Criação sem amanhã

Sísifo, o mito, dentre outras ofensas aos deuses, enganou a morte por duas vezes e por isso foi condenado a rolar uma pedra morro acima, eternamente, visto que uma força inelutável a fazia despencar quando se aproximava o cume. Por isso, diz-se “trabalho de Sísifo” em referência a esforços inúteis e sem esperança. Camus, diante do absurdo de nossas vidas regidas pelo amanhã que sempre nos encaminha à morte, recupera Sísifo como o “herói absurdo”. Apaixonado pela vida, tendo-a vivido plena de revolta e liberdade, sua eternidade é de sofrimento; mas há um momento em que Sísifo prova-se superior ao seu destino: enquanto desce o morro em busca da pedra que caiu, tem total consciência de que jamais será bem-sucedido e, nesse momento, supera seu destino pelo desprezo; e é feliz, pois seu destino doravante lhe pertence, e assim ele continua a caminhar e a pedra a rolar. Pouco antes de falar sobre Sísifo, Camus discutia o artista que cria sem amanhã: “Trabalhar e criar ‘para nada’, esculpir com barro, saber que sua criação não tem futuro, ver sua obra destruída em um dia, consciente de que, em profundidade, isso não tem mais importância do que edificar para sé culos ― eis a difícil sabedoria que o pensamento absurdo preconiza.” Nesse sentido, talvez Sí sifo seja hoje tão boa metáfora para o artista quanto o foi para o operário da linha de montagem: a consciência dava ao operário a capacidade de revolta e a possibilidade de felicidade; e uma consciê ncia muito semelhante dá ao artista contemporâneo a liberdade de criar “para nada” e ser feliz assim, ao seguir-produzindo. Digo isso pensando na arte que morreu mas segue-vivendo, como diz Foster. Provavelmente não foi essa discussão o que motivou a Ação de enxugar quatro barras de gelo: três barras no Edifício Maleta, em Belo Horizonte/Brasil, e uma em Unquillo/Argentina (29 set. 2010) do Coletivo Xepa; mas sem dúvida uma tal proposição conscientemente absurda nos leva a pensar, senão na morte, ao menos na paixão pela vida. Qual outra paixão nos levaria a enxugar gelo? “Gelo” nos leva necessariamente ao trabalho Paradox of Praxis 1 (Sometimes Making Something Leads to Nothing), de 1997, no qual Francis Alÿs arrasta uma barra de gelo pelas ruas da Cidade do México até que ela derreta completamente, abordando a desproporção entre esforço e resultado, típica do trabalho na América Latina, bem como a questão mais geral da desmaterialização do objeto artístico. Perguntei ao Marcelino sobre Alÿs e ele respondeu que sua questão é diferente: “É mesmo a dilatação do tempo me dando a possibilidade de um estar ali mais agudo, e o absurdo possível desta prática que me motivou a propor o trabalho ao Xepa. A ação é, e inscreveu no meu corpo algo que ainda não sei, mas compartilho com o Alÿs o gosto com o nada.” Qual outra paixão nos levaria a enxugar gelo? É “estar ali” ou melhor, estar-aqui-fazendo algo que , necessariamente se desfaz. E nesse sentido é necessário afirmar um parentesco: Alÿs está no Mé xico raspando gelo (Alÿs é belga, radicado no México) e o Xepa está no Brasil e está na Argentina enxugando gelo: são formas distintas de estadia e de temporalidade, são gelos distintamente derretidos, inclusive, mas um mesmo sentido de finalidade nula prenhe de possibilidades de significação pela vontade mundana (não há deuses, estamos no mundo) de ficar e de ser feliz. Ficar é o parentesco, mas também a diferença. A estadia do Xepa não é etnográfica como a de Alÿs, a intenção da simultaneidade revela mais uma conexão de corpos e consciências que uma aproximação de identidades. Se as condições da internet não permitiram uma transmissão

simultânea, pouco importa, “Enxugar ao mesmo tempo faz com que o aqui e o lá virem um aqui-l á” disse o Marcelino. Daí a Vivi não esteve enxugando sozinha, daí que as diferenças entre fazer , arte no Brasil e na Argentina se dissolveram nas três horas no Maleta e nas cinco horas no sítio platino. Daí que... Talvez a questão mais essencial seja mesmo o fazer artístico hoje aqui-lá. Numa das fotos vemos claramente um momento de pausa, frontes recostadas sobre o gelo, mãos quase suplicantes.“É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa”diz Camus,“Essa , hora que é como uma respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade, essa hora é aquela da consciência.” Em que estariam pensando os artistas, senão em seu próprio exercício da arte naquele momento, naquele local? O conteúdo exato desse pensamento em um corpo extenuado é o insondável do absurdo, o verdadeiro momento da criação sem amanhã ou, melhor dizendo, o momento da criação tipicamente contemporânea. Belo Horizonte, 18 de outubro de 2010. Hélio Alvarenga Nunes (artista–pesquisador, doutorando na EBA-UFMG, bolsa CAPES, membro do grupo de pesquisas Estratégias da Arte numa Era de Catástrofes)

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