do direito, lembrando a máxima de que o direito de cada um termina, onde começa o do outro. Há de se coadunar o interesse privado ao interesse público, de modo que a solidariedade social seja norte a orientar a conduta de todos indistintamente, jamais descurando dos direitos fundamentais tão caro ao Estado Democrático de Direito. A ideia de direito absoluto, egoísta por natureza, cede para o moderno princípio da função social, mais altruístico e mais afinado com as aspirações e necessidades impostas pelo tempo presente. O Estado passa a intervir diretamente nas relações intersubjetivas no resguardo do interesse coletivo. Ad exemplum, as obrigações negativas de não fazer classicamente impostas aos
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ALSINA, Jorge Bustamante. Teoria general de la responsabilidad civil, 2 ed. Buenos Ayres: Abeledo-Perrot, [s.d.], p.122-123.

4. de sorte quem atua no exercício regular de um direito reconhecido pratica ato no estrito cumprimento do dever legal e. pela boa-fé ou pelos bons costumes.4 Revogabilidade do consentimento O consentimento. 501. que deve ser prévio à lesão. ou a 187 188 GOMES.187 Via de consequência. Mário Júlio de Almeida. 84. p. p. se o direito for exercido de modo a exceder manifestamente os limites impostos pelo seu fim social ou econômico. ambos promanam tanto da lei penal como da civil. que se consubstancia na destinação adequada da propriedade aos fins sociais. à lei descabe punir aquele que cumpre dever por ela imposto. comercial. ademais. Tomam-se os exemplos repetidos do soldado que mata em combate de guerra. Tanto que a Constituição Federal chega a exigir da propriedade. . Belo Horizonte: Del Rey. pois não mencionado no enunciado do art. José Jairo. tributária etc. é revogável.2. é responsabilizado por sua omissão. pois ao depois da prática deste. quem não cumpre o dever que a lei lhe impõe.. 23. no exercício regular de um direito é facultativa. o abuso de direito é instrumento de opressão nas mãos de seu titular. 187. outros civilistas propugnam pelo consentimento posterior. Porém a revogabilidade também deve ser prévia. 1998. divorciada do tempo e do espaço.188 Em doutrina. no sentido de sua função social (arts. Isto porque. De efeito. tornando-a útil. dá-se o ato ilícito conforme a regra do art. inc. COSTA. do Código Civil. Coimbra: Almedina. mas não se confundem. ao seu lado o Estado impõe obrigações positivas de fazer. 5 Estrito cumprimento do dever legal O estrito cumprimento do dever legal é causa de irresponsabilidade de lege ferenda. Direito civil: introdução e parte geral. 188. e assim a define. como acontece com a retroatividade do negócio jurídico. 2006. o que o torna categoria pura.2. inc. Direito das obrigações. apenas pode verificar-se a renúncia aos efeitos da ilicitude da lesão.167 proprietários – como o uso nocivo da propriedade. Não poucos acham supérflua a sua inclusão. do Código Civil. § 2º e 186). administrativa. produtiva. III. 182. III e 142. de modo a não prejudicar o vizinho – ganha outros foros. Trai a sua teleologia e o seu anormal uso enseja a responsabilidade civil do agente. 7 ed. O Código Penal faz sua previsão nos arts. antecedendo o ato lesivo. Enquanto a conduta no cumprimento do dever legal é impositiva. Não parece ser a melhor solução. Não poucos os seus pressupostos comuns.

por conseguinte. Entendeu a direção da sociedade devesse excluí-lo do quadro societário. usando das faculdades a eles reconhecidas pela própria lei. cabe tanto na atividade pública como na privada. Na esfera privada o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo julgou interessante caso.) são secundum jus e.189 Conclui-se. portanto. 189 NORONHA. sem caráter criminoso. denunciou a entidade pela prática de atos ilícitos. 2) atos executados no cumprimento de um dever imposto a particulares. nos casos previstos em lei – muito embora danificando ou suprimindo interesses e direitos individuais (propriedade. Um sócio. Pertinente a lição de Ferri. que elimina a culpa. Seria ilógico. vol. determinados pelos motivos anti-sociais. precisamente pela coerção física das suas sanções pessoais ou patrimoniais. Apresenta-se sob duplo aspecto: 1) atos executados no cumprimento de um dever decorrente de função pública. que se distingue das outras normas reguladoras da conduta social. depois de se demitir do cargo de direção de uma sociedade civil. por meio de petição dirigida às autoridades competentes. 5. vida etc. o comando da lei é injunção da qual o soldado e o agente público não podem escusar-se. 211. liberdade pessoal.1 Atividades privada e pública Esta causa de irresponsabilidade. os atos por eles realizados no cumprimento deste dever – mesmo com o uso de armas. sendo que nos dois casos não cabe qualquer faculdade de escolha. p. que o estrito cumprimento do dever legal é excludente de ilicitude. porquanto quem assim atua não lhe pode ser imputada culpa. a menos que não ultrapassem em excessos. transcrita pelo penalista pátrio Edgar Magalhães Noronha: A execução da lei é uma necessidade imprescindível da organização jurídica. 1979. . Pelo que. Direito Penal. 17 ed. que o soldado e o funcionário do Estado respondessem pela indenização diante dos familiares dos mortos. sob a alegação de ter promovido o descrédito da instituição perante os órgãos públicos com os quais possuía convênios. Os funcionários e agentes públicos têm o dever de executar e de fazer executar a lei. 1.168 aplicação da injeção letal ao condenado. São Paulo: Saraiva. pelos quais o funcionário público abusa do seu poder.

5ª 190 O atual art. tendo por finalidade promover a defesa de um direito próprio ou de interesse coletivo (in Pinto Ferreira. diz respeito às autoridades e seus agentes que praticam ações na execução de suas atribuições. Eis a ementa do acórdão: Sociedade civil – Exclusão de sócio – Abuso de direito no exercício do poder disciplinar reconhecido pelo Poder Judiciário. Portanto. Se na parma do direito privado a atuação do cumprimento do estrito dever legal refere-se à pessoa natural ou jurídica de direito privado. Era ela perfeitamente compatível com a realidade do que ocorria (1º TACSP. Direito de representação é o instrumento pelo qual se manifesta o protesto contra abusos praticados por autoridades. 188. decorrentes dos direitos inerentes aos seus cargos. XXXIV. no Direito Público. 12º Câm. I] (TJSP. porém. Não é. Tal circunstância exigia velocidade mais enérgica. em velocidade que pudesse ser comparada àqueles outros que. fala apenas em direito de petição. ficam dispensados de repará-los. Tão-só essa circunstância já afasta a alegação de velocidade incompatível. São Paulo: Saraiva.169 O Colendo Colegiado paulista entendeu que o sócio denunciante exerceu direito de petição constitucionalmente assegurado (art. em diligência oficial. 138). 5º. . 5º. a trabalho ou a passeio. como parte da sociedade infratora. porquanto se assim não agisse. Des. pois. daí sua denúncia foi em benefício dos sócios em geral e da própria sociedade. é evidente que não poderia seu motorista conduzir a viatura.. 153. cúmplice. 1º vol. rel. XXXIV). 1989. Civil. em que o associado agiu no exercício do direito de petição e representação. faculdade. O direito de petição é o pedido junto à autoridade competente. assegurado constitucionalmente. de modo geral. circulam pelas vias públicas. pela linha de trem. da CF [atual art. a sua punição constituiu em abuso de direitos. 160. atual art. Comentários à Constituição brasileira. in fine [atual art. que são distintos e ambos eram previstas na CF revogada. . p. De fato. j. RT 626/81). competente para apreciar a legalidade do ato – Imposição com base no estatuto social sob alegação de promoção do descrédito da instituição junto às entidades com as quais mantém convênios – Hipótese. § 3º. É estrito cumprimento do dever legal a denúncia da irregularidade e não exercício regular de um direito. na da pública. inc. Ainda que verídicas as assertivas no sentido de que a radiopatrulha dirigiase a um determinado local para ajudar no cerco a bandidos que fugiam a pé. 188. no mínimo. mas dever jurídico imposto. confundindo os conceitos de petição e representação. denunciando fatos verídicos consistentes em irregularidades praticadas em detrimento da coletividade – Reintegração determinada – Inteligência do art. requerendo a sua punição. 153. I. Mesmo que causem danos a direitos ou interesses alheios. distinguem-se os dois conceitos. Carlos Ortiz. I) do CC e aplicação do art. seria.190 certo que as irregularidades por ele apontadas efetivamente existiram. § 3º.

187). rel. Juiz Pinheiro Franco. 37. do Código Civil. 2007. j. Afasta-se da excludente e incide no dever de indenizar. a trabalho ou a passeio. 189). Dá-se. 5.. 2007. então. Juiz Pinheiro Franco. também aqui. Era ela perfeitamente compatível com a realidade do que ocorria (1º TACSP. Ainda que verídicas as assertivas no sentido de que a radiopatrulha dirigiase a um determinado local para ajudar no cerco a bandidos que fugiam a pé. a presente causa de exculpação opera de pleno direito como excludente do dever de indenizar. Pai dos autores morto a tiros por policiais militares – Reação à prisão – Irrelevância dos policiais não saberem da prisão preventiva decretada contra a vítima – Conduta suspeita da mesma que provocou a atuação da polícia – Exercício regular de direito e estrito cumprimento do dever legal – Improcedência da pretensão indenizatória (PJPR. p. o direito de regresso opera somente quando os agentes atuarem por dolo ou culpa. JB 170/172). entretanto. permite-lhe pleitear o ressarcimento do Estado. A vítima inocente do dano. 189). pela linha de trem. in Rui Stoco. o direito de regresso.170 Câm. cujo correspondente é o art. art. 5.. que responde pelos danos causados pelos seus agentes independentemente de culpa. que quem atua no estrito cumprimento do dever legal. in Rui Stoco.1989. 43. assim porque pela regra dos artigos em questão. a socialização do prejuízo. 5. § 6º.1. não padece do direito de se ver indenizada. tutela e curatela 5.1. Tal circunstância exigia velocidade mais enérgica. circulam pelas vias públicas.1989. o que implica em isentar-se do abuso de direito (CC.2 Poder familiar. rel. ou seja. pelo menos na parte que . pois o art. deve conter-se dentro dos limites da razoabilidade. o que não acontece nesse caso específico. Outras vezes. Tratado de responsabilidade civil. Se exceder e causa um mal injusto porque desnecessário. Tratado de responsabilidade civil.2 Princípio da razoabilidade Convém atentar. nivela o seu comportamento ao ato ilícito. 7 ed. uma vez que não pode imputar culpa aos seus agentes.. 5ª Câm. 7 ed. p. é evidente que não poderia seu motorista conduzir a viatura. j. por sua vez. Tão-só essa circunstância já afasta a alegação de velocidade incompatível. em velocidade que pudesse ser comparada àqueles outros que. objetivamente. em diligência oficial. Não cabe ao Estado..

Se ascender comete ilícito civil. ponderando respeitosamente suas razões e não poderá ser punido. deve indenizar em caso de dano à vítima. prendendo alguém. in fine). contudo justo. . 5. responderá pelo prejuízo a que der causa ausente qualquer responsabilidade ao superior hierárquico. não apenas para efetivar um mandado de prisão. Pode acontecer que. Quando a ordem é legal não há repercussão. sobre fato abrangido pelo seu dever de segredo. terá que se negar.4 Figuras correlatas: obediência legal à ordem de superior hierárquico e à ordem de autoridade legítima O direito não fica indiferente.. se chamado em juízo para depor. Se processado pelo delito de desobediência. na execução da ordem. 5. na presunção de que ela será executada conforme a lei. O ato é lícito tanto do juiz como do oficial de justiça. o exercício regular de um direito e o estado de necessidade. portanto lhe causando um dano. invocará a excludente de responsabilidade em exame: estrito cumprimento do dever legal.] se tiver mais de um autor a ofensa. A primeira envolve servidores de uma das três esferas dos entes estatais – federal. o subordinado exceda-se. estadual ou municipal – em que o superior emite uma ordem ao subalterno. Assim o advogado que tem o dever legal de guardar segredo profissional. Na hipótese de um policial militar lesionar aquele que é pego em flagrante delito. todos responderão solidariamente pela reparação” (CC. art. mas distingue o estrito cumprimento do dever legal da obediência legal à ordem de superior hierárquico e de autoridade legítima. no sentido de realizar uma conduta positiva (facere) ou uma conduta negativa (non facere). desde que milita. Pode ainda essa diligente conviver com o exercício regular de um direito reconhecido. Em sendo manifestamente ilegal a ordem. executa a ordem legal.171 excedeu. que responde apenas pela ordem. em cumprimento a mandado de prisão expedido pelo juiz. como para repelir a resistência extravasada em injusta agressão.. legitimamente. ao subordinado impende recusar a obediência.3 Convivência com outras causas excludentes de responsabilidade Uma vez ou outra. Outra vez a prisão em flagrante serve de exemplo: o oficial de justiça. como acontece com a legítima defesa. convivem em uma mesma conduta duas causas escusativas de responsabilidade: a legítima defesa e o estrito cumprimento do dever legal. 942. juntamente com o superior: “[.

A expressão autoridade legítima pressupõe servidor público. § 6º. reconhecendo o estrito cumprimento do dever legal – Circunstância que repercute na área cível. pois este atuou com culpa. 652/262 CAPÍTULO V 1 Causas excludentes da responsabilidade civil objetiva : 2 Caso fortuito ou força maior. nem sequer. com o fito de impedir a sua propagação. determinar a terceiros civis a demolição de casa vicinal ao fogo. Jurisprudência Vítima morta a tiros por policiais militares – Absolvição dos agentes na esfera penal. que não seja superior hierárquico. terá direito de regresso contra o corpo de bombeiro. timbrado pelo estado de necessidade. 678/348. VER RT 783/266. 3 Fato de terceiro. por ser este o único meio de evitar uma tragédia de maiores proporções. uma vez que se está perante a inexigibilidade de outra conduta. JB 170/233).172 Em ambas as hipóteses de ressarcimento. o ente público responderá solidariamente por força da disposição constitucional contida no art. ou a quem não é subordinado. Certos danos podem surgir por ordem de autoridade legítima. excluindo o ilícito e a possibilidade indenizatória – Improcedência (TJSP. 4 Fato da vítima Causas excludentes da responsabilidade civil objetiva . cuja ordenação dá-se no exercício de sua atividade pública. 37. e sempre com direito de regresso em desfavor de seu servidor. diante de um incêndio. mas sim o Estado que. O ato é lícito. ou apenas endereçada a particular. Não caberá os civis que atenderam a ordem de demolição do prédio vizinho. Uma situação hipotética pode ser proposta no caso do corpo de bombeiro. Mesmo assim enseja indenização.

as inundações.173 As causas de irresponsabilidade vistas até aqui ilidem a ilicitude do ato praticado pelo agente causador do dano. As tempestades. por obra humana ou da própria natureza. porquanto surge como consequência do que vai além de suas forças. que repercute diretamente sobre o liame de causa e efeito. pois a ilicitude da conduta não é pressuposto dessa espécie de responsabilidade civil. objetivamente responsável. pessoa ou coisa sob a sua guarda. por isso dizem respeito diretamente à responsabilidade civil subjetiva. que é pressuposto das duas espécies de responsabilidade civil. Já as causas de irresponsabilidade na seara da responsabilidade civil objetiva atuam no nexo causal entre a conduta e o dano. o que possibilitou de melhor forma a reparação dos danos. o homem era resignado. o fato de terceiro e o fato da vítima. o que escapa ao seu poder. tais causas porque cindem sobre o nexo de causalidade. tanto natural como voluntário. sem culpa do devedor. atribuindo parte deles a um agente. 393: “O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário. Dá-se o dano por um fato ou ato alheio e exterior. São chamadas eximentes gerais o caso fortuito ou força maior. É o parágrafo único. Estão sob seu manto apenas os acontecimentos decorrentes de causas insuperáveis. as doenças. Causas que impossibilitam o cumprimento da prestação. mas de uma causa estranha. porque não há como evitar ou impedir. dentre outros acontecimentos. eram o caso fortuito e a força maior e as vítimas padeciam os danos advindos. a causa eficiente do dano não é a sua atividade. greves e distúrbios populares. A subsunção de situações ao caso fortuito e a força maior reduziu consideravelmente. também operam na subjetiva. Os tempos são outros. sem que o devedor tenha contribuído para isso. do art. afastando o ressarcimento. o homem não é mais resignado. O avanço tecnológico passou a desvendar as causas de muitos eventos. o act of Good do direito anglo-saxonico. tonando-a impossível. é dizer. os incêndios. cujos efeitos não era possível evitar ou impedir. De efeito. 2 O caso fortuito ou a força maior Em um tempo passado.” A necessidade caracteriza-se pela capacidade do evento causar o dano. Os prejuízos decorrentes de causas até então desconhecidas eram atribuídas ao damnum fatale dos romanos. A inevitabilidade é a impossibilidade de o devedor impedir que o . guerras e revoluções. Diante dessas eximentes o dano decorre não da conduta do indigitado agente.

a seca que devassa plantação. como fato do príncipe. vol. afastando-o da conduta do devedor. em condições que não podiam ser previstas pelas partes”. vis major. observa-se a distinção que qualifica o caso fortuito como o acontecimento natural. caso fortuito e de força maior são distintos. que criou para a inexecução da obrigação. qui a créé. pois conceitua o caso fortuito como “o fato de força física ininteligível. o nexo de causa e efeito não pode ser imputado à conduta do devedor. assim o raio que cai e produz incêndio. inesperado. de nenhum efeito prático. 201: « Le cas fortuit c’est le fait d’un force physique inintelligent. Commentaire théorique et pratique du Code Civil. como o furto ou o roubo que desapossa o devedor da coisa objeto da tradição. a greve que retarda a entrega do bem prometido. 1894. Vale dizer. que a boa vontade do devedor não pode vencer. ao atribuir-lhes um único efeito jurídico. muito tem debatido a sinonímia. não pode ser resistida pelo particular. 2. Em pura doutrina. Thépphile. 143. casual. Na força maior entra na composição do acontecimento o fato humano. dans des conditions qui ne pouvaient être prévues par les parties. o caso fortuito e de força maior relaciona-se ao nexo de causalidade. A doutrina. « . devendo ser apreciadas as condições do devedor. n. entretanto. passa a ser irresistível. outro a rechaçar a sinonímia. vis major. inevitabilidade relativa. um obstáculo. que se aproxima da concatenada pelo francês Thépphile Huc. à l’exécution de l’oligation un obstacle que la bonne volonté du débiteur n’a pu surmonter.1 Sinonímia entre caso fortuito e de força maior A cabeça do art.174 evento seja a causa do dano. que causa o dano. 393. como do caráter comum de ambos. do Código Civil. Portanto. que decorre tanto de serem previstos em conjunto. e a força maior como “o fato de terceiro. o tempo e o lugar em que as consequências se dão. VII. pondera o português Cunha Gonçalves. adotando a correspondência dos dois termos.”191 Ontologicamente. Dessemelhança meramente acadêmica. A palavra fortuito significa imprevisto. sinaliza que o devedor não responde pelos prejuízos resultantes do caso fortuito ou de força maior. se foi um evento estranho que causou o dano. . p. a desapropriação. que vem a ser a irresistibilidade do evento. não essencialmente imprevisível. o temporal que tudo inunda. pela conjugação da necessidade e da inevitabilidade o evento estranho à conduta do devedor. La force majeure. c’est le fait d’un tiers. Ora. advindo da força da natureza ou do fato das coisas. enquanto a força maior 191 HUC. Paris : Librairie Cotillon.

uma revolução. Daí insiste na clássica distinção: caso fortuito é todo fato imprevisto ou imprevisível e superior às forças humanas.2 Elementos objetivo e subjetivo Na prestigiosa doutrina de Arnoldo Medeiros da Fonseca a noção de caso fortuito e de força maior decorre de dois elementos: o objetivo e o subjetivo. Adota-se um critério misto e alerta: 192 GONÇALVES. a greve não anunciada. O primeiro tem como caráter a inevitabilidade do evento. o fortuito interno. ao passo que o caso de força maior é o fato previsto ou previsível. Explica com duas passagens: uma tempestade é força maior para quem possui um barômetro.. cujos riscos não são suportados por ele ou sua empresa. De acordo com tal distinção. 2. São seus exemplos o fato exclusivo da vítima. o segundo. é força maior. uma revolução.192 Modernamente a doutrina alcandora a distinção que enseja efeitos práticos. que está intrinsecamente relacionado ao próprio agente ou à sua empresa. à força maior. anunciada na mídia. que se sabe estar na forja. normalmente imprevisível. cit. O fortuito interno consiste no fato estranho inevitável. por estar ligado à própria atividade do agente. e caso fortuito para quem não o possui. Assim. os fenômenos naturais como o raio. e o segundo a ausência de culpa na produção do acidente. p. e igualmente superior às forças humanas. a tempestade etc. o chamado fato do príncipe (fait du Prince). insere-se entre os riscos que ele deve responder. eminentes civilistas procuram a distinção entre o que chamam de fortuito interno e de fortuito externo. Já o fortuito externo não guarda esse nexo de causalidade. já o fortuito externo consiste no fato estranho inevitável não relacionado ao agente ou à sua empresa. É dirimente apenas da responsabilidade civil subjetiva. pois é o fato estranho ao agente ou à sua empresa. um cabo elétrico aéreo que rompe e cai sobre coisas causando incêndio. a quebra de peças de uma máquina devidamente revisada. Op. 728-729. o motim popular como o denominado “arrastão” etc. É dirimente da responsabilidade civil subjetiva e objetiva. São seus exemplos a explosão de uma caldeira de usina. gerando situações potencialmente danosas à coletividade. Cunha. as ordens da autoridade.175 não é fortuita. porque pode ser prevista. afasta a culpa. . O primeiro corresponde ao caso fortuito.

ao ponderar que em um e no outro há sempre um acidente que produz o dano e ambos se caracterizam pela presença de dois requisitos: o objetivo que é a inevitabilidade ou a irresistibilidade do evento e o subjetivo que é a ausência de culpa na produção do acontecimento. p. 23 ed. em virtude do progresso da ciência ou da maior providência humana. volume 7: responsabilidade civil. 194 DINIZ. a priori. 111-112. 2009. ser classificado como de força maior. lugar não sobra para a dirimente em consideração. que só pressupõe esta última espécie. 195 DIAS. uma vez que onde a culpa manifesta-se sob alguma forma. de responsabilidade.. ou não. ou não. mesmo na simples desatenção até na negligência ou imprudência. em última análise. p. ser sempre considerados casos fortuitos.176 Não há acontecimentos que possam. Isso para nós. Em termos mais precisos. ao mesmo passo que a ausência de culpa não satisfaz como critério capaz de caracterizar essas causas de isenção. Maria Helena. José de Aguiar. para serem consideradas causas gerais de irresponsabilidade o caso fortuito e de força maior devem interromper o nexo de causalidade. Rio de Janeiro: Forense. ou não.] um fato poderá.116-117. 1943..195 De fato. em face do critério misto de Arnoldo Medeiros. 10 ed. 2. Da responsabilidade civil.3 Ausência de culpa Evidente. a supressão da reação de causalidade. p. Caso fortuito e teoria da imprevisão. a ausência de culpa distingue-se do caso fortuito ou de força maior. Não basta a ausência de culpa. Desaparecido o nexo causal. São Paulo: Saraiva.194 Completa a lição Aguiar Dias: [. a ausência de culpa compõe o conceito de caso fortuito ou de força maior. amanhã deixará de sê-lo. O que é hoje caso fortuito.193 Não destoa Maria Helena Diniz. . Esta noção atende melhor ao que se procura expressar com a noção de caso fortuito ou de força maior e prova. Arnoldo da Fonseca. que é pressuposto comum tanto da responsabilidade objetivo como da subjetiva. Com efeito. pode ser simplificado ainda mais radicalmente: o que anima as causas de isenção no seu papel de dirimente é. tudo depende das condições de fato em que se verifique o evento. conforme se possa. 687. Curso de direito civil. pelo pressuposto da inevitabilidade e da ausência de culpa do agente. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial. não é mais possível falar em obrigação de reparar. e isentará. a ausência de culpa – que é gênero – integra o elemento subjetivo do caso 193 FONSECA. 1995.

mas o vendedor foi diligente e pontual. Estipulou-se no contrato o dia “D” para a efetiva entrega. ou obteve previamente informações da falta do comprador ou do preparo do local para recebimento do equipamento. diligente. irresistível. Pois bem. viajou e não deixou pessoa encarregada para o recebimento (um filho do adquirente foi hospitalizado em virtude de grave acidente). de sorte que. Nesse dia o adquirente esqueceu de preparar o local adequado para recebimento do equipamento. Na data aprazada o vendedor não entregou a coisa.177 fortuito e de força maior – que são espécies. É sabido que o credor cai em mora independentemente de culpa. pois seu filho sofreu acidente e estava sendo atendido em hospital. Mas o gênero – ausência de culpa – poderá ocorrer sem a espécie. Logo. não houve a entrega porque o comprador não se encontrava no lugar combinado para recebimento. mas o adquirente foi quem incidiu em falta – justificável ou não – que impossibilitou o cumprimento da obrigação. inteirou-se por telefone. Não houve entrega. como causa autônoma de irresponsabilidade. ele não obrou com culpa ao não fazer a entrega do equipamento. no exemplo. por si só. que o adquirente demonstre justa causa para a sua viagem. a ausência de culpa é uma excludente autônoma de responsabilidade contratual. Passagem esclarecedora é colhida na leitura de Valdeci Mendes de Oliveira: João vende determinado equipamento. Todavia. que o comprador havia se ausentado inesperadamente. ou então. basta. por motivos justificados. Pode não ter existido culpa do contratante-adquirente. Em seu favor não há qualquer fato estranho natural ou não inevitável. A espécie – caso fortuito ou de força maior – não ocorre sem o gênero: ausência de culpa. tomando o cuidado objetiva. motivada num grave acidente sofrido pelo filho. procurou cumprir a sua prestação. que precisa permanecer ou ser instalado em lugar apropriado. com entrega acordada no futuro. Porém. foi ao local designado pelo adquirente. no exemplo dado. poderá articular em defesa a ausência de culpa. Se acionado em juízo. um fato estranho inevitável. Logo. O vendeu foi cauteloso. Pouco importa. não estar presente para receber a prestação. Imagina-se a celebração de contrato de compra e venda (dar de coisa certa). pode ele arguir o fortuito externo. . por descumprimento do contrato. natural ou não) que impedisse o cumprimento da obrigação. Se o vendedor for acionado em juízo. poderá ele provar ausência de culpa. demonstrando que foi diligente e pontual. Nota-se: para o vendedor inexistiu caso fortuito ou força maior (um acontecimento inevitável. que não pode ser imputado a ele. O vendedor. por inadimplemento contratual.

Entretanto. a imprevisibilidade que caracteriza essa dirimente. Se o evento for possível resistir ou evitar não se caracteriza como caso fortuito ou de força maior. na hipótese.178 As partes podem. p. Fato previsível. em seu depoimento pessoal. dispara como força indomável e irresistível. Rio de Janeiro: Forense. 457/72). o esvaziamento foi tão rápido que o réu. 2. verificadas nos veículos neles envolvidos. fala em 196 PEREIRA.196 Exemplo repisado é o da forte chuva que a tudo inunda. entretanto o agente do dano não ter como resistir os seus efeitos. os pneus estavam em bom estado de conservação. Do corpo do acórdão extrai-se o seguinte trecho: Já se decidiu que o estouro do pneu pode caracterizar a culpa civil. diversamente. de conformidade com a autonomia privada. até rescindir ou resolver o contrato. Caio Mário da Silva. Paradigmático o acórdão proferido pelo extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo. pois o evento. Mas o morador ribeirinho não poderá conjugar condições de evitar os seus efeitos. 1991. assim. Um acontecimento pode ser previsível. o requisito necessário é a irresistibilidade ou inevitabilidade: algo que não se possa vencer. mas não haverá de parte a parte indenização por perdas e danos. . É verdade que estouro de pneu não se confunde com simples furo de pneu. no caso. podem constituir ou não caso fortuito ou de força maior. Nos acidentes de trânsito as alegadas falhas mecânicas. Não é. reconheceu-se que os pneus estavam precariamente conservados (Revista dos Tribunais. que bem assina duas circunstâncias dessemelhantes entre si: Responsabilidade civil – Acidente de trânsito – Evento conseqüente de estouro de pneu. cumprindo verificar as circunstâncias de cada caso. vol. ainda que absolvido o motorista na esfera penal.4 Irresistibilidade ou inevitabilidade do evento Na cômoda companhia de Caio Mário importa esclarecer que a imprevisibilidade não é requisito necessário do caso fortuito e de força maior. que estava em bom estado de conservação – Hipótese de caso fortuito – Indenizatória improcedente. 324. Responsabilidade civil. Os defeitos mecânicos nos veículos servem de observação. Entretanto. ainda que previsível. Na espécie sub judice. especialmente quanto a este.

É a visão de Arnoldo Medeiros da Fonseca: Exigir-se-á. de modo que a ninguém fosse possível precaver-se ou resistir quanto ao ocorrido.. 1943. tendo em vista a possível conduta de outros indivíduos. verificadas em veículos motorizados” (RF 161/249). Verifica-se. portanto. j.. Arnoldo Medeiros da. Dever-se-á considerar apenas os elementos exteriores ao obrigado e ao seu raio de atividade econômica. Prossegue o mesmo civilista: “Desse requisito decorre naturalmente que só pode constituir caso fortuito um fato cuja origem seja conhecida. qualquer falha mecânica não é suficiente. 197 FONSECA.. que a inevitabilidade deve ser tomada dentro das circunstâncias gerais em que haja ocorrido o evento. pois só assim poderá afirmar a sua inevitabilidade. em relação a qualquer homem prudente. tendo em vista o objeto da prestação. O critério de apreciação permanece. a própria irresistibilidade do evento é que o torna inevitável. pois.. rel. pois ninguém se acautela contra o imprevisível. Neste ínterim.” Em seguida conclui: Às vezes. e a testemunha [. Outras vezes. pois. é de caso fortuito e a improcedência foi bem decretada (TACSP. p. mas não inteiramente abstrato. em idênticas circunstâncias de tempo. O caso..]. uma impossibilidade de evitar objetiva ou absoluta. pela natureza dos fatos. assim.179 pneu estourado [.] teve a impressão de “que havia estourado um dos pneus”. se deixa de conjugar os requisitos descritos: “Como casos fortuitos ou força maior não podem ser consideradas quaisquer anormalidades mecânicas.1981. lugar e meio. a imprevisibilidade do acontecimento. Juiz Pereira da Silva). . 145. será a razão determinante de sua inevitabilidade. cuida-se enfocar situações comuns de incidência dessa causa de irresponsabilidade. objetivo. tais como a quebra ou ruptura de peças. Caso fortuito e teoria da imprevisão. sendo assim a inevitabilidade a condição objetiva fundamental exigida para caracterização do caso fortuito.197 De maneira. Mas haverá sempre impossibilidade de impedi-lo. 24. como impossibilidade que ocorreria.2. em condições objetivas análogas. 8ª Câm. o modo súbito e inesperado pelo qual se verifique. mas entendida esta expressão em termos. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial.

Há mais de cinco lustros. Des. quando particulares reclamam indenização pelos prejuízos sofridos em razão de enchentes. É comum verificar. Outras vezes. com o mesmo embasamento. Em pura doutrina. todavia. de culpa dos prepostos da CESP. Diferente o trato jurisprudencial no que tange a morte produzida por raio. para arredar a responsabilidade civil do causador do dano. e entendeu que o fato da natureza (fortuito externo) foi decisivo na eclosão do dano. bastas vezes. Entretanto. que as administrações nas três esferas – municipal.2 Fenômeno da natureza Frequente a arguição dos fenômenos naturais como fundamento do fortuitus ou da vis major. não condiz com as causas de irresponsabilidade ora estudas. a culpa do agente causador do dano afasta a dirimente do caso fortuito ou da força maior. pelo menos. Mas esses fenômenos permitem. estadual e federal – descuidam das obras preventivas que poderiam evitar danos e tragédias. As fortes chuvas aparecem muito na defesa do Poder Público. . RT 564/73). imputável aquém quer que seja (TJSP. A conduta oficial. a empresa só deve ser condenada a pagar a metade da indenização devida. Reconheceu a culpa dos prepostos da CESP. rel. julgados condenam o Poder Público pela falta do serviço ante a omissão em providências contra danos produzidos pelas fortes chuvas. Sydney Sanches. assim não conclui o acórdão. pois sua culpa concorreu com fato da natureza. como visto. mormente à classe hipossuficiente. fixando o quantum debeatur pela metade. são as empresas privadas que se justificam pelo descumprimento de contratos Interessante a decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Como os danos provocados resultaram não só da violência das chuvas mas.180 1. que não deram ao problema do excesso de afluxo de águas às barragens da Usina de Barra Bonita o tratamento técnico compatível com as circunstâncias do momento. prevê-los e preveni-los na adoção na adoção de medidas acautelatórias dentro das possibilidades humanas. também.

Aliás. 1. Não será se por culpa do empregador. 1. Caso típico de um cantor contratado para uma apresentação se lhe sobrevier uma faringite. ou não. ou mesmo a edição de lei nova que impeça a comercialização de determinado produto. pois ele mesmo dá motivo ao movimento. verbia gratia.3 Ato da autoridade pública Toda medida ou ato da Administração Pública. quando acomete motorista de saúde hígida.181 1. imprudência. RT 431/174 Ao contrário. que repercute em autentica impossibilidade de execução da obrigação. Por si mesma não caracteriza. como sucede. com a desapropriação. que reivindica melhores condições de trabalho. Tais proibições para eclodir em caso fortuito ou de força maior terão.5 Greve O movimento grevista pode. que perseverar durante todo prazo de que o devedor dispõe para cumprimento da prestação obrigacional. Equipara-se ao caso fortuito. o denominado fato do príncipe. necessariamente. por si só.4 Enfermidade do devedor Pode surgir como caso fortuito ou de força maior a doença do solvens. se é um cardíaco. 1. como por não cumprir uma convenção trabalhista e acontece apenas na sua empresa. constituir-se em dirimente.6 Extinção do objeto mediato da prestação . Será fortuito se a greve eclode em toda categoria. muito se debate sobre o mal súbito. excluindo a responsabilidade. que lhe prejudique a voz. levando-o a perder o controle do veículo. já não configura. sobretudo quando se trata de uma obrigação de fazer intuito persona. se não reúne os pressupostos do fortuito. que exige cuidados incompatíveis com a obrigação. ou limita construções em áreas do perímetro urbano. pois o fato de dirigir veículo nesse estado de saúde é.

fato estranho à empresa exploradora das atividades de extração. em que não incide nenhuma causa de irresponsabilidade. não cabe contestar que se colocam no raio do risco integral. no caso determinada obra de famoso escultor. dessa forma a colheita de café da Fazenda Santana cuja safra foi perdida na totalidade por prolongada seca. Dá-se a força maior. Em pura doutrina é caso de exclusão de responsabilidade. 23-24.7 Em sentido ambiental A culpa não é pressuposto da responsabilidade civil quando no pálio do direito ambiental. São Paulo: CPC. O outro continua no estado de preservação natural. oleoduto e similares. do consumidor. Princípios de direito ambiental. ante a relevância da matéria em que a natureza recebe agressões gratuitas. um em cada morro. probidade administrativa e do patrimônio cultural. 246). sob pena de ressarcimento se assim não o fizer. 198 SOUZA. É a teoria do risco integral. resolve-se. a obrigação. Se. fortuito interno. liberando-se o devedor de qualquer ressarcimento. um explorado como pedreira. seja pela exagerada ganância de lucro – como soe acontecer – seja por outro motivo qualquer. Mautari Ciocchetti de Souza concebeu a hipótese de dois morros. Por isso o casus não milita em prol do agente causador do dano. E o autor conclui: a empresa que explora a atividade extrativa terá responsabilidade civil no âmbito ambiental. porém. Se a coisa pertence a gênero ilimitado o devedor deverá buscá-la onde ela exista e adimplir a prestação (CC. o proprietário do outro morro. Na obrigação de dar coisa incerta abre-se um leque. 1. porque inexplorado. por justiça e equidade. Motauri Ciocchetti. Trata-se de fortuito externo. dentro dos mais rígidos padrões ambientais e de segurança traçados pelos órgãos competentes. 1ª parte e 235). A exploração de gasoduto. resolve-se a obrigação e não cabe indenização (CC. sem qualquer forma de exploração.182 Na obrigação de dar coisa certa. mas os fatos naturais não podem e não devem. p. segundo a doutrina e a jurisprudência dominantes. 234. simplesmente. art. assim reator de usina nuclear são atividades inerentes à empresa.198 A matéria não deixa de ser controvertida. . ter tratamento assemelhado. arts. a coisa pertence a gênero limitado. 1998. pois se trata de responsabilidade civil objetiva. com efeitos distintos. evento da natureza como causa. que se perde ou deteriora pela incidência de circunstância irresistível e sem culpa o devedor. causando danos ambientais. Caem dois raios.

não fica ele afastado da responsabilização. Digno de nota são os municípios que.10 Exclusão convencional O art. consoante sinaliza João Franzen de Lima. além de aproveitarem as margens das estradas e os trevos para arborização. 399. o devedor. 2. do mesmo diploma legal. mantendo viveiros para tanto. por cláusula expressa. João Franzen de. por um de seus poderes. Rio de Janeiro – São Paulo: Forense. Isto é. 1961. são incompatíveis com a Justiça. . mas relegam ao absoluto desprezo as medidas de implantação. se o devedor expressamente responsabilizar-se por eles. A legislação obriga os Estados a fornecerem mudas. parágrafo único. mas pouco se importam com a fauna. não se arredando dos seus princípios e valores fundamentais. ficando esses locais relegados ao abandono. para urbanizá-las em jardins e praças. pode assumir a responsabilidade por caso fortuito ou de força maior. Lógico o 199 LIMA. escudado em lição de Giorgi. preceito herdado da sabedoria romana. o bom senso indicam a senda que o Direito deve seguir. invadidos pelo mato. quando o fato estranho constitui o fortuito externo. urge uma política de efetiva proteção. p. o que denuncia a invasão dos pássaros no perímetro urbano. Não diferentes os governos estadual e federal que poderiam recuperar as reservas florestais em suas não poucas propriedades rústicas. devem reservar certo percentual de áreas verdes. em uma demonstração inequívoca que sabem muito exigir e nada cumprir da parte que lhe toca na empreitada de recuperação ambiental. Os extremos. em matéria do meio ambiente a solução mais justa é admitir as excludentes em apreço. tão exigente quanto ao privado. A moderação. frágil na sua política ambiental. Sem contar que seus técnicos consideram com maior ênfase a flora. 335. se o fortuitus ou a vis major suceder durante o atraso do devedor no cumprimento da obrigação. mas não um estado de fobismo.199 Outra exceção é prevista no art. não admiti-las se o fato estranho é um fortuito interno. do Código Civil. ao tratar da responsabilidade do devedor moroso. o que ocorre minimamente. por lei. Curso de direito civil brasileiro. O Estado. Assim. Concluindo. 393.183 Vive-se tempo de graves ultrajes ao meio ambiente. denunciava na vetusta Antiguidade Aristóteles. a prudência. preveja a exclusão convencional do caso fortuito ou de força maior.

Foi o segundo automóvel. outro que o segue logo após também para. tanto que dá azo a uma justificativa. o raio destrói as duas casas. o nexo de causalidade entre a conduta culposa e o dano. Os autores são unânimes em afirmar que o fato de terceiro constitui-se em questão tormentosa. como sucede nos casos elencados no art. pois o fato não apresenta um dos requisitos da responsabilidade civil. opera-se um acréscimo. Aqui a verdadeira causa é a culpa do devedor consistente na mora. mas pela conduta de terceira pessoa. podendo importar em causa de responsabilidade e de irresponsabilidade. com todos os móveis e utensílios. o dano teria de qualquer forma sobrevindo à coisa. na ultima situação a culpa do devedor em razão da mora não seria de nenhuma eficácia. o fato de terceiro não é de se confundir com a responsabilidade de terceiro. pois o fato do terceiro motorista foi de tal intensidade que lhe excluiu a liberdade de ação. que embatendo contra o primeiro. Suponha-se que um veículo pare diante do sinal vermelho. em velocidade imoderada. abalroa a traseira do segundo que é atirado contra o primeiro. sendo essa conduta de tal monta que o agente direto é mero instrumento em suas mãos. 2 Fato de terceiro De plano adverte-se. Dá-se o fato de terceiro quando o dano é causado não pelo agente direto e nem pela vítima. nada acontecendo à casa do credor. Nesse caso desaparece o nexo de causa e efeito entre a ação ou omissão do agente direto e o . Washington de Barros Monteiro. nem indireta. repete Van Wetter que. falta. pelo contrário. 932. em que não se opera exclusão de responsabilidade. O motorista do segundo veículo foi mero instrumento arremessado contra o outro. teria resguardado a coisa da incidência do acontecimento danoso. Não é caso de indenização. por sua vez. entretanto. Nota-se. se tivesse sido entregue no prazo. Incide. para que ocorresse a perda da coisa devida. verdadeiro fortuito externo. são repetidos por Maria Helena Diniz no seguinte hipótese: se o objeto da prestação perde-se porque um raio destrói a casa do devedor. pois se o devedor tivesse cumprido a obrigação no tempo certo. mas o responsável pelo acidente foi o terceiro que não parou diante do comando semafórico que assim determinava. e terceiro veículo. não pacificada nos tribunais. Se. nem nada aconteceria à coisa devida. nem sequer agiu.184 dispositivo. então a responsabilidade seria eliminada. na hipótese. mais do que no acontecimento. por isso. causa-lhe diretamente o dano.

eximida a sua culpa. acaba por causa prejuízo a outrem. Entendeu. p. 2002. constituindo força estranha. 200 GONÇALVES. causada pelo fato de terceiro. que teve. o fato de terceiro não afasta o dever de ressarcimento por parte do causador direto do dano. cujo veículo restou envolvido no acidente como mero instrumento da ação culposa de terceiro. preceituando este último dispositivo que cabe ação regressiva contra o terceiro que com sua conduta criou a situação de perigo. Bem por isso. o direito de regresso contra o terceiro. sendo imprevisível e inevitável200. ao tentar desviar-se de abalroamento. afasta-se a teoria risco e firma-se a responsabilidade do terceiro como causador único evento (RT 651/99) do tal do do Fora dessas condições. Nesse caso. senão única.185 dano. assim. de modo positivo. A matéria vem regulada indiretamente pelos arts.] I – Não há de atribuir-se responsabilidade civil ao condutor de veículo que. Carlos Roberto. torna-se.. desgovernado. provocando-lhe dano. pois. pois a regra é que o dever de indenizar recaia sobre o causador direto do dano. mas principalmente em inevitabilidade. Responsabilidade civil: doutrina/jurisprudência. quando é de intensidade que exclui a liberdade deste. [. reafirmando a relação de causalidade. reserva-lhe. .. vem a colidir com coisa alheia. 929 e 930. foi de tamanha força e intensidade que excluiu a liberdade de ação do causador direto do dano. São Paulo: Saraiva. só se caracteriza como excludente quando.. para haver dele a quantia paga na indenização do proprietário do bem danificado. E coerentemente como juiz decidiu na qualidade de relator ainda ao integrar o extinto Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São Paulo: O fato de terceiro exclui a responsabilidade civil do causador direto dano quando equiparável ao caso fortuito. ou seja. que a primeira culpa. na condição de doutrinador. (RSTJ 67/514). sendo tal situação diversa daquela em que o condutor do veículo. no entanto.. afirma que o fato de terceiro somente dirime a responsabilidade civil quando se reveste das características análogas às do caso fortuito. Carlos Roberto Gonçalves. É que o fato de terceiro. do evento (RJTJSP 21/50). essa Colenda Corte. II – No caso em tela. O fato do terceiro motorista revestiu-se de imprevisibilidade. o prejuízo experimentado pelo dano da coisa danificada não guarda relação de causalidade com qualquer atitude volitiva do referido condutor. 7 ed. a causa predominante. atingindo outro. 722.

de mero instrumento passivo da ação de outrem. pagará a indenização. Sálvio de Figueiredo. 563/123. Lá o nexo de causalidade tem uma única causa: a conduta do terceiro. Em casos tais. de alguma forma. 44/89). 1995. repita-se. Curso de direito civil. j.201 201 LOPES. mesmo por culpa de terceiro. Ou como ensina Serpa Lopes. terceiro é aquela pessoa que forma a terceira peça do triângulo. não. responde perante o proprietário deste pelos causados. 4ª T. trazendo coerência à ordem jurídica como um todo harmonioso. Sendo assim. vem a colidir com automóvel que se encontrava regularmente estacionado.11. esta é a diferença dos julgados supracitados: em um o carro do agente direto do dano desgovernou-se. 22. p. p. atuar ou realizar atos voluntários para salvar bem alheio.1996. Miguel Maria de Serpa. Deve ser de tal intensidade e irresistibilidade.2. 86. RJTJSP 42/103. rel. não sendo elisiva da obrigação indenizatória a circunstância de ter agido em estado de necessidade. agir. No segundo. o credor. Se o causador direto do dano. 211. Imagina-se a estrutura da obrigação no seu elemento subjetivo: de um lado o polo passivo.1994. ao desviar de “fechada” provocada por terceiro.1 Conceito de terceiro Entende-se por terceiro a pessoa estranha ao agente e à vítima do dano. ou é mero agente físico involuntário. o fato de terceiro que se constitui em causa de irresponsabilidade deve identificar-se à força maior. São duas hipóteses dessemelhantes com efeitos jurídicos diversos. Min. .. O motorista agiu de maneira voluntária.10 a 5. e atingiu outro veículo. considera-se terceiro qualquer outra pessoa equidistante desse binômio que. 4 ed. que o causador direito do dano não passa. 591/237. in Boletim da AASP nº 1975. logicamente não podendo ser nem o ofensor nem o ofendido. resguardando-lhe o direito de propor demanda regressiva em desfavor do verdadeiro culpado. É o mesmo tratamento que se dispensa à legítima defesa por erro de execução e ao estado de necessidade. 639/117. não houve qualquer conduta voluntária do motorista. De efeito. ao agente causador do dano assiste tãosomente direito de regresso contra o terceiro que deu causa à situação de perigo (STJ. vol. influi na produção do dano.186 O motorista que. Aqui tem duas causas: a atividade do terceiro e a do causador direto do dano. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. de 30. No mesmo sentido: T 523/101. procurou desviar de “fechada” provocada por terceiro. 3. o devedor e do outro lado o polo ativo. prejudicando vítima inocente.

rel. RT 810/264. Min. rel. é necessário haver prova de que o comportamento deste seja a determinante exclusiva do resultado danoso e que a sua participação no evento tenha-se dado de maneira total. não se admitindo a participação de forma parcial (RT 736/241) 11. 15. enfim quando ocorre liame de responsabilidade indireta entre o causador do dano e o responsável pela indenização.3 Uma questão tormentosa Joeirando a jurisprudência notam-se nitidamente julgados contraditórios. pois o Superior Tribunal de Justiça julgou em sentido contrário: A presunção de culpa da transportadora pode ser ilidida pela prova de ocorrência de fato de terceiro.7. 4ª T. os pupilos e curatelados com relação aos tutores e curadores.8.2002. A exoneração da responsabilidade civil por ato de terceiro somente terá lugar se for identificada a pessoa causadora do dano e. DJ 30. mormente no contrato de transporte.649. consoante dispõe a Súm.” Assim vinha a orientação dos tribunais A responsabilidade civil da empresa de transporte coletivo pela condução de passageiros é de caráter objetivo..187 Não poderão ser terceiros os filhos menores com relação aos seus pais. REsp. Sendo ato de . j. não é elidida por culpa de terceiro. ainda.. não guarda conexidade com a atividade normal do transportador. Juiz Thiago de Siqueira. Tendência que não se consolidou. pelo acidente com passageiro.31. comprovadas a atenção e cautela a que está obrigada no cumprimento do contrato de transporte a empresa. Outro fato relacionado à pessoa do terceiro é a sua identificação. 187 do STF.6. O terceiro há de ser identificado ou identificável. p. Barros Monteiro. os empregados e prepostos com relação aos empregadores e comitentes.2003). 5ª Câm. no mesmo sentido STJ. de fora para dentro do veículo. Pela Súmula 187 do Supremo Tribunal Federal. 232. a alegação de que o evento que resultou na morte da transportada. O arremesso de objeto. j. contra o qual tem ação regressiva. Destarte. ocorreu por culpa de terceiro não exclui sua obrigação de indenizar (1º TACSP. “A responsabilidade contratual do transportador.2002.

Min. mas não é menos verdade que o fato de 202 GONÇALVES. porém entre essas figuras não é possível ver identidade absoluta. VENOSA. que pondera para se chegar ao fato de terceiro é necessário estabelecer com precisão: 1º) quem é o terceiro em matéria de responsabilidade civil. 7 ed. 4. 2º) qual a natureza e extensão do comportamento desse terceiro em relação ao evento danoso. os demais aspectos abrolham naturalmente.5 Distinção do caso fortuito e da força maior O fato de terceiro assemelha-se à força maior e ao caso fortuito quanto aos seus efeitos. p. CAVALIERI FILHO. Sergio. isto é. . 292. Essa posição de mitigação da responsabilidade do transportador em casos especiais não relacionados com o fato do transporte em si. sem qualquer ligação com a organização do negócio. salvo motivo de força maior. 2002. O exemplo reportado por ambos é o disparo de arma de fogo efetuado por alguém do lado de fora do ônibus. deixa de ser causa dirimente. 743. Carlos Roberto. até com relativa facilidade. há equiparação ao caso fortuito. São Paulo: Atlas. pois fato imprevisível e inevitável. que corresponde ao fortuito externo. rel. somente o fortuito externo. Assentados estes dois pontos fundamentais. 7 ed. 3ª T. j. São Paulo: Saraiva. Daí a razão pela qual alguns autores os têm por equivalentes. do Código Civil. Responsabilidade civil: doutrina. É verdade. 2009.188 terceiro. para quem a presunção da responsabilidade do transportador é tão forte. que o fortuito interno não a exclui. o fato de terceiro é imprevisível e irresistível. 164-165. p. No mesmo trote avulta Sergio Cavalieri Filho. exclui a responsabilidade do transportador pelo dano causado ao passageiro (STJ. porquanto desempenham a mesma função: a exoneração da responsabilidade. 2007. 11. se caracterizar um fortuito externo exime a responsabilidade do transportador. que atinge passageiro.202 É a tese acordada na regra do art. São Paulo: Atlas. pois se puder ser previsto e vencido desnatura-se. 722-723. o fato estranho à empresa. vol. Castro Filho. Sílvio de Salvo. 11. RT 823/158). Tem prevalecido as circunstâncias concretas de cada caso.4 Dois conceitos básicos Apropositado o ensinamento de Caio Mário.2003. Programa de responsabilidade civil. é adotada por Carlos Roberto Gonçalves e Sílvio de Salvo Venosa. p. 9 ed. Direito Civil: responsabilidade civil. no caso. 29.. jurisprudência. Argumentam que.10. ao dispor que o transportador responde pelos danos causados às pessoas e bagagens transportadas.

Embora seja objetiva a responsabilidade da empresa. 212. 6ª Câm. Juiz Massami Uyeda.189 terceiro cumpre ser imputado a pessoa certa. p. Dessa forma. não se pode afastar a culpa da transportadora por caso fortuito ou força maior. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. não reúne o condão de excluir o agente direto. RT 806/209). No entanto. se o evento foi causado por ato exclusivo de terceiro que invadiu a contramão de direção abalroando o veículo da transportadora. não havendo tal culpa. quando era previsível tal evento naquela região. não é caso de isenção o roubo de motomensageiro. j. Destarte. 4 ed. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. Juiz José Luiz Gavião de Almeida. ela não é automática. sendo que os prejuízos a serem ressarcidos decorrem do risco do próprio negócio (1º TACivSP. apareceria como sendo um caso de força maior.3. apesar de reconhecida. é impossível de ser resistido. se for invocada a escusativa do caso fortuito e da força maior. não pode a transportadora se eximir de tal responsabilidade por restar caracterizada a culpa. embora previsível... sendo que decorre de existência de culpa por inadimplemento contratual. 3. Sentencia Serpa Lopes: “o fato de terceiro deve ser atribuído a um indivíduo determinado. RT 807/292). Tratando-se de roubo de carga. 26. Sendo a ação intentada em face do agente direto do dano e a responsabilização de terceiro. cabe a ele ação regressiva contra o causador do dano.”203 Mais ainda. . Miguel Maria de Serpa.2002. No entanto. na modalidade negligência. do contrário. o agente direto do dano não disporá de tal actio in rem verso. Ementa do voto vencido do revisor Juiz Carlos Alberto Bondioli: Caracteriza-se a força maior em caso de roubo de carga quando.5 Chamamento à autoria Jurisprudência Inexiste responsabilidade por parte da transportadora em acidente de trânsito com vítima fatal.2002. o que não sucede na hipótese do fortuitus e da vis major. Dessa forma. pois. 30. não há falar em 203 LOPES. Curso de direito civil. rel. 9ª Câm. e não reconhecida.7. rel. o transportador só se exime de sua responsabilidade em casos excepcionais. j. como a ocorrência de força maior. uma vez que na conjuntura urbana e hodierna estes casos já são previsíveis. vol. 1995. a sua responsabilidade deve ser excluída pelo caso fortuito consubstanciado na culpa de terceiro (1º TACivSP. Tratando-se a prestação de serviços de transporte de um contrato de resultado. tendo de suportar os feitos da condenação.

rel. 8ª Câm. fica caracterizado caso fortuito ou força maior. pois caracterizado o fato de terceiro capaz de eliminar a relação de causalidade entre o dano e o desempenho do causador direto do ilícito (1º TACivSP. do Código Civil. j. 10ª Câm.190 culpa do transportador. Juiz Cerqueira Leite. ocorrendo o roubo de carga a mão armada. 12 Culpa exclusiva da vítima Pela letra do art.3. 204 205 Pela divergência sobre a matéria esse acórdão merece ser lido na íntegra.. rel. 2.. 2ª Câm. Des.2003.2004. No entanto. j. 21. 12.9. acarretando o dever de indenizar (TJRJ.1.2002. de forma a excluir a responsabilidade da empresa transportadora (1º TACivSP. A reiteração de assaltos no curso da viagem. deve-se nomear perito que faça a avaliação das jóias de forma devida.205 Se o atropelamento foi ocasionado em razão de o automóvel ter sido interceptado por outro veículo que cruzou de inopino trevo em rodovia. 28. (1º TACivSP. Juiz Rubens Cury. 6ª Turma. j. 2ª Câm. que já se caracteriza como fortuito interno. Des.9. inclusive por atos de terceiros. 22. o que demandaria previsão do risco e sua integração no preço do serviço. Maria do Carmo Cardoso: Em caso de roubo. in Boletim AASP 2195/351). já tornou previsível o evento. RT 814/227)204 Tratando-se de contrato de transportes. 186. sem qualquer providência das transportadoras. Ementa do voto vencido da Des. tem-se afastada a responsabilidade do motorista que atropelou as vítimas. rel. rel. . j. Não se pode dizer que.. Juiz Gonçalves Rostey.2203. é preciso uma ação ou omissão culposa do agente causador do dano. RT 822/383).1999.. a responsabilidade civil do transportador é objetiva. rel. uma vez que no contrato de mútuo com garantia pignoratícia leva-se em conta apenas o pesa das pedras e do metal (TFR da 1ª Região.10. se o objeto do contrato de mútuo com garantia pignoratícia não é a guarda e a segurança das jóias. para reduzir os riscos a que estão expostos os passageiros. para incidir na hipótese de indenização por responsabilidade civil. Há de se estabelecer o nexo de causa e efeito entre essa ação ou omissão e o evento danoso que atente contra direito da personalidade ou o patrimônio da vítima. RT 816/232). j. a instituição bancária deva indenizar o cliente por danos morais. Maria Isabel Gallotti Rodrigues. RT 827/271). José Carlos Varanda. ocorrendo um assalto à agência.

como assente no acórdão transcrito. Duas situações dessemelhantes podem ocorrer: a) agente direto do dano e vítima confundem-se na mesma pessoa. 381. Diferente não poderia ser. neste episódio. mas de sua exclusiva conduta. por fato da vítima quando o prejuízo por ela suportado devirá não da conduta do agente direto do dano. que ela mesma deu causa. ele não é senão mero instrumento do acidente. equiparável até ao caso fortuito. A culpa exclusiva da vítima na eclosão do evento danoso tem que ser cabalmente demonstrada. É o vetusto preceito do Digesto: quod quis ex culpa sua damnun sentit. vale dizer. pela inevitabilidade. arreda-se qualquer questão de responsabilidade civil. em que entra problema de responsabilidade civil. quem sofreu as consequências do fato. no intellegitur damnun sentire (quando alguém experimenta dano. . é motivo escusativo de responsabilidade civil o fato ou ato da própria vítima. de sorte que. recai a causa do acontecimento apenas sobre a conduta da vítima. além de não agir com culpa. 12. No primeiro caso. b) ou são diversos. improcede a ação de indenização (RT 263/146). não se entende que sofra dano). a solução é encontrada na velha parêmia romanística: res perit domino (a coisa se perde para o dono). por culpa sua. portanto. Responsabilidade civil – atropelamento e morte por ônibus – Culpa do motorista – Inexistência – Imprudência da vítima – Ação ajuizada pela viúva e filhos menores – Improcedência. que pressupõe causar prejuízo a outrem.2 Requisitos Para caracterizar o fato da vítima cuida-se a conjugação dos requisitos que lhe são inerentes. que se traduz na causa exclusiva do dano. entretanto. resolve-se pela aplicação da regra do art. na tentativa de suicidar-se. utilizou-se dos meios necessários para evitar o atropelamento. o nexo de causalidade fica eliminado em relação ao indigitado agente.191 Por isso. O motorista fica isento de compor o prejuízo se uma pessoa atira-se sob as rodas do veículo em movimento. não se presume. No segundo caso. extingue-se a obrigação. ou seja. pelo próprio conceito jurídico de dano. do Código Civil. Demonstrada a imprudência da vítima ao atravessar a via pública e comprovado que o motorista do ônibus. pois se a sua conduta é o único fato gerador do evento lesivo. Entende-se. a vítima absorve as consequências do dano.

. no fato de terceiro. art. Com isso amplia a incidência dessa causa de irresponsabilidade e. 944.208 Não aludem. Rui Stoco. o fato de terceiro influi na etiologia da responsabilidade civil. Terceiro. Segundo. Responsabilidade civil. 4º. 4 ed. em quaisquer de suas modalidades. o que se traduz em maior cobertura à vítima inocente. 3º. Tem que para caracterizar o fato de terceiro dois aspectos são relevantes: a) definir quem é o terceiro. para quem o terceiro requisito não vinga. precipuamente. articula que uma empresa de transporte urbano não responde pela morte do indivíduo que se joga intencionalmente sob as rodas do ônibus. p. Para ele a chamada culpa exclusiva da vítima corresponde ao ato ou fato exclusivo da vítima. Dessa forma. 207 DIAS. 320-321. 928. Da responsabilidade civil. 2006.206 Diferente José de Aguiar Dias. A ele não se pode cogitar de culpa. Se inimputável a causa de irresponsabilidade é outra. a vítima deve agir com culpa. também. e aumentada por Rui Berford Dias. para Aguar Dias. à culpa da vítima Antonio Lindbergh C. Montenegro. Rio de Janeiro: Renovar.192 Primeiro. para Serpa Lopes o inimputável está incluso no fortuito. 206-207. Curso de direito civil. isto é. revista e atualizada por José Serpa Santa Maria. que poderá acionar ou o próprio suicida ou o seu curador (CC. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. que o indigitado agente não labore com culpa. Caio Mário da Silva. pois desloca da vítima para si o nexo causal. vol. arts. porque é o seu comportamento a causa do dano. II) ou excepcional. se o suicida é um louco. portanto sua conduta deve ser sinetada pela licitude.207 Portanto. Assim é a lição de Serpa Lopes. Rio de Janeiro: Forense. Caio Mário não fala. também. III) sugere o caso fortuito. sem o necessário discernimento (CC.209 206 LOPES. Aqui reside uma das diferenças entre o fortuito e o fato de terceiro como será exposto logo em seguida. art. Carlos Roberto Gonçalves. 1995. revista. sem desenvolvimento mental completo (CC. b) e que a conduta desse terceiro é ativa. atualizada de acordo com o CC 2002. p. é inimputável. se quem causa o dano é um enfermo ou deficiente mental. II). em conduta culposa da vítima. que o fato da vítima seja ilícito e culpável. que elimina o nexo de causalidade. 932. a culpa deixa de ser exclusiva da vítima. p. 1991. imputável. De efeito. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. 11 ed. é necessário. Se de alguma forma contribui. 2 ed. e ser. para exemplificar. José de Aguiar. ao mesmo tempo. Miguel Maria de Serpa. lado senso. uma relação de causa e efeito entre o fato da vítima e o dano e que esse fato constitua a causa única e determinante do prejuízo. 208 PEREIRA.

– Escusa de cansar-se em me procurar os miolhos. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural Edições. Cunha Gonçalves: Deve notar-se que não constitui culpa o fato de uma pessoa se expor voluntariamente ao perigo. 191 e segtes. portam-se com certo grau de heroísmo empenhados na ajuda ao próximo vitimado. Do ressarcimento de danos pessoais e materiais. vol. ap. t.211 Este entendimento que coaduna com a ratio juris dessa causa de irresponsabilidade.643-4/1. também. 759. Entendeu a Corte que ocorreu a culpa exclusiva da vítima. por Caldas Aulete: Um homem pacato indo apartar uma desordem entre dois vizinhos. 14. diante da ausência de defeito da máquina e ter sido a falha humana da vítima o motivo do acidente. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência..193 12. Lisboa: Livraria Editoral [s. para livrar a si própria ou a outrem de perigo iminente. 19. p.]. 121. Tratava-se de um operário que operava máquina de prensar ferro e perdeu quatro dedos. 284-285. Cunha. op. cit. Surge a questão: em caso de experimentarem dano cabe-lhes indenização? Fica a resposta por conta de outro português. não pode atribuir a terceiro o seu dano. Privado. quem se fere ou queima em tão benemérito esforço. 211 Gonçalves. II. 210 AULETE. Dir. 2007. 209 MONTENEGRO. em 1925.210 Esta historieta de bom humor retrata fato senão corriqueiro pelo menos não pouco freqüente protagonizado por pessoas anônimas que. Veio o cirurgião curá-lo. Rui. Passagem interessante foi julgada pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. F.2002. 21 ed. concluindo: “era intuitiva a proibição do emprego das mãos durante o sistema automático de prensagem” (TJSP. Antônio Lindbergh C.3 Vítima que se expõe em perigo Outro fato que pode acontecer é a espontânea exposição da vítima a situação de perigo. em caso de calamidade pública. p. Júlio Caldas. Colhe-se interessante passagem colhida. XII. 3ª Câm. . atalhou o ferido. 1984.5.d. Des. p. porque quando me fui meter na bulha já os não tinha. e começou por examinar se lhe tinha ofendido o cérebro. expondo-se espontaneamente a situação de risco ou perigo. São Paulo: RT. 7 ed. rel. Selecta nacional: curso prático de literatura portuguesa. Ênio Santarelli Zuliani). inibe atos de solidariedade. p. como frequentemente sucede nos incêndios: mas. STOCO. j. quebrou-lhe um deles a cabeça.

4 Culpa concorrente Pode a vítima conduzir-se com culpa concorrente à do ofensor. 945. Culpa concorrente. por negligência. da empresa que explora a ferrovia. relatado pelo Ministro Cláudio Santos. que se a vítima concorreu culposamente para que acontecesse o dano. em 16 de fevereiro de 1998. e outro insiste em lhe fazer companhia. motores roncando. Mal conservado o muro que cerca a via férrea. Mas se sabe. quanto à ferrovia. também. em plena via pública. aqui. por imprudência.194 Hipótese mais complicada pode ser sugerida. da mesma Corte. por inobservância do dever legal de conservar muros e tapumes na linha férrea. Do corpo do acórdão destaca-se outra recurso. Sendo a culpa pelo acidente ferroviário imputável tanto à vítima. o atropelamento deste resulta de concorrência de culpa: do pedestre. o que não se aceita – porque malfere a equidade – é um tratamento desigual apenas pelo fato de um ter sofrido lesão. Ambos são co-participes de conduta ilícita. do Código Civil. Atropelamento por trem. Recurso especial conhecido e provido. dão início ao desatino. viabilizando a passagem de pedestre. as culpas concorrem em igual grau. até convencê-lo a permitir sua “carona”. a sua indenização será fixada levando-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do ofensor. O exemplo acima abre ensanchas para o estudo da culpa concorrente. Abalroamento de veículo em linha férrea. Sem dúvida. Não se ignora que é proibido transacionar com aleijões e ainda mais com a morte. por imprudência ao trafegar em passagens clandestinas. impende reconhecer o dever de . Um jovem sabidamente arrojado aos perigos da direção dispõe-se a participar de “racha”. e o jovem “caronista” é vítima de ferimentos graves. Responsabilidade civil. 12. que a cada um a sua própria culpa. que serviu de parâmetro: Direito Civil. a vítima se propôs ao perigo. A certa altura da tresloucada competição um acidente. No caso as duas partes contribuem na eclosão do evento danoso. Parece que. Responsabilidade civil. aceitou por antecipação grave risco que não afastava a perspectiva de redundar em evento lesivo. Forois ligados. Até pode achar maior grau do motorista. Anuncia o art. enquanto o outro saiu ileso. compensando-se. às desoras da noite. Partem para a aventura e se juntam a animado grupo contraventor da lei.

o hotel é responsável. a exigir.. no entanto. a imobilização de veículo sobre a pista. segundo a qual a parte que teve por último a oportunidade de evitar o dano. também menor. ingressou nessa cortina de fumaça e parou a sua condução sobre a pista de rolamento. a 7ª Câmara do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Julgava-se acidente de trânsito em que os pressupostos do réu atearam fogo no capim existente à margem da rodovia divisa com a sua propriedade. Resta. os dois fatos concorreram decisivamente para o evento. isto é. por sua vez. permitindo que o menor ficasse na companhia do irmão. j.2004. obstruindo a passagem de outros veículos. Do corpo do acórdão segue a seguinte conclusão: Na verdade. Ari Pargendler. O co-réu.195 indenizar proprocionalmente (STJ. é temerária a produção de fogo ao longo da rodovia e.2. o vulgarmente denominado “engavetamento”. acidentalmente. Em lugar de se apurar quem teve a última oportunidade. quem estava em melhores condições de evitar o dano. 6ª Câm. igualmente. caracterizada a culpa concorrente dos pais se estes falharam no dever de vigilância para com seus filhos. à espera do equipamento. RT 824/205). causando fumaça que invadiu a estrada. independentemente de culpa. o direito norte-americano elaborou a teoria da causa próxima: the last clear chance. rel. pela relatoria do Desembargador Nelson Schiavi. Tampouco . máxime quando o local não oferece visibilidade. assim interpretou esta teoria: Essa doutrina pode ser aperfeiçoada mediante sua transposição do tempo para o espaço. apesar da imprudência ou negligência da outra parte. Julgando apelação da Comarca de Santa Rita do Passa Quatro. o que se deve verificar é quem teve a melhor ou a mais eficiente. pela reparação dos danos ocasionados aos hospedes nas dependências do estabelecimento. também. 5. redobrada cautela destes. Des. j.5. de quem foi o ato que decisivamente influiu para o dano. 3ª T. Min. fato que possibilitou a ocorrência de sucessivas colisões. sofre acidente mortal em elevador de hospedagem. De resto. Magno Araújo. momento em que ocorreu o trágico infortúnio (TJSP. é responsável pelo evento. Outro caso ilustrativo foi julgado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Na prestação de serviços de hotelaria..2006. pois a densa fumaça provocada pelo fogo impedia a visibilidade dos motoristas. 16. RT 852/193-194). razão pela qual tem o dever de indenizar os pais de menor que. rel. Em casos tais.

Na abordagem dessas situações. porque se alguém tem a melhor oportunidade de evitar o evento e não a aproveita. torna o fato do outro protagonista irrelevante para sua produção. a causa direta e eficiente do evento foi a existência da densa fumaça. isto é. a circunstância de ter sido estacionado o veículo sobre a pista (RJTJESP. Esta preliminar não pode ser olvidada. p. a culpa sem a qual o dano não se teria produzido. revista. que não tinha conseqüências. Noutras palavras: a culpa grave necessária e suficiente para o dano exclui a concorrência de culpa. pois. 2006. Da responsabilidade civil. também. Isso é exatamente uma consagração da causalidade adequada. foi decisivo para o evento danoso. e aumentada por Rui Berford Dias. deixa de ser relevante. ou mesmo de minorar o já consumado. já que essa não foi a causa do evento. de si só. 11ª ed. determinasse. embora culposa e porventura interveniente. vol. Para concluir: O que se deve indagar é. atualizada de acordo com CC de 2002. quer por atos positivos ou por omissões. José de Aguiar Dias. José de Aguiar. que a outra. qual dos fatos.212 Há casos em que não se pode afastar a concorrência de culpas. o acidente. se não tivesse intervindo outro ato imprudente. O julgado induz a discutir situações em que. uma exclui a outra. isto é. 149) Dessa forma.4 Critério para fixação da indenização À vítima impõe o dever de evitar o aumento do dano. 4. 946.196 procede a alegação de que um dos acidentes ocorreu em razão de não ter o preposto da autora guardado distância de segurança em relação ao veículo que lhe seguia à frente. provocada pelo fogo ateado à margem da rodovia. Na realidade. É quando uma delas é tão decisiva na intervenção do evento danoso. ambos foram condenados na composição da reparação. ainda que imprudente. completado por ele. mas a melhor oportunidade e não a utilizou. . 212 DIAS. qual dos atos imprudentes fez. 99. aceita a culpa concorrente. por vezes. e. não se deve falar em concorrência de culpa. leciona: Consideramos em culpa quem teve não a last chance. e aí adbrolha o problema da fixação do quantum debeatur. Rio de Janeiro: Renovar. embora haja culpa das duas partes. ou culpas. Pensamos que sempre que seja possível estabelecer inocuidade de um ato. com que o outro. que inspira o acórdão acima transcrito. p.

por existir maior gravidade de uma das culpas. do Código Civil: “Se duas pessoas forem ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra. . 4 ed. como se as culpas forem díspares. revista e atualizada por José Serpa Santa Maria. logo esta carece de legitimidade para pedir a cobertura dos danos experimentados. 209-210. Diferente se as responsabilidades forem desiguais. cada um responde como incurso em uma condenação por perdas e danos na proporção e na medida da culpa que lhe for imputável. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. b) que os danos também sejam iguais. sustentando que ambas suportariam os mesmos encargos. Do Direito Romano vem o critério da compensação. p. que pode ser ilustrado pela sentença bíblica proferida por Salomão que. a compensação é meio de pagamento indireto como consta da letra do art. e muitas vezes obscuras em cada caso concreto. O princípio básico desse critério é que as culpas se compensam reciprocamente. ensina Serpa Lopes. até onde se compensarem. Ao juiz a difícil tarefa de determinar a medida e a proporção da contribuição de cada uma das culpas na eclosão do dano. 1995.197 Posto o dever da vítima. vol. V: Fontes acontratuais das obrigações – Responsabilidade civil. porque imputáveis tanto ao agente do fato como à vítima. o que faz surgir o outro critério. não sobrando margem para qualquer condenação por perdas e danos. as duas responsabilidades se neutralizam e se compensam. não há lugar para compensação. A primeira contemplação não difere. São seus pressupostos: a) uma lesão para a qual contribuíram a culpa da vítima e a do causador direto do dano. Curso de direito civil. Miguel Maria de Serpa. pendia pela divisão igualitária. Aqui. 368. variadas e complicadas. desenvolvido magnificamente por Demolombe ao comentar o Code Napoléon. em 1882. tendo em vista as circunstâncias. Critério talvez mais técnico com certeza mais completo. na falta de um destes pressupostos. Se as duas partes estiverem em posição de igualdade quanto as suas respectivas culpas. b) que as culpas de ambas as partes sejam do mesmo grau. cumpre relatar os dois critérios encontrados na doutrina. as duas obrigações extinguem-se.” Porém. no caso das duas mães. Aliás.213 213 LOPES. é o da partilha proporcional dos prejuízos.

» . em face do já exposto princípio da independência entre as duas instâncias de justiça: cível e criminal: “A condenação de motorista na justiça criminal não impede que na ação cível de indenização seja declarada a concorrência de culpa. RT 609/112). 23. a culpa concorrente da vítima. Responsabilidade civil do Estado – Indenização – Morte em virtude de suicídio – Comprovação no juízo criminal – Aplicação do art. cabe ao tribunal determinar. no entanto. j. do Código das Obrigações da Suíça. com base na gravidade das culpas de ambas as partes e nas circunstâncias que delas resultaram. 1. como matéria de defesa. 214 Sob a rubica « Réduction de l’indemnite » o Código das Obrigaçoes suiço tem a seguinte regra : “Art. reconhecida – Redução proporcional do valor indenizatório. mesmo se o causador direto do dano tenha sido condenação no crime. Se a vítima não age com a cautela necessária para atravessar a rua em local apropriado. se a indemnização deve ser totalmente concedida. 6ª Câm. vindo a ser atropelada.214 Assim também o Código Civil português: “Art. Responsabilidade civil do Estado – Indenização – Evento danoso causado pela própria vítima – Inexistência de ato do Poder Público passível de causar dano. 570º.31986.. 44: Le juge peut réduire les dommages-intérêts. ou qu’ils ont aggravé la situation du débiteur. Jurisprudência Responsabilidade civil – Atropelamento – Vítima de idade avançada e de constituição física débil – Falta de cautela para atravessar a rua – Fato que não elide a responsabilidade – Culpa concorrente. reduzida ou mesmo excluída.5 Condenação criminal Não fica arredada a possibilidade de se articular. à l’augmenter. não elidem a responsabilidade. portanto.” 12. Quando um facto culposo do lesado tiver concorrido para a produção ou agravamento dos danos. em razão da culpa concorrente. Ementa Oficial: Se o juízo criminal reconheceu categoricamente que a morte da vítima decorreu de suicídio. sendo. 44.198 É a solução encontrada no art. A idade avençada da vítima e a debilidade de sua constituição física.525 do CC (de 1916) [atual art. impõe-se a aplicação do disposto no art. ou même n’en pont allouer. 935]. pois o causador do prejuízo é obrigado a suportar os riscos da receptividade pessoal da mesma (1º TACivSP. justificável a redução proporcional do valor indenizatório. como concausas. na hipótese em que as vítimas agiram culposamente.525 do CC. os prejuízos devem ser somados e o total repartido entre elas na proporção à gravidade de suas respectivas culpas. 1. quando demonstrada a imprudência da vítima (RT 439/112). concorre para o evento. lorsque la partie lésée a consenti à la lesion ou lorsque des faits dont elle est responsable ont contribué à créer le domange. 1.

recusou-se a dali sair. da CF. consistente no dano sofrido pela vítima. 3ª T. a despeito da aproximação da locomotiva cujo maquinista efetuou vários sinais sonoros antes de atropelá-la. RT 834/339). acarretando o dever de indenizar os danos morais e materiais decorrentes.. 24. II. 2. Des. sentada na linha de trem. 14. rel. 5.2002. rel. Antonio Guerreiro Júnior. Ação indenizatória – Responsabilidade civil – Acidente do trabalho – Culpa exclusiva da vítima – Ausência de comprovação do nexo de causalidade entre o dano sofrido pelo empregado e a conduta do empregador – Verba devida. j. 37. 17. daí inexiste ato do Poder Público passível de causar dano (TRF.2001. é de se manter a sentença que julgou improcedente a ação de indenização (TJMA. Juiz Barreto de Moura. RT 812/233). Ementa da Redação: Não há de falar em dever de indenizar se o acidente ferroviário ocorreu por culpa exclusiva da vítima que.. Juiz Evandro Reimão dos Reis. Juiz Rubens Cury. j.2004. Acidente ferroviário – Responsabilidade civil – Ação Indenizatória – Sinistro que resultou na morte da vítima – Fato que não enseja o dever de indenizar em razão do evento ter ocorrido por culpa exclusiva da vítima que. RT 808/429). 2002. por falta de atenção – Verba indevida. rel. do Dec. j. na culpa do agente e no nexo de causalidade. j. Indenização. Ementa da Redação: O atropelamento fatal de transeunte que atravessa a linha férrea enseja a responsabilidade civil objetiva. uma vez que não demonstrada a culpa exclusiva ou preponderante da vítima (1º TACivSP. . Acidente ferroviário – Responsabilidade civil – Ação indenizatória – Danos materiais e morais – Atropelamento fatal de transeunte que atravessa linha férrea – Inexistência de culpa exclusiva ou preponderante da vítima – Fato que enseja a responsabilidade objetiva ao dever de indenizar.7. § 6º. já que esse não podia desviar o trem das linhas de sua locomoção (1º TACivSP. Acidente de Trânsito – Indenização – Queda de passageiro ao descer do veículo – Alegação de que este foi posto em movimento durante o desembarque – Inadmissibilidade – Provas que demonstram que o veículo estava parado quando da queda – Fato atribuível unicamente à demandante. Ementa Oficial: Apelação cível. 1ª Região. rel. 2ª Câm. que o acidente ocorreu por culpa exclusiva da vítima. Ementa Oficial: A ação de indenização com fundamento na responsabilidade civil a certeza há de vir na tríplice realidade. RT 810/260).199 Ementa Oficial: É incabível indenização com fundamento no art.6. 8ª Câm. Responsabilidade civil. Acidente de trânsito. Estando comprovado nos autos.. sentada na linha de trem.681/12. se o evento danoso foi provocado exclusivamente pela própria vítima. 30.12. recusou-se a dali sair.10. a despeito da aproximação do locomotiva cujo maquinismo efetuou vários sinais sonoros antes de atropelá-la – Inteligência do art.. 7ª Câm.

Sumário da exposição. Des. 2 Ordem pública e bons costumes. 10. por exemplo. 11 Conclusão. 185. 6 Conceito. P. Alegação de que este foi posto em movimento durante a descida da demandante. rel. RT 854/332). e em que tempo sempre no interesse do contratante. Mas a abstenção de contratar padece temperamento imposto pela lei. 9 Outros limites. 5.. VER STOCO P. Cív. VER RT 543/100 Cláusula de não indenizar 1. como no caso do seguro obrigatório. ou não. 8 Incidência na responsabilidade civil contratual.200 Queda de passageira ao descer do veículo. 12ª Câm. A liberdade de contratar implica na escolha de contratar. a saber: a) liberdade de contratar: b) liberdade de com quem contratar. R. 7 Denominação.2006. j. está na premissa de que o contrato é um acordo de vontade e o indivíduo somente contrata com quem quiser. Ausência de nexo de causalidade entre os danos e a conduta do preposto da empresa ou as condições do veículo. Cláudio Baldino Maciel. Fato atribuível unicamente à demandante. c) liberdade de fixar o conteúdo do contrato. .8. Distinção entre normas cogentes e dispositivas. Fato absolutamente afastado pela prova. 732 C. nos serviços públicos ou privados concedidos sob regime de monopólio. 10 Limites legais. Autonomia privada. suscitando efeitos jurídicos reconhecidos e tutelados pela ordem jurídica. GONÇALVES. por falta de atenção (TJRS. A liberdade de com quem contratar. por meio de acordo de vontade a disciplinar os seus interesses. que demonstra que o veículo estava parado quando da queda. 3. 4 Obrigação principal e acessória. 12 Cláusula limitativa do dever de indenizar. 72 1 Autonomia privada O princípio da autonomia privada oferece aos contratantes o poder de livre escolha das estipulações contratuais como melhor lhes convier. mas também importa exceção. 750 LIMONGI FRANÇA P. que é a escolha do outro contratante.

próprias da natureza jurídica do negócio jurídico que celebram. Toma-se o contrato de adesão. são os relativos à ordem pública e aos bons costumes. pois ambos poderão produzir efeito cascata sobre toda a economia. por força da função social do contrato. A cada contratação por adesão. o Código de Defesa do Consumidor preveja a tutela coletiva dos interesses difusos. isto são as regras da justiça donde necessariamente resultará. na Encíclica Quardagesimo Anno: Enfim as públicas instituições adaptarão a sociedade inteira às exigências do bem comum. dessa forma. que essa função tão importante da vida social. Urge considerar. diga-se preliminarmente. coletivos e individuais homogêneos. 10 Ordem pública e bons costumes Conceitos abertos. é lícito aos contratantes introduzirem no contrato alterações ou cláusulas que melhor se coadunarem com os seus interesses. não fáceis de serem estabelecidos com precisão e nitidez. encontra limites na supremacia da ordem pública e dos bons costumes. em outras palavras. 9 A função social do contrato A função social do contrato. 5º. ampliando ou restringindo os efeitos jurídicos do vínculo contratual. Bem por isso. XXIII. a cláusula de não indenizar. Sendo assim. inc. em que todas as pessoas estão expostas a sua oferta ou publicidade. se encontrará por sua vez reconduzida a uma ordem sã e bem equilibrada. . dando origem. o interesse coletivo poderá ser afrontado. 421). qual é a atividade econômica. A uma. contendo cláusula abusiva. debalde a sua natureza privada. A duas. aos denominados contratos inominados ou atípicos. por identidade dialética guarda correlação com o princípio social da propriedade. e mesmo adotando novos tipos contratuais. art. que é a escolha de uma das modalidades de contrato reguladas pela lei.201 A liberdade de fixar o conteúdo do contrato manifesta-se sob duas vertentes. distintos daqueles previstos em lei. os contratantes podem escolher um contrato nominado ou típico. repercutem socialmente. justo ou injusto. Vale lembrar importante lição do Papa Pio XI. que essa liberdade contratual encontra limites na função social do contrato (CC. os contratos. resulta efeito de interesse coletivo. O contrato. a que se refere à Constituição Federal no art.

destarte. denominadas de dispositivas ou facultativas. todas as normas de ordem pública.215 11 Distinção entre normas cogentes e dispositivas Sobre a distinção entre as normas cogentes e dispositivas. Assim. é espécie. Clovis.202 Por ordem pública entende-se a situação de legalidade normal. p. Certo é. atual. assegurando tranquilidade e segurança aos cidadãos e aos seus bens. inderrogavelmente. o ordenamento jurídico determina-lhes efeitos. Rio de Janeiro: Rio. são as normas supletivas de direito objetivo. Não se confunde com a ordem jurídica. 1980. As leis que tutelam a ordem pública e os bons costumes são normas de direito objetivo que se impõem como preceitos rigorosos. os quais timbram a conduta das pessoas na vida familiar e social. Teoria geral do direito civil. Possuem uma obrigatoriedade incondicionada. a vontade geral. uma vez que se referem ao recato das pessoas. por Caio Mário da Silva Pereira. para que se relacionem em consonância às elevas finalidades que caracterizam o ideal da própria vida humana. através das quais à vontade individual sobreleva-se. inferidos dos preceitos morais. Seu campo de ação é o reservado à autonomia privada. o legislador tende a imprimir esse maior grau de eficácia à disciplina de um número sempre crescente de relações. São chamadas de cogentes ou imperativas. É da natureza de cada disposição. 18 e segtes. . que esse caráter resulta. Sobre elas dizem os romanos: privatorum conventio iuri publico non derogat (a convenção dos particulares não derroga o direito público). mas deriva dela. à honestidade das famílias e à dignidade ou decoro social. princípios condizentes com a moral e a ética social. outrora. que. São. exercida pelo poder soberano do Estado e aceita pela comunidade ante o fato de criar condições essenciais a uma vida social conveniente. pois apenas são aplicadas quando a vontade individual deixa de se manifestar. eram regidas pelas normas meramente dispositivas do direito privado. mas permite que a iniciativa das partes altere esse tipo de relação de modo diverso. que. por via de definição ou conceito geral. contudo. 2 ed. 215 BEVILAQUA. submetendo ao seu comando a vontade dos particulares. insuscetível de alteração ou de inaplicação pela vontade dos que lhes estão subordinados. da natureza das relações contempladas e das razões sociais determinantes de cada norma. no direito moderno. Já os bons costumes são princípios reconhecidos e tutelados pelo direito. Vicente Ráo escreve: Não é possível indicar a priori. Ao lado delas existem outras.

203 Por exemplo, a maior parte das relações de família é hoje regulada por normas de ordem pública, em especial as que, neste sentido, também se vem operando no direito obrigacional, em especial nos contratos de trabalho, de mútuo, de seguros, mesmo na compra e venda, na locação e em outros contratos mais; e igualmente sensível é a transformação, em curso, dos direitos reais e sucessórios, que sofrem, todos, inúmeras restrições, impostas à vontade das partes em benefício da comunhão social.216 Enfim, não há critério absoluto de distinção, contudo as normas cogentes, via de regra, são as constitucionais, as que se referem às bases econômicas ou políticas da vida social, como ainda as de organização da propriedade; outras vezes, são protetoras da pessoa na vida social, como as de capacidade; outras sancionam os direitos individuais e sociais, como as penais e processuais; ainda outras têm feição de polícia judiciária, sempre que rejeitam as ofensas aos bons costumes; por fim há uma classe que assume a feição de ordem pública, em razão de derivar, necessariamente, da essência de um instituto jurídico estabelecido, como aquela que impõe o dever de convivência dos consortes, consectários imediato do casamento.217 12 Obrigações principais e acessórias Dentro desse quadro é que se formam as obrigações e se pode afirmar que, ordinariamente, elas são autônomas, providas de existência própria, são as principais. Excepcionalmente, porém, há obrigações que dependem de outras, são as acessórias, aquelas cuja existência pressupõe a das principais. 13 Sumário da exposição Na aplicação dos conceitos expostos, reiteram-se as premissas da cláusula de não indenizar: a) É eleita pelas partes contratantes dentro do princípio da autonomia privada, por isso própria da responsabilidade civil contratual; b) Não pode contrariar a ordem pública e os bons costumes; c) Não pode modificar as normas cogentes ou imperativas, portanto seu âmbito de incidência são as normas dispositivas ou facultativas;
216

RÁO, Vicente. O direito e a vida dos direitos, 4 ed., anotada e atualizada por Ovídio Rocha Barros Sandoval. São Paulo: RT, 1997, p. 213. 217 BEVILAQUA, Clovis. Teoria geral do direito civil, 2 ed. atual. por Caio Mário da Silva Pereira. Rio de Janeiro: Rio, 1980, p. 19.

204 d) É uma obrigação acessória que adere à principal. 14 Conceito Praticado o ato ilícito, decorre como consequência natural das regras morais e da ordem jurídica, o dever de indenizar o dano dele originado, mas ao agente é permitido, eventualmente, invocar a cláusula de não indenizar para, dessa forma, eximir-se do ressarcimento. A cláusula de não indenizar pode assim ser conceituada como a convenção acessória à principal celebrada entre as partes contratantes, que estabelece a isenção da reparação de eventual dano, futuro e involuntário, por inexecução relativa ou absoluta de uma obrigação. É dizer, ficam arredadas as consequências ordinárias procedentes da inexecução ou da execução imperfeita de um contrato; logo, o devedor alforria-se da reparação do dano que, no futuro, vier a ocasionar involuntariamente no âmbito das relações contratuais. Cita-se, por exemplo, o recurso especial 13.027-RJ, da 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, relatado pelo Ministro Waldemar Zveiter: Danos causados a veículos, em estacionamento de condomínio, cuja convenção contém cláusula de não indenizar, não são ressarcíveis. Isto proque, tratando-se de direito disponível, a cláusula de irresponsabilidade é emanação da liberdade de contratar; todavia, sujeita-se às restrições impostas pela ordem pública. Só pode ser estipulada quando a regra legal aplicável, meramente supletiva da vontade das partes, admite livre manifestação destas (no mesmo sentido REsp. 168.346, rel. Min. Waldemar Zveiter, DJ 6.9.1999). 8 Denominação Cuida-se relembrar a distinção entre obrigação e responsabilidade. Aquela é o dever originário que tem por fonte a lei ou o contrato; esta é um dever sucessivo, decorrente da violação do dever originário. Só há responsabilidade quando do descumprimento de uma obrigação. Sendo assim, a cláusula de não indenizar não afasta a responsabilidade, apenas prevê, pela convenção das partes, a não reparação do dano pela violação da obrigação. Não se cogita de cláusula de irresponsabilidade, mas de cláusula de não indenizar. Não cabe confundir, destarte, as causas de irresponsabilidade com a cláusula de não indenizar. Nas primeiras afasta-se a própria responsabilidade, não há ato ilícito. Entre a ação ou omissão do agente e o dano experimentado pela vítima inexiste nexo de causalidade. Na segunda afasta-se, tão somente, a indenização do dano, fica presente o ato ilícito. Por outro ângulo, as

205 causas de irresponsabilidade fundam-se na lei; enquanto que a cláusula de não indenizar, no princípio da autonomia privada e na liberdade de contratar. 9 A incidência na responsabilidade contratual A cláusula de não indenizar não incide em matéria delitual, isto é, na responsabilidade civil extracontratual, pois as partes nada contratam. Aliás, admiti-la nesta seara, é enfraquecer o dever objetivo de conduta que a lei impõe na vida em sociedade. Seria como que convencionar, de modo geral, que a culpa não é culpa, e o mais grave, que o dolo não é dolo. A questão é, entretanto, controvertida. O mais insigne doutrinador pátrio de responsabilidade civil, José de Aguiar Dias, aceita a cláusula em matéria delitual, ao citar o exemplo dos irmãos Mazeaud, na qual o titular do direito de caça tem como prováveis certos danos às culturas ou plantações do respectivo terreno. O proprietário concedendo-lhe, porém, o direito de caçar, estará a lhe propor estipulação de não indenizar. Louva-se ainda de outra passagem, esta da pena de Josserand, que observa nada impedir que os vizinhos renunciem, por convenção, a demandarem por danos que nos seus respectivos terrenos causem animais de criação ou de caça. E acrescenta que a ordem pública não é transgredida por esse modus vivendi que, ao contrário, visa assegurar a harmonia da vizinhança.218 Já posteriormente, é peremptório: “Não se admite cláusula de exoneração de responsabilidade em matéria delitual. Seu domínio se restringe à responsabilidade contratual e nele mesmo sofre restrições.”219 Mais conveniente, assim a opinião dominante, que essa cláusula é própria da responsabilidade civil contratual.220 Não sendo prevista no Código Civil revogado, nem no atual, a doutrina e a jurisprudência buscam subsídios no direito comparado.
218

DIAS, José de Aguiar. Cláusula de não-indenizar: chamada cláusula de irresponsabilidade, 4 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 242. 219 DIAS, José de Aguiar. Da responsabilidade civil, 10 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1995, vol. II, p. 671. Esta obra revista, atualizada de acordo com o CC de 2002, e aumentada por Rui Berford Dias, 11 ed., Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 906, acresce a expressão: “em princípio”, o que leva a entender que ameniza a afirmação original. 220 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Responsabilidade civil, 2 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1991, p. 325 e ss. GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade civil: doutrina, jurisprudência, 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 744 e ss. CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade civil, 7 ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 497 e ss. VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: responsabilidade civil, 9 ed. São Paulo: Atlas, 2009, vol. 4, p. 61. GAGLIANO, Pablo Stolze e outro. Novo curso de direito civil, vol. III: responsabilidade civil, 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 118.

206 O Código Civil italiano estampa previsão expressa no art. 1.229, inserido que está em matéria contratual, por conseguinte refere-se ao devedor, dispondo sua nulidade em caso de dolo ou culpa grave. Nesse norte, é a jurisprudência francesa. Admiti-la na culpa grave e no dolo seria como que assegurar a impunidade às ações e omissões danosas de maior gravidade, o que malfere a própria ideia de ordem pública.221 Se o dolo é a intenção de causar o dano, admiti-la seria o mesmo que aceitar, da parte isentada, a contratação com a prévia intenção de não cumprir a prestação obrigacional; seria incentivar a má-fé. Se a culpa grave é a incivil ausência de vigilância, ou a correspondente falta extraordinária de atenção que se identificaria no caso de que qualquer pessoa pudesse prever o resultado, seria permitir que se atuasse na vida social sem a mínima solicitude, sem o mínimo desvelo ou cuidado de não produzir dano a outrem. E o neminem laedere é uma regra fundamental de toda sociedade civilizada, ou a “regra moral elementar”, no dizer de Georges Ripert.222 Demais disso, vem desde o Direito Romano a sentença: culpa lata dolus equiparatur. Acerca da culpa grave, Aguar Dias, arrimado em Cassvan, criva categoricamente: Admitir que, salvo prova do dolo, a culpa seja afastada pela cláusula parece-nos contradizer a própria ideia da ordem pública. Não é tanto em virtude da responsabilidade delitual, mas da necessidade de impedir o devedor de praticar negligencias por demais grosseiras – o que seria imoral – que se deve deduzir a proibição da cláusula.223 Sílvio Rodrigues é peremptório quanto ao dolo: Seria da maior imoralidade admitir-se a ideia de alguém fugir à responsabilidade pelo inadimplemento da avença, por sua deliberada e exclusiva decisão. Aliás, na hipótese a cláusula seria ineficaz em virtude do disposto no art. 115 do Código Civil [atual art. 122], que veda as condições potestativas. E arremata quanto a culpa grave: [...] parece imoral admitir-se a isenção de uma responsabilidade, quando o inadimplemento foi gerado em falta inescusável do contratante. Daí a razão

221 222

CAVALIERI NETO, Sergio. RIPERT, Georges. A regra moral nas obrigações civis. Campinas: Bookseller, 2000, p. 205. 223 DIAS, José de Aguiar. Cláusula de não-indenizar: chamada cláusula de irresponsabilidade, 4 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 100-101.

vol. [s/d]. 2000. Bueno Aires: Editorial BS Aires. pois contraria à essência e ao próprio objeto da convenção (RT 670/73).. Sílvio. 224 225 RODRIGUES.224 Em ambos os casos há uma concordância da moral e da ordem pública na imposição de uma censura à pertinência dessa cláusula exonerativa da indenização. Se alguém escolhe guardar o seu carro em um estabelecimento aberto ao público. p. Tratado de derecho civil argentino. vol. . t. A cláusula contratual que exclua a responsabilidade do estacionamento por danos eventualmente ocorridos no bem ali depositado não pode prevalecer. ao invés de deixá-lo exposto no meio fio da rua. 80.225 15 Outros limites A cláusula em testilha revela-se inoperante se afastar obrigações essenciais do contrato. p. 4. 181-182. mostrando-se aplicáveis à espécie as mesmas regras disciplinadoras do contrato de depósito. I. III. São Paulo: Saraiva. Raymundo M. Voz discordante SALVAT. é porque pretende que seja guardado com segurança. assim inoperante a cláusula de não indenizar em caso de furto ou roubo.207 por que. Seria como assumir uma obrigação e se furtar a cumpri-la. Direito civil. no respeitante a seus efeitos pode-se dizer que a falta grave ao dolo se assimila. É da jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: O dever de indenizar decorrente da simples guarda da coisa.

208 .

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