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José Rezende Jr.

A mulher-gorila e outros demônios

José Rezende Jr. A mulher-gorila e outros demônios coleção rocinante

coleção rocinante

© 2005 José Rezende Jr.

Produção editorial

Debora Fleck Isadora Travassos Jorge Viveiros de Castro Marília Garcia Valeska de Aguirre

Ilustração de capa

Nelson Cruz

REZENDE JR., José

A mulher-gorila e outros demônios / José Rezende Jr. – Rio de Janeiro: 7Letras, 2005.

Coleção Rocinante: ISBN 85-7577-038-1

ISBN 85-7577-217-1

1. Literatura brasileira – contos. I. Título.

2005

CDD 869 B

Viveiros de Castro Editora Ltda. R. Jardim Botânico 674 sl. 417 Rio de Janeiro RJ CEP 22461-000

(21) 2540-0130 / 2540-0037

editora@7letras.com.br

www.7letras.com.br

SUMÁRIO

 

Pleibéqui

11

Bangue-bangue

17

59 segundos

27

A

mulher-gorila

37

José – o duelo

45

Não passarão (ou A abolição da quarta-feira de cinzas)

53

Os bichos

63

A

triste orla do Aqueronte

79

Nada nunca não

91

Ainda é tarde

109

Para meu pai, por tudo, em nome de todos.

O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.

JOÃO GUMARÃES ROSA, G. S. V.

Ouvi minhas veias.

IDEM

PLEIBÉQUI

Só fui reparar que era a Creuza quando ela já tava lá, no meio do palco, as luzes todas em cima, tinha até começado a cantar. Como eu ia adivinhar, se o locutor anunciou um nome que não era Creuza? Burro, na hora nem me passou pela ca- beça, todo artista muda de nome pra ficar mais chique, se bem que, segundo a revista, já tem mãe batizando filho com nome artístico pra não precisar trocar depois de grande. E só quando a Creuza já tava lá no meio do palco e do refrão da música foi que me lembrei da promessa que ela fez uns anos atrás, nem era promessa, era mais um sonho, “eu vou ser cantora”, e eu ri, e não podia ter rido, ela me disse depois, quando eu telefonei pro salão de beleza pela décima vez e ela, cansada de mandar a Dirce dizer que tinha morrido e que queria que eu morresse também, pegou o telefone e gritou “você não podia ter rido de mim, podia ter falado du-vi-de- o-dó ou sei lá acho que vai ser difícil porque o que mais tem neste país de merda é cantora de merda, podia falar qualquer coisa, menos rir na minha cara.” Eu não devia mesmo ter rido, porque ela não riu naquele dia quando a gente namora- va e eu disse que ia ser jogador de futebol, ela ficou séria, “se é o que você quer, dou a maior força”, mas eu não fui joga- dor de futebol, não fui porra nenhuma, e ela agora era canto- ra, tinha palco, luz azul e tudo. Tanto tempo vivendo junto e eu nunca soube que ela tinha voz, a Creuza não cantava nem no chuveiro, acho que porque a água era fria e ela vivia me cobrando chuveiro quen-

te, “água fria faz bem pra pele”, eu desconversava, mas na- quela época ela tava pouco se lixando pra pele, não sei hoje

em dia, pra ser artista tem que ter pele bonita, parece que é exigência contratual: nome bonito, pele bonita. Nome bo- nito ela agora tinha, não lembro qual, sei que não era mais Creuza, a pele eu não reparei, não dava pra ver naquela luz escura. A voz é que era uma coisa de doido, eu dava tudo pra entender o que ela tava cantando, mas era inglês, e eu não sabia que ela sabia inglês.

Nem cinco anos desde o dia em

que eu ri quando ela disse que ia ser cantora e a Creuza me aparece com outro nome, artista, e ainda por cima cantando em inglês. O pastor é que não ia gostar, esse negócio de falar outras línguas é coisa do demônio, ou do espírito santo, não lembro agora, eu só ia à igreja pra acompanhar a Creuza, nunca dei um puto praqueles sacanas, ela é que dava, mas aí o salão, se é que alguém podia chamar aquela portinha mixuruca e aquela feiúra toda de salão de beleza, aí o salão foi fracassan- do, fracassando, e eu nada de arrumar emprego, se bem que acho que ninguém tinha nada a ver com isso, nem deus nem diabo, e ela foi reclamar pro pastor, e o pastor na maior cara dura, “irmã, seu dízimo tá sendo pago com pouca fé”, e ela, “ah é? ah é? pois agora é que eu não dou mais um centavo”, embirrou, e não deu mesmo, e o salão nem melhorou nem piorou, ficou ruim igual. Mas isso não tem mais importância, ela deve ter fecha- do o salão pra virar cantora, é lógico, e foi sorte ter largado também a igreja, o pastor não ia deixar esse batom e esse esmalte, logo a Creuza que nunca usava maquiagem, só pra esconder as manchas de quando eu cansava de entrar em fila pra procurar emprego e descia a mão na cara dela, e naquele

Como são as coisas

dia ela disse “nem quando você me bate dói igual agora que você riu porque eu quero ser cantora.”

E eu bem ali, na beira do palco, olhando pra cima, ela

podia me ver se quisesse, acho que até olhou pra mim, mas não me viu, ou fingiu que não viu, e isso foi o pior de tudo,

ela podia ter olhado com raiva, “aí, babaca, eu não disse que ia ser cantora?”, mas não, só olhou pra mim e mais nada. Não sei se foi de saudade ou remorso que eu levantei e bati palma, e era só eu aplaudindo, a boate inteira achou que eu tava bêbado e eu tava mesmo, mas não foi só por isso, era bonita, a voz dela, ainda mais em inglês. Ô pessoal que não prestava nem pra aplaudir, só teve um que puxou um assovio meio desenxabido quando ela deixou cair o vestido assim de qualquer jeito no chão e pisou em cima de salto alto, logo a Creuza que nunca deixava roupa caída no chão, acho que porque era ela quem tinha que lavar depois, nem usava salto porque ficava muito alta e isso eu nunca tolerei em mulher, podia até ganhar melhor do que eu por conta da conjuntura econômica e tal, mas me olhar de cima pra baixo, isso nunca.

E ela ficou linda assim, cantando em inglês, de salto

alto e calcinha, até virou de costas pra gente ver que era fio dental, fio dental e vermelha, ela que no nosso tempo só usava calcinha branca de algodão, ela assim de costas, só com aquele cordãozinho vermelho enfiado, e eu olhando pralgum lugar nenhum pra não reparar se tinha celulite na bunda dela, era falta de respeito, eu já tinha rido quando ela falou que ia ser cantora, não podia ficar conferindo estria e celulite agora que a Creuza era artista e nem se chamava mais Creuza. E ela enfiava devagar os dedos no elástico da calcinha e rebolava e começou a tirar, confesso que achei bonito, aquilo, tirava a calcinha sem parar de cantar, puta coordenação motora, logo

ela que não conseguia nem fazer almoço e escutar rádio ao mesmo tempo. E eu acho que era o único ali de pau mole, o cara perto de mim fedendo a suor e uísque paraguaio até

botou o dele pra fora, eu achei o maior desrespeito, mas não sei se foi por isso que eu broxei, sei lá.

O peito dela é que era o mesmo, só faltava ter botado

silicone, pensei, mas aí já seria muito exagero demais, ela morria de vergonha do peito grande, juntava dinheiro pra fazer operação, vivia anunciando “vou arrancar metade”, até mentir ela mentia pro pastor: aumentava o prejuízo do salão

pra reduzir o valor do dízimo e guardar a grana da operação. Só ficou sossegada quando entrou essa moda de peito gran- de, as bacanas botando silicone, bom saber que pelo menos o peito da Creuza era o mesmo que eu conheci.

E eu juro que ia ficar ali quietinho, vendo ela cantar

pelada em inglês, depois ia beber mais um pouco até criar coragem e, sei lá, dizer “lembra de mim?”, “lembro, você é aquele babaca que riu na minha cara quando eu disse que ia ser cantora”, ela talvez respondesse, mas eu juro que se ela dissesse isso eu ia embora numa boa e podia ter acabado tudo bem, se não fosse aquele punheteiro perto de mim balançan- do o pau com uma mão e enfiando a outra no meio das

pernas da Creuza, aí era demais, eu levantei e não falei nada, só quebrei a garrafa na cabeça do pau dele, e espirrou sangue pra tudo que era lado, acho que tava cheio de sangue o pau do cara, todo pau duro é assim, sangue que não acaba mais.

Aí vieram os seguranças de colete preto e já chegaram

me dando porrada, eram dois, um só dava pra fazer o estra- go, não sei pra que dois, um exagero, dinheiro jogado fora, e eu lembro que a última vez que eu abri o olho, só um olho, o outro acho que não vai abrir nunca mais de tanta porrada,

a Creuza tinha parado de dançar, tava só de salto alto, pelada, me olhando de cima pra baixo, como se agora soubesse quem eu era, e cantando, com a boca fechada mas cantando, eu não sei como ela conseguia cantar de boca fechada, e de repente ela começou a rir, tremia o corpo todo, balançava os peitos de tanto rir, mas continuava cantando, e em inglês, os caras me enchendo de porrada e ela rindo e cantando sem desafi- nar uma nota e era uma canção de amor eu sei porque tinha love no meio e ela ria e cantava love e era linda e não parava de rir. E eu não sabia que ela sabia rir.

BANGUE-BANGUE

Na manhã do dia em que o matariam, por ser uma manhã igual a todas as outras, meu pai tomou o mesmo café, que era sempre muito preto, mas ao mesmo tempo tão sempre doce que nenhum de nós estranharia se alguma for- miga suicida disputasse com ele o último gole no fundo da xícara. Comeu uma banda de pão com manteiga e meio bis- coito de polvilho encharcado de gordura de porco, como fazia sempre e não deixaria de fazer naquele dia só porque o matariam. Enquanto mastigava, meu pai tinha nos olhos e no bigode a arrogância serena dos mocinhos que sabem que nunca morrem no fim. Também era a mesma de todos os dias a roupa que ele usava: o terno engomado. Minha mãe jamais delegou a ou- tra pessoa a tarefa de engomá-lo. Era, hoje penso, uma ma- neira de dizer “eu te amo”, coisa que nunca disse, não na nos- sa presença, não com estas nem outras palavras. Minha mãe possuía um jeito próprio e silencioso de amar meu pai: a goma no terno, o frango com angu e quiabo às sextas-feiras, os filhos educados, a casa um brinco de tão limpa. Eu era a mais nova, a única menina, a filha temporã. Naquela época, não gostava de minha mãe. Naquela época, não sabia por quê. Éramos as únicas mulheres da casa, eu e minha mãe, mas eu amava meu pai, o cheiro de loção mentolada, a pele lisa do rosto escanhoada com a gilete in- glesa que meu tio trazia de contrabando, o bigode aparado com a tesourinha de cortar unha, o jeito como descascava laranja sem interromper o movimento em espiral do canive-

te adestrado. O mesmo canivete com o qual, aos sábados, meu pai extirpava os bichos-de-pé que eu apanhava de pro- pósito andando descalça pelo quintal, esfregando as solas dos pés contra a terra contaminada, chamando os bichos. Ele conhecia meu artifício, mas nunca contou a ninguém, era nosso segredo, parte do nosso ritual de cada sábado: o cani- vete adestrado cavucando minha pele, invadindo minha car- ne, a coceira e a dor, a gosma do bicho na ponta do canivete. Todos os sábados, eu e ele fazendo de conta que no interior do meu delicado pé de menina havia não um bicho gordo e indefeso, mas uma bala assassina que meu pai, parceiro

inseparável de assaltos a bancos e diligências, necessitava ex- trair a sangue-frio porque ainda não haviam inventado a anestesia, ou haviam, mas levaria muitas luas para que o bál- samo entorpecente chegasse aos confins do nosso velho oeste de mentira. Então, meu pai esquentava a ponta do canivete na chama da vela e me estendia o copo d´água, que eu bebia e cuspia fingindo ser aguardente, e, bêbada, entorpecida, me entregava à sua imaginária perícia de bandoleiro e médico de faroeste. Eu queria ser menino. Invejava meus irmãos mais ve- lhos, meus irmãos virando homens, os arremedos de bigode e

as espinhas patéticas, o futebol no rádio da sala entre os pala-

vrões e o zumbido da transmissão precária, Deus, como eu odi- ava futebol, meu pai e meus irmãos torcendo pelo mesmo time, parceiros embriagados da mesma alegria, da mesma tristeza.

A cumplicidade masculina: meu pai e meus irmãos mais ve-

lhos e as conversas sobre peitos e bundas, e os risinhos suspensos quando eu entrava na sala: o mundo dos homens. Duas mulhe- res sozinhas na casa dos homens, eu e minha mãe, e, no entanto, eu e meu pai, e nada mais importava: eu e meu pai.

Não fui à escola no dia em que o matariam. Simulei alguma febre ou coisa assim. Minha mãe acreditou. Meu pai piscou-me o olho e sorriu: conhecia meus artifícios. Pulei a janela tão logo ele saiu cheirando a café e menta, vestindo o terno que minha mãe engomara à guisa de dizer “eu te amo”. Talvez por isso eu não gostasse dela. Odiei minha mãe mais ainda naquela manhã, quando, meu pai na porta, um pé já na soleira, ela alisou primeiro com a palma da mão e depois, indecente, pensando que eu não via, mas eu tudo via, riscou com as unhas o coração do meu pai sob o terno, como se dissesse sem palavras “não demora, te espero”, mas ao mes- mo tempo como se transmitisse com as unhas a instrução final à bala futura, indicando o alvo: “aqui, entra bem aqui”. Desconfiei de minha mãe naquele instante, imaginei-a parte de uma trama cujo objetivo inconfessável era afastar para sem- pre meu pai de mim. Era como se minha mãe conhecesse desde já o itinerário da bala que tingiria de vermelho o paletó engomado do meu pai, vermelho como a intimidade dos panos que uma vez a cada mês ela esfregava no tanque, na rotina imunda e sem sentido de todas as mulheres. Meu pai esperava por mim alguns metros à frente da casa. Era o dia em que o matariam. Entre os dedos, já aceso, o cigarro sem filtro que minha mãe odiava, o cheiro do fumo de má qualidade infiltrando-se entre a menta e o café. Ele quis pegar minha mão, eu refuguei duas vezes. Tinha meus motivos. Na terceira tentativa, cedi. Começamos a caminhar. Tremi ao perceber que meu pai tinha naquela hora um andar de xerife, e eu sabia que os xerifes não pertencem à linhagem sagrada dos mocinhos – os xerifes quase sempre morrem no fim. Louca, eu que agora esmagava sem força a mão de meu pai, louca, eu que agora velava pela sua vida, era eu a mesma

que passara os últimos dias a exigir de Deus uma única bên- ção, e por essa graça esfolei e humilhei meus joelhos nas ora- ções sonolentas de cada noite, a exigir de Deus que matasse meu pai. Eu, que amava meu pai, queria vê-lo morto. Tinha meus motivos. O sol já ia alto, era assim o sol da nossa cidade, quando tomamos a avenida principal. Esqueci o ódio, e amei meu pai por me guiar pelo calçamento irregular, nós dois de mãos dadas, ele agora, supunha eu, não mais com o andar vulnerá- vel de algum xerife, mas com os passos de um mocinho, de um John Wayne. Forcei minha memória curta de criança:

não, John Wayne nunca morria no fim. Alívio. Pelo sim, pelo não, odiei outra vez minha mãe pelos seus gestos de amor inúteis, porque em vez de alisar com a palma da mão e as unhas o terno do meu pai não lhe ocorrera introduzir no bolso do paletó um dólar de prata, na altura do coração do meu pai, feito escudo ou amuleto capaz de deter a bala que o mataria dali a pouco. Minha mãe ignorava os truques dos faroestes, mesmo os mais conhecidos, feito o dólar furado que salvara a vida do Giuliano Gemma. Minha mãe nunca ia ao cinema. Meus irmãos, sim, mas não mais aos bangue- bangues das matinês, visto que agora pertenciam ao seleto mundo dos homens, com seus arremedos de bigode e suas espinhas patéticas. Antes assim: íamos só nós dois, meu pai e eu. Ele porque amava bangue-bangue; eu, porque o amava. E por amá-lo, amava os bangue-bangues das matinês. Todo domingo, depois do almoço: meu pai comprando os ingressos e a pipoca, abrindo caminho para mim, pousando em minhas costas as mãos impregnadas de pólvora de pistoleiro das matinês, fazendo de mim uma princesa dominical, permitindo que eu girasse antes dele a roleta do

cinema, meu pai, nobre e rude cavaleiro do Reino Unido do

Texas e do Arizona. Depois, o gerente apagava todas as luzes,

e passávamos ao trailer do filme em cartaz na próxima semana,

meu pai já fazendo planos para a matinê do domingo seguinte. Enxotávamos da tela o urubu de celulóide, removendo o

último obstáculo entre nós e os pistoleiros, as diligências e os duelos ao pôr do sol (meu pai dizia tratar-se de um condor, símbolo da empresa distribuidora dos faroestes, mas para mim não passava de um urubu agourento e metido a besta). Expulso o urubu, acompanhávamos, ombro a ombro, os primeiros passos do caubói pela cidade-fantasma, os mesmos passos de mocinho, ou de xerife, ou de John Wayne com os quais meu pai, de mãos dadas comigo, evoluía pelo calçamento irregular da nossa cidade no dia em que o matariam. À certa altura, o encanto se quebrava. Sem desgrudar os olhos da tela, ele soltava minha mão crispada e introduzia em meus ouvidos o hálito de café e menta, ao mesmo tempo em que sussurrava a frase maldita de todas as matinês: “Não tenha medo, o mocinho e a mocinha sempre acabam juntos no fim”. Ele, então, se levantava e desaparecia por duas lon- gas horas escuras. Abandonada, eu tremia na escuridão abafa- da do cinema, cercada de apaches e mexicanos, e sem meu caubói favorito. Todas as matinês. No fim da sessão, quando acendiam as luzes, meu pai estava em pé, a mão estendida, de volta para mim. Ostentava

o mesmo sorriso sob a moldura do bigode, mas já não era o

mesmo. Trazia, na volta, um cheiro que meu faro aguçado jamais encontrara na nossa casa, mas que ali, ao final das matinês, impregnava cada fio de seu bigode. Um cheiro en- tre o doce e o ácido cuja procedência eu só descobriria tem-

pos mais tarde, na noite, tempos depois daquela matinê, em que o farejei em mim, no dia, tempos depois daquela matinê, em que me brotaram, à revelia, os primeiros pêlos entre as pernas magras de menina. Quantas vezes tentei exorcizar esse meu cheiro, arrancá-lo a golpes furiosos de áspera bucha, até que de mim em carne viva nada mais exalasse, até ser de novo inodora. Mas ele voltava, sempre, esse meu cheiro, o mesmo cheiro que meu pai trazia nos fios do bigode ao emergir da escuridão das matinês. “Não tenha medo, o mocinho e a mocinha sempre aca- bam juntos no fim”, ele sussurrava no meu ouvido antes de desaparecer para sempre por duas horas escuras. Era inútil e cínico o apelo do meu pai: eu tinha medo dos apaches, dos mexicanos, da ausência do meu pai. Temia que o gerente nunca mais acendesse as luzes. Até que um dia o medo infinito en- corajou a curiosidade sem fim, e eu respirei fundo, e segui o vulto do meu pai através da escuridão do cinema, tropeçan- do no tapete ondulado, trombando nas cadeiras de pau, pi- sando os pés dos espectadores, até estancar diante da escada de marinheiro que conduzia à galeria superior do cinema. Esperei embaixo da escada, minha embrionária intuição fe- minina exigiu que eu esperasse, e eu esperei, até que não pude

mais esperar, e subi a escada de marinheiro até a galeria, e não havia ninguém na galeria, não havia ninguém na galeria a não ser meu pai, não havia ninguém na galeria a não ser meu pai

e

a mulher que eu não conhecia mas de quem jamais esqueci

o

perfume ordinário misturado ao cheiro doce e ácido que

reconhecia no bigode do meu pai – e que reconheceria, mais tarde e para sempre, impregnado em minhas entranhas de moça, de mulher, de velha.

Meu pai e a mulher jamais dariam pela minha presença, para sempre contorcidos e alienados em sua imundice ofe- gante, caso não jorrasse da minha boca centenas de carocinhos de pipoca devolvidos num refluxo, e se não banhasse meu vômito os peitos enormes da mulher, e se não escorresse o caldo quente do meu nojo pelo vestido desabotoado dela, até emporcalhar a nuca do homem que era meu pai debruça- do entre as pernas abertas da mulher que eu odiava sem saber quem era. Ele me bateu pela primeira e última vez. Odiei meu pai, nem tanto pelo tapa que me partiu o lábio e manchou de sangue o vestido de domingo. Odiei meu pai pelo cheiro de cada uma das nossas matinês, e em nome desse ódio dese- jei que ele morresse, humilhei meus joelhos e exigi de Deus que o bandido fosse mais rápido no gatilho, e que Ele remo- vesse todos os obstáculos à determinação da bala, e que no bolso do paletó engomado do meu pai não existisse nenhum dólar de prata, nenhum escudo, nenhum amuleto. Não fui à matinê no domingo seguinte. Meu pai foi sozinho. Na véspera, não permiti que o gume afiado de seu canivete me acariciasse a pele e revirasse minhas carnes à pro- cura do bicho. Ele, o bicho, estava lá, eu o sentia, penetrara em mim, eu consentira, e com meu consentimento haveria de sobreviver ao canivete do meu pai. Eu desejava que o bi- cho, grávido, procriasse pelo meu corpo inteiro. No dia em que o matariam, eu caminhava ao lado do meu pai e tinha os passos hesitantes por obra do bicho, que sobrevivera, engordara, crescia e se multiplicava. Coceira e dor. Pisava com o lado oposto do pé, para que o bicho nada sofresse, para que ele, o bicho, permanecesse vivo até a imo- lação ritual do próximo sábado. Sim, eu perdoara meu pai.

Tinha meus motivos. Reconciliados, caminhávamos, eu e meu pai, sob o sol alto, pelo calçamento irregular da avenida prin- cipal da nossa cidade, da minha cidade-fantasma, fantasma porque não havia, de fato, naquele dia, naquela hora, além de nós ninguém na rua, ou havia uma população inteira, mas eu só tinha olhos para meu pai. Já não o odiava desde o ins- tante em que piscou e sorriu para mim e sugeriu, em silên-

cio, que eu pulasse a janela e viesse com ele (eu conhecia seus artifícios). E o amava naquela hora mais do que nunca, devo- rada pelo bicho e pela culpa de haver conjurado a morte do meu pai, por não ter secretamente introduzido no bolso de seu terno engomado um dólar de prata, por sequer ordenar que minha mãe o fizesse, e por não estancar seus passos rumo ao destino que, bandida, eu mesma invocara em pactos escusos com Deus. E atravessamos a praça do relógio, e chegamos ao fórum,

e eu já não podia mais dizer que era a nossa uma cidade- fantasma, porque toda a cidade estava ali, às portas do fórum, como se adivinhasse o que viria a seguir, mas a população da cidade inteira era para mim uma massa indistinta, coadju- vante. Pensei ter visto, não tenho certeza, meus irmãos, e a inveja nos olhos dos meus irmãos, quando a massa indistinta abriu caminho e eu venci o corredor humano de mãos dadas com meu pai, e entramos no fórum, sempre de mãos dadas,

e lá dentro existia outra multidão, mas eu só via meu pai; até que de repente enxerguei, além do meu pai, o homem que o mataria. Frente a frente, meu pai: o terno engomado, o rosto escanhoado, o cheiro de café e menta; e o homem que o mataria: o paletó amarfanhado, a barba por fazer, revólver feito cão raivoso pronto a saltar do coldre.

Não sei quanto tempo durou aquilo, os dois frente a

frente, um tempo breve e infinito, até que alguém me puxou para o lado, e me ofereceram guaraná e pão com salame, e tudo durou outra imensidão de tempo, tempo em que não pude ver meu pai, até que alguém gritou uma espécie de or- dem em meio ao burburinho, e fez-se um silêncio de morte,

e

no meio do silêncio um estampido de morte, e vi meu pai,

o

rosto lívido de morte escanhoado com gilete de contraban-

do cheirando a café e menta, a mão direita empunhando o revólver estéril, a mão esquerda à altura do bolso vazio do paletó engomado, e por entre os dedos da mão esquerda, o princípio da hemorragia. Meu pai não disse uma palavra, apenas rendeu-se ao desânimo do corpo que se tornava mais

pesado à medida que se esvaziava da alma, e caiu de joelhos,

e olhou em volta, e seus olhos só tiveram tempo de encon-

trar os meus, no meio da multidão e do tempo em silêncio. Ainda hoje, 50 anos depois, revejo a cena, congelo a imagem no instante em que meu pai, o sangue engomado crescendo no paletó, se ajoelha e olha para mim, o olhar que antecede a morte, a morte que antecede o grito histérico da mulher que eu viria a ser. Todos os dias revejo e congelo a cena, desde que lançaram o filme em vídeo. Nunca assisti por inteiro, a não ser uma dezena de vezes quando menina. Não gosto do Cinema Novo, tenho especial desapreço por este pretensioso bangue-bangue experimental de terceiro mundo filmado em nossa cidade com atores famosos que ninguém conhecia e figurantes locais que se imaginaram cé- lebres por um dia – entre eles, meu pai. Tudo o que vejo nestas duas horas de fita são os dez segundos da morte do meu pai, só tenho olhos para os olhos do meu pai, que me espreitam de dentro da televisão. Ainda mais agora que esta-

mos sozinhos, trancados em nossas solidões, e ele já não pode me ver. Espero que estas linhas expliquem tudo, ou, pelo me- nos, a parte que importa do todo. Quando terminar de escrevê-las, olharei uma vez mais o olhar do meu pai conge- lado na tela da tevê. Depois, sob o chuveiro, áspera, esfrega- rei como nunca a bucha entre minhas pernas, até extirpar para sempre o cheiro corrosivo que há meio século me devo- ra feito bicho. Límpida e nua, caminharei então pela casa vazia até o quarto de casal, até a cama de casal onde meu pai agoniza, à espera de sua segunda morte, os olhos esgazeados girando sem rumo, o pijama que eu mesma engomei (jamais deleguei a outra pessoa a tarefa de engomar o pijama do meu pai). E meu pai não dirá nada, há anos ele não diz nada, ape- nas estenderá o braço muito magro e agarrará minha mão com a força que lhe resta. Introduzirei, então, meus lábios em seu ouvido, e soprarei, sem pressa, cada sílaba: “Não te- nha medo, o mocinho e a mocinha sempre acabam juntos no fim”. Por último, vedarei todas as frestas da nossa casa vazia, e abrirei o gás, e riscarei o fósforo para acender o cigarro sem filtro que meu pai não chegará a fumar. E fim.

59 SEGUNDOS

Não entendo uma palavra do que ele diz por causa do Raul Seixas que toca muito alto no CD player ou por causa dos vidros fechados do carro ou porque falamos mesmo lín-

guas diferentes ele é pobre e eu segundo o ponto de vista dele

e os indicadores sociais do terceiro mundo sou rico mas nem

é preciso falar a língua dos desesperados porque nada mais

eloqüente e universal que um revólver apontado pra sua ca- beça mesmo com um vidro elétrico entre você e a bala e se isso é assim em qualquer lugar do mundo imagina então nes- te país fodido nesta cidade de merda nesta escuridão filha da puta em que fui me meter mesmo a polícia avisando toda hora que é suicídio que é preciso evitar lugares ermos mas quem é que raciocina pela ótica do aparelho de segurança do estado quando a única coisa que importa é um belo par de coxas mas eu podia ao menos ter botado vidro à prova de bala mas pensando bem por que eu botaria vidro à prova de bala que é quase o preço do meu carro se nunca pensei em morrer assim com uma bala na cabeça

49 segundos

na próxima encarnação a prioridade é vidro à prova de bala não saia de casa sem seu vidro à prova de bala você nunca sabe quando vai precisar de um eu e o meu pessimismo nem na hora da morte consigo pensar positivo sejamos otimistas tenho grandes chances de sobreviver segundo as estatísticas

só um em cada dez assaltos acaba em morte não sei se as estatísticas são relativas ao Rio ou a Estocolmo e esse único desgraçado que morre entre os dez assaltados é porque ten- tou reagir ou então porque o assaltante tava muito doidão eu não vou reagir e sei lá se o cara fumou ou cheirou evito olhar pra ele aliás evito olhar pra qualquer lugar mantenho os olhos fixos no relógio digital do painel do carro 23:11 mas minha excelente visão periférica capta pelo canto do olho esquerdo um revólver atrás do vidro e pelo canto do olho direito o par de coxas

39 segundos

não sei se me conforto ou me desespero de vez por saber que não vou morrer sozinho vou morrer acompanhado da moça do par de coxas mas é bem provável que eu morra sozinho sim porque um par de coxas desses não é todo dia se o cara for esperto estoura meus miolos depois estupra a menina e aí resolve se mata ou não mata deve ser bom brincar de Deus ter amplos poderes pra decidir “este aqui com cara de doutor morre aquela gostosona ali merece viver porque um par de coxas desses não é todo dia” engraçado eu só lembrar dela como um par de coxas mas tem até certa lógica a única coisa que vejo com o lado direito da minha excelente visão perifé- rica que a terra há de comer a partir de amanhã à noite depois do velório é o par de coxas de resto a gente mal se conhece lembro-me vagamente do rosto mas o que me chamou a atenção no bar foi a minissaia pensei pô eu dava minha alma ao Diabo em troca da bênção de penetrar nessas coxas e bem feito acabei de penetrar e já não consigo lembrar se foi bom acho que depois do gozo ficou igual a sempre mas o Diabo

não quer nem saber já tá aí do outro lado do vidro veio cor- rendo cobrar a dívida só que pra levar a alma o filho da puta precisa primeiro descartar meu corpo e é aí que eu me fodo e não sei mais se a mão que empunha o revólver é de Deus ou do Diabo deve ser de Deus porque eu pequei Senhor e mere- ço Vossa ira

29 segundos

maldito sentimento de culpa que não nos abandona nem agora na hora da nossa morte ou da minha morte conside- rando que a única morte líquida e certa aqui é a minha já não tento entender o que o cara fala e o mais estranho é o silêncio ele já não berra coisas naquela língua incompreensível e a moça também não abre a boca ela não fala nada ela não grita ela não dá escândalo nem imagino o que se passa pela cabeça dela desisto da visão periférica portanto nem a visão do para- íso das coxas dela nem a do inferno que me chama do outro lado do vidro só tenho olhos pro relógio digital do painel 23:11 mas como 23:11 ainda 23:11 o tempo parou

19 segundos

ou então o tempo continua a correr mas o relógio digital não marca a passagem dos segundos então este tempo todo não durou nem um minuto eu li não sei onde já li tanta coisa na minha vida li que na hora da morte a vida toda do moribun- do passa pela cabeça dele num minuto como se fosse filme ah não definitivamente tudo o que eu não quero é rever o filme da minha vida produção chinfrim uma porcaria rotei- ro medíocre elenco sofrível a começar pelo protagonista mal- dita baixa auto-estima que não me abandona nem agora na

hora da minha morte muito bem Deus fazemos um acordo

o Senhor me mata eu morro mas cancela a exibição do filme

da minha vida é o último pedido do condenado ou o penúl- timo sei lá o que não falta agora é último pedido a ser feito tantas coisas incompletas amanhã era dia de regar as plantas o IPVA vence segunda-feira que bom pelo menos do IPVA eu tô livre não me despedi dos meus filhos as ex-mulheres que se fodam todo mundo que vai morrer mesmo não sabendo que vai morrer tem uma espécie de iluminação sei lá e telefo- na na véspera pralgum ente querido como quem não quer nada e diz “olha aconteça o que acontecer não esqueça que eu te amo muito etc e tal” e bate as botas no dia seguinte pelo menos é o que dizem as reportagens que reconstituem a morte de algum famoso ainda bem que não sou famoso posso morrer anônimo ainda bem o caralho não sejamos cínicos pelo menos uma vez na vida ou pelo menos uma vez na morte tudo o que eu queria era ser famoso nunca tive saco nem talvez talento pra escrever porra nenhuma só poema vaga- bundo em boteco idem mas sempre me via bem lá adiante na noite de autógrafos meu livro imaginário desaparecendo das estantes da livraria sucesso de crítica

9 segundos

a única coisa boa do anonimato é a morte anônima nenhum

jornal especulando as circunstâncias do homicídio a polícia nem aí que nada muito pelo contrário todo cara que morre trepando dentro do carro a imprensa faz o maior carnaval a polícia é obrigada a sair da letargia e ir no embalo exames do IML “a bala rompeu o osso tal e foi se alojar não sei em que parte do cérebro” “vestígios de esperma” esperma porra ne-

nhuma o termo técnico é sêmen “vestígios de sêmen estamos providenciando o DNA pode ter havido conjunção carnal talvez crime passional o marido dela não está descartado ela era solteira pra nós todo mundo é suspeito trata-se de um profissional a moça está em estado de choque incapaz de des- crever o criminoso a moça foi barbaramente violentada antes de morrer claro que já temos um suspeito mas pra não atra- palhar as investigações”

8

e

se eu abrisse o vidro elétrico e dissesse calmamente tudo

bem pode levar o carro meu rolex da feira do paraguai meu talão de cheque se o senhor quiser eu assino todas as folhas em branco pro senhor não ter trabalho juro que não mando sustar tudo o que eu peço é deixar a gente ir embora com vida o senhor entendeu a minha colocação eu disse a gente ir embora com vida veja que não excluo a possibilidade desde que não mate nenhum dos dois bem o senhor sabe um par de coxas desses não é todo dia

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e se eu abrisse o vidro elétrico e dissesse aos prantos leva tudo leva inclusive essa vagabunda aí do lado eu nem sei o nome dela mas um par de coxas desses não é todo dia leva tudo menos a minha vida tenho dois filhos domingo é dia de visi- ta eu prometi aos meus dois filhos vamos ao McDonald´s concordo com o senhor eu podia ter pensado num programa mais saudável e politicamente correto zoológico cinema to- bogã do parque da cidade porra mas o senhor sabe como são as crianças de hoje em dia o senhor é que tá certo nunca levou

seus filhos ao McDonald´s esse negócio de fast-food a globa- lização o senhor sabe começa pelo estômago o McDonald´s

é a ponta de lança deste modelo neoliberal que enriquece os

ricos e empobrece os pobres o senhor sabe o senhor é mais uma vítima do desemprego gerado pelo sistema econômico desumano que aí está o senhor podia estar aí dignamente coletando nosso lixo ou desentupindo esgotos pra que nos- sos excrementos corram livres mas não em vez disso aí está o senhor se humilhando com um revólver apontado pra mi- nha cabeça

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melhor pensar em outra estratégia essa dos filhos não vai co- lar mesmo sendo verdade lembro quando eu era pequeno meu pai botou no fusca aquele ímã Não Corra Papai com o retratinho meu de um lado e o da minha irmã do outro ia cair superbem agora um ímã daquele com as fotos dos meus filhos se o cara for coração-mole não vai matar o pai de duas crianças tão lindas por que não fabricam mais aqueles ímãs Não Corra Papai deve ser porque os painéis dos carros hoje são todos de plástico ah bons tempos dos automóveis com painel de metal e o ímã Não Corra Papai hoje é painel de plástico e radar eletrônico e não corra papai porque se o se- nhor ultrapassar o limite de velocidade da via papai o Detran fotografa o senhor e manda a multa pelo correio fora os pon-

tos na carteira de habilitação “que papo é esse véi que filhos esperando em casa porra nenhuma tu aí na parada comendo

a mina no meio do cerrado véi tu merece é um pipoco no

meio das idéias tá ligado” o bandido ia dizer e o pior é que ele teria razão não dá nem pra dizer a ele sou pai de família esta

senhora aqui ao lado é a mãe dos meus filhos ele não vai acreditar já tô beirando os 50 malho todo dia me cuido mas não dá pra esconder que os 40 ficaram bem lá pra trás e a moça do par de coxas ainda não chegou nos 20 maldita pre- visível e inescapável crise da meia-idade

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estranha sensação quanto mais perto o fim mais os segundos

custam a passar o relógio digital do painel insiste 23:11 sem- pre 23:11 será que este já é o filme da minha vida então cadê

a cena de abertura minha mãe me dando o peito meu pai

tendo que trabalhar dobrado fazendo serão era assim que se dizia naquela época meu pai tendo que fazer serão porque agora somos mais uma boca cadê minha infância infeliz mi- nha adolescência desatinada cadê meu primeiro beijo o pri- meiro peito sem ser o da minha mãe cadê aqueles projetos de vida por falar nisso cadê a vida que tava aqui e nem deu tem- po de viver direito o pior é ir embora sem nem saber o quê que eu vim fazer aqui afinal

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o

CD continua tocando a mesma faixa é sinal que o tempo

passa mesmo mais devagar ou então a música é muito com- prida mas já tá quase no fim “eu que não me sento no trono de um apartamento” Deus pode nem existir mas tem um senso de humor do caralho enquanto o Raul canta “boca es- cancarada cheia de dentes esperando a moooooorte chegaaaaaar” eu estou exatamente esperando a morte e lem- bro o Raul começou cantando “eu devia estar contente por- que tenho um emprego sou um dito cidadão respeitável” e é

isso mesmo eu tenho emprego sou cidadão respeitável mas não estou contente nem lembro a última vez que estive con- tente quando o cara chegou batendo no vidro com o cano do revólver eu já era infeliz há muito tempo mas nem por isso escolhi morrer assim com um tiro na cabeça se eu pelo me- nos tivesse uma arma mas não tenho nunca tive arma na cin- tura carrego esse celular surdo-mudo nunca gostei de celular comprei porque cansei de subir escada correndo ouvindo o telefone tocando dentro do apartamento vazio eu largando as compras no chão a garrafa de uísque quebrando com o baque eu querendo abrir a porta nunca acerto a chave na pri- meira eu entrando no apartamento vazio agarrando o telefo- ne tirando do gancho tarde demais desligaram deve ser enga- no não sei quem era do outro lado da linha será que existe vida do outro lado da linha aí comprei secretária eletrônica mas já veio com defeito só pode ser defeito de fabricação nenhuma mensagem gravada em tanto tempo agora é o celu- lar que não toca porque também veio estragado ou então porque ninguém telefona pra mim e eu não sei por que insis- to em juntar tanta tralha inútil

3

e se eu destravo a porta do carro aí o cara faz logo o que tem que fazer e acaba com essa agonia talvez ele mande a gente descer aquele teatro todo “se abrir a boca morre véi se olhar pra minha cara morreu meu irmão tá ligado se respirar num respira nunca mais aí tu fica a pé a mina vai comigo porque um par de coxas desses aê onde é que acende o farol dessa porra” ou então o cara teve um dia ruim não tá a fim de papo mete logo uma bala na minha cabeça e leva ou não leva a

menina mata ou não mata come ou não come já não tô nem

aí meus miolos espalhados pelo painel de plástico respingan-

do no par de coxas da moça a gente morre acaba tudo ou será que tem outra encarnação infeliz do outro lado da linha da vida e nesse outro lado continua a mesma merda sei lá não demora vou ver o que tem lá do outro lado pena que não dá pra escrever um livro de auto-ajuda contando como é lá do outro lado só contratando um médium mesmo assim eu penso na noite de autógrafos minha obra-prima póstuma de estréia desaparecendo das gôndolas dos supermercados suces- so de público

2

não dá mais pra enrolar tenho que escolher baixar o vidro

elétrico ou destravar a porta ou arrancar com o carro mas a polícia manda evitar movimentos bruscos pro cara não ficar puto ou assustado e puxar o gatilho mas como eu vou saber

o que o cara considera movimento brusco os conceitos va-

riam de indivíduo pra indivíduo ele já deve ter perdido a paciência se bem que o relógio digital do painel de plástico ainda 23:11 sempre 23:11 então não faz tanto tempo assim nem um minuto passado desde que ele chegou batendo no vidro ainda não exibiram o filme da minha vida meu último pedido foi atendido obrigado Senhor fico te devendo esta Senhor valeu mesmo Senhor eu agora escuto a Nona de Beethoven será que a professora de catecismo tava certa eu cheguei no céu os anjos dão as boas-vindas tocando a Nona de Beethoven porra nenhuma agora me lembro é o celular em vez de apitar a porra do celular toca a Nona de Beethoven

até que enfim essa porcaria resolveu funcionar até que enfim alguém liga pra mim

1

ignoro pela última vez o manual de sobrevivência do apare- lho de segurança do estado faço movimento brusco levo a mão à cintura pra sacar o celular é quando o relógio digital do painel do carro pula pra 23:12 e não dá tempo nem de dizer alô a bala estilhaça o vidro eu devia ter botado vidro à prova de bala mas por que botaria vidro à prova de bala que é quase o preço do meu carro se nunca pensei em morrer com uma bala na cabeça e eu vejo a fumaça no cano do revól- ver o cheiro de pólvora a trajetória da bala vindo vindo vindo aí ela rompe não sei que osso e vai se alojar não sei em que parte do meu cérebro e pra falar a verdade não ligo a mínima isso não é mais problema meu os caras do IML que se virem com o laudo cadavérico deve ser pra isso que pagamos tanto imposto.

A MULHER-GORILA

– Vê: o próximo passo é o abismo, e lembra-te que a queda é sem volta – disse o demônio ao menino.

– Há muito o sei, aprendi na lama bruta onde se

forjam todos os homens, desde o primeiro – respondeu o menino, resoluto.

– Avante! – exultou o demônio, afiando a língua entre as presas.

***

Eu te invoco, demônio dos Infernos! o locutor berra, ordena feito um possesso, Façam-se as trevas! e a escuridão se faz, e ele grita ordens desencontradas, feito um possesso ele grita muito além do som áspero do ferro que se rasga, mais alto que os urros dos demônios na escuridão, o choro das crianças, o riso histérico das moças, os ombros e os joelhos dos homens fortes a trombar contra a lataria enferrujada na

fuga desesperada pela porta estreita, e a ferocidade do cheiro,

o fedor de bicho morto, e ele, o conjurador de demônios,

ele, o locutor, ele, o que acende a sombra pálida e traz à tona

a silhueta do monstro, o pânico da multidão, a multidão

que já não pode fechar os olhos ao horror, a multidão força-

da a ver: a frágil moça há pouco vestida com o biquíni obsce- no que lhe desnudava a perfeição do corpo deu lugar à hor- renda nudez do monstro, o monstro acaba de rasgar o ferro

da jaula, o monstro está a um passo da garotinha da primeira

fila, a garotinha grita, o monstro urra, o monstro estica as garras enormes e, obrigada, não sou de beber, só mais um, o último, você é um menino estranho, desculpe-me por chamá- lo “menino”, mas, reconheça, é infantil e tolo buscar neste tanto álcool barato a chave do seu crescimento. Agora é mes- mo o último, desculpe-me se disse isso antes, do copo ante-

rior, dos copos anteriores, se o chamei outras vezes de meni- no, perdoe se bebo além da conta e de um gole só, é a sede, sempre, toda noite, depois da última sessão: a sede. Onde estávamos? a garotinha, isso, a garotinha grita, o monstro estica a mão peluda, roça e rasga o vestido da garo- tinha com as garras afiadas, o horror, o cheiro de urina, a garotinha, coitada, Calma, monstro! o locutor grita, Calma, monstro! ele ordena, e estala o chicote, O público é nosso amigo, monstro! Pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo,

monstro! ele suplica, ele

to tempo precioso? você viu com os próprios olhos, ouviu os gritos de pavor, sentiu os fedores…no entanto, não me surpreendo, sei, precisa ouvir de novo, de minha própria boca. Não o censuro; conheço cada uma das infinitas fragilidades de sua triste espécie masculina. Eu te esconjuro demônio das trevas! Volta para as cha- mas do Inferno, Satanás! o locutor exorciza, estala o chicote com esferas de aço, fere muito, o chicote, quer ver? por isto não me visto com decotes, não, não acenderei a luz, não há luzes a serem acesas, não há nada para os olhos enxergarem, me dê a mão, assim, consegue ver com os dedos, minhas cicatrizes, as costas em carne viva? continue, eu gosto, afague minhas costas enquanto conto, assim, quer que eu desamarre a parte de cima? gosta? isso, não pare, assim… assim… Mons- tro! Volta para o Inferno, Satanás! ele reza, xinga, esconjura,

mas por que desperdiçarmos tan-

chicoteia, as luzes piscam mais alto, o monstro hesita, come- ça a ceder à força do exorcismo, o monstro urra, o monstro se contorce, perde altura e envergadura, sente a dor dos mús- culos e ossos que se atrofiam, tufos e mais tufos de pêlos arrancados em desespero, garras e dentes que já não caçam nem devoram, até que morre o monstro e volta à vida a mulher de biquíni obsceno, mas quase já não há testemunhas, fugi- ram todos, menos você, homens mulheres crianças aos em- purrões varando nem Deus sabe a porta estreita do trailer enferrujado aterrorizando/excitando os pagantes da próxima sessão, fugindo todos, menos você, não fugiu quando havia tempo, ao contrário, foi o último a sair, muito depois de tudo terminado, quando já não havia nada nem ninguém, e tive a certeza de que você era diferente, não nessa hora, mas ainda antes, bem antes, no princípio, antes de tudo. Não entenda como grave ofensa à sua macheza incipiente de moço, mas não é o primeiro, há sempre um, diferente, assim como você, há sempre um, a mesma penugem rala, o desamparo clandestino nos bruscos e indecisos gestos, há sem- pre um em cada cidade onde atraco meu mambembe circo de metamorfoses. Vi, pressenti, farejei: você era um deles. Senti seu cheiro, você olhava para mim, olhava para mim desde muito antes da metamorfose, antes de iniciada a ses- são, para mim não, olhava para a inocente e repulsiva mu- lher de biquíni obsceno que então era eu, antes da metamor- fose, olhava não com desejo, mas quase com indiferença, e vi depois o reverso: seus olhos na véspera do gozo, seus olhos acesos na escuridão tal como os vejo agora, e vi em seus olhos a sede, saboreei sua fome no instante divino em que a mu- lher de biquíni obsceno deu lugar à encarnação do monstro que prefiro ser e que, sei, você deseja e teme. Não era a garo-

tinha da primeira fila a merecer meu apetite, aquela que mi- nhas garras partiriam ao meio com um único gesto de tédio, juro que não, sequer teria percebido a garotinha não fosse o cheiro de urina impúbere açoitando meu faro, pois era você, era você que meu instinto caçava naquele instante pouco an- tes do fim, e por você meu coração de fera assassinada bra- miu o último vagido de desespero quando vi a solidão im- pregnando de novo cada fio do seu invisível bigode de meni- no, vi cada uma das suas dores de menino agitar o casulo, a sua ânsia de se transformar em homem, vi sua metamorfose interrompida no instante em que o monstro, no instante em que EU retornava, vencida, à horrenda forma feminina, o biquíni obsceno, e assim você deixou claro o quão desejava a metade anterior de mim, você, ao contrário dos outros, que- ria a metade verdadeira, a mais profunda de mim. Obrigada, já não fumo, você também não deveria, é pouco mais que um menino, infantil e tolo querer desta fu- maça o fermento da sua metamorfose, está bem, só mais um, um último cigarro, não há de matar-me, talvez apenas aumentar a sede. Acenda para mim, mas cubra com as mãos a chama do fósforo, mantenha a escuridão, não quero que veja a perfeição esculpida neste obsceno corpo feminino à custa de tantos cremes, esfoliações e outros martírios. Você fala pouco, quase nada, nada, e no entanto escuto em cada silêncio a pergunta que tanto cala: qual o segredo da mulher-gorila, a bela e indefesa vítima da maldição que se transforma em monstro neste trailer enferrujado pelo país afora? você por certo ouviu quando ele, o locutor, o homem que conjura o demônio em mim, você ouviu a ladainha de todas as noites, Esta bela jovem, esta jovem vítima da maldi- ção da madrasta, da maldição da madrasta má! ele declama, e

eu escuto, todas as noites, a mesma patética liturgia, e pren- do, a custo, meu riso. Nunca houve madrastas, nem maldi- ções, é velho e vagabundo o truque das mulheres que se trans- formam em gorila nesses espetáculos de beira de estrada à beira da extinção, o jogo de espelhos, a iluminação ardilosa, a sobreposição das duas imagens: a bela, a nudez realçada pelo biquíni obsceno, e a fera, vestida nua de pêlos, duas imagens que se fundem num artifício antigo até formarem a criatura híbrida, metade bela-metade fera, e, finalmente, a monstru- osidade absoluta. Sim, eu era assim, no começo, igual a to- das as outras, uma indefesa refém dos espelhos, até que uma noite, há tanto tempo, o espelho partido, cinco minutos fal- tando para a sessão, eu me lembro, eu quebrei, eu não me lembro, não sei qual metade de mim quebrou, o espelho, o espelho partido, justo naquela noite, os ingressos todos ven- didos, não eram muitos, os ingressos, nunca foram, uma ci- dadezinha a um passo da inexistência igual a esta, o espelho partido, os estilhaços, e, ainda assim, eu fiz, era preciso. Sem jogo de espelhos, sem o ardil das luzes, sem o artifício das imagens sobrepostas, fiz, ainda assim, o número que os pagantes exigiam de mim. Você agora transpira; calor; admito, é demasiado quen- te este trailer enferrujado onde perco o viço confinada por arbítrio próprio, mas não, não abriremos porta nem janelas deste ataúde de lata, há vaga-lumes lá fora, e se eles arrom- bam o escuro com a indiscrição de suas luzes voadoras, e se você enxerga a perfeição deste meu horrendo corpo femini- no? só mais um copo, o último, a sede, você sabe: a fome. Talvez não seja o calor o único culpado pelos seus frios suores, mas lembre-se, quem o trouxe aqui foram seus pró- prios passos. Por que agora então os tremores, este rufar de

tambor onde antes pulsava um coração de menino? medo? será isso o que farejo a borbulhar nos hormônios da sua in- fância terminal? medo? pressente alguma coisa? por isso in- siste em esvoaçar para além do trailer estes olhos que julga invisíveis na escuridão mas que para meus sentidos de fera são dois vaga-lumes no cio? por que tanto sobressalto, agora que chegamos tão longe? pensa ter ouvido ruídos lá fora? passos, talvez? prefere que eu fale em sussurros? será ele? tem medo que ele chegue de repente, ele, o locutor, ele, o narrador do meu tormento cotidiano, o homem que conjura e escon- jura de mim o demônio? não, ele não virá, não esta noite, não, nem qualquer outra noite: não existe tal homem, nunca existiu, ele não passa de frágil voz masculina aprisionada numa fita-cassete comprada a algum camelô de esquina, somos ape- nas eu e você. Não há chicote, tampouco, lembre-se, você nunca viu aqui tal instrumento, apenas escutou o que na es- curidão parecia o atrito sangrento de esferas de aço contra alguma tenra e hipotética carne de moça. Efeitos sonoros, tão somente. Minhas cicatrizes? as cicatrizes, sim, são de ver- dade, sempre deixo marcas – às vezes em mim mesma, quan- do não tenho companhia. Mas agora basta! Não bebamos mais, apague a fumaça do cigarro, pois sua sede é de outros venenos. Apalpe o fio das minhas unhas, sinta como crescem, e se enrijecem, latejantes, inundadas de sangue represado, mas não, não ha- verá dores atrozes, tenho para estas garras afiadas o anestésico da minha língua ferina, feche os olhos à escuridão, e veja, e sinta, a textura ondulante da minha pele, a penugem rala fe- minina que cresce e se encrespa e envolve seus dedos e sua boca, dê adeus à alma que escorre pela dilatação dos poros, sua alma, por inútil, já não lhe pertence, seja por inteiro o

corpo que não cabe mais nas suas vestes de menino. Devore a fome que o devora, sacie a carnívora gruta, a carnívora gruta onde há pouco dormiam demônios – sua faminta legião de demônios, que você acordou para sempre. Só mais um passo. Vem.

JOSÉ O DUELO

Inútil lâmina trêmula. Não; nenhum grão de sobrevida emprestará esta lâmina cega à areia de sua existência, que, de tão antiga, escorre e se esvai entre um arquejo de velho e outro. Inútil a lâmina que treme em suas mãos. Quanto des- te tempo imóvel, quanto desta chuva temporã haveria de se infiltrar entre as trincas e o mofo das paredes descascadas an- tes que eu descobrisse quem você é? Tantos anos de fuga, tanta agonia à toa: eu reconheceria estes seus olhos e os olhos de cada um da sua laia até no mais profundo e obscuro bura- co do quinto dos infernos. Você deveria ter arrancado, ou, se não fosse homem para tanto, mandado que algum jagunço arrancasse estes seus olhos delatores, você urraria de dor, mas viveria, cego, mas viveria, e a dor doeria menos que essa espe- ra infinita, cada ano, cada chuva e cada colheita, a espera infi- nita por esse dia, este hoje, em que eu, em que nós, como sabíamos desde aquela noite, havíamos de nos encontrar ou- tra vez, eu, refletido nestes seus olhos delatores, eu, desem- bestado cavaleiro do seu juízo final. Quanto tempo? Cinqüenta anos? Não importa, espe- rei, esperamos, por este dia, tanto. Esperamos, e esperaría- mos, um tempo que não se mede pela mecânica dos relógios ou a exatidão arbitrária dos calendários. Estava escrito, você e os da sua laia escreveram à faca, naquela noite, naquele cu-de- mundo, na cara do meu irmão José. Éramos três, lembra? José o melhor de todos, dos três, José, João e eu, José o mais bonito, o mais inteligente, o que escutava e compreendia a

língua arrevesada dos livros, José, o que talvez virasse doutor, vocês deveriam ter matado um de nós dois, João ou eu, ou os dois, João e eu, mas José, nunca, José era o único de to- dos, de nós três e dos sete da sua laia, o único que valia a pena ter vivido, talvez essa porcaria de mundo prestasse um pouco se a José fosse dado tempo, mas você e os da sua laia conde- naram José a 18 anos de vida. Acaso pensa que nós dois, João e eu, não desejávamos também não digo a morte, mas o nunca-existir de José? Quanto a mim, não tenho memória para tanto, eu acabara de nascer, não há como me lembrar, mas ouvi de minha mãe na hora da morte os mesmos impropérios de dor e desespero que me contaram terem sido os dela na hora do meu nasci- mento. Quanto a João, lembro-me bem, eu tinha quatro anos, pela porta entreaberta do quarto, ele rasgando as entra- nhas da minha mãe, minha mãe berrando rezando blasfe- mando e todo aquele sangue e João rebentando tudo o que se opunha até nascer horrendo enrugado sujo, monstros da mesma natureza, João e eu. José, não; José pousou sereno naquele cu-de-mundo, belo, limpo e indolor, minha mãe sorria, eu tinha oito anos, João tinha quatro, e odiamos José desde o instante em que vimos aquela cabeça angélica brotar do meio das pernas de nossa mãe. Acaso sabia que João e eu odiávamos José, mais talvez do que você e os da sua laia, todos juntos? José, o belo, os olhos azuis, José, o educado, quase um moço da cidade, o mais perfumado e no entanto de todos o mais homem, o invocado pelas virgens na noite em que noivos embriagados partiam-nas ao meio rompendo com urgência e fúria a carne que até a véspera conhecia, quando muito, delicados e impa- cientes dedos de moça.

Sei, sabemos, todos, disso, tudo. Eu mesmo vi o vulto, meio sombra meio luz, nos olhos dela, quando assinei com sangue meu sobrenome de macho na fenda estreita e relutan-

te entre as pernas abertas a contragosto, e esse vulto que vi nos olhos fechados e nas pernas abertas de minha mulher na noite de núpcias era José, e a mulher de João, ela também, João me contou, a mulher de João entre uma estocada e ou- tra, entre um gemido de dor e outro, murmurava “José”, e cheirava a José a nascente avermelhada que naquela primeira noite minava da mulher de João, o próprio João me contou,

e teria chorado ao contá-lo, se não fosse homem. E foi então

que nós, os daquele cu-de-mundo, todos nós, lembra?, proi- bimos nossas mulheres de gemerem na hora do coito, por- que gemeriam por José, e de revirarem os olhos, porque seus olhos revirados só teriam olhos para José, e de mexerem os quadris em suas demoníacas danças de mulheres, porque o demônio-par de todas as danças seria José, e passávamos as

noites em vigília para que a lembrança do José diurno, forte

e nu da cintura para cima, a tanger com voz afinada o gado

rude, não penetrasse a imundice dos seus sonhos femininos. E por isso você e os da sua laia mataram José; porque naquela festa da padroeira as suas noivas, as montarias futu- ras que vocês encheriam de sêmen e de filhos, naquela festa da padroeira elas, as suas noivas, cortaram tecidos estampa- dos, e cerziram com linhas coloridas, e se vestiram todas para José, e sob os vestidos floridos por certo não usavam nada a não ser as almas nuas orvalhadas exalando suores e risos assa- nhados, José mais bonito do que sempre, 18 anos, o terno branco trazido pelo trem de ferro, o chapéu impoluto, ape- ando do cavalo mais imponente do arraial, por nada mais do que isso vocês esperaram o fim da festa, e o derrubaram do

animal, e desfiguraram seu rosto com as facas cegas para que doesse mais, cada lâmina, de propósito, menos afiada do que

esta que agora treme em suas mãos, e lhe arrancaram os olhos,

e deixaram a carcaça a boiar na beira do rio, pasto de todos os bichos da terra da água e do ar, para que nenhuma moça voltasse a sonhar com José, o morto mais feio daquele cu- de-mundo.

E o velório: o fantasma impenetrável de nosso pai na

moldura oval; a litania das velhas, as bocas murchas carpindo uma a uma as infinitas e odiosas qualidades de José; o vômi- to das moças, os mamilos rijos de desejo insepulto e arrepio

frio da morte; e as velhas e as moças ganindo o nome de José,

e José devorado pelos peixes e os urubus e os porcos-do-

mato, o mais feio e fedorento defunto de todos os cus-de- mundo do mundo, o caixão aberto porque João e eu deter- minamos. Vocês fizeram com que nós, João e eu, nós que odiávamos José, vocês nos obrigaram a amá-lo sobre todas as coisas, e a jurar pelo maldito santo sangue de José derrama-

do, e a transfundir para as veias de toda a sua laia o veneno que fermentáramos em nossas tripas durante 18 anos de ódio

a

José.

O

primeiro de vocês coube a mim, era eu o primogêni-

to, João não me negaria o direito. Não lembro o nome do seu irmão, lembro que os olhos dele arranquei e depositei sobre a mesa da cozinha, e trocamos olhares, João, eu e os olhos do seu irmão, por um longo tempo, e não adormece- mos naquela noite, João e eu. E só quando estavam eles, os olhos do seu irmão, dormindo esbugalhados no vidro com formol, percebemos, João e eu, que eram sutilmente dife- rentes entre si, cada olho de um tom, o direito tinha a cor das tardes quando anoitecem, o esquerdo era como as noites no

átimo que precede os amanheceres, era assim, pensava eu, que se estivesse vivo descreveria José os aleijados olhos de seus assassinos, José e sua poesia inútil, como inútil a lâmina que você empunha agora como o último ato de um afogado. E o par seguinte de olhos que arrancamos a outro seu irmão, João e eu, era também desencontrado de cor, e o ter- ceiro tal e qual, e foi assim que descobrimos a marca maldita da sua laia, e foi ela, a bendita marca, um olho claro o outro escuro, que decretou a quase extinção da sua laia, porque vocês fugiram daquele cu-de-mundo, e se espalharam pelo mun- do, mudaram de nomes e cheiros, encorparam suas covardi- as, deixaram as barbas crescerem, os cabelos e os dentes caí- rem e o tempo encarquilhar suas caras imberbes, mas foram sempre esses olhos, a eterna e infeliz juventude desses imutá- veis aleijões, que nos permitiram farejá-los um por um, e matá- los um por um. Todos, menos você; menos você, ainda. Meu irmão João viveu mais do que podia, mais do que desejaria qualquer criatura viva, o pulmão reduzido à metade da metade do que sobrou, João cavucando oxigênio no ar rarefeito, João demorou a morrer, e só não pôde morrer an- tes por sua culpa, porque faltava matarmos você, você que tem nas mãos a lâmina afiada mas inútil, você e sua insistên- cia em sobreviver à meia-dúzia de irmãos cujos olhos ainda flutuam opacos e meio dissolvidos pelo tempo no formol do vidro; João só conseguiu morrer quando já não havia oxi- gênio no ar, o corpo decomposto pela agonia lenta, a alma há muito no inferno, e só conseguiu morrer depois de rogar a mim e contra mim a prece e a maldição de não morrer sem matar você, sétimo e último da sua laia. Sobrevivi à morte de João porque não podia ser de outro modo, e noites a fio rezei por você, meu inimigo, rezei pela sua vida, pela sua

saúde, rezei para que seu corpo estivesse fechado contra faca, febres e bala, rezei a deus e ao diabo para que Eles, em Sua infinita misericórdia e desfaçatez, conservassem sua vida para mim; e aqui estamos, ainda vivos, você e eu. Quantos anos desde a festa da padroeira? Quantas lé- guas percorridas? Você tem outro nome, outro cheiro, fal- tam-lhe cabelos e dentes, é agora um velho feito eu. Um velho barbeiro da Capital, quem diria?, e em vantagem apa- rente sobre o inimigo, pois é você quem tem a lâmina da navalha pousada em meu pescoço. Mas talvez a vantagem afinal seja minha, quem garante que reconhece a mim neste meu velho corpo? enquanto eu, ao contrário, sei quem você é, sempre soube, desde que entrei nesta barbearia e você co- meteu o erro fatal de permitir que eu olhasse seus olhos desi- guais iguais à meia-dúzia de pares de olhos que há meio sécu- lo armam contra mim tocaias invisíveis por trás da líquida cortina de formol. Aqui estou, velho, não morri, não podia morrer sem olhar outra vez estes seus olhos, um olho claro, escuro o ou- tro, não podia morrer sem matar o último da sua laia, velho,

e aqui estou, e quero poucas coisas da vida que resta, quero

mergulhar estes seus olhos no formol envelhecido e enterrar

o vidro com sete pares de olhos no pedaço de cemitério que

coube a José naquele cu-de-mundo, e quero, por fim, o sa- grado direito que me foi roubado, quero de volta o sagrado direito de odiar José e cada uma das virtudes peçonhentas de José.

Queria, sobretudo, que me reconhecesse agora na hora da sua morte, velho, queria gritar sua sentença, queria ao menos murmurar entredentes tudo o que calei por tantos anos e léguas, mas não posso, já não tenho voz, não posso, a doença

e a velhice fizeram de mim silencioso prisioneiro encerrado nas paredes de mim mesmo, então fito imóvel e em silêncio

estes seus olhos desencontrados, e vou fitá-los até que não lhe reste qualquer dúvida sobre quem sou e para o que vim. Que foi? Reconhece-me, afinal? Por isso tremem ainda mais que antes estas suas mãos de velho, e a lâmina desgovernada risca meu pescoço, e o filete vermelho começa

a minar da espuma branca, e o homem que lia jornal vem em

meu socorro, um homem que não conheço, nunca vi, em- bora lembre alguma assombração antiga e me chame de “Pai”, toda esta pantomima, velho, tudo isso porque você me reco- nhece, enfim? E você limpa com subserviência a espuma e o sangue do meu pescoço, e treme tanto que a navalha despen- ca no assoalho desencerado, e você clama por indulgência na

língua trôpega dos velhos, e seu hálito fede a dentes postiços,

e o homem que não sei quem é e me chama de “Pai” sorri,

“Não tem importância”, ele diz que não tem importância e aponta para o que resta de mim, “Meu pai já não sente mais

nada”, ele diz que eu não sinto mais nada e me leva embora,

o homem que não sei quem é e que não sabe quem você é, eu

sem virar para trás o corpo que há muito não respeita minhas ordens, e tendo diante de mim, no encardido espelho da bar- bearia, um velho entrevado e retorcido na cadeira de rodas que o desconhecido a me chamar de “Pai” empurra com en- fado em direção à chuva, e, ao fundo, dentro do mesmo espelho, outro velho: você, meu inimigo, você e seus tremo- res de velho, seus arquejos de velho, seus desiguais e juvenis olhos de velho, você, meu inimigo, e este odor de morte adiada. O homem que me chama de “Pai” me leva embora, mas ainda não acabou, velho, minha barba continuará a cres-

cer, não há força na natureza capaz de estancar o crescimento de minha barba, e eu voltarei, pelo amor e pelo ódio que tenho a José, eu voltarei outras vezes, velho. E vamos ver quem é que morre primeiro.

NÃO PASSARÃO

(OU A ABOLIÇÃO DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS)

pra sêo Neném, dotô Ramiro, Manuelzão

– Ocês me dão um pouquim de com-licença? É qu’eu

ouvi ocês inda-gorinha: “Carnaval isso, carnaval aquilo, car-

naval e coisa-e-tal, carnaval e tal-e-coisa”

que-me-livre, ouvidor de falação alheia, mas carnaval, ó, aca- bou faz-é-tempo. Carnaval foi no antigamente. O de 1963, então, maior de todos. Causa dO Prefeito. Nome dele? Todo mundo chamava ele assim: O Prefeito. Muito antes dele ser prefeito. Esse O Prefeito era doido, mas não jogava pedra que nem o João Rintintim, a Geni Tabaúna. Ó, mesmo o João Rintintim e a Geni Tabaúna só davam pedrada se meni- no judiasse, ofendesse com más palavras. Já O Prefeito era um doido desigualado: ele possuía lá seu juízo, não era de dar acesso que nem os outros, nunca ficava doido de tudo. Doi- dice dO Prefeito era mansa: vestia o paletó roscofe em riba da camisa volta-ao-mundo e ia pra defronte da prefeitura dar expediente de mentirinha. Chegava lá às sete da manhã, su- bia num caixote, fazia discurso pros bêbados e pros vira-la- tas, apertava mão dos pobres, prometia calçamento com paralepipe pra tão logo o governo mandasse verba, conversa- va igual com a situação e a oposição. Ele calculava que era prefeito de verdade, coitado. Doido. Aí, numa ocasião, na época da política, diz-que pra protestar, a oposição lançou O

Sou não, deus-

Prefeito candidato a prefeito, com nome em cédula e tudo!

E ele ganhou! E ganhou porque o adversário era por demais

ladrão, e o povo já tava empanzinado de tanta ladroagem. Se não tinha outro homem honesto na cidade? Uai, tinha, mas não era doido. Honesto e doido-ajuizado era só O Prefeito.

E o povo elegeu ele.

Posso tomar só uma? Agradecido ocês. Pois então. Car- naval era a festa mais linda, a cidade toda fantasiava, tinha os blocos, os bailes… A Lira Filarmônica, que em noites de lua executava Cisne Branco no coreto da Praça da Estação mas que no carnaval variava de nome e virava A Furiosa e tocava Bandeira branca, amor, não poooooosso maaaaais e diversas marchas-rancho que não tinham sido inventadas nem no Ridejaneiro! Carnaval era quando todo o povo era feliz. E o quê que O Prefeito me faz assim que toma posse como pre- feito? Baixa decreto abolindo a quarta-feira de cinzas! Não tinha mais quarta-feira de cinzas, era carnaval o ano inteirim, sô! Por esta meia-luz que me alumeia! Posso ser velho, aleija- do, al-alc-alco-Ó-latra, mas mentiroso não! E até a bebida eu tô largando dela. Só mais uma, se ocês permite. De primeiro o povo estranhou aquele desatino carnava- lesco todo, mas logo panhou a gostar do trem. É que nem dizia a dona minha mãe: O que não tem remédio, remedia- do está. Aí, numa ocasião… Á, já lá ia esquecendo, ocês arreparem não, se minha prosa vagueia de cá pra lá, de lá pra cá, mas eu só sei contar os trem assim, descosturado: ó, O Prefeito não era doido de nascença não, diz-que endoideceu na mocidade, num carnaval passado, antigo, muito antes de ser prefeito. Doidice de amor. Conheceu uma desconhecida no baile, uma mascarada. E ficou perdidim de amores. Não sei se foi o cheiro dela, imitando perfume da chuva dispois

de estiagem comprida, ou foi o jeito dela dançar requebran- do os quadris, feito pau-de-árvore-fêmea chamando o ma- cho da ventania, ou foi o jeito alegre de cantar marcha-ran- cho triste, que nem passarinha acasalada em derradeira ma- nhã de ano bissexto. Só sei que ele ficou gostando forte, de- mais. Mas ela nada de tirar a máscara, nem de dizer o nome. E a desgraça maior foi que no fim do baile da terça-feira, sendo já a quarta-feira de cinzas, a mascarada deu um beijo de despedida e sumiu como se nunca tivesse existido, que nem espírito de pessoa humana falecida. Às-vez fosse alma penada. Ou então fosse a esposa-nova dum coronel Zézim, que nesse tempo era prefeito, homem ruim que nem carne de cobra. Atirava só pra ver se o defunto caía de cara ou de coroa. Matava pra apreciar o tombo. Diz- que o coronel Zézim trancava a esposa a poder de corrente e cadeado, mas quando era noite de carnaval ela ia rezar o terço e ajeitava um jeito de escapulir pelo túnel que existia por debaixo da capelinha da fazenda, um túnel cavado pelos pre- tos no tempo da escravidão. Ela escapulia e corria pro baile de carnaval, com a roupa curta, aquelas blusas de curar-um- bigo, caçar sem-vergonhice. O povo maldava demais, diz- que ela chegava no salão mascarada, com barriga de fora e o terço de rezar novena e trezena inda na mão. Ê-ê. Ocês já viram diabo rezador, com terço a-tiracol? Diabo, por comum, carrega na mão é garfo de espetar as almas em perdição… Às- vez fosse ela, a esposa do coronel Zézim, às-vez fosse ela a tal mascarada, a que sumiu pra sempre. Só sei que O Prefeito, coitado, que nesse tempo inda não era O Prefeito, era só um menino bão, trabalhador, estudado, ledor de jornal… pois ele endoidou e pegou a dar expediente falso em defronte à prefeitura. Virou O Prefeito. O doido.

Vai ver foi causa disso que quando elegeram ele prefei- to, O Prefeito baixou o tal decreto abolindo a quarta-feira de cinzas: ou foi por não querer que o carnaval acabasse outra vez, ou foi por querer que amor de carnaval durasse pra sem- pre. Só sei que tanto carnaval, o ano inteiro, fez uma revolu- ção danada, sô! Morador montou fábrica de confete, outro de serpentina. Tanta encomenda de fantasia que costureira nenhuma dava conta, aí a prefeitura botou escola comunitá-

ria de corte-costura, as costureiras criaram cooperativa, sindi- cato. Á, e existia naquela época um alemão, um sêo Vupes, que montou até linha de montagem, dou exemplo: fantasia de pirata: um operário fazia a perna-de-pau, outro o olho- de-vidro, outro a cara-de-mau. O Prefeito inda inaugurou escola de música, abriu con-

Ó, ele era doido, mas não era

bobo não: o negócio deu tão certo que acabou o desempre- go, esquentou a economia, distribuiu renda. E o melhor era que tava todo mundo feliz por demais da conta, matinê pras crianças, baile matutino pra quem trabalhava de à-noite já ir direto pra folia, carnaval o dia inteirim, o ano inteirim. Ê. O Prefeito era magro que nem palmito brejaúba, mas garrou a dar expediente vestido de Rei Momo, e ocês sabem, Rei Momo carece de ser um capado de tão gordo, mas como O Prefeito era doido… E o povo seguiu exem- plo, já ia todo mundo trabalhar fantasiado pra não ter que passar em casa antes dos bailes. Mas O Prefeito inda achou pouco: baixou decreto prefeitural obrigando moça bonita a usar máscara, que era pra ver se numa delas ele reconhecia a mascarada. Coitado, dava até dó. Convém tomar mais uma, posso?, pra ver se pára de doer essa coluna velha aleijada que não dá sossego, essa cabe-

curso público prA Furiosa

ça minha ruim que dói, e dói, e dói

vida, gente. Mais uma, posso? Obrigado. Bão, eu falei que tava todo mundo feliz? Á. Tava não, quem dera. Tinha o padre. E tinha também o coronel Zézim, mas o coronel Zézim

não conta, aquele era um infeliz, entendia só de fabricar infe- licidades. Tem ser humano que veve-diário de judiar, praticar malefícios, será por quê? É que nem dizia o sêo meu pai:

Coração dos outros é terra aonde ninguém vai. Mas eu falava

do padre: pois é, Ó, o padre foi tolerando, tolerando

tenho preguiça de tudo quanto é padre, mas não posso dizer que aquele um não teve paciência. Teve, e foi é muita: cele- brou até casamento de pierrô com odalisca, pirata com colombina, arlequim com marinheira, A Furiosa executan- do a marcha nupcial em forma de marcha-rancho do lado do

altar, vê se pode? E o sêo vigário tolerando, tolerando. Aí, um dia, alguém chama o padre pra dar extremunção, ele vai encomendar a alma e tá lá o futuro defunto fantasiado de transviado, com peruca postiça e tudo! Ocês tão rindo? Pois na semana seguinte me vai o padre fazer um batizado: era um recém-nascido fantasiado de capeta! De capeta dentro da san- ta-madre-igreja! Aí era demais, diz-que o padre deu queixa

pro bispo, escreveu carta pro governo

prova que foi por isso que… Posso tomar mais uma? Ocês bebem comigo? Faço gos- to. Daqui a pouco pára de doer, essa coluna aleijada, essa cabeça velha… Mas eu lá ia dizendo que o carnaval durou o ano de 63 todim, atravessou o natal, varou o rei-véião, pulou pra 64, e o povo satisfeito de ter elegido O Prefeito prefeito. Aí resolveram fazer um bitelo dum grito de carnaval no 1 o de abril, pra celebrar o Dia da Mentira. Um carnaval dentro do carnaval. O folião devia de se fantasiar ao contrário do que

Mas ninguém tem

Eu

Apanhei demais nessa

era na vida real. Deu confusão: teve tanta moça mandando fazer fantasia de diaba que o povo declarou: Essa daí também

vai sair de diaba pra nós achar que ela é anja, mas vai ver ela é- é diaba messsm’.

O

povo

O

certo é que chega a véspera do baile, 31 de março, o

povo todo na maior animação, e acontece o quê? Heim? Ocês não alembram? 31 de março de 64! Esqueceram já? As tropa, moço! o golpe dos militar, moça! apearam o Jango do poder, gente! E chegou notícia: os tanques de guerra vinham vindo de Governador Valadares com ordem de esbagaçar a tal repú- blica anarco-comunista-carnavalesca-financiada-pelo-ouro-de- moscou, que era como tava escrito no telegrama. E os tan-

ques vieram, e passaram por riba das casas e da plantação, e massagaram os povoado tudo pelo meio do caminho: o Capa-

Bode, o Mata-Três, a Rosca-Seca

não sobrou nenhum. E

vieram vindo, vieram vindo

A situação tava mais feia que

filhote de cruz-credo. E o quê que O Prefeito me faz? Á. Chama A Furiosa, junta o povo na Praça do Relógio, cada um fantasiado dum trem diferente, e decreta: “Não passa- rão!” O doido. E aí, sô, me amanhece o 1 o de abril e o povo tudim na

divisa da cidade, A Furiosa tocando e folião cantando Ó jar-

dineira por que estás tão triste?

calô-ôôô-ôôô

Ala-la-ô-ôôô-ôôô, mas que Nó! O povo entristecido e

se borrando de medo-pavor, mas semelhando mais animado que nunca, foi bom O Prefeito ter distribuído de graça a cachaça, a cerveja, o lança-perfume, ocês também acham?, pois é, eu falei que ele era doido, mas não era bobo. Por falar em cachaça, posso…? Agradecido. E os tanques chegaram, e quiseram entrar na cidade de qualquer jeito, e era pra mais de

Mamãe eu quero

uns cem, cem eu não digo mas uns cinqüenta eu agaranto, pois então, e era uns duzentos tanques botando fogo pelas ventas que nem mula-sem-cabeça. Aí O Prefeito avistou no meio do povo o dotô Ramiro da Farmácia, fantasiado de brigadeiro, e o sêo Neném Ferroviário, que tava imitando almirante, os dois fardados de militar porque não toleravam militares; e existia também um João Rosa, que tinha forte alergia a guerras e por isso envergava fardão de general de brigada. Como eu já expliquei procês, os três tavam vestidos assim porque era Dia da Mentira e todo cidadão tinha que se fantasiar ao contrário da vida real, mas O Prefeito não quis nem saber, convocou o dotô Ramiro da Farmácia, o sêo Neném Ferroviário e mais o João Rosa, e pronto: tava for- mado o Estado-Maior da Resistência! Eu falei procês: ele não era bobo, mas era doido. A fantasia dO Prefeito? Á, ele tava vestido de doido, Napoleão Bonaparte completo, com mão pra dentro da roupa, coçando as partes. Porque O Prefeito se enxer- gava que era são, coitado. Doido de dá dó. A saideira, posso? E me vai O Prefeito com o Estado-Maior lá pra linha de frente, quase pisando nos calos dos tanques, e os tanques cuspindo fumaça, acelerando acelerando, chegando chegan- do, querendo entrar na cidade, querendo passar por riba dO Prefeito, do dotô Ramiro da Farmácia, do sêo Neném Fer- roviário, do João Rosa, e os quatro falando “Não passa, não passa, não passa”, a população bêbada pulando e cantando e falando “Não passa, não passa, não passa”, e os tanques que- rendo passar de qualquer jeito, e os tanques acelerando, e os tanques vindo-vindo, vindo-vindo, vindo-vindo, até que vi- eram, e chegaram, e passaram por riba dos quatro, e esmaga- ram os quatro, e dispois esmagaram a cidade, dispois o esta- do, dispois o país, e acabaram com tudo.

E fim. Acabou-se o carnaval, findou-se a história. Uai, ocês acharam ruim? Mas eu inda avisei antes de principiar o causo: “Carnaval, ó: acabou faz-é-tempo”. Os tanques, gen- te, acabaram com o carnaval, com a cidade, com a alegria, acabaram com tudo! Daí por diante, ocês sabem, aquela desgraceira: mataram uns, desapareceram com muitos, alei- jaram uns pobrecoitados no pau-de-arara e noutras feias tor- turas. Á, o coronel Zézim foi nomeado interventor e prati-

cou toda sorte de malefícios e foi feliz pra sempre fazendo os outro infeliz. E fim.

Muito agradecido ocês pela atenção, pela bebida

tenho pra mim que enganaram ocês, essa cachaça deve de ser da boa não, cachaça fraca, nem deu conta de esbarrar meus diversos males: a dor de cabeça ficou do messsm´jeitim, a coluna aleijada inda dói que dói… Ocês sabem o que é pade- cer pendurado feito fosse animal morto caçado, sendo ho- mem, humano, e ainda vivo, esfolado, mas ainda vivo? Á, ocês não sabem… E minha memória até piorou, demais:

agora é que ela não esquece essas tristes recordações, agora que elas não passarão de jeito nenhum, as más lembranças, nem a poder de fortes benzedeiras. Inté, então. Ã? Á! Ocês

não toleram final triste? Uai, mas todo final, de pessoa, hu- mana, é medonho triste – o contrário é quando o contador abrevêia a narração antes do derradeiro fim, o exato. Mas ó, se ocês faz muita questão, deix-ô-só tomar mais uma, que é pra variar o desfecho. Pronto. Reconto:

Aí tão lá O Prefeito, o dotô Ramiro da Farmácia, o sêo Neném Ferroviário, o João Rosa, os quatro no ponto de ser esbagaçado pelos tanques, e tão lá os tanques acelerando, os tanques vindo-vindo, vindo-vindo, vindo-vindo, e aceleran-

Ó,

do, e se achegando, e aquela fumaceira toda

Aí eu sinto,

não, aí O Prefeito sente alguma mão pegando na mão dele, aí eu olho pra ver o que é, não, aí O Prefeito olha pra ver o que é, e era a mascarada, era a mascarada! era a diaba da mas- carada! e ela chega mais perto de mim que nem naquele baile antigo, não, e ela chega mais perto dO Prefeito que nem naquele baile antigo, o mesmo cheiro, o mesmo requebrado, o mesmo cantar de passarinha, e chove tanto confete e ser- pentina e A Furiosa toca tão alto que nem dá mais pra ouvir os tanques vindo, chegando, acelerando, e a mascarada abra- ça O Prefeito, a mascarada abraça eu, e eu e mais ela de mãos- dada desfiando o terço, cada conta é um beijo, novena-trezena de beijos, até perdermos a conta, até perdermos de vista a barulheira disgramada dos tanques vindo, chegando, acele- rando, até que eu e ela só damos conta de sentir o cheiro dA Furiosa feroz que nem onça parida e o povo pulando e can- tando forte, demais:

Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval… Vou beijar-te agora

OS BICHOS

A gente era que nem bicho. Não sei precisar o marco zero, o início de nossa involução; da mesma forma, ignoro o

exato estágio de animalidade que havíamos atingido. Sei que quando Lucy juntou-se ao bando, muitos de nós, um passo

à frente no processo involutivo, já comiam crua a carne dos

cães sem dono que meu irmão degolava. Quanto a mim, e o digo sem nenhuma ponta de soberba ou auto-indulgência, sempre exigi que minha mãe os cozinhasse primeiro. Houve uma fase anterior, bem antes da chegada de Lucy, em que fazíamos dos vira-latas errantes nossos bichos de estimação. Dividíamos com eles nossa comida, compartilhávamos car-

rapatos, pulgas e outros parasitas. Até o dia em que eles, os cães sem dono, tornaram-se nosso alimento. Meu irmão mais velho, o segundo na hierarquia do bando, era quem os dego- lava, com um caco de vidro. Não sei, repito, quando nossa involução começou, mas tenho consciência de que não fui sempre bicho. Lembro-me vagamente de um outro tempo, de um outro lugar, quando

a gente parecia gente, bem ou mal escovava os dentes, comia

com garfo, com garfo-e-faca não digo, seria por demais inverossímil, mas com uma colher coletiva e torta, nos dias em que havia comida. Eu era pequeno, pouco mais que um filhote, mas filhote de gente, ignoro como e quando virei bicho. Acho que foi aos poucos, a gente não percebe essas coisas, se percebesse não virava bicho. Ninguém ordena, um

belo dia, à secretária: “Cancele todos os meus compromis- sos, amanhã torno-me bicho”. Quando Lucy juntou-se ao bando, tínhamos abando- nado há algum tempo o conceito tradicional de habitação; desistíramos de vez das moradias de papelão, que funciona- vam mais como memória de nossa humanidade remota do que como abrigo, além de nos deixarem vulneráveis ao extre- mo: inúteis contra a chuva e o frio, acabavam por delatar nossa presença aos predadores. Um dia, rasgamos nossa últi- ma casa de papelão e viramos nômades. No princípio, provocávamos nos transeuntes apenas le- ves esgares. Com o tempo, nossa aparência passou a suscitar reações mais fortes. Seres humanos de alma caridosa mas es- tômago sensível vomitavam ao sentir nosso cheiro; outros, mais belicosos, atiravam pedras. Meu pai ordenou, então, que evitássemos a luz do dia. Mas se adquirimos hábitos noturnos não foi com o nobre intuito de poupar os huma- nos de nossa aparência, e sim para evitar que as reações públi- cas à pestilência que emanávamos atraíssem mais e mais pre- dadores. Hoje, passo boa parte de meu exíguo tempo livre dian- te da televisão. Gosto dos canais por assinatura, sobretudo os que abordam a vida animal. Tenho vários documentários gra- vados em DVD, aprecio particularmente a série, que revejo com freqüência, sobre a inteligência dos primatas: chimpan- zés que executam operações elementares de adição e subtra- ção, gorilas que se expressam por meio da linguagem dos surdos-mudos e demonstram notável consciência do próprio Eu, além de outros prodígios. Fujo, sempre, de antropoformismos baratos, mas, mes- mo considerando irracional e tolo atribuir aos animais carac-

terísticas exclusivamente humanas, muitas vezes pergunto- me se não possuíamos, naquela época, eu e boa parte do nos- so bando, inteligência superior à dos macacos da tevê a cabo. Já no instante seguinte, porém, concluo que não, asseguro a mim mesmo que não era inteligência e sim instinto; era ins- tinto o que nos levava a agir de modo a denunciar nossa vaga herança genética humana. Sou, contudo, forçado a reconhe- cer que fizemos vários progressos desde que Lucy juntou-se ao bando. Lembro-me bem da madrugada em que a vimos pela primeira vez. De início, o instinto nos fez acreditar que Lucy pertencia a alguma espécie ainda não catalogada de predador, visto que não usava porretes de borracha rijos feito ferro, como faziam os policiais, tampouco estampava no rosto muito branco o sorriso amarelo dos funcionários públicos da Assistência Social. Eram, tanto uns quanto outros, cumpridores zelosos da ordem de remover toda e qualquer interferência sobre a arquitetura e o traçado urbanístico da cidade. Nós éramos a interferência, e eles, os predadores, ti- nham carta branca para nos levar à força até o Depósito, onde seríamos despidos de nossos trapos, lavados com jato d´água e creolina e embarcados em ônibus de itinerário desconhe- cido e retorno improvável. Em circunstâncias normais, jamais teríamos permitido que Lucy se aproximasse tanto naquela madrugada, uma vez que nossos instintos enviavam aos músculos tensos a ordem de fuga meio segundo após farejado o mais leve odor dos predadores. Mas estávamos exaustos e assustados demais na- quela madrugada. Nossa mãe estava prenhe. Não era novidade. Iniciara naquela noite a mesma e lenta agonia dos tantos partos ante-

riores, e, como das outras vezes, ganiu por tempo infinito, deitada no concreto do viaduto, os uivos entrecortados pelo bramido selvagem dos automóveis sobre nossas cabeças. Mas, diferente das outras vezes, a madrugada avançava sem que o berro estridente da nova cria anunciasse o crescimento do bando. O filhote parecia consciente do que o esperava, e de- cidido a ficar onde estava. Inútil a agonia de nossa mãe. Lembro-me do exato instante em que meu pai, ensur- decido pelo silêncio longo que sobreveio à longa agonia, que- brou nossa última garrafa de aguardente e tentou, com a agu- deza dos cacos, arrancar do avesso de nossa mãe a pequena vida indesejada que acabara de matá-la. Nada fizemos para impedir. Tampouco fugimos quando Lucy chegou, sorratei- ra. Pareceu-nos, a princípio, que seu olfato de predador in- terpretara no cheiro de sangue de nossa mãe a condição de presas indefesas que de fato éramos naquela momento, exaus- tos e assustados demais para fugir. Não houve qualquer tipo de vocalização, nem de nossa parte, nem de Lucy. Falávamos já bem pouco naquela época, mesmo entre nós, e o fazíamos ora usando os poucos vocá- bulos de nosso idioma particular de bichos, ora recorrendo a olhares e gestos. Nos primeiros anos depois de se juntar ao bando, Lucy empenhou-se em aprender nossa linguagem; frustrada, optou mais tarde por desenvolver uma forma al- ternativa de comunicação, que nos ensinava com paciência cristã e punições severas. Tais experimentos lingüísticos, to- davia, só teriam início muito tempo depois. Naquela pri- meira madrugada, Lucy nada disse, nada tentou dizer. Ne- nhum som. Apenas sumiu por alguns instantes, depois rea- pareceu ao volante de uma Kombi, e, por meio de sinais, ordenou que nela embarcássemos a carcaça esquálida de nos- sa mãe. Obedecemos.

Quando Lucy voltou, sem o corpo de nossa mãe, o sol alongava a sombra do viaduto. Era dia, mas permanecíamos inertes, nossas pernas entranhadas nas fendas do concreto. Em silêncio, Lucy estendeu e abriu a mão muito branca, na qual havia um maço de cédulas amarrotadas. Meu pai saltou sobre o dinheiro como se cravasse garras e dentes num ani- mal mais fraco que se recusa a ser devorado – e aquela fome animalesca foi, para Lucy, o sinal de que ainda não involuíramos de vez à condição absoluta de bichos. (Explico: anos depois, refletindo sobre os acontecimen- tos daquela madrugada, convenci-me de que embora, na épo- ca, comêssemos com a mão, embora alguns de nós já não desperdiçassem tempo aguardando o cozimento dos vira-la- tas que meu irmão mais velho degolava, embora defecásse- mos onde a urgência nos surpreendesse, embora tudo, ainda preservávamos resquícios de humanidade; cheguei a tal con- clusão ao rememorar não apenas as lágrimas que melavam nossos rostos imundos quando embarcamos na Kombi de Lucy a carcaça de nossa mãe, mas, também e principalmente, o olhar de predador faminto de nosso pai ao saltar sobre as cédulas amarrotadas. Não há consenso quanto ao choro, re- conheço. Por coincidência, na semana passada assisti a um documentário sobre determinada corrente científica, minoritária mas barulhenta, que afirma não estar o choro entre as prerrogativa humanas, visto serem os elefantes – e, acrescentam alguns pesquisadores, também os camelos da Mongólia – supostamente capazes de externar sofrimento em forma de lágrimas. Mas, se divergem nesse ponto, há entre os pesquisadores o monolítico consenso de que pertence aos humanos, e a nenhuma outra espécie animal, a capacidade infinita de reconhecer e cultuar o dinheiro – e por ele matar e

morrer. Seguindo essa linha de raciocínio, meu pai, e todos nós, por extensão, naquela época ainda seríamos meio gente.) Só muitos anos mais tarde, Lucy revelou-me detalhes ocultos daquela madrugada. Meu pai ficaria orgulhoso (caso estivesse o orgulho ao alcance das espécies primitivas) se lhe fosse permitido assistir ao desajeitado balé de nossa mãe flu- tuando no tanque de formol, a barriga inchada feito salva- vidas tardio, nossa mãe prestando relevantes serviços à medi- cina, logo nossa mãe, que, em vida, foi o mais completo compêndio das doenças do Terceiro Mundo. Perdoem-me, senhoras e senhores, pelo lugar-comum, mas não há como evitá-lo: minha vida daria um livro. Isto posto, comunico que minha vida dará um livro. Vou, inclu-

sive, contratar um escritor ou jornalista premiado para escre- ver minha autobiografia (já recebi alguns currículos.) Talvez inclua num dos capítulos o episódio pungente do cadáver materno vendido à faculdade de medicina em troca de algu- mas cédulas amarrotadas, mas devo alterar o contexto. Não é tarefa das mais fáceis relembrar meu passado de bicho, esta é

a primeira vez que falo em público sobre ele, e não o faria se não estivesse entre meus pares. O período pré-involução, este sim, com toda certeza, estará contido em minha autobiografia: abordarei a seca, a

miséria, as febres e disenterias, a colher torta e coletiva, a via- gem no caminhão pau-de-arara et cetera et cetera. E o farei, reconheço, por vaidade, pela óbvia razão, como é do conhe- cimento dos senhores e das senhoras, de que a fome dignifica

e enobrece o homem – depois, é óbvio, que este homem se

torna um empresário bem-sucedido e as pompas e as cir-

cunstâncias lhe permitem, como agora, saborear à mesa farta

a memória da fome. Mas não me queiram mal, não me inve-

jem pelo privilégio, à maioria negada, de exibir no currículo

a miséria como medalha. Peço que ignorem meu acesso de

sinceridade. Ou antes, que o degustem, como se fosse iguaria rara. É provável que nunca mais se repita. Outrossim, acaba de ocorrer-me que talvez valha a pena uma versão popular de minha autobiografia, sem capa dura nem papel couchet. Um pocket book barato. Melhor ainda, um cordel cujo mote seria O sélfimêidimén que enganou o capeta da fome. Os famintos, como é sabido, odeiam-se uns aos outros, mas entoam loas e fazem reverências mil aos ex- famintos que venceram na vida. Meu ghost writer que decida sobre o formato e encontre o tom da narrativa, será regia- mente remunerado para escrever na primeira pessoa a edificante saga do retirante… que os senhores, e sobretudo as senhoras, perdoem o emprego de tal adjetivo, mas não há outro mais apropriado: a edificante saga do retirante fodido

que está aqui, nesta noite, recebendo tão cobiçado título ou- torgado por esta egrégia Federação das Indústrias. Uma coisa… obrigado, obrigado. Muito obrigado. Uma coisa, porém, está decidida. Já que a obediência ao bom-gos- to impõe certos limites, minha autobiografia falará da fome

– por vaidade, como já disse – mas não haverá menção ao

passado de bicho. Não haverá nas páginas de meu livro uma linha sequer sobre cães degolados, carne crua devorada com mãos imundas, defecações públicas e aberrações do gênero. Ou haverá? Assombra-me, neste exato instante, um conflito

ético: terei o direito de sonegar ao leitor uma história assim tão rica em misérias? Creio que não. Concordam, os senho-

res e as senhoras? A voz do povo

meu asqueroso e obscuro passado de bicho – mas apenas num segundo livro: uma biografia não-autorizada, contra a qual

Certo, revelarei, então,

protestarei com veemência e violência, e moverei céus e ter- ras, e processarei de forma implacável o autor e a editora! E, ao final do embate, terei vendido milhares de exemplares e me tornado um pouco mais rico. Brincadeira, claro: minha sinceridade é bissexta, e não chega a tanto. Mas admito um certo desconforto: independente do tom da narrativa, que papel estará reservado a Lucy em mi- nha autobiografia? Pobre Lucy. A maneira como cuidava de nós… O cari- nho quase humano com que catava nossos piolhos, o esforço sobre-humano para ser aceita pelo bando e para abortar cada vômito diante de cada naco da carne crua de cada vira-lata abatido. Pobre Lucy. No fim, invertemos os papéis, eu e ela, e foi a minha vez de cuidar de Lucy, e eu cuidei, da maneira como cuidamos do cão que envelhece tristemente aos pés do dono, e já perde o faro, os dentes e o apetite, e já não retém a urina, e assiste, imóvel, ao peso das cataratas despencando sobre seus olhos. No fim, estávamos quites, eu e Lucy. Nada devíamos um ao outro. Talvez me arrependa apenas do mé- todo que escolhi para executar o gesto de misericórdia. Lem- bro-me, ainda hoje, do instante em que a abati. Lucy tinha os olhos arregalados, e era como se os olhos perguntassem, “Por quê?”, antes de saltarem das órbitas pela força do tercei- ro ou quarto impacto. Pobre Lucy. Já não era, então, a pálida sombra daquela Lucy da primeira madrugada sob o viaduto manchado de sangue, seu ar de comiseração misturado à cu- riosidade acadêmica diante das involuídas espécimes que éra- mos então. Nunca havíamos visto alguém tão grande. Acredito, hoje, que Lucy não medisse mais que 1,75m, mas a magreza saliente sob o jeans e a brancura homogênea da pele acaba-

vam por fazê-la maior aos nossos olhos, além do quê, na época, já não caminhávamos eretos: ora rastejávamos para caçar ou escapar aos predadores, ora arqueávamos a coluna farejando o chão à cata de restos de comida, o que nos torna- va ainda menores. Pobre Lucy. O esforço desprendido para encurtar a dis- tância abissal entre nós e ela, o modo como curvava os om- bros um centímetro a cada ano, até que as dores na coluna se tornassem insuportáveis. Inútil sacrifício: Lucy continuaria sempre maior do que nós. E foi com espanto que depois de

abatê-la, muitos anos mais tarde, e esticar-lhe o corpo curvo sobre o granito da pia, ao lado da churrasqueira, descobri uma Lucy diminuta. Lucy encolhera. O tempo, a decadência física inerente ao tempo se encarregara de reduzi-la à metade do que havia sido. Pobre Lucy. Suas tentativas vãs de omitir a superioridade inconteste, sobretudo diante dos machos do bando, ainda que por interesse próprio – ela temia que, hu-

milhados, nós a repelíssemos

noite, quando os outros dormiam. Nenhum de nós a repeliu algum dia ou noite. Lucy não tardou a se tornar a fêmea dominante do ban- do. Enfrentava muito raramente a tênue oposição de nossa irmã mais velha, creio que pela atávica rivalidade entre fême- as. A disputa entre as duas só foi superada quando nossa irmã mais velha morreu ao parir um filhote incompleto. Lucy já não tinha a Kombi, por isso carregou nos bra- ços, para algum lugar que não conhecíamos, a pequena e in- forme carcaça do recém-nascido, acondicionada num caixote de maçãs argentinas encontrado na lixeira do supermercado. Voltou algum tempo depois, com o caixote vazio e outro maço de cédulas amarrotadas, sobre o qual meu pai saltou

Nunca a repeli, sobretudo à

com igual avidez, mas sem a mesma agilidade de outrora. Quanto à nossa irmã, nada poderíamos fazer por ela. Ficaria estendida no chão. Não possuíamos os meios, nem faria sen- tido arrastá-la conosco. Alguém cuidaria dela, ou o serviço funerário da Assistência Social, ou os cães sem dono. Era uma questão de quem primeiro encontrasse o corpo. Justo naquela época, Lucy gastava boa parte das aulas de adestramento alertando-nos quanto aos riscos de misturar- mos nossos genes no interior do próprio bando; dizia, por meio de sons e gestos, que nossas cópulas incestuosas acaba- riam por levar à degradação genética e, em conseqüência, à má formação dos fetos. Creio que só fomos capazes de

compreendê-la ao ver, na calçada, a criatura disforme que nossa irmã acabara de expelir do ventre. Até então, pensávamos, ou melhor, intuíamos que a pregação de Lucy nada mais era que

a tentativa mesquinha de manter, apenas para si, todos os

machos do bando – meu pai, eu e meus irmãos – visto ser ela

a única fêmea a possuir os genes diversos dos nossos. Mas havia algo errado, uma incompatibilidade qualquer entre nossos códigos genéticos, pois apesar dos nossos dili- gentes esforços em cobri-la a cada cio, revezando-nos em có- pulas intermináveis, Lucy jamais emprenhou. E todos os meses, quando o sangue lhe descia por entre as pernas, ela o estancava com chumaços de miolo de pão e, mais irritadiça que nos outros dias, nos açoitava com os olhos e as mãos espalmadas, punia com as unhas sujas nossa incompetência de machos. E, pior: nos evitava até o próximo cio. Hoje me pergunto se agi certo ao matar meu pai. Mas não havia escolha. Não era uma questão de certo ou errado.

Acordei um dia com a instintiva convicção de que o bando necessitava de outro macho dominante. Na verdade, acho que nem dormi naquela noite. Hoje, penso que nosso pai já

não fazia questão de manter o posto. Envelhecia a olhos vis- tos, a cabeleira imunda e a barba piolhenta cada dia mais brancas, os dentes podres caindo, um a um. Meu pai entre-

garia o posto, já não fazia questão dele, hoje tenho certeza, mas não cabia a ele ofertá-lo de mãos beijadas a outro macho qualquer. Lutamos, e eu o matei. Foi só. Não me custou muito esforço. Hoje, penso que ele desejava mesmo morrer.

O passo seguinte era enfrentar meu irmão mais velho, o

segundo na hierarquia, candidato natural à chefia do bando. Mas ele refugou. Apertou com força a mão direita contra o caco de vidro que usava para degolar os cães sem dono e foi embora, deixando um rastro de sangue, o rabo entre as pernas. Sem outro adversário a ser vencido, reinei em paz sobre as irmãs e os irmãos mais novos. Eu e Lucy. Reinamos juntos durante anos a fio, enquanto o bando se extinguia devido às muitas mortes e capturas, até que restássemos apenas nós dois, até o dia em que a Kombi estacionou no beco fedorento onde passáramos a noite. Era como se ela, a Kombi, houves- se desde sempre monitorado nossos passos e humores, cap-

tando os sinais de rádio que imaginárias coleiras transmissoras enfiadas à força em nossos pescoços enviavam a pesquisado- res invisíveis. Lucy abriu a porta da Kombi com inesperada destreza humana, e me empurrou para dentro com rispidez igualmente humana, e acho que havia mesmo em meu pescoço alguma coleira radiotransmissora, talvez camuflada no crucifixo que ela me dera no dia em que matei meu pai e assumi o domí- nio do bando.

A bordo da Kombi, rodamos por avenidas movimen-

tadas, e por ruas ermas, e de novo pelo centro financeiro da cidade, e outra vez pela periferia, e em silêncio chegamos ao

laboratório, onde Lucy confrontou suas anotações com as dos outros pesquisadores. Eu estava nu, sobre a mesa de exa- mes, e permiti que eles me manipulassem, e realizassem tes- tes clínicos e tomografias computadorizadas, e confrontas- sem outra vez os dados. Não sei quanto tempo demoraram as pesquisas, se se- manas, meses ou anos. Naquele tempo, não possuía noção de tempo. Quando fui, enfim, dispensado, Lucy chamou o táxi e nos mudamos para o apartamento de cobertura. Aprendi bons modos à mesa, estudei quatro idiomas (inclusive o que Lucy empregava para se comunicar com os demais conse- lheiros da organização), fiz o MBA em Nova York e voltei para dar vazão racional ao empreendedorismo que era meu por instinto. Lucy assistia, embevecida, ao meu progresso. E envelhecia, como o cão que envelhece e perde o faro, os den- tes e o apetite, e já não retém a urina, até que tive compaixão e parti-lhe o crânio com o taco de baseball ou golfe que ela me dera no aniversário ou no natal, já não me lembro. Depois que Lucy se foi, e a partir da fortuna deixada pela organização, iniciei-me no mundo dos negócios, até che- gar onde estou. Custou-me anos e anos de trabalho duro, que resumirei em poucas palavras, por ser uma história por demais repetida pela mídia: após exaustivas pesquisas de mer- cado, concluí que havia um nicho promissor a ser explorado, que o país, em franca recuperação econômica e com uma classe média ascendente, se ressentia da ausência de um for- necedor confiável de carnes exóticas e nobres, e que eu pos- suía o know-how e os meios para obtê-las a custo quase irri- sório e et cetera e et cetera. Ganhei, como é sabido, muito dinheiro com a aceita- ção de meu produto pela crítica especializada e pelas mesas mais exigentes e emergentes do país e do exterior. Mas o que

vocês não sabem é que quase me tornei vegetariano, desde o dia em que assisti ao primeiro abate. Juro! É um espetáculo que não recomendaria a nenhuma das senhoras aqui presen- tes. Nem mesmo aos senhores, e o digo por experiência pró- pria, ainda que empreguemos, no abate, métodos higiênicos e praticamente indolores. Mas sempre tive o estômago fraco, por isso exigia de minha mãe o cozimento prévio dos cães sem dono que meu irmão degolava. De qualquer maneira, rogo aos senhores e às senhoras que nunca assistam a um de nossos abates. E, sobretudo, que nunca se tornem vegetaria- nos – e faço este apelo em nome da boa saúde. Da boa saúde dos meus negócios, é claro… Vocês estão rindo? Mas é sério! Ora bolas, um empresário honesto tem ou não tem o direito de ganhar dinheiro, pagar impostos e gerar empregos neste país? Obrigado, muito obrigado. Antes de encerrar, gostaria de relatar um fato recente e inusitado, que poderia mudar minha vida. Jamais faria tal relato, caso não estivesse entre meus pares. Há dois ou três dias avistei meu irmão na rua. Eu nunca mais o vira, desde a manhã em que fugiu, com o rabo entre as pernas, à disputa pelo posto de macho dominante do ban- do. E era estranho nunca mais termos nos encontrado, visto que meus negócios me obrigam ao contato permanente com seres iguais a ele. Farejei-o primeiro, duas ou três quadras antes de vê-lo. (Conservo meus instintos de bicho, por imprescindíveis à atividade empresarial.) Farejei-o por duas ou três quadras, até avistá-lo. Contive o sobressalto e ordenei ao motorista que o seguisse a uma distância segura. Sabem aqueles softwares que, a partir de uma fotogra- fia, calculam a aparência que determinada pessoa terá no fu-

turo distante? Pois seria totalmente dispensável, no caso. Meu irmão era o retrato fiel do que eu seria hoje, se um acaso chamado Lucy não interrompesse minha involução. Ele con- servava o mesmo olhar de bicho acuado, os mesmos trapos, o mesmo fedor. Na aparência era o mesmo, ainda que mui- tos e muitos anos mais velho do que era de se esperar. (O abismo social potencializara a distância cronológica entre nós.) Mas alguma coisa, nele, mudara. Talvez um fenômeno natu- ral e raro houvesse desencadeado uma ruptura abrupta em seu processo involutivo; enfim, algo fugira ao curso natural das coisas, pois meu irmão, entre outras atitudes inesperadas, conversava com o vira-lata que trazia atado a uma corda. O cachorro latia em resposta, meu irmão cobria-o de afagos e, à guisa de recompensa, dele recebia lambidas infames. Tive a certeza de que ele jamais degolaria aquele ou qualquer outro vira-lata. Meu irmão ficara mais fraco, tornara-se menos bi- cho, ou continuava bicho apenas na aparência pulguenta. Segui-o por horas a fio, até ser capaz de afirmar, ainda que sob o risco de incorrer em antropomorfismos baratos, que ele readquirira determinados comportamentos humanos. Voltara, por exemplo, a ter residência fixa; morava num arreme- do de casa, feita de papelão, e até enfeitara a fachada com marga- ridas amarelas, na certa roubadas de algum canteiro público. Meu irmão não me viu. E não creio que me tenha reco- nhecido quando regressei de madrugada, acompanhado de três funcionários meus, e rasguei em pedaços sua patética casa de papelão, e arranquei pela raiz as margaridas amarelas. Des- confio que sequer tenha me visto, nem mesmo quando o forçamos a entrar na van. Meu irmão limitou-se a abraçar o vira-lata, não sei se para protegê-lo ou proteger-se, ou ambas as coisas.

Em circunstâncias normais, descartaríamos o vira-lata, sempre descartamos esse tipo de bicho, em observância ao rigoroso compromisso com a qualidade de nossos produtos. No entanto, deixei que meu irmão e o outro bicho imundo permanecessem juntos até o fim, e que fossem abatidos jun- tos. Foi a única concessão que fiz, nunca permiti que laços de família interferissem nos negócios. Voltei a sentir náusea, a mesma náusea que me obriga a deixar o recinto de paredes e chão azulejados um segundo antes do abate. Mas antes que a porta do abatedouro higiênico e quase indolor se fechasse às minhas costas, um último olhar furtivo através do vidro mostrou-me as duas lágrimas que escorriam pela barba en- cardida de meu irmão. Ele me olhava. E acho que finalmente soube quem eu era. Afirmo, senhoras e senhores, que aquele olhar, que aque- las lágrimas, nada daquilo abalou minha crença, a crença de que existimos não só pelo lucro, mas para muito além do lucro. Existimos para corrigir eventuais falhas no processo de seleção natural, para garantir que somente os mais fortes so- brevivam, e para preservar um meio ambiente saudável, equi- librado, evitando que as espécies involuídas se proliferem além do suportável. E é graças à inabalável fé neste ideal que estou aqui, hoje, recebendo este título que tanto me honra. Obri- gado, obrigado… Muito obrigado. Entretanto, se não foram capazes de abalar minhas con- vicções, admito que aquele olhar e aquelas lágrimas levaram- me ao seguinte questionamento técnico-filosófico: ou a cor- rente científica minoritária tem razão e os animais, alguns deles, possuem mesmo a capacidade de chorar, ou meu ir- mão não só deixara de involuir como galgara um degrau na escala de evolução. Fosse como fosse, ele ainda era o mais fraco.

Esse episódio, senhoras e senhores, veio provar, antes de tudo para mim mesmo, que depois de tantos e tantos anos eu pouco mudei; sou na essência o mesmo bicho, exceto pelo fato de ocupar, agora, lugar de honra no topo da cadeia ali- mentar. E muito me orgulho desta minha animalidade, se- nhoras e senhores… obrigado, muito obrigado… e muito me orgulho desta minha animalidade, senhoras e senhores, porque é graças a ela, é unicamente graças a ela que estou aqui, na noite de hoje, na Federação das Indústrias deste Es- tado que me acolheu como a um filho, recebendo o título de “Empresário da Década”! Obrigado, muito obrigado. E para encerrar, senhoras e senhores… muito obriga- do… e para encerrar, gostaria de registrar que minha realiza- ção jamais seria completa se hoje, aqui, neste jantar com o qual singelamente retribuo tamanha honraria a mim conce- dida; repito, minha realização jamais seria completa se eu não pudesse contar com um convidado muito especial; uma tes- temunha ocular das privações que superei com suor, com lágrimas e, sobretudo, com sangue. Uma salva de palmas, senhoras e senhores, para meu irmão mais velho, aqui presente em carne e ossos! Obrigado, muito obrigado. E bom apetite.

A TRISTE ORLA DO AQUERONTE

“Doutor”, Ele foi logo começando, e começou mal, odeio que me chamem de Doutor, quer dizer, faço questão absoluta que me chamem de Doutor, não encomendei à toa ao decorador as luzes que incidem 24 horas por dia sobre minha vasta coleção de diplomas, exijo ser chamado de Dou- tor, mas odeio quando pobre me chama de Doutor, pobre só chama rico de Doutor na hora de pedir um prato de comida, um emprego ou outra caridade qualquer, odeio pobre. Ele faz uma pausa depois do Doutor, não entra logo com o pedido, aposto que é isso o que ele quer, alguma es- mola, comida, caridade, mas Ele não pede logo, Ele hesita, quer parecer que consome as últimas reservas de dignidade, Ele negaceia, faz de tudo para convencer-me de que não é um profissional do ramo, puro jogo de cena, claro, pobre não pensa duas vezes antes de pedir alguma coisa, odeio a deter- minação dos pobres. Inferno, eu devia ter recuado quando abri a maldita porta, Ele dentro deste maldito elevador, eu devia ter recuado, Ele descendo não sei de onde, malvestido, quase um mendigo, linguagem corporal de cachorro vira-lata, as orelhas caídas, o rabo enfiado entre as pernas, conheço bem esses tipos, reti- rantes, pedintes, aleijados, fodidos em geral, eu os vejo nas ruas quando interrompo por um instante a leitura dos versos que quase sei de cor, os versos que só leio no original, odeio traduções, Nel mezzo del cammin di nostra vita…, merda, ultrapassei há muito a metade da minha vida e não me acos-

tumo a essa visão do inferno, eles estão por toda parte, po- bres, famintos, sifilíticos, imundos, da janela do automóvel vejo tipos como este cada vez que ergo os olhos do livro, por isso refugio-me nos versos, evito que meus olhos vagueiem do livro para as ruas, evito que meus olhos, feito um par de anjos caídos, despenquem na direção do inferno que esmurra a janela do automóvel querendo entrar a todo custo, cavo no livro e na blindagem do vidro minha trincheira contra esses tipos, fedidos, fodidos, miseráveis apodrecendo a olhos vis- tos, mas a trincheira é em vão, o inferno me persegue até no elevador, absurdo um tipo como este chegar aqui em cima, um insulto, Ele não podia ter botado os pés no elevador, Ele não devia sequer pisar o tapete do hall, o porteiro incompe- tente na certa dormia, inútil construir edifícios inteligentes se os porteiros são burros, e ainda por cima nordestinos, odeio porteiros nordestinos, odeio porteiros e nordestinos, eu de- via ter esperado o próximo elevador, mas não posso esperar, sou um homem ocupado, odeio gente desocupada. “Doutor”, Ele recomeça, é um péssimo recomeço para Ele, ponto para mim, Ele acaba de entregar o jogo, ao repetir o vocativo Doutor Ele admitiu a possibilidade de que eu não tenha escutado da primeira vez, abriu uma brecha, posso fin- gir que não escutei mesmo, que não escuto, que sou surdo feito uma porta, “Doutor”, minha vitória não dura um mi- nuto e Ele já recomeça com a voz subserviente, odeio a sub- serviência dos pobres, “Doutor”, Ele começa pela quarta vez, odeio a persistência dos pobres, pobre devia demonstrar a mesma persistência na hora de cursar uma faculdade nem que fosse pública, arrumar uma boa colocação no mercado, subir na vida, ficar rico, parar de encher o saco, se bem que nada pior do que rico nascido pobre, odeio novo-rico.

Será que tomei o comprimido? não lembro, azar, pros- sigo com a estratégia de me fingir de surdo, aproveito e faço de conta que sou cego também, afinal encontro alguma uti- lidade para meus óculos de lentes superescuras à base de ozô- nio concentrado, com sorte Ele vai acreditar que por trás da escuridão das lentes não há nada, apenas órbitas vazias, sou um pobre cego, ou, vá lá, um cego rico, o que não invalida a triste condição de pobre cego, cego e surdo-mudo também

por que não? vou à forra, odeio esses deficientes físicos que emporcalham as vias públicas expondo suas deformidades fedorentas pedindo “uma esmola pelo amor de Deus”, agora

o coitadinho sou eu, cego, surdo e mudo, clamo por pieda-

de, meu silêncio exige umaesmolinhapelamordedeus, odeio esses idiotas perdulários que dão esmola para tudo quanto é aleijado, não percebem que um aleijão bem-administrado é uma bênção, rende mais que o salário-mínimo no final do mês, por isso ninguém trabalha neste país. A estratégia do cego-surdo-mudo começa a dar resulta- do, Ele parece desconcertado, não esperava por esta, eu con- tinuo impassível, Ele se contorce todo, nervoso, não sabe o

que fazer, evito o sorriso de escárnio, sorrir agora seria entre- gar o jogo de volta para Ele, seria admitir que tenho alguma interação com o mundo, não quero que Ele pense que eu, pseudo-cego-surdo-mudo, tenho algum tipo de interação com

o mundo.

Ele ergue a sobrancelha direita, adivinho uma certa iro- nia no gesto, no mínimo uma desconfiança, Ele coça a cabe- ça, quase posso ver os piolhos saltitando, é claro que um tipo desses tem piolho, carrapato, percevejo, o diabo-a-quatro, aposto que tem, Ele me olha de cima embaixo, talvez seja inveja do meu terno, talvez seja um ataque fulminante de

misericórdia, talvez Ele pense “Esse aí é mais fodido do que eu, coitado, tem dinheiro mas é cego e surdo e mudo”, estú- pido, só quem nunca teve dinheiro acredita que nem tudo está à venda, ridículo, tudo está à venda, o dinheiro compra

tudo, é só abrir a carteira e perguntar “Ei, você aí, quanto quer pelos dois olhos e um rim?” Ele vende na hora, e ainda tenta me empurrar o coração da mãe, com garantia de pron- ta-entrega.

O elevador não pára de descer, não chega nunca, calor

desgraçado, como se chama mesmo o aleijado que não sente

cheiro? eu dava tudo para não ter olfato, odeio o cheiro dessa gente, odeio essa gente, se é que isso é gente.

O elevador pára, cheguei, até que enfim, que nada, puta-

merda, “Vigésimo-terceiro andar”, anuncia a voz de mulher da gravação, inferno, ainda o 23º andar, a garagem subterrâ- nea tão longe, o automóvel de vidro blindado e meu moto- rista não-nordestino ainda a anos-luz de distância, odeio a gravação que anuncia os andares, mesmo sendo um mal de primeira-necessidade, não fosse este um elevador inteligente teríamos aqui um ascensorista burro e, por conseguinte, mais um nordestino a sorrir sem dentes “Bom-Dia-Doutor!” e a passar lista de Natal no final do ano, odeio listas de Natal, odeio a mulher da gravação que sussurra com voz macia os números dos andares, são todas umas putas, as mulheres, sobretudo quando chegam ondulando os quadris e falando com voz macia, a voz é sempre a mesma, macia, sempre, tudo o que você quer é levá-las para a cama e cair fora 20 minutos depois, mas ela te convence que o casamento talvez não seja tão mau negócio, ela é nova, e bonita, e os sócios morrem de inveja, e você odeia os sócios, e você está envelhe- cendo, você então se casa e daí a um tempo elas vão embora

e levam dois automóveis uma fazenda e o chalé no litoral, elas têm um caso com o advogado esperto, e com o sócio que você mais odeia, e com o juiz corrupto que manda você pagar a pensão milionária e vai ver ainda leva 15% de comis- são, elas vão embora e deixam as crianças, odeio crianças, odeio esses protótipos dos adultos que odiarei amanhã. “Doutor”, Ele murmura bem perto do meu rosto, à altura do ouvido direito, quer conferir se sou mesmo surdo, prendo a respiração, odeio mau-hálito, “Doutor”, Ele insis- te, agora no ouvido esquerdo, e eu nada, Ele tenta outro tes- te, abana a mão direita gordurosa quase embaçando minhas lentes de ozônio, e eu nada, Ele quer ter certeza que não vejo, faço de conta que não vejo, Ele agora olha para minha pasta de crocodilo, morre de inveja, de cobiça, na certa avalia as probabilidades de êxito caso arranque a pasta de crocodilo da minha mão e saia correndo na próxima parada do elevador, instintivamente seguro a pasta de crocodilo com mais força, crispo tanto a mão que Ele percebe, impossível não ter perce- bido, acho que percebeu, não tenho certeza, odeio incertezas. Inferno, esqueci de novo o remédio, será que tomei? passou da hora? cego não usa relógio, escondo o meu por baixo do punho da camisa suada, não sei mais quanto tempo agüento este inferno, ainda mais sem remédio, ou será que tomei? melhor tomar outro por garantia, não, melhor não arriscar uma overdose, o mau cheiro, o olhar dEle posto so- bre mim, calor, o ar condicionado acho que pifou, a garagem subterrânea não chega nunca, ops, o elevador parou, não sei por que, ninguém sobe, eu não desço, ele não desce, eu devia aproveitar a chance, “Trigésimo-segundo andar”, anuncia a voz macia, trigésimo-segundo?! mas estamos descendo e agora há pouco a voz anunciou no tom suave e prostituto de sem-

pre “Vigésimo-terceiro andar”, não é possível, não vou entrar em pânico, não devo entrar em pânico, devia ter tomado o comprimido, agora sou eu quem se contorce todo, pânico, taquicardia, agora é Ele quem fica impassível, forço a visão por trás da escuridão dos óculos ozônicos, confiro o número que pisca no painel, 13º andar, graças a Deus, o elevador está no rumo certo, para baixo e sempre, a voz suave da puta digital é que errou nas contas, pane, defeito, bug, incompe- tência, odeio a indústria nacional, se bem que pelo nome o fabricante é estrangeiro, inútil, basta instalar filial neste país e os gringos só querem saber de pular carnaval com os pretos, odeio o carnaval e os pretos. Agora não resta dúvida, o ar condicionado pifou mes- mo, inferno, só faltava essa, começo a derreter dentro do maldito terno, odeio este calor tropical, esta umidade de ter- ceiro mundo, ainda bem que só faltam uns dez andares até a garagem subterrânea, pu-ta-que-pa-riu, ainda mais dez anda- res neste inferno, não vou apertar botão nenhum mas se o elevador parar de novo eu desembarco seja onde for, eu de- sembarco, desisto da garagem subterrânea, do automóvel blin- dado com ar condicionado, do motorista branco, desisto de tudo e desembarco no meio do caminho e rezo para Ele não me seguir, mas o elevador não pára de novo, inferno, o suor me emplastra o cabelo, minha gordura se dissolve, a gosma entra colarinho adentro, já me empapa as axilas, neutraliza o desodorante full protection de última geração, quase posso ver as manchas amarelas crescendo em cada sovaco, o deso- dorante já era, odeio desodorantes de free shop, sinto meu próprio fedor, eu não sabia que fedia tanto, prendo a respira- ção enquanto Ele, ao contrário, continua respirando como se nada acontecesse, Ele sorve o meu oxigênio e não está nem

aí, deve estar habituado a respirar ares que não lhe perten- cem, deve estar habituado a piores odores, claro, Ele se diver- te com a situação, há algo de demoníaco no sorriso dEle, deve estar pensando “O bacana se fodeu, vai derreter dentro do terno”, abro o paletó, afrouxo o nó da gravata, odeio giorgiarmani, odeio hugoboss, odeio estilistas, costureiros e veados em geral, por força de hábito quase arranco e mando Ele segurar meu paletó, seria meu fim, sou cego e surdo além de mudo, não tenho como saber que há outra pessoa comigo no elevador, não tenho como dar ordens a essa pessoa que não vejo nem ouço, se Ele descobre minha farsa Ele começa tudo de novo e lá vem o maldito pedido de esmola ou do que quer que seja, agora é questão de honra, não dou um puto para este pedinte de merda, alguém tem que fazer algu- ma coisa, alguém precisa tomar uma providência. Só agora percebo, o termômetro, fervendo no painel digital, os algarismos do termômetro subindo feito loucos enquanto corre para baixo a numeração dos andares, quanto mais o elevador se aproxima do subsolo mais quente fica este elevador do inferno, 40 graus, 45 graus, mudei de idéia, não quero mais chegar à garagem subterrânea, lá embaixo deve estar um inferno, lá embaixo deve ser O inferno, o elevador me leva direto ao inferno, o elevador despenca através da cra- tera escavada nas profundezas pela queda de Lúcifer, boba- gem, inferno não existe, o Diabo não existe, 50 graus, meu Deus, o inferno existe, bobagem? Ele sorri, há algo de demo- níaco no sorriso dEle, sinto até o cheiro do enxofre, cheiro de inferno, não, é só o mau-hálito, quisera ter nascido aleija- do do olfato, Ele boceja com indiferença, abre a boca para dar vazão ao hálito podre, Ele fede, ou será este o meu pró- prio fedor a embrulhar-me o estômago? o fedor e a tranqüi-

lidade dEle potencializam meu medo, maldito pânico, o com- primido derrete no suor da minha mão, boto o comprimido na boca, foda-se a overdose, engulo em seco, inútil, odeio a indústria farmacêutica nacional, indústria farmacêutica de índios, os bugres-farmacêuticos nativos recheiam suas cápsu- las inúteis com inócuas raízes-de-não-sei-o-quê, placebo de merda, não acredito na indústria farmacêutica nacional não acredito em inferno não acredito em diabo não acredito em pecado não acredito em danação eterna, meu coração dispa- rado, pânico, emergência, o botão vermelho, o botão verme- lho de emergência, como não pensei nisso antes? o botão vermelho, freada brusca, solavanco, despenco no chão, Ele impávido, arregaço minha coluna, Ele intacto, pelo menos estou salvo, não, é tarde demais, a voz macia da puta da gra- vação: “Quinto-subsolo”, impossível, não há 5º subsolo, o

edifício não se entranha tanto assim Terra adentro, o edifício tem as raízes fincadas na garagem subterrânea onde o moto- rista blindado com ar condicionado me espera no automóvel que não veio para cá fugindo da seca do Nordeste, este edifí- cio não tem 5º subsolo, eu vi a planta do edifício, eu cons-

o inferno existe, então este é

o inferno, Ele é meu guia, pior, talvez Ele seja o Diabo em

truí o edifício, então

então

pessoa, suor frio, taquicardia, pânico, tomar mais um com- primido, tomei o comprimido? doença dos infernos, com- primido inútil, placebo de merda, a porta do elevador range, eu não quero que ela se abra mas ela se abre, não quero sair, tenho medo do que vai entrar, mas o que entra é só a clarida- de do dia, não é o 5º subsolo, não é subsolo nenhum, não é

sequer o paraíso seguro da garagem subterrânea, é o térreo, é

o térreo, a voz suave e incompetente da gravação errou de

novo, graças a Deus, amo a indústria nacional, “Doutor”, Ele

recomeça, mas não espera que eu responda visto que além de cego sou surdo e mudo, não tenho como ouvir, não tenho como responder, Ele apenas segura meu braço de leve mas com firmeza e me leva para fora do elevador, “Doutor, por aqui”, Ele puxa conversa mesmo sabendo que não escuto, Ele é meu guia, Ele me leva pelo tapete do hall, minhas per- nas dormentes, não sinto meus passos, não vejo nenhum porteiro nordestino, não vejo ninguém, deve ser a greve geral dos porteiros nordestinos, odeio greves, sindicatos e sindica- listas, atravessamos o tapete do hall do edifício inteligente e deserto, eu sou o cego, Ele é meu guia, nossos pesos, ou o meu peso sozinho porque Ele é magro, quase não pesa, deve comer pouco e malhar cinco horas por dia, o peso solitário dos meus sapatos leves de cromo alemão aciona o mecanis- mo da porta eletrônica e a porta eletrônica corre para os lados e me vejo do lado de fora do edifício e do lado de fora do edifício eu vejo: O Inferno! Ele me empurra para fora do edifício, Ele me empurra para dentro do inferno, na saída do edifício na entrada do inferno leio o aviso inexistente e óbvio, Lasciate ogne speranza, voi ch´intrate, porra nenhuma, não vou abandonar a espe- rança, estão todos do lado de fora do edifício, saio do edifí- cio, entro no inferno, perco a esperança, não, não é o infer- no, não é o centro da Terra, é só a cidade, é só a cidade, o centro da cidade, o asfalto pegando fogo, os pobres, os nor- destinos, as putas, os pretos, alguns até de terno, essa gente toda vindo em minha direção, pedintes, leprosos, sifilíticos apodrecidos, essa gente toda forma um rio, o rio do inferno vem em minha direção, a água do rio do inferno fede e bor- bulha e me engolfa e tenta me arrastar para o fundo, eu pre- ciso me segurar em alguma coisa, não há nada em que eu

possa me segurar, a não ser Ele, mas Ele não me serve de apoio, Ele ao contrário me empurra para dentro do rio do inferno, “Doutor, eu levo o senhor”, odeio a solidariedade dos pobres, os nordestinos, os veados, as putas, os pretos, as domésticas, os desocupados, os aleijados, os desvalidos, os foliões e os fodidos, essa gente que tromba em mim e me empurra de um lado para o outro sem pedir desculpas, tento voltar à tona, Ele gentilmente me puxa para o fundo, o oxi- gênio não me chega aos pulmões, pânico, asfixia, maldita poluição urbana, “Doutor, eu levo o senhor”, Ele recomeça, quer parecer bonzinho, odeio a filantropia fingida dos po- bres, Ele tenta parecer capaz de gestos de grandeza para com pobres aleijados ricos, mas Ele não me convence, Ele me empurra correnteza abaixo, Ele me empurra com ódio, Ele se insurge contra mim, odeio a insurreição dos pobres, preci- so voltar à tona, preciso chegar a algum lugar, não quero che- gar a lugar algum, tenho medo do que me espera quando alcançar a orla do rio do inferno, la trista riviera d’Acheronte, na orla do rio Ele há de enfim revelar sua identidade demoní- aca, mas eu já sei quem Ele é, Lucifero, Ele em pessoa, para o nosso acerto de contas, mas não devo nada a ninguém a não ser um ou outro imposto, odeio impostos, mas nunca caí na malha-fina, tenho os melhores contadores, o diabo não exis- te, eu não devo mas temo, tenho medo do que me espera quando alcançar a orla do rio, mas não vejo a orla do rio, não vejo nada, escuridão, cegueira, procuro em vão por Ele, soli- dão, odeio solidões, procuro por Ele mas Ele já não existe, não existe nada a não ser a escuridão, estou cego, quero cha- mar por Ele, tento gritar que estou cego, inútil, minha voz em agonia bate contra as paredes da garganta, inútil, a voz não sai, estou mudo, e se eu gritasse ninguém ouviria, eu

ouço, apenas ouço, o coro infernal de vozes gritos buzinas sirenes os automóveis freando acelerando freando a voz dEle mil vezes repetindo “Doutor” “Doutor” “Doutor”, a voz dEle cada vez mais longe mais longe mais longe Estou só, a solidão é pior que a presença dEle, mil vezes pior, por que Ele não aparece? rezo, invoco, conjuro, nada, Ele não volta, já não ouço nada, silêncio, estou surdo, os sons tornaram-se líquidos, a sede do rio me engole, o rio do inferno engasga de mim, não ouço nem vejo mais nada, es- tou cego, mudo, surdo, não vejo nem ouço mais nada, só o silêncio martelando meus ouvidos, não, há alguma coisa além do silêncio, no meio do silêncio percebo o som, o som que vem das profundezas do fogo e congela minha espinha, o som é feito um rufar de asas, de asas enormes e sem plumas, feito asas de morcego, Lucifero, o anjo caído, Ele e suas asas sem plumas, asas de morcego, não consigo vê-Lo, só pode ser Ele, Lucifero, Ele com chifre e rabo e tridente, não vejo nada, não posso vê-Lo, mas só pode ser Ele, quero fechar os ouvidos, mas não posso, o rufar das asas cada vez mais forte, da escuridão faz-se a luz, a luz me cega, quero fechar os olhos, mas não posso, a claridade me obriga a ver o que não quero, e eu vejo, eu vejo a orla do rio, estou do outro lado do rio, e não há nada, nada, nada, não, agora vejo, sim, uma casa, uma casa com letreiro luminoso, a casa é uma espécie de estabele- cimento comercial, com letras dançantes na fachada, e as le- tras dançarinas de neon e fogo formam o nome do estabele- cimento, e o nome do estabelecimento é A Casa dos Espe- lhos, agora vejo, sim, agora vejo, na fachada da casa: a criatu- ra medonha, de pé, diante de mim, é Ele? Lucifero? mas a criatura medonha não tem asas nem chifre nem rabo nem tridente e essas ausências me enchem de pavor, a criatura

medonha não tem asas nem chifre nem rabo nem tridente, a criatura medonha tem apenas paletó e gravata e um imenso nada à sua volta, a criatura medonha segura uma pasta de crocodilo, e tem a mão crispada como se dentro da pasta guardasse a alma em danação, a criatura medonha de repente abre a boca, uma boca assustadora e assustada, e da boca da criatura sai um grito mudo que não posso ouvir mas que leio no movimento trêmulo dos meus lábios, e o que o grito grita em silêncio é :

Socorro – mas não há ninguém para ouvir.

NADA NUNCA NÃO

Eu não devia ter vindo. De jeito nenhum. Se tivesse

sabido, antes, de véspera que fosse, eu passava direto, rumava estrada afora, seguia era em frente. Eu nunca que não vinha.

A gente devia ter o direito de saber o que vai ser da vida da

gente amanhã, depois-de-amanhãs, os por-vir

conhecer o futuro todo, completo, exato, mas saber o que vai acontecer no prazo de um ano, ou de um mês. Até um dia antes, a véspera, já tava bom. Custava? A modo da gente escolher. Aí sim, eu concordo, a Polícia podia prender e ba- ter, Deus podia cobrar, podia julgar e condenar. Mas se a gente não sabe, e em não-saber não tem como não deixar não-acontecer, que direito Deus, e a Polícia, que direito Eles têm de cobrar da gente depois? Pois eu vim. E agora nunca mais que não saio. Eu vim foi sem saber de nada, sendo que quando che-

guei ainda não existia o que era pra eu ter antes sabido, por- que o acontecido só foi acontecer depois. E mesmo o come- ço de tudo só foi começar depois que eu tinha já chegado: o princípio da desgraça; a indecência. Eu, por minha pessoa, própria, não julgo. A cidade é que logo pegou a resmungar, em tudo quanto era canto: que era uma indecência. E com hora marcada. Isso eu afirmo e confirmo. Nunca vi gente tão pontual, ainda mais formando par de casal. Por comum, o homem chega na hora, a mulher atrasa, mas existe o pelo- contrário, também. O fato é que tem sempre um que demo-

ra mais que o outro. Mas aqueles dois, aquele casal… A gen-

Não digo nem

te até podia acertar o relógio pelos dois. A gente que eu falo é esse povo aí que anda de relógio no braço, porque eu, mes- mo, não possuo; tive, mas larguei faz tempo, por falta de precisão. Relógio meu é hora que barriga ronca. Mas aqueles dois, o casal, tenho pra mim que eles carre- gavam era um relógio no lugar do coração, o coração deles batia era fazendo tic-tac. Nunca vi par tão pontual, porque quando eles apontavam, cada um de um lado da praça, o relógio da prefeitura, lá longe, dava uma resfolegada, os pon- teiros tremiam, e vinham as badaladas, a meia-dúzia: seis da tarde. Hora dos anjos e da ave-maria. Eu acho que isso até piorava as coisas, o encontro deles se dando em hora tão ca- tólica, e bem defronte da igreja-matriz. Eu, próprio, não dou razão, completa, à cidade. Pra mim, indecência, indecência mesmo, é o que a gente vê em qualquer hora em qualquer televisão. Mas também não pos- so tirar, de todo, a razão da cidade, que fez abaixo-assinado e tudo. Porque aquela, deles, do casal, era uma indecência dife- rente: qualquer um que passasse pela praça depois das seis da tarde podia sentir, o cheiro, da indecência deles. Quem tomou conhecimento do acontecido só pelo jor- nal nunca não vai saber do cheiro; e em não sabendo do chei- ro, nada de nada não sabe. Não sou de ler jornal, minha lei- tura é fraca, mesmo que tivesse dinheiro, pudesse comprar, não lia, foi por isso que eu não li, do acontecido, no jornal. Todo mundo leu, só eu é que não. Mas ninguém não sabe do sucedido mais do que eu sei. Porque eu tava lá, eu tava sempre lá, de olhos bem abertos, até quando eu dormir fin- gia. Eu podia até fechar os olhos, e tinha vez que eu mesmo fechava, e mesmo de olho fechado eu sentia: o gosto do chei- ro dela.

Começou uns dez dias depois que eu cheguei. Nesse meio tempo, antes de se começar o fato, eu bem tive tempo de ir embora, mas fiquei. Ignoro a causa. Eu não sabia do futuro, ninguém sabe, nem povo cigano, legítimo, com dente de ouro, tacho de cobre e leitura de mão. Ninguém sabe. Se eu tivesse sabido, antes, eu nem não tinha chegado, nem não entrava na cidade, passava era direto, pegava o rumo da ou-

tra, não tem diferença, toda cidade é sempre a mesma cidade, igual, toda cidade tem gente, igual. E gente… bom, sabe como gente é. Não gosto de gente, e gente-mulher é que eu menos aprecio. Gosto é da estrada. A única mulher que não trai o homem é a Dona Estrada – e mesmo assim é preciso dela

a gente muito gostar, e tratar com carinho de namorado novo. Mas eu dizia que era todo dia, a indecência deles. Todo santo dia, e até em dia santo, acho que isso revoltou ainda mais a cidade, que foi reclamar pro padre. Ah, o padre… Tenho pra mim que a causa maior de tudo, da desgraça, foi um diabo, um capeta dum coisa-ruim chamado inveja. Um dia eu lá ia estrada afora e passou um caminhão, o caminhão rodava até meio troncho, de banda, envergado por causa da pesada carga, não sei quem é que tem dinheiro pra

possuir tantas diversas coisas, tanta coisa que até entortava o caminhão, o caminhão veio lerdo e passou devagar, mais de- vagar que minha leitura, e foi só por isso que eu dei conta de ler, escrito no pára-choque: “A inveja é uma merda”. Na hora eu nem não dei muita atenção, porque ninguém nunca não teve motivo pra pegar inveja de mim, e eu, mesmo em não possuindo nada de próprio meu, nunca fui de invejar o alheio. Mas depois fiquei pensando pensando pensando que quem escreveu aquilo, no pára-choque, tinha a toda razão: a inveja

é uma merda. Antes eu não sabia, agora sei, porque vi de

perto a besta-fera, olhei dentro do olho dela: eu conheci a inveja. Eu peguei inveja do moço, o das seis da tarde, com a moça. Eu quis que ele morresse. Isso digo e não nego, quem quiser escrever que escreva. Acho que até já escreveram já. A moça chegava do lado de lá. O moço vinha daquela outra banda. E os dois se encontravam bem às seis da tarde, bem no meio da praça, ali, onde tem a televisão agora, e eles se encostavam um no outro, eles se encostavam que nem os ponteiros dos relógios se encostam no meio-dia e na meia-

noite, eles davam o primeiro beijo, e pronto. Daí, se assenta- vam no banco de cimento que existia ali, onde hoje é a tele- visão, e não paravam mais. Tinham hora pra chegar, mas pra

Quem disse? Ah, dava gosto de ver, mas dava

inveja também, dava agonia, aquela beijação toda, parecia que nem nada não tinham pra dizer um pro outro, ou que tudo tinham, e diziam era em forma de beijo. Uma ocasião, por falta do de-fazer, comecei a contar, pra ver quantos eram, os beijos, mas desisti antes do meio do caminho, porque era beijo grande, beijo-beijim, beijo de cinema, beijo de novela, beijo prolongado e delongado, era tanto beijo que até con- fundia a gente, ainda mais gente que nem eu, sem costume de operação de conta, aquilo até embaralhava as idéias, por- que às vezes pareciam dois beijos e era um só, e quando pare- cia um de verdade eram dois. Os abraços é que eu sabia, exa- to: um. Nunca precisei fazer conta: o abraço era um só. Al- gum cidadão, desse que só conheceu o acontecido pelo jor- nal, pode até menoscabar, falar que um abraço só é pouco. Ah, mas o negócio é que eles, o casal, eles se encontravam, eles se encostavam, e se abraçavam, e não se largavam mais dos braços um do outro. Era o mesmo abraço, o mesmo abraço, até a hora de ir embora, nas altas horas. Eu achava

ir embora

que aquilo era amor demais, o povo dizia que era indecência.

Podia ser que fosse as duas coisas, junto: indecências do amor demais. Disso falo pelo vido, não pelo vivido: experiência prática, real, não tenho. Nunca não ninguém gostou de mim daquele jeito. Eu, sim. Gostei, mas gostei sozinho. E não tem dor mais dolorida do que gostar sem ser gostado. Eu jurei não gostar nunca mais. Tomei meu rumo e meu pru- mo. Vim. O que falo agora agorinha, nesta hora presente, de gostar sem ser gostado, é de muitos anos pra trás. Coisas esquecíveis, mas que eu, próprio, por castigo, não esqueço. Por mais que eu ando, e eu ando, e ando, a memória das coisas vem atrás, feito fosse meu triste rastro, a minha som- bra preta. Mas eu não quero não falar do passado antigo, eu quero

é falar do hoje, do ontem, do anteontem. Do agora, desse agora que já passou também, mas passou menos, porque foi quase que outro dia. Da indecência. Pois era uma indecência assim… não sei se me explico, me complico com as tantas palavras, mas digo que a indecência deles, do casal, era uma indecência até comportada, sabe? Porque a gente não via nada dos dois, nem um tiquitinho que fosse do que não se deve de ver. Olha, o que eu quero dizer e complico e não sei se expli- co é que o casal não mostrava nada, essa televisão que bota- ram aí no lugar do banco de cimento onde eles se abraçavam

e se beijavam, ela mostra muito mais, a televisão: sem-

vergonhices. Mostra muito mais essa televisão aí que bota- ram pra distrair o povo, fortes sem-vergonhismos, até com dia claro e criança de-menor assistindo. O que eu digo e afir- mo e confirmo é que eles, o casal, eles nunca ficaram pela- dos, nem de tudo nem de pouco, arreganhando as partes. Nunca teve nada disso, o moço nunca botou nada de seu pra

fora, e a moça vinha sempre de calça muito comprida, nem era dessas calças apertadas que qualquer mocinha hoje em dia usa, até as filhas das beatas, dessas beatas que reclamaram do casal, pois elas também usam, as mocinhas beatinhas, essas calças indecentes que racham o negócio delas bem no meio, metade pra banda de cá, metade pra banda de lá. Qualquer mocinha usa, até as que se diz “as de-família”. Mas a moça, não; ela usava era uma calça comprida comum, comportada, ou então uns vestidinhos estampados de flor que pegavam na direção do joelho, eu nunca vi mais que um pedacinho de nada das coxas dela. Não vou negar que eram demais boni- tas, as coxas dela, mas a roupa era comportada, se alguém falasse que a moça tinha acabado de chegar da igreja eu juro que eu acreditava. E do mesmo jeito que ela chegava ela ia embora, do mesmo jeito não digo, por conta do amarrotado da roupa, por causa daquele abraço que eu já expliquei, abra- ço amarrotador, mas fora isso ela ia embora com todos os botões abotoados, o fêcheclér fêche-fechado, tudo no lugar, direitinho. O rapaz respeitava ela, sabe? Quer dizer, respeita- va mas não respeitava, porque eu se tivesse uma moça bonita daquela, se gostasse dela, e se ela gostasse de mim, eu não de jeito nenhum deixava o cheiro dela se espalhar assim, pela praça, pela cidade. Mas indecência graúda, sem-vergonhona, nunca teve não, nunca vi. Quem falou que tinha mentiu. Se o jornal falou, mentiu também. Mentiram pro jornal, por despeito ou por maldade. As pessoas maldam. Invejas. Não sou de ler jornal, mesmo que pudesse comprar eu não lia, já disse, porque minha leitura é pouca, não vou gas- tar ela toda em jornal. Gasto minha pouca leitura é com li- vro, que é mais negócio. Livro nunca comprei, nunca pude, os poucos, que li, foi porque achei, no lixo. Aí eu paro e

penso: quem é o doido que joga livro no lixo? Ah, é gente muito da ignorante. Ou por demais caridosa, sendo a bon- dade em pessoa mesmo em não querendo ser, porque se nin- guém jogasse livro no lixo quando é que algum que nem eu ia dar conta de ler livro nesta vida? O que a gente aprende em folha de livro… Metade do nada que sei aprendi na estrada; a outra metade, quase do mesmo tamanho, foi livro que me ensinou. Eu cato livro no lixo e vou lendo… vou lendo… vou lendo… devagar… devagar… devagar… porque minha leitura é demais devagarosa, e quando acabo eu jogo o livro no lixo, sem dó, jogo noutro lixo, noutra cidade, proutro algum feito eu poder ler também. Concordo que deve de ser importante ler jornal, se não fosse nem não existia tanto jornal nem não tanta gente lendo tanta notícia em letra tão miúda. Mas eu queria ver a história deles, do casal, da indecência deles, eu queria ver essa história deles escrita era em livro. Queria que alguém contasse a his- tória deles em livro, e que alguém comprasse o livro, e que por ignorância ou caridade alguém jogasse o livro no lixo. Ah, eu queria… Mas sabe o que é mais engraçado, e mais triste tam- bém? É que na época que eles começaram a beijação e a abraçação no banco da praça a praça não tinha nada, mesmo não quase existindo. Isso era tudo um ermo. Uma pracinha só com o banco de cimento, o cemitério e mais a cadeia. E tinha a igreja, igreja nunca que não falta, mas mesmo a igreja só dando movimento domingo de manhã por ocasião da santa missa, e nalgumas noites no meio da semana, mas mes- mo nessas noites do meio da semana não vinha quase nin- guém, só alguma beata mais beata. A praça era um paradeiro. Mas isso era antes. Foi só o casal pegar a se beijar, e se espalhar

a notícia de que tinha casal praticando toda sorte de indecên- cia no banco da praça pra praça virar uma romaria. Ah, mas pegou um movimento! De uma hora pra outra, era o lugar mais movimentado da cidade! E antes nem não morava nin- guém, nem quase não vinha ninguém, fora o povo todo nos domingos de manhãzinha e as poucas beatas nas noites do meio da semana. Mas depois… Ah, mas infestou de gente! Veio pipoqueiro, veio até vendedor de maçã do amor, mas maçã o padre proibiu, quer dizer, diz ele que não proibiu não, que o fruto era que era proibido por natureza, segundo

a Bíblia. O padre…

O que eu faço questão de dizer, e digo, e repito outra

vez, e as outras todas vezes, é: quem tomou conhecimento do acontecido só pelo jornal não sabe do cheiro dela, e em não sabendo do cheiro não sabe é de nada nada não. Acho que ele tinha boa intenção, o rapaz que escreveu a notícia no jornal, conversou comigo, me chamou de “senhor” e tudo, pagou café, pão com manteiga. Mas ele não podia, quem é que podia? explicar, em palavras, o cheiro dela. Pois até eu,

que respirava todos os dias o cheiro dela, até eu explicar não posso. Por causa dela não fui embora; por causa dela, e do cheiro dela, nunca mais que me vou. Nunca mais não posso.

Se eu soubesse, se eu tivesse sabido, de véspera que fos-

se, eu tinha ido embora, eu devia era de ter ido embora mui- to antes, não sou de parar plantado tanto tempo num mes- mo lugar, criar raiz feito pé-de-árvore, porque o corpo dá de doer, os pés se incham de tanto paradeiro, eu fico todo desavontade, pego entojo do lugar. Não gosto de cidade, aprecio é a estrada. Gosto de andar; não sei se gosto, sei que ando – andava – e sempre no rumo do em frente, e nunca não voltando pra trás. Sigo – seguia – em frente pra não ter

que voltar nunca mais. Eu só queria que o mundo não fosse redondo, porque em sendo redondo, e deve de ser porque até a igreja nem não diz mais que não é, em sendo redondo o mundo eu corro grave perigo de, um dia, qualquer dia, vol- tar pra donde saí, e eu não quero, não posso, nunca mais.

Quanto mais eu ando pra frente, mais o passado fica pra trás.

É capaz que se um dia eu andar de novo, se me deixarem

andar, eu andando assim pra frente e em não sendo o mundo redondo eu acabo chegando a algum lugar, a lugar algum, mas o diabo é que o passado vem atrás, rastejando feito co- bra venenosa. Ignoro se chego, um dia, a algum lugar. O que sei, e digo, é: cada um com suas pernas, e suas distâncias. Se fiquei e não fui embora foi por causa dela, não nego, nunca neguei, negar pra quê, depois de tudo? Fiquei porque ninguém nunca não me deu o direito de saber o que ia acon- tecer, no antes do acontecer. Nem Deus, nem a polícia. Mas se eu pudesse saber, do acontecido, antes de acontecer, será

que não tinha era ficado do mesmo jeito? Porque ela era boni- ta. Era danada de bonita. Nunca que eu ia ter uma moça bonita daquela nos meus feios braços, como tive naquela noite. A boca, os dentes… Eu não sabia que podia existir tan- ta brancura em dente de gente. Os cabelos sempre tão mo- lhados, feito fosse sempre chuva no lugar donde ela vinha…

E eu nem não sabendo mais o quê que era mulher, porque só

tinha tido uma, aquela, lá de atrás, em tempos antigos, a cuja lembrança feito cão raivoso morde minhas velhas alpercatas,

e mesmo aquela mulher, a primeira, aquela lá de atrás, eu

nunca não devia nem de ter tido, mas eu era moço, e moço apessoado. Eu só tive aquela, na origem da minha desgraça, depois nunca mais não quis. Peguei a estrada, peguei desgos- to, ódio não digo, mas raiva, de mulheres. Raivei por anos e

anos, e anos. Até que botei os olhos nessa moça de agora, a da praça, a dos beijos, e gostei, os olhos dela olhos de gato,

feito luzinha luzindo na escuridão, quantas vezes eu tive von- tade de ir lá de noite e assoprar os olhos dela, pra apagar aquela chama e eu poder me dormir em paz.

Pra ela eu

sendo um vazio buraco, que ela olhava pra mim, ou pronde

eu devia de ali estar, mas a mim ela não via, via era a paisagem do outro lado de mim, feito eu nem existir existisse. Eu existia? E o cheiro… Pergunta pra qualquer um, que sentiu, o cheiro dela, pede que explique, em palavras, podendo ser qualquer palavra, existente ou inventada, e espere resposta. Não tem resposta. Não tem palavra. Primeiro, porque não era um só, eram muitos, os cheiros da moça. O cheiro era um quando ela chegava, e aí eu sabia que era ela chegando, eu sabia que era as seis da tarde antes do relógio da prefeitura, o relógio ainda não sabia da hora certa, e eu já sabendo, porque sentia o cheiro dela chegando. Mas ainda não era esse, o tal cheiro, de que falo. Porque o cheiro dela de primeiro era um, depois pegava a crescer, aumentava de tamanho, virava outro cheiro, quanto mais ela beijava maior era o cheiro. Não tinha flor de jardim que competisse. Até as flores tinham inveja. Até o padre olhava com malícia. Ah, o padre… As quantas vezes, depois da missa acabada, eu sentia o bafo de vinho de missa no olhar do padre, eu farejava o vi- nho e o pecado no olho do padre. O padre… Uma vez ele expulsou a moça da missa. Fez ela cuspir fora a santa hóstia sagrada, que já tava até mastigada em dentro da boca, o sa- cristão, distraído, é que tinha dado a comunhão, o padre fez

a moça cuspir, e acho que até bateu no sacristão por ter dado

a hóstia pra moça, não sei se bateu mesmo, mas eu vi o sa-

Mas ela, própria, mesma, nunca que me via

cristão com a cara vermelha e chorando lágrima depois da missa daquele dia, o sacristão gostava do padre, eu sei porque ele olhava o padre com carinho se filho fosse, e daquele dia em diante o sacristão pegou ódio da moça, eu sei, eu li o escrito em todas as letras nos olhos dele. O povo apoiou o padre, achou que a moça tinha que cuspir mesmo a hóstia, porque não estava certo o corpo do Cristo se derretendo em boca que tanto beijar beijava. Isso eu vi com os próprios olhos meus, nunca entrei na igreja, aquilo não é pra mim, mas eu ficava na porta, e via tudo, e da porta eu rezava do meu jeito. Acho que meu jeito de rezar não era forte, porque Deus nun- ca não veio quando eu mais precisei, eu precisei as muitas e as

tantas vezes, precisei demais naquele dia, lá atrás, e segui pre- cisado, precisando, preciso, e Ele nunca não vindo. E olha

que eu já vivi tantos anos

Ele agora querer dizer que foi por falta de tempo. Ah, o padre… Eu vi ele aquela noite, já a madrugada sendo, com a marreta na mão, fedendo a vinho de missa. Ele

pensa que ninguém viu, mas eu vi, ele mais a marreta, naque- la noite. Deu até medo, eu encolhi o corpo em cima do pa- pelão e fiz de conta que dormia. Cidade de gente doida, nem

o padre regula direito, de madrugada, marreta na mão… Eu

queria mesmo era ir embora, era nem não ter entrado nessa

cidade donde eu nunca que mais não saio. O que me sobra é

a lembrança dela, nua, nuinha, nos meus braços, ela, a moça

mais linda, e eu feio homem, eu velho, eu todo sujo de sujei- ra antiga, encroada, imundices trazidas de outras cidades, e ela nua, nos meus braços, e o cheiro dela. Ah, até o sangue dela cheirava bom. O cheiro vermelho dela escorrendo pelo chão afora. Era ela entrar na igreja e todos os fiéis olhavam pra trás,

o padre mandava badalar o sino pra cobrir os suspiros dos

– se Deus nunca não veio, não vai

fiéis, e danava o sacristão a correr de lá pra cá balangando aquele negócio de soltar fumaça perfumada, a mando do padre, pra ver se o cheiro dela não atrapalhava as rezas. O moço eu nunca não vi na igreja; a moça é que não perdia um domingo de missa. Eu, próprio, não entrava na igreja, já dis- se, não tinha nada pra fazer do lado de dentro, sentava era na escada, o povo saía da missa desejoso de fazer o bem aos olhos de Deus e dava comigo, sentado na escada. Eu arrega- çava mais a calça e deixava aparecer a ferida e as moscas, eu nem não deixava a ferida criar casca, pra ela ficar mais feia, eu nem nada não falava, só estendia a mão, nem não precisava abrir a boca pra chorar mágoas, minha triste história quem conta é as linhas da minha cara, minha velha cara, eu que já fui bonito moço, bonito de ser gostado, mas eu queria era que aquela gostasse, aquela lá de trás, a primeira, a do come- ço da minha má estrada. Mas ela fez de conta, só. Fingideza de mulher. Por isso aprecio a estrada, porque ela se deita na minha frente e eu sei aonde ela vai me levar. Mesmo com as tantas curvas, ela vai me levar sempre no exato rumo. Estrada é palavra-fêmea, mas corre na contramão da mulher – estra- da não oferece enganos, traições. Eu estendia a mão, e em nela o povo da missa pingava umas moedinhas de nada, mas em se juntando uma aqui, outra acolá, e em não cachaça muita se tomando, dava pro de-comer. É assim em toda cidade, o que seria dumas almas feito eu não existisse igreja no mundo…Eu não entrava na igreja, mas sabia que a moça tava lá dentro mesmo não ven- do ela, eu sabia por causa do cheiro e do sino badalando desgovernado a modo de disfarçar os suspiros dos fiéis. A cidade toda devia de saber que a desgraça estava perto de se acontecer. Menos eu. A desgraça cada vez mais perto,

desde que o banco de cimento da praça amanheceu virado

farelo. Alguém foi lá de noite e esfarinhou o banco inteirinho,

e ninguém viu, quer dizer, eu vi, eu morava na praça, eu via

tudo, deitado no papelão, eu até encolhi o corpo no papelão, de medo, mas não adianta contar. Ninguém viu, mas todo mundo sabe, mas ninguém nada não fala. O padre… Falei que gosto de igreja? Gosto, mas de padre não gosto. Fosse por padres eu tinha já morrido em cada outra cidade, de fome,

de frio, em tantas calçadas de igreja, nas igrejas onde diz que moram os santos. Moram? Moram nada. Em igreja mora é

o padre; dizem que a casa é de Deus, mas quem tem a chave

é o padre. Deus, se vier, vem é vez-em-quando, de visita, e com autorização do padre. Ah, mas se o padre achava que ia acabar com a indecên- cia arrebentando a poder de marretadas o banco de cimento

onde eles, o casal, onde eles praticavam a indecência… Pois fez foi piorar, agora que não tinha mais banco a indecência era feita de em pé, o corpo de um grudado no corpo do outro, nem rajada de vento magro não cabendo entre o moço

e a moça. A esfregação. O cheiro dela até encorpou. Ganhou

alento, pegou perfumes de outras flores… Indecência. Daí o ódio do padre. Padre pode ter ódio? Deus permi- te, ou é feio pecado? Padre pode qualquer coisa, até olhar pra moça com aqueles olhos de vinho e pecado e o corpo e o sangue do Cristo ainda quente na boca? Pode, só em sendo padre? Tenho pra mim que não, padre pode menos que a gente, paisano; ainda mais padre que nem aquele, um sério pa- dre de batina preta varrendo o chão, que nem não se usa mais. Eu devia ter desconfiado quando o padre mandou o sacristão me chamar, com recado que era pra eu dormir den- tro da igreja, por causa do frio. Desconfiei; negaceei; mas

enjeitar não pude, porque eu nem não lembrava mais o que era dormir debaixo de teto fabricado por mão de homem. Aceitei. Apreciei. Mas custei a cair no sono, e acho que não dormi foi nada, porque daí a pouco acordei com o feio grito. Abri o olho e dei de cara com o santo de boca aberta, o santo iluminado pelas velas de pagar promessa, o santo com a boca arreganhada, pensei que o grito era do santo, fiz o nome-do- pai, peguei a rezar, mas aí completei o acordar e vi que o grito não podia ser do santo, porque o santo era de barro, o grito tinha vindo era de dentro da boca da noite, do lado de fora da igreja. Fechei os olhos, abri os ouvidos: tudo quieto. Mas no meio do silêncio, uns suspiros. Esperei esperei esperei, mas ninguém não deu sinal de vida, nem o padre, nem o sacristão. Será que ninguém não ouviu o grito? Sonho não foi, porque agora tinha os suspiros, os gemidos, uns gemidos fracos, vindo do lado de fora, eu já tinha acordado, mas conti- nuava a ouvir a gemeção que vinha de lá da praça. Sonho não era, e nem gemido de amor, sei que não era amor porque conheci os gemidos deles, os do amor do moço e da moça. Dos meus, próprios, antigos, nem não me alembro. Faz tempo. E a gemeção continuando, baixinha. Eu não devia de me levantar da quentinha igreja, mas eu não dava mais conta de pregar o olho; eu não devia de abrir a porta da igreja, mas os gemidos me chamavam do lado de fora. Ah, o quê que eu tinha que fazer do lado de fora? Até hoje pergunto, e ninguém não me responde, nem Polícia nem ninguém não me ouve: será que não foi coisa encomendada? Acho que a cidade inteira sabia que a desgraça se ia acontecer, porque ninguém não nem saiu de casa naque- la noite, nem a mais beata das beatas, um pio de coruja não se ouviu, nem as cigarras, cachorro nenhum latiu pra lua, lua

não teve, nem ventar ventava, o pipoqueiro não fez nem som- bra, e todas as casas de luz apagada, como se sabendo da des-

graça antes da desgraça se acontecer. E só eu não sabendo. Só eu. E foi naquele silêncio e naquela escuridão que se deu a

desgraça…

Do moço eu nem de alembrar não gosto, tinha pedaço de miolo vazando do afundado da testa dele, coisa feia de se ver. A moça não, a moça continuava bonita, nua, nuinha, e não tinha nada de indecente no corpo pelado dela, parecia corpo de santa sem pecado, a virgem-maria. Ela, acho que nem dor não sentia, só olhava pra mim, e acho que naquela

hora ela até me via, eu existindo, e ela nua nua, eu abraçado no corpo dela, ela nua, ela gemendo, eu abraçando e beijan- do ela feito o moço morto abraçava e beijava no tempo que era vivo, o calor do corpo dela, quando é que um velho e feio

e sujo que nem eu ia ter nos braços uma moça bonita daque-

la, e nua? Eu enroscado no cheiro que vinha do cabelo dela, o sangue nem não me dando nojo, porque o sangue escorria era da nuca, e a cara dela, mesmo, formosa, que nem a da- quela outra mulher do meu longe passado, a cara dela, da

moça, não tinha sangue, e ainda por cima era de noite e quase nem não se via, o sangue, eu só sentia o melado quente quan- do passava minhas mãos pela nuca da moça… Aí umas outras mãos vieram e me agarraram pelas cos- tas, pelo pescoço, me agarraram com ódio, e me sacudiram,

e me jogaram longe, e foram logo me batendo, me dando

soco, pontapé, e gritando os feios palavrões. “Flagrante”, eles condenaram, quando já cansados de me bater. Mas flagrante de quê, se culpa não tive? Eu não queria que ninguém visse as partes dela, escancaradas do jeito que estavam, ela toda nuazinha, era por isso que eu estava ali, daquele jeito, deitado

no meio das pernas dela, tampando com meu feio corpo as vergonhas dela, o que a cidade ia dizer se visse ela assim, de perna aberta, aparecendo tudo? O que a cidade ia dizer se já tudo dizia em nada não vendo, e nada não vendo porque ela era moça de todo respeito, cujo só pecado era beijar demais? E veio o padre dar extrema-unção, veio o sacristão com os santos óleos, veio o povo todo em procissão chorar as tristes ladainhas. Uns falsos, uns fingidos. Chorando de falsidade, de fingidez. A cidade toda queria era esse desfecho derradeiro, e agora fingindo falsas lágrimas. Pois se até dinheiro me ofere- ceram… Quer dizer, dar não deram, nunca, nada, mas antes da desgraça uma beata passou um dia e falou assim-assim com a outra, mesmo querendo que eu ouvisse: “Ah, a gente até fazia uma vaquinha, arrecadava bom dinheiro e pagava pralgum cristão dar cabo dessa indecência”… E depois outro dia um homem, depois outra beata, e outro dia mais mora- dor e moradora, até rapaz e até moça, de família e rapariga, e todo dia e todo mundo falando igual, e eu ouvindo, eles querendo que eu ouvisse, e eu ouvindo… Mas dinheiro-di- nheiro, sem ser o pequeno, o amarrotado, o encardido, o em moedas… que serventia possa ter, pra um feito eu? Dinheiro em graúdo, novo, vistoso, o muito-muito, só serve só é pra comprar coisas, pesadas coisas pra eu carregar depois estrada afora, todo troncho, envergado. Pois já não chega o peso das más lembranças, as gordas assombrações, me entortando o ombro e rasgando meu magro embornal? Desperdício. Não quero. Enjeito e rejeito, mil-vez. Eu nunca que não matei ninguém, por dinheiros. A Polícia falou que tinha sangue nas minhas mãos, e tinha, mas foi porque eu peguei a moça nas mãos, ela ainda

viva, ela respirando, e nua, tão nua… Eu nada não vi das partes escondidas dela, ela nua, sem nada escondido, mas eu nada não via, só apertava ela nos meus braços, e esfregava a cara nos cabelos dela, por causa do cheiro, eu devia ter fugi- do, mas fiquei foi ali, ela nua, e eu sentindo o cheiro dela, que pela primeira vez era pra mim, aquele cheiro. Vou morrer negando, por mais que me batam, que me quebrem inteiro. Acho que até já me quebraram, inteiro, já. Como não tem mais onde me bater, acabou-se o espaço pra produzir machucados, eles me botaram aqui, nesta feia cela, me botaram justo na cela que dá de frente pra praça, só por judiação, sendo que tem as outras, que dão pro outro lado. Eles me obrigam a ver a praça pelas grades da janela. Eu que- ria não olhar, mas eu olho. Eu queria dormir que nem você dorme agora, feito pedra, sua consciência em paz apesar das tantas mortes pesadas nas costas, eu queria dormir como se morresse, que nem você, e no sonho esquecer de tudo, dor- mir e ser a inocência das pedras, a inocência dura das pedras, eu queria, mas não durmo, não sou pedra, gente é que sou, e gente humana, sou. Eu sinto falta da estrada, minhas pernas querendo an- dar, mas andar pra onde, se eu só conheço o rumo do da frente e o a-frente é só o ferro das grades? e andar com que pernas, se as pauladas e os chutes arreganharam de vez a ferida que nunca mais dá casca? e andar pra quê, se ela, a moça, se ela não vai mais estar nunca em lugar nenhum? Minha valia é que agora pode o mundo ser redondo e do tamanho que for:

perigo mais não corro de chegar de novo deadonde parti. Mas do quê que adianta não voltar, se eu andei andei andei, mas o meu rastro correu correu correu, passou na frente de mim, se o passado apertou o passo, e feito cachorro veneno-

so, e feito cobra raivosa, se o passado cravou os brabos dentes pra sempre nos meus calcanhares? Eu queria é que fechassem a janela da cela com fortes tijolos, e que nem não deixassem fresta pra nem ar entrar, pra eu não ver nunca mais a praça, não ver a igreja, não ver a televisão que botaram no lugar do banco que o padre que- brou, não ver que a moça eu nunca mais não vejo. Não tenho medo de assombração; a alma dela, se vaga, em tormentos, eu nunca que não vi. Posso até avistar alguma meia-noite, saindo dalguma tumba, o cemitério é bem ali, e eu não durmo, nunca mais dormi, mas nunca que não vi alma nenhuma. Meu medo é quando pega a ventar, e toda noite venta, por mais quente que sendo o dia, toda noite pega a ventar. É só prestar atenção, no vento. Ó. Não falei? Pára de roncar e ouve, ó: primeiro é o assobio… úúúúúúúúuú… ouviu? Depois as folhas das árvo- res pegam a sacudir… viu? tá ouvindo? frrrrrrrrrrrrrr…Agora

Tudo que nada eu não queria era ficar

é que vem o pior, ó

aqui sozinho nessas horas da noite, eu queria que seus muitos pecados pesassem mais que seu sono de pedra, e que você acordasse, e me fizesse companhia, mesmo calado, ou então que chamasse os polícias pra mim, não adianta nada coisa nenhuma eu próprio chamar, eles não me ouvem, ninguém não me ouve, eu queria que você acordasse, que chamasse os polícias por mim, que dissesse que eles podem de novo me bater, mais e muito, e que eu até de arame farpado apanho. Diz pra eles que eu só não quero, diz pra eles que eu só não posso é ficar sozinho com o vento, o desgraçado do ven- to que toda noite me traz o cheiro dela.

AINDA É TARDE

Há muitos dias não amanhece. Eu só preciso que ama- nheça, mas há dias e dias é sempre noite. Escuto vozes lá fora, crianças brincando, a algazarra das crianças é sinal de que está tudo bem, mas não me iludo, não creio na autenticidade dessas vozes, o que estariam crianças fazendo na rua a esta hora da noite que não tem fim? É apenas um artifício, mais um, eles já tentaram de tudo, querem de todas as maneiras que eu saia da toca. Não sairei, a menos que amanheça.

* * *

Mantenho janelas e portas lacradas, isolado do mundo exterior, mas sei que é sempre noite por causa dos insetos que voam em torno da lâmpada fraca dependurada no teto, a única que mantenho acesa o tempo todo. São insetos notur- nos, condenados a voar à noite, e eles não interrompem o vôo obsessivo, eles não pousam: logo, ainda é noite, é sem- pre noite. Estão cansados, os insetos, de tanto voar em círcu- los em torno da lâmpada, algumas vezes pensei em apagar a luz para o repouso dos insetos, mas calar a única lâmpada seria ceder por inteiro à escuridão. Sinto pelos insetos de asas partidas que agonizam no meu chão, mas é questão de sobre- vivência: ou eles ou eu.

* * *

Estou nu, e vejo os olhos que me espreitam através das

frestas da veneziana, são muitos, sei pelos diferentes pares de olhos que me olham, sei pelos diferentes tons dos olhares que me espreitam, eles são muitos e me olham pelas frestas da veneziana, eles espiam minha nudez, o calor me obriga a estar nu. Não importa que dissequem minha nudez, mas exijo uma resposta: como conseguiram chegar aqui em cima? A

Da última vez que saí da toca, para comprar

mantimentos, havia homens carregando estruturas metálicas nas proximidades do prédio. Fingiram não me ver, mas eu os vi, de uniforme laranja, carregando estruturas metálicas tubulares. Só agora compreendo: construíram andaimes, en- caixando uma na outra as estruturas metálicas, escalaram os andaimes e agora me olham pelas frestas da veneziana. Deixo que me olhem, não há nada para ver na escuridão, a não ser um homem nu sentado sob a lâmpada fraca, e insetos exaus- tos voando em torno dele e da luz. Também estou cansado, tão cansado quanto os insetos, mas não permitirei que aque- les lá fora, os donos dos olhos que me espreitam, não permi- tirei que eles saibam do meu cansaço. Resistirei. É a única arma da qual disponho: a capacidade de resistir, que eles des- conhecem.

não ser que

* * *

Eles agora recorrem à força bruta, por que não o fize- ram antes? Eles agora tentam entrar a golpes de marreta, aban- donaram toda e qualquer sutileza, já sabem que eu sei sobre eles, não precisam mais de subterfúgios, artifícios, ardis, vão derrubar as paredes, tentam entrar a golpes de marreta TUM TUM TUM talvez não queiram entrar, querem apenas que

o

som cadenciado TUM TUM TUM me impeça de dormir

e

me leve à exaustão final TUM TUM TUM inútil estraté-

gia: já não durmo há muito tempo, tenho medo de dormir justo na hora que amanhecer, preciso manter os olhos bem abertos para quando a manhã chegar, até porque ignoro quan- to tempo há de durar a relutante manhã que espero.

* * *

O último inseto se debate no chão, agoniza com as asas partidas, sobre a pilha de outros insetos mortos. Morreram todos. Lamento. Mas eram eles ou eu.

* * *

Ontem veio um homem de uniforme azul. Ou virá amanhã, antes que o último inseto morra. Se ainda não veio, virá. Eles tentam de tudo. Ouvi o toque da campainha, na verdade eu desliguei a campainha, ouvi apenas o som do dedo apertando a campainha muda TLEC TLEC olhei pelo olho mágico, ele estava lá, olhando para mim através do olho

mágico, sorriso falso, uniforme azul, um embrulho nas mãos,

é um disfarce, quer convencer-me de que se trata de um hu-

milde funcionário do condomínio, mas os humildes funcio- nários deste edifício usam uniforme cinza, deste ou do outro edifício que morei antes, já não me lembro, mas não impor- ta a cor do uniforme, não abri a porta quando ele apertou hoje a campainha muda TLEC TLEC ele tem o corpo des- proporcional, a cabeça imensa em relação ao corpo, o corpo imenso em relação às pernas, os olhos imensos em relação a todo o resto. Ele faz o mesmo que eu, ele também me olha

do outro lado da porta, desafiador, jamais um humilde fun- cionário de condomínio desafiaria um morador com tal olhar, olhamo-nos pelo olho mágico, um de cada lado da porta, ambos ridiculamente deformados: ele pela aberração ótica; eu, pelo cansaço da espera. Ele desiste, ele foi embora há muitos dias, ou muitas noites, uma vez que é sempre noite. Agora, eles perderão toda e qualquer sutileza, eles esperam apenas que o último inseto morra, para que eu esteja completamente só; aí, sim, eles usarão a força bruta, começarão a derrubar as paredes a marretadas, já começaram há muito TUM TUM TUM

* * *

A pilha de insetos mortos desapareceu, cadê a pilha de insetos que estava aqui? Provavelmente o gato comeu, preci- so tirar isso a limpo, chamo por ele: Gato de Alice… Gato de Alice… PSSSS PSSSS PSSSS mas Gato de Alice não res- ponde, não responde porque morreu de fome antes dos inse- tos, nossas provisões acabaram há tempos e não posso sair da toca enquanto não amanhecer. Não: Gato de Alice morreu depois dos insetos, não importa a causa mortis, se fome ou pescoço quebrado, morreu depois dos insetos de luz, é ób- vio, visto que alguém comeu a pilha de insetos no chão, tal- vez Gato de Alice esteja vivo, mas o cheiro dele em decom-

posição prova o contrário, é um cheiro forte e doce, um cheiro antigo, morte e apodrecimento, então Gato de Alice morreu muito antes dos insetos, mas alguém comeu os insetos, e se

então eu comi os insetos, visto

Gato de Alice estava morto

que eles desapareceram do chão, mas minha fome persiste e demonstra o contrário, então eu não comi os insetos, ou comi, mas eles não tinham qualquer valor nutritivo.

* * *

Não sei o que é pior TUM TUM TUM o barulho das marteladas ou SCRESH SCRESH SCRESH Gato de Alice arranhando a porta do quarto fechado. Gato de Alice me olha nos olhos em desespero, pede que eu o deixe entrar no quarto fechado, Gato de Alice é só pele e osso, mas não per- mitirei que ele entre no quarto fechado, o que você acha que existe atrás da porta fechada, Gato de Alice? Não adianta você me olhar com esses olhos felinos famintos, o mesmo olhar de caçador que reserva para os insetos que voam em volta da lâmpada fraca, você com certeza espera que um deles caia de cansaço para devorá-lo, mas os insetos não caem, até agora não caiu nenhum, têm sete vidas e fôlegos estes insetos no- turnos que não podem interromper o vôo porque há dias e dias é sempre noite SCRESH SCRESH SCRESH você só espera que eu morra para se fartar com minha carne, Gato de Alice SCRESH SCRESH SCRESH vou até a porta fechada do quarto e quebro o pescoço do Gato de Alice. Pronto. Só assim ele pára de SCRESH SCRESH SCRESH só assim Gato de Alice desiste de entrar no quarto fechado.

* * *

Eles esperam que eu desista, que eu abra a porta, que eu saia à rua antes de amanhecer, pois esperarão sentados, nem a fome nem a sede me obrigarão a sair da toca. A sede. Penitencio-me pela água ingerida depois que o filtro secou, não devia ter bebido a água da torneira, eles por certo enve- nenaram os encanamentos, mas talvez só tenham pensado nisso depois que suspendi a ingestão de água. Inócuo, pois, o

veneno que despejaram nos encanamentos. Não morrerei envenenado, não morrerei de sede. Beberei, bebo, minha uri- na. O gosto da urina é-me indiferente, o que não suporto é o cheiro, mas não o cheiro da urina, o que não suporto é o outro fedor que empesteia tudo, morte e apodrecimento, minha urina é até um antídoto ao fedor que empesteia tudo, minha urina tem cheiro forte, cheiro de urina de alguém que há muito não ingere líquidos, preciso ingerir líquidos para ter o que urinar e assim ter líquidos para ingerir e poder uri- nar e assim ingerir mais líquidos para urinar e assim ingerir líquidos para e assim SCRESH SCRESH SCRESH

* * *

VRMMMMM VRMMMMM VRMMMMM

* * *

VRMMMMM VRMMMMM VRMMMMM

* * *

VRMMMMM VRMMMMM VRMMMMM

* * *

A furadeira de alto impacto arranca as pastilhas da fa- chada, rompe os tijolos, arrebenta o acabamento interno, entra em cheio na minha cabeça VRMMMMM VRMMMMM VRMMMMM é como se a broca estivesse não do lado de fora do prédio e sim varando meu cérebro VRMMMMM

VRMMMMM VRMMMMM eles vão entrar a qualquer momento, logo as paredes estarão cheias de buracos, as pare- des estão cheias de buracos, corro até a geladeira, a geladeira está vazia, exceto pelo pacotinho com massa de matar bara- tas, é o que me basta, cubro os buracos com massa de matar baratas, eles são mais rápidos VRMMMMM VRMMMMM VRMMMMM novos furos, eu sou mais rápido, novos re- mendos, é uma corrida de vida ou morte VRMMMMM VRMMMMM VRMMMMM até que eles se cansam, não há mais buracos a serem cobertos, estão todos lacrados com massa de matar baratas, logo isto aqui estará infestado de baratas mortas, todas as baratas morrerão, sentirei falta de dormir ao som das baratas correndo pelos ocos das paredes, não fazem falta porque não durmo, porque permaneço em vigília, porque espero a manhã que pode chegar quando me- nos espero, o chão está coalhado de baratas mortas, baratas de todos os tamanhos e formas e cores, algumas tentam voar, mas é inútil, logo se espatifam no chão, odeio o barulho que elas fazem quando estouram seus cascos sob o peso dos meus pés descalços CREK CREK CREK Gato de Alice se refeste- laria com tantas baratas mortas caso estivesse vivo CREK CREK CREK chamo por ele: Gato de Alice… Gato de Ali- ce… PSSSS PSSSS PSSSSSSS mas Gato de Alice está mor- to, mas Gato de Alice arranha a porta fechada do quarto SCRESH SCRESH SCRESH

* * *

É preciso levar em conta todas as hipóteses: e se eles derrubam as paredes? Espero que tal idéia nunca lhes ocorra, mas: e se eles recorrem às furadeiras de alto impacto? CREK

CREK CREK corro de um lado para o outro feito barata tonta CREK CREK CREK pisando e estourando baratas tontas e mortas CREK CREK CREK destruo os documen- tos, identidade, título de eleitor, certificado de reservista, eles não saberão quem eu sou, mesmo que entrem, eles não sabe- rão quem sou, rasgo as cartas, são poucas, rasgo todas, inclu- sive a última, a inacabada, esmago mais baratas CREK CREK CREK por fim dou fim às fotografias, destruo tudo que possa me incriminar, até a fotografia em que apareço abraçado a ela convém destruir, ela morreu há muitas noites, ela morreu ontem à noite, sei que era noite porque é sempre noite, não me lembro quando ela morreu, não importa, todo mundo morre algum dia ou noite, mas a fotografia pode dar mar- gem a diversas interpretações, levantar suspeitas, eles podem especular, fazer perguntas, torturas físicas e mentais, eles por certo desconfiarão de tamanha felicidade, rasgo, então, a fo- tografia: abraçados, sorridentes, felizes: eu, Alice e o Gato de Alice.

* * *

SCRESH SCRESH SCRESH

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TUM TUM TUM

* * *

VRMMM VRMMM VRMMM

* * *

TRIIIMMMM TRIIIMMMM TRIIIMMMM

* * *

TRIIIMMMM TRIIIMMMM TRIIIMMMM

* * *

TRIIIMMMM TRIIIMMMM TRIIIMMMM

* * *

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* * *

* * *

Agora é o silêncio ……….A estratégia deles se chama “enlouquecimento cadenciado por

meio do silêncio”, eu não devia ter arrancado o fio do telefone,

a ausência do TRIIIMMMM TRIIIMMMM TRIIIMMMM

deixou um vazio, eu não devia ter quebrado a televisão, eu não devia ter partido o pescoço de Gato de Alice, agora tudo

é silêncio, eles usam contra mim a estratégia do silêncio, es- tou sozinho e indefeso, e tudo em volta é silêncio, mas se não enlouqueci com os ruídos não enlouquecerei com o silêncio O silêncio me enlouquece, o silêncio e a fome, os manti- mentos acabaram há nem sei quanto tempo, o silêncio e a

fome, o silêncio e a sede; a sede: minha urina ressecada no longo percurso entre a uretra e a garganta. A sede me enlouquece.

* * *

SCRESH SCRESH SCRESH Gato de Alice arranha arranha arranha a porta do quarto fechado, ele quer entrar no quarto fechado, ele insiste, persiste SCRESH SCRESH SCRESH até que o trinco cede, e a porta se move, e o movi- mento liberta o cheiro aprisionado, o cheiro doce e apodreci- do que empesteia tudo, Gato de Alice entra no quarto, não corro atrás dele, não tento impedi-lo, estou fraco demais para detê-lo, não tenho forças para deixar a sala e o conforto da lâmpada fraca em cuja órbita erradia gravitamos eu e os inse- tos exaustos. Morrerei antes dos insetos, morro antes do pri- meiro inseto, morrerei antes de Gato de Alice, Gato de Alice sobreviveu a mim, Gato de Alice vai se fartar com minha carne, não, ainda não é minha morte, é apenas morte aparen- te, catalepsia, poupo as forças que me restam, é como se hi- bernasse, minha quase-morte economiza comida e água, eles batem na porta, não sei se tocaram antes a campainha muda TLEC TLEC o cansaço a fome e a sede arrefeceram meus instintos, só os ouço quando batem na porta pela primeira vez BAM BAM BAM eles batem de novo BAM BAM BAM eles batem com mais força BAM BAM BAM querem ar- rombar a porta, agora é irreversível, movo os olhos em dire- ção à foto: abraçados, sorridentes, felizes, na fotografia: eu, Alice e o Gato de Alice, eu devia ter destruído a fotografia, a felicidade é suspeita, a felicidade me incrimina, mas agora é tarde, não tenho mais forças, movo os olhos em direção à carta, a carta que ela não acabou de escrever, nem preciso

desdobrar a folha de papel em branco, sei de cor o que ela ia dizer na carta que não escreveu, eu devia ter destruído, nada mais suspeito que uma carta em branco, eles batem com mais força BAM BAM BAM ouço vozes, não são crianças brin- cando, eles já não precisam de disfarces, eles começam a ar- rombar a porta com a força dos muitos ombros BAM BAM BAM Gato de Alice volta do quarto, parece gordo e feliz, Gato de Alice lambe as mãos que esqueço caídas ao longo do meu corpo inerte BAM BAM BAM eles vão entrar a qual- quer momento BAM BAM BAM a porta estremece, as pa- redes reverberam BAM BAM BAM logo agora que pressin- to a manhã chegando, chegando, chegando…

* * *

Amanheceu? Não, ainda é tarde. Se pelo menos ama- nhecesse, mas não amanhece, há dias e dias é sempre noite. Apago a única lâmpada (ou ela sozinha se extingue?), conce- do, enfim, repouso aos insetos exaustos. Os insetos agora dormem, a noite é sem volta. Mas antes que arrombem a porta, mas antes que entrem, recorro à última arma que me resta: suspendo a respiração para sempre. Só assim não sinto o hálito de carne podre que Gato de Alice exala ao voltar do quarto, enquanto lambe minhas mãos.

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I MPRESSO SOBRE PAPEL P ÓLEN B OLD 90 G / M 2 ( MIOLO

IMPRESSO SOBRE PAPEL PÓLEN BOLD 90 G/M 2 (MIOLO) E CARTÃO PAPIRUS 280 G/M 2 (CAPA) NA GRÁFICA LIDADOR PARA A EDITORA 7LETRAS EM AGOSTO DE 2005.