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Maria do Rosário Gama escreve sobre a avaliação do simplex

O memorando de entendimento que, em Abril do corrente ano, foi assinado com a


plataforma sindical, onde foram acordadas as condições de aplicação do modelo de
avaliação neste primeiro ciclo avaliativo, foi na altura recusado por muitas
escolas, entre as quais a Escola Infanta D. Maria que, de certo modo, já anteviam
este desfecho.
Apesar do Ministério afirmar que foram ouvidos todos os intervenientes e parceiros
do sistema educativo, identificou alguns problemas mas não identificou, ou não
quis reconhecer, o principal problema: Este modelo de avaliação carece de
racionalidade pedagógico-didáctica ! O pedido da suspensão do modelo foi feito
pelos 120 000 professores no dia 8 de Novembro (já o havia sido feito em 8 de
Março), exprimiu-se nas diferentes reuniões do Ministério com os Conselhos
Executivos, foi feito por algumas associações de Pais a que se junta agora a
CONFAP (“não se pode suspender algo que já está parado!”) foi feito por toda a
oposição, pelo Conselho das Escolas, pelo Sindicato dos Inspectores da Educação.
Afinal, a auscultação pela equipa ministerial serviu para dizer que nenhum dos que
pedem a suspensão estão certos e, “lavando as mãos”, gritam com a voz de “um deus
ex-máquina”: vamos simplificar o modelo. Deste modo, a opinião pública afirmará: a
Ministra cede, os professores não! Isto é absolutamente falacioso e passamos a
explicar porquê:

Embora as diferentes medidas, isoladamente sejam razoáveis e susceptíveis de serem


aceites pela opinião pública como um avanço no sentido de resolver o impasse, de
facto, A SIMPLIFICAÇÃO NÃO O RESOLVE.

1º medida do simplex : Garantir que os professores, sempre que o requeiram, possam


ser avaliados por avaliadores da mesma área disciplinar
Vejamos um caso concreto na Escola Secundária Infanta D. Maria: a coordenadora do
Departamento de Ciências Sociais e Humanas é do grupo disciplinar de Geografia;
delegou competências numa professora titular de Economia e numa professora titular
de Filosofia para avaliarem os respectivos professores do grupo de recrutamento. A
coordenadora de Departamento, de acordo com o inicialmente previsto teria a cargo
a avaliação dos colegas de Geografia (3) dos colegas História (5) e ainda as duas
colegas em quem delegou competências (10 no total). Com a simplificação do modelo
e a possibilidade de os avaliados poderem ter avaliadores da mesma área
disciplinar (grupo de recrutamento), os cinco professores de História podem fazer
essa exigência. Não havendo nenhum professor titular em quem delegar competências,
um professor de História, não contratado, poderá ser nomeado titular em comissão
de serviço e avaliar os seus colegas.
De acordo com a medida nº 7 do “simplex” há que Clarificar o regime de avaliação
dos avaliadores. Assim, a Coordenadora do Departamento de Ciências Sociais e
Humanas, as duas titulares em quem delegou competências e a professora de
História, avaliadora não titular (titular em comissão de serviço), passarão a ser
avaliadas apenas pelo Conselho Executivo. A Coordenadora do Departamento de
Ciências Sociais e Humanas passará assim a avaliar só as três colegas de Geografia
e alguma de História que “prefira” a sua avaliação (!!!)
No que se refere às quotas máximas, as 4 Coordenadoras de Departamento poderão
aceder a um Excelente, um Muito Bom e dois Bons; as avaliadoras titulares e os
professores avaliadores não titulares (titulares em comissão de serviço), em quem
foram delegadas competências, terão como percentagem máxima de quotas, 5% de
Excelentes e 20% de Muito Bons. A professora (de História, por exemplo) não
titular, mas avaliadora, irá concorrer a vagas de titular tal como os restantes
professores que ela poderá avaliar. Como para aceder a estas vagas a classificação
é um factor importante, pelo menos para desempate, a professora avaliadora titular
em comissão de serviço, irá avaliar com interesse em causa própria.

Os professores avaliados só poderão candidatar-se a Excelente ou Muito Bom se


tiverem aulas assistidas pela avaliadora, enquanto que esta não necessita dessa
condição para se candidatar a Excelente ou Muito Bom.

Esta situação repete-se noutros departamentos, por exemplo, no Departamento de


Línguas, só existe um professor de Espanhol: se ele quiser ser avaliado por um da
sua disciplina tem que se ir procurar noutra Escola da cidade um avaliador. E se
cada professor de Espanhol quiser ser avaliado por um professor de Espanhol,
avaliam-se uns aos outros?

Se as divisões, conflitos e tensões já existiam, pioram ainda mais e o sistema em


vez de simplificar, complica.

2ª medida do “simplex” - Não considerar o parâmetro referente ao progresso dos


resultados escolares e à redução das taxas de abandono escolar.

Esta era uma medida reclamada pelos professores que, levava a que cada professor,
no início do ano, tivesse que “prever” os resultados finais dos seus alunos tendo
em conta o ponto de partida. Assim, traçaria os seus objectivos considerando o
progresso nas aprendizagens, a evolução da classificação da sua disciplina face às
restantes disciplinas, face às classificações da mesma disciplina/ano e ainda face
à avaliação externa (neste caso só para as disciplinas com exame). No final do
ano, não se poderia afastar dos objectivos traçados, pois isso conduziria a
penalização do professor. Resolvia-se facilmente de uma forma administrativa….

3ª medida do “simplex” - Promover a simplificação dos instrumentos de avaliação

Não havia alternativa senão simplificar: Para preencher, por exemplo, a ficha de
avaliação do Conselho Executivo respeitante a cada um dos professores da Escola,
os instrumentos de registo tinham 95 descritores se fossem considerados todos os
parâmetros, subparâmetros e itens. Note-se que nestas fichas havia 5 parâmetros,
13 subparâmetros e 23 itens. Exceptuando o subparâmetro A1, para cada um dos
restantes itens houve que encontrar descritores a fim de, em cada um deles,
classificar cada professor de acordo com os valores propostos pela tutela: 10, 8,
7, 6 ou 3.

É de referir que, para além da ficha do Conselho Executivo, foi necessário


elaborar instrumentos de registo que permitissem preencher outras cinco (!!!)
fichas tão complexas como esta!!!

Neste momento, com o final do 1º período, torna-se impraticável voltar de novo a


rever fichas e a encontrar novos descritores.

Esta medida denota o afastamento da realidade das Escolas, por parte do


legislador, quando propõe fichas como aquelas que levaram horas e horas de
trabalho sem possibilidade de, na prática, virem a ser aplicadas e portanto é o
reconhecimento (não assumido publicamente) da parte da tutela da inexequibilidade
deste processo.

4ª medida do “simplex” - Dispensar, em caso de acordo, a realização de reuniões


entre avaliador e avaliado
Estas reuniões poderiam contribuir para a parte formativa da avaliação, se de
facto este fosse um processo formativo.

5ª medida do “simplex” - Tornar voluntária a avaliação da componente científico-


pedagógica
Esta componente constitui requisito necessário à obtenção das classificações de
“Muito Bom” e “Excelente”; retirá-la, significa reconhecer que o que é importante
para esta equipa ministerial é a componente organizacional e não a verdadeira
essência do que é ser Professor, ou seja, a sua preparação cientifico-pedagógica e
a relação com os alunos. Para um professor ser BOM basta ser assíduo, participar
na vida da Escola, participar em acções de formação contínua e ter boa relação com
a comunidade!!! Se a finalidade deste modelo de avaliação é melhorar o ensino-
aprendizagem, esta medida contradita de forma clara essa dimensão.

6ª medida do “simplex” - Reduzir o número mínimo de aulas a observar


A redução de 3 para 2 aulas a observar, não constitui cedência, uma vez que estava
prevista a observação mínima de uma aula por período. Como o 1º período já está no
fim, é normal que haja redução para duas aulas a observar, uma em cada um dos
períodos restantes!

7ª medida do “simplex” Clarificar o regime de avaliação dos avaliadores – Já foi


referido em conjunto com a 1ª medida.

8ª medida do “simplex” Alargar as acções de formação contínua consideradas na


avaliação
Com a fusão dos centros de formação, chegamos ao final do 1º período sem ofertas
formativas e por isso é necessário recorrer a acções de formação, realizadas em
anos anteriores, acreditadas e que não tenham sido utilizadas em anteriores
avaliações. A proposta do Ministério, ao atribuir a menção de Bom nos casos em que
não exista classificação destas acções, remete para algo que já observámos “do
outro lado do Atlântico”…. Serve tudo, desde que no final haja uma nota!!!

9ª medida do “simplex”. Melhoria das condições de trabalho para os avaliadores


Os avaliadores têm uma sobrecarga de trabalho que justificaria para todos, redução
da componente lectiva. Com o horário lectivo sem qualquer redução, como é o caso
dos avaliadores em fim de carreira, estes têm o mesmo número de turmas que os
restantes colegas e, necessariamente, o mesmo número de provas para realizar, de
testes para corrigir, de aulas para preparar. Como se isso não bastasse, ainda são
chamados para umas acções de formação, em horário pós-laboral, incluindo sábados
durante todo o dia. Esta situação deveria ter sido prevista antes e não nesta
altura do ano em que, a única saída para mascarar o problema é a possibilidade de
“remunerar, através do pagamento de horas extraordinárias”.

Com a componente lectiva completa, cada vez que um professor avaliador assista às
aulas de um colega, os seus alunos terão aulas de substituição, nem sempre
garantidas por um professor da mesma disciplina!!!

Finalmente, fica bem claro que esta “avaliação inspirada em modelo chileno” tem
como objectivo último atribuir quotas, fundamentais para impedir o acesso de 2/3
dos professores ao topo da carreira. De facto o que o Ministério pretende é uma
classificação por quotas absolutamente administrativa e não uma avaliação que
cumpra os objectivos consignados no artigo 40.º do Estatuto da Carreira Docente
(Decreto-Lei n.º 15/2007, de 19 de Janeiro) dos quais destacamos “Melhorar a
qualidade das aprendizagens e dos resultados escolares dos alunos”.

Para haver mérito não são necessárias quotas. A avaliação é formação, evolução,
melhoria. Nada disto está presente nem no modelo, nem no “simplex” que o
Ministério procura impor às Escolas.

Se o Ministério pretender continuar a defender a política economicista patente no


actual modelo de avaliação, então para a progressão na carreira, defina um
procedimento concursal, com ou sem quotas, mas acabe com mais uma das muitas
injustiças que está a impor, para mais tarde reconhecer o erro e ter que voltar
atrás: Acabe com as quotas na avaliação de desempenho, limite-se a definir os
critérios do mérito, e que este seja atribuído a quem realmente o mereça.
Maria do Rosário Gama
Professora na Escola Secundária Infanta D. Maria – Coimbra