SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE

UNESP – Universidade Estadual Paulista UNESP – São Paulo State University Reitor Prof. Dr. Marcos Macari Vice-Reitor Prof. Dr. Herman Jacobus Cornelis Voorwald Pró-Reitoria de Pós-Graduação Profa. Dra. Marilza Vieira Cunha Rudge Pró-Reitoria de Pesquisa Prof. Dr. José Arana Varela FACULDADE DE HISTÓRIA, DIREITO E SERVIÇO SOCIAL Diretor Prof. Dr. Ivan Aparecido Manoel Vice-Diretor Prof. Dr. Fernando Andrade Fernandes Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social Profa. Dra. Claudia Maria Daher Cosac Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social Prof. Dr. Pe. Mário José Filho

UNESP – Universidade Estadual Paulista UNESP – São Paulo State University

SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE

Serviço Social & Realidade

ISSN 1413-4233 Franca v.16, n.2 p.1-338 2007

SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE Comissão Editorial

Profa. Drª Claudia Maria Daher Cosac (Presidente) Prof. Dr. Pe. Mário José Filho Profa. Drª Maria Ângela Rodrigues Alves de Andrade Prof. Dr. José Walter Canôas Profa. Drª Raquel Santos Sant’Ana Profa. Drª Neide Aparecida de Souza Lehfeld Prof. Dr. Paolo Nosella (Universidade Federal de São Carlos) Profa. Drª Lizete Diniz Ribas Casagrande (USP) Profa. Drª Luzia Aparecida Martins Yoshida (UNICAMP) Profa. Drª Eloísa Cerdan Del Lama (Tradução CERDAN) Prof. Dr. Frederico A. Alem Barbieire (FEI/S. Bernardo do Campo/SP) Prof. Dr. Clifford Andrew Cliff Welch (State University Allendare/EUA)
Publicação Semestral/Semestral publication Solicita-se permuta/Exchange desired

Correspondência e artigos para publicação deverão ser encaminhados a: Correspondende and articles for publicacion should be addressed to:
Faculdade de História, Direito e Serviço Social Rua Major Claudiano, 1488 CEP 14400-690 - Franca –SP Endereços Eletrônico / email publica@franca.unesp.br

SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE (Faculdade de História, Direto e Serviço Social – UNESP) Franca, SP, Brasil, 1993 1993 – 2007, 1 – 29 ISSN 1413-4233

APRESENTAÇÃO
O Serviço Social neste início de milênio, vem passando por inúmeras transformações, que instigam a profissão sob múltiplos aspectos a buscar a compreensão das expressões e manifestação da questão social, para a leitura da realidade social. Novas temáticas e desafios postos aos sujeitos sociais são apresentados pelos autores desta edição. Os artigos trazem reflexões sobre o papel do profissional em lidar com as questões do cotidiano, com discussões sobre o mundo do TRABALHO – SAÚDE – SEGURIDADE SOCIAL – CIDADANIA, bem como a fundamentação teórica acerca da compreensão da realidade na contemporaneidade. Queremos aqui destacar a importância dos diversos autores na condução de suas reflexões, na direção de, a partir de uma determinada realidade eminentemente interventiva, buscarem através de suas pesquisas enveredar pelo caminho da construção do conhecimento “do” e “em” Serviço Social. Todos os textos tangenciam como pano de fundo as relações sociais no mundo do trabalho e a dimensão teóricometodológica do Serviço Social na efetivação dos direitos da população, enfatizando o compromisso da profissão. Podemos ainda dizer que os artigos aqui apresentados desencadeiam a discussão e o processo de reestruturação orgânica da política pública da Assistência Social, levando os leitores à reflexão para construírem um “lócus” privilegiado de intervenção; aproximando-se ao máximo do cotidiano da vida das pessoas.

Por último queremos parabenizar os autores pela abertura e disposição em socializar seus conhecimentos na perspectiva da interdisciplinariedade, gerando novos conhecimentos. Prof. Dr. Pe. Mário José Filho

Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social – UNESP – Franca

............ Regina Célia Arruda de Almeida Prado VALENTIM .... Maria Isabel Silva APARECIDO....... Telma Sanchez VENDRUSCOLO .......... • Os agentes multiplicadores e representantes de Associações do Brasil na área de anomalias craniofaciais: a inclusão digital em pauta The multiplier and representative agents of associations of brazil in craniofacial anomalies area: the digital inclusion on the agenda 87 Michelle Karen de Brunis FERREIRA....... • Trabalho e qualidade de vida de pessoas com fissura labiopalatina inseridas no mercado profissional em Bauru 57 Work and quality of life of people with labiopalatine cleft inserted at the professional market in Bauru Lívia Ribeiro Silva dos SANTOS........ • “Continuo preocupada”.............. Eliana Fidêncio de Oliveira Serviço Social & Realidade...... Franca............................ Silvana Cunha KOHN.. Adalina Duarte de FREITAS..... Silvana Cunha KOHN.......... Silvana Helena Balthazar GAUDÊNCIO . • A percepção dos cuidadores sociais de crianças em abrigos em relação ao processo do cuidar Cláudia Maria Leal MARQUES........................ Maria Inês Gândara GRACIANO........ 2007 129 7 ............ 16(2): 1-338......... (10 anos depois): aspectos psicossociais de mulheres com dupla jornada de trabalho Cléria Maria Lobo Bittar Pucci BUENO ................ Silvana Aparecida Maziero CUSTÓDIO.......... (10 years later): psychosocial aspects of women with a double day of work 43 Gisele Aparecida BOVOLENTA..........SUMÁRIO/CONTENTS • Perda da Identidade Civil: o resgate à cidadania Loss of the civil identity: the rescue to the citizenship... 23 “I remain concerned”........ Maria Aparecida Mendes SOARES ........... • A (des)proteção social do trabalhador: os casos de acidente de trabalho The social (dis) protection of the worker: the cases of labor accident 11 The perception of the social caretakers of children in shelters in relation to the process of taking care.. Maria Aparecida Tedeschi CANO..

........... Denise Freitas DORNELLES .. Serviço Social & Realidade....... • O papel do CRAS na efetivação da seguridade social enquanto 195 sistema de proteção social The hole of CRAS in effectveness of the social security while a system of social protection Edilene ............................. Paulo Henrique Miotto DONADELI ............. LOPES 207 • Direitos humanos e pobreza na sociedade contemporânea: não há equação possível Human rights and poverty in the contemporary society: there is no possible equation................................................................................. • Determinismo e práxis: o dualismo do método de Marx Determinism and praxis: the dualism of marx's method Gustavo ........................................................................................... 16(2): 1-338............................... Claudia Maria Daher Cosac ..... MENEGHETTI 283 • A organização política do Serviço Social no Brasil: de “Vargas” a “Lula” The political organization of the social service in brazil: from “Vargas” to “Lula”.............................. 2007 8 ................................ Claudia Maria Daher COSAC . • As políticas municipais de apoio ao estudante de ensino superior e seus benefícios sociais The municipal politics of support to the student of higher education and their social benefits 181 Regina Maura REZENDE.......... • A responsabilidade social empresarial: em busca da eficiência The business social responsibility: in search of the efficiency 161 Patrícia Rachel Pisani MANZOLI....................... Franca. 235 • Por uma abordagem contemporaneidade sistêmica na compreensão da 263 For a systemic approach in the understanding of contemporaneity Dimas dos Reis RIBEIRO..................................MENDES .......

............................................... Subject .................... 16(2): 1-338...................... Diálogo sobre o conhecimento Marcelo de ............................................................................................................... Index 335 • MORIN.......................... Normas para Apresentação de Original ....... 2007 9 ... Índice de Assuntos ............................ 299 RESENHA/REVIEW 305 329 ALMEIDA 331 333 SOCIALIZANDO ....................................... Índice de Autores/Authors Index ...................... Edgar..............................................Maria Izabel da SILVA ............................................... Serviço Social & Realidade........................................... Franca........

.

Urgência/Emergência. Estadual e Municipal. atribuindo responsabilidade aos governos Federal. sendo planejada e sistematizada pelo SUS (Sistema Único de Saúde). pronunciados pelo paciente num momento de alteração comportamental. • Introdução A política de saúde brasileira. vítimas de violência urbana. o Serviço Social da Unidade de Emergência Referenciada. Cidadania. Serviço Social & Realidade. municipalização e no controle social que se dá via conselhos. Esses pacientes. A Unidade de Emergência Referenciada da UNICAMP (antigo Pronto-Socorro) realiza seus atendimentos baseando-se nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Pública. investigar. INSTITUIÇÃO: Serviço Social – Unidade de Emergência Referenciada – Hospital de Clínicas/ UNICAMP. Cabe ao Serviço Social através de seu protocolo de atendimento. que avançou a partir da Constituição Federal de 1988. embasado no eixo da descentralização. bloqueando sua própria identidade. afetivo. devido ao impacto. tornando difícil o resgate à sua rede de relacionamento familiar e social. 2007 11 . ou com distúrbios psiquiátricos. e na SUAS (Sistema Único de Assistência Social) o que remete ao atendimento médico e social em grande escala e diversidade de proveniências e * Assistentes Sociais da Unidade de Emergência Referenciada. preconiza a saúde como direito do cidadão e dever do Estado. Franca.PERDA DA IDENTIDADE CIVIL: O RESGATE À CIDADANIA Adalina Duarte de FREITAS* Maria Isabel Silva APARECIDO* Silvana Cunha KOHN* Silvia Helena Balthazar GAUDÊNCIO* • RESUMO: Pela especificidade do atendimento de urgência e emergência e alta rotatividade. a partir de dados imprecisos. o qual implanta ações em diferentes esferas. 16(2): 11-22. Identidade. PALAVRAS-CHAVE: Serviço Social. Resgate. se depara com uma grande demanda de pacientes que chegam sem identificação. prevendo o acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde. confusos. sofrem a perda de consciência por período indeterminado. ou ideativo inespecífico resgatar a sua condição de cidadão.

afetiva ou ideativa inespecífica. sofrem perda de consciência por período indeterminado. • Infarto. • Acidente de Bicicleta. são vítimas da Violência Urbana: • Acidente Automobilístico. • Acidente de Moto. Saúde Mental: • Síndrome de abstinência. • Espancamentos. sendo assim. Os desvios na busca da identidade podem ser dolorosos. E alguns problemas clínicos: • Convulsões. genericamente. muitas vezes. etc. • Quedas. • Tentativas de suicídio. Franca. o Serviço Social desta instituição se depara com uma grande demanda de indivíduos que chegam sem identificação e que. etc.casos. bloqueando sua própria identidade e tornando difícil descobrir quais os componentes essenciais e quais os secundários de sua personalidade. • Mal estar súbito. • Ferimentos com arma de fogo. pelo impacto do choque. Esta demanda sem identificação. 16(2): 11-22. inicia-se com dados imprecisos e confusos pronunciados pelo paciente num momento de alteração comportamental. têm os mesmos direitos ao tratamento médico e à cidadania. 2007 . etc. • Perda da memória. • Atropelamento. cabe ao assistente social envolvido no processo de atendimento de emergência desvendar. • Ferimentos por arma branca. Pela especificidade do atendimento de urgência e alta rotatividade da Unidade de Emergência Referenciada. como todos os outros pacientes. Todo paciente ao ser admitido na Unidade de Emergência 12 Serviço Social & Realidade. • Transtorno Mental. • Agressões. Estes indivíduos. ir a busca de uma investigação que.

Justificativa O Programa de Desconhecidos desenvolvido pelo Serviço Social da Unidade de Emergência Referenciada da UNICAMP torna-se imprescindível. 2007 13 . com o preenchimento do protocolo de desconhecidos e entrevista com o paciente. humor ou pensamento. especificamente ao profissional de Serviço Social. de controlar suas atividades usuais. utilizando as mais variadas terapêuticas e tecnologias para o sucesso do atendimento. na situação de desconhecido. de enfermagem. levantando dados. buscando oferecer respostas resolutivas e eficientes que reflitam positivamente na realidade social do paciente e na efetivação de sua cidadania. no atendimento de pacientes com perda. mesmo que momentânea. considerando que. mesmo que momentânea. cabe o resgate da identidade civil do paciente que. Sendo o acesso à saúde preconizado pela Política de Saúde brasileira a todos os cidadãos e. as quais atuam no processo saúde-doença. encontra-se em atendimento de emergência e com uma súbita desorganização em nível de comportamento. tornando toda e qualquer ação uma missão. que envolve. um intenso trabalho de caráter investigativo e mobilizador. Franca. possibilitando o retorno do paciente ao seu convívio familiar. apresenta-se como protagonista de uma realidade que quebra subitamente o cotidiano. tendo em vista a forma de atendimento caracterizado por urgências e emergências. a Unidade de Emergência Referenciada. O trabalho exige uma ação rápida. A eficácia deste programa é alcançada principalmente pelo comprometimento dos Assistentes Sociais no atendimento dos pacientes que são admitidos sem identificação e sem referências. 16(2): 11-22. levando-o a incapacidade. muitas vezes Serviço Social & Realidade. e do serviço social. ao ser admitido. sendo necessário que o Serviço Social aguarde o retorno do coma deste paciente. as ações e serviços de saúde são devidas em caráter de necessidade básica. logo na chegada. contando com a equipe médica. desenvolve um trabalho multidisciplinar. além do acolhimento e responsabilização. de sua identidade civil. a alta rotatividade e a demanda significativa. quando possível. pessoais e sociais. de modo que este possa fornecer dados mais convincentes e claros que darão suporte para o intermédio junto aos recursos da rede. Porém.Referenciada.

das quais as de maior ocorrência são os acidentes de trânsito devido estar localizado nas imediações de três grandes rodovias do estado de São Paulo (Via Anhanguera. Objetivo O Programa de Desconhecidos desenvolvido pelo Serviço Social da Unidade de Emergência Referenciada tem como objetivo/meta atingir todos os pacientes que forem admitidos na condição de desconhecido. bem como.confusos. buscando recursos nas instituições que possam auxiliar na identificação do paciente. principalmente se constatada rejeição familiar. do atendimento médico e um retorno seguro do paciente para sua rede social quando na alta. ao receber pacientes vítimas de todos os tipos de violência. como parte de um hospital de nível terciário. Polícia Militar. 2007 . para que tenham garantido um atendimento humanizado. ambulâncias de concessionárias das rodovias. Trabalhar e oferecer apoio sócio-assistencial ao paciente e/ou família. Resgate. oferecendo suporte. sem famílias e sem residência fixa. Bandeirantes e Dom Pedro) e outras rodovias que cortam a Região Metropolitana de Campinas. para continuidade e complementação do tratamento. a Unidade de Emergência Referenciada. exigindo permanência por um tempo maior na Unidade de Emergência Referenciada. que. Somando-se a esta realidade. mas que auxiliam na busca de suas referências familiares e sociais. para a agilização da intervenção social. Guarda Municipal e outros. seu resgate à sociedade. oportunizando.).. no primeiro atendimento. Franca. Contatar e discutir casos com a equipe multiprofissional. Investigar casos sociais. Também é de grande valia os dados fornecidos pelos socorristas (SAMU. em um menor espaço de tempo. recebe pacientes encaminhados pela rede. Metodologia 14 Serviço Social & Realidade. local onde o paciente fora encontrado e demais fatos. 16(2): 11-22. o Hospital de Clínicas da UNICAMP. Agilizar o atendimento médico.. não fora possível por ausência de recursos tecnológicos e terapêuticos especializados. supera as expectativas quanto ao número de atendimentos em nível regional e até mesmo nacional. ambulâncias de outras localidades. quando requer acompanhamento social de maior especificidade. esclarecendo a possível situação causadora.

Hospitais e Centros de Saúde das localidades que os pacientes foram encaminhados. Assessoria de Imprensa e Jurídica do Hospital de Clínicas da UNICAMP. Outros. Hospitais e Centros de Saúde de Campinas. Sociedade de Amigos do Bairro. ou a inclusão em outros recursos sociais. ortopedia. localização. Estabelecer parcerias junto aos recursos da rede. Delegacias. Franca. neuroclínica. Mídia. Distritos Policiais. Secretárias de ações sociais. falada e televisionada. com equipe multiprofissional e tem como missão tratar de forma intensiva os portadores de transtorno mental grave com idade superior a 14 anos). as providências sociais que estão sendo tomadas para o estabelecimento de critérios de ação. utilizando como diretriz os contatos telefônicos com instituições que forneçam acesso a registros de entrada. todo paciente que acessa a Unidade de Emergência Referenciada na situação de desconhecido. condições em que foi encontrado. Entrevistar e acompanhar os familiares. imprensa escrita. Igrejas. na tentativa de colher dados que reforcem a situação social. as demais Serviço Social & Realidade. neurocirurgia. Tais especialidades encontram-se em atuação direta na Unidade de Emergência. psiquiatria. 16(2): 11-22. PA (Pronto Atendimento) de Campinas e região. verificando quem o socorreu. onde estabelecer-se-á parcerias com setores afins. SAMIN (Albergues Noturnos de Campinas e região). tais como: Setor de Pessoas Desaparecidas. 2007 15 . ONG’s. reconhecendo a vital importância da mobilização e agilização nas buscas que facilitarão a identificação e origem do paciente. será submetido à avaliação de várias especialidades médicas. Esclarecer e informar à equipe multiprofissional. Hospitais e Clínicas psiquiátricas. saída e permanência de indivíduos. Polícia Rodoviária. CAP’s (unidades de referência secundária e intermediárias de saúde mental. como: clinica médica. cirurgia geral. Operadoras de telefonia. Manter-se próximo ao paciente.Levantar a trajetória do paciente à Unidade de Emergência Referenciada. Trajetória do Atendimento Hospitalar Em sua totalidade. Estratégias de Ação Todo paciente ao ser admitido na Unidade de Emergência Referenciada na condição de desconhecido será incluído no programa. Possibilitar o retorno do paciente junto à família e/ou à sua rede de relacionamentos.

contendo nomes. providências. contatos telefônicos. O paciente quando contatando: Entrevistar o paciente e fornecer apoio sócio-assistencial. fazendo-o de forma clara. notificando todas as providências.especialidades que se fizerem necessárias serão bispadas. identificação das pessoas com as quais se manteve contato telefônico. horários. Referencial Prático do Serviço Social durante a permanência do paciente na Unidade de Emergência Referenciada O paciente que estiver: confuso desorientado ou não contatando: Relacionar. identificação da equipe de apoio que está intervindo (médicos. 16(2): 11-22. Levar ao conhecimento da equipe multiprofissional as providências sociais que estão sendo encaminhadas para o estabelecimento de critérios de ação. transporte. dados de identificação do paciente. bem como. contatando setores afins. o que facilita o andamento e acompanhamento do atendimento por outro profissional da área que venha a incumbir-se. 2007 . em impresso próprio do Serviço Social da UNICAMP. etc). identificação dos assistentes sociais que estão acompanhando o caso. permitindo diagnosticar o distúrbio orgânico e possibilitando a condução adequada do caso. Dar continuidade à investigação social. Providenciar o preenchimento do Boletim de Atendimento de Urgência. recepção. Abrir Prontuário de Atendimento Social. discussões com a equipe de apoio. Orientar quanto aos benefícios previdenciários (se 16 Serviço Social & Realidade. informações. horários e datas. entrevistas. enfermagem. Manter-se próximo ao paciente o maior tempo possível. através do repasse de informações colhidas com o paciente para a recepção da instituição. Franca. nos casos imediatos relativos ao programa. na tentativa de colher dados que reforcem a investigação social. Entrevistar família e/ou colateral. Contatar e convocar família e/ou colateral.

Região Metropolitana de Campinas 27%. 2007 17 . orientar e esclarecer a família e/ou colateral quanto às normas da transferência. De Campinas atendemos 55%. convocar e interar a família e/ou colateral sobre a necessidade da transferência. Destes. O trabalho mostra a importância da ação voltada ao resgate da cidadania da população vítima de violência urbana ou que apresentam transtornos mentais e clínicos. dar suporte para a remoção do paciente através de transporte. avisar família e/ou colateral. atentar para os encaminhamentos e documentação do paciente. Sem residência fixa 6% e 5% sem dados. acompanhamento familiar e/ou da equipe de enfermagem. Intermediar contato médico/família. Prevalecendo o gênero masculino com 75% e o feminino com 25%. 14% encaminhados para internação em Hospital Psiquiátrico. 16(2): 11-22.necessário). endereço do hospital e o médico com o qual manteve contato. Deste total. 20% ficaram internados no HCUNICAMP. 26% retornaram às suas famílias. apenas 11% ocorreram procura espontânea da família. Hospitais da localidade de origem ou hospitais para tratamento específico – Certificar vaga. Resultados Nos últimos cinco anos de 2003 a 2007 atendemos 385 pacientes que deram entrada na UER como “Desconhecidos”. de outras cidades 7%. equipamento especial (se necessário). com média anual de 77 casos. A faixa etária predominante é de 21 a 40 anos com 47% dos casos. na perspectiva voltada Serviço Social & Realidade. Transferências para hospitais de Campinas. sendo que 84% dos casos foram equacionados diretamente pela ação profissional do Assistente Social e 5% não foram identificados por envolvimento policial. 36% foram a óbito. Acompanhar família e/ou colateral fornecendo apoio sócioassistencial e orientações quanto às rotinas da Unidade de Emergência Referenciada e atividades do Serviço Social. Franca. 4% transferidos para outros hospitais. Diante de Condutas Médicas: Internação em enfermarias do Hospital de Clínicas da UNICAMP – Passar o relatório do atendimento social realizado com o paciente ao Serviço Social da enfermaria para o devido acompanhamento.

Revista Serviço Social & Sociedade. CAMILO. de 7 de dezembro de 1993. Porto Alegre: Artmed. blocking his/her own identity. São Paulo: Cortez. A Universalidade de acesso enquanto expressão do direito à saúde: A trajetória histórica do hospital das Clínicas da UNICAMP 1996-1997. • ABSTRACT: For the specificity of the urgency and emergency and high rotation service. S.. Gestão Hospitalar. V. Presidência da República. 2007 . Loss of the civil identity: the rescue to the citizenship. R. F. confused data. suffer the loss of conscience for an uncertain period. publicada no DOU de 8 de dezembro de 1993. Service. v. 166 f.. Prática Psiquiátrica no Hospital Geral: Interconsulta e Emergência. APARECIDO.à humanização do atendimento em saúde.742. to investigate. Dissertação (de Mestrado em Serviço Social) -Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 2. 16(2): 11-22. R. Those patients. N. the Social Service of Referenced Emergency Unit faces a great demand of patients that arrive without identification. 2006. p. S. starting from imprecise. n. ______. pronounced by the patient in a moment of unspecific behavior. 152-164. Serviço Social & Realidade (Franca). n. Identity. 59. Rescue. KEYWORDS: Social Citizenship. due to the impact. na responsabilização e resolutividade como princípios éticos que devem fazer parte do ideário profissional. C. or with psychiatric disturbances. victims of urban violence. S. Urgency/Emergency. D. M. BRASIL. BOTEGA. R. M. Franca. GAUDÊNCIO. S. Lei Orgânica da Assistência Social. 16. TERRA. A. ed. M. Ministério da Saúde. Brasília/DF: Projeto Reforsus. p. 1999. 8. A. Serviço Social do Hospital de 18 Serviço Social & Realidade. M. • Referências APOSTILA: Gesthos. turning difficult the rescue to his/her net of family and social relationship. affectionate or idea alteration to rescue his/her citizen condition. 2007. V. Trajetória do direito à saúde: a experiência de um hospital-escola. n. 11-22. 2. FREITAS. CAMILO. Módulo-I: Os Sistemas de Saúde e as Organizações Assistenciais. H.. I. São Paulo. It depends on the Social Service through its service protocol. J. no acolhimento. F. 2002. B. KOHN.

SANTOS. 2006.. p. G. Manual e Cartilhas da Política Nacional de Humanização – Humaniza SUS. Revista Serviço Social e Saúde da Universidade Estadual de Campinas. CESCHINI. 35-48. M. C.mds. T. KOHN. 8. DIRETORIA DO SERVIÇO SOCIAL DE CLÍNICAS.Clínicas da UNICAMP: Uma trajetória Histórica de Legitimidade.saude. M. O. ed. S. 1986.gov. Revista Serviço Social e Saúde da Universidade Estadual de Campinas. Sistema Único de Saúde (Comentários ã Lei Orgânica da Saúde. Ano I. S. 1. Documento interno: diretrizes do Serviço Social do Hospital das Clínicas da UNICAMP. 2. 1995. Trabalho apresentado no V Simpósio de Serviço Social Nacional. I. M. Campinas. D. Rio de Janeiro 1991. S. 13-40. MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COMBATE À FOME. p. Campinas: Oficinas gráficas da UNICAMP. KOHN. BALTHAZAR. 2002. A.080/90 e Lei n. MINISTÉRIO DA SAÚDE. M. A Evolução do Serviço Social no Pronto Socorro do Hospital de Clínicas/ UNICAMP: da atenção ao emergencial em direção à cidadania. http://portal. H. Serviço Social & Realidade.. http://www. CARVALHO. n.142/90).. S. Lei n. n. Portal da Saúde. SUAS Sistema único de Assistência Social. L.. CAMPOS. FRATTINI. A. L. Ano V... 5. C. C. 16(2): 11-22. FREITAS. Campinas: Oficinas gráficas da UNICAMP.br /suas/. Andrade. São Paulo: Hucitec. S. Franca. 2007 19 .gov.br/saude/. Serviço Social na Unidade de Emergência Referenciada: espaço construído e legitimado. 8..

2007 . Franca. 16(2): 11-22.20 Serviço Social & Realidade.

Franca.SERVIÇO SOCIAL /UER PROTOCOLO DE DESCONHECIDOS Data de Admissão: ___/___/___ Horário: Nome: Pré-matrícula: MASC: FEM: COR: Estatura: Obeso: Médio: Idade aproximada: Cabelos: Curto: Barba: Olhos: Longo: Bigode: Magro: Quando trazido na UER Condições de higiene: Aspectos pés e mãos: Vestimenta: Aspectos Marcantes: Serviço Social & Realidade. 2007 21 . 16(2): 11-22.

--------------------------------------------------------------------------Assistente Social: 22 Serviço Social & Realidade. Franca. 2007 .Local onde foi encontrado: ---------------------------------------Chegou na UER através de: SAMU: Resgate: Dersa: Auto-Ban: Viatura Policial: Guarda Municipal: Ambulância da cidade: Outros: Identificado através de: Procura espontânea da família: Quem trouxe o pcte na UER Mobilização de Recursos da comunidade: Divulgação na Imprensa: Polícia: Outros:. 16(2): 11-22.

A vulnerabilidade das famílias encontra-se diretamente associada à situação de pobreza e ao perfil de distribuição de renda no Brasil. Os resultados da análise do conteúdo evidenciam quatro núcleos de sentido: A CHEGADA. Mestre pela Universidade de Franca. O COTIDIANO. a recreação e os cuidados. ** * Serviço Social & Realidade. que envolve a violência.A PERCEPÇÃO DOS CUIDADORES SOCIAIS DE CRIANÇAS EM ABRIGOS EM RELAÇÃO AO PROCESSO DO CUIDAR Cláudia Maria Leal MARQUES* Maria Aparecida Tedeschi CANO** Telma Sanchez VENDRUSCOLO*** • RESUMO: Esta pesquisa foi desenvolvida no município de UberlândiaMG. modalidade-análise temática. Franca. Crianças. • Introdução As crianças institucionalizadas em Abrigos são vítimas da miséria social. O objetivo desta pesquisa foi o de conhecer a percepção dos cuidadores sociais com relação ao crescimento e desenvolvimento infantil e os cuidados que são oferecidos por eles às crianças institucionalizadas. A ESPERA e ADOÇÃO. CEP: 14025-220. A análise dos dados foi feita através da análise de conteúdo. a relação de gênero no cuidar e a falta de percepção das cuidadoras quanto às questões trabalhistas e o preparo profissional para o cuidado. a ignorância e negligência de suas famílias e esta é uma realidade presente nas famílias brasileiras. 2007 23 . Professora Doutora da área de Fundamentos do Serviço Social na Universidade de Ribeirão Preto. o abandono e as leis de proteção. Enfermeira. em um Abrigo não governamental. O referencial teórico embasou-se em autores que discutem a evolução histórica da assistência à criança. Professora Doutora Livre Docente da área Materno Infantil e Saúde Pública da Universidade de Franca. Foi utilizada a metodologia qualitativa. baseada na técnica de livre narrativa dos sujeitos a partir de uma questão norteadora: “Como é para você trabalhar aqui no Abrigo cuidando de crianças”. *** Assistente Social. que se sub-divide em: a rotina. Os Abrigos são instituições governamentais (ou não governamentais) responsáveis por zelar pela integridade física e Enfermeira. vítimas da violência e miséria social. Pode-se perceber a ligação direta entre o trabalho doméstico das cuidadoras. 16(2): 23-42. com a atuação com as crianças. Abrigos. que recebe crianças de 0 a 4 anos de idade. PALAVRAS-CHAVE: Cuidadores Sociais.

Na institucionalização em Abrigos estas crianças passam a viver sem a referência do que é ter uma família. assegurada a convivência familiar e comunitária” (BRASIL. 19: “Toda criança tem direito de ser criado no seio de sua família e. emocional. 16(2): 23-42. Estas crianças institucionalizadas necessitam de uma família para recebê-las dentro de um tempo menor possível. O vínculo é um aspecto tão importante no desenvolvimento das crianças que é garantido pelo Estatuto da Criança e Adolescente no Capítulo III-Do Direito a Convivência Familiar e Comunitária-Art. aos cuidadores sociais orientando-os promovendo aquisição de competências para atender as necessidades das crianças que incluem: comunicação. dentro da nossa competência técnica entendemos que a criança é um ser em desenvolvimento físico. toda a sociedade encontra ou deveria encontrar na família o seu ponto de partida. p. se afastarem do convívio familiar. O núcleo familiar é de significativa e de incomensurável importância para o ser humano. O acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança é o principal indicador de suas condições de saúde. oferecendo toda assistência e vínculos que só a família pode oferecer. Franca. Em nossa vivencia profissional como profissional de saúde de uma equipe multidisciplinar da rede de atendimento integral a saúde da criança.emocional de crianças que necessitem temporariamente. Suas necessidades básicas são atendidas por profissionais denominados Cuidadores Sociais. compete ao enfermeiro não só acompanhamento e avaliação. 20). segurança. relação afetiva mãe-filho e rompem os laços de convivência familiar e comunitária. mas atuação junto à família. social. principalmente as crianças que estão em fase de crescimento e desenvolvimento bio-psico-social. 1990. 2007 . em família substituta. acolhimento. excepcionalmente. 24 Serviço Social & Realidade. higiene. 2005). Existe um acolhimento provisório da criança abandonada e há uma preparação e acompanhamento para que retornem futuramente à família de origem ou façam parte do processo de adoção dentro de um dispositivo jurídico-técnico que tem o objetivo de “proteger a infância” (WEBER. ECA. cultural e portanto o eixo norteador de todo o cuidado à saúde é o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento.

Segundo Triviños (1994. Para Cruz Neto (1994). a apresentação da proposta do Serviço Social & Realidade. Assinaram o Termo de Consentimento Livre e esclarecido. a abordagem qualitativa. nutrição. disciplina e auto-estima. será o cuidado que é oferecido pelos cuidadores sociais. culturais e morais que em uma abordagem quantitativa perderia muito seu significado. A pesquisa foi realizada na cidade de Uberlândia. afeto. uma vez que entendemos que o processo de cuidar é um processo interativo entre quem cuida e quem é cuidado. percebemos que apesar da boa vontade. tenham uma melhor qualidade de vida. saúde bucal. em dia e horário previamente agendados e houve clima informal e descontraído. Fomos recebidos no abrigo. três cuidadores sociais do Abrigo que é mantido por uma ONG e supervisionado pela Vara da Infância e da Juventude do município. segurança sexualidade. considerada a terceira maior cidade do estado de Minas Gerais. influenciado por fatores políticos. Fizeram parte deste estudo. às crianças institucionalizadas nos Abrigos. buscamos como referencial metodológico. Objetivo Conhecer a percepção dos cuidadores sociais com relação ao ingresso das crianças nos Abrigos e os cuidados oferecidos durante o processo de institucionalização. Franca. esperamos estar contribuindo para que as crianças que estão abrigadas. 16(2): 23-42.imunizações. Por outro lado. Com esta pesquisa. os cuidadores dos Abrigos não estão capacitados dentro da área da saúde para acompanhar o crescimento e desenvolvimento das crianças. Diante do exposto o nosso objeto de estudo nesta pesquisa. p. 2007 25 . 120) muitas informações sobre a vida não podem ser quantificadas e precisam ser interpretadas de forma muito mais ampla que circunscrita ao simples dado objetivo. Metodologia Para desenvolvermos esta pesquisa. sono. aguardando o retorno à convivência familiar e comunitária ou sendo encaminhadas para adoção. entendendo que esta facilitaria a compreensão de um aspecto social. Todos foram esclarecidos previamente sobre os objetivos da pesquisa e também sobre a necessidade de gravação das mesmas. localizada na região nordeste do Triângulo Mineiro.

apud MINAYO. além de possibilitar que o entrevistado possa se expressar livremente sobre o tema proposto. método que se propõe a enxergar o mundo e compreender o seu contexto (BARDIN. sujeitos da nossa pesquisa. somente uma delas não tem filhos e o tempo de atuação profissional na instituição variou de um ano e um mês a um ano e seis meses. Priorizamos neste trabalho a entrevista semi-estruturada. grau de escolaridade nível médio. A seguir apresentamos o seguinte questionamento: Como é para você trabalhar aqui no Abrigo cuidando das crianças. que realizamos através da transcrição das entrevistas gravadas e leitura dos textos transcritos. Análise dos Dados Para esta etapa da investigação. A chegada e os maus tratos Neste Núcleo de sentido vamos retratar o ingresso das crianças no Abrigo. que a violência e os maus tratos no 26 Serviço Social & Realidade. 1996). 2. estabelecendo articulações destas com a teoria. A análise dos dados foi feita através da analise de conteúdo. percebemos pelas falas dos atores sociais. na qual utilizamos os pressupostos da análise temática. seguimos os passos propostos por Gomes (1994) de ordenação dos dados. classificamos os dados organizando os núcleos de sentido e a seguir realizamos a análise final. 16(2): 23-42. Os resultados da análise do conteúdo das falas destas cuidadores sociais evidenciaram os seguintes núcleos de sentido: 1A Chegada e os maus tratos. três cuidadores sociais do Abrigo.trabalho aos participantes da pesquisa é importante. Franca. utilizando os fragmentos das falas do atores sociais. 2007 . Resultados e Discussão Fizeram parte da pesquisa. grau de escolaridade.O Cotidiano. pois permite que se capte a informação desejada. número de filhos e tempo de atividade no Abrigo. Elaboramos um roteiro com dados sobre o estado civil. uma vez que os mesmos devem ser esclarecidos sobre aquilo que se pretende investigar e as possíveis repercussões da investigação. Após várias leituras. que serão apresentados a seguir. como instrumento de coleta de dados. com idade entre 20 e 42 anos.

C-2. porém há um silêncio. passividade. um acobertamento da violência ai praticada assim como do agressor. Violência esta gerada pelas condições de miséria em que vivem as famílias brasileiras que vivenciam no cotidiano.. a diversidade de fonte de inquérito. muitas vezes por cumplicidade ou medo. A violência contra as crianças é um grave problema em nosso país.Tem crianças que vieram pra cá por causa dos maus tratos. até a inexistência de informações populacionais. chegou um aqui que foi espancado. pela falta de condições da família. exposto ao abuso de drogas. Sobrevivência e relacionamento familiar estão intimamente ligados. respeito.. 1997) são das condições estruturantes materiais e de poder da sociedade humana que decorre a possibilidade ou não da violência contra a criança e adolescente. ambiente conflituosos. dominação. Para o Centro de Referência. superioridade e poder social da criança como sendo de submissão. capaz de construir e de destruir..Você vê muita coisa assim revoltante.núcleo familiar são alguns dos fatores. O tipo mais freqüente de maus tratos contra as crianças é a violência doméstica e que muitas vezes se prolonga por muito tempo uma vez que a família é o “lócus privilegiado” que protege as crianças.. As relações de poder desfavorecem as crianças. Em Serviço Social & Realidade. desemprego. baixa auto-estima. como podemos ver a seguir: C-1. 2004). analfabetismo. a desigualdade social. O ser humano é complexo e contraditório. Pela exclusão que comportam. percebidos por eles na chegada a instituição. como pela forma como esta se estrutura para sobreviver e relacionar-se. pois os valores culturais definem o papel do adulto como sendo de força. transtornos de conduta é neste contexto que as crianças são vítimas em potencial. Franca. 16(2): 23-42. deixando de ser somente em nível social-jurídico incluindo-se também no universo da saúde pública. Para Iossi (2004) muitos problemas têm dificultado o dimensionamento da violência no Brasil. ambivalente em seus sentimentos e condutas. 2007 27 . fraqueza e inferioridade (IOSSI. Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (CECRIA. e onde se propicia o seu desenvolvimento. desde as diferentes definições do problema. nossa é dolorido.

no município de Jardinópolis-SP. é uma entidade de ação filantrópica. de privações e de falta de perspectivas. C-1. Franca.9% de negligência e 113. com as funcionárias e as crianças. com objetivo de atender as necessidades das crianças carentes. Rotina As crianças atendidas no Abrigo têm idade de zero a quatro anos. De certa forma os danos físicos e emocionais também podem ser irreversíveis e se manifestarem em idades mais adiantadas. Este estado de privação de direitos ameaça a todos na medida em que se produz uma desumanização generalizada (KALOUSTIAN. ou seja. são agressivas. entre 1995 e 2005. tem 28 Serviço Social & Realidade. Recreação e Cuidados. não conversam até se acostumarem com a convivência aqui no abrigo. Em nossa pesquisa os atores sociais apenas citaram a violência física.21% foram de violência doméstica. podendo passar por danos e ferimentos graves. 62. 16(2): 23-42. 2005). educativa e social. aquela que há uso da força física. 8. geralmente do adulto contra a criança. causando-lhe desde leva dor.No comportamento de algumas crianças por ter visto as brigas dos pais. construir e de respeitar o outro ficam ameaçadas. que passaremos a discutir a seguir. O Cotidiano Este núcleo retratado nas falas dos atores sociais configurou-se em três subtemas que foram construídos a partir das significações dos discursos dos atores envolvidos: Rotina. p. 2007 . 55).51% foram de violência sexual.condições sociais de escassez. O impacto dos maus tratos sobre as crianças é influenciado por fatores como a idade. deixando seqüelas. dos quais 23. 2002. gravidade do abuso e relação existente entre a vítima e o agressor (PIRES. aproximadamente 245 casos. arredias. tipo de abuso físico sofrido. Segundo Roque (2006). grau de desenvolvimento. freqüência duração.58% de violência física. as possibilidades de amar. as ações que tramitaram na Instância da Justiça da Infância e da Juventude apontaram que dos 2977 processos.

As crianças institucionalizadas sofrem uma rotina artificial de relações estereotipadas que fala por elas. A submissão às rotinas e o convívio restrito as mesmas pessoas. direito a convivência familiar e comunitária. direito a liberdade. 2007 29 . comprometem o desenvolvimento da criança além de limitar suas possibilidades e oportunidades de desenvolver relações sociais amplas e diversificadas. Nos Abrigos. Após algum tempo eles acostumam e até sabem a hora da gente de ir embora. enquanto os maiores continuam dormindo. as oscilações técnicas no atendimento. depois a gente volta dá o banho nos maiores e o lanche deles. dependendo de sua faixa etária e de suas vivências pretéritas. respeito e dignidade. a transferência da criança de uma instituição para outra são fatores que ocorrem comumente e que acarretam a descontinuidade dos laços afetivos. Franca. O retardo no desenvolvimento Serviço Social & Realidade. 1995. põe para dormir. Na fala dos atores sociais eles retratam: C 1. as crianças perguntam se não está cansada. escovar os dentes. de seus conteúdos individuais e da possibilidade de construção de vínculos afetivos (WEBER. Se vem substituir. C-2 Cuido deles á noite. e o método empregado pelo programa de abrigamento nem sempre atende de forma personalizada essa demanda. buscando garantir condições peculiares e direitos ao desenvolvimento. sistematizadas. Na fala dos atores sociais a rotina é simples e se desenvolve normalmente. As rotinas deveriam ser organizadas. apresenta necessidades distintas. mas sem vínculo com nenhuma religião específica. cria muitas confusões na cabecinha deles. a falta de consenso sobre o processo educacional a ser adotado. a mudança dos cuidadores primários da criança. rezo com eles e mais cuidar deles. p.orientação de base cristã. C-1 Bom os cuidados a gente chega de manhã dá o banho nos menores de zero a dois anos e depois a mamadeira. privando-as de seu espaço subjetivo. 16(2): 23-42. 36).O rodízio por turno. A criança.

do ser criança. o brincar como experiência criativa na continuidade espaço-tempo. atenção e afeto. além do número insuficiente de 30 Serviço Social & Realidade. As cuidadoras reconhecem essa necessidade da criança. o divertir-se. a continuidade dessas rupturas é ainda pior. é uma forma básica de viver (WINNICOTT. Franca. 2006). muitas atividades essenciais como alimentação. 2007 . sobrando pouco tempo para brincar com as crianças.cognitivo e o afetivo de uma criança abrigada por longa data denotam malefícios da institucionalização prolongada. Na relação cuidadores sociais e as crianças as tarefas do dia a dia. O brincar facilita o crescimento e. o brincar conduz aos relacionamentos grupais. mas também sabem que são muitas crianças. A recreação retratada nas falas dos atores sociais ocorre no cotidiano das crianças de maneira bastante diversificada pelos horários e cuidadoras e com certa dificuldade: C-1 Quando não está frio a gente leva para fora dar banho de sol e quando está frio ficamos brincando na sala de televisão. entreter-se. faz parte do universo infantil. gracejar. arrumar um projeto pra brincar com eles. o número de crianças atendidas dificultam o comportamento de apego. 16(2): 23-42. O método empregado pelo programa de abrigamento dificilmente garante o atendimento a essa demanda de forma personalizada. não dá para atender todas as crianças da mesma forma com o mesmo carinho. por exemplo. 1975). portanto a saúde. dificultando a formação do vínculo afetivo. A criança precisa de atenção diferenciada para satisfazer suas necessidades individuais por afeto e estimulação. Se a ruptura dos vínculos iniciais é prejudicial. Os laços construídos nas instituições revelam-se frágeis e inconsistentes. então é difícil. Recreação A recreação. A criança abrigada demora em demonstrar sinais de formação de apegos sociais específicos (TJRGS. A gente não tem um projeto pra fazer com eles porque são duas cuidadoras de manhã e uma enfermeira.

Entendemos que seu plantão é noturno. mas a partir das 19h00min é possível elaborar jogos. entre outros. Ele proporciona um meio para liberar a tensão e o estresse encontrados no ambiente. animais brincadeira do dia a dia. 2007 31 . as crianças são capazes de se comunicar e demonstrar suas necessidades. Nos Abrigos o cuidado e atenção individual ficam limitados em função do número de crianças que necessitam de atendimento em todas as suas necessidades básicas e o número insuficiente de cuidadores para desempenharem esta função. a convivência ao ar livre.1. pipa. de um espaço para as brincadeiras também aparece na fala desta cuidadora. Este contexto é retratado nas falas dos atores sociais a seguir: C. Brincando aprende-se a conciliar de forma efetiva a afirmação de si mesmo á criação de vínculos afetivo e duradouro. etc. Outro aspecto que chama atenção nesta fala é que não existe um projeto de recreação. Cuidado Todos os atributos do cuidar são essenciais no processo de desenvolvimento da criança. Devido sua importância a recreação deve ser inserida nas atividades do dia a dia das crianças. bola. Brincar permite desenvolver percepções sobre as outras pessoas e compreender as exigências de expectativa e tolerância. 16(2): 23-42. contar estórias. o espaço é pouco. No nosso entendimento ele é tão necessário quanto se alimentar. Através do jogo/brincadeira.profissionais por plantão. lazer a ser desenvolvido no dia a dia. Franca. em vez de ser considerado somente como atividade residual. temores e desejos que elas não conseguem exprimir através da linguagem. mas mesmo neste espaço a gente tem pra brincar: pipa. O jogo/brincadeira é terapêutico em qualquer idade. que se refere ao ambiente externo.A gente dá o carinho também na medida do possível porque não dá pra dar para todos de uma Serviço Social & Realidade. com bola. A falta de tempo. A importância do brincar aparece na fala de outra cuidadora: C-3 Tem a hora do lazer deles.

da compreensão temos que dar limites na hora certa. 2007 . estabelecendo vínculos afetivos. promoção à saúde. 16(2): 23-42. mas não é daquele jeito nosso.vez e a gente trata eles como se fossem nossos. educação. além do carinho e do amor. a hora do educar e tem a hora do castigo porque onde não tem disciplina não tem como ter uma convivência e então me espelho em casa e trato eles aqui. Passo pra eles o carinho. não pode fazer isso.Eu assim. é hora disso. permitindo o engajamento na relação cuidador-criança. hábitos de sono e de eliminações. o cuidador retrata em sua fala o cuidado envolvendo: carinho. C. conheça a criança nas diferentes faixas etárias e suas peculiaridades tais como: intolerância alimentar. eu me espelho em casa com os meus filhos e tento tratar eles da mesma forma. no contexto do brigo o cuidado se torna mais abrangente indo além dos cuidados primários. o número de cuidadores em relação ao número de crianças. O cuidado desenvolvido pelas cuidadoras é comparado sempre no cuidado que tem com seus filhos em casa.1. atenção.2. uma vez que as atividades dos cuidadores em relação aos cuidados com as crianças se organizam nas vinte e quatro horas. C. paciência. No processo do cuidar percebe-se que os cuidados primários são fundamentais para o bom crescimento e desenvolvimento da criança e a qualidade dos cuidados 32 Serviço Social & Realidade. não é hora pra isso. A importância do cuidado na vida das crianças se faz no nível de prevenção. porque são muitos e não tem como. controles especiais com sua saúde entre outros o que irá favorecer o atendimento a necessidade da criança de forma individualizada. limitando algumas atitudes das crianças no dia a dia e relacionam este cuidar aqueles com os filhos em casa com está apontado nas seguintes falas: C. no seu crescimento e desenvolvimento. torna-se necessário redimensionar. preferências.Trabalho com carinho.Estas crianças daqui tem que ser mais especiais que em casa. Franca.3. porém deixam bem claro que “são muitos e não tem como”. em nossa percepção como pesquisadora. precisa de muito carinho. Neste contexto faz-se necessário que o cuidador. muita paciência e muito carinho.

pois os subtemas retrataram a reintegração familiar e o processo de adoção. A contextualização deste núcleo é de alta complexidade. afeto. Retorno ao lar Compreender e cumprir o ECA é um grande desafio para Abrigos. p. com identidade própria.dispensados as crianças são de extrema relevância para nossa pesquisa. perceber. Franca. 2004. 374). A criança necessita estabelecer relações afetivas com os cuidadores e precisam deles para se estruturar como sujeito. os atores sociais fragmentam em dois subtemas: Retorno ao Lar e Adoção. Pensamos que neste aspecto as cuidadoras se desdobram para oferecer o melhor de si mesmas. Incluir os Abrigos em um compromisso com a desinstitucionalização é um desafio. A espera Neste núcleo de sentido. as razões da institucionalização são essenciais para se promover a reintegração social. A criança abrigada por direito deve ter possibilidade de retornar a sua família de origem ou conviver em família substituta. embora lhes falhe alguns conhecimentos básicos de alimentação de crianças. que cuidam deles atendendo suas necessidades na medida do possível. As maiores dificuldades para se alcançar esse objetivo são relacionadas à resistência dos dirigentes e demais funcionários dos abrigos quanto à função social do abrigo no contexto das políticas públicas atuais (IPEA/CONANDA. A reintegração social deveria ocorrer desde o ingresso da criança na instituição. O livro-relatório “O direito à convivência familiar e Serviço Social & Realidade. os entendem. pois há necessidade de um trabalho de reorganização da família de origem. são os cuidadores que os escutam. condições essenciais ao adequado crescimento e desenvolvimento destas crianças. neste sentido envolvem fatores e situações que muitas vezes requer estudos familiares e processos judiciários que são mais demorados. o caráter dos abrigos em ser uma medida provisória e excepcional e de promover a reintegração social é processo complexo. 16(2): 23-42. que lhes proporcionam oportunidades seguras de explorar e conhecer o mundo que as rodeiam. conhecer a história da família – constituição dinâmica. que lhes dão carinho. 2007 33 . interação.

2007 . aí o juiz devolve. num total de 86. diante deste quadro é possível promover a reintegração social possibilitando a criança de usufruir o convívio com sua família de origem mesmo vivendo em um abrigo. 2004. a existência de crianças e adolescentes colocados em Abrigos fora de seus municípios. manter estar convivência diante de possuírem família é uma realidade e direito constituído pelo ECA. a demora no julgamento dos processos por parte do Judiciário. a ausência de políticas públicas de apoio às famílias. entre os quais podem ser citados: o acolhimento de crianças e adolescentes nos abrigos sem decisão judicial. promovendo a reinserção deles.comunitária: os abrigos para crianças e adolescentes no Brasil” retratam o perfil das crianças abrigadas em relação á família: 58. 5. do Ministério Público e dos Conselhos Tutelares. a inexistência de profissionais capacitados para realizar intervenções no ambiente familiar dos abrigados. Alguns desses fatores vêm retratados na fala dos atores sociais da nossa pesquisa: C.7% tem família e sem vínculo. 60 e 65). O impacto de um período de institucionalização prolongado 34 Serviço Social & Realidade.7% crianças abrigadas com família. aí conforme for reagindo a criança e os pais. p. porém por impedimento judicial não mantém vínculo.2 % das crianças e adolescentes abrigados têm família e mantem vínculo.Alguns vem para o abrigo e são adotados outros a justiça dá uma chance para os pais. o entendimento equivocado por parte dos profissionais de abrigos de que a instituição é o melhor lugar para a criança. e a utilização indiscriminada da medida de abrigamento pelos Conselhos Tutelares. Neste relatório segundo o Comitê para Reordenamento de Abrigos alguns fatores são determinantes para permanência prolongada de crianças e adolescentes nestas instituições.8% tem família. 22.1. 16(2): 23-42. a escassez de fiscalização das Instituições de Abrigos por parte do Judiciário. o que dificulta o contato físico com a família de origem. Franca. mas demora um pouco. a assistente social vem acompanhando até certo tempo. antes de terem sido analisadas as demais opções viáveis para evitar a institucionalização de crianças e adolescentes (IPEA/ CONANDA.

Franca. retratado na fala dos atores sociais desta pesquisa: C.2. a família tem problemas com a justiça e tem que resolver antes. 2007 35 . torna-se necessário que o desenvolvimento deste trabalho seja o mais precoce possível. sentimentos em relação ao abandono. cada situação em particular é avaliada conforme a necessidade do momento o que não possibilita um parecer técnico efetivo. um parente ou avó. analítica e avaliativa buscando meios adequados para alcançar o objetivo de desinstitucionalizar a criança definitivamente. atitude deverá ser de escuta atenta. Torna-se necessário a intervenção do trabalho da equipe técnica que deverá ser dinâmico. Este contexto vem relatado nas falas dos atores sociais desta pesquisa: C. o pai. há ausência de uma política de desinstitucionalização da Serviço Social & Realidade. a família. Porém para esta pesquisadora.do abrigo e perspectivas de futura para sua vida são essenciais para que ocorra a saída do abrigo com uma preparação gradativa e o menos traumática possível (MOTTA. o comprometimento dos pais em quererem o retorno da criança ao lar é prioritário no cotidiano dessas crianças.afeta a criança no seu crescimento e desenvolvimento e sua sociabilização é um fator importante que merece reflexão. referências de família: como viveu. e tem os que aguardam adoção.Uns ficam aqui. O acompanhamento de crianças no processo de desinstitucionalização se faz de forma isolada e fragmentada. interdisciplinar.Alguns tem que esperar o pai entrar para pedir a guarda de volta. para que o abrigo cumpra com seu papel de proteção e em caráter temporário dessas crianças. compreensiva. outros são adotados e outros vão para outros abrigos. ressaltando neste estudo que a criança é a maior interessada em retornar ao seu lar. há necessidade da realização de um trabalho com a família de origem objetivando sua reorganização.3. conhecer suas idealizações. 16(2): 23-42. CECIF. 2002). A desinstitucionalização é um processo bastante complexo.

porém a realidade retrata que as crianças ficam por longo tempo nos abrigos. 1991). pelo prazo que a autoridade judiciária fixar. desde seu início até sua conclusão. Não são todas as crianças institucionalizadas que estão inseridas no processo de adoção. não ocorre um cadastramento das crianças que estão aptas para serem adotadas. 11). somente aquelas cujos pais sejam desconhecidos ou que tiveram decretado a perda do poder familiar por sentença judicial. p. estreitando as relações com as instituições e trazendo o Poder Público para uma discussão sobre a atuação em relação às políticas públicas que poderão ser implementadas visando atender o direito das crianças de reintegração familiar. para que possam promover e manter o direito a convivência familiar. (BRASIL.criança o que dificulta o processo de reintegração familiar. desligando-o de qualquer vínculo com os pais e parentes”. Art.-48: “é irrevogável”. até que as autoridades competentes da Vara da Infância e Juventude deliberem judicialmente para que possam ser adotadas. 16(2): 23-42. 2007 . 2004. Por mais que o poder judiciário se esforce. Adoção As crianças institucionalizadas são acolhidas provisoriamente em abrigos como medida de proteção em curto prazo. A adoção é garantida pelo ECA Art. com os mesmos direitos e deveres. 36 Serviço Social & Realidade. Torna-se de extrema importância buscar soluções que apóiem os abrigos. ocorre um cadastramento dos casais. observadas as peculiaridades do caso” e Art. nem sempre consegue atender as demandas que lhe chegam e o que se observa é uma demora no processo de adoção. inclusive sucessórios.-41: “atribui a condição de filho adotado. Franca.-46: “será precedida de estágio de convivência com a criança ou adolescente. a integração de várias entidades de apoio para que atuando conjuntamente implementem medidas que atendam o direito dessas crianças á reintegração familiar. ECA. a intervenção da Vara da Infância e da Juventude não pode exercer o papel somente de fiscalizador há necessidade de ter o papel de parceiro. poder familiar constitui um conjunto de direitos e deveres dos pais em relação aos seus filhos (PERNAMBUCO. Existem crianças para serem adotadas nos abrigos. apesar do processo de adoção visar a criança como o maior interessado.

aí elas vão ficando aquelas crianças revoltadas. A adoção hoje implica necessariamente em adoções chamadas tardias. de crianças mais velhas. Na fala dos atores sociais desta pesquisa também se preocupam com a demora do processo: C. não relatei todo o teor da pesquisa e procurei relatar algumas opiniões que mereceram por Serviço Social & Realidade.optaram exclusivamente por crianças de cor branca-35.porém muitas delas não têm o perfil das preferências dos casais que pretendem adotá-las. medo de adotar crianças sem saber a origem de seus pais biológicos. porque à medida que vai passando o tempo as pessoas não querem mais adotar as crianças maiores.2%. cedo ou tarde traz problemas (WEBER. porém os mitos que constituem a atual cultura da adoção no Brasil apresentam-se como fortes obstáculos à realização deste tipo de adoção. teriam medo de adotar crianças que viveram muito tempo em orfanatos pelos “vícios” que traria consigo. 2007 37 . Em pesquisa realizada com a população em geral na cidade de Curitiba. de acordo com as opiniões de boa parte da população encontradas na pesquisa. Segundo Relatório da Vara da Infância e Juventude de Belo Horizonte em 2003 dos 176 casais inscritos o perfil das crianças pleiteadas em relação: • Faixa etária de zero a um ano-61.Eu acho errado. • Sexo-feminino-46%. 77). medo que os pais biológicos possam requerer as crianças de volta. Franca. tristes e até chora e dizem porque minha mãe não me busca? Porque ninguém me quer? É triste. pensam que uma criança adotada. 2005.9%. indicam alguns determinantes para este desencontro de crianças institucionalizadas e postulantes a adoção. 16(2): 23-42. p. pois a “marginalidade” dos pais seria transmitida geneticamente. as pessoas: teriam medo de adotar crianças mais velhas pela dificuldade na educação. Diante desta realidade percebemos que as crianças que não estão contempladas neste perfil terão muitas dificuldades de encontrarem uma família que as adote e acredito este seja um dos fatores que contribua para a demora do processo de adoção das crianças abrigadas.1. • Cor .

cuidando-os da forma como cuidam de seus próprios filhos.Muito demorado. Considerações Finais No universo do Abrigo as crianças são cuidadas pelos cuidadores sociais. porque as crianças vão crescendo e crescem sem o convívio dos pais. que na nossa percepção desenvolvem suas funções de forma empírica. isto atrapalha. estratégias que visassem simplesmente maiores informações sobre o tema.2. Considerando que o número de crianças que necessitam de cuidados e o número de cuidadoras para desenvolvê-los. então o processo poderia ser mais fácil: C. chegam aqui novinhas e vão para outra instituição e não foi adotada e tem família com ficha querendo crianças. 16(2): 23-42. Franca. panfletos. p. Traz conseqüências para as crianças esta demora. que debatessem o tema. Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária: a adoção seja medida excepcional. mas com certeza representa um dos caminhos para garantir a criança o direito de ser criado e educado por uma família. sujeitos da nossa pesquisa. A adoção é um processo delicado. fica difícil 38 Serviço Social & Realidade. acho que demora demais a liberar. acho que tinha que ser mais rápido. participação fóruns. realizada apenas quando esgotadas as possibilidades de reintegração á família de origem e o encaminhamento para adoção requer intervenções qualificadas e condizentes com os pressupostos legais e o superior interesse da criança e do adolescente (BRASIL. Alguns aspectos são relevantes em relação à adoção que subsidiam a posição defendida pelo Plano Nacional de Promoção. 2006. pois acredito que muitas destas opiniões poderiam ser modificadas através de esclarecimentos com campanhas.parte desta pesquisadora maior relevância. Neste contexto os atores sociais desta pesquisa percebem que há famílias querendo adotar e crianças para ser adotadas. 2007 . 44). experienciada na sua vida cotidiana. Vê a família que vai adotar a criança demora muito. os caminhos são tortuosos e cheios de entraves. não podemos colocá-la como a solução para resolver os problemas das crianças institucionalizadas.

carinho. C. pois se irmanam em suas origens. exercitando o seu papel conscientizador.. MARQUES. E independente da finalização de cada caso.voltar o olhar para o atendimento individual. elas retomarão uma nova etapa de suas vidas. 2007 39 . porém percebemos um despreparo no que se refere às etapas do crescimento e desenvolvimento infantil. p. S. VENDRUSCOLO. The perception of the social caretakers of children in shelters in relation to the process of taking care. Serviço Social & Realidade (Franca). Franca. em diferentes idades e de formas singulares. moral. O profissional Enfermeiro vivencia em sua prática todo o processo do cuidar. e neste ambiente os cuidados necessitam serem direcionados buscando perceber que ocorrem numerosas alterações com as crianças e em diferentes faixas etárias. sono. M. respeito e promoção da convivência familiar e comunitária. afeto. reconhecendo a família como o ambiente de excelência para o desenvolvimento de crianças e adolescentes. necessitando de segurança e autoconfiança para fazê-lo. A. O processo do cuidar transcende as necessidades básicas e para tanto é preciso buscar formas de fortalecimento físico. na necessária tomada de consciência sobre o cuidar por parte de quem cuida. são expressas pelas diferentes crianças. 16. promoção e manutenção a saúde. Tais aspectos evidenciam a necessidade de um cuidado voltado para prevenção. T. higiene. L. recreação. M. o que o qualifica para ser inserido na equipe técnica do abrigo. 2. 2007. 23-42. v. n. 16(2): 23-42. T. emocional e psicológico dessas crianças. em vários contextos.. compromissados em cuidar das crianças. o cuidado será desenvolvido de forma coletiva. Os atores sociais da nossa pesquisa se mostraram envolvidos. Serviço Social & Realidade. Torna-se essencial que os cuidadores sociais compreendam que mesmo as necessidades básicas: de comunicação. Além do papel do cuidador. Consideramos que o processo do cuidar em decorrência das suas raízes femininas se expressa nos discursos analisados e ecoa na prática da Enfermagem. podendo ser um facilitador para o desenvolvimento de um cuidar mais adequado e compartilhado pela equipe. o profissional pode ser também um fomentador da cultura de valorização. CANO. nutrição. uma vez que são vitimadas no corpo e na alma.

presidência. Franca. Pesquisas em ciências humanas e sociais. • Referências BRASIL. CRUZ NETO. Lei n.br. THE WAIT and ADOPTION. C. that receives children from 0 to 4 years old. Fundamentos e políticas contra a exploração sexuais de crianças e adolescentes. CENTRO DE REFERENCIA. escola. método e criatividade. the gender relationship in taking care and the lack of the caretakers' perception concerning the labor subjects and the professional preparation for the care. (Biblioteca de educação. victims of violence and social poverty. CHIZZOTTI. O. the recreation and the cares. Brasília/DF. ______. Estatuto da criança e do adolescente. 16(2): 23-42. ed. 16). The DAILY. based on the technique of free narrative of the subjects starting from a leading theme: "How it is for you to work here in the Shelter taking care of children".gov. that is separated in: the routine. 2007 . Relatório de estudo. The results of the analysis of the content evidence four sense nuclei: THE ARRIVAL. v. São Paulo: Cortez. KEYWORDS: Social Caretakers. 2006. A. the abandonment and the protection laws. 40 Serviço Social & Realidade. Shelters. Ministério da Saúde. (Org. Proteção e Defesa do Direito da Criança e do Adolescente à convivência comunitária. thematic modality-analysis. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. 2007.. Children. In: MINAYO. ed.) Pesquisa social: teoria. p. Brasília: MJ/CECRIA. It can be noticed the direct connection between the caretakers' domestic work and the performance with the children. O trabalho de campo como descoberta e criação.• ABSTRACT: This research was developed in the municipal district of Uberlândia-MG. 1997. M. Petrópolis: Vozes. Acesso em: 22 jan. 4. The analysis of the data was made through the content analysis. in a non-governmental shelter. 1993.51-66. Plano Nacional de Promoção. The theoretical referential was based in authors that discuss the historical evolution of the attendance to the child. S. Brasília/DF. Série 1. 1998. ESTUDOS E AÇÕES SOBRE CRIANÇAS E ADOLESCENTES (CECRIA). The objective of this research was of knowing the social caretakers' perception regarding the infantile growth and development and the cares that are offered by them to the institutionalized children. 2. The qualitative methodology was used. 8069 de 13 de julho de 1990. Disponível em www. 1994.

Ribeirão Preto. 2007. S. N. S.tjrs. A. M. p. São Paulo: Atlas. M. Envolvimento dos profissionais de saúde do município de Guarulhos-SP na assistência às crianças vítimas de violência domestica. C. Acesso em: 29 ago.org. Arq. As crianças institucionalizadas apresentam marcas muitas vezes profundas e sempre dolorosas. Franca. 130p. Maus tratos contra crianças e adolescentes: revisão da literatura para profissionais de saúde. A. MYAZAKI.2007.). Estudo das famílias de crianças e adolescentes vitima de violência. Disponível em: www. São Paulo: Cortez. Família brasileira. São Paulo: Vozes.tipe. Recife. n. O. M. Tese de Doutorado-Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-Universidade de São Paulo. 1996. S. S.gov. Petrópolis. IPEA/ CONANDA. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. 5 ed. A. Porto Alegre. Tese (Doutorado). 2006. que sofreram intervenção da justiça. ano IV n.br. M. P. 2002. 2004. 2004. método e criatividade. O desafio do conhecimento.br. A. M. O direito à convivência familiar e comunitária: os abrigos para crianças e adolescentes no Brasil. MOTTA. 4 ed. (Org. Adoção. ROQUE. em São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto.cecif. Disponível em: www.1. PIRES. PERNANBUCO. S. Acesso em: 08 jan. L./mar. Disponível em: www. em comarca da vara única-Estado de São Paulo – Brasil. M. M. C. 16(2): 23-42. Realizado em 23/11/2002. 8. a base de tudo. E.gov. Poder Judiciário do Estado. T. 2007. D. 1987. S.12. 1994. Brasília/DF: UNICEF.). III Ciclo de palestras: Toda criança em família. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa. 2005.gov.IOSSI. 2004. Acesso: 12 jan. TRIVINÕS. Pesquisa social: teoria. KALOUSTIAN. C. (Org. jan. Acesso em 23 jan. v. 2006. Pesquisa Qualitativa em saúde. Juizado da Infância e Juventude. 42-49. Segunda Vara da Infância e Juventude.br. Serviço Social & Realidade. 2006. 2007 41 .conanda. Rio de Janeiro: Vozes. MINAYO. Disponível em: www. 239p. Ciências Saúde. MINAYO..br.

2005. 3 ed. O brincar e a realidade. D. Rio de Janeiro: Imago. 2007 . 16(2): 23-42.WEBER. 1975. D. WINNICOTT. Laços de ternura: pesquisas e histórias de adoção. N. Curitiba: Juruá. Franca. 42 Serviço Social & Realidade. L. W.

1998). Franca. que foram ouvidas há 10 anos. no que diz respeito às atividades e responsabilidades domésticas. esta investigação propõe escutar o que de fato se alterou nas vidas de algumas daquelas mulheres. Doutora em Serviço Social (UNESP). que se relacionavam à situação vivenciada por elas. quais as estratégias que utilizaram para a conciliação entre o espaço privado e o público. 16(2): 43-56. PALAVRAS-CHAVE: Sofrimento psíquico. por ocasião de pesquisa de campo no programa de Mestrado em Serviço Social realizado na UNESP (BUENO.“CONTINUO PREOCUPADA”. 43 Serviço Social & Realidade. o cuidado com os filhos. Pós-doutorado pelo Instituto Universitário de Estudos de Mulheres (Valência/Espanha). da Universidade de Franca (UNIFRAN) e do curso de Psicologia. Saúde. Decorrida uma década e localizadas seis das 14 entrevistadas. além de conhecer suas estratégias de conciliação – o que em última instância representa uma saída criativa para o não adoecimento psíquico. a continuidade e os desafios do trabalho remunerado e os cuidados que tomaram em relação à saúde e bem-estar. sendo que. 2007 . cleria@unifran. e que se explicava pela sobrecarga de atividades e responsabilidades entre o mundo do trabalho.. buscou-se saber o que de fato mudara em suas vidas no que diz respeito ao trabalho.br.. foi o intuito deste estudo longitudinal com as operárias. para conhecer o que de fato mudou em suas vidas. Subjetividade. as atividades domésticas e os cuidados com os filhos. utilizando-se a mesma metodologia e localizando-as no mesmo lócus inicial – as fábricas e indústrias do parque operário de Franca. • Introdução O presente trabalho pode ser compreendido como um estudo longitudinal que reflete a situação atual de vida de algumas trabalhadoras do parque industrial da cidade de Franca. que relatavam naqueles idos tempos. (10 ANOS DEPOIS): ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DE MULHERES COM DUPLA JORNADA DE TRABALHO Cléria Maria Lobo Bittar Pucci BUENO* • RESUMO: Baseado em pesquisa realizada há 10 anos com as operárias do setor coureiro-calçadista da cidade de Franca. uma série de sintomas e queixas basicamente de origem psicossomáticas. algumas destas foram localizadas e entrevistadas 10 anos depois. Docente do programa de Mestrado em Promoção de Saúde. Naquele ano (1997) foram ouvidas 14 operárias de três * Psicóloga. Trabalho. Buscar entender se continuavam com as mesmas queixas e sintomas.

importantes indústrias do setor coureiro-calçadista da cidade. náuseas. e como este sentimento afetava suas vidas tanto no âmbito do trabalho. 2007 . Algumas das perguntas que nortearam a investigação naquele dado instante tinham o intuito de conhecer as queixas principais. ainda tinham que lidar com a culpa de terem que ‘abandoná-los’ aos cuidados de terceiros. e às vezes tripla. como o sentimento de angústia. 16(2): 43-56. diminuição da atenção) aos puramente emocionais propriamente ditos. utilizando-se a forma de entrevista semi-dirigida. pois além da ineficiência de creches para acolherem os filhos. relatadas pelas mulheres. como no pessoal. raiva e revolta. dores de cabeça. e me contavam das dificuldades acrescidas para aquelas que tinham filhos pequenos. Eram mulheres entre 22 a 37 anos de idade. o trabalho e a maternidade. uma questão. Estas operárias carregavam todo o ônus do trabalho domésticos e suas responsabilidades como mães e chefes de família. sudorese. o que lhes trazia uma situação de constante preocupação. As queixas principais tinham relação direta com a estrutura familiar patriarcal que confere às mulheres a responsabilidade direta e praticamente exclusiva com os cuidados com os filhos e com a casa. sendo que algumas destas queixas variavam entre sintomas psicossomáticos – tais como. e a análise do discurso para a interpretação dos dados obtidos junto às operárias (FIORIN. Franca. O interesse principal da pesquisa era compreender sobre o sentimento de culpa que relatavam algumas mulheres ao deixarem seus filhos pequenos para adentrarem o universo do trabalho. geralmente as avós ou algum outro parente. Dentre as 14 entrevistadas. no caso das operárias. dez tinham filhos. e a maioria 44 Serviço Social & Realidade. de origem psicossomática ou não. 2000). portanto. Há exata uma década estas mulheres me relatavam seus sofrimentos em equilibrar a vida doméstica com o trabalho remunerado. sendo uma delas “mãesolteira”. fadiga e estresse. O pronunciamento mais comum era de que viviam sempre preocupadas entre os afazeres e as obrigações maternas. tristeza. constipação intestinal. agravados pela rotina cansativa e extenuante de uma dupla jornada. 1992). queixas estas provenientes da tentativa de conciliar os afazeres domésticos. a metodologia qualitativa e dialética (MINAYO. de desigualdade na divisão do trabalho doméstico. crises de ansiedade (taquicardia. e seus discursos foram registrados e transcritos.

proveniente de trabalhos domésticos anteriores (babás. e S. era o curso ginásio incompleto. As que foram reencontradas: Neusa. pois com o aumento da prole havia ficado mais difícil ainda conciliar a lida doméstica e o cuidado com os filhos. Elaine. Duas delas A. e a seguir comento sobre o reencontro. Uma década depois voltei às mesmas indústrias no encalço destas mulheres. sendo uma no curtume. no intuito de saber delas o que havia mudado em suas vidas. conseguindo localizar apenas seis delas para este trabalho. sem mesmo terem sido contempladas com algum tipo de promoção ou cargo de chefia. Todas as seis mulheres disseram lembrar-se daquele momento em que a pesquisa de campo fora feita. algumas trabalhavam em outras localidades. disse-lhes o motivo para minha volta àquele local de trabalho. e Neuza chegou a comentar que M. outras trocaram a fábrica pela costura de sapato manual em casa. e a única que tinha um cargo de chefia naquele momento. era justamente a que tinha mais escolaridade e tempo de experiência em setores administrativo. Roseli e Araci (todos os nomes fictícios). havia mudado da cidade. três na indústria de calçados e as outras duas na indústria de artefatos para calçados. Consegui localizar seis das quatorze entrevistadas. Aproveitei para perguntar-lhes sobre as companheiras que não mais estavam presentes. algumas sendo Serviço Social & Realidade. e após as devidas explicações iniciais. Algumas trabalhavam nas mesmas indústrias há muitos anos. faxineiras). Rosângela. e me relataram que algumas se aposentaram (uma inclusive por hérnia de disco). por parte destas ‘sobreviventes’. Outras foram demitidas e tiveram muita dificuldade de se reinserirem no mercado de trabalho em função da recessão econômica que assolou a cidade. sobretudo entre 2004 e 2005. havendo aquelas que passavam de duas décadas. Franca. Vilma. iniciados quando muito jovens (12 anos de idade em média). Considerações Preliminares Quando cheguei às indústrias que visitei dez anos antes fiz o mesmo ritual anterior perguntando pelas mulheres que ali trabalhavam. sendo solteira e sem filhos aos 40 anos. com o trabalho remunerado. voltando à sua de origem. A metodologia utilizada foi a mesma do trabalho anterior. A escolaridade em média. ninguém sabia destas. haviam ‘sumido’. outras haviam tido outros filhos (e uma teve um neto de filha adolescente). 16(2): 43-56. embora tenha tido notícias das outras. 2007 45 .

. cuidando da vida. em outras fábricas. ó. fazendo exatamente o que faz. ‘assumiu’ a criança. seu filho ‘engravidou’ uma namorada. foi um período difícil. hoje aos 49 anos de idade. e também o seu segundo filho. sem promoção a nenhum cargo de chefia. 2007 . orque se for ver por ver. vem para o trabalho. que hoje está com dois anos. Acho que eles é (sic) contra mulher mandá. Neuza é a trabalhadora que há mais tempo está na mesma indústria. e às vezes em funções diferentes das que faziam. como ela disse. que está fazendo um curso técnico. Engraçado é que vi muita gente entrar depois de mim. mas conseguiu trocar de turno. e seu marido os recolhem nos sogros. mandando. de modo que. e. completará 30 anos em 2008. O filho está agora empregado. há mais de quinze anos. o que lhe preocupa muito. Ela se mostrou muito lúcida de sua condição de ‘inamovibilidade’ do lugar onde fora colocada: Parece que tem ‘cola’ aqui! Me pregaram neste posto. Resumidamente apresento-lhes alguns recortes de seus discursos e biografias: Neuza. Franca.. dois nascidos nestes dez anos. 46 Serviço Social & Realidade. 16(2): 43-56. de manhã permanece em casa. Enfrenta as dificuldades em conciliar o trabalho com as atividades domésticas. sem saber de um nada (sic). o que mudou em suas vidas ao longo destes dez anos? – foi a pergunta inicial para que elas pudessem relatar suas biografias. hoje. trabalha em uma empresa que terceiriza manutenção e limpeza. pousando de chefe.só que é eles que manda (sic). mas não se casou com a mãe desta. a única que ainda trabalha no curtume.admitidas tempos depois. e o filho fazendo ‘bicos’ pouco pode contribuir para o sustento da criança. avó de uma menina. sei muito mais e faço muito mais que muito homem. e acho que é aqui que vou ‘bater as botas” (rindo). Elaine está com 33 anos e hoje tem três filhos. E quanto a estas seis mulheres.. ao encaminhar os meninos à tarde para a escola. e hoje tá aí. Uma delas confirmou que S. Sua mãe ou seu pai é quem buscam os meninos.. pois o marido estava doente. e ela teve que assumir todo o encargo e os gastos com a neta.

Rosângela. e vem economizando recursos para isto. 2007 47 . para montarem. há cerca de cinco anos. e é a que. já há dez anos. cursou Economia na Faculdade Municipal. não sei se tinha conseguido. Se não fosse minha mãe e uma irmã. mas por ser ele oito anos mais novo que ela. a gente tem que fechar os olhos do coração e continuar vivendo. Vilma está com 48 anos. Foi a que mais trouxe dados sobre a culpa que sentia. A única com escolaridade completa. mas isto agora está superado. naquele momento. né. morou fora da cidade por uns tempos para implantar uma filial. nestes dez anos passou de chefia a gerente. um deles lhe deu muito trabalho com bronquite. embora ela diga que nunca vai dormir antes da uma da manhã. Espera ansiosamente o momento em que poderá se aposentar. no fundo teme que. ela e o marido um pequeno comércio. e que me ajudaram muito com o Raul (filho). e aos 50 anos está somente ‘ficando’. na época solteira. fui ficando mais forte e confiando no que estava acontecendo. Foi uma concessão que fizeram para conciliar seus afazeres. para voltar a trabalhar. mas aos poucos fui perdendo esta tristeza. estabilizar esta relação ‘esfrie’ e faça com que ele perca o interesse. na época tinha um bebê. e as outras mulheres aqui me ajudaram muito a ver isto. com um companheiro. 44 anos de idade. e não sem alguma preocupação caso não se realize seu sonho. hoje com dez anos e uma menina de seis. Araci é a que melhor se saiu em termos profissionais. voltou. Franca. dizia ter a colaboração de seu marido para algumas funções domésticas e com a lida com os filhos. e era motivo de desgaste e de ir muitas vezes trabalhar cheia de conflitos. onde Ela regressa depois das 22 horas. é a mais tranqüila de todas. 16(2): 43-56. em tê-lo ‘abandonado’ (tinha 5 meses quando da entrevista). levando-os para casa. Aí fui vendo que não era a última. pois a noitinha é que ela põe muita coisa em ordem. e nem seria a primeira. com muitas dificuldades. mas com o tempo aprendeu a se organizar: Quando não se tem outra solução. como ela mesma diz. fez uma especialização em Gestão e Controladoria. senão fica doida! Foi muito difícil no começo. seus dois filhos trabalham e estudam. embora seja ele quem queira oficializar a relação: Serviço Social & Realidade.mais a tarde.

você sabe.. pintou. Naquele momento.Oficializar para que? Nesta altura da minha vida... Educadas a se sentirem e assumirem estas responsabilidades desde pequenas. lógico! Ou senão é rapaz muito mais novo que . as mulheres revelariam naquele 48 Serviço Social & Realidade. estas mulheres se sentiam como se estivessem alterando a ‘ordem natural’ dos eventos. se aparecer. 16(2): 43-56. apesar do cansaço e muitas vezes da culpa que sentia. de ter tido uma vida pessoal. a saúde e os sintomas Todas as queixas relatadas naquele ano.. se pintar. prefiro assim. marido. tenho meus filhos pra criar. mesmo porque. a não ser que ele também venha de um casamento desfeito. ‘juntar escova de dente’? (rindo). Procuro não pensar muito sobre isto. sua fala mais marcante foi a de dizer que. mais nova? Ah. Também não estou à procura. e agora voltar para trás para ter o que não tive no momento. com as atividades domésticas e o cuidado com os filhos pequenos. cada um com suas conquistas. porque senão fico preocupada em terminar meus dias sem ser feliz. hoje com 12 e 15 anos. filhos. não abriria mão do trabalho. é como diz aquela música “panela veia é que faz comida boa” (rindo-se muito). Mas não pretendo ficar sozinha. O trabalho. em oposição a educação recebida pelos meninos que os desobrigam aos cuidados com terceiros. Desgastadas e cansadas. 2007 . teve uns ‘rolinhos’ mas nada sério. pelo menos cada um com seu andor. né. Roseli está com 41 anos de idade e seus filhos.. tendo que conciliar a realidade do mundo do trabalho extra-lar. segundo sua opinião: É difícil um homem querer uma mulher que já tem dois filhos de outro.. Está separada do pai de seus filhos há seis anos. pois o trabalho doméstico não é fonte de satisfação e reconhecimento para a mulher. referiam-se de maneiras direta com a constante situação de preocupação a que estas mulheres estavam submetidas. senão. Tive que ‘engolir muito sapo’ para chegar onde estou abrir mão de muita coisa. com mais filhos. sei lá. cada um com sua dor. e segundo ela. o que é quase sempre mais trabalho pra gente. vou levando. não. Franca.

estarem em constante situação de estresse. acostumaram-se com a situação estressora. No tocante à saúde. dermatite. apesar de se reconhecerem no discurso proferido dez anos antes. encontraram a ‘melhor’ forma de continuarem a viver: apenas vivendo. vertigens. e somente por isto. quando escutaram de mim o ‘rol’ de problemas que me relataram. mas. o que lhes causava enorme fadiga. relembrando-lhes de algumas respostas por elas relatadas. como entende alguns. e verbalizaram espanto por este dado. ansiedade e sintomas outros tais como. como se tivessem ‘jogado a toalha’. Franca. e quais mudanças foram as mais sentidas. 2007 49 . Isso em função do aspecto da dupla e até tripla jornada de trabalho que muitas delas revelavam viver. É como se ousasse afirmar que. Não tendo alternativa. é interessante registrar que. tudo o que é propício ou não para o seu gênero. inda (sic) mais eu que tive três filhos ‘encarreado’ (sic) um atrás do outro! Mas a gente aprende a levar e se acostuma” O que mais me marcou foi o conformismo nestas falas. A diferença é que a gente se acostuma com eles e nem percebe mais” Elaine: “Pra mim foi uma questão de tempo. uma assunção de uma natureza feminina ‘naturalmente masoquista’. Acostumar-se com o sofrimento não é o mesmo que querêlo. como se costuma analisar friamente e linearmente. tonturas. de preocupação e em estado permanente de alerta. Roseli: “Nossa! Nem sabia que tinha vivido isto tudo!” (rindo) Neuza: “Não mudou muita coisa não! Só os filho cresceu (sic). construindo a partir destas diferenças. é uma estratégia de sobrevivência. queda de cabelo. irritação. eu repito. Agora com os filhos encaminhados na vida e maiores. outras riram. Não é. algumas se espantaram.momento. mas os problema (sic) é os mesmo. a meu ver. naturalizando Serviço Social & Realidade. quais seriam os sintomas que elas revelariam dez anos depois? Quando lhes fiz esta pergunta. justificados pela diferença anatômica. e. naturalizando-a. estas mulheres começaram por relatar a respeito de suas vidas. Não é muito distinto da naturalização do discurso social que atribui a homens e mulheres padrões de conduta distintos. insônia. Isto aí tudo que eu disse. 16(2): 43-56. gastrite. desistindo da gigantesca luta que teriam – e têm-pela frente.

ou mesmo que a ascensão a postos 50 Serviço Social & Realidade. juntamente com o gênero. à Neuza. É um movimento surdo e contínuo. de pobre e de negra. Mais do que o conformismo em si. como afirma Giddens. chamavam a si a exclusividade com estes. aprisionando mulheres a ocuparem cargos e em categorias profissionais cujo piso salarial seja menor. o mesmo não se verificou quanto ao exclusivismo com os filhos. é atribuindo nomes a funções idênticas. ainda que num ‘estado paralelo’. como se tivessem falando de uma realidade que não a sua. uma vez que. Esta aparente e paradoxal situação de comodismo pode nos revelar um movimento de resistência muda. que por sua vez são produtoras e reprodutoras. (1993) em relação aos homens se dava quanto a divisão das tarefas domésticas e à liberdade que estes outros têm. modificar. Se os ‘discursos ressentidos’. numa análise foucaultinana de “lá onde tem resistência. desvaloriza tudo o que delas provém. são igualmente fatores de exclusão e de opressão. Franca. e longe de reivindicarem em ajuda aos companheiros em relação aos cuidados com os filhos. como ‘obrigações de mulher’ – a educação e o cuidado com os filhos. tem poder” (1987). estas trabalhadoras teciam comentários ora espantadas. pois embora se vissem e se reconhecessem no discurso. quando não permitiam que seus companheiros assumissem aquilo que elas próprias defendiam. Exceção outra vez feita. e devemos salientar que estas duas outras. ora em tom jocoso. com a categoria gênero. E isto ficou muito claro. Não podemos nunca negar a dimensão da classe social e da raça e etnia. ao reproduzir o status quo das mulheres. 16(2): 43-56.aquilo que muitas vezes não está ao alcance de suas mãos. E a forma mais ‘lógica’ e natural para lidar com esta questão. ainda que imperfeita. há dez anos. mas uma resistência que as permite caminhar e levar adiante seus projetos de vida. naturalizando a condição hegemônica masculina. 2007 . o capitalismo veio coroar esta posição. Se o patriarcado evoluiu para a degeneração e a desvalorização de tudo o que se refere ao gênero feminino. é a situação de estranheza num primeiro momento. Fechavam o reduto em torno de si mesmas. A meu ver um movimento de resistência e poder. que a meu ver parece ser a que tem mais consciência de sua tripla condição de exclusão e submissão: a de mulher.

de lazer ou de descanso. e que pode ser viabilizado a partir da intervenção profissional no próprio espaço organizacional. trabalho remunerado. possibilitando o espaço da troca de experiências. Em verdade o trabalho de campo realizado em 1997 e defendido um ano após. uma vez que o excesso de atividades domésticas e não doméstica. temos muito a contribuir. Franca. prioridade. Em que pese as inúmeras e significativas mudanças sócio-econômicas em nosso país. quando a mão dura da enfermidade ou do afastamento compulsório toca-lhes os ombros. 1976). M. C. reserva-lhe quase nenhum tempo de ócio. 2005. Ou se poderiam ter simplesmente desaparecido. Isto é o que chamamos empoderamento das partes da população que costumam ser destituídas de voz e poder. portanto. O dilema em conciliar (sem culpa) o trabalho e maternidade. No tocante a esta realidade é que acredito que. que parece ser uma constante em suas vidas. não se livraram da preocupação.hierárquicos superiores. 2007 . cuidados consigo mesma – este quase sempre negligenciado. criação dos filhos. L. mas refirome a constante preocupação em aliar família. além das mudanças óbvias e já citadas aqui. para que estas mulheres possam encontrar um canal aberto para discutir sua situação e apresentar propostas cabíveis com sua condição. uma vez que cabe a nós reorganizarmos os arranjos organizacionais e situações vivenciais. Vivo sempre preocupada. Franca: UNIFRAN. o ensino e a aprendizagem de novas formas de lidar com velhos problemas.. tem o seu motivo de ser. 1997. ou fora dele. na vida destas mulheres. que reflete na vida dos cidadãos. A saúde física e emocional destas mulheres fica. nós profissionais da área social e da saúde. todas elas. Esta pesquisa teve o intuito de reconhecer quais seriam os novos sintomas produzidos por estas mulheres. e que fora publicado em 2005 sob outro nome “Vivo sempre preocupada 1”. 51 Serviço Social & Realidade. Claro que aqui não defendo ser uma prerrogativa feminina. seja mais complicado (MADEIRA. SAFFIOTI. Agrega-se a isto o fato de que a saúde e o bemestar dos filhos e do cônjuge serem. via de regra. 16(2): 43-56. comprometida. sem exceção. Muitas vezes se atentam às suas saúdes. em detrimento de si próprias.. em lugares destinados comumente ao ócio ou ao encontro de 1 BUENO. ou se haviam mudado de nome ou de intensidade.

apesar da vitória. como uma ‘ameaça’ aos lares daquelas que continuam casadas. sendo inclusive alguns bem mais jovens e inexperientes que ela. alcançando sua independência financeira. homens. de direitos humanos e de saúde: “A promoção da responsabilidade social com o ‘empoderamento’ da população e aumento da capacidade da comunidade para atuar nesse campo” (Cartas de Promoção de Saúde.pessoas. embora aparentando bem menos. 2007 . segundo sua ótica. p. consciente e inegável. subindo de posto. O exemplo típico é o de Neuza. Franca. teve que assistir a muitos passarem à sua frente. como a volta ao mercado de trabalho. o que é para ela. não deixa de transparecer que. pois com o aumento de sua prole. Se antes ela representava uma afronta à ‘dignidade’ da sociedade. graduar-se e até cursar uma pósgraduação. 16(2): 43-56. ou ainda uma ‘tábua de salvação’ para aqueles muito mais velhos ou ainda com filhos de um primeiro relacionamento. No outro extremo está Araci que. e todos. teria que renunciar ao trabalho remunerado. que apesar dos seus quase trinta anos de dedicação à indústria. 16. ou uma aventura fácil para os homens mais jovens. o que seguramente representaria problemas de ordem econômica em sua vida. uma fonte de preconceito contra as mulheres. e isto inclui família e filhos. mas aos 50 anos de idade. que ainda povoa o imaginário coletivo. sobretudo quando ela possui baixa escolaridade e pouca qualificação profissional. Há por um lado. e com a escassez crônica de creches nas indústrias. hoje ela pode ser vista para alguns. pois trata da ‘mulher separada’. não fosse a colaboração de seus pais. continuando solteira e tendo maior escolaridade que todas conseguiu com seu esforço. e que. A rede solidária e familiar de atenção às crianças é bem a situação que ilustra a vida de Elaine. 2002). é sempre uma carga a mais para a mulher. Considerações finais O percurso biográfico destas mulheres corrobora a idéia inicial de que para as mulheres é mais difícil tanto a ascensão aos postos hierárquicos. diga-se de passagem. Roseli traz outra questão que ainda é de certa forma. 52 Serviço Social & Realidade. não consegui concretizar todos os planos que a deixariam completa. Agindo assim estamos de acordo com o que está preconizado em muitos tratados e resoluções sociais. uma perda afetiva neste plano.

responsabilizar o marido para as atividades tidas como exclusivas da mulher. Mas o que menos se alterou foi a presença constante e inquietante de um sentimento de estar sempre se adiantando. ambos fazendo concessões e renúncias para ser viável a vida familiar. A situação de estranheza. insônia. hoje. sonhos. a política. apesar de sua origem humilde. tanto seus corpos. mas igualmente a possibilidade de não serem felizes ou de renunciarem aos sonhos que vêm embalando numa gestação sem fim. Finalmente Rosângela aprendeu pela própria experiência. e não somente estes são o que lhes preocupam. Perceber-se a si mesmo como lutadora. em dez anos muita coisa se modificou: os filhos. 2007 53 . que a culpa que sentira ao deixar o bebê Raul. Não é a toa que foi a que se mostrou mais tranqüila. conseguiu com sabedoria. O que não é comum é perceber que. Se naquele momento a preocupação mais evidente era com o filho pequeno. Sentimento este traduzido como preocupação excessiva. os maridos. revelada pelos comentários jocosos e risadinhas e afirmativas de que tudo ou quase tudo não mudou em essência. às expectativas e aos acontecimentos cotidianos. o trabalho e o relacionamento do casal. esses já crescidos lhes trazem outras fontes de preocupação. seus relacionamentos. estas mulheres quando estimuladas a se lembrarem de seus próprios sentimentos. já é lugar comum. fora minimizada ao dar continuidade à própria existência. os empregos. negociando funções. que as condiciona a se verem presas neste torvelinho mental. em resultado. descrevendo o relacionamento conjugal como uma importante fonte de crescimento e ajuda.Vilma é a representante da mulher que. estando mais predispostas aos sintomas secundários trazidos ou agravados pela preocupação: dores de cabeça. 16(2): 43-56. atitudes e até sintomas. sendo hoje uma testemunha viva da superação do que lhe parecia impossível. os Serviço Social & Realidade. fazem-me supor que. Franca. elas próprias. estar na etiologia de casos de depressão e também de pânico. ansiedade. como combativa e com todos os encargos que a má distribuição dos afazeres domésticos e as responsabilidades com a criação dos filhos. fadiga. irritabilidade. revelando encontrar no auxilio e incentivo recebidos de outras mulheres a possibilidade de ser uma ‘sobrevivente de si mesma’. a sociedade. e em casos mais extremos sabemos – apesar de não ter sido aqui relatado – da possibilidade do componente estressor.

recebem como alheios a si mesmas, embora os reconheçam legitimamente como seus. Acham graça que tantos contratempos e dificuldades tenham-lhes marcado a vida, sobretudo por perceberem, no estímulo dado pela retomada de seus discursos, que, apesar das evidentes mudanças, no fundo quase nada mudou no que diz respeito à sua condição de subordinação às ‘leis naturais’ que impõe destinos nada semelhantes às mulheres e homens, em que pesem estes também terem suas dificuldades e estereótipos, reconheçamos. Mas evidentemente a carga emocional, o ônus do ser que se reproduz, é infinitamente mais pesado sobre a mulher, portanto ouso afirmar do ônus da maternidade, que sem o aparato devido, sem o apoio social e governamental, sem creches e sem uma divisão igualitária das funções no espaço doméstico, acarretalhe afastamentos provisórios ou definitivos, sub-empregos, ou mão de obra pouco qualificada, comprometendo sua carreira, e alimentando o ciclo de trabalho fragilizado, pobreza e desigualdade. Mesmo que os filhos não sejam mais crianças, mesmo que não se sintam mais culpadas em deixá-los, como outrora, estas mulheres têm em suas trajetórias de vida, a marca da preocupação, a lhes acompanhar o dia a dia a existência. É o que Nick Marshall2 personagem vivido por Mel Gibson no filme “Do que as mulheres gostam” – conclui, quando, por um acidente, passa a ler o pensamento delas: As mulheres vivem sempre preocupadas. Touché!
BUENO, C. M. L. B. P. “I remain concerned”... (10 years later): psychosocial aspects of women with a double day of work. Serviço Social & Realidade (Franca), v. 16, n. 2, p. 43-56, 2007. •

ABSTRACT: Based on research accomplished 10 years ago with the workers of the leather-footwear sector of the city of Franca, this investigation intends to listen what in fact changed in the lives of some of those women, that told basically in those times, a series of symptoms

2

“Do que as mulheres gostam”. Direção: Nancy Meyers. Elenco: Mel Gibson, Helen Hunt, Marisa Tomei, Alan Alda, Ashley Johnson, Mark Feuerstein. Ano de exibição: 2000. Paramount Picture.
Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 43-56, 2007

54

and complaints of psychosomatic origin, that were linked to the situation lived by them, and that was explained by the overload of activities and responsibilities among the world of the work, the domestic activities and the cares with the children. Elapsed one decade and located six of the 14 interviewees, we have tried to know what in fact had changed in their lives concerning the work, which strategies were used for the conciliation between the private and the public space, about the domestic activities and responsibilities, the care with the children, the continuity and the challenges of the paid work and the cares taken concerning health and well-being. Looking for understanding if they remained with the same complaints and symptoms, besides knowing their conciliation strategies – what, ultimately, represents a creative exit to escape from psychic sickness, was the intention of this longitudinal study with the workers, being used the same methodology and locating them in the same initial locus the factories and industries of the labor park of Franca. • KEYWORDS: Psychic Suffering; Work; Health; Subjectivity.

Referências BUENO, C. M. L. B. P. A mulher e a culpa. Relações entre carreira e maternidade. Um estudo realizado com as operárias das indústrias do setor coureiro-calcadista de Franca, SP. 1998. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) -Faculdade de História Direito e Serviço Social-UNESP, campus de Franca, 1998. BUENO, C. M. L. Vivo sempre preocupada. O dilema em conciliar (sem culpa) o trabalho e maternidade. Franca: UNIFRAN, 2005. FIORIN, L. Elementos de análise do discurso. 9. ed. São Paulo: Contexto, 2000. (Repensando a língua portuguesa) FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Tradução Maria Teresa Costa Albuquerque e J. A. Guillon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1979. GIDDENS, A. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: UNESP, 1993. MADEIRA, F. R. Quem mandou nascer mulher? Estudo sobre crianças e adolescentes pobres no Brasil. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos: UNICEF, 1997.
Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 43-56, 2007 55

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Políticas de Saúde. Projeto Promoção de Saúde. As cartas da Promoção de Saúde. Brasília, DF, 2002. (série Textos básicos em saúde). MINAYO, M. T. S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 1992. (Coleção Temas) SAFFIOTI, H. I. B. A mulher na sociedade de classes: mitos e realidade. Petrópolis: Vozes, 1976 (Sociologia Brasileira)

56

Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 43-56, 2007

A (DES)PROTEÇÃO SOCIAL DO TRABALHADOR: OS CASOS DE ACIDENTE DE TRABALHO Gisele Aparecida BOVOLENTA* Silvana Cunha KOHN** Maria Aparecida Mendes SOARES**
• RESUMO: Desde os primórdios da humanidade o homem exerce a atividade laborativa, como mecanismo de sobrevivência, assegurandolhe “proteção social”. No entanto, a concepção, bem como as relações de trabalho, com o passar dos tempos, mudaram muito. Hoje, temos o mundo do trabalho submetido às leis do capitalismo. Assim, as flexibilizações, terceirizações e informalidades fazem farte deste novo cenário. Aqui, portanto, enfatizamos os casos de acidentes de trabalho, o qual se constitui como um dos Programas de Aprimoramento Profissional na área de Serviço Social, cujo intuito seja conhecer a (des)proteção social vivenciadas pelos trabalhadores brasileiros. PALAVRAS-CHAVE: Proteção Social; Mercado de Trabalho; Acidente de Trabalho.

I Introdução A atividade laborativa acontece desde os primórdios da humanidade, quando por meio do trabalho o homem assegurava sua sobrevivência com a produção de roupas, alimentos e moradia, provendo, assim, suas necessidades essenciais. Isto é, o trabalho garantia-lhe proteção social. O sistema de proteção social “concedido” ao ser humano deve ser compreendido juntamente ao processo político, ideológico e econômico da sociedade, ou seja, toda trajetória histórica de proteção social, enquanto direito, está intimamente relacionada com a dinâmica da relação capital versus trabalho, em que assegurar amparo mínimo – como pré-condição básica de sobrevivência de todo cidadão – perpassou desde o caráter de esmola, caridade e benevolência até a concepção de direito social.

*

Assistente Social e Aprimoranda no Programa de Atendimento Social ao Acidentado de Trabalho da Unidade de Emergência Referenciada (UER) da UNICAMP em 2006. ** Assistente Social e Supervisora do Programa de Aprimoramento Profissional na UER. Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007 57

Ideologicamente a concepção acerca do trabalho mudou muito, principalmente quando o trabalho se torna assalariado e submetido às leis da propriedade privada capitalista. Desse modo, nosso intuito, aqui, não é fazer análise ideológica, mas, sim, propor uma discussão acerca da (des)proteção social vivenciada pelo trabalhador brasileiro. Para tanto, enfatizamos o mundo do trabalho a partir da década de 1980/90, devido o grande salto tecnológico – com a robótica, micro-eletrônica, informática e automação – e a ideologia neoliberal legitimada no Brasil a partir desta década, o que molda uma nova realidade ao mercado de trabalho no país. Aquele ao destacar o toyotismo como “novo” modelo de produção capitalista. Esta ao preconizar os ideais acerca do “Estado Mínimo” – como a liberdade e a primazia que o mercado exerce sobre o Estado – reduzindo as funções, o tamanho e o papel dos órgãos estatais. Desse modo, em virtude de tal “combinação”, vivenciamos o mundo do trabalho moldado pela precarização, parcialidade, temporalidade advindos das flexibilizações, terceirizações e informalidade. Além da constante redução do trabalho fabril, estamos diante de uma nova era para a história do capitalismo (de reestruturação produtiva, desemprego estrutural, flexibilização de direitos, representações trabalhistas moldadas pelos ideais do capital, etc) o que suscita desproteção social, gerando uma gama de excluídos das leis trabalhistas e previdenciárias. Estima-se que atualmente 60% dos trabalhadores estejam inseridos no mercado informal, ou seja, a grande maioria dos trabalhadores brasileiros não possui carteira assinada, encontra-se em trabalhos precários, desumanos e insalubres. Dados que fazem o Brasil ocupar o 4º lugar no ranking mundial em acidentes de trabalho. A cada ano quase dois milhões de trabalhadores morrem por acidente de trabalho no mundo, o que representa cinco mil mortes ao dia ou três por minuto. O programa de aprimoramento profissional em Serviço Social da Unidade de Emergência Referenciada (UER) na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) trabalha junto às vítimas de acidente de trabalho, tendo por objetivo a investigação, a decodificação e a compreensão da realidade sócio-trabalhista do acidentado. O objetivo do programa, desenvolvido há 11 anos na UNICAMP, é capacitar e especializar o Assistente Social para o atendimento às vítimas de acidente de trabalho e doença
58 Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007

profissional, cujo intuito seja acolher, responsabilizar e dar respostas resolutivas aos pacientes vitimizados. Vale ressaltar que todo acidente ocorrido em decorrência do trabalho deve ser registrado. A empresa tem o dever de comunicar o ocorrido com seu empregador, havendo ou não afastamento do trabalho, até o primeiro dia útil seguinte ao da ocorrência e, em caso de morte, de imediato à autoridade competente, sob pena de multa. A notificação é feita por meio da Comunicação de Acidente de trabalho (CAT). Diariamente recebemos inúmeras vítimas de acidente de trabalho, muitas das quais advindas da realidade precária do trabalho, o que instigou-nos como objeto de estudo, a fim de conhecermos, de fato, a gama de desprotegidos de seus direitos sociais. Nossa pesquisa quanti-qualitativa se propõe ao levantamento de índices de acidentes ocorridos no segundo semestre de 2005 – julho a dezembro, quando registramos 611 vítimas de acidente de trabalho na UER. Uma amostra da realidade vivenciada pelos trabalhadores brasileiros. Desse montante, 30% das vítimas não possuíam registro em carteira, ficando expostos e desamparados em face de tal situação; 74% dos acidentes são registrados como típicos (no local de trabalho), o que suscita certa discussão acerca das condições de trabalho no país; a grande maioria das vítimas (74%) é do sexo masculino e em ambos os sexos a idade predominante dos acidentes se dá dos 19 aos 30 anos. Ou seja, dados estes que bem ilustram nosso debate teórico acerca das condições de trabalho do Brasil. Isto é, estamos diante de um novo contexto trabalhista, com novas diretrizes de trabalho ao assistente social, o qual necessita conhecê-la, decodificá-la e entendê-la, a fim de trabalhar rumo a garantia e efetivação dos direitos sociais. A seguir propomos uma análise teórica com ênfase em nossa pesquisa empírica, a fim de, com isso, ilustrarmos as condições de trabalho no país, bem como a desproteção social vivenciada pelo trabalhador brasileiro nesta atual conjuntura. II O histórico da política de proteção social Em linhas gerais, o provimento das necessidades essenciais se dá por meio do trabalho e da sociedade por intermédio do
Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007 59

em 1662. órfãos. na Inglaterra. protegendo as paróquias mais dinâmicas da invasão de indigentes de paróquias menos ativas. e. a mendicância e a vagabundagem eram exemplarmente castigadas. Somente. as Leis dos Pobres. que determinam ou deveriam determinar um nível mínimo de condição de vida. crianças carentes. 97). incorporam a Lei de Domicílio que restringia a mobilidade especial das pessoas. Franca. esse conjunto de regulações se identificar com a pobreza. Contudo. Posteriormente. embora poucas e restritas. Já nos primórdios de nossa sociedade cabia a cada um garantir sua própria proteção e aqueles mais fragilizados ficavam a mercê de ajudas filantrópicas. com a Lei dos Pobres1. No entanto. Historicamente. de modo a garantir condições mínimas de vida. Esse conjunto de leis era mais punitivo do que protetor. assegurando um conjunto de medidas. no entanto. a prática de garantir o mínimo sempre existiu. as primeiras medidas de proteção social que foram impulsionadas por uma monarquia muito preocupada com os efeitos sociais desagregadores. na aparência. a criação e/ou nascimento da Assistência Social. 1980. as quais possuíam a expressão de caridade. devido suas limitações. Serviço Social & Realidade. Todos eram obrigados a trabalhar sem ter a chance de escolher as suas ocupações e a de seus filhos (POLANYI.Estado. as primeiras formas de proteção social manifestaram-se de modo fragmentado e desordenado. que. inválidos. era no trabalho que ele se referenciava. devido às questões de cunho moral e religioso existentes. que a execução. de par com o Estatuto dos Artífices. como idosos. por exemplo. destinavam-se a atender apenas aos desastres naturais tais como. já no período medieval. em 1601 – já em pleno pós-resnascimento – que vão surgir. começam a surgir algumas ações estatais. a despeito de. portanto. eram ocasionados pelas primeiras e violentas formas de exploração da mão de obra. as quais. entre 1536 e 1601. 2007 60 . os limites e as aplicações das políticas de proteção social dão-se de modo muito distinto nos vários países e que a universalidade é o critério que consta como algo em comum nas legislações de tais políticas. compuseram o Código do Trabalho na Inglaterra. 16(2): 57-86. por meio do trabalho. tormentas e pragas. ou seja. de caráter social. Esta lei vem marcar. Vale ressaltar. desocupados voluntários e involuntários. com isso. até porque 1 As Leis dos Pobres (Poor's Law) formavam um conjunto de regulações précapitalistas que se aplicava às pessoas situadas à margem do trabalho. na verdade. etc. p. Sob a sua regência. Tanto é assim que. quando regulamenta a instituição de auxílios e socorros públicos aos necessitados.

a Lei do Parlamento foi uma forma de regulação até então inédita na história da assistência social. 2007 61 . se dava de modo muito aleatório e dentro das possibilidades de cada um dos grupos. mas. pois estes eram ou estavam “aptos” ao trabalho. pelo indivíduo. quando esta reconhece o “direito natural de viver”. possuíam o direito a tais medidas. por meio de sua atividade laborativa. Os pobres. ou seja. de pessoas muito próximas e quando muito através de entidades religiosas ou mesmo privadas. mediante iniciativas de natureza assistencial era garantido. eram obrigados a trabalhar por salários irrisórios. Quando subverte o antigo principio do trabalho em obrigação. que se caracterizavam em asilos e em casas de trabalho forçado. temos uma proteção social diretamente ligada à solidariedade. Pode-se considerar. Nesse primeiro momento. tinham acesso ou mesmo direito a qualquer tipo de benefício assistencial. como forma de concessão atrelada aos princípios de controle e de reprodução do capital. Em geral. na verdade. “ajudavam-se”. deveria ser complementado o que eventualmente não fora obtido. as crianças e os inválidos. cuja finalidade era assegurar que as condições básicas fossem supridas. Desse modo se a compararmos com as medidas de administração da pobreza. certa complementação que tanto poderia ser em materiais como em espécie. Todos os cidadãos. por viverem em grupos. ou seja. Tal prática. 16(2): 57-86. De tal sorte que a assistência social por sua vez era considerada uma prática de proteção social inerente à sociedade. a quem necessitasse. a Lei do Parlamento foi uma nova maneira de administrar a Lei dos Pobres. em meados de 1795. os idosos. a “ajuda” era proveniente do meio familiar. criava-se uma verdadeira rede de solidariedade social isenta do caráter de direito do indivíduo. e da assistência como confinadora. pois até então somente os incapacitados ao trabalho. mesmo assim. Franca. Com isso. Posteriormente. em forma de abono salarial ou rendimento mínimo. portanto.os homens. emergem na Grã-Bretanha. ou seja. Na verdade. porém. mas que. foram criadas as workhouses – casas destinadas ao trabalho. em geral. mutuamente. independentemente de seus ganhos e da sociedade. como ressalta Pereira (2002). com respaldo na Lei do Parlamento. as primeiras medidas de proteção social. existente até então. funcionavam como verdadeiras prisões – locais Serviço Social & Realidade. uma pequena evolução da assistência social. princípios estes que restringiram a prática da proteção social ao campo da filantropia e da caridade. Por isso.

Isso explicitou o embate entre as classes antagônicas. sem qualquer tipo de proteção social institucionalizada. com uma assistência social limitada e diante das leis impostas pelo mercado. “a produção social é cada vez mais coletiva. A partir desta lógica deixa-se de lado o “direito natural de viver”. p. interpretada sob o ponto de vista do poder. além de intervir de forma negativa na criação de um mercado de trabalho competitivo. é conhecida e problematizada. por sua vez. ou seja. como era habitual”. livre de contrapartidas. por volta de 1800. em face do contexto que a Igreja e o Estado respondem com medidas de enfrentamento a pobreza. Tal questão manifesta-se. monopolizada por uma parte da sociedade” (IAMAMOTO. 16(2): 57-86. a mando do sistema econômico. somente com a Lei do Parlamento “que se começou a pensar num abono salarial mínimo como forma de assistência social incondicional. É. com a promulgação das Encíclicas Papais Rerum 62 Serviço Social & Realidade. enquanto expressão das desigualdades da sociedade capitalista. 105). funcionavam como forma de controle da ociosidade e vagabundagem. Nesta mesma época. a Revolução Industrial expandia-se a passos largos. era vista como uma espécie de ameaça que a luta de classes – em particular. oriunda da classe operária – representava à ordem até então instituída.para onde se encaminhavam os indigentes em condições de trabalhar e que. uma vez que garantia um mínimo de renda devido ao abono salarial. Desse modo. a desigualdade e a iniqüidade. isto é. até porque esta poderia ser considerada um obstáculo na formação da classe operária industrial. trazendo consigo as forças livres do capitalismo industrial. No caso da Igreja Católica. p. quando transfere ao pobre a responsabilidade de garantir sua sobrevivência. portanto. punições e confinamentos. a miséria. Sua gênese encontra-se. no fracasso da Lei do Parlamento. Franca. enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada. transparece. 2007 . também. o que se designou chamar de “questão social”. a barbárie. portanto. o trabalho torna-se mais amplamente social. de forma mais explicita. na discrepância existente entre o trabalho e o capital. 27). mas nem sempre foi devidamente discutida e verdadeiramente enfrentada. 2001. Isso resultou. como acrescenta Pereira (2002. No entanto. que se expandia ao mesmo tempo em que se limitavam as ações da assistência social.

ou seja. podendo desestimular o trabalho e prejudicar o ideário capitalista. somente no século XVIII se dá à conquista dos direitos civis (direitos 2 Basicamente as Encíclicas Papais salientam a necessidade da conciliação entre as classes sociais. tinha a obrigação moral de praticar a caridade. já o Estado garantiria direitos por meio de leis trabalhistas e algumas ações pontuais. deixando este de ser dependente de qualquer tipo de “ajuda”. Isso significa que o “beneficio” deveria ser o menor possível. aqui. para com isso não prejudicar nem interferir no ideário capitalista e estimular a inserção do indivíduo no mercado de trabalho. burguesia e Igreja – com relação aos parias da sociedade e que. os vadios. na lógica do mercado. Mesmo porque. No entanto. que tais medidas. 2007 63 . Observa-se. Franca. destacando que o trabalhador deveria respeitar seu patrão e este. de modo a não deixar o pobre acostumado e os poderes públicos responsáveis por esse “ato benevolente”. Até então. não possuindo nenhum caráter de direito garantido por lei. isto é. os ociosos e os doentes seriam incapazes de produzir e reproduzir o progresso. destinavam-se apenas aos mais fragilizados: idosos. por sua vez. Serviço Social & Realidade. indigentes e. Vale ressaltar. questionava-se a criação de sistemas de proteção social aos pobres. até mesmo como uma forma de controle e solidariedade – do Estado. ou seja. Isto se daria por intermédio das redes de proteção ligadas as Irmandades. mais tarde. Desse modo. Associações e o trabalho leigo. Concomitante. a priori. aos desempregados.Novarum (escrita no final do século XIX) e Quadragésimo Anno (promulgada da década de 1930 do século XX). diante deste contexto de miséria e exclusão. fragmentadas e individuais. acreditava-se que as medidas de proteção social eram uma forma de incentivar o ócio e a vadiagem. os fracos. 16(2): 57-86. o que atrapalharia o curso “natural” da civilização. até então. inaugura-se uma nova fase dessa instituição no trato da “questão social”2. fazia-se necessária à execução de medidas de proteção social. se acreditava que a natureza se encarregava de selecionar os aptos a viver em sociedade. menor do que qualquer salário. uma proteção social vinculada exclusivamente à eventualidade. por se acreditar que tais sistemas poderiam prejudicar o que se entendia como um processo natural de seleção. permeada por ações isoladas. caracterizavam-se como uma espécie de ajuda.

Mais recentemente. Entretanto isso ocorreu sob o comando de um controle central de seguro saúde. 16(2): 57-86. patrões e Estado. H. com direitos e deveres legalmente estabelecidos. seguro velhice e seguro acidente com contribuições compulsórias (contrariando a ideologia liberal de seguros voluntários) de empregados. não coincide no tempo: os elementos civis. introduzia as caixas estatais no país. tendo sido. acabando por reconhecer que todos os cidadãos são iguais perante a lei.individuais de liberdade. cujo desenvolvimento. de propriedade. o sistema implementado pelo então governo conservador do chanceler Otto Von Bismarck (1815-1897). de participação. a principal função do sistema era desmobilizar a classe trabalhadora. sendo direitos individuais exercidos de forma coletiva. 2007 . Marshall uma concepção clássica de cidadania. Temos. relacionados à política eleitoral e sindical. também. de organização. à aposentadoria. como direito a ter direitos. de pensamento e o direito a propriedade e de concluir contratos validos) e o direito de justiça. de reunião. desenvolvimento e consolidação da sociedade capitalista. finalmente. reconhecido legalmente como um sistema de amparo ao trabalhador contribuinte. de igualdade. em T. de imprensa. no século XX. da classe trabalhadora. Na verdade. o elemento político compreende o direito de participar do poder político. No século XIX. seja como participante de um organismo investido de autoridade política. Franca. os direitos civis. portanto. 89). dos direitos sociais (direito ao trabalho. políticos e sociais iriam compor o conceito de cidadania3. o elemento social. compostos dos direitos necessários a liberdade individual (de ir e vir. por meio de lutas do movimento sindical. 64 Serviço Social & Realidade. há a conquista dos direitos políticos (liberdade de associação.). à saúde. seja como eleitor. etc. 2001. p. Claro que essa análise deve considerar o processo de luta de classes e o próprio surgimento. por completo. direitos estes que vão embasar a concepção liberal clássica. há a conquista.). e. “que se refere a tudo o que vai desde o direito a um mínimo de bem-estar econômico e segurança ao direito de participar. A partir disso. porém. na Alemanha no final do século XIX (precisamente em 1883). em geral regionalizadas. o conceito de cidadania compreende três elementos interrelacionados. etc. de ir e vir. incorporados à tradição liberal. Assim. acesso a uma vida digna). à educação. a qual sentia-se cada vez mais atraída pelos 3 Segundo Marshall. na herança social e levar uma vida de um ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade” (IAMAMOTO. em suma.

16(2): 57-86. iniciada na Grã-Bretanha e discutida por William Beveridge.] A Inglaterra tornou geral o seguro contra o desemprego em 1920 e introduziu as aposentadorias contributivas em 1925. portanto. No entanto. cuja renda fosse inferior a 320 libras por ano. o qual atendia apenas as pessoas empregadas. devido ao contrato de trabalho e prévia contribuição. muito embora. cada qual o tenha direcionado de uma dada maneira e se expandido de acordo com suas necessidades. o qual propunha a formação de um sistema complexo e completo de proteção social na ausência do salário. criou-se um sistema de seguro-doença e segurodesemprego como política de proteção social do trabalhador. o qual fora adotado em vários países. Em 1911. o da Inglaterra abrangia a assistência médica e o desemprego (numa escala limitada). associadas ao trabalho e a pobreza. em geral. Desse modo. Franca. o modelo beveridgiano de garantia às condições mínimas de vida. A Alemanha acrescentou o seguro contra desemprego a seu sistema em 1927. que deveria ser fruto do pleno emprego e acessível a todos. p.. enfatizada por Beveridge.ideais socialistas da social democracia-alemã. sua área de abrangência conferia caráter basicamente contratual no sentido de garantir acesso aos benefícios mediante o pagamento das contribuições. sabe-se que o seguro social de Bismarck é o berço dos programas de previdência social. 2007 65 . como garantia de uma proteção social institucionalizada. mas excluía o desemprego. por exemplo.. o seguro social de Bismarck ficou conhecido como esquema bismarckiano de proteção social. proposto pelo então presidente do Serviço Social & Realidade. mas deixava as aposentadorias de fora [. ficando. Segundo Marshall (1967. Esta lei foi em seguida complementada por outros benefícios e convergiu para a posterior concepção de Seguridade Social. Crítica esta. vinculado exclusivamente à atividade laborativa. por vezes. Aos poucos foram promulgadas leis em torno da assistência social. Assim. 78): O primeiro programa de previdência social da Alemanha incluía aposentadorias e assistência médico-hospitalar. Na verdade. um dos membros do estudo da reforma da assistência que em seguida foi eleito deputado no país.

A partir das décadas de 1970 e 1980 devido a problemas oriundos do mercado (alta inflação e baixo crescimento 4 A grande linha de abordagem de Keynes era de que o Estado deveria intervir na economia para garantir o pleno emprego e depois garantir desenvolvimento econômico. suficiente para assegurar uma certa segurança social. mas também atrelada a outros mecanismos de proteção social: proteção ao trabalho.comitê administrativo interministerial e encarregado do exame geral do sistema previdenciário britânico. Esse plano utilizando-se das teorias Keynesianas4 de distribuição de renda para embasar reformas na estrutura da previdência social em vários países. mas também a produção não podem ser abandonadas a própria sorte. como garantir o pleno emprego. pretendia ser abrangente. de William Henry Beveridge (1879-1963). Keynes foi um crítico da tradição clássica ao recomendar que não apenas a distribuição. além de afirmar o Welfare State da Grã-Bretanha a partir dos ideais de Seguridade Social. etc. do acidente. Mas. os governos aplicavam em suas políticas econômicas os fundamentos de tal pensamento. portanto. 2007 66 . O modelo proposto por Beveridge. 16(2): 57-86. pois segundo sua teoria não se pode colocar em primeiro lugar os interesses do capitalismo. Seu pensamento servirá de base para o Estado de bem-estar social. Serviço Social & Realidade. direito à saúde. morte e casamento. E. os motivos que ocasionassem a situação de necessidade. Em razão dessa definição. além disso. que assegurasse a aposentadoria na velhice. não só vinculada à manutenção da renda. etc. permitir acesso à educação. estimular o crescimento nas economias de mercado. portanto. educação. os governos começam a desenvolver políticas de pleno emprego com base na doutrina Keynesiana. Franca. que prestasse assistência aos que perderam seu sustento em decorrência da morte do provedor e que auxiliasse em despesas eventuais como: nascimento. A produção precisa ser incentivada pela atividade do Estado. expressando a idéia de amparo mínimo que ganha uma nova concepção. que tivessem múltiplas funções. resultou no Plano Beveridge de 1942. da doença. Como sistema de proteção social. este período áureo das políticas de proteção social não durou muito. unificado e simples de modo a assegurar que todos teriam de alguma forma acesso aos benefícios. desconsiderando. mesmo porque o sistema não teria capacidade de assegurar um equilíbrio econômico. o plano beveridgiano visava à garantia de um rendimento que substituísse os salários quando estes fossem interrompidos em virtude do desemprego. Seria a garantia de um rendimento mínimo.

enquanto demanda estatal. cuja nova denominação 5Modelo de produção originário no pós-guerra japonês. o que terá seus reflexos nas políticas de proteção social em geral. Era necessária uma proteção social assegurada pelo Estado. mas também era preciso uma proteção mínima. o qual possui flexibilidade para modificar (mudar) o processo produtivo em vigor. quando em conseqüência destes abalos identificavamse gastos sociais por vezes muitos altos. o mais rápido. p. Em decorrência disso. qualquer tipo de demanda existente. flexibilização de direitos. fez com que o modelo de produção que tanto particularizou o capitalismo do século XX. representações trabalhistas moldadas pelos ideais do capital. Ainda diante deste contexto. devido ao retorno do ideário liberal. Além da constante redução do trabalho fabril. 16(2): 57-86. Franca. 79) acrescenta que: A década de 1980 foi uma década de grande salto tecnológico que vivenciou uma revolução técnica no interior do capitalismo. 1996. 83). Ricardo Antunes (1996. p. a lógica taylorista de organização do trabalho. 67 Serviço Social & Realidade. deixasse de ser o único modelo dominante no processo de trabalho.econômico. ocorrem abalos na estrutura das políticas de proteção social. mas sim com um estoque o menor possível. Os gastos são considerados excessivamente desinteressantes para o mercado em vigor. o padrão fordista de produção fabril. etc. de que a automação. temporários. 2007 . a robótica. por exemplo). o que prevê um reordenamento na sua forma de gestão. Isso faz aflorar ainda mais as críticas por parte dos conservadores em relação às políticas de proteção social. que decorrem da flexibilização. cujo intuito é atender. o toyotismo5 ganha destaque nos países capitalistas. Desse modo. o que leva às mudanças no mundo do trabalho tais como: “trabalhos precários.). parciais. gerados em boa parte pela gama de mão-de-obra excedente oriunda do próprio sistema capitalista. Isto causa uma crise na Seguridade Social de Beveridge. principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento das forças produtivas. desemprego estrutural. a micro-eletrônica são as expressões por excelência. estamos diante de uma nova era para a história do capitalismo (de reestruturação produtiva. não operando mais em grandes estoques. e esse enorme salto tecnológico. da terceirização” (ANTUNES.

68 Serviço Social & Realidade. do aumento de contingentes de idosos e de pessoas portadoras de deficiência. não eram considerados seres humanos. Desse modo. todos demandantes da assistência social (PEREIRA. sabe-se que. 120). o que cria a necessidade rigorosa de critérios de seleção. nos primórdios do nosso processo histórico. Ora. Era preciso manter o equilíbrio social do mesmo modo que era necessário defender o ideário capitalista. preocupando-se basicamente em explorar ao máximo as riquezas naturais e a mão-de-obra abundante. Franca. sem relação com o trabalho e que garanta um mínimo de condição de vida. nessa época. Na verdade. o rei designava esmoleres e instituía cofres em órgãos públicos a fim de recolher espórtulas aos mais necessitados. p. 16(2): 57-86. no Brasil. Havia. as políticas de proteção social deveriam assegurar condições mínimas de sobrevivência. sendo esta. durante muito tempo. por outro lado. em tese. em sua trajetória histórica. quando as políticas de proteção social tiveram. mesmo porque não era assegurada. uma vez que mudanças sócio-econômicas respondiam pelo aumento do desemprego. da desagregação das estruturas familiares convencionais. A Coroa Portuguesa. uma grande pobreza vivenciada por essa “gente” que. portanto. Bem sucintamente. na verdade. há um crescimento dos planos de assistência social em virtude dos retrocessos das políticas de proteção social capitalista. a garantia de condições mínimas de vida. Do mesmo modo. mas sim seres sem alma que deviam obedecer aos seus donos. o que se entendia por proteção social e que era destinada aos mais expostos socialmente. Havia uma grande ausência de iniciativas oficiais e a esmola era a única forma pela qual se recorria. pouco ou quase nada se importava com a pobreza aqui generalizada. o desafio lançado é de construir uma proteção social com caráter redistributivo. A partir disso. o trabalho era realizado por escravos. volta-se ao conceito em torno dos mínimos sociais relacionando com o mínimo de renda. 2002. grandes influências e impactos das mudanças tanto econômicas quanto políticas ocorridas no cenário internacional. 2007 . de nenhuma forma. mas na realidade acabavam por amortecer os impactos oriundos da pobreza e da exclusão social.seria neoliberalismo.

Do mesmo modo. a Carta Imperial de 1824. na verdade. visando atender. que o conceito de proteção social. a pequenas enfermarias. Destarte. Sua formulação. 2007 69 . as necessidades mais visíveis. ou seja. caracterizando-se como um local de abrigo e alimentação. a prática da assistência limitava-se. mesmo trazendo de forma muito vaga o conceito de proteção social. além de limitada. uma vez que não era destinada a todos. em meados do século XVIII surgem algumas medidas na área da saúde – medidas de higiene – cuja finalidade era reduzir a peste que devastavam os povoados. A promoção de “status” a quem dela participasse era o principal atrativo para tornar-se um membro. uma vez que se tratavam de ajudas eventuais e consideradas urgentes. a Constituição Federal de 24/02/1891 trazia alguns apontamentos sobre proteção social quando Serviço Social & Realidade. pois a participação seria alvo de alguns privilégios que garantiria a realização de um bom trabalho. Nota-se. Contudo. os conventos. a qual resumiase basicamente e quase sempre em doações de alimentos aos considerados mais necessitados. não necessariamente vinculadas à Igreja. tínhamos uma proteção social emergencial e descomprometida. por meio das Irmandades e Congregações. na verdade. mas a determinadas categorias da sociedade.Paralelamente a isto. nos primórdios do país. 16(2): 57-86. Franca. Logo. a qual. esteve atrelado à questão da ajuda e da caridade. Assim. a Irmandade da Misericórdia foi a primeira e duradoura instituição de amparo social de expressão no país. porém. era muito pequena e destinada a poucos. tal instituição muito pouco fazia diante do atual contexto. mantiveram a prática da ajuda à população. era ainda muito incipiente e deficitária. Até o século XVII. portanto. Vinda de Lisboa e dotada pelos ideários da esmola como ajuda. fornece subsídios para a construção de um amparo mínimo instituído como direito e assegurado pela Constituição. as quais funcionavam ao mesmo tempo como albergue e hospital. tínhamos uma prática apenas aparente de que algo se fazia pela situação dos necessitados. ela surge em vários pontos do país e a princípio assegurava um dote aos órfãos e caixão para enterros de pessoas carentes. já que o direito somente se fazia cumprir por meio de instrumento jurídico. diante do dado contexto. Na realidade. portanto.

primeiramente. 2007 . ao passo que. em critérios legais e administrativos diferentes daqueles dos servidores civis e dos militares. pela primeira vez.. Além disso. a expressão “aposentadoria” para funcionários públicos. em 24/01/1923 é promulgada o Decreto n. um projeto de lei que determinava a criação das Caixas de Aposentadoria e Pensão (CAPs) para os empregados das empresas ferroviárias. Logo. Em 1923 foi apresentado pelo então deputado paulista Eloy Chaves. Do mesmo modo. os empregados do setor 70 Serviço Social & Realidade. que responsabiliza as empresas pelos acidentes de trabalho. p. “Antes de 1923. receber o conjunto de benefícios era. 1986. é na Carta de 1891 que se alude. a qual destacamos. 4682 de 24/01/1923 o qual é considerado o marco da previdência social no Brasil. é com a previdência social que a proteção social brasileira vai se estruturar como um direito ligado diretamente ao trabalho. 3724. mas foi com esta carta constitucional que se ganhou mais respaldo para executá-los.] a proteção social no setor privado baseou-se. e deles não se exigiam contribuições. Várias leis conferiam direitos sociais aos trabalhadores. Por exemplo. a determinadas categorias e num contexto em que a saúde e a assistência social ainda possuíam caráter de benevolência. um direito adquirido com a função. aqui. as quais seriam totalmente custeadas pela nação. porém ainda de forma discriminada. Malloy (1986. Franca. Além disso. entretanto. mesmo que destinado. dada a sua grande relevância. 4682 ou Lei Eloy Chaves. Em decorrência. 16(2): 57-86.” (MALLOY.determinava que seria incumbência da União prestar os “socorros públicos”. O projeto foi aprovado. temos o início de um seguro social destinado ao setor privado da sociedade. para fazer jus aos seus benefícios. para os servidores civis e para os militares. quando solicitada pelos estados. Assim. em 1919. transformando-se no Decreto Legislativo n. considerada a primeira lei brasileira a garantir proteção institucionalizada ao trabalhador. funcionários civis e empregados de empresas estatais. 49) acrescenta que: [.. 48). num contexto marcado pelo fortalecimento do movimento operário temos a implementação. desde o início. p. da Lei n. estes esquemas se restringiam ao setor público: militares.

desse modo. Desse modo. Eloy Chaves atendia aos anseios de uma elite interessada em si própria e controlava. neste mesmo contexto. O governo populista da época (a Era Vargas) ao mesmo tempo em que aceitava as exigências propostas pelos trabalhadores. o qual visava apenas legitimar-se enquanto poder e da mesma forma obter prestígio diante das classes populares. procurava controlá-las. do Código Sanitário e de uma legislação pouco prática voltada às questões trabalhistas: férias. velhice. 2007 71 . Serviço Social & Realidade. etc. traz para o país um dos momentos de maior avanço já alcançados pelos sistemas de proteção social. dos empregadores e do Estado. maternidade. na verdade. A Lei Eloy Chaves. tinha como respaldo as sociedades primitivas de ajuda mútua. Suas fontes para captar fundos se dariam com a contribuição dos empregados. 16(2): 57-86. temos em 1923 a criação do Departamento Nacional do Trabalho e da Saúde. embora tenha sido concisa. No entanto. objetivava em manter o status quo. uma divisão de classes: os segurados e os não-segurados. sob supervisão do governo) foram criadas como fundo específico para cada companhia ferroviária do país. Franca. observa-se que a previdência social brasileira não abrangia toda a sociedade. logo de início. além das diferenças administrativas das CAPs de uma empresa para outra. principalmente ao introduzir o sistema de financiamento com participação das três esferas: União. trazendo consigo princípios administrativos sobre o quadro de benefícios. as CAPs (organizações autônomas. Registramos ainda que. Isto se dava por meio da concessão de alguns benefícios e do discurso oficial de “Estado Protetor”. ampliando. Mas. empregador e empregado. invalidez. Ao mesmo tempo em que se baseava em modelos estrangeiros de seguro social. trabalho do menor e da mulher.privado e os servidores paraestatais deviam contribuir com uma porcentagem dos seus proventos. Isto cria. doenças. determinados setores da sociedade assegurando-lhes “um prêmio” ao final da jornada de trabalho. a Constituição de 1934. mas sim a setores e/ou categorias profissionais específicas. de certa forma. Assim. acidentes. os recursos e estabelecendo responsabilidades aos integrantes do sistema.

Franca. formado por poderosas famílias que. à previdência social e à assistência social” – Art. 1988. vale ressaltar aqui. assegurar a equidade e redistributividade na área social. mais tarde. Pois. amplitude. p. principalmente nos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs). a qual. medidas de proteção social são implementadas pelo Estado por meio das políticas sociais e da Seguridade Social. estabelecendo seus objetivos. Ao passo que. Porém. 16(2): 57-86. Além disso. com a Constituição de 1946 há a promulgação da mais importante lei previdenciária brasileira: a Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS). privado. Assim. Mas. pelo menos legalmente. com isso. exige-se a intervenção do Estado na regulação das relações de trabalho. Assim. Com isso. no Brasil o tripé da Seguridade Social constitui-se de modo tanto impuro ou misturado.A proteção destinada ao trabalhador formal ainda permanece centralizada na esfera federal. 194 – (BRASIL. caráter. funcionamento e financiamento como “um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde. o auge da intervenção do Estado nesta área – de amparo mínimo – se dá com a Constituição Federal de 1988 com a instituição do sistema de Seguridade Social. com a participação do Estado. sempre influenciaram a economia e a política do país. com isso. Além da existência de uma crescente massa de excluídos e ignorados – contribuindo. no Brasil. de modo a defender que os direitos sociais sejam respeitados. a responsabilidade estatal na defesa e garantia dos direitos sociais a fim de. que o histórico do Brasil aponta nosso país como centralizado. fica garantido. 164). pois até então a concessão de tais benefícios se dava de modo diferente para cada categoria profissional. de certa forma. para contextualizarmos o cenário em que se deu a conquista dos direitos sociais. isto é. dirigido por uma pequena elite. a Assistência Social vai aos poucos sendo assumida por grandes instituições. mas ainda com caráter benevolente. natureza. visando um amparo mínimo ao trabalhador brasileiro independente de prévia contribuição. na incapacidade do mercado em dar respostas aos problemas que geram. 2007 . o sistema de 72 Serviço Social & Realidade. o que vem ampliar. que a Seguridade Social é dever do Estado e direito dos cidadãos. em 1960 viria a padronizar os benefícios previdenciários.

a contribuição salarial. para financiar as atividades do sistema (Finsocial/Cofins. não houve no país um órgão específico que congregasse – a fim de administrar conjuntamente – o sistema instituído. 2007 73 . PIS/PASEP e recursos oriundos de loterias e concursos de prognósticos). disparidades de planejamentos e de ações nas três áreas. no que tange ao sistema de proteção social. 1992. o que gerou contradições na legislação da Seguridade Social brasileira6. a intervenção estatal – especificamente no caso brasileiro – em defesa da garantia de um amparo mínimo acompanha e/ou acompanhou o desenrolar político-econômico da sociedade em escala global. algo. 16(2): 57-86. acontece de maneira complexa trazendo consigo grandes mudanças nas diferentes áreas da sociedade mundial. III Considerações Trabalho importantes sobre o Mundo do No que tange ao campo orçamentário não houve uma integração plena e precisa dos recursos destinados ao sistema de seguridade social “as diferentes fontes que. políticas e culturais. Em face disso. p. 1998. previdência social e assistência social. não passou de idealização.seguridade é mais uma junção das três políticas que o compõem do que um sistema coeso e unificado. p. Isso sem falar na contribuição sobre o lucro das empresas. nos termos da Constituição federal. o que gera alterações sociais. juntamente à consolidação da Constituição Federal. portanto. o processo de globalização visível a partir da década de 80 (mesma década em que acontece a promulgação da Constituição Federal). Além disso. havia a proposta de criar-se o Ministério da Seguridade Social. na verdade. uma vez que “a política econômica e a política social relacionam-se intimamente com a evolução do capitalismo” (VIEIRA. a Assistência Social. 67). e os concursos de prognósticos. econômicas.15). o Finsocial/Cofins. Isso acontece de modo bastante desigual e contraditório. e particularmente no Brasil. de par com as contribuições dos salários. portanto. Do mesmo modo. a saúde. Isso. o custeio dos benefícios previdenciários. que foi usada para pagar os servidores públicos aposentados (PEREIRA. cuja incumbência se basearia em organizar administrativamente as políticas de saúde. 6 Serviço Social & Realidade. Franca. uma vez que. então. concorriam. ou seja: O PIS/Pasep passou a financiar programas do BNDES e de seguro-desemprego. passaram a ter uma vinculação especializada. bem típico do sistema capitalista e que terá suas repercussões na legislação brasileira. Criaram-se.

com destaque a situação dos trabalhadores em nosso país. tratem do futuro. Para tanto. com Collor (SERRA. apud Draibe (1993. em decorrência dos preceitos neoliberais7. no começo de 1980. com a produção de alimentos. enfatizamos o mundo do trabalho a partir da década de 1980/90. em seguida. em linhas gerais a descrevemos como a liberdade e a primazia que o mercado exerce sobre o Estado. Gastar é ruim. mas sim propor uma análise mais atual e crítica. embora não haja uma descrição única e precisa sobre a teoria neoliberal. 1993. nos Estados Unidos. o acesso aos bens sociais. aqui. o qual não deve intervir no “livre jogo” do sistema econômico. não é fazer uma discussão tão histórica sobre o mundo do trabalho. vivenciamos uma realidade um tanto distante dos preceitos de proteção social. uma redução desse Estado no que tange ao seu tamanho. principalmente por meio da ideologia do “Estado Mínimo”. Serviço Social & Realidade. quando da introdução do neoliberalismo no Brasil. Há predominância do caráter individual sobre o coletivo e a formulação do Estado Mínimo. Repudiem o passado. p. os neoliberais têm conceitos. e alcançou o Brasil em 89. Ao cabo de pouco tempo as idéias neoliberais começam a soar como combinações aleatórias de palavras mágicas. Precisamos de parcerias. ainda vai gerar novas e inovadoras condições de desigualdade social. p. institui a quebra das conquistas dos trabalhadores e ao desbaratamento do poder dos sindicatos possibilitando. Falem de necessidades nacionais. Acima de tudo. com Reagan. chegando à América Latina. ou seja. Franca. 2007 74 . 150). Espalha-se pelo mundo. não de demandas de interesses especiais. onde o retorno da democracia política foi acompanhado pelo abandono dos modelos econômicos estatizantes. Exijam crescimento. 89): Em lugar de ideologia. não distribuição.A história do trabalho acompanha a história da humanidade. 16(2): 57-86. É ruim exigir programas. Nossa intenção. Por conseguinte. conforme Schneider. É bom ter prioridades. não de governo forte. Ou seja. vestuários e moradia. Além disso. além de reproduzir as desigualdades existentes no mercado de trabalho. quando desde os primórdios o homem já assegurava sua sobrevivência por meio da atividade laborativa. o 7 O neoliberalismo se implanta na Inglaterra com Thatcher no final da década de 1970 e. assim. ao seu papel e as funções.

rebaixamento salarial e o aumento da competitividade entre os trabalhadores. Os liberais já defendiam o investimento mínimo em áreas sociais, de modo a manter, sob controle, a questão social, expressada por vezes, na diminuição e eliminação de postos de trabalho, na flexibilização, na terceirização, na marginalização e na precariedade da atividade laborativa e desempregos em geral. Atribui-se, assim, um caráter residual às políticas sociais, além de desconfigurar, por completo, as políticas de proteção social. Desse modo, ao dar ênfase ao sistema capitalista – como modelo econômico a ser adotado – formula-se uma combinação perfeita e intimamente relacionada entre o modelo neoliberal – como teoria política em gestação – e a reestruturação produtiva – como redefinição do processo de produção de mercadoria – a fim de, com isso, efetivar as exigências impostas pela reforma capitalista. Do mesmo modo, criam-se meios para redirecionar a atuação do Estado, como por exemplo, as reformas da previdência (emenda 19 e 20).
Nessa conjuntura, as mudanças nas relações entre Estado, sociedade e mercado materializam-se em um conjunto de medidas de ajuste econômico e de reformas institucionais, cujos destaques são os mecanismos de privatização, as pressões do empresariado e da burocracia estatal para suprimir direitos sociais e trabalhistas e a “naturalização” da superexploração do trabalho (MOTA, 2000, p. 37)

Assim, com a finalidade de reduzir e/ou reordenar a ação e intervenção estatal em relação às políticas de proteção social, o sistema capitalista reestrutura também o próprio mercado de trabalho ao flexibilizar as relações de trabalho, aumentar a competitividade, a mão-de-obra, o desemprego, o subemprego, etc. Flexibiliza, também, leis e direitos ora assegurados constitucionalmente, pois
Enquanto a grande indústria fordista necessita do Keynesianismo, a indústria de produção flexível necessita de liberdade de mercado e da abolição de parte dos controles do Estado sobre as condições de uso da força de trabalho. Esta nova concepção, que já se materializa pela supressão de alguns mecanismos de proteção social, é corroborada pela Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007 75

ofensiva de mudança na legislação do trabalho (MOTA, 2000, p. 38).

O processo de reestruturação produtiva – preconizada pela reforma capitalista – ocasiona mudanças no mundo do trabalho que “afetam imediatamente o processo de trabalho e, mediatamente, o controle da força de trabalho, operando mudanças de ordem técnica, mas amparadas em práticas essencialmente políticas” (MOTA, 2000, p. 38). Desse modo, sob a ótica neoliberal, engendram-se determinados processos – reestruturação produtiva e mudanças no mundo do trabalho, por exemplo – que culminarão em propostas de reformas, as quais baseiam-se, essencialmente, em redirecionar as ações estatais, com medidas de ajuste, e a atuação das políticas sociais, o que “exige um Estado reduzido que garanta a realização do mercado, centrando suas funções em segurança, fiscalização e arrecadação de imposto” (CABRAL, 2000, p. 129). O objetivo desse processo é ajustar o país ao novo contexto posto pelo capitalismo mundial, o que se designou como sendo a Reforma do Estado. Assim, longe de uma análise simplista, a Reforma do Estado visa, em linhas gerais, adequar as ações estatais, sob orientação do mercado em vigor, em relação ao mercado internacional, em que tal contexto passe a exigir novas formas de ação e atuação por parte do Estado “respondendo às novas condições de competitividade e inserção no mercado mundial” (BEHRING, 2000, p. 43). Concomitante a isto,
Os investimentos na área pública, que historicamente cresceram em vários países, principalmente no âmbito da Seguridade Social, são entendidos, pelo Banco Mundial, como gastos mais quantitativos que qualitativos, não atendendo às necessidades dos segmentos populacionais mais pobres. Entende, ainda, que esta forma de atuação dos Estados nacionais não condiz com os atuais parâmetros da economia mundial globalizada, pois as mudanças tecnológicas têm ampliado as funções dos mercados e obrigado as nações a assumirem competências novas (SIMIONATTO, 1999, p. 14).

76

Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007

Caminhava-se na direção de reduzir e/ou flexibilizar direitos, em que se transformam as políticas sociais em pontuais, compensatórias e limitadas, contrariando, desse modo, o legalmente posto, como política universal, redistributiva e justa. Com isso, portanto, o Banco Mundial faz algumas “indicações” ao Brasil ao tratar a temática e conseqüentemente a Reforma do Estado, em que se faz necessário:
a) a delimitação do tamanho do Estado, reduzindo suas funções através da privatização, terceirização e publicização, que envolve a criação das organizações sociais; b) a redefinição do papel regulador do Estado através da desregulamentação; c) o aumento da governança, ou seja, a recuperação da capacidade financeira e administrativa de implementar decisões políticas tomadas pelo governo através do ajuste fiscal; d) o aumento da governabilidade ou capacidade política do governo de intermediar interesses, garantir legitimidade e governar (SIMIONATTO, 1999, p. 14-15).

Assim, a partir desses componentes desenvolvem-se no país propostas de privatização, diferentes formas de terceirização, flexibilização, transferência de responsabilidades – do público estatal ao privado –, reformas administrativas e sociais, etc, o que moldado pela ideologia neoliberal, configura o novo cenário em construção, o qual, por ora, prioriza o sistema econômico mundial em detrimento dos direitos sociais. Desse modo, portanto, as reformas da Previdência Social, ocorridas após a Constituição de 1988, ao justificarem-se, de acordo com os argumentos do governo federal, no déficit de caixa, em sua viabilidade junto ao sistema econômico em vigor e na relação ativo/inativo visam, na verdade, “adequar” o sistema previdenciário brasileiro ao contexto internacional.
Assim, as agências executivas, que são o novo desenho de autarquias públicas, passam a adotar o modelo flexibilizado, com amplo emprego de terceirização e contratação de mão-de-obra precária, além de imprimirem ao seu gerenciamento um tipo de metodologia de controle de qualidade com fixação de contratos de gestão. São, ainda, características desse novo padrão gerencial do Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007 77

Estado a intensificação do ritmo produtivo, a desregulamentação, a polivalência no exercício das atividades e a redução de pessoal, acarretando significativas mudanças no mundo do trabalho público. (CABRAL, 2000, p. 128).

As mudanças ocorridas no mundo do trabalho e as reformas do aparelho estatal, ambas, portanto, sinalizadas num contexto global, terão reflexos e rebatimentos, ainda mais profundos, nas políticas de previdência social e assistência social. Segundo dados apresentados por Pinheiros (2000, p. 01) “no Brasil a proporção da população com mais de 60 anos passou de 4% em 1940 para 8% em 1996. De acordo com as estimativas [...] esta proporção deve alcançar 15% em 2020”. Diante de tal conjuntura, existem, segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), um índice de mais de 59% da população economicamente ativa fora ou descobertos pela previdência social brasileira e com isso, ainda, segundo Pinheiros (2000, p. 09) “no futuro, caso não tenham acumulado renda, esse contingente dependerá de benefícios assistenciais, onerando toda a sociedade, ou viverá às custas de suas famílias”. Isto é, haverá uma demanda ainda maior à assistência social, como meio de acesso ao mínimo de subsistência. E, ainda, segundo estudos atuais (2000) da OIT (Organização Internacional do Trabalho) apontam que,
[...] mais da metade da força de trabalho mundial e seus dependentes não estão amparados por qualquer tipo de sistema de seguridade social. Isso significa que, no futuro, esse contingente deverá pressionar por aumento dos gastos públicos em programas assistenciais ou reduzirá a renda média per capta de suas famílias. (PINHEIROS, 2000, p. 01).

Ou seja, uma gama significativa de trabalhadores brasileiros estará desprotegida socialmente. Seja em função do Estado Mínimo, seja em razão da reestruturação produtiva. Ambas, porém, oriundas da ideologia neoliberal, a qual criará “novas” condições de trabalho no país – algo que enfatizaremos neste documentário – quando temos uma realidade trabalhista moldada pela diminuição e eliminação de postos de trabalho, flexibilização, terceirização, marginalização e/ou precariedade da
78 Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007

atividade laborativa e desempregos em geral, o que gera uma “nova” realidade para o mercado de trabalho em vigor. Em face desta nova realidade, vivenciamos o descumprimento das normas de proteção social, o que gera um mercado de trabalho ainda mais desumano e cruel com precárias e vulneráveis condições trabalhista, algo que a Organização Mundial do Trabalho descreve como “um estado de elevada exposição a determinados riscos e incertezas, combinado com uma capacidade diminuída para se proteger ou defender-se deles e para fazer frente a suas conseqüências negativas” (RODRIGUES, 2004, p. 84). Ou seja, o trabalhador brasileiro está exposto ao trabalho socialmente vulnerável, o qual é isento de direitos e benefícios assegurados pela Constituição Federal, CLT e legislações afins. Assim, portanto, vivenciamos o trabalhador brasileiro, como parte da realidade, em postos de trabalho informais, desumanos e insalubres, pois em face ao desemprego, a “mecanização” da mão de obra e ao desrespeito aos direitos sociais, sujeitam-se à precariedade de muitos postos de trabalho. Aqui, portanto, destacamos os casos de acidentes de trabalho, os quais muitas vezes acontecem em decorrência das más condições de trabalho, além de legislações e fiscalizações limitadas por parte do Ministério do Trabalho e demais órgãos do Estado. Assim, conforme dados publicados na Folha de São Paulo em 04/05/2004, o Brasil ocupa o 4º lugar no ranking mundial de acidentes de trabalho. A cada ano quase dois milhões de trabalhadores morrem em acidente de trabalho no mundo, o que representa cinco mil mortes ao dia ou três por minuto, dado referente apenas ao trabalho formal. Dados, portanto, são ainda maiores, pois há ainda uma parcela, significativa, da população economicamente ativa (a qual estima-se que seja em torno de 60%) inserida em postos informais de trabalho. Nosso trabalho, junto às vítimas de acidente de trabalho na Unidade de Emergência Referenciada (UER) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), instigou-nos a realizar uma pesquisa quanti-qualitiva, a fim de conhecermos a realidade vivenciada pelo trabalhador brasileiro vítima de acidente e da desproteção social vivenciada atualmente pelos trabalhadores brasileiros. Fizemos, portanto, um levantamento por meio de uma amostragem (julho a dezembro de 2005) na Unidade de
Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007 79

Emergência Referenciada, quando houve o registro de 611 vítimas de acidente de trabalho. Assim, temos que 26% não possuíam o registro em carteira, ficando expostos e desamparados em face de tal situação. Ou seja, os postos formais de trabalho estão sendo “engolidos” e substituídos pelo crescente número de postos informais de trabalho. Decresce dia a dia o número de trabalhadores que ainda tem emprego regular e, portanto, gozam de seus direitos legais. Ao precarizar o trabalho, simplesmente, regredimos no tempo, pois deixamos de preservar todas as lutas conquistadas pela massa trabalhadora. Outro dado importante é o percentual de acidente que acontece durante o trabalho, quando 74% das vítimas se acidentam no local de trabalho, os chamados acidentes típicos. Este fato aponta sobre a situação de trabalho no país, quando, muitas vezes, são impostas ao trabalhador como meio de subsistência, o que desrespeita os preceitos de cidadania. A grande maioria das vítimas é do sexo masculino (74%). Ou seja, são os homens as maiores vítimas dos acidentes, mesmo porque são mais expostos em trabalhos pesados, perigosos e degradantes, o que indagamos, novamente, sobre as condições de trabalho no país, no que tange, por exemplo, as normas de segurança. Mas em ambos os sexos a idade predominante se dá dos 19 aos 30 anos de idade. Felizmente, a grande maioria das vítimas (70%) são liberados da UER em alta médica, por se tratar de acidentes identificados como leves e/ou menos graves. Mas o número dos acidentes de trabalho são considerados elevados no Brasil e precisam ser discutidos. Pois a queda destes índices reduz, por exemplo, os gastos, tantos das empresas quanto do sistema de saúde pública, com saúde curativa, afastamentos médicos, etc. Desse modo, a precariedade vivenciada pelo trabalhador brasileiro diz respeito à situação de desproteção social do trabalho (em virtude da atual conjuntura político-econômica), ou seja, o trabalho encontra-se desprovido de certos direitos e benefícios que amparam o trabalhador ao longo de toda sua vida laborativa, uma vez que, tal atividade constitui-se como mecanismo de prover suas necessidades básicas e fundamentais. Assim, por exemplo, em face de um acidente “devido” ao trabalho, o trabalhador encontra-se desamparado. E, menos acesso tem ainda aos direitos básicos do
80 Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 57-86, 2007

como a subsistência se dá meio da atividade laborativa. O aprimoramento realizado junto às vítimas de acidente de trabalho dá oportunidade ao profissional de conhecer. décimo terceiro. Here. 57-86. quando contextualiza o cenário das relações de trabalho no país. como meio e/ou direito à proteção social. as time goes by. the flexibilizations. E. De modo que. deu-se a precarização do trabalho. entender e trabalhar esta realidade. etc. desumanas e insalubres. 16. acima dos interesses do grande capital está o direito de cidadania (como direitos civis. 2007. we have the labor world submitted to the capitalism law. um desrespeito aos direitos sociais. O que precisamos ter claro. com trabalhadores sem estabilidade de emprego. outsourcings and informalities are part of this new scenery. é que como conseqüência da ideologia do “Estado Mínimo” e de uma política pública restrita de direitos. cuja intervenção junto às vítimas de acidentes de trabalho vise garantir o cumprimento das conquistas trabalhistas ao longo de nossa história. políticos e sociais) e com isso direito a um trabalho socialmente protegido. A. assuring him “social protection”. 16(2): 57-86. os assistentes sociais como profissionais da área precisam conhecer esta (nova) realidade social. licenças. a Constituição Federal. Sumariamente. n. which it is constituted as one of the Professional Improvement Programs in the area of Social Service. M. G. o profissional possa trabalhar rumo a garantia e efetivação dos direitos sociais. na ausência desta e/ou sem meios de acessá-la. as well as the work relationships.trabalhador. a qual aponta diferentes diretrizes de trabalho. v. Serviço Social & Realidade (Franca). A. o trabalhador se torna potencial usuário da política de Assistência Social. por entender que. p. we emphasized the cases of labor accidents. SOARES. However. M. S. Franca. changed a lot. sem direitos trabalhistas e em atividades precárias. aposentadorias. as a survival mechanism. the conception. como férias.. therefore. o descumprimento as normas de proteção social tem sido discutido por analistas da área. The social (dis) protection of the worker: the cases of labor accident. Por outro lado.. a legislação trabalhista. 2007 . • ABSTRACT: Since the humanity's origins the man exercises the labor activity. portanto. KOHN. decodificar. Thus. logicamente. Today. C. 2. BOVOLENTA. whose intention is to know the social (dis)protection lived by the 81 Serviço Social & Realidade. Assim.

Constituição da Republica Federativa Brasília/DF: Centro Gráfico do Senado Federal. n. 87-101. Reforma do Estado e Seguridade Social no Brasil. R. 2000. Brasília/DF: Conselho Federal de Serviço Social.. 1986. ed. Rev. Brasília/DF: UnB. R. BALERA. Código de Ética do Assistente Social e Lei n. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional.br/ CO_segprevi. MALLOY.662/93 de regulamentação da profissão. um reflexo da crise da Modernidade: o caso brasileiro. v. 4. • KEYWORDS: Social Protection. p. S. 7. 2001. São Paulo: Cortez. Rio de Janeiro: Graal.abepss. J. Acesso em 20 de agosto de 2004. Disponível em: <http:www. Revista Semestral do Programa de Pós-Graduação em Política Social do Departamento de Serviço Social da UnB. 2007 . Módulo 03. S. R. 8. do Brasil. 1993. 50. 1989. Franca. 1997. S. Anais do 10° CBAS. Revista USP. 2000.org. 3. Labor Accident. Capacitação em Serviço Social e política social. DRAIBE. fev. ______. Atual. São Paulo: USP. O. dos Tribunais. M. E. 08. As políticas brasileiras de seguridade social: Previdência Social. O padrão brasileiro de proteção social: desafios à democratização. Brasília/DF: UnB. 1996. Centro de educação aberta. V.Brazilian workers. São Paulo: RT. 82 Serviço Social & Realidade. W. Dimensões da crise e metamorfoses do mundo do trabalho. M. BRASIL. BRASIL. n. Análise Conjuntural. IAMAMOTO. Revista Serviço Social e Sociedade. Rev. continuada à distância. Política de Previdência Social no Brasil. 16(2): 57-86. ed. Referências ANTUNES. CABRAL. São Paulo: Cortez. A Seguridade Social na Constituição de 1988. 02. Labor Market. 1988. 17. ARAÚJO. ano XVII. A crise dos Sistemas de Proteção Social. BEHRING. n. n. M. 2001. 1986.htm >. As políticas sociais e o neoliberalismo.

2000. 1980. n. Serviço Social e Sociedade.4./dez. São Paulo: Cortez & Autores Associados. Aspectos sociais da Previdência Social no Brasil: O desafio de aumentar a cobertura.br>. São Paulo: Cortez. V. (coleção Polêmicas do Nosso Tempo). Mercosul e Reforma do Estado: o retrocesso da Seguridade Social. SIMIONATTO. ______. T. C. Revista Kalalysis. 1998. Texto preparado para o Congresso Internacional de Técnicas Atuariais e Gerenciamento Financeiro. 41. maio de 1999. organizado pela Associação Internacional de Seguridade Social – AISS e Ministério da Previdência e Assistência Social. Revista Inscrita. K. n. v. Acesso em 15 de abril de 2004. E. 2007 83 .gov. 2. VIEIRA. 1992. 1985. ORGANIZAÇÃO Internacional do Trabalho. H. Democracia e Política Social. disponível em: <http://www. ipea. Florianópolis: UFSC. PINHEIROS. S. 2002. Rio de Janeiro: Campus. São Paulo: Cortez. Necessidades Humanas: subsídios à crítica dos mínimos sociais. A política social no contexto da seguridade social e do Welfare State: as particularidades da assistência social. 1993. Política social. n. A grande transformação: as origens da nossa época. A. A nova fábrica de consensos: ensaios sobre a reestruturação empresarial. São Paulo: Cortez. São Paulo: Cortez. Brasília/DF: CFESS. I. Reforma do Estado abre caminho para o mercado.. R. P. E. SERRA. São Paulo: USP.). ed. (Org. A Seguridade Social na perspectiva do ano 2000.MARSHALL. ano II. 56. em Curitiba – PR – nos dias 04 e 05 de maio de 2000. ______. M. P. Serviço Social e Sociedade. 2001. Serviço Social & Realidade. A crise da materialidade do Serviço Social. n. 16(2): 57-86. Franca. A. PEREIRA. 1967. 05. MOTA. 49. jul. POLANYI. Rio de Janeiro: Zahar. o trabalho e as demandas ao serviço social.

.

cuja finalidade. o WHOQOL-bref. ** Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e Diretora de Divisão de Apoio Hospitalar do HRAC/USP. formado em sua primeira parte por 26 questões fechadas e na segunda por oito questões abertas para coleta de depoimentos. em Bauru. Teve como objetivo principal avaliar a qualidade de vida de indivíduos adultos com fissura labiopalatina. O universo foi composto por 46 sujeitos e a amostra de 27 casos que aderiram ao estudo. Franca. visão e linguagem. utilizou-se o formulário pautado no instrumento internacional de qualidade de vida. bem como índices significativos de satisfação profissional e com a atuação do serviço social do HRAC facilitador do processo de inserção no mercado de trabalho. 16(2): 87-128. psicológico. *** Assistente Social especialista na área da Saúde e Reabilitação pelo HRAC/USP e responsável pelo Programa de Atendimento Social a Casos de Bauru do HRAC/USP. PALAVRAS-CHAVE: Labiopalatina. mediante os domínios físico. em média. Bauru-SP. relações sociais e meio ambiente. residentes em Bauru. Bauru-SP. uma qualidade de vida de boa a muito boa. Para o levantamento dos dados. no período de agosto a novembro de 2006. Diante dos resultados. 2007 87 . Trabalho. Fissura • Introdução O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP). em fase final de tratamento no Hospital e inseridos no mercado de trabalho.TRABALHO E QUALIDADE DE VIDA DE PESSOAS COM FISSURA LABIOPALATINA INSERIDAS NO MERCADO PROFISSIONAL EM BAURU Lívia Ribeiro Silva dos SANTOS* Maria Inês Gândara GRACIANO** Regina Célia Arruda de Almeida Prado VALENTIM*** • RESUMO: Esta pesquisa trata-se de um estudo exploratório e descritivo realizado no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP). * Serviço Social & Realidade. além do ensino e pesquisa. concluiu-se que os sujeitos apresentam. busca por meio de Assistente Social da Sociedade de Promoção Social do Fissurado Lábio Palatal (PROFIS/Bauru) e Especialista em Serviço Social na área da Saúde e Reabilitação pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP). é prestar atendimento público e integral à população com anomalias craniofaciais e distúrbios correlacionados à audição. Qualidade de vida.

A partir de nossa experiência neste Programa. alimentação. ao trabalho. ao transporte. por meio de uma prática profissional competente e comprometida com os usuários. dentre eles à saúde e reabilitação. porém neste estudo iremos enfocar o Programa de Atendimento Social a Casos de Bauru – (“Projeto Bauru”) – realizado pelo Serviço Social Ambulatorial.439 pacientes matriculados. em sua totalidade. Franca. Assistência contínua aos pacientes de Bauru: família. entre outros. O “Projeto Bauru” tem como objetivo principal atender as demandas sociais dos pacientes residentes em Bauru relacionadas à família. Este processo envolve a ação de uma equipe interdisciplinar.suas ações colaborar com a melhoria da qualidade de vida de seus usuários. deste total 501 são residentes em Bauru e atendidos pelo Projeto Bauru. local de nossa prática profissional e de pesquisa de campo. * Dados obtidos pelo Centro de Processamento de Dados do HRAC/USP em junho de 2007. saúde. 88 Serviço Social & Realidade. escola. O Serviço Social desenvolve vários programas de prestação de serviços. escola. 2005). dentre elas o Serviço Social área que tem entre seus princípios fundamentais a ampliação e consolidação da cidadania. reabilitação. o Projeto Bauru abrange os seguintes programas: Acolhimento e atendimento a casos novos de Bauru. O Serviço Social no HRAC. viabilizando o processo de reabilitação. Conforme pontua Graciano et al (2005). 16(2): 87-128. De acordo com o Centro de Processamento de Dados* (CPD). trabalho e comunidade. tem como objetivo principal viabilizar o acesso ao tratamento reabilitador de pessoas com anomalias craniofaciais e sua continuidade. Adoção: nacional e internacional. Os serviços prestados. prestando-lhes assistência e serviços sociais como direito de cidadania. visando a inclusão dessas pessoas numa política de saúde em interface com a assistência social (GRACIANO et al. composta por diversas áreas. buscam formas de enfrentamento individual e coletivo para as expressões da questão social que envolvem o processo de reabilitação global. Atua como mediador entre Hospital. paciente e comunidade. à habitação. o Hospital possui 51. 2007 . com vistas à garantia dos direitos. Prevenção e intervenção a casos de abandono de tratamento.

na assistência social pública. Salienta-se que. psicológico. o assistente social trabalha a questão social nas suas mais variadas expressões cotidianas. Ressalta-se. ambos com idade entre 10 e 19 anos. da saúde e do bem-estar. E. que apesar do estigma. enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada. na área habitacional. teve Serviço Social & Realidade. todavia. p. 16(2): 87-128.especialmente com relação a inserção profissional. O primeiro realizado por Bachega (2002) com o objetivo de identificar. o trabalho torna-se mais amplamente social. 27): a questão social é o objeto do trabalho cotidiano do assistente social. relatou limitações dos indivíduos com fissura labiopalatina para o desenvolvimento de uma carreira profissional devido a baixa freqüência escolar. conseqüentemente. na família. desenvolvido por Veronez (2007). monopolizada por uma parte da sociedade. conforme o levantamento bibliográfico efetuado a partir do ano de 2000 para o conhecimento de trabalhos científicos no HRAC relacionados à fissura labiopalatina e qualidade de vida. Franca. apreendida como o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura. os pacientes superaram os limites da deficiência e apresentaram-se satisfeitos com a vida. na saúde. 2007 89 . na educação e outras. com aprofundamento na área profissional. propusemos a elaboração desta pesquisa sob o tema Trabalho e qualidade de vida de pessoas com fissura labiopalatina inseridas no mercado profissional em Bauru. foi constatado a existência de dois importantes estudos. por entender que esta investigação permitirá o conhecimento das condições de vida dos sujeitos nos aspectos físico. que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva. descrever e avaliar os indicadores psicossociais e a repercussão deste na qualidade de vida de 67 adolescentes com fissura em comparação com 67 adolescentes sem fissura. De acordo com Iamamoto (2001. de modo a intervir na realidade. por possibilitar ao pesquisador a apreensão das principais expressões da questão social. O segundo estudo. tais como as que os indivíduos as experimentam no trabalho. relações sociais e meio ambiente. Desta forma. por meio da auto-realização. buscando o enfrentamento e a minimização dessas expressões.

Em seu Art. 7. verificar a concepção de qualidade de vida dos indivíduos. identificar o grau de satisfação profissional e social e avaliar a atuação do serviço social como facilitador no processo de inserção no mercado de trabalho e manutenção e/ou outros serviços prestados. Foi realizada no HRAC com 120 pacientes com idade entre 18 e 30 anos. 3.298/99 veio legitimar a Lei n. o presente estudo por nós desenvolvido. O Decreto n. procedentes do estado de São Paulo e em fase final de tratamento. Deficiência e aspectos legais O termo Pessoa Portadora de Deficiência (PPD) foi designado pela Constituição Federal de 1988 (BRASIL. Embora não tenha havido correlação entre a qualidade de vida e os aspectos demográficos. 3º. que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. analisando-a a partir das condições sociodemográficas dos mesmos e do instrumento WHOQOL-bref. Desta forma. define deficiência como: “toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função 90 Serviço Social & Realidade. analisar as dificuldades e/ou facilidades para sua inserção e permanência no mercado de trabalho em função da deficiência. os dados apontaram que os pacientes têm boa qualidade de vida e condições de vida correspondentes à população em geral. 2007 .como objetivo avaliar a qualidade de vida de pacientes adultos com fissura labiopalatina. Franca. psicológico. Daí nosso interesse por esta pesquisa que tem como objetivo principal avaliar a qualidade de vida de adultos com fissura labiopalatina. justifica-se pois as pesquisas sobre qualidade de vida em pacientes com fissura labiopalatina revelaram que os autores consideraram para sua avaliação. um conjunto de componentes físicos e psicossociais que podem influenciar nas condições de vida. educacional e profissional. avaliar a qualidade de vida mediante os domínios: físico. residentes em Bauru e em fase final de tratamento no HRAC/USP inseridos no mercado de trabalho. 1988) ao tratar sobre “deficiência” e encontra-se vigente até este presente momento. mas em nenhum deles a questão do trabalho diretamente relacionado à qualidade de vida foi explorado anteriormente.853/89. relações sociais e meio ambiente. A autora concluiu que os pacientes possuem índices gerais de qualidade de vida acima da média. 16(2): 87-128. E específicos: caracterizar o perfil socioeconômico. com aprofundamento na área profissional.

1). visual. hemiparesia.298/99 (BRASIL. dentro do padrão considerado normal para o ser humano” (BRASIL. Tal proposta afirma que. membros com deformidade congênita ou adquirida. p. dentre eles a Proposta de Enquadramento da Fissura Labiopalatina como Deficiência Física coordenada por profissionais da Rede Nacional de Associações de Pais e Portadores de Fissuras Labiopalatais (REDE PROFIS). como: física. auditiva. hemiplegia. triparesia. exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções (BRASIL. Franca. 2007 91 . traz em seu artigo 5º. mental e múltipla. acarretando o comprometimento da função física. p. monoparesia. apresentando-se sob a forma de paraplegia. triplegia.298/99 mantém a mesma definição de deficiência física. 2006). 2006b). Desta forma o Decreto n. 3. nanismo.296/04 comparado ao 3. social e econômico (CAMPOS et al. 2006c. 16(2): 87-128. estabelece as categorias que a pessoa portadora de deficiência se enquadra. em decorrência do comprometimento funcional que a fissura labiopalatina acarreta aos seus portadores. No Art. 2006c). paraparesia. 5. porém inclui a ostomia e o nanismo. O Decreto n. o direito à saúde e ao trabalho. Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais (FUNCRAF) e HRAC. amputação ou ausência de membro. tetraparesia. As fissuras labiopalatinas e aspectos psicossociais A fissura labiopalatina está prevista na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Serviço Social & Realidade. 2006b. fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade. o enquadramento da deficiência física como: Deficiência física . 2). 5. em comparação ao Decreto n. capazes de propiciar pleno bem-estar pessoal. 4º.296/04 (BRASIL. ostomia. dentre os quais. monoplegia.psicológica.alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano. deve ser considerada como deficiência a fim de assegurá-los o pleno exercício dos direitos sociais e individuais consagrados pela Constituição Federal. paralisia cerebral. tetraplegia. Atualmente diversos estudos estão sendo realizados.

Já a fissura de lábio (unilateral ou bilateral) é resultante da falta de fusão dos processos nasais da proeminência frontal com o processo maxilar na sétima semana de desenvolvimento embrionário. na linha mediana. há a perspectiva de capacidade de superação das dificuldades por meio de uma intervenção interdisciplinar com o paciente e sua família. ambientais específicos e concomitantes com outras síndromes. Dentre os tipos de fissuras existentes. De acordo com os autores acima. 2007 . Muitos estudos pontuaram os fatores psicossociais que compõem a vida do indivíduo com fissura. satisfação com resultados e. Com base na literatura revisada por Veronez (2007). como no HRAC. ainda não foram totalmente comprovadas as causas das fissuras. deformidades e anomalias cromossômicas.Saúde – CID 10 (BRASIL. Graciano et al (2007) também pontua que as fissuras labiopalatinas não determinam diferenças significativas em termos 92 Serviço Social & Realidade. 16(2): 87-128. agrupadas em três categorias. o mais freqüente é a fissura completa de lábio e palato. Porém. a fatores hereditários. aliada aos aspectos psicossociais agravantes. 2004). dos processos bilaterais independentes do maxilar por volta da décima segunda semana de vida intra-uterina. Franca. 2006a). nasais. em centros cuja equipe se preocupe com a reabilitação global do indivíduo. ocular e craniana. que inclui as malformações. em relação ao aspecto psicológico. trabalho.1% dos casos (FREITAS et al. a fissura palatina é resultante da falta de fusão. hoje atribuídas. Podem estar associadas ou não às fissuras labiais e são deformidades que interferem diretamente nas funções orgânicas e funcionais de seus portadores. também podem ocorrer fissuras atípicas que envolvem outras áreas além do lábio superior e palato. sendo: fenda palatina. Conforme pontua Abdo & Machado (2005). correspondendo a 37. principalmente. relacionamentos interpessoais. como as regiões orais. Apesar da existência de diversos estudos realizados nesta área. Todos estes fatores interferem na constituição do sujeito. evidenciando uma maior preocupação com a questão do estigma físico. observou-se que a fissura labiopalatina traz comprometimentos estéticos e funcionais que podem influenciar negativamente na formação da identidade e competência social. fenda labial e fenda labial com fenda palatina. educação.

como o desenvolvimento pessoal e intelectual são influenciados pelas reações e atitudes da família e colegas. em que o homem por sua própria ação. Franca. Nesse sentido Kanaane (1995) afirma que o trabalho é uma ação humanizada exercida num contexto social. dificuldade de comunicação. a partir das considerações de Marx (1971). As atividades de trabalho modificadas pelo progresso técnico têm implicado mudanças significativas nas condutas e reações dos grupos que os compõem. Segundo Borges et al (1997). braços e pernas. confiança e para determinar o status do ser humano. mas podem levar a diversas contingências físicas. também. Seu Serviço Social & Realidade. que sofre influências oriundas de distintas fontes. 1995). Do ponto de vista psicológico. conseqüentemente. como processo social de transformações que visa atender às necessidades sociais de reprodução humana. Considerando que.de desenvolvimento de personalidade. regula e controla seu metabolismo com a natureza. parece haver uma estreita relação entre os resultados do tratamento e o grau de aceitação da deformidade facial pelo paciente. Esse mesmo autor. É compreendido. pontua que na formulação marxiana a força de trabalho é o ponto de partida do processo de humanização do ser social. Do ponto de vista sociológico. o trabalho é um processo entre o homem e a natureza. e. o trabalho provoca diferentes graus de motivação e de satisfação no trabalhador. numa forma útil para sua própria vida. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua capacidade. 2007 93 . 16(2): 87-128. media. cabeças e mãos. afetivas e sociais. Trabalho e qualidade de vida Segundo Antunes (2003). entre outras. principalmente quanto à forma e ao meio no qual desempenha sua tarefa (KANAANE. psicológicas. o que resulta numa ação recíproca entre trabalhador e os meios de produção. esquiva de contatos sociais. ao citar a teoria valor-trabalho de Marx (1971). cabe aos profissionais da área encontrarem uma forma adequada de propiciar aos portadores de fissura labiopalatina a reabilitação adequada e. insegurança e dependência dos pais. a fim de apropriar-se da maneira natural. o trabalho contribui para autoestima. o trabalho é elemento chave na formação de coletividades humanas. com algumas características comuns: baixo autoconceito. sua inclusão social.

saúde. Desta forma. Para Cattani (1996). crescimento e satisfação profissional (ROCHA & FRITSCH. como ato concreto. De acordo com Albuquerque (2003). transformação de conceitos e atitudes. identidade pessoal. conforme relatam os autores acima. este pode ser visto como uma atividade penosa. cultura. ainda não existe consenso na aceitação de uma única definição. que não se limitam à jornada laboral. Dependendo do nível de satisfação dos trabalhadores e das condições de trabalho propiciadas por uma organização. o trabalho. aprimoramento e remuneração.papel é de fundamental importância para o indivíduo. mas que repercutem sobre a totalidade da vida em sociedade. por definição uma experiência social. do ponto de vista acadêmico. tripallium (tortura) e prazer. pois proporciona aprendizagem. 2007 . Assim a análise da relação do trabalho com a qualidade de vida perpassa por essas questões. a qualidade de vida só pode ser vivenciada pelos trabalhadores à medida que lhes são facilitados o acesso ao trabalho. Para correlacionarmos o trabalho e a qualidade de vida. 2002). um sofrimento ou uma atividade prazerosa que dá sentido à vida. esporte etc. lazer. alienação e criação são suas dimensões ambivalentes. à renda. podendo apresentar múltiplas acepções. qualidade de vida é uma expressão abstrata pertencente a um universo ideológico. ou seja. individual ou coletivo. 57).).) e às condições seguras de trabalho e de moradia. O termo qualidade de vida é uma noção eminentemente humana. liberdade. Opressão e emancipação. 16(2): 87-128. Franca. afetivo. condições de vida e o grau de satisfação no âmbito familiar. o trabalho tem um significado amplo na vida das pessoas. Baseia-se na 94 Serviço Social & Realidade. é preciso considerar os elementos objetivos e subjetivos. Segundo Rocha & Fritsch (2002. aos direitos sociais. há uma inter-relação com as questões subjetivas (satisfação. p. social e ambiental. um fardo. crescimento. Apesar desses elementos se manifestarem objetivamente no cotidiano das pessoas (trabalhadoras). a qualidade de vida no trabalho significa uma “estratégia e ação preventiva de melhoria contínua no processo de valorização das pessoas”. às políticas públicas (educação. é. alegria etc. faz parte de uma “família” de conceitos que se aproximam ao bem-estar humano que engloba o modo de vida. Conforme pontua Lourenço et al (2006).

o trabalho. para se fazer uma análise relacionada com o trabalho. aos direitos sociais. são fatores preponderantes na qualidade de vida. concomitantemente interligados com as questões subjetivas. conseqüentemente. necessidades e desejos. liberdade. as pessoas serem compreendidas como sujeitos humanos integrais e integradores e de terem respondidas as suas expectativas. a partir dos anos 90. 42). Franca. 1994. relações sociais e meio ambiente. abrangendo todos os aspectos deste viver: a pessoa. Os mesmos autores afirmam que a qualidade de vida no trabalho relaciona-se diretamente com as possibilidades concretas de. às políticas públicas de educação. a qualidade de vida só pode ser vivenciada pelos trabalhadores à medida que lhes são facilitados atributos como: acesso ao trabalho formal. por exemplo. cultura. considera-se que o bem-estar conquistado na relação do homem com o trabalho. lazer. saúde. deve-se considerar elementos objetivos e subjetivos. do trabalho dentre outros fatores. Trata-se de um conceito amplo e complexo que engloba diferentes domínios na avaliação da qualidade de vida. 2007 95 . Em suma. foi desenvolvido por um grupo de estudo sobre qualidade de vida denominado Whoqol-Group – uma definição de qualidade de vida subjetiva. esporte. autonomia.premissa de oportunizar a melhoria na qualidade de vida. como. Ou seja. Assim. o ambiente de trabalho e a saúde. A partir desta perspectiva. padrões e preocupações (WHOQOL GROUP. a privacidade. psicológico. 16(2): 87-128. elencados nos Serviço Social & Realidade. o termo qualidade de vida apresenta um conceito multidimensional. A Organização Mundial de Saúde (OMS). e às condições seguras de trabalho e de moradia. motivação e auto-estima. multidimensional e que inclui elementos positivos e negativos: A percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos. tanto individual como social. o grupo social. afeto. expectativas. reconhecimento social e profissional. afirma Lourenço et al (2006). constatou que as medidas de qualidade de vida revestem-se de fundamental importância na avaliação da saúde e. à renda. entre outras. Da mesma forma. a família. em seus aspectos profissional e pessoal. ou seja: físico. no trabalho. p.

contendo a finalidade do estudo e um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. preenchido e assinado pelos participantes após sua leitura minuciosa e concordância para participar do estudo. na maioria dos casos. A definição do critério pacientes com fissura labiopalatina ocorreu por serem consideradas lesões de maior gravidade e ocorrência com grandes comprometimentos estéticos. com idade entre 18 e 35 anos e inseridos no mercado de trabalho.objetivos desta pesquisa. A escolha dos sujeitos deu-se por meio da amostra probabilística aleatória constituída dos casos que compareceram às entrevistas. funcionais e psicossociais. ou seja. iniciou-se após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP). 2002). é por representar. representando 58% do universo. residentes no município de Bauru. bem como as relações e conexões entre as variáveis (GIL. E a faixa etária. a partir dos 18 anos. no período de agosto a novembro de 2006. Na pesquisa de campo. 2007 . O presente estudo. os 27 casos que aderiram ao estudo dentre os 46 agendados. Material e Método O universo da pesquisa constituiu-se de indivíduos com fissura labiopalatina em tratamento no HRAC. A descritiva foi desenvolvida mediante a pesquisa de campo. 2002). Utilizou-se a abordagem quali-quantitativa. Franca. previamente agendados pelo pesquisador. A pesquisa exploratória deu-se por meio de levantamento bibliográfico e documental a fim de proporcionar visão geral. tendo como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno. utilizou-se para a coleta de dados tanto da entrevista estruturada (Parte I) como da semi-estruturada (Parte II) aplicada junto ao usuário por meio de formulário acompanhado da Carta de Informação ao Sujeito da Pesquisa. a idade em que são inseridos no mercado de trabalho. de nível exploratório e descritivo. de tipo aproximativo. e aprimorar idéias a respeito do assunto abordado (GIL. procurando-se descobrir a freqüência com que ocorre. 16(2): 87-128. totalizando 46 sujeitos conforme levantamento fornecido pelo Serviço Social. com o objetivo 96 Serviço Social & Realidade.

constatando-se que a reformulação do instrumento era desnecessária.Domínios para avaliação da qualidade de vida (WHOQOLBref): a) Geral: avaliação da qualidade de vida e satisfação com a Serviço Social & Realidade. Ressalta-se que as questões do formulário foram elaboradas pautadas na versão em português dos instrumentos gerais de qualidade de vida denominados. 2007 97 . gênero. com uma escala de intensidade (nada – extremamente). 2000). classe social. na segunda. psicológico.de revelar o que os sujeitos participantes pensam e avaliam a respeito do objeto pesquisado: trabalho e qualidade de vida. escolaridade. O WHOQOL-100 é um instrumento composto por 100 itens que avaliam seis domínios: físico. ocupação e situação de tratamento. estado civil. . meio ambiente e espiritualidade (FLECK et al. freqüência (nunca – sempre) e avaliação (muito insatisfeito-muito satisfeito. por oito questões abertas para os depoimentos. a partir do início dos anos 90. capacidade (nada – completamente). relações sociais e meio ambiente (FLECK et al. relações sociais. de acordo com Fleck et al (1999). Abrangeu-se cinco eixos de análise: . 16(2): 87-128. Foi aplicado o pré-teste dos formulários com três pacientes. em busca de um instrumento que avaliasse qualidade de vida dentro de uma perspectiva genuinamente internacional. psicológico. nível de independência. O WHOQOL-bref é a versão abreviada do WHOQOL-100.Perfil socioeconômico: segundo a faixa etária. World Health Organization Quality of Life (WHOQOL-100 e WHOQOL-Bref). Estes instrumentos foram desenvolvidos pelo grupo de qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde. muito ruim – muito bom). pois busca-se encontrar na parte a compreensão e a relação com o todo e a interioridade e a exterioridade como constitutivas dos fenômenos. não existindo visão isolada das partes do estudo. O formulário da pesquisa foi composto em sua primeira parte por 26 questões fechadas do WHOQOL-Bref e. Franca. 1999). conforme pontua Minayo (1997). composto por 26 questões que avaliam quatro domínios: físico. As questões do instrumento de qualidade de vida foram formuladas para uma escala de respostas do tipo Likert.

c) Psicológico: aproveitamento e sentido da vida. oportunidades de lazer. realizou-se a tabulação dos dados coletados. . satisfação com as condições do local de residência. satisfação com ambiente físico de trabalho. 2007 . vida sexual. necessidade de tratamento de saúde. satisfação consigo mesmo.Ação do Serviço Social como facilitador no processo de inserção e manutenção do mercado de trabalho e outros serviços. e) Meio ambiente: segurança na vida diária. com a capacidade de desempenho nas atividades diárias. satisfação profissional e social. 16(2): 87-128. . Para se ter uma idéia mais clara do grau médio de qualidade de vida dos participantes. d) Relações sociais: satisfação com relações pessoais (amigos.Trabalho: dificuldades e/ou facilidades de inserção e manutenção no mercado. b) Físico: impedimentos devido à deficiência. disponibilidade de informações. necessidades sociais e financeiras e mudanças pós-colocação.Concepção sobre qualidade de vida. capacidade de locomoção. foram calculadas as médias de cada um dos domínios sem correlacioná-las às variáveis elencadas no perfil socioeconômico. apoio de amigos e sentimentos negativos. capacidade de concentração e de aceitar sua aparência física. a classe social baixa superior e inferior (71%) e 98 Serviço Social & Realidade. As respostas abertas (parte II) foram tabuladas após serem classificadas por categorias. parentes. com a capacidade para o trabalho e com a capacidade de aprendizagem. gênero masculino (70%). educacional e profissional Os dados obtidos demonstraram que a maioria dos sujeitos concentra-se nas faixas etárias entre 26 e 35 anos (59%). Franca.saúde. Após a aplicação dos instrumentais técnicos nos sujeitos da pesquisa. . energia no dia-a-dia. satisfação com o sono. conhecidos. Resultados: apresentação e discussão Caracterização do perfil socioeconômico. com o acesso aos serviços de saúde e meio de transporte. colegas). As respostas dadas no formulário (parte I) foram analisadas separadamente por domínios.

D e C (71%). Quanto ao grau de escolaridade. uma vez que a maioria concluiu as etapas cirúrgicas. desenvolve atividades no setor do comércio. 2007). Contudo. a maioria solteiros. Verificou-se. Peter et al (1975) observou que um grande número de adultos com fissura tende a viver na companhia de familiares ou sozinhos. de acordo com os dados constatados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos socioeconômicos (DEPARTAMENTO. Comparando esses dados com as características da população geral e/ou com fissura labiopalatina destacamos que com relação ao sexo. conforme o Critério de Classificação Econômica Brasil (ANEP.estado civil solteiro (70%). 100% continuam em processo de reabilitação. Freitas (1974) ressalta que há uma diferença estatística entre os sexos e o tipo de fissura. segundo Brasil (2007). pois as de lábio e palato são mais freqüentes no masculino como observamos no estudo. Observamos. Além disso. exigem pouca ou nenhuma qualificação. em geral. o que confirma a mesma realidade vivenciada pelos sujeitos pesquisados. casando-se. quanto à ocupação profissional. mais tarde que os adultos sem fissura. também revelou que a maior parte da população brasileira. também revelou uma proporção de adultos com a mesma idade da amostra estudada com o ensino médio. Franca. Quanto ao estado civil. como vendedores. neste estudo. ainda. Com relação à situação de tratamento. auxiliaradministrativos e serviços gerais. 2000). 2007). O IBGE (INSTITUTO. 2007 99 . 16(2): 87-128. 41% possuem ensino médio completo. portanto trabalhadores assalariados. portanto. observou-se que a maioria dos entrevistados. portanto que o elemento facilitador foi a proximidade geográfica ao HRAC. com ênfase atual na área de odontologia (50%) e fonoaudiologia (31%). quanto ao nível ocupacional. exerce funções que. facilidades estas não encontradas pela maior parte da população brasileira excluída do Serviço Social & Realidade. que 81% são trabalhadores assalariados (formais e informais) que prestam serviços na área do comércio. Constatou-se. que 37% dos participantes freqüentam atualmente a rede de ensino em busca de seu aprimoramento pessoal e profissional. Os resultados da classificação socioeconômica refletem também à realidade brasileira cuja maior concentração dá-se nas classes E.

12. 16. 15. uma vez que esta seria a medida do estudo de capacidade para a realização de tarefas e a promoção das relações interpessoais (MINAYO et al. 1994). pois. A caracterização do perfil da amostra justifica-se. segue a relação das 26 questões aplicadas. Portanto. 2000). bem como os domínios correspondentes. estado psicológico. (Tabela 1) Tabela 1 – Quadro geral dos domínios DOMÍNIOS I. Franca.Avaliação da qualidade de vida: domínio I Satisfação Avaliação 100 Serviço Social & Realidade. Físico III. para a avaliação da qualidade de vida dos pacientes. Geral II. 10. as subjetivas. considerada a variável que mais influencia na qualidade de vida. Psicológico IV. Para maior compreensão dos dados. Portanto. 23. 21 e 22 08. relações sociais e meio ambiente Refletir sobre qualidade de vida significa considerar diferentes vertentes envolvidas com o bem estar do ser humano. 24 e 25 Domínio I: Geral As questões do domínio I são do tipo gerais. 13. 2007 . realização profissional. Relações sociais V. além de questões objetivas. físico. fica evidente a necessidade de um levantamento de suas condições de vida englobando aspectos sócio-demográficos considerados importantes indicadores da realidade social. psicológico. 14.acesso à reabilitação. especialmente. 19 e 26 20. Meio ambiente QUESTÕES 01e 02 03. às crenças pessoais e. pode se referir aos sentimentos. a avaliação da qualidade de vida envolve. 04. 17 e 18 05. 09. e se referem à avaliação da qualidade de vida e o grau de satisfação com a sua saúde. 06. 16(2): 87-128. relações pessoais. nível de independência. Quadro 1 . emoções. pois para cada indivíduo há uma forma de operacionalizar sua avaliação (WHOQOL GROUP. 11. Avaliação da qualidade de vida mediante os domínios geral. 07. à saúde física.

Embora a fissura labiopalatina não prediga um déficit na saúde de modo geral. necessidade de tratamento de saúde. segundo Stephan (2003). observou-se que 78% consideram boa ou muito boa a qualidade de vida e 86% estão satisfeitos ou muito satisfeitos com sua saúde. uma vez que tais autores perceberam maior satisfação com a saúde em pacientes com fissura. energia no dia-adia. Nem ruim/ Nem bom 5.satisfeito Insatis – insatisfeito De acordo com o Quadro 1. tiveram uma boa capacidade de enfrentamento e superação da situação. Satisfeito 1. Domínio II: Físico O domínio físico refere-se aos impedimentos devido à deficiência. à medida que a deformidade ficava menos visível com o tratamento oferecido pelo HRAC. 2007 101 5. à boa educação e ao trabalho de familiarização de pais e educadores na formação da pessoa com fissura labiopalatina.Escala de Respostas 1. satisfação com o sono. ressaltando os resultados positivos. Quão satisfeito (a) você está com a N saúde? (%) 01 (04 ) 01 03 15 08 02 (07) 03 (11) 15 (56) - (04) (11) (56 ) (30 ) Satisf. capacidade de locomoção. Outros estudos realizados por Bachega (2002) e Veronez (2007) identificaram também que os pacientes com fissura estavam satisfeitos com a sua qualidade de vida. 2. com a Serviço Social & Realidade. Franca. 16(2): 87-128. mediante sua inclusão na sociedade. em função do próprio processo de reabilitação. A superação das dificuldades e boa qualidade de vida podem ainda estar relacionadas. Muito Bom 3 Nem satisf/ Nem insatisf.Muito Insatisfeito 4.Muito satisfeito 2. Veronez & Tavano (2005) apontaram que os pacientes associam seu estado de saúde ao processo reabilitador. Ruim Questões N=27 Domínio I – GERAL 1. Como você avaliaria sua qualidade de N vida? (%) 2. Bom 06 (22) . o que torna os resultados obtidos no presente estudo ainda mais consistentes.Insatisfeito 4. Muito Ruim 3. e mesmo reconhecendo o impacto da fissura em suas vidas.

Franca.capacidade de desempenho nas atividades diárias. 2007 . com a capacidade para o trabalho e de aprendizagem. 16(2): 87-128. 102 Serviço Social & Realidade.

(07) . 2007 1.Bastante 3.Médio 4.Muito 103 . Quão bem você é capaz de se locomover? (%) N 16. Muito Pouco 4.Completamente 3. Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade para o trabalho? (%) N continuação Serviço Social & Realidade. Mais ou menos 5.FÍSICO 3.Avaliação da qualidade de vida: domínio II Escala de Respostas Intensidade Capacidade 1. Extremamente 2. Muito Pouco 2. Em que medida você acha que sua deficiência (FLP) lhe impede de fazer o que precisa? N 20 01 03 01 02 (%) (74) (04 (04 (11) (07) ) ) 02 15 10 4. Você tem energia suficiente para seu dia-a-dia? N (%) N 15.Quadro 2 .(56) (37) 5. Quão satisfeito (a) você está com seu sono? (%) N 17. Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade de desempenhar as suas atividades (%) do dia-a-dia? 18. 16(2): 87-128. Nada N=27 Domínio II . Nada Questões . O quanto você precisa de algum tratamento de saúde para (04 levar sua vida diária? (%) (74) (11) (11) N 20 03 03 01 ) 10. Franca.

Insatisfeito 2. Você tem energia suficiente para seu dia-a-dia? N (%) 01 (04) 03 08 16 01 08 18 15. Em que medida você acha que sua deficiência (FLP) lhe impede de fazer o que precisa? N (%) N 4. a fissura labiopalatina não pode ser considerada como um dano físico de forma generalizada. pois encontram-se em fase final de reabilitação.Nem ruim/ Nem bom 5.Bom Questões 5.Muito Bom 4. O quanto você precisa de algum tratamento de saúde para (%) levar sua vida diária? 10.Muito satisfeito 3.Muito Insatisfeito Satisfação Avaliação 3. Conforme ressalta Veronez (2007). não dependendo de tratamento médico para levar sua vida diária (74%). 2007 4.Satisfeito .Ruim N=27 Domínio II – FÍSICO 3.Muito Ruim 2. com a reabilitação. Quão bem você é capaz de se N locomover? (%) 16. 1. Quão satisfeito (a) você está N com sua capacidade de desempenhar as suas atividades (%) do dia-a-dia? 18. a 104 Serviço Social & Realidade. 16(2): 87-128. Franca. Nem satisf/ Nem insatisf. Quão satisfeito (a) você está com seu sono? N (%) (04) (30) (67) (11) (30) (59) 01 17 09 17. no domínio físico.Escala de Respostas 1. pôde-se também constatar que a fissura labiopalatina não impede os entrevistados em nada de fazer o que precisam. visto que. Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade para o trabalho? N (%) (63) (33) 13 13 (04) (48) (48) Satisf – satisfeito Insatisf – insatisfeito Pelo Quadro 2.

em especial os do presente estudo. São poucos os que conseguem trabalhar no que gostam. é erroneamente confundida com as oportunidades de trabalho. satisfação consigo mesmo e sentimentos negativos. 63% relataram estar satisfeitos. o aspecto físico reportou-se diretamente à questão da fissura e aos comprometimentos advindos dela. Quadro 3 . conforme observou Blattner (2000). e certamente a reabilitação vem propiciando esse ingresso no mercado de trabalho. não foram encontrados na literatura relatos de comprometimentos físicos em pacientes adultos que passaram ou estão passando pelo processo reabilitador. muitas vezes. está associada à possibilidade de inclusão das pessoas com fissura labiopalatina no circuito da produção. pois as chances de se conseguir um emprego que garanta sua subsistência e ao mesmo tempo lhes recompense emocionalmente são remotas. A concorrência da atualidade impede até mesmo que consiga um trabalho. além de questões relacionadas ao comprometimento da fala naqueles que. continuam apresentando dificuldades de comunicação (PEGORARO-KROOK. apresentam em geral boas condições de saúde. como aproveitamento e sentido da vida. capacidade de concentração e de aceitar sua aparência física. e com relação à satisfação com a capacidade para o trabalho 96% avaliaram como satisfeitos e muito satisfeitos. 1995). Quanto à satisfação com a capacidade para o trabalho. seja no que for. a capacidade para o trabalho. Domínio III: Psicológico O domínio psicológico aborda diversos aspectos subjetivos. 2007 . Conforme pontua Veronez (2007). Quanto à capacidade de desempenhar as atividades cotidianas. Franca. 16(2): 87-128. em alguns casos. Considerando que os pacientes atendidos no Hospital.grande maioria não permanece com comprometimentos à saúde.Avaliação da qualidade de vida: domínio III Escala de Respostas Intensidade Capacidade 105 Serviço Social & Realidade. nem à capacidade para realização de tarefas. Em relação à fissura labiopalatina.

Nada . Nada 1. 2007 5. Em que medida você acha N que sua vida tem sentido? (%) . ansiedade. Extremamente 2. 16(2): 87-128. Quão satisfeito (a) você está consigo mesmo? 26. Mais ou menos 5.Completamente 3. Franca. Muito Pouco 2. Com que freqüência você tem pensamentos negativos.Médio 4. tais como mau humor. Você é capaz de aceitar sua aparência física? 19.Questões N=27 Domínio III PSICOLÓGICO 5.(04 (07) (59) (30) ) N .06 16 05 7.Bastante 3.(22) (59) (19) 02 09 15 (04) . depressão? (%) N (%) N (%) N (%) - . Muito Pouco 4.Muito 1.(07) (33 (56) ) 01 - continuação 106 Serviço Social & Realidade. desespero. O quanto você aproveita sua vida? N 02 01 06 11 07 (%) (07) (04 (22) (41) (26) ) .01 02 16 08 6. O quanto você consegue se concentrar? 11.

O quanto você consegue se concentrar? 11.Sempre 5. Apresentaram bastante ou extremamente capacidade de concentração (78%).-insatisfeito Os dados obtidos (Quadro 3) comprovaram que cerca de 67% dos entrevistados aproveitam bastante ou extremamente a vida.Muito Satisfeito 4. Freqüentemente 2. O quanto você aproveita sua vida? 6. 16(2): 87-128.Escala de Respostas Satisfação Avaliação 3. tais como mau humor. 4. salientando que esta tem bastante ou extremamente sentido em 89% dos casos. depressão? N (%) N (%) N (%) N (%) N (%) N 05 17 04 01 03 13 11 (11) (48) (41) (%) (19) (63) . Franca. Com que freqüência você tem pensamentos negativos. Nem satisf/ Nem insatisf.Satisfeito . Você é capaz de aceitar sua aparência física? 19. Quão satisfeito (a) você está consigo mesmo? 26. 2007 107 1. em virtude do processo de reabilitação Serviço Social & Realidade.satisfeito Insatisf.(15) (04) Satisf. desespero. relataram que a aceitam muito e completamente (89%) e estão satisfeitos ou muito satisfeitos (89%) consigo mesmo.Algumas Vezes 3. Em que medida você acha que sua vida tem sentido? 7.Nunca Questões 5.Muito Insatisfeito 2.Muito Freqüente 1. ansiedade. Quanto à aparência física. Insatisfeito N=27 Domínio III – PSICOLÓGICO 5.

além de uma auto-imagem desfavorável e elevado índice de dependência emocional (TAVANO. principalmente quanto à estética facial. Com relação aos sentimentos negativos. surge a necessidade de estudos mais pertinentes à questão da aparência. depressão e palpitações. 2007 . 16(2): 87-128. como mau humor. que a expectativa do paciente pelos resultados da cirurgia nem sempre está de acordo com o que o cirurgião pode oferecer. conduzindo à compreensão de que a malformação. desespero. resultados estes também confirmados por Veronez (2007). de forma a ampliar a compreensão de possíveis insatisfações dos pacientes. 1999). 2002).parcialmente concluído. ansiedade e depressão. após as cirurgias reabilitadoras. Domínio IV: Relações Sociais O domínio relações sociais refere-se ao grau de satisfação com relações pessoais (amigos. parentes. Franca. conforme relatado na entrevista. os bons índices encontrados neste domínio psicológico contrapõem esta afirmativa. conhecidos. Diante de tal afirmativa. encontraram danos psicológicos e distúrbios psicossomáticos como ansiedade. colegas). como o resultado do processo de reabilitação e a intervenção da equipe psico-social do HRAC numa perspectiva interdisciplinar. GARCIA et al. 1999. obtidos neste domínio. há uma questão relevante observada por Veronez & Tavano (2005). 108 Serviço Social & Realidade. Todavia. vida sexual e apoio de amigos. Apesar desses autores afirmarem a presença de danos psicológicos advindos das conseqüências da fissura. bem como a participação da família e da sociedade (GARCIA et al. Verificou-se também que somente 19% dos entrevistados apresentam sentimentos negativos com maior freqüência. BACHEGA. Pode-se considerar que vários fatores devem ter levado aos valores acima da média. 1994. geralmente ocasionados devido às dificuldades que enfrentam no âmbito profissional e pessoal diariamente. não repercute mais como um fator depreciativo da auto-estima. cabe ressaltar que em estudos com outros instrumentos. com pacientes com fissura labiopalatina.

1.Muito Insatisfeito 4. 2007 109 5. Marques (2004). 16(2): 87-128. com a aparência e fala Serviço Social & Realidade. colegas)? 21. Quão satisfeito (a) você está com sua vida sexual? 22. (%) conhecidos.Nem satisf/ Nem insatisf. no presente estudo. com uma pontuação maior. Quão satisfeito (a) você está com o apoio que você recebe de seus amigos? N (%) N (%) - - 07 (26) 03 (11) 07 (26) (48) Satisf – satisfeito Insatisf – insatisfeito Pelo Quadro 4.Muito satisfeito 10 (37) 09 (33) 07 (26) . bem como com a vida sexual (89%). parentes. Em pacientes com fissura labiopalatina. Com base nos dados obtidos ressaltamos que o domínio relações sociais compreende todas as formas de relacionamento interpessoal.RELAÇÕES SOCIAIS 20. Veronez & Tavano (2005). E. o grau de satisfação é de 74%. em que consideram satisfeitos ou muito satisfeitos. Franca. Com o apoio que recebe dos amigos.Satisfeito 10 (37) 15 (56) 13 Escala de Respostas Questões N=27 Domínio IV .Insatisfeito 3. Quão satisfeito (a) você está com suas N relações pessoais (amigos. Camargo (1994) e Mesquita (1991) observaram que a malformação não afetou a vida social e os pacientes detectaram significativa melhora nos relacionamentos sociais após as cirurgias reabilitadoras. este foi o segundo domínio que mais se destacou em relação aos demais. constatou-se que os entrevistados estão satisfeitos ou muito satisfeitos com os relacionamentos pessoais (74%).Quadro 4 . necessários no bem estar do sujeito e à vida em sociedade.Avaliação da qualidade de vida: domínio IV Satisfação 2. pois. Tavano (2000).

Por outro lado. 110 Serviço Social & Realidade. satisfação com as condições do local de residência. Diante dos dados analisados. parece que não se pode mais considerar a pessoa com fissura labiopalatina e reabilitada. pode estar relacionada ao momento do processo reabilitador em que os estudos foram realizados. sentiam um aumento da probabilidade de serem aceitos num grupo social. uma vez que os pacientes deste estudo consideraram-se bem relacionados socialmente. Aiello et al (2000). 16(2): 87-128. como possuidora de déficit nos relacionamentos sociais. com o acesso aos serviços de saúde e meio de transporte. Franca.melhoradas. atribuíram às alterações morfológicas e funcionais os problemas nas relações sociais. Peter et al (1975). Domínio V: Meio ambiente O domínio meio ambiente corresponde à segurança na vida diária. PegoraroKrook (1995). 2007 . Tavano (1994). oportunidades de lazer. satisfação com ambiente físico de trabalho. disponibilidade de informações. Ressalta-se que a diferença dos resultados observada pelos autores sobre as relações sociais da pessoa com fissura.

Quão seguro (a) você se sente em sua N vida diária? (%) 9. 16(2): 87-128.Nada 111 . Quão satisfeito (a) você está com as N condições do local onde mora? (%) 24. Quão disponíveis para você estão as N informações que precisa no seu dia-adia? (%) 14. atrativos)? 12.Avaliação da qualidade de vida: domínio V Escala de Respostas 2. Em que medida você tem oportunidade de atividades de lazer? N (%) 23.Muito Pouco Intensidade 3. 2007 4.Mais ou menos 5.Extremamente 03 (11) 06 (22) Questões N=27 Domínio V .MEIO AMBIENTE 8. Você tem dinheiro suficiente para satisfazer suas necessidades? N (%) N (%) 05 (19) 02 (07) 03 (11) 06 (22) 03 (11) 13. Quão saudável é o seu ambiente físico de trabalho (clima. Quão satisfeito (a) você está com o seu acesso aos serviços de saúde? N (%) 25.Bastante 16 (59) 10 (37) 1. poluição. barulho.Quadro 5 . Franca. Quão satisfeito (a) você está com o N seu meio de transporte? (%) continuação Serviço Social & Realidade.

Quão satisfeito (a) você está com o N seu meio de transporte? (%) continuação 112 Serviço Social & Realidade. Quão satisfeito (a) você está com o seu acesso aos serviços de saúde? N (%) 25. Em que medida você tem oportunidade de atividades de lazer? N (%) 23. Franca.Completament e 05 (19) 04 (15) 04 (15) 3. 2007 4.Escala de Respostas 2.Muito Pouco Capacidade 5. Quão disponíveis para você estão as N informações que precisa no seu dia-adia? (%) 14.Nada . Quão seguro (a) você se sente em sua N vida diária? (%) 9. Quão satisfeito (a) você está com as N condições do local onde mora? (%) 24.Médio 09 (33) 11 (41) 09 (33) Questões N=27 Domínio V . poluição. Você tem dinheiro suficiente para satisfazer suas necessidades? N (%) N (%) 01 (04) 03 (11) 07 (26) 01 (04) 05 (19) 13. 16(2): 87-128. atrativos)? 12. Quão saudável é o seu ambiente físico de trabalho (clima.MEIO AMBIENTE 8.Muito 05 (19) 11 (41) 06 (22) 1. barulho.

Escala de Respostas

Satisfação 3.Nem satisf./ Nem insatisf.

1.Muito Insatisfeito 2.Insatisfeito

4.Satisfeito 13 (48) 13 (48) 14 (52)

Questões N=27 Domínio V - MEIO AMBIENTE 8. Quão seguro (a) você se sente em sua N vida diária? (%) 9. Quão saudável é o seu ambiente físico de trabalho (clima, barulho, poluição, atrativos)? 12. Você tem dinheiro suficiente para satisfazer suas necessidades? N (%) N (%)

13. Quão disponíveis para você estão as N informações que precisa no seu dia-adia? (%) 14. Em que medida você tem oportunidade de atividades de lazer? N (%) 06 (22) 01 (04) 04 (15) 02 (07) 03 (11) 03 (11) 02 (07) 10 (37) 01 (04) 09 (33)

23. Quão satisfeito (a) você está com as N condições do local onde mora? (%) 24. Quão satisfeito (a) você está com o seu acesso aos serviços de saúde? N (%) N

25. Quão satisfeito (a) você está com o seu meio de transporte? (%)

Satisf- satisfeito/ insatisf- insatisfeito

De acordo com o Quadro acima, verificou-se que os sujeitos se sentem bastante ou extremamente seguros em sua vida diária (70%), vale ressaltar que o entendimento de segurança foi avaliado pelos sujeitos não somente em termos de proteção ou preservação da ordem pública, mas como a auto-confiança. O ambiente físico de trabalho é considerado bastante ou extremamente saudável (59%), possuindo muito ou completamente acesso às informações que necessitam no cotidiano (56%). A oportunidade de desenvolver atividades de lazer foi
Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 87-128, 2007 113

5.Muito Satisfeito

relatada entre média e muito (55%), exemplificadas como passeios com a família, festas noturnas com os amigos e viagens. Observou-se que a maioria está satisfeita ou muito satisfeita com as condições do local de residência (85%) e uma justificativa para esta avaliação satisfatória pode ser devido residirem no interior, no caso em Bauru, uma cidade de porte médio, com boa estrutura de saneamento básico e de serviços à população e melhores índices de saúde e condições ambientais. Quanto à situação financeira para satisfazer suas necessidades foi avaliada como muito pouco ou médio (59%), uma vez que a maioria pertence aos estratos socioeconômicos baixos o que implica em uma maior responsabilidade na administração do orçamento, priorizando-se as necessidades básicas de alimentação e habitação. O acesso aos serviços de saúde foi avaliado pelos participantes como satisfeito ou muito satisfeito (52%) de uma forma geral e não especificamente voltado ao atendimento prestado pelo Centrinho que tem atingido índice de satisfação melhor. Com relação ao meio de transporte estão satisfeitos ou muito satisfeitos (85%), dependendo a maioria do sistema coletivo urbano especialmente para fins de trabalho ou tratamento, o que revela a qualidade dos serviços prestados nesta área. Medidas dos domínios para avaliação da qualidade de vida O estudo das médias de cada um dos domínios sem correlacioná-los às variáveis do perfil socioeconômico, segue na tabela abaixo.

114

Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 87-128, 2007

Tabela 2 - Medidas-resumo dos domínios

Domínio I II III IV

N 27 27 27 27

Média¹ 73 85 77 79

Desviopadrão 14 11 11 11

Mínimo 44 54 43 55

Mediana² 75 86 80 80

Máximo 94 100 98 100

V 27 64 13 40 63 90 Nota: Os valores da média e mediana equivalem à porcentagem ¹Média – numa distribuição, valor que se determina segundo uma regra estabelecida a priori e que se utiliza para representar todos os valores da distribuição. ²Mediana – numa distribuição, valor da variável aleatório que corresponde ao valor 0,5 da distribuição.

Na avaliação das questões do domínio I (geral) referente à avaliação e satisfação com a qualidade de vida e saúde, a média do grupo foi 73. O domínio II (físico) que abrange impedimentos relacionados à fissura, necessidade de tratamento de saúde, disposição, locomoção, sono, desempenho e capacidade para o trabalho, os sujeitos apresentaram valores médios maiores (85), seguidos do domínio III e IV que se referem respectivamente ao psicológico (77) e relações sociais (79). O psicológico engloba sentido pela vida, concentração, aceitação da aparência física, satisfação e sentimentos negativos. O de relações sociais abrange a satisfação com os relacionamentos pessoais. Desta forma, analisando o valor médio dos domínios I ao IV constatou-se que os pacientes apresentaram um índice de qualidade de vida de bom a muito bom. Somente o domínio V (Meio ambiente) teve valor médio inferior de 64 com um índice de qualidade de vida regular, abrangendo questões referentes à situação financeira, localidade residencial, lazer, acesso a informações e a outros serviços de saúde. Concepção de qualidade de vida Este eixo de análise refere-se à definição do termo qualidade de vida pelos indivíduos, possibilitando verificar o que pensam acerca do assunto pesquisado. De acordo com as respostas abertas coletadas, constatou-se
Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 87-128, 2007 115

que o termo qualidade de vida apresenta um conceito amplo formado por valores subjetivos, atribuídos pelos participantes, segundo a realidade social e/ou principais necessidades que, atualmente, cada um possui. Para Ribeiro (2001), a menção de que qualidade de vida abrange uma ampla variação, desde as questões macro sociais até o mundo particular dos sujeitos, constitui-se num dos vários aspectos de sua própria característica de indefinição. Muitos termos são usados como sinônimos tais como bem-estar, condições de vida, satisfação de vida ou de necessidades. Para a maioria dos participantes, a definição de qualidade de vida está correlacionada ao acesso aos direitos mínimos de cidadania (98%) como saúde, habitação, alimentação, educação e saneamento básico; à oportunidade de se ter um bom emprego (54%); condição econômico-financeira estável (77%) que assegure a obtenção de bens materiais básicos e o acesso ao lazer; ter bom relacionamento familiar, afetivo e social (77%) e satisfação pessoal (31%). Segundo Minayo et al. (2000), o patamar mínimo e universal para se falar em qualidade de vida diz respeito à satisfação das necessidades mais elementares da vida humana: alimentação, acesso à água potável, habitação, trabalho, educação, saúde e lazer, elementos materiais que têm como referencia noções relativas de conforto, bem-estar e realização individual e coletiva. Análise das dificuldades e/ou facilidades para inserção no mercado de trabalho e manutenção, necessidades sociais e financeiras e mudanças póscolocação, e satisfação profissional e social Este eixo tem como objetivo analisar as dificuldades e/ou facilidades para a inserção e permanência dos sujeitos no mercado de trabalho em função da deficiência; identificar as necessidades sociais e financeiras antes da inserção profissional e mudanças após a colocação, no âmbito pessoal e familiar, e identificar o grau de satisfação profissional e social. Dificuldades e/ou facilidades para a inserção e permanência no mercado de trabalho em função da deficiência
116 Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 87-128, 2007

As dificuldades e/ou facilidades enfrentadas para a inserção no mercado de trabalho, podem ser vistas na análise a seguir. Os dados coletados demonstraram que cerca de 40% dos entrevistados encontraram dificuldades para inserção no mercado de trabalho, sentindo-se discriminados pelas pessoas nas entrevistas para emprego em virtude da fissura labiopalatina (50%) em que alegaram ser visto como incapacitados para o trabalho, especialmente por terem fissura. Também pontuaram como dificuldade os distúrbios de fala (25%), como por exemplo, a hipernasalidade (fala fanhosa), que interferem diretamente na comunicação, ressaltando-se que cerca de 31% dos pacientes encontram-se atualmente em tratamento terapêutico com a equipe de fonoaudiologia, visando sua reabilitação global. Outra dificuldade foi o não reconhecimento da fissura como deficiência (12%), não tendo, portanto, acesso às vagas específicas, bem como dificuldades em relação à aparência física (12%). Peter et al (1975) relatou que a sociedade parece valorizar menos o trabalho de pessoas com fissura, dificultando a contratação em empregos formais, embora eles tivessem iguais condições para o exercício de funções laborativas. Em contrapartida, foi relatado pela maioria dos participantes (50%) que a fissura facilitou a sua inserção no mercado, por meio de intervenção do Serviço Social/Projeto Bauru do HRAC (50%), bem como por ter sido considerado pessoa com deficiência (50%) e beneficiado pela Lei de cotas. O Decreto n. 3.298/1999 em seu artigo 36 (BRASIL, 2006c) especifica a proporção de cotas relacionada ao número de empregados, que diz “a empresa com cem ou mais empregados está obrigada a preencher de dois a cinco por cento de seus cargos com beneficiários da Previdência Social reabilitados ou com pessoa portadora de deficiência habilitada (...)”. Por outro lado, 45% dos entrevistados afirmaram não ter sofrido nem facilidade nem dificuldade, ou seja, nenhuma interferência em função da deficiência para o acesso ao emprego. Necessidades sociais e financeiras antes da inserção profissional e mudanças no âmbito pessoal e familiar Ao questionar acerca das principais necessidades vivenciadas pelos participantes e/ou família antes de começarem a trabalhar, cerca de 55% responderam não ter vivenciado esta
Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 87-128, 2007 117

situação em razão de a família não necessitar integralmente de sua renda mensal para arcar com as despesas, visto que a maioria dos relatos são de participantes com idade entre 22 a 30 anos, cujos chefes de família são os pais. Estudos de Peter et al (1975), Garcia et al (1999) e Veronez (2007) consideraram a pessoa com fissura emocionalmente dependente dos familiares por mais tempo, uma vez que eles confiam mais nos seus familiares para receber cuidado e apoio. Novamente fazendo uma reflexão sobre o adulto jovem na atualidade, observou-se que sua independência socioeconômica acontece mais tarde, sendo que a vida em família garante a eles benefícios como conforto e segurança. Os dados do IBGE (INSTITUTO, 2000) confirmaram esta realidade no Estado de São Paulo, portanto são características condizentes à realidade brasileira. Dentre os que vivenciaram tal situação (45%) relataram que as principais necessidades sociais e financeiras sofridas foram: dificuldades para pagamento de aluguel (33%), contas de água e luz (33%) e compra de alimentos (33%) em que foram amenizadas após a inserção no mercado de trabalho. Esses dados, como vimos anteriormente, refletem às dificuldades não só dos pesquisados, mas também à população brasileira, pois a maioria pertence aos estratos socioeconômicos baixos. Quanto às mudanças pós-colocação no âmbito pessoal, constatou-se que houve aumento relevante da condição financeira (25%), propiciou a aquisição de bens materiais (19%), elevação da auto-estima (69%), maior confiança nas habilidades (37%) e sentimento de maior independência e responsabilidade (31%). No âmbito familiar, os dados obtidos comprovaram o fortalecimento dos laços afetivos e familiares (25%), aumento da valorização, respeito e confiança da família (19%), e 19% alegou não ter ocorrido nenhum tipo de mudança. Satisfação profissional e social De acordo com os dados obtidos, a maioria dos participantes (70%) afirmou estar satisfeito com o emprego, considerando bom relacionamento e respeito entre os funcionários e superiores (85%), bom ambiente de trabalho (22%) e identificação com o serviço que executa (14%). Do ponto de vista psicológico, o trabalho provoca diferentes
118 Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 87-128, 2007

ressaltando que são respeitados pela equipe de trabalho. 1996). a emancipação e inclusão social dos pacientes. Poder ser. de forma a garantir o acesso aos direitos de cidadania. Ação do Serviço Social como facilitador do processo de inserção e manutenção no mercado de trabalho e outros serviços prestados Tem como objetivo avaliar a atuação do serviço social como facilitador no processo de inserção do paciente no mercado de trabalho e/ou outros serviços que sejam necessários. alegando existência de trabalho sob pressão o que é prejudicial à saúde (33%). O trabalho pode ser fonte de satisfação. o atendimento prestado pelo serviço social no processo de inserção dos usuários no mercado de trabalho foi Serviço Social & Realidade. principalmente quanto à forma e ao meio no qual desempenha sua tarefa (KANAANE. falta de recursos/equipamentos para trabalhar (16%). bem como são incentivados pela própria chefia à continuidade do tratamento de reabilitação.graus de motivação e de satisfação no trabalhador. Segundo Blattner (2000). sair do discurso e da representação para se confrontar com o mundo (CATTANI. Franca. contudo. não sofreu qualquer discriminação no ambiente de trabalho por causa da malformação. O Projeto Bauru busca. 16(2): 87-128. De acordo com os dados obtidos. por possibilitar a realização de objetivos ou tarefas úteis para a sociedade. ainda. Trabalhar significa viver. insegurança na manutenção do emprego (16%). por ela pesquisados. observou que a maioria dos pacientes com fissura labiopalatina. foi constatado como principal fator a dificuldade de comunicação (fala). pouco importa se ele se concretiza pelo esforço físico ou mental. ato de criação e. nesse sentido. sobrecarga de serviço (16%) e busca por melhor emprego (33%). por meio de ações individuais e coletivas. Quanto à existência de discriminação no local de trabalho. e não especificamente devido à fissura labiopalatina. observou-se que cerca de 10% dos participantes alegou ter sofrido algum tipo de discriminação relacionado à idade (50%) e à raça (50%). chacota por parte dos colegas de serviço e quanto à aparência física. dentre os estigmatizados. dados também encontrados neste presente estudo. por permitir a participação na obra produtiva geral. 1995). 2007 119 . Constatou-se ainda que cerca de 30% está insatisfeito com o emprego. e fonte de verdadeiro prazer.

Concepção de qualidade de vida dos indivíduos Constatou-se que o termo qualidade de vida foi avaliado segundo os valores e realidade social de cada pesquisado. apresentam bom nível de satisfação com os relacionamentos pessoais. trabalhadores assalariados e de estratos socioeconômicos baixos. educacional e profissional A maioria dos sujeitos concentrou-se nas faixas etárias de 26 a 35 anos. No psicológico. Conclusão De acordo com os dados obtidos junto aos pacientes residentes em Bauru em fase final de reabilitação e inseridos no mercado de trabalho analisados neste estudo. associado diretamente ao fato de se ter “boa” saúde. a aparência física é aceita pelos pacientes. 16(2): 87-128. gênero masculino. estando satisfeitos no trabalho. 2007 . A exceção ocorreu no meio ambiente cujo índice foi considerado regular. Franca. sendo um serviço que propicia o acesso aos direitos e maior motivação aos usuários. bom emprego e satisfação pessoal. Qualidade de vida mediante os domínios: físico. Quanto às relações sociais. Possuem muita confiança nas suas habilidades e baixo índice de sentimentos negativos. relações sociais e meio ambiente Conclui-se que os sujeitos apresentaram na maioria dos domínios de boa a muito boa qualidade de vida. constatou-se insatisfações com a situação financeira. estando satisfeitos com o tratamento e com o processo de reabilitação. No domínio físico observou-se que não há interferência negativa da fissura labiopalatina no desempenho das atividades diárias. lazer. foi possível concluir a partir dos objetivos que quanto à/ao: Perfil socioeconômico. psicológico. Está também relacionado à condição econômico-financeira estável. com escolaridade do ensino médio completo ao superior incompleto. estado civil solteiro. acesso a informações e a outros serviços de saúde. bom relacionamento pessoal e familiar.avaliado como excelente (83%) e bom (17%). Dificuldades e/ou facilidades para sua inserção e permanência no mercado de trabalho em função da deficiência 120 Serviço Social & Realidade. No domínio meio ambiente.

VALENTIM. bem como fortalecimento dos laços afetivos e familiares. C. Com relação ao cumprimento das cotas previstas para as pessoas com deficiência depende do grau de comprometimento funcional e/ou psicossocial da fissura labiopalatina.. autonomização e inclusão social. Afirma-se que é um serviço que propicia. A. Em contrapartida constatou-se. 16(2): 87-128. por meio de uma prática profissional competente e comprometida com o processo de reabilitação. insegurança na manutenção de emprego. Algumas dificuldades vivenciadas pelos pacientes ocorreram em função da discriminação por apresentarem distúrbios de fala.Constatou-se facilidades para a inserção no mercado de trabalho mediante a intervenção do Serviço Social do HRAC responsável pelo encaminhamento dos pacientes às instituições empregadoras. P. auto-confiança. além da motivação dos usuários e familiares. por exemplo. 2007 121 . dentre os insatisfeitos. Atuação do serviço social como facilitador no processo de inserção no mercado de trabalho e manutenção e/ou outros serviços prestados O atendimento prestado pelo Serviço Social do HRAC (Projeto Bauru) foi avaliado como bom/excelente especialmente por atuar como facilitador no processo de inserção dos pacientes no mercado de trabalho. responsabilidade. L. falta de recursos e/ou equipamentos para trabalhar. Grau de satisfação profissional e social Em sua maioria. M. havendo elevação da auto-estima. G. Concluiu-se que as principais necessidades sociais e financeiras vivenciadas foram amenizadas após a inserção profissional. ambiente de “pressão” e sobrecarga de serviços desencadeadores de estresse. I. A. pois nem todos são considerados pessoas com deficiência. R. como. Work and Serviço Social & Realidade. Franca. GRACIANO. a hipernasalidade que interfere na comunicação. sentimento de maior independência. o acesso aos direitos de cidadania.. S. R. os entrevistados estão satisfeitos com o emprego por terem bom relacionamento no ambiente de trabalho e identificação profissional. SANTOS.

SILVA FILHO. R. C.. ANTUNES. 2007. htm>. 87-128. 2007 . S. on average. 2006. BACHEGA. 2. The universe was composed by 46 subjects and the sample of 27 cases that adhered to the study. formed in its first part by 26 closed questions and in the second one by eight open questions for collection of statements. from a good to very good life quality. 2005. Odontopediatria nas fissuras labiopalatais. ed. Franca. A. 111-139. Life quality. MACHADO. M. 16(2): 87-128. J. it was concluded that the subjects present. residents in Bauru. G. WHOQOL-bref. R. A. ANEP. Qualidade de vida do idoso: a assistência domiciliar faz a diferença? São Paulo: Casa do Psicólogo. 2000. I. L. For the collecting of data. in final phase of treatment in the Hospital and inserted in the job market.anep. the form ruled according to the international instrument of life quality was used. FREITAS. 2003.. São Paulo: Santos. M.quality of life of people with labiopalatine cleft inserted at the professional market in Bauru. v. • Referências ABDO. 2007. R. In: MUGAYAR. With the results. M. São Paulo: Pancast. Labiopalatine Cleft. F. Serviço Social & Realidade (Franca). Adeus ao trabalho?: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Pacientes portadores de necessidades especiais: manual de odontologia e saúde oral. O. R. KEYWORDS: Work. as well as significant indexes of professional satisfaction and with the performance of the social service of HRAC facilitative of the insert process in the job market. AIELLO. 2003. by the physicist. in Bauru. C. psychological. n. Critério de Classificação Econômica Brasil. • ABSTRACT: This research is an exploratory and descriptive study accomplished at the Hospital of Rehabilitation of Craniofacial Anomalies of the University of São Paulo (HRAC/USP). p. Indicadores psicossociais e repercussões na 122 Serviço Social & Realidade. from August to November.br/pesquisaemfoco/dez2002/cceb. Disponível em: <http://www. 9. It had as main objective to evaluate the quality of life of adult individuals with labiopalatine cleft. Acesso em 22 ago. L.. S. São Paulo: Cortez. ALBUQUERQUE. social relationships and environment domains. 16. C. M. A. Fissuras labiopalatais: uma visão contemporânea do processo reabilitador.org. p. M.

Regulamenta as Leis n. Regulamenta a Lei n. R.gov. Disponível em: <http://www. BRASIL. e dá outras providências.A. e dá outras providências. 5. Departamento de Informática do SUS.br/informacao. Disponível em: <http:// www.asp>.data sus.048 de 8 de novembro de 2000. Brasília: Federação Nacional das APAEs. 11. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado S. Disponível em: <https://www. B. BORGES. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Faculdade de História. Disponível em: <http://www. Ministério do Trabalho e Emprego. Acesso em: 22 maio 2006a. 2007.br/ceappd-sp/Leis% Serviço Social & Realidade.qualidade de vida de adolescentes com fissura labiopalatal.htm>. et al.gov. 7. 2000.098 de 19 de dezembro de 2000. que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica. BRASIL. 1997.gov. Decreto n. 2007 123 . 10. p.853 de 24 de outubro de 1989. ______.296 de 2 de dezembro de 2004. que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida.298. Franca. e 10. 16(2): 87-128. Classificação estatística internacional de doença e problemas relacionados à saúde. 2002. A. Portadores de lesões lábio-palatais e suas relações no trabalho: estigma e realidade. Educação profissional e colocação no trabalho: uma nova proposta de trabalho junto à pessoa portadora de deficiência. M. Direito e Serviço Social. ______.br/cid10/webhelp/cid10. Ministério da Saúde. Universidade Estadual Paulista.planalto. H. ______.mtecbo. Botucatu. de 20 de dezembro de 1999. S. promulgada em 5 de outubro de 1988. 1988. br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5296. Franca. Constituição da República Federativa do Brasil. BLATTNER. Classificação brasileira de ocupações 2002: Informações Gerais. Acesso em: 22 ago. consolida as normas. dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. C. (1997) apud BATISTA. 3. Tese (Doutorado em Pediatria) – Faculdade de Medicina de Botucatu. Decreto n.gov.sp. IMESP.htm>.conselhos. Acesso em: 8 maio 2006b.

GARCIA. ______.L. Brazilian Oral Research. C. FLECK.20PPD/DEC%20FED%203298. 16(2): 87-128. I. 2000. Trabalho e autonomia. Revista Brasileira de Psiquiatria. Franca.. DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS (DIEESE). 18. USP/São Paulo.L. 2002. 34. B. p. Bauru: FOB-USP. v. In: TRINDADE. B. 1996. M. A. E. Aplicação da versão em português do instrumento abreviado de avaliação da qualidade de vida “WHOQOL-bref”. R. p. K. 1974. São Paulo.).. CHINELATTO. p. n. 2. A. S. abr. São Paulo: Santos. A ocupação dos jovens nos mercados de trabalho metropolitanos.P. n. Revista de Saúde Pública./jun. 1. A. FREITAS. A. (Coord. 2007. CATTANI. 2. n.br/esp/estpesq24_jovensOcupados.htm>./mar. Bauru. Como elaborar projetos de pesquisa. Bauru: Hospital de Pesquisa e Reabilitação de Lesões Lábio-palatais. 2. O desvelamento das relações sociais e a busca dos efeitos do início tardio do tratamento dos pacientes portadores de fissuras do H. A. M. n. 1994. v. GIL. R. J. Desenvolvimento da versão em português do instrumento de avaliação de qualidade de vida da OMS (WHOQOL-100). 21. P. Disponível em: <http://www. 128133. Bodyimage in adult patients with cleft lip palate: an analysis through human figure drawing. p. abr.P. FREITAS. et al. 178-183. 4. G. P. M. ed. I. SILVA FILHO. 311-333. 2007. Current data on the characterization of oral clefts in Brasil. M. 1999. J. D. Centro de Pesquisa e Reabilitação de Lesões Lábio-Palatais da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo. 17-26. Aspectos psicossociais da reabilitação. Acesso em 27 fev. C. v. 1999. Fissuras labiopalatinas: uma abordagem interdisciplinar. 2007 . J.R. São Paulo: Atlas.org. C. Bauru. et al. S. Petrópolis: Vozes. São Paulo. Jan. CAMARGO. O. p. 1-10. G. jan. NEME.. 2. v. 124 Serviço Social & Realidade. Acesso em: 8 maio 2006c. M. GRACIANO. Brazilian Journal of Dysmorphology and Speech-Hearing Disorders. 2004. et al.pdf>.dieese.

Direito e Serviço Social. O trabalho profissional na contemporaneidade. M. Características da população e dos domicílios. R. S. Universidade de São Paulo. 2006. Universidade de São Paulo. Retratos da Saúde: o Relatório QUAVISSS. T. LOURENÇO.). Franca: Faculdade de História. 37-80. 1991. Pesquisa Social: teoria. IAMAMOTO. V. ______. In: _______. A. método e criatividade. S. Universidade de São Paulo. KANAANE. (1971) apud ANTUNES. Trabalho e Qualidade de Vida: uma via dupla. Plano de ação do serviço social: área de anomalias craniofaciais 2003-2006. São Paulo: Cortez. São Paulo: Cortez. Franca. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional.. V. Adeus ao trabalho?: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho 9. L. p. 2000. MESQUITA. Bauru: Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais. p. Petrópolis: Vozes. (Org. Serviço Social & Realidade. D. E. I. MINAYO. M. 7. Bauru: Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais.Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais. 2006. MOREIRA. 2004. 1997. As repercussões sociais das malformações congênitas lábio-palatais no cotidiano de seus portadores. Bauru: Hospital de Pesquisa e Reabilitação de Lesões Lábio-palatais. K. MARX. BERTANI. Censo Demográfico 2000. Universidade Estadual Paulista. F. S. MARQUES. ed. F. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 2000. C. C. INSTITUTO Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).______. Rio de Janeiro: IBGE.). I. Dissertação (Mestrado em Ciências da Reabilitação) . 17-164. In: BERTANI. (Org. 2001. R. Universidade de São Paulo. O enquadramento da fissura labiopalatina como deficiência: justificativa. 2003. São Paulo: Atlas. C. ed. 2005. Implicações psicossociais da realização da faringoplastia em indivíduos com fissura labiopalatina. Bauru.. 2007 125 . 1995. 16(2): 87-128. Parte 1 e 2. Comportamento humano nas organizações: o homem rumo ao século XXI.

2007. p. Família Saúde Desenvolvimento. Bauru. p. Sociological aspects of cleft palate adults: III. C. jul.______. 1. v. São Paulo. S. Qualidade de vida: um debate necessário. Z. L. 2001. Bauru.. 1975. CHINSKY. 2. 12. R. VERONEZ. P. 5. Qualidade de vida no trabalho e ergonomia: conceitos e práticas complementares. p. ROCHA. 1995. Serviço Social e Sociedade. 109-115. A. 23. v. 2./dez. M. Tese (Doutorado em Ciências dos Distúrbios da Comunicação Humana: Campo Fonoaudiológica) – Escola Paulista de Medicina. Vocacional and economic aspects. Avaliação do desempenho psicossocial de pacientes portadores de fissura lábio-palatina submetidos a tratamento multidisciplinar no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – USP. mar. FISHER. TAVANO. ______. Universidade Federal de São Carlos. 2000. Universidade de São Paulo. 69. n. Tese (Doutorado em Distúrbios da Comunicação Humana) – Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais. p. jul. M. 2007 . HARTZ. v. n. Revista Brasileira Crescimento Desenvolvimento Humano. The Cleft Palate Journal./dez. Ciência & Saúde Coletiva. 16(2): 87-128. 193-199. 53-58.. 3. STEPHAN. n. São Paulo. Universidade Federal de São Paulo. Rio de Janeiro. R. p. M. 53-72. Dissertação (Mestrado em Ciências da Reabilitação – Distúrbios da Comunicação Humana) – Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais.. Dissertação (Mestrado em Educação Especial) – Centro de Educação e Ciências Humanas. São Carlos. 1994. Apr. J. D. 2002. 1. S. PEGORARO-KROOK. Avaliação da qualidade de vida em pacientes adultos com fissura labiopalatina. 2003. v. E. I. R. 13. Franca. v. D. Avaliação da fala de pacientes que apresentam inadequação velofaríngea e que utilizavam prótese de palato. 2000. Curitiba. 7-18. PETER.. BUSS. Análise da integração escolar de uma criança portadora de lesão lábio-palatal. M. F.. 126 Serviço Social & Realidade. n. RIBEIRO. A qualidade de vida na estratégia de saúde da família: refletindo sobre significados. J.. M. Universidade de São Paulo. O desenvolvimento psicossocial e educacional de indivíduos com anomalias faciais. P. n. A. FRITSCH.

2005. Arquivos de Ciências da Saúde. p. p..______. L. D. J../set. 3. The development of the World Health Organization quality of life assessment instrument (the WHOQOL). Serviço Social & Realidade. W. 1994. 41-60.). In: ORLEY. v. n. 133137. TAVANO. Heidelberg: Springer Verlag. Franca. (Org. 16(2): 87-128. 2007 127 . The WHOQOL GROUP. Quality of life assessment: international perspectives. 12. Modificações psicossociais observadas pós-cirurgia ortognática em pacientes com e sem fissuras labiopalatinas. jul. KUYKEN.

.

PALAVRAS-CHAVE: Inclusão Digital.000 pacientes matriculados. A presente temática foi escolhida devido a sua relevância no cotidiano de nossa sociedade. (Co-orientadora) * Serviço Social & Realidade. Anomalia Craniofacial. Artes e Comunicação (FAAC) / Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Bauru. criado em 1967. Mestranda do Curso de Pós-Graduação em Comunicação Midiática da Faculdade de Arquitetura. Docente da Faculdade de Serviço Social de Bauru. (Orientadora) *** Especialista em Serviço Social pela Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino Bauru/SP. Ampliando esses Especializanda em Serviço Social na área da Saúde e Reabilitação pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC/USP – Bauru/SP. contanto atualmente com mais de 70.OS AGENTES MULTIPLICADORES E REPRESENTANTES DE ASSOCIAÇÕES DO BRASIL NA ÁREA DE ANOMALIAS CRANIOFACIAIS: A INCLUSÃO DIGITAL EM PAUTA Michelle Karen de Brunis FERREIRA* Silvana Aparecida Maziero CUSTÓDIO** Eliana Fidêncio de Oliveira MENDES*** • RESUMO: O presente artigo foi desenvolvido com o objetivo de retratar a temática da Inclusão Digital junto aos Agentes Multiplicadores do HRAC/USP – Pais e/ou Pacientes Coordenadores e os representantes de Associações do Brasil na área de anomalias craniofaciais. Tecnologias da Informação. onde as fronteiras territoriais cederam lugar às fronteiras virtuais. • Introdução O Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC/USP. a pesquisa e a extensão de serviços a pessoas com anomalia craniofacial. ** Doutora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Reabilitação – HRAC – USP Campus Bauru. Tem por finalidade o ensino. síndrome relacionada e/ou distúrbio da audição. Especialista em Gestão de Organizações Públicas pelo Departamento de Engenharia de Produção da Faculdade de Engenharia de Bauru/SP (FEB) – Universidade Estadual Paulista (UNESP). 2007 129 . Franca. visando à qualidade dos serviços prestados pelo hospital. Mestre em Serviço Social pela UNESP de Franca. Perda Auditiva. procedentes de todas as regiões do Brasil. 16(2): 129-160. Analisar o ambiente que estão imersos os Agentes Multiplicadores do HRAC/USP é de fundamental importância para o desenvolvimento de ações que propiciem o acesso à informação e conhecimento.

Serviço Social & Realidade.usp.000 pessoas. 16(2): 129-160. São atendidos pacientes de todas as regiões do país. fonoaudiologia. Serviço Social. o HRAC/USP disponibiliza em seu portal (www.4 pessoas por família (IBGE. O atendimento prestado é integral. recreação. 1 Fonte: Serviço Social de Projetos Comunitários. por meio do trabalho voluntário. visando à reabilitação e inclusão social. dentre elas o computador e a internet. dentre eles a “esfera digital”. educação. mantendo o Hospital relações de parceria com a Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades CrânioFaciais (FUNCRAF). 1999). 2004). assim como a grande maioria da população brasileira. Franca. 2007 130 . nutrição e enfermagem). onde este constatou que 85% da população (150 milhões de pessoas) não possuem acesso às ferramentas disponibilizadas pela tecnologia de informação e comunicação (TIC’s). Dezembro 2006)1 A Assessoria às Associações de pais e pessoas com fissuras labiopalatais e/ou congêneres do Brasil. realidade esta constatada segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Comitê para Democratização da Informação (CDI). visa colaborar no processo de capacitação de recursos humanos com enfoque às áreas de assistência social e saúde/reabilitação. Os Coordenadores. à comunidade e o HRAC/USP.) O público alvo atendido pelo HRAC/USP. odontologia. considerados agentes multiplicadores. (Total de associações no Brasil: 43 com cobertura a 28.br). os serviços prestados pelo HRAC/USP atingem cerca de 200. et al. representando os portadores de anomalias craniofaciais em suas respectivas cidades.000 pacientes. facilitam o elo entre a família. psicologia. índice esse também constatado em pesquisa realizada no HRAC (GRACIANO. suportado financeiramente com recursos da Universidade de São Paulo (USP) e Ministério da Saúde especialmente por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Ibidem.centrinho. trabalhando em busca da defesa de seus direitos e interesses comuns. são pais e/ou pacientes adultos que. é excluído do acesso a bens e serviços do mundo globalizado. Com o objetivo de ampliar o acesso à informação.046 pacientes.números para o núcleo familiar e considerando que a população brasileira possui uma média de 3. Conta com uma equipe interdisciplinar composta por diversas áreas (medicina. (Total de coordenadores 473 com cobertura a 10.

emitir declarações de presença e outros. informações sobre coordenadores e associações de pais. pacientes. Devido à falta de conhecimento dos pais. economia e sociedade. No portal é possível solicitar consulta inicial denominado de caso novo. bem como para os coordenadores e representantes de associações de pais e pessoas com fissuras lábiopalatinas. 2007 131 . de forma conjunta e articulada com a sociedade. 16(2): 129-160.serviços para os pacientes e familiares. como preconiza o Programa Brasileiro para a Sociedade da Informação. coordenadores e representantes de associações. à incorporação desses serviços e também em relação à utilização do portal do HRAC/USP. da iniciativa privada. Ao invés de soluções em larga escala devem ser realizadas experiências que poderão servir de base para ações de grande amplitude e impacto. Assim. da sociedade civil e das instituições de pesquisa. 1999). demografia. somos um país notável em tamanho e importância. o processo de inclusão digital visando o acesso à informação e ao conhecimento. Diante do cenário vivenciado atualmente pela sociedade. viabilizando a acessibilidade do paciente ao tratamento reabilitador. ainda que não exclusiva. é de fundamental importância o desenvolvimento de ações coordenadas e integradas entre as diversas esferas de governo. para a inserção dos indivíduos como cidadãos em um mundo globalizado. fator indispensável Serviço Social & Realidade. verificar retornos. O HRAC/USP entende que a universalização dos serviços de informação e comunicação é condição fundamental. bem como a inclusão social. De acordo com o Ministério da Ciência e Tecnologia (BRASIL. de forma a alavancar o desenvolvimento auto-sustentável e a promoção da cidadania. através da capacitação da população para aquisição – de no mínimo – habilidades básicas para a utilização das ferramentas disponibilizadas pelas tecnologias de informação e comunicação – computador / internet – tornando-se assim. visando à ampliação do acesso as áreas das tecnologias de informação e comunicação. buscam-se soluções efetivas para que pessoas dos diferentes segmentos sociais e regiões possam ter acesso às orientações e treinamentos relacionados às tecnologias de informação e comunicação. Paralelamente aos problemas sociais ainda não solucionados. o desenvolvimento dos novos processos de geração e disseminação de conhecimento deve ser um plano para o futuro. contato com ouvidoria. como mostra sua geografia. Franca.

(processo FAPESP n. A partir de 2004. sobre o acesso a inclusão digital. funcional e psicossocial dos pacientes tem na tecnologia de informação e comunicação uma ferramenta 132 Serviço Social & Realidade. a Rede Nacional de Associações de Pais e Portadores de Lesões Labiopalatais denominada REDE PROFIS cuja finalidade principal é congregar. ampliará a área de abrangência dos mesmos. foi criada. integrar. que definiu como um de seus objetivos o desenvolvimento do portal web (www. numa sociedade em fase de construção da democracia. Propomos assim o desenvolvimento desta pesquisa. principal ferramenta de integração entre as associações do Brasil. dá-se o nosso interesse em contribuir no processo de inclusão digital de usuários do HRAC /USP. uma vez que essas mídias serão utilizadas de forma a favorecer os interesses / necessidades individuais e coletivas. especialmente os coordenadores e representantes de associações. representar e defender os interesses institucionais de suas associadas. Franca. colaborando com o desenvolvimento da solidariedade social (Bauru. visando à eficácia eficiência e efetividade das ações desenvolvidas. 01/129216). 2007 . uma vez que. 2004). A Rede Nacional de Associações de Pais e Portadores de Fissuras Labiopalatais (REDE PROFIS) congrega as 43 associações existentes no país.redeprofis. Diante do quadro supra citado.br). tendo como objeto de estudos os coordenadores e representantes de associações de pais e pessoas com fissuras labiopalatinas. As TIC’s – Tecnologias da Informação e da Comunicação – podem prestar enorme contribuição para os programas / projetos sociais. O HRAC/USP buscando a excelência em todo o processo de reabilitação estética. visando o intercâmbio técnico-científico de ações em defesa dos direitos de cidadania. Ressaltamos que com esse projeto será dada continuidade à pesquisa de políticas públicas “Criação e Implementação de uma Rede Nacional de Cooperação e Intercâmbio Técnico-Científico entre Associações de Portadores de Lesões Lábio-Palatais no Brasil”. Esse processo de organização social é um exemplo de luta pela conquista de direitos garantidos pela Constituição. visando o acesso eqüitativo aos benefícios da inserção na sociedade de informação.com. 16(2): 129-160.para a minimização da exclusão social.

se por um lado abrem oportunidades ao desenvolvimento e ao bem-estar.. colocam ameaçados os que não estão “preparados tecnologicamente” a tais transformações. Tais transformações.] globalização refere-se à reorganização das estruturas produtivas e ao aumento dos fluxos comerciais e financeiros. é que se agravam os problemas relacionados à morfologia social. e a economia mundial Serviço Social & Realidade.indispensável na implementação de serviços através de seu portal.. Este projeto propiciará a capacitação de sua população alvo para utilização destes serviços e o acesso as TIC’s. neste final de século. configurando uma situação de crescente interdependência mundial no presente contexto de aceleração do desenvolvimento tecnológico. Para avaliar a extensão das transformações causadas pela globalização. Segundo Carvalho (2007). por outro. provocam uma reorganização tanto nas estruturas produtivas como nos fluxos comerciais e financeiros fazendo com que as economias nacionais percam sua importância. no mundo econômico. ocasionando transtornos na economia global. provocadas pela globalização e pelo processo neoliberal. 2007 133 . em termos relativos. condição hoje indispensável para o exercício pleno da cidadania. 16(2): 129-160. também não se pode analisar a sociedade sem que se leve em consideração às transformações tecnológicas que estão ocorrendo dentro dela. reciprocamente. p. 80) cita: [. contudo. são eminentemente contraditórias visto que. Franca. na mesma medida em que não se pode falar em tecnologia sem considerar as transformações sociais que estão ao mesmo tempo provocando e favorecendo seu desenvolvimento. o outro. são a principal razão para as alterações socioeconômica e políticas no mundo moderno. As dimensões sócio-culturais do desenvolvimento tecnológico As transformações da economia capitalista. Por meio das profundas transformações da economia mundial. Nascimento (1996. Sociedade e tecnologia são fenômenos indissociáveis e as transformações que ocorrem num deles altera.

a automação. alteração do papel do Estado no qual ele perde a função de produtor de bens e de repositor do sistema produtivo. visto que trabalhador não consegue se adequar tão rapidamente a estas exigências ficando excluído do mercado. 2007 . 2) Era da Industrialização Neoclássica. O processo de globalização desencadeou várias conseqüências. previsíveis. os novos processos produtivos se mesclaram com o fordismo e o toyotismo. As mudanças eram lentas. melhoria na qualidade dos produtos. ocorrendo à substituição da produção em série e em massa pela flexibilidade da produção. reafirmação da concentração de capital e poder nas mãos de uma minoria. compreendendo três fases distintas de acordo com Chiavenato (1997 apud CELESTINO. A não assimilação das novas exigências tecnológicas transforma-se num dos maiores entraves para o mundo do trabalho. por meio da tecnologia altamente sofisticada para maior produção e menor custo. a robótica e a micro eletrônica afetou. desaparecimento das fronteiras nacionais. dentre outras conseqüências. Ressalta-se. a sociedade adquire uma nova forma de organização social tendo como suporte a tecnologia. progressivas. que durou de 1950 a 1990. A revolução infotecnológica surgiu com as transformações ocorridas na sociedade no decorrer do século XX. 2005): 1) era de industrialização clássica. A cultura organizacional deixou de privilegiar as tradições passadas e passou a concentrar-se no presente e o 134 Serviço Social & Realidade. suaves. A mudança era vagarosa.torne-se cada vez mais interconectada e relevante. 16(2): 129-160. De acordo com Antunes (2000). inclusive. Franca. processo que se iniciou com a Revolução Industrial. Os avanços tecnológicos que eclodiram na década de 1990 provocam uma revolução na sociedade globalizada. A partir desse período as mudanças passaram a ser mais rápidas. tais como: livre comércio entre países. portanto. intensas e pouco previsíveis. desemprego estrutural provocando grande desestruturação social. desigualdade e exclusão social. flexibilidade das normas trabalhistas. Com a globalização. as relações de trabalho e produção no sistema capitalista. percebe-se que o salto tecnológico. que as atuais transformações no mundo do trabalho marcam a transição de uma sociedade industrial para uma sociedade tecnológica. que cobriu o período de 1900 a 1950. desregularização e privatização de empresas estatais.

são determinadas pelos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) feitos no passado remoto ou recente. [. Na sociedade informacional os grupos que controlam a produção do conhecimento têm também condições de armazenar informações. A disseminação da informação por parte dos meios de comunicação é algo avassalador. sobre o que for de seu interesse. e acaba nos colocando como “observadores” do progresso desenfreado e muitas vezes perigoso. O conhecimento tecnológico permite dominar sociedades dependentes que se encontram submetidas às malhas de poder dos detentores deste conhecimento. somados às necessidades e decisões Serviço Social & Realidade. nações. construindo verdadeiros bancos de dados sobre outros grupos.. sua característica principal são as mudanças. teve início em 1990. inesperadas. pois esta poderá ser adquirida através de medidas educativas adequadas. O poder não é apenas de quem possui a informação. 2).. Este controle permite dominar todos os que dependem do conhecimento tecnológico para se integrar ao mundo informatizado. há três universos. em TICs. Do ponto de vista das políticas públicas. ramos da produção. Às pessoas tem que se conscientizarem que vivem em comunidade. A dominação ocorre quando há a possibilidade de controle da informação. as instituições. empresas. os produtos. o conhecimento. que é um ser social. Nos países desenvolvidos. a microbiologia com grandes inovações no campo da engenharia genética e a revolução energética com a utilização da energia nuclear.] Assim como máquinas e equipamentos ficam obsoletos. imprevistas. 16(2): 129-160. Franca. Esta se caracteriza por três grandes avanços técnicocientíficos: a microeletrônica e o progresso da área informacional. os resultados também ficam. 2005. p. O avanço científico e tecnológico do mundo contemporâneo tem contribuído para essa panacéia universal (CELESTINO.conservadorismo cedeu lugar à inovação. Segundo Schaff (1990) uma nova sociedade se configura: a sociedade passa a ser divida entre quem detém a informação ou não. que se tornaram rápidas. 2007 135 . 3) Era da Informação. pessoas. enfim.

o comportamento do setor é caótico. investimento de porte mundial em P&D e muito menos capital de risco ou taxas decentes de juros. capital próprio. A desterritorialização é hoje um fato verdadeiro. Nos países pobres. de risco ou empréstimo a taxas que fomentam a inovação (tecnológica) com base para o aumento de produtividade na economia.estratégicas nacionais. Fala-se que a revolução da informação. característica da sociedade informacional: Uma dualização crescente no interior das sociedades dependentes. (MEIRA. Entretanto surge uma indagação: até que ponto será possível eliminar as identidades culturais? O fato das pessoas consumirem os mesmos bens. porque. Segundo Castells (1999). com suas grandes redes e a velocidade cada vez maior da comunicação eliminarão as barreiras artificiais entre as culturas. na dinâmica das relações sociais. as manifestações da vida cotidiana. não havendo indústria nacional (de classe mundial. nem lhes dá a mesma identidade. participarem do mesmo mercado. 2006) Perante tantas transformações que essa nova configuração de sociedade impõe. é difícil dizer o que realmente ocorre. Franca. como o nosso. aliadas a uma indústria de TICs lastreada por capital próprio. alguns segmentos são integrados à economia e à cultura mundiais enquanto a marginalidade atinge parte considerável da população. 16(2): 129-160. reproduzindo assim a diversidade. estarem submetidas às mesmas leis econômicas não as uniformiza culturalmente. Nos países em desenvolvimento. por outro lado. as sociedades nacionais. Se o mercado mundial pressiona a todos que dele participam a uma uniformização do consumo. 2007 . simplesmente não há política pública para TICs. A interpenetração e a internacionalização das culturas trazem novos elementos à dinâmica cultural nunca vivenciados anteriormente na história humana. 136 Serviço Social & Realidade. locais e regionais passam de uma posição de exploração dependente a uma inadaptação estrutural à nova economia. a conseqüência social mais importante deste processo de desenvolvimento técnico-científico encontra-se no campo cultural. pelo menos ainda). com raros episódios coerentes e/ou conseqüentes. Este fenômeno desencadeia diversos processos na nova estrutura social. mantêm as diferenças.

a adoção de crianças. de um lado. Tentativas de instauração. vê-se que o acesso à tecnologia de informação e comunicação está limitado a um gripo de privilegiados. Dando continuidade ao pensamento do autor. de culturas comunitárias e de Estados cada vez mais fechados. serem portador de algum tipo de Serviço Social & Realidade. de armas. uma economia global e uma rede de informações mundiais e. Franca. assim como a dos países dependentes. O paradoxo do final do século é a globalização econômica de um lado.Uma tentativa desesperada das sociedades excluídas de rejeitar as regras do jogo. as lutas entre grupos religiosos. de outro. 2007 137 . o comércio de órgãos. Segundo Bienaymé (1994). Diante deste quadro. afirmando sua identidade cultural em temos fundamentalistas. É o fluxo de pessoas que só consegue ser interrompido por amplas medidas policiais que afetarão fundamentalmente o caráter da democracia dos países adiantados. nos países marginalizados. O processo de transição histórica à economia informacional será provavelmente dominado pela separação fundamental entre. étnicos e de identidade que reagem a esta tendência. o hiato entre a dinâmica da economia global e a estrutura da sociedade informacional está transformando de maneira fundamental as redes sociais das sociedades avançadas. A reconstituição da unidade mundial através de migrações maciças para os países do centro. 16(2): 129-160. com a internacionalização do capital e maior comunicação entre as diferentes regiões do mundo para alcançar um objetivo comum (a integração ao mercado global) e. de sociedades civis nacionalistas. resultando no “analfabetismo digital” para a maioria da população. dentre eles. grupo este identificado como “excluídos digitais” e vários são os fatores que impedem o acesso das pessoas às novas tecnologias. A forma como está organizada a sociedade global não dá acesso a todos os cidadãos a seus benefícios. etc). de outro lado. o desenvolvimento tecnológico nem sempre significa desenvolvimento social. a lavagem de dinheiro sujo. o tráfico de seres humanos (a prostituição. de uma “conexão perversa” à economia global caracterizada pela criminalidade: o comércio de drogas.

Essa exclusão é “só mais uma” dentre as muitas que caracterizam a nossa sociedade. Franca.deficiência. trazendo como conseqüência uma grande “massa” de excluídos na esfera digital. conforme demonstrado na figura abaixo: 138 Serviço Social & Realidade. 16(2): 129-160. não trouxeram apenas conforto e qualidade de vida. A sua expansão e reconhecimento fortalece a cidadania bem como a inclusão social daqueles que se encontram no chamado “apartheid digital”. O tardio reconhecimento da importância desse campo que vem evoluindo a passos largos fez com que houvesse em nosso país um grande fosso nas políticas públicas com foco nessa temática. O mesmo modificou a capacidade cognitiva do ser humano. sejam os de transferência de renda ou os de crédito pessoal. podemos citar os seus principais canais de desenvolvimento e viabilidade. ensinar. Em se tratando de Inclusão Digital. os avanços tecnológicos dos últimos 200 anos. raciocinar e exercer a criatividade. suas habilidades para aprender. De acordo com o Comitê pela Democratização da Informática (CDI). (MISSÃO. 2003) A Inclusão Digital (ID) representa um canal privilegiado para a equalização de oportunidades da nossa desigual sociedade em plena era do conhecimento. 2007 . A Inclusão Digital A inclusão digital tem sido foco de discussões de toda sociedade moderna. A grandeza deste fenômeno vai desde o apertar do voto eletrônico aos cartões eletrônicos com as mais diversas finalidades.

A partir da constatação de que o acesso aos modernos meios de comunicação. Franca. conseqüentemente. 16(2): 129-160. tanto aqui como no resto do planeta. Os percentuais dos que estão conectados à Internet são ainda menores 8.5% dos brasileiros têm computador em casa. estão às pessoas com deficiência. 2006). (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. dentre eles destacam-se as desigualdades econômicas.Canais de Inclusão Digital (ID) Fonte: Mapa da Exclusão Digital (FUNDAÇÃO. no qual foi comprovado que temos aproximadamente 150 milhões de excluídos digitais no Brasil. 1). bem como preparar o país para necessidades futuras”. Diante da constatação de que muitos brasileiros não têm condições de adquirir equipamentos e serviços para gerar este acesso. Segundo Andrade (2004). 2006) A Oficina de Inclusão Digital realizada em Brasília definiu: Inclusão Digital é gerar igualdade de oportunidade na sociedade da informação. entre os excluídos. sem cidadania.31% (FUNDAÇÃO. A Fundação Getúlio Vargas divulgou o “Mapa da Exclusão Digital”. cujos movimentos de defesa de equiparação de oportunidades já reconhecem o papel fundamental de seu direito à informação e. p. especialmente a Internet. Vários são os fatores que impedem o acesso das pessoas às novas tecnologias digitais. apesar dos avanços. sociais e as pessoas que são portadoras de algum tipo de deficiência. ainda se situam as pessoas com deficiência junto como os demais cidadãos “off-line”. há cada vez mais o empenho do governo e da sociedade civil através das organizações não governamentais de encontrarem soluções para garantir tal acesso. e constatou-se também que apenas 12. Para combater esta situação. Porém o que constatamos é que. sem emprego. Com isso pretende-se gerar um avanço na capacidade e na qualidade de vida de grande parte da população. sem computador e sem net. ao acesso às novas tecnologias da informação e comunicação. 2007 139 . destaca-se o Comitê pela Serviço Social & Realidade.Figura 1 . gera para o cidadão um diferencial no aprendizado e na capacidade de ascensão financeira. 2003. sem educação.

Para ele. (GUIMARÃES. utilizando as tecnologias de informação e comunicação (TIC) como instrumento para construção e o exercício da cidadania. Ocorre à inclusão digital quando as tecnologias de informação e comunicação são utilizadas para a inclusão social. de exercício da cidadania e de aproximação entre as pessoas. Franca. facilitar o acesso aos serviços públicos. ou acontece as duas. Guimarães destaca dois aspectos relevantes: o caráter humano dos projetos de inclusão digital e a dimensão da democratização da informática. o qual foi fundado no Rio de Janeiro em 1995 e tem como missão: Promover a inclusão social de populações menos favorecidas. deve-se ter a perspectiva de que o uso dos computadores em rede contribua para gerar renda. Bases de um Programa Brasileiro para Sociedade da Informação De acordo com Ministério da Ciência e Tecnologia (BRASIL. 2007 . Para que estas oportunidades não sejam desperdiçadas. A atividade humana de instrução e orientação é fundamental. Thiago Guimarães. 16(2): 129-160. é preciso articular as comunidades com projetos culturais e educacionais. com o objetivo de prover às pessoas que fazem parte de comunidades de baixo poder aquisitivo e/ou com necessidades especiais. melhorar a qualidade de vida das pessoas. Ou seja. ou não existe inclusão digital. 1999). ressaltando que inclusão digital não é um processo que brota das máquinas: a máquinas é o meio de conquista de autonomia. de um modo mais amplo. Inclusão digital deve ser vista como democratização da informação. não como um conceito isolado. mas como dupla inclusão: a digital e a social. de afirmação de identidade. Para que a inclusão digital ocorra. o acesso às técnicas e ao uso da informática. o mundo digital pode aprofundar a desigualdade 140 Serviço Social & Realidade. 2). Sua atividade principal é a criação de Escolas de Informática Cidadã. 2003: p.Democratização da Informática (CDI). integrar o cidadão na esfera pública e. não basta colocar pessoas à frente do computador. jornalista e coordenador de atividades nos telecentros da Prefeitura de São Paulo apresentam a inclusão digital.

que já existe entre os brasileiros. mais rapidamente. A própria expansão da Internet pode ser bloqueada em curto prazo pela limitada Serviço Social & Realidade. pela absorção da informação. também são maiores as oportunidades. Os custos de tal empreitada. regional e global. em curto prazo. sua transformação em conhecimento e sua utilização nas dimensões sociais. No Brasil e em todo o mundo. Ao mesmo tempo. no futuro. parte considerável do desnível entre pessoas e instituições já é – e será progressivamente ainda mais – resultado da assimetria no acesso e entendimento da informação disponível na Sociedade e na conseqüente capacidade de agir e reagir de forma a usufruir seus benefícios. Ao mesmo tempo o governo deve dar suporte e incentivar o desenvolvimento tecnológico. por maiores que possam ser. será essencial para o desenvolvimento e crescimento das redes digitais no país. distribuição. A transformação dos processos de produção. para habilitação da cidadania e inserção do país na nova economia digital. 16(2): 129-160. Aquelas que. pois traz a ameaça do “apartheid digital”. Além de estabelecer as bases para a massificação da comunicação digital na educação pública e nas instituições sociais. Não realizá-los. têm forte impacto na forma como se distribui a riqueza entre nações e regiões. são investimentos da Sociedade no seu futuro. a redução da desigualdade no acesso à informação é e será um direito e. deve ser o de universalizar as oportunidades individuais. institucionais e regionais. comercialização e consumo possibilitados por cadeias de valor em rede. igualmente. Franca. em um Programa para a Sociedade da Informação como o proposto. em despesas muito maiores e de duvidoso retorno. na medida em que se amplia à quantidade de informação disponível em rede. adotarem políticas de fomento e absorção destes novos processos terão vantagens competitivas enormes no longo prazo. implicará. Antes de ser um instrumento compensatório. A utilização crescente da comunicação abre um grande potencial para o desenvolvimento humano em todos os níveis. cabe ao governo incentivar e implantar experimentos que sirvam para a criação de uma verdadeira capacitação nacional nas áreas de infra-estrutura de informação e conhecimento digital. 2007 141 . no sentido de assegurar um empreendimento privado competitivo de caráter local. econômicas e culturais. O papel fundamental do governo.

sistemas e serviços que se possam considerar típicos da próxima geração de infra-estrutura digital de comunicação. Os meios de comunicação. desenvolvimento e utilização. são os focos de um Programa para a Sociedade da Informação em qualquer país. interoperáveis. Para tal. 142 Serviço Social & Realidade. Tal rede deve abranger todo o território nacional. 16(2): 129-160. 2007 . computação e os processos de cooperação estão convergindo rapidamente em torno de redes digitais abertas. em particular. é preciso articular a ação de governo e dele com a iniciativa privada e o terceiro setor. para todos. e provendo condições para a criação de empreendimentos digitais que poderão ser significativos para o crescimento nacional na nova economia.penetração social decorrente das diferenças de poder aquisitivo. sua geração. dentro de critérios aceitáveis de uso não competitivo ou pré-competitivo da rede. As mudanças no cenário sócio-econômico são mais do que suficientes para provocar rupturas que tornam necessária a intervenção do governo para capacitar e rearticular os mais diversos atores sócio-econômicos. O conhecimento. O extraordinário impacto positivo que a nova economia e sociedade digital trazem consigo depende fundamentalmente de sua capacidade de ampliar o número de seus usuários. de ambientes. de alcance mundial. exige que novos processos de coordenação sejam postos em prática para intermediar as formas de relacionamento entre os mais variados agentes. principalmente. ferramentas. empresas ou instituições. sua conectividade e apropriação econômica e social. criando oportunidades de educação. Franca. pesquisa e desenvolvimento. Tal convergência cria novos espaços e. As características básicas da economia atual estão associadas à informação e ao conhecimento. sejam domicílios. para maximizar o impacto do investimento a ser realizado. Mais do que velocidade da rede deve-se almejar qualidade de serviço e modelos de negócio que garantam sua sustentação independentemente do próprio Programa. sobretudo da elevação da produtividade – a ampliar os horizontes do próprio crescimento econômico. Um dos pressupostos do Programa é a estruturação de uma rede digital de comunicação de dados que permita a pesquisa. armazenamento e disseminação. Algumas experiências internacionais mostram que esses novos processos podem auxiliar – através.

estabelecer protótipos de serviços de referência em atendimento e de informação em saúde. Tecnologia. 1999): em Educação. Adicionalmente. Informação e Mídia. para todos os níveis da rede pública de educação. dando atenção a projetos e sistemas que possam representar a universalização de tais serviços em todo o território brasileiro. pelo menos. Franca. especialmente para países que têm aspirações maiores. Indústria. mas como. investir para que a rede e suas aplicações possam ser usadas não só como elemento compensatório das diferenças sociais. 2007 143 . Empreendimento. com perdas econômicas cada vez mais significativas e com impactos crescentes em outras dimensões do desenvolvimento humano. incluindo elaboração e disseminação de conteúdo em rede. priorizando Ciência. contribuir para a qualidade dos processos de educação à distância.Não é possível hoje desconsiderar ou apenas reagir passivamente à inexorável expansão das redes digitais. seu fomento e preservação. Muitos dos processos em curso dependem de interação de qualidade eficaz e eficiente. paralisa ou leva mesmo à extinção desses processos. externa e interna. em Aplicações Sociais. 16(2): 129-160. Investimento. (BRASIL. dentre os quais destacamos. A ausência de conectividade e/ou de capacitação local retarda. Atividades do Governo. Educação e Cultura. Criação e Difusão Tecnológica. que são considerados habilitadores e indutores de outros2. é preciso garantir a universalização do acesso à Internet. utilizar os meios providos pelas tecnologias da informação e comunicação. para criação e difusão cultural brasileiras. (BRASIL. em Cultura. 2 Os demais compreendem: Meio Ambiente e Agricultura. Serviço Social & Realidade. utilizando uma infra-estrutura avançada de comunicações. com ênfase nas identidades locais. Finanças e Receita Públicas. em Saúde. interação e verificação de aprendizado. 1999) Os objetivos do Programa Brasileiro para Sociedade da Informação O Programa Sociedade da Informação estabelece um conjunto de objetivos qualitativos globais. Comércio.

em Educação para a Sociedade da Informação. construção. como no início do projeto da RNP. finalmente. comunicação e informação. o impacto das Tecnologias de Computação. Depois de uma fase de iniciação da Sociedade ao uso dos serviços e aplicações associados à versão atual da Internet. em parceria com a REDE PROFIS estabelecendo serviços de referencia em atendimento e de informação em saúde. em grande parte com o estímulo da Rede Nacional de Pesquisa (RNP). instalação. especialmente das pessoas portadoras de anomalias craniofaciais. em caráter permanente.principalmente. 16(2): 129-160. de forma que se criem as melhores condições possíveis para a apropriação sócio-econômico-industrial das próximas gerações de redes e serviços de computação. em nenhum nível. 144 Serviço Social & Realidade. estabelecer critérios. É com esses desafios que pretendemos alavancar o trabalho desenvolvido pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC/USP. sem nenhuma distinção. ambiente habilitador de competências e de participação social. Comunicação e Cooperação na Sociedade. é necessário que se planeje e execute um salto qualitativo onde. de forma a avaliar. métodos e processos de medida de performance do Programa e suas ações. 2007 . mais uma vez. essencial para o acesso de todos ao mundo informatizado e conectado e. onde se deve tratar de um programa de treinamento e formação para o mundo virtual. em Acompanhamento e Avaliação. operação e manutenção de sistemas e serviços digitais em rede até a popularização em massa dos elementos essenciais da Sociedade da Informação. representada principalmente pelos recursos humanos treinados nas universidades e centros de pesquisa. a principal preocupação deve se voltar para a formação de recursos humanos. O Brasil tem ampla experiência no estabelecimento e uso de redes tipo Internet. pesquisa e desenvolvimento. desde a preparação de especialistas em Tecnologias da Informação para projeto. com ênfase a projetos e sistemas que possam representar a universalização dos serviços das associações congêneres em todo o território brasileiro rumo à inclusão digital e social. Franca.

outros foram enviados pelo correio e/ou via e-mail para garantir uma amostra representativa. utilizando-se de questionário e/ ou formulário.Apresentação e Análise de dados da Pesquisa A pesquisa teve como objetivo geral promover a inclusão digital e social dos coordenadores do HRAC/USP e representantes de Associações de Pais e Portadores de fissuras labiopalatais do Brasil.6%) representantes de associações. O universo da pesquisa foi composto por: (120) pais e/ou pacientes coordenadores que possuíam correio eletrônico cadastrados no Serviço Social de Projetos Comunitários e (43) representantes das Associações cadastradas na instituição e filiadas a Rede PROFIS. totalizando 163 agentes multiplicadores. REDE PROFIS dentre outros. Os objetivos específicos da mesma foram: traçar o perfil sócio digital. 2007 145 . com sujeitos. obtivemos um total de 53 respostas dos agentes multiplicadores. aqueles com perfil para “agentes facilitadores” do processo de inclusão digital de outros pacientes nos seus respectivos municípios. avaliar os resultados do programa de treinamento para o acesso às tecnologias de informação e comunicação disponibilizados pelo HRAC/USP. sendo 45 (37. identificar as expectativas e as demandas para capacitação e ou aprimoramento digital. Apresentação e Análise de Dados da 1ª Fase da Pesquisa Nesta primeira fase da pesquisa.5%) no que se refere aos coordenadores e 8 (15. A primeira fase da pesquisa aconteceu no período de setembro a novembro de 2006. habilitar dentre o público alvo. para apoio as entrevista dos que compareceram para atendimento no HRAC. capacitando-os para a construção do exercício da cidadania por meio do acesso às tecnologias de informação e comunicação. A segunda fase teve como sujeitos 30 agentes multiplicadores que responderam aos instrumentais e confirmaram sua participação no treinamento oferecido pela instituição. Identificar a disponibilidade de acesso à internet e demais meios de comunicação. constituídos aleatoriamente – com e sem treinamento de informática do HRAC /USP. Cabe ressaltar que as Associações da Área de Serviço Social & Realidade. Franca. 16(2): 129-160.

64 18.56 17.89 3.44 100 % 46.5 100 % 50 12.66 3.Associação de Deficientes Auditivos.89 1.Londrina/PR.22 4. Pais.77 100 47.78 13.Promoção Social do Fissurado lábio palatal de Concórdia . podemos 146 Serviço Social & Realidade.33 5.Associação de Portadores de Fissura Lábio-Palatal de Cascavel .33 6.Centro de Apoio e Reabilitação aos Portadores de Fissuras Labiopalatal de Londrina e Região .22 20.5 02 25 01 12.67 4.22 13.00 4.77 20.5 Coordenadores Nº 19 01 09 02 01 06 03 01 01 02 45 Nº 07 08 06 13 06 03 02 45 Nº 21 03 16 5 45 % 42.Associação Pró-cidadania do Deficiente Pirassununga/SP ADAF .86 11.67 2.5 100 Diante dos dados apresentados na tabela acima.11 100 Total Geral % 43.44 100 % 15.Concórdia/SC CEFIL .89 11. Franca.22 2.5 37.67 6.89 3.84 9. Incompleto Ensino Fundam.75 1.44 2.41 11. 2007 .77 1.33 28.44 08 Nº 05 02 01 08 Nº 04 01 03 08 100 % 62.Associação Apoio ao Fissurado Lábio Palatal de Presidente Prudente/SP Tabela 1 – Caracterização do Público-Alvo Procedência/Estados São Paulo – SP Santa Catarina – SC Paraná – PR Amazonas – AM Goiás – GO Rio Grande do Sul – RS Minas Gerais – MG Rio de Janeiro – RJ Espírito Santo – ES Mato Grosso – MT Rondônia – RO Total Escolaridade Pós Graduação Ensino Superior Completo Ensino Superior Incompleto Ensino Médio Completo Ensino Médio Incompleto Ensino Fundam.33 6.Associação dos deficientes Auditivos e Fissurados .22 2.89 13.55 35. PRÓ-CIDADE . Amigos e Usuários de Implante Coclear – Bauru/SP PROFIS DE CONCÓRDIA .Completo Total Conhecimento Informática BASICO AVANÇADO INTERMEDIÁRIO NENHUM Total Representantes de Associações Nº % 04 50 01 12.77 100 22.Ribeirão Preto/SP AFAM .32 5.17 7.Associação de Apoio ao fissurado de Manaus/AM AFIPP .Anomalias Craniofaciais participantes desta pesquisa foram: APOFILAB .Cascavel/PR ADAP .33 26.40 3.5 25 12.67 35.56 11.66 1. 16(2): 129-160.

84%.5 100 % 63.33 5.64%). totalizando 67. 2007 147 . informática e cada vez mais qualidade. 16(2): 129-160. No que se refere ao nível de conhecimento na área da informática.constatar que o público-alvo da pesquisa é proveniente do Estado de São Paulo (43%).34 5.64 18.68 5.44 100 % 30. seu objetivo de disseminar informação e orientação aos pacientes de sua cidade.5 12.10 100 84. os conhecimentos básicos exigidos. além de sua própria atividade profissional.66 34. onde os Estados da região Sudeste e Sul são os mais desenvolvidos do país.64 30.67 Serviço Social & Realidade. uma vez que. Franca.43 94.73 32.53 97. De acordo com Reis (2007). requisito fundamental para o exercício das atividades enquanto Agentes Multiplicadores.90 2.67 100 % Total Geral % 88. são línguas. A ampla troca de informações internacionais que já está sendo possível com o acesso às redes de informação. como a Internet.67 95. Estar de fora da era da informática equivale a ser um analfabeto. os usuários pesquisados possuem ensino médio completo (26.61 2.75%).18 18.90 9.4 9. com relevância para aqueles que possuem ensino superior completo (18. com nível básico temos 47. Tabela 2 – Acesso à ferramenta computador Representantes de Associações Disponibilidade de uso: SIM NÃO SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL Finalidade de uso: TRABALHO ESTUDO LAZER SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL Acesso internet: SIM NÃO SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL Local de acesso: Nº 7 7 1 8 Nº 7 2 2 11 11 Nº 7 1 8 8 Nº % 87. o que vem de encontro com a configuração da realidade brasileira.95 34. tendo em vista.39 100 % 90.6 100 6.41%).18 100 100 % 87.91% de usuários que possuem um maior acesso a informação e conhecimento.17% e intermediário 35. Paraná (20. O grau de escolaridade constatado vêm reforçar essa realidade.5 100 100 % Coordenadores Nº 40 03 43 02 45 Nº 26 29 27 82 2 84 Nº 38 04 42 03 45 Nº % 88.89 6.5 12.5 87. é mais revolucionária do que foi a invenção da imprensa.52 32.86%) e pós-graduação (22. possuindo assim maior destaque quando a temática é a área da saúde.32%).56 4. e Minas Gerais (11.14 97.66 94.

44 24.47 28.9 10.83 12.76 1. Tabela 3 – Habilidades na área da informática CURSOS/INFORMÁTICA: WORD EXCEL POWER POINT INTERNET OUTROS NENHUM SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL FERRAMENTAS INTERNET: MSN BLOG ORKUT FOTOLOG OUTROS SUB TOTAL Representantes de Associações Nº % 6 27.25 100 26.33 100 Obs. diminuindo assim as fronteiras territoriais. Entretanto 17.64 9.47 91.32 0.17 8. Franca.83 9.43 1.75 93. Outro fato observado é que a finalidade de uso é bem diversificada.53% respectivamente).53 90.33% utilizam outros lugares para ter acesso à internet.67 50. tendo como finalidade ações voltadas para o trabalho (34.90% e o local de acesso em sua maioria é a residência da própria pessoa (50.: Finalidade de uso e local de acesso – questões de múltipla escolha.09 100 100 17 31 12 60 4 64 26. as lan house. que 88.57 33.70 93.32 18.83 89.73 1 4.17 5 22. O acesso à internet é de 84.66 18.43 17.56 48. 2007 .53 9.73%) e atividades voltadas para o estudo e lazer (32.TRABALHO RESIDÊNCIA OUTROS SUB TOTAL NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL 3 7 1 11 11 27.67 17.17 100 148 Serviço Social & Realidade.73 5 22.42 10.04 Coordenadores Nº 31 27 19 19 2 98 11 109 Nº % 28.27% possuem como local de acesso seu ambiente de trabalho.27 63. No que se refere à disponibilidade do uso do computador. mas também para se relacionarem com outras pessoas.68 9.27 4 18.04 11.44 18.75 6. Cabe ressaltar que no caso das Associações apenas 27.55 21 95.67%).30 27. podemos constatar de acordo com a tabela acima. pois a grande maioria da população não possui computador em casa e muito menos acesso a internet.24 23.55 22 100 Nº 6 4 5 4 1 20 % 30 20 25 20 5 100 32 9 27 10 9 87 33. Os dados descritos nos mostram uma realidade que ainda não é uma constante em nossa sociedade.68% apontaram ter acesso a essa ferramenta.77 17. o que constata que as pessoas utilizam à internet não somente para trabalho e estudos. como por exemplo.64% e 30. o que evidencia que este espaço ainda não está totalmente preparado para o mundo virtual da Era Pós-Moderna.45 1 4.67 5.33 94.1 100 % Total Geral % 28. 16(2): 129-160.

54 4. Tabela 4 – Opinião e experiências práticas sobre à Internet Opinião sobre Internet BOA Boa .44 1 6 2 3 4 2 4 7 2 43 2 45 N.90 4.90 15. demonstrando que as fronteiras agora são virtuais e não territoriais. Agora a nova possibilidade é que podemos compreender o mundo e ele nos compreender simultaneamente.87%. % 3 3 2 8 8 N.44 95. como nos coloca (1997).43 3. Franca. 16(2): 129-160. e cursos específicos na área da internet tiveram uma incidência de 18. totalizando 70.89 17 3.66 3.5 37.96 100 Obs.porém com informações equivocadas Crescimento / desenvolvimento do mundo Desenvolvimento tecnológico Desenvolvimento tecnológico / Praticidade / Perigoso Ferramenta importante no cotidiano Ferramenta importante no cotidiano / Perigoso Meio mais rápido e eficaz da comunicação / informação Meio mais rápido e eficaz da comunicação / informação / entretenimento Meio mas rápido e eficaz da comunicação / informação – Perigoso Necessidade do mundo moderno Valioso instrumento a serviço da informação / conhecimento Veículo importante para comunicação à distância Sub total NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL Experiências práticas Representantes de Associações N.99 3.54 9.54 16.11 2 4.44 6.22 3. desfazendo assim as fronteiras territoriais.56 4.33 4.5 25 100 100 % Coordenadore s N.77 5.77 96.78 100 Serviço Social & Realidade.77 1.44 3 6. 2.NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL 20 100 8 95 8. No que se refere às ferramentas da internet.44 100 % Total Geral % 9. 2007 149 .66 7. podemos observar que os sites de relacionamento tiveram uma incidência considerável de 60. % 5 11. pelo espaço o mundo nos compreende. o que demonstra que o acesso a esse tipo de curso ainda é restrito devido ao seu valor de custo ser alto.67 2 4.: questões de múltipla escolha Os dados constatados nesta categoria de análise nos mostram que os pesquisados realizaram algum tipo de curso relacionado à área da informática.22 13.323%.77 5.44 8. pelo pensamento compreendemos o mundo e.43 100 6.43 7.22%. 37. tendo como relevância os cursos relacionados às funções essências do sistema Microsoft Office componentes do Windows que atualmente detém a hegemonia no sistema de computação.67 8.

56 100 3.89 1.11 20.09%). 2007 . Segundo esse autor.5 87. Ferramenta Importante no cotidiano – 17% e Meio mais rápido e eficaz da comunicação/informação e Boa – 9.89 15. 150 Serviço Social & Realidade.55 67.89 1.00 8.09 1. onde a comunicação interativa e coletiva é a principal atração do ciberespaço. podemos destacar as seguintes incidências: Valioso Instrumento – 16. “O saber é uma dimensão do ser”. No que se refere à opinião sobre a rede mundial de computadores.99 7. Diante desses dados relevantes. colocando que a inteligência humana não é mais apta para captar e dominar todos os dados que necessita. A internet é tida como um instrumento de desenvolvimento social.78 2.22 2.77 1.43% (cada). possibilitando a partilha da memória. (LÉVY.43 16. Franca.07 100 Nesta categoria de análise foi possível constatar a opinião e experiências práticas dos pesquisados com relação à Internet.89 64. resultando na aprendizagem coletiva e na troca de conhecimento entre os grupos.99%.5 100 1 1 8 1 5 9 4 29 16 45 2.93 32. os quais ampliam sua capacidade. restando-lhe buscar auxílio na máquina e no ciberespaço3. A Internet é utilizada para Sites de busca e relacionamento (16.22 11. onde o autor denominou o computador e a Internet como “tecnologias de inteligência”.77 3. da imaginação.99%) e para pesquisas escolares/ profissionais (15.22 17.Sites de Busca Contatos Profissionais Sites Relacionamento Projetos com associados Facilidade de comunicação / agilidade Grupos de relacionamento profissional / estudos Pesquisas escolares / profissional Pós-Graduação em Tecnologia na Educação Poucas Sites de busca / Sites de relacionamento Trabalhos profissionais Sub total NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL 2 2 2 1 7 1 8 25 25 25 12.5 12. 2004) Tabela 5 – Serviços disponibilizados pelo HRAC/USP Conhecimento/utilização/treina mento Representantes de Associações Coordenadores Total Geral 3 Termo usado para designar o espaço virtual criado pela Rede Mundial de Computadores (Internet). da percepção. 16(2): 129-160.89 9.44 35. podemos analisar a Internet por meio do conceito utilizado por Lévy (1993). as redes de computadores carregam uma grande quantidade de tecnologias que aumentam e modificam a maioria das nossas capacidades cognitivas.77 3.

dentre outros.68%). 40 5 30 15 26 19 41 4 45 % 88.5 12. 2007 151 . Trabalhando nesta perspectiva de integrar os Agentes Multiplicadores a realidade do mundo virtual. declaração de comparecimento. % 3 62. podemos ressaltar a importância da instituição estar sempre valorizando o seu capital intelectual.32 69. 25 % 55.83 Serviço Social & Realidade. pois são eles o “elo” entre o hospital. pacientes e comunidade.78 42. podemos observar que os dois públicos-alvos possuem conhecimento do site do HRAC/USP (88. a concorrência.67 33. Franca.33 57.19 56. e apesar do HRAC/USP ser uma organização pública deve ser pensada e gerenciada como uma empresa privada.40 92. Tabela 6 – Serviços disponibilizados pela REDE PROFIS Conhecimento/utilização/treinamento Conhecimento da REDE PROFIS SIM Representantes de Associações N.5 Coordenadores N. internação (rotina e visitas).55 100 Por meio dos dados apresentados nesta categoria. a tecnologia e assim por diante – está se tornado a última fronteira da excelência empresarial. hospedagem e transporte.45 7. Como aponta Teixeira (2000). pois a excelência no tratamento de seus pacientes.60 43. o conhecimento coletivo – sobre o negócio. os clientes. o HRAC/USP realizou nos anos de 2004/2005 um treinamento para esses agentes.89 100 % 88.11 8.5 12. Desta forma. tais como: informações sobre o tratamento.5 50 50 100 100 N.89 11. 7 1 7 1 4 4 8 08 % 87.81% utilizam os serviços disponibilizados pelo hospital.Conhecimento dos serviços on line SIM NÃO Utilização dos serviços on line SIM NÃO Treinamento/orientação no HRAC SIM NÃO Importância do treinamento do HRAC SIM NÃO TOTAL GERAL N. objetivando sempre a qualidade dos serviços prestados. os quais colocaram que o mesmo foi de fundamental importância para ampliar seus conhecimentos com relação ao tratamento realizado e áreas afins.22 91. tendo a participação de 56.5 87. onde 69. 16(2): 129-160.81 30.68 11.11 66. e conhecer a realidade através daqueles que a vivenciam é matéria prima essencial para se planejar as ações desenvolvidas pelo Centrinho.60%.56 Total Geral % 52. ouvidoria. bom como o desenvolvimento de seu corpo clínico e administrativo deve visar sempre à mesma qualidade dos modernos centros hospitalares.

política e econômica assim como à riqueza.5 100 20 45 12 33 45 44.78 100 % Total Geral % 83. % 87.NÃO TOTAL GERAL Utilização dos serviços da REDE PROFIS SIM NÂO TOTAL GERAL 5 8 3 5 8 37. o não-estar-em-rede associa-se às antigas e novas formas de exclusão. Dimensões básicas da vida (como tempo e espaço) são desconstruídas e a interação local-regional-global expressa um mundo globalizado no quais todos os processos se somam num só processo. podemos constatar que ambos conhecem o site da Rede PROFIS.83%. 2007 . Existem inúmeras redes e estas por sua vez.5 100 % Coordenadore s N. fato este que deveria ser inverso. de miséria e de violência. resultam de uma rede intrincada de relações. Podemos neste momento abordar o conceito de Siqueira (2004).30 71. principalmente no que se refere às Associações (37.02 16. 7 1 8 N.70 100 Por meio dos dados apresentados pelas tabelas acima. social. onde este coloca que a existência social e suas segmentações no mundo pós-moderno dependem de nossa conexão em uma determinada rede. em tempo real no planeta inteiro. totalizando 52.67 73.17 100 28. Diante deste quadro.22 17. apresentado algumas características comuns. política.98 100 152 Serviço Social & Realidade.5 12. A predominância das redes no mundo pósmoderno coloca em xeque categorias e conceitos tradicionais (dentre os quais o de individualismo e o de relações de poder). 16(2): 129-160. Se estar-em-rede associa-se à existência social. a qual se constitui em ferramenta de viabilidade para a emancipação dos direitos da pessoa portadora de algum tipo de deficiência ou malformação. faz-se necessário um trabalho de fortalecimento desta Rede. % 82. Tabela 7 – Papel de Agente Facilitador Representantes de Associações Capacitação p/ exercer as funções de agente facilitador SIM NÃO TOTAL GERAL Disponibilidade para trabalhar t f ilit d N. Entretanto a incidência de utilização ainda é baixa.5%).5 62. ou tecnológica. Franca.44 100 26. dentre eles a Fissura Lábio-Palatal. econômica. onde estas podem ser de natureza biológica.5 100 37. 37 8 45 N. as mesmas compõem a estrutura da Rede PROFIS.33 100 47. uma vez que.

68 11. Tabela 8 – Conhecimento sobre Inclusão Digital Representantes de Associações Conhecimento sobre Inclusão Digital SIM NÃO Sub total NÃO RESPONDEU TOTAL GERAL N.5 100 21 24 45 N.como agente facilitador SIM NÃO TOTAL GERAL Facilidade de comunicação SIM NÃO TOTAL GERAL 4 4 8 N.11 8. 2007 153 . é através da comunicação. 19 22 41 4 45 % 42. O princípio básico para a fluência deste processo é comunicação. 50% no que se refere às Associações e 46.67% quanto aos Coordenadores. objetivando o acesso e multiplicação de informação.89 91. O termo comunicação não designa todo e qualquer tipo de relação. que se desenvolvem atividades como o ensino ou o confronto de idéias.17 52. ou seja. que ambos se consideram capacitados para exercer as funções de Agente Facilitador.29 92. pois a essência básica da existência de ambos é possuir a disponibilidade para estar em contato com os pacientes do HRAC/USP e suas respectivas comunidades. uma vez que ambos colocaram que possuem facilidade para se comunicar. Entretanto a disponibilidade para estar exercendo essas funções é mediana. Refere-se ao processo de compartilhar um mesmo objeto de consciência.54 100 Serviço Social & Realidade. 7 1 8 50 50 100 % 87. Segundo Hohlfieldt (2001). sendo uma ação intencional exercida sobre outrem. Franca.67 53.32 100 47. este conceito exprime a relação entre consciências. pelo seu exercício. 6 2 8 8 % 75 25 100 100 Coordenadores N.11 100 88.17 45.5 12. 40 5 45 46.89 100 Total Geral % 47. mas daquela onde haja elementos que se destacam de um fundo de isolamento.33 100 % 88.46 7. 16(2): 129-160.22 48.83 100 Nesta categoria de análise podemos constatar mediante os dados da tabela acima.89 11. fato este que não deveria estar ocorrendo.

16(2): 129-160. entretanto em alguns casos possuem o apoio junto aos órgãos do município quando solicitado. porém reflete uma noção básica. facilidade em responder dúvidas. o objeto principal da inclusão digital é. um maior conhecimento na área da informática. foram citadas as seguintes categorias: a falta de recursos para se comunicar com os pacientes. antes de tudo. que dentre as facilidades e/ou dificuldades apresentadas para o desenvolvimento dessas ações. Apresentação e Análise de Dados da 2ª Fase da Pesquisa Esta fase compreendeu os sujeitos pesquisados que afirmaram na primeira fase terem participado do treinamento oferecido pelo HRAC/USP. 75% das Associações possuem algum conhecimento sobre o tema. enquanto que com os Coordenadores a incidência é de apenas 42. porém como aborda Santos (2006). As ações desenvolvidas enquanto Agente Facilitador foram: encaminhamento de pacientes ao HRAC/USP (20%) e o repasse de informações (80%). Diante dos dados apresentados pela tabela acima. com a ajuda da tecnologia. a falta de apoio / desconfiança das pessoas envolvidas no processo. que é a aprendizagem necessária ao indivíduo para interagir no mundo das mídias digitais como consumidor e como produtor de seus conteúdos e processo.Esta categoria de análise é o foco da temática aqui abordada. Nesta fase o Estado predominante foi o do Paraná (40%) e os Estados de MG. onde este trouxe como benefício à amplitude de conhecimento. A definição apresentada na pesquisa é simples. Diante desse quadro pode-se constatar através de questão aberta. RJ e AM tiveram uma incidência de 20% cada. ou seja. melhorar as condições de vida de uma determinada região ou comunidade. Por meio do treinamento ocorreram algumas mudanças no cotidiano dos pesquisados dentre elas a amplitude de conhecimento e maior interesse em estar auxiliando os pacientes. diminuição da dependência junto HRAC/USP e. Não se trata apenas da “alfabetização digital”. Os pesquisados se consideram em 100% dos casos capacitados para o desenvolvimento das funções de Agente Facilitador e informaram que o treinamento realizado no HRAC/USP foi bom (60%) e ótimo em (20%). Franca. 154 Serviço Social & Realidade. amadurecimento / crescimento / confiança. 2007 .22%. a Inclusão Digital.

Entretanto. uma porcentagem relevante dos mesmos colocou que não possuem disponibilidade para estar trabalhando enquanto Agente Facilitador. servindo de motivação para a apreensão de novos conhecimentos. foi possível concluir que os Agentes Multiplicadores do HRAC/USP se encontram em uma posição privilegiada no que se refere ao contexto da sociedade brasileira. pode-se notar que este foi de fundamental importância para a ampliação dos conhecimentos dos Agentes Multiplicadores. Franca. Considerações Finais Mediante a pesquisa realizada. ampliando a possibilidade de desenvolvimento das suas funções enquanto Agente Facilitador. o que proporciona um maior acesso a informação e conhecimento. Diante deste fato. A alfabetização digital e a formação básica dependem de políticas públicas que garantam a educação e a qualificação para o trabalho. a essência dessa função é a facilidade de comunicação. podemos constatar que o treinamento realizado pelo HRAC/USP proporcionou aos envolvidos um maior conhecimento quanto à rotina desenvolvida pelo hospital. bem como. onde podemos citar como exemplo a mobilização para que as pessoas com seqüelas profundas em decorrência da malformação possam ser incluídas como pessoa portadora de deficiência. Segundo Santos (2006). O poder público deve reconhecer que a info-exclusão proporciona o aumento da miséria e dificulta o desenvolvimento humano. com enfoque para fatos relacionados à fissura labiopalatina. 16(2): 129-160.Desta forma. Além disso. 2007 155 . a inclusão digital deve ser tratada pelo governo como uma política pública. o mercado não absorverá os extratos pobres da população pela falta de capacitação técnica exigida pelo mundo globalizado. visto que. possuem um alto grau de escolaridade e facilidade de comunicação. sugere-se a criação de Curso com módulos relacionados às TIC’s – tecnologias da informação e Serviço Social & Realidade. favorecendo a desigualdade social e tornando-se um fator de manutenção do estado de miséria e distanciamento social. o que acaba por inviabilizar a relação entre pacientes e HRAC/USP. verificouse que se faz necessário uma melhor escolha dessas agentes. bem como. a questões referentes à área da saúde. No que se refere ao treinamento do oferecido pelo HRAC/USP. Os mesmo possuem acesso e disponibilidade de uso quando se trata da ferramenta computador e da Internet. uma vez que.

O. expressada nos direitos e obrigações civis e políticos que todos os membros de uma sociedade devem ter. Outra sugestão é a maior divulgação do site do Centrinho e da REDE PROFIS para os pais e pacientes em geral. The multiplier and representative agents of associations of brazil in craniofacial anomalies area: the digital inclusion on the agenda.conhecimento –. com a finalidade de fortalecimento do acesso a inclusão digital. K. que deveria ser igual para o conjunto da sociedade. Hearing Loss. 2. • ABSTRACT: The present article was developed with the objective of portraying the theme of the Digital Inclusion the Multiplier Agents of HRAC/USP – Parents and/or Coordinating Patients and the representatives of Associations of Brazil in the area of craniofacial anomalies. FERREIRA. E. Significa também oportunidade e o envolvimento no espaço público. a criação de uma lan house monitorada nas dependências do hospital para que não somente os Agentes Multiplicadores. Craniofacial Anomaly. v. n. Franca.. seeking to the quality of the services rendered by the hospital. Tendo em vista a temática abordada – inclusão digital –. 16(2): 129-160. • 156 Serviço Social & Realidade. The present theme was chosen due to its relevance in the daily of our society. 2007. B. Esta envolve. KEYWORDS: Digital Inclusion. a cidadania. MENDES. 129-160. com o objetivo de integrar os Agentes Multiplicadores do HRAC/USP. A. Serviço Social & Realidade (Franca). S. Information Technologies. A igualdade de oportunidades favorece a redução do papel do Estado na esfera econômica e social. F. entretanto confundem muitas vezes com mais uma ferramenta disponível no mercado e não como um conceito de direitos a informação e conhecimento. M. where the territorial borders gave up place to the virtual borders. M. bem como. mas também os pacientes de um modo geral pudessem ter a disponibilidade de realizar atividades relacionadas ao campo virtual enquanto estão realizando seus atendimentos. não formalmente. p. que pudesse ser realizado de forma coletiva. CUSTÓDIO. mas como uma realidade de suas vidas. 16. constato-se que os Agentes Multiplicadores possuem conhecimento básico do que venha a ser a ID.. em seu sentido mais amplo. Analyzing the environment where the Multiplier Agents of HRAC/USP are submerged is of fundamental importance for the development of actions that propitiate the access to the information and knowledge. 2007 .

Serviço Social & Realidade. Disponível em: <http://www. ANTUNES.br/QuickPlace/acaosocial/PageLibrary032572E9006A746 4.Referências ANDRADE. Mapa da Exclusão Digital. Paris: Presses Universitaires de France. Missão. M.ed. 1999. CARVALHO. Exclusão digital: estamos incluídos no mapa? Disponível em: <http://www. Acesso em: 15 abr. 16(2): 129-160.br/apc-aainfoinclusao/infoinclusao/busca_results.org. Planejamento estratégico como processo de mudança: para que mudar? Disponível em: <http://www. 1999. A. 1994. BRASIL. COMITÊ PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA INFORMÁTICA. 2003. 2004.p df>. Visão e Valores. desenvolvimento social e educação tecnológica.br/Temas/Socinfo/socinfo_ ok.shtml?AA_SL_Session=9 5dcf096804276915aebe0b4ef2c5f1f&x=131> Acesso em: 9 mar. L’économie des innovations technologiques. 2007. S. Tecnologia. 200p. R. São Paulo: Cortez. Acesso em: 19 set. 2006. 617p.org. CASTELLS.nsf/h_Toc/9B6B4D0AA368FC93032572F10043AA1A/?OpenDo cument>. cgee. A sociedade em rede. cdi. M.bibvirt. São Paulo: Paz e Terra.br/prospeccao/doc_arq/prod/pect/artigo/pdf/docart15. BAURU. M.br/content/download/2071/11761/file/tecnodesenvsoci al-1. 11p. Disponível em: <http://www.pdf>.org. FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS.usp. Disponível em: <http://ftp.oppi. 2007 157 . Bases de um programa brasileiro para a sociedade da informação. CELESTINO. V. futuro. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho.gov. 127p. Estatuto Social.mct. 2004. Ministério da Ciência e Tecnologia. J. P. G.pdf> Acesso em: 28 maio 2006. Acesso em: 19 out. 2000. 7. BIENAYMÉ. Bauru: PROFIS. Rede Nacional de Associações de Pais e Portadores de Fissuras Lábio Palatais: Rede PROFIS. Franca.

158 Serviço Social & Realidade. MARTINO. O perfil social de portadores de fissuras labiopalatais em projeto de pesquisa interdisciplinar da Universidade de São Paulo e a Universidade da Flórida. L. Acesso em: 19 jun. 1993.Disponível em: <http://www2. 1990. v. Relatório Final de Pesquisa. O que não é inclusão digital. HOHLFELDT.senac. P. et al. V. Acesso em: 20 set. As implicações políticas das tecnologias da informação e comunicação. 260p. 157p. REIS. Cibercultura. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. H. 277p.. abr. Disponível em <www.shtml? AA_SL_Session=215f1dc48f34cd2b9907039d95016b08&x=121> Acesso em: 26 maio 2006. G. 2003. T. LÉVY. São Paulo: Editora 34.. M. GRACIANO. nov. São Paulo: Brasiliense.br/ibre/cps/mapa_exclusao/ apresentacao/apresentacao. C.br/apc-aainfoinclusao/infoinclusao/busca_results. Acesso em: 26 set. A. Revista de Ciência Política. Rio de Janeiro: Vozes.htm>. ed. F. SANTOS. 2006. R. n. n. Franca. P. 16(2): 129-160. 14. G. Universidade de São Paulo. Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais. 2007 . Disponível em: <http://www.fgv. S. V.htm>.org. Bauru. MEIRA./dez. 80-89. Sociedade em Rede: conexões e desconexões. São Paulo. Veja. Tecnologia da informação e democracia: como enfrentar a questão da info-exclusão. 2004. 2006. p. A roda global. O Perfil de Empregabilidade: o desafio do autodesenvolvimento. A. 2007. Rio de Janeiro. I. Rio de Janeiro: Editora 34. ______. 203p. 2. 2. 32. A sociedade informática: as conseqüências sociais da segunda revolução industrial. NASCIMENTO NETO. S.cirandabrasil. SCHAFF. 2004. GUIMARÃES.ed. Coleção TRANS. S. FRANÇA. Teorias da Comunicação. 79-92. SIQUEIRA. 29. br/informativo/BTS/241/boltec241c. p..php?id_materia=96>. 2001. A. Disponível em: <http://www.net/03/materia. V. 1996. oppi.

Franca. Gerenciando conhecimento: como a empresa pode usar a memória organizacional e a inteligência competitiva no desenvolvimento dos negócios. 192p. Rio de Janeiro: SENAC.br/ redes_teste/rd_tmes_dez2004. Acesso em: 17 maio 2007. 2003. Faculdade de Saúde Pública. Acesso em: 26 nov. 2000. J. 2007 159 .fsp. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Acessibilidade.cfm>.br/acessibilidade/ inclusão. 16(2): 129-160.htm.org.rits. TEIXEIRA FILHO. Serviço Social & Realidade.usp.Disponível em: <http://www. tecnologia da informação e inclusão digital. Disponível em: http://hygeia.

.

maior racionalidade na execução das ações e na busca de bons resultados. revelando que o paradigma de elaboração. A influência recíproca entre capitalismo e burocracia possui destaque nesta análise sob a luz do sociólogo Max Weber. ** Docente do Departamento do Serviço Social e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UNESP – Campus de Franca. Especialista em Gerência de Projetos.MBA-FGV-RJ. não lucrativo. • No século XX foram reconhecidas como legítimas algumas necessidades e demandas sociais. * Serviço Social & Realidade. PALAVRAS-CHAVE: Responsabilidade Racionalidade. acompanhou a trajetória do capitalismo brasileiro. propiciando que objetivos fossem atingidos. que também atendam às demandas crescentes do mercado e da sociedade por uma atividade empresarial sustentável do ponto de vista ambiental. as mudanças ocorridas no mundo do trabalho provocaram (e ainda vem provocando) alterações no modelo do desenvolvimento econômico. Graduada em Ciências Sociais – UNESP – Araraquara/SP. implementação e avaliação de programas e projetos sociais exigem. Especialista em Fundamentos da Leitura Crítica da Literatura – UNESP-Araraquara/SP. Trata-se de um processo muito complexo. e Literatura Brasileira no curso de Letras. houve a necessidade das empresas buscarem novos mercados Mestranda em Serviço Social – UNESP/Franca – CEP: 14400-690 – SP. Franca. econômico e social. Projetos Sociais. Com a queda dos regimes socialistas do leste Europeu e o fim da Guerra Fria. que inaugurou o estudo da sociologia aplicado às organizações e prognosticou a ascensão da burocracia como forma de ordenar as relações humanas entre si e com a organização. em que se verificam ações estrategicamente voltadas para o tema responsabilidade social empresarial. Atua nesta mesma instituição de ensino como docente de Antropologia nos cursos de Serviço Social e Filosofia. 16(2): 161-180. Burocracia. 2007 161 . mas. cada vez mais. Social Empresarial. a partir da década de 1990. analisado no presente artigo.A RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL: EM BUSCA DA EFICIÊNCIA Patrícia Rachel Pisani MANZOLI* Claudia Maria Daher COSAC** • RESUMO: A ação das empresas no âmbito do cumprimento da função social. pois. dando enfoque à idéia de que a entrada do país em um mercado globalizado passa a exigir das empresas condutas que possam não apenas atenuar os efeitos negativos da globalização. Coordenadora adjunta do curso de Serviço Social da Universidade Interativa COC. sendo possível encontrar ações sistematicamente organizadas.

a qualidade de vida da humanidade depende cada vez mais de ações cooperativas destas empresas que incorporam de forma progressiva o conceito de responsabilidade social empresarial. Do ponto de vista social. Com o surgimento de novos setores de produção. Altos déficits públicos. surgem novos atores sociais: as empresas. o impacto mais marcante é o desemprego. Assim. desenvolvimento econômico e justiça social. não lucrativo. novos mercados e a inovação comercial junto à tecnológica e organizacional. Por serem importantes agentes de promoção do desenvolvimento econômico e do avanço tecnológico. tornando-o um comportamento muitas vezes formalizado em projetos de atuação na sociedade civil. governo. O capitalismo excludente exercido pelas empresas até então passa a ser amparado por ideais éticos que transformam o enfoque da iniciativa privada buscando um desenvolvimento capaz de articular mercado e cidadania. Franca. revolução informacional. sistemática e estrategicamente voltadas para o tema responsabilidade social empresarial. 16(2): 161-180. mantêm-se atualmente nas pautas do universo político e econômico como uma nova demanda das sociedades complexas.o que originou o avanço do neoliberalismo e a onda de privatizações. clientes. mas. as empresas no Brasil aumentaram os investimentos em projetos sociais. desemprego e desigualdades sociais formam um cenário mundial que requer novas posturas tanto do setor público quanto privado. A partir dos anos 1990. transformação produtiva. econômicas e até mesmo psicológicas na divisão social do trabalho. passaram a defender padrões mais éticos de relação com seus públicos de interesse (fornecedores. novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros. geraram conseqüências sociais. funcionários. Sob o rótulo de 162 Serviço Social & Realidade. acompanhou a trajetória do capitalismo brasileiro. 2007 . O conceito de cidadania difunde-se então a partir deste novo cenário não apenas como temática social. que se origina cada vez mais da desqualificação e despreparo da mão de obra para as funções atuais. acionistas) e práticas ambientais sustentáveis. Somente na década de 1990 foi possível detectar ações mais organizadas. A ação das empresas neste âmbito do cumprimento da função social.

Serviço Social & Realidade. Uma das hipóteses é de que tais mudanças não decorrem apenas de condicionamentos infligidos pelo consumidor ou pelo mercado. Max Weber. foi incluído um conjunto de normas e práticas que se tornou condição para garantir lucratividade e sustentabilidade aos negócios. 2007 163 . passou a exigir modelos mais bem definidos de gestão. revelando que uma precisa da outra para prosperarem. um cumprimento de tarefas segundo regras calculáveis e “sem relação com pessoas”. A fragilidade e a parcialidade das teorias Clássica e das Relações Humanas da Administração. o que demonstra um salto qualitativo na inter-relação entre instituições e comunidades. Quando plenamente desenvolvida. O cumprimento “objetivo” das tarefas significa. sociólogo. bem recebida pelo capitalismo. em que tudo deve ser preciso. à época. desenvolve-se mais perfeitamente na medida em que é “desumanizada”. mas da interpretação que os gestores fazem do cenário e do que entendem ser a melhor conduta para a empresa. propiciando que seus objetivos fossem atingidos. Sua natureza específica. O perfil dos gestores e os fatores estruturais que facilitaram a difusão das normas de responsabilidade social no ambiente corporativo são indícios de que as normas presentes no ambiente institucional penetram nas empresas. influem na sua estrutura organizacional e na maneira como se relacionam com seus públicos de interesse. Franca. constante e rápido. Esta mesma tendência se faz necessária atualmente porque as forças globais de mudança têm alterado significativamente o processo de gestão das organizações. incompleta sobre as organizações. o ódio e todos os elementos pessoais. inaugurou o estudo da Sociologia aplicado às organizações e prognosticou a ascensão da burocracia como forma de ordenar as relações humanas entre si e com a organização. No funcionamento do mecanismo burocrático há uma otimização da organização. na medida em que consegue eliminar da conduta humana o amor. que detinham visão extremista. primordialmente.“responsabilidade social”. assim como a necessidade de um modelo racional que envolvesse todas as variáveis da organização mais o crescimento e a complexidade. irracionais e emocionais que fogem ao cálculo. Através deste cenário. 16(2): 161-180. a burocracia moderna se coloca sob o princípio do sine ira et studio.

avaliando aquilo que a sociedade necessita. 16(2): 161-180. padronizando as atividades e controlando-as através da persuasão. De outro. a auto-avaliação e a administração participativa. a Teoria das Relações Humanas considerava o homem como sendo o maior patrimônio das organizações. a Teoria Clássica.É um fenômeno mundial que as empresas venham sendo cobradas pelo cumprimento do seu papel de cidadãs. é possível perceber que as organizações empresariais ganharam uma nova preocupação: implementar programas de responsabilidade social. Se o foco das organizações em relação à comunidade até a pouco tempo atrás estava apenas direcionado para o mercado. é imediatamente posterior às teorias Clássica e das Relações Humanas na Teoria Geral da Administração. pregava uma administração centralizadora. fator praticamente não considerado pelas teorias anteriores. total e exclusivamente responsável pela organização e uso dos recursos da empresa. agora também se volta para os aspectos sociais. demonstra maior competência na busca de conteúdos e estratégias que permitam alcançar resultados mais eficazes. com suas suposições extremamente negativas em relação à natureza humana. A Teoria da Burocracia concebida por Max Weber. que agora é dada também aos projetos sociais. Sem 164 Serviço Social & Realidade. Franca. Há diversos instrumentos de gestão que buscam atender as novas exigências deste setor. A dimensão técnica. 2007 . De um lado. punições e recompensas marginais. Há influência recíproca entre capitalismo e burocracia. É preciso ter com clareza que o desenvolvimento social é responsabilidade e compromisso do Estado democrático e de uma sociedade civil organizada. antes de qualquer resultado. compromisso efetivo com estas ações. sendo motivado a produzir por sua própria natureza. O novo paradigma de elaboração. exigem cada vez mais racionalidade na execução das ações e na busca de bons resultados. pregando a descentralização e a delegação. Além da visão administrativa existe a dimensão ética e política que atua na esfera coletiva e social exigindo. implementação e avaliação de projetos sociais. era apenas uma forma de analisar seus desejos e a capacidade de consumo. Analisando vários aspectos que demonstram essa mudança na filosofia das empresas para uma nova ética empresarial. coação. teve como ponto forte de origem a necessidade de uma abordagem generalista e integrada das organizações.

para a sociologia. É possível encontrar em Weber o princípio da grande mudança organizacional que se faz profundamente necessária para a elaboração de projetos de responsabilidade social. leva a empresa a incorporar práticas e dinâmicas que atendam aos anseios da sociedade a qual está inserida. a base econômica capitalista é essencial para o desenvolvimento da administração burocrática. 16(2): 161-180. designou um modelo específico de organização administrativa. continuidade. Um projeto de ação socialmente responsável precisa ser bem elaborado para atender aos stakeholders. intensidade. rápido e competente do que outras formas históricas de administração. todas as partes envolvidas com a entidade: proprietários. Weber também saudava o desenvolvimento de leis de propriedade e de instituições de direito em seu tempo. confiabilidade. no entanto. a produção capitalista nunca teria sido realizada. clientes. a burocracia significa o aspecto eficiente. segundo Weber. rigor. A relação atual entre empresa e cidadão.a organização burocrática. A burocracia. assumido sentido pejorativo à idéia de excesso de normas. assim. sócios ou acionistas. regulamentos. extensibilidade dos serviços e aplicabilidade Serviço Social & Realidade. Apesar da palavra “burocracia” ter. Max Weber (1864 –1920). criando o que seria o princípio do hoje denominado ambiente propício aos negócios e dos marcos regulatórios. o meio ambiente e a comunidade. melhoria da qualidade de vida da comunidade como um todo. ou seja. é uma forma prescritiva de delegar responsabilidades e padronizar a comunicação de acordo com normas predefinidas e impessoais. A empresa deve desenvolver a capacidade de ouvir os diferentes interesses das partes envolvidas para incorporá-los estrategicamente no planejamento de suas atividades promovendo. fornecedores. governo. esse termo ganha sentido especial. de desperdício de recursos. 2007 165 . ineficiência administrativa. no dia-a-dia. diretores funcionários. Por outro lado. Franca. Em Weber. disciplina. Este atributo da accountability traduzido usualmente como “responsabilidade social” se torna um requisito indispensável para obtenção de bons níveis de efetividade por parte da organização. É a forma mais racional de exercício de dominação. prestadores de serviço. porque nela se alcança tecnicamente o máximo de rendimento em virtude de precisão.

de pessoas com conhecimento amplo e científico para o desenvolvimento objetivado. 2007 . são consideradas grandes pólos de interação social. deve ser encarado com muita lógica. As empresas. É preciso estar inserido em seu contexto para alcançar a verdadeira dimensão que o engloba. naquilo que o caracteriza especificamente. que permite quantificá-lo e avaliá-lo mais efetivamente. p. Exatamente por isso o processo de elaboração de projetos sociais. Todo projeto precisa ter a base bem estruturada e.. propagandas enganosas. trazendo de volta as características básicas de um sistema social. Um bom exemplo disso é a não tolerância de lançamentos de dejetos industriais no meio ambiente. que ratifica critérios científicos e evita escolhas aleatórias baseadas em desejos pessoais em detrimento da coletividade. um dos pilares principais desta estrutura é a educação. 145). onde os consumidores estão cada vez mais exigentes não só quanto à qualidade do produto e do serviço. que realmente atenda as necessidades e carências a partir de ações 166 Serviço Social & Realidade. Franca.] Toda nossa vida cotidiana está encaixada nesse quadro (WEBER. Por isso à luz de Weber é retomado nesta análise o conceito de burocracia. Educar para um determinado projeto é como mergulhar em seu segmento. desmistificando a idéia de que este campo de atuação requer apenas ações voluntariosas. a característica impessoal. a característica profissional. tanto com os fornecedores como também com a comunidade e seus próprios funcionários. Por ser a responsabilidade social empresarial uma forma de gestão estratégica que vai muito além do marketing social. com começo meio e fim. a não utilização de mão de obra infantil.. este tema tornou-se indispensável sob a lógica do mercado globalizado. mas a todo o processo produtivo. que funciona como a entrada e a saída nos processos de gestão da qualidade. 1998. não há como atingi-la se não identificar as variáveis representativas do processo. desrespeito as leis trabalhistas. Se a qualidade é um processo ou uma filosofia de vida organizacional e pessoal.formalmente universal a todas espécies de tarefas [. etc. 16(2): 161-180. atualmente. a característica formal que garante o cumprimento do dever constitucionalmente prescrito e esclarece direitos. aquelas correspondentes às definições de desenvolvimento e sustentabilidade.

ou seja. 16(2): 161-180. reside na racionalidade do ponto de vista das atividades desempenhadas na organização. segundo Weber. Weber concebeu a teoria da Burocracia como algo que tornasse a organização eficiente e eficaz. A Burocracia. homogeneidade de interpretação das normas. foi quem primeiro definiu a Burocracia não como um sistema social. A burocracia teve a sua origem nas mudanças religiosas verificadas após o Renascimento. harmonizar a especialização dos seus colaboradores e o controle das suas atividades de modo a se atingir os objetivos organizacionais através da competência e eficiência. Na burocracia existem duas conseqüências previstas e imprevistas. Weber.efetivadas de acordo com a realidade. em síntese. 2007 167 . o alcance dos objetivos. esta se manifestava apenas na mecanização dos processos e não na mecanização das atividades dos indivíduos. discriminações e subjetividades internas. sejam estas pertencentes ao Governo ou de domínio econômico privado. Na Burocracia a liderança se dá tipicamente calcada em regras impessoais e escritas e através de uma estrutura hierárquica. a burocracia é uma organização cujas conseqüências desejadas se resumem na previsibilidade do seu funcionamento no sentido de obter a maior eficiência da organização. mais importante. o poder é legítimo e depende exclusivamente do grau de especialidade e competência técnica de quem o detém. eminentemente racional e capitalista. A característica principal da Burocracia. sem subjetividades. A Teoria Clássica da Administração já abordava a racionalidade. tendo em vista a eficiência na obtenção dos resultados esperados como um sistema de controle social baseado na racionalidade (adequação dos meios para se alcançar os fins). porém. padronização da liderança (decisões iguais em situações iguais) e. originou-se de um novo conjunto de normas sociais morais. redução dos atritos. Para Weber. denominada de “ética protestante”. O sistema de produção. busca amenizar as conseqüências das influências externas à organização. Serviço Social & Realidade. garantindo com ela: rapidez. sem considerações pessoais. que recebeu o nome de Disfunções da burocracia. racionalidade. Franca. anomalias e imperfeições no funcionamento dela. baseado nos princípios protestantes. mas como um tipo de poder suficiente para a funcionalidade eficaz das estruturas organizacionais. sem a aplicação de juízos de valores.

2007 . sociedade civil e iniciativa privada. numa organização burocrática ocorre um dilema típico: por um lado. seja na direção carismática. e a base deste arranjo está sedimentada em um valor social.. O domínio burocrático fomentou a vida moderna na direção da objetividade racional e do homem profissional especializado.] as organizações burocráticas tendem a se desfazer. organogramas e estatísticas.. pode permanecer presa e voltada apenas para os shareholders. pelas leis e regulamentos. 123). (ETZIONI. que deixam de ser meios para atingir determinados fins e passam a ser fins em si mesmos. no entanto. e os fatos e práticas reais do governo e da sociedade. Assim. dando origem ao ritualismo e ao formalismo. 1976. por outro. para encorajar o burocrata a seguir normas diferentes das estatuídas para a organização. entre a impressão que nos é dada pela constituição. Exatamente por isso esta análise da burocracia torna possível identificar a empresa que não estiver atenta ao novo cenário repleto de fatores e paradigmas de valores. tal fenômeno: [. em que as relações disciplinares são menos separadas das outras. p. é o formalismo – distanciamento entre o plano formal e o real.. Mas as boas intenções não bastam. mais naturais e afetuosas. atuam constantes forças exteriores à estrutura. A gestão da política social sempre está ancorada na parceria entre Estado. [. Outro fenômeno disfuncional.A superconformidade é uma disfunção da burocracia isto é. Conforme Etzioni (1976). o apego excessivo às normas e regras.. já observara a fragilidade da estrutura racional. a solidariedade. São fundamentais boas premissas e estratégias para uma gestão realmente eficaz. seja na tradicional.] corresponde ao grau de discrepância entre o prescritivo e o descritivo. observado nas organizações. 85). Weber. isto poderá constranger seus negócios. 16(2): 161-180. entre o poder formal e o poder efetivo. ocorre uma tendência ao enfraquecimento do compromisso dos subordinados com as regras burocráticas. Franca. e. em face do elevado nível de renúncia necessário à manutenção da capacidade de restringir-se às normas. p. 168 Serviço Social & Realidade. sem dar atenção aos mais diversos stakeholders. Na perspectiva de Riggs (1964.

A relação estabelecida entre um projeto e cidadãos usuários não pode ser vista de forma assistencialista. a transparência nas decisões e negociações além de trazer maior profissionalismo. Isto demonstra que este fator está se tornando ponto importante para o sucesso empresarial. consolidando-o como serviço realmente eficiente. além de criar novas perspectivas para a construção de um mundo economicamente e socialmente mais próspero. No âmbito empresarial quando se fala em responsabilidade social a empresa age de forma estratégica através de metas que são traçadas para atender às necessidades sociais de forma que o lucro da empresa seja garantido.Os diversos setores da sociedade estão redefinindo seus papéis adotando o comportamento socialmente responsável através de projetos sociais muito bem estruturados. 16(2): 161-180. Portanto é possível dizer que há envolvimento. Cada vez mais. a sociedade civil e a iniciativa privada. controle e avaliação. o que as tornam reconhecidas pelo engajamento de seus colaboradores e atingem a preferência dos consumidores. as empresas devem estar atentas ao público que gera e sofre impacto nos seus negócios. como em qualquer outro projeto. desenvolvimento. Só que a gestão de responsabilidade social abrange muito mais do que simples doações financeiras ou Serviço Social & Realidade. Franca. Falar em Projetos sociais engloba um amplo setor. a potencialização de talentos e o desenvolvimento da autonomia de seus atores. Em um projeto social também se faz necessário. denominado Terceiro Setor. 2007 169 . A qualidade destes projetos é de extrema importância. Muitas vezes tem-se a idéia de que para fazer e gerir um projeto social basta fazer o bem e ter boa vontade. pois. O que se presencia atualmente é um tipo de equilíbrio que se estabeleceu no processo. ao adotar um comportamento ético e socialmente responsável as empresas adquirem o respeito das pessoas e das comunidades que são atingidas por suas atividades. São projetos que cada vez mais exigem alto nível de planejamento. com o mercado competitivo. Atualmente empresários e empresas divulgam nos meios de comunicação a participação em projetos sociais ou o apoio a eles por meio de doações. que envolve as organizações não governamentais sem fins lucrativos. o Estado. assim como a satisfação do cliente e o bem estar social. comprometimento sustentável.

Uma das questões mais importantes na elaboração de projetos sociais é ter claramente definido as diferenças essenciais entre esfera pública e privada. o que levou os EUA ao pioneirismo da moderna filantropia com doações anuais. Essas ações filantrópicas são guiadas por critérios empresariais como auto-suficiência. ainda coloca em questão a análise marxista sobre a concentração de renda capitalista e exploração do proletariado demonstrando a influência de Bill Gates a toda geração atual de jovens milionários. Também há a possibilidade de abater do imposto de renda boa parte do dinheiro gasto com caridade. tendo em vista a consistência financeira por meio de fontes de renda próprias. interesses. em todas as suas políticas e práticas. forças. A reportagem. que atuam sobre ela. Este reconhecimento é necessário justamente para que as ações possam ser objetivas e desta forma alcançar com presteza as transformações almejadas. 16(2): 161-180. 2007 . cerca de 260 bilhões de dólares. desta maneira. doou 40 destes. ou seja. mas. se concentra em ações esporádicas.7 para a Fundação Bill e Melina Gates que financia escolas públicas e pesquisas para a cura do câncer. o imposto sobre a transmissão de grandes heranças pode atingir 70%. é indicada a doação realizada pela Microsoft de 28 bilhões de dólares e por Warren Buffet. A doação pura e simples nada mais é do que uma prática filantrópica. Há definições que englobam a relação ética e socialmente responsável da empresa em todas as suas ações.materiais. Segundo matéria publicada pela revista Veja em 5 de julho de 2006 intitulada “Os santos do capitalismo” é possível verificar que mesmo algumas ações filantrópicas são capazes de fazer reconhecimento do ambiente revelando a realidade na qual a organização está envolvida. O problema é que na atual conjuntura social a filantropia não busca continuidade das ações. para eles muitas vezes. uma ação social externa à empresa destinada à comunidade. Nos Estados Unidos da América. Na mesma reportagem. que buscam máxima eficiência e elevados retornos para investimentos sociais. Em termos de gestão é preciso identificar com clareza qual é o ambiente no qual a organização opera. empresário que aos setenta e cinco anos e com fortuna avaliada em 44 bilhões de dólares. Há metas para a obtenção de resultados efetivos e controles 170 Serviço Social & Realidade. suas tendências. Franca. faz mais sentido criar fundações com objetivos sociais e colocar os filhos ou herdeiros para comandá-las. sendo que 30.

a presente era revela velocidade nos processos de mudança organizacional com efeitos poderosos Serviço Social & Realidade. ambientais e cultura interna que organiza o processo de trabalho. apresentam relatórios anuais de suas atividades e resultados. 2007 171 . esses filantropos bilionários da atualidade não querem apenas aliviar o sofrimento dos ainda não incluídos. sociais. mas. exatamente por isso esse canal deve estar aberto. O envolvimento e investimento na comunidade em que a empresa está inserida contribui para a viabilização dos negócios. mas promover a ascensão. na disseminação de valores sociais devem fazer parte das políticas de envolvimento comunitário por parte da empresa. resultado da compreensão de seu papel de agente de melhorias sociais. A garantia da eficiência está justamente em ter claro que as fundações não devem ganhar mais que 20% do que emprestam. às culturas locais e o empenho na educação. mas exige cidadãos com boa formação educacional e vontade de ascensão social. aumento nas disparidades e desigualdades sociais. Da mesma forma as doações não podem perder o foco e se tornarem aleatórias. Franca. Os projetos devem ser selecionados criteriosamente. buscando o retorno econômico e social de acordo com o que podem gerar. transformá-los em consumidores e mesmo acionistas do sistema de mercado. O mundo não é estático. se Karl Marx previa o fracasso do capitalismo justamente porque o sistema estava voltado para a exploração crescente e até mesmo infinita do proletariado para gerar lucros e produtividade. Há fundações que trabalham com objetivos claros por isso as ações filantrópicas e sua administração financeira passam por auditorias. ao mesmo tempo em que se assiste aos avanços benéficos.para impedir o inchaço da burocracia filantrópica. A dicotomia deste processo revela. 16(2): 161-180. O respeito aos costumes. de acordo com metodologias exeqüíveis. Como é possível observar a partir dos relatos apresentados na reportagem da revista Veja. nas relações estabelecidas entre elas. lembrando que o enfoque da qualidade não está só nas coisas e nas pessoas. o que obriga o empresário a repensar os sistemas econômicos. Justamente por isso de nada adianta ser uma grande empresa no ranking de seus negócios se não for possível contar com uma sociedade que compartilhe das mesmas perspectivas. Está claro que o capitalismo não comporta segmentos expressivos de pobreza.

0%) e em Minas Gerais (81. No período da pesquisa. ainda é pequeno o conhecimento sistematizado sobre este tipo de prática que efetivamente está sendo desenvolvida pelas empresas. Este fenômeno reflete a percepção. sofisticação tecnológica e altos níveis de consciência social. Embora o engajamento de empresas em ações sociais já venha ocorrendo no Brasil há algum tempo. realizada pelo Ipea. 2007 . ambigüidade.sobre as pessoas e a sociedade em geral. Se antes era possível verificar estabilidade. verificam-se enormes alterações nas condições ambientais (internas e externas) importantes ao desempenho organizacional. Também é imperativo garantir a todos acesso à alimentação. hoje a característica comum são períodos de turbulência. Cenário atual da Responsabilidade Social. de que a solução dos problemas sociais é responsabilidade de todos. incertezas. No entanto. definição. constatou-se que a participação empresarial na área social aumentou 10 pontos 172 Serviço Social & Realidade. moradia. 16(2): 161-180.0% das empresas situadas no Rio de Janeiro haviam realizado algum tipo de ação para a comunidade. saúde. Franca. Não é mais possível conviver com a exclusão de uma larga parcela da população alijada de acesso aos bens sociais. e não apenas do Estado.0%). pouca sofisticação tecnológica e baixos níveis de consciência social. emprego. abundância. 59. como até agora. meio ambiente saudável e a outros bens sociais fundamentais. cresce nos últimos anos a preocupação com o envolvimento mais sistemático da iniciativa privada com a temática da responsabilidade social. Entre 2000 e 2004. educação. cada vez mais generalizada na sociedade. a Pesquisa Ação Social das Empresas.0%). Este percentual superava o verificado entre as empresas situadas no Espírito Santo (45. escassez. demonstrou aumento significativo de empresas privadas brasileiras que realizaram ações sociais em benefício das comunidades. mas era inferior ao registrado entre as localizadas em São Paulo (66. certeza. Segundo pesquisa nacional conduzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea – em 1998. Já existem alguns indicadores que sinalizam mudança de mentalidade da iniciativa privada na questão da responsabilidade social. Ao comparar o cenário vivido no mundo há cinqüenta anos atrás.

fator apontado por 40% dos empresários. Os motivos apontados pela não utilização desses benefícios: o valor não compensatório do incentivo. uma vez que apenas 2% das empresas que atuam em ações sociais fizeram uso de incentivos fiscais.percentuais. 2007 173 .7 bilhões o que corresponde ao equivalente a 0. Fiesp-Ciesp.1 A pesquisa apresenta uma primeira correlação entre responsabilidade social e situação econômica das empresas: as indústrias que possuem a RSE formalizada em sua estrutura apresentam também uma avaliação proporcionalmente mais positiva da rentabilidade dos seus negócios. possibilita algum nível de projeção dos dados para o total de indústrias do Estado. e 15% nem mesmo sabiam da existência de tais benefícios.909 indústrias cadastradas guarda grande correspondência com a distribuição da totalidade dos estabelecimentos industriais existentes no Estado de São Paulo nas faixas de porte acima de 30 empregados. a distribuição por porte das 4. Este procedimento se justificou por duas razões. Nessa mesma pesquisa é possível encontrar destaque para o fato de que a alta quantia do investimento social privado recebe influência da política de benefícios tributários no Brasil. 16(2): 161-180. com as devidas cautelas. Núcleo de Ação Social 2003. As indústrias que possuem mecanismos de gestão de 1 Sobre este assunto ver: Responsabilidade Social Empresarial – Panorama e Perspectivas na Indústria Paulista. apresentavam menos do que trinta empregados (as microempresas e as menores empresas do segmento de pequeno porte).27% do PIB brasileiro de 2004. o que. Coordenação e planejamento: Anne Louette. Em novembro de 2003 a Fiesp-Ciesp (Núcleo de Ação Social) traçou um panorama da Responsabilidade Social Empresarial na Indústria Paulista. pelo cadastramento. A pesquisa foi direcionada aos estabelecimentos industriais com unidades no Estado de São Paulo que integravam o cadastro da FIESP/CIESP em maio de 2003: um total de 4. Franca. São aproximadamente 600 mil empresas que atuam voluntariamente aplicando cerca de R$ 4. Este número foi obtido após a exclusão das empresas que. passando de 59% para 69%.909 indústrias. Em primeiro lugar. Serviço Social & Realidade. 16% não associavam as ações desenvolvidas pelas empresas às isenções permitidas.

utilização de parcerias para a realização de ações sociais. práticas de estímulo e apoio ao voluntariado dos empregados. Entre as pequenas e médias indústrias os resultados (sobretudo os mais complexos e menos convencionais) são percebidos com menor intensidade. o que poderia levar a empresa a atingir o índice considerado de 0 a 1. Dentre os resultados percebidos pela pesquisa Fiesp. de um maior grau de profissionalização das ações sociais. investimento financeiro em ações sociais (% sobre o faturamento da empresa). os mais relevantes para o enfoque destas presentes reflexões. mas. para si próprias e para a comunidade (melhoria da imagem da empresa. na avaliação de rentabilidade do negócio.70 na escala de 0 a 1). Já as empresas cujas práticas de gestão social estão concentradas apenas entre diretoria e gerência apresentaram rentabilidade máxima de 17. de manter e recompensar a motivação dos realizadores. melhoria nas condições de vida das pessoas etc. que suas ações sociais geram não apenas benefícios imediatos. O índice se baseia no número de práticas adotadas pelas indústrias nas seguintes áreas: tipos de ações sociais adotados pelas indústrias. Franca. que também estão contribuindo para o alcance de seus objetivos e para a elaboração de políticas voltadas ao público. neste segmento. definidos a partir das médias das empresas encontradas na pesquisa. mas que ainda não há uma percepção clara do seu 174 Serviço Social & Realidade. A respeito do índice de Responsabilidade Social correspondente ao relacionamento com a comunidade foram estabelecidos quatro indicadores com práticas relacionadas a cada um deles. o que talvez esteja refletindo a presença.). 16(2): 161-180. com intensidade significativa. É digno de nota que as grandes empresas estejam percebendo. um aumento de 20. médias ou pequenas empresas é o aporte de satisfação pessoal para o dono ou os acionistas (com índices acima de 0. demonstram como as indústrias estão percebendo os resultados gerados por suas ações sociais. sobretudo. nestes segmentos as ações para a comunidade têm sido capazes. Resultados ligados ao fortalecimento do negócio e à promoção do bem-comum são percebidos de forma mais expressiva nas indústrias de maior porte. O resultado reconhecido como mais expressivo por grandes. Isto sugere que.responsabilidade social empresarial através de políticas explicitadas e documentadas apresentam. 2007 .9%.3%.

grau de eficácia para a empresa e para a sociedade.. A partir desta compreensão surgem os objetivos estratégicos e as práticas que levarão a empresa ao fortalecimento dos seus negócios através do estabelecimento de relações benéficas para todos os envolvidos. É extremamente significativa a percepção empresarial desta questão.”2 Foi possível perceber que saber lidar com o ambiente externo constitui importante atributo organizacional a partir da compreensão de que este ambiente origina condições econômicas.] trouxeram números expressivos de pedidos de apoio solicitados pela comunidade. culturais. condições 2 Sobre este assunto ver: Responsabilidade Social Empresarial – Panorama e Perspectivas na Indústria Paulista. Os objetivos da adoção de práticas de RSE A importância atribuída pelas empresas para promover a noção de bem comum está amplamente relacionada com a preservação dos recursos naturais. quanto maior for o investimento social das empresas. e como maior problema os índices sociais. tecnológicas. Dentre as dificuldades geradas cabe destacar. que os resultados [. como um fator que a empresa nem sempre consegue atender. Coordenação e planejamento: Anne Louette. Desta forma. maior será o volume de demandas. sociais entre outras. Este aspecto é percebido com relativa intensidade especialmente entre as grandes indústrias. atingindo o índice de 0. Fiesp-Ciesp. 2007 . Núcleo de Ação Social 2003. país de gigante extensão territorial que possui como maior riqueza os recursos naturais. 175 Serviço Social & Realidade. pois demonstra sintonia com o quadro da realidade do Brasil. Naturalmente. demográficas. 16(2): 161-180.. A pesquisa da Fiesp/Ciesp também identifica. é importante que as indústrias estabeleçam uma comunicação clara com a sociedade a respeito de suas disponibilidades de apoio e prioridades na área social. através da pesquisa realizada em 2003 pelo Núcleo de Ação Social. políticas. sustentabilidade ambiental e para a colaboração da redução dos problemas sociais que assolam o país.57 na escala de 0 a 1. Franca.

pois. a responsabilidade social. São tantos os cruzamentos possíveis entre as variáveis que a possibilidade de avaliação se torna o melhor conjunto de conhecimentos sobre o tema da responsabilidade social empresarial disponível hoje no Estado de São Paulo. organismos e organizações governamentais) ganhando desta forma mais eficiência. Ainda que seja uma amostra estatística com quantidade limitada de variáveis. permanece presa à noção do negócio voltada apenas para os sharholders. Portanto. ética e transparência. e não à atenção aos seus mais diversos stakeholders.sobre o panorama e as perspectivas em responsabilidade social na Indústria Paulista. O êxito dos programas sociais pode ser medido pela sua expansão e pela sua flexibilidade. Franca. sociedade civil. não basta realizar ações sociais e ter a imagem da empresa vinculada a elas quando os resultados alcançados não são reais ou não alcançam a qualidade esperada. ilumina um universo extraordinário de potencialidades. As empresas são consideradas grandes pólos de interação social. Esta pesquisa ajuda a compreender as tendências em curso na área da Responsabilidade Social Empresarial e. por meio de sua imagem. perspectiva estratégica de coerência. 2007 . público externo. 16(2): 161-180. ou mesmo consciência política que não apregoa o capitalismo selvagem e restabelece as relações empresariais com a sociedade. pela análise conceitual tratada neste estudo. Surge desta forma. o fato é que o tema tornou-se uma questão de sobrevivência em o mercado globalizado. planejar formas de apoio às empresas interessadas em desenvolver novos conhecimentos e práticas na área da gestão socialmente responsável dos negócios. Seja ela uma tendência de gestão estratégica. têm grande responsabilidade em disseminar valores que influenciam mudanças sociais concretas transmitindo. Em segundo lugar as ações de responsabilidade social devem abrir diálogo produtivo 176 Serviço Social & Realidade. sobretudo. que permite constituir desdobramentos que geram novas atividades. Para alcançar esses objetivos descritos acima é preciso primeiramente que as atividades sejam realizadas em parceria (público interno. A empresa que não está atenta a estes fatores constrange seus negócios. Em um mercado cada vez mais competitivo as empresas devem estar atentas a todos os públicos impactados pelo seu negócio.

Para a sociologia weberiana a burocracia tornou-se um conceito central o qual foi relacionado neste trabalho com a questão da responsabilidade social empresarial demonstrando que os projetos de natureza social necessitam.para que novos atores possam se manifestar. o que desta forma se faz necessário que a responsabilidade social faça parte do desenvolvimento da organização e esteja focada para a promoção da eficiência e da eficácia através da competência profissional. da orientação racional. 16(2): 161-180. M. being possible to detect systematically organized actions starting from the decade of 1990 when it is verified actions strategically focused on the theme business social responsibility. 2007 . há uma visão modificada do homem. analyzed in the present article. • ABSTRACT: The action of the companies in the extent of non-lucrative social function accompanied the path of the Brazilian capitalism. It is a very complex process. de comportamento. 161-180. Serviço Social & Realidade (Franca).. 2. sentimentos diversos. 05) Pode-se concluir então que há uma mudança significativa nas relações estabelecidas entre as organizações empresariais e a sociedade. Franca. giving focus to the idea that the integration of the country in a market that is globalized starts to 177 Serviço Social & Realidade. D. v. MANZOLI. (TAVARES. Nesta nova gestão. 16. 2007. p. n. 2002. The business social responsibility: in search of the efficiency. tanto na posição de consumidor quanto na de produtor. COSAC. o entendimento dos processos de tomada de decisões é justamente o processo de compreensão das finalidades de uma organização. C. posturas. p. As ações de responsabilidade social devem ser tratadas com o mesmo profissionalismo que qualquer outra ação empresarial e cada vez mais se torna indispensável alcançar com clareza os indicadores qualitativos que as representam. A antropóloga Maria das Graças Tavares afirma: Impõe-se um novo modelo de gestão das relações externas e internas das organizações. habilidades. o sentido científico da racionalidade. R. dos até então instalados no interior da organização. As instituições capitalistas se materializam embasadas nesta mesma racionalidade. pressupõe padrões de pensamento. como qualquer outro. P. P. Esta gestão para o ajustamento a um ambiente modificado.

1976. Parte integrante da edição 701. Rio de Janeiro: Zahar. 1985. 1971. ______. CHIAVENATO. ed. Administração: teoria. Módulo S. 1999. W. A Lei do Mais Fraco: a nova ordem na relação das empresas com a sociedade e com o meio ambiente. Social Projects. 22 (apostila mimeo). WEBER. ETZIONI. Avaliação de projetos e de organizações que operam no campo social. Organizações Modernas. 1998. W. The reciprocal influence between capitalism and bureaucracy has prominence in this analysis under sociologist Max Weber's light. B. Referências CARVALHO. H. Mills) 5. São Paulo. processo e prática. propitiating that explicit objectives were reached. Ecologia da administração pública. implementation and evaluation paradigm of social projects. A Nova Ordem. 1982. F. 16(2): 161-180. WEBER. A. Parte integrante da edição 701. G. Duas Vocações. Franca. Rationality. 2007 . Responsibility. p. • KEYWORDS: Business Social Bureaucracy. Ciência e Política. M. 1964. Disponível em: Exame: A Empresa do Novo Milênio. Max. C. RIGGS. E. revealing that the new elaboration. larger rationality in the execution of actions and in search of good results. ______. Disponível em: Exame: A Empresa do Novo Milênio. Sociologia da burocracia. São Paulo: Cultrix. Gerth & C.demand of the companies a new conduct that cannot just lessen the negative effects of the globalization. I. economical and social point of view. Os fundamentos da organização burocrática: uma construção do tipo ideal: In: CAMPOS. D. M. Ensaios de sociologia (Introdução de H. TAVARES. 1999. that inaugurated the study of the sociology applied to the organizations and predicted the ascension of bureaucracy as a form of ordering the human relationships amongst themselves and with the organization. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas. P. but that also assists to the growing demands of the market and of the society for a maintainable business activity through the environmental. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil. COHEN. in: Cultura Organizacional: uma abordagem 178 Serviço Social & Realidade. demands more and more. Rio de Janeiro: Zahar. M.

Franca. 16(2): 161-180. Serviço Social & Realidade.antropológica da mudança. 2007 179 . Rio de Janeiro: Qualitymark. 2002.

.

16(2): 181-194. para o fortalecimento das relações sociais harmônicas e. • Introdução A finalidade do ensino superior não se resume apenas em formar técnicos para o mercado de trabalho. Por isso. principalmente. Considerando que. 1 Advogado. mas busca construir cidadãos conscientes. SP. Serviço Social & Realidade. Docente e Diretora do IMESB. na formação e capacitação de jovens e adultos carentes para o crescimento econômico e cultural da sociedade. mas visa também verificar os benefícios sociais resultante da implantação dessas medidas. com recursos próprios ou por meio da adoção de programas de incentivos fiscais direcionados a iniciativa privada. previstas constitucionalmente e regulamentadas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. que reflitam a sociedade como um sistema amplo e diversificado e que contribuam para o seu crescimento. por meio de políticas educacionais de concessão de bolsas de estudos. Benefícios Sociais. atualmente.AS POLÍTICAS MUNICIPAIS DE APOIO AO ESTUDANTE DE ENSINO SUPERIOR E SEUS BENEFÍCIOS SOCIAIS Regina Maura REZENDE* Paulo Henrique Miotto DONADELI1 • RESUMO: O presente artigo tem por objetivo analisar as competências educacionais do Município. Ensino Superior. 2007 181 * . críticos. flexíveis e tolerantes. Franca. Membro do Grupo de Estudos “Saúde. para favorecer o ingresso das Doutora em Serviço Social pela UNESP. o Estado tem que buscar alternativas soluções urgentes. Bebedouro. que impedem o ingresso de muitas pessoas no ensino superior. Mestre em Direito do Estado e Professor do Curso de Direito do IMESB. PALAVRAS-CHAVE: Competências Municipais. para a efetivação das igualdades e oportunidades para todos. não se pode permitir que apenas pequena parte da sociedade usufrua dos benefícios da educação superior. Bebedouro/SP. Políticas Educacionais. verificando a possibilidade de atuação do Município no apoio ao estudante de ensino superior. Qualidade de Vida e Relações de Trabalho” – QUAVISSS – UNESP – Franca/SP. muitos são os obstáculos existentes na realidade brasileira. O artigo não se preocupa apenas com a análise jurídica do tema. estimulando empresas a patrocinarem estudantes universitários.

5º. de forma a contribuir para o engrandecimento das Ciências Sociais Aplicadas. em cujo âmbito o Poder Público não pode penetrar. Por isso. Essa medida foi um grande passo do legislador constituinte. o que implicou na afirmação de que o indivíduo dispõe de uma esfera de ação inviolável. responsabilizando a autoridade competente que foi omissa ou teve uma conduta irregular quanto as obrigações educacionais do Estado. sem que isto represente violações as competências educacionais do Município estabelecidas constitucionalmente. e. quer oferecendo um maior número de vagas em instituições oficiais. 1998. possibilita a qualquer cidadão. A Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. centro comunitário. entidade de classe ou outra legalmente constituída. em seu art. de real responsabilidade do Estado. 16(2): 181-194. A Constituição Federal elegeu o ensino fundamental obrigatório e gratuito como um direito público subjetivo. o presente trabalho quer analisar a contribuição que o Município pode oferecer na difusão do ensino superior no país. com o objetivo de congregar um entendimento interdisciplinar. ainda. O direito ao ensino superior A Educação como direito de todos e dever do Estado e da família está consagrada pelo artigo 205 da Constituição Federal. o que permitiu ao titular do direito exigir a sua matrícula na escola pública ou requerer que lhe conceda bolsa de estudos em escola particular se houver falta de vagas nos cursos oficiais (FERREIRA FILHO.pessoas nas universidades e faculdades do país. 320). grupo de cidadãos. p. Franca. pois reconhece o ensino obrigatório e gratuito como um serviço público essencial. peticionar ao Poder Judiciário para exigir uma ordem que garanta a efetivação do ensino obrigatório e gratuito. 1995. 8). conforme prescreve o § 1º do artigo 208. A preocupação do constituinte em garantir um ensino 182 Serviço Social & Realidade. ao Ministério Público. p. quer por meio de políticas educacionais específicas. apresentando e fomentando idéias socialmente viáveis e juridicamente possíveis. organização sindical. Estudar temas relativos a educação superior é sempre atual e de grande validade para a vida social. 2007 . colocando a disposição das pessoas uma tutela judicial para fazer valer na prática o direito legalmente reconhecido (HORTA.

IV. considerando que a educação é fonte geradora de inúmeros benefícios para o homem e para a sociedade. que não sejam total ou preponderantemente mantidas com recursos públicos”. Em relação ao ensino superior apenas mencionou. Essa norma visa garantir o ingresso no ensino superior das pessoas que não tiverem condições de arcar com os custos educacionais. 2007 183 . as autarquias e fundações de ensino superior instituídas por municípios antes de 1988 podem Serviço Social & Realidade. Esse compromisso do Estado é uma exigência mundial do mercado de trabalho. O preceito deixa claro que em referência ao ensino superior o Estado não tem a condições de oferecê-lo a todos. no art. No que se refere aos ensinos médio e superior. Mas. 208. visando oferecer aos estudantes de classe social menos favorecida. 1993. Franca. o direito de continuar seus estudos. por questão de ordem financeira. p. Nesse caso. buscando aprofundar o nível de escolaridade da população. A exceção a essa regra está prevista no art. (GOLDEMBERG. da pesquisa e da criação artística. a Constituição Federal não concedeu este privilégio de ser um direito público subjetivo. reforçou a parcela de contribuição do Estado para com o ensino superior ao estabelecer a gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais. III. que é obrigação do Estado garantir o ingresso aos níveis mais elevados de ensino. 206. para alcançar a dignidade da pessoa humana e para atingir a justiça e a igualdade entre os integrantes da sociedade. a Constituição Federal. 169). no artigo 206. não se aplica às instituições educacionais oficiais criadas por lei estadual ou municipal e existentes na data da promulgação desta Constituição. pois ela é primordial para reforçar os alicerces sociais. não podendo as instituições federais. da Constituição Federal previu apenas a necessidade de se universalizar a gratuidade e a obrigatoriedade do ensino médio.fundamental para todos se explica na necessidade de se escolarizar a população. como uma meta educacional a ser atingida no futuro. DURHAM. segundo a capacidade de cada um. IV. O artigo 208. 242 da CF. atingindo os níveis mais elevados do ensino. V. 16(2): 181-194. que diz: “O princípio do art. especialmente. estaduais ou municipais cobrarem qualquer pagamento dos alunos pelo estudo oferecido.

2007 . Sobre a gratuidade no ensino superior nos estabelecimentos oficiais Manuel Gonçalves Ferreira Filho tece um comentário: a realidade brasileira mostra que a gratuidade do ensino superior beneficia especialmente os filhos das classes mais abastadas. quando não têm. Franca. ainda a complementação de um “cursinho” preparatório para o vestibular. tem de entrar nas escolas do sistema privado (1995. alegando que em vários países o ensino superior é pago. estes são o mais das vezes formados em caras escolas particulares de primeiro e segundo grau. Não é porque atualmente o ensino em instituições oficiais está beneficiando uma parcela economicamente mais favorecida. compõe-se da educação básica (formada pela educação infantil. inclusive por meio de bolsas de estudos. em regra geral os de melhor nível de ensino. Os mais pobres mal preparados nas deficientes escolas públicas de primeiro e segundo grau se quiserem fazer curso superior. Sim. O ensino fundamental objetiva a formação básica do 184 Serviço Social & Realidade. custeadas pelo Estado ou pela iniciativa privada. O sistema superior de ensino A educação escolar sistemática. que a única solução para acabar com a injustiça é o fim da gratuidade. 16(2): 181-194. pois muitos municípios não teriam condições financeiras de mantê-las com recursos de seus orçamentos. 70).continuar legalmente a cobrar mensalidades. aquela dada por meio de um sistema de ensino. p. O presente trabalho tem o intuito de reforçar a opinião da necessidade de se garantir a gratuidade do ensino superior nos estabelecimentos oficiais e de se pensar em alternativas que aumente as oportunidades de pessoas ingressarem no ensino superior. somente entram os bem preparados – os quais triunfam no exame vestibular. Ora. Muitos defendem a privatização do ensino superior ou a instituição da cobrança de mensalidades para auxiliar o custeio das universidades e faculdades públicas. ensino fundamental e ensino médio) e pelo ensino superior. raramente os verdadeiramente pobres. porque nos estabelecimentos públicos e gratuitos.

formado por escolas e serviços ligados. as aspirações comuns da população de onde está inserido (LOURENÇO FILHO. a história. Cada sistema de ensino pode ser caracterizado como uma complexa unidade. O ensino médio tem por finalidade a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental. é um conjunto de instituições com identidade própria. sob um regime administrativo. que tem por finalidade o oferecimento da educação (LOURENÇO FILHO. tendo em vista a aquisição de conhecimentos. nas diversas áreas do conhecimento. O sistema de ensino não pode ser visto apenas como um agregado de instituições educativas de caráter isolado unidas por uma norma ou força política. as condições de vida. a educação superior visa a formação intelectual e a qualificação para o trabalho dos indivíduos. organizar e financiar seu próprio sistema de ensino e dos territórios e coordenar a política nacional de educação. 16(2): 181-194. atitudes e valores. Franca. e as instituições de ensino superior privadas em todo país pertencem ao Sistema Federal de Ensino e são regidas pela legislação federal e pelas normas do Serviço Social & Realidade. atuar prioritariamente no ensino fundamental e médio. que ocupa um espaço limitado dentro de certo território. além da função normativa. As instituições de ensino superior federais. 2007 185 . conforme dispõe o § 3 do art. MARTINS. a redução das desigualdades existentes e a persecução de um padrão de qualidade do ensino em todo o país. a ideologia. habilidades. p. o que não impede de investirem em ensino superior. fundamentalmente. completando a educação dada no seio da família. O Sistema Nacional de Ensino é representado pela somatória de vários sistemas. p. preparando o aluno para o exercício consciente da cidadania. 1998. Por fim. Essa estrutura reforça o princípio federativo e favorece o regime de colaboração (BASTOS. como forma de garantir a equalização das oportunidades educacionais. mantidas como recursos orçamentários da União. 610). refletindo a cultura. 1961. Mas. 211 da Constituição Federal. quais sejam: o federal.cidadão. Cabe aos os Estados e o Distrito Federal. o que caracteriza uma descentralização articulada na área educacional. articulando os diferentes níveis e sistemas de ensino. Compete a União. p. 32). 1961. 15). o estadual e o municipal.

como também. de forma inovadora. ao atribuir essa missão aos Municípios. Franca. permitiu ao Município o organizar seu próprio sistema de ensino. 30. segundo prescreve o art. O constituinte. As instituições de ensino superior estaduais. sem antes cumprir adequadamente este preceito. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 506). 16(2): 181-194. os regulamentos e resoluções dos Conselhos Federal e Estadual de Educação (SILVA. o Município recebeu atribuições próprias na esfera educacional. o Município passou a ter a competência para suplementar a legislação federal e estadual educacional no que couber (art. devendo. os Municípios deverão aproveitar a legislação conexa. médio ou superior. que terá vigência na área de cada um. 211. As competências do município na área educacional e a participação do município no ensino superior O Município. para tanto. Com isso. Hoje. teve como preocupação a necessidade de realizar uma ampla ação de difusão do ensino básico a toda a sociedade. o que não lhe dava o direito de estabelecer normas educacionais de caráter local. vinculado ao Ministério da Educação. Percebe-se que o município não tem competência para reger o ensino superior. A Constituição Federal. p. e as instituições municipais de ensino superior. uma vez que antes de 1988. da Constituição Federal. obedecer a hierarquia das normas. Na verdade. 2007 . II). apenas contava com uma estrutura administrativa. constituídas na forma de autarquias ou fundações. especialmente. Entende-se que o Município não pode investir em outra etapa do ensino. 2000. e baixar as normas complementares para o bom funcionamento de suas 186 Serviço Social & Realidade. mantidas com recursos orçamentários dos Estados. perseguindo o objetivo primordial da erradicação do analfabetismo da população brasileira.Conselho Federal de Ensino. fazem parte do Sistema Estadual de Ensino e são regidas pelas leis federais e estaduais e pelas normas do Conselho Estadual da Educação. o que foi muito positivo para o fortalecimento das ações e medidas na área educacional. mesmo que criem e mantenham instituições municipais de ensino superior. § 2. tem a obrigação de atuar diretamente no ensino fundamental e na educação infantil.

as instituições de educação infantil. III – baixar normas complementares para o seu sistema de ensino. o Município cabe atender a todas as reivindicações de seus Serviço Social & Realidade. o ensino fundamental permitido a atuação em outros níveis de ensino somente quando estiverem atendidas as necessidades de sua área de competência e com recursos acima dos percentuais mínimos vinculados pela Constituição Federal à manutenção e desenvolvimento do ensino. médio e de educação infantil mantidas pelo Poder Público municipal. O art. pelo contrário. Franca. Os Municípios poderão optar por se integrar ao Sistema Estadual de Ensino ou compor com ele um sistema único de educação básica. e. Mesmo que o Município implante ou mantenha escolas de ensino superior. 2007 187 . V – oferecer à educação infantil em creches e pré-escolas. por meio de autarquias ou fundações municipais.organizações educacionais (MOTTA. automaticamente. credenciar e supervisionar os estabelecimentos do seu sistema de ensino. Os sistemas municipais de ensino compreendem: as instituições de ensino fundamental. o sistema estadual respectivo. Isto não impede do Município de investir em educação superior. e os órgãos municipais de educação. sob pena de intervenção por parte do Estado a que pertença. com prioridade. criadas e mantidas pela iniciativa privada. A não existência do sistema municipal de ensino não exime o Município da aplicação do mínimo exigido da receita municipal na manutenção e no desenvolvimento do ensino. elas pertencerão aos sistemas de educação estadual. 1997. as instituições de educação integrarão. como se mostrará neste trabalho. II – exercer ação redistributiva em relação às suas escolas. manter e desenvolver os órgãos e instituições oficiais dos seus sistemas de ensino integrando-os às políticas e planos educacionais da União e dos Estados. 11 da LDB dispõe que aos Municípios incumbem as seguintes atribuições educacionais: I – organizar. IV – autorizar. 159). Se o Município não organizar seu sistema de ensino. 16(2): 181-194. p.

de acordo com que dispõe o art. é indicada a aprovação de leis que conceda bolsas de estudos ou que instituam programas de incentivo fiscal para que a iniciativa privada financie o estudo de alunos carentes. ou outro imposto. formado por recursos advindos de fontes de receitas municipais. diretamente para as instituições de ensino superior. Os alunos beneficiados pela doação da bolsa de estudo municipal não terão nenhuma contrapartida financeira. O que o Município não pode é investir no ensino superior contabilizando os gastos nos vinte e cinco por cento da receita resultante de impostos. na Lei de Diretrizes Orçamentária e na Lei Orçamentária Anual do Município. O referido Fundo pode ser alimentado por certa porcentagem da receita arrecadada com impostos de competência municipal (IPTU. poderá constar no Plano Plurianual. a previsão de dotação própria para aplicar em concessão de bolsas de estudo no ensino superior para alunos que atenderem a requisitos pré-estabelecidos em lei.habitantes. 16(2): 181-194. podendo exigir delas algumas contrapartidas. destinadas ao desenvolvimento e manutenção do ensino. inclusive o direito de freqüentarem os níveis mais elevados do ensino. previamente repassados para essa finalidade. 2007 . os gastos em educação não precisam ficar limitados a esse percentual. mas tem a obrigação de serem aprovados em todas as disciplinas que 188 Serviço Social & Realidade. Para que o município colabore com a formação superior de pessoas residentes em seu território. 212 da Constituição Federal. previamente contratadas. e ITBI) e da receita arrecadada com a transferência estadual do ICMS – Imposto sobre mercadorias e serviços. por meio de lei específica. Para facilitar o custeio das bolsas universitárias é indicado ao Município a criação de um Fundo de Apoio ao Aluno de Ensino Superior. referente às bolsas concedidas aos alunos beneficiados. A Prefeitura Municipal repassará os valores das mensalidades escolares. Com base no valor existente no Fundo a Prefeitura Municipal irá estabelecer o número de bolsas a serem concedidas anualmente. Franca. que não dispõem de condições próprias para bancar seus estudos. Mas. ISS. compreendida a proveniente de transferências. O Poder Executivo Municipal.

custeia o ensino superior de algumas pessoas e elas retribuem a comunidade em forma de serviços prestados de cunho social ou cultural. Os investimentos em ensino superior são altos e. por meio dos tributos arrecadados. a educação superior teve de se adequar aos novos imperativos. vários países. Essa parceria entre sociedade e acadêmicos só pode trazer benefícios para todos. Com isso. permitindo um crescimento do setor educacional privado. em conjunto com a Coordenadoria de Pesquisa e Extensão da IES. passaram a empreender reformas para adequar o Estado e a sociedade à nova ordem mundial. poderá inserir os alunos beneficiados em grupos de apoio a atividades educacionais. O Estado passou de agente financiador para agente fiscalizador. em todo o mundo está ocorrendo um afastamento do Estado das atividades de ensino superior. caso contrário perderão o benefício estudantil. com o intuito de criar um sentimento de responsabilidade social no acadêmico beneficiado. realizadas no Município. ganhando a economia papel de realce. o que mostra a ocorrência do Serviço Social & Realidade. por isso. tendo como alguns de seus fundamentos a remercantilização dos bens sociais e a inovação das formas de apropriação do capital. os orçamentos estatais para o ensino superior tem sofrido constantes cortes. e que tenham compatibilidades com as aptidões de cada um. O neoliberalismo é uma ideologia econômica contrária ao Estado intervencionista. a sociedade. visando atender as exigências do mercado. Franca. o que causou uma diversificação institucional. que colocam em risco o pagamento dos juros da dívida internacional. fora do horário normal de aula. por meio da Secretária Municipal de Educação. 16(2): 181-194. Por influência dos organismos econômicos internacionais.estiverem cursando. baseada na competitividade e na contínua avaliação de rendimento e resultado. O ensino superior no Brasil e a política neoliberal Atualmente. desde que não atrapalhem as atividades laborais dos alunos. A Prefeitura Municipal. 2007 189 . em razão dos imperativos da política neoliberal. que tem encontrado uma sustentação jurídica para expandir. Em razão disso. dando a sua parcela de contribuição para o engrandecimento comum. inclusive o Brasil. Ou melhor. são contrários à rigidez da política fiscal e da racionalização e controle dos gastos público.

Financiamento do Ensino Superior. tinha graduação de nível superior. sem retorno posterior. é um outro exemplo o Prouni. 2007 . O ensino superior tem perdido seu sentido social e público e muitas são as pressões para a privatização das universidades e faculdades federais. o que é pior. Programa Universidade para Todos. que não conseguem abrir turmas ou tem que manter salas com poucos alunos e. Franca. muitas pessoas tiveram que recorrer ao ensino particular. a maioria dos alunos advém das classes menos abastadas. e não tem condições financeiras de arcar com os gastos de seus estudos. a alunos que preencherem certas condições estabelecidas em lei. mas por falta de vagas nas universidade federais e estaduais. que abre créditos para que o aluno consiga se formar e venha a pagar com um prazo de carência para começar a trabalhar na área. Isso gera um problema financeiro nas instituições de ensino superior. No entanto. essas alternativas são tímidas e precisam de incrementos. 16(2): 181-194. 190 Serviço Social & Realidade. O Governo Federal tem tentado resolver esta questão com a criação e implantação de programas de auxílio ao estudante de ensino superior. segundo dados do censo da educação superior do ano de 2000. pois ao mesmo tempo em que se tem um crescimento do número de vagas no ensino superior privado. Apenas 12% da população brasileira. Mas.fenômeno da privatização branda ou pseudoprivatização. Isto mostra uma total exclusão de muitas pessoas do ensino superior. enfrentam altas inadimplências. como o FIES. a título gratuito. Também. Para continuarem seus trabalhos muitas universidades precisam prestar serviços de pesquisa de interesses de empresas privadas. Nos últimos anos. ainda. em razão do crescimento do ensino médio fez nascer uma procura maior pelo ensino superior. Isto é preocupante. Isto gerou uma situação complicada. tem-se vagas ociosas que não são preenchidas. que poderão ser realizados por Estados e Municípios e pela iniciativa privada. que oferece bolsas de estudo no ensino superior. estaduais e municipais. bem como. pois a realização da pesquisa e da ciência é de extrema importância para a garantia do crescimento econômico e social do país. é necessário ações para popularizar os cursos superiores. para o fortalecimento de sua independência frente a outros povos. Por isso.

The municipal politics of support to the student of higher education and their social benefits. n. verifying the possibility of performance of the Municipal district in the support to the higher education student. 2007 . Considerar-se-á a importante contribuição do Ensino Superior no processo de formação de agentes sociais críticos. através de iniciativas inclusivas para a inserção de cidadãos ao ensino superior é um desafio a ser perseguido.. p. cujo resgate resultará na edificação de cidadãos críticos e propositivos de uma nova ordem social. 181-194. por parte dos segmentos Federais. M. P. É importante formar uma consciência política de que os gastos em educação são investimentos prioritários e eficazes. mas de precipitar amplas reflexões acerca da realidade social. REZENDE. Fomentar e implantar projetos integradores deve se constituir em objetivos dos municípios responsável. pois muitos são os benefícios trazidos pela expansão do ensino superior para a sociedade. Investir em educação é o primeiro passo para o crescimento econômico de qualquer nação. M. • ABSTRACT: The present article has the objective to analyze the education competences of the Municipal district. Daí o desabafo: não será uma forma de emperrar a formação de agentes sociais o não investimento no Ensino Superior? Não nos cabe. bem como dos poderes instituídos. nesse momento. R. pois melhora o padrão de vida da população. tecer juízos de valores nessa ordem. 2. with own resources or through the adoption of programs of fiscal benefits addressed to the private initiative. capazes de romper com as simplistas opiniões apressadas.Considerações Finais O trabalho trouxe a discussão sobre a necessidade do Município de atuar mais diretamente em ensino superior. Fomentar a discussão nessa linha é urgente e exige não menos que o tenaz esforço do segmento. 16(2): 181-194. stimulating companies to sponsor 191 Serviço Social & Realidade. constitutionally foreseen and regulated by the Law of Guidelines and Bases of the National Education. mas trazer a luz perguntas a serem respondidas no caminhar da história. Serviço Social & Realidade (Franca). DONADELI. 2007. Cabe-nos a função de potencializar o destaque da importância de investimentos. through educational politics of concession of scholarships. 16. Franca. Estaduais e Municipais. H. v. Ampliar a oferta de oportunidades.

8 v. Social Benefits. 22. O. ed. 1993. I. FERREIRA FILHO. 2000. J. 1995. São Paulo. São Paulo: Saraiva. 1998. Franca. G.academic students. Higher Education. Educational Politics. MARTINS. E. G. 5-33.. The article does not just concern about the juridical analysis of the theme. F. São Paulo: Saraiva. B. 1998. C. 2007 . HORTA. São Paulo: Brasiliense. Curso de direito constitucional. R. In: L. M. B. • KEYWORDS: Municipal Competences. A. 1997. n. 1961. DURHAM. Brasília: UNESCO. 192 Serviço Social & Realidade.. J. 16(2): 181-194. Direito à educação e obrigatoriedade escolar. M. São Paulo: Melhoramentos. Curso de direito constitucional positivo. LOURENÇO FILHO. but it also seeks to verify the social benefits resulting from the implantation of those actions. MOTTA. jun. GOLDEMBERG. 104. A educação na reforma constitucional. Comentários à constituição do Brasil. J. E. As constituições brasileiras: análise e proposta de mudança. ed. 18. SILVA. D’Ávilla (Org. São Paulo: Malheiros.). in the formation and training of lacking youth and adults for the economical and cultural growth of the society. Direito educacional: educação no século XXI. Cadernos de Pesquisa. p. Referências BASTOS. Educação comparada. S.

• O Papel do CRAS na Efetivação da Seguridade Social enquanto Sistema de Proteção Social Trazer à discussão o tema Seguridade Social não é algo fácil. Mestranda em Serviço Social pela UNESP – Franca. garantindo os direitos dos usuários. com universalidade e equidade no atendimento. dada a sua complexidade e amplitude. a da pobreza. estando. Conselheira Municipal de Assistência Social. sob responsabilidade primeira do Estado. a difícil realidade da população residente na área de abrangência deste. desta forma. A Constituição Federal de 1988 instituiu a Seguridade Social. 2007 . que sofre uma cruel forma de violência. Possibilitando. composta pelas políticas de Assistência Social.O PAPEL DO CRAS NA EFETIVAÇÃO DA SEGURIDADE SOCIAL ENQUANTO SISTEMA DE PROTEÇÃO SOCIAL Edilene LOPES* • RESUMO: Este artigo discute. No campo da Previdência Social. que se apresenta de forma velada. PALAVRAS-CHAVE: Seguridade Social. Direito. fora da cobertura previdenciária que lhes assegura proteção em casos de doenças e/ou acidentes de trabalho. Sendo as políticas de assistência social e saúde independentes de contribuição. porém. Proteção Social. no município de Lins/SP. seguro desemprego e a aposentadoria. Saúde e Previdência Social. tal debate se faz necessário. 16(2): 195-206. E aponta a necessidade de que se efetive a Seguridade Social enquanto sistema de proteção social. 195 Serviço Social & Realidade. ainda. a partir da realidade vivenciada pelos profissionais que compõe a equipe técnica mínima do CRAS. Membro do grupo de estudos “Teoria Social de Marx e Serviço Social” (UNESP/Franca). No entanto. parte significativa da população brasileira não possui registro contratual na carteira de trabalho. devendo este ordenar as ações. É inegável que a instituição da Seguridade Social constituiuse em um avanço no campo das políticas públicas. o controle social através da participação da população usuária nos Conselhos. * Assistente Social da Prefeitura Municipal de Lins. Franca. sua instituição não garante sua efetivação enquanto sistema de proteção social.

2007 . nos anos de 1998 e 2002. de 19 de Setembro de 1990. 196 Serviço Social & Realidade. p. não raramente. 16(2): 195-206. contribuindo para agravar a dificuldade de absorção de novas pessoas no mercado de trabalho. 2005. 2º . A Lei n. além de serem desenvolvidas de forma desarticulada com as demais políticas públicas e sociais. Franca. Essa dificuldade decorre também da redução dos benefícios dos que já se aposentaram. (SALVADOR. ainda. que regula as ações de saúde a nível nacional. que. por restrições ao acesso e. no dia-a-dia da prática profissional nos deparamos com ações que não tem se demonstrado eficientes e eficazes para suprirem as necessidades apresentadas pela população. prioritariamente.080. O Estado que prejudica o trabalhador pela irregularidade das contribuições previdenciárias é o mesmo que dedica poucos recursos para a fiscalização do mercado de trabalho. estabelece que: Art. são assim forçados a buscar um complemento de renda pelo retorno ao trabalho. sendo o valor dos benefícios reduzidos. por induzir uma maior permanência dos trabalhadores em atividade. 34).Com a reforma da Previdência Social. 8. No que diz respeito à saúde. além de retardar a aposentadoria. favorecendo a permanência destes no mercado de trabalho. Outro efeito perverso ocorre sobre as remunerações: a maior oferta de mão-deobra tende a provocar uma remuneração média menor. os direitos dos trabalhadores foram restringidos. A ação da política de saúde deve voltar-se. § 1º .A saúde é um direito fundamental do ser humano. proteção e recuperação. contribuindo. para a prevenção de doenças.O dever do Estado de garantir a saúde consiste na reformulação e execução de políticas econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção. dessa forma. devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. A reforma de Previdência brasileira de 1998 para os trabalhadores vinculados ao RGPS se caracterizou pela redução dos benefícios. para a rede básica.

3º . No campo da assistência social ocorreu um novo avanço. por outro. ao tratar dos benefícios. se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico. colocada no horizonte possível da Assistência Social. o trabalho. Serviço Social & Realidade. Esta estabelece em seu Capítulo I – Das Definições e Dos Objetivos. a educação.A assistência social. que provê os mínimos sociais. Franca. a renda. o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais. por força do disposto no artigo anterior. Dizem respeito também à saúde as ações que. com o provimento dos mínimos sociais e atendimento às necessidades básicas da população usuária. das empresas e da sociedade.§ 2º . os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País. produz uma tradução perversa das suas diretrizes. se de um lado garante o atendimento universalizado. Art. 22). realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade. o saneamento básico. pois. o meio ambiente. que: Artigo 1º . que apontam uma perspectiva de direitos sociais. 2007 197 . não garantindo direitos mínimos. Isso põe em risco toda a proposta de Seguridade Social. nesta área. entre outros. da família. Parágrafo Único. p. embora um pouco tardiamente. ao longo das últimas décadas. para garantir o atendimento às necessidades básicas. 16(2): 195-206. foram seletivas e focalistas. o transporte. É realmente um deslocamento da questão (SPOSATI. Os recursos financeiros destinados foram insuficientes e sendo. Porém. a alimentação.O dever do Estado não exclui o das pessoas.993. é política de Seguridade Social não contributiva. direito do cidadão e dever do Estado. reduzidos. mental e social. as políticas públicas. a moradia. com a promulgação da Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS. A Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) é contraditória. Se de uma parte afirma princípios. de outra. em 1. 1997. a LOAS demonstrou-se contraditória.A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes.

Ora apresentados como “privilégios”. redução e supressão em todas as latitudes onde o grande capital impôs o ideário neoliberal. voltadas à miséria absoluta. apenas amenizando a situação de vulnerabilidade das famílias atendidas. As famílias devem cumprir uma agenda mínima de compromissos. os direitos sociais foram objeto de mutilação. com a inscrição e/ou manutenção dos filhos na escola e cuidados básicos com a saúde. apenas reiterou a receita: a governabilidade do país. quando houve a intensificação da política Neoliberal do Estado. Estes objetivam. Podemos tomar como ponto referencial a década de 1990. e sobretudo postos como “financeiramente insustentáveis”. sacramentada no governo FHC com o desmonte do Estado. o conjunto dos direitos sociais. através das privatizações. o Brasil de FHC. 2007 . o que ocorreu foi um desmonte gradativo. liberal Marshall). Ao longo dos anos que se seguiram à promulgação da LOAS. das políticas que integram a Seguridade Social. seletivas. Franca. No campo da política pública de assistência social. eles podem até mesmo travar princípios elementares da sociedade de classes. ora grosseiramente mistificados como “injustiças”. O Estado transferiu sua responsabilidade para a sociedade civil. aliás.Os Programas de transferência de renda ainda estão aquém do proposto. indiretamente. São estes direitos os que. diretamente oneram o capital. valorizando a iniciativa privada. a promoção da família com acompanhamento e desenvolvimento de ações sócio-educativas para que busquem sua emancipação econômica e social. são incentivadas ações com a participação de voluntariado e com caráter solidário. como é facilmente depreensível. como o demonstrou o teórico “clássico” da cidadania moderna (o. As políticas sociais desenvolvidas são focalistas. pelo Estado. estando subordinadas aos interesses do capital e desenvolvidas de acordo com a estrutura econômica e política. como é o caso do Programa Bolsa Família. 16(2): 195-206. redução dos gastos públicos e com o enfraquecimento das políticas públicas. quanto a isto. além do repasse financeiro. incluindo alternativas de geração de renda. a partir do Governo Collor. do Governo Federal. 198 Serviço Social & Realidade. O alvo central do ataque do projeto político conduzido pelo primeiro governo FHC foi.

de 2004 e da Norma Operacional Básica – NOB. em determinados momentos. ainda. há de se reconhecer que este tem possibilitado um debate mais claro em torno da política de assistência social. dando a esta. através de Programas que atendiam. está a implantação dos Centros de Referência da Assistência Social – CRAS. Esta política perpetuou-se no governo do atual presidente. A implantação do SUAS como sistema único supõe unir para garantir. apesar de ser um avanço. De acordo com o estabelecido através da Política Nacional de Assistência Social – PNAS. 2007 199 . de 2005. não levando em conta a realidade local e a real necessidade da população atendida. a partir de 2005. p. é a implantação do Sistema Único da Assistência Social – SUAS. longe do ideal. 2000. sendo desenvolvidas pelos Estados. 2004.conforme a equipe de FHC. embora estejam. não possuíam uma direção única. Dentre as ações previstas em sua criação. o que implica em: romper com a múltipla fragmentação programática hoje existente. 81). Porém.2). Municípios e União de forma fragmentada e direcionada. o SUAS. não se dá de forma pronta e acabada. este vem ordenar as ações no campo da assistência que. com a fragmentação das esferas de governo e o paralelismo de gestão. dependia fundamentalmente da flexibilização desses direitos (NETTO. 16(2): 195-206. Franca. aos interesses de cada esfera de governo. passando por um período de construção e se faz necessário o seu aprimoramento contínuo. Um novo avanço que se apresenta. com a fragmentação das ações por categorias ou segmentos sociais sem compromisso com a cobertura universal e a qualidade dos resultados (SPOSATI. Porém. p. em muitos casos com duplicidade de ações. Sua proposta de implantação vem desde a promulgação da LOAS e da I Conferência Nacional de Assistência Social. até o momento. um tratamento diferenciado dos governos anteriores. Luiz Inácio Lula da Silva. Os recursos destinados a assistência social têm aumentado gradativamente. Serviço Social & Realidade.

16(2): 195-206. Da mesma forma. 11). Dentre as ações previstas para o CRAS. principalmente a de saúde. é que grande parte da população usuária desconhece a existência do SUAS e não tem clareza do papel do CRAS. O CRAS possibilita o atendimento descentralizado. bem como diagnóstico. algumas das demais secretarias que integram a administração pública municipal. que tem 200 Serviço Social & Realidade. como é o caso do município de Lins. interior de São Paulo. Sendo que. bem como as políticas públicas com as quais se faz necessário a interface com a política de assistência social. entre outros. é fundamenta a identificação destas através de diagnóstico previamente realizado. não demonstram clareza sobre o assunto. Passado um ano. envolvendo gestores e equipe técnica. ao menos na realidade vivida nos municípios de médio e pequeno porte.O CRAS é a unidade estatal responsável pela efetivação da proteção social básica. pobreza. do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários” (Orientações Técnicas. p. dentro das próprias comunidades e/ou Bairros. para isso. prevista na PNAS 2004. a fim de “prevenir situações de risco por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições. Embora o SUAS seja algo previsto desde a promulgação da LOAS e da I Conferencia Nacional de Assistência Social. Os debates sobre o tema tem se dado no espaço de execução da política pública. não se estabeleceu um debate amplo sobre o tema. pouca atenção foi dada ao assunto pelos veículos de comunicação. A isso se aplica o Judiciário e Conselho Tutelar. com ações propostas a partir da realidade apresentada e real necessidade da população usuária. o que se mostra. As ações estão voltadas para pessoas e/ou famílias em situação de vulnerabilidade social. Franca. orientação e encaminhamento de famílias em situação de vulnerabilidade para inclusão nesses. está o acompanhamento prioritário às famílias atendidas pelo Programa Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada – BPC. não havendo divulgação efetiva e o esclarecimento necessário à sociedade no momento de sua implantação. Sua instalação deve se dar em áreas de maior concentração de vulnerabilidade social. não atingindo os demais setores e agentes sociais. desemprego. 2006. à época. seja em razão do rompimento e/ou fragilização dos vínculos afetivos familiares ou comunitários. MDS. 2007 . o qual tomamos como exemplo.

assim como o SUAS. dentro do estabelecido pela PNAS/2004 e a NOB/2005. seja por falta de higienizacão pessoal e habitacional. Porém. que gera um custo muito alto. através de diagnósticos que não acontecem da noite para o dia. a implantação do CRAS. O CRAS. encontra-se em processo de construção.um papel importante no desenvolvimento das ações do CRAS na efetivação da proteção social. no qual os municípios tiveram que se adequar. perda de vínculos afetivos e comunitários. ainda. É necessário o conhecimento da população alvo. além de casos de violência intrafamiliar. muitas dúvidas sobre o papel do CRAS por parte dos profissionais que compõe a equipe mínima. analfabetismo. pois existem. no município de Lins/SP. Outro fator é a deficiência na composição da equipe mínima necessária. quase 100% destes estão relacionados a saúde. alcoolismo e uso de outros tipos de substancias psico – ativas e. no dia a dia das ações desenvolvidas pelo CRAS. tem nos chamado a atenção o fato de que. dentre os casos encontrados. Na interface que se estabelece entre a Assistência Social e a Saúde para encaminhamento e acompanhamento dos casos. principalmente. doenças ocasionais. as ações a serem desenvolvidas. com famílias extremamente fragilizadas devido a situação de desemprego. principalmente no que se refere à locomoção dos técnicos. de acordo com a realidade específica apresentada pela população usuária em sua comunidade e/ou Bairro. A implantação do SUAS se estabeleceu. Franca. como um caminho sem volta. através da garantia de direitos. tem levado ao desenvolvimento de ações emergenciais. Entre eles. 2007 201 . Algumas dificuldades como a inadequação na estrutura física dos CRAS. precarizacão da habitação. Temos nos deparado. Definir essas ações não tem sido uma tarefa muito fácil. ausência de moradia ou que vivem em moradias precárias. o que tem ocorrido é que a rede pública de saúde tem-se demonstrado Serviço Social & Realidade. 16(2): 195-206. casos de saúde mental. obviamente. recursos materiais insuficientes e inadequados. para o atendimento e acompanhamento das famílias. A forma como se deu esse processo não levou-se em consideração a estrutura existente e as dificuldades que estes enfrentaram e/ou ainda enfrentam para sua adequação ao novo sistema que traz uma série de compromissos que os municípios devem cumprir. cabendo a cada município definir.

a fim de reverter o quadro. com um quadro mais leve até estágios mais profundos. O município conta com o Programa de Agentes Comunitários de Saúde. ocasionando demora no primeiro atendimento e/ou longo prazo nos retornos. a fim de evitar que o sofrimento da família e do doente se arraste. Muitas sequer tem 202 Serviço Social & Realidade. a fim de descortinar o pano de fundo do problema que se apresenta e seus desdobramentos. estão próximos a estas e conhecem sua realidade por morarem também dentro do Bairro e ou comunidade. uma vez que não dispõe de tempo e recurso necessário para um acompanhamento mais próximo. o que contribui para o agravamento do caso. 16(2): 195-206. os casos encontrados variam desde depressão. desenvolvendo um papel fundamental na detecção dos casos que requerem uma atenção especial por terem o vínculo estabelecido com as famílias. Devido ao fato de terem sido submetidos a freqüentes internações em instituições psiquiátricas. muitos dos casos são tratados de forma estanque. muitos dos pacientes ficam ociosos. além de quadros de esquizofrenia. com isso. Sem dúvida alguma. uma vez que realizam visitas periódicas. Nesses casos. Quando não há um preparo adequado da equipe. Muitas dessas famílias apresentam-se com graves comprometimentos na saúde de seus membros que poderiam ter sido evitados se fossem tratados e/ou encaminhados de forma adequada dentro da rede básica. O número de profissionais disponíveis não tem sido suficiente.ineficiente e ineficaz para suprir a demanda e sanar os problemas apresentados. em muitos casos. A recusa acaba por ser aceita pelos profissionais que realizam o atendimento ambulatorial. O primeiro atendimento dado é de fundamental importância para a orientação e encaminhamento adequado. Franca. considerados como principais agentes dentro da rede básica de saúde. 2007 . No que diz respeito especificamente à Saúde Mental. Porém. essas famílias tem seu quadro agravado pela questão social apresentada e verificada através de estudo social realizado pela equipe do CRAS. sem uma avaliação mais profunda. estes agentes tem se demonstrado despreparados no que diz respeito aos encaminhamentos que se fazem necessários em alguns casos que apresentam uma maior complexidade. sem solução. alguns pacientes se recusam ao atendimento através do Hospital Dia. a equipe do CRAS tem se deparado com uma política de Saúde Mental ineficaz para o atendimento que se faz necessário.

apesar dos direitos estabelecidos e do trabalho dos profissionais para efetivação destes. marcada pela luta diária na busca dos mínimos necessários à sua sobrevivência. técnicas de dominação e lutas pela emancipação (IANNI. 16(2): 195-206. 170) O quadro que encontramos no contato diário com a população usuária tem demonstrado que. mas não só. A garantia de direitos passa efetivamente pela informação. A desigualdade social encontrada dentro do território de abrangência do CRAS. conhecidos por terem sido. À medida que se desenvolvem as forcas produtivas e as relações de produção próprias do capitalismo.conhecimento do direito ao atendimento gratuito. historicamente. ou chegam a deixar de suprir outras necessidades para adquirirem o medicamento de que necessitam. 2004. locais de violência. 2007 203 . lhe dificultando até mesmo a possibilidade de conseguir um emprego formal. as formas de alienação. um longo caminho a ser percorrido para que a Seguridade Social se efetive de fato enquanto sistema de proteção social. chegando a não realizar o tratamento de forma adequada pela ausência de medicamentos. ainda. na busca de soluções e acompanhamento do trabalho das autoridades Serviço Social & Realidade. o estigma de viver nesses Bairros. É necessário o resgate da organização dessas comunidades pobres em torno dos problemas que são comuns às suas famílias para discussão dos mesmos. Não podemos nos esquecer que uma das características da Seguridade Social à partir de sua instituição é possibilitar o controle social. ainda. em relação aos demais setores da sociedade local é notória a olhos vistos. cobrando sua devida aplicação a quem de direito. existe. em seus usos crescentemente político-econômicos e socioculturais. desenvolvem-se as formas e as técnicas de violência. tráfico. prostituição e miséria. antes de mais nada. através da participação da população nos Conselhos instituídos. carregando. desenvolvem-se as diversidades e as desigualdades. Essa população vive uma dura realidade. À medida que se desenvolvem a ciência e a técnica. p. Franca. Para que a população lute pela garantia desses. precisa. conhecê-los e os profissionais que atuam no CRAS tem um importante papel nesse sentido.

constituídas. And it points the need of effectiveness of the Social Security while it is a system of social protection. vítimas da mais cruel forma de violência: a da pobreza. KEYWORDS: Social Security. that suffers a cruel form of violence. p. e elas o dizem muito bem. muito melhor do que eles. em nossa concepção. invalida esse discurso e esse saber. Right. a isto inclui a adequada estruturação dos CRAS. Há que se garantir sua efetiva representatividade. Poder que não se encontra somente nas instancias superiores de censura. Franca. 16. elas sabem perfeitamente. 2. A falta de uma política pública de qualidade. o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber. E. that comes in a veiled way. proíbe. in the municipal district of Lins/SP. na criação e desenvolvimento de políticas públicas de qualidade. • ABSTRACT: This article discusses. muito sutilmente em toda a trama da sociedade (FOUCAULT. 2007 . The hole of CRAS in effectveness of the social security while a system of social protection. Ora. claramente. the one of the poverty. com ações que possibilitem o protagonismo da população usuária. n. LOPES. v. based on the reality lived by the professionals that compose the minimum technical team of CRAS.71). • 204 Serviço Social & Realidade. bem como o desenvolvimento de ações que possibilitem a ampla discussão do sistema de proteção social. As famílias residentes na área de abrangência do CRAS e destinatárias das ações deste. 16(2): 195-206. Mas existe um sistema de poder que barra. Serviço Social & Realidade (Franca). the difficult reality of the resident population in the mentioned area. a fim de que se tornem de fato espaços de convivência e crescimento. sejam elas municipais ou não. mas que penetra muito profundamente. 2007. Social Protection. 1972. Necessário se faz que o Estado desenvolva seu papel. 195-206. a fim de que os usuários da Assistência Social se tornem de fato protagonistas na luta por sua efetivação. p. que garanta o provimento dos mínimos sociais necessários à uma vivencia digna é um desrespeito a população usuária da Assistência Social. são.

81. Cortez. São Paulo. E. Módulo 01. LESBAUPIN. S. ______. Conselho Federal de Assistência Social. Exclusão socioeconômica e violência urbana. Questão Social e Serviço Social. M. Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS. violência e terrorismo. G. n. Capitalismo. ______. 8. 11. 1. O Desmonte da Nação: Balanço do Governo FHC./dez. Sociologias. 2004. 2 (2005): Suplemento – Brasília/DF: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. ed. Crise capitalista contemporânea e as transformações no mundo do trabalho. Serviço Social & Realidade. 169-184. Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação. FOUCAULT. n. R. p. p. 30: Subsídios à III Conferência Nacional de Assistência Social. Constituição Federal da República Federativa do Brasil. Política Nacional de Assistência Social – PNAS/2004. Curso de Capacitação em Serviço Social e Política Social. jul. ANTUNES. Franca. ano 4. 2005. Norma Operacional Básica – NOB/SUAS.Referências ADORNO. O. 2005. Porto Alegre. Rio de Janeiro: Graal. CADERNOS ABONG. 49-152. Petrópolis: Vozes. Brasília/DF: CEAD-UnB. 2002. 1997. 1993. Implicações da reforma da Previdência sobre o mercado de trabalho.. Petrópolis: Vozes. Marco 2005. Crise Contemporânea. SALVADOR. (Org). n. p. ______. Reflexões sobre a violência. 2000. 84-135. p. ano XXVI. 2001. Serviço Social e Sociedade. 1993. n. nov. SOREL. 16(2): 195-206. IANNI. nov. Tradução Orlando dos Reis. REVISTA INSCRITA n. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2007 205 . I. 1999. 1988. 7-39. 1979. Microfísica do poder. BRASIL. CADERNOS DE ESTUDOS DESENVOLVIMENTO SOCIAL EM DEBATE.

SPOSATI. et al. 77. 2007 . São Paulo: Cortez. p. 2004. São Paulo. 206 Serviço Social & Realidade. ______. A. YASBEK. 1989. mar. M.11-27. Franca. 16(2): 195-206. Ano XXV. n. São Paulo: Cortez. Serviço Social & Sociedade. Os Direitos (dos Desassistidos) Sociais. As ambigüidades da assistência social brasileira após dez anos de LOAS. 1991. C. Assistência Social na Trajetória das Políticas Sociais Brasileiras: uma Questão em Análise.

2007 .com. países em desenvolvimento como o Brasil. Mestre e Doutora em Serviço Social/PUCRS. considerados pelos organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional – FMI e Banco Mundial – BM. excludente que vem produzindo legiões de pessoas sem acesso as condições mínimas de terem sanadas as suas necessidades básicas. a fluidez com que vem sendo tratada. pela fome.dfd@gmail. E-mail: uni. • Apresentação A pobreza cresceu assustadoramente no período de 1997 a 2000. Professora e Pesquisadora do Mestrado em Políticas Sociais e Cidadania-UCSAL. Ou seja. Estes não mais e tão-somente circunscritos a domínios territoriais. portanto. contudo a adoção de uma definição especifica. mas existentes também naqueles países considerados como desenvolvidos. Pós-doutoranda do Centro de Estudos Sociais-CES/Universidade de Coimbra. Pobreza. parte da discussão que circunda essas categorias. Em 1997 havia 204 milhões de pobres e em 2000 havia 220 milhões. que se consolida no século XXI. 16(2): 207-234. ou naqueles em situações mais complexas. 16 milhões de pessoas ficaram pobres ao longo deste período. Com base neste argumento este texto deseja contribuir com a reflexão sobre a pobreza como violação dos Diretos Humanos numa sociedade em que as bases de produção e reprodução da vida social se assentam em patamares que perpassam pela insegurança. étnicos e ou culturais. à globalização do risco social. O texto busca apresentar um ensaio reflexivo sobre uma prática recorrente de violação dos direitos humanos através das décadas.DIREITOS HUMANOS E POBREZA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA: NÃO HÁ EQUAÇÃO POSSÍVEL Denise Freitas DORNELLES* • RESUMO: A pobreza não pode ser paisagem das ruas nas grandes cidades. Contemporaneidade. os miseráveis. sem. PALAVRAS-CHAVE: Direitos Humanos. mantendo. Práticas Sociais e Interdisciplinaridade onde desenvolve pesquisas sobre Políticas Sociais e Programas de Transferência de Renda (apoio CNPq) do grupo de Pesquisa Questão Social e Políticas Sociais. por exemplo. Globalização. pela miséria. Franca. Refletir sobre a contemporaneidade de uma prática cruel. Membro fundadora da ONG Comunidade Morada da Paz (Triunfo/RS) e do Instituto Ekos de Ecologia Humano Social (Salvador/BA). Pesquisadora responsável pela Linha de Pesquisa Assistência Social. Coordenadora do Grupo Mãos Dadas de Estudos sobre O Pensamento Social Contemporâneo. 207 Serviço Social & Realidade. como afirma o economista e sociólogo argentino Bernardo Kliksberg em seu livro “Desigualdade Social na América * Assistente Social. Neste texto será explicitada.

com grande concentração desta população nas zonas urbanas das grandes cidades. o que já era denunciado há muito tempo por analistas e estudiosos do tema e por Organismos Não Governamentais. O IPEA. por exemplo. O Brasil. por exemplo. Franca. por parte do governo. 16(2): 207-234.5 milhões de brasileiros). 2006).1% é composta pela população negra em relação a 20. ocupando o penúltimo lugar dentre os demais países.5% de brancos. 61% são mulheres que estão em ocupação precária em relação a 54% de homens nas mesmas condições. 2005. órgão do Ministério do Planejamento. dados publicados pelo Radar Social.7 milhões de pessoas). Para maior aprofundamento ver Kliksberg (2003).6% em relação aos 10% das mulheres brancas e agudiza brutalmente em relação à mulher jovem e negra alcançando patamares de 25% esta 208 Serviço Social & Realidade. é uma pesquisa do Governo e há disponibilizado em seu site dados que vão até 2003. Apenas 1% da população é composta de brasileiros ricos (aproximadamente 1. 2007 . BEHRING & BOSCHETTI.9 milhões de brasileiros) de extremamente pobres e indigentes que sobrevivem com uma renda familiar per capita inferior a ¼ do salário mínimo (IPEA.Latina”. segundo dados do IPEA se constatem a existência de pequenos avanços no que diz respeito à exploração do trabalho infantil e a expectativa de vida. o Radar Social. com 13.7% (equivalente a aproximadamente 53. Em relação ao desemprego a mulher negra apresenta uma desvantagem. neste caso as mulheres negras representam 41%. as ONG como o IBASE. o restante da população se subdivide entre 31. a desigualdade e a pobreza. Do patamar de pobres e indigentes que tentam sobreviver 44. são 1% que se apropria da mesma soma de rendimentos familiares distribuída entre os outros 50% (aproximadamente 86. Os indicadores do Radar Social interessam na medida em que desvela. são persistentes.9% (21. é um dos países mais desiguais do mundo. Se tomarmos como exemplo o caso Brasileiro embora. Orçamento e Gestão desenvolveu um interessante documento que tem como objetivo monitorar a condições de vida no Brasil. ou seja. que somos um país com profundos paradoxos e profundamente desigual.9 milhões de brasileiros) de pobres e 12. assim como não é diferente em outras localidades do mundo.

(VAN PARIJS.gov. era um gesto de caridade e humildade.diferença1. os hábitos culturais e os modos de vida. Política Social: Fundamentos e História. Diante desse contexto a pobreza. 1 Serviço Social & Realidade. jovem e negra. 2006.br/anodamulher/destaques/relatorio_cd. Na Idade Média ser pobre (período compreendido entre o século V ao XV) tinha um significado religioso muito forte. Variam. ela é feminina. Brasília/DF: IPEA. Behring & Boschetti. podendo ser definido de forma genérica como a situação na qual as necessidades não são atendidas de forma adequada. 1997. Cortez. Ser pobre era estar mais perto da chamada salvação do espírito. como se não bastasse o elenco de elementos complexos que a envolve ela é também familiar e geracional2. e.] Pobreza é um fenômeno complexo.. também. A pobreza Para Van Parijs (1997) e Sposati (1999) associar a pobreza ao ponto de vista econômico é uma atitude minimalista e restrita. SP. set. 2006). Senado Federal.. 2000. ver estudo de Dornelles intitulado Políticas Sociais Compensatória ou Emancipatória? – enviado e aprovado para apresentação no Fórum de Políticas Sociais das Universidades do Mercosul – FOMERCO (Aracajú.. 2005. PAUGAM.. a tal ponto que Os dados aqui apresentados podem ser encontrados nos seguintes documentos: IPEA.] A pobreza na Idade Média é incomparável à pobreza encontrada nas sociedades modernas. 1950/2004. no caso do Brasil. Franca. 2007 209 . p. 185-186. Rocha (2006. p.senado. o Cristianismo estava em franco crescimento e a ideologia da Igreja predominava no consciente coletivo daquela sociedade. Radar Social.1995.asp. argumenta que a “[. pois ela é urbana. 2003) Serge Paugam refere que [. Relatório da Comissão Externa da Feminização da Pobreza e estão disponível em http://www. conforme o meio ambiente. POLANYI. [. 16(2): 207-234.]” sendo necessário ponderar o que consideramos adequado em termos de condições de vida. onde nesses atos praticavam-se os ensinamentos de Cristo.. 9).. tem identidade. 2 Para esta reflexão sobre a face da pobreza e o papel das transferências de renda. CASTEL. MAUSS. Nessa época.

e no povo comum estavam incluídos todos. p.. A pobreza no campo aumentou significativamente. e. o povo em geral. acontece a Revolução Agrícola que foi caracterizada pelos cercamentos que os grandes produtores rurais fizeram em suas terras com o objetivo de aumentar a produção agrícola e conseqüentemente. Quando houve a Revolução Industrial. [. Com isso. resume em uma frase o impacto dessa revolução naquela sociedade: “[. [. ‘pobre’ era praticamente sinônimo de ‘povo comum’.é sempre difícil comparar a pobreza entre sociedades que não atingiram o mesmo nível de desenvolvimento econômico. Tal revolução foi considerada um marco no fim da transição entre o feudalismo e o capitalismo.] os cavalheiros da Inglaterra julgavam pobres todas as pessoas que não possuíam renda suficiente para mantê-las ociosas. (PAUGAM. menos as classes fundiárias.. acumular maior capital. mas não apenas eles. o Estado se viu na obrigação de criar uma lei que protegesse os operários das indústrias que viviam em condições precárias de vida. No período que antecede a Primeira Revolução Industrial. iniciou-se um período de intensas transformações na tecnologia agrária. Assim.. 2003. Até então. Naturalmente isto incluía os indigentes.]. a pobreza aumentou significativamente. o emprego em uma indústria era vista como uma ocupação temporária.. se e quando sofriam necessidades. Polanyi (2000. p.]. às vezes.] A racionalização da agricultura desenraizou inevitavelmente o trabalhador e solapou a sua segurança social”... 116). Daí o termo ‘pobre’ significar todas as pessoas que passavam necessidades e. 49) Polanyi (2000.. 16(2): 207-234. p. 2007 . pois houve uma privação da agricultura familiar e isso acarretou na extinção de sua renda monetária. também conhecida como Lei dos Pobres ou Elisabetana possuía como definição de pobreza: ‘todas 210 Serviço Social & Realidade. de compará-la entre regiões cujas condições geográficas são desiguais. onde as máquinas reinaram sobre os trabalhadores rurais e impuseram transformações da dinâmica social da Europa. Em 1601 a Poor Law. 110) escreve que [.. Franca.

é feita por Karl Polanyi.. Helen Kellogg Institute for International Studies. nem se concedeu qualquer assistência sob forma de abono salarial. Em 1795. o indivíduo recebia assistência mesmo quando empregado.) Roberto daMatta. incluindo os indigentes’. os velhos. Indiana: University of Notre Dame. se seu salário fosse menor do que a renda familiar estabelecida pela tabela. 48) 3 As “Poor laws” inglesas eram um conjunto de provisões legais estabelecidas na Inglaterra na época da revolução industrial para reduzir os efeitos mais extremos da pobreza. os enfermos e os órfãos. nunca se pretendeu. Serviço Social & Realidade. os pobres eram forçados a trabalhar com qualquer salário que pudessem conseguir e somente aqueles que não conseguiam trabalho tinham direito a assistência social.as pessoas que passavam necessidades. e Christopher Dunn. [..] Sob a lei elisabetana. (Rio de Janeiro: Campus. Durante a vigência da Speenhamland Law. 16(2): 207-234. 101) De acordo com Polanyi (2000). [. Notre Dame.as origens da nossa época. no contexto do capitalismo "selvagem" daqueles anos. [. A análise das polêmicas relativas a estas leis. Roberto DaMatta. em geral e prioritariamente... Cf. em um texto recente. O valor desse rendimento era condicionado ao preço do pão. 1995. Behring & Boschetti (2006) escrevem que essas ações assistenciais que recebiam deveriam ter uma contrapartida. 2006. reconstrói um pouco da história das idéias da pobreza na Europa e no mundo ibérico. Ao comparar a Poor Law e Speenhamland Law3.. p. Franca. as chamadas Leis Elizabetanas tinham como função a manutenção da ordem. p. 2007 211 . essas ações garantiam auxílios mínimos (como alimentação aos pobres reclusos nas workhouses (casas de trabalho).] os pobres “selecionados” eram obrigados a realizar uma atividade laborativa para justificar a assistência recebida” (BERIHNG & BOSCHETTI. Polanyi afirma que: [.. Associado ao trabalho forçado. working paper #10).] aos quais se incluíam... embora a Speenhamland Law de 1795 fosse a menos coercitiva delas. 60 p (Democracy and social policy series. On the Brazilian urban poor an anthropological report. 1980. a Speenhamland Law garantia uma renda mínima àqueles que não podiam trabalhar ou estavam desempregados. em A grande transformação .] (POLANYI. 2000.

100).Eram leis coercitivas4. excludente: “NÃO SER RICO”. p. 2000. por exemplo. mas justamente pelas péssimas condições de trabalho nas indústrias. Em períodos pré-Revolução Industrial e durante a Revolução Industrial que vai de 1662-1834. 284) previa o aumento progressivo dos pobres por causa do crescimento industrial. Polanyi faz uma interpretação interessante. O termo pauperismo surgiu no século XIX na Inglaterra e significava o empobrecimento em massa da população não por falta de trabalho. “[. 4 212 Serviço Social & Realidade. fingida: “FAZER-SE POBRE”. Castel (2001). a palavra “pobre” expressa três tipos de carências: “ter pouco”. voluntária: “TORNAR-SE POBRE”. Ver mais sobre a temática em Polanyi (2000). 2001. Franca.] essa lei introduziu uma inovação social e econômica que nada mais era que o direito de viver [. “valer pouco”. Porto: 2006. circunstancial: “ESTAR POBRE”. p. Behring & Boschetti (2006). voltadas para manutenção da ordem social e controle da população mais carente.]” (POLANYI. Ser pobre era sinônimo de ser vagabundo. 2007 . Essa análise leva a refletir sobre a tendência à responsabilização que se impõem aos pobres pela situação em que se encontram. no sistema capitalista. que estabelecia um abono financeiro em complementação ao salário. 16(2): 207-234. sobre tudo da Speenhamland Law. Para Estivil (2003). a pobreza e a desigualdade são crescentes nos países periféricos como os da América Latina. onde a pobreza e a precariedade do trabalho se intensificaram. Villeneuve-Bargemont (apud CASTEL.”. 5 Dicionário de Latim. Em uma sociedade que preza pela acumulação de riquezas... que garantia assistência a empregados que recebiam abaixo de determinados rendimentos ou a desempregados. E afirmava que “o pauperismo é uma ameaça à ordem política e social. Esta carência pode ser estrutural: SER POBRE. “ter pouca sorte”. Cabe destacar que a palavra pobreza vem do latim pauper que significa possuir pouco5.. que tinham como base de compreensão da pobreza associada com a vagabundagem. que existe uma parcela significativa da população mundial que vive marginalizada por não ter um padrão de vida que atenda às suas necessidades básicas. Constata-se.. como já citamos anteriormente sobre o caso do Brasil.

Pobreza moral constata qual a posição social e privação em que se encontra o pobre e questiona a aceitação da pobreza. 6 Serviço Social & Realidade. políticos e culturais. 2006. A importância de sua obra resulta no esclarecimento dos problemas de definição de pobreza e na compreensão proposta dos modos de constituição da categoria pobre e os vínculos que os ligam a sociedade como um todo. em uma determinada sociedade. pobreza moral e pauperismo. Considera-se. relativa e construída socialmente (PEREIRINHA. A pobreza de acordo com Simmel (2005) não pode ser definida tão-somente como um estado quantitativo em si mesmo. que são percebidas em determinado momento histórico. A pobreza é deste modo. Pauperismo é formado pelas pessoas incapazes de sair da sua situação precária. Franca. Para discorrer sobre a temática da pobreza. ou melhor. Disso pode resultar um processo de banalização da pobreza enquanto estrutura e culpabilização do pobre enquanto efeito cultural e moral. Pobreza social abrange tanto a desigualdade econômica como a desigualdade social. mas como uma relação à reação social que resulta de uma situação especifica. tratando-a de modo a considerar os fatores multipolares que lhes são peculiares referindo-se a questões de cunho fundamentais do ponto de vista interpessoal e de seus vínculos sociais abrindo a perspectiva sóciohistórico de análise. portanto a partir desta afirmativa que as formas como cada sociedade. 1999). cada era societal trata a questão da pobreza está permeado por um conjunto complexo de elementos morais. 1996. será utilizado como base o artigo de Sarah Mailleux Sant’Ana. ROCHA.Hobsbawn (2000) caracteriza a pobreza por três conceitos: pobreza social. SPOSATTI. do qual suas análises suscitaram o ponto de partida para o estudo que na época foi denominada de sociologia da pobreza6. Georg Simmel é um sociólogo do século passado. a partir da base teórica proposta por Simmel. intitulado – A perspectiva brasileira sobre a pobreza: um estudo de caso do Programa Bolsa Família. que por muitos anos fez um estudo sobre a pobreza. Com o texto intitulado Les pauvres (Os pobres). 2007 213 . do início do século XX. alcançando a satisfação de suas necessidades básicas. 16(2): 207-234.

considera que: A finalidade desta assistência estaria em mitigar as diferenciações extremas. p.Simmel é enfático em afirmar que a definição de pobreza restrita apenas na carência de provisão de meios. p. 7). Ele observa igualmente que o Estado refere-se ao princípio da obrigação de assistir aos pobres. cabe mais ao doador do que a quem “o recebeu”. Sant’Ana. mas essa obrigação não se traduz em um verdadeiro direito (SANT’ANA. p. 60). de modo que ofereçam menor possibilidade de empobrecimento resultante de fraqueza individual. 85). Deste modo a pobreza é tratada de forma marginal sendo desencadeado o que atualmente se denomina de uma “perversa” inclusão. 88) chama de “assistência”. nesse caso seria destinada a uma faixa da sociedade e teria caráter pessoal. Esta ação coletiva Simmel (2005. 95). limitar-se-ia ao mínimo para preservá-los da degradação física assegurando que recebam aquilo que tem direito. que cobriria apenas uma pequena parcela da população necessitada. diz Simmel. a priori social. em relação aos pobres e a pobreza. Considera-se oportuno e pertinente a abordagem de 214 Serviço Social & Realidade. o que resulta muito mais em uma ação que sustenta aqueles que (ainda) não estão na precariedade sob tutela e uma falsa cidadania. “mas que não recebam demais” (2005. p. Franca. pois desconsidera a interdependência dos fenômenos sócio-economicos-culturais. de falta de oportunidade ou de privações” (2005. A ação coletiva afirma Simmel. “a tarefa de mudar essas circunstâncias. Apenas a coletividade diz Simmel é capaz de mudar as circunstâncias econômicas e culturais fundamentais que provocam a condição de pobreza. 16(2): 207-234. de forma a permitir que as estruturas sociais fundadas sobre estas diferenciações mantenham o status quo social. é relativa porque não corresponde “à relação entre os meios individuais reais. mas aos fins vinculados ao indivíduo. ao fazer uma analise sobre a finalidade da assistência a partir da compreensão proposta por Simmel. é arbitrária e limitada em sua aplicação prática. 2007. 2007 . p. A pobreza. que varia de acordo com o status” (2005. Resultando em uma situação em que o “bem feito” (e não o direito reconhecido).

cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis. 8). 2007 . 16(2): 207-234. a questão da insegurança alimentar. vestuário.. a precariedade habitacional. O “farrapo social”. de gênero. velhice ou outros casos de perda de meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. 1997). et al. A pobreza inclui “[. inciso I da Declaração Universal dos Direitos Humanos: Todo o homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar. É preciso ainda reconhecer que os direitos 7 Reportagem veiculada pela Rede Globo no Jornal Nacional do dia 03/10/2007.. indivisíveis e interdependentes.] falta de autonomia econômica. Muito embora seus elementos podem e não são suficientes para fazer frente à experiência social da pobreza e da precariedade. Direitos Humanos Eu pensava que ser cidadão era ser rico [.. viuvez. p. agora eu sei que ser cidadão é lutar pelos seus direitos. a baixa escolaridade.] Mas. Franca. inclusive alimentação.Simmel sobre a institucionalidade da pobreza. dentre outras” (SANT’ANA. se persistente. 7 Pressupõe-se que adequadas condições de vida sejam aquelas preconizadas no artigo 25. com danos irreparáveis para todo o tecido social. 215 Serviço Social & Realidade. invalidez. no qual a sociedade está se transformando como afirma (SALAMÁ. ela é geradora de um processo de desqualificação pessoal. 2007. doença. coletivo e. Esse rol de carências leva a crer que a pobreza não pode ser considerada levando-se em conta o caráter do discriminante econômico. pouco acesso à saúde. habitação. em texto formatado no início do século XX. e direito à segurança em caso de desemprego. Embora seja importante considerar que não basta afirmar que os direitos humanos são universais.. que trás em seu conteúdo elementos muito atuais de analise. declaração de uma senhora residente no sertão da Bahia ao ser entrevistada. étnica. ausência de reconhecimento social.

buscando alternativas e formas de pensamento mais abertas e flexíveis. Para tanto precisamos explorar as fronteiras do saber. escreve ele: [. D. out. que mesmo que se considerem os elementos singulares de cada sociedade. F.] enquanto na teoria os direitos do homem são indivisíveis. a violação é transversal a toda e qualquer peculiaridade. Sachs (1996) argumenta muito por conta desta compreensão que.. como tudo em nossa era. conhecendo e dialogando com diferentes perspectivas e abordagens. É importante pensar que a pobreza viola os direitos humanos na medida em que. para que possamos compor um quadro analítico mais rico para compreendermos de forma mais plena e orgânica os riscos que as pessoas enfrentam em seus lugares. (SACHS. Serviço Social & Realidade. cada cultura tem seu modo particular de formular as grandes interrogações relativas à aplicação dos direitos humanos. é grande a tentação de proceder a arbitragens abusivas. Talvez seja necessário repensar a forma de racionalidade moderna. Equador. em alguns sistemas as pessoas são obrigadas a terem que provar a sua pobreza e. não tem garantido a assistência necessária. intitulado O impacto da reestruturação produtiva sobre as questões sócioambientais: O que queremos dizer quando falamos em desenvolvimento sustentável? – enviado e aprovado para ser apresentado no Congresso Latino Americano de Ciências Sociais – CLACSO (Quito. como de fato são predominantes no contexto em que esta análise se propõe. LAFER. especialmente no que toca à aplicação dos diferentes direitos econômicos e sociais. não nos introduz certezas. Ou seja. Hespanha refere que a falta de informação contribui para que além do processo de 8 A necessidade de se inferir sobre as brechas deste sistema que produz pobreza e perpetua as diferentes formas de exclusão é interessante ver estudo de Dornelles.2006). A partir dessa constatação. Se há uma riqueza de debates sobre às macro-estruturas sociais. Esta é uma construção árdua que.. Franca. 16(2): 207-234. mesmo assim. 1998). mas apenas desafios8. 1996. há pouquíssimos estudos desta natureza que mostram a Sociedade de Risco ‘ao rés do chão’. Entretanto. 2007 216 . na prática não se pode escamotear a questão de sua hierarquia.humanos são direitos em movimento.

“O desconhecimento dos direitos sociais [. Segundo o autor a pobreza como discriminante econômico não é questão essencial. 2000.. Alguns programas sociais são mais perversos do que includentes. mais freqüentemente de infelicidade [. 26). Franca.]” (CASTEL. 2001. p. 9 Serviço Social & Realidade.insuficiência de renda se consolide a insuficiência de cidadania ao dizer que.. pois o salário lhes trás a possibilidade de dignidade. a questão principal centra-se no conceito de exclusão e de desafiliação9. demonstra que as pessoas preferem um salário a um beneficio. p. “inexistentes”. que de um lado compõe o tecido social por serem numerosos e. Há certa resistência na solicitação do auxílio por que isso significa a confirmação da sua desqualificação social e sentem-se humilhados. 309).. o resultado de um processo de invalidação social. trás conceitos que muito auxiliará na perspectiva que as reflexões aqui apresentadas se propõem. O conceito é portador de uma densidade que pode muito bem contribuir para a compreensão desta temática. uma vez que nesse contexto tornam-se Muito embora o conceito de desafiliação utilizado por Castel se aplique muito mais a realidade francesa do que a brasileira. mas como um suporte de inclusão social. 2001. 16(2): 207-234. no seu livro A metamorfose da questão social. por outro não são considerados socialmente úteis. Castel (2001) ao desenvolver sua compreensão do trabalho não como uma questão técnica. desqualificação e dissociação. parte da analise sobre as metamorfoses do trabalho e da coesão social. 28-29). A “vulnerabilidade é uma marca de incerteza e. se forem considerar os sistemas de seguridade social de França e Brasil. Os sobrantes inúteis. p.] acresce o sentimento de vergonha que freqüentemente as pessoas experimentam pela sua condição de pobreza extrema e que as impede também de pedir ajuda” (HESPANHA et al. aquelas pessoas que não estão à margem. 2007 217 . 10 Os sobre numerosos. Quando é constante e insidiosa tornase. “são aqueles que não podem nem mesmo serem considerados explorados porque não possuem competências que possam ser convertidas em valor social” (CASTEL. elas já se encontram fora do círculo. Castel. O autor trabalha com o conceito de surnuméraires10. embora cause também precariedade e vulnerabilidade..

A contemporaneidade Alguns países não estão só não ganhando.incompreensível para as pessoas quais as necessidades elegíveis. ou ao favorecerem um sentimento de competição entre os “assistidos” na avaliação que fazem de quem é mais necessitado e de quem não o é. De acordo com a vertente que vê a globalização como um processo resultante da ideologia neoliberal. Diante disso é preciso perceber que determinados planos e programas de combate a pobreza podem estar contribuindo também para a reprodução do individualismo ao conceberem a pobreza como um problema de cada pobre. a ausência de respostas a duas áreas essenciais e. a globalização surge como um meio de aumentar a produção industrial e o potencial econômico desses países a fim de torná-los mais competitivos no mercado mundial. Do longo século XX. A desconfiança encontrada é fortalecida por dois fatores. a concepção de vida e mundo. Franca. a manipulação dos jogos políticos a que as pessoas pobres estão sujeitas. 16(2): 207-234. como afirma Arrighi (1996). estão cada vez mais ficando mais pobres Na atual fase do capitalismo. o que implica necessariamente as relações. mesmo em situações idênticas. Ocorre que a carga concorrencial e a financeirização do capital faz com que na base da globalização haja elementos que contribuam para um processo de produção de pobreza. A segunda aparece como fruto da ideologia dominante. Petras e Veltmeyer (2000) analisam duas linhas de pensamento sobre o impacto da globalização no mundo atual: na primeira. 2007 . 218 Serviço Social & Realidade. como uns merecem e outros não. a globalização é vista como um processo natural do capitalismo. que Castel argumenta que são essenciais para o bem-estar: emprego e habitação. por que umas e outras não. A pobreza execra a privacidade e atropela a confiabilidade. Em segundo. Esse fenômeno é concebido como uma estratégia deliberada de um projeto político levado adiante por uma classe capitalista transnacional. a herança deixada para a contemporaneidade obriga a que se faça um reexame do modus vivendi. que se baseia numa estrutura institucional própria para atender aos seus interesses. por que variam.

¹/³ não tem acesso à água potável (salubre). precisaríamos de nada menos que duas Terras em 2050. contaminando criticamente o ambiente marinho da região levando milhares de pessoas a miséria. 12 Sobre essa temática é interessante ver também a resenha da obra de Robert Castel. Rastos e Marcos: população e mudanças ambientais-situação da População Mundial 2001. 13 Relatório do Fundo Mundial para a Natureza. a maioria deles em países em desenvolvimento. onde vivem apenas 20% da Dados retirados dos documentos FNUAP. 20% das crianças não freqüentam a escola até o final do quinto ano e mais de 8% das crianças morrem antes de completar os cinco anos de vida11. guerras constantes e disseminadas em diferentes partes do mundo. como ‘gentilmente’ são chamados os miseráveis. comprometendo a vida de gerações de pessoas. com danos nucleares atingindo o Oceano Pacífico. 11 Serviço Social & Realidade. Os países mais ricos. Fazendo nesta parte do texto uma alusão aos surnuméraires a que Castel refere em sua obra. publicada no jornal a Folha de São Paulo. dia 12 de setembro de 1998.4 bilhões de pessoas que vivem em países em desenvolvimento. Informe sobre el desarrollo humano 2000. 16(2): 207-234. e danos irreparáveis ao patrimônio social e ambiental. um numero considerável de pessoas tem sua vida afetada por questões sócio-economicasambientais: cerca de 60% necessitam de saneamento básico. PNUD. houve mais de 45 grandes acidentes industriais registrados. nem de extremamente pobres. em 1984 acidente químico de Bhopal (Índia). New York: PNUD.Se se considerar apenas as últimas décadas do século passado. com perdas de milhares de vida. aproximadamente. para manter a humanidade no estilo de vida atual. A pobreza e a miséria têm conseqüências geracionais. intitulada “inúteis para o mundo”. publicada pela socióloga Vera da Silva Telles.800 mortos por produtos químico-radioativo. em 1986 em Chernobil (Rússia) acidente nuclear com repercussões sobre a saúde humana sentida até hoje em diferentes partes do globo. ¼ não dispõe de habitação adequada. que sem desejarem estarão contribuindo para uma nova categoria social. Franca. 2007 219 . de culturas. aqui discutida. 2001. Segundo o Relatório WWF13. uma vez que seu único modo de subsistência era a pesca. 2001. Dos. 4. não mais de pobres. acidente químico sobre o Rio Reno (Alemanha). construção e manutenção de mísseis capazes de destruir algumas vezes o planeta. com aproximadamente 2. estes serão os surnumérareis12. New York: FNUAP.

“forte” o suficiente para não se colocar em situações de risco ou vulnerabilidade. a carência. A indiferença é um mal que mata. as beiras de ser letal para a nossa sociedade. Diante disso. Franca. Na América Latina. o crescimento criou empregos. aquela miséria. a firma Castel (2001). é normal ou é culpa mesmo do tal sujeito que sofre e que não foi “competente”. Para nove países da África. e além de não ir mal instaurou o risco como “o espírito de nossa era”. enquanto os 20% mais pobres da população mundial representam apenas 13% destas despesas. O pior dos estágios desta situação é quando além de não mais se chocar você acredita que aquilo tudo. Esses eventos todos que foram citados são causaconseqüência de um modelo de desenvolvimento que construímos e que se tornou ineficiente.população do planeta. 2007 . E neste tempo. constata-se que o contrário da igualdade não é a desigualdade. o risco na sociedade contemporânea é o próprio mecanismo de reprodução social da sociedade. insegurança na saúde. afetando aproximadamente 35 milhões de pessoas. projeta-se uma perda de 17 anos 220 Serviço Social & Realidade. não vai mal. que estacionou em 11% durante uma década. como destacou Beck (1992). infelicidade e baixa auto-estima social. aquela dor. que muitas vezes passam imperceptíveis. com os gritos. não falta insegurança: insegurança econômica. com o pedido de socorro. mas que deixam profundas seqüelas em nossa vida cotidiana. o contrário da igualdade é a indiferença. ameaças à segurança humana e a uma ruptura súbita e prejudicial no padrão da vida cotidiana. No dizer de Giddens (2002) ao fazer sua analise. A pobreza não pode ser paisagem das ruas nas grandes cidades. “efetivo”. são os responsáveis por 86% das despesas totais com o consumo particular (privado). invade. mas cerca de 85% foram no setor informal. A miséria do mundo como um dia escreveu Bourdieu (2000) assola. ela se instala quando o olho não mais se choca com a dor do outro. O crescimento econômico não reduziu o desemprego na Europa. insegurança de emprego e de renda. consome e vulnerabiliza. traz perda de autonomia. O risco é sinônimo da eminência de perigo e perigo gera insegurança. insegurança cultural. A vulnerabilidade quando constante. O sistema capitalista. 16(2): 207-234.

disse ele . e a persistência de abusos dos direitos humanos. as disparidades aumentam entre as regiões costeiras orientadas para as exportações e o interior: o índice de pobreza humana está ligeiramente abaixo de 20% nas cidades litorâneas. Na China. 16(2): 207-234. a dos países ricos para os países pobres. o que se constata é a pobreza mundial. 15 O Inglês fala alto. contudo só é falado por uma pessoa em cada dez em todo o mundo. esta é a frase que está no prefácio do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2000.na esperança de vida das pessoas até 2010. e o que efetivamente mudou para o bem-estar da humanidade. No ano de dois mil e oito completam-se nove anos do lançamento do décimo Relatório de Desenvolvimento Humano16 e treze anos da Declaração de Copenhague sobre Desenvolvimento Social. Hoje. 2000). A distância da renda do quinto da população mundial que vive nos Mahatma Gandhi disse certa vez uma brilhante frase que no meu entendimento ilustra os riscos de um mundo globalizado sem ética e sem respeito à dignidade e a identidade humana. 16 Os relatórios de 2000-2002 serviram de base de consulta para os dados que aqui foram desenvolvidos. A língua inglesa prevalece em quase 80% dos sites da Internet.“Não quero que a minha casa fique cercada de muros e que as minhas janelas fiquem fechadas. Esta exclusividade cria mundos paralelos. a exclusão das pessoas e países pobres. mas acima de 50% em Guizhou. regredindo-se o tempo de vida aos níveis dos anos 60. Mas recuso ser derrubado por qualquer uma delas”. A difusão das marcas mundiais15 – Nike. entretanto. está longe de se configurar a materialidade do que preconiza a Declaração dos Direitos Humanos. Sony – estabelece novos padrões sociais de Nova Deli à Varsóvia e ao Rio de Janeiro. o crescimento da desigualdade entre e dentro dos países. o fluxo cultural é desequilibrado14. no interior. Quero que as culturas de todas as terras soprem sobre a minha casa tão livremente quanto possível. sendo pesando fortemente numa direção. A desigualdade tem crescido em muitos países desde o início dos anos 1980. Franca. “A verdadeira riqueza de uma nação é o seu povo” (RDH. Este assalto da cultura estrangeira pode colocar em risco a diversidade cultural e levar às pessoas o receio da perda da sua própria identidade cultural. Os filmes de Hollywood faturaram em 1997 mais de 30 bilhões de dólares em todo o mundo e os analistas estimaram que este número quadriplicou em dois mil e seis. 14 Serviço Social & Realidade. 2007 221 .

apenas 1%. 16(2): 207-234. A globalização caracteriza-se por ser também interdependente em relação aos problemas. 45) escrevem que “[. as oportunidades e recompensas da globalização difundem-se de forma desigual e não equitativa. demarca a necessidade de uma luta intransigente contra todas as formas de violação dos Direitos Humanos.. • 68% do investimento direto estrangeiram enquanto o quinto de menor renda. “Mas a globalização é mais do que o fluxo de dinheiro e mercadorias . 222 Serviço Social & Realidade. Em 1998.] O último período da história da humanidade tratou de desfazer a ilusão de Marshall (1967). Mas. alcançando a proporção de setenta e quatro (74) para um (1). contundentemente realista.países mais ricos e o quinto que vive nos países mais pobres em 1960 era de trinta para um. a instabilidade e outros problemas enraizados na e com a pobreza e a desigualdade.. o hiato da renda entre o quinto mais rico do mundo e o quinto mais pobre mais do que duplicou. Nos últimos anos da década de 1990. apenas 1.é a crescente interdependência das pessoas em todo o mundo”.5%. 2007 . Quando o mercado vai demasiado longe. os conflitos. (RDH. 86% de um mercado de 262 bilhões de dólares. meios básicos de comunicação atuais enquanto o quinto de menor renda. Franca. as 10 maiores empresas de agrotóxicos controlavam 85% de um mercado mundial de 31 bilhões de dólares e as 10 maiores empresas de comunicações. apenas 1%. • 82% das exportações mundiais enquanto o quinto de menor renda. dominando os resultados sociais e políticos. 2000) Behring & Boschetti (2006. em 1990 passou para sescenta (60) para um (1).” Esta análise. para quem as conquistas da cidadania poderiam se sobrepor à desigualdade. apenas 1%. p. • 74% das linhas telefônicas mundiais. o quinto da população mundial que vive nos países de renda mais elevada tinha: • 86% do PIB mundial enquanto o quinto de menor renda. ao longo das últimas três décadas. e chegou em 1997 à cerca setenta e quatro (74) para um (1). as pressões ambientais. A complexidade de situações-problemas que surgem deste hiato como a migração.

Fatores combinados que produz medo. nesse contexto. Sociedade – compreende-se que não é intenção reinventar o contrato social. 187).] deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance [. capaz de se constituir.. entre tantas situações vexatórias. que a dignidade é apenas um atributo a ser compartilhado entre iguais e que distante deles parece nada. Mercado.] (Fragmento de uma música – Fábrica. 17 Serviço Social & Realidade. a idéia do contrato russouneano com a Fragmento da música Fábrica da banda brasiliense da década de noventa. ausência de perspectiva. que hoje não existe mais. “Essa violência ‘de cima’ é composta de três elementos explosivamente combinados: o desemprego.quando as motivações do lucro dos atores do mercado ficam fora de controle.. Sociedade [. insegurança. Behring & Boschetti (2006) ao analisarem o contexto social brasileiro escrevem sobre um contexto que impõe a violência estrutural – a violência que vem de cima com sua flecha certeira atingem os pobres. em geral associada às dimensões étnico-raciais e de gênero” (2006.. compreende-se que não existe uma relação linear entre os atores acima citados – Estados. Estado. o exílio em bairros decadentes e a estigmatização na vida cotidiana. Franca. p. Mercado. ou estaremos fadados a barbárie diante dos modos como os contextos se circunscrevem. 1990) 17 Não há equação possível. ausência de possibilidade de futuro. Mas como é possível se o futuro também é o lugar onde sonho e esperança podem se materializar? Parece. são elementos presentes na sociedade brasileira e em todo mundo.. composição de Renato Russo. chamada Legião Urbana. 16(2): 207-234. 2007 223 . desafiam a ética das pessoas e sacrificam o respeito pela justiça e direitos humanos. Um novo pacto social precisa ser estabelecido. de desrespeito à dignidade humana. Ao iniciar a finalização deste texto.

embora interdependentes. 113-114) A hipótese geral de Mandel publicada no início da última década do século passado ao se referir ao longo processo de estagnação do capitalismo permanece válida – “uma retomada 224 Serviço Social & Realidade. uma vez que a história de cada ator. porque não é invisível e nem é imaleável. que em seu maravilhoso livro Políticas Sociais Fundamentos e História.” (2006. 16(2): 207-234. Precisamos desmontar os mitos a cerca do capital. se os pobres não consomem que importância teria a pobreza para o capital? A aproximação com as teses de Ernest Mandel se deu por intermédio de Behring & Boschetti (2006). A mão invisível do mercado de Adam Smith (1982) poderia claramente ser considerada a mão inoxidável. a sociabilidade produziu a desigualdade e as tensões. portanto se não entendermos as lógicas do mercado não poderemos construir estratégias por que. os homens seriam livres e poucas coisas seriam capazes de lhes afetar a paz. Franca. E a miséria para o mercado não produz valor social. talvez o maior problema do capitalismo contemporâneo seja de como distribuir a ganância. É visível.concepção de um Estado feito de nós. anunciando um longo período de estagnação para o início desse milênio. uma vez que produção e consumo são elementos intrínsecos ao capital. é inerente ao mundo do capital seu desenvolvimento desigual combinado.não separa produção e consumo. contudo. são constituídos de fatores sóciohistóricos imbricados na sua estrutura e diferentes nas suas conseqüências. para a “Crítica da Economia Política” – Grundisse . um vínculo estrutural entre desenvolvimento e subdesenvolvimento. ou seja. não interessa. não conseguiu reverter sua influência mais perversa que foram por longas décadas a produção da miséria. Marx em texto de 1857-1859. de modo que o capital em seus mais diferentes ciclos. apresentam a trajetória da política social nos mais diferentes contextos históricos e econômicos acompanhando os diferentes ciclos do capital. dura. “assim. 2007 . Ora. portanto. pesada e excludente. ou seja: no estado de natureza. Behring & Boschetti apresentam a análise da tese central de Mandel sobre os ciclos de expansão e estagnação do capital de uma maneira geral. impactando a vida social. p.

Behring & Boschetti (2006) escrevem que críticos e analistas como David Harvey (1993). escreve o relatório que “[…] entre 1990 e 2005. No mínimo interessante este dado. 187188). p. independente de conseqüências sociais. segundo as autoras. e outras – pergunta-se. onde inferir sobre as necessidades sociais de modo que estas contribuam para impulsionar a outra ponta do processo é quase uma conseqüência. 329). um dólar dia corresponde a cerca de R$ 120. Na terceira edição do Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 2007 – RNAODM/2007 – é divulgado que o Brasil cumpriu a meta de reduzir pela metade a porcentagem de pessoas que vivem em situação de pobreza extrema.00 reais mês o que equivale menos da metade do sálario mínimo nacional. corrobora com esta analise. Para ele. p. condição para acumulação. o capitalismo orienta-se para o crescimento. Franca. suas contradições fundamentais. Serviço Social & Realidade. políticas. profunda e ampla dessa economia nos anos vindouros está totalmente excluída” (1990. 18 PPC é uma sigla utilizada como indicador que significa Dólares por Paridade de Poder de Compra. e afirmam que tende a se assentar seu desenvolvimento desigual. que elimina a diferença de custos de vida entre os países. e “os apelos midiáticos ao consumo é uma condição para a dignidade social” (BEHRING & BOSCHETTI. 2007 225 .expansiva. ocorre que se tomarmos a proporção de famílias que vivem na região Nordeste do Brasil. como já citamos anteriormente neste texto. 19 Está se trabalhando com o conceito de família segundo a Lei Orgânica da Assistência social – 8742. é possível humanizar o leão faminto e insaciável? Muito procedente as analises de Menegat (2003) e Mézáros (2002) para quem o capital esgotou o seu papel civilizatório nesse milênio. uma vez que atribui a pobreza e a extrema pobreza exclusivamente a insuficiência de renda. ecológicas. e às decorrentes tendências de barbarização da vida social. 2006. Se tomarmos as características das famílias19 desta Região. de 07/12/1993. por exemplo. O argumento de Mandel refuta de modo contundente hipóteses sobre uma possível humanização do capital. caiu em 52% à proporção de brasileiros que ganham menos de um dólar PPC por dia18. uma vez que produção-consumo constitui uma das bases de seu alicerce. 16(2): 207-234.

a preservação do meio-ambiente e sua organização social. a pobreza ou a extrema pobreza. ALTVATER. A questão das desigualdades sociais a partir desse início de século vem ganhando dimensões em escala mundial pois as analises construídas não são mera suposições são sobretudo tristes constatações. p. 1997. 20 226 Serviço Social & Realidade. elevação do padrão da qualidade de vida. necessitam serem revistas em múltiplos aspectos que perpassam desde a sua compreensão até as ações mais simples. uma vez que não havia terreno para discussão acerca desse tema até as últimas décadas do século passado. DORNELLES. “o contraste entre os ricos e os pobres presentes em quase toda grande cidade do mundo é similar ao que se manifesta entre as regiões pobres e ricas do planeta. a fome não cede. financeira e tecnicamente. dado o contexto em que a miséria e a pobreza rapidamente se globalizam. MANDEL. 2007 . 2007. nem tarda a desaparecer: há fome de sonho. 2003). O interessante estudo desenvolvido por Francisco Luiz Corsi. bastante complexas e não podem serem tratadas de maneira simplista. “A situação de miséria vivida por parcela considerável da humanidade e a estagnação econômica de vastas regiões da periferia do capitalismo têm tornado cada vez mais premente a retomada da questão do desenvolvimento. Franca. abordando especificamente os impasses do desenvolvimento na atual fase da chamada globalização do capital corrobora com a analise de que a miséria. de dignidade. ROCHA. p.constata-se que a maioria destas famílias são populosas20 e dadas as condições de vida. vive-se A seção V da LOAS – DOS PROJETOS DE ENFRENTAMENTO DA POBREZA: Art. buscando subsidiar. sem dúvida. não governamentais e da sociedade civil. de felicidade. Art. 25. 1995). Os projetos de enfrentamento da pobreza compreendem a instituição de investimento econômico social nos grupos populares. O incentivo a projetos de enfrentamento da pobreza assentar-se-á em mecanismos de articulação e de participação de diferentes áreas governamentais. 1990. e ela continua preponderante (IVO. capacidade produtiva e de gestão para melhoria das condições gerais de subsistência.” (CORSI. 14) ainda afirma ao se referir aos países de economia mais central que mesmo estando estes países no centro do sistema. iniciativas que lhes garantam meios. 2002. Corsi (2002.” Vive-se uma crise geral da sociedade capitalista. 26. 11). Segundo Corsi. 16(2): 207-234. iniciada no final dos anos 1960 e que abriu uma fase de “crise continuada” (HOBSBAWM. sobre balanço da situação dos países periféricos nos últimos trinta anos. 2000.

16(2): 207-234. sobre supostas cidades que ele. p. enquanto em Bangladesch são 55%.. No Harlem a expectativa de vida média é inferior à de Bangladesh: ali. Num destes diálogos é desenvolvido a noção de brechas que precisam ser cavadas em contextos onde tudo parece imutável. 21 Serviço Social & Realidade. A arca contém o conhecimento da realidade da vida. que segundo a mitologia grega.um momento de globalização crísico como afirma Altvater que. das relações sociais. no alargamento da miséria e da pobreza em escalas extratosféricas onde o mundo como escvreveu Milton Santos (1982). o interessante é que estes diálogos tratam da liberdade. O contraste entre o rico e o pobre em quase toda a ‘cidade global’ se reproduz na aldeia global. que indica a morte da ingenuidade e da fantasia. dos desafios que a cidade impõe aos seus visitantes.. Diante das reflexões que foram arroladas ao longo do texto é necessário um desenvolvimento onde se removam as principais fontes de privação de liberdade. essa busca cega pelo lucro tem implicado a destruição sistemática da natureza. libertando todos os males. Franca. havia visitado. 22 A obra de Ítalo Calvino – As Cidades Invisíveis – trata de um texto onde muito dos elementos ali trabalhados pelo autor. A estrela da esperança de Pandora assim como sina expressa na obra de Calvino – As Cidades Invisiveis22 – talvez A caixa de Pandora. O mundo unificado é um mundo dividido (ALTVATER. Pandora. 24-25). a pobreza e a tirania.]. A sazonalidade crisica do capital associado com sua necessidade de expansão extrativista. da vida social como ela é e se apresenta. As Cidades Invisíveis trata de diálogos de Marco Polo com o grande imperador Kublai Kan. Los Angeles é consideradas simultaneamente uma pomopolis (postmodern city) e uma capital do Terceiro Mundo com todas as contradições e os conflitos correspondentes [. somente 40% da população masculina atinge 65 anos. e o inferno de cada dia sendo reinventado em cada nação que fica mais empobrecida... se aplica ao contexto da vida contemporânea. a esperança. se encontra dividido em dois: os que tem fome e os que não dormem com medo daqueles que tem fome. entre Norte e Sul [. A caixa de pandora21 está aberta.]. carência de oportunidades econômicas e destituição social sistemática associado a negligência dos serviços públicos. Marco Polo. 2007 227 . ao mesmo tempo em que contém o atributo mais valioso do espírito humano. foi quem abriu a caixa que Zeus havia dado à Humanidade. 1995.

pacífico e de cooperação de todos os povos para superar os antagonismos e conflitos decorrentes da competição entre economias nacionais. [. O desafio talvez esteja na crença de que nada é imutável e em reconhecer que estamos conectados e de que as ações ás vezes não se expressam no imediato.. a constante injustiça social. reinventar novas formas de relacionar social. a desigualdade social.] A globalização surge como a condição objetiva fundamental das transformações estruturais em direção a um mundo solidário. Isso significa que mesmo que as mudanças não sejam imediatas. as ações são interdependentes e explorar as brechas. 1995. (RATTNER. cuja superação exige não somente tecnologias apropriadas e recursos financeiros nacionais e internacionais. que tal como em uma holografia.. p. Ou. Pois a grande revolução geradora da grande transformação não irá acontecer. p. ir banalizando a vida de modo individualista.esteja em descobrir o que no inferno não é inferno. 1995. 70). analisa seus efeitos práticos como um processo que efetivamente vem contribuindo para. é no terreno da vida de cada dia que geram e gerarão impactos porque as conexões e a interdependência das ações tenderão a mudar a totalidade maior e associado a todo este 228 Serviço Social & Realidade. Ratner (1995) ao fazer uma análise sobre a Globalização escreve que. economica e culturalmente.. Franca. hedonista e indiferente a brutal inexistência de respeito aos direitos humanos. ao medo e a inseguraça. [. e. 2007 . (Ratner. de saúde e marginalização sócio-cultural. mas também a formação de uma consciência social e de um poder político global.] a degradação ambiental em conseqüência da externalização dos custos pelas empresas que tem causado problemas de saneamento. 16(2): 207-234.. é possível. 60) O autor compreende que em tese seria esse o fim da globalização. daí a urgente necessidade de acreditarmos que as micro-ações produzem impactos. entretanto.

without. 16. for instance. 42. Rio de Janeiro: Contraponto. 2006. 2007 229 . however the adoption of a specific definition. também se faz necessário a unidade da diversidade de todos aqueles que sofrem opressões. p. MENDONÇA. maintaining. hunger. HENRIQUES. ethnic and or cultural domains. Serviço Social & Realidade (Franca).. E. Uma vez que a pobreza e a miséria foram e serão sempre expressões contundentes de violação dos Direitos Humanos. R. the fluidity that it has been treated. In this text it will be explained parts of the discussion that surrounds those categories. Traduced Mark Ritter London: Sage. n. Contemporaneity. R. v. therefore.. O preço da riqueza. DORNELLES. Revista Brasileira de Ciências Sociais. n. KEYWORDS: Rights. the beggars. Human • Referências ALTVATER. E. 15. The text tries to present a reflexive rehearsal on an appealing practice of violation of the human rights through the decades that consolidates in the century XXI. Desigualdade e pobreza no Brasil: retrato de uma estabilidade inaceitável. Risk society: towards a new modernity. Globalization. 2001. excluding that is producing legions of people without access to the minimum conditions of having cured their basic needs. or in those in more complex situations. G. 2.. 2007. Human rights and poverty in the contemporary society: there is no possible equation.conjunto de elementos. Franca. BEHRING. Política Social: Fundamentos e História. BOSCHETTI. • ABSTRACT: The poverty cannot be a landscape of the streets in the great cities. Serviço Social & Realidade. poverty. D. 16(2): 207-234. These no more and only bounded to territorial. poder e as origens do nosso tempo. Poverty. P. F. v. p. 1992. 1996. but also existent in those countries which are considered developed ones. São Paulo: Cortez. considered by the international organisms like International Monetary Fund – IMF and World Bank – BM. 260p. BARROS. O longo século XX: dinheiro. developing countries as Brazil. Contemplating on the contemporaneity of a cruel practice. ARRIGHI. R. I. U. 123. 1995. to the globalization of the social risk. 207234. São Paulo: UNESP. BECK. Based in this argument this text tries to contribute with the reflection on the poverty as violation of the Direct Humans in a society in that production and reproduction of the social life are based on facts that start from insecurity.

12. D. 19. 2000. p.. Oeiras: Celta. Salvador). ed. Entre o Estado e o Mercado: as fragilidades das instituições de proteção social em Portugal. Lisboa: Presença. 2006./Dez. E. DORNELLES. Democracia. GIDDENS. 2001. A Era dos Extremos: o breve século XX. L. Companhia das Letras. VITALE. D. 16(2): 207-234. 233p. DICIONÁRIO DE LATIM. São Paulo. A questão do desenvolvimento à luz da Globalização da economia capitalista. A. p. D. 2003. PINTO. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. F. 2002. 2006. nov. Aracajú. DORNELLES.. São Paulo: Companhia das 230 Serviço Social & Realidade. Panorama da luta contra a exclusão social: conceitos e estratégias. IVO.BOURDIEU. p. Contrafogos. In Gestão em Ação.. Jan. 2007 . 2002. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. CORSI. B. 4. 2002. Modernidade e identidade. 26/27. HOBSBAWM. C. HESPANHA. Cidadania e Pobreza: a produção de novas solidariedades. 2000. set. Genebra: BIT/STEP. Curitiba. Política Social Compensatória ou Emancipatória? Fórum de Políticas Sociais das Universidades do Mercosul – FOMERCO. 11-29. 257-276. LAFER. 9. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. (2002). 9-17. 1. Sociol. 2006. P. F. Tradução Plínio Dentzien. I. p. In Rev. 103-117. ______. Tradução Miguel Serras Pereira. Capitalismo e moderna teoria social: uma análise das obras de Marx. ESTIVILL. Franca. P. Polít. 2003. A. Porto. F. ed. 1994. A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo: Loyola. Educação para a cidadania e o controle social das políticas públicas.. ed. Porto: Quarteto. D. R. Salvador-Bahia: EDUFBA/CRH n. 1997. L. J. in Caderno CRH. HARVEY. Durkheim e Max Weber. CASTEL.

S. 2003. 1967. E. La disqualification sociale: essai sur la nouvelle pauvreté. 1988. ROCHA. T.Letras. Globalização: em direção a um mundo só? Estudos Avançados. RATTNER. A pobreza no Brasil. ROSS. MAUSS. I. K. Rio de Janeiro: FGV. 65-79. K. 1975. 2006.). São Paulo: Nova Cultural. J. elab. 1997. (Coord.. Rio de Janeiro: Record. A situação da população mundial: população. MARX. Petrópolis: Rio de Janeiro: Vozes. Adam Smith: uma biografia. DEEP. São Paulo: Boitempo. econômico-filosóficos. Antologia sobre o materialismo dialético / Lisboa: Assírio e Alvim. M. ed. A. p. ______. 1990. H. 16(2): 207-234. Cidadania. 2005. MARX. A Educação para além do Capital. Brasil de Cardoso. I. 1998. J. Indicadores de empreendedorismo e inovação (in relatório final). 1996. Paris: PUF. Ensaio sobre a dádiva: com introdução à obra de Marcel Mauss por Claude Lévi-Strauss. Lisboa: Edições 70. 3. Subtítulo: Manuskripte) Tradução Jesus ______.9 (25). pobreza e oportunidades / New York: FNUAP. et al. classe social e status. PAUGAM. imp. MARSHALL. MÉSZÁROS. Franca. Rio de Janeiro: Zahar. Rio de Janeiro: FGV. 1991. POLANYI. 2001. MARSHALL. 2007 231 . Lisboa: Avante. O Capital: crítica da economia política. PETRAS. Serviço Social & Realidade. Rio de Janeiro: Campus. PEREIRINHA. 1995. 2000. Manuscritos (Ökonomisch-philosophische Ranieri. S. A crise do Capital. A. Moscovo: Progresso. VELTMEYER. Pobreza no Brasil: Afinal. 1997. de Que Se Trata?. H. 306 p. H. MANDEL. 2002. A grande transformação: as origens da nossa época..

16(2): 207-234. Pobreza e desigualdade no século do desperdício. 2005. Press. P. 1996. G.icsw. http://www. 232 Serviço Social & Realidade. Aldaiza (2006). SACHS.br/anoda mulher/destaques/relatorio_cd. SIMMEL. Wightman. texto preparado para o projeto Sustainability as a Conceipt ot the Social Sciences. (ed. Documentos da Internet KLIKSBERG. Por uma sociologia da exclusão social: O debate com Serge Paugam. 1978.B. Exclusão social abaixo da linha do Equador. P.unesco. SALAMÁ. 1999. São Paulo: EDUC. e org. Acessado em 27/08/2006 http://www. org.P. I. M. J.asp. B. 126-138. ROUSSEAU. Franca. J. Institute for Social-Ecological Research (ISOE. Pobrezas e Desigualdades no 3º mundo. P. A. O que é uma sociedade justa? Tradução CintiaÁvila de Carvalho. 2007 . Acessado em 25/08/2007. Elaborado pela Comissão Externa Feminização da Pobreza. SPOSATI. Ed. Revista Notícias UNESCO. SENADO FEDERAL. VAN PARIJS. São Paulo: Nobel.1999. Paris: PUF.pdf. Les pauvres. 2003. Textos escolhidos. Relatório sobre a Feminização da Pobreza. Social Sustainability and Whole Development. J. São Paulo: Ática. Entrevista concedida à repórter Maria Clarice Dias – Desigualdade Social: desafio do século 21. W.).gov. Essays on philosophical subjects.org/ globalconferences/Brazil2006/papers/aldaiza_sposati. apud Veras. D. São Paulo: Abril Cultural. Indianapolis: Liberty Fund [reimpressão em fac-símile do volume III de “The Glasgow Edition of the Works and Correspondence of Adam Smith”. VALIER. A. Acessado em 18/12/2007. SMITH. p. SPOSATI. Frankfurt). 1980]. Oxford: Oxford Univ.. 1997. http://www.br/noticias/revista_ant/noticias2000/nu1200/entrevista/mos tra_documento.senado. 1997.

Relatório sobre Desenvolvimento Humano (2000-2002). New York: FNUAP. ______.pnud. http://www.pnud. S.gov.pnud.jsp.dominio publico. Acessado em 28/07/2007. A trajetória dos gastos governamentais Brasília. Informe sobre el desarrollo humano 2000. (2005). http://www. L’as des pauvres: La vie quotidienne en cite de transit.br/hdr/ hdr2002/RDH%202002%20Portuguese%20one%20big%20file.gov. Franca.pdf.br/pnud/ GARSCHAGEN. Acessado em 21/09/ 2007. PNUD. 2007 233 .br/Destaques/livroradar/introducao. http://www. Acessado em 15/01/2006 http://www.gov. http://desafios.ipea.br.p df. SIMMEL.gov. Rastos e Marcos: população e mudanças ambientaisSituação da População Mundial 2001. 14/12/2007. Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 2007.br/odm/ FNUAP. A perspectiva brasileira sobre a pobreza: um estudo de caso do Programa Bolsa Família. Acessado em 24/09/2007.ipea. Radar Social. Acessado em 13/09/2007. 16(2): 207-234.br/dmdocuments/Resumo58_1. 2001. M.enap. IPEA. 2001. RDH.br/default. 2005. http://www. S. Serviço Social & Realidade. Brasília.pdf.ONU. IPEA.org. New York: PNUD. SANT’ANA. G. org.org. Acessado em 06/04/2006. http://www.

.

daí ser crucial a observação do raciocínio sistêmico. à administração pública e aos sistemas de informação. numa ferramenta e até na administração pública. uma decisão fora de hora e de lugar pode fazer a diferença. ** Docente do Departamento do Serviço Social e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UNESP – Campus de Franca. fruto da nossa formação e percepção. PALAVRAS-CHAVE: Sistemas. por isso nada deve ser menosprezado. 16(2): 235-262. Mestre em História pela UNESP. Informação. • Introdução Em pleno alvorecer do século XXI a abordagem sistêmica tem sido mais um instrumento na tentativa de compreender a gama de problemas desafiadores tendo em vista a necessidade de se construir homens capazes de buscar soluções e ter a percepção de que apesar se sermos partes. Pensamento Sistêmico. 2007 235 . Franca. às organizações. dado ao engessamento. onde a complexidade é ainda maior. sob a ótica de que um sistema é formado por elementos. seja num carro. Organizações. Serviço Social & Realidade. objetivos e meioambiente.POR UMA ABORDAGEM SISTÊMICA NA COMPREENSÃO DA CONTEMPORANEIDADE Dimas dos Reis RIBEIRO* Claudia Maria Daher COSAC** • RESUMO: O estudo em questão objetiva uma melhor compreensão da abordagem sistêmica frente aos desafios da vida cotidiana. relações. Esquecemos de nos ater aos detalhes e deixamos de perceber que a falta de um parafuso pode gerar inúmeros transtornos. Identificar tudo o que faz parte do sistema. estamos inseridos no todo. todos conectados e interconectados. pois uma partícula. Dentre as possibilidades da abordagem sistêmica. fruto do amontoado de leis * Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social pela UNESP – Campus de Franca. interconectada à Teoria Geral dos Sistemas. Interdisciplinaridade. A sociedade consumista e individualista em que vivemos tem conduzido à preocupação apenas com as coisas grandes e isso é juízo pessoal. Docente na UNIPAC – Monte Belo/MG. primeiro precisamos dividir o problema em problemas menores.

p. essa conjuntura que tanto aflige os homens e mulheres de bem do nosso país. mas numa farmácia seja ela pública ou privada. 2002. podemos começar a projetar de acordo com ela os processos de mudança organizativa. Excluídas as tentativas quase que ilusórias de se conter e coibir os desmandos. Contribuições teóricas precursoras Para chegarmos à abordagem sistêmica um longo caminho foi percorrido pelos pesquisadores e estudiosos que. a diversidade e a criatividade da vida (CAPRA. poderão superar. acumularam conceitos e teorias edificando o conhecimento atual. Munidos dessa compreensão. de nada terá adiantado gastar milhões de dólares com pesquisas. novos arranjos e mais e mais leis. A cada novo desvio. p. se faltar uma agulha descartável para aplicar uma vacina. mas da capacidade de equiparar o trabalho com novas habilidades baseadas num conhecimento novo” (CAPRA. 112-113). Chega-se ao ponto de muitos estudiosos afirmarem que a corrupção tornou-se sistêmica. programas e treinamento de pessoal. acabam favorecendo os interesses dos politiqueiros corruptos de plantão. acredita-se que só com mecanismos e as mesmas ações sistêmicas. Na contemporaneidade. novas artimanhas. Daí. “Os aumentos de produtividade não vêm do trabalho. Só a ampliação e o aperfeiçoamento do conhecimento nos permitirá entender e encontrar soluções para os problemas da contemporaneidade. Franca. Precisamos olhar para o todo. de compreender os processos naturais de mudança que caracterizam todos os sistemas vivos. a partir de suas práticas e pesquisas. Se isso realmente é verdade e parece que é. através do conhecimento e da sociedade civil. e criar organizações humanas que reflitam a versatilidade. 16(2): 235-262. 112). antes de mais nada. ter uma visão holística da realidade. Para resolver o problema da mudança das organizações. 2007 . uma nova lei. temos nos preocupado em demasia com a mecanização e com os inúmeros equipamentos tecnológicos. apesar das divergências e 236 Serviço Social & Realidade. temos. Só a visão do todo possibilita a compreensão de como as partes se interconectam. 2002.que acabam conduzindo à ineficiência e lentidão.

Segundo o próprio autor. marcando um gradativo passo no desenvolvimento da TGA. ordem. equidade. posteriormente. no mesmo período de Fayol. iniciativa e união. A ênfase no ambiente surgiu com a Teoria dos Sistemas. acabaram produzindo um conhecimento que se complementa. subordinação do interesse particular ao interesse geral. p. por meio da Teoria das Relações Humanas. Cada uma dessas cinco variáveis – tarefas. evolução e aperfeiçoamento do saber. Esta. seguindo-se mais tarde a Teoria Estruturalista. esses princípios deveriam ser seguidos por todos da empresa. Franca. porém não eram conhecidos à época. disciplina. numa tentativa de controlar as variáveis que poderiam influenciar o sistema. 16(2): 235-262. o que nos possibilita dizer que embora não se conhecessem e tenham partido de pressupostos diferentes e até opostos. mais tarde desenvolvida pela Teoria Comportamental e pela Teoria do Desenvolvimento Organizacional. desenvolveu a ênfase na tecnologia. a seu tempo. Fayol (ênfase na estrutura). A reação humanística surgiu com a ênfase nas pessoas. 8) Objetivando estruturar melhor os conhecimentos da administração e fazer com que sua teoria fosse compreendida e colocada em prática. centralização. Serviço Social & Realidade. A seguir. sendo completada pela Teoria da Contingência. 2000. autoridade e responsabilidade.contradições nada deve ser menosprezado. pois cada qual ao seu tempo e modo contribuiu para a construção. estrutura. através da Administração Cientifica de Taylor. pessoas. estabilidade do pessoal. uma diferente teoria administrativa. unidade de direção. 2007 237 . Esses princípios guardam alguma semelhança com aqueles definidos por Taylor (ênfase nas tarefas). Cada teoria administrativa privilegia ou enfatiza uma ou mais dessas cinco variáveis (CHIAVENATO. a preocupação básica passou para a ênfase na estrutura com a Teoria Clássica de Fayol e com a Teoria da Burocracia de Weber. tais como: divisão do trabalho. na primeira década do século XX. unidade de comando. hierarquia. A Teoria Geral da Administração começou com a ênfase nas tarefas (atividades executadas pelos operários em uma fábrica). elaborou uma espécie de manual onde expôs seus próprios princípios. remuneração. ambiente e tecnologia – provocou.

16(2): 235-262. todas as ciências passaram a tratar os seus objetivos de estudo como sistemas. a não-aceitação da anulação de objetivos pessoais em relação aos organizacionais. tornando a empresa em alguma coisa. A não existência desses fatos leva-nos a crer que as pessoas funcionam como máquinas. Na sua época a abordagem clássica havia sido influenciada por três princípios 238 Serviço Social & Realidade. Com isso ele deixou de considerar os aspectos psicoorganizacionais que permeiam qualquer inter-relação entre pessoas. isso precisa ser mudado. Franca. impedindo-o de ver aspectos de conflitos grupais. A Teoria Geral da Administração passou por uma gradativa e crescente ampliação do enfoque desde a abordagem clássica – passando pela humanística. homens é que sois”. mostrando a dependência recíproca e a necessidade de integração entre elas.Ao estudarmos os princípios da administração. porém as diferenças são pequenas e saudáveis. Quando observamos a forma concebida por Fayol de arrumar a casa. inclusive a administração. percebemos que existem algumas discordâncias entre Fayol e outros autores dessa mesma abordagem. sistematizou e proporcionou uma teoria interdisciplinar também conhecida por Teoria Geral dos Sistemas (TGS). A partir daí. pois auxiliam no aperfeiçoamento. 2007 . neoclássica. Encarando como paradigma. Essa visão de empresa enquanto máquina. leva a um radicalismo extremo de idéias e a uma abordagem mecanicista e determinística da organização. como nos dizeres de Charles Chaplin: “não sois máquinas. sem considerar as influências dos grupos sociais que a compõem. Evolução Histórica da Abordagem Sistêmica Os estudos realizados pelo biólogo alemão Ludwig Von Bertalanffy. certa e organizada. e ainda. surgimento de grupos informais. a disputa natural por poder. o que possibilitou a eliminação das fronteiras e o preenchimento dos espaços vazios nas ciências. podemos observar a influência da racionalidade de seu pensamento e o quadro de referência influindo na concepção de seus princípios. sem sentimentos de qualquer espécie. evidente desde sua primeira concepção. pessoas e coisas. na produção e na ampliação do conhecimento. estruturalista e behaviorista – até a abordagem sistêmica.

do pensamento analítico e do mecanicismo passam a ser substituídos pelos princípios opostos do expansionismo. 2007 239 . o pensamento analítico e o mecanicismo. pensamento sintético e da teleologia. só que totalmente desconhecida fora da Rússia. Em todos esses campos. filósofo e economista russo. como afirma Capra: Por volta da década de 1930. 493). p. a exploração de sistemas vivos – organismos. 1996. (CHIAVENATO. a maior parte dos critérios de importância-chave do pensamento sistêmico tinha sido formulada pelos biólogos organísmicos. 1996. através do livro Tectologia. 51). Na realidade Bogdanov antecipou a estrutura conceitual da teoria geral dos sistemas. os princípios do reducionismo. Alexander Bogdanov. é possível que ela seja anterior a este período. embora muitos estudiosos afirmem que a Teoria Geral de Sistemas tenha tido sua gênese com as pesquisas realizadas por Bertalanffy. partes de organismos e comunidades de organismos – levou os cientistas à mesma nova maneira de pensar em termos de conexidade. e assim permanece até os dias atuais. p. Com esses três princípios a Teoria Geral de Sistemas (TGS) permitiu o surgimento da Cibernética e desaguou na Teoria Geral da Administração. 1996. Todavia. 46) Mesmo porque 30 anos antes o pesquisador médico. publicado entre 1912 e 1917. de relações e de contexto. 53). mas foi com Bertalanffy e suas concepções de sistema aberto que o pensamento sistêmico tornou-se um movimento científico de primeira grandeza (CAPRA. p. Como afirma Chiavenato (2000).intelectuais dominantes em quase todas as ciências no inicio deste século: o reducionismo. redimensionando suas Serviço Social & Realidade. 2000. p. já havia desenvolvido uma teoria sistêmica extremamente sofisticada. 16(2): 235-262. Esse novo pensamento também foi apoiado pelas descobertas revolucionárias da física quântica nos domínios dos átomos e das partículas subatômicas (CAPRA. No desenvolvimento da teoria esclareceu e generalizou os princípios organizativos de todas as estruturas vivas e não vivas (CAPRA. publicadas em 1950 e 1968. Franca. psicólogos da Gestalt e ecologistas. com o advento da Teoria Geral dos Sistemas. pois.

Todo sistema possui os mesmos componentes. economia. saída. ou entidades. seus propósitos e objetivos. da natureza de seus elementos componentes e das relações entre eles. de maquinaria. A compreensão dos sistemas somente ocorre quando estudamos os sistemas no aspecto geral. buscando compreender o funcionamento dos sistemas e subsistemas subjacentes. troca e interação com o ambiente interno e 240 Serviço Social & Realidade. etc. pela qual uma ação que produz mudança em uma das unidades do sistema. avaliação e ambiente. onde os objetos. educação. com seus elementos em interação de natureza ordenada e não fortuita. planos. O enfoque sistêmico é uma ferramenta que possibilita a compreensão da multiplicidade.concepções. se inter-relacionam para formar um todo único. processamento. objetivos e o globalismo. dos sistemas demonstra ser físico ou abstrato. quando se materializam em coisas reais. afirmava ele. até mesmo a vida cotidiana. a organização das soluções complexas para os problemas complexos. Neste sentido. A natureza dos sistemas se apresenta aberto ou fechado. envolvendo a interconectividade de e entre suas partes. princípios e leis característicos dos sistemas em geral. com muita probabilidade produzirá mudanças nas outras unidades. mas produzir conhecimento e formular conceitos que possam criar condições de aplicações a partir da realidade. entrada. hipóteses e idéias. Essas fragmentações são imposições e fruto da criação e dos interesses dos homens. Franca. independentemente do tipo de cada um. A constituição. Os sistemas possuem dois conceitos que retratam bem suas características básicas. Tem por finalidade a identificação das propriedades. 2007 . A Teoria Geral de Sistemas não tem como objetivo resolver problemas ou buscar soluções práticas. precisamos analisá-los tendo em vista a sua constituição e natureza. Aberto quando apresenta relação de intercâmbio. todo sistema tem uma natureza orgânica. Quanto aos sistemas. Todo sistema tem propósitos. ou seja. objetos. São abstratos quando compostos de conceitos. formando um todo complexo e unitário. da interdependência das causas e variáveis dos sistemas complexos. Bertalanffy negava a idéia de dividir o mundo e o saber em diferentes áreas. saúde. São físicos quando compostos de equipamentos. filosofia. Um sistema é um conjunto de coisas ou partes. ciência. 16(2): 235-262. política.

que motivam avaliações constantes para controle das metas a serem atingidas pelo e com o próprio sistema. novamente aos ambientes com os quais se interconecta. Processador é o fenômeno que produz mudanças. em permanente processo. de tal forma que existe entre ambos – sistema e ambiente – processo em permanente interação. a que impulsiona o ponto de partida do sistema (o carro. ou seja.externo através de entradas e saídas intermitentes. Este tipo de sistema é influenciado pelo meio ambiente e influi sobre ele. apesar da matéria e energia que o integram se renovarem constantemente. que fornece material e energia para a operacionalização do sistema. Todo sistema é caracterizado por determinados parâmetros. a finalidade para a qual se reuniram elementos e relações do sistema. 16(2): 235-262. Retroação é a função do sistema que visa comparar a saída com critérios. transmitindo a noção de casulo sem a menor perspectiva de transmutação. por exemplo). interação esta que provoca mudanças em todas as partes dos ambientes. A descrição de sistema aberto é exatamente aplicável a uma Serviço Social & Realidade. Esses parâmetros revelam ser: Entrada. quando nega qualquer tipo de influência de dentro para fora e fora para dentro do sistema. O sistema aberto mantém intercâmbio de transação e se conserva constantemente no mesmo estado. Sob este posicionamento. a força propulsora. O sistema aberto recebe entradas dos ambientes. alcançando estado de equilíbrio dinâmico no meio. Ambiente é o meio que envolve interna (toda estrutura própria do sistema) e externamente (a conjuntura no seu entorno abrangente aos subsistemas e ecosistemas subjacentes a ele. processaos e efetua saídas. Saída. incluindo a natureza). a abordagem sistêmica conseguiu profundas repercussões na teoria administrativa. 2007 241 . com padrões previamente estabelecidos (por todos e tudo enquanto parte integrante do sistema). Fechados quando não apresentam intercâmbio com o meio ambiente ao seu redor. tal e qual o efeito dominó. Franca. O modelo de sistema aberto é sempre um complexo de elementos em interação e em intercâmbio contínuo com o ambiente. é o mecanismo de conversão das entradas em saídas.

Franca. 2007 . que provocam interdependência. Importância e função dos sistemas de informação (Cibernética) Hoje.) que trabalham em harmonia umas com as outras. interrelacionando-se com os demais indivíduos como um sistema aberto. são constituídas de partes menores.organização. A visão de que o todo é mais que a soma das partes. mas não despreza o emergente sistêmico. como parte da sociedade maior. qualquer organização em qualquer lugar do mundo dificilmente conseguiria sobreviver sem considerar o papel e a importância dos sistemas de informação. Isso é que é importante para a organização. contabilidade. É um sistema integrado por diversas partes relacionadas entre si (secretarias. do uno e do múltiplo. do conjunto e da especialização. do dentro e do fora. morfogênese e requer respeito às fronteiras estabelecidas. Uma 242 Serviço Social & Realidade. principalmente quanto ao enfoque. pois. porque as organizações não querem apenas tecnologia. as propriedades do todo que não aparecem em nenhuma de suas partes. controladoria. tesouraria. Esses dois mundos não podem simplesmente ser colados. A Teoria de Sistemas baseia-se no conceito do homem funcional. homeostase. É preciso algo mais que isso. ou seja. Um computador colocado dentro de uma organização não ajuda em nada. etc. diretorias. não apenas em termos de abrangência. da integração interna e da adaptação externa. O enfoque do todo e das partes. mas. A perspectiva sistêmica trouxe uma maneira plural de ver as coisas. É importante destacar algumas características básicas das organizações enquanto sistemas. pois apenas eles possibilitam conectar dois mundos: a tecnologia da informação e a organização de e entre todos os seus componentes. privilegia a totalidade e as suas partes componentes. 16(2): 235-262. que exerce papel dentro das organizações. tanto da organização como de seus participantes (traduzidos pela implementação e efetivação das políticas públicas que assegurem bem estar aos cidadãos). da eficiência e da eficácia. Uma prefeitura é um sistema criado pelo homem e mantém dinâmica interação com seu meio ambiente. hardwares e softwares. O que as organizações querem da tecnologia são as informações. Influi sobre ele e recebe influências dele. com a finalidade de alcançar uma série de objetivos. supervisões. gerências.

recursos humanos e recursos de informação. A informação é o único recurso que não se perde com o uso ou com a disseminação.organização pode ser vista como uma rede de informação. mas não vem com as informações. Existem problemas similares que podem ser resolvidos com soluções similares. a tecnologia de nada serve. Há anos algumas pessoas têm percebido que há coisas comuns nas diferentes áreas do conhecimento. 16(2): 235-262. materiais. Elementos básicos de uma organização Os elementos são os recursos da organização e podem ser classificados em recursos financeiros. São esses sistemas que determinam o que tem que ser coletado da organização. Cada um desses tipos de recursos passa obrigatoriamente por um ciclo de vida que apresentam as fases de aquisição. Por outro lado. para que as ações possam ser desempenhadas é preciso antes tomar decisões. Franca. uso e perda. Sem os sistemas de informação. Acrescentam-se ainda duas outras fases: planejamento e controle. Isto quer dizer que todas as áreas do conhecimento possuem sistemas. que é um conjunto de elementos inter-relacionados com objetivos comuns. porque antes a tecnologia coletou e armazenou informações. energéticos. E para tomar decisões corretamente são necessárias informações precisas. Assim. Podemos dizer que os recursos mais importantes reportamse às informações e as pessoas. Essas pessoas perceberam que algumas características e regras aconteciam em todas as áreas. que os sistemas possuem características e leis independentemente da área onde se encontram. a informação não pode vir do nada. pois. Ou seja. As informações vêm da tecnologia. Quando alguém compra um computador. Mas esta troca de informações entre a tecnologia e a organização é mediada e controlada por algo. 2007 243 . surgiu a definição de sistema. A informação só se perde quando se torna ultrapassada. Ela não nasce da tecnologia de forma espontânea. decisão e ação. de nada adianta os outros três Serviço Social & Realidade. pois não sabe o que coletar nem o que devolver. A ponte ou canal por onde passam as informações é o sistema de informação. aí é que entram os sistemas de informação. armazenado na tecnologia e o que deverá ser devolvido para a organização. ele até pode vir com software.

a administração das organizações e responde pelo fenômeno da globalização do mercado. É ela que dinamiza os processos de produtividade. que é o processo de delegar a outras organizações algumas funções da própria organização. O que relaciona os elementos de uma organização são os processos. 2000. a informação necessita ter algumas qualidades. circulação de mercadorias.sem esses dois. que não seria possível sem a rede de conexões entre os agentes econômicos e financeiros do mundo todo. O emblema do mundo na Era da Informação e na entrada do terceiro milênio é o computador. 2007 . E quanto mais informação houver. competitividade. Hoje. melhor a decisão. numa loja de produtos agropecuários. entre elas: precisão. O principal argumento de quem defende a terceirização é que ela traz redução de custos. muitas organizações vivenciam o fenômeno conhecido como terceirização. 515). não acrescentam valor às organizações. Por exemplo. objetividade. 2000. pois com essa base é que serão tomadas as decisões. A informática é a responsável pela reestruturação do capitalismo. as atividades de venda e compra de produtos. Franca. p. atualização e nível de detalhe adequado. p. As primeiras são aquelas diretamente relacionadas ao objetivo da organização. são funções fins. A informação é de vital importância para as organizações. As funções meio são aquelas que apóiam as demais. já que a empresa terceira conhece melhor as funções 244 Serviço Social & Realidade. a contabilidade e a segurança dos materiais são meio. as atividades de limpar a loja. controle de estoque. “Hoje. No mesmo exemplo. funções e atividades executadas dentro da organização que podem ser entendidas como funções/atividades fins ou meio. A informática é um poderoso instrumento de produção e dinamização das informações (CHIAVENATO. o capital não se acumula mais no dinheiro. mas na informação. Para ser útil. Quem tem informação tem poder” (CHIAVENATO. 16(2): 235-262. A informação sem as pessoas não existe e pessoas sem informação não ajudam. O volume crescente de informações cruzando o planeta na velocidade da luz serve para organizar a vida humana em todos os setores. O sucesso da informática reside no espetacular aumento da eficácia em todas as operações que dependam dela. 514).

Os países se expandem quando cooperam entre si. controle de estoque e tributação. Quando é de interesse Serviço Social & Realidade. 16(2): 235-262. o qual influencia o modo como as atividades de uma organização são desempenhadas. às possibilidades de planejamento. contabilidade. Quanto à informática ela é terceirizada em muitas organizações. porque possuem melhor conhecimento do ramo. O problema é que nem sempre os pequenos municípios dispõem de profissionais habilitados ou capacitados para a produção de softwares. pois a empresa contratada acaba dispondo de informações importantes e até sigilosas. ela passa a se preocupar mais com suas atividades fins. acompanhamento e controle da frota municipal. Já a empresa terceira tende a realizar melhor as atividades terceirizadas. por exemplo. O mesmo ocorre com as empresas que buscam espalhar suas atividades de produção e venda pelo mundo realizando o processo de homeostase. o Mercosul.terceirizadas. Franca. mas. Outro fenômeno que devemos considerar nos dias atuais é a globalização. no caso de Alterosa (cidade de pequeno porte do sul de Minas Gerais). Esses fenômenos ocorrem com os países. o que se deve. A globalização tem sido orientada pelos objetivos das empresas que ou se integram ou se dividem. No entanto. principalmente. Só que aí se vê um sério risco. gerando novas preocupações para os administradores. tesouraria. 2007 245 . a Comunidade Econômica Européia. geralmente só a parte considerada pesada como o processamento de dados: rodar a folha de pagamento. com as empresas e também com as pessoas. sem se confundir com outras tarefas ou se desviar de seu rumo. Quando uma organização terceiriza atividades. Mas a raiz de tudo está na concentração de esforços nos objetivos da empresa. A expansão é o fenômeno ou processo de integração entre partes antes distintas e independentes. As conseqüências da globalização podem ser resumidas em contração e expansão. e a contração é a divisão de uma parte maior em menores. realizaram-se estudos quanto à terceirização do transporte escolar e concluiu-se que ele sairia três vezes mais caro do que o transporte público municipal. enquanto que outros preferem se isolar. daí a necessidade da terceirização ou a capacitação dos funcionários do quadro da organização.

é preciso conhecer o que o cliente busca na organização e isso não é tão óbvio quanto parece. poderá oferecer um sapato mais adequado e que deixe o cliente satisfeito. empresa que vende bombons: oferecer presentes surpreendentes. se o vendedor conseguir descobrir qual é esta necessidade. o que ela tem a oferecer aos seus clientes. Por exemplo. Nesse caso. Franca. ela deve ser especificada em objetivos menores. que pode ser vestir-se melhor ou encontrar algo para praticar um esporte ou até conseguir um meio de se exibir. Se a missão for simplesmente o lucro. A missão não deve ser algo como só buscar lucros. ou seja. A Abordagem sistêmica na atualidade e os objetivos das organizações Todo sistema possui um objetivo geral ou global.para os objetivos das empresas elas se unem e quando os objetivos já não estão mais tão integrados. a organização tenderá a fazer tudo para alcançá-lo o que atropela os meios com relação aos fins visados. 16(2): 235-262. Estes podem incluir definições de classes de 246 Serviço Social & Realidade. uma empresa que produz máquinas copiadoras: gerenciamento de documentos. Nem sempre! As pessoas buscam satisfazer suas necessidades e concretizam isso na forma de produtos e serviços. Não só por serem sistemas. Toda organização tem uma missão que define seu papel na sociedade ou mercado. mas para terem um rumo a seguir. porque senão restringe o saber fazer e o onde chegar. Como exemplos de missão podemos citar uma loja de sapatos: vestir pessoas. Como a missão das organizações geralmente é um objetivo amplo e difícil de ser atendido. na verdade deseja satisfazer uma necessidade. que se traduz em objetivos menores. Para definir a missão. uma clínica de cirurgia plástica: aumentar a auto-estima. permitindo às pessoas saber o que fazer. Isso permite controle qualitativo de como alcançar estes objetivos no sentido da pertinência éticopolítica entre meios e fins. o que uma pessoa quer quando entra numa loja de roupas? Muitos responderão: ela quer uma roupa. as empresas se separam. 2007 . um hospital: melhorar a saúde da população. Quando alguém entra numa loja de roupas. como. uma empresa de elevadores: deslocamento de pessoas entre dois pontos. por que e para que. Todas as organizações têm objetivos.

Para cada cliente. É por isso que concessionárias e revendas de automóveis se juntam a empresas de colocação de sistemas de áudio e. Estes valores. construtoras vendem apartamentos e casas já com carpetes colocados por outras empresas. ajudam a satisfazer o cliente. de tal forma que Serviço Social & Realidade. há valores diferentes. apesar da difícil jornada até lá.clientes-alvo. Isso explica por que algumas pessoas pagam muito por um determinado utensílio enquanto que outras pagariam pouco ou nada. mas sempre da melhor forma possível. de políticas de preços. etc. mas seus objetivos específicos sim. Valor é aquilo que o cliente obtém de uma empresa para satisfazer uma necessidade em troca de um custo ou investimento. Toda organização precisa ter metas. Por exemplo. ser bem atendido. associadas a um tempo determinado. Essa cooperação é boa para ambas as empresas porque uma não precisa buscar clientes. A agregação de valores faz com que as empresas cooperem entre si. A primeira ocorre quando a empresa passa a desempenhar mais funções na cadeia de produção. Daí pode surgir as expansões horizontais e verticais. Cada organização deve identificar os valores que proporciona aos seus clientes. também. de regiões de atuação. é preciso também conhecer o que é valor para ele. um local de fácil acesso. quer encontrar um ambiente confortável. Todo cliente quer satisfazer sua necessidade. até mesmo combinando serviços ou produtos para satisfazer mais amplamente os clientes. a loja de roupas passa também a fabricar a roupa e até o tecido. Chegar ao topo de uma montanha pode ter valor para alguém. uma vez agregados. enquanto que a outra oferece valor agregado para melhor atender o cliente. ele quer. Os objetivos específicos por sua vez dependem de metas. Outro conceito importante é o de valor agregado. O conceito de valor ajuda a entender como um cliente satisfaz suas necessidades. 16(2): 235-262. Quando um cliente vai a uma loja. Isso ajuda a entender melhor quem são os clientes desta organização e se esta está oferecendo produtos ou serviços adequados. além de algo para satisfazer sua necessidade. A missão da organização não muda com o tempo. Para entender qual a necessidade do cliente e o que ele deseja. A expansão vertical ocorre quando a empresa diversifica seus produtos ou serviços. trocando informações. 2007 247 . etc. Franca.

pensando nelas é que todos devem trabalhar e isso deve ser a motivação principal da organização. este ganho não pode ser denominado de lucro. O seu retorno será a prova de que se criaram conexões e interconexões positivas. mas. a igreja que freqüentam e tantas outras organizações pelas quais transitam. Por outro lado. nos lucros da empresa. A visão sistêmica postula que todos os elementos influenciam e são influenciados reciprocamente. a escola. aumentando receitas ou gastando apenas o que se arrecada como manda os ditames da Lei de Responsabilidade Fiscal para a administração pública. também. É bom lembrar que um cliente descontente tende a influenciar um conjunto de outras pessoas. O lucro deve fazer parte dos objetivos específicos seja reduzindo custos. Será a garantia de novos lucros. colaboração com outras empresas. fiéis e mais lucrativos. vender mais para os mesmos clientes: freqüentes. 16(2): 235-262. Assim. há sempre a questão da permanência e sobrevivência da organização. pois essas pessoas também são parte integrante de outras organizações. No caso das organizações sem fins lucrativos. Para reduzir os custos é necessário aperfeiçoar o uso dos recursos. mas não está só condicionado a valores éticos. manter a qualidade de produtos e serviços. Para isso. nenhuma pode empatar ou ganhar menos que gasta. 2007 . a condição ética constitui o critério para um equilíbrio operacional e a capacidade de resistência à ruptura do sistema – ou seja. é muito mais barato manter os clientes do que conquistar novos. evitar desperdícios. práticas contrárias aos princípios éticos 248 Serviço Social & Realidade. E. cativar as pessoas pode ser um mecanismo de para manter a sua fidelidade. o trabalho. a garantia de uma nova venda começa quando o cliente sai da loja. quando começa a usufruir o bem. visa o que for melhor para a maioria da coletividade. tomar melhores decisões. Por isso. avaliar a satisfação das pessoas. Franca. como a família. Afinal. o serviço prestado. inteligência competitiva. de sua sustentabilidade. o clube. Atender melhor o cliente ajuda. para aumentar a receita é preciso conquistar novos clientes: marketing de precisão. O marketing orientado ao cliente parte da importância social da organização. por conseqüência. Caso contrário seria o fim de suas atividades. por exemplo. torna-se necessária a visão de marketing que possibilite as organizações concentrar seus esforços no cliente e em suas necessidades. Por trás disso.

serão eliminadas. começa a ceder suas terras para a plantação da cana-de-açúcar para a produção de álcool. médios e pequenos. os usineiros oferecem vantagens para os produtores rurais. um programa social. abrindo oportunidades para a construção de relações sociais mais estáveis e equilibradas dentro e entre sistemas. contrárias aos interesses e ao bem-estar públicos. culturais. 16(2): 235-262. Os atores sociais que incorrem em práticas antiéticas. No entanto. plural e interdisciplinar. 2007 249 . não conseguirão sobreviver em um ambiente holístico imposto por sistemas crescentemente conectados e comunicantes em uma sociedade mundial. transferindo assim os custos de manutenção de um precário equilíbrio para os segmentos mais pobres e politicamente mais fracos – a maioria da sociedade. Para ilustrar o entendimento sobre o raciocínio sistêmico. arrendam suas terras e realizam o plantio da cana sem levar em consideração a necessidade de produção de alimentos básicos. Assim. resultou em recessão econômica e elevação das taxas de desemprego. sob a concepção sistêmica é necessário aprofundar a questão e analisar a partir do contexto histórico e espacial que reflete as intrincadas relações e dinâmicas econômicas. grande produtora de café e leite. Diagnósticos convencionais poderiam apontar para o raciocínio cartesiano dizendo tratar-se de aspecto conjuntural inevitável. Alterosa. Franca. isso para atender a nova política energética do Governo Federal. A globalização cria condições favoráveis para estabelecer vínculos entre os subsistemas existentes em uma sociedade e reforça as tendências em direção à integração. Para entender as tendências da globalização requer-se uma abordagem holístico-sistêmica. ambientais e políticas da região. por causa do desequilíbrio que produzem no sistema. por exemplo. atendia 120 Serviço Social & Realidade. a fim de defender a moeda nacional contra os efeitos desestabilizadores de fuga de capitais e da especulação na bolsa de valores. Percebe-se que isso tem sido feito sem planejamento e sem critérios. embora aparentemente bem sucedido. No município de Alterosa. resultando em tensões e conflitos. enfocamos o problema do crescente desemprego e violência na região de plantação de cana-de-açúcar. denominado Agrovida. Areada e Monte Belo. O aumento das taxas de juros no Brasil. sociais. causando danos ou prejuízos. o local onde ocorre o problema – a região dos Lagos de Furnas. cidades do Sul de Minas Gerais.

Unesp. teve suas terras retiradas e cedidas à Usina Monte Alegre. As altas taxas de juros desencadeiam a recessão que por sua vez provocam o fechamento de pequenas e médias empresas e o conseqüente aumento de desemprego em todos os setores da economia. destroem os recursos naturais. exige mudanças significativas nas políticas públicas através da conscientização política e pressão da sociedade civil. A interdisciplinaridade não existe a princípio. Se a análise causal e linear do método cartesiano foram instrumentos apropriados no contexto dos séculos XVIII e XIX – em que as 250 Serviço Social & Realidade. Menos recursos para investimentos produtivos nas mãos do governo significam cortes de despesas públicas em educação. base de sobrevivência das populações de pescadores. ela deve ser uma construção de cada um de nós. nem sempre devidamente informada.famílias. além da redução na remuneração do trabalho. mesmo. por exemplo. Ela se apresenta como uma opção para articular os conhecimentos científicos e não-científicos que se debruçam sobre os problemas sócio-ambientais. lagos e da costa por fertilizantes químicos e pesticidas utilizados nas mesmas plantações. habitação e transporte público. manter em nível razoável seu déficit fiscal. 2007 . o superávit primário brasileiro. assim. tratava-se de um programa considerado modelo de agricultura familiar que recebeu o Prêmio Assis Chateaubriand e foi temática de dissertação de Mestrado na Universidade Estadual Paulista. Mudar esse cenário e. são inevitáveis e irreversíveis e. Com um superávit mais alto o governo esperava poder pagar as altas taxas de juros sobre suas dívidas interna e externa e. A perda de produtividade e a concentração de terras pelas grandes empresas de plantação de cana-de-açúcar estão causando a expulsão de famílias e comunidades inteiras das áreas rurais. assim. pelos partidos políticos. educação e serviços de saúde. 16(2): 235-262. embora responsáveis pela escassez de alimentos. habitação. reduzir o desemprego e a violência. O discurso oficial apoiado pela burguesia. Franca. Campos de Franca. benéficas para o desenvolvimento e bem estar do país. industriais. enquanto a poluição dos rios. Essas observações nos levam a investigar sobre as políticas econômicas que criam condições favoráveis. saúde. mesmo assim. seja pela mídia e. exportadores e instituições financeiras multilaterais induz a população a acreditar que essas políticas.

o diálogo dos saberes para enfrentar o fracionamento e a superespecialização do conhecimento. A crise civilizatória se manifesta também como crise de conhecimento. não-científicos. para que isso dê certo precisamos criticar as formas convencionais dos saberes disciplinares que encaram os problemas de forma parcial. mediante enfoque interdisciplinar. Franca. Afinal. quando começou a ficar claro que seria impossível “consertar” o planeta através das fórmulas convencionais da economia e tecnologia. os problemas e as dificuldades são tão profundos que as abordagens precisam aliar-se e não excluírem-se. 2007 251 . da estratégia epistemológica e da apropriação dos saberes. 16(2): 235-262. ainda. Devemos também incorporar a complexidade dos conhecimentos científicos com os saberes tradicionais. passou-se a postular sua “internalização” pelas empresas e a educação e prática da proteção ambiental. ensino e extensão dos saberes e práticas dos atores sociais com aqueles dos pesquisadores e estudiosos. Diante dos limites da “externalização” dos custos ambientais e sociais. A interdisciplinaridade nos remete à colaboração entre diversas áreas do saber e do conhecimento em projetos que envolvam tanto as diferentes disciplinas acadêmicas quanto as práticas não-científicas que incluem atores e instituições diversos. E preciso. segmentada e estanque. estética e sócio-ambiental e integrar os procedimentos interdisciplinares de pesquisa. estaríamos entrando numa nova Serviço Social & Realidade. o que refletiu em verdadeira crise do pensamento civilizatório tradicional. partir das indagações de natureza ética. ambiental e política nas diversas partes do mundo.concepções de mundo postulavam a realidade como algo mecânico e previsível – a realidade complexa em que vivemos e com a qual nos defrontamos hoje exige uma postura metodológica científica e técnicas de pesquisa diferentes sem. contudo rejeitar a abordagem disciplinar convencional. o que exige a formulação de projetos de reconstrução e métodos de análise interpretativas diferentes e inovadoras. A percepção da necessidade da abordagem interdisciplinar surgiu a partir das décadas de 1960 e 1970 à luz da emergência das expressões da questão social. As atividades predatórias dos seres humanos vêm gerando crises em diversas áreas do conhecimento. Mas. O discurso oficial afirma que na onda da globalização e da revolução científica e tecnológica.

Para conseguir isso. A complexidade do mundo que nos rodeia exige a 252 Serviço Social & Realidade. das comunidades rurais e indígenas. sendo suspensas. apesar dos avanços da pesquisa científica e tecnológica. tecnologia e saberes para a produção de novos paradigmas e sua articulação para transformar a natureza e a sociedade. houve tanta exploração e degradação dos ecossistemas. mas da abertura de diálogo e da hibridização entre ciência. do desencantamento do mundo como afirmava Max Weber. Como pode ser racional um sistema que geram tantos e complexos problemas humanos e ambientais. A desarticulação das culturas tradicionais e a perda de identidade projetam um mundo de incertezas. cresce o número dos excluídos do processo de decisões que conferem sentido à condição existencial.fase. A tão propalada sociedade do conhecimento mostra também sua face de desconhecimento. Por outro. postergadas. verifica-se a apropriação do conhecimento e sua valorização mercantil. eliminadas. Entretanto. Não se trata apenas da integração sociedade-natureza. nunca antes na história da humanidade. riscos e descontrole. Aí. superando-se. as liberdades estão. A interdisciplinaridade surge como um processo produtor de novos conhecimentos através do entrelaçamento de diversas disciplinas que procurem redefinir o objeto de conhecimento. com seus saberes. A interdisciplinaridade provoca revisão crítica do conhecimento fracionado. dos desempregados e desenraizados. Com o aumento da pobreza. O que está em jogo nas estratégias de poder em torno da proteção e conservação do meio ambiente e do próprio processo de desenvolvimento sustentável? Por um lado. à medida que se aproxima da era do paraíso prometido. temos os diversos significados culturais que constituem a condição necessária para a participação dos atores locais. Em busca do desenvolvimento a qualquer preço cada país quer adiantar-se mais que o outro. estaremos desenvolvidos e completamente robotizados. aquele que elimina os saberes não científicos e não ajustáveis às normas da ciência moderna. da ignorância. alienação e marginalização da força de trabalho. 16(2): 235-262. O mundo torna-se cada vez menos habitável. 2007 . aos poucos. de alienação. culturas e identidades. Franca.

de organização e ação interinstitucional.participação de pesquisadores especialistas nas áreas social. econômica. 2007 253 . A emergência de modernas sociedades democráticas levou ao rompimento da teia homogênea das sociedades tradicionais para produzir diferenciação e heterogeneidade das estruturas baseadas em lógicas contraditórias – hedonismo. envolvendo pesquisadores de diversas áreas do conhecimento. com sua racionalidade e temporalidade diferenciadas. de saúde e do meio ambiente que trazem pontos de vista diferentes e complementares sobre determinado problema ou realidade. Enquanto que na prática interdisciplinar. A multidisciplinaridade refere-se a aspectos quantitativos sem que haja os vínculos necessários entre as abordagens que se debruçam sobre o mesmo objeto e não há diálogo entre os diferentes atores. sejam eles da ecologia. O mal-estar da civilização não encontra respostas satisfatórias na teoria e na prática da globalização. que ignoram os valores. pois seus efeitos têm sido devastadores para as culturas e economias de todas as sociedades. A visão da interdisciplinaridade propõe uma reformulação dos saberes e uma síntese em direção à reorganização do mundo. situação freqüente nas universidades e na administração pública. Serviço Social & Realidade. política e cultural. Franca. 16(2): 235-262. Esse é um dos caminhos para superar os diversos reducionismos. a interdisciplinaridade representa uma nova filosofia de trabalho. do funcionalismo evolucionista ou do economicismo. mas a recriação e reconstrução do saber. os sentidos da cultura e a importância da interação social como fatores centrais na construção do capital social. duas ou mais disciplinas estabelecem conexões e interconexões para a obtenção de conhecimentos mais abrangentes e profundos. seguindo a tipologia proposta por Émile Durkheim que aponta para os laços de solidariedade mecânica e orgânica. Nesse sentido. Isso não representa um simples somatório. O saber interdisciplinar se forja no encontro e no enfrentamento de saberes diferenciados e na busca de sentido da vida pelos seres humanos que procuram apreender e compreender os processos através dos quais encontram sua identidade e superam suas angústias existenciais. Embora cada disciplina mantenha sua identidade e metodologia. eficácia e igualdade – e a articulação das ordens econômica. além de paradigma científico.

Ao mesmo tempo é preciso estabelecer relações sociais que atendam às necessidades básicas e eliminem as carências gritantes que afligem a maioria das sociedades contemporâneas. Por um lado. a dominação irracional sobre a natureza reflete atitudes e comportamentos irracionais dos homens sobre os homens. em profundidade e escala planetárias. transmitir 254 Serviço Social & Realidade. elas são instituições sociais criadas em vista de objetivos específicos. Portanto. Tornaramse comuns e repetitivos pronunciamentos sobre a crise econômica. 16(2): 235-262. A sociedade está em processo permanente de interação com a natureza. com impactos localizados e limitados. É a modernidade que suscita catástrofes sociais da natureza. que seja capaz de evitar a exploração dos recursos naturais até sua exaustão. como os de ganhar dinheiro para os acionistas. Para situar a problemática da interdisciplinaridade no contexto do desenvolvimento sustentável. é conveniente iniciar a análise com as tendências contraditórias da atualidade. percebi que as raízes desse paradoxo estão na natureza dual das organizações humanas. oportunidade de renovação e superação dos paradigmas tradicionais. Porque. com efeitos praticamente irreversíveis.há intercâmbio de hipóteses que podem contribuir para ações comuns. Os homens transformam a natureza através de suas atividades. As alterações da natureza em conseqüência de atividades humanas são socialmente produzidas e se propagam sob forma de catástrofes sociais da natureza. política. Nas sociedades agrárias pré-capitalistas também se praticava a destruição dos recursos naturais. Contudo.. em última análise. administrar a distribuição do poder político. Franca. 2007 . etc. mas. mas. moral. sabemos que uma época de crise é também. A destruição do meio ambiente em grande escala é o resultado de determinada forma de organização social que está na origem do processo de metabolismo destrutivo entre a natureza e as relações sociais. não basta racionalizar a interação entre os homens e a natureza. além de transformação de normas e padrões tradicionais. para que não ocorram catástrofes. No decorrer dos anos. precisamos do conceito de organização racional da sociedade.

maremotos. milhões de pessoas em número crescente estão vitimadas pelo desemprego. 2002. 111). interrogam-se sobre as incertezas do futuro. resultam invariavelmente em efeitos destrutivos na natureza e na sociedade. Em nível micro das empresas. diante da falta de perspectivas e da incapacidade dos Serviço Social & Realidade. a corrida incansável atrás da valorização do capital e da competitividade leva às formas e conteúdos de produção e consumo insustentáveis. a escassez de recursos naturais e a destruição progressiva da natureza. enchentes. No plano macro. 2007 255 . Franca. Em todas as sociedades. Por outro lado. vazamentos de grandes quantidades de petróleo no mar e acidentes em centrais termo-nucleares evidenciam os limites ecológicos do sistema. p. das águas e a erosão do solo no meio ambiente natural. mediante a redução de custos e aumentos de produtividade. mas transferidos para a sociedade sob forma de desemprego. 16(2): 235-262.conhecimento ou disseminar uma fé religiosa (CAPRA. vulcões. Secas. ou seja. quanto no plano micro da economia industrial das empresas. Os custos não são efetivamente reduzidos. pobreza e marginalidade no ambiente social e sob forma de poluição do ar. A pobreza. independentemente da qualidade dos produtos ou da adequação de tecnologias. Os últimos dois séculos têm demonstrado que o ritmo e a intensidade das catástrofes naturais têm acompanhando a expansão da industrialização. pela fome e pela falta de moradia tanto nos países desenvolvidos como nos países em vias de desenvolvimento. as pessoas se tornam inquietas. Constituem-se como agravantes a falta de percepção. a concorrência e a corrida por mais lucros. ansiosas. frustradas ou revoltadas. os conflitos étnicos e religiosos têm produzido milhares de refugiados em várias regiões do planeta que partem em busca de condições mínimas de sobrevivência. Mesmo os que conseguem manter-se empregados. A irracionalidade dessas relações está refletida tanto no plano macro do sistema econômico e social. Essas transformações destrutivas afetam também as condições climáticas e põe em risco a sobrevivência da espécie humana e da própria vida no planeta. leva a um estilo de vida incompatível com as carências sociais e o requisito de conservar os recursos naturais. particularmente nas últimas décadas do século XX.

a eliminação de postos de trabalho é praticamente ininterrupta ao mesmo tempo em que as relações sociais continuam sendo de natureza autoritária vedando voz e vez 256 Serviço Social & Realidade. se sobrar o povo come”. 2007 . as organizações não-governamentais. Por outro lado. freqüentemente. mistificação com relação à distribuição de renda efetiva. O modelo econômico e social vigente e os pressupostos de desenvolvimento se mostram insustentáveis. como orientação para o crescimento econômico. expresso e estampado nos jornais. consequentemente.). Como não sobram. em muitas sociedades. o Estado perdeu o monopólio de poder coercitivo para grupos armados envolvidos no tráfico de drogas. por exemplo. mesmo havendo aumento de produtividade ou transferência de tecnologia. terrorismo.governos de atender suas expectativas de uma vida melhor. 16(2): 235-262. evitam dar clareza aos aspectos fundamentais do contexto e das tendências da sociedade atual. necessariamente. Da mesma forma. apesar de toda sua gana pela proteção do meio ambiente e a prevenção dos acidentes ecológicos não tem conseguido mobilização efetiva da população na luta por condições e qualidade de vida mais sustentáveis para os seres humanos. Mão-Santa. Entre os efeitos sociais mais marcantes desses processos desestruturadores destacam-se a percepção de situação de insegurança. armas e contravenção. Pelo contrário. pois o processo de crescimento econômico induzido se mostra estéril por não gerar empregos. buscando maximizar o retorno sobre seu investimento. apesar das amargas evidências sobre sua inadequação e. Intel. distribuição mais equânime da produção para não falar da democratização do consumo. Franca. As análises presentes nos documentos e pronunciamentos oficiais referentes ao desenvolvimento sustentável muitas vezes não passam de maquiagem. Por outro lado. enquanto isso a humanidade permanece ameaçada. Pois prevalece ainda a lógica do ditado popular “primeiro a gente vende. revistas e noticiários de todas as regiões do Brasil. o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC (verdadeira peça publicitária) tende a ignorar que as tecnologias são controladas por organizações poderosas (Microsoft. de perda de identidade e. não significa. o esfacelamento da solidariedade social. todos reconhecemos com facilidade o resultado. Bayer. Os indicadores macroeconômicos. etc. As análises que se concentram nas propostas de inovação tecnológica como alavanca do crescimento.

ignorando e desprezando os direitos das futuras gerações. como no Brasil. a agricultura. A grande contradição do sistema é que ele está destruindo a si próprio na medida em que seu desenvolvimento encontra-se alicerçado na depredação ambiental.às populações menos favorecidas. a complexidade e o caos. Franca. a natureza. a indústria. ocorre retrocesso em termos de acesso aos direitos de cidadania e da extensão dos direitos sociais a todos. Os efeitos sociais e culturais de seu funcionamento são desestruturadores. 2007 257 . socializar os trabalhos de campo. A falta de planejamento e de senso de humanidade conduziu ao aprofundamento da crise ecológica que. o comércio. 16(2): 235-262. Serviço Social & Realidade. Em muitos lugares. ainda evitamos enxergar o conjunto. Não dá mais para encarar os problemas de desenvolvimento sob o enfoque do Banco Mundial. minando a existência e a sobrevivência humana. Além de não conseguir. aliada ao paradigma desenvolvimentista. Para conseguir efetivamente estudar esses fenômenos inter-relacionados. oprimida e marginalizada dos benefícios da civilização urbano-industrial. são proporcionados favores clientelistas e paternalistas (Bolsa Família). acabaram sacramentando as desigualdades e a concentração de riquezas. explorada. como integrar os estudos de laboratórios e a academia e. a estrutura social e política. O sistema parece implacável em sua dinâmica: os ganhos só beneficiam aos ricos. enquanto aos pobres. Para compreendermos os fenômenos complexos da vida no planeta terra é necessário elaborar um esquema conceitual e metodológico que contemple e destaque as conexões e as interconexões entre as diferentes áreas do conhecimento. é preciso criar relações e condições para a interação entre os pesquisadores que visem definir como trabalhar de forma interdisciplinar. do efeito estufa. seus impactos destrutivos e a degradação da população mundial. posto que a corrida desenfreada por ganhos econômicos sufocam os valores de cooperação e solidariedade. das crianças abandonadas. do crescimento demográfico. enquanto reprime as manifestações de identidade nacional. do apartheid social. na melhor das hipóteses. desafiando nossos conhecimentos e crenças convencionais. fundamentalmente.

vítima direta da concorrência desenfreada e desleal. os relatórios. ou seja. A importância da evolução tecnológica e o poder da informação No primeiro momento o uso da informática pelas organizações tinha como finalidade apenas o processamento de dados. contribuir na elaboração e configuração da visão integrada e coerente. Devemos duvidar de toda racionalidade baseada no cálculo econômico. Os problemas dos sistemas naturais e sociais transbordam as fronteiras das diferentes disciplinas. 110). cabe a nós e às áreas do conhecimento atinentes ao problema. a contabilidade e o controle de estoque. Assim. uma organização passa a ser vista como uma rede. As primeiras aplicações desenvolvidas foram a folha de pagamento. Daí a necessidade da ação coletiva e interdisciplinar. a busca de aumento da produtividade e competitividade. sem considerar os efeitos poluidores do meio ambiente. alicerce do trabalho em equipe interdisciplinar.Para construir uma sociedade sustentável para nossos filhos e as gerações futuras. pois. Surgem os primeiros sistemas de informação gerenciais. facilitando e fornecendo de tal forma dados precisos para a tomada de decisão. para se tomar qualquer atitude é preciso antes tomar 258 Serviço Social & Realidade. 16(2): 235-262. amparados por um quadro de referências teóricas comuns. a preocupação central é o retorno financeiro dos investimentos. p. de modo a conseguir transpor o enorme abismo que se abriu entre os projetos humanos e os sistemas ecologicamente sustentáveis da natureza (CAPRA. 2002. Mas. cujos benefícios principais eram a agilidade e redução de custos através da mecanização das tarefas. as tecnologias passaram a fornecer informações. No segundo momento. 2007 . Franca. a desestruturação social e a alienação do ser humano. o que fica claro quando se estimula e incentiva-se a concorrência ilimitada. além de manipulá-las. temos de repensar desde a base uma boa parte das nossas tecnologias e instituições sociais. ou seja. se a realidade e o conhecimento são produzidos por nós (seres humanos).

o departamento de projetos encontra-se em outro país diferente. pois no caso da Cidade Digital. relatório sobre a situação financeira da empresa. que distribui internet gratuita para toda a população. outra no México e. com certeza. Com base nessas informações. conectados em redes Wi-Fi e WI-MAX operando através de sistemas distribuídos e altamente integrados. na maioria das vezes. já que cada vez mais as próprias organizações estão se descentralizando. O prefeito que dispuser de sistemas que apóiem decisões. Dessa forma. poderá somente entrar com suas idéias (alternativas de solução) e o sistema calcula as conseqüências. os termos e as formas de atuação antigas estão desaparecendo. A observação mais nítida é o fenômeno da globalização. espalhadas pelo mundo atuando em vários mercados e países. ele pode recorrer a sistemas que forneçam informações tais como: relatórios sobre percentual de comprometimento do orçamento com a folha de pagamento. a participação da informática no contexto atual das organizações é muito maior e mais importante. modernizando. Franca. que fornece o link está sediada em cidade vizinha. Ao comprar um computador temos como certo que uma parte dele foi feita na China. às vezes nem isso. Nesse sentido ela esta se adequando cada dia mais à realidade. pois é a base para a tomada de decisões. hoje. enquanto que os técnicos que dão manutenção ao sistema estão no Instituto de Serviço Social & Realidade. e não só fornecer ou processar informações. a tecnologia está preocupada em apoiar as decisões. ocorre no próprio local onde estão os dados. 2007 259 . empresas. No atual momento. se tornando polivalente e multidisciplinar.decisões e as decisões só podem ser tomadas quando se dispõe de informação. avançando. como é o caso de Alterosa. com o Programa Cidade Digital. desempenhadas pelas próprias pessoas que usam esses dados. Se um prefeito ao realizar a correção anual de salários ou quiser dar um reajuste salarial aos funcionários públicos. 16(2): 235-262. o CPD está no Pólo da Universidade Aberta do Brasil em Alterosa. Também está desaparecendo a “centralização” da informática. As funções de operação de entrada e saída dos dados que antes eram feitas em enormes salas. a empresa representante. outra na Coréia. o administrador pode pensar em percentuais de aumentos e até em aumentos escalonados. Hoje os computadores estão menores.

só a produção e multiplicação do conhecimento. como afirma Capra. Franca. o desenvolvimento das aplicações também fica descentralizado. a partir dos existentes. mas nem isso é necessário. Um pouco da responsabilidade passou para o próprio usuário que. acessível e segura. 118). toda ela estruturada em torno de fluxos de informação.Desenvolvimento do Meio Ambiente – IDEMA. cooperação. clareza. Quando pessoas compram computadores. então. 16(2): 235-262. A contribuição da informática para as organizações não está nos sistemas ou tecnologias. Pensando em escala ainda maior. Assim. colaboração. mas sim realizar melhor suas tarefas e atingir melhor seus objetivos. A informática torna-se a cada dia mais um instrumento poderoso para as organizações que pretendam melhorar desenvolvimento. econômica. completa. nível adequado de detalhes. p. relevante. mas sim um meio para se alcançar as metas desejadas. Na atualidade para obterem sucesso necessitam de informações de qualidade e a qualidade dessas informações está na confiabilidade. Conclusão Se todos nós estamos ligados à teia da vida em nosso planeta. flexível. organização no armazenamento e recuperação. velocidade. principalmente nas informações. o sociólogo Manuel Castells afirma que a recente revolução da informática deu origem a uma nova economia. verificável. coleta e geração de novas informações e conhecimento. em qualquer lugar que estiverem conseguem. muitas vezes. faz suas próprias aplicações com uso de ferramentas como access. não querem na verdade máquinas. serão capazes de proporcionar condições para as novas realidades. Nesse aspecto. mas. precisamos organizar o mundo de tal forma que as crenças e valores não tenham apenas o capital como 260 Serviço Social & Realidade. 1996. validade. poder e riqueza nas redes financeiras internacionais (CAPRA. melhorando seus negócios. precisão. a conectividade digital. 2007 . o que se espera da Informática é que ela possa ajudar as organizações a atingirem seus objetivos. à distância. Portanto. dar manutenção e suporte ao sistema. planilhas e editores de textos. objetividade. A informática não é uma finalidade ou objetivo.

M. D. v. A teia da vida: uma compreensão científica dos sistemas vivos. Franca.alicerce. the public administration and the systems of information. econômica. Introdução à teoria geral da administração. 2007. todos sem distinção. 2. Information. 1975. ______. Organizations. n. Teoria Geral de Sistemas. Rio de Janeiro: Campus. ed. C. L. • ABSTRACT: The present study aims at a better understanding of the systemic approach front to the challenges of the daily life. desde as células mais primitivas até a contemporaneidade. Interdisciplinarity. p. ou seja. cultural e ambiental. 16. estão organizados segundo os mesmos pressupostos. 2007 261 . 2002. RIBEIRO. Serviço Social & Realidade. mas para a sobrevivência e sustentabilidade da humanidade. I. política. 235-262. the organizations. Daí a necessidade de uma compreensão sistêmica de todos os aspectos da vida social. com suas organizações e Estados. Systemic Thought. 2000.. Vozes. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. • Referências BERTALANFFY. interconnected to the General Theory of the Systems. COSAC.. D. For a systemic approach in the understanding of contemporaneity. 16(2): 235-262. CHIAVENATO. Isso está claramente demonstrado nas últimas descobertas científicas. o padrão em rede. V. CAPRA. 1996. KEYWORDS: Systems. Serviço Social & Realidade (Franca). 6. F. R. São Paulo: Cultrix. São Paulo: Cultrix. a economia globalizada. isso não apenas para o bem-estar das organizações humanas.

.

. para reforçar sua magnitude. Dr. Determinismo. sociólogo. na Universidade Federal de Santa Catarina. * Graduado em Serviço Social pela Universidade Comunitária Regional de Chapecó – Unochapecó (2002-2006). a teoria social de Marx não pode ser enquadrada no moderno sistema de distinção e classificação das ciências sociais. embora admitamos a ressalva de que se doutorou em filosofia. A tese defendida considera que uma leitura atenta do Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política e das Teses sobre Feuerbach proporciona os elementos necessários para esclarecer as dúvidas imediatas que opõem determinismo e práxis. 16(2): 263-282. A categoria práxis não suprime ou exclui o materialismo marxiano. portanto. A tese materialista de Marx considera que a base ou estrutura é precondição ou condição precedente (e indispensável) do desenvolvimento da superestrutura. O objetivo é. por exemplo.com. Em consideração a isso. dispensa qualquer apresentação. Trabalho teórico originalmente apresentado – como um dos requisitos de avaliação – à disciplina Pensamento Social Moderno e Contemporâneo. em setembro de 2007. Apoio da CAPES. objetiva e subjetiva – no método de Marx. do Programa de Pós-graduação em Serviço Social. Franca. tratamos Karl Marx como pensador ou intelectual. rejeitando as demais qualificações que lhe costumam atribuir – como.br. 2 Do ponto de vista marxista. PALAVRAS-CHAVE: Método de Marx. etc. o que não supõe qualquer caráter determinista. pela obra grandiosa que produziu e pela propagação incomensurável que tiveram suas idéias. apenas. ministrada pelo prof. analisar o Prefácio e as Teses a fim de explicitar alguns pontos polêmicos sobre o embate entre determinismo e práxis no método marxiano. Mestrando em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC (início 2007).DETERMINISMO E PRÁXIS: O DUALISMO DO MÉTODO DE MARX1 Gustavo MENEGHETTI* • RESUMO: O presente ensaio tem como tema o dualismo entre determinismo – concepção segundo a qual a base ou estrutura determina a superestrutura – e práxis – ação ou atividade humana que é. Bolsista da CAPES. economista político. Raúl Burgos. • Introdução O intelectual ou pensador alemão Karl Heinrich Marx2 (1818-1883). fundamentalmente por sua perspectiva de totalidade. 1 Serviço Social & Realidade. ao mesmo tempo. Práxis. 2007 263 . Relembramos. e sim o reconhece como ponto de partida de um movimento dialético entre sujeito e objeto. E-mail: gutomeneghetti84@yahoo.

Manuscrito de 1843). O 18 Brumário de Luís Bonaparte. na cidade de Londres. 2007 . e. escritos em 1843 e publicados nos Anais Franco-Alemães de fevereiro de 1844. Não estamos. ou seja. do ano de 1852. 16(2): 263-282. Marx não formulou de forma explícita e sistemática o seu método de pesquisa (como o fizeram Max Weber e Émile Durkheim. Por um lado. as condições materiais de existência. Contribuição à Crítica da Economia Política. O Capital. A Questão Judaica e a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. ainda. cujo texto completo só fora publicado muito tempo após a morte dos seus autores (1932). Manifesto do Partido Comunista. 264 Serviço Social & Realidade. em 1845-1846. como interpretações distintas – e opostas – do método de Marx. A Miséria da Filosofia. Por outro lado. redigido em 1844 e publicado somente em 1932. não por acaso. das diferenciadas interpretações com relação ao método marxiano. Como sabemos. publicado no final de 1845. respectivamente. Falamos do embate entre determinismo e práxis. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. É precisamente sobre isso que versamos neste ensaio. uma das mais citadas pelos seguidores da tradição marxista: o Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política. uma das passagens mais célebres e. ao contrário. A Ideologia Alemã. cujo primeiro volume apareceu em 1867 e os volumes 2 e 3 são publicações póstumas realizadas por Engels. que data de 1847. Nosso trabalho incide no que podemos chamar de um debate interpretativo clássico da obra de Marx. em colaboração com Engels.as principais obras de Marx: Manuscritos de Kreuznach (também conhecido como Crítica da Filosofia do Direito de Hegel ou. texto contra o socialista utópico PierreJoseph Proudhon. por exemplo). escrita. Quiçá este seja o principal motivo das incompreensões. 3 Entendemos como materialismo a doutrina filosófica segundo a qual todo e qualquer conhecimento deve ter como base ou fundamento a realidade objetiva e material. redigido com Engels. em 1848. ele apenas “ventilou” as idéias correspondentes. aquilo que para muitos estudiosos é a maior expressão do método marxiano. sendo fundamental para entender o seu materialismo3: as Teses sobre Feuerbach. em 1885 e 1894. primeiro fruto da associação de Marx e Engels. Franca. de modo algum. A Sagrada Família. dispersando-as em diversos dos seus trabalhos. ou melhor. especificamente com relação ao seu método. obra editada em 1859.

etc. 2007 265 . analisar o Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política e as Teses sobre Feuerbach a fim de explicitar alguns pontos polêmicos acerca do dualismo entre determinismo e práxis no método de Marx. um pressuposto central de análise de muitos seguidores da tradição marxista. pelo contrário. principalmente. as diversas formas ideológicas de consciência social (religião. uma das fontes de inspiração e. pela importância e o caráter conclusivo que o próprio Marx atribui. Entendemos por práxis a ação ou atividade humana que é. o fato é que o Prefácio à Contribuição se Serviço Social & Realidade. noutros termos. Desde já. continua mais atual do que nunca. aliás. objetiva e subjetiva – significando a unidade entre teoria e prática – ou. provocando freqüentemente confusões e polêmicas. por assim dizer. Consideramos como determinismo a concepção segundo a qual a base ou estrutura – ou seja. Franca. O que era para ser um simples prólogo apresentado o caminho que levara o intelectual alemão ao estudo da economia política acabou por se tornar uma das páginas mais citadas. arte. só poderá ser executada por estudiosos especializados na teoria social de Marx.ressuscitando um problema já superado no decurso do tempo. além de não ter sido solucionado. a inter-relação entre as condições materiais que delimitam a atividade humana e seu caráter criador.) e as correspondentes instituições jurídico-políticas. Pela ausência de elaboração sistemática do seu método de pesquisa. pela argumentação prodigiosa a que muitos consideram. ressaltamos o caráter modesto de nossa apresentação. o conjunto das relações de produção – determina. literatura. em janeiro de 1859. Nossa tese considera que uma leitura atenta do Prefácio e das Teses nos proporciona os elementos necessários para esclarecer as dúvidas imediatas que opõem determinismo e práxis. enfim. 16(2): 263-282. o embate entre determinismo e práxis. 1 O Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política Marx escreveu essa célebre passagem na cidade de Londres. portanto. ciência. simultaneamente. voltada muito mais para esclarecer alguns pontos polêmicos e instigar o debate do que para explicar adequadamente a controvérsia – tarefa que. mecanicamente a superestrutura – isto é. Temos como objetivo neste ensaio.

inclusive. Podemos dizer que o estruturalismo se constituiu na doutrina que. preconizando. política e intelectual em geral. Há alguns meses. sem. eis o ponto de partida indiscutível de qualquer análise marxista.24). malgrado as diferenças e a própria evolução do pensamento de seus autores. a atualidade.. p. os homens estabelecem relações determinadas.. levaram a determinação estrutural às últimas conseqüências. pode formular-se resumidamente assim: na produção social da sua existência. como Louis Althusser e o “jovem” Poulantzas. por assim dizer. 2007 . independentes da sua vontade. A parte mais fundamental.] (MARX. é o seu ser social que. 16(2): 263-282. Uma forma bem conhecida e que se tornou muito comum é interpretar essa proposição do seguinte modo: a base determina a superestrutura..] A conclusão geral a que cheguei e que. Franca. indubitavelmente. a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual correspondem determinadas formas de consciência social. determina a sua consciência [. O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade. 1983. por sinal – de um autor marxista em cuja introdução se dizia mais ou menos assim: o marxismo parte 266 Serviço Social & Realidade. serviu de fio condutor dos meus estudos.. Os denominados estruturalistas. uma vez adquirida. que os homens nada mais seriam que suportes da estrutura econômica da sociedade. Enésimos autores marxistas concordam com a idéia de que a base determina a superestrutura. E isso abrange. O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social. líamos um trabalho – extraordinário. necessárias. explicar adequadamente o que isso significa e quais as implicações que um tal pressuposto pode ter: para eles. Mas se enganam aqueles que pensam que tal concepção é prerrogativa dos estruturalistas. no entanto. relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais. tornou mais radical essa interpretação “determinista” da tese de Marx. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser. inversamente. dessas páginas se nos parece encontrar na seguinte asserção: [.transformou numa espécie de núcleo central do pensamento marxiano.

possivelmente. a influência de Hegel (GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL – 1770-1831) na Alemanha – e. diz respeito ao momento em que Marx fala sobre seu amigo e colaborador Friedrich Engels (1820-1895). do método de Marx? Eis o pressuposto central da análise marxista da realidade? Um primeiro elemento que a análise do próprio Prefácio nos proporciona. para além dos territórios alemães – fora algo inenarrável. só pode ser alcançado através das idéias.. dentre outros). e que nos serve para esclarecer algumas dúvidas imediatas sobre o assunto.. o qual. em que sua filosofia idealista era a grande fonte de todo pensamento da época – lembremos de sua famosa frase: “tudo que é racional é real. Aliás. Marx participou de um grupo de jovens hegelianos e se encontrava também sob a influência do sistema filosófico de Hegel. Marx (1983. tratava-se. FICHTE. de um ajuste de contas com a nossa consciência filosófica anterior [.. Será essa a chave do pensamento ou. HEGEL. há um certo tempo. 16(2): 263-282. elevando a razão como ente superior e absoluto do conhecimento.] resolvemos trabalhar em conjunto. p. Feuerbach (1804-1872) publica sua obra A Essência do Cristianismo (1841).. pelo menos. Mas quando Ludwig A. por vias diferentes.da constatação de que o modo de produção de uma sociedade determina as superestruturas institucionais e as formas de consciência que nelas se observam. uma “constante troca de idéias” com Engels e que este havia chegado. afirmando que o estudo da humanidade deve partir do mundo real e material e não de uma suposta evolução do espírito. extraordinário. Marx se refere ao tradicional idealismo4 filosófico alemão (KANT. propondo inverter as premissas idealistas da filosofia hegeliana. e tudo que é real é racional”. O autor – que preferimos ocultar – não traz qualquer explicação adicional sobre isso. então.. 267 Serviço Social & Realidade. Franca. 25-26) prossegue dizendo: [.. por escrito. ao mesmo resultado que o seu. os jovens discípulos de Hegel – 4 Compreendemos por idealismo a doutrina filosófica de acordo com a qual todo conhecimento deve provir da racionalidade humana.] na primavera de 1845 [.]. Após afirmar que vinha mantendo. 2007 . a fim de esclarecer o antagonismo existente entre a nossa maneira de ver e a concepção ideológica da filosofia alemã. de fato.

está a destacar a sua ruptura e crítica epistemológica ao idealismo. procede dizendo: “[. dizia Marx. Nas linhas que antecedem a “parte fundamental” que transcrevemos. 16(2): 263-282... Franca. é que a afirmação da precedência da vida material constitui. Serviço Social & Realidade. então.. o rompimento e a crítica a toda uma tradição filosófica idealista. portanto. O que estamos a demonstrar.] Nas minhas pesquisas cheguei à conclusão de que as relações jurídicas [. ponto fundamental da transição para a maturidade do seu pensamento. Antes de qualquer debate sobre determinismo. a crítica à Filosofia do Direito de Hegel. concernente à evolução dos seus estudos. é que Marx elabora sua crítica. sobretudo. nesse período (1843-1844). Isso nos parece corroborar a idéia de que o clima intelectual que está na origem da “conclusão geral” esboçada no Prefácio é o da ruptura e crítica à filosofia idealista alemã. quando Marx fala da oposição dele e Engels em relação à filosofia alemã. a propósito do Prefácio. Num tempo em que a explicação do mundo pela “razão do espírito” de Hegel influenciava com total preponderância os corredores acadêmicos e intelectuais. mas deveria ser buscada nas condições materiais da vida social. a qual substitui a todo idealismo e afirma de uma vez por todas o primado do mundo real e material. o que está em jogo e o que Marx quer enfatizar é uma nova concepção. ou seja. A nosso ver.. uma resposta crítica – e propositiva – ao 5 Vale lembrar. mas a assimilação dessas o levaram a rever o pensamento de Hegel5 e a criticar a concepção filosófica alemã. É esse o clima intelectual que está na gênese das idéias expostas no Prefácio. nesse momento. A essência do Estado. 2007 268 .] não podem ser compreendidas por si mesmas. estabelecendo o “caminho” que o guiaria em suas pesquisas. Marx não aceita integralmente as premissas de Feuerbach. nessa conjuntura.incluindo Marx – foram levados a repensar suas idéias e concepções. tanto as idéias de Feuerbach como a filosofia hegeliana se faziam bem influentes. revisa suas idéias e constrói uma nova concepção. p. 1983. não poderia ser encontrada na “razão universal” de que falava Hegel. as críticas de Marx à Filosofia do Direito de Hegel – embora. nem pela dita evolução geral do espírito humano. e a afirmação categórica de uma tese distinta e oposta. 24). aliás. inserindo-se pelo contrário nas condições materiais de existência” (MARX. Assim. Marx fala sobre o primeiro trabalho que empreendeu para esclarecer suas dúvidas.

que afirma a produção da vida material como ponto de partida ou precondição fundamental da vida social em geral.. se são precisamente os homens que levam adiante o conflito entre as forças produtivas e as relações de produção. Em primeiro lugar. tem-se a assertiva contrária de que toda explicação deve partir da Serviço Social & Realidade. 25) procede da seguinte maneira: “[. Franca. mais ou menos rapidamente. gerando “uma época de revolução social”. Antes de qualquer indagação sobre determinismo. Marx (1983. p. essa crítica ao idealismo. ao sujeito transcendental. em determinado estágio de desenvolvimento. p. ou seja. Afinal. é preciso. que explica o mundo pela “consciência de si”. imaginava que se pudesse identificar aí uma certa concepção mecanicista ou determinista da realidade? Outro elemento que a análise do Prefácio nos traz a respeito disso.] Assim como não se julga um indivíduo pela idéia que ele faz de si próprio. Ora. Acreditamos ser essa a fonte da “conclusão” exposta no Prefácio.]”. Simultaneamente.. As linhas que seguem a partir daí nos proporcionam dois pontos a serem problematizados. Novamente. pode ser verificado quando Marx fala de transformação social. sendo transformados ao mesmo tempo em que o transformam... Marx fala que os homens tomam consciência do conflito “levando-o às suas últimas conseqüências”. essa nova concepção. a consciência dos homens. Os homens não só tomam consciência como agem no interior do conflito.]”. explicar esta consciência pelas contradições da vida material [. 16(2): 263-282. 2007 269 . Tudo isso vai ao encontro da asserção segundo a qual a estrutura econômica determina.. Marx diz que é necessário distinguir entre a alteração das condições de produção e as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência do conflito. inclusive. Em segundo lugar. toda a imensa superestrutura [. será que Marx. não se poderá julgar uma tal época de transformação pela mesma consciência de si.. as forças produtivas da sociedade entram em contradição com as relações de produção.] A transformação da base econômica altera. com relação à proposição de que a base “determina” a superestrutura. Após defender que. pelo contrário.. ao tempo em que escrevia as páginas do Prefácio.. Marx (1983. o que nos parece dito aí é uma recusa à filosofia idealista. temos de considerar esse clima intelectual.idealismo filosófico alemão. é porque eles não são simples “suportes” fatalmente determinados pela estrutura econômica da sociedade.25) afirma que: “[. Mas ao final desse último argumento.

intelectual. Ao tempo em que ambos concordam – e. além dos que abordamos neste ensaio. percebemos aí que o seu autor se presta a um debate ou a uma resposta a alguns críticos que contra ele proferiram em virtude da primeira edição (1867). transcrevendo uma longa passagem de sua própria crítica. Ambos os pontos ressaltados estão a discordar daqueles que vêem toda essa argumentação como o invólucro da “tese central” da determinação estrutural econômica. jurídica. Berlim. Mensageiro Europeu. o que seria uma tautologia repetir mais uma vez. O primeiro embate é dirigido à Revue Positiviste de Paris. faz-se oportuno. colocando-nos no ponto de vista da réplica de Marx. 16(2): 263-282. Se há outro lugar de destaque. solicitamos a condescendência do leitor para que possamos realizar uma única e breve exceção. 1985. e o segundo é voltado para um periódico de São Petersburgo. mas com o intento de elucidar ainda mais o nosso tema. Prescindindo do que se refere à economia política. política. na medida em que defendemos que uma leitura com afinco de tais textos nos proporciona elementos esclarecedores a respeito do debate entre determinismo e práxis no método de Marx.13). não foi bem compreendido” (MARX. ironicamente. 1859. antes dizendo: “Depois de citar um trecho do prefácio de minha obra ‘Contribuição à Crítica da Economia Política’. seja a única concordância em certa medida indiscutível – que a produção da vida material é precedente. 14) responde ao autor do artigo russo. não como um subterfúgio. a nosso ver. mesmo evitando repetições. que julga o seu método de exposição como “idealista no sentido germânico”.vida material. Franca. é precondição. cultural. Qualquer palavra que pensamos dizer sobre isso. p. ressaltar um ponto que nos parece bem expressivo. pois: “O método empregado nesta obra. Não obstante. do desenvolvimento da vida social. p. p. tal é o Posfácio à segunda edição do livro primeiro de O Capital (1873). 2007 . etc. Já dissemos antes que Marx nunca sistematizou seu método de pesquisa. Marx (1985. no qual Marx esboçou explicações sobre o método de suas pesquisas. conforme demonstram as interpretações contraditórias. IV a VII. dispersando os pressupostos que servem de base às suas investigações ao longo dos trabalhos que escreveu. que acusa Marx de tratar a economia metafisicamente. Restringimos nossas observações à análise do Prefácio e das Teses. tende a nos levar ou confluir precisamente no que temos observado até aqui. onde ventilei o fundamento 270 Serviço Social & Realidade. Contudo. quiçá.

as principais ou as mais importantes são as relações de produção. em sua forma acabada. – sendo que. sublinhar um outro aspecto presente no Prefácio e que nem sempre damos a devida atenção. p. pelo que disse no posfácio de O Capital.]”. pois. diz ter “ventilado” ali o fundamento materialista do seu método. no nosso entendimento.materialista do meu método. dentre as relações que os homens estabelecem em sociedade. ainda. por completo ou. aqui. Por isso Marx (1983. estabelecendo determinadas relações de Serviço Social & Realidade.] O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social.. determina a sua consciência [. cujo conjunto forma a base ou estrutura econômica da sociedade. Dessa forma. Ou seja. é o seu ser social que. mediante as quais os homens produzem suas condições materiais – indispensáveis – de existência. pois o que nos interessa.. e quando principia sua réplica. de “dialético-alemão”. de filósofo idealista. O motivo é obvio: os homens precisam garantir suas condições de existência e sobrevivência e. p. religiosas. Marx compartilha a tese aristotélica de que a sociedade precede o indivíduo. foi o fundamento materialista – e não o único fundamento – que esboçou em 1859. ao se referir ao Prefácio.24) assevera: “[. pois é precisamente através dessas que eles garantem a sua subsistência. política e intelectual em geral [. para tanto. pelo menos. inversamente..]”. ou nas suas palavras. como afirma Marx (1983. que já nasce em uma determinada sociedade.. ao contrário da filosofia política moderna (Hobbes. comerciais.] Não é a consciência dos homens que determina o seu ser. Ora. Franca.. 2007 271 . Não nos preocupamos. etc. por assim dizer. 24): “[. ele considera o homem como um ser social. tal é ou tais são as relações sociais de produção.. no mínimo. fazendo parte de um todo.. em seu método de expor. prossegue o autor”. Reconheçamos a coerência: Marx é acusado. as quais se subdividem de modo diverso – afetivas. isso quer dizer que no prólogo à Contribuição Karl Marx não apresentou o seu método. com o caráter de núcleo central. necessitam de um modo pelo qual podem produzi-las. é exatamente a referência ao Prefácio.. que parte do estado de natureza. por exemplo. Locke. com os pormenores dessa controvérsia. Rousseau). Trata-se da dimensão social. existe uma sem a qual eles não viveriam. de uma coletividade social. neste ensaio. a consciência dos homens se enraíza nas suas relações em sociedade. porque. para Marx. Importa. 16(2): 263-282.

defendem que o ponto principal e essencial de transição para a maturidade do Recordamos.] De bom grado abandonamos o manuscrito à crítica corrosiva dos ratos. ademais. pois a consciência dos homens é “determinada”. o fato exposto por Marx de que Engels e ele resolveram. entretanto. que seria das relações sociais se os homens desempenhassem um papel tão subordinado? 2 As Teses sobre Feuerbach Mencionamos na seção anterior. pela atividade humana em sociedade. embora escrita no período de “juventude”. constando aí as suas idéias fundamentais. 6 272 Serviço Social & Realidade. “na primavera de 1845”. que era enxergar claramente as nossas idéias [. escrita entre 1845 e 1846. Franca. para Marx. a existência de homens se relacionando entre si. cujo texto completo só fora publicado muito tempo após a morte dos seus autores (1932). Esse trabalho constitui a obra A Ideologia Alemã.]”. para falar como Marx. Não obstante. 16(2): 263-282. Isso supõe. a nosso ver. por exemplo.. Muitos estudiosos. Ora.. Mas as relações produtivas são sociais6. 2007 . tanto mais que tínhamos atingido o nosso fim principal. Isso vem em primeiro lugar. A Ideologia Alemã é considerada a primeira obra importante em que Marx expõe o pensamento de sua maturidade.. p. o que é o seu eufemismo. só existem em sociedade – o indivíduo isolado é uma abstração da economia política clássica (que Marx chama de vulgar) – e fazem parte de um todo de relações que os homens estabelecem entre si como partícipes de uma determinada coletividade. que. pois se o prescindir os homens perecem. afirma Marx (1983. Portanto. ou que a “economia” é um conjunto de relações sociais estabelecidas entre os homens. a propósito do Prefácio. trabalhar em conjunto com o objetivo de esclarecer o antagonismo entre suas maneiras de ver e a concepção da filosofia alemã.26): “[.produção. O que não dissemos.. Para muitos comentadores. foi que o manuscrito produzido na época. não chegou a ser impresso. inexoravelmente. quanto à idéia de que a base determina a superestrutura. a dimensão social é primordial na teoria marxiana – e isso inclui o método –. que Marx denomina de “crítica da filosofia pós-hegeliana”. o “capital” é uma relação social que se estabelece entre a classe capitalista/burguesa e a classe trabalhadora. o que nos torna incrédulos quanto à proposição estruturalista de que os homens seriam apenas “suportes” da estrutura econômica da sociedade ou.

Assim como a influência de Hegel não pode ser suprimida do pensamento marxiano – o que. Deus nada mais é do que uma ilusão criada pelos homens. Muito sinopticamente. da guerra. à época dos anos iniciais de 1840. em 1841. em Hegel. redigidos entre 1843 e 1844 – o Manuscrito de Kreuznach. o mundo real é inferido do mundo ideal e a vida é idealizada tal como na religião. o mundo pensado pela religião – da concórdia. que não tem absolutamente nada de real. Alguns estudiosos supervalorizam as proposições críticas dirigidas à filosofia feuerbachiana. o homem é um ser alienado perante a religião. Quando Ludwig Feuerbach publicou sua obra A Essência do Cristianismo. escritas em 1845. em 1888 e são conhecidas sob o título de Teses sobre Feuerbach. Para Feuerbach.pensamento de Marx consiste em algumas breves proposições críticas. a Questão Judaica e a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. o que é pior. Expressão disso é o reconhecimento de Marx de que “a crítica da religião é a premissa de toda crítica”. da amizade – não passa de uma imaginação e. da paz. fez-se sentir inclusive nas críticas dirigidas contra sua Filosofia do Direito –. para ele. Por isso. 2007 273 . foi grande o impacto ocasionado sobre o grupo de jovens hegelianos. é esse o contexto intelectual que circunscreve o texto que pretendemos analisar nesta seção. do egoísmo. Ludwig Feuerbach demonstra que a filosofia hegeliana não passa de um tipo de religião introduzida no pensamento. 16(2): 263-282. dirigidas contra a filosofia feuerbachiana. a influência do pensamento de Feuerbach. porque acredita numa felicidade ilusória enquanto vive numa tristeza real. Franca. É a inversão das premissas da filosofia hegeliana: o real não é mais uma emanação do espírito e o pensamento passa a ser considerado como um produto/reflexo da realidade material. além de os Manuscritos Econômicos e Filosóficos (em alguns aspectos) – acusam. um ser inventado. outros reconhecem a sua importância decisiva para o pensamento de Marx – e não resultaria em erro Serviço Social & Realidade. cumpre a função de dissimular o mundo real – da discórdia. Tais foram publicadas. sem dúvida. Os primeiros trabalhos de Karl Marx. Assim. também alemão. apesar de Marx nunca ter adotado-as integralmente. as idéias são o ponto de partida e o ponto de chegada. faz uma crítica severa à religião. Esse intelectual. por Engels. também é equivocado negar o influxo que as idéias de Feuerbach tiveram principalmente no período de “juventude”.

Se bem que Feuerbach tenha o mérito de distinguir entre 274 Serviço Social & Realidade. não subjetivamente [. Feuerbach. para as Teses. a realidade. só é apreendido sob a forma de objeto ou de intuição. mas. como práxis. p.. Na filosofia feuerbachiana. a realidade objetiva é apreendida como algo separado da atividade humana. ou seja. mas não apreende a sensibilidade como atividade prática. ao tempo em que considera a realidade material como “fator determinante” da vida humana. para além disso. aqui. segundo a qual os homens transformados são produtos de outras circunstâncias e de uma educação modificada. esquece que são precisamente os homens que transformam as circunstâncias e que o próprio educador deve ser educado [. humano-sensível (tese V). Assim como todos os outros filósofos materialistas que o precederam. apela para a intuição sensível. então.]. configuram um posicionamento contrário a toda e qualquer idéia ou concepção mecanicista da realidade humana.125-127): O principal defeito de todo materialismo até aqui (incluído o de Feuerbach) consiste em que o objeto. portanto. Podemos dizer que tais teses não constituem apenas uma crítica ao materialismo determinista.] (tese I).] (tese III). 16(2): 263-282. mas não como atividade humana sensível. nas seguintes palavras de Marx (1996. Franca.situar Engels entre um ou outro desses grupos – e mesmo aqueles que não concordam com nenhuma dessas posturas também não podem simplesmente ignorar ou declarar secundárias e prescindíveis as chamadas Teses sobre Feuerbach... As teses I. a sensibilidade. Voltamos nosso olhar. 2007 . Feuerbach. não satisfeito com o pensamento abstrato. Podemos incluí-las. A doutrina materialista segundo a qual os homens são produtos das circunstâncias e da educação e. desconsidera ou ignora completamente a modificação do mundo objetivo pelo sujeito. Feuerbach quer objetos sensíveis – realmente distintos dos objetos do pensamento: mas não apreende a própria atividade humana como atividade objetiva [. III e V revelam a crítica direta e contundente que seu autor faz ao materialismo determinista ou mecanicista presente na filosofia feuerbachiana. pela atividade dos homens....

Não por acaso. pela sensibilidade. Todos os mistérios que induzem a teoria para o misticismo encontram sua solução racional na práxis humana e na compreensão dessa práxis (tese VIII). Nas teses II e VIII. absolutamente. Tais são os argumentos de Marx (1996. determinista. a separação entre a teoria e a prática. p.126). o caráter terreno de seu pensamento. é o pensamento que deriva da existência e não o contrário – acaba precisamente no momento em que afasta as “circunstâncias” com relação aos homens. 2007 275 . 16(2): 263-282. pois a atividade humana. não existe objetivamente. “puro”. Eis alguns erros da filosofia feuerbachiana apontados por Marx. para ele. que Feuerbach considere as idéias ou o pensamento humano como mero reflexo das condições materiais: seu mérito em ter descoberto que a existência precede o pensamento – ou seja. a realidade e o poder. É na práxis que o homem deve demonstrar a verdade. subordinando e tornando os homens simples produtos determinados por um mundo real de que eles objetiva e ativamente não participam. reconheça a realidade material como “fator determinante” da vida social – e não as idéias ou a “razão do espírito” de que falava Hegel –. Feuerbach nunca poderia ter observado que: “A coincidência da modificação das circunstâncias com a atividade humana ou alteração de si próprio só pode ser apreendida e compreendida racionalmente como práxis revolucionária [tese III]” (MARX. entretanto. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis – é uma questão puramente escolástica (tese II). a prática. 128): A questão de saber se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica. portanto. Franca. 1996. a realidade só pode ser apreendida pela intuição. Não surpreende. mas prática.125-126. Serviço Social & Realidade. o autor dirige sua crítica filosófica contra. além disso. A vida social é essencialmente prática.objetos reais (sensíveis) e objetos do pensamento e. pois nele objeto e sujeito estão completamente separados. sobre os quais não hesitamos em afirmar que constituem uma crítica direta ao materialismo contemplativo. p. Daí que o seu materialismo permanece em um nível puramente contemplativo e passivo. isto é.

a “cabeça”. Marx permanece inserido na tradição hegeliana. a filosofia feuerbachiana comete os mesmos erros da tradição idealista alemã. pois. e num real. por isso a teoria que dela se afasta está condenada ao fracasso. a tese IV: Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa. “considera apenas o comportamento teórico como o autenticamente humano” (MARX. do processo revolucionário (na Alemanha da época). ou seja. 16(2): 263-282. em A Essência do Cristianismo. da atividade teórica restringida sobre si mesma. Marx se dá conta da ineficácia da crítica enquanto crítica. da duplicação do mundo num mundo religioso. mas também no debate filosófico.Já na sua fase de “juventude”. de passagem.125). Ao isolar o pensamento humano da prática e enclausurá-lo no “misticismo da teoria”. não vê que a vida social se realiza na prática. Franca. As proposições críticas dirigidas contra a filosofia feuerbachiana que acabamos de citar (teses II e VIII) revelam bem essa superação da teoria e da prática como dois princípios separados. tanto quanto se faz presente a influência de Feuerbach. p. Para Marx. mesmo rompendo com o primado das idéias. ele desconhece a atividade humana enquanto práxis. Isso é perceptível em sua crítica à Filosofia do Direito de Hegel: na Introdução. Mas – nessa fase da evolução do seu pensamento – ao definir a filosofia como princípio ativo. Seu trabalho consiste em 276 Serviço Social & Realidade. mantêm a distância entre pensamento e realidade. Se bem que essa relação teoria e prática fora pensada por Marx. pois atribui primazia ao pensamento – é a filosofia que deve guiar ou mover a prática revolucionária –. expressa na dicotomia entre pensamento (filosofia) e matéria (proletariado). a evolução dos seus estudos nos anos que se seguiram a partir daí permitiram a superação dessa dicotomia não só enquanto proposta revolucionária. Mencionamos. imaginário. 2007 . Marx defende a necessidade premente de aliar a crítica filosófica (teórica) com a prática revolucionária – sob o argumento de que os alemães se tornaram contemporâneos do presente nas idéias sem sê-los na prática histórica. é na práxis que o homem demonstra “o caráter terreno do seu pensamento”. Feuerbach. 1996. e o proletariado como base material. o “coração”. Como Marx afirma ainda na tese I. num primeiro momento. em termos da possibilidade de uma revolução social na Alemanha dos anos 1843 e 1844.

uma vez descoberto que a família terrestre é o segredo da sagrada família. nos próprios termos de Marx (1996. Serviço Social & Realidade. é sobre o mundo real que se deve direcionar o olhar. Por isso. Marx o adverte dizendo que “o principal ainda resta por fazer”. Mas a essência humana não é uma abstração inerente ao indivíduo singular. As asserções correspondentes. 16(2): 263-282. ou seja. IX e X constituem uma crítica à concepção feuerbachiana de indivíduo e sociedade. é a primeira que deve ser criticada na teoria e revolucionada na prática (MARX.dissolver o mundo religioso em seu fundamento terreno. é a intuição dos indivíduos singulares na “sociedade civil” (tese IX). o principal ainda resta por fazer [.127-128). Assim. o mundo religioso não existe objetivamente. O que nos parece dito aí é que Feuerbach. 2007 277 . Ele não vê que. Feuerbach não vê que o próprio “sentimento religioso” é um produto social e que o indivíduo abstrato por ele analisado pertence. VII. O ponto de vista do velho materialismo é a “sociedade civil”. o materialismo que não apreende a sensibilidade como atividade prática. são duas coisas muito distintas e separadas. olvida-se que. p.126-127). que é a realidade o princípio fundamental para o conhecimento da vida humana. O extremo a que leva o materialismo intuitivo. depois de completado esse trabalho. 1996. p. a uma forma determinada de sociedade (tese VII). As teses VI.].. depois disso. Mas isso. Em sua realidade. à sua crítica teórica deve articularse uma prática transformadora.. são as seguintes: Feuerbach dissolve a essência religiosa na essência humana. após descobrir que o mundo religioso é uma fantasia que nada tem de realidade. por exemplo. é o conjunto das relações sociais (tese VI). se se identificou que o mundo terreno é o fundamento primeiro. na realidade. Franca. Não porventura. isto é. Mais do que isso. não é mais a “imaginação” que deve ser criticada: afinal. para Feuerbach. o ponto de vista do novo é a sociedade humana ou a humanidade socializada (tese X).

constitui o núcleo central do conceito de práxis no método e no pensamento social de Karl Marx. entretanto. para Marx. A maior expressão desse modo de pensar. é a tese XI: “Os filósofos se limitaram a 278 Serviço Social & Realidade. não pode viver isolado. A sociedade civil é concebida por Feuerbach – tal como Hegel – como o espaço dos interesses privados. na qual o homem dá forma ao mundo em que vive ao mesmo tempo em que é por ele formado também. O “velho materialismo”. a essência humana é o “conjunto das relações sociais”. do egoísmo (e Marx não discorda disso). Ele encontra a essência humana na essência religiosa e concebe o indivíduo em sua singularidade. 2007 . para Marx. o indivíduo marxiano é composto pelas relações sociais de seu tempo. bem como reconhecer que as relações entre os homens não são nada naturais. Marx se coloca. Portanto. na qual os homens estabelecem determinadas relações entre si e com o todo. considera a sociedade civil formada pelos indivíduos isolados (como o indivíduo econômico diante do mercado). 16(2): 263-282. a nosso ver. que seria anterior à própria sociedade. que significa também a unidade teoria e prática. Marx faz objeção porque entende o homem como um ser social. isolado. entender o homem como “conjunto das relações sociais” é negar a imagem feuerbachiana do indivíduo abstrato. das vontades individuais. sua concepção de indivíduo é a do homem religioso. como um dado natural anterior à sociedade. que pertence a uma forma determinada de sociedade e. Assim. Mas isso não significa que ele adote o ponto de vista do materialismo filosófico determinista – como o de Feuerbach – na sua compreensão da evolução da sociedade. o estudo da humanidade deve partir das condições materiais de existência. o máximo que o materialismo “puro” (intuitivo) – como o feuerbachiano – chega é a intuição dos indivíduos isolados entre si na “sociedade civil”: Feuerbach não consegue apreender o homem como pertencente a um determinado contexto social e histórico. num ponto de vista materialista ou realista: a existência social precede o pensamento. Marx defende o ponto de vista de que a sociedade compõe um todo. Marx reconhece a atividade humana como uma relação dialética entre sujeito e objeto. Por isso. uma coletividade social. ligado aos demais indivíduos de um modo natural. apenas ligados entre si de uma maneira natural.Feuerbach nos fala de um homem abstrato e isolado. como tal. Essa dialética entre o sujeito – o homem em sociedade – e o objeto – o mundo material –. indubitavelmente. Franca.

que fazem a história. isto é. de forma alguma. que utilizam o método marxiano ou marxista (muito chamado de crítico-dialético. Considerações finais Acreditamos ser essa a tese materialista de Karl Marx: o conjunto das relações de produção. das formas de consciência social. 1996. o materialismo de Marx. quer dizer. ao contrário. Franca. entre outras denominações). condiciona. a base ou estrutura econômica de uma sociedade. o modo de produção da vida material.128). ou de histórico-dialético. das instituições jurídicas. A categoria práxis não elide ou exclui. portanto. fá-lo no sentido de que as condições materiais precedem o pensamento ou deixa transparecer aí um certo determinismo? Segundo: e quando Marx fala em práxis não rompe qualquer concepção determinista ou mecanicista da realidade? Nossa conclusão sugere a resposta somente do segundo questionamento: rompe sim. p. enfim. 2007 279 . Quiçá por isso Engels denominou o método marxiano – e marxista – de “materialismo histórico”. Uma primeira leitura do Prefácio e das Teses nos levou a fazer dois questionamentos. é precondição ou condição primeira do desenvolvimento da vida social. reconhece-o e o atribui seu caráter histórico e social. E isso responde as duas indagações. A base. O dualismo entre determinismo e práxis no método de Marx não pode ser suficientemente explicitado mediante uma leitura – ainda que atenta e refletida – de determinados textos. determinismo e práxis. vivendo em sociedade. ora um. nos quais esse dualismo aparece e ambos. como o Prefácio e as Teses. mas o que importa é transformá-lo” (MARX. estamos cônscios de que “as coisas não se resolvem bem assim”. fazem-se presentes. Não raro se vê pesquisas e trabalhos acadêmicos. 16(2): 263-282.interpretar o mundo de diferentes maneiras. Tampouco a polêmica dessas duas concepções distintas tem sido facilmente solucionada. Contudo. Primeiro: quando Marx diz que “não é a consciência que determina a vida. na medida em que considera ser os homens. política e intelectual. Serviço Social & Realidade. não determina mecanicamente a superestrutura: ela é a sua condição precedente e indispensável. mas a vida que determina a consciência”. às vezes outro. da superestrutura.

o certo é que. • Referências MARX. to analyze the Foreword and the Theories in order to explain some controversial points on the collision between determinism and praxis in the Marx’s method. 2. São Paulo: Hucitec. Determinism and praxis: the dualism of marx’s method. 1. como o próprio Karl Marx afirma. ed. K. Enfim. Aula ministrada na disciplina Pensamento Social Moderno e Contemporâneo. v. é a primeira que recua”. Serviço Social & Realidade (Franca). professor do Departamento de Serviço Social da UFSC. ed. The praxis category does not suppress or excludes the Marx’s materialism.Como diz o professor Raúl Burgos7: “parece que quando a ‘alma’ estruturalista aparece. ed. 16(2): 263-282. The objective is. Franca. therefore. • ABSTRACT: The present rehearsal has as theme the dualism among determinism – conception in which the base or structure determines the superstructure – and praxis – action or human activity that is. but it recognizes it as a starting point of a dialectic movement between subject and object. The defended theory considers that an attentive reading of the Foreword to the Contribution to the Critic of the Political Economy and of the Theories on Feuerbach provides the necessary elements to explain the immediate doubts that oppose determinism and praxis. 1985. 16. 7 Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP).. Não obstante. objective and subjective – in Marx's method. São Paulo: Nova Cultural. ______. G. KEYWORDS: Method of Marx. Serviço Social & Realidade. MENEGHETTI. at the same time. 10. ENGELS. 2007 280 . e quando essa última se faz presente. F. Contribuição à crítica da economia política. v. pensamos ter cumprido a função principal deste ensaio. 1983. deve-se ler a sua obra. what does not suppose any determinist character. O capital. São Paulo: Martins Fontes. 1996. em 11 de julho de 2007. Determinism. para entender o seu método. Marx's materialistic theory considers that the base or structure is precondition or precedent condition (and indispensable) of the development of the superstructure. Crítica da economia política. que é a de instigar o debate sobre determinismo e práxis no método de Marx. 13. In: MARX. 2. 263-282. K. Livro primeiro. Praxis. n. ______. A ideologia alemã. do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social – UFSC. a ‘alma’ da práxis se esconde. Teses sobre Feuerbach. p. 2007.

a estreita relação da categoria com o PT. o Código de Ética de 1993. cujo foco central é a categoria trabalho. Franca. PT. torna-se imprescindível considerar a dinâmica social moderna em sua complexidade. Este cenário permanece inalterado até o marco de 1979. é pesquisadora do Núcleo de Estudos do Trabalho e Gênero – NETeG – UFSC e Profª do Curso de Serviço Social da UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina. Após a Constituição Federal de 1988. que sua organização política era insipiente e inoperante. Destaque para a elaboração do novo currículo acadêmico. Florianópolis – SC – Brasil. Organização Política. isto é. desde seu surgimento na “Era Vargas”. que regulamenta o exercício profissional e as Diretrizes Curriculares para a formação acadêmica. considerando. E-mail: cruzeirobel@hotmail. A profissão estava fortemente vinculada às classes dominantes. quando a categoria passa a se colocar numa outra perspectiva. 16(2): 283-298. considerando ainda. como demonstração de resistência à ditadura militar instaurada no Brasil pelo grande capital em 1964. conhecida como “Constituição Cidadã”. contribuindo assim para a lógica da produção e reprodução do capital. através da Igreja e do tecnicismo norte-americano. que se mostra incompatível com o governo federal do PT no período pós 2003. junto ao Bloco Católico. 2007 . possibilitando então a vinculação desses profissionais com a classe trabalhadora. contemplando um conjunto de * Graduada e Mestre em Serviço Social – Programa de Pós-Graduação em Serviço Social – Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. é fundamental resgatar a respectiva contextualização histórica na qual a profissão surgiu e se consolidou ao longo de sua trajetória. PALAVRAS-CHAVE: Serviço Social.A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL: DE “VARGAS” A “LULA” Maria Izabel da SILVA* • RESUMO: Este artigo tem por objetivo resgatar a construção histórica do processo de organização política do Serviço Social no Brasil. em Tubarão-SC. • Introdução Inicialmente é importante ressaltar que para apreender o processo de organização política do Serviço Social no Brasil. cumpre ressaltar como marco histórico a elaboração do projeto ético-político.com. conhecido como o “congresso da virada”. em 1982. Para tanto. em São Paulo. sob influência européia. portanto. Projeto ÉticoPolítico. culminando na ruptura com o conservadorismo. o III CBAS – Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais. 283 Serviço Social & Realidade.

isto é. contrariando totalmente o seu discurso e suas promessas feitas em campanha eleitoral. que regulamenta o exercício profissional e as Diretrizes Curriculares para a formação acadêmica. Em 1982 temos a elaboração do novo currículo acadêmico e em 1996 as novas Matrizes Curriculares. compra e venda de votos na Câmera e Senado Federal. após assumir o governo federal em 2002. transparência e a defesa dos interesses da população. a partir de 1965. o Código de Ética de 1993. para as quais foi eleito maciçamente pela grande maioria dos eleitores.mediações que se articulam a partir da pluralidade de interesses privados e forças múltiplas que se contrapõem. descrédito e despolitização dos brasileiros. evidenciou-se em puro continuísmo e demagogia. Podemos considerar que até então a organização política da categoria foi insipiente e inoperante. ainda. 2007 . num contexto de redemocratização do país. 16(2): 283-298. desde seu surgimento na “Era Vargas” junto ao Bloco Católico. a “Constituição Cidadã”. sofrendo influência européia através da Igreja e do tecnicismo norteamericano. que culminou na elaboração do projeto ético-político. adota políticas neoliberais. que culmina na ruptura com o conservadorismo. a estreita relação dos avanços da categoria e o PT nos anos 80 e 90. com os Seminários do CBCISS. Franca. o que era visto como uma possibilidade de governo diferente dos anteriores. além das constantes situações de corrupção. Cumpre ressaltar. que marcam seu governo. dando prosseguimento às reformas neoliberais iniciadas no governo anterior. Em suma. estando fortemente vinculada às classes dominantes. tendo como marco o CBAS da “Virada”. Neste sentido. causando decepção. em 1979. voltados aos reais interesses e necessidades da população. por conseqüência. Posteriormente reage a estas influências. depois de 20 anos de ditadura militar instaurada em 1964. 284 Serviço Social & Realidade. o PT sob a administração do “Lula”. dando início ao movimento de reconceituação. Entretanto. embasado nas afinidades e “bandeiras de luta” em comuns. quebra de decoro. que eram pautados na ética. fortemente ancoradas na defesa dos direitos sociais preconizados pela Constituição Federal de 1988. é igualmente importante destacar que este artigo busca resgatar a construção histórica do processo de organização política da categoria profissional no Brasil.

conforme preconiza o seu projeto ético-político. inscrevendo seus princípios no seu cotidiano de trabalho. legitimando sua intervenção paternalista e autoritária. sob forte influência do modelo europeu (autoritário. Neste contexto. doutrinário). Esse corpo profissional se caracterizava. Ressaltando que o desafio maior é avançar na consolidação e implementação do projeto profissional. criando as bases para o surgimento dessa profissão. Iamamoto (1985) ressalta a reorganização do bloco católico. o Código de ética do Assistente Social de 1993. sobretudo.Este atual contexto impõe à categoria do Serviço Social o desafio de repensar a sua relação com o PT. Franca. entretanto esse fenômeno não pode ser relacionado apenas ao caráter transnacional da Igreja Católica. O surgimento do Serviço Social no Brasil e o Bloco Católico O Serviço Social no Brasil surge na década de 1930. tendo como marco inicial a criação em 1936 da Escola de Serviço Social de São Paulo. que o Serviço Social. surge como ramificação de movimentos sociais complexos. 1. com uma base social de classe na qual o autoritarismo e o paternalismo têm um respaldo histórico e social. 2007 285 . vinculado a Igreja Católica. com intuito de formar as “moças da sociedade” devotadas ao apostolado social. com uma ideologia e interesses de classe semelhantes. segundo a autora. que lhes conferia uma superioridade natural em relação à população assistida. norteado inicialmente pelo referencial teórico europeu. Serviço Social & Realidade. É igualmente importante esclarecer. Salientando que os núcleos pioneiros do Serviço Social tiveram sua base social determinada pelo Bloco Católico e emergiram como ramificações da Ação Católica e da Ação Social. tendo em vista os preceitos assumidos pela categoria. expressando a sua visão de mundo a partir das classes dominantes. a transposição e reelaboração dos referidos modelos no Brasil foi condicionada à existência de uma base social que pudesse assimila-los. Desta forma. pautado no caráter missionário e da caridade. na chamada “Era Getúlio Vargas”. tanto europeu quanto o brasileiro. isto é. em virtude da incompatibilidade entre ambos os projetos. por mulheres provenientes de famílias abastadas. 16(2): 283-298.

16(2): 283-298. além das condições do meio familiar. escolhida em meio à boa sociedade. moral e doutrinária (IAMAMOTO. veículo de doutrinação e propaganda do pensamento da Igreja Católica. geralmente em quatro aspectos principais: científica. ressaltando a ação ideológica de ajustamento às relações sociais vigentes. 228). Destacando. ainda. Neste cenário inicial. a valorização de outros critérios.228-9). conforme se pensava na época da criação 286 Serviço Social & Realidade. Evidencia-se a visão moral dos fenômenos sociais com a naturalização do capitalismo. atribuindo ao indivíduo responsabilidade sobre as suas mazelas. este perfil profissional é evidenciado na formação na Escola de Serviço Social de São Paulo que define como critério para matrículas: -Ter 18 anos completos e menos de 40.] a formação do Assistente Social se dividiria. Nas palavras da autora: Teoriza-se assim no sentido da seleção e preparação de uma pequena elite virtuosa. sendo fundamental a intervenção do Assistente Social quanto ao ajustamento do sujeito ao meio.Nesta perspectiva. Ressaltamos. na qual a Igreja criticava os excessos desse sistema e não sua essência (modo produção). p. p.238) “o julgamento moral tem por base o esquecimento das bases materiais das relações sociais”. 1985. ainda. técnica. Franca.. 1985. Segundo Iamamoto (1985. Destaca-se também a necessidade de reeducar a família para a sociedade industrial que emergia e recrutava as mulheres e seus filhos para o trabalho.. o qual era visto como “problema” desajustado às estruturas existentes. 2007 . e que vê por missão redimir os elementos decaídos do quadro social. -Apresentação de referências de 3 pessoas idôneas. [. p. revelando as qualidades morais do pretendente. Trata-se de intervenção com ações educativas de cunho moralista. o Serviço Social configura-se como prolongamento da Ação Social. -Comprovação de conclusão de curso secundário. ainda segundo a autora. a exemplo da boa saúde e ausência de defeitos físicos. que o Serviço Social não nasce da evolução da filantropia. -Submeter-se a exame médico (IAMAMOTO.

p..da profissão. tendo por pano de fundo o desenvolvimento capitalista industrial e a expansão urbana”.69) “é somente na intercorrência do conjunto de processos econômicos. que esclarece ainda: A partir desse evento se amarram os laços que irão relacionar estreitamente as principais escolas de Serviço Social brasileiras com as grandes instituições e escolas norte-americanas e os programas continentais de bem-estar social (p. em que se afirma a hegemonia do capital industrial e financeiro.. O Serviço Social no período desenvolvimentista A influência norte-americana no ensino especializado brasileiro teve como marco o Congresso Interamericano de Serviço Social realizado em 1941. à “racionalização da filantropia” nem à “organização da caridade”. Afirma Iamamoto (1985. não podem esconder a outra Serviço Social & Realidade.] que se instaura o espaço históricosocial que possibilita a emergência do Serviço Social como profissão” e complementa referindo-se em termos históricouniversais “A profissionalização do Serviço Social não se relaciona decisivamente à “evolução da ajuda”. 74). 234). Salientando que essa idéia marcou a formação profissional desde seu surgimento. Franca. 77) “O Serviço Social se gesta e se desenvolve como profissão reconhecida na divisão social do trabalho. Nessa perspectiva. perpassando pelo movimento de reconceituação até o processo de ruptura. e ressalta ainda que “É nesse contexto. que emerge sob novas formas a chamada “questão social”. a partir da tomada de poder com o golpe militar de Getúlio Vargas em 1930. 234). segundo Iamamoto (1985. 243) a violência que caracterizava o Estado Novo. p. a qual se torna a base de justificação desse tipo de profissional especializado”. p. vincula-se à dinâmica da ordem monopólica” (p. Segundo Iamamoto (1985. 2007 287 . 2. em Atlantic City – USA. a tentativa de superação da luta de classes através da repressão e tortura. sóciopolíticos e teórico-culturais [. p. É importante recordar o respectivo contexto histórico brasileiro. esclarece Netto (2005. 16(2): 283-298.

segundo a autora. legitimando sua dominação. sua ação efetiva foi muito restrita e “caracterizou-se mais pela manipulação de verbas e subvenções. criou o Ministério do Trabalho para controlar os sindicatos vinculados ao Estado. a estrutura corporativa do Estado Novo. Entretanto. segundo Silva (2006). afirma Iamamoto (1985. visando sua legitimação. 2007 . sob a vigência do Estado Novo. governou o país de forma ditatorial e populista. conhecidos como “sindicato pelego”. Vargas. reconheceu a questão social (até então tratada como caso de polícia) como estratégia de controle social e ideológico. Neste cenário. p. que ainda hoje permanece no ideário popular brasileiro e norteia as relações sociais estabelecidas. conhecido como “pai dos pobres”. o fato de que representa um elo a mais na cadeia que acorrenta o trabalho ao capital. impedila de perceber a outra face da legislação social. Franca. a exemplo da Legião Brasileira de Assistência 288 Serviço Social & Realidade. 244): A noção fetichizada dos direitos. Nesta perspectiva. em virtude do surgimento de grandes instituições nacionais de assistência social. p. Neste período. e de estudar os problemas do Serviço Social” (idem. reforçando a idéia de submissão da população ao Estado. através do Decreto-lei n. que ainda hoje se percebe a herança cultural da era Varguista (1930 a 1945). 256). com claro intuito de controlar a classe trabalhadora. cerne da política de massas do varguismo e da ideologia da outorga. o qual institui direitos trabalhistas pelo viéis corporativo. 1/7/1938. Ressaltando. ressaltamos já na década de 1930. há uma expansão e aumento quantitativo (e não qualitativo) da atuação do Serviço Social. segundo a autora. a criação do Conselho Nacional de Serviço Social – CNSS. 16(2): 283-298. paternalista. tem por efeito obscurecer para a classe operária.face de sua postura. incorpora de alguma forma reivindicações populares. que se traduz na influência de sua política de massas. No que se refere à organização da categoria. “com as funções de órgão consultivo do governo e das entidades privadas. como mecanismo de clientelismo político” (ibidem). Neste governo se consolida a idéia do favor do Estado protetor.

4830 de 15/10/1942). paliativa e burocratizada dos profissionais. a expansão da profissão aliada a ideologia desenvolvimentista. reiterativa. demonstrando. parametrada por uma ética liberal-burguesa e cuja teleologia consiste na correção – desde um ponto de vista claramente funcionalista – de resultados psicossociais Serviço Social & Realidade. com o surgimento das grandes indústrias. Na década de 1950. reforçando. inclusive o Assistente Social. assim. A categoria profissional sobre forte influência norte-americana. ser “ajustados” ao meio. ainda segundo Iamamoto “além das transformações na retórica do discurso oficial do Serviço Social. e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI (Decreto-lei n° 4048 de 22/02/1942). 117). 272). a partir de dois aspectos principais: “o atendimento objetivo ao mercado de trabalho. Neste sentido. que requerem maior sistematização técnica e teórica de suas funções. atua atendendo aos considerados desajustados psicossociais. solidifica-se uma adesão ao capitalismo em sua etapa de aprofundamento industrial urbano” (idem. e entrando pelos anos setenta inclusive. além de atuar no Desenvolvimento de Comunidade. abre-se campo para o Serviço Social. com a educação para adultos. O referido autor considera como Serviço Social tradicional: a prática empirista. p. segundo Netto (1998. evidenciada através da psicologização. acrescido as grandes instituições assistenciais mencionadas anteriormente. enquanto instituição social destinada a possibilitar a adequação da força de trabalho às necessidades do sistema industrial vigente. 2007 289 . que deveriam. a dominação de classe” (p. 273). no discurso e na ação governamental há um claro componente de validação e reforço do que [.. p. objetivamente.] caracterizamos como Serviço Social “tradicional”. Quanto à trajetória histórica do Serviço Social. no sentido de suprilo de trabalhadores portadores das qualificações técnicas necessárias” além da “produção de uma força de trabalho ajustada psicossocialmente (ideologicamente) ao estágio de desenvolvimento capitalista” (ibid. atuam para a “suavização dos aspectos contraditórios (antagônicos) desse ajustamento. as práticas sociais desenvolvidas pelos técnicos educadores cooptados pelo SENAI.. considera que “até o final da década de sessenta. p. criado no limiar de um novo ciclo de expansão capitalista.– LBA (Decreto-lei n. Franca. Desta forma. 16(2): 283-298. 271). pois.

que emerge a partir do encontro de Porto Alegre em 1965. segundo Netto (1998. tendo o status da profissão redefinido nas equipes interdisciplinares. Entretanto. o Documento de Araxá é “um texto orgânico expressando sistematicamente o que emergiu de consensual entre seus formuladores” (p.164). promovido pelo CBCISS entre 19 e 26/março/1967. propondo as reformas de base. afirma: “possuem um tríplice significado no processo de renovação do Serviço Social no Brasil: apontam para a requalificação do assistente social.considerados negativos ou indesejáveis. p. neste rápido governo o Serviço Social tem uma maior participação na formulação das políticas e planejamento. teve como marco e encontra sua formulação firmada nos resultados do 1° “Seminário de Teorização do Serviço Social de Araxá (MG)”. que culminaram nos documentos de Araxá e Teresópolis. segundo Iamamoto (1998). Neste contexto. que questiona a própria legitimidade da demanda e os compromissos políticos subjacentes ao exercício profissional. o “Jango”. 16(2): 283-298. Quanto as formulações constitutivas do Documento de Teresópolis. p. 2007 . 192). tivemos políticas desenvolvimentistas. Franca. 177). num contexto tenso de crise do populismo e a efervescência de movimentos sociais e sindicatos. e se desdobra num segundo evento da mesma série e também patrocinado pelo CBCISS. 1998. que culminou no golpe militar de 1964. sempre pressuposta a ordenação capitalista da vida como um dado factual ineliminável (NETTO. sob o governo populista de João Goulart. entre 10 e 17/janeiro/1970 em Teresópolis (RJ). Segundo Iamamoto (1985). respectivamente. considerando a tentativa de formulação de uma estratégia teórico290 Serviço Social & Realidade. definem nitidamente o perfil sociotécnico da profissão e a inscrevem conclusivamente no circuito da “modernização conservadora” (p. O Serviço Social no período pós-1964 No início da década de 1960. 3. evidencia-se o confronto do Serviço Social tradicional X vertente modernizadora da profissão. sobre o substrato de uma concepção (aberta ou velada) idealista e/ou mecanicista da dinâmica social. 117-8). a perspectiva modernizadora constitui a primeira expressão do processo de renovação do Serviço Social no Brasil. Para o autor. Quanto a organização da categoria.

prática a serviço do fortalecimento do processo organizado dos setores populares. Simionatto (2004) destaca como marco dos anos 60, o Movimento de Reconceituação, que emergiu em 1965, com vistas a discutir os referenciais teóricos e a prática profissional até então norteadas pelas matrizes norte-americanas. A autora citando Netto, refere-se a renovação da profissão no período pós-64, e aponta dois marcos da “intenção de ruptura” do Serviço Social: o Método de BH com teses maoístas e althusserianas e considera também a aproximação teórica com fontes originais de Marx. A autora destaca ainda a obra de Faleiros “Trabajo Social, ideologia y método”, publicada durante seu exílio em Buenos Aires (1970), na qual denuncia o “Serviço Social Tradicional”, evidenciando a dimensão política da prática profissional e sua vinculação histórica ao capitalismo e aos interesses da classe dominante, além de denunciar também o seu inconsistente referencial teórico e sua ação prática: empirista, tecnicista e pragmática. E complementa “Faleiros pautado em Marx e Gramsci extrapola a academia, analisa a prática profissional no contexto da sociedade capitalista” (p. 187). Cumpre salientar ainda, segundo Netto (1982, p. 148), o sincretismo teórico no Serviço Social denunciado no Movimento de Reconceituação, a partir de tendências críticas e renovadoras, quanto ao fato do Serviço Social até então estar pautado no saber das ciências sociais de extração positivista e pensamento conservador. Em suma, podemos considerar que até aquele momento a organização política da categoria foi insipiente e inoperante, estando fortemente vinculada às classes dominantes, contribuindo assim para a lógica da produção e reprodução do capital. Este cenário permanece inalterado até o marco de 1979, o III CBAS – Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, em São Paulo, ficou conhecido como o “congresso da virada”, quando a referida categoria profissional passa a se colocar em uma outra perspectiva, como demonstração de resistência à ditadura militar instaurada no Brasil pelo grande capital em 1964. Como conseqüência, tivemos em 1982, a elaboração do novo currículo acadêmico, tendo como foco central a categoria trabalho, possibilitando então a vinculação desses profissionais com a classe trabalhadora. Entretanto, vale destacar que neste novo currículo
Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 283-298, 2007 291

permaneceu a fragilidade do instrumental técnico-operativo no exercício profissional. Durante a década de 1980, segundo Netto (2004, p. 22), os embates no interior da organização da categoria estavam estreitamente vinculados aos esforços petistas para a consolidação do partido. O autor afirma que “também as iniciativas de renovação curricular, conduzidas pela então Abess, em grande medida sintonizavam-se com a movimentação social e política que tinha o PT como centro de uma pretensa nova esquerda” (idem). E conclui: “O saldo do período, todavia, é nitidamente positivo: sem esses caminhos e descaminhos, o Serviço Social brasileiro (em todos os domínios, da sua qualificação acadêmica à sua forte organização profissional) não teria se alçado ao nível onde hoje se encontra”. Salientando, ainda, que este período foi de expressivas transformações no Brasil, em função do fim da ditadura militar e do processo de transição para o sistema democrático, implicando grandes mobilizações populares e diversas manifestações da sociedade civil, culminando com a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, em 05 de outubro de 1988, conhecida como a “Constituição Cidadã” e que representou um marco na história da justiça social do país. Ao longo da década de 1990, segundo Netto (2004, p. 23), permanece a estreita relação entre os avanços profissionais e o PT, destacando a formulação do projeto ético-político da categoria, referindo-se ao Código de Ética do Assistente Social, a Lei n. 8.662 de 13/março/1993 que regulamenta o exercício profissional e as Diretrizes Curriculares para a formação acadêmica1. Para o autor, o que ocorreu a partir da década de 1990 “foi que os imperativos prático-políticos do projeto profissional tinham no PT – na sua ação oposicionista e na sua retórica – um aliado fundamental” (p. 23). Posteriormente, com a vitória nas eleições presidenciais de 2002, tivemos a ascensão do PT à Presidência da República em 2003. Entretanto, segundo Netto (2004, p. 14) “Aquilo que era
1 Fortemente ancoradas na defesa dos direitos sociais preconizados pela referida Constituição Federal de 1988 e, regulamentada em outras legislações subseqüentes, entre elas a LOAS – Lei Orgânica de Assistência Social (lei n. 8.742, de 07/dezembro/1993), o Estatuto da Criança e do Adolescente (lei n. 8.069, de 13/julho/1990) e a Política Nacional do Idoso (lei n. 8.842, de 04/janeiro/1994).

292

Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 283-298, 2007

satanizado pela oposição petista é entronizado pelo governo petista”, tendo em vista a continuidade da política governamental de FHC, “o prosseguimento e o aprofundamento da macroorientação econômica herdada da era FHC” e os resultados “absolutamente medíocres” (p. 14-15). Trata-se da continuidade de implementação do projeto neoliberal, e citando Francisco de Oliveira que afirma tratar-se de “um terceiro mandato de FHC” (NETTO, 2004, p.17). Neste prisma, é igualmente importante ressaltar, segundo Silva (2007, p.42), que a partir do Consenso de Washington, delineia-se as diretrizes dos organismos internacionais Banco Mundial – BM, Fundo Monetário Internacional – FMI, Banco Interamericano – BID e Organização Mundial do Comércio – OMC, sobretudo, para os países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, cuja orientação está centrada, em especial, na reforma do Estado, isto é, a contra-reforma do Estado, ao qual é atribuída grande parte da crise estrutural do capital, eclodida no final da década de 1970 e que teve como respostas: o projeto neoliberal e a reestruturação produtiva flexível. Nesta perspectiva, afirma Netto (2004, p. 13):
... o governo de Luiz Inácio Lula da Silva assume a prática “neoliberal” que combateu frontalmente durante a era de FHC – como o comprovam, sobejamente, as relações com o FMI e a condução da contra-reforma do Estado. [...] o governo capitaneado pelo PT excede as exigências daquela agência do grande capital, por exemplo acrescentando o percentual do superávit primário; [...] o indecoroso prosseguimento da reforma previdenciária chegou a um limite a que não se alçou o governo FHC – e ainda não veio à tona a magnitude das alterações que o governo de Luiz Início Lula da Silva pretende imprimir às legislações trabalhista e sindical: pode-se esperar para ver, mas tudo indica que, também aqui, o “espírito” ideológico que inspirou o Consenso de Washington será rigorosamente desposado.

Sob a égide da barbárie neoliberal, segundo Silva (2007), seguindo as referidas diretrizes que são implementadas pelos

Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 283-298, 2007

293

governos neoliberais, inclusive o atual2, a partir da reestruturação produtiva, com a privatização, o enxugamento do Estado, a política fiscal e monetária sintonizadas com os organismos mundiais de hegemonia do capital, citados anteriormente, o desmonte dos direitos trabalhistas, o combate acirrado ao sindicalismo de esquerda, a propagação do subjetivismo e individualismo que a cultura “pós-moderna” é expressão. Isso tem profundas mutações no mundo do trabalho, isto é, o crescente desemprego estrutural, o subemprego, a precarização das condições de trabalho, a flexibilização e desregulamentação das leis trabalhistas, contraditoriamente ao discurso e promessas feitas durante a campanha eleitoral, quanto a valorização e especial atenção com os trabalhadores brasileiros. Nesta perspectiva, é igualmente importante ressaltar a questão da ética, ou melhor dizendo, a falta de ética do governo PT, segundo Antunes e Netto (2005), que afirmam que o governo federal do PT “Lula”, está dominado pela burguesia de forma “prussiana”, da qual tornou-se refém e servil ao grande capital internacional. O governo de Lula, chamado de “artífice”, seria o terceiro mandato do “príncipe” Fernando H. Cardoso, cuja governabilidade se dá, após traição aos trabalhadores, aqueles os quais defendia no passado, através de compras a altos preços no parlamento e a acordos “inescrupulosos”, antes inaceitáveis e inadmissíveis pelo próprio partido. Como conseqüência dá-se o agravamento do processo de despolitização da população

2

Governo petista Luis Inácio Lula da Silva, antes de esquerda, foi eleito com o apoio maciço dos trabalhadores, a quem no passado representava enquanto sindicalista, se comprometendo em campanha eleitoral a defender seus interesses, todavia no decorrer de sua 1ª gestão (2003-2006), reforçou e deu continuidade a política neoconservadora do governo anterior Fernando Henrique Cardoso, revelando-se puro continuísmo, sobretudo quanto a implementação das reformas neoliberais, tendo reflexo perverso no país, em vários âmbitos. Referindo-se ao governo de Lula, afirma Antunes (2006, p. 49) “Na ponta de cima, atendeu de modo impressionante aos interesses dos grandes bancos, que lucraram muito mais do que no governo FHC. E, na ponta de baixo, em relação aos miseráveis, fez uma política assistencialista vergonhosa para a esquerda, mas que rende votos”, acrescentando “O governo do PT é um servo que realiza com presteza as imposições do Fundo” (idem, p. 40). E adverte “o governo Lula [...] tornou-se uma espécie de paladino do neoliberalismo” (ibid, p. 46), concluindo “Lula não é um dos seus, mas faz o que querem: é o servo ideal” (ibid, p. 50). Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 283-298, 2007

294

brasileira, movido pela decepção, descrédito e total desesperança3. Referindo-se a trajetória histórica do PT, afirma Antunes (2006, p. 45) “...o PT chegou, ao final de 26 anos de sua história, como um partido tradicional. É uma espécie de PMDB do século XXI – versão, eu diria, até piorada, se analisarmos as alianças que o PT fez nos últimos anos, que evidenciam sua completa falta de escrúpulos e de limite”. Diante do exposto, segundo Netto, o atual cenário nacional do governo petista põe à prova a categoria profissional, especificamente quanto a “autonomia política para conduzir o denominado projeto ético-político que construíram para a profissão nos anos 1980 e 1990”. Neste sentido, esclarece:
A continuidade desta relação explica-se por uma razão elementar: a substancialidade do projeto ético-político – cuja necessária derivação práticoprogramática redundava, para dizê-lo em termos sintéticos, na defesa de políticas sociais de caráter estatal e universal, garantidoras e ampliadoras de direitos de cidadania – encontrava (ainda que não exclusivamente) no PT um parceiro e suporte insubstituível” (NETTO, 2004, p. 23).

Desta forma, implica em “compreender o que está envolvido nesta prova supõe retomar componentes históricopolíticos muito expressivos da gênese e do desenvolvimento desse projeto” (idem, p. 22). Nesta perspectiva, entendemos que se trata de um momento importante de reflexão para a organização política da categoria, pressupondo um amplo debate coletivo, envolvendo o confronto de idéias e posições distintas, reiterando os pressupostos democráticos que culminaram no projeto ético-político, isto é, o Código de Ética do Serviço Social de 1993, que norteia a formação acadêmica e sua intervenção profissional, comprometida com os valores éticos fundamentais: liberdade, equidade e justiça social, articulando-os à democracia e à cidadania. Para tanto, adverte Barroco (2006, p. 207):
3

Debate proferido pelos professores Dr. Ricardo Antunes e Dr. José Paulo Netto, coordenado pelo professor Fernando Ponte – CFH/UFSC, cujo tema central foi Florestan Fernandes – Obra e Vida, realizado dia 23/06/2005, no auditório do CED/Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC, Brasil, das 8:30 às 13:00 horas. 295

Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 283-298, 2007

... considerando que o cenário que se inscreve o processo de legitimação do projeto profissional conectado ao Código de 1993 é pleno de conflitos e desafios; seja em sua fundamentação teóricofilosófica, seja na sua dimensão prática, opera abertamente na contracorrente da conjuntura.

No que tange ao desafio atual para o Serviço Social, segundo a ABEPSS – Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (2004, p. 79):
é o de uma tomada de posição ética e política que se insurja contra os processos de alienação vinculados à lógica contemporânea, impulsionando-nos a dimensionar nosso processo de trabalho na busca de romper com a dependência, subordinação, despolitização, construção de apatias que se institucionalizam e se expressam em nosso cotidiano de trabalho.

Nesta perspectiva, afirma a referida associação
O desafio maior com o qual nos defrontamos é o de avançarmos na consolidação e implementação do projeto profissional, inscrevendo seus princípios em nosso cotidiano de trabalho (ABEPSS, 2004, p. 79). SILVA, M. I. The political organization of the Social Service in Brazil: from “Vargas” to “Lula”. Serviço Social & Realidade (Franca), v. 16, n. 2, p. 283-298, 2007. • ABSTRACT: This article has the objective to rescue the historical construction of the process of political organization of the Social Service in Brazil, from its appearance in the “Vargas Era”, close to the Catholic Block, under European influence, through the Church and the North American tecnicism. The profession was strongly linked to the dominant classes, considering, therefore, that its political organization was incipient and inoperative, contributing, this way, to the logic of the production and reproduction of the capital. This scenery remains unaffected until March, 1979, III CBAS – Brazilian Congress of Social Workers, in São Paulo, known as the “congress of the turning”, when the category reaches another perspective, as a demonstration of resistance to the military dictatorship established in Brazil by the great capital in 1964, culminating in the rupture with the conservatism. Highlight for the elaboration of the new academic curriculum, in 1982, whose central focus is the work category, making possible those professionals linking with the working class, still considering the close Serviço Social & Realidade, Franca, 16(2): 283-298, 2007

296

ed. V. the elaboration of the ethical-political project. 1998. 39-50. 8. Subsecretaria de Edições Técnicas. abril. n. 4. P. 79. In: IAMAMOTO. Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. IAMAMOTO. 1993. M. Junho de 2006. BRASIL. Correio da Cidadania. 201250. that is shown incompatible with the federal government of PT in the period after 2003. [Lima. Capitalismo monopolista e Serviço Social. Peru]: CELATS. Brasília/DF: Senado Federal. Raul de Carvalho. ______. 2006. programa e a estratégia de construção do socialismo. 1982. V. • KEYWORDS: Social Service. J. In: Cultura socialista: os desafios da conjuntura. p. O debate contemporâneo da Reconceituação do Serviço Social: ampliação e aprofundamento do marxismo. p. 3. ed. NETTO. São Paulo: Cortez. it accomplishes to stand out. São Paulo: Cortez. 2004. setembro de 2004. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.72-81. Serviço Social & Realidade. Political Organization. R. After the Federal Constitution of 1988.relationship of the category with PT. Formação do assistente social no Brasil e a consolidação. ANTUNES. Ethical-Political. Ano XXV n. known as “Citizen Constitution”. ______. São Paulo: Cortez. Franca. 2007 297 . Florianópolis. Lei n. the Code of Ethics of 1993. São Paulo. that is. Brasília. 16(2): 283-298. 3. Project. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. PT. In: Serviço Social & Sociedade. Referências ABEPSS. that regulates the professional exercise and the Curricular Guidelines for the academic formation. Desafios do P-Sol é dar densidade social ao projeto. São Paulo: Cortez. p. Código de Ética Profissional do Assistente Social – CFESS. Relações sociais e serviço social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica / Marilda Villela Iamamoto. as a historical mark. M. 1985.662/1993 de regulamentação da profissão. 165p.

ed. São Paulo: Cortez.______. 2006. Estado & Sociedade Civil: Contribuições para a construção de uma perspectiva emancipatória. 2007. Gramsci.ac. sua teoria. Universidade Federal de Santa Catarina. 3. 4 ed. Escuela de Trabajo Social. 235 p. ______. Dissertação de Mestrado em Serviço Social. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social. ______. Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64 / José Paulo Netto. I. M. 1998. SILVA. Boletin Electronico Sura número 120. Universidad de Costa Rica. SIMIONATTO. incidência no Serviço Social. Florianópolis.cr>. In: Serviço Social & Sociedade. São Paulo: Cortez. Influência no Brasil. São Paulo/Florianópolis: Cortez/UFSC. A conjuntura brasileira: o Serviço Social posto à prova. 2007 . Ano XXV n.ucr. A centralidade da categoria Trabalho e o Trabalho Docente Voluntário na UFSC. Disponível <http:/www. v. p. 79. Franca. aprovada pela banca avaliadora em 24/agosto/2007. setembro de 2004. 2004.ts. 1. 16(2): 283-298. I. 298 Serviço Social & Realidade.5-26.

Marcelo de ALMEIDA∗ Biografia O pensador e escritor francês Edgar Morin é considerado um dos maiores intelectuais contemporâneos. Ciência com consciência (1982). Idéias principais Diante do mundo globalizado e dos múltiplos desafios da contemporaneidade.RESENHA MORIN. respeitando o singular ao mesmo tempo em que o insere em seu todo. aptos a enfrentar os desafios dos tempos atuais. O desafio do século XXI: religar os conhecimentos (2001) e Educar na era planetária (2003). sob orientação do Prof. Edgar Morin é um estudioso de expressão internacional. o que se reflete em grande parte da sua significativa produção intelectual. 2004. 16(2): 299-304. 2007 . Ubaldo Silveira. destacamos Para sair do século XX (1981). Os sete saberes necessários para uma educação do futuro. Edgar. capaz de formar cidadãos planetários. (Coleção questões da nossa época. A religação dos saberes (2001). Franca. solidários e éticos. Morin é Diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica e fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. (2000). uma vez que se constitui numa ferramenta básica para a participação cidadã na ∗ Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UNESP – Campus de Franca/SP. Dr. v. Sua trajetória de vida é marcada por um fundamentado posicionamento no que se refere às questões cruciais de seu tempo. um humanista. 119). preocupado com a elaboração de um método capaz de apreender a complexidade do real. Defende a formação do intelectual polivalente. 299 Serviço Social & Realidade. Diálogo sobre o conhecimento. Suas obras são norteadas pelo cuidado com um conhecimento não mutilado nem compartimentado. Ele nos propõe uma reforma do pensamento por meio do ensino transdisciplinar. o processo de formação dos indivíduos – a esfera educacional – assume significativa relevância. tecendo severas críticas à fragmentação do conhecimento. São Paulo: Cortez. (1990). Introdução ao pensamento complexo. Entre elas.

A experiência foi idealizada pelos pesquisadores Alfredo Pena-Veja e Bernard Paillard. Alguns obstáculos para o desenvolvimento deste trabalho foram encontrados. capaz de apontar novos caminhos no tecer contínuo do conhecimento. indivíduos culturalmente íntegros e conscientes de sua responsabilidade sócio-política. 16(2): 299-304. conforme propõe Edgar Morin. dando importância ao exercício da reflexão e da crítica. dialético e dialógico. como propósito de resgatar os valores essenciais do ser humano mediante um aprendizado ininterrupto ancorado no questionamento da realidade. em meio a condições adversas. Na obra O diálogo sobre o conhecimento. Os temas trabalhados surgiam da discussão entre os estudantes. princípio paradigmático por ele discutido que se apóia na necessidade de um pensamento multidimensional. o pensamento educacional requer um diálogo crítico e uma constante abertura para o novo. para articular saberes que se encontram divididos. a partir do interesse do grupo e eram contextualizados ao conteúdo programático da disciplina coordenada pelo professor.vida coletiva. compartimentados em limites que não mais se sustentam. Franca. o autor esboçou uma experiência educacional embasada na sua teoria da complexidade. Nesse sentido. apresenta-se como um trunfo indispensável para fazer surgir. orientados pela equipe organizadora. Em momentos permeados de incertezas. objetivando uma educação voltada para a vida contemporânea. A prática do debate permitia o surgimento de novos temas que foram abrindo um vasto diálogo entre os estudantes. no contexto escolar. A inquietação dos realizadores deste trabalho consistiu em saber como as idéias deste pensador podiam ser aplicadas na prática. Isso significa desenvolver outras formas de inteligibilidade. O projeto intitulado “Paixão pela pesquisa” visava à aproximação de pesquisadores com jovens estudantes a fim de estabelecer o diálogo e o interesse pela pesquisa. urge pensarmos a educação como uma força motriz para a reconstrução do sujeito social ativo. Um deles foi a dificuldade dos professores em promover e desenvolver o debate e o outro foi a resistência dos 300 Serviço Social & Realidade. sem conceitos fechados. próprios da época contemporânea. 2007 . Assim.

Para Morin. sendo possível dar continuidade ao processo investigativo. o autor ainda argumenta que o Serviço Social & Realidade. 2007 301 . Este trabalho trouxe uma abordagem aproximativa do método in vivo que consiste em manter um diálogo entre o investigador e a realidade pesquisada. p. Vários procedimentos foram utilizados. nas quais as contradições se transcendem. (HEGEL apud GIL.docentes à mudança. vai ao encontro do método cartesiano. à medida que ele é capaz de divergir. interpretando os dogmas consolidados e estabelecidos. nos exigindo novas maneiras de reaprender. Franca. técnicas de observação e entrevista aprofundada. muitas vezes é necessário desaprender conceitos fechados e repletos de permanências a fim de abrir horizontes novos e amplos que. uma vez que era necessário planejar novas ações e de interagir com outros profissionais que não faziam parte do mesmo ambiente de trabalho. à luz do pensador francês. entre eles. 16(2): 299-304. desconstruir. ao definir o método utilizado nesta prática educacional. 1999. ressalta: “A ciência nunca teria sido ciência se não tivesse sido transdisciplinar”. conceito passível de análises. nos apontam para as incertezas. Assim. ponderações e desconstruções. afirma que é necessário ao pesquisador estimular a elaboração de estratégias de conhecimento ligadas às diversas áreas do saber. O paradigma da complexidade. muitas vezes. No entanto. em que os conhecimentos adquiridos se convergiam. Este filósofo entende que “a lógica e a história humana seguem uma trajetória dialética. (MORIN. Neste sentido. neste sentido. podemos também dizer que o próprio homem é transdisciplinar. mas dão origem a novas contradições que passam a requerer solução”. p. é possível relacionar o que foi afirmado com a concepção do método dialético fundamentada em Hegel. tendo por meta a revalorização dos atos de ensinar e aprender na direção da auto-formação dos sujeitos.11). imprevisibilidades e contradições da existência. é necessário deixar explícito que a sua finalidade é se basear num pensamento complexo divergente. Portanto. Neste sentido. 31) Quando falamos em desconstrução do conhecimento. apresenta-se como um movimento que pretende questionar a visão positivista e fenomenológica da ciência convencional. 2004. a educação é um projeto de reconstrução permanente. A crítica. Edgar Morin.

302 Serviço Social & Realidade. Morin nos permite perceber que os objetos devem ser analisados em todos os aspectos. O estudo de Edgar Morin nos leva a considerar que o objetivo da educação contemporânea consiste em auxiliar o ser humano a aprender a viver com as incertezas e as imprevisibilidades. Com isso. que a denominou como ‘educação bancária’. 2007 . 16(2): 299-304. pois o conhecimento não se adquire de modo isolado e compartimentado. metodologia cartesiana. as informações se dissipam e ocorre o desinteresse por elas.método deve ser amplo. ou seja. conforme o autor. O autor nos leva a refletir que uma “cabeça bem feita” é qualitativamente mais importante na formação dos valores e da visão de mundo dos alunos. versando sobre os grandes temas – o mundo. Morin sublinha que a busca do conhecimento científico implica em refletir e tratar os problemas. o pensador mostra aos educadores a necessidade de contextualizar o tempo todo. a vida e a humanidade –. assim adotando uma posição hologramática. a resolução de problemas por meio dele está inserida num pensamento complexo capaz de ligar. Ao abordar a complexidade. complexo e global. em que a ganância capitalista se torne parceira da miséria humana. Morin desvela um universo da educação que urge por questionamentos e mudanças. refleti-los. Franca. reprodutora e convergente. pacífica e consciente. a fim de debatê-los. As ciências devem ser reagrupadas. Explicita aos educadores que os problemas vivenciados fora da escola devem ser trazidos para dentro dela. do que uma “cabeça bem cheia”. Portanto. na qual se acumula saberes de maneira mecânica. Aborda e instiga o docente a analisar que a solidão disciplinar não é suficiente para fornecer todas as respostas aos problemas que estão ligados a uma área do saber. criticá-los e tentar equacioná-los. uma vez que elas são inerentes à espécie humana. Apreciação De forma clara e competente. Caso contrário. contextualizar e globalizar. Acreditamos que esta seria uma das mais significativas contribuições da ciência para abrir o caminho a uma transformação social. organizar e religar conhecimentos e a eles conferir sentido. Esta metodologia de ensino nos faz rememorar Paulo Freire.

Serviço Social & Realidade. 2007 303 . Franca. 16(2): 299-304.

.

Cumprimentamos os recém mestres e doutores. bem como seus orientadores pelo trabalho realizado e pelo título obtido. O conteúdo de tais trabalhos. qualificando ainda mais os seus autores em sua atuação profissional. Dr. é um grande contributo ao universo do conhecimento na área das Ciências Sociais Aplicadas. No Programa de Pós-Graduação em Serviço Social. Vice-Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social – UNESP – Franca Prof. Mário José Filho . foram defendidas oito dissertações e cinco teses. com certeza. Pe.SOCIALIZANDO Apresentamos à Comunidade Científica e Acadêmica os resumos das Dissertações e Teses defendidas no período de 01 de julho a 31 de dezembro de 2007.

.

RESUMO: Este trabalho tem como objeto de estudo. no Estado de São Paulo. dignidade demonstram essa qualidade. a felicidade. A pesquisa de campo colheu o depoimento de quatro lavadeiras. Valores. Franca: UNESP. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa. valores. PALAVRAS-CHAVE: Mulheres. a intensificação da qualidade de sujeito das mulheres que participaram da experiência da Associação das Lavadeiras. residentes em Lins. Trabalho Coletivo. Ana Maria Ramos Estevão. na década de 1980. transcritos e analisados. Franca. essa forma de participação das mulheres aumentou o prazer. Lourdes. a Faculdade de Serviço Social de Lins. em que as estagiárias participavam ativamente através da concretização do PEOP. A nossa pergunta é: até que ponto o Serviço Social contribuiu para a inserção. Defendido em 06/08/07. 16(2): 305-328. Dignidade.PASSAURA. como meio de participação e busca de melhorias para sua vida e de sua família. Mobilização Social. Dra. Suas aspirações. A nossa conclusão é que houve de fato. Seus depoimentos foram gravados. autonomia. Serviço Social. 110p. uma intensificação da qualidade de sujeitos nas mulheres que participaram deste processo. em Lins. Partimos da hipótese de que. melhorou a auto-estima originando uma história de inserção e protagonismo. Serviço Social & Realidade. 2007. 2007 307 . A intensificação da qualidade de sujeitos nas mulheres da Associação das Lavadeiras de Lins-SP. Perceber o processo de organização e mobilização social voltado para a valorização do trabalho coletivo e das experiências do cotidiano. protagonismo e melhoria da qualidade de vida das mesmas? Na dinâmica da pesquisa documental. Qualidade. revelou-se comprometida com as lavadeiras em seu processo de organização e mobilização por meio de uma proposta de estágio. bibliográfica e empírica.

Nosso intento é contribuir com o conhecimento sobre parte significativa dos usuários do Serviço Social. Defendido em 30/08/07. 125p. ao todo tivemos a participação de 13 sujeitos: cinco concederam-nos a entrevista sozinhos (destes. Franca: UNESP. Foram muitos os relatos em que o trabalho no corte da cana aparece atrelado a problemas de saúde. sobre a moradia. Inicialmente discute-se a questão agrária. no município de Pitangueiras/SP. Foram também indagadas sobre o vínculo com a Política Pública de Assistência Social e convidadas a avaliá-la. com a contribuição das assistentes sociais do órgão gestor da Política de Assistência Social foram selecionados sujeitos significativos para esta pesquisa e realizadas entrevistas com os mesmos em suas residências. 2007. Os depoimentos recolhidos durante as entrevistas versaram sobre as condições e a rotina de trabalho no corte da cana-deaçúcar. A maioria 308 Serviço Social & Realidade. já que esta é uma necessidade e uma lacuna apontada por alguns estudiosos. Após esta primeira etapa. 16(2): 305-328. RESUMO: O presente estudo trata das condições de vida e trabalho das famílias de cortadores de cana. alimentação. a proletarização do homem do campo e os seus rebatimentos na questão social no Brasil. atendidas pela Política Pública de Assistência Social no município de Pitangueiras-SP. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa. saúde e lazer destas famílias. no qual constatou-se que um contingente expressivo de famílias que tem em sua composição trabalhadores rurais assalariados são usuárias da Política Pública de Assistência Social. questionou-se sobre os sonhos e as perspectivas de futuro destas famílias. Os depoimentos reforçaram o quanto é penoso o trabalho no corte da cana. quatro são mulheres e um homem) e quatro casais. Raquel Santos Sant’Ana. Açúcar amargo: condições de vida e trabalho das famílias de cortadores de cana. Meire Cristina de. atendidas pela Política Pública de Assistência Social no município de Pitangueiras/SP. 2007 . desafios e limites da Política Pública de Assistência Social no Brasil e sua organização no município alvo deste estudo. Foram realizadas dez entrevistas (duas delas com os mesmos sujeitos). Por último. Franca. Dra. O trabalho de campo foi realizado inicialmente a partir de levantamento nos formulários do Cadastro Único do Governo Federal. Em seguida problematiza os avanços.SOUZA.

16(2): 305-328. Parte significativa do que ganham é destinado para a alimentação. Assistência Social. Serviço Social. e não como direito social. ter seu próprio negócio. Questão Agrária. PALAVRAS-CHAVE: Trabalho. Possuem pouquíssimas alternativas de lazer. não acham possível conseguir outro trabalho. 2007 309 . diante da sua trajetória. Quanto a Assistência Social que têm tido acesso. Cortadores de Cana. alguns já conquistaram-na. A pesquisa demonstra que parcela importante de trabalhadores tem recorrido à Política Pública de Assistência Social em busca de respostas relativas à sua reprodução social. ou ao menos. o que deixa claro a distância existente entre a legalidade e a realidade.dos nossos depoentes vivenciou o trabalho precoce e não teve acesso à educação formal. tais trajetórias indicam que o trabalho é sinônimo de luta pela sobrevivência. nos depoimentos aparece como ajuda. principalmente através do plantão social e dos programas de transferência de renda. é a de trabalhar por conta própria. Quanto às perspectivas de sair do trabalho no corte da cana a única. Serviço Social & Realidade. que consigam ter um trabalho menos duro que o deles. Franca. Muitos. Muitos sonham com a casa própria. sentem-se fadados ao corte da cana e sonham com melhores oportunidades para os filhos. porém. Políticas Pública. principalmente na entressafra. distante alternativa sonhada por alguns.

2007 . a inclusão da temática agrária foi um avanço. fomentando um mundo melhor e justo. Dr. favorável aos interesses de uma minoria em detrimento do restante da sociedade. num país historicamente caracterizado pela injusta distribuição de terras desde os princípios coloniais. Franca: UNESP. Embora o PCN seja apenas um referencial. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientador: Prof. As narrações dos nossos sujeitos nos permitiram identificar a existência de profissionais que crêem e atuam efetivamente na possibilidade da transformação social. Planejamento Familiar. 16(2): 305-328. 2007.ALMEIDA. Assim. Verificamos. Políticas Públicas. PALAVRAS-CHAVE: Temática Agrária. 111p. Para isso. 310 Serviço Social & Realidade. Mulher. entraves ou indiferença. fazendo com que o ambiente educacional em conjunto com todos os seus atores seja um espaço da produção e multiplicação do conhecimento e de intervenção no real. Em 1997. utilizamos a pesquisa qualitativa com entrevistas semiestruturadas. RESUMO: A nossa pesquisa tem como propósito verificar como a temática agrária é trabalhada nas escolas e quais as ressonâncias deste processo na formação do adolescente para o exercício da cidadania e da democracia. Assistente Social.Ubaldo Silveira. Defendido em 28/09/07. Marcelo de. Temática agrária e escola: apoio. Tais ações poderão nortear uma outra história. nessa conjuntura. objetivamos contribuir na construção de uma outra imagem dos profissionais que atuam na área da educação: o empenho na prática do seu trabalho e a esperança em poderem cooperar para a formação de jovens comprometidos com o devir histórico. Franca. a partir da elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) foi proposta aos professores de História a possibilidade da abordagem da temática da terra e seus impactos sociais em sala de aula. como os docentes percebem a necessidade de levar ao conhecimento dos jovens os desdobramentos sociais do concentracionismo agrário.

INTRABARTOLLO. inspirado na norma AccountAbility 1000. que trata do diálogo entre as partes afetadas pela ação da instituição que. 16(2): 305-328. por ser empresa brasileira tem função social. por se tratar de uma empresa pública tem obrigações sociais. O presente trabalho se propôs a delimitar como a responsabilidade social se encontra inserida neste contexto e. A Serviço Social & Realidade. especificamente. com atuação em todo o território nacional. SP. Márcia Regina. Segundo os autores. Claudia Maria Daher Cosac. RESUMO: A Caixa Econômica Federal (CEF) se constitui em empresa pública de direito privado que executa as políticas públicas brasileiras relativas à moradia popular no âmbito federal. além de atuar como gestora de fundos. 2007 311 . pois. se refere à ação da CEF na execução de políticas habitacionais. Franca. como esta se dá na moradia popular.003 demonstra interesse em ser reconhecida como socialmente responsável. Empresa centenária. 237p. Defendido em 27/11/07. Dra. Um dos motivos para a seleção deste indicador foi o fato de que autores contemporâneos vislumbram no campo empresarial organizações que buscam o consenso através da institucionalização do diálogo e conversação. Responsabilidade social na moradia popular: estudo do Programa de Arrendamento Residencial em Ribeirão Preto. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa.2 milhões de moradias no país. O estudo da responsabilidade social na moradia popular se constitui em possibilidade para melhorar as condições de habitabilidade da população pobre brasileira na medida em que o setor ainda traz arraigados traços do foco quantitativo para a solução do problema de déficit habitacional que. atualmente. esta nova forma de pensamento conduz ao movimento da responsabilidade social. desde 2. 2007. Para avaliar a responsabilidade social da CEF foi selecionado o indicador constante nos Indicadores Ethos de Responsabilidade Social. no presente trabalho. definida como a resposta empresarial ao anseio mundial por desenvolvimento sustentável. Franca: UNESP. e por ser caixa econômica tem compromisso social inerente à sua constituição jurídica. ultrapassando a forma disjuntiva de pensar para adotar o foco nas relações. administradora das loterias federais e principal agente do Governo Federal em programas de transferência de renda e inclusão bancária. chega a 7. A relação da CEF com a responsabilidade social é complexa.

da Caixa Econômica Federal no Brasil.dissertação aborda a histórica origem das caixas econômicas no mundo. Mundo do Trabalho. e a relação da instituição com a moradia popular. foi selecionado o Programa de Arrendamento Residencial (PAR). Moradia Popular. Aborda o tema do desenvolvimento sustentável e da responsabilidade social empresarial na trajetória de como a CEF tem lidado com as questões da moradia. PALAVRAS-CHAVE: Assistência Social. 16(2): 305-328. 312 Serviço Social & Realidade. utilizando como amostra o Residencial Leo Gomes de Moraes. no município paulista de Ribeirão Preto. Trata. Entre os programas operacionalizados pela instituição. 2007 . da questão habitacional brasileira desde o século XIX. Franca. ainda. Questão Agrária. A dissertação mostra como o Trabalho Técnico Social (TTS) realizado pela CEF nos empreendimentos do PAR representa possibilidade efetiva de atividade socialmente responsável. tendo em vista que sua especificidade promove o diálogo e o engajamento das partes interessadas e afetadas pelo processo de implantação de novas moradias.

Educação e Compromisso. No desenvolvimento da pesquisa investigamos a Ética e a Educação em diferentes períodos históricos e em suas várias dimensões e direcionamos as discussões para o caso particular da escola Maria Amália Volpon de Figueiredo em Morro Agudo-SP PALAVRAS-CHAVE: Ética e Educação. Ubaldo Silveira. do município de Morro Agudo. 2007 313 . ocupa um papel fundamental na formação intelectual e moral do ser humano. RESUMO: O tema da ética vem sendo constantemente apresentado sob óticas diferentes demonstrando a sua importância para o período histórico em que vivemos. Estado de São Paulo. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientador: Prof. Roberto. Ética e Educação tornam possível a formação do ser humano comprometido com o entendimento. Assim. a solidariedade. 179p. Educando para a Paz: Construindo Cidadania. possibilitando o desenvolvimento de pessoas com claras noções de humanidade e de justiça. objeto de tantos estudos e críticas. Defendido em 10/12/07. o respeito. Franca. Serviço Social & Realidade. A educação. 16(2): 305-328. A presente dissertação de Mestrado tem como objetivo analisar e compreender como o corpo docente e discente da Escola Maria Amália Volpom de Figueiredo.SALVADOR. Formação Moral. desenvolve a dimensão ética no cotidiano escolar e quais a mudanças ocorridas no comportamento dos envolvidos neste processo. a compreensão. A Ética na educação: um componente de mudança dec. Franca: UNESP. 2007. Dr.

16(2): 305-328. Estratégias de sobrevivência e renda dos cortadores de cana de Barrinha/SP diante do crescente processo de mecanização do corte. Cortador de Cana. Barrinha (SP). 116p. O trabalho enfoca as estratégias de sobrevivência e renda dos cortadores de cana do município. Ubaldo Silveira. 2007 . entre outras. a relação entre a tecnologia e o desemprego. a relação entre rural e urbano. Franca. Mecanização do Corte da Cana. compreendidos como exemplo de atores sociais dessa nova postura do setor sucroalcooleiro e que personificam os aspectos históricos e estruturais da questão agrária que remetem ao período da colonização. A pesquisa também aponta os aspectos econômicos. este estudo oferece subsídios teóricometodológicos e técnicos que possam viabilizar intervenções na problemática das condições precárias de vida e trabalho identificadas. Fabiana Alexandre Ferreira. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientador: Prof. Além da possibilidade de ampliar a compreensão da realidade social desta categoria de trabalhadores e de uma maior sensibilização acerca da questão da substituição da mão-de-obra pela tecnologia nas lavouras de cana. além do intercâmbio e difusão de informações úteis sobre esta temática que pode abranger outras localidades em nosso país. Defendido em 12/12/07. ambientais e políticos que incentivam este processo de modernização do setor sucroalcooleiro e a aparente ausência de preocupação com a categoria e ações que possibilitem a superação dessa questão social. 314 Serviço Social & Realidade. seja a questão agrária. na região de Ribeirão Preto / SP. Dr. permitindo que esta discussão seja apreciada sob diversas perspectivas relacionadas entre si. RESUMO: Este trabalho apresenta algumas constatações sobre a vida e as perspectivas dos trabalhadores rurais ligados ao corte da cana e moradores da cidade de Barrinha. 2007. que nas últimas décadas vivenciam todo o processo de mecanização das lavouras na região. principalmente a recente e crescente mecanização do corte da cana que vem substituindo a mão-de-obra de milhares destes profissionais.NICOLINI. Franca: UNESP. PALAVRAS-CHAVE: Serviço Social – desemprego.

Dra. Verificou-se uma realidade ainda pouco conhecida onde os empresários mostraram-se com fortes traços de operários. Franca: UNESP. deles e dos núcleos familiares que deles dependem. Sendo assim. as mudanças sofridas com o processo de intensificação da globalização. Para isso usamos a pesquisa qualitativa através do método da história oral temática e concomitantemente o método quantitativo através de formulários para uma melhor apreensão desta realidade. entre elas. concomitantemente evidenciou-se os traços de mentalidade mais prementes no perfil do profissional de Serviço Social para entender a sua atuação neste setor. Realizou-se uma análise sobre a questão das mentalidades com o intuito de obter subsídios para uma análise mais contundente da mentalidade deste ator social com a finalidade de conhecer as suas especificidades. Denise Gisele Silva. pelo contrário a redução é extremamente evidente. 130p. e possuem ainda estruturas industriais mais simples. apenas Homens-do-Sapato.COSTA. Para haver uma atuação Serviço Social & Realidade. sobreviventes ou mesmo artistas. Defendido em 12/12/07. que venham de encontro às expectativas e necessidades dos atores sociais em questão. talvez empreendedores. Para tanto abordou-se questões referentes ao mundo do trabalho. e em específico no setor produtivo de Sapato de Franca-SP. As narrações de nossos sujeitos colaboradores nos permitiram identificar uma realidade ímpar. 2007 315 . com ênfase no objetivo de sobrevivência. Franca. cem por cento dos sujeitos colaboradores são ex-funcionários de outras empresas. 2007. Mentalidades: desafio para o Serviço Social e para o sapato francano. Helen Barbosa Raiz Engler. 16(2): 305-328. o principal objetivo foi o conhecimento destas realidades em estudo com o intuito de propor novas possibilidades de atuação do assistente social. RESUMO: Essa pesquisa tem o propósito de fazer uma intersecção entre os atores sociais. a reestruturação produtiva e seus impactos na realidade. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa. nem empresários. micro e pequenos empresários do setor produtivo de Sapato e a atuação do Serviço Social neste ramo. onde há a existência de seres “híbridos” nem operários. Quanto ao Serviço Social foi possível aperceber-nos de que pelo fato da atuação mostrar-se limitada muitas vezes por questões de cunho ideológico não foi possível uma expansão da atuação neste campo.

mas um “novo” Serviço Social. PALAVRAS-CHAVE: Trabalho.efetiva do Serviço Social é necessário empenho em questões metodológicas e práticas com uma mudança no perfil apresentado até então. 2007 . 16(2): 305-328. o campo mostra-se carente da atuação do Serviço Social. 316 Serviço Social & Realidade. Serviço Social. Franca. mais aberto e contemporâneo. Mentalidade. que possa propor “novas” possibilidades para a realidade em questão. Micro e Pequena Empresa.

Franca: UNESP. a ideologia do sistema dominante. 145p. RESUMO: O presente trabalho de pesquisa propõe como objeto de investigação. baseada em fundamentos democráticos e na Serviço Social & Realidade. onde o diferente é negligenciado e onde os educadores assinalam como sendo um desafio. a Educação Especial no Brasil não tem merecido a necessária atenção dos estudiosos de modo a empreenderem uma investigação científica de sua existência enquanto política educacional e não como mera prática de educação. tem sido definida muitas vezes. Dra. de tal forma que possibilita o fornecimento de respostas ao problema proposto na investigação.MEDEIROS. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social) Orientadora: Profa. Inclusão Social pela educação: uma necessidade especial para profissionais da área. reproduzindo e mantendo assim. as escolas não se encontram adaptadas estruturalmente e pedagogicamente para atenderem os PNE e os educadores não possuem apoio técnico-pedagógico que contribuam para a construção de uma prática inclusiva propiciando uma educação de qualidade para todos. 2007 317 . Djanira Soares de Oliveira e Almeida. contribuir para uma reflexão das possíveis formas de se trabalhar a inclusão dentro dos parâmetros educacionais para uma política pública visando uma sociedade globalizada. Defendido em 12/12/07. onde se reduz sua ação a repetição de metodologias. Para que isso se utilizou o estabelecimento de categorias. pois a Educação Especial. tabulação eletrônica. Os dados obtidos demonstraram que apesar de possuir um projeto de inclusão. Franca. O processo de análise e interpretação dos dados teve como finalidade à organização de forma sumária dos mesmos. Como instrumento para coleta de dados foram realizadas entrevistas com análise na abordagem quantiqualitativa. apenas como métodos. 2007. na realidade brasileira. avaliação das generalizações obtidas com os dados e interpretação dos dados. técnicas e materiais didáticos diferentes dos usuais. Patrícia Mara. 16(2): 305-328. Nesse contexto. O objetivo geral foi analisar e compreender quais os fatores que impedem ou dificultam os professores das três escolas de séries iniciais do Ensino Fundamental do município de Ilha Solteira/SP a trabalharem com Portadores de Necessidades Especiais. a pratica de inclusão.

Políticas Públicas. 2007 . 318 Serviço Social & Realidade.valorização de toda e qualquer diversidade que esteja presente no sistema educacional. 16(2): 305-328. PALAVRAS-CHAVE: Educação Especial. Portadores Necessidades Especiais. Franca.

Identidade e resistência convergem em uma ambígua formação de consciência crítica. sobretudo. 2007 319 . Nesta busca. com mínima possibilidade de acesso a condições de trabalho formalizado – situação que os torna suscetíveis a cometerem infrações ou atividades tangenciais ao crime – e sua relação com a mídia. em sua maior parte. procurou-se desvendar a influência dos meios de comunicação nas escolhas e aspirações no cotidiano dessas pessoas que vivem em situação de risco social na metrópole paulistana. Franca: UNESP. têm seu cotidiano fortalecido por um conjunto de elementos que podem despontar em uma cultura construída como reação aos processos de exclusão social. O entendimento da construção de identidades recorreu às teorias que exploram as relações sociais na contemporaneidade. 16(2): 305-328. São jovens os sujeitos desta pesquisa. Ana Daniela de. e também na observação participante da autora durante sua vivência e trajetos pelos metrôs de São PauloSP. formam os pilares em que eles se apóiam para a construção de sua identidade. O contexto social em que vivem é marcado pela desigualdade social e econômica e. A identidade forjada pela mídia: expressões cotidianas reveladas por jovens das classes populares em roteiros pelos metrôs de São Paulo. Maria Ângela Rodrigues Alves de Andrade. motivaram e suscitaram o objetivo deste trabalho enquanto processo de conhecimento. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientadora: Profa. quando envolvidos no laço coletivo para a superação da discriminação. conhecidos popularmente como manos. geralmente. assim como as outras vias que encontram para estabelecer participação social. moradores dos bairros populares e da periferia. 179p. A incitação ao consumo e a sedutora mídia tradicional e comercial influenciam esses jovens na construção de identificações. a dança e o grafite. Avaliar e questionar medidas políticas para trazer melhores condições para a sociedade em geral exige. As atividades recorrentes ao universo da cultura tais como a música. RESUMO: A avaliação dos aspectos da realidade de determinado segmento de jovens das classes populares. Franca.SOUZA. estão envolvidos ou expostos ao universo da criminalidade. conhecer a realidade de uma população que já Serviço Social & Realidade. 2007. Dra. e é assim que eles se autodenominam e se reconhecem mutuamente. Defendido em 17/08/07. Essas pessoas.

2007 . Relações 320 Serviço Social & Realidade. 16(2): 305-328. Franca. Trabalho. Participação Social. Sociais.não está mais à margem e sim na trama central dos contundentes problemas da rede social. Identidade. Contexto Social. PALAVRAS-CHAVE: Mídia.

Foram utilizadas fontes documentais variadas. 2007. Com esses elementos buscou-se analisar se as ‘mudanças’ requeridas pelas reformas dos anos de 1990 convergem para o aprofundamento do processo democrático e quais as relações possíveis com as novas configurações da representação política Serviço Social & Realidade. a publicização (transferência de serviços sociais para a iniciativa privada) e a retração do universo estatal (reforma administrativa) – apresentadas no Plano Diretor foram implementadas nas duas esferas de poder. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientadora: Profa. Defendido em 12/09/07. publicações oficiais.NATHER. e as propostas contidas nos planos de governo da Frente de partidos políticos que elegeu e reelegeu Antônio Palocci Filho. que por sua vez impõe mudanças no papel do Estado e nas relações entre o público e o privado. Dra. notícias veiculadas na imprensa local. que relatam sua experiência como prefeito e a sua concepção de Reforma do Estado. 2001/2002). A Reforma do Estado e as cidades: a experiência de Ribeirão Preto (SP) nos anos de 1990/2000. O estudo identifica as semelhanças entre as propostas apresentadas no Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. Franca. ao seu personalismo e às articulações políticas que foi capaz de empreender com as forças sociais da cidade. 165p. RESUMO: Esta pesquisa documental e bibliográfica é um estudo comparativo entre a Reforma do Estado apresentada em 1995 pelo governo federal brasileiro e a ‘reforma municipal’ empreendida na cidade de Ribeirão Preto (SP) pelo governo de Antônio Palocci Filho (1993/1996. O confronto entre os discursos desses documentos evidenciou que as reformas em nível federal e municipal foram associadas ao processo de globalização. O sucesso da ‘reforma municipal’ pode estar relacionado com o estilo de governo de Antônio Palocci Filho. 2007 321 . dentre elas. As medidas consideradas fundamentais para a superação da crise do Estado – a privatização. Mariângela. Franca: UNESP. uma entrevista exclusiva direcionada para esta pesquisa e livros publicados pelo autor. A pesquisa demonstrou que a ‘reforma’ de Ribeirão Preto superou as metas federais. uma vez que em nível local as Parcerias PúblicoPrivadas (PPPs) avançaram dos projetos em infra –estrutura para as PPPs sociais. 16(2): 305-328. Ana Maria Ramos Estevão. elaborado pelo extinto Ministério da Administração Federal e da Reforma do Estado.

16(2): 305-328. Ribeirão Preto. Representação Política.PALAVRAS-CHAVE: Reforma do Estado. Democracia. Governo Local. 322 Serviço Social & Realidade. Franca. 2007 . Parcerias.

Essas empresas familiares. pois. Franca: UNESP. 16(2): 305-328. Na década de 1970. com maior qualidade e menor preço. conseguiram alcançar desenvolvimento industrial. O empresariado se preocupou com a competitividade e. na expectativa da oferta de produtos mais sofisticados. Nesse contexto. ao longo do processo. documental e de campo que. foram criadas em períodos propícios que possibilitaram seu crescimento e desenvolvimento. essas organizações empresariais. Claudia Maria Daher Cosac. para isso. uma vez que a estrutura produtiva e organizacional não se encontrava totalmente preparada às exigências internacionais. 2007. A investigação foi realizada por meio de pesquisas bibliográficas. durante quase duas décadas. a resistência diante de mudanças é fator comum à cultura empresarial familiar mais tradicional. passaram por momentos de transição diante do processo de globalização. A abertura dos mercados colocou as empresas diante de grandes desafios. As empresas familiares da cidade de Franca: um estudo sob a visão do Serviço Social. considerando o volume significativo das exportações que nos anos 1980 atingiram 35% da produção total. levando em consideração as mudanças estruturais advindas e impostas pelo processo de reestruturação produtiva a partir dos anos de 1990. as indústrias orientaram a produção para atender o mercado externo e. No início da década de 1990. Serviço Social & Realidade. RESUMO: O presente estudo teve o objetivo de compreender e explicar o processo de modernização da gestão das empresas familiares da cidade de Franca/SP. parte integrante da amostra do presente estudo. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientadora: Profa. Dra. Os tempos mudaram e a gestão das empresas se adequaram aos paradigmas que se apresentavam no mundo globalizado. 2007 323 . 201p. modernização no sentido de busca por maior tecnologia e processos inovadores de organização e gerenciamento do trabalho.LIMA. Contudo. dinâmica e abertura internacional dos mercados incluindo políticas econômicas voltadas à estabilização da economia brasileira. permitiram acúmulo de conhecimentos acerca do objeto de estudo e possibilitaram análise e compreensão das formas de atualização da gestão das empresas familiares da cidade de Franca. Defendido em 12/11/07. Franca. Maria José de Oliveira. foram necessários investimentos. as empresas familiares foram obrigadas à reestruturação para atender a realidade dos mercados.

Franca. tem adotado modelos de gestão que melhor atenda às demandas do mercado globalizado e. Globalização. de modo particular. 324 Serviço Social & Realidade. Nesse sentido. Cada organização. 2007 . As empresas familiares da cidade de Franca estão aos poucos reorganizando suas estruturas organizacionais mas. Trabalho. às regras. PALAVRAS-CHAVE: Gestão das Empresas Familiares. estão adotando a redução da mão-de-obra como estratégia para diminuição dos custos dos produtos e serviços. cada segmento empresarial apresenta situação particular e diferenciada diante do mercado e se manifesta através de atitudes em respeito às normas. fragilidade e ameaças diante do diferente. às estratégias que regem a política e a cultura da empresa familiar. reflete insegurança. ao mesmo tempo. que responda às atuais condições financeiras e tecnológicas. principalmente. 16(2): 305-328.modificar estruturas sólidas. Desenvolvimento Industrial. construídas ao longo de muitos anos.

Revelou. Dr. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientador: Prof. José Walter Canôas. Refletir sobre as alternativas e possibilidades de viabilização de projetos profissionais comprometidos com a classe trabalhadora. A pesquisadora possui consciência de que estes objetivos são ambiciosos. Conclui-se que embora os limites determinados pelo cenário contemporâneo em que o trabalho aliena. Defendido em 12/12/07. explora e desvaloriza o potencial humano a pesquisa de campo forneceu dados que indicam caminhos de possibilidades para o Assistente Social e demais profissionais que atuam na área organizacional a construção de propostas sócioeducativas e interdisciplinar inovadoras que permitem ao trabalhador e à trabalhadora compreenderem o contexto organizacional no novo modelo de produção. 2007 325 . Marta Regina. RESUMO: O estudo da formas viáveis para enfrentar concretamente a dimensão sócio – educativa no interior da Indústria de Calçados de Franca? SP.FARINELLI. bem como avaliar a prática cotidiana da pesquisadora no desempenho profissional constituem a pretensão deste trabalho. ampliarem conceitos e conhecimentos do cotidiano e gerar mudanças nas diversas dimensões da vida. Franca: UNESP. 148p. aproveitando as contradições existentes na relação trabalho? Educação e rompendo com seu círculo de dominação é uma tarefa política da maior relevância e torna-se um grande desafio a ser assumido coletivamente pelos trabalhadores e demais profissionais comprometidos com seus interesses.. Serviço Social & Realidade. 2007. tendo em vista que o trabalhador ao vender sua força de trabalho por um valor aquém de suas necessidades submete-se à dominação exercida na relação capitaltrabalho. formas viáveis para enfrentar concretamente o ritmo das mudanças decorrentes do processo de globalização. grupo focal e posterior análise de conteúdo. Franca. 16(2): 305-328. Instituto Atende – Consultoria em Desenvolvimento Humano: a construção de um espaço profissional alternativo nas organizações de calçados de Franca-SP. também. utilizando da investigação qualitativa. Optou-se por estudo da organização Indústria de Calçados Kissol Ltda.

Trabalho. Franca. 326 Serviço Social & Realidade. Globalização. 16(2): 305-328. 2007 . Educação: Desempenho Profissional. Potencial Humano.PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento Humano Industrial.

BARBOSA. assim como as formas de aquisição de moradia pelo Sistema Financeiro de Habitação. O déficit habitacional em decorrência do rápido crescimento urbano nos grandes centros e nas cidades de médio porte. Franca. Franca: UNESP. Neste caso. Apresentamos inicialmente o problema da habitação no Brasil de forma pontual e sucinta. entrevistas semi-estruturadas com agentes da instituição financiadora do PAR e com a assistente social responsável pelo trabalho social no bairro. Ana Maria Ramos Estevão. Dra. Celeste Aparecida Pereira. 2007. Defendido em 13/12/07. O estudo de caso para obtenção das informações necessárias para compor o objeto de pesquisa propiciou a aproximação dos sujeitos de forma a estudar uma das expressões da questão social: a habitação. privilegiando alguns aspectos significativos da história da política de habitação. A análise permitiu algumas Serviço Social & Realidade. neste município. sendo Franca pioneira na implantação deste Programa. A cidade e o bairro foram estudados a partir da sua conceituação. (Tese de Doutorado em Serviço Social) Orientadora: Profa. 16(2): 305-328. o Programa de Arrendamento Residencial (PAR). “Morar é Preciso”: o arrendamento residencial em Franca-SP. para melhor compreensão do cenário atual. Os desdobramentos da política de habitação e os programas de habitação popular como acesso e garantia do direito à moradia as pessoas de baixa renda salarial. 156p. Destaca-se que este programa preconiza o trabalho social com os moradores pósocupação das moradias e diferencia-se das condições gerais do financiamento residencial. A pesquisa constituiu-se da observação e coleta de dados dos moradores do Conjunto Residencial Jardim Pulicano. como Franca. RESUMO: A pesquisa trata de estabelecer as vinculações teóricopráticas observadas a partir da experiência profissional da autora como assistente social no campo do trabalho social em comunidades formadas por conjuntos habitacionais no município de Franca (SP). também foi contextualizado. sendo necessária a sua compreensão para descrição do cenário deste trabalho. A pesquisa pautou-se na perspectiva qualitativa e adotou como metodologia a técnica do grupo focal para a obtenção dos dados qualitativos junto aos moradores e ainda utilizou-se para a pesquisa de campo. é visto como uma “alternativa” de habitação. 2007 327 . a cidade de Franca e o Residencial Jardim Pulicano.

Franca.aproximações conclusivas. gerando o agravamento da questão da moradia e os programas habitacionais em curso não são suficientes para a redução quantitativa e muito menos qualitativa deste déficit. 2007 . moradia. PALAVRAS-CHAVE: política arrendamento residencial. 16(2): 305-328. 328 Serviço Social & Realidade. habitacional. Por último. o que ampliou significativamente a sua população e resultou no alto déficit habitacional no município. a casa. a moradia não se restringe a unidade. Franca é uma cidade migratória em virtude da expansão do setor calçadista. mas compreende todas as condições necessárias para o direito à moradia digna e à cidade. tais como.

p. 181 Burocracia. p. p. 57 Método de Marx. 16(2): 329-330. 2007 329 . 181 Contemporaneidade. 23 Acidente de trabalho. 235 Perda Auditiva. 263 Organização política. p. 207 Crianças. p. p. p. p. 181 Práxis. 87 Racionalidade. 129 Pobreza. p. 23 Determinismo. 207 Políticas educacionais. p. 57. 195 Direitos humanos. p. p. 161 Proteção Social. p. p.ÍNDICE DE ASSUNTOS Abrigos. 129 Informação. p. p. p. 235 Pensamento sistêmico. p. p. 43 Serviço Social & Realidade. p. 57 Anomalia Craniofacial. 161 Saúde. p. 207 Identidade. 263 Direito. 161 Cidadania. 235 Interdisciplinaridade. 11 Competências municipais. 195 PT. 283 Qualidade de vida. p. p. 283 Organizações. p. 87 Globalização. Franca. p. p. 181 Fissura Labiopalatina. p. p. 23 Cuidadores Sociais. p. 283 Projetos Sociais. p. 235 Mercado de trabalho. 161 Resgate. 11 Responsabilidade Social Empresarial. p. 11 Inclusão Digital. 207 Ensino superior. 263 Projeto ético-político. p. p. p. p. 129 Benefícios sociais. p. p. p.

43 Tecnologias da Informação. 11 330 Serviço Social & Realidade. 16(2): 329-330. p. p.Seguridade Social. 129 Trabalho. p. p. 235 Sofrimento psíquico. p. 2007 . 87 Urgência/Emergência. 43 Subjetividade. 11. 43. p. p. 195 Serviço Social. 283 Sistemas. p. Franca.

p. 207 Health. 161 Business Social Responsibility. p. 181 Social Caretakers. 181 Human rights. 11 Information Technologies. p. p. p. 2007 331 . 57 Life quality. 181 Ethical-political project. 207 Práxis. p. 235 Labiopalatine Cleft. p. p. p. p. p. p. 161 Rescue. p. 16(2): 331-332. p. 207 Identity. Franca. 161 Children. p. p. 263 Municipal competences. p. p. 23 Citizenship. p. 87 Method of Marx. p. p. p. 129 Determinism. p. 87 Labor accident. p. p. 235 Political organization. 129 Educational politics. 23 Social benefits. 129 Higher education. p. 283 Poverty. 283 Globalization. 263 Digital Inclusion.SUBJETC INDEX Bureaucracy. 23 Social Projects. p. p. 195 Shelters. 235 Interdisciplinarity. 11 Contemporaneity. 283 Rationality. p. p. 129 Information. 181 Organizations. 57 Labor market. 11 Right. p. 263 Psychic Suffering. 207 Craniofacial Anomaly. p. p. p. 43 PT. p. 161 Serviço Social & Realidade. p. p. p. 43 Hearing Loss.

p. p.Social Protection. 2007 . p. 235 Urgency/Emergency. 43 Systemic thought. p. 11 Work. 16(2): 331-332. 195 Social Security. 235 Systems. p. p. 43. 195 Social Service. 11. 57. p. Franca. 283 Subjectivity. 87 332 Serviço Social & Realidade. p.

P. M. R. p. G. R. p. p. p.. p. 235 MENEGHETTI. 299 Serviço Social & Realidade.. F. K. 263 SILVA. M.. p. D. P.ÍNDICE DE AUTORES/AUTHORS INDEX FREITAS.. L. A. 2007 333 . p. I.. S. 57 SOARES. p. 11 APARECIDO. E. C. p. M. M. M.. 23 VENDRUSCOLO. A.. L. M.. A. M. Franca. I. 181 DONADELI. C. A. S. 43 COSAC. H. O.. p. p. M. 129 CUSTÓDIO... p. 16(2): 333-334. 57 VALENTIM. S. p. P.. C.... p.. 57 MARQUES.. p.. 11 KOHN. p. S. 111 FERREIRA. P. 283 ALMEIDA.. I. M. B. p.. 195 DORNELLES. C. M. 11. p. 129 MENDES. D. p. R. H. 161.. G.. A. E. M. D. M. F. S. L. 129 MANZOLI. 87 GRACIANO. 23 CANO. 181 LOPES. p. p. B. R. 161 REZENDE. 23 BUENO. 87 SANTOS. p. R. S. p.. A. 11 GAUDÊNCIO. M. A. p. 235 BOVOLENTA. M. T. D. T. C. 207 RIBEIRO. p. p. P..

.

quando houver). Estrutura do trabalho. nos quatro últimos anos. 2007 335 . Texto. do disquete). Autor(es) (por extenso e apenas o sobrenome em maiúscula). fiel. os textos devem ter de 15 a 30 páginas. Franca. em Word 8. nos dois últimos anos. os que sucedem o texto. com cópia das ilustrações. Resumo (com máximo de 200 palavras). em inglês (Abstract/Keywords). Instituto ou Faculdade. Devem ser dispostas em ordem alfabética pelo sobrenome do primeiro autor e seguir a NBR 6023 da ABNT. notas prévias. revisões. É vedada a reprodução dos trabalhos em outras publicações ou sua tradução para outro idioma sem a autorização da Comissão Editorial. Exemplos: • Livros e outras monografias Serviço Social & Realidade. no máximo. resenhas e traduções. Os originais submetidos à apreciação da Comissão Editorial deverão ser acompanhados de documento de transferência de direitos autorais. Abstract e Keywords (versão para o inglês do Resumo e Palavras-chave precedida pela Referência bibliográfica do próprio artigo). Os trabalhos devem ser apresentados em duas vias. Preparação dos originais Apresentação. Agradecimentos. que precedem o texto. contendo a assinatura do(s) autor(es).0. Os trabalhos devem obedecer à seguinte seqüência: Título. 16(2): 335-338. escritos no idioma do artigo. comunicações. País). Só serão aceitas resenhas de livros que tenham sido publicados no Brasil. Universidade-sigla. Referências bibliográficas. Cidade. Palavras-chave (com até 7 palavras retiradas de Thesaurus da área.NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DOS ORIGINAIS Informações gerais SERVIÇO SOCIAL & REALIDADE publica trabalhos originais de autores da UNESP e de outras instituições nacionais ou internacionais. Os trabalhos poderão ser redigidos em português ou outro idioma. Referências Bibliográficas (somente trabalhos citados no texto). Filiação científica do(s) autor(es) (indicar em nota de rodapé: Departamento. letra 12. O Resumo (de até 200 palavras) e as Palavras-chave. na forma de artigos. e no exterior. Estado. CEP. tipo Arial Narrow. Textos em disquetes serão acompanhados do printer (cópia impressa.

Datavenia.ufpe. São Paulo: Atlas. Letras e Ciências Humanas. E. 1986.. C. 1995.htm>.br/frameartig. Citação no texto. 1. Anais eletrônicos. v. 47-66. A. Recife. São Paulo. 1990. C. ano 3. 5-19. 114-8.. Metodologia do trabalho científico. p. M. O autor deve ser citado entre parênteses pelo sobrenome.ed.18. DOCUMENTOS ELETRÔNICOS • Eventos em Meio eletrônico SILVA. Recife: UFPe. • Artigo de Periódico em Meio eletrônico RIBEIRO. Assistência social na perspectiva do neoliberalismo. F. 1988. n. Selma Maria. 1998.br/anais/ anais/educ/ce04. Os limites pedagógicos do paradigma da qualidade total na educação. p. 1972. Serviço Social e Sociedade.html>. n.) MARIN... 1996. 16(2): 335-338. Franca. Palavras e não palavras. ago.. 49. • Dissertações e teses BITENCOURT. 2. 1990. • Artigos de periódicos SCHONS.1997. 16. S. Acesso em 21 já. In: STEINBERG. separado por vírgula da data de publicação (BARBOSA. R. etc. • Capítulos de livros JOHNSON. São Paulo: Cultrix. nov. G. São Paulo. W. indica-se apenas a data entre parênteses: Morais (1955) assinala. M.S. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Filosofia. M. P. Disponível em: <http://www. 4. Pátria. In: CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UFPe. São Paulo. Quando for necessário especificar página(s). Acesso em: 10 set. MARCONI. 1996. civilização e trabalho: O ensino nas escolas paulistas (1917-1939). Meios de comunicação de massa. Educação continuada: sair do informalismo? In: CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES. R.LAKATOS.propesq. 198p. Universidade de São Paulo. J. esta(s) deverá(ão) 336 Serviço Social & Realidade. N.inf. p. Adoção à brasileira: uma análise sócio-jurídica. Disponível em: <http://www. • Trabalho apresentado e publicado em Eventos (Congressos..datavenia. Simpósios. Anais. A.. OLIVEIRA.1998.. São Paulo: UNESP. 2007 . 1980). Se o nome do autor estiver citado no texto.

1927b). 16(2): 335-338. radiografias e cromos (em forma de fotografia). na entrelinha superior. Serão incluídos somente quando imprescindíveis para a compreensão do texto. separada(s) por vírgula e precedida(s) de p. ligados por & (OLIVEIRA & LEONARDO. publicadas no mesmo ano. sem espacejamento (PESIDE. 1960). fotografias (em papel brilhante). Serviço Social & Realidade. devem ser discriminadas no texto e nas Referências Bibliográficas. e quando tiver três ou mais. Os dados e conceitos emitidos nos trabalhos. * Esclarecimentos adicionais sobre as normas para apresentação dos originais. Figuras. Devemse indicar. As remissões para o rodapé devem ser feitas por números. constam do manual Normas para publicações da UNESP. modelos (em papel vegetal e tinta nanquim. 1927a) (PESIDE. As figuras e suas legendas devem ser claramente legíveis após sua redução no texto impresso de 11. esquemas. Tabelas. indica-se o primeiro seguido de et al (GILLE et al. fórmulas. (MUMFORD. ambos são indicados. Desenhos. 2007 337 . As citações de diversas obras de um mesmo autor. 1949. gráficos. no verso: autor. Quando a obra tiver dois autores. Os trabalhos que não se enquadrarem nessas normas* serão devolvidos aos autores. ou serão solicitadas adaptações. título abreviado e sentido da figura. Notas. são de inteira responsabilidade dos autores. ou computador). a lápis. 513).5x18 cm. bem como a exatidão das referências bibliográficas. Devem ser numeradas consecutivamente com algarismos arábicos e encabeçadas pelo título.seguir a data. indicadas em carta pessoal. p. Anexos e/ou Apêndices. 1943). por letras minúsculas após a data. Devem ser reduzidas ao mínimo e colocadas no pé da página. Franca. mapas. Legenda das ilustrações nos locais em que aparecerão as figuras. numeradas consecutivamente em algarismos arábicos e iniciadas pelo termo FIGURA.

Mário José Filho Tradução de Inglês Maria Beatriz de Figueiredo Pereira Alves Taveira 338 Serviço Social & Realidade. Dra. Dr. 16(2): 335-338. Mário José Filho Profa. Iris Fenner Bertani Prof. Dra. Frederico Augusto Alem Barbieiri Profa. Dr. Maria Ângela Rodrigues Alves de Andrade Prof. Ana Cristina Nassif Soares Profa. Dra. Dra. 2007 . Dr. Claudia Maria Daher Cosac Prof. Franca. Cirlene Aparecida Hilário da Silva Oliveira Profa. Ubaldo Silveira Responsável pela Revisão Prof. Dra. Neide Aparecida de Souza Lehfeld Profa. Raquel Santos Sant’Ana Prof. Dra. Dr. Helen Barbosa Raiz Engler Profa. José Fernando Siqueira da Silva Prof. Dr. José Walter Canôas Profa. Dra. Pe. Dra.SOBRE O VOLUME Formato: 15 x 21 cm Mancha: 27 x 45 paicas Tipologia: Serifa BT Papel: Offset 75 g/m² Couchê 60 g/m² (capa) Matriz: eletrostática Tiragem: 200 EQUIPE DE REALIZAÇÃO Diagramação dos Textos Aparecida Fátima Vieira Guiraldelli Assessoria Técnica Profa. Dr.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful