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FACULDADES INTEGRADAS

“ANTÔNIO EUFRÁSIO DE TOLEDO”


FACULDADE DE DIREITO













A TUTELA JURÍDICA DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS
E O AQÜÍFERO GUARANI


William Roberto Alkema do Monte




















Presidente Prudente/SP

2007

FACULDADES INTEGRADAS
“ANTÔNIO EUFRÁSIO DE TOLEDO”


FACULDADE DE DIREITO











A TUTELA JURÍDICA DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS
E O AQÜÍFERO GUARANI


William Roberto Alkema do Monte



Monografia apresentada como requisito
parcial de Conclusão de Curso para
obtenção do grau de Bacharel em Direito,
sob orientação do Prof. Nelson Roberto
Bugalho.














Presidente Prudente/SP

2007






A TUTELA JURÍDICA DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS
E O AQÜÍFERO GUARANI









Monografia aprovada como requisito
parcial para obtenção do Grau de
Bacharel em Direito.







Nelson Roberto Bugalho





Examinador 1





Examinador 2







Presidente Prudente, de novembro de 2007.


















A água subterrânea move-se lentamente. Enquanto a
água superficial pode ser medida em metros por
segundo, é mais plausível que se meça a água
subterrânea em metros por ano! A contaminação da água
subterrânea causa danos severos por um longo período.
Apesar disto, as indústrias militar e nuclear poluem
constantemente vastas áreas de água subterrânea – em
tempos de paz.
Daniel Gildenlöw















Dedico este trabalho ao meu irmão
Alexandre, com sincero amor
fraternal.

AGRADECIMENTOS





Agradeço, em primeiro lugar, a Deus, o Grande Arquiteto do Universo,
fonte imensurável de inspiração.




Á minha família, pelo imenso auxílio, pela paciência e pela compreensão.




Ao meu orientador, Prof. Dr. Nelson Roberto Bugalho, por todo o apoio prestado.




Por fim, agradeço a todos os meus amigos, porque, sem eles, nada teria sentido.












RESUMO


O presente trabalho analisa a tutela jurídica das águas subterrâneas no Brasil e
destaca aspectos relevantes acerca do Aqüífero Guarani, um dos maiores
mananciais subterrâneos do mundo. Através de um exame crítico da legislação,
observa-se que não se tem dado o valor necessário às águas subterrâneas. O
prestígio político alcançado pela divulgação de medidas de preservação das águas
superficiais leva à despreocupação em se proteger as reservas que se encontram no
subsolo. Diante do extremo valor da água, sendo o seu acesso hoje considerado um
direito humano e fundamental, em decorrência da evolução do Direito Ambiental, é
imprescindível que sejam tomadas medidas legais e institucionais no sentido de
controlar a utilização e a captação das águas subterrâneas. Os mecanismos de
prevenção da contaminação dos aqüíferos devem estar previstos em lei e devem ser
aplicados efetivamente. Neste contexto, é importante que se desenvolva a
consciência ambiental em todas as esferas do Estado, e em toda coletividade, de
modo geral. A atuação do Ministério Público e do Poder Judiciário tem sido firme no
que tange à tutela jurisdicional das águas subterrâneas, apesar dos vários
obstáculos legais e burocráticos existentes. O Aqüífero Guarani tem sido
amplamente explorado pelos países de sua ocorrência (Brasil, Argentina, Paraguai e
Uruguai), muitas vezes sem a precaução necessária, o que ocasiona o problema de
sua contaminação. Diante deste quadro, surgiu o Projeto Aqüífero Guarani, que tem
por objetivo formar um marco legal e institucional na gestão deste imenso
reservatório de águas subterrâneas. Porém, para que o abastecimento sustentável
no Guarani seja assegurado, as medidas propostas devem ser colocadas em prática
pelos administradores públicos e observada pela população em geral, sem o que, o
acesso às suas águas, um direito de todos, estará ameaçado.

Palavras-chave: Águas subterrâneas. Recursos hídricos subterrâneos. Direito de
Águas. Aqüífero Guarani.

















ABSTRACT


The present research analyses the legal protection of groundwater in Brazil and
emphasizes the relevant aspects concerning about Guarani Aquifer, one of the
world’s biggest groundwater reservoirs. Through a critic examination of the
legislation, it can be noticed that groundwater is not given the necessary importance.
The politic prestige reached by launching surface water preservation measures takes
to an unconcerned attitude in terms of protecting the water that lies in the
underground. Because of the extreme importance of water, and its access is
nowadays considered a human right due to the evolution of Environmental Law, it is
essential that legal and institutional measures must be taken to aim for the controlo f
the groundwater’s uses and exploration. The prevention mechanisms of aquifer’s
contamination should be described in laws and must be effectively applied. In this
context, it is important to develop environmental awareness in all State’s areas, and
in all society, in a general way. The acting of the Public Prosecutor Office and the
Judicial Power has been firm concerning groundwater’s guardianship, despite the
several legal and burocratic obstacles. Guarani Aquifer has been very explored by
the countries where it occurs (Brazil, Argentina, Paraguay and Uruguay), mostly
without the necessary precaution, which causes contamination problems. Because of
this, Guarani Aquifer’s Project was brought up, and it has the objective of forming a
legal and institutional landmark in the management of this huge groundwater
reservoir. But, in order to ensure sustainable supply in Guarani, the proposed
measures must be put to practice by the public administrators and observed by all
the population, because without it, the access to its water, a right for everyone, will be
in jeopardy.

Keywords: Groundwater. Subterranean water resources. Water Law. Guarani
Aquifer.


















LISTA DE ILUSTRAÇÕES, TABELAS E QUADROS


FIGURAS
FIGURA 1 – Ciclo hidrológico.....................................................................................14
FIGURA 2 – Distribuição das águas na Terra............................................................15
FIGURA 3 – Disponibilidade de água.........................................................................16
FIGURA 4 – Uso da água em residências.................................................................18
FIGURA 5 – Águas subterrâneas...............................................................................23
FIGURA 6 – Movimento das águas subterrâneas......................................................24
FIGURA 7 – Esquema institucional de gestão dos recursos hídricos........................42
FIGURA 8 – Localização do Aqüífero Guarani...........................................................49

QUADROS
QUADRO 1 – Usos múltiplos da água.......................................................................17
QUADRO 2 – Informações sobre o Projeto Aqüífero Guarani...................................54
QUADRO 3 – Fases do Projeto..................................................................................55

TABELA
TABELA 1 – Área, população e volume do Aqüífero Guarani....................................50

























SUMÁRIO


1 INTRODUÇÃO......................................................................................................9

2 A ÁGUA COMO RECURSO NATURAL INDISPENSÁVEL...................11
2.1 Considerações gerais........................................................................................11
2.1.1 Usos múltiplos da água..................................................................................16
2.2 “Crise da água”: o problema da escassez.......................................................18
2.2.1 Principais causas............................................................................................18

3 ÁGUAS SUBTERRÂNEAS: UMA ENORME RIQUEZA NO
SUBSOLO...............................................................................................................21
3.1 Conceito, características e disponibilidade.....................................................22
3.2 Contaminação e poluição..................................................................................26
3.3 Reuso da água subterrânea..............................................................................27
3.4 Regime jurídico das águas subterrâneas........................................................28
3.4.1 O Direito de Águas..........................................................................................29
3.4.2 Princípios do direito ambiental aplicáveis às águas subterrâneas............30
3.4.3 Direito fundamental à água potável...............................................................32
3.4.4 A água subterrânea como bem ambiental na Constituição Federal de
1988............................................................................................................................32
3.4.5 Dominialidade pública....................................................................................34
3.4.6 Competência legislativa em matéria de águas subterrâneas.....................36
3.4.7 Disciplina da legislação infraconstitucional.................................................37
3.4.7.1 Código de Águas (Decreto n.º 24.643, de 10 de julho de 1934)...............37
3.4.7.2 Código Civil de 2002 (Lei n.º 10.406/02).....................................................37
3.4.7.3 Lei n.º 9.605/98 (responsabilidade penal por contaminação de águas
subterrâneas)............................................................................................................38
3.5 Gestão dos recursos hídricos subterrâneos...................................................40
3.5.1 Poder de polícia das águas............................................................................43
3.6 Atuação do Poder Judiciário e do Ministério Público....................................46

4 AQÜÍFERO GUARANI: ASPECTOS RELEVANTES..............................47
4.1 Informações gerais.............................................................................................47
4.2 Meios de proteção..............................................................................................51
4.2.1 As legislações do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai............51
4.2.2 O projeto do Banco Mundial...........................................................................53

5 CONCLUSÃO.....................................................................................................56

BIBLIOGRAFIA




9
1 INTRODUÇÃO


A presente pesquisa enfocou os principais aspectos acerca do regime
jurídico das águas subterrâneas no Brasil. Ou seja, apresentou e discutiu, por meio
de uma análise crítica, os principais dispositivos legais que visam à regulamentação
do uso, do controle e da preservação dos mananciais localizados no subsolo, que
por sua inestimável qualidade e importância, necessitam de efetiva proteção
normativa que viabilize sua utilização sustentável.
Este trabalho científico também teve como escopo abordar assuntos
relevantes a respeito de uma das maiores reservas de águas subterrâneas do
mundo, o Aqüífero Guarani, apontando informações gerais, geográficas e o
arcabouço legal de sua proteção nos quatro países onde se localiza (Brasil,
Argentina, Paraguai e Uruguai). Demonstrou, ainda, os projetos que estão sendo
realizados pela Administração Pública destas nações e pela sociedade civil, e que
objetivam concretizar a tutela deste importante reservatório.
A escolha do tema deu-se em razão da crescente preocupação em se
preservar os recursos hídricos subterrâneos, pois estes estão sendo largamente
utilizados atualmente, e muitas vezes sem a devida cautela, permitindo a
contaminação por poluentes e a extração desenfreada, o que compromete o futuro
das próximas gerações, pois a água é essencial à vida. Assim, acompanhando-se
aquele pensamento, desenvolveu-se o Direito do Ambiente, e, conseqüentemente, o
Direito de Águas, área na qual esta pesquisa está centrada, e, mais
especificamente, no que se refere aos mananciais subterrâneos.
A metodologia empregada baseou-se principalmente no método
dedutivo, vale dizer, através de premissas e enunciados gerais, chegou-se a uma
conclusão necessária, através da correta aplicação de regras lógicas. Ademais,
utilizou-se, de forma secundária, o método comparativo, através da apreciação dos
dispositivos legais brasileiros, argentinos, paraguaios e uruguaios, concernentes à
tutela do Aqüífero Guarani.
No tocante ao procedimento adotado para a pesquisa, consistiu
basicamente em consultas a obras especializadas no assunto pesquisado, à
legislação pertinente, a trabalhos científicos, tais como monografias e artigos, além
10
de consultas a sítios da rede mundial de computadores, os quais trouxeram à
pesquisa conteúdos extremamente interessantes e que complementaram de forma
significativa este trabalho científico, especialmente no que tange ao tema do
Aqüífero Guarani. Houve também o auxílio de dicionários da língua portuguesa e de
um específico para termos hidrológicos, publicado em software pela Agência
Nacional de Águas.
O texto da pesquisa foi organizado tomando por base o método
dedutivo, isto é, através de uma espécie de “afunilamento”, no intuito de facilitar a
compreensão das idéias e das informações. Preliminarmente, abordou-se o tema da
água potável de um modo geral, para que fossem posteriormente analisados os
assuntos pertinentes às águas subterrâneas, ao seu regime jurídico e aos aspectos
relevantes sobre o Aqüífero Guarani.




















11
2 A ÁGUA COMO RECURSO NATURAL INDISPENSÁVEL


A água sempre foi fundamental ao homem. Houve tempos em que sua
posse representou até mesmo um instrumento político de poder. O controle de rios
como forma de dominação iniciou-se, pelo menos, quatro mil a.C. na Mesopotâmia;
o controle das inundações do Rio Nilo foi a base do poderio egípcio, desde cerca de
3,4 mil anos a.C. (REBOUÇAS, 2006a, p. 16-17).
Modernamente, entretanto, a água torna-se muito mais um fator de
cooperação do que propriamente de conflito, como é o caso do acordo entre as
nações pertencentes à Bacia do Rio Nilo, que se reúnem para discutir ações
conjuntas objetivando a proteção de suas reservas (REBOUÇAS, 2006a, p. 19).
A razão para tal cooperação é simples: a água é essencial à vida, e na
medida em que todos se unem para protegê-la, o benefício sócio-ambiental é
extraordinário.
Embora seja claramente perceptível o extremo valor da água para os
seres vivos, é importante primeiro analisar, de forma concisa, porém, explicativa, o
que é a água em seu aspecto físico-químico, bem como, suas características, o ciclo
que ela percorre (o chamado “ciclo hidrológico”), qual a sua disponibilidade nos
quatro cantos do mundo, e os chamados usos múltiplos.
Com esta bagagem, será possível obter o necessário conhecimento
para avaliar o problema de sua escassez, as causas e conseqüências desta, para,
de fato, compreender a atual preocupação em se proteger este recurso natural tão
valioso.

2.1 Considerações gerais


De primeiro plano, necessário se faz conceituar este fundamental
componente da natureza. O Glossário de Termos Hidrológicos (AGÊNCIA
NACIONAL DE ÁGUAS, 2002) traz as seguintes definições para o termo “água”:

1) Fase líquida de um composto químico formado aproximadamente por 2
partes de hidrogênio e 16 partes de oxigênio em peso. Na natureza ela
12
contém pequenas quantidades de água pesada, de gases e de sólidos
(principalmente sais) em dissolução; 2) Polímero formado pela união de
várias moléculas de H2O; 3) Considerada como bem econômico na
Conferência Internacional sobre a Água e o Meio Ambiente em Dublin
(1992). Considerada também como um bem mineral, energético, comum,
social e estratégico.


Em relação às suas características, o “ouro azul” é um composto de
grande estabilidade, um solvente universal e uma fonte poderosa de energia
química. É capaz, ainda, de absorver e liberar mais calor que todas as demais
substâncias comuns.
Ao explanar a respeito da água, Édis Milaré (2000, p. 118) descreve-a
como um recurso natural de característica planetária, pois faz parte dos elementos
estreitamente relacionados que constituem ecossistemas e que estão presentes em
toda a superfície da Terra (ar, água, solo, fauna e flora).
Há uma polêmica diferenciação entre os termos “água” e “recurso
hídrico”. Cid Tomanek Pompeu afirma que “água é o elemento natural,
descomprometido com qualquer uso ou utilização. É o gênero. Recurso hídrico é a
água como bem econômico, utilitário, passível de uso com tal fim” (2006a, p. 71).
Todavia, Maria Luiza Machado Granziera discorda desta distinção e assevera que o
Código de Águas brasileiro e a Lei n.º 9.433/97 (objetos de análise posterior nesta
pesquisa) não a estabelecem; veja-se seu entendimento (2006, p. 28):

A água constitui um elemento natural de nosso planeta, assim como o
petróleo. Como elemento natural, não é um recurso, nem possui qualquer
valor econômico. É somente a partir do momento em que se torna
necessário a uma destinação específica, de interesse para as atividades
exercidas pelo homem, que esse elemento pode ser considerado como
recurso.

Paulo Affonso Leme Machado (2002, p. 408) também não emprega tal
distinção, pelo mesmo motivo, o de que a lei não estabeleceu uma divisão rigorosa.
Em verdade, não se deve ter grande preocupação com tal diferenciação. O que se
deve evitar é a utilização do termo “recurso hídrico” ao se tratar da água de forma
genérica, pois aquele é uma espécie do gênero “água”.
O recurso natural em voga pode ser encontrado em diferentes fases:
sólida, líquida e gasosa; a segunda é a que mais interessa ao homem e aos demais
organismos; na verdade, é a esta fase que está se referindo ao se citar a palavra
13
“água” na presente pesquisa (mais especificamente, a água potável); o movimento
contínuo entre estas fases compõe o chamado ciclo hidrológico, sendo de
fundamental importância sua compreensão.
São componentes do ciclo hidrológico (TUNDISI, 2005, p. 5):
a) Precipitação: água adicionada à superfície da Terra a partir da
atmosfera; pode ser líquida (chuva) ou sólida (neve ou gelo);
b) Evaporação: processo de transformação da água líquida para a fase
gasosa (vapor d’água); a maior parte da evaporação se dá a partir
dos oceanos; nos lagos, rios e represas também ocorre
evaporação;
c) Transpiração: processo de perda de vapor d’água pelas plantas, o
qual entra na atmosfera;
d) Infiltração: processo pelo qual a água é absorvida pelo solo;
e) Percolação: processo pelo qual a água entra no solo e nas
formações rochosas até o lençol freático;
f) Drenagem: movimento de deslocamento de água nas superfícies,
durante a precipitação.

FIGURA 1 – Ciclo hidrológico

Fonte: Disponível em: <http://www.oaquiferoguarani.com.br/fig1_2.htm>. Acesso em 07.set.2007.

14
Tais componentes são de suma importância porque explicam como a
água percorre seu caminho no planeta, e a interferência do homem neste processo
prejudica ainda mais a fraca disponibilidade da água doce. O componente de maior
importância, entretanto, é a drenagem dos rios, pois representa a renovação dos
recursos hídricos (TUNDISI, 2005, p. 11). Conclui-se, então, que o ciclo hidrológico
está intimamente ligado ao ciclo da vida.
No tocante à sua classificação, a água pode ser doce, aquela que
contém baixo teor de sais; salgada, a que possui naturalmente alto teor de sais, em
oposição à água doce; potável, a própria para o consumo humano; e, ainda, a
mineral, que nada mais é do que a água potável dotada de grande quantidade de
sais minerais.
No globo terrestre, a água é encontrada nas formas doce e salgada, na
porcentagem de 2,5% e 97,5%, respectivamente. Do total de água doce, 68,9%
encontra-se nas calotas polares e geleiras, enquanto que 29,9% é subterrânea,
0,9% é encontrada em outros reservatórios e apenas 0,3% reside nos rios e lagos
(TUNDISI, 2005, p. 7). Estes últimos são reservatórios especialmente importantes,
pois não só abastecem o consumo humano diretamente, mas também atendem a
uma infinidade de espécies de seres vivos que também dependem da água para
sobreviver, e mantém, desta forma, ecossistemas dos mais variados.

FIGURA 2 – Distribuição das águas na Terra

Fonte: REBOUÇAS, 2006a, p. 08.
15

A distribuição de águas doces no mundo está ligada a fatores
climáticos. Segundo Aldo da Cunha Rebouças (2006a, p. 11), “a interação de fatores
pluviométricos e fisiográficos resulta numa variação dos graus de umidade, tanto
espacial como temporal”. Assim, na faixa de clima equatorial úmido, as chuvas são
abundantes e regulares; no clima tropical subúmido, menos abundantes e menos
regulares; no clima tropical misto, o regime chuvoso é variável (quatro a sete meses
por ano); já no clima tropical seco, o regime é muito variável (menos de quatro
meses por ano). A conseqüência é que, em áreas com predominância de chuvas,
formam-se excedentes hídricos e reservas importantes de água subterrânea, e os
rios, lagos e outros reservatórios de superfície parecem estar sempre cheios,
passando a perigosa idéia de abundância.
A figura 3 demonstra a disponibilidade de água doce no planeta. Nota-
se que, em termos relativos, os países da América do Sul são os mais ricos em água
doce, e os países do norte da África, os mais pobres.

FIGURA 3 – Disponibilidade de água

Fonte: REBOUÇAS, 2006a, p. 17.

O curioso é que, na verdade, não há problema de escassez de água no
nível global, porque, segundo Aldo da Cunha Rebouças (2006a, p. 14), “[...] cada
habitante da Terra, no ano 2000, terá [teve] disponível nos rios entre 6 mil e 7 mil
m³/ano, ou seja, entre 6 a 7 vezes a quantidade mínima de mil m³/hab/ano, estimada
16
como razoável pelas Nações Unidas. O que ocorre, porém, é que os potenciais
hídricos estão extremamente mal distribuídos, o que contribui para os denominados
“conflitos pela utilização da água” (REBOUÇAS, 2006a, p. 14-15).

2.1.1 Usos múltiplos da água


A utilização da água nas atividades humanas revela-se distinto de
região para região, de país para país. Inquestionável, porém, é que houve um
acréscimo no consumo deste recurso natural, diante da evolução da tecnologia e do
conhecimento, o que resultou nos chamados “usos múltiplos da água”. Tarefas como
a irrigação na agricultura, intensificada no início da década de 70, a utilização
doméstica, a navegação, a recreação, o turismo, a mineração (lavagem e purificação
de minérios) e a produção de hidroeletricidade, representam esta diversidade de
utilizações (TUNDISI, 2005, p. 28-29).

QUADRO 1 - Usos múltiplos da água
Agricultura Irrigação e outras atividades relacionadas
Abastecimento público Usos domésticos
Hidroeletricidade
Usos industriais diversificados
Recreação
Turismo
Pesca Produção pesqueira comercial ou
esportiva
Aquacultura Cultivo de peixes, moluscos, crustáceos
de água doce. Reserva de água doce
para futuros empreendimentos e
conseqüente uso múltiplo.
Transporte e navegação
Mineração
Usos estéticos Recreação, turismo, paisagem
Fonte: TUNDISI, 2005, p. 29.
17

A expansão das atividades antrópicas, portanto, está gerando uma
demanda cada vez maior de água. O consumo praticamente triplicou a partir de
1950, e o consumo médio por habitante foi ampliado em 50% (disponível em: <
http://www.uniagua.org.br/website/default.asp?tp=3&pag=curiosidades.htm>. Acesso
em 06.set.2007). Na figura 4, pode-se ter uma idéia da quantidade de água utilizada
em uma residência nos dias atuais (dados relacionados ao consumo médio de uma
família de classe média em país desenvolvido).
Permite-se, então, observar que a evolução do pensamento humano
ampliou as finalidades dos recursos hídricos, sendo utilizados até mesmo em
determinados cultos religiosos. Essa complexidade, como será visto a seguir, ao
exigir, muitas vezes, uma alteração do ciclo hidrológico, passou a ser uma das
causas para a chamada “crise da água”.

FIGURA 4 – Uso da água em residências

Fonte: TUNDISI, 2005, p. 28.
18

2.2 “Crise da água”: o problema da escassez


O problema da disponibilidade cada vez mais restrita de água surgiu,
como já afirmado anteriormente, com a crescente evolução das atividades humanas
e a complexidade trazida com estas; a conseqüência são resultados de proporções
catastróficas: a deterioração dos suprimentos de água e dos mananciais. Porém, o
homem não mostrou preocupado por centenas de anos, e agora, no terceiro milênio,
a escassez deste bem ambiental é tema amplamente divulgado e debatido.

2.2.1 Principais causas


Estudando a história das civilizações, evidencia-se que a
disponibilidade de água nunca foi um problema para a humanidade; não se
procurava mensurar seu uso, pois simplesmente havia uma sensação de que ela era
infinita.
Apenas no ano de 1815, num encontro em Viena, é que vários países
iniciaram a discussão de um tema que envolvia diretamente a água: regras de
navegações em águas fluviais; após, descobriu-se outro importante uso para a água,
para a produção de energia, a qual não apresentava ameaça alguma, já que as
barragens eram construídas em áreas não-navegáveis (CAUBET, 2006, p. XX).
A partir da década de 80, a população mundial passou a observar o
perigo dos impactos produzidos pelas ações humanas ao longo do tempo, seja em
relação aos recursos hídricos, seja em outras áreas concernentes à natureza. Hoje,
a água é vista por muitos órgãos e entidades mundiais como um recurso natural
limitado para finalidades de consumo, um produto de exportação, um insumo, etc.;
ou seja, ela transformou-se, inadmissivelmente, num bem valioso, um produto de
comércio, dada sua importância e sua menor disponibilidade em termos de
potabilidade nos dias atuais, quando, na verdade, deveria estar à disposição de
todos os seres vivos.
19
Um estudo desenvolvido pelo ILEC (International Lake Environment
Committee) revelou que os problemas da deterioração dos recursos hídricos estão
relacionados com o crescimento e a diversificação das atividades agrícolas, o
aumento da urbanização e o aumento e a intensificação das atividades nas bacias
hidrográficas (TUNDISI, 2005, p. 39). Isto se deve principalmente à intensificação da
atividade humana em todas as áreas sócio-econômicas.
De fato, a violenta urbanização acarretou sérios danos aos suprimentos
de água no planeta, devido ao enorme desequilíbrio no seu escoamento. Como bem
destaca José Galizia Tundisi (2005, p. 27):

Quando determinada área é desenvolvida para uso humano, muitos
sistemas que retém a água do ciclo hidrológico são removidos. Há aumento
rápido do escoamento urbano devido à pavimentação e também pela
remoção da vegetação que é fundamental na recarga dos aqüíferos.

De um lado, tem-se a grande ameaça da contaminação química das
águas por diversas substâncias, as quais, embora criadas pelo homem para
controlar as doenças, acabam ironicamente se incorporando na composição química
da atmosfera e do corpo humano, causando graves conseqüências ao ser humano,
como mutações, defeitos do crescimento e câncer; é preciso lembrar também da
contaminação por mercúrio e metais pesados, que ficam concentrados nos
sedimentos de rios, represas e lagos, intoxicando organismos aquáticos, atingindo
depois o homem através da rede alimentar.
Há também a chamada diversão de rios, ou seja, desvios e
transposições; é importante considerar os custos elevados destes mecanismos e os
impactos por eles gerados, no sentido de evitar maiores desastres ecológicos, posto
que eles alteram o que a natureza originalmente criou.
Outra face da urbanização frente à água é a construção de
reservatórios. Ressalta-se que existem pontos positivos, como produção de energia,
retenção de água no local, maior prosperidade para setores das populações locais,
navegação e geração de empregos; de outra banda, há pontos negativos, por
exemplo, perda de terras férteis e de madeira, emigração humana excessiva, perda
de biodiversidade, entre muitos outros. Portanto, deve-se ter cautela e
responsabilidade ao se construir um reservatório.
20
Uma situação gravíssima, atualmente bastante debatida, são as
mudanças climáticas globais, pois elas estão alterando de modo significativo o ciclo
hidrológico, ocasionando aumento da temperatura da água (o que interfere na
tolerância dos seres vivos aquáticos) e das substâncias tóxicas e dos poluentes em
razão da evaporação.
Imprescindível explanar acerca do fenômeno da “eutrofização”, que
pode ser natural ou cultural; a primeira é resultado do enriquecimento de nitrogênio e
fósforo provenientes de plantas e que se dissolvem na água, de forma normal,
enquanto que a segunda tem origem em despejos de esgotos domésticos e
industriais, e de fertilizantes utilizados na agricultura, o que provoca uma aceleração
naquele processo de enriquecimento e conseqüente formação de cianobactérias
(“algas verdes azuis”), as quais produzem substâncias tóxicas nocivas ao homem e
aos animais em geral. Existem formas de combater esta última eutrofização, porém,
implicam em altos gastos na recuperação de rios, lagos e represas.
Ocorrem, ainda, vários outros fatores que determinam a deterioração
dos recursos hídricos, todos decorrentes do rápido desenvolvimento sócio-
econômico e tecnológico (introdução de espécies exóticas nos ecossistemas
aquáticos, remoção de vegetação ciliar, aumento do material em suspensão na
água, retirada excessiva de água, etc.) e que contribuíram para o atual estágio de
alerta de escassez.













21
3 ÁGUAS SUBTERRÂNEAS: UMA ENORME RIQUEZA NO SUBSOLO


As águas subterrâneas sempre despertaram interesse por parte do
Homo sapiens sapiens. Desde primeiras civilizações do mundo, em decorrência da
escassez ou irregularidade das chuvas, a captação da água subterrânea tornou-se
uma das importantes possessões. Inicialmente, as obras eram simples buracos
d’água. Há cerca de 8.000 a.C., as extrações para consumo passaram a ser
revestidas de pedra e betume. As galerias e túneis horizontais de centenas de
quilômetros construídos pelos povos antigos do Oriente Médio, nas rochas
fraturadas, ainda representam as obras mais extraordinárias de captação de água
subterrânea. Esta possuía, ademais, um lado místico, considerada um “fluido
espiritual da Terra” (REBOUÇAS, 2006b, p. 112).
Vários códigos antigos, como o de Hamurábi da Babilônia e o de Manu,
na Índia, estabeleciam severas penalidades a quem danificasse captações de água,
utilizadas para abastecimento da coletividade, e indicavam práticas de higiene,
muitas delas até hoje apropriadas (REBOUÇAS, 2006b, p. 112).
Até mesmo a Bíblia, em diversas passagens do “Gênesis”, ressalta a
importância das águas do subsolo, extraídas por poços escavados. Elas eram
reconhecidas como fonte de abastecimento das populações das zonas áridas e
semi-áridas, mas, com o advento da Revolução Industrial, passou a ter relevância
também nas atividades industriais e urbanas, aumentando a demanda.
No Brasil, afirma Aldo da Cunha Rebouças (2006b, p. 112), a captação
destes recursos vem sendo realizada desde os primórdios dos tempos coloniais,
principalmente para o abastecimento das populações e rebanhos na região semi-
árida do Nordeste. Entretanto, desenvolveu-se uma cultura tecnológica que tem
dado primazia às obras de captação nos rios, alçadas pelo seu prestígio político, o
que culminou com a ausência de conhecimento sobre a existência e a qualidade das
águas subterrâneas.
Demonstrada a relevância dos mananciais em questão na história
humana, é preciso tecer algumas considerações acerca de suas características e de
seu regime jurídico, além de expor, em linhas gerais, o problema da contaminação e
22
o denominado reuso e tratamento da água subterrânea, uma excelente solução para
o problema da disponibilidade hídrica.

3.1 Conceito, características e disponibilidade


Basicamente, e em sentido amplo, toda a água encontrada abaixo da
superfície da Terra é denominada água subterrânea. Elas ocorrem em duas zonas: a
insaturada, que se estende da superfície até profundidades que variam de menos de
um metro a centenas de metros, e que contém água e ar; e a zona saturada, que
está logo abaixo da zona saturada, e que, por sua vez, contém apenas água
(TUNDISI, 2005, p. 12).

FIGURA 5 – Águas subterrâneas

Fonte: TUNDISI, 2005, p. 13.

Na figura abaixo, está demonstrado como a água se movimenta
através dos sistemas subterrâneos. Existem as áreas de recarga, aquelas que
recebem as águas da chuva, sendo que estas percolam e formam aqüíferos não
confinados. Já nos aqüíferos confinados, encontra-se água retida por solos menos
permeáveis. De acordo com José Galizia Tundisi (2005, p. 12), “todos os tipos de
rochas, ígneas, sedimentares ou metamórficas, confinam águas nas diferentes
23
regiões”, e, salienta, ainda, que “importantes fontes de depósitos de águas
subterrâneas incluem rochas calcárias e dolomita, basalto e arenito”.

FIGURA 6 – Movimento das águas subterrâneas

Fonte: TUNDISI, 2005, p. 13.

Gerson Cardoso da Silva Júnior traz a seguinte definição de aqüífero
(2003, p. 550):

Um aqüífero pode ser definido como uma formação geológica, grupo ou
parte de uma formação, ainda que não especificada formalmente de acordo
com o Código de Nomenclatura Estratigráfica (SBG, 1996), e que contém
material permeável e saturado, de modo a permitir armazenamento e
vazões de água em poços e em fontes em quantidades apreciáveis e
economicamente significativas.


Em termos mais simples, os aqüíferos são os suportes pelos quais as
águas subterrâneas correm no subsolo.
Nota-se, então, que as águas subterrâneas constituem importante
recurso natural renovável, e são, aliás, parcela “indivisível” do já abordado ciclo
hidrológico
1
, na medida em que as águas precipitadas atingem as áreas de recarga
e são conduzidas pelos aqüíferos até as áreas de descarga (rios, lagos ou oceanos).
O artigo 1º, inciso I, da Resolução CNRH n.º 15, de 11 de janeiro de
2001, conceitua águas subterrâneas como aquelas que correm naturalmente ou

1
Vide seção 2.1.
24
artificialmente no subsolo; depreende-se, destarte, a função de estocagem e
regularização das águas subterrâneas, e, ainda, a determinação de que as águas
que correm no subsolo de forma artificial também são igualmente denominadas
subterrâneas.
Há uma divisão das águas em apreço, realizada pela doutrina e pela
jurisprudência, em subálveas, freáticas e subterrâneas ou circulantes. As primeiras
derivam das correntes naturais; as segundas emanam naturalmente à superfície e
constituem os aqüíferos mais próximos dela; e, finalmente, as terceiras são as que
correm em grandes profundidades (POMPEU, 2006a, p. 211-212).
A captação destes mananciais ocorre por meio de poço escavado (furo
vertical para extrair água, cujo diâmetro geralmente é superior a dois pés, escavado
por meio de ferramentas manuais ou máquinas escavadoras), galeria (conduto
fechado escavado em um aqüífero para recolher as águas subterrâneas que se
escoam por gravidade), túnel (caminho subterrâneo horizontal) ou poço tubular
profundo (construído por introdução de um tubo no solo) (AGÊNCIA NACIONAL DE
ÁGUAS, 2002).
As águas subterrâneas formam o maior reservatório de água doce do
planeta, representando cerca de 29,9% do total, em contraste aos outros mananciais
passíveis de utilização antrópica (0,3% - rios e lagos; 0,9% - outras fontes). Não
obstante, estão disponíveis em todas as partes da Terra, de forma permanente e
próxima ao local de uso, e possuem qualidade incomparável, haja vista que posem
estar livres de contaminantes e patógenos (TUNDISI, 2005, p. 12).
Christian Caubet assinala que a exploração destes recursos é barata, e
que estas águas chegam, muitas vezes, a jorrar do chão, em meio à diferença de
pressão entre a superfície e o subsolo (2006, p. 52).
Por todos os motivos expostos alhures, as águas subterrâneas são
extremamente exploradas pelo ser humano no mundo todo. Observe-se o
apontamento de Fabiana Paschoal de Freitas (2003, p.161-162):

Desde as civilizações mais antigas, a água subterrânea sempre foi fonte de
abastecimento das zonas áridas e semi-áridas. No Brasil, a água
subterrânea vem sendo igualmente captada desde à época da colonização,
conforme atestam poços existentes em fortes militares, conventos e outras
construções antigas.

25
Consoante relatórios do Banco Mundial, na Dinamarca, Arábia Saudita
e Malta, as águas subterrâneas compõem o único recurso hídrico disponível. Já no
território brasileiro, a distribuição é deveras irregular, apesar de nele estarem
concentrados 8% da água doce no mundo; isto porque 72% encontram-se na bacia
amazônica, sendo que a distribuição regional é de 70% para a região Norte, de 15%
para a região Centro-Oeste, de 12% para as regiões Sul e Sudeste e apenas de 3%
para a região Nordeste (GRAF, 2000, p. 62).
O curioso é notar que a utilização das águas subterrâneas no Brasil
mostrava-se tímida, talvez devido à vasta disponibilidade de rios. Contudo, nas
últimas décadas, tem havido uma tendência à sua captação para abastecimento
público (no estado de São Paulo, 65% dos núcleos urbanos e 90% das indústrias
são abastecidos pelos recursos hídricos do subsolo) (GRAF, 2000, p. 62).
Bem, e as águas minerais, são também consideradas subterrâneas?
A redação do artigo 1º do Código de Águas Minerais de 1945 atesta
que as águas minerais são “aquelas provenientes de fontes naturais ou de fontes
artificialmente captadas que possuam composição química ou propriedades físicas
ou físico-químicas distintas das águas comuns, com características que lhes
confiram uma ação medicamentosa”, porém, não explicita o que seria esta ação.
Sabe-se que elas contêm grande quantidade de sais minerais, importantes na
hidratação do corpo humano, o que, inclusive, revela seu valor econômico.
O fato é que elas são, sim, águas subterrâneas, entretanto, distintas
quanto à presença de quantias significativas de sais minerais; além disso, há uma
diferenciação no campo da legislação brasileira, como bem descreve Solange Teles
da Silva (2003, p. 821):

O Código da Mineração de 1967, dando nova redação ao Código de Minas
de 1940, reafirma que as águas subterrâneas minerais constituem
substância mineral dotada de valor econômico e formada de jazida,
devendo ser regidas por leis especiais. As águas minerais, embora sejam
subterrâneas, são tratadas em separado se esquivando da categoria de
bens dos Estados. Elas são classificadas como recursos minerais, dentre os
quais o único renovável e fazem parte dos bens da União.

Cabe destacar, por fim, que, sob a ótica jurídica, segundo Cid Tomanik
Pompeu (2006a, p. 213):

26
[...] Podem ser consideradas águas subterrâneas todas as águas que não
sejam superficiais, pois qualquer diferenciação hidrológica ou geológica que
se faça a respeito é irrelevante sob este aspecto, sem que caiba distinguir
se esta é ou não corrente [...] Juridicamente, como regra, aconselha-se o
emprego do conceito amplo.

3.2 Contaminação e poluição


Um tema bastante divulgado na mídia atual concerne à poluição das
águas subterrâneas. O problema maior reside no fato de que, por estarem
“escondidas” abaixo da superfície terrestre, não inspiram preocupação em grande
parte da população, porque simplesmente há pouco conhecimento de sua existência
ou de sua disposição. A conseqüência é o despejo de produtos químicos e
contaminantes, poluindo as águas do subsolo, seja por contaminação direta em
áreas de recarga ou descarga de aqüíferos, seja através de infiltrações ou
percolações.
Gerson Cardoso da Silva Júnior salienta que existem milhares de
contaminantes, e milhares são criados a cada ano (2003, p. 552); existem dois tipos
principais: os orgânicos, que têm cadeias de átomos de carbono, como os
pesticidas, herbicidas, solventes, plásticos, entre outros, e os inorgânicos, como o
nitrato e os metais oriundos de processos industriais.
Fatores como as propriedades, a capacidade de dissolução e a
densidade destas substâncias poluentes revelam-se importantes na análise dos
seus impactos nas águas subterrâneas (2003, p. 552). Outros aspectos, entre os
quais, o tipo de aqüífero (mais ou menos porosos), a localização próxima (dos
contaminantes) de explorações e captações de águas subterrâneas e o tipo de óxido
e minerais de argila existentes no solo, são determinantes na facilidade de um
poluente atingir as águas do subsolo (CARRAMENHA, 2003, p. 805).
A poluição em questão pode ter fontes variadas: pontuais (atingem um
aqüífero em um determinado ponto, como os aterros sanitários e vazamentos de
depósitos de produtos químicos), lineares (provocadas pela infiltração de águas
superficiais de canais e rios contaminados) ou difusos (contaminam áreas extensas,
devido ao transporte dos poluentes correntes aéreas, chuvas e pela atividade
agrícola) (CARRAMENHA, 2003, p. 805). Frise-se que a contaminação das águas
27
subterrâneas pode levar à poluição de áreas de descarga de aqüífero, como rios e
lagos, devido ao fluxo subterrâneo.
José Galizia Tundisi assevera que, no Brasil, a mineração, perda de
material de tanques de reserva de álcool ou gasolina e a grande concentração de
fazendas de criação de gado confinado ou suínos, ou granjas, em que o material
sólido permanece no solo, são fontes significativas de contaminação (2005, p. 38).
Outrossim, os modos de contaminação por processos industriais têm
efeitos drásticos, e acontecem principalmente através de vazamento de um poluente
em uma área industrial e a implantação de aterros industriais em locais
inadequados.
Em que pese a existência de técnicas de limpeza de aqüíferos, entre
outras medidas de descontaminação, elas possuem custos elevados e têm
apresentado resultados pouco efetivos. A melhor solução, portanto, é estabelecer
políticas de gestão dos recursos hídricos subterrâneos, além da formação de
arcabouço legal que viabilize sua integral proteção.

3.3 Reuso da água subterrânea


A descontaminação dos mananciais aqüíferos mostra-se muito
demorada e onerosa, além de não ser o propósito principal em matéria ambiental, o
qual visa à prevenção. Entretanto, o reuso/tratamento de suas águas representa
alternativa de grande valia para o problema da escassez, haja vista que prioriza a
utilização da água potável presente nos mananciais para o consumo humano,
destinando-se a água tratada às demais atividades antrópicas (LIBERATI, 2007).
Conforme Wilson Donizeti Liberati (2007):

Para reusar ou descontaminar a água é preciso conhecer a intensidade da
contaminação, da quantidade de nitrato presente ou adicionada ao solo, da
permeabilidade do solo, das condições climáticas (pluviosidade) e de
manejo da irrigação e da profundidade do lençol freático.

Existem duas formas de reuso da água (LIBERATI, 2007):
28
a) reuso indireto planejado – depois de tratados, os efluentes são
depositados de forma planejada nas águas superficiais ou
subterrâneas.
b) reuso direto planejado – após o tratamento, os efluentes não são
descarregados no ambiente, mas, sim, são transferidos de seu
ponto de descarga até o local do reuso.
Assim, o reuso pode ser urbano (recreação, paisagismo, descarga em
toaletes, etc.), industrial (abastecimento de caldeiras, sistemas de resfriamento,
entre outros) ou ambiental (estabelecimentos recreacionais para pesca e canoagem,
lagoas estéticas, habitats naturais, com aumento do fluxo de água, etc.) (LIBERATI,
2007).
Destarte, esta solução demonstra-se perfeitamente plausível e
adequada ao desenvolvimento sustentável, minimizando os efeitos da conseqüência
da escassez de água.

3.4 Regime jurídico das águas subterrâneas


Como foi possível se observar nas seções anteriores, as águas
subterrâneas são fontes inegavelmente preciosas para o consumo humano, com
qualidades incomparáveis, e disponíveis em diversos lugares do planeta. Contudo,
conforme também já explanado, a exploração ilimitada destes recursos e a
conseqüente poluição fez brotar a urgente necessidade de se elaborar um
verdadeiro esquema legal e institucional, seja no Brasil ou em outros países, para
permitir a fundamental proteção destas águas, garantindo, assim, o direito das
futuras gerações à sua exploração sustentável.
Portanto, o objetivo da presente seção é apontar as principais normas
jurídicas estabelecidas acerca do domínio, uso e conservação dos recursos em
voga, sendo, para isto, imprescindível abordar temas relacionados tanto ao Direito
Público como ao Privado, passando por noções de Direito Internacional e Direito
Administrativo, o reconhecimento cada vez mais saliente do direito fundamental à
água potável, além de disposições da legislação constitucional e infraconstitucional
brasileira, e da explicação do esquema institucional de gestão dos recursos hídricos
29
proposto pela Lei n.º 9.433/97, apontando pontos específicos relacionados às águas
subterrâneas.

3.4.1 O Direito de Águas


O Direito Ambiental desenvolveu-se como ramo autônomo a partir dos
anos 70, acompanhando a crescente conscientização ambiental. Com o tempo,
surgiu também o chamado Direito de Águas, uma ramificação daquele, como uma
resposta à preocupação de se proteger o líquido precioso; aliás, o Direito comporta-
se justamente desta forma, adaptando-se às novas realidades e aos
comportamentos da sociedade.
Cid Tomanik Pompeu (2006b, p. 677) define o Direito de Águas como
“conjunto de princípios e normas jurídicas que disciplinem o domínio, o uso, o
aproveitamento, a conservação e a preservação das águas, assim como a defesa
contra suas danosas conseqüências”.
Veja-se outro conceito, dado por Maria Luiza Machado Granziera
(2006, p. 24), e que complementa o anterior:

[...] Conjunto de princípios e normas jurídicas que disciplinam o domínio, as
competências e o gerenciamento das águas, visando ao planejamento dos
usos e à preservação, assim como a defesa de seus efeitos danosos,
provocados ou não pela ação humana.

As fontes do Direito de Águas são a legislação, a doutrina, a
jurisprudência e o costume. Suas regras são colocadas tanto no Direito Privado
como no Público, tendo em vista que há, segundo Cid Tomanik Pompeu (2006b, p.
677), uma estreita vinculação de suas normas com o ciclo hidrológico, o qual
desconhece limites no seu percurso.
No Brasil, a evolução deste ramo da ciência do Direito tem sido lenta,
em virtude da não regulamentação de diversas regras estabelecidas pelo Código de
Águas de 1934 e de outras legislações. A despeito disso, a jurisprudência pátria tem
oferecido grandiosa contribuição nesta matéria, com a participação ativa do
Ministério Público.
30
Como o Direito deve se adequar às características de uma
determinada região, inclusive às geográficas, o Direito de Águas manifesta-se de
forma diferente em países secos ou úmidos, com normas obviamente distintas. No
território brasileiro, graças à generosidade de seu sistema hidrológico, aplicam-se as
regras próprias de regiões úmidas.
Neste sentido, as águas subterrâneas são objeto constante de
apreciação das leis relativas às águas, levando-se em conta seu grande valor para
os seres humanos.

3.4.2 Princípios do direito ambiental aplicáveis às águas subterrâneas


Por ser o Direito de Águas uma ramificação do Direito Ambiental, vários
princípios desenvolvidos neste podem ser aplicados, sobretudo no campo das águas
subterrâneas. Destacam-se, aqui, os principais:
a) desenvolvimento sustentável – nada mais é do que o
desenvolvimento econômico aliado à preservação do meio
ambiente, em condições propícias ao atendimento das futuras
gerações, Trazendo esta idéia ao campo das águas subterrâneas,
tem-se que a atividade econômica, seja industrial, agrícola ou
comercial, deve respeitar as normas referentes ao despejo de
produtos químicos e agrotóxicos, aos aterros sanitários, às
perfurações de poços, entre outras, a fim de assegurar às gerações
futuras o abastecimento por águas subterrâneas de qualidade, sem
comprometer o desenvolvimento econômico.
b) prevenção e precaução – apesar de guardarem semelhança, a
doutrina distingue os dois princípios (GRANZIERA, 2006, p. 51). O
segundo tem aplicação mais drástica, em que, na dúvida, o melhor
é não viabilizar determinada atividade ou projeto, com o fito de
evitar danos futuros e muitas vezes imprevisíveis; neste sentido, se
uma determinada empresa pretende instalar uma fábrica próxima à
área de recarga de aqüífero, o Poder Público deverá tomar
providências para impedir que a obra se inicie caso eventuais
31
poluentes possam contaminar águas subterrâneas com efeitos
dificilmente remediáveis. Já o princípio da prevenção é menos
rigoroso. Através dele, um empreendimento pode ser implantado
desde que se faça um prévio estudo ou análise do impacto
ambiental, garantindo o desenvolvimento sem danos futuros; assim,
eventual atividade que possa, de alguma forma, trazer riscos à
qualidade dos recursos hídricos do subsolo, um estudo prévio do
impacto poderá prevenir contaminações.
c) cooperação – como qualquer outro recurso natural, as águas do
subsolo não conhecem fronteiras entre países. Destarte, exige-se
que as nações estabeleçam normas conjuntas, acordos e tratados
que protejam de modo eficaz estes mananciais, com ações
integradas, sem o que não será possível a suficiente preservação. É
o caso do Aqüífero Guarani, objeto de seção posterior desta
pesquisa.
d) poluidor-pagador e usuário-pagador – o primeiro, conforme
ensinamento de Maria Luiza Machado Granziera (2006, p. 59),
“incide em duas órbitas: no conjunto de ações voltadas à prevenção
do dano, a cargo do empreendedor, e na responsabilidade pela
ocorrência do dano [...]”. Isto significa que os custos sociais
externos da atividade econômica devem ser internalizados, como é
o caso da construção de estação de tratamento de efluentes
industriais, do reuso da água, da adoção de tecnologias ‘limpas’, da
disposição de efluentes industriais em aterros licenciados,
especialmente construídos e dotados de níveis de segurança que
impeçam a contaminação do solo e dos recursos hídricos [exemplos
fornecidos por Maria L.M. Granziera (2006, p. 59)]. Já o segundo
princípio refere-se ao pagamento para que seja autorizado o uso de
um recurso ambiental de natureza pública, porém, escasso ou
ameaçado de escassez, devendo-se observar as normas vigentes.
É viável a aplicação deste princípio para a utilização de águas
subterrâneas em áreas onde estes recursos não sejam abundantes.


32
3.4.3 Direito fundamental à água potável


Está cada vez mais compreensível a existência do direito fundamental
à água potável, diante do alerta dado por ambientalistas do risco de sua escassez,
causada por fatores eminentemente advindos da ação humana. O direito em apreço
está intimamente ligado ao direito à vida, pois sem água de qualidade para o
preenchimento das necessidades básicas da população, como dessedentação,
higiene, e lavagem de alimentos, não há como falar-se em viver dignamente.
Alexandre de Moraes conceitua o direito à vida da seguinte forma
(1997, p. 87): “O direito humano fundamental à vida deve ser entendido como direito
a um nível de vida adequado com a condição humana, ou seja, direito à
alimentação, vestuário, assistência médico-odontológica, educação, cultura, lazer e
demais condições vitais”.
Como assegurar aos indivíduos um nível de vida adequado com a
condição humana sem o acesso à água potável? É simplesmente impossível. Por
esta razão, o Poder Público e as comunidades internacionais devem se empenhar
ao máximo para garantir o acesso a todos, indistintamente, por meio de ações
conjuntas, investimentos em infra-estrutura e educação ambiental, estudos e
pesquisas, etc.

3.4.4 A água subterrânea como bem ambiental na Constituição Federal de 1988


Inicialmente, é propício explicitar o que dispõe o artigo 225, caput, da
Lei Maior brasileira:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida,
impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

Pela leitura deste dispositivo, nota-se o estabelecimento de uma nova
modalidade de bem, o bem ambiental.
33
A água é sem dúvida definida juridicamente como um bem, pois agrada
ao homem, ou seja, traz benefícios, vantagens a ele; segundo Durval Salge Jr.
(2003, p. 95), muitos países hoje asseguram ao meio ambiente a qualidade de um
bem, desejando sua tutela e preservação, afastando os interesses do particular em
detrimento do interesse da coletividade.
Quanto à peculiar natureza do bem ambiental, o doutrinador Celso
Fiorillo leciona que aquele pode ser caracterizado como um bem de uso comum do
povo e essencial à sadia qualidade de vida, podendo ser desfrutado dentro dos
limites constitucionais (2005, p. 63), afirmando, ainda, que o artigo 225 da
Constituição Federal disciplina este bem como sendo nem público e muito menos
particular, e, desta feita, é demarcado um critério transindividual.
A água, portanto, inserida no contexto do meio ambiente, é
caracterizada como bem ambiental, pois é de uso comum e essencial à sadia
qualidade de vida, à luz do que estabelece a Carta Constitucional brasileira.
Com efeito, a água é bem de uso comum porque sua utilização é
aberta à coletividade; é, em regra, gratuita, mas podendo ser remunerada; está
sujeita ao poder de polícia do Estado; e, por fim, seu uso não tem natureza
subjetiva.
O líquido precioso é, ainda, essencial à sadia qualidade de vida por
diversos motivos, quais sejam, higiene, alimentação, lazer, entre outros; obedece-se,
desta maneira, ao princípio do direito à sadia qualidade de vida, mencionado por
Vicente Gomes da Silva (2004, p. 24), o qual afirma que a atual Constituição
brasileira assegurou o referido direito, seguindo a tese aludida na Conferência de
Estocolmo, em 1972, do direito fundamental a adequadas condições de vida, em um
meio ambiente de qualidade. Não é preciso salientar novamente a grande
importância da água para se viver qualitativamente. Veja-se que o professor Paulo
Affonso Leme Machado a mencionou como um dos recursos naturais que devem ser
considerados para a manutenção da boa saúde humana (2002, p. 46):

A saúde dos seres humanos não existe somente numa contraposição a não
ter doenças diagnosticadas no presente. Leva-se em conta o estado dos
elementos da Natureza – águas, solo, ar, flora, fauna e paisagem – para se
aquilatar se esses elementos estão em estado de sanidade e de seu
advenham saúde ou doenças e incômodas para os seres humanos. (grifo
do pesquisador).

34
Reconhecida a água como bem ambiental, passa-se a analisar suas
peculiaridades.
Tendo em vista que, segundo Durval Salge Jr. (2003, p. 105), o bem
ambiental pode ser corpóreo (dotados de existência física, material) ou incorpóreo
(sem existência concreta), a água, na forma de rios, lagos, mares, aqüíferos, etc.,
pode ser perfeitamente enquadrada na primeira categoria.
Bastante coerente é também classificar a água como um bem
ambiental difuso, já que seus titulares são indeterminados, ou seja, é impossível
especificar num dado momento quem poderá avocá-lo (SALGE JR., 2003, p. 110);
além disto, é um bem ambiental natural, posto que integra o meio ambiente natural
ou físico (SALGE JR., 2003, p. 118).
Considerando-se, então, a água como bem ambiental, as águas
subterrâneas, evidentemente, também fazem parte desta nova categoria de bens
estabelecida pela Carta Magna.

3.4.5 Dominialidade pública


Por influência do direito romano, como bem atesta Solange Teles da
Silva (2003, p. 821-822), a legislação brasileira colocava o direito de propriedade em
situação absoluta. Assim, no Período Colonial, a água subterrânea encontrada no
subsolo de um terreno tornava-se propriedade do dono do terreno. A perfuração de
poços era feita livremente, até que, no Período Imperial, passou a depender de
autorização central (REBOUÇAS, 2006b, p. 139). O estranho é notar que, durante a
República, o uso das águas em geral ficou sem controle federal ou estadual até
1934, com a promulgação do Código de Águas (REBOUÇAS, 2006b, p. 139). Ainda
assim, os dispositivos deste diploma legal referentes às águas subterrâneas não
foram efetivamente aplicados, e a situação de ausência de controle permaneceu.
Entretanto, com o advento da Constituição Federal de 1988, extinguiu-
se o domínio privado das águas, fixando-se a dominialidade pública, inclusive das
águas subterrâneas. Em outras palavras, restringiu-se direito de propriedade, e
acompanhou-se a tendência de publicizar bens de relevado interesse público.
35
Desta forma, o artigo 26, inciso I, da Lei Maior, ao incluir as águas em
apreço como bens dos Estados (entes federativos), dissociou o regime jurídico
daquelas do direito de propriedade do solo (SILVA, S., 2003, p. 826). Assim,
compete ao Poder Público Estadual gerir estes mananciais em articulação com a
União e os Municípios.
É mister consignar que o domínio dos recursos em questão “não se
refere à propriedade de um bem imóvel, objeto de registro próprio, mas decorre do
próprio Texto Constitucional, significando a responsabilidade pela guarda e
administração dos mesmos e pela edição das regras a ele aplicáveis” (GRANZIERA,
2006, p. 75).
Estabelecido o domínio das águas do subsolo aos Estados, e, por
analogia, ao Distrito Federal, uma dúvida surgiu. E quanto às águas subterrâneas
que se estendam pelo território de mais de um Estado, pertenceriam elas à União,
por analogia à situação das águas superficiais? Vladimir Passos de Freitas responde
à questão da seguinte maneira (2000, p. 24):

[...] Ao meu ver, não é possível concluir que tal circunstância torne as águas
subterrâneas bem da União, pois inexiste qualquer dispositivo na Carta
Magna que disponha de tal forma. E não é possível falar-se em analogia
com a situação das águas superficiais, ou seja, os rios que dividem ou
atravessam dois ou mais Estados. Portanto, referido bem econômico é
mesmo do Estado em que se localiza.

Maria Luiza Machado Granziera completa dizendo que, “de fato, não há
base constitucional para o entendimento de que as águas subterrâneas, subjacentes
a mais de um Estado, sejam do domínio da União” (2006, p. 81).
Os entendimentos acima citados parecem adequados; acrescente-se
que, ao ultrapassarem os limites de mais de um Estado, sendo de domínio dos
respectivos entes federativos em relação ao seu território, as águas subterrâneas
devem ser geridas em conjunto por eles.
Vale relembrar, por fim, que, no tocante às águas minerais, não
obstante serem subterrâneas, são consideradas como recursos minerais e, destarte,
fazem parte da categoria de bens da União, por força do artigo 20, inciso IX, da
Constituição Federal.


36
3.4.6 Competência legislativa em matéria de águas subterrâneas


Sendo as águas subterrâneas de domínio dos Estados, conforme regra
do artigo 26, inciso I, da Carta Magna, teriam os citados entes competência para
legislar sobre tais bens?
Inicialmente, observa-se que a Constituição Federal estatuiu a
competência privativa da União para legislar sobre águas (artigo 22, inciso IV). Deste
modo, conforme Maria Luiza Machado Granziera (2006, p. 67), criou-se um
paradoxo entre a referida competência e a capacidade de os entes políticos – entre
eles, os Estados – legislarem sobre águas subterrâneas, bens de seu domínio, pois
poder-se-ia interpretar que os Estados estariam impedidos de fixar normas acerca
desta matéria, e, ainda, que a União não poderia legislar em matéria administrativa,
já que tais águas não lhe pertencem. Todavia, Cid Tomanik Pompeu descreve sábia
solução para este impasse (2006a, p. 47):

No campo hídrico, a União tem dupla competência: (i) cria o direito sobre
águas, quando legisla privativamente; e (ii) edita normas administrativas
sobre as águas do seu domínio, em forma de lei ou não. Os Estados,
embora hajam recebido vasto domínio hídrico, somente dispõem de
competência para editar normas administrativas sobre as águas do seu
domínio, mesmo mediante lei, quando necessário. Aliás, é o que tem sido
feito, inclusive em suas Constituições.

Referido doutrinador esclarece, ainda, que a expressão “criar o direito
sobre águas” é identificada de forma exemplificativa, podendo versar sobre
inalienabilidade das águas, direito de acesso de águas, hierarquia de uso das águas
públicas, etc. (2006a, p. 47).
Permite-se concluir, então, que, aos Estados, é permitido editar normas
administrativas relativas à gestão dos recursos hídricos subterrâneos
2
.
Acrescente-se que, no âmbito dos Municípios, há competência
constitucional para a solução de questões ambientais de interesse local (inteligência
do artigo 23, inciso VI, da Constituição Federal), não em relação à água, que cabe à
União, mas aqueles podem atuar em áreas como a preservação de matas ciliares e

2
Na seção 3.3.8, serão destacados alguns exemplos de normas editadas por Estados e que
contribuem para a preservação das águas subterrâneas.
37
emissão de efluentes domésticos e industriais, questões diretamente relacionadas
com a proteção das águas subterrâneas.

3.4.7 Disciplina da legislação infraconstitucional


O objetivo aqui é apontar os principais aspectos trazidos pela
legislação pátria acerca das águas subterrâneas, e indicar os pontos aplicáveis.
Ressalta-se que a análise da Lei n.º 9.433/97 será feita em seção à parte
3
.

3.4.7.1 Código de Águas (Decreto n.º 24.643, de 10 de julho de 1934)


O Código de Águas foi publicado quando vigorava a Constituição de 16
de julho de 1934, portanto, em seus artigos 96 a 101, adotou a idéia da propriedade
privada sobre as águas subterrâneas. Previu, entretanto, a intervenção da
Administração para impedir extrações prejudiciais destes mananciais, suspendendo
ou determinando a demolição de poços e galerias que prejudiquem águas de
qualquer natureza, diminuindo-as ou poluindo-as. Ocorre que estes dispositivos são
atualmente inaplicáveis em grande parte, em virtude de alterações constitucionais,
da legislação sobre minérios e do Código Civil de 2002 (POMPEU, 2006a, p. 218).

3.4.7.2 Código Civil de 2002 (Lei n.º 10.406/02)


Existem três momentos do estatuto civil que precisam ser relevados,
isto porque têm relação direta com as águas subterrâneas:
a) quando da classificação dos bens públicos (artigo 99), que podem
ser de uso comum do povo, de uso especial ou dominicais – claro
que os mananciais subterrâneos enquadram-se no primeiro tipo,
pois podem ser usufruídos por toda a coletividade. Disto, decorre
que referidas águas são inalienáveis (artigo 100), não sujeitas à

3
Seção 3.3.8.
38
venda, transferência ou doação, e que seu uso pode ser gratuito ou
retribuído (artigo 103).
b) no estabelecimento de regras sobre o direito de propriedade – o
artigo 1228, § 1º, discorre sobre a função social da propriedade,
ressaltando, entre outros aspectos, que a poluição das águas,
incluindo-se, notadamente, as subterrâneas, deve ser evitada.
Depois, o mesmo artigo, em seu § 2º, diz que são defesos os atos
que não trazem ao proprietário qualquer comodidade ou utilidade, e
que sejam imbuídos de má-fé; neste sentido, não pode o
proprietário do solo perfurar um poço que não lhe traga nenhum
benefício, ou seja, perfurado com vistas a prejudicar terceiro
(SILVA, S., 2003, p. 827). Por fim, o artigo 1229 estabelece que a
propriedade do solo abrange a do subsolo em profundidades úteis
ao seu exercício, ou seja, ainda que as águas subterrâneas sejam
de domínio dos Estados, o proprietário do solo poderá usufruí-las
desde que observada a função social.
c) na disciplina do direito de construir – ainda dentro das regras de
propriedade. Dois dispositivos chamam a atenção: o artigo 1309,
que proíbe as construções capazes de poluir ou inutilizar, para uso
ordinário, a água do poço, ou nascente alheia, a elas preexistentes;
e o artigo 1310, o qual impede, também, escavações ou quaisquer
obras que tirem ao poço ou a nascente de outrem a água
indispensável às suas necessidades normais. Privilegiou-se,
portanto, a boa-fé e a importância dos mananciais subterrâneos
para o abastecimento coletivo.

3.4.7.3 Lei n.º 9.605/98 (responsabilidade penal por contaminação de águas
subterrâneas)


A tutela penal do ambiente surgiu como forma de defesa do direito
fundamental ao meio ambiente, com total respaldo do princípio da lesividade do bem
39
jurídico, ou seja, a relevância que se dá ao citado direito permite que o Direito penal
intervenha com vistas à sua proteção.
Segundo Cláudia Cecília Fedeli (2003, p. 427), “o artigo 54, da Lei n.º
9.605/98 é o principal dispositivo que visa coibir a poluição das águas de um modo
geral, dentre elas, sem dúvida, as águas subterrâneas”. De fato, trata-se de um tipo
penal amplo, que objetiva tutelar o ambiente como um todo na conduta de poluir. Diz
o seu caput:

Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem
ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a
mortandade de animais ou a destruição significativa da flora.
Pena – reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.

Cabe aqui uma breve, porém, esclarecedora análise dos elementos do
tipo em apreço (FEDELI, 2003, p. 428-434), relacionando-os às águas subterrâneas:
a) bem jurídico tutelado – é o meio ambiente (“conjunto de condições,
leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite,
abriga e rege a vida em todas as suas formas” – conceito do artigo 3º, inciso I, da Lei
de Política Nacional do Meio Ambiente), incluindo-se, logicamente, os mananciais
subterrâneos, pois fazem parte daquele;
b) sujeitos – o crime em questão pode ser cometido qualquer pessoa,
física ou jurídica. Esta última pode e deve ser responsabilizada quando poluir as
águas subterrâneas, principalmente por ser um dos principais poluidores; há
inclusive, amparo constitucional para tanto
4
. Já o sujeito passivo é notadamente a
coletividade, contudo, pode haver vítimas individualizadas;
c) tipo objetivo – a conduta consiste em causar poluição (alterar as
propriedades naturais do meio ambiente por agentes prejudiciais à saúde) de
qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde
humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa
da flora. Assim, a contaminação de águas subterrâneas enquadra-se perfeitamente
no tipo em questão, sendo que não importa se elas já estavam poluídas, pois a
preocupação é com o fato de a alteração transformar-se em prejudicial à saúde
humana, à flora e à fauna;

4
Artigo 225, § 3º, da Constituição Federal.
40
d) tipo subjetivo – o dolo é apenas genérico (vontade de causar
poluição), podendo ser admitido o dolo eventual (o agente assumiu o risco de causar
o resultado). Outrossim, a forma culposa é possível (§ 1º);
e) consumação – a primeira parte trata de crime de perigo, e consuma-
se com a mera possibilidade do dano, enquanto que a segunda parte descreve
crime de dano. Admite-se a tentativa quando, iniciada a execução da conduta de
poluir, o risco de dano é freado por circunstâncias alheias à vontade do agente;
f) qualificadoras – duas merecem destaque, as dos incisos III e V do §
2º; a primeira prevê o agravamento da pena se a contaminação das águas gerar a
necessidade de paralisação do serviço de abastecimento de uma determinada
população, e a segunda refere-se à emissão de poluentes em desacordo com as
exigências estabelecidas por lei ou regulamento.
Saliente-se, então, que a responsabilidade penal pela contaminação
das águas subterrâneas representa importante meio de prevenção e de educação
ambiental.

3.5 Gestão dos recursos hídricos subterrâneos


A Lei n.º 9.433/97 (“Lei das Águas”) instituiu a Política Nacional dos
Recursos Hídricos e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos
Hídricos. Estabeleceu diversos fundamentos, sendo oportuno descrever o que
dispõe o seu artigo 1º:

Art. 1º. A Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes
fundamentos:
I – a água é um bem de domínio público;
II – a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico;
III – em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o
consumo humano e a dessedentação de animais;
IV – a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso
múltiplo das águas;
V – a bacia hidrográfica e a unidade territorial para implementação da
Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de
Gerenciamento de Recursos Hídricos;
VI – a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a
participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades.

41
Referido diploma legal determinou, ainda, um esquema institucional de
gestão dos recursos hídricos, como ilustrado na figura 7.
Gerir significa administrar, gerenciar. Neste contexto, o Sistema de
Gerenciamento de Recursos Hídricos “possui atribuição de planejamento e também
de controle administrativo, pelos órgãos e entidades da Administração Pública,
responsáveis pelo exercício do poder de polícia das águas” (GRANZEIRA, 2006, p.
152), e constitui um arranjo institucional, baseado em novos tipos de organização
para a gestão compartilhada do uso da água.

FIGURA 7 – Esquema institucional de gestão dos recursos hídricos

Fonte: TUNDISI, 2005, p. 151.

Assim, inseriu-se o princípio da gestão integrada das águas, por meio
do qual, outras pessoas, que não os órgãos e entidades públicas detentoras do
domínio dos bens em questão, também podem participar de seu gerenciamento.
42
Por outro lado, instituiu-se a chamada descentralização da gestão dos
recursos hídricos (aliás, um procedimento adotado no mundo inteiro), que se
manifesta, segundo Maria Luiza Machado Granziera (2006, p. 154-155), de duas
formas:
a) a participação da sociedade em decisões antes exclusivas do Poder
Público, por meio das organizações civis (artigo 47 da Lei n.º
9.433/97);
b) o gerenciamento em que toma por base a bacia hidrográfica,
através dos Comitês.
Os órgãos que compõem este esquema de gestão possuem funções
bem delimitadas, todas descritas na Lei das Águas. Porém, a atuação dos Comitês
de Bacias Hidrográficas é certamente mais decisiva e concreta, “[...] posto que se
trata do fórum de decisão sobre a utilização da água no âmbito das bacias
hidrográficas” (GRANZIERA, 2006, p. 163). Em relação às águas subterrâneas, Cid
Tomanik Pompeu (2006a, p. 222) define os parâmetros de ação destes Comitês:

Para os aqüíferos subjacentes a grupos de bacias ou sub-bacias
hidrográficas contíguas, cabe aos Comitês de Bacia Hidrográfica
estabelecer os critérios para elaboração, sistematização e aprovação dos
respectivos planos, de forma articulada, devendo ser previsto o
monitoramento da quantidade e qualidade das suas águas.

Assim, é de extrema relevância a atuação dos Comitês na preservação
das águas subterrâneas.
É de se lembrar, todavia, que não há uma dissociação na gestão dos
recursos hídricos superficiais e subterrâneos, o que é correto, pois são partes
integrantes do ciclo hidrológico, e, assim, o gerenciamento deve ser integrado.
Portanto, o esquema institucional aqui demonstrado também se presta à gestão dos
recursos hídricos subterrâneos.
Entretanto, Aldo da Cunha Rebouças (2006b, p. 140) ressalta que a Lei
n.º 9.433/97 colocou em destaque as águas superficiais, sem consideração à
indissociabilidade com as águas subterrâneas no ciclo hidrológico, e, assim, a
inclusão destas no diploma legal apenas institucionalizou o extrativismo empírico e
improvisado que vigorava. Realmente, a atenção dada pela Lei das Águas deveria
ser maior em relação a estes mananciais.

43
3.5.1 Poder de polícia das águas subterrâneas


O controle administrativo do uso dos recursos hídricos se dá através do
chamado poder de polícia das águas, cujo conceito tem um enfoque um pouco
diferente daquele tradicional do Direito Administrativo. Isto porque a definição
clássica coloca o poder de polícia como um instrumento de restrição das liberdades
individuais, enquanto que o poder de polícia das águas “consiste no efetivo controle
da utilização de um bem cuja preservação é condição básica da existência de vida
no planeta” (GRANZIERA, 2005, p. 171). Deste modo, não se está ameaçando a
liberdade humana, mas assegurando melhores condições de vida ao homem, como
componente de toda a coletividade.
No que tange aos recursos hídricos subterrâneos, a Lei das Águas
previu algumas formas de controle administrativo, e que serão analisadas uma a
uma:
a) outorga pelo Poder Público para extração de água de aqüífero
subterrâneo para consumo final ou insumo de processo produtivo
(artigo 12, inciso II) – segundo Maria Luiza Machado Granziera
(2006, p. 179), “a outorga do direito de uso da água é o instrumento
através do qual o Poder Público atribui ao interessado, público ou
privado, o direito de utilizar privativamente o recurso hídrico”. No
caso em tela, a concessão ou autorização desta utilização é feita
pelo Estado respectivo onde se encontra o manancial subterrâneo,
já que é o detentor do domínio (artigo 14 da Lei das Águas). A
outorga, contudo, estará condicionada às prioridades de uso
estabelecidas no Plano de Recursos Hídricos, este previamente
aprovado pelo Comitê de Bacia Hidrográfica Estadual. O
instrumento em apreço será, desta forma, necessário para a
atividade de captação de água subterrânea, por particular ou
pessoa pública, para abastecimento em geral ou como fator de
produção na indústria;
b) fixação de infração pela perfuração ou operação de poços para
captação de água subterrânea sem a devida autorização (artigo 49,
44
inciso V) – trata-se, aqui, de uma conseqüência do uso dos recursos
hídricos subterrâneos não autorizado ou não concedido pelo Estado
competente por meio de outorga. O artigo 50 traz as penalidades
cabíveis (advertência, multa e embargo), aplicadas pela
Administração Pública Estadual;
c) possibilidade de embargo definitivo, com revogação da outorga, e
conseqüente tamponamento dos poços de extração (artigo 50,
inciso IV) – medida drástica, que deve ser aplicada para casos em
que a atividade de extração comprometeu de modo significativo a
quantidade e a qualidade dos mananciais subterrâneos.
Além destes instrumentos, há, ainda, a figura do licenciamento
ambiental, não mencionada na Lei das Águas, mas que também tem aplicação no
âmbito das águas subterrâneas, porque é um dos instrumentos da Política Nacional
do Meio Ambiente, instituídos pela Lei n.º 6.938/81.
Por meio do instituto acima citado, que tem como objetivo assegurar o
desenvolvimento sustentável, a autoridade licenciadora, que, vale frisar, não possui
relação direta com o Sistema de Gerenciamento de Recursos Hídricos pois está
ligada ao Sistema Nacional do Meio Ambiente, determina a execução de um estudo
prévio de impacto ambiental de uma atividade potencialmente danosa ao meio
ambiente. Este estudo avaliará as implicações negativas e sugerirá medidas
mitigadoras, e, depois, o órgão licenciador decidirá se concede ou não a licença, que
possui três fases: Licença Prévia (aprovação do projeto), Licença de Instalação
(aprovação do início da execução do projeto) e Licença de Operação (fiscalização
do cumprimento das exigências) (GRANZIERA, 2006, p. 195-208).
Neste contexto, a licença ambiental tem extremo valor para as águas
subterrâneas, particularmente no que tange à avaliação dos impactos de
contaminantes no solo (que podem se infiltrar e poluí-las) e em áreas de recarga e
descarga de aqüíferos.
Por fim, outro mecanismo bastante interessante é a cobrança pelo uso
da água, incluindo-se logicamente as subterrâneas. Segundo Maria Luiza Machado
Granziera (2006, p. 211):

A cobrança pelo uso da água consiste no instrumento econômico da política
de recursos hídricos. É econômico em dois sentidos: o primeiro, relativo ao
45
financiamento de obras contidas no plano de recursos hídricos; o segundo,
no que tange ao entendimento da água como bem de valor econômico, cuja
utilização deve ser cobrada.

Em outros termos, mais explicativos (HENKES, 2003, p. 497):

[...] A cobrança pelo uso da água consiste na internalização dos custos
ambientais, de forma que o usuário e/ou poluidor deverão respectivamente,
retribuir pela utilização dos micro bens ambientais e assumir os custos
exigidos para prevenir e/ou corrigir a poluição causada por sua atividade.
Caso contrário, persistiremos no status atual, ou seja, a internalização dos
lucros e externalização dos custos ambientais.

O artigo 20 da Lei das Águas estabelece esta cobrança a todos os
usos passíveis de autorização ou concessão do Poder Público (outorga), baseando-
se nos princípios do poluidor-pagador e do usuário-pagador. Os critérios para
cobrança estão fixados no artigo 21 daquele diploma legal, e compreendem o
volume de água retirado e o volume de contaminantes lançados, em conjunto com a
avaliação da toxicidade destes. É necessário, contudo, a existência do Plano de
Recursos Hídricos, elaborado pelo Comitê de Bacia Hidrográfica, estabelecendo tais
critérios de forma concreta.
A cobrança em apreço tem natureza de preço público, “pois se trata de
fonte de exploração de bem de domínio público” (GRANZIERA, 2006, p. 215), e é
realizada pelas Agências de Água (no caso dos mananciais subterrâneos, em âmbito
estadual) (HENKES, 2003, p. 498). O produto da cobrança será aplicado
prioritariamente na bacia hidrográfica em que foram gerados, seja na forma de
investimentos, seja no pagamento de despesas administrativas (artigo 22 da Lei n.º
9.433/97).
Muito embora existam críticas relacionadas à valoração econômica da
água e sua mercantilização, a cobrança pelo uso dos recursos hídricos constitui
ferramenta interessante no controle das águas subterrâneas, até mesmo porque a
intenção é despertar a responsabilidade ambiental das atividades produtivas
potencialmente danosas ao ecossistema. Ademais, ressalva-se a cobrança do uso
para as primeiras necessidades da vida (abastecimento doméstico).



46
3.6 Atuação do Poder Judiciário e do Ministério Público


O Poder Judiciário tem sido de fundamental importância na tutela das
águas subterrâneas, desde a primeira instância até o Supremo Tribunal Federal.
Antigamente, os conflitos versavam sobre matérias de direito privado, como os
direitos de vizinhança. Nos dias atuais, contudo, as decisões tendem a ser envoltas
em questões de direito público, diante do reconhecimento do recurso ambiental
“água”, como de relevante interesse público e que necessita de proteção. As
controvérsias que recaem sobre a poluição de águas são mais recentes, e tendem a
se multiplicar (FREITAS, V., 2000, p. 25). Destarte, através de instrumentos como a
ação civil pública, pode o magistrado decidir a favor da sociedade, relevando o
interesse público da preservação dos mananciais subterrâneos.
Porém, há certos entraves que dificultam esse respaldo, como a
burocracia exacerbada e a conseqüente morosidade no andamento dos processos,
além, é claro, dos obstáculos legais, já que muitas leis que dispõem sobre águas
subterrâneas encontram-se incompatíveis com a situação presente (Código de
Águas, por exemplo), e outras demonstram-se tímidas na tutela destes recursos (a
Lei n.º 9.433/97 prioriza a gestão das águas superficiais).
Apesar dos citados empecilhos, o Judiciário está cumprindo com zelo o
papel de aplicador do direito, exaltando-se a importância da água subterrânea.
No que se refere ao Ministério Público, segundo Cid Tomanik Pompeu
(2006a, p. 466-467), a este “[...] devem ser creditadas as mais eficientes ações no
sentido de defender o ambiente e, em especial, as águas, quer se trate de poluição
causada por particulares, quer por entidades da Administração Pública”.
Neste sentido, o parquet dispõe de dois poderosos instrumentos para
possibilitar a tutela dos recursos hídricos subterrâneos: a ação civil pública (processo
judicial para a defesa dos interesses transindividuais, dentre estes, o meio ambiente
– artigo 1º, inciso I, da Lei 7.347/85) e o termo de ajustamento de conduta (acordo
realizado com o causador do impacto ambiental, previamente à propositura da ação
civil pública, com vistas a sanar e recuperar os danos ocorridos) (HAHN, 2003, p.
93).

47
4 AQÜÍFERO GUARANI: ASPECTOS RELEVANTES


Nesta seção, serão traçadas as principais considerações acerca do
Aqüífero Guarani, este importante reservatório de águas subterrâneas da América
Latina, de sorte que será dada ênfase aos instrumentos de proteção existentes, ou
seja, as legislações dos países em que ele está compreendido, e o projeto do Banco
Mundial. Destaca-se, também, a necessidade de se conhecer melhor a estrutura do
manancial, sua localização e sua capacidade.
Muitas pessoas simplesmente não sabem de sua existência, e,
portanto, acabam por praticar atos negligentes, desprovidos de cautela,
prejudicando o futuro das gerações posteriores, que certamente sofrerão
conseqüências se a proteção ao aqüífero não for efetiva.

4.1 Informações gerais


O Aqüífero Guarani é uma formação geológica constituída de várias
rochas predominantemente arenosas (arenito), depositadas há milhões de anos
atrás e que acumulam as águas que preenchem seus poros e fissuras. É um
aqüífero do tipo poroso e confinado por cerca de 90% de sua área total, e encontra-
se recoberto pelas camadas de rochas basálticas da Formação Serra Geral
(BORGHETTI, N.R.B.; BORGHETTI; ROSA FILHO, disponível em
<http://www.oaquiferoguarani.com.br/03.htm>. Acesso em 10 set. 2007).
Trata-se do maior reservatório de águas subterrâneas transfronteiriças
5

do mundo, e está localizado no centro-leste da América do Sul. Abrange uma
superfície de 1,2 milhões de km², e que inclui os seguintes países: Brasil (840 mil
km²), Paraguai (71.700 km²), Argentina (225.500 km²) e Uruguai (58.500 km²). A
população existente em sua área de ocorrência é de cerca de 15 milhões de
habitantes (disponível em <http://www.ana.gov.br/guarani/sistema/descricao.htm>.
Acesso em: 10 set. 2007).


5
Águas situadas no subsolo e que ultrapassam as fronteiras de um país (FREITAS, F., 2003, p. 162).
48
FIGURA 8 – Localização do Aqüífero Guarani

Fonte: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Aqu%C3%ADfero_Guarani>. Acesso em
06.set.2007.

O nome que foi dado a este importante manancial é uma homenagem
aos índios guaranis, que habitavam a região de sua localização na época do
descobrimento do continente americano, e foi sugerido pelo geólogo uruguaio Danilo
Antón em 1994, com o objetivo de unificar as nomenclaturas já existentes nas
respectivas nações (o aqüífero possuía a denominação de “Botucatu”, no Brasil,
“Misiones”, no Paraguai, e “Tacuarembó”, no Uruguai e na Argentina) (BORGHETTI,
N.R.B.; BORGHETTI; ROSA FILHO, disponível em
<http://www.oaquiferoguarani.com.br/03.htm>. Acesso em 10 set. 2007).
O grande diferencial do Aqüífero Guarani é a proteção que ele possui
contra os agentes de poluição que afetam as águas superficiais, pois é dotado de
mecanismos naturais de filtração e autodepuração bio-geoquímica, ocorridos no
subsolo e que traz à água excelente qualidade. A isto, soma-se o fato de que a
captação pode ser feita no próprio local da demanda (através de poços e outros
mecanismos), a custos baixos (disponível em
<http://www.ana.gov.br/guarani/sistema/descricao.htm>. Acesso em: 10 set. 2007).
49

TABELA 1 – Área, população e volume do Aqüífero Guarani

Fonte: Disponível em: <http://www.oaquiferoguarani.com.br/mapa_3_1.htm>. Acesso em
06.set.2007.

Assim, as águas deste grande reservatório assumem características
econômicas, sociais e políticas relevantes para o abastecimento humano. Neste
contexto, Christian Caubet (2006, p. 52) ressalta que, na cidade de Ribeirão Preto
(interior do Estado de São Paulo), a totalidade de seus habitantes (505 mil) é
abastecida por meio das reservas do aqüífero.
Destaca-se, ainda, que além do abastecimento urbano, há a utilização
de suas águas em balneários, promovendo o turismo na respectiva região,
considerando que a temperatura da água pode alcançar os 68ºC (a média é de 25ºC
a 30ºC) (disponível em <http://www.ana.gov.br/guarani/sistema/descricao.htm>.
Acesso em: 10 set. 2007). É freqüente, também, o uso na indústria e na agricultura
(irrigação).
É mister, entretanto, asseverar que existem as reservas permanentes e
as ativas. Aquelas estão estimadas em 45.000 km³ e representam as águas
acumuladas ao longo do tempo (somatória do volume de água de saturação do
aqüífero mais o volume de água sobre pressão). Já as reservas ativas (reguladoras)
correspondem à recarga natural e foram calculadas em 166 km³/ano, número que
denota o potencial renovável e explotável de água que circula no aqüífero
(disponível em <http://www.ana.gov.br/guarani/sistema/descricao.htm>. Acesso em:
10 set. 2007).
50
Consigne-se, outrossim, que esta recarga natural ocorre através da
infiltração direta das águas da chuva nas áreas de afloramento das rochas do
Guarani, ou por filtração vertical (drenança), em que as cargas hidráulicas fazem
com que aqüífero possa receber águas de camadas sobrejacentes (disponível em
<http://www.ana.gov.br/guarani/sistema/descricao.htm>. Acesso em: 10 set. 2007).
Mesmo assim, nem toda a reserva renovável pode ser extraída, pois a
disposição dos poços no subsolo pode alterar o ciclo hidrológico. Desta forma, a
parcela explotável de água das reservas reguladoras foi calculada entre 25% e 50%
(disponível em <http://www.ana.gov.br/guarani/sistema/descricao.htm>. Acesso em:
10 set. 2007).
A situação que enseja preocupação atualmente é o risco de
deterioração do reservatório em estudo, seja pelo aumento dos volumes extraídos ,
seja pelo crescimento das fontes de poluição pontuais e difusas.
A exploração desenfreada das águas do Aqüífero Guarani é uma
ameaça visível. Neste sentido, Christian Caubet (2006, p. 54), citando novamente o
exemplo real da cidade de Ribeirão Preto, faz a seguinte observação:

Mas como a água é boa, abundante e barata, a população de Ribeirão
Preto consome 360 litros/dia, quase duas vezes a quantidade média
nacional, em torno de 200 litros. Esse uso excessivo, em relação à
disponibilidade efetiva do recurso, contribui para um rebaixamento de 15 a
25% do nível da água do aqüífero na área central da cidade. Isso significa
que a retirada é maior do que a recarga, ou que o desenvolvimento da
cidade é insustentável a longo prazo.

Diante desses problemas, infere-se que houve a extrema necessidade
de se desenvolver, no âmbito dos países onde se encontram as águas do aqüífero,
mecanismos legais e institucionais que tivessem como meta facilitar o controle sobre
o uso e a captação do conteúdo das reservas, e promover, desta maneira, o
desenvolvimento sustentável.






51
4.2 Meios de proteção


Num primeiro momento, serão delineados os dispositivos normativos
que se dirigem à proteção do Aqüífero Guarani, não somente no Brasil, mas nos
outros três países, com o fito de verificar a compatibilidade entre aquelas normas.
Posteriormente, serão analisados os principais pontos do projeto
financiado pelo Banco Mundial, o “Projeto Aqüífero Guarani”, um importante passo
para a defesa desta extraordinária reserva de águas subterrâneas.

4.2.1 As legislações do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai


Na seção 3.4, foi possível conhecer o regime jurídico das águas
subterrâneas em território brasileiro. De tal modo, todas aquelas regras são
aplicáveis na defesa do Aqüífero Guarani no Brasil.
Resta consignar, todavia, que há diversas normas, publicadas pelos
Estados titulares do domínio de parte deste reservatório no respectivo território, que
complementam de forma expressiva a proteção do manancial em tela. Cite-se, por
exemplo, no Estado de São Paulo, a Lei n.º 6.134/88, que dispõe sobre a
preservação dos depósitos naturais de águas subterrâneas, e a Del/CRH n.º 052, de
15 de abril de 2005, que institui diretrizes e procedimentos para a definição de áreas
de restrição e controle da captação e uso dos mananciais do subsolo (disponível em:
<http://www.sg-guarani.org/index/site/gestion_integrada_del_agua/giagua003br.php>
. Acesso em 10 set. 2007).
No país argentino, a tutela das águas subterrâneas está colocada de
forma implícita em sua Constituição, em sede da proteção do meio ambiente. Já em
nível infraconstitucional, o Código Civil da Argentina declara que as águas
subterrâneas são bens públicos, sendo possível a utilização daquelas pelo
proprietário da respectiva superfície nos limites das necessidades, como ocorre no
Brasil (CHAGAS, 2004, p. 33). Destaca-se que, no âmbito das províncias onde se
encontra parte do aqüífero, existem normas como a Lei de Águas de Misiones e o
Código de Águas de Corrientes, as quais trazem disposições específicas no tocante
52
às águas subterrâneas (disponível em: <http://www.sg-
guarani.org/index/site/gestion_integrada_del_agua/giagua003br.php>. Acesso em 10
set. 2007).
No Paraguai, a exemplo da Argentina, sua Constituição não menciona
expressamente a proteção das águas subterrâneas, porém, a defesa destas está
implícita quando dispõe sobre o direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado. Na seara da legislação ordinária, assim como ocorre no Brasil e na
Argentina, o Código Civil paraguaio estabelece a dominialidade pública dos
mananciais subterrâneos e impõe limites à sua utilização pelo particular (CHAGAS,
2004, p. 34-35).
Situação um pouco diferenciada se desenha no Uruguai, onde o
Código Civil concede o domínio das águas subterrâneas aos proprietários do solo,
seguindo-se a tradição romana, mas, ainda assim, “procura exercer o seu poder de
polícia por meio de autorização administrativa para evitar a contaminação do lençol
freático” (CHAGAS, 2004, p. 37). Lembrando também que a Constituição uruguaia
também não traz de maneira explícita a proteção dos recursos hídricos
subterrâneos.
Ante o que foi exposto, há que se chegar a duas principais conclusões:
a) as legislações dos países acima referidos são unânimes na
instituição da defesa dos mananciais subterrâneos, assim como na
fixação da dominialidade pública destes, com exceção do Uruguai,
onde, apesar de se estabelecer o domínio privado destes recursos,
há também o devido controle administrativo de sua utilização.
b) observa-se que não há nenhum diploma legal nos países de
ocorrência do Aqüífero Guarani que estabeleça normas específicas
de proteção a este reservatório. A questão pode ser perfeitamente
solucionada através da elaboração de um tratado entre estas
nações, fixando-se, no campo do Direito Internacional Ambiental,
regras comuns de preservação, a fim de evitar conflitos normativos
e ineficiência na execução de políticas de prevenção. Neste
sentido, o Projeto Aqüífero Guarani, a ser abordado na seção
seguinte, tem o objetivo de formular um marco legal e institucional
para a gestão de suas reservas.
53

4.2.2 O projeto do Banco Mundial


O denominado Projeto Aqüífero Guarani tem o apoio do Global
Environment Facility (GEF), o Fundo para o Meio Ambiente Mundial, e foi
concretizado por intermédio do Banco Mundial, como agência implementadora dos
recursos, e da Organização dos Estados Americanos (OEA), como agência
executora internacional (disponível em:
<http://www.ana.gov.br/guarani/projeto/sintese.htm>. Acesso em: 10 set. 2007).
O marco inicial foi uma reunião realizada na cidade de Foz do Iguaçu
(Estado do Paraná), em janeiro de 2000, com recursos do governo brasileiro,
ocasião em que os representantes do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai
aprovaram o documento inicial do Projeto (disponível em:
<http://www.ana.gov.br/guarani/projeto/sintese.htm>. Acesso em: 10 set. 2007).
O objetivo principal e os custos do Projeto estão descritos no quadro 2.
O resultado a que se pretende chegar é que os quatro países
disponham de um modelo de gestão para o Sistema Aqüífero Guarani, através de
um Plano de Ações Estratégicas, incluindo aspectos técnicos, científicos,
institucionais, legais e financeiros para a sua proteção e uso sustentável (disponível
em: <http://www.ana.gov.br/guarani/projeto/sintese.htm>. Acesso em: 10 set. 2007).
Em relação aos benefícios a longo prazo, estão previstos quatro:
abastecimento sustentável de água potável para a coletividade; água de alta
qualidade para a indústria; abastecimento sustentável de água termal para turismo,
indústria e municípios; e minimização dos conflitos nas zonas transfronteiriças.
Dividiu-se o Projeto em apreço em três fases, descritas no quadro 3, e,
atualmente, encontra-se na fase de execução; as agências executoras nacionais, as
instituições de cooperação dos países envolvidos e a OEA estão em fase de
assinatura de acordos bilaterais.
Houve, outrossim, a fixação de um arranjo institucional da execução do
Projeto, com a criação do Conselho Superior de Direção do Projeto, organismo
máximo de decisão; da Secretaria-Geral, com a função de coordenação regional; e,
por fim, as Unidades Nacionais de Execução do Projeto (UNEPs), uma para cada
54
país, e que desempenham o papel de articulação da sociedade civil com os
respectivos governos. No Brasil, há também as chamadas Unidades Estaduais de
Execução do Projeto, nos Estados de ocorrência do aqüífero, e que visam apoiar a
UNEP-Brasil.

QUADRO 2 – Informações sobre o Projeto Aqüífero Guarani
Objetivo do Projeto: Apoiar o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai na
elaboração e implementação conjuntas de um
modelo técnico, legal e institucional para o
gerenciamento e preservação do Aqüífero
Guarani, tendo em vista as gerações atuais e
futuras.
Países Beneficiários: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai
Origem dos Recursos de doação: GEF - Global Environment Facility (Fundo para o
Meio Ambiente Mundial)
Área de Interesse do GEF: Programa Operacional nº 8 - Corpos de Água
Agência Implementadora do GEF: Banco Mundial
Agência Executora Internacional: OEA – Organização dos Estados Americanos

Fase de preparação: Janeiro de 2000 a dezembro de 2001
Custo de Preparação do Projeto: US$ 1.900.000,00
Fundos GEF (PDF Bloco B) executados: US$ 540.000,00
Contrapartidas não-financeiras dos quatro
países (estimadas):
US$ 1.360.000,00
Órgão responsável no Brasil: Secretaria de Recursos Hídricos – SRH/MMA

Fase de Execução: Março de 2003 a março de 2007 (previsto)
Custo de Total de Execução do Projeto: US$ 26.760.000,00
Recursos de doação GEF: US$ 13.400.000,00
Recursos de doação de outras Agências:
AIEA, BNWPP, BGR/PY, OEA
US$ 1.368.000,00
Contrapartidas dos quatro países: US$ 11.992.000,00
Agência Implementadora Nacional: Agência Nacional de Águas – ANA
Recursos Nacionais de caráter não-
financeiro (Brasil):
US$ 6.622.100,00
Contrapartida Nacional não-financeira em
consultoria técnica e infra-estrutura:
US$ 6.197.800,00 (Plano de Implementação do
Projeto-PIP)
Aporte nacional a projetos coordenados e
executados pela ANA:
US$ 424.300,00 (PIP)
Siglas: AIEA: Agência Internacional de Energia Atômica; ANA: Agência Nacional de Águas; BGR/PY: Programa de
Cooperação do Governo do Paraguai e Serviço Geológico da Alemanha; BNWPP: Programa de Recursos Hídricos do
Banco Mundial e o Governo do Reino dos Países Baixos; OEA: Organização dos Estados Americanos; SRH/MMA:
Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente.
Fonte: Disponível em: <http://www.ana.gov.br/guarani/projeto/sintese.htm>. Acesso em 10 set. 2007.
55

QUADRO 3 – Fases do Projeto
Fases Objetivos e recursos Período
1. Concepção Elaboração da proposta conceitual do projeto.
Recursos dos países e dos organismos participantes
Maio de 1999 a maio
de 2000
2. Preparação Elaboração e aprovação do Documento de Projeto
(PAD) pelos países e GEF.
Recursos de doação do GEF (PDF/Bloco B) e
contrapartidas dos países.
Junho de 2000 a
dezembro de 2001
3. Negociação Elaboração e celebração do acordo básico para
execução do projeto (Banco Mundial/OEA) e dos
acordos bilaterais OEA-países; Preparação do Plano
de Implementação do Projeto (PIP) e estruturação da
Secretaria-Geral do Projeto
Outubro de 2001 a
dezembro de 2002
4. Execução Implementação do projeto
Recursos de doação do GEF e contrapartidas de
caráter não-financeiro dos países
2003 a 2007
Fonte: Disponível em: <http://www.ana.gov.br/guarani/projeto/fases.htm>. Acesso em 10 set. 2007.

É fundamental salientar o significativo avanço na proteção do Aqüífero
Guarani ocorrido com a implementação do Projeto analisado. Contudo, é preciso que
a Administração Pública dos quatro países e a sociedade civil como um todo se
empenhem para que os objetivos finais sejam alcançados, pois de nada adianta fixar
diretrizes para a preservação deste reservatório se os representantes do Poder
Público e a população em geral não demonstrarem boa vontade e consciência sócio-
ambiental na efetivação das medidas necessárias.










56
5 CONCLUSÃO


A água é essencial a vida. Porém, o homem não demonstrou
preocupação em preservá-la durante séculos, e somente a partir da segunda
metade do século XX, é que o meio ambiente passou a ter maior relevância nos
debates internacionais. Isto porque se acordou para o problema da escassez deste
recurso natural, causado pela contaminação de suas reservas e uma exploração
ilimitada, resultado da intensificação de seus usos múltiplos.
Neste contexto, as águas subterrâneas, dotadas de qualidade
incomparável, e de exploração fácil e barata, justamente por estas características,
merecem uma tutela efetiva que garanta o desenvolvimento sustentável,
assegurando às futuras gerações, desta forma, o acesso à água potável, hoje
considerado um direito fundamental. A prevenção na contaminação de aqüíferos e o
reuso das águas são as soluções mais eficazes no combate à escassez.
O regime jurídico brasileiro dos mananciais subterrâneos revela-se
interessante e abrangente, com previsões de responsabilidade nas esferas civil,
administrativa e penal. Todavia, muitos dispositivos normativos estão ultrapassados,
ou seja, não se compatibilizam com a situação atual. O Código Civil e o Código de
Águas limitam-se, muitas vezes, em resolver conflitos de direito privado,
desconsiderando a dominialidade pública das águas subterrâneas.
Da mesma forma, o esquema institucional de gestão dos recursos
hídricos proposto pela Lei n.º 9.433/97, apesar de bem estruturado, e com
excelentes instrumentos de controle, como a outorga e a fixação de infrações, não
deu o valor necessário aos reservatórios do subsolo. Aliás, priorizou-se a proteção
das águas superficiais, geradoras de prestígio político.
Mesmo com todas estas barreiras, o Poder Judiciário e o Ministério
Público têm agido com firmeza na efetivação da tutela das águas subterrâneas,
através de acordos, termos de ajustamento de conduta e ações civis públicas.
Um dos maiores reservatórios de água subterrânea do mundo, o
Aqüífero Guarani, que abrange territórios de quatro nações (Brasil, Argentina,
Paraguai e Uruguai), por tudo o que representa, em termos econômicos e sociais,
57
abastecendo milhares de pessoas, indústrias e promovendo o turismo, precisa ser
protegido.
O Projeto Aqüífero Guarani veio, portanto, para suprir a necessidade
de uma gestão conjunta e integralizada de suas reservas, mas é indispensável que
haja esforço político e da sociedade no sentido de botar em prática as medidas
instituídas, para, enfim, viabilizar o acesso sustentável às suas águas, que é um
direito de todos enquanto seres humanos.
































58
BIBLIOGRAFIA


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FACULDADES INTEGRADAS “ANTÔNIO EUFRÁSIO DE TOLEDO”
FACULDADE DE DIREITO

A TUTELA JURÍDICA DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS E O AQÜÍFERO GUARANI William Roberto Alkema do Monte

Monografia apresentada como requisito parcial de Conclusão de Curso para obtenção do grau de Bacharel em Direito, sob orientação do Prof. Nelson Roberto Bugalho.

Presidente Prudente/SP
2007

A TUTELA JURÍDICA DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS E O AQÜÍFERO GUARANI

Monografia aprovada como requisito parcial para obtenção do Grau de Bacharel em Direito.

Nelson Roberto Bugalho

Examinador 1

Examinador 2

Presidente Prudente,

de novembro de 2007.

Daniel Gildenlöw Dedico este trabalho ao meu irmão Alexandre. com sincero amor . Apesar disto.A água subterrânea move-se lentamente. fraternal. as indústrias militar e nuclear poluem constantemente vastas áreas de água subterrânea – em tempos de paz. Enquanto a água superficial pode ser medida em metros por segundo. é mais plausível que se meça a água subterrânea em metros por ano! A contaminação da água subterrânea causa danos severos por um longo período.

fonte imensurável de inspiração.AGRADECIMENTOS Agradeço. sem eles. agradeço a todos os meus amigos. pela paciência e pela compreensão. Nelson Roberto Bugalho. Dr. Ao meu orientador. a Deus. o Grande Arquiteto do Universo. Por fim. . porque. por todo o apoio prestado. Á minha família. em primeiro lugar. pelo imenso auxílio. nada teria sentido. Prof.

O Aqüífero Guarani tem sido amplamente explorado pelos países de sua ocorrência (Brasil. é importante que se desenvolva a consciência ambiental em todas as esferas do Estado. Neste contexto. apesar dos vários obstáculos legais e burocráticos existentes. Através de um exame crítico da legislação. em decorrência da evolução do Direito Ambiental. o que ocasiona o problema de sua contaminação. Aqüífero Guarani. sem o que. Argentina. muitas vezes sem a precaução necessária. é imprescindível que sejam tomadas medidas legais e institucionais no sentido de controlar a utilização e a captação das águas subterrâneas. um dos maiores mananciais subterrâneos do mundo. observa-se que não se tem dado o valor necessário às águas subterrâneas. Os mecanismos de prevenção da contaminação dos aqüíferos devem estar previstos em lei e devem ser aplicados efetivamente. Recursos hídricos subterrâneos. Palavras-chave: Águas subterrâneas. de modo geral. O prestígio político alcançado pela divulgação de medidas de preservação das águas superficiais leva à despreocupação em se proteger as reservas que se encontram no subsolo. Porém. estará ameaçado. um direito de todos. para que o abastecimento sustentável no Guarani seja assegurado. Diante do extremo valor da água. que tem por objetivo formar um marco legal e institucional na gestão deste imenso reservatório de águas subterrâneas. Diante deste quadro. Paraguai e Uruguai). . as medidas propostas devem ser colocadas em prática pelos administradores públicos e observada pela população em geral. e em toda coletividade. surgiu o Projeto Aqüífero Guarani. o acesso às suas águas.RESUMO O presente trabalho analisa a tutela jurídica das águas subterrâneas no Brasil e destaca aspectos relevantes acerca do Aqüífero Guarani. sendo o seu acesso hoje considerado um direito humano e fundamental. A atuação do Ministério Público e do Poder Judiciário tem sido firme no que tange à tutela jurisdicional das águas subterrâneas. Direito de Águas.

one of the world’s biggest groundwater reservoirs. despite the several legal and burocratic obstacles. it is essential that legal and institutional measures must be taken to aim for the controlo f the groundwater’s uses and exploration. the proposed measures must be put to practice by the public administrators and observed by all the population.ABSTRACT The present research analyses the legal protection of groundwater in Brazil and emphasizes the relevant aspects concerning about Guarani Aquifer. Through a critic examination of the legislation. and it has the objective of forming a legal and institutional landmark in the management of this huge groundwater reservoir. the access to its water. Water Law. because without it. Paraguay and Uruguay). it can be noticed that groundwater is not given the necessary importance. But. which causes contamination problems. In this context. Guarani Aquifer. Guarani Aquifer has been very explored by the countries where it occurs (Brazil. and its access is nowadays considered a human right due to the evolution of Environmental Law. will be in jeopardy. Argentina. The prevention mechanisms of aquifer’s contamination should be described in laws and must be effectively applied. The acting of the Public Prosecutor Office and the Judicial Power has been firm concerning groundwater’s guardianship. it is important to develop environmental awareness in all State’s areas. Guarani Aquifer’s Project was brought up. Because of the extreme importance of water. in order to ensure sustainable supply in Guarani. The politic prestige reached by launching surface water preservation measures takes to an unconcerned attitude in terms of protecting the water that lies in the underground. in a general way. Because of this. . Subterranean water resources. Keywords: Groundwater. a right for everyone. mostly without the necessary precaution. and in all society.

.............................................. TABELAS E QUADROS FIGURAS FIGURA 1 – Ciclo hidrológico...........................................................14 FIGURA 2 – Distribuição das águas na Terra...........50 ......................................42 FIGURA 8 – Localização do Aqüífero Guarani.18 FIGURA 5 – Águas subterrâneas.................................................LISTA DE ILUSTRAÇÕES...........................................................24 FIGURA 7 – Esquema institucional de gestão dos recursos hídricos................................................................................16 FIGURA 4 – Uso da água em residências....23 FIGURA 6 – Movimento das águas subterrâneas..................................................................................................15 FIGURA 3 – Disponibilidade de água..................................................................................................................17 QUADRO 2 – Informações sobre o Projeto Aqüífero Guarani....49 QUADROS QUADRO 1 – Usos múltiplos da água................54 QUADRO 3 – Fases do Projeto.............................................................55 TABELA TABELA 1 – Área........................................ população e volume do Aqüífero Guarani..............................................

........11 2...............36 3................5 Gestão dos recursos hídricos subterrâneos................643.........................................46 3 ÁGUAS SUBTERRÂNEAS: UMA ENORME RIQUEZA NO SUBSOLO...........47 5 CONCLUSÃO.43 3..........6 Atuação do Poder Judiciário e do Ministério Público..........1 Informações gerais.........................4..32 3.................................1 As legislações do Brasil..51 4..............3 Direito fundamental à água potável.1 Usos múltiplos da água...................21 4.........................................4..SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.....7.........................3 Reuso da água subterrânea.....4...............................28 3..37 3......18 2........................29 3...............................26 3.............. da Argentina...........................38 3.........................2..........2 Princípios do direito ambiental aplicáveis às águas subterrâneas.............................................................22 3.......................................................................................................................11 3.................16 2..................................................3 Lei n............................................º 9................2 “Crise da água”: o problema da escassez.........................................47 4............................................................1 Conceito......................18 2 A ÁGUA COMO RECURSO NATURAL INDISPENSÁVEL......................................................1 Poder de polícia das águas.....1 Considerações gerais...9 2......7....37 3............º 10.....1.27 3....................4 Regime jurídico das águas subterrâneas...........................1 Código de Águas (Decreto n...º 24...........7........34 3............4........................53 4 AQÜÍFERO GUARANI: ASPECTOS RELEVANTES............40 3........................4..............................................605/98 (responsabilidade penal por contaminação de águas subterrâneas)..37 3..................................7 Disciplina da legislação infraconstitucional..4...................................1 Principais causas..........................5...2 Meios de proteção.................. características e disponibilidade..................................................................4 A água subterrânea como bem ambiental na Constituição Federal de 1988....................56 BIBLIOGRAFIA ........................................1 O Direito de Águas.......................................................................4....................................................................4..............................................................30 3.............................................................................4.......2 O projeto do Banco Mundial............4................................................................2 Código Civil de 2002 (Lei n... do Paraguai e do Uruguai......................... de 10 de julho de 1934).....406/02)........................................................................2..51 4...2 Contaminação e poluição.................32 3........................................2.............................................................................6 Competência legislativa em matéria de águas subterrâneas.5 Dominialidade pública............................

chegou-se a uma conclusão necessária. desenvolveu-se o Direito do Ambiente.9 1 INTRODUÇÃO A presente pesquisa enfocou os principais aspectos acerca do regime jurídico das águas subterrâneas no Brasil. apontando informações gerais. pois estes estão sendo largamente utilizados atualmente. a trabalhos científicos. argentinos. utilizou-se. pois a água é essencial à vida. No tocante ao procedimento adotado para a pesquisa. o Direito de Águas. o método comparativo. e que objetivam concretizar a tutela deste importante reservatório. mais especificamente. de forma secundária. apresentou e discutiu. geográficas e o arcabouço legal de sua proteção nos quatro países onde se localiza (Brasil. A escolha do tema deu-se em razão da crescente preocupação em se preservar os recursos hídricos subterrâneos. conseqüentemente. e muitas vezes sem a devida cautela. através de premissas e enunciados gerais. através da apreciação dos dispositivos legais brasileiros. acompanhando-se aquele pensamento. área na qual esta pesquisa está centrada. no que se refere aos mananciais subterrâneos. necessitam de efetiva proteção normativa que viabilize sua utilização sustentável. que por sua inestimável qualidade e importância. concernentes à tutela do Aqüífero Guarani. Paraguai e Uruguai). Ademais. através da correta aplicação de regras lógicas. Este trabalho científico também teve como escopo abordar assuntos relevantes a respeito de uma das maiores reservas de águas subterrâneas do mundo. o que compromete o futuro das próximas gerações. vale dizer. Ou seja. do controle e da preservação dos mananciais localizados no subsolo. Demonstrou. consistiu basicamente em consultas a obras especializadas no assunto pesquisado. A metodologia empregada baseou-se principalmente no método dedutivo. e. os principais dispositivos legais que visam à regulamentação do uso. por meio de uma análise crítica. além . à legislação pertinente. e. Argentina. paraguaios e uruguaios. os projetos que estão sendo realizados pela Administração Pública destas nações e pela sociedade civil. ainda. Assim. permitindo a contaminação por poluentes e a extração desenfreada. o Aqüífero Guarani. tais como monografias e artigos.

isto é. .10 de consultas a sítios da rede mundial de computadores. no intuito de facilitar a compreensão das idéias e das informações. para que fossem posteriormente analisados os assuntos pertinentes às águas subterrâneas. os quais trouxeram à pesquisa conteúdos extremamente interessantes e que complementaram de forma significativa este trabalho científico. através de uma espécie de “afunilamento”. Preliminarmente. Houve também o auxílio de dicionários da língua portuguesa e de um específico para termos hidrológicos. O texto da pesquisa foi organizado tomando por base o método dedutivo. especialmente no que tange ao tema do Aqüífero Guarani. ao seu regime jurídico e aos aspectos relevantes sobre o Aqüífero Guarani. publicado em software pela Agência Nacional de Águas. abordou-se o tema da água potável de um modo geral.

e na medida em que todos se unem para protegê-la. Embora seja claramente perceptível o extremo valor da água para os seres vivos. Houve tempos em que sua posse representou até mesmo um instrumento político de poder. 2. Modernamente. a água torna-se muito mais um fator de cooperação do que propriamente de conflito. (REBOUÇAS. 2002) traz as seguintes definições para o termo “água”: 1) Fase líquida de um composto químico formado aproximadamente por 2 partes de hidrogênio e 16 partes de oxigênio em peso. é importante primeiro analisar. o ciclo que ela percorre (o chamado “ciclo hidrológico”). como é o caso do acordo entre as nações pertencentes à Bacia do Rio Nilo. pelo menos. desde cerca de 3. explicativa. qual a sua disponibilidade nos quatro cantos do mundo. entretanto. e os chamados usos múltiplos. de forma concisa. p.11 2 A ÁGUA COMO RECURSO NATURAL INDISPENSÁVEL A água sempre foi fundamental ao homem. quatro mil a.C. compreender a atual preocupação em se proteger este recurso natural tão valioso. para. p. será possível obter o necessário conhecimento para avaliar o problema de sua escassez. suas características. O Glossário de Termos Hidrológicos (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS. que se reúnem para discutir ações conjuntas objetivando a proteção de suas reservas (REBOUÇAS. 2006a. o que é a água em seu aspecto físico-químico. o benefício sócio-ambiental é extraordinário. Na natureza ela . de fato. porém. as causas e conseqüências desta. o controle das inundações do Rio Nilo foi a base do poderio egípcio. 2006a.4 mil anos a. 16-17). na Mesopotâmia. bem como.1 Considerações gerais De primeiro plano. 19).C. necessário se faz conceituar este fundamental componente da natureza. Com esta bagagem. O controle de rios como forma de dominação iniciou-se. A razão para tal cooperação é simples: a água é essencial à vida.

Maria Luiza Machado Granziera discorda desta distinção e assevera que o Código de Águas brasileiro e a Lei n. comum. descomprometido com qualquer uso ou utilização. fauna e flora). 118) descreve-a como um recurso natural de característica planetária. solo. 408) também não emprega tal distinção. Édis Milaré (2000. O recurso natural em voga pode ser encontrado em diferentes fases: sólida. p. é a esta fase que está se referindo ao se citar a palavra . água. 2) Polímero formado pela união de várias moléculas de H2O. líquida e gasosa. o de que a lei não estabeleceu uma divisão rigorosa. Considerada também como um bem mineral. O que se deve evitar é a utilização do termo “recurso hídrico” ao se tratar da água de forma genérica. É o gênero. de gases e de sólidos (principalmente sais) em dissolução. É capaz. de absorver e liberar mais calor que todas as demais substâncias comuns. É somente a partir do momento em que se torna necessário a uma destinação específica. Em relação às suas características. p. Paulo Affonso Leme Machado (2002. 28): A água constitui um elemento natural de nosso planeta. não se deve ter grande preocupação com tal diferenciação. veja-se seu entendimento (2006. utilitário. Recurso hídrico é a água como bem econômico. 71).12 contém pequenas quantidades de água pesada. energético. na verdade. p. a segunda é a que mais interessa ao homem e aos demais organismos. pois faz parte dos elementos estreitamente relacionados que constituem ecossistemas e que estão presentes em toda a superfície da Terra (ar. assim como o petróleo. 3) Considerada como bem econômico na Conferência Internacional sobre a Água e o Meio Ambiente em Dublin (1992). nem possui qualquer valor econômico. Em verdade. Como elemento natural. Todavia. o “ouro azul” é um composto de grande estabilidade. Ao explanar a respeito da água. pois aquele é uma espécie do gênero “água”.º 9. pelo mesmo motivo. de interesse para as atividades exercidas pelo homem. social e estratégico. não é um recurso. Há uma polêmica diferenciação entre os termos “água” e “recurso hídrico”. ainda. Cid Tomanek Pompeu afirma que “água é o elemento natural. um solvente universal e uma fonte poderosa de energia química. passível de uso com tal fim” (2006a.433/97 (objetos de análise posterior nesta pesquisa) não a estabelecem. que esse elemento pode ser considerado como recurso. p.

evaporação.htm>. p. Acesso em 07. durante a precipitação. e) Percolação: processo pelo qual a água entra no solo e nas formações rochosas até o lençol freático. 5): a) Precipitação: água adicionada à superfície da Terra a partir da atmosfera.set. d) Infiltração: processo pelo qual a água é absorvida pelo solo.2007.br/fig1_2. pode ser líquida (chuva) ou sólida (neve ou gelo). nos lagos. o qual entra na atmosfera. a água potável).com. b) Evaporação: processo de transformação da água líquida para a fase gasosa (vapor d’água). 2005. sendo de fundamental importância sua compreensão. FIGURA 1 – Ciclo hidrológico rios e represas também ocorre Fonte: Disponível em: <http://www. a maior parte da evaporação se dá a partir dos oceanos.oaquiferoguarani. São componentes do ciclo hidrológico (TUNDISI.13 “água” na presente pesquisa (mais especificamente. . c) Transpiração: processo de perda de vapor d’água pelas plantas. o movimento contínuo entre estas fases compõe o chamado ciclo hidrológico. f) Drenagem: movimento de deslocamento de água nas superfícies.

e mantém. FIGURA 2 – Distribuição das águas na Terra Fonte: REBOUÇAS. 7). é a drenagem dos rios. Conclui-se. em oposição à água doce. 0. a água pode ser doce. p. então. salgada. ecossistemas dos mais variados. Do total de água doce. p. Estes últimos são reservatórios especialmente importantes. a água é encontrada nas formas doce e salgada.3% reside nos rios e lagos (TUNDISI. e.5%. mas também atendem a uma infinidade de espécies de seres vivos que também dependem da água para sobreviver.14 Tais componentes são de suma importância porque explicam como a água percorre seu caminho no planeta. 2005. que o ciclo hidrológico está intimamente ligado ao ciclo da vida. a mineral. a que possui naturalmente alto teor de sais. No globo terrestre.9% é subterrânea.5% e 97. na porcentagem de 2. O componente de maior importância. 11). 2005.9% é encontrada em outros reservatórios e apenas 0. No tocante à sua classificação. pois representa a renovação dos recursos hídricos (TUNDISI.9% encontra-se nas calotas polares e geleiras. respectivamente. entretanto. potável. . desta forma. 2006a. 08. enquanto que 29. aquela que contém baixo teor de sais. ainda. 68. p. e a interferência do homem neste processo prejudica ainda mais a fraca disponibilidade da água doce. pois não só abastecem o consumo humano diretamente. que nada mais é do que a água potável dotada de grande quantidade de sais minerais. a própria para o consumo humano.

ou seja. “a interação de fatores pluviométricos e fisiográficos resulta numa variação dos graus de umidade. Assim. FIGURA 3 – Disponibilidade de água Fonte: REBOUÇAS.. passando a perigosa idéia de abundância. “[. Notase que. estimada . na verdade. em áreas com predominância de chuvas. no clima tropical subúmido. os países da América do Sul são os mais ricos em água doce. entre 6 a 7 vezes a quantidade mínima de mil m³/hab/ano. tanto espacial como temporal”. Segundo Aldo da Cunha Rebouças (2006a. p. 17. lagos e outros reservatórios de superfície parecem estar sempre cheios. no ano 2000. A conseqüência é que. porque. já no clima tropical seco. p. não há problema de escassez de água no nível global. em termos relativos. 2006a. e os países do norte da África. segundo Aldo da Cunha Rebouças (2006a. e os rios. o regime é muito variável (menos de quatro meses por ano). menos abundantes e menos regulares..15 A distribuição de águas doces no mundo está ligada a fatores climáticos. A figura 3 demonstra a disponibilidade de água doce no planeta. no clima tropical misto. O curioso é que. os mais pobres. 11). p.] cada habitante da Terra. terá [teve] disponível nos rios entre 6 mil e 7 mil m³/ano. o regime chuvoso é variável (quatro a sete meses por ano). formam-se excedentes hídricos e reservas importantes de água subterrânea. as chuvas são abundantes e regulares. na faixa de clima equatorial úmido. 14).

Inquestionável. 14-15). moluscos. a recreação. paisagem . p. a mineração (lavagem e purificação de minérios) e a produção de hidroeletricidade. Irrigação e outras atividades relacionadas Usos domésticos pesqueira comercial ou futuros empreendimentos e conseqüente uso múltiplo. 2006a. diante da evolução da tecnologia e do conhecimento. crustáceos de água doce. QUADRO 1 .1 Usos múltiplos da água A utilização da água nas atividades humanas revela-se distinto de região para região. 2005. porém. 29. a navegação. a utilização doméstica. o que resultou nos chamados “usos múltiplos da água”. representam esta diversidade de utilizações (TUNDISI. p. é que houve um acréscimo no consumo deste recurso natural. 2005. turismo. intensificada no início da década de 70. porém.Usos múltiplos da água Agricultura Abastecimento público Hidroeletricidade Usos industriais diversificados Recreação Turismo Pesca Aquacultura Produção esportiva Cultivo de peixes. Tarefas como a irrigação na agricultura.16 como razoável pelas Nações Unidas. Recreação. o que contribui para os denominados “conflitos pela utilização da água” (REBOUÇAS.1. O que ocorre. p. de país para país. 28-29). 2. é que os potenciais hídricos estão extremamente mal distribuídos. o turismo. Reserva de água doce para Transporte e navegação Mineração Usos estéticos Fonte: TUNDISI.

asp?tp=3&pag=curiosidades. Acesso em 06. está gerando uma demanda cada vez maior de água. observar que a evolução do pensamento humano ampliou as finalidades dos recursos hídricos. O consumo praticamente triplicou a partir de 1950. pode-se ter uma idéia da quantidade de água utilizada em uma residência nos dias atuais (dados relacionados ao consumo médio de uma família de classe média em país desenvolvido).br/website/default. como será visto a seguir.org. 28.htm>. e o consumo médio por habitante foi ampliado em 50% (disponível em: < http://www.2007). uma alteração do ciclo hidrológico. FIGURA 4 – Uso da água em residências Fonte: TUNDISI. passou a ser uma das causas para a chamada “crise da água”. Essa complexidade. portanto. sendo utilizados até mesmo em determinados cultos religiosos. Na figura 4. . p. Permite-se.17 A expansão das atividades antrópicas. então.uniagua. muitas vezes. ao exigir. 2005.set.

A partir da década de 80.1 Principais causas Estudando a história das civilizações. Porém. dada sua importância e sua menor disponibilidade em termos de potabilidade nos dias atuais. deveria estar à disposição de todos os seres vivos. p. a conseqüência são resultados de proporções catastróficas: a deterioração dos suprimentos de água e dos mananciais. já que as barragens eram construídas em áreas não-navegáveis (CAUBET. descobriu-se outro importante uso para a água.2 “Crise da água”: o problema da escassez O problema da disponibilidade cada vez mais restrita de água surgiu. na verdade. evidencia-se que a disponibilidade de água nunca foi um problema para a humanidade. não se procurava mensurar seu uso. um produto de comércio. .. pois simplesmente havia uma sensação de que ela era infinita. para a produção de energia. ou seja. e agora. seja em outras áreas concernentes à natureza. seja em relação aos recursos hídricos. etc. quando. no terceiro milênio. num bem valioso. com a crescente evolução das atividades humanas e a complexidade trazida com estas. a escassez deste bem ambiental é tema amplamente divulgado e debatido. inadmissivelmente.2. o homem não mostrou preocupado por centenas de anos. um produto de exportação. Hoje. um insumo. a população mundial passou a observar o perigo dos impactos produzidos pelas ações humanas ao longo do tempo. 2006. num encontro em Viena. como já afirmado anteriormente. ela transformou-se. 2.18 2. Apenas no ano de 1815. a água é vista por muitos órgãos e entidades mundiais como um recurso natural limitado para finalidades de consumo. é que vários países iniciaram a discussão de um tema que envolvia diretamente a água: regras de navegações em águas fluviais. XX). a qual não apresentava ameaça alguma. após.

embora criadas pelo homem para controlar as doenças. como mutações. De fato. represas e lagos. como produção de energia. 27): Quando determinada área é desenvolvida para uso humano. de outra banda. Isto se deve principalmente à intensificação da atividade humana em todas as áreas sócio-econômicas. atingindo depois o homem através da rede alimentar. deve-se ter cautela e responsabilidade ao se construir um reservatório. o aumento da urbanização e o aumento e a intensificação das atividades nas bacias hidrográficas (TUNDISI. há pontos negativos. p. por exemplo. perda de biodiversidade. tem-se a grande ameaça da contaminação química das águas por diversas substâncias. Há também a chamada diversão de rios. intoxicando organismos aquáticos. entre muitos outros. muitos sistemas que retém a água do ciclo hidrológico são removidos. perda de terras férteis e de madeira. navegação e geração de empregos. causando graves conseqüências ao ser humano.19 Um estudo desenvolvido pelo ILEC (International Lake Environment Committee) revelou que os problemas da deterioração dos recursos hídricos estão relacionados com o crescimento e a diversificação das atividades agrícolas. Há aumento rápido do escoamento urbano devido à pavimentação e também pela remoção da vegetação que é fundamental na recarga dos aqüíferos. . desvios e transposições. Ressalta-se que existem pontos positivos. maior prosperidade para setores das populações locais. as quais. é importante considerar os custos elevados destes mecanismos e os impactos por eles gerados. 39). p. a violenta urbanização acarretou sérios danos aos suprimentos de água no planeta. que ficam concentrados nos sedimentos de rios. acabam ironicamente se incorporando na composição química da atmosfera e do corpo humano. Outra face da urbanização frente à água é a construção de reservatórios. ou seja. é preciso lembrar também da contaminação por mercúrio e metais pesados. emigração humana excessiva. defeitos do crescimento e câncer. posto que eles alteram o que a natureza originalmente criou. 2005. Como bem destaca José Galizia Tundisi (2005. devido ao enorme desequilíbrio no seu escoamento. retenção de água no local. Portanto. no sentido de evitar maiores desastres ecológicos. De um lado.

etc. que pode ser natural ou cultural. as quais produzem substâncias tóxicas nocivas ao homem e aos animais em geral. remoção de vegetação ciliar. retirada excessiva de água. Existem formas de combater esta última eutrofização. vários outros fatores que determinam a deterioração dos recursos hídricos. todos decorrentes do rápido desenvolvimento sócioeconômico e tecnológico (introdução de espécies exóticas nos ecossistemas aquáticos. de forma normal. . aumento do material em suspensão na água.20 Uma situação gravíssima. porém. Ocorrem. são as mudanças climáticas globais. lagos e represas. Imprescindível explanar acerca do fenômeno da “eutrofização”. ocasionando aumento da temperatura da água (o que interfere na tolerância dos seres vivos aquáticos) e das substâncias tóxicas e dos poluentes em razão da evaporação. enquanto que a segunda tem origem em despejos de esgotos domésticos e industriais. implicam em altos gastos na recuperação de rios. atualmente bastante debatida. a primeira é resultado do enriquecimento de nitrogênio e fósforo provenientes de plantas e que se dissolvem na água.) e que contribuíram para o atual estágio de alerta de escassez. pois elas estão alterando de modo significativo o ciclo hidrológico. ainda. e de fertilizantes utilizados na agricultura. o que provoca uma aceleração naquele processo de enriquecimento e conseqüente formação de cianobactérias (“algas verdes azuis”).

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3 ÁGUAS SUBTERRÂNEAS: UMA ENORME RIQUEZA NO SUBSOLO

As águas subterrâneas sempre despertaram interesse por parte do Homo sapiens sapiens. Desde primeiras civilizações do mundo, em decorrência da escassez ou irregularidade das chuvas, a captação da água subterrânea tornou-se uma das importantes possessões. Inicialmente, as obras eram simples buracos d’água. Há cerca de 8.000 a.C., as extrações para consumo passaram a ser revestidas de pedra e betume. As galerias e túneis horizontais de centenas de quilômetros construídos pelos povos antigos do Oriente Médio, nas rochas fraturadas, ainda representam as obras mais extraordinárias de captação de água subterrânea. Esta possuía, ademais, um lado místico, considerada um “fluido espiritual da Terra” (REBOUÇAS, 2006b, p. 112). Vários códigos antigos, como o de Hamurábi da Babilônia e o de Manu, na Índia, estabeleciam severas penalidades a quem danificasse captações de água, utilizadas para abastecimento da coletividade, e indicavam práticas de higiene, muitas delas até hoje apropriadas (REBOUÇAS, 2006b, p. 112). Até mesmo a Bíblia, em diversas passagens do “Gênesis”, ressalta a importância das águas do subsolo, extraídas por poços escavados. Elas eram reconhecidas como fonte de abastecimento das populações das zonas áridas e semi-áridas, mas, com o advento da Revolução Industrial, passou a ter relevância também nas atividades industriais e urbanas, aumentando a demanda. No Brasil, afirma Aldo da Cunha Rebouças (2006b, p. 112), a captação destes recursos vem sendo realizada desde os primórdios dos tempos coloniais, principalmente para o abastecimento das populações e rebanhos na região semiárida do Nordeste. Entretanto, desenvolveu-se uma cultura tecnológica que tem dado primazia às obras de captação nos rios, alçadas pelo seu prestígio político, o que culminou com a ausência de conhecimento sobre a existência e a qualidade das águas subterrâneas. Demonstrada a relevância dos mananciais em questão na história humana, é preciso tecer algumas considerações acerca de suas características e de seu regime jurídico, além de expor, em linhas gerais, o problema da contaminação e

22 o denominado reuso e tratamento da água subterrânea, uma excelente solução para o problema da disponibilidade hídrica. 3.1 Conceito, características e disponibilidade

Basicamente, e em sentido amplo, toda a água encontrada abaixo da superfície da Terra é denominada água subterrânea. Elas ocorrem em duas zonas: a insaturada, que se estende da superfície até profundidades que variam de menos de um metro a centenas de metros, e que contém água e ar; e a zona saturada, que está logo abaixo da zona saturada, e que, por sua vez, contém apenas água (TUNDISI, 2005, p. 12). FIGURA 5 – Águas subterrâneas

Fonte: TUNDISI, 2005, p. 13.

Na figura abaixo, está demonstrado como a água se movimenta através dos sistemas subterrâneos. Existem as áreas de recarga, aquelas que recebem as águas da chuva, sendo que estas percolam e formam aqüíferos não confinados. Já nos aqüíferos confinados, encontra-se água retida por solos menos permeáveis. De acordo com José Galizia Tundisi (2005, p. 12), “todos os tipos de rochas, ígneas, sedimentares ou metamórficas, confinam águas nas diferentes

23 regiões”, e, salienta, ainda, que “importantes fontes de depósitos de águas subterrâneas incluem rochas calcárias e dolomita, basalto e arenito”. FIGURA 6 – Movimento das águas subterrâneas

Fonte: TUNDISI, 2005, p. 13.

Gerson Cardoso da Silva Júnior traz a seguinte definição de aqüífero (2003, p. 550):
Um aqüífero pode ser definido como uma formação geológica, grupo ou parte de uma formação, ainda que não especificada formalmente de acordo com o Código de Nomenclatura Estratigráfica (SBG, 1996), e que contém material permeável e saturado, de modo a permitir armazenamento e vazões de água em poços e em fontes em quantidades apreciáveis e economicamente significativas.

Em termos mais simples, os aqüíferos são os suportes pelos quais as águas subterrâneas correm no subsolo. Nota-se, então, que as águas subterrâneas constituem importante recurso natural renovável, e são, aliás, parcela “indivisível” do já abordado ciclo hidrológico1, na medida em que as águas precipitadas atingem as áreas de recarga e são conduzidas pelos aqüíferos até as áreas de descarga (rios, lagos ou oceanos). O artigo 1º, inciso I, da Resolução CNRH n.º 15, de 11 de janeiro de 2001, conceitua águas subterrâneas como aquelas que correm naturalmente ou
1

Vide seção 2.1.

freáticas e subterrâneas ou circulantes. e. depreende-se. No Brasil. conforme atestam poços existentes em fortes militares. p.outras fontes). As águas subterrâneas formam o maior reservatório de água doce do planeta. realizada pela doutrina e pela jurisprudência. muitas vezes. as águas subterrâneas são extremamente exploradas pelo ser humano no mundo todo. A captação destes mananciais ocorre por meio de poço escavado (furo vertical para extrair água. em contraste aos outros mananciais passíveis de utilização antrópica (0. p. Há uma divisão das águas em apreço. a função de estocagem e regularização das águas subterrâneas. e possuem qualidade incomparável. em subálveas. 211-212). as segundas emanam naturalmente à superfície e constituem os aqüíferos mais próximos dela. conventos e outras construções antigas. a determinação de que as águas que correm no subsolo de forma artificial também são igualmente denominadas subterrâneas. galeria (conduto fechado escavado em um aqüífero para recolher as águas subterrâneas que se escoam por gravidade). e que estas águas chegam. 12).9% do total. ainda. finalmente.161-162): Desde as civilizações mais antigas. a jorrar do chão. 2002). as terceiras são as que correm em grandes profundidades (POMPEU. em meio à diferença de pressão entre a superfície e o subsolo (2006.rios e lagos. escavado por meio de ferramentas manuais ou máquinas escavadoras). 2006a. As primeiras derivam das correntes naturais. 52). . estão disponíveis em todas as partes da Terra. de forma permanente e próxima ao local de uso. Observe-se o apontamento de Fabiana Paschoal de Freitas (2003. e. 2005.24 artificialmente no subsolo. p. cujo diâmetro geralmente é superior a dois pés. túnel (caminho subterrâneo horizontal) ou poço tubular profundo (construído por introdução de um tubo no solo) (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS. haja vista que posem estar livres de contaminantes e patógenos (TUNDISI. a água subterrânea sempre foi fonte de abastecimento das zonas áridas e semi-áridas. Christian Caubet assinala que a exploração destes recursos é barata. 0. Não obstante.3% . destarte. Por todos os motivos expostos alhures. p. representando cerca de 29. a água subterrânea vem sendo igualmente captada desde à época da colonização.9% .

213): . Contudo. revela seu valor econômico. de 15% para a região Centro-Oeste. são também consideradas subterrâneas? A redação do artigo 1º do Código de Águas Minerais de 1945 atesta que as águas minerais são “aquelas provenientes de fontes naturais ou de fontes artificialmente captadas que possuam composição química ou propriedades físicas ou físico-químicas distintas das águas comuns. não explicita o que seria esta ação. tem havido uma tendência à sua captação para abastecimento público (no estado de São Paulo. p. por fim. inclusive. há uma diferenciação no campo da legislação brasileira. e as águas minerais. sendo que a distribuição regional é de 70% para a região Norte. Bem. sob a ótica jurídica. devendo ser regidas por leis especiais. as águas subterrâneas compõem o único recurso hídrico disponível. 65% dos núcleos urbanos e 90% das indústrias são abastecidos pelos recursos hídricos do subsolo) (GRAF. p. Elas são classificadas como recursos minerais. p. 62). segundo Cid Tomanik Pompeu (2006a. 821): O Código da Mineração de 1967. isto porque 72% encontram-se na bacia amazônica. 2000. sim. p. O fato é que elas são. porém. reafirma que as águas subterrâneas minerais constituem substância mineral dotada de valor econômico e formada de jazida. apesar de nele estarem concentrados 8% da água doce no mundo. 62). a distribuição é deveras irregular. Arábia Saudita e Malta. dando nova redação ao Código de Minas de 1940. Sabe-se que elas contêm grande quantidade de sais minerais. nas últimas décadas. além disso. dentre os quais o único renovável e fazem parte dos bens da União. de 12% para as regiões Sul e Sudeste e apenas de 3% para a região Nordeste (GRAF. talvez devido à vasta disponibilidade de rios. que. 2000. importantes na hidratação do corpo humano. O curioso é notar que a utilização das águas subterrâneas no Brasil mostrava-se tímida. embora sejam subterrâneas. As águas minerais. como bem descreve Solange Teles da Silva (2003. são tratadas em separado se esquivando da categoria de bens dos Estados. Cabe destacar. águas subterrâneas. com características que lhes confiram uma ação medicamentosa”.25 Consoante relatórios do Banco Mundial. entretanto. na Dinamarca. o que. Já no território brasileiro. distintas quanto à presença de quantias significativas de sais minerais.

a localização próxima (dos contaminantes) de explorações e captações de águas subterrâneas e o tipo de óxido e minerais de argila existentes no solo. não inspiram preocupação em grande parte da população.. 805). 552). como os aterros sanitários e vazamentos de depósitos de produtos químicos). 2003. a capacidade de dissolução e a densidade destas substâncias poluentes revelam-se importantes na análise dos seus impactos nas águas subterrâneas (2003... p. porque simplesmente há pouco conhecimento de sua existência ou de sua disposição.] Juridicamente.. lineares (provocadas pela infiltração de águas superficiais de canais e rios contaminados) ou difusos (contaminam áreas extensas. 805). entre os quais. Outros aspectos. que têm cadeias de átomos de carbono. 3. e milhares são criados a cada ano (2003. como os pesticidas. 552). solventes. seja através de infiltrações ou percolações. por estarem “escondidas” abaixo da superfície terrestre. Gerson Cardoso da Silva Júnior salienta que existem milhares de contaminantes. Frise-se que a contaminação das águas . existem dois tipos principais: os orgânicos. 2003. o tipo de aqüífero (mais ou menos porosos). seja por contaminação direta em áreas de recarga ou descarga de aqüíferos. A poluição em questão pode ter fontes variadas: pontuais (atingem um aqüífero em um determinado ponto. e os inorgânicos.] Podem ser consideradas águas subterrâneas todas as águas que não sejam superficiais. como regra. aconselha-se o emprego do conceito amplo. O problema maior reside no fato de que. são determinantes na facilidade de um poluente atingir as águas do subsolo (CARRAMENHA. p.2 Contaminação e poluição Um tema bastante divulgado na mídia atual concerne à poluição das águas subterrâneas. herbicidas. chuvas e pela atividade agrícola) (CARRAMENHA. sem que caiba distinguir se esta é ou não corrente [. devido ao transporte dos poluentes correntes aéreas. pois qualquer diferenciação hidrológica ou geológica que se faça a respeito é irrelevante sob este aspecto. p. como o nitrato e os metais oriundos de processos industriais. poluindo as águas do subsolo. Fatores como as propriedades.26 [. entre outros. plásticos. A conseqüência é o despejo de produtos químicos e contaminantes. p.

a mineração. ou granjas. da quantidade de nitrato presente ou adicionada ao solo. é estabelecer políticas de gestão dos recursos hídricos subterrâneos. perda de material de tanques de reserva de álcool ou gasolina e a grande concentração de fazendas de criação de gado confinado ou suínos. haja vista que prioriza a utilização da água potável presente nos mananciais para o consumo humano.3 Reuso da água subterrânea A descontaminação dos mananciais aqüíferos mostra-se muito demorada e onerosa. além da formação de arcabouço legal que viabilize sua integral proteção. são fontes significativas de contaminação (2005. entre outras medidas de descontaminação. em que o material sólido permanece no solo. devido ao fluxo subterrâneo. o qual visa à prevenção. José Galizia Tundisi assevera que. da permeabilidade do solo. e acontecem principalmente através de vazamento de um poluente em uma área industrial e a implantação de aterros industriais em locais inadequados. 2007). A melhor solução. das condições climáticas (pluviosidade) e de manejo da irrigação e da profundidade do lençol freático. portanto. Conforme Wilson Donizeti Liberati (2007): Para reusar ou descontaminar a água é preciso conhecer a intensidade da contaminação. além de não ser o propósito principal em matéria ambiental. Entretanto. 38). 3. no Brasil. destinando-se a água tratada às demais atividades antrópicas (LIBERATI. como rios e lagos. os modos de contaminação por processos industriais têm efeitos drásticos. Existem duas formas de reuso da água (LIBERATI. Outrossim. 2007): . elas possuem custos elevados e têm apresentado resultados pouco efetivos. Em que pese a existência de técnicas de limpeza de aqüíferos. o reuso/tratamento de suas águas representa alternativa de grande valia para o problema da escassez.27 subterrâneas pode levar à poluição de áreas de descarga de aqüífero. p.

Portanto. lagoas estéticas. e da explicação do esquema institucional de gestão dos recursos hídricos . e disponíveis em diversos lugares do planeta. além de disposições da legislação constitucional e infraconstitucional brasileira. os efluentes são depositados de forma planejada nas águas superficiais ou subterrâneas. sim. minimizando os efeitos da conseqüência da escassez de água. etc.28 a) reuso indireto planejado – depois de tratados. o direito das futuras gerações à sua exploração sustentável. com aumento do fluxo de água. conforme também já explanado. os efluentes não são descarregados no ambiente. b) reuso direto planejado – após o tratamento. as águas subterrâneas são fontes inegavelmente preciosas para o consumo humano. 2007). com qualidades incomparáveis. assim. para permitir a fundamental proteção destas águas. seja no Brasil ou em outros países. para isto. esta solução demonstra-se perfeitamente plausível e adequada ao desenvolvimento sustentável. o reconhecimento cada vez mais saliente do direito fundamental à água potável. etc. descarga em toaletes.4 Regime jurídico das águas subterrâneas Como foi possível se observar nas seções anteriores. são transferidos de seu ponto de descarga até o local do reuso.) (LIBERATI. o objetivo da presente seção é apontar as principais normas jurídicas estabelecidas acerca do domínio. industrial (abastecimento de caldeiras. Destarte. sistemas de resfriamento. passando por noções de Direito Internacional e Direito Administrativo. mas. entre outros) ou ambiental (estabelecimentos recreacionais para pesca e canoagem. paisagismo. imprescindível abordar temas relacionados tanto ao Direito Público como ao Privado. uso e conservação dos recursos em voga. a exploração ilimitada destes recursos e a conseqüente poluição fez brotar a urgente necessidade de se elaborar um verdadeiro esquema legal e institucional. sendo. habitats naturais. Assim.). garantindo. o reuso pode ser urbano (recreação. Contudo. 3.

em virtude da não regulamentação de diversas regras estabelecidas pelo Código de Águas de 1934 e de outras legislações.4. a jurisprudência e o costume. 677).433/97. o Direito comportase justamente desta forma. o aproveitamento. No Brasil.. surgiu também o chamado Direito de Águas. Suas regras são colocadas tanto no Direito Privado como no Público. visando ao planejamento dos usos e à preservação. a doutrina. o uso. a conservação e a preservação das águas. 677) define o Direito de Águas como “conjunto de princípios e normas jurídicas que disciplinem o domínio. acompanhando a crescente conscientização ambiental. . e que complementa o anterior: [.29 proposto pela Lei n. apontando pontos específicos relacionados às águas subterrâneas. 24). p. uma estreita vinculação de suas normas com o ciclo hidrológico. as competências e o gerenciamento das águas. provocados ou não pela ação humana. dado por Maria Luiza Machado Granziera (2006. com a participação ativa do Ministério Público.º 9. segundo Cid Tomanik Pompeu (2006b. 3. tendo em vista que há. a jurisprudência pátria tem oferecido grandiosa contribuição nesta matéria. p. adaptando-se às novas realidades e aos comportamentos da sociedade. a evolução deste ramo da ciência do Direito tem sido lenta. As fontes do Direito de Águas são a legislação. como uma resposta à preocupação de se proteger o líquido precioso. aliás.1 O Direito de Águas O Direito Ambiental desenvolveu-se como ramo autônomo a partir dos anos 70. o qual desconhece limites no seu percurso. uma ramificação daquele..] Conjunto de princípios e normas jurídicas que disciplinam o domínio. Veja-se outro conceito. Cid Tomanik Pompeu (2006b. p. A despeito disso. assim como a defesa de seus efeitos danosos. Com o tempo. assim como a defesa contra suas danosas conseqüências”.

4. No território brasileiro. a fim de assegurar às gerações futuras o abastecimento por águas subterrâneas de qualidade. entre outras. Trazendo esta idéia ao campo das águas subterrâneas. inclusive às geográficas. em que. Destacam-se. deve respeitar as normas referentes ao despejo de produtos químicos e agrotóxicos. sem comprometer o desenvolvimento econômico. o melhor é não viabilizar determinada atividade ou projeto. Neste sentido. se uma determinada empresa pretende instalar uma fábrica próxima à área de recarga de aqüífero. o Poder Público deverá tomar providências para impedir que a obra se inicie caso eventuais . com normas obviamente distintas.2 Princípios do direito ambiental aplicáveis às águas subterrâneas Por ser o Direito de Águas uma ramificação do Direito Ambiental. graças à generosidade de seu sistema hidrológico. às perfurações de poços. neste sentido. com o fito de evitar danos futuros e muitas vezes imprevisíveis. seja industrial. em condições propícias ao atendimento das futuras gerações. tem-se que a atividade econômica. agrícola ou comercial. na dúvida. as águas subterrâneas são objeto constante de apreciação das leis relativas às águas. a doutrina distingue os dois princípios (GRANZIERA. 2006. sobretudo no campo das águas subterrâneas. o Direito de Águas manifesta-se de forma diferente em países secos ou úmidos. aos aterros sanitários. aplicam-se as regras próprias de regiões úmidas. aqui. 3. 51).30 Como o Direito deve se adequar às características de uma determinada região. vários princípios desenvolvidos neste podem ser aplicados. b) prevenção e precaução – apesar de guardarem semelhança. os principais: a) desenvolvimento desenvolvimento sustentável econômico – nada à mais é do que do o aliado preservação meio ambiente. levando-se em conta seu grande valor para os seres humanos. O segundo tem aplicação mais drástica. p.

do reuso da água.31 poluentes possam contaminar águas subterrâneas com efeitos dificilmente remediáveis. escasso ou ameaçado de escassez. exige-se que as nações estabeleçam normas conjuntas.M. p. Através dele. trazer riscos à qualidade dos recursos hídricos do subsolo. um empreendimento pode ser implantado desde que se faça um prévio estudo ou análise do impacto ambiental. Granziera (2006. Isto significa que os custos sociais externos da atividade econômica devem ser internalizados. d) poluidor-pagador e usuário-pagador – o primeiro. garantindo o desenvolvimento sem danos futuros.. de alguma forma. devendo-se observar as normas vigentes. da adoção de tecnologias ‘limpas’. É viável a aplicação deste princípio para a utilização de águas subterrâneas em áreas onde estes recursos não sejam abundantes. c) cooperação – como qualquer outro recurso natural. conforme ensinamento de Maria Luiza Machado Granziera (2006. assim. especialmente construídos e dotados de níveis de segurança que impeçam a contaminação do solo e dos recursos hídricos [exemplos fornecidos por Maria L. Já o segundo princípio refere-se ao pagamento para que seja autorizado o uso de um recurso ambiental de natureza pública. p. da disposição de efluentes industriais em aterros licenciados. 59).]”. eventual atividade que possa. É o caso do Aqüífero Guarani. Já o princípio da prevenção é menos rigoroso.. Destarte. 59)]. as águas do subsolo não conhecem fronteiras entre países. a cargo do empreendedor. um estudo prévio do impacto poderá prevenir contaminações. porém. como é o caso da construção de estação de tratamento de efluentes industriais. objeto de seção posterior desta pesquisa. “incide em duas órbitas: no conjunto de ações voltadas à prevenção do dano. e na responsabilidade pela ocorrência do dano [. acordos e tratados que protejam de modo eficaz estes mananciais. com ações integradas. sem o que não será possível a suficiente preservação. .

Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. lazer e demais condições vitais”. estudos e pesquisas. O direito em apreço está intimamente ligado ao direito à vida. não há como falar-se em viver dignamente. cultura. educação. vestuário. ou seja. Como assegurar aos indivíduos um nível de vida adequado com a condição humana sem o acesso à água potável? É simplesmente impossível. p.4 A água subterrânea como bem ambiental na Constituição Federal de 1988 Inicialmente. Pela leitura deste dispositivo. 87): “O direito humano fundamental à vida deve ser entendido como direito a um nível de vida adequado com a condição humana. o bem ambiental.4. é propício explicitar o que dispõe o artigo 225.32 3. o Poder Público e as comunidades internacionais devem se empenhar ao máximo para garantir o acesso a todos. diante do alerta dado por ambientalistas do risco de sua escassez. Alexandre de Moraes conceitua o direito à vida da seguinte forma (1997. higiene. investimentos em infra-estrutura e educação ambiental. direito à alimentação. como dessedentação. impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. assistência médico-odontológica. e lavagem de alimentos. etc. Por esta razão. pois sem água de qualidade para o preenchimento das necessidades básicas da população. nota-se o estabelecimento de uma nova modalidade de bem. . causada por fatores eminentemente advindos da ação humana. 3. 225. da Lei Maior brasileira: Art. bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. por meio de ações conjuntas.3 Direito fundamental à água potável Está cada vez mais compreensível a existência do direito fundamental à água potável.4. caput. indistintamente.

e. p. é demarcado um critério transindividual. quais sejam. (grifo do pesquisador). por fim. a água é bem de uso comum porque sua utilização é aberta à coletividade. podendo ser desfrutado dentro dos limites constitucionais (2005. . pois é de uso comum e essencial à sadia qualidade de vida. é. 95). desta maneira. em 1972. mencionado por Vicente Gomes da Silva (2004. seu uso não tem natureza subjetiva. Veja-se que o professor Paulo Affonso Leme Machado a mencionou como um dos recursos naturais que devem ser considerados para a manutenção da boa saúde humana (2002. pois agrada ao homem. Quanto à peculiar natureza do bem ambiental. ar. que o artigo 225 da Constituição Federal disciplina este bem como sendo nem público e muito menos particular. O líquido precioso é. p. do direito fundamental a adequadas condições de vida. mas podendo ser remunerada. seguindo a tese aludida na Conferência de Estocolmo. entre outros. obedece-se. 24). fauna e paisagem – para se aquilatar se esses elementos estão em estado de sanidade e de seu advenham saúde ou doenças e incômodas para os seres humanos. Com efeito. 46): A saúde dos seres humanos não existe somente numa contraposição a não ter doenças diagnosticadas no presente. está sujeita ao poder de polícia do Estado. A água. ainda. em regra. muitos países hoje asseguram ao meio ambiente a qualidade de um bem. portanto. desejando sua tutela e preservação. desta feita. (2003.33 A água é sem dúvida definida juridicamente como um bem. à luz do que estabelece a Carta Constitucional brasileira. afirmando. afastando os interesses do particular em detrimento do interesse da coletividade. essencial à sadia qualidade de vida por diversos motivos. flora. Não é preciso salientar novamente a grande importância da água para se viver qualitativamente. gratuita. Leva-se em conta o estado dos elementos da Natureza – águas. 63). p. traz benefícios. e. o qual afirma que a atual Constituição brasileira assegurou o referido direito. ou seja. segundo Durval Salge Jr. p. em um meio ambiente de qualidade. ainda. o doutrinador Celso Fiorillo leciona que aquele pode ser caracterizado como um bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. é caracterizada como bem ambiental. inserida no contexto do meio ambiente. alimentação. ao princípio do direito à sadia qualidade de vida. lazer. solo. higiene. vantagens a ele.

Ainda assim.. as águas subterrâneas. 2003. Em outras palavras. fixando-se a dominialidade pública. p. evidentemente. pode ser perfeitamente enquadrada na primeira categoria. durante a República.4. a água como bem ambiental. lagos.. a legislação brasileira colocava o direito de propriedade em situação absoluta. p. 139). 110). a água. inclusive das águas subterrâneas. no Período Imperial. etc. além disto. 105). como bem atesta Solange Teles da Silva (2003. p. A perfuração de poços era feita livremente. extinguiuse o domínio privado das águas. e acompanhou-se a tendência de publicizar bens de relevado interesse público. O estranho é notar que.. aqüíferos. 821-822). restringiu-se direito de propriedade. é um bem ambiental natural. p. a água subterrânea encontrada no subsolo de um terreno tornava-se propriedade do dono do terreno. 2006b. 118). com o advento da Constituição Federal de 1988. 3. (2003. é impossível especificar num dado momento quem poderá avocá-lo (SALGE JR. 139). os dispositivos deste diploma legal referentes às águas subterrâneas não foram efetivamente aplicados. p. material) ou incorpóreo (sem existência concreta). na forma de rios. então. no Período Colonial. também fazem parte desta nova categoria de bens estabelecida pela Carta Magna.34 Reconhecida a água como bem ambiental. posto que integra o meio ambiente natural ou físico (SALGE JR. Entretanto. com a promulgação do Código de Águas (REBOUÇAS. Bastante coerente é também classificar a água como um bem ambiental difuso. p. ou seja. 2003. o bem ambiental pode ser corpóreo (dotados de existência física. e a situação de ausência de controle permaneceu. passou a depender de autorização central (REBOUÇAS. .5 Dominialidade pública Por influência do direito romano. Tendo em vista que. Assim. 2006b. Considerando-se. o uso das águas em geral ficou sem controle federal ou estadual até 1934. mares. já que seus titulares são indeterminados. segundo Durval Salge Jr. passa-se a analisar suas peculiaridades. até que.

. inciso I.] Ao meu ver. da Constituição Federal. Vale relembrar. . objeto de registro próprio. são consideradas como recursos minerais e. compete ao Poder Público Estadual gerir estes mananciais em articulação com a União e os Municípios. não há base constitucional para o entendimento de que as águas subterrâneas. dissociou o regime jurídico daquelas do direito de propriedade do solo (SILVA. sendo de domínio dos respectivos entes federativos em relação ao seu território. os rios que dividem ou atravessam dois ou mais Estados. por analogia à situação das águas superficiais? Vladimir Passos de Freitas responde à questão da seguinte maneira (2000. p.. uma dúvida surgiu. Portanto. E não é possível falar-se em analogia com a situação das águas superficiais. 75). por força do artigo 20.35 Desta forma. fazem parte da categoria de bens da União. ou seja. ao ultrapassarem os limites de mais de um Estado. significando a responsabilidade pela guarda e administração dos mesmos e pela edição das regras a ele aplicáveis” (GRANZIERA. S. no tocante às águas minerais. e. p. p. 826). pertenceriam elas à União. Assim. mas decorre do próprio Texto Constitucional. ao Distrito Federal. pois inexiste qualquer dispositivo na Carta Magna que disponha de tal forma. destarte. da Lei Maior. inciso IX. 24): [. não é possível concluir que tal circunstância torne as águas subterrâneas bem da União. E quanto às águas subterrâneas que se estendam pelo território de mais de um Estado. as águas subterrâneas devem ser geridas em conjunto por eles. 2006. p. sejam do domínio da União” (2006. ao incluir as águas em apreço como bens dos Estados (entes federativos). Estabelecido o domínio das águas do subsolo aos Estados. É mister consignar que o domínio dos recursos em questão “não se refere à propriedade de um bem imóvel.. Os entendimentos acima citados parecem adequados. por fim. referido bem econômico é mesmo do Estado em que se localiza. o artigo 26. que. 81). “de fato. subjacentes a mais de um Estado. acrescente-se que. não obstante serem subterrâneas. 2003. por analogia. Maria Luiza Machado Granziera completa dizendo que.

criou-se um paradoxo entre a referida competência e a capacidade de os entes políticos – entre eles. aos Estados. 47): No campo hídrico. inciso IV). então. p. e. 67). Deste modo. podendo versar sobre inalienabilidade das águas. Referido doutrinador esclarece. p. Os Estados. mas aqueles podem atuar em áreas como a preservação de matas ciliares e 2 Na seção 3. teriam os citados entes competência para legislar sobre tais bens? Inicialmente. direito de acesso de águas. 47). somente dispõem de competência para editar normas administrativas sobre as águas do seu domínio. serão destacados alguns exemplos de normas editadas por Estados e que contribuem para a preservação das águas subterrâneas. da Constituição Federal). que a expressão “criar o direito sobre águas” é identificada de forma exemplificativa. inclusive em suas Constituições. conforme Maria Luiza Machado Granziera (2006. inciso I. ainda. Aliás. não em relação à água. etc. já que tais águas não lhe pertencem.8.4. p. da Carta Magna. que. Permite-se concluir. mesmo mediante lei. embora hajam recebido vasto domínio hídrico. inciso VI. ainda. no âmbito dos Municípios. em forma de lei ou não. Acrescente-se que. é o que tem sido feito. Todavia. pois poder-se-ia interpretar que os Estados estariam impedidos de fixar normas acerca desta matéria. os Estados – legislarem sobre águas subterrâneas.36 3. . que cabe à União. é permitido editar normas administrativas relativas à gestão dos recursos hídricos subterrâneos2.3.6 Competência legislativa em matéria de águas subterrâneas Sendo as águas subterrâneas de domínio dos Estados. bens de seu domínio. que a União não poderia legislar em matéria administrativa. observa-se que a Constituição Federal estatuiu a competência privativa da União para legislar sobre águas (artigo 22. conforme regra do artigo 26. há competência constitucional para a solução de questões ambientais de interesse local (inteligência do artigo 23. a União tem dupla competência: (i) cria o direito sobre águas. e (ii) edita normas administrativas sobre as águas do seu domínio. hierarquia de uso das águas públicas. Cid Tomanik Pompeu descreve sábia solução para este impasse (2006a. quando necessário. quando legisla privativamente. (2006a.

1 Código de Águas (Decreto n.3.4. a intervenção da Administração para impedir extrações prejudiciais destes mananciais. 218).4. pois podem ser usufruídos por toda a coletividade.º 9. . p. 3. portanto. adotou a idéia da propriedade privada sobre as águas subterrâneas. não sujeitas à 3 Seção 3. diminuindo-as ou poluindo-as.8.643.406/02) Existem três momentos do estatuto civil que precisam ser relevados. suspendendo ou determinando a demolição de poços e galerias que prejudiquem águas de qualquer natureza. e indicar os pontos aplicáveis.º 24.37 emissão de efluentes domésticos e industriais. Ressalta-se que a análise da Lei n. em virtude de alterações constitucionais. que podem ser de uso comum do povo.433/97 será feita em seção à parte3. questões diretamente relacionadas com a proteção das águas subterrâneas. Ocorre que estes dispositivos são atualmente inaplicáveis em grande parte. Disto. de uso especial ou dominicais – claro que os mananciais subterrâneos enquadram-se no primeiro tipo.º 10.7.2 Código Civil de 2002 (Lei n. da legislação sobre minérios e do Código Civil de 2002 (POMPEU. decorre que referidas águas são inalienáveis (artigo 100). isto porque têm relação direta com as águas subterrâneas: a) quando da classificação dos bens públicos (artigo 99). 2006a. 3.7. em seus artigos 96 a 101.7 Disciplina da legislação infraconstitucional O objetivo aqui é apontar os principais aspectos trazidos pela legislação pátria acerca das águas subterrâneas. entretanto.4. Previu. de 10 de julho de 1934) O Código de Águas foi publicado quando vigorava a Constituição de 16 de julho de 1934. 3.

e que sejam imbuídos de má-fé. diz que são defesos os atos que não trazem ao proprietário qualquer comodidade ou utilidade.4.3 Lei n. discorre sobre a função social da propriedade. também. notadamente. a elas preexistentes. com total respaldo do princípio da lesividade do bem . incluindo-se. as subterrâneas. 3. deve ser evitada. c) na disciplina do direito de construir – ainda dentro das regras de propriedade. portanto. para uso ordinário. que proíbe as construções capazes de poluir ou inutilizar. S. neste sentido.38 venda. ou seja. a água do poço. e o artigo 1310. p. o artigo 1229 estabelece que a propriedade do solo abrange a do subsolo em profundidades úteis ao seu exercício.7. que a poluição das águas. transferência ou doação. em seu § 2º. entre outros aspectos. o qual impede. a boa-fé e a importância dos mananciais subterrâneos para o abastecimento coletivo. escavações ou quaisquer obras que tirem ao poço ou a nascente de outrem a água indispensável às suas necessidades normais. 827).. o mesmo artigo. b) no estabelecimento de regras sobre o direito de propriedade – o artigo 1228. § 1º. o proprietário do solo poderá usufruí-las desde que observada a função social. Dois dispositivos chamam a atenção: o artigo 1309. ainda que as águas subterrâneas sejam de domínio dos Estados. Por fim. Privilegiou-se. ressaltando. 2003. não pode o proprietário do solo perfurar um poço que não lhe traga nenhum benefício. ou seja. e que seu uso pode ser gratuito ou retribuído (artigo 103).605/98 (responsabilidade penal por contaminação de águas subterrâneas) A tutela penal do ambiente surgiu como forma de defesa do direito fundamental ao meio ambiente.º 9. Depois. ou nascente alheia. perfurado com vistas a prejudicar terceiro (SILVA.

“o artigo 54. sendo que não importa se elas já estavam poluídas. c) tipo objetivo – a conduta consiste em causar poluição (alterar as propriedades naturais do meio ambiente por agentes prejudiciais à saúde) de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana. da Lei n. amparo constitucional para tanto4. há inclusive. 4 Artigo 225. ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora. de 1 (um) a 4 (quatro) anos. à flora e à fauna. dentre elas. leis. química e biológica. Segundo Cláudia Cecília Fedeli (2003. influências e interações de ordem física. 428-434). pois a preocupação é com o fato de a alteração transformar-se em prejudicial à saúde humana. da Constituição Federal. . Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana. p. os mananciais subterrâneos. inciso I. pode haver vítimas individualizadas. porém. e multa. 427). a contaminação de águas subterrâneas enquadra-se perfeitamente no tipo em questão. p. principalmente por ser um dos principais poluidores. 2003. logicamente. as águas subterrâneas”. Esta última pode e deve ser responsabilizada quando poluir as águas subterrâneas. contudo. sem dúvida.º 9. 54. a relevância que se dá ao citado direito permite que o Direito penal intervenha com vistas à sua proteção. que permite. Assim.605/98 é o principal dispositivo que visa coibir a poluição das águas de um modo geral. relacionando-os às águas subterrâneas: a) bem jurídico tutelado – é o meio ambiente (“conjunto de condições. Pena – reclusão. trata-se de um tipo penal amplo. Diz o seu caput: Art. Cabe aqui uma breve. abriga e rege a vida em todas as suas formas” – conceito do artigo 3º. ou seja. Já o sujeito passivo é notadamente a coletividade. De fato. b) sujeitos – o crime em questão pode ser cometido qualquer pessoa. pois fazem parte daquele. incluindo-se. ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora. que objetiva tutelar o ambiente como um todo na conduta de poluir.39 jurídico. da Lei de Política Nacional do Meio Ambiente). esclarecedora análise dos elementos do tipo em apreço (FEDELI. § 3º. física ou jurídica.

o risco de dano é freado por circunstâncias alheias à vontade do agente.433/97 (“Lei das Águas”) instituiu a Política Nacional dos Recursos Hídricos e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. e consumase com a mera possibilidade do dano. 3.5 Gestão dos recursos hídricos subterrâneos A Lei n. VI – a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público. as dos incisos III e V do § 2º. que a responsabilidade penal pela contaminação das águas subterrâneas representa importante meio de prevenção e de educação ambiental. . sendo oportuno descrever o que dispõe o seu artigo 1º: Art. Estabeleceu diversos fundamentos. a forma culposa é possível (§ 1º). podendo ser admitido o dolo eventual (o agente assumiu o risco de causar o resultado). a primeira prevê o agravamento da pena se a contaminação das águas gerar a necessidade de paralisação do serviço de abastecimento de uma determinada população. dos usuários e das comunidades. Outrossim. o uso prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a dessedentação de animais. 1º. II – a água é um recurso natural limitado. iniciada a execução da conduta de poluir.º 9. IV – a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas. e a segunda refere-se à emissão de poluentes em desacordo com as exigências estabelecidas por lei ou regulamento. III – em situações de escassez. Admite-se a tentativa quando. então. V – a bacia hidrográfica e a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Saliente-se. f) qualificadoras – duas merecem destaque. e) consumação – a primeira parte trata de crime de perigo. enquanto que a segunda parte descreve crime de dano. dotado de valor econômico. A Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes fundamentos: I – a água é um bem de domínio público.40 d) tipo subjetivo – o dolo é apenas genérico (vontade de causar poluição).

2005. FIGURA 7 – Esquema institucional de gestão dos recursos hídricos Fonte: TUNDISI. também podem participar de seu gerenciamento. . 2006. 152). outras pessoas.41 Referido diploma legal determinou. um esquema institucional de gestão dos recursos hídricos. p. Neste contexto. como ilustrado na figura 7. por meio do qual. que não os órgãos e entidades públicas detentoras do domínio dos bens em questão. gerenciar. Assim. 151. Gerir significa administrar. ainda. o Sistema de Gerenciamento de Recursos Hídricos “possui atribuição de planejamento e também de controle administrativo. pelos órgãos e entidades da Administração Pública. p. e constitui um arranjo institucional. responsáveis pelo exercício do poder de polícia das águas” (GRANZEIRA. baseado em novos tipos de organização para a gestão compartilhada do uso da água. inseriu-se o princípio da gestão integrada das águas.

Realmente. 163). Assim. Entretanto. Portanto. a atuação dos Comitês de Bacias Hidrográficas é certamente mais decisiva e concreta. .433/97 colocou em destaque as águas superficiais. a atenção dada pela Lei das Águas deveria ser maior em relação a estes mananciais. Em relação às águas subterrâneas. sistematização e aprovação dos respectivos planos. Aldo da Cunha Rebouças (2006b. b) o gerenciamento em que toma por base a bacia hidrográfica. o que é correto. 222) define os parâmetros de ação destes Comitês: Para os aqüíferos subjacentes a grupos de bacias ou sub-bacias hidrográficas contíguas.42 Por outro lado.433/97). todas descritas na Lei das Águas. p. através dos Comitês. por meio das organizações civis (artigo 47 da Lei n. Os órgãos que compõem este esquema de gestão possuem funções bem delimitadas.º 9. o esquema institucional aqui demonstrado também se presta à gestão dos recursos hídricos subterrâneos. a inclusão destas no diploma legal apenas institucionalizou o extrativismo empírico e improvisado que vigorava.] posto que se trata do fórum de decisão sobre a utilização da água no âmbito das bacias hidrográficas” (GRANZIERA. p. um procedimento adotado no mundo inteiro). de duas formas: a) a participação da sociedade em decisões antes exclusivas do Poder Público. assim. Porém. 154-155). “[. todavia. p. 140) ressalta que a Lei n.º 9. devendo ser previsto o monitoramento da quantidade e qualidade das suas águas. cabe aos Comitês de Bacia Hidrográfica estabelecer os critérios para elaboração. que não há uma dissociação na gestão dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos. p. 2006.. é de extrema relevância a atuação dos Comitês na preservação das águas subterrâneas.. que se manifesta. assim. sem consideração à indissociabilidade com as águas subterrâneas no ciclo hidrológico. Cid Tomanik Pompeu (2006a. e. instituiu-se a chamada descentralização da gestão dos recursos hídricos (aliás. de forma articulada. É de se lembrar. segundo Maria Luiza Machado Granziera (2006. pois são partes integrantes do ciclo hidrológico. e. o gerenciamento deve ser integrado.

1 Poder de polícia das águas subterrâneas O controle administrativo do uso dos recursos hídricos se dá através do chamado poder de polícia das águas. este previamente aprovado pelo Comitê de Bacia Hidrográfica Estadual. inciso II) – segundo Maria Luiza Machado Granziera (2006. mas assegurando melhores condições de vida ao homem. No que tange aos recursos hídricos subterrâneos. estará condicionada às prioridades de uso estabelecidas no Plano de Recursos Hídricos. enquanto que o poder de polícia das águas “consiste no efetivo controle da utilização de um bem cuja preservação é condição básica da existência de vida no planeta” (GRANZIERA. cujo conceito tem um enfoque um pouco diferente daquele tradicional do Direito Administrativo. O instrumento em apreço será. p. não se está ameaçando a liberdade humana.5. Deste modo. já que é o detentor do domínio (artigo 14 da Lei das Águas). a concessão ou autorização desta utilização é feita pelo Estado respectivo onde se encontra o manancial subterrâneo. 2005. público ou privado. 171). contudo. necessário para a atividade de captação de água subterrânea. desta forma. para abastecimento em geral ou como fator de produção na indústria.43 3. o direito de utilizar privativamente o recurso hídrico”. p. b) fixação de infração pela perfuração ou operação de poços para captação de água subterrânea sem a devida autorização (artigo 49. No caso em tela. como componente de toda a coletividade. a Lei das Águas previu algumas formas de controle administrativo. Isto porque a definição clássica coloca o poder de polícia como um instrumento de restrição das liberdades individuais. 179). por particular ou pessoa pública. A outorga. “a outorga do direito de uso da água é o instrumento através do qual o Poder Público atribui ao interessado. e que serão analisadas uma a uma: a) outorga pelo Poder Público para extração de água de aqüífero subterrâneo para consumo final ou insumo de processo produtivo (artigo 12. .

o órgão licenciador decidirá se concede ou não a licença.º 6. a autoridade licenciadora. Segundo Maria Luiza Machado Granziera (2006. que.44 inciso V) – trata-se. determina a execução de um estudo prévio de impacto ambiental de uma atividade potencialmente danosa ao meio ambiente. com revogação da outorga. Por meio do instituto acima citado. relativo ao . a licença ambiental tem extremo valor para as águas subterrâneas. particularmente no que tange à avaliação dos impactos de contaminantes no solo (que podem se infiltrar e poluí-las) e em áreas de recarga e descarga de aqüíferos. Neste contexto. não mencionada na Lei das Águas. e conseqüente tamponamento dos poços de extração (artigo 50. que possui três fases: Licença Prévia (aprovação do projeto). incluindo-se logicamente as subterrâneas. vale frisar. e. O artigo 50 traz as penalidades cabíveis (advertência. a figura do licenciamento ambiental.938/81. de uma conseqüência do uso dos recursos hídricos subterrâneos não autorizado ou não concedido pelo Estado competente por meio de outorga. É econômico em dois sentidos: o primeiro. depois. p. Este estudo avaliará as implicações negativas e sugerirá medidas mitigadoras. c) possibilidade de embargo definitivo. 2006. não possui relação direta com o Sistema de Gerenciamento de Recursos Hídricos pois está ligada ao Sistema Nacional do Meio Ambiente. multa e embargo). ainda. aplicadas pela Administração Pública Estadual. instituídos pela Lei n. mas que também tem aplicação no âmbito das águas subterrâneas. há. 195-208). inciso IV) – medida drástica. Além destes instrumentos. Licença de Instalação (aprovação do início da execução do projeto) e Licença de Operação (fiscalização do cumprimento das exigências) (GRANZIERA. outro mecanismo bastante interessante é a cobrança pelo uso da água. porque é um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente. que deve ser aplicada para casos em que a atividade de extração comprometeu de modo significativo a quantidade e a qualidade dos mananciais subterrâneos. p. 211): A cobrança pelo uso da água consiste no instrumento econômico da política de recursos hídricos. aqui. que tem como objetivo assegurar o desenvolvimento sustentável. Por fim.

215).º 9. 498). 2006. p. mais explicativos (HENKES. . persistiremos no status atual.] A cobrança pelo uso da água consiste na internalização dos custos ambientais. Caso contrário. É necessário. em conjunto com a avaliação da toxicidade destes. 497): [. seja no pagamento de despesas administrativas (artigo 22 da Lei n. em âmbito estadual) (HENKES. contudo. O artigo 20 da Lei das Águas estabelece esta cobrança a todos os usos passíveis de autorização ou concessão do Poder Público (outorga). A cobrança em apreço tem natureza de preço público. Muito embora existam críticas relacionadas à valoração econômica da água e sua mercantilização.. cuja utilização deve ser cobrada. no que tange ao entendimento da água como bem de valor econômico. de forma que o usuário e/ou poluidor deverão respectivamente.45 financiamento de obras contidas no plano de recursos hídricos. O produto da cobrança será aplicado prioritariamente na bacia hidrográfica em que foram gerados. 2003. a internalização dos lucros e externalização dos custos ambientais. Em outros termos. Os critérios para cobrança estão fixados no artigo 21 daquele diploma legal. ressalva-se a cobrança do uso para as primeiras necessidades da vida (abastecimento doméstico). e compreendem o volume de água retirado e o volume de contaminantes lançados. o segundo. “pois se trata de fonte de exploração de bem de domínio público” (GRANZIERA. seja na forma de investimentos. estabelecendo tais critérios de forma concreta. p. 2003. p. baseandose nos princípios do poluidor-pagador e do usuário-pagador. a cobrança pelo uso dos recursos hídricos constitui ferramenta interessante no controle das águas subterrâneas. Ademais. elaborado pelo Comitê de Bacia Hidrográfica. ou seja. retribuir pela utilização dos micro bens ambientais e assumir os custos exigidos para prevenir e/ou corrigir a poluição causada por sua atividade..433/97). até mesmo porque a intenção é despertar a responsabilidade ambiental das atividades produtivas potencialmente danosas ao ecossistema. e é realizada pelas Agências de Água (no caso dos mananciais subterrâneos. a existência do Plano de Recursos Hídricos.

] devem ser creditadas as mais eficientes ações no sentido de defender o ambiente e. como os direitos de vizinhança. relevando o interesse público da preservação dos mananciais subterrâneos. o Judiciário está cumprindo com zelo o papel de aplicador do direito. inciso I. e outras demonstram-se tímidas na tutela destes recursos (a Lei n. quer se trate de poluição causada por particulares.433/97 prioriza a gestão das águas superficiais). desde a primeira instância até o Supremo Tribunal Federal. como a burocracia exacerbada e a conseqüente morosidade no andamento dos processos. já que muitas leis que dispõem sobre águas subterrâneas encontram-se incompatíveis com a situação presente (Código de Águas. . as decisões tendem a ser envoltas em questões de direito público. contudo. dentre estes. V. pode o magistrado decidir a favor da sociedade.6 Atuação do Poder Judiciário e do Ministério Público O Poder Judiciário tem sido de fundamental importância na tutela das águas subterrâneas. Nos dias atuais. Neste sentido. além. há certos entraves que dificultam esse respaldo. dos obstáculos legais. 2003. e tendem a se multiplicar (FREITAS. a este “[. segundo Cid Tomanik Pompeu (2006a. o meio ambiente – artigo 1º. em especial. da Lei 7. p. Destarte. Porém.. é claro. Apesar dos citados empecilhos. exaltando-se a importância da água subterrânea.46 3. diante do reconhecimento do recurso ambiental “água”. Antigamente. 466-467). as águas. o parquet dispõe de dois poderosos instrumentos para possibilitar a tutela dos recursos hídricos subterrâneos: a ação civil pública (processo judicial para a defesa dos interesses transindividuais.. 2000. por exemplo).º 9. previamente à propositura da ação civil pública. com vistas a sanar e recuperar os danos ocorridos) (HAHN. No que se refere ao Ministério Público..347/85) e o termo de ajustamento de conduta (acordo realizado com o causador do impacto ambiental. As controvérsias que recaem sobre a poluição de águas são mais recentes. 93). p. 25). como de relevante interesse público e que necessita de proteção. os conflitos versavam sobre matérias de direito privado. quer por entidades da Administração Pública”. através de instrumentos como a ação civil pública. p.

br/03.B. .ana. A população existente em sua área de ocorrência é de cerca de 15 milhões de habitantes (disponível em <http://www. disponível em <http://www. N. p. 4. Muitas pessoas simplesmente não sabem de sua existência.2 milhões de km². que certamente sofrerão conseqüências se a proteção ao aqüífero não for efetiva. ROSA FILHO. e que inclui os seguintes países: Brasil (840 mil km²). de sorte que será dada ênfase aos instrumentos de proteção existentes. F. É um aqüífero do tipo poroso e confinado por cerca de 90% de sua área total. as legislações dos países em que ele está compreendido. Paraguai (71.br/guarani/sistema/descricao. Acesso em 10 set. 162).com.R.. acabam por praticar atos negligentes.1 Informações gerais O Aqüífero Guarani é uma formação geológica constituída de várias rochas predominantemente arenosas (arenito). Destaca-se.700 km²). Abrange uma superfície de 1.47 4 AQÜÍFERO GUARANI: ASPECTOS RELEVANTES Nesta seção. 5 Águas situadas no subsolo e que ultrapassam as fronteiras de um país (FREITAS. e. portanto.gov. ou seja.500 km²). Acesso em: 10 set. sua localização e sua capacidade. desprovidos de cautela. depositadas há milhões de anos atrás e que acumulam as águas que preenchem seus poros e fissuras. e está localizado no centro-leste da América do Sul. prejudicando o futuro das gerações posteriores. BORGHETTI..500 km²) e Uruguai (58. 2003.htm>. este importante reservatório de águas subterrâneas da América Latina.htm>. e encontrase recoberto pelas camadas de rochas basálticas da Formação Serra Geral (BORGHETTI. Trata-se do maior reservatório de águas subterrâneas transfronteiriças5 do mundo. 2007). a necessidade de se conhecer melhor a estrutura do manancial. Argentina (225.oaquiferoguarani. 2007). e o projeto do Banco Mundial. serão traçadas as principais considerações acerca do Aqüífero Guarani. também.

N.org/wiki/Aqu%C3%ADfero_Guarani>.gov. no Paraguai.B. pois é dotado de mecanismos naturais de filtração e autodepuração bio-geoquímica. 2007). Acesso em: 10 set.br/03.2007.oaquiferoguarani. A isto. e “Tacuarembó”. ocorridos no subsolo e que traz à água excelente qualidade. com o objetivo de unificar as nomenclaturas já existentes nas respectivas nações (o aqüífero possuía a denominação de “Botucatu”.set. O grande diferencial do Aqüífero Guarani é a proteção que ele possui contra os agentes de poluição que afetam as águas superficiais. que habitavam a região de sua localização na época do descobrimento do continente americano. disponível em <http://www.wikipedia. ROSA FILHO.ana. “Misiones”. soma-se o fato de que a captação pode ser feita no próprio local da demanda (através de poços e outros mecanismos). Acesso em 06.. a custos baixos (disponível em <http://www. 2007).br/guarani/sistema/descricao.htm>.htm>. no Brasil. no Uruguai e na Argentina) (BORGHETTI. Acesso em 10 set. BORGHETTI.R.com. .48 FIGURA 8 – Localização do Aqüífero Guarani Fonte: Disponível em: <http://pt. O nome que foi dado a este importante manancial é uma homenagem aos índios guaranis. e foi sugerido pelo geólogo uruguaio Danilo Antón em 1994.

set. . a totalidade de seus habitantes (505 mil) é abastecida por meio das reservas do aqüífero.htm>. promovendo o turismo na respectiva região. Acesso em: 10 set. o uso na indústria e na agricultura (irrigação). que além do abastecimento urbano.2007.br/guarani/sistema/descricao.ana.gov.49 TABELA 1 – Área.gov. as águas deste grande reservatório assumem características econômicas.com. há a utilização de suas águas em balneários. Christian Caubet (2006.br/guarani/sistema/descricao. asseverar que existem as reservas permanentes e as ativas. Já as reservas ativas (reguladoras) correspondem à recarga natural e foram calculadas em 166 km³/ano.br/mapa_3_1. Assim. Acesso em 06. também. sociais e políticas relevantes para o abastecimento humano. Aquelas estão estimadas em 45. É mister.000 km³ e representam as águas acumuladas ao longo do tempo (somatória do volume de água de saturação do aqüífero mais o volume de água sobre pressão). É freqüente. população e volume do Aqüífero Guarani Fonte: Disponível em: <http://www. Destaca-se. entretanto. 2007). Acesso em: 10 set. p. na cidade de Ribeirão Preto (interior do Estado de São Paulo). ainda. número que denota o potencial renovável e explotável de água que circula no aqüífero (disponível em <http://www.htm>.ana. considerando que a temperatura da água pode alcançar os 68ºC (a média é de 25ºC a 30ºC) (disponível em <http://www.oaquiferoguarani. Neste contexto.htm>. 2007). 52) ressalta que.

citando novamente o exemplo real da cidade de Ribeirão Preto. e promover. mecanismos legais e institucionais que tivessem como meta facilitar o controle sobre o uso e a captação do conteúdo das reservas.ana. em que as cargas hidráulicas fazem com que aqüífero possa receber águas de camadas sobrejacentes (disponível em <http://www. Mesmo assim. 54). Acesso em: 10 set. ou por filtração vertical (drenança). . a população de Ribeirão Preto consome 360 litros/dia. infere-se que houve a extrema necessidade de se desenvolver. pois a disposição dos poços no subsolo pode alterar o ciclo hidrológico. seja pelo crescimento das fontes de poluição pontuais e difusas. Isso significa que a retirada é maior do que a recarga. Esse uso excessivo.gov.htm>. Christian Caubet (2006.br/guarani/sistema/descricao. 2007). Acesso em: 10 set. ou que o desenvolvimento da cidade é insustentável a longo prazo. no âmbito dos países onde se encontram as águas do aqüífero. outrossim. desta maneira. p.ana. Desta forma. nem toda a reserva renovável pode ser extraída.htm>. A exploração desenfreada das águas do Aqüífero Guarani é uma ameaça visível. a parcela explotável de água das reservas reguladoras foi calculada entre 25% e 50% (disponível em <http://www. faz a seguinte observação: Mas como a água é boa. quase duas vezes a quantidade média nacional.50 Consigne-se.gov. A situação que enseja preocupação atualmente é o risco de deterioração do reservatório em estudo. o desenvolvimento sustentável. Neste sentido. 2007). Diante desses problemas. seja pelo aumento dos volumes extraídos . que esta recarga natural ocorre através da infiltração direta das águas da chuva nas áreas de afloramento das rochas do Guarani. contribui para um rebaixamento de 15 a 25% do nível da água do aqüífero na área central da cidade.br/guarani/sistema/descricao. em torno de 200 litros. em relação à disponibilidade efetiva do recurso. abundante e barata.

sg-guarani. 4. p. da Argentina.º 052. De tal modo. todas aquelas regras são aplicáveis na defesa do Aqüífero Guarani no Brasil. 2004. Posteriormente. a Lei n. de 15 de abril de 2005. serão delineados os dispositivos normativos que se dirigem à proteção do Aqüífero Guarani. que institui diretrizes e procedimentos para a definição de áreas de restrição e controle da captação e uso dos mananciais do subsolo (disponível em: <http://www. o “Projeto Aqüífero Guarani”.51 4.4. um importante passo para a defesa desta extraordinária reserva de águas subterrâneas.2. que complementam de forma expressiva a proteção do manancial em tela. No país argentino. todavia. Destaca-se que. as quais trazem disposições específicas no tocante .º 6. que há diversas normas.org/index/site/gestion_integrada_del_agua/giagua003br. do Paraguai e do Uruguai Na seção 3. como ocorre no Brasil (CHAGAS. Já em nível infraconstitucional. existem normas como a Lei de Águas de Misiones e o Código de Águas de Corrientes. Resta consignar.2 Meios de proteção Num primeiro momento. em sede da proteção do meio ambiente. sendo possível a utilização daquelas pelo proprietário da respectiva superfície nos limites das necessidades. o Código Civil da Argentina declara que as águas subterrâneas são bens públicos.1 As legislações do Brasil. 2007). mas nos outros três países. a tutela das águas subterrâneas está colocada de forma implícita em sua Constituição. publicadas pelos Estados titulares do domínio de parte deste reservatório no respectivo território. 33).php> . e a Del/CRH n. no âmbito das províncias onde se encontra parte do aqüífero. no Estado de São Paulo. foi possível conhecer o regime jurídico das águas subterrâneas em território brasileiro. que dispõe sobre a preservação dos depósitos naturais de águas subterrâneas. Acesso em 10 set. não somente no Brasil. Cite-se. por exemplo. serão analisados os principais pontos do projeto financiado pelo Banco Mundial.134/88. com o fito de verificar a compatibilidade entre aquelas normas.

2004. Neste sentido. . o Código Civil paraguaio estabelece a dominialidade pública dos mananciais subterrâneos e impõe limites à sua utilização pelo particular (CHAGAS. há que se chegar a duas principais conclusões: a) as legislações dos países acima referidos são unânimes na instituição da defesa dos mananciais subterrâneos. sua Constituição não menciona expressamente a proteção das águas subterrâneas. Situação um pouco diferenciada se desenha no Uruguai. assim como ocorre no Brasil e na Argentina.52 às águas subterrâneas (disponível em: <http://www. assim como na fixação da dominialidade pública destes. 2007).sg- guarani. p.org/index/site/gestion_integrada_del_agua/giagua003br. p. no campo do Direito Internacional Ambiental. seguindo-se a tradição romana. há também o devido controle administrativo de sua utilização. porém. ainda assim.php>. apesar de se estabelecer o domínio privado destes recursos. Lembrando também que a Constituição uruguaia também não traz de maneira explícita a proteção dos recursos hídricos subterrâneos. b) observa-se que não há nenhum diploma legal nos países de ocorrência do Aqüífero Guarani que estabeleça normas específicas de proteção a este reservatório. fixando-se. Ante o que foi exposto. tem o objetivo de formular um marco legal e institucional para a gestão de suas reservas. 34-35). A questão pode ser perfeitamente solucionada através da elaboração de um tratado entre estas nações. regras comuns de preservação. a ser abordado na seção seguinte. onde. 2004. Na seara da legislação ordinária. com exceção do Uruguai. 37). o Projeto Aqüífero Guarani. onde o Código Civil concede o domínio das águas subterrâneas aos proprietários do solo. “procura exercer o seu poder de polícia por meio de autorização administrativa para evitar a contaminação do lençol freático” (CHAGAS. a fim de evitar conflitos normativos e ineficiência na execução de políticas de prevenção. a defesa destas está implícita quando dispõe sobre o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Acesso em 10 set. a exemplo da Argentina. No Paraguai. mas.

por fim.gov.2.gov.ana.htm>. da Argentina.htm>. as instituições de cooperação dos países envolvidos e a OEA estão em fase de assinatura de acordos bilaterais. através de um Plano de Ações Estratégicas. 2007). O marco inicial foi uma reunião realizada na cidade de Foz do Iguaçu (Estado do Paraná).gov. ocasião em que os representantes do Brasil. como agência executora internacional (disponível em: <http://www. encontra-se na fase de execução. o Fundo para o Meio Ambiente Mundial. legais e financeiros para a sua proteção e uso sustentável (disponível em: <http://www. e. O resultado a que se pretende chegar é que os quatro países disponham de um modelo de gestão para o Sistema Aqüífero Guarani.ana. Acesso em: 10 set. descritas no quadro 3. organismo máximo de decisão. científicos. estão previstos quatro: abastecimento sustentável de água potável para a coletividade. uma para cada .br/guarani/projeto/sintese. da Secretaria-Geral. atualmente. e foi concretizado por intermédio do Banco Mundial.htm>. com recursos do governo brasileiro. institucionais. com a função de coordenação regional. outrossim. com a criação do Conselho Superior de Direção do Projeto. 2007). as Unidades Nacionais de Execução do Projeto (UNEPs). em janeiro de 2000. Acesso em: 10 set.br/guarani/projeto/sintese.53 4. Houve. a fixação de um arranjo institucional da execução do Projeto. Acesso em: 10 set. Dividiu-se o Projeto em apreço em três fases. e minimização dos conflitos nas zonas transfronteiriças.2 O projeto do Banco Mundial O denominado Projeto Aqüífero Guarani tem o apoio do Global Environment Facility (GEF). água de alta qualidade para a indústria. e. abastecimento sustentável de água termal para turismo. O objetivo principal e os custos do Projeto estão descritos no quadro 2. as agências executoras nacionais. como agência implementadora dos recursos. do Paraguai e do Uruguai aprovaram o documento inicial do Projeto (disponível em: <http://www.br/guarani/projeto/sintese. e da Organização dos Estados Americanos (OEA). incluindo aspectos técnicos. Em relação aos benefícios a longo prazo.ana. 2007). indústria e municípios.

00 US$ 1.800. BGR/PY.00 Secretaria de Recursos Hídricos – SRH/MMA Março de 2003 a março de 2007 (previsto) US$ 26.368.00 US$ 540.000. .000. QUADRO 2 – Informações sobre o Projeto Aqüífero Guarani Objetivo do Projeto: Apoiar o Brasil.htm>. e que visam apoiar a UNEP-Brasil.00 US$ 11. No Brasil.00 (PIP) Países Beneficiários: Origem dos Recursos de doação: Área de Interesse do GEF: Agência Implementadora do GEF: Agência Executora Internacional: Fase de preparação: Custo de Preparação do Projeto: Fundos GEF (PDF Bloco B) executados: Contrapartidas não-financeiras dos quatro países (estimadas): Órgão responsável no Brasil: Fase de Execução: Custo de Total de Execução do Projeto: Recursos de doação GEF: Recursos de doação de outras Agências: AIEA.Corpos de Água Banco Mundial OEA – Organização dos Estados Americanos Janeiro de 2000 a dezembro de 2001 US$ 1.197. há também as chamadas Unidades Estaduais de Execução do Projeto.00 Agência Nacional de Águas – ANA US$ 6.400. tendo em vista as gerações atuais e futuras.00 US$ 1.00 (Plano de Implementação do Projeto-PIP) US$ 424.360.000. Argentina.760. Paraguai e Uruguai GEF . ) - " * # $ % Fonte: Disponível em: <http://www.622.000. legal e institucional para o gerenciamento e preservação do Aqüífero Guarani. OEA Contrapartidas dos quatro países: Agência Implementadora Nacional: Recursos Nacionais de caráter nãofinanceiro (Brasil): Contrapartida Nacional não-financeira em consultoria técnica e infra-estrutura: Aporte nacional a projetos coordenados e executados pela ANA: & ' # $ % # ' + % ! & ( ' .Global Environment Facility (Fundo para o Meio Ambiente Mundial) Programa Operacional nº 8 .000.300.000.00 US$ 6.00 US$ 13. Argentina.900. 2007. Brasil.br/guarani/projeto/sintese. BNWPP.100. e que desempenham o papel de articulação da sociedade civil com os respectivos governos. Paraguai e Uruguai na elaboração e implementação conjuntas de um modelo técnico.ana. Acesso em 10 set.992.000.gov.54 país. nos Estados de ocorrência do aqüífero.

55 QUADRO 3 – Fases do Projeto Fases 1. Preparação do Plano de Implementação do Projeto (PIP) e estruturação da Secretaria-Geral do Projeto Implementação do projeto 2003 a 2007 Recursos de doação do GEF e contrapartidas de caráter não-financeiro dos países Fonte: Disponível em: <http://www. é preciso que a Administração Pública dos quatro países e a sociedade civil como um todo se empenhem para que os objetivos finais sejam alcançados. Negociação 4. dezembro de 2001 Recursos de doação do GEF (PDF/Bloco B) e contrapartidas dos países. Concepção 2. 3.htm>. Execução É fundamental salientar o significativo avanço na proteção do Aqüífero Guarani ocorrido com a implementação do Projeto analisado. 2007.gov. Acesso em 10 set. . Contudo. Preparação Objetivos e recursos Período Elaboração da proposta conceitual do projeto.ana. Elaboração e celebração do acordo básico para Outubro de 2001 a execução do projeto (Banco Mundial/OEA) e dos dezembro de 2002 acordos bilaterais OEA-países. Maio de 1999 a maio Recursos dos países e dos organismos participantes de 2000 Elaboração e aprovação do Documento de Projeto Junho de 2000 a (PAD) pelos países e GEF.br/guarani/projeto/fases. pois de nada adianta fixar diretrizes para a preservação deste reservatório se os representantes do Poder Público e a população em geral não demonstrarem boa vontade e consciência sócioambiental na efetivação das medidas necessárias.

muitas vezes. Paraguai e Uruguai). Um dos maiores reservatórios de água subterrânea do mundo. assegurando às futuras gerações.56 5 CONCLUSÃO A água é essencial a vida. hoje considerado um direito fundamental. o homem não demonstrou preocupação em preservá-la durante séculos. . Argentina. é que o meio ambiente passou a ter maior relevância nos debates internacionais. ou seja. resultado da intensificação de seus usos múltiplos.433/97.º 9. administrativa e penal. o Poder Judiciário e o Ministério Público têm agido com firmeza na efetivação da tutela das águas subterrâneas. geradoras de prestígio político. dotadas de qualidade incomparável. desconsiderando a dominialidade pública das águas subterrâneas. priorizou-se a proteção das águas superficiais. o Aqüífero Guarani. por tudo o que representa. Porém. termos de ajustamento de conduta e ações civis públicas. Mesmo com todas estas barreiras. O regime jurídico brasileiro dos mananciais subterrâneos revela-se interessante e abrangente. merecem uma tutela efetiva que garanta o desenvolvimento sustentável. e somente a partir da segunda metade do século XX. que abrange territórios de quatro nações (Brasil. justamente por estas características. Isto porque se acordou para o problema da escassez deste recurso natural. o acesso à água potável. Todavia. causado pela contaminação de suas reservas e uma exploração ilimitada. A prevenção na contaminação de aqüíferos e o reuso das águas são as soluções mais eficazes no combate à escassez. Neste contexto. O Código Civil e o Código de Águas limitam-se. Aliás. não se compatibilizam com a situação atual. o esquema institucional de gestão dos recursos hídricos proposto pela Lei n. apesar de bem estruturado. não deu o valor necessário aos reservatórios do subsolo. e de exploração fácil e barata. como a outorga e a fixação de infrações. as águas subterrâneas. Da mesma forma. e com excelentes instrumentos de controle. através de acordos. desta forma. com previsões de responsabilidade nas esferas civil. em termos econômicos e sociais. muitos dispositivos normativos estão ultrapassados. em resolver conflitos de direito privado.

precisa ser protegido. O Projeto Aqüífero Guarani veio. indústrias e promovendo o turismo. portanto. enfim. que é um direito de todos enquanto seres humanos. . para suprir a necessidade de uma gestão conjunta e integralizada de suas reservas. mas é indispensável que haja esforço político e da sociedade no sentido de botar em prática as medidas instituídas. para.57 abastecendo milhares de pessoas. viabilizar o acesso sustentável às suas águas.

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