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SOCIEDADE EMPRESARIAL - VIII

1. Introdução:

Antes de ser analisada a Teoria das Sociedades Empresariais se faz necessário estabelecer

e relembrar os seguintes conceitos:

a) Empresa: como o exercício da atividade produtiva, constitui objeto do Direito e não o

sujeito do mesmo, portanto destituída de personalidade jurídica;

b) Empresário: é a pessoa que tem a iniciativa de organizar uma atividade econômica de

produção ou circulação de bens e serviços ou, simplesmente, o sujeito que exercita a atividade empresarial. Essa pessoa pode ser: física (pessoa natural) quando emprega o seu dinheiro e organiza a empresa individualmente, ou jurídica (pessoa jurídica) quando surge da união de esforços dos seus integrantes. Assim temos o empresário pessoa física, também denominado empresário individual, desenvolvendo uma atividade econômica, ou empresário pessoa jurídica, também denominado sociedade empresária ou sociedade comercial, exercendo e desenvolvendo atividade econômica produtiva (empresa), ambos, são sujeitos do Direito, detentores de personalidade jurídica. O art. 966/CC estabelece que “considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.” Deve ser observado que pode existir a figura do Empresário sem que exista a Empresa, quando, por exemplo, uma sociedade empresária é regularmente constituída, através de um contrato social, registrado na Junta Comercial, porém permanece inativa, e, por conseqüência, não surge a Empresa;

c) Sócios: são os integrantes da sociedade empresária, portanto não estão sujeitos às

normas que definem os direitos e deveres do empresário, embora as normas estabelecem

direitos e obrigações a eles, em razão da exploração da atividade empresarial pela sociedade de que fazem parte;

2. Da sociedade empresária:

a) Definição e constituição:

- “Sociedade empresária é a pessoa jurídica que explora uma empresa.” (FUC);

- A titular da atividade econômica é a própria sociedade e não os seus sócios. Esta asserção está ligada ao princípio da autonomia da pessoa jurídica, um dos principais fundamentos do Direito Societário. Os sócios poderão ser tidos como empreendedores, pois, além de investirem o capital, são os responsáveis pela concepção e condução do negócio, e, também, como investidores, quando tão somente contribuem com o capital para o desenvolvimento da empresa;

- A sua constituição é operacionalizada de acordo com o tipo de sociedade a ser adota pelos seus sócios, sendo que as duas mais usuais são: a sociedade limitada, utilizada usualmente para as atividades econômicas de pequeno e médio porte, constituída através de um contrato celebrado entre os sócios, ou seja, através do contrato social, e a sociedade anônima, utilizada geralmente para as grandes atividades econômicas, denominando-se estatuto social, o documento que irá disciplinar as atividades entre os sócios;

b) Natureza jurídica e personalização da sociedade empresária e seus efeitos:

- Existem várias correntes doutrinárias sobre a natureza da pessoa jurídica. Dividindo-se

praticamente em duas: as teorias pré-normativistas, que consideram as pessoas jurídicas seres de existência anterior e independentes da ordem jurídica, e as teorias normativistas,

sustentando o contrário, ou seja, a pessoa jurídica como criação do Direito. É dotada de personalidade jurídica, sujeita do Direito, titular de direitos e obrigações;

- As sociedades empresárias são sempre personalizadas, ou seja, são pessoas distintas dos

sócios, titularizando seus próprios direitos e obrigações. Como exemplos podem ser citados: a) a titularidade obrigacional: estabelecida através de vínculos contratuais e extracontratuais, entre as sociedades empresarias e terceiros (fornecedores, empregados, fisco e etc.), os sócios não participam desta relação, e sim a sociedade empresária, e em casos excepcionais, tratadas em normas específicas, estende-se os efeitos da relação à esfera subjetiva de quem agiu pela mesma, como no caso de responsabilidade tributária do seu sócio gerente; b) titularidade processual: a personalização da sociedade empresária

importa a definição da sua legitimidade para demandar ou ser demandada em juízo, respondendo pela ação, e não os seus sócios; c) responsabilidade patrimonial: neste caso segue a separação dos patrimônios da sociedade empresária e de seus sócios. Observa-se que não se deve confundir com a participação societária, representada pelas quotas da sociedade limitada e as ações da sociedade anônima. Tratam-se de patrimônios distintos, inconfundíveis e incomunicáveis, os dos sócios e o da sociedade;

- O início da personalização da sociedade empresária se dá com o seu registro na Junta Comercial (arts. 45 e 985/CC), terminando após um procedimento dissolutório que pode ser judicial ou extrajudicial;

- Atualmente o princípio da autonomia patrimonial das sociedades empresarias tem sua aplicação limitada, nos casos de uso fraudulento ou abuso do instituto, como se verá a seguir;

c) Desconsideração da personalidade jurídica:

- Utilizando como escudo o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica, a sociedade empresária pode realizar fraude contra credores ou cometer abuso de direito. Nestes casos, ao se prestigiar tal princípio, o ilícito causado pelo sócio permanece oculto, resguardado pela licitude da conduta da sociedade empresária. Somente se revela a irregularidade se o juiz, nessas situações, ao julgar o caso, desrespeitando este princípio, desconsiderá-lo. Desta forma, como repressão aos ilícitos cometidos, poderá haver a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade empresária;

- No Direito brasileiro a primeira norma a tratar da desconsideração da personalidade jurídica da pessoa jurídica foi o Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 28 e § 5º, seguida da Lei Antitruste, de nº 8.884/94, que trata da tutela do livre mercado, em seu art. 18, ao estabelecer: “A personalidade jurídica do responsável por infração da ordem econômica poderá ser desconsiderada quando houver da parte deste abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.”. Posteriormente a Lei nº 9.605/98, dispondo sobre a responsabilidade por lesões ao meio ambiente, assim tratou deste assunto em seu art. 4º: “poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio ambiente.”. Também o art. 50 do Código Civil brasileiro trata da desconsideração da personalidade jurídica, ao assim dispor: “Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica.”