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História das artes visuais no século XX

História das artes visuais no século XX Fig. 1 – www.lemondedesarts.com/images/claude l2.jpg Camille Claudel.

Fig. 1 –

www.lemondedesarts.com/images/claude

l2.jpg

Camille Claudel. Fonte: http://

1. A arte hegemônica

Impossível historicizar sobre a arte no

século XX e não falar de arte hegemônica. Arte

hegemônica é a arte produzida por um

determinado grupo cultural, com valores,

formas, materiais e atitudes, disseminados e

entendidos como verdadeiros e únicos para todo

o mundo. Estamos falando de uma arte européia

universalizada em características tipológicas

privilegiando livros eruditos sobre arquitetura,

pinturas a óleo sobre tela, esculturas de mármore

e bronze. E por falar em tipos, a Europa

universalizou, também, a noção do artista

necessariamente homem e branco. Dificilmente,

na bibliografia especializada sobre arte, líamos

sobre algum artista em outro pólo cultural ou

artistas mulheres. Somente nas últimas décadas

do século XX as historiadoras vêm recuperando

obras

http://www.lemondedesarts.com/images/claudel2.jpg

o

com

trabalho

de

artistas

mulheres,

brilhantes, tais como a francesa Camille Claudel

(1864-1943), não valorizadas em decorrência do

preconceito sexista preponderante no circuito

internacional. Todavia, esse não é o único

preconceito difundido por essa arte hegemônica

européia. Para se fazer Arte – observem que

escrevi arte com A maiúsculo – precisava-se de

erudição, uma educação artística mais ampla,

cuja produção se distinguia dos artefatos

artesanais da produção artística.

O artefato artesanal é também chamado de arte popular.

 

Essa grande arte ou “arte maior” era guardada em museus, coleções particulares e demais instituições culturais. As “artes menores”, chamadas de artesanato, eram realizadas por pessoas comuns, em que prevalecia uma produção mecânica e, freqüentemente, exposta nas ruas e feiras. O primeiro tipo de produção era vetado às mulheres por uma série de tabus, que as impediam de uma formação erudita. Isso, todavia, não ocorreu somente com as mulheres, como também com homens, europeus ou de qualquer outra nacionalidade. Eles não conseguiram ultrapassar as barreiras socioeconômicas para alcançar tal fim. Em resumo, o valor universal disseminado pela Europa foi de uma arte manifesta em determinados tipos de objetos e materiais considerados nobres, em uma atitude intelectual, produzida por um determinado grupo sexual, étnico e

 

Mas, uma vez exposta as questões básicas da arte hegemônica, vamos para a nossa história! Contar a história das artes no século XX nos seduz de sobremaneira pelo fato de estarmos narrando uma história recente e da qual

fazemos parte. A

história no século XX é uma história de grandes

transformações e rupturas sociais e políticas, ocorridas em todo o mundo, de

forma mais rápida do

que qualquer outra época anterior. Esse século consagrou

uma nova era de desenvolvimento científico e tecnológico; uma política de implantação de sistemas democráticos em muitos países do mundo; programas

educativos e reformas sociais, bem como inaugurou o imperialismo, os regimes

fascistas, as guerras e

as corridas armamentistas.

2. Arte moderna

a fotografia e o telefone,

sentiram que os temas

agradavam e da forma que

moderna, com os artistas

O

tranqüilidade, paz e qualidade de vida assegurada pelas promessas das invenções

tecnológicas, tais como a lâmpada, o automóvel,

ocorridas no final do século XIX. Neste período e primeira década do século XX,

século XX iniciou em janeiro de 1901, com uma Europa em clima de

o cenário mundial assim se configurava: os Estados Unidos da América eram a

potência industrial líder no mundo em termos de produção; o Império Britânico

detinha o poder; a Alemanha e Itália passaram a existir como nações unificadas;

Paris era a capital intelectual e artística do mundo com o primeiro trem elétrico,

seu metrô, suas luzes, galerias e o burburinho da vida social parisiense nos cafés e

ruas. Nesse clima de possibilidades, os artistas

tradicionalmente aceitos para obras de arte – história, religião e mitologia – não

precisavam fazer parte de suas vidas e do que queriam expressar em seus

trabalhos. Eles então decidiram pintar o que mais lhes

melhor lhes aprouvessem. Começava assim a arte

adotando consciente e deliberadamente elementos singulares, por eles descobertos

e elaborados, como o princípio fundamental de sua arte.

Após e até mesmo durante o Impressionismo, visto por vocês em História

das Artes Visuais I, alguns artistas caracterizavam o período chamado de Pós-

impressionismo. Dentre eles, o artista francês George-Pierre Seurat (1859-1891)

que realizava experimentos científicos com a cor, pintando com pontinhos

coloridos, próximos uns dos outros, dando origem ao movimento chamado

Pontilhismo. Esta técnica

pontilhista foi precursora da televisão

Freqüentemente, os artistas trabalhavam em grupos no desenvolvimento de uma linguagem artística. Expunham seus
Freqüentemente, os artistas trabalhavam
em grupos no desenvolvimento de uma
linguagem artística. Expunham seus
quadros, discutiam e escreviam sobre suas
teorias. Logo, recebiam um nome que
caracteriza o grupo e o que estes artistas
estavam fazendo, tal como ocorreu com o
impressionismo. Isto se convertia em um
“movimento”. Mas nem todos os artistas
pertenciam a um movimento.

e da imagem digital. O artista neerlandês

Vincent Willem van Gogh (1853-1890)

pintava com pinceladas rápidas e usava

as cores que mais significava e expressava

seus sentimentos e emoções, projetando na obra

de

Suas obras, bem como as do artista norueguês

arte uma reflexão individual e subjetiva.

Edvard Munch (1863-1944) influenciaram o movimento expressionista,

Desenvolvido pela escola “Die Brucke” (A Ponte) e representativo em artistas como: Ernst Ludwig

Kirchner (1880-1938), Emil Nolde (1867-1956) e Paul Klee (1879-1940), surgido como

desdobramento do Pós-impressionismo; o artista Eugène-Henri-Paul Gauguin (1848–1903), o qual

pintava com cores intensas, puras e contrastantes, formas simplificadas, temas leves, revelando

apenas emoções e alegria de viver. Influenciado pelas pinturas japonesas que aparecem na Europa

provocando um verdadeiro choque cultural, este artista abandona a França e vai morar com os

nativos da Polinésia para captar a essência sentimental dos personagens.

O Simbolismo era influenciado pelo misticismo advindo da troca entre as artes, o pensamento e
O Simbolismo era influenciado pelo
misticismo advindo da troca entre as
artes, o pensamento e as religiões
orientais. Seus seguidores buscavam
refletir em suas produções o consenso
a dessas diferentes formas de olhar o
mundo, de ver e demonstrar o
sentimento.

chamado

Ele vai representar o início de um movimento

Fauvismo, derivado do francês fauvres, que

significa feras, desenvolvido por Henri-

Émile-Benoít Matisse (1905-1954) e

Maurice Vlamink (1876-1958), André

Derain (1880-1954), entre outros. Não

resta dúvida que estes movimentos

sofreram influência de diferentes maneiras do

Simbolismo, movimento iniciado em 1881, na

França.

Um outro movimento estético-político inicia-se na Rússia em 1919, procurando abolir a

idéia de que a arte é um elemento especial da criação humana, separada do mundo cotidiano.

Chamado de Construtivismo por Malevich, seu principal representante, defendia uma arte inspirada

pelas novas conquistas do novo Estado Operário. O movimento deveria se inspirar nas novas

perspectivas abertas pela máquina e pela industrialização servindo a objetivos sociais e a construção

de um mundo socialista.

Vocês percebem que o clima de tranqüilidade dos primeiros anos do século XX, na Europa,

já não era o mesmo? De fato, algumas mudanças começaram a ocorrer na Europa, nesses primeiros

anos do século XX. Alemanha e Itália cresciam em poder, economia e influência. O Império

Britânico alcançava o ápice de seu poder. O nacionalismo instigava a competição entre as nações

européias por terras, força militar e poderio econômico. Japão e Rússia estavam em guerra entre si

desde 1905. Os EUA surgiam como uma usina de força industrial rivalizando-se com a Grã-

Bretanha, Alemanha e França. Formavam-se novos estados independentes, como por exemplo, a

Romênia, Sérvia e Bulgária, ex-possessões européias. Estes fatos abalaram o poderio europeu e

configurava a política mundial para uma grande reviravolta, deslocada para fora da Europa.

A mentalidade de otimismo do pensamento racional e positivista do europeu, no

início do século XX, foi abalada pela Primeira Guerra Mundial, também conhecida como Grande

Guerra (agosto de 1914 a 11 de novembro de 1918). Um clima de incerteza e instabilidade,

provocado pela Primeira Guerra, ocasionou a ruptura de valores tradicionais e transformou o

racionalismo em pessimismo.

A guerra ocorreu entre uma aliança composta do Império Britânico, França, Império Russo (até 1917),
A guerra ocorreu entre uma aliança
composta do Império Britânico, França,
Império Russo (até 1917), Itália (1915) e
Estados Unidos (a partir de 1917), contra o
Império Alemão, Império Austro-Húngaro e
Império Turco-Otomano. O primeiro bloco,
chamado de Tríplice Entende derrotou o
segundo, denominado de Trípice Aliança. A
guerra causou o colapso de quatro impérios
e mudou de forma radical o mapa
geopolítico da Europa e do Médio Oriente.

A vida nas grandes cidades se

acelerou com o movimento de

migração, principalmente do campo

para a cidade. As pessoas buscavam

trabalho, dinheiro e melhores

condições de vida, fascinadas pela

representação de desenvolvimento e

progresso das cidades. Isto alterou o

equilíbrio entre os meios urbanos e

rurais e as formas de sociabilidade

dentro das cidades. Acresce a esse fato o despontar da sociedade de massa, as mudanças nas

classes sociais – as classes médias ganham poder e as mulheres lutam por direitos civis –, e as

práticas ancestrais de solidariedade são substituídas pelo individualismo.

Importantes descobertas científicas contribuíram para abalar as velhas certezas, abrindo

caminho para a ciência moderna. Em 1905, Albert Einstein (1879-1955) publica sua teoria da

relatividade tratando do espaço, tempo e movimento. Em 1902 é publicado o primeiro livro de

Sigmund Freud (1856-1939) sobre a interpretação dos sonhos, dando início a Psicanálise. Neste

mesmo ano é produzido o primeiro

filme 1 mudo de ficção científica, Uma

viagem à Lua. Surgem as primeiras

fotos em jornais e as pessoas passam

a aprender visualmente o que está

acontecendo em diferentes regiões do

mundo. O telefone converte-se em

aparelho de uso cotidiano e em 1913

é implantada a linha de montagem e

produção em série do primeiro carro

familiar, o Ford modelo T, conhecido

no Brasil como Ford Bigode, e

o Ford modelo T, conhecido no Brasil como Ford Bigode , e Fig. 2 - Ford

Fig. 2 - Ford modelo T. Fonte: http://autobrasil.files.wordpress.

com/2008/03/ford-t.jpg

fabricado pela Ford americana.

1 Filme do francês Georges Méliès (1861-1938), inspirado em Júlio Verne e H. G. Wells.

Todas estas transformações indiciavam uma fase inovadora para a cultura ocidental e

ecoaram em campos distintos como a música, as artes plásticas, a arquitetura, a literatura, as quais

apresentaram inovações formais e grande diversidade de propostas vanguardistas.

Uma destas experiências foi o Cubismo, ligado à figura do espanhol Pablo Ruiz Picasso

(1881-1973), influenciado por Georges Braque (1882-1963) e Paul Cézanne (1839-1906). O

Cubismo tratava as formas da natureza por meio de figuras geométricas. Os artistas cubistas

representavam todas as partes de um objeto no mesmo plano. Assim, a representação do mundo

passava a não ter nenhum compromisso com a aparência real das coisas. Outros movimentos se

seguiram como o Abstracionismo de Wassily Kandinsky (1866-1944); o Neoplaticismo, também

chamado de “De Stijl”, de Piet Mondrian (1872-1944); o Futurismo do italiano Filippo Tommaso

Marinetti (1876-1944); o Surrealismo associado a Joan Miró (1893-1983), Salvador Dali (1904-

1989) e Marx Ernest (1891-1976); o Dadaísmo de Francis Picabia (1879-1953) e a Arte Metafísica

de Giorgio De Chirico (1888-1978).

   

Os futuristas, como próprio nome indica, exaltavam o futuro e, sobretudo a velocidade, conhecida e admirada a partir da mecanização das indústrias e da crescente complexidade social que ganharam os grandes centros urbanos. Para eles não interessava a representação de um corpo em movimento, mas expressar o próprio movimento evitando qualquer relação com a imobilidade.

 

A Pintura Metafísica adotava uma perspectiva irreal, acentuada. O tema de suas obras são as paisagens urbanas, desertas, melancólicas e iluminadas por uma luz estranha. Quando os pintores metafísicos representavam seres humanos, estes eram destituídos de alma, de sentimentos e de emoções.

A

Arte Abstrata ou

 

Abstracionismo é geralmente entendido como uma forma de arte que não representa objetos próprios da nossa realidade

concreta exterior. Em suas pinturas as relações formais entre cores, linhas e superfícies compõem a realidade da obra,

de

uma maneira "não

representacional".

   

No

Neoplaticismo os artistas

 

O Surrealismo foi fortemente influenciado pelas teorias psicanalíticas de Freud, enfatizando o papel do

procuram partir de formas geométricas muito simples para uma rigorosa construção artificial do espaço pictórico, quase sempre composto por traços e planos de uma

 
 

inconsciente na atividade criativa.

   

cor densa. O equilíbrio de suas composições está ligado a cálculos bem precisos, suficientemente úteis a determinar a grandeza de cada superfície, a sua forma e a sua cor.

 

O movimento Dadá ou Dadaísmo iniciou- se em 1916. Zurique era o palco desse movimento. Dele fazia parte um grupo de escritores, artistas e músicos. Eles usavam em seus trabalhos uma linguagem sem sentido – non sense – de forma aleatória.

Estes movimentos não seguem uma ordem cronológica linear, ou seja, um após o outro. Muitos

deles acontecem ao mesmo tempo. O mundo estava mudando e com ele a noção espacial, a

distância entre as pessoas e a temporal. Entre as duas guerras, a Escola de Paris (1920-1949)

predominou no cenário mundial, mas foi perdendo seu domínio para outros centros. De 1948 a

1951, um

Grupo CoBrA deixa rastros

história das artes visuais. Artistas

dinamarqueses, belgas e holandeses –

de onde surge o nome CO, Copenha-

grupo auto-intitulado

na

A Escola de Paris descreve a importância de Paris nas primeiras décadas do século XX. Entre esses artistas estão: Pablo Picasso, Marc Chagall, Amedeo Modigliani, Piet Mondrian e franceses como Pierre Bonnard e Henri Matisse.

gue, Br, Bruxelas e A, Amsterdã – se

retiram de uma conferência internacional, realizada em Paris, sobre arte de vanguarda. Eles redigem

um texto, no qual propõem uma ação artística compartilhada, alimentada por suas distintas

experiências nacionais. Assinam o manifesto Christian Dotremont (1922-1979), Asger Oluf Jorn

(1914-1973), Joseph Noiret (1927), Karel Appel (1921-2006), Constant (1920-2005) e Corneille

Guillaume Beverloo (1922), na qualidade de representantes de grupos de arte experimental de seus

países de origem. Eles defendem a livre expressão, a explosão de cores, o gesto espontâneo

associados à retomada dos imaginários mágico e folclórico em uma espécie de jogo lúdico. Em

seus trabalhos, desenhos de bichos e figuras parecem retirados de um caderno de desenho infantil.

Eles desejam criar um novo estilo pictórico, além de destinar aos artistas um papel ativo na

reconstrução européia. Nas convicções políticas do grupo são explícitas suas ligações com o Partido

Comunista, PC.

Outro movimento singular foi o

movimento artístico italiano chamado de

Essa série de movimentos artísticos e políticos do fim do século XIX e início do
Essa série de movimentos artísticos e políticos
do fim do século XIX e início do século XX é
chamado de movimentos europeus de
vanguarda. Em seu sentido literal, vanguarda
(do francês avant garde), faz referência ao
batalhão militar que precede as tropas em
ataque durante uma batalha. Daí deduz-se que
vanguarda é aquilo que "está à frente".
Segundo os próprios artistas eles guiavam a
cultura de seus tempos, estando de certa forma
à frente deles. Muitos destes movimentos
acabaram por assumir um comportamento
próximo ao dos partidos políticos: possuíam
militantes, lançavam manifestos e acreditavam
que a verdade encontrava-se com eles.

Arte Povera (Arte Pobre). O termo foi

inventado pelo crítico Germano Celant,

em 1967. Seus adeptos usavam materiais

de pintura não convencionais, como por

exemplo, terra, madeira e tecidos velhos,

com o intuito de empobrecer a pintura e

eliminar quaisquer barreiras entre a arte e

o dia-a-dia das pessoas. Os principais

artistas desse movimento foram

Michelangelo Pistoletto (1933), Jannis

Kounellis (1936), Giovanni Anselmo

(1934), Giuseppe Penone (1947), Giulio Paolini (1940), Mario Merz (1925-2003), Luciano Fabro

(1936-2007), e Gilberto Zorio (1944).

2. 1. A Vanguarda fora do centro

 
   

Outros movimentos artísticos estavam ocorrendo fora da Europa como, por exemplo, o

Muralismo mexicano, surgido logo após a Revolução Mexicana de 1910, considerada a

primeira grande mobilização social na América Latina

no século XX. Os três grandes

pintores da Revolução Mexicana, Diego Rivera (1886-1957), José Clemente Orozco

(1883-1949) e Davi Alfaro Siqueiros (1896-1974), acreditavam que só mesmo o mural

poderia redimir artisticamente um povo que esquecera a

grandeza de sua civilização pré-

colombiana durante tantos séculos de opressão estrangeira e de espoliação por parte das

oligarquias nacionais culturalmente voltadas para a metrópole espanhola. No período pós-

revolucionário, nas décadas de 1920 e 1930, os três

muralistas aqui mencionados,

financiados pelo governo e dentro das diretrizes culturais, aliaram seu talento artístico à

causa da Revolução. Sua produção cultural transmitia uma interpretação da história

mexicana marcada pela denúncia dos ricos e poderosos, com fortes imagens de índios

oprimidos e explorados pelo violento colonizador apoiado na Igreja Católica. Mas a

Revolução também colocou em marcha uma política cultural que criou museus nacionais,

instituições de pesquisa e de investigações arqueológicas que passaram a enfatizar o

passado indígena do país.

 

Não obstante, a artista Frida Khalo (ver obras na galeria Arte e Política),

 

No Brasil, o pintor Candido Torquato Portinari (1903- 1962) pintou quase cinco mil obras, de pequenos esboços a gigantescos murais. No final da década de 1940, Portinari se filia ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e concorre ao Senado em 1947. Perde por uma pequena margem de votos. Desiludido e também fugindo da caça aos comunistas iniciada

esposa de Diego Rivera, produção conciliar um

excluir o mural na execução de suas obras e sua trabalho de tom pessoal, ela tornou sua obra

significativa pelo hibridismo entre as influências externas, como por

exemplo, o surrealismo

espanhol, o cubismo, em Paris, e, claro, a obra

de muralistas mexicanos, como a seu próprio marido. O apelo universal de Frida remete às influências do Renascimento europeu. Podemos identificar assim, em seus trabalhos, um imaginário católico semelhante aos imaginários espanhóis e poloneses, os quais construíram uma rica

simbologia religiosa e usada por Frida de forma fantástica.

     

no Brasil. Portinari se muda com a família para o Uruguai. Mesmo longe de seu país, o artista continua com grande preocupação social em suas obras. Em 1951, uma anistia geral faz com que Portinari voltasse ao Brasil. Todavia, toda a década de 1950 foi para Portinari marcada por problemas de saúde em decorrência de uma intoxicação pelo chumbo presente nas tintas que usava. Desobedecendo as ordens médicas, Portinari continua pintando e viajando com freqüência para realizar suas exposições, até falecer em 1962.

 

O pintor espanhol Pablo Picasso não se interessava por política. Mas se envolveu com ela em 1937, quando, por meio de fotografias impressas em um jornal, viu o bombardeamento de Guernica, antiga capital do País Basco. Indignado pela matança cruel de civis pintou o painel Guernica (ver na galeria Arte e Política) para ser colocado na frontaria do pavilhão espanhol da Exposição de Paris de 1937 dedicada ao progresso e à paz.

 

A atitude de Picasso como a de muitos outros artistas não significa fazer da arte um panfleto

político ou, muito menos, uma responsabilidade social. Significa envolver-se com seu trabalho, o tempo e o espaço vivido. Daí surge a complexidade da obra emergida desse envolvimento.

3. Crise e mudanças na linguagem visual e em seus discursos

A história da arte moderna registrou, na primeira metade do século XX, a construção de um

discurso nas artes visuais que se afirmou como um campo autônomo e puro. Isso quer dizer que cada disciplina, pintura, escultura, música, arquitetura, ignorou elementos ‘estranhos’ como, por exemplo, a representação, a narrativa e a referência externa, para ser fiel ao seu fazer, aos procedimentos e às técnicas específicas. O artista tinha compromisso apenas consigo mesmo e a obra de arte era somente um reflexo de sua personalidade, de seu estilo próprio e de seu talento individual. Como se a obra de arte pudesse existir ‘descolada’ da realidade e de seu contexto histórico! Esse entendimento mudou rapidamente. O que chamamos hoje de pós-modernismo nos mostra, historicamente, uma crise de paradigmas. Não temos mais um “ismo” para seguir. O próprio termo pós-modernismo já é em si complexo, pois é pós – depois do moderno –, mas é também moderno porque a ele se referencia. Vários autores discutem a questão e não vou aqui explorá-la por não ser este nosso objetivo. Mas uso o termo para definir o período que se inicia nos meados do século XX e perdura até hoje. Seus artistas e, conseqüentemente, suas obras realizam grandes questionamentos, e como já vimos, a começar pelo próprio nome. Uma questão central do pós-modernismo é o repúdio ao conceito de realidade, considerando-o como uma convenção antiquada. A linguagem governa e a ideologia se disfarça de verdade. Compreende o mundo a partir de imagens midiatizadas e de seus discursos. Para melhor entendimento dessa afirmação, uso de dois exemplos: o primeiro são as imagens que vimos durante a guerra do Golfo, em 1991. A mídia televisiva veiculou imagens registradas pela aeronáutica, gravadas no visor do equipamento de tiro dos aviões americanos, onde pontinhos brilhantes apareciam em uma tela escura, traçando linhas pontilhadas na escuridão da noite, no céu do Kuwait. As imagens pareciam jogos de videogames, atingindo alvos abstratos, com golpes precisos. Em 2001, a cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, sofreu um atentado terrorista, nas torres gêmeas de Wall Street, símbolo do poderio econômico americano. As imagens veiculadas eram de extremo realismo e acompanhadas da trágica narrativa do repórter local.

Vocês percebem a diferença de tratamento entre uma informação e a outra? A primeira nos

isenta da realidade, e a segunda nos manipula? Ambas nos manipulam? A primeira imagem não nos

mostra os prédios, os carros, a cidade, e as pessoas desesperadas, sofrendo com a crueldade da

guerra. Muito pelo contrário. São imagens que nos colocam em um mundo do “faz-de-conta”. A

segunda imagem nos mostra o terror do fato. Vocês já se perguntaram a respeito deste tratamento

tão desigual? Quais os poderes e ideologias em jogo? Existe uma única verdade para todos? O que

se esconde no poder das imagens midiáticas?

2. Arte Contemporânea: mudança de centro

período artístico que se inicia na metade do

século XX e se prolonga até os dias de hoje.

Após a Segunda Guerra Mundial, sobrepõe-se

aos costumes a necessidade da produção em

massa. Quando surge um movimento na arte,

esse se revela na pintura, na literatura, na

moda, no cinema, e em tantas outras artes

diferentes. Sendo a arte transcedente, para um

determinado movimento iniciar é muito

provável que surja primeiramente na

sociedade. Seus questionamentos são bem

diferentes das rupturas propostas pela Arte

Moderna e as Vanguardas Modernistas, e se

evidenciam na década de 1960, juntamente

com a viagem espacial. A partir dos meados

das décadas de 1960 e 1970, notamos que a

arte produzida naquele período já não mais

correspondia à Arte Moderna do início do

século XX. Todavia, permanecia o imaginário

de revolução e seu sentido político que

mobilizou aquele século. Programas,

Em um quadro geral, a partir dos meados do século XX, a história foi marcada por grandes fatos significativos. Dentre eles se destacam: a Segunda Guerra Mundial; o bombardeio atômico e capitulação do Japão; a Carta das Nações Unidas (1945); o Plano Marshall; o agravamento da Guerra Fria; a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN); a criação da Comunidade Econômica Européia do Carvão e do Aço (1951), a criação da Comunidade Econômica Européia (CEE) ou Mercado Comum Europeu (Alemanha, Bélgica, França, Holanda, Itália, Luxemburgo); o Pacto de Varsóvia; a criação do Muro de Berlim (1961); a criação do Concílio Vaticano II (1961-1965); a repressão, pelo Pacto de Varsóvia, da Primavera de Praga; a entrada dos EUA na Guerra do Vietnã. Outros fatos se seguiram: a ampliação da CEE (com Dinamarca, Irlanda e Reino Unido); democratização de Portugal (1974- 1975) e da Espanha (1975); a ascensão de M. Thatcher e reformas econômicas no Reino Unido (1979-1990). A criação do Sindicato Solidariedade na Polônia; a Grécia na CEE (1981); reformas de Gorbatchev na URSS; a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) e entrada de Portugal e Espanha na CEE; o fim do regime comunista na Polônia e Hungria; a queda do Muro de Berlim; a execução de N. Ceausescu na Romênia e eleições multipartidárias na Hungria, Alemanha Oriental, Iugoslávia, Tchecoslováquia (V. Havel), Polônia (L. Walesa) e repúblicas baltas (Polônia, República Tcheca, Hungria Bulgária); reunificação da Alemanha; a Guerra do Golfo com intervenção de tropas sancionadas pelas Nações Unidas; a dissolução da União Soviética, a independência das repúblicas-

manifestos, declarações, intervenções e obras

compõem uma atividade extensa, manifesta na

experimentação, a qual revela o desejo de

transformação social. A transmutação da arte

implicava a transmutação da vida. Essa

atitude é exemplar no trabalho do artista

brasileiro Hélio Oiticica.

Mas a Arte Contemporânea se firma a

partir de 1970, quando as importantes

mudanças no mundo e em nossa relação de

tempo e espaço se transformam globalmente.

A partir da segunda metade do século

membro e formação da Comunidade de Estados Independentes (CEI); o fim do Pacto de Varsóvia; a nova Constituição na Rússia; a guerra civil na ex-Iugoslávia após a declaração de independência da Eslovênia, da Croácia, e depois, da Bósnia e da Macedônia; a separação das repúblicas Tcheca e Eslovaca; a consolidação da União Européia a partir do Tratado de Maastricht, com o ingresso da Áustria, Finlândia e Suécia (1995); a intervenção da OTAN na Bósnia; o acordo de paz na Irlanda do Norte e crise econômica da Rússia (1998); a crise de Kosovo e bombardeio da Iugoslávia pela OTAN. A partir de então, todos nós vivemos outros grandes acontecimentos, como por exemplo, a Guerra do Iraque, atos terroristas e transformações climáticas em todo o mundo.

XX, a arte é caracterizada pela dispersão

geográfica e perda da hegemonia européia para

outros países.

No final de 1950 e início dos anos 60 é a cidade de Nova York que se configura como principal

centro de arte do mundo, apresentando uma variedade de correntes artísticas. Isso ocorreu em função

do aumento do poder econômico e fortalecimento do capitalismo norte-americano; apoio das políticas

públicas americanas – efetuadas desde o início da primeira Guerra Mundial – para incentivar a arte e

cultura, as quais trouxeram inúmeros artistas para os Estados Unidos, fugitivos da Guerra. Além disso,

essas políticas também criaram incentivos fiscais para as empresas particulares investirem em arte.

Assim, Nova York, na passagem entre os anos de 1950 a 1960, fervilhava de acontecimentos artísticos

que se entrelaçavam um no outro.

A Pintura de Ação (Action Painting) ou pintura gestualista tem suas origens no movimento Surrealista e no desenho automático praticado pelo pioneiro André Masson (1896-1987).

A Op Art (Optical Art) voltava-se para uma arte óptica, com menos expressão e mais visualização. Apesar do rigor com que era construída, simbolizava um mundo precário e instável, em constante mudança. Os artistas que mais se destacaram foram Alexander Calder (1898-1976) e Victor Vassarely (1906-1997).

O Expressionismo Abstrato, primeiro movimento tipicamente americano, atingiu influência mundial e fez de Nova York
O Expressionismo Abstrato, primeiro movimento tipicamente
americano, atingiu influência mundial e fez de Nova York o
centro do mundo artístico. Poucos pintores trabalharam com a
pintura gestualista, mas todos eles saídos do período de pós-
depressão nos Estados Unidos. Artistas como Jackson Pollock
(1912-1956) e seu discípulo Hans Hoffman (1880-1966),
revelam nos trabalhos a preferência pela técnica do drippinf
(respingar a tinta sobre a tela, geralmente de grande dimensão,
colocada na horizontal sobre o chão. Outros, como por
exemplo, Willem de Kooning (1904-1997), Mark Rothko
(1903-1970), Arshile Gorky (1094-1948), combinaram a
intensidade emocional do Expressionismo alemão com a
estética antifigurativa das Escolas abstratas européias, como o
Futurismo, o Bauhaus e o Cubismo Sintético.

A Pop Art (Arte Popular), um produto da sociedade americana, de vastos horizontes,

sempre em mutação, configurou-se não emergindo espontaneamente do povo, como em qualquer

país, nem constituiu uma fusão internacional de estilos. Seus padrões eram determinados por uma

decisão de abordar o mundo contemporâneo com uma atitude mais positiva. Apesar dos aspectos

carnavalescos, das cores fortes, contrastantes, e da escala gigantesca, essa arte baseou-se

claramente em um padrão adequado aos anos de 1960, recolhidos nos meios de comunicação de

massa. Para este padrão, o desagradável, o non sense, o preciosismo, o refinamento, foram

excluídos. A Arte Pop é espontânea, direta e extrovertida. Os artistas pop mais expressivos são:

Ainda na década de 1960, a arte conceitual

espalha-se pelo mundo. Nela se considera a idéia, o

conceito por trás de uma obra artística como sendo

mais importante ao próprio resultado final. Pode-se até

prescindir do produto final. Entretanto, desde Marcel

Duchamp (1887-1968) podem ser percebidos os

primeiros indícios da sobrevalorização do conceito

(ver filme O Segredo de Marcel Duchamp). Tendo-se

fixado nos E.U.A., ele dedicou-se à "antiarte" e em

1914 criava o primeiro ready-made (apropriação do

objeto já feito, geralmente em escala industrial,

eelevado à categoria de obra de arte). Nos Estados

Unidos, na década de 1960, artistas como Joseph

Kosuth (1945-), Lawrence Weiner (1942-) e Robert

Barry (1936-), abandonaram a realização artística em

si, em nome das discussões teóricas. Passaram a usar

diferentes meios para transmitir significados. As

fotografias e os textos escritos eram o expediente mais

comum, seguido por fitas K-7, vídeos, diagramas,

entre outros. Kosuth, por exemplo, justapôs uma

cadeira de verdade, uma foto de uma cadeira e uma

definição por escrito do termo cadeira retirada de um

uma definição por escrito do termo cadeira retirada de um Roy Lichenstein. Chan Marshall, aka Cat

Roy Lichenstein. Chan Marshall, aka Cat Power, meets. Fonte: http://www.fileitunder. com/uploaded_images/drowning_girl_by_roy

lichenstein_kennedy-728159.jpg

dicionário e, com isso, chamou atenção para a distinção entre realidade e representação e entre

representação e linguagem. Tudo parecia, neste período, indicar o fim da arte como objeto físico

permanente. Além da arte conceitual, surgiram as

performances, os happenings.

arte conceitual, surgiram as performances , os happenings . O happening (acontecimento) é uma forma de

O happening (acontecimento) é uma forma de expressão das artes visuais que apresenta características das artes cênicas. Neste tipo de obra, quase sempre planejada, incorpora-se algum elemento de espontaniedade ou improvisação, que nunca se repete da mesma maneira a cada nova apresentação. Difere da performance porque envolve a participação direta ou indireta do público espectador.

a participação direta ou indireta do público espectador. Fig. 4 - One and Three Chairs .

Fig. 4 - One and Three Chairs. Joseph Kosuth. Fonte:

http:// www.esec-josefa-obidos.rcts.pt/cr/ha/seculo_20/ Imagens 20/ Kosuth.JPG

Imagens 20/ Kosuth.JPG A performance é uma modalidade das artes visuais que

A performance é uma modalidade das artes visuais que

apresenta ligações com o teatro, com a música, a poesia, o vídeo. Difere do happening por ser mais elaborada e não envolver necessariamente a participção dos espectadores. Assim, como possui um “roteiro” de antemão definido, é passível de ser reproduzida, em outros momentos ou locais. Como muitas vezes a performance é realizada para uma

platéia restrita ou mesmo ausente, seu conhecimento depende

de registros por meio de fotografias, vídeos e/ou memoriais

descritivos.

por meio de fotografias, vídeos e/ou memoriais descritivos. A partir do final da década de 1960

A partir do final da década de 1960 torna-se

evidente a procura da natureza (o campo, o deserto ou,

mais raramente, o espaço urbano e o mar) por alguns

artistas, inicialmente americanos, mas integrando significativas contribuições de artistas ingleses e

holandeses, para desenvolverem obras de arte. Artistas como os americanos Walter de Maria (1935)

e Robert Smithson (1938-1973), o holandês Marinus Boezem (1934) e os ingleses Barry Flannagan

(1941) e Richard Long (1945), propunham um “regresso à natureza” e tinham a intenção de

ultrapassar as limitações do espaço tradicional das galerias, recusando o sentido comercial e

mercantilista que a produção artística assumia nesta década. Estava assim criada a Land Art ou Arte

da Terra.

Nesta mesma época, ainda no final da década de 1960, aparece em Nova York o

Minimalismo. Enfatizando as formas elementares, de corte geométrico, os minimalistas recusam a

ilusão da representação visual. O objeto de arte, ambiguamente transita entre pintura e escultura.

Sua verdade está na realidade física exposta aos olhos do observador, despida de efeitos decorativos

e/ou expressivos. Os trabalhos de arte, nessa concepção, são simplesmente objetos materiais e não

veículos portadores de idéias ou emoções. A pintura minimalista é reduzida a um desenho

geométrico e a um número limitado de cores. A escultura é realizada com formas geométricas,

monumentais, cuja ênfase recai sobre os materiais. São expoentes dessa tendência os artistas: David

Smith (1906-1965), Sol LeWitt (1928-2007), Dan Flavin (1933-1996), Donald Judd (1928-1994),

Robert Morris (1931-), Frank Stella (1936-), entre outros.

Seguindo por essa via, nas décadas de

1970 e 1980, a arte figurativa retorna

em um movimento chamado Neo-

expressionismo. Na Itália, Alemanha e

Estados Unidos os neo-expressionistas

usaram as mesmas pinceladas

vigorosas dos artistas expressionistas.

Na Itália, essa tendência recebeu o

nome de Transvanguarda. Os artistas

italianos, como Francesco Clemente

(1952), Sandro Chia (1946) e Enzo

Cucchi (1949), exploraram assuntos

como a mitologia clássica e outros

tópicos ignorados por muito tempo

Ainda no final da década de 1960, uma outra tendência artística, surgida nos Estados Unidos, defende a volta das técnicas e temas mais tradicionais. O Hiper-realismo ou Realismo fotográfico retoma o realismo na arte contemporânea, contrariando as direções abertas pelo Minimalismo e pelas pesquisas formais da arte abstrata. Os pintores foto-realistas — Chuck Close (1940), Don Eddy (1944), Richard Estes (1932), Audrey Flack (1931) e Ralph Goings (1928) e o inglês Malcolm Morley (1931) — pintaram sobre fotografias. O foto- realismo era um novo tipo de realismo. Não era tanto uma representação mas uma representação da representação, um reconhecimento óbvio do papel da máquina fotográfica como instrumento intermediário entre a realidade e o artista.

pelo modernismo.

Na Alemanha, o Neo-expressionismo permitiu aos artistas criarem obras a partir de seu

passado cultural. Assim, os pintores Anselm Kiefer (1945) e Georg Baselitz (1938), entre outros,

abordaram questões difíceis sobre o passado da Alemanha nazista ignoradas por pintores abstratos

das décadas anteriores.

O nazismo foi um regime político de caráter autoritário que se desenvolveu na Alemanha durante as sucessivas crises da República de Weimar (1919-1933). Baseou-se na doutrina do nacional- socialismo, formulada por Adolf Hitler (1889-1945). Orientava o programa do Partido Nacional- Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), defendia o racismo e a superioridade da raça ariana, negava as instituições da democracia liberal e a revolução socialista, apoiou o campesinato e o totalitarismo, e lutou pelo expansionismo alemão.

Os neo-expressionistas americanos Julian Schnabel (1951-), Eric Fischl (1948-), David Salle

(1952-) e outros, usaram a representação figurativa de muitas maneiras diferentes. Fischl

representou cenas sinistras da vida nos bairros. Schnabel pintou sobre materiais pouco

convencionais, como veludo preto e louça de barro quebrada. Salle fez referências às obras variadas

que iam de pinturas holandesas do século XVII e desenhos animados de Walt Disney até obras

expressionistas abstratas.

Na escultura, encontramos artistas não acadêmicos no século XX, que dão ênfase aos

materiais, simplificando e estilizando a figura humana. Eles criam representações inventadas e suas

obras se aproximam da arquitetura, muitas vezes sem se enquadrar em nenhuma tendência ou

movimento. Assim são as obras de Constantin Brancusi (1876-1957) e Henry Moore (1898-1986).

A fotografia surgida na França do século XIX pelas mãos de Joseph Nicéphore Niépce

(1765-1833) ganhou novo status com o transcorrer do século XX: a de fotografia artística,

impulsionada pelo fotógrafo Gaspard Félix T. Nadar (1820-1910). Outros fotógrafos ganharam

notoriedade como, por exemplo, Henri Cartier Bresson (1908-2004), Robert Mapplethorpe (1946-

1989), entre outros.

A arte de fixar imagens desenvolveu rapidamente e popularizou-se em todo o mundo por

meio do cinema. A partir do início do século XX, a indústria cinematográfica rapidamente foi se

afirmando como um poderoso meio de comunicação e difusão de modelos sociais e culturais. Além

da fotografia possibilitar uma linguagem criativa e visual em diversas formas de expressão artística,

ela é também uma maneira para ver, descobrir e questionar o

passado. A leitura de Barthes (1977), ao referir-se sobre o significado

de uma imagem fotográfica, chama a atenção para sua conotação

Atenção!
Atenção!

histórica decorrente e modificável de acordo com o momento social.

2. 1. A Nova história e os Estudos da Cultura Visual

Hoje, a Nova história busca perceber como a história é

construída. Ela recusa as distorções criadas pelo modernismo, de um tempo linear, cumulativo e irreversível – defendido pelos historiadores tradicionais –, bem como seu desenvolvimento em direção a metas sociais, políticas e filosóficas aceitas universalmente. Essas metas correspondem à razão, aos valores universais da democracia e o progresso desenfreado da ciência e tecnologia, defendidas pelos iluministas franceses. Baseada nesses ideais a história tradicional justificou a

colonização européia da América do Sul e do Norte, da África, da Ásia, como a missão do homem branco europeu com altos valores morais, predestinado a introduzir as culturas “primitivas” na civilização, nos moldes da européia. Essas culturas primitivas

eram vistas pelos europeus como arquivos de registros de uma história interrompida, onde eles podiam estudar seu passado. Somente assim elas despertavam interesse, ou seja, na medida em que lançasse alguma luz sobre a história ocidental. Desta maneira, o caráter central da identidade européia era mantido e as outras civilizações eram entendidas hierarquicamente e marginalizadas na narrativa da história mundial. Como não podia deixar de ser, o modernismo na arte refletiu essas suposições. Todavia, no pós-modernismo a noção do Outro assume importância central e o multiculturalismo entra em cena em oposição ao monoculturalismo europeu ou norte-americano. No cenário atual das artes há artistas não-brancos e não-ocidentais, mulheres, homens, homossexuais, discutindo raça, etnia, gênero e sexualidade, buscando a inclusão de suas culturas, deliberadamente excluídas. Por exemplo, as mulheres artistas, desde a década de 1980, vêm ocupando cada vez mais espaço no campo das artes visuais. Artistas como Barbara Kruger (1945), Sarah Charleswoerth (1947), Laurie Simmons (1949), Cindy Sherman (1954), problematizam as construções da imagem feminina pelo viés do desejo masculino; tratam de questões sociais maiores, entre elas o registro abissal da inclusão racial e étnica no mundo da arte; questionam autoria e originalidade da obra, entre outras.

O Iluminismo é um movimento cultural, desenvolvido na Inglaterra, Holanda e França, nos séculos XVII e XVIII. Nessa época, o desenvolvimento intelectual iniciado no Renascimento originou as idéias de liberdade política e econômica, defendidas pela burguesia. Os filósofos e economistas que difundiam essas idéias julgavam-se propagadores da luz e do conhecimento, sendo, por isso, chamados de iluministas. O Iluminismo trouxe consigo grandes avanços que, juntamente com a Revolução Industrial, abriram espaço para a profunda mudança política determinada pela Revolução Francesa.

Sherrie Levine (1947) é um exemplo. Para ela, a construção do significado é realizada exclusivamente pelo observador. Levine, no começo dos anos de 1980, expôs fotos de fotógrafos ilustres como, por exemplo, Walker Evans (1903-1975), referenciando o autor. Para Levine, elas se tornam obras diferentes por meio da ação de trazê-las novamente para um outro tempo e espaço, possibilitando assim, diversas leituras. Desta maneira, ela questionava a autoria e originalidade da obra de arte.

Os estudos da Cultura visual formam um corpus de conhecimento emergente na década de noventa

Os estudos da Cultura visual formam um corpus de conhecimento emergente na década de noventa do século XX e não têm o mesmo sentido para os estudiosos e autores desse

campo. Resultaram de um trabalho acadêmico proveniente dos Estudos Culturais. Nesse sentido, questiona-se o que é arte e

problematiza-se o sociocultural, onde os sujeitos não são entendidos como receptores passivos. Eles interpretam e criam

narrativas verbais como, também, visuais ou inter midiáticas (MARTINS, 2006).

Outro fato interessante é a

formação de grupos de mulheres para juntas

conquistarem espaço no mercado de arte e

instituições culturais e artísticas. Tal como o

grupo das Guerrilla Girls.

As Guerrilla Girls é um grupo novaiorquinho de artistas mulheres. Elas, inicialmente, vestiam-se com máscaras de gorilas, iam para as ruas pregando mensagens nos muros da cidade (como o panfleto ao lado), principalmente nos edifícios do SoHo (bairro de artistas e galerias de arte).

A expansão do poder das mídias durante o século XX, viabilizada pela obrigatoriedade do

ensino gratuito em muitos países, nos meados deste século, possibilitou a ampliação da

alfabetização, bem como a melhoria da condição de vida, ou seja, o acesso aos meios de comunicação.

Como já vimos que a arte é história e socialmente condicionada, os estudos da Cultura Visual entra em cena em um momento de grande poder da mídia, focando sua discussão no jogo

de poderes existentes nos discursos visuais ou inter midiáticos e problematizando o sociocultural. Por outro lado, a cultura de massa e as novas tecnologias – televisão, vídeo, computador, dentre outros – abriram caminhos para outras formas criativas, como por exemplo, a arte da

Apropriação (incorporação de objetos extra-artísticos e algumas vezes de outras obras, nos trabalhos de arte). Outros como, as histórias em quadrinhos, a Internet Art, a arte Pública, a Street

Art – arte nas ruas –, baseada na cultura do graffiti e inspirada na geração hip-hop, a vídeo art, são expressões contemporâneas do fazer artístico.

É fato também, que a velocidade dos meios de comunicação e o desenvolvimento de suas

tecnologias não nos deixam tempo para pensar sobre elas e compreender seus processos. Em meio a

um jogo de significantes voláteis em suas transformações, sujeitamo-nos a aceitação das representações da mídia e o efeito narcótico da televisão. A arte assume ser um objeto comercial, a

História não segue um único curso, nosso ego está profundamente envolvido nas relações de poder

e autoridade, e você leitor não é um receptor passivo. É parte essencial desse texto!

Já não faz mais sentido questionar o que é

arte e o que não é. Muito menos determinar campos

específicos do desenho, pintura, escultura,

arquitetura, ou cobrar que seja o próprio artista o

feitor da obra. Ele pode ser seu criador, aquele que

pensa a obra, desde sua concepção até os detalhes

mais simples. Neste sentido, podemos exemplificar

com a Instalação, onde, na maioria das vezes, não é

o próprio artista quem a executa.

A Instalação (krafts) é uma obra artística composta de elementos organizados em um ambiente delimitado ou fechado. A disposição de elementos no espaço tem a intenção de criar uma relação com o espectador. Uma das possibilidades da Instalação é provocar sensações: frio, calor, odores, sons ou coisas que simplesmente chamem a atenção do público ao redor.

Um inédito modo social da rede contemporânea privilegia as ‘ligações’, gerando novos

processos artísticos, como a arte da Internet ou cibernética. Elas viabilizam não somente um modo

de conhecimento no ciberespaço, como também, a colaboração entre parceiros sociais plurais; a

reflexão e ação para novos públicos de participação e cidadania; o alfabetismo artístico e cultural; a

qualificação para as novas tecnologias da informação e do conhecimento, possibilitando a

revitalização dos diversos continentes de atuação social, como o trabalho, o lazer, o consumo, a

cultura, a cidadania ou a comunicação.

da Escola

Bauhaus é hoje uma realidade. A

arte atual está no cotidiano, nas

roupas, nos objetos, festas

populares, carnaval, ações e

práticas contemporâneas, onde

todos os sujeitos estão aptos a

realizá-la.

O

ideal

A Bauhaus foi uma escola de design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda que funcionou
A Bauhaus foi uma escola de design, artes plásticas e arquitetura
de vanguarda que funcionou entre 1919 e 1933 na Alemanha. Ela
foi uma das maiores e mais importantes expressões do que é
chamado Modernismo no design e na arquitetura, sendo uma das
primeiras escolas de design do mundo. A Escola foi fundada por
Walter Gropius em Weimar no ano de 1919. Em 1933, após uma
série de perseguições por parte do governo hitleriano, a Bauhaus é
fechada, também por ordem do governo. Os nazistas se opuseram
à Bauhaus durante a década de 1920, bem como a qualquer outro
grupo que tivesse uma orientação política de esquerda. A Escola
foi considerada uma frente comunista, especialmente porque
muitos artistas russos trabalhavam ou estudavam ali. Ela teve
impacto fundamental no desenvolvimento das artes e da
arquitectura do ocidente europeu, e também dos Estados Unidos
da América nas décadas seguintes – para onde se encaminharam
muitos artistas exilados pelo regime nazista.
encaminharam muitos artistas exilados pelo regime nazista. Car@s alun@s, Como vocês podem perceber, a história da

Car@s alun@s,

Como vocês podem perceber, a história da humanidade continua, paradoxalmente, seguindo seu curso e esse é somente um breve resumo da história da arte do século XX. Para saberem mais (e há muitas outras histórias e artistas interessantes) vocês deverão ler a bibliografia indicada e procurar outras referências históricas que lhes permitam voar rumo ao conhecimento.

Mãos à obra!

Referência

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. J.Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1977.

CAUQUELIN, Anne. Arte Contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

CHIPP, H. B. Teorias da arte moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

HEARTNEY, Eleanor. Pós-Modernismo. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

LAMBERT, Rosemary. A arte do século XX. São Paulo: Zahar, 1981.

MARTINS, Raimundo. Sobre textos e contextos da cultura visual. Visualidades. Revista do Programa de Mestrado em Cultura Visual/ Faculdade de Artes visuais/UFG, v. 4, n. 1. Goiânia- GO: UFG, FAV, 2006.

Século XX: Um século de Artes, Letras e Realizações. In: Revista Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2008. Disponível em: <URL: http://www.infopedia.pt/$seculo-xx-um-seculo-de-artes-letras- ideias-e>. Acesso em 08/05/2008.