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Ela veste preto, mas o baile é cor

de rosa.

Mila Olivier
Ela veste preto, mas o baile é cor de
rosa.

Mila Olivier.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap.1

– Bom dia New Park, são 10h45min da manhã, o sol está brilhando lá
fora e a galera quer te ver!
– Não enche! Eu quero dormir mais um pouquinho, plis! – diz Dora
querendo assassinar o rádio relógio.

Nome: Isadora Réquiem


Status: Riquinha Mimada (Paty mesmo!)
Idade: 21 anos
Hobby: Organizar a vida social e casos perdidos.
Livro de Cabeceira: Delírios de Consumo de Becky Bloom
Frase: “Eu quero, eu posso, eu consigo”.

– “Cause we're living in a material world / And I, I'm a material girl.”–


toca o celular.
– Alô! Sweet!
– Oi meu amor! A senhorita me daria a honra de acompanhá-la à festa
dessa noite?
– Festa? Como assim? Trata-se do Grande Baile Anual Rosa. Tenha
respeito! – diz indignada.
– Ah! Claro! Esqueci como essa coisa de evento é importante pra você.
Me desculpe!
– Vou pensar no seu caso. Eu me mato pra organizar um acontecimento
descente, pra fazer as cafonas se tornarem ao menos pegáveis e você e seus
amigos reduzem tudo a uma simples festa, tenha dó!
– Calma meu amor, não vamos começar. Só liguei pra confirmar o
horário de te pegar.
– Aff! As oito está bom!
– Não fica brava linda! Um beijo do seu David!
Nome: David Silver Rock
Status: Herdeiro e Esportista exemplar
Idade: 22 anos
Hobby: Ajudar os menos favorecidos.
Livro de Cabeceira: A arte da guerra.
Frase: “Mais do que de críticos, os jovens necessitam de modelos.”
(Joseph Jobert).

– Tchau! Até mais!


Dora ia desligando quando uma voz aparece no fundo.
– Espera! Me deixa falar com ela!
– O Mané quer falar com você. – avisa David desanimado.
– Ai David, pára de falar assim do seu irmão. Ele é tão meigo, sensível.
Você precisa respeitá-lo e aprender mais com ele.
– A tá, pode deixar meu amor!
David passa o telefone para o irmão que vem alegre atender.
– Toma! Vêm falar com a amiga, deixa de ser frouxo e acha uma
namorada pra você. Bobão!
O garoto, que na maior parte do tempo era fechado, calado em seu
mundo nerd se transformava toda vez que falava com Dora.
– Oi estranho!
– Oi Dora! Não entendo como você agüenta esse brucutu do meu
irmão. Como a genética pode ser cruel de vez em quando.
– Ha-ha-ha! Aliás, prometi não te chamar mais de estranho, então olá
Paris.

Nome: Paris Silver Rock


Status: Herdeiro e Nerd alto nível
Idade: 20 anos
Hobby: Presidente do Fã Clube Jornada nas Estrelas.
Livro de Cabeceira: A estrada da noite.
Frase: “Que a força esteja com vocês.”
– Vai Paris! Eu preciso ir, vou arrumar os últimos detalhes do baile, dar
um jeito naquelas mequetrefes e dar um jeito em mim também que eu não sou
de ferro, né! E você vai, não é?
– Não sei... Todos aqueles idiotas prontos a tentar destruir mentes
superiores pra se sentirem melhores com suas vidas decadentes.
– Ah! Paris não dá bola, eu vou estar lá com você, não ligue pra eles não
e aproveita, eu acho uma garota no ponto pra você, a melhor que puder
arranjar, juro!
– Tudo bem, vou pensar!
– Não pensa, vai! Um beijo, no baile a gente se fala!
– Ai Dora, só você pra me socializar! Beijão!
Eles finalmente desligaram o celular e foram fazer o que toda a galera
jovem de New Park já estava fazendo a horas, parecer o melhor possível para
impressionar e não pagar de perdedor na frente de outros riquinhos vazios e
presunçosos, mal sabiam eles que esse baile mudaria suas vidas para sempre.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap2.

– Lá vem ela! Como está linda!


– Tem razão Senhora Lara. – diz David.

Nome: Lara Manford Réquiem


Status: Socialite Baladeira
Idade: Aparenta ter uns 40, mas não confirma nem sob tortura.
Hobby: Viagens e Desfiles de moda.
Livro de Cabeceira: Comer, amar e rezar.
Frase: “Sô chique no último benhê.”

– O tipo de mulher que merece uma surpresa hoje, não concorda David?
– Claro Sra. Lara.
– Mãe! – Grita Dora envergonhada.
– Só estou querendo te ajudar boba. Quando é que ele vai fazer o
pedido, a vida passa e nossas posições precisam mudar.
Lara é o tipo de mulher madura e linda que não poupa comentários,
sempre está no meio dos furacões que acontecem em New Park e se uns a
chamam de moderninha intrometida outros adoram suas respostas. Ela se
define apenas como realista.
– Não liguem pra mim, tolinhos! Eu só quero ajudar.
Mas era verdade, ninguém podia negar como Dora estava linda
descendo as escadas com seu enorme vestido negro tomara que caia
cravejado de brilhinhos num estilo corpete na parte de cima e uma saia bufante
na medida. Seus cabelos compridos e castanhos estavam presos num coque
desalinhado, uma maquiagem leve e sapatos de salto agulha pra acompanhar.
– Eu mereço tanto? – pergunta David tomando-lhe a mão.
– Já não basta minha mãe vem você também, vamos logo antes que eu
desista e vá calçar coturnos.
– A Sra. não vem? – pergunta o rapaz esperando.
– Não! Vão vocês crianças! Não quero fazer concorrência pra ninguém,
mas divirtam-se.
Quase vinte minutos depois David já estacionava seu Porshe vermelho
em frente ao prédio conhecido como Clube de New Park, quem era alguém ou
tinha seus quinze minutos de fama tinha que passar por lá ou não teria existido
realmente.
– O que foi? – pergunta David.
– Nada, só um mal estar. Você não se cansa às vezes desse mundo de
festas e aparências, fazendo poses o tempo todo. Algumas vezes chego a
achar que sou uma boneca de papel que só serve pra se vestir.
– Não é nada, você só está nervosa querendo que o baile dê certo! – diz
ele enquanto lhe acaricia o rosto e dá um beijo em seguida.
– Você tem razão, vamos! – anima-se Dora dando-lhe a mão.
– Respire fundo! – diz para si própria.
Entraram juntos e logo puderam perceber o olhar de todos em cima
deles, pois toda a galera estava com alguma tonalidade de rosa e vermelho
enquanto que Dora era a Dama de preto.
– Dora o que é isso, quebrando sua própria regra? Se você não fosse
minha melhor amiga eu seria obrigada a me vingar!
– Desculpe Mell, foi uma idéia que eu tive agora quase na hora de vir. O
vestido rosa que fui provar com você estava manchado, estranho, não ia rolar.

Nome: Melissa Alonso Duprat


Status: Riquinha e Melhor amiga (Paty n°2)
Idade: 21 anos.
Hobby: Ajudar nas causas perdidas de Dora.
Livro de Cabeceira: Coleção Gossip Girl.
Frase: “Compras, compras, compras. Ah! E alguma coisa divina.”

– Tudo bem, dessa vez passa porque vocês são o casal mais show
desse baile e porque essa sua borboleta rosa aí atrás em forma de laço tá um
must! – termina Mell toda eufórica.
À partir daí o casal não teve mais tempo, pois Mell puxou Dora para um
canto e David foi conversar com seus amigos.
– E então? Ele vai fazer o pedido hoje?
– Não sei Mell, você e minha mãe hein, só pensam nisso!
– Mas se não fizer tudo bem, porque a gente vai pra Faculdade de Moda
no próximo semestre e lá você vai ter mais tempo pra repensar sobre esse
relacionamento.
– Pára Mell, sempre decidindo tudo, me dá um tempo tá!
Dora ia passando no meio do salão quando David lhe dá um puxão e a
toma nos braços para dançar.
– Você ainda não me concedeu aquela dança. – cochicha em seu
ouvido.
– Eu estava indo pra cozinha conferir o Buffet e...
– Deixa pra depois e vem.
Eles dançavam lentamente como se não houvesse mais ninguém
naquele salão apenas os dois e a música que os envolvia por entre a fumaça e
os balões. Seus corpos voavam juntos pelo espaço escuro e a única luz
existente era a refletida pelo brilho de seu vestido e a alegria de seu olhar.
Nada mais podia lhes atrapalhar, pois eram um só corpo.
– Isadora, eu preciso falar com você. – diz afoito.
– Claro, o que é? – pergunta Dora quase caindo.
– Você gost...
De repente todos escutam gritos vindos lá de fora e Dora não consegue
ignorar.
– Ai, só pode ser brincadeira, eu tenho que ir amor senão sobra pra mim.
– Você tem certeza? – pergunta o moço.
– Até daqui a pouco. – responde ela desvencilhando-se.
Chegando lá fora percebeu que se tratava de uma briga ou quase
covardia que estavam fazendo com Paris, ele estava tentando entrar enquanto
a turma o barrava.
– Alienígenas não são permitidos, sinto muito.
– Sai da minha frente, a Dora me convidou. – diz raivoso.
– A tá, provavelmente por dó, se toca e some daqui, nerd.
– Nãaaooo!!! – grita furioso.
Dora já estava chegando ao centro da confusão, mas Paris percebe e
não querendo passar por mais uma cena onde ele precisaria ser protegido por
ela sai correndo antes que ela consiga alcançá-lo.
– Paris! Vocês hein, como são empata festas!
Os rapazes não ligaram e Dora viu que aqueles sim eram casos
perdidos, resolveria com Paris mais tarde, agora era hora de voltar para David.
Ela procura e não encontra, pergunta a todos onde ele está até que
alguém responde.
– Ah, o David, vi ele indo para o telhado.
– Telhado, que estranho, deve ser pro pedido ficar mais romântico.
A garota corre para o terraço do prédio e quando abre a porta já sem
fôlego para a felicidade ouve outro grito que dessa vez chama seu nome.
– Dorrraaaa!!!!!
Era David, ele estava caindo do prédio e era possível ver apenas suas
mãos tentando se agarrar a beira dos 16 andares aos quais ele estava
pendurado.
– Meu amor, me ajuda, segura! – grita ele.
Dora tenta agarrar suas mãos como pode, mas o peso é muito e o
vestido começa a rasgar e a levá-la com ele.
– Não vou soltar, eu juro, nem que meu braço caia! – grita chorando e
histérica.
Ficam assim por alguns minutos, porém Dora está cada vez mais para
fora do telhado até que David lhe olha nos olhos e diz.
– Tudo bem, você tentou, agora me larga.
– Não, nunca!
– Dora, me larga não tem jeito!
Dora continuava insistindo até que David dá um ultimato, balançando-se.
– Dora larga, eu sinto muito, mas não deu.
Ele balança, soltando-se da garota que vai para trás e volta compulsiva
chorando com o olhar vidrado ainda a tempo de ver os olhos verdes de seu
amado perderem a cor em meio a escuridão que se fazia mais densa quanto
mais ele caia.
– Nãaaaooooo!!!!!!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap3.

O mundo corre rápido lá fora enquanto Dora apenas o observa da janela


de seu quarto, isso já faz 5 semanas, mas ela não consegue esquecer a noite
do baile, em sua mente ainda está com aquele enorme vestido negro
esperando que David venha lhe buscar dizendo que tudo não passou de um
pesadelo. Foi assim que ela dormiu na primeira noite, estirada ao chão olhando
para o teto, tentando alcançá-lo em vão e é com essa mesma esperança que
ela acorda todas as manhãs para recomeçar tudo novamente.
Até que numa dessas manhãs o telefone toca mais uma vez, Dora como
de costume pensa em não atender, deixar tocando até que desistissem, porém
ela atendeu.
– Alô! – diz desanimada.
– Oi querida! Até que enfim você atendeu, onde você estava, na lua?
– Infelizmente não, mas preferia estar. Oi Mell!
– Oi linda, como você está?
– Respirando! E você?
– Eu estou bem, mas pelo visto você não está, não é?
– Eu estou ótima, é engano seu! – responde enfática.
– Amiga, por favor, as coisas não são as mesmas desde..., você sabe.
As festas, as compras, New Park precisa do seu sorriso, do seu agito, as
barangas estão pensando que dominam e tudo está fora de ordem! – grita Mell
desesperada no telefone.
– Isso vai passar! – sussurra Dora conformada.
– Não, não vai porque você não faz nada a não ser ficar trancada nessa
sua torre bancando a princesa aprisionada. Nós precisamos que você continue.
Sua mãe, eu, David e que nojo, até o Paris precisa disso! – grita Mell.
– E o quê você quer que eu faça, as coisas são assim, David não vai
voltar, não poderá se divertir conosco e era tudo tão novo, tão mágico.
– Recomece, apenas recomece.
– Como?
– Vindo ao chá que eu organizei. Tudo tranquilo, apenas nós e mais
algumas meninas, trago algumas pra você iniciar novos projetos, uns bem
complicados pra você não pensar em mais nada, prometo.
Dora expressou um tímido sorriso e após pensar respondeu:
– Tudo bem, hoje você ganhou, estarei aí às três!
– É assim que se fala, um super beijo, até lá! – termina radiante.
Ela desliga o telefone com a consciência de que não será fácil.
Dora não conseguia se divertir, não encontrava motivação como
antigamente, pra onde quer que olhasse só via uma única pessoa em todos os
cantos, sorrindo, falando, dançando e fazendo gracinhas. Prometendo-lhe um
beijo doce pra lhe tirar o ar e fazer da vida um baile cor de rosa. Sua boca
cheirando a morangos, seu cabelo lisinho e macio parecendo o tocar das
nuvens e principalmente sua pele de gosto e aroma de pêssego.
Mas agora tudo era diferente, ela vestia preto, mas estava em um
grande baile cor de rosa.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap4.

Por volta das 15h25min da tarde Dora ainda permanecia na frente da


casa de Mell, não conseguia dar os passos finais pra tocar a campainha.
Rodeava e pensava em tudo que havia acontecido e se queria continuar nesse
mundo de aparências, pensava se reiniciar a guerra diária com os outros
habitantes de New Park seria uma boa forma de passar a vida.
– Vai logo, deixa de ser boba! – diz uma voz familiar.
– Ahhaamm! – resmunga Dora inconscientemente.
– Vai ficar aí o dia inteiro? – pergunta novamente a voz.
– Aaaahhhh!!!!! Não pode ser! – grita a garota.
– Tanto pode que aconteceu, sou eu David! – diz sorrindo.
– Você voltou? Como? – pergunta histérica.
– Talvez seja um fantasma ou só uma reprodução da sua consciência,
mas o que importa é que estou aqui então vamos aproveitar. Toque a
campainha e apenas deixe rolar!
Dora tocou a campainha e a amiga vendo-a pela câmera de segurança
logo correu para atendê-la.
– Que bom que você veio e atrasada como manda o figurino, já
chegaram umas dessas fubás no horário, pontualidade em festas é tão
démodé! Será que essa gente não tem ninguém pra ensinar o básico da
educação, mas agora tudo isso vai mudar porque Dorita voltou! – grita
animada.
Atravessaram toda a enorme mansão de Mell rumo ao jardim onde
estava acontecendo o chá, até então tudo estava tranqüilo para Dora, mas de
repente a garota abre a grande porta do jardim e dá de cara com praticamente
toda New Park numa enorme festa na piscina.
– Nossa, parece que caímos numa armadilha! A Mell é uma vadia! –
cochicha David abraçando Dora e rindo da situação.
A garota estava pegando fogo por dentro, queria estrangular Mell, mas
queria se matar também, afinal foi muito ingênua de cair no papo dela. Aquilo
era New Park, ali nunca se baixa a guarda não importa o que aconteça.
Mell começa a se explicar sem parar.
– Ai amiga, desculpe pelo volume de pessoas, mas você sabe como é,
começam com umas cinco pessoas que contam pra mais cinco e quando se vê
todo o bairro está aqui. Fugiu do meu controle, principalmente quando
souberam que você viria, eu não sei como. O que eu podia fazer, nos queimar
diante de toda a galera! Você compreende, não é?
A garota estava prestes a explodir, mas David a segura pelo braço e diz.
– Vai meu amor, mostra pra ela!
Dora então respira fundo, olha pra todos os curiosos e responde.
– Não se preocupe amiga, o passado não importa e se corrige no futuro
com o que fazemos no presente. O que você podia fazer? – pergunta Dorita
ironicamente.
– Que bom que você entendeu! Eu te adoro! – diz Mell abraçando-a.
A garota logo se desvencilha da amiga e começa a andar por entre os
convidados até que é puxada para um grupinho de meninos.
– Oi Dora, como tá indo com tudo?
– Muito bem, seguindo!
– Quando a Mell avisou pra galera que você vinha como convidada de
honra todo mundo confirmou presença.
– Ah! A Mell avisou todo mundo é! – disse bufando.
– Que bom que você esqueceu aquele perdedor do David, o cara era um
covarde se matando no seu baile. Sempre soube que ele não batia muito bem
da idéia.
– O David não se matou, ele foi assassinado eu tenho certeza disso! –
disse quase não se contendo. Que legal alguém que se dizia o melhor amigo
falando uma coisa dessas! – ironizou Dora.
– Meu melhor amigo, não! Ele é que ficava me seguindo, eu só deixava
rolar. – terminou um deles rindo.
– Com licença, eu preciso de ar. – terminou a garota.
Ela corre em direção a uma varanda escondida no outro lado do jardim e
lá permanece respirando, com nojo e assustada com os comentários que havia
ouvido.
– Os caras são demais, não são? – pergunta David reaparecendo.
– É, acho que assassinos possuem mais lealdade entre si.
– Não fica assim, você sabe como eles são. – consola.
– Acho que não sabia de nada, onde foi que estive esse tempo todo? –
pergunta caindo em si.
– Deixa pra lá, eu preciso ir agora e pra sempre! – entristece David.
– Não, você não pode me deixar aqui no meio dessas víboras. O quê eu
vou fazer, não vou conseguir sem você! – se angustia Dora.
– Claro que vai, porque você é esperta e especial o bastante para
sobreviver a todos eles, ao contrário, são eles que não estão prontos pra você,
meu amor.
– Adeus! Foi um prazer te acompanhar e sempre será eternamente.
David ia caminhando para fora do jardim deixando Dora inconsolável
sentada num banco de vime quando ele volta e à toma pela mão.
– Mas antes uma última dança.
Eles dançaram em meio as flores que não delatavam o amor que estava
acontecendo junto a elas e não deixavam transpassar a arrogância existente lá
fora. A vida seria perfeita uma última vez, a melhor tarde de suas vidas.
De repente risos e alguém se aproxima, mas Dora não percebe.
– Dorita o que você está fazendo aí sozinha? – pergunta Mell.
Dora estava de braços erguidos e olhos fechados dançando sozinha na
frente de todos. E agora?
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap5.

– Eu só estava ensaiando uma coreografia que estou criando e


precisava de um lugar calmo pra dar um tempo. – diz refazendo-se do
flagrante.
– Ah, claro! Bem que me disseram que ela estava ficando louc... –
cochicha Mell, que não engoliu a desculpa.
Dora a interrompe antes que ela pronunciasse a última letra,
perguntando.
– Ficando o quê?
O clima entre elas estava cada vez mais tenso e só não ficou pior
porque começa uma muvuca perto da piscina e ambas são atraídas pra lá.
– Resolvemos depois! – diz Dora.
– Será um prazer querida! – sussurra Mell rindo maquiavelicamente.
A dona da festa logo entendeu o único motivo que levaria à confusão
qualquer recepção dada em New Park, gritando.
– Paris!
– O que ele está fazendo aqui?
– Eu o convidei achando que você ficaria mais à vontade Dorita, mas
não precisou e ele levou a sério o convite, eu não imaginava, realmente tenho
que admitir que ele tem coragem!
– Nossa Mell... – bufa Dora no cúmulo da paciência.
Os rapazes estavam segurando Paris pelos braços enquanto o garoto
que se dizia antes melhor amigo de David falava.
– Se você acha que o quê aconteceu muda alguma coisa, tá muito
enganado, você continua sendo um alienígena pra nós e seu irmão covarde
provou que era um também! – terminou rindo.
– Ou vai ver se matou porque não agüentou viver com esse maluco. – ri
outro deles.
– Caia fora daqui agora ou vai preferir sair jogado?
Paris não responde nada, apenas se mantêm firme e quando iam
jogando-o para fora, um deles tem uma idéia.
– Esperem! Antes ele precisa tomar um banho pra não dizer que não
aproveitou nada da festa!
– Joga! Joga! – todo mundo grita.
– Calma gente, esse garoto está meio perturbado, ele já tá saindo! –
grita Mell tentando acalmar o pessoal.
– Mas Mell você me conv... – tenta falar Paris.
Ela finge que não escuta e continua.
– Dêem um crédito, gente! – diz tirando o menino das mãos dos caras.
Até que Dora não agüenta mais a hipocrisia e explode.
– Cheggaaaa! Parem com isso, que espécies de animais são vocês que
se acham melhores que todo mundo! Não respeitam ninguém nem nos piores
momentos, um bando de urubus podres que só querem ver a carniça do outro.
O silêncio era geral, todos estavam assustados com a crise que Dora
havia acabado de ter, mas no fundo estavam mesmo com medo da verdade
que ela havia jogado na cara deles e que se não fosse ignorada destruiria todo
o reino dourado de relacionamentos de New Park. Mas o silêncio é quebrado.
– O que foi Dora, se somos urubus você é a nossa rainha porque caso
não esteja se lembrando quase todo mundo que está aqui já foi projeto seu,
não eram adequados a seus padrões e agora que está por baixo dando uma de
maluca quer que a galera te siga também? Acho que não queridinha essa você
perdeu. Você tá tão maluca quanto esse Nerd e se quiser sair com ele ninguém
vai te impedir, isso eu garanto.
– Eu errei sim, mas reconheço isso agora e ainda a tempo de me salvar
de você, sua manipuladora!
Dora tremia, mas estava aliviada por dentro por ter aberto seu coração,
aquele sentimento de reprovação estava com ela muito antes da morte de
David e este momento era só o estopim.
– Que grupo patético! Um alien, um suicida covarde e uma patricinha
neurótica! O que mais falta? – desenha o rapaz dando apoio a Mell.
– Falta o banho! – responde Dora furiosa.
– Alôooo! Que banho? – pergunta Mell sem entender nada.
– O banho que você e esse desgraçado vão levar agora!
E indo pra cima deles, a menina os empurra na piscina caindo junto e
brigando com Mell que gritava.
– Ela está me atacando, tragam a camisa de força!
O pessoal não fazia nada, só curtia a cena e Paris acompanhava com
espanto e orgulho da amiga. Mas Dora logo cai em si.
– Não vale à pena! E o David não se matou ele foi assassinado, um dia
todos vocês vão saber. – diz largando-a e saindo da piscina.
Ela corre até a porta do jardim ignorando os lados, e antes de sair olha
para trás e sussurra.
– Adeus New Park!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap6.

– Não acredito nisso!


– Dora, você está bem? – pergunta Paris correndo em sua direção para
fora da mansão.
– Ah! Estou, é que essa confusão toda me pegou de surpresa!
– E com você estranh...digo Paris, tá tudo certo?
– Ah, claro tá tudo bem e pode me chamar de estranho mesmo, você eu
não ligo. – diz o garoto rindo. Você vai pra casa agora?
– É eu vou. Ia pegar um táxi, mas molhada desse jeito é melhor ir
andando! – responde Dora tirando o excesso de água dos cabelos com as
mãos.
– Nesse caso deixa eu te salvar uma vez na vida e te acompanhar, são
só algumas ruas mesmo, logo chegaremos antes que você pegue um resfriado!
– brinca Paris.
Começaram a caminhar então com passos lentos e proveitosos, quase
que num passeio no meio da tarde ensolarada pelas ruas do bairro.
– Tudo bem então! – concorda. Desculpe se às vezes sou impulsiva
demais pra te defender é que eles me tiram do sério e já faz algum tempo. Eu
era assim, como pude ser tão cega?
– Não Dora, tá tranqüilo, você só queria que eles me respeitassem e eu
sou um tanto permissivo também, preciso ser mais firme, você tem razão.
– E como vai indo a vida estranho? – pergunta querendo mudar de
assunto.
– Do jeito que dá! É meio esquisito não ter alguém na casa vindo do
nada pra te chamar de bobalhão biruta ou riscar os seus DVDs de ficção
científica, até todos os gibis que comprei no mês estão inteiros. Quando é que
isso acontecia? – termina tentando ser irônico.
– Ah, sei. Vocês não se davam muito bem, não é? Eu sempre dizia que
ele precisava te compreender mais. – diz Dora após algum silêncio.
– Ele compreendia do jeito dele, passou!
– E pra você, Dora?
– Pra mim, as coisas estão acontecendo independente de eu querer ou
não, mas acho que é disso que eu preciso, impulsividade. Talvez a falta dela
me tenha trazido até aqui, então chega, eu preciso mudar, tem umas coisas
que eu estou pensado... – ia dizendo quando Paris segura em suas mãos e
começa a falar depressa e ofegante.
– Sim! Eu também sinto isso, nós podíamos mudar juntos, eu sempre
senti algo por você, algo que caras como o David nem sonham que exista para
ser oferecido a uma mulher. Eu posso fazer o que você quiser realizar seus
sonhos mais profundos. Eu te amo Dora! – grita no final olhando fixamente em
seus olhos, todo vermelho e tremendo não se contendo em si próprio.
Dora ainda em choque com a revelação solta suas mãos e começa a
falar.
– Eu respeito esse seu sentimento, mas você entendeu tudo errado, eu
preciso de um tempo pras coisas se firmarem em seus lugares, encontrar o
meu espaço no mundo e... – hesitou em falar.
– E o quê? – quis saber Paris.
– E se eu me envolver com alguém seja o tempo que for não será com o
irmão do David. De alguém que eu amei tanto! – soltou.
– Mas nós não éramos nem parecidos! – tentar argumentar quase
chorando, furioso com a rejeição.
– Eu sei, mas é o que eu sinto, não dá pra ser, me desculpe! – desabafa
antes de sair correndo e virar a esquina em direção a sua casa desaparecendo
das vistas de Paris. Ele não se conforma e quase não se aguentando pensa.
– Ela diz que quer mudar, mas na verdade é como todos os outros. Tudo
bem Dora, eu te mostro como o David era príncipe encantado! – diz rindo
descontroladamente.
Não bastasse isso quando ela finalmente entrou em casa sua mãe a
aguardava com aquela cara amarrada que só fazia quando tinha alguma
verdade atravessada na garganta.
– Onde você estava mocinha?
– Eu vim andando, tô toda molhada! – justifica Dora.
– Eu sei, a Mell me ligou histérica e contou tudo sobre o seu showzinho
egocêntrico na piscina. Que descontrole é este minha filha? – pergunta Lara
também se descontrolando.
– Meu showzinho, me poupe! A senhora sabe muito bem como é a Mell!
– Sei, mas ultimamente você tem estado tão esquisita sem ânimo pra
nada nesse eterno luto trancafiada e no primeiro contato exterior o que podia
ser um retorno memorável se transforma num surto psicótico! Que Deus me
perdoe, mas o que você quer? Ser uma excluída como o Paris, porque é isso
que vai acontecer se você defender tanto ele.
– Não se preocupe mãe, eu não vou mais ver o Paris. – diz resignada.
– Que bom! Você sabe que eu só quero o seu bem e que a vida é assim,
em nenhuma cultura se perdoa um suicida, com as pessoas de New Park não
será diferente, em breve vão esquecer o David em definitivo e esquecerão
quem estiver preso a ele, mas ele se foi e você está aqui. Me promete que vai
pensar a respeito?
Dora fica olhando enigmática a mãe gesticular seu discurso e ao ser
perguntada quebra o silêncio e responde.
– Ele não se suicidou, alguém o matou, algum desses covardes infelizes
que estão julgando, mas isso não vai ficar assim, um dia a verdade vem à tona.
– fala entre dentes sucumbindo ao ódio.
– Ah, minha filha o que te faz acreditar nisso? Queira logo você veja a
burrada que está fazendo antes de perder tudo. – resigna-se Lara.
– Me deixa em paz! Eu sei! – sussurra a garota.
A mãe passa por trás dela deixando a sala e lhe dá um beijo na nuca
dizendo.
– Tudo bem querida, vá se trocar.
Ela ia deixando a sala também e com o primeiro pé na escada viu
quando empurraram um cartão vermelho por debaixo da porta, olhou pelo olho
mágico, mas não avistou ninguém. Dora pôde notar a figura de uma rosa
enorme no cartão e ao virá-lo estavam escritas apenas essas simples palavras.

SEU NAMORADO NÃO SE MATOU.


ELE FOI ASSASSINADO.

ASS. R

Dora leu aquilo com uma terrível dor dentro de si, mas também tinha um
egoísmo alegre por provar que estava certa, se não estivessem brincando com
ela, claro. Apenas ficou em pé ao lado da janela para refletir.
– Eles vão ver David, vão ver!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap7.

Dois meses depois...


– Nossa como o tempo passou rápido, e quanta coisa aconteceu! Essa
não era pra ser a minha vida! – pensa enquanto entra no enorme prédio da
Escola de Artes Central.
Logo ela se dirige para o interior do pátio onde todos os alunos estão
esperando para iniciar a aula inaugural do primeiro dia desse semestre.
Só não contava com o esbarrão que recebeu de repente de alguém já
conhecida que deveria estar em outro lugar.
– Mell? Você por aqui, não era pra estar nesse momento na Faculdade
de Moda em Florence? – espanta-se.
– Eu resolvi mudar de curso, me deu uma súbita vontade de fazer artes,
designer ou é só você que pode ter essas crises de consciência? – pergunta
sarcástica.
– Não, é que eu pensei que moda era tudo pra você!
– Pensou errado! E se acha que se livrou de mim e de New Park está
muito enganada também, ninguém se esqueceu da sua loucura e
principalmente eu daquele empurrão na piscina! Não pense que sua estadia
aqui será fácil porque eu farei o possível pra que não seja. Eu e toda a galera,
certo meninas? – perguntou para as meninas que a acompanhavam enquanto
ria.
– E a propósito, você piorou muito cortando esse cabelo curtinho. E esse
macacão com coturno, sabe a quantas eras não se usa mais isso? Realmente
Dora, você se tornou um fracasso e o pior chegou aí sozinha! Tá precisando de
um daqueles seus projetos!
E vendo que o Reitor terminava seu discurso despediu-se.
– Bye! AMIGA!
Dora engoliu em seco, estava cansada de brigar, agora era hora de ter
calma e deixar os dias rolarem. Mas ela seria novamente posta a prova com o
que lhe aguardava na porta da sala de aula!
Seu coração começou a saltar, sua boca ficou seca e a cada passo que
dava mais pra perto dele ela ia, era Paris que a olhava se aproximar fixamente.
– Ah não! E agora ele também, tá todo mundo me seguindo? Coragem
Dora – sussurrou.
Mesmo assim seguiu adiante, meio sem jeito chegou ao inevitável
encontro.
– Oi Dora!
– Oi!
Um breve silêncio encabulado tomou conta dos dois.
– E então, tá sumida! – recomeçou Paris.
– Não, só dando um tempo de tudo, mas agora acabou! – reanimando-
se.
– Mas e você, resolveu fazer designer, um geek?
– É eu pretendo ir para o lado dos quadrinhos com os projetos, na
verdade eu queria estudar filosofia, mas meus pais não quiseram jogar o
dinheiro que gastaram com a matricula do David e me “mandaram” em seu
lugar. – fazendo aspas com as mãos para justificar o mandaram como
obrigação.
– Você deveria seguir o caminho que escolheu e não para cobrir alguém.
– ela reclama.
– Mas e você, não está aqui por ele está?
– Não, embora pensem eu realmente gosto de designer, montar coisas e
desenhos do nada.
O professor já se aproximava para a aula e Dora ia se afastando para
entrar na classe quando Paris a chama mais uma vez.
– Me desculpe! – cochicha.
– Pelo quê?
– Você sabe! Aquele discurso louco depois da festa, eu me exaltei, não
tinha nada a ver. Seja minha amiga! Me perdoe! – suplicou.
Dora estava insegura quanto a perdoá-lo e depois ter outra surpresa
daquelas, ela ia acompanhar o professor, porém gira de volta e segura na mão
de Paris que estava entristecido e sorri após ver o sorriso que ela lhe deu
quando segurou em sua mão. Ambos foram para a sala. A aula ia começar.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap8.

O professor se apresentou como sempre se faz no início das aulas,


disse o nome do curso e muito blábláblá sobre a matéria ensinada que seria
história da arte.
– Como se já não soubéssemos. – sussurra Dora entediada.
– O que mocinha, disse alguma coisa? – pergunta o professor que
parece ter ouvidos supersônicos.
– Não foi nada, só estava admirando a beleza dos quadros que o senhor
está mostrando nos slides.
– Melhor assim, pois eu não admito gracinhas de espécie alguma
durante a minha aula. Os engraçadinhos que guardem suas lorotas pra outro
professor, eu respeito a arte e vou ensiná-los a amar também ou...
– Ou o quê professor? – pergunta um dos alunos curiosos.
– Ou... vocês descobrirão durante o semestre. Certo senhorita? –
perguntou para Dora fazendo cara de nojo.
Ela apenas deu um meio sorriso, pensando que precisava desfazer a má
impressão que passou pra esse professor, sempre foi ótima aluna e não
pretendia estragar sua reputação agora.
A aula transcorreu sem mais alterações e tudo que ela queria era a tal
oportunidade de se redimir, finalmente se apresentou no final quando o
professor depois de explicar estilos de pintores de uma forma geral disse que
daria um ponto a mais no semestre se alguém respondesse de quem era a
obra que ele apresentaria agora no slide.
Dora estava ansiosa e levou um susto com a pintura que retratava um
homem disforme amarelo que gritava sobre uma ponte multicolorida.
A sala estava em silêncio e ninguém ousava chutar um nome.
– Eu sei, é aquele quadro que minha mãe brincava sobre desespero de
quem nunca usou botox. Tão caro, se lembre criatura sua vida nessa matéria
depende disso. – pensava tentando se lembrar.
– Lembrei!!!! O quadro se chama... – grita Dora histérica.
– O Grito e está no Museu do Oslo na Noruega. – diz outra voz.
– Perfeito rapaz, realmente teremos alguns bons seguidores que se
destacarão e a briga será boa! Melhor sorte e rapidez na próxima senhorita. –
deseja o professor dando o ponto para o garoto que respondeu.
Ela bufava por dentro olhando para ele, mas precisava manter a pose.
Paris observava de longe sentado num lugar do fundo que havia restado.
– Garoto metido, sempre tem algum CDF querendo causar! Quem ele
pensa que é? – pergunta em pensamento, pois jamais o havia visto em todas
as suas andanças por New Park ou até mesmo pelo Centro.
Fim da aula, e o professor começa a fazer a chamada quando chama
um nome em especial.
– David Silver Rock. Onde está? – pergunta após não obter resposta.
– Já faltou no primeiro dia, começou mal mocinho!
Até que um rapaz responde.
– Ah, professor acho que ele tá de licença permanente porque quando
soube que o senhor ia pegar tão pesado com a gente ele se matou de imediato
e se o senhor quiser alguém vivo no final do semestre é melhor pegar mais
leve. – termina.
Outro continua.
– Mas não se preocupa não Fessor porque já mandaram um substituto,
o alienígena ali atrás. – diz apontando para Paris.
A confusão era geral, todo mundo estava zoando até que Dora se cansa
e sai da sala mesmo sem responder chamada. Mell se deliciava com a zona
que com certeza teve o seu comando.
– Chega! É demais pra mim!
Saiu tão apressada que não notou que o garoto que a atravessou na
resposta do quadro a observava com olhos vidrados e cara misteriosa de quem
com certeza pensava algo sobre ela.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap9.

Sábado de manhã.
– Nossa! Como é maravilhoso! – espanta-se Dora observando do lado
de fora o loft que alugou.
O loft fica em Holanda Garden, um bairro mais afastado e carente, bem
diferente dos que ela já havia visitado na vida. Abriu a porta com ansiedade e
descobriu um salão vazio de médio porte com grandes janelas e muita luz onde
só o banheiro e a cozinha eram separados do resto.
– Meu primeiro canto, minha mãe vai ter um treco quando souber! –
pensava ela enquanto tirava suas coisas do furgão.
Ela tira primeiro as malas com roupas e seus pertences que estavam
distribuídos numa sacola e um nécessaire até que percebe que uma mesa de
madeira estava atravancando a retirada das outras coisas. Tenta tirar sozinha
puxando-a o máximo que pode, porém não consegue nem fazê-la se mover.
– Droga! Só essa que me faltava! – sussurra raivosa de sua impotência.
– Calma ninguém disse que morar sozinha é fácil. Vamos Dora você consegue!
– termina encorajando-se.
De repente alguém vem subindo a rua rumo a seu encontro.
– Calma aí, deixa eu te ajudar! – diz o rapaz.
– Não, tudo bem! Eu me viro! – agradece tirando-o do caminho.
– Pelo que eu sei arrogância ainda não dá superpoderes. – brinca.
– Cara dá um tempo, eu nem te conheço, tô no meio de uma mudança e
tava tudo bem até você chegar com as suas gracinhas. Cai fora! – ordena Dora
grosseira.
– Nossa que grosseria! Eu não te conheço, quero te ajudar e você vem
com sete pedras na mão enquanto deveria me agradecer pelo favor prestado.
Esse mundo tá perdido mesmo!
Dora finalmente olha para o rosto do rapaz e vê que ele realmente
estava sendo sincero, é que estava tão vacinada contra a galera de New Park
que pensava que qualquer coisa podia ser uma retaliação deles. Reconsiderou.
– Olha! Me desculpa! É que as coisas não têm sido muito fáceis pra mim
ultimamente e eu ando muito irritada, mas não vou te alugar mais, você não
quer saber. – anima-se.
– Ah! Sei aqueles dias no mês! – ri.
Dora fecha a cara de novo.
– Não é nada disso! – responde.
Ela estava ajudando a segurar o móvel, mas bravinha larga e entra
apenas indicando o caminho, o rapaz fica tentando arrastar a mesa dando-se
conta do quanto realmente era pesada. Arrependendo-se de seu ato.
– Isso! Vai ajudar a garota frágil, quem vai acabar fragilizado aqui é você
Mané! – grita para si próprio.
– Acho que já vi esse cara em algum lugar. – pensa Dora que é péssima
de fisionomia, mas logo se esquece e empolgada começa a arrumar as coisas
pelo apartamento.
Ela dançava e se mexia pulando de um lado para o outro para ajeitar
pufs e almofadas que trouxe de New Park. Sua idéia era ser bem despojada, o
moderno ateliê de uma designer antenada. Havia se esquecido da vida quando
rodopiando percebe no meio do giro uma imagem parada à porta.
– Aí! É você! – assusta-se.
– Sim, sou eu. Ou você deixou mais alguém na rua pra morrer trazendo
seus trecos? – diz bufando, irônico e destruído pelo trabalho.
– Foi você que insistiu! – ironiza ela.
– Depois dessa eu vou ser canonizado. Onde coloco? – pergunta
referindo-se a mesa atrás dele.
– Ah! Pode ser lá dentro no quarto. – diz Dora quase rindo com a cara
de pavor que ele faz medindo a distância.
Porém o moço não se deixar abater e começa a arrastá-la. Nesse
momento surge um estalo na mente dela.
– Claro! Ele é o garoto da aula de história da arte que tirou a minha nota!
Que cara sujo ainda por cima veio até aqui pra me espionar, desgraçado!
Dora irada começou a lhe dar murros e o cara sem entender apenas foi
rápido em segurar suas mãos.
– O quê você tá fazendo? Você é louca, é?
– Você é um espião pra eles, não é? Bem que eu desconfiei, bonzinho
demais pra ser verdade. – grita.
– Eu não sei do que você tá falando! – grita também.
– Da aula de história da arte, da nota e sua falta de educação
exibicionista. Foi tudo idéia dela não foi? – pergunta eufórica.
– Ah! Você lembrou! Mas foi tudo uma grande coincidência infeliz,
quando ví já estava respondendo e quanto ao bairro eu moro aqui! É que tenho
uma bolsa lá naquela escola e preciso mostrar que mereci. Agora tava
passando na rua e te ví precisando de ajuda e resolvi ajudar, te reconheci a
pouco também. Não tem nada a ver, acredita em mim e se desarma só um
minuto. – terminou.
Dora se acalma em parte. O suficiente para perguntar.
– Então, qual o seu nome?
– Alonso Aloha. Como você já percebeu, ao seu dispor. – responde
ironizando uma reverência. – E o seu, irritadinha? – continuou.
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Nome: Alonso Aloha


Status: Cara Legal
Idade: 22 anos.
Hobby: Inovar, improvisar.
Livro de Cabeceira: O Retrato de Dorian Gray.
Frase: "Quem pensa segundo a opinião dos outros, está muito longe de
ser um homem livre."

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– Isadora Réquiem, mas todos me chamam de Dora. Aloha é, igual a


saudação havaiana? – debochou.
– Isso mesmo! Mas tá debochando do quê com um sobrenome desses.
Réquiem, como a marcha fúnebre? – devolveu.
– É, e não tem me dado sorte! – terminou.
– Mas mudando de assunto, tem algum lugar pra eu me lavar antes de
ir? – perguntou tirando a camisa e mostrando seu abdômen moreno de
tanquinho.
Dora não pôde ignorar aquilo, porém se sentiu meio estranha por não tê-
lo ignorado, disfarçando.
– Ah! Claro, tem uma pia no banheiro, eu não testei, mas acho que tá
funcionando.
Alonso foi para lá a fim de se refrescar enquanto Dora ouve barulhos na
porta da frente, correu para abri-la, estranhando quem poderia ser. Porém o
mistério não durou muito.
– Minha filha! Você está bem, não fizeram nada com você? Quando li o
seu bilhete quase tive uma síncope. – despeja a mãe afoita.
– Não mãe, eu estou bem! – respondeu desvencilhando-se da
agarração.
– Pegue suas coisas, vamos embora já! – ordenou. – Você está maluca,
o que deu na sua cabeça pra vir pra um bairro cheio de mortos de fome como
esse?
– Eu vou ficar! Você não me entende mãe! – Dora esbraveja.
Nesse momento Alonso sai do banheiro rumo à saída e assusta Lara.
– Quem é esse daí?
– Pode deixar, sou Alonso, um morto de fome local, mas já estou indo. –
diz recolocando a camisa. – Ah Dora, agora já sei por que você é tão educada.
– termina saindo.
Lara ainda está de boca aberta quando Dora reinicia.
– Eu vou ficar ao menos por um tempo, esse será meu ateliê e não casa,
eu volto pra lá. É que preciso de um lugar. Estar longe pra juntar as peças e
descobrir a verdade ao mesmo tempo em que preciso ficar perto pra perceber
os detalhes que ainda não vi. Ninguém finge pra sempre e um dia eles vão cair!
– termina astuciosa.
– Minha filha você continua com isso! Ao menos me prometa que fará
uma refeição por dia em casa.
– Eu prometo! Palavra de escoteiro. – diz cruzando os dedos atrás de si.
A mãe despediu-se e foi embora no mesmo táxi que veio e pediu que a
esperasse. Dora continuou com sua arrumação até que um tempo depois ela
nota um cartão vermelho debaixo de sua porta que dizia:
BEM VINDA AO LAR!
ASS: R

Novamente não havia nem sinal de quem o tivesse deixado.


Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap10.

Após o fim de semana Dora já tinha arrumado seu apartamento, não


havia voltado nenhuma vez para casa enlouquecendo sua mãe e não estava
nem um pouco a fim de voltar para a Faculdade depois daquele começo
inesperado. Porém o que mais a atormentava o pensamento era Alonso que
estaria lá e ela não sabia qual era a dele.
– Eu devia estar preocupada com o R, com as investigações e com o
David, mas gasto o meu tempo pensando sobre o que esse Alonso metido
quer! Que burra que eu sou! – pensava enquanto chegava a Escola de Artes
Central.
A primeira parte da aula transcorreu normal para ela só Paris que
chegou um pouco atrasado em Desenho Moderno e os garotos ficaram
mexendo como sempre. Alonso a ignorou completamente e isso começou a lhe
dar raiva, mas Dora não entendia por que.
– A aberração, não desistiu no primeiro dia! Vê se deixa as pessoas
normais em paz sem ter que suportar a sua presença!
Paris só os olhava sem expressão e voltava a fazer seus desenhos. O
professor olhou tudo sem intervir para não desrespeitá-lo, porém no final da
aula antes que ele saísse o professor segura em seu braço impedindo sua
saída.
– Ei, rapaz o que eles fazem com você é um crime e se chama bullying.
Não deixe, ache um jeito de se proteger, se você quiser eu posso te ajudar.
Ele não deixou o professor falar mais nada e soltando bruscamente seu
braço da mão do homem apenas agradeceu estranhamente.
– Obrigado professor, mas eu sei me cuidar! Não se preocupe! Tudo vai
ficar bem cedo ou tarde e nesse dia eles vão ter o que merecem!
Paris assumiu uma face maquiavélica enquanto dizia, como se ditasse
uma profecia, até o professor ficou meio que em transe enquanto ele falava. E
de repente, ao final volta a sua expressão inocente de antes e sai correndo
deixando o homem intrigado com ele.
– Eu hein! Esses alunos de hoje, a gente tenta ajudar, mas vá entender!
– rindo de nervoso.
Dora o vê no intervalo e vai falar com ele, porém ele foge correndo como
se não a percebesse. Naquela hora estava em transe aparentando um
fantasma. Sendo assim, ela ficou sozinha num canto, pois na falta de Paris ela
era a atração favorita para pegarem no pé.
Logo essa solidão acabou. Alonso veio chegando e ficou parado de pé
na frente dela, que estava sentada no chão.
– Não vai ficar com seus amigos? – pergunta Dora.
– Na verdade eu não os conheço e acho que nem eu nem eles fazemos
questão de nos conhecer. – responde Alonso.
– Te disseram pra vir falar comigo pra fazer mais uma brincadeira, não
é?
– Na verdade eles me disseram que você é louca e que em hipótese
alguma devia falar com você porque queimaria o meu filme, mas eu não sou
muito obediente.
– Você é quem sabe. E como vai com o ramo de mudanças, muitas
mesas pra carregar? – pergunta com um sorrisinho maléfico.
– Ah, vai bem! Sem nenhuma irritadinha pra atrapalhar e abusar. – ri
também.
Nesse momento o sinal toca, ele lhe dá a mão para que ela se levante,
porém ela disfarça e se levanta sozinha.
– Até a próxima mudança irritadinha. – se despede ele lhe dando um
beijo rápido na bochecha que ela não consegue evitar e vai embora.
Dora fica ali, parada e confusa tocando com a ponta dos dedos a
bochecha beijada parecendo gostar daquele ato enquanto todos entram de
volta a sala para a próxima aula. Mell vê escondida e faz cara de quem gostou
também de saber desse fato novo.
Quando voltou, na classe havia um cartão vermelho em sua mesa que
agora ela já conhecia bem ser do R que dizia.

OLÁ QUERIDA! O JOGO VAI COMEÇAR!


ASS: R
Novamente embora a classe estivesse uma zona não havia ninguém
suspeito que ela pudesse desconfiar de ser o R. Esperou que as aulas
acabassem e voltando pra casa chamou um policial que disse que iria visitá-la
à tarde. Ela esperava ansiosa para acabar com a palhaçada deste R,
desconfiada da hipótese dele e o assassino serem a mesma pessoa.
– É R, os jogos começaram! O seu e o meu! Resta saber quem vai
vencer? – diz Dora amassando de raiva o cartão entre as mãos.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap11.

Naquela tarde em Holanda Garden...


Alguém bate a porta.
Toc – Toc. Dora atende.
– Olá, eu estou procurando pela senhorita Isadora Réquiem.
– Sim, sou eu mesma e o senhor é...
– Detetive Leonard Turner, mas todo mundo me conhece por Leo
Turner, a sua disposição.
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Nome: Leonard Turner


Status: Policial recém-formado.
Idade: 24 anos.
Hobby: investigações corriqueiras e crimes não resolvidos.
Livro de Cabeceira: Todos de mistério.
Frase: "É elementar meu caro Watson."

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– A senhorita ligou para nós essa manhã porque vêm recebendo cartões
anônimos de alguém que assina apenas com a sigla R, não é?
– Isso! Ele sabe sempre aonde eu tô e quando menos espero, lá está
um cartão desses sempre falando em uma linha no máximo aquilo que eu tinha
certeza, mas ninguém acredita em mim.
– E que certeza é essa senhorita?
– Que o meu namorado David foi assassinado e não que se matou como
todo mundo julga!
Dora passou todos os cartões para as mãos de Leo que os analisou um
a um meticulosamente. Comentando.
– Cartões estranhos para um assassino, não acha senhorita?
– Só Dora já está bom. E não, não acho. Vá saber lá o que se passa na
cabeça desses loucos.
O detetive assentiu com a cabeça e continuou a perguntar.
– Não é verdade que a senhor... ou melhor você Dora não é bem vista
por ninguém em New Park e que vem tendo desde a morte de David problemas
com seus antigos amigos?
– É verdade, mas não por isso e sim porque pude ver agora quem eles
são realmente! – protestou.
– Você não acha que as pessoas que tem tudo e são contrariadas são
capazes de ir ao extremo para conseguir provar seus pontos de vista?
Dora nesse momento se exaltou.
– Onde você está querendo chegar?
– Eu a lugar algum, só quero compartilhar meu ponto de vista. Às vezes
as pessoas pensam que vêem coisas, colocam uma idéia fixa na cabeça e
começam suas obsessões para não aceitar um fato! – terminou.
– Quem você pensa que é pra me falar essas coisas. Não está
acreditando em mim, eu sei o que ví, estou recebendo esses cartões de algum
louco, brincalhão, idiota ou o que quer que seja e você vem com essa de
obsessão. Que espécie de policial você é? Aliás, não sabia que a polícia
recrutava crianças! – diz debochando vingativa pelo que Leo havia lhe dito e
por sua jovem aparência.
– Calma lá, eu só estou conversando, analisando os fatos!
– Pois analisou mal, eu chamei a polícia pra que me ajude e não pra ter
mais um que duvide. Pra isso eu tenho New Park toda.
– Tá garota, mas é que...
– Mas nada, agora é tarde, eu tenho coisas a fazer! Passar bem! –
termina Dora abrindo a porta e a segurando firme pra que ele saísse.
O detetive levanta-se, deixa os cartões sobre a mesa e sai pensando
risonho.
– Nossa! Que menina, essa é das minhas!
Dora bate a porta atrás dele que fica mais risonho ainda, como se
estivesse testando-a.
Enquanto isso ela pensa furiosa por não ter conseguido a ajuda da
polícia e toma uma decisão.
– Se não consigo quem me ajuda farei tudo sozinha mesmo!
O mais incrível é que como encanto Dora recebe mais um dos
conhecidos cartões vermelhos por debaixo da porta que habitualmente dizia.

QUER SABER QUEM ERA DAVID?


A RESPOSTA DESSA PERGUNTA ESTÁ NO FIM DA CARNATION
STREET HOJE ÀS 23H00MIN HORAS.
ASS: R

Nesse momento a garota parece consumida pela curiosidade e pela


impaciência do mundo todo em busca de um fim pra toda essa história que não
a deixava viver em paz. Mesmo sendo perigoso resolveu ir. Enquanto se
arrumava para a noite de aventura pensou em várias possibilidades que iam
desde encontrar a verdade, ser mais uma brincadeira da Mell e a turma ou até
de ser o assassino R querendo matá-la e acabar com tudo de vez. Fosse o que
fosse ela estava decidida a enfrentar e descobrir qual delas era de uma vez por
todas.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap12.

Na Carnation Street 22h55min...


Dora já estava a um bom tempo esperando na esquina daquela rua que
tinha fama de ser uma das mais violentas da cidade, observava e procurava
por alguém suspeito, porém ali todo mundo era suspeito.
– Nossa! Em que arapuca eu fui me meter! – pensou nervosa, sentindo
um frio na espinha cada vez que um daqueles caras enormes cobertos com
capuz se aproximava cambaleando em sua direção, mas acabavam apenas
esbarrando e passando reto.
Até que viu um rapaz que ela achou já ter visto em algum lugar.
– Deve ser engano. – pensou.
As pessoas que ela conhecia não passariam por aquela rua imunda
talvez nem pra salvarem suas próprias vidas. Decidiu atravessar a rua pra se
certificar.
– Oi! – disse ao rapaz.
– Oba! – ele retornou.
Depois de algum silêncio continuou.
– Você é o R?
– Olha já me chamaram de muita coisa, mas letra consoante é a
primeira vez. Se bem que pra uma gata como você eu sou o que você quiser
mina. – respondeu se aproximando.
Dora se afastou.
– Você conhece alguém com esse nome, apelido, sei lá?
– Não, não conheço, tenta na próxima esquina. Quem sabe uma vogal o
conheça. – terminou rindo.
– Imbecíl. – resmungou Dora enquanto saia. Ela não queria saber se era
bandido ou não a raiva lhe subiu a cabeça naquela hora.
– Espera! – gritou ele quando ela já estava a uns passos de distância.
Ela volta com receio e sem nenhuma paciência.
– Eu tô te reconhecendo, tá longe da tua área mina. Você é a garota
daquele mauricinho assassinado que era meu chapa.
– Seu chapa? Impossível, o David era um cara espetacular, jamais se
envolveria com alguém... – fez silêncio como se escolhesse as palavras.
– Alguém como? Como eu, com o meu ofício? Você se surpreenderia
quanta gente é meu cliente e paga de santo por aí!
– Cara, cala a boca e não suja o nome de quem não pode se defender! –
grita ofendida.
– Não quer acreditar não acredita, mas o seu namoradinho vinha aqui
sempre comprar umas balinhas pra se sentir mais ligado nos esportes, na vida.
A gente se conheceu porque eu pego meus clientes em lugares onde sei que
podem me pagar, minha beca me dá essa vantagem. – Gaba-se o rapaz por ter
carinha de anjo. E continua. - Aí ele se tornou meu amigo, arrumava uns
clientes novos, eu dava uns descontos pra ele, que arrumava uns convites pras
festas de New Park e a gente ia se entendendo. Eu te conheço desses bailes.
– E como é que eu nunca te vi? – pergunta Dora.
– Olha minazinha não me leve a mal, mas naquelas festas você só
enxergava quem queria enxergar.
Dora sente-se mal, pois fazendo uma breve reflexão ela viu que era
verdade.
– Não pode ser! Isso tudo é louco demais!
– Se não acredita pergunta pro cara loiro que vinha sempre com ele.
Dora então pega uma foto de David e os amigos e mostra ao rapaz.
– Tem certeza que é esse moço que vinha aqui? – pergunta.
– Absoluta! É ele mesmo, agora o cara loiro tava sempre encapuzado. O
único que o viu uma vez foi meu amigo que foi preso e só sai daqui a alguns
dias. Deu azar gata!
Dora estava atônita depois de ouvir tudo aquilo, começou a caminhar
devagar dando pequenos passos cabisbaixa.
– Até você David. – pensa.
Mas o cara, que mesmo não parecendo tinha um coração a chama mais
uma vez e diz.
– Aí! Ele era um rapaz meio triste, parece que fingia ser aquele super
cara, mas de uma coisa eu tenho certeza, ele gostava de você. Quando ele era
verdadeiro, ele mandava tudo pro espaço menos você.
– Obrigada! – cochicha deixando uma lágrima cair.
Porém essa cena não se firmou muito, pois um homem gigantesco veio
de algum lado incerto da rua e agarrou Dora junto com seus capangas
perguntando.
– Princesinha da onde foi que você veio? Se perdeu do castelo, foi?
Ela não podia dizer nada porque o grandalhão estava tapando sua boca.
Dora só gemia e se debatia na esperança de se soltar.
– Solta ela, Tampinha! A moça só veio comprar um negócio comigo
cara! – diz o rapaz com quem ela havia conversado.
– Mas como é que eu vou saber se ela não é uma daquelas repórteres
Baby tentando sucesso? Eu solto, mas só depois de uma conversa particular
entre ela e eu lá no meu apê. – termina.
Dora nesse momento entra em pânico achando-se perdida. Entretanto,
de repente alguém grita.
– Larga a moça agora cara!
Todos se espantam.
– Quem é esse? - pergunta o homem.
Dora conseguiu soltar sua boca das mãos do grandalhão respondendo
com seu chamado desesperado.
– Aloonnsooo!!!!!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap13.

Por milagre Alonso apareceu do nada na hora certa. Mas como era
possível, pensava Dora.
– Cara, solta ela! Ou eu vou ter que ir aí pra te obrigar! – gritou
novamente.
– Olha playboy, como fala comigo ou vai acabar num lugar muito pior do
qual eu ia levar sua namoradinha! – diz o grandalhão com raiva.
– Ninguém quer brigar aqui. É só você ser cavalheiro e largar a menina,
todos vão embora, esquecemos o que aconteceu e a noite continua. Simples
assim, e a propósito ela não é minha namorada! – termina olhando para Dora
que olha de volta surpresa por ele frisar uma coisa dessas naquela situação.
O homem rindo, abaixa a cabeça em direção a ela e comenta.
– Xiiiii gata! Tu é carne de pescoço mesmo, nem o cara que tá te
salvando quer nada contigo!
Vendo que o homem se distraiu, Alonso se aproxima dos dois e dá um
empurrão nele que abranda os braços em torno de Dora com o susto. Ela
consegue finalmente se desvencilhar dele e corre para perto de Alonso.
Eles já estão indo embora, tentando passar pelo meio das pessoas que
se juntaram para ver o ocorrido muito comum naquela rua, porém Alonso sente
uma mão enorme lhe passando pela frente e tomando o colarinho. Sendo
puxado para trás num só impulso e caindo no chão, ele não pôde fazer nada
para evitar a queda com tanta violência que acabou raspando o braço no
asfalto.
– Um pra mim. Zero pra você! – grita o marginal sentindo-se vitorioso.
– Ainda não! – diz Alonso se levantando.
Dora puxa Alonso pra perto dela e cochicha.
– Alonso, vamos embora! Não precisa fazer isso, olha como tá o seu
braço. – aponta para o braço direito todo ralado.
– Não foi nada! E eu acho que eles não vão deixar a gente ir embora
antes de uma boa briga. Só sair correndo você viu que não vai funcionar!
Mal completou essas palavras foi puxado de novo pelo grandalhão que
dessa vez dava socos nas costas. Alonso se protegia e conseguiu acertar
algumas mãos certeiras no queixo do marginal.
– Eu sou canhoto! – sussurrou para Dora que não entendia como ele iria
brigar com o braço direito ruim. Ela sorriu pela ironia apesar de tudo.
O homem começou a cambalear, pois tinha queixo de vidro, as pessoas
do local não estavam gostando do forasteiro estar ganhando até que uma delas
dá ao cara uma garrafa de vidro e num descuido de Alonso, lá vai a garrafada
direto na sua moleira.
– Não é justo! – grita Dora.
Alonso cai desmaiado no asfalto, sangrando muito na nuca. Dora quer
socorrê-lo, porém ninguém deixa.
– Finaliza! – gritavam.
Quando o grandalhão ia fazer isso ouvem a sirene da polícia despontar
no começo da rua. A situação é de pânico geral e todos correm tentando achar
um buraco para se esconder deixando Dora e Alonso lá no meio do asfalto.
Ela pula para perto do moço e começa a verificar o que aconteceu com
ele que abre um pouco os olhos.
– Tá tudo bem Dora? A gente ganhou? – pergunta olhando para os
lados e não vendo ninguém ao redor.
– Parece que sim! – responde passando a mão em sua cabeça para
estancar o sangue.
– Não se preocupa Alonso. Vai ficar tudo bem!
Tentando tranqüilizá-lo, ela lhe diz isso vendo que a polícia se aproxima.
Eles param e um deles desce lhe dizendo.
– Ora, ora, mas que mundo pequeno esse!
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap14.

Dora não acreditava na coincidência, mas era o detetive que esteve na


sua casa a tarde.
– Ah! Não pode ser, é demais pra minha vida!
– Sou eu sim senhorita Dora, detetive Leo Turner. E vejo que como eu
você também não pára, não é?
– Só quando a polícia não me ajuda.
– Mas precisa colocar seus namoradinhos nas suas insanidades? Ah, o
amor o que não faz com os pobres coitados ingênuos!
– Eu vim sozinha seguindo uma pista do R, lembra? Aquele que o
senhor acha que eu inventei, mas por sorte o Alonso apareceu e me ajudou,
diferente da polícia que só chega quando tudo acaba! E só pra constar, ele não
é meu namorado! – diz olhando pra ele sentindo-se vingada.
– Dora! – chama Alonso.
Ela o ajuda a se levantar totalmente zonzo prestes a cair de novo a
qualquer momento. Leo observa e após um olhar fumegado de ódio dela ele
resolve ajudar também apoiando do outro lado do ombro.
Colocam Alonso dentro da viatura.
– Ele precisa ir pra um hospital, está ferido demais. – comenta com
Dora.
Nessa hora Alonso tem um estalo e diz agoniado.
– Hospital não, podem me deixar na Rua da Dora, já está bom, eu me
viro! – grita.
– Mas você bateu a cabeça, está sangrando é melhor examinar. –
argumenta o detetive.
– Não! E se insistirem eu não vou a lugar nenhum com vocês!
Dora intervém.
– Tudo bem, ele está assim por minha causa então eu cuido dele.
Alguns caras não assumem, mas tem medo de hospital. Pode deixar, eu me
responsabilizo. – cochicha com Leo.
– Tá bem rapaz, se ela se responsabiliza é você quem sabe. Mas por
pouco não acho que você tem alguma coisa a esconder.
– Vamos logo detetive, o senhor desconfia demais, com o que tem que
desconfiar não liga. – grita Dora impaciente.
Seguindo caminho no carro o detetive então começa a perguntar.
– Como você descobriu que a Isadora estava na Carnation Street se
ninguém sabia a não ser o R?
– Eu não sabia, passei de ônibus e a ví na esquina tarde da noite por
coincidência. Até agora pelo que conheci das loucuras dela boa coisa não
podia ser e de fato não era. – responde Alonso com dificuldade.
– Mas você a salvou tão bravamente por nada? É complexo de herói,
amor ou ego inflado? – debocha Leo.
Alonso olha para Dora quase que respondendo algo que ela não iria
gostar de ouvir naquele momento, ela percebe e responde em seu lugar.
– Claro que não detetive, ele é só um dos últimos cavalheiros que
existem tentando cumprir o seu papel no mundo, diferente de outros que tem a
obrigação de fazer e mesmo assim não fazem. E chega de perturbá-lo, ele está
fraco, quase desmaiando e o senhor vem com essas perguntinhas sem
sentido. Como se o que ele dissesse agora fosse fazer algum sentido. –
termina aliviada com a certeza que Leo não perguntaria mais nada para
Alonso.
– Mas e R afinal, apareceu, te disse alguma coisa? A senhorita
descobriu algo?
– Não, nada! Foi só mais uma graça dele. E pela milésima vez é Dora. –
diz escondendo suas descobertas a respeito de David.
Logo estavam em seu loft onde ela com a ajuda de Leo deitaram Alonso
num sofá cama que possuía. Dora se certificou de que ele estava dormindo
profundamente, tirou um quadro grande da parede que ela chamava de
Iluminati. Atrás havia coisas que ela havia reunido desde que tudo aconteceu,
recortes de jornal, fotos, os cartões de R, suas perguntas todas reunidas,
pregadas nessa espécie de mural do crime aonde agora ela colocava junto
com o cartão de R recebido a tarde também a pergunta. Quem era você David
Silver Rock?
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap15.

Após ter recolocado o quadro no lugar, Dora foi buscar no banheiro


alguns materiais de primeiros socorros para limpar os ferimentos da cabeça e
do braço de Alonso. Quando voltou ele ainda dormia estirado no sofá-cama e
ela pode notar o quanto era serena sua expressão.
– Como esse intrometido é bonito! – pensou, abrindo o mercúrio para
passar no braço ralado.
Começou a espalhar o remédio com algodão, no começo rápida e
ríspida, sentindo uma raiva sem razão que se não sentisse acabaria revelando
outro sentimento. Alonso então começou a mostrar feições de dor e a se revirar
no sofá-cama. Dora percebeu seu sofrimento e culpada, imediatamente pára.
Recomeçando bem devagar o trabalho.
– Garota você precisa se controlar! – repetia para si própria enquanto
continuava.
Após passar o mercúrio, enfaixou o braço e repetiu o mesmo
procedimento na cabeça de Alonso que na opinião dela precisaria ser olhada
com maior cuidado depois.
Terminado o trabalho foi buscar um cobertor e ao cobri-lo olhou
vagarosamente para seu rosto, percebendo em detalhes seus olhos
amendoados e doces, sua pele morena cobrindo uma boca carnuda e cabelos
lisos e negros que caiam até a orelha. Não resistiu em chegar perto para sentir
sua respiração e atraída por seus encantos foi se aproximando devagar a
ponto de acariciar seu rosto e imperceptivelmente tocar seus lábios com os
dela.
Ao perceber que Alonso ficou inquieto, saiu em pânico, dando um pulo
que a deixou em pé inexplicavelmente.
– O que aconteceu? – perguntou ele resmungando.
– Nada! – respondeu Dora, paralisada no lugar. – Você devia dormir pra
amanhã estar curado e poder sair aprontando mais por aí. Mas em vez disso
fica fazendo essas perguntas estúpidas! – terminou enquanto o cobria mais
nervosa ainda.
– Mas eu senti uma coisa estranha!
– Meu querido, você é estranho! Sentir alguma coisa normal é que seria
diferente pra você! E agora boa noite, bom descanso, adeus! – cumprimenta
saindo da sala.
– Até que você não é tão má assim irritadinha! Boa noite! – diz
acomodando-se.
Ela pára ao ouvir a confissão de Alonso tremendo toda com medo do
que estaria acontecendo.
– Só pode ser alguma coisa estragada que eu comi e com efeitos
alucinógenos, amanhã há de passar! Tomara!
De manhãzinha, Dora deixou a porta de entrada entreaberta e uma visita
chegou de surpresa vendo Alonso dormindo.
– Minha filha! – grita Lara. – O que é isso! Esse elemento te seduziu a tal
ponto de já dormir aqui?
– Mãe, foi a primeira vez e tem um motivo completamente explicável pra
isso. – responde vindo da cozinha ao seu encontro.
– Eu sei! Esses caras de bairros perdidos são espertos. Ele está
tentando fazer com você como o Juan na novela “Marcas de um Usurpador”. –
diz diminuindo a voz para não acordá-lo.
– Como? Me poupe! – ri Dora.
– É sim, lá o pobretão do Juan engravidou a inocente Mercedita que era
rica e se achava abandonada como você. Aí ele se aproveitou disso e usou o
filho pra chantagear a moça e ficar no luxo aproveitando de tudo que era dela.
– dramatiza.
– Ai Meu Deus! As vezes eu fico pensando se você faz de propósito ou
se essa é realmente você. – diz voltando para a cozinha.
Nesse momento Alonso abre os olhos e se levanta parecendo ter ouvido
tudo e só esperando sua deixa.
– Olá senhora, é um prazer revê-la, como vai?
– Poderia estar melhor.
– Não liga pra ela. Esse é um ótimo plano. Não tinha pensado nisso
ainda, mas agora que a senhora falou... As novelas são uma fonte inesgotável
de conhecimento público mesmo. – termina ironizando com um largo sorriso.
Lara se sente ofendida com a brincadeira de Alonso, mas Dora vem
chegando antes que ela possa responder a altura.
– Que bom! Você já acordou machucadinho. Como se sente?
– Bem melhor, depois da enfermeira que eu tive!
Lara ouve tudo parecendo que vai explodir e quanto mais percebiam
isso mais melosos ficavam.
– Agora eu já vou, obrigado por tudo. – agradece.
– Não, obrigada você. Não sei como seria se você não tivesse
aparecido.
– Você é esperta e louca pra não dizer mais. Sério, você teria dado um
jeito.
Alonso estava na porta quando Dora grita.
– Espera! Eu tenho umas coisas pra você.
Corre até a cozinha e volta com uma sacola. A entregando a ele.
– Toma! É a sua jaqueta lavada das manchinhas de sangue de ontem,
uns mercúrios e faixas pra você trocar mais tarde e um lanchinho pro café da
manhã. Não quer ficar e tomar aqui?
Alonso olha para Lara e responde.
– Não, obrigado! Mas deixa pra outro dia menos agitado.
– Não quer que eu te leve então pra sua casa, ou pra algum outro lugar?
– Não, pode deixar. Só vou avisar meu patrão que não vou trabalhar
hoje e ir pra casa descansar.
– Tem certeza? – pergunta se aproximando dele.
– Minha filha, ele já disse não. Não é não! Então senhor Manolo passar
bem! – cumprimenta afastando a filha e fechando a porta bruscamente.
Alonso sai rindo abertamente.
– Mãe o que foi isso? Como você é grossa! E é Alonso!
– Eu não tô gostando de nada do que tá acontecendo aqui! – grita Lara.
– Não tá acontecendo nada, a senhora que é exagerada! – revida.
– Ah é! Então por que você tá assim?
Dora olha para o espelho e percebe sua revolta, seus olhos vermelhos e
lacrimejados de quem se importava em ser separada do insultado, o rosto
corado e quente.
– Não pode ser! Eu estou apaixonada! – sussurra para si.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap16.

– Não pode ser! Eu estou apaixonada! – sussurra para si.


Após essa conclusão, Dora se refaz rapidamente e pega Lara com uma
pergunta.
– Com essa sua entrada teatral nem pude perguntar, mas o que te
trouxe aqui tão cedo? Vontade de visitar os pobres? – diz voltando-se para
mãe.
– Não querida, os céus são testemunha do quanto é difícil pra eu pisar
nesse lugar, mas eu recebi uma ligação ainda de madrugada de um detetive
chamado... – tentou se lembrar.
– Leonard Turner! – resmungou Dora enfurecida.
– Ele mesmo! Me ligou dizendo que te trouxe pra isso que você insiste
em chamar de casa com um amigo ferido e que vocês estavam num lugar
muito perigoso. Me aconselhou a por juízo nessa sua cabeça.
– Tudo bem mãe, você já fez o seu trabalho agora com licença que eu
tenho mais o que fazer! – diz abrindo a porta.
– Mas filha eu pensei que já que estou aqui, a gente podia passar a
manhã no shopping, como nos velhos tempos! O quê você acha?
Ela então se acalma e responde.
– Não, obrigada, eu realmente tenho outros planos como arrumar a casa
e fazer os trabalhos da faculdade.
– Nossa! Realmente você me excluiu. Não passo de um passado
vergonhoso pra você! – volta a dramatizar.
– Não é nada disso, vamos marcar, eu vou pra casa e a gente vai.
Prometo! – diz beijando os dedos.
Lara finalmente aceita saindo e despedindo-se da filha.
– Tá bem, promessa é divida, hein! Senhorita Isadora Réquiem.
Quando ela entra novamente, está bufando como não é muito raro de
acontecer. Na verdade nem sabe direito se é pela visita inesperada da mãe, ou
se por achar que gosta de Alonso, mas naquela hora, achou um alvo certo para
descontar seus sentimentos.
– Leo Turner você me paga! – gritou.
Pegou o telefone e um cartão em cima da mesa, esmurrou com os
dedos os números e deixou tocar do outro lado da linha. Quem atendeu foi o
próprio citado.
– Alô, detetive Leo Turner, pois não!
– Seu idiota! Quem pensa que é pra se meter na vida dos outros desse
jeito. Mas também é isso que dá recrutarem crianças pra fazer o serviço de um
homem.
– Calma Dora! Bom dia pra você também! Mas que saudade é essa que
não esperou nem o dia amanhecer direito?
– Eu só vou falar uma vez, ou você me ajuda a descobrir o que eu
preciso ou me deixa em paz. Se avisar minha mãe sobre o que eu faço de novo
você vai se arrepender. Escolha outra pessoa pra bancar a criança que tenta
ser grande. Isso não me impressiona nem um pouco, vê se cresce! – termina
desligando.
Ele pensa um pouco cabisbaixo, mas logo põe o telefone no gancho e
surpreso brinca.
– Nossa! Assim eu me apaixono! Que garota mais maluca essa! Sorte
dela! Se eu não fosse uma criança, ela já estaria presa por desacato a
autoridade. – ri.
Do outro lado da linha Dora respira ofegante e já arrependida do seu
ímpeto de loucura.
– Acho que exagerei. – conclui.
Enquanto isso, no outro lado de Holanda Garden, Alonso bate à porta de
um sobrado grande e conservado que destoava das outras casas da rua, na
verdade do bairro todo. Insiste um pouco, até que alguém vem atender.
– Alonso! Nossa, é você! Finalmente, onde estava, já tava quase ligando
pros seus pais!
– Relaxa! Eu passei a noite no apartamento de uma amiga. – diz
entrando.
– Amiga, sei! E o que é isso, tá todo machucado?
– É que eu tive que defendê-la, bancar o herói!
– Tem certeza que ela é confiável? Pensei que tivessem descoberto que
você... – parou com medo das paredes terem ouvido.
– Ninguém descobriu nada, você que é paranóico!
– Cuidado Alonso! Mas, e o que é isso na sua mão?
– Umas coisas que ela me deu pra trazer.
– Me deixa ver! Ahan! Roupinha lavada e passada, cheirosa! Remedinho
e até lanchinho! Alonso, o que você anda aprontando? Quem é essa garota?
Como não fiquei sabendo dela antes? Tem certeza que ela não sabe que você
é...
– Xiiiiuuuu!!!! Ela não sabe de nada, e não saberá se você não contar. –
termina Alonso, calando-o com os dedos.
– Tá! Nesse caso essa garota parece ser bem legal! Mas me promete
que vai tomar cuidado.
– Com essa menina você faz isso o tempo todo pra não acabar em
confusão. Você vai ver quando a conhecer.
– Eu vou?
– Vai, quando as coisas acontecerem. E agora vamos, eu tenho planos
pra noite.
– Vamos aonde?
– Pro médico, não quis ir à noite passada porque iam descobrir, mas
preciso fazer um check-up, descansar e executar meus planos. Vamos, tá tudo
bem, não precisa ficar com essa cara de pasmo Romeu.
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Nome: Romeu La Verona


Status: Amigo, fiel escudeiro.
Idade: 22 anos.
Hobby: Tem um jeitinho pra tudo.
Livro de Cabeceira: Cem anos de Cinema.
Frase: "Luz, câmera, ação."

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Os dois saíram em disparada logo após.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap17.

Ao anoitecer, alguém bate desesperado na porta e Dora vai atender


ainda com o clima de cedo.
– Calma, já vai! O mundo não vai acabar se eu não atender a porta nuns
segundos a menos!
– Olá! – cumprimenta risonho.
– Oi Alonso! Esqueceu alguma coisa aqui de manhã? – pergunta sem
jeito.
– Não, mas a pergunta não foi irônica, como naqueles seus momentos
crazy, foi? Porque senão eu posso ir embora.
– Não! Eu só perguntei por que me surpreendi com você aqui essa hora.
– É que com você nunca se sabe quando é brincadeira ou tá naquele
clima de guerra. – brinca.
Dora dá uma esmurrada no braço dele.
– Ai! Doeu! Sua louca irritadinha!
– Ah é! Parecia que já estava bom, até com outro curativo está! –
observa irritada.
– Ah, é que eu segui o conselho de vocês e fui ao médico, mas não foi
nada mesmo, só uns dias e já posso bancar o herói novamente. Pelo visto você
sempre precisa de um à postos.
– Mas o que você queria mesmo? Hoje eu não tenho nenhuma mobília
pra arrastar. Sinto muito!
– Eu tô devendo por hoje de manhã, então pensei em passar e te
convidar pra conhecer Holanda Garden de verdade. Um tour por minha conta e
com exclusividade. Tem que ser muito VIP pra conseguir esse passeio.
Dora se desarma soltando um sorriso.
– Ai Alonso, você não tem jeito mesmo! Vamos antes que eu me
arrependa! E não se preocupe, hoje sou eu quem te protegerei.
Lá estavam eles, andando pelas ruas do bairro, e Dora descobriu um
lugar bem diferente daquele que falavam, com vielas iluminadas de lusinhas
nas árvores e crianças correndo, brincando inocentemente cuidadas por suas
mães que conversavam sentadas em bancos nas suas portas. Os muros eram
preenchidos com Arte Pop que os jovens faziam e esses também curtiam
música na praça central, numa espécie de competição, mas todos eram amigos
e tudo sempre acabava bem e se repetia a muito tempo.
Um mundo novo se abria para ela que olhava maravilhada para a
simplicidade, pureza e riqueza de espírito das pessoas.
– Se New Park fosse assim! – pensava. – E ainda se dizem ricos.
Alonso descrevia tudo entusiasmado, pois conhecia cada pedaço do
lugar que ele amava. Porém Dora não parecia ouvir qualquer coisa que ele
dizia, apenas admirando a princípio a paisagem, mas depois passou também a
observá-lo em como falava, se expressava fazendo gestos para explicar tudo
que podia ser importante.
O momento crucial foi quando num desses gestos expansivos de
explicação, Alonso voltou a mão para o lado de Dora e pegou na sua, não
soltando mais durante o passeio. Ela se sentiu incomodada no início, mas
depois relaxou e deixou rolar, tão natural como se não tivesse percebido.
Mas o que veio a seguir foi realmente inesperado. Alonso puxou Dora
para perto de um muro e se aproximou.
– E aqui, onde é Alonso?
– Não interessa, é só um muro, mas essa noite ele pode se tornar
importante.
– Ah é! Pra quem, por quê?
– Pra nós, como local do nosso primeiro beijo! – diz Alonso disparando
um beijo daqueles em Dora que mais encolhida não podia estar na hora.
Até que ela se solta dele.
– Não faça isso de novo! – sussurra sem respiração, dando-lhe um tapa
na cara.
Ela foi se afastando para trás e quando sentiu o fim da calçada com o
começo dos pés, se virou e saiu correndo, chegando a sua casa tão depressa
que era duvidoso como ela acertou o caminho.
– O desespero faz milagres! – pensou enquanto ainda respirava atrás da
porta meio que rindo e um tanto assustada com o inesperado acontecimento na
lembrança.
Novas batidas na porta, Dora abriu-a de imediato apenas numa fresta,
mas era Alonso e ele ofegante começou a falar, sem brechas para o que Dora
teria a dizer.
– Dora, deixa de ser covarde e fica comigo!
Ela não sabia o que dizer, nem ele e após um silêncio constrangedor
Alonso repetiu o gesto que havia feito no muro, beijando-a como ela havia
sonhado em fazer na noite anterior. Seus lábios se tocaram e explodiram idéias
maravilhosas e mais beijos e sorrisos que já havia esquecido como era.
Entregaram-se a paixão e a noite fria e prazerosa transformou-se em manhã de
sol quente e acolhedor aos jovens amantes. Um novo casal estava nascendo.
Com os primeiros raios de sol, Alonso deixava mais uma vez e
inesperadamente por obra do destino a casa de Dora.
– Tchau, meu amor! – cochicha Dora.
– Tchau irritadinha! – retorna Alonso no mesmo tom.
– Ainda sou irritadinha pra você?
– É seu apelido carinhoso! Combina direitinho com você e me faz
lembrar as suas qualidades.
– Tá, mas só me chama assim quando estivermos sozinhos!
– Tudo bem! Eu já vou então. Tenha um bom dia, porque as noites serão
minhas a começar pela de hoje. – diz Alonso após um beijo.
Ele já está no meio da rua quando grita.
– Agora sei por que “o amor é dor que desatina sem doer”. Sábio poeta!
– Você está me comparando a dor? Alonso... – já ia se enfurecendo
gritando de volta quando pisa num papel que não havia percebido que estava
ali até então.
Abaixou os olhos devagar com medo do que seria e suas suspeitas
estavam certas. Dessa vez não era um cartão e sim um envelope grande e
vermelho, lacrado que ao ser aberto deixou cair em suas mãos fotos de David,
rindo, feliz, sério, de todos os jeitos e uma última onde ele parecia encará-la.
Havia também o costumeiro bilhete de sempre que dizia.

VOCÊ ESTÁ PERDENDO O FOCO! CONCENTRE-SE NO JOGO!


ASS. R
PS. GOSTOU DO PASSEIO? NO PRÓXIMO SE SEU NAMORADINHO
VIER NÃO SOBREVIVERÁ! (EU SEI, ELE NÃO É SEU NAMORADO) HÁ-HÁ-
HÁ!

Dora, que por algumas horas pareceu tão aliviada do terror que sua vida
se transformou voltou a sentir tudo de novo e como era horrível voltar a
realidade. Apenas deixou uma lágrima rolar e voltou para dentro caindo em si.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap18.

Toc – Toc!
– Dejavú! Vai ser assim todos os dias? – pergunta Romeo ao atender a
porta.
– Não meu amigo! Hoje foi melhor! Ela ficou comigo! – conta Alonso
rindo e chacoalhando os ombros do amigo.
– Já tava me preocupando de novo! Quase liguei pros seus pais, você tá
diferente. Tem certeza que essa garota vale a pena?
– Lá vem você de novo Romeo! Sempre tão desconfiado, pode ter
certeza, dessa vez será diferente eu sei me cuidar! – termina indo para o
quarto.
De lá recomeça a conversa gritando.
– Ah! E tem mais, hoje à noite você vai conhecê-la!
– Conhecê-la? Como assim? Alonso o que você está aprontando?
– Nada! Só pensei em fazer um jantar romântico onde você estará de
saída assim que ela chegar e aí poderá conhecê-la. Assim que a ver você vai
mudar essa sua cara de receio e vai passar a ser seu fã.
– Tanto assim? Acho que não, meu nome não é Alonso. Obrigado
amigo, mas sou vacinado nesse negócio de amor. – diz olhando pela janela, se
achando o mais esperto dos caras.
– E como você vai explicar esse lugar pra ela? Afinal de contas é meio
diferente desse bairro! – pergunta rodando com os braços esticados mostrando
o sobrado.
– Vou dizer que é seu!
– Como? – pergunta Romeo quase tendo um ataque de pânico.
– Calma Romeo! Vou dizer que você ganhou de herança de um pai que
deixou sua mãe grávida e abandonada e que nós dois trabalhamos duro pra
manter essa casa e quase não conseguimos.
– Tinha que meter minha mãe e meu pai no meio né! Tava demorando!
Se minha mãe descobre o que você tá inventando sobre ela e meu pai...
– É por isso que a Dora precisa te ver aqui pra ter certeza que eu não
inventei nada.
– Cedo ou tarde ela vai acabar descobrindo sobre você, e se ela for
metade do que você me contou isso vai acabar muito mal.
– Não vai não! Tudo se resolverá a seu tempo! Vou ligar pra ela agora.
Alonso liga para Dora que atende ainda desanimada com o cartão e
fotos de R. Ela tenta disfarçar e sem saída aceita o convite para jantar.
– Mal posso esperar pra chegar de noite e a gente se encontrar de novo.
Afinal, já faz algumas horas que não brigamos, o universo perderá seu
equilíbrio desse jeito.
Ela ri nervosa. Até que Alonso pergunta.
– O que foi Dora, um jantar te assusta? Não se preocupe, não sou
nenhum tarado serial killer, é só um jantar. Além do mais meu amigo estará
aqui e ele é bem medroso.
– Tudo bem! Até a noite então! – diz anotando o endereço e desligando
em seguida.
– Ai meu Deus! O que eu faço agora? Sigo o que o R quer e me
submeto a esse idiota ou vou e acabo colocando Alonso em perigo!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap19.

O dia todo Alonso passou só pensando nesse jantar, o que preparar,


como agradá-la e mais, iria cozinhar.
– Você cozinhando! Ou a gente se surpreende muito ou vai acabar
morrendo com o seu cardápio essa noite. – ironiza Romeo ao saber.
Enquanto isso, Dora está em casa andando de um lado pro outro sem
saber o que fazer.
– Logo agora que tava dando tudo tão certo! O Alonso não vai me
perdoar se eu não for, mas e o David? Tenho que provar que ele não se matou!
– pensava.
Olhou ao redor e parou naquela foto em que David a encarava, que veio
no envelope de R. Pegou seu material de pintura, colocou uma tela em branco
no tripé e começou a rabiscá-la, esboçá-la, pintá-la com formas livres e
precisas de quem fazia algo com muita concentração.
Passou horas alí, nesse ritual de entrega que nem a fez ver o tempo
voar, tempo em que Alonso preparou um belo Spaghetti com Almôndegas que
até Romeo estava dando o braço a torcer só pelo cheiro. Agora arrumava a
casa para dar um clima romântico, se aprontaria e esperaria por ela.
Já era noite quando Dora deu por si, sua aflição aumentou ainda mais,
precisava de uma decisão e tinha que ser agora.
– Ah! Que se dane! – gritou, correndo em direção ao armário para se
trocar.
Estava saindo quando o telefone toca.
– Alô!
– Alô! É a Mina do falecido David?
– Aff! É a Dora, quem fala?
– Oi, aqui é o carinha da Carnation Street que você procurou e te bateu
uma real do David, lembra?
– Ah, claro! Como não lembrar! O que você quer?
– Tu tá com sorte Minazinha, soltaram o meu brother hoje e ele tá aqui
pra te dizer quem é o cara loiro que vinha comprar nossos produtos junto com
o David.
– Nossa! Que bom, vou levar a foto pra ele então! Mas tem que ser hoje,
porque eu tava de saída...
– Mina se tu tá interessada tem que ser agora, porque meu mano vai dar
uma sumida por uns tempos, se é que você me entende, mas o interesse é
seu.
– Então ele não poderia vir aqui, você lembra o que aconteceu quando
eu fui aí na última vez.
– Não dá! Ele não pode ficar dando mole por aí, ou você vem aqui até o
fim da noite ou vai ficar sem saber!
– Tudo bem, eu vou!
– Desculpe Alonso, foi melhor assim! – pensou, desistindo de ir.
Concluiu que não poderia chamar Alonso para ir com ela, então tomou
uma decisão que não seria fácil realizar. Pegou o telefone, um cartão de cima
da mesa e discou os mesmos números que do dia anterior.
– Alô!
– Ora, ora! Como o mundo dá voltas! Boa noite Dora! – cumprimenta
Leonard Turner.
– Oi! Eu preciso que você vá comigo a um lugar! – diz Dora afoita.
– E por que eu iria?
– Porque é seu trabalho de policial investigar uma pista.
– E que pista seria essa?
Dora explicou a Leo a conversa que teve com o rapaz da Carnation
Street e depois de algum desdém e ir a forra só para enlouquecê-la e se vingar
da manhã anterior foi buscá-la e minutos depois estavam na frente dos dois
rapazes. Longe dalí, Alonso espera com uma paciência esperançosa de que
Dora só estava atrasada para irritá-lo.
– Olá! – cumprimenta Dora.
– E aí! – responde o carinha com que Dora havia falado.
– Esse é Leonard Turner, um amigo. – apresenta Dora.
– Oi gente! Ela quis dizer detetive Leonard Turner. – diz mostrando o
distintivo.
Os caras riram e Dora revirou os olhos.
– Bom, esse é o mano que viu o amigo lorinho do David.
– Claro! Aqui está a foto! - diz Dora entregando a foto ao cara.
O rapaz olhou e olhou e depois de analisar bem se voltando para a luz
deu seu veredicto.
– Olha Mina desculpe, mas o carinha não está nessa foto.
– Mas como assim! Não pode ser, toda a turma está aí! – desanima
Dora.
– Você tem certeza rapaz? – pergunta Leo.
– Absoluta! O Lorinho não tá aí!
– Então isso só prova que ele tinha outras amizades também.
– E agora, como vamos saber quem é esse cara loiro? – pergunta Dora
aflita.
– Numa reunião em New Park aonde todo mundo vá, vocês tem sempre
essas coisas, não tem? É preciso reconhecimento pessoal.
– Logo haverá um baile na Faculdade que todos com certeza irão. –
responde Dora.
– Então vocês dois vão e ele poderá dar uma boa olhada em todos os
convidados.
Os caras se animam com a notícia.
– Eu também irei, claro! Para evitar que vocês se metam em alguma
confusão. – conclui Leo, desanimando os rapazes.
– Até o baile então! – despede-se Dora antes de se dispersarem.
Foram para a casa no fim da noite, Dora ficava cada vez mais
apreensiva pensando em Alonso que naquela hora devia odiá-la mais que em
qualquer outro dia. Na verdade, no sobrado naquele exato momento ele
apagava as velas que acendeu para enfeitar a mesa e dizia.
– Chega! Acabou a palhaçada, você tinha razão e ganhou mais uma vez
sábio amigo Romeo. Boa noite!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap20.

No outro dia de manhã...


A aula começa e Alonso sente a falta de Dora.
– Que covarde! Nem na aula aquela garota aparece com medo de dar
uma explicação. – pensa, enquanto olha para a carteira vazia. – Ela vai ter que
ser muito convincente se quiser ao menos minha amizade de volta. – se
enfurece.
Enquanto isso, em Holanda Garden, Dora aflita termina o quadro que
começou na noite anterior pensando em como chegaria a Alonso. Até que nota
a solução bem na sua frente.
– É isso! Coragem garota, você consegue! Só mais um mico público pra
quem teve tantos nos últimos tempos é bico!
Pegou o quadro e enrolou-o com cuidado, levando em seguida para o
furgão rumo a Escola de Artes Central. Dirigiu pensando em como iniciaria a
conversa que levaria para uma convincente desculpa, pois Dora não queria
envolver Alonso no jogo de R com medo de que ele sofresse as
conseqüências.
Estava entrando na faculdade quando dá de cara com Paris no portão
principal.
– Paris! O que você tá fazendo aqui? A primeira aula já tá quase
acabando!
– O mesmo pergunto pra senhorita, e que embrulho enorme é esse? A
gente tinha que entregar algum trabalho hoje?
– Não! Isso é rolo meu! – responde ela.
– Aham! Mas que saudade das suas confusões, as coisas ficam bem
paradas quando você não tá por perto. Você anda sumida moça! – acusou
Paris.
– Engano seu! Estou aqui agora bem na sua frente, não estou? –
questionou Dora. – E pelo jeito estamos no mesmo barco dando “um tempo”
aqui fora enquanto a aula acontece lá dentro. – concluiu.
– Não tô com a mínima vontade de encarar idiotas hoje! – confessa
Paris.
– Pois eu não quero encarar alguém que não merece que eu faça isso
com ele! – sussurra Dora.
– Então o encare! Dora se tem alguém que dá conta de qualquer
situação maluca esse alguém é você! E eu não preciso ficar listando, nós dois
sabemos muito bem da guerreira de piscinas e defensora dos fracos e
oprimidos você é! – ele ri.
– Pára! Falando assim até parece que eu sou uma descontrolada!
– E não é? – comenta Paris, abrindo um largo sorriso.
– Tá! Me convenceu! Tô indo encarar meu desafio, mas antes me
responde uma coisa. Na intimidade você e o David eram mais próximos do que
pareciam? Porque eu já não me surpreendo com mais nada!
Um silêncio confirmador abateu-se entre eles. E Dora continuou.
– Hum! Eu sabia! E você foi com ele alguma vez a Carnation Street?
– Não! O David não era tão ruim em casa, mas sair comigo era demais
pra ele!
– E ele nunca te falou, ou você mesmo viu, um cara loiro de capuz,
saindo com ele sempre tarde da noite?
Paris nessa hora fica nervoso, com a respiração ofegante e responde.
– Claro que não! Porque você fica só perguntando do David, sempre é
isso! Deixa os mortos descansarem em paz e presta atenção nos vivos! – grita,
correndo para a casa logo em seguida.
– Coitado! Acho que ele ainda está sentindo a perda. – ela pensa.
Dora deixa esse acontecimento de lado para dar continuidade ao plano
atual. Entrou na Escola de Artes Central indo direto para o pátio. O sinal
marcou o final da primeira aula e todos os alunos transitavam trocando de
salas. Alonso vinha adiante.
– Se você não gosta de comida italiana era só me avisar! – diz ele.
– O quê? – pergunta ela sem entender.
– Eu fiz spaghetti com almôndegas ontem, mas pelo jeito você descobriu
por telepatia e resolver me dar o cano! É isso ou meu amigo me traiu, mas ele
é medroso demais pra isso, então... – disse seguindo adiante.
– Não é nada disso! – Dora tentou explicar.
Até que ela coloca o enorme embrulho na sua frente e grita para todos
ouvirem.
– Abre!
Ele a princípio, parece não querer, meio desconfiado e inseguro com os
olhares de todos do pátio, mas resolveu dar um voto de confiança e abriu.
– O quê é isso? – perguntou espantado.
– Isso é a prova definitiva de que eu te amo e de que o David já não
representa tanto pra mim.
Ela se referia ao quadro que tinha pintado na noite anterior, que deveria
ter o rosto da foto de David, mas que por instinto acabou tendo no final a
imagem de Alonso. Todos estavam quietos esperando sua reação, até que ele
respondeu nervoso.
– Tudo bem! Vamos conversar!
Dora também nervosa, quase chorando sorriu correndo e deu um abraço
nele comemorado pela galera com palmas e zoeira.
– Eu te perdôo, irritadinha! – sussurrou Alonso, lhe dando um beijo e
levando o quadro para a próxima aula que já tinha começado.
Mell apenas observava como sempre fazia ultimamente. Estava quieta
demais e explodindo por dentro, mas o troco viria a seguir.
A maioria dos alunos chegou atrasada a aula de Design e após levar
uma bronca do professor foram surpreendidos com a notícia de que o Baile
Semestral de Boas Vindas seria naquele fim de semana. Ele então explicou.
– Preciso de pessoas que mexam com decoração e tenham agilidade
para determinar tudo o mais rápido possível. Perguntei ao clube local quem me
seria útil e eles me deram o nome de Isadora Réquiem que é aluna dessa aula.
Nessa hora todo mundo recomeçou a bagunça e um deles brincou.
– Professor, se ela coordenar o baile nosso tema será o hospício e todos
terão que vir vestidos de camisas de força!
Todo mundo começa a rir, Alonso quer dar na cara do garoto, mas Dora
não deixa e responde.
– Obrigada professor, mas no momento não estou mais mexendo com
esse tipo de atividade.
– Que pena! Alguém se candidata? – pergunta o professor.
– Eu mesma! – grita Mell, levantando a mão. A turma agita e após um
tempo o professor obtêm o controle da sala e a aula recomeça normal.
– Você tem com quem ir? – sussurra Dora.
– É, eu não sei. São tantas propostas! – ironiza Alonso.
– Comigo as emoções serão mais fortes! Você já viu! – ela propõe.
– Tá certo, você venceu! Mas se receber proposta melhor eu mudo de
idéia!
– Cafajeste! – diz Dora, dando-lhe um soquinho.
– Ai, ai!
Uma semana depois o locutor da faculdade anunciava.
– Moças e rapazes o Baile Semestral de Boas Vindas vai começar.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap21.

Durante a semana que precedia o baile, Mell tratou de coordenar todos


os preparativos e alfinetou Dora como pode. Mas ela não estava se importando
com isso, o que queria mesmo é ficar numa boa com Alonso e descobrir quem
era o cara loiro que daria as respostas que ela tanto queria.
Já havia avisado os rapazes da Carnation Street e Leo Turner, que
compareceriam para identificá-lo. R esteve mudo todo esse tempo e Alonso
não fazia nem idéia das jogadas planejadas para essa festa que iam muito
além de dança e diversão.
– Uau!!! O que eu fiz pra merecer isso? – pergunta Alonso quando vê
Dora saindo do loft.
Ela estava usando um vestido rosa bebê tomara que caia, longo. Com
decote em V discreto e pedraria transparente na parte de cima. Uma presilha
de borboleta prendia seus cabelos do lado esquerdo, nas mãos uma bolsa
pequena prata e nos pés sapato em estilo boneca com uma fivela da mesma
cor. Seu rosto, embora divino tinha um tom de desapontamento.
– O quê foi? Não vai me dizer nada? – pergunta ele novamente dando
uma voltinha.
Ela desfaz a cara de desanimo e ri.
– Nossa! Você tá ótimo, nunca vi ninguém ostentar um smoking com
tanta finesse. – ironiza.
– Estamos parecidos com Natalie Portman e o Jared Padalecki indo
numa entrega de prêmios.
Dora o olha espantada.
– Que ambição o senhor Alonso possui e eu não sabia! Cadê sua
humildade?
– Deixei para as noites comuns, hoje é dia de festa! – comemora. – Mas,
por que aquela carinha quando você saiu?
– Não foi nada! Eu só tava pensando no último baile que fui e me deu
um medo de um Dejavú! – confessa.
– Não se preocupe! Eu sei que não posso voar e ainda por cima, o pátio
da faculdade é no térreo. – tenta brincar.
Dora suspira fundo com os olhos cheios d’água e dita.
– Alonso, se você falar alguma coisa assim pra mim outra vez, qualquer
que seja, eu juro que nunca mais olho na sua cara. Sei! Você só estava
tentando ironizar o fato, mas certas coisas são mais bem digeridas se
engolidas, certo?
Ele não falou nada, apenas assentiu com a cabeça. Com vergonha do
que havia acabado de dizer. Somente pegou a mão de Dora e caminharam até
o furgão, indo em silêncio para o baile.
Quando chegaram, Alonso tentou com jeitinho mais um comentário para
quebrarem o muro que se formou entre eles.
– Que coisa estranha! Você de rosa, parece que essa cor não faz muito
o seu estilo!
– É que dessa vez eu não quero errar em nada! – sussurra Dora,
respondendo e alisando o vestido com as mãos.
Finalmente entraram e puderam ver toda a turma da faculdade e New
Park em peso no pátio todo enfeitado que tinha como tema o cinema clássico.
Cheio de fotos e cartazes de astros e filmes pendurados, com um telão
gigantesco que projetava películas em preto e branco através de um moderno
retroprojetor. Luzes, som, um bar, mesas e um conhecido DJ, além do raio
laser que cruzava a pista de dança e mímicos soltando bolhas de sabão e
imitando os convidados.
Dora dá uma boa olhada em volta e comenta.
– Puxa! Tenho que dar o braço a torcer, a Mell realmente aprendeu a
organizar uma festa!
– A aprendiz nunca é tão boa quanto sua mestra! – defende Alonso.
Estavam passando em volta da pista de dança quando de repente Dora
dá de cara com sua mãe.
– Mãe! O quê você tá fazendo aqui?
– Ora filha, você sabe como funciona! Eles me convidam eu venho!
Talvez seja pra te controlar! – diz animando-se. – Pensei que você não vinha,
mas pelo jeito veio e acompanhada! – termina, desfazendo a alegria enquanto
observa Alonso.
Este não deixa por menos ao cumprimentá-la.
– Olá Lara! É muito bom revê-la tão jovial!
Ela ia responder quando uma mão a toca seguida de uma voz vivaz.
– Lara! Há quanto tempo! Que bom que deixou os problemas de lado e
resolveu aparecer! Fui eu quem te fiz o convite, tínhamos que ter essa noite à
presença da luz de New Park! – rasga-se Mell, a fim de pegar pesado.
– Você sabe como eu sou! Nunca deixo nada me influenciar e sempre
acabado dando a volta por cima! Sempre! – diz em tom rústico, olhando para
Alonso.
Ele preferiu ser bastante discreto e não comentar nada. Mell, que só
agora fez notar Dora recomeçou.
– E você Dorita, está aí tão calada! Pensei que esse ambiente não lhe
agradasse mais! Até pelos seus desvios esses dias, tem estado tão ocupada
que nem aceitou organizar a festa, logo você! Mas estou vendo que já
conquistou seus objetivos! – diz referindo a Alonso, com olhar de conquistadora
barata.
Agora é Dora quem se cala com uma meia risada. Achava que não valia
à pena responder, e sua mãe com certeza não ficaria do seu lado numa
discussão. Mell, se achando a guerreira poderosa dá o golpe final.
– É, mas que bom que todos vieram! Pena que a Dora esteja atrasada
com esse vestido, rosa foi o tema do baile passado. Aquele em que você
perdeu tudo, inclusive o juízo queridinha! – ri maléfica. – Bem, agora preciso
dar continuidade ao baile! Fiquem a vontade!
Ela sai com ar superior de quem disse a que veio. Dora apenas sentia
pena daquela coitada que falava mal da roupa alheia, mas vestia um vestido
comprido em estilo oriental amarelo ovo agarrado demais com um coque
enorme nos cabelos.
– Eu hein, que garota maluca! – comenta Alonso, beijando Dora.
Lara nesse momento se conforma e despede-se para circular pela festa.
Pouco tempo depois Mell sobe ao palco e anuncia.
– Sejam bem vindos ao Baile Semestral de Boas Vindas! Essa noite
remetam-se aos anos 40 e sintam-se livres pra serem o que quiser! Para isso
usem as máscaras que estão distribuídas nas mesas. É proibido ficar sem!
Minutos depois o salão estava cheio de pessoas irreconhecíveis que
circulavam com liberdade pelos ambientes. Agora realmente a festa vai
começar!
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap22.

O Baile continua...
A galera se diverte geral na festa cujo Mell não impôs limites nem hora
para acabar. Tudo estava normal até que Alonso pede licença e se distancia,
desaparecendo entre os convidados mascarados.
Dora tenta passar entre eles para se sentar na cadeira de uma mesa
vazia, porém um convidado de estatura média fica em seu caminho.
– Licença senhor! – pede ela.
O homem misterioso dá, mas quando ela tenta passar novamente ele
pula em sua frente e impede a passagem.
– Aff! Cara folgado! – Dora sussurra. – Senhor, assim não vai dar!
Até que ele lhe passa um cartão azul com os dizeres.

ADIVINHA QUEM SOU EU!

Ela gelou nessa hora e com os olhos amuados subiu seu rosto até os
olhos mascarados e cochichou sem querer estar certa.
– R?
O cara balança a cabeça devagar em sinal negativo, erguendo a mão
em sua direção. Ela ia correr, mas ele rapidamente toca na máscara e levanta-
a para cima, revelando-se.
– Booo!!!! Credo Dora, que medo! Quem você achou que fosse com
esse negócio de R?
Ela respirando fundo, refazendo-se do susto responde com raiva.
– Não sei, nem sei o que ia falar de tanto medo! Mas por que a
brincadeira Paris?
– Não deu pra resistir! Você tava aí parada e em que noite mais eu
poderia andar sem ninguém pra me encher? O mundo devia ser assim sempre,
todos mascarados. Mostrando só o que querem, quando querem, sem
compromisso de identidade.
– Mas de certa forma já não é assim? – pergunta Dora.
– Não, eu não acho que seja assim! Pelo menos não pra mim. –
argumenta.
Paris percebe que estão olhando e resolve ir.
– É melhor eu voltar a esse mundo que criei e provar minha teoria, só
por uma noite. Ser normal e me divertir com todos! Do mesmo jeito que se
divertem comigo! – sussurrou.
– Vai! Mas não faz nenhuma besteira! Não se rebaixe ao nível deles! –
recomendou Dora. – Nada de assustar ninguém! – gritou quando ele já estava
longe.
Um pouco mais adiante, do outro lado da piscina cheia de balões que
havia na área das mesas, um cavalheiro de máscara negra ergueu um brinde a
ela que ignorou. Ele foi chegando mais perto.
– De novo não! Alonso, cadê você? – pensou.
O cara se aproximou até que não houve como fugir.
– Bela noite não senhorita, especialmente para prender maus
elementos!
– Detetive Leo! – surpreendeu-se.
– Eu e os nossos dois espiões. Não vim falar com você antes por causa
do seu namorado e daquele cara esquisito que estava aqui até agora. –
justificou engolindo o champanhe.
– E como andam eles? – quis saber Dora.
– Até o momento nada! Mas não vamos desistir, sua amiga com esse
baile de máscaras enfraqueceu nossos planos. Avante então, vencer as
dificuldades! – disse, voltando para o outro lado da piscina.
– A Mell enfraquece qualquer um! – comentou Dora para si.
Alonso, depois de desaparecer um tempão, estava retornando para junto
dela quando é surpreendido por um professor que lhe perguntou.
– Você não me é estranho! Nos conhecemos de algum outro lugar?
– Acho que não! O senhor está se confundindo porque eu tenho uma
cara muito comum!
– Tem certeza? – insistiu o homem.
– Tenho! Absoluta! Não freqüentamos os mesmos meios, eu sou
bolsista! – frisou.
O professor desculpou-se pelo incomodo e Alonso pôde voltar para
Dora. Recolocando a máscara urgentemente.
– O que o professor queria com você? – quis saber ela.
– Nada! Só queria me parabenizar por um trabalho.
– CDF! Que demora! Onde estão as bebidas? Não se afaste mais, estou
com uma impressão terrível de que alguém me observou o tempo todo, só
agora que você voltou é que passou.
– Impressão sua sentindo falta da minha presença protetora!
– Convencido!
– Tá! Eu te mostro o motivo da demora! – disse ele, estendendo-lhe a
mão.
Uma música começou a tocar fazendo movimentar o casal que
permanecia imóvel em posição de dança.
– Me perdoe por hoje mais cedo. – pede Alonso.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap23.

Eles dançaram até o fim da música, como se não fossem fazer isso
nunca mais.
Dora estava cansada, mas sorria feito uma criança que ganhou o que
mais desejava. Porém, quando voltava para a mesa, viu um vulto que se
destacou dos outros, passar entre os convidados do outro lado da piscina.
– O quê foi aquilo? – sussurrou para si própria, se achando louca.
– Aquilo o quê? – perguntou Alonso, que escutou o que ela disse.
– Nada! Deve ser cansaço, acho que vou me refrescar um pouco no
toalete. Licença. Vá descansando esses pés de valsa que eu já volto! – brincou
antes de sair, dando-lhe um selinho.
Dora saiu dos fundos do pátio, onde se encontrava a piscina e
atravessava a pista de dança, quando de repente o vulto cruzou seus olhos
novamente. Uma silhueta familiar que a preocupava muito conhecer.
Ela ia passando entre as pessoas que agitavam na pista, às vezes
vendo-o nítido, outras vezes só reluzindo a vestimenta preta bem mais a frente
dela, que não desistia de seu objetivo.
– Eu só posso estar louca mesmo, pra estar fazendo isso! Vai ver todo
mundo tem razão! – pensava.
Dora estava num jogo de gato e rato que ela mesma criou e que não
sabia no que ia dar. Na certa, pensou que encontraria o rapaz da roupa preta,
ele se identificaria, ela se desculparia por sua gafe e a situação estaria
solucionada. Mas não foi bem assim que aconteceu.
Após muito procurar pela pista de dança e arredores já estava
desistindo, quando o avistou na sacada de uma sala que estava aberta no
primeiro andar. Mell avisou nessa hora sobre a queima de fogos que começaria
para saudar o baile, enquanto Dora corria ansiosa para pegá-lo.
Chegou à sacada exatamente no começo do foguetório, mas viu que lá
não tinha ninguém.
– Droga! Nem na bebida eu posso colocar a culpa desse meu devaneio.
– diz decepcionada por ter gastado seu tempo correndo atrás de um fantasma
e constatando que não bebeu nada.
De repente, freneticamente alguém apareceu atrás de Dora, lançou a
mão em suas costas e virou-a indefesa para trás, dando-lhe um beijo com meia
máscara levantada. Os fogos ardiam no céu, multicoloridos e incessantes como
nos melhores shows do gênero. Lá em baixo todos assistiam a cena inusitada,
inclusive Alonso que foi procurar por ela. Era impossível não ver o casal
mascarado iluminado pela luz do acontecimento.
Dora, após o elemento surpresa, deu um tapa de imediato no atrevido,
que respondeu rindo. Ela olhou para baixo e pode ver Alonso indo embora
decepcionado por reconhecê-la na sacada.
– Seu idiota! Olha o que você fez! – grita para o mascarado de
vestimenta preta, virando-se para ele. – Paris, não é você, é? Porque se for
dessa vez você foi longe demais! – continuou.
Ele não respondeu nada e continuou observando pela máscara.
– Eu mereço! Que espécie de baile é esse que todo mascarado vem me
atazanar? – pergunta olhando para o céu.
– Foi você que começou a me seguir. – respondeu o mascarado rindo.
– É que eu tive a insana impressão de ser meu ex-namorado... Mas é
impossível! E por isso você já vai beijando a primeira que te seguir! – diz,
querendo recuperar a razão.
– Você quase acertou! – fala, retirando a máscara de vez.
Dora, ao olhar para seu rosto fica catatônica sem conseguir ter alguma
reação por mais que tentasse.
Enquanto isso na rua, Alonso estava descendo a avenida da faculdade.
Quando um carro vem a toda velocidade no silêncio desértico do local e
acelera para cima dele que se joga para o lado, saindo do alvo mortal e rolando
para o canto da calçada. O veículo continuou sua corrida desenfreada
deixando apenas o rastro de pneu queimado até desaparecer no fim da pista.
Ele observa a partida do carro até que o celular toca.
– Alô!
– Você não está fazendo seu trabalho direito! – diz do outro lado uma
voz feminina.
– Se eu ficasse lá ela ia desconfiar de tanta panaquice! – justifica.
– Acho que está confundindo seus propósitos.
– Não é nada disso! Eu garanti que ia dar tudo certo e vai dar, confia em
mim!
– Acho melhor que sim, ou não quero nem pensar nas conseqüências se
tudo for descoberto.
– Pode deixar! Agora preciso ir, tenho que pensar em como dar um jeito
no nosso problema. – desliga, se limpando e envolvendo as mãos nos cabelos
que ficaram bagunçados.
Alonso pensava intimamente, apesar de querer passar tranqüilidade,
que o cerco estava se fechando e ele por mais que não quisesse, perdeu o
controle sobre Dora e seus sentimentos. Sentia ciúme e a queria mais que
tudo.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap24.

Dora, ao olhar para o rosto do mascarado fica catatônica sem conseguir


ter alguma reação por mais que tentasse.
–D a v i d!!!! – sussurra trêmula.
O rapaz então a olha por alguns segundos, fazendo mistério antes de
responder, mas continua com o mesmo sorriso debochado na cara.
– Não querida! Esse milagre não aconteceu! – responde. – Sou Aidan,
primo do David e por azar, se perguntarem eu nego, do Paris.
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Nome: Aidan Silver Castel


Status: Primo de 1°grau dos Silver Rock.
Idade: 21 anos.
Hobby: Criar situações desafiantes.
Livro de Cabeceira: Revistas Pornôs.
Frase: "Para bom entendedor, meia palavra basta."

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Ela não conseguia falar nada diante da semelhança de ambos que


pareciam ser a mesma pessoa. Continuava com aquela expressão de quem viu
um fantasma e se sustentava nas pernas por milagre. Vendo aquele rosto, seu
mundo que começava a se firmar, novamente veio abaixo.
Aidan se aproxima dela, olha fixamente em seus olhos e baixando o tom
de voz lhe diz.
– Nossa! Sua cara tá branca que nem papel! O que você achou? Que
seu amor do passado voltou dos mortos pra fazê-la feliz por mais uma última
noite! Lamento querida, mas o mundo real não é assim! Contos de fadas, você
já tá bem grandinha para acreditar nisso, não acha? Mas admito que foi
bonitinho, sério fica charmoso em você! – terminou, segurando a ponta do
queixo dela.
Dora então bate na mão direita de Aidan e responde seca, se
recuperando.
– O quê eu acho? Eu acho que os Silver Rock são o pior tipo de lobo em
pele de cordeiro que há no mundo!
E com lágrimas sem controle rolando dos olhos, correu para fora da
sacada, se afastando da sala o máximo que conseguiu. Só pensava em como
tamanha semelhança era possível e pior, o quê Alonso estaria pensando sobre
ela agora. Estava indo atrás dele, quando sua mãe a interrompeu.
– Ele já foi! Também, depois da sua cena de reencontro de novela!
Dora não deu muita importância para o que Lara disse. Então ela a
deteve, segurando o braço da filha que ameaçou insistir na procura de Alonso,
continuando.
– É melhor assim, sinal de que as coisas estão voltando aos seus eixos.
Isso não ia durar mesmo! Óleo e água não se misturam, já diziam os primeiros.
Vá lavar esse rosto e me espere. Hoje você vai pra casa mocinha!
Angustiada, resolveu dar um tempo para tudo que aconteceu e
obedecer, indo finalmente para o banheiro. Na saída encontrou com o
mascarado da piscina.
– Boas notícias! Um dos caras reconheceu o suspeito loiro!
– Sério? E quem é ele?
– Você vai se chocar, e sendo quem ele é não íamos encontrá-lo na foto
com os rapazes nunca!
Curiosa, Dora seguiu Leo, que a levou até os caras ansiosos para
revelarem quem era o lorinho e sumirem dalí, evitando problemas.
– É aquele alí! – disse o cara, apontando o dedo indicador para o palco.
– Tem certeza! Que brincadeira é essa? – pergunta Dora, boquiaberta.
– Claro minazinha! Ele vestido dos pés a cabeça parecia um dos nossos,
mas eu vi a cara dele que era diferente. Achei o mano bonito e tudo. –
confessou, enquanto o outro lhe estranhava.
– Agora você já sabe por que! – diz Leo, rindo.
Dora não quis saber de mais nada, subiu ao palco a fim de desmascarar
o loirinho.
– Então, muitas compras na Carnation Street, Mell? Alguma lojinha que
eu não conheça? Quem sabe uma noturna que vende coisas “raras”?
– Eu não faço idéia do que você está falando! Aconselho que vá ter seus
delírios com outra pessoa! – responde Mell, destoando-se do assunto.
O baile pára e a galera em peso começa a prestar atenção no embate.
– Eu estou falando sobre você, toda disfarçada e o David na Carnation
Street comprando meta-anfetamina nas madrugadas antes dele morrer. –
acusa enfurecendo-se.
– Olha Dorita, você tá louca! Eu não vou ficar perdendo tempo com mais
um dos seus showzinhos. Isso já tá perdendo a graça!
Mell faz sinal para a música seguir e ia recolocando a máscara que tirou
para a apresentação no palco quando o acusador grita.
– Tenho certeza que você era o maninho que ia com o finado David lá
no nosso gueto pegar uns produtos com a gente. Ficava à surdina, sempre
fazendo doce, achamos até que o David era fruta, mas agora tá explicado, ele
corneava a minazinha com a melhor amiga! Típico!
– Cala a boca, seu pobretão de merda! Quem foi que autorizou a
entrada desse coitado no nosso meio? Gente como ele não merece nem
respirar o mesmo ar que o nosso! – grita Mell nervosa.
– Calada você moça, ele e o amigo estão aqui ajudando uma
investigação de polícia! – disse Leo, identificando-se detetive. – E se eles
quiserem podem fazer uma acusação contra a senhorita por calúnia e vamos
todos terminar essa noite na delegacia. Se não quiser acho melhor começar a
falar.
Um silêncio constrangedor tomou conta do local, buchichos eram
ouvidos em alguns cantos, em outros, pessoas se retiravam sorrateiramente.
– Ah Dora! Como chegamos a esse ponto? – pergunta Mell destruída.
– Eu não sei. Me diz você! – responde Dora, também abalada.
– Está bem! Nunca fui nada perto de você, era só a amiga! Uma ponte
pra se chegar até Dora, a rainha de New Park! Eu aceitava porque era isso ou
nada, ser só mais um projeto nas mãos da poderosa. Mas aí um dia ele
apareceu, recém-chegado no bairro e como era lindo, disse se chamar David e
parecia tão especial olhando pra mim. E como sempre, você chegou e tudo
mudou. Pensei uma noite que ele foi me procurar lá em casa porque me pediria
em namoro, mas em vez disso quis saber se eu lhe apresentava à Dora.
– Eu nunca soube disso, me desculpa. Por que você não me contou?
– Será que você realmente queria saber? Acho que não Dora. Aquela
época você não estava tentando ser essa santa! E senti tanto ódio quando ví
vocês juntos pra cima e pra baixo, aquele namorico adocicado, o casal perfeito!
Por favor, me poupe! Comecei a tentá-lo, chamá-lo, seduzi-lo, até que ele caiu
e comigo David era verdadeiro, o cara asfixiado por esse bairro, pelos seus
padrões impossíveis e dessa gente ordinária!
O pessoal vaiava enquanto Mell continuava.
– Comigo ele se drogava, amava, era violento, divertido, falava absurdos
que você jamais escutaria, mas eu sim. Agüentei tudo calada e o convenci a
fugir daqui, íamos depois do seu bailezinho cor de rosa, imagine como você
ficaria, abandonada pelo seu David. O príncipe fugindo do castelo e trocando a
princesa pela bruxa. Seria a vingança perfeita! – ri empolgada.
– Mell, você me odeia tanto assim? – pergunta Dora assustada.
– Você me obrigou a isso! E o pior é que sabe lá como ainda tem sorte,
pois na hora H ele não quis vir comigo. Quando você foi ver a briga do Paris lá
fora eu o chamei rapidamente para combinarmos os últimos detalhes no
terraço e lá, David deu pra trás.
– Ele estava estranho, talvez quisesse me avisar ou me pedir em
casamento. Perdão, não sei! – relembrou Dora.
– Aí você se enfureceu e o empurrou para fora do prédio? – perguntou
Leo.
– Não foi assim! Eu fiquei furiosa, mas apenas saí e o deixei lá. Não
matei o David, eu juro. O casal ridículo não valia isso! Ele a amava!
– Eu tenho pena de você Mell! – sussurra Dora arrasada.
– Pois não deveria, porque meu único desejo nessa vida é te ferrar com
todas as minhas forças!
O barraco prometia entrar noite adentro até que o reitor da faculdade
interrompeu.
– Bem, creio que seja tudo por hoje. Dêem o baile como encerrado e um
ótimo repouso pra todos. Obrigado por comparecerem!
– Essa senhorita deve sérias explicações à polícia senhor reitor. – diz
Leo, querendo prendê-la.
– Hoje não! Amanhã cedo ela estará na sua delegacia acompanhada de
um advogado, eu prometo e me responsabilizo, conheço a família dela que tem
muito prestígio e são meus amigos. Vou contar o ocorrido ao pai dela e tudo
será esclarecido! – responde o reitor, tomando Mell pelo braço.
A noite acabou e o que deveria ter sido um baile para deixar Dora mais
confiante em sua vida sendo retomada foi uma sucessão de pequenas
tragédias.
– Até quando? – ela se perguntava indo embora com sua mãe.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap25.

Na manhã seguinte...
Eram ainda sete horas, Dora virava na cama expressando os rascunhos
da noite mal dormida. Ela pensava desanimada em Alonso que dessa vez não
a perdoaria, em Aidan e sua semelhança surreal com David e no barraco que
aconteceu com Mell, no ódio que a ex-amiga sentia. Só mais detalhes de sua
vida toda errada.
Inesperadamente o celular toca.
– Alô! – resmunga.
– Alô, Dora não desliga!
– Resolveu começar cedo seu plano de vingança contra mim! Você
nunca levantou a essa hora antes na vida! Já sei! Deve estar achando que o
detetive marcou com você de manhã pra me vingar e quer dar o troco? Se for
isso, eu já estava acordada! E não tô a fim de recomeçar o pesadelo de ontem!
– Não é nada disso! Pára de falar e me ouve, é sério! – diz Mell num tom
angustiado.
– O quê você tá fazendo? Mell, você tá correndo? Tá fugindo da polícia?
– Não é da polícia! Mas eu preciso ir embora de New Park e antes
queria falar com você sobre tudo que aconteceu!
– Não é mais um daqueles planos malucos de vingança, porque se for
quem tá passando dos limites agora é você! – diz Dora acordada e elétrica.
– Eu juro que não, você precisa saber de coisas que não faz nem idéia e
pensando bem pude ver o quanto fui burra!
– Calma Mell! Não tô entendendo nada, o que você precisa me contar?
– Nós somos só peças manipuladas do jogo, e eu fui a pior de todas
elas, agora sei o quanto errei com você Dora! Perdão! – grita.
– Mell? Se a gente se encontrar e conversar é claro que eu te perdôo!
Venha e a polícia poderá te proteger! Podemos resolver tudo isso juntas!
– É tarde! Eu queria, mas o jogo acabou pra mim! – grita Mell chorando,
seguido de uns ruídos estranhos de alguém se sufocando e esperneando.
– Mell? Mell? Meeeeellllllll!!!!! – grita Dora apavorada sem resposta, só o
silêncio.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap26.

Já fazia duas semanas que a polícia havia rastreado o local onde estava
o celular de Mell. Não encontraram qualquer sinal dela ou pista de seu
paradeiro, era só um beco perto da Escola de Artes Central, como qualquer
outro, com o telefone jogado no chão sem nenhuma informação suspeita.
Depois disso Dora andava mais tensa que nunca, pois se culpava pelo
desaparecimento. Os investigadores e até o detetive Leo achavam que Mell
devia mais do que se supunha, por isso resolveu se fazer de vítima para Dora e
representar seu desaparecimento, enquanto na verdade fugia. Mas ela sabia
que não era bem assim, ou isso, ou Mell era o R, porque após voltar do beco
na mesma manhã do fato, Dora encontrou o costumeiro cartão vermelho
grudado na porta de seu loft em Holanda Garden. E esse dizia.

UM PRESENTE PARA VOCÊ! ELIMINEI UMA PEÇA QUEBRADA DO


JOGO. AS PEÇAS NÃO PODEM DESAFIAR OS JOGADORES! NESSA
RODADA FICAMOS EMPATADOS!
ESPERO NÃO TER QUE ELIMINAR MAIS NENHUMA, POIS SE
PRECISAR EU FAREI! CONTO COM SUA AJUDA E SEGREDO PRA ISSO!

PS. BELA ATUAÇÃO NO BAILE. VOCÊ ESTAVA LINDA!

Dora pegou o cartão, releu-o várias vezes tentando descobrir algo e o


guardou com os outros cartões e pistas no quadro Iluminati.
– Tem tanta coisa aqui! – pensou, vasculhando o fundo do quadro.
Mas mesmo com os acontecimentos, ela tinha que seguir a vida, pelo
menos aparentemente, talvez R pudesse se distrair e errar. Ele era humano,
estava perto para saber tudo sobre ela e cedo ou tarde poderia se entregar
com uma frase ou gesto.
Começaram então os preparativos para o New Dad Day. Uma espécie
de dia dos pais especial de New Park que conta com a ajuda de todos no bairro
e é muito popular e pomposo, todas as famílias aparecem para uma recepção
com brincadeiras, competições e um piquenique dançante à tarde no parque.
Com Mell fora do caminho, a galera hipócrita voltou a falar com Dora e como
era de costume, haviam passado uma borracha no assunto e já a tinham como
a rainha que nunca perdeu o trono. Não se lembravam mais o que aconteceu,
só tinham boca para falar mal de Mell para Dora e posicionar seu lado na briga.
– Eu jamais acreditei na Mell. Ela sempre foi uma piranha mesmo! Já
pegou meu namorado, mas na época não contei porque ela era sua amiga,
Dora. – diz uma das patricinhas.
– Mas ele não te largou porque você o chifrou com o motorista?
Disseram que virou até padre, coitado! – perguntou Dora, se lembrando do
caso.
– Não! Foi ao contrário, sofri tanto! – comenta, enquanto as outras fazem
expressão de “mente que nem sente.”
– Nós nunca ficamos contra você Dora, a Mell nos obrigou ou nos
matava! Aquela cadela assassina! Sempre ameaçando! – justificavam as
outras.
Mas ela já estava vacinada contra isso, era o centro da roda, porém
podia cair fora dela a qualquer sinal de deslize e reprovação das outras.
Resolveu ficar por um tempo, após uma conversa que teve com sua mãe.
– Filha eu consegui falar com seu pai e ele virá para o New Dad Day
desse ano! – grita Lara entusiasmada.
– O papai, aqui! Faz tanto tempo que ele não vem! – anima-se.
– Você sabe como ele é Caxias com o trabalho, mas esse ano eu insisti
e ele virá!
– Pelo menos tem um motivo verdadeiro pra eu participar dessa festa
idiota. Eu só ia porque o professor de Vitrinismo quer que a gente decore o
ambiente. Como se usar os alunos pra coisa sair mais barato fosse trabalho
acadêmico. Vá saber lá quanto deve estar ganhando por baixo pra isso! –
ironiza Dora, saindo.
– Aonde pensa que vai mocinha? É agora que começa a nossa
conversa! – diz Lara, fazendo um gesto com a mão direita para que Dora se
sentasse na poltrona da sala de estar.
– O que foi mãe? – pergunta com desdém.
– Você sabe como seu pai é tradicional e não tolera as loucuras que
acontecem por aí!
– Sim, e daí?
– Daí que ele não pode nem sonhar com os acontecimentos dos últimos
meses! Você sabe, sobre ter ido morar onde Paris Hilton quebrou o salto e
suas mudanças, vexames e confusões!
– E o que tem de mais se ele souber? Ah! Já sei, você quer dar a
impressão que reinou absoluta, com tudo a sua ordem e gosto! Mas não foi
bem assim que aconteceu! – grita Dora.
– Realmente não, mas vamos fazer de conta que foi! Você fica aqui pelo
tempo que ele ficar, esquece aquele moquifo, coisas e pessoas que deixou por
lá. – instrui Lara orgulhosa.
– Mas ele sabia que eu namorava o David, eu sempre disse que ia
apresentá-lo pra ele quando viesse nos visitar! Um cara morto não se esconde
fácil, ou a vontade dessa farsa é tão grande que a senhora pretende arrumar
um jeito de desenterrá-lo e ressuscitá-lo também? Ou quem sabe o priminho
venenoso Aidan tope um showzinho com a senhora? Eu não duvido, vocês são
igualmente nojentos! – ironiza Dora, enfurecendo-se.
– Fica quieta garota! – grita Lara olhando profundamente nos olhos da
filha. – Nós não somos a família perfeita, mas pelo menos por um dia seremos
e todo mundo vai ver isso! – termina.
Dora se cala por um minuto e com os olhos marejados sussurra.
– Você não vê! Não adianta, ele não vai ficar. Nunca ficou por que ficaria
agora? – perguntou. – Mas se vocês fazem questão tudo bem! A senhora e o
piloto vão ter a minha total cooperação pra essa peça de teatro receber palmas
da platéia. Quem sabe até peçam bis! – desabafou subindo a escada
horrorizada com o pedido de Lara.
A que ponto a mãe podia chegar para brincar de família perfeita. Seu
rosto queimava, as lágrimas rolavam e a cabeça latejava com um único
pensamento emaranhado entre tantos, New Park era a sala de recepção do
inferno e seus habitantes os recepcionistas.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap27.

Na manhã de Domingo alguém bate à porta e Dora desce as escadas


entusiasmada para abri-la. Embora a mãe tivesse feito toda aquela cena, Dora
amava o pai e fazia tanto tempo que o piloto não vinha para casa que decidiu
ignorar o acontecido e viver o momento por ele.
– Foi daqui que pediram um piloto particular senhorita? – perguntou o
homem parado diante dela esboçando um sorriso.
– Foi daqui sim! E quero tratamento cinco estrelas senão reclamo com
os seus superiores senhor! – respondeu.
Apesar da brincadeira, ambos se olhavam reparando como estavam
diferentes da última vez que se viram há três anos, quando o pai entrou para
uma importante companhia aérea e aproveitou para deixar a mãe veladamente.
Lara usava as viagens do marido como justificativa e assim iam caminhando.
Depois de tanta reparação Dora quebrou o gelo perguntando.
– O quê foi? Eu não raptei sua filha e tomei a vida dela, sou eu mesma.
Apenas cresci.
O homem ainda espantado comenta.
– Nossa! Eu sou pai de uma gata, e achava que você não ia me dar
problema! – brincou observando o estilo paty da filha. – Achei que você teria
um estilo mais próprio, mas seguiu direitinhas as regras da sua mãe e de New
Park!
– Que bom que gostou! O senhor com esse uniforme também não está
nada mal! Pra quem dava a vida por um All Star posso dizer que me
surpreendeu na indumentária.
Finalmente se aproximaram e deram um desconcertante abraço nervoso
que revelou suas verdadeiras impressões sobre o outro.
– Mas onde está sua mãe querida?
– Lá em cima se arrumando, pode entrar a casa sempre será sua, mas
eu não posso ficar. Tenho que fazer um trabalho pra faculdade na festa.
Envolve trabalho escravo de universitários e professores corruptos, mas é uma
história chata demais. Te vejo mais tarde? – perguntou ela sorrindo.
– Claro! Não tem nenhum lugar no mundo que eu queira estar mais do
que aqui!
Despediram-se e Dora foi para a praça, o pai após bufar entrou com
suas malas, certo de que enfrentaria uma situação difícil com Lara.
Alguns minutos e quarteirões depois Dora estava na praça, a turma
assim que ela chegou começou a adulá-la, ressaltando como ela era
importante para o andamento da recepção e perguntando tudo o que podiam
sobre a decoração esperando sua aprovação.
– Está ótimo! – dizia pra todos expressando uma abertura de lábios
amarela.
O professor observava tudo e anotava na prancheta que tinha nas mãos.
Gesticulando silenciosamente para que fossem mais rápidos. Dora odiava
aquilo, estava mudada e se um dia os agitos de New Park a fizeram feliz, agora
a entediavam mais que qualquer coisa.
– Vamos Dorita! Sem a sua animação não tem graça! Sabemos que
você esteve fora por um tempo, mas volte pra nós! – disseram as garotas.
– Eu estou aqui! E não me chame de Dorita, valeu?
– Ops! – gritou uma delas levando à mão direita a boca.
Ela sabia que era maldoso aquele comentário, mas não se importava,
pois seus olhos e ouvidos estavam atentos a outra missão no meio daquele
bando de gente. Encontrar Alonso. Não o via desde a noite do baile e a
saudade apertava em seu peito, pois ele não ligou mais, não apareceu nas
aulas e simplesmente desapareceu. Dora pensou no princípio ser coisa de R,
mas depois percebeu que ele só queria um tempo.
Quando suas esperanças mais uma vez pareciam desaparecer, eis que
Alonso surge como uma visão, do outro lado da rua prestes a entrar no parque.
Estava lindo, com os cabelos aparados, uma calça jeans folgada, blusa
comprida preta por baixo de uma camiseta azul marinho. O sol reluzia em seu
rosto e adornava a feição perfeita trazida com o vento.
Dora ouvia uma canção entoada por anjos errantes em seus ouvidos e
parecia ter poder suficiente para voar até ele, mas ficou ali paralisada pela
surpresa, olhando focada para o ser mais importante de seu mundo, o centro
do quadro onde sem Alonso nada teria simetria ou faria sentido. Ele trazia
cores à tela em branco.
– Alonso eu te amo! – sussurrou para si como da vez que se descobriu
apaixonada.
Este passou direto por ela e foi ajudar os outros alunos. Apesar dela
tanto olhar e esbarrar, Alonso sequer notava sua presença e fingia muito bem
que Dora não existia para seu desespero. Até que não agüentando a situação
pulou em sua frente e lhe disse.
– Eu quero explicar, mas você não deixa!
– Eu já vi esse filme e achei muito ruim! Não gosto de reprises com
cenas de escândalo e finais felizes que desandam. – ironizou seco.
– Não vou fazer cena, sei que você não gosta! Se pudesse me escutar
só um pouquinho...
– Explicar o quê? Pra mim está claro que a dona de New Park cansou
de brincar de menina pobre e voltou para seu lar!
Dora não sabia o que fazer para convencer Alonso, ainda mais por estar
vestida como antigamente, deixando provado e inquestionável seu ponto de
vista.
– Maldita hora que eu fui concordar com os planos delinqüentes da
minha mãe! – pensava.
Para piorar a situação Aidan apareceu do nada ao seu lado. Alonso
respirava pausadamente como quem se equilibrava para não cometer uma
loucura.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap28.

– Esse elemento tá te incomodando amor? – perguntou irônico.


Alonso ia aproximando-se, mas viu o professor logo à frente. Preferiu
guardar o que sentia e saiu. Aidan vitorioso continuou.
– É incrível como esses bolsistas só porque estudam com a elite acham
que podem falar a altura! Por favor! – riu abraçando Dora. – Provavelmente se
fizessem uma varredura a única coisa que iam encontrar de iguais em nós é a
letra inicial do nome.
Ela o tira imediatamente perguntando perturbada com o rosto de Aidan.
– Olha pro que você tá dizendo, nem estuda aqui! Aliás, como foi que
você veio parar aqui?
– Meus tios me mandaram fazer companhia pro Paris!
– E cadê ele? – perguntou olhando em volta.
– Por aí! Eles me disseram para acompanhá-lo e eu fiz, mas não falaram
nada sobre ficar ao lado dele!
– Você é muito canalha mesmo! Coitado do Paris com você e o David
tão iguais e cafajestes!
– Pode até ser, mas você gostava! Quem sabe ainda goste! – sussurrou
apertando-lhe a cintura.
Dora sai correndo de Aidan que apenas ri pela brincadeira.
Nesse momento chegou Romeo procurando por Alonso, ele olha para
Dora e imagina ser ela pela descrição, mas continua procurando pelo amigo.
Aflito, finalmente o encontra.
– Alonso! Alonso!
– Romeo, você por aqui! Veio visitar as futuras nobres damas da
sociedade? – brinca.
– Não é nada disso! Mas até que não são de se jogar fora! – comenta. –
Mas não é por isso que eu vim!
– Então o quê é? Tá me assustando!
– Seus pais descobriram sobre algum acontecimento familiar na
faculdade e estão chegando lá em casa pra te visitar!
– Tá de brincadeira! Como eles descobriram? Andou falando demais
Romeo num ataque de pânico?
– Não! Eu não faço idéia! Só sei que se você não for lá vão acabar é
chegando aqui!
– E agora, eu não posso sair com o cão de guarda do professor
fungando nos nossos pescoços!
– É uma emergência! – grita Romeo sem ar.
– Tá! Tá! – diz Alonso olhando em volta enquanto pensa. – Ah! Eu não
acredito, ela não! – lamenta avistando Dora.
– Eu preciso sair urgente daqui! Você pode me cobrir com o professor? –
sussurra.
– Como? Se for por causa dos outros eu posso ir até eles e... - ia
continuar Dora quando Alonso a interrompe.
– E eles vêm até mim como cães amestrados apresentar um número
enquanto na verdade querem me matar, só porque a soberana mandou! Não,
eu não preciso disso! – termina indo embora.
Enquanto isso pai e mãe tentam acertar suas diferenças em casa.
– Me surpreendi quando você disse que viria após tanto tempo fora! –
comenta Lara. – Isso seria um recomeço? – sugeriu apoiando suas mãos
sedutoramente nas costas do piloto.
– Não, não é e você sabe muito bem disso! – afirmou retirando as mãos
dela instantaneamente.
– O quê você veio cheirar aqui então?
– Vim resolver o nosso divórcio! – diz retirando a papelada da pasta de
viajem. – Quando fui embora acertamos tudo de boca, já é hora de
legalizarmos nossa situação para seguirmos nossos caminhos!
– Como se um papel mudasse tudo! Você já seguiu o seu há muitos
anos quando deixou a mim, nossa filha e nossa vida maravilhosa! – grita Lara.
– Vida maravilhosa, perfeita! Com você foi sempre assim, esse lugar
vem primeiro que qualquer um. É tudo por New Park, sobre o que vão pensar,
o que vão fazer, como vão receber! – grita também o pai.
– Como pode dizer assim do nosso lar! – admira-se a mãe.
– Um lar é onde nos sentimos bem e esse lugar só me sufoca, me
aprisionou a vida inteira. Eu tentei, mas não queria ter a vida dos meus pais
presos num porta retrato e mortos por dentro. Mas parece que pra você tá tudo
bem, não é?
– Então a Dora é quem paga por você brincar de Peter Pan?
– Nisso eu errei, deixei-a aqui e agora ela é uma bonequinha de luxo!
Nossa menina tem tanto potencial, não merece ser um objeto superficial na
mão dessa gente!
– Isso você nem imagina! – sussurrou Lara.
– O quê? – perguntou o pai.
– Nada. Só estou chocada com tudo!
– Agora eu sei o que é paz, pois a tenho vivendo com a Mao na
Indonésia onde só temos uma cabana, a praia e as águas.
– Já chega! Eu não quero saber da sua versão ridícula de Lagoa Azul.
Se você quer a separação pode deixar os papéis aí! Vou pensar no seu caso. –
disse a mãe virando-se de costas para o piloto, desolada.
Ele arrumou seus pertences e já na porta falou.
– Tomara que um dia você veja a verdade e seja tão feliz quanto eu
estou sendo agora. – partindo e deixando a ex-mulher em prantos.
Na saída cruza com Dora que estava indo buscar os pais para as
festividades.
– Onde você tá indo? – pergunta desconfiada.
– Estou indo para um hotel, mas já volto para irmos juntos! – mente o
pai.
Dora não aceita e o piloto a consola.
– É preciso! Quando estamos longe muito tempo nossa volta causa a
desorganização natural das coisas!
– Mas não é justo! Aposto que é coisa da Lara! – grita.
– Ela pode parecer forte, mas precisa de você. – e quase partindo no
táxi lhe pede. – Filha me promete uma coisa, por mais que sua mãe peça não
se dobre pra ela nem pra ninguém nesse seu jeito de ser!
– O senhor sabe sobre mim! – espanta-se. – E eu sei que dentro dessa
mala tem um All Star surrado bem escondido!
– Por isso você é minha filha! Nós somos incorrigíveis! – brinca. – Até
daqui a pouco! – grita na janela do carro partindo.
– Até mais tarde! – grita Dora chorando.
Dora voltou da porta de casa para o parque e quando chegou, lá estava
Alonso recebendo no fim da arrumação uma bronca enorme do professor na
frente de todos. Correu até lá dizendo.
– Ah Alonso! Você está aí! Obrigada por salvar a minha vida!
– O que a senhorita está dizendo? – perguntou o professor.
– O Alonso foi um herói trabalhando em off na arrumação, indo buscar
os materiais que os fornecedores se negaram à entregar alegando falta de
pagamento! Ele acertou com todos eles, inclusive levando um soco do
entregador de toalhas de mesa! – contou com entusiasmo em detalhes.
– É mesmo? – perguntou Alonso espantado.
– Foi sim! Bem aqui! – mostrou agarrando e unhando vingativa a
bochecha esquerda. – Imagine professor, podia ter sido o senhor! – gritou.
O mestre analisou e após um tempo discursou.
– Nesse caso o senhor dessa vez está perdoado, foi um verdadeiro
herói! Mas se houver outra vez me avise, heróis anônimos são muito sem
graça!
– Pode deixar! – afirmou Alonso.
Dora olhava para ele com cara de vitória.
– Viu como você precisa de mim? Não vai dizer nada, sei lá, algo como
palavrinhas mágicas! – ironizou.
– Obrigado! – sussurrou.
– Podia pedir mais alto, mas como estou em falta com você isso já
serve!
– Eu tinha coisas pra fazer e não dava para adiar! Você salvou o dia!
Ela ficou tão feliz que lhe deu um beijo selinho na boca e correu de volta
para casa feito uma moleca. Alonso só ficou olhando sorrindo profundamente.
Chegou chamando por seu pai para contar o episódio, mas a casa
estava em silêncio e ao vasculhar os cômodos encontrou a mãe virada para
cama de pé, chorando encolhida olhando para um papel que estava sobre a
cama. Quando viu a filha tentou disfarçar limpando as lágrimas.
– Ah! É você minha filha!
– O papai disse que viria pra cá pra irmos juntos ao New Dad Day! –
disse estranhando o clima.
– Ele pediu desculpas, mas precisou viajar novamente! Acho que esse
ano não vamos! Quem sabe o ano que vem? Eu estou com uma dor de cabeça
terrível! – queixou-se Lara.
– Eu entendo! Quem sabe o ano que vem! – consola Dora lendo o papel.
– Se ele ficasse eu era até capaz de dizer que faço uma obra social com
aquele Afonso!
– É Alonso mãe! – corrige a filha dando lhe um abraço entre risos e
lágrimas. – Dona Lara a senhora é única.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap29.

Os dias passaram rápidos após o New Dad Day frustrado de Lara, que
no primeiro momento não se conformou no ponto final dado pelo marido na
relação. Mas a mãe de Dora não é mulher de se deixar abater por problemas
de ordem maior. Segundo ela, o marido foi enterrado numa luxuosa e íntima
cerimônia particular. Pelo menos é o que imaginava contar para os
conterrâneos de New Park nos mínimos detalhes. Dora não agüentou a nova
neura da mãe que até de viúva resolveu se vestir, indo ao shopping e
reformulando o guarda-roupa inteiro com essa desculpa.
Voltou para seu loft em Holanda Garden, local que ela conhecia há tão
pouco tempo, mas que já amava como se vivesse ali a vida toda. Chegou à
noite e sem examinar nada resolveu cair direto na cama, só acordou de manhã
com estranhas batidas na porta. Parecia que arranhavam e esmurravam-na
com desespero até parar, recomeçando tudo de novo.
De início ficou com medo, pensando em ligar para alguém ou ignorar as
batidas, mas depois com a incessante insistência, foi se encaminhando
devagar para o barulho e quase sem respiração encostou seu ouvido esquerdo
junto à porta. Apenas o silêncio era notado para de repente surgir um arranhão
que prometia rasgar a madeira, Dora controlava-se para não gritar. Olhou pelo
olho mágico e não viu ninguém, até que se encheu de coragem e gritou.
– Se for você R acho bom parar e ir embora porque eu já chamei a
polícia e meus amigos!
Ouviu como resposta o silêncio, acompanhado de resmungos sem nexo.
Como sempre, ela perdeu a paciência e se encheu de coragem para abrir a
porta, furiosa. Já ia gritando novamente, quando observa o motivo daquilo tudo
a seus pés.
– Mell! Meu Deus, o que fizeram com você? – pergunta anestesiada
olhando o estado da moça.
Mell estava encostada na porta parecendo um trapo humano, vestindo
um pijama velho e sujo, com os cabelos crequentos. Via-se que não tomava
banho há muito tempo, não dizia coisa com coisa em seus sussurros e também
estava faminta.
– Mell! Quem fez isso com você? Como você chegou aqui? Quem te
trouxe? – perguntava sem pausa, desesperada tentando levantar a garota que
teve medo dela quando se aproximou e arranhou a porta como protesto.
Dora tinha a mostra pela primeira vez do que realmente R era capaz.
Pensava que só podia ter sido ele a fazer aquilo para não deixar nem sombra
do que foi Mell. A brincadeira de gato e rato havia ficado séria e se tornado
crime comprovado.
– Eu vou cuidar de você, vai ficar tudo bem! – disse chorando com raiva
do R.
Pegou o telefone e discou.
– Alô!
– Alô, Alonso! Eu preciso de você, venha me ajudar, por favor, agora! –
diz nervosa.
– Bom dia pra você também, Dora! Não é muito cedo pra brincadeiras?
– Não é brincadeira, eu preciso de ajuda! – grita, já com raiva de Alonso
também pela enrolação.
Ele percebe que é realmente sério e com uma melhor entonação
responde.
– Tá! É que você sempre brinca, já tô chegando, fica calma! – fala
desligando o telefone e correndo para se vestir.
Dora levantou Mell com muita paciência, se aproximando devagar e
praticamente a carregou com dificuldade até o banheiro onde a limpou como
pôde e depois a colocou na cama. Quando Alonso chegou, ela estava deitada,
mas muito agitada, Dora correu para recebê-lo.
– O quê aconteceu? – perguntou mostrando-se desalinhado como quem
se vestiu as pressas, trazendo consigo uma surpresa.
– Você não imagina! Eu estava dormindo e de repente ouvi umas
batidas estranhas na porta, fiquei com medo de abrir, mas depois me enfureci!
– Claro! É a nossa Dora! – desdenha Alonso.
– Me deixa terminar! Aí abri e quem estava caída aqui na frente? A Mell,
ou o que restou dela!
– Ela estava morta? – perguntou frio.
– Não, mas tá quase de tão mal tratada. Acho que ela foi seqüestrada e
os caras não tiveram a mínima pena.
– E por que você não chamou aquele detetive metido a sabichão, o Leo
Turner?
– Eu nem pensei direito, você estava mais perto. Mas por quê? Não
queria vir me socorrer? – desconversa Dora que não queria revelar sobre o
jogo de R a fim de protegê-lo.
– Não é nada disso e você sabe!
Só depois de toda essa conversa é que Dora notou a surpresa de
Alonso, ele estava acompanhado de um rapaz.
– E quem é esse? – perguntou curiosa.
– É meu amigo Romeo, que mora comigo, lembra? Achei que você
podia precisar de mais ajuda e resolvi trazê-lo.
Romeo que estava calado até esse momento cumprimenta.
– Olá! É um prazer finalmente conhecer a razão de tantas loucuras do
meu amigo!
– Ele está fazendo tipo! – diz dando uma cotovelada em Romeo.
– Vamos vê-la então! Quem sabe vocês me ajudam a arrancar alguma
informação dela!
Iam se dirigindo para o quarto quando Romeo comenta baixinho com
Alonso.
– Eu tenho que reconhecer que ela é uma ótima candidata para ficar
com você no futuro! Parece ter as qualidades exigidas. – anima-se.
– Fica quieto, não é hora e nem lugar pra esses comentários!
Entraram quietos no local onde se dividia como quarto e puderam ver a
garota um pouco melhor pelo trato que Dora lhe deu, deitada na cama muito
debilitada. Não tinha nada do glamour que ela tanto defendia antes de
desaparecer. Alonso e o amigo se impressionaram.
– Dora, temos que chamar o seu amigo detetive e um médico com
urgência! – sussurra Alonso.
– Avisar os pais dela também seria uma boa idéia! – acrescenta Romeo.
Este, curioso aproxima-se de Mell para observar seu estado mais de
perto quando a garota acorda num susto e recomeça sua lamúria
descontrolada. Agarra as mãos de Romeo lhe olhando profundamente com
olhos marejados dizendo.
– Eu sou uma peça quebrada! Todos nós somos, precisamos ser
consertados antes que nos joguem fora!
Todos se assustaram, principalmente Romeo que não era atraído por
fortes emoções. Tentou se soltar.
– Alonso me ajuda! Essa maluca não quer me soltar, bem que você me
disse que a vida dessa Dora não era comum! Estou aqui só há meia hora e
quase virei comida de zumbi! – confessa baixinho para o amigo.
– Cala a boca Romeo! Fica aí apoiando a Mell que eu vou fazer umas
ligações com a Dora e já volto!
– Não Alonso! Aqui sozinho! E se ela for uma louca agressiva? –
pergunta trêmulo.
– Não fale besteiras Romeo! Não queria ajudar? Conhecer a Dora? Pois
teve o que queria! Bem vindo ao nosso mundo de aventuras! – respondeu
Alonso deixando o amigo só.
– Nervoso o seu amigo! – comenta Dora.
– É só o jeito dele, mas é a melhor pessoa que você pode ter ao lado
numa emergência. – defende Alonso.
Foram chamar toda a cavalaria enquanto Romeo segurava a mão de
Mell que não o soltava por nada. Após algum tempo ela se acalmou dos
ataques e dormiu profundamente, o amigo medroso de Alonso então começou
a gostar de ser o porto seguro de alguém, pensou em como a garota seria sem
toda aquela sujeira e psicose, olhando em volta para tocar rápido e com os
dedos tremendo o rosto de Mell, num afago carinhoso que a fez suspirar
aliviada.
Um barulho se fez e ele disfarçou o ato com um meio sorriso que não
escondia a alegria repentina, Mell curiosamente também pareceu sorrir. Sua
expressão era da menina que agora sonhava bons sonhos e apesar de presa
por muito tempo numa torre havia finalmente sido libertada por seu príncipe.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap30.

Pouco depois das ligações de Dora e Alonso os pais de Mell chegaram


acompanhados por um médico e pelo Detetive Leo. Uma confusão de curiosos,
imprensa e interessados tomou conta do lugar e Alonso aproveitou a
oportunidade para sair à francesa. Até Romeo foi esquecido na fuga. Dora
reparou bem nisso e quando a situação se acalmou decidiu que iria descobrir
porque ele fugia sempre que tinha alguma coisa pública acontecendo.
– Eu vou descobrir seu segredo Alonso, seja você príncipe, bandido ou
super-herói! – pensou.
Ligou para Leo Turner e pediu para acompanhá-la nessa investigação.
Ficou combinado que iniciariam no dia seguinte, após a saída da faculdade.
– Olá Dora!
– Olá Detetive! Obrigada por me ajudar nessa suspeita!
O carro de Turner seguia Alonso de longe que dava passos cautelosos
em cada rua que entrava. Como se estivesse com medo de ser seguido. Dora
preocupando-se cada vez mais comenta.
– Se o Alonso for o R eu não vou me perdoar por ter caído tão fácil no
jogo dele. Principalmente depois de tudo que passamos e das coisas que eu
descobri sobre o David.
– Não se preocupe Dora! Se for ele é só o típico caso de dedo podre pra
escolher homem! Mais comum do que você pensa! Você ficou com o David
enquanto ele aprontava todas, depois com o Alonso quase de imediato pra
descobrir sobre o outro, enquanto eu estava aqui e você não me enxergou! É o
que eu ganho por ser um bom rapaz! – suspira concluindo a brincadeira.
Dora foi ficando vermelha, e desconcertada não respondeu nada.
Chamou a atenção de Leo para onde Alonso ia.
– Olha ele está entrando naquela mansão! – gritou.
– Nossa! Seu amigo deve ter grandes influências pra conhecer alguém
na Golden Rose! – disse Leo.
Ela com o coração apertado defendeu.
– Não! Com certeza ele está só trabalhando! – gritou.
– Ah! Claro, ele trabalha de quê mesmo? – desdenhou Leo.
Dora calou-se sem resposta com a insegurança lhe roendo a alma.
Ambos seguiram Alonso a semana toda e sempre era esse o caminho
principal depois da faculdade. Com cuidado dobrava as ruas até ir parar na
frente do casarão em Golden Rose. Ficava por lá uma hora aproximadamente
e quando saía fazia coisas que não condiziam com seu status bancário.
Comprava roupas em lojas de mais altas grifes, ia a restaurantes badalados e
conversava com figurões. Alguns lugares eram classificados altos demais até
para os padrões de Dora.
Ela só acompanhava toda a esbanjação do mais novo milionário,
abismada, pensando como ele era capaz de ser tão humilde e diferente na
faculdade diante dela e parecer outro longe. Pois enquanto ela se segurava
para não deixar transparecer que o seguia, ele contava dias inteiros de uma
vida que ela sabia serem mentira. A única coisa que fazia sentido na história
que ela já nem sabia que partes eram reais é que toda a tarde ele voltava para
Holanda Garden, para uma casa que de longe era a melhor do bairro e Romeo
também morava lá.
Leo acompanhava a angústia de Dora.
– Calma! Eu investiguei aquela casa e descobri que pertence a
estrangeiros da Baviera erradicados no país por cortesia do Consulado. É só
um homem que está viajando chamado Inaldo e sua esposa Corália. Então eu
juntei os pontos e... – não quis terminar.
– E o quê? – pergunta Dora soltando os bofes.
– Acho que ele se faz passar pelo cara ou é um simples michê, garoto
de programa ou até cafetão! – lançou.
– Não é possível, ele não tem cara dessas coisas!
– Se você tivesse a experiência que eu tenho saberia que não há caras
para o que as pessoas fazem! – explica.
Dora estava acabada achando que já sabia o segredo de Alonso,
combinou de se encontrar com Leo no sábado de manhã para surpreendê-lo.
Porém o Detetive ligou um pouco antes do horário combinado desmarcando o
flagra, pois estava preso numa ocorrência, teriam que fazer isso outro dia. Ela
entendeu, mas ficou furiosa por não poder acabar com o suspense de vez.
Coincidentemente Lara estava chegando nesse momento para visitá-la
quando ela tomou uma decisão tempestiva.
– Se não tem você Leo Turner, tem Lara! – sussurrou para si.
E gritando para a mãe começou a alertá-la sobre uma liquidação que
precisavam ir imediatamente senão perderiam as melhores peças.
O furgão não pegava então ela correu para o carro de Lara.
– Pisa fundo mãe! – gritou.
– Nossa é a minha filha mesmo! O quê você tomou? Onde é essa
liquidação, aliás? – perguntou brecando o carro desconfiando das intenções da
filha.
– Fica em Golden Rose! – respondeu Dora entusiasmada.
– Não precisa falar mais nada, já gostei! – Arranca novamente com o
Jaguar, recuperando o ânimo.
Dora pretendia encontrar Alonso na frente da mansão para por tudo em
pratos limpos, coisa que Lara nem desconfiava, mas a mulher que se mantinha
fina até certo ponto seria muito útil se houvesse um barraco básico com os
moradores da casa.
Enquanto isso, numa clínica psiquiátrica não muito longe dalí, Romeo
estava visitando Mell. Entrou devagarzinho, por não saber qual seria a reação
dela.
– Olá moça! – cumprimentou segurando um buquê de azaléias.
Mell, abrindo os olhos preguiçosamente respondeu.
– Olá! Desculpe, mas você é...
– Romeo! O cara que você não soltou mais a mão até chegar aqui. Eu
estava na casa da Dora com você, quando... você sabe! Mas como está
passando? Melhorou, lembrou quem fez isso com você?
– Não! Mas eu tenho dúvidas se quero lembrar, devo ter sido muito ruim
para terem feito isso comigo! – responde entristecendo-se.
– Pelo que me consta você não fazia parte da Liga da Justiça, mas
também não trabalhava para Lex Luthor. – brinca.
– Ha-Ha-Ha! – ri Mell do comentário – Mas independente de eu me
lembrar ou não, vou ser diferente do que eu fui e seguir adiante. – termina
séria.
– Mas para ser diferente é preciso se lembrar e isso vai acontecer na
hora certa. – apóia-lhe acariciando o rosto como na primeira vez.
Ambos ficam quietos, imóveis se entreolhando. Aproximando-se cada
vez mais sem notar, porém Mell quebra o clima.
– As flores são pra mim? – pergunta desviando o olhar.
– São sim, pra você! – responde Romeo dando-lhe sem tê-las onde
colocar.
Conversaram a tarde toda após o ocorrido, como sempre ele segurava a
sua mão para se divertirem com os desenhos que passavam na televisão. Mell
reluzia sorridente e em nenhum momento trazia de volta a sombra perversa de
outros tempos.
Mas em Golden Rose, Dora e sua mãe chegavam ao portão da mansão.
– É aqui querida? Abriu alguma nova sede da Taslu?
– É mãe! Como você sabia! E parece que tá tendo uma festa de
inauguração! – diz Dora.
Realmente estava havendo uma festa na mansão, e totalmente louca
seguiu o plano adiante e entrou de penetra. Felizmente os seguranças apenas
perguntaram o nome a Lara e anotaram, pensando ser da imprensa.
– Filha, as pessoas estão super bem arrumadas, algumas até de gala!
Será que não é melhor irmos pra casa nos arrumarmos melhor? – perguntou
Lara enquanto andavam pelo jardim da casa.
– Não! Estamos perfeitas, despojadas para o dia, essas pessoas é que
são bregas por ostentarem, amanhã vão aparecer nas colunas sociais como
despeitadas! – convenceu Dora.
Ela olhou para todo o canto, do garçom até o último convidado, mas
nada do Alonso. Resolveu entrar no casarão que mais parecia um palácio.
Esbarrou enquanto admirava num mordomo que ao olhar para ela admirou-se,
parecendo saber de algo.
– A senhorita é perfeita mesmo! Seja bem vinda! – cumprimentou
saindo.
– Eu, hein! Cara mais estranho! – disse espantada.
Tudo soava confuso até que os alto-falantes instalados pela casa
anunciaram.
– Senhoras e senhores, chefes e representantes de nações eu tenho a
honra de apresentar a vocês os Digníssimos representantes da Baviera nesse
país. O Cônsul Inaldo Aloha juntamente com sua esposa Corália e seu filho
Alonso.
Os três desciam as escadas do salão principal imponentes, trajando
roupas de gala onde Alonso mais parecia um príncipe.
Dora respirava fundo para não chorar, confusa e desesperada por não
entender o que estava acontecendo.
– Então ele era um príncipe! – sussurra para si mesma, pensando em
suas três suspeitas iniciais enquanto esperava ao pé da escada.
Alonso a vê conforme vai se aproximando, porém cumpre angustiado o
protocolo até o final. Assim que pode vai em direção dela e da mãe que está
petrificada.
– Esse morto de fome é rico! Não pode ser! – bufava.
– Não comenta muito alto Lara senão o Cônsul escuta e percebe que eu
roubei o filho deles e tô me passando por ele. – ironiza vitorioso.
Alonso pega Dora pelo braço e a leva para uma sala reservada. Ela está
meio alheia, sem digerir o acontecido, sua cabeça balançava num pesadelo
bizarro e encantado onde ela era a criada enganada.
– Se divertiu muito se fazendo de pobre coitadinho enquanto ria dos
suburbanos? – pergunta chorosa.
– Agora é a minha vez de explicar! – enfatiza Alonso.
– Eu não tenho tempo para hipócritas! – grita Dora que lhe dá um tapa
na cara, mas é rendida com um beijo ardente.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap31.

Mesmo sucumbida pelo beijo de Alonso, Dora foi mais forte para voltar a
si e dar-lhe um tapa na cara que não aceitaria suborno como forma de
explicação. Ficaram quietos por um tempo, um em cada canto da sala.
Pensando cabisbaixos por onde começar as resoluções dessa longa história.
Até que Alonso resolveu começar.
– Eu posso explicar agora? – sussurrou.
– Se você for começar com mais mentiras é melhor...
– Não! Dessa vez será tudo verdade, eu juro que só lhe brindarei com a
verdade, pra provar o meu amor de uma vez por todas! E se depois da
explicação você disser que não me perdoa, eu entenderei e sumirei da sua vida
pra sempre!
Dora pareceu relutante no início, mas depois se sentou calada,
concedendo-lhe uma chance. Alonso recomeçou.
– Você já ouviu falar na Baviera?
– Acho que sim! Um país que fica do outro lado do oceano! Mas o quê
isso tem a ver? – ela perguntou sem entender.
– Meu pai é Cônsul de lá! E eu deveria estar lá também se não fossem
alguns problemas sérios! – respondeu pensativo.
– Problemas? Você não é daqui então? – Dora espantou-se.
Alonso, nessa hora a olhava com olhos tristes, sabia que contar seus
segredos custaria o amor que tinha. Mesmo assim, tomou coragem e replicou.
– A Baviera é um importante centro comercial que une diversos países
nos mais diferentes ramos de negócio, por isso o país vive pisando em ovos
para ser bem guardado em seu direcionamento, pois se alguma coisa sair
errada as conseqüências poderiam ser catastróficas. O maior problema que
eles tem por lá é a família real que por mais que o parlamento tente dissuadir
sempre acaba falhando e são eles quem tomam as decisões finais.
– Mas você não precisa ficar no meio disso, seu pai é só um Cônsul e
está tão distante da Baviera. Não sei como isso te afetaria?
– Meu pai é só um Cônsul como você diz, mas eu sou o próximo
representante da família na linha de sucessão! Deveria ser meu pai, mas a
verdade é que nós somos desse país e não da Baviera. E com certeza eu seria
só um bolsista na Faculdade se não fosse por meu tio o Rei, que não tem filhos
nem mulher descobrir-nos em Holanda Garden.
Dora o ouvia boquiaberta sentindo as palavras de Alonso pesadas
conforme saiam de sua boca, ganhando seus ouvidos em choque.
– Isso tudo é inacreditável e confuso demais! E eu que achava que já
tinha todos os conflitos do mundo. Agora você me vem também com todos do
universo? Acho que não posso ouvir mais nada! – diz Dora saindo da sala,
quando Alonso segura em seu braço e pede que fique.
Ela cedeu, retornando de fasto para trás ficando a poucos metros da
porta no que seria a última e indecisa chance de explicar.
– Há uns dez anos meu tio estava sozinho e doente pressionado pelo
parlamento a entregar o poder, porém ele é um homem teimoso e mandou em
segredo que investigassem por parentes desconhecidos. Foi quando ele soube
que o pai dele, meu avô teve um caso com uma secretária particular que era
estrangeira. O rei então na época querendo abafar o escândalo mandou a
secretária de volta a seu país de origem sem saber que ela esperava um filho
dele. Meu pai então nasceu e ficou sem saber sobre sua paternidade até o dia
que meu tio mandou nos buscar e o nomeou Cônsul da Baviera pra que ele e
minha mãe pudessem desfrutar das mordomias da realeza.
– Esse enredo tá pior do que das novelas que minha mãe assiste! Mas
ainda não ouvi nada que te obrigasse a fazer parte do Clube do Pinóquio! –
gracejou Dora querendo aliviar o clima super tenso.
– Meu tio tentou de qualquer jeito validar os direitos do meu pai, mas o
parlamento negou dizendo que ele era ilegítimo e não tinha a formação
adequada. Aí ele muito esperto deslumbrou meus pais com tudo que pôde e o
poder subiu-lhes a cabeça, tanto que se esqueceram de mim. Meu tio distorceu
as leis e me fez seu sucessor que se prepararia com a devida formação.
Passando a perna no parlamento e fazendo muitos inimigos radicais.
– Mas isso é um absurdo! Alguém te perguntou alguma coisa? – revolta-
se Dora.
– Não! E mesmo que perguntassem eu só tinha doze anos! O pior foi
crescer no meio dessa guerra de gente falsa que me adulava enquanto tinham
seus próprios interesses. E como eu correspondia as expectativas exigidas
para assumir o trono, conspiravam até sobre meu assassinato.
– Eu imagino seu sofrimento! Se há uma coisa que eu não permito é que
me controlem! – Dora comove-se.
– Não tenho dúvidas de que em qualquer parte do mundo, em maior ou
menor escala todos nós vivemos numa New Park! Há uns dois anos eu
simplesmente cansei da minha vida e voltei pra Holanda Garden, pra terminar
minha formação e cumprir meu destino. E nesse meio tempo eu devo me
encontrar, me divertir e procurar uma esposa a altura da Baviera. – disse
olhando-a carinhosamente. – Condições impostas por meu tio pra que eu
viesse. Meus pais ficaram irados, achando que iam perder a boa vida com o
meu retorno, por isso vieram também e se acham os donos do mundo. O rei e
a rainha fora do reino, por isso eu os escondo da minha vida universitária, ou
logo as coisas seriam como na Baviera. – terminou.
– Mas ainda ficaram algumas pontas soltas! Por exemplo, o Romeo?
– Ele é meu secretário e melhor amigo. Nos conhecemos desde crianças
antes de eu ir embora.
– O medo da polícia e tudo que represente ser público?
– Eles poderiam me reconhecer ou ainda contar o que fiz a meus pais
que inventariam uma desculpa pra que eu tivesse que voltar pra Baviera.
– É, parece que você tem resposta pra tudo! – sussurra Dora indo
embora.
– Espera! Aonde você vai? – pergunta Alonso sem entender.
– Pensar, Alonso! Pensar... – já estava passando da porta quando Lara
a puxa com violência pra dentro novamente e discursa escandalosa.
– Filha eu não sei o que esse sujeito te contou, mas com certeza é
mentira! Isso tudo é uma armadilha pra te prender. Eu jamais faria qualquer
coisa pra te prejudicar, só queria te proteger!
Dora encara a mãe com surpresa e dispara.
– Eu não faço idéia do que você está falando Dona Lara!
Lara recobrou o juízo percebendo que havia falado demais no
afobamento. Começou a puxar a filha em sentido contrário.
– Me desculpe! Nem sei o que estou dizendo depois desse King-Kong
que você me fez passar! – desculpa-se fitando Alonso misteriosamente.
Dora desvencilhou-se da mãe e se sentou novamente.
– Lá vamos nós outra vez! Mãe quer ter a honra de começar a falar ou
eu vou ter que arrancar a verdade em suaves e cansativas prestações?
– Dora querida eu mandei que esse rapaz... – Lara ia dizendo quando
Alonso tomou a palavra.
– Dora nós não nos conhecemos por acaso! Sua mãe queria alguém que
ficasse perto depois dos momentos difíceis que você passou, por isso
contratou alguém pra te proteger!
– Vigiar! Você quer dizer! E esse alguém é... – soltou bufando de raiva
pelo abuso, apesar de já ter atinado quem era o espião.
– Foi pra chamar sua atenção que eu respondi atravessando sua
resposta, e não foi por acaso que eu apareci pra te ajudar na mudança. –
contou envergonhado.
Lara recomeçou.
– Você estava se descontrolando com facilidade, as pessoas
comentavam por todo lado. Então resolvi contratar um segurança, mas como
você jamais iria aceitar, ele teria que vir disfarçado de amigo! Aí procurei os
nomes dos bolsistas da faculdade porque eles aceitariam o trabalho e estariam
lá o tempo todo sem desconfiança! – conta com ar de vacilo.
– Foi então que Lara me encontrou por engano, pois eu só me matriculei
como bolsista pra despistar! Eu ia recusar, mas quando ví sua foto minha voz
comandou meu corpo e acabou aceitando e eu não me arrependo! – disse
Alonso sorrindo. – Ela começou a me instruir onde você estaria e como deveria
fazer pra chamar sua atenção.
– Por isso você apareceu pra me ajudar em Holanda Garden e logo
depois ela chegou! – compreende Dora enojada.
– Tudo se perdeu quando obviamente não aceitei o dinheiro e Lara
pensou que eu tinha intenção de ficar com você pra dar um golpe!
– Pensava não! Ainda penso! – grita Lara.
– E estamos nessa guerra que você já conhece quando nos
encontramos, mas ninguém teve coragem de revelar nada pra você!
– Era pro seu bem, pra te proteger minha filha! Se esse cara não fosse
tão complicado você não se machucaria com mais essa sordidez! Vamos
querida, você não precisa ficar aqui nem mais um minuto ouvindo esse verme!
– Ela me xinga com a boca cheia, mas se esquece que tentou me
atropelar no final do baile e ligava fazendo cobranças! Agora não se lembra
como me agradeceu por eu ter te seguido até a Carnation Street daquela
primeira vez! – ofende-se Alonso.
– Eu só te liguei, e se alguém tentou te atropelar é porque você deve
mais do que pensa! – retruca Lara.
Dora estava no meio dos dois exaltados, com as mãos tapando as
orelhas na tentativa de não escutar nada daquilo. Seus olhos jorravam lágrimas
dolorosas na respiração profunda. Até que dá um ponto final na discussão.
– Príncipe, espião, o que mais você vai me contar até o fim do dia? Vem
cá! Você é desse planeta? Porque se não for é só piscar e dizer que esse é o
momento! E claro a Santa Dora compreensiva vai entender! – ironizou irada.
Mal ela terminou as portas se abriram bruscamente e o Detetive Leo
apareceu do nada. Nenhum dos três entendeu sua aparição, mas Lara tinha
que desabafar a curiosidade em um comentário.
– Ah não! Só falta o país dele ser simpatizante ao terrorismo e eles
revelarem que escondem Osama Bin Laden em algum buraco!
Detetive Leo que conhecia Lara resolveu ignorar o que ela dizia e ser
direto. Já haviam muitos ultrajados com a situação, especialmente os pais de
Alonso.
– Estou apenas dando uma busca geral em conta de uma denuncia
anônima recebida esta manhã.
Não demorou muito e Leo desceu as escadas com uma mochila
reconhecida como sendo de Alonso que continha diversos cartões vermelhos,
fotos de David, de Mell sendo torturada, algemas, remédios, drogas e uma
arma. Tudo confiscado para averiguação. Alonso ao ver a cena se desesperou,
porém não mais do que Dora. Chorando e algemado desvencilhou-se dos
polícias para falar com ela.
– Dora acredita em mim! Eu não fiz isso, jamais teria coragem de te trair
e brincar com você desse jeito! – diz trêmulo e embargado pelo nervosismo.
Ela apenas olha para ele, e como se não estivesse enxergando nada
fala.
– Pois não foi isso que você e minha mãe acabaram de provar!
Após dizer isso ela sai deixando para trás um rapaz de coração
quebrado, uma mãe desnorteada e um circo de luxo.
– Eu preciso de ar! – grita desesperada enquanto corre pelas ruas sem
destino.
Alonso é levado para a delegacia.
– E eu que vim pra cá pra ficar longe de confusões! – pensa.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap32.

O relógio marcava o tempo perdido das horas de angústia em que Dora


só queria esquecer que existia. Deviam ser cerca de 22h45min quando ela
finalmente achou o rumo de casa. Apenas entrou e se deitou na almofada em
frente à TV, seu corpo doía, a cabeça pesava em pensamentos confusos que
não davam em lugar algum. Ligou-a para tentar esquecer o mundo, e a luz
repentina em meio à escuridão fez notar a expressão pálida e seca de tanto
choro e lástima.
Para variar, os canais não sintonizavam e ela não conseguia ver nada,
procurou numa gaveta algum DVD que pudesse assistir. Foi quando encontrou
um em especial, colocou-o imediatamente e assistiu jogada na almofada as
cenas que se passavam em New Park há pouco mais de um ano. A galera se
divertia junto com Dora e David, Mell sempre estava ao lado e eram tão felizes.
David era tão lindo, jovem, puro. Mell a amiga que morreria para defendê-la e
Dora, a garota mais cega e egocêntrica que já deve ter pisado na face da
Terra.
Ela via a filmagem com ar de pavor, era como se um estranho estivesse
assistindo sua vida passada. Aquela Dora ria demais, maltratava pelo simples
prazer de dominar e não enxergava nada do que se passava a sua volta.
– Que garota idiota! Ela merece tudo que está acontecendo! Pena que
agora ela sou eu! – conclui confusa pegando no sono.
De manhã o celular toca e num susto ela pula da almofada, sentindo os
primeiros sintomas da noite mal dormida.
– Alô!
– Eu preciso que você venha aqui na delegacia imediatamente prestar
seu depoimento! – intima Leo Turner.
– Ah! Bom dia pra quê, né? Agora já virou bagunça. Ninguém diz o nome
só ordena e a essa infeliz, cabe obedecer! – ironiza Dora.
– Bom dia Dora! Me desculpe, é que estou atrás de você desde ontem à
tarde, aliás não só eu como sua mãe, mas você sumiu e eu preciso que venha
depor sobre o que aconteceu ontem, urgente! Quem diria que seu amiguinho
cafetão acabou virando suspeito dos crimes!
Dora, seca não deu trela ao comentário de Leo e apenas respondeu.
– Vamos acabar com isso! Daqui a pouco estarei aí! – desligando em
seguida. Leo ficou abismado com a reação dela.
Não demorou muito, ela estacionou o Furgão na frente da delegacia e
recepcionada pelo Detetive contou tudo o que fez desde a hora que mentiu
para a mãe até o momento em que ele rompeu a porta da sala do casarão.
– É só isso que aconteceu? – perguntou Leo sério.
– É sim! Se você cumprisse melhor suas promessas estaria lá comigo e
veria tudo, sem a necessidade de tanto interrogatório! – respondeu irritada.
Ele já ia liberá-la quando um carcereiro cochichou em seu ouvido. Leo
então se virou para Dora e disse.
– Olha, eu sei que você está cansada e que não é fácil o que vou te
pedir, mas peço que pense com carinho! É que o rapaz ficou sabendo que você
estava aqui e quer te ver, acho que deveria aceitar porque poderíamos
observar se ele diz algo suspeito, que o acuse!
Dora começou a lacrimejar os olhos, sua pulsação aumentou e ofegante
respondeu sem pensar.
– Pode ser!
E lá estavam os dois frente a frente numa saleta escura, com uma mesa
os separando. Um espelho enorme em um dos lados, Alonso permanecia
algemado e demonstrava abatimento pela noite na cadeia.
– Quem é R? – perguntou Alonso sussurrando de cabeça baixa.
– Você deve saber muito bem! – respondeu Dora enfática.
– Você realmente acha que eu sou esse louco que te persegue, que até
ontem nem fazia idéia que existia? Nossa garota, eu acho que não te conheço!
Em que parte da história você decidiu me fazer de palhaço enquanto andava
pra cima e pra baixo atrás desse suposto assassino? Quando ia me contar da
sua compulsão de Sherlock Holmes?
– Pronto! Já vai se fazer de vítima! – ela grita quase se levantando.
– Não, pelo que eu sei esse não é meu papel! – ironiza.
– Eu não faço idéia se você é o R, um príncipe ou o espião da Lara.
Tudo que eu sei é que você mentiu demais e agora não quer pagar pelo que
fez!
– Se eu menti não foi mais do que você, foi pra te proteger...porque eu te
amava! – confessou desconcertado.
– Então somos dois porque a ingênua e indefesa aqui pensou a mesma
coisa!
– É, parece que nosso erro foi amar demais! Mas isso agora acabou! –
dita Alonso.
Dora então se cala surpresa. Alonso continuou.
– Isso não está dando certo! Desde que eu conheci você, minha vida
tem sido uma sucessão de desastres, e olha que antes já não eram poucos. Eu
nunca sei o que vai acontecer no próximo minuto numa escala entre a melhor
coisa do mundo e ir parar na cadeia acusado de assassinato. Eu adorava a
sensação, mas não dá mais! – E tomando fôlego sentencia. – É melhor parar
por aqui antes que aconteça o que nem sei como ainda não aconteceu, a morte
de um de nós dois!
Agora é ela quem abaixa a cabeça tentando esconder as lágrimas, não
disse nada como resposta, saiu apressada na primeira oportunidade em que a
porta se abriu. Alonso apenas suspirou magoado quando Dora o deixou
sozinho na saleta sem sequer dar-lhe adeus.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap33.

Toc – Toc!
A porta se abre rápida ficando nas mãos de quem batia a incumbência
de fechá-la.
– Não perderam tempo em fazer o trabalho sujo! Ou você ainda
continua com os planos de vingança? – pergunta Dora.
Ela se referia a Mell que finalmente deixou o hospital, acompanhada de
Romeo que não se separava mais dela.
– Nem uma coisa, nem outra! Só vim agradecer o que você fez por mim!
– respondeu Mell docemente.
– Então por que trouxe junto o Capitão Coragem aí?
– Ele está cuidando de mim! Acho que pela primeira vez na vida posso
dizer que tenho de verdade um amigo. – ela respondeu tocando o ombro de
Romeo.
Dora, engolindo a crítica real comentou sem jeito.
– É, dizem que ele faz isso!
Um silêncio constrangedor tomou conta dos três. Mell então respirou
fundo e começou.
– Eu não me lembro de nada ainda do que aconteceu, mas tenho
certeza que Alonso não é o cara que estão procurando. Não foi ele quem me
pegou, eu não sinto nada de estranho em relação a ele!
– Pronto! Tava demorando com a comissão de defesa! Olha pra quem
tem essa cara de santo eu tenho que concordar, o Romeo é muito bom
manipulador. Ele e o Alonso estão fazendo o serviço direitinho! – diz Dora.
– E depois dizem que a malvada da história sou eu! Dora presta atenção
no que você está dizendo, junte os fatos, pense um pouco. O Alonso não fez
outra coisa senão ficar do seu lado. Te protegeu nas horas mais improváveis
que ninguém mais acreditaria ou te ajudaria. Te perdoou tantas vezes! – grita
Mell segurando a amiga.
– Ele só fez isso porque era o trabalho dele pra me espionar pra minha
mãe! – sussurra Dora balançada.
– Não foi nada disso, e você sabe! Só não quer dar o braço a torcer, por
ter magoado um cara tão legal quanto ele. – termina.
– E se for verdade? O que eu faço? É tarde demais, ele encerrou
qualquer possibilidade de relacionamento quando fui à cadeia. – desilude-se.
Romeo que ouvia toda lamuria inconformado desabafa.
– Você e o Alonso são tão Shakespirianos! Sempre colocando
empecilhos no que deveria ser simples! Você gosta dele, ele gosta de você.
Claro, tem um maluco atrás de você e há pouco tempo ficou viúva! Mas... –
deduzia resmungando até que Mell lhe dá um tapa. – Mas o importante é que
vocês se amam e deveriam se unir pra enfrentar juntos tudo o que acontece e
ao invés disso saem brigando ao menor sinal de problema. E o pior, fazem
meus ouvidos de pinico, quando não me insultam ou me taxam de assassino
honorário. – continuava.
– Romeo! Romeo! – chama Mell.
– O quê foi? – grita irritado com a interrupção.
– Ela já entendeu, não é Dora? – diz Mell com expressão de “Pelo amor
de Deus concorde pra ele calar a boca.”
– Com certeza! Ele está na casa de vocês? – pergunta Dora
esperançosa.
– Não! Os pais o obrigaram a ficar com eles em Golden Rose ou teria
que voltar para a Baviera. – responde Mell pesarosa.
Dora então corre para o Furgão, deixando os amigos que agora ela
sabia serem de verdade dentro de casa observando sua reação. Em poucos
minutos estava nem sabe como na frente da mansão em Golden Rose. Os
seguranças não a deixavam entrar, tentou pular o muro atrás da casa, mas foi
pega e levada para uma salinha dos empregados para ser interrogada.
Esperou tristemente, achando que seria presa sem falar com Alonso,
porém a portinhola se abriu dando lugar a uma conhecida voz.
– Ora, ora! Como o mundo dá voltas! – desdenha.
– Por que tanta gente me fala isso? Você se surpreenderia com o
número! – diz envergonhada.
– Não será porque você sempre age impulsivamente achando que está
por cima da carne seca, mas o mundo te prova o contrário bem rapidinho?
– É, eu até assisti as cenas! Tenho gravadas pra provar seu ponto de
vista!
– Mas o quê de tão importante te trouxe aqui, a ponto de invadir a casa
de um assassino. Correndo o risco de ser assassinada? A necessidade
realmente faz coisas incríveis com as pessoas! – comenta irônico olhando para
cima.
– Segundo dois amigos meus, você não é tão perigoso quanto pensei!
Alonso se aproxima de Dora misterioso, a expressão não revelava suas
intenções. Foi chegando devagar, se agachando, tão perto de seu rosto a
ponto de Dora estremecer os brios e quase beijá-lo mandando tudo as favas.
Porém quando ele conseguiu o efeito que queria, apenas empurrou a cadeira
em que ela estava sentada dizendo.
– A polícia não precisa perder tempo com os seus chiliques! Vamos
para a sala de reuniões e aí você fala o quer de uma vez!
Dora desnorteada apenas o seguiu. Ele ainda mantinha a cara
enigmática quando entraram e se sentaram. Alonso estava muito formal na
cadeira de reuniões. As roupas sociais eram adequadas a posição ocupada,
até seus cabelos estavam diferentes, penteados como os de um engomadinho.
Ela percebeu isso e esperava que Alonso não tivesse se transformado também
por dentro. Antes de iniciarem a conversa um senhora uniformizada entrou e
manteve-se calada e carrancuda de pé ao lado da porta, até que ele a
dispensou.
– Nada por agora Helga, obrigado!
A mulher saiu do mesmo jeito, feito um soldado recebendo a dispensa
de seu general.
– Você tem três minutos antes da Conferência Internacional. – intima
ele.
– Eu só vim pedir desculpas pelo que aconteceu na prisão. E te dar
outra chance. Proponho que a gente se una pra descobrir quem é o R de uma
vez por todas!
– E o que te fez mudar de opinião? Pelo que eu saiba até hoje de manhã
o tal R era eu!
– Uns amigos me abriram os olhos, e se não é você então essa é sua
chance de provar!
– Primeiro, eu não pedi pra que esses amigos te procurassem! Segundo,
não preciso provar nada pra ninguém! E terceiro, você tá me magoando mais
uma vez me pedindo isso! – diz pausadamente sentindo-se ferido.
Dora então se levanta indo em direção a saída. Alonso mantêm-se
imóvel com as mãos sobre a mesa, embora quisesse não interrompeu a partida
assim como ela também não olhou para trás. Mais uma vez o orgulhoso
imperava sob o amor.
Chegou em casa contrariando o estado de espírito com que saiu. Mas a
resposta definitiva a seus problemas estava lá, debaixo da porta em forma de
um cartão vermelho e dizia.

OK! EU NÃO SOU O ALONSO! MAS FOI DIVERTIDO VER VOCÊS


NESSA DÚVIDA DE DRAMALHÃO MEXICANO. O JOGO ACABOU!
VOU MOSTRAR QUE SÓ EU A MEREÇO E FAREI ISSO HOJE!
ME ENCONTRE NA ESCOLA DE ARTES CENTRAL À MEIA NOITE.
ASS. R.

PS. VOCÊ NÃO SE ARREPENDERÁ, EU GARANTO!

Ela olha no relógio e percebe que já são 21h34min, apenas deixando o


cartão na mesinha, correndo rumo a escola para descobrir finalmente quem R
era.
Estava entrando quando encontrou Paris no portão.
– É só assim que a gente se encontra! – grita Paris animado.
– A vida anda complicada, você sabe! – diz Dora ofegante.
– Algum problema Dora? Parece abatida, posso te ajudar? – preocupa-
se.
– Não! É só a correria mesmo! Mas me diz, o quê você está fazendo
aqui essa hora? A faculdade fecha as dez! – ela pergunta curiosa.
– Eu prefiro esse horário porque é vazio e ninguém me enche! – justifica.
– Já eu, vim pra pegar um livro de última hora que faltou pra um
trabalho. Espero que não tenham trancado a biblioteca!
– Eu te faço companhia então! – diz Paris.
Dora tentou dispensá-lo, mas não teve jeito, ele a acompanhou até que
disse que iria ao banheiro e o encontraria na biblioteca.
– Rápido, senão nos trancam aqui! – gritou enquanto Dora seguia.
Ela esperou até que a escola fechasse e as luzes apagassem, contando
que Paris tivesse ido embora a essa altura, cansado de esperar.
Começou a procurar no escuro pelas salas e corredores algo de
suspeito, alguma luz acesa, qualquer coisa que desse sinal de vida humana,
porém não havia nada. Caminhou sem direção certa até escutar urros no
escuro, percebeu que vinham do teatro, Dora andou pé ante pé entrando
sorrateira pela lateral. De repente constatou num susto que os urros vinham de
Mell que estava no chão a frente do palco amarrada e amordaçada. Correu
trêmula para ajudá-la.
– Mell, de novo o quê está acontecendo aqui? Você viu ele? Quem é, a
gente conhece? – perguntou chocada.
Mell de volta ao velho estado só conseguia dizer.
– Eu disse pra ele que eu tô consertada, mas ele não quer acreditar!
Uma peça quebrada não tem conserto! Diz pra ele que é mentira! – grita
descontrolada.
Dora a solta e manda buscar ajuda. Continuou sua busca pelo doente
perseguidor.
– Eu sei que você tá aqui em algum lugar, não adianta continuar com
esse joguinho de gato e rato. Eu sei que sou mulher o bastante pra me expor
aqui sozinha, disposta a te conhecer e ouvir seus argumentos. Resta saber se
você é homem pra fazer o mesmo! – grita olhando para todos os cantos
escuros de que R poderia estar observando. Seu medo é que ele pulasse de
onde menos se esperasse para surpreendê-la.
Enquanto isso Romeo ligava as pressas para Alonso.
– Cara eu estou preocupado com a Mell e a Dora! – diz amedrontado.
– Por quê? Não se preocupe, se há uma coisa que eu aprendi em New
Park é nunca confiar nas garotas! Devem estar fazendo uma besteira qualquer
pra depois jogarem na nossa cara que foi culpa nossa! – fala Alonso
despreocupado.
– Não meu! A Mell não está em lugar nenhum, depois que voltou ela tem
pânico de ficar sozinha. Já liguei pra todo mundo que ela pudesse estar e não
a encontrei. A Dora nem em casa está! – desespera-se.
– Vai ver estão juntas! – suspeita Alonso. – Mas tudo bem, vou até aí!
Alonso encontra-se com Romeo na frente do loft de Dora. Bate, insiste,
mas nada dela. Já preocupado manda que Romeo vá buscar o detetive Leo.
Pensa, até que toma uma decisão.
– Desculpe Dora, eu juro que conserto! – diz arrombando a porta.
O cartão foi a primeira coisa que viu e ao lê-lo saiu correndo também
para a Faculdade.
– Droga! O quê você pensa que está fazendo Dora. Eu já te disse uma
vez que arrogância não dá superpoderes! – pensa.
Na Escola de Artes Central Dora ainda não havia obtido resposta de R,
quando de repente as grossas cortinas vermelhas do palco começaram a se
levantar, por trás delas é revelada uma visão aterradora. Paris estava no meio
do cenário pendurado pelo pescoço com uma corda o enforcando, parecia
morto. Dora gritando tentou tirá-lo dela, mas foi inútil.
Ela apenas se virou e desceu para a platéia. Ficou parada com o choque
sem perceber que uma movimentação acontecia atrás dela. Foi sentindo uma
mão gelada e suada tocar-lhe os ombros que vivaz perguntou.
– Booo!!!!! Eu sou um ótimo ator não sou? Merecia um Oscar pela minha
atuação. Não é fácil interpretar essa personagem sonso que é o Paris. Fica pior
se a peça se chama vida!
Dora diante disso só conseguiu gritar.
– Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap34.

Ela se vira em direção à voz.


– Paris! Que brincadeira idiota é essa? Dessa vez você passou de todos
os limites! – grita Dora histérica.
– Ha-ha-ha! Nossa! Nem se eu enfiar uma faca no seu peito você vai
perceber, não é? – diz Paris possesso. – Por que você me acha tão incapaz,
fraco e inocente? No fim tudo isso é perda de tempo porque você jamais
descobriria que eu sou o R. – termina decepcionado.
– O R é você, mas por quê? E justo comigo, eu que só te ajudei e não fiz
outra coisa senão te defender de New Park inteira a ponto de ser expulsa!
Você não sabe o quanto sofri esses meses!
– Ah eu vi sim! Olha o que você tá dizendo? Me ajudou? Defendeu?
Será que era isso que eu queria de você? Sempre me viu como um garotinho
ingênuo e bobo, alguém que jamais estaria à altura da divina Dora. Talvez
pegasse bem defendê-lo, mas dar a ele o que merecia, a atenção que queria aí
já era demais. Porque como todos os outros, você me acha um estranho e no
fim das contas o único sentimento seu em relação a mim é pena! – grita
encarando-a.
– Se é realmente isso que você acha eu não posso fazer nada! –
sussurra trêmula deixando uma lágrima solitária escorrer. – E se eu já senti
alguma coisa boa por você se transformou nisso tudo que você disse, pois só
sendo muito covarde e estranho pra seqüestrar e aterrorizar pessoas como
você fez!
Quando Paris se afastou frustrado com as palavras duras que ouviu
Dora tentou correr para a mesma saída lateral que havia entrado, mas ele foi
rápido e conseguiu agarrá-la pela cintura arrastando-a de volta e jogando num
assento da platéia.
– Você é um covarde! Desgraçado mentiroso, mas foi perfeito!
Realmente enganou todo mundo sendo o incompreendido! Quem dera usasse
essa habilidade para o bem, pra enfrentar os problemas! – diz limpando-se
enojada dos braços de Paris.
– Eu te falei quem eu era o tempo todo, no baile e em todos os lugares.
Usando máscaras de injustiçado, de amigo, de bonzinho, carente. E você é
uma hipócrita porque disse pra todo mundo que mudou, mas não foi capaz de
ver a verdade bem de baixo do nariz. Francamente, alguém que passa por uma
transformação interior tão profunda de monstra líder fashionista a defensora
dos pobres sem estilo certamente perceberia o quanto o “Pobre Paris” era
Fake. Mas você não viu nada, não é? Porque nunca olhou realmente pra mim!
– grita com violência avançando sobre ela.
Dora encolheu-se na cadeira assustada e ofegante. Surpresa com esse
novo Paris desequilibrado que possuiu o corpo do outro.
– Mas qual o motivo real de toda essa história? Você só falou e falou e
eu ainda não entendo, por que ser vítima quando podia ser o maior dos vilões?
– Porque eu te amo Dora e só um coitadinho perfeito poderia te
conquistar pela dependência! Meu Paris estava na medida certa, mas você se
encantou pelo David sabe-se lá o motivo e depois com o caminho livre surgiu o
Alonso. O que você viu nesses caras? E olha o nome desse outro! – responde
debochando.
– É simples, eles eram de verdade enquanto você é uma mentira!
– Ah tá! Um macho alfa que não valia nada e um príncipe falsificado de
um paísinho de quinta que te seguia pra sua mãe e só te contou a verdade
porque foi obrigado! Mas você mereceu eles, você me merece e nós todos nos
merecemos, essa é a grande verdade final! – ri ironizando.
– Não é bem assim, nossas escolhas foram com a intenção de fazer a
coisa certa, enquanto você só pensou em ferrar New Park inteira! – desespera-
se Dora.
Paris sentou-se na cabeceira do palco e observando Dora acabada no
assento falou vitorioso, porém carregando uma expressão de pesar.
– Pistas pra você ganhar o jogo não faltaram! Eu realmente fui bonzinho!
– diz fazendo doce. – Mas agora você perdeu e terá que se casar comigo! –
dita eufórico.
– Ca-ca-sar!!! – diz Dora recuperando-se do seu estado de letargia.
– Ha-ha-ha! Sua cara tá impagável! Faz a minha loucura valer à pena!
Acalme-se! Eu só tava brincando, pelo menos por enquanto! O objetivo do
jogo foi outro, provar a você (e eu consegui) que ninguém desse lugar maldito
presta a não ser eu e agora você irá embora comigo!
– Pra briga ou casamento é preciso que os dois queiram e de você
agora só quero distância! – esbraveja tentando sair mais uma vez.
Paris a alcançou e a pegou pelos cabelos arrastando novamente até o
assento. Dizendo sem paciência.
– David era o sol enquanto eu era o asteróide invasor do sistema solar!
Só então ela se deu conta do pior ponto em Paris ser R e nesse
momento Dora fez a pergunta mais difícil de toda sua vida.
– David? Quer dizer que você matou seu irmão? – espanta-se, pois tinha
uma esperança que ele havia enlouquecido com o assassinato e não o
cometendo.
– Não, eu jamais seria capaz de matar o meu querido irmãozão! –
responde Paris após certo mistério.
Logo após a resposta ouviram a porta principal do teatro ranger ao
fundo, era impossível distinguir quem estava entrando em meio a escuridão.
Dora não se levantou, pois sábia que Paris a agarraria novamente. Decidiu
então gritar rapidamente.
– Soocoorrro!!!! Tem um cara louco aqui querendo me seqüestrar!!!
Após o pedido de ajuda Paris facilmente a soltou e ela instintivamente
correu na direção do suposto salvador. Só quando chegou bem perto pôde
perceber que tinha a silhueta de alguém conhecido e de repente num susto
confirmou suas suspeitas.
– Aidan? – perguntou trêmula. E sem ouvir uma resposta continuou. –
Seu primo está louco, quer me raptar! Foi ele quem matou o David, seqüestrou
a Mell, me manda os cartões! Ele se faz de sonso, mas na verdade quer
destruir com todo mundo! – conta desnorteada.
Ele pega em seus braços e começa a rir compulsivamente. Olhando
fixamente em seus olhos, dizendo algo sem dizer, mas que na verdade ela já
deveria saber.
– Aidan, você está nisso também? Acorda! Ele matou o próprio irmão,
seu primo! Aidan? – pergunta desconfiada.
– Tente de novo, querida! – ele responde recompondo-se.
Dora sem acreditar na loucura que se passava na sua cabeça perguntou
novamente.
– David?
Escutando a seguinte resposta.
– Olá Dora! Que saudades que eu senti de você!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap35.

– Não! Mas como é possível? Eu confirmei com a sua mãe que o Aidan
existe, ví uma foto dele e tudo! – diz inconformada.
– Claro, uma foto de quando era pré-adolescente, aposto! – desafia
David.
– Ela me mandou uma foto por e-mail, contou que ele mora em Roseville
e que é sem dúvida muito parecido com você...
– Muito parecido a ponto de pertencer mais a nossa família que o Paris!
O mesmo discurso abominável de sempre. E avoada, esqueceu-se de
acrescentar que ele tem doze anos e é aluno num colégio interno. A foto que
você viu é dele atualmente.
– Você, você é um monstro igual ao seu irmão, se são da mesma família
não é por acaso! Brincaram comigo e com as outras pessoas como se
fossemos peças de um jogo idiota no tabuleiro. Esse Aidan nunca me desceu
pela garganta, mas agora eu sei que ele era só você sendo o cara que queria
ser! – sussurra chorosa com raiva enquanto David a segura. Paris via a cena
mais adiante largado nos assentos.
Como resposta, estranhamente magoado com as ofensas, David
resolveu contar o começo e quais eram as regras do tal jogo.
– Quando pegamos a Mell, ela começou com isso de peças, já
desconfiada da nossa brincadeira! Dá pra acreditar, justo a Mell, que
convenhamos num teste de Q.I não obtém lá um número muito significativo.
Dois dígitos então são quase um milagre! – ri desdenhoso. – Mas foi brilhante,
não foi? Quem desconfiaria do priminho? E se desconfiassem, a desmiolada da
minha mãe mostraria a foto e quem adivinharia que o garoto é ele hoje em dia
e não o Aidan, no caso eu, na infância? Tá certo! Ela poderia acabar contando
ou alguém entendendo, mas o Aidan é quase meu clone e porque não
aproveitaria essa coincidência tão a calhar! Correr riscos só faz tudo ter um
gosto melhor! – termina vitorioso.
Paris então se aproximou do ex-casal e imprensando-a contra David
sentiu o cheiro suave e peculiar do corpo que ele tanto desejou e que até
pouco tempo estava sob o domínio de seu irmão.
– Conte a ela como nasceu a idéia que nos trouxe a esse momento! –
cochichou.
David, acariciando o rosto de Dora com o olhar orgulhoso no irmão
revelou.
– Uma aposta! Esse momento aconteceu por uma aposta! – ri.
– Paris e eu estávamos em casa, assistindo porcaria na TV e tomando
cerveja barata que escondíamos pra dias como aquele, que só enchendo a
cara pra agüentar quando no meio da conversa surgiu um comentário meu
sobre você. “A Dora ainda me amaria mesmo se eu estivesse morto!”. Paris
duvidou e disse que te faria me esquecer fácil se tivesse uma chance. A
conversa foi ganhando detalhes por toda à tarde até se transformar em aposta
e finalmente plano.
– E vocês tiveram a coragem de dizer a palavra amor tantas vezes
enquanto não amavam nem a si próprios! – diz Dora abismada se retirando do
meio deles.
David sem se abater continuou.
– Nossos primeiros inimigos foram nossos pais, mas eles nos ensinaram
a respeitar os papéis de cada um na vida. Mesmo quando se é abandonado
pelas viagens desnecessárias que fazem e te transformam num cara
supostamente perfeito e outro em total perdedor. Nós mantivemos os nossos
papéis até o fim e ninguém jamais desconfiou que nos falássemos em casa.
– Mas você pulou de um prédio e depois todo mundo te viu jogado na
rua lá em baixo!
– Um bom show de magia precisa de detalhes que o façam verdadeiro e
amarrando todos os pontos se transforma em realidade. Deu certo, New Park
acreditou inclusive você a espectadora V.I.P. Eu pulei sim, mas estava preso a
uma corda especial de alpinismo que ficou totalmente invisível na escuridão.
Paris tomou dessa parte a explicação para si.
– Eu precisava de um álibi então arranjei confusão aparecendo na porta
do Clube e quando corri para longe dei a volta no quarteirão a tempo de voltar
atrás do prédio, ver Mell indo embora após a briga com David e ele se prender
a corda que eu segurava exatamente segundos antes de você chegar. Ele
pulou, se soltou rápido e eu sumi na noite antes que alguém viesse.
Emocionante!
– Aí Paris! Sempre se contentando com pouco e fazendo de suas ações
verdadeiras peripécias! Sinceramente obrigado por você existir e fazer a
diferença. – debocha David rindo do irmão.
Paris ofendido corre em sua direção e lhe dá um murro na boca. O outro
apenas limpa o sangue no canto dos lábios e depois de uma cuspidela dita frio.
– Fracote!
Dora estava horrorizada com a espécie de “união” que eles tinham e que
nem nos piores sonhos pensou em conhecer. Minutos depois ambos se
recuperaram e dando as mãos como crianças fazendo as pazes continuaram
no clima anterior a briga.
– Nós pagamos e chantageamos um médico viciado que também vendia
anfetamina e qualquer coisa que lhe proporcionasse uma viagem para
constatar a minha morte no beco. O caixão foi fechado e quando se tem pais
relapsos e ricos o poder é ilimitado e eles não vão ligar pro que quer que você
faça. Não vão se importar nem se não puderem dar adeus ao filho! – ri David
com os olhos marejados recebendo o apoio de Paris. Fui morar em Isla Del
Flores nossa ilha particular que meus pais jamais visitaram, mas ajudava Paris
a vigiá-la pra saber como ia a aposta.
Dora ouvia a história debruçada numa das cadeiras sem expressão
alguma. Era impossível saber sequer se estava realmente alí.
– Eu estava ganhando de lavada no início, aí o Paris tentou com toda a
incompetência dele te conquistar... – dizia David quando foi interrompido.
– O ser perfeito tem que criticar os erros dos humanos. Me desculpe por
ser um mero mortal! Na próxima encarnação juro que tentarei ser um ciborg
como você! – reclama Paris.
David não deu importância e arrogante continuou.
–... Mas você o dispensou surgindo assim o R e as pistas de onde ele
planejava te salvar nos perigos, porém apareceu o Alonso que ninguém
convidou pra entrar no jogo! – grita descontrolado. – Dou colher de chá pro
meu irmão, mas pra esse cara mentiroso é demais! Sem falar no detetive a tira
colo. O que foi Dora? Você queria montar um harém? Nunca tinha percebido
isso em você antes! Talvez tudo fosse evitado se tivéssemos nos mostrado! Eu
até que gosto dessa nova Dora, que dá trabalho, mas torna a vida mais
interessante e não a previsível do Shopping.
– Eu não ligo mais! – sussurra sem forças, derrotada na cadeira.
– Bem! O jogo acabou, deu empate e todos vão viver pra sempre em Isla
Del Flores longe de mais problemas e desse teatro chamado New Park. –
termina David carregando Dora grogue para o carro. Paris ia atrás limpando as
provas.
Enquanto isso em Holanda Garden a polícia chegava ao loft de Dora.
Encontraram a porta aberta e vasculhando rápido viram o bilhete que foi
entregue ao Detetive Turner e Romeo que o acompanhava. Leram e correram
para a faculdade, mas quando chegaram só encontraram Mell desmaiada em
um dos banheiros, era tarde demais, já haviam partido.
Não muito longe David, Paris e Dora se dirigiam a Isla Del Flores e
deixavam New Park cada vez mais para trás.
– Nos quatro seremos muito felizes lá! – diz Paris entusiasmado
quebrando o silêncio.
– Nós quatro? – pergunta Dora mais consciente.
– Ah! Eu não te contei! O Alonso também veio, ele passou lá pela
faculdade e eu resolvi trazê-lo! Está aí atrás no porta-malas! Lá tem muitas
paisagens pra você ir visitá-lo num túmulo bem bonito que vamos construir.
Você escolhe o lugar! – comenta David eufórico.
Dora mediante a confissão de David baixou a cabeça e começou a rezar
punitiva. Não ligava em ser um objeto nas mãos dos dois loucos que de certo
modo ela contribuiu para que chegassem aquele estado, mas levaria seu amor
a morte por ter sido corajoso para salvá-la. Estava perdida e perderia o seu
verdadeiro e único amor.
– Isso sim é perder! – pensava inquieta.
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap36.

Já era quase noite do dia seguinte quando após muitos quilômetros de


estrada e uma balsa chegaram à isolada Isla Del Flores. Dora e Alonso
estavam com as mãos amarradas e de olhos vendados, por isso não puderam
se ver quando foram retirados do carro. Ela carregada por David e ele
conduzido por Paris. Porém ambos sentiam suas presenças.
– Alonso! Você está bem? Eles te fizeram alguma coisa? – gritou Dora
virando a cabeça para os lados em sua procura.
– Eu estou bem! Fique calma que tudo vai dar certo! – respondeu Alonso
tentando manter o controle.
Imediatamente foram levados para dentro da casa da península que
ficava escondida na copa das árvores centenárias que cresciam em desordem
na luxuosa ilha abandonada pela família, até que os irmãos a descobriram.
Cada um foi levado a um quarto e lá foram deixados por seus
carcereiros que bateram a porta ao sair. Alonso esperou alguns minutos e sem
obter resposta acabou tirando a venda, viu que estava num requintado
aposento de hóspedes decorado com motivos de praia e um forro de madeira
trabalhada. Tudo da melhor qualidade que o dinheiro podia comprar. Ao centro
um enorme espelho e uma cama de casal encontrada apenas nos melhores
hotéis. Sentou nela ainda zonzo enquanto pensava o que iria fazer.
Dora foi deixada deitada na cama e também esperou algum tempo até
se certificar que estava sozinha, tirou a faixa dos olhos e constatou a mesma
pompa no ambiente. Se levantou olhando ao redor, buscando um meio de
escapar. Estava vasculhando as paredes quando ouviu bem de perto um
espirro.
– Quem está aí? Alonso é você? – perguntou desesperada percebendo
um duto de ar entre os quartos.
– Sim, eu mesmo! Eles te machucaram? – respondeu aflito.
– Não! Mas eu não me importo! O que me preocupa é você que não tem
nada a ver com essa história absurda e acabou alvo dela.
– Não se culpe por nada Dora, como você já deve saber, eu sou o cara
das confusões, e se não estivesse nessa com certeza estaria sofrendo
atentados na Baviera, sendo alvo de tubarões em alguma viagem sem sentido,
ou sabe lá Deus o quê! Mas principalmente porque eu acredito que eles não
vão nos fazer nada, pois não passam de dois garotos mimados querendo
chamar atenção!
– Não se arrisque tentando me salvar! – alertou Dora ao ouvir os
argumentos dele.
– Você também não! – aconselhou Alonso.
Um minuto apreensivo de silêncio tomou conta dos dois, porém Alonso
tomou coragem para dizer o que queria.
– Dora, eu te...
Estava quase terminando a frase quando a maçaneta da porta se
moveu. Paris apareceu ligeiro diante dela carregando algumas roupas.
– Se você tentar alguma gracinha a Dora é quem vai sofrer as
conseqüências. É o preço que se paga por amar, nunca se está livre ou
sozinho em seus atos. – disse ameaçador, porém com inveja nos olhos por não
ter o mesmo que Alonso.
Como resposta ele baixou a cabeça e Paris entrou no quarto deixando
as roupas sobre a cama e desamarrando-o em seguida.
– Se vista para o jantar com essas roupas, o banheiro é naquela porta,
lá já estão toalhas e produtos de higiene pessoal. Não demore, nós não
toleramos atrasos! – instruiu seco apontando para a porta do banheiro.
Já estava saindo quando Alonso o alertou.
– Você não vai se sair bem dessa! O David eu não sei, mas você com
certeza vai se dar mal, quem você acha que ele vai culpar quando vocês forem
pegos? Quem vai acabar como o irmão malvado dessa história?
Paris parou de costas enquanto ouvia, mas após uma pausa continuou a
caminhar e fechou rápido o quarto feito quando entrou. Dora aproveitou a saída
para perguntar.
– O quê você estava dizendo?
Ele retomando a coragem continuou.
– Eu te a...
Novamente foi interrompido, dessa vez pelo barulho na maçaneta do
quarto de Dora. Paris também entrou no quarto levando um vestido que
colocou na cama e depressa desamarrou as mãos dela como se salvasse sua
amada do sofrimento, beijando-as quando finalmente ficaram livres. Dora
retirou-as com nojo, e Paris percebendo se levantou saindo furioso.
– Você era tão legal, tão meigo! Se tivesse alguém com quem dividir um
segredo no mundo esse alguém seria você Paris! O quê aconteceu? O David
não merece isso e você sabe, vai acabar pagando por ele! Quem sabe se você
melhorasse a gente podia recomeçar a amizade! – sugeriu amenizando a cena.
Paris se volta para ela com os mesmos olhos nebulosos da saída se
aproximando voraz. Apesar de querer dizer alguma coisa permaneceu em
silêncio engasgado em seus sentimentos, com a garganta apertada, ofegante
por não conseguir se libertar. Apenas voltou-se para o lado e com uma chapa
de ferro tapou o duto, não sendo mais possível escutar o que se passava no
outro cômodo.
As horas passaram e o jantar ia ser servido. Alonso foi trazido para a
sala de jantar de luxo igual ao restante da casa e alocado à enorme mesa
comprida que definia o ambiente. Dora foi trazida por David que não pôde
deixar de comentar.
– Você está linda meu amor! Melhor do que nos tempos de patricinha,
esse toque selvagem fez bem a você!
Dora realmente estava linda, num vestido preto de veludo longo que
delineava seu corpo e esculpia suas perfeições com maestria. O cabelo estava
preso num coque improvisado de muito bom gosto, além de um escarpã preto
nos pés e apesar de abatida sua beleza ainda a salvava da imperfeição.
– Hum! Quanto tempo, dinheiro e vida perdidos! Tudo porque não
sabíamos quem éramos. Se é isso que você quer eu aceito, vamos embora pra
um lugar onde possamos nos descobrir como somos de verdade, onde
ninguém nos conhece, só nós dois! Tudo que peço é que deixe o Alonso pra
trás! – propôs Dora suplicante numa última cartada enquanto se
encaminhavam para a sala de jantar.
Ele não respondeu nada apesar de perceber sua mão tremer por alguns
segundos. Apenas a colocou na frente de Alonso naquela mesa enorme,
ambos se olhavam desconcertados vestidos para a festa macabra dos irmãos
malucos.
– Olha, não é interessante todos nós aqui juntos hoje depois de tanta
perseguição e reviravolta! Esse mundo é mesmo louco! Claro que nós
ajudamos um pouquinho, mas se não fossem as coincidências da vida o que
teria sido da nossa história? Um brinde a isso! – bradou olhando para os outros
três na mesa enquanto erguia uma taça com vinho.
Paris brindou rindo como irmão, ignorando a gravidade do que
acontecia. Alonso e Dora não fizeram qualquer gesto, estavam com uma das
mãos algemada na cadeira e a situação era revoltante demais para brindes.
– Alonso que ama Dora, que amava David, que é irmão de Paris, que
não é amado por ninguém! Não é interessante? – perguntou se dirigindo a
cada um deles, rindo como um descontrolado.
Do nada ele se refez e sério ditou.
– Paris, vá buscar o prato principal!
Paris se retirou trazendo em seguida uma travessa de prata fechada por
um tampão redondo. Ele se posicionou feito um chefe de cozinha orgulhoso na
frente do irmão esperando que ele o contemplasse.
– E o cardápio de hoje senhoras e senhores é... Miojo? – perguntou
espantando, surpreso e com ódio do irmão por fazê-lo pagar aquele mico. –
Miojo, Paris? Sorte que você passou do prazo de devolução, pois você
conseguiu, eu te devolveria agora! Achei que tivesse algum dote gastronômico
no meio de tanta esquisitice, mas tudo bem. Foi erro meu te dar competência
pra alguma coisa! – termina culpando-se.
– Só porque eu sou mais inteligente que a maioria isso me dá super
poderes pra saber cozinhar? – pergunta Paris ofendido.
– Eu não disse exatamente inteligente, quis dizer bichona esquisita,
todas sabem cozinhar! – David grita histérico tentando deixar claro seu ponto
de vista na resposta.
Porém do mesmo jeito que antes, ambos se acalmaram do nada e se
abraçaram.
– Por que somos assim? – se perguntaram.
Dora e Alonso assistiam a cena boquiabertos.
– Não se preocupe Paris, está tudo bem! Quantos caras no mundo
puderam se gabar por terem tido miojo na última ceia? – perguntou David
desdenhoso olhando para Alonso.
O jantar transcorreu sem mais alardes a não ser pelos olhares
preocupados que Dora e Alonso se davam de vez em quando. Até que David o
finalizou.
– Jantar encerrado, é hora do grande acontecimento da noite! Alonso
você parece cansado meu amigo, mas agora vai descansar em paz, pra
sempre!
Nessa hora Paris entra com uma pá e produtos de jardinagem, além de
um saco preto. David algema Alonso e o faz seguir para fora da casa enquanto
Paris faz o mesmo com Dora.
– Não! Por favor! – gritava ela apavorada.
– Escolha um lugar! – mandava David implacável. – Escolha ou eu mato
ele agora e você nos ajudará a arrastá-lo até o pior lugar que eu puder
encontrar!
David colocou uma arma na cabeça de Alonso e começou a deslizá-la
fingindo apertar o gatilho de vez em quando.
– Escolha! – gritava cada vez mais sem paciência.
Até que ela sem saída gritou.
– Na beira do rio! – referindo-se ao riacho que cortava a ilha e ia dar no
mar.
– Ótima escolha!
Chegando lá, Paris logo aprontou uma cova num canteiro de flores
silvestres debaixo de uma árvore tão antiga quanto às outras, na margem
direita do riacho que a luz do luar ganhava um azul escuro intrigante e belo ao
som apenas das corredeiras inquietas.
– Cenário de filme, se deu bem Alonso! Agora vamos levá-lo a sua
última morada. Anime-se, vai morar nas minhas terras e nem vou te cobrar
aluguel por isso! – ri David indevidamente.
Alonso percebe que não tem mais jeito e olhando para Dora mergulhada
em lágrimas e dor soltou uma lágrima de arrependimento, não por ter
participado da vida dela, mas por não poder participar mais.
David recolocou o revólver na cabeça de Alonso e divertiu-se.
– Preparar, apontar, fogo!
– Naaaaaããããoooooo!!!!!!!
Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap37. Final.

– Ups! Não foi dessa vez! – diz David alucinado ao perceber que o tiro
havia falhado. – O próximo não vai falhar, eu não deixei tantos buracos vazios!
– termina.
Alonso e Dora por uma pequena fração de segundos respiraram
aliviados pela falha do revólver. Apenas aproveitavam o tempo que parecia
infinito mediante a situação vivida. Nesse momento se entreolharam
profundamente, fechando os olhos em seguida na mesma hora, relembrando
todos os episódios e acontecimentos desde quando se conheceram até ali.
– “Quando conheci meu amor, a vida era um mistério sem sentido que
havia levado embora tudo que costumava conhecer e chamar de amor, mas
estava errada, era engano, eu não existia, enquanto pensava possuir entre
todas as coisas também o mundo. Mas ele chegou e me mostrou a duras
penas que eu não possuía nada, não era nada. Não existia, nem sequer
respirava de verdade para agradar quem não me enxergava, e ainda dizia ser
feliz.”
– “Quando conheci meu amor, usava máscaras por medo de assumir
quem eu era. Não que fosse mal, só não era verdadeiro. Já havia enfrentado
tantas coisas que nem havia escolhido, e quem podia pensar que fugindo dos
problemas iria encontrá-los aos montes e decidir enfrentá-los com prazer em
nome dela.”
– “E nós rimos.”
– “Choramos.”
– “Lamentamos.”
– “E agora estamos aqui, na reta final de uma vida, de uma jornada que
deveria continuar e se prolongar perante os séculos imortalizados, mas não
será assim e é por isso que eu te pergunto...”
Eles abriram os olhos, e fixamente o imortalizando na memória Dora lhe
perguntou apenas movendo os lábios trêmulos de emoção.
– Valeu à pena?
Alonso, rindo docemente, satisfeito em viver só mais aquela cena
respondeu.
– Cada segundo!
Ambos sorriram chorosos frente a frente e todo o drama seguinte deixou
de existir. Mesmo separados estariam juntos para sempre.
David e Paris observaram a reação derrotados. Nada do que haviam
feito podia separar o casal que se formou com tanta adversidade. Estavam
feridos e tudo o que queriam agora era acabar com a dor que só aumentava.
Além dos pais também foram rejeitados da pior maneira possível por uma
mulher. David então ia voltando a apontar a arma, dessa vez implacável para a
cabeça de Alonso quando ele lhe deu uma cotovelada. Um golpe que seria
tudo ou nada. Ele caiu para trás e antes que pudesse recuperar o equilíbrio
acabou prendendo o pé num entulho que estava à beira do riacho e acabou
caindo em sua ribanceira, prendendo-se com as mãos.
– Dora, meu amor me ajuda, por favor! – gritou David ao perceber que
ela o procurava na beirada, esforçando-se para enxergar algo na escuridão.
– Sinto muito! Dessa vez eu não devo, mesmo que pudesse! – responde
aturdida.
Paris, ao ver o que aconteceu com o irmão se jogou para cima de
Alonso e ambos rolavam no chão numa briga selvagem.
– Dora, você é melhor que ele! Se você pode salvá-lo faça isso e deixe
que outra pessoa faça o que tem que ser feito! – grita Alonso com dificuldade
no meio da briga.
Dora ia puxá-lo com a ajuda de um galho, porém David havia escutado
que ela estava fazendo aquilo só porque Alonso havia pedido. Ele a observou
nos olhos e debulhado em seus próprios pesadelos se soltou antes que ela
pudesse pegá-lo. Ela novamente presenciou aqueles olhos verdes se perderem
depressa em meio à noite. Olhos que se perderam mais uma vez, olhos que
sempre estiveram perdidos.
De repente um barulho de sirene se aproximava do local e Paris
congelou ao notar que David não estava lá.
– David!!! David, cadê você!!!! Seu idiota, você disse que sempre
estaríamos juntos se perdêssemos ou ganhássemos! – gritou inconformado.
Paris, desesperado se soltou de Alonso que tentou segurá-lo e sem
saída foi para a ribanceira, olhou ao redor como se despedisse de tudo e
afastou-se para trás até que não houvesse mais chão. Caiu envolto num grito
trágico de Dora.
Minutos depois a polícia chegou trazendo Leo, Romeo e Mell que se
lembrou finalmente onde esteve enquanto desapareceu. O casal os esperava
abraçados, consolando-se sem acreditar que agora havia acabado.

PARIS, TRÊS MESES DEPOIS.

Dora, Alonso, Romeo, Mell e o Detetive Leo Turner que em Paris


preferia apenas ser chamado de Leo passeavam pela Chans Elisé. Estavam
tentando esquecer aos poucos todo o sofrimento dos últimos meses e devagar
a vida ia voltando ao normal, daqui um tempo esperavam voltar ao seu curso
naturalmente.
– Não acredito que entre tantas cidades da Europa a gente veio parar
justamente nessa! – comenta Dora.
– Dora, qual é? A gente não tem culpa se uma das melhores cidades do
velho mundo foi usada pra homenagear quem não prestava, não é? – pergunta
Mell.
– Mell, olha esses comentários querida! – repreende Romeo beijando-a.
– Desculpe! É que às vezes eu tenho umas recaídas... E sorry, é Paris!
– Tá não precisa ficar repetindo! – chateia Leo.
– Calma gente! O Leo só está assim porque ainda não conheceu uma
gatinha européia pra espantar o frio! – debocha Alonso.
– Ah tá! Vai rindo da desgraça alheia! Vocês estão acompanhados
enquanto eu me sinto uma vela gigante! Casaizinhos melosos! Tão romântico!
– devolve Leo.
– Não se preocupe amigo, se você não achar ninguém aqui eu te
arranjo alguém na Baviera nem que seja por decreto real!
– Obrigado, mas e eu lá sou homem de precisar que decretem algo pra
ficar comigo, acho que não!
Alonso e Leo continuavam o embate enquanto andavam brincalhões
pelas ruas de Paris. Mell e Dora vinham mais contemplativas atrás.
– E então Dora, o futuro te promete um reino? – pergunta Mell mais
introspectiva que antes.
– Talvez, mas na verdade eu não faço a mínima idéia! Só sei que estou
bem com Alonso, com minha mãe e quero continuar assim. Passamos por
muita coisa estranha e agora que estamos vivendo a parte boa queremos ficar
assim por um tempo. O futuro espera e inesperado acontece. – responde Dora
apoiando-se na amiga.
De repente, ao olhar por uma viela Dora reparou num vulto que pensou
conhecer e com a espinha gelada tomou um susto e reagiu de imediato.
– O quê foi meu amor? – perguntou Alonso retirando-a do transe.
– Não, nada! Não foi nada! – respondeu recuperando-se.
Alonso então a abraçou e como lhe fazia bem um abraço como aquele,
acariciando seus cabelos e apoiando a nuca com cuidado. Brevemente ele a
fez esquecer seus medos e juntos seguiram viagem no que seria uma tarde
divertida.

PARIS, MEIA HORA DEPOIS.

O telefone toca num condomínio de luxo em Montmartre, quem atende é


uma francesinha afetada e muito conhecida nas altas rodas de dezenove anos
chamada Amélie.
Trim! Trim!
– Oui! Olá mon amour! – atendeu com entusiasmo. – O quê vamos fazer
essa noite, mon petit?
– Nós vamos sair, vamos a um baile muito especial na Torre Eiffel! –
respondeu a voz do outro lado.
– Mon dieu! Então tenho que me preparar com toda elegância que essa
cidade puder me oferecer! – assustou-se.
– Não! Você será sempre linda, não importa se estiver de pijama ou
moleton! Mas se quer uma dica o baile é preto e branco!
– Prometo que não vou te decepcionar! J’ taime!
– Te amo também meu amor, sempre!
De repente outra voz se ouve ao fundo.
– É Amélie? Espera, eu quero falar com ela! – grita.
– O idiota do meu irmão quer falar com você! Não precisa ser gentil!
O primeiro passou o telefone com rudez para o segundo e saiu vitorioso.
– Olá Amélie! Quanto tempo, hein? Só saindo com o bobo do meu
irmão!
– Ele é uma pessoa incrível e você também é! Pena que não se
entendam e possam descobrir isso!
– Mas vá ao baile também Bizarre! Pardon! Posso te chamar de Bizarre?
– Claro, você pode tudo!
– E você vai?
– Vou ver o que faço!
– S'il vous plait! Estou te esperando!
– Tá, você ganhou! Eu vou!
– Ihupí! Merci!
Turim desligou o telefone confiante enquanto Tarso aplaudia sua
performance de coitadinho.
– Muito bom, realmente muito bom, mas eu duvido que Amélie fique com
você nem que seja pra salvar a minha vida! – desafia Tarso.
– Isso é uma aposta? – perguntou Turim.
– Pura e simples!
– Podemos até inverter as personalidades se você quiser, mas eu ganho
assim mesmo! Nem que seja um coitado moribundo! Eu ganho sempre, mas é
só pra te provar, afinal aposta é aposta. Sempre!
– Dessa vez vamos até o final e nada nem ninguém vai nos impedir!
Ambos apertaram as mãos e seguiram e busca do domínio da cidade.
Amélie não sabia, mas estava preste a ir a uma festa onde ela veste
preto, mas o baile é em Paris.

Fim.