ADORNO, Theodor W. Indústria cultural e sociedade. In: ALMEIDA, Jorge Mattos Brito de (Seleção de textos); LEVY, Julia Elisabeth et al.

(Trad.). São Paulo: Paz e Terra, 2002. (Coleção leitura) A indústria cultural – o Iluminismo como mistificação das massas ♦ Antes o estado financiava a cultura e as artes; agora são as grandes corporações financeiras do mercado que patrocinam e ditam o que se deve veicular na sociedade; ♦ “A dependência da mais poderosa sociedade radiofônica em relação à indústria elétrica, ou a do cinema aos bancos, define a esfera toda, cujos setores singulares são ainda, por sua vez, co-interessados e economicamente interdependentes.” (ADORNO, 2002, p.11);  Exemplo: empresas como a Petrobrás, Itaú e algumas outras que financiam espetáculos teatrais, shows musicais públicos e etc;
♦ “Distinções enfáticas, como entre filmes de classe A e B, ou entre histórias em

revistas de diferentes preços, não são tão fundadas na realidade, quanto, antes, servem para classificar e organizar os consumidores a fim de padronizá-los. Para todos alguma coisa é prevista, a fim de que nenhum possa escapar; as diferenças vêm cunhadas e difundidas artificialmente.” (ADORNO, 2002, p.11); sintetiza a palavra, a imagem e a música; padroniza e unifica todo o processo de produção técnica do trabalho. (ADORNO, 2002, pp.12-13);

♦ Televisão = realização irônica do sonho wagneriano da “obra de arte total”. Ela

♦ “O particular, ao emancipar-se, tornara-se rebelde, e se erigira, desde o Romantismo até o Expressionismo, como expressão autônoma, como revolta contra a organização. O simples efeito harmônico tinha cancelado na música a consciência da totalidade formal; na pintura, a cor particular tornou-se mais importante que a composição do quadro; o vigor psicológico obliterou a arquitetura do romance. A tudo isso a indústria cultural pôs fim. Só reconhecendo os efeitos, ela despedaça a sua insubordinação e os sujeita à fórmula que tomou o lugar da obra. Molda da mesma maneira o todo e as partes.” (ADORNO, 2002, pp.14-15); ♦ Na questão do estilo na indústria cultural não há discussão e conflito, porque tudo já está programado e, neste caso, possíveis diferenças não têm valor;
♦ “A rara capacidade de sujeitar-se minuciosamente às exigências do idioma da

simplicidade em todos os setores da indústria cultural torna-se o critério da habilidade e da competência.” (ADORNO, 2002, pp.19-20); consumo);

♦ Liberalismo

– Indústria cultural (conceder mais liberdade impulsiona o

♦ A liberdade e a alforria geraram uma dependência muito maior do que a de antes; ♦ “Os consumidores são os operários e os empregados, fazendeiros e pequenos burgueses. A totalidade das instituições existentes os aprisiona de corpo e alma

♦ Ritmo de produção e mesmice é a tônica da indústria cultural. ♦ “O prazer congela-se no enfado. pp. como um prolongamento do caminho para se chegar ao objetivo. sempre e apenas como eterno consumidor. pois que.” (ADORNO. ♦ Padronizar e evitar riscos são a receita para a produção em massa e reprodução mecânica dos bens culturais.29-30).26). embora ele continue a se fazer valer por intermédio das associações femininas. 2002. ♦ “O poder social adorado pelos espectadores exprime-se de modo mais válido na onipresença do estereótipo realizado e imposto pela técnica do que nas ideologias velhas e antiquadas. p. p.” (ADORNO. 2002. consequentemente.a ponto de sem resistência sucumbirem diante de tudo o que lhes é oferecido.” (ADORNO. 2002.34). p. O espectador não deve trabalhar com a própria cabeça. que podem ser satisfeitas pela indústria cultural. ♦ “Hoje. decisivo não é mais o puritanismo. daí que deva caminhar estreitamente no âmbito das associações habituais. não deve exigir esforço algum. como objeto da indústria cultural.31). 2002. p. p. ♦ De “carreira aberta ao mérito” para a ascensão pelo prêmio. quanto por outro lado organizar antecipadamente essas necessidades de modo que o consumidor a elas se prenda. ♦ “A diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. para permanecer prazer.” (ADORNO. prendendo. O princípio básico consiste em lhe apresentar tanto as necessidades como tais. faz parte do sistema econômico que se recusa a utilizar suas capacidades quando se trata de eliminar a fome. de haver liberado a diversão da sua ingenuidade mais desagradável e de haver melhorado a confecção das mercadorias. mas a necessidade intrínseca ao sistema de não largar o consumidor. de não lhe dar a sensação de que é possível opor resistência. com isso. ♦ O prazer da diversão e na diversão é uma eterna promessa da indústria cultural.” (ADORNO. de utilizar plenamente as capacidades existentes para o consumo estético da massa. o espectador e. ♦ “A indústria cultural pode se vangloriar de haver atuado com energia e de ter erigido em princípio a transposição – tantas vezes grosseira – da arte para a esfera de consumo. Toda conexão lógica que exija alento intelectual é escrupulosamente evitada. p.” (ADORNO.30). ♦ “A ideia de “exaurir” as possibilidades técnicas dadas. 2002. . 2002. um consumidor em potencial constante.” (ADORNO. às quais os efêmeros conteúdos devem se ajustar.28). o produto prescreve toda e qualquer reação: não pelo seu contexto objetivo – que desaparece tão logo se dirige à faculdade pensante – mas por meio de sinais.37). 2002.

” (2002. o seu ser.60). é para os consumidores um fetiche. do começo ao fim. Assim. pois impede de enxergar o todo e os sentidos existentes nos fluxos e conexões das partes. em um sistema de instituição e relações que formam um instrumento hipersensível de controle social. p.61). ou volta a privatizar. em aparência. ♦ “A liberdade formal de cada um é garantida. a finalidade sem função da obra de arte é abolida e nome da própria ideia de liberdade. a obra de arte priva por antecipação os homens daquilo que ela deveria procurar: liberá-los do princípio da utilidade.” (2002. ♦ “Adequando-se por completo a necessidade. enquanto. reduz até mesmo o último impulso privado sob controle social. O objetivo da indústria cultural é mostrar ao indivíduo que é inútil lutar contra o sistema imposto e que a resistência não faz ou provoca nenhum abalo. p.50). ♦ “O cuidado com as boas relações entre os dependentes. pp. ♦ Reprodução e continuação são palavras de ordem para a indústria cultural. as especializações do conhecimento são uma eterna ilusão de consciência científica profunda. ♦ “O valor de uso da arte. ♦ Conhecer bem uma parte ínfima do sistema é favorável à dominação do próprio sistema sobre si. Em troca. p.” (2002. p. que não é formulada explicitamente. para se transformarem em propaganda de si mesmas e promovendo a sua repetição mecânica e o seu prolongamento. Ninguém deve dar conta oficialmente do que pensa. ♦ “A liberdade dos fins da grande obra de arte moderna vive do anonimato do mercado. a sua valoração social.” (2002.” (2002.57). dominado e indefeso para o capitalismo “tardio”.♦ “A ideologia cinde-se entre a fotografia da realidade bruta e a pura mentira do seu significado. ♦ Se integrar no sistema da reprodução ou da indústria cultural é se mostrar ♦ “A indústria cultural pode fazer o que quer da individualidade somente porque nela. que eles tomam pela escala objetiva das obras.61). a única qualidade de que usufruem. ♦ Na sociedade do consumo cultural. aconselhada pela ciência administrativa e já praticada por toda fábrica em vista do aumento da produção. exclusividade e sem funcionalidade externa. torna imediatas. as relações entre os homens na produção. torna-se o seu único valor de uso. todos são encerrados.46). se reproduziu a íntima fratura da sociedade.” (2002. mas sugerida e inculcada. e sempre. ♦ A acessibilidade da sociedade aos bens culturais pela indústria cultural de massa acaba sendo uma maneira eficaz de atingir mais indivíduos e de lhes persuadir quanto à finalidade e utilidade das coisas. p.48-49). .” (2002. ♦ A reprodução em massa pela indústria cultural faz com que as artes percam a ideia de unicidade. p.

mas copiado da indústria cultural.♦ Na indústria cultural.” (2002. a linguagem. Isso é o triunfo da propaganda na indústria cultural. um supervisionar. pelos livros mais comprados. o nome de um produto em todas as bocas promovia a sua vendagem. ligada ao objeto que a designa. sentindo-se um verdadeiro cientista objetivo. fazendo com que a propaganda da indústria cultural se torne avassaladora e inquestionável. a separação entre o conceito e seu conteúdo através da . pelos filmes campeões de bilheteria e premiados em Hollyood. Justamente sua soberania. consuma-se neles a antiga falta de caráter do ofício.” (2002. ♦ “A crítica não é injusta quando destrói – esta ainda seria sua melhor qualidade -. a linguagem e a propaganda são fortes aliados. ♦ “Enquanto avaliador. através das músicas mais tocadas (os hits). necessariamente.” (2002.73-74). um selecionar: isto lhe serve. ♦ “A repetição universal dos termos adotados pela várias determinações torna estas últimas de qualquer modo familiares. acabam não sendo escolhido pelo indivíduo. O crítico. Enfim. Visto que a palavra não é. a pretensão de possuir um conhecimento profundo do objeto. ♦ A função do crítico cultural. pp. a sociedade acaba levando uma ideia de que a linguagem é o próprio objeto que designa e não se preocupa em desconfiar. um pesar. aquilo ele rejeita. como nos tempos do mercado livre.80). essa pode ser muito bem manipulada pelos objetivos de quem as veicula. modelos e tendências. é a de promover uma crítica de propaganda de uma cultura dominante. pp. mas nem por isso tão bem lidos. a da arte. as viagens.78). Crítica cultural e sociedade ♦ “As reações mais secretas dos homens são assim tão perfeitamente reificadas ♦ “Quando os críticos finalmente não entendem mais nada do que julgam em sua arena. obedece. o crítico da cultura tem inevitavelmente de se envolver com uma esfera maculada por valores culturais. introduz-se necessariamente um inspecionar. a mimese compulsória dos consumidores às mercadorias culturais cujo sentido eles ao mesmo tempo decifram. mas quando.” (2002. ao desobedecer. impulsionado pela fase concorrencial da sociedade burguesa.71-72). que são ditados pelo mercado e pela indústria cultural. ♦ Com a repetição mecânica de termos manipulados. diante de seus próprios olhos que a ideia do que lhe é específico e peculiar apenas sobrevive sob a forma mais abstrata: personality não significa praticamente – para eles – outra coisa senão dentes brancos e liberdade de suor e de emoções. Em sua atividade contemplativa em relação a ela. compreende o seu entendimento como superior e distinto da cultura de onde provém. ♦ Todos são livres. A repetição cega e a rápida expansão de palavras estabelecidas une a publicidade à palavra de ordem totalitária. p. p. a diversão e qualquer tipo de consumo. mas todos (que está representado na maioria) seguem padrões. a roupa. e deixam-se rebaixar com prazer ao papel de propagandistas ou censores.

♦ “(. ♦ Para Adorno. apesar de todo o seu absurdo.95). a crítica cultural deve ser dialética. ♦ Uma das armas poderosas da crítica cultural desde a ascendência burguesa é a ideologia. p. ♦ “(.81-82). Tempo livre ♦ O tempo livre na atual sociedade em que as pessoas representam verdadeiros papéis moldados. mas não viável para a parcela dominante. como também não o pode aquela crítica cultural que mede a cultura segundo seu próprio ideal. suscita objetivamente a aparência de legitimação social.) a afirmação de que todas as formas de repressão foram necessárias. p. ♦ “Como vários outros elementos do materialismo dialético.” (2002. Ninguém mais se preocupa com o conteúdo objetivo das ideologias. fetichizando categorias isoladas como “espírito”.) a tarefa da crítica.. que pode ser deslocada de ciência interpretativa para instrumento de vigilância e contenção da sociedade. passa-se a vigiar a utilização das ideologias. de acordo com o estado da técnica. p. a medida em que a crítica cultural apela a uma coleção de ideias estabelecidas.. Em nome da dependência da superestrutura em relação à infra-estrutura. não é tanto sair em busca de determinados grupos de interesse aos quais devem subordinar-se os fenômenos culturais. o significado e a extensão da liberdade. p. em vez de criticá-las.95).” (2002. para a preservação da sociedade geral. por meio dos quais se efetivam os interesses mais poderosos. desde que estas cumpram sua função. a vida sob as condições existentes. ♦ Tornar a cultura um objeto distante e material é cair na ilusão de autonomia e independência total como algo ou alguém de fora dela. A cultura. os que dispõem sobre a cultura reprimem tudo o que poderia fazer com que ela escapasse à imanência total da sociedade vigente. e que a sociedade tal como ela é reproduziu de fato.” (2002. “vida” e “indivíduo”.94).” (2002. permitindo apenas o que serve inequivocamente aos seus próprios propósitos. ♦ “Em nome dos consumidores. ♦ “Quanto mais o todo é despojado de seus elementos espontâneos e socialmente mediado e filtrado.87). ameaça sucumbir à configuração reificada do objeto. enquanto conteúdo essencial da autoconsciência de uma sociedade constituída por classes antagônicas. não pode libertar-se dessa aparência. pp. não priorizando um conhecimento imanente em detrimento de um transcendente ou vice-versa. pp. quanto mais ele é “consciência”. acaba por trair os seu primeiro conceito que era o de ..independência do juízo. mas sim decifrar quais elementos da tendência geral da sociedade se manifestam através desses fenômenos.89-90). também a noção de ideologia foi transformada de um meio de conhecimento em um meio de controle do conhecimento..” (2002. Neste sentido é perfeitamente questionável. na maioria das vezes. tanto mais se torna “cultura”.” (2002.

e suas normas foram interiorizadas. ♦ Na verdade.) Essa rígida divisão da vida em duas metades enaltece a coisificação que entrementes subjugou quase completamente o tempo livre. pp. . ♦ “O crítico da ideologia que se ocupa da indústria cultural haverá de inclinar-se para a opinião de que – uma vez que os standards da indústria cultural são os mesmos dos velhos passatempos e da arte menor. ♦ “Que efetivamente as pessoas só consigam fazer tão pouco de seu tempo livre se deve a que. já lhes foi amputado o que poderia tornar prazeroso o tempo livre. e não. com tanta pressão e ideia de necessidade que a sociedade atribui ao tempo livre.106-107).” (2002. Por outro lado. Por um lado.. para se tornar mais um momento importante na relação com o trabalho.” (2002. provavelmente para que depois se possa trabalhar melhor.111). sobre essa base. Aqui no deparamos com um esquema de conduta do caráter burguês.. (.) segundo a moral do trabalho vigente. não se distrair. de liberdade da cadeia produtiva.114). o tempo em que se está livre do trabalho – precisamente porque é um mero apêndice do trabalho – vem a ser separado deste com zelo puritano. fazem com que o tempo livre seja tudo menos livre de verdade. de prazer ou lazer. não lembrar em nada o trabalho. Além disso. não cometer disparates. desde a era liberal. repousou outrora o trabalho assalariado. ♦ Para a indústria cultural é interessante que as pessoas possuam uma ideia rigorosa e inquestionável sobre a distinção entre o trabalho e o tempo livre.. congelados – ela domina e controla. o trabalho deve ser sinônimo de produção.. a consciência e inconsciência daqueles aos quais se dirige e de cujo gosto ela procede. juntamente às inúmeras maneiras prontas que a indústria cultural já oferece para os indivíduos usufruírem. sobretudo ali onde se aproximou tanto do material como na indústria cultural. que tem a ideia oposta a de lazer ou de ócio. há motivos para admitir que a produção regula o consumo tanto na vida material quanto na vida espiritual. Neste caso. de fato e totalmente. de antemão. ♦ “(.” (2002.desamarro. p. p. deve-se estar concentrado no trabalho. deve o tempo livre.

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