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Na reinterpretação do logos a mudança do parádeigma.

Resumo

Nádia Ma. Nogueira Comentários N o 11

06.03.2012.

A questão do pensamento moderno sob os efeitos dos paradigmas (Comentários 10) é tema contínuo nas discussões entre a filosofia e a ciência, e provável que perdure por mais alguns séculos; ou não. Mas retomar a questão dos paradigmas é buscar às origens do conhecimento da ética e da tékhne sob os gregos, nossos progenitores nos ensinamentos da areté, a arte do discurso, a arte da política, a arte do pensar sob o método dialético. Naquele tempo não existia a razão dogmática sob o poder do espírito absoluto. E os discursos eram o logos e a doxa. Sócrates definia o logos como o discurso forte e a doxa como o discurso fraco. Sócrates defendia o conhecimento e Protágoras a sabedoria. Sócrates insistia que só existe conhecimento no logos. Protágoras, o sofista, defendia que o conhecimento estava nos dois discursos: no logos e na doxa. Nesse tempo dos discursos do logos e da doxa as disputas eram restritas aos argumentos e os interlocutores aliados. As discussões eram sobre temas diversos sem prescrições de conceitos, e os pensadores quando citados estavam presentes às discussões, interagindo entre si sobre suas opiniões. Aí está a grande diferença entre os antigos e nós que insistimos em sermos inimigos e não aliados no saber, o que dificulta o desvelar dos mistérios do pensamento como um todo, do qual se subtraem fragmentos do ser na possibilidade de ressurgir um novo ser.

1. O filosofar ao tempo dos progenitores, sob os discursos do logos e da doxa, era a busca da virtude.

Sob a filosofia como sabedoria, através dos discursos do logos e da doxa, estão as origens e os fundamentos que formalizam os discursos do conhecimento do mundo ocidental. E é fato, conforme diz o direito, e são realidades argumentam os filósofos em defesa das ideias platônicas. Mas o filosofar ao tempo de nossos progenitores era a discussão na busca da verdade, e o logos era a verdade, o discurso verdadeiro. Mas o

logos de então não submetido a reinterpretação do ratio (razão), a racionalidade da “conta” e do “cálculo”, conforme os romanos, mas a interpretação do logos pelo grego. “Platão que não distingue imperfeitamente, como dizem os aristotélicos: o gênero `caçador´, `cozinheiro´ ou `político´; ele não quer saber o que caracteriza propriamente a espécie `pescador´ ou `caçador com rede´; ele quer saber quem é o verdadeiro caçador. Quem é, e não o que é”. O logos ao ser reinterpretado pelos romanos deixa de ser a racionalidade grega da ação de “colher”, “recolher”, “escolher” e transfere “a racionalidade grega, antes de tudo ato de aprender, abranger, a ser pensada pelos romanos a partir da medida”. O logos sob os gregos era a interpretação do ser homem, o “ser vivo que possui logos”, mas sob a reinterpretação romana o logos passa a ser ratio,

o ser homem “animal racional”. E essa categoria do homem como animal racional é

atribuída a Aristóteles, ex aluno de Platão que abandona a interpretação do ser homem

sob o mundos das ideias platônicas e passa a reinterpretação do ser homem racional sob

o mundo da matéria primeira, a forma, a privação da forma como princípios da natureza e não mais da virtude.

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As palavras logos e doxa são parte das ideias de Platão, na verdade elas constituem o cerne do nascimento dos Diálogos sob as ideias platônicas e que ao longo dos séculos prescrevem os discursos dos muitos sujeitos empíricos da ciência moderna. Platão inventa uma disputa entre os discursos do logos e da doxa, e através do embate de pensamentos, de um lado o conhecimento e do outro o saber, os argumentos vão se desenvolvendo. Essa disputa tem por interlocutores, entre outros personagens, Sócrates e Protágoras, esses personagens verdadeiros. E entre eles se instala uma longa discussão em torno do logos e da doxa, discussão em torno das ideias, dos conceitos. No logos está a interpretação do ser verdadeiro, o logos é o discurso forte defendido por Sócrates, o ateniense, o não estrangeiro. E sob o discurso da doxa o discurso fraco, da não verdade, defendido por Protágoras, o sofista, o estrangeiro de Abdera, o grego não ateniense. Protágoras reivindica o discurso sem o compromisso com a verdade, o discurso da persuasão, o saber desvelado através das palavras. O interlocutor deve apreender a jogar com as palavras a fim de conseguir convencer a assembleia da verdadeira sabedoria. Enquanto Sócrates defendia a busca da verdade verdadeira. E essa busca da verdade, a ideia original do logos, sob o grego era a buscar do ser real, o verdadeiro ser. Mas a partir do conhecimento do ser reinterpretado como razão, sob os romanos, o ser perde a característica original da busca pelo ser homem, o caçador, e passa a reinterpretação do ser animal racional. Nessa diferença de interpretação e reinterpretação estão as grandes discussões entre a ciência e a filosofia.

Mas, Protágoras, contrário a Sócrates, argumenta que o conhecimento tanto está no logos como na doxa, ambos são conhecimentos. Argumento que Sócrates não aceita, pois alcançar a virtude só através do logos, do discurso verdadeiro, onde estão os ensinamentos da virtude, cujo princípio rege o ser homem e não o ser animal. E essa busca da virtude era o meio para alcançar a alma. São princípios, ou atributos, ou categorias da virtude: o pudor, o ímpio, a temperança, a justiça, a coragem, a política, entre outras virtudes, e alternâncias e os acréscimos de outros princípios, conforme o valor dado a cada conceito no decorrer dos Diálogos. Por exemplo, o princípio política como parte da virtude requer, necessariamente, uma explicação mais ampla para chegar ao entendimento da política como arte, como ação de governo, como princípio ideológico, entre outras formas de entendimento da política como princípio da virtude.

“(359a) - XXXIX – Uma vez assentadas essas premissas, continuei, Pródico e Hípias, cabe agora a Protágoras explicar-me como pode ser certo o que ele asseverou no começo; não, propriamente, o que ele disse em primeiro lugar, quando afirmou que das cinco partes da virtude nenhuma era como a outra, e que cada uma tinha função própria. Não me refiro a isso, porém ao que ele afirmou depois. Mais adiante, ele disse que quatro partes da virtude eram mais ou menos semelhantes entre si, mas que a outra, a coragem, diferia de todo das demais, o de que eu poderia convencer-me, disse ele, pelo seguinte: Com efeito Sócrates, poderás encontrar homens por demais ímpios, ou injustos em alto grau, ou intemperantes em excesso, ou supinamente ignorantes, porém dotados de grande coragem, o que te permitirá concluir que a coragem difere muito das outras partes da virtude. Naquele momento, eu me admirei muito da resposta, e mais admirado me encontro agora, depois de haver discutido convosco essa matéria. Daí ter-lhe eu perguntado se por homem corajoso ele entendia audacioso, ao que ele respondeu: É destemeroso ”

(PLATÃO, Diálogos -

em extremo. Não te recordas, Protágoras, de que me deste essa resposta? Protágoras-Górgias-Fedão, p. 118).

2. Sob os discursos do logos e da doxa um outro parádeigma é caracterizado como forma de

conhecimento.

São inúmeras as possibilidades de conhecer o ser, as coisas e o mundo originadas do pensamento de Platão, e não à toa que os Diálogos representam a bíblia da filosofia do ocidente, embora sob a reinterpretação de Aristóteles esses ensinamentos sobre o ser, as coisa e o mundo se desenvolvem sob a forma racional atendendo aos princípios do ratio. Mas são através dos discursos do logos e da doxa, originários, que formas e novos conhecimentos vão sendo desenvolvidos. Por exemplo, o conhecimento paralelo e a verdade relativa. A medida que Platão desenvolve os diálogos do logos como verdade vai também desenvolvendo o discurso da falsa verdade, o conhecimento através da doxa, o ser falso. Esse ser falso defendido sob o discurso da doxa, como conhecimento, coloca a verdade como relativa, não como meia verdade, mas a

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possibilidade de medir o conhecimento do sujeito, ou indivíduo, através do tempo, conforme o entendimento de cada indivíduo, em particular, condição caracterizada na definição do papel do filósofo, sob o discurso do logos e segundo Platão.

“Filósofo é aquele que procura a certeza e não a opinião. Esta diz respeito às coisas intermediárias, sobre aquilo que pode ou não pode ser, sobre que se situa entre o ser e o não ser, não o ser real mas relativo como são reais os objetos designados neste enigma: um homem que não é um homem, que vê e não vê, bate e não bate com uma pedra que não é uma pedra, uma ave que não é uma ave, uma árvore que não é uma árvore, o que assim se traduz – um eunuco cego de um olho que lança, com o auxílio de uma funda, uma pedra-sabão num morcego que se acha num pé de sabugueiro. O filósofo aplica o seu espírito aquilo que é eterno, aquilo que não se transforma. O filósofo sente profundamente a verdade e tem horror à mentira; despreza as falsificações. Indiferente à dor, à morte, insensível às riquezas, o filósofo mantém-se perfeitamente em contato com o divino e liga-se com toda a alma à pátria – quadro este admirável que o Ocidente nunca esquecerá e do qual a sabedoria estoica e o cristianismo se apropriarão. A filosofia é um espírito, uma forma de pensamento, um conjunto de disposições e de intenções com as quais o Bem, semelhante à luz, deveria iluminar as coisas. Porque a forma do Bem é o que dá às coisas, o ser, a força, a vida e a verdade”. (PLATÃO, Diálogos II – Fédão, p. 21).

Ao opor a filosofia contra a sofistica em defesa da pólis Platão está também descrevendo a verdade da doxa, sob a qual está caracterizada a origem do conhecimento relativo, não do relativismo banal, mas o conhecer por etapas, cujo conhecimento se dá no tempo particular a cada ser homem. A caracterização desse conhecimento fora do logos é a forma de conhecer “coisas intermediárias”. É conhecimento, mas “não o ser real”, “mas o relativo”. Essas características “negativas” do não conhecimento, da não verdade sobre o ser, são atributos do sofista, identificado na figura de Protágoras, o mais ilustre representante da sofística. O conhecer através do logos e da doxa são formas distintas de conhecimento, mas ainda sob a mesma origem, a interpretação do ser, como homem, ser vivo, sob os princípios da virtude como sabedoria. Nos discursos do logos e da doxa está a questão do real, pois aquilo

“que se situa entre o ser e não ser” é relativo. O real está sob o enigma: “um eunuco cego de um olho lança, com o auxílio de uma funda, uma pedra sabão num morcego que se acha num pé de sabugueiro”. Ao Protágoras afirmar o conhecimento nos dois sentidos, no logos e na doxa, está posta a ideia da verdade relativa e o tempo como limite dessa verdade, desse conhecimento, que

será acrescido de novas verdades. “

metade do tempo batemo-nos pela veracidade de

determinadas noções, e na outra metade pela de noções em todo ponto diferentes, mas em ambos os

numa

casos com igual convicção Sócrates e Protágoras discutiam sobre os princípios da virtude como um todo, e do qual se subtrai as partes como a justiça, e sob a qual a busca do ser justo. Mas o que é ser um homem justo? “A virtude é um todo e as qualidades: justiça, a temperança e a santidade são partes desse todo”, mas “os interlocutores se perguntaram o que é justiça? O que é um indivíduo justo?” (FOUCAULT, Hermenêutica do sujeito, p. 50).

”.

“XVIII – A essa pergunta, Sócrates, disse ele, é muito fácil responder. A virtude é um todo, e as qualidades a que te referiste são partes desse todo. Da mesma forma, perguntei, em que partes do rosto são partes: a boca, o nariz, os olhos, as orelhas, ou as partes do ouro, que não diferem umas das outras e do conjunto, a não ser pela grandeza e pequenez? São como as primeiras, Sócrates, é o que eu penso: como se relacionam com todo o rosto suas diferentes partes. E os homens, voltei a falar, uns recebem uma parte dessa virtude, e outros outra parte, ou será forçoso receber o conjunto quem receber uma das partes? De forma alguma, respondeu; pois há muitos homens corajosos que são devassos, como há homens justos que não são sábios. Então, também são partes da virtude, perguntei, a sabedoria e a coragem? Sem a menor dúvida, retrucou; a sabedoria, até, é a parte mais importante. E cada uma dessas partes, interroguei, é diferente das demais?

Sim. (Op.cit, p. 75).

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O

pensar sob um argumento afirmativo:

“Pensar não é levar uma realização obscura do real para o âmbito claro e definido da razão e do conhecimento, da técnica e da ação. Este é o papel da ciência. Pensar, ao contrário, é reconduzir o que se pretende já saber e conhecer para a sua proveniência do e no desconhecido e não sabido. Porque não se pode saber tudo do nada, não significa que se possa saber nada de tudo, tal é a experiência que nos proporciona a cada instante o mistério da realidade realizando-se em todo real” (Carneiro Leão)

O

pensar sob um argumento interrogativo:

De que modo o mundo, que se oferece como objeto de conhecimento pelo domínio da tékhne pode ser ao mesmo tempo o lugar em que se manifesta e em que se experimenta o `eu´ como sujeito ético da verdade? E e se este é o problema da filosofia ocidental – de que modo o mundo pode ser objeto de conhecimento e ao mesmo tempo lugar de prova para o sujeito; de que modo pode haver um sujeito de conhecimento, que se oferece o mundo como objeto através de uma tékhne, e um sujeito de experiência de si, que se a esse mesmo mundo, mas de forma, radicalmente diferente, de lugar de prova? - se é esse o desafio da filosofia ocidental, compreendemos então por que a Fenomenologia do espírito é o ápice dessa filosofia” (FOUCAULT, op.cit, p. 438).

Referências bibliográficas:

CARNEIRO LEÃO, E., O que significa pensar, Palestra, ABL, Rio de Janeiro, março de

2012.

FOUCAULT, M., Hermenêutica do Sujeito, trad. Márcio Alves da Fonseca/Salma Tannus Muchail, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2010.

GIANNOTTI, J. A., Pensar a Humanidade, Palestra, ABL, Rio de Janeiro, março de

2012.

PLATÃO, Diálogos, Protágoras-Górgias-Fedão, trad. Carlos Alberto Nunes/Benedito Nunes, Ed. UFPA, Belém, PA, 2002.

, Diálogos, Teeteto-Crátilo, trad. Carlos Alberto Nunes/Benedito Nunes, Ed. UFPA, Belém, PA, 2001.

, Diálogos II, Fédon-Sofista-Político, trad. Jorge Paleikat/João Cruz Costa, Ed. Tecnoprint, São Paulo, 1972.