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Francisco Soares

BIBLIOGRAFIA DE HISTÓRIA EM ANGOLA NO SÉCULO XIX

Francisco Soares BIBLIOGRAFIA DE HISTÓRIA EM ANGOLA NO SÉCULO XIX

Índice

Introdução

4

Antropologia histórica e povos africanos

9

Antiguidade

13

Tempos menos antigos

28

Conclusão

43

Bibliografia

43

Introdução

Quem pensa hoje em Angola não se apercebe da antiguidade da

penetração da escrita e da escrita literária no país, principalmente na

faixa litoral e respetivos hinterland uma antiguidade que a torna

diferente da maioria dos restantes países da África ocidental. Esse

historial vem do fim do século XV, quando as naus portuguesas

atingiram a desembocadura do rio Zaire (1482) e se estabeleceram

contactos oficiais entre os Reinos de Portugal e do Kongo. Em carta do

dia 15 de Maio de 1516 (25 de Maio segundo outros) o Vigário-geral de

São Salvador, Rui de Aguiar, dava conta ao rei de Portugal das

manifestações de fé e devoção do rei do Congo, indicando que havia, na

sua cidade e em todo o reino, diversas escolas, onde se ensinavam as

coisas da Fé e também a ler e a escrever, mostrando-se satisfeito com

os resultados obtidos(Santos, 1998 p. 12). É um primeiro ponto de

situação relativamente ao ensino, portanto à interpenetração entre

escrita e oratura.

Desde o início que aos padres foi remetida a função pedagógica,

principalmente aos jesuítas (a partir do fim do século XVI), que melhor

se adaptaram às condições existentes. Os colégios da Companhia em

São Salvador e Luanda começaram a dar os primeiros frutos da

interação de angolenses e congoleses com o sistema internacional da

literatura e da cultura escritas.

Entre os manuscritos que iam surgindo, cerca de 100 anos depois da

chegada ao Soyo 1 , destaca-se uma História de Angola, redigida em

Luanda, entre 1590 e 1599, por padres jesuítas, uns filhos da terra e

outros não (Soares, 2001). Por volta de 1624 redigiu-se uma história do

reino do Kongo, que ficou manuscrita, e uma carta em que se noticiava

a morte do católico rei congolês D. Pedro II Afonso, fazendo-se uma

crónica breve sobre o seu curto reinado, retratado como exemplar a

todos os títulos (Soares, 2001). A fechar o século XVII (entre 1681 e

1683) o capitão António de Oliveira de Cadornega acaba de escrever a

História general das guerras angolanas (Cadornega, 1940-1942). No

princípio do século XVIII sai em Roma a obra póstuma do luandense

Manoel Correa de Azevedo, Idea consiliarii, que traz no prólogo dos

editores um resumo de História de Angola feito a partir de confidências

do Padre Correa de Azevedo e de alguma bibliografia da época (Soares,

2001). No fim do século XVIII um oficial português oriundo do Brasil,

Elias Alexandre da Silva Correa, escreve outra História de Angola

(Soares, 2001; Venâncio, 1996) indicando fontes locais: “algumas fracas

memorias em papeis avulços” – o que significa ter permanecido na

colónia o hábito de escrever sobre a história local, ainda que os escritos

não fossem impressos. No princípio do século XIX um cónego da Sé de

Luanda, que foi deputado às Cortes Constitucionais portuguesas,

Manuel Patrício Correia de Castro, deixou manuscritos os

Apontamentos históricos dos capitulares da Sé Catedral de Luanda //

1 Região norte e litoral de Angola e antiga província do reino do Kongo onde os portugueses primeiro desembarcaram.

Diocese de Angola e Congo, onde fazia o historial da Igreja angolana

desde o século XVII (Soares, 2001). O cónego baseou-se nos arquivos

locais e também em memórias avulsas.

Quando chegamos ao meio do século XIX e a nossa produção literária

começa a revelar-se com mais frequência havia, portanto, um longo

percurso criativo no qual a disciplina de História detinha presença

marcante.

O gosto pela História foi comum a todo o século romântico e, por isso, o

interesse bibliográfico sobre a disciplina manteve-se ou, mesmo,

acentuou-se nesse tempo em Angola. Vários dos nossos escritores

novecentistas deixaram marcado nos seus textos o amor pela História,

entre eles se destacando o poeta e filólogo Joaquim Dias Cordeiro da

Matta (1857-1894) e o polemista José de Fontes Pereira (1823-1875).

Por estes e outros motivos, ao pesquisar a bibliografia literária que

circulava possivelmente em Angola no século XIX registei também a

bibliografia histórica.

Os dados em que me baseio resultaram, não só da consulta de estudos

pre-existentes, também da consulta de arquivos no Recife, em Luanda e

em Benguela. Passo a expor as razões por que me dirigi a tais arquivos

e a descrevê-los sucintamente.

A inclusão da praça de Recife-Olinda era incontornável para quem

estudasse o tema. As relações comerciais entre os dois polos do

Atlântico eram muito intensas ainda durante a primeira metade do

século XIX e tinham já determinado a recuperação de Luanda aos

holandeses em 1648. Um dos escritores angolanos da primeira metade

do século liberal chegou a viver e comerciar no Recife (Arsénio de

Carpo). O primeiro poeta angolano a publicar um livro de poemas (J. S.

Maia Ferreira) teve três primos a estudar na Faculdade de Direito do

Recife, um deles o primeiro licenciado por essa faculdade mais tarde

autor da segunda lei abolicionista brasileira. O principal sócio do pai de

Maia Ferreira retirou-se para a capital pernambucana, vivendo e

comerciando lá, logo após a vitória liberal e até à sua morte. A

circulação de livros a partir da zona de Recife-Olinda para Angola era,

por isso tudo, muito provável e, por essa via, talvez passassem títulos

mais variados do que os oriundos de Lisboa.

Para estudar o mercado do livro na zona de Recife-Olinda existe uma

fonte preciosa, o Diário de Pernambuco, que se começa a publicar em

1825 e segue publicando-se até hoje. Nas suas páginas apareciam

anúncios de livros que se vendiam ou se procuravam. Um dos

anúncios, por acaso de uma oferta de livros, é de um dos primos de

Maia Ferreira. A par deles dava-se também notícia dos navios que

chegavam e partiam, bem como do nome dos passageiros que seguiam

viagem. Por aí, também, pude confirmar a forte ligação entre os portos

de Luanda, ou Benguela, e o do Recife. Esta relação estava por explorar

e mesmo a história da circulação dos livros no Recife não tinha sido

feita.

Muitos dos títulos encontrados nos anúncios do Diário de Pernambuco

eram coincidentes com os que encontrei em Luanda (principalmente na

Biblioteca do Governo Provincial de Luanda fundada com fundos de

escritores, políticos, negociantes e professores no século XIX) e em

Benguela (principalmente estudando os inventários de órfãos de entre

1855 e 1900).

Pude reunir assim uma série de informações muito significativa para

saber que livros podiam ter circulado em Angola entre 1827 (início da

publicação do Diário de Pernambuco) e 1900. Outras fontes me falta

consultar ainda, mas pude ter uma ideia delas a partir de publicações

já existentes (sobre a circulação do livro no Rio de Janeiro e no Brasil

em geral e sobre a circulação de livros em Portugal).

Aqui dou notícia, comentada, de alguns dos títulos mencionados e

relativos à História.

A História abarcava clássicos gregos e latinos, história religiosa, história

natural (mais uma Enciclopédia, um Atlas e um Dicionário de História

Natural), história das revoluções (sobretudo a francesa). Havia para

quase todos os gostos e idades e acentuadamente para gostos

literários. Por absoluta falta de espaço, excluí deste artigo menções às

Histórias Natural, da Filosofia, da Religião (e da Maçonaria, que

também encontrei), da Literatura, concentrando-me na História em

sentido mais estrito. Excluí também as retóricas da História de Dionísio

de Halicarnasso e do Cardeal Saraiva, pensando dedicar-me a elas em

outro momento. Dado o nosso contexto não deixei, porém, de considerar

a

Antropologia histórica e povos africanos

De Lubbock trouxe para a remota Caconda José de Anchieta (m. 14-9-

1897) um livro que o escriba do inventário (de 1899) chamou de “o

Homem antes da História”. O grande naturalista José Félix de Anchieta

era conhecido em Caconda desde 1876, segundo testemunhos da época,

tendo espalhado filhos pelo Centro-sul de Angola. Não sei quando lhe

chegou lá a obra. Mas aqui deparamo-nos com uma das dificuldades da

listagem: a falta de vários elementos e de precisão nas referências. Só

resta uma hipótese: adivinhar a partir do que nos é dado e procurando

nos arquivos disponíveis especialmente os arquivos em rede.

Em se tratando de Sir John Lubbock (1834-1913), talvez o título da

obra fosse, em inglês, The origin of civilisation and the primitive condition

of man, cuja primeira edição é de 1870. Trata-se, mais do que de um

livro de história, de um clássico da Antropologia, um dos primeiros

nesse domínio. A presença do título comprova que José de Anchieta,

apesar dos muitos anos que levava já de Angola, mantinha-se

atualizado em termos de referências bibliográficas e científicas. E

mostra, ainda, a evolução e diversificação disciplinar a que o século XIX

assistiu, em Angola também. De realçar que, depois da morte de

Anchieta, muitos dos livros foram adquiridos localmente e em Benguela,

espalhando-se pela ex-colónia. Ou seja: que as suas leituras foram

partilhadas pelo meio, o que torna mais significativo o seu espólio.

Ele integrava também, junto com outro da mesma época e de Caconda,

um livro que vem contradizer Sir John Lubbock e que foi escrito por A.

F. Nogueira: A raça negra (Nogueira, 1880). O autor é evolucionista

embora não se coíba de criticar Darwin em vários aspetos. Ele parece

inclinar-se inicialmente para o monogenismo, ainda que defenda,

quanto à origem das línguas, uma hipótese transformista e, até,

poligenista. Mas é monogenista no que diz respeito à origem da

humanidade. Acha, no entanto, que, entre as raças (amarela, branca e

negra), nenhuma terá derivado da outra, postulando portanto o

transformismo. Elabora uma discussão principalmente científica,

baseada na leitura de um número reduzido mas significativo de obras.

Os seus argumentos são também de cariz moral bipolaridade que

responde, aliás, à dos adversários. É, simultaneamente, um defensor da

mestiçagem, que podia gerar espécies infecundas mas, geralmente,

gerava espécies fecundas (reporta-se a exemplos do reino animal).

Pensa que são quase infinitas as variações entre as três raças, que

sempre se terão misturado (pelo que fica difícil de saber onde e quando

se tornaram ‘raças’). A. F. Nogueira defende igualmente que ‘os negros’

são capazes de civilização, desde a origem da obra, explicada na

introdução. A “perfectibilidade do negro” é que lhe coloca a pergunta

fundamental para optar entre as várias teorias existentes: “parece-nos

que o único modo de conciliar o facto da perfectibilidade do Negro com

uma teoria científica é o de admitirmos o seu aparecimento mais

recente”. Mais adiante reafirma: “sendo para nós incontestável que o

Negro se aperfeiçoa não vemos outra razão que possa explicar o seu

estado de atraso senão a que emitimos”. No estado em que se

encontram, dada a sua juventude, os negros precisam da ajuda de

outras ‘raças’ para progredirem – e esta é uma legitimação original do

colonialismo. Defende ainda que, sem os negros, o desenvolvimento das

colónias é impossível e impensável e que a sua participação não deve

nem pode limitar-se ao uso do trabalho escravo ou barato, que seria

prejudicial também ao desenvolvimento. Junta argumentos morais

ainda, sobretudo quando refere casos em que os colonizadores

eliminam praticamente os colonizados para substituí-los no

povoamento. Defende que ‘o negro’ deve ser ensinado pelo trabalho,

devidamente pago e esclarecido, pelo desenvolvimento das atividades

agrícolas, mas sobretudo pelo ensino (posição que, em Angola, vinha

sendo defendida desde a segunda década do século XIX pelo

protonacionalista Joaquim António de Carvalho e Menezes). Mais, tal

ensino devia ser primeiro ministrado em línguas africanas. O recurso às

línguas africanas tornava, no seu entender, o ensino “mais prompto e

efficaz” e o estudo das línguas africanas, por parte dos colonizadores

(essencial para desenvolverem a educação nessas línguas), ajudaria os

portugueses a compreenderem os angolanos. Acha, finalmente, que o

destino de todas as colónias é emanciparem-se, pelo que é melhor ter

uma nação amiga, irmã, desenvolvida, com um povo instruído, que

manter a terra pobre, paralisada, com medo de que ela se liberte da

tutela. Orientação esta que, somada à de outros como José de Macedo

(Macedo, 2008), podia ter projetado desde muito cedo Angola no ranking

dos melhores países africanos.

Como vemos, a antropologia histórica incidia principalmente sobre

povos africanos o que é natural em se tratando do mercado

bibliográfico angolano. Ainda sobre África há no Arquivo Histórico

Nacional (AHN), em Luanda, um livro intitulado L’Afrique occidentale…,

a que falta a folha inicial onde se mencionava editor e data. Foi

impresso na tipografia Firmin-Dido-Mesnil (Barret, 1888). O livro,

segundo a introdução, contou com as impressões de uma estada de

quase dois anos no Gabão e de muitas viagens à costa ocidental

africana. Nessa introdução considera Barret que as “raças humanas”

habitantes desta costa (Senegal e Gabão) são “irmãs de origem” (p. VIII).

A perceção que revela do contexto histórico seu contemporâneo, no que

diz respeito aos africanos desses lugares, era politicamente correta (o

prefácio foi subscrito em “Brest, Agosto de 1884”). Explica a

desconfiança do “negro” com a presença do “estrangeiro invasor e rico”.

No final inclui-se um curioso mapa, da responsabilidade dos editores

Challamel, feito em Paris em 1888. Angola integra aí Luanda e

Benguela, do rio Zaire até ao sul de Moçâmedes, mas numa faixa

estreita junto ao litoral portanto ficam de fora o Huambo, Kuando

Kubango, Lundas, a maior parte do Kongo, da Huíla. Junto a Angola, já

inclui o (belga) Estado Livre do Congo. Mas as fronteiras são pré-

conferência de Berlim e o seu desenho prende-se, provavelmente, com

interesses a que essa conferência dará corpo.

Antiguidade

De povos menos jovens havia, num único anúncio do Recife, a história

“dita dos judeus”. Talvez se tratasse da famosa Historia dos judeus de

Flávio Josefo (37-38 c. 100), de que se publicou tradução, de José

Roberto Monteiro de Campos Coelho e Sousa, em Lisboa, em 1792-

1793. A presença de Flávio Josefo representa, não apenas os judeus (e

muitos emigraram para Angola), mas também a cultura clássica greco-

latina, apropriada a partir de uma das suas margens. É nesta colocação

da margem no processo de assimilação a uma cultura central que a

pessoa pública do autor terá mais interesse para o contexto angolano.

No entanto a referência podia ser também à Histoire des juifs depuis la

destruction de Jerusalem jusqu’a ce jour, de Charles Malo François

Lameth (1757-1832), publicada em Paris (Leroux, 1826). Nessa obra há

um interesse suplementar para os africanos, a referência aos judeus da

Etiópia. Ali se lembra que os “Fellahs”, ou judeus da Etiópia, “creem

descender da tribo de Judá por uma antiga colónia ali estabelecida”.

Assegura que “no princípio do cristianismo escolheram chefe próprio.

Cerca de 960 [DC]” tentaram apoderar-se do trono da Abissínia

(Etiópia). Após uma guerra sangrenta foram constrangidos a retirar-se

para “as montanhas escarpadas de Samen, onde eles conservaram a

sua independência” (pp. 332-333). Garante que as suas Bíblias são

escritas “no idioma do país de Geshen por cristãos da Abissínia, que

lh’as vendem”. Recusam-se a discutir a tradução e não conhecem as

versões dos escoliastas. Não possuem o Talmud, nem livros cabalísticos.

Não se ocupam da escrita e simultaneamente perderam a língua e os

costumes hebraicos. Dizem ser o livro de Enoch o primeiro livro

conhecido por eles, sendo o segundo o livro de Job. “Eles observam

escrupulosamente a lei de Moisés, os preceitos dos levitas, as

purificações […] as expiações e os sacrifícios” (p. 334).

Ainda sobre povos antigos aparece na Biblioteca do Governo Provincial

de Luanda o desenvolvido Essai sur le Vêda, de Émile-Louis Burnouf

(1821-1907), que na verdade é um manual de história (numa aceção

muito geral, a mesma de Cantu) e que tem especial interesse para a

literatura. O título completo dá-nos uma ideia mais correta da obra:

Essai sur le Vêda ou études sur les religions, la littérature et la

constitution sociale de l’Inde depuis les temps primitifs jusqu’aux temps

brahmaniques (Burnouf, 1865).

O exemplar encontrado apresenta uma assinatura datada, na folha de

rosto: “Alfredo Moraes, Lx., [?] /4 / 6[?]”. No verso da capa tem um selo

de “J. P. da Silva Rocha / com officinas typographica, e de livreiro /

Rua de Salvador Corrêa / Luanda”. Dada a ortografia, penso que pode

ser alguém do século XIX, mas ainda não consegui saber se houve

então essa casa ali. É provável que existisse, porque dois dos livros dum

bibliófilo luandense do século XIX (Joaquim Eugénio de Salles Ferreira)

possuem assinatura de “Rocha”, anterior à compra. Mas a coincidência

é demasiado ténue para sustentar afirmações, tanto mais que Luanda

está escrito com [u].

Os gregos estão representados por um número bem maior de histórias.

De Pascoal José de Melo (1738-1798), jurista muito conceituado no seu

tempo, anúncios que vão de 1837 a 1845 fazem referência a uma

História da Grécia antiga ou História antiga da Grécia. No entanto não

encontrei, em nenhuma das bibliotecas investigadas, qualquer

referência a este título. A Biblioteca Nacional de Lisboa (BNL) possui

vários títulos de e sobre o autor, mas nenhum homónimo. Deve haver

aqui algum lapso nas referências, apesar de elas se terem repetido com

uma recorrência que durou quase 10 anos. Tratar-se-ia de uma

tradução feita pelo jurista?

Há também menções a Histórias da Grécia, ou da Grécia antiga, mas

sem indicação de autoria. Três anúncios de 1845 referem-se ainda a

uma História da Grécia de Alexander Pope (1688-1744), em inglês. Não

sei se, também aqui, não haverá um engano por parte dos anunciantes,

pois não encontro nenhuma obra homónima, nem em nome do famoso

poeta inglês, nem só em nome de Pope. O livro mais procurado do autor

nos anúncios era o poema filosófico Ensaio sobre o Homem, também em

inglês, ou traduzido por Targine.

A “história de Alexandre Magno” coloca-nos outra questão de autoria,

visto que aparece sem referência a qualquer autor. Quinto Curtius

Rufus (m. 53), que também aparece nominalmente nas nossas

referências, escreveu uma História de Alexandre Magno. Não sei se terá

havido dois livros de autores diferentes a circular com o mesmo título

nesta altura no Recife ou em Luanda, mas parece-me pouco provável.

Para Rufus, a edição mais próxima da época referenciada na Porbase é

a de Veneza (Nicolau Pezzana, 1744). A mais próxima data de

publicação de um título homónimo, nos ficheiros que pesquisei, é

porém a Historia de Alexandre Magno

,

impressa em Lisboa, na Reg.

Offic. Typografica, em 1789. Trata-se de uma edição em dois vol’s, como

aquela que foi oferecida em 1840 ao Gabinete Literário do Recife (por

um primo de Maia Ferreira) e não há menção de autor na ficha

bibliográfica. A obra de Rufus circulava, porém, no Recife em 1840 e

1845, pelo que o autor pode ter sido lido em Angola.

Ela reforça o caráter literário da historiografia clássica, ora imaginando

as falas das personagens históricas, ora criando suspense e

manipulando a sede de exotismo dos potenciais leitores (recordemos

cenas como a do aparecimento de Dário no livro III [final do cap. III]; ou

a descrição da Índia, com rios por onde corre o ouro e mares a depositar

pedras preciosas nas areias enquanto os pássaros imitam a voz

humana; ou ainda as descrições luxuriantes, como aquela do livro IX,

em que fala de serpentes maiores do que homens, lembrando-nos as

histórias de animais de Cadornega). O seu estilo era dominado por

antíteses, elipses “estudadas”, “períodos de efeito”, “movimentos

oratórios e patéticos” (o autor, aliás, pode ter sido professor de retórica).

A componente exótica, a busca do colorido, o culto das antíteses e do

patético, bem como o público a quem mais agradava, encontram

afinidades no período romântico estudado.

Salústio (87? 86? 35 AC) está mais presente no corpus do que Rufus.

Embora mais antigo, pertencendo à época de César (tinha menos 3 ou 4

anos que ele, que o nomeou procônsul e governador da Líbia), não era

propriamente um clássico, ou melhor, dentro dos clássicos foi original e

inovador além de verdadeiro escritor.

Lia-se e anunciava-se em latim, “ao pé da letra” ou mais longe dela,

havendo várias edições que podem ter circulado no eixo Recife

Luanda, ou mais genericamente Angola Brasil. O professor José

Valentim da Silva, no ano de 1845, dava a obra de Salústio na aula

pernambucana de latim e era provável que, nas que tivémos desde o fim

do século XVIII, acontecesse o mesmo. Em português a trad. de Miguel

le Bourdiec, publicada em 1820 em Lisboa, e a de Barata Feio,

publicada em Paris em 1825, são as duas cronologicamente mais

próximas. Em latim há as de 1818, de Lisboa, de 1820, de Londres, de

1823, de Paris, de 1825, de Londres novamente, de 1826, de

Edimburgo, de 1834 (de J. Dymock, com notas e ilustrada), havendo

ainda em 1840 uma edição de C. H. Weise. Na Biblioteca Nacional do

Rio de Janeiro há uma edição latina de 1491 mas, não conhecendo a

história do exemplar, não sei se ela terá circulado por ali na época em

estudo. Provavelmente veio nos baús de D. João VI e por ali foi ficando,

contribuindo a seu modo para a independência do Brasil…

Dizem dele que foi Salústio o primeiro do seu tempo a “tratar a história

como [

]

algo mais que uma simples crónica de acontecimentos”. Isto

porque procurava encontrar as causas dos acontecimentos. Apesar de

primeiro, entroncava assim com Políbio, nascido em Megalópolis, na

Arcádia, em 204 AC e, segundo Viale, “o criador do pragmatismo

didático, isto é, do modo de escrever a história que, expondo as causas,

ocasiões, circunstâncias e consequências dos acontecimentos,

subministra ao leitor uma importante instrução política e militar” (Viale,

1868).

Salústio no entanto se distinguia por estudar o caráter dos povos

envolvidos, a psicologia coletiva, ao mesmo tempo em que inaugurava,

para o seu tempo, a análise psicológica individual e “o culto da

personalidade de exceção(Paratore, 1987: 294). Retratos como o de

Catilina e de Semprónia demonstram a sua habilidade na caraterização

sugestiva das personagens que tanto ocupou os historiadores lusófonos

do século XIX.

Em termos estilísticos, Salústio usa uma linguagem viva, sucinta,

incisiva (em grande parte sustentada sobre a colocação certeira dos

adjetivos), apesar de por vezes arcaizante. A atenção do leitor é

concitada por efeitos de surpresa, pela dissimetria (quiasmos,

zeugmas, lítotes, etc.) e sustentada por um especial sentido do ritmo. A

concisão narrativa, as pinceladas ou toques rápidos das suas

descrições, sobretudo quando narra movimentos e reações de uma

multidão, intercalados com as análises psicológicas criavam um ritmo

narrativo dinâmico e sugestivo. Todos estes traços eram apreciados

durante o romantismo lusófono e muitos os praticaram na História, na

Oratória e na Lírica.

Algumas das propostas políticas calariam também fundo na época em

estudo, por exemplo a defesa do voto secreto no Senado, a proposta de

cortar o poder da oligarquia e estender o direito de cidadania

A justificação que dá para narrar a guerra contra os númidas é

ilustrativa e parece respeitar uma exigência de Dionísio de

Halicarnasso: em primeiro lugar porque foi uma grande guerra; em

segundo lugar porque esteve indecisa (o peso do fator surpresa atinge,

portanto, a própria escolha do tema) e, sobretudo, porque pela primeira

vez nela a plebe se opôs ao poder dos nobres. Deve ter sido, por isso

também, autor lido com atenção em pleno século liberal e também

socialista, quer em Angola quer no Brasil. A paixão política que

transparece nos seus escritos (apesar da objetividade histórica) seria

outro fator de atração para o leitor romântico típico.

Uma referência menos importante da historiografia clássica, Eutrópio

(m. 399), circulava no mercado do Recife. Vendia-se e comprava-se sem

menção à língua da edição, ou em latim. A edição portuguesa mais

próxima que conheço, em latim, do Breviarium historiae romanae, é a de

1824 (Lisboa, Tip.ª Régia). Há depois um Resumo em português, de 129

páginas, feito por João Félix Pereira. Talvez algum exemplar desse

Resumo da história romana ajudasse os alunos da época e circulasse

portanto ali. Outra hipótese, para exemplares em latim, é a da edição de

C. H. Weise, de 1828.

A obra de Eutrópio é de facto sucinta. Quanto ao seu estilo, em 1898 o

Harpers dictionary of classical antiquities classificava-o de “sem

elegância nem ornamento”, enfim, próprio de um soldado. Através de

capítulos ou parágrafos em geral curtos, ele narra os acontecimentos

limitando-se a anotar a sucessão de factos, quase sempre sem opinar.

Veja-se este exemplo: Manlius, sendo portanto bem sucedido, trouxe

Hasdrúbal e seus outros prisioneiros a Roma. No interim, Filipe foi

derrotado também por Laevinus na Macedonia, e Hasdrúbal e Mago,

um terceiro irmão de Hannibal, pelo Cipiões em Hespanha. Parece um

relatório ou resumo de campanha. O interesse do livro reside apenas

em factos históricos que só ele reporta o que não lhe terá trazido

consequências literárias, nem à pequena elite angolense do século XIX.

Escrita por autor mais recente foi a “História Romana” de Oliver

Goldsmith (1728-1774). Na Porbase, a tradução mais próxima, no

tempo, da Historia Romana desde a fundacão de Roma até à decadência

do império romano no Occidente, é a que a tipografia rollandiana

publicou em 1806-1807. A menção à tradução consta só de uma das

referências, uma oferta ao Gabinete Literário do Recife (feita pelo primo

de Maia Ferreira). As outras referências não dão sinais acerca da língua

em que o exemplar estava escrito. As reedições inglesas sucederam-se

desde o fim do século XVIII e ao longo do seguinte, incluindo uma

versão abreviada pelo autor para uso das escolas, de que há edição em

1832 e 1840. As edições com data mais próxima das referências são as

de 1820 (ano em que saíram pelo menos duas: London: John Bumpus ;

R. N. Rose. Canandaigua: J. D. Bemis & co.), de 1821 (London:

Richardson & Co.), de 1823 (London ; Edinburgh: William Baynes &

Son ; H. S. Baynes & Co.) e de 1826 (Philadelphia: J. Grigg). Para além

do francês e do português há traduções desta obra para espanhol, grego

e italiano na mesma época.

Uma vez que há várias menções a histórias romanas sem referência de

autor, em inglês, em latim, em francês, ou ainda em compêndio, e uma

vez que há edições da obra de Goldsmith em francês e inglês, bem como

do compêndio, é de pensar que algumas dessas menções se

reportassem ao livro dele ainda. A edição em latim, essa, deve ser de

algum dos autores clássicos citados, talvez Salústio, que era o mais lido

e procurado.

Oliver Goldsmith foi mais um homem do século das Luzes cuja

bibliografia atravessou todo o seguinte. A sua formação académica era

em Arte (bacharel) e tornou-se muito conhecido como escritor, em

especial com a obra The vicar of Wakefield (1766), traduzida em, pelo

menos, francês, inglês, italiano e português 2 . Escreveu também uma

História natural e respetivo resumo para as escolas, uma outra da

Grécia (igualmente com versão para as escolas, organizada pelo próprio

autor e de que há menção, na Porbase, a uma edição de 1834), outra da

2 É anunciado ainda 7 vezes no Jornal do comércio, do Rio de Janeiro, em 1844. Mais do que o Telémaco ou as Aventuras do imperador Carlos Magno.

Inglaterra, para além de inúmeros títulos espalhados por vários

géneros. As edições inglesas são mais uma vez muito numerosas e

várias delas podiam ter circulado naquele momento no Brasil, se não

em Angola.

Versando, mais uma vez, uma época particular do império romano,

surge a “História da Decadência e da Queda do Império Romano” (sem

menção de autor, editada por François Guizot, ou de Gibbon, em inglês

e também em francês). A obra homónima famosa na época era a de

Edward Gibbon (1737-1794), cujo primeiro volume saíra já em 1776,

sendo publicados os últimos em 1788. Foi traduzida em espanhol,

francês e italiano no período em estudo (ou seja: em todas as línguas

consultadas para além, claro, do inglês). A tradução em francês pode

ser a de Guizot, de que há edição parisiense em 1819 (Lefévre) e em

1828 (Ledentu) ou pode não ser, visto que há várias traduções para o

francês na época (1777-1791; 1795; 1837). Um exemplar encontrado na

Biblioteca Municipal em Benguela (fundada no século XX, com apoio da

Fundação Gulbenkian) é o da edição Ledentu, de 1828. Tem carimbos

da Biblioteca Municipal de Benguela (Catálogo Geral) e da Biblioteca

Provincial de Benguela (que é o nome da Biblioteca depois da

Independência). Tratando-se da 2.ª ed. de Guizot convém sublinhar

que, para além dos “acrescentos”, “esclarecimentos” e “retificações” da

primeira, ela resulta de revisão completa, de uma correção e do

acrescento de uma notícia inicial sobre a vida e a personalidade de

Gibbon, sendo “acompanhada de notas críticas e históricas relativas, na

maior parte, à história da propagação do cristianismo”. Em inglês há

compreensivelmente mais edições, sendo as mais próximas as de 1816,

1829, 1836 e 1840.

Gibbon teve autoridade no “século das Luzes”, também reconhecida em

França e na Alemanha em pleno século XIX e é interessante notar que

foi re-editado até hoje. Escreveu um Ensaio sobre o estudo da literatura,

de que houve edições francesas ainda no século XVIII (1761, 1762) e

uma autobiografia. A sua conversão ao catolicismo deve tê-lo tornado

simpático aos olhos da Igreja, que na altura detinha ainda uma

significativa quota no mercado de ensino pernambucano e angolano.

Mesmo depois da descrença na qual caiu, foi considerado pelo Cardeal

Newman o único escritor inglês que podia alcançar o estatuto de

historiador da Igreja.

No entanto foi sempre a obra referida pelas nossas fontes que o

manteve conhecido, mesmo amado. Em 1967 ou 1968, Jorge Luís

Borges, comparando historiadores e romancistas, afirma que “todos os

verdadeiros historiadores” sabiam “que podiam ser tão imaginativos

quanto os romancistas” e dá como exemplo Gibbon: “o prazer que

desfrutamos dele é bastante afim ao prazer que desfrutamos da leitura

de um grande romancista. Suponho que ele tivesse de imaginar as

circunstâncias. Há de ter tomado a si mesmo como tendo criado, num

certo sentido, o declínio e a queda do Império Romano. E o fez de modo

tão magnífico que não me interessa aceitar nenhuma outra explicação”

(Borges, 2007 p. 121). Para além de nos aduzir mais uma razão para

acreditarmos nos benefícios que a ciência tira da arte, esta afirmação

abre via para percebermos os mais fundos motivos da prolongada

popularidade e universalidade de Gibbon.

A focagem sobre o Império leva-nos sobretudo à história do cristianismo

no Império. Mas não só. Veja-se por exemplo a visão que nos transmite

do Império antes da decadência: visão idílica, por ela usa a história para

apregoar um modelo político. Entende que o Senado cumpria a sua

função de legislar e aprovar, o Imperador cumpria, com habilidade e

virtude, a função de governar e logo aí vemos uma distribuição de

poder a funcionar idealmente, sem interferência de um sobre o outro

todos viviam em paz, livres e contentes, embora na luxúria que a paz e

a prosperidade proporcionavam. Dominava-os um saudável patriotismo,

que era o amor pelo progresso e o desenvolvimento de um governo

livre

Isto faria as delícias dos românticos liberais e monárquicos (o monarca,

no Brasil, chamava-se Imperador). A obra tem no entanto mais pontos

de interesse, um dos quais é sem dúvida o da grande diversidade de

tempos e espaços ali referidos. O autor não se limita a falar do Império

Romano do Ocidente naquele tempo, podendo apanhar-se passagens

em que fala da Sibéria, ou dos desertos árabes no século VII, etc. Sem

dúvida que essa mobilidade contribuiu também para que tivesse tantos

leitores no século XIX, não apenas a defesa das ideias liberais mas o

preenchimento de imaginações férteis, de algum exotismo, do horizonte

de expectativas dos leitores dos livros de viagens, para além claro da

aprendizagem acerca daquele período da história romana. É também

uma história que procura causas para a decadência e a queda, entre

elas a moral (corrupção de costumes, generalização da luxúria), mas

também causas económicas e sociais, como a do aumento das taxas e

impostos, e causas culturais, como a do avanço do Cristianismo.

A par da admiração pelo funcionamento democrático do Império, o

historiador apresentava-se numa postura conservadora e elitista, que se

nota nos comentários à Revolução Francesa, que terão agradado a uma

parte da elite angolana e brasileira da época, ligadas ao império do

Brasil ou à monarquia portuguesa. A desmitificação da ideia de que

somos todos iguais é clara: chama a tal ideia “uma velha superstição”.

Num aspeto particular também nos interessa a sua obra. Refiro-me ao

que diz sobre Messalina, reforçando o retrato feito por Juvenal, Tácito,

Suetónio e pelos primeiros cristãos. O soneto homónimo de Cordeiro da

Matta, um dos nossos dois grandes poetas do fim do século XIX, pode

resultar igualmente de, ou basear-se em, uma leitura de Gibbon

(Soares, 2010; Matta, 2001). Tanto mais que o autor manifesta várias

vezes um pendor historicista.

Por fim, a poética e a retórica por ele defendidas reforçam, no contexto

romântico, a sensata e antiga defesa da associação entre a escrita como

“espelho da mente”, ou da pessoa (que o romantismo reforçará), e como

fruto acurado do trabalho sobre a linguagem.

De Michelet (1768-1874) circulava no mercado pernambucano, em

1845, a Histoire romaine republique, de que só encontrei referência, na

Porbase, a uma 4.ª ed., de 1866 (Paris) 3 . No catálogo da Biblioteca

Nacional de França há referência à edição francesa de 1833 e à 3.ª ed.,

de 1843. Dado que o anúncio é de 1845, qualquer das duas últimas

podia estar representada ali.

Jules Michelet foi professor de História no Collège de France, mas era

sobretudo um homem de paixões políticas exacerbadas. Sendo

contemporâneo, os seus escritos tinham um interesse acrescentado na

época, tanto mais que já o seu pai fora vítima do consulado

napoleónico. Defendeu um “liberalismo pequeno-burguês”, sendo ao

mesmo tempo um anti-clerical “de cepa voltairiana”. Doutorou-se em

letras em 1818 com duas teses, uma das quais sobre as Vies de

Plutarco. Plutarco (50 DC, Beócia) é de resto uma presença comum

também nestas paragens e por esse tempo.

Les vies des hommes ilustres foi traduzida por “Ricard” (que lhe faz a

biografia) com o “patronato” do episcopado. O tomo existente em

Luanda é, sintomaticamente, votado a um grande orador: Demóstenes.

Homem viajado, escrevendo sobre filosofia, moral, ciência (da época) e

história, narrador elogiado por Rousseau (Pinheiro, [1873] pp. 44-45),

ele constituía mais uma ligação entre o meio literário angolense, ou

recifense, e Michelet, que de resto influiu decisivamente sobre os

realistas portugueses (Braga, 1877 p. 17).

3 O Catálogo da livraria de Antero de Quental indica a data de 1876 para a 4.ª ed.

Enquanto historiador Michelet era um romântico típico, interpretando

os acontecimentos e descrevendo-os “com grande poder evocativo”,

seguindo instintivamente as suas emoções e acreditando

mediunicamente na “voz do povo” contra a da nobreza. A sua história

da república romana, publicada em 1831, tem um estilo vivo e claro e

introduz em França, com originalidade, as ideias que Niebühr (nascido

na Dinamarca) tinha professado na Alemanha. Apesar disso, apresenta

pontos de vista próprios juntamente com a pesquisa efetuada.

A sua obra reforça no meio local a tendência para uma escrita viva,

pouco retórica, presente na nossa literatura da segunda metade do

século, sobretudo nos polemistas.

As considerações sobre a cultura latina e a importação da cultura

grega, por sua vez, haviam de suportar uma visão crítica acerca das

próprias fontes latinas lidas na época. Diz, por exemplo, que “l’histoire

était généralement pour les Romains un exercice oratoire’’ – no que

tinha em geral razão, confirmada como vimos por Dionísio de

Halicarnasso, que estende essa caraterística aos gregos seus

antecessores.

Tempos menos antigos

Passando à crónica de nações mais recentes, destaco a de França, pelas

paixões políticas que suscitava. Neste, como em outros assuntos, o

interesse generalizado fazia aparecer os abrégé. Nas listas de referências

do Arquivo Histórico Nacional (AHN) faz-se menção a um Abrégé de

l’histoire de France mas não deu para ver o nome do autor, que podia

ser Chateaubriand (neste caso o título completo seria: Abrégé de

l'histoire de France détaché textuellement des études historiques [Paris:

1836]). Com esse título e sem indicação de autor os ficheiros da

Biblioteca Nacional de Paris (BNP) indicam um primeiro exemplar, um

outro sem nomeação de local, nem data, nem autor e, ainda, um

terceiro impresso em 1860 (de Leon Contenseau). Com esse título inicial

havia uma obra de Bossuet, de que se encontram, na BNP e na BNL,

exemplares da 1.ª edição (Bossuet, 1747). Não se indica, no índice do

AHN (não foi possível ver a obra), o número de vol’s, que nos permitiria

verificar se era ou não a edição que está na BNP e na BNL (e que tem 4

vol’s).

Em 1834 saíra uma edição com título idêntico (igualmente mais

extenso) tendo como autor Millot (1726-1785) e como editor científico

Claude-Charles Chelle (Paris: 1834) de que há exemplar na BNP.

Millot surge ainda nas nossas fontes (Benguela: 1855, 1856; e Recife:

1837-1845) enquanto autor de uma “História Universal” que competiu

com a de Bossuet (Luanda: 1852; Recife: 1837-1845), ultrapassando

ambas em referências todas as outras histórias ‘universais’. No entanto

não encontro título correspondente entre os livros de Millot, apenas

anúncios em jornais que referem 10 e, até, 11 vol’s (Paris: 1809) da sua

História universal todos presentes no inventário do espólio de

Benguela de 1855 e o primeiro no de 1856.

Nas nossas fontes, em outros casos as indicações são mais precisas. É

o que se passa com Mignet.

François Auguste Marie Alexis Mignet (1796-1884) foi um historiador

francês e da história da França, conhecido e reconhecido institucional e

publicamente, que deixou também a sua presença assinalada no

mercado livreiro do Recife, em 1840 e 1845. Das várias obras que

escreveu, a que chegou até lá foi a História da revolução francesa de

1789 a 1814, publicada em 1824. As paixões e a curiosidade suscitadas

pela Revolução mantinham este interesse, aliás globalizado, pois da

obra se fizeram traduções para alemão, espanhol, inglês, italiano e

português (ou seja: todas as línguas pesquisadas). Em francês há uma

edição de 1835, a 6.ª, referenciada na BNL, em 2 vols como a de um

dos anúncios do Diário de Pernambuco. Mas em Paris, pela mesma

editora e também com 2 vols, saiu ainda uma edição em 1836. Uma vez

que essa é dada como a 6.ª ed., talvez se trate da reimpressão da de

1835. Pela data, era provavelmente esta a edição e reimpressão que se

vendia e se comprava no Recife. Há uma posterior, dada como a 11.ª

(em 1838), que vem aumentada com a história da Restauração até Luís

Filipe I, mas o anúncio em causa não refere tal acrescento e,

normalmente, para destacar e impressionar, os anunciantes referiam

isso. Há uma tradução portuguesa da mesma data, em 3 vol’s como em

outro dos anúncios, que foi feita por A. V. de C. E. e Sousa (de quem se

vendia um volume de poesias em 1845). O anúncio é também de 1845 e

não refere o autor da tradução, pelo que ficamos sem saber, ao certo,

qual será a tradução.

Mignet era um moderado, que deplorava a época do Terror mas

considerava que a Revolução era a necessária consequência do

ambiente social e económico anterior. Editou, com o seu amigo Thiers, o

diário liberal National e ajudou a derrubar Carlos X na revolução de

1830. Enquanto jornalista foi redator do Constitutionnel, do Courrier

français, da famosa Revue des deux mondes 4 e do Journal des savants.

A sua presença reforçava, portanto, as hostes liberais e moderadas.

Como temos visto e tornaremos a ver, não era o único.

Adolphe Thiers, o companheiro e amigo de Mignet, frequentava ainda

mais do que ele, entre 1837 e 1845, o mercado livreiro do Recife através

de uma obra homónima, que me parece ter sido na época mais popular

e mais traduzida pelo menos a julgar pelos ficheiros das bibliotecas

consultadas. As altas funções desempenhadas por Thiers, mais que a

sua vida como advogado ou jornalista, terão facilitado a divulgação das

obras respetivas, que também vemos em dois espólios de Benguela

(1855 e 1856).

A Histoire de la révolution française tinha 10 vols e foi saindo entre

1823 e 1827, participando da afirmação do liberalismo francês pós-

4 Miguel Martins Dantas colabora neste periódico e no Constitutionnel a favor da causa liberal portuguesa (v. Eduardo Honório Cartas a Garrett. Maia: CMM, 2000. pp.

96-99.

revolucionário. Nos anúncios faz-se menção a 4 vol’s, 6 vol’s e até 1 vol

Logo em 1828-1829 sai outra edição, daí seguindo-se, até 1856 (última

menção à obra nas fontes consultadas), as de 1832, 1834 (todas em 10

vol’s), 1836 e 1837 (em 5 vol’s), 1838 (novamente em 10 vol’s), 1839

(com 4 vol’s e um Atlas), 1841, 1842, 1845 (10 vol’s, novamente), 1846

(8 vol’s), 1850 (sem indicação do número de volumes, como no espólio

de Benguela de 1856), 1851, 1853 (4 vol’s outra vez), 1854 (em 10 vol’s).

A edição de 4 vol’s, anunciada em 1842, deve ter sido a de 1839, em

que (como nas outras) se junta uma Histoire de la révolution de 1355

), (

creio que de Félix Bodin (1795-1837) e que foi traduzida para inglês

também. A de 6 vol’s, anunciada sem menção ao autor em 1840 no

Recife, pode ser uma das edições de Bruxelas, que tinham 6 vol’s e

saíram em 1834 e 1838. Estas edições é que tinham só por título

Histoire de la révolution française. A obra foi traduzida em português,

saindo também em 6 vol’s, mas em data posterior a 1840 (1841-1843

para a 1.ª ed.). A menção a 1 volume só refere-se, provavelmente, a um

dos dez, oito, seis, cinco ou quatro que circulavam. Ela aparece num

inventário orfanológico de 1855 e o inventariante só deve ter encontrado

um volume ou, por lapso, em vez de “10” colocou “1”. Outra hipótese é

tratar-se do resumo intitulado História completa da revolução franceza

desde 1780 até 1815. Precedida de um resumo da história de França

desde o princípio da monharchia: resumida da obra de Thiers / por um

brasileiro e que se encontra em mau estado na Biblioteca Nacional de

Lisboa. O volume saiu no Rio de Janeiro, pela Laemmert, em 1848.

Sendo esse o caso, reforça-se uma das hipóteses em que me baseei para

este estudo, a saber, a de que o mercado brasileiro, mesmo no que diz

respeito a edições brasileiras, mantinha uma presença ativa nas

bibliotecas angolenses do século XIX (e, pelos vistos, mesmo nas

portuguesas).

De Norvins, ou sem menção de autor, aparece nove vezes a História de

Napoleão. Três em espólios de Benguela de 1855, 1856 e 1873; as

outras seis em anúncios no Recife. Jacques Marquet de Montbreton,

Barão de Norvins (Paris, 1769-1864), foi diplomata e soldado, para além

de chefe da polícia no governo napoleónico de Roma, entre 1810 e 1814.

Foi um apologista de Napoleão durante a Restauração. A procura da

sua História, mais requisitada do que qualquer outra para o mesmo

assunto, pode portanto significar a simpatia que suscitava a figura de

Napoleão naqueles meios, figura que motivou muitos poemas no mundo

lusófono. Simultaneamente, a obra de Norvins foi a primeira biografia

séria de Napoleão, o que pode constituir motivo de leitura e de procura.

A presença da sua obra não significa, portanto, necessariamente,

simpatia pela figura de Napoleão, nem muito menos pela Revolução

Francesa mas apenas a curiosidade em colher informações sobre essa

grande personagem da História. Norvins possui vários títulos dedicados

a esta época e à História de França e uma edição parisiense dessa

História podia ter sido comercializada, sob anonimato, no Recife. Saiu

em dois vol’s, entre 1837 e 1839 (Paris: Furne & C. ie ).

Da História de Napoleão de Norvins saiu também, em 1837 e em 1839,

uma outra edição, que seria a sétima (em quatro vol’s, ao que parece,

como a primeira) e outra ainda mais tarde, que seria a 11.ª (em dois

vol’s esta), feita sobre a segunda, que foi revista, corrigida e aumentada.

Havia uma edição mais antiga, de 1827-1828. Em 1829 tinha já saído

uma 3.ª edição, também revista, corrigida e aumentada pelo autor, que

é outra hipótese possível. Há uma tradução portuguesa, de 1841-1842

(que só serviria para os anúncios de 1845 do Recife e para os espólios

de Benguela) e há traduções para espanhol (em 1834; em 1835 saíram

uma em Valência e outra em Barcelona) e para italiano. A referência

benguelense de 1873, que é a uma edição em 4 vol’s como as outras

que li no mesmo local, pode ser a de 1868, se escrita em francês; ou a

portuguesa a que já fiz referência e que certamente é a que aparece nos

inventários de 1855 e 1856 em Benguela.

O militar português Alberto Marques Pereira (que também serviu na

Índia), escreveu de Angola (onde residiu vários anos) um poema

dedicado ao caudilho francês que é sintomático das nossas redes de

leitura nesse tempo. O brasileiro Caetano Lopes de Moura, sob um

título que remete para a História de Napoleão, não retirando

(acentuando mesmo) grandeza à personagem, escreve esta frase, que

parece ter sido lida por Alberto Marques Pereira: “caiu dele [do trono] o

grande homem, caiu” (Moura, 1846 p. 424). E, no parágrafo em que a

escreve, resume a biografia do Imperador de tal forma que o soneto de

A. M. Pereira parece um resumo dela. É de supor que Alberto Marques

Pereira tivesse lido o brasileiro e teria falado na sua obra nos anos

angolenses da sua carreira.

A “História Secreta do Gabinete de Napoleão”, pedida em 1840 por um

anúncio no Diário de Pernambuco, embora não indique nome de autor,

deve ser a homónima de Lewis Goldsmith. Ao contrário da anterior,

esta obra dava-nos uma visão muito crítica do protagonista,

particularmente no que diz respeito aos anos de guerra. O autor devia

estar bem informado sobre muitos assuntos, pois foi notário e

intérprete nas Cortes de Justiça e no Conselho dos Presos. Este é,

portanto, mais um livro que reforça uma visão moderada, quando não

crítica, da revolução francesa e do império napoleónico. Uma das

edições foi traduzida (do inglês) por Joaquim José Pedro Lopes

Historia secreta da corte, e gabinete de s. Cloud, ou de Buonaparte. Em

huma serie de Cartas, escritas durante os mezes de Agosto, Setembro e

Outubro de 1805 por hum sujeito residente em Paris a hum Nobre de

Londres (Goldsmith, 1810). O tradutor veio a fazer carreira política e

científica de sucesso após 1822 e, portanto, a sua presença reforça as

fileiras dos liberais encartados. O bibliógrafo português Inocêncio

Francisco da Silva (I, 380; IV, 107) menciona a existência de várias

edições, que foi censurada logo em 5.10.1811 (ano em que veio a

público uma tradução anónima, em Londres, na oficina de H. Bryer).

Em dois anúncios (1840), há menções à história do “gabinete preto” de

Napoleão, o que pode apontar à mesma obra do parágrafo anterior (esta

era anunciada em Maio e a anterior em Abril).

O que, porém, pude ver nos ficheiros consultados foi uma história do

famoso gabinete sob várias direções políticas, não apenas a de

Napoleão. Essa história foi escrita pelo Conde d’Herrisson, que nasceu

em 1840, data da publicação do anúncio, pelo que não consigo saber de

que obra se tratava. Há outras com títulos parecidos apenas em parte e

que, por isso, me parece arriscado associar a este.

Com o título História dos girondinos encontra-se no espólio de 1856, de

Benguela, um exemplar, referente a uma edição em cinco vol’s. A

curiosidade sobre os companheiros de Condorcet acentua a nossa

intuição sobre o cariz moderado da bibliografia relativa à revolução

francesa. O título homónimo conhecido na época seria o de Lamartine

(1847), poeta cujo nome Salvato Trigo assinala como um dos mais

influentes para José da Silva Maia Ferreira, que lhe chamava “Cisne da

França” (Trigo, [1992?]). No poema em que surge o epíteto a referência

é, porém, o “canto épico, La Chute d’un Ange”, que mais tarde Camilo

Castelo Branco chama para título de um dos seus romances. Gerald

Moser, no prefácio para que Salvato Trigo remete, indica Lamartine

como um dos “melhores modelos” de Maia Ferreira. A presença desta

obra, se é mesmo de Lamartine, vem reforçar a presença deste escritor

em Angola a meio do século.

Atravessando o canal encontramos muitas histórias de Inglaterra e da

reforma protestante lá, mais que as de França, e uma “História dos

Puritanos da Escócia”.

Uma das figuras que despertava interesse nos historiadores e leitores

era a de Cromwell. Essa motivação estava representada em Angola pela

Histoire de Cromwell, d’après les mémoires du temps et les receuils

parlementaires, de que se preservaram na Biblioteca do Governo

Provincial de Luanda os dois vol’s. O autor era Abel François Villemain

(Paris, 17901870). Villemain era muito conhecido como literato e

estudou igualmente a eloquência (o trabalho sobre Montesquieu, por

exemplo, é brilhante na caraterização estilística do escritor). A História

de Cromwell que nos legou ensinava, portanto, pelo estilo e não só pelo

cuidado investigativo, sublinhado logo no subtítulo. Sendo um

romântico moderado e um pouco mais velho que os seus companheiros,

e sendo um liberal da Restauração (vê em Montesquieu, por exemplo, o

paladino da felicidade pela justiça, consistindo esta no respeito pelos

direitos individuais), a sua presença reforçava em Angola a ala dos

românticos liberais e moderados, por assim dizer canónicos (Villemain

foi um dos mais influentes académicos do seu tempo), apesar da firme

crença no “instinto do génio”. É de sublinhar ainda que, jornalista, ele

apelou com Chateaubriand e outros à liberdade de imprensa, o que lhe

trouxe custos e ganhos políticos e poderá ter chegado notícia disso a

Angola, reforçando a imagem do liberal, que justamente criticava em

Montesquieu a defesa do despotismo iluminado.

Sobre outros acontecimentos relativamente recentes há a “História

das origens dos governos representativos da Europa”, de François

Guizot (1787-1874), que reforça a preocupação com a democracia. O

livro baseia-se em palestras proferidas pelo autor entre 1820 e 1822.

Sintomaticamente surge no significativo espólio bibliográfico de 1856,

de Benguela. Na Biblioteca do Governo Provincial de Luanda aparecem

também, de Guizot, os vol’s I e V da Histoire parlementaire (há uma

edição de 1861 que tem, pelo menos, cinco vol’s). Surge ainda o Curso

de História Moderna” do mesmo Guizot, num anúncio de Fev.º de 1842

do Diário de Pernambuco. Note-se que o pai de François Guizot foi

executado no período do Terror em França, sendo conhecido o

liberalismo moderado do filho que não partilhou a revolução de 1848,

muito pelo contrário se exilou nessa data. A sua presença dá-nos

portanto sinal, mais uma vez, da importância dos autores liberais

moderados (lembre-se que ele se opôs ao voto univeral por achar que o

povo ainda não estava capaz de exercer esse direito).

O Essai d’une philosophie de l’Histoire, de (Auguste Theodore Hilaire)

Barchou de Penhoën, “membro do Instituto” sem que se diga de

qual, dá-nos uma história mais abrangente, que (no volume encontrado)

vai dos romanos aos seus contemporâneos (parte a que chama de

história do futuro), terminando por dissertar sobre «O homem e o

universo». Encontra-se na Biblioteca do Governo Provincial de Luanda o

tomo II (Penhoën, 1854). Infelizmente nada, no exemplar, nos permite

refazer o seu historial.

Descendo para a Península, há muitas histórias de Portugal, incluindo

algumas relativas a acontecimentos quase coetâneos, ou a reis antigos,

ou ainda à Inquisição. Uma que particularmente se prende com o nosso

contexto é a Bibliografia histórica de Portugal e do Ultramar. Aparece no

espólio de Benguela de 1856 e apenas se indica tratar-se do vol. I. Não

encontrei livro homónimo. Curiosamente, nesse mesmo espólio, faz-se

referência a uma obra quase com o mesmo título: Biblioteca histórica de

Portugal e do Ultramar. Creio que se trata de uma série, ou de uma

coleção, mas não de um livro. Houve de facto uma coleção chamada

Bibioteca histórica de Portugal, que tinha uma série Ultramarina e dois

títulos dessa série deviam fazer parte do espólio em causa, muito rico

aliás. A referência deve, portanto, enquadrar-se na historiografia

africanista, referida mais abaixo.

Atravessando o Atlântico lusófono há também, como seria de esperar,

várias do Brasil e não só em português. Há anúncios relativos a

Francisco Solano Constâncio, “Beauchamp”, Richard Santhey e sem

menção de autor (incluindo um “resumo”). Surge uma história da

“descoberta e conquista” da América, de Joachim Heinrich Campe e

outros (1746-1818), em português (Campe, 1836). Nesse âmbito

figurava ainda outra obra, relativa aos portugueses no “novo mundo”, a

par do “diário de navegação de Pedro Lopes de Souza ao Brasil em

1500” (Souza, 1530). A crónica local de sucessos mais ou menos

recentes estava representada, no Recife, pelos anais do Rio Grande do

Sul.

A América não era só o Brasil, claro. Há um título curioso na Biblioteca

do Governo Provincial de Luanda, que é L’homme américain. Não dá,

infelizmente, para ver a data, o local, o nome do autor, outros elementos

que podiam ser preciosos para a história do exemplar, porque lhe foi

tirada a capa, tal como a folha de rosto e outras mais. No final há

desenhos e riscos, muito elementares, a lápis.

O livro é introduzido por uma carta do autor ao Barão Alexandre von

Humboldt, que era o seu mecenas mas também essa folha está meio

rasgada. Alexandre Von Humboldt era o irmão mais novo do filósofo,

linguista e político alemão Wilhelm von Humboldt. Interessava-se por

biologia, química e outros aspetos, sendo um naturalista e um

explorador. Reuniu em seu torno um pequeno grupo de cientistas:

escreveu, com Elisabeth Cary Agassiz, Voyage au Brésil 1865-1866),

Matthew Fontaine Maury e Aimé Bonpland. Pode eventualmente ser a

má tradução de algum livro ou parte de livro de Louis Agassiz, o

poligenista. Quanto a conteúdos, o título remete para um âmbito

genérico mas o livro parece incidir na América do Sul, portanto

emparceira bem com as obras acerca do Brasil e é bastante provável

que fosse mesmo sobre o Brasil.

O título quase homónimo que vi foi, no entanto, o de Louis Simonin, L'

homme americain: notes sur les Indiens des Etats-Unis, publicado em

Paris (A. Bertrand, 1870). Outro título, que talvez corresponda ao nosso

exemplar, é o do vol. II de L'homme americain, do naturalista francês

Alcide Charles Victor Marie Dessalines d'Orbigny (1802-1857),

subintitulado De l'Amerique meridionale consideré sous ses rapports

physiologiques et moraux (D'Orbigny, 1839).

África estava também representada. Angola fazia-se presente pela

História do Congo – “documentos”, edição (póstuma) do Visconde de

Paiva Manso, Levy Maria Jordão (Manso, 1877). Também das fontes

consta a referência a uma “Col. de Notícias para a Hist.ª e Geo.ª das

Nações Ultramarinas”, sem nenhuma indicação de autor. O livro

aparece no AHN. É o tomo I, n.º s 1 a 3, publicado em Lisboa, pela

Academia Real das Ciências, em 1812. Creio tratar-se de mais uma

série ou coleção editorial. Uma vez que não pude consultar a obra, só

tirei a referência das listas bibliográficas do Arquivo, não pude

esclarecer a dúvida, nem ver de que volume, título, ou número se

tratava. Na biblioteca do STJ está fichada a obra Collecção de noticias

para a História e Geografia das nações ultramarinas, que vivem nos

domínios portuguezes, ou lhes são visinhas. Menciona-se um vasto

período de publicação (1812-1841) e 6 tomos.

Uma obra talvez de referência africana era anunciada no Diário de

Pernambuco a 23.07.1840. Porém o anúncio não indica o título, apenas

refere o autor (Cunha Matos) e tratar-se do vol. I. Creio tratar-se do

Compêndio histórico das possessões de Portugal em África (Matos,

1963). Esse autor também escreveu sobre o Brasil (onde viveu e morreu

1839 tendo combatido a Revolução pernambucana em 1817) e

deixou-nos a Corografia histórica das ilhas de S.Thomé e Príncipe, Anno

Bom e Fernando Pó (Matos, 1842). A presença de uma historiografia

sobre África era ainda atestada pelo relato do naufrágio de Pierre-

Raymond de Brisson (1745-1820?), que sai um pouco fora do nosso

âmbito imediato (Brisson, 1789).

Uma obra que se prende mais diretamente com a pesquisa literária é a

Histoire universelle, de César Cantu. Ela aparece em Luanda (no AHN) e

Benguela (na Biblioteca Municipal), numa edição da Empresa Literária

Fluminense. Foi traduzida para francês por Eugéne Aroux e

Piersilvestro Leopardi e revista pelos mesmos. Nesta edição a História

universal de Cantu foi “reformada em conformidade com o estado atual

das Ciências Históricas, acrescentada até ao ano de 1879, ampliada na

parte relativa a Portugal e ao Brasil por António Enes”. A impressão é

de Lisboa, apesar da sede da editora ser no Rio de Janeiro (tinha, no

entanto, delegações a funcionar no Recife, em São Paulo e em Lisboa); o

exemplar exibe um carimbo do “Club Transmontano de Angola”, que

não sei quando foi fundado. A edição consultada na Biblioteca da

Administração Municipal de Benguela é a 3.ª francesa, reformulada

(aliás, “refondue”) pelo autor e revista e traduzida por Lacombe a partir

da 8.ª e última edição italiana. Aí estão 19 vol’s da História universal de

Cantu, editados em Paris pela Firmin Didot em 1862. A importância de

que se reveste para a minha pesquisa relaciona-se com o facto de

incluir sempre uma história literária e artística, filosófica e científica

dos países e impérios de que fala. Quem a lesse tinha acesso à

literatura grega e romana, persa e chinesa. Não era pouco, ainda que

resumido.

Conclusão

Pelo que vemos até aqui, entre os autores lidos em Angola e no Recife

no século XIX os estudiosos da revolução francesa, de Cromwell e de

épocas próximas dela eram de forma geral liberais, moderados e alguns

deles foram, direta ou indiretamente, vítimas da revolução. Os autores

latinos eram, vários deles, defensores do ‘partido do povo’ contra os

nobres, ou defensores da liberdade e do equilíbrio na governação. No

conjunto, o corpus dá-nos um retrato liberal e pouco favorável a

extremismos, que se conjuga muito bem ao que sabemos de Maia

Ferreira e ao que parece dominar o jornalismo angolano do século XIX.

Esta coincidência reforça a suspeita de estarmos no caminho certo

quanto à procura da bibliografia histórica que podia ter girado por

Angola no século XIX. Para outros abrirá, quem sabe, novas pistas de

pesquisa.

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Francisco Soares.

Benguela, 30-06-2011.