Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa.

Mila Olivier

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa.
Mila Olivier.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap.1 – Bom dia New Park, são 10h45min da manhã, o sol está brilhando lá fora e a galera quer te ver! – Não enche! Eu quero dormir mais um pouquinho, plis! – diz Dora querendo assassinar o rádio relógio.

Nome: Isadora Réquiem Status: Riquinha Mimada (Paty mesmo!) Idade: 21 anos Hobby: Organizar a vida social e casos perdidos. Livro de Cabeceira: Delírios de Consumo de Becky Bloom Frase: “Eu quero, eu posso, eu consigo”.

– “Cause we're living in a material world / And I, I'm a material girl.”– toca o celular. – Alô! Sweet! – Oi meu amor! A senhorita me daria a honra de acompanhá-la à festa dessa noite? – Festa? Como assim? Trata-se do Grande Baile Anual Rosa. Tenha respeito! – diz indignada. – Ah! Claro! Esqueci como essa coisa de evento é importante pra você. Me desculpe! – Vou pensar no seu caso. Eu me mato pra organizar um acontecimento descente, pra fazer as cafonas se tornarem ao menos pegáveis e você e seus amigos reduzem tudo a uma simples festa, tenha dó! – Calma meu amor, não vamos começar. Só liguei pra confirmar o horário de te pegar. – Aff! As oito está bom! – Não fica brava linda! Um beijo do seu David!

Nome: David Silver Rock Status: Herdeiro e Esportista exemplar Idade: 22 anos Hobby: Ajudar os menos favorecidos. Livro de Cabeceira: A arte da guerra. Frase: “Mais do que de críticos, os jovens necessitam de modelos.” (Joseph Jobert).

– Tchau! Até mais! Dora ia desligando quando uma voz aparece no fundo. – Espera! Me deixa falar com ela! – O Mané quer falar com você. – avisa David desanimado. – Ai David, pára de falar assim do seu irmão. Ele é tão meigo, sensível. Você precisa respeitá-lo e aprender mais com ele. – A tá, pode deixar meu amor! David passa o telefone para o irmão que vem alegre atender. – Toma! Vêm falar com a amiga, deixa de ser frouxo e acha uma namorada pra você. Bobão! O garoto, que na maior parte do tempo era fechado, calado em seu mundo nerd se transformava toda vez que falava com Dora. – Oi estranho! – Oi Dora! Não entendo como você agüenta esse brucutu do meu irmão. Como a genética pode ser cruel de vez em quando. – Ha-ha-ha! Aliás, prometi não te chamar mais de estranho, então olá Paris.

Nome: Paris Silver Rock Status: Herdeiro e Nerd alto nível Idade: 20 anos Hobby: Presidente do Fã Clube Jornada nas Estrelas. Livro de Cabeceira: A estrada da noite. Frase: “Que a força esteja com vocês.”

– Vai Paris! Eu preciso ir, vou arrumar os últimos detalhes do baile, dar um jeito naquelas mequetrefes e dar um jeito em mim também que eu não sou de ferro, né! E você vai, não é? – Não sei... Todos aqueles idiotas prontos a tentar destruir mentes superiores pra se sentirem melhores com suas vidas decadentes. – Ah! Paris não dá bola, eu vou estar lá com você, não ligue pra eles não e aproveita, eu acho uma garota no ponto pra você, a melhor que puder arranjar, juro! – Tudo bem, vou pensar! – Não pensa, vai! Um beijo, no baile a gente se fala! – Ai Dora, só você pra me socializar! Beijão! Eles finalmente desligaram o celular e foram fazer o que toda a galera jovem de New Park já estava fazendo a horas, parecer o melhor possível para impressionar e não pagar de perdedor na frente de outros riquinhos vazios e presunçosos, mal sabiam eles que esse baile mudaria suas vidas para sempre.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap2.

– Lá vem ela! Como está linda! – Tem razão Senhora Lara. – diz David.

Nome: Lara Manford Réquiem Status: Socialite Baladeira Idade: Aparenta ter uns 40, mas não confirma nem sob tortura. Hobby: Viagens e Desfiles de moda. Livro de Cabeceira: Comer, amar e rezar. Frase: “Sô chique no último benhê.”

– O tipo de mulher que merece uma surpresa hoje, não concorda David? – Claro Sra. Lara.

– Mãe! – Grita Dora envergonhada. – Só estou querendo te ajudar boba. Quando é que ele vai fazer o pedido, a vida passa e nossas posições precisam mudar. Lara é o tipo de mulher madura e linda que não poupa comentários, sempre está no meio dos furacões que acontecem em New Park e se uns a chamam de moderninha intrometida outros adoram suas respostas. Ela se define apenas como realista. – Não liguem pra mim, tolinhos! Eu só quero ajudar. Mas era verdade, ninguém podia negar como Dora estava linda descendo as escadas com seu enorme vestido negro tomara que caia cravejado de brilhinhos num estilo corpete na parte de cima e uma saia bufante na medida. Seus cabelos compridos e castanhos estavam presos num coque desalinhado, uma maquiagem leve e sapatos de salto agulha pra acompanhar. – Eu mereço tanto? – pergunta David tomando-lhe a mão. – Já não basta minha mãe vem você também, vamos logo antes que eu desista e vá calçar coturnos. – A Sra. não vem? – pergunta o rapaz esperando. – Não! Vão vocês crianças! Não quero fazer concorrência pra ninguém, mas divirtam-se. Quase vinte minutos depois David já estacionava seu Porshe vermelho em frente ao prédio conhecido como Clube de New Park, quem era alguém ou tinha seus quinze minutos de fama tinha que passar por lá ou não teria existido realmente. – O que foi? – pergunta David. – Nada, só um mal estar. Você não se cansa às vezes desse mundo de festas e aparências, fazendo poses o tempo todo. Algumas vezes chego a achar que sou uma boneca de papel que só serve pra se vestir. – Não é nada, você só está nervosa querendo que o baile dê certo! – diz ele enquanto lhe acaricia o rosto e dá um beijo em seguida. – Você tem razão, vamos! – anima-se Dora dando-lhe a mão.

– Respire fundo! – diz para si própria. Entraram juntos e logo puderam perceber o olhar de todos em cima deles, pois toda a galera estava com alguma tonalidade de rosa e vermelho enquanto que Dora era a Dama de preto. – Dora o que é isso, quebrando sua própria regra? Se você não fosse minha melhor amiga eu seria obrigada a me vingar! – Desculpe Mell, foi uma idéia que eu tive agora quase na hora de vir. O vestido rosa que fui provar com você estava manchado, estranho, não ia rolar.

Nome: Melissa Alonso Duprat Status: Riquinha e Melhor amiga (Paty n°2) Idade: 21 anos. Hobby: Ajudar nas causas perdidas de Dora. Livro de Cabeceira: Coleção Gossip Girl. Frase: “Compras, compras, compras. Ah! E alguma coisa divina.”

– Tudo bem, dessa vez passa porque vocês são o casal mais show desse baile e porque essa sua borboleta rosa aí atrás em forma de laço tá um must! – termina Mell toda eufórica. À partir daí o casal não teve mais tempo, pois Mell puxou Dora para um canto e David foi conversar com seus amigos. – E então? Ele vai fazer o pedido hoje? – Não sei Mell, você e minha mãe hein, só pensam nisso! – Mas se não fizer tudo bem, porque a gente vai pra Faculdade de Moda no próximo semestre e lá você vai ter mais tempo pra repensar sobre esse relacionamento. – Pára Mell, sempre decidindo tudo, me dá um tempo tá! Dora ia passando no meio do salão quando David lhe dá um puxão e a toma nos braços para dançar. – Você ainda não me concedeu aquela dança. – cochicha em seu ouvido. – Eu estava indo pra cozinha conferir o Buffet e... – Deixa pra depois e vem.

Eles dançavam lentamente como se não houvesse mais ninguém naquele salão apenas os dois e a música que os envolvia por entre a fumaça e os balões. Seus corpos voavam juntos pelo espaço escuro e a única luz existente era a refletida pelo brilho de seu vestido e a alegria de seu olhar. Nada mais podia lhes atrapalhar, pois eram um só corpo. – Isadora, eu preciso falar com você. – diz afoito. – Claro, o que é? – pergunta Dora quase caindo. – Você gost... De repente todos escutam gritos vindos lá de fora e Dora não consegue ignorar. – Ai, só pode ser brincadeira, eu tenho que ir amor senão sobra pra mim. – Você tem certeza? – pergunta o moço. – Até daqui a pouco. – responde ela desvencilhando-se. Chegando lá fora percebeu que se tratava de uma briga ou quase covardia que estavam fazendo com Paris, ele estava tentando entrar enquanto a turma o barrava. – Alienígenas não são permitidos, sinto muito. – Sai da minha frente, a Dora me convidou. – diz raivoso. – A tá, provavelmente por dó, se toca e some daqui, nerd. – Nãaaooo!!! – grita furioso. Dora já estava chegando ao centro da confusão, mas Paris percebe e não querendo passar por mais uma cena onde ele precisaria ser protegido por ela sai correndo antes que ela consiga alcançá-lo. – Paris! Vocês hein, como são empata festas! Os rapazes não ligaram e Dora viu que aqueles sim eram casos perdidos, resolveria com Paris mais tarde, agora era hora de voltar para David. Ela procura e não encontra, pergunta a todos onde ele está até que alguém responde. – Ah, o David, vi ele indo para o telhado. – Telhado, que estranho, deve ser pro pedido ficar mais romântico. A garota corre para o terraço do prédio e quando abre a porta já sem fôlego para a felicidade ouve outro grito que dessa vez chama seu nome. – Dorrraaaa!!!!!

Era David, ele estava caindo do prédio e era possível ver apenas suas mãos tentando se agarrar a beira dos 16 andares aos quais ele estava pendurado. – Meu amor, me ajuda, segura! – grita ele. Dora tenta agarrar suas mãos como pode, mas o peso é muito e o vestido começa a rasgar e a levá-la com ele. – Não vou soltar, eu juro, nem que meu braço caia! – grita chorando e histérica. Ficam assim por alguns minutos, porém Dora está cada vez mais para fora do telhado até que David lhe olha nos olhos e diz. – Tudo bem, você tentou, agora me larga. – Não, nunca! – Dora, me larga não tem jeito! Dora continuava insistindo até que David dá um ultimato, balançando-se. – Dora larga, eu sinto muito, mas não deu. Ele balança, soltando-se da garota que vai para trás e volta compulsiva chorando com o olhar vidrado ainda a tempo de ver os olhos verdes de seu amado perderem a cor em meio a escuridão que se fazia mais densa quanto mais ele caia. – Nãaaaooooo!!!!!!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap3. O mundo corre rápido lá fora enquanto Dora apenas o observa da janela de seu quarto, isso já faz 5 semanas, mas ela não consegue esquecer a noite do baile, em sua mente ainda está com aquele enorme vestido negro esperando que David venha lhe buscar dizendo que tudo não passou de um pesadelo. Foi assim que ela dormiu na primeira noite, estirada ao chão olhando para o teto, tentando alcançá-lo em vão e é com essa mesma esperança que ela acorda todas as manhãs para recomeçar tudo novamente.

Até que numa dessas manhãs o telefone toca mais uma vez, Dora como de costume pensa em não atender, deixar tocando até que desistissem, porém ela atendeu. – Alô! – diz desanimada. – Oi querida! Até que enfim você atendeu, onde você estava, na lua? – Infelizmente não, mas preferia estar. Oi Mell! – Oi linda, como você está? – Respirando! E você? – Eu estou bem, mas pelo visto você não está, não é? – Eu estou ótima, é engano seu! – responde enfática. – Amiga, por favor, as coisas não são as mesmas desde..., você sabe. As festas, as compras, New Park precisa do seu sorriso, do seu agito, as barangas estão pensando que dominam e tudo está fora de ordem! – grita Mell desesperada no telefone. – Isso vai passar! – sussurra Dora conformada. – Não, não vai porque você não faz nada a não ser ficar trancada nessa sua torre bancando a princesa aprisionada. Nós precisamos que você continue. Sua mãe, eu, David e que nojo, até o Paris precisa disso! – grita Mell. – E o quê você quer que eu faça, as coisas são assim, David não vai voltar, não poderá se divertir conosco e era tudo tão novo, tão mágico. – Recomece, apenas recomece. – Como? – Vindo ao chá que eu organizei. Tudo tranquilo, apenas nós e mais algumas meninas, trago algumas pra você iniciar novos projetos, uns bem complicados pra você não pensar em mais nada, prometo. Dora expressou um tímido sorriso e após pensar respondeu: – Tudo bem, hoje você ganhou, estarei aí às três! – É assim que se fala, um super beijo, até lá! – termina radiante. Ela desliga o telefone com a consciência de que não será fácil.

Dora não conseguia se divertir, não encontrava motivação como antigamente, pra onde quer que olhasse só via uma única pessoa em todos os cantos, sorrindo, falando, dançando e fazendo gracinhas. Prometendo-lhe um beijo doce pra lhe tirar o ar e fazer da vida um baile cor de rosa. Sua boca cheirando a morangos, seu cabelo lisinho e macio parecendo o tocar das nuvens e principalmente sua pele de gosto e aroma de pêssego. Mas agora tudo era diferente, ela vestia preto, mas estava em um grande baile cor de rosa.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap4.

Por volta das 15h25min da tarde Dora ainda permanecia na frente da casa de Mell, não conseguia dar os passos finais pra tocar a campainha. Rodeava e pensava em tudo que havia acontecido e se queria continuar nesse mundo de aparências, pensava se reiniciar a guerra diária com os outros habitantes de New Park seria uma boa forma de passar a vida. – Vai logo, deixa de ser boba! – diz uma voz familiar. – Ahhaamm! – resmunga Dora inconscientemente. – Vai ficar aí o dia inteiro? – pergunta novamente a voz. – Aaaahhhh!!!!! Não pode ser! – grita a garota. – Tanto pode que aconteceu, sou eu David! – diz sorrindo. – Você voltou? Como? – pergunta histérica. – Talvez seja um fantasma ou só uma reprodução da sua consciência, mas o que importa é que estou aqui então vamos aproveitar. Toque a campainha e apenas deixe rolar! Dora tocou a campainha e a amiga vendo-a pela câmera de segurança logo correu para atendê-la. – Que bom que você veio e atrasada como manda o figurino, já chegaram umas dessas fubás no horário, pontualidade em festas é tão démodé! Será que essa gente não tem ninguém pra ensinar o básico da educação, mas agora tudo isso vai mudar porque Dorita voltou! – grita animada.

Atravessaram toda a enorme mansão de Mell rumo ao jardim onde estava acontecendo o chá, até então tudo estava tranqüilo para Dora, mas de repente a garota abre a grande porta do jardim e dá de cara com praticamente toda New Park numa enorme festa na piscina. – Nossa, parece que caímos numa armadilha! A Mell é uma vadia! – cochicha David abraçando Dora e rindo da situação. A garota estava pegando fogo por dentro, queria estrangular Mell, mas queria se matar também, afinal foi muito ingênua de cair no papo dela. Aquilo era New Park, ali nunca se baixa a guarda não importa o que aconteça. Mell começa a se explicar sem parar. – Ai amiga, desculpe pelo volume de pessoas, mas você sabe como é, começam com umas cinco pessoas que contam pra mais cinco e quando se vê todo o bairro está aqui. Fugiu do meu controle, principalmente quando souberam que você viria, eu não sei como. O que eu podia fazer, nos queimar diante de toda a galera! Você compreende, não é? A garota estava prestes a explodir, mas David a segura pelo braço e diz. – Vai meu amor, mostra pra ela! Dora então respira fundo, olha pra todos os curiosos e responde. – Não se preocupe amiga, o passado não importa e se corrige no futuro com o que fazemos no presente. O que você podia fazer? – pergunta Dorita ironicamente. – Que bom que você entendeu! Eu te adoro! – diz Mell abraçando-a. A garota logo se desvencilha da amiga e começa a andar por entre os convidados até que é puxada para um grupinho de meninos. – Oi Dora, como tá indo com tudo? – Muito bem, seguindo! – Quando a Mell avisou pra galera que você vinha como convidada de honra todo mundo confirmou presença. – Ah! A Mell avisou todo mundo é! – disse bufando. – Que bom que você esqueceu aquele perdedor do David, o cara era um covarde se matando no seu baile. Sempre soube que ele não batia muito bem da idéia.

– O David não se matou, ele foi assassinado eu tenho certeza disso! – disse quase não se contendo. Que legal alguém que se dizia o melhor amigo falando uma coisa dessas! – ironizou Dora. – Meu melhor amigo, não! Ele é que ficava me seguindo, eu só deixava rolar. – terminou um deles rindo. – Com licença, eu preciso de ar. – terminou a garota. Ela corre em direção a uma varanda escondida no outro lado do jardim e lá permanece respirando, com nojo e assustada com os comentários que havia ouvido. – Os caras são demais, não são? – pergunta David reaparecendo. – É, acho que assassinos possuem mais lealdade entre si. – Não fica assim, você sabe como eles são. – consola. – Acho que não sabia de nada, onde foi que estive esse tempo todo? – pergunta caindo em si. – Deixa pra lá, eu preciso ir agora e pra sempre! – entristece David. – Não, você não pode me deixar aqui no meio dessas víboras. O quê eu vou fazer, não vou conseguir sem você! – se angustia Dora. – Claro que vai, porque você é esperta e especial o bastante para sobreviver a todos eles, ao contrário, são eles que não estão prontos pra você, meu amor. – Adeus! Foi um prazer te acompanhar e sempre será eternamente. David ia caminhando para fora do jardim deixando Dora inconsolável sentada num banco de vime quando ele volta e à toma pela mão. – Mas antes uma última dança. Eles dançaram em meio as flores que não delatavam o amor que estava acontecendo junto a elas e não deixavam transpassar a arrogância existente lá fora. A vida seria perfeita uma última vez, a melhor tarde de suas vidas. De repente risos e alguém se aproxima, mas Dora não percebe. – Dorita o que você está fazendo aí sozinha? – pergunta Mell. Dora estava de braços erguidos e olhos fechados dançando sozinha na frente de todos. E agora?

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap5. – Eu só estava ensaiando uma coreografia que estou criando e precisava de um lugar calmo pra dar um tempo. – diz refazendo-se do flagrante. – Ah, claro! Bem que me disseram que ela estava ficando louc... – cochicha Mell, que não engoliu a desculpa. Dora a interrompe antes que ela pronunciasse a última letra, perguntando. – Ficando o quê? O clima entre elas estava cada vez mais tenso e só não ficou pior porque começa uma muvuca perto da piscina e ambas são atraídas pra lá. – Resolvemos depois! – diz Dora. – Será um prazer querida! – sussurra Mell rindo maquiavelicamente. A dona da festa logo entendeu o único motivo que levaria à confusão qualquer recepção dada em New Park, gritando. – Paris! – O que ele está fazendo aqui? – Eu o convidei achando que você ficaria mais à vontade Dorita, mas não precisou e ele levou a sério o convite, eu não imaginava, realmente tenho que admitir que ele tem coragem! – Nossa Mell... – bufa Dora no cúmulo da paciência. Os rapazes estavam segurando Paris pelos braços enquanto o garoto que se dizia antes melhor amigo de David falava. – Se você acha que o quê aconteceu muda alguma coisa, tá muito enganado, você continua sendo um alienígena pra nós e seu irmão covarde provou que era um também! – terminou rindo. – Ou vai ver se matou porque não agüentou viver com esse maluco. – ri outro deles.

– Caia fora daqui agora ou vai preferir sair jogado? Paris não responde nada, apenas se mantêm firme e quando iam jogando-o para fora, um deles tem uma idéia. – Esperem! Antes ele precisa tomar um banho pra não dizer que não aproveitou nada da festa! – Joga! Joga! – todo mundo grita. – Calma gente, esse garoto está meio perturbado, ele já tá saindo! – grita Mell tentando acalmar o pessoal. – Mas Mell você me conv... – tenta falar Paris. Ela finge que não escuta e continua. – Dêem um crédito, gente! – diz tirando o menino das mãos dos caras. Até que Dora não agüenta mais a hipocrisia e explode. – Cheggaaaa! Parem com isso, que espécies de animais são vocês que se acham melhores que todo mundo! Não respeitam ninguém nem nos piores momentos, um bando de urubus podres que só querem ver a carniça do outro. O silêncio era geral, todos estavam assustados com a crise que Dora havia acabado de ter, mas no fundo estavam mesmo com medo da verdade que ela havia jogado na cara deles e que se não fosse ignorada destruiria todo o reino dourado de relacionamentos de New Park. Mas o silêncio é quebrado. – O que foi Dora, se somos urubus você é a nossa rainha porque caso não esteja se lembrando quase todo mundo que está aqui já foi projeto seu, não eram adequados a seus padrões e agora que está por baixo dando uma de maluca quer que a galera te siga também? Acho que não queridinha essa você perdeu. Você tá tão maluca quanto esse Nerd e se quiser sair com ele ninguém vai te impedir, isso eu garanto. – Eu errei sim, mas reconheço isso agora e ainda a tempo de me salvar de você, sua manipuladora!

Dora tremia, mas estava aliviada por dentro por ter aberto seu coração, aquele sentimento de reprovação estava com ela muito antes da morte de David e este momento era só o estopim. – Que grupo patético! Um alien, um suicida covarde e uma patricinha neurótica! O que mais falta? – desenha o rapaz dando apoio a Mell. – Falta o banho! – responde Dora furiosa. – Alôooo! Que banho? – pergunta Mell sem entender nada. – O banho que você e esse desgraçado vão levar agora! E indo pra cima deles, a menina os empurra na piscina caindo junto e brigando com Mell que gritava. – Ela está me atacando, tragam a camisa de força! O pessoal não fazia nada, só curtia a cena e Paris acompanhava com espanto e orgulho da amiga. Mas Dora logo cai em si. – Não vale à pena! E o David não se matou ele foi assassinado, um dia todos vocês vão saber. – diz largando-a e saindo da piscina. Ela corre até a porta do jardim ignorando os lados, e antes de sair olha para trás e sussurra. – Adeus New Park!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap6.

– Não acredito nisso! – Dora, você está bem? – pergunta Paris correndo em sua direção para fora da mansão. – Ah! Estou, é que essa confusão toda me pegou de surpresa! – E com você estranh...digo Paris, tá tudo certo? – Ah, claro tá tudo bem e pode me chamar de estranho mesmo, você eu não ligo. – diz o garoto rindo. Você vai pra casa agora? – É eu vou. Ia pegar um táxi, mas molhada desse jeito é melhor ir andando! – responde Dora tirando o excesso de água dos cabelos com as mãos.

– Nesse caso deixa eu te salvar uma vez na vida e te acompanhar, são só algumas ruas mesmo, logo chegaremos antes que você pegue um resfriado! – brinca Paris. Começaram a caminhar então com passos lentos e proveitosos, quase que num passeio no meio da tarde ensolarada pelas ruas do bairro. – Tudo bem então! – concorda. Desculpe se às vezes sou impulsiva demais pra te defender é que eles me tiram do sério e já faz algum tempo. Eu era assim, como pude ser tão cega? – Não Dora, tá tranqüilo, você só queria que eles me respeitassem e eu sou um tanto permissivo também, preciso ser mais firme, você tem razão. – E como vai indo a vida estranho? – pergunta querendo mudar de assunto. – Do jeito que dá! É meio esquisito não ter alguém na casa vindo do nada pra te chamar de bobalhão biruta ou riscar os seus DVDs de ficção científica, até todos os gibis que comprei no mês estão inteiros. Quando é que isso acontecia? – termina tentando ser irônico. – Ah, sei. Vocês não se davam muito bem, não é? Eu sempre dizia que ele precisava te compreender mais. – diz Dora após algum silêncio. – Ele compreendia do jeito dele, passou! – E pra você, Dora? – Pra mim, as coisas estão acontecendo independente de eu querer ou não, mas acho que é disso que eu preciso, impulsividade. Talvez a falta dela me tenha trazido até aqui, então chega, eu preciso mudar, tem umas coisas que eu estou pensado... – ia dizendo quando Paris segura em suas mãos e começa a falar depressa e ofegante. – Sim! Eu também sinto isso, nós podíamos mudar juntos, eu sempre senti algo por você, algo que caras como o David nem sonham que exista para ser oferecido a uma mulher. Eu posso fazer o que você quiser realizar seus sonhos mais profundos. Eu te amo Dora! – grita no final olhando fixamente em seus olhos, todo vermelho e tremendo não se contendo em si próprio. Dora ainda em choque com a revelação solta suas mãos e começa a falar.

– Eu respeito esse seu sentimento, mas você entendeu tudo errado, eu preciso de um tempo pras coisas se firmarem em seus lugares, encontrar o meu espaço no mundo e... – hesitou em falar. – E o quê? – quis saber Paris. – E se eu me envolver com alguém seja o tempo que for não será com o irmão do David. De alguém que eu amei tanto! – soltou. – Mas nós não éramos nem parecidos! – tentar argumentar quase chorando, furioso com a rejeição. – Eu sei, mas é o que eu sinto, não dá pra ser, me desculpe! – desabafa antes de sair correndo e virar a esquina em direção a sua casa desaparecendo das vistas de Paris. Ele não se conforma e quase não se aguentando pensa. – Ela diz que quer mudar, mas na verdade é como todos os outros. Tudo bem Dora, eu te mostro como o David era príncipe encantado! – diz rindo descontroladamente. Não bastasse isso quando ela finalmente entrou em casa sua mãe a aguardava com aquela cara amarrada que só fazia quando tinha alguma verdade atravessada na garganta. – Onde você estava mocinha? – Eu vim andando, tô toda molhada! – justifica Dora. – Eu sei, a Mell me ligou histérica e contou tudo sobre o seu showzinho egocêntrico na piscina. Que descontrole é este minha filha? – pergunta Lara também se descontrolando. – Meu showzinho, me poupe! A senhora sabe muito bem como é a Mell! – Sei, mas ultimamente você tem estado tão esquisita sem ânimo pra nada nesse eterno luto trancafiada e no primeiro contato exterior o que podia ser um retorno memorável se transforma num surto psicótico! Que Deus me perdoe, mas o que você quer? Ser uma excluída como o Paris, porque é isso que vai acontecer se você defender tanto ele. – Não se preocupe mãe, eu não vou mais ver o Paris. – diz resignada. – Que bom! Você sabe que eu só quero o seu bem e que a vida é assim, em nenhuma cultura se perdoa um suicida, com as pessoas de New Park não será diferente, em breve vão esquecer o David em definitivo e esquecerão quem estiver preso a ele, mas ele se foi e você está aqui. Me promete que vai pensar a respeito?

Dora fica olhando enigmática a mãe gesticular seu discurso e ao ser perguntada quebra o silêncio e responde. – Ele não se suicidou, alguém o matou, algum desses covardes infelizes que estão julgando, mas isso não vai ficar assim, um dia a verdade vem à tona. – fala entre dentes sucumbindo ao ódio. – Ah, minha filha o que te faz acreditar nisso? Queira logo você veja a burrada que está fazendo antes de perder tudo. – resigna-se Lara. – Me deixa em paz! Eu sei! – sussurra a garota. A mãe passa por trás dela deixando a sala e lhe dá um beijo na nuca dizendo. – Tudo bem querida, vá se trocar. Ela ia deixando a sala também e com o primeiro pé na escada viu quando empurraram um cartão vermelho por debaixo da porta, olhou pelo olho mágico, mas não avistou ninguém. Dora pôde notar a figura de uma rosa enorme no cartão e ao virá-lo estavam escritas apenas essas simples palavras.

SEU NAMORADO NÃO SE MATOU. ELE FOI ASSASSINADO.

ASS. R

Dora leu aquilo com uma terrível dor dentro de si, mas também tinha um egoísmo alegre por provar que estava certa, se não estivessem brincando com ela, claro. Apenas ficou em pé ao lado da janela para refletir. – Eles vão ver David, vão ver!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap7. Dois meses depois...

– Nossa como o tempo passou rápido, e quanta coisa aconteceu! Essa não era pra ser a minha vida! – pensa enquanto entra no enorme prédio da Escola de Artes Central. Logo ela se dirige para o interior do pátio onde todos os alunos estão esperando para iniciar a aula inaugural do primeiro dia desse semestre. Só não contava com o esbarrão que recebeu de repente de alguém já conhecida que deveria estar em outro lugar. – Mell? Você por aqui, não era pra estar nesse momento na Faculdade de Moda em Florence? – espanta-se. – Eu resolvi mudar de curso, me deu uma súbita vontade de fazer artes, designer ou é só você que pode ter essas crises de consciência? – pergunta sarcástica. – Não, é que eu pensei que moda era tudo pra você! – Pensou errado! E se acha que se livrou de mim e de New Park está muito enganada também, ninguém se esqueceu da sua loucura e principalmente eu daquele empurrão na piscina! Não pense que sua estadia aqui será fácil porque eu farei o possível pra que não seja. Eu e toda a galera, certo meninas? – perguntou para as meninas que a acompanhavam enquanto ria. – E a propósito, você piorou muito cortando esse cabelo curtinho. E esse macacão com coturno, sabe a quantas eras não se usa mais isso? Realmente Dora, você se tornou um fracasso e o pior chegou aí sozinha! Tá precisando de um daqueles seus projetos! E vendo que o Reitor terminava seu discurso despediu-se. – Bye! AMIGA! Dora engoliu em seco, estava cansada de brigar, agora era hora de ter calma e deixar os dias rolarem. Mas ela seria novamente posta a prova com o que lhe aguardava na porta da sala de aula! Seu coração começou a saltar, sua boca ficou seca e a cada passo que dava mais pra perto dele ela ia, era Paris que a olhava se aproximar fixamente. – Ah não! E agora ele também, tá todo mundo me seguindo? Coragem Dora – sussurrou. Mesmo assim seguiu adiante, meio sem jeito chegou ao inevitável encontro.

– Oi Dora! – Oi! Um breve silêncio encabulado tomou conta dos dois. – E então, tá sumida! – recomeçou Paris. – Não, só dando um tempo de tudo, mas agora acabou! – reanimandose. – Mas e você, resolveu fazer designer, um geek? – É eu pretendo ir para o lado dos quadrinhos com os projetos, na verdade eu queria estudar filosofia, mas meus pais não quiseram jogar o dinheiro que gastaram com a matricula do David e me “mandaram” em seu lugar. – fazendo aspas com as mãos para justificar o mandaram como obrigação. – Você deveria seguir o caminho que escolheu e não para cobrir alguém. – ela reclama. – Mas e você, não está aqui por ele está? – Não, embora pensem eu realmente gosto de designer, montar coisas e desenhos do nada. O professor já se aproximava para a aula e Dora ia se afastando para entrar na classe quando Paris a chama mais uma vez. – Me desculpe! – cochicha. – Pelo quê? – Você sabe! Aquele discurso louco depois da festa, eu me exaltei, não tinha nada a ver. Seja minha amiga! Me perdoe! – suplicou. Dora estava insegura quanto a perdoá-lo e depois ter outra surpresa daquelas, ela ia acompanhar o professor, porém gira de volta e segura na mão de Paris que estava entristecido e sorri após ver o sorriso que ela lhe deu quando segurou em sua mão. Ambos foram para a sala. A aula ia começar.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap8.

O professor se apresentou como sempre se faz no início das aulas, disse o nome do curso e muito blábláblá sobre a matéria ensinada que seria história da arte. – Como se já não soubéssemos. – sussurra Dora entediada. – O que mocinha, disse alguma coisa? – pergunta o professor que parece ter ouvidos supersônicos. – Não foi nada, só estava admirando a beleza dos quadros que o senhor está mostrando nos slides. – Melhor assim, pois eu não admito gracinhas de espécie alguma durante a minha aula. Os engraçadinhos que guardem suas lorotas pra outro professor, eu respeito a arte e vou ensiná-los a amar também ou... – Ou o quê professor? – pergunta um dos alunos curiosos. – Ou... vocês descobrirão durante o semestre. Certo senhorita? – perguntou para Dora fazendo cara de nojo. Ela apenas deu um meio sorriso, pensando que precisava desfazer a má impressão que passou pra esse professor, sempre foi ótima aluna e não pretendia estragar sua reputação agora. A aula transcorreu sem mais alterações e tudo que ela queria era a tal oportunidade de se redimir, finalmente se apresentou no final quando o professor depois de explicar estilos de pintores de uma forma geral disse que daria um ponto a mais no semestre se alguém respondesse de quem era a obra que ele apresentaria agora no slide. Dora estava ansiosa e levou um susto com a pintura que retratava um homem disforme amarelo que gritava sobre uma ponte multicolorida. A sala estava em silêncio e ninguém ousava chutar um nome. – Eu sei, é aquele quadro que minha mãe brincava sobre desespero de quem nunca usou botox. Tão caro, se lembre criatura sua vida nessa matéria depende disso. – pensava tentando se lembrar. – Lembrei!!!! O quadro se chama... – grita Dora histérica. – O Grito e está no Museu do Oslo na Noruega. – diz outra voz.

– Perfeito rapaz, realmente teremos alguns bons seguidores que se destacarão e a briga será boa! Melhor sorte e rapidez na próxima senhorita. – deseja o professor dando o ponto para o garoto que respondeu. Ela bufava por dentro olhando para ele, mas precisava manter a pose. Paris observava de longe sentado num lugar do fundo que havia restado. – Garoto metido, sempre tem algum CDF querendo causar! Quem ele pensa que é? – pergunta em pensamento, pois jamais o havia visto em todas as suas andanças por New Park ou até mesmo pelo Centro. Fim da aula, e o professor começa a fazer a chamada quando chama um nome em especial. – David Silver Rock. Onde está? – pergunta após não obter resposta. – Já faltou no primeiro dia, começou mal mocinho! Até que um rapaz responde. – Ah, professor acho que ele tá de licença permanente porque quando soube que o senhor ia pegar tão pesado com a gente ele se matou de imediato e se o senhor quiser alguém vivo no final do semestre é melhor pegar mais leve. – termina. Outro continua. – Mas não se preocupa não Fessor porque já mandaram um substituto, o alienígena ali atrás. – diz apontando para Paris. A confusão era geral, todo mundo estava zoando até que Dora se cansa e sai da sala mesmo sem responder chamada. Mell se deliciava com a zona que com certeza teve o seu comando. – Chega! É demais pra mim! Saiu tão apressada que não notou que o garoto que a atravessou na resposta do quadro a observava com olhos vidrados e cara misteriosa de quem com certeza pensava algo sobre ela.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap9.

Sábado de manhã.

– Nossa! Como é maravilhoso! – espanta-se Dora observando do lado de fora o loft que alugou. O loft fica em Holanda Garden, um bairro mais afastado e carente, bem diferente dos que ela já havia visitado na vida. Abriu a porta com ansiedade e descobriu um salão vazio de médio porte com grandes janelas e muita luz onde só o banheiro e a cozinha eram separados do resto. – Meu primeiro canto, minha mãe vai ter um treco quando souber! – pensava ela enquanto tirava suas coisas do furgão. Ela tira primeiro as malas com roupas e seus pertences que estavam distribuídos numa sacola e um nécessaire até que percebe que uma mesa de madeira estava atravancando a retirada das outras coisas. Tenta tirar sozinha puxando-a o máximo que pode, porém não consegue nem fazê-la se mover. – Droga! Só essa que me faltava! – sussurra raivosa de sua impotência. – Calma ninguém disse que morar sozinha é fácil. Vamos Dora você consegue! – termina encorajando-se. De repente alguém vem subindo a rua rumo a seu encontro. – Calma aí, deixa eu te ajudar! – diz o rapaz. – Não, tudo bem! Eu me viro! – agradece tirando-o do caminho. – Pelo que eu sei arrogância ainda não dá superpoderes. – brinca. – Cara dá um tempo, eu nem te conheço, tô no meio de uma mudança e tava tudo bem até você chegar com as suas gracinhas. Cai fora! – ordena Dora grosseira. – Nossa que grosseria! Eu não te conheço, quero te ajudar e você vem com sete pedras na mão enquanto deveria me agradecer pelo favor prestado. Esse mundo tá perdido mesmo! Dora finalmente olha para o rosto do rapaz e vê que ele realmente estava sendo sincero, é que estava tão vacinada contra a galera de New Park que pensava que qualquer coisa podia ser uma retaliação deles. Reconsiderou. – Olha! Me desculpa! É que as coisas não têm sido muito fáceis pra mim ultimamente e eu ando muito irritada, mas não vou te alugar mais, você não quer saber. – anima-se. – Ah! Sei aqueles dias no mês! – ri. Dora fecha a cara de novo. – Não é nada disso! – responde.

Ela estava ajudando a segurar o móvel, mas bravinha larga e entra apenas indicando o caminho, o rapaz fica tentando arrastar a mesa dando-se conta do quanto realmente era pesada. Arrependendo-se de seu ato. – Isso! Vai ajudar a garota frágil, quem vai acabar fragilizado aqui é você Mané! – grita para si próprio. – Acho que já vi esse cara em algum lugar. – pensa Dora que é péssima de fisionomia, mas logo se esquece e empolgada começa a arrumar as coisas pelo apartamento. Ela dançava e se mexia pulando de um lado para o outro para ajeitar pufs e almofadas que trouxe de New Park. Sua idéia era ser bem despojada, o moderno ateliê de uma designer antenada. Havia se esquecido da vida quando rodopiando percebe no meio do giro uma imagem parada à porta. – Aí! É você! – assusta-se. – Sim, sou eu. Ou você deixou mais alguém na rua pra morrer trazendo seus trecos? – diz bufando, irônico e destruído pelo trabalho. – Foi você que insistiu! – ironiza ela. – Depois dessa eu vou ser canonizado. Onde coloco? – pergunta referindo-se a mesa atrás dele. – Ah! Pode ser lá dentro no quarto. – diz Dora quase rindo com a cara de pavor que ele faz medindo a distância. Porém o moço não se deixar abater e começa a arrastá-la. Nesse momento surge um estalo na mente dela. – Claro! Ele é o garoto da aula de história da arte que tirou a minha nota! Que cara sujo ainda por cima veio até aqui pra me espionar, desgraçado! Dora irada começou a lhe dar murros e o cara sem entender apenas foi rápido em segurar suas mãos. – O quê você tá fazendo? Você é louca, é? – Você é um espião pra eles, não é? Bem que eu desconfiei, bonzinho demais pra ser verdade. – grita. – Eu não sei do que você tá falando! – grita também. – Da aula de história da arte, da nota e sua falta de educação exibicionista. Foi tudo idéia dela não foi? – pergunta eufórica. – Ah! Você lembrou! Mas foi tudo uma grande coincidência infeliz, quando ví já estava respondendo e quanto ao bairro eu moro aqui! É que tenho

uma bolsa lá naquela escola e preciso mostrar que mereci. Agora tava passando na rua e te ví precisando de ajuda e resolvi ajudar, te reconheci a pouco também. Não tem nada a ver, acredita em mim e se desarma só um minuto. – terminou. Dora se acalma em parte. O suficiente para perguntar. – Então, qual o seu nome? – Alonso Aloha. Como você já percebeu, ao seu dispor. – responde ironizando uma reverência. – E o seu, irritadinha? – continuou. __________________________________________________________

Nome: Alonso Aloha Status: Cara Legal Idade: 22 anos. Hobby: Inovar, improvisar. Livro de Cabeceira: O Retrato de Dorian Gray. Frase: "Quem pensa segundo a opinião dos outros, está muito longe de ser um homem livre." __________________________________________________________ – Isadora Réquiem, mas todos me chamam de Dora. Aloha é, igual a saudação havaiana? – debochou. – Isso mesmo! Mas tá debochando do quê com um sobrenome desses. Réquiem, como a marcha fúnebre? – devolveu. – É, e não tem me dado sorte! – terminou. – Mas mudando de assunto, tem algum lugar pra eu me lavar antes de ir? – perguntou tirando a camisa e mostrando seu abdômen moreno de tanquinho. Dora não pôde ignorar aquilo, porém se sentiu meio estranha por não têlo ignorado, disfarçando. – Ah! Claro, tem uma pia no banheiro, eu não testei, mas acho que tá funcionando. Alonso foi para lá a fim de se refrescar enquanto Dora ouve barulhos na porta da frente, correu para abri-la, estranhando quem poderia ser. Porém o mistério não durou muito. – Minha filha! Você está bem, não fizeram nada com você? Quando li o seu bilhete quase tive uma síncope. – despeja a mãe afoita.

– Não mãe, eu estou bem! – respondeu desvencilhando-se da agarração. – Pegue suas coisas, vamos embora já! – ordenou. – Você está maluca, o que deu na sua cabeça pra vir pra um bairro cheio de mortos de fome como esse? – Eu vou ficar! Você não me entende mãe! – Dora esbraveja. Nesse momento Alonso sai do banheiro rumo à saída e assusta Lara. – Quem é esse daí? – Pode deixar, sou Alonso, um morto de fome local, mas já estou indo. – diz recolocando a camisa. – Ah Dora, agora já sei por que você é tão educada. – termina saindo. Lara ainda está de boca aberta quando Dora reinicia. – Eu vou ficar ao menos por um tempo, esse será meu ateliê e não casa, eu volto pra lá. É que preciso de um lugar. Estar longe pra juntar as peças e descobrir a verdade ao mesmo tempo em que preciso ficar perto pra perceber os detalhes que ainda não vi. Ninguém finge pra sempre e um dia eles vão cair! – termina astuciosa. – Minha filha você continua com isso! Ao menos me prometa que fará uma refeição por dia em casa. – Eu prometo! Palavra de escoteiro. – diz cruzando os dedos atrás de si. A mãe despediu-se e foi embora no mesmo táxi que veio e pediu que a esperasse. Dora continuou com sua arrumação até que um tempo depois ela nota um cartão vermelho debaixo de sua porta que dizia: BEM VINDA AO LAR! ASS: R

Novamente não havia nem sinal de quem o tivesse deixado.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap10.

Após o fim de semana Dora já tinha arrumado seu apartamento, não havia voltado nenhuma vez para casa enlouquecendo sua mãe e não estava nem um pouco a fim de voltar para a Faculdade depois daquele começo inesperado. Porém o que mais a atormentava o pensamento era Alonso que estaria lá e ela não sabia qual era a dele. – Eu devia estar preocupada com o R, com as investigações e com o David, mas gasto o meu tempo pensando sobre o que esse Alonso metido quer! Que burra que eu sou! – pensava enquanto chegava a Escola de Artes Central. A primeira parte da aula transcorreu normal para ela só Paris que chegou um pouco atrasado em Desenho Moderno e os garotos ficaram mexendo como sempre. Alonso a ignorou completamente e isso começou a lhe dar raiva, mas Dora não entendia por que. – A aberração, não desistiu no primeiro dia! Vê se deixa as pessoas normais em paz sem ter que suportar a sua presença! Paris só os olhava sem expressão e voltava a fazer seus desenhos. O professor olhou tudo sem intervir para não desrespeitá-lo, porém no final da aula antes que ele saísse o professor segura em seu braço impedindo sua saída. – Ei, rapaz o que eles fazem com você é um crime e se chama bullying. Não deixe, ache um jeito de se proteger, se você quiser eu posso te ajudar. Ele não deixou o professor falar mais nada e soltando bruscamente seu braço da mão do homem apenas agradeceu estranhamente. – Obrigado professor, mas eu sei me cuidar! Não se preocupe! Tudo vai ficar bem cedo ou tarde e nesse dia eles vão ter o que merecem! Paris assumiu uma face maquiavélica enquanto dizia, como se ditasse uma profecia, até o professor ficou meio que em transe enquanto ele falava. E de repente, ao final volta a sua expressão inocente de antes e sai correndo deixando o homem intrigado com ele. – Eu hein! Esses alunos de hoje, a gente tenta ajudar, mas vá entender! – rindo de nervoso.

Dora o vê no intervalo e vai falar com ele, porém ele foge correndo como se não a percebesse. Naquela hora estava em transe aparentando um fantasma. Sendo assim, ela ficou sozinha num canto, pois na falta de Paris ela era a atração favorita para pegarem no pé. Logo essa solidão acabou. Alonso veio chegando e ficou parado de pé na frente dela, que estava sentada no chão. – Não vai ficar com seus amigos? – pergunta Dora. – Na verdade eu não os conheço e acho que nem eu nem eles fazemos questão de nos conhecer. – responde Alonso. – Te disseram pra vir falar comigo pra fazer mais uma brincadeira, não é? – Na verdade eles me disseram que você é louca e que em hipótese alguma devia falar com você porque queimaria o meu filme, mas eu não sou muito obediente. – Você é quem sabe. E como vai com o ramo de mudanças, muitas mesas pra carregar? – pergunta com um sorrisinho maléfico. – Ah, vai bem! Sem nenhuma irritadinha pra atrapalhar e abusar. – ri também. Nesse momento o sinal toca, ele lhe dá a mão para que ela se levante, porém ela disfarça e se levanta sozinha. – Até a próxima mudança irritadinha. – se despede ele lhe dando um beijo rápido na bochecha que ela não consegue evitar e vai embora. Dora fica ali, parada e confusa tocando com a ponta dos dedos a bochecha beijada parecendo gostar daquele ato enquanto todos entram de volta a sala para a próxima aula. Mell vê escondida e faz cara de quem gostou também de saber desse fato novo. Quando voltou, na classe havia um cartão vermelho em sua mesa que agora ela já conhecia bem ser do R que dizia.

OLÁ QUERIDA! O JOGO VAI COMEÇAR! ASS: R

Novamente embora a classe estivesse uma zona não havia ninguém suspeito que ela pudesse desconfiar de ser o R. Esperou que as aulas acabassem e voltando pra casa chamou um policial que disse que iria visitá-la à tarde. Ela esperava ansiosa para acabar com a palhaçada deste R, desconfiada da hipótese dele e o assassino serem a mesma pessoa. – É R, os jogos começaram! O seu e o meu! Resta saber quem vai vencer? – diz Dora amassando de raiva o cartão entre as mãos.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap11.

Naquela tarde em Holanda Garden... Alguém bate a porta. Toc – Toc. Dora atende. – Olá, eu estou procurando pela senhorita Isadora Réquiem. – Sim, sou eu mesma e o senhor é... – Detetive Leonard Turner, mas todo mundo me conhece por Leo Turner, a sua disposição. __________________________________________________________ Nome: Leonard Turner Status: Policial recém-formado. Idade: 24 anos. Hobby: investigações corriqueiras e crimes não resolvidos. Livro de Cabeceira: Todos de mistério. Frase: "É elementar meu caro Watson." __________________________________________________________ – A senhorita ligou para nós essa manhã porque vêm recebendo cartões anônimos de alguém que assina apenas com a sigla R, não é? – Isso! Ele sabe sempre aonde eu tô e quando menos espero, lá está um cartão desses sempre falando em uma linha no máximo aquilo que eu tinha certeza, mas ninguém acredita em mim. – E que certeza é essa senhorita?

– Que o meu namorado David foi assassinado e não que se matou como todo mundo julga! Dora passou todos os cartões para as mãos de Leo que os analisou um a um meticulosamente. Comentando. – Cartões estranhos para um assassino, não acha senhorita? – Só Dora já está bom. E não, não acho. Vá saber lá o que se passa na cabeça desses loucos. O detetive assentiu com a cabeça e continuou a perguntar. – Não é verdade que a senhor... ou melhor você Dora não é bem vista por ninguém em New Park e que vem tendo desde a morte de David problemas com seus antigos amigos? – É verdade, mas não por isso e sim porque pude ver agora quem eles são realmente! – protestou. – Você não acha que as pessoas que tem tudo e são contrariadas são capazes de ir ao extremo para conseguir provar seus pontos de vista? Dora nesse momento se exaltou. – Onde você está querendo chegar? – Eu a lugar algum, só quero compartilhar meu ponto de vista. Às vezes as pessoas pensam que vêem coisas, colocam uma idéia fixa na cabeça e começam suas obsessões para não aceitar um fato! – terminou. – Quem você pensa que é pra me falar essas coisas. Não está acreditando em mim, eu sei o que ví, estou recebendo esses cartões de algum louco, brincalhão, idiota ou o que quer que seja e você vem com essa de obsessão. Que espécie de policial você é? Aliás, não sabia que a polícia recrutava crianças! – diz debochando vingativa pelo que Leo havia lhe dito e por sua jovem aparência. – Calma lá, eu só estou conversando, analisando os fatos! – Pois analisou mal, eu chamei a polícia pra que me ajude e não pra ter mais um que duvide. Pra isso eu tenho New Park toda. – Tá garota, mas é que... – Mas nada, agora é tarde, eu tenho coisas a fazer! Passar bem! – termina Dora abrindo a porta e a segurando firme pra que ele saísse. O detetive levanta-se, deixa os cartões sobre a mesa e sai pensando risonho.

– Nossa! Que menina, essa é das minhas! Dora bate a porta atrás dele que fica mais risonho ainda, como se estivesse testando-a. Enquanto isso ela pensa furiosa por não ter conseguido a ajuda da polícia e toma uma decisão. – Se não consigo quem me ajuda farei tudo sozinha mesmo! O mais incrível é que como encanto Dora recebe mais um dos conhecidos cartões vermelhos por debaixo da porta que habitualmente dizia.

QUER SABER QUEM ERA DAVID? A RESPOSTA DESSA PERGUNTA ESTÁ NO FIM DA CARNATION STREET HOJE ÀS 23H00MIN HORAS. ASS: R

Nesse momento a garota parece consumida pela curiosidade e pela impaciência do mundo todo em busca de um fim pra toda essa história que não a deixava viver em paz. Mesmo sendo perigoso resolveu ir. Enquanto se arrumava para a noite de aventura pensou em várias possibilidades que iam desde encontrar a verdade, ser mais uma brincadeira da Mell e a turma ou até de ser o assassino R querendo matá-la e acabar com tudo de vez. Fosse o que fosse ela estava decidida a enfrentar e descobrir qual delas era de uma vez por todas.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap12.

Na Carnation Street 22h55min... Dora já estava a um bom tempo esperando na esquina daquela rua que tinha fama de ser uma das mais violentas da cidade, observava e procurava por alguém suspeito, porém ali todo mundo era suspeito. – Nossa! Em que arapuca eu fui me meter! – pensou nervosa, sentindo um frio na espinha cada vez que um daqueles caras enormes cobertos com capuz se aproximava cambaleando em sua direção, mas acabavam apenas esbarrando e passando reto.

Até que viu um rapaz que ela achou já ter visto em algum lugar. – Deve ser engano. – pensou. As pessoas que ela conhecia não passariam por aquela rua imunda talvez nem pra salvarem suas próprias vidas. Decidiu atravessar a rua pra se certificar. – Oi! – disse ao rapaz. – Oba! – ele retornou. Depois de algum silêncio continuou. – Você é o R? – Olha já me chamaram de muita coisa, mas letra consoante é a primeira vez. Se bem que pra uma gata como você eu sou o que você quiser mina. – respondeu se aproximando. Dora se afastou. – Você conhece alguém com esse nome, apelido, sei lá? – Não, não conheço, tenta na próxima esquina. Quem sabe uma vogal o conheça. – terminou rindo. – Imbecíl. – resmungou Dora enquanto saia. Ela não queria saber se era bandido ou não a raiva lhe subiu a cabeça naquela hora. – Espera! – gritou ele quando ela já estava a uns passos de distância. Ela volta com receio e sem nenhuma paciência. – Eu tô te reconhecendo, tá longe da tua área mina. Você é a garota daquele mauricinho assassinado que era meu chapa. – Seu chapa? Impossível, o David era um cara espetacular, jamais se envolveria com alguém... – fez silêncio como se escolhesse as palavras. – Alguém como? Como eu, com o meu ofício? Você se surpreenderia quanta gente é meu cliente e paga de santo por aí! – Cara, cala a boca e não suja o nome de quem não pode se defender! – grita ofendida. – Não quer acreditar não acredita, mas o seu namoradinho vinha aqui sempre comprar umas balinhas pra se sentir mais ligado nos esportes, na vida. A gente se conheceu porque eu pego meus clientes em lugares onde sei que podem me pagar, minha beca me dá essa vantagem. – Gaba-se o rapaz por ter carinha de anjo. E continua. - Aí ele se tornou meu amigo, arrumava uns

clientes novos, eu dava uns descontos pra ele, que arrumava uns convites pras festas de New Park e a gente ia se entendendo. Eu te conheço desses bailes. – E como é que eu nunca te vi? – pergunta Dora. – Olha minazinha não me leve a mal, mas naquelas festas você só enxergava quem queria enxergar. Dora sente-se mal, pois fazendo uma breve reflexão ela viu que era verdade. – Não pode ser! Isso tudo é louco demais! – Se não acredita pergunta pro cara loiro que vinha sempre com ele. Dora então pega uma foto de David e os amigos e mostra ao rapaz. – Tem certeza que é esse moço que vinha aqui? – pergunta. – Absoluta! É ele mesmo, agora o cara loiro tava sempre encapuzado. O único que o viu uma vez foi meu amigo que foi preso e só sai daqui a alguns dias. Deu azar gata! Dora estava atônita depois de ouvir tudo aquilo, começou a caminhar devagar dando pequenos passos cabisbaixa. – Até você David. – pensa. Mas o cara, que mesmo não parecendo tinha um coração a chama mais uma vez e diz. – Aí! Ele era um rapaz meio triste, parece que fingia ser aquele super cara, mas de uma coisa eu tenho certeza, ele gostava de você. Quando ele era verdadeiro, ele mandava tudo pro espaço menos você. – Obrigada! – cochicha deixando uma lágrima cair. Porém essa cena não se firmou muito, pois um homem gigantesco veio de algum lado incerto da rua e agarrou Dora junto com seus capangas perguntando. – Princesinha da onde foi que você veio? Se perdeu do castelo, foi? Ela não podia dizer nada porque o grandalhão estava tapando sua boca. Dora só gemia e se debatia na esperança de se soltar. – Solta ela, Tampinha! A moça só veio comprar um negócio comigo cara! – diz o rapaz com quem ela havia conversado. – Mas como é que eu vou saber se ela não é uma daquelas repórteres Baby tentando sucesso? Eu solto, mas só depois de uma conversa particular entre ela e eu lá no meu apê. – termina.

Dora nesse momento entra em pânico achando-se perdida. Entretanto, de repente alguém grita. – Larga a moça agora cara! Todos se espantam. – Quem é esse? - pergunta o homem. Dora conseguiu soltar sua boca das mãos do grandalhão respondendo com seu chamado desesperado. – Aloonnsooo!!!!!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap13.

Por milagre Alonso apareceu do nada na hora certa. Mas como era possível, pensava Dora. – Cara, solta ela! Ou eu vou ter que ir aí pra te obrigar! – gritou novamente. – Olha playboy, como fala comigo ou vai acabar num lugar muito pior do qual eu ia levar sua namoradinha! – diz o grandalhão com raiva. – Ninguém quer brigar aqui. É só você ser cavalheiro e largar a menina, todos vão embora, esquecemos o que aconteceu e a noite continua. Simples assim, e a propósito ela não é minha namorada! – termina olhando para Dora que olha de volta surpresa por ele frisar uma coisa dessas naquela situação. O homem rindo, abaixa a cabeça em direção a ela e comenta. – Xiiiii gata! Tu é carne de pescoço mesmo, nem o cara que tá te salvando quer nada contigo! Vendo que o homem se distraiu, Alonso se aproxima dos dois e dá um empurrão nele que abranda os braços em torno de Dora com o susto. Ela consegue finalmente se desvencilhar dele e corre para perto de Alonso. Eles já estão indo embora, tentando passar pelo meio das pessoas que se juntaram para ver o ocorrido muito comum naquela rua, porém Alonso sente uma mão enorme lhe passando pela frente e tomando o colarinho. Sendo puxado para trás num só impulso e caindo no chão, ele não pôde fazer nada para evitar a queda com tanta violência que acabou raspando o braço no asfalto. – Um pra mim. Zero pra você! – grita o marginal sentindo-se vitorioso.

– Ainda não! – diz Alonso se levantando. Dora puxa Alonso pra perto dela e cochicha. – Alonso, vamos embora! Não precisa fazer isso, olha como tá o seu braço. – aponta para o braço direito todo ralado. – Não foi nada! E eu acho que eles não vão deixar a gente ir embora antes de uma boa briga. Só sair correndo você viu que não vai funcionar! Mal completou essas palavras foi puxado de novo pelo grandalhão que dessa vez dava socos nas costas. Alonso se protegia e conseguiu acertar algumas mãos certeiras no queixo do marginal. – Eu sou canhoto! – sussurrou para Dora que não entendia como ele iria brigar com o braço direito ruim. Ela sorriu pela ironia apesar de tudo. O homem começou a cambalear, pois tinha queixo de vidro, as pessoas do local não estavam gostando do forasteiro estar ganhando até que uma delas dá ao cara uma garrafa de vidro e num descuido de Alonso, lá vai a garrafada direto na sua moleira. – Não é justo! – grita Dora. Alonso cai desmaiado no asfalto, sangrando muito na nuca. Dora quer socorrê-lo, porém ninguém deixa. – Finaliza! – gritavam. Quando o grandalhão ia fazer isso ouvem a sirene da polícia despontar no começo da rua. A situação é de pânico geral e todos correm tentando achar um buraco para se esconder deixando Dora e Alonso lá no meio do asfalto. Ela pula para perto do moço e começa a verificar o que aconteceu com ele que abre um pouco os olhos. – Tá tudo bem Dora? A gente ganhou? – pergunta olhando para os lados e não vendo ninguém ao redor. – Parece que sim! – responde passando a mão em sua cabeça para estancar o sangue. – Não se preocupa Alonso. Vai ficar tudo bem! Tentando tranqüilizá-lo, ela lhe diz isso vendo que a polícia se aproxima. Eles param e um deles desce lhe dizendo. – Ora, ora, mas que mundo pequeno esse!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap14.

Dora não acreditava na coincidência, mas era o detetive que esteve na sua casa a tarde. – Ah! Não pode ser, é demais pra minha vida! – Sou eu sim senhorita Dora, detetive Leo Turner. E vejo que como eu você também não pára, não é? – Só quando a polícia não me ajuda. – Mas precisa colocar seus namoradinhos nas suas insanidades? Ah, o amor o que não faz com os pobres coitados ingênuos! – Eu vim sozinha seguindo uma pista do R, lembra? Aquele que o senhor acha que eu inventei, mas por sorte o Alonso apareceu e me ajudou, diferente da polícia que só chega quando tudo acaba! E só pra constar, ele não é meu namorado! – diz olhando pra ele sentindo-se vingada. – Dora! – chama Alonso. Ela o ajuda a se levantar totalmente zonzo prestes a cair de novo a qualquer momento. Leo observa e após um olhar fumegado de ódio dela ele resolve ajudar também apoiando do outro lado do ombro. Colocam Alonso dentro da viatura. – Ele precisa ir pra um hospital, está ferido demais. – comenta com Dora. Nessa hora Alonso tem um estalo e diz agoniado. – Hospital não, podem me deixar na Rua da Dora, já está bom, eu me viro! – grita. – Mas você bateu a cabeça, está sangrando é melhor examinar. – argumenta o detetive. – Não! E se insistirem eu não vou a lugar nenhum com vocês! Dora intervém. – Tudo bem, ele está assim por minha causa então eu cuido dele. Alguns caras não assumem, mas tem medo de hospital. Pode deixar, eu me responsabilizo. – cochicha com Leo. – Tá bem rapaz, se ela se responsabiliza é você quem sabe. Mas por pouco não acho que você tem alguma coisa a esconder.

– Vamos logo detetive, o senhor desconfia demais, com o que tem que desconfiar não liga. – grita Dora impaciente. Seguindo caminho no carro o detetive então começa a perguntar. – Como você descobriu que a Isadora estava na Carnation Street se ninguém sabia a não ser o R? – Eu não sabia, passei de ônibus e a ví na esquina tarde da noite por coincidência. Até agora pelo que conheci das loucuras dela boa coisa não podia ser e de fato não era. – responde Alonso com dificuldade. – Mas você a salvou tão bravamente por nada? É complexo de herói, amor ou ego inflado? – debocha Leo. Alonso olha para Dora quase que respondendo algo que ela não iria gostar de ouvir naquele momento, ela percebe e responde em seu lugar. – Claro que não detetive, ele é só um dos últimos cavalheiros que existem tentando cumprir o seu papel no mundo, diferente de outros que tem a obrigação de fazer e mesmo assim não fazem. E chega de perturbá-lo, ele está fraco, quase desmaiando e o senhor vem com essas perguntinhas sem sentido. Como se o que ele dissesse agora fosse fazer algum sentido. – termina aliviada com a certeza que Leo não perguntaria mais nada para Alonso. – Mas e R afinal, apareceu, te disse alguma coisa? A senhorita descobriu algo? – Não, nada! Foi só mais uma graça dele. E pela milésima vez é Dora. – diz escondendo suas descobertas a respeito de David. Logo estavam em seu loft onde ela com a ajuda de Leo deitaram Alonso num sofá cama que possuía. Dora se certificou de que ele estava dormindo profundamente, tirou um quadro grande da parede que ela chamava de Iluminati. Atrás havia coisas que ela havia reunido desde que tudo aconteceu, recortes de jornal, fotos, os cartões de R, suas perguntas todas reunidas, pregadas nessa espécie de mural do crime aonde agora ela colocava junto com o cartão de R recebido a tarde também a pergunta. Quem era você David Silver Rock?

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap15.

Após ter recolocado o quadro no lugar, Dora foi buscar no banheiro alguns materiais de primeiros socorros para limpar os ferimentos da cabeça e do braço de Alonso. Quando voltou ele ainda dormia estirado no sofá-cama e ela pode notar o quanto era serena sua expressão. – Como esse intrometido é bonito! – pensou, abrindo o mercúrio para passar no braço ralado. Começou a espalhar o remédio com algodão, no começo rápida e ríspida, sentindo uma raiva sem razão que se não sentisse acabaria revelando outro sentimento. Alonso então começou a mostrar feições de dor e a se revirar no sofá-cama. Dora percebeu seu sofrimento e culpada, imediatamente pára. Recomeçando bem devagar o trabalho. – Garota você precisa se controlar! – repetia para si própria enquanto continuava. Após passar o mercúrio, enfaixou o braço e repetiu o mesmo procedimento na cabeça de Alonso que na opinião dela precisaria ser olhada com maior cuidado depois. Terminado o trabalho foi buscar um cobertor e ao cobri-lo olhou vagarosamente para seu rosto, percebendo em detalhes seus olhos amendoados e doces, sua pele morena cobrindo uma boca carnuda e cabelos lisos e negros que caiam até a orelha. Não resistiu em chegar perto para sentir sua respiração e atraída por seus encantos foi se aproximando devagar a ponto de acariciar seu rosto e imperceptivelmente tocar seus lábios com os dela. Ao perceber que Alonso ficou inquieto, saiu em pânico, dando um pulo que a deixou em pé inexplicavelmente. – O que aconteceu? – perguntou ele resmungando. – Nada! – respondeu Dora, paralisada no lugar. – Você devia dormir pra amanhã estar curado e poder sair aprontando mais por aí. Mas em vez disso fica fazendo essas perguntas estúpidas! – terminou enquanto o cobria mais nervosa ainda. – Mas eu senti uma coisa estranha!

– Meu querido, você é estranho! Sentir alguma coisa normal é que seria diferente pra você! E agora boa noite, bom descanso, adeus! – cumprimenta saindo da sala. – Até que você não é tão má assim irritadinha! Boa noite! – diz acomodando-se. Ela pára ao ouvir a confissão de Alonso tremendo toda com medo do que estaria acontecendo. – Só pode ser alguma coisa estragada que eu comi e com efeitos alucinógenos, amanhã há de passar! Tomara! De manhãzinha, Dora deixou a porta de entrada entreaberta e uma visita chegou de surpresa vendo Alonso dormindo. – Minha filha! – grita Lara. – O que é isso! Esse elemento te seduziu a tal ponto de já dormir aqui? – Mãe, foi a primeira vez e tem um motivo completamente explicável pra isso. – responde vindo da cozinha ao seu encontro. – Eu sei! Esses caras de bairros perdidos são espertos. Ele está tentando fazer com você como o Juan na novela “Marcas de um Usurpador”. – diz diminuindo a voz para não acordá-lo. – Como? Me poupe! – ri Dora. – É sim, lá o pobretão do Juan engravidou a inocente Mercedita que era rica e se achava abandonada como você. Aí ele se aproveitou disso e usou o filho pra chantagear a moça e ficar no luxo aproveitando de tudo que era dela. – dramatiza. – Ai Meu Deus! As vezes eu fico pensando se você faz de propósito ou se essa é realmente você. – diz voltando para a cozinha. Nesse momento Alonso abre os olhos e se levanta parecendo ter ouvido tudo e só esperando sua deixa. – Olá senhora, é um prazer revê-la, como vai? – Poderia estar melhor. – Não liga pra ela. Esse é um ótimo plano. Não tinha pensado nisso ainda, mas agora que a senhora falou... As novelas são uma fonte inesgotável de conhecimento público mesmo. – termina ironizando com um largo sorriso. Lara se sente ofendida com a brincadeira de Alonso, mas Dora vem chegando antes que ela possa responder a altura.

– Que bom! Você já acordou machucadinho. Como se sente? – Bem melhor, depois da enfermeira que eu tive! Lara ouve tudo parecendo que vai explodir e quanto mais percebiam isso mais melosos ficavam. – Agora eu já vou, obrigado por tudo. – agradece. – Não, obrigada você. Não sei como seria se você não tivesse aparecido. – Você é esperta e louca pra não dizer mais. Sério, você teria dado um jeito. Alonso estava na porta quando Dora grita. – Espera! Eu tenho umas coisas pra você. Corre até a cozinha e volta com uma sacola. A entregando a ele. – Toma! É a sua jaqueta lavada das manchinhas de sangue de ontem, uns mercúrios e faixas pra você trocar mais tarde e um lanchinho pro café da manhã. Não quer ficar e tomar aqui? Alonso olha para Lara e responde. – Não, obrigado! Mas deixa pra outro dia menos agitado. – Não quer que eu te leve então pra sua casa, ou pra algum outro lugar? – Não, pode deixar. Só vou avisar meu patrão que não vou trabalhar hoje e ir pra casa descansar. – Tem certeza? – pergunta se aproximando dele. – Minha filha, ele já disse não. Não é não! Então senhor Manolo passar bem! – cumprimenta afastando a filha e fechando a porta bruscamente. Alonso sai rindo abertamente. – Mãe o que foi isso? Como você é grossa! E é Alonso! – Eu não tô gostando de nada do que tá acontecendo aqui! – grita Lara. – Não tá acontecendo nada, a senhora que é exagerada! – revida. – Ah é! Então por que você tá assim? Dora olha para o espelho e percebe sua revolta, seus olhos vermelhos e lacrimejados de quem se importava em ser separada do insultado, o rosto corado e quente. – Não pode ser! Eu estou apaixonada! – sussurra para si.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap16.

– Não pode ser! Eu estou apaixonada! – sussurra para si. Após essa conclusão, Dora se refaz rapidamente e pega Lara com uma pergunta. – Com essa sua entrada teatral nem pude perguntar, mas o que te trouxe aqui tão cedo? Vontade de visitar os pobres? – diz voltando-se para mãe. – Não querida, os céus são testemunha do quanto é difícil pra eu pisar nesse lugar, mas eu recebi uma ligação ainda de madrugada de um detetive chamado... – tentou se lembrar. – Leonard Turner! – resmungou Dora enfurecida. – Ele mesmo! Me ligou dizendo que te trouxe pra isso que você insiste em chamar de casa com um amigo ferido e que vocês estavam num lugar muito perigoso. Me aconselhou a por juízo nessa sua cabeça. – Tudo bem mãe, você já fez o seu trabalho agora com licença que eu tenho mais o que fazer! – diz abrindo a porta. – Mas filha eu pensei que já que estou aqui, a gente podia passar a manhã no shopping, como nos velhos tempos! O quê você acha? Ela então se acalma e responde. – Não, obrigada, eu realmente tenho outros planos como arrumar a casa e fazer os trabalhos da faculdade. – Nossa! Realmente você me excluiu. Não passo de um passado vergonhoso pra você! – volta a dramatizar. – Não é nada disso, vamos marcar, eu vou pra casa e a gente vai. Prometo! – diz beijando os dedos. Lara finalmente aceita saindo e despedindo-se da filha. – Tá bem, promessa é divida, hein! Senhorita Isadora Réquiem. Quando ela entra novamente, está bufando como não é muito raro de acontecer. Na verdade nem sabe direito se é pela visita inesperada da mãe, ou se por achar que gosta de Alonso, mas naquela hora, achou um alvo certo para descontar seus sentimentos. – Leo Turner você me paga! – gritou.

Pegou o telefone e um cartão em cima da mesa, esmurrou com os dedos os números e deixou tocar do outro lado da linha. Quem atendeu foi o próprio citado. – Alô, detetive Leo Turner, pois não! – Seu idiota! Quem pensa que é pra se meter na vida dos outros desse jeito. Mas também é isso que dá recrutarem crianças pra fazer o serviço de um homem. – Calma Dora! Bom dia pra você também! Mas que saudade é essa que não esperou nem o dia amanhecer direito? – Eu só vou falar uma vez, ou você me ajuda a descobrir o que eu preciso ou me deixa em paz. Se avisar minha mãe sobre o que eu faço de novo você vai se arrepender. Escolha outra pessoa pra bancar a criança que tenta ser grande. Isso não me impressiona nem um pouco, vê se cresce! – termina desligando. Ele pensa um pouco cabisbaixo, mas logo põe o telefone no gancho e surpreso brinca. – Nossa! Assim eu me apaixono! Que garota mais maluca essa! Sorte dela! Se eu não fosse uma criança, ela já estaria presa por desacato a autoridade. – ri. Do outro lado da linha Dora respira ofegante e já arrependida do seu ímpeto de loucura. – Acho que exagerei. – conclui. Enquanto isso, no outro lado de Holanda Garden, Alonso bate à porta de um sobrado grande e conservado que destoava das outras casas da rua, na verdade do bairro todo. Insiste um pouco, até que alguém vem atender. – Alonso! Nossa, é você! Finalmente, onde estava, já tava quase ligando pros seus pais! – Relaxa! Eu passei a noite no apartamento de uma amiga. – diz entrando. – Amiga, sei! E o que é isso, tá todo machucado? – É que eu tive que defendê-la, bancar o herói! – Tem certeza que ela é confiável? Pensei que tivessem descoberto que você... – parou com medo das paredes terem ouvido. – Ninguém descobriu nada, você que é paranóico!

– Cuidado Alonso! Mas, e o que é isso na sua mão? – Umas coisas que ela me deu pra trazer. – Me deixa ver! Ahan! Roupinha lavada e passada, cheirosa! Remedinho e até lanchinho! Alonso, o que você anda aprontando? Quem é essa garota? Como não fiquei sabendo dela antes? Tem certeza que ela não sabe que você é... – Xiiiiuuuu!!!! Ela não sabe de nada, e não saberá se você não contar. – termina Alonso, calando-o com os dedos. – Tá! Nesse caso essa garota parece ser bem legal! Mas me promete que vai tomar cuidado. – Com essa menina você faz isso o tempo todo pra não acabar em confusão. Você vai ver quando a conhecer. – Eu vou? – Vai, quando as coisas acontecerem. E agora vamos, eu tenho planos pra noite. – Vamos aonde? – Pro médico, não quis ir à noite passada porque iam descobrir, mas preciso fazer um check-up, descansar e executar meus planos. Vamos, tá tudo bem, não precisa ficar com essa cara de pasmo Romeu. __________________________________________________________ Nome: Romeu La Verona Status: Amigo, fiel escudeiro. Idade: 22 anos. Hobby: Tem um jeitinho pra tudo. Livro de Cabeceira: Cem anos de Cinema. Frase: "Luz, câmera, ação." __________________________________________________________ Os dois saíram em disparada logo após.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap17.

Ao anoitecer, alguém bate desesperado na porta e Dora vai atender ainda com o clima de cedo.

– Calma, já vai! O mundo não vai acabar se eu não atender a porta nuns segundos a menos! – Olá! – cumprimenta risonho. – Oi Alonso! Esqueceu alguma coisa aqui de manhã? – pergunta sem jeito. – Não, mas a pergunta não foi irônica, como naqueles seus momentos crazy, foi? Porque senão eu posso ir embora. – Não! Eu só perguntei por que me surpreendi com você aqui essa hora. – É que com você nunca se sabe quando é brincadeira ou tá naquele clima de guerra. – brinca. Dora dá uma esmurrada no braço dele. – Ai! Doeu! Sua louca irritadinha! – Ah é! Parecia que já estava bom, até com outro curativo está! – observa irritada. – Ah, é que eu segui o conselho de vocês e fui ao médico, mas não foi nada mesmo, só uns dias e já posso bancar o herói novamente. Pelo visto você sempre precisa de um à postos. – Mas o que você queria mesmo? Hoje eu não tenho nenhuma mobília pra arrastar. Sinto muito! – Eu tô devendo por hoje de manhã, então pensei em passar e te convidar pra conhecer Holanda Garden de verdade. Um tour por minha conta e com exclusividade. Tem que ser muito VIP pra conseguir esse passeio. Dora se desarma soltando um sorriso. – Ai Alonso, você não tem jeito mesmo! Vamos antes que eu me arrependa! E não se preocupe, hoje sou eu quem te protegerei. Lá estavam eles, andando pelas ruas do bairro, e Dora descobriu um lugar bem diferente daquele que falavam, com vielas iluminadas de lusinhas nas árvores e crianças correndo, brincando inocentemente cuidadas por suas mães que conversavam sentadas em bancos nas suas portas. Os muros eram preenchidos com Arte Pop que os jovens faziam e esses também curtiam música na praça central, numa espécie de competição, mas todos eram amigos e tudo sempre acabava bem e se repetia a muito tempo. Um mundo novo se abria para ela que olhava maravilhada para a simplicidade, pureza e riqueza de espírito das pessoas.

– Se New Park fosse assim! – pensava. – E ainda se dizem ricos. Alonso descrevia tudo entusiasmado, pois conhecia cada pedaço do lugar que ele amava. Porém Dora não parecia ouvir qualquer coisa que ele dizia, apenas admirando a princípio a paisagem, mas depois passou também a observá-lo em como falava, se expressava fazendo gestos para explicar tudo que podia ser importante. O momento crucial foi quando num desses gestos expansivos de explicação, Alonso voltou a mão para o lado de Dora e pegou na sua, não soltando mais durante o passeio. Ela se sentiu incomodada no início, mas depois relaxou e deixou rolar, tão natural como se não tivesse percebido. Mas o que veio a seguir foi realmente inesperado. Alonso puxou Dora para perto de um muro e se aproximou. – E aqui, onde é Alonso? – Não interessa, é só um muro, mas essa noite ele pode se tornar importante. – Ah é! Pra quem, por quê? – Pra nós, como local do nosso primeiro beijo! – diz Alonso disparando um beijo daqueles em Dora que mais encolhida não podia estar na hora. Até que ela se solta dele. – Não faça isso de novo! – sussurra sem respiração, dando-lhe um tapa na cara. Ela foi se afastando para trás e quando sentiu o fim da calçada com o começo dos pés, se virou e saiu correndo, chegando a sua casa tão depressa que era duvidoso como ela acertou o caminho. – O desespero faz milagres! – pensou enquanto ainda respirava atrás da porta meio que rindo e um tanto assustada com o inesperado acontecimento na lembrança. Novas batidas na porta, Dora abriu-a de imediato apenas numa fresta, mas era Alonso e ele ofegante começou a falar, sem brechas para o que Dora teria a dizer. – Dora, deixa de ser covarde e fica comigo! Ela não sabia o que dizer, nem ele e após um silêncio constrangedor Alonso repetiu o gesto que havia feito no muro, beijando-a como ela havia sonhado em fazer na noite anterior. Seus lábios se tocaram e explodiram idéias

maravilhosas e mais beijos e sorrisos que já havia esquecido como era. Entregaram-se a paixão e a noite fria e prazerosa transformou-se em manhã de sol quente e acolhedor aos jovens amantes. Um novo casal estava nascendo. Com os primeiros raios de sol, Alonso deixava mais uma vez e inesperadamente por obra do destino a casa de Dora. – Tchau, meu amor! – cochicha Dora. – Tchau irritadinha! – retorna Alonso no mesmo tom. – Ainda sou irritadinha pra você? – É seu apelido carinhoso! Combina direitinho com você e me faz lembrar as suas qualidades. – Tá, mas só me chama assim quando estivermos sozinhos! – Tudo bem! Eu já vou então. Tenha um bom dia, porque as noites serão minhas a começar pela de hoje. – diz Alonso após um beijo. Ele já está no meio da rua quando grita. – Agora sei por que “o amor é dor que desatina sem doer”. Sábio poeta! – Você está me comparando a dor? Alonso... – já ia se enfurecendo gritando de volta quando pisa num papel que não havia percebido que estava ali até então. Abaixou os olhos devagar com medo do que seria e suas suspeitas estavam certas. Dessa vez não era um cartão e sim um envelope grande e vermelho, lacrado que ao ser aberto deixou cair em suas mãos fotos de David, rindo, feliz, sério, de todos os jeitos e uma última onde ele parecia encará-la. Havia também o costumeiro bilhete de sempre que dizia.

VOCÊ ESTÁ PERDENDO O FOCO! CONCENTRE-SE NO JOGO! ASS. R PS. GOSTOU DO PASSEIO? NO PRÓXIMO SE SEU NAMORADINHO VIER NÃO SOBREVIVERÁ! (EU SEI, ELE NÃO É SEU NAMORADO) HÁ-HÁHÁ!

Dora, que por algumas horas pareceu tão aliviada do terror que sua vida se transformou voltou a sentir tudo de novo e como era horrível voltar a realidade. Apenas deixou uma lágrima rolar e voltou para dentro caindo em si.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap18.

Toc – Toc! – Dejavú! Vai ser assim todos os dias? – pergunta Romeo ao atender a porta. – Não meu amigo! Hoje foi melhor! Ela ficou comigo! – conta Alonso rindo e chacoalhando os ombros do amigo. – Já tava me preocupando de novo! Quase liguei pros seus pais, você tá diferente. Tem certeza que essa garota vale a pena? – Lá vem você de novo Romeo! Sempre tão desconfiado, pode ter certeza, dessa vez será diferente eu sei me cuidar! – termina indo para o quarto. De lá recomeça a conversa gritando. – Ah! E tem mais, hoje à noite você vai conhecê-la! – Conhecê-la? Como assim? Alonso o que você está aprontando? – Nada! Só pensei em fazer um jantar romântico onde você estará de saída assim que ela chegar e aí poderá conhecê-la. Assim que a ver você vai mudar essa sua cara de receio e vai passar a ser seu fã. – Tanto assim? Acho que não, meu nome não é Alonso. Obrigado amigo, mas sou vacinado nesse negócio de amor. – diz olhando pela janela, se achando o mais esperto dos caras. – E como você vai explicar esse lugar pra ela? Afinal de contas é meio diferente desse bairro! – pergunta rodando com os braços esticados mostrando o sobrado. – Vou dizer que é seu! – Como? – pergunta Romeo quase tendo um ataque de pânico. – Calma Romeo! Vou dizer que você ganhou de herança de um pai que deixou sua mãe grávida e abandonada e que nós dois trabalhamos duro pra manter essa casa e quase não conseguimos. – Tinha que meter minha mãe e meu pai no meio né! Tava demorando! Se minha mãe descobre o que você tá inventando sobre ela e meu pai... – É por isso que a Dora precisa te ver aqui pra ter certeza que eu não inventei nada.

– Cedo ou tarde ela vai acabar descobrindo sobre você, e se ela for metade do que você me contou isso vai acabar muito mal. – Não vai não! Tudo se resolverá a seu tempo! Vou ligar pra ela agora. Alonso liga para Dora que atende ainda desanimada com o cartão e fotos de R. Ela tenta disfarçar e sem saída aceita o convite para jantar. – Mal posso esperar pra chegar de noite e a gente se encontrar de novo. Afinal, já faz algumas horas que não brigamos, o universo perderá seu equilíbrio desse jeito. Ela ri nervosa. Até que Alonso pergunta. – O que foi Dora, um jantar te assusta? Não se preocupe, não sou nenhum tarado serial killer, é só um jantar. Além do mais meu amigo estará aqui e ele é bem medroso. – Tudo bem! Até a noite então! – diz anotando o endereço e desligando em seguida. – Ai meu Deus! O que eu faço agora? Sigo o que o R quer e me submeto a esse idiota ou vou e acabo colocando Alonso em perigo!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap19.

O dia todo Alonso passou só pensando nesse jantar, o que preparar, como agradá-la e mais, iria cozinhar. – Você cozinhando! Ou a gente se surpreende muito ou vai acabar morrendo com o seu cardápio essa noite. – ironiza Romeo ao saber. Enquanto isso, Dora está em casa andando de um lado pro outro sem saber o que fazer. – Logo agora que tava dando tudo tão certo! O Alonso não vai me perdoar se eu não for, mas e o David? Tenho que provar que ele não se matou! – pensava. Olhou ao redor e parou naquela foto em que David a encarava, que veio no envelope de R. Pegou seu material de pintura, colocou uma tela em branco no tripé e começou a rabiscá-la, esboçá-la, pintá-la com formas livres e precisas de quem fazia algo com muita concentração. Passou horas alí, nesse ritual de entrega que nem a fez ver o tempo voar, tempo em que Alonso preparou um belo Spaghetti com Almôndegas que

até Romeo estava dando o braço a torcer só pelo cheiro. Agora arrumava a casa para dar um clima romântico, se aprontaria e esperaria por ela. Já era noite quando Dora deu por si, sua aflição aumentou ainda mais, precisava de uma decisão e tinha que ser agora. – Ah! Que se dane! – gritou, correndo em direção ao armário para se trocar. Estava saindo quando o telefone toca. – Alô! – Alô! É a Mina do falecido David? – Aff! É a Dora, quem fala? – Oi, aqui é o carinha da Carnation Street que você procurou e te bateu uma real do David, lembra? – Ah, claro! Como não lembrar! O que você quer? – Tu tá com sorte Minazinha, soltaram o meu brother hoje e ele tá aqui pra te dizer quem é o cara loiro que vinha comprar nossos produtos junto com o David. – Nossa! Que bom, vou levar a foto pra ele então! Mas tem que ser hoje, porque eu tava de saída... – Mina se tu tá interessada tem que ser agora, porque meu mano vai dar uma sumida por uns tempos, se é que você me entende, mas o interesse é seu. – Então ele não poderia vir aqui, você lembra o que aconteceu quando eu fui aí na última vez. – Não dá! Ele não pode ficar dando mole por aí, ou você vem aqui até o fim da noite ou vai ficar sem saber! – Tudo bem, eu vou! – Desculpe Alonso, foi melhor assim! – pensou, desistindo de ir. Concluiu que não poderia chamar Alonso para ir com ela, então tomou uma decisão que não seria fácil realizar. Pegou o telefone, um cartão de cima da mesa e discou os mesmos números que do dia anterior. – Alô! – Ora, ora! Como o mundo dá voltas! Boa noite Dora! – cumprimenta Leonard Turner. – Oi! Eu preciso que você vá comigo a um lugar! – diz Dora afoita.

– E por que eu iria? – Porque é seu trabalho de policial investigar uma pista. – E que pista seria essa? Dora explicou a Leo a conversa que teve com o rapaz da Carnation Street e depois de algum desdém e ir a forra só para enlouquecê-la e se vingar da manhã anterior foi buscá-la e minutos depois estavam na frente dos dois rapazes. Longe dalí, Alonso espera com uma paciência esperançosa de que Dora só estava atrasada para irritá-lo. – Olá! – cumprimenta Dora. – E aí! – responde o carinha com que Dora havia falado. – Esse é Leonard Turner, um amigo. – apresenta Dora. – Oi gente! Ela quis dizer detetive Leonard Turner. – diz mostrando o distintivo. Os caras riram e Dora revirou os olhos. – Bom, esse é o mano que viu o amigo lorinho do David. – Claro! Aqui está a foto! - diz Dora entregando a foto ao cara. O rapaz olhou e olhou e depois de analisar bem se voltando para a luz deu seu veredicto. – Olha Mina desculpe, mas o carinha não está nessa foto. – Mas como assim! Não pode ser, toda a turma está aí! – desanima Dora. – Você tem certeza rapaz? – pergunta Leo. – Absoluta! O Lorinho não tá aí! – Então isso só prova que ele tinha outras amizades também. – E agora, como vamos saber quem é esse cara loiro? – pergunta Dora aflita. – Numa reunião em New Park aonde todo mundo vá, vocês tem sempre essas coisas, não tem? É preciso reconhecimento pessoal. – Logo haverá um baile na Faculdade que todos com certeza irão. – responde Dora. – Então vocês dois vão e ele poderá dar uma boa olhada em todos os convidados. Os caras se animam com a notícia.

– Eu também irei, claro! Para evitar que vocês se metam em alguma confusão. – conclui Leo, desanimando os rapazes. – Até o baile então! – despede-se Dora antes de se dispersarem. Foram para a casa no fim da noite, Dora ficava cada vez mais apreensiva pensando em Alonso que naquela hora devia odiá-la mais que em qualquer outro dia. Na verdade, no sobrado naquele exato momento ele apagava as velas que acendeu para enfeitar a mesa e dizia. – Chega! Acabou a palhaçada, você tinha razão e ganhou mais uma vez sábio amigo Romeo. Boa noite!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap20.

No outro dia de manhã... A aula começa e Alonso sente a falta de Dora. – Que covarde! Nem na aula aquela garota aparece com medo de dar uma explicação. – pensa, enquanto olha para a carteira vazia. – Ela vai ter que ser muito convincente se quiser ao menos minha amizade de volta. – se enfurece. Enquanto isso, em Holanda Garden, Dora aflita termina o quadro que começou na noite anterior pensando em como chegaria a Alonso. Até que nota a solução bem na sua frente. – É isso! Coragem garota, você consegue! Só mais um mico público pra quem teve tantos nos últimos tempos é bico! Pegou o quadro e enrolou-o com cuidado, levando em seguida para o furgão rumo a Escola de Artes Central. Dirigiu pensando em como iniciaria a conversa que levaria para uma convincente desculpa, pois Dora não queria envolver Alonso no jogo de R com medo de que ele sofresse as conseqüências.

Estava entrando na faculdade quando dá de cara com Paris no portão principal. – Paris! O que você tá fazendo aqui? A primeira aula já tá quase acabando! – O mesmo pergunto pra senhorita, e que embrulho enorme é esse? A gente tinha que entregar algum trabalho hoje? – Não! Isso é rolo meu! – responde ela. – Aham! Mas que saudade das suas confusões, as coisas ficam bem paradas quando você não tá por perto. Você anda sumida moça! – acusou Paris. – Engano seu! Estou aqui agora bem na sua frente, não estou? – questionou Dora. – E pelo jeito estamos no mesmo barco dando “um tempo” aqui fora enquanto a aula acontece lá dentro. – concluiu. – Não tô com a mínima vontade de encarar idiotas hoje! – confessa Paris. – Pois eu não quero encarar alguém que não merece que eu faça isso com ele! – sussurra Dora. – Então o encare! Dora se tem alguém que dá conta de qualquer situação maluca esse alguém é você! E eu não preciso ficar listando, nós dois sabemos muito bem da guerreira de piscinas e defensora dos fracos e oprimidos você é! – ele ri. – Pára! Falando assim até parece que eu sou uma descontrolada! – E não é? – comenta Paris, abrindo um largo sorriso. – Tá! Me convenceu! Tô indo encarar meu desafio, mas antes me responde uma coisa. Na intimidade você e o David eram mais próximos do que pareciam? Porque eu já não me surpreendo com mais nada! Um silêncio confirmador abateu-se entre eles. E Dora continuou. – Hum! Eu sabia! E você foi com ele alguma vez a Carnation Street? – Não! O David não era tão ruim em casa, mas sair comigo era demais pra ele! – E ele nunca te falou, ou você mesmo viu, um cara loiro de capuz, saindo com ele sempre tarde da noite? Paris nessa hora fica nervoso, com a respiração ofegante e responde.

– Claro que não! Porque você fica só perguntando do David, sempre é isso! Deixa os mortos descansarem em paz e presta atenção nos vivos! – grita, correndo para a casa logo em seguida. – Coitado! Acho que ele ainda está sentindo a perda. – ela pensa. Dora deixa esse acontecimento de lado para dar continuidade ao plano atual. Entrou na Escola de Artes Central indo direto para o pátio. O sinal marcou o final da primeira aula e todos os alunos transitavam trocando de salas. Alonso vinha adiante. – Se você não gosta de comida italiana era só me avisar! – diz ele. – O quê? – pergunta ela sem entender. – Eu fiz spaghetti com almôndegas ontem, mas pelo jeito você descobriu por telepatia e resolver me dar o cano! É isso ou meu amigo me traiu, mas ele é medroso demais pra isso, então... – disse seguindo adiante. – Não é nada disso! – Dora tentou explicar. Até que ela coloca o enorme embrulho na sua frente e grita para todos ouvirem. – Abre! Ele a princípio, parece não querer, meio desconfiado e inseguro com os olhares de todos do pátio, mas resolveu dar um voto de confiança e abriu. – O quê é isso? – perguntou espantado. – Isso é a prova definitiva de que eu te amo e de que o David já não representa tanto pra mim. Ela se referia ao quadro que tinha pintado na noite anterior, que deveria ter o rosto da foto de David, mas que por instinto acabou tendo no final a imagem de Alonso. Todos estavam quietos esperando sua reação, até que ele respondeu nervoso. – Tudo bem! Vamos conversar! Dora também nervosa, quase chorando sorriu correndo e deu um abraço nele comemorado pela galera com palmas e zoeira. – Eu te perdôo, irritadinha! – sussurrou Alonso, lhe dando um beijo e levando o quadro para a próxima aula que já tinha começado. Mell apenas observava como sempre fazia ultimamente. Estava quieta demais e explodindo por dentro, mas o troco viria a seguir.

A maioria dos alunos chegou atrasada a aula de Design e após levar uma bronca do professor foram surpreendidos com a notícia de que o Baile Semestral de Boas Vindas seria naquele fim de semana. Ele então explicou. – Preciso de pessoas que mexam com decoração e tenham agilidade para determinar tudo o mais rápido possível. Perguntei ao clube local quem me seria útil e eles me deram o nome de Isadora Réquiem que é aluna dessa aula. Nessa hora todo mundo recomeçou a bagunça e um deles brincou. – Professor, se ela coordenar o baile nosso tema será o hospício e todos terão que vir vestidos de camisas de força! Todo mundo começa a rir, Alonso quer dar na cara do garoto, mas Dora não deixa e responde. – Obrigada professor, mas no momento não estou mais mexendo com esse tipo de atividade. – Que pena! Alguém se candidata? – pergunta o professor. – Eu mesma! – grita Mell, levantando a mão. A turma agita e após um tempo o professor obtêm o controle da sala e a aula recomeça normal. – Você tem com quem ir? – sussurra Dora. – É, eu não sei. São tantas propostas! – ironiza Alonso. – Comigo as emoções serão mais fortes! Você já viu! – ela propõe. – Tá certo, você venceu! Mas se receber proposta melhor eu mudo de idéia! – Cafajeste! – diz Dora, dando-lhe um soquinho. – Ai, ai! Uma semana depois o locutor da faculdade anunciava. – Moças e rapazes o Baile Semestral de Boas Vindas vai começar.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap21.

Durante a semana que precedia o baile, Mell tratou de coordenar todos os preparativos e alfinetou Dora como pode. Mas ela não estava se importando com isso, o que queria mesmo é ficar numa boa com Alonso e descobrir quem era o cara loiro que daria as respostas que ela tanto queria.

Já havia avisado os rapazes da Carnation Street e Leo Turner, que compareceriam para identificá-lo. R esteve mudo todo esse tempo e Alonso não fazia nem idéia das jogadas planejadas para essa festa que iam muito além de dança e diversão. – Uau!!! O que eu fiz pra merecer isso? – pergunta Alonso quando vê Dora saindo do loft. Ela estava usando um vestido rosa bebê tomara que caia, longo. Com decote em V discreto e pedraria transparente na parte de cima. Uma presilha de borboleta prendia seus cabelos do lado esquerdo, nas mãos uma bolsa pequena prata e nos pés sapato em estilo boneca com uma fivela da mesma cor. Seu rosto, embora divino tinha um tom de desapontamento. – O quê foi? Não vai me dizer nada? – pergunta ele novamente dando uma voltinha. Ela desfaz a cara de desanimo e ri. – Nossa! Você tá ótimo, nunca vi ninguém ostentar um smoking com tanta finesse. – ironiza. – Estamos parecidos com Natalie Portman e o Jared Padalecki indo numa entrega de prêmios. Dora o olha espantada. – Que ambição o senhor Alonso possui e eu não sabia! Cadê sua humildade? – Deixei para as noites comuns, hoje é dia de festa! – comemora. – Mas, por que aquela carinha quando você saiu? – Não foi nada! Eu só tava pensando no último baile que fui e me deu um medo de um Dejavú! – confessa. – Não se preocupe! Eu sei que não posso voar e ainda por cima, o pátio da faculdade é no térreo. – tenta brincar. Dora suspira fundo com os olhos cheios d’água e dita. – Alonso, se você falar alguma coisa assim pra mim outra vez, qualquer que seja, eu juro que nunca mais olho na sua cara. Sei! Você só estava tentando ironizar o fato, mas certas coisas são mais bem digeridas se engolidas, certo?

Ele não falou nada, apenas assentiu com a cabeça. Com vergonha do que havia acabado de dizer. Somente pegou a mão de Dora e caminharam até o furgão, indo em silêncio para o baile. Quando chegaram, Alonso tentou com jeitinho mais um comentário para quebrarem o muro que se formou entre eles. – Que coisa estranha! Você de rosa, parece que essa cor não faz muito o seu estilo! – É que dessa vez eu não quero errar em nada! – sussurra Dora, respondendo e alisando o vestido com as mãos. Finalmente entraram e puderam ver toda a turma da faculdade e New Park em peso no pátio todo enfeitado que tinha como tema o cinema clássico. Cheio de fotos e cartazes de astros e filmes pendurados, com um telão gigantesco que projetava películas em preto e branco através de um moderno retroprojetor. Luzes, som, um bar, mesas e um conhecido DJ, além do raio laser que cruzava a pista de dança e mímicos soltando bolhas de sabão e imitando os convidados. Dora dá uma boa olhada em volta e comenta. – Puxa! Tenho que dar o braço a torcer, a Mell realmente aprendeu a organizar uma festa! – A aprendiz nunca é tão boa quanto sua mestra! – defende Alonso. Estavam passando em volta da pista de dança quando de repente Dora dá de cara com sua mãe. – Mãe! O quê você tá fazendo aqui? – Ora filha, você sabe como funciona! Eles me convidam eu venho! Talvez seja pra te controlar! – diz animando-se. – Pensei que você não vinha, mas pelo jeito veio e acompanhada! – termina, desfazendo a alegria enquanto observa Alonso. Este não deixa por menos ao cumprimentá-la. – Olá Lara! É muito bom revê-la tão jovial! Ela ia responder quando uma mão a toca seguida de uma voz vivaz. – Lara! Há quanto tempo! Que bom que deixou os problemas de lado e resolveu aparecer! Fui eu quem te fiz o convite, tínhamos que ter essa noite à presença da luz de New Park! – rasga-se Mell, a fim de pegar pesado.

– Você sabe como eu sou! Nunca deixo nada me influenciar e sempre acabado dando a volta por cima! Sempre! – diz em tom rústico, olhando para Alonso. Ele preferiu ser bastante discreto e não comentar nada. Mell, que só agora fez notar Dora recomeçou. – E você Dorita, está aí tão calada! Pensei que esse ambiente não lhe agradasse mais! Até pelos seus desvios esses dias, tem estado tão ocupada que nem aceitou organizar a festa, logo você! Mas estou vendo que já conquistou seus objetivos! – diz referindo a Alonso, com olhar de conquistadora barata. Agora é Dora quem se cala com uma meia risada. Achava que não valia à pena responder, e sua mãe com certeza não ficaria do seu lado numa discussão. Mell, se achando a guerreira poderosa dá o golpe final. – É, mas que bom que todos vieram! Pena que a Dora esteja atrasada com esse vestido, rosa foi o tema do baile passado. Aquele em que você perdeu tudo, inclusive o juízo queridinha! – ri maléfica. – Bem, agora preciso dar continuidade ao baile! Fiquem a vontade! Ela sai com ar superior de quem disse a que veio. Dora apenas sentia pena daquela coitada que falava mal da roupa alheia, mas vestia um vestido comprido em estilo oriental amarelo ovo agarrado demais com um coque enorme nos cabelos. – Eu hein, que garota maluca! – comenta Alonso, beijando Dora. Lara nesse momento se conforma e despede-se para circular pela festa. Pouco tempo depois Mell sobe ao palco e anuncia. – Sejam bem vindos ao Baile Semestral de Boas Vindas! Essa noite remetam-se aos anos 40 e sintam-se livres pra serem o que quiser! Para isso usem as máscaras que estão distribuídas nas mesas. É proibido ficar sem! Minutos depois o salão estava cheio de pessoas irreconhecíveis que circulavam com liberdade pelos ambientes. Agora realmente a festa vai começar!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap22.

O Baile continua... A galera se diverte geral na festa cujo Mell não impôs limites nem hora para acabar. Tudo estava normal até que Alonso pede licença e se distancia, desaparecendo entre os convidados mascarados. Dora tenta passar entre eles para se sentar na cadeira de uma mesa vazia, porém um convidado de estatura média fica em seu caminho. – Licença senhor! – pede ela. O homem misterioso dá, mas quando ela tenta passar novamente ele pula em sua frente e impede a passagem. – Aff! Cara folgado! – Dora sussurra. – Senhor, assim não vai dar! Até que ele lhe passa um cartão azul com os dizeres.

ADIVINHA QUEM SOU EU!

Ela gelou nessa hora e com os olhos amuados subiu seu rosto até os olhos mascarados e cochichou sem querer estar certa. – R? O cara balança a cabeça devagar em sinal negativo, erguendo a mão em sua direção. Ela ia correr, mas ele rapidamente toca na máscara e levantaa para cima, revelando-se. – Booo!!!! Credo Dora, que medo! Quem você achou que fosse com esse negócio de R? Ela respirando fundo, refazendo-se do susto responde com raiva. – Não sei, nem sei o que ia falar de tanto medo! Mas por que a brincadeira Paris? – Não deu pra resistir! Você tava aí parada e em que noite mais eu poderia andar sem ninguém pra me encher? O mundo devia ser assim sempre, todos mascarados. Mostrando só o que querem, quando querem, sem compromisso de identidade. – Mas de certa forma já não é assim? – pergunta Dora. – Não, eu não acho que seja assim! Pelo menos não pra mim. – argumenta.

Paris percebe que estão olhando e resolve ir. – É melhor eu voltar a esse mundo que criei e provar minha teoria, só por uma noite. Ser normal e me divertir com todos! Do mesmo jeito que se divertem comigo! – sussurrou. – Vai! Mas não faz nenhuma besteira! Não se rebaixe ao nível deles! – recomendou Dora. – Nada de assustar ninguém! – gritou quando ele já estava longe. Um pouco mais adiante, do outro lado da piscina cheia de balões que havia na área das mesas, um cavalheiro de máscara negra ergueu um brinde a ela que ignorou. Ele foi chegando mais perto. – De novo não! Alonso, cadê você? – pensou. O cara se aproximou até que não houve como fugir. – Bela noite não senhorita, especialmente para prender maus elementos! – Detetive Leo! – surpreendeu-se. – Eu e os nossos dois espiões. Não vim falar com você antes por causa do seu namorado e daquele cara esquisito que estava aqui até agora. – justificou engolindo o champanhe. – E como andam eles? – quis saber Dora. – Até o momento nada! Mas não vamos desistir, sua amiga com esse baile de máscaras enfraqueceu nossos planos. Avante então, vencer as dificuldades! – disse, voltando para o outro lado da piscina. – A Mell enfraquece qualquer um! – comentou Dora para si. Alonso, depois de desaparecer um tempão, estava retornando para junto dela quando é surpreendido por um professor que lhe perguntou. – Você não me é estranho! Nos conhecemos de algum outro lugar? – Acho que não! O senhor está se confundindo porque eu tenho uma cara muito comum! – Tem certeza? – insistiu o homem. – Tenho! Absoluta! Não freqüentamos os mesmos meios, eu sou bolsista! – frisou. O professor desculpou-se pelo incomodo e Alonso pôde voltar para Dora. Recolocando a máscara urgentemente. – O que o professor queria com você? – quis saber ela.

– Nada! Só queria me parabenizar por um trabalho. – CDF! Que demora! Onde estão as bebidas? Não se afaste mais, estou com uma impressão terrível de que alguém me observou o tempo todo, só agora que você voltou é que passou. – Impressão sua sentindo falta da minha presença protetora! – Convencido! – Tá! Eu te mostro o motivo da demora! – disse ele, estendendo-lhe a mão. Uma música começou a tocar fazendo movimentar o casal que permanecia imóvel em posição de dança. – Me perdoe por hoje mais cedo. – pede Alonso.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap23.

Eles dançaram até o fim da música, como se não fossem fazer isso nunca mais. Dora estava cansada, mas sorria feito uma criança que ganhou o que mais desejava. Porém, quando voltava para a mesa, viu um vulto que se destacou dos outros, passar entre os convidados do outro lado da piscina. – O quê foi aquilo? – sussurrou para si própria, se achando louca. – Aquilo o quê? – perguntou Alonso, que escutou o que ela disse. – Nada! Deve ser cansaço, acho que vou me refrescar um pouco no toalete. Licença. Vá descansando esses pés de valsa que eu já volto! – brincou antes de sair, dando-lhe um selinho. Dora saiu dos fundos do pátio, onde se encontrava a piscina e atravessava a pista de dança, quando de repente o vulto cruzou seus olhos novamente. Uma silhueta familiar que a preocupava muito conhecer. Ela ia passando entre as pessoas que agitavam na pista, às vezes vendo-o nítido, outras vezes só reluzindo a vestimenta preta bem mais a frente dela, que não desistia de seu objetivo. – Eu só posso estar louca mesmo, pra estar fazendo isso! Vai ver todo mundo tem razão! – pensava.

Dora estava num jogo de gato e rato que ela mesma criou e que não sabia no que ia dar. Na certa, pensou que encontraria o rapaz da roupa preta, ele se identificaria, ela se desculparia por sua gafe e a situação estaria solucionada. Mas não foi bem assim que aconteceu. Após muito procurar pela pista de dança e arredores já estava desistindo, quando o avistou na sacada de uma sala que estava aberta no primeiro andar. Mell avisou nessa hora sobre a queima de fogos que começaria para saudar o baile, enquanto Dora corria ansiosa para pegá-lo. Chegou à sacada exatamente no começo do foguetório, mas viu que lá não tinha ninguém. – Droga! Nem na bebida eu posso colocar a culpa desse meu devaneio. – diz decepcionada por ter gastado seu tempo correndo atrás de um fantasma e constatando que não bebeu nada. De repente, freneticamente alguém apareceu atrás de Dora, lançou a mão em suas costas e virou-a indefesa para trás, dando-lhe um beijo com meia máscara levantada. Os fogos ardiam no céu, multicoloridos e incessantes como nos melhores shows do gênero. Lá em baixo todos assistiam a cena inusitada, inclusive Alonso que foi procurar por ela. Era impossível não ver o casal mascarado iluminado pela luz do acontecimento. Dora, após o elemento surpresa, deu um tapa de imediato no atrevido, que respondeu rindo. Ela olhou para baixo e pode ver Alonso indo embora decepcionado por reconhecê-la na sacada. – Seu idiota! Olha o que você fez! – grita para o mascarado de vestimenta preta, virando-se para ele. – Paris, não é você, é? Porque se for dessa vez você foi longe demais! – continuou. Ele não respondeu nada e continuou observando pela máscara. – Eu mereço! Que espécie de baile é esse que todo mascarado vem me atazanar? – pergunta olhando para o céu. – Foi você que começou a me seguir. – respondeu o mascarado rindo. – É que eu tive a insana impressão de ser meu ex-namorado... Mas é impossível! E por isso você já vai beijando a primeira que te seguir! – diz, querendo recuperar a razão. – Você quase acertou! – fala, retirando a máscara de vez.

Dora, ao olhar para seu rosto fica catatônica sem conseguir ter alguma reação por mais que tentasse. Enquanto isso na rua, Alonso estava descendo a avenida da faculdade. Quando um carro vem a toda velocidade no silêncio desértico do local e acelera para cima dele que se joga para o lado, saindo do alvo mortal e rolando para o canto da calçada. O veículo continuou sua corrida desenfreada deixando apenas o rastro de pneu queimado até desaparecer no fim da pista. Ele observa a partida do carro até que o celular toca. – Alô! – Você não está fazendo seu trabalho direito! – diz do outro lado uma voz feminina. – Se eu ficasse lá ela ia desconfiar de tanta panaquice! – justifica. – Acho que está confundindo seus propósitos. – Não é nada disso! Eu garanti que ia dar tudo certo e vai dar, confia em mim! – Acho melhor que sim, ou não quero nem pensar nas conseqüências se tudo for descoberto. – Pode deixar! Agora preciso ir, tenho que pensar em como dar um jeito no nosso problema. – desliga, se limpando e envolvendo as mãos nos cabelos que ficaram bagunçados. Alonso pensava intimamente, apesar de querer passar tranqüilidade, que o cerco estava se fechando e ele por mais que não quisesse, perdeu o controle sobre Dora e seus sentimentos. Sentia ciúme e a queria mais que tudo.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap24.

Dora, ao olhar para o rosto do mascarado fica catatônica sem conseguir ter alguma reação por mais que tentasse. –D a v i d!!!! – sussurra trêmula.

O rapaz então a olha por alguns segundos, fazendo mistério antes de responder, mas continua com o mesmo sorriso debochado na cara.

– Não querida! Esse milagre não aconteceu! – responde. – Sou Aidan, primo do David e por azar, se perguntarem eu nego, do Paris. __________________________________________________________ Nome: Aidan Silver Castel Status: Primo de 1°grau dos Silver Rock. Idade: 21 anos. Hobby: Criar situações desafiantes. Livro de Cabeceira: Revistas Pornôs. Frase: "Para bom entendedor, meia palavra basta." __________________________________________________________ Ela não conseguia falar nada diante da semelhança de ambos que pareciam ser a mesma pessoa. Continuava com aquela expressão de quem viu um fantasma e se sustentava nas pernas por milagre. Vendo aquele rosto, seu mundo que começava a se firmar, novamente veio abaixo. Aidan se aproxima dela, olha fixamente em seus olhos e baixando o tom de voz lhe diz. – Nossa! Sua cara tá branca que nem papel! O que você achou? Que seu amor do passado voltou dos mortos pra fazê-la feliz por mais uma última noite! Lamento querida, mas o mundo real não é assim! Contos de fadas, você já tá bem grandinha para acreditar nisso, não acha? Mas admito que foi bonitinho, sério fica charmoso em você! – terminou, segurando a ponta do queixo dela. Dora então bate na mão direita de Aidan e responde seca, se recuperando. – O quê eu acho? Eu acho que os Silver Rock são o pior tipo de lobo em pele de cordeiro que há no mundo! E com lágrimas sem controle rolando dos olhos, correu para fora da sacada, se afastando da sala o máximo que conseguiu. Só pensava em como tamanha semelhança era possível e pior, o quê Alonso estaria pensando sobre ela agora. Estava indo atrás dele, quando sua mãe a interrompeu. – Ele já foi! Também, depois da sua cena de reencontro de novela! Dora não deu muita importância para o que Lara disse. Então ela a deteve, segurando o braço da filha que ameaçou insistir na procura de Alonso, continuando.

– É melhor assim, sinal de que as coisas estão voltando aos seus eixos. Isso não ia durar mesmo! Óleo e água não se misturam, já diziam os primeiros. Vá lavar esse rosto e me espere. Hoje você vai pra casa mocinha! Angustiada, resolveu dar um tempo para tudo que aconteceu e obedecer, indo finalmente para o banheiro. Na saída encontrou com o mascarado da piscina. – Boas notícias! Um dos caras reconheceu o suspeito loiro! – Sério? E quem é ele? – Você vai se chocar, e sendo quem ele é não íamos encontrá-lo na foto com os rapazes nunca! Curiosa, Dora seguiu Leo, que a levou até os caras ansiosos para revelarem quem era o lorinho e sumirem dalí, evitando problemas. – É aquele alí! – disse o cara, apontando o dedo indicador para o palco. – Tem certeza! Que brincadeira é essa? – pergunta Dora, boquiaberta. – Claro minazinha! Ele vestido dos pés a cabeça parecia um dos nossos, mas eu vi a cara dele que era diferente. Achei o mano bonito e tudo. – confessou, enquanto o outro lhe estranhava. – Agora você já sabe por que! – diz Leo, rindo. Dora não quis saber de mais nada, subiu ao palco a fim de desmascarar o loirinho. – Então, muitas compras na Carnation Street, Mell? Alguma lojinha que eu não conheça? Quem sabe uma noturna que vende coisas “raras”? – Eu não faço idéia do que você está falando! Aconselho que vá ter seus delírios com outra pessoa! – responde Mell, destoando-se do assunto. O baile pára e a galera em peso começa a prestar atenção no embate. – Eu estou falando sobre você, toda disfarçada e o David na Carnation Street comprando meta-anfetamina nas madrugadas antes dele morrer. – acusa enfurecendo-se. – Olha Dorita, você tá louca! Eu não vou ficar perdendo tempo com mais um dos seus showzinhos. Isso já tá perdendo a graça! Mell faz sinal para a música seguir e ia recolocando a máscara que tirou para a apresentação no palco quando o acusador grita. – Tenho certeza que você era o maninho que ia com o finado David lá no nosso gueto pegar uns produtos com a gente. Ficava à surdina, sempre

fazendo doce, achamos até que o David era fruta, mas agora tá explicado, ele corneava a minazinha com a melhor amiga! Típico! – Cala a boca, seu pobretão de merda! Quem foi que autorizou a entrada desse coitado no nosso meio? Gente como ele não merece nem respirar o mesmo ar que o nosso! – grita Mell nervosa. – Calada você moça, ele e o amigo estão aqui ajudando uma investigação de polícia! – disse Leo, identificando-se detetive. – E se eles quiserem podem fazer uma acusação contra a senhorita por calúnia e vamos todos terminar essa noite na delegacia. Se não quiser acho melhor começar a falar. Um silêncio constrangedor tomou conta do local, buchichos eram ouvidos em alguns cantos, em outros, pessoas se retiravam sorrateiramente. – Ah Dora! Como chegamos a esse ponto? – pergunta Mell destruída. – Eu não sei. Me diz você! – responde Dora, também abalada. – Está bem! Nunca fui nada perto de você, era só a amiga! Uma ponte pra se chegar até Dora, a rainha de New Park! Eu aceitava porque era isso ou nada, ser só mais um projeto nas mãos da poderosa. Mas aí um dia ele apareceu, recém-chegado no bairro e como era lindo, disse se chamar David e parecia tão especial olhando pra mim. E como sempre, você chegou e tudo mudou. Pensei uma noite que ele foi me procurar lá em casa porque me pediria em namoro, mas em vez disso quis saber se eu lhe apresentava à Dora. – Eu nunca soube disso, me desculpa. Por que você não me contou? – Será que você realmente queria saber? Acho que não Dora. Aquela época você não estava tentando ser essa santa! E senti tanto ódio quando ví vocês juntos pra cima e pra baixo, aquele namorico adocicado, o casal perfeito! Por favor, me poupe! Comecei a tentá-lo, chamá-lo, seduzi-lo, até que ele caiu e comigo David era verdadeiro, o cara asfixiado por esse bairro, pelos seus padrões impossíveis e dessa gente ordinária! O pessoal vaiava enquanto Mell continuava. – Comigo ele se drogava, amava, era violento, divertido, falava absurdos que você jamais escutaria, mas eu sim. Agüentei tudo calada e o convenci a fugir daqui, íamos depois do seu bailezinho cor de rosa, imagine como você ficaria, abandonada pelo seu David. O príncipe fugindo do castelo e trocando a princesa pela bruxa. Seria a vingança perfeita! – ri empolgada.

– Mell, você me odeia tanto assim? – pergunta Dora assustada. – Você me obrigou a isso! E o pior é que sabe lá como ainda tem sorte, pois na hora H ele não quis vir comigo. Quando você foi ver a briga do Paris lá fora eu o chamei rapidamente para combinarmos os últimos detalhes no terraço e lá, David deu pra trás. – Ele estava estranho, talvez quisesse me avisar ou me pedir em casamento. Perdão, não sei! – relembrou Dora. – Aí você se enfureceu e o empurrou para fora do prédio? – perguntou Leo. – Não foi assim! Eu fiquei furiosa, mas apenas saí e o deixei lá. Não matei o David, eu juro. O casal ridículo não valia isso! Ele a amava! – Eu tenho pena de você Mell! – sussurra Dora arrasada. – Pois não deveria, porque meu único desejo nessa vida é te ferrar com todas as minhas forças! O barraco prometia entrar noite adentro até que o reitor da faculdade interrompeu. – Bem, creio que seja tudo por hoje. Dêem o baile como encerrado e um ótimo repouso pra todos. Obrigado por comparecerem! – Essa senhorita deve sérias explicações à polícia senhor reitor. – diz Leo, querendo prendê-la. – Hoje não! Amanhã cedo ela estará na sua delegacia acompanhada de um advogado, eu prometo e me responsabilizo, conheço a família dela que tem muito prestígio e são meus amigos. Vou contar o ocorrido ao pai dela e tudo será esclarecido! – responde o reitor, tomando Mell pelo braço. A noite acabou e o que deveria ter sido um baile para deixar Dora mais confiante em sua vida sendo retomada foi uma sucessão de pequenas tragédias. – Até quando? – ela se perguntava indo embora com sua mãe.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap25.

Na manhã seguinte...

Eram ainda sete horas, Dora virava na cama expressando os rascunhos da noite mal dormida. Ela pensava desanimada em Alonso que dessa vez não a perdoaria, em Aidan e sua semelhança surreal com David e no barraco que aconteceu com Mell, no ódio que a ex-amiga sentia. Só mais detalhes de sua vida toda errada. Inesperadamente o celular toca. – Alô! – resmunga. – Alô, Dora não desliga! – Resolveu começar cedo seu plano de vingança contra mim! Você nunca levantou a essa hora antes na vida! Já sei! Deve estar achando que o detetive marcou com você de manhã pra me vingar e quer dar o troco? Se for isso, eu já estava acordada! E não tô a fim de recomeçar o pesadelo de ontem! – Não é nada disso! Pára de falar e me ouve, é sério! – diz Mell num tom angustiado. – O quê você tá fazendo? Mell, você tá correndo? Tá fugindo da polícia? – Não é da polícia! Mas eu preciso ir embora de New Park e antes queria falar com você sobre tudo que aconteceu! – Não é mais um daqueles planos malucos de vingança, porque se for quem tá passando dos limites agora é você! – diz Dora acordada e elétrica. – Eu juro que não, você precisa saber de coisas que não faz nem idéia e pensando bem pude ver o quanto fui burra! – Calma Mell! Não tô entendendo nada, o que você precisa me contar? – Nós somos só peças manipuladas do jogo, e eu fui a pior de todas elas, agora sei o quanto errei com você Dora! Perdão! – grita. – Mell? Se a gente se encontrar e conversar é claro que eu te perdôo! Venha e a polícia poderá te proteger! Podemos resolver tudo isso juntas! – É tarde! Eu queria, mas o jogo acabou pra mim! – grita Mell chorando, seguido de uns ruídos estranhos de alguém se sufocando e esperneando. – Mell? Mell? Meeeeellllllll!!!!! – grita Dora apavorada sem resposta, só o silêncio.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap26.

Já fazia duas semanas que a polícia havia rastreado o local onde estava o celular de Mell. Não encontraram qualquer sinal dela ou pista de seu paradeiro, era só um beco perto da Escola de Artes Central, como qualquer outro, com o telefone jogado no chão sem nenhuma informação suspeita. Depois disso Dora andava mais tensa que nunca, pois se culpava pelo desaparecimento. Os investigadores e até o detetive Leo achavam que Mell devia mais do que se supunha, por isso resolveu se fazer de vítima para Dora e representar seu desaparecimento, enquanto na verdade fugia. Mas ela sabia que não era bem assim, ou isso, ou Mell era o R, porque após voltar do beco na mesma manhã do fato, Dora encontrou o costumeiro cartão vermelho grudado na porta de seu loft em Holanda Garden. E esse dizia.

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PS. BELA ATUAÇÃO NO BAILE. VOCÊ ESTAVA LINDA!

Dora pegou o cartão, releu-o várias vezes tentando descobrir algo e o guardou com os outros cartões e pistas no quadro Iluminati. – Tem tanta coisa aqui! – pensou, vasculhando o fundo do quadro. Mas mesmo com os acontecimentos, ela tinha que seguir a vida, pelo menos aparentemente, talvez R pudesse se distrair e errar. Ele era humano, estava perto para saber tudo sobre ela e cedo ou tarde poderia se entregar com uma frase ou gesto. Começaram então os preparativos para o New Dad Day. Uma espécie de dia dos pais especial de New Park que conta com a ajuda de todos no bairro e é muito popular e pomposo, todas as famílias aparecem para uma recepção com brincadeiras, competições e um piquenique dançante à tarde no parque. Com Mell fora do caminho, a galera hipócrita voltou a falar com Dora e como

era de costume, haviam passado uma borracha no assunto e já a tinham como a rainha que nunca perdeu o trono. Não se lembravam mais o que aconteceu, só tinham boca para falar mal de Mell para Dora e posicionar seu lado na briga. – Eu jamais acreditei na Mell. Ela sempre foi uma piranha mesmo! Já pegou meu namorado, mas na época não contei porque ela era sua amiga, Dora. – diz uma das patricinhas. – Mas ele não te largou porque você o chifrou com o motorista? Disseram que virou até padre, coitado! – perguntou Dora, se lembrando do caso. – Não! Foi ao contrário, sofri tanto! – comenta, enquanto as outras fazem expressão de “mente que nem sente.” – Nós nunca ficamos contra você Dora, a Mell nos obrigou ou nos matava! Aquela cadela assassina! Sempre ameaçando! – justificavam as outras. Mas ela já estava vacinada contra isso, era o centro da roda, porém podia cair fora dela a qualquer sinal de deslize e reprovação das outras. Resolveu ficar por um tempo, após uma conversa que teve com sua mãe. – Filha eu consegui falar com seu pai e ele virá para o New Dad Day desse ano! – grita Lara entusiasmada. – O papai, aqui! Faz tanto tempo que ele não vem! – anima-se. – Você sabe como ele é Caxias com o trabalho, mas esse ano eu insisti e ele virá! – Pelo menos tem um motivo verdadeiro pra eu participar dessa festa idiota. Eu só ia porque o professor de Vitrinismo quer que a gente decore o ambiente. Como se usar os alunos pra coisa sair mais barato fosse trabalho acadêmico. Vá saber lá quanto deve estar ganhando por baixo pra isso! – ironiza Dora, saindo. – Aonde pensa que vai mocinha? É agora que começa a nossa conversa! – diz Lara, fazendo um gesto com a mão direita para que Dora se sentasse na poltrona da sala de estar. – O que foi mãe? – pergunta com desdém. – Você sabe como seu pai é tradicional e não tolera as loucuras que acontecem por aí! – Sim, e daí?

– Daí que ele não pode nem sonhar com os acontecimentos dos últimos meses! Você sabe, sobre ter ido morar onde Paris Hilton quebrou o salto e suas mudanças, vexames e confusões! – E o que tem de mais se ele souber? Ah! Já sei, você quer dar a impressão que reinou absoluta, com tudo a sua ordem e gosto! Mas não foi bem assim que aconteceu! – grita Dora. – Realmente não, mas vamos fazer de conta que foi! Você fica aqui pelo tempo que ele ficar, esquece aquele moquifo, coisas e pessoas que deixou por lá. – instrui Lara orgulhosa. – Mas ele sabia que eu namorava o David, eu sempre disse que ia apresentá-lo pra ele quando viesse nos visitar! Um cara morto não se esconde fácil, ou a vontade dessa farsa é tão grande que a senhora pretende arrumar um jeito de desenterrá-lo e ressuscitá-lo também? Ou quem sabe o priminho venenoso Aidan tope um showzinho com a senhora? Eu não duvido, vocês são igualmente nojentos! – ironiza Dora, enfurecendo-se. – Fica quieta garota! – grita Lara olhando profundamente nos olhos da filha. – Nós não somos a família perfeita, mas pelo menos por um dia seremos e todo mundo vai ver isso! – termina. Dora se cala por um minuto e com os olhos marejados sussurra. – Você não vê! Não adianta, ele não vai ficar. Nunca ficou por que ficaria agora? – perguntou. – Mas se vocês fazem questão tudo bem! A senhora e o piloto vão ter a minha total cooperação pra essa peça de teatro receber palmas da platéia. Quem sabe até peçam bis! – desabafou subindo a escada horrorizada com o pedido de Lara. A que ponto a mãe podia chegar para brincar de família perfeita. Seu rosto queimava, as lágrimas rolavam e a cabeça latejava com um único pensamento emaranhado entre tantos, New Park era a sala de recepção do inferno e seus habitantes os recepcionistas.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap27.

Na manhã de Domingo alguém bate à porta e Dora desce as escadas entusiasmada para abri-la. Embora a mãe tivesse feito toda aquela cena, Dora amava o pai e fazia tanto tempo que o piloto não vinha para casa que decidiu ignorar o acontecido e viver o momento por ele. – Foi daqui que pediram um piloto particular senhorita? – perguntou o homem parado diante dela esboçando um sorriso. – Foi daqui sim! E quero tratamento cinco estrelas senão reclamo com os seus superiores senhor! – respondeu. Apesar da brincadeira, ambos se olhavam reparando como estavam diferentes da última vez que se viram há três anos, quando o pai entrou para uma importante companhia aérea e aproveitou para deixar a mãe veladamente. Lara usava as viagens do marido como justificativa e assim iam caminhando. Depois de tanta reparação Dora quebrou o gelo perguntando. – O quê foi? Eu não raptei sua filha e tomei a vida dela, sou eu mesma. Apenas cresci. O homem ainda espantado comenta. – Nossa! Eu sou pai de uma gata, e achava que você não ia me dar problema! – brincou observando o estilo paty da filha. – Achei que você teria um estilo mais próprio, mas seguiu direitinhas as regras da sua mãe e de New Park! – Que bom que gostou! O senhor com esse uniforme também não está nada mal! Pra quem dava a vida por um All Star posso dizer que me surpreendeu na indumentária. Finalmente se aproximaram e deram um desconcertante abraço nervoso que revelou suas verdadeiras impressões sobre o outro. – Mas onde está sua mãe querida? – Lá em cima se arrumando, pode entrar a casa sempre será sua, mas eu não posso ficar. Tenho que fazer um trabalho pra faculdade na festa. Envolve trabalho escravo de universitários e professores corruptos, mas é uma história chata demais. Te vejo mais tarde? – perguntou ela sorrindo.

– Claro! Não tem nenhum lugar no mundo que eu queira estar mais do que aqui! Despediram-se e Dora foi para a praça, o pai após bufar entrou com suas malas, certo de que enfrentaria uma situação difícil com Lara. Alguns minutos e quarteirões depois Dora estava na praça, a turma assim que ela chegou começou a adulá-la, ressaltando como ela era importante para o andamento da recepção e perguntando tudo o que podiam sobre a decoração esperando sua aprovação. – Está ótimo! – dizia pra todos expressando uma abertura de lábios amarela. O professor observava tudo e anotava na prancheta que tinha nas mãos. Gesticulando silenciosamente para que fossem mais rápidos. Dora odiava aquilo, estava mudada e se um dia os agitos de New Park a fizeram feliz, agora a entediavam mais que qualquer coisa. – Vamos Dorita! Sem a sua animação não tem graça! Sabemos que você esteve fora por um tempo, mas volte pra nós! – disseram as garotas. – Eu estou aqui! E não me chame de Dorita, valeu? – Ops! – gritou uma delas levando à mão direita a boca. Ela sabia que era maldoso aquele comentário, mas não se importava, pois seus olhos e ouvidos estavam atentos a outra missão no meio daquele bando de gente. Encontrar Alonso. Não o via desde a noite do baile e a saudade apertava em seu peito, pois ele não ligou mais, não apareceu nas aulas e simplesmente desapareceu. Dora pensou no princípio ser coisa de R, mas depois percebeu que ele só queria um tempo. Quando suas esperanças mais uma vez pareciam desaparecer, eis que Alonso surge como uma visão, do outro lado da rua prestes a entrar no parque. Estava lindo, com os cabelos aparados, uma calça jeans folgada, blusa comprida preta por baixo de uma camiseta azul marinho. O sol reluzia em seu rosto e adornava a feição perfeita trazida com o vento. Dora ouvia uma canção entoada por anjos errantes em seus ouvidos e parecia ter poder suficiente para voar até ele, mas ficou ali paralisada pela surpresa, olhando focada para o ser mais importante de seu mundo, o centro do quadro onde sem Alonso nada teria simetria ou faria sentido. Ele trazia cores à tela em branco.

– Alonso eu te amo! – sussurrou para si como da vez que se descobriu apaixonada. Este passou direto por ela e foi ajudar os outros alunos. Apesar dela tanto olhar e esbarrar, Alonso sequer notava sua presença e fingia muito bem que Dora não existia para seu desespero. Até que não agüentando a situação pulou em sua frente e lhe disse. – Eu quero explicar, mas você não deixa! – Eu já vi esse filme e achei muito ruim! Não gosto de reprises com cenas de escândalo e finais felizes que desandam. – ironizou seco. – Não vou fazer cena, sei que você não gosta! Se pudesse me escutar só um pouquinho... – Explicar o quê? Pra mim está claro que a dona de New Park cansou de brincar de menina pobre e voltou para seu lar! Dora não sabia o que fazer para convencer Alonso, ainda mais por estar vestida como antigamente, deixando provado e inquestionável seu ponto de vista. – Maldita hora que eu fui concordar com os planos delinqüentes da minha mãe! – pensava. Para piorar a situação Aidan apareceu do nada ao seu lado. Alonso respirava pausadamente como quem se equilibrava para não cometer uma loucura.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap28.

– Esse elemento tá te incomodando amor? – perguntou irônico. Alonso ia aproximando-se, mas viu o professor logo à frente. Preferiu guardar o que sentia e saiu. Aidan vitorioso continuou. – É incrível como esses bolsistas só porque estudam com a elite acham que podem falar a altura! Por favor! – riu abraçando Dora. – Provavelmente se fizessem uma varredura a única coisa que iam encontrar de iguais em nós é a letra inicial do nome. Ela o tira imediatamente perguntando perturbada com o rosto de Aidan.

– Olha pro que você tá dizendo, nem estuda aqui! Aliás, como foi que você veio parar aqui? – Meus tios me mandaram fazer companhia pro Paris! – E cadê ele? – perguntou olhando em volta. – Por aí! Eles me disseram para acompanhá-lo e eu fiz, mas não falaram nada sobre ficar ao lado dele! – Você é muito canalha mesmo! Coitado do Paris com você e o David tão iguais e cafajestes! – Pode até ser, mas você gostava! Quem sabe ainda goste! – sussurrou apertando-lhe a cintura. Dora sai correndo de Aidan que apenas ri pela brincadeira. Nesse momento chegou Romeo procurando por Alonso, ele olha para Dora e imagina ser ela pela descrição, mas continua procurando pelo amigo. Aflito, finalmente o encontra. – Alonso! Alonso! – Romeo, você por aqui! Veio visitar as futuras nobres damas da sociedade? – brinca. – Não é nada disso! Mas até que não são de se jogar fora! – comenta. – Mas não é por isso que eu vim! – Então o quê é? Tá me assustando! – Seus pais descobriram sobre algum acontecimento familiar na faculdade e estão chegando lá em casa pra te visitar! – Tá de brincadeira! Como eles descobriram? Andou falando demais Romeo num ataque de pânico? – Não! Eu não faço idéia! Só sei que se você não for lá vão acabar é chegando aqui! – E agora, eu não posso sair com o cão de guarda do professor fungando nos nossos pescoços! – É uma emergência! – grita Romeo sem ar. – Tá! Tá! – diz Alonso olhando em volta enquanto pensa. – Ah! Eu não acredito, ela não! – lamenta avistando Dora. – Eu preciso sair urgente daqui! Você pode me cobrir com o professor? – sussurra.

– Como? Se for por causa dos outros eu posso ir até eles e... - ia continuar Dora quando Alonso a interrompe. – E eles vêm até mim como cães amestrados apresentar um número enquanto na verdade querem me matar, só porque a soberana mandou! Não, eu não preciso disso! – termina indo embora. Enquanto isso pai e mãe tentam acertar suas diferenças em casa. – Me surpreendi quando você disse que viria após tanto tempo fora! – comenta Lara. – Isso seria um recomeço? – sugeriu apoiando suas mãos sedutoramente nas costas do piloto. – Não, não é e você sabe muito bem disso! – afirmou retirando as mãos dela instantaneamente. – O quê você veio cheirar aqui então? – Vim resolver o nosso divórcio! – diz retirando a papelada da pasta de viajem. – Quando fui embora acertamos tudo de boca, já é hora de legalizarmos nossa situação para seguirmos nossos caminhos! – Como se um papel mudasse tudo! Você já seguiu o seu há muitos anos quando deixou a mim, nossa filha e nossa vida maravilhosa! – grita Lara. – Vida maravilhosa, perfeita! Com você foi sempre assim, esse lugar vem primeiro que qualquer um. É tudo por New Park, sobre o que vão pensar, o que vão fazer, como vão receber! – grita também o pai. – Como pode dizer assim do nosso lar! – admira-se a mãe. – Um lar é onde nos sentimos bem e esse lugar só me sufoca, me aprisionou a vida inteira. Eu tentei, mas não queria ter a vida dos meus pais presos num porta retrato e mortos por dentro. Mas parece que pra você tá tudo bem, não é? – Então a Dora é quem paga por você brincar de Peter Pan? – Nisso eu errei, deixei-a aqui e agora ela é uma bonequinha de luxo! Nossa menina tem tanto potencial, não merece ser um objeto superficial na mão dessa gente! – Isso você nem imagina! – sussurrou Lara. – O quê? – perguntou o pai. – Nada. Só estou chocada com tudo! – Agora eu sei o que é paz, pois a tenho vivendo com a Mao na Indonésia onde só temos uma cabana, a praia e as águas.

– Já chega! Eu não quero saber da sua versão ridícula de Lagoa Azul. Se você quer a separação pode deixar os papéis aí! Vou pensar no seu caso. – disse a mãe virando-se de costas para o piloto, desolada. Ele arrumou seus pertences e já na porta falou. – Tomara que um dia você veja a verdade e seja tão feliz quanto eu estou sendo agora. – partindo e deixando a ex-mulher em prantos. Na saída cruza com Dora que estava indo buscar os pais para as festividades. – Onde você tá indo? – pergunta desconfiada. – Estou indo para um hotel, mas já volto para irmos juntos! – mente o pai. Dora não aceita e o piloto a consola. – É preciso! Quando estamos longe muito tempo nossa volta causa a desorganização natural das coisas! – Mas não é justo! Aposto que é coisa da Lara! – grita. – Ela pode parecer forte, mas precisa de você. – e quase partindo no táxi lhe pede. – Filha me promete uma coisa, por mais que sua mãe peça não se dobre pra ela nem pra ninguém nesse seu jeito de ser! – O senhor sabe sobre mim! – espanta-se. – E eu sei que dentro dessa mala tem um All Star surrado bem escondido! – Por isso você é minha filha! Nós somos incorrigíveis! – brinca. – Até daqui a pouco! – grita na janela do carro partindo. – Até mais tarde! – grita Dora chorando. Dora voltou da porta de casa para o parque e quando chegou, lá estava Alonso recebendo no fim da arrumação uma bronca enorme do professor na frente de todos. Correu até lá dizendo. – Ah Alonso! Você está aí! Obrigada por salvar a minha vida! – O que a senhorita está dizendo? – perguntou o professor. – O Alonso foi um herói trabalhando em off na arrumação, indo buscar os materiais que os fornecedores se negaram à entregar alegando falta de pagamento! Ele acertou com todos eles, inclusive levando um soco do entregador de toalhas de mesa! – contou com entusiasmo em detalhes. – É mesmo? – perguntou Alonso espantado.

– Foi sim! Bem aqui! – mostrou agarrando e unhando vingativa a bochecha esquerda. – Imagine professor, podia ter sido o senhor! – gritou. O mestre analisou e após um tempo discursou. – Nesse caso o senhor dessa vez está perdoado, foi um verdadeiro herói! Mas se houver outra vez me avise, heróis anônimos são muito sem graça! – Pode deixar! – afirmou Alonso. Dora olhava para ele com cara de vitória. – Viu como você precisa de mim? Não vai dizer nada, sei lá, algo como palavrinhas mágicas! – ironizou. – Obrigado! – sussurrou. – Podia pedir mais alto, mas como estou em falta com você isso já serve! – Eu tinha coisas pra fazer e não dava para adiar! Você salvou o dia! Ela ficou tão feliz que lhe deu um beijo selinho na boca e correu de volta para casa feito uma moleca. Alonso só ficou olhando sorrindo profundamente. Chegou chamando por seu pai para contar o episódio, mas a casa estava em silêncio e ao vasculhar os cômodos encontrou a mãe virada para cama de pé, chorando encolhida olhando para um papel que estava sobre a cama. Quando viu a filha tentou disfarçar limpando as lágrimas. – Ah! É você minha filha! – O papai disse que viria pra cá pra irmos juntos ao New Dad Day! – disse estranhando o clima. – Ele pediu desculpas, mas precisou viajar novamente! Acho que esse ano não vamos! Quem sabe o ano que vem? Eu estou com uma dor de cabeça terrível! – queixou-se Lara. – Eu entendo! Quem sabe o ano que vem! – consola Dora lendo o papel. – Se ele ficasse eu era até capaz de dizer que faço uma obra social com aquele Afonso! – É Alonso mãe! – corrige a filha dando lhe um abraço entre risos e lágrimas. – Dona Lara a senhora é única.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap29.

Os dias passaram rápidos após o New Dad Day frustrado de Lara, que no primeiro momento não se conformou no ponto final dado pelo marido na relação. Mas a mãe de Dora não é mulher de se deixar abater por problemas de ordem maior. Segundo ela, o marido foi enterrado numa luxuosa e íntima cerimônia particular. Pelo menos é o que imaginava contar para os conterrâneos de New Park nos mínimos detalhes. Dora não agüentou a nova neura da mãe que até de viúva resolveu se vestir, indo ao shopping e reformulando o guarda-roupa inteiro com essa desculpa. Voltou para seu loft em Holanda Garden, local que ela conhecia há tão pouco tempo, mas que já amava como se vivesse ali a vida toda. Chegou à noite e sem examinar nada resolveu cair direto na cama, só acordou de manhã com estranhas batidas na porta. Parecia que arranhavam e esmurravam-na com desespero até parar, recomeçando tudo de novo. De início ficou com medo, pensando em ligar para alguém ou ignorar as batidas, mas depois com a incessante insistência, foi se encaminhando devagar para o barulho e quase sem respiração encostou seu ouvido esquerdo junto à porta. Apenas o silêncio era notado para de repente surgir um arranhão que prometia rasgar a madeira, Dora controlava-se para não gritar. Olhou pelo olho mágico e não viu ninguém, até que se encheu de coragem e gritou. – Se for você R acho bom parar e ir embora porque eu já chamei a polícia e meus amigos! Ouviu como resposta o silêncio, acompanhado de resmungos sem nexo. Como sempre, ela perdeu a paciência e se encheu de coragem para abrir a porta, furiosa. Já ia gritando novamente, quando observa o motivo daquilo tudo a seus pés. – Mell! Meu Deus, o que fizeram com você? – pergunta anestesiada olhando o estado da moça. Mell estava encostada na porta parecendo um trapo humano, vestindo um pijama velho e sujo, com os cabelos crequentos. Via-se que não tomava banho há muito tempo, não dizia coisa com coisa em seus sussurros e também estava faminta.

– Mell! Quem fez isso com você? Como você chegou aqui? Quem te trouxe? – perguntava sem pausa, desesperada tentando levantar a garota que teve medo dela quando se aproximou e arranhou a porta como protesto. Dora tinha a mostra pela primeira vez do que realmente R era capaz. Pensava que só podia ter sido ele a fazer aquilo para não deixar nem sombra do que foi Mell. A brincadeira de gato e rato havia ficado séria e se tornado crime comprovado. – Eu vou cuidar de você, vai ficar tudo bem! – disse chorando com raiva do R. Pegou o telefone e discou. – Alô! – Alô, Alonso! Eu preciso de você, venha me ajudar, por favor, agora! – diz nervosa. – Bom dia pra você também, Dora! Não é muito cedo pra brincadeiras? – Não é brincadeira, eu preciso de ajuda! – grita, já com raiva de Alonso também pela enrolação. Ele percebe que é realmente sério e com uma melhor entonação responde. – Tá! É que você sempre brinca, já tô chegando, fica calma! – fala desligando o telefone e correndo para se vestir. Dora levantou Mell com muita paciência, se aproximando devagar e praticamente a carregou com dificuldade até o banheiro onde a limpou como pôde e depois a colocou na cama. Quando Alonso chegou, ela estava deitada, mas muito agitada, Dora correu para recebê-lo. – O quê aconteceu? – perguntou mostrando-se desalinhado como quem se vestiu as pressas, trazendo consigo uma surpresa. – Você não imagina! Eu estava dormindo e de repente ouvi umas batidas estranhas na porta, fiquei com medo de abrir, mas depois me enfureci! – Claro! É a nossa Dora! – desdenha Alonso. – Me deixa terminar! Aí abri e quem estava caída aqui na frente? A Mell, ou o que restou dela! – Ela estava morta? – perguntou frio. – Não, mas tá quase de tão mal tratada. Acho que ela foi seqüestrada e os caras não tiveram a mínima pena.

– E por que você não chamou aquele detetive metido a sabichão, o Leo Turner? – Eu nem pensei direito, você estava mais perto. Mas por quê? Não queria vir me socorrer? – desconversa Dora que não queria revelar sobre o jogo de R a fim de protegê-lo. – Não é nada disso e você sabe! Só depois de toda essa conversa é que Dora notou a surpresa de Alonso, ele estava acompanhado de um rapaz. – E quem é esse? – perguntou curiosa. – É meu amigo Romeo, que mora comigo, lembra? Achei que você podia precisar de mais ajuda e resolvi trazê-lo. Romeo que estava calado até esse momento cumprimenta. – Olá! É um prazer finalmente conhecer a razão de tantas loucuras do meu amigo! – Ele está fazendo tipo! – diz dando uma cotovelada em Romeo. – Vamos vê-la então! Quem sabe vocês me ajudam a arrancar alguma informação dela! Iam se dirigindo para o quarto quando Romeo comenta baixinho com Alonso. – Eu tenho que reconhecer que ela é uma ótima candidata para ficar com você no futuro! Parece ter as qualidades exigidas. – anima-se. – Fica quieto, não é hora e nem lugar pra esses comentários! Entraram quietos no local onde se dividia como quarto e puderam ver a garota um pouco melhor pelo trato que Dora lhe deu, deitada na cama muito debilitada. Não tinha nada do glamour que ela tanto defendia antes de desaparecer. Alonso e o amigo se impressionaram. – Dora, temos que chamar o seu amigo detetive e um médico com urgência! – sussurra Alonso. – Avisar os pais dela também seria uma boa idéia! – acrescenta Romeo. Este, curioso aproxima-se de Mell para observar seu estado mais de perto quando a garota acorda num susto e recomeça sua lamúria descontrolada. Agarra as mãos de Romeo lhe olhando profundamente com olhos marejados dizendo.

– Eu sou uma peça quebrada! Todos nós somos, precisamos ser consertados antes que nos joguem fora! Todos se assustaram, principalmente Romeo que não era atraído por fortes emoções. Tentou se soltar. – Alonso me ajuda! Essa maluca não quer me soltar, bem que você me disse que a vida dessa Dora não era comum! Estou aqui só há meia hora e quase virei comida de zumbi! – confessa baixinho para o amigo. – Cala a boca Romeo! Fica aí apoiando a Mell que eu vou fazer umas ligações com a Dora e já volto! – Não Alonso! Aqui sozinho! E se ela for uma louca agressiva? – pergunta trêmulo. – Não fale besteiras Romeo! Não queria ajudar? Conhecer a Dora? Pois teve o que queria! Bem vindo ao nosso mundo de aventuras! – respondeu Alonso deixando o amigo só. – Nervoso o seu amigo! – comenta Dora. – É só o jeito dele, mas é a melhor pessoa que você pode ter ao lado numa emergência. – defende Alonso. Foram chamar toda a cavalaria enquanto Romeo segurava a mão de Mell que não o soltava por nada. Após algum tempo ela se acalmou dos ataques e dormiu profundamente, o amigo medroso de Alonso então começou a gostar de ser o porto seguro de alguém, pensou em como a garota seria sem toda aquela sujeira e psicose, olhando em volta para tocar rápido e com os dedos tremendo o rosto de Mell, num afago carinhoso que a fez suspirar aliviada. Um barulho se fez e ele disfarçou o ato com um meio sorriso que não escondia a alegria repentina, Mell curiosamente também pareceu sorrir. Sua expressão era da menina que agora sonhava bons sonhos e apesar de presa por muito tempo numa torre havia finalmente sido libertada por seu príncipe.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap30.

Pouco depois das ligações de Dora e Alonso os pais de Mell chegaram acompanhados por um médico e pelo Detetive Leo. Uma confusão de curiosos,

imprensa e interessados tomou conta do lugar e Alonso aproveitou a oportunidade para sair à francesa. Até Romeo foi esquecido na fuga. Dora reparou bem nisso e quando a situação se acalmou decidiu que iria descobrir porque ele fugia sempre que tinha alguma coisa pública acontecendo. – Eu vou descobrir seu segredo Alonso, seja você príncipe, bandido ou super-herói! – pensou. Ligou para Leo Turner e pediu para acompanhá-la nessa investigação. Ficou combinado que iniciariam no dia seguinte, após a saída da faculdade. – Olá Dora! – Olá Detetive! Obrigada por me ajudar nessa suspeita! O carro de Turner seguia Alonso de longe que dava passos cautelosos em cada rua que entrava. Como se estivesse com medo de ser seguido. Dora preocupando-se cada vez mais comenta. – Se o Alonso for o R eu não vou me perdoar por ter caído tão fácil no jogo dele. Principalmente depois de tudo que passamos e das coisas que eu descobri sobre o David. – Não se preocupe Dora! Se for ele é só o típico caso de dedo podre pra escolher homem! Mais comum do que você pensa! Você ficou com o David enquanto ele aprontava todas, depois com o Alonso quase de imediato pra descobrir sobre o outro, enquanto eu estava aqui e você não me enxergou! É o que eu ganho por ser um bom rapaz! – suspira concluindo a brincadeira. Dora foi ficando vermelha, e desconcertada não respondeu nada. Chamou a atenção de Leo para onde Alonso ia. – Olha ele está entrando naquela mansão! – gritou. – Nossa! Seu amigo deve ter grandes influências pra conhecer alguém na Golden Rose! – disse Leo. Ela com o coração apertado defendeu. – Não! Com certeza ele está só trabalhando! – gritou. – Ah! Claro, ele trabalha de quê mesmo? – desdenhou Leo. Dora calou-se sem resposta com a insegurança lhe roendo a alma. Ambos seguiram Alonso a semana toda e sempre era esse o caminho principal depois da faculdade. Com cuidado dobrava as ruas até ir parar na frente do casarão em Golden Rose. Ficava por lá uma hora aproximadamente e quando saía fazia coisas que não condiziam com seu status bancário.

Comprava roupas em lojas de mais altas grifes, ia a restaurantes badalados e conversava com figurões. Alguns lugares eram classificados altos demais até para os padrões de Dora. Ela só acompanhava toda a esbanjação do mais novo milionário, abismada, pensando como ele era capaz de ser tão humilde e diferente na faculdade diante dela e parecer outro longe. Pois enquanto ela se segurava para não deixar transparecer que o seguia, ele contava dias inteiros de uma vida que ela sabia serem mentira. A única coisa que fazia sentido na história que ela já nem sabia que partes eram reais é que toda a tarde ele voltava para Holanda Garden, para uma casa que de longe era a melhor do bairro e Romeo também morava lá. Leo acompanhava a angústia de Dora. – Calma! Eu investiguei aquela casa e descobri que pertence a estrangeiros da Baviera erradicados no país por cortesia do Consulado. É só um homem que está viajando chamado Inaldo e sua esposa Corália. Então eu juntei os pontos e... – não quis terminar. – E o quê? – pergunta Dora soltando os bofes. – Acho que ele se faz passar pelo cara ou é um simples michê, garoto de programa ou até cafetão! – lançou. – Não é possível, ele não tem cara dessas coisas! – Se você tivesse a experiência que eu tenho saberia que não há caras para o que as pessoas fazem! – explica. Dora estava acabada achando que já sabia o segredo de Alonso, combinou de se encontrar com Leo no sábado de manhã para surpreendê-lo. Porém o Detetive ligou um pouco antes do horário combinado desmarcando o flagra, pois estava preso numa ocorrência, teriam que fazer isso outro dia. Ela entendeu, mas ficou furiosa por não poder acabar com o suspense de vez. Coincidentemente Lara estava chegando nesse momento para visitá-la quando ela tomou uma decisão tempestiva. – Se não tem você Leo Turner, tem Lara! – sussurrou para si. E gritando para a mãe começou a alertá-la sobre uma liquidação que precisavam ir imediatamente senão perderiam as melhores peças. O furgão não pegava então ela correu para o carro de Lara. – Pisa fundo mãe! – gritou.

– Nossa é a minha filha mesmo! O quê você tomou? Onde é essa liquidação, aliás? – perguntou brecando o carro desconfiando das intenções da filha. – Fica em Golden Rose! – respondeu Dora entusiasmada. – Não precisa falar mais nada, já gostei! – Arranca novamente com o Jaguar, recuperando o ânimo. Dora pretendia encontrar Alonso na frente da mansão para por tudo em pratos limpos, coisa que Lara nem desconfiava, mas a mulher que se mantinha fina até certo ponto seria muito útil se houvesse um barraco básico com os moradores da casa. Enquanto isso, numa clínica psiquiátrica não muito longe dalí, Romeo estava visitando Mell. Entrou devagarzinho, por não saber qual seria a reação dela. – Olá moça! – cumprimentou segurando um buquê de azaléias. Mell, abrindo os olhos preguiçosamente respondeu. – Olá! Desculpe, mas você é... – Romeo! O cara que você não soltou mais a mão até chegar aqui. Eu estava na casa da Dora com você, quando... você sabe! Mas como está passando? Melhorou, lembrou quem fez isso com você? – Não! Mas eu tenho dúvidas se quero lembrar, devo ter sido muito ruim para terem feito isso comigo! – responde entristecendo-se. – Pelo que me consta você não fazia parte da Liga da Justiça, mas também não trabalhava para Lex Luthor. – brinca. – Ha-Ha-Ha! – ri Mell do comentário – Mas independente de eu me lembrar ou não, vou ser diferente do que eu fui e seguir adiante. – termina séria. – Mas para ser diferente é preciso se lembrar e isso vai acontecer na hora certa. – apóia-lhe acariciando o rosto como na primeira vez. Ambos ficam quietos, imóveis se entreolhando. Aproximando-se cada vez mais sem notar, porém Mell quebra o clima. – As flores são pra mim? – pergunta desviando o olhar. – São sim, pra você! – responde Romeo dando-lhe sem tê-las onde colocar.

Conversaram a tarde toda após o ocorrido, como sempre ele segurava a sua mão para se divertirem com os desenhos que passavam na televisão. Mell reluzia sorridente e em nenhum momento trazia de volta a sombra perversa de outros tempos. Mas em Golden Rose, Dora e sua mãe chegavam ao portão da mansão. – É aqui querida? Abriu alguma nova sede da Taslu? – É mãe! Como você sabia! E parece que tá tendo uma festa de inauguração! – diz Dora. Realmente estava havendo uma festa na mansão, e totalmente louca seguiu o plano adiante e entrou de penetra. Felizmente os seguranças apenas perguntaram o nome a Lara e anotaram, pensando ser da imprensa. – Filha, as pessoas estão super bem arrumadas, algumas até de gala! Será que não é melhor irmos pra casa nos arrumarmos melhor? – perguntou Lara enquanto andavam pelo jardim da casa. – Não! Estamos perfeitas, despojadas para o dia, essas pessoas é que são bregas por ostentarem, amanhã vão aparecer nas colunas sociais como despeitadas! – convenceu Dora. Ela olhou para todo o canto, do garçom até o último convidado, mas nada do Alonso. Resolveu entrar no casarão que mais parecia um palácio. Esbarrou enquanto admirava num mordomo que ao olhar para ela admirou-se, parecendo saber de algo. – A senhorita é perfeita mesmo! Seja bem vinda! – cumprimentou saindo. – Eu, hein! Cara mais estranho! – disse espantada. Tudo soava confuso até que os alto-falantes instalados pela casa anunciaram. – Senhoras e senhores, chefes e representantes de nações eu tenho a honra de apresentar a vocês os Digníssimos representantes da Baviera nesse país. O Cônsul Inaldo Aloha juntamente com sua esposa Corália e seu filho Alonso. Os três desciam as escadas do salão principal imponentes, trajando roupas de gala onde Alonso mais parecia um príncipe. Dora respirava fundo para não chorar, confusa e desesperada por não entender o que estava acontecendo.

– Então ele era um príncipe! – sussurra para si mesma, pensando em suas três suspeitas iniciais enquanto esperava ao pé da escada. Alonso a vê conforme vai se aproximando, porém cumpre angustiado o protocolo até o final. Assim que pode vai em direção dela e da mãe que está petrificada. – Esse morto de fome é rico! Não pode ser! – bufava. – Não comenta muito alto Lara senão o Cônsul escuta e percebe que eu roubei o filho deles e tô me passando por ele. – ironiza vitorioso. Alonso pega Dora pelo braço e a leva para uma sala reservada. Ela está meio alheia, sem digerir o acontecido, sua cabeça balançava num pesadelo bizarro e encantado onde ela era a criada enganada. – Se divertiu muito se fazendo de pobre coitadinho enquanto ria dos suburbanos? – pergunta chorosa. – Agora é a minha vez de explicar! – enfatiza Alonso. – Eu não tenho tempo para hipócritas! – grita Dora que lhe dá um tapa na cara, mas é rendida com um beijo ardente.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap31.

Mesmo sucumbida pelo beijo de Alonso, Dora foi mais forte para voltar a si e dar-lhe um tapa na cara que não aceitaria suborno como forma de explicação. Ficaram quietos por um tempo, um em cada canto da sala. Pensando cabisbaixos por onde começar as resoluções dessa longa história. Até que Alonso resolveu começar. – Eu posso explicar agora? – sussurrou. – Se você for começar com mais mentiras é melhor... – Não! Dessa vez será tudo verdade, eu juro que só lhe brindarei com a verdade, pra provar o meu amor de uma vez por todas! E se depois da explicação você disser que não me perdoa, eu entenderei e sumirei da sua vida pra sempre! Dora pareceu relutante no início, mas depois se sentou calada, concedendo-lhe uma chance. Alonso recomeçou. – Você já ouviu falar na Baviera?

– Acho que sim! Um país que fica do outro lado do oceano! Mas o quê isso tem a ver? – ela perguntou sem entender. – Meu pai é Cônsul de lá! E eu deveria estar lá também se não fossem alguns problemas sérios! – respondeu pensativo. – Problemas? Você não é daqui então? – Dora espantou-se. Alonso, nessa hora a olhava com olhos tristes, sabia que contar seus segredos custaria o amor que tinha. Mesmo assim, tomou coragem e replicou. – A Baviera é um importante centro comercial que une diversos países nos mais diferentes ramos de negócio, por isso o país vive pisando em ovos para ser bem guardado em seu direcionamento, pois se alguma coisa sair errada as conseqüências poderiam ser catastróficas. O maior problema que eles tem por lá é a família real que por mais que o parlamento tente dissuadir sempre acaba falhando e são eles quem tomam as decisões finais. – Mas você não precisa ficar no meio disso, seu pai é só um Cônsul e está tão distante da Baviera. Não sei como isso te afetaria? – Meu pai é só um Cônsul como você diz, mas eu sou o próximo representante da família na linha de sucessão! Deveria ser meu pai, mas a verdade é que nós somos desse país e não da Baviera. E com certeza eu seria só um bolsista na Faculdade se não fosse por meu tio o Rei, que não tem filhos nem mulher descobrir-nos em Holanda Garden. Dora o ouvia boquiaberta sentindo as palavras de Alonso pesadas conforme saiam de sua boca, ganhando seus ouvidos em choque. – Isso tudo é inacreditável e confuso demais! E eu que achava que já tinha todos os conflitos do mundo. Agora você me vem também com todos do universo? Acho que não posso ouvir mais nada! – diz Dora saindo da sala, quando Alonso segura em seu braço e pede que fique. Ela cedeu, retornando de fasto para trás ficando a poucos metros da porta no que seria a última e indecisa chance de explicar. – Há uns dez anos meu tio estava sozinho e doente pressionado pelo parlamento a entregar o poder, porém ele é um homem teimoso e mandou em segredo que investigassem por parentes desconhecidos. Foi quando ele soube que o pai dele, meu avô teve um caso com uma secretária particular que era estrangeira. O rei então na época querendo abafar o escândalo mandou a secretária de volta a seu país de origem sem saber que ela esperava um filho

dele. Meu pai então nasceu e ficou sem saber sobre sua paternidade até o dia que meu tio mandou nos buscar e o nomeou Cônsul da Baviera pra que ele e minha mãe pudessem desfrutar das mordomias da realeza. – Esse enredo tá pior do que das novelas que minha mãe assiste! Mas ainda não ouvi nada que te obrigasse a fazer parte do Clube do Pinóquio! – gracejou Dora querendo aliviar o clima super tenso. – Meu tio tentou de qualquer jeito validar os direitos do meu pai, mas o parlamento negou dizendo que ele era ilegítimo e não tinha a formação adequada. Aí ele muito esperto deslumbrou meus pais com tudo que pôde e o poder subiu-lhes a cabeça, tanto que se esqueceram de mim. Meu tio distorceu as leis e me fez seu sucessor que se prepararia com a devida formação. Passando a perna no parlamento e fazendo muitos inimigos radicais. – Mas isso é um absurdo! Alguém te perguntou alguma coisa? – revoltase Dora. – Não! E mesmo que perguntassem eu só tinha doze anos! O pior foi crescer no meio dessa guerra de gente falsa que me adulava enquanto tinham seus próprios interesses. E como eu correspondia as expectativas exigidas para assumir o trono, conspiravam até sobre meu assassinato. – Eu imagino seu sofrimento! Se há uma coisa que eu não permito é que me controlem! – Dora comove-se. – Não tenho dúvidas de que em qualquer parte do mundo, em maior ou menor escala todos nós vivemos numa New Park! Há uns dois anos eu simplesmente cansei da minha vida e voltei pra Holanda Garden, pra terminar minha formação e cumprir meu destino. E nesse meio tempo eu devo me encontrar, me divertir e procurar uma esposa a altura da Baviera. – disse olhando-a carinhosamente. – Condições impostas por meu tio pra que eu viesse. Meus pais ficaram irados, achando que iam perder a boa vida com o meu retorno, por isso vieram também e se acham os donos do mundo. O rei e a rainha fora do reino, por isso eu os escondo da minha vida universitária, ou logo as coisas seriam como na Baviera. – terminou. – Mas ainda ficaram algumas pontas soltas! Por exemplo, o Romeo? – Ele é meu secretário e melhor amigo. Nos conhecemos desde crianças antes de eu ir embora. – O medo da polícia e tudo que represente ser público?

– Eles poderiam me reconhecer ou ainda contar o que fiz a meus pais que inventariam uma desculpa pra que eu tivesse que voltar pra Baviera. – É, parece que você tem resposta pra tudo! – sussurra Dora indo embora. – Espera! Aonde você vai? – pergunta Alonso sem entender. – Pensar, Alonso! Pensar... – já estava passando da porta quando Lara a puxa com violência pra dentro novamente e discursa escandalosa. – Filha eu não sei o que esse sujeito te contou, mas com certeza é mentira! Isso tudo é uma armadilha pra te prender. Eu jamais faria qualquer coisa pra te prejudicar, só queria te proteger! Dora encara a mãe com surpresa e dispara. – Eu não faço idéia do que você está falando Dona Lara! Lara recobrou o juízo percebendo que havia falado demais no afobamento. Começou a puxar a filha em sentido contrário. – Me desculpe! Nem sei o que estou dizendo depois desse King-Kong que você me fez passar! – desculpa-se fitando Alonso misteriosamente. Dora desvencilhou-se da mãe e se sentou novamente. – Lá vamos nós outra vez! Mãe quer ter a honra de começar a falar ou eu vou ter que arrancar a verdade em suaves e cansativas prestações? – Dora querida eu mandei que esse rapaz... – Lara ia dizendo quando Alonso tomou a palavra. – Dora nós não nos conhecemos por acaso! Sua mãe queria alguém que ficasse perto depois dos momentos difíceis que você passou, por isso contratou alguém pra te proteger! – Vigiar! Você quer dizer! E esse alguém é... – soltou bufando de raiva pelo abuso, apesar de já ter atinado quem era o espião. – Foi pra chamar sua atenção que eu respondi atravessando sua resposta, e não foi por acaso que eu apareci pra te ajudar na mudança. – contou envergonhado. Lara recomeçou. – Você estava se descontrolando com facilidade, as pessoas comentavam por todo lado. Então resolvi contratar um segurança, mas como você jamais iria aceitar, ele teria que vir disfarçado de amigo! Aí procurei os

nomes dos bolsistas da faculdade porque eles aceitariam o trabalho e estariam lá o tempo todo sem desconfiança! – conta com ar de vacilo. – Foi então que Lara me encontrou por engano, pois eu só me matriculei como bolsista pra despistar! Eu ia recusar, mas quando ví sua foto minha voz comandou meu corpo e acabou aceitando e eu não me arrependo! – disse Alonso sorrindo. – Ela começou a me instruir onde você estaria e como deveria fazer pra chamar sua atenção. – Por isso você apareceu pra me ajudar em Holanda Garden e logo depois ela chegou! – compreende Dora enojada. – Tudo se perdeu quando obviamente não aceitei o dinheiro e Lara pensou que eu tinha intenção de ficar com você pra dar um golpe! – Pensava não! Ainda penso! – grita Lara. – E estamos nessa guerra que você já conhece quando nos encontramos, mas ninguém teve coragem de revelar nada pra você! – Era pro seu bem, pra te proteger minha filha! Se esse cara não fosse tão complicado você não se machucaria com mais essa sordidez! Vamos querida, você não precisa ficar aqui nem mais um minuto ouvindo esse verme! – Ela me xinga com a boca cheia, mas se esquece que tentou me atropelar no final do baile e ligava fazendo cobranças! Agora não se lembra como me agradeceu por eu ter te seguido até a Carnation Street daquela primeira vez! – ofende-se Alonso. – Eu só te liguei, e se alguém tentou te atropelar é porque você deve mais do que pensa! – retruca Lara. Dora estava no meio dos dois exaltados, com as mãos tapando as orelhas na tentativa de não escutar nada daquilo. Seus olhos jorravam lágrimas dolorosas na respiração profunda. Até que dá um ponto final na discussão. – Príncipe, espião, o que mais você vai me contar até o fim do dia? Vem cá! Você é desse planeta? Porque se não for é só piscar e dizer que esse é o momento! E claro a Santa Dora compreensiva vai entender! – ironizou irada. Mal ela terminou as portas se abriram bruscamente e o Detetive Leo apareceu do nada. Nenhum dos três entendeu sua aparição, mas Lara tinha que desabafar a curiosidade em um comentário. – Ah não! Só falta o país dele ser simpatizante ao terrorismo e eles revelarem que escondem Osama Bin Laden em algum buraco!

Detetive Leo que conhecia Lara resolveu ignorar o que ela dizia e ser direto. Já haviam muitos ultrajados com a situação, especialmente os pais de Alonso. – Estou apenas dando uma busca geral em conta de uma denuncia anônima recebida esta manhã. Não demorou muito e Leo desceu as escadas com uma mochila reconhecida como sendo de Alonso que continha diversos cartões vermelhos, fotos de David, de Mell sendo torturada, algemas, remédios, drogas e uma arma. Tudo confiscado para averiguação. Alonso ao ver a cena se desesperou, porém não mais do que Dora. Chorando e algemado desvencilhou-se dos polícias para falar com ela. – Dora acredita em mim! Eu não fiz isso, jamais teria coragem de te trair e brincar com você desse jeito! – diz trêmulo e embargado pelo nervosismo. Ela apenas olha para ele, e como se não estivesse enxergando nada fala. – Pois não foi isso que você e minha mãe acabaram de provar! Após dizer isso ela sai deixando para trás um rapaz de coração quebrado, uma mãe desnorteada e um circo de luxo. – Eu preciso de ar! – grita desesperada enquanto corre pelas ruas sem destino. Alonso é levado para a delegacia. – E eu que vim pra cá pra ficar longe de confusões! – pensa.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap32.

O relógio marcava o tempo perdido das horas de angústia em que Dora só queria esquecer que existia. Deviam ser cerca de 22h45min quando ela finalmente achou o rumo de casa. Apenas entrou e se deitou na almofada em frente à TV, seu corpo doía, a cabeça pesava em pensamentos confusos que não davam em lugar algum. Ligou-a para tentar esquecer o mundo, e a luz repentina em meio à escuridão fez notar a expressão pálida e seca de tanto choro e lástima.

Para variar, os canais não sintonizavam e ela não conseguia ver nada, procurou numa gaveta algum DVD que pudesse assistir. Foi quando encontrou um em especial, colocou-o imediatamente e assistiu jogada na almofada as cenas que se passavam em New Park há pouco mais de um ano. A galera se divertia junto com Dora e David, Mell sempre estava ao lado e eram tão felizes. David era tão lindo, jovem, puro. Mell a amiga que morreria para defendê-la e Dora, a garota mais cega e egocêntrica que já deve ter pisado na face da Terra. Ela via a filmagem com ar de pavor, era como se um estranho estivesse assistindo sua vida passada. Aquela Dora ria demais, maltratava pelo simples prazer de dominar e não enxergava nada do que se passava a sua volta. – Que garota idiota! Ela merece tudo que está acontecendo! Pena que agora ela sou eu! – conclui confusa pegando no sono. De manhã o celular toca e num susto ela pula da almofada, sentindo os primeiros sintomas da noite mal dormida. – Alô! – Eu preciso que você venha aqui na delegacia imediatamente prestar seu depoimento! – intima Leo Turner. – Ah! Bom dia pra quê, né? Agora já virou bagunça. Ninguém diz o nome só ordena e a essa infeliz, cabe obedecer! – ironiza Dora. – Bom dia Dora! Me desculpe, é que estou atrás de você desde ontem à tarde, aliás não só eu como sua mãe, mas você sumiu e eu preciso que venha depor sobre o que aconteceu ontem, urgente! Quem diria que seu amiguinho cafetão acabou virando suspeito dos crimes! Dora, seca não deu trela ao comentário de Leo e apenas respondeu. – Vamos acabar com isso! Daqui a pouco estarei aí! – desligando em seguida. Leo ficou abismado com a reação dela. Não demorou muito, ela estacionou o Furgão na frente da delegacia e recepcionada pelo Detetive contou tudo o que fez desde a hora que mentiu para a mãe até o momento em que ele rompeu a porta da sala do casarão. – É só isso que aconteceu? – perguntou Leo sério. – É sim! Se você cumprisse melhor suas promessas estaria lá comigo e veria tudo, sem a necessidade de tanto interrogatório! – respondeu irritada.

Ele já ia liberá-la quando um carcereiro cochichou em seu ouvido. Leo então se virou para Dora e disse. – Olha, eu sei que você está cansada e que não é fácil o que vou te pedir, mas peço que pense com carinho! É que o rapaz ficou sabendo que você estava aqui e quer te ver, acho que deveria aceitar porque poderíamos observar se ele diz algo suspeito, que o acuse! Dora começou a lacrimejar os olhos, sua pulsação aumentou e ofegante respondeu sem pensar. – Pode ser! E lá estavam os dois frente a frente numa saleta escura, com uma mesa os separando. Um espelho enorme em um dos lados, Alonso permanecia algemado e demonstrava abatimento pela noite na cadeia. – Quem é R? – perguntou Alonso sussurrando de cabeça baixa. – Você deve saber muito bem! – respondeu Dora enfática. – Você realmente acha que eu sou esse louco que te persegue, que até ontem nem fazia idéia que existia? Nossa garota, eu acho que não te conheço! Em que parte da história você decidiu me fazer de palhaço enquanto andava pra cima e pra baixo atrás desse suposto assassino? Quando ia me contar da sua compulsão de Sherlock Holmes? – Pronto! Já vai se fazer de vítima! – ela grita quase se levantando. – Não, pelo que eu sei esse não é meu papel! – ironiza. – Eu não faço idéia se você é o R, um príncipe ou o espião da Lara. Tudo que eu sei é que você mentiu demais e agora não quer pagar pelo que fez! – Se eu menti não foi mais do que você, foi pra te proteger...porque eu te amava! – confessou desconcertado. – Então somos dois porque a ingênua e indefesa aqui pensou a mesma coisa! – É, parece que nosso erro foi amar demais! Mas isso agora acabou! – dita Alonso. Dora então se cala surpresa. Alonso continuou. – Isso não está dando certo! Desde que eu conheci você, minha vida tem sido uma sucessão de desastres, e olha que antes já não eram poucos. Eu nunca sei o que vai acontecer no próximo minuto numa escala entre a melhor

coisa do mundo e ir parar na cadeia acusado de assassinato. Eu adorava a sensação, mas não dá mais! – E tomando fôlego sentencia. – É melhor parar por aqui antes que aconteça o que nem sei como ainda não aconteceu, a morte de um de nós dois! Agora é ela quem abaixa a cabeça tentando esconder as lágrimas, não disse nada como resposta, saiu apressada na primeira oportunidade em que a porta se abriu. Alonso apenas suspirou magoado quando Dora o deixou sozinho na saleta sem sequer dar-lhe adeus.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap33.

Toc – Toc! A porta se abre rápida ficando nas mãos de quem batia a incumbência de fechá-la. – Não perderam tempo em fazer o trabalho sujo! continua com os planos de vingança? – pergunta Dora. Ela se referia a Mell que finalmente deixou o hospital, acompanhada de Romeo que não se separava mais dela. – Nem uma coisa, nem outra! Só vim agradecer o que você fez por mim! – respondeu Mell docemente. – Então por que trouxe junto o Capitão Coragem aí? – Ele está cuidando de mim! Acho que pela primeira vez na vida posso dizer que tenho de verdade um amigo. – ela respondeu tocando o ombro de Romeo. Dora, engolindo a crítica real comentou sem jeito. – É, dizem que ele faz isso! Um silêncio constrangedor tomou conta dos três. Mell então respirou fundo e começou. – Eu não me lembro de nada ainda do que aconteceu, mas tenho certeza que Alonso não é o cara que estão procurando. Não foi ele quem me pegou, eu não sinto nada de estranho em relação a ele! Ou você ainda

– Pronto! Tava demorando com a comissão de defesa! Olha pra quem tem essa cara de santo eu tenho que concordar, o Romeo é muito bom manipulador. Ele e o Alonso estão fazendo o serviço direitinho! – diz Dora. – E depois dizem que a malvada da história sou eu! Dora presta atenção no que você está dizendo, junte os fatos, pense um pouco. O Alonso não fez outra coisa senão ficar do seu lado. Te protegeu nas horas mais improváveis que ninguém mais acreditaria ou te ajudaria. Te perdoou tantas vezes! – grita Mell segurando a amiga. – Ele só fez isso porque era o trabalho dele pra me espionar pra minha mãe! – sussurra Dora balançada. – Não foi nada disso, e você sabe! Só não quer dar o braço a torcer, por ter magoado um cara tão legal quanto ele. – termina. – E se for verdade? O que eu faço? É tarde demais, ele encerrou qualquer possibilidade de relacionamento quando fui à cadeia. – desilude-se. Romeo que ouvia toda lamuria inconformado desabafa. – Você e o Alonso são tão Shakespirianos! Sempre colocando empecilhos no que deveria ser simples! Você gosta dele, ele gosta de você. Claro, tem um maluco atrás de você e há pouco tempo ficou viúva! Mas... – deduzia resmungando até que Mell lhe dá um tapa. – Mas o importante é que vocês se amam e deveriam se unir pra enfrentar juntos tudo o que acontece e ao invés disso saem brigando ao menor sinal de problema. E o pior, fazem meus ouvidos de pinico, quando não me insultam ou me taxam de assassino honorário. – continuava. – Romeo! Romeo! – chama Mell. – O quê foi? – grita irritado com a interrupção. – Ela já entendeu, não é Dora? – diz Mell com expressão de “Pelo amor de Deus concorde pra ele calar a boca.” – Com certeza! Ele está na casa de vocês? – pergunta Dora esperançosa. – Não! Os pais o obrigaram a ficar com eles em Golden Rose ou teria que voltar para a Baviera. – responde Mell pesarosa. Dora então corre para o Furgão, deixando os amigos que agora ela sabia serem de verdade dentro de casa observando sua reação. Em poucos minutos estava nem sabe como na frente da mansão em Golden Rose. Os

seguranças não a deixavam entrar, tentou pular o muro atrás da casa, mas foi pega e levada para uma salinha dos empregados para ser interrogada. Esperou tristemente, achando que seria presa sem falar com Alonso, porém a portinhola se abriu dando lugar a uma conhecida voz. – Ora, ora! Como o mundo dá voltas! – desdenha. – Por que tanta gente me fala isso? Você se surpreenderia com o número! – diz envergonhada. – Não será porque você sempre age impulsivamente achando que está por cima da carne seca, mas o mundo te prova o contrário bem rapidinho? – É, eu até assisti as cenas! Tenho gravadas pra provar seu ponto de vista! – Mas o quê de tão importante te trouxe aqui, a ponto de invadir a casa de um assassino. Correndo o risco de ser assassinada? A necessidade realmente faz coisas incríveis com as pessoas! – comenta irônico olhando para cima. – Segundo dois amigos meus, você não é tão perigoso quanto pensei! Alonso se aproxima de Dora misterioso, a expressão não revelava suas intenções. Foi chegando devagar, se agachando, tão perto de seu rosto a ponto de Dora estremecer os brios e quase beijá-lo mandando tudo as favas. Porém quando ele conseguiu o efeito que queria, apenas empurrou a cadeira em que ela estava sentada dizendo. – A polícia não precisa perder tempo com os seus chiliques! Vamos para a sala de reuniões e aí você fala o quer de uma vez! Dora desnorteada apenas o seguiu. Ele ainda mantinha a cara enigmática quando entraram e se sentaram. Alonso estava muito formal na cadeira de reuniões. As roupas sociais eram adequadas a posição ocupada, até seus cabelos estavam diferentes, penteados como os de um engomadinho. Ela percebeu isso e esperava que Alonso não tivesse se transformado também por dentro. Antes de iniciarem a conversa um senhora uniformizada entrou e manteve-se calada e carrancuda de pé ao lado da porta, até que ele a dispensou. – Nada por agora Helga, obrigado! A mulher saiu do mesmo jeito, feito um soldado recebendo a dispensa de seu general.

– Você tem três minutos antes da Conferência Internacional. – intima ele. – Eu só vim pedir desculpas pelo que aconteceu na prisão. E te dar outra chance. Proponho que a gente se una pra descobrir quem é o R de uma vez por todas! – E o que te fez mudar de opinião? Pelo que eu saiba até hoje de manhã o tal R era eu! – Uns amigos me abriram os olhos, e se não é você então essa é sua chance de provar! – Primeiro, eu não pedi pra que esses amigos te procurassem! Segundo, não preciso provar nada pra ninguém! E terceiro, você tá me magoando mais uma vez me pedindo isso! – diz pausadamente sentindo-se ferido. Dora então se levanta indo em direção a saída. Alonso mantêm-se imóvel com as mãos sobre a mesa, embora quisesse não interrompeu a partida assim como ela também não olhou para trás. Mais uma vez o orgulhoso imperava sob o amor. Chegou em casa contrariando o estado de espírito com que saiu. Mas a resposta definitiva a seus problemas estava lá, debaixo da porta em forma de um cartão vermelho e dizia.

OK! EU NÃO SOU O ALONSO! MAS FOI DIVERTIDO VER VOCÊS NESSA DÚVIDA DE DRAMALHÃO MEXICANO. O JOGO ACABOU! VOU MOSTRAR QUE SÓ EU A MEREÇO E FAREI ISSO HOJE! ME ENCONTRE NA ESCOLA DE ARTES CENTRAL À MEIA NOITE. ASS. R.

PS. VOCÊ NÃO SE ARREPENDERÁ, EU GARANTO!

Ela olha no relógio e percebe que já são 21h34min, apenas deixando o cartão na mesinha, correndo rumo a escola para descobrir finalmente quem R era. Estava entrando quando encontrou Paris no portão. – É só assim que a gente se encontra! – grita Paris animado. – A vida anda complicada, você sabe! – diz Dora ofegante.

– Algum problema Dora? Parece abatida, posso te ajudar? – preocupase. – Não! É só a correria mesmo! Mas me diz, o quê você está fazendo aqui essa hora? A faculdade fecha as dez! – ela pergunta curiosa. – Eu prefiro esse horário porque é vazio e ninguém me enche! – justifica. – Já eu, vim pra pegar um livro de última hora que faltou pra um trabalho. Espero que não tenham trancado a biblioteca! – Eu te faço companhia então! – diz Paris. Dora tentou dispensá-lo, mas não teve jeito, ele a acompanhou até que disse que iria ao banheiro e o encontraria na biblioteca. – Rápido, senão nos trancam aqui! – gritou enquanto Dora seguia. Ela esperou até que a escola fechasse e as luzes apagassem, contando que Paris tivesse ido embora a essa altura, cansado de esperar. Começou a procurar no escuro pelas salas e corredores algo de suspeito, alguma luz acesa, qualquer coisa que desse sinal de vida humana, porém não havia nada. Caminhou sem direção certa até escutar urros no escuro, percebeu que vinham do teatro, Dora andou pé ante pé entrando sorrateira pela lateral. De repente constatou num susto que os urros vinham de Mell que estava no chão a frente do palco amarrada e amordaçada. Correu trêmula para ajudá-la. – Mell, de novo o quê está acontecendo aqui? Você viu ele? Quem é, a gente conhece? – perguntou chocada. Mell de volta ao velho estado só conseguia dizer. – Eu disse pra ele que eu tô consertada, mas ele não quer acreditar! Uma peça quebrada não tem conserto! Diz pra ele que é mentira! – grita descontrolada. Dora a solta e manda buscar ajuda. Continuou sua busca pelo doente perseguidor. – Eu sei que você tá aqui em algum lugar, não adianta continuar com esse joguinho de gato e rato. Eu sei que sou mulher o bastante pra me expor aqui sozinha, disposta a te conhecer e ouvir seus argumentos. Resta saber se você é homem pra fazer o mesmo! – grita olhando para todos os cantos escuros de que R poderia estar observando. Seu medo é que ele pulasse de onde menos se esperasse para surpreendê-la.

Enquanto isso Romeo ligava as pressas para Alonso. – Cara eu estou preocupado com a Mell e a Dora! – diz amedrontado. – Por quê? Não se preocupe, se há uma coisa que eu aprendi em New Park é nunca confiar nas garotas! Devem estar fazendo uma besteira qualquer pra depois jogarem na nossa cara que foi culpa nossa! – fala Alonso despreocupado. – Não meu! A Mell não está em lugar nenhum, depois que voltou ela tem pânico de ficar sozinha. Já liguei pra todo mundo que ela pudesse estar e não a encontrei. A Dora nem em casa está! – desespera-se. – Vai ver estão juntas! – suspeita Alonso. – Mas tudo bem, vou até aí! Alonso encontra-se com Romeo na frente do loft de Dora. Bate, insiste, mas nada dela. Já preocupado manda que Romeo vá buscar o detetive Leo. Pensa, até que toma uma decisão. – Desculpe Dora, eu juro que conserto! – diz arrombando a porta. O cartão foi a primeira coisa que viu e ao lê-lo saiu correndo também para a Faculdade. – Droga! O quê você pensa que está fazendo Dora. Eu já te disse uma vez que arrogância não dá superpoderes! – pensa. Na Escola de Artes Central Dora ainda não havia obtido resposta de R, quando de repente as grossas cortinas vermelhas do palco começaram a se levantar, por trás delas é revelada uma visão aterradora. Paris estava no meio do cenário pendurado pelo pescoço com uma corda o enforcando, parecia morto. Dora gritando tentou tirá-lo dela, mas foi inútil. Ela apenas se virou e desceu para a platéia. Ficou parada com o choque sem perceber que uma movimentação acontecia atrás dela. Foi sentindo uma mão gelada e suada tocar-lhe os ombros que vivaz perguntou. – Booo!!!!! Eu sou um ótimo ator não sou? Merecia um Oscar pela minha atuação. Não é fácil interpretar essa personagem sonso que é o Paris. Fica pior se a peça se chama vida! Dora diante disso só conseguiu gritar. – Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap34.

Ela se vira em direção à voz. – Paris! Que brincadeira idiota é essa? Dessa vez você passou de todos os limites! – grita Dora histérica. – Ha-ha-ha! Nossa! Nem se eu enfiar uma faca no seu peito você vai perceber, não é? – diz Paris possesso. – Por que você me acha tão incapaz, fraco e inocente? No fim tudo isso é perda de tempo porque você jamais descobriria que eu sou o R. – termina decepcionado. – O R é você, mas por quê? E justo comigo, eu que só te ajudei e não fiz outra coisa senão te defender de New Park inteira a ponto de ser expulsa! Você não sabe o quanto sofri esses meses! – Ah eu vi sim! Olha o que você tá dizendo? Me ajudou? Defendeu? Será que era isso que eu queria de você? Sempre me viu como um garotinho ingênuo e bobo, alguém que jamais estaria à altura da divina Dora. Talvez pegasse bem defendê-lo, mas dar a ele o que merecia, a atenção que queria aí já era demais. Porque como todos os outros, você me acha um estranho e no fim das contas o único sentimento seu em relação a mim é pena! – grita encarando-a. – Se é realmente isso que você acha eu não posso fazer nada! – sussurra trêmula deixando uma lágrima solitária escorrer. – E se eu já senti alguma coisa boa por você se transformou nisso tudo que você disse, pois só sendo muito covarde e estranho pra seqüestrar e aterrorizar pessoas como você fez! Quando Paris se afastou frustrado com as palavras duras que ouviu Dora tentou correr para a mesma saída lateral que havia entrado, mas ele foi rápido e conseguiu agarrá-la pela cintura arrastando-a de volta e jogando num assento da platéia. – Você é um covarde! Desgraçado mentiroso, mas foi perfeito! Realmente enganou todo mundo sendo o incompreendido! Quem dera usasse essa habilidade para o bem, pra enfrentar os problemas! – diz limpando-se enojada dos braços de Paris.

– Eu te falei quem eu era o tempo todo, no baile e em todos os lugares. Usando máscaras de injustiçado, de amigo, de bonzinho, carente. E você é uma hipócrita porque disse pra todo mundo que mudou, mas não foi capaz de ver a verdade bem de baixo do nariz. Francamente, alguém que passa por uma transformação interior tão profunda de monstra líder fashionista a defensora dos pobres sem estilo certamente perceberia o quanto o “Pobre Paris” era Fake. Mas você não viu nada, não é? Porque nunca olhou realmente pra mim! – grita com violência avançando sobre ela. Dora encolheu-se na cadeira assustada e ofegante. Surpresa com esse novo Paris desequilibrado que possuiu o corpo do outro. – Mas qual o motivo real de toda essa história? Você só falou e falou e eu ainda não entendo, por que ser vítima quando podia ser o maior dos vilões? – Porque eu te amo Dora e só um coitadinho perfeito poderia te conquistar pela dependência! Meu Paris estava na medida certa, mas você se encantou pelo David sabe-se lá o motivo e depois com o caminho livre surgiu o Alonso. O que você viu nesses caras? E olha o nome desse outro! – responde debochando. – É simples, eles eram de verdade enquanto você é uma mentira! – Ah tá! Um macho alfa que não valia nada e um príncipe falsificado de um paísinho de quinta que te seguia pra sua mãe e só te contou a verdade porque foi obrigado! Mas você mereceu eles, você me merece e nós todos nos merecemos, essa é a grande verdade final! – ri ironizando. – Não é bem assim, nossas escolhas foram com a intenção de fazer a coisa certa, enquanto você só pensou em ferrar New Park inteira! – desesperase Dora. Paris sentou-se na cabeceira do palco e observando Dora acabada no assento falou vitorioso, porém carregando uma expressão de pesar. – Pistas pra você ganhar o jogo não faltaram! Eu realmente fui bonzinho! – diz fazendo doce. – Mas agora você perdeu e terá que se casar comigo! – dita eufórico. – Ca-ca-sar!!! – diz Dora recuperando-se do seu estado de letargia. – Ha-ha-ha! Sua cara tá impagável! Faz a minha loucura valer à pena! Acalme-se! Eu só tava brincando, pelo menos por enquanto! O objetivo do

jogo foi outro, provar a você (e eu consegui) que ninguém desse lugar maldito presta a não ser eu e agora você irá embora comigo! – Pra briga ou casamento é preciso que os dois queiram e de você agora só quero distância! – esbraveja tentando sair mais uma vez. Paris a alcançou e a pegou pelos cabelos arrastando novamente até o assento. Dizendo sem paciência. – David era o sol enquanto eu era o asteróide invasor do sistema solar! Só então ela se deu conta do pior ponto em Paris ser R e nesse momento Dora fez a pergunta mais difícil de toda sua vida. – David? Quer dizer que você matou seu irmão? – espanta-se, pois tinha uma esperança que ele havia enlouquecido com o assassinato e não o cometendo. – Não, eu jamais seria capaz de matar o meu querido irmãozão! – responde Paris após certo mistério. Logo após a resposta ouviram a porta principal do teatro ranger ao fundo, era impossível distinguir quem estava entrando em meio a escuridão. Dora não se levantou, pois sábia que Paris a agarraria novamente. Decidiu então gritar rapidamente. – Soocoorrro!!!! Tem um cara louco aqui querendo me seqüestrar!!! Após o pedido de ajuda Paris facilmente a soltou e ela instintivamente correu na direção do suposto salvador. Só quando chegou bem perto pôde perceber que tinha a silhueta de alguém conhecido e de repente num susto confirmou suas suspeitas. – Aidan? – perguntou trêmula. E sem ouvir uma resposta continuou. – Seu primo está louco, quer me raptar! Foi ele quem matou o David, seqüestrou a Mell, me manda os cartões! Ele se faz de sonso, mas na verdade quer destruir com todo mundo! – conta desnorteada. Ele pega em seus braços e começa a rir compulsivamente. Olhando fixamente em seus olhos, dizendo algo sem dizer, mas que na verdade ela já deveria saber. – Aidan, você está nisso também? Acorda! Ele matou o próprio irmão, seu primo! Aidan? – pergunta desconfiada. – Tente de novo, querida! – ele responde recompondo-se.

Dora sem acreditar na loucura que se passava na sua cabeça perguntou novamente. – David? Escutando a seguinte resposta. – Olá Dora! Que saudades que eu senti de você!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap35.

– Não! Mas como é possível? Eu confirmei com a sua mãe que o Aidan existe, ví uma foto dele e tudo! – diz inconformada. – Claro, uma foto de quando era pré-adolescente, aposto! – desafia David. – Ela me mandou uma foto por e-mail, contou que ele mora em Roseville e que é sem dúvida muito parecido com você... – Muito parecido a ponto de pertencer mais a nossa família que o Paris! O mesmo discurso abominável de sempre. E avoada, esqueceu-se de acrescentar que ele tem doze anos e é aluno num colégio interno. A foto que você viu é dele atualmente. – Você, você é um monstro igual ao seu irmão, se são da mesma família não é por acaso! Brincaram comigo e com as outras pessoas como se fossemos peças de um jogo idiota no tabuleiro. Esse Aidan nunca me desceu pela garganta, mas agora eu sei que ele era só você sendo o cara que queria ser! – sussurra chorosa com raiva enquanto David a segura. Paris via a cena mais adiante largado nos assentos. Como resposta, estranhamente magoado com as ofensas, David resolveu contar o começo e quais eram as regras do tal jogo. – Quando pegamos a Mell, ela começou com isso de peças, já desconfiada da nossa brincadeira! Dá pra acreditar, justo a Mell, que convenhamos num teste de Q.I não obtém lá um número muito significativo. Dois dígitos então são quase um milagre! – ri desdenhoso. – Mas foi brilhante, não foi? Quem desconfiaria do priminho? E se desconfiassem, a desmiolada da minha mãe mostraria a foto e quem adivinharia que o garoto é ele hoje em dia e não o Aidan, no caso eu, na infância? Tá certo! Ela poderia acabar contando

ou alguém entendendo, mas o Aidan é quase meu clone e porque não aproveitaria essa coincidência tão a calhar! Correr riscos só faz tudo ter um gosto melhor! – termina vitorioso. Paris então se aproximou do ex-casal e imprensando-a contra David sentiu o cheiro suave e peculiar do corpo que ele tanto desejou e que até pouco tempo estava sob o domínio de seu irmão. – Conte a ela como nasceu a idéia que nos trouxe a esse momento! – cochichou. David, acariciando o rosto de Dora com o olhar orgulhoso no irmão revelou. – Uma aposta! Esse momento aconteceu por uma aposta! – ri. – Paris e eu estávamos em casa, assistindo porcaria na TV e tomando cerveja barata que escondíamos pra dias como aquele, que só enchendo a cara pra agüentar quando no meio da conversa surgiu um comentário meu sobre você. “A Dora ainda me amaria mesmo se eu estivesse morto!”. Paris duvidou e disse que te faria me esquecer fácil se tivesse uma chance. A conversa foi ganhando detalhes por toda à tarde até se transformar em aposta e finalmente plano. – E vocês tiveram a coragem de dizer a palavra amor tantas vezes enquanto não amavam nem a si próprios! – diz Dora abismada se retirando do meio deles. David sem se abater continuou. – Nossos primeiros inimigos foram nossos pais, mas eles nos ensinaram a respeitar os papéis de cada um na vida. Mesmo quando se é abandonado pelas viagens desnecessárias que fazem e te transformam num cara supostamente perfeito e outro em total perdedor. Nós mantivemos os nossos papéis até o fim e ninguém jamais desconfiou que nos falássemos em casa. – Mas você pulou de um prédio e depois todo mundo te viu jogado na rua lá em baixo! – Um bom show de magia precisa de detalhes que o façam verdadeiro e amarrando todos os pontos se transforma em realidade. Deu certo, New Park acreditou inclusive você a espectadora V.I.P. Eu pulei sim, mas estava preso a uma corda especial de alpinismo que ficou totalmente invisível na escuridão. Paris tomou dessa parte a explicação para si.

– Eu precisava de um álibi então arranjei confusão aparecendo na porta do Clube e quando corri para longe dei a volta no quarteirão a tempo de voltar atrás do prédio, ver Mell indo embora após a briga com David e ele se prender a corda que eu segurava exatamente segundos antes de você chegar. Ele pulou, se soltou rápido e eu sumi na noite antes que alguém viesse. Emocionante! – Aí Paris! Sempre se contentando com pouco e fazendo de suas ações verdadeiras peripécias! Sinceramente obrigado por você existir e fazer a diferença. – debocha David rindo do irmão. Paris ofendido corre em sua direção e lhe dá um murro na boca. O outro apenas limpa o sangue no canto dos lábios e depois de uma cuspidela dita frio. – Fracote! Dora estava horrorizada com a espécie de “união” que eles tinham e que nem nos piores sonhos pensou em conhecer. Minutos depois ambos se recuperaram e dando as mãos como crianças fazendo as pazes continuaram no clima anterior a briga. – Nós pagamos e chantageamos um médico viciado que também vendia anfetamina e qualquer coisa que lhe proporcionasse uma viagem para constatar a minha morte no beco. O caixão foi fechado e quando se tem pais relapsos e ricos o poder é ilimitado e eles não vão ligar pro que quer que você faça. Não vão se importar nem se não puderem dar adeus ao filho! – ri David com os olhos marejados recebendo o apoio de Paris. Fui morar em Isla Del Flores nossa ilha particular que meus pais jamais visitaram, mas ajudava Paris a vigiá-la pra saber como ia a aposta. Dora ouvia a história debruçada numa das cadeiras sem expressão alguma. Era impossível saber sequer se estava realmente alí. – Eu estava ganhando de lavada no início, aí o Paris tentou com toda a incompetência dele te conquistar... – dizia David quando foi interrompido. – O ser perfeito tem que criticar os erros dos humanos. Me desculpe por ser um mero mortal! Na próxima encarnação juro que tentarei ser um ciborg como você! – reclama Paris. David não deu importância e arrogante continuou. –... Mas você o dispensou surgindo assim o R e as pistas de onde ele planejava te salvar nos perigos, porém apareceu o Alonso que ninguém

convidou pra entrar no jogo! – grita descontrolado. – Dou colher de chá pro meu irmão, mas pra esse cara mentiroso é demais! Sem falar no detetive a tira colo. O que foi Dora? Você queria montar um harém? Nunca tinha percebido isso em você antes! Talvez tudo fosse evitado se tivéssemos nos mostrado! Eu até que gosto dessa nova Dora, que dá trabalho, mas torna a vida mais interessante e não a previsível do Shopping. – Eu não ligo mais! – sussurra sem forças, derrotada na cadeira. – Bem! O jogo acabou, deu empate e todos vão viver pra sempre em Isla Del Flores longe de mais problemas e desse teatro chamado New Park. – termina David carregando Dora grogue para o carro. Paris ia atrás limpando as provas. Enquanto isso em Holanda Garden a polícia chegava ao loft de Dora. Encontraram a porta aberta e vasculhando rápido viram o bilhete que foi entregue ao Detetive Turner e Romeo que o acompanhava. Leram e correram para a faculdade, mas quando chegaram só encontraram Mell desmaiada em um dos banheiros, era tarde demais, já haviam partido. Não muito longe David, Paris e Dora se dirigiam a Isla Del Flores e deixavam New Park cada vez mais para trás. – Nos quatro seremos muito felizes lá! – diz Paris entusiasmado quebrando o silêncio. – Nós quatro? – pergunta Dora mais consciente. – Ah! Eu não te contei! O Alonso também veio, ele passou lá pela faculdade e eu resolvi trazê-lo! Está aí atrás no porta-malas! Lá tem muitas paisagens pra você ir visitá-lo num túmulo bem bonito que vamos construir. Você escolhe o lugar! – comenta David eufórico. Dora mediante a confissão de David baixou a cabeça e começou a rezar punitiva. Não ligava em ser um objeto nas mãos dos dois loucos que de certo modo ela contribuiu para que chegassem aquele estado, mas levaria seu amor a morte por ter sido corajoso para salvá-la. Estava perdida e perderia o seu verdadeiro e único amor. – Isso sim é perder! – pensava inquieta.

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap36.

Já era quase noite do dia seguinte quando após muitos quilômetros de estrada e uma balsa chegaram à isolada Isla Del Flores. Dora e Alonso estavam com as mãos amarradas e de olhos vendados, por isso não puderam se ver quando foram retirados do carro. Ela carregada por David e ele conduzido por Paris. Porém ambos sentiam suas presenças. – Alonso! Você está bem? Eles te fizeram alguma coisa? – gritou Dora virando a cabeça para os lados em sua procura. – Eu estou bem! Fique calma que tudo vai dar certo! – respondeu Alonso tentando manter o controle. Imediatamente foram levados para dentro da casa da península que ficava escondida na copa das árvores centenárias que cresciam em desordem na luxuosa ilha abandonada pela família, até que os irmãos a descobriram. Cada um foi levado a um quarto e lá foram deixados por seus carcereiros que bateram a porta ao sair. Alonso esperou alguns minutos e sem obter resposta acabou tirando a venda, viu que estava num requintado aposento de hóspedes decorado com motivos de praia e um forro de madeira trabalhada. Tudo da melhor qualidade que o dinheiro podia comprar. Ao centro um enorme espelho e uma cama de casal encontrada apenas nos melhores hotéis. Sentou nela ainda zonzo enquanto pensava o que iria fazer. Dora foi deixada deitada na cama e também esperou algum tempo até se certificar que estava sozinha, tirou a faixa dos olhos e constatou a mesma pompa no ambiente. Se levantou olhando ao redor, buscando um meio de escapar. Estava vasculhando as paredes quando ouviu bem de perto um espirro. – Quem está aí? Alonso é você? – perguntou desesperada percebendo um duto de ar entre os quartos. – Sim, eu mesmo! Eles te machucaram? – respondeu aflito. – Não! Mas eu não me importo! O que me preocupa é você que não tem nada a ver com essa história absurda e acabou alvo dela. – Não se culpe por nada Dora, como você já deve saber, eu sou o cara das confusões, e se não estivesse nessa com certeza estaria sofrendo

atentados na Baviera, sendo alvo de tubarões em alguma viagem sem sentido, ou sabe lá Deus o quê! Mas principalmente porque eu acredito que eles não vão nos fazer nada, pois não passam de dois garotos mimados querendo chamar atenção! – Não se arrisque tentando me salvar! – alertou Dora ao ouvir os argumentos dele. – Você também não! – aconselhou Alonso. Um minuto apreensivo de silêncio tomou conta dos dois, porém Alonso tomou coragem para dizer o que queria. – Dora, eu te... Estava quase terminando a frase quando a maçaneta da porta se moveu. Paris apareceu ligeiro diante dela carregando algumas roupas. – Se você tentar alguma gracinha a Dora é quem vai sofrer as conseqüências. É o preço que se paga por amar, nunca se está livre ou sozinho em seus atos. – disse ameaçador, porém com inveja nos olhos por não ter o mesmo que Alonso. Como resposta ele baixou a cabeça e Paris entrou no quarto deixando as roupas sobre a cama e desamarrando-o em seguida. – Se vista para o jantar com essas roupas, o banheiro é naquela porta, lá já estão toalhas e produtos de higiene pessoal. Não demore, nós não toleramos atrasos! – instruiu seco apontando para a porta do banheiro. Já estava saindo quando Alonso o alertou. – Você não vai se sair bem dessa! O David eu não sei, mas você com certeza vai se dar mal, quem você acha que ele vai culpar quando vocês forem pegos? Quem vai acabar como o irmão malvado dessa história? Paris parou de costas enquanto ouvia, mas após uma pausa continuou a caminhar e fechou rápido o quarto feito quando entrou. Dora aproveitou a saída para perguntar. – O quê você estava dizendo? Ele retomando a coragem continuou. – Eu te a... Novamente foi interrompido, dessa vez pelo barulho na maçaneta do quarto de Dora. Paris também entrou no quarto levando um vestido que colocou na cama e depressa desamarrou as mãos dela como se salvasse sua

amada do sofrimento, beijando-as quando finalmente ficaram livres. Dora retirou-as com nojo, e Paris percebendo se levantou saindo furioso. – Você era tão legal, tão meigo! Se tivesse alguém com quem dividir um segredo no mundo esse alguém seria você Paris! O quê aconteceu? O David não merece isso e você sabe, vai acabar pagando por ele! Quem sabe se você melhorasse a gente podia recomeçar a amizade! – sugeriu amenizando a cena. Paris se volta para ela com os mesmos olhos nebulosos da saída se aproximando voraz. Apesar de querer dizer alguma coisa permaneceu em silêncio engasgado em seus sentimentos, com a garganta apertada, ofegante por não conseguir se libertar. Apenas voltou-se para o lado e com uma chapa de ferro tapou o duto, não sendo mais possível escutar o que se passava no outro cômodo. As horas passaram e o jantar ia ser servido. Alonso foi trazido para a sala de jantar de luxo igual ao restante da casa e alocado à enorme mesa comprida que definia o ambiente. Dora foi trazida por David que não pôde deixar de comentar. – Você está linda meu amor! Melhor do que nos tempos de patricinha, esse toque selvagem fez bem a você! Dora realmente estava linda, num vestido preto de veludo longo que delineava seu corpo e esculpia suas perfeições com maestria. O cabelo estava preso num coque improvisado de muito bom gosto, além de um escarpã preto nos pés e apesar de abatida sua beleza ainda a salvava da imperfeição. – Hum! Quanto tempo, dinheiro e vida perdidos! Tudo porque não sabíamos quem éramos. Se é isso que você quer eu aceito, vamos embora pra um lugar onde possamos nos descobrir como somos de verdade, onde ninguém nos conhece, só nós dois! Tudo que peço é que deixe o Alonso pra trás! – propôs Dora suplicante numa última cartada enquanto se

encaminhavam para a sala de jantar. Ele não respondeu nada apesar de perceber sua mão tremer por alguns segundos. Apenas a colocou na frente de Alonso naquela mesa enorme, ambos se olhavam desconcertados vestidos para a festa macabra dos irmãos malucos. – Olha, não é interessante todos nós aqui juntos hoje depois de tanta perseguição e reviravolta! Esse mundo é mesmo louco! Claro que nós

ajudamos um pouquinho, mas se não fossem as coincidências da vida o que teria sido da nossa história? Um brinde a isso! – bradou olhando para os outros três na mesa enquanto erguia uma taça com vinho. Paris brindou rindo como irmão, ignorando a gravidade do que acontecia. Alonso e Dora não fizeram qualquer gesto, estavam com uma das mãos algemada na cadeira e a situação era revoltante demais para brindes. – Alonso que ama Dora, que amava David, que é irmão de Paris, que não é amado por ninguém! Não é interessante? – perguntou se dirigindo a cada um deles, rindo como um descontrolado. Do nada ele se refez e sério ditou. – Paris, vá buscar o prato principal! Paris se retirou trazendo em seguida uma travessa de prata fechada por um tampão redondo. Ele se posicionou feito um chefe de cozinha orgulhoso na frente do irmão esperando que ele o contemplasse. – E o cardápio de hoje senhoras e senhores é... Miojo? – perguntou espantando, surpreso e com ódio do irmão por fazê-lo pagar aquele mico. – Miojo, Paris? Sorte que você passou do prazo de devolução, pois você conseguiu, eu te devolveria agora! Achei que tivesse algum dote gastronômico no meio de tanta esquisitice, mas tudo bem. Foi erro meu te dar competência pra alguma coisa! – termina culpando-se. – Só porque eu sou mais inteligente que a maioria isso me dá super poderes pra saber cozinhar? – pergunta Paris ofendido. – Eu não disse exatamente inteligente, quis dizer bichona esquisita, todas sabem cozinhar! – David grita histérico tentando deixar claro seu ponto de vista na resposta. Porém do mesmo jeito que antes, ambos se acalmaram do nada e se abraçaram. – Por que somos assim? – se perguntaram. Dora e Alonso assistiam a cena boquiabertos. – Não se preocupe Paris, está tudo bem! Quantos caras no mundo puderam se gabar por terem tido miojo na última ceia? – perguntou David desdenhoso olhando para Alonso.

O jantar transcorreu sem mais alardes a não ser pelos olhares preocupados que Dora e Alonso se davam de vez em quando. Até que David o finalizou. – Jantar encerrado, é hora do grande acontecimento da noite! Alonso você parece cansado meu amigo, mas agora vai descansar em paz, pra sempre! Nessa hora Paris entra com uma pá e produtos de jardinagem, além de um saco preto. David algema Alonso e o faz seguir para fora da casa enquanto Paris faz o mesmo com Dora. – Não! Por favor! – gritava ela apavorada. – Escolha um lugar! – mandava David implacável. – Escolha ou eu mato ele agora e você nos ajudará a arrastá-lo até o pior lugar que eu puder encontrar! David colocou uma arma na cabeça de Alonso e começou a deslizá-la fingindo apertar o gatilho de vez em quando. – Escolha! – gritava cada vez mais sem paciência. Até que ela sem saída gritou. – Na beira do rio! – referindo-se ao riacho que cortava a ilha e ia dar no mar. – Ótima escolha! Chegando lá, Paris logo aprontou uma cova num canteiro de flores silvestres debaixo de uma árvore tão antiga quanto às outras, na margem direita do riacho que a luz do luar ganhava um azul escuro intrigante e belo ao som apenas das corredeiras inquietas. – Cenário de filme, se deu bem Alonso! Agora vamos levá-lo a sua última morada. Anime-se, vai morar nas minhas terras e nem vou te cobrar aluguel por isso! – ri David indevidamente. Alonso percebe que não tem mais jeito e olhando para Dora mergulhada em lágrimas e dor soltou uma lágrima de arrependimento, não por ter participado da vida dela, mas por não poder participar mais. David recolocou o revólver na cabeça de Alonso e divertiu-se. – Preparar, apontar, fogo! – Naaaaaããããoooooo!!!!!!!

Ela veste preto, mas o baile é cor de rosa. Cap37. Final.

– Ups! Não foi dessa vez! – diz David alucinado ao perceber que o tiro havia falhado. – O próximo não vai falhar, eu não deixei tantos buracos vazios! – termina. Alonso e Dora por uma pequena fração de segundos respiraram aliviados pela falha do revólver. Apenas aproveitavam o tempo que parecia infinito mediante a situação vivida. Nesse momento se entreolharam profundamente, fechando os olhos em seguida na mesma hora, relembrando todos os episódios e acontecimentos desde quando se conheceram até ali. – “Quando conheci meu amor, a vida era um mistério sem sentido que havia levado embora tudo que costumava conhecer e chamar de amor, mas estava errada, era engano, eu não existia, enquanto pensava possuir entre todas as coisas também o mundo. Mas ele chegou e me mostrou a duras penas que eu não possuía nada, não era nada. Não existia, nem sequer respirava de verdade para agradar quem não me enxergava, e ainda dizia ser feliz.” – “Quando conheci meu amor, usava máscaras por medo de assumir quem eu era. Não que fosse mal, só não era verdadeiro. Já havia enfrentado tantas coisas que nem havia escolhido, e quem podia pensar que fugindo dos problemas iria encontrá-los aos montes e decidir enfrentá-los com prazer em nome dela.” – “E nós rimos.” – “Choramos.” – “Lamentamos.” – “E agora estamos aqui, na reta final de uma vida, de uma jornada que deveria continuar e se prolongar perante os séculos imortalizados, mas não será assim e é por isso que eu te pergunto...” Eles abriram os olhos, e fixamente o imortalizando na memória Dora lhe perguntou apenas movendo os lábios trêmulos de emoção. – Valeu à pena? Alonso, rindo docemente, satisfeito em viver só mais aquela cena respondeu.

– Cada segundo! Ambos sorriram chorosos frente a frente e todo o drama seguinte deixou de existir. Mesmo separados estariam juntos para sempre. David e Paris observaram a reação derrotados. Nada do que haviam feito podia separar o casal que se formou com tanta adversidade. Estavam feridos e tudo o que queriam agora era acabar com a dor que só aumentava. Além dos pais também foram rejeitados da pior maneira possível por uma mulher. David então ia voltando a apontar a arma, dessa vez implacável para a cabeça de Alonso quando ele lhe deu uma cotovelada. Um golpe que seria tudo ou nada. Ele caiu para trás e antes que pudesse recuperar o equilíbrio acabou prendendo o pé num entulho que estava à beira do riacho e acabou caindo em sua ribanceira, prendendo-se com as mãos. – Dora, meu amor me ajuda, por favor! – gritou David ao perceber que ela o procurava na beirada, esforçando-se para enxergar algo na escuridão. – Sinto muito! Dessa vez eu não devo, mesmo que pudesse! – responde aturdida. Paris, ao ver o que aconteceu com o irmão se jogou para cima de Alonso e ambos rolavam no chão numa briga selvagem. – Dora, você é melhor que ele! Se você pode salvá-lo faça isso e deixe que outra pessoa faça o que tem que ser feito! – grita Alonso com dificuldade no meio da briga. Dora ia puxá-lo com a ajuda de um galho, porém David havia escutado que ela estava fazendo aquilo só porque Alonso havia pedido. Ele a observou nos olhos e debulhado em seus próprios pesadelos se soltou antes que ela pudesse pegá-lo. Ela novamente presenciou aqueles olhos verdes se perderem depressa em meio à noite. Olhos que se perderam mais uma vez, olhos que sempre estiveram perdidos. De repente um barulho de sirene se aproximava do local e Paris congelou ao notar que David não estava lá. – David!!! David, cadê você!!!! Seu idiota, você disse que sempre estaríamos juntos se perdêssemos ou ganhássemos! – gritou inconformado. Paris, desesperado se soltou de Alonso que tentou segurá-lo e sem saída foi para a ribanceira, olhou ao redor como se despedisse de tudo e

afastou-se para trás até que não houvesse mais chão. Caiu envolto num grito trágico de Dora. Minutos depois a polícia chegou trazendo Leo, Romeo e Mell que se lembrou finalmente onde esteve enquanto desapareceu. O casal os esperava abraçados, consolando-se sem acreditar que agora havia acabado.

PARIS, TRÊS MESES DEPOIS.

Dora, Alonso, Romeo, Mell e o Detetive Leo Turner que em Paris preferia apenas ser chamado de Leo passeavam pela Chans Elisé. Estavam tentando esquecer aos poucos todo o sofrimento dos últimos meses e devagar a vida ia voltando ao normal, daqui um tempo esperavam voltar ao seu curso naturalmente. – Não acredito que entre tantas cidades da Europa a gente veio parar justamente nessa! – comenta Dora. – Dora, qual é? A gente não tem culpa se uma das melhores cidades do velho mundo foi usada pra homenagear quem não prestava, não é? – pergunta Mell. – Mell, olha esses comentários querida! – repreende Romeo beijando-a. – Desculpe! É que às vezes eu tenho umas recaídas... E sorry, é Paris! – Tá não precisa ficar repetindo! – chateia Leo. – Calma gente! O Leo só está assim porque ainda não conheceu uma gatinha européia pra espantar o frio! – debocha Alonso. – Ah tá! Vai rindo da desgraça alheia! Vocês estão acompanhados enquanto eu me sinto uma vela gigante! Casaizinhos melosos! Tão romântico! – devolve Leo. – Não se preocupe amigo, se você não achar ninguém aqui eu te arranjo alguém na Baviera nem que seja por decreto real! – Obrigado, mas e eu lá sou homem de precisar que decretem algo pra ficar comigo, acho que não! Alonso e Leo continuavam o embate enquanto andavam brincalhões pelas ruas de Paris. Mell e Dora vinham mais contemplativas atrás.

– E então Dora, o futuro te promete um reino? – pergunta Mell mais introspectiva que antes. – Talvez, mas na verdade eu não faço a mínima idéia! Só sei que estou bem com Alonso, com minha mãe e quero continuar assim. Passamos por muita coisa estranha e agora que estamos vivendo a parte boa queremos ficar assim por um tempo. O futuro espera e inesperado acontece. – responde Dora apoiando-se na amiga. De repente, ao olhar por uma viela Dora reparou num vulto que pensou conhecer e com a espinha gelada tomou um susto e reagiu de imediato. – O quê foi meu amor? – perguntou Alonso retirando-a do transe. – Não, nada! Não foi nada! – respondeu recuperando-se. Alonso então a abraçou e como lhe fazia bem um abraço como aquele, acariciando seus cabelos e apoiando a nuca com cuidado. Brevemente ele a fez esquecer seus medos e juntos seguiram viagem no que seria uma tarde divertida.

PARIS, MEIA HORA DEPOIS.

O telefone toca num condomínio de luxo em Montmartre, quem atende é uma francesinha afetada e muito conhecida nas altas rodas de dezenove anos chamada Amélie. Trim! Trim! – Oui! Olá mon amour! – atendeu com entusiasmo. – O quê vamos fazer essa noite, mon petit? – Nós vamos sair, vamos a um baile muito especial na Torre Eiffel! – respondeu a voz do outro lado. – Mon dieu! Então tenho que me preparar com toda elegância que essa cidade puder me oferecer! – assustou-se. – Não! Você será sempre linda, não importa se estiver de pijama ou moleton! Mas se quer uma dica o baile é preto e branco! – Prometo que não vou te decepcionar! J’ taime! – Te amo também meu amor, sempre! De repente outra voz se ouve ao fundo. – É Amélie? Espera, eu quero falar com ela! – grita.

– O idiota do meu irmão quer falar com você! Não precisa ser gentil! O primeiro passou o telefone com rudez para o segundo e saiu vitorioso. – Olá Amélie! Quanto tempo, hein? Só saindo com o bobo do meu irmão! – Ele é uma pessoa incrível e você também é! Pena que não se entendam e possam descobrir isso! – Mas vá ao baile também Bizarre! Pardon! Posso te chamar de Bizarre? – Claro, você pode tudo! – E você vai? – Vou ver o que faço! – S'il vous plait! Estou te esperando! – Tá, você ganhou! Eu vou! – Ihupí! Merci! Turim desligou o telefone confiante enquanto Tarso aplaudia sua performance de coitadinho. – Muito bom, realmente muito bom, mas eu duvido que Amélie fique com você nem que seja pra salvar a minha vida! – desafia Tarso. – Isso é uma aposta? – perguntou Turim. – Pura e simples! – Podemos até inverter as personalidades se você quiser, mas eu ganho assim mesmo! Nem que seja um coitado moribundo! Eu ganho sempre, mas é só pra te provar, afinal aposta é aposta. Sempre! – Dessa vez vamos até o final e nada nem ninguém vai nos impedir! Ambos apertaram as mãos e seguiram e busca do domínio da cidade. Amélie não sabia, mas estava preste a ir a uma festa onde ela veste preto, mas o baile é em Paris.

Fim.

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